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CURSO – CARREIRAS JURÍDICAS Nº 61

DATA – 04/05/2017

DISCIPLINA – DIREITO CONSTITUCIONAL

PROFESSOR – PAULO NASSER

MONITORA – MARCELA RAGE

AULA 03 TURNO: MANHÃ

Ementa

Na aula de hoje serão tratados os seguintes pontos:

 Constituição de 1988: Dos Princípios Fundamentais


 Direitos e Garantias Fundamentais

 CONTEXTUALIZAÇÃO

Na aula passada estudamos a estrutura dos princípios fundamentais no Brasil.

Na aula de hoje, antes de adentrar nos Direitos Fundamentais, iremos concluir alguns tópicos
sobre os princípios fundamentais na Constituição de 1988.

 CONTINUAÇÃO

CONSTITUIÇÃO DE 1988
TÍTULO I - DOS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

 Princípio Federativo: o federalismo é forma de Estado protegida como cláusula pétrea.


Observe que o sistema presidencialista e a República não são cláusulas pétreas.

O princípio federativo foi construído junto com o princípio republicano, com a Constituição
de 1891. Nesse momento o modelo imperial estava sendo desconstruído  Estado
unitário, monárquico, parlamentarista. Assim, foi construído o contrário:

- Unitário  Federal
- Monárquico  Republicano
- Parlamentarista  Presidencialista

O papel do federalismo é de descentralização de poder e de garantia de autonomia. O


Município como ente federativo é fenômeno que existe somente no Brasil.

Art. 18: os entes federativos gozam de autonomia.

Art. 18. A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil


compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos
autônomos, nos termos desta Constituição.
A República Federativa do Brasil detém soberania.

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos


Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de
Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;

O federalismo nasceu nos Estados Unidos. Com a independência das 13 colônias surgiram
13 Estados independentes (elementos de Estado: povo, território e soberania). Só que
esses Estados perceberam que eles venceram a guerra contra a Inglaterra porque lutaram
juntos. Então, os colonos decidiram se unir em Confederação.
Característica da Confederação: todos os Estados mantêm seus Estados
constitutivos.
Problema do Estado Confederado: qualquer um dos Estados caso não aceite a
posição da Confederação pode pedir para sair. Isso fragilizava muito as decisões da
Confederação.
Diante disso, imaginou-se a possibilidade de reunir esses 13 Estados em um
grande e único Estado. Para isso, cada Estado deveria abrir mão de um elemento
constitutivo: soberania. A União, ente que passaria a ter soberania, só poderia fazer aquilo
que fosse atribuído a ela de maneira taxativa pelos Estados. Então, os Estados trocaram a
soberania por grande autonomia.
O documento que une os Estados e traz esse rol de atribuições da União chama-se
Constituição. Base do federalismo: rol exaustivo de atribuições da União e todo o resto
cabendo aos Estados, bem como a impossibilidade de secessão.

No Brasil, até 1988 os Municípios eram repartições administrativas do Estado. Na nossa


regra federativa atual, pós 1988, os Municípios também são entes federativos. Existe rol
taxativo de atribuições para a União e os Municípios, cabendo aos Estados competências
residuais. Depois de 1988 os Estados se enfraqueceram ainda mais, tiveram suas
competências suprimidas.

 Características do federalismo:

- Descentralização política;

*O Professor defende a federalização do ensino público básico. Padronizar o ensino em


todo o território, porque existe grande discrepância entre escolas municipais, de acordo
com o tamanho/riqueza dos Municípios, e escolas estaduais, haja vista o déficit econômico
enfrentado pelos Estados.

O critério adotado para separar as competências entre os entes foi a ponderação entre os
interesses e o ente administrativo. Princípio da Primazia de Interesses:

>Interesse nacional  União


>Interesse regional  Estados
>Interesse local  Municípios

- Repartição de competências: definidas pela Constituição.

Ex.: lei federal obriga a fazer determinada coisa; lei municipal obriga a não fazer
determinada coisa. Qual lei cumprir? Primeiramente tem que indagar qual o assunto que a
lei discute, para verificar a quem compete tratar desse assunto. Se houver conflito
federativo é porque algum ente federativo invadiu a competência do outro. Tais conflitos
são meramente aparentes, porque na verdade o que ocorre é invasão de competência.

Não existe hierarquia entre os entes da federação.


- Constituição como base jurídica;

- Inexistência do Direito de secessão: modelo em que não se admite a separação.

- Soberania do Estado Federal: República Federativa do Brasil.

- Auto Organização dos Estados Membros: autorregular e auto administrar.

- Tribunal Guardião da Constituição;

- Repartição de Receitas: por meio de capacidade tributária, em que cada um dos entes
possui competência para estabelecer impostos.

- Inexistência de hierarquia entre os entes federativos.

*Dentro da lógica do federalismo, o Senado Federal defende os interesses dos Estados da


federação. Dessa forma, não é possível em eventual reforma política acabar com o
Senado, pois isso impacta o modelo federativo de Estado. Assim, ao falar em federação
significa falar não somente nas regras do federalismo em si, mas sobre tudo que com ele
se relaciona.

 Princípio Republicano: fruto da Revolução Francesa. O símbolo mundial da República é


uma mulher, revolucionária francesa, que usa uma coroa de louros que significa vitória.

A República construiu um modelo de governo que não tinha um líder soberano. A


República pôs fim à relação de clero e nobreza.

O primeiro princípio decorrente da República é o princípio da igualdade (o Estado pertence


a todos).

Foro de prerrogativa de função (foro privilegiado) viola o princípio republicano? É algo


histórico que decorre do princípio monárquico imaginar que uns são melhores que os
outros. Quem defende a constitucionalidade do foro de prerrogativa de função parte do
princípio de que a prerrogativa não viola o modelo republicano, porque o foro privilegiado é
da função e não da pessoa. A finalidade da prerrogativa é proteger a função e não a
pessoa. Mas é uma excrecência. Isso só existe em países que já tiveram monarquia.

Aristóteles foi quem melhor falou sobre isonomia até hoje. Segundo Aristóteles, tratar com
a mesma medida todas as pessoas é tratá-las de forma desigual, porque as pessoas não
tem a mesma medida. Aristóteles usa a balança como ideia de isonomia. Isonomia é o
Estado com seu poder de império colocar peso no lado mais leve da balança para levar o
equilíbrio para a situação. Assim, isonomia significa tratamento na medida da
desigualdade.

>Isonomia formal: igualdade de regras independente das características.


>Isonomia material: dependendo das características e qualidades existem regras
diferentes para igualar.

Legislações que trazem a ideia de diferenciar para igualar  É possível em concurso


público diferenciar idade, sexo dos concorrentes.

Ex.: concurso para agente de penitenciária feminina – só mulheres podem se inscrever.


Ex.2: trabalho extenuante – pode limitar a idade.

O que faz com que a limitação seja adequada à diferenciação é a adoção do princípio da
razoabilidade. Nesse sentido, é razoável fixar altura mínima para policiais que fazem
policiamento ostensivo; mas não é razoável fixar altura mínima para policiais civis, que
fazem trabalho mais investigativo.

Sistema de cotas: perspectiva da isonomia material. A cota garante acesso àquele que não
teria acesso. O Estado tem que identificar as exclusões (fator discriminador) e criar cotas
para equilibrar/igualar/garantir o acesso.

TÍTULO II
DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS
CAPÍTULO I
DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes:

Os Direitos Fundamentais aplicam-se a quem? A todos – pessoas físicas, jurídicas, brasileiros ou


estrangeiros, sob a tutela jurisdicional brasileira.

O Direito não consagrou direitos aos animais, mas a tortura de animais é proibida. O Direito tenta
minimizar os impactos sobre os animais, não os titularizando de direitos, nem proibindo a sua
morte, mas minimizando o sofrimento.

Vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade é um rol exemplificativo. A Constituição tutela


a liberdade em todas as suas vertentes.

 Tutela ao Direito à Vida: não é apenas a vida biológica, mas a vida ligada à ideia de
dignidade da pessoa humana.

Dentro dessa perspectiva não se admite no Brasil nenhum tipo de pena de morte, só os
casos ressalvados no caso de guerra.

Também não se admite a eutanásia (alguém determinar a morte de outra pessoa). O


suicídio não é punível no Brasil, mas instigar ou ajudar alguém a se matar é crime. O
suicídio assistido é punido.

A discussão que se tem hoje é a ortotanásia, que é admitida pelo Conselho de Medicina e
praticada. A ortotanásia é decidir não estender a vida com medicamentos e tratamentos. A
pessoa só recebe o tratamento para evitar a dor e não para prolongar a vida.

 Liberdades:

o Intimidade: a intimidade é resguardada, mas nunca de forma absoluta, até porque


isso será ponderado com outros direitos. Os exemplos mais comuns são com as
pessoas públicas. Jurisprudência: se a pessoa estiver participando de um ato
público o jornal pode, em tese, divulgar a informação. O jornal não pode adentrar
locais privados (casa, por exemplo), nos quais a privacidade deve estar
resguardada.

Art. 5º. [...] X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das
pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente
de sua violação;

Ex.: caso da Malu Mader que recusou 10 milhões para posar nua para uma revista
especializada, por razões imateriais. Pouco tempo depois ela fez um filme com uma
cena de nudez. Um jornal do Rio congelou a imagem em vários ângulos e postou
no jornal de 0,50, que teve uma tiragem recorde. Ela ajuizou uma ação postulando
danos materiais, danos morais e direito de imagem. Ela ganhou todos os pedidos.

Sobre os direitos de imagem, esse caso serviu de lição para os meios de


comunicação, pois eles passaram a auditar as tiragens, por exemplo, 1000
exemplares toda semana, para que a pessoa noticiada não possa pedir direito de
imagem pelas vendas, já que a tiragem é padrão e se vendeu mais ou menos é
problema da revista/jornal.

Ex.: caso do Senador que foi fotografado com sua secretária saindo do Motel. Isso
virou notícia e ele ajuizou uma ação para impedir a vinculação da foto à sua
imagem. Ele ganhou a ação. O fundamento foi o seguinte: ele estava num lugar
público, mas a divulgação dessa informação dizia respeito a sua vida privada, não
possuindo nenhuma relevância sua divulgação pública para a sociedade. Se ele
fosse uma celebridade, a princípio não haveria problema na divulgação, por isso
essa decisão é interessante.

o Liberdade de informação: é livre a manifestação do pensamento, mas o anonimato


é vedado. O direito de resposta e a indenização são temerários no Brasil, porque o
dano nunca é reparado na medida em que foi causado nos meios de comunicação.

Art. 5º. [...] IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;


V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da
indenização por dano material, moral ou à imagem;

o O direito de não ser torturado é um direito fundamental absoluto, porque a própria


Constituição já ponderou esse direito (inciso III). Não há ponderação possível.

Art. 5º. [...] III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou
degradante;

Foi com base nessa regra que foi criada a Súmula Vinculante que limita o uso de
algemas no Brasil. A utilização da algema deve ser na perspectiva de resguardar a
segurança do preso e de quem o está prendendo. Não pode haver exploração
midiática do uso da algema.

Não precisa ser a algema em si, a questão é da imobilização. Por exemplo, pode
utilizar lacres de plástico.

o Liberdade Religiosa (inciso VI): ver art. 19, inciso I, que determina que o Brasil é
um Estado laico/não confessional/leigo.

Art. 5º. [...] VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo


assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a
proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o
funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de
dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse
público;

Estado laico: as decisões de Estado são desvinculadas de questões religiosas.


Mas, o Estado laico garante a manutenção de qualquer manifestação religiosa
(monoteísmo, politeísmo, ateísmo, por exemplo). É possível criar uma religião que
não existe. Mas as liturgias não podem violar direitos fundamentais.
O Supremo reconheceu a constitucionalidade do “Daime”, de uma religião do Norte
do país, que a pessoa ingere um líquido alucinógeno extraído de um cipó.

Contradição do Brasil: na nota de real está escrito “Deus seja louvado”; no STF tem
um crucifixo, que representa parte da religião cristã. Foi proposta ADPF para retirar
o crucifixo. O Supremo falou que não, justificando que o crucifixo não era um
símbolo religioso, mas um ornamento. A religião é um tabu social no Brasil, as
pessoas tem medo do diabo (risos). Existem feriados católicos no calendário oficial.

Art. 210, §1º: é possível ensino religioso em escola pública no Brasil? Sim, é de
matrícula facultativa. Qual o conteúdo ministrado nessa aula? Na prática quem dá a
aula religiosa é padre e pastor, isso viola o Estado laico.

O papel constitucional do ensino religioso é dar ensinamento humanístico, para que


as pessoas entendam que não existe uma religião melhor do que a outra, nem uma
que leva para o céu e outra para o inferno. A finalidade constitucional da norma é
garantir a convivência social e civilizada entre as pessoas. Essa aula deveria ser
dada por um professor de filosofia ou de história, para levar conscientização às
pessoas e ensinamento humanístico, o que não ocorre na prática.

Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira
a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos,
nacionais e regionais.
§ 1º O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários
normais das escolas públicas de ensino fundamental.

É possível sim manter o Estado laico das questões religiosas, mas no Brasil isso
não acontece na realidade, a religião é uma questão cultural.

 PRÓXIMA AULA

Continuação sobre os Direitos Fundamentais.