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O CAPITÃO LIVRÃO

PERSONAGENS:

MARTINICA – a menina

CASSIANO – o menino

CAPITÃO LIVRÃO – o livro super-herói

GAME OVER – o videogame vilão

CLARA VIVA – o celular “menina”

CENÁRIO: BIBLIOTECA ESCOLAR

NARRADOR– Era uma vez uma escola onde estudava um menino muito inteligente, chamado
Cassiano. (ENTRA CASSIANO, SENTANDO-SE E LENDO LIVROS) É um garoto muito estudioso e
esperto. Tira sempre as melhores notas, pois sempre freqüenta a biblioteca da escola. Lê todos os
livros que pode, porque neles, Cassiano viajava para um mundo fantástico, repleto de alegria e
diversão. Claro, ele também encontra um tempinho para brincar, soltar pipa e jogar bola. E dizem por
aí que tem uma menina muito bonita que anda paquerando o menino... (ENTRA MARTINICA)

MARTINICA- Não espalha que eu fico com vergonha!

NARRAÇÃO- Mas a menina tem um sério problema, que pode impedir que Cassiano goste dela...

MARTINICA- Você é um cara muito chato, hein?

NARRAÇÃO- Ela odeia ler e estudar!

MARTINICA- Isso é “pobrema” meu!

NARRAÇÃO- Problema, problema! Por isso que a chamam por aí de Martinica Burrica!

MARTINICA- Cala a boca, odeio esse apelido!

MARTINICA (APROXIMANDO-SE DE CASSIANO) - Oi, Cassiano! Tudo bem com você?

CASSIANO- Tudo bem, Martinica.


MARTINICA- O que você está fazendo nessa biblioteca chata?

CASSIANO- Estou estudando para o trabalho de ciências e aqui não é lugar chato, saiba você.

MARTINICA- É muito chato. Ninguém fala, não se pode ouvir música e tem um monte de livro
empoeirado. Ninguém merece!

CASSIANO- Você está errada, Martinica. Estudar é muito importante para o nosso futuro.

MARTINICA- Não preciso me preocupar com futuro. Meu pai é muito rico.

CASSIANO- E, mesmo sendo rica, você acha bonito todo mundo te chamar de Martinica Burrica?

MARTINICA- Todo mundo tem inveja de mim. Eu nem ligo.

CASSIANO- Se fosse eu, teria muita vergonha de escrever e falar errado como você.

MARTINICA- Cassiano: tem muitas “coisa” melhor pra “mim” fazer do que ficar lendo livro, ta bom!

CASSIANO- Viu? Falou errado de novo. O certo é: “muitas coisas para eu fazer”.

MARTINICA- Você é muito bobo. Legal de se fazer é jogar videogame, ficar batendo papo no
celular, dançar, ir no shopping...

CASSIANO- A gente não precisa deixar de estudar para fazer isso tudo, Martinica.

MARTINICA- Ah, vamos mudar de papo, essa conversa está muito chata. (ENVERGONHADA)
Cassiano, a Ritinha te entregou a minha carta?

CASSIANO- Entregou sim, Martinica...

MARTINICA- E você leu? O que achou? Qual a tua resposta? (RINDO)

CASSIANO- Fiquei quase a tarde inteira tentando entender o que você escreveu, Martinica...

MARTINICA- Por quê? (ENVERGONHADA) Era muito romântica? (RI)

CASSIANO- Não. É porque não tinha vírgula, ponto e quase todas as palavras estavam escritas
erradas.

MARTINICA-(DESCONVERSANDO) Ah, esqueça a carta, Cassiano! Mas, me responda: você


também gosta de mim?

CASSIANO- Gosto sim. Mas não dá pra namorar uma menina assim como você, Martinica.

MARTINICA (TRISTE)- Por quê, Cassiano? Eu sou rica, bonita...


CASSIANO- Você acha que ser rica e bonita é tudo na vida, né? Pois aprendi uma palavra no
dicionário ontem: conteúdo. Você não tem conteúdo, Martinica. Mas, se quiser, ainda é tempo de
mudar. Eu posso te ajudar.

MARTINICA (IRRITADA)- Sabe de uma coisa? Você é um mala sem alça muito chato! Eu é que não
quero namorar um garoto “ensoportável” como você.

CASSIANO- Tenho que ir, Martinica. O sinal já vai bater, está na hora da saída. E não é
“ensoportável”, é insuportável. Tchau!

MARTINICA (AO PÚBLICO) Droga, o Cassiano não gosta de mim, só porque eu não tenho o tal do
“contemudo”. Mas esse papo de estudo, de livro, é muito chato. Pra mim, escola é só pra paquerar
os meninos e fazer fofoca com as amigas. E também, acho que não dá tempo de deixar de ser
burrica. (SENTA ONDE ESTAVA CASSIANO E ABRE UM LIVRO) Não sei o que eu faço, quem
poderá me ajudar ???

(EFEITOS SONOROS: EXPLOSÃO) (MÚSICA TEMA DO CAPITÃO LIVRÃO) (ENTRA EM CENA O


CAPITÃO LIVRÃO)

CAPITÃO LIVRÃO- Capitão Livrão, o Sabidão entrando em ação !!!!!! O defensor das letras, das
concordâncias e da pontuação!

CAPITÃO LIVRÃO- Muito bem! A quem preciso ajudar?

MARTINICA- Não sei o que é você. Mas ninguém te chamou aqui.

CAPITÃO LIVRÃO- Pelo visto, tem alguém por aqui que está envergonhada em pedir ajuda ao
Capitão Livrão?

MARTINICA- “Daonde” você saiu, hein?

CAPITÃO LIVRÃO- Nossa! Já começou a me ofender! Não é “daonde”, menina. É de onde! Acho
que já identifiquei minha pupila dessa missão!

MARTINICA- Não me chamo pupila, me chamo Martinica!

CAPITÃO LIVRÃO- Realmente, terei muita coisa para te explicar, menina. Aliás, meu
supercomputador está processando a origem do seu nome. Vejamos, vejamos... (EFEITOS
SONOROS) A Martinica é uma pequena ilha do Caribe, colônia francesa nas Caraíbas, com
fronteiras marítimas com a Dominica, a noroeste, e com Santa Lúcia, a sul. Capital: Port-de-France.
Informação processada. Só não entendo porque seus pais te deram esse nome tão singular.

MARTINICA- Meu pai falou que eu fui feita quando ele estava em lua-de-mel com minha mãe nessa
ilha. Então, me deu esse nome horrível. Mas como é que você consegue guardar tudo isso na
cabeça ? Só de ouvir eu já fiquei tonta.
CAPITÃO LIVRÃO- Muita leitura e adição de informações relevantes e irrelevantes, dependendo da
necessidade de cada momento. Mas, como eu não quero me tornar prolixo, teremos de analisar o
seus problemas culturais. Podemos começar ?

MARTINICA- Você fala muito difícil e enrolado. Aliás, até agora não me respondeu daonde, quer
dizer, de onde você veio.

CAPITÃO LIVRÃO- Pelo visto, já estamos evoluindo... Tudo bem, Martinica, vou te contar de onde
eu saí. Eu moro naquela estante.

MARTINICA- Nunca vi ninguém morar em estante.

CAPITÃO LIVRÃO- Aliás, não moro só naquela estante. Moro em todas as estantes.

MARTINICA- Você mora em todas as estantes da biblioteca ?

CAPITÃO LIVRÃO- Não só desta biblioteca, mas de todas as bibliotecas do mundo. Não só nas
bibliotecas, mas em todas as salas, quartos e cômodos em que me guardam. Muitas das vezes sou
velho, empoeirado, amarelado e sujo. Infelizmente também me rasgam, me queimam e me deixam
ser devorado pelas traças. Mas quando precisam de mim, como você, transformo-me no super herói
mais poderoso do planeta: Capitão Livrão, o Sabidão. Tenho múltiplas facetas, menina: posso ser
um livro didático, um romance, uma biografia ou um dicionário. Posso ser grande, ou um minúsculo
livro de bolso. Posso conter histórias para adultos, ou ser um divertido e colorido livro infantil. Posso
ser um livro de fé: uma bíblia, um alcorão ou um tora. Posso ter só letras, ou figuras também. Posso
ser escrito em português, inglês, espanhol, francês ou até japonês. Posso ser um “best seller” ou um
esquecido livro de um autor desconhecido. Posso ser caro, barato ou gratuito, como nas bibliotecas.
Posso ensinar para quem sabe muito, para quem sabe pouco ou para quem sabe nada. Posso ser
bem velhinho, raro ou novinho, recém saído da editora. Este sou eu, o Livro. Mas conhecido como
Capitão Livrão, o Sabidão. Compreendeu agora ?

MARTINICA- Nossa, que confusão ! Mas como um livro pode ter vida e falar comigo ?

CAPITÃO LIVRÃO- É muito simples, menina ! Basta abri-lo, como fez comigo hoje. Mas creio que
não temos muito tempo a perder, não é. Preciso começar minha missão contigo.

MARTINICA- Seu papo é tão chatinho, Capitão Livrão ! Tenho mais o que fazer do que ficar dando
idéia para um livro metido à sabe-tudo !

CAPITÃO LIVRÃO- Pois não, você é quem sabe. O Capitão Livrão não obriga ninguém a fazer o
que não quer. Ler deve ser sempre um prazer, não um dever. Portanto, vou me recolher à estante e
aguardar que uma criança precise de meus serviços. Esperar alguém que necessite de conteúdo.
(VAI SAINDO DE CENA, ATÉ QUE É IMPEDIDO POR MARTINICA)

MARTINICA- O que o senhor disse ?

CAPITÃO LIVRÃO- Disse o quê ?


MARTINICA- Essa última palavra estranha: “contemudo”...

CAPITÃO LIVRÃO- Quis dizer, “conteúdo” ?

MARTINICA- O que é isso ?

CAPITÃO LIVRÃO- Supercomputador processando solicitação... (EFEITOS SONOROS) do


Latim contenutu; o que está contido em alguma coisa; teor; significado; Exemplo: o conteúdo de uma
garrafa pode ser água, refrigerante ou qualquer outro líquido. Já o conteúdo de um ser humano,
falando de forma figurada, são os valores, os sentimentos e os conhecimentos que têm dentro de si.
E um livro pode proporcionar um enorme conteúdo às pessoas. Compreendeu?

MARTINICA- O Cassiano me disse que preciso de conteúdo.

CAPITÃO LIVRÃO- Quem é Cassiano?

MARTINICA- O menino que eu gosto.

CAPITÃO LIVRÃO- Hunnn... nada melhor que um grande amor para fazermos grandes mudanças
em nossas vidas... Então ele te disse que precisa de conteúdo, não é?

MARTINICA- Ele disse que só vai gostar de mim se eu estudar e ler.

CAPITÃO LIVRÃO- Dá para se ver que é um bom menino e que possui bons sentimentos por você,
Martinica. Então eu te ajudarei a conquistá-lo, menina!

MARTINICA- Verdade, Capitão ??? E como fará isso?

CAPITÃO LIVRÃO- Vamos precisar de um trabalho intensivo. Mas antes, responda-me algumas
perguntas, para que possa fazer uma avaliação melhor sobre suas necessidades: qual a sua idade?

MARTINICA- Nove anos.

CAPITÃO LIVRÃO- Quantos livros já leu?

MARTINICA- Nenhum.

CAPITÃO LIVRÃO- É boa em Português?

MARTINICA- Não.

CAPITÃO LIVRÃO- Ciências, Matemática?

MARTINICA- Não.

CAPITÃO LIVRÃO- História, Geografia?


MARTINICA- Também não.

CAPITÃO LIVRÃO- É boa em quê, então?

MARTINICA- Sei jogar videogame muito bem e tenho todos os números dos celulares das minhas
amigas guardados na cabeça.

CAPITÃO LIVRÃO- Não sei se esse tipo de informação nos será útil, Martinica. Pelo visto, terei
muito trabalho com você.

MARTINICA- A gente “vamos” começar agora, Capitão Livrão?

CAPITÃO LIVRÃO (CAINDO NO CHÃO) - Ai, Ai !!!!!

MARTINICA- O senhor está passando mal?

CAPITÃO LIVRÃO- Estou quase morrendo! “A gente vamos” é demais pra mim, eu não agüento!

MARTINICA- Por quê? A gente não “vamos”, Capitão?

CAPITÃO LIVRÃO (GRITANDO)- Chega !!!!! Não me torture mais, Martinica: a gente não “fazemos
nada”, “não olhamos nada”, “não queremos nada”. O certo é “Nós vamos começar agora!”,
entendeu? Caso queira ser informal, coloquial, utilize “a gente” com o verbo sempre no singular.
Exemplo: “a gente vai”, “a gente gosta”, “a gente quer”. Captou a mensagem, menina?

MARTINICA- Captei, Capitão. A gente vai acabar se entendendo.

CAPITÃO LIVRÃO- Ufa! Vamos dar uma volta e começar nosso trabalho intensivo. Você será uma
menina de muito conteúdo, Martinica.

(MÚSICA DE SAÍDA) (MÚSICA DE SUSPENSE, COM EFEITOS SONOROS ELETRÔNICOS)


(ENTRA EM CENA “GAME OVER”, O VIDEOGAME)

GAME OVER- Chegou Game Over, o videogame mais amado do Brasil! Que droga! Estou desligado
há quase duas horas! A Martinica até agora não me tirou da bolsa! Preciso saber o que está
acontecendo, ela nunca me deixa desligado mais de quinze minutos. Principalmente agora, que
conseguimos mudar de fase. Deve ter acontecido alguma coisa e eu preciso saber! Sou o
companheiro número um dela, quem a diverte durante as aulas chatas dessa escola horrorosa.
Modéstia à parte, sou um videogame de última geração: tenho qualidade digital de som e imagem,
tela plana e sou portátil, podendo ser transportado para todos os lugares. O sonho de consumo de
todas as crianças, mas sou para o bico de poucos e não admito ser esquecido no fundo de uma
mochila.

(VOLTAM MARTINICA E CAPITÃO LIVRÃO) (GAME OVER SE ESCONDE PARA OUVIR A


CONVERSA DOS DOIS)
MARTINICA- Até agora eu não entendi por que não se pode falar “boca dela”.

CAPITÃO LIVRÃO- Porque “boca dela” é um cacófono, som desagradável ou palavra obscena que
resulta da ligação das letras finais de uma palavra com as letras iniciais da palavra seguinte.
Portanto, ao invés de dizer “boca dela”, diga “sua boca”.

MARTINICA- Mas se eu falar da boca da mulher para o senhor e disser “sua boca”, o senhor vai
achar que é a sua.

CAPITÃO LIVRÃO(DESCONCERTADO)- Tem coisa que é melhor deixarmos pra lá, já que eu
mesmo não entendo direito.

MARTINICA- Já estou mudando minha opinião sobre o senhor. Não é tão chato quanto eu pensava.
Estou adorando ficar com conteúdo.

CAPITÃO LIVRÃO- Ainda falta bastante para atingirmos o objetivo, mas já estamos tendo grandes
progressos em pouco tempo.

MARTINICA- Será que o Cassiano vai gostar de mim?

CAPITÃO LIVRÃO- Menina, nós temos que gostar das pessoas do jeito que elas são. Todos nós
temos defeitos, até mesmo eu, que de vez em quando venho com algum erro de impressão ou
ortografia. Vou te fazer uma confidência: confesso que muitos de mim são bem fraquinhos, limitados,
chatos e não servem para muita coisa. Mas, o que importa é sempre melhorarmos, nos corrigirmos.
E isso está acontecendo com você, Martinica. Agora vamos estudar um pouco de Biologia perto das
árvores, pois elas serão muito úteis em seu aprendizado. (SAEM DE CENA) (GAME OVER SURGE,
IRRITADO)

GAME OVER- Não posso acreditar! Esse idiota está me tomando a Martinica Burrica! isso é uma
afronta! Um videogame de última geração como eu, sendo trocado por um livro velho e caquético!
Um monte de letrinhas entediantes, tirando a Martinica de um pacote de aventuras emocionantes em
3D, como eu! Mas não vou deixar isso, barato! Preciso fazer alguma coisa para impedir que esse
livro obsoleto continue conquistando a Martinica. Já pensaram? Numa tarde chuvosa, ao invés de se
deliciar com meus jogos, a Martinica Burrica deitar na cama e ler um livro completo? Não haverá
mais tempo para mim. Por isso, terei que agir o mais rápido possível. E já sei: vou pedir ajuda. Em
determinadas horas do jogo, dois rivais precisam se aliar para derrotar um inimigo comum. Por isso,
eu preciso enviar uma mensagem de texto para a baranga da Clara Viva. Aliás, se vocês não
sabem, também posso enviar e-mails e me conectar à internet banda larga. (GARGALHA) Eu sou
demais! É muita tecnologia junta num videogame só! (EFEITO SONORO DE CONEXÃO À
INTERNET) Deixem eu digitar a mensagem... Xiii, só sei escrever em inglês, já que sou importado.
Tomara que a Clara Viva entenda... “I’m download backup starting play setup upload delivery home
page !” Pronto, já enviei. Tomara que aquela burra rosada entenda, já que ela tem poucos kilobytes
na cabeça. (EFEITO: SOM DE CELULAR TOCANDO) Ela está vindo ! (ENTRA CLARA VIVA) (APÓS
O ÚLTIMO TOQUE, SURGIRÁ O EFEITO SONORO DA MENSAGEM DA CAIXA POSTAL DO
CELULAR)
CLARA VIVA- Ai, que saco ! Tenho que aturar esse videogame antipático novamente.

GAME OVER- Antipática é você, sua “celularzinha” fútil !

CLARA VIVA- Se não fosse para resgatar a Martinica Burrica, nem teria dado idéia à sua mensagem cretina.

GAME OVER- Você acha que é um prazer ficar a seu lado ? Um celular limitado, com uma cor ridícula e
desenho patético da “Hello Kitty” na cabeça ?

CLARA VIVA- Veja lá como fala comigo, seu brutamente asiático ! Sou um celular de ponta, dos mais caros
do mercado. Tenho toques polifônicos em mp3 (EFEITOS SONOROS DE TOQUES POLIFÔNICOS), tiro
fotos digitais e meu visor é super colorido. Além disso, gravo e reproduzo vídeos em alta resolução, tendo
conecção rápida e direta com a internet. Babou, filhinho ?

GAME OVER (GARGALHANDO IRONICAMENTE)- Ah, ah, ah ! Você é louca de se comparar comigo !
Sou infinitamente superior a você, querida. Tanto é que a Martinica Burrica só joga em você no game da
“cobrinha”, joguinho vagabundo que qualquer celular “tijolão” tem.

CLARA VIVA- Você é muito invejoso, Game Over ! Não se conforma com o fato de eu ter prioridade sobre
você. Quando eu toco, a Martinica Burrica te deixa pausado durante horas e horas, só para fazer fofocas com a
Ritinha. E, além do mais, não fui criada para jogos, eles são apenas mais um dos meus inúmeros acessórios. Fui
feita para conectar as pessoas, para encurtar as distâncias e para falar, falar e falar !

GAME OVER (VISIVELMENTE CONTRARIADO)- Chega desse assunto chato e vamos ao que realmente
interessa, já que não pretendo usufruir da tua presença insuportável durante muito tempo.

CLARA VIVA- Você é sutil como um elefante, Game Over. É terrível ter que me aliar a você.

GAME OVER- O fato é que temos um inimigo comum, poderosíssimo, que é capaz de conseguir o nosso
desligamento eterno. Criaremos teias de aranha e seremos jogados em uma caixa velha e empoeirada, na parte
de cima do armário do quarto. (CHORA)

CLARA VIVA (RINDO)- Não chore, Game Over. Senão você acaba tendo um curto circuito e explode !

GAME OVER- Você é uma insensível, Clara Viva ! Não respeita meus sentimentos !

CLARA VIVA- Meu querido: ela nunca irá me abandonar. Sou essencial, ao contrário de você.

GAME OVER- Acha isso mesmo ? Se ela ficar lendo o dia todo, você só será usada para chamadas
emergenciais de assuntos importantes. Nem cartão ela vai comprar mais para você, sua tolinha !

CLARA VIVA (ASSUSTADA)- Cruzes ! Isso seria uma tragédia ! Odeio ser usada para chamadas de
emergência e importantes ! E nunca fiquei sem créditos na vida ! Temos que destruir esse Capitão Livrão,
Game Over !
GAME OVER- Até que enfim a ficha caiu, sua “Barbie Girl pré-paga” ! Temos que bolar um plano para
acabar com esse livrinho metido.

CLARA VIVA- Que tal riscarmos um fósforo sobre ele ?

GAME OVER- Isso não, pois sou sensível ao calor. Se houver um incêndio aqui, meus circuitos pifam e eu já
saí da garantia.

CLARA VIVA- Verdade, também me darei mal: vou ficar fora de área pro resto da vida. E o que faremos então
?

GAME OVER- Temos que dar um sumiço nele, mas sem que a Martinica Burrica perceba. Ela pode se voltar
contra nós.

CLARA VIVA- Principalmente depois que lançaram aquela celularzinha baranga da “Timoia”. A mocréia é
mais evoluída do que eu: além de tudo que eu faço, ela ainda fala sozinha e faz as lições da escola. Qualquer dia
vão inventar uma que lava, passa e cozinha.

GAME OVER- Daqui a pouco ele estará voltando. Vamos então nos esconder e dar um fim naquele “nerd” do
século passado.

CLARA VIVA- Adoro aventuras !

GAME OVER- Mas se coloque para vibrar, pois teremos que pregar uma cilada nele. Não podemos fazer
barulho. Aquele sujeito é muito esperto, não será fácil enganá-lo.

CLARA VIVA (APERTANDO SEUS BOTÕES)- Pronto, já me programei para vibrar. Não farei barulho
algum.

GAME OVER- Ele está vindo, vamos nos esconder. (ESCONDEM-SE NO CENÁRIO)

(CAPITÃO LIVRÃO ENTRA EM CENA)

CAPITÃO LIVRÃO (AO PÚBLICO)- É impressionante: a Martinica é muito mais inteligente do que eu
pensava. Já está entendendo de quase todos os assuntos, é um fenômeno. É o que eu digo sempre: basta ler um
bom livro uma vez, para nunca mais querer outra coisa. Estou vindo aqui para pegar mais informações ainda,
pois a menina não pára de querer adquirir conhecimentos. Vocês estão estranhos, aconteceu alguma coisa por
aqui ?(NESSE MOMENTO, GAME OVER E CLARA VIVA ESTÃO AGITADOS, PEDINDO SILÊNCIO ÀS
CRIANÇAS)

CAPITÃO LIVRÃO- Não estou entendendo o que vocês estão dizendo, amiguinhos.

CLARA VIVA (SUSURRANDO)- Está chegando uma chamada, Game Over. Vou começar a vibrar !

GME OVER (COM UMA CORDA NA MÃO)- Segura tua onda, Clara Viva ! Ele não pode nos notar aqui,
temos que amarra-lo de surpresa !
CLARA VIVA (PULANDO)- Não consigo me controlar, Game Over ! Toda vez que vibro, eu sinto cócegas !
(CLARA VIVA PULA, SENDO CONTIDA POR GAME OVER, ENQUANTO CAPITÃO LIVRÃO LÊ UM
LIVRO)

GAME OVER (ABRAÇANDO CLARA VIVA)- Que coisa estressante essa vibração, até eu estou sentindo
cócegas !

CLARA VIVA- Daqui a pouco cai na caixa postal e pára essa aporrinhação ! (CLARA VIVA CESSA SEUS
PULSOS) (AMBAS RESPIRAM FUNDO, ALIVIADOS)

GAME OVER- Por isso que odeio celulares ! São sempre inconvenientes, tocam sempre na hora errada. Não
podemos perder tempo, Clara Viva. Vamos amarra-lo.

(SORRATEIRAMENTE, GAME OVER E CLARA VIVA APROXIMAM-SE POR TRÁS DO CAPITÃO


LIVRÃO) (JUNTOS, AMARRAM-NO COM A CORDA) (CAPITÃO LIVRÃO TENTA REAGIR, MAS NÃO
CONSEGUE)

CAPITÃO LIVRÃO- Solte-me ! Solte-me ! Quem são vocês, seus covardes agressores ???

GAME OVER- Somos o seu pior pesadelo, Capitão Livrão ! Nunca mais influenciará a Martinica Burrica com
seu papinho cabeça e politicamente correto.

CLARA VIVA (NERVOSA, SE DEBATENDO)- Game over, estou com problemas de novo ! Estão ligando
novamente !

GAME OVER- Quem é a mala impertinente que insiste em ligar ???

CLARA VIVA- A mesma de sempre: a fofoqueira da Ritinha ! Estou vendo no “bina” ! E o pior você não sabe,
Game Over !

GAME OVER- Tem coisa pior do que um celular vibrando ?

CLARA VIVA- Um celular desligando. A bateria está acabando !

GAME OVER- Por isso que odeio associar-me à mulheres, são sempre cheias de frescuras e probleminhas
femininos.

CLARA VIVA (TONTA, DESFALECENDO)- E o carregador ficou em casa...eu avisei à Martinica que só
estava com um pontinho. Adeus, Game Over... Adeus, Capitão Livrão... Vou adormecer dentro da minha
capinha de couro rosa... (SAI DE CENA, TONTA)

GAME OVER- Pelo visto, terei que acabar com você sozinho, Capitão Livrão !

CAPITÃO LIVRÃO- Por que tem tanto ódio em suas válvulas, Tele-Jogo ?
GAME OVER- Não sou TeleJogo, sou Game Over, o vídeogame ! E além do mais, não tenho válvulas em
meus circuitos. Tenho micro chips de última geração.

CAPITÃO LIVRÃO- Recuso-me a utilizar termos estrangeiros em meu vocabulário. Moramos no Brasil,
falamos Português. E para mim, você não passa de um “Atari” melhorado. O seu bisavô, a quem derrotei
diversas vezes na década de 80.

GAME OVER- Você é mais chato do que eu pensava, seu velho resmunguento. Por isso que terá um fim
doloroso e triste. Para nunca mais se meter na vida dos outros !

CAPITÃO LIVRÃO- Está com medo de competir de igual para igual comigo, pois sabe que sou muito mais
útil à vida da Martinica do que você.

GAME OVER- Você não se enxerga mesmo ? Olhe para mim, sou o futuro, o século 21. Ofereço todas os
opções de entretenimento que uma criança precisa.

CAPITÃO LIVRÃO- De certo, você é bem moderninho mesmo. Mas não possui nada que possa um dia
ajudar no futuro da menina. Não ensina, não ajuda, não auxilia. Ao contrário, você só aliena a coitadinha e
desperta sua agressividade com seus joguinhos violentos. Por sua causa, não se pula mais amarelinha, não se
brinca mais com bonecas, não se tem mais infância. Você induz as crianças a gostar de tiros, de armas, de
mortes.

GAME OVER- Belo discurso, Capitão Livrão. Mas, pela minha experiência em games violentos, o mocinho
não ganhará desta vez. E nesta fase, você só terá apenas uma vidinha, sem direito a bônus. “Game Over” pra
você, vou rasgar todas suas páginas amareladas. E seus amiguinhos então, serão condenados ao verdadeiro
lugar deles: o fundo esquecido de uma estante ! (GAME OVER AGARRA CAPITÃO LIVRÃO, SENDO
IMPEDIDO POR UM GRITO DE MARTINICA, QUE ENTRA EM CENA)

MARTINICA- Largue ele, Game Over !

GAME OVER- Não se meta nisso, Martinica Burrica !

MARTINICA- Não me chame mais assim, Game Over ! Não sou mais a Martinica burrica ! Agora eu leio,
adquiri cultura, aprendi a falar e escrever direito e tenho muito conteúdo. Não serei mais governada por você.

GAME OVER- Sempre achei você uma chatinha ! E além do mais, a jogadora mais fraquinha que já me usou !
Se quiser, poderá me desligar para sempre ! Só que antes, vou destruir todas as folhas desse Capitão Livrão !

CAPITÃO LIVRÃO- Não quero que você se machuque, Martinica ! Mesmo que me destrua, ainda haverá
muitos de mim por aí para divertir e educar você !

MARTINICA- Fique tranqüilo, Capitão Livrão ! Ele é apenas uma máquina, não tem conteúdo nenhum. Não
tem sentimentos, emoções ou inteligência própria. Tanto é, que se esquece que eu ainda sou a sua dona e que
tenho controle sobre ele. Ele é um videogame de última geração: vem com controle remoto total ! (APONTA O
CONTROLE REMOTO PARA GAME OVER)
CAPITÃO LIVRÃO- Nessas horas eu adoro a tecnologia digital ! Faça um “Upgrade” nele !!!!!
(RECOMPONDO-SE) Às vezes, até eu sou influenciado por esses estrangeirismos da informática...

GAME OVER(COM AS MÃOS AO ALTO)- O que está pensando em fazer, sua menina mimada ? Vai me
desligar ?

MARTINICA- Pior que isso, vou fazer o que você mais odeia e teme nesse mundo !

GAME OVER (DESESPERADO)- Não !!!! Tudo, menos isso ! Isso não ! Isso não !

CAPITÃO LIVRÃO- Fiquei curioso agora. O que você fará com o Tele jogo, Martinica ?

MARTINICA (MANIPULANDO O CONTROLE REMOTO, NA DIREÇÃO DE GAME OVER)- Vou


programar para a memória dele, o jogo que ele mais detesta: “Hello Kitty colhendo flores” !

GAME OVER- Hello Kitty não ! Hello Kitty não ! Não fui criado pra isso ! Não ! Não !

(MARTINICA PROGRAMA GAME OVER) (SUBITAMENTE, IMITA A PERSONAGEM “HELLO KITTY”


COLHENDO FLORES NO JARDIM. ESTÁ PACÍFICO, AMÁVEL E MEIO “EFEMINADO”)

GAME OVER (COM A VOZ FINA)- Colhi uma florzinha ! Colhi outra florzinha ! Colhi uma florzinha !
Colhi outra florzinha !

CAPITÃO LIVRÃO (SENDO SOLTO POR MARTINICA)- Apesar de continuar insuportável e irritante, o
Tele jogo fica melhor assim.

MARTINICA- Ele vai passar a tarde toda colhendo flores no jardim da escola. (GAME OVER SAI DE
CENA, COLHENDO “FLORES”)

CAPITÃO LIVRÃO- Não sejamos radicais, Martinica. Há tempo para tudo: tempo para os tele jogos, para os
celulares, para as brincadeiras e para a leitura também. Uma criança feliz é aquela que tem tudo na medida
certa.

MARTINICA- O senhor será, a partir de agora, meu companheiro para a vida toda. E vou fazer o possível para
que, um dia, meus filhos e meus netos também gostem muito do senhor.

CAPITÃO LIVRÃO- Sabe de uma coisa, Martinica ? Já passei por muitas ameaças em minha vida. Quanto
inventaram o rádio, disseram que os livros acabariam, já que as pessoas ouviriam as histórias. Quando
inventaram a televisão, quiseram me condenar à extinção, dizendo que os filmes e as novelas acabariam com
minhas letras. Ainda há pouco, com o surgimento da internet, decretaram meu fim: os livros de papel seriam
substituídos pelas letras frias e virtuais da tela do computador. Mas venci a todos, Martinica. E continuarei
vencendo, porque só dependo dos olhos, das mentes e dos corações de todos vocês, meus amiguinhos.

MARTINICA- Antes do senhor ir, Capitão Livrão, me responda uma coisa: o que é amor ?
CAPITÃO LIVRÃO- Supercomputador processando... bem, acho que não vou precisar do supercomputador
para te responder isso, menina. Amor é o maior e melhor dos sentimentos. É o querer do bem, da paz e da
felicidade de todo mundo. E só para você saber: ele é o melhor conteúdo que uma pessoa pode ter, mesmo
sendo ela inculta ou ignorante. Tchau, Martinica ! Tchau, amiguinhos ! (CAPITÃO LIVRÃO SAI DE CENA,
COM UMA MÚSICA LENTA)

(CASSIANO ENTRA EM CENA, ENQUANTO MARTINICA SENTA-SE E LÊ UM LIVRO)

CASSIANO- Oi, Martinica. Você está até agora aqui na Biblioteca ?

MARTINICA- Eu decidi seguir seus conselhos e resolver os meus problemas.

CASSIANO- Nossa ! Você falou “problemas” !

MARTINICA- Você tem razão, não há nada melhor para se adquirir conteúdo do que a companhia de um bom
livro. Não mereço mais ser chamada de Martinica Burrica.

CASSIANO- Aliás, queria te pedir desculpas. Fui muito duro com você. Pra falar a verdade, queria te dizer que
gosto de você do jeitinho que é. E queria te convidar para ir ao shopping comigo, comer um hambúrguer...

MARTINICA- Eu aceito e te desculpo, porque eu aprendi que o melhor conteúdo que alguém pode ter é do
amor. Mas antes de irmos ao shopping, gostaria de te apresentar o amigo que me ensinou a gostar de ler.

CASSIANO- Quem é ?

MARTINICA- Capitão Livrão, o Sabidão. O defensor das letras, das concordâncias e da pontuação !

(ENTRA EM CENA CAPITÃO LIVRÃO) (JUNTOS, OS TRÊS CANTAM E DANÇAM A MÚSICA TEMA
DO CAPITÃO LIVRÃO)

FIM