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Introdução

Jorge Luis Borges (1899-1986) foi um grande escritor, tornou-se um ícone da


literatura argetina, pois renovou a poesia, a prosa e o ensaio contemporêno. Sua obra
influenciou diversos escritores contemporâneos, como Alain Resnais e Robbe-Grillet.
Mas, mais do que um renomado escritor, Borges foi um leitor atento e empenhado. Os
longos 18 anos em que trabalhou como diretor da Biblioteca Nacional argentina servem
como um dos muitos exemplos biográficos que caracterizam a vida de um homem
esencialmente literário, o que quer dizer que ele está sempre prestes a compreender
segundo o modo que autoriza a literatura.1
Na sua labiríntica biblioteca particular formada por suas leituras, tal qual a
biblioteca descrita no conto La Biblioteca de Babel2, Borges dedicou especial atenção à
prateleira de Filosofia, o que se torna evidente quando nos deparamos com uma obra
literária que apresenta em seu corpo o desenvolvimento de importantes questões
metafísicas, tais como: a criação do mundo, a imortalidade da alma, a natureza do
tempo, o infinito, a totalidade, a existência do homem, etc. Como grande leitor fundou
suas raízes nos textos de grandes filósofos como: Berkeley, Schopenhauer, Nietszche,
Spinoza, Swedenborg, entre outros. Suas leituras se configuram como a operação mais
importante para o nascimento de seus livros e textos 3, mas o próprio autor admite, em
seu texto Kafka y sus precursores4, que cada escritor cria seus próprios precursores.
Sendo assim, Borges toma emprestado dos filósofos os materiais conceituais, com a
devida liberdade interpretativa, para desenvolver e adaptar as questões que lhe
violentam.
De todas as discussões filosóficas que Borges trava em seus textos, talvez a
questão que mais lhe tenha interessado, como a todo grande filósofo, é a que envolve a
natureza do conceito de tempo, conceito que perpassa toda a história da filosofia, devido
a sua tamanha complexidade. Diversas foram as discussões travadas ao longo da
história que trataram de definí-lo, diversos foram os conceitos formulados, diversos os
filósofos que perderam-se nesse labirinto, que é o conceito do tempo.
No entanto, no seu exercício de artista-literato, Borges não buscou, como os
outros, uma resposta definitiva e assertiva, não tratou de formular uma grande teoria

1
BLANCHOT, Maurice. Le livre à venir. Gallimard, Paris, 1959, p. 117
2
In. Ficciones. Alianza, Madrid, 1997.
3
GENETTE, Gérard. Figuras. Editora Perspectiva. São Paulo, 1972. p. 127.
4
In. Otras Inquisiciones. Obras Completas, Vol.II. Emecé Editores, Buenos Aires, 2007.

3
dentro de um sistema fechado, em outras palavras, não procurou a saída do labirinto.
Em seus trabalhos o artista-pensador preservou essa característica labiríntica do
conceito e se propôs a delinear seus contornos em textos que também se desenvolvem
de maneira labiríntica, pois se apresentam como um lugar em que, idealmente, todas as
possibilidades de escolha são dadas. Para isso, o literato analisa distintas teorias
formuladas na história da filosofia, que para ele não puderam decifrar o mistério do
conceito. O que faz Borges é, então, criar seus próprios conceitos-labirintos, alguns que,
diante do rigor de uma leitura lógico-filosófica, se apresentam contraditórios entre si.
Contradição que enriquece o desenvolvimento do objetivo único de pensar sobre o
tempo, através da linguagem que autoriza a literatura.
A principal tarefa deste trabalho é apresentar alguns destes textos labirínticos
onde Borges desenvolve uma reflexão minuciosa sobre a natureza do tempo e suas
diversas concepções. Escolhemos para isso quatro contos-ensaios, que do ponto de vista
de seu caráter ensaístico nos permitem identificar todo o esforço filosófico que o literato
desempenha nestes textos, mas que por outro lado, devido ao tom ficcional que
apresentam e à estrutura de conto que possuem, não nos deixam esquecer de que se
tratam de obras literárias. Ensaios que se apresentam como “breves catálogos das
diferentes entoações que têm tomado no decorrer dos séculos”5 a idéia de tempo.
Os quatro textos de Borges, aos quais nos dedicaremos, são: Historia de la
Eternidad, La doctrina de los ciclos e El Tiempo Circular presentes no livro Historia de
la Eternidad (1936) e Nueva refutación del tiempo um dos últimos contos-ensaios do
livro Otras Inquisiciones (1952). A partir destes textos é possível observar claramente a
profunda desconfiança que Borges manifesta com relação ao conceito de tempo.6
Em Historia de la Eternidad, Borges realiza uma espécie de antologia da
eternidade, caracterizando duas linhas principais de pensamento que trataram do tema: a
realista e a nominalista, caracterizadas pelo pensamento de Platão e Aristóteles. Além
disso, aprofunda-se no pensamento dos neoplatônicos medievais e desenvolve uma
crítica às suas teses, para enfim concluir sua reflexão apresentando uma idéia própria e
original da eternidade.
Em La doctrina de los ciclos o autor pensará a eternidade a partir da idéia de um
tempo circular, marcado pela repetição. Apresenta diversas teorias que afirmam o
caráter cíclico do tempo com o intuito de refutar a principal delas, a idéia do Eterno

5
MONEGAL, Emir R. Borges: uma poética da leitura. Editora Perspectiva. São Paulo, 1980, p.25.
6
MARCHESINI, Paula. Borges, Deleuze e o tempo. In. Revista Escrita - Fascículo nº 8, 2007, p. 2.

4
Retorno de Nietzsche.
No terceiro conto escolhido, El Tiempo Circular, Borges reacende a discussão
sobre a concepção cíclica do tempo, contrapondo as teorias de distintos filósofos. Parte
do que chamou o argumento astrológico, desenvolvido no Timeu de Platão, passando
por Nietzsche e Blanqui, para então desenvolver uma conclusão a partir do estoicismo
de Marco Aurélio.
No último texto, Nueva refutación del tiempo, em que nos deteremos com mais
minúcia, o escritor desenvolve uma teoria radical que visa refutar o conceito de tempo,
utilizando como base para seu projeto o que chama de o “idealismo” de Berkeley e
Hume e o princípio dos indiscerníveis de Leibniz. Neste mesmo texto admite que a
tarefa de refutar o tempo está, de algum modo, presente em todos os seus livros.
A partir dos quatro textos escolhidos, encontramos três formas distintas de
pensar o tempo, três conceitos que norteiam os respectivos textos, três labirintos em que
Borges nos convida a entrar: o primeiro é o conceito de Eternidade, o segundo a idéia de
Eterno Retorno, e o terceiro, que se constitui no seu projeto mais ousado, o labirinto da
Refutação do Tempo. Em todos os textos, Borges introduz ao seu modo teorias que ao
longo da história da filosofia foram consagradas, passando pela antiguidade, pelo
medievo, pela modernidade, teorias que se apresentam como salas de um labirinto, até
chegar a seu pensamento, que não se afirma como uma saída possível, mas, ao
contrário, como um prolongamento destes labirintos em linha reta.
Ao recorrer esse itinerário borgeano, buscaremos encontrar as ressonâncias dos
pensamentos de Schopenhauer e Nietzsche, sua apropriação e crítica, como também, a
partir de sua crítica ao tempo cronológico e linear, propor uma aproximação ao
pensamento de Henri Bergson, sublinhando a defesa que o escritor empreende de um
tempo múltiplo, labiríntico e complexo. Tarefa que poderá levar-nos a compreender,
também, porque grandes filósofos contemporâneos, como Deleuze, se interessaram pela
obra deste argentino “extraviado na metafísica”.
Nossa tarefa culminará, portanto, no objetivo principal de demonstrar uma
relação possível entre arte e a filosofia, ou seja, como a arte, através de um processo
criativo (criador de sensações), dialoga e interage com o pensamento filosófico (criador
de conceitos), impondo-se como um modelo alternativo para a racionalidade.

5
Primeiro labirinto: A Eternidade

“Quid est ergo tempus? Si nemo ex me quaerat,


scio; si quaerenti explicare velim, nescio”

Santo Agostinho

Confissões, 400 D.C.


Livro XI, cap. XV

Nossa tarefa se inicia com o texto Historia de la Eternidad, um conto-ensaio que


está presente no livro que recebe o mesmo título. Nesse ensaio, cuja primeira publicação
data de 1936, Borges admite explicitamente seu profundo interesse pelo tempo:

“…el tiempo es un problema para nosotros, un tembloroso y exigente problema,


acaso el más vital de la metafísica; la eternidad, un juego o una fatigada
esperanza.”7

Pensar o tempo, diz o autor, é pensar também a eternidade, nosso primeiro


labirinto. De acordo com o pensamento do filósofo Plotino em seu texto Enéadas, no
lugar do tempo é indispensável conhecer primeiro a eternidade, já que ela é o modelo e
arquétipo do tempo. Por outro lado, se quisermos pensar a partir das palavras de seu
mestre Platão, poderemos encontrar no texto Timeu a afirmação de que o tempo consiste
na imagem móvel da eternidade.
Borges inverte a lógica platônica e não parte do conceito de eternidade, pois
nesse texto inicia a discussão partindo da questão do fluir do tempo. Dá início a sua
argumentação, ou seja, entra no labirinto que está prestes a construir, apresentando duas
concepções contraditórias sobre a direção do fluir do tempo: a primeira afirma que o
tempo flui do passado até o futuro, como defende o senso comum; e a segunda é aquela
que afirma o exato oposto, que a direção deste fluir parte do futuro, que preexiste na
forma de uma eternidade, de um eterno amanhã, até o passado. Idéia que para Borges é
tão lógica quanto a primeira e que podemos encontrar nos versos do poeta espanhol
Miguel de Unamuno:

“Nocturno el rio de las horas fluye


desde su manantial que es el mañana
eterno...” 8

7
BORGES, Jorge Luis. Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, 1978, p. 15.
8
Idem.

6
Para o literato, ambas as posturas são igualmente verossímeis, mas ao mesmo
tempo inverificáveis. Sendo impossível precisar a direção do tempo, ele nos apresenta
duas teorias ainda mais radicais, duas outras idéias ainda mais labirínticas. A primeira
formulada pelo filósofo Bradley9, que defende uma hipótese que exclui o futuro, pois
em sua concepção o futuro seria apenas uma “construção de nossa esperança”, já que
afirma o caráter agonizante da existência do momento atual, que sempre se desintegra
no passado; a segunda teoria apresentada nega o presente por sua inacessibilidade,
devido à sua inverificabilidade, teoria que Borges atribui a uma escola filosófica da
Índia que não identifica.
Não contente com os rumos deste labirinto, apresenta outro grande dilema
referente ao tempo: a dificuldade de sincronizar o tempo subjetivo de cada indivíduo
com o tempo geral das matemáticas. Se essa dificuldade se origina de um relativismo
absoluto, que afirma a realidade do tempo como mero processo mental, resulta no que
seria uma dúvida crucial: Como explicar o fato de mil homens, ou ainda um só poder
compartilhar uma mesma experiência do tempo? Se, por outro lado, essa mesma
dificuldade é pensada através da lógica eleata, ou seja, se aplicamos ao tempo os
principais paradoxos eleatas, que em suas formulações originárias tratavam de negar o
movimento, excluimos através da mesma lógica tanto o tempo, como o movimento. O
que para o filósofo Russel, escreve Borges, é uma simplificação vulgar do conceito, já
que, em se tratando do conjunto dos números reais infinitos, esses se dão de uma vez,
por definição, e não devem ser considerados como termos finais de um processo de
enumeração sem fim.
Neste primeiro movimento em direção ao labirinto do tempo, Borges pretende
apresentar as dificuldades e paradoxos que surgem quando tentamos dar conta seja da
direção do tempo, seja de buscar uma definição de passado, presente e futuro, ou
mesmo quando nos propomos a adaptar a experiência subjetiva dos homens aos
sistemas matemáticos. Elege, então, a direção apontada pela crítica de Russel aos
paradoxos eleatas, que nos coloca diante da eternidade, já que, como o tempo, ela não
pode ser definida pela enumeração de partes, como uma simples agregação mecânica de
passado, presente e futuro. No decorrer desta exposição veremos que, para Borges, a
eternidade é algo mais “simples e mágico”, é a simultaneidade desses tempos, a
coexistência de passado, presente e futuro.
9
FRANCIS HERBERT BRADLEY (1846-1924), filósofo inglês expoente do idealismo absoluto, um
sistema que concebe o conjunto da realidade como produto da mente e não como algo percebido pelos
sentidos. Sua filosofia deriva diretamente da obra do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

7
Borges inicia, então, uma espécie de antologia das idéias e nos mostra sua
fascinação pela história do pensamento filosófico, ao apresentar algumas teses chaves
sobre a natureza da eternidade, diferenciando duas linhas principais de pensamento, dois
caminhos possíveis dentro do labirinto: o Realismo e o Nominalismo.
Assim escreve:

“De las eternidades: el realista, que anhela con extraño amor los quietos
arquetipos de as criaturas, otro, el nominalista, que niega la verdad de los
arquetipos y quiere congregar en un segundo los detalles del universo.” 10

Linhas representadas por Platão, de um lado, e Aristóteles, de outro, defendidas


arduamente por todos os seus sucessores, como expõe Borges.
Segundo Platão a eternidade se define como propriedade essencial do mundo
inteligível e o tempo como sua imagem móvel. Para ele um Demiurgo cria o mundo
utilizando modelos eternos, seu universo ideal, onde se encontra a eternidade, é
inacessível aos olhos humanos, pois somente temos acesso ao mundo da matéria, que
apenas recebe passivamente sua forma das idéias universais, neste sentido, o tempo e a
matéria reduzem-se a imagens incompletas e distorcidas das idéias universais. Borges se
referirá ao mundo das idéias como um “imóvel e terrível museu dos arquétipos
platônicos”, mundo que representa a verdadeira realidade a ser alcançada. Partindo
desta idéia, Borges considera Platão o representante do Realismo.
Aristóteles, por outro lado, nega os arquétipos platônicos e afirma a verdade dos
indivíduos e a convencionalidade dos gêneros. Neste sentido, o tempo deixa de ser uma
imagem, uma cópia, para ser real e definível. Para ele o tempo é composto de uma série
de momentos sucessivos que não coexistem, neste sentido, é ilimitado, pois o mundo
não só não teve um começo como não terá um fim, já que para o filósofo o mundo não é
a criação de um Demiurgo. Sendo assim, o tempo nada mais é do que a medida do
movimento, ou seja, assim como os corpos existem na dimensão espacial, os
movimentos ocorrem na dimensão temporal. O eterno, neste sentido, é eterno no tempo,
ou seja, o tempo é eterno, pois o moviento é eterno. A eternidade, portanto, não pode ser
uma realidade apartada do mundo sublunar aonde o tempo se realiza, a verdadeira
realidade é a realidade das coisas que podemos nomear, neste sentido, para Borges
Aristóteles é o representante do Nominalismo.
No entanto, sua crítica mais forte diz respeito ao realismo platônico que, unido à
fé cristã, resultou em “conceitos insípidos” sobre a eternidade, já que esta pertence a um
10
BORGES, Jorge Luis. Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, 1978, p. 35.

8
mundo mais pobre, menos diverso que o mundo das singularidades, que é o mundo da
matéria viva e múltipla. Este mundo eterno, imutável, é o mundo das idéias, onde todos
os universais descansam. Apresenta, então, de maneira extremamente poética e
cronológica, duas teses que, baseadas na filosofia platônica, surgiram na época
medieval. Aponta-as como caminhos que não nos levam ao final do labirinto da
eternidade, mas ao contrário não nos permite nele verdadeiramente entrar.
A primeira delas é a que foi defendida por Plotino. Para o filósofo a eternidade e o
tempo se constituem como coisas distintas, ou seja, não podem ser explicadas uma pela
outra, negando assim a concepção da eternidade como tempo infinito. Diferentemente
de Platão que, no Timeu11, diferenciou os dois conceitos afirmando que o “tempo é a
imagem móvel da eternidade”, defendendo, neste sentido, uma concepção que afirma
uma relação de subordinação do tempo à eternidade (“o tempo pode ser explicado em
termos de eternidade, mas o contrário não é possível”). Plotino defende a realidade
unânime do universo das formas inteligíveis, um realidade superior que têm como
modelo a eternidade. Um universo que é todo plenitude, “um repertório seleto, que não
tolera a repetição e o pleonasmo”, um universo perfeito, eterno e imutável. Sendo as
criaturas apenas receptáculos das perfeições finitas e de pouco valor, é possível inferir
que a matéria é inferior às idéias, ou melhor, “que a matéria é nada”. No entanto, Borges
adverte que é na matéria que a diversidade prevalece na riqueza de suas múltiplas
possibilidades, neste sentido, uma eternidade onde o que existe são limitados arquétipos
ou idéias universais, constitui “uma eternidade mais pobre que o mundo”, o que o leva a
afirmar que essa não é a eternidade propriamente dita.
Outra eternidade, que o literato apresenta, é a de Santo Agostinho, que se dedicou
à questão do que é o tempo no décimo primeiro livro de suas Confissões. Nesse texto, o
santo-filósofo apresenta o “esplendor de uma eternidade imutável” que não é futura nem
passada, mas que determina o futuro e o passado. Uma eternidade que não se concebe
fora do mistério da Trindade, pois passa a constituir-se como apenas mais um dos
atributos da ilimitada mente divina. Assim, o bispo de Hipona reduz os arquétipos
eternos platônicos às idéias eternas de Deus, todo o universo das formas inteligíveis
passa a estar contido no intelecto divino. Por outro lado, a eternidade também aparece
nas discussões que envolvem a predestinação e a reprovação das almas, já que aos
predestinados, que são os escolhidos por Deus – e todos os demais merecem o “fogo
sem perdão”, segundo um desígno inescrutável, ou “porque sim” (quia voluit) – lhes é
11
PLATÓN. Timeo, 37 d 5-7.

9
garantido a eternidade do céu, assim como aos reprovados, ou os que não foram
escolhidos, que também participarão da eternidade, neste caso uma eternidade pouco
desejada. A eternidade imutável e verdadeira é a eternidade do Criador.
Tanto Plotino quanto Agostinho pensaram a eternidade como parâmetro da
realidade, em outras palavras, para que o universo seja, é necessário uma eternidade que
o sustente. Mas ambos não lograram satisfazer o ímpeto filosófico de Borges, não
conseguiram dar conta da origem do conceito, não nos levando à entrada do labirinto.
Para o literato todas essas eternidades não passam de copiosas invenções que surgem da
necessidade intelectual humana de possuir uma idéia da eternidade.

“Es sabido que la identidad personal reside en la memoria y que la anulación de


esa facultad comporta la idiotez. Cabe pensar lo mismo del universo. Sin una
eternidad, sin un espejo delicado y secreto de lo que pasó por las almas, la
historia universal es tiempo perdido, y en ella nuestra historia personal.” 12

A eternidade é o que dá sentido à história das nossas ações, é filha dos homens,
diz Borges que formula, então, seu próprio labirinto, sua teoria própria sobre a
eternidade; uma teoria sem Deus ou qualquer outro possuidor e sem arquétipos, teoria
influenciada pelo pensamento de Nietzsche que, com a morte de Deus, decretou o fim
dos valores absolutos, o fim de uma concepção do tempo como um valor negativo da
eternidade. A eternidade deixa de ser um conceito abstrato, transcendental, para se
tornar algo que só se realiza no âmbito da vida, a eternidade deve ser vivida é, por tanto,
uma experiência real.
Sua teoria está presente em um pequeno conto seu, Sentirse en muerte (El idioma
de los Argentinos, 1928), que é reescrito na última parte do conto ensaio que acabamos
de analisar. Esse pequeno texto consiste no relato de um sujeito que realiza uma
caminhada sem destino, sem rumo por um bairro desconhecido. Atento à simplicidade
das casas e das ruas, chama-lhe a atenção o rosado de um tapume que lhe parece não
refletir a luz da lua, mas emitir uma luz íntima e própria. A partir dessa experiência
sensível, o narrador tem a plena certeza de que está vivendo o mesmo que há trinta
anos:

“Estoy en mil ochocientos y tantos dejó de ser unas cuantas aproximativas


palabras y se profundizó a realidad. Me sentí muerto, me sentí percibidor
abstracto del mundo [...] No creí, no haber remontado las presentidas aguas del
tiempo; más bien me sospeché poseedor del sentido reticente o ausente de la
inconcebible palabra eternidad.” 13
12
BORGES, Jorge Luis. Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, 1978, p. 37.
13
Idem, p. 41.

10
A partir de uma experiência sensível, uma caminhada por um lugar
desconhecido, o narrador tem a experiência de uma memória que traz imperiosamente
os dias do passado; uma experiência que o faz viver outro tempo, outro espaço oriundos
de um passado que passa a coexistir com o tempo presente. Podemos traçar um paralelo
entre essa idéia de Borges e o que em Proust se chama memória involuntária, pois
ambos relatam experiências sensíveis que levam o narrador para fora do tempo
cronológico, empírico, sucessivo. Tais experiências deflagram imediata, total e
deliciosamente a memória de um passado, que se apresenta de forma intensa e que nos
faz sentir momentaneamente eternos, imortais. Para os dois escritores somente através
de uma experiência sensível é possível conectar-nos momentaneamente à eternidade,
viver um instante livre da ordem temporal.
A eternidade, ou em outras palavras, o tempo em sua forma mais pura, é um
tempo onde passado, presente e futuro se encontram, um tempo simultâneo e não mais
sucessivo. Esta idéia nos possibilita aproximar também o pensamento de Borges do de
Bergson, pois para o filósofo o tempo puro é um tempo liberto da ordem cronológica,
onde o que era sucessivo (passado-presente-futuro), passa a ser simultâneo, coetâneo. A
experiência do tempo puro é uma experiência extra-temporal, é um tempo entendido
como duração onde coexistem virtualmente passado, presente e futuro.
No entanto, há algo no pensamento do literato que o distancia do filósofo, pois
para Bergson o tempo puro não pode ser espacializado, já que o espaço é atual e o
tempo verdadeiro é virtual. No texto de Borges a experiência da eternidade se dá em um
espaço, é a experiência sensível e atual que conecta passado e presente em um tempo
virtual. Por outro lado, esse tempo puro, essa eternidade momentânea que se expressa
em uma experiência sensível que se dá no espaço, aproxima intimamente esse tempo
borgeano ao tempo proustiano. Unindo estas pistas, podemos vislumbrar aos poucos
porque Deleuze, leitor de Proust, também se interessou pela obra desse autor argentino.
Encontramos em Sentirse en muerte o conceito-labirinto da Eternidade
formulado por Borges. Como vimos, esse pequeno conto, escrito no começo de sua
carreira, é um texto chave para compreender as concepções sobre o tempo que
desenvolveu ao longo de sua obra e ao mesmo tempo, como veremos adiante, é um
texto que está na base da refutação que desenvolverá 19 anos mais tarde.

11
Segundo labirinto: O Eterno Retorno

“Todo va, todo vuelve; eternamente rueda la rueda del ser.


Todo muere, todo vuelve a florecer, eternamente corre el año del ser.”

Friedrich Nietzsche

“El Convaleciente”
In.: Así hablo Zaratustra.
p. 200.

O segundo labirinto que surge da recherche realizada por Borges, está presente
no La doctrina de los ciclos, quarto ensaio do livro Historia de la Eternidad. Neste
texto a eternidade se expressa em um tempo circular, onde o que existe é a eterna
repetição do mesmo. Borges encontra-se, agora, com o labirinto do Eterno Retorno.
Sua tarefa parte da teoria atomista, que afirma a finitude dos átomos existentes e
a infinitude do tempo, o que resulta na possibilidade de um número finito de
permutações, que sem dúvida irão se repertir no tempo infinito. Por outro lado, se o
universo constasse com um número infinito de termos, a repetição nunca se daria, pois o
número de combinações seria infinito, tese que é provada na “heróica” teoria dos
conjuntos transinfinitos de Jorge Cantor14. Ou seja, a doutrina dos ciclos só se sustenta se
se admite a existência finita de pontos no universo, mesmo que essa quantidade seja
desmesurada.

“El número de todos los átomos que componen el mundo es, aunque desmesurado,
finito, y sólo capaz como tal de un número finito (aunque desmesurado también)
de
permutaciones. En un tiempo infinito, el número de las permutaciones posibles
debe ser alcanzado, y el universo tiene que repetirse. De nuevo nacerás de un
vientre, de nuevo crecerá tu esqueleto, de nuevo arribará esta misma página a tus
manos iguales, de nuevo cursarás todas las horas hasta la de tu muerte
increíble.”15

14
GEORGE CANTOR (1845-1918) filósofo, físico e matemático, demonstrou que existem números
maiores que o infinito, chamou de aleph o cardinal dos números reais. Mas não parou aí, também
demonstrou, de forma muito simples e engenhosa, que existe toda uma série de transinfinitos cada vez
maiores, aos que chamou aleph 1, aleph 2, etc. Inclusive chegou a demonstrar que a quantidade de
números reais é tão grande que a possibilidade de que, se escolhemos um numero ao acaso, este seja um
número racional, é nula. Por sua dedicação às questões sobre o infinito, Borges por ele professa
verdadeira adoração.
15
BORGES, Jorge Luis. Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, España, 1978. p. 81.

12
Se, para os atomistas, os pontos do universo são átomos, para o filósofo
Nietzsche não se trata de quantidades, pois o mundo finito é composto de forças finitas,
como afirma em alguns fragmentos póstumos.16 Forças finitas em um tempo infinito
impossibilitam uma variação contínua de estados novos, o que resulta em um eterno
retorno do mesmo. Em outras palavras, para que a eterna repetição seja possível a
premissa necessária é a de que o espaço seja finito e o tempo infinito.
Não obstante, Borges nesse texto pretende refutar o conceito-labirinto de
Nietzsche, filósofo do eterno retorno por excelência e seu principal formulador.
Pretende refutar a idéia de uma eternidade circular e inicia seu projeto, apresentando
formulações mais arcaicas que estão na origem desse labirinto nietzschiano. Dá como
exemplo o conceito de apokatastasis, que foi defendido pelos filósofos estóicos gregos
na formulação de sua cosmogonia:

“Zeus se alimenta del mundo: el universo es consumido cíclicamente por el fuego


que lo engendró, y resurge de la aniquilación para repetir una idéntica historia.
De nuevo se combinan las diversas partículas seminales, de nuevo informan
piedras, árboles y hombres -y aún virtudes y días, ya que para los griegos era
imposible un nombre sustantivo sin alguna corporeidad. De nuevo cada espada y
cada héroe, de nuevo cada minuciosa noche de insomnio.” 17

O mesmo conceito cíclico do tempo aparece também nos Evangelhos, mas foi
rejeitado no quinto Concílio Ecumênico (553 D.C.) e também por Agostinho, que
negaram a possibilidade deste labirinto circular, já que Jesus “é a via reta que autoriza o
homem a escapar dos labirintos” 18, afirmando a potência criativa de um Deus que não
tolera a repetição.
As possibilidades de que Nietzsche conhecesse a tese estóica é inegável, por ter
sido tão grande helenista. Embora afirme outras origens para sua teoria, para Borges
Nietzsche sabia que “o Eterno Retorno é das fábulas, medos ou diversões que recorrem
eternamente, mas também sabia que a pessoa gramatical mais eficaz é a primeira”. O
que não impede que o literato afirme que Nietzsche é o verdadeiro e único criador do
conceito, pois Eterno Retorno é peça fundamental em sua filosofia. Nietzsche buscou na
intolerável hipótese grega a justificativa para a eternidade e a imortalidade, pois ambas
são necessárias em uma ética que “convida a viver cada instante desejando que volte a
16
Fragmentos póstumos dos anos de 1881-82 e 1884-88.
17
BORGES, Jorge Luis. Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, España, 1978, p. 84.
18
CASTRO, S; RODRÍGUEZ, D.; STAHL, T., La literatura de Borges: Escenario de los mayores
enigmas filosófico y de las ineludibles preguntas de la ciencia. Monografia de fim de curso do primeiro
semestre do ano de 2006, UBA, Buenos Aires, 2007, p. 17.

13
se repetir” 19, ou como escreve Borges:

“Escribió el filósofo: No anhelar distantes venturas y favores y bendiciones, sino


vivir de modo que queramos volver a vivir, y así por toda la eternidad.” 20

Encontramos na saga de Zaratustra, em Assim falou Zaratustra, um “pensamento


abissal” que leva às últimas consequências a afirmação da circularidade do tempo. O
“mestre do eterno retorno” conta aos “ébrios de enigmas” e “amantes do crepúsculo” o
enigma que vislumbrou, é através da descrição de uma visão que anuncia o pensamento
do eterno retorno. Nesta visão, Zaratustra explica ao anão, que carrega em suas costas,
que o portal que eles veêm adiante se chama Instante, neste portal dois caminhos se
encontram: o caminho do passado e o caminho do futuro, ambos, que duram uma
eternidade. Tal visão, ilustra a concepção de um tempo labiríntico em linha reta, que não
possui um instante inicial, assim como não possui um instante final; não tendo início
nem fim, o tempo é, por tanto, infinito.21 Um tempo infinito que rege um mundo finito,
composto de forças finitas. Neste labirinto, que volta a se repetir infinitamente, todo
instante atual é um eterno retornável. Portanto, Zaratustra retornará eternamente a
mesma vida para ensinar novamente o eterno retorno de todas as coisas.22
Para desenvolver sua crítica ao pensamento de Nietzsche, à idéia de um tempo
eternamente circular, Borges utiliza quatro argumentos, com o objetivo específico de
desconstruir esse labirinto vislumbrado por Zaratustra. O primeiro argumento, que
utiliza em sua refutação, deriva da teoria atomista, pois se imaginamos as permutações
possíveis de 10 átomos teremos um total de 3.628.800 permutações possíveis
(multiplicando 1 x 2 x 3 x 4 x 5 x 6 x 7 x 8 x 9 x 10), raciocínio que, expandido à
totalidade de átomos do universo, nos leva a um “número inumano”, realidade que
diminui a quase zero a incidência de repetições. Mas é verdade que esse argumento não
tem a força necessária para refutar totalmente a teoria de Nietzsche, não é potente o
suficiente para desfazer o grandioso labirinto, nos adverte Borges. O retorno assim
pensado segue sendo eterno, ainda que em um tempo remoto e a quantidade de matéria
segue sendo finita.
Outro argumento se baseia na teoria de Cantor, que afirma a perfeita infinitude
do número de pontos do universo e até de um metro de universo. Dentro do conjunto
dos números finitos, por exemplo, é possível demonstrar que existem tantos números
19
BORGES, Jorge Luis. Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, España, 1978, p.28.
20
Idem, p. 89-90.
21
“Da Visão e do Engima”, in.: Assim Falou Zaratustra.
22
“O Convalescente”, in.: Assim Falou Zaratustra.

14
pares como ímpares, assim como existem tantos números como múltiplos e/ou potência
de três mil e dezoito. Borges nos esclarece a definição de Cantor: um “conjunto infinito
é aquele conjunto que pode equivaler a um de seus conjuntos parciais”. Nesta lógica
contar não é mais que equiparar séries, pois nenhum número tem um predecessor ou
antecessor imediato, portanto, a série dos pontos do espaço ou dos instantes do tempo
não são ordenáveis. Prova-se assim a infinitude dos termos do universo, prova-se que
tanto o espaço quanto o tempo são infinitos, o que para Borges significa que:

“El roce del hermoso juego de Cantor con el hermoso juego de Zarathustra es
mortal para Zarathustra.” 23

O terceiro argumento utilizado por Borges parte da crítica que faz Nietzsche às
teorias atomistas que quantificam o espaço, pois para o filósofo a idéia de eterno retorno
de todas as coisas se baseia num vocabulário das forças, forças estas que são limitas por
natureza, idéia que resulta na impossibilidade de uma variação ilimitada. Borges
adverte, no entanto, que a mesma lógica aplicada ao espaço por Nietzsche poderia ser
aplicada ao tempo, pois, para o literato, o filósofo concebe racionalmente que o espaço e
suas forças são finitos, mas “generosamente concebe que o tempo é infinito”.
Para explicar a origem do tempo, o filósofo recorre ao conceito de Eternidade
Anterior e seus defensores mais ingênuos, que não realizaram uma leitura mais atenta,
provam este conceito pela sensação comum de “haver vivido já esse momento”, ou o
que comumente se chama de déjà vu, que não condiz propriamente com a tese
nietzschiana, já que o Eterno Retorno não necessita de uma confirmação mnemônica ou
psicológica. Ou seja, a Eternidade Anterior não pode ser explicada por qualquer
lembrança que tenhamos dela.
Tanto para o literato quanto para o filósofo, ponto onde convergem, a lembrança
é em si uma novidade. O que Borges critica na Eternidade Anterior é que esta não pode
ser provada e, portanto, é o simples resultado de “nossa incapacidade de conceber um
princípio para o tempo”. Se o tempo é intuitivamente infinito, o espaço também assim
poderá ser concebido, assinala o literato. Sendo espaço e tempo infinitos exclui-se a
possibilidade da repetição. A incerteza lógica do labirinto nietzschiano impede sua
realidade cosmológica e física, embora não suprima sua realidade mítica.
O quarto e último argumento é uma contradição que Borges encontra dentro da
própria teoria de Nietzsche, pois quando o filósofo utiliza o conceito de forças, que

23
BORGES, Jorge Luis. Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, España, 1978, p. 83.

15
podem ser entendidas fisicamente como energia, para afirmar a constância e finitude do
universo, ignora que a segunda lei da termodinâmica afirma a existência de processos
energéticos que são irreversíveis. Ou seja, a luz pode se transformar em calor, mas o
caminho contrário é proibido, o que significa uma perda de energia. Perda esta que
resulta no conceito de entropia, que afirma que o universo está caminhando para um
estado de equilíbrio de onde não sairá, ou seja, em um momento dado as temperaturas
se igualarão e não haverá mais trocas de energias, não haverá mais forças, nem
mudança, tampouco movimento, como também não haverá mais tempo, o que
significaria a morte do universo. O tempo seria finito, e o Eterno Retorno não se
sustentaria mais.
Com seus quatro argumentos Borges acredita refutar a teoria de Nietzsche,
aniquilando seu labirinto do Eterno Retorno, mas suas conseqüências são devastadoras,
pois também afirma o aniquilamento do mundo e do tempo.
O literato, entretanto, não satisfeito com as conseqüências do desmantelamento
deste labirinto que é o Eterno Retorno, “regressa eternamente ao Eterno Regresso” em
El Tiempo Circular, quinto ensaio do livro Historia de la Eternidad. Nesse texto
percorre um caminho distinto do adotado no texto anterior, pois não pretende refutar tal
idéia, mas, ao contrário, pretende distinguir três formulações possíveis e distintas para o
conceito, ou seja, distinguir três outros labirintos possíveis, dos quais elegerá o mais
bem fundamentado.
O primeiro conceito-labirinto se caracteriza no que o autor chamou de
argumento astrológico, que parte da idéia desenvolvida por Platão em seu diálogo
Timeu, de que os sete planetas, uma vez equilibradas as suas diversas velocidades,
regressarão ao ponto inicial de partida: revolução que constitui o ano perfeito.24
Borges afirma que o desenvolvimento desta idéia, em outras palavras,
solidificação deste labirinto, levado a cabo por “algum astrólogo que não havia
examinado em vão o Timeu”, e mais tarde discutido por Lucilio Vanini25 e Thomas
Browne26, resultou na teoria que sustenta que se os movimentos dos planetas são
24
Idem, p. 97.
25
LUCILIO VANINI (1585-1619). Polemista que foi condenado por heresia e queimado na fogueira em
Toulouse. No seu livro De Admirandis Naturae Reginae Deaeque Mortalium Arcanis aparecem as teses
típicas do aristotelismo renascentista e outras de Cusano: a eternidade da matéria, a homogeneidade da
substância celeste com a sublunar, a identidade de Deus com a força que rege o mundo e a natural dos
seres. Borges se refere ao diálogo 52 deste livro.
26
SIR THOMAS BROWNE (1605 –1682). Escritor e médico inglês. Escreveu um dos primeiros ensaios
em prosa, Religio Medici (1642), em que buscou resolver o conflito entre ciência e religião. É “talvez o
melhor prosista das letras inglesas” nas palavras de Borges. Borges lhe atribui a citação: “Año de Platón
es un curso de siglos después del cual todas las cosas recuperarán su estado anterior, y Platón, en su

16
cíclicos, assim também será a história universal. Neste sentido, pode-se afirmar que a
macroestrutura do universo e microestrutura da vida humana são análogas. A história
dos homens é um reflexo da história do universo, ou seja, se as revoluções dos planetas
são cíclicas a vida dos homens também o é.
A segunda formulação da teoria do eterno retorno, ou o segundo labirinto, que
descreve Borges, é o de Nietzsche, que, por um princípio algébrico, afirma basicamente
que de um número finito de objetos é impossível derivar uma infinidade de variações,
como anteoriormente foi explicitado no texto La Doctrina de los Ciclos.
A terceira hipótese, que aqui Borges considera a “melhor formulada e mais
complexa”, é a defendida pelo teórico francês Blanqui27 que, em seu livro A eternidade
pelos Astros, “abarrota de mundos facsimilares e de mundos dissimilares não só o tempo
28
senão o interminável espaço.” Para o filósofo revolucionário todos os possíveis são
atuais, tudo o que é possível realiza-se sempre independente dos seus antecedentes, não
obedecendo a nenhuma ordem determinada. Aos ciclos labirínticos de Blanqui o literato
acrescenta uma possibilidade a mais: os ciclos que povoam o mundo são similares, mas
não idênticos. Como exemplifica Proença, no seu livro sobre o eterno retorno: “Neste
mesmo momento eu tenho no universo uma infinidade de sósias que só terão de comum
comigo o meu nascimento, outros que só terão comigo de comum minha morte, ainda
outros que serão exatamente como eu neste momento, mas que já serão outros daqui a
instantes”.29
Borges soma a essa concepção, a este labirinto de ciclos similares que
constituem o Eterno Retorno, os testemunhos de muitos pensadores, de Demócrito a
David Hume, de Hume a Bertrand Russel. Mas, de toda uma série de defensores, aquele
que lhe parece mais propício citar é Marco Aurélio, que em suas Meditações nega a
realidade do passado e do porvir, pois o único que existe é o presente:

“El termino más largo y el más breve, son, pues iguales. El presente es de todos;
morir es perder el presente, que es un lapso brevísimo. Nadie pierde el pasado ni

escuela, de nuevo explicará esta doctrina.” (BORGES, 1978, p.98) A citação a que Borges se refere é uma
nota de pé de página que explica o termo Plato’s year, a nota original é a seguinte: “A Revolution of
certain thousand years, when all things should return unto their former estate, and he be teaching again in
his school as when he delivered this opinion.” (BROWNE, 1862, p.16)
27
LOUIS-AUGUSTE BLANQUI (1805-1881). “Autor das insurreições mais temíveis, terrorista da
Comuna de Paris, o anarquista que subverte sem trégua, às custa do seu próprio sacrifício, a sociedade
francesa do século XIX.” (BEHAR, 1999, cap. 5), é citado freqüentemente tanto por Borges quanto por
Bioy Casares.
28
BORGES, Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, España 1978, p. 99.
29
PROENÇA, Raul. Eterno Retorno. Vol I. Intr., fixação do texto e notas de António Reis. Biblioteca
Nacional, Lisboa, 1987, p.324.

17
el porvenir, pues nadie puede quitarle lo que no tiene. Recuerda que todas las
cosas giran y vuelven a girar por las mismas órbitas y que para el espectador es
igual verla un siglo o dos o infinitamente.” 30

Partindo desta citação de Marco Aurélio, Borges desenvolve duas conclusões


sobre a natureza do conceito de tempo: o caráter unívoco do presente, ou seja, que só o
presente existe, e a impossibilidade da novidade.
Para afirmar a univocidade do presente, sua existência inequívoca e absoltuta,
Borges evoca Schopenhauer, outro grande filósofo que lhe é caro, já que este nega a
realidade do passado e do futuro, pois afirma que a vontade, que é o substrato
metafísico do mundo e da conduta humana, se realiza somente no presente, não no
passado e nem no futuro, sendo assim, tudo que há é a realidade vontade que se dá no
momento presente:

“Ante todo hemos de saber con claridad que la forma del fenómeno de la
voluntad, o sea, la forma de la vida o de la realidad, es solamente el presente, no
el futuro ni el pasado: estos existen solo en el concepto, se encuentran únicamente
en la conexión del conocimiento en la medida en que sigue el principio de razón.
Ningún hombre ha vivido en el pasado y ninguno vivirá en el futuro, sino que
únicamente el presente es la forma de toda vida, pero es también su posesión
segura que nunca se le puede arrebatar.” 31

A segunda conclusão assinalada por Borges é a negação da possibilidade de


qualquer novidade, idéia presente também no Eclesiastes. Pensar que todas as
experiências do homem são de algum modo análogas, que todos os homens têm um
mesmo destino, ou mesmo que a história universal é a de um único homem, adverte o
autor, pode resultar em um empobrecimento do mundo. No entanto, Borges chama
atenção para o fato de que Marco Aurélio não afirma a identidade dos destinos
individuais, mas uma analogia, uma semelhança, uma similaridade entre eles, o que
significa dizer que o número de percepções, emoções, pensamentos e vicissitudes
humanas, é limitado e que todos nós compartilhamos analogamente. Pensamento que
origina a idéia, que defende Borges, de que “cada instante contém toda a história
universal”.
Dessa teoria, desse labirinto onde só o que existe é o instante presente e nada
mais, um presente eterno que une todos os homens e estes ao universo, o autor-pensador
obtém duas conseqüências possíveis:

30
BORGES, Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, España 1978, p. 101.
31
SCHOPENHAUER, Arthur. El mundo como voluntad y representación. Trad., introd. y notas de Pilar
López de Santa María. Trotta, Madrid, 2004, Livro IV, §54, p. 164.

18
“En tiempos de auge la conjetura de que la existencia del hombre es una
cantidad constante, invariable, puede entristecer o irritar; en tiempos que
declinan (como éstos), es la promesa de que ningún oprobio, ninguna
calamidad, ningún dictador podrá empobrecernos.” 32

Vemos nos três ensaios apresentados até agora – Historia de la Eternidad, La


Doctrina de los Ciclos, El Tiempo Circular, todos presentes no livro Historia de la
Eternidad – distintas formas de pensar o tempo. Seja como circular, eternamente
retornável, seja a partir da univocidade do presente, seja vivendo a experiência da
eternidade em um lugar que nos transporta ao passado.
Seja como for, adotando esta ou aquela visão, entrando por esse ou por aquele
labirinto, Borges não nos impõe uma única imagem do tempo; ao contrário, apresenta-
nos distintas e múltiplas concepções, cabendo ao leitor usufruir e aproveitar-se de uma,
ou todas elas. Embora esteja claro que não se trata, em nenhum dos casos, de um tempo
linear, sucessivo ou como diria Bergson de um tempo como translação. Borges critica
esse tempo empírico, comum, pobre, pois prefere antes pensar em um tempo múltiplo,
caótico e policrônico, concepção que para Pelbart 33 e Marchesini (2007) aproxima o
pensamento do literato argentino ao de Deleuze.
No entanto, esse tempo singular de que nos fala Borges, esse labirinto que adquire
diversas formas, é um tempo que não pode ser separado de todas as circunstâncias que o
envolvem, um tempo que não se separa da vida humana, um tempo que se percebe
através das ações humanas. Sob essa ótica, nesta maneira de pensar, neste território que
habita Borges, encontramos a originalidade do pensamento do artista, pois para ele, o
tempo, este conceito caótico, labiríntico, não é mais que uma criação do homem.

32
BORGES, Historia de la Eternidad. Alianza, Madrid, España 1978, p. 103.
33
PELBART, P. O Tempo Não-Reconcliliado. Imagens do Tempo em Deleuze. São Paulo, Perspectiva,
2004.

19
Terceiro labirinto: A Refutação do tempo

“Tempo, vais para trás ou para diante?


O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida”

Dante Milano

“Ao tempo”
In: Poesias, 1948.
p. 41.

Neste último capítulo-labirinto analisaremos o trabalho que em nossa ótica se


apresenta como o mais ousado de Borges: Nueva refutación del tiempo. É um texto mais
tardio em comparação com os três primeiros já analisados, pois foi publicado em 1952
no livro Otras Inquisiciones, último livro publicado antes de ficar totalmente cego.
Neste texto o literato pretende uma refutação do que sempre tentou compreender, ou
seja, pretende refutar a própria existência do tempo, a própria possibilidade de que esse
labirinto exista. Como o literato mesmo esclarece, numa nota preliminar que nos
introduz ao texto:

“Publicada em 1947 – después de Bergson – es la anacrónica reductio ad


absurdum de un sistema pretérito o, lo que es peor, el débil artificio de un
argentino extraviado en la metafísica” 34.

Dos textos que analisamos até agora, podemos dizer que Nueva refutación del
tiempo é o texto que apresenta um tom profundamente filosófico, pois nele encontramos
a exposição de duas teses filosóficas, além de um verdadeiro exercício de argumentação
que desenvolve Borges com o objetivo constituir uma idéia, que o autor pretende
formular sem se comprometer com nenhum sistema isolado. Para isso, expõe
argumentos “idealistas” das filosofias de Berkeley, Hume e também se utiliza do
princípio dos indiscerníveis de Leibniz. Veremos também, ao longo deste capítulo,
como o pensamento do literato está em consonância com algumas filosofias
contemporâneas, principalmente devido à proximidade com pensamento de Henri
Bergson.
Nesse texto, Borges admite que sempre se dedicou ao projeto de refutar o tempo,
34
Obras Completas, Vol.II. Emecé Editores, Buenos Aires, 2007, p. 163.

20
tarefa que estaria de algum modo presente em todos os seus livros, como o próprio
literato admite. Está em: Inscripción en cualquier sepulcro e El truco, em Fervor de
Buenos Aires (1923), em certa página de Evaristo Carriego (1930), no relato Sentirse
en muerte, e provavelmente em muitos outros textos, mesmo que implicitamente. Nueva
refutación del tiempo terá a função de fundamentar todos estes textos e de concretizar
tão difícil projeto.
Estamos diante de um ensaio que, devido à complexidade do tema, apresenta
algumas dificuldades. A primeira apresenta-se já em seu próprio título, pois, como o
próprio autor esclarece, Nueva refutación del tiempo é:

“…un ejemplo del monstruo que los lógicos han denominado contradictio in
adjecto, porque decir que es nueva (o antigua) una refutación del tiempo es
atribuirle un predicado de índole temporal, que instaura la noción que el sujeto
quiere destruir.” 35

Afirmar a inconsistência do conceito de tempo, a inexistência desse labirinto, é


enfrentar um problema de linguagem, já que nossa linguagem está intimamente
constituida de uma dimensão temporal. Porém, Borges não acredita ser este limite da
linguagem um obstáculo; ao contrário, afirma a importância destes “jogos verbais” que
sempre se apresentam em discussões complexas. Por isso, invocará muitas vezes, sem
hesitar, o tempo para tentar refutá-lo.
O ensaio está dividido em três partes: Uma Nota Preliminar de 23 de dezembro
de 1946, um artigo (A) publicado em 1944 e um (B) de 1946. Os dois artigos são textos
simliares que não foram unidos em um único, pois o autor considera “que a leitura de
36
dois textos análogos pode facilitar a compreensão de uma matéria indócil” . Por
indócil e fugidio Borges entende o conceito-labirinto de tempo, conceito que pretende
refutar, labirinto que pretende destruir.
A nota preliminar inicia-se com uma epígrafe, uma citação de Daniel von
Czepko, um dos vários místicos alemães de cuja obra Borges se ocupará nas décadas de
30 e 40. A pequena epígrafe já nos adverte sobre o projeto ousado que desenvolverá, o
labirinto complexo que irá conceber, e assim pode ser traduzida: “Antes de mim não
havia tempo, depois de mim não haverá nenhum. Comigo se concebe, comigo
37
sucumbirá também.” Esta nota é a porta do labirinto, com ela o literato nos introduz
em um texto inquietante e complexo.
35
Obras Completas, Vol.II. Emecé Editores, Buenos Aires, 2007, p.164.
36
Idem, p.165.
37
Tradução da autora.

21
O artigo A inicia com a exposição dos argumentos de George Berkeley presentes
no Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano, onde o filósofo nega a
existência da matéria, afirmando a univocidade da mente, local onde a realidade se dá.
Para o filósofo, tudo o que existe são percepções da mente. Falar de mesas ou cadeiras é
afirmar a realidade destas percepções, não havendo provas reais que existam fora de
nossas mentes; não há como garantir que sua realidade seja autônoma. Com seu “esse
est percipii”, afirma que:

“Todo el coro del cielo y los aditamentos de la tierra —todos los cuerpos que
componen la poderosa fábrica del universo— no existen fuera de una mente; no
tienen otro ser que ser percibidos.” 38

Para Borges, Berkeley é o verdadeiro inventor da doutrina idealista, sua filosofia


é tão radical que se torna mesmo difícil divisar seus limites. Devido a sua
complexidade, grandes filósofos como Schopenhauer, por quem o literato professa
grande admiração, não conseguiram dar conta da radicalidade desta doutrina. Para o
filósofo alemão, mesmo que o mundo seja minha representação, ainda temos os olhos,
as mãos e até mesmo o cérebro como existências sensíveis concretas, idéia que, nos
adverte o literato argentino, negligencia a doutrina de Berkeley, que negou até mesmo as
qualidades primárias, como a solidez e a extensão das coisas. Berkeley negou
categoricamente o “espaço absoluto”, todas as coisas sensíveis, e isso inclui até mesmo
nosso corpo, tudo o que existe, portanto, existe exclusivamente numa mente que as
percebe.
Berkeley justifica a existência contínua dos objetos, o fato de que as percebemos
ao longo do tempo, através da idéia de um Deus que possui uma percepção infinita, ou
seja, existe uma mente divina que percebe os objetos mesmo quando algum indivíduo
não os percebe e que garante a continuidade das percepções. Nesta lógica, tanto Deus
quanto os homens são essencialmente compostos de idéias, são princípios ativos e
pensantes. Em sua doutrina, o filósofo reafirma o cogito cartesiano e coroa a identidade
pessoal. Mas Borges pretende ir mais longe. Invoca, em um movimento dialético, as
idéias do filósofo David Hume para completar a base de seu projeto labiríntico.
Hume, “o ascético”, no seu Tratado sobre a Natureza Humana refuta a unidade
de um eu que percebe, ou seja, afirma que a consciência não existe, pois o homem é
apenas “uma coleção ou atadura de percepções, que se sucedem umas às outras com
inconcebível rapidez”, um feixe de percepções sem um suporte que as reúna como um
38
Obras Completas, Vol.II. Emecé Editores, Buenos Aires, 2007, p.168.

22
“teatro sem cenário”. Não há neste sentido “um eu secreto que governa os atos e que
recebe as impressões”. Nega, portanto a existência da mente (eu) para além das
percepções.
Unir os argumentos de Berkeley e Hume é a tarefa que o literato se propõe para
constituir uma concepção puramente idealista do mundo, da realidade, pois a síntese
desta dialética resulta que, na realidade, não existem objetos exteriores à mente (esse est
percipii), nem um eu exterior às percepções da mente (teatro sem cenário). O que existe,
diz Borges, é:

“Un mundo de impresiones evanescentes; un mundo sin materia ni espíritu, ni


objetivo ni subjetivo; un mundo sin la arquitectura ideal del espacio; un mundo
hecho de tiempo, del absoluto tiempo uniforme de los Principia; un laberinto
infatigable, un caos, un sueño.” 39

Negados o espírito e a matéria, Borges buscará com os mesmos argumentos negar


também a realidade do tempo, mas para isso terá que refutar as concepções que
possuem Berkeley e Hume sobre a natureza do tempo. Por um lado, Berkeley defende
que o tempo é “a sucessão de idéias que flui uniformemente e que todos os seres
participam”; por outro, para Hume o tempo é “uma sucessão de momentos indivisíveis”,
ou seja, para ambos a existência do tempo caracteriza-se pela realidade sucessiva e
simultânea das percepções.
O que faz Borges, então, é apontar a incoerência das idéias de sucessão e
simultaneidade, pois afirma que se os idealistas negam a continuidade dos elementos de
uma série de percepções, ou seja, a matéria, e se negam a unidade da consciência, ou
seja, o espírito, portanto, tampouco é possível estabelecer relações temporais entre as
percepções. Neste sentido, dizer que X é anterior a Y, significa falar em termos de
percepções de anterioridade e posteridade, o que não significa que esses conceitos sejam
absolutos e existam fora de uma percepção. O mesmo vale para a idéia de
contemporanidade, pois cada momento que vivemos existe e não seu conjunto
imaginário. Ou seja, tudo que vivemos é um estado presente que é absoluto e incapaz de
modificar um ou outro estado. Assim, pois, não há dois eventos que ocorram ao “mesmo
tempo”, pois, o tempo não é ubíquo, não se dá ao mesmo tempo em todas as partes do
universo. Tudo o que existe é, portanto, o estado de cada um que vive seu próprio
momento.
Só há, neste sentido, o presente, que está sempre sendo percebido por alguém e

39
Idem, p.168.

23
que dura tanto quanto a história do universo – história que não é mais que mera coleção
ideal de momentos, uma união arbitrária de fatos. O futuro é, assim, impensável como
também o passado, pois cada homem vive seu tempo, que é distinto do tempo de todos
os demais. Por fim, o que existe é o presente, o instante, a ação, o acontecimento.
O escritor utiliza como exemplo, neste primeiro artigo, um instante literário da
história de Huckleberry Finn (alertando em uma nota, que o exemplo é arbitrário e pode
ser subtituido por outro exemplo da vida pessoal do leitor). Exemplo que ilustra a
negação da sucessão de fatos em um só tempo, ou seja, a “série temporal” que o
idealismo admite. Um momento na vida de Huck é apenas um momento na vida de
Huck, sem um antes, nem depois.
O argumento filosófico que sustenta a refutação do tempo como “série temporal”
está baseado no princípio dos indiscerníveis de Leibniz (ainda que Borges não cite
explicitamente), pois, nos adverte o literato, quando afirmamos a repetição de um
momento na vida de um indivíduo, não podemos dizer que se tratam de momentos
diferentes, já que não podemos localizá-los em momentos distintos. Dito isto, de acordo
com o princípio de Leibniz, conclui-se que os momentos são indiscerníveis entre si, pois
duas coisas que são qualitativamente iguais, são também numericamente iguais.
Partindo desta lógica, podemos concluir que a repetição é a vivência do mesmo
momento. Em outras palavras, se dois momentos são iguais na mente de um indivíduo,
então eles são o mesmo, já quee nenhum é anterior ou posterior. O que significa que
basta um só termo repetido para acabar com a série temporal. Não sendo possível
distinguir entre um e outro, somos forçados a afirmar que se trata de um mesmo
momento. Afirmar, por exemplo, que os leitores de Shakespeare têm a propriedade de
serem posteriores a Shakespeare é uma falácia, pois cada um tem na mente as mesmas
linhas. Sendo assim, pelo princípio de identidade dos indiscerníveis, cada leitor de
Shakespeare é ele mesmo Shakespeare.
Tal idéia leva Borges a afirmar que a vida humana está, basicamente, constituída
por tautologias. Neste sentido pensamentos recorrentes, ainda que distintos, são sempre
o mesmo, ou seja, são dois momentos iguais, pois não existe mais o antes e o depois. O
artista recorda uma sequência de repetições em sua vida, pensa no fragmento 91 de
Heráclito, que afirma que nunca entramos duas vezes no mesmo rio, e se admira por sua
“destreza dialética”, que sempre nos apresenta o primeiro sentido (“O rio é outro”) e,
logo, “clandestinamente” o segundo (“Sou outro”), pensamentos iguais são sempre um
mesmo pensamento.

24
Negada a série temporal, não podemos mais falar de eventos simultâneos, ou o
que consideramos contemporâneo. Para ilustrar essa idéia, Borges compara dois fatos
que ocorreram a princípios de agosto de 1824, um deles foi quando o capitão argentino
Isidoro Suárez decidiu a vitória de Junín e outro quando De Quincey publica um livro.
O literato afirma que os dois acontecimentos “não foram contemporâneos (só o são na
medida em que estão escritos no texto como sendo), já que os dois homens morreram,
aquele na cidade de Montevidéu, este em Edimburgo, sem saber nada um do outro”. Ou
seja, cada instante é autônomo, unívoco, impossível de ser localizado em um tempo, em
uma história:

“… no hay esa historia, como no hay la vida de un hombre, ni siquiera una de sus
noches; cada momento que vivimos existe, no su imaginario conjunto. El universo,
la suma de todos los hechos, es una colección no menos ideal que la de todos los
caballos con que Shakespeare soñó —¿uno, muchos, ninguno?— entre 1592 y
1594. Agrego: si el tiempo es un proceso mental ¿cómo pueden compartirlo
millares de hombres, o aun dos hombres distintos? Esos idénticos momentos ¿no
son el mismo? ¿No basta un solo término repetido para desbaratar y confundir la
serie del tiempo? ¿Los fervorosos que se entregan a una línea de Shakespeare no
son, literalmente, Shakespeare?” 40

Para finalizar toda uma brilhante argumentação, na segunda parte do artigo A,


Borges reescreve uma vez mais o conto Sentirse en muerte (tal qual faz na La Historia
de la Eternidad), para “quem seguiu com desagrado a argumentação anterior”. O texto
agora é interpretado de outra forma, pois Borges não o usa para formular um conceito
de eternidade, mas para criticar o tempo mundano do homem, o tempo percebido
equivocadamente como sucessão, assim como equivocadamente percebemos o eu e a
matéria. A descrição de uma caminhada movida pelo acaso, através das ruas do bairro
de Barracas em Buenos Aires, propicia ao narrador pensar estar vivendo o mesmo que
há trinta anos, mas na realidade não trata somente de um pensamento, e sim de uma
experiência real: ele realmente viveu. Os dois momentos não são apenas semelhantes,
mas são o mesmo momento, já que ambos não podem ser localizados em nenhum
tempo, sendo, portanto, indiscerníveis.
Cito, uma vez mais, uma parte desse belíssimo conto de Borges:

“El tiempo, si podemos intuir esa identidad, es una delusión: la indiferencia e


inseparabilidad de un momento de su aparente ayer y otro de su aparente hoy,
basta para desintegrarlo.[...]Derivo de antemano esta conclusión: la vida es
demasiado pobre para no ser también inmortal. Pero ni siquiera tenemos la
seguridad de nuestra pobreza, puesto que el tiempo, fácilmente refutable en lo
40
Idem, p.170.

25
sensitivo, no lo es también en lo intelectual, de cuya esencia parece inseparable el
concepto de sucesión. Quede pues en anécdota emocional la vislumbrada idea y en
la confesa irresolución de esta hoja el momento verdadero de éxtasis y la
insinuación posible de eternidad de que esa noche no me fue avara.” 41

Com esse pequeno conto Borges encerra o artigo A, dando início, então, ao artigo
B, que possui uma estrutura análoga ao primeiro, pois também parte da comparação
entre Berkeley e Hume. O primeiro que nega a matéria e o segundo que nega o espírito,
para com os mesmo argumentos idealistas alcançar a sua negação do tempo, que não
existe “fora do instante presente”.
No entanto, agora nesse segundo artigo os exemplos que utiliza têm uma origem
oriental. Apresenta primeiro o provérbio chinês, que retrata o sonho de Chuang Tzu, que
sonhou que era uma mariposa que voava e que não sabia da existência de Chuang Tzu.
Para Borges este é um exemplo de que, no momento do sonho, não só o corpo de
Chuang Tzu (matéria) não existia, como afirmaria Berkeley, como também, afirmaria
Hume, neste momento o espírito (consciência) de Chuang Tzu não existiria, ou seja,
“não há outra realidade para os idealistas, que a dos processos mentais.” Dizer que cada
estado psíquico é autônomo e independente, para Borges, significa dizer que, também,
este sonho tampouco existiu no tempo, ou seja, “a fixação cronológica de um evento, de
qualquer evento da órbita, é estranha e a ele exterior” 42. No momento do sonho, tudo o
que existe é uma mariposa que voa sobre um jardim sem tempo.
Negar o tempo resulta, pois, em duas negações: “negar a sucessão dos termos de
uma série e negar o sincronismo dos termos de duas séries”. Com efeito, negar a
sucessão e a simultanidade significa dizer que cada termo da série é absoluto e que suas
relações se reduzem à consciência de que essas relações existem, já que as relações são
extrínsecas aos termos. Contrariando as visões de Schopenahuer e Newton, Borges
afirma que cada fração de tempo não completa simultaneamente o espaço inteiro,
porque o tempo não é ubíquo, ou seja, não existe, assim como, nesta concepção, neste
labirinto, o espaço também não existe.
O literato nos chama a atenção para o caráter ambíguo da negação do tempo,
pois pode significar tanto a eternidade de Platão ou de Boécio, como os dilemas de
Sexto Empírico, que nega o passado que já foi, e o futuro que ainda não é e argumenta
que o presente deve ser pensado como divisível ou indivisível. No entanto, não é
indivisível, pois em tal caso não teria um princípio que o vincularia ao passado nem um

41
Idem, p.174.
42
Idem, p.179.

26
fim que o vincularia ao futuro, nem sequer meio, porque não tem meio o que carece de
princípio e de fim; tampouco é divisível, pois em tal caso constaria de uma parte que foi
e de outra que não é.
Tal raciocínio resulta na afirmação de que o presente não existe, como tampouco
existem o passado e o porvir. Encontramos também essa afirmação em Bradley, que
observou que “se o agora é divisível em outros agoras, não é menos complicado que o
tempo, e se é indivisível, o tempo é uma mera relação entre coisas intemporais.”
Enquanto todos os filósofos negam as partes para negar o todo, Borges nega o todo, o
labirinto do tempo, para negar suas partes: passado, presente e futuro.
Borges conclui, neste artigo B, a dialética de Berkeley e Hume com uma
passagem de Schopenhauer, onde o filósofo afirma que a realidade da vontade se dá
somente no presente, não no passado nem no futuro, e a ilustra novamente com um
texto oriental, extraído de um tratado budista do século V:

“El hombre de un momento pretérito — nos advierte el Camino de la pureza —


ha vivido, pero no vive ni vivirá; el hombre de un momento futuro vivirá, pero no
ha vivido ni vive; el hombre del momento presente vive, pero no ha vivido ni
vivirá.” 43

As consequências de sua refutação são fatais para os conceitos de identidade,


memória, história universal e pessoal. O mundo que se sustenta de pé, uma vez aceitos
os argumentos de Borges, é um mundo sem o eu, sem matéria, sem realidade sensível,
um mundo sem sucessão nem simultaneidade, um mundo que é puro presente, pura
ação, puro acontecimento.
Borges consegue refutar o tempo através de uma apropriação singular dos
argumentos de Hume e Berkeley, pois manipula e provoca uma torção em seus
conceitos para poder aproveitá-los. Entretanto, o conceito que o literato refuta é o de um
tempo espacializado, linear e sucessivo, o tempo empírico do senso comum. Tal
pensamento aproxima o literato do filósofo Bergson, que também se dedicou a criticar
esse tempo mundano, esse tempo como translação, esse tempo abstrato das ciências,
afirmando que só há o presente que é constantemente recordado. Para o filósofo, o
tempo consiste na experiência que se vivencia, não quantitativamente, na soma de
momentos em uma sequência linear, mas qualitativamente, na consciência daquele que
vive tais momentos, o tempo é, pois, a duração de uma experiência presente: “Há só um
Tempo real e os outros são fictícios. Que é em efeito um Tempo real senão um tempo

43
Idem, p.181.

27
vivido ou que poderia ser? Que é um Tempo irreal, auxiliar, fictício, senão aquele que
não poderia ser vivido efetivamente por nada nem por ninguém?” 44
Borges nos fala do instante, um instante que está presente em todos os pontos do
universo e não pode ser localizado em nenhum tempo, em nenhum espaço. A eternidade
não pode mais ser pensada do ponto de vista de uma entidade singular, transcendente,
ideal, já que o que sucede e o eu são um e o mesmo. Somos nossas ações, no aqui e
agora. Este é nosso presente, que é tudo o que existe.
O autor conclui que toda negação do tempo, do eu e da matéria são
“desesperações aparentes”, pois parece que ninguém pode duvidar sinceramente que
essas coisas existam – nossa linguagem as supõe, assim como o título nova refutação do
tempo pressupõe ou afirma essa ineludível dimensão temporal, que talvez deslize por
toda a nossa linguagem – por outro lado, a mencionada negação é também um “consolo
secreto”, porque sua possibilidade nos permite imaginar que certos “limites da
existência humana (como ser sempre uma coisa e já não poder ser todas as outras, como
viver sempre em um tempo e não poder viver em todos os tempos), não são reais”.
Podemos ser e não ser, contrariando assim a máxima parmenídica, já que tempo e
espaço não existem para limitar a potência de ser.
Borges conclui, com belíssimas palavras, a parte B voltando à idéia da epígrafe da
parte A (“Antes de mim não havia tempo, depois de mim não haverá nenhum. Comigo se
concebe, comigo sucumbirá também.”):

“El tiempo es la sustancia de que estoy hecho. El tiempo es un río que me


arrebata, pero yo soy el río; es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre; es un
fuego que me consume, pero yo soy el fuego. El mundo, desgraciadamente, es real;
yo, desgraciadamente, soy Borges.” 45

Somos o presente, que é a nossa própria história, e o presente é toda a história


universal, podemos dizer, por tanto, que somos a própria história, somos o próprio
tempo. Borges nos converte no tempo, somos nossas ações presentes e esta é nossa
única identidade, desta lógica deriva uma crítica aos limites do pensamento metódico da
lógica tradicional, do pensamento da verdade, ordoxo e racional. O literto desordena
nossas percepções, o falso passa a ser verdadeiro e o outro passa a ser o mesmo, tudo
em nome de um pensamento criador que aposta na diferença e que exije a concepção de
um outro tempo.
Análogo ao início é o modo como encerra sua refutação, o labirinto termina em
44
BERGSON, Henri. Mélanges. Paris: PUF, 1972, p.130.
45
Obras Completas, Vol.II. Emecé Editores, Buenos Aires, 2007, p.181.

28
sua própria porta, pois Borges encerra seu texto com a epígrafe de outro místico alemão,
Angelus Silesius, que mais uma vez ilustra o trabalho labiríntico, plural, complexo
desse pensador que foi Borges: “Já basta amigo. Se queres seguir lendo, transforma-te
46
tu mesmo no livro e na doutrina.” Ler Borges é, portanto, ser Borges, refutar o tempo
é, neste sentido, transformar-se nele.

46
Tradução da autora.

29
Considerações finais

De que tempo, ou melhor, de que tempos nos fala Borges? Quais são os labirintos
que surgem da reflexão sobre o tempo? Qual é o tempo que Borges pretende refutar?
Estas são algumas das perguntas-problemas que desencadearam o presente estudo. A
partir destas questões buscamos alguns textos onde podemos reconhecer em que
território de pensamento habita a literatura labiríntica, plural e complexa deste argentino
que sempre buscou dialogar com a filosofia, apoiando-se em determinados sistemas,
como os de Hume, Berkeley, Schopenhauer, Nietszche, entre outros.
Vimos como, no texto Historia de la Eternidad, o literato assinala que o enigma
da eternidade está por trás do enigma do tempo, ou que para compreender o tempo é
necessário recorrer o labirinto da eternidade. Nesse trabalho, o literato apresenta uma
eternidade que se manifesta através de uma experiência sensível, que nos possibilita
escapar de um tempo sucessivo, pois a partir dela vivenciamos a simultaneidade do
passado e do presente através de uma memória involuntária. Apresenta-nos um tempo
puro, simultâneo, que ao ser percebido gera um sentimento tão intenso que chega a ser
comparado com a morte; um sentimento de êxtase, que o faz sentir-se como um
espectador abstrato do mundo; um sentimento alegre, que nos faz sentir
momentaneamente imortais.
No labirinto da eternidade, onde um tempo puro liberto da ordem cronológica,
está em questão, Borges se encontra com Bergson, embora se separem em dado
momento, pois o tempo do filósofo não tem relação com espaço. No entanto, vimos que
Proust caminha à frente de Borges neste labirinto, pois em sua obra também se refere a
uma eternidade dentro do tempo, que pode ser vivida, mesmo que momentaneamente,
através de uma impressão sensível.
O segundo texto que analisamos, La doctrina de los ciclos, apresenta o Eterno
Retorno de Nietzsche, um Eterno Retorno que requer um tempo infinito, mas uma
quantidade de matéria, espaço, ou, nas palavras de Nietzsche, forças finitas. Uma
eternidade que descansa num tempo circular, onde o que haveria é a eterna repetição do
mesmo. Vimos como Borges desenvolve uma crítica à eternidade nietzscheana baseada
em argumentos físicos e matemáticos, partindo das teorias atomistas, passando pelas
teses de Cantor, até chegar à teoria da entropia, que proclama a morte do mundo e o fim
do tempo.
Descrente das próprias conclusões a que chega, Borges insiste mais uma vez no

30
labirinto do Eterno Retorno e, no texto El Tiempo Circular, nos apresenta outros eternos
retornos. Encontra no filósofo Blanqui a formulação mais adequada, que lhe permite
reivindicar a univocidade do presente e a esta idéia agrega as idéias de Schopenhauer e
Marco Aurélio, que afirmam o presente e nada mais. Já que o “presente é de todos”,
como nos mostra Borges, morrer é apenas perder o presente, que “é um lapso
brevíssimo”. Este instante presente e eterno une todos os homens em um mundo sem
um Deus depositário do ser em si mesmo, um mundo sem transcendência, um mundo
inspirado na ética nietzschiana que nos convida a viver o hoje, a “querer a vida a cada
instante, em toda a sua intensidade” 47. Deste mesmo mundo participa Borges, que para
além das críticas, encontra sempre em Nietzsche seu principal precursor, ainda que
algumas vezes tenha que inventar seu próprio Nietzsche.
Nos três textos, Borges nos oferece um tempo passível de múltiplas
interpretações, das mais diversas visões. Trabalhando sempre com alternativas ao tempo
empírico, sucessivo, cronológico afirma a multiplicidade do tempo, um tempo caótico
que se apresenta de forma labiríntica, labirintos que não são circulares, pois Borges, tal
como Deleuze, não simpatiza com a idéia de circularidade, como podemos perceber na
crítica que faz à circularidade de Nietzsche. Ambos criticam a idéia de um tempo
circular, “reconciliado consigo mesmo, que se movimenta de maneira orientada” 48. A
Eternidade e o Eterno Retorno são, pois, labirintos lineares que não se voltam sobre si
mesmos e estão sempre abertos em um horizonte caótico de possibilidades, em outras
palavras, labirintos que são uma única linha reta, que são invisíveis e incessantes como
os paradoxos de Zenão, que Borges sempre admirou.
No quarto e último texto, Nueva refutación del tiempo, vimos como Borges tenta
“vencer o último reduto da realidade que não foi submetido ao império da idéia dentro
das demonstrações de Berkeley e Hume” 49, como tenta destruir esse labirinto que é a
50
“sua mais perdurável obsessão metafísica” ,utilizando argumentos puramente
idealistas, para que nenhum outro filósofo venha a se perder. Apesar de não refutar
totalmente o conceito, o literato desenvolve sua mais potente crítica ao tempo como
uma sequência de instantes linear. Para esse labirinto mundano sucessivo Borges aponta
sua verdadeita crítica. Nessa refutação lhe acompanham Schopenhauer, Nietzsche,
47
MACHADO, Roberto. Zaratustra, tragédia nietzschiana. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997,
p.135.
48
MARCHESINI, Paula. Borges, Deleuze e o tempo. In. Revista Escrita - Fascículo nº 8, 2007, p. 4
49
JOZEF, Bella. Borges e o ensaio, para uma literatura da inteligência. In.: Anales de literatura
Hispanoamericana, nº 28, Editora Complutense, Madrid, 1999, p. 825.
50
MONEGAL, Emir R. Borges: uma poética da leitura. Editora Perspectiva. São Paulo, 1980, p. 85.

31
Bergson, Deleuze e todos aqueles que questionaram a maneira tradicional e dogmática
com que o senso comum lida com o tempo.
O pensamento de Schopenhauer é, para Borges, uma das poucas coisas dignas de
memória51, tal pensamento determinou “a concepção puramente idealista com que
Borges enfrenta o mundo”,52 que é puro presente. A circularidade de Nietzsche foi
53
criticada, mas sua ética “propriamente trágica, como afirmação integral da vida”
permanece de pé. Bergson como principal defensor do tempo puro simultâneo – onde
passado, presente e futuro coexistem, tornando-se quase indiscerníveis no âmbito da
virtualidade – encontraria ressonâncias de seu pensamento se tivesse tido acesso à
refutação de Borges. E Deleuze, filósofo contemporâneo, leitor de Borges, se maravilha
com o tempo múltiplo, labiríntico e complexo defendido pelo literato, pois também
empreende uma critica ao tempo da Representação, do Mesmo, defendendo um tempo
múltiplo no plano das coexistências virtuais.
A relação de Borges com a filosofia é inegável. No epílogo a Otras inquisiciones
(1952), ele explica que tende “a estimar as idéias religiosas ou filosóficas por seu valor
estético e ainda pelo que guardam de singular ou maravilhoso”. 54 Arte e filosofia se
encontram na literatura de Borges, com seus próprios métodos. O literato-pensador, o
artista-filósofo, converte conceitos em labirintos, filósofos em personagens. No leitor
passam a conviver Shakespeare e Kafka, Platão e Proust, ao ler Borges somos nós
mesmos Borges, assim como Borges se converte para nós em todos os filósofos que leu.

51
“Epílogo” In.: El Hacedor. Obras Completas, Vol.II. Emecé Editores, Buenos Aires, 2007, p.272.
52
JOZEF, Bella. Borges e o ensaio, para uma literatura da inteligência. In.: Anales de literatura
Hispanoamericana, nº 28, Editora Complutense, Madrid, 1999, p. 825.
53
MACHADO, Roberto. Zaratustra, tragédia nietzschiana. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997,
p.146.
54
Obras Completas, Vol.II. Emecé Editores, Buenos Aires, 2007, p.185.

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