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[Aulas Teóricas]









Direito Policial
!

APONTAMENTOS
2.º Semestre

Prof. Doutor Francisco de Sousa

Sara Castro
2018/2019



Faculdade de Direito da Universidade do Porto


O direito policial é um direito administrativo em especial. Isto, apesar de ter uma proximidade
grande e sobreposição com o Dto Penal e DPP. É a administração pública que está em causa: as forças
policiais praticam atos administrativos, atos materiais e sujeitam-se à responsabilidade pelos seus atos
ilícitos (e eventualmente lícitos). Isto quando se trata das forças policias. Porque autoridades policiais
não são apenas as forças policiais, mas também as autoridades da ordem ou da boa ordem (aquilo que
o prof. Marcelo Caetano, chamava de polícia da ordem, como o presidente da Câmara Municipal,
reitor: os presidentes dos órgãos colegiais têm competência policial). Ordem pública e a sua
conservação; atuação policial por excesso, não intervenção policial, busca domiciliária, etc.

Legislação

CRP; CPA; CP; CPP

Quanto a outra leg, o prof fornecerá a sua versão mais atualizada

Saliente-se que não há uma lei de atuação policial: as forças policiais portuguesas atuam de acordo
com os seus regulamentos (e com o CPP e CP). Noutros países, com OJ mais evoluídos, já há uma lei
de atuação policial.

Bibliografia: “Manual de Dto Policial”, Francisco de Sousa

Método de avaliação: elaboração de trabalho (de uma lista de temas apresentada pelo professor).
Apresentação dos melhores trabalhos, nas últimas aulas. Trabalho e participação do aluno na aula:
50% da classificação e 50% classificação exame final. Os alunos poderão inscrever-se diretamente no
exame final. Possibilidade de renúncia à nota do trabalho. Não há presenças obrigatórias.

Noção e conceito de polícia

O termo “polícia” é plurissignificativo e tem sido usado, historicamente, em diversos sentidos.

DIREITO POLICIAL
O significado jurídico político que prevaleceu na Europa no período que vai do aparecimento do
Estado moderno à implantação do Estado Liberal foi o de boa administração, boa ordem na
cidade ou boa ordem na coletividade.

Posteriormente, sobretudo a partir do início do séc. XVIII, surgiu em Portugal, como em


outros países, uma nova noção de polícia, significando força de segurança que garante a ordem

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pública. Esta polícia era, pois, a corporação encarregada de fazer observar as leis ou a força que
vela pela disciplina da liberdade individual. Mais restritamente, polícia significava também o
indivíduo que é membro de uma corporação individual.

Não foi ainda alcançado um conceito jurídico de polícia que reúna o consenso da generalidade
da doutrina e da jurisprudência.

A indeterminação e plurissignificação histórica do termo polícia está na origem do seu emprego


atual nos mais diversos sentidos: material e formal; estático e dinâmico; técnico e corrente; amplo e
restrito; tradicional e moderno.

Em termos gerais a polícia em sentido amplo pode ser entendida como a regulação de uma
liberdade ou atividade com vista à salvaguarda da ordem coletiva ou do bem comum relevante.
Integram esta aceção ampla de polícia as normas que regulam diretamente as atividades e
liberdades dos particulares (p.exemplo, autorizações e proibições de certas atividades) e os atos
indispensáveis à garantia de aplicação dessas normas.

Em sentido estrito, a polícia circunscreve-se, nos nossos dias, às forças de segurança públicas.

Assim, fala-se em polícia em sentido formal (e dentro deste podemos distinguir a polícia
administrativa da polícia formal). Noutras palavras, a polícia é o conjunto das autoridades que,
segundo o respetivo regime orgânico, são chamadas polícias. Não é importante que estas
autoridades policiais desempenhem funções de prevenção e combate ao perigo, isto é, funções
materialmente policiais. Está em causa apenas a forma como as autoridades são legalmente
designadas e estão organizadas. Às autoridades policiais, em sentido formal, cabe a prossecução
de um conjunto de funções estaduais que poderão ser de prevenção do perigo, mas também de
assistência (p.exemplo, atividades de socorro), de vigilância ou de perseguição ao crime e aos
criminosos.

Mas polícia também pode ser no sentido de atividade policial. Neste caso, se nos reportamos
à atividade policial precisamos de saber o que carateriza a atividade policial (precisamos do conceito
material). Noutras palavras, em sentido material ou funcional, a polícia identifica-se com os seus
fins, meios e objetos. Em sentido funcional, a polícia confunde-se com a atividade policial no seu
conjunto, isto é, com o poder de polícia, a função policial ou a missão policial.
Fundamentalmente, trata-se de uma atividade destinada a defender o público em geral do perigo
concreto, através da salvaguarda da ordem e seguranças públicas. Todas as normas jurídicas
que têm por objeto e que visam a prevenção do perigo fazem parte do direito policial material.

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O conceito material de polícia baseia-se, pois, na atividade administrativa de prevenção de
perigo, independentemente de saber a quem é destinada essa função no caso concreto. Polícia em
sentido material é a atividade administrativa de autoridade que tem por função a prevenção do
perigo, seja este proveniente da natureza ou da ação humana.

Em sentido institucional, a polícia, é sinónimo de forças de segurança, significando o


conjunto das forças, dos serviços, dos entes, das instituições ou das autoridades policiais.

Em sentido tradicional, a polícia reporta-se fundamentalmente à ideia de restrição e de


poder de autoridade.

Em sentido moderno, o termo polícia é bem mais restrito, embora ainda demasiado
indefinido. Será, em geral, a prevenção do perigo para a ordem e segurança públicas no exercício
de poderes de autoridade e com a possibilidade de imposição coativa.

Em sentido estático, polícia designa o conjunto das normas que visam a manutenção da
ordem na comunidade

Em sentido dinâmico, a polícia é a atividade de aplicação concreta da lei e do direito pelas


autoridades no exercício das suas competências policiais.

O que carateriza materialmente a polícia é a ideia de prevenção. Esta ideia é uma ideia
nova para o nosso meio cultural: na nossa cultura, não estamos habituados a olhar para a polícia como
prevenção. De forma geral, incorporamos a ideia de polícia como meio de repressão. A verdadeira
essência da polícia, e o professor crê que felizmente, no nosso país, é a prevenção. Prevenção do
perigo e perigo para quê? Perigo para bens jurídico fundamentais da nossa ordem jurídica, da
nossa sociedade. E quais são? O mais importante é a vida humana e, então, faz sentido,
considerar que compete à polícia prevenir perigos para a vida humana, saúde, integridade física
e liberdade (para os direitos fundamentais). A perseguição também é atividade de, mas apenas se a
prevenção não foi bem conseguida. P.exemplo, se a prevenção do roubo (atentado contra a propriedade
privada) não é eficaz é necessária uma atividade de perseguição.

É mais barata e eficaz a atividade de prevenção do que de repressão. O núcleo central da


atividade da polícia é a prevenção do perigo; é a defesa dos bens jurídicos fundamentais para a
comunidade. Aliás, há uma polícia para a defesa da CRP (serviços de informação). A própria OJ como
um todo é um bem jurídico importante. A legalidade é um bem jurídico importante, pois deve imperar
o Dto e não a ilegalidade. O Estado de normalidade é o império do Dto e da justiça. Assim, também
compete às forças policiais prevenir perigos para a violação do OJ: quando há perigo de violação de

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uma norma, de um princípio normativo, devem as autoridades policiais exercer a sua atividade. Claro
que há limites relativamente aos meios, ao momento, à força com que deve atuar, ...

Quando a prevenção não aconteceu e o perigo se converteu em dano, p.exemplo, a casa foi
assaltada, o buraco da estrada não foi sinalizado e um carro caiu lá dentro, então há que atuar nas
consequências do dano. No caso de roubo, competirá investigar quem assaltou e persegui-los, detendo-
os e apresentando-os à justiça. Numa manifestação, a polícia deve atuar no sentido de evitar que
aconteçam desacatos. Compete à polícia deter quem pratique violência e apresenta-los à justiça. Deve
atuar de forma proporcional à ação agressiva do agressor. A polícia tem o dever e a responsabilidade
de manter a ordem. As forças policiais, quando atuam, representam a autoridade e a soberania nacional:
ninguém tem margem de agressão às forças policiais.

Putter, no séc XVIII, já definia a polícia como a prevenção de perigos existentes (no
sentido de perigos atuais); acrescentava que fomentar o bem estar não é função própria da
polícia. A polícia deve cuidar de prevenir o perigo e não a melhoria da qualidade de vida da
população. Esta tomada de posição faz todo o sentido nessa época. Hoje em dia, estará desatualizada.
No séc. XVIII, havia um conceito alargado de polícia (entendendo-se que também tinha como função
o fomentar do bem estar das pessoas) e Putter quis ir contra esse entendimento, dizendo que a polícia
se deveria concentrar na prevenção e não na melhoria da qualidade de vida existente.

A atuação repressiva e perseguição do ilícito só acontece quando a ação preventiva não foi
eficaz. A ação preventiva é mais importante, no sentido de evitar o perigo e, no nosso pais, assim
acontece. A maior parte da ação das forças policiais é orientada pela prevenção. Um polícia tem, como
tarefa diária, rondas, fiscalização de obras em estradas, idas a escolas: tudo isto se situa no âmbito da
prevenção. a. E é bom que assim seja, pois nos países que tenham um elevado nível de
insegurança, a ação é tão repressiva e premente, que praticamente não sobra tempo para a ação
preventiva. E isto é mau: é sempre atuar a jusante do perigo, que cista muito dinheiro, custa muitas
vidas humanas (de polícias e de cidadãos inocentes…). Uma polícia centrada na repressão é uma
polícia sem futuro. Se não houver ação forte de prevenção, a situação ficará pior, pelo que é sempre
melhor atuar preventivamente. É nesse sentido que as forças europeias apostam, nas últimas décadas.

Evolução histórica

O termo polícia significa boa ordem na cidade (no sentido de aglomerado populacional).
Onde há sociedade tem de haver boa ordem e polícia (como autoridade que garante a boa ordem).

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De facto, desde os primórdios da sociedade que o ser humano preocupou-se em encontrar
normas capazes de assegurar o funcionamento harmonioso da vida coletiva, particularmente no
que respeita à salvaguarda da ordem e segurança públicas. A realização deste objetivo exigiu
não só a criação de um conjunto de normas especialmente concebidas para esse fim, como
sobretudo a instituição de uma força pública dotada das competências e dos meios capazes de
garantir a efetiva aplicação das referidas normas. Podemos dizer que a organização da ordem na
sociedade, especialmente nas cidades, surgiu verdadeiramente apenas com o aparecimento do poder
de polícia confiado a uma instituição pública. As normas de salvaguarda da ordem e segurança públicas
destinaram-se umas a salvaguardar a sociedade da sua dissolução através da repressão dos atos
antissociais (especialmente os crimes) e outras a assegurar a vida quotidiana do grupo social através
da regulamentação dos principais aspetos da vida em comum, tais como a organização e o bom
funcionamento dos mercados, a prevenção de incêndios, a prevenção e combates de doenças.

Camões e outros autores portugueses falaram de polícia neste sentido. Diz Camões que o povo
que tem polícia é um povo civilizado, que procura ter boas regras de convivência social. Era este o
sentido na Antiga Grécia, que passou para Roma e foi evoluindo e mantendo-se com esta ideia
de garantia e boa ordem na cidade e de cuidado do bem estar material da população.

Depois, em toda a Europa, tivemos a fase do Estado de Polícia (que se situa na época do
Absolutismo, sécs. XVII e XVIII). É criada a figura do Intendente Geral de Polícia: figura que foi
criada e adaptada em vários estados. Em Portugal, tivemos Pina Manique. Este foi incumbido do cargo
de assegurar a boa ordem na cidade de Lisboa. Era um cargo de elevada importância (equivalente ao
de 1ª Ministro): tinha poderes em questões de saúde, urbanismo (não só em questões de segurança) e
os poderes alargavam-se para tudo o que era importante para o bem estar ( a ideia de boa ordem surgia
associada ao bem estar).

No Estado Absoluto, de Polícia, temos uma noção bastante alargada que compreendia
boa ordem, mas também bem estar e, é nesse contexto, que são criadas muitas instituições ligadas
ao bem estar, nomeadamente de caráter cultural, formação escolar, prevenção da saúde pública,
etc. Temos um Estado que se tenta modernizar (período das Luzes). Em suma: o Estado tenta assumir
tarefas no domínio do bem estar; naturalmente autoritário e com esta amplitude e competências. A lei
era, em larga medida, desconhecida, pouco clara e, no caso dos costumes, não eram aplicados
uniformemente. As pessoas que os aplicavam tinham a liberdade de fazer aquilo que achavam
necessário para garantir a segurança e para fomentar o bem estar. Uma adm não balizada pela

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lei: adm de graça (quem administra pode usar a sua vontade): a lei está naquilo que o administrador
acha por bem.

Com a passagem para o Estado Liberal de Dto, impõe-se paulatinamente a ideia de lei, que
regula as matérias mais importantes. A ideia de separação de poderes foi levada a um tal
extremo, que se entendeu que tudo o que era lei teria de advir do Parlamento. A efetivação das
conquistas e ideias fundamentais do Estado de Dto foi uma questão que levou várias décadas.

Foi no séc. XIX que se desenvolveram as policias em sentido institucional, que temos
atualmente em toda a Europa (PSP, p.exemplo) e já , nalguns casos, no séc. XX. Até ao séc. XIX
merece ser destacada a polícia a cavalo (maréchaussée) e que foi o 1ª corpo policial na Europa e com
uma ligação àquilo que ainda hoje temos. Mudou de nome na Rev. Francesa (Gendarmerie) mas ainda
existe na Holanda (precisamente sob a designação maréchaussée). A Germandarie foi desenvolvida
como polícia a cavalo, tendo como objetivo dar proteção aos transportes (tendo sido criada por Filipe,
o Belo, no séc. XIV).

A polícia rural, da Gendarmerie, corresponde um pouco à nossa GNR. A GNR tem a sua
conceção originária como polícia de campo (mas já não é assim), por oposição a uma polícia urbana
(que deu origem à PSP). Este modelo dual surgiu na Alemanha, França, Itália.

Entretanto, foi complementado por polícias secretas. As polícias secretas surgem para fazer
face ao crime organizado (máfias): o Estado começa a sentir-se fortemente ameaçado e, portanto, há
que dotar-se de meios de espionagem. Desenvolveu-se também a Polícia Judiciária, como uma
polícia orientada especificamente para a investigação do crime e para dar auxílio ao MP e aos
tribunais. É orientada não para a prevenção, mas especificamente formada para a perseguição. É uma
polícia de investigação do crime, fundamentalmente. Desta forma, formaram-se os modernos corpos
de polícia (o que designamos por polícia institucional) por oposição às autoridades administrativas que
têm competência policial.

O direito policial é essencialmente direito de prevenção, mas quando não foi possível prevenir
a violação da OJ, é necessária uma ação de repressão.

A CRP tem um único artigo que se dedica à polícia: o art.272º. O artigo é dúbio porque esta
norma dispõe que a polícia tem, como funções, defender a legalidade democrática, com respeito
pela lei. Por aqui não conseguimos perceber a diferença entre polícia e outras entidades encarregadas
de defender a legalidade democrática. Os tribunais também defendem a legalidade democrática,

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p.exemplo. De acordo com esta norma, a polícia tem também como função garantir a segurança
interna e como, 3ª função, a defesa dtos dos cidadãos (voltamos para uma cláusula genérica). É a
polícia que está na linha da frente da garantia dos direitos dos cidadãos ou são os tribunais? O professor
considera que a CRP não é suficientemente esclarecedora numa perspetiva de delimitação concreta
das funções policiais.

O nº2 do art.272º CRP fala em medidas de polícia. Medidas de polícia são atuações típicas
da polícia. A legislação regula estas medidas (detenção, entrada no domicílio, etc). As medidas de
polícia são as previstas na lei. O legislador constitucional submete, ao princípio da legalidade, a
ação policial. A polícia não pode fazer nada que não esteja autorizado por lei (princípio da
legalidade). Quando se trate de apreciar a legalidade de um determinado facere ou non facere das
forças policiais ou de autoridades administrativas com competências policiais temos de averiguar se a
conduta está autorizada por lei. A autoridade policial é serva do império do Direito.

Há uma ligação do princípio da legalidade com o princípio da proporcionalidade. A


administrativa policial tem de cumprir todos os princípios fundamentais do direito adm. E quando atua
no âmbito da perseguição criminal tem de respeitar os princípios do Direito Penal e do Direito
Processual Penal.

De facto, a atuação policial é geralmente ablativa os direitos e liberdades do cidadão, a lei


deve prever os pormenores dessa atuação, nos seus fins, objetos, procedimentos e meios. Mas
diversos fatores opõem-se a uma previsão plena e perfeita da lei. A necessidade de uma justa
valoração de diversos aspetos materiais e jurídicos e a necessidade de garantir a eficiência das
medidas policiais fazem com que a atuação policial não possa ou, em certas circunstâncias, não
deva ser pré determinada ao mais ínfimo pormenor.

Um dos princípios mais importantes de orientação da atuação policial é o princípio da


proporcionalidade: a intervenção policial deve ser proporcional (apta, indispensável e não
excessiva) às exigências do caso concreto. A observância desta exigência terá melhores perspetivas
de ser bem sucedida se a decisão for tomada com proximidade em relação às circunstâncias de tempo
e de lugar, o que permitirá que os fundamentos da decisão seja, quanto possível, precisos e concretos.
As previsões gerais e abstratas do legislador na fixação dos pressupostos da ação policial devem, pois,
deixar uma certa margem de flexibilidade, que permita a necessária adequação do ato às circunstâncias
do caso concreto. O legislador deve deixar uma folga para que a autoridade policial complemente a
previsão legislativa com vista à realização da justiça no caso concreto.

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O princípio da proporcionalidade é fundamental para a realização do Estado de Direito. Este
princípio foi desenvolvido a partir de 1969 com acórdãos da jurisprudência alemã e francesa. É
fundamental de uma administração pública do Estado de Direito. Não há nenhum instrumento que
possa substituir o princípio da proporcionalidade. O “estritamente necessário” é um critério
fundamental da ação policial. Se a atuação não for legal, a administração incorre em responsabilidade
civil e penal.

A salvaguarda da ordem pública tem como limite central o respeito pela dignidade da
pessoa, que é um princípio fundamental do Estado de direito democrático. Um caso ilustrativo
da jurisprudência francesa é o “arremesso de anão”. Em outubro de 1991, uma conhecida empresa
de entretenimento organizou alguns espetáculos na região de Paris (e não só) que tinham como
“momento alto” o lançamento de um indivíduo de pequena estatura, como projétil, de um lado a outro
do recinto de espetáculo. Tendo tomado conhecimento deste inusitado espetáculo, o Prefeito de
Morsang sur Orge, enquanto guardião da ordem pública local, decidiu proibir estas exibições,
com base na violação da dignidade da pessoa humana. A empresa promotora do espetáculo interpôs
recurso junto do tribunal administrativo, tendo conseguido anular a decisão em 1ª instância. O tribunal
entendeu que aquele espetáculo não era de natureza a perturbar a “boa ordem, tranquilidade e
salubridade públicas”. O próprio indivíduo anão declarou que havia aderido voluntariamente ao
“programa”, mediante uma remuneração, que anteriormente se encontrava desempregado, que era um
indivíduo inferiorizado no mercado de trabalho devido à sua deficiência física, que aquela atividade
era para ele um meio de subsistência como qualquer outro e que havia recebido um treino adequado.
Segundo o próprio anão, proibi-lo de exercer aquela atividade seria privá-lo do gozo de um direito
inalienável: o direito ao trabalho.

Porém, no fundo, tratava-se de mais uma forma de exploração de anões, como tantas outras tão
frequentes em espetáculos circenses ou televisivos. Na sequência do recurso interposto, o Conselho
de Estado francês declarou, em 1995, que “o respeito pela dignidade da pessoa humana é um dos
elementos da (noção de) ordem pública; (que) a autoridade investida do poder de polícia
municipal deve, mesmo na ausência de circunstâncias locais específicas, proibir um espetáculo
atentatório da dignidade da pessoa humana. O Conselho de Estado acabou, pois, por restringir a
liberdade do indivíduo, contra a sua própria vontade, para defesa de si mesmo.

O nº3 do 272º da CRP é mais esclarecedor quanto às funções da polícia: a prevenção de


crimes. Há uma ligação da ação policial à atividade de prevenção. Fala-se somente em crime, mas
toda a ilegalidade constitui uma ofensa à Ordem Jurídica, cuja defesa está a cargo da polícia

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(pelo que deve prevenir a ocorrência de qualquer ilegalidade). Estas prevenção deve-se fazer pelas
regras gerais sobre a polícia (mas quais são?) e respeitando os dtos e liberdades dos cidadãos.

O leg, nº4 do art.272º, remete para a lei ordinária quanto à fixação da organização das forças
de segurança, devendo ser organizadas pelo modelo de unidade do Estado: um comando central
para todo o pais.

Este é o único artigo da CRP que se reporta à polícia. É o único da CRP formal, mas em
Portugal, vigora um conceito de constituição material, compreendendo, p.exemplo, o normas do
Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Atentemos, p.exemplo, no art. 29º da DUDH. No nº2 tem uma expressão importante do ponto
de vista das funções do dto policial “promover o reconhecimento e o respeito pelos dtos e liberdades
dos outros”. É necessário reconhecer e respeitar esses dtos e liberdades, a fim de “satisfazer as justas
exigências da moral, ordem pública e bem estar”. Saliente-se que o bem estar não é matéria de polícia,
mas a defesa da ordem pública e da moral, sim.

A CRP exige moral, aliando moral pública à ordem pública, p. exemplo. E aqui temos de
descortinar se a moral é ainda um bem jurídico da nossa OJ e se, sendo um bem jurídico, fará
parte das funções da polícia prevenir as ofensas à moral pública e perseguir aqueles que a
ofendam. A nossa CRP fala diversas vezes em moral pública, mas a leg ordinária não se tem debruçado
sobre ela. O art.25º da CRP, em suma, dedica-se integridade moral do cidadão. O nº8 do art.32º da
CRP também se refere à integridade moral, dispondo que são nulas toda as provas obtidas com
ofensa à integridade moral. Compete ao intérprete e aplicador da lei interpretar o conteúdo esta
expressão (já que o leg é muito lacunar).

A CEDH- que também é recebida, com valor constitucional, pelo art. 16º da CRP- tem
várias referências à moral pública. A moralidade é um bem jurídico fundamental que estará na
integridade da ordem pública. A ordem é um conceito cujo conteúdo e alcance é essencialmente de
caráter dogmático.

O mundo da moral é muito subjetivo, mas não o é somente. Kant dizia que se agia segundo o
supremo tribunal de cada consciência, pela qual orientamos a nossa vida. Todos temos uma moral,
mas a moral é essencial ao ser humano e à sociedade. No que diz respeito ao campo estritamente
pessoal, o dto não deve intervir. Pelo contrário, no que diz respeito a padrões morais, indispensáveis à
sá convivência em sociedade, o dto deve intervir. Será a moral pública um valor? E qual o padrão
vigente em moral?

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Saliente-se que os art. 6º CEDH, o art.8º CEDH e o art 11º CEDH fazem referências à
moral pública (que por todos tem de ser respeitada e que fará com que polícia seja a autoridade com
competência para prevenir a ofensas a esse bem jurídico e reprimir ofensas , se a prevenção falhar).

Por outro lado, A adm pública tem de cumprir normas éticas. Será ética sobrepõe-se aos valores
morais? Talvez não. Exige-se do funcionário público, a mais alta integridade e moral.

Noutras palavras. A ordem pública compreende valores morais, éticos, estéticos e outros,
desde que sejam partilhados pela maioria e considerados por esta como indispensáveis a uma
vida coletiva em paz e harmonia. Os valores das minorias, desde que não sejam contrários à lei e ao
direito, devem ser respeitados na sua existência e livre desenvolvimento.

Os valores sociais e morais são por natureza dinâmicos, variando de época para época, de
matéria para matéria e de local para local. É o espírito da época aliado ao espírito do lugar. Por
este facto, adequam-se pouco à positivação legislativa, dado o caráter estático da norma jurídica.
Assim, mesmo quando estes valores aparecem referidos na lei, devem ser interpretados tendo em
consideração as circunstâncias de lugar, tempo, de tempo e de matéria.

A lei portuguesa, à semelhança de outras legislações estrangeiras , nomeadamente dos


Estados Membros da UE, continua a impor o respeito pela moral pública, pelos bons costumes
e por valores ético sociais, que deste modo se afirmam como valores jurídicos.

Assim, tentamos desvendar o nebuloso campo das funções das forças policiais.

A legislação não clarificou as funções da polícia, exigindo uma dogmatização a acrescida


sobre o que é e o que dever ser uma polícia de Estado de Direito. É possível à doutrina responder
a esta questões. O edifício normativo do Estado de Direito rege-se por determinadas regras e princípios
e, portanto, é sempre possível reconduzir este setor da administração pública às exigências do Estado
do Direito.

Do princípio geral do Estado de Dto decorrem emanações fulcrais para a ação polícia (e para a
organização policial). Refere-se, mais uma vez, a importância do art.25º CRP, pela sua referência à
moral. De facto, somos seres morais, ainda que não tenhamos consciência disso. O ser humano é a
ratio e emotio (emoções e intelecto).

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O art.272º CRP trata especificamente da polícia, mas é pouco esclarecedor quanto ao que é a
policia em Portugal. Este artigo não o diz, mas dele infere-se, que se orienta para as forças policiais
(policia em sentido institucional). Este artigo é vago, de qualquer forma.

O que se afirmar é que a prevenção do perigo para a ordem e a segurança públicas (noção
válida para todos os Estados de Direito Democrático). Esta é uma cláusula geral de polícia: é uma
fórmula qual decorrem as funções da polícia. Mas a polícia abarca o reverso da medalha: o combate
ao crime e perseguição criminal (agir sobre a situações em que os bens jurídicos foram violados).

Esta cláusula é válida para todos Estados de Dto, pois é uma emanação do próprio princípio do
Estado de Dto. Para chegar a esta cláusula temos de começa pela invocação do Estado de Dto
democrático mas, também, por outros elementos complementares: CEDH e DUDH.

O art.8º CEDH dá uma achega importante na definição dos bens jurídicos cuja prevenção está
a cargo da polícia. Este art. refere-se à tutela da vida privada. Ora, normalmente esta é feita valer em
tribunal, mas há situações de urgêncis, em que as força policiais têm de atuar. O art 8º,nº2 CEDH
dispõe que não pode haver ingerência (limitação de um dto de liberdade) da autoridade pública
neste dto, senão quando esta estiver prevista na lei. Não há ingerência sem lei, nem para além da
lei. Quando se faz a exigência da necessidade de autorização de lei, está-se a invocar o princípio
da proporcionalidade. Estas ingerências, mesmo quando autorizada por lei, estão limitadas ao
estritamente necessário.

Neste diploma invoca-se muitas vezes a moral pública e, portanto, em Portugal, a partir daqui,
temos fundamento legal para afirmar que a moral pública é um bem jurídico fundamental. Como é
limitada e definida como nos nossos dias é uma questão controvertida. Para muitas pessoas o
ordenamento moral está acima da OJ.

Polícia administrativa (em geral e em especial)

A polícia administrativa em geral, engloba as autoridades administrativas (Presidente da


República, presidente de uma Câmara Municipal) e órgãos de inspeção (ASAE, inspeção do
trabalho) com competências policiais. São organismos que têm, por missão, controlar o respeito pela
Ordem Jurídica. P.exemplo, um professor durante aula, é uma autoridade policial, pois tem o poder e
dever de manter a ordem. É também uma prerrogativa de todo o presidente de um órgão colegial. Os
órgãos colegiais têm de funcionar para poder cumprir as funções que a lei lhes atribuí, sendo o
presidente responsável pela manutenção da ordem e pela legalidade de tudo o que se passa na reunião.

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Se, p.exemplo, um membro do órgão, faz uma proposta ilegal, como não colocar algo na ata, o
presidente pode ordenar que fique registado (uma vez que haveria uma violação do princípio da
transparência).

Quando no art.272º se fala na defesa da legalidade democrática, não é só às forças de


ordem e segurança pública (polícia em sentido institucional) que compete prevenir a sua
violação, mas também à polícia adminstrativa. De facto, há uma grande parte da administração
pública portuguesa que, ainda que não sejam conhecidas como polícia, são-no efetivamente. Se as
competências de um órgão de uma autoridade administrativa são policias, a autoridade é policial (ainda
que não seja assim designada).

P.exemplo, as ASAE irá averiguar se os bens alimentares representam um perigo para a saúde
pública, sendo que a saúde pública e a sua prevenção compete às autoridades policiais.

Noutras palavras. O governo também é uma autoridade de polícia administrativa geral.


DE facto, o Governo, como de condução da política geral do país e órgão superior da
Administração pública (art.182º CRP), é a principal entidade responsável pela política nacional
de segurança, pela polícia geral nacional (interna), sendo, pois a autoridade de polícia geral
nacional por excelência.

A CRP é clara quanto à competência policial geral do Governo, tanto no âmbito da sua
competência legislativa (art.198º), como da competência “para fazer os regulamentos necessários à
boa execução das leis (art.199º, al.c). Os poderes de polícia administrativa são exercidos não só
diretamente pelo Governo e seus membros, como sobretudo através de serviços especializados da
Administração central, geralmente as Inspeções Gerais, Direções Gerais, Institutos, etc.

A nível das autoridades administrativas locais. A lei portuguesa estabelece tradicionalmente


um amplo leque de atribuições e competências no domínio da polícia administrativa, em diversos
domínios, dos quais destacamos a proteção civil, o ambiente e saneamento básico, a defesa do
consumidor, o ordenamento do território e urbanismo. Também é atribuição do município a
“polícia municipal”. A lei refere ainda atribuições como salubridade e proteção da comunidade local.
A lei confere à câmara municipal e ao seu presidente amplos poderes de polícia municipal.

Ainda que com escassas competências, o presidente da junta de freguesia é, face ao


ordenamento jurídico vigente, uma autoridade de polícia. Neste âmbito, para além dos poderes de
polícia interna de que dispõe e do dever que sobre ele recai de executar as deliberações da junta
de freguesia, compete ao presidente da junta de freguesia, nomeadamente, colaborar no domínio

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da proteção civil em operações de socorro e assistência em situações de catástrofe e calamidade
públicas.

Como polícias administrativas especiais destacam-se:

➢Polícia sanitária: a polícia sanitária, que geralmente se exerce preventivamente através de


uma licença sanitária, abarca a atividade da Administração orientada à salvaguarda da saúde pública,
fazendo exigências e impondo limitações, especialmente na limpeza de ruas e locais públicos ou
abertos ao público, mas também nas condições de segurança e higiene das causas de saúde. Não menos
importante é a ação desenvolvida na prevenção (e combate) de doenças, especialmente as mais
perigosas e mais facilmente transmissíveis, podendo em casos mais extremos impor o tratamento aos
portadores de certas doenças;

➢polícia dos costumes: pela expressão polícia dos costumes entendemos o conjunto de
limitações à liberdade individual impostas pela Administração em geral com vista a prevenir práticas
viciosas que perturbem ou possam vir a perturbar interesses significativos da comunidade em geral. a
ideia subjacente à polícia dos costumes é a de que os vícios e os desvalores sociais perturbam a boa
ordem na comunidade, conduzindo à insegurança, ao crime e para a criminalidade. As atividades
viciosas predispõem para o crime e para a criminalidade, ao mesmo tempo que o seu exercício em
lugares públicos ou de forma dirigida ao público perturbam a boa ordem e abalam os fundamentos
morais da sociedade. Medidas que inserem na polícia dos costumes são, p.exemplo, as medidas que
impõem restrições aos locais de venda ao público de bebidas alcoólicas e tabaco (como
estabelecimentos de ensino), frequências de certos estabelecimentos (como casas de jogo por
menores), afixação, exibição e circulação de certos escritos ou imagens, especialmente a menores, etc;

➢polícia económica: a polícia económica tem por objeto as atividades económicas como um
todo. Em termos gerais, a polícia económica compreende as limitações que em geral incidem sobre a
liberdade individual no domínio das atividades de satisfação das necessidades humanas pela aplicação
de bens materiais. A polícia económica previne perigos na produção e circulação de bens económicos.
A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) é a autoridade administrativa nacional
especializada no âmbito da segurança alimentar e da fiscalização económica. A ASAE, autoridade e
órgão de polícia criminal, é um serviço de inspeção com competências na área da fiscalização
económica. O seu objetivo é velar pelo cumprimento das normas que disciplinam as atividades
económicas.

➢polícia da publicidade: a atividade publicitária constitui um domínio extremamente amplo e


poderoso, desempenhando um papel central na economia da sociedade moderna. Não admira, pois que

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esteja sujeito a uma regulamentação bastante intensa, nos seus múltiplos aspetos, podendo-se em geral
dizer que se trata de uma atividade sujeita a fortes restrições, não só quanto ao objeto, mas também
quanto ao local. Desde logo, não pode ser colocada publicidade em edifícios, monumentos ou locais
de interesse histórico, cultural, arquitetónico. Por outro lado, não podem ser colocados suportes
publicitários sempre que estes possam originar obstruções ou intrusões visuais que degradem
substancialmente as vistas e valores visuais mais significativos de cada paisagem.

➢polícia dos espetáculos: a realização de espetáculos e divertimentos públicos (desportivos,


teatro, variedades, audições musicais, bailes e outros) só podem ser anunciados ou realizados após o
visto (e não licença) prévio da Direção Geral dos Espetáculos ou das suas delegações. A Direção Geral
dos Espetáculos é um serviço do Ministério da Cultura, ao qual compete, essencialmente superintender
e fiscalizar os espetáculos e divertimentos públicos, bem como os recintos a eles destinados.

A realização de quaisquer espetáculos públicos carece de classificação que nunca poderá ser
denegada. Assim a polícia de espetáculos envolve uma avaliação técnica e moral.

➢ polícia da viação. A polícia de viação tem por objeto o uso (circulação) dos meios de
comunicação (vias de comunicação e meios de transporte), em geral, trate-se de pessoas ou
mercadorias. As vias de comunicação podem ser estradas, canais de navegação, rios, lagos e mar,
caminhos de ferro e espaço aéreo. A polícia das estradas, especialmente regulada no Código da Estrada,
incide essencialmente no trânsito rodoviário. É regulada a circulação, o estacionamento, a velocidade,
registo de viaturas, etc.

Em termos gerais, a polícia da navegação, que incide sobre a navegação nas águas interiores
(rios, lagos e canais), regula aspetos considerados indispensáveis para assegurar a “boa ordem” na
navegação, tais como as matrículas, salubridade e condições de segurança dos meios de transporte.

A polícia dos caminhos de ferro ou polícia ferroviária, tradicional em toda a Europa, incide
sobre a guarda das linhas, passagens de nível, velocidade das locomotivas, sinais, paragens, freios,
pessoal de transporte e, em geral, condições de segurança, higiene e comodidade no transporte de
pessoas, bem como a segurança no transporte de mercadorias, especialmente das mercadorias
consideradas perigosas, documentação que deve acompanhar o transporte de mercadorias, etc.

A polícia de circulação aérea, de significado cada vez maior na sociedade moderna,


ocupa-se das condições de segurança, regras de trânsito, especialmente na aterragem e

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descolagem de aparelhos, ruído, sinalização, higiene e comodidade de aparelhos,
documentação de passageiros, etc;

➢polícia das atividades desportivas e recreativas. São muitas as atividades que se integram na
polícia das atividades desportivas e recreativas. Entre elas, destaca-se a Inspeção Geral de Jogos, que
é uma autoridade essencialmente policial dotada de competência, nomeadamente, para classificar os
jogos. Não menos importante é a polícia do desporto e dos espetáculos desportivos. A realização de
provas desportivas na via pública, corridas de velocidade ou provas desportivas de veículos ou peões
depende de autorização administrativa.

Uma das mais importantes questões que se colocam no âmbito dos espetáculos desportivos é a
segurança e proteção nos recintos desportivos. Ainda para garantir a segurança nos recintos
desportivos e nos ajuntamentos por eles provocados, pode haver requisição da força policial quando
os organizadores de espetáculos desportivos considerem ser necessária a sua presença.

A lei estabelece determinadas medidas preventiva da violência nos espetáculos desportivos,


que deverão ser adotadas de acordo com o grau de risco em causa. Entre essas medidas destacam-se
as seguintes: reforço do policiamento; criação de planos de intervenção; separação de adeptos em zonas
distintas, etc;

➢polícia das edificações. A polícia das edificações incide sobre todo o tipo de construções,
abarcando reconstruções, obras de conservação e beneficiação, construção de edifícios, muros e valas.
Esta polícia está sobretudo a cargos das autoridades municipais. No caso de construção de habitações,
a polícia das edificações abarca todos os aspetos de segurança, higiene e comodidade das habitações.
A lei prevê um rigoroso regime de licenciamento e fiscalização das construções, impondo inúmeras
restrições e proibições. Porém, a polícia das edificações compreende tradicionalmente também aspetos
de estética urbana e de proteção de monumentos e zonas históricas.

➢polícia dos estabelecimentos (comerciais, públicos). A polícia dos estabelecimentos está


fundamentalmente a cargo do presidente da câmara e outras entidades como a Direção Geral do
Turismo. Em geral os estabelecimentos necessitam de autorização para funcionar, devendo respeitar
determinadas exigências.

➢polícia do trabalho. A Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) é um serviço de


polícia administrativa que, designadamente, fiscaliza o cumprimento da lei, regulamentos e
convenções respeitantes às condições de trabalho, emprego e desemprego e segurança, higiene e saúde
no trabalho. A atividade inspetiva da ACT é prosseguida por funcionários dotados de amplos poderes

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de autoridade. São competências da ACT, nomeadamente, fiscalizar o cumprimento das disposições
legais, regulamentares e convencionais e dos contratos individuais de trabalho respeitante às condições
de trabalho, ao apoio ao emprego e à proteção no desemprego, etc.

Em geral, a polícia do trabalho consta de diversos diplomas que regulam aspetos como a
proteção da segurança e/ou da saúde dos trabalhadores contra determinados riscos. Estes diplomas
preveem um exaustivo regime contraordenacional, distinguindo entre contraordenações muito graves,
contraordenações graves e contraordenações leves;

➢polícia da água e resíduos. Importante domínio da polícia administrativa, cada vez mais
autónomo é das águas e resíduos. Neste domínio, existem planos de ação, em larga medida por
imposição da UE, e um vastíssimo acervo de diplomas que visam a prevenção de perigos para a
sociedade e para o cidadão. Para o cidadão, a existência destes planos e regulações implica, antes de
mais, a proibição de abandono, descarga em lixeira e outros destinos finais não controlados. Entre os
muitos objetivos visados destacam-se o respeito pela saúde humana e pelo ambiente;

➢polícia do ambiente. A lei portuguesa reconhece formalmente a existência de uma polícia do


ambiente. Do ponto de vista orgânico, o Governo, especialmente através do ministro e do secretário
de estado que tutela a pasta do ambiente, é verdadeira autoridade policial. Também os governos
regionais (através das competentes secretarias regionais), as câmaras municipais e as juntas de
freguesia autoridades de polícia ambiental. Nomeadamente, a lei confere às polícias municipais o
poder dever de praticar “ações de polícia ambiental”.

➢polícia das atividades culturais. Sobretudo no âmbito do Ministério da Cultura existem


diversos serviços com funções que se enquadram na “polícia das atividades culturais” e que
tradicionalmente estão concentradas especialmente na Inspeção Geral das Atividades Culturais. No
domínio policial, as principais atribuições de polícia das atividades culturais são: assegurar o
cumprimento da legislação da área da cultura, nomeadamente através da divulgação de normas e de
realização de ações de verificação e de inspeção; assegurar o cumprimento da legislação sobre
espetáculos e licenciamento de recintos que tenham por finalidade principal a atividade artística,
nomeadamente através da divulgação de normas e da realização de ações de verificação e de inspeção.

Polícia institucional municipal

Depois desta policias, transversais à administração pública, temos polícias institucionais a


nível de certos municípios. Alguns municípios entenderam que precisam de entidades fiscais fardadas

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na rua para assegurar a boa ordem nas áreas urbanas. Hoje, essa fiscalização é feita pelos serviços
camarários. Mas, de qualquer forma, foram criadas policias municipais. As funções das polícias
municipais são de diversa índole, podendo-se integrar nas seguintes áreas: fiscalização (de habitações,
de obras, de estabelecimentos comerciais, de saúde pública, do trânsito), aplicação efetiva das decisões
das autoridades administrativas, vigilância, guarda de edifícios e equipamentos públicos municipais;
orientação do trânsito; averiguações e intimações, policiamento, proteção civil e formação e
esclarecimento do público em geral.

Atuação das autoridades de polícia administrativa

Atua preferencialmente através do ato administrativo genérico ou do regulamento.


P.exemplo, sinalização rodoviária é ação da polícia administrativa (boa ordem da circulação
rodoviária). Neste caso, da Câmara Municipal, com especial incidência sobre o vereador do respetivo
pelouro.

Os atos da polícia administrativa podem ser jurídicos (ou de regulação jurídica) ou


materiais. Os atos jurídicos podem ser unilaterais ou bilaterais. Os atos unilaterais podem ser
regulamentares ou individuais e concretos. Os atos regulamentares de polícia (que, em geral, se
caraterizam por terem um conteúdo regulador de uma atividade) podem conter proibições gerais e
absolutas, proibições gerais com reserva de autorização ou prescrições positivas. Os atos individuais
e concretos mais importantes podem ser: proibições ou limitações; medidas de restrição e
autorizações.

Os atos materiais da polícia administrativa são frequentes e de grande relevância prática,


mas também teórica. Pode tratar-se do corte de árvores que representam perigo para a circulação na
via pública, abate de animais com doenças infeciosas, da demolição de muros que ameaçam ruir com
perigo para pessoas, da sinalização de perigos (buracos na estrada, derrocadas na estrada, óleo
derramado na estrada, etc).

A função da polícia administrativa é uma função de boa ordem ou função ordenação, que
tem em vista essencialmente em duas finalidades: por um lado, prevenir o perigo, quando constitua
uma série ameaça para a ordem, segurança, salubridade e tranquilidade públicas; por outro lado, repor
a situação de normalidade quando o perigo já se tenha concretizado em dano, a fim de conter,
quanto possível, os efeitos danosos e evitar que eles se alastrem. No primeiro caso, a autoridade
recorre à prevenção; no segundo caso, a técnica adequada é a repressão. A prevenção é assegurada

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essencialmente através de controlo, vigilância e autorização prévia; diferentemente, a repressão é
assegurada essencialmente através de proibições e limitações ( p.exemplo de atividades).

Caraterização das forças de segurança

Destaca-se a organização hierárquica rigorosa. Na PSP e GNR existe a carreira de oficial


(que tem a equivalência a licenciatura e é preparada no Instituto Superior da Polícia ) e a carreira
de guarda (que é prepara na Escola Prática de Polícia)

Na Escola Prática, em que para entrar tem de se possuir, como habilitação académica, o 11º
ano, pode-se atingir a posição máxima de chefe da polícia. Para ingressar o Instituto Superior da
Polícia é necessário ter 11º e frequentar 3 anos de curso, sendo que terá o curso de comissário;
podendo atingir, como posto máximo, a posição de superintendente de chefe.

Na prática, atualmente, todos têm (até por imposição da escolaridade mínima obrigatória) o 11º
ano e candidatam-se ao Instituo Superior: se não conseguirem entrar optarão pela Escola Prática (com
todas as consequências que daí resultam).

A polícia, enquanto força de segurança pública, abarca todos os funcionários encarregados de


aplicar a lei que integram as forças de segurança, as forças paramilitares ou outras, quando atuam sob
a forma de autoridade de qualquer órgão do Estado. A polícia, enquanto forças de segurança, é a parte
da força armada que o Estado especializa na prevenção e repressão dos conflitos internos que
perturbam a ordem e a segurança públicas, através do recurso, se necessário, à coação física e armada.
A polícia é, no seu conjunto, também designada por forças de segurança, forças de manutenção da
ordem e segurança públicas, autoridades policiais. Em Portugal a polícia, neste sentido institucional
de força de segurança, abarca, fundamentalmente, a PSP, a GNR, a Polícia Marítima e a Guarda
Prisional.

Em termos gerais, a organização policial a Europa ocidental apresenta uma grande


variedade de sistemas, o que se explica não só pela tradição histórica, como também devido a outros
fatores, como o índice de criminalidade, o número de habitantes e os diferentes hábitos sociais de
participação democrática.

Na Europa, distinguem-se fundamentalmente três sistemas de polícia, embora nenhum deles


exista em pureza: um amplamente centralizado e tendencialmente fechado; outro marcadamente
e aberto à sociedade civil e outro misto.

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O primeiro modelo carateriza-se por uma polícia bem hierarquizada e claramente
definida em relação aos demais organismos governamentais, exercendo funções sobre todo o
território nacional (sendo o que vigora em Portugal).

O segundo modelo carateriza-se pelo seu elevado grau de descentralização e de


envolvimento das comunidades locais, bem como pelo seu caráter marcadamente civil.
Carateriza-se ainda pela existência de um âmbito territorial limitado e frequentemente complexo,
devido à existência de múltiplos serviços policiais orientados por critérios, nem sempre uniformes, em
matéria de organização interna, de funcionamento e de funções. Este modelo é a marca dominante nos
sistemas britânico e sueco.

Finalmente, um terceiro modelo, que podemos caraterizar de “misto”, combina elementos


dos dois modelos anteriormente referidos. Atualmente, os sistemas que melhor se identificam com
este modelo misto são os da Noruega, da Finlândia, da Dinamarca, da Bélgica e da Espanha. A
Alemanha é um caso especial: se consideramos a Federação, teremos um sistema descentralizado; se
considerarmos os Estados Federados, o sistema já se apresenta bastante mais centralizado.

Em termos gerais, todos os sistemas da Europa Ocidental apresentam uma tendência para
evoluir no sentido do modelo eclético, desde logo devido ao atual esforço, bem visível, de criação
ou reforço do papel das polícias autónomas ou municipais.

Cooperação europeia em matéria policial

A Europa forma uma união política (União Europeia), no contexto dos tratados que foram
aprovados. Há um espaço único de livre circulação de pessoas e há uma fronteira externa da UE,
sendo necessário um rigoroso controlo.

Esse controlo faz-se através das polícias nacionais, mas há uma cooperação intensa, treino
e estudo entre todas as polícias europeias. Há também bases de dados comuns.

Destaca-se também a EUROPOL (que é uma força originariamente europeia, fazendo um


trabalho de coordenação).

Em suma, a segurança, na Europa, está necessariamente confiada às polícias dos diferentes


estados (havendo, não obstante, esta intensa cooperação).

Sobretudo nos últimos anos tem-se procurado intensificar a cooperação entre as polícias
europeias no sei da Interpol, da Europol e de acordos internacionais como a Convenção
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Schengen. Ainda não existem dados seguros sobre as reais vantagens de algumas medidas que foram
tomadas, sendo, no entanto, certo que a abolição de fronteiras no âmbito da Convenção Schengen não
significou aumento da criminalidade na Europa, como muitos temiam.

A interconexão generalizada das polícias europeias é hoje uma realidade com tendência
para o aperfeiçoamento e aprofundamento através de grupos de oficiais de ligação (com papel
de interface), apoiados por sistemas informáticos cada vez mais sofisticados. A europeização da
segurança é uma realidade que carateriza este limiar do século XXI.

O policiamento moderno é em larga medida feito à distância, com controlo e vigilância das
pessoas e das sociedades europeias. Esta nova prática apoia-se em tecnologias de ponta e numa nova
conceção da segurança. Podemos falar de uma internacionalização da segurança interna a nível
europeu.

A polícia é cada vez menos uma polícia de quarteirão e cada vez mais uma polícia
europeia. As polícias europeias da atualidade contribuem cada vez para a afirmação da
soberania dos seus Estados e para a segurança coletiva na Europa. Isto não significou, no entanto,
a abolição ou mesmo a secundarização das polícias essencialmente voltadas para a segurança interna
(urbana ou rural), que se ocupam da pequena delinquência. Em qualquer caso, multiplicaram-se os
serviços especializados de polícia em áreas como o terrorismo, o banditismo, as drogas, o tráfico
de viaturas e de obras de arte roubadas, o tráfico de crianças e jovens para fins de prostituição,
etc. Por outro lado, a abolição das fronteiras a nível interno da UE não significou o desaparecimento
das polícias de controlo à fronteira, especialmente no caso das polícias dos portos e dos aeroportos,
mas também nas fronteiras terrestres sempre que é necessário.

Funções, competências e formas de atuação da polícia

As funções da polícia são as tarefas fundamentais do Estado (as funções fundamentais do


Estado são aquilo que se designa por atribuições). As funções da polícia correspondem, então,
aos poderes, atribuídos por lei, às forças policiais (através de cláusulas gerais, p.exemplo ,a função
da PSP é prevenir ordem e segurança públicas).

As competências são poderes atribuídos aos órgãos (são mais concretizadas: conselho
executivo, assembleia do órgão policial, etc).

As formas de atuação da polícia são as jurídicas (regulamento e ato, nomeadamente). A


polícia usa bastante o regulamento, pois, p.exmeplo, a PSP tem competências nas matérias das armas
( de defesa, caça…), controlando as licenças para o seu uso e porte. Contudo, normalmente, a a PSP

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não atua através do regulamento: apenas o faz a título, excecional, quando este for uma forma de
atuação adequada a regular aspetos ligados à compra de munições, porte de munições, de armas, etc.

A forma típica de atuação das forças policiais, por serem forças de atuação, é através de
atos materiais ou jurídicos (orais). Quando a polícia dá ordens, até de forma sinalética (com.
P.exemplo, o acender de uma luzes num carro), pratica um ato jurídico. Quando, numa manifestação
pública, a polícia dá ordem de dispersão, esta é um ato oral. Mas, muitas vezes, prática atos materiais
( p.exemplo, delimitação de uma área, de uma estrada, onde ocorrerem obras, a ronda (…). As polícias,
no sentido de forças segurança, atuam, normalmente, através de atos materiais.

As formas jurídicas de atuação das forças policiais são, em geral, as mesmas usadas pela
Administração pública em geral, com exceção do contrato, que só muito excecionalmente poderá
ter lugar. Também o regulamento é muito pouco usado, embora haja polícias noutros países que
recorram muitas vezes a ele. Outra caraterística fundamental é o frequente recurso à atuação
material. Por conseguinte, as formas de atuação das forças policiais são fundamentalmente os
atos administrativos e os atos materiais. Os atos administrativos têm lugar, fundamentalmente
através de ordem oral ou por sinal (ato sinalético).

Por vezes as leis policiais falam em “formas especiais” de atuação (p.exemplo de recolha de
dados pessoais). De entre estas “formas especiais” contam-se as observações, empregos secretos
de câmaras de vídeo ou de microfones, bem como o emprego de agentes infiltrados e a pessoas
de contacto. Porém, nestes casos, mais do que formas jurídicas estão em causa formas de
manifestação da atuação policial. Na generalidade dos casos, estas formas de manifestação da
atuação policial que mantêm dificuldade de adaptação ao Estado de direito, embora por vezes sejam
absolutamente indispensáveis, como acontece especialmente no caso do combate à criminalidade
organizada. Estas formas recentes de atuação distinguem-se das medidas standard clássicas,
como a revista, busca, a apreensão ou a detenção, pelo facto de geralmente terem lugar de forma
sigilosa, sob pena de não garantirem que os efeitos pretendidos sejam alcançados. Claramente em
relação às medidas clássicas é também o domínio dos dados relativos a pessoas ( os chamados dados
pessoais), especialmente o processamento eletrónico de dados, uma forma bem especial de
manifestação da atuação policial.

Funções e competências das forças de segurança

As forças de segurança dispõem de um leque bastante alargado de competências, em parte


sobreposto às funções policiais das autoridades administrativas. Em termos gerais, as funções policiais
podem ser divididas em dois grandes grupos: as que geralmente pertencem às autoridades

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administrativas (polícia administrativa) e as que pertencem às forças de ordem e segurança. Embora
as forças policias sejam essencialmente forças de ordem e segurança públicas, as suas funções alargam-
se a domínios que não são estritamente de prevenção do perigo. Em termos gerais, podemos integrar ,
os poderes das forças policiais, em seis grandes categorias: a) assistência e socorro; b) auxílio e
cooperação; c) vigilância; d) prevenção do perigo; e) repressão de ilícitos e f) de polícia
administrativa

Funções de assistência e socorro

A polícia tem funções de assistência e socorro. P.exemplo, sendo confrontada com uma
situação de alguém caído e ferido, a polícia tem o dever de prestar socorro, da forma que puder
e mais adequada (tendo em consideração as circunstâncias do caso concreto). Até dentro de
propriedade privada a polícia deve prestar socorro. P.exemplo, imagine-se que , numa ronda
policial, ouve-se gritos vindo de uma casa. A polícia bate à porta e ninguém abre. Devem insistir e se
ninguém abrir arrombar. Podem fazê-lo se suspeitaram que a vida ou integridade física de alguém está
em risco.

Pode ser um incêndio, ou até alguém que subiu para um prédio e ameaça suicidar-se: a polícia
deve adotar medidas ativas no sentido de demover a pessoa do seu propósito. As forças policiais são
obrigadas a partir do princípio de que, aquele que se quer matar, não está no livre exercício da sua
vontade, devendo prestar auxílio: 1º tentando dialogar com a pessoa; depois, simultaneamente, devem
chamar auxílio médico e ir aproximando-se, gradualmente, até ser possível retirar a pessoa do sitio
(detenção para defesa da própria vítima).

A polícia tem também uma função de assistência quando um bem jurídico esteja em
perigo. P.exemplo, a assistência a um gato, preso num qualquer sítio, pode ser concebível, pois está
em causa um bem jurídico: a vida de um ser vivo. Quando o faz, a polícia, tem de ver os meios que
vai empregar, o tempo despendido e perceber se esses não serão necessários para a assistência a casos
em que e estejam em causa outros bens jurídicos, como a vida humana. Tem de ponderar os bens em
causa e o risco. Cada caso tem de ser apreciado individualmente.

A ideia de que a polícia serve apenas para perseguir criminosos é uma ideia errada. É mais
correta a ideia de prevenção do perigo e, portanto, estas operações de socorro e assistência não causam
estranheza.

No domínio da assistência e socorro, compete à PSP, nomeadamente, prestar ajuda às


populações e socorro aos sinistrados e apoiar em especial os grupos em risco, como os sem

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abrigos ou toxicodependentes. Compete-lhe ainda auxiliar menores em risco e em geral as pessoas
que se encontrem em estado de necessidade e abandono (todas as pessoas cuja vida ou integridade
física corra risco atual e relevante, necessitando pois de auxílio urgente, mesmo que sejam culpadas
pelo estado em que se encontram).

Funções de auxílio e cooperação com a Administração

A polícia auxilia no trabalho, p.exemplo, de uma autoridade adm. Uma autoridade adm
camarária pretende abrir uma vala, no centro da cidade, e pede à polícia que vá sinalizar o
trânsito. Quando estão numa função auxiliar, as forças policiais, estão sob as ordens de quem pediu
auxílio e cooperação. Esta função de cooperação acontece, nomeadamente, com outras entidades
policiais, p. exemplo, troca recíproca de informações (EUROPOL, INTERPOL).

No domínio do auxílio administrativo e cooperação, compete, nomeadamente, à PSP


garantir a execução dos atos administrativos emanados da autoridade competente que visem
impedir o incumprimento da lei ou a sua violação continuada. Por outro lado, a polícia também
auxilia os tribunais e serviços e organismos, como as comissões parlamentares de inquérito.

Funções de vigilância

Esta função é feita não só com o auxílio de câmaras, mas também de forma ocular. É uma
das caraterísticas dos poderes de polícia: fazer vigilância e controlo. E, aqui, tanto a vigilância,
como o controlo são atividades de prevenção (de ilícitos).

No domínio da vigilância, compete à GNR e à PSP a vigilância de residências, prédios,


instalações fabris, estabelecimentos comerciais, bem como de locais e recintos predominantemente
frequentados por grupos de risco. Compete-lhes ainda exercer vigilância e patrulhamento das zonas
habitualmente referenciadas como locais de tráfico ou de consumo de estupefacientes ou de
substâncias psicotrópicas. A GNR, através da sua Brigada Fiscal, exerce vigilância e controlo nas
fronteiras, especialmente nos locais que ofereçam condições propícias ao desembarque clandestino de
droga. O exercício das ações de vigilância é feito em larga medida com o auxílio de meios técnicos
como alarmes e câmaras de vídeo.

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Função de prevenção e repressão de perigos

Quanto à função de repressão, esta consiste na perseguição do crime e criminosos.


Contudo, na Europa, de maneira geral, as forças policiais atuam de forma concentrada na atividade de
prevenção.

Apesar disto, a atividade de prevenção pode ser frustrada, sendo necessária uma
atividade de repressão. Aqui começa-se a falar em buscas domiciliárias, rusgas, detenções, o uso
de arma ou cassetete. Houve uma mudança da situação real, em que passou a ser necessária a
repressão. A repressão implica restrição/ingerência, podendo implicar o uso de armas de fogo
(contra objetos ou pessoas, em certos casos.) A repressão envolve o recurso à força, que pode
implicar o uso de meios auxiliares de coação (algemas, cassetetes, armas de fogo, cães polícia)

Há uma lista ampla de meios auxiliares de coação física que a polícia deve usar com conta,
peso e medida. Cada meio deve proporcional ao fim em vista. A polícia deve escolher os meios
adequados aos fins. Se não forem proporcionais, a intervenção, em si, é ilegal.

Na ação de prevenção do perigo, o domínio policial por excelência, as forças de ordem e


segurança públicas promovem as condições de segurança que assegurem o normal funcionamento das
instituições democráticas, bem como o exercício dos direitos e liberdades e o respeito pelas garantias
fundamentais dos cidadãos. Compete-lhes também garantir a manutenção da ordem, segurança e
tranquilidade públicas; garantir a segurança rodoviária, através da orientação e fiscalização do trânsito;
garantir a segurança das áreas ferroviárias e aeroportuárias, etc.

A prossecução das funções das funções preventivas é garantida através de diversos tipos de
medidas, que vão da apreensão, à guarda (incluindo de achados) e conservação de objetos, ao
encerramento temporário de estabelecimento e instalações, a buscas e revistas, à identificação, ao
controlo de documentos de autorização, medidas estas que, na sua generalidade também poderão ser
adotadas com fins repressivos.

Um dos domínios mais típicos da ação das forças de ordem e segurança pública é o da
prevenção e repressão de ilícitos. Compete-lhes prevenir a criminalidade e os atos contrários à lei e
aos regulamentos, ou seja, prevenir a violação do ordenamento jurídico; prevenir a criminalidade
organizada.

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A polícia administrativa atua no gabinete e, muitas vezes, através do regulamento (mas
também através do ato administrativo). As forças policiais (polícia em sentido institucional) atuam no
terreno, muitas vezes através de atos jurídicos sendo a longa mannus , o braço coativo do Estado,
atuando frequentemente através de atos materiais. Jellinek afirmava que a condução de embriagados
e prostitutas (a ordem e moral públicas devem ser salvaguardadas) à esquadra da polícia, a vacinação
obrigatória, a entrada pela força numa habituação, fazem parte deste tipo de intervenção material da
polícia.

O Código Penal é uma lei policial, delimitando o âmbito de atuação das forças policiais,
mas também o Código da Estrada. O conceito de bem jurídico policial é extremamente amplo e
todos os bens jurídicos protegidos, pelo Estado de Dto e pela legislação do Estado de Dto, são da
competência da atuação das forças policiais, no que diz respeita à sua prevenção e repressão das
suas violações (muitas vezes não primeiramente através das forças policias, mas também através
destas).

As forças policiais podem ter competências diretas, mas podem também atuar
subsidiariamente. Noutros casos, não subsidiariamente, mas auxiliarmente. Nalgumas situações
as forças policiais podem receber pedidos de auxílio (feito pelo tribunal, p.exemplo, na execução de
sentença de despejo de imóvel: se se previr alguma resistência requer-se o auxílio das forças policiais,
que estão especialmente equipadas e treinadas para impor, pela força, as decisões judiciais ou
administrativas). Sendo que só será necessária coação quando o acatamento voluntario não se verifica.

Muitas vezes, há atuações que não estão expressamente previstas em lei policial: não há
uma lei de atuação policial. O que há são estatutos da GNR e a lei orgânica da PSP. Estamos no
âmbito da administração de ingerência ( em que se aplica o princípio reserva de lei, ao contrário da
administração de prestação).

Intervenção operacional

A atuação operacional da polícia é uma forma típica das forças policiais. Com a expressão
“atuação operacional” pretende-se abranger as situações em que a polícia estabelece um plano
de ação, atuando num contexto de um plano que prepara e executa. P.exemplo, intervenção em
operações de tráfico de seres humanos ou de estupefacientes ou mesmo rusgas em áreas mais
problemática. Isto é possível através de uma atuação operacional: há uma estratégia, uma ação conjunta
através de um plano previamente elaborado, sendo que não pode recorrer a meios excessivos (toda a

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atuação policial está sob o princípio da proporcionalidade). Ex: se um, depois de várias cacetadas,
sujeito está já está ferido no chão, sem capacidade de reação, passa a ser uma agressão física.

Há situações em que a operacionalidade é muito mais sofisticada como o combate à


criminalidade organizada (p.exemplo, máfias). Estamos no âmbito da criminalidade organizada,
com natureza internacional e que representa um perigo para o Estado de Direito. A intervenção
operacional é uma medida complexa, que se prolonga no tempo e que é constituída por uma ação de
estudo, investigação, vigilância e atuação no terreno. Os sistemas de informação e segurança são uma
resposta do Estado de Direito a essas ameaças para a democracia.

Para responder às altamente sofisticadas manifestações da criminalidade moderna a polícia


deve agir de forma “operativa”, segundo um plano previamente delineado, onde se sobrepõem medidas
preventivas e repressivas. A polícia necessita, pois, de um amplo espaço de planificação e de
concretização prática da sua atividade de combate à criminalidade. O combate “operativo” à
criminalidade não corresponde a uma tática especial, mas ao reconhecimento de amplos poderes da
polícia para planificar a sua ação de combate ao crime e à criminalidade. Por conseguinte, a
perseguição ao crime e à criminalidade é vista como uma parte essencial de uma ampla função policial
de prevenção do perigo. Os adeptos desta tese propõem de iuri constituendo que a ação policial seja
liberta dos atuais pressupostos legais de intervenção, ou seja, das ideias de perigo e de suspeita. No
entanto, esta tese tem sido recusado, como não poderia deixar de ser, pela generalidade da doutrina e
da jurisprudência, embora se verifique uma clara abertura para aceitar, em domínios específicos, como
o combate à criminalidade organizada um amplo espaço de estratégia, quer na preparação, quer na
execução de planos de combate à criminalidade. Este domínio da “preparação para o combate ao
perigo” e do combate preventivo à criminalidade necessita de poderes mais alargados, os quais, no
entanto, também deverão ser fixados pelo legislador, nunca se devendo falar em não previsão dos
pressupostos de intervenção em concreto.

Manutenção da ordem seguranças públicas;

Proteção da juventude

A juventude merece uma especial proteção das forças de segurança. A polícia olha com
particular atenção para os jovens, nomeadamente, para os jovens em risco. Daí que, há cerca de
50 anos, as forças policiais tenham passado a patrulhar as áreas onde se reuniam os jovens em risco, a

26 | P á g i n a
acompanhando-os e convidando-os a participar em atividades que fomentassem o seu desenvolvimento
integral. Assim, as forças policiais, em risco, atuam, numa perspetiva preventiva, em relação aos
jovens.

Competência de urgência

Um domínio específico, muito caraterístico da atuação policial, é o domínio da competência de


urgência. O facto de as forças policias estarem permanentemente no terreno leva a que possuam esta
competência.

Assim, intervêm nestas situações urgência, no sentido em que é necessário intervir rapidamente
no sentido de defesa dos bens jurídicos essenciais. Assim, quando há uma situação de necessidade
desencadeia-se, automaticamente, uma atuação policial (ainda que a competência seja de uma
autoridade administrativa e não da polícia).

Pode-se distinguir entre urgência material e urgência temporal. A urgência temporal


remete para uma necessidade de intervir num mais curto espaço de tempo: há uma ligação à
necessidade de intervenção imediata. A urgência material não descarta a proximidade temporal,
mas está associada a uma falta de meios adequados por parte da autoridade normalmente
competente (p.exemplo a Câmara Municipal é competente, mas não tem meios humanos e materiais
para intervir na situação). Saliente-se que pode haver um chamamento de 3ºs, se a própria polícia
não tens os meios para a situação em causa (há uma requisição, com justa indemnização). Esta
situação também se designa por intervenção indireta por interposta pessoa. Deve-se privilegiar,
primeiramente, a via do acordo, mas pode haver um chamamento coativo de 3º. Esta imposição,
que é feita a um particular, acontece sempre mediante justa indemnização.

O núcleo central da atividade das forças de ordem e segurança públicas reside nas situações de
urgência, quando ocorrem perigos graves e iminentes para bens jurídico policialmente protegidos,
perigos cuja prevenção em situação normal é da competência das autoridades de polícia administrativa.
Por conseguinte, a competência das forças de ordem e seguranças públicas é cada vez mais uma
competência de urgência. Tanto as forças de segurança, como os serviços das autoridades de polícia
administrativa mantêm meios de socorro em alerta permanente (p.exemplo, carros de reboque,
ambulâncias, barcos e veículos de salvamento. Porém, na prática, existe uma grande diferença entre o
alerta dos serviços de polícia administrativa e o alerta das forças de segurança. Esta diferença assenta
fundamentalmente na tradicional competência genérica das forças de segurança para todo o tipo de

27 | P á g i n a
casos de urgência e na sua disponibilidade a qualquer hora do dia e da noite. Na prática, em caso de
urgência devida a acidente, quebra da paz noturna, perigo de derrocada, perigo para a saúde pública,
inundação ou catástrofe de qualquer natureza, as forças de segurança são geralmente as primeiras e
frequentemente as únicas no local. O mesmo se diga no domínio da investigação criminal. O primeiro
no local do crime não é o MP mas, ainda que auxiliarmente, a polícia. Porém, a ação das forças de
segurança não é capaz de, por si só, responde satisfatoriamente a todas as situações de urgência. A
ação policial de urgência necessita, pois, de ser complementada com a ação dos serviços de bombeiros
e proteção civil em geral, dos serviços médicos de urgência (INEM), dos serviços de assistência
medicamentosa urgente ao domicílio, dos serviços de meteorologia, dos serviços de socorro em
montanha, nos rios e no mar, etc. O próprio particular também tem, por vezes, o dever de prestar
auxílio de urgência, ficando, nesse caso, sujeito a regras especiais de conduta.

O conceito de urgência é um conceito central do direito policial. No entanto, o seu conteúdo


não é frequentemente claro. A importância do conceito de urgência resulta desde logo do facto de ele
constituir frequentemente a chave da delimitação das funções das forças de segurança relativamente
às funções das autoridades de polícia administrativa. O estudo do conteúdo e alcance da urgência leva-
nos à distinção de dois tipos de urgência: a urgência material e a urgência temporal.

Como fonte de habilitação das forças de segurança, a urgência material corresponde a uma
situação de impossibilidade (material) de intervenção para a prevenção do perigo por parte das
autoridades de polícia administrativa, embora temporalmente tal ainda fosse possível. A situação de
urgência material deve-se à falta ou insuficiência dos meios humanos ou materiais de execução das
autoridades (de polícia administrativa). A falta da necessária preparação técnica do pessoal também
pode causar uma impossibilidade material de intervenção. Isto acontece com alguma frequência pelo
facto de as autoridades de polícia administrativa (autoridades de ordenação) serem concebidas e
estarem especialmente preparadas para prevenir o perigo pelas vias burocráticas. Alguns autores
sustentam também que se verifica urgência material no caso de a impossibilidade de intervenção se
dever a razões jurídicas. No entanto, nestas situações as forças de segurança são habilitadas
diretamente pela lei e não pela urgência material resultante da impossibilidade de intervenção das
autoridades de polícia administrativa que, por não terem competência jurídica, não são autoridades
normalmente competentes para intervir, não se suscitando a questão da sua intervenção. A autoridade
de polícia administrativa não pode intervir no caso concreto com fundamento em razões jurídicas
quando não tenha recebido da lei os correspondentes poderes.

28 | P á g i n a
No caso de urgência temporal, a autoridade de polícia administrativa não pode prevenir o
perigo por razões de tempo, isto é, em tempo útil. As suas formas privilegiadas de atuação são os atos
jurídicos que, por natureza, exigem o decurso de algum tempo para a produção dos efeitos esperados.
A urgência temporal carateriza uma situação que exige a adoção imediata das medidas adequadas, sob
pena de o perigo que ameaça se consumar em dano (princípio da inadiabilidade da medida). Uma
medida de prevenção do perigo é inadiável quando a intervenção imediata da polícia não pode ser
omitida sem daí resulte um dano para a ordem e segurança públicas. Por conseguinte, a questão da
inadiabilidade de uma medida de prevenção do perigo para efeitos de urgência temporal é respondida
a partir da questão de saber se o esperar pela intervenção da autoridade policial normalmente
competente (autoridade de polícia administrativa) irá eliminar ou dificultar substancialmente o sucesso
da necessária medida de impedimento do dano que ameaça.

Também estamos perante uma urgência temporal no caso da autoridade de polícia


administrativa não poder agir pelo facto de o perigo surgir após o encerramento dos serviços
administrativos ou em dias feriados e nos fins de semana.

Na competência de urgência, as forças policiais atuam como órgão auxiliar das entidades
administrativas. P.exemplo, a atividade de fiscalização de obras pode ser privatizada. Nesta atividade
de fiscalização, os fiscais da câmara ou a empresa que recebe a competência de fiscalização, essas
pessoas podem pedir às forças policiais que a acompanhem no ato de fiscalização (se houver
resistência). Exemplo das forças policiais num exercício auxiliar. Mas p.exemplo, também atuam
numa desordem numa reunião de um qualquer órgão adm: o seu dirigente pode pedir o auxílio da
polícia. Em toda a Europa, nas zonas próximas de órgãos de soberania, não pode haver reuniões e
manifestações (no nosso caso 100 metros). Isto para que as reuniões e manifestações não perturbem
o normal funcionamento do órgão de soberania e para evitar uma coação nas deliberações. Este limite
dos 100 metros pode ser excedido, desde que tenha havido prévia autorização. Os órgãos de soberania
e da administração pública podem necessitar doa auxílio das forças policiais para manter a boa ordem
na reunião. O MP também pode requerer o auxílio das forças policiais: pode ter de tomar
determinadas medidas perante as quais possa haver resistência, pelo que podem requerer o auxílio das
forças policiais.

Entre as autoridades de polícia administrativa e as forças de segurança existe uma estreita


relação que se manifesta em diferentes formas de trabalho conjunto. Este trabalho conjunto tem lugar
essencialmente através do dever geral de colaboração e do auxílio de execução. Em princípio, a regra

29 | P á g i n a
de ouro que deve presidir à relação entre as autoridades de polícia administrativa e as forças de
segurança é a seguinte: com exceção dos casos de habilitação legal expressa, as forças de
segurança só intervêm quando, no caso concreto, a prevenção do perigo por uma autoridade de
polícia administrativa não seja possível devido a uma situação de urgência material ou temporal.
Existe, pois, uma subsidiariedade das forças de segurança (polícia) face às autoridades de polícia
administrativa (autoridades de ordenação).

Tanto as autoridades de polícia administrativa como as forças de segurança prosseguem a


função de prevenção do perigo. No entanto, os campos de atuação não são coincidentes. A forma como
estão equipadas, jurídica e materialmente, reflete a diferente forma de prosseguir a função. A função
de prevenção do perigo pela polícia ( força de segurança) é marcada pelos casos de urgência, isto é,
pelos casos em que a prevenção do perigo pelas autoridades de polícia administrativa normalmente
competentes não se apresenta possível, pelos menos em tempo útil. Por outras palavras, a polícia
(forças de segurança) age para a prevenção geral de um perigo quando as medidas no caso concreto se
lhe apresentam inadiáveis, tendo-se já em conta a inviabilidade da intervenção das autoridades de
polícia administrativa. Esta solução vai ao encontro das caraterísticas tanto da autoridade de polícia
administrativa, como das forças de segurança: a primeira decide no gabinete, enquanto que a segunda
é essencialmente um serviço de execução, permanentemente no terreno e especialmente preparada e
equipada para intervir em casos de maior urgência.

Relação entre polícia e proteção civil

Da proteção civil fazem parte organismos como Bombeiros, INEM e outros organismos criados
com o objetivo de prevenir e combater catástrofes (incêndios, inundações), devendo estar devidamente
preparadas e em permanente estado de alerta. A proteção civil relaciona-se com as forças policiais
pois têm em comum o facto de atuarem para a prevenção do perigo (para vidas humanas, bens da
propriedade privada, bens de interesse público (como a natureza)). As diferenças estão na forma de
atuar e nos poderes de coação. A polícia é a única pode utilizar meios de coação. São forças e
serviços complementares, mas não coincidentes. Deve também haver cooperação destas entidades em
situações de calamidade pública.

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Próximo da atividade policial, mas sem se confundir com ela, está a proteção civil. Entre as
duas atividades há diversos aspetos comuns, mas também acentuadas divergências.

A proteção civil tem em comum com a atividade policial sobretudo o facto de se tratar de uma
atividade que visa essencialmente com a prevenção do perigo. Em comum é ainda o facto de as duas
atividades estarem especialmente orientadas para situações de urgência- o que legitima uma atuação
em estado necessidade- e serem exercidas em regime de permanência. Porém, existem acentuadas
divergências quanto aos tipos de perigo a prevenir, às autoridades competentes para agir e sobretudo
quanto ao modo de agir e aos poderes de intervenção, para além de a polícia não se limitar a uma ação
de prevenção do perigo.

Aspeto demonstrativo da proximidade da proteção civil à polícia é o facto de, p.exemplo, a


Inspeção da Proteção Civil ser competente, nomeadamente, para fiscalizar o cumprimento da
legislação de prevenção, atividade tipicamente policial.

SIS (Serviço de informação e segurança)

Serviço que atua secretamente: o modus operandi é o sigilo. Contudo, é não é uma polícia
secreta. Todos os Estados Europeus têm serviços de informação e segurança (ainda que com diferentes
designações). Não é constituído por polícias, mas por pessoas especializadas no combate à
criminalidade (civis especialmente formados. O seu trabalho passa essencialmente por
recebimento de informação, troca de informação, etc, nomeadamente relativamente a pessoas
fugidas e ameaças terroristas. E isto porque dela resultam perigos enormes para a democracia. A
democracia tem de ser permanentemente defendida: um Estado que não procura defender-se dos seus
inimigos, acaba por ser dominado por eles. A nível de ameaças externas, no contexto europeu atual,
destacam-se o terrorismo e organizações criminosas internacionais (tráfico de seres humanos,
estupefacientes, etc). O Estado de Direito não tem polícia secreta, no sentido de polícias secretas
de regimes totalitários e autoritários. São precisos os serviços de informação e segurança para
defenderem a democracia e o Estado de perigos internos e externos ligados a organizações
criminosas internacionais e ameaças terroristas.

O Serviço de Informações e Segurança (SIS), criado em 1984, é um serviço público,


dependente do Primeiro Ministro (através do Ministro da Administração Interna) de recolha de
informações. O SIS está incumbido da “produção de informações que contribuam para a salvaguarda
da segurança interna e a prevenção da sabotagem, do terrorismo, da espionagem e da prática de atos

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que, pela sua natureza, possam alterar ou destruir o Estado de Direito constitucionalmente
estabelecido”. Os seus funcionários não têm competência de polícia.

Os serviços de informações e segurança que têm vindo a surgir na Europa ocidental nas últimas
décadas pretendem ser uma resposta com “meios apropriados” à insegurança gerada pela ação de
algumas organizações terroristas internacionais. Em sentido genérico e amplo, a “defesa do Estado”
ou “defesa da Constituição” compreende todas as instituições, organismos e medidas destinadas a
defender a existência material e jurídica do Estado contra agressões internas e externas. Subjacente à
“defesa do Estado” está o reconhecimento da necessidade de assegurar maior eficácia e celeridade na
obtenção de informações relativamente aos meios tradicionais da polícia relativamente a tudo o que
possa pôr o Estado de direito democrático em perigo.

Os modernos serviços de informações e segurança não devem ser confundidos com as antigas
polícias secretas, enquanto serviços secretos às ordens de ditadores. O que distingue os atuais serviços
de informações existentes na generalidade dos Estados de direito democráticos das antigas polícias
secretas é o facto de estarem ao serviço da defesa do Estado de direito democrático, da democracia e
da Constituição. Não só os fins visados pelos atuais serviços de informações e segurança são
inteiramente distintos dos fins visados pelas polícias secretas tradicionais (manter no poder ditadores
e seus regimes, fundamentalmente através da neutralização dos opositores), como também os métodos
de atuação são diferentes quanto ao respeito pelos direitos e liberdades dos cidadãos. Por conseguinte,
os serviços de informações e segurança não se confundem com as polícias secretas, porque enquanto
estas são instrumentos de repressão ao serviço de regimes ditatoriais, aqueles são serviços
indispensáveis à defesa do Estado de direito democrático.

Os serviços de informações e segurança não são polícias ( no sentido de forças de ordem e


segurança), porque não têm uma função policial, nem possuem poderes concretos de intervenção
policial. No entanto, a relação entre as forças de ordem e segurança e os serviços e informação e
segurança está a sofrer uma importante evolução.

A distinção dos modernos serviços de informação e segurança da polícia em geral não é


meramente orgânica, mas essencialmente material. Entre polícias e serviços de informação e segurança
não há, à partida, nem uma relação de concurso, nem sequer uma relação de complementaridade direta.
A função policial consiste na prevenção do perigo concreto e no combate ao crime e à criminalidade,
na base de competências materialmente delimitadas. Diferentemente, segundo a lei portuguesa “cabe
ao SIS, no âmbito das suas atribuições específicas, promover, por forma sistemática, a pesquisa, a
análise e o processamento de notícias e a difusão e arquivo das informações produzidas”.

32 | P á g i n a
Prevenção e repressão

Prevenção consiste em evitar ou reprimir. A repressão consiste em detetar o autor da violação


do bem jurídico, persegui-los e apresenta-los à justiça. No entanto, prevenção e repressão estão
muitas vezes sobrepostas: as medidas de repressão têm muitas vezes uma função preventiva
(medidas de dupla função). Quando as medidas têm esta dupla função, as forças policias devem
ter em consideração os 2 lados. O próprio Código Penal prevê os crimes e respetivas penas,
p.exemplo.

O termo prevenção significa evitar ou impedir. A prevenção orienta-se a um fim futuro, que
consiste em impedir que um perigo surja ou se concretize em dano. Para que uma intervenção
preventiva esteja justificada, há-de haver uma ligação direta entre uma conduta ou situação concreta
contrárias à lei e ao Direito e um perigo ou dano previsto. Deste modo, as medidas de prevenção geral,
p.exemplo de doenças ou combate à pobreza e a situações indesejadas de todo o tipo não integram o
conceito de prevenção para efeitos de legitimação da intervenção policial.

Diferentemente da prevenção, a repressão consiste numa reação a um ilícito, conhecido ou


suspeito. A repressão não se orienta ao futuro, como a prevenção, mas ao passado, a algo que já
aconteceu ou se suspeita terá acontecido. No entanto, na realidade a distinção entre prevenção e
repressão não é, muitas vezes, clara. Nomeadamente, à perseguição penal está sempre aliado um certo
efeito preventivo (“previne-se reprimindo”), pelo que a atividade repressiva não se orienta sempre
apenas ao passado. Suscita-se, pois, a questão de saber a que domínio jurídico pertence este “efeito
preventivo da repressão”: se à função preventiva, se à função repressiva. A resposta tem de ser dada à
luz da função policial de prevenção, tal como está delineada na CRP, face à função jurisdicional. Ora,
da CRP resulta que, a prevenção que integra a função policial por natureza é apena a prevenção direta
do perigo e não a prevenção indireta, que tem lugar por via primeiramente repressiva.

Por outro lado, a distinção entre prevenção e repressão apresenta-se particularmente complexa
nos casos do combate preventivo ao crime e à criminalidade e da preparação para a prevenção do
perigo. Efetivamente, as modernas formas de criminalidade têm vindo a exigir da polícia novos meios
e poderes mais alargados de intervenção. Em termos gerais, e provisórios, o “combate preventivo aos
ilícitos” compreende a preparação para a perseguição dos crimes (preparação geral de perseguição) e
o impedimento de crimes (preparação geral de impedimento). Diferentemente, a expressão
“preparação para a prevenção do crime” reporta-se aos preparativos necessários para se poder prevenir
convenientemente, no futuro, o perigo. Em termos gerais, estas atividades preparatórias integram a

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prevenção do perigo, enquanto função da polícia. Resta saber, contudo, até onde poderá ir a polícia
nessas atividades preparatórias.

Outra questão que se coloca consiste em saber se, no âmbito da prevenção, a polícia pode adotar
condutas apenas com base na cláusula geral. Para uma grande parte da doutrina, a resposta deverá ser
claramente negativa, pois as medidas de prevenção significam geralmente ingerências nos direitos e
liberdades do cidadão, pelo que também estão sujeitas à reserva de lei. No entanto, são muitos os
autores que discordam desta opinião.

Por outro lado, tem-se questionado se a atividade policial de prevenção de crimes ou de


impedimento da sua prática cai no âmbito de ação da pura prevenção policial ou se não será, antes,
função de outras autoridades. A doutrina maioritária responde afirmativamente a esta questão, pois
considera que o Código Penal também é uma lei policial, na medida em que a violação de uma norma
do Código Penal representa também uma perturbação, ou seja, um perigo em sentido jurídico policial.
Também esta questão continua a suscitar muita celeuma, embora a lei aponte claramente no sentido
afirmativo.

Uma medida policial diz-se de dupla função quando através dela a polícia prossegue
simultaneamente uma função de prevenção do perigo e uma função de perseguição criminal.
P.exemplo, se a caminho de uma manifestação a polícia apreende uma arma numa operação de
controlo, essa medida tanto poderá ter simultaneamente um fim repressivo (segurança dos meios de
prova) e um fim preventivo (para a garantia do caráter pacífico da manifestação).

Em geral, as medidas de Administração contras as condutas ilícitas do particular podem visar


dois objetivos distintos: reprimir o ilícito ou prevenir que ele volte a verificar-se no futuro. Temos
assim um fim repressivo e um fim preventivo da medida. A mesma autoridade pode ter competência
para adotar medidas com os dois fins. Por outro lado, a mesma medida pode ser adotada para um fim
ou para o outro. Acresce ainda que o fim de uma medida policial pode mudar com a sua execução.
P.exemplo, uma medida que começou por ser de prevenção do perigo pode, de um momento para o
outro, transformar-se numa medida de perseguição penal, ou adquirir simultaneamente esta finalidade.

As medidas que geralmente suscitam dificuldades de enquadramento como medidas


preventivas ou de repressão ou que prosseguem simultaneamente fins preventivos e repressivos são as
seguintes: detenção, controlo de identidade, medidas de reconhecimento, rusga, apreensão e guarda de
objetos, buscas (incluindo as domiciliárias) e revistas, processamento eletrónico de informações e
dados pessoais e ordem de apresentação. P.exemplo, através de uma identificação a policia pode
simultaneamente, prevenir um perigo e clarificar um crime.

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Atuação policial em geral

Iremos referir-nos aos princípios gerais que delimitam a atuação das forças policiais (forças de
ordem e segurança públicas). Desde logo, em Portugal, não se adotou uma lei de atuação policial
(como lei de atuação das forças de ordem de segurança). Isto cria dificuldades acrescidas: por
um lado, temos forças policiais que atuam limitando direitos e liberdades fundamentais ( direito
de reunião, manifestação, direito à intimidade da vida privada): isto leva a perigos importantes.
A regra geral é que, nestes domínios, impera o princípio da legalidade, no sentido de que as
forças policiais só podem fazer o que a lei prevê, autoriza e nos limites em que a lei o permita. Se
a lei não autoriza, não tem competência. Este ponto de partida, conjugado coma falta de uma lei
de autorização (que preveja e descreva, com todo o pormenor, as competências das forças
policiais) resulta na dúvida das forças policiais sobre se devem ou não atuar os cidadãos são
imbuídos nesta indeterminação.

Temos normas avulsas e as forças policiais atuam à luz da cláusula geral de polícia (ordem
e segurança pública). Sendo que esta cláusula é comumente aceite. Enquanto não tivermos uma lei
de atuação policial temos o trabalho dificultado. Mas se o legislador não clarificou as competências
das forças policiais, podemos retirar dos ditames constitucionais, a construção do direito de atuação
das forças de segurança. Poderes próprios das forças policiais: as forças policiais titulares de uma
função e respetivas competência (para distinguir dos poderes de órgão auxiliar: quando atuam
auxiliarmente as funções e competência são atribuídas, em 1º lugar, a outras entidades e quando
necessitam de aplicar coação recorrem-se do auxílio das forças policiais). Agora, iremos dedicar-
nos às competências que são atribuídas às forças policias, diretamente.

A noção central no nosso país é a de ordem a segurança públicas. O art.272º CRP confere
à polícia o dever de salvaguarda da legalidade democrática e vimos que esta não era a mais
adequada. Quanto ao conceito dogmático e doutrinário de ordem e segurança públicas, de
maneira geral, o conceito de ordem e segurança pública de outros países é válido para Portugal,
pois são decorrências e exigências do próprio Estado de Direito. Não há uma definição legislativa
destes conceitos: são desenvolvimentos dogmáticos. É necessário fazer uma referência ao Acórdão
de 22 de Maio de 2018 do Supremo Tribunal Administrativo Federal Alemão, que aborda a
questão do perigo policial como condição que desencadeia o dever de intervenção das forças policiais.
Este acórdão baixa os níveis e exigência para a intervenção em caso de terrorismo. Não são necessárias
provas concludentes: bastará uma probabilidade suficiente, um padrão baixo de perigo, devido ao

35 | P á g i n a
perigo que esta ameaça consubstancia. Já é possível uma ordem de deportação de uma pessoa
estrangeira se, com base numa factualidade, houver perigo que pratique atos terroristas.

Noções de ordem e segurança públicas

Segurança pública abarca a maior parte da ação das forças de segurança. A ordem ocupa um
âmbito de ação mais restrito. A segurança pública compreende: a proteção da inviolabilidade a OJ
objetiva (que abarca toda a legalidade), Neste sentido, o art. 272º está bem ao dizer que compete às
forças de segurança a defesa da legalidade democrática; a proteção dos direitos subjetivos (de
pessoas singulares e coletivas); proteção dos interesses juridicamente protegidos (podem ser
interesses públicos e de particulares); proteção da existência e o normal de funcionamento do
Estado e das suas instituições (abarca órgãos de soberania, Regiões Autónomas e autarquias
locais). Assim, segurança pública é um conceito bastante alargado.

A expressão ordem pública configura uma cláusula geral que necessita de preenchimento
valorativo, sendo que o seu significado é configurado pelo âmbito das normas jurídicas. Quanto
maior o âmbito das normas jurídicas, menor o âmbito da ordem. A ordem pública corresponde
a normas de convivência social.

Segundo a jurisprudência alemã ofende a ordem pública um jogo que tem objeto e finalidade
no assassinato simulado de pessoas, uma vez que tal jogo é incompatível com a imagem da pessoa
humana da Constituição Alemã. Tal jogo cria, em si, o perigo de contribuir para que a violência e
assassinato de pessoas passem a ser banalizados e aceites com condutas normais, esvanecendo-se a
fronteiro entre o lícito e o ilícito. Violando a ordem pública não é relevante o consentimento das
pessoas abatidas, nem o facto de o jogo não se desenrolar em espaço público. A ordem pública abarca
todas as normas não escritas cuja observância é considerada indispensável para a coexistência humana.
No jogo são simulados disparos não contra alvos fixos, mas contra pessoas, com o objetivo e “matar”
o adversário. O atirador deve disparar para o centro do corpo do adversário: os jogadores estão assim
sujeitos a padrões comportamentais semelhantes ao da regra geral; os obstáculos e camuflagens
emitam cenários de guerra, com simulação de combate corpo a corpo. Não está em causa o público em
geral, neste jogo, mas é contrário à dignidade da pessoa humana e atinge a dignidade.

Tratam-se de normas de paz social, de boa ordem social, de são convívio social ou normas
de decência pública. Viola a ordem pública quem pratica um ato indecente, capaz e assediar ou
pôr em perigo o público em geral (não se excluí o assédio individual), normas de conduta mesmo
que não sejam a opinião da maioria (a minorias têm direito a existir e à proteção).

36 | P á g i n a
Se houver norma é violada a segurança pública; se não houver, pode ser violada a ordem
pública.

Âmbito de ação da ordem pública: p.exemplo, desfiles carnavalescos. Imaginemos uma


figura que poderia ferir suscetibilidades, de determinadas pessoas, levando a desacatos. Nesse
caso, haveria perigo de perturbação da ordem pública.

A ordem pública faz parte da juridicidade, ou seja, está integrada na CRP e, portanto,
ainda que uma situação não seja prevista pela lei ordinária, pode violar a ordem pública. A
ordem pública faz parte do Direito, mas não do sistema de normas.

Defesa de bens individuais como função da polícia (nomeadamente das forças de


segurança)

Isto pode colocar algumas dúvidas: a Polícia, que tem como função a segurança pública vai
estar ao serviço da defesa de bens individuais? Os bens individuais e as pessoas singulares fazem parte
do público: o Estado português somos todos nós. Os bens individuais, a começar pela vida,
integridade física, sossego noturno, liberdade de expressão, o direito de propriedade privada
(estes objetos de propriedade privada merecem a proteção do estado). E essa faz-se através dos
seus agentes. Pode-se sempre pedir a colaboração das forças policiais? Sim, mas nuns casos
podem intervir, noutros não podem juridicamente ou até podendo, não devem fazê-lo. Deve-se
sempre apreciar o caso em apreço. P.exemplo, se um senhorio quiser um fazer uma ação de despejo
não pode requerer às forças policiais que retirem o inquilino da casa. Neste caso, os tribunais são a
instituição normalmente competente para dirimir conflitos entre privados. A polícia nunca deve
atuar quando há dúvida sobre a titularidade dos direitos e não deve sobretudo, atuar de forma
parcial na situação. Deve intervir nas situações de urgência (impedir que o animal morra, que a
criança caia, etc): vão salvaguardar o direito numa situação de urgência, sendo que a disputa pelo
direito se faz nos tribunais. As forças policiais não têm essa função de dizer o direito no caso concreto,
mas de intervir para evitar que o direito perca uma parte substancial do seu valor; também apresentar
os prevaricadores ao tribunal; esta função da polícia perante bens jurídico individuais merece uma
apreciação no caso concreto.

Há várias regras: poder dever de intervir numa situação de urgência, p.exemplo. Outras
relacionam-se com a relevância do bem jurídico em causa. A polícia perante um pedido de ajuda
feito por um particular mediante a sua pessoa, vida ou integridade física ou da saúde de 3º, a

37 | P á g i n a
polícia deve intervir. P.exemplo, no caso de violência doméstica, deve intervir pois é uma questão
pública, de urgência . P.exemplo, alguém vê marginais na sua casa. A defesa da propriedade
privada pode ser também uma questão pública. Se houver uma intromissão de forma evidente,
agressiva a polícia pode vir em defesa da propriedade privada. Ou uma pessoa que está em casa
a dormir, ouve ruídos: a polícia deve intervir.

No caso de marginais: se a ocupação está ainda a acontecer, a polícia deve intervir: está
a ser praticado um crime de violação da propriedade privada. Se acabou de acontecer também
deve intervir. A polícia tem de fundar uma convicção da gravidade da situação em causa. Se na
análise que faz é evidente que os ocupantes que este nada mais são do que isso, à partida a polícia deve
intervir. Mas pode p.exemplo, a convicção fundar-se na porta abalroada. Havendo esta convicção firme
de que o direito de propriedade foi objeto de uma intromissão agressiva deve intervir. Se houver
dúvidas, não. O cidadão proprietário, para reaver a propriedade através de uma ação de reivindicação,
vai ter uma despesa excessiva, demorada: é um ónus grave, quando é manifesto, claro e evidente que
os sujeitos não conseguem demonstrar que têm o direito sobre a propriedade. Tem de haver um juízo
entre a veracidade do alegado direito dos ocupantes e a onerosidade de uma ação judicial. É um
proprietário e propriedade em concreto, mas tem uma vertente público. Quando o ato está a
ocorrer é um flagrante de lito; quando acabou de acontecer também se pode admitir; se já está
a acontecer há muito tempo, a polícia não deve intervir. A resposta sobre a legalidade ou
ilegalidade depende de uma correta análise do caso concreto.

Quando o bem jurídico assume elevada importância, não é necessário que haja um elevado
risco, para que a polícia possa intervir. Tem a ver com a importância do bem e a urgência de defesa
do bem e o grau de risco. Quando estão em causa pessoas individuais e bens individuais a atuação
da polícia está legitimidade nalguns casos e proibida noutros. P.exemplo, alguém que pretende
cometer suicídio: manda o direito constitucional de que a polícia deve partir do pressuposto de que
essa pessoa não está na livre disponibilidade da sua vontade, pelo que, também neste casos, em que
está em causa um bem jurídico individual, a polícia deve intervir.

Outro exemplo: um tigre que se soltou do circo: o próprio animal representa um perigo, pelo
que a polícia deve intervir. No caso de um gato que fica preso num cano: deve intervir, mas após fazer
uma ponderação entre os custos e os recursos empregues que a operação traduz e necessidade desses
recursos faltarem noutras situações de urgência. A vida é indisponível (sendo algo que também se
questiona na eutanásia).

38 | P á g i n a
Quando a polícia entre auxílio de uma pessoa particular, tem legitimidade de cobrar, a este, os
custos de operação (em Portugal, não se faz, pois entende-se que faz parte da missão pública).

Auto exposição ao perigo

A própria pessoa expõe-se ao perigo, de forma inadvertida ou, pelo contrário, de forma
pensada e controlada. A auto exposição ao perigo deve ser ponderada, em 1º lugar, por cada um
de nós, mas o Estado pode e deve intervir nas situações de atividades de risco. O Estado aceita
os parques de montanha Russa, mas deve controlar; aceite os circos, mas impõe regras; no caso
dos animais ferozes, também: estes têm de ser controlados para que não se dirijam à audiência
e provoquem mortes ou feridos. A avaliação do risco deve ser feita por cada um de nós. Por outro
lado, o Estado deve controlar o risco. P.exemplo, aquando da construção de estradas, este aceita que
haja curvas e inclinações, mas com limites (de forma a diminuir o risco). Também quando, numa
discoteca, a legislação impõe que as paredes sejam revestidas com materiais que absorvam o som. E,
para isso, submete ao licenciamento determinadas atividades e, após a entrada em funcionamento, o
Estado controla. Assim, quando a auto exposição resulte um perigo eminente para a vida, a polícia
deve intervir, proibindo. Por exemplo, no caso de corridas ilegais, a polícia intervém não só porque a
lei foi violada, mas porque a vida e integridade e física dos participantes estão em risco.

Assim, a auto exposição ao perigo pode ser apenas uma questão individual, como uma
questão de ordem e segurança públicas.

Princípios da atuação policial

Princípio da legalidade

Toda a atuação policial desenvolve-se exclusivamente no âmbito do princípio da


legalidade. Não há fuga a este princípio. A legalidade impera, o que significa que a polícia não
pode fazer nada que não esteja previsto em lei. Mesmo quando a polícia decide omitir tem de ser
no quadro da legalidade, perante a subordinação da polícia à lei e ao Direito. Deve-se entender
legalidade como juridicidade (lei e princípios jurídicos). Se a polícia entender dar uma
bastonada, numa reunião, tem de verificar se a lei permite o fazer e naquela situação. Esta diz
que a bastonada deve ser apenas usada para controlar um ato de agressão do infrator (legítima
defesa); também quando estiver em fuga o poder fazer. No entanto, se a pessoa já no chão, sem

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reação e o polícia continua com as bastonadas, todas elas serão agressões físicas (civil e
criminalmente relevantes). Tudo o que a polícia faz tem de estar autorizado por lei e tem de se
situar nos limites na lei. P.exemplo, se a polícia decide não intervir, essa omissão tem de estar coberta
por lei. P.exemplo, há uma discussão entre marido e mulher: a lei não permite que a polícia intervenha.
Contudo, se houver agressões verbais, poderá atuar. Temos de averiguar se situação põe em causa um
bem jurídico protegido pela Ordem Jurídica. Este princípio opõe-se ao princípio da oportunidade: este
significaria que a polícia poderia decidir sempre quando intervir. A discricionariedade policial
praticamente não existe, portanto. Não há intervenção da polícia sem lei; não há ingerência da polícia
sem lei.

A polícia, contudo, em certos casos, tem alguma discricionariedade. P.exemplo, a polícia


está a atuar no combate ao tráfico de droga ou a outro tipo de criminalidade organizada. A
criminalidade organizada é levada a cabo por pessoa com meios materiais sofisticados e com elevado
conhecimento. A polícia para combater eficazmente estas organizações tem de ter manobra de
programação. Na conceção desta atuação, há discricionariedade de estratégia. A polícia tem de
programar, estabelecer um plano para atuar num momento oportuno, da forma mais eficaz. É uma
discricionariedade que não pretende ir contra a ideia de legalidade (até porque esta programação tem
de ser feita dentro dos limites da lei).

Há outras situações relacionadas com a discricionariedade quanto ao “se”. A polícia deve


atuar no momento mais apropriado e adequado: assim, de facto, não tem discricionariedade.
P.exemplo, a polícia vê carros mal estacionados: não tem discricionariedade para multar uns
carros e não outros. É uma falta discricionariedade pois deve atuar quando a situação impõe que
a polícia deve atuar.

Princípio da proporcionalidade

A polícia deve sempre ponderar custos e benefícios. P.exemplo, quando vai salvar um
gato: deve ponderar que pode faltar à ocorrência de uma intervenção numa situação mais
urgente ou gravosa. Se for de esperar que a polícia não terá qualquer outra intervenção, então,
deve atuar: contudo, se a intervenção for muito onerosa, não deve fazê-lo. Caso contrário, se for
de esperar que terá outras intervenções, não deve intervir, chamando, p.exemplo, os bombeiros.

Este princípio obriga a, p.exemplo, numa operação de stop, se há suspeitas que os ocupantes
são traficantes de droga. Não deve, a polícia, abalroar a bagageira: deve pedir aos ocupantes que

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abra a bagageira. É um meio mais adequado e menos oneroso para o proprietário do automóvel.
Antes de arrombar o cofre, deve pedir ao dono para o fazer. O princípio da proporcionalidade
obriga sempre a ponderar custos e benefícios. Deve procurar atingir o fim da forma menos
onerosa possível para o destinatário. Não deve impor limitações aos Direitos, Liberdades e
Garantias em mais do que estritamente necessário.

O princípio da proporcionalidade desdobra-se em 3 subprincípios: adequação, necessidade e


não excesso.

Fins profiláticos gerais

P.exemplo, a polícia tem conhecimento de pequena criminalidade, como vandalismo cometido


por menores. A polícia pode querer resolver o mal pela raiz: fins profiláticos gerais. P.exemplo, quer
detê-los ou agredi-los. Não pode fazê-lo, pois não tem cobertura geral. Quando a polícia detém alguém
5 vezes numa semana, pode ficar indignada com a situação, mas não pode tomar uma medida prevista
na lei. A polícia rege-se pelo princípio da legalidade.

Princípio da eficiência

A polícia deve procurar ser eficiente, querendo concretizando os seus objetivos. Contudo,
respeitando o princípio da proporcionalidade e nos limites da lei. P.exemplo, se há uma criança que
rouba duas maçãs, a policia não pode disparar. Se estivermos perante um criminoso perigoso a polícia
pode disparar para as pernas. Saliente-se que pode haver eficiência para além dos limites da lei.

Princípio da determinação

As medidas de atuação policial devem ser claras e objetivas. No direito policial, estando
em causa, a restrição de DLG, a lei deve ser clara e objetiva, bem como a atuação da lei. Não
deve usar conceitos indeterminados

Princípio da possibilidade de cumprimento

Não deve, a polícia, exigir algo que o cidadão não possa cumprir. P.exemplo, exigir alguém
que vive na Guarda, que se apresente, em 2 horas, numa esquadra no Porto. Isto tem a ver, p.exemplo,
com deitar a arma ao chão: deve dar a ordem e tempo para a cumprir. Quando a polícia dá a ordem
tem de assegurar que o destinatário a possa cumprir

Princípio da aceitação da meio alternativo

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Quando a polícia dá uma ordem e o cidadão percebe qual o objetivo da polícia, o cidadão
pode apresentar um meio alternativo. P.exemplo, pedir para ser ele a abrir a bagageira, em vez de
ser arrombada. O objetivo da polícia, fazer a revista, pode ser realizado com uso de qualquer um dos
meios, de forma igualmente eficaz. P.exemplo, numa revista domiciliaria, não deve arrombar a porta.
de um armário fechado. A aceitação do meio alternativo pressupõe que é possível atingir o fim em
vista com menor custo para o cidadão. É uma manifestação do princípio da proporcionalidade.

Perturbação e perturbador

O perturbador viola as leis do direito policial, colocando em causa a ordem e a segurança


públicas. A agressão é a violação, em si mesma.

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