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Uma análise sobre a autonomia da vontade das partes na celebração de um

contrato, com foco nas teorias modernas e clássica.


A autonomia da vontade significa que a obrigação contratual tem uma
única fonte: a vontade das partes. A vontade humana é o núcleo, a fonte e a
legitimação da relação jurídica, e não a lei. Desta forma, a força que obriga as
partes a cumprirem o contrato encontra seu fundamento na vontade livremente
estipulada no instrumento jurídico, cabendo à lei apenas assegurar os meios
que levem ao cumprimento da obrigação, possuindo, portanto, posição
supletiva.

Outra consequência jurídica da aceitação doutrina da autonomia da


vontade é assegurar que a vontade criadora dos contratos seja livre de defeitos
e vícios, de onde decorre a doutrina dos vícios do consentimento. Importante
dogma decorrente desse princípio é de as partes possuírem a liberdade de
contratar ou não, de escolher com quem deseja contratar, as cláusulas e a
forma que o instrumento jurídico terá.

Passamos, então, a analisar os elementos que compõe a autonomia


da vontade.

O primeiro deles é a liberdade contratual, estritamente ligada à


vontade livre e desimpedida, proferida pelo próprio indivíduo sem qualquer
coação externa. É a liberdade de contratar ou de se abster, de escolher a parte
contratual, de estabelecer os limites do contrato, ou seja, de exteriorizar sua
vontade da forma que pretender.

Para o liberalismo econômico do século XIX, o contrato é um dos


institutos mais importantes, pois formaliza e permite a transferência de riquezas
na sociedade. O consenso é valorizado, assim como a vontade do indivíduo em
delimitar o conteúdo do contrato. Entendiam que se o indivíduo era livre para
contratar o que quisesse, o Estado deveria abster-se de intervir nas relações
contratuais.

Portanto, verifica-se que a liberdade contratual está intrinsecamente


ligada à autonomia da vontade, pois, na visão tradicional, é a vontade que
legitima o contrato e é fonte das obrigações, sendo a liberdade pressuposto da
vontade criadora de obrigações.

Outra consequência que decorre da liberdade contratual é a premissa


de estabelecer-se livremente a forma do contrato e as suas cláusulas, quando
não contrariarem a lei. Daí resulta a possibilidade de se criar novos tipos de
contratos, não tipificados na legislação.

O único obstáculo à liberdade contratual encontra-se nas regras


imperativas decorrentes da legislação. Contudo, no direito contratual
tradicional, como por exemplo o Código Civil de 1916, estas regras são raras e
sua função básica se resume a garantir o exercício da vontade livre e
desimpedida dos contratantes, fornecendo parâmetros para a correta
interpretação da vontade e regras supletivas para o caso de os contratantes
não regularem determinados pontos da obrigação, tal como regras sobre o
tempo e o lugar do pagamento.

O segundo elemento que compõe a autonomia da vontade é a força


obrigatória dos contratos. Na visão clássica, se o homem é livre para
manifestar sua vontade e para aceitar somente as obrigações que deseja, e a
sua vontade é a fonte e a legitimação das obrigações e que a lei possui papel
supletivo no que tange aos contratos, fica evidente a ideia de superioridade da
vontade sobre a lei. A legislação deve ser organizada de modo a garantir a
manifestação livre da vontade, protegendo-a e reconhecendo a sua força
criadora. Como diz o antigo brocardo: “o contrato é lei entre as
partes”. Portanto, a vontade é o elemento que vincula os indivíduos.

Desta forma, a força obrigatória dos contratos significa que,


manifestada a vontade, as partes estão ligadas através de um contrato, e não
poderão se desvincular dele. A não ser que resolvam fazer um outro acordo de
vontades desobrigando-as de cumprir as obrigações anteriores ou por
acontecimentos externos à vontade dos homens, tal como a força maior ou
casa fortuito.

Na visão tradicional, o juiz não deve modificar nem adequar à


equidade a vontade das partes, pelo contrário, deve respeitá-la e fazer com
que as partes cumpram o acordado. Ademais, somente as partes vinculadas
aos efeitos do contrato, pois foram elas que livremente manifestaram a
intenção dele participar.

Por outro lado, cabe analisar também os vícios do consentimento,


haja vista que só a vontade livre e consciente, manifestada sem influências
coatoras, deve ser considerada como capaz de gerar uma obrigação pela qual
o indivíduo espontaneamente se propôs a cumprir.

Portanto, poderá ser anulado aquele negócio jurídico que teve a


vontade de uma das partes viciada, pois a força criadora da obrigação não foi
manifestada livremente. A própria anulabilidade dos negócios jurídicos decorre
da autonomia da vontade, eis que homenageia a vontade da parte em querer
ver o instrumento jurídico da qual é parte declarado nulo,restringindo, assim, a
sua eficácia e validade.

Discussão clássica sobre o tema tentava definir qual a vontade seria a


fonte de legitimação do contrato, a interna (intenção) ou a externa (declarada).
Diante disso, os códigos civis ao redor do mundo passaram a determinar qual
seria a vontade legitimadora a ser observada no cumprimento das obrigações.

Essa discussão acerca da vontade interna ou externa, que ocorreu


entre o fim do século XIX e o início do século XX, deu origem à nova
concepção de contrato, com seus princípios inovadores que extrapolam apenas
a vontade das partes. Ocorre, assim, o embate entre a visão abstrata do
contrato e da visão social ou funcional deste.
Conclui-se então que o consentimento viciado não obriga os
indivíduos, assim como o consentimento livre obriga de tal forma que tem que
cumprir o contrato injusto ou abusivo. Já os motivos e expectativas que
levaram o sujeito a contratar são irrelevantes para o direito.