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Wilquerson Felizardo Sandes 1

2 Wilquerson Felizardo Sandes

BLAIRO BORGES MA
BLAIRO GGI
MAGGI
Governador do Estado de Mato Grosso

GERALDO A. DE VITT
VITTOO JÚNIOR
Secretário de Estado de Administração

ALMIR BALIEIRO
Presidente da Escola de Governo

MOEMA DE FIGUEIREDO LEITE


Diretoria de Laboratório de Administração Pública

REGIN
REGINA A LÚCIA BORGES ARAÚJO
Diretoria de Educação Superior e Profissional

T OSHIK
OSHIKO O ELZA RIOS
Diretoria de Educação Continuada

CÉLIA REGIN
REGINAA ARRAIS D A COST
DA A
COSTA
Coordenação do Projeto

Comitê de Análise
ADRYANA CRISTHINE DA SILVA PEREIRA
CÉLIA REGINA ARRAIS DA COSTA
ENEIDA FALCÃO DEMIDOFF
FERNANDO TADEU DE MIRANDA BORGES
JACIRA APARECIDA DE ANUNCIAÇÃO
NIVANDA FRANÇA ARAÚJO
OLINDINA MARTINS BEZERRA
VERA FERREIRA ARRUDA ORMOND
Wilquerson Felizardo Sandes 3
4 Wilquerson Felizardo Sandes

Editora Unemat
Coordenação Editorial Marilda Fátima Dias
Projeto Gráfico Unemat Design
Capa/Arte Final Valter Gustavo Danzer
Diagramação Edgar Bortoleto Ferreira
Revisão Equipe Editora Unemat

Copyright © 2008 / Editora Unemat


Impresso no Brasil - 2008

Ficha Catalográfica elaborada pela


Biblioteca Central / UNEMAT - Cáceres

Sandes, Wilquer son Felizardo.


S216u O uso legal da força na formação de jovens tenentes:
um desafio para a atuação democrática na Polícia Militar /
Wilquerson Felizardo Sandes. Cáceres [MT]: Editora
Unemat, 2008.
103p.

1. Polícia Militar 2. Formação profissional 3. Mato Grosso


I. Autor II.Título

ISBN 8589898-70-6 CDU 37.018.4 (817.2)

UNEMAT EDITORA
Av. Tancredo Ne ves, 1095 - Cavalhada - Cáceres - MT - Brasil - 78200000
Fone/Fax 65 3221 0080 - www.unemat.br/editora - editora@unemat.br

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odução total ou parcial, de qualquer ffor
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orma ou por qualquer
meio.A violação dos direitos de autor (Lei n° 5610/98) é cr
direitos ime esta
crime belecido pelo ar
estabelecido tig
artigo 184 do Códig
tigo oP
Código enal.
Penal.
Wilquerson Felizardo Sandes 5

HOMENA GEADOS (AS)


HOMENA

- Rendo agradecimentos ao Grande Arquiteto do


Universo por iluminar e livrar o meu caminho.
- A minha esposa Nice por caminhar comigo de
mãos dadas, com muito amor e dedicação.
- Aos meus filhos Gabriel, Gustavo e Clara por
emocionar e alegrar a caminhada.
- Aos meus pais William, Lasara e avó Gerônima
por me ensinar como dar os primeiros e decisivos passos.
- A minha orientadora professora Morgado,que,além
de ensinar, mostrou caminhos alternativos e me estendeu a mão amiga.
- Ao coronel Adaildon, amigo, irmão e mestre, por
acreditar e abrir o meu caminho.
- Aos professores, colaboradores e colegas da
UFMT por pavimentar o caminho.
- Aos amigos, superiores e subordinados da Polí-
cia Militar, por ajudar manter a cadência firme.
- À você leitor que me homenageia com uma bre-
ve parada para reflexão.
- À Escola de Governo pela oportunidade de mos-
trar à comunidade os resultados de minha pesquisa.
6 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 7

A Escola de Governo criada através da Lei Complementar nº156, de 19


de janeiro de 2004 tem a finalidade de formular as políticas de formação e
capacitação dos servidores públicos civis e militares do Estado de Mato Gros-
so, bem como produzir e divulgar conhecimentos em políticas públicas.

Nesta segunda edição do projeto “Pub licação de Trabalhos Científ


“Publicação i-
Científi-
cos” o Governo do Estado de Mato Grosso, por intermédio desta institui-
ção, dá continuidade à produção e à disseminação de conhecimento em
Políticas Públicas, contribuindo, desta forma, para a melhoria da gestão
pública do nosso Estado, um dos grandes objetivos estratégicos do Gover-
no Blairo Maggi
Maggi.

Acreditamos que este projeto, mais que contribuir para a melhoria


da gestão pública, incentiva e reconhece a condição de protagonista do
servidor público do estado na busca incessante de prestar mais e melhores
serviços à sociedade mato-grossensse.

O servidor público do Estado de Mato Grosso assume este compro-


misso junto ao governo e à sociedade, o qual é evidenciado pela publica-
ção desta segunda edição de obras.

Almir Balieiro
Presidente da Escola de Governo
8 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 9

APRESENTAÇÃO ............................................................................... 13

INTRODUÇÃO .................................................................................. 15

PARTE 1
ESTADO, DEMOCRATIZAÇÃO POLICIAL MILITAR E USO LEGAL DA
FORÇA
Capítulo 1 - O Estado e a Construção do Monopólio de Força –
Polícia ............................................................................................... 25
Capítulo 2 - Esforços Governamentais para a Democratização da
Atuação Policial Militar ..................................................................... 32
Capítulo 3 - Poder de Polícia e Uso Legal da Força ...................... 38

PARTE II
O SISTEMA DE ENSINO DA PMMT E AS BASES CURRICULARES DO
BACHARELADO EM SEGURANÇA PÚBLICA
Capítulo 4 - Trajetória do Sistema de Ensino da PMMT .................... 49
Capítulo 5 - Bases Curriculares Nacionais e o Bacharelado em
Segurança Pública na PMMT ............................................................. 53

PARTE III
JOVENS EGRESSOS DO BACHARELADO EM SEGURANÇA PÚBLICA
E O USO LEGAL DA FORÇA (2001-2003)
Capítulo 6 - Perfil da Juventude no Brasil e no CFO ........................ 67
Capítulo 7 - A Formação e Atuação dos Tenentes sobre o Uso Legal
da Força ............................................................................................ 72
Capítulo 8 - Apresentação dos Resultados ........................................ 88

CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................. 93

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................... 99


10 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 11

“Ensina-me, Senhor, teu caminho, e andarei em tua verda-


de, dedicando meu coração para temer Teu nome.
Eu te louvarei, meu Senhor Deus, com todo meu coração,
e glorificarei teu nome eternamente” (Salmos 86: 12-13).
12 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 13

O Uso Legal da FForça


orça na FFor
ormação de JJo
ormação ov ens Tenentes inaugura
uma importante e urgente reflexão sobre a formação e o exercício da fun-
ção policial: como podem fazer os tenentes da Polícia Militar para que seus
subordinados exerçam o poder de polícia dentro dos limites da legalidade
democrática e, ao mesmo tempo, sigam os parâmetros nacionais e interna-
cionais convencionados nos Princípios Básicos do Uso da Força e Armas
de Fogo? Dito de outro modo, como a formação recebida pelos tenentes
egressos do Bacharelado em Segurança Pública pode ser transposta para a
atuação desses oficiais que comandam os praças no serviço de policiamen-
to ostensivo e preventivo da sociedade?
Essa problemática, agora apresentada no formato de livro, é abordada
por Wilquerson Felizardo Sandes na dissertação de Mestrado concluída em
2007 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal
de Mato Grosso. Para isso, o autor, oficial da Polícia Militar de Mato Grosso,
empreende um criterioso estudo que articula as bases legais do monopólio
estatal da força à adequação ocorrida em 2001 na matriz curricular do Bacha-
relado em Segurança Pública após a implementação das Bases Curriculares
Nacionais pelo Ministério da Justiça. Mas, como saber se a mudança no currí-
culo do Bacharelado resultou em mudança da atuação policial?
Aos tenentes egressos que cursaram o Bacharelado em Segurança
pública entre 2001 e 2003, primeira turma formada após a mudança da ma-
triz curricular, é dirigida a pergunta. Depois de ter comparado a matriz
curricular anterior e nova matriz e de ter entrevistado os principais respon-
sáveis pela mudança, o autor toma alguns dos egressos como sujeitos de
sua pesquisa. Da cuidadosa análise das entrevistas realizadas vê-se que es-
ses jovens tenentes incorporam em sua atuação no comando dos praças os
Princípios Básicos do Uso da Força e Armas de Fogo.Ao mesmo tempo, vê-
se que também se deparam com dificuldades para fazer cumpri-los inte-
gralmente: seja pelos limites que suas condições de trabalho impõem à
operacionalização daquilo que aprenderam, seja pela resistência que en-
frentam por parte de alguns subordinados.
Este livro nos mostra claramente avanços e limitações quanto ao Uso
Legal da Força na atuação policial focalizada. Alguns poderiam argumentar,
então, que tudo o que foi empreendido para melhorar a formação e o traba-
lho dos tenentes não obteve resultados satisfatórios. Não vejo assim. É evi-
dente que as expectativas daqueles que conceberam e implementaram a
14 Wilquerson Felizardo Sandes

nova matriz curricular do Bacharelado não se cumpriram integralmente.


Mas também é evidente que o fato de haver integrantes da Polícia Militar
empenhados em realizar mudanças que repercutam numa atuação policial
calcada na legalidade democrática é um importante começo e um avanço. E
mais: o fato dessa experiência ter sido focalizada em uma pesquisa acadê-
mica mostra que a Instituição policial está avaliando criticamente sua pró-
pria atuação, o que seria impensável anos atrás.
Crítica dos elevados índices de letalidade das polícias militares e
dos aspectos constitucionais que, segundo meu ponto de vista, concorrem
para favorecê-la, enfrentei um dilema quando tive diante de mim o autor
deste livro como candidato a orientando no Mestrado. De um lado, ele
apresentava em seu ante-projeto um tema educacional relevante e, de ou-
tro, sua pesquisa focalizaria a formação superior empreendida na Institui-
ção que vejo com reservas devido a critica mencionada. Mas eu não pode-
ria, como pesquisadora, deixar de enfrentar uma questão relevante mesmo
sabendo que a Educação não contempla todos os requisitos necessários
reduzir a letalidade policial. Para minha sorte, tive como parceiro na entre-
vista o Professor Doutor Manoel Francisco de Vasconcelos Motta, um gran-
de intelectual e um grande negociador. Com a ajuda desse parceiro, defini
um foco comum com o candidato: o trabalho de orientação ficaria circuns-
crito ao tema e ao campo problemático da sua pesquisa e nossos respectivos
pontos de vista sobre a Polícia Militar não entrariam em questão. Senti, naque-
le momento, que eu e Wilquerson estávamos sendo sinceros em nossas
intenções e essa foi para mim uma grande experiência de democracia.
Talvez por isso, além das qualidades do autor, nosso empreendimen-
to ao longo de dois anos transcorreu muito bem. Tive um orientando inte-
ressado, assíduo, disciplinado, dedicado à sua pesquisa e muito compro-
metido com a função social de sua atuação na segurança pública. O resulta-
do foi uma convivência amigável, respeitosa e generosa em que ele e eu
realmente nos tornamos parceiros de trabalho. Enquanto orientadora, con-
segui que o pesquisador produzisse um estudo cuja qualidade superou
minhas expectativas e tenho, neste momento, o privilégio de apresentá-lo.
Estou certa de que o tema e a problemática deste livro interessam
não somente à Instituição Militar e demais setores estatais da segurança,
como a todos aqueles leitores interessados em debater os impactos positi-
vos que uma atuação policial cada vez mais refletida e profissionalizada
podem trazer para a sociedade brasileira. Como a leitura evidencia, o cená-
rio da pesquisa está situado em Mato Grosso e também poderia estar situa-
do em qualquer outro estado brasileiro: mais uma qualidade deste livro
que mostra o quanto a legalidade no uso da força representa um desafio
par
paraa a atuação democrática da P olícia Militar
Polícia Militar.

Pro ffa.
Pro a. Dra. Mar
Dra. ia Apar
Maria ecida Mor
parecida gado
Morgado
Departamento de Psicologia – Universidade Federal de Mato Grosso
Wilquerson Felizardo Sandes 15

No período de 1997 a 2004, este pesquisador exercia ativamente a


função de professor nas áreas de educação física e administração dos diver-
sos cursos de formação profissional da Polícia Militar e Polícia Judiciária
Civil em Mato Grosso. No ano de 2000 a direção da Academia de Polícia
Militar Costa Verde (APMCV) convidou-me a participar da construção de
um novo currículo para o Curso de Formação de Oficiais (CFO). Na época,
a reforma curricular era presidida pelo o coronel Almir Balieiro (estudante de
Mestrado em Educação e Comandante da APMCV) e coordenada pela profes-
sora Regina Lúcia Borges Araújo (orientadora educacional da academia).
A coordenação dos trabalhos orientou o corpo docente por meio de
palestras e documentos que o Ministério da Justiça, via Secretaria Nacional
de Segurança Pública, criara um programa denominado “Bases Curriculares
para Formação dos Profissionais de Segurança do Cidadão”, visando
homogeneizar os cursos de formação e planejamento curricular e assegu-
rar o princípio de eqüidade no processo de formação, unidade de pensa-
mento e ações adequadas às necessidades sociais. A iniciativa do Governo
Federal em rever a formação policial relacionava-se ao aumento da
criminalidade, falta de integração entre as diversas polícias, formação com
enfoque no militarismo de guerra e abusos nas práticas policiais. A tentati-
va seria romper com o modelo de formação do regime militar que ainda
emitia sinais de vigor dezesseis anos após as retomada do Estado democrá-
tico de direito no Brasil.
Em Mato Grosso, a revisão do currículo do CFO seguiu as bases
curriculares nacionais. Professores e instrutores, por meio de diversos gru-
pos de trabalho, mapearam habilidades e competências, resultando, ao fi-
nal, na implementação do “Projeto Político Pedagógico da Academia de
Polícia Militar”. Na revisão curricular buscou-se desenvolver a
interdisciplinaridade e transversalidade entre os conteúdos, distribuídos
em uma carga horária de 4.780/h/a, com 06 áreas de estudo — missão, técni-
ca, cultura jurídica, saúde, eficácia, linguagem e informação. O conteúdo da
base comum possuía 11,30% voltado para missão policial (filosofia, política,
sociologia, ética e cidadania, psicologia); 17%, para técnica policial (tiro, defe-
sa pessoal, operações policiais, técnicas gerais de policiamento); 23,22%, para
cultura jurídica; 3,77%, para saúde física e mental; 9,41%, para eficácia pessoal
(gestão, relações inter-pessoais); 16,11%, para linguagem e informação (didáti-
16 Wilquerson Felizardo Sandes

ca, estatística, idiomas, pesquisa, informática); 5,54%, para estágio e 11,40%,


para atividades complementares. As áreas temáticas englobaram cultura, soci-
edade, ética, cidadania, direitos humanos e controle de drogas.
A primeira turma submetida à revisão curricular ingressou em 2001
no CFO, via concurso conveniado com a Universidade Federal de Mato
Grosso (UFMT), um grupo composto por vinte alunos, sendo dezoito ho-
mens e duas mulheres. Esta foi a primeira turma formada, após três anos
consecutivos, em conformidade com o novo currículo do Bacharelado em
Segurança Pública.
Em 2001, a direção da APM promoveu um curso de extensão em
Metodologia do Ensino Superior, onde possibilitou-nos operacionalizar a
aplicação das Bases Curriculares no CFO, principalmente com práticas pe-
dagógicas norteadas pelo construtivismo. No curso participou, como pro-
fessora, a pedagoga Bernadete Cordeiro, Ela contribuiu com sua experiên-
cia educacional na elaboração das Bases Curriculares em âmbito nacional.
Deste curso, iniciou-se o interesse pelo tema da pesquisa relacionado à
formação policial.
Já com um olhar diferente sobre o processo educacional adquirido
pelo exercício da docência e as novas concepções de ensino apreendidas,
atuei com o instrutor no Curso de Formação de Soldados da PMMT, no ano
de 2003.
Uma turma, em particular, (composta por cerca de cinqüenta alunos,
a maioria de jovens civis e alguns que passaram algum tempo servindo o
Exército), despertou-me para uma questão que inicialmente delineou a ela-
boração do anteprojeto desta pesquisa em educação.
Recordo que durante as atividades físicas acontecia corridas em gru-
po, usando o mesmo ritmo, cadência e canções. Ao pedir para um aluno
iniciar uma canção durante a corrida para que todos repetissem, ele cantou
um exórdio de guerra, talvez aprendido durante o serviço militar. Ao final
da aula, após uma reflexão em grupo sobre o papel constitucional da Polí-
cia Militar, recomendei que fossem abolidas as canções ou exórdios de
guerra e substituídas por canções mais apropriadas ao tema policial servir
e proteger. Durante as aulas, na companhia do instrutor, as canções obede-
ciam ao preconizado. Entretanto, em um dos horários de aula ocorreu um
imprevisto, liguei para a organização da escola de formação informando
possível atraso ou falta, passando assim uma atividade física para ocupar o
tempo de aula. Sanado o motivo da ausência, desloquei-me para escola,
quando me deparo com aquela turma correndo e um dos alunos destaca-
dos puxava uma canção de guerra.
Em virtude do episódio acima citado, surgiu uma indagação: Por que,
longe das vistas do instrutor, os policiais optaram por uma canção de guer-
ra? Foi ao acaso que optaram em reproduzir a prática antiga ou estes jovens
já se identificavam com o modelo mesmo antes de ingressar na PMMT? O
Wilquerson Felizardo Sandes 17

que isso teria a dizer em termos de pesquisa?


Isto posto, este estudo foca o seguinte problema: Com o novo siste-
ma de ensino na Academia de Polícia Militar, ocorreram mudanças na for-
mação e atuação democrática dos tenentes a partir de 2003 em relação ao
uso da força e armas de fogo?
Assim sendo, a pesquisa investiga os reflexos do processo formativo
na atuação profissional dos jovens egressos do Curso de Formação de Ofi-
ciais (CFO) após a reforma das bases curriculares em nível regional.
Preliminarmente, foram elaboradas duas hipóteses a partir do pro-
blema central:
- Hipótese 1: O novo sistema de ensino da Academia de Polícia Mili-
tar não promoveu mudanças na atuação democrática dos tenentes a partir
de 2003 em relação ao uso da força e armas de fogo, pois a cultura vigente
ainda tem grande influência na postura profissional dos egressos, princi-
palmente quando em contato direto com policiais que mantêm uma con-
cepção de formação voltada para a defesa do Estado.
- Hipótese 2: O novo sistema de ensino da Academia de Polícia Mili-
tar possibilitou mudanças parciais na atuação democrática dos tenentes a
partir de 2003 em relação ao uso da força e armas de fogo, pois os jovens
egressos entendem a necessidade de melhoria da atuação policial, todavia
avaliam que a nova base curricular tem alguns focos de resistência cultural
no processo formativo, principalmente quando se depararam com a neces-
sidade de realizar atividades e estágios nos batalhões. Ocorrem dificulda-
des de decidir, na prática, o que foi estudado na formação. Nota-se, em geral,
uma distância dos discursos policiais relacionados ao que aprenderam no
bacharelado e suas práticas correspondentes, oscilando entre posições
conservadoras e posições inovadoras.
Quanto aos sujeitos da pesquisa, estes possuem o cargo de Tenen-
tes da P olícia Militar
Polícia Militar. Assim, visando descrever e delimitar os sujeitos,
recorro ao Código Brasileiro de Ocupações (CBO) elaborado em 2002 como
documento normalizador do reconhecimento, da nomeação e da codificação
dos títulos e conteúdos das ocupações do mercado de trabalho brasileiro.
O Mistério do Trabalho e Emprego, em parceria com a FIPE e especialistas
das instituições policiais militares de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina
e Paraná, catalogaram no Código Brasileiro de Ocupações (CBO) os cargos
de PrimeirosTenentes (código 020305) e Segundos Tenentes (código 020310)
da Polícia Militar que possuem as seguintes ocupações:

Comandam pelotão, coordenam policiamento ostensi-


vo, reservado e velado; assessoram comando, gerenciam
recursos humanos e logísticos, participam do planeja-
mento de ações e operações, desenvolvem processos e
procedimentos administrativos militares, atuam na co-
18 Wilquerson Felizardo Sandes

ordenação da comunicação social; promovem estudos


técnicos e capacitação profissional. [...] Trabalham na
polícia militar, no comando de pelotões, como
estatutários. Trabalham em equipe, sob super visão.Atu-
am em ambiente de trabalho que pode ser fechado, a
céu aberto ou em veículos, em horários diversos: diurno,
notur no e em rodízio de turnos.Atuam sob pressão, po-
dendo levá-los à situação de estresse; correm risco de
perder a vida em sua rotina de trabalho. [...] Para o exer-
cício dessas ocupações requer-se Curso de Formação de
Oficiais em Academia da Polícia Militar (Ministério do
Trabalho e Emprego -CBO, 2002).

Pela descrição do CBO (2002) a função de tenente exige as seguintes


competências pessoais: prestar assistência jurídica e religiosa; manter dis-
crição e reserva; liderar equipes; trabalhar em equipe; manter equilíbrio
emocional; manter condicionamento físico; atuar com ética profissional;
exercer tolerância; comprometer-se com a legalidade; agir com humanida-
de; tomar decisões rápidas e coerentes; desenvolver relacionamento inter-
pessoal; manter-se atualizado; demonstrar flexibilidade; suportar situações
de estresse. O tenente necessita de recursos de trabalho, dos quais desta-
cam-se: viatura; uniforme; armas de fogo; rádio intercomunicador; algemas;
detector de metais; armas não letais; equipamentos de proteção individual.

***

Nesta pesquisa em educação, adotou-se metodologia com aborda-


gem qualitativa, pela análise documental, pesquisa bibliográfica e entrevis-
tas. Estes métodos, após análise e interpretação, tendem a contribuir para
avaliar as hipóteses sobre os efeitos ao novo sistema de ensino no Curso
de Bacharelado em Segurança Pública e na formação e atuação democrática
dos tenentes em relação ao uso legal da força.
Segundo Ludke e André (1986, p.11) esta pesquisa qualitativa supõe
o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação
que está sendo investigada, ocorrem detalhes de descrição, identifica-se
como um problema se manifesta como processo, são capturadas perspecti-
vas dos entrevistados e a análise dos dados segue um processo que vai se
afunilando.
Portanto, tendo em vista a amplitude da base curricular em seus con-
teúdos, os níveis de atribuições exercidas pelos tenentes, o objeto foi sendo
afunilado para um campo pontual da ação policial: O Uso Legal da Força.
Para abordar o Uso Legal da Força, recorro à resolução do “Oitavo
Congresso das Nações Unidas sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento
dos Infratores”, realizado em Cuba, no período de 27 de agosto a 07 de
Wilquerson Felizardo Sandes 19

setembro de 1990. Constam, no documento, normas orientadoras aos Esta-


dos-membros na tarefa de assegurar e promover o papel adequado dos
encarregados da aplicação da lei, com princípios levados em consideração
e respeitados pelos governos no contexto da legislação e da prática nacio-
nal, e levados ao conhecimento dos encarregados da aplicação da lei, assim
como de magistrados, promotores, advogados, membros do executivo e
legislativo e do público em geral.
No documento da ONU, em particular, destacam-se os Princípios
Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo (PBUFAF) que recomenda
aos Governos e aos organismos de aplicação da lei a adoção e a aplicação
de regras sobre a utilização da força e de armas de fogo contra as pessoas,
por parte dos policiais.

Considerações Metodológicas

Durante a pesquisa explorou-se documentos existentes na Acade-


mia de Polícia Militar (livros, legislações, revistas). Visando o reforço à aná-
lise, realizou-se pesquisa bibliográfica antes e após a interpretação das en-
trevistas. “[...] a pesquisa bibliográfica não é mera repetição do que foi
dito ou escrito sobre certo assunto, mas propicia o exame de um tema sob
novo enfoque ou abordagem, [...]” (MARCONI, LAKATOS, 2002, p.71).
A análise de dados resulta do cruzamento de dados das duas
primeiras partes com as informações sistematizadas nas entrevistas com
os egressos sobre a formação e atuação policial em relação ao uso da força.
As tendências e padrões, identificados e avaliados, buscam relações e
inferências num nível de abstração mais elevado, conforme preceituam
Ludke e André (1986, p.45).
As entrevistas ocorreram em duas fases distintas, a primeira realizada
de forma semi-estruturada com três profissionais da educação (um coronel
e duas pedagogas), que contribuíram em âmbito nacional e estadual para
formulação das bases curriculares; a segunda fase e principal, de forma
estruturada, com cinco tenentes que concluíram o curso de 2003.
Em relação aos especialistas entrevistados, sendo o objetivo explo-
rar como foi construída a base curricular nacional, adotou-se uma entrevis-
ta semi-estruturada com perguntas amplas visando sondar razões e motivos
da instituição de um novo modelo de ensino policial.
Além da percepção dos especialistas entrevistados, verifiquei, em
documentos, a percepção dos alunos da CFO em 2003. As bases curriculares
antes e após 2001 sobre os conteúdos em geral e específicos sobre uso
legal da força foram comparadas.
Quanto às entrevistas com os tenentes, em virtude de se obter res-
postas para as mesmas perguntas e posterior comparação para refletir dife-
20 Wilquerson Felizardo Sandes

renças entre os respondentes, adotou-se um roteiro de entrevista de caráter


estruturado com perguntas abertas. Conforme Marconi e Lakatos (2002, p.93-
95), na entrevista estruturada as perguntas feitas ao indivíduo são predeter-
minadas. Do universo de vinte sujeitos, foram entrevistados cinco egressos
(quatro homens e uma mulher) da Academia de Polícia Militar Costa Verde
em Várzea Grande-MT que iniciaram o curso em 2001 e concluíram em
2003, tendo em vista que, após 2003, ocorreram mudanças políticas nas
bases curriculares. Selecionou-se aqueles que atuam profissionalmente em
Cuiabá na área de policiamento ostensivo no dia-a-dia. A amostra se restrin-
ge aos que atuam em Cuiabá em virtude de aspectos de dificuldade logística
na realização das entrevistas. Dentre os recursos utilizados, optou-se pelas
entrevistas estruturadas com os egressos através de anotações digitadas,
principalmente pelo fato de alguns dos sujeitos da pesquisa se manifesta-
rem pouco a vontade e naturais ao ter suas falas gravadas.“[...] as notas já
representam um trabalho inicial de seleção e interpretação das informa-
ções obtidas”(LUDKE, ANDRÉ, 1986, p.37).
Nas entrevistas estruturadas com os egressos, adotou-se o seguinte
roteiro: perfil do entrevistado; conhecimentos adquiridos no Curso de For-
mação de Oficiais (CFO) a respeito de Princípios Básicos sobre o Uso da
Força e Armas de Fogo (PBUFAF); disciplinas do curso que abordam o
tema; conhecimento sobre o modelo de uso da força; desdobramento do
níveis de força e relatos; procedimentos em caso de confronto letal; atua-
ção como comandante em relação aos subordinados; entre outros assuntos
com maior flexibilidade.

Os cinco egressos entrevistados foram submetidos ao mesmo rotei-


ro estruturado de perguntas, todavia suas respostas foram livres. A análise
das entrevistas, foi realizada através do cruzamento das entrevistas indivi-
duais, sendo que cada pergunta foi transformada em um tópico, constam as
respostas uma a uma dos entrevistados dentro de cada tópico, com citação
diretas e indiretas. Cada entrevistado foi denominado de “Tenente” acresci-
do uma letra do Código Fonético Internacional de Comunicação, usado
costumeiramente no âmbito das instituições militares ao citar letras do
Alfabeto a fim de se evitar ruídos de comunicações de rádio. Exemplo: A lfa,
Bravo, C harlie, D elta, E cho, F ox, G olf.
A análise da atuação democrática dos tenentes se operacionaliza em
relação aos princípios básicos de uso da força e armas de fogo, isto porque
implica diretamente nas vidas das pessoas que o estado em tese deveria
defender. Assim foram verificados tratados internacionais sobre ação de
policiais, principalmente resoluções da Organização das Nações Unidas.
Para compreender melhor a questão do Uso Legal da Força, este pes-
quisador realizou em outubro de 2006, um curso a distância com uma
Wilquerson Felizardo Sandes 21

carga horária de 60h/a sobre o tema Uso Legal da Força, promovido pela
Secretaria Nacional de Segurança Pública e tutoria da Secretaria de Estado
de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso. O curso contribuiu em
alguns aspectos sobre o tema, com informações mais detalhadas sobre a
conduta do profissional de segurança pública ao se deparar com uma situ-
ação de emprego de força e arma de fogo.
Esta obra está estruturada da seguinte forma: A primeira parte aborda
o tema Estado, democratização da polícia militar e uso legal da força;
contextualiza o Estado e a construção do monopólio de força; versa sobre
os esforços governamentais para a democratização da atuação policial mi-
litar e enfoca o poder de polícia e o uso legal da força. A segunda parte
aborda o sistema de ensino da PMMT e as bases curriculares do bacharela-
do em segurança pública; descreve a trajetória do sistema de ensino da
PMMT e analisa as bases curriculares nacionais e o bacharelado em segu-
rança pública na PMMT. A terceira parte desdobra-se na análise e interpreta-
ção das entrevistas com os jovens egressos e o uso legal da força (2001-
2003); relata o perfil da juventude no Brasil e no bacharelado (CFO); analisa
a formação e atuação dos tenentes em relação ao uso legal da força e apre-
senta os resultados da entrevistas. Ao final são realizadas considerações
sobre os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo, as
possibilidades e limitações na atuação democrática dos jovens tenentes da
PMMT.
22 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 23
24 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 25

Este capítulo contextualiza o Estado e a construção do monopólio da


força e o surgimento histórico da polícia como instrumento de controle
social. Inicialmente recorro a Norbert Elias sobre o processo civilizatório e
monopólio de força. Para construir uma linha de pensamento, com diver-
sos olhares que descrevessem como se dá a manutenção da força estatal e
o controle, constam breves contribuições teóricas de Foucault, Arendt,
Goffman, Althusser e Bourdieu. Ao final apresento um recorte histórico
sobre a origem de uma instituição estatal que atua com instrumento do
monopólio de força do Estado: a polícia em geral e a Polícia Militar de Mato
Grosso em particular.
Conforme Elias (1994, p.193) o processo civilizador tem muitas vari-
áveis, entre elas a mudança na conduta e sentimentos humanos rumo a
uma direção muito específica, apesar das mudanças não terem sido anteri-
ormente planejadas ao longo do tempo, e posteriormente, questiona a
inexistência da racionalidade de planejamento a longo prazo da civilização
e depois argumenta que, apesar do não planejamento, ocorreu um tipo
específico de ordem, com instrumentos de controle, tais como: autocontrole;
e o sentimento de vergonha como regulação de toda a vida instintiva e
afetiva em caráter estável, uniforme e generalizada.
Assim o processo civilizador surge ao longo do tempo. A civilização
é posta em movimento pela dinâmica rede de relacionamentos, por mu-
danças específicas na maneira como as pessoas se vêem obrigadas a convi-
ver, desempenhando uma específica função social. Pelas mudanças psico-
lógicas, molda-se um comportamento socialmente aceito mediante uma
infinidade de medos. Quanto mais baixa a divisão de funções, mais instável
é a sociedade, enquanto mais complexa nas suas divisões tendem a mono-
polização da força e isso influencia o autocontrole, tornando o meio social
pacificado e livre de atos de violência.
Segundo Elias a necessidade de uma sociedade constituir instrumen-
tos de controle para sua proteção conduz à construção de um monopólio
de força centrado na figura o Estado, que conduz o indivíduo a regular a
conduta de maneira uniforme e estável. Vejamos:

Ao se criar monopólio de força, criam-se espaços pacifi-


cados, que normalmente estão livres de atos de violência
26 Wilquerson Felizardo Sandes

[...] Nelas o indivíduo é protegido principalmente con-


tra ataques súbitos, contra a violência física em sua vida.
Mas, ao mesmo tempo, é forçado a reprimir em si mes-
mo qualquer impulso emocional para atacar fisicamen-
te outra pessoa. (ELIAS, 1994, p. 198).

O Estado, por meio de mecanismos legais, tem como atributo co-


mum a vigilância da conduta dos indivíduos e da massa, onde, paradoxal-
mente, o medo assegura a conduta socialmente correta, “a monopolização
da força física reduz o medo e o pavor que um homem sente do outro, mas
ao mesmo tempo , limita a possibilidade de causar terror, medo ou tormen-
to em outros.” (ELIAS,1994, p.201).
Em um outro contexto teórico, a disciplina passa a ser um instru-
mento para adestrar e uniformizar as massas, na perspectiva de Foucault
(1991, p.157), a disciplina tem como objetivo adestrar os indivíduos e, con-
seqüentemente, retirar e se apropriar deles. Os instrumentos utilizados pelo
poder disciplinador são: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e o
exame. A vigilância hierárquica cria observatórios como nos acampamen-
tos militares, desenhando uma rede de olhares que se controlam uns aos
outros. “A vigilância torna-se um operador econômico decisivo, na medida
em que é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e
uma engrenagem específica do poder disciplinar [...]” (FOUCAULT, 1991,
p.157). A sanção normalizadora funciona como um mecanismo penal onde
se qualificam e reprimem desvios de comportamento por meio de meca-
nismos de macro e micro penalidades, de pequenas humilhações a casti-
gos físicos. Tem um sistema duplo: gratificação-sanção, classificação e
hierarquização de bons e maus indivíduos. A punição ocorre por opera-
ções distintas tais como: relacionar os atos, os desempenhos, os comporta-
mentos singulares a um conjunto, diferenciação e princípios de regras a
seguir. A normalização ocorre através da comparação, diferenciação,
hierarquização, homogeneização e exclusão. Aparece o poder da norma: o
normal se estabelece como princípio de coerção. O poder de regulamenta-
ção obriga a homogeneidade, permite individualizar desvios e prevê o ajus-
tamento. O exame combina técnicas de hierarquia e sanção e o seu uso
permite qualificar, classificar e punir. O exame fornece informações sobre
as pessoas que indicam lugar e tempo, tornando-os descritivos, analisáveis
e identifica as suas singularidades, permitindo a comparação de resultados.
Ao mesmo tempo em que se criam monopólios de força e são
construídos instrumentos de controle, surgem desvios e, a partir daí, o
Estado exerce o seu poder. Neste contexto pode-se recorrer ao olhar de
Arendt (1994), sobre a distinção entre o binômio poder – violência, tão
freqüentemente confundidos por uma tradição do pensamento político,
geralmente relacionado a mando e obediência. Para a autora a questão em
Wilquerson Felizardo Sandes 27

quem domina quem: poder, vigor, força, autoridade e violência. “A forma


extrema do poder e o todos contra um, a forma extrema da violência e o
um contra todos. [...] o poder nunca é propriedade de um individuo; per-
tence a um grupo e permanece em existência apenas na medida em que o
grupo conserva-se unido [...] a violência pode ser justificada mas nunca
legitimada [...]” (p. 35-36).
Todavia, este tecido social, para se livrar dos desvios de comportamen-
to que possam causar riscos, criam instituições fechadas para abrigar aque-
les que, em virtude de uma atividade ou comportamento, precisam ser isola-
dos em manicômios e prisões, definidas como instituições totais. Vejamos:

Uma instituição total pode ser definida como um local


de residência e trabalho onde um grande número de
indivíduos com situação semelhante, separados da so-
ciedade mais ampla por considerável período de tempo,
levam uma vida fechada e formalmente administrada
(GOFFMAN, 2005, p.11).

Goffman (2005, p.16-17) discorre que uma instituição total possui


barreiras do mundo externo, proibições à saída, portas fechadas, paredes
altas, arames, fossos. O autor enumera cinco agrupamentos de instituições
fechadas, aquelas que cuidam de pessoas incapazes e inofensivas como
crianças e idosos, em segundo lugar as incapazes que podem ameaçar a
comunidade de modo não intencional como os que possuem doenças
contagiosas e mentais. O terceiro tipo trata de ambientes para perigosos
intencionais como prisões. Já o quarto agrupamento são aquelas que reali-
zam algum tipo de trabalho realizados em navios, quartéis, escolas internas.
E finalmente Goffman cita o agrupamento destinado a refúgio do mundo,
como mosteiros e conventos.
À medida que o Estado possui o monopólio da força, conforme pre-
ceitua Norbert Elias, cria mecanismos de controle e disciplina dos indiví-
duos conforme abordagem de Michel Foucault, e opera no binômio po-
der-violência, conforme Hannah Arendt, estabelece instituições fechadas
conforme estudo de Erving Goffman, ocorre então, a necessidade de criar
mecanismos de sujeição, onde cada indivíduo reconhece o seu lugar den-
tro de um contexto social e um conjunto de práticas reproduzidas ao lon-
go do tempo: a ideologia.
Althusser (1985, p.7-9) define que a formação social é resultado de
um modo de produção dominante. Inicialmente com a reprodução dos
meios de produção, tais como instrumentos de produção, relações entre
demanda e oferta em todos os níveis, com uma relação de interdependência
de matéria prima e máquinas definidos como “uma espécie de fio sem fim”
de reprodução das condições da própria produção e das relações de pro-
28 Wilquerson Felizardo Sandes

dução existentes. O autor busca se apoiar teoricamente nas concepções


marxistas que têm posição de que o Estado é um aparelho repressivo do
Estado, o poder de Estado é o que se busca, e aparelho de estado é instru-
mento de manutenção da hegemonia. É a partir dessa posição marxista que
Althusser propõe um avanço na definição do aparelho de Estado, dividin-
do-o em repressivo e ideológico. O aparelho repressivo de Estado (ARE)
compreende as instituições puramente do Estado e “funciona através da
violência — ao menos em situações limites (pois a repressão administrati-
va, por exemplo, pode revestir-se de formas não físicas)” (ALTHUSSER, 1985,
p. 67-68). Os aparelhos ideológicos de Estado (AIE) se apresentam através
de instituições distintas (públicas e privadas) e especializadas, tais como:
igrejas; escolas; família; sistemas jurídico e político; sindicatos; veículos de
comunicação; cultura. Os ARE e os AIE tendem a serem ambigüidade e
funcionarem através da violência e de ideologia, distinguindo-se pelo mai-
or ou menor grau de aplicação. Exemplo: “o Exército e a Polícia funcionam
também através da ideologia, tanto para garantir sua própria coesão e repro-
dução, como para divulgar os valores por eles propostos” (ALTHUSSER,
1985, p.70).
Todo o processo formativo da ideologia perpassa distintos grupos
com ideologias sob medida, vejamos:

Cada grupo dispõe da ideologia que convém ao papel


que ele deve preencher na sociedade de classe; papel de
explorado (a consciência “profissional”,“mor al”,“cívica”,
“nacional” e apolítica altamente “desenvolvida”); papel
de agente de exploração (saber comandar e dirigir-se
aos operár ios: as “relações humanas”); de agentes de re-
pressão (saber comandar, fazer-se obedecer “sem dis-
cussão” ou saber manipular a demagogia da retórica dos
dirigentes políticos); ou de profissionais de ideologia (sa-
ber tratar as consciências com o respeito, ou seja, o des-
prezo, a chantagem, a demagogia que convém, com as
ênfases na Moral, na Virtude, na “transcendência”, na
nação...).(ALTHUSSER, 1985, p. 79-80).

A ideologia só pode operar a partir de um sistema de pensamento,


disseminando uma cultura por meio da escola, família e outras instituições.
Bourdieu (1992, p.206-206) ao discorrer sobre sistemas de pensamento,
entende que os autores primitivos não perceberam, quando dos escritos
sobre educação que, do mesmo modo que a religião, a cultura escolar
propicia aos indivíduos um corpo comum de categorias de pensamento
que tornam possível a comunicação. Os indivíduos são programados para
uma pensar e agir e partilham de um certo “espírito”, moldados segundo o
mesmo modelo. Surgem os códigos comuns que permitem a comunicação
Wilquerson Felizardo Sandes 29

entre pessoas e a escola é responsável pela transmissão da cultura e do


senso comum, da mesma forma que os fósseis permitem datar uma espé-
cie antiga, vestígios cristalizados de debates indicam o pensamento de uma
época. Os automatismos verbais e os hábitos de pensamento têm por fun-
ção sustentar o pensamento, mas também podem, nos momentos de baixa
tensão intelectual, dispensar de pensar.
Em síntese, as contribuições dos autores mencionados neste capítu-
lo, indicam que o Estado constrói o monopólio de força pelas diversas
práticas no contexto social ao longo da história; reafirma-se como ente de
proteção da coletividade contra o indivíduo; age com legitimidade decor-
rente do próprio indivíduo que receia ser alvo da violência, assim também
legitima o Poder do Estado, permitindo a criação de mecanismos de con-
trole, espaços de exclusão, reprodução do cotidiano e sistemas de pensa-
mento. Nota-se, então, uma representação imaginária dos indivíduos com
as suas condições de existência e do imaginário surge a legalidade atribuí-
da ao Estado, ou seja o seu monopólio de força. “[...] se ele crê na justiça,
ele se submeterá sem discussão às regras do direito, e poderá mesmo pro-
testar quando elas são violadas, assinar petições, tomar parte em uma mani-
festação, etc.” (ALTHUSSER, 1985, p.90).

***

Ao longo da história da civilização, para coibir o fenômeno da violên-


cia, a sociedade buscou soluções de controle social e autocontrole em diver-
sos âmbitos. Instituições surgiram para proteger o indivíduo contra ataques
violentos. Entre as organizações de controle surgiu a polícia. Este vocábulo,
segundo Le Clere (1965) é de origem grega politeia, e passou para o latin
politia, com o mesmo sentido: governo de uma cidade, administração.
A origem da polícia contada por Monteiro (1985, p.11-12), remonta
ao aparecimento do homem e da formação de clãs, como moradores de
cavernas e palafitas, quando a vigilância já era mantida, principalmente à
noite. É um princípio natural na história das civilizações, para manter a
segurança para sobreviver. Para o autor a polícia é uma necessidade que
atravessou séculos, percorrendo todos os espaços ocupados pelo homem,
como corpo organizado ou simples vigilante, na formação das primeiras
milícias.
No antigo Egito verificou-se a figura do inspetor de quarteirão, que
exercia a função de segurança nas ruas e praças. Na China antiga era desti-
nado um funcionário de polícia para cada uma das cidades importantes,
sob ordem de um magistrado. Em Roma a.C. existiam os questores que
velavam pela manutenção da ordem, sob o comando de um chefe de polí-
cia e magistrado denominado E Dil . A França foi o primeiro país a instituir
30 Wilquerson Felizardo Sandes

em sua linguagem jurídica a expressão “polícia”, com a função de preceder


a justiça, tendo a vigilância o seu principal caráter (LE CLERE, 1965).
No Brasil, em 13 de maio de 1809, D. João VI criou a Divisão Militar da
Guarda Real de Polícia da Corte, a milícia era formada por 218 guardas com
armas e trajes idênticos aos da guarda portuguesa. Em 1989, com a procla-
mação da República, o primeiro ato legislativo do Marechal Deodoro da
Fonseca foi autorizar os governadores dos Estados a legislar sobre as ati-
vidades policiais. 1
Em 1969, pelo Decreto-lei n. 667/68, as Polícias Militares dos Estados
foram reestruturadas, com organização em conformidade com as normas
expedidas pelo Exército. Com o advento da Constituição Federal de 1988,
as Polícias Militares receberam a atribuição de polícia ostensiva e a preser-
vação da ordem pública, continuando como forças auxiliares e reserva do
Exército, porém com a função de atuar em um Estado democrático de Di-
reito.
Após apresentar uma visão ampla sobre a construção do monopólio
de força e o surgimento das polícias, abordarei em particular a origem da
Polícia Militar do Estado de Mato Grosso, objeto desta pesquisa.

Origem da Polícia Militar de Mato Grosso

Conforme Monteiro (1985), com a criação da Capitania de Mato Gros-


so em 1748, e com a vinda do seu primeiro governador, Dom Antonio
Rolim de Moura, em 1752, surgiu a necessidade de garantia organizada, pois
fundaram a cidade de Vila Bela, que seria a Capital, e a primeira polícia
apareceu. Verifica-se através da história, mormente nos arquivos de Estevão
de Mendonça, que a polícia de Mato Grosso já teve vários nomes, tendo
surgido como a tropa mista, com o nome de Companhia de Ordenanças de
“homens pardos” em 1753, com um efetivo de 80 praças. Esta surgiu em
virtude da criação da Capitania de Mato Grosso em 1748. Quanto à data
exata de sua fundação sempre pairou dúvidas para Monteiro, porque pri-
meiro se descobriu Cuiabá e só mais tarde as regiões de Mato Grosso, onde
se implantou a primeira cidade (Vila Bela), com segurança própria, destina-
da à sobrevivência de seus habitantes naqueles remotos tempos.
Em 1835 surge a Assembléia Legislativa Provincial, e que oficializou a
polícia de Província de Mato Grosso, com a criação de um Corpo Policial
com a denominação de Homens do Mato, em substituição a Guarda Muni-
cipal existente em Cuiabá desde 1831. Todavia, do que se verifica nos “fastos”
de Mato Grosso, é que a segurança na região já existia 82 anos antes da data

1
Documentação registrada no Museu Nacional do Rio de Janeiro, 2005.
Wilquerson Felizardo Sandes 31

de sua oficialização, que hoje se comemora a 5 de setembro de 1835.


Em 1902, embora ainda tensa a situação, o então Corpo de Polícia do
Estado, quase sempre comandando por um Major ou Capitão, é reorganiza-
do e passa então a ser Batalhão de Polícia Militar. (MONTEIRO, 1985, p.41).
Em 17 de janeiro de 1936, foi criada a lei n. 192 que reorganizou as
Polícias Militares nos Estados sendo consideradas reserva do Exército.“Art.
1- As Polícias Militares serão reorganizadas pelos Estados e pela União, na
conformidade desta Lei, e são consideradas reserva do Exército,nos termos
do art 167 da Constituição Federal. [1935]” (p. 85).
Em 11 de julho de 1947, foi promulgada a Constituição do Estado de
Mato Grosso:

Ar t.136 – A Polícia Militar, instituída para manter a segu-


rança interna e assegurar a ordem do Estado, é conside-
rada força auxiliar do Exército Nacional, nos termos da
Constituição Federal (p. 107).

Em 25 de julho de 1947, o governador do Estado de Mato Grosso,


através do Decreto n. 337 a Força Pública passa a denominar Polícia Militar.
“ Art. Único – a Força Policial do Estado passa a denominar-se POLÍCIA
MILITAR, revogadas as disposições em contrário.” (p. 105).
Atualmente, a Polícia Militar de Mato Grosso (PMMT) é uma institui-
ção organizada com base na hierarquia e disciplina que possui como mis-
são constitucional à polícia ostensiva e preservação da ordem pública, sen-
do considerada, para fins de mobilização nacional, força auxiliar do Exérci-
to Brasileiro. Os policiais militares são tratados como “militares estaduais” e
possuem estabilidade de pública. A PMMT se subordina hierarquicamente
e administrativamente ao Governador do Estado, sob a direção unificada e
vinculada à Secretária de Justiça e Segurança Pública. (Constituição Federal,
1988).

Uma constituição desgarrada do costume democrático


permanece letra morta: é uma máscara de paz que es-
conde uma face de rancores, de paixões tumultuadas
(BOBBIO apud ZAVERUCHA, 2002, p.79).
32 Wilquerson Felizardo Sandes

Neste capítulo, reporto ao esforço governamental de democratização


da polícia militar pelos de mecanismos ideológicos e operacionais que,
fundamentalmente, atuam com hierarquia e disciplina para garantir o con-
trole interno e, conseqüentemente, agir como instrumento de Estado no
regime democrático. Após a queda do regime militar no Brasil em 1984,
buscou-se mudanças do modelo de polícia do regime autoritário (polícia
política) para o regime democrático (polícia cidadã).
Inicialmente, o Estado Democrático de Direito no Brasil foi instituído
com a promulgação da Constituição Federal (CF) de 1988, sendo:

[...] um Estado Democrático, destinado a assegurar o


exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a
segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e
a justiça como valores supremos de uma sociedade fra-
terna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmo-
nia social e comprometida, na ordem interna e internaci-
onal, com a solução pacífica das controvérsias [...]
(CF,1988)

São princípios fundamentais do Estado Democrático de Direito: so-


berania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho
e da livre iniciativa, pluralismo político. O poder emana do povo, que o
exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. (CF, 1988).
Quanto às polícias militares, a atuação democrática está prevista no
art. 144 que trata que segurança pública, dever do Estado, direito e respon-
sabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da
incolumidade das pessoas e do patrimônio. Entre os órgão que exercem o
papel de segurança pública, constam as polícias militares, que abrange a
polícia ostensiva e a preservação da ordem pública, subordinando-se aos
governadores do exército e sendo denominada forças auxiliares e reserva
do Exército.As instituições policiais militares, conforme a Carta Magna, são
regidas por dois fundamentos básicos: hierarquia e disciplina. (CF, 1988).
Para garantir a hierarquia e disciplina, são instituídas, na mente do
policial militar, uma formação ideológica meio policial, meio militar. O no-
vato já se afastara de seu mundo doméstico e, no processo de admissão,
uniformes são distribuídos, movimentos são padronizados para garantir
Wilquerson Felizardo Sandes 33

uma unidade de pensamento. Surgem os primeiros testes de obediência, um


exemplo é o juramento de defender a sociedade com risco da própria vida:

Ar t.35 Ao ingressar na Polícia Militar do Estado de Mato


Grosso, prometo regular a minha conduta pelos precei-
tos da moral, cumprir rigorosamente as ordens das au-
toridades que estiver subordinado e dedicar-me inteira-
mente ao serviço policial militar, à manutenção da or-
dem pública e à segurança da comunidade, mesmo com
o risco da própria vida. (Estatuto da PMMT, 1993).

Paradoxalmente, para cumprir os princípios fundamentais do Esta-


do Democrático de Direito, é necessário que o policial militar abdique de
alguns direitos individuais e sociais, inclusive do direito a vida. Na citação
anterior fica evidente a ação ideológica do aparelho de Estado e conse-
qüente sujeição do indivíduo em arriscar a sua vida pelo dever profissio-
nal. Segundo Muniz (1999), no dia-a-dia, os PMs são chamados a intervir em
qualquer evento sempre que ocorre “[...] algo-que-não-devia-estar-aconte-
cendo-e-sobre-o-qual-alguém-tem-que-fazer-alguma-coisa-agora-e-bem [...]”.
A sujeição se estabelece logo após o ingresso na vida militar. Segun-
do Goffman (2005, p. 22) as instituições totais são estufas para mudar pesso-
as através o mundo do internato :

O novato chega ao estabelecimento com uma concep-


ção de si mesmo que se tornou possível por algumas
disposições sociais estáveis no seu mundo doméstico.
[...] O seu eu é sistematicamente, mortificado. Começa a
passar por algumas mudanças radicais eu sua carreira
moral.[...] Uma descrição de vida de um cadete numa
academia militar dá exemplo disso: a ruptura nítida com
o passado precisa ser efetivada em tempo relativamente
curto [...] ajuda a criar um grupo unificado de calouros,
e não uma coleção heterogênea de pessoas com alto e
baixo status. Os uniformes são distribuídos na primeiro
dia [...] o papel de cadete deve sobrepor-se a outros
papeis que o indivíduo estava habituado a desempenhar.
Restam poucas indicações que revelam o status social
com o mundo externo.

Reforço ainda essa evidência à luz da interpretação Althusser por


Albuquerque (1985), ele afirma que as ideologias possuem existência em
um campo da realidade e visam à reprodução continuada do modelo domi-
nante de sociedade, criando divisão de trabalho em um mecanismo onde a
ideologia leva o sujeito — neste caso o policial militar — a reconhecer
34 Wilquerson Felizardo Sandes

onde é o seu lugar no contexto social através da sujeição (grifei), que não
está presente somente nas idéias, mas também em um conjunto de práti-
cas, de rituais situados em um rol de instituições concretas, constituindo o
que é denominado de Aparelho Ideológico de Estado (AIE).
Como já abordamos no capítulo 1, os Aparelhos Ideológicos de Esta-
do (AIE) se apresentam através de instituições distintas (públicas e priva-
das) e especializadas, tais como: igrejas, escolas, família, sistemas jurídico e
político, sindicatos, veículos de comunicação, cultura. Outra modalidade
de aparelho, denominada de Aparelho Repressivo de Estado (ARE), compre-
ende as instituições puramente do Estado e, que “funciona através da vio-
lência — ao menos em situações limites (pois a repressão administrativa,
por exemplo, pode revestir-se de formas não físicas)” (ALBUQUERQUE, In:
ALTHUSSER, 1985, p. 67-68). Os ARE e os AIE tendem a ambigüidade e se
articulam através da força e da ideologia, se distinguindo pelo maior ou
menor grau de aplicação.
A trajetória histórica das polícias segue um processo civilizador no
sentido de regular a conduta do indivíduo no contexto social pelos instru-
mentos disciplinadores, operando com o uso da repressão e da ideologia.
A partir de 1984, com a advento da democracia brasileira e queda da
ditadura militar, surge um novo esforço ideológico na construção do papel
das polícias militares: de órgão de defesa do Estado para órgão de defesa do
Cidadão.
Para Guimarães (2002) ocorre uma migração de uma polícia de Esta-
do — antes voltada para proteção de um governo e determinados grupos
ou classes — para a polícia de proteção a cidadania, esta, em tese, reconhe-
ce a diversidade social, o respeito ao indivíduo e a coletividade em todos
os seus segmentos. Cidadania pressupõe o equilíbrio entre os interesses
do indivíduo e da coletividade.

A polícia cidadã deve ser imparcial, reconhecer os movi-


mentos de garantia das diferenças e das divergências,
respeitar todos os seguimentos e garantir os espaços
legítimos de manifestação. A mediação constitui-se sua
primeira e principal metodologia de ação e a repressão
policial, a excepcionalidade. (p. 121-122).

A transformação da polícia de defesa do Estado para defesa da cida-


dania ganha maior materialidade a partir de 2001, após diversos episódios
veiculados sobre o despreparo profissional e a violência policial. O Gover-
no Federal, por meio do Ministério da Justiça passou a exigir dos estados
brasileiros uma profunda reforma nas bases curriculares das escolas de
formação de policiais. A reforma ocorreu por um programa denominado
“Bases Curriculares para Formação dos Profissionais de Segurança do Cida-
Wilquerson Felizardo Sandes 35

dão”, visando homogeneizar os cursos de formação, planejamento curricular,


assegurar o princípio de eqüidade no processo de formação, a unidade de
pensamento e ações adequadas às necessidades sociais.
Nota-se que o “Poder de Estado”— representado por um segmento
politicamente institucionalizado a quem se delega a faculdade de instituir e
executar o processo político-jurídico, bem como a coordenação da vonta-
de coletiva (ESG, 2000, p.51) — mesmo com o monopólio dos meios legí-
timos de coerção, resolve contribuir com as mudanças dos aparelhos de
repressão estaduais, com um foco na cidadania e a partir disso impõe uma
nova concepção ideológica denominada “polícia cidadã” e aos órgãos de
formação policial lançam a tarefa de destruir uma ideologia repressiva e
reconstruir uma ideologia cidadã. Na fundamentação teórica de
Althusser a escola possui papel fundamental como mecanismo ideológico
na formação das diversas classes para reprodução dos meios de produção.
Sobre o referencial althusseriano, a escola é considerada:

O aparelho ideológico escolar, como outr os Aparelhos


ideológicos do Estado, não se reduz à existência de idéias
sem suporte mater ial. No AIE escolar também é realiza-
da a Ideologia de estado em sua totalidade, ou em parte,
garantindo unidade de sistema “ancorada” em funções
materiais, que lhe são próprias e não redutíveis à ideolo-
gia de Estado, mas que lhe servem de suporte. (CASSIN,
2003 p.331).

Teoricamente a mudança ideológica deveria ocorrer na estrutura e fun-


cionamento das instituições policiais militares, pois, pela análise de emprego
dos AIE e ARE, para garantir a reprodução do modo de produção é necessário
ter o poder de Estado, deter o aparelho de Estado e seus ARE e AIE.
Assim sendo, o governo democrático brasileiro possui o poder legí-
timo, detém o controle das instituições policiais militares, estabelece um
novo enfoque de funcionamento ideológico pautado na cidadania. Obser-
vo uma relação paradoxal do Poder de Estado representado politicamente
por um governo e as suas imposições sobre os Aparelhos de Estado, repre-
sentado pelas instituições. É possível perceber que o Poder de Estado, em
questões mais profundas, mantém uma certa inércia em relação aos Apare-
lhos de Estado, estes aparentam possuir uma outra ideologia de resistência
e com “blindagem” contra qualquer postura ideológica contrária aos inte-
resses orgânicos institucionalizados, como se possuíssem vidas autôno-
mas e paralelas dentro do Estado.
Para Zaverucha (2002) a democracia tutelada é uma situação interme-
diária entre um regime autoritário e um regime democrático, já que combi-
na elementos democráticos com traços autoritários:
36 Wilquerson Felizardo Sandes

Se quisermos reformular o atual modelo de policiamen-


to, será necessário da um salto de qualidade em nossa
democracia. Poderíamos começas seguindo as constitui-
ções democráticas. Em nenhuma delas admite-se [...] que
polícia esteja sob controle do Exército.(p.94).

A Escola Superior de Guerra (ESG, 2000) em seus fundamentos dou-


trinários, a ideologia é descrita como imprescindível à compreensão de
um cenário social, porém quando se tornam dogmáticas, passam a gerar
uma ideologia dominante e outras concorrentes.

[...] será possível distinguir-se, além da ideologia domi-


nante, alguma doutrina de ideologia concorrente. Identi-
ficar a natureza das principais correntes ideológicas ou
doutrinárias, e, entre elas, as dominantes e subdominantes,
é imprescindível para a compreensão das atitudes dos
atores políticos, em profundidade e alcance, e para a
determinação dos cenários prospectivos possíveis na
evolução de um Sistema Político, [...] O que empresta às
ideologias sua conotação negativa é o seu sentido acrítico
e dogmático, sua tendência a constituir-se como uma
cosmovisão, tudo explicado, justificado ou rejeitado sob
um único ponto de vista. [...] nem sempre o conseguem,
pode-se mesmo dizer que geralmente não o conseguem,
embora imponham muitos sacrifícios à sociedade na
tentativa.” (ESG, 2000, p.71).

Entendo que uma via única com duplo sentido se estabelece quan-
do é exigido do sujeito uma atitude policial (crítica e direcionada para a
criação, mediação de conflitos comunitários) e, ao mesmo tempo, uma
atitude militar com foco em regulamentos rígidos e atitudes uniformes. O
paradoxo se estabelece, ora o sujeito caminha sobre os “trilhos”, ora identi-
ficando e percorrendo novas “trilhas”. O que de fato o poder de Estado
deseja como uma polícia cidadã? Estar próxima da comunidade? Sabe-se
que os membros da instituição policial militar se portam como ARE através
de ações legitimadas pelo “poder de polícia” — mito ideológico do dever
agir em nome da sociedade — efetuando prisões, reintegrações de posses,
controles de manifestações, serviços de guarda de órgãos públicos, entre
outros. Assim, “o ofício de polícia sempre foi considerado um mecanismo
meramente de contenção dos maus cidadãos (numerosas classes domina-
das) na proteção dos bons cidadãos (classes dominantes)” (GUIMARAES,
2002, p.127).
Todavia, as mudanças nas bases curriculares, até onde é possível
observar, tem mais foco na melhoria da capacitação dos policiais, no esfor-
Wilquerson Felizardo Sandes 37

ço de torná-los melhores cidadãos, do que expressamente na mudança do


funcionamento das instituições. O incremento de disciplinas e temas glo-
bais, indicam melhorias na qualificação ideológica dos sujeitos, o que
torna mais eficiente o uso do aparelho policial pelo Poder de Estado pela
sua reprodução.
Pela doutrina nacional vigente, em suas normas e princípios legais,
“o Bem Comum” continua sendo o alvo do Poder do Estado, o que legitima
o agir dos aparelhos em nome da coletividade e conseqüente manutenção
do monopólio da força. Assim me parece que a polícia com enfoque no
cidadão(ã), a denominada “polícia cidadã”, atua em um segundo nível de
prioridade e, no conflito de interesses entre Estado e Cidadão, as institui-
ções do ARE tendem a sua posição ideologicamente definida, ou seja, a
defesa do Poder de Estado.
38 Wilquerson Felizardo Sandes

Poder de Polícia

Segundo De Freitas (1987, p.77-89) o termo polícia abrange a ativida-


de estatal voltada para a defesa dos interesses da coletividade concernentes
a tranqüilidade, segurança e salubridade pública. É o poder assegurado por
lei ao Estado para a defesa do interesse coletivo, condicionando ou restrin-
gindo o uso e gozo de direitos individuais que afetem o bem estar social
em um sentido mais amplo. No Brasil a expressão PODER DE POLÍCIA teve
seu primeiro conceito no Código Tributário Nacional, art. 78:

[...] considera-se poder de polícia a atividade da Admi-


nistração Pública que, limitando ou disciplinando o direi-
to, interesse ou liberdade, regula a prática de ato e abs-
tenção de fato, em razão de interesse público concernente
à segurança , à higiene, à ordem, aos costumes, à discipli-
na de produção e do mercado, ao exercício de atividades
econômicas dependentes de autorização do Poder Pú-
blico, á tranqüilidade pública ou ao respeito à proprie-
dade e aos direitos individuais e coletivos.(p.80).

A cidadania, disciplinada por princípios jurídicos, expressa vinculo


entre Estado e seus membros, que por um lado implica em submissão às
autoridades que exercem atividades de administração pública e, por outro
lado, o exercício de direito do cidadão.
O ramo do direito que disciplina a administração pública é o direito
administrativo, o seus poderes instrumentais são os seguintes: poder vin-
culado, poder discricionário, poder hierárquico, poder disciplinar, poder
regulamentar e poder de polícia.
O direito administrativo proclama a superioridade do interesse da
coletividade, firmando a prevalência dele sobre o do particular. Especifica-
mente, entre os poderes instrumentais, o Poder de Polícia dá o poder da
polícia em agir e é a razão de sua existência como força pública do Estado.
O Poder de Polícia autoriza a administração pública a exercer os atos
coercitivos necessários a fazer, quando colidentes o interesse geral prevale-
Wilquerson Felizardo Sandes 39

ce sobre os interesse individual, todavia, tem barreiras que caso sejam ul-
trapassadas levam à arbitrariedade, ao abuso de poder, ao abuso de autorida-
de, sujeitando o agente público responsável às sanções legais de natureza
administrativa, criminal e cível. (LAZZARINI, 2001, p.07-30).
Jose Cretelha Junior apud Lazzarini (2001) conceitua polícia como
algo concreto em um conjunto de;

[...] atividades coercitivas exercidas na prática dentro


de um grupo social, o poder de polícia é uma faculdade
, uma possibilidade, um direito que o Estado tem de, atra-
vés da polícia, que é uma força organizada, limitar as
atividades nefastas dos cidadãos [...] O Poder de Polícia
legitima a ação da polícia e a sua própria existência [...]”
( p. 20).

Lazzarini conceitua o poder de polícia como sendo:

Como poder administrativo, o Poder de Polícia, que legi-


tima o poder da polícia e a própria razão dela existir, é
um conjunto de atribuições da Administração Pública,
como poder público , indelegáveis aos entes particula-
res, embora possam estar a ela ligados, tendentes ao con-
trole dos direitos e liberdades das pessoas, naturais ou
jurídicas, incidentes não só sobre elas, como também em
seus bens e atividades, tudo a ser inspirado nos ideais do
bem comum.” (p. 21).

Seguindo a linha do autor, o Poder de Polícia possui atri-


butos específicos: Discricionariedade, auto-
executoriedade e coercibilidade. A discricionariedade,
exercida dentro dos limites impostos pela lei, é o uso da
liberdade legal de valoração das atividades policiadas,
não podendo ser confundida com arbitrariedade, deven-
do ser observada o que a lei impõe, como são as hipóte-
ses do artigo quinto da Constituição da República. A
auto-executoriedade do ato da polícia diz respeito a
uma decisão e sua execução direta, como decorrência
do próprio poder de polícia, salvo casos em que a nor-
ma constitucional imponha a prévia manifestação do
Poder Judiciário. A coercibilidade do ato de polícia é a
imposição coativa das medidas adotadas pela Adminis-
tração no exercício do Poder de Polícia, sendo um ato
imperativo, obrigatório ao seu destinatário e quando este
opõe resistência admite-se até o uso da força pública
para o seu cumprimento, inclusive aplicando as medi-
das punitivas que a lei indique.
40 Wilquerson Felizardo Sandes

Aos atributos citados cabem as recomendações do Co-


mitê Inter nacional da Cruz Ver melha quanto a legalida-
de, necessidade e proporcionalidade da decisão a ser
tomada pelo encar regado da aplicação da lei.Todavia, o
Poder de Polícia não é ilimitado, suas barreiras e limites
são entre outros, os direitos dos cidadãos no regime de-
mocrático (civis, políticos, econômicos, sociais, culturais
e ambientais), as prerrogativas individuais e as liberda-
des públicas garantidas pelas Constituições e pelas leis.

Abusos policiais relacionados ao poder de polícia

Conforme o sociólogo Túlio Kahn (2002, p.84-85) a democratização


do país ocorrida na última década e o intercâmbio de experiências com
polícias de outros países têm contribuído para a melhora da situação, espe-
cialmente no que tange à violência. Conforme o autor, inúmeros fatores
podem ser elencados para explicar a diminuição relativa da violência poli-
cial, num contexto de aumento da criminalidade: criação de Ouvidorias de
polícia nos diversos Estados; julgamento em tribunais civis dos crimes de
homicídio cometidos por policiais militares; a introdução da filosofia de
policiamento comunitário; cursos de direitos fundamentais ministrados a
polícias nas academias em conjunto com organizações não-governamen-
tais; utilização de armamento alternativo para a repressão de conflitos; mu-
dança de alvo nas academias de polícia; a exigência de segundo grau para o
ingresso na carreira policial em alguns Estados; a divulgação pública peri-
ódica das estatísticas envolvendo a morte de policiais e civis em confron-
tos; elaboração dos planos nacional, estadual e municipal de direitos huma-
nos; entre outras.
Lemgruber (2003, p. 212) em pesquisa realizada com policiais da re-
gião sudeste, sobre desvios de conduta, concluiu que:

[...] os policiais tendem a atribuir gravidade maior aos


desvios com motivações econômicas, e relativamente
menor àqueles associados à violência arbitrária ou ao
uso excessivo da força contra a população civil – suge-
rindo uma internalização dos valores corporativos e dos
códigos disciplinares, que geralmente colocam em pri-
meiro lugar a garantia da ordem institucional interna e
em plano secundário a proteção da vida e da segurança
dos cidadãos.

Morgado (2001) se referindo a crimes de policiais contra civis, enten-


de que:
Wilquerson Felizardo Sandes 41

Fatores como descontrole emocional e despreparo téc-


nico parecem ser, neste contexto, os que menos contam
para explicar o fenômeno. Não se desconsidera que es-
ses funcionários da Segurança possam agir impulsiva-
mente. Entretanto, há muitos outros fatores que antece-
dem essa possível manifestação de subjetividade de um
policial, ou do grupo deles, no momento da ação crimi-
nosa [...] há de se considerar, portanto, que, desde a sua
criação, a polícia política foi treinada para, nos momen-
tos de suspensão dos direitos políticos, combater um
inimigo representado pelos opositores internos. Portan-
to o descontrole emocional e despreparo técnico não
devem ser supervalorizados (p.39-41).

Vários movimentos nacionais e internacionais tentam reduzir a práti-


ca arbitrária nas ações policiais, são resoluções internacionais, tratados, pro-
jetos de reforma das polícias no Congresso Nacional, modificações
curriculares. Dentre os diversos encaminhamentos sobre o tema, desta-
cam-se normas e tratados internacionais adotados no Brasil para
instrumentalizar o uso legal da força através de princípios e modelos.

Uso Legal da FForça:


orça: Instrumentos par
Instrumentos paraa uma Atuação Democrática
da Polícias

Neste sub-tema apresento instrumentos legais que visam democrati-


zar a atuação das polícias em relação ao emprego da força e armas de fogo.
Inicialmente com a Declaração Universal dos Direitos Humanos; em segui-
da com o Código de Conduta para Funcionários Encarregados de Fazer
Cumprir a Lei; a Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas
Cruéis, Desumanos ou Degradantes; a Resolução do Oitavo Congresso das
Nações Unidas sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Infratores
com destaque aos Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de
Fogo. O embasamento jurídico sobre o uso da força é apontado através do
Código Penal e Código Processo Penal Brasileiro. Ao final segue o Modelo
de Uso da Força, uma pirâmide de uso de força crescente, adotado nos
cursos policiais no âmbito nacional e internacional.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Assem-
bléia Geral das Nações Unidas, por meio da Resolução n. 217 de 10 de
dezembro de 1948, e assinada pelo Brasil, definiu princípios morais e éti-
cos que devem orientar os povos das Nações Unidas. Dos 30 artigos, com
foco nesta pesquisa, destacam:

[...]
Ar tigo III – Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e
42 Wilquerson Felizardo Sandes

à segurança pessoal.
Ar tigo V – Ninguém será submetido a tortura, nem a
tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo IX – Ninguém será arbitrariamente preso, detido
ou exilado. (CEPIA, 2001, p. 12-13).

Em 1979 foi criado o Código de Conduta para Funcionários Encarre-


gados de Fazer Cumprir a Lei, adotado pela Assembléia Geral das nações
Unidas em 17 de dezembro de 1979, através da Resolução 36/169. Esta reso-
lução é recomendada tendo em vista o respeito aos direitos humanos e a
garantia das liberdades fundamentais de todos os cidadãos. Dos oito arti-
gos, destacam:

Artigo 1 – Os funcionários encarregados de fazer cum-


prir a lei deverão cumprir em todo momento os deveres
que lhes impõem a lei, servindo a sua comunidade e prote-
gendo a todas as pessoas contra atos ilegais, em conso-
nância com o alto grau de responsabilidade exigido por
sua profissão.
Artigo 2 – No desempenho de suas tarefas, os funcioná-
rios encarregados de fazer cumprir a lei devem respei-
tar e proteger a dignidade humana e manter e defender
os direitos humanos de todas as pessoas.
Artigo 3 – os funcionários encarregados de fazer cum-
prir a lei poderão usar a força apenas quando estrita-
mente necessário e na medida em que seja exigida para
o desempenho de suas tarefas.
[...] (CEPIA, 2001, p. 121- 126).

Para reforçar o artigo V da Declaração de Direitos Humanos foi


estabelecida a Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas
Cruéis, Desumanos ou Degradantes, adotada pela Assembléia Geral das
Nações Unidas, através da Resolução n. 34/46, em 10 de dezembro de 1984
e ratificada no artigo 5 da Constituição Federal Brasileira de 1988. Cada
Estado-Parte ficou incumbido de apresentar um relatório de quatro em
quatro anos ao Comitê Contra Tortura da ONU. Entre 33 artigos destacam-se
os seguintes:

[...] Para fins da presente Con venção, o termo “tortura”


designa qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos
agudos,físicos e mentais, são inf ligidos intencionalmen-
te a uma pessoa a fim de obter, dela ou de terceira pes-
soa, informações ou confissões; [...] quando tais dores ou
sofr imentos são infligidos por um funcionário público
Wilquerson Felizardo Sandes 43

[...]. Não se considerará como tortura as dores ou sofri-


mentos que seja conseqüência unicamente de sanções
legítimas, ou que sejam inerentes a tais funções ou delas
decorram [...] (p.55-59).

Segundo Rover (1998), em 27 de agosto a 07 de setembro de 1990, foi


realizado em Cuba o Oitavo Congresso das Nações Unidas sobre a Preven-
ção do Crime e o Tratamento dos Infratores, tendo como objetivo proporci-
onar normas orientadoras aos Estados-membros na tarefa de assegurar e
promover o papel adequado dos encarregados da aplicação da lei, com
princípios levados em consideração e respeitados pelos governos no con-
texto da legislação e da prática nacional, e levados ao conhecimento dos
encarregados da aplicação da lei assim como de magistrados, promotores,
advogados, membros do executivo e legislativo e do público em geral.
O instrumento acima reconhece importância e a complexidade do
trabalho dos encarregados da aplicação da lei, reconhecendo também o
seu papel de vital importância na proteção da vida, liberdade e segurança
de todas as pessoas. Este tratado internacional encoraja os governos a man-
ter sob constante escrutínio as questões éticas associadas ao uso da força e
armas de fogo..
No congresso da ONU em 1990, foram apresentados os Princípios
Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo. Segue alguns trechos:

1. Os Governos e os organismos de aplicação da lei devem


adotar e aplicar regras sobre a utilização da força e de
armas de fogo contra as pessoas, por parte dos policiais.[...]
2. Os Governos e os organismos de aplicação da lei de-
vem desenvolver um leque de meios tão amplo quanto
possível e habilitar os policiais com diversos tipos de
armas e de munições, que permitam uma utilização dife-
renciada da força e das armas de fogo.
[...]
4. Os policiais, no exercício das suas funções, devem, na
medida do possível, recorrer a meios não violentos antes
de utilizarem a força ou armas de fogo. Só poderão re-
correr à força ou a armas de fogo se outros meios se
mostrarem ineficazes ou não permitirem alcançar o re-
sultado desejado.
5. Sempre que o uso legítimo da força ou de armas de
fogo seja indispensável, os policiais devem:
a) Utilizá-las com moderação e a sua ação deve ser pro-
porcional à gravidade da infração e ao objetivo legítimo
a alcançar;
b) Esforçar-se por reduzirem ao mínimo os danos e le-
sões e respeitarem e preservarem a vida humana;
44 Wilquerson Felizardo Sandes

c) Assegurar a prestação de assistência e socorros médi-


cos às pessoas feridas ou afetadas, tão rapidamente quan-
to possível;
d) Assegurar a comunicação da ocorrência à família ou
pessoas próximas da pessoa ferida ou afetada, tão rapi-
damente quanto possível.
[...]
9º - Policiais não devem usar armas contra pessoas, exceto
para se defender ou defender terceiros contra iminente
ameaça de morte ou lesão grave, para evitar a perpetra-
ção de um crime envolvendo grave ameaça à vida, para
prender pessoa que represente tal perigo e que resista à
autoridade, ou para evitar sua fuga, e apenas quando
meios menos extremos forem insuficientes para atingir
tais objetivos. Nesses casos, o uso intencionalmente letal
de arma só poderá ser feito quando estritamente neces-
sário para proteger a vida.
10. Nas circunstâncias referidas no princípio 9, os polici-
ais devem identificar-se como tal e fazer uma advertên-
cia clara da sua intenção de utilizarem armas de fogo,
deixando um prazo suficiente para que o aviso possa
ser respeitado, exceto se esse modo de proceder colocar
indevidamente em risco a segurança daqueles responsá-
veis, implicar um perigo de morte ou lesão grave para
outras pessoas ou se se mostrar manifestamente inade-
quado ou inútil, tendo em conta as circunstâncias do caso.
[...]
26. A obediência a ordens superior es não pode ser
invocada como meio de defesa se os policiais sabiam
que a ordem de utilização da força ou de armas de fogo
de que resultaram a morte ou lesões graves era manifes-
tamente ilegal e se tinham uma possibilidade razoável
de recusar-se a cumpri-la. Em qualquer caso, também
será responsabilizado o superior que proferiu a ordem
ilegal.

Quanto a legislação brasileira, destacam-se as seguintes leis:

Código Penal Brasileiro:


[...]
Art. 23 – Não há crime quando o agente pratica o fato:
I – em estado de necessidade.
II – em legítima defesa
III – em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular
do direito.
Código Processo Penal Brasileiro:
Wilquerson Felizardo Sandes 45

[...]
Art. 284 – Não será permitido o emprego de força, salvo a indispensá-
vel no caso de resistência ou tentativa de fuga de presos.

Modelo de Uso da Força Policial

O Modelo de Uso Legal da Força visa orientar a ação a ser tomada


pelo policial frente a uma reação de uma pessoa cometendo delito ou em
situação de fundada suspeita. “Força é toda intervenção compulsória sobre
um indivíduo ou grupo de indivíduos reduzindo ou eliminando sua capa-
cidade de auto decisão” (SENASP, 2006, p.39).
Sobre o Uso Legal da Força, a Secretaria Nacional de Segurança Públi-
ca- SENASP (2006), apresenta diversos modelos sobre o uso progressivo da
força nos cursos sobre o tema: FLETC, GILLESPIE e REMSBERG, PHOENIX,
NASHVILLE e CANADENSE. Os modelos variam no nível de força, avaliação
da atitude do suspeito e percepção de risco, variam seus formatos em grá-
ficos, círculos, tabelas e gráficos. No Brasil o modelo mais utilizado é o
FLETC adaptado.
O FLETC, segundo Leão (2001), surgiu em 1992 nos Estados Unidos,
o Instituto de Treinamento Policial da Universidade de Ilinois desenvolveu
uma pirâmide de uso de força crescente, chamada de “Modelo de Uso de
Força” adotado nos cursos policiais. Este modelo envolve a percepção do
policial quanto ao agressor em cinco níveis: submissão, resistência passiva,
resistência ativa, agressão física não letal e agressão física letal; para cada
grau corresponde a ação de resposta do policial contra o agressor na mes-
ma ordem: controle verbal, controle de contato, controle físico, táticas de-
fensivas não letais e força letal. Segundo Leão, apesar de bem aceito entre
os norte-americanos, esse quadro ainda deixa dúvidas quanto à percepção
do policial em relação á atitude do suspeito.
46 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 47
48 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 49

O Sistema de Ensino da Polícia Militar do Estado de Mato Grosso,


conforme a Lei de Diretrizes Básicas da Educação Nacional, possui sistema
próprio de ensino, com a finalidade de proporcionar ao respectivo pessoal a
capacitação para o exercício dos cargos e funções previstos em sua organiza-
ção, bem como, proporcionar assistência educacional aos seus dependentes.
O Ensino Profissional na Polícia Militar é ministrado pela Academia
de Polícia Militar aos oficiais (tenente, capitão, major, tenente coronel e
coronel), pelo Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (soldado,
cabo, sargento e sub tenente).
O Ensino Fundamental compreende o Ensino de Pré-Formação, cons-
tituindo o ensino do Pré-Escolar, 1º e 2º graus, ministrados nos Colégios
Tiradentes, visando assegurar assistência educacional permanente aos ser-
vidores da Corporação, bem como aos seus dependentes e aos dependen-
tes dos civis, segundo o que estabelecem os dispositivos regulamentares.
A supervisão, orientação e inspeção do ensino da Polícia Militar são
exercidas pelo Centro de Capacitação Desenvolvimento e Pesquisa (CCDP),
que expede normas, diretrizes e demais instruções para o cumprimento da
legislação vigente.
O Ensino Profissional da PMMT compreende três graus: Fundamen-
tal, Médio e o Superior. O Ensino Fundamental constitui-se dos cursos de
formação, de especialização e extensão de cabos e soldados. O Ensino Médio
constitui-se dos cursos de formação, de aperfeiçoamento, de especializa-
ção e de extensão de sargentos. O Ensino Superior, com três ciclos, abran-
ge: o primeiro ciclo, os cursos de formação e especialização, que capacitam
ao exercício de funções privativas de oficial subalterno (tenente) e inter-
mediário (capitão); o segundo ciclo, o Curso de Aperfeiçoamento de Ofici-
ais, que propicia condições de desempenho de funções de Estado-Maior
de nível operacional e de funções próprias de oficial superior (major e
tenentes-coronel); o terceiro ciclo, o Curso Superior de Polícia, que prepara
o oficial para o exercício de funções de alto executivo da Polícia Militar
(coronel).
A Polícia Militar mantêm os seguintes cursos: Curso Superior de Po-
lícia (CSP), visando à atualização e à ampliação de conhecimentos de ofici-
ais superiores, habilitando-os ao exercício de comandos e para os cargos e
funções de Coronel da Polícia Militar, com uma carga horária de 780 horas-
50 Wilquerson Felizardo Sandes

aula; Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO), visando ao preparo para


o exercício de funções de Oficial do Estado-Maior, com um carga horário
de 780 horas-aula; Curso de Adaptação para Oficiais, visando ao preparo
funcional de candidatos selecionados para o ingresso no posto inicial do
Quadro de Oficiais de Saúde, com uma carga horária de 780 horas-aula;
Curso de Habilitação de Oficiais aos Quadros de Administração e de Espe-
cialistas, visando ao preparo funcional de candidatos selecionados para
ingresso no posto inicial dos Quadros, com uma carga horária de 1.400
horas-aula; Curso de Formação de Oficiais (CFO), de grau superior, visando
à formação técnico-profissional e humanística necessária ao exercício de
funções inerentes ao Quadro de Oficiais Policiais Militares (QOPM), com
uma carga-horária de 4.410 horas-aula, divididas eqüitativamente em 1.470
para cada um dos três anos do Curso de Formação de Oficiais; Curso de
Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS), visando à ampliação e atualização de
conhecimentos técnico-profissionais de sargentos, com uma carga-horária
de 780 horas-aula; Curso de Formação de Sargentos (CFS), visando à forma-
ção básica técnico-profissional, necessária ao exercício das diversas fun-
ções e atividades inerentes às graduações de sargentos, com uma carga
horária de 1.400 horas-aula; Curso de Formação de Cabos (CFC), visando à
formação básica técnico-profissional, necessária ao exercício das diversas
funções e atividades inerentes às graduações de cabos, com uma carga
horária de 800 horas-aula; Curso de Formação de Soldados, visando à forma-
ção básica técnico-profissional, necessária ao exercício das diversas fun-
ções e atividades inerentes à graduação de soldado, com uma carga horária
de 400 horas-aula.

***

A Polícia Militar de Mato Grosso não contava com oficiais diplomados,


em 1943 chegaram os primeiros oficiais diplomados nas escolas militares
do Rio de Janeiro e São Paulo. (Projeto Político Pedagógico da Academia de
Polícia Militar, 2003).
O primeiro Curso de Formação de Oficiais ocorreu em 1952 em
Cuiabá, no Centro de Instrução Militar (CIM). Este Centro dispunha de 03
cursos: Curso de Oficiais Combatentes; Curso de Candidatos a Sargentos e
Curso de Candidatos a Cabo. (Associação de Oficiais da Polícia Militar de
Mato Grosso, 2004).
Até 1960, ano de extinção do CIM, foram formadas 06 turmas, totalizando
52 oficiais. A partir de 1967 foram retomados os quadros de oficiais da
PMMT com formação nas academias de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas
Gerais. Devido a falta de efetivo, e amparado por legislação específica — o
Decreto-Lei nº 667/69 — foram admitidos vários oficiais oriundos dos Ór-
Wilquerson Felizardo Sandes 51

gãos de Formação de Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro. (Projeto


Político Pedagógico da Academia de Polícia Militar, 2003).
Em 1987, por meio da Lei nº 5.177/87, foi criada a Academia de Polí-
cia Militar, que só passou a operar no ensino de oficiais em 1993. Neste ano,
devido à necessidade de suprir o efetivo, o governo estadual realizou con-
curso para seleção de oficiais — oriundos dos Órgãos de Formação de
Oficias da Reserva do Exército, porém com a exigência de possuírem expe-
riência de comando ou função militar — pelo curso denominado Curso
Intensivo de Habilitação de Oficiais, com duração de um ano e carga horá-
ria de 1.262h/a. No mesmo período, vários oficiais continuavam a freqüen-
tar academias de outros estados nos cursos regulares de três a quatro anos.
Na tentativa de gerar uma forma de ingresso único e com a ativação
da APM em 1993, foi firmado o primeiro convênio entre Polícia Militar e a
Fundação Universidade Federal de Mato Grosso (FUFMT), objetivando a
elaboração e execução de projetos nas áreas sociais, de pesquisa, da educa-
ção e da cultura, tendo como cláusulas principais: o compromisso entre os
partícipes na elaboração e execução conjunta de projetos no campo soci-
al, da pesquisa, da educação e da cultura; elaboração de termos aditivos na
execução dos projetos detalhando obrigações; compromisso das partes
em ceder pessoal (policiais militares, professores, técnicos), respeitando
os vínculos e regimes trabalhistas, para participar de projetos e atividades
do convênio; autorização da PMMT para que a FUFMT tenha acesso às
informações necessárias ao desenvolvimento das ações; ônus para a PMMT
referente ao custeio das despesas com a elaboração e execução dos proje-
tos; autorização da PMMT referente a publicação e divulgação dos resulta-
dos alcançados; autorização da FUFM para que a PMMT tenha acesso nas
instalações. (Convênio n.º 042/2003 - FUFMT)
Em 1994, por ato governamental — Decreto Estadual nº 3.144/93 —
foi inaugurado o Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar do Esta-
do de Mato Grosso (CFO), destinado a formação, em nível superior, de
tenentes durante três anos. O ingresso foi por concurso vestibular promo-
vido pela Universidade Federal de Mato Grosso, mediante Termo Aditivo ao
Convênio nº 042/2003 - FUFMT.
Em 1996, por resolução estadual, foi declarada a equivalência do CFO
ao nível superior (Resolução n.º 253/96 do Conselho Estadual de Educação
de Mato Grosso). O Parecer nº 75/93, do Conselho Federal de Educação, ao
declarar “equivalência” de cursos militares, que esses cursos tem igual va-
lor acadêmico ao de determinados cursos civis, o que possibilita aos gra-
duados de estabelecimentos militares certas facilidades de acesso e de
aproveitamento de estudos nas unidades de ensino civil.
Em 2001, pelo Parecer do Conselho Nacional de Educação, 1.295/01
colocou as ciências militares no rol das ciências estudadas no Brasil.
52 Wilquerson Felizardo Sandes

Em 2003, Parecer do Conselho Estadual de Educação de Mato Gros-


so, mediante análise do Projeto Polícia Pedagógico, passou a ser conferido
ao aluno do CFO o título de Bacharel em Segurança Pública. Até o ano de
2004, a Academia de Polícia Militar formou 09 turmas do Curso de Forma-
ção de Oficiais (Parecer nº 428/2003 – CEE/MT).
Wilquerson Felizardo Sandes 53

Espera-se que os encarregados da aplicação da lei te-


nham a capacidade de distinguir entre as inúmeras tona-
lidades de cinza, ao invés de somente fazer a distinção
entre o preto e o branco, certo ou errado (Comitê Inter-
nacional da Cr uz Ver melha, 1998).

Inicialmente neste capítulo se analisa, comparativamente, os currícu-


los antes e após a implementação das bases curriculares nacionais. É reali-
zado um recorte sobre a aplicação dos PBUFAF nas disciplinas do bachare-
lado. Posteriormente são analisadas as percepções de alunos e educadores
sobre o novo modelo curricular proposto.
Partindo do modelo curricular antigo, os alunos da primeira turma
do CFO, denominada “Turma Pioneira”, ingressaram em 1994 e foram decla-
rados aspirantes em 1996, cumpriram uma carga horária de 4.410h/a. Segue
no Quadro 1 a grade curricular no período entre 1994 a 2000.

Quadro 1 – Gr
Quadro ade Cur ricular da Academia de P
Grade olícia Militar-MT
Polícia Militar-MT-- Período
Período
de 1994 -2000
1. Administração de Recursos Humanos
2. Administração Financeira e Orçamentária
3. Armamento Munição e Explosivos
4. Atividade de Bombeiro
5. Cerimonial e Protocolo
6. Comunicações
7. Correspondência Militar
8. Criminalística
9. Criminologia
10. Defesa Civil
11. Defesa Pessoal *
12. Deontologia
13. Didática
14. Direito Administrativo
15. Direito Ambiental
16. Direito Civil
17. Direito Comercial e do Consumidor
18. Direito Constitucional
19. Direito da Criança e Adolescente
54 Wilquerson Felizardo Sandes

20. Direito Penal *


21. Direito Penal Militar
22. Direito processual penal
23. Direito Processual Penal Militar
24. Economia Geral
25. Economia Política
26. Educação Física Desportiva
27. Educação Física Militar *
28. Emergências e Traumas
29. Estágio Supervisionado *
30. Estatística
31. História da Polícia Militar
32. Informática
33. Inglês
34. Instrução Técnica e Tática de Combate
35. Inteligência Policial
36. Introdução a Administração
37. Introdução a Comunicação Social
38. Introdução ao Estudo de Direito
39. Língua Portuguesa
40. Medicina Legal
41. Metodologia Científica
42. Natação
43. Noções de Serviço Social
44. Noções de Topografia Militar
45. Operações de Polícia de Choque
46. Operações Especiais Repressiva
47. Oratória
48. Ordem Unida
49. Organização e Métodos
50. Policiamento Florestal
51. Policiamento Montado
52. Policiamento Ostensivo de Trânsito e Rodoviário
53. Prática Forense
54. Processo Decisório
55. Prova Forense
56. Psicologia Social
57. Regulamento e Normas
58. Repressão às Drogas
59. Segurança Física de Instalações e Dignitários
60. Sociologia
61. Técnicas Gerais de Policiamento Ostensivo *
62. Teoria e Prática de Redação
63. Tiro Policial

*Fonte: Plano Geral de Ensino da APMMT, 1995. (*) Maior carga horár ia.
Wilquerson Felizardo Sandes 55

No quadro 1, somam-se 63 disciplinas, com destaque em termos de


carga horária as seguintes disciplinas: Técnica Policial, Disciplinas Jurídi-
cas. As disciplinas mais abordadas durante os três anos foram: Técnica
Geral de Policiamento; Ordem Unida; Tiro Policial; Educação Física; Defesa
Pessoal; Direito Penal.

***

Conforme documentos oficiais do Ministério da Justiça, a área de


segurança pública vislumbrou um aumento dos índices de violência e ape-
lo da população. Na época foi desenvolvido um projeto focado no treina-
mento para profissionais da área de segurança, integrado ao Subprograma
de Gestão e Desenvolvimento de Recursos Humanos no Programa de Mo-
dernização do Poder Executivo Federal, realizado entre o Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão - MP e o Banco Interamericano de De-
senvolvimento - BID. O projeto foi implementado pelo Ministério da Justi-
ça - MJ, apoiado pelo Programa das Nações Unidas para o Controle Interna-
cional de Drogas - UNDCP, que diagnosticou a necessidade de formação,
aperfeiçoamento e especialização de pessoal das polícias federais e estadu-
ais; desenvolvimento de propostas de compatibilização curricular para ga-
rantir o princípio de eqüidade dos conhecimentos e a modernização do
ensino policial.
Consta que o primeiro diagnóstico foi desenvolvido em 1998 e reto-
mado em 1999, que consistiu na análise externa e interna das organizações
policiais. O trabalho apontou para a redefinição de um perfil desejado para
a orientar a formação do profissional da área de segurança do cidadão;
delineamento dos cursos, composição de grades curriculares; novos con-
teúdos abrangendo policiamento voltado para a relação polícia/comunida-
de, o exercício de valores morais e éticos e o fortalecimento dos Direitos
Humanos; novas tecnologias em educação.
Após o diagnóstico, buscou-se uma homogeneização dos cursos de
formação e o planejamento curricular, com o propósito de assegurar o
princípio de eqüidade no processo de formação, garantindo unidade de
pensamento e ações adequadas às necessidades sociais vigentes.
Competências básicas foram estabelecidas aos profissionais de segu-
rança pública, tais como:

- facilidade de apreensão;
- flexibilidade de raciocínio;
- objetividade;
- método/senso de organização;
- espírito de observação;
56 Wilquerson Felizardo Sandes

- faculdade de expressão oral e escrita;


- capacidade de interpretação;
- caráter responsável;
- capacidade para prevenir e adaptar - se a novas situações;
- percepção discriminativa e diferencial;
- reação rápida a estímulos;
- estabilidade emocional;
- capacidade de direção / espírito de coordenação;
- iniciativa;
- sociabilidade;
- memória associativa de nomes, fatos e fisionomias;
-discrição acentuada em assuntos confidenciais;
- vigor físico;
-eficiência sob esforço físico intenso e prolongado;
- entusiasmo profissional;
- lealdade;
- devotamento;
-capacidade de compartilhar informações;
-capacidade de trabalhar em equipe;
- capacidade de resolver conflitos.

A base curricular foi composta por uma base comum e uma


diversificada. A base comum para todos os cursos de formação, constituída
de disciplinas que congreguem conteúdos conceituais, procedimentais e
atitudinais, inerentes ao perfil desejado do profissional da área de seguran-
ça do cidadão, reunidas em seis áreas de estudos: missão do policial, técni-
ca policial, cultura jurídica, saúde do policial, eficácia pessoal, linguagem e
informação, norteadas por seis temáticas centrais: cultura - sociedade - ética
- cidadania - Direitos Humanos - controle das drogas, que deverão perpassar
as teorias e práticas a serem trabalhadas, bem como, o processo de ensino
e de aprendizagem dos cursos de formação. A base diversificada seria
formulada por cada centro de ensino com o objetivo de reunir disciplinas
que atendam as características específicas de cada curso de formação e as
peculiaridades regionais.

***

Por conta das Bases Curriculares Nacionais, em 2001, a Academia de


Polícia Militar de Mato Grosso realizou uma revisão na matriz curricular
com a presença de professores e instrutores, buscou-se desenvolver a
interdisciplinariedade e transversalidade entre os conteúdos, distribuídos
em uma carga horária de 4.780h/a, conforme Quadro 2.
Wilquerson Felizardo Sandes 57

Foram criadas seis áreas de estudo: missão, técnica, cultura jurídica,


saúde, eficácia, linguagem e informação. O conteúdo da base comum pos-
sui 11,30% voltada para missão policial (Filosofia, Política, Sociologia, Ética
e Cidadania, Psicologia), 17% para écnica policial (Tiro, Defesa Pessoal,
Operações Policiais, Técnicas Gerais de Policiamento), 23,22% de cultura
jurídica, 3,77% de saúde física e mental, 9,41% para eficácia pessoal (Gestão,
Relações Inter-pessoais), 16,11% para linguagem e informação (Didática,
Estatística, Idiomas, Pesquisa, Informática), 5,54% para estágio e 11,40% para
atividades complementares. As áreas temáticas englobam cultura, socieda-
de, ética, cidadania, direitos humanos e controle de drogas.

Quadro 2 - Matr
Quadro iz Cur
Matriz Currricular da Academia de Polícia Militar –MT
Polícia –MT-- 2001
Disciplinas: Missão Policial - 540h/a - 11,30%
1. Fundamentos: Estado, Política de Segurança *
2. Ciência Política *
3. Filosofia *
4. Sociologia Geral
5. Psicologia Social da Violência
6. Noções de Serviço Social
7. Sociologia do Crime e da Violência
8. Ética e Cidadania
9. Fundamentos da Polícia Comunitária *
10. Gestão de Qualidade *

Disciplinas: Técnica Policial - 860h/a - 17,99%


1. Arma de Fogo, Munição e Explosivo
2. Bombeiro Militar e Defesa Civil
3. Defesa Pessoal
4. Emergências e Traumas
5. Técnicas Gerais de Policiamento
6. Tiro Policial
7. Criminalística
8. Instrução Tática de Combate e Topografia
9. Natação Utilitária
10. Medicina Legal
11. Policiamento de Trânsito
12. Drogas e Entorpecentes
13. Segurança Física de Instalações e Dignitários
14. Inteligência Policial
15. Operações de Alta Complexidade
16. Polícia Judiciária e Prática Forense
17. Polícia Ambiental
58 Wilquerson Felizardo Sandes

Disciplinas: Cultura Jurídica - 1.110h/a - 23,22%


1. Introdução ao Estudo de Direito
2. Direito Constitucional
3. Direitos Humanos e Cidadania *
4. Regulamento e Normas
5. Criminologia
6. Direito Administrativo
7. Direito Civil
8. Direito Penal
9. Direito Processual Penal
10. Direito Ambiental
11. Direito da Criança e do Adolescente
12. Direito Penal Militar
13. Direito Processual Militar

Disciplinas: Saúde Policial - 180h/a – 3,77%


1. Educação Física Militar
2. Saúde Física
3. Natação
4. Saúde Psicológica

Disciplinas: Eficácia Pessoal - 450h/a - 9,41%


1. Introdução à Administração
2. Organização, Sistemas e Métodos
3. Relações Interpessoais *
4. Gestão de Logística
5. Planejamento e Gestão
6. Gestão de Pessoas
7. Gestão de Recursos Públicos
8. Processo Decisório
9. Gerenciamento de Crises *

Disciplinas: Linguagem e Informação - 770h/a - 16,11%


1. Didática
2. Estatística
3. Informática
4. Língua Espanhola *
5. Língua Portuguesa
6. Metodologia Científica
7. Correspondência PM
8. Comunicação Social
9. Língua Inglesa
Wilquerson Felizardo Sandes 59

10. Pesquisa (Prática)


11. Telecomunicação
12. Monografia

Estágio - 265h/a - 5,54%


1. Planejamento e Coordenação
2. Execução de Estágio
3. Análise de Resultados

Atividades Curriculares - 545c/h - 11,40


1. Disposição da Direção
2. Atividades de Ensino
3. Orientação Educacional e Psicológica
4. Cerimonial e Protocolo
5. Saúde: Jogos Acadêmicos
6. Ordem Unida
7. Visita e Viagem de Estudo

Fonte: Plano Político Peda gógico da APMMT, 2003; * novas disciplinas curriculares.

Analisando o novo currículo em relação ao anterior, foram acrescen-


tadas onze disciplinas, as principais inovações foram na inclusão de Funda-
mentos: Estado, Política de Segurança; Ciência Política; Filosofia; Direitos
Humanos e Cidadania; Relações Interpessoais; Língua Espanhola; e
Monografia. Isso indica que do antigo currículo mais se acrescentou do
que supriu, pois só ficaram ausentes as seguintes disciplinas: História da
Polícia Militar; Economia; Oratória e Direito Comercial e do Consumidor.
Enquanto o currículo velho enfatizava técnicas policiais e cultura
jurídica, o novo currículo enfatizou cultura jurídica e linguagem e informa-
ção. A área denominada missão policial se preocupou em situar os alunos
em aspectos filosóficos, sociais, políticos, psicológicos e assistenciais. A
área técnica policial manteve- se com as mesmas as disciplinas do antigo
currículo, apesar de menor ênfase em carga horária.

***

Em relação aos PBUFAF foram contemplados nas disciplinas: Arma


de Fogo; Defesa Pessoal; Direitos Humanos; Ética e Cidadania. Tais discipli-
nas abordam métodos e técnicas utilizadas pelos profissionais da área de
segurança do cidadão, bem como a integração entre as diversas áreas de
conhecimento e as especificidades presentes, dentro do pressuposto da
atuação destes profissionais de forma integrada e eficiente, além de sua
adequação aos requisitos colocados pelo Estado de Direito democrático.
60 Wilquerson Felizardo Sandes

A disciplina Ar ma de FFog
Arma og
ogoo capacita os discentes a recorrer ao uso da
arma de fogo dentro dos princípios da legalidade, segurança - própria e de
terceiros - e da proporcionalidade; e desenvolver habilidades para montar,
desmontar, manejar e utilizar o armamento convencional disponibilizado
pela força policial. As armas de fogo devem ser usadas somente como
último recurso, depois que outros meios forem tentados e falharem, ou
quando, em razão de circunstâncias, o recurso aos referidos meios não
deixa entrever qualquer possibilidade de êxito, garantindo assim justificati-
va legal para seu emprego. A bibliografia sugerida aponta para os Princípi-
os Básicos sobre a Utilização da Força e Armas de Fogo pelos funcionários
responsáveis pela aplicação da lei.
A disciplina Defesa Pessoal desenvolve técnicas não letais de defe-
sa, controle e imobilização, segundo o princípio da proporcionalidade. As
técnicas e táticas de defesa pessoal, quando possível, devem ser emprega-
das após o uso de outros meios e instrumentos mais brandos de forma
haver proporcionalidade entre a situação real e os meios disponíveis para
fazer com que a lei seja cumprida. Toda a ação policial deve ser permeada
pelo princípio da legalidade e moralidade.
Dir eitos Humanos
Direitos Humanos, outra disciplina da Base Curricular, também abor-
da que os profissionais da área de segurança do cidadão devem ter como
pano de fundo de suas ações a Declaração Universal dos Direitos Huma-
nos, Código de Conduta para Funcionários Responsáveis pela Aplicação da
Lei, Princípios Básicos Sobre o Uso da Força e Armas de Fogo, Pacto Inter-
nacional pelos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto Internaci-
onal pelos Direitos Civis e Políticos, possibilitando assim que seus atos
possam corresponder aos princípios ético, legal e técnico na promoção e
proteção dos direitos fundamentais do cidadão (vida, integridade física e a
dignidade), mediante alternativas que busquem a negociação, mediação,
persuasão e resolução de conflitos, sem a extrema necessidade do uso da
força ou de armas de fogo.
Na disciplina Ética e Cidadania
Cidadania, em uma percepção mais filosófica,
consta apontamentos sobre o uso da força e arma de fogo, de forma ética e
legal. O código de conduta para funcionários encarregados de fazer cum-
prir a lei. Consta nas referências bibliográficas sobre as resoluções da Orga-
nização das nações Unidas e Cruz Vermelha Internacional. Na disciplina
ética e cidadania os apontamentos bibliográficos foram superiores as de-
mais disciplinas.

***

Para identificar a percepção dos educadores, realizei um entrevista


semi-estruturada com profissionais que atuaram em nível nacional e regio-
Wilquerson Felizardo Sandes 61

nal na elaboração e implementação das bases curriculares no âmbito da


APM. Os entrevistados responderam sobre o processo de criação da base
curricular nacional e seus avanços na Academia de Polícia Militar Costa
Verde, a partir do ano de 2001.
Visando entender a concepção original da Base Curricular Nacional,
em entrevista com Bernadete Cordeiro - pedagoga e consultora
organizacional da Secretaria Nacional de Segurança Pública, que coorde-
nou o projeto de elaboração da Base Curricular Nacional para os Profissio-
nais de Segurança Pública - recortamos os seguintes posicionamentos:

[...] As bases buscavam a criação de um currículo co-


mum e que pudesse trazer uma unidade de pensamento
das diversas polícias brasileiras [...].

[...] O estudo tinha como base conceitual uma linha


filosófica educacional pautada em alguns eixos de cons-
trução do conhecimento com autores conhecidos como
Piaget e o brasileiro Libaneo, este também fala do pro-
cesso de apreensão e aplicação do conhecimento. Na
época tínhamos também o relatório da UNESCO sobre
as dimensões do aprender: saber, sa ber fazer e querer
fazer [...].

[...] Quanto ao currículo elaborado, uma das coisas que


podemos contar como avanço foi a inclusão da discipli-
na de direitos humanos e uma outra disciplina que é a
abordagem sociológica e psicológica da violência, visan-
do estudar violência de forma mais ampla e não apenas
a violência do ponto de vista de escolas forense [...].

[...] Ocorreram modificações nas bases após 2003, mas


por mudança de governo em virtude do novo Plano
Nacional de Segurança Pública, com novas percepções
ideológicas sendo que as bases foram substituídas pela
Matriz Curricular Nacional, que a partir de 2003 serve de
diretrizes, referencial, norteadores para a formação dos
profissionais de segurança pública nos Estados da Fede-
ração [...].

O entrevistado Almir Balieiro - coronel aposentado da Polícia Militar


de Mato Grosso, mestre em Educação, foi o comandante da Academia de
Polícia Militar Costa Verde no período de 2000 até o primeiro bimestre de
2003 ¯ contribuiu com alguns relatos sobre a formação:
62 Wilquerson Felizardo Sandes

[...] O governo federal apresentou uma proposta dife-


rente onde se buscava novas competências que permi-
tissem uma interlocução maior com a sociedade e assim
buscou-se em Mato Grosso, um modelo pedagógico para
contemplar novas competências [...].

[...] A proposta era desviar o foco das ações militares,


como enfoque de guerra, de combater o inimigo, tanto
que se referia ao policial como guerreiro [...].

[...] Os novos oficiais precisavam ser levados a refletir, a


pensar, pesquisar e poder argumentar as suas falas, o
aluno deveria produzir conhecimento [...].

[...] O perfil do aluno passou a ser mais crítico e


participativo, isso era algo positivo, passou-se a ter mais
liberdade, algumas aulas eram desenvolvidas dentro da
Universidade Federal de Mato Grosso, isso foi polêmico,
muito diziam que os alunos estavam sendo apaisanados
[...].

Sobre a nova formação dos oficiais, a educadora Regina Lúcia Borges


de Araújo - pedagoga, foi coordenadora pedagógica da Academia de Polícia
Militar Costa Verde durante nove anos, no período de 1995 até o primeiro
bimestre de 2003 - proporcionou as seguintes contribuições:

[...] O foco era aproximar o policial da sociedade dentro


de um novo perfil, diferente do exército, sem o preparo
de guerra, pois isso fazia com que o policial tivesse uma
visão de combater o inimigo [...].

[...] O Ministério da Justiça fazia parcerias com institui-


ções internacionais e nacionais para realizar pesquisas
na área educacional, e essas pesquisas citam que o mo-
delo de polícia já não servia mais [...].

[...] Trabalhamos na academia com a questão do ser,


aprender a ser e a gir, as vezes você até sabe o que é o
certo, mas não tem a atitude correta, e isso não se dá
simplesmente uma mudança de currículo, mas de atitu-
de [...].

[...] A questão curricular não é suficiente, pode-se for-


mar ótimos alunos, se cair na mão de profissionais que
tem outro tipo de comportamento não adianta, é preci-
so acompanhamento [...].
Wilquerson Felizardo Sandes 63

[...] O currículo levou em conta a construção do conhe-


cimento, e não apenas a reprodução do conhecimento, o
aluno precisa ser crítico [...].

Quanto à percepção dos alunos durante o processo de forma-


ção, recorro à monografia elaborada por cinco formandos da turma de 2003,
também sujeitos desta pesquisa, estes apontam disparidades entre o que
propunha a base curricular da SENASP e o currículo da academia. O grupo
de trabalho percebeu desequilíbrio entre as disciplinas ministradas, e ob-
servaram que disciplinas com foco nas atividades do policial militar não
foram priorizadas. Vejamos:

[...] a grade curricular da APMCV direciona apenas 17%


de sua carga horária para as disciplinas na área técnica
policial, ao passo que direciona 23% do total da carga
horária para as disciplinas jurídicas, isto traduz em um
maior preparo jurídico em detrimento do técnico poli-
cial, o que é o maior ofício do policial militar [...]. Há que
se priorizar a área técnica policial em detrimento àque-
las relativas à atividade policial. Desta forma, o currículo
formará policiais mais preparados dentro das técnicas
policiais, o que se traduziria em uma maior qualidade na
prestação de ser viços à sociedade. (CABELHO, G. P. et al.,
2003).

***

Analisando as informações curriculares do antigo modelo em


relação ao novo currículo do curso de Bacharelado em Segurança Pública,
e considerando também as contribuições dos sujeitos e as entrevistas com
os educadores já apontados, visualizo um grande esforço na tentativa de
melhorias na formação por meio das novas bases curriculares.
Porém, nota-se contradições de percepções entre educadores
e alunos, por um ângulo os educadores dando mais ênfase ao ser humano
mais crítico e participativo através da inclusão de disciplinas humanizantes,
e, por outro ângulo, os sujeitos apontando disparidades e desequilíbrio
entre as disciplinas ministradas, dada a ênfase ao conhecimento jurídico e
pouca prioridade as disciplinas do ofício de polícia.
64 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 65
66 Wilquerson Felizardo Sandes
Wilquerson Felizardo Sandes 67

Neste capítulo abordo alguns conceitos sobre a condição juvenil e


relaciono o perfil do jovem em geral ao jovem que ingressa no Curso de
Formação de Oficiais.
O primeiro desafio é categorizar juventude, segundo Abramo (2005)
juventude é um desses termos que parecem óbvios, dessas palavras que se
explicam por si mesmas.Todavia, vários autores conceituam juventude em
dimensões legal, cultural e histórica. Abramo relativiza o conceito através
de um recorte sociológico e cronológico. Em sua concepção:

[...] muitos dos estudos recentes têm sido feitos sobre os


modos de transição para a vida adulta, cuja finalização,
classicamente, guarda os seguintes marcos: deixar a es-
cola; começar a trabalhar; sair da família de origem; casar
e formar um novo lar (e ter filhos). Contudo, tais estudos
têm mostrado modificações nestes processos, trazidas
em grande parte pelas mudanças no mundo do traba-
lho e nas possibilidades e padrões de inserção no mun-
do adulto. (ABRAMO, 2005, p. 44).

O grupo de idade tomado na pesquisa, de 15 a 24 anos,


é que vem se tornando convenção, no Brasil, para abor-
dagem demográfica sobre juventude, pois corresponde
ao arco de tempo em que, de modo geral, ocorre o pro-
cesso relacionado à vida adulta.(p. 45).

Para Morgado (2007, p.38) a juventude é uma categoria universal,


mas não é homogênea “considerar suas peculiaridades regionais,
comportamentais, culturais e políticas é condição fundamental no desem-
penho das ações voltadas para esse segmento populacional”.
Em uma pesquisa nacional com o tema Perfil da Juventude Brasileira,
realizada em 1999 e publicada por Abrama e Branco (2005) revela a percep-
ção da juventude entre 15 a 24 anos. Em síntese, dos jovens brasileiros uma
minoria possui curso superior; apenas 36% estão inseridos no mercado de
trabalho e, por necessidade; a maioria possui renda familiar abaixo de 10
salários mínimos; vivem em cidades; tendem ao catolicismo; 69% se consi-
deram brancos ou pardos; 78% são solteiros e não possuem filhos; 48%
68 Wilquerson Felizardo Sandes

moram com os pais; preocupam-se com a segurança e o emprego; as me-


lhores amizades foram formadas na escola ou no bairro; a maioria estuda
em escola pública; não costumam participar de grupos de jovens; 40% con-
sideram que os direitos dos presos e bandidos devem ser respeitados; a
metade considera a política importante; a maioria nunca fumou e nunca
usou drogas como maconha e cocaína; mais da metade costuma tomar
bebida alcoólica; 75% apóiam a redução da maioridade penal; 80% nunca
foram vítimas de assalto, mas 77% já tiveram algum contato com arma de
fogo. Quanto aos direitos de cidadania, 34% já foram humilhados ou discri-
minados; 7% já sofreram violência familiar. Quanto ao lazer nos finais de
semana costumam encontrar amigos, ouvir rádio, assistir televisão e namo-
rar. Os tipos musicais favoritos são sertanejo, rock, pagode e axé. Quanto a
sexualidade 63% possuem parceiros sexuais estáveis, sendo que 59% usam
camisinha para evitar doenças ou gravidez.

***

Isto posto, o universo de jovens brasileiros, mato-grossenses em par-


ticular, acreditam que a vida melhorará, principalmente em virtude do
estudo e do trabalho. Uma das opções de melhoria de vida é a opção de
ingresso na vida pública, o que corresponde a 3% dos jovens que com-
põem a população economicamente ativa. Na capital de Mato Grosso, muitos
jovens civis, com idade requisitada entre 17 a 24 anos, das diversas regiões
do Estado, almejam ingressar na carreira policial militar como oficiais. Toda-
via esbarram no processo seletivo que, além da alta concorrência, estabelece
critérios rigorosos no sentido de selecionar 20 candidatos, anualmente.

[...] o CFO incorporará jovens selecionados com apti-


dões policiais militares, e continuará a selecioná-los em
03 (três) anos [...] através de aprimorada educação [...]
visa escolher os melhores, entre os pretendentes e englo-
ba os aspectos intelectual, físico, médico/odontológico e
psicológico. (Decreto Estadual n. 3.144 de 06 de julho de
1993).

Quanto ao perfil sócio-econômico dos alunos aprovados no CFO


(UFMT, 2006), a maioria é cuiabana; brancos e pardos; solteiros; freqüenta-
ram escola particular em Cuiabá e Várzea Grande em ensino regular; alunos
em cursos matutinos; realizaram curso pré-vestibular; buscam formação
profissional voltada para o trabalho devido suas aptidões pessoais e ocupa-
ção do mercado de trabalho; a maioria nunca trabalhou; procuram atendi-
mento médico na rede particular; usam micro computadores; residem em
casa própria com uma renda familiar entre 5 a 15 salários mínimos; não
fumam, mas bebem eventualmente.
Wilquerson Felizardo Sandes 69

No quadro, a seguir, comparo alguns aspectos do perfil da juventude


brasileira aos jovens que ingressam no CFO. Nota-se que as idades se apro-
ximam quando comparadas, porém os jovens do CFO possuem vantagens
sociais e econômicas, principalmente em relação a escola, trabalho, renda
familiar e acesso tecnológico.
QUADRO: Compar
ADRO: ação entr
Comparação e os perf
entre is dos jo
perfis vens do Br
jov asil e jo
Brasil vens do CFO
jov

Fonte:Abramo, Branco (2005); UFMT (2006).

A carreira via CFO enquadra-se em uma busca de melhor perspectiva


funcional, mas que também esbarra na competitividade, sobressaindo aqueles
que jovens que tiveram mais oportunidade de estudar e não foram empre-
gados precocemente no mercado de trabalho.
O painel apresentado se enquadra na pesquisa de Branco (2005) que
revela que os jovens, em sua maioria, são indivíduos relegados ao preen-
chimento de posições ocupacionais de baixa qualidade, ostentando víncu-
los precários e de menos remuneração, situados na camada inferior do
setor informal, há evidências de uma procura de ocupações pelos jovens,
prejudicada pelo pouco preparo educacional e profissional em um merca-
do cada vez mais excludente e competitivo.
Sobre o mercado de trabalho e alta taxas de desemprego juvenil,
Morgado e Sanches (2006) entendem:

São muitas as razões que dificultam ao jovem a conquis-


ta de um emprego, entre os quais sobressaem as dificul-
dades estruturais impostas pelo padrão de crescimento
econômico pouco generoso na geração de oportunida-
70 Wilquerson Felizardo Sandes

des, principalmente para aqueles que possuem escassa


experiência profissional e, muitas vezes, com escolarida-
de inferior à requerida, pois o processo de formação foi
interrompido sem que tivessem completado o ciclo es-
colar compatível à sua faixa etária. (MORGADO e
SANCHES, 2006, p. 12).

À luz das evidências acima, entendo que os jovens do CFO são oriun-
dos da classe média e ingressaram na carreira policial militar devido a base
de apoio familiar em relação aos estudos e ao trabalho. Conforme Bourdieu
(1992, p. 218 ) “o ensino superior tende a ser reservado as classes mais
favorecidas economicamente, estabelecendo e reconstruindo uma hierar-
quia social”.
Conforme a Fundação Perseu Abramo – FPA (2006), um aspecto ide-
ológico comum a qualquer classe média é a idéia de que os filhos possam
ter uma vida melhor que seus pais. Essa esperança de que o futuro possa
ser melhor que o presente ou o passado é considerada por alguns autores
a sua principal marca.
No Atlas da Nova Estratificação Social no Brasil organizado por
Pochmann (2006), a classe média:

[...] destaca-se por posições altas e intermediárias tanto


na estrutura sócio-ocupacional como na distribuição
pessoal da renda e riqueza. Por conseqüência, a classe
média termina sendo compreendida como portadora
de autoridade e status social reconhecidos, bem como
avantajado padrão de consumo [...] Em valores de 2005,
o piso e o teto da renda mensal das famílias de classe
média equivaleria a R$ 1.556,00 e R$ 17.351,00 res-
pectivamente. (POCHMANN, 2006, apud FPA, 2006).

Do ponto de vista econômico (poder de compra e renda familiar), a


Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa – ABEP elaborou um estudo
denominado Critérios de Classificação Econômica no Brasil (2003), que
estratifica a população brasileira em sete classes econômicas: A1 (acima de
32,47 salários mínimos); A2 (acima de 19,36 salários mínimos), B1 (acima
de 11,68 salários mínimos), B2 (acima de 6,95 salários mínimos), C (acima
de 3,86 salários mínimos), D (acima de 1,76 salários mínimos) e E (acima
de 0,86 salários mínimos). As classes A1 e A2 são consideradas elite e
classe alta. As classes B1, B2 e C integram as classes média-alta, média e
média-baixa. As classes D e E compõem a classe baixa à linha da pobreza.
Considerando que os jovens que ingressam no CFO possuem renda
familiar entre 5 e 15 salários mínimos, já se enquadravam economicamente
entre as classes B1, B2 e C. Ao que tudo indica, a carreira de oficial tende a
Wilquerson Felizardo Sandes 71

aumentar o horizonte social dos jovens tenentes, sendo que estes poderão
conquistar autoridade e status social e, ao longo da vida profissional, atingir
a classe A2, com renda acima de 20 salários mínimos.
Após análise dos dados deste capítulo, concluo que os jovens tenen-
tes cuiabanos e interioranos, filhos da classe média, que migrou para Mato
Grosso , tendem a ingressar no CFO atendendo uma expectativa pessoal e
familiar de boa ocupação no mercado de trabalho, apostando num futuro
promissor.
A historiadora mato-grossense Elizabeth Madureira Siqueira, retrata o
jovem mato-grossense do século XIX, quando retornavam dos estudos rea-
lizados nas parcas faculdades do sudeste do império:

[...] de lá cada qual rumava para o seu destino. Anos se


passavam e os jovens poucas vezes retornavam à sua
terra natal durante o período de estudo, preferindo re-
gressar definitivamente quando formados. Novamente
se reproduzia a emocionante cena no Porto de Cuiabá,
agora com familiares e amigos despojados de lenços,
mas de braços abertos para recepcioná-los. (SIQUEIRA,
2006, p. 8).

Já neste século não temos a cena do Porto de Cuiabá, mas ao final do


curso de formação de oficiais, os jovens agora chamados aspirantes, são
recepcionados pela família e amigos em estilo festivo, com trajes de gala,
espadas prateadas e ao som de valsa caminham singularmente. O território
do jovem oficial não é mais a Academia, mas sim o território mato-grossense,
próximo de tudo e de todos.
72 Wilquerson Felizardo Sandes

Egressos do Curso de Formação de Oficiais

Este capítulo é resultado das entrevistas realizadas com os egressos


do CFO sobre o uso legal da força, no período de formação e atuação
policial. Os entrevistados são identificados por meio de uma letra do Códi-
go Fonético Internacional de Comunicação, usado costumeiramente no
âmbito das instituições militares ao citar letras do alfabeto, a fim de se
evitar ruídos de comunicações de rádio,“A Alfa, B ravo, C harlie, D elta, E cho,
Fox, Golf [...]”.
O entrevistados já atuam nas ruas como comandantes de tropa, for-
mados em 2003, possuem três anos de prática policial. São jovens com
idade entre 22 a 27 anos, alguns já se casaram, apenas um entrevistado
possui filhos, a renda familiar daqueles que já se casaram varia entre até
R$5.000,00, aqueles que moram com os pais, a renda familiar chega a
R$10.000,00.
A seguir consta a análise de vários trechos das entrevistas, sendo que
cada pergunta foi transformada em um tópico, constam as respostas uma a
uma dos entrevistados dentro de cada tópico, com citação diretas e indiretas.

***

- Sobre o que o egresso aprendeu no Curso de Formação de Oficiais


(CFO) sobre Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo
(PBUFAF).

Alfa entende que a força tem que ser proporcional à ação do opo-
nente e que o uso da arma de fogo emprega-se somente quando esgotados
todos os recursos de neutralização quer pela verbalização, quer pelas técni-
cas de imobilização. Bravo entende que ficou muito vago o contato com a
doutrina e o uso do armamento, mas buscou pesquisar sobre o assunto,
quanto ao uso de arma somente para defender a si e a terceiros, porém de
forma proporcional a ação do agressor. Charlie aprendeu os conceitos so-
Wilquerson Felizardo Sandes 73

bre uso da força e entende que mais importante que atirar é saber quando
atirar. Delta aprendeu que o emprego da arma de fogo em uma abordagem
deve ser utilizada em ultimo caso visando defender a integridade física
própria ou de terceiros e discorreu sobre os diversos níveis de força.
Echo aponta que o uso da força deve ser moderado e sempre proporcio-
nal.

- Sobre onde e como surgiu os PBUFAF e se foram citados no curso.

Alf
Alfaa não se recorda. B rraavo disse não saber. Charlie ouvir falar mas
não se lembra onde surgiu, mas que havia aprendido nas aulas de direitos
humanos. Delta não se recorda onde surgiu, no curso discutia-se muito
sobre direitos humanos, mas já pesquisou sobre o assunto. Echo não se
lembra.

- Verifica em quais disciplinas do curso o egresso estudou PBUFAF e


qual foi o enfoque.

Alf
Alfaa estudou na disciplina de Técnicas Gerais de Policiamento, com
60h/a; Direitos Humanos, com 30h/a;Tiro Policial, com 90h/a. Na primeira
disciplina citada foi enfocado o uso da verbalização e técnicas de imobili-
zação, na disciplina de Tiro Policial foi visto o momento do emprego da
arma de fogo e em Direitos Humanos estudou tipos de abordagem policial.
Alfa entende que a carga horária das disciplinas citadas deveria ser a maior
do curso, aos invés de disciplinas como e Espanhol e Inglês, que possuíam
carga horária de 120 h/a cada, além disso a assimilação de conteúdos era
difícil pelo fato das disciplinas serem constantemente interrompidas em
sua seqüência, tinha-se uma aula e depois de algum tempo, às vezes sema-
nas, retomava-se ao conteúdo. Bravo se recorda que estudou os princípios
nas disciplinas de Armamento e Explosivos e em Técnicas Gerais de Polici-
amento. O enfoque foi em emprego da força proporcional, seguindo os
princípios da necessidade, legalidade e proporcionalidade. Charlie estu-
dou nas disciplinas de Tiro, Técnicas Gerais de Policiamento, Direitos Hu-
manos, Operações de Alta Complexidade, em Técnicas de Imobilização e
Uso de Tonfa (bastão policial). Na parte de tiro era comentado que o uso de
armamento letal teria que ocorrer somente quando sofresse uma agressão
injusta. Na Técnica Geral de Policiamento o enfoque iniciava com a parte
da abordagem com o uso da verbalização, emprego de força física e uso
letal da força, Charlie lembra também que muito se discutia sobre o uso de
gás, sobre sua proibição ou uso, porém o egresso entende que o uso do gás
atende tratados internacionais de direitos humanos, que prevêem o uso de
agentes químicos pelos agentes de segurança como alternativa não letal. Na
74 Wilquerson Felizardo Sandes

disciplina Operações de Alta Complexidade, o enfoque foi o uso progressi-


vo da força dentro das alternativas táticas de negociação e emprego de
agentes menos que letal. Na disciplina Técnicas de Imobilização e Uso de
Tonfa, também se tocava no uso escalonado da força, iniciando na
verbalização. Exceto a Disciplina de Imobilizações Táticas, todos os demais
instrutores eram policiais militares. Delta se recorda ter aprendido na disci-
plina de Policiamento Ostensivo Geral durante os três anos, e que nessa
matéria procurava conciliar-se legalidade pelo que se aprendia em Direito
Penal e Constitucional, quando estudava o uso da algema o instrutor ques-
tionava sobre a legalidade na ação e as situações de emprego de força.
Segundo Delta, o instrutor sempre colocava vários casos reais e a questão
de que existem diversos níveis de abordar e dentro do policiamento osten-
sivo geral, existe diferenciação entre uma abordagem no trânsito em rela-
ção a uma abordagem de uma força tática, diferente da abordagem em rodo-
vias e em policiamento ambiental. Echo se recorda que estudou os princí-
pios nas aulas de Direito Penal, em virtude do instrutor ser militar, e nas
aulas de Tiro. Que Direito Penal era mais voltado para o uso a força quanto
a legalidade da ação policial e a disciplina de Tiro mais voltada para utiliza-
ção da arma de fogo. Segundo Echo
Echo, nas matérias de Direito Penal sempre
se discutia o uso de algemas e imobilização e a utilização das armas de fogo
eram mais abordadas nas aulas de Tiro.

- Conhecimento sobre o Modelo de Uso da Força.

Alfa disse conhecer o modelo de uso da força, mas não se recorda


categoricamente dos níveis. Bravo disse ter aprendido, mas não se recorda
bem, justificou dizendo que esse assunto não foi muito difundido e que as
cargas horárias de disciplinas como Espanhol e Inglês eram superiores as
disciplinas específicas de polícia, estas possuíam 90h/a enquanto aquelas
120h/a. Charlie disse conhecer e citou a verbalização, uso de força física e
bastão policial, uso de agentes menos que letal e uso da arma letal, sendo
um total de quatro níveis. Que em uma especialização aprendeu o seguin-
te modelo: verbalização, uso da força física, uso do bastão policial e outros
equipamentos (rede e espuma), uso de agentes químicos (gás), depois uso
de munições menos que letais (munição anti-motim, de impacto controla-
do, pistola laser) e, por último, o emprego de arma com munição letal.
Delta disse conhecer e discorreu sobre a verbalização, contato físico e
visual, contato mais coercitivo pela força física. Echo disse que pode até
conhecer, mas não como apresentou o entrevistador, que estudou na aca-
demia e posteriormente no manual de policiamento ostensivo de Minas
Gerais.
Wilquerson Felizardo Sandes 75

- Em relação ao uso legal da força, verifica-se em que circunstância


emprega-se a verbalização e possíveis exemplos.

Alfa emprega em todas as circunstâncias de abordagem, o primeiro


nível sempre deve ser tentado, para que a partir daí possa evoluir para os
demais níveis. Um exemplo vivenciado foi quando um homem tomou o
próprio filho como refém e que, após três horas de abordagem verbal, fora
resolvida a crise, sendo o filho entregue sem que fosse necessário o avan-
ço aos demais níveis de força. Acrescenta que a maioria das ocorrências
mal sucedidas por parte das guarnições policiais se dá em face ao mal uso
desse primeiro nível de força. Na maioria das ocorrências de desacato, de-
sobediência e resistência ouve falhas quanto a argüição da guarnição com
a pessoa a ser abordada. Alf
Alfaa afirma que a verbalização é o nível mais im-
portante, pois evita conseqüências danosas durante as ocorrências. Bravo
verbaliza no momento de abordar o cidadão quando ele não oferece resis-
tência nenhuma, optou por um exemplo genérico de quando um cidadão
recebe ordem do policial para levantar as mãos e colocá-las na parede e
não tendo resistência procede uma revista. Charlie entende que tem diver-
sas situações de verbalização, é a primeira ação policial, uma ação sempre
tem que passar pela verbalização em todas as situações. Também optou por
um exemplo genérico, ao se cumprir um mandado de prisão, que após
lido, a pessoa não oferece resistência na condução. Delta já partiu para um
exemplo prático vivenciado, quando ele e sua equipe abordaram um veí-
culo onde os ocupantes eram suspeitos de quebrar um bar e ameaçar um
comerciante e que estariam armados, na abordagem foi feita a verbalização
para que eles fossem para parede, não ofereceram resistência, no veículo
acharam uma pistola e, durante a ocorrência, descobriram que só ocorreu
um desentendimento, um dos ocupantes do veículo era policial e a de-
núncia era infundada sobre disparo de arma de fogo e agressão física. Echo
entende que a verbalização é o mais comum em abordagens a suspeitos,
tão comum que praticamente em todas as ocorrências é utilizado, citou um
exemplo sobre a suspeita de um elemento armado, quando o primeiro
contato é a verbalização. Echo comentou durante a sua fala que esta entre-
vista causa a impressão de ser um teste sobre o que foi aprendido e o que
é aplicado na prática.

- Em relação ao uso legal da força, verifica-se em que circunstância


emprega-se a contato físico e como se procede e um exemplo.

Alfa citou um exemplo genérico, uma situação da quebra da ordem


pública por uma pessoa que se encontra no estado de embriaguêz e sem
lucidez nas suas atitudes, verifica-se a ineficiência do uso do primeiro nível
76 Wilquerson Felizardo Sandes

de força, restando avançar para o contato físico para que a ordem pública
seja restaurada. Para Alf
Alfaa o contato físico e realizado com o objetivo de
conter a ação de uma pessoa sem que seja necessário ainda o avanço ao
terceiro nível, no contato físico a pessoa percebe a presença da autoridade
policia. No contato físico a pessoa é segurada por um dos braços e tocada
pelas costas para que entenda que esta sendo conduzida para a delegacia.
Bravo cita um exemplo vivenciado dentro de um presídio, ao dar uma
ordem para que os reeducandos saíssem da cela com as mãos na cabeça
para realização de uma revista de cela, ao sair a segunda ordem é para a
retirada de todas as roupas para examinar as vestes e alguns se negam em
ficar nus e a passarem a roupa, sendo necessário algemá-los e pedir para
que o agente prisional retire as roupas e os reviste, fazendo uma busca
pessoal nas roupas, onde costumam esconder drogas e celulares. O egres-
so se justifica dizendo que é necessário que retirem a roupa por inteiro
pelo fato de alguns dos reeducandos costurarem celulares e drogas na
parte interna da cueca. Charlie aponta um exemplo de contato físico em
uma situação onde é dada uma ordem clara solicitando que alguém se
encoste à parede para uma busca pessoal e, após verbalizar e ocorrendo
desobediência, a pessoa é encostada na parede ou colocada de joelhos,
pois existe uma suspeita ou fundada suspeita para a abordagem policial, já
cabendo, se for o caso, a prisão do suspeito por desobediência devido a
resistência. Para Charlie a frase mais comum:“encosta na parede porque se
você não encostar vai ser conduzida por desobediência!” Tal medida geral-
mente evita o contato físico. Delta cita uma abordagem que realizou em
um pessoal que fez um assalto, recebeu uma informação que havia quatro
pessoas em um bar e que estariam comemorando um assalto em Várzea
Grande. Na abordagem foi verbalizado para irem para a parede, um dos
membros tentou sair do local e foi dada a ordem para que o policial não
deixasse ele sair, eles foram segurados pelos braços e encontrado armas, e
o contato físico ocorreu devido a resistência. Echo disse que o contato
físico é adotado quando apenas a verbalização não é suficiente, citou como
exemplo um local de grande aglomeração de pessoas, quando há a neces-
sidade de abordar um suspeito, às vezes a simples verbalização não basta
para levá-lo para um local mais isolado para realizar uma revista, basta o
policial encostar a mão guiando-o, sem necessitar puxar pelo braço, uma
forma de condução que a pessoa sente que o policial está junto mas sem
usar a força e, muitas vezes, isso basta para que o cidadão acate à ordem.

- Em relação ao uso legal da força, verifica-se em que circunstância


emprega-se a imobilização, como se procede e um exemplo.

Alf
Alfaa aproveita o exemplo anterior, se a pessoa oferecesse resistência
na sua condução para a delegacia, se faria necessário o uso de técnicas de
Wilquerson Felizardo Sandes 77

imobilização, realizada pela torção dos braços até que se esgotem as possi-
bilidades de resistência, normalmente quando se emprega o terceiro nível
de força, se faz necessário o emprego das algemas. Bravo continua seguin-
do o exemplo do presídio, quando se torna necessário realizar a imobiliza-
ção de presos quando se negam a mudar de um raio para outro, principal-
mente quando ele se nega a ser transferido para outro raio alegando
desafetos. O agente algema e, quando ocorre a resistência, o preso e pego
pelos braços e levado quase que arrastado. O egresso complementa que
um dia presenciou um dos reeducandos urinar de medo em virtude da
transferência de raio, mas o local para onde ele seria levado era seguro.
Charlie cita que no momento em que é dada voz de prisão para a pessoa,
independentemente do crime cometido, se ela oferece resistência para evitar
a condução, assim usa-se a imobilização e algema para a condução da pes-
soa, acontece principalmente com pessoas sobre efeito do álcool ou entor-
pecente. Delta indica que a imobilização pode ocorrer ao abordar a uma
pessoa que cometeu um delito, nesse caso cabe a imobilização em virtude
do risco que pode ser oferecido à guarnição, usa-se as algemas como ex-
tensão da imobilização, ocorrendo resistência pode acarretar em lesões e
sendo necessário redigir um auto de resistência. O Egresso complementa
que a imobilização pode ser também sem contato físico, como em uma
ordem para não se mexer, através da intimidação do policial com uma arma
empunhada, isso seria uma imobilização verbal. Echo também aproveita o
exemplo anterior, havendo suspeita fundada que o elemento esteja armado
ou com entorpecentes e ao se realizar uma revista mais minuciosa, ocorre
resistência em acompanhar a guarnição, momento que se utiliza a imobili-
zação e condução. Echo entende que a imobilização vai depender de como
a pessoa vai reagir, às vezes é necessário somente imobilizar o braço, outras
vezes usar algemas, às vezes usar dois ou mais policiais na condução.

- Em relação ao uso legal da força, verifica-se em que circunstância


emprega-se a força não letal, como se procede e um exemplo.

Alfa aponta que o uso de força não letal é mais empregado nos casos
em que o número de pessoas a serem contidas é muito superior ao efetivo
policial de forma que os três primeiros níveis tornam-se ineficientes e até
perigoso para a segurança da guarnição, restando somente o avanço ao
quarto nível de força pelas armas não letais que visam a dispersão dessas
pessoas para tão somente se faça a contenção de grupos reduzidos. Para
que seja feita tal dispersão empregam-se bombas de efeito moral ou uso de
spray de gases de pimenta em meio a multidão ate que ocorra a dispersão.
Alfa complementa que, pela sua experiência policial, pouco se utiliza este
quarto nível, pois as guarnições policiais dos batalhões não possuem aces-
78 Wilquerson Felizardo Sandes

so a esse tipo de arma não letal, chegando até o terceiro nível com o uso de
algema, é o necessário para a condução individual. Bravo cita que a força
não letal seria no caso de um tumulto generalizado que para dispersar a
multidão, por meio de agentes químicos ou numa rebelião os policias uti-
lizam munições anti-motim de impacto controlado. Charlie cita que se usa
a força não letal quando a imobilização se torna ineficaz, discorreu sobre
um exemplo pessoal durante uma prisão, tentou fazer a imobilização e foi
agredido, sendo necessário usar munição anti-motim na perna do agressor.
Outro exemplo foi uma situação que empregou gás em um homem escon-
dido dentro de uma sala com arma de fogo “[...] ele atirou contra a guarni-
ção e nós usamos uma granada de gás lacrimogêneo e ele saiu voado e
desarmado [...]”. Delta entende que a força não letal pode ser empregada
em raros casos quando o abordado não oferece risco letal contra a guarni-
ção. Cita um caso em que um cidadão não estava portando uma arma de
fogo, o uso da força não letal é interessante, a probabilidade de ocorrer algo
errado é ínfimo, mas questiona como saber se o cidadão não vai sacar uma
arma de fogo, cita que é necessário uma verbalização bem imperialista, pois
mesmo que ele tenha uma arma de fogo, vai pensar de duas a três vezes
antes de esboçar reação. Um tanto quanto confuso, entende que arma de
fogo é necessária como supremacia de força para suprir a supremacia nu-
mérica, que a abordagem sempre deve ser de dois policiais para um suspei-
to, mas na prática isso é difícil, devido a escassez de efetivo. Argumenta que
o policial tem que estar armado e sempre verbalizar com a arma em punho,
isso dá a vantagem contra qualquer surpresa do oponente. Echo emprega a
força não letal quando as alternativas de força mais brandas não são sufici-
entes, um exemplo particular é o uso do gás de pimenta e, sempre que
necessário, ela usa em virtude de ser pequena e ser mulher, sente bastante
resistência principalmente dos homens nas abordagens. Desabafa que ao
verbalizar tem a impressão, quase todas as vezes, de ser olhada diferente-
mente, quase todas as vezes precisa verbalizar de duas a três vezes, princi-
palmente em abordagens a bares.

- Procedimentos quando ocorre uma resistência ativa, momento em


que o suspeito tenta agredir o policial de forma não letal.

Alfa comenta que o terceiro nível de força sempre excluirá o uso da


força não letal, devendo ser esgotadas todas as técnicas de imobilização, a
não ser nos casos em que o oponente apresentar o uso de arma letal ou
objetos que tragam risco a integridade física da guarnição, como faca ou
pedra, seria prudente a guarnição, antes de responder com o uso de arma
letal, responder de forma não letal, como por exemplo o uso de munições
anti-motim para que o oponente cesse sua ação. Bravo disse usar tonfas
Wilquerson Felizardo Sandes 79

(bastão policial), cacetetes e empregar a defesa pessoal aprendidas nos cur-


sos. Mas para que haja o desencorajamento de uma ação contra o policial é
necessária a superioridade numérica e de força. Nos casos dos bastões
policiais, os locais no corpo ideais para aplicação dos golpes, seriam bra-
ços e pernas, mas, na prática, no momento da ocorrência,“no calor da refre-
ga” [se referindo ao uma frase que ouviu de um juiz], no embate, as vezes
acaba atingindo áreas sensíveis. Uma vez atingida, a pessoa é conduzida
para atendimento médico, depois é confeccionado auto de resistência à
prisão e boletim de ocorrência policial. Charlie inicia com um exemplo de
um homem que mantinha a filha como refém e portava dois facões. A me-
nina escapou e veio correndo para o lado da guarnição, o pai partiu para
cima dos policiais com os dois facões para o alto. Foi usada munição anti-
motim, acertando a coxa e a cintura do agressor que largou os facões, na
hora, e se sentou, depois foi algemado. Quando a menina correu, o egresso
verbalizou para que o homem largasse a arma, mas como não foi obedeci-
do, disparou em uma distância de seis metros. Delta disse que dificilmente
o policial porta arma não letal, com exceção feita ao bastão policial que,
sendo utilizado de forma negligente, poderá se tornar uma arma letal, pois
o bastão policial exige treinamento e isso não ocorre com freqüência.
Echo cita um caso que vivenciou, ao realizar um cordão de isolamento em
uma manifestação. Um dos manifestantes tentou agredir um superior que
se posicionou atrás da entrevistada, o manifestante foi empurrado, Echo
seguiu junto com ele e caiu no meio do povo que estava partindo para
cima da polícia, recebeu três murros no peito e teve que partir para o
enfrentamento com aquela pessoa. Quando os policiais perceberam, apro-
ximadamente cinco subordinados vieram em auxílio e a pessoa foi presa.
Echo disse que os policiais foram até muito firmes no ato da prisão por
causa da agressão que a entrevistada sofreu, os policiais não toleram agres-
são contra mulheres, querem proteger até demais.

- Em relação ao uso legal da força, verifica-se em que circunstância


emprega-se a força letal e como se procede e exemplo.

Alfa narra que o uso da força letal ocorrerá nos casos em que o
oponente estará portando arma letal, porém antes de se fazer o uso da arma
letal por parte da guarnição, essa deverá tentar a verbalização, isso nos ca-
sos em que o oponente ainda não utilizou da arma letal, mas somente
portando-a. Alf
Alfaa completa que já deparou com o oponente armado e este,
quando avistou a presença da guarnição, efetuou disparos na direção da
guarnição, restando à guarnição responder na mesma força do oponente,
ou seja com uso da arma letal. Para Bravo, pelo que aprendeu, a força letal
só pode ocorrer para salvar a própria vida ou de terceiros. Cita um exemplo
80 Wilquerson Felizardo Sandes

genérico, durante uma ocorrência de rotina na rua, ao abordar uma dupla


de rapazes, pedindo para que parassem, um deles saca de uma arma e atira
contra a guarnição, a guarnição responde com disparos e acaba atingindo
um deles, levando-o a óbito. Charlie aponta uma situação em que o agressor
utiliza-se da arma de fogo ou de uma nítida ameaça contra a vida da guarni-
ção ou de terceiros. Um exemplo vivenciado foi um assalto, quando o
meliante levou o veículo em um roubo a residência, depois assaltou uma
loja e, durante a fuga, ocorreu o cerco policial, ele bateu o veículo e reagiu
atirando na guarnição. Foi necessário o emprego de arma de fogo para
neutralizar aquela ação, ele foi conduzido para o pronto socorro, vindo,
depois de algum tempo no hospital a óbito. Charlie explica que foi realiza-
da uma sindicância pela Polícia Militar, além dessa medida, o processo tra-
mitou em âmbito externo da justiça militar, mas não foi oferecida denúncia
contra a guarnição, por ter sido caracterizada legítima defesa. Delta comen-
ta que o emprego da arma de fogo passa por três vertentes do “triângulo
do fogo” e, quando ele se fecha pode-se usar a arma de fogo em perigo
eminente (saque de uma arma), oportunidade (destreza do policial no uso
da arma e segurança) e habilidade (constante manutenção do armamento e
capacitação diária). Uma outra vertente que é a conveniência (verificar se é
conveniente atirar em um local que cause risco a terceiros). Echo cita que
o uso da força letal é empregado quando todas as alternativas não forem
suficientes. Comenta “[...] ainda não passei por isso, eu espero não passar,
mas se acontecer, sei que em todas as abordagens eu já me preparo mental-
mente para uma possível confronto armado[...]”.

- Verificação de qual o procedimento após o confronto letal.

Alfa argumenta que ao perceber o cessar a ação do oponente e veri-


ficando lesão à integridade física, a primeira preocupação e prestar o devi-
do socorro ao oponente lesado de forma que garanta a sobrevivência da
pessoa alvejada pelos disparos, tomando os procedimentos de acionar o
atendimento médico no local ou deslocando para o pronto socorro. Bravo
cita que a medida é verificar se o cidadão está com vida, caso não tenha
mais pulso e nem respiração, isolar o local e informar a perícia e aguardar
até a chegada dos peritos; e estando com vida, prestar socorro imediato,
levando até o hospital mais próximo. Charlie comenta que caso a pessoa
tenha sinais vitais deve ser encaminhada para pronto socorro, no local do
fato realizar o isolamento, acionamento da perícia, confecção do auto de
resistência a prisão e boletim de ocorrência. Delta informa que o policial
primeiro se aproxima com segurança para verificar se a pessoa ainda tem
sinais vitais, o policial tem o dever de prestar os primeiros socorros no
local, o maior bem é a vida. Na prática o policial a coloca na viatura policial
Wilquerson Felizardo Sandes 81

e a leva para o hospital, a grande preocupação do policial é se naquele local


terá outros comparsas ou pessoas afetas que poderiam causar retaliação.
Quando ocorre supremacia, chama-se o resgate para prestar os socorros, no
caso da morte aquele local passa ser isolado para a perícia criminal. Echo
cita que em tese havendo o óbito, preserva-se o local e chama-se a perícia,
se foi apenas ferimento, levar imediatamente para cuidados médicos.

- Verifica em qual situação o egresso aprendeu sobre o uso da força.

Alfa cita que teoricamente aprendeu no Curso de Formação de Ofi-


ciais, porém a afirmação dos conceitos, em sua prática, ocorreram somente
na experiência operacional vivenciada após o curso, até porque o exercí-
cio desse conteúdo durante o curso foi pouco praticado em virtude do
pouco estágio operacional realizado, mas especificamente falando, tais está-
gios eram realizados eventualmente quando acontecia policiamento em
eventos periódicos. Também vale ressaltar que o domínio desse conteúdo
só será obtido após algum tempo de prática. Bravo cita que aprendeu na
academia e depois de formado no dia a dia do serviço. Charlie cita que
aprendeu na academia e no curso de especialização e que esse assunto
sempre é alvo de comentários e tem muitas literaturas. Delta disse que
aprendeu na academia e na vida prática, experiência de rua. Echo informa
que a teoria aprendeu na academia, mas na prática que é possível visualizar
cada nível de força.

- Verifica como o egresso avalia a sua atuação em relação ao uso legal


da força e se sente insegurança na decisão quanto ao nível adequado a ser
empregado.

Alfa disse que no início de sua vivencia operacional sentia dificulda-


des devido a falta de prática, mas que hoje se sente melhor preparado e
seguro em aplicá-los. Cada circunstância que depara é diferente, como por
exemplo uma situação que se faça necessário o uso de arma letal, por mais
que a prática lhe traga segurança, existem fatores fisiológicos, como a
adrenalina, que pode causar instabilidade emocional, trazendo insegurança
que afete a decisão. Neste momento, de forma espontânea o egresso desa-
bafa:“[...] nem sempre depende da gente, já passei por isso, em uma troca
de tiro o meu estado emocional ficou bastante alterado e, naquele momen-
to, eu não tinha nenhuma condição de tomar decisão, curiosamente eu fui
acalmado por um subordinado que possuía muitos anos de prática policial.
Naquele momento fora ele quem gerenciou tal situação para que não ocor-
resse erros que prejudicasse a guarnição e a minha pessoa, fui ajudado por
um policial conhecido na gíria policial como um soldado antigão, com 42
82 Wilquerson Felizardo Sandes

anos de idade, essa situação marcou minha vida, entendi que o ser humano
não é só razão, a emoção pode tomar conta do nosso corpo e não há nada
que se faça, e se pode cometer erros na decisão, a parte emocional tem que
ser muito exercitada, tem momento que temos que recuar, buscar a calma
para não errar, uma boa decisão hoje não significa uma boa decisão ama-
nhã, e se tem que reconhecer quando e tomado pela emoção e isso e difícil
de ser percebido no momento, só vai ser percebido depois de errar [...]”.
Bravo afirma que sente absoluta segurança e confiança no nível de força a
ser empregada em determinada ocorrência, nunca se viu em nenhuma
situação em que exagerasse no uso da força ou deixasse de utilizá-la de
forma necessária. B rraav o continua, dando sinais de angustia “[...] pode acon-
tecer de amanha eu estar em uma ocorrência que eu não tenha segurança,
que eu tenha medo. Tenho medo de utilizar força letal com pessoas desar-
madas, isso pode ocorrer numa situação de risco e estresse, ou encurralado
por uma multidão furiosa, e sendo o único armamento ali disponível de
uso letal. Esta pergunta me deixou confuso e suscitou várias dúvidas sobre
o uso da força letal, é muito fácil aprender que se usa a força letal para
salvar a sua vida ou a de outro, mas o difícil é em uma situação real decidir,
sobre a sua vida, a vida dos seus subordinados e a vida do oponente em
frações de segundos, e depois ser julgado por alguém que está sentado e
apoio do em princípios jurídicos e doutrinários e dizer o que deveria ser
feito ou não de certo ou errado [...].” CharlieCharlie, emitindo sinais de
autoconfiança, de forma curta avaliou a sua atuação como dentro da técnica
e se algum dia deixou de escalonar a força foi por falta de meios e não por
falta de conhecimento, que sempre foi seguro nas suas ações. Delta Delta, des-
confiado, disse que não se viu em uma situação que estivesse inseguro
quanto ao uso da força, o que procura é cumprir e fazer cumprir a parte
legal, adequando-a ao trabalho prático de rua. Echo inicia com a palavra
“sinceramente”, segue com a palavra “na verdade”, tenta se mostrar segura
no início, que sempre pensa bem antes de tomar uma atitude, evita usar a
emoção, sente-se segura quando preciso utilizar mais a força. Cita que no
início do seu trabalho nas ruas ficava muito ansiosa, hoje em dia está mais
tranqüila. Continua dizendo que em todas as ocorrências tem receio de ser
excessiva ou truculenta, por que pode errar e responder por isso, sempre
os policiais são muito visados nas atitudes que tomam. Ec ho comenta: “[..]
Echo
as experiências do dia a dia estão me trazendo mais segurança [...] penso
que no início eu precisava de auto afirmação e conquistar a tropa, princi-
palmente pelo fato de ser mulher, mas isso também ocorre com os homens
em busca de conseguir seu espaço [...]”.
Em outro momento da entrevista Delta se emociona e aborda esta
questão de forma espontânea, o qual passo a transcrever com detalhes:“[...]
Acredito assim, a nossa vida profissional é regida por parâmetros, a nature-
Wilquerson Felizardo Sandes 83

za humana do policial tende a se envolver emocionalmente, fundindo sen-


timentos frente a uma situação real em relação ao que ele aprendeu. Um
exemplo que vivenciei foi um homicídio em uma comunidade, onde o
pai atirou na esposa na frente de um filho de três anos e quando nós chega-
mos para atender a ocorrência, a criança aproximou-se de mim e disse, “tio
meu pai matou minha mãe”, naquela situação, quando olhei para a criança,
e tendo um filho na idade dele, eu imaginei o meu filho sofrendo como
aquela criança, só que nem por isso eu tinha que ter uma atitude não profis-
sional caso encontrássemos o autor do homicídio, ou seja, muitas pessoas
na sociedade falam que o policial é frio, mas na verdade a gente tem que
ser frio, não podemos tomar partido, tem que fazer cumprir o que determi-
na a justiça, tem muita ocorrência que mexe com o lado emocional do
policial, ao retornar para a base a gente procura ajudar o policial que às
vezes já carrega outro problema e uma ocorrência pode deixar ele mais
confuso e pode interferir na sua vida pessoal.Toda vez que passo naquele
local, lembro do meu filho [...] isso me causa vontade de estar com o meu
filho e tudo que eu faço na minha vida profissional e movida pelo senti-
mento que eu tenho pelo meu filho[...] O sentimento que me veio agora
foi de frustração frente a tantas coisas que acontecem de ruim no dia-a-dia,
vejo coisas horríveis no dia-a-dia e, mesmo assim, ter que se fazer de forte
perante os subordinados e familiares, não posso fazer muito, mas tento
fazer o meu melhor. Os meus subordinados tem muitos problemas famili-
ares e de saúde e quando me procuram, na condição de oficial, de coman-
dante, eu tenho que me fazer de forte, procuro trabalhar os problemas de-
les e os meus [...]”.

- Verifica a atuação dos egressos como comandante na instrução aos


policiais sobre os PBUFAF.

Alfa afirma que instrui os seus subordinados, apoiado por estudos


de casos. Bravo também comenta que instrui, mas não necessariamente
sobre os princípios questionados. Charlie comenta que sempre instrui os
comandados e deixa claro que ele é que decide sobre qual nível de força
deve ser usado no momento da ação. Delta diz instruir exaustivamente,
além das determinações corriqueiras, também instrui quanto a legalidade
no uso da arma de fogo e a apresenta muitos casos práticos para chamar a
atenção. Echo costuma conversar sobre legalidade e ação moderada, são
tópicos que sempre faz questão de falar, evitar arbitrariedade, abuso de
poder etc.

- Identifica se os subordinados acatam ou resistem e, em caso de resis-


tência, como reagem os egresso no dia-a-dia e qual a sua atitude em caso de
resistência do subordinado.
84 Wilquerson Felizardo Sandes

Alfa cita que Muitos subordinados resistem por já possuírem, interi-


ormente, procedimentos que se tornaram vícios e não aceitam que sua
forma de trabalhar seja mudada, mesmo sabendo que os seus vícios com
relação à abordagem policial são procedimentos incorretos. Os que possu-
em resistência não assimilam o que é passado e verifica-se que tais polici-
ais são os que apresentam mais queixas e denúncias quanto a forma de
trabalho. Em casos de queixas ou denúncias, é instaurado um procedimen-
to disciplinar para avaliar a conduta negativa e, se confirmado tal conduta o
policial é punido disciplinarmente, há casos de policiais que possuem
doenças relacionadas ao alcoolismo e dependência química, o que interfe-
re diretamente em sua conduta, sendo que esse casos quando são constata-
dos, após a apuração de procedimento disciplinar, são encaminhados para
tratamento. Ocorre que na maioria dos casos de policiais que apresentam
distúrbios e, após tratamento e licença, ao retornarem à atividade fim, con-
tinua a apresentar as mesmas condutas desviantes. Bravo cita que ocorre
certa resistência de subordinados, alguns cumprem as ordens, mas rejei-
tam a idéia, muitos, por uma questão cultural, não acreditam que deveria
haver uma gradação no uso da força. Muitos policiais culturalmente acredi-
tam, isso já vem socialmente antes de ingressarem na polícia, que o infrator
deve ser punido com tapas, agressões verbais e físicas, alguns policiais
acabam querendo tirar uma “casquinha”. No caso de descumprimento de
abusos o policial pode ser sancionado com medidas administrativas e pe-
nais. Da mesma forma o policial sofrerá uma gradação nos níveis de corre-
ção, da advertência a prisão. Charlie
Charlie, já demonstrando fadiga, entende que
seus subordinados nunca resistiram e, caso acontecesse, seriam orienta-
dos, dependendo do caso, se viesse a trazer algum resultado mais grave, o
escalão superior seria informado, podendo, inclusive ser-lhe dada voz de
prisão. Delta entende que acatam parcialmente, que a resistência maior é
passiva, principalmente em relação à segurança própria, como o uso de
colete balístico e necessidade de segurança nas barreiras. Echo cita que
quando fala os policiais concordam, mas na prática às vezes agem de forma
excessiva. Cita um caso em que estava instruindo os policiais sobre o uso
da arma de fogo por ter sido questionada se ao perseguir um veículo o
policial poderia atirar para parar o veículo, ela disse que não, pois não se
sabe o por quê da fuga, pode ser um adolescente fugindo por estar sem
documentos e essa coisa de tentar acertar o pneu pode acertar pessoas. No
mesmo dia um policial que estava na palestra saiu para o serviço e ao
abordar dois elementos em uma moto, o piloto empreendeu fuga e o poli-
cial ao encontrar com a entrevistada disse: “[...] que colocou a arma para
fora e mirou na moto e naquele instante lembrou da minha fala sobre não
atirar e decidiu não atirar e que depois conseguiu abordar o moto e era
coisa simples, ele me procurou e disse: “tenente eu só não atirei porque eu
estava ouvindo a voz da senhora dizendo não atira...não atira.” Eu achei isso
Wilquerson Felizardo Sandes 85

bem interessante, me senti recompensada e com o sentimento que vale a


pena instruir os policiais”.

- Identifica a percepção dos egressos sobre as principais queixas e


denuncias na ação policial.

Alfa reclama da falta do exercício da verbalização quando por exem-


plo uma pessoa abordada questiona sobre o motivo de estar sofrendo a
abordagem e a guarnição ao invés de responder ao cidadão o motivo da-
quele procedimento, avança para o segundo e terceiro nível, constatando
dessa forma erros por parte da guarnição quanto ao procedimento de esgo-
tar os argumentos para convencer o abordado. Outra queixa é em relação a
falta de técnicas na imobilização, que seria executar procedimentos que
lesionará a pessoa conduzida ao passo que se utilizassem as técnicas de
imobilização já ensinadas não ocorreria lesão a integridade física da pessoa
conduzida. Outra queixa é o uso de arma letal em situações desnecessárias,
como, por exemplo, quando o suspeito tende a fugir durante a abordagem
e a guarnição, com a justificativa de fazer com que a pessoa pare, efetua
disparos para alto ou na direção dela para intimidar, sem antes conhecer o
motivo pelo qual o suspeito esta fugindo. Outra queixa é o uso de arma
não letal em situações de desnecessárias, como, por exemplo, o uso de gás
de pimenta de forma inapropriada para o tipo de ocorrência. Bravo enten-
de que a principal queixa é que o policial foi truculento na ação. Charlie
cita pelo olhar dos policiais que também se queixam que, quando utilizam
a força, não possuem respaldo por parte da instituição, tipo amparo jurídi-
co, independentemente de estar certo ou errado, o policial que arca com as
despesas de advogados. Complementa que suas equipes nunca foram de-
nunciadas por exceder o uso da força, só se não chegou ao seu conheci-
mento. Delta reclama do desvio de conduta e que muitos desses casos são
questionáveis, porque há pessoas com interesse em desmerecer o policial
em termos profissionais por não ter tido seus interesses individuais atendi-
dos. Assim é muito importante saber de fato o que realmente aconteceu
através de uma apuração imparcial. Ec ho cita “Bater demais, agressão numa
Echo
simples abordagem, destrato às pessoas”.

- Verifica a percepção do egresso sobre a sua turma formada em 2003, em


conformidade com as novas bases curriculares nacionais e se recebeu algum
tipo de aprovação ou reprovação por parte dos membros da instituição.

Alfa comenta que sentiu reprovação por parte de alguns oficiais que
entendem que esse tipo de currículo nada tem a ver com a formação de
oficiais da Polícia Militar, pois a apresentação de monografia esta mais para
86 Wilquerson Felizardo Sandes

o mundo civil do que para quem quer ser um oficial. Foram rotulados de
“turma de paisanos”, pela metodologia da grade curricular ser totalmente
contrária ao que a academia anteriormente pregava, quando, por exemplo,
as nossas aulas ocorriam fora da estrutura física da academia, mas precisa-
mente na universidade pública, o que acarretou um contato maior com
estudantes universitários e daí a denominação de turma “paisana”. B rraavo
narra que quando a turma já estava formando ouviam muitos comentários
tipo “a turma de almofadinhas” mas depois que formaram não notou mais
comentário. Quem comentava eram alguns instrutores sobre o que ouviam
fora e também achavam. “Almofadinha”, “oficial de escritório”,“essa turma
não tinha ralado e sofrido fisicamente como outras turmas”. Charlie cita
que teve aprovação e reprovação. A reprovação em sua maioria ocorreu
mais por parte dos oficiais mais antigos e aprovação maior por parte das
praças (sargentos, cabos e soldados). Charlie sempre ouvia de alguns ofici-
ais mais antigos que a sua formação era muito humanística e que na rua, na
prática, a teoria era outra. Dos praças ouviam que os novos alunos davam
oportunidade de ouvir e de conversar com os subordinados. Durante a
formação e algum tempo após, era costumeiro ouvir “turma da mamãe”,
pelo fato delas, as mães, participarem no processo de formação pelo co-
mando da academia, isso fez com que elas se unissem e tomassem partido
diante de algumas situações consideradas injustas, tais como perseguição a
alunos, privilégios de outros, tratamento diferenciado, questão da alimenta-
ção, internato, entre outras questões. Delta visualiza alguns casos isolados,
entende que os oficiais da sua turma sempre sobressaíram, e com o dife-
rencial de possuírem o título de bacharel. Comentários surgiram tais como:
“vocês são a turma do Balieiro” no sentido que o curso não tinha tanta
punição e mais acesso ao estudo, “ a academia está mais light!”, pelo fato
de favorecer mais a formação do aluno no aspecto profissional. Echo cita
que havia muitos comentários que a turma só era estudiosa, que tinha mais
conhecimento teórico do que prático, a academia era chamada de “univer-
sidade”, o refeitório era chamado de “restaurante universitário” (RU). Era
uma brincadeira das outras turmas anteriores, isso foi no primeiro ano,
quando foi divulgado o currículo novo.

- Verifica a impressão dos egressos sobre os estereótipos recebidos


pela turma de formação.

Al
Alff a comenta que a nova metodologia possui vantagens e desvanta-
gens.A vantagem é que ela tem uma visão moderna de ensino pedagógico,
na medida em que se convivia com outros estudantes, porém no que diz
respeito a grade curricular possui falhas quanto a carga horária de discipli-
nas e também possui desvantagens na formação militar pois realmente essa
parte da formação militar era pouco exercitada. Porém em termos pedagó-
Wilquerson Felizardo Sandes 87

gicos o excesso do militarismo atrapalha a assimilação da aprendizagem na


medida que alguns procedimentos formais, característicos do militarismo,
impossibilitam a apresentação de idéias e inovações para o crescimento da
instituição. Bravo acredita que na formação policial ser submetido a situa-
ção de estresse é importante, mas de forma pré-estabelecida didaticamente,
sem necessidade de humilhação ou desmoralização. Charlie vê como fato
isolado e insignificante. Cada um iria mostrar o profissional que era, traba-
lhando, que sempre acreditou no potencial de todos da turma. Delta co-
menta que a sua formação foi voltada para o intelecto e estão mostrando na
prática o que aprenderam, na turma até hoje não teve nenhum desvio de
conduta, a moralidade é um ponto a ser ressaltado. Echo acredita que isso
acontecia por que todas as atenções estavam voltadas para a sua turma e
isso causava um certo ciúme.

- Verifica a percepção dos egressos em relação aos oficiais que foram


formados no modelo curricular anterior.

Alfa possui dificuldades de adaptação, pois percebe que o sistema é


muito rígido e mudou-se muito pouco, já que convive com oficiais forma-
dos em outra metodologia, e isso gera frustração em saber que a nova
metodologia, que irá demorar uns vinte anos para ter efeito de mudança,
entende que somente após o acesso da sua turma nos escalões superiores
poderá fazer com que algo mude, sente-se com a sensação de frustração,
porque apesar das falhas na grade curricular a metodologia que os condu-
zia gerou uma expectativa de que poderiam inovar através de conhecimen-
tos científicos, mas no campo prático percebeu que é muito difícil aplicar
as novas idéias. Hoje quase não existe rótulo, pois os integrantes da turma
estão em destaque e o que seria a turma de paisanos na verdade foi substi-
tuído pelo destaque individual de cada membro da turma nas unidades
operacionais, atualmente os tenentes mais elogiados não os sua turma, a
Turma Milenium. Alf Alfaa finaliza com um desabafo particular: “Para encerrar,
eu achei que nunca teria a oportunidade de falar sobre esse assunto, princi-
palmente com um oficial superior, essa entrevista foi importante para mim,
um desabafo, e que seja refletido sobre o que eu falei e que contribua para
construção de uma doutrina científica na Polícia Militar de Mato Grosso”.
B rraav o , um tanto indiferente, comenta: “Nem pior e nem melhor, porque
acredito que independentemente do currículo, em qualquer área para que
tenhamos profissionais competentes é necessário que ele tenha força de
vontade, assiduidade, compromisso e inteligência, e isso não é o currículo
que faz”. Charlie cita: “Nem melhor e nem pior. Não me sinto diferente.
Tivemos a oportunidade talvez de ter uma carga maior de conhecimento”.
Delta é ligeiro:“No mesmo patamar profissional dos outros”. E Ec ho finali-
za dizendo que não vê diferenças.
88 Wilquerson Felizardo Sandes

I
Inicialmente nas entrevistas constam as opiniões dos egressos du-
rante o processo de formação em relação aos Princípios Básicos sobre o
Uso da Força e Armas de Fogo (PBUFAF). Os sujeitos em sua maioria des-
conheciam os documentos que originaram os PBUFAF. As opiniões de-
monstraram que alguns dos conteúdos curriculares abordaram de forma
direta e indireta os conceitos sobre os PBUFAF, porém foram vagos e com
poucas aulas práticas em relação ao uso do armamento. A frase que mais
resume a preocupação dos egressos sobre o uso da força no processo de
formação narra que “mais importante que atirar é saber quando atirar”.
As disciplinas mais apontadas durante a formação que contribuíram
com o conhecimento sobre o uso legal da força foram: “técnicas gerais de
policiamento”, “direitos humanos”, “defesa pessoal” e “tiro policial”. O cur-
rículo da academia possuía uma extensa carga horária, porém as discipli-
nas genéricas, as vezes, superavam as disciplinas específicas, “a carga horá-
ria das disciplinas citadas deveriam ser as maiores do curso, aos invés de
disciplinas como espanhol e inglês que possuíam carga horária de 120h/a
cada”. Conforme a base curricular do CFO apresentada no capítulo 4, esta
visava o desenvolvimento humano do profissional e as habilidades e com-
petências específicas para o exercício da profissão. O perfil para a forma-
ção do profissional de segurança pública focaliza responsabilidade social,
compreensão do meio sócio-político-econômico-cultural, formação huma-
na e técnico-profissional, liderança, formação de caráter generalista e
eclético.
Entendo que o paradoxo apresentado está associado ao conceito
amplo do que é “ser policial”. O sujeito deseja mais preparo técnico para o
exercício da atividade policial devido o risco de vida, enquanto que os
diversos campos do saber exigem o policial generalista.
Em termos de avanços, no período compreendido entre 2003 a 2006
ocorreram diversos ajustes pedagógicos e políticos nas bases curriculares
em âmbito nacional e regional. A Base Curricular passou a ser denominada
de Matriz Curricular.Todavia a mudança ocorrida não é objeto deste estudo.
Wilquerson Felizardo Sandes 89

II

Conforme consta no capítulo 3, o modelo de uso de força possui


cinco níveis de intervenção policial: verbalização, contato físico, imobiliza-
ção, força não letal e força letal. Sobre estes níveis os egressos demonstra-
ram pouco conhecimento teórico, sobressaindo o conhecimento prático
em função da atuação policial no dia-a-dia.
O modelo de uso da força foi abordado em algumas disciplinas du-
rante o processo de formação do ponto de vista teórico conceitual com
ênfase na memorização, faltou relacionar melhor os conteúdos com a prá-
tica. Sobre o ensino na academia, Balieiro (2003, p.99) reforça a falta de
significado e sentido lógico do material a ser aprendido em relação ao
conhecimento do aluno.
Sobre o nível de verbalização os entrevistados foram unânimes em
afirmar que verbalizar é o ponto de partida para a ação policial, com uso
inclusive em situações de negociação de crises com reféns,“verbalização é
o mais comum em abordagens, tão comum que praticamente em todas as
ocorrências é utilizada”.
Quanto ao uso da força no nível de contato físico, que em tese deve-
ria se apenas um toque no ombro da pessoa abordada em caso de não
atendimento da verbalização, os egressos entenderam por contato físico
“segurar pelo braço e conduzir”, uma “revista pessoal”, “abordagem e revis-
ta pessoal”,“encostar-se à parede”.
No caso de necessidade de imobilização, os egressos entendem como
“imobilizar o braço”, “uso de algema”, “vai depender de como a pessoa
reagir”. A imobilização conforme o modelo de uso de força é uma alterna-
tiva em caso de uma pessoa oferecer certa resistência em caso de uma
prisão, geralmente resistência passiva, pois não agride o policial, somente
resiste a prisão.
Referente ao uso de força não letal, o quarto nível, os egressos possu-
em uma concepção de uso mais voltada para controle de massa. Entendem
que funciona quando os três primeiros níveis não são suficientes. Empre-
gam “bombas de efeito moral ou uso de spray de pimenta em meio à mul-
tidão até que ocorra a dispersão”, “quase não é preciso usar esse nível”,
“usado em tumulto generalizado para dispersar multidões através de agen-
tes químicos”, “quando o policial é agredido”, sobre um episódio de uma
pessoa escondida em uma casa com arma de fogo “ele atirou na guarnição
e nós usamos granada de gás lacrimogêneo e ele saiu voado e desarmado”,
existem dúvidas no nível a ser empregado “como saber se o cidadão não
vai sacar uma arma e atirar? É necessária uma verbalização bem imperialista,
que mesmo armado vai pensar duas vezes”. Um constatação interessante
foi a forma com que as mulheres superam a força física masculina,“neste
nível uso gás de pimenta”.
90 Wilquerson Felizardo Sandes

Sendo necessário o uso de força física, os equipamentos mais utiliza-


dos são gás lacrimogêneo, bastão, munição anti-motim, algema, técnicas de
defesa pessoal, os pontos do corpo mais atingidos são braços e pernas e
“na hora do embate as vezes acaba atingindo pontos sensíveis do corpo do
oponente”,“dificilmente o policial utiliza arma não letal, só possui o bastão
que pode ser uma arma letal em caso de mau uso”.
Em relação ao uso letal da força os egressos foram unânimes em
informar que só deve ser utilizado em caso de ameaça da própria vida ou
de terceiros. Sobre as situações mais freqüentes citaram “quando a gente
aborda uma dupla armada eles atiram e a guarnição responde com tiros”,
“quando acontece sempre gera um óbito”, “ainda não passei por isso, eu
não quero passar, mas me preparo mentalmente”. Os caso de confrontos
letais os policias são orientados a prestar os primeiros socorros e preen-
cher um documento específico com testemunhas do fato.

III

Sobre o grau de autoconfiança dos egressos ao usar os níveis de


força: “nem sempre depende da gente, já passei por isso, em uma troca de
tiro meu estado emocional ficou bem alterado, quem me ajudou foi um
policial antigão, isso marcou a minha vida, poderia ter cometido um erro”,
“a emoção pode tomar conta do nosso corpo”, “tenho medo de atirar em
pessoas desarmadas”. Este questionamento deixou vários egressos confu-
sos e angustiados sobre o próprio preparo,“esta pergunta me deixou con-
fuso e suscitou duvidas, é muito fácil aprender, mas o difícil é em que
situação real decidir em fração de segundos”,“falam que policial é frio, mas
na verdade a gente tem que ser frio, não pode tomar partido”, um egresso
ao comentar uma ocorrência onde uma criança aproximou dele e disse
que o pai matou a mãe, naquela situação “imaginei meu filho sofrendo
como aquela criança” quando passo naquele local lembro do meu filho e
dá vontade de voltar para casa e vê-lo, mas na condição de comandante
tenho que me fazer forte”. Nota-se aqui um conflito do “eu”, que mediante
tentativa de mutilação tendem a incluir aguda tensão psicológica para o
indivíduo.
Ao falar de instituições totais, Goffman (1961, p.25) cita que o sujeito
afasta de sua identidade pessoal, qualquer que seja a maneira de ser chama-
do, tende a ocorrer uma mutilação do eu, mudanças radicais nas crenças
que têm a seu respeito, processos pelos quais o eu da pessoa é mortificado
são relativamente padronizados nas instituições totais. Um exemplo desse
tipo de mortificação é “quando é obrigado a executar uma rotina diária de
vida que considera estranha a ele, aceitar um papel com a qual não se
identifica [...] deve-se apresentar uma renúncia a sua vontade (p. 31-46).
Wilquerson Felizardo Sandes 91

IV

Em relação ao controle dos egressos sobre o comportamento dos


subordinados quanto ao uso da força, geralmente aplicam instruções diári-
as e, nos casos de transgressões, solicitam medidas punitivas, “muitos su-
bordinados resistem e são cheios de vícios na abordagem policial, nesse
caso se usa o regulamento disciplinar”, “alguns cumprem as ordens mas
rejeitam as idéias”, “muitos policiais querem punir e acabam tirando uma
casquinha, mas podem ser punido”,“a resistência passiva é pior”, “um vez
um policial me disse, tenente eu só não atirei porque eu estava ouvindo a
sua voz na minha cabeça dizendo não atira, não atira”. As principais queixas
contra os policiais subordinados são relacionadas a abordagem errada, le-
sões na hora de imobilização, exibição de armas sem necessidade, disparos
de intimidação, ação truculenta, “bater demais”, “destrato e agressão numa
simples abordagem”.
Apesar da tentativa de manter uma vigilância hierárquica e sujeição
dos subordinados, conforme já foi visto no capítulo 1, ocorre também os
ajustamentos secundários, segundo Goffman (1961, p.57) este ajustamento
reflete muito claramente o processo de confraternização entre os subordi-
nados e a rejeição aos dirigentes através de uma “gozação coletiva”. Embora
o sistema de castigo-prêmio funcione, surgem gestos passageiros de desa-
fio anônimo ou coletivo.

Sobre a formação dos egressos, estes comentaram que alguns ofici-


ais mais antigos criticavam o novo modelo de formação. Muitos foram os
apelidos pejorativos dados a turma de egressos durante o curso, tais como:
“turma de paisanos”, pelo fato de estudarem na APM e na UFMT,“turma de
almofadinhas”,“oficial de escritório”,“essa turma não tinha ralado e sofrido
como as outras”, “a formação é muito humanística e que na rua a prática é
outra”. Pelo fato das mães terem acesso ao comando no período de forma-
ção e se movimentarem socialmente contra atitudes que consideravam
injustas, foram rotulados também de “turma da mamãe”.As percepções dos
egressos sobre os estereótipos divergiram, mas a maioria considerou resis-
tências as inovações,“a turma tem potencial, não tem desvio de conduta, a
moralidade é um ponto a ser ressaltado”, “as vezes isso acontecia por ciú-
mes”. O estigma surge na tentativa de causar um efeito paralisante a fim de
proteger uma antiga identidade grupal.
Segundo Goffman (1963, p.11) os gregos criaram o termo “estigma”
para se referirem a sinais corporais com os quais se procuravam evidenciar
alguma coisa de extraordinário ou ruim sobre o status moral de que os
92 Wilquerson Felizardo Sandes

apresentava, um atributo profundamente depreciativo.


A postura dos policiais mais antigos rotularem os novos pode ser
explicada a luz da sociologia das relações de poder em pequenas comuni-
dades, segundo Elias (1994, p.7) na comunidade um grupo se autopercebe
como melhor, uma identidade social construída a partir de uma combina-
ção singular de tradição, autoridade e influência. Mesmo que os indicado-
res sociais sejam homogêneos, um grupo se estabelece como a “minoria
dos melhores”. A forma do “grupo de melhores” assumir a posição de mo-
delo moral é estigmatizando o “grupo de piores” com atributos associados
com anomalia, no caso dos policiais, uma postura mais civil que militar,“os
de fora”, os mais antigos da comunidade, em suma, “tratavam os recém-
chegados como pessoas que não se inseriram no grupo. Esses próprios
recém-chegados, depois de algum tempo, pareciam aceitar, como uma es-
pécie de resignação e perplexidade” (ELIAS, 1994, p.20).
Elias (1994, p.55) reforça que com ou sem razão os grupos já estabe-
lecidos sentem-se expostos a um ataque contra suas fontes de poder, com
isso repelem os novatos excluindo-os e humilhando-os, já os novatos difi-
cilmente teriam intenção de agredir os antigos, assim, “o drama todo foi
encenado pelos dois lados como se fossem marionetes”.
Wilquerson Felizardo Sandes 93

Limitações e Possibilidades

Na introdução deste estudo foi delimitado um problema que indaga-


va se o novo sistema de ensino na Academia de Polícia Militar produziu
mudanças na formação e atuação dos tenentes em relação ao uso da força
e armas de fogo.
Aqui confirmo a segunda hipótese, pois o novo sistema de ensino da
Academia de Polícia Militar possibilitou mudanças parciais, na atuação de-
mocrática dos tenentes, a partir de 2003, em relação ao uso da força e armas
de fogo. A base curricular foi alterada em 2001 para melhor capacitar os
policiais militares com habilidades específicas e genéricas, porém na per-
cepção dos egressos, deixou-se de focalizar e priorizar as disciplinas pró-
prias do ofício de polícia, talvez sem essa intenção ou devido às pressões
sociais e políticas com discursos de mudança na atuação das polícias. Os
conteúdos curriculares relacionados ao uso legal da força foram ministra-
dos em algumas disciplinas, porém sem muita articulação. Em destaque
apareceram as disciplinas Técnicas de Policiamento, Direitos Humanos e
Tiro Policial. Neste contexto a inovação curricular foi a inclusão da disci-
plina de Direitos Humanos na grade do CFO.
Do ponto de vista pedagógico, a relação dos conteúdos nas discipli-
nas deixaram espaços abertos quanto a operacionalização da prática profis-
sional, uma distância entre o conhecimento e a atitude, contraste percebi-
do nos discursos policiais relacionados ao que aprenderam no bacharela-
do e suas práticas correspondentes.
A função ocupacional do tenente exige competências pessoais no
âmbito dos princípios democráticos, tais como ética profissional, agir com
humanidade, tolerância, comprometer-se com a legalidade. Entre suas
ferramentas de trabalho constam algemas, armas de fogo e armas não letais.
Fica evidente que tal ocupação decorre da preservação da ordem pública
por meio da força. A questão chave é quando usar a força em nome da
proteção da coletividade.
Ao tenente, quer queira ao não, é atribuído o poder de polícia, legiti-
mado pelo Estado para manter o controle social, pois são deveres sociais
impostos que funcionam independentemente de sua vontade e regula as
94 Wilquerson Felizardo Sandes

condutas utilizando o poder imperativo e coercitivo.


O poder de polícia é a imposição coativa das medidas adotadas pela
Administração do Estado, sendo um ato imperativo, obrigatório ao seu des-
tinatário e, quando este opõe resistência, admite-se até o uso da força
pública para o seu cumprimento, inclusive aplicando as medidas punitivas
que a lei indique. Mas não é ilimitado, suas barreiras e limites são, entre
outros, os direitos dos cidadãos no regime democrático, as prerrogativas
individuais e as liberdades públicas garantidas pelas Constituições e pelas
leis. O Poder de Polícia, deixa de ser exercido com democracia quando
extrapola os limites impostos pela lei, tornando-se uma arbitrariedade. Como
o poder de polícia permite o uso da força física, há de ser revestido de
legalidade, necessidade e proporcionalidade. O desafio está no equilíbrio
do emprego legal da força.
Em âmbitos nacional e internacional várias publicações tentam esta-
belecer parâmetros e princípios sobre o uso da força e armas de fogo pelas
polícias, com destaque aos Princípios Básicos sobre Uso da Força e Armas
de Fogo. Pois os policiais, no exercício das suas funções, devem, na medi-
da do possível, recorrer a meios não violentos antes de utilizarem a força
ou armas de fogo. Só poderão recorrer à força ou a armas de fogo se outros
meios se mostrarem ineficazes ou não permitirem alcançar o resultado
desejado.
Paralelamente instrumentos de controle das polícias são instituídos, a
exemplo de ouvidorias, julgamentos de policiais militares em tribunais civis,
cursos de direitos humanos, empregos de armas não letais e reformas
curriculares. O que se pretende com este esforço é a preservação do estado
democrático de direito destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais
e individuais, a liberdade, segurança, bem-estar, igualdade e a justiça.
Os egressos do bacharelado em segurança pública são jovens da
classe média, com idades entre 22 a 27 anos, a maioria mato-grossenses que
aspiram crescimento pessoal e profissional. As principais limitações apon-
tadas por eles sobre a atuação democrática em relação ao uso legal da força,
residem na pouca ênfase dada ao conteúdo, antes e após o processo de
formação, pois entendem que mais importante que atirar é saber quando
atirar, isto não envolve somente mudança de currículo, mas mudança tam-
bém de atitude.
Quanto à atitude do sujeito, este até deseja mais preparo técnico para
o exercício da atividade policial devido ao risco de perder a vida, mesmo
sendo-lhe exigido ser um pouco de advogado, cientista político, assistente
social, filósofo, gerente, poliglota, sociólogo, pedagogo, cientista, preparador
físico e psicólogo. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que se exige um
generalista, um faz tudo, exige-se um policial eficaz no emprego da força e
arma de fogo. Este por sua vez sente insegurança na hora de decidir entre
Wilquerson Felizardo Sandes 95

manter a arma na cintura ou sacá-la e, ao sacá-la, se vai apertar o gatilho ou


não, em instantes destinos dos envolvidos são lançados ao acaso, podendo
o jovem tenente ter uma atitude aceitável ou reprovável e irreversível.
O uso legal da força exige muita prática, durante e após a formação,
pois envolve aspectos fisiológicos e emocionais, um relato retrata bem a
questão “é muito fácil aprender que se usa a força letal para salvar vidas,
mas o difícil é em que situação decidir sobre a sua vida, a dos subordina-
dos e do oponente, tudo em fração de segundo”. Outro relato resume a
angústia do sujeito “tenho medo de utilizar força letal”. Os sujeitos perce-
bem muitas resistências comportamentais em relação aos seus subordina-
dos e superiores, principalmente em função da idéia que o bom coman-
dante é “valentão”, os tipos de abusos mais identificados se relacionam a
truculência policial nas abordagens, exibição excessiva de armas de fogo,
agressões desnecessárias.
Outro aspecto que dificulta a transição curricular na prática é o mo-
mento em que os jovens oficiais são alvos de estereótipos por parte dos
oficiais mais antigos, são chamados de “turma de almofadinhas”, “oficial de
escritório”. O estigma surge na tentativa de causar um efeito paralisante a
fim de proteger uma antiga cultura,“pode-se formar ótimos alunos, se cair
na mão de que tem outro tipo de comportamento não adianta”. Um contri-
buição significativa extraída das entrevistas foi um depoimento sobre o
uso da força na formação:

[...] eu entendo que quando você entra na academia o


que se aprende parece ser algo muito abstrato, não tem
idéia de como isso acontece ou como se aplica, por mais
que sejam dados exemplos, a gente escuta, assimila, mas
só vai compreender a importância depois que vai para a
rua, e lá mediante acertos e erros você aprende, porém o
erro pode até tirar a vida [...].

Este depoimento singular evidencia que existe um distanciamento


entre a teoria aprendida na escola e a prática do serviço diário, talvez por
falta de experiência significativa sobre os conteúdos trabalhados que, após
a formação, cada um aprende por si só e isso é muito arriscado para a vida
do policial e de terceiros. O que indica que, após o período de formação,
nas ações práticas, o egresso é lançado à própria sorte de acertar ou errar.
No mesmo depoimento o egresso de forma lacônica diz “caso eu
fizesse o CFO hoje, com a minha experiência eu daria muito mais valor aos
ensinamentos e até aprofundaria mais”. Isso pode ser explicado pelo fato
de o “hoje” do sujeito ser repleto de experiências e a existência de signifi-
cados relevantes na sua estrutura cognitiva. Esta questão se relaciona com o
processo de ensino-aprendizagem.
96 Wilquerson Felizardo Sandes

Na Academia de Polícia Militar, a aprendizagem dos egressos, confor-


me Balieiro (2003, p.40), teve um caráter mais decorativo para realização de
provas, diferente da teoria de Ausubel sobre aprendizagem significativa que
relaciona a informação aos conceitos relevantes já existentes na estrutura
cognitiva do aprendiz. Assim, quando o conteúdo a ser aprendido não con-
segue ligar-se a algo já conhecido, ocorre uma aprendizagem mecânica, a
pessoa memoriza formulas, leis e expressões e depois esquece.
Como sugestão entendo que duas disciplinas deveriam ser incluídas
nas grades curriculares dos cursos de formação em ciclos de treinamento
policial, a primeira referente aos princípios básicos sobre o uso legal da
força e a segunda sobre o modelo de uso progressivo da força força, esta de
caráter mais prático e focado em simulações e aquela, em caráter mais
teórico.A inclusão de tais disciplinas não excluiria a abordagem transversal
do material, porém seria foco de atenção especial e com ferramentas peda-
gógicas que pudessem reduzir a distância entre a teoria aprendida na esco-
la e a prática do serviço diário sobre uso legal da força.
O desafio maior é estabelecer que o uso legal da força não resulte
em sorte ou azar. As vidas não podem ser decididas como em um jogo de
“cara ou coroa”. Instrumentos devem possibilitar a capacitação continuada
e continuada, na formação e atuação democrática da polícia militar.

***

Para finalizar, apresento outros resultados decorrentes desta pesquisa


que influenciaram algumas práticas no âmbito das intervenções policiais.
Paralelamente, durante o processo de construção desta pesquisa,
busquei alguns encaminhamentos práticos com ênfase no objeto, o labora-
tório utilizado foi o 5º Batalhão de Polícia Militar em Rondonópolis - MT, o
qual tive a oportunidade de chefiar no período de 2006.
Soluções alternativas foram criadas para que os policiais militares
tivessem uma postura mais democrática e, de perto, acompanhei e orientei
a conduta dos diversos policiais, inclusive dos jovens tenentes formados
na academia. Para operacionalizar o discurso sobre a ação policial que re-
sultasse no uso moderado da força, recorremos aos principais estudos na-
cionais e internacionais sobre “modelos de uso progressivo da força”. Ado-
tamos o modelo denominado FLETC, que opera em cinco níveis, adaptan-
do-o a nossa linguagem e à realidade policial local. No uso destes níveis,
cada situação tem características próprias e, às vezes, incomum, cabe ao
policial reagir com proporcionalidade e legalidade frente a cada situação
exigida.
Publicamos uma adaptação do modelo de uso progressivo da força
Wilquerson Felizardo Sandes 97

na Revista Científica da PMMT, em 2006, conforme consta a seguir:

Nível 1 – Presença: presença física do policial como ati-


tude preventiva que vise a inibir comportamento
incomum ou inadequado.
Nível 2 – Verbalização:através do diálogo o policial inter-
pela o cidadão em conduta inconveniente, buscando a
mudança de atitude a fim de evitar o afloramento de
infração.A m udança de comportamento encerra a ação
do policial.
Nível 3 – Contato físico: em caso da verbalização não
surtir o efeito desejado frente a uma conduta inconveni-
ente, como medida de cautela e como demonstração de
força para dissuadir e desencorajar a ação, o policial
verbaliza realizando contato físico (toque no ombro).A
mudança de comportamento encerra a ação do policial.
Nível 4 – Imobilização: em caso de resistência física ao se
efetuar uma condução coercitiva. Caracterizada geral-
mente pela recusa no cumprimento de ordem legal, agres-
são não física ou tentativa de fuga. Para chegar neste
nível, devem ser esgotados os níveis anteriores.
Nível 5 – Força não letal: em caso de resistência ativa ao
se efetuar uma condução coercitiva. Caracterizada ge-
ralmente pela agressão física contra o policial ou tercei-
ros. É admissível que o policial empregue força física,
sempre sem violência arbitrária ou abuso de poder. A
verbalização deve se mantida sempre no sentido de
desencorajar o comportamento do agressor.
Nível 6 – Força letal: só se justifica no caso de legitima
defesa e preferencialmente no estrito cumprimento do
dever legal em inevitável risco de vida do policial ou de
terceiros frente a uma ação deliberada do infrator. A
verbalização deve se mantida sempre no sentido de
desencorajar o comportamento do agressor. (COSTA e
SANDES, 2006, p. 18)

O modelo acima se tornou uma doutrina institucional, sendo sociali-


zado em instruções e estudos de casos no dia-a-dia do serviço policial
militar de Rondonópolis. No ano de 2006, em confrontos armados, os poli-
ciais seguiram corretamente os níveis de força, não resultando em ferimento
mortal. Sobre o que aconteceu na hora da troca de tiro, no chamado “calor
da ocorrência”, tivemos os seguintes relatos:“ele atirou na gente, eu revidei,
ele caiu da motocicleta, eu cheguei mais perto e antes de continuar atiran-
do eu respirei e abaixei a arma, ele já não oferecia perigo”, o outro caso
envolveu um tenente egresso do CFO, “o suspeito apontou a arma e aper-
98 Wilquerson Felizardo Sandes

tou o gatilho, mas a munição falhou, disparei na perna, ele soltou a arma e
eu parei de atirar, não desejo essa experiência para ninguém, tudo aconte-
ceu muito rápido, ele poderia ter acertado um de nós”.
No campo perceptivo, entendo que as instruções por meio de estu-
dos de casos e simulações sobre o uso legal da força tenham contribuído
para se evitar o emprego letal da força. Noto alguns sinais de amadureci-
mento sobre esta questão, como exemplo, em uma barreira policial, um
jovem motociclista carregando a namorada na garupa foi abordado e fugiu,
os policiais se entreolharam e um deles disse:“deixa ir, se a gente perseguir
ele pode cair se machucar e machucar a moça”. Entretanto, uma cultura
ainda enraizada e perigosa na rotina policial é a prática do tiro de intimida-
ção, para o alto ou em pneus de veículos, que sempre são “justificados”
para evitar a fuga.
Além das questões sobre uso legal da força, avançamos também em
algumas reflexões democráticas sobre a atuação policial. Em função das
diversas discussões e da troca de experiências em pesquisa, principalmen-
te no âmbito do Grupo de Pesquisa Educação, Juventude e Democracia,
ampliamos o olhar multidimensional sobre a realidade social.
Assim sendo, finalizo destacando algumas intervenções sociais
participativas realizadas pela Polícia Militar em Rondonópolis.
- Um grupo de jovens praticantes de skate solicitaram a presença da
polícia em um espaço público controlado por traficantes de drogas ilícitas,
atendendo ao pedido, ocupamos estrategicamente o espaço, colocando
jovens policiais uniformizados e com skate para realizar o policiamento
interativo, ocorreu uma troca de conhecimento, policiais aprendiam ma-
nobras de skate ao mesmo tempo que estabeleciam de forma participativa
regras e valores de convívio pacífico.
- Outro episódio marcante envolvendo jovens, surgiu de reclama-
ções sobre veículos com alto volume de som em uma praça ao domingos,
uma solução encontrada foi a definição com o poder público de um espa-
ço jovem denominado “rua do som”, funcionando aos domingos durante
duas horas no início da noite. O local se transformou em um ponto de
encontro de jovens, com o acompanhamento do poder público. Um dos
policiais possui um carro de som e ajuda a coordenar o evento.
- Em virtude de problemas que emergiam, o comando da instituição
policial estabeleceu canais de comunicação e mediação social com diver-
sos segmentos e grupos: movimento sem terra, flanelinhas, grupos GLTs,
profissionais do sexo, moto-táxi, lideranças de bairro, entidades de classe,
grupos hip hop, skatistas, grafiteiros, diretores de escolas, vigilantes, comis-
sões de presos, grupos de sem teto, grupos de pais, comunidades indíge-
nas, entre outros.
Wilquerson Felizardo Sandes 99

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