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Universidade Federal de Goiás

OBSERVATÓRIO DA ATUAÇÃO DO PODER


JUDICIÁRIO NOS CONFLITOS AGRÁRIOS
DECORRENTES DE OCUPAÇÕES DE TERRA POR
MOVIMENTOS SOCIAIS NOS ESTADOS DO PARÁ,
MATO GROSSO, GOIÁS E PARANÁ (2003-2011)

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Na Linha de Frente das Mudanças Sociais
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Observatório da Justiça Brasileira

T192o
Tárrega, Maria Cristina Vidotte Blanco. Et al.
Observatório da atuação do Poder Judiciário nos conflitos agrários
decorrentes de ocupações de terra por movimentos sociais nos estados
do Pará, Mato Grosso, Goiás e Paraná (2003-2011): Relatório Final
de Pesquisa / Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega, Cláudio Lopes
Maia, Adegmar José Ferreira – Goiânia: Universidade Federal de Goiás /
Faculdade de Direito, 2012.
93p. : il.

Relatório final de pesquisa. – UFG. FD. Programa de Mestrado em


Direito Agrário.

1.Direito Agrário. 2.Ações possessórias. 3. Movimentos sociais rurais.


4. Questão Agrária. I. Título.

CDD: 346.076
CDU: 349.42

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS


CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS DA AMÉRICA LATINA
OBSERVATÓRIO DA JUSTIÇA BRASILEIRA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

OBSERVATÓRIO DA ATUAÇÃO DO PODER JUDICIÁRIO NOS


CONFLITOS AGRÁRIOS DECORRENTES DE OCUPAÇÕES DE
TERRA POR MOVIMENTOS SOCIAIS NOS ESTADOS DO PARÁ,
MATO GROSSO, GOIÁS E PARANÁ (2003-2011)

Autores:
Profª Drª. Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega;
Prof. Dr. Cláudio Lopes Maia e
Prof. Dr. Adegmar José Ferreira

Goiânia-GO
Outubro de 2012

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Observatório da Justiça Brasileira

Observatório da Justiça Brasileira

Leonardo Avritzer
Coordenador Geral Observatório da Justiça Brasileira

Criado em fevereiro de 2010, o Observatório da Justiça Brasileira (OJB) integra o


Centro de Estudo Sociais América Latina (CES-AL), com sede no Departamento de Ciência
Política da Universidade Federal de Minas Gerais (DCP-UFMG). O OJB tem como parceiro,
desde a sua criação, a Secretaria de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça (SRJ/MJ).
Ao longo deste período, o Observatório também estabeleceu parceria com a Fundação Ford.

O Observatório da Justiça Brasileira desenvolveu nesta sua primeira etapa1, cinco


pesquisas:I) Para uma nova cartografia da justiça no Brasil, desenvolvido pelo DCP-UFMG;
II) Controle de constitucionalidade e judicialização: o STF frente à sociedade e aos Poderes,
desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Direito Público; III) Judicialização e equilíbrio
de poderes no Brasil: eficácia e efetividade do direito à saúde, desenvolvido pela PUC/RS;
IV) Acesso ao direito e à justiça: entre o Estado e a comunidade, desenvolvido pelo DCP-
UFMG; e V) Judicialização do direito à saúde: o caso do Distrito Federal, desenvolvido
pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero.

A publicação que ora se apresenta é a primeira de uma nova série de três publicações
sobre advocacia popular e justiça agrária no Brasil que foram financiadas pela Fundação
Ford. A proposta do Observatório da Justiça Brasileira, que se concretiza neste conjunto
de relatórios, é desenvolver análises sobre o sistema de justiça brasileiro visando orientar
o Ministério da Justiça através da Secretaria de Reforma do Judiciário em suas políticas
públicas e reformas normativas, bem como apresentar sugestões para o aperfeiçoamento do
sistema de justiça nacional.

Assumindo o pressuposto de que por mais imperfeito que seja nosso sistema jurídico
não podemos ignorar os avanços institucionais adquiridos ao longo dos anos, colocamo-nos
o desafio de aportar conhecimentos e propor reformas no aprimoramento deste.

1 Todos eles financiados pela Secretaria de Reforma do Judiciário.

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Expediente

Coordenação:
Profª. Drª. Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega

Docentes:
Profª. Drª. Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega
Prof. Dr. Cláudio Lopes Maia
Prof. Dr. Adegmar José Ferreira
Prof. Dr. Marcelo Rodrigues Mendonça

Estudantes do Programa de Mestrado em Direito Agrário da UFG:


Guilherme Martins Teixeira Borges
Antonio Henriques Lemos Leite Filho
Aurécio de Oliveira Lobo
Bárbara Luiza Ribeiro Rodrigues
Kennia Dias Lino
Rangel Donizete Franco
Rodolfo Nunes Franco
Vitor Sousa Freitas

Estudante do Programa de Mestrado em História da UFG:


Nara Letycia Martins Silva

Estudantes de Graduação em Direito da UFG:


Rogério Fernandes Rocha
Heitor Moreira de Oliveira
Jackeline Cardoso Scarpelli
Maria Clara Capel de Ataídes
Pedro Henrique Corrêa Guimarães

Estudante de Graduação em Direito da PUC-GO


Elisângela Marques Teixeira Rezende

Projeto Gráfico, Diagramação e Capa


Leandro Carlos de Toledo

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RESUMO

Trata-se de Relatório Final da pesquisa intitulada “Observatório da atuação do Poder


Judiciário nos conflitos agrários decorrentes de ocupações de terra por movimentos sociais
nos estados do Pará, Mato Grosso, Goiás e Paraná (2003-2011)”, no qual se apresentam,
de acordo com a metodologia proposta e com os referenciais teóricos adotados, dados
colhidos em relação aos conflitos pela posse da terra nos estados estudados, bem como se
analisam processos judiciais relativos a essas ocupações em comarcas selecionadas como
amostras. Essa análise enfatiza o perfil das ações possessórias originadas dessas ocupações,
o caráter das decisões judiciais nelas contidas, de forma a se buscar mostrar que a ação dos
movimentos sociais não visa o esbulho dos imóveis ocupados, mas se configuram como
estratégia de ação política pública, mas que tal estratégia, cujo pano de fundo é a defesa da
garantia de direitos legislados, não é assim recepcionada pelo poder judiciário, que a trata
como prática antijurídica. Os estados selecionados permitem ainda estabelecer comparação
entre as diferentes posturas do judiciário quando esse possui varas especializadas para dirimir
conflitos agrários.

Palavras-chave: 1. Direito Agrário. 2. Sociologia Jurídica. 3. Questão Agrária. 4. Movimentos


sociais rurais. 5. Ações possessórias.

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LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

ADI – Ação Direta de Inconstitucionalidade


CF – Constituição Federal
CNJ – Conselho Nacional de Justiça
CPC – Código de Processo Civil
CPF – Cadastro de Pessoa Física
CPT – Comissão Pastoral da Terra
DJ – Diário da Justiça
DJE – Diário da Justiça Estadual
DJU – Diário da Justiça da União
GO – Goiás
IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
MP – Ministério Público
MPF – Ministério Público Federal
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra
MT – Mato Grosso
MTE – Ministério do Trabalho e Emprego
OAB – Ordem dos Advogados do Brasil
PA – Pará
PFE – Procuradoria Federal Especializada
PM – Polícia Militar
PR – Paraná
P.R.I. – Publique-se, Registre-se, Intime-se
RG – Registro Geral
RE – Recurso Extraordinário
REsp – Recurso Especial
SSP – Secretaria de Segurança Pública
STF – Supremo Tribunal Federal
STJ – Superior Tribunal de Justiça
TJ – Tribunal de Justiça

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ÍNDICE

LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS......................................................................... 07

INTRODUÇÃO................................................................................................................. 11

I – CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES....................................................................... 15
1.1. PROBLEMAS E OBJETIVOS DE PESQUISA................................................... 15
1.2. REFERENCIAIS TEÓRICOS E METODOLOGIA............................................ 17

II – CONFLITOS AGRÁRIOS E O DIREITO................................................................. 21


2.1. INTRODUÇÃO.................................................................................................... 21
2.2. A FORMAÇÃO DA PROPRIEDADE DA TERRA NO BRASIL....................... 22
2.3 MOVIMENTOS SOCIAIS E O ATIVISMO PÚBLICO....................................... 29
2.4 AÇÕES POSSESSÓRIAS..................................................................................... 33

III – RESULTADOS ALCANÇADOS.............................................................................. 42


3.1 ESTADO DE GOIÁS............................................................................................. 44
3.1.1 Qualificação das partes.................................................................................. 44
3.1.2 Meios de Prova.............................................................................................. 47
3.1.3 Revelia........................................................................................................... 48
3.1.4 Tipo de Posse/Rito......................................................................................... 48
3.1.5 Participação do Ministério Público e de outros Órgãos Agrários.................. 50
3.1.6 Liminar.......................................................................................................... 52
3.1.7 Julgamento..................................................................................................... 53
3.1.8 Função Social da Propriedade....................................................................... 55
3.2 ESTADO DO PARANÁ......................................................................................... 56
3.2.1 Natureza da Ação Possessória e qualificação das partes............................... 56
3.2.2 Meios de prova.............................................................................................. 58
3.2.3 Revelia........................................................................................................... 59
3.2.4 Tipo de posse/Rito......................................................................................... 59
3.2.5 Participação do Ministério Público e de outros Órgãos Agrários.................. 59
3.2.6 Liminar.......................................................................................................... 60
3.2.7 Julgamento..................................................................................................... 61
3.2.8 Função social da propriedade........................................................................ 62

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3.3 ESTADO DO MATO GROSSO............................................................................. 64


3.3.1 Qualificação das partes.................................................................................. 64
3.3.2 Meios de prova.............................................................................................. 65
3.3.3 Revelia........................................................................................................... 66
3.3.4 Tipo de posse e rito processual...................................................................... 67
3.3.5 Participação do Ministério Público e de outros Órgãos Agrários.................. 69
3.3.6 Liminar.......................................................................................................... 71
3.3.7 Julgamento..................................................................................................... 73
3.3.8 Função Social da Propriedade....................................................................... 74
3.4 ESTADO DO PARÁ.............................................................................................. 76
3.4.1 Qualificação das partes.................................................................................. 76
3.4.2 Meios de prova.............................................................................................. 77
3.3.3 Revelia........................................................................................................... 78
3.4.4 Tipo de Posse/Rito......................................................................................... 78
3.4.5 Participação do Ministério Público e de outros Órgãos Agrários.................. 79
3.4.6 Liminar.......................................................................................................... 81
3.4.7 Julgamento..................................................................................................... 82
3.4.8 Função Social da Propriedade....................................................................... 83
3.5 CONSIDERAÇÕES SOBRE A SÍNTESE DOS RESULTADOS......................... 84

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................................. 89

APÊNDICE I – NÚMERO DE OCUPAÇÕES DE IMÓVEIS RURAIS POR MOVIMENTOS


SOCIAIS EM GOIÁS, MATO GROSSO, PARÁ E PARANÁ – 2003-2010.................... 93

I.1 NÚMERO DE OCUPAÇÕES POR ESTADO ANALISADO..................................... 93

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INTRODUÇÃO

“Conflitos agrários e o Sistema de Justiça no Brasil” é a área temática a que se vincula a


presente pesquisa, que deu origem ao presente relatório final. O foco principal é o diagnóstico
e a análise das respostas que o sistema de justiça tem dado aos conflitos gerados a partir das
ações de ocupações coletivas de terra promovidas por movimentos sociais, que resultaram na
instauração de processos judiciais a partir da propositura de ações possessórias, no período
de 2003 a 2011, nos estados brasileiros: Pará, Mato Grosso, Goiás, e Paraná.

A investigação centrou-se na análise de processos judiciais, levantando os pressupostos


de atuação dos juízes nesses conflitos, sobretudo como representam e interpretam as ações
estratégicas dos movimentos sociais de ocupar coletivamente imóveis rurais. Ainda faz parte
do interesse de investigação a forma como os juízes analisam os institutos da posse e da
propriedade, qual o rito por eles adotados, se observam os princípios constitucionais em
jogo nesse tipo de conflito e de que forma são executadas suas decisões pelas autoridades
competentes.

A peculiaridade da ocupação da terra no Brasil e a sua definição como principal


estratégia de luta dos movimentos sociais de caráter camponês, torna esses momentos
singulares. A ocupação de terra é espaço privilegiado de observação da forma como os
movimentos concebem a legitimidade de suas ações e mesmo do seu direito à terra, que
pode ser expresso, tanto na escolha das propriedades a serem ocupadas, como também nas
estratégias adotadas na condução do movimento até a reintegração da posse.

Além de ser o espaço de formulação de uma concepção em relação ao direito a terra


pelos camponeses, a ocupação, é também um momento privilegiado de aferimento da relação
do judiciário com esta estratégia de ação social. O ato da ocupação gera por seu contraditório,
em alguns dos casos, um tipo de ação prevista no Código de Processo Civil Brasileiro (Lei n.º
5.869, de 11 de janeiro de 1973), as ações possessórias (manutenção de posse, reintegração
de posse e interdito proibitório), que exigem a manifestação do Poder Judiciário relativas
aos diferentes modos de conceber a propriedade e a posse, assim como uma avaliação do
ato perpetrado pelos agentes sociais. No início ou ao final do processo judicial das ações
possessórias, a decisão do juiz pode ainda indicar a necessidade de um ato de força por
parte do estado para remover os ocupantes da área em disputa, esse tem sido, por sinal,
um dos principais espaços de violência do estado em relação a estratégia construída pelos
movimentos sociais, de ocupar as terras para exigir o cumprimento do preceito constitucional
da necessidade da Reforma Agrária.

O caráter singular das ocupações, como um ato de ativismo público dos movimentos
sociais para a denúncia do descumprimento do preceito constitucional da necessidade da

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Reforma Agrária e por outro, das manifestações exigidas do judiciário quanto ao cumprimento
do preceito do direito de propriedade, foi o que levou a escolha da ocupação como um espaço
de observação sobre a posição do judiciário sobre os conflitos agrários no Brasil.

A observação da intervenção do judiciário no problema agrário brasileiro, através


das Ações Possessórias, seria incompleta se não levasse em consideração a realidade agrária
diferenciada no Brasil, marcada principalmente por uma fronteira em movimento. A existência
de uma fronteira em movimento no Brasil produziu diferentes momentos de ocupação das
terras e de legitimação da propriedade (MARTINS, 1997), que marcaram historicamente
a constituição do latifúndio em nossa nação e mesmo as características peculiares que
assumiram os movimentos de luta pelo acesso a propriedade agrária. Enquanto, nos estados
do Sul, foram comuns os movimentos de pequenos agricultores contra o parcelamento dos
minifúndios, garantindo o acesso da família a terra, no Centro-Oeste, pode-se observar os
movimentos de posseiros pela permanência nas terras ocupadas, ou a predominância dos
movimentos de agregados no Nordeste ou dos extrativistas no Norte. Apesar de que em cada
região o objetivo ser o acesso à terra, as formas peculiares do acesso precário ao bem ou mesmo
de organização da vida, produziram legitimidades diferenciadas nestes espaços, passíveis de
serem observadas com os estudos da situação de estados específicos da federação.

A partir da constatação da forma diferenciada que assumiu o latifúndio e o ativismo


público dos movimentos sociais no Brasil, definiu-se por concentrar a investigação em quatro
estados da federação. A formação do espaço de observação da pesquisa, apesar de não abarcar
toda a nação, oferece um quadro analítico capaz de expressar o entendimento do judiciário
brasileiro sobre o conflito agrário. O Brasil pela sua dimensão continental e pela necessidade de
observar processos judiciais que costumam se encerrar na 1º Instância, nas diversas comarcas
brasileiras, impediu que a pesquisa se concentrasse sobre um universo geográfico muito
extenso. Por outro lado, a concentração em determinadas regiões não impede a formação,
a partir do espaço delimitado, de um juízo sobre o comportamento do judiciário válido para
todo o Brasil, isto porque os critérios de escolha das regiões estiveram relacionados ao típico
processo de expansão agrícola brasileiro, gerador de conflitos, e o tipo de movimentos sociais
envolvidos. A equipe de pesquisa observou que o conflito agrário, apesar de ter sua presença
democrática por todo o espaço territorial brasileiro, tem características sociais diferenciadas
capazes de serem representadas pelos estados escolhidos.

A escolha do espaço de observação nos Estados do Pará e Mato Grosso está relacionada
a dois fatores. Um deles se relaciona com o fato de nestes estados estarem localizados as
principais partes do território definido como o arco do desmatamento, uma porção de terra
que se estende “entre o sudeste do Maranhão, o norte do Tocantins, o sul do Pará, norte
do Mato Grosso, Rondônia, sul do Amazonas e o sudeste do Acre” (PRESIDÊNCIA DA
REPÚBLICA, 2004, p. 9), sendo que aproximadamente 70% do desmatamento ocorrem

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nos Estados de Mato Grosso, Pará e Rondônia (Presidência 2004, p. 9). O alto índice de
desmatamento nessa região tem relação direta com a ocupação recente da pecuária nos
Estados do Pará e Mato Grosso, processo que vem acompanhado dos conflitos agrários,
principalmente, por este projeto econômico se desenvolver numa área que é marcada pela
“fragilidade nos processos discriminatórios e outras ações de averiguação da legitimidade de
títulos” (IDEM, 2004, p. 11).

Um segundo fator que justifica a escolha dos Estados do Pará e Mato Grosso, se deve
pelo grau de conflito que assumiu a questão agrária nestes dois estados. Segundo dados da
Comissão Pastoral da Terra, entre os anos de 2003 a 2010, o Estado do Pará registrou um total
de 210 ocupações de terra, sendo que nessas estiveram envolvidas 32.927 famílias. Além do
número de famílias envolvidas, o Pará é o estado em que o conflito assume sua configuração
mais violenta. A CPT registrou, no ano de 2010, 34 assassinatos envolvendo conflitos de terra
no Brasil, destes 18 ocorreram no Pará. O estado ainda registrou os assassinatos que tiveram
maior repercussão nacional, como o da missionária americana Doroty Stang, ocorrida em
2005 (QUINTANS, 2005), e também o do casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da
Silva e Maria do Espírito Santo, ocorrido em 2011. As diversas mortes no Pará acabam por
produzir uma sensação de insegurança e impunidade dos crimes relacionados com a questão
agrária e colocando em dúvida a capacidade do Estado de atuação nesta área.

A escolha de Goiás como outro espaço de observação se deve ao fato do estado ter
tido sua maior ocupação econômica e física, principalmente após as políticas agrícolas do
Governo Federal, conduzidas nas décadas de 1970 e 1980, relacionadas com a expansão da
soja para o cerrado brasileiro. A execução do plano de ocupação do cerrado foi interpretada por
diversos estudiosos como o principal fator moderno da constituição do latifúndio brasileiro,
isso porque estas políticas foram levadas a efeito sem uma preocupação com a preservação
dos modos de vida e propriedade existentes nessas regiões. A configuração particular da
formação da propriedade agrária nessas localidades específicas do cerrado estabeleceu uma
condição dos conflitos agrários marcada pela presença de diversos fatores sociais, seja os
relacionados à moderna produção agrícola ou aqueles ligados à exploração tradicional da
terra através da pecuária extensiva. A conformação de tipos de propriedades diferentes num
mesmo espaço torna o espaço do Estado de Goiás singular para a observação da atuação
da justiça, obrigada a dialogar com experiências diferenciadas de relação com a terra e de
legitimação da propriedade, isso além do cerrado se constituir na principal fronteira agrícola
do país.

Já o Estado do Paraná, foi escolhido por se constituir, assim como o Rio Grande do
Sul, no berço dos movimentos sociais formados na nova conjuntura de politização da reforma
agrária. Foi nesse estado que também se consolidou a ocupação organizada da terra como
estratégia de ativismo público, envolvendo o objetivo de disputa de ideias, convencimento

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público e pressão sobre o Estado. O Paraná teve sua configuração agrária marcada pela presença
dos posseiros em disputa com as companhias internacionais de colonização, nesse espaço,
estiveram em disputa não somente uma forma de conceber a produção agrícola, mas também
um projeto agrícola para o Brasil, que tinha seu principal expoente no imigrante europeu
em detrimento dos nacionais. A estruturação histórica do Estado do Paraná influenciou a
formação dos movimentos sociais modernos, isso porque, grande parte do movimento social
neste estado foi constituído a partir da legitimidade do acesso dos nacionais à terra e a disputa
com as companhias de colonização.

Merece destaque ainda, em se tratando do Paraná, a formação dos contingentes


de sem-terra fruto dos projetos de construção de hidrelétricas, com destaque neste estado
para a construção de Itaipu, obra arquitetônica responsável pelo alagamento de grandes
extensões de terra que foi responsável pela produção de milhares de sem-terras que passaram
a reivindicar novos estabelecimentos rurais. A formação dos sem-terra pela ação do Estado
e sua constituição em grupos de ativismo público relacionados à ocupação de terra torna-se
espaço importante de observação da intervenção do judiciário no Brasil, isso porque, a política
energética do Governo Federal aponta para a continuidade desse processo, principalmente na
região norte do Brasil.

Por fim, a definição do marco temporal de 2003 a 2011 se deve a dois fatores.
Primeiramente, em 2004 foi constituído o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com
atribuições para o controle da atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário e do
cumprimento dos deveres funcionais dos juízes (art. 103-A, da CF/88), elemento que vem
exercendo uma influência decisiva na atuação da Justiça. O segundo aspecto que justifica a
definição do período apresentado se refere ao tempo em que as Ações Possessórias, em grau
de recurso, chegam às instâncias superiores do Poder Judiciário, atingindo, em média, o lapso
temporal de seis anos. A observação da atuação judiciária só seria completa se observasse
não somente a atuação do juiz de primeira instância, mas também as decisões colegiadas
produzidas pelos Tribunais dos Estados e Superiores.

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I – CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

1.1. Problemas e Objetivos de pesquisa

O problema principal da pesquisa foi diagnosticar como o Poder Judiciário pensa,


discute, analisa e dirime fundamentadamente os conflitos oriundos das ocupações de
terras por movimentos sociais populares campesinos, a fim de conhecer, com a necessária
profundidade, o seu perfil e características enquanto Poder de estado, bem como de seus
membros (Juízes, Desembargadores e Ministros).

Nesse sentido, visa-se pesquisar a atuação desse Poder no espaço geográfico


delimitado, de modo a identificar o significado de como o Judiciário enfrenta as questões
possessórias relativas a conflitos agrários relacionados.

Os conflitos agrários são objeto de atenção da imprensa e em contrapartida da


sociedade brasileira. O principal aspecto a ganhar a atenção do grande público é o modo que
o movimento social encontrou de garantir o seu direito a terra: a estratégia da ocupação de
terra. Ela mobiliza um número expressivo de famílias e é direcionada para tipos específicos
de propriedade, principalmente aquelas que não cumprem a Função Social2. O ato de ocupar
terra por parte dos movimentos sociais não se conduz de forma aleatória está condicionado
por um determinado entendimento sobre a natureza da propriedade e do direito que diversos
sujeitos teriam de possuí-la.

O ato da ocupação de terra como estratégia de ação não é uma novidade da condição
histórica brasileira. Na Revolução Inglesa do século XVII, podemos encontrar grupos de
trabalhadores rurais que utilizavam dessa estratégia (HILL, 1987). No Brasil, os movimentos
sociais da Primeira República, com os seguidores dos beatos e a busca pela terra prometida,
de Canudos e Contestado, podem ser considerados como elementos formadores da concepção
que o sem-terra tem o direito a um pedaço de terra que lhe foi retirado em algum momento
ou lhe prometido por alguém. A própria Sesmaria, sistema de garantia da propriedade no
período colonial, iniciada a partir de uma posse, foi elemento formador da concepção de que
o estado deseja ver suas terras ocupadas. As expropriações na fronteira nas décadas de 1940 e
1950, também seriam parte do processo de formação de uma concepção de que a terra merece
voltar às mãos do homem pobre expropriado. Contudo, o fator que dirige a ocupação das
terras, como estratégias dos movimentos sociais têm fundamentos modernos e foi constituído
nos marcos da própria formação da moderna agricultura brasileira.
2 Segundo o disposto na Constituição Federal de 1988 (art. 186), “a função social é cumprida quando a propriedade
rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado; II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do
meio ambiente; III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho; IV - exploração que favoreça
o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.”

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A ocupação de terra, com suas raízes históricas, se combinou na modernidade com o


texto constitucional, que associou a desapropriação para fins de reforma agrária com o não
cumprimento por parte das propriedades de uma função social, caracterizada principalmente
pelo elemento produtivo. A ação dos movimentos sociais de ocupar terras, passou a exercer o
papel de pressão sobre o estado para a garantia de um estoque mínimo de terras para a reforma
agrária. A partir do momento que a Constituição determinou que as terras para a reforma
agrária seriam formadas pelas não cumpridoras do preceito constitucional da função social,
os movimentos sociais direcionaram suas ações para as terras que supostamente estariam
descumprindo este preceito. A principal reivindicação nas ocupações é o pedido para que o
Incra3 proceda a vistoria nas fazendas para aferir o cumprimento da função social.

O fato da escolha das terras estar condicionada a um determinado tipo de propriedade,


que não cumpre um preceito constitucional, transforma a ação dos movimentos em uma
forma de cobrança sobre o estado para o cumprimento de uma política social definida na
Constituição, ao mesmo tempo em que se configura numa denúncia de uma situação de
ilegalidade perpetrada por determinadas propriedades. Os elementos levantados já permitiriam
a consideração da ação da ocupação como uma forma de ativismo público, uma ação de
interpelação do estado pela cobrança de um direito, previsto legalmente, e não garantido pelo
estado.

O mesmo ato dos movimentos sociais entendido como uma forma de garantia de
direitos legais é observado por parte da sociedade e pelo próprio judiciário como uma afronta
a um outro direito, o da propriedade privada. O ato da ocupação, organizado como um
ativismo público, gera por seu contrário uma ação judicial, que da parte do seu proponente,
costuma classificar o ato social como um simples esbulho. O ativismo público, voltado a
cobrar do estado um preceito constitucional, envolve uma terceira pessoa, que avalia o ato
do movimento social como um questionamento ao seu direito de propriedade, propondo
uma ação, classificada como ações possessórias, visando a garantia de suas prerrogativas de
proprietário e buscando classificar os sujeitos sociais envolvidos com os movimentos sociais
como esbulhadores.

O problema que direcionou esta pesquisa foi justamente o de observar os aspectos


contraditórios envolvendo estes três participantes do processo, os movimentos sociais, o
estado e o suposto proprietário de terras, tendo todos suas ações balizadas pela forma que
foi inscrito o direito constitucional a reforma agrária. Ainda como elemento de análise desta
problemática, encontra-se a forma como o direito agrário foi recepcionado pela Constituição,
estabelecendo o preceito da função social como balizador do direito a propriedade da terra e
como ele foi inscrito no Direito Civil, ao fazer com que as decisões judiciais caminhem numa
relação conflituosa ou problemática entre estas definições legais.
3 Sigla que se refere ao Instituto de Colonização e Reforma Agrária, uma autarquia federal vinculada ao Minis-
tério do Desenvolimento Agrário, a qual detem, entre outras atribuições, o papel de executar a política pública de
reforma agrária no Brasil.

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O desenvolvimento do problema apresentado na pesquisa assume ainda maior


relevância quando as decisões do judiciário em relação a ação dos movimentos sociais
assume unicamente a visão de considerá-los esbulhadores. A postura do judiciário não
somente produz uma decisão para as partes litigantes, como também passa a conformar toda
uma ação social construída historicamente, tendendo a um processo de criminalização do
ativismo público ou das posturas sociais de cobrança de direitos pelo estado.

Já os objetivos desta pesquisa são o de sintetizar as decisões judiciais proferidas nos


estados sobre investigação, procurando diagnosticar, sistematizar e documentar as tendências
de julgamentos das instâncias judiciais (todos os graus de jurisdição) sobre questões ligadas
à distribuição da terra. Pretende-se também analisar a área de abrangência da pesquisa, a
ocorrência de processos de criminalização das ações sociais. Esse é um elemento de denúncia
dos movimentos sociais, como principal aspecto de uma intervenção negativa do Judiciário na
questão agrária. Definindo, por fim, de que forma o Judiciário atua nas soluções dos conflitos
agrários, como compreendem os conflitos e que soluções apontam para os mesmos.

1.2. Referenciais Teóricos e Metodologia

No que diz respeito aos referenciais teóricos adotados na pesquisa, partimos dos
estudos de Boaventura de Sousa Santos (2007, p. 36), para quem

(...) no caso da terra, confrotam-se fundamentalmente duas


concepções de propriedade: a concepção que tem na sua base o
direito agrário, ligado ao trabalho; e as concepções individualistas
do direito civil, com uma concepção de propriedade mais ligada
ou à posse directa ou ao título. São duas concepções que estão,
neste momento, em conflito.

A escolha desse autor como uma das referências da pesquisa, justifica-se por ter muito
claro a diferença das bases civil ou agrária da propriedade, muito útil para a verificação de
como o Judiciário atua nos processos judiciais das ações possessórias, instaurados a partir das
ações dos movimentos sociais de luta pela terra vinculadas à ocupação de imóveis rurais.

Eugênio Raúl Zaffaroni (1995) também serviu de base teórica para o desenvolvimento
da proposta deste trabalho, cujos resultados sintetizamos no presente relatório final, por discutir
as estruturas judiciárias latino-americanas, inclusive a brasileira, a partir de três modelos
de análise: empírico-primitivo, técnico-burocrático e democrático- contemporâneo. A partir
desses modelos de análise poder-se-á, na pesquisa, verificar a qual modelo corresponde
preferencialmente a atuação do Poder Judiciário nos conflitos agrários, no contexto espacial
e temporal delimitado, no tópico “objeto”.

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Nessa perspectiva, constatamos que a atuação do judiciário nos conflitos agrários


apresenta características pertinentes ao modelo técnico-burocrático, pouco democrático,
que sequer abre espaço para oitiva efetiva dos movimentos sociais de luta pela terra. Um
indicativo concreto disso, como restará evidenciado no tópico pertinente aos dados levantados
e respectivos comentários, é a falta de designação de audiências de justificação prévias nos
processos de ações possessórias analisados no Estado de Goiás.

Luiz Edson Fachin (2000), ao discutir soluções para os conflitos emergentes das
ocupações em imóveis rurais, chama a atenção para o proceder clássico do Poder Judiciário
nessas questões. Fachin é consistente ao seguir apenas o caminho do Código Civil, no qual,
em regra, os juízes inspiram-se no absolutismo do direito de propriedade expresso num
título para deferir proteção possessória, sem qualquer questionamento acerca das exigências
constitucionais. Daí, a escolha de autor como uma das referências para a pesquisa, o que se
confirmou com o levantamento dos dados.

Outra referência é o estudo “Corpo e Alma da Magistratura Brasileira” (VIANNA;et


al, 1997), por tratar, entre outros aspectos, da “investigação acerca das atitudes do magistrado
em face dos problemas políticos contemporâneos e das questões que dizem respeito ao papel
do Judiciário na sociedade brasileira” (IDEM, 1997, p. 18-19).

Considerando que as ações possessórias, quando oriundas da mobilização dos


movimentos sociais de luta pela terra, voltada para a ocupação coletiva de imóveis rurais,
constitua, nesse contexto, um problema político, a atuação do Judiciário, notadamente a partir
da figura do juiz, passa a ter relevância, principalmente pelos efeitos concretos das atitudes
dos magistrados nos casos concretos levados à sua apreciação. Basta pensar-se nos riscos de
consumação de atos de violência em casos de cumprimento das decisões liminares nas ações
possessórias (não é de se esquecer dos eventos de Corumbiara e Eldorado dos Carajás).

Também embasa teoricamente a pesquisa o pensamento de José Eduardo Faria (1992).


Na obra “Justiça e conflito: os juízes em face dos novos movimentos sociais”, Faria se propõe
a discutir os contrastes e paradoxos do Poder Judiciário. Nessa tarefa, trata, entre outros
pontos, da atuação da magistratura diante da “tendência cada vez mais clara da utilização dos
processos judiciais a partir de critérios políticos substantivos, por parte dos novos movimentos
sociais” (FARIA, 1992, p. 67).

A relevância da análise de Faria, para o desenvolvimento da presente pesquisa, reside


no fato de sua análise relacionar a atuação dos juízes e as ações dos “novos movimentos
sociais”, que são as variáveis constitutivas das análises empreendidas, embora, repita-se,
existe a delimitação tanto da atuação dos juízes, restrita aos processos judiciais instaurados
a partir de ações possessórias, no período de 2003 a 2011, em quatro Estados (Goiás, Mato

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Grosso, Pará e Paraná), quanto aos movimentos sociais, principalmente os que lutam pela
terra pelos atos de ocupação coletiva dos imóveis rurais.

No que diz respeito à metodologia de pesquisa, fez-se uso de técnicas sequenciais


de recuperação e análise dos dados nos processos judiciais, sendo que a fase quantitativa
antecedeu a análise em profundidade dos dados. A pesquisa teve início com o levantamento
de dados sobre o número de conflitos existentes em cada um dos estados selecionados para
a pesquisa, dentro do período delimitado, entre os anos de 2003 a 2011. Nesta primeira fase
também foram investigados os grupos sociais envolvidos nos conflitos em cada estado e
mesmo o desenvolvimento dos conflitos nos anos sob análise.

Após a definição do número de conflitos em cada estado foi estabelecido um


parâmetro quantitativo para o número de processos que deveriam ser analisados. A primeira
questão definida foi que o acesso aos processos das ações possessórias deveria contemplar
principalmente as ações impetradas na 1º Instância, pois no caso em análise, poucas eram
as que chegavam as instâncias superiores. A necessidade de ter acesso a processos de 1ª
instância impediu o uso disseminado da internet ou dos acórdãos como fonte de pesquisa,
com isso adotou-se a estratégia de localizar os movimentos sociais e identificar os advogados
atuantes nas causas, para a partir deles, localizar números de processos passíveis de serem
buscados nas várias comarcas dos estados escolhidos para a pesquisa.

A busca dos autos dos processos nas comarcas se mostrou um processo difícil e eivado
de uma grande burocracia, impeditiva do acesso a um número considerável de processos. Nesse
momento, a pesquisa se deparou com um custoso processo de negociação com juízes e com
responsáveis pelos cartórios para obter o acesso aos processos em questão. A pesquisa contou
em muitos momentos com o apoio de juízes interessados em contribuir com a investigação,
mas esbarrou no controle dos cartórios e nos altos custos para ter acesso as peças componentes
do processo. Com a dificuldade de busca dos processos nas comarcas, foi estabelecido um
número mínimo de processos que deveria ser buscado em cada estado atendendo a um grau
variado de grupos sociais e situações de conflitos que fossem representativos da situação
encontrada em várias partes do Brasil.

A partir das dificuldades encontradas para a busca das peças processuais em cada estado,
visando à garantia de uma observação representativa do universo de conflitos pesquisados, foi
definida a busca dos casos de conflitos através das peças processuais disponíveis nos sistemas
de busca dos tribunais, para isso foram adotados como critérios de pesquisa: os números dos
autos dos processos fornecidos pelos movimentos sociais envolvidos em algum conflito, o
nome dos advogados relacionados aos movimentos sociais e uma pesquisa a partir do nome
dos movimentos sociais em conflito. A partir dos dois critérios interpostos, a busca de autos
de processos nas comarcas e a pesquisa de decisões sobre casos específicos localizados em

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19
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sistemas de busca, chegou-se ao universo de 127 (cento e vinte e sete) autos de processos
analisados.

Após a coleta, foi feita a análise de todos os processos e das peças disponíveis
procurando identificar, em cada processo, os seguintes elementos: a qualificação das partes,
os meios de prova, revelia, tipo de posse/rito, participação do Ministério Público e órgãos do
estado de atuação junto à problemática agrária, liminares concedidas, julgamento e a análise
por parte do juiz da função social da propriedade. Em todos os itens definidos para serem
buscados, em cada processo, procurou-se identificar a problemática principal do projeto:
como o judiciário recepciona a estratégia da ocupação como uma forma de cobrança de
um direito social e sob que critérios o juiz decide sobre a fundamentação da propriedade,
observando o direito constitucional fundamentado na função social ou restringindo sua
análise ao direito civil a propriedade.

Desenvolvendo as questões iniciais, fazem parte da análise as reflexões sobre as ações


e estratégias de mobilização social que visam alcançar o judiciário, proposição existente pela
ideia de “Judicialização das Questões Sociais” (AGUINSKY e; ALENCASTRO, 2006, p 19-
26.), reveladoras da dinâmica social de levar ao judiciário um conjunto de temáticas, valores,
interpretações em que, não necessariamente, estejam presentes na esfera de aceitação do
pensamento do judiciário brasileiro.

Por fim, a organização dos dados apreciados teve como produto objetivo, a construção
de gráficos e tabelas para a facilitação da compreensão. Dadas as devidas proporções, esta
opção metodológica permite aproximar da realidade dos conflitos agrários, favorecendo
uma relação diferenciada (em nível de pesquisa científica) quando nos referimos a análises,
exclusivas, de processos jurisdicionalizados. Esta perspectiva representa parcialmente a
realidade e quando analisados isoladamente perde-se a compreensão que a totalidade das
ações sociais busca demonstrar.

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II – CONFLITOS AGRÁRIOS E O DIREITO

2.1. Introdução

Os estudos sobre a formação da propriedade agrária no Brasil destacam, em sua maioria,


o processo de exclusão do pequeno produtor do bem agrário e o consequente processo de
formação do latifúndio. Não há qualquer dúvida de que o latifúndio foi o resultado principal
da formação da propriedade agrária no Brasil e sua influência não esteve limitada diretamente
as regiões onde sua incidência foi maior, mesmo onde sua presença não foi tão significativa, o
latifúndio marcou o desenho agrário do Brasil e foi e ainda é elemento essencial das políticas
agrícolas do país.

A presença disseminada do latifúndio no espaço agrário produziu um passivo social


de enormes proporções, isso porque um contingente significativo da população brasileira
que tem como referência de vida e trabalho o campo ficou excluída do acesso a propriedade
agrária. A exclusão foi ainda acompanhada da formação de uma cultura jurídica4 por
determinados grupos, caracterizada principalmente por um direito social ou mesmo familiar
à propriedade agrária.

A formação do direito social à propriedade agrária no Brasil, sentimento partilhado


por um grupo significativo de indivíduos que receberam a denominação de “sem-terras”,
envolve também elementos culturais. A terra como espaço de organização da vida social e
familiar, como também política e social, faz parte do processo de inserção do indivíduo na
dinâmica pública da nação. A constituição do direito específico a propriedade agrária frente a
um espaço monopolizado por poucos proprietários é a base dos litígios envolvendo os grupos
excluídos do acesso a terra que, para a efetivação do seu direito, agem de forma coletiva,
organizados por diferentes movimentos sociais, surgidos do processo de conscientização em
torno do direito a propriedade agrária.

Apesar do direito social a propriedade agrária estar disseminado pelo Brasil, por meio
dos litígios5, alcançando todo o território nacional, a forma como esses se desenvolvem, o
grau de violência, as justificativas para a formação dos direitos específicos a terra e mesmo
as características peculiares dos grupos envolvidos nos conflitos, estão relacionados a
movimentos históricos específicos de formação da propriedade agrária no Brasil, passíveis
de serem compreendidos a partir da análise da formação do espaço agrícola brasileiro.
4 “A cultura jurídica é o conjunto de orientações a valores e interesses que configuram um padrão de atitudes
diante do direito e dos direitos e diante das instituições do Estado que produzem, aplicam, garantem ou violam o
direito e os direitos.” Segundo ainda os autores a Cultura jurídica reside nos cidadãos e em suas organizações, sendo
parte integrante da cultura da cidadania (SANTOS; MARQUES; PEDROSO, 2011)
5 Segundo Boaventura Santos, Marques e Pedroso “os litígios são construções sociais, na medida em que o mes-
mo padrão de comportamento pode ser considerado litigioso ou não litigioso consoante a sociedade, o grupo social
ou o contexto de interações em que ocorre.”

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2.2. A Formação da Propriedade da Terra no Brasil

Um dos elementos essenciais para entender a formação da propriedade agrária no Brasil


é a presença de uma fronteira a ser ocupada. A definição dos marcos legais da propriedade
agrária no Brasil conviveu com um longo processo de ocupação da terra, caracterizado
primeiro pela ocupação do litoral, através da organização da produção do açúcar e, depois
pela lenta ocupação do interior do Brasil, impulsionada pela produção do café, primeiro
na província do Rio de Janeiro e, posteriormente, no oeste paulista. Apesar de algumas
províncias do Brasil contarem com processos específicos de formação do espaço agrário,
em todas elas, as produções para exportação como do açúcar e do café foram essenciais para
seus desenvolvimentos, pois foi a partir destes centros geradores de divisas para a nação que
foram formuladas as leis de definiram os marcos legais da propriedade.

Uma das reflexões que tratou da ocupação da fronteira no Brasil foi feita por Martins
(1997), quando identificou este processo não como uma agregação linear de espaços agrários
ao processo produtivo, mas sim aos agentes da expansão; o que permite a compreensão
da historicidade da expansão sem que se reproduza uma agregação dos tempos históricos
condicionada à lógica do espaço. O deslocamento do olhar sobre a fronteira, do território
para os agentes sociais, permitiu a Martins, a identificação da presença de vários deles
na fronteira, ressaltando suas singularidades e o processo de disputa, sem que um ficasse
reduzido à perspectiva histórica do outro. Assim, o elemento que caracteriza a fronteira passa
a ser a situação de conflito, “a fronteira é essencialmente o lugar da alteridade” (MARTINS,
1997, p. 150).

No caso do processo de formação da propriedade agrária, as elaborações de Martins


(ano) auxiliam na discussão quando propõe a mudança do enfoque do território para os agentes
do processo de expansão na análise da fronteira. Dessa forma, é possível a periodização da
fronteira não pela extensão ou o alcance da ocupação do território, mas pelos mecanismos
complexos e diversos que gerem este processo, com a concentração da abordagem nas
contradições sociais geradas pela expansão e na disputa entre os vários agentes pelo destino
da fronteira.

A partir desses referenciais é possível elaborar uma periodização da expansão


da fronteira, com a identificação de dois períodos históricos. O primeiro, que pode ser
definido como período açucareiro, normatizado através do sistema de sesmaria, uma forma
de concessão da terra intermediada pelo Estado em que o fundamento da propriedade se
encontra no uso, para a garantia da propriedade o beneficiário, após a concessão, era obrigado
provar cultura efetiva, morada habitual e cercar a gleba, obtendo após isto a confirmação da
sua propriedade por parte do Estado. O sistema açucareiro pela capacidade que teve de gerar
uma economia subsidiária, seja da pecuária ou mesmo das pequenas roças para subsistência

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da indústria açucareira, gerou no seu entorno também o processo de ocupação da terra através
da posse, mecanismo utilizado principalmente pelos pequenos proprietários impossibilitados
de cumprirem os mecanismos efetivos de afirmação legal da propriedade.

A posse, forma característica de expansão da pequena propriedade, não ficou restrita


a este segmento social. Ela foi também a principal forma de ocupação da terra nas zonas de
expansão da pecuária, nesse caso, esteve relacionada diretamente a formação das grandes
propriedades no interior do país. A pecuária ficou caracterizada no Brasil pelo seu caráter
extensivo, com o gado criado a solta e dependendo de um incremento grande de terras
para suprir a sua capacidade de pastagem. A necessidade crescente do gado, por terras para
pastagens e os baixos investimentos tecnológicos na formação de pastos, foi responsável pela
baixa incidência de confirmações de sesmarias nas regiões de pecuária.

A posse de grandes extensões de terra aprofundou-se ainda mais quando foi abolido
o sistema sesmarial e nenhuma outra regulação surgiu até a aprovação da Lei de Terras de
18506. A suspensão de todas as sesmarias futuras foi ordenada através de uma resolução de
17 de julho de 1822 que, apesar de ter sido provocada pela reclamação de um posseiro do
Rio de Janeiro contra a medição de uma sesmaria que se sobrepunha a sua posse (SILVA,
1996, p. 73), demonstrava a incongruência que dominou todo período colonial entre os
interesses da Coroa e o do “senhoriato rural colonial” (SILVA, 1996, p. 75), na distribuição
de terras. A Coroa legislou sobre a questão das terras procurando estabelecer limites a sua
ocupação e incentivando a exploração econômica das mesmas. Já para os escravocratas
interessava manter as terras abertas ao seu domínio para continuidade do processo predatório
de exploração, assentado em parcos capitais, com baixa tecnologia e na submissão extra-
econômica da mão-de-obra. A suspensão da concessão de sesmarias em meio ao processo
de independência torna-se, portanto, não uma mera coincidência, mas um resultado destes
interesses divergentes.

A conclusão a que se chega sobre este primeiro período de expansão da fronteira


no século XIX é a de que o caráter latifundiário da expansão prevaleceu, graças à forma
de apossamento da terra e aos mecanismos de produção do açúcar e pecuária que, além de
ocupar grandes extensões de terra, deixava poucas possibilidades de formação de pequenos
estabelecimentos agrários, que surgiam nas franjas das próprias fazendas ou próximos às
cidades para o seu abastecimento. No caso, o acesso à terra estava aberto pela ausência de um
disciplinamento legal da ocupação, mas não se efetivava pela estrutura produtiva instalada,
que se conjugava de forma perfeita com a ocupação latifundiária.

O segundo período de ocupação foi o estruturado a partir da expansão do café para o


6 Lei de Terras foi o nome pelo qual ficou conhecida a Lei N° 601, de 18 de setembro de 1850 que instituiu um
ordenamento jurídico sobre as terras devolutas, as sesmarias, as posses e ainda instituiu formas de atuação do Estado
na Colonização estrangeira.

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oeste paulista e coincidiu com a aprovação da Lei de Terras de 1850, ordenamento agrário
que modificou consideravelmente a forma legal de apropriação da terra e marcou o início do
processo de formação da propriedade absoluta da terra.

A Lei de Terras de 1850 foi editada num momento muito específico da agricultura
brasileira. Trata-se da crise do escravismo, caracterizado pelo fim do tráfico negreiro e pela
expansão da lavoura cafeeira no oeste paulista. O fenômeno essencial dessa nova fase de
expansão é o crescimento da ocupação das terras numa velocidade maior do que a expansão
da produção, o qual pode ser explicado pela nova configuração da lavoura cafeeira no oeste
paulista e pelo efeito direto das medidas de reconhecimento da propriedade implantadas com
a Lei de Terras. A lavoura do café é implantada no oeste paulista em bases diferenciadas do
Vale do Paraíba, região em que o café viveu seu auge na primeira metade do século XIX. No
oeste paulista, os fazendeiros, impulsionados pelas dificuldades de reposição da mão-de-obra
escrava africana, causada pelo fim do trafico7, foram obrigados a implantar novas formas
de trabalho, o que será feito através da introdução dos emigrantes europeus que, longe de
significar a introdução do trabalho livre nas lavouras, marcaram a continuidade de sistemas
servis de exploração do trabalho, só que em outras bases o que alterou substancialmente a
estrutura da produção cafeeira.

Uma das principais alterações que surgiu com a implantação da lavoura de café no
oeste paulista foi o deslocamento da renda capitalizada, do escravo para a terra, o que levou ao
surgimento da renda territorial capitalizada. Segundo José de Souza Martins (1996), o escravo
era o bem de maior valor na fazenda escravocrata, sendo ao mesmo tempo renda capitalizada
imobilizada e capital de custeio, já que também era utilizado como garantia de empréstimos.
O fim do tráfico teve um efeito devastador na composição do capital na fazenda. De início
parecia indicar o contrário, pois o aumento excepcional no preço do escravo, graças a raridade
do produto, melhorou a capacidade de endividamento do fazendeiro, já que aumentou o valor
de suas garantias, num momento em que havia uma maior disponibilidade de capital com a
diminuição dos investimentos no trafico. O grande problema era que a tendência, em longo
prazo, era o estrangulamento da produção, pois o encarecimento da mão-de-obra tinha como
efeito sustar as vantagens aferidas com a maior disposição de capital, pois a contrapartida
se encontrava na expansão da fazenda, ocorrendo uma maior imobilização do capital como
renda capitalizada, por causa do encarecimento do cativo (MARTINS, 1996). A saída para
a crise de mão-de-obra, contudo, não se restringia em arrumar outra fonte de trabalhadores,
mas era necessário encontrar algo que pudesse substituir o escravo como crédito hipotecário
para a garantia do capital de custeio.

7 A Lei que proibiu o tráfico no Brasil é de 1831, porém o Estado brasileiro só adotou medidas efetivas para
esse fim em 1850, quando expulsou do Brasil os maiores traficantes de escravos, em sua maioria portugueses, isso
por causa das pressões inglesas que incluíam inclusive o aprisionamento de pessoas em solo brasileiro que fosse
pego transportando escravos, sobre isto ver Prado Júnior, 1967.

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A solução para superação da crise de mão-de-obra veio com a política de atração


do emigrante, conjugada com as medidas adotadas para transformar a fazenda e, depois, o
próprio café, em crédito hipotecário, com isso, a terra torna-se elemento essencial do processo
produtivo não pelo simples controle do bem, mas pelos resultados que podia produzir
em termos de absorção de mão-de-obra e de produção de pés de café. A renda territorial
capitalizada não se reproduzia pelo simples controle da terra, mas pela sua destinação
econômica: a produção de fazendas de café. O resultado deste processo foi que a atividade
mais importante da cafeicultura passou a ser a abertura de fazendas, e esta tinha seu valor
determinado pela sua capacidade produtiva, dando às novas terras maior vantagem, porque
nessas, o cafeeiro apresentava maior produtividade (MARTINS, 1996).

O novo papel da terra no processo produtivo do café fez surgir um novo negócio: a
produção de fazendas de café, de preferência em terras novas, que ofereciam a oportunidade
de se angariar uma renda diferencial em relação às antigas. A nova configuração do café
no oeste paulista, portanto, exercia uma forte pressão no processo de ocupação das terras
“vazias”. Esse fator, na segunda metade do século XIX, combinou-se com as restrições
impostas pela Lei de Terras para o livre acesso à propriedade rural, pois sua determinação
era muito clara “ficam proibidas as aquisições de terras devolutas por outro título que não
seja o de compra”8. Dessa forma, o fazendeiro para ter acesso, as desejadas novas terras,
precisava fazê-lo respeitando o que determinava a Lei n° 601 de 1850, pois devido ao
tempo de maturação de um pé de café para tornar-se produtivo, ou seja, de 4 à 6 anos, e
os investimentos necessários na formação de uma fazenda, tornava-se imprescindível que a
terra chegasse às mãos do fazendeiro legalizada e sem qualquer possibilidade da propriedade
ser questionada judicialmente. Esta nova necessidade leva ao aparecimento de uma nova
figura que agia nas regiões limítrofes da expansão cafeeira: o grileiro, que assumia a função
de limpeza das terras com a expulsão dos posseiros e tomava todas as medidas lícitas e
ilícitas para regularizar a propriedade da terra (MARTINS, 1996).

As demandas expansionistas do café no oeste paulista se traduzem num fenômeno


muito próprio daquele tipo de produção, exercendo uma forte influência em outras regiões,
mesmo que estas não produzissem diretamente café. A primeira influência foi uma valorização
do preço da terra. Como a demanda por terras novas no oeste paulista era muito grande,
a tendência era o deslocamento dos outros tipos de produções para regiões próximas ou
que estivessem, de alguma forma, interligadas com as regiões produtoras de café, que teve
maior crescimento populacional neste período. Uma segunda influência foi a velocidade da
ocupação, estimulada pela necessidade de se produzir títulos legítimos para as terras antes
da chegada da própria produção, porque, se antes bastava se apossar das terras para garantir
a propriedade, após a Lei de Terras isto se tornou algo complexo, perpassando além do
elemento força. A partir desse momento, a propriedade, para ser garantida, deveria contar
com títulos aceitos pela justiça.
8 Lei N° 601, de 18 de setembro de 1850, artigo 1º (BRASIL, 2007, p.75).

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O domínio das terras como um fenômeno anterior à própria ocupação produtiva,


relacionado à necessidade de se garantir títulos legítimos àqueles interessados em ocupá-las
produtivamente, foram os fenômenos principais que impulsionaram a ocupação das terras
em grande parte do país, em especial as novas fronteiras que eram até então válvulas de
escape para a formação dos latifúndios no litoral. Particularmente, no início do século XIX,
esse processo foi acelerado pelas medidas adotadas na Lei de Terras para a confirmação da
propriedade sobre posses e sesmarias.

As duas formas de organizar a produção no período Colonial e Imperial, associadas


com os dois principais marcos regulatórios da propriedade agrária brasileira, as sesmarias e
a Lei de Terras de 1850, foram os fatores principais da formação da propriedade agrária no
Brasil. Após a Proclamação da República, a definição do ordenamento agrário e a regulação
do processo de apropriação sobre as terras ficou a cargo dos Estados, contudo esses, em
seu ordenamento, reproduziram em parte as determinações já apontadas na Lei de Terras,
com algumas facilitações no reconhecimento das posses e na revalidação de sesmarias e, em
alguns casos, como o de Goiás, o reconhecimento do Registro das Terras Possuídas (Registro
do Vigário), criado pela Lei nº. 601, de 18 de setembro de 1950 (art. 10) e regulamentado pelo
Decreto nº 1.318 de 30 de Janeiro de 1854, nos seus artigos 90 e seguintes.

No período republicano, assistiremos no Brasil mais dois momentos cruciais no


desenho efetivo da propriedade agrária no campo, a década de 1950 e, posteriormente, a
década de 1970, cada período, a seu modo, redesenhou o espaço agrário brasileiro.

O avanço da produção industrial, a construção de Brasília e do cruzeiro rodoviário,


ligando a capital federal ao restante do país acelerou a ocupação da fronteira. O Governo de
Juscelino Kubitschek (1956-1961) foi marcado pela execução de um plano de governo que
se caracterizava principalmente pela apresentação de metas de desenvolvimento econômico
em vários setores. A principal meta traçada por Kubitschek foi a construção de Brasília e uma
série de rodovias, interligando a capital federal as diversas regiões do país, muitas delas com
acesso precário aos principais mercados consumidores da nação. A construção das rodovias
significou para as regiões do interior do Brasil a integração de uma vasta área de terras com
pouca produção agrícola a um grande mercado consumidor, concentrado nas regiões Sudeste
e Sul do país. A integração, consolidada num período muito curto, de uma região com pouca
produção, provocou uma corrida pela garantia de títulos de terras válidos para a exploração
de um novo mercado de terras que se formou na região e que tinha sua valorização marcada
principalmente pelas possibilidades de produção que a ligação com os novos mercados
apresentava.

A corrida pelos títulos nas regiões periféricas do Brasil, impulsionadas pelas ações
do estado de consolidação da integração nacional por meio de rodovias, foi um fenômeno

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que ficou conhecido como a “Nova Marcha (oligárquica) para o Oeste” (MOREIRA,
2003, p. 186). Diferentemente da conhecida Marcha para o Oeste do Governo de Getúlio
Vargas (1951-1954) caracterizada pela construção de Colônias Agrícolas no interior do
Brasil, fundamentadas na pequena propriedade, a nova Marcha para o Oeste de Kubistchek
favoreceu a ocupação latifundiária das novas terras abertas ao mercado pelas rodovias. O
avanço oligárquico na fronteira no período Kubistchek foi favorecido pelo fato do estado não
estabelecer nenhum mecanismo de proteção as propriedades das populações tradicionais,
favorecendo a um extenso processo de expropriação destes grupos de suas terras e um
crescimento significativo dos conflitos nestas novas áreas de fronteira (MAIA, 2008).

A intervenção do estado nas áreas de fronteira através da construção de rodovias


foi responsável também por uma mudança significativa no projeto de poder dos grupos
oligárquicos, pois viabilizou a fusão dos seus interesses com os dos industriais, a partir do
momento que a integração com o mercado viabilizou uma renovação nos seus negócios
(MOREIRA, 2003). Contudo o período clássico da fusão dos interesses industriais com os
da oligarquia rural se deu na década de 1970. O Golpe Militar de 1964 para além de uma
mudança de governo significou a gestação de um novo programa econômico para o país e
principalmente uma intervenção mais acentuada do governo no campo. O início do Regime
Militar foi marcado pela aprovação do Estatuto da Terra, que definiu claramente os institutos
agrários e passou a moldar as políticas de governo, mas também o próprio espaço social
do campo. O Estatuto da Terra definiu como objetivo para o campo a transformação das
propriedades agrárias em empresas agrícolas, e a condução de políticas de estado, visando à
eliminação do latifúndio e do minifúndio.

As políticas agrícolas pós-64 foram conduzidas na transformação da propriedade


agrária, por um espaço de consumo e produção para a indústria. As principais medidas adotadas
foram a organização de um sistema de financiamento agrícola para a compra de maquinas
e defensivos agrícolas, assim como a adoção de incentivos para a formação de uma grande
produção agrícola voltada a exportação, baseada principalmente na soja. As exportações
agrícolas deveriam estar voltadas não só a atender a produção industrial, produzindo e
consumindo insumos ligados a indústria, mas principalmente para a busca de divisas
internacionais para o financiamento do crescimento do déficit na balança de pagamentos,
provocado pelo aumento da dependência do desenvolvimento industrial do capital externo e
do financiamento das contas públicas através de empréstimos internacionais.

A fusão dos interesses das oligarquias rurais com os dos industriais acabou por se
aprofundar nesse período, com a integração da agricultura ao moderno processo de produção
industrial. A década de 1970 caracterizou-se, por consequência, pela formação do que ficou
conhecido como Complexo Agroindustrial (MULLER, 1989), no qual a produção agrícola
deixava de ser um apêndice da produção industrial e passava a integrar os próprios processos

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27
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de valorização do capital industrial. Um novo setor industrial foi formado no Brasil no pós-
64. Ele passou a depender não só do sucesso da produção agrícola, mas também das políticas
de governo direcionadas para o campo.

O fenômeno de formação do Complexo Agroindustrial não foi somente uma alteração


no processo econômico da produção agrícola, mas atingiu diretamente a própria formação
social do campo. A fusão dos interesses agrícolas com os da indústria, a dependência do
setor das políticas agrícolas de estado, o papel essencial que a agricultura passou a assumir
na economia global, como financiadora do déficit externo e o próprio disciplinamento da
questão agrária a partir do Estatuto da Terra, fez com que a questão agrária passasse a ser um
problema de estado, mediado pela ação dos órgãos estatais que passam a interferir diretamente
na condução do conflito agrário. As novas feições do campo não deram fim a oligarquia rural,
que continuou tendo seu espaço de representação social e política, tanto foi que conseguiu
impedir a execução do Estatuto da Terra na sua proposta de eliminação do latifúndio e refez
sua proposta de desenvolvimento social, assumindo o discurso da modernização como
espaço de solução do problema agrário e evitando qualquer tipo de reforma agrária de caráter
distributivo.

A presença do estado na arena do conflito agrário e o novo papel da agricultura


atingiram não somente as oligarquias, mas também os grupos sociais que reivindicam uma
reforma agrária distributiva. A partir do momento de que o estado assumiu o papel central nos
conflitos agrários, definindo pelo Estatuto da Terra o caráter dos próprios grupos em disputa,
as ações pela reforma agrária passam a se direcionar para a reforma agrária. Não se trata mais
de uma disputa direta com os proprietários rurais, apesar de ser a partir do questionamento
do caráter latifundiário desse grupo que é formulada a proposta de redistribuição das terras,
mas da necessidade de intervenção do estado para a condução de políticas agrícolas e
agrárias justas. A formação do Complexo Agroindustrial no Brasil levou a eliminação do
minifúndio dominial, as pequenas propriedades que eram mantidas no interior das grandes
para a garantia de mão-de-obra e produção de alimentos para as fazendas escravistas. Foram
as massas de pequenos camponeses, expulsas do interior dos latifúndios, que serviram de
base para a constituição do operariado industrial brasileiro e mesmo da massa de sem-terras
que alimentaram os novos movimentos sociais de reivindicação de uma reforma agrária
distributiva.

Outra característica social do processo de modernização agrícola foi a de que, apesar


do processo ter levado a eliminação do minifúndio dominial no interior do latifúndio, ele não
levou ao desaparecimento do minifúndio como parte da paisagem agrária brasileira. O avanço
da modernização agrícola foi combinado com o avanço da fronteira, no mesmo processo em
que ocorria a introdução dos insumos industriais na produção agrícola, avançava também o
espaço de dominação da agropecuária sobre o território nacional. A expansão da fronteira

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agrícola renovou a possibilidade de existência do minifúndio autônomo, que se reproduziu


nas áreas além da dominação da moderna produção agrícola. O pequeno produtor expulso das
zonas de modernização e favorecido pela expansão da fronteira passou a buscar a reprodução
de sua propriedade nas regiões mais distantes, em muitos momentos, exercendo o papel de
abertura de novas áreas a produção agrícola. Este processo foi responsável pela renovação dos
conflitos agrários que tem como objetivo a disputa de terras entre latifundiários e posseiros,
principalmente no Estado do Pará, e que são responsáveis por produzir os principais cenários
de violência que acompanham este tipo de disputa.

Esta reconstrução histórica da formação da propriedade agrária e do novo cenário


dos conflitos agrários no Brasil foi fundamental nesta pesquisa para a qualificação do tipo
de conflitos e que atores sociais estão envolvidos. A definição do conflito agrário atual e
das ações de ocupação como estratégia de esbulhos e como um problema de caráter civil
desconhece esta historicidade. No Brasil, a propriedade agrária e o próprio conflito agrário
assumiram o caráter público a partir do momento que tiveram suas bases redesenhadas e
articuladas pelo estado. Os movimentos sociais de luta pela terra perderam também o seu
caráter de uma disputa individual por um patrimônio agrário e passaram a assumir o caráter
de uma luta por direitos com suas reivindicações sendo direcionadas para o estado e não para
os indivíduos proprietários. A disputa entre as entidades de representação dos latifundiários
e dos movimentos sociais não são pelo patrimônio terra, mas pelas políticas de estado para
o setor agrário. A postura do judiciário de intervenção nessa luta, considerando uma disputa
civil pela propriedade, tende a diminuir o campo de ação social de uma das pontas dela,
consolidando um único setor como ator social das políticas agrícolas e agrárias no Brasil.

A partir de toda essa fundamentação é que a pesquisa definiu a ocupação de terra


como uma forma de ativismo público e como tal devendo ser julgada a partir da reivindicação
interposta ao estado e frente ao principio constitucional da função social da propriedade.

2.3 Movimentos Sociais e o Ativismo Público

A atuação do judiciário nas questões agrárias tem uma relação com a estratégia do
ativismo público utilizada pelos movimentos sociais, que assume as formas mais variadas
de protesto popular como, marchas, petições, encontros, greves de fome, acampamentos de
protesto, acampamentos a beira de rodovias e também atos de desobediência civil como
bloqueios de estradas, piquetes e ocupações de terra e de prédios públicos. O desenvolvimento
das atividades, o alcance social e o caráter que assumem, dependem de uma equação que
envolve tanto os recursos mobilizadores disponíveis ao movimento (humanos, materiais e
de ideias) como das oportunidades políticas de ação (tolerância do regime, a capacidade do

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Estado, a instabilidade das elites, a disposição do governo, os aliados políticos e a atenção


pública). Das formas de ativismo público, a que mais ganha atenção social e ao mesmo tempo
se constitui num espaço de observação da atuação dos movimentos sociais e do Estado é a
ocupação organizada de terra, por geralmente cobrar um posicionamento, tanto do judiciário
como dos órgãos de controle do Estado, no processo de desocupação da área ou mesmo da
discussão de algum litígio, envolvendo o bem sobre ocupação (CARTER, 2010).

As ocupações de terras como forma de ativismo público são caracterizadas por escolhas
racionalmente condicionadas a interpretação que os movimentos fazem da legitimidade do
latifúndio no Brasil. As escolhas das terras ocupadas, na mostra analisada, não obedecem a
um único objetivo e plano, mas dependem, em muitos aspectos, das regiões e dos grupos
que atuam em cada estado da federação. Nas localidades analisadas, os grupos sociais que
ocuparam os imóveis usaram como justificativa para suas ações a baixa produtividade das
glebas, a estratégia da ocupação foi levada a termo como forma de pressionar o Incra para
proceder a vistoria dos imóveis, procedimento inicial para o processo de desapropriação para
fins de Reforma Agrária9. Em todos os casos analisados, a ocupação não produziu nenhuma
forma de esbulho, ficando restrita a uma estratégia de ativismo social para cobrar do Estado
uma ação efetiva na área de política agrária. A ocupação para além de chamar a atenção da
sociedade para o problema agrário ou direcionar a desapropriação de terra a ser executada pelo
estado, procurou estabelecer um diálogo com a sociedade e com o estado sobre a necessidade
da organização de outro padrão agrário no Brasil.

A principal forma de ativismo público para a garantia da reforma agrária no Brasil


foi até o ano de 2005 a ocupação de terra. Contudo, essa forma de atuação vem diminuindo
consideravelmente, fruto principalmente das medidas de estado adotadas para evitar este tipo
de estratégia. Em 2000, foi editada a Medida Provisória nº 2.027/38, que proibiu por dois anos
as avaliações e vistorias em terras ocupadas por movimentos sociais. A medida atingiu em
cheio as estratégias dos movimentos sociais, de ocupar terras para exigir do Incra a vistoria
sobre as propriedades, para aferir o cumprimento da Função Social por produtividade. A
medida editada no Governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) fez a estratégia da
ocupação de terras cair vertiginosamente. No ano de 2001, foram registrados 194 casos e no
ano de 2002 18410.

A eleição do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), um crítico das medidas
provisórias do governo anterior, levou a retomada da estratégia da ocupação, principalmente
porque os movimentos sociais contavam com a revogação da medida ou a sua não aplicação.
9 Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993, que dispõe sobre o procedimento contraditório especial, de
rito sumário, para o processo de desapropriação de imóvel rural, por interesse social, para fins de reforma agrária.
10 Todos os dados utilizados nesta pesquisa, seja quanto ao número de ocupações de terras, conflitos agrários e
mortes no campo, tiveram como fonte o Caderno de Conflitos editado a cada ano pela Comissão Pastoral da Terra
(CPT).

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No ano de 2003, foram registrados 394 casos, um aumento de mais de 46% de casos. Ainda
no ano de 2004, tivemos mais uma alta nesse tipo de casos, alcançando o maior patamar
dessa década, com 496 ocupações registradas em todo o país.

A negativa do governo em revogar a medida provisória de contenção das ocupações


e o aumento da violência fez diminuir consideravelmente o número de ocupações no Brasil.
A partir do ano de 2005, foram registradas quedas significativas de casos, neste mesmo ano
foram registrados 437 casos. Já em 2006 foram 384; em 2007, 364 casos; para, finalmente, em
2011 alcançarem 200 casos, uma ligeira alta em relação aos 180 casos de 2010; demonstrando
que a estratégia da ocupação apesar de ter diminuído durante a década de 2000, continuou
sendo utilizada como estratégia para a defesa da reforma agrária.

Nos estados analisados, os estados de Goiás e Mato Grosso seguiram a tendência


nacional de diminuição de casos de ocupação. Em Goiás, o ano de 2004, assim como nos
dados sobre o Brasil, foi registrado o maior número de casos, 36 ocupações. Contudo, em
2011, foram registrados somente 03 casos, consolidando uma tendência de queda que foi
acentuada principalmente a partir de 2009 e 2010 com 06 casos em cada ano.

No Estado do Mato Grosso, o ano com maior número de casos foi o ano de 2003, com
17 ocorrências. A queda no Mato Grosso acompanhou a tendência nacional, mas se deu em
números maiores. No ano de 2006, foram registrados somente 04 casos; em 2007 e 2008,
uma ocorrência para cada ano. Já os anos de 2009, 2010 e 2011 contaram com uma ligeira
alta, sendo registrado respectivamente 03, 03 e 05 ocorrências.

Os Estados do Pará e Paraná, apesar de terem registrado uma diminuição da ocorrência


de ocupações nos últimos dois anos, mantiveram um número de ocupações altas por quase
toda a década. O Estado do Paraná registrou o maior número total de ocupações, foram 217
para o período analisado, também foi o que registrou o maior número de casos para um
único ano, foi em 2003, com 51 casos, após isso manteve até 2009 sempre um número de
ocorrência na casa das dezenas. Somente a partir de 2010 o número de ocupações no Paraná
ficou abaixo de 10, sendo que em 2010 foram registrados 08 casos.

O numero de ocupações no Estado do Pará para o período analisado foi um pouco


menor do que o do Estado do Paraná, alcançando o total de 210 casos, tendo o ano de 2009
como o de maior incidência, com 43 casos. No caso do Pará, o número de ocupações continuou
alto no final do período analisado, o que não ocorreu nos demais estados.

Os altos índices de ocupações de terra nos estados do Paraná e Pará tem explicações
diversas se concentrarmos as análises sobre os grupos sociais envolvidos nos conflitos agrários
em cada estado. No Pará, as ocupações de terra são dirigidas em sua maioria por grupos locais
de luta pela terra. A influência dos grandes movimentos sociais, de abrangência nacional, é

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pequena. O Movimento Sem Terra (MST), no ano de 2011, quando foi registrado um total de
15 ocupações, esteve a frente somente de 03 ocorrências. Já em 2009, ano de maior número
de ocupações no Pará, com 43 casos, o MST participou ativamente de 05 casos, sendo que a
maioria, 28 ocorrências, foi dirigida pela Federação dos Trabalhadores Agrícolas do Pará e
pela Federação de Trabalhadores de Agricultura Familiar (Fetraf), sindicatos de organização
local por Estado.

No Paraná, berço de formação dos novos grupos sociais de luta pela terra, a maioria
das ocupações são dirigidas por grupos sociais de abrangência nacional. Em 2010, quando
houve 08 ocupações, 03 foram dirigidas pelo MST e 05 pela Confederação Nacional dos
Trabalhadores na Agricultura (CONTAG). A mesma situação foi registrada em 2009, quando
houve 21 ocupações: 05 dirigidas pela CONTAG, 08 pelo MST e 01 dirigida pelos dois
grupos em associação. A maior presença de grupos de abrangência nacional numa região de
agricultura consolidada e moderna indica a ocorrência de conflitos agrários com forte relação
com as condições da agricultura surgidas no pós-64.

Ainda analisando os grupos sociais envolvidos nos conflitos agrários, é possível fazer
a mesma análise para os casos de Goiás e Mato Grosso. A característica principal desses dois
estados foi a diminuição dos conflitos no final do período analisado, acompanhando uma
característica nacional. Já quanto aos grupos em luta pela terra, nos dois estados, é possível
identificar uma composição da situação do Paraná com o Pará, no caso, a presença tanto de
grupos nacionais como de grupos locais. Em Goiás, nos anos de 2009, 2010 e 2011, foram
registrados 15 conflitos, desses 04 foram dirigidos pelo MST, 01 pela Fetraf, 09 por uma
organização denominada Terra Livre e 01 por uma organização não identificada.

No caso do Mato Grosso, foi possível constatar a presença diversificada de movimentos


e sujeitos sociais em luta pela terra. Nos anos de 2009, 2010 e 2011 foram registrados 11
ocupações, destas 03 foram dirigidas pelo MST, 04 por movimentos sem identificação, 01
pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), 02 por índios e 01 por movimento denominado
Movimento de Trabalhadores Sem-Terra (MTR). A situação encontrada em Mato Grosso
e Goiás justificou a escolha destes dois estados, onde é possível registrar um conflito
agrário carregado por características diversificadas, não reproduzindo as situações extremas
encontradas no Paraná e Pará.

Outra análise que foi possível fazer na pesquisa diz respeito à relação entre as
ocupações de terra e a violência. Nesse caso, foram escolhidos como referencial de violência
os casos de mortes registrados nas várias regiões do Brasil, por representarem o grau
extremado da violência do campo. No Brasil, foram registrados no período em análise o total
de 333 mortes no campo, em decorrência de conflitos agrários. Desse total, 180 ocorreram
nos estados analisados nesta pesquisa, representando um percentagem de 54,05% das mortes

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ocorridas em todo o território nacional. Não existe uma relação direta entre o número de
ocupações de terra e as mortes no campo. A acusação de que a estratégia de ocupar terras
adotadas pelos movimentos provoca uma maior violência não foi comprovada pela pesquisa.
O Estado do Paraná, com o maior número de ocupações de terra registrou em todo o período
analisado 09 mortes em decorrência de conflitos agrários. Já o Estado do Mato Grosso com
uma percentagem de menos de 21% das ocupações do Paraná teve um número 166% maior
de mortes, no caso, um total de 24 pessoas. O estado campeão em mortes no campo, com um
número extremamente superior em relação aos outros estados e concentrando mais de 43%
das mortes de todo o Brasil, foi o estado do Pará com 144 mortes.

Além das mortes no campo não terem relações direta com o número de ocupações de
terra encontrados em cada estado, elas não tem relação também com os períodos de maior
número de ocupações no próprio estado de registro das mortes. O maior número de mortes
no estado do Pará foi no ano de 2003 quando foram registradas 33 mortes, mas por outro
lado, este mesmo ano registrou 20 ocupações, sendo somente o quinto ano em número de
ocupações de terra. O ano de maior número de ocupações no Pará, foi o de 2009. Contudo,
nesse ano ocorreram 08 mortes no estado, um índice que só não foi menor do que o do ano de
2007 que registrou 05 mortes no estado. O Estado do Pará foi também o único que registrou
mortes em todos os anos analisados, enquanto o Estado do Paraná registrou mortes somente
nos anos de 2003, 2004, 2007 e 2008.

É possível concluir analisando os dados sobre a violência no campo que as ocupações


de terra não têm relação direta com o grau extremado de violência, mas pode ter relação com
o tipo de grupos envolvidos nos conflitos agrários. O Estado do Pará que registrou a presença
de grupos tradicionais de luta pela terra foi o que registrou os maiores números de mortes no
campo, demonstrando que são esses grupos que se encontram menos protegidos nas relações
de conflito agrário.

A partir da definição destes critérios de ocupação e seus resultados sociais efetivos,


podemos analisar a resposta dada pela Justiça a interpelação dos proprietários de terras para
fazer frente ao ativismo público dos movimentos sociais.

2.4 Ações Possessórias

O foco nos processos judiciais instaurados a partir da propositura de ações possessórias


(interdito proibitório, manutenção de posse e reintegração de posse) ajuizadas nos casos de
atos concretos de ocupação coletiva de imóveis rurais patrocinados por movimentos sociais
de luta pela terra, no período de 2003 a 2011, nos Estados de Goiás, Pará, Paraná e Mato
Grosso, justifica-se em virtude do fato de que são nesses processos, em regra, que ocorrem

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as manifestações oficiais do Poder Judiciário relativas aos diferentes modos de conceber


a propriedade e a posse. As decisões proferidas nesses processos são um dos espaços da
violência que caracteriza o campo brasileiro, seja em suas dimensões física, social, política
e simbólica.

Nesse sentido, a discussão do tema pressupõe a análise das decisões judiciais colegiadas
e monocráticas proferidas nos processos judiciais desencadeados nos âmbitos de espaço
e tempo acima especificados, levantando-se como elas são construídas e que concepções
jurídicas sobre a posse e a propriedade veiculam. Apurar se ancoram-se num discurso liberal
propretivo do direito individual de propriedade ou num discurso social de acesso amplo à
propriedade, inclusive via ocupações pelos movimentos sociais de luta pela terra.

Deve-se notar que, como já referido, no âmbito deste projeto de pesquisa, não se
incluem a ação de usucapião, a de nunciação de obra nova, os embargos de terceiro, a ação de
dano infecto, que, ademais envolverem discussão sobre posse, não são de utilização corrente
nos conflitos coletivos pela posse e propriedade da terra.

Também não é o caso da imissão na posse, embora não mais regulada no Código
de Processo Civil, recebe normatização no Decreto-Lei n.º 70/66, pertinente à execução
extrajudicial de imóveis vinculados ao sistema nacional de habitação, sendo aplicada nesse
campo.

Assim, delimitadas as ações possessórias que serão objeto de análise, passa-se a breve
explicitação de notas conceituais delas.

No tocante ao interdito proibitório, ao destacar seus elementos, que, segundo


Nascimento (1986, p. 118), são: “[...] a) – ameaça injusta; b) – justo receio; c) – iminência da
agressão; d) – veto com preceito e cominação. Nesse último elemento, insere-se o preceito
judicial de um veto – uma proibição de fazer ou um mandamento de não fazer ao requerido
do interdito – e de uma cominação, uma pena pecuniária que, descumprido o preceito, o
requerido transgressor deve pagar ao requerente ameaçado [...]”.

Note-se que a concepção teórica dos elementos da ação de interdito proibitório acolhe
uma perspectiva preventiva (cautelar, podia-se dizer) de tutela da posse. O uso da ação está
disponível para os casos de “ameaça injusta”, “justo receio” e “iminência da agressão” à
posse. Para limitar possibilidades interpretativas extremamente dotadas de subjetividades,
o critério para a caracterização do justo receito não fica ao alvedrio de cada sujeito na sua
individualidade, mas pressupõe a prática de atos concretos que importem na ameaça de
turbação ou esbulho à posse.

Quanto à manutenção de posse, seu objeto remete à turbação, que, segundo Nascimento

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(1986, p. 122), prejudica “[...] o exercício pacífico da posse, sobrepondo ao senhorio de fato
outro senhorio que lhe é prejudicial [...]”, além de ser “... mais que o esbulho – porque nesse
o exercício da posse está impossibilitado [...]”.

A definição jurídica do termo “turbação” remete a todo ato que embaraça o livre
exercício da posse, haja, ou não, dano, tenha o turbador, ou não, melhor direito sobre a coisa
(GOMES, 1998, p. 90). A construção teórica da turbação é ampla o bastante para permitir
interpretações extensivas do que, no plano fático, qualifica-se ou não como turbativo.

Assim, no campo das ações possessórias, a depender da formação subjetiva do juiz,


da sua ideologia, da influência das mídias - enfim, dos diversos condicionantes de uma
decisão judicial, tão bem apreendidos por Rosa (2006) -, a instalação, por sem-terras, de um
acampamento às margens das cercas divisórias de um imóvel rural, por exemplo, poderá ser
lido ou não como ato turbativo.

Quanto à reintegração de posse, ao destacar que tem por objeto afastar o esbulho, o
qual “[...] desfaz o corpus, descaracterizando o elemento material...” (NASCIMENTO, 1986,
p. 123) da posse, restando essa apenas com o animus. Não se pode esquecer que “reintegrar”
“[...] é reintegrar quem já estava nessa situação, anteriormente [...]”. Assim, não merece
reintegração quem não se integrava na posse anteriormente.

Um dos pontos mais polêmicos, nessa ação, é sobre sua caracterização ou com “força
nova espoliativa” (posse nova) ou “força velha espoliativa” (posse velha), o que justifica sua
caracterização como sendo de natureza dúplice.

Enquanto a posse nova é de menos de ano e dia, a velha é de ano e dia em diante.
Essa distinção é fundamental para se definir o rito (especial ou ordinário) a ser imprimido
na condução dos processos instaurados a partir do ajuizamento das ações possessórias. É
que, em sendo nova a posse, torna-se possível o pedido e deferimento de medida liminar de
proteção possessória. Entretanto, em sendo velha, não se admite tal providência.

Essas explicitações conceituais básicas são imprescindíveis à pesquisa, haja vista que
permite diferenciar, e, portanto, evitar confusões terminológicas comumente notáveis. Um
exemplo é ter por esbulhado um imóvel rural, em caso de ocupação coletiva de terra que
não alcança sequer 5 % da área total do mesmo. Os efeitos de uma liminar, deferida com
base no juízo de ocorrência de esbulho, sem haver de fato, podem ser mortíferos, ou, ao
menos, lesivos a direitos fundamentais dos ocupantes, principalmente, se utilizada de forma
excessiva e abusiva, a força pública, no cumprimento de decisões provisórias.

Delimitado o universo de alcance das ditas “ações possessórias”, passa-se a referir-se


às questões mais polêmicas nesse campo.

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Nessas ações, várias questões polêmicas podem ser postas, pertinente à qualificação
dos réus, da citação pessoal, da concessão da liminar, da audiência de justificação prévia, do
cumprimento da função social da posse e da propriedade e, sobretudo, quanto à referência
à reforma agrária nesses processos e à leitura pelos atores jurídicos em cena nessas ações,
notadamente o juiz.

Interessa saber como ele vê o ato de ocupar ou ameaça de ocupação por movimentos
sociais de luta pela terra. Se como esbulho, turbação ou exercício da cidadania. Se atende ou
não a legislação processual, no tocante, por exemplo, a exigência de qualificação e citação
pessoal do(s) réu(s).

Nesse contexto, não se pode deixar de mencionar o precedente jurisprudencial advindo


do Superior Tribunal de Justiça, cuja ementa transcreve-se:

HC – CONSTITUCIONAL – HABEAS CORPUS –


LIMINAR - FIANÇA – REFORMAAGRÁRIA – MOVIMENTO
SEM TERRA – Habeas corpus é ação constitucionalizada para
preservar o direito de locomoção contra atual, ou iminente
ilegalidade, ou abuso de poder (Const. , art. 5º, LXVIII).
Admissível a concessão de liminar. A provisional visa atacar,
com possível presteza, conduta ilícita, a fim de resguardar o
direito de liberdade. Fiança concedida pelo Superior Tribunal de
Justiça não pode ser cassada por juiz de Direito, ao fundamento
de o Paciente haver praticado conduta incompatível com a
situação jurídica a que estava submetido. Como executor do
acórdão, deverá comunicar o fato ao Tribunal para os efeitos
legais. Não o fazendo, preferindo expedir mandado de prisão,
comete ilegalidade. Despacho do Relator, no Tribunal de Justiça,
não fazendo cessar essa coação, por omissão, a ratifica. Caso
de concessão de medida liminar. Movimento popular visando
a implantar a reforma agrária não caracteriza crime contra o
Patrimônio. Configura direito coletivo, expressão da cidadania,
visando a implantar programa constante da Constituição da
República. A pressão popular é própria do Estado de Direito
Democrático. (BRASIL. STJ. Habeas Corpus n. 5.574/SP,
6ª Turma, rel. p / acórdão min. Luiz Vicente Cernicchiaro, j.
08.04.97).

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Ainda que o processo seja pertinente à resolução de caso penal, envolvendo figuras
notórias com José Rainha Júnior, o julgado é emblemático por permitir a visualização das
possibilidades de atuação do judiciário em conflitos agrários.

No voto-vogal, o ministro Luiz Vicente Cernicchiaro apresenta assunção clara quanto


à questão de esbulho possessório, ao dizer que “[...] não é de confundir-se ataque a direito
de patrimônio com o direito de reclamar a eficácia e efetivação de direitos, cujo programa
está colocado na Constituição. Isso não é crime; é expressão do direito de cidadania [...]”,
sustentando que “[...] as evidências estão a mostrar que não se trata de movimento para tomar
a propriedade alheia, mas de movimento para pressionar – daí haver eu dito, expressão do
direito de cidadania – a reforma agrária [...]”.

Vê-se que, nessas questões, pode haver duas percepções: aquela criminalizante,
que enxerga na ocupação ou na sua tentativa, um crime (geralmente esbulho possessório),
na linha da “colonização do problema agrário pelo controle penal”, como anota Andrade
(2003, p. 125), e a outra, concretizante, que a vê como exercício de direito de cidadania, para
implantação da reforma agrária e efetivação e direitos fundamentais e humanos (moradia,
trabalho, alimentação etc).

Alfonsin (1998, p. 282) bem apanha essas possibilidades de percepção, ao asseverar


que “[...] parece urgente [...] que as lides possessórias se exorcizem de um certo maniqueísmo
e enfrentem a possibilidade de, em vez de apuração de ilícitos contra posses, terem de
decidirem sobre conflitos entre direitos [...]”.

Nessa perspectiva, é possível averiguar se nas decisões liminares ou nas sentenças,


qual opção o judiciário, em cada processo de ação possessória, se pela leitura criminalizante,
ou no mínimo, da ilicitude civil, ou conflito de direitos fundamentais da partes envolvidas.
Saber o porquê, mesmo em sendo possível exigir do proprietário a prova do cumprimento da
função social da posse e da propriedade nessas ações, não o fez.

Ainda no tocante a referencial de atuação do judiciário nesses casos, de lembrar a visão


do baluarte do Movimento do Direito Alternativo, no Brasil – Amilton Bueno de Carvalho -,
acerca do que chamou de “direito de invasão de terras”.

Em suas palavras: “[...] entendo legítima a invasão perpetrada por sem-terras,


trabalhadores rurais que nelas queiram exercer sua atividade, em áreas improdutivas, quer
públicas, quer privadas [...]” (CARVALHO, 2005, p. 72).

Ainda que Amilton não tenha dito se concebe a produtividade como traduzindo o
cumprimento integral da função social da propriedade, a perspectiva é útil à pesquisa, porque
assume posição clara, pela legitimidade do que chama de “invasões” e, aqui, chama-se

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ocupações. Apresenta como fundamentos jurídicos da legitimidade das “invasões”, nos termos
colocados, nos princípios da “vida com dignidade” e da “função social da propriedade”.

A questão da liminar depende, por exemplo, da investigação sobre a posse e, nesse


ponto, torna-se útil valer-se das classificações correntes da mesma no direito. Vários são os
critérios usados para tanto: o temporal (posse nova e posse velha), a justeza (posse justa e
posse injusta), o tipo de contato com coisa (posse direta e posse indireta), a natureza (posse
civil e posse agrária), presença da boa-fé (posse de boa-fé e posse de má-fé).

Ainda no que toca a liminar, de se verificar se se deve exigir prova do cumprimento


da função social da posse e da propriedade para deferi-la e a quem deve ser atribuída: ao
possuidor passado, ao ocupante atual ou ao INCRA. Anota Aronne (2003, p. 247) que nos
casos envolvendo conflitos agrários com presença de movimentos sociais de luta pela terra
“[...] importa não alcançar a posse nem para os invasores, nem para o possuidor esbulhado
[...]”, e sim para o INCRA, a fim de se dar destinação ao imóvel a assentamentos.

Outro ponto importante, nessas ações, é a previsão da audiência de justificação


prévia da posse. Importa saber se os atores jurídicos se valem delas nas possessórias: se os
advogados requerem designação dela, na inicial, se o juiz as designa, antes de apreciar o
pedido de liminar, quem delas participa, o que se faz nela. Nos conflitos agrários, que fluem a
processos possessórios, seria de grande valia a designação dessa audiência, tanto por prestigiar
o contraditório e a ampla defesa, quanto por poder ensejar não apenas a busca de maiores
investigações sobre o alegado na petição inicial, mas também a participação democrática, ao
menos das lideranças de movimentos sociais de luta pela terra, em atos processuais que lhe
dizem respeito diretamente, com possibilidade de acompanhamento por advogado e instrução
pública e contraditória, inclusive com reperguntas. Sem falar, por evidente, da oportunidade
de produção de prova sobre se o cumprimento da função imóvel rural.

Tradicionalmente, se fala numa divisão entre juízo possessório e petitório nessas


ações possessórias, de modo a afastar delas discussões outras que não as possessórias. Mas,
não raro, ainda na inicial, se invoca o direito de propriedade e a função social da mesma para
postular proteção possessória. Nesse quadro, e considerando a integralidade do ordenamento
jurídico, cabível a investigação sobre a exigência ao postulante a prova tanto da propriedade
quanto do cumprimento da função social, como requisito para deferimento de proteção
possessória.

Há precedente também nessa matéria, vindo do Rio Grande do Sul. Veja-se a


ementa:

38 FORDFOUNDATION
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Universidade Federal de Goiás

Decisão atacada: Liminar que concedeu a reintegração de posse


da empresa arrendatária em detrimento dos “sem terra”. Liminar
deferida em primeiro grau suspensa através de despacho
proferido nos autos do agravo, pelo desembargador de plantão.

Competência da Justiça Estadual.

Recurso conhecido, mesmo que descumprindo o disposto no


artigo 526 CPC, face dissídio jurisprudencial a respeito e porque
a demanda versa sobre direitos fundamentais.

Garantia a bens fundamentais como mínimo social.

Prevalência dos direitos fundamentais das 600 famílias


acampadas em detrimento do direito puramente patrimonial de
uma empresa. Propriedade: garantia de agasalho, casa e refúgio
do cidadão.

Inobstante ser produtiva a área, não cumpre ela sua função


social, circunstância esta demonstrada pelos débitos fiscais que
a empresa proprietária tem perante a União. Imóvel penhorado
ao INSS.

Considerações sobre os conflitos sociais e o Judiciário. Doutrina


local e estrangeira.

Conhecido, por maioria; rejeitada a preliminar de incompetência,


à unanimidade; proveram o agravo, por maioria. (BRASIL.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL.
AGRAVO DE INSTRUMENTO N. 598.360.402 - SÃO LUIZ
GONZAGA – Relatora Desembargadora Elba Aparecida
Nicolli Bastos, j. 06.1021998. Disponível: http://www.pge.
sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/dh/volume%20ii/
agravo598360402.htm. Acesso em: 09 jan. 2011).

A riqueza desse julgado é evidente. Várias questões são colocadas, entre elas a
definição do órgão jurisdicional competente para processar e julgar ações possessórias,
colisão de direitos, cumprimento da função social e papel do Poder Judiciário para resolver
conflitos sociais.

FORDFOUNDATION
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39
Observatório da Justiça Brasileira

Antes de ter sido proferido o Acórdão, no caso (na ação possessória, tinha sido
deferida liminar para reintegração na posse de imóvel rural), cuja ementa foi referida acima,
a questão tinha sido apreciada no plantão do dia 17 de setembro de 1998, pelo desembargador
Rui Portanova. Na ocasião, o mesmo agregou efeito suspensivo, liminarmente, ao agravo
interposto pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, para “[...] suspender a execução
do despejo até decisão final deste recurso [...]”, sob o fundamento de que “[...] a decisão
agravada não levou em conta a função social. O despacho agravado não disse palavra a
respeito [...]”.

Outro ponto referido na decisão liminar, no caso, foi a referência à inspeção judicial.
Como esse tipo de diligência envolva a disponibilidade do juiz para ir ao local do conflito, para,
por exemplo, verificar sobre o que alegado. Pode ser instrumento valioso de convencimento,
por permitir o contato direto do juiz com o objeto do litígio, qual seja, a posse do imóvel rural.
Se alegado, por exemplo, na inicial, que a fazenda protege o meio ambiente e, na inspeção,
for constatado algum dano ambiental de monta, não seria o caso de deferimento de tutela
possessória liminar, ao menos nos casos que se entenda necessária a prova do cumprimento
da função social para deferir tal forma protetiva.

Outro precedente em que se coloca em discussão a possibilidade ou não de se exigir


como pressuposto de possessórias o cumprimento da função social da propriedade é a Agravo
de Instrumento n.º 70003434388, de Passo Fundo, relator Carlos Rafael dos Santos Júnior,
assim emendado:

POSSESSORIA. AREA RURAL. MST. FUNCÃO SOCIAL


DA PROPRIEDADE. INVESTIGACÃO. POSSIBILIDADE.
FUNCÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE COMO DIREITO
FUNDAMENTAL. CONSTRUCÃO DE NOVA EXEGESE DA
NORMAMATERIALE PROCEDIMENTAL. INVESTIGACÃO
DA PRODUTIVIDADE E APROVEITAMENTO DA ÁREA
EM ACÃO POSSESSORIA. NECESSIDADE. ART. 5°, XXII
E XXIII, CF. LEI N°8.629/93. NEGARAM PROVIMENTO.
VOTO VENCIDO. (Agravo de Instrumento Nº 70003434388,
Décima Nona Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Carlos Rafael dos Santos Júnior, Julgado em 06/11/2001)

Outro ponto é saber qual a concepção do judiciário sobre o que seja função social.
Se ela se confunde ou não com a mera produtividade da terra, evidenciada por cabeças de
gado ou lavouras na área em disputa judicial, expressos nos graus de utilização da terra e
de eficácia da exploração dela. E, sobretudo, saber como opera a lógica da função social da
propriedade no direito agrário e no direito civil, como referem Franco e Leite Filho (2011,
p. 210):

40 FORDFOUNDATION
Na Linha de Frente das Mudanças Sociais
Universidade Federal de Goiás

O Direito Agrário, diferentemente do Direito Civil, tem uma


lógica coerente sobre a função social da propriedade, pois
garante o direito de propriedade, estabelece condições para
que a mesma seja exercida (função social), e, em caso de
descumprimento da função social, a propriedade rural deve
ser desapropriada e destinada à reforma agrária. Ou seja, por
mais que seja propalada a mudança do conteúdo do direito à
propriedade civil, a partir da constitucionalização/publicização
deste, com surgimento do novo Código Civil (2002), em nada
muda o conceito de propriedade, como muitos querem, porque
efetivamente não há qualquer sanção àquele que não cumprir
a função social. Aqui reside uma diferença substancial entre o
Direito Agrário e o Direito Civil, que é o fato do Poder Publico
poder desapropriar a propriedade e destiná-la a outra pessoa para
que dê destinação ao imóvel e cumpra sua função social e os
objetivos da Constituição. Por outro lado, isso não ocorre com
o Direito Civil.

Nessa perspectiva, a função social é exigível nas possessórias, envolvendo ocupações


coletivas por movimentos sociais de luta pela terra, remetendo a questão para exame no
campo do direito agrário e não apenas no direito civil, destacando-se que o direito agrário
está estruturado em princípios fundamentais, a exemplo da função social da terra (SOUZA
FILHO, 2003) e da posse agrária.

Um debate acirrado envolve a concepção de posse, intensificado na Alemanha do


século XIX, por ocasião das discussões da elaboração da codificação. Ali foram vertidas as
concepções tradicionais que buscam explicar o fenômeno possessório, definindo se é um fato
ou se é um direito.

Tradicionalmente, Savigny (1870) e Ihering (2002) são referências na reflexão


sobre posse. Atribui-se ao primeiro a autoria da chamada Teoria Subjetiva da Posse, para
cuja caracterização se exige tanto o corpus quanto o animus, em que a aquele traduz
o “apoderamento da coisa” (ARONNE, 2003, p. 222) e o segundo remete à “vontade de
possuir” (IDEM, 2003, p. 222).

Ihering, idealizador da Teoria Objetiva da Posse, concebe esta como um direito, cuja
caracterização independe do animus. Basta o corpus.

A referência a essas teorias se justificam na medida em que podem ou não estar


presentes nas decisões judiciais relativas às ações possessórias ou mesmo fundamentar ou
não a distinção das noções de posse civil e de posse agrária.

FORDFOUNDATION
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41
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Enquanto na posse civil, se admite a ficção da posse indireta, caracterizada pela


inexistência do corpus (como exemplifica o proprietário que arrenda o imóvel rural de que é
titular), a posse agrária não concebe essa forma ficcional de posse, conhecida como indireta.
Admite apenas aquela posse direta, angariada no corpus.

Ademais, à posse civil, ao menos no campo legislativo infraconstitucional, não se


agrega a perspectiva funcionalista, de serventia dela a valores existenciais e não meramente
patrimoniais. Porém, a posse agrária reveste-se de funcionalidades notórias, valendo
destacar aqui os objetivos constitucionalmente fixados, a exemplo da efetivação dos direitos
fundamentais.

Nessa perspectiva, a posse agrária é uma posse cuja legitimação depende do


cumprimento de tarefas sociais, como garantia de alimentação, trabalho, moradia àqueles
que a exercem.

III – RESULTADOS ALCANÇADOS

Na presente análise, buscou-se levantar o maior universo possível de ações


possessórias envolvendo movimentos sociais, nos quatro estados elencados na pesquisa, sob
os pressupostos do trabalho de campo na forma de estudos de caso.

Segundo as professoras Miracy Gustin e Maria Tereza Dias, o estudo de caso objetiva
“uma construção detalhada de grupos, instituições, programas sociais ou sociojurídicos, entre
outros” (GUSTIN; DIAS, 2006, p. 104), utilizando dados quantitativos e qualitativos.

Tal estudo perpassa por quatro momentos: primeiro, pela delimitação do objeto de
estudo; no segundo momento, pela definição dos procedimentos quantitativos e qualitativos
que serão utilizados; depois, no terceiro momento, passa-se à definição dos métodos de
registro dos dados levantados,

que deve seguir os seguintes passos: seleção dos dados, registro,


codificação e tabulação. A seleção dos dados deve considerar
os objetivos da investigação, seus limites e um sistema de
referências para avaliar quais dados serão úteis ou, ao contrário,
sem qualquer utilidade. [...] A codificação é a categorização
dos dados, ou seja, são classificados em categorias qualitativas,
valorativas ou quantitativas (IDEM, 2006, p. 105).

Finalmente, no quarto momento, passa-se à elaboração dos relatórios parciais e finais


e participação em eventos científicos para que se possa validar as análises e confirmar/refutar
as hipóteses levantadas (IDEM, 2006, p. 106).

42 FORDFOUNDATION
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Nessa perspectiva, foram analisados 127 (cento e vinte e sete) processos, nos estados
de Goiás (13 processos), Paraná (36 processos), Mato Grosso (46 processos) e Pará (32
processos). Tais estados foram dispostos, na respectiva ordem, intencionalmente, em
função de, nos últimos, existirem Varas Especializadas em Direito Agrário, com algumas
peculiaridades, analisadas, ao longo da presente síntese.

A maioria dos processos encontrados tem a natureza de Reintegração de Posse (82


processos), seguida de Interdito Proibitório (28 processos) e, por fim, Manutenção de Posse
(17 processos), conforme o seguinte gráfico:

Gráfico 1: Natureza da Ação Possessória

Natureza da Ação Possessória


Goiás - Mato Grosso - Paraná - Pará
28;22%
17;13%
Reintegração de Posse
Manutenção de Posse
Interdito Proibitório

82;65%

Quanto ao tipo de posse, prevaleceu a “Posse Nova”, que corresponde à ocupação que
se deu em menos de “ano e dia” da propositura da ação.

Gráfico 2: Tipo de Posse

Tipo de Posse
Goiás - Mato Grosso - Paraná - Pará
7%

Nova
Velha

93%

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43
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Foram registrados dados respondendo aos seguintes quesitos: 1) Natureza da ação; 2)


Comarca; 3) Juízo; 4) Qualificação do(s) requerente(s); 5) Qualificação do(s) requerido(s); 6)
Data da distribuição; 7) Horário da distribuição; 8) Data da autuação; 9) Tipo de posse; 10)
Pedidos; 11) Pede-se medida liminar?;12) Valor da causa; 13) Testemunhas; 14) Meios de
prova; 15) Data do primeiro despacho; 16) Rito; 17) O juiz intimou o MP?; 18) O juiz intimou
o INCRA?; 19) Data da decisão da liminar; 20) Houve concessão da liminar?; 21) Data da
citação; 22) Houve concessão da medida liminar inaudita altera parte?; 23) Modalidade
de citação; 24) Houve designação de audiência de justificação prévia?; 25)Cominou-se
multa?; 26) Data da contestação; 27) Data da audiência de instrução e julgamento; 28)
Ocorreu revelia?; 29) Houve designação de perito?; 30) Houve inspeção judicial?; 31) Data
da sentença; 32) Julgou o mérito?; 33) Pela procedência ou improcedência do pedido?; 34)
O juiz exigiu a prova da função social da propriedade ou da posse, na liminar?; 35) O juiz
exigiu a prova da função social da propriedade ou da posse, na sentença?; 36) Para o juiz, a
função social confunde-se com a produtividade ou engloba todos os aspectos do artigo 186,
da Constituição Federal?; 37) Data da expedição do mandado de manutenção/reintegração
de posse; 38) Data do cumprimento do mandado de manutenção/reintegração de posse; 39)
Conteúdo do mandado; 40) O oficial de justiça se deteve aos limites objetivos e subjetivos do
mandado?; 41) Requisitou-se força policial?; 42) As autoridades policiais tiveram acesso ao
conteúdo do mandado?; 43) As autoridades policiais encaminharam relatório circunstanciado
da execução da ordem?; 44) Na operação de desocupação, houve participação de órgãos da
União, Estado e Municípios nas negociações?; 45) Qual órgão da União, Estado e Município
participou nas negociações?; 46) Houve recurso?; 47) Data de protocolo do recurso; 48) Data
do julgamento do recurso; 49) Data do arquivamento do processo; 50) Outras informações
relevantes.

Para o processo de elaboração do Relatório Final, elencaram-se oito critérios, que


satisfazem os quesitos, para direcionar a análise: 1) Qualificação das partes; 2) Meios de
Prova; 3) Revelia; 4) Tipo de Posse/Rito; 5) Ministério Público e Outros Órgãos Agrários; 6)
Liminar; 7) Julgamento; 8) Função Social da Propriedade.

3.1Estado de Goiás

3.1.1Qualificação das partes

Nesse ponto, o art. 282, II, do Código de Processo Civil, que exige para a petição
inicial a nomeação e qualificação das partes, não foi atendido na maioria dos casos analisados
no Estado de Goiás.

No processo n. 200901433904, da Comarca de Goiás, por exemplo, apenas foi

44 FORDFOUNDATION
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mencionado 1 (um) nome de pessoa natural, sem qualificação, bem como de “outros do
Movimento Democrático Independente – MTL-DI”, cuja identificação não fora realizada.

Ademais, não existe o dito “Movimento Democrático Independente”. A sigla MTL,


na realidade, refere-se ao Movimento Terra Livre. Não houve, na decisão liminar, tampouco
na sentença, o exame dessas questões, imprescindíveis à legitimidade para ação (condição
da ação).

De destacar que, no processo referido, o advogado do autor demonstrou conhecimento


dessa exigência, de qualificação do réu, na petição inicial, tendo em vista que, no ponto I da
inicial, sustenta haver “... casos em que isso não é possível initio litis, máxime em conflitos
agrários...”. Justifica essa dificuldade de qualificação de todos os réus, em função do número
de ocupantes, aproximadamente 150 famílias, além de basear-se em jurisprudência do STJ,
que mitiga a exigência de qualificação de (todos) os réus.

É compreensível a dificuldade de nomear e qualificar todos os sujeitos que ocupam


ou ameaçam ocupar determinada área de terra, mas o problema é que se tenta utilizar de
instrumentos de cunho individualista, como o são as ações possessórias, para resolver
problemas que são coletivos e envolvem coletividades num determinado polo da contenda,
sem maiores preocupações com a origem dos conflitos coletivos pela terra e como os
movimentos concebem a ocupação da terra.

No processo n.º 200804525352, da Comarca de Varjão-GO, no qual se destacam no


polo ativo da ação tanto o proprietário quanto o arrendatário, o desrespeito à regra processual
foi notório: na petição inicial, não houve referência de pessoas como rés e, mesmo assim,
o juízo elencou três nomes para instruir a autuação, desrespeitando o princípio dispositivo.
Ademais, sequer houve ordem para emendar a inicial, para atender o disposto no art. 282, II,
do CPC.

Os autores da referida ação (proprietário e arrendatário) alegaram, na inicial,


impossibilidade de nominação e qualificação dos réus, todavia, deduziram que seriam
integrantes do MST, em uma nítida leitura estigmatizante. Eles se limitaram a afirmar que
a ação era proposta contra “os ocupantes do imóvel rural de propriedade da parte autora
situado na Fazenda Salobro de Baixo”. Nos autos, não se discutiu se o MST seria, ou não,
parte passiva legítima ou ilegítima na ação, considerando haver divergência jurídica sobre
se os movimentos tem ou não personalidade jurídica e se, na ausência dela, estariam ou não
impedidos de ter legitimidade passiva em ações judiciais (nesse sentido: AI 70005527601/
RS, 19ª Câmara Cível do TJRS, rel. des. Alexandre Mussi Moreira, j. 11.02.2003).

Nesses casos, o Judiciário mostrou-se anuente ao estigma criminoso dos movimentos


sociais de luta pela terra, ao deixar de indeferir a petição inicial por inépcia, ou mesmo

FORDFOUNDATION
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45
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de determinar a emenda da inicial, para completa qualificação dos réus, tendo em vista a
imprescindibilidade do dado, seja para individualização das partes em conflito – necessária
para definição dos efeitos dos atos decisórios -, seja para viabilizar os atos de comunicação
processual.

No processo n.º 200901433904, da Comarca de Goiás (Fazenda Guarany), a citação


não foi feita na pessoa de cada um dos tidos como “invasores”. No mandado de citação
expedido, consta a ordem de serem “[...] os requeridos citados para os termos da ação [...]”. No
quadro relativo ao “requerido”, consta “JOSELITO FERREIRA DA SILVA MOVIMENTO
DEMOCRATICO INDEPENDENTE MTLI”. Por ausência de cópia da certidão do oficial
de justiça, não se sabe se a única pessoa individualizada como “requerida”, foi citada
pessoalmente. Na decisão liminar e na sentença, o juiz fala em “réus”, determinando que
esses deverão desocupar a área em 72 (setenta e duas) horas, todavia, não os relaciona: afinal,
seria, apenas, Zelito, as 150 famílias ou o Movimento Social que ocupa a área?

Pode-se depreender que, no referido processo, o juiz descumpriu, em tese, dispositivos


da legislação processual civil, notadamente, quando positiva a exigência de qualificação dos
réus e citação pessoal deles.

Em outro caso (Processo n.º 200804525352, da Comarca de Varjão), o mandado de


cumprimento da liminar não obedeceu à exigência de nominação e qualificação individual
dos réus. Os destinatários do mesmo são, literalmente, os “ocupantes do imóvel rural de
propriedade da parte autora situado na Fazenda Salobro de Baixo, neste Município”. Nessa
perspectiva, impera a vagueza semântica, tendo em vista a ausência de delimitação clara e
certa dos destinatários da ordem judicial, abrindo espaços de florescimento da possibilidade
de violência no cumprimento, ao deixar a juízo do oficial e dos policiais em auxílio do
cumprimento da ordem quem é, ou não, ocupante, no momento da desocupação.

Pelo auto de reintegração de posse, não se sabe se, na desocupação, o oficial de


justiça valeu-se do auxílio da força policial, vez que se limitou a registrar que ‘procedeu à
retirada dos requeridos [para o oficial, seriam duas pessoas corretamente nominadas mais
os ‘integrantes do MST’], no dia 22 de outubro do corrente ano e, no dia 23 de outubro
procedi a reintegração de Posse a parte autora na pessoa de seu representante legal SR J. A.
F, locatário...”. Registra, por fim, que havia, na fazenda, onze pessoas, sendo duas nominadas
e as demais teriam se recusado a se identificar de forma integral.

Vê-se que a exigência de qualificação não é mera formalidade dispensável, mas


garantia processual contra possíveis arbitrariedades, de execuções de liminar contra tudo e
contra todos.

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3.1.2 Meios de Prova

Nos casos examinados, os autores das possessórias foram unânimes no protesto


genérico de produção de provas, especificando algumas, como a documental, a testemunhal,
a pericial e, com menos intensidade, a de inspeção judicial. Ocorre que prevaleceu o uso de
documentos, relativos à caracterização do imóvel (titular, área, localização, etc.), tanto na
propositura, quanto na avaliação pelo magistrado, sem maiores preocupações, contudo, no
que tange à prova da função social da posse e/ou da propriedade.

Em 1 (um) dos casos, na Comarca de Varjão (processo n.º 200804525352), o autor


anexou fotografias, para indicar a existência de pastagens e a presença de ocupantes na
fazenda, o que foi positivamente valorado pela juíza, após diligência do oficial, para verificar
o alegado.

Nesse caso, em particular, as provas foram pouco exploradas: na petição inicial, não
se pediu inspeção judicial, tampouco a juíza objetivou realizá-la; a realização de perícia,
apesar de requerida, não foi ordenada. Houve, apenas, em despacho de 3 (três) linhas, a
ordem para que o oficial de justiça diligenciasse ao local e verificasse “o que foi alegado na
inicial”, numa clara inversão da lógica probatória, consistente no juiz arvorar-se na iniciativa
probatória, e não a parte autora, cujo ônus lhe cabia.

Nesse contexto, lavrou-se um “Auto de Verificação” que serviu de base à decisão


liminar, numa lógica inquisitória: a juíza, utilizando-se de prova produzida por um auxiliar
da justiça, através de seu próprio despacho, decidiu em favor do autor. Ora, é de se questionar
a imparcialidade do material produzido.

Ademais, no caso, a juíza não exigiu prova da função social, nem do proprietário,
nem do arrendatário. O discurso decisório acolhe a leitura civilista tradicional individualista,
recorrendo ao linguajar do “esbulho”, para qualificar a presença de pessoas, que não o
proprietário, o arrendatário ou empregados, no imóvel rural em disputa. Houve, no mínimo,
carência de compreensão do texto constitucional, que positivou a função social da propriedade
(art. 5º, XXIII e art. 186) e que não encontra eco nas decisões judiciais analisadas.

Ficou evidente, pelos casos examinados, que não é praxe, em Goiás, a realização da
inspeção judicial, a designação de audiência de justificação prévia, além de prevalecer o uso
de documentos, sem debate em contraditório.

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3.1.3 Revelia

Em regra, dos processos analisados, não há informação suficiente para dizer se ocorreu
ou não revelia (entendida como a omissão do demandado em defender-se da ação que lhe é
dirigida), à exceção do processo n.º 200804525352, da Comarca de Varjão-GO.

No referido processo, de fato, não incidiu os efeitos do instituto da revelia, já que


os três requeridos, efetivamente, citados e qualificados, na contestação, como trabalhadores
rurais, residentes no “Acampamento Canãa”, às margens da GO 413, no município de
Varjão-GO, apresentaram substanciosa contestação, alegando, preliminarmente, a ausência
de intervenção do representante do Ministério Público, no feito, intentando nulificar a decisão
liminar. No mérito, sustentaram que o imóvel rural não cumpre a função social, nos termos
do art. 186 da Constituição Federal.

Essas alegações restaram prejudicadas, face ao desfecho do caso, com celebração


de acordo, homologado por sentença e, consequentemente, arquivamento dos autos do
processo.

No caso da Fazenda Guarany, da Comarca de Goiás, ainda que tenha ocorrido


revelia, seus efeitos não foram aplicados, automaticamente, notadamente o da presunção de
veracidade dos fatos alegados.

No referido caso e, também, no caso da Fazenda Salobro de Baixo, em Varjão-GO,


não se exigiu prova do cumprimento da função social. A leitura, também, partiu de premissas
do direito civil e processual civil. A ocupação foi lida como invasão – esbulho –, e não
como exercício do direito à cidadania ou estratégia de ativismo público. Muito embora o
MM. Juiz tenha reconhecido “... que os réus parecem defender legítimo direito de estatura
constitucional (reforma agrária), mas até ele, a despeito de seu relevantíssimo valor social,
deve estar assentado em regras e sem dúvida nenhuma deve-se curvar ao estado de direito...”,
isso não obstou o deferimento da liminar, para ordenar a desocupação da área em 72 horas,
sob pena de multa diária e de responsabilização penal por desobediência.

Ainda que o magistrado tenha reconhecido que “regularmente citada, a parte ré não
contestou o feito”, a decisão de procedência decorreu de valoração da prova produzida nos
autos, e não da presunção de veracidade dos fatos alegados.

3.1.4 Tipo de Posse/Rito

Dos casos analisados em Goiás, apenas, 1 (um) não envolve situação possessória nova
(Processo n.º 200904299524, da Comarca de Paraúna). Nesse caso, a posse que se buscava

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proteger era datada de mais de ano e dia, conhecida como “posse velha”, impeditiva de
concessão de medida liminar, por esse motivo, o juiz indeferiu o pedido, além de imprimir,
ao feito, o rito ordinário.

Gráfico 3: Tipo de Posse

Tipo de Posse
Goiás

8%

Nova
Velha
92%

Nos demais casos, o rito foi o especial, presente a situação possessória nova, com
consequente deferimento liminar da proteção possessória.

No processo nº 200901433904, da Comarca de Goiás (Fazenda Guarany), o juiz


compreendeu que a posse estava caracterizada na pessoa do proprietário pela “criação de
gado”, sem questionamento sobre o número de cabeças, sobre eventual agressão ao meio
ambiente para criação de pastagens ou quem, de fato, exercia a posse, se o proprietário ou
empregados dele.

O curioso que o autor é um espólio, figura ficcional criada pelo direito para dar conta
da situação da destinação dos bens deixados pelo falecimento de uma pessoa proprietária,
representado por uma inventariante que tem residência na capital do Estado de Goiás, fato
declarado na própria inicial. Assim, induvidoso, carecer a inventariante de posse efetiva
pessoal, imprescindível que é à posse agrária. O Judiciário trabalhou com a concepção
civilista de posse indireta, não admitida no direito agrário.

Interessante anotar que, quanto ao rito, pelo critério da competência, as ações


tramitaram perante juízos cíveis. Inexistem, em Goiás, as Varas Agrárias.

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3.1.5 Participação do Ministério Público e de outros Órgãos Agrários

Há dois casos em que houve participação do órgão fundiário federal na demanda, o


INCRA. O órgão fundiário estadual, atualmente, inexiste no Estado de Goiás, tendo em vista
que o IDAGO (Instituto de Desenvolvimento Agrário do Estado de Goiás) fora extinto. Há,
atualmente, um Departamento de Terras, sem qualquer autonomia financeira e administrativa,
dentro da Agência Rural, autarquia preocupada com problemas dos proprietários rurais, e não
dos sem-terras.

Percebe-se que o referido órgão federal fora intimado em, apenas, 15% dos processos
analisados:

Gráfico 4: Intimação INCRA

Intimação INCRA
Goiás
15%

Sim
85% Não

Nos casos examinados, o INCRA não agiu no sentido de postular o deslocamento


da competência para apreciação dos casos à Justiça Federal, por envolver o interesse de
autarquia federal, conforme disposto no artigo 109, I, da Constituição Federal.

Assim, nos casos analisados, não houve uma etapa preliminar de mediação nos
conflitos agrários, restando afastada uma possibilidade concreta de solução consensual do
conflito, construída pelas próprias partes, nos casos em que foi possível. A opção primeira
dos proprietários, em regra, é valer-se das ações possessórias, úteis que lhes são na resposta
rápida de proteção possessória.

Quanto ao Ministério Público, cuja participação é imposta por lei (artigo 82, III,
do CPC) para casos de conflitos coletivos pela posse da terra – cuja ausência pode ensejar
nulidade processual –, em regra, seu representante, na Comarca respectiva, não é ouvido antes
da apreciação do pedido liminar. Quando chamado a manifestar-se, limitou-se, numa atitude
passiva, a manifestar-se sobre alguns aspectos formais do processo (citação de réus incertos e
em lugar não sabido; produção de prova, etc.). Nada manifestou por uma efetiva investigação

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sobre o cumprimento da função social da posse e/ou propriedade do imóvel em disputa. Não
requereu, nem mesmo, a expedição de ofícios ao INCRA, IBAMA, Procuradoria-Geral do
Estado, etc., para amealhar dados concretos sobre o uso econômico do bem.

De se destacar que há uma discussão no âmbito doutrinário (SILVA, 2006, p. 296)


sobre o momento a partir no qual a intervenção do Ministério Público nos conflitos agrários
coletivos seria obrigatória. Como nesse tipo de conflito o órgão ministerial não é parte, mas
sim custos legis (fiscal da lei), necessariamente não haveria obrigatoriedade de ouvi-lo antes
da apreciação da liminar em ação possessória.

De qualquer forma, não se tem notícia, em Goiás, de que o representante do


Ministério Público tenha proposto ações coletivas, exigindo reforma agrária, ainda que as
ocupações coletivas de terra envolvam interesses sociais indisponíveis de centenas de pobres
economicamente.

Nos casos analisados, o representante do Ministério Público não se fez presente, no


local do conflito, nem para fiscalizar o cumprimento da liminar.

De notar que, em Goiás, existe uma Comissão de Gerenciamento de Crises, instituída


pelo Decreto n. 5.642, de 19 de agosto de 2002, composta por membros natos e convidados. Nas
situações em que é utilizada, a despeito de ser presidida pelo Secretário de Segurança Pública,
conglomera membros das polícias civil e militar, como membros natos, e representantes de
interessados (INCRA, MP, OAB, proprietários e integrantes dos movimentos sociais), como
convidados. Nos casos examinados, porém, esse órgão não se fez presente, como instrumento
mediador de conflito.

Na petição inicial do Processo nº 200901433904, da Comarca de Goiás, não foi


formulado pedido de oitiva do Ministério Público, ainda que se tenha feito “a requisição de
força policial, se necessário, para cumprimento da ordem judicial (CPC, art. 579)”. Também
não foi determinada, pelo juiz, a intimação do representante do Ministério Público para
manifestar-se, antes ou depois da análise da liminar, conforme dispõe o art. 82, I e III, do
CPC.

Desde esse marco normativo, no referido processo, o Ministério Público deveria ter
sido intimado, ainda que após a apreciação do pedido de liminar, tendo em vista que, dentro do
universo de 150 famílias, estimado pelo próprio autor na petição inicial, certamente, haveria
crianças e adolescentes (incapazes) que, por si só, justificaria a intervenção do Ministério
Público.

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3.1.6 Liminar

Das decisões liminares examinadas, nenhuma perquiriu sobre a função social,


conforme dispõe o artigo 186, da Constituição Federal, o que indica que, no Estado de
Goiás, o cumprimento dela não interessa à apreciação judicial das ações possessórias, a
destoar da perspectiva doutrinária e jurisprudencial, ainda minoritária, que aponta dever o
juiz exigir prova do cumprimento da função social no julgamento liminar ou definitivo das
possessórias.

Em nenhum dos casos, foi ela precedida de inspeção judicial e, em apenas, um deles,
houve determinação de audiência de justificação prévia, atos instrutórios fundamentais para
obter dados sobre titularidade e uso do imóvel rural em disputa e, mesmo, sobre os resultados
almejados pelos movimentos sociais, quando se valem de estratégias de ocupação de terras
rurais.

Gráfico 5: Ocorrência de Audiência de Justificação Prévia

Ocorrência de Audiência de Justificação


Prévia
Goiás
8%

Sim
92% Não

A própria ausência de busca pela contextualização do ato de ocupar, seja pela audiência
ou pela inspeção, denota despreocupação da magistratura goiana com a estruturação agrária
nesse Estado, atitude a contribuir para que a mesma seja mantida como está, concentrada.

Há, pois, um padrão decisório com resultado conhecido previamente – deferimento


liminar da possessória, para o caso de posse nova.

O único caso de indeferimento de liminar, que se deu no processo nº 200904299524,


da Comarca de Paraúna, decorreu da qualidade de posse velha do imóvel rural, e não da falta
de cumprimento da função social da posse e/ou da propriedade.

Em outros 4 (quatro) casos, não houve a concessão de liminar inaudita altera pars,
ou seja, sem ouvir a parte contrária, representando 38% das decisões de medida liminar,
conforme se apreende do seguinte gráfico:

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Gráfico 6: Ocorrência de Concessão de Liminar

Ocorrência de Concessão de Liminar


Goiás

38%
Sim
62%
Não

No processo nº 200901433904, da Comarca de Goiás, no deferimento da liminar, não


se exigiu prova do cumprimento da função social, tal como no caso da Fazenda Salobro de
Baixo, em Varjão-GO.

Nesse caso da Cidade de Goiás, a leitura também partiu de premissas do direito civil
e processual civil. A ocupação foi lida como invasão – esbulho –, e não como exercício do
direito à cidadania. Muito embora, o Juiz tenha reconhecido, ainda na liminar, “[...] que
os réus parecem defender legítimo direito de estatura constitucional (reforma agrária), mas
até ele, a despeito de seu relevantíssimo valor social, deve estar assentado em regras e sem
dúvida nenhuma deve-se curvar ao estado de direito [...]”, isso não obstou o deferimento
da liminar, para ordenar a desocupação da área em 72 horas, sob pena de multa diária e
responsabilização penal por desobediência. Ao final, foi julgado o mérito, confirmando a
liminar e julgando procedente a ação.

Assim, na definição judicial do uso e gozo da coisa (imóvel rural), a opção judicial
tem sido a de mantê-la com quem, historicamente, a titulariza, em detrimento daqueles que,
não a tendo, buscam tê-la.

3.1.7 Julgamento

No estado de Goiás, houve o julgamento do mérito em 6 (seis) processos analisados,


representando 46% do total. Os 54% restantes justificam-se por meio de alguns fatores,
quais sejam: os processos, ainda, não chegaram na fase de instrução e julgamento, houve
homologação de acordo, a competência foi declinada para a Justiça Federal, etc.

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Gráfico 7: Julgamento de Mérito

Julgamento de Mérito
Goiás

46%
54%
Sim
Não

Desses julgamentos, tem-se que o magistrado julgou a procedência do pedido em 4


(quatro) casos, conforme se percebe:

Gráfico 8: Índice de Julgamentos de Mérito Procedentes

Índice de Julgamento de Mérito


Procedentes
Goiás
33%
Procedência
Improcedência

67%

No processo n.º 2008913816694, de Santa Helena de Goiás, em que foi autora a


multinacional Monsanto e réu o MST, ainda que deferida a liminar em ação de interdito, para
proibir os integrantes do MST de “invadir” a propriedade daquela multinacional por ocasião
do dito “abril vermelho”, foi, posteriormente, extinto o processo por perda superveniente
do interesse processual, sentença que foi mantida em grau recursal (Ap. Cível n. 138169-
25.2008.8.09.0142, rel. juiz Fernando de Castro Mesquita, j. 12.04.2011).

O interessante, no caso relatado, é que, embora não concretizada a temida “invasão”


entre a data do ajuizamento da ação e da prolação da sentença, a Monsanto interpôs recurso
de apelação, ao qual o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás negou provimento.

No caso da Fazenda Salobro de Baixo (processo n.º 200804525352, da Comarca de


Varjão), o processo foi extinto com julgamento de mérito, face ao acordo celebrado entre as

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partes. A sentença julgou o mérito, homologando acordo consistente no compromisso de que


os réus “[...] não mais irão invadir a propriedade do Requerente”.

No caso da Fazenda Guarany, da Cidade de Goiás, também se julgou o mérito, mas


não por ocorrência de acordo. O aspecto destacado foi a procedência da ação, tendo entendido
o magistrado que restaram provados os seus pressupostos: a posse, o esbulho, a data do
esbulho e a perda da posse. Deve-se notar que, na sentença, nada foi exigido em termos
de cumprimento de função social da posse ou da propriedade. Restringiu-se aos elementos
constantes da legislação de processo civil (art. 927 e seguintes).

Um fundamento interessante referido pelo juiz, no caso, foi o de que “o imóvel estaria
insuscetível de reforma agrária porquanto laudo e decisão do próprio INCRA [...] atesta que
o imóvel rural em tela foi considerado grande propriedade rural produtiva”.

Nessa percepção, aflora a concepção, segundo a qual, a produtividade do imóvel


rural imuniza-o de desapropriação para a reforma agrária, quando, na verdade, está imune
à desapropriação o imóvel rural que cumpre a função social, que não se confunde com a
mera produtividade, envolve outras facetas, nos termos do art. 186 e incisos da Constituição
Federal.

Nos casos observados, não houve manejo de recurso apelatório contra a sentença, à
exceção do caso de Santa Helena de Goiás.

Nos processos analisados, em Goiás, nenhum registra a realização de Audiência


de Justificação Prévia. A falta dela, além de importar na dispensa de oportunidade de
democratização do processo civil, a partir do chamamento à audiência daqueles indicados
como réus, afasta a possibilidade evidente de se fazer uma instrução processual mais
detalhada, mormente em conflitos agrários, perquirindo-se sobre dados a subsidiar as
alegações aventadas na petição inicial.

3.1.8 Função Social da Propriedade

Dos discursos decisórios analisados, constata-se uma leitura homogeneizante do ato


de ocupação de terra pelos movimentos sociais, a tornar o judiciário parcial na análise dos
conflitos agrários.

O judiciário percebeu, em regra, para pronto deferimento da liminar, os atos praticados


pelos movimentos sociais como esbulho ou turbação, e não como atos a traduzir justa
reivindicação de implantação rápida e eficaz do programa de reforma agrária, legitimado
pelos princípios constitucionais da função social da posse e ou da propriedade e da dignidade
da pessoa humana.

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Os magistrados sequer fizeram uma análise dogmática criteriosa dos casos, para
verificar se estava presente o elemento subjetivo a caracterizar o esbulho possessório, qual
seja, a intenção de causar dano à propriedade alheia.

Ademais, os juízes não diligenciaram para que um processo judicial, legitimado no


cumprimento das garantias, fosse garantido para os “réus”, até mesmo para dar efetivo poder
de fala a sujeitos vistos com objetos. Nem mesmo curadores especiais, foram designados
para patrocinarem a defesa deles.

Assim é que o discurso decisório goiano, pelo que se extrai dos casos analisados, é
silente sobre a função social da propriedade. Ou os juízes não conhecem, com profundidade,
direito constitucional ou, por escolha ideológica, optaram por não perceber que a terra
tem funções sociais (SOUZA FILHO, 2003), que não se resumem a satisfazer os desejos
particulares do titular da propriedade da terra.

O único caso em que a função social foi aventada se deu no caso do Processo nº
200804525352, da Comarca de Varjão. Ainda que a juíza, na liminar, não tenha exigido
prova da função social nem do proprietário nem do arrendatário, tecendo, por consequência,
um discurso acolhedor da leitura civilista tradicional individualista, recorrendo ao linguajar
do “esbulho”, para qualificar a presença de pessoas que não o proprietário, o arrendatário ou
empregados, no imóvel rural em disputa, na defesa, os réus colocaram em debate a função
social do imóvel rural.

Alegaram que o imóvel não a cumpria, o que foi rebatido pelos autores, por ocasião
da impugnação à contestação, os quais sustentaram que o imóvel a cumpria, em todos os
seus aspectos, já que nele se criava gado, se praticava agricultura e não havia exploração
madeireira.

3.2 Estado do Paraná

3.2.1Natureza da Ação Possessória e qualificação das partes

Quanto à natureza das ações possessórias que predominam diante do contexto das
ocupações, pode-se constatar a prevalência das ações de Reintegração de Posse (22), as
ações de Interdito Proibitório (13) e, apenas uma ação de Manutenção de Posse, conforme o
gráfico:

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Gráfico 9: Natureza da Ação Possessória

Natureza da Ação Possessória


Paraná

36% Reintegração de Posse


Manutenção de Posse
61%
Interdito Proibitório

3%

Nesse contexto, as atividades desempenhadas pelos integrantes dos movimentos


sociais são negligenciadas, em parte, pelos juízes que integram o poder judiciário.

Isso fica evidente no momento em que o juiz recepciona um pedido de desocupação


sem a devida qualificação da parte requerida. No caso os integrantes dos movimentos sociais,
que tão somente são qualificados de “invasores de qualificação ignorada” ou em alguns
casos mencionam seus “apelidos” ou são chamados de “pessoas incertas e não sabidas”,
demonstrando o quão desrespeitoso é o tratamento deferido aos ativistas dos movimentos
sociais.

Conforme dispõe o artigo 282 do Código de Processo Civil, a parte autora deve
qualificar a parte requerida, sob pena de ocorrer a inépcia da petição inicial.

O que ocorre é que a parte requerida, os integrantes dos movimentos sociais, não é
qualificada de forma correta sob a alegação de que se nega a fornecer documentos ou talvez
seja qualificado de “invasores”, mas mesmo assim o processo se desenvolve.

A qualificação dos integrantes deveria se dar de forma individualizada, com indicação


do nome completo, da data de nascimento, da profissão, estado civil, domicílio, filiação e
indicação do número do CPF e do RG.

Nesse sentido, pode-se observar a qualificação das partes, no processo, cujo


acórdão é nº 556784-0, em que figura como parte requerente a Usina Central do Paraná
S/A – Agricultura, Indústria e Comércio e como parte requerida a CONTAG – confederação
nacional dos trabalhadores da agricultura:

Entidade sindical de trabalhadores e trabalhadoras rurais, cuja


sede se encontra localizada no Distrito Federal, SMPW, quadra
01, conjunto 02, lote 02, cep 71.735-102 – Núcleo Bandeirante,
Cláudio de Tal, brasileiro, estado civil, profissão e endereço

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ignorados, mas que se encontra atualmente alojado na fazenda


Itaverá, objeto da invasão e outros de qualificação e endereço
ignorados que se encontram alojados dentro dos limites da
fazenda Itaverá, de propriedade da autora.

3.2.2 Meios de prova

Quanto ao modo como os proprietários provam sua propriedade e posse, prevalece


a juntada de documentos, tais como escritura de compra e venda, cadeia dominial e notas
fiscais de compra de produtos agrícolas.

Na maioria dos casos pesquisados, o poder judiciário recepciona e considera tais


documentos a prova da função social da propriedade.

Em relação à audiência de justificação prévia, quando o juiz percebe que os documentos


probatórios instruídos com a petição inicial não são suficientes para comprovar os requisitos
do art. 927, do CPC, em apenas 8% dos processos analisados, essa se deu, o que corresponde
a 03 (três) processos.

Gráfico 10: Ocorrência de Audiência de Justificação Prévia

Ocorrência de Audiência de
Justificação Prévia
Paraná
8%

Sim
Não
92%

Em apenas um processo analisado, houve inspeção judicial (Processo nº 055-2006, da


Comarca de Pinhão), tipo de prova em que o próprio juiz se desloca ao local do conflito para
averiguar a situação do imóvel rural e dos ocupantes que ali se encontram.

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3.2.3 Revelia

Dos 36 (trinta e seis) processos analisados, pode-se depreender que em 8 (oito) casos,
ela foi decretada.

Em 12 (doze) processos, ela não ocorreu, tendo os réus se manifestado e apresentado


contestação.

Nos 16 (dezesseis) processos remanescentes, não se pode afirmar que esse instituto
ocorreu, tendo em vista alguns fatores, como: quando da análise, o prazo para manifestação
dos réus, ainda, estava transcorrendo; mesmo com a não manifestação dos réus e o pedido de
decretação da revelia feito pela parte autora, o juiz não se manifestou sobre a situação.

Em geral, não ocorre revelia pela falta de comparecimento à audiência de justificação


prévia, mas quando da contestação, à época do mandado. O que se dá é a não designação
da referida audiência e a concessão do pedido de medida liminar (constante na maior parte
dos processos analisados), com a expedição do mandado de desocupação ou reintegração,
utilizando-se de força policial para retirar os ocupantes. A justificativa do mandado se baseia,
geralmente, nos artigos 932 do Código Civil brasileiro.

3.2.4 Tipo de posse/Rito

Dos processos analisados, todos são do tipo “posse nova”, ou seja, é aquela que se
estende por menos de ano e dia, a contar da data da ocupação.

O rito que predomina, portanto, é o especial, que se diferencia do rito ordinário pelo
fato de admitir o pedido para concessão da liminar. Isso justifica a inclusão do referido pedido
entre os pleitos iniciais, dos processos em questão.

3.2.5 Participação do Ministério Público e de outros Órgãos Agrários

Em relação à intimação e participação do Ministério Público, do INCRA ou outro


órgão para atuar nos processos, no sentido de verificar a função social e defender interesses
coletivos como o é a atuação dos movimentos sociais, pode-se inferir que a participação de
qualquer destes órgãos é mínima.

Dessa forma, ou o juiz não os intima ou os mesmos não tem interesse em atuar na
causa.

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Em relação à atuação do Ministério Público, ele se manifestou em 9 (nove) processos


analisados, representando 29% dos casos, conforme tabelas, abaixo:

Gráfico 11: Intimação MP

Intimação MP
Paraná

29%

71% Sim
Não

O INCRA, por sua vez, não fora intimado a se manifestar em nenhum processo
analisado do estado do Paraná.

3.2.6 Liminar

Em relação ao tipo de decisão, depreende-se o predomínio de decisões interlocutórias,


com a apreciação do pedido liminar.

É interessante destacar que, apesar de haver a concessão da medida liminar com


emprego de força policial, geralmente, o que ocorre é que tais liminares não são cumpridas
pelo Estado, sob o argumento de que não há contingente policial suficiente para cumprir o
mandado.

Dos 36 (trinta e seis) processos analisados, apenas em 5 (cinco), a concessão da


liminar foi indeferida. Nos outros 31 (trinta e um) processos, o pedido de liminar foi deferido
sem ouvir a parte contrária, ou seja, fora concedida medida liminar inaudita altera pars,
correspondendo a 86% dos processos analisados:

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Gráfico 12: Ocorrência de Concessão de Liminar

Ocorrência de Concessão de Liminar


Paraná

14%

Sim
86% Não

Nesse contexto, a ocupação de terras, no Estado do Paraná, é tida como crime, como
se pode depreender de passagem do acórdão nº 561142-5: “Ademais, como já exposto na
decisão monocrática que indeferiu o pedido de efeito suspensivo, ‘a invasão de terras é crime
capitulado no artigo 162, §1º, inciso II, do Código Penal’ (fl. 188)”.

3.2.7 Julgamento

Dos casos analisados em 8 (oito) processos, houve julgamento de mérito, representando


22% da análise. Os 78% restantes, cujo julgamento de mérito não se deu, podem ser explicados
por alguns fatores, tais como: extinção do processo, sem julgamento de mérito, a pedido da
parte autora, em função de cessar a ameaça de esbulho e/ou turbação; não movimentação
processual pela parte, no prazo judicial determinado, gerando extinção sem julgamento do
mérito; homologação de acordo extrajudicial; declínio de competência para a Justiça Federal;
e, ainda, o andamento processual pode não ter chegado à fase de instrução e julgamento.

Gráfico 13: Julgamento de Mérito

Julgamento de Mérito
Paraná

22%

Sim
78% Não

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Dos processos que tiveram o mérito julgado, apenas em 1 (um) deles o pedido foi
julgado improcedente, o que representa 13% dos casos, conforme o gráfico:

Gráfico 14: Índice de Julgamento de Mérito Procedentes

Índice de Julgamento de Mérito


Procedentes
Paraná
13%

Procedência
87% Improcedência

3.2.8 Função social da propriedade

De acordo com o teor dos autos analisados, pode-se depreender que o judiciário, nos
casos em questão, não analisa os aspectos do artigo 186 da Constituição Federal de 1988,
conforme se infere do gráfico:

Gráfico 15: Exigência de Prova do Cumprimento da Função Social da


Propriedade ou da Posse na Liminar

Exigência de Prova do Cumprimento da


Função Social da Propriedade ou da Posse
na Liminar
Paraná
6%

Sim
94% Não

A apreciação do pedido de concessão da medida liminar se restringe, apenas, aos


documentos que a parte autora junta ao processo, como escritura de compra e venda, cadeia
dominial, notas fiscais de insumos agrícolas, contrato de arrendamento e comprovante de
pagamento do ITR.

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Em um processo, cujo nº do acórdão é 561142-5, há uma passagem que deve ser


destacada:

Além disso, não é demais ressaltar que, ao menos em sede de


cognição sumária, típica do recurso de Agravo interposto de
decisão liminar, verifica-se que a terra é produtiva, cumprindo
sua função social, pois é utilizada para plantio de soja, mandioca,
feijão, criação de aproximadamente cento e sessenta cabeças de
gado, além de ser respeitada a reserva legal, concluindo-se que
a situação, de fato, verificada no local, até o momento, indica
produtividade, geração de emprego e em nada contribui para a
tese de abandono e falta de cuidado sustentada pelos invasores.

Com efeito, os Agravados demonstraram o esbulho e a perda


da posse, já tratados, bem como a posse anterior, conforme
compromissos de compra e venda, declaração para cadastro de
imóveis rurais, com dados sobre o uso da terra, fornecido pelo
Ministério do Desenvolvimento Agrário, recibos de entrega de
declarações dos impostos e instrumento particular de contrato de
arrendamento agrícola (fls. 17/61).

Ademais, como já exposto na decisão monocrática que indeferiu


o pedido de efeito suspensivo, “a invasão de terras é crime
capitulado no artigo 162, §1º, inciso II, do Código Penal” (fl.
188).

Isso demonstra, geralmente, como o poder judiciário analisa o cumprimento da


função social da propriedade. Não há cumulação dos elementos do artigo 186 da Constituição
Federal de 1988, muito menos uma análise apartada dos mesmos, mas tão somente menção
a dados que não podem ser usados como prova da função social da propriedade. Quando faz
referência ao “contrato de arrendamento agrícola” fica evidente que o cultivo da terra se faz
por outras pessoas que não aquelas que têm o direito de propriedade calcado no título.

A análise dos dados permite afirmar que, geralmente, a ação dos movimentos sociais
é desconsiderada pelo poder judiciário, quando não criminalizada, como se infere do caso
supracitado, em que o magistrado considerou a ação do movimento social crime tipificado
no Código Penal.

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Isso demonstra que o tratamento deferido às ações dos movimentos sociais é


desrespeitoso e pejorativo, senão consideradas ações criminosas. Quando atribuem a tal
prática a qualidade de crime, significa que não possuem nenhum comprometimento com
a problemática e complexa questão agrária, mas tão somente visam a satisfazer uma elite
agrária conservadora que não quer perder o status de proprietário e a segurança que isso lhes
garante.

3.3 Estado do Mato Grosso

3.3.1 Qualificação das partes

A formação da relação processual exige que ambas as partes sejam qualificadas.


Conforme disposição do artigo 282 do Código de Processo Civil é imprescindível que o
autor indique na petição inicial a qualificação da parte requerida, no caso os representantes e
demais pessoas que se encontram no local da ocupação, sob pena de extinção da ação.

O que ocorre é que a parte requerida, os integrantes dos movimentos sociais, não é
qualificada de forma adequada sob a alegação de que se nega a fornecer os documentos e/ou
informações necessárias, durante a confecção do Auto de Constatação, realizado por Oficial
de Justiça, determinado pelo Juiz da Vara Especializada em Direito Agrário, cuja Jurisdição
se dá em todo o Estado do Mato Grosso.

A solução aplicada pelo Judiciário, frequentemente, é qualificar os líderes do


Movimento ou, ao menos, parte dos integrantes do mesmo, que passam a atuar como
representantes de todos os demandados. O processo, assim, desenvolve-se mesmo com essa
prejudicial.

Dos 46 (quarenta e seis) processos analisados, 11 (onze) processos foram prejudicados,


na qualificação da parte requerida, da seguinte forma:

a) 4 (quatro) processos (nº 179/2004, nº 125/2009, nº 115/2009 e nº 121/2009) apontaram


como requerido o próprio movimento social (Movimento dos Sem Terra; Movimento dos
Trabalhadores Rurais Acampados e Assentados de MT, Movimento dos Sem Terra e Outros;
Movimento dos Trabalhadores Rurais Assentados e Acampados; e Assentamento Recanto da
Seriema, respectivamente), sem individualização/qualificação da parte;

b) 6 (seis) processos (nº 62/2009, nº 69/2009, nº 149/2009, nº 150/2009, nº 129/2010


e nº 15/2011) tiveram como qualificação da parte requerida, apenas, 1 (uma), 2 (duas) ou
3 (três) ocupantes da área em litígio (Aparecido de “Tal”; Jaime Rodrigues e Aparecida

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Domingues Rodrigues; Regina, Peti e Giovani; João Cortesano; João de Tal e Antonio de
Tal; e Nilo da Silva, respectivamente)

c) 1 (um) processo (nº 85/2011) qualificou a parte requerida como Reinaldo José
Evaristo, Mateus Lucas de Carvalho, Saul do Nascimento, Gilberto Rodrigues Soares e
Outros, sem identificar quem seriam esses “outros”.

Ademais, do total de processos analisados, em 28 (vinte e oito) deles, o juiz tratou a


ocupação da área, em despachos, decisões interlocutórias e/ou sentenças, como esbulho e/
ou turbação.

Em, apenas, 1 (um) processo (nº 74/2009), cuja resolução se deu por acordo extrajudicial,
em audiência de conciliação, o tratamento dado à parte requerida foi de “ocupantes”.

A análise do tratamento dado aos requeridos, nos demais processos, restou prejudicada
por vários fatores, como: revelia dos requeridos, cujos atos do juiz não citaram nenhuma das
categorias de tratamento; declínio de competência para a Justiça Federal, sem citar nenhuma
das categorias de tratamento; homologação de acordo extrajudicial.

É interessante acrescentar que quando há requeridos moradores da cidade, ocupando


áreas rurais, o juiz não os considera como sujeitos legítimos no processo de ocupação (como
se depreende do processo nº 22/2008), muito menos, como possíveis “clientes” da Reforma
Agrária.

Destarte, o tratamento dado aos requeridos evidencia que, mesmo com uma Vara
Especializada em Direito Agrário, a ocupação da terra, quanto à qualificação da parte
requerida, é vista como esbulho ou turbação.

3.3.2 Meios de prova

O meio de prova mais explorado para a manutenção ou reintegração da posse,


exigidos no artigo 927, do CPC (“a sua posse; a turbação ou o esbulho praticado pelo réu;
a data da turbação ou do esbulho; e a continuação da posse, embora turbada, na ação de
manutenção; a perda da posse, na ação de reintegração”), nas ações do Estado do Mato
Grosso, é o documental.

Assim, em 20 (vinte) processos, o meio de prova utilizado pelo autor foi, exclusivamente,
documental.

Em 11 (onze) processos, os meios de prova utilizados foram documental e oral.

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Em 2 (dois) processos, apenas, os meios de prova foram documental, oral e pericial.

A análise dos demais 13 (treze) processos restou prejudicada por alguns motivos,
principalmente, em função de tais ações não chegarem à fase de instrução e julgamento,
momento crucial para a produção de provas.

Deve-se acrescentar que, em 17 (dezessete) processos, houve inspeção judicial in loco


para averiguar a situação do conflito, contribuindo para o convencimento do juiz, quando da
concessão do pedido de liminar, conforme se depreende do gráfico:

Gráfico 16: Ocorrência de Inspeção Judicial

Ocorrência de Inspeção Judicial


Mato Grosso

44%

56% Sim
Não

A principal controvérsia se dá na comprovação da posse e na continuação da mesma,


tendo em vista que a turbação ou esbulho e a data de tal fato são comprovadas por meio de
Boletim de Ocorrência.

Assim, os documentos de prova da posse se dão, nas ações do Estado do Mato Grosso,
essencialmente, por: Copia da Escritura Pública de Compra e Venda do imóvel; Matrícula
do Imóvel; Comprovante de pagamento do ITR; Planta e memorial descritivo do imóvel;
Cópias de notas fiscais de compra de produtos veterinários e bovinos; Notas fiscais de
comercialização de gado bovino; Fotografias.

3.3.3 Revelia

Geralmente o que ocorre após a formalização do pedido inicial é a citação da parte


contrária, ou seja, os integrantes dos movimentos sociais. É a oportunidade em que podem se
defender das alegações iniciais e contradizer o que é alegado.

Em, apenas 2 (dois) processos (nº 179/2004 e nº 33/2009), ocorreu o instituto da


revelia, quando foram considerados verdadeiros os fatos alegados pelos autores.

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Em 5 (cinco) processos (nº 06/2009, nº 22/2008, nº 20/2008, nº 70/2009 e nº 74/2009),


o juiz declarou, expressamente, o não cabimento da revelia, em função do interesse público
na ação, como se depreende do seguinte trecho da Decisão Interlocutória componente do
processo nº 06/2009:

De início, anoto que a ausência de manifestação dos requeridos


não induz o efeito de se reputarem verdadeiros os fatos
alegados, em face do interesse público aliado à função social da
posse, matéria de mérito por excelência nas lides possessórias,
marcadamente as coletivas.

A natureza de ordem pública dos preceitos atinentes ao


cumprimento da função social da propriedade – e da posse (art.
2.035, parágrafo único do CCB/2002) – e o interesse público
ínsito à matéria, tal a embasar a própria intervenção ministerial
(art. 82, III do C.P.C.), elidem os efeitos materiais da revelia.

Nos demais processos, a análise restou prejudicada, em função de o juiz não discutir
o instituto da revelia.

3.3.4 Tipo de posse e rito processual

Nos casos em questão, verifica-se que o tipo de posse prevalecente é a posse nova, ou
seja, aquela que se estende por menos de ano e dia, a contar da data da ocupação.

Nesse sentido, do universo analisado, apenas, 4 (quatro) são do tipo posse velha, isto
é, cuja ocupação se deu há mais de ano e dia, representando 9% dos casos.

Gráfico 17: Tipo de Posse

Tipo de Posse
Mato Grosso
9%

Nova
Velha
91%

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Portanto, o rito que predomina é o especial, que se diferencia do rito ordinário pelo
fato de admitir o pedido para concessão da liminar. Isso justifica a inclusão do referido pedido
nos pedidos iniciais dos processos em questão.

É necessário destacar que o Estado do Mato Grosso possui uma peculiaridade, qual
seja, conta-se, para determinar o tipo de posse, o intervalo entre a data da ocupação e a data
da distribuição do processo para a Vara Especializada em Direito Agrário, criada em 2008.
Assim, alguns processos podem ser considerados do tipo posse velha, para que não haja o
periculum in mora inverso, impeditivo de concessão de medidas liminares dessa natureza,
conforme se vê na Decisão Interlocutória do processo nº 25/2009:

Ressalto que a medida adotada encontra ressonância nos artigos


1º, 3º e 4º da Constituição Federal, onde está consignado que
são direitos fundamentais da República Federativa do Brasil:
a cidadania; a dignidade da pessoa humana; a erradicação da
pobreza e da marginalização; a redução das desigualdades
sociais; a prevalência do bem de todos, sem preconceito de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação, bem como na jurisprudência, como decidiu o
Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, mediante acórdão unânime
da 11ª Câmara Cível, quando restou assentado o seguinte: “...
Destarte, a liminar de reintegração de posse nesse momento é
medida grave demais, em face do problema social em pauta,
para ser tomada em cognição absolutamente sumária. Prudente
que se aguarde, pois, a instrução do feito, para somente a final,
se for o caso, ser tomada a medida extrema da desocupação”
(Informativo Semanal 04/2005, ADV/COAD, jurisprudência
112437, página 62).

Ademais, quanto à natureza da ação, percebe-se que 32 (trinta e dois) processos são
de reintegração de posse (quando se considera esbulho); 11 (onze) processos são de interdito
proibitório (quando há turbação); 3 (três) processos são de manutenção de posse (quando há
turbação), conforme ilustra o seguinte gráfico:

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Gráfico 18: Natureza da Ação Possessória

Natureza da Ação Possessória


Mato Grosso

24%
Reintegração de Posse
6% Manutenção de Posse
70% Interdito Proibitório

3.3.5 Participação do Ministério Público e de outros Órgãos Agrários

Conforme dispõe o artigo 82, III, do Código de Processo Civil, a atuação do Ministério
Público nos conflitos que envolvem a disputa de áreas rurais improdutivas é imprescindível,
ainda que seja como custos legis, e não como parte.

Em 26 (vinte e seis) casos, o INCRA foi intimado para manifestar o interesse sobre a
área em litígio, correspondendo a 62% dos processos:

Gráfico 19: Intimação do INCRA

Intimação do INCRA
Mato Grosso

21%
Sim
Não
79%

Isso demonstra que há certa preocupação do referido órgão agrário com a atuação dos
movimentos sociais que lutam pela terra.

Além disso, a participação do INCRA é de fundamental importância, já que tal


autarquia federal possui como objetivo prioritário a realização da reforma agrária, mantendo
cadastro nacional de imóvel rural e administrando as terras públicas da União.

FORDFOUNDATION
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Assim, é esse órgão federal o responsável pela regularização dos “demandados”, os


litigantes integrantes de Movimentos Sociais, realizando também laudos técnicos e vistorias
determinando quais propriedades não cumprem a função social, podendo, portanto, ser
destinada à reforma agrária.

Em um dos processos, cujo número é 005180-15/2009, o Ministério Público pediu


informações à Superintendência Regional do INCRA sobre o cumprimento da função social
do imóvel objeto da ocupação e que seria objeto de desapropriação destinado à implantação
de um assentamento coletivo. Além disso, a SR-13 (superintendência regional nº 13), com
base no laudo agronômico de fiscalização, classificou o imóvel como grande propriedade
improdutiva.

No caso em que houve a concessão do pedido de liminar já no segundo grau de


jurisdição, processo número 007165-015/2009, o representante do ministério público se
manifestou contrário a tal concessão e o mandado para desocupação foi recolhido. Porém, os
requerentes, via advogados, recorreram ao tribunal de justiça do Mato Grosso e conseguiram
reverter a situação por meio de decisão favorável deste tribunal para desocupar o imóvel
utilizando-se de força policial, inclusive.

No caso acima referido, ocorreu a participação da Ouvidoria Agrária Regional, sob o


argumento de que a área objeto da presente demanda estaria em fase de desapropriação.

Ademais, com a manifestação do INCRA sobre a área, incluindo-se como parte na


ação, 3 (três) processos (nº 115/2008, nº 66/2009 e nº 141/2009) foram remetidos à Justiça
Federal, em função do artigo 109, I, da Constituição Federal de 1988.

Acrescenta-se a manifestação de demais órgãos agrários, como o INTERMAT


(Instituto de Terras de Mato Grosso), para informações acerca das áreas em litígio, como
terras devolutas (processos nº 65/2008, n° 33/2009 e nº 56/2009), latifúndios improdutivos
(processos nº 40/2011, nº 24/2009 e nº116/2009), áreas em processo de desapropriação e/ou
assentamento (processos nº 49/2011, nº 115/2009 e nº 150/2008) etc.

Na situação específica do estado do Mato Grosso, a sua atuação é ainda mais


abrangente, devido ao elevado número de casos de supostas “grilagens” de terras públicas.
Tais terras de título dominial de origem duvidosa são em alguns casos “ocupadas” pelos
integrantes dos Movimentos Sociais, gerando uma situação delicada em que, por vezes, o
poder público é incapaz de conter os inúmeros atos de violência recíproca, como se percebe
do trecho da Decisão Interlocutória constante do processo nº 52/2009:

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O Ministério Público, por meio de seu representante, manifestou-


se às fls. 601/603 juntando cópia de Oficio encaminhado pela
Ouvidoria Agrária Nacional, o qual traz denúncia remetida pela
Comissão Pastoral da Terra de Porto Alegre do Norte/MT, de
ameaças promovidas por Gustavo Adolpho Alves de Carvalho
e seus empregados, na Fazenda Damasco, contra a “suposta
vítima” Mauricio Inácio da Costa, que estaria sendo coagido,
mediante emprego de arma de fogo, a abandonar a área em
litígio.

3.3.6 Liminar

Dos 46 (quarenta e seis) processos analisados, em apenas 2 (dois), não houve o pedido
de concessão de liminar.

Em 1 (um) processo, a análise restou prejudicada, pois não há a referencia, no


acompanhamento processual, de pedido e/ou concessão da medida liminar.

Nos demais 43 (quarenta e três) processos, houve o pedido de concessão da medida


liminar, entre os pedidos iniciais da parte autora, correspondendo a 92% dos processos,
conforme ilustração gráfica:

Gráfico 20: Ocorrência de Pedido de Liminar

Ocorrência de Pedido de Liminar


Mato Grosso
2%

Sim
Não
98%

Desses 43 (quarenta e três) processos com pedido de concessão da medida liminar, em


36 (trinta e seis) houve a concessão da manutenção ou reintegração de posse.

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Gráfico 21: Ocorrência de Concessão de Liminar

Ocorrência de Concessão de Liminar


Mato Grosso

22%
Sim
78% Não

Das 36 (trinta e seis) medidas de manutenção ou reintegração concedidas, em 4


(quatro) processos (nº 136/2010, nº 125/2009, nº 133/2008 e nº 15/2011), houve a concessão
de liminar inaudita altera pars, isto é, com base nos elementos probatórios que instruíram a
petição inicial, o juiz concedeu a manutenção ou reintegração da posse, sem que os requeridos
fossem chamados para manifestação.

Como se percebe, na maior parte dos casos, o órgão judicante entendeu necessária
a realização de audiência de justificação prévia e/ou inspeção judicial, ouvindo igualmente
os litigantes, para a formação de convencimento, não concedendo, de imediato, a medida
liminar.

Gráfico 22: Ocorrência de Audiência de Justificação Prévia

Ocorrência de Audiência de
Justificação Prévia
Mato Grosso

37%
Sim
Não
63%

Ademais, houve a cominação de multa em 13 (treze) concessões de medida liminar,


em casos de descumprimento da decisão, cujo valor variou de R$200,00 por dia de turbação
a R$ 5.000,00 por dia.

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3.3.7 Julgamento

Do universo analisado, 12 (doze) processos julgaram o mérito. Nos demais, o


julgamento de mérito não se deu, por alguns fatores, tais como: extinção do processo a pedido
da parte autora, em função de cessar a ameaça de esbulho e/ou turbação; não movimentação
processual pela parte, no prazo judicial determinado, gerando extinção sem julgamento do
mérito; homologação de acordo extrajudicial; declínio de competência para a Justiça Federal;
e, ainda, o andamento processual pode não ter chegado à fase de instrução e julgamento.

Gráfico 23: Julgamento de Mérito

Julgamento de Mérito
Mato Grosso
22%

Sim
78% Não

Em todas as sentenças que tiveram julgamento de mérito, decidiu-se pela procedência


do pedido.

Na maioria dos casos, houve, apenas, a conversão da decisão interlocutória que


concedeu a medida liminar, em sentença definitiva.

Nesse sentido, dos processos analisados, um, em especial, merece destaque: processo
nº 125/2009, que, mesmo com uma discussão mais acurada sobre a função social da posse, no
âmbito da Vara Especializada em Direito Agrário, o juiz competente converteu em definitiva
a decisão interlocutória proferida pela juíza Edleuza Zorgetti Monteiro da Silva, em 2008,
cujo trecho mais significativo é:

Verifica-se dos autos que os autores são proprietários e


possuidores da área em questão e que estão demonstrados os
requisitos necessários para a concessão da liminar, quais sejam:
a posse dos autores, comprovados pelos documentos constantes
do pedido inicial, declarações, boletim de ocorrência; a ameaça
de turbação e a existência de real receio da concretização dessa
ameaça, em razão da futura retirada dos invasores de onde
estão e da existência de ações do mesmo tipo ajuizadas contra

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os requeridos. O fato com certeza faz com que os autores se


sintam ameaçados em sua posse, causando-lhe intranqüilidade
e prejuízos.

A inviolabilidade da propriedade está garantida na


Constituição Federal e a proteção ao direito de propriedade
está assegurado nos Códigos Civil e de Processo Civil, razão
pela qual a liminar há que ser deferida.

Assim, diante dos fatos narrados na inicial e do que consta na


prova documental apresentada, com fundamento no artigo 932 e
933 c/c artigo 928 do Código de Processo Civil, CONCEDO A
LIMINAR inaudita altera pars para determinar que os requeridos
ou qualquer outra pessoa que se apresentar para invasão ou que
for identificada pela prática de atos turbatórios, se abstenha de
praticar qualquer ato que moleste ou turbe a posse dos autores
na área descrita e caracterizada na inicial, sob pena de pagarem
a quantia de R$5.000,00 (cinco mil reais) por dia de transgressão
à presente ordem judicial. (grifo nosso)

3.3.8 Função Social da Propriedade

A discussão sobre a função social da propriedade apresenta-se como uma preocupação


do magistrado da Vara Especializada em Direito Agrário do Estado do Mato Grosso, assim
em47% dos processos obtidos, foi feita essa análise.

Gráfico 24: Exigência de Prova de Cumprimento da Função Social da


Propriedade ou da Posse na Liminar

Exigência de Prova de Cumprimento da Função


Social da Propriedade ou da Posse na Liminar
Mato Grosso

47%
Sim
53% Não

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Pode-se perceber que, em 10 (dez) processos, a fundamentação teórica da função


social da propriedade foi, exatamente, a mesma, qual seja:

Versam os autos, inequivocamente, sobre conflito coletivo


estabelecido em torno da posse de imóvel rural.

A matéria em questão desafia, como já observado na mais


atualizada doutrina e mais competente jurisprudência, uma
reflexão fundada prioritariamente nos preceitos constitucionais,
dentro daquilo que hoje já se conhece como o movimento de
constitucionalização do direito.

Assim, as exigências constitucionais que dizem respeito ao


direito de propriedade, direito inequivocamente fundamental –
já não só de caráter individual, mas social – impõem uma leitura
da lei civil sob as luzes e de acordo com a Constituição. Nessa
esteira, exsurge a questão da função social da propriedade, que,
intrínseca ao exercício do direito de propriedade, salutarmente
contamina o consectário da posse que lhe diga respeito.

Não há, pois, como se discutir, na atualidade, qualquer questão


possessória sem ferir, por natural, o atendimento ao requisito
essencial da função social. Mais que rima, mostra-se como
solução das questões possessórias que ocupam a Vara de Conflitos
Agrários e parâmetro que norteia os debates possessórios.

Data vênia a entendimentos contrários mostra-se insubsistente


qualquer argumento residente na perspectiva de que as questões
sociais sejam matéria de polícia. Hoje, mais do que nunca, as
questões sociais são de responsabilidade do Estado, por todos
os seus órgãos constitutivos. Assim, a questão agrária, bem além
de ser “problema do governo” (Poder Executivo), é também
questão afeta ao Poder Judiciário.

Ora, a Constituição dispõe regras e, mais que regras, princípios


que norteiam a vida dos cidadãos e orientam a atuação do Poder
Público, seja por que órgão for. Assim, diz-se que na propositura
de um pleito possessório deva o autor declinar e comprovar que
no exercício da sua posse preenche os requisitos legais que a

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75
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Constituição sintetizou na expressão “função social”.

É certo, no entanto, que em ações como a presente não se


mostra razoável exigir uma prova completa, exaustiva,
desse requisito para o fim de atender ao pedido de concessão
liminar. Mas isso não isenta o autor da ação em ao menos
indicar que tal se dá.

O cumprimento da função social da propriedade, tal como


delineado no art. 186, I a IV da C.R.F.B., exterioriza-se, em
última instância, como posse qualificada pelos requisitos
cumulativos da produtividade, utilização adequada dos recursos
naturais e preservação do meio-ambiente, observância de
normas trabalhistas e exploração conducente ao bem-estar de
proprietários e trabalhadores. (grifo nosso)

Pode-se depreender que o magistrado indica, na própria fundamentação, que não


exigirá o cumprimento cumulativo dos requisitos constitucionais, manifestando-se, no
mérito, em favor do pedido do autor, com base, principalmente, na comprovação (mínima)
da produtividade da propriedade. Em alguns casos, o juiz cita o aproveitamento racional
e equilibrado do meio ambiente ou o respeito à legislação trabalhista, mas não de forma
cumulativa.

3.4 Estado do Pará

3.4.1 Qualificação das partes

A maioria dos processos analisados apresenta uma tentativa de individualização dos


sujeitos passivos das demandas, a despeito da dificuldade prática na qualificação de todos os
requeridos.

O Código de Processo Civil (art. 282) é expresso quanto à necessidade de indicação


pelo autor de todos réus na petição inicial, sob pena de extinção da ação.

A solução aplicada pelo Judiciário normalmente é qualificar os líderes do Movimento


ou, ao menos, parte dos integrantes do mesmo, que passam a atuar, portanto, como
representantes de todos os demandados.

Não é essa a solução ideal, notadamente, pelo fato de que em demandas dessa espécie,

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por vezes, há concessão de medida liminar de reintegração, cujo cumprimento exige a


participação de força policial, logo, sem a devida individualização dos envolvidos pessoas
estranhas ao Movimento poderiam ser coagidas pelo simples fato de estarem no local.

É interessante notar que, em outras circunstâncias, o Judiciário utiliza a própria


qualificação do sujeito passivo apresentada pelo autor da ação, talvez por uma questão de
facilidade e simplificação, entretanto, a nomenclatura apresentada pode por vezes evidenciar
formas pejorativas e preconceituosas de tratamento.

É o exemplo da qualificação presente no processo de nº 54654651, referente à Fazenda


Boa Vista em que o pólo passivo da demanda é caracterizado pela expressão “Grupo de
Invasores”, mesmo tendo como representante individualizado o líder do Movimento.

Sem dúvida, expressões como essas revelam, de imediato, uma maneira preconceituosa
de conceituar um Movimento Social legítimo, cuja intenção não é “invadir” propriedades,
mas sim pleitear a redistribuição, por meio de reforma agrária, de terras que não cumprem
sua função social.

3.4.2 Meios de prova

As provas elencadas representam outro aspecto controverso nesse tipo de ação, já


que, na maioria dos casos, o sujeito ativo apresenta provas de domínio, não demonstrando
claramente a relação possessória.

Assim, predominantemente, são trazidas aos autos: a escritura pública do imóvel, bem
como seu registro, memorial descritivo da área, comprovação da cadeia dominial, comprovante
de pagamento do Imposto Territorial Rural, certidão de cadastro rural do imóvel.

Todos esses documentos, entretanto, não são aptos a comprovar a posse do imóvel,
sendo, assim, pouco significativos, nesse tipo de ação. Antevendo essa constatação, os
autores colacionam aos autos outros documentos, na tentativa de provar a posse da área e sua
utilização econômica.

Daí o emprego como meio de prova dos seguintes instrumentos: cópia de relação de
empregados devidamente registrados, guia da previdência dos funcionários, ficha cadastral e
vacinal dos bovinos, nota fiscal de produtos agrários supostamente adquiridos para utilização
na propriedade.

Sem dúvida, na comprovação da posse, o autor da ação deve demonstrar sua relação
cotidiana com a propriedade e mais especificamente deve atestar de modo significativo a
utilização social da propriedade.

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Os expedientes probatórios, nos autos referentes aos processos do Estado do Pará, em


geral, não são suficientes para demonstrar a utilização social da propriedade. Tanto mais pelo
fato de muito deles serem facilmente falseados, como é o caso de nota fiscal de aquisição
de produtos agrários. Como atestar que tais produtos foram verdadeiramente utilizados na
propriedade demandada?

Ademais, além de fazer prova da posse, o autor da ação possessória precisa


provar suficientemente a própria turbação ou esbulho, praticados pelo réu, descrevendo,
minuciosamente, quais são os fatos que estão molestando, cerceando ou efetivamente
retirando a sua posse. O que pode ser atestado através de fotos, boletim de ocorrência policial,
recortes de jornais caso tenha ocorrido divulgação do incidente pela imprensa local.

Assim, é possível concluir que os meios de prova utilizados revelam uma dificuldade
inerente a esse tipo de demanda. A despeito disso, alguns autores conseguem demonstrar
de forma mais significativa a sua posse, colacionando aos autos, por exemplo, fotos da
propriedade e de suas atividades cotidianas na mesma e uso de prova testemunhal.

Destaca-se, nesse sentido, o meio de prova constante no processo nº 0928340985,


referente à ocupação da fazenda “cabo de aço’, em que os requerentes utilizaram uma
importante prova: laudo de vistoria do INCRA, atestando a produtividade da área, ou seja,
demonstrando o uso social da propriedade, um dos únicos casos em que a função social é de
fato auferida.

3.3.3 Revelia

Todos os processos, em exceção de 1 (um), contaram com a efetiva participação do


pólo passivo da demanda, não ocorrendo, portanto, o fenômeno processual da revelia.

A única exceção diz respeito ao processo de nº 348094850, em que, devido à inércia


dos réus, o pedido do autor foi considerado procedente.

3.4.4 Tipo de Posse/Rito

A maioria dos processos pesquisadores trata de posse nova por parte dos demandados.
A posse nova é aquela que se estende por menos de ano e dia, contados a partir da data da
turbação ou esbulho, conforme se percebe, no seguinte gráfico:

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Gráfico 25: Tipo de Posse

Tipo de Posse
Pará

11%

Nova
Velha
89%

Assim, o rito prevalecente é o Especial, cuja única distinção em relação ao Ordinário


é a possibilidade de concessão de medida liminar, daí o fato de boa parte das demandas
cumular esse tipo de pedido. Tal forma procedimental foi verificada em 63% das ações do
Estado do Pará:

É importante ressaltar, ainda, que as ações de Reintegração de Posse correspondem a


53% do universo analisado, enquanto as ações de Manutenção de Posse correspondem a 41%
remanescentes e as ações de Interdito Proibitório aos 6% restantes, conforme informação
gráfica:

Gráfico 26: Natureza da Ação Possessória

Natureza da Ação Possessória


Pará
6%

Reintegração de Posse
41% 53% Manutenção de Posse
Interdito Proibitório

3.4.5 Participação do Ministério Público e Órgãos Agrários

A intervenção do Ministério Público, como custos legis, é obrigatória nas ações de


reintegração de posse que envolvam litígios coletivos pela posse de terra rural, conforme
dicção do art. 282, III, do Código de Processo Civil. Dessa forma, o representante do
Ministério Público fora chamado a se manifestar, em todos os processos, envolvendo

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movimentos sociais, constantes da Vara Agrária de Marabá.

A atuação ministerial é de fundamental importância, já que a natureza da lide e a


própria qualidade da parte (Movimento Social) revela o interesse público em questão, sendo
imprescindível, portanto, sua manifestação.

Além disso, a participação do INCRA é de fundamental importância, já que tal


autarquia federal possui como objetivo prioritário a realização da reforma agrária, mantendo
cadastro nacional de imóvel rural e administrando as terras públicas da União. Nesse sentido,
tal autarquia fora chamada a se manifestar pelo interesse, ou não, da área em litígio, em todos
os processos da Vara Agrária de Marabá.

Assim, é esse órgão federal o responsável pela regularização dos “demandados”, os


litigantes integrantes de Movimentos Sociais, realizando também laudos técnicos e vistorias
determinando quais propriedades não cumprem a função social, podendo, portanto, ser
destinada à reforma agrária.

Na situação específica do estado do Pará, a sua atuação é ainda mais abrangente,


devido ao elevado número de casos de supostas “grilagens” de terras públicas. Tais terras de
título dominial de origem duvidosa são, em alguns casos, “ocupadas” pelos integrantes dos
Movimentos Sociais, gerando uma situação delicada em que, por vezes, o poder público é
incapaz de conter os inúmeros atos de violência recíproca.

Esse fato é ainda mais agravado pela demora do Judiciário em dar uma resposta
definitiva nesse tipo de litígio, persistindo a situação instável por longos anos. Antevendo
essa constatação, e até mesmo para evitar reações agressivas das partes, o INCRA realiza
conciliações, como intuito de atingir a solução pacífica do conflito.

Esse tipo de acordo extrajudicial não impede o acesso ao Judiciário, mas pode ser
uma alternativa mais célere para evitar possíveis conflitos. Alguns dos processos analisados,
inclusive, apresentam essa tentativa de conciliação orientada pela autarquia, apenas a título
exemplificativo, é o que consta no processo nº 93248024589.

Ademais, é possível vislumbrar a intervenção relativamente constante do ITERPA,


autarquia estadual responsável pela política agrária no estado.

A própria necessidade de criação de tal autarquia revela a complexidade do regime


de terras no estado do Pará, sendo a regularização fundiária aspecto fundamental no acesso
democrático à terra, o que por consequência diminui a violência no campo.

Outro órgão agrário cuja atuação consta em alguns processos, embora em menor
número, é a Federação de Trabalhadores na Agricultura (FETAGRI), representando o
interesse de possíveis beneficiados da Reforma Agrária.

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3.4.6 Liminar

Todos os pedidos de reintegração de posse foram cumulados com o pedido de


concessão de liminar. Em alguns desses foi concedida a liminar inaudita altera pars, ou seja,
antes de ouvido os requeridos.

Gráfico 27: Ocorrência de Concessão de Liminar

Ocorrência de Concessão de Liminar


Pará

31%
Sim
Não
69%

Nesses casos, o magistrado prevê multa diária para a hipótese de descumprimento do


mandado de reintegração, uma vez que, nesse caso, a possibilidade de resistência violenta é
notória.

Na maior parte dos casos, entretanto, o órgão judicante entendeu necessária a


realização de audiência de justificação prévia, ouvindo igualmente os litigantes, contribuindo
para formação de seu convencimento, não, concedendo de imediato a liminar. Fato ocorrido
em 81% das ações:

Gráfico 28: Ocorrência de Audiência de Justificação Prévia

Ocorrência de Audiência de
Justificação Prévia
Pará
19%

Sim
Não
81%

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Ademais, mesmo quando concedida a medida, os requeridos podem agravar a decisão


interlocutória, obtendo, em alguns casos verificados, resultado favorável, com o provimento
do pedido e cassação da liminar.

Lembrando que, a despeito de provocação, o juiz pode cassar a liminar a qualquer


momento, desde que se verifique a cessação do risco de dano irreparável ou que diante de
fatos novos não mais subsiste a verossimilhança das alegações do autor.

3.4.7 Julgamento

Previamente, é válido ressaltar que, na maior parte dos processos pesquisados, houve
a realização de audiência de justificação prévia, permitindo ao magistrado formar de forma
mais subsistente suas convicções.

No que tange ao julgamento, é interessante notar que no maior número delas não se
deu julgamento do mérito, extinguindo-se o feito com sentença terminativa.

As razões mais recorrentes para esse tipo de sentença, nos processos analisados, é o
abandono processual da causa por inércia processual das partes, notadamente do autor.

Assim, nesses casos, não é possível afirmar se a situação conflituosa foi superada, uma
vez que sem a sentença definitiva, mesmo com o fim formal do processo, pode subsistir na
realidade o conflito possessório, o que, por sua vez, pode ensejar práticas violentas de ambas
as partes.

No mais, em menor número, constam processos em que foi efetuada transação,


homologada pelo juiz, possuindo força, dessa feita, de sentença de mérito.

É válido ressaltar que esse tipo de acordo pacifica a questão possessória, mas não
atinge aspectos mais amplos como a verificação da função social da propriedade e a possível
destinação da terra à reforma agrária.

Gráfico 29: Julgamento de Mérito

Julgamento de Mérito
Pará

28%

Sim
72%
Não

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3.4.8 Função Social da Propriedade

De maneira geral, a análise da função social da propriedade é só tangencialmente


examinada pelo magistrado, ou sequer examinada, conforme se infere do seguinte gráfico,
quando da decisão de medida liminar:

Gráfico 30: Exigência do Cumprimento da Função Social da


Propriedade ou da Posse na Liminar

Exigência de Prova do Cumprimento da Função


Social da Propriedade ou da Posse na Liminar
Pará

19%

Sim
81% Não

A cultura patrimonialista e o apego à noção tradicional de propriedade impedem uma


análise mais profunda do valor social da terra, conforme elencado na constituição Federal, em
seu art. 186, tal função é cumprida somente quando a propriedade atende simultaneamente as
seguintes exigências: aproveitamento racional e adequado, utilização adequada dos recursos
naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; observância das disposições que
regulam as relações de trabalho; exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos
trabalhadores.

Tais critérios são vagos, mas a lei deve fornecer detalhamento mais objetivo para a
concretização dessas diretrizes na prática, mas resta claro que segundo o texto constitucional,
a função social da propriedade ultrapassa a ideia de mera utilização econômica da mesma.

Nesse sentido, os autores das demandas descuidam de provar suficientemente sua


função social, por vezes, sequer provam apropriadamente a mera fruição econômica da
mesma.

Os magistrados, por outro lado, descuram na aferição desse requisito constitucional


e mesmo quando admitiram sua utilização dissertando sobre o art. 186, manifestaram-se no
mérito em sentido contrário, dando provimento ao pedido do autor.

Esse panorama revela a imensa complexidade acerca da questão fundiária no Brasil,

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83
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aqui, especificamente no estado do Pará, demonstrando que se por vezes, o Judiciário é


ainda inábil na resolução desse tipo de conflito, talvez isso se deva menos às leis e mais
a uma cultura ainda resistente a esse tipo de Movimento, ou mais, ainda resistente a uma
relativização do que seja a propriedade e a inevitável função social a ser cumprida pela
mesma, caso se ambicione a vida em um mundo materialmente democrático.

3.5 Considerações sobre a síntese dos resultados

Gráfico 31: Ocorrência de concessão de liminar

Ocorrência de concessão de liminar


Goiás-Mato Grosso-Paraná-Pará

66;53%
58;47% Sim
Não

Gráfico 32: Ocorrência de Audiência de Justificação Prévia

Ocorrência de Audiência de Justificação Prévia


Goiás-Mato Grosso-Paraná-Pará

58;46%
68;54% Sim
Não

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Gráfico 33: Julgamento do Mérito

Julgamento de Mérito
Goiás-Mato Grosso-Paraná-Pará

33;26%

94;74% Sim
Não

Pela análise apresentada, é possível concluir que:

1) A atividade jurisdicional, no caso dos conflitos no campo, funda-se na perspectiva


teórica individualista, consagrada pela modernidade, sobretudo no que se refere ao aspecto
subjetivo. Não se consideram, nas demandas, as coletividades e seus devires minoritários,
tampouco os sujeitos coletivos que se apresentam nesses pleitos. Isso fica evidente quando,
no curso das ações, se apontam as dificuldades de se nomear e se qualificar todos os sujeitos
que ocupam, ou ameaçam ocupar, determinada área de terra. O problema é a utilização
de instrumentos jurídicos construídos numa perspectiva individualista liberal, como o são
as ações possessórias, para solucionar demandas geradas por pretensões coletivas e que
envolvem coletividades num determinado polo da contenda. Isso aparece como descaso com
a origem dos conflitos coletivos pela terra e como os movimentos concebem a ocupação da
terra. Há uma visão eminentemente privatista liberal dos sujeitos de direitos. Predominam,
nas decisões, concepções de direito puramente dogmáticas e positivistas.

2) Nessa perspectiva individualista, impera a vagueza semântica diante da ausência de


aparato positivista próprio. O sujeito coletivo não é reconhecido como sujeito de direito, o que
resulta na ausência de delimitação clara e certa dos destinatários das ordens judiciais emitidas
(são “os de tal”), abrindo espaços de florescimento de violência no seu cumprimento. As
ordens judiciais que determinam a desocupação da terra pelas coletividades em movimento
social, em regra, deixam a juízo do oficial e dos policiais, escolher quem é, ou não, ocupante,
no momento do banimento. Como não se reconhece o coletivo, invade-se a esfera dos
indivíduos.

3) O discurso decisório acolhe a leitura civilista tradicional individualista, recorrendo


ao linguajar do “esbulho”, para qualificar a presença de pessoas, que não o proprietário, o
arrendatário ou empregados, no imóvel rural em disputa. Houve, no mínimo, carência de
compreensão do texto constitucional, que positivou a função social da propriedade (art. 5º,

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XXIII e art. 186) e que não encontra eco nas decisões judiciais analisadas.

4) À exceção das Varas Especializadas em Direito Agrário, nada foi perquirido sobre
as diferentes apreensões do termo “posse” no direito. As decisões optaram por uma posse de
cunho civil e não aquela agrária. Não foi feita essa diferenciação, melhor dito, não se podendo
dizer se por desconhecimento total da matéria agrária ou por opção político-ideológica dos
membros da magistratura. Enfim, leram-se os conflitos agrários a partir de categorias do
direito civil e do processo civil tradicional. Sequer foi feita uma oxigenação constitucional
(ROSA, 2010) das categorias de posse civil, ações possessórias, da turbação, do esbulho, da
função social etc.

5) Uma inferência importante que se pode fazer, a partir dos casos analisados, é que
o judiciário não se deu conta de que está sendo instrumentalizado na proteção de direitos
individuais. Notoriamente, o direito de propriedade privada da terra (SOUZA FILHO, 2003),
em detrimento de direitos coletivos dos movimentos sociais organizados na luta pelo acesso à
terra, em demandas inadequadas a tanto, que são as possessórias. Essas foram concebidas para
resolução de conflitos interindividuais baseados em disputa de posse e não em conflitos que
envolvem coletividades e cuja base é a propriedade. É que prepondera, nas fundamentações
jurídicas das iniciais dessas ações, a alegação do direito de propriedade. Assim, as ações
adequadas seriam as reivindicatórias e não as possessórias.

6) Percebe-se, dessa forma, que inexiste decisão, pois essa já é previamente conhecida,
confirmando a assertiva de Fachin (2000, p. 281), de que “o judiciário recebe o pleito e o teor
da decisão também é de antemão conhecido. O decisum, em regra geral, defere a liminar sem
ouvir a parte contrária”.

7) Ao se tentar uma síntese dos julgamentos nos conflitos agrários, a constatação que
emerge é de que são pouco criteriosos em termos probatórios, restringindo-se, quase sempre,
o material probatório a documentos não expostos a contraditório prévio; são assentados
na perspectiva dedutiva, em que se faz subsunção dos fatos narrados a termos jurídicos de
extração civil e processual civil (posse, esbulho, data do esbulho, perda da posse, v.g.); são
totalmente alheios os critérios substanciais constitucionais pertinentes à função social da
propriedade (art. 186, da CF/88); ignoram completamente a estratégia, de que lançam mão
os movimentos sociais de luta pela terra, de ocupação organizada da terra como forma de
ativismo público (CARTER, 2010).

8) Nas próprias Varas Especializadas, o que se depreende dos processos analisados


é que, com a criação das mesmas, aumentou-se a expectativa de uma discussão (e decisão)
mais acurada sobre o conflito agrário, com a participação efetiva dos órgãos agrários nos
estados. Foi percebido, todavia, que essa expectativa não fora confirmada: com a criação

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das Varas Especializadas em Direito Agrário, nos Estados do Mato Grosso e Pará, houve a
concentração dos processos e maior participação dos órgãos agrários, além do refinamento
nas fundamentações teóricas das decisões, mas, essas, ainda, se mostram extremamente,
patrimonialistas, individualistas, civilistas e excludentes.

9) E mais, quanto às ações dos movimentos sociais que lutam por acesso à terra, o
magistrado da Vara Especializada em Direito Agrário do Estado do Mato Grosso sintetiza a
recepção dada pelo Judiciário, em relação ao ativismo público:

Fato que deixou este magistrado preocupado foi a afirmação feita


à digna magistrada que conduziu a audiência de justificação, nos
seguintes termos: “em conversa com os requeridos, para tentar
conseguir um acordo ELDER MORAIS DA SILVA, disse a esta
magistrada que invadiu a FAZENDA CONSOLO juntamente
com os assentados na data de 19 de julho de 2009 e o fez a
pedido do INCRA para antecipar o pedido de desapropriação.”

Digo isso porque, diante dessa informação, estar-se-ia


fomentando invasões com outras intenções, incentivando
invasões e dificultando a vida dos que possuem propriedades e
daqueles que são posseiros legítimos, na medida em que essas
invasões poderiam resultar em aumento de violência e atos de
vandalismo, inclusive com destruição de áreas de preservação e
imputação ao proprietário de responsabilidade perante órgãos de
fiscalização e controle ambiental. (Processo nº 115/2009)

Em outra decisão:

Os requeridos argumentam que a invasão ocorreu porque


obtiveram conhecimento de que a área está “parada há muito
tempo” e que não possuem emprego nem moradia fixa.

Entretanto, referidas pessoas não se podem utilizar medidas


infringentes aos direitos individuais, intencionalmente, para
tentar angariar vantagens ou direitos perante o Poder Público.
Máxime em áreas rurais produtivas, com título de domínio. Por
outro lado, mesmo que fossem de dominialidade exclusivamente
pública, esse fato, por si só, ao contrário do que se pensa,
desautoriza qualquer invasão ou ocupação, sem a prévia
autorização do poder competente.

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Nesse contexto, e diante das circunstâncias que se apresentam,


imprescindível à manutenção da paz social e preservação do
direito vigente, sob a magnitude da Constituição Federal,
coibindo-se práticas rotineiras de invasão de direitos e desvios
no exercício da cidadania.

Para tanto, deve-se resguardar essa mesma sociedade das


intenções e ações manejadas com intuito de auferir vantagens
perante o patrimônio alheio, utilizando-se de artifícios injustos,
indiscriminadamente, sem parâmetros sensatos, estando
desautorizados, à margem da lei, grupos, organizados ou não,
por quaisquer motivos, simplesmente invadirem propriedade
particular, produtiva, ou pública, em detrimento de possível
e alegada omissão por parte dos possuidores/proprietários,
resultando em notório desvio de finalidade motivado por falsa
premissa de direito, calcada em ato ilícito, incitando, mesmo que
por via reflexa, a desordem em massa. (Processo nº 116/2009)

10) Concluindo: o Judiciário, ao menos nos casos analisados, não recepciona


abertamente a ocupação de terras como uma estratégia política dos movimentos sociais para
implementar a política pública da reforma agrária. Veem-na, de regra, como atentado à posse
e propriedade privadas, numa perspectiva de direito moderno- liberal, positivista, monista e
estatal. O individual impera sobre o coletivo. Há um modelo de resposta pronto, pré-elaborado,
“científico”, consistente na ordem liminar daqueles que partem para o exercício da cidadania
pela ocupação de terras. Um direito civil aplicado à revelia dos avanços constitucionais.

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APÊNDICE I – Número de Ocupações de Imóveis Rurais por movimentos sociais em


Goiás, Mato Grosso, Pará e Paraná – 2003-2011

I.1 Número de Ocupações por estado analisado

Tabela 1: Número de ocupações nos estados analisados (2003-2011)

GOIÁS MATO GROSSO


ANO NÚMERO DE OCUPAÇÕES ANO NÚMERO DE OCUPAÇÕES
2003 22 2003 17
2004 36 2004 6
2005 20 2005 10
2006 13 2006 4
2007 20 2007 1
2008 10 2008 1
2009 6 2009 3
2010 6 2010 3
2011 3 2011 5
TOTAL: 136 TOTAL: 50

PARÁ PARANÁ
ANO NÚMERO DE OCUPAÇÕES ANO NÚMERO DE OCUPAÇÕES
2003 20 2003 51
2004 19 2004 45
2005 40 2005 36
2006 35 2006 25
2007 29 2007 17
2008 17 2008 14
2009 43 2009 21
2010 7 2010 8
2011 15 2011 1
TOTAL: 225 TOTAL: 218
Fonte: DATACPT

629 Ocupações

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