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uma abordagem social
uma abordagem social

Alexandra Marcella Zottis Denise Russo Margarete Panerai Araujo

(organizadoras)

uma abordagem social Alexandra Marcella Zottis Denise Russo Margarete Panerai Araujo (organizadoras)

SUSTENTABILIDADE

uma abordagem social

Associação Pró-Ensino Superior em Novo Hamburgo - ASPEUR Centro Universitário Feevale

Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas - ICSA

SUSTENTABILIDADE

uma abordagem social

Alexandra Zottis Denise Russo Margarete Panerai Araújo

(organizadoras)

Alexandra Zottis Denise Russo Margarete Panerai Araújo (organizadoras) Novo Hamburgo - Rio Grande do Sul -

Novo Hamburgo - Rio Grande do Sul - Brasil

2009

PRESIDENTE DA ASPEUR Argemi Machado de Oliveira

REITOR DO CENTRO UNIVERSITÁRIO FEEVALE Ramon Fernando da Cunha

COORDENAÇÃO EDITORIAL Inajara Vargas Ramos

REALIZAÇÃO ICSA - Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas Coordenador Juarez Buriol

REVISÃO Valéria Koch Barbosa

EDITORA FEEVALE

- Coordenação

Celso Eduardo Stark

- Analista de editoração

Maiquel Délcio Klein

- Assistentes de editoração Helena Bender Hennemann Maurício Barth

Moris Mozart Musskopf

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA E CAPA Helena Bender Hennemann

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Centro Universitário Feevale, RS, Brasil

Sustentabilidade : uma abordagem social / Alexandra Zottis, Denise Russo, Margarete Penerai Araujo (organizadoras). – Novo Hamburgo: Feevale,

2009.

128 p. ; 21 cm.

ISBN 978-85-7717-080-7

1. Sustentabilidade. 2. Desenvolvimento sustentável. 3. Conservação da natureza – Aspectos sociais. I. Zottis, Alexandra. II. Russo, Denise. III. Araujo, Margarete Penerai.

CDU 504.06

Bibliotecária responsável: Lílian Amorim Pinheiro – CRB 10/1574

© Editora Feevale – TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio. A violação dos direitos do autor (Lei n.º 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal.

CENTRO UNIVERSITÁRIO FEEVALE Campus I: Av. Dr. Maurício Cardoso, 510 – CEP: 93510-250 – Hamburgo Velho – Novo Hamburgo – RS Campus II: RS 239, 2755 – CEP: 93352-000 – Vila Nova – Novo Hamburgo – RS Fone: (51) 3586.8800 – Homepage: www.feevale.br

Apresentação

A questão social figura, neste novo milênio, como uma preocupação

universal que envolve chefes da maioria das nações, das Organizações Não- governamentais – ONG's, assim como das administrações regionais e

locais e da sociedade civil preocupada com a qualidade de vida no planeta e

na comunidade. Os debates sobre “desenvolvimento sustentável”, que tomam corpo desde a década de 80, apresentam duas linhas de pensamento relacionadas com a gestão das atividades humanas: uma centrada nas metas de desenvolvimento e outra, no controle dos impactos negativos das atividades humanas sobre o meio ambiente. O significado da palavra

desenvolvimento, contida na expressão “desenvolvimento sustentável”, pode ser associado ao conteúdo da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Nesta, tal palavra diz respeito ao direito de todos de desfrutar um nível de vida adequado em termos de saúde e bem-estar, o que inclui a alimentação, o vestuário, a moradia e a assistência médica, bem como os serviços sociais necessários. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, o relatório “Nosso Futuro Comum”, assim como documentos subseqüentes, sublinham que as metas de desenvolvimento devem incluir o direito de votar em um contexto de estruturas de governo representativas.

A questão ambiental, como questão social e ecológica, ampliou-se a partir

das preocupações com o efeito estufa e o aumento dos estragos que os

homens fazem no meio ambiente, levando chefes de Estado de diversos países a se encontrarem a fim de discutir e buscar soluções para o problema.

O livro “Sustentabilidade: uma abordagem social” foca ações sociais

que promovam a responsabilidade como uma das preocupações dos

autores, que incorporam nas suas pesquisas uma reavaliação dos modos de produção, de consumo e mesmo de investimento na criação de novas tecnologias, os quais possibilitem a harmonia entre as organizações e o meio ambiente. O objetivo central visa a reestruturar as atividades econômicas, a ética, a postura prática e as tomadas de decisões pouco atentas às realidades socioambientais – para uma nova visão da relação entre as atividades econômicas, as políticas dos homens e os diversos compartimentos do ecossistema. Esta obra começa estabelecendo uma relação de recomendações sobre a responsabilidade empresarial, a inovação, o turismo como alavanca do desenvolvimento, passando pela governança corporativa, a crise do Estado, o conhecimento e os indicadores de sustentabilidade, trazendo a experiência de anos dos autores, dedicados ao tema e a projetos relacionados ao desenvolvimento sustentável. Por fim, esperamos que, para os leitores, o que está contido nesta obra sirva para aprender sobre as experiências ora relatadas, associadas às próprias vivências empíricas, com vistas a seguir na busca da melhora da qualidade de vida da população.

Prof. Juarez Buriol

Diretor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas Centro Universitário Feevale

Sumário

Introdução

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A

responsabilidade social empresarial e a sustentabilidade das empresas

13

Dagoberto Lima Godoy

Do welfare state ao Estado-agência Fernando Luís Schüler

25

Sustentabilidade e os novos parâmetros de Responsabilidade Social Denise Ries Russo e Margarete Panerai Araújo

39

Inovação e Conhecimento: desafios para a Sustentabilidade Ernani César de Freitas

51

Sustentabilidade e Turismo: Reflexões e Perspectivas para o desenvolvimento Mary Sandra Guerra Ashton

67

O

Conhecimento como paradigma da Sustentabilidade Organizacional

85

Eunice Maria Nazarethe Nonato, Jucelaine Bitarello e Tarcisio Staudt

Desenvolvimento Sustentável: indicadores de sustentabilidade nos aspectos social, econômico e ambiental, como ferramenta para gestão pública local Alberto de Souza Rossi e Sérgio Carvalho

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Sustentabilidade: uma abordagem social

Introdução

Estamos vivendo o desafio da sustentabilidade. Nota-se que o conceito engloba inúmeras variáveis e diferentes relações com as dimensões da economia, da política, da cultura, da inovação, do ambiental e do social. A educação, porém, ensinou-nos a fragmentar todas essas idéias e separá-las como coisas de diferentes áreas, em diferentes momentos históricos. Segundo Morin (1998), separamos os objetos de seus contextos e a realidade em disciplinas compartimentadas umas em relação às outras. Mas sabemos, também, que a realidade é feita de laços e interações, e o conhecimento adquirido é incapaz de perceber essa separação e essa complexidade do mundo real. Nesse sentido, caracterizar a sustentabilidade, em nossa sociedade organizada/organizadora, é compreender, portanto, essas relações e combinações possíveis. As variáveis trabalhadas neste livro destacam diferentes manifestações da sustentabilidade através de uma obra de caráter didático e acessível, fornecendo instrumentação teórica básica para estudos em vários campos. O livro reúne diferentes autores com suas análises sobre as novas correntes voltadas ao estudo da sustentabilidade e seus aspectos sociais. Assim, segue um rápido resumo dos artigos reunidos. Dagoberto Lima Godoy apresenta os enfoques mais recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Internacional dos Empregadores (OIE), bem como as discussões sobre os rumos da sociedade na busca da sustentabilidade. Expõe, de forma didática, os desafios da sustentabilidade na ótica dessas grandes organizações internacionais.

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Fernando Luis Schüler apresenta, em seu artigo, argumentos e as conseqüências da chamada “crise do Estado”, identificando o surgimento e

a consolidação gradativa de um novo tipo de organização da esfera pública, que se poderia chamar de Estado-Agência, em oposição ao velho modelo

do welfare state. Nesse novo modelo, centra que o foco da atuação do setor

público é gerar as condições adequadas para a emancipação dos cidadãos

em relação às redes de proteção governamentais. Da mesma forma, trata-se

de um modelo de estado que confere um papel crescente às organizações

civis voluntárias e sem fins lucrativos na execução dos mais diversos tipos

de serviços públicos e de ações afirmativas. Denise Russo e Margarete Panerai Araújo abordam a relevância e

a necessidade do alinhamento da responsabilidade social e da

sustentabilidade como um novo desafio empresarial. O artigo reúne alguns dados conceituais, destacando a governança corporativa como um conjunto de mecanismos que vem sendo utilizado pelas grandes corporações. Pode-se considerar, finalmente, que a responsabilidade social

e a sustentabilidade aprimoraram novos mecanismos de gestão. Ernani César de Freitas traz como proposta a reflexão do tema inovação, conhecimento e a sustentabilidade na sociedade, sem perder de vista as especificidades pelas quais as organizações estão passando nos tempos atuais. Explora, ainda, a pertinência da discussão acerca do tema de cunho humanista, separando a inovação dos processos tecnológicos e das atividades empresariais. Mary Sandra Guerra Ashton oferece uma reflexão acerca da relação que pode existir entre sustentabilidade, turismo e desenvolvimento, com o objetivo de revelar as convergências entre as três categorias sob uma perspectiva de importância sócio-ambiental e o desenvolvimento econômico voltado para o bem-estar da população. Sua sustentação teórica destaca características intrínsecas e conceituais específicas de cada área, sugerindo interfaces complementares, promovendo o diálogo e buscando

os vetores comuns dessa trilogia. Eunice Maria Nazarethe Nonato; Jucelaine Bitarello e Tarcisio Staudt resgatam o conhecimento compreendido como mola propulsora da sustentabilidade organizacional. O estudo compreende a aprendizagem organizacional e aborda o binômio treinamento (capacitação) e conhecimento. Esse binômio é produzido e absorvido por três agentes básicos: o indivíduo, o grupo (equipe) e a organização. O estudo possibilita que sejam identificadas variáveis que permitem perceber diferenças no decorrer dos períodos abordados.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Alberto de Souza Rossi e Sérgio Carvalho apresentam questões sobre o desenvolvimento e a forma como ele se relaciona com os indicadores de sustentabilidade, envolvendo as dimensões sociais, econômicas e ambientais. Com base nessas dimensões, diferentes ferramentas utilizadas e aplicadas contribuíram para a gestão pública local. Um cenário de referências é proposto para ilustrar a análise de acordo com o tema apresentado, procurando proporcionar um mapa de discussões acerca da sustentabilidade. Com base no desafio da sustentabilidade e seus conceitos e suas dimensões busca-se, portanto, os laços e interações desse conhecimento e das suas diferentes combinações. Deseja-se frisar agradecimentos à CaixaRS, Agência de Fomento do estado do Rio Grande do Sul, através do grande apoio oferecido às organizadoras para efetuarem esta publicação. Também agradecimentos à editora Feevale, a qual acolheu, novamente, mais um trabalho em torno da temática social, do desenvolvimento, da responsabilidade e da sustentabilidade.

Dra. Margarete Panerai Araujo

Patrocinador: CAIXARS – Agência de Fomento do Estado do Rio Grande do Sul

Organizadoras desta publicação:

Alexandra Zottis Denise Russo Margarete Panerai Araújo

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Sustentabilidade: uma abordagem social

A responsabilidade social empresarial e a sustentabilidade das empresas

Dagoberto Lima Godoy

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Nunca será demais ressaltar a importância da empresa como principal fonte de crescimento e emprego. O que impulsiona o crescimento econômico é, antes e acima de tudo, a criatividade e a árdua labuta dos empresários e dos trabalhadores. Movidas pela busca de lucros, as empresas inovam, investem e geram emprego e rendas derivadas do trabalho (OIT, 2007).

Este artigo tem um único propósito: aportar os enfoques mais recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Internacional dos Empregadores (OIE) à discussão sobre os rumos que a sociedade está desafiada a encontrar na busca da sustentabilidade de nosso (pequeno) mundo ora, inquestionavelmente, em evidente situação de risco. E, ao fazer isso, expô-los de forma, tão sucinta quanto didática, adaptada ao espaço oferecido pelos organizadores do livro. Daí o uso de figuras e quadros, a par das citações selecionadas dentre os extensos documentos indicados nas referências bibliográficas. Na 96ª Conferência Internacional do Trabalho (CIT), realizada em junho de 2007, houve um fato inédito: pela primeira vez, em seus 88 anos de laboriosa experiência, na defesa dos direitos humanos em especial dos trabalhadores e das trabalhadoras de todo o mundo ─ , a OIT pôs em evidência a importância da empresa “como principal fonte de crescimento e

1 Engenheiro civil e advogado. Mestre em Direito. Professor do Centro de Ciências Contábeis Econômicas e Administrativas da Universidade de Caxias do Sul – UCS. Membro do Conselho de Administração da Organização Internacional do Trabalho. Vice-presidente para a América Latina e o Caribe da Organização Internacional de Empregadores.

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emprego”, tal como destacado na epígrafe. Até então, a atividade empresarial vinhasendovigiadasobaóticadoparadigmamarxistadalutadeclassescomo um dos pólos do incontornável conflito entre Capital e Trabalho: a empresa, identificada com o capital, tenderia a explorar os trabalhadores e estes, por serem hipossuficientes numa relação assimétrica de poder, precisariam da proteçãodosEstados,pormeiodenormasrígidasepunitivas. É verdade que, a partir dos anos 90 do século passado, essa visão começou a mudar, diante da evidência do fracasso definitivo das últimas e das mais rigorosas experiências do socialismo real, a par da evidente superioridade do padrão de vida dos trabalhadores dos países capitalistas desenvolvidos. Desde então, a voz e os argumentos do Grupo dos Empregadores, coordenado pela OIE, passaram a encontrar algum eco no único organismo das Nações Unidas com estrutura tripartite. Mas ainda não prosperavam, sem restrições e condicionamentos, as teses que defendiam a iniciativa privada como o único motor eficaz da economia e que apontavam a empresa como a ferramenta adequada para a geração da riqueza indispensável ao desenvolvimento pleno. Então, se a eficácia dos sistemas produtivos baseados nas empresas era impossível de negar, o reconhecimento passou a ser contrabalançado pelos chamados ao setor empresarial para que avançasse, além de suas atividades produtivas e do cumprimento de suas obrigações legais, a fim de preencher os vazios da ação do Estado, no atendimento das necessidades sociais. Sob a égide do princípio da subsidiariedade , avolumaram-se os apelos ao que passou a ser citado como a Responsabilidade Social da Empresa (RSE). No âmbito da OIT, os empregadores sempre reconheceram que têm, em conjunto com os demais atores sociais, um papel importante no desenvolvimento das comunidades onde atuam suas empresas. Aceitaram o conceito da Responsabilidade Social da Empresa (RSE) para expressar a grande variedade de iniciativas inovadoras e positivas tomadas pelas empresas, em sentido amplo, tanto no mercado como na comunidade. Mas ressaltam a necessidade de estabelecer os limites próprios entre as

2

2 O princípio de subsidiariedade é definido no artigo 5º do Tratado que institui a Comunidade Européia. Esse princípio, tal como definido no referido artigo, pretende assegurar uma tomada de decisões tão próxima quanto possível do cidadão, mediante a verificação constante de que a ação a empreender em nível comunitário se justifica relativamente às possibilidades oferecidas pelo nível nacional, regional ou local. A União só deve atuar quando a sua ação seja mais eficaz do que uma ação desenvolvida em nível nacional, regional ou local - exceto quando se trate de domíniosdasuacompetênciaexclusiva.

Sustentabilidade: uma abordagem social

responsabilidades do Governo e o papel que a empresa pode desempenhar por meio de ações sociais voluntárias, pois, como alerta a OIE:

Esto está desembocando en un conflicto de expectativas entre lo que corresponde hacer al Gobierno, por una parte, y la contribución que cabe esperar de las empresas, por otra. Este conflicto tiene grandes repercusiones para todos los actores. En primer lugar, distorsiona la RSE y socava el concepto de imperio de la ley. En segundo lugar, puede dar lugar a que la sociedad alimente expectativas injustificadas e irrealizables. Por último, puede dejar a las empresas expuestas a críticas por no cumplir con estas expectativas, y apartarlas de su papel fundamental, que es el de proporcionar los medios esenciales para la creación de riqueza en la sociedad a través de una actividad que produzca beneficios (OIE, 2003).

O século XXI trouxe consigo uma maior conscientização sobre o

conceito de sustentabilidade, envolvendo “um comprometimento com a promoção da integração social por meio de sociedades estáveis, seguras e justas,baseadasnapromoçãoenaproteçãodetodososdireitoshumanosena não-discriminação, na tolerância, no respeito pela diversidade, a igualdade de oportunidades, a seguridade e a participação de toda a gente, incluindo os

grupos e pessoas descapacitados e vulneráveis” . Nesse contexto, a atividade empresarial deve inserir-se na “forma de progresso que satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas”. Sob essa condição, a OIT dispôs-se – ou foi compelida – a reconhecer na empresa o instrumento adequado e eficaz para atender a “um princípio fundamental do pilar social do desenvolvimento sustentável [que] é, certamente, a geração de meios de vida seguros mediante

umempregoprodutivolivrementeescolhido”(OIT,2007).

O informe produzido pelos técnicos da OIT, como elemento de

informação prévia à 96ª CIT, analisou o duplo sentido dessa última afirmação, ou seja, quais os requisitos para o desenvolvimento da atividade empresarial, produtora do substrato de riqueza indispensável ao desenvolvimento, por um lado, e, por outro, quais os compromissos a serem assumidos pelas empresas perante a sociedade e o meio ambiente

natural. A Figura 1 esquematiza, num enfoque integrado, o complexo entorno que promove a empresa sustentável e, ao mesmo tempo, lhe impõe

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3 O Consenso de Copenhague – Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social, 1995, Compromisso 4.

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compromissos de sobrevivência. Sua análise permite discernir três esferas operacionais e políticas superpostas e independentes, nos níveis micro, macro e meta.

e independentes, nos níveis micro, macro e meta. Figura 1 – No centro (Figura 1), está

Figura 1

– No centro (Figura 1), está a empresa sustentável, que compreende uma série de “stakeholders”, incluindo acionistas, empresários, empregados e clientes, assim como as relações com fornecedores, governos e a comunidade como um todo. O nível micro diz respeito ao que se passa no interior da empresa ou ao seu entorno imediato (o gerenciamento de recursos humanos e financeiros e a utilização de outros recursos, como energia, transportes e comunicações); a interface com seus clientes e fornecedores; e o diálogo entre os interlocutores sociais, entendidos como tais os empregadores e os empregados, cujo relacionamento vai ou não derrogar o já referido paradigma do conflito capital x trabalho, mediante uma administração que conduza a uma co-participação, tanto na superação dos desafios quanto na partilha dos resultados.

Sustentabilidade: uma abordagem social

– No nível seguinte (Figura 1) - o macro –, estão as políticas (fiscal, macroeconômica e cambial, a par de outras setoriais, regionais, etc.) que definem o ambiente competitivo e as condições dadas à empresa para enfrentar a competição, determinando a sua sustentabilidade e o seu potencial de crescimento.

– No nível meta (Figura 1), estão as condições gerais, políticas, sociais e meio-ambientais, que determinam, entre outras coisas, a qualidade das instituições, a governança e o diálogo social mais amplo, incluindo aspectos não diretamente inerentes à vida empresarial, mas que influenciam o desenvolvimento do setor, como a segurança jurídica e

os níveis de desigualdade ou de corrupção.

Por fim, ao final da discussão geral sobre o tema, na 96ª CIT, já era possível reconhecer que não há desenvolvimento sustentável sem empresas sustentáveis:

Há uma relação simbiótica entre empresa e desenvolvimento – negócios florescem onde sociedades florescem – e o setor privado tem

um papel vital a desempenhar ajudando os países a atingir os Objetivos

de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), [

especifica que uma parceria global para o desenvolvimento, incluindo

cooperação com o setor privado, deveria reforçar os esforços internacionais. Isso faz da criação de condições adequadas para o desenvolvimento de empresas lucrativas e sustentáveis e o investimento privado uma alta prioridade em política de desenvolvimento e para a Agenda de Trabalho Decente (OIT, 2007).

] uma vez que o ODM 8

A construção da simbiose entre desenvolvimento e empresa não pode

olvidar que o papel fundamental que se atribui a esta, no sistema da sociedade, é a criação de riqueza e que o cumprimento desse encargo é essencial para o desenvolvimento social. Ou seja, se o sentido da civilização está no desenvolvimento pleno, definido na bula papal como “o crescimento de todos os homens e do homem todo”, seu indispensável substrato encontra-se no desenvolvimento econômico e, para que este seja logrado, em bases sustentáveis, há que se dispor de empresas, por suposto, também sustentáveis.

Já o papel que incumbe aos governos consiste em promulgar a legislação e velar por seu cumprimento, assim como criar e manter sistemas legais e políticos estáveis e previsíveis, em um clima propício para o progresso econômico e social. É responsabilidade do governo investir na

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educação e no bem-estar de seus cidadãos, de modo a propiciar as condições apropriadas para o nascimento, o crescimento e a competitividade das empresas. As empresas podem cooperar com os governos, dando exemplo e aplicando, em suas próprias atividades, normas sociais adequadas, bem como encorajando seus parceiros de negócios a fazer o mesmo, especialmente quando, por qualquer motivo, não exista tal iniciativa governamental (OIE, 2003). Essa ação subsidiária não deveria, entretanto, comprometer a sua competitividade, visto que, na atualidade da economia globalizada na qual a regra é a competição implacável ─, só a empresa competitiva será sustentável.

O Informe da OIT para a 96ª CIT expõe, com clareza, a situação:

A estrutura da vida civil e política é, sem dúvida, um importante

determinante de competitividade, crescimento econômico e empresas

sustentáveis. Boa governança que implica respeito por direitos humanos, instituições democráticas eficientes, liberdade de expressão, direitos iguais para mulheres e homens, mecanismos efetivos para diálogo social, etc. geralmente provêm uma base segura para um desenvolvimento sustentável. Governos que mantêm estabilidade econômica e asseguram transparência e devido processo na formulação

de políticas, que salvaguardam direitos de propriedade, que recanalizam

a receita de impostos para a economia através de investimentos

produtivos em capital humano e infra-estrutura física, que garantem que boas leis sejam produzidas e aplicadas, que ordem e segurança públicas sejam mantidas e que haja apropriado cuidado com o ambiente natural, estão aptos para criar as melhores condições sócio-econômicas para que empresas sustentáveis floresçam. Há ampla evidência de que a atividade empresarial é severamente constrangida em uma economia na qual direitos de propriedade não estão adequadamente definidos. Quando os proprietários, seja de bens materiais ou intelectuais, não têm seus direitos garantidos, eles perdem a motivação para investir mais, enquanto potenciais novos integrantes do mercado formal são incentivados a permanecer na economia informal, fora do domínio do trabalho decente. Outrossim, as empresas estarão aptas a estabelecer-se em bases mais seguras onde a sociedade adotar uma sólida cultura de apoio à atividade empresarial (OIT, 2007).

A Figura 2 e o Quadro 1 esquematizam o conjunto de condições básicas

efatoresquecondicionamacriaçãoeasustentabilidadedasempresas.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Sustentabilidade: uma abordagem social Figura 2 QUADRO I - Fatores condicionantes de criação e sustentabildade das

Figura 2

QUADRO I - Fatores condicionantes de criação e sustentabildade das empresas

Endógenos

 

Exógenos

– Boa gestão e espírito empresarial

Diálogo social e organizações fortes

– Boas relações laborais (diálogo social)

de empregadores e trabalhadores

– Boas tecnologias e equipamentos

Políticas macroeconômicas,

– Acesso a recursos

comerciais, regionais e setoriais

– Trabalhadores sadios e

– Crescimento dos mercados

qualificados

– Condições meio-ambientais

– Finanças (crédito e inversão)

– Instituições e políticas públicas

– Recursos físicos e naturais:

– Entorno propício

energia, terra, TIC, etc.

 

Respeito aos direitos de

propriedade e de liberdade de associação e sindical

Normas claras, estáveis e

previsíveis

– Entorno regulatório e jurídico

– Infra-estrutura de qualidade

Cadeias de valor, indústrias conexas e serviços de apoio.

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Outra formulação dos mesmos condicionantes apareceu na Declaração de Caracas, como conclusão do Simpósio “A Empresa Sustentável Na América Latina”, promovido pela OIE, em maio de 2007, na Venezuela, sob a denominação de “Nove Pilares do desenvolvimento empresarial sustentável” (Quadro II).

QUADRO II - Nove pilares do desenvolvimento empresarial sustentável

1. Propriedade privada e segurança jurídica

2. Clima político, social e econômico favorável ao investimento

3. Estabilidade política e macroeconômica

4. Respeito ao Estado de Direito, aos princípios éticos e aos valores democráticos

5. Gestão transparente, compromissada e competente das instituições públicas

6. Educação e capital humano

7. Diálogo Social

8. Respeito aos Direitos Trabalhistas Fundamentais

9. Responsabilidade Social.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social Empresarial Na verdade, mais e mais empresas vêm reconhecendo o papel que lhes corresponde no desenvolvimento das comunidades em que atuam, adotando "iniciativas desenvolvidas de maneira voluntária, nas quais se integram inquietudes tanto sociais como meio-ambientais para a gestão de suas operações e a interação com seus próximos". Assim, a Responsabilidade Social Empresarial (RSE) constitui-se, cada vez mais, um aspecto fundamental das atividades das empresas e não uma função meramente acessória; integra-se, cada vez mais, nas atividades empresariais, na governança e nos sistemas de gestão e de reflexão estratégica, inspirando-se em princípios que têm obtido respaldo internacional — como os formulados na Declaração da OIT relativa aos Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, na Declaração Universal de Direitos Humanos e na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (OIE, 2003). Entretanto, há que se destacar a indispensabilidade do caráter voluntário com que a RSE é concebida e exercida, com características próprias de cada companhia, em sintonia com fatores tais como a localização da empresa, seu tamanho, o tipo de sociedade em que se insere, os recursos financeiros de que dispõe, os mercados e o setor de negócio específico. Ademais, o conceito de RSE deve ser dinâmico e

Sustentabilidade: uma abordagem social

multidimensional, evoluindo para se adaptar às mudanças das circunstâncias econômicas, políticas, sociais e meio-ambientais. Qualquer ação destinada a regulamentar esse processo ou mesmo a normatizá-lo, como pretende a Organização Internacional de Normatização (ISO) põe em risco o caráter inovador, flexível e voluntário com que vem sendo praticada a RSE (OIE, 2003). De resto, o que não falta são pontos de referência e de orientação às empresas: (a) de origem empresarial (por exemplo, os Princípios de Caux para as Empresas, os Princípios Globais de Sullivan, a Carta das Empresas para um Desenvolvimento Sustentável – da ICC , etc.); (b) orientações emanadas da ONU ou de origem intergovernamental (por exemplo, a Declaração de Princípios Tripartite da OIT sobre as Empresas Multinacionais e a Política Social, as Diretrizes da OCDE para as Empresas Multinacionais, o Pacto Mundial, etc.); (c) emanadas de ONGs (por exemplo, as Diretrizes da Anistia Internacional em Matéria de Direitos Humanos para as Empresas, os Princípios CERES, o Código de Práticas Laborais Básicas da CIOSL/SPI, as Redes de Empresas Sociais , a Iniciativa de Informação Global , etc.); (d) da iniciativa dos governos (por exemplo, os Princípios Estadunidenses da Empresa Modelo , o Livro Branco da Comissão Européia, os Princípios Voluntários sobre Seguridade e Direitos Humanos dos Estados Unidos e do Reino Unido); (e) iniciativas comerciais (por exemplo, Accountability 1000, SA 8000, KPMG, etc.); (f) iniciativas de empresas (por exemplo, os diversos códigos de conduta de empresas específicas, os mecanismos de apresentação de informações, etc.). É esse repertório de possibilidades que permite às empresas encontrar o meio de ação mais adequado para a circunstância dada, sem prejuízo de sua competitividade (OIE, 2003). Ainda mais, estando a economia globalizada cada vez mais estruturada sob forma de cadeias e redes de produção, muitas empresas procuram envolver suas cadeias no intercâmbio de boas práticas e na promoção de seus próprios valores e iniciativas de RSE. Com isso, contribuem para desenvolver a sensibilidade de seus fornecedores com respeito à RSE, ajudando-os, ao mesmo tempo, a manter-se competitivos em um mercado cada vez mais

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4 International Confederation of Commerce.

5 Social Venture Networks.

6 Global Reporting Initiative.

7 US Model Business Principles.

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exigente. Por outro lado, a propagação do conceito de RSE, entre os consumidores,levaasempresasadivulgarsuasiniciativassobreamatéria,bem como ao surgimento dos “fundos éticos de investimento”, os quais captam recursos para aplicar nas empresas, que, na opinião dos gestores do fundo, atuamdemaneirasocialmenteresponsável (OIE,2003). Mas a RSE não requer somente uma estratégia empresarial que seja responsável do ponto de vista social: demanda também populações que estejam dispostas a valorizar a RSE, em sua esfera de ação pessoal, e a se comportar de acordo com ela. Em uma época de crescente individualismo, isso impõe uma mudança cultural do público consumidor, pois a RSE não é um fenômeno isolado da sociedade, é a resposta das empresas conscientes a cada ambiente social, com seus peculiares valores, suas expectativas e suas legislações (OIE, 2003). Assim, é preciso ter presente que a prática da RSE consome recursos da empresa, o que pode colocá-la em inferioridade competitiva em face de concorrentes que não tenham a mesma sensibilidade social. Assim, a sociedade não deve exagerar a pressão sobre as empresas para o incremento da RSE, ao exigir-lhes mais e mais iniciativas nesse campo. Ainda mais que autoridades públicas e agentes políticos tendem a sobrecarregar as empresas com encargos tipicamente de natureza pública, isto sem a desejável compensação com algum alívio na carga impositiva. Tais atitudes equivocadas podem induzir as empresas a se desviarem do seu foco primordial e, conseqüentemente, tornarem-se menos aptas para desempenhar o seu papel básico de geradoras de riqueza a fim de embasar o desenvolvimento social (Godoy, 2004). O alerta quanto aos exageros nas demandas sociais por RSE não pretende negar os retornos econômicos que dessas ações decorrem para a empresa, seja pela motivação de seus quadros de pessoal, decorrente da consciência social dos empregados, seja pela conquista da preferência dos consumidores. Isso porque a cidadania impõe parâmetros sócio-políticos e ecológicos a demandas, desejos e expectativas do consumidor, razão pela qual a empresa, desejosa de satisfazer ao mercado, é compelida a buscar um comportamento social politicamente correto. Não é por outra razão que a RSE tende a estar tanto mais presente, quanto mais evoluída for a sociedade, isto é, quanto mais desenvolvida a consciência dos seus cidadãos

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8 Alguns fundos éticos de investimento dos Estados Unidos têm demonstrado obter rendimentos mais elevados que a média dos fundos tradicionais, que não selecionam as empresas em que investem pelo critério da RSE.

Sustentabilidade: uma abordagem social

em relação aos padrões éticos e aos direitos humanos. É nesse quadro de sociedades culturalmente desenvolvidas, com a exata noção da responsabilidade social compartida entre empresas e demais atores sociais, que se pode construir o círculo virtuoso, no qual a boa governança promove as empresas sustentáveis e estas viabilizam a sustentabilidade da civilização.

Referências

FAIRBANKS, Michael, LINDSAY, Stace. Arando o mar. São Paulo:

Quality Mark, 2000.

GEUS, Arie de. A empresa viva. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

GODOY, D. L. RSE – uma visão empresarial. In: ARAUJO, Margarete Panerai (organizadora). Responsabilidade social como ferramenta de política social e empresarial. Novo Hamburgo: Feevale, 2004.

ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DE EMPREGADORES. Corporate social responsibility. An IOE approach. Genebra: OIE, 2003.

El papel de las empresas en la sociedad. Genebra: OIE, 2007.

ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Report VI. The promotion of sustainable enterprises. Genebra: OIT, 2007.

PORTER, Michael. A vantagem competitiva das nações. Rio de Janeiro: Campus, 1993.

Alexandra Zottis, Denise Russo e Margarete Panerai Araújo (organizadoras)

Sustentabilidade: uma abordagem social

Do welfare-state ao Estado-agência

Fernando Luís Schüler 1

A crise do Estado No final dos anos 80, o Estado brasileiro chegou a controlar 258 empresas estatais. O governo produzia aço, aviões, minério, computadores, distribuía telefones e atuava no ramo supermercadista. Hoje, há um reconhecimento de que não é esse o papel do governo. Governos devem gerar políticas públicas e coordenar processos de desenvolvimento. Devem gerar ambientes favoráveis ao empreendedorismo e aos investimentos e fazer com que as instituições funcionem. Em particular, devem assegurar que haja justiça social, através de programas focalizados que beneficiem aquelas pessoas e famílias que foram deixadas para trás na loteria social e no jogo do mercado. De que modo se produziu essa nova percepção sobre o papel do Estado, que nos orienta sobre o que os Governos devem (e sobre o que eles não devem fazer)? A resposta a essa questão nos remete ao processo da chamada crise do Estado, observada nas três últimas décadas. Nesse período, assistimos à falência da velha social-democracia, amadurecida no pós-guerra, e dos estados burocráticos. As razões dessa falência são muitas. Citamos três delas. Em primeiro lugar, o processo de globalização econômica. Ao longo da década de 90, o volume de dinheiro movimentado em trocas internacionais elevou-se a uma taxa de 6,5% ao ano, contra um ritmo de crescimento de 3,5% da produção econômica. Não havia mais

1 Doutor em Filosofia. Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, exerce o cargo de Secretário de Estado da Justiça e do Desenvolvimento Social no governo do Estado.

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espaço, nesse processo, para economias fechadas e pouco competitivas. Era preciso ajustar o tamanho e o custo dos estados nacionais (como também dos governos locais) para que as respectivas indústrias e empresas nacionais (ou locais) pudessem prosseguir atuando em um mercado global cada vez mais competitivo. Em segundo lugar, a emergência de uma sociedade mais aberta, mais reflexiva, na expressão de Giddens, e geradora de maiores e até então desconhecidas demandas sociais. A ruptura do núcleo familiar, a expansão do consumo de drogas e da violência urbana são apenas alguns dos fenômenos que marcaram esse período. Novos sujeitos de direitos, novas exigências quanto a redes de proteção social. Em uma época em que era preciso respostas mais complexas a questões geradas por um novo tipo de ordem social, o antigo welfare state vivia sob a pressão da redução de custos, da burocracia, do número de funcionários e estruturas públicas. Em terceiro lugar, houve um crescimento vertiginoso do mercado e da sociedade civil. Gradativamente, foi possível perceber que as organizações da

sociedade civil eram mais eficientes, em regra, para responder à crescente demanda por serviços sociais, em amplo sentido, do que as velhas burocracias estatais. Para além da identificação, na teoria econômica clássica, das falhas de mercado, houve um processo crescente de identificação das falhas de Estado, em particular o processo progressivo de criação e cristalização de burocracias

e de sistemas de privilégios estamentais sob a pressão de minorias bem

estabelecidas no aparelho de Estado. Descobriu-se, aos poucos, a perfeita

congruência existente entre os interesses das corporações públicas e o sistema político tradicional. Políticos, interessados na expansão da malha pública e avessos a processos de reforma que produzam ônus eleitorais de curto prazo, encontraram perfeita sintonia com os interesses de corporações na expansão dos sistemas de privilégios no setor púbico. No Brasil, esse processo alcançou contornos dramáticos no processo da Constituição de 1988, com a generalização, sem critérios, do RJU – regime jurídico único dos servidores públicos - e a instituição de um regime previdenciário de repartição simples,claramente, insustentável em longo prazo. O País assistiu a um

processoagressivodecapturadoEstadopelosinteressesconcentradosdesua

própriaburocracia,bemprotegidapeloestatutodaestabilidadenoemprego. De um modo geral, as últimas três décadas são apresentadas como marcadas pela vitória intelectual do liberalismo econômico e político sobre

as velhas idéias da social-democracia e do socialismo. De fato foi isso o que ocorreu. Em 1989, Francis Fukuyama apresentou seu clássico artigo sobre

o fim da história. Foi amaldiçoado, mas o sentido de seu argumento era

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correto: derrubado o muro de Berlin e bem examinado o que havia do outro lado, ninguém, seriamente, iria, doravante, questionar as idéias da economia de mercado e da democracia constitucional como os vetores desejáveis da organização social. Finalmente, era possível dizer que nós, pelo menos no ocidente moderno, sabíamos que o fundamentalismo (seja de matiz política ou religiosa), os regimes totalitários e as economias de comando são formas indesejáveis de organização das sociedades humanas (mesmo que prossigam existindo pessoas e grupos que pensem o contrário). Nesse sentido, podia ser concebida a idéia de fim de um processo de busca intelectual sobre o modelo de Estado a adotar na modernidade. A vitória do pensamento liberal foi a vitória da idéia-força, segundo a qual a função essencial do Estado é assegurar a vigência das liberdades individuais e garantir que haja justiça social. Por justiça social, compreende- se, progressivamente, algo muito simples: que a cada indivíduo sejam asseguradas as condições básicas necessárias para a sua afirmação como agente de um projeto de vida livremente concebido. De um modo geral, pode-se pensar na idéia de uma mudança de paradigmas. Do velho welfare state para um tipo novo: agencystate. De uma maneira direta: o sentido ético da ação do Estado, na contemporaneidade, concentra seu foco em assegurar não tanto o bem-star de que goza cada cidadão, mas alcançar um estado de coisas que ofereça, a cada um, condições ótimas de obtenção de sua condição de agente. Uma forma de tratar esse tema é dizer que a idéia de responsabilidade individual passa a ocupar um lugar central no pensamento sobre o Estado e a sociedade. Escrevendo sobre o que chamou de “social-democracia de novo tipo”, Giddens registrou, no início dos anos 90, que temos que moldar nossas vidas de maneira mais ativa do que fizeram gerações anteriores e precisamos aceitar, mais ativamente, responsabilidades pelas conseqüências do que fazemos e dos hábitos de estilo de vida que adotamos. O tema da responsabilidade, ou da obrigação mútua, estava lá na social-democracia do velho estilo, mas permanecia, em grande parte, latente, já que era submergido no conceito de provisão coletiva. Temos de encontrar um novo equilíbrio entre indivíduo e responsabilidade coletiva hoje. Por responsabilidade individual, compreende-se tanto a responsabilidade que cada pessoa tem em prover sua própria sobrevivência e sobre o tipo de vida que resolver levar (uma vez que lhe foi dado o acesso a certas condições básicas de desenvolvimento pessoal) como a responsabilidade coletiva (e ainda voluntária) que cada um assume, ao participar da vida civil e buscar a resolução de problemas humanos sem

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esperar pela ação protetora do Estado. Giddens apontou, acertadamente, o fato de que a jovem social-democracia européia dos anos 80/90, tendo como ponta-de-lança o new labor britânico, não deixou de ser social- democrata pelo fato de aceitar lições importantes oriundas do pensamento liberal. São lições que vieram da história vivida, da crise do estado e da experiência totalitária do socialismo. Pois bem, talvez tenhamos ido um tanto longe do objetivo central deste artigo, que é o de argumentar a favor da reforma do Estado e na direção das chamadas políticas de atuação em rede do setor público. De uma maneira geral, nosso argumento dirá que a experiência das últimas três décadas nos mostrou a completa inadequação da idéia de um Estado total, provedor universal de serviços e garantidor de bem-estar social. Nesse processo, assistimos ao naufrágio tanto da velha social-democracia como de seu primo distante, mais grotesco e daninho, o chamado socialismo real, que, ao cabo, única forma de socialismo existente, real ou irreal. Ao mesmo tempo, assistimos a uma mutação no interior da própria tradição liberal. Uma mutação, diga-se de passagem, perfeitamente congruente com o argumento clássico de Hayek, que rejeita a idéia pouco razoável de um Estado mínimo insensível a suas obrigações com a formação dos cidadãos para o próprio exercício da liberdade individual. Uma social-democracia mais sensível à noção da responsabilidade individual e um liberalismo mais sensível à provisão das capacidades básicas requeridas pelo indivíduo-agente. Talvez a chave para a convergência programática da política neste fim/começo de século, talvez o sentido do anunciado e bem-vindo fim das ideologias. A idéia do fim das ideologias pode significar muitas coisas. Talvez, um dia, o século XX seja conhecido como o “século das ideologias”, assim como o século XVIII é referido como o “século das luzes”. As ideologias levaram à barbárie. Ao nazi-fascismo, ao bolchevismo, ao maoismo e variantes. No mundo civilizado, encontramos uma ideologia forte por detrás de cada tragédia histórica. No mundo pós-queda do muro de Berlin, há boas razões para imaginar a emergência, em definitivo, de um fazer político mais pragmático, próximo ao que Weber tão brilhantemente definiu, em seu “A Política como Vocação”, como uma ética da responsabilidade. Uma ética comprometida com as conseqüências da ação política, capaz de aprender com a experiência e revisar conceitos. É nessa lógica que devemos compreender a idéia da reforma do Estado dos anos 80 para cá. Ela é o resultado de um processo histórico determinado. Estadistas foram os que compreenderam esse processo.

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O Brasil e o Rio Grande do Sul

O Brasil iniciou, tardiamente, o processo da reforma do Estado. Nos

anos 80, a pauta brasileira era a reconstrução da democracia, não a eficiência da gestão pública. Os anos de autoritarismo ajudaram a alimentar a idéia ingênua de que a democratização do Estado e o aumento dos controles sociais produziriam, per si, melhores políticas públicas. A transição à democracia, por outro lado, não foi conduzida por uma liderança política modernizante. A Constituição de 1988 é a expressão de uma gama variada de tendências estatizantes e corporativas. Do ponto de vista da gestão pública, o que ela faz é consagrar, com alguns agravantes, o próprio modelo de Estado tecnocrático e autárquico produzido pelo regime militar. A reforma ficaria para os anos 90 e viria, como em boa parte da Europa, pelas mãos da social-democracia.

O primeiro movimento da reforma do Estado, ainda no final dos anos

80 e durante os 90, foi marcado pelo processo das privatizações. Esse processo ocorreu com relativa velocidade. Basta observar que, em dez anos, entre 1988 e 1998, passamos de 258 para 93 empresas estatais controladas pela União. Os anos 90 foram marcados pelo avanço das chamadas reformas de primeira geração. Estabilizamos a economia, iniciamos um processo de reforma da Previdência, desenhamos o processo da reforma administrativa e aprovamos a lei da responsabilidade fiscal. Trata-se, claramente, de uma agenda inconclusa. A reforma administrativafoi,efetivamente,poucoimplementadanaprática.Avançouem estados como São Paulo e Minas Gerais, o que é muito pouco. Em praticamentenadaavançamosnostemasdareformatributáriaedareformada legislação trabalhista. Neste último aspecto, causa espanto que o Governo Federal envie ao Congresso a proposta de adesão do País à Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho, cuja conseqüência evidente será o engessamento ainda maior de nossas relações de trabalho. José Pastore, professordeeconomiadaUSP,calculaque,casoregulamentada,aConvenção pode gerar um custo 100% superior para as empresas pela demissão de um funcionário, relativamente ao custo atual, que já é alto. Trata-se de um arcaísmo inconcebível para um País que deseja dispor de uma economia dinâmica, capaz de responder, com rapidez, aos desafios do mercado global, gerar empregos e estimular a meritocracia no setor produtivo. No presente artigo, concentramos nossa ênfase em um aspecto bastante específico, que integra o esforço de modernização do País e que, julgamos, constitui-se em um dos vetores centrais da segunda geração de reformas que devemos realizar no Brasil. Se o combate à inflação e as

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privatizações foram a pedra de toque do primeiro movimento de reformas, pode-se dizer que, nesta segunda etapa, terá grande importância o tema da publicização, ou ainda, o movimento de contratualização da prestação de serviços não exclusivos de Estado com o terceiro setor. Trata-se de um novo processo de especialização das funções na esfera pública. Sua idéia- força parte da constatação empírica, amadurecida nos últimos 20 ou 30 anos, de que os governos, por diversas razões, não são bons gerenciadores de serviços públicos diretos e complexos, como hospitais, universidades, museus, orquestras, TVs educativas, centros de pesquisa, parques ambientais e instituições de assistência social. Temos boas razões para acreditar que não demorará para que isso seja objeto de um amplo consenso na sociedade brasileira, assim como hoje o é a convicção de que o Estado não é um bom gestor de fábricas de aviões e de supermercados. Há boas razões a favor desse novo processo de especialização das funções dos governos. Uma delas segue a idéia da focalização da ação dos governos. Estes devem buscar o nível máximo de excelência no cumprimento das chamadas funções exclusivas de Estado – funções judiciárias, segurança pública, fisco, fiscalização, regulação, formulação de programas de desenvolvimento e de promoção da justiça social. Para isso, devem recrutar e treinar quadros especializados nas chamadas carreiras de Estado. Devem apostar, firmemente, na formação de quadros de alta administração pública, em número reduzido, mas bem pagos e com contratos de exclusividade. Para isso, é importante manter boas escolas de Governo. Exemplos destas são as que funcionam em Brasília (ENAP) e em Minas Gerais (Fundação João Pinheiro). Outra razão é a proteção contra os pequenos interesses do sistema político e a oferta de estabilidade na gestão das organizações prestadoras de serviços públicos. Imaginemos o seguinte: qual a empresa que consegue prosperar mudando toda a diretoria a cada quatro anos ou menos? Imaginemos mais: que boa parte dos diretores contratados quase nada entenda do negócio, sendo recrutada por afinidades partidárias ou interesses eleitorais. Qual é o resultado esperado de uma situação dessas? A resposta parece evidente e é precisamente assim que acontece no sistema tradicional de gestão estatal. Isso ocorre não porque falta sensibilidade ou inteligência a nossas lideranças políticas, mas porque as regras do jogo autorizam e incentivam esse comportamento. Se não mudarmos as regras, não há por que imaginar que algo sairá diferente no futuro. Em 1998, instituiu-se, no País, a chamada Lei das Organizações Sociais (9.637/98). Trata-se de uma lei ainda relativamente pouco

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conhecida e pouco utilizada como instrumento de organização gerencial dos Governos. No modelo das chamadas OSs (organizações sociais), o Governo estabelece contratos de gestão com organizações privadas sem fins lucrativos, devidamente qualificadas, transferindo a gestão (parcial ou integralmente) de órgãos prestadores de serviços de interesse público (e não de atuação exclusiva do Estado), e aporta recursos para o financiamento dessas organizações contra a fixação de metas a serem cumpridas e critérios para avaliação de desempenho. A partir daí, essas organizações passam a dispor de autonomia de gestão, devendo ampliar suas fontes de financiamento e buscar, permanentemente, ganhos de produtividade, de modo que se possa, gradativamente e com responsabilidade, diminuir o aporte relativo de financiamento direto do Estado em cada contrato, a fim de que os recursos públicos possam ser mais bem aproveitados para o financiamento de mais serviços e políticas públicas nos diversos setores e nas regiões que demandem investimentos. Recursos orçamentários, por vezes esquecemos, são escassos. Em regra, os governos tradicionaisgastamboapartedeseusrecursosparafinanciarocusteiointegral de um pequeno número (por vezes, nem tão pequeno assim) de agências estatais, ao invés de estruturar um sistema de gestão em rede, no qual, com o mesmo recurso, seria possível assegurar o funcionamento de um amplo conjunto de organizações não-governamentais, capaz de atender a uma públicomuitomaisamploecommelhorqualidade. No modelo das organizações sociais, o resultado esperado é a profissionalização da gestão pública: de um lado, o Governo especializa-se nas tarefas de definição de políticas públicas, especificação de metas e indicadores, bem como no acompanhamento dos contratos de gestão e termos de parceria; de outro, as organizações especializam-se na gestão das diversas organizações setoriais, com as vantagens da administração privada e as garantias dos controles e atendimentos das finalidades públicas. Ainda que bastante recente, trata-se de um modelo que não pode mais ser considerado como experimental em nível nacional. Ele já funciona, com grandes resultados, em diversos estados. No estado de São Paulo, uma rede, hoje com 20 hospitais, já é administrada, desde o início da década, a partir desse modelo, com produtividade média 42% superior aos hospitais gerenciados conforme o modelo tradicional-estatal. Também na área da cultura, 12 organizações administram equipamentos culturais exemplares para o País, como é o caso da Pinacoteca do Estado de São Paulo e da OSESP - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, reconhecida como a melhor da América Latina.

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O Rio Grande do Sul inovou, ao aprovar, em dezembro de 2007, o

marco regulatório das OSCIPs – Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. O projeto foi concebido a partir da então recém-criada Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, com a preocupação de avançar em relação ao modelo regulatório das OSs, tal como existente em outrosestados.Aprincipalinovaçãofoiainstituiçãodaseleçãopúblicaparaas

organizações civis com as quais o Governo irá assinar termos de parceria para o gerenciamento de serviços públicos. Trata-se de um avanço significativo, porqueevitariscosdepatrimonializaçãodosistemadecontratualização. Aqui vale a pena uma observação. O sistema puramente estatal de prestação de serviços, tal como concebido nos anos do regime autoritário, mais especificamente com o Decreto Lei 200, de 1967, foi erguido sob premissas que desapareceram na década de 80, nos anos da redemocratização. Uma dessas premissas era a flexibilidade executiva, a qual contaria a chamada administração indireta do Estado. A Constituição de 1988 e sua regulamentação posterior terminaram, definitivamente, com qualquer vestígio dessa autonomia gerencial. Outra premissa era a noção da extração tecnoburocrática dos quadros dirigentes dos organismos prestadores de serviços, assim como das empresas estatais. Parecia razoável, aos construtores daquele modelo, a imagem de um Estado abrangente e tentacular, gerenciando, diretamente, uma rede de órgãos prestadores de uma ampla gama de serviços, com grande autonomia de gestão e sob o comando de quadros técnicos e profissionais.

O modelo já estava destinado à falência, mesmo sob o ambiente

autoritário. Na democracia, a idéia de extração tecnoburocrática dos quadros dirigentes foi substituída pela nomeação indiscriminada desses mesmos dirigentes por parte do sistema político, que tornou nossa malha de autarquias e fundações estatais moeda de troca no mercado político. O modelo ruiu de maneira trágica. Em municípios, estados e na União, milhares de órgãos estatais prestadores de serviços entregues à direção de militantes e quadros partidários, em regra sem nenhum preparo técnico para as funções desempenhadas e com visão de curto prazo, administrando estruturas burocráticas sem nenhuma autonomia ou flexibilidade gerencial.

Parece não haver sentido substituir esse modelo tipicamente patrimonial, em que o setor público passa, facilmente, a ser um recurso à disposição dos interesses do sistema político, por um modelo em que é dado aos Governos o poder de escolher, discricionariamente, quais organizações da sociedade civil terão a prerrogativa de gerenciar este ou aquele serviço público. É preciso estruturar um modelo competitivo e

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meritocrático também para a seleção das organizações que farão a contratualização com os Governos. Assim é na Lei das OSCIPs gaúchas. Com o cuidado de que os processos seletivos tenham o acompanhamento externo do Ministério Público Estadual. Interessa-nos observar, neste artigo, que o modelo das OSCIPs, tal como aprovado no Rio Grande do Sul, talvez seja menos a expressão de uma certa concepção teórica sobre a organização do Estado e mais o reflexo da experiência vivenciada pelas comunidades e pelos poderes municipais, nas diferentes regiões do Estado, na criação das chamadas redes conveniadas, em particular nas áreas sociais. A sabedoria empírica dos administradores municipais ensinou-lhes que, quando se tratava de gerar redes de atendimento para crianças, em creches, ou abrigos para moradores de rua, ou ainda asilos para idosos, podiam-se obter melhores resultados a menor custo conveniando-se com organizações civis privadas, bem enraizadas nas comunidades, ao invés de gerar pesados organismos estatais, com funcionários concursados e estáveis, procedimentos burocráticos de gestão e estruturas físicas custosas. O modelo das OSCIPs é, em síntese, apenas uma regularização, certamente mais sofisticada e exigente, da idéia-força que conduz o estabelecimento dessas redes conveniadas. É mais exigente, pois requer, além da seleção pública, a fixação de metas e indicadores para a mensuração de resultados. Sua efetivação requer que os governos façam sua parte:

disponham de recursos para que os serviços sejam contratados e de capacidade técnica para fixar metas e indicadores, além de gerenciar, de modo competente, os termos de parceria. Osmaioresadversáriosdessenovomodelosãoospolíticostradicionaise as corporações públicas. No sistema estatal tradicional, esses dois segmentos partilham o poder. De um lado, o poder de nomear cargos e manipular orçamentos; de outro, o pequeno poder de controle da máquina e a segurança das prerrogativas e dos privilégios do setor estatal. Após o fim das ideologias, boa parte do que restou do chamado discurso de esquerda, no espectro político brasileiro, consiste, basicamente, na defesa das prerrogativas e dos privilégios das corporações públicas. Sua característica principal é a aversão aos sistemas de mérito, à avaliação de desempenho e a qualquer tipo de estratégiasconcorrenciais, asquaisameacem o monopólio queexercem sobre espaços e recursos públicos. O conceito de esquerda, aqui utilizado, não pretende remeter a nenhum tipo de agrupamento programático mais significativo. Refere-se apenas à designação de um tipo de discurso arcaico, queobstaculizaoavançodoPaíseamodernizaçãodoEstado.

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Sociedade de Rede Bill Clinton, em seu Giving, apresentou três razões capazes de explicar o crescimento acelerado das organizações não-governamentais em nível global. De fato, registra-se um crescimento significativo: os Estados Unidos contam com mais de um milhão de organizações civis sem fins lucrativos, o dobro das existentes há apenas uma década atrás. No Brasil, temos cerca de 300 mil organizações, contra menos de 5 mil no início dos anos 80. As três razões de Clinton dizem respeito à expansão da democracia em nível global; ao crescimento extraordinário da riqueza na era da globalização; e à revolução nas tecnologias da informação, com a Internet à frente, que permitiu a multiplicação dos doadores privados de pequeno porte, capazes de somar enormes quantidades de recursos, quando mobilizados. A equação é bastante clara: mais riqueza, mais liberdade, mais informação.Poderíamosacrescentaroutroselementos:umdeles,semdúvida, é o aspecto tempo. As pessoas vivem mais e dispõem, progressivamente, de mais tempo para realizar atividades voluntárias. Em parte, isso está associado aoaspectoriqueza.Cadaumdenósterá,nofuturo,cadavezmaistempolivree maisrecursosparafinanciaratividadesvoluntárias. Estamos assistindo a um processo acelerado de redução da pobreza absoluta no mundo, entendida como a privação da renda suficiente para a realização dos funcionamentos básicos por parte dos indivíduos, para utilizar a expressão clássica de Amartya Sen. Os problemas sociais tendem, progressivamente, a uma especialização. O suicídio, as carências de auto- estima, as psicopatias e a privação de oportunidades culturais terão mais importância e mobilizarão relativamente mais as políticas públicas, em poucas décadas, do que a privação absoluta de renda. Esse será o quadro, pelo menos, de boa parte das sociedades ocidentais. Apenas uma rede bastante complexa de organizações sociais flexíveis, especializadas e dotadas de forte sentido de missão poderá dar conta do enfrentamento desses problemas. Em Porto Alegre, conhecemos a Fundação Tiago Gonzaga, dedicada à conscientização de jovens sobre os riscos da imprudência no trânsito. Sua líder, Diza Gonzaga, perdeu o filho adolescente em um acidente. Nenhum governo será capaz de fazer o que essa organização faz. Governos conseguem gerenciar, adequadamente, programas de escala, relativamente uniformes e simples. O Bolsa Família pode ser um bom exemplo (necessariamente, não o programa, ele mesmo). O programa trabalha com variáveis simples (renda, freqüência escolar, vacinação). Ele é inteiramente cego diante da diversidade das razões que produzem a condição de pobreza para esta ou aquela família, para esta ou

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aquela comunidade. Podemos imaginar que existam centenas de razões que levem uma família à condição de pobreza. O programa resume sua

abordagem àquelas três variáveis. Pode-se argumentar que, quando se está tratando de privação absoluta de renda, ou do combate à fome, um programa desse tipo faça sentido. Afinal, trata-se de assegurar a freqüência

de crianças à escola e a sobrevivência física de pessoas com um mínimo de

dignidade. Frente a esses argumentos, justifica-se uma política do tipo assistencialista. Ou ainda: uma política cega diante de aspectos ligados à responsabilidade individual e às variáveis focais determinantes da pobreza.

O mesmo tipo de argumento não servirá, quando estiverem em jogo temas

mais complexos, como os referidos anteriormente. Sociedades complexas demandarão redes sociais altamente especializadas. Ao Estado caberão três esferas de responsabilidade: a

produção de políticas públicas de desenvolvimento econômico e justiça social; a produção da informação adequada para a contratação de serviços e o monitoramento de resultados; o desenho do marco legal adequado a fim

de que as redes de organizações civis atuem de maneira eficiente.

Aqui, pode ser interessante citar o exemplo do Rio Grande do Sul. Na chamada “área social”, o estado possui uma fundação que gerencia 40 abrigos para crianças e pessoas que necessitam de proteção especial; uma outra fundação que gerencia 10 centros de referência para pessoas com deficiências; e ainda outra que gerencia perto de 60 unidades de

intermediação de mão-de-obra. Ao mesmo tempo, não possui nenhuma inteligência sistematizada em termos de indicadores e metodologia para avaliação de impacto social de políticas públicas nem metodologia alguma de combate à pobreza. O Estado, simplesmente, abdicou de seu papel estratégico de formulador e coordenador de políticas de longo prazo e contentou-se em prestar serviços, em regra, de pouca qualidade. O Estado acertou, quando criou, em 2002, a chamada Lei da Solidariedade (Lei 11.853/02). É possível que a Lei não tenha sido concebida a partir de uma reflexão estratégica mais aprofundada e, certamente, não veio acompanhada de uma série de medidas complementares necessárias. Mas sinalizou uma direção correta: a criação

de mecanismos inteligentes de incentivo às organizações da sociedade civil.

A Lei é um mecanismo inteligente por diversas razões: ela respeita a idéia da

parceria público-privada, ao estipular um fator de multiplicação do recurso

público da ordem de 1,33 para cada real aportado pelo Governo; ela concede a um conselho paritário, Estado-sociedade civil, a decisão sobre o aporte de recursos; ela permite que o conjunto dos aportes seja direcionado

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a partir de focalizações deliberadas pelo Governo em conjunto com o

Conselho; por fim, ela prevê, a partir de modificações realizadas em 2007, já

no âmbito da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, que parte (5%) dos recursos mobilizados seja destinada à formação de fundos patrimoniais permanentes para a sustentabilidade das organizações sociais (no modelo endowment). Esse é um exemplo de inteligência na criação de uma política pública. Os exemplos em contrário abundam. A instituição do artigo 18 da chamada Lei Rouanet, por exemplo. Ao invés de estimular a parceria público-privada

(como fazia a redação anterior da legislação), o artigo assegura 100% de abatimento fiscal às empresas para o patrocínio de projetos culturais em algumas áreas. Trata-se de um tipo de incentivo que reduz, drasticamente, o volume dos aportes em projetos (dada a limitação dos 4% para a dedução fiscal sobre o Imposto de Renda devido) e deseduca o setor privado para o mecenato cultural. Outro exemplo de legislação pouco inteligente: a lei de incentivo aos fundos da criança e do adolescente. Concedem-se 100% de isenção fiscal, agora limitada a 1% do Imposto de Renda devido, com um agravante: o recurso das empresas é reestatizado, sendo depositado em fundos de natureza estatal, para, posteriormente, ser liberado às organizações sociais privadas e prefeituras por meio de convênios.

A Lei é, novamente, pouco inteligente, ao não gerar a alavancagem de

recursos privados a partir do aporte de recursos públicos e ao gerar uma

enorme burocracia para a liberação dos recursos para as organizações civis:

o recurso ingressa no tesouro do Estado e, por vezes, perdem-se até 5 ou 6

meses para fazê-lo chegar às entidades que gerenciam projetos em favor de crianças e adolescentes. Qual o significado desses exemplos? Há um amplo espaço, no Brasil, para o ajuste de nossas instituições com vistas à formação de uma sociedade de rede. Instituições incentivam e modelam atitudes e comportamentos. Se observarmos que toda a legislação de incentivos fiscais, no País, para as áreas cultural e social, vetam a inversão de recursos incentivados para a formação de poupança nessas duas áreas, é de surpreender que não existam fundos de sustentabilidade nem uma “cultura instalada”, nessa direção, em

nossas organizações? Não nos parece prudente desprezar a variável institucional no processo de formação das sociedades de rede. Na sociedade da informação, nos tempos de Internet, todo o conhecimento

necessário está à nossa disposição para cometermos a menor quantidade de erros na modelagem de nossas instituições.

O século XXI assistirá à formação de uma sociedade mais fluida. No

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final do século, a miséria terá sido erradicada da terra e a expectativa média de vida irá girar em torno dos 100 anos. Viveremos em abundância e incomensuravelmente menos presos à disciplina do trabalho, tal como vivemos no século XX. A democracia prosperará, assim como a integração dos estados nacionais. A visão do velho Kant, enunciada nos artigos sobre a Paz Perpétua, publicados em 1795, terá possivelmente sido realizada. A ele, finalmente, será dado o reconhecimento como o gênio da modernidade. Viveremos em uma comunidade de nações democráticas e republicanas. Teremos paz e necessitaremos muito pouco de exércitos nacionais. A tecnologia permitir-nos-á viver livre de boa parte das doenças que, neste início de século, ainda nos afligem. A arte, a cultura e os prazeres da vida intelectual vicejarão como sequer podemos imaginar à luz do presente. Neste mundo, não será tolerado nada que represente uma ameaça à liberdade individual. George Orwell e seu 1984 ainda serão lidos, como a alegoria terrível de um mundo que, enfim, foi vencido. Essa será a sociedade das redes de cidadãos voluntários. Das organizações que, em liberdade, cuidarão das pessoas e seus carecimentos e produzirão uma sociedade fundada em normas razoáveis de consentimento. Uma sociedade que necessitará muito pouco do Estado.

Referências

FUKUYAMA, Francis. O Fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

HAYEK, Friedrich A. von. O Caminho da servidão. [4. ed.] Rio de Janeiro: Instituto Liberal, Expressão e Cultura, 1987.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. [1. ed.] São Paulo, SP: UNESP, 1991.

ORWELL, George. A revolução dos bichos. Rio de Janeiro: Record, 1997.

SEN, Amartya K. Desenvolvimento como liberdade. [1. ed.] São Paulo, SP: Cia de Letras, 2000.

SEN, Amartya. Sobre ética e economia. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1999.

KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. Lisboa: Edições 70, 1999.

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Sustentabilidade e os novos parâmetros de Responsabilidade Social

Denise Ries Russo e Margarete Panerai Araújo 2

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INTRODUÇÃO Com o início do terceiro milênio, viu-se que o século XX deixava várias dúvidas para todos os cidadãos do mundo. Segundo Hobsbawm (1995, p. 541), o século acabou numa desordem global, cuja natureza não estava clara, e sem um mecanismo óbvio para mantê-la sob controle. Essa impotência frente a uma complexidade da crise mundial envolveu não só a economia, mas as questões sociopolíticas, demográficas, culturais e ecológicas. Contudo, mesmo as expectativas pessimistas não deixaram de lado a importância da economia mundial e seus aspectos decorrentes. Viu- se que as atividades empresariais econômicas, administrativas e de gestão também buscaram explicar as múltiplas mudanças, que não podem existir isoladamente de seu contexto e de suas conseqüências. Toma-se como exemplo o emblemático debate da governança corporativa, sua responsabilidade social frente aos diversos públicos e a chamada sustentabilidade decorrente. Este artigo tem como objetivo central destacar, teoricamente, a visão contemporânea da responsabilidade social e da sustentabilidade, abordando a

1 Cientista Social, com mestrado em Serviço Social e doutorado em Comunicação Social. Professora-pesquisadora da Feevale. E-mail mpanerai@terra.com.br. 2 Administradora de Empresas, com mestrado em Gestão Empresarial. Professora da Feevale . Atualmente exerce o cargo de Diretora da FGTAS – Fundação Gaúcha do Trabalho e Assistência Social do governo do Estado do RS e Conselheira Suplente da Comissão Estadual Tripartite do Trabalho. E-mail deniserr@terra.com.br.

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importância dos chamados stakeholders. A gestão social é uma resposta empresarial, baseada na realidade, pois, ao compreender os desafios e as limitações do contexto, as empresas legitimam ações coorporativas, investindo na reconstrução de seu capital humano interno e externo, e alinham a sua estratégia a esse novo desafio: a gestão social sustentável. As questões metodológicas norteadoras estão vinculadas ao que Demo (2002) denomina de conceito de complexidade aplicado à realidade e ao conhecimento. Em especial, de um lado, tem-se o real (ontologia) e, de outro, a possibilidade de captar essa realidade considerada dinâmica e não- linear (epistemologia). Nesse sentido, partir de leituras, pesquisas e demais estudos, inclusive os empíricos, identificando e analisando o contexto chamado de pós-moderno, passa por compreender e explicar que essa dinâmica é, predominantemente, analisada através de uma percepção de que a realidade é complexa e não-linear. Interessa, aqui, proceder a uma rápida análise dessa dinâmica que vem se instaurando. Demo (2002) ainda apresenta que sempre é válida uma cautela metodológica, uma vez que os argumentos estão repletos de contextos prévios. Com esse critério, previamente definido sobre a visão da realidade e de sua captação científica, bem como seu manejo crítico, o artigo tem um teor lógico e bibliográfico voltado para a chamada compreensão dos desafios pós-modernos. Como qualquer outro fenômeno social, a responsabilidade social se coloca sob uma grande complexidade, envolvendo conhecimentos novos, práticos e teóricos, que pouco a pouco passam a ser incorporados ao conceito de sustentabilidade. Este artigo apresenta conceitos de responsabilidade social e de sustentabilidade, além de definir os públicos de relacionamento de uma empresa: os stakeholders.

1. RESPONSABILIDADE SOCIAL A questão da responsabilidade social empresarial é um tema recente, polêmico e dinâmico, que envolve desde a geração de lucros pelos empresários, em visão bastante simplificada, até a implementação de indicadores sustentáveis no plano de negócios de suas empresas, em contexto sofisticado e complexo. A abordagem da atuação social empresarial surgiu no início do século XX com o filantropismo. Em seguida, a partir do esgotamento do modelo utilizado com o desenvolvimento da sociedade pós-industrial, o conceito de responsabilidade evoluiu, passando a incorporar os anseios dos agentes sociais no plano de negócios das corporações. Assim, além do filantropismo, desenvolveram-se conceitos como voluntariado

Sustentabilidade: uma abordagem social

empresarial, cidadania corporativa, responsabilidade social corporativa e, por último, desenvolvimento sustentável, segundo Tenório (2004). A caracterização da responsabilidade social empresarial concentrou-se em dois períodos distintos. O primeiro compreendeu o início do século XX até

a década de 1950; o segundo representou a abordagem contemporânea,

estendendo-se da década de 1950 até os dias atuais, incorporando a discussão do conceito de desenvolvimento sustentável. Assim como o conceito de responsabilidade social, não existe um marco histórico específico, pois o aparecimento da realidade empresarial resultou no fruto de um processo histórico que envolve não somente as transformações sociais, mas também aquelas que ocorreram nos conceitos de administração de empresas. Segundo El Fórum EMPRESA: não existe uma definição única de responsabilidade empresarial, ela geralmente se refere a uma visão de negócios que incorpora o respeito por valores éticos, pelas pessoas, comunidades e pelo meio ambiente, entre outros. O El Fórum EMPRESA é uma rede hemisférica de organizações empresariais que provem a RSE nas Américas. Mesmo assim, a concepção histórica apresentada por Tenório et al. (2004) indica que, até a década de 1950, a resolução das questões sociais eram atividades exclusivas do Estado, numa

visão que incorporava, claramente, os princípios do liberalismo. Mas, pouco depois, verificou-se o agravamento de questões como qualidade de vida, meio ambiente e condições de trabalho, gerando pressões para a resolução desses problemas. A instauração de um pensamento neoliberal e o início do processo de globalização resultaram na predominância do mercado como o regulador da sociedade e, conseqüentemente, das atividades empresariais. Essa percepção de mudança gerou uma nova ordem econômica, social e política, em que é visível o predomínio do mercado, as transformações econômicas, o enfraquecimento do Estado, o aumento dos problemas sociais

e da desigualdade entre as classes, bem como o surgimento da consciência da necessidade de resolver os desafios causados por essa nova ordem. Vieira (1999, p. 112) afirma que o Estado e o mercado não demonstram ter capacidade de resolver a crise econômica, social e ambiental em que a sociedadeglobalizadaseencontra,poissedevemformularalternativas. A prática da responsabilidade social, na verdade, iniciou-se a partir da preocupação das pessoas com a realidade social. O desenvolvimento global passou a ser visto não somente como sendo uma necessidade, mas também como um fator agregado de valor à empresa. Dessa forma, a responsabilidade social, dentro das organizações, é um processo dinâmico, que se altera de acordo com as transformações do ambiente e,

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particularmente, com as exigências do público consumidor. Godoy (2004, p. 11) explica que a responsabilidade social empresarial

não é algo estático; trata-se de um conceito dinâmico e

multidimensional, que não deixa de evoluir para adaptar-se às mudanças das circunstâncias econômicas, políticas, sociais e meio ambientais”. Tenório et

al. (2004, p. 33-35) descrevem-na como resposta “[

ambientais, aos movimentos dos consumidores, à atuação dos sindicatos em busca da elevação dos padrões trabalhistas, às exigências dos consumidores e das comunidades”.

Melo Neto e Froes (2001) apontam a responsabilidade social como uma nova racionalidade social, enfatizando a visão da empresa como grande investidor social. O foco das ações sociais passa a ser centrado na comunidade, ao invés da sociedade. Essa concentração nas comunidades, no meio ambiente e nas pessoas focou-se em suas necessidades. É uma

busca estimular o desenvolvimento do cidadão e fomenta a

cidadania individual e coletiva” (MELO NETO; FROES, 2001, p. 27). Segundo o Instituto Ethos (2007), a "Responsabilidade Social” é uma forma de conduzir os negócios da empresa com parceira co-responsável pelo desenvolvimento social. É necessário que a empresa estabeleça, na sua estratégia de operação, as metas, os indicadores, o planejamento de suas atividades, para atender às demandas do entorno e não apenas dos acionistas ou proprietários. Se a responsabilidade social é uma forma de conduzir os negócios com sustentabilidade e com compromisso de desenvolvimento social e ambiental, é preciso difundir esses conceitos junto aos novos administradores, de forma que os resultados sejam as boas práticas de gestão com sustentabilidade. Conforme o Guia de Gestão Social (PGQP, 2005), a responsabilidade social empresarial imprimiu um caráter de liderança às empresas, já que gera e divulga valores à sociedade e ao entorno em que ela opera. Com essa base, as empresas podem capitalizar valores intangíveis - marca, reputação, credibilidade, etc. -, que representam 75% do capital frente aos 25% dos ativos fixos da empresa. Flores e Ogliastri (2007) apresentam temas-chave da responsabilidade social empresarial, com relação aos stakeholders e seus valores e ainda em relação a alguns temas transversais, conforme adaptado no quadro1a seguir.

prática que “[

às legislações

“[

]

]

]

Sustentabilidade: uma abordagem social

RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL

Responsabilidade Intensiva

Acionistas: sustentabilidade financeira

Responsabilidade Extensiva

Colaboradores

Fornecedores

Clientes

Comunidades

Sociedade e Governo

Temas Transversais

Direitos Humanos

Meio Ambiente

Ciência e Tecnologia

Governança Corporativa

Valores e Transparência

Fonte: Adaptado pelas autoras da publicação do BID: O Argumento Empresarial da RSE/2007.

Por outro lado, nasce a necessidade de as empresas adaptarem-se a esse novo contexto social, com grandes desafios de gestão; variáveis antes não atendidas passam a ser vitais, como a variável ambiental e social. A economia capitalista necessita de empreendimentos para seu desenvolvimento, e a canalização de decisões corporativas passou a ser a idéia-chave de utilização de novas práticas. Dessa forma, nasce no âmbito da gestão interna e externa, a governança corporativa. Esta passa a ser um instrumento fundamental de gestão, pois consegue reunir todos os conceitos necessários ao acompanhamento da eficácia gerencial, essenciais ao crescimento e à transparência das empresas. Assim, compreender, inicialmente, os conceitos oficiais dessa temática e relacioná-los à responsabilidade social é tarefa importante, pois a sustentabilidade passa pela compreensão de novas práticas de gestão, mais completas, e, dessa forma, torna-se relevante, à medida que os reflexos desses mecanismos se universalizam.

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A governança corporativa é uma área de pesquisa nova, que envolve

finanças, economia, direito, contabilidade, administração, além das demais

áreas sociais. Pode ser entendida como a tentativa de minimizar os custos decorrentes do problema dos gestores, ou seja, a definição operacional do termo reflete, na prática, os registros de expropriação da riqueza e de acionistas controladores, que têm como objetivo apenas o lucro pessoal. Assim, o termo governança corporativa vem sendo conceituado de diferentes formas, como, por exemplo, as que seguem.

] [

auditores independentes e executivos da empresa, liderado pelo conselho de administração (LODI, 2000, p. 9).

é o conjunto de mecanismos de incentivo e controle, tanto internos, quanto externos, que tem a finalidade de minimizar os custos decorrentes de problemas de agência (SILVEIRA, 2006, p.45).

[

é um novo nome para o sistema de relacionamento entre acionistas,

]

A sustentabilidade das empresas vem sendo mais facilmente

conquistada através dos programas de responsabilidade social e da gestão da Governança Corporativa, ou seja, através da implantação de um sistema pelo qual as empresas optam por serem dirigidas e monitoradas, envolvendo os relacionamentos com todos os seus públicos de interesse:

acionistas/cotistas, administradores, governo, comunidade, diretoria,

auditoria externa, colaboradores, fornecedores e clientes. Esse processo visa a atingir, a partir da sua implementação, os reais objetivos de transparência, prestação de contas e eqüidade.

No Brasil, essa visão passou a ser uma realidade no início dos anos 90,

mas somente a partir deste século é que as grandes empresas começaram a praticar a responsabilidade social de uma forma mais abrangente. O

administrador ou gestor integra diferentes aspectos, fugindo dos resultados apenas financeiros. Visando a um novo modelo de organização e gestão sugerida, as empresas estão mais atentas aos compromissos e às responsabilidades que possuem com seus públicos, com os quais se relacionam e que antes não eram citados como partes interessadas na administração das empresas.

A sustentabilidade faz parte do conceito de social, ou melhor, não existe

responsabilidade social sem uma visão de sustentabilidade, e é exatamente esse o desafio empresarial, isto é, aliar à sua estratégia essa visão, implementando a governança corporativa de forma integral, com vistas a garantirasustentabilidadecompletadosistema.Eéexatamenteessetemaque seabordaaseguir,objetivandoaprofundaroconceitoeoseuentendimento.

Sustentabilidade: uma abordagem social

2. SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL O conceito de sustentabilidade empresarial estava diretamente associado à questão da preservação ambiental. Segundo Melo Neto e Froes (2001), uma empresa socialmente sustentável praticava ações de desenvolvimento e preservação do seu capital natural. Portanto, essa dimensão era, inicialmente, ambiental e ecologicamente responsável. A mudança de paradigma exigiu a harmonização de conceitos como proteção ambiental, crescimento econômico e eqüidade social. O fio conceitual dessa nova visão é entendido como uma estratégia empresarial sólida. Ou seja, as empresas devem se convencer de que os impactos nos negócios asseguram o desenvolvimento de um novo sistema. Um dos conceitos mais adotados foi o da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (1988), em que a terminologia de desenvolvimento sustentável “atende as necessidades do presente sem comprometer gerações futuras”, conforme Becker (2003, p.181). O desenvolvimento sustentável é uma nova tendência que vem sendo caracterizado com uma conotação extremamente positiva. Até mesmo grandes entidades internacionais, como o Banco Mundial e a UNESCO, apontam que o termo traz incorporada uma nova filosofia do desenvolvimento, pois reúne diversas dimensões. Sustentável pressupõe o equilíbrio. Melo Neto e Froes (2001, p.184) afirmam que a palavra-chave é “dar sustentabilidade ao sistema” como regulação empresarial. É, portanto, com base em novos instrumentos gerenciais ligados à responsabilidade social e à sustentabilidade social (tripé composto por proteção ambiental, crescimento econômico e eqüidade social) que esse novo paradigma se profissionaliza e ocupa a vanguarda de vários setores. O conceito de sustentabilidade, por conseguinte, abriga todos os conceitos - social, econômico, financeiro e ambiental - e contempla a ação empresarial em todas essas dimensões, atendendo a todos os seus públicos de relacionamento: os stakeholders, temática que se aborda no próximo item, com o objetivo de entender essa visão empresarial que alia a responsabilidade interna e externa, a qual alguns autores já descrevem como intensiva e extensiva, segundo apresentada no livro O Argumento Empresarial da RSE, editado pelo BID em 2007.

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3. STAKEHOLDERS (OS PÚBLICOS INTERNOS E EXTERNOS) Os chamados stakeholders são os públicos de interesse de uma organização com focos diversos. A empresa que desejar, efetivamente, ter indicadores de sustentabilidade global deve se voltar para as necessidades desses públicos e, principalmente, incluí-los em seu planejamento estratégico. Um dos grandes desafios das empresas que pretendem atuar com sustentabilidade, sem dúvida, é construir um modelo de negócio que seja, ao mesmo tempo, interessante do ponto de vista econômico e coerente do ponto de vista do desenvolvimento sustentável da região, do estado e do país. Daí relacionar esses mecanismos com os stakeholders. Segundo o Guia de Sustentabilidade (2005), o termo, em inglês, stakeholders é utilizado para designar pessoas físicas e/ou pessoas jurídicas, as quais podem afetar uma empresa, direta ou indiretamente, por meio de suas opiniões ou ações. São divididos em primários, quando vinculados às funções principais da empresa, e secundários, quando estão relacionados às atividades indiretas. Portanto, eles têm interesses diversos, e a empresa que desejar praticar a governança corporativa deve se comprometer com as necessidades, como a proteção às partes envolvidas, principalmente, alinhando cooperação e sistema organizacional. A figura 1 ilustra essa relação da empresa e a sua responsabilidade frente aos stakeholders, ou seja, exemplifica os indicadores necessários para atuar com responsabilidade social. O movimento da governança corporativa passa pela compreensão dessas relações, que devem ser

Público Clientes Interno Missão Comunidade Fornecedores Visão de Meio Valores e ambiente Transparência
Público
Clientes
Interno
Missão
Comunidade
Fornecedores
Visão de
Meio
Valores e
ambiente
Transparência
Governo e
sociedade

Figura 1: A empresa e os Stakeholders Fonte: ASHLEY, 2002. Adaptado pelas autoras.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Atualmente, as empresas têm sido pressionadas a estabelecer níveis elevados de governança interna. Na medida em que se torna evidente a influência das corporações nas mudanças econômicas, ambientais e sociais, os investidores e demais partes interessadas passam a exigir os mais elevados padrões éticos, de transparência e de responsabilidade por parte de executivos e administradores. A governança não é um modismo, é um sistema aperfeiçoado de gestão, porque dela emana o comprometimento da diretoria executiva de passar mais informações ao mercado, como maneira de agregar valor ao negócio e também de estruturar a administração da empresa, para que o valor dos acionistas seja aumentado através do mercado de capitais. A responsabilidade social associada à Governança Corporativa agrega um valor imenso à organização, pois ela é a ferramenta para conduzir todo o processo de discussão da gestão e pode ser a grande direcionadora de ações junto aos stakeholders.

CONSIDERAÇÕES FINAIS A capacidade das empresas de aliar sucesso financeiro a equilíbrio ambiental e social responsável vem sendo aceita como uma fórmula de definição de desenvolvimento sustentável. Isso porque atende às necessidades presentes sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem suas próprias necessidades. As grandes discussões e os relatórios anuais da política das maiores empresas do mundo incluem, atualmente, a governança corporativa, a responsabilidade social e seus stakeholders como temas-chave para sua sustentabilidade econômica e social. A busca da sustentabilidade tornou-se uma urgência e não pode ser conquistada por uma única cooperação. Assim, as estratégias pensadas para orientar as ações das empresas em consonância com as necessidades sociais devem prever, além do lucro e da satisfação de seus clientes, o bem-estar da sociedade, esse é o desafio. Essa busca do desenvolvimento sustentável enfatiza que, para ocorrer a sustentabilidade, devem ser utilizados programas consistentes, contínuos, de resultados tangíveis, que disseminem conhecimento e promovam o crescimento global. Essas novas oportunidades nos negócios encontram eco com a diminuição de custos e riscos, com o aumento de rendimentos e a participação no mercado.

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Os exemplos desses novos desempenhos vêm sendo os melhores na geração de valor, pois a prática da sustentabilidade consegue progressos significativos, que mobilizam, sensibilizam e ajudam as empresas a gerir seus negócios de forma mais responsável. A nova visão contemporânea da gestão sustentável inclui a governança corporativa e as práticas sociais responsáveis.

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Sustentabilidade: uma abordagem social

Inovação e Conhecimento:

desafios para a Sustentabilidade

Ernani César de Freitas

1

Introdução A proposta deste estudo é avançar no debate reflexivo e formador sobre a inovação, o conhecimento e a sustentabilidade na sociedade contemporânea, sem perder de vista as especificidades das organizações e as complexidades do conhecimento. Além disso, pretende-se, neste trabalho, explorar a necessidade de discussão acerca da temática Inovação, Conhecimento e Sustentabilidade, bem como proporcionar uma reflexão de cunho humanista, que procura descolar a inovação apenas dos processos tecnológicos e da atividade empresarial. Nessa tentativa, procurou-se percorrer caminhos reflexivos que possibilitem a inclusão de outras áreas do conhecimento, além das tradicionais exatas e tecnológicas. Assim, esses movimentos, delimitados pela abrangência deste estudo, suscitam uma reflexão sobre o ser e o processo à luz da inovação e seus desdobramentos, através da seguinte problematização: o que é inovação? O que é conhecimento? Como inovação e conhecimento articulados podem gerar sustentabilidade nos contextos sócio-organizacionais? Ações e reações diante do mundo globalizado sugerem que se deve sair da zona de conforto em que se encontram as organizações, para encontrar novos modelos, novas tecnologias e novos parceiros na busca e

1 Doutor em Letras, área de concentração Lingüística Aplicada (PUCRS); Mestre em Lingüística Aplicada (UNISINOS); MBA Executivo na FGCRJ; pós-graduado em Gestão Empresarial (UFRGS. Professor pesquisador no Centro Universitário Feevale; e-mail:

ernanic@feevale.br.

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melhoria das soluções em vez de usar a mesma mentalidade, esperando resultados diferentes, mas que não resolvem os mesmos desafios.

É preciso visão, inovação, ousadia e espírito empreendedor, para dar

um grande salto rumo a um mundo diferente. A escala de desafios é imensa e exige abordagens radicais para mudanças essenciais, transposição de consciência, desenvolvimento espiritual, conciliando razão e emoção, cabeça e coração. São essas as principais exigências do cenário global para uma evolução sustentável. Uma revisão dos valores humanos, diante de uma crise civilizatória, impõe ainda o exercício do diálogo com alicerce na ética, capaz de conciliar e agregar três forças distintas: o chamado primeiro setor, ou poder público; o segundo setor, constituído pelo poder privado; e o terceiro setor, representado pelas organizações não-governamentais. Construirumambienteinstitucionalfavorávelàevoluçãosustentávelexige dasociedadeumnívelmínimodeconscientizaçãosobreodesafioedeconsenso sobreaspossíveissoluções:açõesarticuladasentreEstado,empresasesociedade

civil. O caminho da transformação exige estratégia, metodologia, persistência e muita coerência. Requer o reconhecimento de políticas públicas como fator de universalização de interesses coletivos e a coerência dos agentes econômicos entreesseconsensoesuaspráticascotidianas.

A capacidade de articulação entre governo, empresa e sociedade civil

vai determinar a velocidade da mudança de atitude, que pode acelerar a transição de um mundo baseado em um modelo esgotado de relações ambientais, sociais e econômicas para a nova era do Conhecimento e da Sustentabilidade. Não por acaso, a falta de articulação institucional, entre empresas, setor público e sociedade civil, tem sido apontada como principal obstáculo à incorporação dos desafios da sustentabilidade aos objetivos e às ações estratégicas das organizações. Os desafios são incomensuráveis e a labuta, inesgotável.

Dinâmica Inovativa Nas transformações em curso desde as últimas décadas do século XX, projeta-seopapelestratégicodainformaçãoedoconhecimentoemdiferentes dimensões da vida em sociedade. Este trabalho parte do reconhecimento de queaprodução,asocializaçãoeousodeconhecimentoseinformações,assim comoaconversãodesteseminovações,constituemprocessossocioculturaise que tais práticas e relações se inscrevem no espaço e na própria produção do espaço,emsuasváriasescalas. No final do século XX, conforme Mota (1998, p. 03), “o processo de

Sustentabilidade: uma abordagem social

mudança tecnológica atingiu uma velocidade e importância nunca antes vistas na história humana”. As aceleradas, profundas e abrangentes transformações marcaram o esgotamento da sociedade industrial, e o

ingresso na sociedade do conhecimento colocou-se como fator-chave para

o desenvolvimento econômico e social de regiões e países. Desse modo, a valorização das atividades de ciência e tecnologia e de pesquisa e desenvolvimento, para estados nacionais, empresas e universidades, são evidências claras desse processo. Nesse contexto, as inovações em tecnologia e conhecimento surgem

como as variáveis decisivas para alcançar e sustentar vantagens competitivas de empresas, setores e espaços econômico-sociais. Elas são tão decisivas que, quase sempre, inovação e uso de tecnologias ou novas tecnologias aparecem como sinônimos, o que é bastante equivocado. Sabe-se que a dinâmica da inovação depende mais dos processos de aprendizagem do conhecimento do que da disponibilidade de recursos, assim como seu impulso ocorre de maneira sistêmica. Desta forma, ela está fortemente vinculada aos processos de interação entre as organizações e os agentes que permitem gerar, reproduzir e retroalimentar processos de aprendizagem e convertê-los em atividade inovadora. Ainda que a empresa seja considerada a unidade básica para materializar a acumulação tecnológica, seu desempenho está fortemente condicionado à densidade da infra-estrutura tecnológica existente no seu entorno, como, por exemplo, nas universidades e nos segmentos que trabalham com pesquisa e inovação, que pode assegurar externalidades dinâmicas positivas. Observa-se essa circunstância na forte integração das atividades dos sistemas de ciência e tecnologia dos países de economia industrial avançada.

O início do século XXI, caracterizado por uma maciça revisão de

valores éticos nas corporações e na sociedade em geral, traz à tona das discussões acadêmicas e das estratégias empresariais a preocupação com a solução de problemas sociais fundamentais (FISCHER, 2002). De acordo com o discurso vigente, novas combinações de recursos, sob a forma de inovações em suas diversas configurações, são necessárias e urgentes para o alcance de metas mundiais de desenvolvimento sustentável.

A importância do processo e das formas de organização do

conhecimento está associada à consciência dos cientistas sobre o papel que

exercem a informação e a tecnologia no contexto produtivo

contemporâneo. Nele, a importância crescente do conhecimento associa-se

à sua capacidade de responder às necessidades sociais. A inovação tecnológica pressupõe o desenvolvimento de uma idéia,

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utilizando uma infra-estrutura adequada, que permita a produção de um bem ou serviço com qualidade, que satisfaça as condições exigidas para seu uso prático. Ela está associada ao desenvolvimento de produtos intensivos em conhecimento, que possibilitem aos seus consumidores interagirem com seu meio social. Toda a seqüência tecnológica visa a um único fim: o desenvolvimento, força motriz da competitividade. Barreto (1992, p. 13) entende que o desenvolvimento “compreende o uso sistemático de conhecimentos científicos ou não, em geral provenientes da própria pesquisa, visando a produção de novos materiais, produtos, equipamentos e processos”. Para Schumpeter (2002), em artigo escrito em 1932, desenvolvimento pode ser definido como a transição de um modelo de sistema econômico para outro modelo, sendo que o caminho dessa transição não pode ser decomposto em passos infinitesimais. O desenvolvimento só acontece com capacitação tecnológica. É necessário que o setor produtivo a possua para que possa se instalar a inovação. Schumpeter, considerado o pai da inovação, categorizava-a como a “introdução de um novo produto ou um novo método de produção; a abertura de um novo mercado; a descoberta ou conquista de uma nova fonte de matéria-prima ou a introdução de uma nova estrutura de mercado” (apud BERNARDES; ALMEIDA, 1999, p. 89). O que se observa é que existem duas ramificações: área mercadológica – foco do usuário – e área produtiva – novidades nos processos, produtos e serviços. Inovação é a capacidade de conceber e incorporar conhecimentos para dar respostas criativas aos problemas (FINQUELIEVICH, 2005). A inovação e o conhecimento são fundamentais para a criação de uma sociedade humana sustentável. Como sociedade, não seremos capazes de ser bem-sucedidos na criação de um mundo sustentável, se nos preocuparmos unicamente em ser mais eficientes naquilo que já fazemos. No entanto, as tecnologias inovadoras são descobertas, desenvolvidas e comercializadas num ambiente que consiste em mercados, cadeias de fornecimento e redes de distribuição, a par de uma série de tendências perturbadoras social e ambientalmente: ecossistemas e sistemas de apoio social ameaçados, um afastamento cada vez maior entre ricos e pobres, falta de acesso às verdadeiras fontes de conhecimento, mesmo estando inseridos num mundo pleno de informação e de grandes preocupações com os efeitos da globalização. Será que a inovação e a tecnologia podem fazer parte da solução para reverter essas tendências negativas? Se assim for, como deve o mundo

Sustentabilidade: uma abordagem social

empresarial atuar, de forma a que a inovação tenha um impacto positivo sobre essas tendências e, ao mesmo tempo, crie valor para as empresas? Dosi (1988) discute o processo da inovação tecnológica como uma mudança de paradigma, visto que a busca pela descoberta, pelo desenvolvimento, pela imitação e pela adoção de produtos é a sua essência. Freeman e Perez (1986 apud Dosi, 1988) já utilizavam a expressão “paradigma tecnológico” para descrever esse processo. Através desse conceito expandido de inovação, entendemos ser possível avançar para diversas possibilidades. Na dimensão organizacional, a inovação pode ser tecnológica (produtos e serviços melhorados ou desenvolvidos e gerados para o mercado) ou administrativa (estrutura organizacional e processos administrativos melhorados ou desenvolvidos e gerados). Na dimensão cultural e econômica, pode-se identificar a inovação radical (que requer um conhecimento muito diferente daquele já existente, tornando este último obsoleto) ou incremental (que se apóia no conhecimento existente, sem destruí-lo). A inovação radical é considerada como destruidora das competências antes adquiridas, pois se instala solicitando novíssimas habilidades para a implantação de novíssimos métodos. Já a inovação incremental é considerada como “alavancadora” de competências, pois é uma evolução do que já se sabe, ou seja, agrega novas habilidades. Independente do grau de novidade de uma inovação, a consideração principal é que ela garanta a sustentabilidade da organização em sua missão institucional. Barbieri (1997a) mostra diversos modelos de processos de inovação, dentre eles, o demand pull, que é um modelo linear, em que a necessidade do mercado é a propulsora da geração de idéias.

Conhecimento como capital social O conhecimento é o principal capital de uma organização. Com todo o investimento em aprendizagem, o conhecimento adquirido pelos servidores não é mais um ativo pessoal, mas também da organização. Da mesma forma com que administramos os demais ativos, devemos passar a gerenciar o capital intelectual, uma prática que requer evitar a sua depreciação e garantir identificação, armazenamento, localização e recuperação adequados e, principalmente, o seu compartilhamento. Isso abrange o conhecimento explícito, sistematizado, e também o conhecimento tácito, que se depreende na prática individual e grupal. Quanto mais o conhecimento for compartilhado e recuperado, de forma organizada, mais os indivíduos poderão capitalizar seu próprio

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conhecimento, aumentando, exponencialmente, a massa intelectual.

O conhecimento é socialmente moldado, possuindo não apenas uma

dimensão temporal/histórica, mas também espacial/territorial. Ainda que se possa fazer referência a um conceito genérico de conhecimento, os conhecimentos são específicos e diferenciados. Em um mesmo contexto econômico e sociocultural, o conhecimento diferencia-se segundo áreas e

comunidades de especialistas, segmentos e agentes econômicos, segmentos e grupos sociais, empresas e organizações, constelações regionais e redes sociais e produtivas (FORAY, 2000; ALBAGLI; MACIEL, 2003). A capacidade de gerar, de adaptar/recontextualizar e de aplicar conhecimentos, de acordo com as necessidades e especificidades de cada organização, país e localidade, é, portanto, central. Desse modo, tão importante quanto a capacidade de produzir novo conhecimento é a capacidade de processar e recriar conhecimento, por meio de processos de aprendizado; e, mais ainda, a capacidade de converter esse conhecimento em ação, ou, mais especificamente, em inovação. Isso é particularmente relevante no caso de países em desenvolvimento. Importa, sobretudo, compreender e conhecer "os mecanismos endógenos de criação de 'competências' e de transformação de conhecimentos genéricos em específicos" (YOGUEL, 1998, p. 4).

O aprendizado, por sua vez, não se limita a ter acesso a informações;

consiste na aquisição e construção de diferentes tipos de conhecimentos, competências e habilidades. A informação serve, fundamentalmente, à circulação ou ao transporte de conhecimentos (LATOUR, 1987), mas não necessariamente gera conhecimento; não é, por si só, capaz de alterar estruturas cognitivas. O aprendizado deve ser pensado como relação social, como um processo em que "as pessoas não só são participantes ativos na prática de uma comunidade, mas também desenvolvem suas próprias identidades em relação

àquelacomunidade"(HILDRETH;KIMBLE,2002,p.23).

Esse debate reflete também a afirmação de um conceito mais abrangente de inovação para além da inovação tecnológica. Nesse, valoriza- se não apenas o conhecimento formalizado e dito avançado (conhecimento científico-tecnológico), mas também o conhecimento não-formalizado, construído nas práticas econômicas e socioculturais - os conhecimentos de indivíduos, em seus papéis de trabalhadores, consumidores e cidadãos, de organizações públicas e privadas, de populações, comunidades e povos tradicionais, entre outros grupos e segmentos. Em contrapartida, boa parte do próprio conhecimento científico também é tácita, assim como o dito conhecimento prático pode ser, em parte, codificado.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Cada local ou região dispõe, assim, de diferentes combinações de características e bens coletivos - físicos, sociais, econômicos, culturais, políticos, institucionais -, que influenciam sua capacidade de produzir conhecimento, de aprender e de inovar. E, no sistema de relações que configuram o ambiente local, a dimensão cognitiva dos atores - expressa em sua capacidade de tomar decisões estratégicas e em seu potencial de aprendizado e inovação - é determinante de sua capacidade de capitanear os processos de crescimento e mudança, ou seja, de desenvolvimento local. Nessas interações locais, desenvolve-se um conhecimento coletivo, o qual é diferenciado e desigualmente distribuído, podendo ou não constituir importante fonte de dinamismo para aquele ambiente. Esse conhecimento coletivo não corresponde, simplesmente, à soma de conhecimentos de indivíduos e organizações, pois resulta das sinergias geradas a partir dos vários tipos de interação, e altera-se, inclusive, na sua interseção com a circulação globalizada de informação e conhecimento. As chamadas aglomerações produtivas, científicas, tecnológicas e/ou inovativas, tais como distritos industriais, clusters, milieux inovadores, arranjos produtivos locais, entre outros (CASSIOLATO; LASTRES, 1999), são consideradas ambientes propícios a interações, à troca de conhecimentos e ao aprendizado, por meios diversos, tais como a mobilidade local de trabalhadores; as redes formais e informais; a existência de uma base social e culturalcomum,quedáosentidodeidentidadeedepertencimento. A construção de novos formatos organizacionais e a ênfase em atividades de parceria, prestação de serviços, intercâmbios e convênios envolvendo empresas, governos, universidades, incubadoras e centros de pesquisa em regras múltiplas e variáveis passam a constituir a pré-condição para qualquer inovação. A crítica aos padrões lineares e simplistas de inovação, que enfocavam as relações estritas entre mercado e indústria, permitiu a construção de uma agenda de pesquisa centrada na difusão de informações e conhecimento e de novas variáveis de análise (NICOLAS; MYTELKA, 1994). Portanto, ocorre uma abrangência cada vez maior do conceito de inovação, que passa a incorporar bens intangíveis em adição às variáveis econômicas presentes nas discussões anteriores. A produção e a circulação de conhecimento, tácito ou codificado, passam a ser consideradas um elemento essencial para a efetivação das práticas de inovação tecnológica. A passagem de formas de conhecimento, em atuação pública ou privada, redefine o sentido da inovação, de modo que a capacidade de gerar, de adaptar/recontextualizar e de aplicar conhecimentos, de acordo com as

Alexandra Zottis, Denise Russo e Margarete Panerai Araújo (organizadoras)

necessidades de cada organização, país e localidade, é, portanto, central. Desse modo, “tão importante quanto a capacidade de produzir novo conhecimento é a capacidade de processar e recriar conhecimento, por

meio de processos de aprendizado; e, mais ainda, a capacidade de converter esse conhecimento em ação, ou, mais especificamente, em inovação [ ]” (ALBAGLI; MACIEL, 2004, p. 10).

O contexto de comunicação entre os agentes participantes da prática

inovativa torna-se assim o pressuposto para que ocorra um compartilhamento de códigos e iniciativas e, desse modo, o fluxo de idéias e

práticas cooperativas.

De acordo com essa corrente de pensamento, a inovação depende menos de investimento intensivo de capital e inventividade técnica, e mais da criação de redes de circulação de informação e conhecimento. A problemática da inovação torna-se menos tecnológica e mais pedagógica, adquire um sentido econômico (distributivo) e social (coesão) que transcende os ditames operacionais e funcionais dos objetos técnicos.

A prática da gestão e do compartilhamento do conhecimento e dos

bens intangíveis constitui o meio e o fim da atividade dos inovadores. Faz-se necessário expandir o conceito de inovação de forma a incluir as condições coletivas para a qualificação de profissionais, aperfeiçoamento de parcerias

e agilidade corporativa (MACIEL, 2002; GIBBONS et al., 1994). Para a inovação se fortalecer como prática tecnológica, ela precisa apresentar sua positividade, seu potencial de articulação entre as máquinas e as instituições sociais. E, nesse sentido, a indeterminação e a insegurança garantem a originalidade e o sucesso dos procedimentos inovativos. Nesse sentido, então, quando se pensa em Gestão do Conhecimento, há uma superposição na direção das análises “micro” (indivíduos e grupos), “meso” (organização) e “macro” (ambiente). Reconhece-se, assim, que o aprendizado e a criação individual incluem a capacidade de combinar diferentes inputs e perspectivas, que o aprendizado organizacional demanda uma visão sistêmica do ambiente e a confrontação de modelos mentais distintos e, finalmente, que o processo de inovação requer, crescentemente,

a combinação de diferentes habilidades, conhecimentos e tecnologias de campos distintos do conhecimento e mesmo de diferentes setores econômicos e sociais.

Sustentabilidade e desenvolvimento Desde há muito, as questões do desenvolvimento foram tratadas como um patamar mais elevado do que o simples crescimento econômico.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Se a ligação entre crescimento econômico e coesão social, nos âmbitos nacional, regional e global, constituíram um dos primeiros traços diferenciadores, a proteção ambiental somou-se a essas preocupações, quando o desenvolvimento econômico começou a pôr em causa o futuro para as novas gerações.

O agravamento dos problemas ligados a uma inadequada gestão dos

recursos naturais, com os riscos inerentes à proteção do equilíbrio físico, juntou-se aos problemas da desigualdade na distribuição da riqueza e do progresso científico.

É neste contexto que se desenvolvem preocupações e políticas em

nível global, regional, nacional e local, focalizadas na preocupação com a sustentabilidade do desenvolvimento, tendo em conta as futuras gerações e

o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico, social e ambiental.

A expressão sustentabilidade teria aparecido, pela primeira vez, em

1980, num relatório da International Union for the Conservation of Nature

and Natural Resources (IUCN), World Conservation Strategy, que sugeria esse conceito como uma aproximação estratégica à integração da conservação e do desenvolvimento coerente com os objetivos de manutenção do ecossistema, preservação da diversidade genética e utilização sustentável dos recursos.

O conceito de desenvolvimento sustentável foi mais tarde consagrado

no relatório "O Nosso Futuro Comum", publicado em 1987 pela World

Commission on Environment and Development, uma comissão das

Nações Unidas, chefiada pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland.

O Relatório Brundtland (1987), como ficou conhecido o documento,

desenvolvimento que

satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações vindouras satisfazerem as suas próprias necessidades”. A noção de desenvolvimento sustentável tem implícito um “compromisso de solidariedade com as gerações do futuro”, no sentido de assegurar a transmissão do “patrimônio” capaz de satisfazer as suas necessidades. Implica a integração equilibrada dos sistemas econômico,

definia desenvolvimento sustentável como o "[

]

sociocultural e ambiental,e dos aspectos institucionais relacionados com o conceito muito atual de "boa governança".

A idéia da sustentabilidade coloca-se como contraponto ao caráter

perdulário do modelo prevalecente, na medida em que a economia, por um lado, está baseada no desperdício da matéria-prima fornecida pela natureza numpadrãodeconsumodescompassadocomoseuritmoesuacapacidadede

Alexandra Zottis, Denise Russo e Margarete Panerai Araújo (organizadoras)

fornecimento e, por outro, tem tratado a natureza como mero depositário de resíduos, sem considerar sua capacidade de absorção e reciclagem. A sustentabilidade contrapõe-se, por fim, à característica antropocêntrica do modelo: o homem como centro da questão numa postura dominante sobre o entorno natural, cujas ferramentas científicas e tecnológicas embasam uma economiaquesubjugaanatureza,colocando-seacimadesta.

Portanto, pensar em sociedade sustentável obriga a imaginar uma sociedade que não seja injusta e que necessita ser reconstruída. Logo, estamos diantedequestõesbásicasquantoàformaeaoconteúdo:umdilemaparatoda ahumanidade.Comoconstruironovoecomqueferramentas?Sãoquestõesa partir das quais as distintas visões de mundo são estabelecidas e os projetos disputados. Condicionam os saberes, constroem os objetivos, estabelecem as estratégias e determinam as atitudes. Estão alicerçadas e alicerçam valores e princípiosedeterminamaética. Porém, o que mais dizer sobre o assunto que ainda não foi dito? Com relação à forma, o pensamento de Paulo Freire (1986) continua mais

oportuno do que nunca: “[

mesma forma, com relação a Bertold Brecht: “[

a ciência só tem sentido

a educação necessita ser libertária”. Da

]

]

se for para aliviar o sofrimento humano”. E cabe repetir à exaustão as

palavras de Albert Einsten: “[

usando o mesmo tipo de raciocínio que o criou”. É evidente que o novo – sustentável – necessita ser construído a partir dessas premissas. Caso contrário, é a repetição do velho travestido do novo que utiliza as mesmas

ferramentas para a construção da espiral de injustiça, que o idioma espanhol

más de lo mismo.

Com relação ao conteúdo, apesar do vertiginoso avanço científico e tecnológico, da velocidade de sua geração, do reconhecimento de que o

homem foi capaz de gerar mais conhecimentos nos últimos 50 anos do que em toda a sua própria história, o equilíbrio entre os aspectos quantitativos e qualitativos do desenvolvimento ainda não foi alcançado.

O desafio multidimensional abriu-se para todas as organizações da

sociedade que buscam uma gestão duradoura e equilibrada. Os componentes vetores dessa busca podem ser assim descritos, como o

permite expressar tão bem:

você não pode resolver um problema

]

1

foram claramente na Agenda 21 (BARBIERI, 1997b):

– crescimento e manutenção da economia do sistema no qual a

2 A Agenda 21 Local é um processo participativo, multissetorial, que visa a atingir os objetivos da Agenda 21 em nível local, através da preparação e implementação de um plano de ação estratégicodelongoprazodirigidoàsprioridadeslocaisparaodesenvolvimentosustentável.

Sustentabilidade: uma abordagem social

organização está inserida;

– a qualidade desse crescimento: o sistema de tomada de decisões, a

inclusão dos stakeholders (traduzido como interessados em determinada iniciativa; alguém que é afetado pelos resultados daquele empreendimento), a composição de parcerias, as necessidades sociais presentes e futuras;

– a consideração das necessidades de todos;

– a manutenção dos níveis populacionais sustentáveis;

– conservação e melhoria da base de recursos naturais;

– reorientação das relações comerciais internacionais;

– normatização e controle da poluição;

– geração de novas tecnologias;

– administração de riscos;

– inclusão do meio ambiente e da sociedade em todas as decisões;

– administração das taxas de substituição.

Como se vê, as variáveis incluídas na busca da sustentabilidade são muitas e não terminadas. O sistema social ficou bastante complexo e, hoje, há o reconhecimento de que os elementos acima citados são indissociáveis e que, alterando um deles, modifica-se o todo. O isolamento de qualquer das variáveis pode conduzir a uma tomada de decisão errada, a investimentos equivocados, a resultados não desejados. Para Mello (1999), a busca da sustentabilidade está na capacidade organizacional de dialogar e viver na dinâmica do sistema complexo, de modo a otimizar todos os aspectos intrínsecos a ele. Esse diálogo da organização busca articular as várias informações (científicas, sociais, econômicas, etc.) em um todo consistente e coerente, para manter uma uniformidade, sem sufocar a criatividade humana. Melo (1999) cita como fonte os estudos apoiados na Complexidade, elaborados, entre outros, por Edgar Morin , que aponta para a existência de fenômenos organizacionais de duas ordens: uma autônoma e outra dependente. Na autonomia, tem-se aquilo que é interno ou próprio à organização e que dá a sua identidade. Na dependência, têm-se os diversos níveis de relações. A questão é que não existe a linearidade da relação causa e efeito, mas, sim, o constante fluxo e refluxo, em que causas e efeitos se alternam como origens e conseqüências dos fenômenos, gerando uma complexa sinergia. Sachs (1993 apud Oliveira, 2002) propõe cinco dimensões que devem ser consideradas na sustentabilidade da organização: a) social; b)

3

3 Sociólogo e filósofo francês; um dos principais pensadores sobre Complexidade.

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econômica; c) ecológica; d) espacial; e) cultural. Nessa abordagem, fica clara a necessidade de integrar, simultaneamente, na vida organizacional, os diferentes aspectos do desenvolvimento humano, cada um com seu tempo, seu ritmo e sua natureza. Emerge, portanto, que a Sustentabilidade de uma organização é a situação de busca equilibrada e permanente por manter saudáveis todos os subsistemas envolvidos com a organização: a tecnologia, os relacionamentos, as finanças, a qualidade dos serviços, os recursos naturais, financeiros, a cultura local e o resultado social. Percebe-se que há sempre uma vertente interna à organização e outra externa. A arte em equilibrar esses dois lados da vida organizacional conduz a formas de planejamento que atendam a ambos.

É fundamental, portanto, compreender a necessidade de educar com

base em novos valores e, conseqüentemente, novos princípios, que embasarão estratégias e ações para a construção de um futuro melhor e que possibilite a vida: o futuro sustentável.

A base desse conjunto de valores está alicerçada em Epicuro (341-270 a.

C), o “filósofo da amizade e do prazer”, que identificava a idéia de progresso, do ponto de vista moral, com o bem soberano do prazer, o qual deveria ser

encontrado na prática da virtude e na cultura do espírito; assim, a busca da

perfeiçãofazpartedanaturezahumana,ensejandovaloreséticospreviamente definidos. Ele propunha, do ponto de vista material, os prazeres do sentido,

é suficiente para aqueles que o

suficiente é pouco

mas com parcimônia e comedimento e dizia:

Este é o cerne da questão. Educar para construir o saber

pressupõeaéticadavida,naexpressãodeLeonardoBoff (2000).

E como construir a ética da vida? Como educar para isso? Novamente

voltamos à questão de forma e conteúdo. Fritjof Capra (1997) – visto de soslaio em setores conservadores da academia - em seu livro “Teia da Vida”, sugere-nos imitar a natureza, num processo que denomina de eco- alfabetização, como base das ações em educação, administração, política, economia, etc. Uma proposta de imitação de como os ecossistemas funcionam e que exige compreender noções de interdependência, diversidade, não-linearidade, eficiência energética, cooperação,

adaptabilidade, natureza cíclica, redes, etc. Nessa mesma perspectiva, Filomena (2001) propõe que o “desenho ambiental sistêmico” poderia ser um eixo único para a formação universitária, em que o objetivo seria a formação do homo sistemicus. Aqui também estão presentes questões de forma e conteúdo. Exigem-se conhecimentos científicos construídos através da noção de felicidade e sua garantia para todos.

nada

Sustentabilidade: uma abordagem social

São essas as premissas básicas para a sustentabilidade do desenvolvimento ou, em outras palavras, para uma sociedade sustentável, especialmente porque enseja, através da visão coletiva das comunidades, a participação, reafirmando, assim, a importância da realidade local, através da valorização e preservação de seu patrimônio histórico, cultural e natural, que conformam os ecossistemas. É dessa maneira que devem ser percebidos pelo conjunto de saberes, especialmente por aqueles que tratam diretamente com a natureza.

Algumas Considerações Diante das considerações feitas neste estudo, buscamos oferecer respostas, subsídios para reflexões e estudos sobre a temática “Inovação, Conhecimento e Sustentabilidade”, com o objetivo de estabelecer análises que possibilitem reflexões valorativas e criativas para as organizações e, por conseqüência, para a sociedade como um todo. Nesse sentido, retomamos o questionamento: mas o que é inovação? Percebe-se, de maneira geral, que ela deve ser entendida dentro da cultura de cada organização interagindo com o ambiente. Assim sendo, a inovação é uma ação pragmática e aplicada do conhecimento na criação e transformação de produtos e processos, buscando elementos de diferenciação e aproveitamento, de forma incremental ou revolucionária dos paradigmas. Ou ainda, inovação é ação pragmática e aplicada do conhecimento no desenvolvimento e na transformação de produtos e processos, buscando elementos de diferenciação e aprimoramento com vistas ao desenvolvimento socioeconômico. Nesse sentido, seria extremamente produtivo pensar nas múltiplas dimensões que a inovação adquire, privilegiando as capacidades de fazer com que as idéias se transformem em resultados concretos. Esse pode constituir-se num exercício interessante, adequado e dentro de nossa cultura organizacional, ampliando a participação e os resultados de um verdadeiro tecido inovador corporativo e pessoal. Em resumo, fica bastante evidente que o primeiro passo para a construção do novo está na percepção individual da necessidade de mudança. Nesse sentido, embora possa surgir de maneira espontânea a partir das histórias individuais de cada um, é fundamental considerar os mecanismos de potencialização, estímulo e catalisação que ensejem participação e reflexão. Para tanto, faz-se mister a implantação de projetos

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pedagógicos que construam novos princípios e valores e que afirmem seu compromisso com os interesses coletivos e a formação crítica, criativa e capaz de transformar a realidade. As atitudes inter e transdisciplinares, apesar de necessitarem ser mais bem identificadas, sistematizadas e metodologicamente construídas, são fontes de riqueza e fundamentais para superar os gigantescos desafios que se colocam para a construção do novo. A transdisciplinaridade coloca-se como uma extraordinária ferramenta para a educação, na medida em que exige considerar os distintos saberes constituídos - científico, filosófico, popular e religioso – na interpretação, nas soluções e na harmonização das relações entre os componentes da biosfera, incluído o homem, e sobre os quais a sociedade ainda não está preparada, tanto em forma como em conteúdo. Nunca, como agora, foi tão necessário ousar em busca do efetivamente “novo”, assim como considerar a afirmativa de Schopenhauer: Novas idéias são primeiramente ignoradas, depois são ridicularizadas, depois são violentamente combatidas, depois são adotadas como evidentes, justamente pelos que as combatiam

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19/03/2007.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Sustentabilidade e Turismo:

Reflexões e Perspectivas para o desenvolvimento

*

Mary Sandra Guerra Ashton

1

Introdução O Turismo tem se apresentado como um fenômeno social de importância econômica e cultural, em crescimento em nível mundial, o que reforça a relevância em analisar o tema proposto sob a perspectiva do desenvolvimento sustentável. Sua complexidade exige a participação de vários atores, desde a formatação dos produtos e serviços até a consolidação dos destinos turísticos, além da necessidade de compreender como as relações sociais,econômicas,culturaiseambientaissãoestabelecidas. Assim, a viagem turística tornou-se um dos mais importantes fenômenos humanos do novo século. Em 2005, foram registrados 808 milhões de turistas estrangeiros; em 2006, foram contabilizados 842 milhões de viajantes no mundo, perfazendo um crescimento de 4,5% em relação ao ano anterior. A Europa, por sua vez, conseguiu atrair um público de 458 milhões de turistas, sendo que 76 milhões ficaram na França, país que ocupa o primeiro lugar no ranking mundial em número de chegadas de turistas. O maior crescimento, no entanto, foi registrado na América do Sul, com 7,2%, conforme dados divulgados pela Organização Mundial do

* EstetrabalhoépartedasinvestigaçõesrealizadasnoGrupodePesquisaemDesenvolvimento Regional, na linha de Desenvolvimento Regional e Globalização, para a pesquisa intitulada: “O Desenvolvimento Regional Endógeno e suas manifestações, a partir das contribuições observadasnaCadeiaProdutivadoTurismonaRegiãodoValedoRiodosSinos”. 1 Doutora e Mestre em Comunicação Social – PUCRS. Especialista em Produção e Gestão do Turismo. Bacharel em Turismo pela PUC/RS. Atua como professora e pesquisadora no Centro Universitário Feevale/RS, no Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Regional. E- mail: marysga@feevale.br.

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2

Turismo – OMT . Em nível mundial, a busca de soluções para os problemas socioambientais reúne investigadores e governantes desde o final do século XX. O alerta parte de que é preciso ter consciência de que a sustentabilidade do desenvolvimento está intimamente associada à redução das desigualdades sociais, priorizando projetos centrados na solução da exclusão social e das disparidades regionais. O desenvolvimento sustentável está centrado na relação homem-natureza, enfocando a utilização racional dos estoques de recursos naturais. Portanto, o compromisso social deve ser o ponto de partida para o desenvolvimento sustentável, que pressupõe a convergência dos planos e projetos na direção das expectativas das pessoas, com relação ao seu futuro e à sua qualidade de vida. Deve, ainda, ser complementado com o processo participativo de construção, no qual as instituições políticas, a sociedade civil e os grupos de interesse organizados encontrem espaço para exercer o seu papel de representação política e institucional como agentes de transformação. Dessa forma, o artigo propõe uma reflexão a partir da relação entre Turismo e sustentabilidade, voltado para uma perspectiva que envolve o desenvolvimento econômico, que tem como vetor o tripé formado pelo compromisso social, pela utilização dos recursos naturais e pelo processo participativo, focado no bem-estar da população. Para tanto, busca fundamentos na compreensão do fenômeno Turismo, desenvolvido por De La Torre (1997) e Turismo sustentável, conforme a ONU (1995), Beni (2004) e Mares Guia (2006); de sustentabilidade, segundo a Rede de Cooperação para a Sustentabilidade (2003) e Bueno (2008); e na noção de desenvolvimento, conforme Sen (2000), Veiga (2006) e Barquero (2002). Quanto à metodologia, assume um caráter de pesquisa exploratória com revisão bibliográfica. Portanto, este artigo foi estruturado da seguinte maneira: inicialmente, aborda os conceitos de sustentabilidade, buscando a compreensão do termo na sua amplitude. Num segundo momento, foi apresentada a contextualização acerca do Turismo como um fenômeno social de importância econômica, para, em seguida, tratar da questão do desenvolvimento que possa, efetivamente, contribuir com o bem-estar e a melhoria da qualidade de vida da população, contemplando as esferas social, cultural, ambiental e econômica.

2 OMT - Declaração do Secretário Geral, Francesco Frangialli, em 29/01/2007. Disponível em: <http://www.oglobo.com.br>. Acesso em: setembro de 2007.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Sustentabilidade: redefinindo as ações da coletividade

As discussões em torno da sustentabilidade estão, cada vez mais,

chamando a atenção de estudiosos de todos os setores e em todo o mundo.

O aquecimento global, os altos índices de poluição dos rios e mares, a

devastação das florestas tropicais, o inchaço dos centros urbanos, o uso

racional dos recursos naturais, a reciclagem, a ética e a cidadania, além de outros temas, figuram entre as principais preocupações em nível mundial. Na busca de soluções para esses problemas, com investimentos da ordem pública e da privada, surge a sustentabilidade e seu conceito vem sendo amplamente discutido em seminários e congressos mundiais, os quais esclarecem que empresas e indivíduos devem se preocupar com as conseqüências de suas ações (ENDEAVOR, 2007).

A sustentabilidade tem a ver com a biodiversidade e com a

sociodiversidade e só pode ser construída/realizada pela mobilização da coletividade. Tem ligação com a redução da pobreza, com os direitos das crianças e dos adolescentes, com o acesso à educação e ao trabalho, com a

solidariedade, com o respeito à diversidade e à liberdade de expressão. Está vinculada, ainda, à valorização dos saberes e do conhecimento. Ela decorre das políticas públicas, coordenadas pelos governantes, mas também de decisões individuais (BUENO, 2008). Portanto, a sustentabilidade envolve questões econômicas, sociais, culturais e ambientais, sendo que o seu nível de influência e de compreensão abrange a cultura e a sociedade, estando diretamente ligada aos indivíduos e

ao seu comportamento e, principalmente, às suas ações. Assim, adquire um

aspecto sistêmico, relacionado com a continuidade dos elementos intrínsecos ao desenvolvimento humano, não podendo ser compreendida apenas relacionada às questões ambientais. Para tanto, comporta sete eixos fundamentais, conforme desenvolvido pela Rede de Cooperação para a Sustentabilidade - Catalisa (2003):

Sustentabilidade Social – envolve as questões ligadas à melhoria da qualidade de vida da população, à eqüidade na distribuição de renda e à diminuição das diferenças sociais, com participação e organização popular.

Sustentabilidade Econômica – trata do público e do privado, da regularização do fluxo desses investimentos, da compatibilidade entre padrões de produção e consumo, do equilíbrio de balanço de pagamento,

do acesso à ciência e à tecnologia.

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Sustentabilidade Ecológica encontra-se vinculada ao uso dos recursos naturais, com o objetivo de minimizar danos aos sistemas de sustentação da vida: redução dos resíduos tóxicos e da poluição, reciclagem de materiais e energia, conservação, tecnologias limpas e de maior eficiência e regras para uma adequada proteção ambiental, conforme a figura 1.

para uma adequada proteção ambiental, conforme a figura 1. Figura 1 Fonte: Biólogo Ingo Hübel 3

Figura 1 Fonte: Biólogo Ingo Hübel

3

SustentabilidadeCultural–estárelacionadaaorespeitoaosdiferentes valores entre os povos e incentivo a processos de mudança que acolham as especificidades locais, além da manutenção dos valores e da cultura locais, visandoàpreservaçãodopatrimôniocultural(materialeimaterial).

Sustentabilidade Espacial – trata do equilíbrio entre o rural e o urbano, do equilíbrio de migrações, da desconcentração das metrópoles, da adoção de práticas agrícolas mais inteligentes e não agressivas à saúde e ao ambiente, do manejosustentadodasflorestasedaindustrializaçãodescentralizada.

3 Palestra: “Turismo Sustentável” apresentada pelo Biólogo Ingo Hübel, na Disciplina de Tendências em Turismo, em 28/03/08, Curso de Turismo, no Centro Universitário Feevale.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Sustentabilidade Política - no caso do Brasil, a evolução da democracia representativa para sistemas descentralizados e participativos, a construção de espaços públicos comunitários, maior autonomia dos governos locais e descentralização da gestão de recursos. Sustentabilidade Ambiental - conservação geográfica, equilíbrio de ecossistemas, erradicação da pobreza e da exclusão, respeito aos direitos humanos e integração social. Abarca todas as dimensões anteriores através de processos complexos.

Portanto, os eixos que envolvem a sustentabilidade devem ser contemplados com equilíbrio e igualdade por parte dos setores públicos e privados, a fim de que possam garantir o bem-estar da população. Fazem parte do desenvolvimento do ser humano na sua integridade e totalidade. A sustentabilidade tem uma dimensão essencialmente humana e precisa ser entendida dessa forma, conforme apresentado na figura 2.

Sustentabilidade Ambiental Sustentabilidade Sustentabilidade ecológica Espacial Sustentabilidade Social
Sustentabilidade
Ambiental
Sustentabilidade
Sustentabilidade
ecológica
Espacial
Sustentabilidade
Social
Sustentabilidade
Sustentabilidade
Política
Cultural
Sustentabilidade
Econômica
Figura 2

Desse modo, a sustentabilidade pode ser definida como “a capacidade de desenvolver a atividade econômica atendendo as necessidades da geração atual sem comprometer as gerações futuras” (ONU, 2007). Ou, ainda, conservar o capital natural e cultural sem comprometer as necessidades de futuras gerações, de uma maneira que o desenvolvimento no presente seja possível. A sustentabilidade assume um papel fundamental na sociedade e deve contribuir para diminuir as desigualdades e para aprofundar as justiças, além de indicar caminhos, resgatar vivências e experiências e convidar a todos para uma ação coletiva, solidária e corajosa (BUENO, 2008). Desse modo, a sustentabilidade significa mais do que a

Alexandra Zottis, Denise Russo e Margarete Panerai Araújo (organizadoras)

soma das partes. Ela deriva de relações saudáveis, éticas, democráticas, equânimes e socialmente justas. Bueno (2008) relata que estudos e experiências recentes mostram que não há incompatibilidade entre crescimento econômico e responsabilidade social e ambiental. Muito pelo contrário: investir em tecnologias limpas e cuidados socioambientais gera valor para as empresas no longo prazo. “O cliente já começa a valorizar as empresas com preocupações de

sustentabilidade [

Nesse sentido, torna-se importante destacar, ainda, o Compêndio para Sustentabilidade, lançado em 2007, que trata da idéia de mostrar alternativas para as organizações dos setores público, privado e das ONGs, que desejem avançar na implementação da sustentabilidade em seu dia-a-dia. Com patrocínio da Petrobrás, Comgas e patrocínio cultural de Anglo American (versão em inglês), AES Tietê e da Lei de Incentivo à Cultura - Ministério da Cultura, a publicação com o título – Ferramentas de Gestão de Responsabilidade Socioambiental: Uma Contribuição para o Desenvolvimento Sustentável - reúne ferramentas de apoio à gestão sustentável utilizadas em 33 países e visa a ilustrar a imensa gama de instrumentos que estão disponíveis no mundo.

].

Ela não está, de forma alguma, dissociada do lucro”.

4

Se quisermos orientar o desenvolvimento sustentável para o bem-estar comum na sociedade, devemos utilizar os instrumentos disponíveis que auxiliem na construção desses resultados. Quanto mais estas ferramentas forem aplicadas e aprimoradas, mais as organizações terão condições de integrar as práticas de responsabilidade socioambiental às suas atividades cotidianas.

5

Desse modo, a busca por novos indicadores, que possam ajudar empresas, governos e pessoas a enxergar o mundo de maneira precisa, é necessária, para que se avalie, de forma concreta, a utilidade social das atividades. Só assim se pode construir uma base para decisões políticas e criação de estratégias empresariais condizentes com o estado atual do mundo, de escassez e insustentabilidade.

4 Altair Assumpção, Diretor de Middle Market do Banco Real, no workshop “Sustentabilidade:

umaescolhaquedáresultado”,oqualocorreuemmarçode2007emSãoPaulo.

5 Declaração de Anne Louette, idealizadora do projeto Ferramentas de Gestão de Responsabilidade Socioambiental: Uma Contribuição para o Desenvolvimento Sustentável. Em outubro de 2007, antes do lançamento no Brasil, o Compêndio para a Sustentabilidade foi apresentado no Fórum Mundial da Economia Responsável, em Paris, por Philippe Vasseur, ex-ministro do governo Jacques Chirac.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Conforme relata Cardoso (2008), entre as várias ações que vêm sendo oferecidas para a compreensão e a contribuição da sustentabilidade, destaca-se, ainda, a iniciativa do Instituto Ethos e a Usaid - Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. As empresas lançaram o Prêmio Inovação em Sustentabilidade, o qual contemplará a melhor solução inovadora que contribua para o desenvolvimento sustentável, que já esteja em uso e tenha demonstrado bons resultados. Portanto, existe uma mobilização mundial unindo governos e civis, os quais, por meio de investigações, congressos, conferências mundiais e documentos oficiais disponibilizados para a população, vêm buscando compreender, explicar e aplicar os conhecimentos acerca da sustentabilidade de maneira ampla e abrangente, priorizando o compromisso social.

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Turismo: a sustentabilidade do destino A partir de 1960, o Turismo explodiu como atividade de lazer, envolvendo milhões de pessoas em nível mundial e transformando-se em fenômeno econômico, garantindo lugar no mundo financeiro internacional. A viagem turística tornou-se um dos mais importantes fenômenos humanos do novo século, os números alcançados pelo turismo mundial são extraordinários. Em 2005, os turistas gastaram US$ 682 bilhões, representando 6% de crescimento das exportações mundiais de bens e serviços turísticos. Em 2006, observou-se um crescimento de 4,5% em relação ao fluxo de turistas do ano anterior (desde 1995, a taxa média anual com relação ao fluxo turístico mantém um crescimento que varia entre 4,1% e 4,6% ao ano), conforme dados divulgados pela Organização Mundial do Turismo – OMT . Os números que são atribuídos aos deslocamentos turísticos no

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6 O prêmio de R$ 60.000 será destinado ao aperfeiçoamento e/ou ganho de escala do projeto e a aplicação desse recurso será monitorada pelos organizadores do prêmio (Mercado Ético – CARDOSO, 2008).

7 Será lançada, em 2008, a publicação Gestão do Conhecimento Volume II - Compêndio de Indicadores de Sustentabilidade de Nações - uma Contribuição ao Diálogo. Trata-se da apresentação de 25 Indicadores de Sustentabilidade de Nações destinados a mensurar, monitorar e avaliar a sustentabilidade do nosso planeta. Em processo de aplicação no exterior e no Brasil, esses indicadores consideram aspectos ambientais, econômicos, sociais, éticos e culturais (Compêndio para a Sustentabilidade).

8 MARES GUIA, Walfrido dos. 2006. A Construção do Turismo Sustentável. O estado de São Paulo. 07/11/2006.

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mundo têm despertado a atenção de vários investigadores nas mais diversas áreas. Trata-se de um tema abrangente, complexo, o qual exige a participação de vários atores sociais, que devem agir desde o levantamento das potencialidades, a formatação dos produtos e serviços até a consolidação dos destinos turísticos, além da necessidade de compreender como as relações sociais, econômicas, culturais e ambientais são estabelecidas, no sentido de favorecer o desenvolvimento das regiões e consagrar o Turismo como um dos agentes do desenvolvimento (NICKERSON, 1996). Desse modo, as bases do Turismo são formadas a partir das políticas públicas e do envolvimento dos governos, de empresários e do terceiro setor nos diversos setores de abrangência. O entendimento acerca do Turismo deve partir da compreensão do fenômeno por ele representado na sua totalidade, ou seja, não apenas a esfera econômica deve ser priorizada, mas também a social, a cultural, a ambiental e a territorial/espacial. Por conseguinte, um novo olhar para o Turismo torna-se fundamental para que se possa avançar em relação aos pensares que levem aos fazeres sustentáveis. O Turismo exige profissionais que se assumam como agentes sociais. Para tanto, devem estar atuando nas diversas áreas que compõem o sistema produtivo do Turismo, com o propósito de serem multiplicadores das boas idéias e das boas ações para a transformação. Por sua vez, as discussões que permeiam a atividade turística vêm, em maioria, priorizando a questão econômica, deixando os aspectos sociais em segundo plano ou até mesmo no esquecimento, evidenciando a idéia do homo economicus. No entanto, êxito econômico e compromisso social fazem parte de um binômio rumo ao bem-estar da população, devem andar juntos, premissa básica do desenvolvimento sustentável. Para tanto, no Brasil, em 1966, foi criada a EMBRATUR, defendendo e anunciando o Turismo como propulsor e acelerador do desenvolvimento econômico, da geração renda e de emprego, num setor que permanecia adormecido no país, sem um plano suficientemente claro, definido e que conseguisse sensibilizar todos os envolvidos, principalmente, com relação ao papel a ser desempenhado por cada um no processo.

De tudo isso, constata-se a importância da elaboração das políticas de turismo, pois, conforme Kadt, “o principal objetivo de uma política é elevar

a entrada de divisas deve estar entre os

o bem-estar de seus cidadãos [

objetivos secundários” (KADT, 1991, p.52). Para Montejano, “a política é a ciência do Estado que trata da atividade relacionada com o bem público da

]

Sustentabilidade: uma abordagem social

sociedade baseada no conjunto de operações realizadas por indivíduos, grupos ou poderes estatais” (MONTEJANO, 1999, p. 33). Assim, o objetivo das políticas públicas não deve ser a maximização do resultado quantitativo, mas, sim, oferecer oportunidades para que os indivíduos alcancem o bem-estar. Beni (2004) destaca que sujeito, economia e preservação socioambiental devem estar alinhados, caminhando juntos, somente assim, pode-se conceber um novo tipo de Turismo – o Turismo Sustentável. Dessa forma, torna-se consenso mundial que o Turismo tem de se firmar em quatro pilares fundamentais, a seguir descritos. Ambiental – trata-se da principal fonte de matéria-prima dos atrativos turísticos. Social – é abrangente e compreende a comunidade receptora, o patrimônio histórico-cultural e a interação com os visitantes; ao mesmo tempo, eleva o padrão de vida e a auto-estima dessa comunidade. Econômico - com todos os inter-relacionamentos e interdependências da cadeia produtiva, permitindo sua articulação, com a identificação correta de suas unidades de produção e de negócios,para estabelecer uma rede de empresas, a fim de atuar de forma integrada, pró-ativa e interativa, obtendo níveisdecomparatividadeeprodutividadeparaoalcancedecompetitividade. Político - que se instrumentaliza mediante estratégias de gestão que possibilitem coordenar as iniciativas locais na criação de um entorno emulativo de produção, favorecendo o desenvolvimento sustentável (BENI, 2004). O Turismo Sustentável, portanto, em sua vasta e complexa abrangência, envolve: compreensão dos impactos turísticos; distribuição justa de custos e benefícios; geração de empregos locais diretos e indiretos; fomento de negócios lucrativos; injeção de capital com conseqüente diversificação da economia local; interação com todos os setores e segmentos da sociedade; desenvolvimento estratégico e logístico de modais de transporte; encorajamento ao uso produtivo de terras tidas como marginais (Turismo no espaço rural); subvenções para os custos de conservação ambiental. Conforme Mares Guia (2006) , a OMT, em 1995, declarava que Turismo Sustentável é aquele ecologicamente suportável no longo prazo,

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9 MARES GUIA, Walfrido dos. 2006. A Construção do Turismo Sustentável. O estado de São Paulo. 07/11/2006.

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economicamente viável, assim como ética e socialmente eqüitativo para as comunidades locais. Logo, entende-se que o Turismo Sustentável trata da

utilização consciente e responsável dos recursos naturais e culturais, a fim

de

que o crescimento não comprometa o ambiente para as gerações futuras.

O

conceito surgiu no final do século XX, com a preocupação sobre o

esgotamento dos recursos naturais e com relação à cultura e à preservação

da

diversidade étnica e social. Para a OMT, o desenvolvimento sustentável

do

Turismo é aquele que:

Atende às necessidades dos turistas atuais e das regiões receptoras e, ao mesmo tempo, protege e fomenta as oportunidades para o futuro. O desenvolvimento sustentável do Turismo se concebe como um caminho para a gestão de todos os recursos de forma que possam satisfazer-se as necessidades econômicas, sociais e estéticas, respeitando ao mesmo tempo a integridade cultural, os processos ecológicos essenciais, a diversidade biológica e os sistemas que sustentam a vida (OMT, 2005).

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Um desenvolvimento sustentável do Turismo satisfaz as necessidades dos turistas atuais e das regiões receptoras enquanto protege e aumenta

oportunidades no futuro. Isso, porém, leva a um manejo de todos os recursos,

de maneira que necessidades econômicas, sociais e estéticas possam ser

satisfeitas, enquanto a integridade cultural, os processos biológicos essenciais,

a diversidade biológica e os sistemas de suporte da vida são mantidos. Essas idéias foram reforçadas e amplamente divulgadas quando a Organização Mundial do Turismo (OMT), o Conselho Mundial de Viagens e Turismo e o Conselho da Terra aprovaram a Agenda 21 para a indústria de viagens e turismo, com ações prioritárias a serem desenvolvidas por governos, empresáriosepeloterceirosetor.Alémdisso,novosposicionamentosficaram marcados pela ONU na declaração do Ano Internacional do Ecoturismo, em 2002, realizada em Quebéc, e na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em Johannesburgo, África do Sul, no mesmo ano (MARES GUIA, 2006). A seguir, a figura 3 apresenta alguns dos encontros mundiaisreferentesaoTurismosustentável.

OMT, 2005. Disponível em: < http://www.world-tourism.org/sustainable.htm > Acesso em: 12/11/2006.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Documentos mundiais referentes à Sustentabilidade do Turismo

1980

– Declaração de Manila sobre o Turismo Mundial.

1982

– Documento de Acapulco sobre o direito de férias.

1985

– Carta do Turismo e código do turista.

1989

– Declaração de Haia sobre o Turismo.

1995

– Carta do Turismo Sustentável de Lanzarote.

1995

– Declaração da OMT, Turismo sexual, no Cairo.

1998

– Conferência “Turismo Sustentável nas ilhas”, Lanzarote.

1999

– Código de Ética Mundial para o Turismo.

2002

– Declaração de Hainan – Turismo sustentável nas ilhas.

2002

– Declaração de Quebéc sobre Ecoturismo.

2003

– Declaração de Djerba sobre Turismo e Mudança Climática.

Figura 3 Fonte: Adaptado de DIAS e AGUIAR (2002).

Por conta disso, Beni (2006) destaca os três eixos fundamentais em relação ao Turismo: a sustentabilidade econômica – tem como objetivo garantir um desenvolvimento economicamente eficiente, beneficiando todos envolvidos e a comunidade; gerir recursos de modo a garantir a disponibilidade destes para gerações futuras; a sustentabilidade social e cultural – apresenta como objetivo garantir a diminuição das desigualdades sociais e a manutenção dos valores e da cultura local, visando à preservação

do patrimônio cultural (material e imaterial); a sustentabilidade ambiental – assume como objetivo garantir que o desenvolvimento seja compatível com

a manutenção dos processos ecológicos essenciais, da diversidade biológica

e dos recursos naturais. Conforme Beni (2006), para que o Turismo Sustentável seja efetivado, deve obedecer a alguns critérios norteadores. São eles: ser ecologicamente aceitável no longo prazo; financeiramente viável; justo para as comunidades locais, sob o ponto de vista social e ético; conservar as tradições e as heranças culturais; melhorar a qualidade de vida das comunidades locais, dos atores envolvidos, da comunidade, dos visitantes, do setor público, do setor privado e das ONG's. Além disso, existem algumas condições que devem ser levadas em conta para alcançar o desenvolvimento sustentável da atividade turística:

formular uma política de Turismo; o Turismo como parte do desenvolvimento global do local, atento ao enfoque integrador; avaliação de impacto ambiental em todos os projetos turísticos; priorizar o meio ambiente natural, cultural e os residentes em detrimento das vontades dos

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turistas; respeitar os limites de crescimento, estabelecendo as capacidades de carga nas quatro dimensões: capacidade de carga física; psicológica; social e econômica. Para De La Torre, “posto que o Turismo é um fenômeno social, por derivar de deslocamentos humanos e de interações com o meio receptivo, teve, desde o seu início, uma estreita interdependência nas relações de interação com outros fenômenos sociais” (DE LA TORRE, 1997, p. 101). Portanto, a complexidade do Turismo exige a participação de vários agentes desde a formatação até a consolidação dos destinos turísticos, além da necessidade de compreender como as relações sociais, econômicas, culturais e ambientais são estabelecidas, no sentido de contribuir, fazer parte do desenvolvimento sustentável.

Desenvolvimento: bem-estar socioambiental No Pós-Guerra, a busca pelo desenvolvimento econômico voltou-se para a produção de bens de capital. Assim, concebeu-se a industrialização como um novo recurso para a aceleração do crescimento, em uma política que passou a se concentrar na absorção de tecnologia como forma de aumentar e diversificar a produtividade a qualquer custo, baseando-se na produção de bens em larga escala. Nesse cenário, ocorreu a passagem de uma sociedade tradicional para uma sociedade moderna, ou seja, uma tentativa de se alcançar o desenvolvimento. Esse processo de transformação agrícola e artesanal para industrial tomou como base os caminhos percorridos pelos países europeus. No entanto, as diferenças históricas e sociais, as singularidades e as características, os atrasos ou os avanços dos países em questão não foram considerados, desencadeando conseqüências desastrosas em níveis sociais, culturais, econômicos e políticos para alguns dos países envolvidos (CARDOSO; FALETTO, 2004). Contudo, a soma dos diferentes fatores de produção de bens e serviços que emergem na atualidade, facilitados pela globalização, pelas preocupações com as questões ambientais, a cidadania, o bem-estar social, enfim, pelos elementos intrínsecos à sustentabilidade, vem contribuir para a diversificação dealternativasnabuscadodesenvolvimentoderegiõesenações. Assim, as questões que envolvem a definição de desenvolvimento são bastante amplas e diferem da noção de crescimento. Amartya Sen define o “desenvolvimento como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoasdesfrutam”,incluindoaidéiadeeliminaçãodaprivaçãonasuatotalidade

(SEN,2000,p.53).Paraoautor,aliberdadefiguracomoopapelconstitutivodo

Sustentabilidade: uma abordagem social

desenvolvimento.Observa-seumdistanciamentodaidéiadeodesenvolvimento estar, unicamente, baseado no crescimento do PIB ou da industrialização, mas destaca a liberdade como parte integrante do enriquecimento do processo de desenvolvimento,assim,vistacomomeioecomofim. Portanto, o desenvolvimento requer um papel eficiente dos diversos atores responsáveis pelas suas instituições e interações. “A formação de valores e a emergência e a evolução da ética social são igualmente partes do processo de desenvolvimento” (SEN, 2000, p. 336). Nesse sentido, a contribuição do crescimento econômico “tem de ser julgada não apenas pelo aumento de rendas privadas, mas também pela expansão de serviços sociais” (SEN, 2000, p. 57), uma vez que os indivíduos se encontram condicionados às oportunidades sociais, econômicas e políticas. Para tanto, Sen (2000) estabelece a diferença entre capital humano, no qual tende a colocar a capacidade do ser humano para aumentar a possibilidade de produção, e a perspectiva da capacidade humana, a qual se orienta no potencial para levar as pessoas a terem a vida que elas escolherem para si, no sentido de melhorar suas escolhas reais, de sentirem-se mais felizes e, portanto, mais livres, levando uma vida mais digna. Sob essa ótica, o indivíduo adquire autonomia (liberdade) na sua forma de pensar, de agir, de conduzir sua própria vida, de fazer suas próprias escolhas, a partir da liberdade individual, como gerador de mudança social, política e econômica, atento às questões ambientais e contribuindo para o bem-estar geral e para a expectativa de vida. Para Sen (2000), a liberdade individual é um comprometimento social, na medida em que é transformadora, ou seja, promove o desenvolvimento e, portanto, o bem-estar da sociedade em sentido amplo e eqüitativo. Logo, é necessário destacar que o desenvolvimento está interligado a três aspectos fundamentais: “o papel do bem-estar e da liberdade das pessoas, o papel da influência para a mudança social e o papel para a produção econômica” (SEN, 2000, p. 335). Esses fatores devem ser considerados juntos, na sua interdependência, como premissas básicas para as nações que almejam o desenvolvimento de longo prazo. Para Barquero (2002), o desenvolvimento pode se dar em duas dimensões: a primeira, econômica, na qual se enfatiza a organização da capacidade de produção, tornando-a o mais produtiva possível e, em segundo lugar, a sociocultural, em que as bases recaem sobre os valores constitutivos da sociedade local. Nesse contexto, julga-se necessário conceituar o desenvolvimento sustentável. Na concepção de Veiga (2006), trata-se de um modelo econômico, político, social, cultural e ambiental equilibrado, que satisfaça as

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necessidades das gerações atuais, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades. Essa concepção começa a se formar e difundir-se junto com inúmeras inquietações e questionamentos quanto ao estilo de desenvolvimento adotado.

O grande marco para o desenvolvimento sustentável mundial foi a

Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992 (a Rio 92 e ECO 92), em que se aprovou uma série de documentos importantes, dentre os quais, a Agenda 21, um plano de ação mundial para orientar a transformação desenvolvimentista, identificando, em 40 capítulos, 115 áreas de ação prioritária. A Agenda 21 apresenta como um dos principais fundamentos da sustentabilidade o fortalecimento da democracia e da cidadania, através da participação dos indivíduos no processo de desenvolvimento,

combinando ideais de ética, justiça, participação, democracia e satisfação de necessidades (CATALISA, 2003). Para Tavares (2001), por meio da Agenda 21 brasileira, foram realizados, entre setembro de 2000 e maio de 2001, 26 encontros estaduais, nos quais foram apresentadas e discutidas 5.800 propostas, com a participação de cerca de 3.800 entidades e instituições dos setores governamental, civil e produtivo. Foram realizados também cinco seminários regionais e audiências públicas de âmbito nacional. Tudo isso para produzir um documento a ser apresentado ao Governo, ao Congresso Nacional e à sociedade, como referência para o desenvolvimento sustentável nos próximos anos.

O processo iniciado no Rio de Janeiro, em 1992, reforça que, antes de

se reduzir a questão ambiental a argumentos técnicos, deve-se consolidar alianças entre os diversos grupos sociais responsáveis pela catalisação das transformações necessárias. A Agenda 21 destacou alguns pontos prioritários, entre eles: cooperação internacional; combate à pobreza; mudança dos padrões de consumo; habitação adequada; integração entre meio ambiente e desenvolvimento na tomada de decisões; proteção da atmosfera; abordagem integrada do planejamento e do gerenciamento dos recursos terrestres; combate ao desflorestamento; manejo de ecossistemas

frágeis: a luta contra a desertificação e a seca; promoção do desenvolvimento rural e agrícola sustentável; conservação da diversidade biológica; manejo ambientalmente saudável dos resíduos sólidos e questões relacionadas com os esgotos; fortalecimento do papel das organizações não-governamentais: parceiros para um desenvolvimento sustentável; iniciativas das autoridades locais em apoio à agenda 21; comunidade

Sustentabilidade: uma abordagem social

científica e tecnológica; fortalecimento do papel dos agricultores; transferência de tecnologia ambientalmente saudável, cooperação e fortalecimento institucional; ciência para o desenvolvimento sustentável; promoção do ensino, da conscientização e do treinamento. Portanto, a Agenda 21 propõe um modelo de desenvolvimento sustentável a ser adotado mundialmente, por considerá-lo responsável, abrangente e consolidador, como forma de evitar atitudes ingênuas e impensadas, que possam levar a ações desastrosas. Assim, o desenvolvimento encontra-se centrado na mudança social para a expansão do bem-estar e para a produção econômica no respeito aos direitos humanos e aos das demais espécies.

Diálogo e Inter-relações: os vetores do bem-estar Por meio da contextualização das categorias, foi possível observar que as noções apresentadas se acham complementares. Assim, sustentabilidade, desenvolvimento e Turismo, apesar de suas particularidades, possuem pontos em comum, já que partem de princípios comuns, ligados ao bem- estar da população, à justiça social e à relação com a capacidade de desenvolver a atividade econômica de maneira responsável. A sustentabilidade, por sua vez, tem suas bases fundamentadas nas questõesligadasaobem-estardasociedade,portanto,assumeumaperspectiva deordemhumana,quandoserefereaosbenefíciossocioambientais,eoutrade ordem econômica, ligada ao uso racional dos recursos. Porém a dimensão econômica e a humana devem se dar numa relação de equilíbrio e cidadania, pautadaspelaéticaepelamobilizaçãocoletiva. Desse modo, não pode ser dissociada da noção de desenvolvimento. Ambos, sustentabilidade e desenvolvimento, tratam do bem-estar social e econômico. Assim, torna-se premissa que o desenvolvimento só pode se dar dentro dos limites propostos para a sustentabilidade. Então, o desenvolvimento se acha envolto pela sustentabilidade. Um pressupõe o outro, pode-se dizer que se encontram em estado de simbiose, sendo impossível dissociá-los. A complementaridade entre desenvolvimento e sustentabilidade também encontra relação com o Turismo. Os vetores comuns quanto ao bem-estar e ao desenvolvimento econômico são, fortemente, inter- relacionados com a atividade turística. O Turismo apresenta, entre seus objetivos, a proposta de desenvolvimento econômico e tem como principal motivador dos deslocamentos os atrativos turísticos. Por conseguinte, a utilização consciente dos recursos naturais e culturais é premissa básica para

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garantir o êxito do Turismo no longo prazo, isto é, não se podem destruir as bases que o sustentam. Partindo do exposto, depreende-se que a sustentabilidade é pressuposto do desenvolvimento do Turismo. Assim, as três categorias dialogam entre si, formando um trinômio, no qual uma é complementar à outra. Quanto à questão conceitual de sustentabilidade destacada no texto, revela a necessidade do desenvolvimento econômico, porém deve ser compreendido como gerador de bem-estar, cidadania e justiça social, presente, ainda, no conceito e nos objetivos do desenvolvimento do Turismo propostos pela OMT e pela ONU. Portanto, conforme a investigação, o desenvolvimento, compreendido como a expansão das liberdades reais, a sustentabilidade, fundamentada na noção de bem-estar socioambiental, e o Turismo, na formação de agentes sociais,formamumnovoconceitoquantoaosvalorescoletivosdaéticasocial, contribuindocompartesiguaisparaoprocessodedesenvolvimento.

Considerações Finais Este artigo ocupou-se da reflexão em torno da relação existente entre as categorias sustentabilidade, Turismo e desenvolvimento. A contextualização revelou que os movimentos sociais observados na atualidade, delineados no Turismo e sustentados pela interação e pela relação social que se estabelece, são elementos motivadores e responsáveis pelos deslocamentos, juntamente com os recursos e os atrativos turísticos do local receptivo. Além disso, as bases para o desenvolvimento do Turismo, no longo prazo, como os recursos naturais e culturais, são extraídas, definidas e determinadas no local, assim, devem manter a identidade local e, portanto, utilizadas de maneira racional e direcionadas ao bem-estar da população. Logo, os ingredientes importantes para o desenvolvimento sustentável, que permeiam o embasamento conceitual das noções apresentadas, promovem uma nova base conceitual, agora formada por três elementos que se mostraram complementares e até mesmo inseparáveis. Assim, a sustentabilidade,oTurismoeodesenvolvimentoassumiramasconvergências reveladas entre si, por meio de um diálogo preliminar, como uma possibilidade de conhecimento, respeitando as particularidades dos teóricos e estabelecendoosníveisdeconvergênciaentreasnoçõesapresentadas. Dessa maneira, foi possível observar que os fatores determinantes das formas de produção de bens e produtos, característicos do desenvolvimento sustentável, estão presentes na noção de Turismo. Por

Sustentabilidade: uma abordagem social

outro lado, o artigo buscou mostrar, ainda, que o Turismo desempenha um papel relevante na sociedade no que tange às formas de interação entre os agentes econômicos e socioambientais.

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Sustentabilidade: uma abordagem social

O conhecimento como paradigma da Sustentabilidade Organizacional

Eunice Maria Nazarethe Nonato , Jucelaine Bitarello eTarcisio Staudt

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Introdução Com o advento da globalização, as organizações, de um modo geral, renderam-se a um mundo sem fronteiras, especialmente, a partir da última década do século XX e no princípio do atual, pois, neste século XXI, entendido como o século do conhecimento, as organizações encontram-se diante dessa variável, a qual requer quebra de paradigmas. O objetivo central deste estudo é compreender como se dá a forma de aprendizagem organizacional, abordando o binômio treinamento (capacitação) e conhecimento. O estudo está pautado pela resposta à questão da pesquisa: de que forma ocorre a aprendizagem organizacional com foco no treinamento (capacitação) e conhecimento? Há vasta literatura disponível abordando a questão da aprendizagem organizacional, inclusive fazendo contrapontos entre as visões dos diversos autores. A pesquisa

1 Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Mestre em Sociologia Ambiental pela Universidade de Minas Gerais, graduada em Pedagogia. Coordenadora de Extensão e professora de Políticas Públicas no Centro Universitário Metodista – IPA/RS. E-mail: Eunice.nonato@metodistadosul.edu.br.

2 Mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC, graduada em Ciências Contábeis pela Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC, professora dos Cursos de Administração e Ciências Contábeis do Centro Universitário Feevale - NH Professora e Coordenadora do Curso de Ciências Contábeis das Faculdades

Monteiro Lobato - FATO/RS . E-mail: jubitarello@terra.com.br.

3 Mestre em Ciências Contábeis e Controladoria – UNISINOS/RS, graduado em Ciências Contábeis – Feevale/RS. Professor dos cursos de Ciências Contábeis e Administração no Centro Universitário Metodista – IPA/RS e das Faculdades Monteiro Lobato – FATO/RS. Experiência em atividades Públicas e Privadas. E-mail: staudt@uol.com.br.

Alexandra Zottis, Denise Russo e Margarete Panerai Araújo (organizadoras)

caracteriza-se como uma revisão bibliográfica, abordando as principais literaturassobreoassunto,destacando-seavisãoreflexivaecríticadosautores sobre o tema. Estudos como este servem de subsídio para pesquisas mais abrangentes, especialmente, para futuros trabalhos que pretendam ilustrar estudos quantitativos. Dessa forma, essa temática pode ser pródiga para a

produção de dissertações e teses na área da contabilidade e da administração.

A relevância e a contribuição da pesquisa consistem na ampliação do foco da

gestão organizacional, sob dois aspectos principais: [1] a reflexão sobre a sustentabilidade da organização e a responsabilidade de seus gestores; [2]

servir de instrumento de motivação para o desenvolvimento de outros estudosdessanaturezanaampliaçãodacríticadotema.

Do Treinamento ao Desenvolvimento de Competências e Habilidades O sistema de treinamento, na concepção da administração científica, apresentava-se calcado no ensinar os procedimentos aos funcionários e adestrá-los nas habilidades que a tarefa exigia. Esse meio garantia a competência requerida, mas excluía o trabalhador do amplo domínio da atividade, por fazer etapas padronizadas do processo de produção. Cherns (apud MALVEZZI, 1994) considera que a inabilitação dos trabalhadores para operar no sistema de fábrica configurou-se, no século XVIII, como um obstáculo incontestável à eficácia. Essa inabilidade dos operários podia, talvez, naquela época, estar atrelada a um novo cenário que

se desencadeava no mundo: a Revolução Industrial. Para Malvezzi (1994), o trabalho especializado (a partir de 1880) fez o empresariado dar maior atenção à habilitação profissional. A abordagem de treinamento era racional e garantia a diminuição de erros, bem como a atualização dos trabalhadores para executarem tarefas diferenciadas, condições importantesparaocrescimentoeasmudançassofridaspelasempresas. Na época, as organizações tinham os recursos de capital, técnica e gerência bastante limitados. A estrutura era dividida em direção e execução, tendo, na direção, o próprio dono, fundador ou herdeiro, que mantinha o mesmo estilo de gestão, uma vez que este estava prosperando. A execução ficava a cargo dos empregados, que respeitavam uma hierarquia baseada no grau de responsabilidade, e não pelo poder de decisão ou de autoridade direta na gestão dos negócios da organização. A metodologia de treinamento era o treinamento operativo, tendo como instrutor um trabalhador qualificado ou o próprio supervisor, e o ensino demonstrativo, no qual a programação não era organizada e a duração dependia do

Sustentabilidade: uma abordagem social

desempenho do treinando. Nessa fase, também ocorreu o início de algum treinamento administrativo (BONFIM, 1995).

O treinamento, na administração científica, era um instrumento de

desenvolvimento de condições individuais para obtenção do sucesso na realizaçãodatarefa;tinhacomomissãoprecípuamanterascondiçõespessoais dostrabalhadoresválidaseatuantes,umavezqueastarefaseramdefinidas. Em virtude disso, segundo Malvezzi (1994, p. 23), "as habilidades motoras predominaram no cenário de chão de fábrica e as habilidades cognitivas predominaram no cenário da gerência e dos escritórios". Percebe-se que, com a evolução industrial, esse paradigma foi quebrado, quando empresas investiram na qualificação do “chão de fábrica”, porém outras, que não adotaram políticas de investimentos em pessoas, ficaram alheias à evolução do conhecimento. De acordo com Malvezzi (1994), em 1930, o treinamento atingiu um novo status como atividade administrativa e passou a fazer parte da

estratégia empresarial. Tal status requeria informações científicas sobre habilitação e aprendizagem profissional, e muitos experimentos e teorias resultaram desses esforços, como pode ser constatado em propostas como o Training Within Industry TWI – e a Pesquisa-Ação. As atividades de capacitação, nessa fase, exigiam informações científicas mais seguras sobre condições de desempenho profissional. A Psicologia, através da Psicometria, criou instrumentos para aferição científica das condições apresentadas pelos trabalhadores. O foco de avaliação da Psicometria centra-se nos traços motores, cognitivos e de personalidade, aspectos que visam a garantir o controle das competências, tendo em vista o alcance de um bom desempenho na execução das tarefas.

A defasagem detectada pelos instrumentos da Psicometria, entre o perfil

padrão – conjunto de requisitos exigidos de um indivíduo para a realização

de

uma tarefa – e aquele apresentado pelo indivíduo, indicava a necessidade

de

treinamento (MALVEZZI, 1994).

O modelo burocrático das organizações, adotado a partir de 1940,

direcionou o foco da administração de pessoas e do treinamento. Dentro do modelo da burocracia, o homem era considerado um recurso, um meio de produção, no qual a criatividade e as idéias, além de não serem estimuladas, não eram consideradas adequadas ao sistema. Os estudos de Hawthorne, nas décadas de 20 e 30, foram corroborados na reflexão de Malvezzi, demonstrando que o trabalhador era um membro de grupo. Seu desempenho não era apenas um produto de suas capacidades físicas, mas estava claramente correlacionado à sua capacidade

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social, e ele não reagia como indivíduo, mas como membro de grupo. A partir do desempenho individual no ambiente de trabalho, decorre o sucesso da

equipe,najunçãodashabilidadesmotorasementais(BONFIM,1995).

Bastos (1994, p. 17) considera que "o imortal e persistente desejo de associação comprometerá seriamente o desenvolvimento de uma sociedade em sua capacidade de adaptação, se não for idealizado oportunamente um sistema tal que facilite e permita aos indivíduos de um grupo se integrar em outro". Embora reconhecendo, em parte, a importância da influência dos aspectos psicológicos e sociais no processo produtivo, o modelo do homem apregoado pelos humanistas era o modelo reagente aos valores e às determinações de seu contexto. Assim, a ação de treinamento, nessa época, visava ao ajustamento do trabalhador ao seu ambiente de trabalho, para o fazer, para dar conta da produção, e não ao seu crescimento como indivíduo. Para alguns economistas, a educação era totalmente dispensável para os trabalhadores. Outros economistas e políticos mais perspicazes, contudo, percebiam a importância da instrução escolar, pois consideravam que esta estavaligadaaumatendênciamodernizadoradesociedadesmaisavançadas. É possível entender que a forma de gerenciamento vigente na era industrial concedia um saber controlado, o qual permitia a execução do trabalho sem, contudo, representar uma ameaça aos proprietários. Era concebido um saber, mas não completo, sobre o processo, o domínio completo ficava nas mãos e na cabeça dos dirigentes. De acordo com Bennis (1976), as organizações precisam se renovar, para enfrentar as transformações aceleradas, já que a burocracia não atende ao novo contexto e só prospera em condições de competição, segurança, e previsibilidade. Para Argyris (apud Malvezzi, 1994, p. 18), a competitividade e a rapidez da evolução tecnológica, na década de 70, levaram a eficiência dos negócios a depender mais da contínua atualização e aprendizagem do que da autoridade gerencial. Alguns fatores sinalizam essa necessidade de atualização e desenvolvimento do trabalhador, tais como:

1) a maior reivindicação dos trabalhadores nos processos decisórios; 2) o falido controle entre a estrutura formal das tarefas e as tarefas realmente praticadas; 3) a fragilidade do controle externo sobre tarefas e pessoas começou a ser insuficiente, para garantir a eficiência (MALVEZZI, 1994, p. 18).

Visando a fazer frente a essas pressões, as organizações foram se

Sustentabilidade: uma abordagem social

adequando, empregando, para isso, uma política de inovação, que pode ser resumida em quatro elementos básicos: a competência, a tecnologia, a parceria e a flexibilidade. Considerando que, se treinamento e capacitação elevam o desempenho profissional dos funcionários e geram a competência na organização, então, a busca do entendimento e a identificação de necessidades de treinamento levam, conseqüentemente, à realização de treinamentos que visem a contribuir na busca dos resultados desejados pela organização. Por isso, passa a ser relevante avaliar e pesquisar a correlação entre treinamento e desempenho funcional. A influência das inovações para a questão da capacitação profissional revela uma reorientação em busca de atuações de resultados e, conseqüentemente, a exigência de um trabalhador com uma postura autogerenciável, constituída de compromisso, criatividade e competência. Em conseqüência desse perfil do trabalhador, também há a necessidade de mais preparação da força trabalhadora e da adequação de novas formas de organização e produção. Dessa forma, a capacitação deixa de ser investimento aplicado apenas no know-how – capacitar para fazer, e passa a ser investimento também no know why – capacitar para pensar, fazer autocrítica e agir. Com esta última abordagem, o treinamento amplia a atuação, a participação consciente no processo e, também, a empregabilidade do trabalhador, distanciando-o do estereótipo de mero seguidor de manuais. As características que conduzem a organização para a autonomia funcional, o crescimento e o desenvolvimento são:

Habilidade de aprender através da experiência, de codificar e de armazenar o conhecimento. Habilidade de “aprender a aprender”, aperfeiçoar metodologias para o melhoramento do processo de conhecimento. Habilidade de adquirir e utilizar informações para as próprias atuações, de desenvolver um processo de auto-análise. Habilidade de governar o seu próprio destino (BENNIS, 1976, p. 191).

Observa-se, ao analisar as características acima, que ajudar o trabalhador a construir o seu projeto profissional, pela aquisição de habilidades, de conhecimentos e de uma postura de aprender continuamente, auxilia a própria organização, pois ocorre, diretamente, o crescimento, o desenvolvimento e a sustentabilidade desta. Focalizando a capacitação e o treinamento nas organizações brasileiras, verifica-se que, segundo pesquisa da Associação Brasileira de

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Recursos Humanos – ABRH (1999), a partir da década de 70, o treinamento e o desenvolvimento passaram a ser mais requisitados devido à necessidade

de formação de mão-de-obra para suprir a forte demanda de pessoal

especializado, resultante do segundo grande desenvolvimento empresarial. Em seguida (1972), houve a necessidade de capacitar o corpo gerencial, em virtude de muitos desses profissionais serem oriundos da área técnica e terem sido promovidos a chefes e gerentes. Com a expansão empresarial, em 1990, a globalização da economia e o aumento da competitividade levaram as organizações a desenvolverem times e, atualmente, em função da rápida evolução da tecnologia e dos conhecimentos necessários para fazer frente à globalização, a tendência é o investimento, por parte das organizações, em aprendizagem.

Globalização e o Panorama Organizacional As economias estão passando por transformações rápidas e intensas influenciadas, sobretudo, por duas grandes forças. Uma delas é a globalização, definida por Sandroni (1999, p. 265) como o "termo que designa o fim das economias nacionais e a integração cada vez maior dos mercados, dos meios de comunicação e dos transportes", o que gera um

crescimento explosivo do comércio global e da competição internacional.

A outra força é a mudança tecnológica, com avanços notáveis na

disponibilidade de informações e na velocidade das comunicações.

Segundo Gasalla (1996, p. 28), “estamos imersos em um todo

complexo, interconectado, [

no qual vamos depender uns dos outros cada

vez mais". Com as mudanças ocorrendo em escala rápida e interminável, empresas de grande sucesso no mercado morrem e novas aparecem. Esse

contexto é corroborado em Kotler (1998, p. 13):

]

] [

mercado Darwiniano onde os princípios de seleção natural levam à

o sucesso de mercado é

conquistado pelas empresas mais ajustadas aos imperativos ambientais atuais – aquelas que podem entregar o que as pessoas estão dispostas a comprar – bens e serviços.

sobrevivência das mais capacitadas [

um ambiente de competição, no qual a empresa opera em um

]

O processo de globalização obriga, de certa forma, as organizações,

independentemente de seu porte e faturamento, a se reorganizarem e se reposicionarem no mercado, como forma de viabilizar a sustentabilidade do

seu negócio no futuro. O reposicionamento é conseqüência da queda que vem

ocorrendo nas reservas de mercado, permitindo às empresas visualizarem um

Sustentabilidade: uma abordagem social

mundosemfronteirasparaacolocaçãodeseusprodutoseserviços. As organizações, diante das transformações, estabelecem metas, tentam realizá-las e, para tanto, esperam dos líderes e dos funcionários que as compõem um comportamento empreendedor na busca de adequação a esse novo paradigma. Há organizações que estão mudando de forma consistente. São organizações que estão mobilizando suas energias, fazendo emergir a criatividade e a iniciativa de seus funcionários e criando uma cultura comum, disposta a aceitar as mudanças, através de um novo conceito de treinamento e desenvolvimento. Dessa maneira, tais organizações têm conseguido unir esforçoseducacionaisàsuaestratégiadesustentabilidadeevisãoglobal.

Do Treinamento à Aprendizagem Organizacional No contexto atual, é possível observar, nas organizações, os impactos da administração emergente, influenciando, também, as práticas de treinamento que, fundamentalmente, repousam sobre dois pilares: a organização e o indivíduo. A abordagem de capacitação e treinamento encontra-se distanciada do treinar apenas para o fazer. O treinamento atual deve atender outra demanda, qual seja, levar o trabalhador a refletir, saber, saber fazer e aprender a aprender. Essas condições permitem uma maior participação do trabalhador, por fornecer um meio de ampliar a visão deste, reconstruir seus quadros mentais e sua história. Com essa abordagem, segundo Freire (1996) e Nonaka e Takeuchi (1997), a empresa terá sua força de trabalho como uma vantagem competitiva. Não há por que desvincular o treinamento da educação, pois ele pode ser considerado uma vertente do processo educacional. Segundo Macian (1987, p. 3):

Temos encontrado, freqüentemente, posições muito extremadas, de ambos os lados; educadores subestimando profissionais de treinamento e estes se esforçando para garantir a identidade de seu trabalho, 'vacinando-se' contra os males da educação institucionalizada, da individualização do ensino e da diretividade da educação.

Para fins deste estudo, seguindo o pensamento de Macian, treinamento deve ser considerado como "meio de fornecer conhecimentos, consciência, autocrítica e capacidade de reelaboração, visando o preparo da pessoa dentro ou fora do ambiente de trabalho". Essa abordagem encontra- se muito próxima à visão de treinamento como uma forma de educação para o trabalho. O autor ainda destaca que o trabalho foi, é e continuará

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sendo o princípio educativo do sistema de ensino em seu conjunto. O trabalho determinou o “surgimento do sistema de ensino sobre a base da escola primária, o seu desenvolvimento e diversificação e tende a determinar no contexto das tecnologias avançadas, a sua unificação” (MACIAN, 1987, p. 165). Logo, educação é, basicamente, uma contínua

reconstrução de nossa experiência pessoal. Na verdade, essa reconstrução é caracterizada pela observação e pela prática do dia-a-dia de nossa vida. Para Macian (1987), portanto, não há receita para esse dilema. A questão consiste em conceder a capacitação visando a alcançar o desempenho eficaz e, ao mesmo tempo, garantir ao indivíduo sua condição de criatura humana, capaz de atuar, conscientemente, como um agente de mudança do cenário produtivo.

A formação e a educação continuada surgem como tendência para

fortalecer e desenvolver a força de trabalho de forma ampla e contínua, em virtude da velocidade com que ocorrem as inovações. "Na antiga economia,

a vida de um trabalhador era dividida em dois períodos: aquele em que ele ia para escola e o posterior à sua formatura, em que ele começava a trabalhar. Agora, espera-se que os trabalhadores construam sua base de conhecimentos ao longo da vida" (MEISTER, 1999, p. 11).

A conceituação de capacitação, como preparação da pessoa para as

atividades do cargo dentro e fora de seu ambiente de trabalho, coaduna-se com o conceito de educação, propriamente dito, com o de treinamento, adotado neste trabalho. Malvezzi (1994, p. 29) acredita que isso "reconceitua capacitação profissional como algo que vai além de aquisições de informações, mudanças de atitudes e desenvolvimento de habilidades, para incluir a reelaboração de significados e a revisão dos referenciais de ação". Um dos constantes desafios das organizações tem sido criar propostas para incrementar a intensidade dos conhecimentos, proporcionando respostas em tempo adequado, tendo em vista as descontinuidades criadas pela globalização, pela competição e pela explosão de conhecimentos. O conhecimento torna-se, dentro das organizações, um amálgama de experiências, valores e informações, os quais contribuam para a sustentabilidade no mercado.

[O conhecimento] É uma mistura fluída de experiência condensada, valores, informação contextual e insight experimentado, a qual proporciona uma estrutura para avaliação e incorporação de novas experiências e informações. Ele tem origem e é aplicado na mente dos

Sustentabilidade: uma abordagem social

conhecedores. Nas organizações, ele costuma estar embutido não só em documentos ou repositórios, mas também em rotinas, processos, práticas

enormasorganizacionais(DAVENPORTePRUSAK,1998,p.6).

Em última instância, e de maneira muito simples, o treinamento pode ser considerado como a ação intencional de fornecer meios para possibilitar a aprendizagem, conforme ensina Bastos (1994). A aprendizagem pode ser definida como uma série de experimentações e erros que levam à aquisição de determinada capacidade.

[A aprendizagem] É a modificação adaptativa do comportamento de processos repetitivos. Distingue-se nos animais, a aprendizagem por ensaio e erro, que dá uma curva de progresso sujeito a oscilações mais acentuadas, até que se estabeleça percentagem elevada de reações motoras; aprendizagem intuitiva - corresponde a uma adaptação rápida por compreensão. Do ponto de vista profissional, a aprendizagem designa exercíciospreparatóriosaumaformadeatividadeprofissionalqueassegure

aaquisiçãodessacapacidadeespecífica(BASTOS,1994,p.39).

Moscovici (1994, p. 22), por sua vez, defende o fato de que "a Aprendizagem envolve a pessoa como um todo e não só o seu intelecto". Estudiosos, como Freire (1999) e Moscovici (1994), têm ponderado que as propostas de ensino para adultos devem diferir, em natureza, das atividades pedagógicas destinadas a crianças. Senge (1990), por sua vez, considera que compreender como o adulto aprende é importante para entender, plenamente, a aprendizagem organizacional, uma vez que a entidade primeira de aprendizagem é o indivíduo e não a organização. Segundo Merrian e Caffarela (apud KUENZER, 2000, p. 67), a autodireção é uma característica natural da vida do adulto, sendo que a aprendizagem autodirecionada "é uma forma de estudo na qual o aprendiz tem a responsabilidade primária pelo planejamento, condução e avaliação de suas próprias experiências de aprendizagem". O termo Andragogia surgiu como sinônimo de educação de adultos, e esta relação adulto/adulto baseia-se numa relação democrática e participativa, e não autocrática, como a inerente à concepção de Pedagogia (BONFIM, 1995). Knowles (apud MOSCOVICI, 1994, p. 19), considerado um dos principais pesquisadores sobre aprendizagem dos adultos, aponta diferenças entre crianças e jovens, em situações de aprendizagem, principalmente, em relação a autoconceito, experiência, prontidão, perspectiva temporal e orientação da aprendizagem.

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Segundo Moscovici (1994), a situação de aprendizagem para o adulto caracteriza-se por uma "atmosfera adulta". Dessa forma, exige relações horizontais entre facilitador e aprendizes, como sócios e colaboradores de um empreendimento conjunto, em que os esforços de todos são somados, ao invés derelaçõesdotipoprofessor-aluno,comunsnoambienteusualdeensino.Existe menor dependência da relação professor/aluno, dos livros e dos textos para a conclusão correta. O clima psicossocial, no ambiente de aprendizagem, é de respeito mútuo; os colegas tornam-se recursos para a aprendizagem uns dos outros, pela experiência anterior de cada um, a qual é oferecida, analisada, discutidaesomadaàprópriaexperiênciapessoaldosalunos. A andragogia utiliza a motivação e a experiência dos aprendizes adultos como molas principais para evocar o conhecimento. As experiências de cada um podem servir como ilustrações e exemplos para facilitar a compreensão e a aquisição de novos conceitos, conhecimentos e técnicas, pois são significativas, mais reais e concretas do que qualquer exemplo retirado de livros e textos. Freire (1996, p. 25) afirma que "ensinar e capacitar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção". O autor entende que todos os homens são capazes de transcender e humanizar o mundo, fazer história e cultura. Isso só é possível através da reflexão, dada a capacidade crítica do homem, numa visão educativa progressista. Para Freire (1996), uma das tarefas fundamentais da prática educativa progressista é o desenvolvimento da curiosidade crítica, insatisfeita, indócil. Freire (1999, p. 44) considera, ainda, que a metodologia utilizada para alfabetizar e educar leva à tomada de consciência, na imersão do processo de realidade vivida pelo estudante – "uma educação para a liberdade, educação para o homem sujeito" –, sendo valorizada a cultura do adulto trabalhador, o queelesabeeoqueelefaz,traduzindo-secomoeducaçãolibertadora. A educação libertadora de Freire produz o comportamento pró-ativo da pessoa, ao passo que a educação tradicional estimula o comportamento reativo. Um ambiente libertador sensibiliza o aprendiz a perceber a contínua transformação e estimula a consciência crítica, para que o aprendiz não se exima da sua responsabilidade de agente de transformação social. Para Freire (1996), a práxis educacional libertadora está baseada na reflexão e na ação do mundo concreto. A reflexão, para o aprendiz, serve para que ele não se torne apenas ativista – agir sem pensar nas conseqüências das ações; e a ação, para que o aprendiz não se torne um

Sustentabilidade: uma abordagem social

verbalista – falar muito, mas realizar pouco ou nada. Assim, ao reconhecer uma realidade que não se adequou às suas expectativas, o adulto deve fazer

uma inserção crítica nessa realidade para objetivá-la e, então, agir sobre ela.

Os conceitos de Freire são úteis, na medida em que permitem um olhar

específico e crítico sobre as questões relativas à aprendizagem do adulto,

levantando a questão da inconclusão do ser e sua curiosidade crítica. "É neste sentido que reinsisto em que formar é muito mais do que puramente treinar o

educandonodesempenhodedestrezas"(FREIRE,2001,p.15).

Assim, a educação libertadora vem ao encontro do paradigma do conhecimento que valoriza os profissionais em todos os níveis, contrariando a cultura milenar, paternalista e autoritária. Nesse contexto, a visão empresarial precisa transcender o conhecimento piramidal. Essa nova concepção de gestão voltada para o conhecimento contribui para o fortalecimento do indivíduo e a sustentabilidade da organização. Segundo Freire (2001, p. 25), "quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina, ensina alguma coisa a alguém. Por isso é que, do ponto de vista gramatical, o verbo ensinar é um verbo transitivo-relativo. Verbo que pede um objeto direto – alguma coisa – e um objeto indireto – a alguém". No contraponto de Freire (2001), Rogers (apud MOREIRA, 1999, p. 145) defende a idéia de que ensinar a alguém é impossível devido à velocidade das mudanças nas informações, “o que é ensinado torna-se rapidamente obsoleto”. Nesse contexto, o único homem educado é o que aprendeu a aprender, a se adaptar e mudar; que percebeu que nenhum conhecimento é seguro e que só o processo de busca do conhecimento dá uma base para segurança. Finalizando este tópico, aponta-se que, apesar das contribuições nas citações de Freire e Knowles, para o ensino do adulto objetivando a educação como ser integral, tem-se consciência dos limites dessa formação em um espaço organizacional, burocrático, onde impera o ensinamento visando à produtividade e à competitividade.

O próximo tópico analisa o conhecimento organizacional no

trabalho, uma vez que o fato de as organizações lutarem por vantagens

competitivas faz com que surjam interesses em compreender a questão da aprendizagem organizacional (SENGE, 1990) e do conhecimento organizacional (NONAKA; TAKEUCHI, 1997), além de como as empresas aprendem (GEUS, 1999).

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O Conhecimento Organizacional como Vantagem Competitiva

O objetivo de obter vantagem competitiva, para se distinguir em seus

segmentos de mercado, levou as organizações a buscarem recursos para uma gestão competitiva. O movimento para a qualidade trouxe benefícios, mas não correspondeu a todas as expectativas dos empresários. Segundo Davenport e Prusak (1998, p. 10), "o desapontamento com tais conceitos levou as empresas a buscarem algo mais básico, irredutível e vital, para o desempenho, a produtividade e a inovação". Assim, os empresários perceberam a importância do conhecimento para o funcionamento de uma organização e a mentalidade equivocada de alguns gestores, os quais presumiram que a tecnologia poderia substituir a qualificação e o julgamento de um trabalhador capacitado e experiente.

Na nova economia, o conhecimento não é apenas mais um recurso, ao lado dos tradicionais fatores de produção – trabalho, capital e terra, mas sim o único recurso significativo atualmente, e que o trabalhador do conhecimento desempenha um papel central na sociedade, pois é um executivo que sabe como alocar o conhecimento para o uso produtivo, assim como o capitalista sabia alocar o capital para o uso produtivo como o maior ativo (DRUCKER apud NONAKA; TAKEUCHI, 1997, p. 5).

A organização de negócios não só processa o conhecimento, mas

também o cria. Os estudos sobre a administração negligenciam a criação de conhecimento pela organização, principal fonte da competitividade

internacional das organizações japonesas estudadas por Nonaka e Takeuchi (1997). Quinn (apud NONAKA; TAKEUCHI, 1997, p. 5) raciocina na mesma linha de Drucker, ao afirmar que "o poder econômico e de

produção de uma empresa moderna está mais em suas capacidades intelectuais e de serviços do que em ativos imobilizados". O autor vai um pouco mais adiante, ao apontar o fato de os valores da maioria dos produtos

e serviços dependerem, principalmente, de como os fatores know-how

tecnológico, projeto de produto, apresentação de marketing, compreensão do cliente, criatividade pessoal e inovação podem ser desenvolvidos.

A necessidade de a organização aprender já foi abordada por Geus

(1999, p. 7), quando este considera que, "para enfrentar um mundo em

constantes mudanças, qualquer entidade precisa desenvolver a capacidade

de migrar e mudar, de desenvolver novas habilidades e atitudes, em resumo:

a capacidade de aprender".

Sustentabilidade: uma abordagem social

O conhecimento organizacional tem sido classificado e usado dentro

de uma multiplicidade de abordagens. Isso se deve à atenção que acadêmicos e profissionais de diversas áreas passaram a ter com a aprendizagem organizacional (PRANGE, 2001). Dessa forma, a aprendizagem organizacional, segundo Easterby, Smith e Araújo (2001, p.17-18), pode ser classificada como um processo técnico ou social: "a visão técnica supõe que a aprendizagem organizacional diz respeito ao processamento eficaz, interpretação de resposta, informações tanto de dentro como de fora das organizações". Na perspectiva social, focaliza-se a maneira pela qual as pessoas atribuem significados às suas experiências de trabalho. Essas experiências podem derivar de fontes explícitas, como informação financeira, ou de fontes tácitas, tais como a sensibilidade que um talentoso artesão possui, ou a intuição desfrutada por um brilhante estrategista. Nessa perspectiva, o conhecimento é algo que emerge de interações sociais, normalmente, no ambiente natural de trabalho. É fundamental, também, que as organizações se tornem aprendizes eficientes e sejam capazes de se adaptar à rápida alteração de condições em seu ambiente, gerando a inovação que lhes dará a vantagem competitiva, permitindo sua sobrevivência. As organizações não têm cérebros, mas possuem sistemas cognitivos e

memória, pois desenvolvem rotinas ou padrões de atuação para lidar com problemas externos e internos. Essas rotinas vão sendo incorporadas, de forma implícita ou inconsciente, na memória organizacional. Contudo, a criação do conhecimentoorganizacionaldeveserentendidacomoumprocessoqueamplia “organizacionalmente”oconhecimentocriadopelosindivíduos,cristalizando-o comopartedarededeconhecimentosdaorganização.

O conhecimento é o novo recurso competitivo que atingiu o Ocidente

como um relâmpago. Porém, toda essa conversa sobre a sua importância, tanto para as empresas como para países, pouco ajuda a compreender como

se

cria o conhecimento (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). Constata-se que

o

desafio para as organizações reside em proporcionar o processo de

aprendizagem individual e organizacional, com vistas a alcançar os patamares de competitividade, nos quais as empresas de países industrializados estão inseridas, ou, pelo menos, se equiparar a eles. Embora seja utilizada a expressão "criação do conhecimento organizacional", para Nonaka e Takeuchi (1997, p. 63), "a organização não pode criar conhecimento por si mesma, sem a iniciativa do indivíduo e a interação que ocorre dentro do grupo. Logo, a criação do conhecimento ocorre em três níveis: do indivíduo, do grupo e da organização”.

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Kim (apud FLEURY, 1995) e Senge (1990) compartilham a suposição de que a aprendizagem é necessária, que deve haver esforço para obtê-la,

mas que há uma série de condições, estruturas pessoais e culturais, as quais podem impedir a aprendizagem organizacional. Isso os encoraja a introduzir modelos e métodos planejados para melhorá-la de tal modo que a aprendizagem possa ocorrer livre de quaisquer obstáculos. Para que o conhecimento ocorra e se mantenha, deve haver uma cultura para a aprendizagem, pautada pelos valores básicos da organização. Fleury (1995, p. 29-30) identifica alguns pontos essenciais, que permitem a dinâmica da aprendizagem na organização e uma visão sistêmica do fenômeno organizacional:

o

processo de inovação, de busca contínua de capacitação e

qualificação das pessoas e das organizações é um processo permanente;

o processo de aprendizagem é um processo coletivo, partilhado por todos, e não o privilégio de uma minoria pensante;

os objetivos organizacionais são explicitados e partilhados, o

comprometimento com estes objetivos ocorre em função da congruência entre os objetivos individuais de autodesenvolvimento e

os

objetivos de desenvolvimento organizacional;

a comunicação flui entre as pessoas, áreas, níveis, visando a criação de competências interdisciplinares; sistêmica e dinâmica do fenômeno organizacional.

A

organização em aprendizagem deve oferecer oportunidades que

propiciem a reelaboração do projeto de vida de seus profissionais, concedendo oportunidades de ações que permitam a apreensão de critérios, ajudando-os a eleger caminhos, ensinando-os a pensar, a reelaborar, constantemente, seus significados e aprender a fazer autocrítica. Os processos de aprendizagem, nas organizações, têm utilizado práticas interativas, com o objetivo de exercitar o confronto com outros conhecimentos, legitimando ou reconstruindo a posição adotada pela organização. Nesse cenário, a educação continuada tem sido a tônica na contemporaneidade para obtenção de vantagens competitivas.

A Tendência: Educação Continuada No cenário mundial, os investimentos em capacitação e desenvolvimento são tendências irreversíveis. Por conseguinte, as empresas necessitam qualificar o quadro de profissionais para obtenção de vantagens competitivas, uma vez que significativo contingente de seus trabalhadores

Sustentabilidade: uma abordagem social

ainda possui formação educacional bastante reduzida.

As organizações buscam, além da capacitação, uma orientação estratégica,

que se paute pelo mercado, estabelecendo desafios e metas para o futuro. O planejamento estratégico visa ao acompanhamento das rápidas mudanças de mercado, para melhorar a produtividade e enfrentar a concorrência; alia capacitação e desenvolvimento às mudanças comportamentais de filosofia.

Logo, através da capacitação, é possível compartilhar novos conhecimentos com osfuncionários.Essafilosofia,suportadaporumgerenciamentomaispró-ativo e mais empreendedor, estimula a maior participação dentro dos requisitos de excelênciaedosvaloreséticos.

A tradicional forma de atuação do “Setor de Treinamento” não

corresponde mais às atuais necessidades das organizações. Segundo Meinster (1999), a tendência é o gerenciamento da aprendizagem na organização, tendo maior foco nos negócios e no futuro, a demonstração de custo-benefício de suas atividades e a imagem de um centro de lucro. Com essa abordagem pró-ativa, o centro de capacitação e aprendizagem tem uma nova missão, deixando de ser solução para problemas que já ocorreram. As organizações que já gerenciam de acordo com essa abordagem apresentam- se mais criteriosas no gerenciamento da aprendizagem e do desenvolvimento, por terem como objetivo o controle rígido do processo, relacionando os programas de aprendizagem às metas estratégicas da organização. Um dos valores fundamentais dessa nova visão de desenvolvimento é que cada gerente é um “Gerente de Pessoas” e, sendo assim, é um profissional de capacitação, é um prestador de serviços, que oferece suporte e apoio às suas equipes e até às de outras áreas. Assim, a tendência presente é a existência de universidades corporativas, que muito mais do que departamentos de capacitação revestidos de um novo nome representam um esforço notável para desenvolver, em funcionários de todos os níveis, as qualificações, o conhecimento e as competências necessárias do trabalho. Essa nova forma de aprendizagem há muito é oportuna, pela necessidade de completar e até mesmo remediar algumas deficiências oriundas da primeira formação de trabalhadores, a fim de desempenhar atividades técnicas e específicas de uma empresa e, ainda, assegurar permanente formação em um cenário de rápida evolução dos perfis profissionais. "Um número crescente de empresas começaram a perceber a necessidade de transferir o foco de seus esforços de treinamento e educação corporativa, de eventos únicos em uma sala de aula, cujo objetivo é desenvolver qualificações isoladas, para a criação de uma cultura de

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aprendizagem contínua" (MEISTER, 1999, p. 21). Nesse novo modelo de geração de aprendizagem no local de trabalho, a empresa conta com a colaboração de funcionários mais experientes, os quais aprendem uns com os outros e compartilham inovações e melhores práticas, com o objetivo de solucionar problemas empresariais reais. Dessa forma, a eficácia da empresa está apoiada na experiência conjunta do corpo de colaboradores. As empresas mais bem-sucedidas, ao invés de esperar que as escolas tornem seus currículos mais relevantes, trouxeram a escola para dentro da empresa. Abandonaram o paradigma de que educação seria um capítulo da responsabilidade social da empresa e passaram, de forma muito pragmática, a entender que o diferencial decisivo de competitividade reside no nível de capacitação, em todos os níveis, de seus funcionários, fornecedores, principais clientes e até membros da comunidade onde atuam. Para Meister (1999), esse é o fim da era de “Treinamento e Desenvolvimento” tal como se conhecem hoje. Constata-se que, para a capacitação ser eficaz, precisa manter uma presençaconfiáveleconsistente,istoé,devesercontínuaenãoumeventoque ocorre apenas uma vez. Pode-se, portanto, dizer que a universidade corporativa é um instrumento de ação permanente para enriquecer a experiência,osconhecimentoseascompetênciasacumuladasnasempresas. Meister (1999) assegura que, ao se gerenciar capacitação com continuidade, a universidade corporativa atende às necessidades das organizações no contexto atual, nos seguintes quesitos: a emergência da organização hierárquica enxuta; o advento e a consolidação da "economia do conhecimento"; a redução do prazo de validade do conhecimento; o novo foco na capacidade de empregabilidade para a vida toda; e uma mudança fundamental no mercado da educação global. Essas tendências abrangentes apontam para um novo e importante veículo de criação de vantagem competitiva sustentável. Em sua obra, "A Empresa Viva", Geus (1999, p. 187) assinala:

Poder concentrado significa ausência de liberdade. A ausência de liberdade significa pouca criação de conhecimento e, pior, pouca disseminação de conhecimento. Ausência de disseminação de conhecimento se traduz em pouco aprendizado institucional e, conseqüentemente, ausência de ação eficaz perante as mudanças do mundo. Uma das forças motrizes da empresa é o desenvolvimento de seu potencial. Podemos criar uma forma de governo que maximize o potencial de nossos membros e, desta forma, reduzir a taxa de mortalidade corporativa.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Atualmente, são novas as competências exigidas pelos empregadores para força de trabalho. Essas competências foram, um dia, associadas aos gerentes, mas, no século XXI, a necessidade empresarial identifica-se, cada vez mais, com profissionais inteligentes, com iniciativa e capacidade de resolver problemas complexos. Outro aspecto quanto ao desenvolvimento dessas competências é proporcionar, aos funcionários, a compreensão das demandas complexas do trabalho que cada um faz, propiciando que as várias partes criem um todo integrado numa visão sistêmica do negócio. As transformações drásticas no mercado e a forma de competitividade alteraram a segurança do emprego, o qual não é mais uma decorrência do trabalho em uma única empresa, mas da manutenção de uma carteira de qualificações, que permite capacidade contínua ao empregado para ter melhor produtividade e manter-se com empregabilidade. "Os empregadores estão dando aos empregados a oportunidade de desenvolver uma melhor capacidade de emprego, em troca de maior produtividade e algum nível de comprometimento com a missão da empresa" (MEISTER, 1999, p. 10). As empresas que investem em educação corporativa estão transformando seu ambiente em estruturas de aprendizagem corporativa, nas quais o objetivo é desenvolver meios de estimular novas oportunidades, entrar em novos mercados globais, criar relacionamentos mais profundos com clientes e impulsionar a organização para um novo mundo. O foco saiu da sala de aula e dirigiu-se para um processo de aprendizagem, em que a prioridade é entrar em contato com o conhecimento da organização. Avantagemcompetitivabaseadanaforçadetrabalhoestáprovadasermais duradoura do que a competitividade baseada na tecnologia, que desaparece rapidamente, quando novas tecnologias se tornam igualmente acessíveis às empresas.Aexcelênciadaforçadetrabalhoresulta,exclusivamente,daspráticas derecrutamentoecapacitaçãodeumaempresa,pois,comautilizaçãoadequada desses meios, criam-se vantagens que não podem ser facilmente duplicadas e semprepodemserrenovadaseaperfeiçoadas. De acordo com Soderberg (apud MEISTER, 1999, p. 212), "as pessoas acreditam, equivocadamente, que, depois que obtêm o diploma de uma faculdade, estão prontas para a próxima década, quando, na verdade, elas estão prontas para os próximos segundos". A educação continuada veio evidenciar meios encontrados pelas universidades, para proporcionarem aos funcionários a aprendizagem permanente, como instrumentalização capaz de dar resposta às organizações com vistas à sustentabilidade.

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Capacitação Orientada para Resultados A nova tendência de organizações que aprendem caracteriza-se como capacitadora de seus funcionários, de tal forma que cria resultados valorizados, tais como: inovação, eficiência, vantagem competitiva e melhor alinhamento com o ambiente. Apesar da ampliação ocorrida na abordagem de capacitação, com foco no desenvolvimento do funcionário como um todo, “trata-se agora do saber, saber fazer, saber ser e saber conviver" (KUENZER, 2000, p. 16). Para essa autora, os modos de verificar a capacitação trazem diferencial para o negócio, distinguindo-se de referenciais tradicionais. Autores como Meister (1999) acreditam em uma nova abordagem de avaliação, em detrimento do modelo de avaliação tradicional, apesar de essas medidas representarem um ponto de vista útil para a avaliação de investimentos na educação de funcionários.

A verdadeira oportunidade está em deixar para trás a medida dos investimentos, número de dias ou horas dos alunos, para adotar uma medida dos resultados ¾ a contribuição de um investimento em educação ¾ para que seja cumprida uma estratégia empresarial (MEISTER, 1999, p. 55).

O modelo de treinamento orientado para resultados (TOR),

conforme Destro (1994), surgiu para preencher essa lacuna, partindo do

pressuposto de que treinamento e desenvolvimento são funções tipicamente econômicas e, como tais, devem ser capazes de mostrar resultado como qualquer outra atividade de negócios. Para o modelo TOR, os resultados de treinamento são muito mais do que gráficos contendo números de homens treinados no ano e total de horas-aula realizadas. São as contribuições demonstráveis das ações de treinamento para a redução de custos, o aumento da produtividade, o incremento da qualidade,a melhora do clima organizacional. De acordo com Destro (1994), quando os executivos falam de "desempenho de empresa", estão se referindo, implicitamente, ao desempenho conjunto de pessoas que nela trabalham. O desempenho da empresa é uma das responsabilidades básicas do setor de treinamento e desenvolvimento.

É primordial, para o estabelecimento das contribuições de

qualificação, a definição clara e mensurável do objetivo. Deve-se ressaltar, contudo, que é preciso estar atento à distinção entre problemas que podem, ou não, ser tratáveis por uma ação de capacitação profissional. Dessa forma,

Sustentabilidade: uma abordagem social

ao identificar necessidades de capacitação, devem-se destacar os objetivos a que se pretende chegar e escolher indicadores adequados, visando à avaliação dos resultados.

As técnicas praticadas para prospectar, avaliar e validar resultados de

capacitação consideram a percepção do capacitando, a do facilitador e a da

chefia imediata. Podem ser realizadas através de questionários e reuniões com as chefias ou as equipes de trabalho. Todas as técnicas exigem preparação dos envolvidos no processo. Percebe-se que a tendência de avaliação está voltada para a avaliação

dos impactos dos investimentos sobre os negócios. Exemplo disso é o posicionamento de Jay Zimmerman, Gerente de Pesquisa e Qualidade do Institute of Learning do banco de Montreal: "Eu gosto de falar sobre fatos ou

indicadores de impacto. [

avaliação de Kirkpatrik, a avaliação deve ter uma abordagem em equipe, não há receita, o importante é o tipo de mudança que você está tentando empreender" (ZIMMERMAN apud MEISTER, 1999, p. 79). Destro (1994, p. 63) observa "que o processo de avaliação de retorno de investimento enobrece os processos de treinamento e desenvolvimento e os leva às pautas de reuniões de planejamento estratégico das principais organizações do mundo todo". Ele afirma que o sucesso da avaliação de treinamento está atrelado a vários fatores críticos:

1) análise da necessidade - o que se esperava que o treinamento realizasse, 2) preparo organizacional: a organização deve estar disposta a investir tempo e recursos humanos necessários para levar a avaliação até o final e, 3) competências necessárias: o pessoal de treinamento deve desenvolver competências e conhecimentos técnicos para fazer avaliações efetivas (DESTRO, 1994, p. 63). Frente a esse contexto, Destro (1994, p.51) apresenta algumas razões adicionais para que se faça avaliação de treinamento,, conforme seguem,

– Determinar o quanto o treinamento satisfaz as necessidades dos participantes.

– Determinar em que extensão os participantes dominam o conteúdo

além das medidas tradicionais, níveis de

]

do treinamento.

– Identificar se os métodos e meios de treinamento ajudaram os

participantes a atingir os objetivos de aprendizado.

– Avaliar quanto do conteúdo do treinamento, incluindo conhecimento

e habilidades recém-adquiridos, foi transferido para o comportamento de trabalho.

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– Determinar se os resultados do treinamento contribuíram para o cumprimento das metas da empresa. O mesmo autor ressalta, contudo, que, quando não são realizadas avaliaçõesdetreinamento,podemocorrerconseqüênciascomoasseguintes.

– Os participantes podem continuar a fazer cursos em que não conseguem aprender.

– O treinamento pode ser visto como um uso esbanjador de recursos.

– As modificações do curso podem não ser baseadas nos dados de resultados do participante, e as mudanças podem fazer com que as atividades de treinamento efetivas sejam substituídas por atividades ineficientes (DESTRO, 1994, p. 51). Percebe-se, portanto, que um processo de avaliação, adequadamente implementado, fornece valor agregado para a organização e é um investimento relevante, que posiciona seus recursos humanos em termos operacionais e estratégicos. Existem algumas características significativas para o sucesso da empresa, isso quer dizer desenvolver instrumentos que se destinem a capacitar empresários para a criação, a manutenção e a expansão dos negócios das empresas. O empresário precisa estar atento às mais diversas formas de desenvolver suas habilidades, para operar num contexto global, entendendo e adaptando-se às diferenças culturais que caracterizam os mercados atuais. Piaget (1996) afirma que cada indivíduo nasce com uma determinada capacidade e só vai desenvolver as habilidades que sua capacidade permitir. Sendo assim, faz uma distinção entre três formas de conhecimento: em primeiro lugar, há uma imensa categoria dos conhecimentos adquiridos graças à experiência física em todas as suas formas, isto é, a experiência dos objetos e de suas relações, mas com abstração a partir dos objetos como tais, caracterizando-se o uso da inteligência prática. Em segundo lugar, há a categoria dos conhecimentos estruturados por uma programação hereditária, estruturas perceptivas e dimensões de espaço. E, em terceiro, a categoria, pelo menos tão extensa quanto a primeira, dos conhecimentos lógico-matemáticos, “ações exercidas pelo sujeito sobre os objetos” (PIAGET, 1996, p. 306). Nesse contexto, a capacitação pode ser caracterizada como um programa que abrange tanto a aquisição de novas habilidades e conhecimentos quanto o desenvolvimento de outras características comportamentais. Diante do exposto, a empresa está envolta em influências econômicas, culturais e sociais, caracterizando-se como um laboratório de desenvolvimento do conhecimento, marcando seu espaço

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no mercado e garantindo a sua sustentabilidade. A partir desse cenário, a empresa assume a responsabilidade de se manter no mercado, cumprindo seu papel social, garantindo não somente sua função econômica, na obtenção de resultados, mas também a capacitação dos seus funcionários como agentes transformadores, multiplicadores, disseminadores e somadores do conhecimento.

Considerações Finais O conhecimento possui relevância para o avanço da aprendizagem organizacional, pela eficiência no uso de modelos e processos que permitem às organizações a eficácia da junção dos esforços possíveis dos três elementos básicos destas: o indivíduo, o grupo (a equipe) e a organização. Esses elementos, conjuntamente, permitem a prosperidade, decorrente da atuação responsável socialmente. No primeiro momento, o estudo pretendeu concentrar-se na história do desenvolvimento do treinamento como forma de execução das tarefas nas organizações. Nesse contexto, a organização exercia um papel de propiciar, ao indivíduo, meios necessários para que este desenvolvesse suas atividades de forma treinada, não lhe sendo necessário possuir habilidades intelectuais, tornando-se uma extensão da máquina propriamente dita. Restava-lhe apenas o comprometimento de desenvolver bem suas tarefas em troca de remuneração. Essa forte presença na história da industrialização, tida como período da produção em série e de massa, perdurou, praticamente, até o final da década de 80 do século XIX. Pode-se afirmar que esse foi um período de asfixia funcional, em que pouca oportunidade havia para o desenvolvimento do conhecimento nas massas operárias. Podem ser citadas como variáveis dessa asfixia: a produção monopolista de alguns países; os regimes políticos existentes; as políticas econômicas fechadas das organizações e dos países. No segundo momento, o conhecimento foi tido como forma de sobreposição ao treinamento, sufocando, de certa forma, o treinamento, mais especificamente a partir da última década do século XX e, mais acentuadamente,noprincípiodoséculoatual.Essefatosedeveàaberturadas fronteiras econômicas dos países, formando blocos econômicos regionais, inclusive transregionais, como parceiros econômicos. Essa variável passou a impressãodequeserianecessárioapenasoconhecimentoespecífico. Em decorrência da variável globalização - política e econômica -, as organizações tanto públicas quanto privadas necessitam ajustar-se, revendo

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suas posições. O alcance de novas posições concentra-se na busca da capacitação profissional, preparando os trabalhadores tecnicamente. Porém issonãoéosuficiente,senãohouveradesalienaçãodoconhecimento

A alienação do conhecimento técnico ao capital cria uma espécie de

atrofia do intelecto e é nessa linha que as universidades precisam se engajar,

como cooperadoras e propagadoras da reflexão e da crítica ao processo da produção e do desenvolvimento do conhecimento, pois é dessa forma que ocorre a aprendizagem organizacional com foco centrado no treinamento (capacitação) e no conhecimento.

O conhecimento desenvolvido pelo conjunto dos elementos básicos

permite que as organizações construam, mutuamente, uma sociedade mais justa e igualitária; socialmente responsável pelo desenvolvimento de

políticas ambientais de participação, motivação e comprometimento de todos. A produção do conhecimento desencadeia a concepção de que a responsabilidade social é de todos e não exclusiva das organizações.

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Sustentabilidade: uma abordagem social

Desenvolvimento Sustentável:

indicadores de sustentabilidade nos aspectos social, econômico e ambiental, como ferramenta para a gestão pública local

1

Alberto de Souza Rossi e Sérgio Carvalho

2

Introdução O Brasil, ultimamente, tem enfrentado um processo de urbanização desenfreada pelo ritmo de aceleração do crescimento populacional e das atividades econômicas, o que tem causado pressões sobre o meio ambiente e, conseqüentemente, alterações da qualidade ambiental dos municípios brasileiros. O aumento das taxas de crescimento demográfico de urbanização observadas nas duas últimas décadas contribuiu para a elevada concentração da miséria, ocasionando a degradação dos recursos naturais, resultando na diminuição da qualidade de vida da população. A insuficiência de planejamento municipal provocou diversos problemas ambientais, tais como a poluição do ar e das águas, as enchentes e os deslizamentos, entre outros, resultandoemconseqüênciasdesastrosasparaapopulação. Para modificar esse cenário e fortalecer as estratégias da gestão ambiental em âmbito municipal, é necessária a criação de programas nos municípios, objetivando proteger e conservar as questões ambientais e obter a qualidade e o equilíbrio necessários ao meio ambiente. Esses objetivos poderão ser atingidos pelas organizações que se adequarem às

1 Mestrando em Gestão Tecnológica: Qualidade Ambiental. Centro Universitário Feevale. alberto@feevale.br 2 Professor-pesquisador. Centro Universitário Feevale. Coordenador do Mestrado em Qualidade Ambiental sergiocarvalho@feevale.br

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novas normas ambientais, em busca de uma sustentabilidade, forma essa de contribuir com o desenvolvimento sustentável (Bello, 1998). A procura por um desenvolvimento sustentável, no século XXI, é caracterizada como um desafio proeminente para muitas organizações, as quais acreditam que esse novo modelo de desenvolvimento possa ser a forma de assegurar a qualidade ambiental e a garantia de um meio ambiente cada vez mais saudável. Os problemas ambientais acabaram por marcar a segunda metade do século XX. Permite-se, aqui, resgatar alguns acontecimentos envolvendo

desastres ambientais que ficaram registrados na história mundial. Entre eles, destacam-se acidentes como: Baía de Minamata, no Japão, o acidente de Bhopal, na Índia, e o acidente na usina nuclear de Chernobyl, na extinta União Soviética. Esses acidentes provocaram, na Europa, um impressionante crescimento da conscientização sobre os problemas ambientais. Também um ponto de referência foi o vazamento de petróleo da Exxon Valdez, que obteve o mesmo impacto na América do Norte, provocando imensa irritação popular nos Estados Unidos. Observa-se que esses danos causados são, de certa forma, menores do que aqueles que estão sendo localizados, cumulativamente, no meio ambiente, embora não existam ainda instrumentos que permitam realizar balanços ecológicos. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Organization for Economic Cooperation and Development – OCDE) estimou os danos ambientais acumulados para a Europa em 4% do produto nacional bruto médio de cada país (CALLENBACH et al., 1993). Os debates referentes às discussões do desenvolvimento sustentável iniciaram-se através da tomada de consciência sobre os possíveis problemas ambientais até o presente momento, os quais evoluíram significativamente.

A relação que se refere à sociedade e ao meio ambiente, tão pouco abordada

nas discussões iniciais sobre a problemática ambiental, passou a ser observada de forma criteriosa e a própria concepção do problema passou a ser uma forma mais globalizada e cada vez menos localizada. Essa reflexão sobre a crise ecológica moderna no nível local leva ao surgimento de novas alternativas de relacionamento da sociedade contemporânea com seu

ambiente, buscando alcançar a redução dos impactos que esta produz sobre

o meio que a cerca. Visivelmente, nos últimos séculos, a dependência das sociedades humanas em relação aos recursos naturais vem diminuindo. Esse fato, por sua vez, pode ser admitido pela diminuição da produção e do consumo de recursos energético-intensivos, pelo aumento de consumo de produtos

Sustentabilidade: uma abordagem social

energéticos não-intensivos e pelo crescimento do setor de serviços. Utilizando-se uma base relativamente baixa na entrada de recursos naturais, os sistemas tecnológicos atuais, mais eficientes, são capazes de criar e operar complexas estruturas com alta produtividade (WEIZSÄCKER et al., 1995). As regiões do Brasil que concentram maior número de população estão vulneráveis a problemas sérios relacionados ao meio ambiente, provocando impactos ambientais, contendo áreas críticas de degradação:

“assentamentos ilegais, sistema de transportes e de saúde falidos, déficit habitacional, saneamento básico, falta de escolas e creches, menores abandonados, violência urbana acentuada e outros” (TOURAINE apud MENEZES, 2001, p. 23).

a falta de uma vontade política dos governantes em estabelecer uma

meta para o desenvolvimento das cidades, adequado ao seu crescimento. Políticos e administradores municipais não devem ignorar o fato de planejar o desenvolvimento urbano daqui para frente (MENEZES, 2001).

] [

Os gestores públicos, em âmbito municipal, estadual e federal deste país, precisam se conscientizar de que investir em meio ambiente é essencial, afinal, não existe saúde sem que o meio ambiente esteja equilibrado. Para isso, é preciso desenvolver políticas ambientais e deixar de lado os “palpites ambientais” (JÚNIOR, 1996). Finalmente, um desenvolvimento sustentável serve para enfrentar problemas no meio ambiente e relacionar as diversas dimensões existentes, entre elas: sociais, econômicas e ambientais. Os indicadores aqui demonstrados permitem resgatar seus princípios, seus tipos, sua função e como se articulam para um sistema de gestão local. Para concretizar este trabalho, teve-se como instrumento de pesquisa uma revisão de literatura, com o objetivo de contribuir com questões acerca do desenvolvimento sustentável de uma forma prática e objetiva, procurando relacioná-lo aos indicadores de sustentabilidade, contribuindo para uma gestão pública que a priorize.

Desenvolvimento Sustentável: conceitos e métodos praticados O desenvolvimento sustentável tem sido considerado um discurso necessário e global. Entretanto, os conceitos e os princípios formulados recentemente disponibilizam alternativas aos debates acerca de desenvolvimento e vicissitudes sobre as formas democráticas de gestão das políticas públicas.

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O ritmo acelerado, a partir da segunda metade do século XX, referente à revolução industrial, trouxe grandes transformações nas questões da urbanização, com o envolvimento do excesso de população inserido nesse contexto. Esse processo acabou causando profundos impactos, afetando, principalmente, a esfera social e ambiental e, por conseqüência, acabou interferindo em outras esferas, como a econômica, a política, a cultural e a tecnológica, surgindo, assim, a necessidade por um desenvolvimento sustentável. Imediatamente, houve a obrigação de desenvolver estratégias com o objetivo de encarar questões relacionadas à sustentabilidade, tanto global, regional, quanto local. Para tornar viável a busca por um ambiente sustentável, necessita-se da interação de políticos e da sociedade, participando juntos em busca de um mesmo objetivo centralizado nas questões sobre o desenvolvimento sustentável. O conceito desenvolvimento sustentável surgiu a partir da década de 80, no momento em que as discussões se referiam às questões ambientais, resultando na preocupação voltada aos recursos naturais não-renováveis, evidenciando a necessidade da criação de novos padrões de desenvolvimento econômico, social e ambiental (SILVA, 2005). Segundo o Banco Mundial, a UNESCO e outras entidades internacionais, o termo “Desenvolvimento Sustentável” traz implícita a função de uma nova filosofia do desenvolvimento, que reúne eficiência nas dimensões econômica, social e ambiental. O termo Sustentável já traz a idéia de equilibrar-se, não cair, auto-alimentar-se. Segundo Sachs (2002), esse termo é utilizado para representar a sustentabilidade ambiental, mas a dimensão social deve estar sempre em primeiro lugar, por se destacar como finalidade última do desenvolvimento.

uma vez que um transtorno econômico traz consigo o transtorno

social, que, por seu lado, obstrui a sustentabilidade ambiental; – o mesmo pode ser dito quanto à falta de governabilidade política, e por

esta razão é soberana a importância da sustentabilidade política na pilotagem do processo de reconciliação do desenvolvimento com a conservação da biodiversidade (SACHS, 2002, p. 71).

] [

Para Becker e Wittmann (2003), bem como para a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (1988), o desenvolvimento sustentável “atende as necessidades do presente sem comprometer gerações futuras”. A referência a esse conceito é relacionada às questões das necessidades básicas e dos recursos naturais.

Sustentabilidade: uma abordagem social

Sachs (apud Cavalcanti et al, 2001) afirma que um dos utilizadores do conceito de desenvolvimento sustentável diz que “a imaginação social da população e do planejador necessita de conceitos de apoio sob a forma de estudoscomparativosedasmaneirascomooutrospovoslidamcomsituações similares”. O planejador, portanto, deve estar atento às pesquisas e às atitudes, assim como aos acontecimentos de outras localidades, pois situações semelhantes trazem possíveis respostas a eventuais problemas, ampliando a perspectivadasdimensõeseconômica,socialeambientalemanálise. Ainda o mesmo autor reforça que o desenvolvimento vem se tornando insustentável, pois o homem está utilizando os recursos naturais de forma abundante, acima da capacidade necessária, tornando-os menos disponíveis para as gerações futuras. Diante desse ponto, percebe-se que o conceito apresentado, anteriormente, pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (1988), afirmando que “Desenvolvimento Sustentável atende as necessidades do presente sem comprometer gerações futuras”, ainda está a uma longa distância. Para tornar existente o desenvolvimento sustentável, o consumo deverá ser efetuado com mais rigidez, moderação e maior naturalidade. Os sistemas que interagem em conformidade com a natureza seguem regras que respeitam, rigorosamente, os limites dos recursos sustentáveis. Percebe-se que, de acordo com Cavalcanti et al. (2001), essas determinadas regras, que se denominam econômicas, foram observadas, como a utilização dos recursos. Esses autores trazem como exemplo o fato de que os índios, na caça e na pesca,caçavamefisgavamsomenteaquilodequeprecisavam. Continuamente, na concepção dos mesmos autores, eles afirmam ainda que o tipo de desenvolvimento que o mundo conhece, nos últimos duzentos anos, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, é insustentável. As possibilidades de aproveitamento exigidas pelo desenvolvimento estão muito dependentes. Vários são os modelos metodológicos de planejamento de políticas, que vêm tentando contribuir com o homem, de forma a estabelecer uma nova relação com a natureza, melhorando as condições de adaptação no meio natural.

O sentido da referência recente ao conceito de desenvolvimento sustentável é precisamente marcar a necessidade de se inserir a análise econômica das escolhas num quadro mais amplo de exigências refletindo a preocupação pela reprodução a longo prazo do meio ambiente em termos de patrimônio essencial, a transmitir-se às gerações futuras (CAVALCANTI et. al., 2001, p. 335).

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Seguindo o raciocínio do autor, sustentabilidade significa a probabilidade de se conseguir, sucessivamente, condições similares ou superiores de vida para um grupo de pessoas e seus sucessores em dado ecossistema. Numa situação sustentável, o meio ambiente é menos degradado, embora, como se conhece, o processo entrópico nunca interrompa, procedendo à recuperação invisível e irrevogável. Esse conceito

equivale à idéia de manutenção de nosso sistema de suporte da vida e significa umcomportamentoqueprocuraobedeceràsleismáximasdanatureza.

As discussões relacionadas ao desenvolvimento sustentável devem ser

realizadas, na sociedade local, não somente nas estruturas convencionais de representação (atores sociais), mas através do envolvimento direto dos cidadãos (JARA, 1996). Muller (1997) compreende que o desenvolvimento sustentável deve ser relacionado com uma sociedade envolvida em um círculo virtuoso de crescimento econômico e um padrão de vida adequado.

O tema aqui em estudo, fortificou-se a partir da Conferência das

Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, ocorrida em 1972, em

Estocolmo, onde, por sua vez, se colocaram assuntos sobre meio ambiente na agenda internacional. A partir dessa Conferência, foram implementadas, através do encontro realizado pelo Founex, de 1971, discussões acerca das dependências entre o desenvolvimento e o meio ambiente. Após a realização desse evento, cerca de vinte anos depois, ocorreu uma série de encontros promovidos através de relatórios internacionais (SACHS, 2002).

A partir da Conferência das Nações Unidas, colocou-se a questão

ambiental como um ícone importante nas agendas oficiais internacionais em relação ao desenvolvimento sustentável. Foi a primeira vez que representantes dos governos se uniram para discussões a partir da necessidade de tomar medidas referentes ao controle dos fatores que envolvem a degradação ambiental. No referido evento, ficaram populares as palavras ditas pela primeira ministra da Índia, chamada Indira Gandhi: “A pobreza é a maior das poluições”. Com base nesse contexto, os países do sul asseguraram que a solução quanto à poluição não era apenas valorizar o desenvolvimento como um todo, mas, sim, orientar o desenvolvimento, preservando o meio ambiente e dando ênfase aos recursos não-renováveis

(ANDRADE et al., 2000). Conforme o referido autor, a reunião realizada em Estocolmo serviu de base para a Conferência sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992, denominada (Rio92). A declaração do Rio teve como premissa “estabelecer acordos internacionais que respeitem os interesses de todos e protejam a integridade do sistema

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global de ecologia e desenvolvimento”. Como dito, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente

e Desenvolvimento foi realizada no Rio de Janeiro, em 1992 (Rio92), e

contou com a presença de 178 países e 112 Chefes de Estado. A questão central que está sendo discutida em decorrência dos documentos

aprovados pela Rio92 é a disponibilidade de recursos adicionais para países pobres promoverem o desenvolvimento. O Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da ONU – Organização das Nações Unidas - estimou, em 1992, que os países subdesenvolvidos necessitam cerca de U$ 60 bilhões

a cada ano, somados a outros U$ 60 bilhões a serem gastos, anualmente,

objetivando a proteção do meio ambiente. Os investimentos seriam ofertados pelos países mais ricos do planeta (G7), destinando 0,7% do seu PIB – Produto Interno Bruto -, mas ainda sem definição de data para a concretização desse fato (JÚNIOR, 1996). Giansanti (1998) resgata que o Brasil, para fortalecer o desenvolvimento sustentável, participa do programa chamado Agenda 21, um documento que prevê ações concretas e tem menor força jurídica e política do que uma convenção ou um tratado, mas serve para promover projetos, recomendando redução de índices de desertificação, regular os estoques de água doce, controlar as epidemias e a subnutrição do planeta. Sugere, ainda, a adoção de padrões de consumo sustentável, o plantio de florestas e uma previsão de gastos para programas diversos, como a obtenção de energia alternativa, a erradicação da pobreza, a melhoria da saúde, a educação da população, entre outros. A Agenda 21 relaciona-se aos problemas da atualidade e busca preparar o mundo para os seus desafios do próximo século. Refere-se ao consenso global e ao compromisso político, tendo como objetivo o desenvolvimento ambiental. No entanto, para o sucesso da Agenda 21, faz- se necessário o esforço por parte dos políticos, engajando a responsabilidade voltada às políticas públicas. A Agenda 21 contempla um plano de ação, que tem como objetivo colocar em prática programas para evitar o processo de aceleração da degradação ambiental, bem como os princípios da Declaração do Rio. Esses programas estão divididos em capítulos, que apresentam os seguintes problemas a serem administrados pelas políticas públicas: “atmosfera, recursos da terra, agricultura sustentável, desertificação, florestas, biotecnologia, mudanças climáticas, oceanos, meio ambiente marinho, água potável, resíduos sólidos, resíduos tóxicos, rejeitos perigosos, entre outros” (ANDRADE et al., 2000).

Alexandra Zottis, Denise Russo e Margarete Panerai Araújo (organizadoras)

A ênfase em função do desenvolvimento sustentável ocorreu através

da Agenda 21, que procurou reunir propostas de modelos para um desenvolvimento sustentável, tornando-se a maior tentativa já realizada de construir um novo padrão de desenvolvimento para o século XXI, cuja base é norteada pelas questões que envolvem as dimensões econômica, social e ambiental (NASCIMENTO et al., 2008). Nesse aspecto, o conceito de desenvolvimento sustentável tornou-se motivo para inúmeros debates, não apenas dirigindo-se aos aspectos da sustentabilidade destinados às questões ambientais, mas também quanto à sua relação com o desenvolvimento econômico, social, entre outros, construindo, à sua volta, diversas interpretações e consensos. Nota-se que a sustentabilidade não é um modelo simples de desenvolvimento, e, sim, contempla a complexidade caracterizada tanto das relações humanas como dos ambientes naturais. As questões voltadas ao Desenvolvimento Sustentável vêm ao encontro dos chamados indicadores de Sustentabilidade. A seguir, apresenta-se uma descrição sucinta desses indicadores, relacionando aos aspectos sustentáveis, procurando alcançar o objetivo deste trabalho.

Indicadores de Desenvolvimento Sustentável: principais aspectos

A detecção do esgotamento dos recursos naturais, explorados de

forma significativa, resultou na necessidade de avaliar as condições do meio

ambiente e as alterações realizadas pelas atividades antrópicas. Desde o século XX, foi proposto o monitoramento do estado e das pressões exercidas no meio ambiente, descobrindo, então, a real necessidade da criação de indicadores alocados nas dimensões: econômica, social e ambiental. Assim, foram apresentadas diversas propostas, definições e métodos para a sua realização.

OdesenvolvimentodosindicadoresédefinidoporMeadows(1998)como

sendoindicadoresdediagnósticodomeioambiente,emqueforamadicionados metaselimitesaseremobservadoseasérietemporalparacomparações.

ConformeXarxa(2000)(apudCorrêa,2007,p.44),osindicadoresdevem

refletir a dinâmica do uso, observando o estado do local em um

momento pontual e possibilitando análise evolutiva em escala temporal, com capacidade para orientar a transformação de uma localidade e formar um ciclo de tomada de decisões em função das tendências verificadas e das metas estabelecidas.

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Sustentabilidade: uma abordagem social

Indicadores de desenvolvimento sustentável têm sido objeto de vários estudos, em que pesquisadores nacionais e internacionais discutem sua construção e buscam determinar suas reais significâncias. Não são apenas necessários, mas indispensáveis para a tomada de decisão nas mais diversas áreas. Projetos com esses indicadores surgem com a necessidade de uma definição clara, contribuindo para a gestão em nível de desenvolvimento local, regional e até mesmo global. Conforme modelo desenvolvido pela OECD (1993), os indicadores de sustentabilidade podem ser determinados através das seguintes etapas:

Pressão, Estado e Resposta (PSR – Pressure, State and Response). Os indicadores de pressão descrevem os impactos, diretos ou indiretos, desenvolvidos pelas atividades antrópicas em função da quantidade e da qualidade dos recursos naturais. Os de estado verificam a qualidade do meio ambiente e dos recursos naturais, apresentando uma visão sistêmica da situação do meio ambiente e da sua evolução, segundo as pressões sofridas. Por fim, os indicadores de resposta apresentam a reação da sociedade civil organizada, objetivando avaliar as ações individuais ou coletivas em relação ao meio ambiente, à degradação ou à preservação, procurando resolvê-los. Estados membros da União Européia (UE) já publicaram documentos sobre indicadores de sustentabilidade, sendo pioneira a Agência Européia do Ambiente (AEA), desenvolvendo um conjunto de trabalhos, estimulando e sistematizando informações, procurando cooperar com outros organismos, como a Eurostat e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE ). De acordo com Sato (2005), "os indicadores são instrumentos que permitem simplificar, quantificar e analisar informações técnicas para transmiti-las aos mais diversos grupos de usuários". Conforme Fernandes (2004, p. 3), a tarefa básica de um indicador é

3

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expressar, da forma mais simples possível, uma determinada

situação que se deseja avaliar. O resultado de um indicador é uma fotografia de um dado momento, e demonstra, sob uma base de medida, aquilo que está sendo feito, ou o que se projeta para ser feito.

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3 Organização estatística da Comissão Européia, que produz dados estatísticos para a União Européia e promove a harmonização dos métodos estatísticos entre os estados membros.

4 É uma organização internacional dos países desenvolvidos e industrializados, com os príncipios da democracia representativa e da economia de livre mercado. A sede da organ

Alexandra Zottis, Denise Russo e Margarete Panerai Araújo (organizadoras)

A constituição de indicadores sustentáveis surge a partir da idéia de

fornecer uma fotografia sistêmica do potencial, fornecido pelas vertentes, sócio-econômico e ambiental. É um importante instrumento para gestores públicos, assim como para especialistas e pesquisadores que contextualizam esse tema. Os dados poderão ser acompanhados de análise, tanto quantitativa como qualitativa, e interpretados a partir das dimensões sócio-econômica e ambiental, nacional e internacional, garantindo a comparabilidade das informações. Um indicador, segundo Abbot e Guijt (1999), é "algo que auxilia a transmitir um conjunto de informações sobre

complexos processos, eventos ou tendências”. O indicador pretende ser uma medida, não um instrumento de previsão ou medida estatística. A partir dele, verifica-se uma dada situação ou realidade. As previsões poderão ser realizadas através dos indicadores, de acordo com o grau de conhecimento do observador e visão de mundo (MARZALL e ALMEIDA, 2000, p.3). Indicadores da sustentabilidade servem para medir, quantificar, traduzir ou simplificar conteúdos complexos de um sistema. Busca-se, através deles, localizar informações relevantes para avaliação do estado de um sistema e das possibilidades de seu estado futuro. Segundo o documento do Australian Department of Primary Industries and Energy (1995), indicadores são medidas da condição do comportamento dos sistemas complexos. A previsão de futuras gerações poderá ser feita diante da relação dos indicadores nas dimensões econômica, social e ambiental, em que se podem evidenciar modificações que ocorrem em uma dada realidade (AUSTRALIAN DEPARTMENT OF PRIMARY INDUSTRIES AND ENERGY, 1995), principalmente, as mudanças formatadas pela ação antrópica (MARZALL, 1999).

A “agenda 21", como visto anteriormente, apresenta, no seu capítulo

40, assunto referente à informação para a tomada de decisão, utilização de

dados indicadores e índices estabelecendo métodos para avaliar medidas de inter-relacionamento entre as dimensões, ambiental, demográfica e social, apresentando parâmetros para a sua aplicabilidade. Indicadores sustentáveis podem contribuir para a sustentabilidade auto-reguladora de integrados sistemas ambientais e desenvolvimento. O relatório Brundtland, de forma simplificada, apresenta a necessidade de indicadores de desenvolvimento sustentável (BRUYN, 1999). O desenvolvimento de indicadores, nos dias atuais, é estimulado pela Comissão das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Essa comissão tem por objetivo

Sustentabilidade: uma abordagem social

monitorar a evolução e a manutenção da Agenda 21. Em função disso, destaca-se a importância dos indicadores sustentáveis. Portanto, indicadores sustentáveis servem para facilitar a comunicação entre o desenvolvimento e sua sustentabilidade, ou seja, através de medidas descritivas, numéricas, tabelas, símbolos, entre outros. Esses indicadores englobam um conjunto de medidas para diferentes características do ecossistema (RIBEIRO, 2000). Por conseguinte, indicadores deverão ser construídos a partir do universo científico, para que as informações tenham uma melhor validade e aceitação. Dessa forma, os indicadores terão capacidade científica de modo a contribuir para as necessidades na tomada de decisão e na urgência da ação (HARDIN e ZDAN, 1997). Essa forma de mediar a sustentabilidade deve quantificar, sempre que possível, simplificar fenômenos complexos e colaborar no entendimento sobre a realidade no desenvolvimento de uma região. Esses indicadores partem da agregação de dados brutos, que, ao serem processados dentro de uma lógica adequada, definem valores de indicação do fenômeno em análise (RIBEIRO, 2000). O maior desafio para a construção de um sistema de indicadores sustentáveis é a relação que poderá ser atribuída entre as dimensões econômica, social e ambiental. Existem lógicas diferentes entre essas dimensões. Conforme pesquisadores da área, articular uma lógica própria para ambos em busca da viabilidade rumo à sustenabilidade é um dos maiores desafios do desenvolvimento sustentável. Para Jesinghaus (apud Bellen, 2002, p. 48), um sistema de avaliação, desenvolvido através dos indicadores sustentáveis, colabora nas metas e estratégias, resultando no auxílio aos tomadores de decisão no que se refere à possibilidade de escolha, de comparações e evoluções, trazendo as melhores decisões para a sustentabilidade. Esse sistema possibilita uma visão d