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(E) terna Henriqueta Lisboa: uma mulher do seu tempo

Adriana Rodrigues Machado (PUCRS)

Inicio a minha fala, citando o filósofo Vilém Flusser (1920-1991), que por sua
vez é citado por Mario Ramiro na apresentação do livro de Flusser intitulado: Da
religiosidade: a literatura e o senso de realidade (2002).

Diz Flusser:

Toda frase de obra de pensador vivo aponta, [...] em sua busca de


perfeição, o intelecto que a gerou, e toda frase de obra de pensador
morto aponta o intelecto que a recebe. E a obra, como um todo, está
ligada ao intelecto que a originou como por cordão umbilical, enquanto
vivo o seu autor. A morte corta esse cordão e a obra emite pseudópodos
em direção aos intelectos abertos para recebê-la. O último significado
da obra é deslocado, pela morte, do intelecto do autor para os intelectos
dos seus interlocutores. [...] De receptor e de ponto de ressonância
transforma-se o interlocutor em guardião e realizador da obra. A
responsabilidade [...] passa do autor para o interlocutor, e o destino da
obra depende doravante dele.1

Nesse sentido, somos todos responsáveis pela difusão e eterno resgate da obra
daqueles a quem dedicamos nossos estudos. Referindo-me, naturalmente, àqueles
autores que permanecem vivos apenas na nossa memória e unicamente presentes nas
obras que deixaram.
No presente evento, onde buscamos homenagear as escritoras de ontem e de
hoje, eu trago como contribuição algumas considerações a respeito de uma notável
poeta brasileira. Seu nome: Henriqueta Lisboa.
Realço que falar da mulher e da obra dessa escritora mineira, na terra que ela
tanto amava, em Belo Horizonte, é uma grande responsabilidade e ao mesmo tempo
uma terna emoção.

Situando Henriqueta Lisboa

Membro de uma família numerosa, com cinco irmãos e três irmãs, Henriqueta
Lisboa nasceu em Lambari, município localizado ao sul do Estado de Minas Gerais
quando a região ainda se chamava Águas Virtuosas, por ser uma importante estância

1
FLUSSER, Vilém apud RAMIRO, Mario. Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade. São
Paulo: Escrituras Editora, 2002, p. XI.
2

hidromineral. O dia era 15 de julho de 1901 2. Rabiscou seus primeiros versos em


Campanha, interior do mesmo Estado; morou no Rio de Janeiro, e depois em Belo
Horizonte, onde fez carreira e morreu, aos 84 anos, no dia 09 de outubro de 1985.
Filha de João de Almeida Lisboa, natural de Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, e de
Maria Rita de Vilhena Lisboa, de Campanha, em Minas Gerais, Henriqueta Lisboa foi
poeta, crítica, tradutora, professora e a primeira mulher eleita para a Academia
Mineira de Letras, em 1963. Revelou certa vez as qualidades que admirava nos pais 3.
Dissera que a mãe cultivara as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, e que,
do pai, reunira em si as quatro virtudes cardeais: justiça, prudência, temperança e
fortaleza. Herdeira das sete virtudes, Henriqueta Lisboa buscou expressá-las por meio
da criação poética, e tinha-as como um modelo de conduta. Considerava a poesia uma
“maravilhosa deidade”, a quem teria votado toda uma existência 4. Culta e de modos
refinados, soube cultivar afeto e respeito entre seus pares, muitos deles reconhecidos
artífices da nossa história literária, como Mário de Andrade, especialmente, Cecília
Meireles e Carlos Drummond de Andrade.

O arquivo literário e a pesquisa nas fontes primárias

A família de Henriqueta Lisboa doou à Faculdade de Letras da UFMG os


fundos documentais da escritora em agosto de 1989, e estes firmaram-se a partir daí
como um verdadeiro embrião, como uma célula agregadora, fazendo surgir, logo
após, novas doações, manuscritos e datiloscritos, cartas, bibliotecas, pinacoteca,
objetos pessoais, mobiliário, de Murilo Rubião, Oswaldo França Junior, Abgar
Renault e Cyro dos Anjos. E para abrigá-los, foi criado o Centro de Estudos
Literários (CEL), que por sua vez integra o Acervo de Escritores Mineiros, localizado
na Biblioteca Universitária da mesma Instituição.
Hoje, em processo de expansão, o AEM recebe documentos de outras
escritoras e escritores mineiros, como Lúcia Machado de Almeida, Octavio Dias

2
Em muitos artigos sobre a obra da poeta, encontramos divergências no que se refere à data de
nascimento e morte da mesma. Tomamos como fonte fidedigna os dados encontrados na edição
comemorativa do centenário de nascimento da escritora — Henriqueta Lisboa: poesia traduzida.
Organização, introdução e notas Reinaldo Marques, Maria Eneida Victor Farias [tradução Henriqueta
Lisboa] - Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001 —, elaborada pelo projeto de pesquisa “Acervo de escritores
mineiros”, desenvolvido na Faculdade de Letras da UFMG.
3
Cf. Entrevista concedida a Edla Van Steen. Disponível em
<www.letras.ufmg.br/henriquetalisboa/midia/entrevista01.htm> Acesso em 04 jun. 2006.
4
Cf. “Poesia, esta maravilhosa deidade, a que votei toda uma existência”. Discurso de Henriqueta Lisboa,
por ocasião da homenagem das Amigas da Cultura Mineira de letras, em 29/9/79.
3

Leite e Fernando Sabino, bem como da portuguesa Ana Hatherly e da carioca Lélia
Coelho Frota. Não é preciso destacar a importância desse espaço para as pesquisas,
para a preservação da memória literária, porque não é outro o desejo do autor e a
finalidade da obra, senão perpetuar-se no exercício constante de renovadas leituras.
E é a partir do material que se encontra numa das pastas de entrevistas, que
integra o inventário da poeta Henriqueta Lisboa, no Acervo de Escritores Mineiros,
que traço algumas considerações a respeito do pensamento dessa grande escritora.
Momento em que ela conceitua arte e fala sobre o papel da mulher intelectual
daqueles dias, realçando a perenidade que tais reflexões encerram.
Destaco que o ano de 1941 é marcado pela publicação do livro Prisioneira da
noite. E, que juntamente ao seu primeiro livro Enternecimento (1929) e Velário
(1936), ela inclui Prisioneira da noite no 1º grupo — num total de cinco, que são
agrupamentos que representam uma tentativa de “delinear as diretrizes” dos seus
livros de poesia, usando as próprias palavras da autora encontradas em um
depoimento da mesma, datado de 1982 5. Este primeiro grupo ela chamou de
“Espontâneo”, seguido do “Objetivo”, “Dramático”, “Essencial” e o “Ontológico”.
Convém lembrar que sua primeira obra publicada data de 1925, Fogo fátuo, e
que, ironicamente, coincidindo com a imagem sugerida pelo título, “extinguiu-se” aos
olhos do público, porque foi obra renegada pela autora.
Na referida entrevista, a poeta dissera que considerava Fogo fátuo apenas
como um exercício, “uma boa ginástica de alexandrinos e decassílabos” 6. Afirmara
que sua concepção de poesia, naquele momento, estava sintetizada em Rilke (1875-
1926), e que Prisioneira da noite era um livro em que havia cristalizado as emoções
em face da vida e também em face do tempo; questões metafísicas por excelência.
Assim como Rilke, Henriqueta Lisboa concebia a morte como um
florescimento do ser, e não como um fim. E para elucidar essa aproximação rilkeana,
recorro a Vinicius de Moraes, — a quem Alfredo Bosi também identificara como
portador de um “certo veio rilkeano” 7, na sua primeira fase — quando, reportando-se
ao poeta austríaco em sua crônica “Relendo Rilke”, de 1959, ressalta a sua concepção

5
Cf. Inventário de Henriqueta Lisboa, pasta “Depoimentos” - Acervo de Escritores Mineiros (UFMG).
6
Cf. Inventário de Henriqueta Lisboa - Entrevista que integra a pasta “Entrevistas - 1”, datada de 11/9/41,
que se encontra no Acervo de Escritores Mineiros, na UFMG.
7
Cf. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira, São Paulo: Ed. Cultrix, 1994, p. 438.
4

de morte, apropriando-se de uma imagem que comunga com a poética da escritora


mineira8.
Diz Vinicius de Moraes:

[...] Sua simplicidade como poeta nasce dessa longa tortura lírica de ver
a morte como um amadurecimento da vida, numa total compensação.
Rilke acreditava que a morte nasce com o homem, que este a traz em si
tal uma semente que brota, faz-se árvore, floresce e frutifica ao se
despojar do seu alburno humano [...] 9.

Quanto ao conceito de arte, Henriqueta Lisboa defendia que o artista é antes


de tudo um homem — e uma mulher — do seu tempo, e que o poeta, especialmente,
deveria aprender a depurar a sua arte em consonância com o mundo vivido, o mundo
e tempo históricos (LISBOA, 1941). Notadamente uma percepção de arte cultivada
em meio às reflexões de Wilhelm Dilthey, um dos filósofos cuja leitura a poeta muito
apreciava.
Assim ela argumenta:
O artista que vivesse fora do seu tempo realizaria uma evasão às
avessas, trairia sua própria sensibilidade. [...] Creio que arte é evasão
realizada, não apenas ânsia de evasão. Penso que o engano em que
laboram alguns dos nossos poetas atuais é justamente esse: imaginar
que todos os gritos interiores, todas as perplexidades devam constar no
texto literário. Urge que o poeta saiba ser artista. Arte é depuração,
nunca fermentação.10

E na mesma entrevista, perguntada sobre o papel da mulher intelectual, ela


respondeu:
[...] Acho que nunca tivemos figuras tão altamente representativas como
hoje. Pergunta-se — e com razão — se as escritoras têm deveres
especiais para com a sociedade. Difícil é impor missão a alguém
quando se trata de arte — a mais livre manifestação da personalidade.
Mas a mulher — como o homem — deve estar preparada para exercer o
sacerdócio da beleza de forma tal que essa beleza represente, acima de
tudo, o que há de indestrutível no humano: a dignidade de ser criado à
semelhança de Deus.11

8
Testemunho mais expressivo desse universo imagético é o livro Flor da morte, de 1949.
9
Cf. MORAES, Vinicius. Relendo Rilke. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.
p. 666-68.
10
Cf. Entrevista referida na nota 6.
11
Id. ibid.
5

Carlos Drummond de Andrade, sob o pseudônimo de “O observador


12
literário” , em julho de 1941, assim reporta-se a poeta na ocasião da publicação de
Prisioneira da Noite:

Mais prisioneira de si mesma do que da noite ou do mundo exterior,


Henriqueta Lisboa realiza uma poesia concentrada, de expressão cada
vez mais segura e diáfana, revelando as grandes caminhadas do espírito
e da experiência poética. Seu nome pode figurar, sem timidez, ao lado
dos de Cecília Meireles e Adalgisa Nery, que mais longe levaram, entre
nós, a mensagem da poesia feminina.13

Perguntada, certa vez, sobre a razão de se autodenominar “prisioneira da


noite”, Henriqueta Lisboa simplesmente respondeu: “todo ser humano é prisioneiro da
noite, quer dizer, do mundo com suas sombras e mistérios” 14.
A poeta de Lambari exerceu o sacerdócio da beleza, conforme preconizava, e
deixa-nos a sua obra como testemunho e inspiração. Foram mais de cinquenta anos de
produção, e como os demais tesouros culturais de Minas Gerais, é um eterno convite à
exploração enquanto puro deleite do encontro. Nada nos resta, enquanto pesquisadores e
pesquisadoras da sua obra, senão zelar pela sua memória criadora e render-lhe, hoje, a
justa homenagem.

REFERÊNCIAS

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira, São Paulo: Ed. Cultrix, 1994.

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Conversa de livraria - 1941 e 1948. Porto Alegre: São Paulo:
AGE/Giordano, 2000.

FLUSSER, Vilém. Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade. São Paulo: Escrituras Editora,
2002.

MORAES, Vinicius de. Relendo Rilke. In: _____. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 2004. p. 666-68

12
Cf. DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Conversa de livraria 1941 e 1948. Porto Alegre: São
Paulo: AGE/Giordano, 2000. p. 69.
13
Id., ibid., p. 69.
14
Cf. Entrevista [s/d] que se encontra na pasta “Entrevistas”, subtítulo: “Questionário”, no Acervo de
Escritores Mineiros (UFMG).