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SÉRIE: 77Z
VOLUME: 44
TÍTULO: UMA DE PAZ
AUTOR: TONY MANHATTAN
ILUSTRAÇÃO DA CAPA:BENÍCIO
EDITORA: MONTERREY
ANO DA PUBLICAÇÃO:
PREÇO DA PUBLICAÇÃO: CR$ 3,50
PÁGINAS: 128

SCANS E TRATAMENTO: RÔMULO RANGEL


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apresenta

Copyright © Editora Monterrey Ltda.

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UMA
DE
PAZ
TONY MANHATTAN

Capa de BENICIO
Tradução de GIASONE REBUÁ

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CAPÍTULO PRIMEIRO

Nadaria apenas cem metros...

O carro se afastava de Tanger em alta velocidade, a


despeito de rodar por uma estrada secundária, de terra, em
péssimo estado de conservação.
O homem ao volante apenas evitava os buracos e as
pedras maiores, mais interessado em divisar o detalhe que
lhe haviam comunicado.
De fato, pouco depois viu o pisca-pisca emitindo a
sequência de um lampejo branco seguido de dois
vermelhos, a intervalos iguais, à direita da estrada.
Diminuiu a velocidade, metendo o carro na campina para
alcançar o ponto de onde partiam os lampejos.
Pouco depois parava o carro, descia e encarava a dupla,
um homem e uma mulher, que o aguardava.
— Espero ter sido pontual — sorriu.
Havia receio na expressão da dupla. O homem era
baixo, moreno, de nariz volumoso; a mulher, esbelta, porém
de curvas sinuosas, longa cabeleira preta, tão preta quanto
seus olhos. Foi ela quem disse, com receio também na voz:
— Terá a bondade de se identificar...
— Oh, sim, claro! Perdão. Imagino que esse “teco-teco”
foi batizado com o nome “Pomba da Paz”, não?
A dupla sorriu e a mulher declarou com desenvoltura:
— Exato. Estamos prontos para decolar.

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— Ótimo.
Os três se encaminharam para o pequeno avião,
deixando o carro abandonado, e alguém surgiu na porta do
“teco-teco”, acenando-lhes acolhedoramente com a mão.
— Diga ao piloto que podemos levantar voo — disse a
mulher ao homem que os recebera acolhedoramente.
Os três embarcaram e o avião decolou ligeiro, com
elegante glissagem em direção ao Mediterrâneo.
— Espera dificuldades, “Estambul-3”? — indagou a
mulher, dirigindo-se ao importante passageiro.
— Nenhuma. Dentro de quarenta minutos saltarei. Só
espero não lhes ter criado complicações.
— Absolutamente — interveio o homem do nariz
volumoso. — Chamamos a isso simplesmente uma
colaboração. Seu para-quedas está preparado. Uma vez que
não exigiu armas...
— Desnecessário — cortou “Estambul-3”, com um
sorriso. — Pelo menos agora. Digamos que a operação está
começando e as dificuldades surgirão depois, quando
penetrarmos a Ásia.
— Sim, claro. Ainda assim...
— Daqui a Istambul será, digamos, mera viagem de
recreio. Então, descarregaremos o navio e começará a parte
difícil da missão.
— Por que não esperar o navio em Istambul? —
indagou a mulher.
— Nossa rede naquela cidade tem meios adequados
para... “receber” navios. Digamos que minha incumbência
consiste em conduzir o barco a porto seguro, ao “porto
ideal”. Desse modo realizaremos as manobras com absoluta
discrição.
Ela sorriu.
— Eu lhe desejo sorte.

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— Obrigado.
— Diga, “Estambul-3”: o navio já transpôs o Estreito
de Gibraltar?
— Transpôs o estreito na tarde de hoje e já se encontra
a caminho do ponto em que devo abordá-lo. Trata-se de um
local cheio de penhascos e enseadas naturais, ótimo para a
operação.
— Podemos ajudá-lo em algo mais?
— Oh, não. Eu necessitava apenas de um “teco-teco” e
um para-quedas. Reitero meus agradecimentos pela
colaboração.
Ela sorriu, acendendo um cigarro, “Estambul-3”
estudou seu mapa e o homem narigudo manteve-se imóvel
como estátua. De repente, “Estambul-3” ergueu a cabeça,
contemplou demoradamente a morena e sorriu, dizendo:
— Permite-me dizer que é muito bonita?
— Oh... Vejo que está calmo, despreocupado. O
homem só se detém para analisar uma mulher quando se
sente à vontade.
— Sim, estou tranquilo, mas saberia apreciar seus
encantos ainda que na pior das situações.
— Obrigada.
“Estambul-3” consultou seu relógio de pulso, digital.
— Bem, creio que dispomos de apenas mais alguns
minutos — comentou. — Infelizmente, talvez jamais nos
tornemos a ver...
— É, talvez... Porém sempre cabe a esperança de que,
assim como a rede da CIA em Tanger está ajudando a rede
da CIA em Istambul, de um momento para outro ocorra
justamente o contrário e nós nos encontremos de novo.
— Uma grande perspectiva — sorriu “Estambul-3”. —
Podem ajudar-me a colocar esta coisa?

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A dupla ajudou-o a envergar o para-quedas e o narigudo
abriu a portinhola do “teco-teco”, declarando, após receber
um sinal do piloto:
— Tem trinta segundos para saltar.
— E apenas trinta minutos para dominar a tripulação do
barco, assumir o comando e conduzi-lo ao lugar certo —
brincou “Estambul-3”. — Adeus!
Saltou.
Não via nada embaixo, porém sabia ter saltado de
altitude correta, sobre o Mediterrâneo, devendo cair cm um
ponto que lhe permitiria aguardar a passagem do barco,
minutos depois, para subir a bordo e...
Tornou a puxar a fivela. Caía vertiginosamente e o
dispositivo que abria o para-quedas teimava em não
funcionar. Continuou insistindo, mas começou a girar
descontroladamente, sentindo um vácuo terrível no
estômago.
Da janelinha do “teco-teco”, a morena comentou, com
um suspiro:
— Os homens são teimosos: não se convencem da
impossibilidade de voar sem asas...
O narigudo sorriu, fazendo que seu nariz enorme se
achatasse.
— Bom trabalho, Tarika — elogiou.
— Ridiculamente fácil, Zheyad. Qualquer criança
consegue avariar o mecanismo dos para-quedas. Ainda bem
que é noite escura, porque eu detestaria ver os sapatos
daquele homem saírem de seus pés, girando como satélites
adoidados ao seu redor, e, depois, sua “aterrissagem”
forçada.
— E... — Fez o narigudo, pensativo.
Tarika sorriu ao sentar-se num tamborete basculante,
atrás do piloto, que se interessou:

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— Tudo bem?
— Bem. Imagino que deu um bom mergulho para a
eternidade. Agora, tratemos do resto, Baugier. A
transceptora está ligada?
— Claro.
— Estabeleça contato com o submarino.
— Um momento — discordou o piloto. — Que mais
sabemos sobre esse navio?
— Tudo de que necessitamos: viaja como velho e
inofensivo cargueiro. É um barco pequeno, sem defesa
alguma e com apenas oito tripulantes. Claro que esses
homens oferecerão resistência, porém estamos bem
preparados. Além disso, contamos com o fator surpresa.
— Sim, é verdade. Vou entrar em contato com o
submarino para fornecer o rumo do barco, embora ele não
deva estar muito afastado da presa. Deve ter sido fácil
segui-la dentro da noite.
— Certo. Estabeleça o contato, Baugier.

***

— Atenção, Baugier, atenção.


O piloto apertou a alavanca.
— Fala Baugier. Na escuta, Laprade. Fale.
— Vocês viram a operação abordagem?
— Sobrevoamos o local. Tudo bem?
— Cem por cento. Estamos submergindo, já com a
carga a bordo. O navio e seus tripulantes foram fazer
companhia ao seu querido “Estambul-3...”
— E aos peixinhos do mar... — Ironizou Baugier,
ordenando: — Guinar de noventa graus e rumar para a
“base”. Corto.

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Retirou os fones dos ouvidos e se reclinou no assento,
para falar enquanto seu copiloto dirigia o “teco-teco”:
— Terminou, Tarika.
— Maravilhoso, não, Baugier?
— Sem dúvida. O honorável ficará contente... Não só
nos apoderamos de uma carga importante como também
desarticulamos completamente a rede da CIA em Tanger.
— E que sabemos sobre a carga? — indagou Tarika.
Baugier encolheu os ombros.
— Não fiz perguntas ao honorável. Quando ele não dá
explicações, é prudente não fazer perguntas. Além disso,
minha curiosidade a respeito é somente relativa. Não
tardaremos a saber de que se trata. Quer me acender um
cigarro?
A jovem e formosa morena acendeu dois cigarros,
colocando um entre os lábios do piloto Zheyad, que tragou
com prazer. Retomara os comandos das mãos do copiloto
Berlano.
Após pensar, fumando devagar, Tarika murmurou:
— Estou pensando que a CIA não se conformará
facilmente, Baugier.
— E daí?
— Bem... Não sei. Eu só estava pensando...
— Não nos poderá encontrar, Tarika. Seus agentes
ficarão desnorteados. É uma das vantagens de se ter um
chefe inteligente.
— Lembre-se de que cm nossa profissão não há idiotas,
Baugier — disse a morena, agora em voz alta. — Que
ninguém se esqueça disso.
— Que pretende insinuar?
— Não estou insinuando, mas lembrando que não
devemos superestimar nossa inteligência, imaginando o
resto do mundo constituído por débeis mentais; só isso.

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Baugier arqueou as sobrancelhas, parecendo levar mais
a sério as ponderações de Tarika.

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CAPÍTULO SEGUNDO

A tara do pintor improvisado...

Tudo era paz naquele bucólico recanto do jardim.


E a visão jamais poderia ser melhor: ela, inteiramente
nua, em pose de Diana Caçadora, no gramado verdejante.
Ele, diante de um cavalete, empunhando palheta e
pincel, devidamente vestido de pintor estilo francês, de
guarda-pó e boina, dava pinceladas na tela, deliciando-se ao
mesmo tempo com os contornos do modelo e com o
murmúrio das ondas que rebentavam docemente e se
espraiavam em Pensacola Beach.
Ali, naquele lugar maravilhoso, Horace Young
Kirkpatrik, o playboy mais famoso do mundo, possuía um
pequeno bangalô que, visto de longe, dava a impressão de
simples refúgio de troglodita: uma combinação de pedras
naturais, troncos rústicos e folhas tropicais. Parecia algo
improvisado, porém em seu interior havia de tudo para
conforto até do mais exigente homem mundano.
— Que foi, Lana? — interessou-se o pintor, ouvindo-a
gemer.
— Estou exausta! Ainda falta muito, Horace?
— Bem... Um pouco...
— Já se passaram cinco dias! — protestou Lana.
— O verdadeiro artista não tem noção de tempo,
querida.

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— Mas os modelos sentem o tempo nas carnes. Não
poderíamos dar uma paradinha?
— Dentro de quinze minutos.
— Você não passa de um Drácula!
Kirkpatrik sorriu e seu olhar cinza metálico percorreu
demoradamente os contornos da ruiva espetacular. Ele ia
prosseguir dando expansão à sua genialidade artística
quando uma luz âmbar, discretamente oculta na grama,
piscou três vezes. Deixando o pincel e a palheta sobre a
mesinha auxiliar, ele sorriu e declarou carinhosamente:
— Você ganhou uma vez mais, Lana. Vou buscar algo
de beber.
— Seja lá o que for, mas que contenha muito gelo,
Horace.
Kirkpatrik lhe atirou um beijinho com as pontas dos
dedos e dirigiu-se para a cabana troglodita, indo ter à
pequena, mas luxuosa biblioteca, cuja porta fechou
cuidadosamente antes de pegar o fone.
— Sim?
— Horace? É Eddy.
Seu secretário particular e homem da mais alta
confiança.
— Diga, Eddy.
— Recebi algo de Longley. É uma fita magnética.
Valendo-me de sua autorização, ouvi a gravação e me
convenci de que sua volta para Pittsburgh é urgentíssima.
— Ah...
— Quer saber do assunto?
— Oh, não, não. Ouvirei a gravação pessoalmente ao
chegar, não importando a que horas da noite. Espere por
mim, Eddy. Alguma outra novidade?
— Não, isso é tudo, Horace.
— Está bem. Então, até logo.

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Desligou e sua fisionomia sofreu espantosa
transfiguração, tornando-se pétrea. Seus olhos se tornaram
ainda mais gélidos.
Após sacudir a cabeça afirmativamente, “77Z”
preparou dois uísques com gelo e saiu, constatando que
Lana era uma garota desobediente. Não atendendo à sua
determinação de só ver o quadro depois de terminado, lá
estava ela, ainda inteiramente nua, de pé diante do cavalete,
gesticulando de modo estranho.
— Lana... — murmurou, deixando os copos na mesinha
auxiliar.
Ela virou-se e seus olhos castanhos cintilaram.
— Você... você é um farsante! — soltou. — Não
pretenderá convencer-me de que este... este aborto seja eu!
Qualquer chimpanzé teria feito melhor!
— Mas... — murmurou o playboy, com cara de
desvalido.
Ela recuou alguns passos, parecendo temer que ele a
tocasse.
— Diga a verdade, Horace: que pretendia de mim?
— Por favor, Lana, é minha primeira obra de arte e...
— Obra de arte?! — cortou Lana, furiosa. — Você é
um embusteiro, um aproveitador, um...! Sua vocação
repentina para a pintura foi um recurso sórdido para me ver,
durante horas e dias, como jamais teria visto um segundo
sequer: nua em pelo! Seu indecente! Tarado!
Horace Young Kirkpatrik estava simplesmente
boquiaberto, os olhos arregalados de espanto e as mãos,
trêmulas, fazendo tilintarem os cubos de gelo nos copos que
ele recolhera da mesinha num gesto apaziguador.
— Lana, eu lhe pedi que não olhasse antes de...
— Antes de quê? De que estivesse concluída a sua obra
mestra de chantagem?!

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— Você não entende de arte — gemeu Kirkpatrik,
repondo os copos na mesinha. — £ preciso ter olhos de
artista para ver...
— Qualquer um vê qualquer coisa nesses borrões,
menos um retrato de mulher bonita, e eu sou bonita, muito
bonita, ouviu? E tenho um corpinho lindo. Não sou isso aí!
Quando você me falou de sua repentina vocação para
retratista, afirmando que eu era o modelo mais perfeito que
um pintor conseguiria neste mundo, eu, com a minha
estúpida vaidade feminina, caí na sua conversa e me prestei
ao ridículo de bancar a Diana Caçadora, nua em pelo.
Jamais me ocorreria estar diante de um chantagista vulgar
que usasse a arte para dar vasão à sua tara! Tarado!
— Lana, você está sendo injusta, está... irreconhecível!
— protestou Kirkpatrik, aparentemente à beira de um dos
seus ataques histéricos de playboy.
— Pois você não está nada irreconhecível — disse ela,
correndo para recolher suas roupas de cima do banco de
troncos. — Está bem reconhecível: é um tarado.
Usava apenas um biquíni e um vestido leve vermelho
japonês, com fecho-éclair. Vestiu-se ligeiro, calçou as
botinhas de meio cano pretas, pegou a bolsa de couro preto,
hippie, e saiu correndo para o interessante portão rústico em
paus-de-mato.
— Lana! — chamou Kirkpatrik, sem entusiasmo,
sentando-se no banco de troncos para saborear o uísque
com gelo.
Afinal, tinha sido ótimo livrar-se dela tão facilmente,
pois sua nova missão para a CIA implicava em ação
imediata.

***

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Um tímido raio de sol atravessou as persianas, após-
conseguir varar o smog de Pittsburgh, cujas fumegantes
chaminés de siderúrgicas estavam muito ativas.
Isolado em sua residência na colina, com a cidade do
aço a seus pés, Horace Young Kirkpatrik acendeu um
cigarro e contemplou a porta, à espera de a ver abrir-se.
Eddy entrou.
— Você não dormiu, Horace?
— Não. Há muito trabalho, Eddy.
— Quando partimos?
— Não se precipite — sorriu “77Z”. — Inicialmente,
estarei sozinho nessa viagem a Tanger, via Paris.
— Via Paris?! Bem... Devo reservar passagens de
avião?
— Não, Eddy, irei no meu avião particular. Necessito
de todo o tempo e não posso depender de horários. Porém
isso é secundário em face do que ocorreu em Tanger. Você
ouviu a fita e sabe que nossa rede nessa cidade foi arrasada.
— E... — Fez Eddy, pensativo.
— Houve outras consequências, é claro, porém só me
ocuparei disso em momento oportuno. Agora, a prioridade
é a criação de uma nova rede em Tanger. Uma rede
fantasma, inexistente, porém à qual emprestarei
características de vida, movimento, ação.
Eddy parecia não compreender bem.
— Isso exige tempo, Horace. Não será fácil...
— Ocorrerá em tempo mínimo — interrompeu-o
Kirkpatrik. — De momento, daremos à rede uma cabeça
visível... até certo ponto, é claro. Seus tentáculos serão
oportunamente estendidos, se necessário. Aqui estão suas
instruções. Partiremos juntos, mas em Paris seguirei para
Tanger num avião da “Air France” e você irá para Roma.
Eddy recebeu os papéis, metendo-os no bolso.

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— Vou examiná-los enquanto atravessarmos o
Atlântico — disse.
— Bem pensado. E eu lhe prestarei os esclarecimentos
de que necessite.
— Que sabe desse Dagobert Horrall, citado na fita
magnética?
— Nada, Eddy. Porém receberei, em Paris, uma foto
desse homem e informações detalhadas. Ao que parece, é o
único suspeito com que contamos, o que não é pouco, para
começar. Agora, ordene ao meu piloto que disponha o jato
para o voo a Paris. Para dentro de — consultou o relógio de
pulso, digital — duas boras. Devemos estar voando às dez
e quinze.

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CAPÍTULO TERCEIRO

Onde ninguém é quem diz ser...

Era um chinês grande, forte, de idade indefinível,


completamente inexpressivo.
Acabara de entrar numa cabina telefônica de “La
Pagode”, um dos restaurantes chineses de Tanger, situado
“na rue de la Liberté”, pertíssimo de “le Grand Socco”, o
lugar tão animado e barulhento, de dia, quanto silente e
misterioso durante a noite.
Discara e esperava.
— Alô! Quero falar com o honorável Wong-Fu —
disse, em chinês.
— Receio que será impossível...
— É importante e urgente.
— Quem é você?
— Eu me chamo Thi-Siung.
O silêncio, no outro extremo da linha, indicava
hesitação do interlocutor, que acabou dizendo:
— Espere um pouco.
— Está bem — concordou Thi-Siung.
Aguardou, contemplando a esbelta garçonete chinesa
que trazia os pratos à mesa de canto por ele escolhida para
seu jantar.
— Alô. Aqui fala Wong-Fu. Não tenho o prazer de
conhecê-lo, Thi-Siung.

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— Pois espero que nos fiquemos conhecendo muito
depressa, Wong-Fu — respondeu prontamente Thi-Siung.
— Confio em que não tenha esquecido certas
particularidades de sua vida. Na verdade, desejamos
sinceramente que o sucedido corresponda apenas a uma
pequena demora de sua parte.
— Não entendo.
— Está seguindo mau caminho, Wong-Fu. Em primeiro
lugar, devo felicitá-lo pelo êxito de sua operação, realizada
com a máxima “limpeza”; em segundo, recomendar que se
apresse em entregar-nos a carga. Ou havia pensado em
coisa diferente, Wong-Fu?
— Não sei que carga...
— Desculpe a interrupção, Wong-Fu — cortou Thi-
Siung. — Sabe perfeitamente. No entanto, embora
estejamos falando em nosso idioma, sempre haverá o perigo
da nossa conversa ser ouvida. Além disso, não há o que
discutir. Sejamos positivos: Você continua ligado a nós, a
menos que deseje correr grandes riscos.
— Escute...
— E tem mais, Wong-Fu — tornou a interrompê-lo Thi-
Siung, desta vez com voz dura. — Refiro-me a algo que
representa grande ameaça para você. Maior do que possa
imaginar, Wong-Fu: a CIA está se reorganizando em
Tanger. Sabia?
— Isso... isso é mentira!
— Velho ditado de nossa velha China diz que não se
deve andar de olhos fechados. Há muitas implicações nesse
adágio, Wong-Fu. Repito que os americanos estão se
reorganizando aqui, com forças redobradas. Tenho provas,
que posso lhe mostrar como demonstração de que jogamos
jogo limpo. Naturalmente, não nos interessa que a CIA e
abata sobre você...

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— Eu gostaria de ter essa prova, Thi-Siung.
— Localize um tal Antonio Morandi. Se ainda não
chegou a Tanger, chegará de um momento para outro.
Provavelmente já tem suíte reservada em algum hotel da
cidade. Trata-se da peça importante que a CIA enviou para
reorganizar sua rede aqui. Vem de Roma, antes dos outros
que devem chegar, menos importantes, é claro, dos quais
cuidaremos no devido tempo.
— Má notícia — murmurou Wong-Fu. Agora, diga:
que pretende de mim, concretamente?
— A mercadoria. Ou já não trabalha para nós?
— Suponhamos que não.
— Uma suposição bastante azarenta para você. De que
poderíamos acusá-lo, segundo imagina?
— De nada, Thi-Siung. Quando era bom colaborador,
não faz muito tempo, caí na desgraça da chefia e desde
então se evaporaram as notícias.
— Nós, os espiões, podemos estar aparentemente
inativos, Wong-Fu, e você não ignora. Porém, ao
reiniciarmos nossas operações, voltamos a ser os mesmos
de sempre, caso não queiramos arcar com as consequências.
Thi-Siung fez ligeira pausa, cogitando sobre o que diria,
simplesmente para abalar os nervos de Wong-Fu. Voltou a
falar em estilo erudito, como é costume entre os importantes
chineses:
— Serei cristalino: caso não se declare sob as ordens de
Yen-Chia, chefe dos Serviços Secretos da China
Nacionalista, correrá dois riscos. O primeiro está em minha
presença aqui; o segundo, aquele que se depreende da
presença da CIA. Além disso, não me seria nada difícil
desfazer-me de você simplesmente delatando-o à turma de
Morandi. Eles cairiam em cima de você.
— Não fará isso!

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— Caso não me obrigue...
— Quero pensar — murmurou Wong-Fu, com voz
contida. — Claro que você pertence ao que se referiu...
— E você também. Por conseguinte, somos aliados.
Concorda?
— Eu fui abandonado, Thi-Siung.
— Não diga isso! — fingiu espantar-se Thi-Siung. —
Nós simplesmente concedemos ao nosso valioso Wong-Fu
um descanso temporário. Afinal, todos, até os espias,
necessitam de repouso.
— Um descanso que poderia ter durado anos caso eu
não realizasse uma operação importante — rosnou Wong-
Fu. — Certo?
— Talvez.
— Está bem. Não me desconcertarei com o seu cinismo.
Vocês me deixam de lado, me esquecem e, quando obtenho
algo importante, reclamam a minha volta. Vou estudar a
proposta, Thi-Siung.
— Faça-o, Wong-Fu, mas não se alongue, porque
corremos o risco da CIA localizá-lo antes do que está
previsto.
— Previsto?! Eu não esperava isso de...
— Em nosso tipo de trabalho, temos de ser previdentes,
não é verdade, meu nobre colega?
— Onde lhe poderei dar a minha resposta, Thi-Siung?
— Em lugar algum, Wong-Fu. Eu e somente eu
estabelecerei os contatos entre nós.
— Que teme?
— Uma pergunta desnecessária, Wong-Fu — sorriu
Thi-Siung. — Talvez imagine que me matando solucionará
o problema e não é assim. Pelo contrário, os problemas se
multiplicarão em verdadeira reação em cadeia. Assim,

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permita-me continuar oculto, de modo a lhe poupar tantos
problemas.
— Muito prudente... — ironizou Wong-Fu.
— Está voltando a falar a linguagem preferida em
nossos serviços, Wong-Fu. Eu lhe telefonarei de novo.
Thi-Siung desligou e sorriu, ao fazer um levantamento
visual das iguarias à sua espera, que incluíam, entre outras
coisas, as incomparáveis sopas de nadadeira de tubarão e
salada de brotinhos de bambu.
Como resistir?!

***

O impacto do telefonema estava retratado no rosto de


Wong-Fu, que pensava ativamente na nova situação,
hesitando entre revelar ou não aos seus colaboradores o que
estava ocorrendo.
Concluiu que a revelação poderia criar temores e causar
uma debandada, com o que ele ficaria sozinho, sem a menor
possibilidade de escapar. O melhor seria dizer apenas meia-
verdade, pois seria impossível silenciar.
— Bem, — fez, arqueando as sobrancelhas delgadas.
— As coisas se complicaram, porém ainda não sei até que
ponto. O telefonema foi de um confidente.
— De que se trata? — interessou-se muito Baugier.
— Da CIA.
A resposta foi uma bomba, especialmente para Tarika,
que se mexeu nervosamente na cadeira, olhando para
Baugier. Lembrou-se do que dissera ao seu colega no “teco-
teco”: o resto do mundo não é constituído por débeis
mentais.
— De qualquer modo, ainda não é alarmante —
prosseguiu Wong-Fu. — A delação foi muito oportuna. A

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CIA decidiu reorganizar-se em Tanger e o homem
incumbido disso chegou ou está para chegar de Roma. É
preciso localizá-lo e... é óbvio, evitar que comece a
trabalhar, ou que continue trabalhando, caso já tenha
iniciado a reorganização de sua rede.
— Quem deu a informação? — quis saber Tarika.
— É pessoa de confiança — disse Wong-Fu.
evasivamente. — Como eu já disse, o trabalho consiste em
localizar o homem da CIA, que se chama Morandi. E
ganhar tempo, é claro. Só necessitamos de tempo.
Baugier alisou o queixo.
— Caso esse Morandi já tenha chegado, por certo se
instalou em alguma parte — disse. — Em todo caso,
podemos armar vigilância no aeroporto, sem deixar de
investigar se já chegou. Além disso, devemos,
simultaneamente, buscar indícios dos possíveis
colaboradores de Morandi que já se encontrem em Tanger.
— Equacionou bem o trabalho — aprovou Wong-Fu.
— Enquanto isso, acelerarei o negócio que temos em mãos.
Não devemos esquecer que nossa posição é a mais forte e,
portanto, devemos registrar o caso CIA como pequeno
incidente que eliminaremos sem maiores dificuldades.
Comecem a trabalhar agora mesmo, enquanto mobilizo
meus recursos para obter dinheiro rapidamente. Ninguém
deverá impacientar-se ou ficar nervoso. De acordo?
Seus colaboradores assentiram com a cabeça.
— Vamos dividir-nos, ou trabalhar em grupo? —
indagou a morena Tarika.
Todos olharam para Wong-Fu e o sino-americano
sorriu.
— Será melhor se dividirem — decidiu. — Baugier e
Berlano cuidarão do aeroporto e das vias marítimas;
Laprade, Tarika e Zheyad investigarão os hotéis ou

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quaisquer outras partes nas quais possa instalar-se um
recém-chegado. Creio que os homens da CIA ainda não
dispõem de residência própria, visto não ser prudentemente
utilizável a que foi deixada por seus antecessores.
— São apenas nove horas — disse Baugier. — Berlano
e eu começaremos imediatamente pelo aeroporto. Ainda
chegarão três voos da Europa esta noite.
— Ótimo — aprovou Wong-Fu.
Os quatro homens saíram, mas Tarika permaneceu na
sala com o chefe, que a olhou nos olhos.
— Também seria oportuno indagar em hotéis escusos...
— disse Wong-Fu, com malícia.
Ela fingiu não entender a insinuação, indagando:
— Bastará eliminá-lo, ou será melhor capturá-lo vivo?
— O mais inteligente será capturá-lo vivo para ser
interrogado, porém tudo dependerá dos riscos implícitos.
Fica a seu critério, Tarika.
— Está bem, Wong-Fu. Irei às casas de concessão —
retribuiu.
Wong-Fu acusou o impacto, mas sorriu à moda chinesa:
frio.

***

Eram quase doze e meia da noite, quando Tarika entrou


numa cabina telefônica e discou rápido.
— Sim? — atendeu o próprio Wong-Fu.
— Já tenho — disse ela, empolgada.
— Ótimo. Se necessita de ajuda para acabar com ele,
posso...
— Eu me expressei mal, Wong-Fu — interrompeu-o
Tarika. — Antonio Morandi ainda não chegou a Tanger,
porém descobri que tem uma suíte reservada no hôtel “Les

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Almohades”, em Avenue d’Espagne. Está, portanto,
localizado e tudo será uma questão de espera. A reserva foi
feita de Roma, porém não se sabe quando chegará. Tomara
que seja em breve...
— Tomara — repetiu Wong-Fu, sorridente. —
Estabeleceremos forte vigilância. De início...
— Fiz algo melhor, honorável Wong-Fu — cortou
Tarika. — Arranjei duas maletas e me hospedei no “Les
Almohades’’ como sendo a italiana Carla Varetta. Será tuna
vigilância calma, cômoda e cordial: Morandi terá excelente
recepção da tentadora Carla...
O sino-americano deu uma risadinha. De fato, Tarika
era uma morena tentadora. Até ele, cem por cento
interessado em “negócios”, já havia notado.
— Excelente idéia. Talvez fosse conveniente Berlano
ou Laprade também se alojarem no hotel para lhe dar
cobertura.
— Não considero necessário, honorável. Claro que não
imagino Morandi como um homem ingênuo, porém não
creio, igualmente, que possa antever a surpresa que lhe
reservo. Por outro lado, tenho outra idéia: colocarei um
microfone indiscreto cm sua suíte para descobrir que
homens entram em contato com ele. Descoberto isso,
Morandi perderá a utilidade e acabarei com ele.
— Aprovado. Darei a notícia a Baugier, recomendando-
lhe que continue a vigilância no aeroporto. Possivelmente
Morandi será recebido por alguém. Você será avisada assim
que o americano desembarcar.
— Estarei esperando, honorável.
— Bom trabalho, Tarika.
Ela desligou, saiu da cabina e foi à recepção do hotel.
Ali estavam suas maletas, com um boy mouro à sua espera

— 27 —
para levá-la à sua suíte. O recepcionista lhe estendeu a
chave.
Nesse instante alguém entrou no “Les Almohades”. Um
sujeito agigantado, louro, desgrenhado, todo de branco e
camisa azul turquesa, enxugando o rosto com um lenço
enorme, da mesma cor. Parecia extremamente exausto,
chateado, ao estender o braço para receber a chave.
O recepcionista esqueceu por completo Tarika, para
atender ao ilustre hospede recém-chegado, naquela manhã,
de Paris: ao playboy multimilionário Horace Young
Kirkpatrik, que honrava com a sua presença o “Les
Almohades”.
— Chato! — foi a primeira declaração do playboy. —
Acho que desta vez a brincadeira não deu certo.
— Inacreditável, monsieur Kirkpatrik! — ei clamou o
recepcionista, servil, esfregando a mãos. — Se confiar em
mim, talvez eu lhe posso sugerir alguns... “refrigérios” para
um homem que já conhece tudo que há de bom e melhor.
— Não, não... — negou Kirkpatrik, continuando a
enxugar o rosto. — Obrigado, mas não sabe? Eu me sinto
muito só. Não suporto a soli dão. Acho que não aguentarei
a espera de meus amigos. A verdade é que não sei andar
sozinho pelo mundo. Tudo me assusta. Caminhei com um
autômato pela praia. É um espetáculo maravilhoso, mas
somente quando se tem companhia — olhou de soslaio para
Tarika, que não se impacientava. — Mas estou tão
acostumado a te gente comigo que, se entrar no mar
sozinho, morrerei afogado. Necessito do apoio dos demais.
— Outra olhadela de soslaio para a morena. — Terrível!
Resolverei depressa o problema do safai e chamarei todos
os meus amigos. Eles me imaginam em Honolulu — sorriu
estupidamente. Terão grande surpresa quando receberem

— 28 —
meus telegramas de Tanger, informando que estou aqui,
com um safari organizado para eles.
— Sim, será uma grande surpresa — confirmou o
recepcionista, como um capacho. — Porém eu gostaria de
lhe ser útil enquanto não tem início o safari, monsieur
Kirkpatrik.
O playboy lhe sorriu inexpressivamente e só então
encarou Tarika, em cujos lábios bailava um sorriso
desdenhoso, de superioridade.
— Oh! Creio que estamos sendo deselegantes com
mademoiselle...
— Signorina — corrigiu Tarika. — Sou italiana. Ia
pedir a este cavalheiro que nos apresentasse, signore
Kirkpatrik?
— Bem...
— Não há inconveniente. Sou Carla Varetta. Com sua
licença, subirei para a minha suíte.
Kirkpatrik pigarreou como um garoto tímido diante da
primeira conquista.
— Signorina Varetta... acaba de me ocorrer algo... —
balbuciou. — Operou-se um milagre! Já não me sinto só
como antes...
— Estou exausta, signore Kirkpatrik. Acabo de chegar
e necessito de repouso.
— Lamentável! Posso confiar em que nos veremos
amanhã?
— É bem provável, pois, apesar de maravilhoso, o “Les
Almohades” não é precisamente um hotel grande.
— Não me referi a uma casualidade, mas a um
compromisso — protestou Kirkpatrik.
— Quer levar-me à praia e banhar-se sem se sentir
sozinho? — ironizou Tarika.

— 29 —
— Parece-me que tem mau conceito de mim Carla. Por
que não me dá uma oportunidade par demonstrar que sou
um pouco melhor, para mi conhecer...
— Conhecer? Suas andanças estão cm toda as revistas
mundanas. Além disso, acaba de dize que está organizando
um safari e pretende chamar seus amiguinhos de farras, de
modo que não pretendo atrapalhar seus planos. Boa noite.
— Espere! — exclamou o playboy, súplice. — Nem
tudo o que afirmam esses jornalistas mentirosos é verdade.
Desejo convencê-la, Carla.
— Talvez amanhã, signore Kirkpatrik.
— Horace — corrigiu o playboy. — Pode me chamar
Horace. — Vou procurá-la. Juro que vou.
Ela sorriu.
— Costumo ir à piscina bem cedo. A água está mais fria
e há pouca gente. Certas coisas não podem ser partilhadas
entre muitos.
— Maravilhoso! Começamos a coincidir em pontos de
vista!
— Então, procure não dormir demais... Até amanhã,
signore Kirkpatrik.
— Horace.
— Até amanhã, Horace.
Tarika meteu-se num dos elevadores e Kirkpatrik
voltou-se para o recepcionista, comentando:
— Não tive sorte com ela! Vou ao bar me encher de
uísque! Ah... Que sabe dessa bonita morena? É linda, não
acha?
— Lindíssima, monsieur Kirkpatrik. — Porém acaba de
chegar e ainda não pude descobrir nada a seu respeito.
— Sabe? as mulheres lindas são o meu fraco.
— Tomarei a liberdade de avisá-lo assim que a veja pela
manhã.

— 30 —
— Obrigado, amigo.
— Oh, que é isso, monsieur Kirkpatrik! Não há de quê!
Será apenas mais um serviço para o nosso melhor e mais
distinto cliente, aquele cuja presença eleva o nosso pobre
hotel à categoria dos melhores do mundo.
Kirkpatrik lhe dirigiu um sorriso besta e foi ao bar do
hotel, pedindo uma garrafa de uísque. Escolheu a mesa mais
em evidência, junto à qual havia original tina com uma
planta tropical, entregando-se à bebida. Todos veriam que
o infeliz playboy, a despeito de seus milhões, buscava
consolo no álcool. Um estúpido. Estavam longe de supor
que ele já se transformara em verdadeiro Androide e, de
saída, descobrira algo interessante: Carla Varetta não era
italiana e tampouco francesa.
Carla era moura.
Porém sua falsa personalidade não chegava ser um
indício importante, visto ser grande o m mero dos que
aportavam a Tanger usando nome e nacionalidades
supostos, envolvidos nos mais variados negócios, nem
todos limpos, naturalmente.
Esteve cerca de uma hora no bar, aparentemente
entorpecido pelo álcool, cuja maior parte t vera o cuidado
de despejar na areia absorvem da tina com planta tropical.
Subiu à sua suíte após cambalear vergonhosamente e acenar
d igual para igual ao recepcionista, que se mostro
preocupadíssimo com a sua bebedeira, ajudando-a entrar no
elevador e apertar o botão.
Tirou o paletó e a camisa e foi à varanda, com vistas
para a longa praia mediterrânea. As praias atlânticas e as
Grutas de Hércules estavam for de seu alcance visual.
Olhou para a varanda contígua, que estava à escuras,
solitária. Sorriu.

— 31 —
Tornou a entrar, desceu a cortina de palheta e se despiu
para um banho.
Pretendia dormir algumas horas naquela noite.

— 32 —
CAPÍTULO QUARTO

Eles beberam juntos, em harmonia...

Após receber o telefonema de Tarika, o sino-americano


Wong-Fu pensou longamente e apertou um botão em sua
mesa.
Seu criado, vestido de árabe, entrou silenciosamente.
— Senhor?
— Vamos sair, Nafi. Dentro de cinco minutos, estarei
na garagem.
— Sim, senhor.
Nafi se retirou e Wong-Fu vestiu o paletó branco,
saindo quase atrás do mestiço.
Pouco depois, seu “Mercedes” preto parava diante dele.
— Para onde, senhor? — indagou Nafi.
— Para a Ville Ancienne. Quero ficar junto às muralhas
do Palácio do Sultão.
— Sim, senhor.
O carro partiu e Wong-Fu acendeu enorme charuto,
meditando sobre sua incursão ao perigoso e infecto “Petit
Socco”, lugar cheio de ruelas e temido até pelos nativos.
Terminava o charuto, quando Nafi parou o carro e
comunicou, impassível:
— Chegamos, senhor.
Wong-Fu jogou fora o charuto e desceu do carro.
— Espere-me aqui — ordenou ao criado chofer.

— 33 —
— Não necessitará de mim, senhor? — estranhou Nafi.
O sino-americano olhou ao redor e murmurou:
— Creio que não. Espere.
Meteu-se por uma ruela formada por degraus, descendo
a silenciosa Kaba até o “Petit Socco”, olhando sem interesse
para as luzes das portas, muito fracas, indicativas de que,
por trás delas, via “bocas de fumo”, os lugares de perdição
onde se fuma ópio a preço de banana.
Caminhou pelo labirinto como perfeito conhecedor do
terreno e parou diante de uma porta, apertando o botão da
campainha. A porta se abriu e ele entrou com grande
naturalidade, não se deixando impressionar pelo quadro
deprimente: casais devassos, jovens fumando naguileh,
estrangeiros estirados, em catres, inteiramente entregues ao
“quefe” de entorpecentes.
Uma chinesa de idade indefinível, vestindo um fú
chinês, isto é, uma espécie de pijama de cetim negro,
arqueou as finas sobrancelhas ao ver Wong-Fu se
aproximar. Expressou, surpresa:
— Você em minha casa, Wong-Fu?!
— Necessito de sua ajuda, Coral.
— Compreendo. Entre...
Um ocidental estranharia o convite, porém ele era sino-
americano e não se alterou, dando alguns passos até situar-
se fora do trajeto de uma cortina que se moveu dividindo
em dois o compartimento daquele misto de “boca de fumo”
e prostíbulo. Os chineses criam novos aposentos e
reservados, em suas casas, com esse simples expediente.
Coral saiu andando, seguida por ele, passando diante de
várias portas, a maioria abertas e deixando ver os mais
obscenos e contrastantes espetáculos do sexo e
toxicomania. Chegaram a um pátio interno com várias
saídas, que por diversa vezes tinham servido para “salvar as

— 34 —
aparências’ livrando os clientes de vexames nas poucas
ocasiões em que a Polícia havia decidido trabalhar.
Atravessado o pátio, entraram em um pequeno gabinete no
qual havia apenas, além da pequena mesa e um barzinho,
dezenas de almofadões espalhados pelo chão.
— Sente-se, Wong-Fu — convidou Coral. — Suponho
que não veio repetir o falso “ou ai ni” ou mesmo “I love
you” que me disse certa feita eu San Francisco, Califórnia.
Wong-Fu umedeceu os lábios grossos.
— Não, Coral. Isso pertence ao passado. Pen sei que
você tivesse esquecido...
— A mulher, por mais chinesa que seja, jamais esquece
um homem que lhe tenha declarado amor, embora suas
palavras tenham sido falsas. Contudo, não há rancor,
Wong-Fu. Nossos caminhos se separaram e talvez tenha
sido melhor.
Agora precisa de mim e isso me alegra. Quero provar o
que disse: não guardo rancor.
— Obrigado, Coral. Você é compreensiva. Eu... Como
não pode ignorar, escolhi um caminho perigoso, tendo
preferido afastar de mim as pessoas que poderiam ter
sofrido por minha causa.
— Continua um espião?
— Sim.
— Ainda trabalha para Chiang-Kai-Shek?
Wong-Fu sacudiu a cabeça negativamente.
— Não mais — murmurou. — Abandonaram-me
quando necessitava deles.
— Entendo. Que deseja?
— Seria melhor falarmos primeiro...
— Direto ao assunto, Wong-Fu — cortou a chinesa. —
Você mesmo disse que isso ficou no passado.
Ele franziu atesta, mas foi explícito:

— 35 —
— Quero...que você elimine um homem.
— Está bem. Como se chama?
— Thi-Siung, ou, pelo menos, diz ser esse o seu nome.
É o que lhe posso adiantar. Contudo, ele chegou a Tanger
há pouco e não pode andar longe dos bairros “discretos”.
Indubitavelmente, um chinês recém-chegado a Tanger não
poderá furtar-se de comer no “La Pagode”. Ele, por certo,
considera-se desconhecido aqui e, se eu fosse procurá-lo,
começaria por esse restaurante.
— Está bem, Wong-Fu. Acharei esse homem.
— Não faz outras perguntas?
— Não.
— Porém insisto em esclarecer que, depois de me
abandonarem, os homens de Chiang-Kai-Shek exigem de
mim algo que não estou disposto a entregar.
— Não é justo...
— De fato. Agora, Coral, falemos de compensações ...
A chinesa se levantou, foi ao barzinho, serviu uísque e
tomou a sentar-se, entregando um copo a Wong-Fu.
— Ainda gosta dessa bebida inglesa?
— É universal, Coral. Gosto muito.
Olhou-a nos olhos e murmurou, muito sério, o brinde
do ritual dos chineses quando bebem juntos:
— Kan-pei.
— Kan-pei.
Beberam cerimoniosamente e Wong-Fu murmurou:
— E quanto à compensação, Coral?
— Já foi dada: bebemos juntos, em harmonia. após
alguns anos sem nos vermos.
— Não posso concordar que...
— Por favor, Wong-Fu.
Ela sorriu e Wong-Fu acabou concordando, mas, após
hesitar um pouco, sondou:

— 36 —
— Talvez algum dia nos vejamos de novo e...
— Venha quando precise de mim — cortou Coral.
— Oh, eu não me referia a isso. Virei excluir, amente
para...
— Poupe-se ao esforço, Wong-Fu. Com a nossa idade
as criaturas devem ter senso de propriedade. Não podemos
recuar no tempo em busca do que ficou para trás. Assim que
Thi-Siung seja eliminado, eu lhe telefonarei ou lhe darei a
informação por qualquer outro meio.
— Obrigado, Coral, eu...
Ela se levantou do almofadão e ele fez o mesmo,
compreendendo que não devia insistir em futuras visitas
despropositadas. Cumprimentaram-se apenas como velhos
amigos e o sino-americano saiu.
Na rua, Wong-Fu sentiu-se feliz. De um lado, Antonio
Morandi, o figurão da CIA, já estava localizado; de outro,
Thi-Siung, talvez o mais perigoso dos dois, estava com os
minutos contados, Subiu a escadaria da silenciosa Kaba e
pouco de pois entrou no “Mercedes”, ordenando, sorri'
dente:
— Para casa, Nafi.
O carrão partiu do labirinto lindeiro ao Palácio do
Sultão de Tanger.

***

Conforme se propusera, Horace Young Kirkpatrik


despertou quando o céu passava de escuro a azul, à primeira
claridade do amanhecer.
Levantou-se em plenas condições de atuar como
“Androide” ou “77Z”, o frio agente internacional da CIA
cujos chefões por vezes chegavam a supor um autômato em
razão de suas atuações sobre-humanas.

— 37 —
Vestiu calças e suéter de gola alta, pretos, e,
caminhando como um felino, saiu à varanda, observando a
da suíte vizinha, inteiramente sombria.
Sorriu.
Saltar a mureta que separava as varandas foi quase um
simples gesto. Munindo-se do equipamento especial que
trazia no bolso da veste negra.
Trabalhou sem dificuldade, abrindo a porta
envidraçada. Entrou e olhou ao redor.
Uma de suas propriedades fantásticas sempre foi
enxergar no escuro, como o melhor dos nictálopes.
Sorriu de novo.
Aproximou-se de uma das paredes mais longas, na qual
havia, como adorno, um pequeno florão em forma de lírio,
tão do agrado dos árabes. Retirou-o da parede e, movendo-
se nas pontas dos pés descalços, saiu à varanda e fechou a
porta envidraçada.
Pouco depois, tornava a entrar em sua própria suíte,
indo diretamente ao banheiro, onde já havia disposto uma
pequena câmara escura portátil. Acendeu a luz vermelha da
câmara escura, abriu o florão e retirou dele um filme,
entregando-se ao trabalho de revelar a película. O florão era
uma máquina fotográfica de microfilme, magistralmente
disfarçada!
Trabalhou ligeiro com os reveladores e deixou o filme
em água pura, saindo à sala para fumar. Assim que terminou
o cigarro entrou no banheiro e tornou a sair com o negativo,
passando a observá-lo em um visor especial.
Sacudiu a cabeça afirmativamente.
Conforme esperava, ali estavam diversos instantâneos
da falsa Carla Varetta, em diversas posições, na suíte
reservada de Roma para Antonio Morandi. Em uma delas
Carla estava abaixada, colocando algo sob uma poltrona.

— 38 —
“77Z” sorriu amplamente. Um microfone indiscreto.
Satisfeito com a confirmação de suas suspeitas, destruiu
o negativo, mergulhando-o num produto químico especial,
o qual despejou no lavabo, abrindo a torneira.
Depois, voltou para a sala e refestelou-se na poltrona,
fechando os olhos como se pretendesse cochilar. Tudo
estava devidamente previsto por seu cérebro superior. Até
o telefonema que lhe deram naquele instante. Deixou a
campainha tocar bastante, antes de atender com a voz
tomada, como quem é arrancado de profundo sono.
— Alô!!!
— Monsieur Kirkpatrik? Aqui é Pierre, da recepção.
Conforme...
— Que houve?! Fogo no hotel?!
— Não, não é isso, monsieur. Eu lhe prometi telefonar
avisando...
— Vá para o inferno!
— Monsieur! Mademoiselle Carla Varetta já se
encontra na piscina. Eu lhe prometi...
— Pois eu já disse: vá para o inferno! Estou dormindo!
Desligou e, com uma risadinha, aproximou-se do
janelão para, sem ser visto, observar Carla Varetta na
piscina do “Les Almohades”.
Lá estava ela, com o mínimo tolerável pela Lei em
matéria de biquíni, simplesmente escultural, estendida
numa vistosa toalha no gramado em que se encontrava a
piscina.
Apesar de acostumado a ver corpos maravilhosos,
Kirkpatrik reconheceu estar vendo algo sensacional. Pena
que o cérebro estragasse o corpo...
Esperou até que ela, após dar uns mergulhos e se
enxugar na toalha, vestisse a saída e se encaminhasse para
a entrada lateral do hotel. Rápido, vestiu moderno calção de

— 39 —
banho, uma camisa de pano de toalha, ambos brancos,
calçou sandálias japonesas, desgrenhou os cabelos louros e
saiu da suíte, metendo-se no elevador.
Chegou à porta lateral justamente quando Carla entrava
e quase se chocaram de peito.
— Oh! Perdão, mademoiselle... Carla!
— Ao que tudo indica, dormiu mais que a cama... —
zombou a falsa italiana.
— Sou um desastrado, um dorminhoco, um...! Na
verdade, não acreditei que você pudesse levantar-se e
descer tão cedo.
— É o mal de não se acreditar no próximo.
— Não é isso... Carla, eu...
— Por favor, signore Kirkpatrik, preciso subir e...
— Oh, não, não me faça isso, Carla! Podia voltar à
piscina. Tenho uma idéia melhor: almoçaremos juntos.
— Oh, nada disso, monsieur Kirkpatrik. Todos
começam com um almoço informal, mas logo passam ao
lanche, ao jantar e a uma ceia providencial, continuando
assim até chegarem à única coisa em que estão
verdadeiramente interessados.
— Como pode pensar uma coisa dessas de mim! —
quase gemeu o playboy, visivelmente ofendido.
— Não é especificamente do senhor, mas do bicho
homem. É o bicho mais perigoso e interesseiro que já veio
a este mundo.
Kirkpatrik fez a mais desconsolada das caras e
murmurou:
— Que estúpido! Não poderia almoçar nem jantar com
você, porque já tenho compromissos. Assuntos de negócios.
Horrível! Sabe, eu detesto falar de dinheiro, firmar
contratos, comprar indústrias ... Detesto!

— 40 —
— Um sofrimento ao qual só estão sujeitos os homens
que de há muito perderam a conta de sua fortuna — disse
Carla, mordaz. — Normalmente, as pessoas comuns
adoram falar dessas coisas; quando mais não seja, de
dinheiro. Quando estão recebendo, é lógico.
Ele ficou aparvalhado, como não tendo entendido uma
só palavra, e Carla Varetta desejou, com uma risadinha
maliciosa:
— Aproveite bastante suas refeições com figurões,
signore Kirkpatrik.
E, antes que ele pudesse impedir, meteu-se no elevador.
O playboy olhou em redor como quem busca apoio e o
recepcionista do hotel se aproximou, ainda um pouco
desconcertado pela repulsa que sofrera por telefone.
— Em que posso ajudá-lo, monsieur Kirkpatrik?
— Ah...? Oh, é você.
— Monsieur, eu só lhe telefonei porquê...
— Por favor, não prossiga. Eu sou o culpado. Bebi
demais à noite, para sufocar a solidão em que me sinto, e
quando bebo demais acordo de péssimo humor. Sei que
você não mereceu.
— Não tem importância, monsieur Kirkpatrik. Posso
servi-lo em algo?
— Sim, por favor. Uma genebra. Pura. Só isso acaba
com as minhas ressacas.
O recepcionista arqueou as sobrancelhas, mas deslizou
pelo hall como se andasse de patins, voltando num instante
com uma bandeja. Genebra dinamarquesa em garrafa de
barro vidrado e uma taça. Serviu.
Kirkpatrik sorveu nada menos que três taças de genebra
e o milagre se operou diante dos olhos do recepcionista, que
os arregalou de espanto.

— 41 —
— Agora, um mergulho na piscina e depois um bom
uísque escocês. Não é uma boa receita, amigo Pierre?
— Excelente, monsieur Kirkpatrik! — apressou-se a
concordar o recepcionista.
— Vejo que entende dessas coisas.
Caminhando à vontade, desempenado, inteiramente
livre da suposta ressaca, o playboy internacional se
encaminhou para o gramado, entregando-se à mais
espantosa ginástica ioga antes do mergulho.
Pierre, espantado com a assombrosa musculatura do
playboy, sacudiu a cabeça e murmurou, buscando uma
justificativa para o que via:
— Les millionares americains sont contme ça...

***

De volta à sua suíte, sozinha, Carla se aborrecia


bastante. Tinha no ouvido direito um “egoís-3” especial que
lhe permitia ouvir tudo na suíte reservada para Antonio
Morandi, o figurão da espionagem incumbido de
reorganizar a rede da CIA em Tanger. As horas
transcorreram chatíssimas para ela, sem que nada
acontecesse, porém, as onze e meia ela se retesou na cama,
atenta ao que começara a ouvir. Primeiro, o ruído da
fechadura, depois alguns passos e comentários:
— Coloque as malas nos devidos lugares, Oqba.
— Sim, monsieur.
— Segundo fomos informados, monsieur Morandi
chegará esta tarde ou amanhã bem cedo.
— Não lhe parece um hóspede um pouco estranho,
monsieur?
— Talvez um pouco mais exigente que os demais,
porém nós, deste hotel, devemos estar preparados para tudo,

— 42 —
Oqba. Jamais conhecemos perfeitamente os empresários
que nos honram com a sua preferência. Ao que parece,
monsieur Morandi lida com milhões de dólares como nós
gastamos centavos de franco...
— Dólares? Porém seu nome é italiano, monsieur.
— Há muitos italianos nos Estados Unidos, Oqba.
Tantos que se considera Nova Iorque a segunda cidade
italiana, depois de Roma.
— É espantoso, monsieur!
— Verídico, Oqba. Allons.
Saíram, ouviu-se o ruído da fechadura e depois os
passos no corredor, seguidos do barulho do elevador.
Carla tirou o “egoísta” do ouvido e ficou pensativa. Pelo
visto, estava em condições de exercer uma vigilância mais
segura, mais tranquila e mais eficiente. O diabo era aquele
playboy americano, o qual, por certo, não desistiria de
assediá-la, atrapalhando os seus passos. Queria estar
inteiramente livre para agir.
Meteu-se num banho de chuveiro. Envolta na toalha,
pegou o fone e discou.
— Sim?
— Sou eu, Nafi. Quero falar com Wong-Fu.
— Um momento, por favor, mademoiselle Tarika.
Wong-Fu atendeu prontamente:
— Fale, Tarika.
— Chegará esta tarde ou amanhã bem cedo. Sua
bagagem já está no hotel. Caso não chegue esta tarde, talvez
eu me arrisque a revistar as suas malas. De qualquer forma,
tudo se encontra sob controle.
— Uma grande notícia, Tarika. Nossa parte também
marcha satisfatoriamente.
— Está bem, Wong-Fu. Por favor, tente descobrir
ligeiro a quem mais devo eliminar... depois de Morandi.

— 43 —
— Precisa de ajuda?
— Por enquanto, não. Prefiro agir sozinha. Telefonarei,
caso haja alguma novidade.

— 44 —
CAPÍTULO QUINTO

O perigo do círculo de fogo...

Fora um dia lento, abafado, para a belíssima Tarika.


Morandi não chegara naquela tarde, não se devendo
esperar que o homem destacado pela CIA para Tanger
surgisse antes do dia seguinte. Portanto, à hora do jantar,
Tarika vestiu-se segundo a mais atualizada moda italiana e
desceu ao restaurante do “Les Almohades” com a idéia de,
após a refeição, ouvir um pouco de música popular bem
executada pela orquestra do hotel, bebericar um conhaque
ou coisa parecida, certa de que o chato playboy Kirkpatrik
não a importunaria, pois devia estar jantando com
empresários internacionais.
Foi o que fez e não se arrependeu, porque o restaurante
estava lotado de gente simpática, aparentemente inofensiva,
como boa parte dos que circulam por Tanger, muitos
entregues aos mais sórdidos negócios. Este particular não
interessava a Tarika, bastando que todos fossem simpáticos
e, principalmente, que o playboy americano não lhe
estragasse aquela noite agradável.
Horas maravilhosas, pontilhadas de música alegre e
flertes ocasionais com bonitões hospedados no “Les
Almohades”. Porém, como até as coisas agradáveis acabam
cansando, Tarika decidiu subir e meter-se na cama. Afinal,

— 45 —
Morandi chegaria às primeiras horas da manhã seguinte e
ela devia estar em plena forma.
Subiu, abriu a porta da suíte e, quando pôs o dedo no
interruptor, a ordem ecoou seca:
— Não acenda a luz.
Tarika estremeceu, esforçando-se para ver quem falara.
Acostumando os olhos à penumbra conseguiu distinguir o
homem sentado na poltrona, de cara para ela.
Era um árabe, vestido no estilo de sua raça.
— Quem é você? — indagou com voz firme.
— Aproxime-se e sente-se diante de mim. Procure não
me incomodar com movimentos invulgares ...
Tarika arrastou um tamborete e sentou-se diante do
árabe, que perguntou:
— Acha que podemos conversar tranquilamente?
— Por que não? Se vamos apenas conversar... Porém
eu gostaria de saber com quem falo.
— Que importam os nomes? Sou Moulay Ben-
Mohammed.
— De fato, o nome não significa nada para mira.
— Eu também ignoro o seu, mas não me darei ao
trabalho de perguntar. Trata-se de assunto mais importante
do que meras apresentações.
— Pode chamar-me Tarika.
— Está bem, Tarika. Iremos diretamente ao assunto.
Esta automática não é, em princípio, mais que uma
precaução necessária.
Graças a esta frase, ela, forçando a vista, conseguiu ver
a pistola empunhada pelo árabe e sentiu frio na boca do
estômago. Ele prosseguiu:
— Talvez lhe pareça inverossímil, porém sei mais que
você sobre Wong-Fu. Muito mais, Tarika.

— 46 —
— Verdadeiramente inverossímil — sorriu Tarika,
cujos dentes alvos se destacaram na penumbra. — Que
diferença faz?
— Muita. Há quanto tempo se conhecem?
— Creio que... há um ano.
— Muita atividade?
— Não...
— Porém a última operação foi importante, não?
— Talvez — murmurou Tarika, cautelosa.
O árabe, que usava barbicha e óculos escuros, deu uma
risadinha.
— São inúteis quaisquer evasivas — asseverou. —
Conheço de sobra essa operação, pois, de outro modo, não
estaria aqui para lhe falar. Vejo que conhece o sino-
americano Wong-Fu há bem pouco tempo e lhe fornecerei
boas informações a seu respeito. Ele foi agente dos Serviços
Secretos da China Nacionalista de Chiang-Kai-Shek.
Exercia tal atividade em San Francisco, Califórnia, Estados
Unidos. Alguma vez colaborou com esses serviços, Tarika?
— Não vejo interesse algum em tudo isso...
— Calma — cortou o árabe. — Como deve saber, com
a admissão da China de Mao nas Nações Unidas houve
reação de muitos setores, especialmente dos chineses de
Formosa, os quais se veem obrigados a ir abandonando
posições diante da avalanche de países que estabelecem
relações diplomáticas e comerciais com Pequim. A China
Vermelha está reconhecida no mundo inteiro e muitos
consulados de Formosa vêm fechando a; portas; seus
diplomatas, quando não abandonam os países, mantêm
atividades meramente simbólicas.
— Uma lição de política que não lhe solicitei, Moulay
— declarou Tarika, com atrevimento.
Ele deu outra risadinha.

— 47 —
— Tem cabelo na venta, hem? Mas continuemos.
Wong-Fu caiu em desagrado nos Estados Unidos e teve de
abandonar o país. Os homens de Chiang-Kai-Shek, para os
quais ele estivera trabalhando, resolveram esquecê-lo,
abandonando-o à sua sorte.
— E agora ele trabalha por conta própria.
— Simples maneira de dizer, Tarika. Os chineses não
lhe permitem esse luxo.
— Wong-Fu é independente — discordou Tarika. —
Nosso grupo é independente.
— Foi, enquanto Wong-Fu se limitou a operações
consideradas sem importância.
— Bem. Vejo-me obrigada a admitir que, até à última
operação, nada fizemos de realmente importante.
— Perfeito. Pois essa última operação mobilizou mais
gente do que você pode imaginar, Tarika.
— Ignoro isso.
— Eu sei. Mas estou disposto a atualizá-la a respeito.
Diga: sabe de quem Wong-Fu recebeu o “sopro” de que um
agente americano chamado Morandi reservou suíte neste
hotel e se propõe reorganizar a rede da CIA cm Tanger?
— Não me diga que também sabe disso! — exclamou
Tarika, verdadeiramente espantada.
— É evidente. Mas com todo esse espanto não
respondeu à minha pergunta: sabe quem é o confidente de
Wong-Fu?
— Não.
— Pois saiba que os Serviços Secretos de Formosa se
interessaram pela última operação de Wong-Fu, exigindo
dele a entrega da carga que vocês retiraram de bordo
daquele pequeno cargueiro a caminho de Istambul. Os
chineses usaram como intermediário um chinês chamado
Thi-Siung, o tal confidente, que já está sob meu controle.

— 48 —
Posso eliminá-lo no momento oportuno. Assim, caso se dê
ao trabalho de refletir um pouco, entenderá uma coisa: a
posição de Wong-Fu é delicada, de verdadeiro equilibrismo
entre duas forças superiores a ele. A primeira é a CIA e a
segunda está representada por Thi-Siung.
Tarika estava empertigada, tensa, esforçando-se
inutilmente para ver através dos óculos escuros do árabe, o
qual parecia não encontrar dificuldade alguma para fazê-lo.
— E como sabe de tudo isso? — indagou.
Ele sorriu.
— Sou a terceira força interessada, Tarika. Porém há
notória diferença entre o que represento e as posições de
Thi-Siung e Morandi. Estes tentarão até mesmo peia força
mudar a situação a seu favor e não posso negar que tenho
intenções parecidas. Porém há uma diferença fundamental:
estou disposto a pagar; concretamente, a comprar.
Ela se sentia confusa.
— Pretende comprar... — murmurou. — Então, por que
não abordou Wong-Fu?
Ele deu uma risada.
— Por acaso me supõe um estúpido? Wong-Fu está
controlado pela CIA e por Thi-Siung, aproximando-se uma
guerra, e, como é sabido, em qualquer guerra perde a cabeça
o mais fraco. Sabe quem é o mais fraco?
— Creio que... que seja Wong-Fu.
— Exato. Assim sendo, não pretendo aproximar-me
dele. Seria correr um risco absurdo porque desnecessário.
— Compreendo. Porém, como sabe que...?
— Não se surpreenda — cortou Moulay ben-
Mohammed. — Tenho meus próprios meios e não quero
fazer tratos com Wong-Fu porque ele está cercado. Thi-
Siung e Morandi vão destruí-lo independentemente de se
destruírem depois. Eles dispõem de forças semelhantes, ao

— 49 —
que pude constatar. E sabe por que Wong-Fu não lhe contou
e aos seus demais servidores o que se passa?
— Bem...
— Não force a cabeça: simplesmente por temor de que,
sabedores da verdade, vocês o atraiçoem e o abandonem
neste momento crucial para ele. Não foi leal com vocês,
Tarika.
Ela mordeu o lábio inferior, pensativa. Murmurou:
— Por que me buscou e me revela tudo isso?
— Muito simples: não consegui aproximar-me de seus
colegas. Foi mais fácil abordá-la enquanto espera por
Morandi. Sabe? Considero uma utopia sua a idéia de
eliminar esse americano altamente experimentado em
matéria de espionagem, porém não gosto de matar as
ilusões de meus semelhantes. Mas saiba que a chegada de
Morandi é o próprio sinal para o início da guerra, porque os
demais elementos da CIA já se encontram aqui.
— Eu... eu não suspeitava — admitiu Tarika,
verdadeiramente impressionada. — Pensei que eliminando
Morandi o trabalho estaria terminado.
— Há um prazo que está sendo respeitado, Tarika: o
prazo concedido por Thi-Siung a Wong-Fu,
correspondendo exatamente ao tempo necessário para que
Morandi chegue a Tanger. Estive pensando'
demoradamente no assunto e concluí que você poderia
aproveitar esse prazo.
— Sugere que... devo trair Wong-Fu?
— Que termo deselegante, Tarika! Digamos assim:
Wong-Fu também foi desleal com vocês. A palavra seria:
deslealdade. Irei direto à proposta: um milhão de dólares,
na moeda que você preferir, pela mercadoria que obtiveram
na última operação. Uma fortuna da qual você poderá
desfrutar sozinha. Você me entregará a mercadoria,

— 50 —
receberá seu dinheiro, fugirá e a CIA, juntamente com Thi-
Siung, destruirá Wong-Fu. E depois se destruirão, porém
você já estará bem longe, a salvo.
— Não deixa de ser uma traição perigosa, Moulay —
disse ela, a meia voz, visivelmente balada.
— Vejo que insiste em utilizar esse termo tão feio!
Bem, terá algumas horas para refletir. Se continuar com
Wong-Fu, talvez perca a vida sem benefício algum; caso
aceite minha proposta, ganhará o equivalente a um milhão
de dólares, sua própria vida e a liberdade. Não duvide:
Wong-fu já está com um pé na cova.
— Não sei... A verdade é que estou com medo.
— Todos nós, alguma vez, temos medo. Porém há
oportunidades que não devemos deixar passar.
— E se você me estiver enganando?
— Em que sentido?
— Não sei...
— Julga que minto sobre Thi-Siung? Telefone tara
Wong-Fu e lhe fale desse chinês. Ficará surpresa com a
reação de seu chefe.
— Talvez eu faça isso.
— Seria um meio de comprovar minhas palavras, mas
também uma arma de dois gumes, uma vez que Wong-Fu
se colocaria em guarda.
— É...
— Tarika, você está num círculo de fogo. Salte para
fora dele por meu intermédio.
— Quem você representa?
— Sou árabe.
— Quer dizer, com isso, que a mercadoria interessa aos
árabes?
— Interessaria a qualquer povo.
— Ah... Quero... quero pensar.

— 51 —
— Como queira, mas lembre-se de que dispõe de
apenas algumas horas. Não estarei muito longe nem
imprudentemente perto de você.
Ela sacudiu a cabeça afirmativamente e murmurou,
decepcionada:
— Eu pensei que Wong-Fu fosse mais... sólido.
— Não pode ser sólido um espião que se torna
demasiadamente conhecido.
— De fato. Todos o consideram dotado de uma
inteligência extraordinária, porém ele jamais me
impressionou — disse ela.
O árabe se levantou. Era alto, corpulento, verdadeira
massa. Aproximou-se de Tarika, estendeu o braço esquerdo
e lhe acariciou o rosto. Ela, conquanto achando que o mais
lógico seria sentir repugnância, gostou de ser acariciada por
aquele homem tão senhor de si.
— Você é belíssima e jovem, Tarika — murmurou o
árabe. — Seria lamentável que fizesse a escolha errada.
— Moulay, não é assim tão fácil fugir, encontrar
segurança após cometer uma traição como a que me propõe.
— Eu sei. Digamos que amplio minha proposta:
fugiremos juntos.
Ela sorriu.
— Você poderá liquidar-me e economizar o seu milhão.
— Claro que poderia, mas não o farei se fugir comigo.
— Que garantias posso ter?
— Minha palavra. Estamos perdendo tempo. Insistirei
dentro de poucas horas.
— Vou pensar.
— Seja rápida.
Acariciou-a de novo.
— Perdoe esta pequena medida acauteladora, Tarika.

— 52 —
Uma pancada no queixo, magistralmente dosada,
nocauteou Tarika. Ela caiu nos braços do árabe, que a
transportou, colocando-a na cama.
Moulay Ben-Mohammed contemplou a morena,
admirando seus dotes físicos.
Saiu.

— 53 —
CAPÍTULO SEXTO

As sombras não diriam “Kan-pei...”

O árabe desceu do táxi no “Petit Socco” e continuou a


pé, demonstrando conhecer cada palmo das ruelas do
perigoso bairro todo de casas de um andar e telhado
horizontal, a maioria brancas e algumas rosa, desbotado
pelo tempo.
Em Tanger chove apenas em 70 dos 365 dias do ano;
isto é, todas as horas de chuva, se somadas, equivalem a 70
dias e, por isso, os telhados não têm caimento algum.
O “Petit Socco” é, para os árabes, Kaba, lugar pelo qual
o misterioso árabe se deslocava muito à vontade após sua
visita a Tarika no “Les Almohades”.
Ele parou diante de uma porta baixa, abriu-a com a sua
chave e entrou, caminhando ligeiro no pátio interno, muito
escuro, numa demonstração de ser praticamente nictálope
ou conhecer muito bem o ambiente. A casa estava
distribuída ao redor desse pátio, ao qual iam ter todas as
portas internas.
Empurrou uma delas e a reação foi fulminante.
Algo emitiu um lampejo e somente graças a isso o árabe
não tombou atravessado por um punhal bem manejado.
Moulay Ben-Mohammed era homem alerta.
Empurrando a porta, prendeu o braço do agressor,
surpreendendo-se de ver que era de mulher. Ouviu um

— 54 —
gemido de dor e apertou com mais força até ver o punhal
cair. Então, abriu a porta e deu um puxão na mulher, que
saiu aos tropeções, indo estatelar-se contra a parede e
despencar de joelhos, recurvada, sem forças para respirar.
Aproximou-se dela, mas pôs-se em guarda, porque
outra sombra se lançava sobre ele com um grito estridente.
Sua automática provida de silenciador emitiu um
chiado e o corpo da mulher amarela dobrou-se ao meio, com
uma bala no ventre.
Porém ainda não havia terminado. Outra mulher
chinesa, igualmente munida de punhal, abalançou-se sobre
ele com uma ferocidade imprevisível para uma criatura tão
frágil.
Moulay partiu-lhe o antebraço com tremenda cutilada
de karatê e ela caiu ao chão, gemendo, sem forças. Outra
cutilada, desta vez na nuca, deixou-a imóvel.
Abrindo a porta, Moulay contemplou a primeira
agressora, que continuava encolhida, gemendo. Agarrou-a
pela munheca magoada e ela se ergueu de um salto para
evitar a dor lancinante, mas tentou livrar-se de seus dedos
férreos.
— Quieta — rosnou Moulay, encostando-lhe o
silenciador da automática embaixo do queixo. — Explique-
se. A que se deve tão agradável surpresa?
— Não... não era para você...
— Ah... E para quem era?
— Para um chinês chamado Thi-Siung. Pensamos que
morasse aqui. Ele esteve no “La Pagode” e... Foi um
engano.
— Não conheço esse chinês, nem vocês, nem ninguém
e quase acabaram comigo.
— Repito que foi um engano.
— Quem as mandou liquidar o tal Thi-Siung?

— 55 —
A chinesa pareceu disposta a não revelar e ele não teve
outro remédio senão ameaçá-la de uma tortura que
aprendera no Irã:
— Se não falar, será primeiro violentada, depois terá as
mãos amputadas.
— Trabalhamos para Coral — soltou a chinesa, de
olhos muito arregalados.
— E para quem trabalha essa Coral?
— Para quem lhe paga.
Moulay ben-Mohammcd sorriu.
— Compreendo: alguém pagou a Coral para que
mandasse suas pequenas feras sanguinárias liquidarem o
chinês Thi-Siung. Devo felicitá-la por ter encontrado este
esconderijo.
— Conhecemos perfeitamente a Kaba.
— Claro.
— Que fará comigo?
— Que mais fazem para essa Coral? — indagou ele, em
vez de responder.
— Tudo.
— Não pode especificar?
— Tudo. Eu disse tudo.
— Sabe quem pagou a Coral para vocês matarem Thi-
Siung?
— Ela nunca nos dá explicações.
O árabe acreditou. Na verdade, não seria necessário
grande esforço mental para compreender quem teria
encomendado tal “serviço” de Coral, a cafetina e dona de
“boca de fumo” do “Petit Socco” ou Kaba, como preferem
os árabes. Atuando com rapidez, de modo imprevisível,
deixou-a nocaute com uma cutilada de karatê na têmpora.
Depois, aproximou-se de um monte de embrulhos que
pareciam ter permanecido ali, abandonados, por muito

— 56 —
tempo, apoderando-se de um deles, cuja poeira soprou com
força.
Saiu ao pátio, deu uma olhadela às suas supostas
matadoras e pouco depois ganhava a ruela, tornando-se
apenas mais um árabe de chilaba (*), rajado e turbante. Com
um embrulho embaixo do braço.
(*) Manto Árabe.
Meteu-se na primeira cabina telefônica e discou. Nafi
atendeu e ele exigiu, em árabe, falar com Wong-Fu. O sino-
americano atendeu, cauteloso:
— Fale...
— Está cometendo erros, Wong-Fu — disse Moulay,
em chinês. — Erros muito graves.
Houve ligeira pausa.
— Você é Thi-Siung...!
— De fato. Livrei-me facilmente de três assassinas
profissionais e quero adverti-lo de que nem trinta iguais a
elas poderiam liquidar-me. Deu um mau passo, Wong-Fu.
— Está enganado, Thi-Siung. Eu...!
— Chega. Essa mercadoria deve pertencer à China
Nacionalista e por esse motivo estou aqui em Tanger. Além
disso, você continua afeto a nós. Há laços dos quais só nós
podemos livrar pela morte.
— Vocês não me ajudaram quando mais necessitei de
ajuda! Simplesmente me ignoraram!
— Porém mudamos de opinião.
— Não é assim tão simples.
— O mais inteligente é tornar fácil aquilo que nos
pareça complicado, Wong-Fu.
— Escute, Thi-Siung, eu...
— Você é quem vai escutar. As coisas estão mais
complicadas do que imagina. Outro personagem entrou na
disputa da carga.

— 57 —
— Impossível! Pretende convencer-me de que o mundo
inteiro sabe de minhas atividades, que estou sendo sitiado,
encurralado... Impossível!
— Você devia ter dito que lhe parece impossível e não
que o seja verdadeiramente, Wong-Fu. Posso revelar quem
mais entrou no assunto. Trata-se de um árabe chamado
Moulay ben-Mohammed, o qual está aqui com o seu grupo
e disposto, como eu e como Morandi, a se apoderar do
material que você roubou.
— Mentira! Está querendo me assustar!
— Não diga bobagens. Para assustá-lo basta a minha
presença em Tanger. Agora, preste atenção: a chegada
desse árabe exige um acordo entre nós. É um ultimato e
você terá poucas horas para se decidir, Wong-Fu.
— E se eu discordar?
— Vou mostrar a importância de entrarmos num
acordo. Moulay Ben-Mohammed já deu provas de grande
inteligência, atacando um de seus pontos mais fracos.
Refiro-me a Tarika, a moura que você postou no “Les
Almohades” à espera de Morandi.
— Você... você sabe de tudo! — gemeu Wong-Fu.
— Evidentemente. Justamente por isso quero alertá-lo
quanto ao perigo de Tarika ceder à pressão desse árabe. Ele
lhe ofereceu uma fortuna para ser conduzido à mercadoria,
devendo-se esperar que Tarika ceda à ambição, o que seria
muito humano, mas desagradável para nós, Wong-Fu.
— Não! Isso, não! Tarika não me faria uma coisa
dessas!
— Eu não me arriscaria a submeter à prova a lealdade
de ninguém em affaire tão sério, Wong-Fu. Tão importante
que você, neste momento, está controlado pela CIA, por um
grupo árabe e... por mim, naturalmente. Com a diferença de
que apenas ao grupo árabe não interessa a sua cabeça caso

— 58 —
não tenha êxito em se apoderar da mercadoria, ou mesmo
com a mercadoria nas mãos. Como vê, está em má situação
e somente eu posso ajudá-lo.
— Talvez eu consiga safar-me sozinho...
— Seu otimismo, em tais circunstâncias, atinge as raias
da imbecilidade — cortou o falso Thi-Siung. Vou arrematar
o assunto: sabe quem chegará a Tanger com o nome suposto
de Morandi?
— Não.
— “Andróide”, o “Máscara Negra” ou “77Z”, o
indestrutível, imbatível e inimitável espião internacional da
CIA.
— Na...não! — gemeu Wong-Fu. sentindo-
se arrasado.
— Compreende, agora, que devemos coligar-nos para
não morrermos estupidamente nesta disputa?
— Estou tão confuso... Que... que devemos fazer?
— Em primeiro lugar, lembre-se de que existe um árabe
chamado Moulay Ben-Mohammed disposto a dar uma
fortuna a Tarika para ser conduzido à mercadoria e de que...
poucos resistem a um milhão de dólares.
— Um mi...! Cadela de rua!
— Telefonarei novamente, Wong-Fu. Será a última
vez, se você falhar na primeira iniciativa encorajadora de
um acordo entre nós.
O árabe desligou e voltou pelo mesmo caminho até
chegar a uma pracinha na qual havia uma porta
suficientemente grande para dar passagem a um “Peugeot
404”. Abriu, colocou © embrulho no assento do carona,
sentou-se ao volante e partiu devagar, demandando o setor
moderno da cidade para dirigir mais à vontade.
Ponderava sobre o local onde se processaria sua nova
ação.

— 59 —
***

Quando o árabe desligou, Wong-Fu sentia as palmas


das mãos úmidas e os dedos gelados. Estava cercado.
Completamente sitiado. Mas como?! Aquela amaldiçoada
moura pretendia atraiçoá-lo justamente agora que as coisas
estavam péssimas!
Apertou o botão da campainha e Nafi surgiu, impávido,
de chilaba branco.
— Senhor?
— Chame Zheyad e Berlano. Rápido! — gritou.
— Sim, senhor.
Assim que Nafi saiu, Wong-Fu sentou-se para meditar,
decidindo eliminar paulatinamente todas as sombras que o
rodeavam ameaçadoramente. Retorcia as mãos, com raiva,
quando seus homens entraram.
— Tarika pretende nos trair — foi logo dizendo.
Berlano e Zheyad se olharam, perplexos.
— Mas... é impossível! — protestou Berlano.
— Estou certo!
— O senhor afirma que Tarika está decidida a colaborar
com a CIA? Como, se Morandi ainda não chegou a Tanger?
— Eu também estou meio confusa... — admitiu Wong-
Fu. — Não se trata dos americanos, mas de um árabe
chamado Moulay ben-Mohammed. Deixemos isso para
depois. Devemos agir rápido porque a traição está para
ocorrer a qualquer momento e vocês deverão impedir.
Preciso das instruções?...
Zheyad apertou os lábios, com raiva, e Berlano
respondeu, lançando chispas de ódio pelos olhos:
— Ela não nos trairá!

— 60 —
— Rápido. Outra coisa: deverá ser substituída na
vigilância a Morandi.
— Eu me incumbirei disso — ofereceu-se Berlano.
— Ótimo.
Novamente Wong-Fu omitia qualquer referência ao
perigoso e onipresente Thi-Siung, preferindo ocultar de
seus homens que Morandi não era outro senão o eletrizante
“Máscara Negra”. Resolveria cada problema de per si, a
começar por Tarika, seguindo-se o árabe, depois uma cilada
contra Thi-Siung e... Ah, se o “Androide” não estivesse
metido no assunto...!
Os dois homens saíram e Wong-Fu serviu-se de uma
dose avantajada de uísque, sorvendo-a desesperadamente.
Desta vez não disse: “Kan-pei...” Afinal, estava
bebendo sozinho. Melhor dito: com as sombras que o
sitiavam e não beberiam com ele nem o saudariam em
chinês.

— 61 —
CAPÍTULO SÉTIMO

A mais espantosa metamorfose...

Moulay Ben-Mohammed teve o cuidado de certificar-


se de que Tarika continuava passeando no jardim do “Les
Almohades”, entre palmeiras, após lhe telefonar marcando
um encontro discreto naquele lugar.
A moura lhe pareceu tensa, preocupadíssima, assustada
com a idéia de trair Wong-Fu e ser descoberta. Sorriu e
entrou no hotel, usando a porta lateral. Subiu pelas escadas
ao primeiro andar e chamou o elevador, metendo-se nele.
Era a melhor forma de despistar possíveis observadores, ao
desembarcar no terceiro andar. Munido de uma gazua, abriu
facilmente a porta, como da outra vez que ali estivera, e,
sem acender as luzes, desapareceu de vista.
A espera já se estava tornando monótona, quando
começaram a escarafunchar a fechadura e Moulay sorriu.
Trabalho de principiante...
Pouco depois, duas sombras entravam e fechavam a
porta e uma delas comentava:
— Tomara que ainda não tenha fugido...
— Não creio, Zheyad. Vamos surpreendê-la aqui e
seremos rápidos.
Os dois estavam juntos e o árabe, vendo-os de costas,
julgou chegado o momento de agir. Naturalmente,

— 62 —
empunhando a automática. Surgiu de trás de uma poltrona
e ordenou:
— Não se mexam.
Berlano virou-se ligeiro, tentando anular a vantagem
inicial do desconhecido, porém este já havia previsto tal
reação e, após dar a ordem, se deslocara para outro ponto
da sala. As mãos de Berlano ficaram vazias. Zheyad,
sobrepondo-se à surpresa, sacou lindo punhal e tentou
arremessá-lo contra o desconhecido, porém não chegou a
fazê-lo porque uma bala, bem dirigida, abriu-lhe um furo na
testa, interrompendo-lhe o raciocínio e os instintos.
Berlano tentou sacar a automática, mas o árabe provou
ser mais ágil e, com veloz movimento da mão armada, deu-
lhe um golpe de automática no pomo de Adão, deixando-o
sufocado por espasmo da glote. Ao segundo golpe, na
têmpora, caiu de joelhos, com a sensação de estar girando
vertiginosamente. Moulay segurou-lhe o pulso direito até
que ele soltasse a automática, ordenando:
— Quieto.
— Quem...?
— Nada de explicações. A vida de Tarika me interessa
o suficiente para que eu não vacile em matar.
— Então... é verdade! Ela...!
— Provou ser inteligente e sairá ganhando.
Revoltado, Berlano se debateu e chegou a vislumbrar a
vitória ao conseguir libertar o pulso, mas suas esperanças se
esfumaram quando ele sentiu no pescoço fina tira de couro
áspero e falta de ar.
— Nada mais fácil que estrangular um imbecil —
rosnou Moulay.
Berlano se imobilizou, compreendendo que morreria
facilmente nas mãos do árabe e, nesse instante, a porta se
abriu. Tarika acendeu a luz e ficou galvanizada, de olhos

— 63 —
arregalados. Seu olhar passeou ligeiro do cadáver de
Zheyad a Berlano, que tinha a cara arroxeada e os olhos
esbugalhados.
— Pretendiam acabar com você — explicou Moulay,
afrouxando a tira de couro.
— Por quê?! Por quê, Berlano?!
— Ainda pergunta, sem-vergonha?! — rosnou Berlano,
com a voz alterada, tentando uma vez mais livrar-se do
árabe.
Moulay Ben-Mohammed esperou que ele introduzisse
os dedos das duas mãos entre a tira de couro e o pescoço e
só então começou a apertar. Berlano esperneou, emitiu
roncos abafados e se imobilizou. Morte por asfixia.
Tarika ficou perplexa diante de tamanha frieza,
conseguindo balbuciar:
— Você matou... Foi por sua culpa...
— Talvez — sorriu Moulay.
— Você deve ter inventado mentiras para que eles me
perseguissem e eu me colocasse do seu lado.
— Não fiz nada disso — mentiu cinicamente Moulay.
— Vim esperá-la a fim de saber qual a sua resposta e, ao
perceber que forçavam a porta com uma gazua, ocultei-me
atrás da poltrona. Os dois falaram sobre liquidá-la e, como
devemos entrar num acordo, decidi eliminá-los.
— Eu ainda não resolvi...
— Acredito, mas agora tornou-se uma questão de
tempo. Meu carro está lá embaixo, Tarika. Vamos?
— E... e esses cadáveres? Quando descobrirem...
— Pretende carregá-los às costas para lhes dar sumiço?
Ela se desconcertou, murmurando:
— Oh, se eu pudesse acreditar em você!
Ele se impacientou:

— 64 —
— Agora não se trata de acreditar ou não, Tarika: trata-
se de fugir o quanto antes. Descerei primeiro, esperando por
você num “Peugeot 404” escuro que está na pracinha do
hotel. Terá alguns minutos para recolher seus pertences
imprescindíveis. E não esqueça o biquíni azul que lhe
assenta muito bem...
Virou-se e saiu, disposto a aproveitar aqueles minutos
para realizar algo importantíssimo. Desceu pelo lado do
hotel e meteu-se no carro, desembrulhando o volume que
recolhera no “Petit Socco”. Tratava-se de potente
transceptora mitiaturizada. Operou os “mandos”, fazendo a
chamada. Atenderam prontamente:
— É você, Horace? Tudo bem?
— Até o momento sim, Eddy. Está preparado?
— Na gruta que você já sabe.
— Com o dinheiro?
— Naturalmente...
— Será conveniente mostrá-lo a essa mulher. Dentro de
uns trinta minutos estarei aí com ela. lá sabe qual a sua
missão.
— Fique tranquilo.
— Até já, Eddy.
Cortou a comunicação, tornou a embrulhar a
transmissora e jogou-a no assento traseiro, acendendo um
cigarro “Abdullah”.
Começava a se impacientar, quando Tarika surgiu na
porta lateral com uma maleta de courpin cereja. Atraiu-a
com a buzina do carro.
— E agora? Aonde vamos? — quis saber a noura.
— Ao meu refúgio. Não quero que corra o menor risco
e nesse lugar estará segura, com muito dinheiro nas mãos.
Claro que terá de me conduzir à mercadoria roubada por

— 65 —
Wong-Fu. Vamos desaparecer e você virá conosco. Vá
pensando durante o trajeto.
Partiram em silêncio e somente após meia hora de
viagem o “Máscara-Negra” falou:
— Estamos chegando. É uma gruta.
— Quanta gente com você?
— Oh, isso é apenas o... quartel-general para esta
operação. Meus homens estão distribuídos e lugares
convenientes. Procure relaxar a tensão nervosa, Tarika.
Embicou o carro para fora da estrada e, após alguns
solavancos, parou diante da gruta.
— Acho... acho que estou fazendo algo insensato —
murmurou Tarika, antes de descer do carro.
— Discordo: Wong-Fu já está fedendo a defunto.
— É possível, mas...
— Seja prática. Venha.
Entraram na gruta às escuras e a moura ainda arriscou:
— Suponhamos que eu lhe dê a informação você me dê
o dinheiro prometido e eu desapareço sozinha.
— Seria uma boa idéia, caso eu não pretendesse
constatar a veracidade da informação, Tarika. É dificílimo
alguém me enganar, até mesmo em se tratando de uma
criatura deliciosa com você. Dê-me a mão.
Ela obedeceu e caminharam no escuro.
— Ismail! — gritou Moulay e as luzes se acenderam.
Diante deles, vestindo chilaba branco e o capuz
vermelho, um árabe alisava um respeitável bigode.
— Meu lugar-tenente — disse Moulay. — Começará a
falar, ou prefere ver o dinheiro antes?
— O dinheiro.
“Máscara-Negra” fez um sinal e Eddy, o falso: Ismail,
recolheu de uma cavidade uma bonita maleta tipo executivo

— 66 —
castanho claro, abrindo-a diante dos olhos de Tarika, que se
arregalaram.
— E agora? — indagou Moulay.
— O material roubado está num submarino...
— Local.
— Há uns dez quilômetros daqui existem umas
enseadas entre penhascos. Deve encontrar-se em uma delas.
— Quantos homens formam a tripulação?
— Quatro. Laprade, o comandante, costuma sair, porém
Baugier toma seu lugar.
— Que sabe sobre o material roubado?
— Nada. Wong-Fu é quase tão misterioso quanto você.
— Se é um elogio, obrigado.
— Ignoro de que se trata, mas começo a compreender
que é importante, dado o número de interessados.
— Uma peça cobiçadíssima, Tarika. Confio em que
venha ter às nossas mãos. Não obstante, sua informação me
parece um tanto incompleta. Não acha?
— Sim, mas... é difícil conhecermos a posição exata do
submarino, quando não nos é fornecida pelo comandante —
arriscou uma olhadela para a potente transceptora de Eddy.
Moulay compreendeu, indagando:
— Poderia entrar em contato com ele?
— Sim; creio que sim.
— Ótimo.
— Devo chamar agora?
— Não quero precipitar os acontecimentos. Tomarei
antes algumas medidas de segurança, agrupando meus
homens. Chamará quando eu mandar.
— Enquanto isso, ficarei aqui? — sondou Tarika.
— Com Ismail. Saiba que ele não a deixará fugir,
Tarika.
— Não pensei em me arriscar.

— 67 —
— Meus parabéns. Seria desagradável encontrá-la
morta. Fique atento, Ismail.
Uma respeitável Luger provida de silenciador apareceu
brotar na mão direita de Eddy, que sorriu, recurvando o
bigodão, e indicou a Tarika, om a arma, um recesso da
gruta.
“Máscara-Negra” trocou um olhar com ele e saíu,
caminhando diretamente para o seu carro. Abriu o porta-
malas e trabalhou ligeiro na mais surpreendente
metamorfose. Minutos depois era o próprio Thi-Siung, um
chinês enorme, corpulento, com o hábito de entrelaçar os
dedos diante o grande ventre. Um chinês vestido à
ocidental, sentou-se ao volante e pisou fundo o acelerador.
O “Peugeot 404” partiu como um foguete, com os pneus
cantando.

— 68 —
CAPÍTULO OITAVO

Tantas, que ele próprio se confundia...

A impaciência de Wong-Fu parecia formar uma


atmosfera densa ao seu redor.
Por fim, entrou Baugier, que se aproximou dele,
intrigado:
— O senhor me chamou?
— Algo ocorreu a Tarika. Serei mais exato: tive notícias
de que ela nos traiu. Mandei Zheyad: Berlano darem um
jeito nela, porém eles não voltaram. Vá descobrir o que se
passa.
— Devo ir ao hotel?!
— Claro, mas seja cauteloso. Onde está Larade?
— No submarino.
— Seja rápido porque, conforme o que tenha ocorrido
no hotel, nossa situação poderá tornar-se bem difícil.
Baugier franziu a testa, arqueando as sobrancelhas.
— É difícil pensar isso de Tarika, senhor.
— Rápido!
— Sim, senhor!
Preocupadíssimo, Baugier saiu, deixando Wong-Fu
sozinho na sala. O sino-americano começava a considerar
boa idéia refugiar-se no submarino, onde estaria a salvo das
investidas de Thi-Siung, Moulay ben-Mohammed,
“Mascara-Negra” e outros inoportunos.

— 69 —
— Senhor.
Wong-Fu assustou-se, indagando de mau-humor:
— Que houve, Nafi?!
— Um cavalheiro entrou na quinta, senhor.
— Que cavalheiro?
— Um chinês, senhor. Afirmou chamar-se Thi-Siung e
insistiu em lhe falar. Veio em seu próprio carro.
Wong-Fu sentiu frio no estômago.
— Tem certeza?
— Tenho, senhor. Ele espera no vestíbulo.
— Mande-o entrar, porém fique atento a qualquer sinal
meu, porque... Bem, talvez nos interesse que ele saia vivo,
mas também que jamais saia daqui, entendeu, Nafi?
— Perfeitamente, senhor.
Nafi saiu e voltou pouco depois, introduzindo ao
escritório um chinês alto, volumoso, de pequenos olhos
escuros, oblíquos.
— Pensei que talvez gostasse de me conhecer
pessoalmente — foi logo dizendo Thi-Siung.
Wong-Fu apertou os lábios, antes de indagar:
— Não acha que sua presença intempestiva constitui
uma insolência que lhe poderá custar caro?
Breve sorriso de Thi-Siung desconcertou bastante
Wong-Fu.
— Vou confiar em sua inteligência, embora
ultimamente ela não se tenha mostrado... digamos
cintilante, Wong-Fu. De fato, entrei em sua casa, porém tive
antes o cuidado de postar meus homens em lugares bem
convenientes. Devia ter previsto, Wong-Fu.
— Está bem. Que deseja?
— Não me convida para sentar? Pelo que vejo, também
está perdendo a famosa cortesia oriental.

— 70 —
Desconcertado, o sino-americano lhe indicou a poltrona
diante de sua mesa e sentou-se, antes que ele o fizesse.
— Seremos francos — declarou Thi-Siung. — Você
deixou de ser interessante, porém as coisas mudaram.
— Tenho a minha própria organização — jactou-se
Wong-Fu.
— Seja realista, Wong-Fu. No pequeno mundo da
espionagem, você não passa de um homem queimado, um
personagem demasiadamente conhecido. Seria o mesmo
que trabalhar de espião, levando um letreiro na testa para
que ninguém duvidasse...
— Não necessito de ninguém. Conheço o motivo de sua
visita e me apresso a declarar que não lhe entregarei a
mercadoria. Eu...
— A precipitação também não é virtude dos bons espias
— cortou Thi-Siung. — Antes de lhe concedermos o direito
a um ostracismo temporário, você se chamava Dagobert
Horrall, gozava da cidadania norte-americana e residia em
San Francisco da Califórnia.
— Que tem isso a ver com o assunto?
— Muita coisa, Wong-Fu. A quem pensava vender a
mercadoria?
— Thi-Siung, você cometeu lamentável deslize
entrando em minha casa.
— Não estávamos falando nisso. Especificamente,
Wong-Fu, a quem pretendia vender os bloqueadores de
controle remoto?
Wong-Fu semicerrou os olhos.
— Sabe muito mais do que eu imaginava.
— Muito, mesmo, Wong-Fu. Jamais empreendo uma
operação às cegas. Porém seu comentário também não
responde à minha pergunta.

— 71 —
— Como sabe que são bloqueadores de controle
remoto? Realmente se trata de algo novo, desconhecido em
todo o mundo. Um engenho perfeito.
— Exato. Porém há algo mais, Dagobert Hor-rall: você
desbaratou uma operação da CIA em favor da paz mundial.
Sabia? É óbvio que sim.
— E daí?
— Não lhe importa que estoure a III Guerra Mundial?
— Talvez não.
— É lamentável... — sorriu Thi-Siung. — Não ignora
que se espalha um clima de guerra pelas regiões Norte e
Noroeste da China Continental. Estão sendo realizadas
grandes manobras, verdadeiros preparativos bélicos, nos
territórios de Helun-Kiang, Liaoning, Kiring, Mongólia
Interior, Kanshu, Senshu e Sinkiang. São territórios ao
longo das fronteiras soviéticas. Além disso, além dos
militares, as populações civis participam ativamente das
manobras. Em suma, foram detectados preparativos que
fazem antever a eclosão do conflito de um momento a outro.
— Não é de minha conta.
— Creio que sim, Wong-Fu, porque você, conquanto o
ignore, poderia tornar-se um dos artífices de uma guerra
capaz de engolfar o mundo inteiro.
— Não me considero tão importante — zombou Wong-
Fu.
— E não o é, porém, talvez sem tal propósito, esteja
pondo a paz em sério risco. Esses bloqueadores de controle
remoto que a CIA transportava para a Ásia tinham fins
pacifistas.
— Deveras? — sorriu Wong-Fu, ainda mais irônico e
zombeteiro.
— Deveras — repetiu Thi-Siung. — Explicarei em que
consistem esses fins. Conforme © nome indica, os

— 72 —
bloqueadores de controle remoto servem para impedir os
disparos de foguetes teleguiados dirigidos por controles
remotos. Um exemplo: a Rússia resolve disparar seus
teleguiados contra a China Vermelha, ou vice-versa, o que,
naturalmente, marcaria a deflagração de um conflito
mundial; pois bem, esses bloqueadores impedem tais
disparos. Na verdade, eles vão impedir possíveis disparos
fratricidas.
— Vejo que conhece o assunto a fundo, Thi-Siung.
— De fato. Como deve ter entendido, o retardamento
dos disparos dará tanto a russos como aos chineses, ou a
qualquer outro possível agressor, tempo suficiente para
reconsiderar seu ato, garantindo à humanidade uma
esperança de sobrevivência. Naturalmente, a CIA não
tomou essa iniciativa num arroubo de bondade, mas
levando cm conta que os Estados Unidos estarão
automaticamente envolvidos em qualquer conflagração
mundial.
— Gente precavida...
— Sabe o que a CIA imaginou ao ter notícia do roubo
da preciosa carga e de que sua rede em Tanger fora
destruída?
— Confesso que não.
— Que a China Nacionalista estivesse diretamente por
trás disso.
— Como assim?!
— Caso estourasse uma guerra entre a Rússia e a China
Continental, o generalíssimo Chiang-Kai-Shek teria sua
única oportunidade de saltar de Formosa para o continente.
Pelo menos segundo seu modo de ver as coisas. Que outra
oportunidade lhe sobrou?
— Uma dedução lógica.

— 73 —
— Isso porque a CIA ignorava que você se arvorara em
chefe supremo de um serviço de espionagem e furtos muito
pessoal.
Wong-Fu acusou o impacto. Apertou os lábios grossos,
alegando:
— Muita gente está metida nisso. Não sou só eu.
— Mas foi você quem desencadeou a sarabanda, Wong-
Fu. Agora, que já perdemos tanto tempo com palavras,
responda: que pretendia fazer com os bloqueadores de
controle remoto?
— Vendê-los.
— A quem?
— Há outros focos de discórdia por este mundo, Thi-
Siung. Por exemplo, o Oriente Médio. Especialmente os
árabes gostariam de contar com os bloqueadores para
controlarem os foguetes israelenses, empregando os seus
para esmagar Israel.
— Se não tomou partido político no Oriente Médio, está
simplesmente agindo como um mascate — soltou Thi-
Siung, fazendo Wong-Fu se contrair na cadeira. — Já
entabulou negociações a respeito?
— Não.
— Por quê?
— Muito simples: ganhar tempo. O affaire ainda está
muito recente e devo ocultar-me até me convencer de que
poderei negociar em segurança.
— Em outras palavras: não me quer entregar os
bloqueadores?
— Custou para entender o que lhe venho declarando
desde o começo.
Soou a campainha do telefone e Wong-Fu atendeu,
franzindo a testa.
— Sim!

— 74 —
— Más notícias, senhor — falou Baugier.
— Seja rápido.
— Encontrei os cadáveres de Zheyad e Berlano na suíte
de Tarika, porém nenhum sinal dela.
Wong-Fu apertou os lábios.
— Deve procurá-la! Já! Preste atenção, que talvez lhe
ajude: ela nos traiu com um árabe chamado Moulay ben-
Mohammed. Ponha de sobreaviso os do submarino, porque
os árabes não agem sozinhos nem para ir ao banheiro! Avise
Laprade.
Desligou, furioso, acalmando-se ou fingindo acalmar-
se ao encarar Thi-Siung, que sorriu e, continuou como se
nada tivesse ouvido:
— Caso o roubo tivesse sido praticado por gente de
Chiang-Kai-Shek, haveria certa lógica, aceitável em termos
políticos; mas que tenha sido obra de um pirata moderno...
— Vou avisar o pessoal do submarino! — exclamou
Wong-Fu, que parecia nem ter escutado essas palavras de
Thi-Siung.
— Eu, em seu lugar, não aproximaria a mão desse
pequeno comando eletrônico, Wong-Fu — disse Thi-Siung
secamente.
Sem que Wong-Fu percebesse, pusera uma piteira entre
os dentes e agora fingia escolher um cigarro em bela
cigarreira de prata.
O sino-americano hesitou, murmurando:
— Ainda não demonstrou a conveniência de voltar para
vocês.
— Uma demonstração que possivelmente daria um
agente de Chiang-Kai-Shek — respondeu Thi-Siung,
mordendo a piteira.
Wong-Fu recuou a mão, indagando:
— Quem é você, afinal?

— 75 —
— Sabe? Por vezes custo a me identificar. Digamos que
neste instante sou Thi-Siung, mas também Moulay Ben-
Mohammed e até o “Más-cara-Negra”, o qual também é
conhecido como “Androide” e “77Z”. Qualquer um ficaria
bastante confuso, não está de acordo?
Wong-Fu tornou-se amarelo limão e, num gesto
desesperado, tentou alcançar um dos botões do painel
eletrônico para solicitar a ajuda de Nafi.
O “Máscara-Negra” soprou a piteira como se
pretendesse cuspir através dela e um jato semelhante ao dos
aerossóis atingiu os dedos de Wong-Fu, carbonizando-os
instantaneamente. O sino-americano soltou um urro e se
encolheu de dor, com o que seu fiel criado árabe Nafi entrou
em cena, empunhando longo punhal.
“77Z” só não foi atravessado pela longa arma
simplesmente por ser “77Z”. Desviou-se magistralmente
para o lado e Nafi, com o impulso que trazia, esbarrou
violentamente na mesa de seu amo, dobrando-se sobre ela,
oportunidade que o “Máscara-Negra” aproveitou para dar
outra sopradinha na piteira.
O jato causticante atingiu o pescoço de Nafi, que se
encolheu e caiu ao chão, onde rolou aos gritos até perder a
voz, com a traqueia devorada pelo cáustico e, menos de um
minuto depois, imobilizar-se para sempre.
— Ainda se considera capaz de vencer o adversário? —
indagou “Máscara-Negra”, agora personalizando o
abrutalhado Thi-Siung.
Wong-Fu apertava o pulso direito, tentando com isso
atenuar a dor nos dedos carbonizados. Sacudia a cabeça,
incrédulo.
— Agora, que já sabe estar diante de “Androide”,
“Máscara-Negra” ou “77Z”, seja inteligente e responda sem
subterfúgios, para não ter a cara carbonizada: de que meios

— 76 —
se valeu para causar a morte de “Estambul-3”. Eu me refiro
aos meios de transporte aéreo.
— Tenho um pequeno avião, um “teco-teco”. Meu
piloto foi morto. Chamava-se Zheyad.
— Ah... E onde está esse “teco-teco”?
— Apertando aquele botão fará abrir-se a porta do
hangar camuflado na encosta ao lado de minha vila. Posso...
— Nada disso! Eu mesmo cuidarei do botão. Agora,
diga: além desse tolo — indicou Nafi —, quem mais está
guardando sua vila neste momento?
— O guarda do portão de grade.
— Ninguém no hangar?
— Ninguém.
— Ótimo. Apertarei o botão e, se algo andar errado,
descarregarei todo o cáustico desta piteira em sua cara,
Wong-Fu. Se estava tentando enganar-me, será melhor
corrigir seu erro enquanto é tempo.
— Eu disse a verdade.
— Vejamos...
O falso Thi-Siung pousou o indicador esquerdo no
botão indicado pelo sino-americano e quase lhe tocou o
rosto com a piteira mortífera. Apertou o botão.
Nada aconteceu.
— Ótimo. Darei uma olhadela.
Sempre atento aos menores movimentos de Wong-Fun
e empunhando a automática provida de silenciador, foi à
janela e olhou para a colina.
O luar lhe permitiu ver levantada a grande porta do
hangar camuflado.
— De que meios se vale para entrar em contato com o
submarino?
— Da única transceptora de que disponho. Faz parte do
avião.

— 77 —
— Entendo. Venha.
Wong-Fu levantou-se e, segurando a mão magoada,
caminhou mansamente sob a mira da automática de
“Máscara-Negra”. Saíram ao gramado da vida e
caminharam até o hangar, que estava às escuras. Lá estava
o “teco-teco”, moderno Executive americano de seis
lugares.
— Ponha-se de cara na parede, Horrall — ordenou o
homem fantástico da CIA, sendo prontamente obedecido.
Desse modo, Wong-Fu não pôde testemunhar os
movimentos felinos de “77Z”, que subiu à cabina do avião,
introduziu a mão sob o painel de instrumentos e arrancou as
conexões da transceptora, deu partida ao motor e saltou,
aproximando-se do sino-americano a tempo de ouvi-lo
ponderar:
— ...fugir no meu avião ainda terei uma oportunidade...
— Não pretendo fazer isso, Wong-Fu. Venha. Sempre
de costas.
— Que pretende...?
— Continue recuando.
— Seria tolice tentar...
Wong-Fu teve a frase e a cabeça cortadas pela hélice do
avião. Nem sequer gritou.
Com absoluta frieza, o “Máscara-Negra”, deixando
ligado o motor do “teco-teco” e o mancho de decolagem em
ponto-morto, saiu do hangar, encaminhando-se para o
gradil da vila. Os barrotes de ferro não estariam
eletrificados porque ele tivera o cuidado de avariar o painel
de controle eletrônico antes de sair com Wong-Fu ou
Dagobert Horrall de seu gabinete para eliminá-lo.
Seu cérebro especial se ocupava agora da segunda parte
do plano que traçara para aquela missão: recuperar os
bloqueadores de controle remoto.

— 78 —
Saltou o gradil e meteu-se no “Peugeot 404“. sem ser
visto pelo guarda do portão.

— 79 —
CAPÍTULO NONO

Bem melhor deitar-se com um homem...

O “Peugeot” aproximou-se da gruta em que se


encontrava Tarika sob a vigilância do falso árabe Ismail.
Parou à certa distância, operando-se a seguir nova
metamorfose, tão espantosa quanto a anterior, graças à qual
o chinês Thi-Siung voltou a ser o árabe Moulay ben-
Mohammed, que entrou e foi direto ao recesso no qual havia
luz indireta de uma potente lanterna de pilhas. Sorriu ao
constatar que Ismail empunhava uma automática. Claro que
o fiel Eddy desejara certificar-se de que se aproximava o
seu chefe Kirkpatrik antes de acolher quem se aproximava.
Tarika permanecia no mesmo lugar cm que se
encontrava quando Moulay saiu. Foi logo indagando:
— Ainda vamos ficar por muito tempo aqui?
— Nem um minuto mais — sorriu o árabe. — Tudo está
preparado para eu entrar em ação. Pode comunicar-se com
o submarino.
— Que devo dizer? Se eles desconfiarem, entrarão em
contato com Wong-Fu e...
— Mais que duvidoso, Tarika.
— Por quê?
— Muito simples: Wong-Fu já entregou a alma ao
diabo.
— Você...?!

— 80 —
— Não direi que foi propriamente uma satisfação.
Afinal, de que se espanta? Menos um com quem se
preocupar enquanto estiver gozando seu milhão de dólares.
Vamos, entre em contato com o submersível!
Tarika franziu a testa. Aquele árabe parecia ter mais
poderes até que a própria CIA em Tanger. Aproximou-se da
transceptora, indagando a meia-voz:
— E que devo dizer?
— Ordene que subam, de modo a se tornarem visíveis,
e aguardem novas ordens de Wong-Fu.
— É uma ordem que só ele poderia dar, Moulay.
— Disse bem: poderia. Agora quem pode é você. Peça-
lhes a posição exata do submersível e declare que Wong-Fu
viu-se obrigado a sair às pressas a fim de avistar-se com
compradores, devendo ir com eles a bordo para mostrar a
mercadoria. Dará novas ordens quando chegar com os
compradores.
Ela começou a manipular os botões da transceptora e
Kirkpatrik fez um sinal a Eddy para que se afastasse um
pouco, murmurando:
— Prepare a outra parte, Eddy.
Eddy olhou ligeiramente para Tarika e indagou,
preocupado:
— Que aconteceu na vila de Wong-Fu?
— Um acidente: o chinês, por imprudência, aproximou-
se da hélice de seu “teco-teco e teve a cabeça esfacelada.
Seu secretário particular arqueou as sobrancelhas,
sussurrando:
— Então, só resta o assunto do submarino...
— Sem dúvida. Quando Tarika e eu nos prepararmos
para sair, faça como eu lhe disse.
— E se ela não aceitar sua companhia?
— Creio que aceitará. Está muito assustada.

— 81 —
— Está bem.
Perceberam que Tarika conseguira entrar em contato
com o submersível e silenciaram para ouvir.
— A ordem de Wong-Fu é subir e fornecer a posição
exata, Laprade.
— Não entendo por que não se comunicou
pessoalmente. Que novidade é essa, Tarika?
— Uma boa novidade, Laprade: conseguiu
compradores. Saiu às pressas para ultimar os entendimentos
e pretende visitar com eles o submarino para mostrar a
mercadoria. Negócio praticamente fechado.
— A melhor notícia dos últimos tempos! — exclamou
Laprade, pelo alto-falante da transceptora. — Quanto mais
cedo nos livrarmos desta bomba que temos a bordo melhor.
Como vão as coisas a respeito de Morandi?
— Tudo sob controle. Êxito na operação.
— Meus parabéns, Tarika. Que alívio! Algo mais?
— É só.
— Aí vão as coordenadas.
Laprade ditou a latitude e a longitude correspondentes
à situação do submarino, as quais Tarika anotou num papel
e Kirkpatrik registrou mentalmente.
— Obrigada, Laprade. Suba e aguarde a visita de
Wong-Fu com os compradores. Corto.
Cortou a comunicação e voltou-se para Moulay, que lhe
sorriu quase paternalmente, afirmando:
— Concluída a sua importante missão, Tarika. Não foi
fácil?
— Sim. Creio que, com isso, mereço apoderar-me do
dinheiro...
— Oh, naturalmente! Onde está a maleta, Ismail?

— 82 —
— Aqui mesmo. Ela não a apanhou antes porque não
quis — disse Eddy, entregando a maleta a Tarika, que a
apertou contra o peito quase com amor, sorridente.
— Creio que será conveniente continuar conosco até
situar-se bem distante daqui — sugeriu Moulay, com
doçura.
— Não, obrigada. Cumpri a minha parte, você cumpriu
a sua e pronto. Cada qual seguirá seu caminho. Não acha
melhor assim, Moulay?
— Como queira. Eu só estava querendo protegê-la...
digamos, como uma retribuição por sua valiosa
colaboração.
— Já retribuiu... — disse ela, batendo de leve na maleta
que continuava apertando contra o peito. — Não quero
morrer agora.
Moulay Ben-Mohammed deu uma risada, no que foi
imitado, com vergonhoso servilismo, pelo bigodudo Ismail.
— Já lhe disse que não sou sanguinário, Tarika.
Cumprimos um acordo comercial altamente vantajoso para
ambos, não havendo motivo algum para que qualquer de
nós queira desfazer-se do outro. Saiba que esse milhão nem
de longe afetou minhas finanças. Além disso, aquela carga
me proporcionará muitas vezes o que já possuo. Jamais a
liquidaria para recuperar essa migalha.
— Uma migalha que me fará extremamente feliz.
— Ótimo.
— Vejo que fui insensata. Por que liquidar-me depois,
se não teriam dificuldades alguma em fazê-lo agora e aqui?
— Garota inteligente. Uma vez que caiu na realidade,
talvez aceite um conselho amigo: antes de buscar um rumo
definitivo, recolha-se a um lugar discreto e seguro para
repousar e meditar calmamente sobre o que fará com a sua
pequena fortuna. Conheço um lugar assim.

— 83 —
— É uma idéia. Onde fica?
Moulay sorriu e segurou-a pelo braço, dirigindo-se para
a saída da gruta, enquanto explicava:
— É um sobradinho na Praia Grande, nos limites de
Tanger. É de minha propriedade e você ficará lá o quanto
quiser... sem me pagar aluguel — sorriu. — Se acha que
ainda necessita de algo, trate de dizer, porque quando nos
despedirmos não tornaremos a nos ver.
— Será melhor assim.
Entraram no carro, que logo partiu. Tarika, no assento
do carona, continuava aferrada à maleta tipo executive,
antegozando o desfrute do milhão de dólares. Mortos
Wong-Fu, Zheyad e Berlano, e com Laprade com a vida por
um fio, só restaria Baugier, o qual por certo estaria tão
preocupado com sua própria segurança que jamais se
lembraria dela, imaginando-a também liquidada pelo
inimigo.
Enquanto isso, Eddy se entregava a uma verdadeira
faxina, removendo todos os vestígios da ocupação
temporária. Dispunha de um Citroen “Sapo”, alugado,
devidamente oculto a uma pequena distância da gruta.

***

O “Peugeot 404” parou diante do sobradinho, que era


verdadeiramente encantador, todo branco, de estilo francês.
— Aí está o seu diminuto palácio, temporário ou
definitivo, segundo você decida afastar-se ou não de mim.
Tarika virou-se ligeiramente no assento.
— Não o imaginei capaz de ser tão cavalheiresco.
— Não costumo misturar trabalho com amor — disse
ele, passando o braço por cima do encosto para segurar
delicadamente a nuca da moura. — Conquanto a operação

— 84 —
ainda não esteja concluída, creio que já posso dedicar algum
tempo à admiração do verdadeiramente belo.
— Obrigada...
— Está certa de que...?
— Pretendo aproveitar este dinheiro em liberdade,
Moulay. Os homens de nossa raça são dominadores e
absorventes. Você não deve constituir uma exceção.
— De fato... Bem, pode se instalar no sobradinho.
Ela abriu a porta e seu coração bateu com força. Tinha
o pressentimento de que seria eliminada antes de alcançar o
portão da casa.
— Adeus, Moulay.
— Adeus, Tarika.
A moura caminhou tensa, esperando ouvir a detonação
e sentir o impacto da bala nas costas. Porém chegou ao
portão, entrou no pequeno jardim, meteu na fechadura a
chave que lhe entregara o árabe e chegou a estremecer,
dizendo-se mentalmente: “É agora!”
Nada aconteceu. Entrou, fechou a porta e ouviu o ruído
do motor se afastando. Deu um gritinho de alegria. Um bom
aliado, um sobradinho discreto no qual repousaria antes de
sumir de Tanger e... um milhão de dólares.
Acendeu a luz e gostou do ambiente mobiliado com
gosto europeu. Teve ímpetos de abrir a maleta, espalhar os
dólares pelo chão e caminhar por cima deles para se sentir
uma rainha, mas soube controlar-se. Não podia agir como
criança...
Subiu ao primeiro andar e acendeu as luzes, sempre
aferrada à maleta, adorando o banheiro. Deixou a maleta na
cama de casal e sorriu à idéia que lhe veio à cabeça: muito
melhor dormir com um milhão de dólares do que com o
melhor homem do mundo.

— 85 —
Despiu-se e se deliciou com um banho tépido.
Enxugou-se e voltou para o quarto, nua em pelo, atirando-
se em cima da cama com o olhar fixo na maleta.
Agora, passaria horas namorando sua fortuna, até
adormecer de exaustão amorosa. Abriu a maleta.
Algum milagre evitou que seus olhos saltassem das
órbitas.
Impossível! A maleta era aquela e ela vira o dinheiro!
Eram dólares!
E se tivesse enlouquecido com o delírio de riqueza?
Sacudiu a cabeça e olhou de novo, só então reparando
no pequeno objeto de plástico, cinzento, com o formato de
uma caixinha de fósforos das menores. Parecia colado à
parede interna da maleta e era bem semelhante a um
diminuto radinho de pilha.
Segurou-o com todo o cuidado e conseguiu removê-lo,
percebendo que devia ter estado ali sob forca magnética.
Levou um susto, porque o aparelhinho começou a
emitir uma voz:
“Aqui fala o Máscara-Negra. Caso prefira, Antonio
Morandi, ou Thi-Siung, ou, ainda, Moulay ben-
Mohammcd. Apresento os motivos pelos quais vai morrer.
É acusada... eu a acuso de assassinar vários agentes da CIA,
em Tanger, especialmente Estambul-3, o chefe de nossa
rede aqui. Além disso, devo acusá-la de haver participado
de uma operação, junto com Wong-Fu, que poderia ter
comprometido seriamente a paz mundial. São coisas que o
Máscara-Negra jamais perdoa.”
Tarika se encolhia cada vez mais, parecendo
hipnotizada pelo diminuto gravador. Não tanto por causa
das acusações e da condenação, mas pela voz. Reconheceu-
a de imediato: a voz do playboy Horace Young Kirkpatrik!

— 86 —
Aterrorizada, atônita, perdeu várias palavras, mas ouviu
nitidamente as últimas:
“... e por tudo isso eu a condeno à morte. Tem apenas
três segundos de vida.”
Terminou o playback.
A moura estava boquiaberta. O playboy! Só podia ser
uma brincadeira.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac, BUUUM!
Foi um estampido seco de horripilante eficácia. Até no
gramado do jardim havia pedaços de Tarika junto com
cacos das vidraças.
Perto dali alguém deu partida a ura motor e o carrinho
francês se afastou ligeiro.
Seu chauffeur tinha assuntos muito sérios a resolver ...

— 87 —
CAPÍTULO DÉCIMO

Ele não podia ver sangue...

Quando Kirkpatrik entrou na gruta, Eddy foi ao seu


encontro, ansioso por notícias.
— Então?
— Perfeito.
— Eu... eu me sinto culpado de um homicídio!
Kirkpatrik deu uma risadinha, batendo carinhosamente
no ombro de seu fiel secretário particular.
— Esqueça isso, Eddy. Você se limitou a trocar as
maletas. Além disso, deverá compreender que foi
necessário. Não tornarei a usá-lo desse modo. Acontece que
não dispunha de outros colaboradores ou de contatos em
Tanger. Nossa rede foi dizimada.
— Eu compreendo, Horace, mas...
— Esqueça e passe ao que importa: focalizou “Roma-
1”?
— Claro. Ele estava aguardando a comunicação.
— Ótimo. E então?
— Forneci todos os dados necessários e estava
esperando informações sobre o desenvolvimento da
operação.
— Falhamos num ponto capital, Eddy.
— Qual?!

— 88 —
— Trouxemos cigarros, mas esquecemos do uísque e da
geladeirinha portátil.
Eddy sorriu com ares vitoriosos e desviou o foco da
lanterna para um recesso da gruta. Ele não falhava.
— Sabe, Eddy? O sistema inventado pelos nossos
laboratórios para criar frio sem motores e compressores é
simplesmente genial. Um brinde aos nossos colegas
cientistas.
Servira uísque para ambos. Sentaram-se numa pedra a
fim de saborear a bebida enquanto aguardavam a chamada
de “Roma-1”.
Já haviam terminado a terceira dose quando ouviram o
sinal de chamada e Eddy saltou para atender, porém
Kirkpatrik demonstrou uma vez mais sua agilidade,
apoderando-se dos comandos antes dele.
— Fale, “Roma-1”. Aqui é “77Z”.
— É uma honra cumprimentá-lo!
— É sempre uma honra cumprimentar um colega. Passe
ao relato da operação.
— Pusemos a pique o submarino, não sem antes, é
claro, baldear a carga para o nosso navio camuflado.
Tivemos êxito na intervenção. O mais engraçado é que os
tripulantes do submersível foram muito amistosos quando
os abordamos. Não entendo!
— São coisas da vida... Agora, “Rotna-1”, direto para
Istambul. Nossa rede saberá como conduzir a carga ao seu
destino.
— E se houver contratempos entre Istambul e...?
— Nossa responsabilidade cessa em Istambul, “Roma-
1”, a menos que sejamos chamados a intervir.
— É confortador...
— Também acho. Boa viagem.

— 89 —
— Saiba que me sinto seguro sabendo que você faz
parte de nossa rede internacional.
— Saiba que me sinto seguro sabendo que há rapazes
como você em nossa rede internacional, “Roma-1”. Se
ficarmos rasgando seda, acabarão pondo a pique o nosso
barquinho. Ciao!
Cortou a comunicação e virou-se para Eddy, que sorria
amplamente.
— Dê sumiço à transceptora e siga para Paris; de lá,
direto para casa. Enviarei o relatório para Washington.
— Sabe, Horace? Vou inaugurar aquelas iscas artificias
japonesas que você me deu. Chegarei bem no início da
temporada das trutas.
— É... — Fez o “Máscara-Negra”, com nostalgia. —
Vai ter início à temporada das trutas.
— Bom proveito, Eddy. Bye-bye. Tenho de ir ao “Les
Almohades” fazer uma de minhas cenas.
— Horace... você... não correrá perigo?
— O estupidarrão Horace Young Kirkpatrik pode
correr algum perigo?
— É verdade...
Kirkpatrik saiu da gruta após desvencilhar-se do
maravilhoso disfarce, que Eddy se incumbiu de queimar,
meteu-se no “Peugeot 404” e partiu imediatamente para o
centro de Tanger.

***

— Oh, foi terrível, foi simplesmente terrível,


cavalheiros! — dizia o playboy, com visíveis sinais de
náuseas, o escandaloso blusão desabotoado e os cabelos
desgrenhados.
Estava sendo entrevistado pela imprensa local.

— 90 —
— Afirma-se que o senhor viu os cadáveres — falou
um dos repórteres.
— Vi! Eu vi! Horrível! Não quero mais falar no
assunto! Sangue me embrulha o estômago, me dá vontade
de... com licença!
Correu para fora do hotel, pela saída lateral, apoiando-
se numa palmeira.
Pouco depois voltou, tapando a boca com UIB lenço.
Ergueu a mão espalmada para indicar que não mais
atenderia à imprensa e meteu-se no elevador para subir.
— Horace! — chamou uma mulherzinha sensacional,
entrando com ele no elevador. — Não tente fugir de mim,
porque tenho um assunto importante a discutir agora
mesmo.
— Assunto? — repetiu o playboy, aparvalhado. — Não
posso. Agora não posso.
— É importante, Horace. Na verdade, são dois
assuntos. Primeiro, o safari para o qual nos convidou.
— Tudo acabado. Não terei forças...
— E que faremos sem você, Horace?
— Não sei. Não quero saber. Ai, o meu estômago!
— Reaja, Horace. Afinal, eu sou mulher e também vi
os cadáveres.
— Os cadáveres! Está acima de minhas forças!
— Está bem, querido, não falemos mais nisso. Agora,
outro assunto.
— Ainda tem outro assunto?
— O principal: descobri seu segredo.
Horace Young Kirkpatrik arregalou os olhos.
— Meu segredo?!
— Foi o que eu disse. Descobri seu segredo. Horace,
você é pintor. Não negue. Sei até que pinta o nu.
Ele deu uma risadinha de falsa modéstia.

— 91 —
— Sou um principiante.
— Não foi o que me disseram. Horace, quero ser
retratada.
— Nua?
— Assim...
Desprendendo as alças, a francezinha Nicole deixou o
vestido ligeiro cair aos pés. Não usava soutien e seu biquíni
cor-de-rosa não podia ser menor.
— Que tal? Não sou um bom modelo?
Já estavam no corredor e Kirkpatrik olhou para os dois
extremos, desconcertado.
— Nicole, os hóspedes podem não gostar.
— E você? Só me interessa saber se você está gostando.
— Estou. Ótimo modelo.
— Então, vai me retratar, Horace?!
Ele olhou-a uma vez mais de cima abaixo e sorriu.
— Claro. Mas depois. Agora entre: quero estudar certos
detalhes. Todo pintor deve sentir seu modelo...
Abriu a porta e Nicole recolheu o vestidinho do chão,
entrando, entusiasmada.
— Estude, Horace, estude à vontade. Quero ser muito
estudada.
Ele murmurou, enquanto fechava a porta:
— São os cavacos do ofício...
— Que disse, querido?
— Ah? Oh... Eu disse que vou estudar.
— Que bom!

FIM

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A seguir: ABC — MORTE TOTAL —
Aquele casal de alemães, separados pela
guerra e reunidos na Suíça, poderia
fabricar a maior arma do mundo. A morte
estava em leilão... e Kirkpatrik precisava
evitar a batida do martelo! Não percam a
nova e espetacular aventura do agente 77Z!

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