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PINTO, Álvaro Vieira. A questão da universidade. São Paulo, Cor- Por que a universidade necessita ser imediatamente reformada?

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tez, 1986. 102p. autor responde que ela "constitui ainda peça essencial da estrutura
arcaica, aquela que as forças novas geradas no solo social têm ne-
Esta obra de Álvaro Vieira Pinto é hoje de grande relevância, não só cessidade de transformar, para produzir os seus irremovíveis efei-
por tratar de modo especial a questão da função social da univer- tos"...
sidade, cujo tema ficou relegado a segundo plano em discussões
anteriores, como também por estar a sociedade brasileira vivendo Álvaro aponta como deve ser a reforma universitária: "trata-se de
num outro contexto que Saviani denomina momento pré-demo- transformá-la não na superfície, não na superestrutura pedagógica,
crático, no prefácio deste livro. no cerimonial didático, no enriquecimento de recursos financeiros,
no aprimoramento das instalações materiais levadas às vezes a sun-
A retomada da reflexão deste tema pelo autor permitirá, pela via da tuosidade (...), trata-se, porém, de transformá-la na essência, isto é,
recuperação da memória das lutas históricas em torno da universi- de fazê-la deixar de ser um centro distribuidor da alienação cultural
dade, repor de forma rigorosa o problema das relações entre univer- do país, para convertê-la no mais eficaz instrumento da criação de
sidade e sociedade e, em conseqüência, a responsabilidade e o uma nova consciência".
compromisso sociais com os interesses da população trabalha-
dora. Neste sentido, o autor entende que a reforma da universidade não é
tarefa de natureza jurídica, institucionale muito menos pedagógica,
0 livro tenta, inicialmente, dar uma visão histórica das condições em conforme querem alguns, mas consiste na transformação de órgão
que se apresenta o problema da reforma universitária, sobretudo no socialmente alienado em favor da transformação progressista dessa
alvorecer da década de 60, enfatizando os questionamentos da clas- mesma realidade.
se estudantil sobre as injustiças e opressões nascidas da atual estru-
tura social brasileira. Por outro lado, fica evidenciado o renascimen- Com base nesta tese, o autor esclarece, ainda, que a "reforma da
to de uma juventude crítica, que procura descobrir as causas e os universidade (...) não tem primordialmente finalidade pedagógica,
efeitos desta situação, bem como as possíveis soluções. mas visa antes de tudo a sua finalidade política ". E que aos estudan-
tes cabe, evidentemente, o principal papel neste processo transfor-
Para melhor esclarecer este aspecto. Álvaro Pinto descreve detalha- mador da universidade. Enquanto que do corpo professoral pouco se
damente o clima de conflitos e tensões sociais existentes entre as espera, por fazer parte de grupo privilegiado, cumulado de favores
classes dominantes e as camadas populares, que se conscienti- pelas classes dirigentes da universidade.
zam e passam a exigir reformas urgentes.
Assim, a análise de Álvaro Pinto Vieira põe em evidência o papel
Por isso, no seu entender, este clima já era considerado como pré- progressista do movimento estudantil em contraste com o caráter
revolucionário, em virtude da existência geral de reformas sociais conservador e mesmo reacionário dos docentes, considerados em
e, entre estas, a da universidade tradicional. seu conjunto.

Em Aberto. Brasília, ano 8. n 43. jul./set. 1989


No aprofundamento deste estudo, o autor procura apresentar uma O autor se refere, ainda, de forma geral, às diversas classes sociais
definição da essência da universidade no Brasil, ou seja, "a universi- representadas nas universidades. Assim, a burguesia, classe domi-
dade é uma peça do dispositivo geral do mínimo pelo qual a classe nante na sociedade brasileira, é igualmente dominante na universi-
dominante exerce o controle social, particularmente no terreno dade. No corpo docente, por exemplo, esse domínio é uma constan-
ideológico sobre a atualidade do país". Com base nesta definição, te. Por isso, torna-se evidente que a classe professoral dominante
Álvaro conclui: "se tal é a essência da universidade, desde logo se vê não deseja que o povo tenha ingresso na universidade, pois segundo
que o problema de sua reforma é politico e não pedagógico ". Álvaro, "para cobrir com o manto da hipocrisia este inconfessável
propósito, não é fácil recorrer à sempre maleável pedagogia e en-
Desta forma, o escritor mostra com clareza o ponto de partida para a contrar razões para o criminoso estudanticídio "... Faz parte do proje-
compreensão da reforma universitária. O principal, no seu ponto de to dominante afastar a classe trabalhadora da universidade. Por ou-
vista, não consiste na organização do ensino para os alunos que in- tro lado, o autor considera a existência de um antagonismo entre as
gressaram na universidade, mas sim, em saber as causas que per- classes no âmbito da universidade, pois é comum os choques entre
mitiram a esses alunos entrar nas escolas e impediram os demais jo- professores e alunos, entre os próprios professores e entre os alu-
vens da mesma idade de terem igual oportunidade. Deste modo, "a nos.
reforma da universidade não diz respeito, principalmente, aos alu-
nos que estão na universidade, mas aos alunos que não estão, aos Álvaro Vieira Pinto, em sua exposição, esclarece que não vai se deter
que nela não puderam ingressar". nos meandros internos da universidade, mas gostaria de se voltar
para os aspectos de caráter social e de execução política, procurando
Para entender melhor esta questão, Álvaro aponta dois importan- refletir, em primeiro lugar, sobre a concepção teórica do problema
tes aspectos que envolvem a universidade: o primeiro se refere à re- da reforma, para daí deduzir as linhas de ação prática. Assim, ele
lação da universidade com a classe dominante, ou seja, a postura de questiona: "para quem" é preciso fazer a reforma da universidade?
uma elite de iluminados, toda uma estrutura de ociosidade, a "mão- E "que universidade"se deve instituir? A pergunta "para quem" é
sem-obra", os títulos vangloriosos de "doutores" e "catedráticos", de ordem estritamente social, porque procura saber em benefício de
bem como a sua subserviência ingênua ao poder dominante, rele- que classes e forças sociais deve ser organizada a universidade. As-
gando a último plano a massa de estudantes trabalhadores que não sim sendo, conclui o autor, o problema fundamental se apresenta
puderam ingressar na universidade; o segundo aspecto se refere à sob a seguinte alternativa: "deve a universidade continuar a servir
universidade e à totalidade do país, com inclusão de todas as classes, aos interesses da atual classe econômica e politicamente dominan-
pois, no seu relacionamento com a classe dominante, a universida- te; ou deve se organizar em função dos interesses das classes traba-
de exerce sobre o resto do país efeito pernicioso, ocultador, pois pre- lhadoras, ainda não dominantes, mas em inevitável ascensão?".
para e distribui os instrumentos ideológicos, que conturbam a cons-
ciência nacional e não se dedica ao que seria sua tarefa própria, a de O autor observa que a exigência da reforma universitária é sentida
preparar o espírito das novas gerações para o melhor conhecimento de modo diferente pela classe dominante e pelas massas populares.
do Brasil, dos seus problemas e de como resolvê-los. Para a primeira, trata-se de organizar o ensino superior de maneira a
satisfazer certas necessidades e manter a universidade sob seu con-
Com referência a estes dois aspectos, o autor conclui afirmando que: trole. Para as massas, compostas especificamente dos estudantes e
"numa nação subdesenvolvida como a nossa, enquadrada no com- dos representantes esclarecidos, trata-se de fazer a universidade
plexo do imperialismo, a universidade não contribui para criara au- passar do comando ideológico para as mãos da classe trabalhadora,
têntica cultura que o país reclama ". o que, evidentemente, constitui a via democrática.
Com base nestas reflexões, o escritor indaga em que consiste na es- diatas de ação, como aquelas elaboradas pelos próprios estudantes,
sência a reforma universitária que a nova realidade brasileira co- que na verdade encarnam a realidade social. E, por outro lado, suge-
meça a exigir. Para ele, a resposta seria: "consiste em impedir a re- re, ainda, algumas medidas práticas de reforma, como por exemplo:
produção da classe dominante, a qual tem na universidade sua fá- o co-governo (que consiste na entrega da instituição ao povo); a su-
brica mais importante, no que se refere aos expoentes intelectuais ". pressão da trincheira do vestibular (substituída pela verificação do
mérito do estudante); a universidade do povo (no sentido de que a
Neste particular, Álvaro Pinto enfatiza a sua proposta de reforma, ela pertencem não apenas os "alunos que estudam "); a luta contra
afirmando: "julgamos chegado o momento de estabelecer o que nos a vitaliciedade da cátedra e o entrosamento das instituições de en-
parece ser a proposta principal de todo o trabalho crítico contido sino superior com outros centros sociais de produção.
neste livro. A reforma universitária tem de consistir na reforma de
conteúdos da classe da universidade, a fim de permitir às massas in- 0 autor conclui o seu trabalho, afirmando: "o objetivo da reforma é
gressarem no domínio da cultura a serviço dos seus próprios interes- identificar a universidade com a sociedade brasileira, no seu esforço
ses, e não a serviço dos interesses da classe dominante ". O autor de desenvolvimento material e espiritual, criando e semeando a cul-
continua analisando exaustivamente os diversos tipos de questiona- tura, a fim de que esta, juntamente com a liberdade, venham a tor-
mentos e mostra que a universidade tem de ser do povo e não das nar-se os bens mais preciosos possuídos por todo o homem do
elites, porque ela representa a suprema instância criadora do saber e povo ".
organizadora do fecundo trabalho popular. No final de seu trabalho,
A/varo enfoca, também, os objetivos da luta estudantil, que devem O livro A Questão da Universidade, de Álvaro Vieira Pinto, escrito
ser a alteração das relações externas da universidade, desligando-a em linguagem simples e realista, traz no seu bojo uma proposta
da vassalagem à classe dirigente e colocando-a a serviço do povo, atual no processo de mudança da universidade brasileira, sobretudo
enquanto massa trabalhadora. Esta é uma reforma qualitativa, por- no que se refere ao seu aspecto social e político.
que diz respeito à essência da universidade, esclarece o autor.
Samuel Aureliano da Silva
Após este enfoque, Álvaro Pinto indica algumas perspectivas ime- TAE/INEP

Em Aberto, Brasília, ano 8, n. 4 3 , jul./set. 1989