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RESENHAS

Para o estudo do artigo definido antes do pronome possessivo no PT/BR:


algumas observações.
Ane Schei

Traçando primeiramente um panorama histórico, é afirmado que o uso do artigo


definido cresceu também no português brasileiro, mas menos que no português europeu
desde o século XVI. Partindo deste pressuposto, a autora nos guia para a pesquisa de Silva
(1982).
O corpus utilizado para análise da situação do PB atual, realizada por Silva, consiste
em gravações de jovens universitários e alfabetizandos e cartas de leitores e anúncios em
jornais brasileiros no século XIX, fotonovelas e revistas em quadrinhos.
No português de Portugal, o fenômeno aparenta ser de caráter muito mais sintático,
fator que pode ser essencial para a distinção entre o português europeu e brasileiro. Além
disso, em Portugal houve uma generalização do uso do artigo.
Em alguns casos, a ausência de artigo definido é regra, mas foi notado que na grande
maioria dos casos há variação. Segundo Said Ali (1964), o artigo pode ou não ser utilizado. A
investigação de gramáticas tradicionais apresenta a ideia de que, na verdade, o uso do artigo
definido anteposto ao pronome é redundante e também demarca especificidade. A
especificidade, segundo Silva, não torna o emprego do artigo obrigatório, mas favorece sua
presença.
O artigo seria empregado com mais frequência nos casos em que o possuído é [+
específico], ou seja, os casos sem artigo são aqueles em que o falante não necessita destacar
elementos do conjunto, pois a informação já está clara.
A escolha entre usar ou não o artigo parece ser uma escolha inconsciente, levando a
crer que não há pressão social sobre a variação, ao mesmo tempo em que os falantes
provenientes de pais mais instruídos mostraram desfavorecimento do artigo.
Foram analisados uma série de autores com o intuito de detectar o índice de presença
e ausência de artigo definido frente ao pronome possessivo. Dentre estes autores, José de
Alencar (69% de uso do artigo), Macedo (33%), Bernardo (22%) e Machado (96%) foram
demarcados pela autora. Como observado, Alencar só perde para Machado. Uma explicação
para isto seria que Alencar e Machado não estariam utilizando o modelo lusitano, mas um
modelo brasileiro mais moderno, enquanto que Bernardo e Macedo, um modelo mais antigo.
Ao fim do artigo, Schei retoma a ideia de que o PE generalizou o uso do artigo diante do
possessivo e que, por outro lado, no PB é menos frequente, porém, aumentou desde o século
XVI, mas ela afirma que não fica claro como se deu a mudança de variação no PB.

Existe um ciclo de gramaticalização do artigo na Romênia?


Johannes Kabatek

Aqui, o autor aborda o princípio da ciclicidade e o observa dentro das línguas


românicas, como o francês, o espanhol, o galego e o português. Explicando brevemente o que
é gramaticalização, ou seja, o princípio da unidirecionalidade e o da irreversibilidade de
processos de gramaticalização, ou da ciclicidade.
Segundo Josepeh Greenberg, há o ciclo do artigo, que são inicialmente marcadores de
gênero. Greenberg realiza uma escala que vai de 0 a 3, observando o trajeto feito pelo uso do
artigo nas línguas em questão. Tal escala contempla:

0 = demonstrativo
I = identificador geral
II = artigo definido a todos os substantivos (o uso do artigo torna-se cada vez mais
redundante)
III = todos os substantivos (pura marca nominal)

Inicialmente, o autor se compromete a investigar as possibilidades de atuação de


substantivos sem artigo nas línguas românicas e em que posição da escala de Greenberg os
artigos dessas línguas ocupam.
No francês, o ciclo de gramaticalização do artigo é proposto por Martin Harris alguns
anos após os estudos de Greenberg, mas suas conclusões parecem meio precipitadas. Richard
Epsetein se valeu de Harris e Greenberg, argumentando que os substantivos com artigo
podem entrar em oposição com substantivo sem artigo e, desta forma, puras marcas nominais.
Epstein diz que é necessário que se estabeleça uma explicação discursivo-pragmática de usos
e não-usos do grupo.
Dos exemplos de estruturas residuais de formas mais antigas da língua, a diferença
entre o francês moderno e o francês arcaico reside no fato de que no moderno, existe a
possibilidade de somente alguns casos nos quais os substantivos aparecem sem o artigo. Para
Kabatek, o francês representa a língua romanística mais desenvolvida.
Já no espanhol, Amado Alonso propõe que o espanhol moderno não só permite, como
também exige a ausência de artigo. Os casos mais frequentes de substantivos sem artigos são
aqueles que exprimem generalidade parcial. Paul Christopher (1939) diz que o inglês
diferencia os usos da generalidade total e usos da generalidade parcial. Mas ao contrário do
inglês, a generalidade total do espanhol é exprimida pelo uso do artigo definido, enquanto na
generalidade parcial, o artigo está ausente. Ou seja, há menos restrições para substantivos
sem artigo em espanhol do que em francês, afinal, o espanhol aparece em um nível mais
arcaico segundo a escala de Greenberg.
O catalão apresentou resultados muito semelhantes ao do espanhol.
Nas línguas romanísticas, a evolução se dá de maneira diacrônica e linear, onde o uso
dos substantivos sem a presença de artigo ocorrem mais frequentemente em provérbios no
presente gnômico e também no estilo estenográfico dos títulos (artigos de jornal).
No Brasil, há omissão de artigos na linguagem jornalística, sejam eles definidos ou
indefinidos, dentro dos próprios jornais. A omissão de artigo é utilizada, em casos como este,
como recurso estilístico (imediação do substantivo), e está presente em outros tipos de textos
e até mesmo na fala de jornalistas e políticos.
Desde o século XIX, há a discussão que relaciona o emprego do artigo com a
especificidade do PT/BR, mas que nunca fora manifestada na língua escrita até então. Foi a
partir do Romantismo que duas tendências foram ressaltadas: a primeira é a reafirmação do
teor específico do português brasileiro, enquanto a segunda é a unidade lusófona, que
consiste na ideia de tradição comum. Portanto, pode-se afirmar que o fenômeno faz parte do
processo de criação da tradição brasileira.
Há três tipos de não utilização do artigo: a oposição, a neutralização e a omissão.
Portanto, a possibilidade de não fazer uso do artigo é muito mais abrangente no português
brasileiro do que nas outras línguas analisadas. O autor, aqui, chega à conclusão de que o PB
é uma língua bastante arcaica se comparada com as línguas da Península Ibérica.
A conclusão parece surpreendente, já que a língua portuguesa falada no Brasil é
perfeitamente comparável com outros dialetos e línguas românicas. Porém, o PB segue um
caminho próprio, parcial à tipologia das línguas românicas e a conclusão se encerra com a
afirmação de quem nem todas as línguas românicas tem, necessariamente, um caminho
predefinido.

Do Português Clássico ao Português Europeu Moderno: o mapeamento do


artigo
Simone Floripi

O artigo de Floripi parte da premissa do pronome possessivo localizado na posição de


DP dentro da sentença, e que em algumas línguas, como o Inglês, Holandês e Francês, o
possessivo não co-ocorre com o determinante e investigar o uso do determinante em DPs
possessivos do século 16 ao século 19, demonstrando sua evolução no tempo. Porém, em
línguas como o Português, notamos que este fenômeno ocorre devido à não equivalência dos
pronomes possessivos com os determinantes definidos.
A análise de várias línguas permite a autora afirmar, com a observação de que o
pronome muda de acordo com sua posição na sentença e concordância morfológica do
possuidor, que a estrutura interna pode ser comparada à estrutura de uma sentença, pois há
posições específicas para que o possessivo seja realizado de acordo com sua posição na DP.
O papel semântico atribuído ao pronome possessivo no português clássico, assim
como o francês moderno, podem ser dois, mas são homófonos. Os pronomes ainda podem se
comportar ou como adjetivos ou como determinantes.
Schoorlemmer dá embasamento à teoria ao dizer que os argumentos nominais são
gerados na base dentro do NP e podem ser alçados como Spec,PosP, da mesma maneira
ocorre o licenciamento formal dos sujeitos, mas sem a obrigatoriedade de respeito o Princípio
de Projeção Extendida (EPP).
Para observar o fenômeno, a autora utilizou cerca de 23 textos de autores portugueses
nascidos entre o século 16 e 19 e se baseia no trabalho de Silva (1982) e Magalhães (2002):
Século 16
Fernão Mendes Pinto (1510-1583) Perigrinação (52.555 palavras).
Francisco de Holanda (1517-1584) Da Pintura Antiga (52.538 palavras).
Diogo do Couto (1542 - 1606) Décadas (selecção, prefácio e notas de Antônio Baião) (47.448
palavras).
Luis de Sousa (1556 - 1632) A Vida de Frei Bertolameu dos Mártires (52.928 palavras).
F. Rodrigues Lobo (1579 - 1621) Côrte na Aldeia e Noites de Inverno (52.429 palavras).

Século 17
Manuel da Costa (1601 - 1667) Arte de Furtar (52.867 palavras).
António Vieira (1608 - 1697) Sermões (53.855 palavras).
António Vieira (1608 – 1697) Cartas (57.088 palavras).
F. Manuel de Melo (1608 - 1666) Cartas (58.070 palavras).
António das Chagas (1631-1682) Cartas Espirituais (54.445 palavras).
Manuel Bernardes (1644 - 1710) Nova Floresta (52.374 palavras).
J. Cunha Brochado (1651 - 1735) Cartas (35.058 palavras).
Maria do Céu (1658-1753) Rellacao da Vida e Morte da Serva de Deos a Veneravel Madre
Elenna da Crus (27.410 palavras).
André de Barros (1675-1754) A Vida do Padre António Vieira (52.055 palavras).
Alexandre de Gusmão (1675-?) Cartas (32.433 palavras).

Século 18
Cavaleiro de Oliveira (1702 – 1783) Cartas (51.080 palavras).
Matias Aires (1705 - 1763) Reflexão sobre a Vaidade dos Homens e Cartas sobre a Fortuna
(56.479 palavras).
Luís António Verney (1713-1792) Verdadeiro Método de Estudar (49.335 palavras).
Antonio da Costa (1714-?) Cartas do Abade Antônio da Costa (27.096 palavras).
Correia Garção (1724 - 1772) Obras Completas (24.924 palavras).
Marquesa D'Alorna (1750-1839) Cartas e outros Escritos (49.512 palavras).
Almeida Garrett (1799-1854) Viagens na minha terra (51.784 palavras).
Século 19
Ramalho Ortigão (1836 - 1915) Cartas a Emília (32.441 palavras).

Os contextos observados foram:

i) Possessivo em posição inicial


ii) Possessivo em posição inicial mais o Determinante
iii) Possessivo em posição inicial mais a preposição
iv) Possessivo em posição inicial antecedido pela preposição + Determinante
v) Possessivo em posição inicial antecedido pela contração da preposição com o
Determinante
vi) Possessivo precedido por um Determinante
vii) Possessivo precedido por uma preposição
viii) Possessivo precedido por uma preposição e um Determinante
ix) Possessivo precedido pela contração da preposição e Determinante
x) Possessivo precedido por outro elemento qualquer que não um Determinante ou uma
preposição

Preocupando-se em observar as características indissociáveis dos sintagmas nominais


possessivos com a intenção de compreender os mecanismos das mudanças sintáticas, a
análise quantitativa dos dados permitiu que a autora afirmasse, agrupando os dados em
períodos de 50 anos, que o uso do artigo em DPs possessivos demonstra um comportamento
distinto de acordo com o contexto sintático em que é realizado.
Nos gráficos apresentados por Floripi, os casos de DPs em sujeitos e objetos diretos
de um lado e os objetos indiretos e os adjuntos de outro foram agrupados. Pode-se notar que o
comportamento do primeiro grupo mostra casos em que o número de emprego de artigos era
mais elevado desde o início do século 16 com uma pequena variação. Para o segundo grupo,
o número de ocorrências era mais baixo no início do século 16, onde houve um crescimento
posterior no decorrer dos séculos até uma quantidade elevada de uso do artigo no século 18.
Essas diferenças não parecem ser aleatórias, pois justamente os contextos em que se percebeu
melhor a mudança na gramática do PC são aqueles em que se requer uma preposição, como
nos objetos indiretos e nos adjuntos.
O contexto sintático mais utilizado é o de adjunto (adnominal e verbal), portanto, é
neste meio que a língua visualizou a mudança sintática por meio dos dados históricos. Além
disso, o licenciamento da preposição nos adjuntos pode trazer influências e acarretar
mudanças. Em outras palavras, a preposição neste contexto tem papel ímpar para a gramática
da língua.
Ao lado de outras ocorrências, entretanto, o número de adjuntos não tem importância
significativa para a análise, afinal, não é o adjunto que influencia na mudança, mas são os
contextos em que ocorrem uma preposição que nos levam a ver a mudança. Ou seja, o
número de objetos indiretos não invalida o comportamento diferente deste contexto em
relação aos demais, mas a presença da preposição se iguala aos moldes dos adjuntos.
Logo, afirma-se que a preposição desempenha papel importante para a mudança e o
foco do artigo passa a ser a análise de DPs possessivos com relação ao uso ou não de uma
preposição. O gráfico que Floripi apresenta nos permite afirmar que até o século 17, o
número de artigos situava-se num patamar inferior aos de 50% de ocorrência, mas
posteriormente sofreu um aumento, chegando até a 100% de aplicação no DP. Já em casos
em que a preposição não era realizada, o número de artigos sempre foi superior.
De 1650 a 1700, houve variação no uso do artigo. Até 1700, nota-se dois panoramas
de mudança: os casos sem preposição, que são mais livres de influências, foram observados
com 80% de ocorrência do determinante. Entre os séculos 16 e 17, a média de 20% a 30%
das realizações sem artigo correspondem à uma gramática parecida com a do francês, já que o
possessivo possui traços [+ definido] e [+ possessivo] e é alçada para Dº, inibindo o uso do
artigo. O outro caso considera que o restante (de 70% a 80%), correspondem a outros tipos de
gramática com obrigatoriedade do uso de artigo.
Essas duas gramáticas concomitantes para o sistema possessivo do Português Clássico
apresentam, respectivamente, possessivo com marca [+ posse] e [+ definitude] e alojado na
posição Dº e relacionado pela preposição e também outro sistema possessivo, baseado nos
moldes de Brito (2007) e apresenta semelhanças com o italiano, onde o possessivo estaria
dotado de [+ posse] e alojado em Spec,AgrP ou PossP e o artigo apresenta traço [+ definido]
e é alojado em Dº.
No português clássico houve aumento no uso do determinante e a reanálise na
categoria do pronome possessivo do italiano. A gramática do Tipo 1, que se assemelha ao
francês e apresenta de 20% a 30% de ocorrência de possessivo pré-nominal sem determinante
perdeu força ao longo do tempo. Por outro lado, o aumento no uso do artigo houve reanálise
do uso da gramática Tipo 2, semelhante ao italiano, cujo uso de possessivo marca entre os
70% ou 80% de uso do artigo.
Desta forma, Floripi investiga que o pronome [meu] do português clássico passou a
ser analisado como [o meu] em um mesmo núcleo, e apresenta traços [+ definido, +
possessivo], modificando sua categoria antes XP para Xº.

O artigo definido frente a pronomes possessivos na literatura brasileira do


século XIX
Ane Schei

Neste artigo publicado em 2009, a pesquisadora Ane Schei tem o objetivo de detectar
o uso do artigo definido frente a pronomes possessivos pelos escritores brasileiros do século
XIX nos casos em que há uma variação pelo menos relativamente livre. A partir de uma
análise quantitativa, Schei pretende confrontar os dados coletados nesse corpus com aqueles
de Silva (1982), verificando se os fatores elencados pela autora como favorecedores (ou
desfavorecedores) da presença ou ausência do artigo são corroboráveis.
A autora parte de um pressuposto estabelecido: o português europeu (PE), como
verificado em Said Ali (1964) sofreu uma crescente gramaticalização do possessivo
precedido de artigo definido que, com o passar do tempo, tornou-se praticamente obrigatório.
Porém, no português brasileiro (PB), apesar da presença do artigo nessas condições ser
verificável, ela não parece seguir categoricamente uma regra. As primeiras partes do artigo se
dedicam a sustentar essas afirmações a partir dos estudos dos autores citados e do corpus do
Projeto NURC, entre outras fontes.
Os romances elencados pela autora para análise são: A moreninha, de Joaquim
Manuel de Macedo (1844); Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de
Almeida (1854-55); Lucíola, de José de Alencar (1862); O garimpeiro, de Bernardo
Guimarães (1872); Inocência, de Visconde de Taunay (1872); O cortiço de Aluísio Azevedo
(1890); e Dom Casmurro, de Machado de Assis (1899).
A análise quantitativa proposta pela autora parte de uma curiosa separação: a narrativa
dos livros (trechos descritivos e dissertativos) é colocada como centro da pesquisa, enquanto
os diálogos (em oposição à narrativa) são estudados resumidamente e à parte
(presumidamente por emularem uma voz que não a do narrador/escritor).
Alguns fatores são levantados e discutidos como possíveis explicações para a escolha
do uso do artigo definido antes do pronome possessivo, como a existência de uma pressão
normativa (aqui refutada com base nos dados do NURC) e o fator de “especificidade” que,
para Silva, “favorece a ausência do artigo nos casos em que o falante não necessita destacar
elementos do conjunto, pois a informação não é necessária ou já está bem clara” (como em
nomes de parentesco, ex.: pai e irmão). Considerando esse fator de difícil definição, Schei
não o considera neste trabalho.
Apesar do artigo não ser categórico em nenhuma das variáveis elencadas, alguns
fatores levantados por Silva são discutidos posteriormente no artigo de Schei:

- O artigo é menos frequente: no plural do que no singular; quando o possessivo vem depois
de uma pausa (vírgula, em oposição a vir precedido de outra palavra); com o pronome “seu”
do que com os demais possessivos”.
- O artigo é mais frequente: quando o possessivo é precedido de preposição.

Outro importante conceito levantado por Silva é o de “posse inerente/não-inerente”,


muito parecido com o de “posse alienável/inalienável” trabalhado em nossa própria análise.
Em Silva, inerentes são características e objetos obrigatoriamente possuídos (ou que se espera
serem possuídos) na nossa cultura, como “vida”, “alma”, “pente” e “casa”. Já os
não-inerentes são eventualmente possuídos, como “revista” ou “cadeira”. Outras duas
categorias propostas por Silva para os substantivos são “partes do corpo” e “parentesco”.
Porém, considerando essa divisão problemática, Schei não aplica esses quatro grupos no
artigo, analisando somente os fatores “humano não-parente” e “partes do corpo”.
Associado ao nome de parentesco, nenhum dos autores estudados utiliza o artigo
definido em mais de 7% dos casos de possessivo encontrados – o que é surpreendente em
relação a Machado de Assis que, conforme verificado, apresenta preferência quase categórica
(acima de 94%) para o uso do artigo definido em todos os outros casos (com exceção dos
diálogos).
Na análise de Schei, o artigo é bem mais frequente com humano não-parente do que
com partes do corpo, ao contrário da análise de Silva. Outro aspecto diferente nas análises é a
preposição, que para Silva favorecia o aparecimento do artigo e, aqui, se demonstra tão
variável quanto os demais fatores, seja a preposição contraída ou não.
Podemos destacar a preferência consciente de Alencar pelo não uso do artigo, que
defendia esta prática como libertação da língua de Portugal e “uma reação contra o abuso dos
escritores portugueses”. Se para Silva o autor se contradiz em sua afirmação, Schei verifica
que, apesar de ser encontrada uma percentagem relativamente alta da presença do artigo em
seus romances, ela é consideravelmente menor que a de alguns outros escritores analisados.
Ao analisar os diálogos presentes nos romances, Schei se surpreende com um
aumento na frequência do artigo – tendo em vista a suposição de que, até certo grau, refletem
a língua falada, e que o PB apresenta menor uso do artigo que o PE, esperava encontrar uma
frequência menor. Uma ressalva é o menor número de ocorrências dos possessivos nos
diálogos, fator que limita uma comparação mais detalhada.
A partir das considerações finais e da totalidade do artigo da autora, observa-se uma
dificuldade em estimar o quanto os diversos fatores analisados, tanto por Schei quanto por
Silva, produzem efeito sobre o emprego ou não do artigo definido antes do possessivo no
português brasileiro, ou mesmo como interagem um com o outro nessa determinação. A
frequência um pouco maior da predominância do artigo em alguns escritos é assumida
proveniente do uso de um modelo mais moderno do português, ainda que diferente do
emprego lusitano.
Sobre o uso praticamente categórico do artigo em Machado de Assis, Schei conclui
não constituir uma variante natural brasileira e ser fruto de uma adequação à norma europeia
do autor em Dom Casmurro. À alta porcentagem do uso de artigo em Aluísio é atribuída a
mesma possibilidade.

A combinação de artigo definido e pronome possessivo na história do


português
Esther Rinke
O artigo de Esther Rinke, publicado em 2010, se dedica a uma análise quantitativa e
qualitativa do desenvolvimento histórico dos possessivos na língua portuguesa europeia e a
evolução da combinação do pronome possessivo com o artigo definido.
A autora utiliza uma base de 1632 frases nominais do século XIII ao século XX, de
manuscritos originais, inequivocadamente datáveis e localizáveis. Os resultados da coleta
mostram que o artigo passa de quase categoricamente ausente no século XIII para sua
generalização no século XIX.
Interessantemente, segundo a análise de Rinke, autores do século XIX diferem no uso
do artigo definido com os sintagmas nominais possessivos: enquanto Eça de Queirós e
Alexandre Herculano utilizam sistematicamente a combinação, no texto de Almeida Garret os
possessivos ocorrem sem artigo 77% das vezes, demonstrando a existência de dos estados
linguísticos no português do século XIX.
Partindo da observação conhecida de que que o português europeu moderno diverge
do português antigo em relação ao emprego do artigo em combinação com possessivos
(Mattos e Silva 1989, Castro 2006, Ali 1964) – sempre omitido no português antigo do século
XIII, o artigo passou a quase sempre acompanhar o pronome possessivo no PE
contemporâneo.
Discute-se a possibilidade de uma alteração no paradigma dos pronomes possessivos
que, no curso de sua evolução diacrônica, teriam perdido a capacidade de desempenhar a
função de um determinante definido, e também a possível transição do português de uma
língua de genitivo determinante, que não permite a combinação do artigo definido com o
possessivo, para uma de genitivo adjetivo, como o italiano, que permite. Ressalta que as
distinções entre elas não são categóricas e as línguas podem apresentar um comportamento
diferente em relação as propriedades que as diferem. Porém, as observações de RINKE
sugerem que o português, tal qual o italiano, tenha sempre pertencido às línguas que admitem
a combinação do artigo definido com o possessivo.
Rinke discute também a caracterização dos possessivos como adjetivos, feita por
alguns autores, elencando particularidades que os diferenciam, como o fato da colocação do
possessivo em posição pré- ou pós-nominal depender do artigo que o acompanha...
a.​ O meu gato

b.​ a​ lguns colegas meus


...e infere que os possessivos não podem ser classificados como determinantes, pois ocorrem
em posições não argumentais. No português europeu, os possessivos ocorrem tipicamente
sem artigo quando em aposição, formas de tratamentos, vocativos ou contextos predicativos
(em que podem ou não ser usados).
Retomando estudos anteriores, a autora coloca que a mudança linguística em estudo
passa por uma longa fase de variação até o uso de artigo em sintagmas nominais possessivos
se generalizar no português do século XVIII ou XIX.
A autora propõe o artigo como um marcador de tópico discursivo “que se estende a
todos os contextos em que um sintagma nominal com possessivo é interpretado como
definido”, argumentando que o “pronome possessivo com o artigo serve como indicador
inequívoco de um sintagma nominal possessivo definido” – o que depende da caracterização
dos possessivos como não intrinsecamente definidos, apesar de interpretados como tal.
Essa definição se sustenta na ideia de que, em nível discursivo, o artigo corresponde a
familiaridade do referente discursivo – por isso é opcional em casos em frases predicativas
como “aquela senhora é [a] minha professora”.