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O Atendimento às Adolescentes em Conflito com

a Lei: em Foco as Propostas Educacionais no Rio


Grande do Norte1
The Assistance of Female Adolescents in Conflict with the Law: a Focus on
Educational Proposals in Rio Grande do Norte

La Atención a las Adolescentes en Conflicto con la Ley: las Propuestas


Educativas en Rio Grande do Norte
Rocelly Dayane Teotonio da Cunha
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil
rocellycunha@hotmail.com

Ilana Lemos de Paiva


Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil
ilanapaiva@hotmail.com
Resumo
O presente estudo visa discutir as propostas educacionais voltadas para as adolescentes em
cumprimento de medidas socioeducativas, no estado do Rio Grande do Norte (RN), do período de
1979 a 2014. Para a realização desta pesquisa, utilizou­se a história oral temática e análise
documental. A partir de um roteiro semiestruturado, foram entrevistados oito profissionais que
atuaram/atuam nas três unidades de internação feminina identificadas: Granja Santana, Instituto
Padre João Maria e o Centro Educacional Padre João Maria (CEDUC). A análise documental foi
realizada a partir de documentos da Fundação dos Direitos da Criança e do Adolescente
(FUNDAC), CEDUC e Monografias do Departamento de Serviço Social da UFRN. A análise do
material coletado esteve apoiada nos aspectos teóricos da teoria marxiana e na perspectiva
feminista da divisão sexual do trabalho. Foram identificados três tipos de propostas educacionais: a
educação baseada nos valores cristãos, a educação pelo trabalho e a socioeducação. Os dados
evidenciam que as propostas educacionais, desenvolvidas ao logo de 35 anos de atendimento no
estado potiguar têm sido executadas com base na naturalização do feminino.

Palavras­Chave: Adolescência; Gênero e Socioeducação.

Abstract
This study aims to discuss the educational proposals geared for adolescent girls who are under
socio­educational custody, in the state of Rio Grande do Norte (RN), in the period from 1979 to
2014. In this research, we recurred to oral thematic history and documentary analysis. Following a
semi­structured plan, we interviewed eight professionals who worked or still work in one of the
three female wards identified as: Granja Santana, Instituto Padre João Maria [Father João Maria
Institute] and Centro Educacional Padre João Maria [Father João Maria Educational Center]
(CEDUC). The documentary analysis was performed with documents from the Fundação dos
Direitos da Criança e do Adolescente [Children and Adolescents Rights Foundation] (FUNDAC),
the CEDUC, and from Monographs from the Department of Social Services of the Universidade
Federal do Rio Grande do Norte [Federal University of Rio Grande do Norte] (UFRN). The data
analysis was supported by the theoretical aspects of the Marxian theory and the feminist
perspective on the sexual division of labor. Three types of educational proposals were identified:

Revista Latino-americana de Geografia e Gênero, Ponta Grossa, v. 7, n. 1, p. 77 - 97, jan. / jul. 2016.
O atendimento às adolescentes em conflito com a
lei: em foco as propostas educacionais no Rio
Grande do Norte

education based on Christian values, education for work and socio­education. The data show that
educational proposals, developed along 35 years of social service in Rio Grande do Norte, have
been performed on the basis of the naturalization of feminine.e.

Keywords: Adolescence; Gender and Socio­Education.

Resumen
Este estudio tiene como objetivo discutir las propuestas educativas dirigidas a las adolescentes en
cumplimiento de las medidas socio­educativas, en el estado de Río Grande del Norte (RN), en el
período de 1979 a 2014. Para esta investigación, se utilizó la historia oral tamática y el análisis
documental. A partir de una guión semiestructurado, se entrevistaron ocho profesionales que
actuaron / actúan en las tres unidades de internamiento femeninas identificadas: Granja Santana,
Instituto Padre João Maria y el Centro Educativo Padre João Maria (CEDUC). El análisis
documental se realizó a partir de documentos de la Fundación de los Derechos de la Infancia y del
Adolescente (FUNDAC), CEDUC y Monografías del Departamento de Servicio Social de la
UFRN. El análisis del material recogido se basa en los aspectos teóricos de la teoría marxiana y en
la perspectiva feminista de la división sexual del trabajo. Se identificaron tres tipos de propuestas
educativas: la educación basada en los valores cristianos, la educación para el trabajo y la socio­
educación. Los datos muestran que las propuestas educativas, desarrolladas a lo largo de 35 años de
atención en el estado de Río Grande del Norte, han sido ejecutadas sobre la base de la
naturalización de lo femenino.

Palabras­Clave: Adolescencia, Género y Socioeducación.

Introdução adolescência no país, percebemos inúmeras


referências a essa questão. Exemplo disto são
É inegável que mulheres e homens não as distintas condições relativas aos padrões
ocupam posições igualitárias nas sociedades. de socialização e hábitos na família, na
Exemplos dessa desigualdade aparecem escola, nas ruas, para meninas e meninos. Às
desde cargos e salários inferiores para crianças e às adolescentes do sexo feminino,
mulheres a regras morais que as definem geralmente, foram­lhes destinadas
como boas ou más (SAFFIOTI & brincadeiras associadas às atividades
ALMEIDA, 1995). Sabemos que, mesmo domésticas e ações estritamente vinculadas à
após as conquistas históricas dos movimentos vida privada (MINELLA, 2006). A
feministas, as desigualdades entre os sexos se persistência dessa configuração deve­se à
encontram latentes em pleno século XXI. No divisão sexual do trabalho que, por meio dos
Brasil, marcas dessa desigualdade nos princípios da separação e da hierarquia,
remetem à formação das relações sociais rebaixa o gênero ao sexo biológico e reduz os
instituídas desde o período colonial. As papéis sociais às diferenças sexuais como um
circunstâncias desse período, como projeto destino natural da espécie. Inevitavelmente,
europeu aristocrata e escravocrata, essas condições se reproduzem em diversos
apresentaram­se como elementos decisivos espaços da vida social, e os espaços de
na vida das mulheres, até os dias atuais responsabilização à adolescente autora de ato
(SAFFIOTI, 1979). infracional não se isenta disto. Estudos como
Ao analisar a história social da infância e o de Silva (2013) e Fachinetto (2008), sobre

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jovens das classes populares, têm implicava na intervenção social autoritária,


demonstrado especificidades de gênero nas com vistas a controlar a vida pública e
relações da vida social, não ocorrendo de privada (MACHADO, LOUREIRO &
forma divergente no campo das medidas MURICY, 1978), preocupou­se, desde cedo,
socioeducativas. Em pesquisa sobre as em propor a chamada reeducação das
vulnerabilidades masculinas, Silva (2013) adolescentes, de forma a prevenir
menciona que, os garotos no processo de transgressões que infringissem o exercício
socialização são destinados a desenvolver dos papéis sociais destinados às mulheres.
habilidades assertivas naturais do homem. Com intuito de desvelar a história da
Dentre estas, são primordiais o alheamento execução do atendimento educacional
aos sentimentos, à intolerância ao diferente, e destinado às adolescentes autoras de atos
a consequente incorporação de estereótipos infracionais no RN, resgata­se e discute­se, a
tradicionais. O que ocasiona a desvalorização partir deste estudo, como se desenvolveram
das mulheres e a reprodução histórica de as propostas educacionais das unidades de
opressão ao sexo feminino. privação e restrição de liberdade feminina no
Ressalta­se que este estudo não toma estado potiguar, desde a criação da primeira
como base o conceito de Gênero como instituição destinada às meninas, no ano de
exclusivo para tratar a dominação em relação 1979, até os dias atuais.
às mulheres ao longo dos anos. Prefere­se
utilizar a categoria das relações de gênero ou Método
divisão sexual do trabalho sem uma ruptura
com a ideologia do patriarcado. Posto que, ao O presente estudo fundamentou­se em
adotar a ideologia do patriarcado, ao uma abordagem qualitativa. Os instrumentos
contrário da utilização do conceito de gênero, metodológicos utilizados foram a história
evidenciam­se as estruturas de desigualdades oral temática e a análise documental. A
sociais entre os sexos e, deixa­se claro, o história oral temática é uma técnica que
vetor exploração­dominação discutido por quase sempre equivale ao uso da
Safiotti (2004). documentação oral da mesma forma das
A virilidade como elemento norteador das fontes escritas. Por partir de uma temática
ações masculinas, e a submissão da mulher, específica, não privilegia a subjetividade do
que necessita da proteção deste homem viril, entrevistado, mas foca no esclarecimento de
são elementos presentes na realidade do pessoas sobre algum evento definido
cumprimento de medidas socioeducativas (MEIHY, 1988).
(FACHINETTO, 2008) e também resultam Foram entrevistados oito profissionais que
do patriarcado, inserido nos marcos do atuaram e/ou atuam nas unidades femininas
sistema capitalista, que subordina e explora vinculadas à Fundação Estadual dos Direitos
as mulheres­adolescentes (SAFIOTTI, 2004). da Criança e do Adolescente (FUNDAC),
No estado do Rio Grande do Norte, a que é uma instituição vinculada ao Estado e
institucionalização de adolescentes do sexo responsável pelo acompanhamento da
feminino se desenvolveu concernente a esta execução das medidas socioeducativas em
lógica. Desde a reestruturação da capital, meio fechado. Realizaram­se sete entrevistas
Natal, no período republicano, planejaram­se presencialmente e uma por meio de um
ações de atendimento a meninas em situação software de comunicação via internet, tendo
de pobreza. Sob a égide do processo da em vista que uma das entrevistadas estava
higienização da sociedade brasileira, que residindo no estado de Maine (EUA), no

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período da realização da pesquisa. Além Estar do Menor (PNBEM), às quais coube


disso, foram analisados documentos conduzir as questões relativas às políticas
(relatórios e monografias) referentes às para crianças e adolescentes no Brasil. Nesse
instituições. Os critérios de inclusão para a contexto, no ano de 1979, é sancionado o
amostra neste estudo foram: ter exercido ou Novo Código de Menores que objetivava,
ainda estar em exercício como profissional enquanto legislação, a defesa dos direitos das
das unidades femininas de responsabilização crianças e adolescentes. No entanto, trazia a
ao ato infracional, contando desde a primeira noção do chamado menor em situação
instituição criada no estado do Rio Grande do irregular que enquadrava a população
Norte (RN), e consentir responder ao roteiro infanto­juvenil pobre numa espécie de
de pesquisa proposto para o resgate histórico patologia social (RIZZINI, 1993) e, assim,
do atendimento nas referidas instituições. As junto à FUNABEM e PNBEM favoreceram a
entrevistas foram individuais e registradas internação em larga escala, no país inteiro
em áudio e, posteriormente, transcritas e (RIZZINI & PILOTTI, 2009). Foi nesse
enviadas aos profissionais entrevistados para período que, em Natal, o Instituto Padre João
releitura e eventual alteração. Os dados Maria passou por mudanças estruturais e
foram analisados a partir dos procedimentos reiniciou o seu atendimento.
da história oral temática: transcrição e O Instituto Padre João Maria (IPJM), foi
textualização. A análise ainda tomou como criado em 1912, com a denominação de Asilo
referencial teórico a teoria marxiana e a de Mendicidade Padre João Maria. Sendo
perspectiva feminista da divisão sexual do asilo objetivou atender mulheres, homens,
trabalho, conforme estudos das autoras Hirata crianças e idosos em situação de rua. A partir
e Kergoat (2007). A partir da apreensão dos de 1979, recebeu a denominação de Instituto
dados, apresenta­se, inicialmente, um breve e ficou vinculado como um órgão da
histórico das instituições de atendimento, Fundação do Bem­Estar do Menor do Rio
após, analisa­se como se desenvolveram as Grande do Norte (FUNBERN) (OLIVEIRA
propostas educacionais de cada uma delas. & ARAÚJO, 1979). Com base na Política de
Atendimento à adolescente, conforme
determinação do Código de Menores (1979),
Um Breve Histórico das Instituições de o Instituto passou a atender especificamente
Atendimento: do Projeto Salvacionista à as adolescentes consideradas em situação
Socioeducação irregular, notadamente aquelas que, por
situação da pobreza, estavam abandonadas,
Ao analisarmos a trajetória das políticas carentes ou por envolvimento com a
para infância e adolescência, vimos que a prostituição2 e o uso de drogas (CENTRO
partir de 1964, no Brasil, a assistência à EDUCACIONAL PADRE JOÃO MARIA,
infância passou a ser de competência do 2009).
governo militar. Esse governo via, na questão A criação do IPJM se deu com objetivos
do chamado menor, um problema da marcados pela onda de higienização social,
Doutrina de Segurança Nacional e presente no Brasil, desde o início da
Desenvolvimento, sendo, portanto, objeto de república. Sendo assim, a adolescente que
sua intervenção e normalização (RIZZINI & por quaisquer que fosse os motivos
PILOTTI, 2009). Foi assim que se criou a comercializasse o corpo, ou o fizesse para
Fundação Nacional do Bem­Estar do Menor fins de satisfação pessoal deveria ter como
(FUNABEM) e a Política Nacional do Bem­ destino instituições preparadas para reeducá­

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las. Com isso, o Instituto Padre João Maria, Para profissionais que atuaram na Granja
com metodologia educacional a fim de Santana, a FUNBERN acreditava que essa
recuperar as adolescentes de tais situações, instituição deveria atender às adolescentes
focou­se no trabalho manual, confecção de partindo de uma proposta diferente do
artesanatos e outros exemplos de atividades Instituto. O objetivo desta unidade era
consideradas femininas. desenvolver um projeto que se considerava
No atendimento a essas adolescentes, as diferencial no aspecto educacional,
posturas divergentes àquelas socialmente especialmente para as adolescentes em que o
esperadas para as mulheres também se atendimento no Instituto Padre João Maria
enquadravam como grande preocupação da não estava tendo efeito. A proposta era de
FUNBERN. Para tanto, no Instituto Padre salvação dessas meninas, que vivendo nos
João Maria, as adolescentes foram chamados vícios precisavam de uma atenção
classificadas em duas categorias: as específica.
consideradas meninas fáceis e as meninas No entanto, a proposta do atendimento na
difíceis. Assim como houve a separação das Granja Santana não durou muito. No mesmo
meninas por critério de honra (virgem e não ano, 1979, com apenas um semestre de
virgens) nos recolhimentos do Império, na funcionamento das atividades, o serviço foi
República e no Serviço de Assistência ao extinto devido ao desligamento das freiras
Menor (SAM), em diversas instituições do que coordenavam a unidade e a substituição
país ­ a fim de preparar as futuras mães de do secretário da Secretaria de Assistência
famílias cristãs e mulheres estimáveis por Social do período no RN. Com isso, as
suas virtudes domésticas (ARANTES, 2009) adolescentes retornaram para o IPJM, que
­ em Natal, também houve a necessidade de mantinha o atendimento para as adolescentes
separá­las e classificá­las. em situação de abandono e carência
De acordo com documento do CEDUC (CEDUC, 2009).
(2009), essa separação ocorreu no mesmo Na década de 1980, o Código de Menores
ano de 1979. As discussões em torno dessa já não atendia às exigências da sociedade nos
questão se expressavam como urgência entre serviços de proteção à população infanto­
os profissionais da FUNBERN. Para eles, as juvenil. Nessa década, foi possível reunir as
adolescentes usuárias de drogas e/ou que se principais transformações sociais que
mantinham com a prostituição não eram ocasionaram no reconhecimento da falência
exemplos de posturas adequadas e, devido a da FUNABEM e das FEBEMs e no
isso, não poderiam influenciar as outras surgimento de uma nova política pensada
adolescentes que, por decorrência do para crianças e adolescentes, como sujeito de
abandono da família, encontravam­se na direitos (RIZZINI & PILOTTI, 2009). O
unidade do Instituto. Assim, criou­se a Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
Granja Santana, uma instituição coordenada por meio da Lei n. 8.069, foi promulgado no
por freiras da Congregação Filhas de ano de 1990, e preconizava a Doutrina de
Sant’ana. Esse novo órgão, também ligado à Proteção Integral. Nesse período, no próprio
FUNBERN tinha a finalidade de atender às ano de 1980, a FUNBERN passou a
adolescentes do Instituto, encaminhadas por denominar­se de Fundação do Bem Estar do
critério de classificação: mantinham vícios e Menor (FEBEM), como em outros estados
apresentavam posturas agressivas e do país.
ameaçadoras, portanto, posturas consideradas Nessa fase, o prédio do Instituto, que
inadequadas para mulheres (CEDUC, 2009). funcionava numa estrutura de internato,

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necessitou passar por reformas e foi extinto. Ao analisarmos a historicidade das


Com base em dados do CEDUC (2009) as unidades de atendimento às adolescentes, no
adolescentes foram distribuídas em casas estado do RN, identificamos diferentes
alugadas pela FUNBERN, em Natal e região propostas educacionais que acompanharam o
metropolitana. De acordo com Evangelista percurso histórico da justiça juvenil voltada
(2011), o Instituto Padre João Maria ficou para as meninas: a educação baseada nos
extinto até o final da vigência do Código de valores cristãos, a educação pelo trabalho e a
Menores. A instituição retornou apenas no socioeducação. A partir da análise dos dados,
ano de 1991, de forma precária, após a entendemos que tais propostas não podem ser
promulgação do Estatuto da Criança e do compreendidas como um contínuo, pois, ao
Adolescente (ECA). Em 1993, a unidade foi mesmo tempo em que avança,
novamente desativada. Nesse período, acompanhando as transformações legislativas
considerando que as internas não se no campo da política para infância e
caracterizavam na situação autoras de ato adolescência, também mantém aspectos das
infracional grave, segundo a Lei nº 8069/90 – propostas anteriores.
ECA [...] “as internas passaram a ser
acompanhadas em suas próprias famílias” Propostas Educacionais Voltadas para as
(CEDUC, 2009, p. 01). Meninas em Privação e Restrição de
No ano de 1994, a Fundação Estadual da Liberdade no RN
Criança e do Adolescente (FUNDAC), criada
pela Lei 6.682 de 11 de agosto de 1994, Conforme dados das entrevistas e da
substitui a Fundação do Bem­Estar do Menor análise documental, abordaremos a Educação
(FEBEM), no RN, e o Instituto Padre João baseada nos valores cristãos (Granja
Maria retoma o atendimento às adolescentes Santana), a Educação pelo Trabalho (Instituto
em uma unidade no Complexo do Alecrim, Padre João Maria) e a Socioeducação (Centro
em que houve a junção de quatro diferentes Educacional Padre João Maria), que
unidades da FUNDAC (CEDUC, 2009). acompanharam o percurso histórico da
Com aprovação da resolução nº 016/96, o justiça juvenil voltada para as meninas em
Instituto passou à denominação de Centro todo o país. Analisaremos qual o suporte
Educacional Padre João Maria (CEDUC), teórico dessas propostas e como, na prática,
nome que permanece até os dias de hoje. De foram abordadas.
acordo com Evangelista (2011), um convênio
da FUNDAC com o Ministério da Justiça, A Educação Baseada nos Valores Cristãos
possibilitou, em 24 de setembro de 1998, a
Ao fazer uma releitura das propostas
inauguração de uma nova unidade para o
educacionais empreendidas para mulheres
atendimento das adolescentes. A instituição, a
pela Igreja Católica, no nosso país, de um
partir disso, destinou­se a atender às
modo geral, constatou­se que houve várias
adolescentes autoras de atos infracionais de
iniciativas para criações de conventos,
12 a 18 anos de idade, encaminhadas pelas
recolhimentos e escolas encarregadas de
Varas da Infância e Juventude e os Juízes de
cuidar de jovens mulheres. Dessas
Direito das Comarcas de Natal e dos
iniciativas:
interiores do estado do RN. Baseados na
nova política de proteção integral à a mais carregada de efeitos para elas
adolescente, o Centro Educacional inicia a foi à criação de uma rede de escolas
implantação de uma proposta socioeducativa. católicas sob a direção e

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administração de religiosas. No ensinávamos a cozinhar. Elas


entanto, as religiosas também fizeram também cursos para
ficaram responsáveis pela formação confecção de bolsas, costura, cortes
de crianças e adolescentes, mulheres de cabelo e cursos de manicure.
envolvidas com crimes, idosos, além [Educadora que atuou na Granja
de outras populações que se Santana] [Entrevista realizada no
encontravam em situação de pobreza dia 16 de maio de 2013, Natal, RN].
(LOPES, 2006, p. 170).

No que corresponde ao trabalho com Essas informações são reforçadas pelo


crianças, adolescentes e jovens do sexo relato da religiosa que administrava essa
feminino, ao longo dos anos, as religiosas unidade de atendimento:
prepararam outras mulheres a partir do
discurso religioso, com uma profunda visão Com base na minha experiência nos
tradicional do papel social da mulher Estados Unidos, a proposta
(LOPES, 2006). No trabalho educacional educativa era basicamente
desenvolvido com as adolescentes comunicar para menores infratoras
institucionalizadas, na Granja Santana, é o amor e a bondade. Nós tínhamos
possível enxergar esse viés histórico, poucos meios para trabalhar com
arraigado em todo o país. Em resposta ao esse tipo de meninas com problemas
questionamento sobre quais eram os de conduta. Havia ausência de
objetivos da orientação educacional, uma das atendimento profissional. Lembro­
entrevistadas descreveu: me que a Casa era muito longe das
coisas e para conseguir até um
O código de Menores tinha uma transporte era coisa muito difícil. Aí
função muito de isolamento, da no Brasil era muito diferente dos
privação de liberdade e nós, desse Estados Unidos. Nos Estados
projeto diferenciado, víamos que o Unidos eu era acostumada a
contexto de trabalho com essas trabalhar com muitos profissionais
meninas deveria ser com o trabalho com esse tipo de menina. Eram
voltado sobre a temática da família. psicólogos, psiquiatras, da área do
Então, para educarmos essas serviço social. As meninas eram
meninas, nós dizíamos: aqui é a sua perturbadas mesmo e precisavam de
casa e nós somos uma família. As uma assistência com muitos
irmãs já trabalhavam com mulheres profissionais, mas não tinham.
presas. Tinham experiência desde o [Diretora que atuou na Granja
tempo em que moravam nos Estados Santana] [Entrevista realizada no
Unidos e aqui no Brasil, quando dia 18 de abril de 2014, Natal, RN].
trabalharam na unidade que se
chama hoje Instituto Bom Pastor. Percebe­se, a partir dos relatos, que a
Então, elas trabalhavam a questão proposta educacional da referida unidade se
da dignidade e sempre na baseou, predominantemente, nos valores
perspectiva da família. Quanto a cristãos, no qual o intuito dessa educação se
atividades pedagógicas mesmo, nós focava no reforço dos padrões associados à
tínhamos muitos cursos. Nós as posição socialmente construída para as
mulheres.

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A Educação pelo Trabalho unidades da FUNABEM. Para eles, a troca


de experiência entre os profissionais
Como vimos, a FUNABEM, órgão que possibilitaria a aprendizagem do modelo de
substituiu o extinto SAM, surgiu com a atendimento daquelas unidades padrões para,
finalidade de afastar­se das críticas e ser o posteriormente, instituí­las na sua unidade de
oposto de seu predecessor. Certos de sua trabalho. No Rio Grande do Norte, uma das
incumbência de atuação para o novo órgão de unidades escolhidas para o intercâmbio foi o
atendimento aos menores, a FUNABEM Instituto Padre João Maria. O campo de
deixava evidente seus objetivos legais, no estágio foi a Escola Barão de Camargos e a
qual destacaremos alguns: Casa São Francisco, no estado de Minas
Gerais, devido às características que se
I­ Realizar estudos, inquéritos e assemelhavam com a unidade do Instituto
pesquisas para desempenho da Padre João Maria. Ambas atendiam
missão que lhe cabe, promovendo adolescentes do sexo feminino com conduta
cursos, seminários e congressos, “antissocial e, portanto infratoras ou
procedendo ao levantamento abandonadas pelos pais ou responsáveis”
nacional do problema do menor; (SILVA & LIMA, 1986, p. 25).
II­ Promover a articulação das A proposta a ser implantada à época
atividades de entidades públicas e deveria se preocupar com uma lógica
privadas; pedagógica. Afinal, para o Estado nacional, a
III­ Propiciar a formação, o massa crescente de crianças, adolescentes e
treinamento e o aperfeiçoamento de jovens marginalizados, somada ao caos no
pessoal técnico e auxiliar atendimento no interior das unidades,
necessários aos seus objetivos; reforçavam a previsão dos prejuízos
VII­ Propiciar assistência técnica consideráveis, do ponto de vista
aos estados, municípios e entidades socioeconômico e político. Em documento
públicas ou privadas que a publicado no ano de 1976, a FUNABEM já
solicitarem (LEI N. 4.513/1964, descrevia a sua preocupação com a questão
art.7º). dos chamados menores. Para essa entidade, a
preservação do capital humano (FUNABEM,
Na década de 1980, era perceptível que a
1976b) importava diretamente à ideologia do
FUNABEM, juntamente com PNBEM, não
modelo de desenvolvimento adotado, na
haviam conseguido os objetivos propostos.
medida em que afetava o poder nacional
Nesse período, a incongruência das
(VOGEL, 2009). O poder nacional seria
finalidades da instituição com a ideologia da
afetado, à medida que meninas e meninos da
Segurança Nacional incidia em discussões
nação estivessem despreparados para a lógica
sobre quais rumos essas instituições
do trabalho. Com essa pretensão, a
deveriam tomar para não chegar à extinção.
FUNABEM pretendia disseminar a proposta
Com o intuito de trocar experiências de
de Educação pelo Trabalho, implantada pelo
unidades de atendimento modelos e formar
pedagogo Antônio Carlos Gomes da Costa,
profissionais, a FUNABEM propôs às
desde 1976 (SILVA & LIMA, 1986). Com a
FEBEMs de cada estado “um intercâmbio de
realização do estágio na Escola Barão de
experiências” (SILVA & LIMA, 1986, p. 24).
Camargos, escola em que o pedagogo
Segundo Silva e Lima (1986), foram ocupava o cargo de diretor, a psicóloga
oferecidos estágios aos técnicos de várias retornou ao Instituto Padre João Maria e

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iniciou a implantação da proposta relativo ao trabalho realizado” (SILVA &


educacional vivenciada. LIMA, 1986, p. 28).
Na concepção de Costa (1984), ao definir A partir desses princípios, tentou­se
uma proposta baseada na educação pelo implantar, no Instituto Padre João Maria,
trabalho, inicialmente, é necessário destacar a uma prática pedagógica, “a qual declara que
divergência em relação à educação para o as educandas e educadores têm participação
trabalho. Na primeira perspectiva, a ativa na construção do plano de ação
educanda ou o educando aprende para institucional e na sua execução” (SILVA &
trabalhar, na segunda, no entanto, a educanda LIMA, 1986, p. 30). A assistente social e a
ou educando trabalha para aprender. Para este Pedagoga entrevistadas descreveram esse
autor, a Educação pelo trabalho, em linhas contexto:
gerais, significa educar jovens envolvidos A princípio não existia nenhuma
com infrações utilizando o trabalho. atividade de cunho pedagógico,
depois, a equipe pensou em realizar
Educar é criar espaços para que o com elas trabalhos manuais, tinham
educando, situado concreto e algumas monitoras que
organicamente no mundo, como acompanhavam. Depois de um
sujeito e não como objeto, possa curso que uma das técnicas fez em
empreender ele próprio a construção Minas Gerais, a equipe conseguiu
do seu ser, tanto no nível pessoal, um convênio em uma fábrica de
como a nível social (COSTA, 1984, botões em Parnamirim. Elas
p. 11). colavam aquelas pedras nos botões.
Era um convênio, eles vinham
Sendo assim, a educação pelo trabalho é o buscar as meninas na instituição,
processo educacional produtivo que objetiva depois as deixavam de volta e elas
produzir homens conscientes e aptos para o eram remuneradas. Foi muito bom,
engajamento na classe trabalhadora. Propõe aí abriram uma caderneta de
não apenas utilizar a mão de obra dos jovens, poupança na Caixa Econômica para
mas desenvolver mulheres e homens capazes elas e a gente administrava, por
de serem produtivos e emancipados. Para que elas serem menores de idade
assim ocorra, não poderá ser desenvolvida de [Assistente Social que atuou no
forma desmembrada da participação da Instituto Padre João Maria]
adolescente. A adolescente e/ou o adolescente [Entrevista realizada no dia 23 de
não deve ser excluído da finalidade do setembro de 2013, Natal/RN].
trabalho, da organização e do produto final
que esse trabalho resulta: “A proposta Eu lembro que tinha uma fábrica de
pedagógica – Educação pelo Trabalho – deve botões, a Bonor, era ótimo! O
ser dar de forma participativa, com diálogo e pessoal de lá nos mandavam os
planejamento entre a equipe institucional e as botões e as meninas pregavam. E a
educandas” (SILVA & LIMA, 1986, p. 28). gente repassava uma parte do
São os três princípios básicos desta dinheiro para elas. Elas ficavam
proposta: “(1º) A participação do educando direto dentro de casa, às vezes a
na gestão de trabalho; (2º) A participação do mãe passava muito tempo sem vê­
educando no produto do seu trabalho; (3º) A las, então, elas mesmas juntavam o
participação do educando no conhecimento dinheiro para comprar coisas para

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elas [Pedagoga que atuou no relacionarem a produção com a


Instituto Padre João Maria] forma coletiva que a mesma realiza
[Entrevista realizada no dia 08 de (SILVA & LIMA, 1986, p. 38).
agosto de 2013, Natal/RN].
Além da prestação de serviço para a
Segundo Silva e Lima (1986), o convênio fábrica Bonnor, em algumas ocasiões, eram
da instituição com a fábrica de botões oferecidos para as adolescentes, cursos de
Bonnor constituía o elemento central da Datilografia, de doces e salgados, de pintura
proposta educacional do atendimento às de panos de prato. Segundo relato dos
adolescentes. De acordo com as observações profissionais entrevistados, os convênios
in loco realizadas por essas autoras, as com empresas eram sempre recebidos com
adolescentes costuravam botões em cartelas satisfação, pois havia uma preocupação com
que serviriam à fábrica como mostruários. As a ociosidade das adolescentes.
adolescentes chegaram a trabalhar no espaço Ao longo dos anos, priorizou­se oferecer
da fábrica, mas logo, passam a trabalhar na no IPJM, cursos como confecção de bolsas,
própria unidade, que começa a parecer uma de salgados e doces, pinturas de panos de
mini fábrica. Isso porque, as adolescentes pratos e artesanatos. Embora, saibamos que
passam a ganhar por produção, sem essas atividades contenham seus valores na
“contudo, manterem nenhum vínculo sociedade, a crítica que se empreende aqui é
empregatício com a Bonnor” (p. 33). que, quando se trata de mulheres, há uma
Na realidade, os princípios da Educação nítida invisibilidade do empoderamento
pelo Trabalho logo foram desconsiderados. feminino na perspectiva educacional e
Segundo as autoras citadas, e reforçado pelas profissional. Se analisarmos a perspectiva
entrevistadas, o desenvolvimento da educativa desenvolvida aos adolescentes do
prestação de serviço para Bonnor sexo masculino, ao longo dos anos nas
descaracterizava qualquer proposta unidades masculinas, perceberemos que
educacional. Pois, na prática, as adolescentes estes, frequentemente, foram utilizados
eram meros instrumentos, utilizadas para a também como mão de obra barata no setor
produção da fábrica, em um trabalho produtivo capitalista, no entanto, esse destino
alienado que nada tinha de emancipador. não se estende às adolescentes na mesma
Notamos que na instituição essa situação, que sofrem uma dupla subordinação
consciência individualista (classe (ARANTES, 2009).
em si) é repassada e fortalecida no Conforme apontam Diogo e Coutinho
educando. Exemplificamos essa (2006), são as jovens mulheres as mais
justificativa com o trabalho de excluídas das propostas de qualificação
botões do Instituto Padre João exigidas pela lógica neoliberal, passando por
Maria, onde segundo a instituição é processos ainda mais precários que os
o momento das menores se homens. Como observado, as regras da
integrarem umas com as outras. dominação de gênero perpassam várias
Porém, o que acontece é o aumento esferas da atividade social (SAFFIOTI,
do individualismo provocado pela 2004), e não causa surpresa que os
ansiedade e estímulo que recebem mecanismos de exclusão para mulheres
de produzirem cada vez mais, sejam encontrados na realidade do
aumentando assim a competição atendimento do sistema de justiça juvenil.
entre as educandas, impossibilitando Essas questões nos permitem refletir sobre
o relacionamento e a capacidade de como a ordem neoliberal mantêm e perpetua

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as desigualdades e, consequentemente, os como essas questões se desenvolveram na


processos de exclusão das mulheres em realidade do atendimento no RN. Ainda que a
atividades fora do ambiente doméstico. proposta, segundo Costa (1984), pretendesse
Segundo Hirata (2002), ao analisar demandas ser diferente da educação alienada para o
relativas à situação de mulheres, em diversos trabalho, sendo desenvolvida a partir da
âmbitos, a perspectiva de que as relações gestão participativa e emancipatória das
entre homens e mulheres são sexuadas deve adolescentes, na prática, pelo menos no
ser considerada. Para a autora, essas relações âmbito desta pesquisa, essa proposta reforçou
são “relações desiguais, hierarquizadas, a exploração da força de trabalho feminina,
assimétricas ou antagônicas de exploração e em detrimento de uma ação transformadora.
de opressão entre duas categorias de sexo Além disso, a escolha do tipo de trabalho,
socialmente construídas” (p. 276). De acordo instituído pelo convênio com a fábrica de
com Diogo e Coutinho (2006), a inclusão das botões, indica que, quando se pensa na
mulheres na sociedade, em diversos campos relação das mulheres com o trabalho,
da sociedade, respalda­se nas relações de predomina o direcionamento delas para a
exploração e de opressão do masculino sobre segmentação ocupacional nas áreas de
o feminino. serviços pessoais, domésticos, comércio de
No sistema capitalista, as bases materiais e mercadorias, dentre outros3. Concorda­se
simbólicas de opressão sobre as mulheres se com Diogo e Coutinho (2006) quando
reforçam (ÁVILA, 2013). De acordo com afirmam que essa questão tem raízes
Fonseca (2000), no modo de produção históricas, datadas do início do século
capitalista, o capital dialoga com o feminino passado, com o surgimento da mãe cívica. Há
e com o masculino de forma diferenciada. um reforço da figura materna como a
Nesse contexto, discrimina­se a mão de obra responsável pela preparação física, moral e
utilizada nos postos de trabalho e intelectual das filhas e filhos (RAGO, 1997).
sexualizam­se as ocupações. Discutindo a Utilizando a premissa da velha naturalidade,
divisão do trabalho sob a perspectiva do enfatizavam­se as qualidades das mulheres
gênero, Antunes (1999) afirma: “nas áreas para líderes domésticas.
onde é maior a presença de capital intensivo,
de maquinário mais avançado, predominam A Socioeducação
os homens. E nas áreas de maior trabalho
intensivo, onde é maior ainda a exploração A promulgação do ECA, que preconizou a
do trabalho manual, trabalham as mulheres” Doutrina da Proteção Integral em detrimento
(p. 202). Temos aqui, então, uma estruturação da Doutrina da Situação Irregular, nos anos
do mundo do trabalho que se configura a 1990, enfatizou o direito da criança e do
partir das relações de classe, com adolescente a serviços sociais, e propôs
aprofundamentos de precariedade transformações profundas no sistema de
relacionados à raça e gênero (ÀVILA, 2013). justiça juvenil. A partir dessas
Essa configuração reflete nos processos transformações, a proposta de atendimento
educacionais que objetivam persistir as aos adolescentes, do sexo feminino e
desigualdades existentes nessas relações e masculino, em cumprimento de medidas
ensinar aos mais jovens os comportamentos socioeducativas, passou a priorizar a
adequados para o exercício dos papéis sociais perspectiva educativa (BASÍLIO &
(SAFFIOTI, 1987). Na proposta pedagógica KRAMER, 2011). Com intuito de abandonar
do IPJM, a educação pelo trabalho expressou as velhas práticas punitivas, o ECA causou
uma ruptura ético­política e propôs a

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aplicação de medidas socioeducativas como Na busca dos caminhos possíveis para a


forma de responsabilização e transformação reorientação dos valores, condutas e novas
da realidade das jovens e dos jovens perspectivas para a transformação social,
envolvidos com infrações. com base na Educação Popular, surge a
Nesse contexto, as ações pedagógicas proposta da educação social de rua que se
baseadas nas ideias da Educação Popular, baseou na Pedagogia da Presença e estava
originadas entre os anos 1950 e 1960 voltada para a população em situação de rua
(BEISIEGEL, 1989), tomaram novas (OLIVEIRA, 2007). Nessa perspectiva, o
evidências no Brasil. O cenário do processo educacional integra­se à
acirramento das desigualdades sociais, participação da família e da comunidade.
resultado das consequências do golpe militar Com a aproximação das realidades das
de 1964, até medidas de aceleração da crianças sobreviventes nas ruas, e com os
economia ­ o famoso ‘milagre’ ­ provocou, adolescentes dentro das unidades de
no Brasil, um período de maior crise de sua cumprimento de medidas socioeducativas, o
história afetando diretamente a população foco da educação social de rua é ampliado e
infanto­juvenil (OLIVEIRA, 2007). Com a essa perspectiva passa a ser trabalhada pelas
aprovação de uma política integrada na instituições de acompanhamento das medidas
perspectiva dos direitos humanos, o ECA e socioeducativas (OLIVEIRA, 2007).
sua doutrina propunham ultrapassar a No ano de 2006, a proposta educacional
reprodução do discurso menorista e fundar, da Educação Social de Rua (ESR), bem
na assistência à infância e adolescência, como, as concepções pedagógicas e políticas
ações educacionais que, de fato, resgatadas da Educação popular, orientaram a
promovessem a transformação social formulação dos princípios do Sistema
(BASÍLIO & KRAMER, 2011). Assim, as Nacional de Atendimento Socioeducativo
concepções da Educação Popular ou Social (SINASE). Nesse cenário, os princípios da
começam a se tornar direcionamento dos ERS se incorporam à proposta de
serviços de atendimento a crianças e atendimento no cumprimento de medidas
adolescentes consideradas em situação de socioeducativas e a proposta educacional
vulnerabilidade social. para adolescentes envolvidos com atos
A educação popular ou social se apoia na infracionais deve direcionar esse adolescente
educação dialógica do teórico brasileiro a:
Paulo Freire e tem a finalidade de construir atuar como pessoas, cidadãos e
um projeto educacional mais justo, solidário futuros profissionais, para que não
e humano. Nessa perspectiva, o processo reincidam na prática de atos
educativo é considerado mediador essencial infracionais (crimes e
para mudança de padrões de conduta, modos contravenções, se cometidos por
de vida, atitudes e relações sociais. Propôs­ adultos), garantindo, ao mesmo
se, a partir desta perspectiva, a tratar os tempo, o respeito aos seus direitos
educandos de forma integrada aos contextos fundamentais e à segurança dos
e vivências de sua própria realidade social demais cidadãos (COSTA, 2006,
(WERTHEIN, 1985). Segundo Werthein p.24).
(1985), a realidade social, inclusive, é o
ponto de partida para o processo educacional, Em 2006, com a publicação das diretrizes
que, através da sua disseminação, volta­se a básicas para o Sistema Nacional de
ele, para, enfim, transformá­lo. Atendimento Socioeducativo (SINASE),
formulado pelo Conselho Nacional dos

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Direitos da Criança e do Adolescente dos atendimentos, sobretudo dos


(CONANDA), as unidades e programas que direcionamentos educacionais determinado
executam as medidas socioeducativas devem pelo ECA e reforçado pela Lei do SINASE.
se basear na “diretividade; na disciplina De acordo com o Inquérito Civil nº
como meio; na horizontalidade na 010/2012, movido pela 21º Promotoria de
socialização das informações entre a equipe Justiça da Comarca de Natal (2014)4, há
multidisciplinar; na organização funcional e quase dois anos é de público conhecimento a
espacial para promoção de boas atividades; falência da FUNDAC. As interdições parciais
na participação da família e da comunidade dos Centros Educacionais de Caicó e de
no processo socioeducacional e a formação Mossoró determinadas, devido aos alertas e
continuada de profissionais e na diversidade aos relatórios produzidos pelo Conselho
ético­cultural, de gênero e orientação sexual Nacional de Justiça (CNJ), e a interdição do
como norteadora para prática pedagógica” Centro Educacional Pitimbu pela
(CONANDA, 2006, p. 48 e 49). A prática Corregedoria de Justiça do Estado do Rio
deveria observar os seguintes pontos: Grande do Norte, demonstraram a grave
situação do Sistema Socioeducativo norte­
1º) Prevalência da ação rio­grandense. Com efeito da crise do
socioeducativa sobre os aspectos Sistema Socioeducativo potiguar, não
meramente sancionatórios; poderíamos esperar outro panorama. Com a
2º Deve ter o Projeto Político interdição do CEDUC Pitimbu, ocorrida no
Pedagógico como ordenador de ação dia 13 de março de 2012, por decisão liminar
e gestão do atendimento da Vara da Infância e Juventude, e as
socioeducativo; participação dos condições de insalubridade e insegurança do
adolescentes na construção, no Centro Integrado de Atendimento ao
monitoramento na avaliação das Adolescente Acusado de Ato Infracional
atividades socioeducativas; respeito (CIAD), constatadas neste mesmo ano, os
à singularidade do adolescente, adolescentes da Grande Natal, submetidos à
presença educativa e exemplaridade medida de internação e os inseridos
como condições necessárias e provisoriamente no CIAD, foram
exigência e compreensão na ação encaminhados para outras unidades do
socioeducativa (CONANDA, 2006, sistema. Essa situação trouxe efeitos
p.47 e 48). marcantes para o Centro Feminino.
O Documento Interinstitucional:
Vale salientar que, em 2012, é irregularidades no sistema socioeducativo5,
promulgada a Lei Nº 12.594 que tem o ao fazer um resgate das irregularidades das
objetivo de instituir oficialmente o SINASE e unidades e da própria gestão da FUNDAC,
regulamentá­lo. No Rio Grande do Norte, no oferece algumas recomendações, dentre elas
entanto, a realidade do cotidiano institucional nos interessa ressaltar as que provocam
das unidades de medidas socioeducativas tem mudanças do Centro Educacional Padre João
expressado outra realidade. As inúmeras Maria. Tendo em vista a situação de grave
irregularidades no âmbito da gestão da crise no que se refere às vagas
FUNDAC, bem como, a omissão do Estado disponibilizadas pela FUNDAC, sugere­se,
do RN com relação às violações sofridas por conforme consenso dos participantes, que
adolescentes de ambos os sexos do Sistema Vossa Excelência determine, como medidas
Socioeducativo potiguar, causaram falência emergenciais, as seguintes providências,

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quais sejam: medidas, estando, assim, inconsistente aos


procedimentos de execução de medidas
disponibilizar vagas imediatas para determinados pelo ECA e pelo SINASE.
o cumprimento de medidas A preocupação de entender as propostas
socioeducativas de internação, de atendimento para o gênero feminino, no
sugerindo­se que o Centro âmbito do Sistema Socioeducativo, advém do
Educacional Padre João Maria fato de que os próprios atores do Sistema de
destinado ao cumprimento de Garantias de Direitos da Criança e do
medidas por adolescentes do sexo Adolescente, que são em sua maioria
feminino passe a receber homens, também assumem um papel de
adolescentes do sexo masculino poder nas relações de gênero. No contexto da
(quantidade maior) e as adolescentes execução de medidas socioeducativas,
do sexo feminino sejam remanejadas poucas são as abordagens, do ponto de vista
para outro prédio com estrutura legal e de políticas nacionais, sobre essa
menor, como, por exemplo, o prédio questão. Não obstante, o SINASE determina,
da FUNDAC que fica localizado na em seu décimo eixo, a necessidade da
Rua Adolfo Gordo, abrindo­se adequação das propostas pedagógicas às
temporariamente vagas para pelo diversidades étnico­raciais, de gênero e de
menos 15 (quinze) internações, até orientação sexual:
que o CEDUC Pitimbu seja Questões da diversidade cultural, da
desinterditado (DOCUMENTO igualdade étnico­racial, de gênero,
INTERINSTITUCIONAL, 2002, p. de orientação sexual deverão
11). compor os fundamentos teórico­
O prédio da FUNDAC, referido no metodológicos do projeto
relatório, não se trata do Centro Educacional pedagógico dos programas de
Padre João Maria, inaugurado em 1998, atendimento socioeducativo; sendo
conforme descrevemos anteriormente, trata­ necessário discutir, conceituar e
se de outro prédio. No entanto, esse não foi o desenvolver metodologias que
destino dado às adolescentes. A FUNDAC, promovam a inclusão desses temas,
atendendo à recomendação do Documento interligando­os às ações de
Interinstitucional, transferiu os adolescentes promoção de saúde, educação,
do sexo masculino para a unidade do cultura, profissionalização e
CEDUC Padre João Maria e o atendimento cidadania na execução das medidas
para as adolescentes passa a ser realizado em socioeducativas, possibilitando
uma unidade pertencente à FUNDAC, uma práticas mais tolerantes e inclusivas
rua ao fundo do CEDUC feminino, no (CONANDA, 2006 p. 55).
mesmo bairro.
Em anos anteriores, a referida unidade já Na prática, poderemos encontrar
havia sido utilizada para a realização das realidades que invisibilizam as adolescentes
atividades referente às medidas de e não contribuem para construção de projetos
semiliberdade feminina. Fato que não ocorria de vida aliados aos valores e respeito às
recentemente, pois, sob a alegação da diversidades de gênero e orientação sexual.
quantidade inferior de meninas no Sistema Assim como a realidade de todas as unidades
Socioeducativo, o CEDUC feminino vem do RN, no Centro Educacional Padre João
atendendo, no mesmo espaço, a todas as Maria (CEDUC), não foi construído um

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projeto político pedagógico que orientasse as serem condizentes com as habilidades


ações e o atendimento, o que se mantém até femininas, como por exemplo, a pintura. Para
os dias atuais. essa profissional, nos trabalhos manuais, as
Com base nas entrevistas, evidenciou­se adolescentes se sentem mais realizadas, por
que as atividades pedagógicas continuam serem mulheres.
sendo, predominantemente, manuais e as Ao final da realização deste trabalho,
atividades esportivas não ocorrem com observa­se que a situação continua a mesma.
regularidade. Ao questionar sobre qual era a Para os técnicos, com a inviabilidade da
proposta educacional da unidade, após o FUNDAC de financiar as atividades, as
SINASE, a diretora do CEDUC (do período oficinas e a estrutura, dentre outros fatores,
de fevereiro de 2011 a novembro de 2012) as atividades tem se limitado, basicamente, à
relatou que, logo após a publicação do confecção de bijuterias e realização de
SINASE (2006), a equipe técnica reuniu­se e bazares com o apoio de doadores. Por estar,
realizou um levantamento com as atualmente, funcionando numa pequena casa,
adolescentes do serviço sobre quais a prática esportiva é inexistente e as rodas de
atividades pedagógicas elas gostariam de conversas, ou atendimento individuais,
participar. acabam ocorrendo em setores inadequados
Quando foi publicado o SINASE nós da unidade.
nos reunimos para elaborar Com base nos dados apresentados,
atividades baseadas nos eixos desse percebe­se que as propostas educacionais da
documento. Então, fazíamos um Granja Santana, do Instituto Padre João
levantamento. Elas queriam Maria e do Centro Educacional Padre João
informática. Não tinha informática, Maria, desenvolveram­se com a
porque a unidade não oferecia predominância de atividades que reproduzem
computador, na época. A gente, as tarefas domésticas e/ou exploram
geralmente, tinha material para habilidades consideradas naturalmente
oficina artesanal, então nós femininas. Os tipos das atividades
falávamos: vamos fazer artesanatos. pedagógicas e as oficinas profissionalizantes
Mas, quem dava esses materiais era e os discursos que as acompanham,
a oficineira, ou então, para reproduzem, nas três unidades identificadas,
conseguir mais pegávamos uma os mecanismos de exclusão incidentes sobre
parte dos lucros de bazares que as mulheres nas sociedades. Os dados
realizávamos e comprávamos mais e chamam atenção pelas três propostas
o restante era para elas. Do lucro, educacionais acabarem por limitar as
20% se destinavam a comprar os possibilidades educativas das adolescentes.
materiais e 80% para elas. Todas Atualmente, sob a alegação da falência do
participavam. Elas gostavam muito sistema de funcionamento da atual
de fazer cachorrinho e a vendagem FUNDAC, elas continuam destinadas
era muito boa [Diretora que atuou exclusivamente a trabalhos manuais e
Centro Educacional Padre João repetitivos, com os quais acreditam serem
Maria] [Entrevista realizada no dia social e culturalmente identificadas.
16 de maio de 2013, Natal/RN]. A tabela a seguir apresenta o resumo de
como se desenvolveram tais propostas nas
Para a oficineira deste período, as três unidades de atendimento descritas:
atividades pedagógicas eram escolhidas por

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Tabela 1 ­ Propostas educacionais das unidades para adolescentes autoras de atos infracionais do Rio Grande do Norte).

Proposta Atividades Oficinas Atividades


Unidade de
Educacional pedagógicas profissionalizantes esportivas
Atendimento

­ Aulas sobre ­ Cursos para confecção


de bolsas, cortes,
Educação como cozinhar
costura, cortes de
Granja Santana baseada em ­ Aulas de ­ Nenhuma
cabelo, manicure
valores cristãos alfabetização

­ Curso de datilografia
­ Oficinas de ­ Curso de doces e
Educação pelo Artesanato salgados ­ Jogos
Instituto Padre João Trabalho ­ Aulas de ­ Curso de pintura de
Maria alfabetização panos de prato
­ Prestação de serviço
para fábrica de botões

­ Escolarização
do ensino ­ Vôlei e futebol
Centro Educacional undamental I (2002­2012)
Padre João Maria Socioeducação (1º ano 5º) ­ Nenhuma
(CEDUC) (2000­2002) ­ Nenhuma
­ Oficinas de (atualmente)
confecção de
bijuterias
(atual)1

Percebe­se, ainda, que, no atendimento comportamentos que ameaçassem a opressão


desenvolvido, desde a Granja Santana ao patriarcal.
atual Centro Educacional Padre João Maria, É importante notar que, no âmbito do
deu­se ênfase a uma educação alternativa. atendimento nas unidades femininas,
Evidencia­se que a grande preocupação com observou­se, e ainda se observa, uma
o aperfeiçoamento da raça e ordenamento da naturalização da opressão feminina
nação, instituída nas primeiras ações para a relacionada à ideia da dimensão da família,
infância e adolescência, desde a primeira em particular, no que corresponde aos
república, e evidentemente a moralização da cuidados e ao trabalho doméstico. Não
posição social das mulheres, reforçada pelos obstante, algumas aulas denominadas pelos
ensinamentos cristãos, foram utilizados como profissionais entrevistados por aulas de
justificativas para afastar, no caso das alfabetização, que visavam à instrução
meninas, a criança e a adolescente pobre de formal, restaram às adolescentes oficinas

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que, frequentemente, pautaram e ainda RN, observou­se que houve e ainda há uma
pautam as possibilidades educacionais do versão educacional feminina. No interior das
ponto de vista da inserção social e unidades, são planejados e executados
profissional nas responsabilidades programas educativos que reforçam as
domésticas e familiares. construções sociais sobre as mulheres,
No tocante à política de atendimento às mesmo após os avanços nos paradigmas de
crianças e adolescentes, apesar de textos atendimento.
institucionais e legislativos, como o SINASE, Ao longo da história da política de
introduzirem princípios de igualdade entre os atendimento às adolescentes envolvidas com
gêneros, esses avanços não têm tido efeito na infrações no RN, a representação do
prática. A partir dessa discussão, entende­se feminino foi dada como algo natural. Ao
que o atendimento nas unidades de aplicação desenvolver­se a partir dessa perspectiva, o
de medidas para adolescentes autoras de atos atendimento, nesses últimos trinta e cinco
infracionais, o estado do RN desenvolveu anos, deixou intacta a hierarquização
uma versão feminina. Certamente, não pelos existente na relação social entre os sexos.
motivos que prezam pelo respeito às Segundo Carloto e Mariano (2010), a
particularidades das meninas nesse contexto, invisibilidade sobre a condição social das
mas pelo descaso, ao insistir em naturalizar mulheres tem se incorporado no interior das
aspectos que são da ordem da relação social políticas sociais.
entre os sexos. Temos visto que as políticas sociais, em
diversos âmbitos, não consideram as
especificidades dos sujeitos de forma eficaz.
Considerações Finais Essa situação nos faz reconhecer que,
embora a Política Nacional para Mulheres
Com base na análise dos dados foi
defenda ações de caráter universal, ao
possível apreender que as propostas
mesmo tempo, alerta para a necessidade de
educacionais que embasaram o atendimento
contemplar as demandas específicas das
no RN são reflexos dessa reprodução
mulheres. Com base em Viana (2013),
discriminatória sobre as adolescentes.
quando nos propomos a lutar pela
Sabemos que, com o objetivo de prevenir que
implementação de políticas que respeitem de
crianças e adolescentes considerados
fato as necessidades das mulheres, essas
moralmente abandonados viessem a infringir
devem ser direcionadas para a transformação
as leis, o Estado, desde o início da república,
das condições de vida das mulheres
propôs ocupar suas mentes. De acordo com
promovendo a construção da sua cidadania.
Rizzini e Pilotti (2009), a ideia não era
Dessa forma, no que concerne à política
apenas prover a educação de crianças e
para a infância e adolescência, também é
adolescentes desvalidas e/ou menores, mas
necessário que sejam pensadas ações que
impor uma educação universal e racional
ultrapassem a cultura assistencialista e
condizente a formação do capital humano.
clientelista da assistência social brasileira, e
Como questão crucial para o
que, em sua execução, busque­se novos
desenvolvimento econômico do capitalismo,
impulsos e garantam as condições
essa educação foi proporcionada a meninas e
necessárias para a transformação social das
meninos pobres de forma divergente e
condições de vida das adolescentes autoras
hierarquizada. Com relação à adolescente em
de atos infracionais. Para alcance disto,
cumprimento de medida socioeducativa no
concluímos que há a necessidade da

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produção de mais estudos que questionem a 2 Utilizamos o termo prostituição para


relação social entre os sexos e gêneros no referenciarmos como a exploração sexual de
campo da assistência para crianças e adolescentes era tratada nos documentos oficiais da
adolescentes, no intuito de contribuir com a Fundação Estadual dos Direitos da Criança e do
Adolescente (FUNDAC).
construção de práticas que sejam equitativas
e, simultaneamente, respeitem as 3 Segundo dados do Dieese (2001) são nas
necessidades básicas dos distintos gêneros. áreas de serviços pessoais, domésticos, administração
Para tanto, são necessárias formações que pública, saúde, ensino, serviços, comunitários,
objetivem desenvolver o pensamento crítico comunicações, comércio de mercadorias ou atividades
agrícolas que concentram a maior parte da mão de
sobre o contexto das adolescentes, como obra feminina.
também sobre compreensão social e as
vivências divergentes nas relações de gênero, 4 O Inquérito Civil nº 010/2012 da 21ª
com vistas a superar as práticas Promotoria de Justiça da Comarca de Natal, diz
assistencialistas que reproduzem a respeito a uma Ação Civil Pública com pedido de
tutela de urgência em face das irregularidades
subordinação das mulheres. verificadas na FUNDAC. Disponível em: http:
E, o mais essencial, é necessário que www.mp.rn.gov.br/controle/file/2013.
atuemos sempre a favor das questões das
mulheres como forma de conseguir caminho 5 Esse documento foi produzido pelo
para outro projeto de sociedade, Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte,
Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do
definitivamente sem explorações. Norte, Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do
Entendemos que as relações de gênero se Norte, Corregedoria Geral de Justiça do Estado do Rio
encontram dentro de um complexo social Grande do Norte, Ordem dos Advogados do Brasil –
profundamente afetado pelo sistema do Seccional do Rio Grande do Norte, Fórum Nacional
capital e que apenas a luta feminista não será dos Direitos da Criança e do Adolescente – Fórum
DCA e Conselho Estadual dos Direitos da Criança e
capaz de sanar as discriminações seculares do Adolescente – CONSEC. Disponível em:
direcionadas às mulheres, mas é http://www.mprn.mp.br/controle/file/2012_DOCUME
imprescindível, a partir de uma postura NTO%20INTERISTITUCIONAL_IRREGULARIDA
emancipatória, evidenciar a realidade de DES_SINASE.pdf.
como a desigualdade social e a violação dos
direitos das mulheres se desenvolvem de
maneira especifica para o público feminino. Referências

ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do


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Recebido em 23 de julho de 2014.


Aceito em 07 de maio de 2015.

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