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Curinga – O Investigador de Alternativas

Por Flavio Sanctum1

Curinga: Além do Baralho...

Nas cartas do baralho, o Curinga é a figura que pode assumir vários


valores no jogo. Muitos utilizam essa nomenclatura para denominar uma pessoa
que pode adotar diferentes papéis, em momentos distintos.
Esse termo era usado por Augusto Boal na década de sessenta, quando
era o diretor do Teatro de Arena. Representava o Sistema Curinga, onde todos
os atores deveriam estar aptos a representar qualquer personagem do
espetáculo.
No Teatro do Oprimido (TO) o Curinga representa o especialista da
metodologia, capaz de aplicar oficinas e palestras, dirigir espetáculos, atuar,
organizar grupos populares, mediar o diálogo entre espetáculo e platéia no
Teatro-Fórum (TF), organizar uma sessão de Teatro Legislativo (TL), entre
outras ações.

As atividades do Curinga estão baseadas na ética e solidariedade,


alicerces da metodologia do TO. Conjugando esses dois pilares, esse
profissional precisa ser capaz de orquestrar as ações de acordo com a
necessidade do grupo social com o qual trabalha.

2
O Centro de Teatro do Oprimido – CTO desenvolve diversos projetos
sociais com o objetivo da disseminação do TO, formando assim multiplicadores
da metodologia em todo o Brasil e no exterior. Os projetos vão de prisões a
escolas, de hospitais psiquiátricos a Pontos de Cultura, além do programa de
Intercâmbio Internacional, onde recebemos vários estrangeiros durante todo o
ano.

1 Pedagogo, Ator, Escritor e Curinga do Centro de Teatro do Oprimido

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O início da formação de um Curinga tem sido através dos projetos da
instituição, na capacitação de multiplicadores. Nesses cursos, ativistas sociais
entram em contato com a teoria e a prática da metodologia, aprendendo
didaticamente como organizar grupos comunitários e produzir cenas de Teatro-
Fórum. Essas pessoas são formadas como multiplicadores, o primeiro passo
para se tornar um Curinga.
Porém nem todos os Curingas têm o mesmo caminho de formação.
Nesse capítulo vou falar um pouco de minha formação como Curinga do Centro
de Teatro do Oprimido, algumas experiências e o que tem mais me
impressionado nesse processo de re-humanização do Ser Humano.

* * *

Grupos de TO: Uma Prática Necessária.

Durante o Mandato Político Teatral de Augusto Boal, de 1992 a 1996,


onde ele se tornou vereador na cidade do Rio de Janeiro, foram formados
dezenas de grupos comunitários para discutir os temas urgentes para a
população. Os grupos provinham de comunidades, igrejas, universidades,
sindicatos e grupos organizados do movimento social, onde o maior objetivo
era o debate com a população e a criação de leis através do Teatro Legislativo.
Um desses grupos se formou dentro do movimento homossexual, do
qual eu fazia parte. O grupo foi denominado GHOTA (Grupo Homossexual de
Teatro Amador) e montou-se uma cena sobre a violência policial e o
preconceito no trabalho e na família. Eu atuava como ator nesse grupo,
colaborando na montagem da encenação e na discussão teatral.

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www.ctorio.org.br

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A peça se passava no apartamento de um homossexual e uma travesti
que aguardavam a chegada de Maurício, namorado de um deles. Quando os
três se encontravam falavam sobre seus problemas. O primeiro a falar era
Antonio Carlos, que se lembrava do constrangimento sofrido por ele numa
entrevista de emprego. Seu currículo era o melhor, mas por ser homossexual o
empregador não o aceitava na empresa. - Você não tem o perfil de nossa
empresa! – dizia o empregador.
Pâmela, a travesti moradora do apartamento, continuava a história,
dizendo ter sido violentada por um policial enquanto fazia “pista” (prostituição).
Ela ia dar queixa na delegacia, mas só conseguia ser humilhada por todos. O
delegado só iria registrar a queixa se ela desse dinheiro a ele. Mas Pâmela não
aceitava a oferta de suborno, queria ser tratada como cidadã. – Sabe quando
homossexual vai ser cidadão nesse país? Nunca! – dizia o delegado junto com
os policiais. Ela terminava presa pelo próprio agressor.
Os três amigos queriam esquecer os problemas e comemorar a vinda de
Maurício para morar no apartamento com eles. Porém o proprietário do imóvel
não aceitava mais um homossexual em sua casa. – O que os vizinhos vão
pensar?! – dizia o senhorio.
O espetáculo acabava com Maurício sendo pressionado a abandonar o
apartamento, sob ameaça de expulsão de todos.
O GHOTA se apresentou em diversos grupos de emancipação
homossexual, além de escolas, praças, hospitais, parques públicos. Todo o
debate com a platéia era seguido de Sessão Solene Simbólica de Teatro
Legislativo, onde a platéia sugeria propostas de leis contra a homofobia. Nesse
processo de apresentações e debates surgiu uma lei municipal que pune todo
estabelecimento comercial que tratar o homossexual com desrespeito e
preconceito.
Depois do término do mandato de Boal, o grupo GHOTA se desarticulou
e encerrou as apresentações no Dia Internacional de Luta Contra a AIDS em
1996.
Iniciava nesse grupo minha formação como Curinga. Não ainda
diretamente, pois apenas participava do grupo. Porém com essa participação,

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acompanhando as discussões com a platéia, o debate através do Teatro
Legislativo, ia compreendendo como se dava aquela forma diferente de se fazer
teatro e mobilização social. O processo de aprendizagem não se dá de forma
retilínea e sim complementando vários conhecimentos que adquirimos com
nossas experiências. E a vivência com o GHOTA contribuiu para que me
tornasse o Curinga que sou agora.
Mesmo distante dos palcos e da discussão com os espectadores,
continuava a participar de oficinas ministradas por outros Curingas do Centro
de Teatro do Oprimido. Nessa época o mandato de vereador de Boal havia
terminado e os poucos Curingas que resistiram a dissolução do gabinete
criaram o CTO enquanto organização não governamental.
Pouco tempo depois foi organizado o grupo Artemanha e voltei a ser ator
da instituição. Nesse grupo participei da montagem de dois espetáculos. O
primeiro chamava-se Fruto Proibido e se passava numa festa de casamento.
Na primeira cena, o personagem Seu Jorge pressionava o filho Jorginho
para casar-se. A pressão era tamanha que Jorginho não agüentando,
declarava-se homossexual. No início o pai não acreditava e propunha que o
filho fosse a um psiquiatra. – Eu não estou doente pai, eu sou assim e não
posso mudar. – falava Jorginho, que ainda era acusado de estar com AIDS por
ser gay. O pai humilhava o filho com diferentes xingamentos. – Viado, maricas,
bicha, vento livre, chibungo, corredor da floresta, Bambi, frutinha, florzinha,
padeiro esquecido, queima rosca, dá marcha ré no quibe, pula poçinha, você é
um paneleiro?! – dizia o pai, finalizando com um tapa na cara de Jorginho. No
final da cena Jorginho era expulso de casa, como acontece freqüentemente
com muitos homossexuais.
A peça prosseguia com Rose confessando a seu amante Raimundo que
estava grávida. Esse a humilhava e ameaçava agredi-la, caso não abortasse a
criança. – E vou machucar mais ainda se você não me obedecer! – dizia
Raimundo no final da cena.
A peça ainda tinha cenas sobre o direito do portador do vírus HIV
trabalhar e o sigilo de sua sorologia, além de discutir também o tratamento do
soropositivo no âmbito familiar.

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Com o passar do tempo, fui iniciando minha atividade como Curinga,
ainda dentro do grupo Artemanha. Aos poucos ia aplicando alguns jogos,
liderando discussões, sempre tendo a supervisão da Curinga do grupo, Helen
Sarapeck.
Quando o grupo decidiu montar um novo espetáculo tive a oportunidade
de arriscar e aceitei o convite para ser Curinga Comunitário. Por isso decidimos
coletivamente que eu não faria parte do espetáculo, e sim estaria no posto de
Curinga Assistente, apoiando Helen na construção da nova peça, na produção
teórica e no debate com a platéia. Criamos o espetáculo Vícios.

Fazer parte de um grupo popular de Teatro do Oprimido tornou-se o


diferencial na minha formação, pois pude vivenciar a montagem de espetáculos
de Teatro-Fórum, sessões de Teatro Legislativo, muitas apresentações e
momentos importantes do mandato de Boal. Primeiro com o grupo GHOTA e
depois com o grupo Artemanha.
Participar de oficinas e grupos populares é de extrema importância na
formação de um Curinga, pois é o momento de experimentar e sentir os
exercícios e jogos. Aplicar uma atividade não tem a mesma acepção que
executá-la, se entregando e vivendo o jogo. Para orientarmos os participantes
em nossas oficinas de que nossos músculos precisam ser desmecanizados, que
os sentidos precisam ser reativados para melhor percebermos o mundo,
precisamos que essas sensações sejam registradas em nossa memória corporal.
Um bom Curinga é aquele que realmente pratica os jogos e exercícios do
arsenal do TO.
Claro que para toda regra há exceções e o que escrevo aqui não deve
ser interpretado como uma Bíblia ou leis pétreas, que nunca podem ser
revogadas. Há vários Curingas pelo mundo que não passaram pela experiência
de participar de grupos comunitários. O que descrevo aqui é minha vivência, o
processo que passei para me tornar um Curinga.

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Agora devo afirmar que uma experiência importante, que se adquire
somente participando ativamente de grupos de TO, é como se dá a
interpretação numa cena de TF e como se deve agir na hora do Fórum. Através
de técnicas, discussões internas, improvisações, o elenco se prepara teatral e
politicamente para o debate com a platéia, que precisa ser sincero na busca das
alternativas para os problemas representados. É de responsabilidade do
Curinga esse processo de discussão espetáculo-espectadores, onde se investiga
soluções concretas para a diminuição da opressão apresentada.

Através dessas experiências práticas o Curinga tem maior facilidade de


lidar com conflitos surgidos nos grupos ou oficinas. A organização de um grupo
de pessoas, com diferentes características e personalidades é algo bastante
delicado. É preciso discernimento e autoconfiança do Curinga para manter o
grupo coeso e com a meta da transformação social. Um grupo de Teatro-Fórum
não pode ser vazio ideologicamente, ter somente interesses artísticos de
atuação e apresentações sem uma ligação com a transformação da realidade.
Quem faz TO precisa ter clareza dos objetivos da metodologia: A
Transformação da Realidade através do processo estético!
Claro que toda essa prática precisa estar fundamentada na teoria do TO,
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que é uma metodologia orgânica. Estudando a Árvore do Teatro do Oprimido
vemos que esse sistema teatral se nutre das ciências humanas, tendo em suas
raízes os pilares da Estética do Oprimido – Imagem, Palavra e Som. O Curinga
precisa conjugar suas experiências práticas com essa teoria, em constante
construção. O Teatro do Oprimido é um método vivo! Uma pessoa não pode ser
Curinga apenas lendo os livros de Boal ou tendo defendido teoricamente uma
tese científica. A prática dessa metodologia é cláusula pétrea para a formação
de um especialista em Teatro do Oprimido.

Parafraseando o filósofo Crátilo e o próprio Augusto Boal, o ser humano


está em constante processo de transformação, ninguém é o mesmo cada
segundo depois. Assim também é o Curinga, seu processo de formação é

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Metaxis nº 4 – Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto – págs: 73,74,75.

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ininterrupto, enquanto estiver vivo, praticando com paixão o Teatro do
Oprimido. Por enquanto não há um curso específico ou matérias didáticas
organizadas num currículo acadêmico, apesar da importância da formação
intelectual do Curinga. O ato de viver, de se relacionar com o mundo, com suas
experiências, esse turbilhão de atividades e teorias, experimentos, convivência
com o outro, percepção e reflexão de sua prática, produção teórica, são os
elementos que atuam na formação de um Curinga. Ser Curinga é, antes de
tudo, ser Humano!

* * *

Teatro-Fórum: Ética, Solidariedade e Responsabilidade

O Curinga é um artista com função pedagógica, que utiliza sua


sensibilidade ética para ajudar o oprimido encontrar a melhor forma de dizer o
que deseja. Muitos grupos sabem claramente o que querem, mas não
conseguem encontrar o caminho estético para traduzir em teatro suas
necessidades.
Descobrir esse caminho é função árdua e complexa, pois há o perigo de
se tornar autoritário ou assumir uma função de diretor, no mau sentido da
palavra – direcionando. Diferente do diretor de teatro convencional, que
concretiza no espetáculo a criação produzida por suas idéias, o Curinga/diretor
de Teatro do Oprimido precisa descobrir como fará com que o grupo se
comunique esteticamente com a platéia e diga o que deseja por si mesmo.
Uma das formas utilizadas para atingir esse objetivo é através do
questionamento. A maiêutica serve para fomentar a discussão e descobrir o
que o grupo ou a platéia pensa sobre determinado assunto. Essa é uma grande
dificuldade de muitos Curingas em formação, pois têm ansiedade de darem as

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respostas prontas, sem ouvir o que o grupo pensa. O escutar é uma
característica essencial para encontrar as respostas para o tema proposto pelo
grupo. Se fazemos as perguntas, precisamos ouvir as respostas...

Na construção de uma cena de Teatro-Fórum, um dos momentos mais


instigantes e preciosos é na escolha da história que o grupo encenará. Em
minhas experiências como Curinga de oficinas e grupos, percebo que o espaço
ocupado por nós, nesse momento deve ser de analisar qual história tem
ressonância com todo o grupo, se atendo à Dramaturgia do Teatro-Fórum4.
Não existem histórias boas ou ruins na montagem de um espetáculo e
sim aquelas que se encaixam ou não na dramaturgia específica do Teatro-
Fórum. Como o TO é um sistema coerente, tem suas regras e finalidades
estabelecidas. Uma história talvez possa não se encaixar no Teatro-Fórum, mas
ser ótima para o Arco-Íris do Desejo, por exemplo. Tudo dependerá das
relações entre opressor e oprimido e do desejo do protagonista em questão.
O grupo conta diversas histórias de opressões, vividas por eles, que não
tenham conseguido resolver. O Curinga tem a função de organizar as histórias
contadas e encaminhar o grupo na escolha daquela que esteja de acordo com
as regras da dramaturgia do TF e que seja nevrálgica e urgente para o grupo.
A escolha de um tema é também uma escolha política. O grupo precisa
ter consciência de que estará levando uma pergunta para a platéia, com o
objetivo de encontrar saídas para tal problema. A história pertence agora ao
coletivo e não mais a pessoa que a contou.
No Projeto Teatro do Oprimido nas Escolas, estava em um bairro pobre
do Rio de Janeiro, trabalhando com professores e alunos de escolas públicas.
No decorrer das oficinas, fazendo os exercícios, contando as histórias, fui
percebendo que muitos participantes nunca se consideravam opressores em
seu cotidiano, somente oprimidos. Na maioria das vezes vemos a situação no
nosso ponto de vista – somos aqueles que sofreram as opressões, o contrário é
sempre mais difícil de perceber.

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Vide Jogos Para Atores e Não Atores de Augusto Boal.

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Um determinado grupo contou várias histórias, a maioria ligada à
violência no bairro e à falta de comunicação entre professores e alunos. O
grupo escolheu a crucial, que precisava ser discutida com o público.
A cena seria sobre um aluno que queria usar o uniforme escolar de
forma negligente, com boné, bermuda, mas a professora não aceitava. Não
ouvindo seus avisos, o aluno continuava usando tais roupas em sala de aula e a
professora o levava à diretoria. O aluno terminava a cena ameaçando a
professora de agressão. – Eu sei onde seus filhos estudam, eu sei onde a
senhora mora! O pessoal da favela vai procurar a senhora! – ameaçava o aluno.
Quem seria o oprimido naquela cena? O aluno, que fora advertido pela
professora, ou a professora, que sofrera ameaças?
Para o jovem que contou a história estava clara a situação que passara.
Sentia-se castigado injustamente, por isso ameaçara a professora. Não
entendia que eticamente estava equivocado com sua atitude agressiva. O grupo
estava dividido. Muitos concordavam com o aluno dizendo que a professora
merecia ser punida, seria um ato de legítima defesa do jovem. Defesa ou
vingança, perguntei ao grupo. Silêncio... Outros iam de acordo com a
professora, dizendo que a ação dela seria uma conseqüência dos atos
anteriores do aluno. Que o aluno sabia que usar boné na escola era proibido,
por isso havia sido reprimido.
Como Curinga, deixei a discussão fluir e usei o instrumento que para
mim revela pensamentos, atitudes e sentimentos que o consciente muitas vezes
esconde – o Teatro. Montei com eles a cena para improvisarem. Escolheram os
papéis e o jovem que narrou a história quis reviver sua vida, faria o aluno, dito
oprimido.
A encenação aconteceu de forma forte, pois a atriz que interpretava a
professora conhecia aquele tipo de relação, onde alunos ameaçavam
professores por morarem em favelas ou sentirem-se injustiçados nas
avaliações. Foi uma luta cênica, onde os argumentos eram golpeados no palco,
como num ringue de boxe. Os demais participantes da oficina anotavam falas
importantes, criavam poesias, sons e imagens para a cena simultaneamente.

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No final da improvisação nada foi dito. Todos permaneceram quietos,
esperando que eu dissesse algo. Perguntei às pessoas o que acharam e qual o
motivo do silêncio.
A maioria do grupo havia encontrado o verdadeiro opressor. De acordo
com os poemas, as pinturas e todo material estético produzido, muitos
perceberam que o desejo da professora era dar sua aula, sem ser interrompida
pelo aluno bagunceiro. Quem interpretou a cena sentiu algo semelhante, pois o
aluno era agressivo e perdera a razão várias vezes com a professora. No final
da discussão, o rapaz que contou a história pediu para falar.
Estava com os olhos flébeis e muito envergonhado. Disse de cabeça
baixa que nunca tinha se notado opressor em sua vida. Nunca tinha imaginado
que sua professora queria somente dar aula, e que agora percebera que estava
incomodando-a e a todos da turma. Que realmente a ameaça tinha sido por
vingança, mas estava cego e percebia a realidade somente pelo seu ponto de
vista. Que o teatro abriu seus olhos.
De acordo com Moacir Gadotti, importante educador brasileiro, “o ponto
de vista do oprimido é mais verdadeiro do que o ponto de vista do opressor,
porque o oprimido nada tem a esconder enquanto que o opressor necessita
esconder o seu jogo, suas manhas e artimanhas para continuar oprimindo.
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Contudo, o oprimido não se libertará sem libertar o seu opressor.”
Um passo importante para quebrarmos uma opressão é a consciência de
que podemos ser oprimidos e opressores. Não somos anjos, nem trabalhamos
no TO com maniqueísmos. O oprimido não é o bonzinho e o opressor o
malvado. Todos somos seres humanos e estamos pretensos a oprimir. O TO é
uma forma de revelarmos esses momentos para mudarmos nossas atitudes.
Buscando uma consciência ética, podemos escolher não sermos opressores,
lutando contra nossos opressores inconscientes.
Óbvio que há os opressores clássicos - antagônicos, que sabem que
oprimem e querem permanecer com o status que possuem. Com esses não
queremos trabalhar, pois temos a função política de destruí-los. Diferente de
uma mãe super protetora, que não permite que a filha namore por ter medo da

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Metaxis nº 3 – Teatro do Oprimido nas Escolas – pág: 43.

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gravidez precoce, ou de uma professora que é impaciente com o aluno por ter
baixos salários e trabalhar estafantemente. Ou ainda de um marido que é
machista e alcoólatra por pertencer a uma sociedade cruel e patriarcal que nos
engole a cada instante, ditando como devemos agir para sermos homens de
verdade. Nesses casos vemos uma possibilidade de transformação, pois muitas
vezes essas pessoas não têm consciência de que são opressores e que suas
ações fazem outras pessoas sofrerem. Diferente de um dono de fábrica que
oprime seus operários com salários ínfimos e quer ficar cada vez mais rico, ou
alguém que explora outra pessoa e usa seu poder para diminuí-la ou coagi-la.
Nesses casos queremos descobrir os pontos fracos do opressor para lutarmos
contra eles.

Quando fazemos Teatro do Oprimido já escolhemos um lado, o do


oprimido. Fazer TO é uma decisão política e ética! Essa escolha é de todos os
praticantes de TO, nos mais de setenta países onde é praticado.
Voltando à Árvore do TO podemos verificar que temos como base a ética
e a solidariedade. Para praticarmos esse método precisamos ter consciência e
utilizá-lo para a libertação do oprimido. Não adianta fazermos jogos do arsenal
do TO, montarmos cenas que discutam problemas sociais e a platéia participar,
se estivermos com objetivos díspares aos da metodologia. Trabalhando, por
exemplo, para empresas domesticarem seus funcionários e fazê-los trabalhar
mais por salários menores. Desta forma não estaremos praticando o Teatro do
Oprimido. Podemos chamar de teatro social, teatro para o desenvolvimento
humano, teatro pra isso ou aquilo, mas não Teatro do Oprimido. O Curinga
precisa estar atento para, com base na Ética, utilizar esse sistema teatral para
oportunizar que oprimidos possam dialogar sobre suas questões e modificarem
suas realidades. Como diz Boal, o Teatro do Oprimido é do oprimido, para o
oprimido e feito pelo oprimido!

Quando um grupo de oprimidos escolhe o tema que irá trabalhar, é


necessário que fique claro a parcela de responsabilidade que cabe ao grupo. O

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Curinga não pode, nem deve assumir sozinho nenhum risco sobre o assunto
que o grupo define discutir cenicamente.
Trabalhei com presos e policiais no Projeto TO nas Prisões. Fizemos
oficinas de formação de multiplicadores e os agentes penitenciários aplicavam a
metodologia para outros funcionários e presos. A equipe de Curingas do CTO
acompanhava todas as atividades. Numa dessas visitas técnicas, no Nordeste
brasileiro, um grupo de presos queria denunciar através do Teatro-Fórum, os
maltratos que sofriam naquela penitenciária.
O multiplicador estava apreensivo, pois sabia que abordar aquele tema,
naquelas circunstâncias, seria perigoso. Certamente haveria retaliação por parte
da direção do presídio.
Eu e o Curinga Geo Britto chegamos ao presídio bem cedo. Precisávamos
conhecer o grupo, assistir a peça e dar o suporte artístico. Como ainda
estávamos no processo de formação, algumas cenas precisavam de melhorias
na dramaturgia e na imagem, antes de serem apresentadas ao público. Nesse
caso o problema maior era na forma de apresentar o tema. Como falar de um
assunto importante, urgente de ser transformado, sem sofrer conseqüências
perigosas?
Assistimos a cena e no final ficamos emudecidos. A potência da peça, da
história sofrida por aqueles homens ainda tentava descer por nossa garganta.
Era muito difícil presenciarmos atos desumanos de crueldade que apareciam na
encenação. O teatro é uma representação da realidade e aquela representação
era dura e cruel.
O grupo, além de encabulado e ansioso, estava feliz com nossa
presença. Queriam apresentar aquela cena para outros presos e para toda
sociedade no teatro municipal da cidade.
Che Guevara dizia que ser solidário é assumir o mesmo risco. Nós, como
profissionais, não podíamos assumir os riscos que aquele grupo estava prestes
a correr. Eles precisavam ter consciência de que o tema poderia trazer
desdobramentos indesejosos para eles, pois nós voltaríamos para o Rio de
Janeiro.

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Perguntamos se eles tinham clareza do que apresentavam em cena e se
assumiam a responsabilidade do que poderia ocorrer. Muitos ficaram
temerosos, é claro. O tema era importante, premente, mas perigoso. Era uma
denúncia de maus tratos, de abuso de poder, de humilhação e falta de direitos.
Mas como revelar algo tão fundamental sem colocar em perigo os participantes
do grupo?
Combinamos de falarem do mesmo assunto, de forma metafórica.
Fizeram então, uma alegoria, como se tudo passasse num castelo com rei e
rainha, onde os plebeus representariam os presos. O rei oprimia o povo,
mandava para masmorra, tudo com músicas e imagens fortes que
representavam aquela opressão. Conseguiram discutir com toda a sociedade
sem se arriscarem diretamente. Claro que quem fosse esperto perceberia que
falavam do problema no sistema penitenciário, mas nada era direto. O debate
foi feito e o multiplicador perguntava se aquilo só poderia acontecer na peça. E
a platéia fazia ligações com a realidade e entravam em cena para responderem
as reais questões daqueles presos. O evento foi um sucesso e os presos
puderam debater sua realidade sem arriscar a vida.
Num outro projeto realizado na periferia da capital do Espírito Santo, as
histórias que presenciamos não eram nada santas. Crianças contavam aos
multiplicadores situações de opressão que passavam o limite chegando à
agressão e violação dos direitos infantis. Um garoto contou a mim e à Curinga
Claudete Félix que era agredido por um policial todos os dias ao voltar da
escola. Uma professora ainda tentava ajudá-lo sem sucesso. Como podíamos
montar uma cena teatral com aqueles elementos e voltarmos para casa, como
se toda aquela realidade fosse fictícia? Como fingir que tudo era teatro e nos
contentarmos com as intervenções da platéia ou a discussão fervorosa que a
cena causaria? O abuso, o desrespeito, continuaria impune. Ainda teria um
policial nas ruas utilizando sua farda como escudo para violentar crianças.
Concordo com Helen Sarapeck, Coordenadora Artística do Centro de Teatro do
Oprimido, quando diz que “precisamos guerrear contra a tentativa de destruir o
ser humano ainda na semente, na fragilidade do princípio da vida, na
ingenuidade dos sonhos, que transforma o pequeno ser em um adulto

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marcado, fragilizado e sem sonhos.”6 Fazer Teatro do Oprimido é dar-se conta
de que se é humano e se vive. Mas não podemos concordar com tais
agressões e nem nos contentar em só fazer teatro.
O primeiro passo que questionamos era como colocar tal questão em
cena, sem expor as crianças do grupo e principalmente o jovem que contara a
história. Diferentemente do caso dos presos, crianças não podem assumir
responsabilidades sobre seus atos. O Curinga precisa se aliar a outras
instituições para se fortalecer e apoiar a criança e a família, até porque nesses
casos a família também corre risco de vida.
Para Bárbara Santos, Coordenadora Geral do Centro de Teatro do
Oprimido “Curingas ou Multiplicadores não podem ignorar o pedido de socorro
feito por um grupo de crianças, mas, ao mesmo tempo, tem que agir
estrategicamente.” E ela vai além, dizendo: “Se acaso atuar com grupo de
crianças em situação de risco social, minha obrigação ética é promover a
solidariedade, buscando parceiros que me ajudem a construir alianças que
criem uma rede de proteção, de estímulo à reflexão pública e de apoio à
7
superação de realidades opressivas.”

* * *

Multiplicação: Escutar, Investigar e Concretizar Ações

Toda cena de Teatro-Fórum é uma pergunta. Um grupo popular


pergunta à platéia quais são as alternativas e resoluções para determinado
assunto, a ser transformado com urgência. Assim como o grupo, o Curinga
precisa estar sinceramente aberto para ouvir as respostas da platéia. Não
somos neutros, temos nossas opiniões, mas esperamos respostas para as

6
Metaxis nº 5 – Fábrica de Teatro Popular Nordeste. Pág: 57
7
Metaxis nº 5 – Fábrica de Teatro Popular Nordeste. Pág: 61

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perguntas formuladas pelo grupo através da cena. Escutar e valorizar essas
respostas é de suma importância no trabalho com o TO.
Através das respostas teatrais, apresentadas no momento do Fórum, ou
das sugestões legislativas, surgidas numa sessão de Teatro Legislativo (TL), o
Curinga organiza com o grupo momentos de reflexão e debates, pois algumas
das alternativas propostas pelo público pode ser o caminho para a resolução do
problema encenado. No Teatro Legislativo encaminham-se as propostas de leis
às autoridades competentes, a fim de que surja uma lei concreta contra a
opressão apresentada.
Essa ação de orquestrar a platéia, mediando o diálogo entre
espectadores e cena chama-se Curingagem. O ato de Curingar não transforma
ninguém em Curinga, mas é um exercício essencial na sua formação.

Nos projetos do Centro de Teatro do Oprimido e nos grupos populares a


iniciação de um Curinga é através da curingagem comunitária. Nessa fase o
multiplicador trabalha com um grupo próximo a sua realidade, onde conhece
bem os problemas que provavelmente aparecerão nas cenas. Aplicando jogos,
debatendo os temas internamente, preparando o embrião da cena, e mais
tarde Curingando seu grupo o multiplicador exercita-se como Curinga. Como o
TO é um método solidário, somente o aprendemos quando somos capazes de
ensiná-lo.
O Arte Vida foi o primeiro grupo de Teatro-Fórum que montei. Era
formado por jovens da comunidade da Maré, um complexo de favelas no Rio de
Janeiro. O CTO fez parceria com o CEASM (Centro de Ações Solidárias da
Maré), uma organização dentro da comunidade, onde oferecemos oficinas de
TO para todos os interessados. No início a procura foi grande e formamos uma
turma com trinta adolescentes aproximadamente.
Com o decorrer do tempo, a seleção natural das pessoas fez o grupo
diminuir e se estruturar com doze participantes. Montamos a peça A Princesa e
o Plebeu, que falava da diferença de classes e preconceito social.
Uóchintu era morador da maré e trabalhava dirigindo uma kombi. Era
um jovem pobre como muitos em nossa sociedade, mas queria ir além do que

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lhe disseram ser possível. Estava juntando dinheiro para comprar uma calça de
marca, para parecer com os jovens que via na televisão. Numa dessas
andanças conhecia Diana, menina de família rica e se apaixonavam. Diana
queria aventuras, desafios, era impetuosa e mimada. Dona Ascensão, mãe de
Diana, não apoiava o namoro dos dois e humilhava Uóchintu por ser morador
de comunidade. A peça era recheada de músicas, danças, de forma atraente ao
público jovem.
Outro grupo que montei, junto com a Curinga Claudia Simone, chamou-
se Direito de Ser e era formado por homossexuais e simpatizantes da causa
GLBT.
É importante sabermos que o Teatro do Oprimido é acima de tudo
TEATRO. Por isso tem toda a beleza estética que um espetáculo de teatro
convencional. Todas as peças de TO precisam estar vestidas com imagens que
facilitem a pergunta do Fórum. Músicas e teatralidade, além de fortalecerem o
debate, deleitam os olhos do espectador, atraindo-o através da arte.

Através das respostas teatrais, apresentadas no momento do Fórum, ou


das sugestões legislativas, surgidas numa sessão de Teatro Legislativo, o
Curinga organiza com o grupo momentos de reflexão e debates, pois algumas
das alternativas propostas pelo público pode ser o caminho para a resolução do
problema encenado.

O Teatro do Oprimido procura, através das sessões de Teatro-Fórum, do


Teatro Legislativo, das Ações Sociais Concretas e Continuadas e tantas outras
frentes da metodologia a transformação da realidade. Essa mudança pode
acontecer em diversos níveis, muitas vezes imensuráveis. Ninguém sai de uma
sessão de Teatro-Fórum da mesma forma que entrou, pois o ato de presenciar
a ocupação cênica feita por outros espectadores faz a pessoa perceber que algo
diferente é possível. Ela volta para casa e reflete sobre o que viu, mesmo que
tenha ficado quietinha na platéia. Quando alguém entra na cena e tenta
transformá-la metaforicamente, ensaia no teatro a transformação real em sua
vida. Ensaia no presente para inventar seu futuro.

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No Teatro Legislativo essa ação transformadora é ainda mais potente,
pois a platéia sugere leis concretas para a diminuição de tal opressão. O
Curinga encaminha as propostas de leis às autoridades competentes, a fim de
que surja uma lei concreta contra a opressão apresentada. Quanto ao Teatro
Legislativo Boal é categórico: “Não admitimos que o eleitor seja mero
espectador das ações do parlamentar, mesmo quando corretas: queremos que
opine, discuta, contraponha argumentos, seja co-responsável por aquilo que faz
seu parlamentar.”8 O papel do legislador é desmistificado e a população
percebe que são pessoas comuns que criam as leis que regem suas vidas. “Os
assessores legislativos dão a forma padrão na escritura do texto do Projeto de
Lei e o legislador é o mensageiro do desejo do grupo às Casas Legislativas.” –
diz Olivar Bendelak, Curinga que coordena o TL. Por isso o grupo deve
acompanhar cada passo da tramitação do Projeto de Lei até sua votação, pois é
essencial estar presente para a pressão final. Desta forma o grupo terá exercido
sua cidadania, através do Teatro Legislativo.

O Teatro do Oprimido deve ser um real instrumento para a


transformação social, promovendo Ações Concretas politizadas e organizadas.
Não fazemos teatrinho somente para diversão do povo, apesar de termos peças
engraçadas. Nosso objetivo vai muito além do entretenimento, e isso deve ficar
claro nas ações que realizamos a cada dia. Uma passeata, uma mobilização, um
teatro procissão, uma apresentação teatral, tudo feito pelos praticantes do TO
precisa ter um cunho político-social e buscar a diminuição da opressão no
mundo.
Quando debatemos um tema no Teatro-Fórum precisamos estar atentos
para sairmos do problema particular e ampliarmos a discussão. Subirmos da
conjuntura para a estrutura da opressão apresentada, fazendo a ascese.
Pesquisando, analisando, investigando junto com o público quais são os
fenômenos que regem as ações daqueles opressores e oprimidos, e como esses
fenômenos se tornam leis, fazendo com que aquela cadeia de opressão se
repita em diversos lugares do mundo, na maioria das vezes de forma cruel.

8
Teatro Legislativo, Civilização Brasileira: 1996, pág, 46.

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É pouco discutir a violência contra a mulher nos atendo aos casos
individuais de agressão, falando daquela mulher específica, naquela família,
naquele contexto social. Ou ainda falarmos do sistema penitenciário sem
descobrirmos o que há por trás daquela estrutura prisional do país em questão,
ou os fatores que influenciam todas as pessoas naquele processo. Essa
pesquisa precisa ir além do singular, buscando as leis que regem os fenômenos
que organizam as opressões que se repetem independente da classe social ou
da geografia.
O Teatro do Oprimido é para alterarmos as situações de humilhação e
desigualdade, não somente privativamente, mas em toda humanidade.
Precisamos pesquisar, investigar a fundo quais razões e mecanismos essas
conjunturas possuem e como se repetem, fazendo com que mais pessoas
continuem no papel de oprimido. A partir dessas descobertas podemos nos
fortalecer para a quebra dessas estruturas. O Curinga é um investigador de
alternativas vivas e concretas, a fim de dizimar com as estruturas de poder que
corroboram na opressão dos mais fracos.
Temos aliados, temos uma metodologia eficaz e mobilizadora, espalhada
pelos cinco continentes. Temos os instrumentos para fazermos nossa revolução
pacífica e eficaz.
Agora é Mãos à Arte!

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