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entrevista

CINEMA EXPANDIDO:
ESTRATÉGIAS E CONCEITOS AUDIOVISUAIS
Maria Henriqueta Creidy Satt *

Resumo Abstract

Cinema expandido: estratégias e conceitos audiovi- Expanded Cinema: strategies and concepts visual
suais é a especialização oferecida pelo Programa de specialization is offered by the Post-Graduation FA-
Pós-Graduação da FAMECOS/PUCRS. O curso se MECOS/PUCRS. The course is intended to reflect the
destina à reflexão da dinâmica do universo audiovisual dynamics of contemporary audiovisual universe, and to
contemporâneo, bem como a orientar o aluno no de- guide students in developing a theoretical or conceptual
senvolvimento de um trabalho teórico ou nas diretrizes guidelines in a practical project
conceituais de um projeto prático.

Palavras-chave Key Words


Cinema expandido - Estratégias - Conceitos audio- Expanded cinema - Strategies - Concepts audiovisual
visuais

Do pré-cinema ao pós-cinema, como perio- cias desdobraram-se nas últimas décadas no


diza Arlindo Machado , a arte do movimen-
2 campo arte-mídia e fora dele6. Em oposição
to nasce e se mantém até hoje sob os signos a Youngblood, o pesquisador André Parente7
da revolução e do experimentalismo. Entre concebe o cinema expandido restrito à esfera
os tempos transcorridos dos seus primór- das instalações. Para ele há duas vertentes:
dios à era digital, o campo cinematográfico as instalações que reinventam as salas de ci-
sofre transformações que abalam suas ex- nema em outros espaços e as instalações que
pressões técnicas, estéticas e conceituais. radicalizam processos de hibridização entre
Uma história de produção e expressão do diferentes mídias. “O cinema expandido é
imaginário coletivo criada, sobretudo, por o cinema ampliado, o cinema ambiental, o
“sujeitos possuídos pela imaginação”3. cinema hibridizado”8.
Proposto de forma visionária por Em tal acepção e levando em con-
Gene Youngblood4, na década de 70, o termo sideração a relação do espectador com as
  obras, cinema expandido pode ser pensado
cinema expandido expressa esse alargamen-
to que a concepção de cinema vem sofrendo também como Transcinemas – conceito
nas últimas décadas, priorizando a conver- criado por Kátia Maciel9 – que focaliza a
gência
  das linguagens no meio audiovisual. recepção das artes audiovisuais, o lugar
O kinema, entendido em sua etimologia de no qual “o espectador experimenta sen-
(escrita do) movimento, se desterritorializa, sorialmente as imagens espacializadas de
reaparece em novos cenários e amplia sua múltiplos pontos de vista, bem como pode
abrangência para além das salas tradicionais interromper, alterar e editar a narrativa em
de exibição. Ambientes virtuais, vídeo-arte, que se encontra imerso”.
sites specifcs, instalações, generative art5, Na esteira das convergências, Ray-
entre tantas outras formas de manifestações, mond Bellour explora a noção de passagens,
desenham o complexo território cinemático ou seja, a relação entre as imagens, entre a
contemporâneo. fotografia, o cinema, o vídeo e as mídias
As idéias de expansão e convergên- digitais. Entre-imagens, portanto, pensadas

10 Sessões do imaginário Cinema Cibercultura Tecnologias da Imagem


como um espaço mestiço e de configurações incorpora-se aos filmes de Wenders não
pouco previsíveis. O vídeo, no olhar de como um objeto, mas como um estado. “Um
Bellour, é o grande operador dessas passa- estado da imagem. Uma forma que pensa.
gens, o que nos fez entrar num outro tempo O vídeo pensa o que as imagens (todas e
da imagem: um tempo em que a inclusão, o quaisquer imagens) são, fazem, ou criam”12.
diálogo e as passagens de um a outro meio Em sua 16ª edição, o Vídeobrasil,
configuram o novo estado da arte e das mí- um dos mais importantes festivais inter-
dias. Um tempo da impureza, marcado por nacionais de arte eletrônica, propõe-se
um regime de miscelâneas onde as imagens investigar as aproximações entre cinema,
deslizam umas sobre as outras 10. vídeo e arte. O tema do festival, “Limite:
movimentação de imagem e muita estranhe-
O vídeo-arte, por mais exterior que seja ao za”, inspirou-se no longa-metragem Limite,
cinema, não pode ser apreendido sem refer-
ência ao que o altera – o cinema assim como
de Mário Peixoto, obra-prima realizada em
as outras artes (artes plásticas, música) em 1931, “como marca de uma zona de corte,
suma, tudo de onde ele provém e para onde mas também de cruzamentos entre o cinema
ele volta sem cessar 11. do passado e o devir que traz suas variáveis
de criação e consumo tecnológico”13. Pela
Pedagogia do olhar: A fronteira como um voz dos curadores, Limite ilumina relações
lugar de passagem
que se desdobram em imagens expandidas
Contudo, é falacioso pensar que o atual
e narrativas múltiplas. “Tomamos o filme,
fenômeno convergente das artes mídias pos-
aqui, como uma obra-acontecimento, res-
sibilitado, em grande parte, pelas novas tec-
ponsável por introduzir no cinema e no
nologias, traga consigo a profecia da “morte
audiovisual brasileiro toda ordem de hibri-
do cinema”. Quarto 666, de WimWenders,
dizações e estratégias”14.
realizado no Festival de Cannes, em 1982,
Nessa mesma direção, o Le Fresnoy
é emblemático nesse aspecto. O dispositivo
Studio National des Arts Contemporains,
que Wenders aciona para a produção do
centro de produção e pesquisa francês
filme é aparentemente simples, convocando
dedicado às novas tendências em arte au-
ao quarto 666 cineastas como Antonioni,
diovisual, costuma convocar cineastas para
Chantal Akerman, Herzog, Godard, entre
realizarem seminários e conferências. Uma
outros, para darem seus depoimentos sobre
dessas experiências está registrada no docu-
o incerto futuro do cinema.
mentário “Onde jaz o teu sorriso”, do diretor
A besta-fera desdobra-se nas figuras
português Pedro Costa, que coloca em cena
da televisão e do vídeo. Vivemos a era da
o rigor e o experimentalismo de Jean-Marie
morte da arte cinematográfica? Os filmes
Straub e Daniele Huillet. Na presença dos
estão ficando cada vez mais televisivos? Os
alunos do Le Fresnoy, a dupla de cineastas
videocassetes vão acabar com as salas de
monta uma terceira versão de Sicilia!, em
cinema? São algumas perguntas de Wenders.
uma demonstração da “pedagogia straubia-
Vistas hoje, essas questões podem parecer
na”15, a arte tecida na resistência às fórmulas
pueris e até mesmo anacrônicas. O próprio
fáceis. “Há muito que tendes sede do que é
Wenders viria a incorporar o vídeo nas suas
invulgar. Por isso, atrevei-vos!”, professa
narrativas, a partir de 1994, com “O céu de
Jean-Marie à platéia de jovens artistas.
Lisboa”. Mas essa “passagem” se faz não de
forma neutra nos filmes do diretor alemão. Pedagogia da estranheza
A câmera e a textura da imagem-vídeo sur- Com vistas à realidade da confluência das
gem como personagens, como a reflexão e novas narrativas, ao criarmos nossa especia-
expressão de um espírito do tempo. O vídeo lização, estabelecemos princípios que nos

Porto Alegre no 22 dezembro 2009 Famecos/PUCRS 11


pareceram decisivos. Como pensar, criar e experiências dos vídeo-blogs e do cinema
produzir imagens? Como desenvolver um autônomo, que dispensa equipes no encontro
olhar crítico diante de um mundo exacer- do realizador com o mundo.
bado pelo ostensivo espetáculo midiático? Contamos também com a presença
Essas indagações nos levaram a enfatizar de importantes professores convidados.
a interdisciplinariedade e a estabelecer um Jorge La Ferla, da Universidade de Buenos
diálogo entre o cinema, a arte contemporâ- Aires, irá proferir a aula inaugural do curso
nea, a antropologia, a webarte, a filosofia, o com uma palestra sobre “o cinema depois
documentário, o jornalismo e a publicidade. do cinema”. Cézar Migliorin (UFF/RJ)
Ao articularmos esses campos de conheci- estará conosco em maio e ministrará um
mento, desejamos preparar o aluno para criar curso sobre “política e criação nas artes
projetos mais elaborados e em sintonia com e no cinema”. Em agosto, Consuelo Lins
as tendências contemporâneas. Pautamos (UFRJ) irá ministrar um seminário sobre
nossa preocupação em mapear um repertório “documentário e arte contemporânea”. E,
audiovisual que privilegia o experimental e por fim, em outubro, teremos a presença
as obras menos convencionais. da pesquisadora, crítica e realizadora Ilana
Na área do cinema, as disciplinas Feldman (USP), abordando as “estéticas
irão abordar as experiências radicais das realistas da representação”.
cinematografias asiática, européia e norte- Não menos essencial é o corpo do-
americana; as experimentações no cinema cente local formado por cineastas, publicitá-
brasileiro; a reflexão sobre as potencialida- rios, artistas visuais, filósofos, antropólogos
des da montagem e do roteiro; as sintonias e jornalistas. Entre eles estão nomes como
entre pintura e fotografia, e também as Carlos Gerbase, Bernardo de Souza, Elaine
estratégias conceituais de produção. Apre- Tedesco, Cristiane Freitas Gutfreind, Fabia-
sentaremos ainda a discussão do documen- no de Souza, Eduardo Wanmacher, Lenara
tário experimental, da antropologia visual Verle, Roberto Tietzman, Gustavo Spolido-
e da filosofia de Deleuze, refletindo sobre a ro, Rafael Devos, Rosana Fernandes, Vitor
imagem-tempo no cinema iraniano de Abbas Necchi, Luciana Lima, Maria Henriqueta
Kiarostami. Satt, Aletéia Selonk, Glênio Povoas, Ivana
O diálogo com o campo das artes Verle e Milton do Prado.
visuais abarca a webarte, que analisa as Com essa estrutura, esperamos pro-
formas artísticas que utilizam a Internet; vocar um olhar problematizador que, por um
  movimentos vanguardistas da década de
os lado, estranhe as imagens familiares com as
1920 e sua influência nas linguagens con- quais estamos em contato cotidianamente
temporâneas; o vídeo-arte, em suas tensões e, por outro, familiarize-se com um reper-
e confluências com o dispositivo cinemato- tório imagético diferenciado, que provoque

gráfico e a investigação de uma nova estética estranheza por sua dissonância em relação
das narrativas pós-modernas. aos modelos mais convencionais. Da mesma
Para pensarmos a relação entre forma, traçamos um percurso de estudo das
narrativas e novas tecnologias, trazemos diferentes experiências audiovisuais sob a
um estudo dos novos meios e modos de perspectiva de suas especificidades, bem
representação audiovisuais, refletindo sobre como de seus possíveis diálogos e disso-
suas características, legados e diferenças em luções de fronteiras. Acreditamos que esse
relação aos meios tradicionais. Nesse cam- trânsito, entre conceitos, estéticas e narra-
po, um outro ponto de interesse é tangenciar tivas, possa contribuir para a compreensão
modelos alternativos àqueles das grandes da dinâmica que rege as convergências e
redes de comunicação, aproximando-nos das inter-relações desse universo da imagem

12 Sessões do imaginário Cinema Cibercultura Tecnologias da Imagem


em movimento. 5 Cf. BAMBOZZI, Lucas. O fenômeno da manipulação
de imagens. Disponível em: <http://pphp.uol.com.br/
tropico/html/textos/2555,1.shl>
Imagens abertas ao indeterminado
A aposta inovadora de nossa especialização 6 Cf. MACHADO, Arlindo. Arte e mídia. Rio de Janeiro:
é a de que o aluno, ao ingressar, tenha já Jorge Zahar Editor, 2007. O autor observa que a idéia de
expansão se alastrou nas últimas décadas, contaminando
uma idéia do trabalho audiovisual que irá outros campos das artes, como a fotografia, a arquitetura
desenvolver durante o curso. As propostas e o vídeo. Destaco, ainda na esteira desse autor, que há
podem direcionar-se a um ensaio teórico importantes pensadores contemporâneos que se dedicam
ao estudo das imagens híbridas, como por exemplo,
ou a uma reflexão que resultará em prática. Philippe Dubois e Raymond Bellour, citados mais adiante
Um ponto relevante de nossa filosofia peda- neste artigo; Jean-Paul Fargier e Anne-Marie Duguet, no
gógica é de que os projetos pessoais sejam contexto francês; Sandra Lischi na Itália, Peter Weibel na
Alemanha e Jorge La Ferla na Argentina; o próprio Arlindo
tratados como trabalhos em processo, como Machado, um dos autores de maior vulto internacional,
obras abertas aos imponderáveis e à criação bem como Lucas Bambozzi e André Parente, no Brasil.
de novos sentidos.
7 PARENTE, André. A forma cinema: variações e rupturas.
Dessa forma, ao final de cada disci- In: MACIEL, Kátia (Org.). Transcinemas. Rio de Janeiro:
plina, o aluno desenvolverá uma atividade Contra Capa, 2009, pp. 23-47.
na qual irá estabelecer um diálogo entre o
8 Ibid., p. 41.
seu projeto pessoal e os conteúdos apreen-
didos, em um estado de permanente cons- 9 MACIEL, Kátia. Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra
trução e ressignificação de sua obra. A mo- Capa, 2009, pp. 17-18.
nografia final, apresentada a uma banca de 10 Cf. DANEY, Serge. A rampa. São Paulo: Cosac Naify,
especialistas, também persegue esse espírito 2007.
ensaístico, mas com regras menos rigorosas
11 BELLOUR, Raymond. Entre-imagens. Campinas:
em relação ao padrão acadêmico, podendo, Papirus, 1997, pp. 14-15, itálicos meus.
inclusive, ser em formato audiovisual.
12 DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. São
Mais informações e inscrições: Paulo: Cosac Naify, 2004, p.116. Referência feita em
relação à obra de Jean-Luc Godard. É importante ressaltar
www.pucrs.br/famecos/pos/cinemaexpan- que tanto Dubois como Bellour (e até mesmo o próprio
dido Daney, em 1982) tomam esse cineasta como paradigma do
e-mail: cinema.expandido@pucrs.br diálogo entre cinema, vídeo e arte contemporânea.

13 LA FERLA, Jorge. Disponível em: <http://


NOTAS ubaculturadigital.wordpress.com/2009/09/09/el-cine-
despues-del-cine>

14 Catálogo do 16º Festival Internacional de Arte


*
Coordenadora do curso de especialização Cinema Expan-
Eletrônica. SESC-Videobrasil, 2007, p. 28.
dido da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul – PUCRS. E-mail: cinema.expandido@pucrs.br
15 DANEY, Serge. Op.cit., p. 99.
2 MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & pós-cinemas.
Campinas: Papirus, 1997. A acepção do conceito de pré-
cinemas desenvolvida pelo autor é mais ampla do que a
empregada neste artigo. Ele parte das manifestações visuais
pré-cinematográficas, filiando-se à percepção de que “a
idéia do cinema é perseguida ao longo do pensamento e
das formas de expressão do homem” (p.10).

3 BAZIN, Andre. Qu´est-ce que le cinéma ? Paris: Cerf,


1981, p. 24.

4 YOUNGBLOOD, Gene. Expanded Cinema. New York:


P. Dutton & Co., Inc., 1970.

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