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O JÚRI, SEUS PRINCÍPIOS E


SUA COMPETÊNCIA

SUMÁRIO: 17.1 Evolução histórica- 17.2 O júri na Constituição Federal.

17.1 Evolução histórica


O júri constitui, nos termos da Constituição Federal, o tribunal natural
para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida (art. 5.°, XXXV1I1, d).
Segundo Tucci, ao traçar a visão histórica desse importantíssimo e vetusto
instituto, de inspiração mosaica, encontra-se, "nos moldes atuais, sua origem
nas quaestiones perpetuae do processo penal acusatório romano"; "sempre se
apresentou, em nosso direito positivo, como órgão competente para o julga
mento de causas penais especificadas, atribuído não a profissionais da toga, mas
aos cidadãos comuns, aos pares do acusado". 1
Lembra GRECO FILHO que, antes de João Sem Terra, no tempo de Henrique I,
este "outorgara uma Carta que prometeu cumprir, e se desenvolveu a instituição
do júri, composto de pessoas do local, convocadas para apreciar a matéria de
fato nos processos criminais, o que representava uma garantia de justiça"
Salienta que o "crime passou a ser considerado um atentado ã paz real e foi
avocado para as cortes oficiais, primitivamente presididas pelos sfif ríjf e, poste
riormente, pelos juizes vindos da Corte Real, assistidos pelos júris locais. Dada a
seriedade do julgamento, particulares passaram a pedir para usar do júri real para
a solução de suas pendências, o que foi admitido mediante pagamento".
Representou "enorme evolução em relação ao sistema das ordálias ou juízos
divinos", e, assim, "todo indivíduo passou a preferir ser julgado por ele, porque
composto de vizinhos que apreciavam a informação de testemunhas". É, assim, o
júri na Inglaterra anterior ã Magna Carta. Com esta, o júri é mantido e reafirmado,
figurando como garantia do indivíduo: "Nenhum homem livre será encarcerado
ou exilado, ou de qualquer forma destruído, a não ser pelo julgamento legai de
seus pares e por lei do país".2

1. Tucci, Direitos e garantias..., p. 131-133,


2. GRECO FILHO, Tutela..., p. 31. Em síntese, para ele, p. 30-31 e 86, o júri nasceu na Ingla
terra, em substituição às ordálias ou juízos de Deus,
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Prosperou o júri na Inglaterra e daí se estendeu aos outros países da Europa,


aos Estados Unidos da América do Norte, chegando ao Brasil. O júri, contudo,
não se adaptou ao continente europeu, não tendo, af, o prestígio que ostenta na
Inglaterra. Prevaleceu na Europa o sistema de escabinado, órgão colegiado "em
que os juizes leigos votam com os juizes togados e sob a presidência destes". 3
Entre nós, o júri foi criado por Lei de 18 de junho de 1822. Tinha compe-
tência para julgar crimes de imprensa. Era composto por vinte e quatro juizes de
fato, selecionados "dentre os homens bons, honrados, inteligentes e patriotas". O
seu julgamento podia ser atacado por apelação ao Príncipe.
Na Constituição do Império, de 25 de março de 1824, foi prevista, em seu
Titulo VI, a composição do Poder Judicial por juizes de direito e por jurados
(art. 151), cabendo a estes pronunciar-se sobre os fatos e aos primeiros aplicar as
leis {art. 152).
Com a Lei de 20 de setembro de 1830, foi regulamentado o júri, sendo previstos
um Júri de Acusação e um Júri de Julgação. No Código de Processo Criminal do
Império (29 de novembro de 1832) foi estabelecida a composição dos conselhos de
jurados dos dois júris. Para o Júri de Acusação, era estipulado um total de vinte e
três membros (art. 238), e para o Júri de Sentença, doze (art. 259). A escolha era
feita entre eleitores de "reconhecido bom senso e probidade" (art. 23).
O Júri de Acusação foi extinto pela Lei 261, de 3 de dezembro de 1841.
Fortalece-se com essa lei a autoridade policial, sendo-lhe atribuída a função de
formar o sumário de culpa. É prevista a decisão de pronúncia, proferida por juiz
municipal.
Criada a Justiça Federal, também para ela foi previsto o júri (Dec. 848, de
LI.10.1990).
Todas as Constituições da República previram o júri: art. 72, Constituição
de 16 de julho de 1934; art. 141, § 28, Constituição de 16 de setembro de 1946;
art. 150, § 18, na Constituição de 1967, passando a art. 153, § 18, da Emenda 1,
de 1969.4

17.2 O júri na Constituição Federal


A atual Constituição teve maior preocupação com o júri,5 estabelecendo
alguns princípios que regem seu funcionamento, no art. 5.°, XXXVIII:

■ ;lv'
3. GRECO Fimo, Tutela .... p. 86-87.
4. Sobre essa visão histórica do júri, ver Tuco, Direitos e garantias..., p. 131-133.
5. Têm-se travado grandes debates em tomo da manutenção do júri no sistema brasileiro,
com ardorosos defensores e ferrenhos críticos da instituição. Ver a respeito os comen-
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a) o da plenitude da defesa;
b) o do sigilo das votações;
c) o da soberania dos veredictos;
d) o da competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.
Garante-se (letra a) a plenitude de defesa. Todavia, no mesmo art. 5.°, já se
assegura a todos os litigantes e aos acusados em geral a ampla defesa (inciso LV).
Foi o legislador redundante? Mostra GUILHERME DE SOUZA Nuca, ao analisar os
vários preceitos do júri, que nâo. São dois os princípios, ainda que correlatos. Quis
o legislador constituinte, além da ampla defesa geral de todos os acusados,
assegurar ao acusado do júri mais, ou seja, a defesa plena, levando em conta prin-
cipalmente o fato de que, diferentemente das decisões judiciais nos processos
em geral, a decisão dos jurados não é motivada. Pode o juiz, no seu julgamento, de
ofício, admitir em favor do acusado tese não apresentada pela defesa, mas os
jurados não podem. Assim, há que se exigir mais do advogado no júri, e, daí, a
necessidade de que se garanta ao acusado a plenitude da defesa, ou seja, uma
defesa completa. Trata-se de garantia especial e que se aplica à fase do plenário.6
Mostra o autor a importância de que a plenitude de defesa abarque o mo-
mento da escolha dos jurados e continue em plenário abrangendo: a formação do
Conselho de Sentença, com o direito às recusas e a possibilidade de conhecer os
jurados; os debates; a formulação e a votação dos quesitos. Extrai interessantes
conclusões, como, por exemplo, a de que o réu, quando for necessário para a
defesa plena, tem direito: a ouvir mais testemunhas do que lhe permite o rol; a
tempo maior para os debates, submetendo, é certo, sua pretensão à apreciação do
juiz; a inovar na tréplica sua tese de defesa. 7 Ao juiz incumbe o controle da
defesa eficiente, declarando, quando se fizer necessário, o réu indefeso, ou

tários feitos por GUILHLRMI DE SOUZA Nuca, na obra Jtiri - Princípios constitucionais, p.
179-184. Ver também GRECO FILHO, Tutela..., p. 87-88, que se posiciona contrariamente
ao júri, e lembra a manifestação sempre citada de FREDERICO MAuqn>, A instituirão do
jiíri, São Paulo, Saraiva, 1963, p. 8.
6. GUILHERME DE SOUZA Nuca, Júri...,p. 139-141.
7. Refere o autor que, neste ponto, as opiniões doutrinárias têm sido em sentido oposto
(HERMÍNIO ALBERTO MARQUES PORTO, ADRIANO MARREY, TOURINHO FILHO), mas prefere a tese
esposada pelos magistrados DIRCEU DE MELLO, CELSO LIMDNGI e JAMES TUBENCHLAK (Tri-
bunal do Júri..., p. 157). Cita (p. 157) acórdão relatado pelo Desembargador DLRCEU DE
MELLO, no qual este salientou: "Entendo, com efeito, que falar por último (tréplica), com
possibilidade, inclusive, de modificar linha de defesa até entào seguida, é uma das pou
cas vantagens que se oferece ao réu nos julgamentos pelo júri (...) Assim, quantas vezes,
ante a ausência de réplica do Promotor, fica o Defensor impedido de expor, aos jurados,
argumentos que, pressuroso, teria reservado para a oportunidade da tréplica".
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admitindo, se for imprescindível, a tréplica ainda quando não houve a réplica. 8


Entende, ainda, prejudiciais à defesa a permanência do réu algemado em plenário
ou a exibição dos antecedentes do acusado. Por fim, realça que, para a defesa
plena, deve o juiz formular quesitos sobre todas as teses apresentadas pelo advo-
gado e sobre pontos de defesa trazidos pelo réu em seu interrogatório.
Referia o autor ser prejudicial à defesa a permanência do réu algemado em
plenário. Esse assunto foi objeto de destaque nos últimos anos. O Plenário do
Supremo Tribunal aprovou, em 13.08.2008, a Súmula Vinculante 11, de cujo
texto consta: "Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado
receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do
preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de res-
ponsabilidade disciplinar civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade
da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade
civil do Estado," Além disso, o art. 474 do CPP, alterado pela Lei 11.689/2008,
dispõe, em seu § 3°: "Não se permitirá o uso de algemas no acusado durante o
período em que permanecer no Plenário do Júri, salvo se absolutamente ne-
cessário à ordem dos trabalhos, à segurança das testemunhas ou à garantia da
integridade física dos presentes". Por fim, determina o art. 478, 1, que, durante os
debates "as partes não poderão, sob pena de nulidade, fazer referências (...) à
determinação do uso de algemas como argumento de autoridade(...)"
O sigilo das votações não ofende a garantia constitucional da publicidade.
Atém de estar previsto na própria Constituição, justifica-se como medida neces-
sária para preservar a imparcialidade do julgamento, evitando-se influência sobre
os jurados que os impeça de, com liberdade, manifestar seu convencimento pela
votação dos quesitos.
É esse o pensamento externado por ROGÉRJO LAURIA Tuca,9 HERMINIO ALBERTO
MARQUES PORTO,10 e GUILHERME DE SOUZA Nuca.11 Em sentido contrário: RENÉ ARIEL
Dora,11 LENIO LUIZ STRECK1* e JAMES TUBENCHLAK.14"1'

8. Neste sentido o acórdão citado na noia anterior, mencionado pelo autor.


9. Tuca, Direitos e garantias, p. 258-259.
10. HERMÍNIO ALBERTO MARQUES PORTO, Júri..., p. 315.
11. GUILHERME DE SOUZA Nuccijtm..., p. 164-174.
12. R ENÉ ARIEL Dom, A publicidade dos julgamentos e a "sala secreta" do júri, Revista dos
Tribunais, v. 677, p, 330 e ss. Segundo GUILHERME DE SOUZA Nuca Qiíri..., p. 321-322),
R ENÉ ARIEL Dom propôs, durante a discussão de reforma do Código de Processo Penal,
a supressão da sala secreta, sendo a tese rejeitada.
13. LENIO LUIZ STRECK, Tribunal do júri - Símbolos & rituais, p. 145-146.
14. JAMES TUBENCHLAK, Tribunal do júri -Contradições e soluções, p. 119.
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Para a jurisprudência, o sigilo das votações não viola o arl, 93, IX, da CF,
que impõe a publicidade nos julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário. En-
tende-se que a própria Constituição previu tal sigilo e, ainda, no próprio art, 93,
IX, é feita ressalva no sentido de que a lei, se o interesse público o exigir, poderá
"limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados,
ou somente a estes".16
A soberania dos veredictos foi prevista pela primeira vez em texto consti-
tucional na Constituição de 1946. Foi mantida na Constituição de 1967 (art.
150, § 18). Contudo, a Emenda 1, de 1969, apesar de conservar o Tribunal do
Júri, não se referiu à sua soberania, gerando grande controvérsia. Para FREDERICO
MARQUES poderia o legislador ordinário admitir plena devolução aos tribunais
nas apelações contra decisões do Tribunal do júri. 17 Essa solução chegou a ser
alvitrada em projetos de lei.18 Mas, não tendo sido alterada a redação do Código de
Processo Penal, continuou o entendimento de que permanecia a soberania do
júri, não podendo o Tribunal de justiça alterar a decisão dos jurados. Retorna,
agora, a soberania dos veredictos ao texto da Constituição.
A soberania não significa suprimir do processo de júri qualquer outro
juízo. Há durante o processo um prévio controle judicial sobre a admissibili -
dade do julgamento, sobre a competência e sobre a ocorrência de excludente de
ilicitude. Pode o juiz pronunciar (art. 413 do CPP) ou impronunciar o réu (art.
414 do CPP) Na primeira decisão, o acusado será levado a julgamento pelos
jurados, ficando, por isso, respeitada a soberania. Na segunda, contudo, o juiz
impede que o caso seja submetido a julgamento do Júri, concluindo que não há
indícios de autoria ou prova da existência do crime. O mesmo sucede quando o
juiz absolve o réu sumariamente (art. 415). São soluções que se justificara.
Não há razão para sobrevida de relações jurídicas processuais não sustentadas
em um suporte razoável quanto à autoria e à materialidade, sen do preferível a
solução legal da decisão de impronúncia, ficando os autos no aguardo de
melhor prova. Quanto à absolvição sumária, há decisão de mérito, mas
justificada porque os autos evidenciam conduta lícita, não existindo mo tivo
para submeter o acusado ao constrangimento do julgamento em plenário. Deve o
juiz, contudo, agir com cautela para não subtrair dos jurados a apreciação do fato
criminoso. Não ofende a soberania o fato de ser possível ao Tribunal, em grau de
apelação, nos casos de decisão manifestamente contrária à prova

15. Ver ainda sobre o sigilo das votações e a garantia da publicidade o capítulo destinado ao
estudo dessa garantia.
16. Assim: RT 679/372 e 658/321.
17. FREDERICO MARQUES, Notas e apontamentos sobre o júri, p. 12.
18. É o que refeie HERMÍNIO ALBERTO MARQUES PORTO, Júri..., p. 48-49.
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dos autos, encaminhar o réu a novo julgamento (art. 593, III). O júri, acentua
GUILHERME DE SOUZA NUCCI, é soberano, mas não é onipotente. O constituinte
impôs o respeito à votação dos jurados, mas não pretendeu que a decisão fosse
única.1S O que não pode o tribunal é afastar uma qualifkadora admitida pelos
jurados ou incluir a qualificadora por eles excluída; aí, há ofensa à soberania
dos veredictos.20
Há duas situações relativas aos processos do júri que merecem destaque:
a absolvição sumária em casos de inimputabilidade, com aplicação de medida
de segurança ao acusado, e a absolvição em revisão criminal de réu condenado.
O Supremo Tribunal Federal, em posição contrária à orientação prestigiada
em outros tribunais, decidira que a aplicação de medida de segurança represen-
tava restrição de liberdade ao réu e, assim, não se podia subtrair dos jurados a
possibilidade de proferirem decisão absolutória mais ampla, sem o constrangi -
mento do cumprimento da medida de segurança. n
O novo art. 415 manteve no inciso III a absolvição sumária fundada na
demonstração de causa de isenção de pena, e, no parágrafo único, exclui a apli-
cação dessa regra ao caso de inimputabilidade, satvo quando esta for a única
tese defensiva. Não foi a melhor solução. Será imposta medida de segurança,
com cerceamento da liberdade do acusado. Preferível, na linha do que decidira o
Supremo, encaminhar sempre o inimputável ao julgamento em plenário pelo juiz
natural da causa, o tribunal do júri.
É firme a orientação na doutrina e na jurisprudência de que o Tribunal de
Justiça pode, em sede de revisão criminal, absolver o réu condenado pelo
Tribunal do Júri, com o argumento de que a revisão criminal é garantia implí -
cita da Constituição e, entre duas garantias, deve prevalecer a mais favorável à
liberdade, no caso a garantia da revisão sobre a garantia da soberania dos
veredictos. Outra orientação levaria à utilização de uma garantia instituída

19. GUILHERME DE SOUZA Nuca, JIÍ ri..., p. 97.


10. Neste sentido, firmou-se a jurisprudência, sendo significativo o acórdão da 6." Turma
do Superior Tribunal de Justiça (Rec. Esp. 13.768-SR ReL Min. Assis Toledo): "Reco-
nhecida pelo Júri a qualificadora do motivo torpe, não pode o Tribunal de Justiça, em
apelação da defesa, simplesmente, reformar o veredicto popular para cancelá-la, já que
isso implicaria em malferir a soberania do Júri (ari. 5.°, XXXV1I1, c, da Constituição)"
(RT 683/370).
21. Nesse sentido, julgamento proferido no Agravo de instrumento 159.303-2-/040-SR
STF, Rei. Min. Celso de Mello, DjU 14.06.1995. Seguiu essa orientação o Tribunal de
Justiça de São Paulo, no Recurso em Sentido Estrito 193.985-3/0, SP, TJSP, Rei. Des. Vito
GuglielmiJ. 03.11.1995.
170 PROCESSO PENAL CONSTITUCIONAL

em benefício do réu contra ele próprio." Em sentido contrário, afirma-se que, no


caso, há ofensa à soberania do júri, sobrepondo o Tribunal de Justiça a sua
vontade àquela manifestada pelos jurados. Por outro lado, pondera-se ser
possível conciliar a soberania dos veredictos e a revisão criminal. Se há prova
nova, ainda não apreciada pelos jurados, que pode, por meio de um juízo prévio
de probabilidade, alterar o quadro condenatório, o correto seria cassar a
decisão e encaminhar o réu a novo julgamento. O mesmo aconteceria se
ficasse demonstrado ser falsa prova dos autos. Estaria respeitada a soberania
dos jurados e não ficaria o réu impossibilitado de reverter a situação formada em
seu desfavor. 23 A orientação prevalente é de que, no sistema do Código, a
revisão, de forma mais rápida, garante o acusado e faz prevalecer a proteção à
liberdade.2"1
Assegura a Constituição ao júri a competência para julgar crimes dolosos
contra a vida, os quais abrangem, no Código Penal, o homicídio doloso em suas
diversas modalidades (art. 121, caput, §§ Io e 2.°), o induzimento, instigação ou
auxílio ao suicídio (art. 122), infanticídio (art. 123) e os vários crimes de aborto
(arts. 124, 125, 126 e 127). O art. 125, § 4.°, da Constituição Federal, atribui ao
júri o processo e o julgamento desses crimes em casos que seriam da
competência da Justiça Militar quando a vítima for civil.
Não ficou impedida a ampliação por lei ordinária da competência do júri.
A leitura do texto constitucional revela que ele apenas reservou para o júri os

22. Entendem que é possível, na revisão criminal, absolver réu condenado pelo júri: FRE
DERICO MARQUES (O jiiri..., p. 222-223), HERMÍNIO ALBERTO MARQUES PORTO (/uri..., p. 52),
JAMES TUBENCHLAK (Tribunal do júri,,,, p. 162), TOURINHO FILHO (Processo penal, v. 4, p.
588), MAGALHÃES NORONHA (Curso..., p. 389-390), MIRABETE (Processo penal, p. 649),
GRECO FILHO (Manual..., p. 397). Cita GUILHERME DE SOUZA NUCCI (Júri..., p. 110-112)
várias decisões nesse sentido; arrola nove argumentos favoráveis a essa orientação (op.
cit., p. 112-113), mas entende que podem ser todos afastados (op. cit., p. 113-114).
23. Têm sido poucas as vozes contra a orientação francamente majoritária: GERALDO Luís
WOIIUTRS (Revisão criminal e soberania, p, 230 e ss.) e GUILHERME DE SOUZA Nuca. Este
entende que é possível a revisão com solução contrária à da decisão dos jurados quan
do há prova posterior de que estes julgaram com base em depoimentos, exames ou
documentos comprovadamente falsos e, também, quando há prova nova posterior da
inocência do réu. Nào concorda, contudo, com revisão fundada no fato de ter sido a
decisão condenatória contrária a evidência dos autos, porque os jurados decidiram com
base nessa mesma prova e chegaram a conclusão diversa, sem que fossem obrigados a
motivar o veredicto. Para este caso, entende que o réu deveria ser mandado a novo jul
gamento pelo Tribunal do Júri (op. cit., p. 114-116).
24. Por isso é que, com GRLNOVER e MAGALHÃES, na obra Recursos na processo penal, p. 649,
afirmamos que essa solução é a que visa a "garantir os direitos de defesa e a própria
liberdade"
O JÚRI, SEUS PRINCÍPIOS E SUA COMPETÊNCIA 171

crimes dolosos contra a vida, não permitindo que lhes sejam subtraídos, mas
não restringiu a sua competência a esses crimes. 25
Quando alguém, em face de sua função, deve ser submetido a julgamento
originário por Tribunal e essa regra é da Constituição Federal, por ser especial,
prevalece sobre a regra geral de competência do júri para julgamento dos crimes
dolosos contra a vida. Não, contudo, se a competência por prerrogativa de fun-
ção estiver estabelecida em Constituição Estadual. 26

25. Assim Nuca, op. cil., p. 177,


26. Ver a respeito os comentários feitos sobre competência originária dos tribunais no item
16.4.