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JOÃO DUNS ESCOTO

GUILHERME DE OCKHAM

Textos sobre a potência ordenada e absoluta.

São Paulo, 2013.


2

ÍNDICE DOS TEXTOS:

JOÃO DUNS ESCOTO:


Reportatio I-A, d. 44, q. 1 03
Reportatio I-A, d. 44, q. 2 10
Ordinatio I, d. 44, q. unica 15
Lectura I, d. 44, q. unica 22

GUILHERME DE OCKHAM:
Quodlibeta Septem VI, q. 1 24
Tratado Contra Benedito III, cap. 3 29
Opus Nonagina Dierum, cap. 95 38
3

JOÃO DUNS ESCOTO


“Reportatio” examinada da leitura de Paris
Reportatio I-A*
[Distinção 44

Quaestio 1 Questão 1
Utrum Deus posset aliter res Se Deus poderia produzir
producere quam facit, vel secundum as coisas diversamente do que faz
ordinem institutum ab eo modo] ou (diversamente do que faz) segundo
a ordem por ele agora instituída]
1. Circa distinctionem 1. Acerca da distinção 44,
quadragesimam quartam primo quaero pergunto, primeiro, se Deus poderia
utrum Deus posset aliter res producere produzir as coisas diversamente do que
quam facit, vel secundum ordinem faz, ou [diversamente do que faz] segundo
institutum ab eo modo. a ordem por ele agora instituída.
Videtur quod non : quia tunc vel Vê-se que não: porque, então, ou
modo vel alias inordinate produceret, agora, ou noutro [instante], produziria
quod est inconveniens. desordenadamente, o que é inconveniente.
2. Item, sua potentia non excedit 2. Ainda, sua potência não excede
suam scientiam, maxime quoad sua ciência, maximamente no que diz
obiecta ; sed secundum suam scientiam respeito aos objetos; ora, segundo sua
non potest scire opposita nec aliter ciência, não pode saber os opostos nem
quam scit, ergo non aliter producere (vel [pode saber] diversamente do que sabe,
opposita) quam producit. portanto, não [pode] produzir
diversamente (ou opostamente) ao que
produz.
3. Item, in aeternitate disposuit 3. Ainda, dispôs na eternidade que
rem fieri secundum ordinem ab eo a coisa seja feita segundo a ordem
institutum. Si ergo potest aliquid aliter instituída por ele. Se, portanto, pode
producere, et non de novo, ergo in produzir algo diversamente, e não como
aeternitate potest habere actus novo, então pode ter dois atos opostos na
oppositos. eternidade.

*
JOHN DUNS SCOTUS, Reportatio I-A : The examined Report of the Paris Lecture - Latin Text and English
Translation. A. B. Wolter & O. V. Bychkov (ed. e trad.). Volume 2 (distinctiones 22-48). St. Bonaventure
(NY): The Franciscan Institute, 2008, p. 531-540. Tradução: Carlos Eduardo de Oliveira.
4

4. Item, si potest aliter res 4. Ainda, se pode produzir a coisa


producere quam produxit, ergo similiter diversamente do que produziu, então pode
potest movere corpora caelestia aliter semelhantemente mover os corpos
quam modo movet, et per consequens celestes diversamente do que move agora,
ipsa inter se potest aliter coniungere e, consequentemente, pode uni-los entre si
quam modo coniungantur. Ergo diversamente de como estão unidos agora.
geometria, quae est de coniunctione Portanto, a geometria, que trata da união
quam modo habent, non est scientia que têm agora, não é ciência necessária,
necessaria, quia est de his quae posunt porque trata daquilo que pode se dar
aliter se habere, et per consequens de diversamente, e, consequentemente, trata
contingentibus. de contingentes.
5. Item, sequitur quod scientia 5. Ainda, se segue que a ciência
naturalis, quae est de rebus corporalibus natural, que trata das coisas corporais
secundum motus corporum caelestium, segundo o movimento dos corpos
nulla esset, quia tunc non posset sciri celestes, não seria nada, porque então não
ista generari secundum influentiam talis seria possível saber que estes gerem
partis caeli nec in tali situ, et alia alibi ; segundo a influência de tal parte do céu
nec per consequens magis generaretur nem em tal lugar, e outros em outro; nem,
in una parte caeli ignis quam aliud consequentemente, o fogo seria gerado
elementum, quia talia diversimodi em uma parte do céu antes do que outro
generari non contingit per motum elemento, porque não se dá que tais sejam
varium corporum caelestium et gerados de modos diversos através do
diversam coniunctionem eorum, quae movimento dos vários corpos celestes e da
omnia secundum se possunt aliter se diferente conjunção daqueles que, por si,
habere. podem todos se dar diversamente.
6. Contra : aliqua aliter fieri 6. Contra: que alguns se deem
quam fiant non includit diversamente de como são dados não
contradictionem, ut patet de implica contradição, como é patente sobre
contingentibus. Sed Deus potest os contingentes. Ora, Deus pode tudo o
quidquid non includit contradictionem ; que não inclui contradição; portanto, etc.
ergo etc.
[I. – Distinctiones praeviae] [I. – Distinções prévias]
7. Responsio. Dico quod in 7. Resposta. Digo que em qualquer
quocumque agente libere quod potest agente livre que pode agir segundo a lei ou
agere secundum legem vel aliquam alguma regra reta e não age segundo ela,
regulam rectam et non agit secundum em qualquer que tal deve-se distinguir a
illam, in omni tali est distinguendum de potência ordenada, ou prefixada pela lei, e
potentia ordinata sive praefixa lege, et a potência absoluta. Com efeito, porque
de potentia absoluta. Quia enim habet tem aquela regra, pode agir segundo ela;
5

illam regulam, potest agere secundum no entanto, porque não age


illam ; quia vero non necessario agit necessariamente segundo ela, mas
secundum illam sed libere, ideo potest livremente, pode, assim, agir de outro
agere alio modo. Unde iuristae modo. Donde os juristas distinguem “por
distinguunt ‘de iure’ et ‘de facto’, et sic direito” e “de fato”, e é possível distinguir
potest distingui de omni potestate assim sobre todo o poder (potestate) do
iudicis vel iudicantis, ut Papae vel juiz e do que julga, como o do Papa ou o
principum. dos príncipes.
8. Secundum verbum est istud, 8. O segundo a se dizer é: que se
quod si regula ista non sit in potestate esta regra não estiver em poder do agente,
agentis, tunc potentia absoluta non est então a potência absoluta não é ordenada.
ordinata. Talis enim tenetur conformiter Com efeito, tal tem de agir em
agere illi legi et secundum illam conformidade com aquela lei e segundo
regulam, et ideo si non agit secundum aquela regra, e, por isso, se não age
illam, agit inordinate. Unde omnes qui segundo ela, age desordenadamente.
subsunt legi divinae qui non agunt Donde todos que estão sob a lei divina que
secundum illam, vel si agunt contra não agem segundo ela, ou se agem contra
illam, inordinati sunt et inordinate ela, estão desordenados e agem
agunt. Si autem aliquis non subest legi, desordenadamente. Ora, se alguém não
sed e converso lex subest instituenti, está sob a lei, mas, pelo contrário, a lei
quia potest aliter vel aliam legem está sob aquele que institui, porque pode
ordinare, talis non potest inordinate ordenar diversamente ou outra lei, tal não
agere, nec ibi potentia ordinata excedit pode agir desordenadamente, nem ali a
potentiam absolutam, licet excedat potência ordenada excede a potência
istam legem sic ordinatam. absoluta, embora exceda esta lei assim
ordenada.
9. Ad propositum de Deo, dico 9. Quanto ao que se propõe sobre
quod leges vel regulae practicae sive Deus, digo que as leis ou regras práticas
universales propositiones statutae sunt a ou as proposições universais são
sapientia divina, credo tamen magis estabelecidas desde a sabedoria divina, no
quod a voluntate divina, quia non entanto, creio que antes desde a vontade
invenitur in tali lege vel propositione divina, porque em tal lei ou proposição
practicae necessitas ex terminis, ut in prática não há necessidade a partir dos
hac ‘omnis iustus salvandus et omnis termos, como nesta: “todo justo há de ser
malus damnandus’ : sicut hic est salvo e todo mau há de ser condenado”,
necessitas ‘omne totum est maius sua assim como há necessidade aqui:
parte’, ubi unus terminus, scilicet “qualquer todo é maior que sua parte”, em
subiectum, includit causam praedicati, que um termo, a saber, o sujeito, inclui a
sed in aliis non. Iustus enim non causat causa do predicado. Ora, nos outros não
sibi salutem, sed voluntas divina [há]. Com efeito, o justo não causa a
6

acceptat utrumque, quod est salvação para si, mas a vontade divina
indifferentia in terminis. Et sic voluntas aceita ambos1, visto que há indiferença
facit hoc principium vel legem esse nos termos. E assim a vontade faz com
practicam, et istae leges ordinant que esse princípio ou lei seja prática, e
operabilia secundum omnes modos estas leis ordenam os operáveis segundo
agendi debitos. Deus autem potest agere todos os modos de agir devidos. Ora, Deus
omni modo qui non includit pode agir de todo modo que não inclui
contradictionem. Cum igitur multi alii contradição. Portanto, visto que muitos
modi non includant contradictionem, outros modos não incluam contradição,
potest agere aliter quam de potentia pode agir diversamente do que pela
ordinata. potência ordenada.
10. Secundo, quia istae leges 10. Segundo, uma vez que estas
subsunt voluntati divinae – eo quod leis estão sob a vontade divina – visto que
nulla est lex iusta nisi quia voluntas nenhuma lei é justa a não ser porque a
divina acceptat, non autem e converso – vontade divina a aceita, mas não o inverso
, voluntas autem potest contingenter –, a vontade divina pode
quodcumque velle vel nolle, ideo potest contingentemente tudo que quer ou não
statuere aliam legem, ut quod omnis quer, por isso pode estabelecer outra lei,
anima rationalis salvabitur vel aliquid como que toda alma racional será salva ou
huiusmodi. Ergo potentia eius absoluta algo desse modo. Portanto, sua potência
non excedit ordinatam, quia absoluta não excede a ordenada, porque
quaecumque lex a Deo instituatur aliter qualquer lei que seja instituída por Deus
vel alia quam illa quae nunc est, esset diversamente ou outra daquela que há
ordinata. agora, seria ordenada.
[II. – Responsio [II. Resposta
ad primam quaestionem] para a primeira questão]
11. Ad quaestionem ergo 11. Portanto, deve-se dizer para a
dicendum quod est distinguendum questão que se deve distinguir segundo a
secundum compositionem et composição e a divisão; de modo
divisionem ; similiter est distinguendum semelhante, deve-se distinguir a respeito
de ordine sive de lege vel de potestate da ordem ou da lei ou do poder ordenado.
ordinata.
Et patet realis solutio ex dictis, E a solução real é patente do que
unde haec est possibilis : ‘Deus aliter res foi dito, donde esta é possível: “Deus pôde
potuit producere quam secundum produzir as coisas diversamente do que
ordinem dispositum’. [Pro Haec est segundo a ordem disposta”. [Em vez de
falsa… M habet explicando : ‘… vel “Esta é falsa...”, M traz a explicação: “...

1
Segundo a tradução americana (Duns Escoto, 2008, p. 533, nota 6), o “justo e o injusto”. Parece, porém,
que o correto seja: “... ambos [os termos, isto é, ‘justo’ e ‘salvação’].”. N. do T.
7

quam disposuit’ est distinguenda ou que dispôs” deve ser distinguida


secundum compositionem et segundo a composição e a divisão. No
divisionem. In sensu compositionis est sentido da composição é falsa e
falsa et impossibilis, quia non stant impossível, porque não estão
simul quod aliter agat quam disposuit simultaneamente que aja diversamente do
stante illa dispositione et ordinatione. In que dispôs permanecendo aquela
sensu diviso est vera, quia Deus facit disposição e ordenação. No sentido da
hoc modo et tamen potest opposito divisão é verdadeira, porque Deus faz isto
modo. Quia sicut Deus disposuit sic agora e, no entanto, pode agora o oposto.
esse faciendum secundum hunc Porque, assim como Deus dispôs que seja
ordinem, ita posset aliter disponere et assim ao fazer segundo essa ordem,
tunc esset aliter faciendum. Unde… poderia dispor diversamente e então teria
Lectio tamen brevior in VTR feito diversamente. Donde...”. No entanto,
praeferenda videtur : cf. Ord. I, d. 44, vê-se que a lição mais breve seja
Appendix A (VI, 445).]. Haec est falsa preferida em VTR: cf. Ord. I, d. 44,
in sensu compositionis, sed vera in Apêndice A (VI, 445).]. Esta é falsa no
sensu divisionis : ‘Deus habet sentido da composição, mas verdadeira no
potentiam faciendi hoc modo seorsum’ sentido da divisão: “Deus tem a potência
(scilicet solem moveri contra orientem) de fazer isto à parte do que é agora” (a
– haec est una propositio categorica ; saber, que o sol se mova contra o oriente)
‘non disposuit facere hoc modo’ – haec – esta é uma proposição categórica; “não
est alia propositio ; et ambae sunt verae. dispôs fazer deste modo” – esta é outra
proposição, e ambas são verdadeiras.
12. Ultra distinguendum est de 12. Além disso deve-se distinguir
potentia ordinata sive de ordine, quia sobre a potência ordenada, ou seja, sobre
ordo potest intelligi vel secundum a ordem, porque a ordem pode ser
regulas sive propositiones universales, entendida ou segundo as regras, ou seja,
vel particulares. Universalis est quod as proposições universais, ou as
omnis homicida occidatur. Ordinatio particulares. É universal que todo
autem particularis est ordo iudicii et homicida seja morto. No entanto, é
exsecutionis, ut de hoc homicida in ordenação particular a ordem do juízo e da
particulari ordinando quod occidatur, et execução, como ao ordenar sobre este
hoc iudicium non est nisi conclusio homicida em particular que seja morto, e
legis. este juízo não é senão a conclusão da lei.
13. Ad propositum : Deus posuit 13. Quanto ao proposto: Deus pôs
legem universalem et ordinem quod a lei universal e a ordem de que todo mau
omnis malus damnabitur ; ordo será condenado; a ordem particular, que é
particularis, qui dicitum iudicium, est chamada de juízo, é que este, isto é, Judas,
quod iste, id est Iudas, damnabitur. Dico será condenado. Digo que Deus, pela
quod Deus potentia absoluta potest potência absoluta, pode salvar a Judas. No
8

salvare Iudam. Non tamen simpliciter entanto, não pode simplesmente salvá-lo
potest eum salvare potentia ordinata et pela potência ordenada e universal. Pode,
universali. Potest tamen eum salvare porém, salvá-lo pela ordem particular, se
ordine particulari, si Iudas esset et non Judas fosse e não fosse condenado, porque
esset damnatus, quia possit eum poderia preveni-lo pela graça, assim como
praevenire per gratiam, sicut et Petrum também a Pedro depois do pecado.
post peccatum. Potest igitur contra Portanto, pode contra a ordem universal
universalem ordinem potentia absoluta, pela potência absoluta, mas então não
sed tunc non esset inordinatio, quia haveria desordem, porque estabeleceria
statueret istam legem ordinatam esse. que essa lei fosse ordenada. Donde
Unde iste, praescitus exsistens, licet embora este exista como quem se prevê
damnabitur, tamen potest potentia que há de ser condenado, pode, no
absoluta et potentia ordinata beatificari ; entanto, pela potência absoluta e pela
non tamen Iudas potentia ordinata. potência ordenada, ser beatificado; no
entanto, não Judas pela potência
ordenada.
[III. – Ad argumenta [III. – Para os argumentos
principalia primae quaestionis] principais da primeira questão]
14. Ad argumenta. Ad primum 14. Para os argumentos. Ao
in oppositum dico quod non sequitur primeiro em oposto [supra, n. 1] digo que
quod modo vel alias ageret inordinate, não se segue que agora ou em outro
quia iste ordo secundum quem modo [instante] tenha agido desordenadamente,
producit res non est omnis ordo sibi porque esta ordem, segundo o modo pelo
possibilis nec necessarius. Ergo sic qual produz as coisas, não é toda a ordem
arguendo ‘potest producere res aliter vel possível para ele, nem necessária.
secundum alium ordinem quam modo Portanto, argumentando assim: “pode
producit, ergo inordinate potest produzir as coisas diversamente, ou
producere, vel non secundum ordinem segundo outra ordem do que aquela que
vel contra omnem ordinem’ non produz agora, portanto, pode produzir
sequitur, sed est fallacia consequentis desordenadamente, ou não segundo a
ab inferiori ad superius cum nota ordem, ou contra toda ordem” não se
alietatis, et ita a destructione segue, mas é a falácia do consequente
antecedentis ad destructionem desde o inferior para o superior com a
consequentis, quia alietas includit marca da alteridade, e assim desde a
negationem. refutação do antecedente até a refutação
do consequente, uma vez que a alteridade
inclui a negação.
15. Ad secundum dico quod 15. Ao segundo [n. 2] digo que a
potentia et scientia coaequantur potência e a ciência são igualadas quanto
quantum ad obiecta, quia omne quod aos objetos, porque tudo que pode ser feito
9

potest fieri potest sciri. Sed non oportet pode ser sabido. Mas não é preciso que
quod coaequantur quantum ad omnia et sejam igualadas quanto a tudo e de todo
omni modo. Non oportet enim quod modo. Com efeito, não é preciso que de
cuiuscumque sit unum actualiter, et seja lá o que for haja atualmente uma e
aliud, quia scientia cuiuscumque est outra, porque a ciência de seja lá o que for
eius actualiter, ut actu est, potentia é dele atualmente, como é em ato, ora, a
autem es obiecti possibilis quod non est potência é do objeto possível que não é
actualiter. atualmente.
16. Ad aliud dico quod in 16. Ao outro [n. 3] digo que na
aeternitate possunt fieri opposita eternidade podem ser feitos os opostos
divisim, non coniunctim, et hoc in separadamente, mas não conjuntamente, e
eodem instanti. Patet supra in materia de isto no mesmo instante. É patente acima
futuris contingentibus. quanto à matéria sobre os futuros
contingentes [d. 39-40, n. 39-43].
17. Ad aliud concedo quod non 17. Ao outro [n. 4] concedo que
est scientia simpliciter necessaria, sed ut não há ciência absolutamente necessária,
in pluribus tantum. Permittit enim res ut mas unicamente como em muitos. Com
in pluribus operari secundum motus efeito, permite que as coisas operem como
suos et secundum ordinem ab eo em muitos segundo seus movimentos e
dispositum. Aliquando tamen, segundo a ordem disposta por ele. No
praetermittendo illum ordinem, agit entanto, às vezes, negligenciando aquela
secundum alium ordinem : patet de ordem, age segundo outra ordem: é
statione solis tempore Iosue et de tribus patente sobre a parada do sol no tempo de
pueris in igne et de eclipsi solis in morte Josué e dos três jovens no fogo e sobre o
Christi, quod fuit contra principia eclipse do sol na morte do Cristo, que foi
geometriae. Sic ergo modo respondeo, contra os princípios da geometria. Assim,
sicut heri in quadam quaestione, quod portanto, respondo agora, assim como
non est scientia de contingentibus nisi ontem em certa questão [in d. 42, n. 32],
de facto ut in pluribus. Sed quod sint sic que não há ciência sobre os contingentes a
apta nata ad tales motus, hoc est não ser de fato como em muitos. Mas que
necessarium et sic scitum estejam de tal modo aptos naturalmente
demonstrative. Sed quod modo sint para tal movimento é necessário, e, assim,
aliter mota, ut tempore Iosue vel sabido demonstrativamente. Mas o modo
Ezechiae, vel sicut legitur in vitis pelo qual foram movidos diversamente,
patrum de sole, hoc est contingenter como no tempo de Josué ou de Ezequias,
factum et ideo haec non possunt sciri ou assim como se lê nas vidas dos pais
demonstrative. Sed si habent tales sobre o sol, é algo feito contingentemente,
motus quales deprehensi sunt sol et luna e por isso estes não podem ser sabidos
habere prius, tunc sequitur de demonstrativamente. Mas se o sol e a lua
necessitate scientia. Unde in eodem têm tais movimentos que antes se
10

aspectu se habent sol et luna modo ac si apreendeu que tivessem, então se segue a
non fuisset ibi aliquis novus motus vel necessidade da ciência. Donde o sol e a
nova coniunctio temporibus praedictis. lua se encontrarem agora sob o mesmo
Quod patet quia sicut contra movebatur aspecto, como se não tivesse havido ali
unum corpus, ita totum caelum vel algum movimento novo ou conjunção
corpus motum subito revertebatur ad nova no tempo já mencionado. O que é
locum suum ad habendum patente, porque, assim como um corpo foi
uniformitatem. movido contrariamente, assim todo o céu
ou corpo movido subitamente voltou a seu
lugar para ganhar uniformidade.
18. Ad ultimum dico quod 18. Ao último [n. 8] digo que o
naturalis non dicit plus de igne in tali natural não diz que o fogo seja gerado
parte caeli generari quam in alia, sed antes em tal parte do céu que em outra,
dicit quod approprinquante sole plus mas diz que o sol se aproximando, mais
generatur de igne cui magis fogo é gerado para aquele de que mais se
appropinquat. aproxima.
[Quaestio 2 [Questão 2
Utrum Deus possit Se Deus pode
facere meliora quam fecit] fazer melhores do que fez]
19. Utrum Deus possit facere 19. Se Deus pode fazer melhores
meliora quam fecit. do que fez.
Videtur quod non : Augustinus, Vê-se que não: Agostinho, nas 83
83 Quaestionem, q. 50, probat Deum Questões, q. 502, prova que Deus Pai
Patrem genuisse Filum sibi aequalem, tenha gerado o Filho igual a si, porque se
quia si non, aut quia non potuit, et sic não, ou porque não pôde, e assim foi débil
fuit debilis et infirmus, aut quia noluit et e fraco, ou porque não quis, e, assim,
sic invidus. Eodem modo arguo in invejoso. Do mesmo modo argumento
proposito, et patet. quanto ao proposto, e é patente.
20. Item, Augustinus, III De 20. Ainda, Agostinho, Sobre o
libero arbitrio : Quidquid tibi recta livre arbítrio, livro III3: “Saibas que tudo
ractione occurrat melius, hoc Deus o que, pela reta razão, ocorrer a ti de
fecisse scias’, etc. melhor, isto foi feito por Deus”, etc.
21. Contra : Augustinus, XI 21. Contra: Agostinho, Sobre o
Super Genesim, et ponitur in littera : Gênesis, livro XI4, e é posto literalmente:
Deus potuit fecisse hominem Deus pôde ter feito um homem sem

2
Agostinho, 83 Quaest. q. 50 (CCL 44ª, 77; PL 40, 31-2).
3
Agostinho, De lib. arb. III, c. 5, n. 50 (CCSL 29, 283; PL 32, 1277).
4
Agostinho, De Genesi ad litt. libri XII, XI, c. 7, n. 9 (CSEL 28.1, 340; PL 34, 433; Pedro Lombardo, Sent.
I, d. 44, c. 1, n. 3 (SB IV, 304).
11

impeccabilem, qui numquam pecasset, pecado, que jamais pecasse, e isto teria
et hoc melius esset quam quod modo in sido melhor do que agora se dá nele.
eo est.
[I. – Responsio [I. – Resposta de
Scoti ad secundam quaestionem] Escoto para a segunda questão]
22. Respondeo ad quaestionem 22. Respondo para a questão que
quod Deus potuit fecisse meliora quam Deus pôde ter feito melhores do que fez e
fecit et potest modo facere secundum pode agora fazer segundo toda bondade
omnem bonitatem in re, sive quanto a coisa, seja essencial, seja
essentialem sive accidentalem, et acidental, e, acidental, seja extensiva, seja
accidentalem sive extensivam sive intensiva.
intensivam.
23. Et primo probo quod potuit 23. E, primeiro, provo que pôde
ea fecisse meliore perfectione fazê-la melhor pela perfeição acidental
accidentali intensive. Cum enim omnes intensiva. Com efeito, visto que todas
animae sunt eiusdem speciei, aut ergo almas são da mesma espécie, então, ou são
sunt aequales secundum perfectionem, iguais segundo a perfeição, ou não. Se são
aut non. Si sunt aequales, ergo aequalis iguais, então capazes de igual perfeição.
perfectionis capaces, sed non omnes Ora, nem todas de igual capacidade têm
aequalis capacitatis aequaliter habent igual perfeição acidental, uma vez que
perfectionem aequalem accidentalem, nem todas as almas têm igual bem-
quia non omnes animae habent aventurança essencial, uma vez que não
aequalem beatitudinem essentialem, têm méritos iguais pelos quais responde a
quia nec habent aequalia merita quibus bem aventurança, ainda que sejam iguais
respondet beatitudo, etiam si fuerint na capacidade natural. Portanto, toda
aequales in capacitate naturali. Ergo capacidade natural daquela alma não é
non perficitur tota capacitas naturalis aperfeiçoada por tanta perfeição acidental
cuiuslibet animae tanta perfectione quanto possa receber.
accidentali quantam posset recipere.
24. Similiter, anima Christi 24. De modo semelhante, a alma
habet beatitudinem maiorem quam do Cristo tem bem-aventurança maior que
aliquis angelus, et tamen capacitas a de algum anjo, e, no entanto, a
naturalis cuiuscumque angeli est maior capacidade natural de qualquer anjo é uma
capacitate cuiuscumque animae capacidade maior que a de qualquer alma
naturali. Nullus ergo angelus habet natural. Portanto, nenhum anjo tem tanta
tantam perfectionem quantae est capax. perfeição quanto é capaz.
25. Dices quod non sunt 25. Dizes que o anjo e a alma não
aequales quia non sunt eiusdem speciei são iguais porque não são da mesma
12

angelus et anima sed anima Christi est espécie. Ora, a alma de Cristo é mais
perfectior in gloria quolibet angelo. perfeita na glória que qualquer anjo.
Dico quod ex hoc sequitur Digo que disso se segue o
propositum. Angelus est nobilior proposto. O anjo é mais nobre segundo a
secundum speciem quam anima. Sed in espécie que a alma. Ora, nas espécies
speciebus ordinatis, si una est nobilior ordenadas, se uma é mais nobre que outra
alia essentialiter, quodlibet individuum essencialmente, qualquer indivíduo de
unius speciei est perfectius et nobilius uma espécie é mais perfeito e nobre que
quocumque individuo alteruis speciei qualquer indivíduo de outra espécie mais
ignobilioris ; aliter species tantum ignóbil; outras espécies unicamente terão
haberent ordinem accidentalem. Ergo a ordem acidental. Portanto, qualquer anjo
quilibet angelus est perfectior et é mais perfeito e nobre na natureza que
nobilior in natura quaecumque anima, qualquer alma, mesmo a alma de Cristo, e,
etiam anima Christi, et per consequens consequentemente, tem maior capacidade
habet maiorem capacitatem naturalem natural para vir a ter uma perfeição maior
ad maiorem perfectionem habendam que qualquer alma. Ora, a alma de Cristo,
quam quaecumque anima. Sed anima para ti, é a mais aperfeiçoada para a glória
Christi, per te, plus perficitur gloria que a de qualquer anjo. Portanto, nenhum
quam aliquis angelus. Ergo nullus anjo tem tanta perfeição acidental quanto
angelus habet tantam perfectionem é capaz.
accidentalem quantae est capax.
26. Ex his spiritualibus 26. Destes espirituais conclui-se o
concluditur propositum de corporalibus. proposto sobre os corporais. Pois, se
Nam si illa quae immediate ordinantur aqueles que estão imediatamente
ad Deum, ut ad finem, possunt ordenados para Deus como para o fim
naturaliter magis perfici perfectione podem ser naturalmente mais
finis quam perficiantur, multo magis est aperfeiçoados pela perfeição do fim do
hoc verum de corporalibus (de quibus que são aperfeiçoados, isso é muito mais
est sibi minor cura), quod maioris verdadeiro sobre os corporais (sobre os
perfectionis accidentalis sunt capaces quais há para ele menor cuidado) que são
quam modo habeant. capazes de uma maior perfeição acidental
do que a que têm agora.
27. Secundo digo quod Deus 27. Segundo, digo que Deus pode
potest facere aliqua meliora fazer algum melhores acidentalmente e
accidentaliter et extensive quam facit – extensivamente do que faz – dando várias
dando plures perfectiones quam dedit. perfeições além das dadas.
Patet in spiritualibus. Beati enim É patente nos espirituais. Com
possunt plura cognoscere quam efeito, os bem-aventurados podem
cognoscant : non enim cognoscunt conhecer mais do que conhecem: com
13

infinita in Verbo, et Verbum potest efeito, não conhecem os infinitos no


omnia cognoscere simul et beatis Verbo, e o Verbo pode conhecer tudo
revelare omnia si velit, licet non simul. simultaneamente e revelar tudo aos bem-
Et si beati hoc possunt, multo magis aventurados se quiser, embora não
viatores. simultaneamente. E se os bem-
aventurados podem isso, muito mais os
peregrinos.
28. Hoc etiam patet in 28. Isso também é patente nos
corporibus caelestibus. Licet enim non corpos celestes. Com efeito, embora não
recipiant peregrinas impressiones, recebam impressões passageiras, isto é,
scilicet corruptivas, recipiunt tamen corruptivas, recebem, porém, muitas
multas peregrinas passiones et afecções que para eles são passageiras e
accidentales eis, ut lumen, splendorem acidentais, como a luz, o esplendor e que
et huiusmodi. Unde si medium esset ita tais. Donde, se o intermediário fosse tão
magnum quod posset proicere umbram grande que pudesse projetar sua sombra
suam ad stellas, tota sphaera stellarum para as estrelas, toda a esfera das estrelas
fixarum posset eclipsari et obscurari. fixas poderia ser eclipsada e obscurecida.
Lumen ergo est perfectio accidentalis Portanto, a luz é uma perfeição acidental
eis. Sed omne corpus diaphanum delas. Ora, todo corpo diáfano luminoso é
luminosum est perfectius ipso non- mais perfeito que aquele não luminoso.
luminoso. Ergo plures perfectiones Portanto, Deus pode dar várias perfeições
potest Deus dare quas non dedit et que não deu e várias que deu. E, por isso,
plures quam dedit. Et ideo hoc Averróis, que concedeu que unicamente o
inconveniens de lumine non potuit movimento se perpetue a partir de outro e
vitare Averroes, qui solum motum que não seja necessário por si, não pôde
concessit ex alio perpetuari et non esse evitar esse inconveniente sobre a luz. Com
ex se necessarium. Lumen enim efeito a luz se perpetua a partir de outro e
perpetuatur ex alio et fit ex alio, ita se produz a partir de outro, tão necessária
necessario et perpetuo sicut motus. Aer e perpetuamente como o movimento.
enim non factus est lucidus, sed fit Com efeito, o ar não foi feito lúcido, mas
lucidus, secudum Augustinum, VIII se faz lúcido, segundo Agostinho, Sobre o
Super Genesim. Gênesis, livro VIII5.
29. Quantum vero ad secundum 29. De fato, quanto ao segundo
principale, scilicet quantum ad principal [supra, n. 22], a saber, quanto à
bonitatem et perfectionem essentialem, bondade e à perfeição essencial, digo de
similiter dico quod Deus potest facere modo semelhante que Deus pode fazer
meliora quam fecit intensive et melhores do que fez intensivamente e
substantialiter, si substantia suscipiat substancialmente, se a substância receber
magis et minus, de quo nihil est hic o mais e o menos, sobre o qual nada deve
5
Agostinho, De Genesi ad litt. Libri XII, VIII, c. 12, n. 26 (CSEL 28.1, 250; PL 34, 383).
14

dicendum, quia difficilius proposito ser dito aqui, porque mais difícil que o
principali. principalmente proposto.
[II. – Ad argumenta [II. – Aos argumentos
principalia secundae quaestionis] principais da segunda questão]
30. Ad primum in oppositum, 30. Ao primeiro em oposto [n. 19],
dico quod non est invidia in Deo si non digo que não há inveja em Deus se não fez
fecit omnia ita bona sicut potest. Invidia tudo tão bom como pode. Com efeito, há
enim est in subtrahendo ab aliquo inveja em subtrair de algo o bem que a ele
bonum quod est sibi debitum. Deus é devido. Ora, Deus não é devedor de
autem non est debitor alicuius creaturae alguma criatura quanto a alguma
quantum ad aliquam perfectionem in eo, perfeição nele, porque faz tudo de modo
quia mere liberaliter omnia facit. Si puramente liberal. No entanto, se Deus Pai
tamen Deus Pater non produxisset não tivesse produzido o Filho igual a si,
Filium sibi aequalem, fuisset invidus, teria sido invejoso, porque a natureza no
quia debita est natura in Filio sicut in Filho é devida assim como no Pai, e,
Patre, et per consequens omnis condicio consequentemente, toda condição que
quae sequitur naturam, ut aequalitas et segue a natureza, como a igualdade e que
huiusmodi. tais.
31. Ad aliud dico quod ‘quidquid 31. Ao outro [n. 20] digo que (a
recta ratione tibi melius occurerit, hoc afirmação) “saibas que tudo o que, pela
scias Deum fecisse’ verum est, quia reta razão, ocorrer a ti de melhor, isto foi
nihil est melius simpliciter recta ratione feito por Deus” é verdadeira, porque nada
quam in quantum volitum a Deo ; et é absolutamente melhor pela reta razão do
ideo alia ‘quae, si fierent, essent que enquanto querido por Deus; e, por
meliora’ non sunt modo meliora isso, outros “que, se forem feitos, seriam
entibus. Unde auctoritas nihil plus vult melhores” não são agora melhores que os
dicere nisi quod quidquid Deus fecit, entes. Donde a autoridade não ter querido
hoc scias cum recta ratione fecisse. dizer nada além de que tudo o que Deus
Omnia enim quaecumque voluit, fecit, fez, saibas que o fez com a reta razão.
in Psalmis [113, 11], cuius voluntas sit Com efeito, tudo aquilo que quis, fez – no
benedicta. Salmo [113, 11] – aquele cuja vontade
seja bendita.
15

JOÃO DUNS ESCOTO


Ordinatio
Livro I
Distinção 44*

Quaestio Unica: Questão Única:


[UTRUM DEUS POSSIT ALITER [SE DEUS PODERIA FAZER AS
FACERE RES QUAM AB IPSO ORDINATUM COISAS DIVERSAMENTE DE COMO FOI
EST EAS FIERI] ORDENADO POR ELE QUE SEJAM FEITAS]

1. Circa distinctionem 1. Acerca da distinção


quadragesimam quartam – ubi Magister quadragésima quarta – em que o
tractat “utrum Deus potuit res melius Mestre8 trata “se Deus pôde ter feito as
fecisse quam fecit” – quaero istam coisas melhor do que fez” – pergunto o
quaestionem: utrum Deus possit aliter seguinte: se Deus poderia fazer as
facere res quam ab ipso ordinatum est coisas diversamente de como foi
eas fieri. ordenado por ele que sejam feitas.
Et videtur quod non: E vê-se que não:
Quia tunc posset facere res Porque então poderia fazer as
inordinate. Consequens est falsum, ergo coisas desordenadamente. A
et antecedens. conseqüência é falsa, portanto, também
o antecedente.
2. Contra: res aliter fieri quam 2. Contra: não há contradição em
factae sunt, non includit fazer as coisas diferentemente de como
6
contradictionem; nec est necessarium; estão feitas; nem é necessário; portanto
igitur etc. etc.
3. Respondeo: in omni agente 3. Respondo: em todo aquele que
per intellectum et voluntatem, potente age pelo intelecto e pela vontade, que
conformiter agere legi rectae et tamen pode agir em conformidade com a lei
non necessario conformiter agere legi reta e, no entanto, não tem de agir
rectae, et tunc secundum potentiam necessariamente em conformidade com
ordinatam (ordinata enim est in a lei reta, e, assim, segundo a potência
quantum est principum exsequendi ordenada (com efeito, é ordenada
aliqua conformiter legi rectae), et potest enquanto é princípio do executar algo

*
JOÃO DUNS ESCOTO, Ordinatio : Opera Omnia, Vol. VI. Civitas Vaticana, Typis Polyglottis Vaticanis,
1963, p. 363-369.445. Tradução: Carlos Eduardo de Oliveira.
6
Falta: o universo.
8
A saber, Pedro Lombardo.
16

agere praeter illam legem vel contra em conformidade com a lei reta), tanto
eam, et in hoc est potentia absoluta, pode agir além daquela lei ou
excedens potentiam ordinatam. Et ideo contrariamente a ela, como nisto
non tantum in Deo, sed in omni agente consiste a potência absoluta, que excede
libere – qui potest agere secundum a potência ordenada. E, por isso, não
dictamen legis rectae et praeter talem somente em Deus, mas em todo agente
legem vel contra eam - est distinguere livre – que pode agir segundo o ditame
inter potentiam ordinatam et absolutam; da lei reta e além de tal lei ou contra ela
ideo dicunt iuristae quod aliquis hoc – deve-se distinguir entre a potência
potest facere de facto, hoc est de ordenada e a absoluta; por isso dizem os
potentia sua absoluta – vel de iure, hoc juristas que alguém pode fazer algo de
est de potentia ordinata secundum iura. fato, isto é, por sua potência absoluta –
ou por direito, isto é, por sua potência
ordenada segundo o direito9.
4. Quando autem illa lex recta – 4. Mas quando aquela lei reta –
secundum quam ordinate agendum est – segundo a qual se deve agir
non est in potestate agentis, tunc ordenadamente – não está em poder do
potentia eius absoluta non potest agente, então sua potência absoluta não
excedere potentiam eius ordinatam pode exceder sua potência ordenada
circa obiecta aliqua, nisi circa illa agat acerca de algum objeto, a não ser que
inordinate; necessarium enim est illam aja desordenadamente acerca dele; com
legem stare – comparando ad tale agens efeito, é necessário que esta lei
– et tamen actionem “non conformatam permaneça – em comparação com tal
illi legi rectae” non esse rectam neque agente – e, contudo, que a ação “não
ordinatam, quia tale agens tenetur agere conformada àquela lei reta” não seja
secundum illam regulam cui subest. reta nem ordenada, porque tal agente
Unde omnes qui subsunt legi divinae, si deveria agir segundo a regra à qual está
non agunt secundum illam, inordinate submetido. Donde todos que estão sob a
agunt. lei divina, se não agem segundo ela,
agem desordenadamente.
5. Sed quando in potestate 5. Mas quando está no poder do
agentis est lex et rectitudo legis, ita agente a lei e a retidão da lei, de modo
quod non est recta nisi quia statu, tunc que não é reta a não ser porque pelo
potest aliter agens ex libertate sua estabelecido, então o agente pode, a
ordinare quam lex illa recta dictet; et partir de sua liberdade, ordenar
tamen cum rectam secundum quam agat diferentemente o que a lei reta ditar; e,
ordinate. Nec tunc potentia sua absoluta contudo, será reta segundo aja
simpliciter excedit potentiam ordenadamente quanto a ela. E, então,
ordinatam, quia esset ordinata sua potência absoluta não excede
9
Isto é, segundo as normas: iura. (N. do T.).
17

secundum aliam legem sicut secundum absolutamente a potência ordenada,


priorem; tamen excedit potentiam porque seria ordenada segundo outra lei
ordinatam praecise secundum priorem assim como segundo a anterior,
legem, contra quam vel praeter quam contudo, excede a potência ordenada
facit. Ita posset exemplificari de precisamente segundo a lei anterior,
principe et subditis, et lege positiva. contra a qual ou além da qual faz. Assim
poder-se-ia dar o exemplo do príncipe e
dos súditos, e da lei positiva.
6. Ad propositum ergo 6. Portanto, aplicando ao proposto,
applicando, dico quod leges aliquae digo que algumas leis gerais, que ditam
generales, recte dictantes, praefixae retamente, são preestabelecidas pela
sunt a voluntate divina et non quidem ab vontade divina e, certamente, não pelo
intellectu divino ut praecedit actum intelecto divino que precede o ato da
voluntatis divinae, ut dictum est vontade divina, como foi dito na
distinctione 38 [Sequitur textus distinção 38 [Segue-se o texto
interpolatus : quia non invenitur in illis interpolado: porque não se encontra
legibus necessitas ex terminis (ut quod naquelas leis a necessidade a partir dos
omnis peccator damnabitur), sed solum termos (como que todo pecador seja
ex voluntate divina acceptante, quae condenado), mas unicamente da
operatur secundum huiusmodi leges vontade divina que a aceita, a qual opera
quas statuit ; vel sufficit ad propositum segundo tais leis que estabelece; ou
dicere quod statuuntur a sapientia basta dizer para o proposto que são
divina]; sed quando intellectus offert estabelecidas desde a sabedoria
voluntati divinae talem legem, puta divina10]; mas quando o intelecto
quod “omnis glorificandus, prius est oferece à vontade divina tal lei, como a
gratificandus”, si placet voluntati suae – de que “tudo que há de ser glorificado
quae libera est – est recta lex, et ita est antes há de ser agraciado”, se agrada à
de aliis legibus. sua vontade – que é livre – é lei reta, e
assim sobre as outras leis.
7. Deus ergo, agere potens 7. Deus, portanto, ao poder agir
secundum illas rectas leges ut praefixae segundo aquelas leis retas que são por
sunt ab eo, dicitur agere secundum ele preestabelecidas, é dito agir segundo
potentiam ordinatam; ut autem potest a potência ordenada; mas o poder fazer
multa agere quae non sunt secundum muitas ações que não estão de acordo
illas leges iam praefixas, sed praeter com aquelas leis já preestabelecidas,
illas, dicitur eius potentia absoluta: quia mas, além delas, diz-se sua potência
enim Deus quodlibet potest agere quod absoluta: com efeito, porque Deus pode
non includit contradictionem, et omni agir segundo o que queira sem incorrer
modo potest agere qui non includit em contradição, e pode agir de todo
10
Cf. DUNS ESCOTO, Rep. IA d. 44 n. 9.
18

contradictionem (et tales sunt multi modo que não inclui contradição (e há
modi alii), ideo dicitur tunc agere muitos outros modos assim), diz-se, por
secundum potentiam absolutam. isso, que então age segundo a potência
absoluta.
8. Unde dico quod multa alia 8. Donde digo que pode fazer
potest agere ordinate; et multa alia muitas outras ações ordenadamente; e
posse fieri ordinate, ab illis quae fiunt que possa fazer muitas outras
conformiter illis legibus, non includit ordenadamente, desde aqueles que são
contradictionem quando rectitudo feitos em conformidade com aquelas
huiusmodi legis – secundum quam leis, não inclui contradição quando a
dicitur quis recte et ordinate agere – est retidão daquela lei – segundo a qual se
in potestate ipsius agentis. Ideo sicut diz que alguém age reta e
potest aliter agere, ita potest aliam ordenadamente – está em poder do
legem rectam statuere, – quae si próprio agente. Por isso, assim como
statueretur a Deo, recta esset, quia nulla pode agir diversamente, pode, então,
lex est recta nisi quatenus a voluntate estabelecer outra lei reta – que se fosse
divina acceptante est statuta; et tunc estabelecida por Deus, seria reta, porque
potentia eius absoluta ad aliquid, non se nenhuma lei é reta senão na medida que
extendit ad aliud quam ad illud quod ao ser aceita pela vontade divina é
ordinate fieret, si fieret: non quidem estabelecida; e, então, sua potência
fieret ordinate secundum istum absoluta para algo, não se estende senão
ordinem, sed fieret ordinate secundum para aquilo que seria feito
alium ordinem, quem ordinem ita posset ordenadamente, se fosse feito:
voluntas divina statuere sicut potest certamente, não seria feito
agere. ordenadamente segundo esta ordem,
mas seria feito ordenadamente segundo
outra ordem, ordem que a vontade
divina poderia estabelecer assim como
pode agir.
9. Advertendum etiam est quod 9. Também cumpre advertir que o
aliquid esse ordinatum et ordinate fieri, algo ser ordenado e o ser feito
hoc contingit dupliciter : ordenadamente se dá de dois modos:
Uno modo, ordine universali, - De um modo, pela ordem
quod pertinet ad legem communem universal, - que pertence à lei comum:
‘omnem finaliter peccatorem esse ‘todo pecador final há de ser
damnandum’ (ut si rex statuat quod condenado’ (como se o rei estabelecesse
omnis homicida moriatur). Secundo que todo homicida há de morrer). Do
modo, ordine particulari, - secundum segundo modo, pela ordem particular, -
hoc iudicium, ad quod non pertinet lex segundo o juízo para o qual não cabe a
in universali, quia lex est de lei para o universal, porque a lei é sobre
19

universalibus causis ; de causa autem as causas universais; mas, sobre a causa


particulari non est lex, sed iudicium particular, não há lei, mas o juízo
secundum legem, eius quod est contra segundo a lei sobre aquilo que é
legem (ut quod iste homicida moriatur). contrário à lei (por exemplo, que este
homicida há de morrer).
10. Dico ergo quod Deus non 10. Digo, portanto, que Deus não
solum potest agere aliter quam apenas pode agir diversamente do que
ordinatum est ordine particulari, sed está ordenado pela ordem particular,
aliter quam ordinatum est ordine mas pode agir ordenadamente
universali – sive secundum leges diversamente do que está ordenado pela
iustitiae – potest ordinate agere, quia ordem universal – ou segundo as leis da
tam illa quae sunt praeter illum justiça –, porque tanto aqueles que são
ordinem, quam illa quae sunt contra além desta ordem, quanto aqueles que
ordinem illum, possent a Deo ordinare são contrários a esta ordem, podem ser
fieri potentia absoluta. ordenados por Deus a serem feitos por
sua potência absoluta.
[Sequitur textus interpolatus, [Segue-se texto interpolado, veja o
vide appendix A: Item, sciendum quod apêndice A: Igualmente, cumpre saber
haec distinguenda est ‘Deus potest aliter que cabe distinção para ‘Deus pode
producere resquam diposuit’. In sensu produzir as coisas diversamente de
compositionis est falsa: significatur como as dispôs’. No sentido da
enim quod haec est possibilis ‘Deus composição é falsa: com efeito,
producit aliter quam secundum significa que ‘Deus produz
dispositionem suam’; in sensu diversamente do que segundo a sua
divisionis est vera, et sunt duae disposição’ seja possível; no sentido da
propositiones categoricae, et est sensus: divisão é verdadeira, e tanto são duas
‘Deus potest facere hoc modo’, ‘non proposições categóricas como há o
disposuit facere hoc modo’. Nec tamen sentido: ‘Deus pode fazer deste modo’,
sequitur quod inordinate agat, ut patet ‘não dispôs fazer deste modo’. No
per praedicta.] entanto, não se segue que aja
desordenadamente, como é patente pelo
que foi anteriormente respondido11.]
11. Potentia tamen ordinata non 11. No entanto, a potência não é
dicitur nisi secundum ordinem legis dita ordenada senão segundo a ordem da
universalis, non autem secundum lei universal, mas não segundo a ordem
ordinem legis rectae de aliquo da lei reta sobre algo particular. Isto
particulari. Quod apparet ex hoc quod aparece do fato de que é possível que
possibile est Deum salvare quem non Deus salve àquele que não salva –

11
Cf. DUNS ESCOTO, Rep. IC d. 44, q. 1 in corp. (f. 189rb); Rep. IA d. 44 n. 11.
20

salvat, qui tamen morietur in peccato aquele que, no entanto, há de morrer em


finaliter et damnabitur, - non autem pecado final e ser condenado –, mas não
conceditur ipsum posse salvare Iudam se concede que ele possa salvar a Judas
iam damnatum (nec tamen hoc est que já está condenado (no entanto, isto
impossibile potentia absoluta Dei, quia não é impossível pela potência absoluta
non includit contradictionem); ergo de Deus, porque não inclui
istud, scilicet ‘salvare Iudam’, eo modo contradição); portanto, isto, a saber,
est impossibile quo modo possibile est ‘salvar Judas’, é impossível daquele
salvare istum: ergo istum potest salvare modo pelo qual é agora possível salvar
de potentia ordinata (quod verum est), o primeiro: portanto, o primeiro pode
et illum non. Non quidem ordine ser salvo pela potência ordenada (o que
particulari (qui est quasi de isto agibili é verdadeiro), e Judas não. Certamente,
et operabili particulari tantum), sed [o primeiro pode ser salvo] não pela
ordine universali, quia si salvaret, staret ordem particular [em vigor,] (que se dá
modo cum legibus rectis – quas vere como se apenas sobre este que é
praefixit – de salvatione et damnatione passível de ação e operação particular),
singulorum. Staret enim cum illa ‘quod mas pela ordem universal [a ser
finaliter malus damnabitur’ (quae est estabelecida], porque se for salvo, estará
lex prefixa de damnandis), quia iste agora com as leis retas – as quais
adhuc non est finaliter peccator, sed preestabeleceu verdadeiramente – sobre
potest esse non peccator (maxime dum a salvação e a condenação de cada um
est in via), quia potest Deus eum gratia dos singulares. Com efeito, estará com
sua praevenire; sicut si rex praeveniret ‘que o mal final há de ser condenado’
aliquem ne faceret homicidium, si non (que é a lei preestabelecida sobre aquele
damnat eum, non facit contra legem que há de ser condenado), porque este
suam universalem de homicida. Non ainda não é finalmente pecador, mas
autem staret, cum illa particulari lege, pode ser não pecador (maximamente
quod Iudam salvaret; Iuda enim potest enquanto está na via), porque Deus pode
praescire salvandum de potentia prevenir por sua graça; assim como se o
ordinata, sed non isto modo ordinata sed rei, ao prevenir que alguém cometa um
absoluta ab isto modo, et alio modo homicídio, não o condena, não atenta
ordinata secundum aliquem alium contra sua lei universal sobre o
ordinem tunc possibilem institui. homicida. Ora, não estaria com aquela
lei particular [em vigor] que Judas fosse
salvo; com efeito, pode ter a presciência
de que Judas há de ser salvo pela
potência ordenada, mas não ordenada
deste modo, mas absoluta quanto a este
modo, e ordenada de outro modo
segundo alguma outra ordem que então
seja possível instituir.
21

[Sequitur textus interpolatus: [Segue-se o texto interpolado:


Potentia ergo absoluta potest Iudam Portanto, pode salvar Judas pela
salvare, - potentia vero ordinata potest potência absoluta – de fato, pela
istum peccatorem salvare, licet non potência ordenada pode salvar este
salvabitur; sed lapidem nec potest pecador, embora não venha a salva-lo –
beatificare potentia absoluta, nec , mas não pode beatificar a pedra nem
ordinata. Et secundum hoc, patet pela potência absoluta nem pela
respectu cuius dicitur potentia absoluta potência ordenada. E, segundo isso, fica
in Deo, id est in quantum potest contra patente a respeito de que se fala de
legem universalem et non potência absoluta em Deus, isto é,
particularem.] enquanto pode ser contrária à lei
universal e não à particular.]
12. Qualiter autem voluntas 12. Ora, como, qualitativamente, a
divina possit circa particularia et circa vontade divina pode com relação aos
leges rectas instituendas, non volendo particulares e as leis retas que hão de ser
oppositum eius quod nunc vult, dictum instituídas, não querendo o oposto
est supra distinctione 397. daquilo que agora quer, tratou-se acima
na distinção 39.
13. Ad argumentum [supra, n. 1] 13. Para o argumento [acima, nº 1]
patet quod consequentia non valet, quia fica patente que a consequência não
si faceret res alio modo quam nunc vale, porque se fizesse as coisas de
ordinatum est eas fieri, non propter hoc modo diverso do que agora está
inordinate fierent, quia si statueret alias ordenado que sejam feitas, elas não se
leges secundum quas fierent, eo ipso dariam desordenadamente segundo
ordinate fierent. isso, porque se fossem estabelecidas
outras leis segundo as quais fossem
feitas, por isso mesmo seriam feitas
ordenadamente.
14. Ad argumentum in 14. Para o argumento oposto [nº 2],
oppositum [n. 2] concedo quod probat concedo que prova sobre a potência
de potentia absoluta, - quae tamen si absoluta, - no entanto, se ela fosse
esset principium alicuius, esset eo ipso princípio de algo, seria por isso mesmo
ordinata, sed non secundum ordinem ab ordenada, mas não segundo aquela
eo praefixum, eundem quem prius mesma ordem por ele preestabelecida
habuit. que antes se deu.

7
Ausente na Ordinatio; cf. DUNS ESCOTO, Lectura I, d. 39, n.53-54.
22

JOÃO DUNS ESCOTO


Lectura
Livro I
Distinção 44*

Quaestio Unica: Questão Única:


[UTRUM DEUS ALITER POTEST [SE DEUS PODE PRODUZIR AS
PRODUCERE RES QUAM COISAS DIVERSAMENTE DE COMO PRÉ-
PRAEORDINAVIT] ORDENOU]

1. Circa distinctionem 1. Acerca da distinção


quadragesimam quartam quaeritur quadragésima quarta pergunta-se se
utrum Deus aliter potest producere res Deus pode produzir as coisas
quam praeordinavit. diversamente de como pré-ordenou.
Quod non, videtur: Vê-se que não:
Quia tunc potest inordinate Porque então poderia produzir
producere. desordenadamente.
2. Contra: res aliter potest esse 2. Contra: as coisas podem ser
quam praeordinavit : hoc enim non diferentemente de como preordenou;
includit contradictionem ; igitur etc. com efeito, não há contradição nisso;
portanto etc.
3. Dicendum quod quando est 3. Deve-se dizer que quando há um
agens quod conformiter agit legi et agente que age em conformidade com a
rationi rectae, - si non limitetur et lei e a razão retas, se não for limitado e
alligetur illi legi, sed illa lex subest atado por aquela lei, mas aquela lei
voluntati suae, potest ex potentia depender de sua vontade, pode agir
absoluta aliter agere ; sed si lex non diversamente a partir da potência
subesset voluntati suae, non posset absoluta; mas se a lei não dependesse de
agere de potentia absoluta nisi quod sua vontade, não poderia agir pela
potest de potentia ordinata secundum potência absoluta a não ser quanto
illam legem. Sed si illa subsit voluntati àquilo que pode pela potência ordenada
suae, bene potest de potentia absoluta segundo aquela lei. Mas se ela depender
quod non potest de potentia ordinata de sua vontade, bem pode pela potência
secundum illam legem ; si tamen sic absoluta o que não pode pela potência
operetur, erit ordinata secundum aliam ordenada segundo aquela lei; no
legem, - sicut, ponatur quod aliquis entanto, se operar assim, será ordenada
*
JOÃO DUNS ESCOTO, Lectura : Opera Omnia, Vol. XVII. Civitas Vaticana, Typis Polyglottis Vaticanis,
1966, p. 535 s.. Tradução: Carlos Eduardo de Oliveira.
23

esset ita liber (sicut rex) quod possit segundo outra lei, - assim como se fosse
facere legem et eam mutare, tunc posto que alguém seja tão livre (como é
praeter illam legem de potentia sua o rei) que possa fazer a lei e muda-la,
absoluta aliter potest agere, quia potest então pode agir diversamente para além
legem mutare et aliam statuere. daquela lei por sua potência absoluta,
porque pode mudar a lei e estabelecer
outra.
4. Sic Deus se habet in operando, 4. Assim acontece com Deus ao
nam intellectus – ut prior est voluntate – operar, pois o intelecto – dado que seja
non statuit legem, sed offert primo anterior à vontade – não estabelece a lei,
voluntati suae ; voluntas autem acceptat mas a oferece primeiro à sua vontade;
sic oblatum, et tunc statuitur lex ; quia ora, a vontade aceita o que é assim
tamen opposita eorum quae statuta sunt, oferecido, e, então, a lei é estabelecida;
sunt possibilia, ideo potest legem no entanto, porque os opostos àqueles
mutare et aliter agere. Sicut statuit quod que foram estabelecidos são possíveis,
nullus esset glorificandus nisi prius esse pode mudar a lei e agir diversamente.
gratificatus ; operando autem huic lege Assim como estabelece que ninguém há
ordinate, agit secundum potentiam de ser glorificado a não ser que antes
ordinatam, et non potest aliter operari seja agraciado; ora, operando
nisi ordinando et statuendo aliam ordenadamente por esta lei, age
legem, - et hoc potest, quia contingenter segundo a potência ordenada, e não
voluit quod esset illa lex quod omnis pode operar diversamente a não ser que
peccator damnaretur ; unde faciendo ordene e estabeleça outra lei, - e pode
contrarium, statuit aliam legem, isso, porque quis contingentemente que
secundum quam etiam ordinate haja a lei de que todo pecador seja
operetur. condenado, donde ao fazer o contrário,
estabelece outra lei, segundo a qual
também há de operar ordenadamente.
5. Et sic patet quomodo debet 5. E assim é patente de que modo
intelligi quod Deus potest facere de se deve entender que Deus pode fazer
potentia absoluta quod non potest de pela potência absoluta o que não pode
potentia ordinata. pela potência ordenada.
24

GUILHERME DE OCKHAM
Quodlibeta septem
Livro VI
Questão 1*

Utrum homo possit salvari Se o homem pode ser salvo


sine caritate creata. sem a caridade criada.
Quod non: Quia quicumque Que não: porque qualquer um que
salvatur est carus Deo; sed nullus potest se salve é caro a Deus; mas ninguém
esse carus Deo sine caritate; igitur pode ser caro a Deus sem a caridade;
nullus potest salvari sine caritate. portanto, ninguém pode ser salvo sem a
caridade.
Contra : Deus potest omne Contra: Deus pode separar todo
absolutum distinctum ab alio separare et absoluto distinto de outro e conservá-lo
in esse sine eo conservare ; sed gratia et no ser sem o outro; ora, a graça e a
gloria sunt duo absoluta realiter glória são dois absolutos distintos
distincta ; igitur potest gloriam in anima realmente; portanto, pode conservar a
conservare et gratiam adnihilare. glória na alma e aniquilar a graça.
Hic primo ponam unam Aqui primeiro farei uma distinção sobre
distinctionem de potentia Dei; secundo a potência de Deus; em segundo lugar,
dicam ad quaestionem. responderei à questão.

[PRIMUS ARTICULUS] [PRIMEIRO ARTIGO]

Circa primum dico quod Sobre o primeiro digo que Deus


quaedam potest Deus facere de potentia pode fazer alguns pela potência
ordinata et aliqua de potentia absoluta. ordenada e outros pela potência
Haec distinctio non est sic intelligenda absoluta. Esta distinção não deve ser
quod in Deo sint realiter duae potentiae entendida assim: que haja em Deus
quarum uma sit ordinata et alia absoluta, realmente duas potências, das quais
quia unica potentia est in Deo ad extra, uma seria ordenada e a outra absoluta,
quae omni modo est ipse Deus. Nec sic uma vez que há uma única potência em
est intelligenda quod aliqua potest Deus Deus para o que é exterior, a qual, de
ordinate facere, et aliqua potest absolute todo o modo, é o próprio Deus. Nem
et non ordinate, quia Deus nihil potest deve ser entendida assim: que Deus

*
Traduzido de GUILHERME DE OCKHAM 1980. Quodlibeta Septem. J. C. Wey (ed.). [= G. de Ockham Opera
Theologica IX]. St. Bonaventure (NY): The Franciscan Institute, p. 585-589, por Carlos Eduardo de
Oliveira.
25

facere inordinate. pode fazer alguns ordenadamente e


outros pode absoluta e não
ordenadamente, uma vez que Deus nada
pode fazer desordenadamente.
Sed est sic intelligenda quod Mas deve ser entendida assim: que
‘posse aliquid’ quandoque accipitur ‘poder algo’ às vezes é tomado segundo
segundo leges ordinatas et institutas a as leis ordenadas e instituídas por Deus,
Deo, et illa dicitur Deus posse facere de e diz-se que Deus pode fazer esses pela
potentia ordinata. Aliter accipitur potência ordenada. Diversamente,
‘posse’ pro posse facere omne illud toma-se ‘poder’ por poder fazer tudo
quod non includit contradictionem fieri, aquilo que não há contradição em ser
sive Deus ordinaverit se hoc facturum feito, tenha Deus se ordenado a vir a
sive non, quia multa potest Deus facere fazê-lo ou não, uma vez que Deus pode
quae non vult facere, secundo fazer muitos que não quer fazer,
Magistrum Setentiarum, lib. I, d. 43 ; et segundo o Mestre das Sentenças, livro I,
illa dicitur Deus posse de potentia d. 43; e diz-se que Deus pode esses pela
absoluta. Sicut Papa aliqua non potest potência absoluta. Assim como o Papa
secundum iura statuta ab eo, quae tamen não pode, segundo as normas
absolute potest. estabelecidas por si mesmo, alguns que,
no entanto, pode absolutamente.
Ista distinctio probatur per Prova-se esta distinção por meio
dictum Salvatoris, Ioannis 3, 5: Nisi do que disse o Salvador, em João 3, 5.
quis inquit renatus fuerit ex aqua et Disse: apenas aquele que tiver
Spiritu Sancto, non potest introire in renascido da água e do Espírito Santo
regnum Dei. Cum enim Deus sit pode entrar no reino de Deus. Com
aequalis potentiae nunc sicut prius, et efeito, dado que Deus tenha potências
aliquando aliqui introierunt regnum Dei iguais tanto agora como antes, tanto
sine omni baptismo, sicut patet12 de como certa vez alguns entraram no
pueris circumcisis tempore Legis reino de Deus sem nenhum batismo,
defunctis antequam haberent usum assim como é patente no caso das
rationis, et nunc est hoc possibile. Sed crianças circuncidadas no tempo da Lei
tamen illud quod tunc erat possibile que morreram antes de ter o uso da
secundum leges tunc institutas, nunc razão, também agora isto é possível.
non est possibile secundum legem iam Ora, no entanto, aquilo que então era
institutam, licet absolute sit possibile. possível segundo as leis então
instituídas, agora não é possível
segundo a lei agora instituída, embora
seja possível absolutamente.

12
Cf. Pedro Lombardo, Sentenças, livro IV, d. 1, c. 7.
26

[SECUNDUS ARTICULUS [SEGUNDO ARTIGO


CONCLUSIO 1] 1ª CONCLUSÃO]
Circa secundum articulum dico A respeito do segundo artigo
primo quod homo potest salvari sine respondo que o homem pode ser salvo
caritate creata de potentia Dei absoluta. sem a caridade criada pela potência
Haec conclusio probatur primo sic: absoluta de Deus. Prova-se essa
quidquid Deus potest facere mediante conclusão primeiramente assim: tudo o
causa secunda in genere causae que Deus pode fazer por meio de uma
efficientis vel finis, potest immediate causa segunda a título de causa eficiente
per se; sed caritas creata, si sit causa ou final, pode imediatamente por si; ora,
effectiva sive dispositiva disponens ad a caridade criada, se for causa efetiva ou
vitam aeternam, erit causa secunda dispositiva que dispõe para a vida
efficiens vel finis; igitur sine ea potest eterna, será causa segunda eficiente ou
Deus dare alicui vitam aeternam. final; portanto, Deus pode dar a vida
eterna a alguém sem ela.
Praetera agens quod non Além disso, o agente que não está
determinatur ad certum cursum et determinado para certo curso e ordem
ordinem rerum, secundum alium das coisas, pode produzir segundo outra
ordinem res illas producere potest; sed ordem aquelas coisas; ora, Deus é tal
Deus est tale agens; igitur potest dare agente; portanto, pode dar a vida eterna
vitam aeternam alicui facienti bonum a alguém que faça a boa obra sem tal
opus, sine tali gratia. graça.
Praetera, quod potest dari alicui Além disso, o que pode ser dado a
non tamquam praemium pro merito, alguém sem ser o prêmio pelo mérito,
potest sibi dari de potentia Dei absoluta pode ser dado a ele pela potência
sine omni habitu praevio qui est absoluta de Deus sem qualquer hábito
principium merendi; sed actus prévio que é o princípio do merecer;
beatificus dabatur Paulo in suo raptu, ora, o ato beatífico foi dado a Paulo na
quia tunc vidit essentiam divinam non sua queda, porque então viu a essência
tamquam praemium pro merito; igitur divina sem ser o prêmio pelo mérito;
potest sibi dare vitam aeternam sine tali portanto, pode ser dada a ele a vida
gratia quae est principium merendi. eterna sem tal graça que é o princípio do
merecer.
Praetera non est maior Além disso o ato meritório não
repugnantia actus meritorii ad naturam repugna mais à natureza constituída no
in solis naturalibus constitutam quam que é unicamente natural do que o ato
actus demeritorii; sed voluntas potest ex demeritório; ora, a vontade pode por si
se in actum demeritorium; igitur no ato demeritório; portanto, a vontade
voluntas in solis naturalibus constituta constituída no que é unicamente natural
27

potest per potentiam Dei absolutam in pode pela potência absoluta de Deus no
actum meritorium. Minor est manifesta. ato meritório. A menor é manifesta.
Maior probatur, quia ubi non est Prova-se a maior, porque onde não há o
simpliciter, ibi non est magis, sicut quod simples, ali não há o mais; assim como
non est album non est magis album; sed o que não é branco não é mais branco;
actus meritorii ad naturam in solis ora, não há nenhuma repugnância do ato
naturalibus constitutam non est aliqua meritório para a natureza constituída
repugnantia; igitur non est maior nos unicamente naturais; portanto, não
repugnantia. há maior repugnância.
Praeterea nihil est meritorium Além disso, não é meritório senão
nisi quod est in potestate nostra; sed illa o que está em nosso poder; ora, aquela
caritas non est in nostra potestate; igitur caridade não está em nosso poder,
actus non est meritorius principaliter portanto, o ato não é meritório
propter illam gratiam sed propter principalmente em razão daquela graça,
voluntatem libere causantem; igitur mas em razão da vontade livre
posset Deus talem actum elicitum a causadora; portanto, Deus pode aceitar
voluntate acceptare sine tali gratia. tal ato produzido pela vontade sem tal
graça.

[CONCLUSIO 2] [2ª CONCLUSÃO]

Secundo dico quod numquam Em segundo lugar, digo que o


salvabitur homo nec salvari poterit, nec homem jamais será salvo nem poderá se
umquam eliciet vel elicere poterit actum salvar, nem jamais produziria ou
meritorium secundum leges a Deo nunc poderia produzir o ato meritório
ordinatas sine gratia creata. Et hoc teneo segundo as leis agora ordenadas por
propter Scripturam Sacram et dicta Deus sem a graça criada. E assumo isto
Sanctorum. em razão da Sagrada Escritura e os ditos
dos Santos.

Et si dicis quod prima conclusio E se disseres que a primeira


continet errorem Pelagii: conclusão contém o erro de Pelágio:

Respondeo quod non, quia Respondo que não, porque Pelágio


Pelagius posuit quod de facto non assumiu que a graça de fato não é
requiritur gratia ad vitam aeternam requerida para que se tenha a vida
habendam sed quod actus ex puris eterna, mas que o ato produzido pelo
naturalibus elicitus est meritorius vitae que é puramente natural é meritório da
aeternae de condigno. Ego autem pono vida eterna sobre o que é igualmente
quod solum est meritorius per digno. Eu, porém, assumo que apenas é
potentiam Dei absolutam acceptantem. meritório pela potência absoluta de
Deus que o aceita.
28

Ad argumentum principale digo Para o argumento principal digo


quod ‘caritas’ dupliciter accipitur: uno que ‘caridade’ é tomada duplamente: de
modo, pro una qualitate animae; alio um modo, por uma qualidade da alma;
modo, pro acceptatione divina. Primo de outro modo, pela aceitação divina.
modo accipiendo ‘caritatem’, potest Tomando ‘caridade’ do primeiro modo,
homo esse carus Deo sine caritate, sed o homem pode ser caro a Deus sem a
non secundo modo. caridade, mas não do segundo modo.
29

GUILHERME DE OCKHAM,

Tratado Contra Benedito

Terceiro Livro*

[CAPITULUM III] [Capítulo 3]


PRIMUS itaque error loannis XXII E, assim13, o primeiro erro de João
breviter hic tractandus, cui vocatus XXII que aqui brevemente cumpre
Benedictus XII tacendo favet, est: Quod tratar, o qual o assim chamado Benedito
Deus non potest aliquid facere, nisi XII fomenta ao se calar, é: que Deus não
quod facit; immo ipsum aliud facere pode fazer senão o que faz; ou melhor,
contradictionem includit. Unde et que há contradição em que ele faça algo
distinctionem communem theologorum, diversamente. Donde também a
quae sane intellecta est fidei consona distinção comum dos teólogos – que
orthodoxae : quod scilicet Deus aliqua corretamente entendida é consoante à fé
potest de potentia ordinata, et aliqua ortodoxa, a saber, que Deus pode alguns
de potentia absoluta, ut aliqua possit de pela potência ordenada e outros pela
potentia absoluta, quae numquam faciet potência absoluta, dado que pode alguns
de potentia ordinata : erroneam reputat et pela potência absoluta que jamais fará
absurdam, secundum omnem pela potência ordenada – reputa errônea
intellectum, quem de ipsa theologi e absurda, segundo qualquer
habere noscuntur: ponens quod, quia compreensão que os teólogos admitam
omnia sunt ordinata ab aeterno a Deo, ter dela, ao defender que, porque tudo é
et contra ordinationem Dei nihil fieri ordenado por Deus desde a eternidade e
potest, aliquid aliter evenire quam evenit, nada pode ser feito contra a ordenação
contradictionem includit. de Deus, há contradição em que algo
aconteça diversamente de como
acontece.

Istum errorem praedicavit et docuit João XXII pregou e ensinou este


loannes XXII in sermone, qui incipit erro no sermão que começa: Os justos
Tulerunt iusti spolia impiorum, etc., trouxeram os espólios dos ímpios...14
dicens : Cum dicitur ' iusti ', nota quod etc., ao dizer: Quando é dito “justos”,

*
Traduzido de GUILHERME DE OCKHAM 1956. Tractatus contra Benedictum. R. F. Bennett e H. S. Offler
(curadores). H. S. Offler (ed.). [= G. de Ockham Opera Politica III]. Manchester : Manchester University
Press, p. 230-234, por Carlos Eduardo de Oliveira.
13
Cf. Opus Nonaginta Dierum, cap. 95; Epistola ad Fratres Minores; Contra Ioannem, cap. 22. (O tema
principal dos dois últimos trechos é a alegação de que João XXII nega a distinção entre a potência absoluta
e a ordenada e, como consequência disso, defende que tudo aconteça necessariamente.).
14
Sermão pregado em 1330 “sobre a vitória do rei de Castela contra os Sarracenos” (cf. Ockham, 1956,
Epistola ad Fratres Minores, p. 14, comentário às linhas 22-6).
30

quilibet homines divinae regulae se nota que quaisquer homens se


conformant cum efficiuntur iusti, scilicet conformam à regra divina quando se
per caritatem et baptismum, quae regulae tornam justos, a saber, por meio da
sunt aeternae et incommutabiles, idemque caridade e do batismo, regras que são
quod divina essentia. Unde sicut eternas e incomutáveis, tal como a
impossibile est Deum esse mutabilem, quia essência divina. Donde assim como é
tunc non esset Deus, ita impossibile est impossível que Deus seja mutável, pois
quod illa, quae de sua ordinata potentia então não seria Deus, é impossível que
facit, [possit aliter facere quam facit]. Et [possa fazer diversamente do que faz]
ideo impossibile est quod salvaret hominem aquilo que faz por sua potência
de absoluta potentia sine sacramento ordenada. E por isso é impossível que
baptismi et sine habitu caritatis, quia sic salvasse o homem pela potência
ordinatum fuit ab aeterno de [Dei] absoluta sem o sacramento do batismo
potentia ordinata, quae idem est quod e sem o hábito da caridade, porque foi
Deus, et mutari non potest. Item, cum assim ordenado desde a eternidade pela
dicitur : ' Victricem manum ' etc., per potência ordenada [de Deus], que é
manum in scriptura intelligitur divina idêntica a Deus, e não pode ser
potentia, quae idem est quod sua essentia. mudada. Ainda, quando é dito: “Mão
Unde distinguunt quidam et dicunt, quod vitoriosa”(Sb 10, 20) etc., por “mão” é
multa potest Deus de potentia absoluta, entendida, na Escritura, a potência
quae non potest nec facit de potentia divina, que é idêntica à sua essência.
ordinata. Sed istud est falsum et Donde alguns distinguem e dizem que
erroneum, quia potentia Dei absoluta et Deus pode muitos pela potência
ordinata idem sunt et non distinguuntur ab absoluta que não pode nem faz pela
invicem, nisi solo nomine, sicut Simon et potência ordenada. Ora, isso é falso e
Petrus, quando idem homo utroque nomine errôneo, porque a potência absoluta e
appellatur. Sicut ergo impossibile est quod ordenada de Deus são a mesma e não
aliquis percutiat Simonem et non são distintas entre si a não ser
percutiat Petrum, et quod Simon faciat unicamente pelo nome, assim como
aliquid quod non facit Petrus, quia sunt Simão e Pedro, quando o mesmo
idem homo : ita impossibile est quod Deus homem é chamado por ambos.
de potentia absoluta possit aliud facere Portanto, assim como é impossível que
quam facit de potentia ordinata, quia idem alguém atinja a Simão e não atinja a
sunt, et solo nomine differunt sive Pedro, e que Simão faça algo que Pedro
distinguuntur. Item, cum istae potentiae não faz, uma vez que são o mesmo
sint idem quod Deus, si posset Deus homem, assim é impossível que Deus
aliquid facere de potentia absoluta, quod possa, pela potência absoluta, fazer
non facit de potentia ordinata, tunc esset diversamente do que faz pela potência
mutabilis in se ipso, et non esset Deus. ordenada, porque são a mesma e
Sicut ergo sum-mum impossibile est diferem ou são distinguidas unicamente
Deum non esse Deum, ita summum pelo nome. Ainda, dado que estas
31

impossibile est et erroneum dicere Deum potências sejam idênticas a Deus, se


posse aliquid facere de potentia absoluta Deus pudesse fazer algo pela potência
aliud quam facit vel faciet de potentia absoluta que não faz pela potência
ordinata. Item, in omnibus aliis citra ordenada então seria mutável em si
Deum differunt essentia et potentia, quia mesmo, e não seria Deus. Portanto,
in aliis omnibus potentiae sunt accidentia assim como é sumamente impossível
; in solo autem Deo [potentia Dei est ipsa que Deus não seja Deus, assim é
essentia et substantia Dei aeterna et sumamente impossível e errôneo dizer
incommutabilis. Si ergo Deus de] potentia que Deus possa fazer algo pela potência
absoluta posset aliquid facere aliud quam absoluta diverso do que faz ou fez pela
faciat de potentia ordinata, sequeretur potência ordenada. Ainda, em tudo o
quod effectus potentiae ordinatae posset a mais abaixo de Deus diferem a essência
Deo frustrari et mutari, et tunc non esset e a potência, porque em tudo o mais as
omnipotens. Sequeretur etiam quod Deus potências são acidentes; ora,
in se ipso non solum esset mutabilis, sed unicamente em Deus [a potência de
sibi ipsi et suae potentiae contrarius, et tunc Deus é a própria essência e substância
non esset Deus. Quae omnia sunt falsa et eterna e incomutável de Deus.
erronea. Patet igitur quod falsum est et Portanto, se Deus pela] potência
erroneum dicere et etiam impossibile, quod absoluta pudesse fazer algo diverso do
Deus de potentia absoluta posset facere que fizer pela potência ordenada,
aliud quam faciat de potentia ordinata. seguir-se-ia que o efeito da potência
Haec verba domini Ioannis XXII in dicto ordenada poderia ser suspenso e
sermone praedicata et dicta. mudado por Deus, e, assim, não seria
onipotente. Seguir-se-ia também que
Deus em si mesmo não apenas seria
mutável, mas contrário a si mesmo e à
sua potência, e, então, não seria Deus:
todos os quais são falsos e errôneos.
Portanto, é patente que é falso e
errôneo e ainda impossível dizer que
Deus, pela potência absoluta, poderia
fazer diversamente do que faz pela
potência ordenada. Palavra pregada e
pronunciada pelo senhor João XXII no
sermão mencionado.

Ista doctrina patenter asserit, non Assevera claramente e não


latenter, quod Deus non potest aliquid subentendidamente esta doutrina de que
facere de potentia absoluta, quod non facit Deus não pode fazer, pela potência
de potentia ordinata, quia omnia sunt absoluta, algo que não faz pela potência
ordinata a Deo. Ex quo sequitur evidenter ordenada, uma vez que tudo é ordenado
32

quod nulla creatura potest aliquid facere, por Deus. Do que se segue15
quod non facit; et ita omnia de necessitate evidentemente que nenhuma criatura
eveniunt et nihil penitus contingenter, pode fazer algo que não faz; e assim
sicut quamplures infideles et antiqui tudo acontece necessariamente e nada
haeretici docuerunt, et adhuc occulti de modo completamente contingente,
haeretici et laici et vetulae tenent, saepe assim como ensinaram vários infiéis e
per argumenta sua etiam litteratos viros hereges antigos, e ainda hoje sustentam
et in sacris litteris peritos concertantes. os hereges dissimulados, os leigos e as
Uterque autem errorum praedictorum velhotas que ainda combatem
scripturis divinis repugnat aperte, sicut frequentemente por meio de seus
per quamplurimas auctoritates et rationes argumentos os homens letrados e
posset copiose probari, sed causa peritos das letras sagradas. Cada um dos
brevitatis adducam paucas. erros mencionados repugna
abertamente às escrituras divinas, assim
como se pode provar por meio de várias
autoridades e razões, mas apresentarei
poucas para ser breve.
Quod igitur Deus aliquid potuit et Portanto16, que Deus pôde e pode
posset de potentia absoluta, quod non pela potência absoluta o que não fez
fecit nec facit nec faciet de potentia nem faz nem fará pela potência
ordinata neque de potentia absoluta, ordenada nem pela potência absoluta é
probatur aperte. Hoc enim Christus abertamente provado. Com efeito, o
testatur expresse, qui, ut legitur Matthaei Cristo atestou isto expressamente
xxvi, ait Petro : Converte gladium tuum in quando, como se lê em Mateus 26, 52-
vaginam seu in locum suum ; omnes enim, 54, disse a Pedro: Guarda tua espada na
qui acceperint gladium, gladio peribunt. bainha ou em seu lugar; com efeito,
An putas, quia non possum rogare Patrem todos que tomam a espada, pela espada
meum, et exhibebit mihi plus quam xii perecerão. Pensas acaso que não posso
legiones angelorum ? Quo modo ergo pedir ao meu Pai, e ele me dará mais de
implebuntur Scripturae, quia sic oportet doze legiões de anjos? De que modo,
fieri ? Ex quibus verbis Christi colligitur então, se cumprirão as Escrituras, uma
evidenter quod Deus poterat exhibere vez que é assim que convém acontecer?
Christo plus quam xii legiones Palavras de Cristo a partir das quais se
angelorum ad liberandum eum de manibus colhe evidentemente que Deus poderia
capientium et volentium occidere ipsum : dar a Cristo mais de doze legiões de
et tamen Deus hoc non fecit, neque de anjos para libertá-lo das mãos que o
potentia absoluta neque de potentia prendiam e queriam matá-lo: e, no
ordinata. Hinc Magister Sententiarum, entanto, Deus não fez isso, nem pela

15
Cf. Contra Ioannem, cap. 23.
16
Cf. Opus Nonaginta Dierum, cap. 95.
33

libro primo, di. xliii, ait: Omnipotentis potência absoluta, nem pela potência
voluntas multa potest facere, quae non vult ordenada. Aqui, o Mestre das
nec facit: potuit enim facere, ut xii legiones Sentenças, no livro Primeiro, distinção
contra illos pugnarent, qui Christum 4317, diz: A vontade do onipotente pode
ceperunt: quod tamen non fecit. Item, fazer muitos que não quer nem faz: com
hoc tres viri, Sidrach, Misach et efeito, pôde fazer que doze legiões
Abdenago, qui, ut legitur Danielis iii, de lutassem contra aqueles que prenderam
camino ignis ardentis miraculose liberati o Cristo, o que, porém, não fez. Ainda,
fuerunt, antequam mitterentur in estes três homens, Sidrac, Misac e
caminum testati sunt, dicentes Abdênago, que, como se lê em Daniel 3,
Nabuchodonosor regi: Ecce Deus noster, 17-18, foram libertados milagrosamente
quem colimus, potest eripere nos de do caminho de fogo ardente, antes de
camino ignis ardentis, et de manibus tuis, serem enviados ao caminho
rex, liberare. Quod si noluerit, notum sit testemunharam ao dizer ao rei
tibi, rex, quod deos tuos non colimus. Ex Nabucodonosor: Eis que o nosso Deus,
quibus verbis liquido patet quod isti a quem cultuamos, pode nos tirar do
firmiter crediderunt quod Deus poterat caminho de fogo ardente e libertar de
eos de manibus regis eripere, et tamen an tuas mãos, ó rei. Se ele não o quiser,
eos vellet eripere, nesciverunt. Quare saiba, ó rei, que não veneramos os teus
crediderunt quod Deus poterat aliqua deuses. Dessas palavras é claramente
facere, quae numquam faciet. Item, hoc patente que eles acreditaram
testatur Ioannes Baptista, qui, ut legitur firmemente que Deus poderia tirá-los
Matthaei iii, dixit quod Deus potest de das mãos do rei, e, no entanto,
lapidibus suscitare filios Abrahae, quod ignoravam se os queria tirar. Assim
[non] solum spiritualiter, sed etiam ad acreditaram que Deus poderia fazer
litteram sane potest intelligi: quod tamen algo que jamais fez. Ainda, isto
Deus non facit. Potest ergo Deus multa testemunha João Batista, que, como se
facere, quae non facit: quod Augustinus lê em Mateus 3, 9, diz que Deus pode
testatur, qui, ut recitat Magister suscitar das pedras filhos para Abraão,
Sententiarum, libro primo, di. xliii, ait in o que [não] apenas espiritualmente, mas
libro de Natura et Gratia : Dominus também literalmente pode ser
Lazarum suscitavit in corpore. Numquid corretamente entendido: no entanto,
dicendum est, non potuit ludam suscitare in Deus não o faz. Portanto, Deus pode
mente ? Potuit quidem, sed noluit. Alias fazer muitos que não faz: testemunha-o
plures auctoritates Augustini Magister Agostinho, que, como cita o Mestre das
eadem distinctione xliii et di. xliv allegat Sentenças, no livro primeiro, distinção
ad idem, quibus manifeste asseritur 43, disse no livro Sobre a Natureza e a
Deum posse facere multa, quae non facit. Graça18: o Senhor suscitou Lázaro no
Post quas concludit Magister, dicens : Ex corpo. Acaso deve ser dito que não pôde
17
Citando a Agostinho, Enchiridion, 95, PL 40, 275.
18
Agostinho, De natura et gratia, VII, PL 44, 250.
34

praedictis constat, quod Deus potest suscitar Judas na mente? Certamente


facere et alia, quam facit, et quae facit, pôde, mas não quis. O Mestre alega
meliora posset ea facere, quam facit. várias outras autoridades de Agostinho
sobre isso na mesma distinção 43 e na
distinção 44, pelas quais
manifestamente é asseverado que Deus
pode fazer muitos que não faz. Depois
delas, o Mestre conclui dizendo19:
Consta do que foi mencionado que Deus
pode fazer tanto outros do que faz
como, o que faz, pode fazê-lo melhor do
que faz.

Quod autem creaturae possint facere Ora, que as criaturas possam fazer
multa, quae non faciunt, et omittere, quae muitos que não fazem e omitir que não
non omittuntur, et per consequens non omitem e, consequentemente, nem tudo
omnia eveniunt de necessitate, sed multa acontece necessariamente, mas muitos
contingenter fiunt, auctoritatibus sacrae se dão contingentemente, é
scripturae ostenditur manifeste. De uno manifestamente mostrado pelas
enim iusto legitur in Ecclesiastico : Potuit autoridades da sagrada escritura. Com
transgredi, et non est transgressus ; et facere efeito, lê-se sobre um justo no
mala, et non fecit. Et, ut legitur II Eclesiástico, 31, 10: Pôde transgredir,
Machabaeorum c. vi, dicit Eleazarus e não transgrediu; fazer o mal, e não
scriba, cum esset in tormentis pro fide fez. E, como se lê no capítulo 6, 30, de
Dei: Domine, qui habes sanctam 2º Macabeus, diz o escriba Eleazar
scientiam, manifeste tu scis, quia, cum a quando estava sob tormentos pela fé de
morte possem liberari, duros et corporis Deus: ó Senhor, que tens a santa
sustineo dolores: secundum animam vero ciência, sabes manifestamente que eu,
propter timorem tuum libenter patior ainda que pudesse libertar-me da
haec. Et Matthaei xxvi dicitur de morte, sustento as crueldades e as dores
unguento, quod effudit Maria Magdalena do corpo, pois segundo a alma por teu
super caput Ihesu : Potuit istud temor de bom grado as sofro. E em
unguentum venundari multo, et dari Mateus 26, 9, é dito sobre o unguento
pauperibus : et tamen non fuit que Maria Madalena derramou sobre a
venundatum neque datum pauperibus. Ex cabeça de Jesus: este unguento podia ter
quibus omnibus clarissime patet quod sido vendido por muito e ser dado aos
creaturae multa possunt facere, quae pobres, e, no entanto, nem foi vendido
non facient, et multa omittere, quae non nem dado aos pobres. De todos esses
omittent. Quare non omnia de fica clarissimamente patente que as
necessitate eveniunt, ut publice criaturas podem fazer muitos que não

19
Pedro Lombardo, Sententiarum I, d. 44, cap. 1.
35

praedicavit et docuit loannes XXII, fazem e omitir muitos que não omitem.
appellans quendam tenentem contrarium Assim, nem tudo acontece
propter hoc haereticum. necessariamente, como pregou e
ensinou publicamente João XXII,
chamando, em razão disso, de herético
a quem sustenta o contrário.

Adhuc, in doctrina praemissa Ainda, na doutrina anunciada, está


continetur alius error aperte, cum dicit contido abertamente outro erro, visto
quod Deus de potentia absoluta non que se diz que Deus não pode, pela
potest salvare hominem sine sacramento potência absoluta, salvar o homem sem
baptismi. Quod est erroneum : tum quia, o sacramento do batismo. O que se vê
accipiendo sacramentum baptismi sicut que seja errôneo: seja porque, tomando
accipitur a theologis et sanctis, quando de o sacramento do batismo assim como é
sacramento baptismi loquuntur (scilicet tomado pelos teólogos e pelos santos
pro ablutione in acqua cum debita forma quando falam sobre o sacramento do
verborum), et multi de facto salvantur batismo (a saber, pela ablução na água
sine tali sacramento, scilicet occisi pro com a devida forma das palavras), tanto
fide, et multi, qui per poenitentiam muitos se salvam de fato sem tal
absque baptismo fluminis (qui ipsum sacramento, a saber, mortos pela fé,
habere non possunt) credunt se como muitos, que, por meio da
baptizatos, salvantur: tum quia absque penitência, sem o batismo das águas
baptismo fluminis, flaminis et sanguinis (que não podem receber), se creem
posset nunc salvare infantes, sicut batizados, são salvos; seja porque sem o
antiquitus fecit muitos, ex quo manus batismo da água, do fogo e do sangue
eius non est abbreviata nec eius potentia pode agora salvar as crianças, assim
est in aliquo diminuta. como fez muitos desde os tempos
antigos, donde sua mão não está
encurtada20 nem sua potência de algum
modo diminuída.

Rationes autem Ioannis XXII, quas Ora, as razões de João XXII, que
pro haeresi praedicta adducit, haereticales toma o que foi mencionado por heresia,
sunt et omnino similes rationibus são heréticas e completamente
haereticorum (quas allegat et solvit semelhantes às razões dos heréticos (as
Magister Sententiarum libro primo de quais cita e resolve o Mestre das
diversis distinctionibus), quibus haeretici Sentenças no livro Primeiro sobre
conabantur ostendere quod omnia diversas distinções21), pelas quais os
eveniunt de necessitate, quia heréticos buscavam mostrar que tudo
praescientia Dei falli non potest, et quia ocorre necessariamente, seja porque a
20
Cf. Is 59, 1.
21
Cf. Pedo Lombardo, Sentent. I, d. 38, 2; d. 40, 1.
36

in Deo idem est esse et velle, et quia in presciência de Deus não pode falhar,
Deo scire et praescire et esse sunt idem: seja porque em Deus é o mesmo o ser e
et eodem modo solvi debent. o querer, seja porque em Deus o saber e
o saber previamente e o ser são o
mesmo: e devem ser resolvidas do
mesmo modo.

Ad cuius evidentiam ad praesens Para a evidência disso cumpre


breviter est sciendum, quod ad recte saber aqui, brevemente, que para o
intelligendum distinctionem de potentia correto entendimento da distinção sobre
Dei absoluta et ordinata non intendunt a potência absoluta e ordenada de Deus
quod in Deo sint diversae potentiae, não pretendem que haja em Deus
quarum una est absoluta et alia ordinata, potências diversas, das quais uma é
per quarum unam potest Deus aliqua, absoluta e a outra ordenada, por uma
quae non potest per aliam. Sed intendunt das quais Deus pode alguns que não
solummodo quod Deus posset aliqua, pode pela outra. Mas pretendem
quae non ordinavit se facturum; unicamente que pudesse alguns que não
quemadmodum posset aliqua facere, quae se ordenou haver de fazer; de modo que
non praevidit se facturum, quia non est ea pudesse fazer alguns que não previu
facturus : quae tamen, si faceret, et haver de fazer porque não há de fazê-
praeordinasset et praescivisset se los; os quais, no entanto, se fizesse,
facturum. Non ergo sunt tales potentiae in tanto preordenaria como saberia
Deo diversae ; sed quemadmodum, ut previamente que haveria de fazê-los.
dicit Magister Sententiarum libro i, di. xlv: Portanto, tais potências não são diversas
Sacra [scriptura] de voluntate [Dei] variis em Deus; mas de modo que, como diz o
modis consuevit loqui; et non est Mestre das Sentenças no livro 1,
voluntas Dei diversa, sed locutio diversa distinção 4522: A Sagrada [Escritura]
est de voluntate, quia nomine voluntatis costumeiramente falou de vários modos
diversa accipit, sic scripturae divinae et sobre a vontade [de Deus]; e a vontade
sanctorum diversimode loquuntur de de Deus não é diversa, mas é diversa a
potentia Dei, et tamen potentia Dei est locução sobre a vontade, porque toma a
una, et non diversa. Et ideo, licet diversos com o nome “vontade”, assim
potentia Dei sit una, tamen propter as escrituras divinas e dos santos falam
diversam locutionem dicitur quod Deus de modos diversos sobre a potência de
aliqua potest de potentia absoluta, quae Deus, e, no entanto, a potência de Deus
tamen numquam faciet de potentia é una, não diversa. E, por isso, embora
ordinata (hoc est, de facto numquam a potência de Deus seja una, no entanto,
faciet) : quemadmodum essentia et em razão de uma locução diversa se diz
potentia, et similiter esse et posse, non que Deus pode alguns pela potência
sunt diversa in Deo, et tamen Deus potest absoluta que, no entanto, jamais fará

22
Cap. 5.
37

multa, non obstante quod non sint illa pela potência ordenada (isto é, de fato
multa, quae potest. Potest enim facere jamais fará): de modo que a essência e a
et fecit creaturas, scilicet caelum et potência, e, semelhantemente, o ser e o
terram et alia, et tamen non illa, quae poder, não são diversos em Deus, e, no
fecit, et illa, quae faciet. entanto, Deus pode muitos sem que
obste que aqueles muitos que pode não
sejam. Com efeito, pode fazer e fez as
criaturas, a saber, o céu e a terra e
outros, e, no entanto, não aqueles que
fez e aqueles que fará.

Qualiter autem non propter Mas, segundo qual qualidade – não


diversitatem potentiarum in Deo, sed em razão da diversidade das potências
propter diversitatem locutionis (hoc est, em Deus, mas em razão da diversidade
propter diversum modum accipiendi da locução (isto é, em razão do modo
vocabula vel vocabulum) sit dicendum diverso de se tomar as palavras ou a
quod Deus posset aliqua de potentia palavra) – deve ser dito que Deus pode
absoluta, quae numquam faciet, non alguns pela potência absoluta que
posset verbis brevibus explicari, nec illi, jamais fará, não pode ser explicado com
qui in scientiis philosophicis et theologicis palavras breves, nem aqueles que são
minime sunt sufficienter instructi, minimamente instruídos de modo
faciliter valerent intelligere: ideo de hoc suficiente nas ciências filosóficas e
ad praesens pertranseo. teológicas conseguirão entender
facilmente, por isso, aqui, abro mão
disso.
38

GUILHERME DE OCKHAM
Opus Nonaginta Dierum
(Obra dos Noventa Dias)
Capítulo 95*

ET si velit dicere quod illi regno et E se quer dizer que renunciou


dominio renuntiavit expresse, ostendat illam, si expressamente àquele reino e domínio,
sciat : quod tamen, ut credimus, per sacram mostre a renúncia, se souber, visto que, no
scripturam non poterit. Immo contrarium sacra entanto, como cremos, não o poderia pela
scriptura supponit expresse; quae supponit eum sagrada escritura. Melhor: a sagrada escritura
non longe a passione sua dixisse : Vos vocatis supõe expressamente o contrário; visto que
me Magister, et Domine, et bene dicitis ; sum supõe que, não muito antes de sua paixão,
etenim. Item, illud Matthaei xxi, ubi Dominus tivesse dito: Vós me chamais de Mestre e de
duobus discipulis dixit: Ite in castellum, quod Senhor, e dizeis bem; com efeito, eu sou [João
contra vos est, et statim invenietis asinam 13, 13]. Ainda, a passagem de Mateus 21, 2-
alligatam, et pullum cum ea ; solvite, et 3, em que o Senhor disse aos dois discípulos:
adducite michi ; et si quis vobis aliquid dixerit, Ide à aldeia que está à vossa frente e logo
dicite quia Dominus hiis opus habet. Item, encontrareis uma jumenta amarrada e um
tempore passionis se regem recognovit, ut filhote com ela; desamarrai-os e trazei para
probatum est supra. Item, David in persona eius mim; e se alguém disser algo a vós, direis que
legitur dixisse (etiam pro tempore passionis), o Senhor necessita deles. Ainda, no tempo da
diviserunt sibi vestimenta mea et super vestem paixão, se reconhece rei, como se provou
meam miserunt sortem, et recitatur Matthaei antes. Ainda, lê-se (também quanto ao tempo
xxvii. Ex quibus evidenter apparet ipsum regno da paixão) que Davi teria dito quanto à sua
et dominio non renuntiasse praedictis ; immo pessoa: dividiram entre si minhas vestes e
videtur quod non potuerit renuntiare, et si lançaram a sorte sobre minhas roupas, e é
fecisset, contra ordinationem Patris fecisset. citado em Mateus 27 [Sl 21, 19; Mt 27, 35].
Dicitur enim Danielis ii, ubi de eius regno fit A partir dessas passagens aparece
mentio, sic : Suscitabit Deus caeli regnum, quod evidentemente que ele não tenha renunciado
in aeternum non dissipabitur ; et regnum eius ao reino e ao domínio preditos; melhor: vê-se
alteri non tradetur; item Danielis vii dicitur sic que não poderia renunciar, e se o fizesse, o
: Dedit ei potesiatem, et honorem, et regnum, et faria contra a ordenação do Pai. Com efeito,
omnes populi, tribus et linguae ipsi servient; diz-se em Daniel 2, 44, em trecho em que se
potestas eius, potestas aeterna, quae non faz menção a seu reino, assim: o Deus do céu
auferetur, et regnum eius non corrumpetur. suscitará um reino que não será dissipado na
eternidade; e seu reino não será entregue a

*
Traduzido de GUILHERME DE OCKHAM 1963. Opus Nonaginta Dierum: Capitula 7-124. R. F. Bennett e H.
S. Offler (curadores). † J. G. Sikes (ed.). H. S. Offler (rev.). [= G. de Ockham Opera Politica II].
Manchester : Manchester University Press, p. 715-729, por Carlos Eduardo de Oliveira.
39

outro; ainda, em Daniel 7, 14, diz-se assim:


Deu a ele o poder, a honra, o reino e todos os
povos, tribos e línguas a ele servirão; seu
poder, poder eterno, não será subtraído e seu
reino não será corrompido.23

IN parte ista nititur ostendere quod Nesta parte se esforça em mostrar


Christus regno et universali dominio que o Cristo jamais renunciou ao reino
nunquam renuntiavit. Primo autem dicit e ao domínio universal. Ora, primeiro
quod appellans non potest probare per diz que o apelante não pode provar pela
scripturam sacram quod Christus sagrada escritura que o Cristo renunciou
renuntiavit regno et dominio universali; ao reino e ao domínio universal;
secundo, ibi: Immo contrarium, probat per segundo, ali: “Melhor: a sagrada
tres auctoritates quod Christus non escritura”, prova por três autoridades
renuntiavit regno et dominio, sed ipsa que o Cristo não renunciou ao reino e ao
retinuit; tertio, ibi: Immo videtur, probat domínio, mas os manteve; terceiro, ali:
quod Christus non potuit renuntiare regno “melhor: vê-se”, prova que o Cristo não
et dominio tali ratione : Christus non pôde renunciar ao reino e ao domínio
potuit facere contra ordinationem Patris ; por tal razão: o Cristo não pôde agir
sed Pater ordinavit quod regnum Christi contra a ordenação do Pai; ora, o Pai
duraret in perpetuum ; ergo Christus regno ordenou que o reino de Cristo durasse
et dominio renuntiare non potuit. perpetuamente; portanto, o Cristo não
Maiorem supponit tanquam certam, pôde renunciar ao reino e ao domínio.
habens pro impossibili quod Christus Supõe a maior como certa, tomando por
fecisset contra ordinationem Patris; impossível que o Cristo agisse contra a
minorem probat duabus auctoritatibus ordenação do Pai; prova a menor com as
Danielis. duas autoridades de Daniel.
Sed isti impugnatores, licet Mas os que contendem sobre isso,
concedant quod Christus non renuntiavit embora concedam que o Cristo não
regno et dominio proprie loquendo (quia renunciou propriamente falando ao
ei, quod non est, renuntiari non potest; reino e ao domínio (porque para ele, o
Christus autem ante passionem suam que não é, não pode ser renunciado; ora,
nunquam habuit inquantum homo regnum o Cristo antes de sua paixão jamais teve,
temporale et dominium seu proprietatem enquanto homem, o reino temporal e o
omnium temporalium; et per consequens domínio ou a propriedade de tudo o que
eisdem minime renuntiavit proprie é temporal; e, consequentemente, nunca
loquendo) : tamen dicunt istum renunciou a isso, propriamente

23
Seguindo a edição latina a partir da qual foi feita esta tradução, iniciamos com a reprodução do trecho da
bula Quia vir reprobus (Porque um homem réprobo) de João XXII que será comentada por Ockham neste
capítulo. Uma versão completa da bula para o inglês está disponível em
http://www.humanities.mq.edu.au/Ockham/wqvr.html (N. do T.).
40

impugnatum hic in duobus errare. falando), dizem, porém, que este com
Quorum primum est quod Christus non quem contendem comete aqui dois
longe ante passionem habuit regnum erros. Dos quais o primeiro é que o
temporale et dominium seu proprietatem Cristo não muito antes da paixão teve o
rerum temporalium. Secundum est quod reino temporal e o domínio ou a
ideo Christus nullo modo potuerit propriedade das coisas temporais. O
renuntiare regno et dominio, quia, si segundo é que, por isso, o Cristo de
fecisset, contra ordinationem Patris nenhum modo teria podido renunciar ao
fecisset. reino e ao domínio, porque, se assim
agisse, agiria contra a ordenação do Pai.
Primum improbatum est prius, ubi O primeiro foi censurado antes24,
ostensum est quod Christus inquantum onde se mostrou que o Cristo enquanto
homo mortalis nunquam habuit regnum homem mortal jamais teve o reino
temporale et universale rerum dominium temporal e o domínio ou a propriedade
seu proprietatem; et per consequens multo universal das coisas; e,
magis ex quo coepit praedicare, non consequentemente, muito mais em
habuit regnum et dominium supradicta. Et razão daquilo que empreendeu pregar,
quod tunc non habuerit regnum et não teve o reino e o domínio
dominium memorata, potest ostendi. supramencionados. E é possível mostrar
Quod tamen non habuerit universale que, então, não teria tido o reino e o
dominium omnium, in sequenti capitulo domínio lembrados. Porém, que não
patebit. Hic vero probatur quod regnum teria tido o domínio universal de tudo,
non habuit temporale. será provado no capítulo seguinte25.
Aqui, de fato, será provado que não teve
o reino temporal.
Hoc enim beatus Augustinus in Com efeito26, o bem-aventurado
quodam sermone de innocentibus testatur Agostinho testemunha expressamente
expresse, qui loquens de regno Christi ait: isso num sermão27 sobre os inocentes,
Putabat se infelix tyrannus Domini no qual, ao falar sobre o reino de Cristo,
Salvatoris adventu regali solio disse: O infeliz tirano considerava que
detrudendum. Sed non ita est. Non ad hoc seria expulso de seu trono real pelo
venerat Christus, ut alienam gloriam advento do Senhor Salvador. Mas não é
invaderet, sed ut suam donaret. Non, assim. O Cristo não tinha vindo para
inquam, ad hoc venerat Christus, ut assaltar a glória alheia, mas para dar a
regnum terrestre praeriperet; sed ut sua. O Cristo, digo, não veio para
caeleste donaret. Non venerat ad arrebatar o reino terrestre, mas para

24
Cap. 93, lin. 206 ss.
25
Cap. 96, lin. 49-153.
26
Ockham cita uma série semelhante de autoridades em Brevilóquio IV, 8; Octo Quaestiones II, 6;
Consultatio de causa matrimonialis.
27
[Augustinus], Sermo suppositus CCXVIII, 3, PL 39, 2150.
41

potestates dignitatesque rapiendas, sed ad dar o celeste. Não veio para pilhar os
contumelias et iniurias perferendas. Non poderes e dignidades, mas para
ad hoc venerat, ut sacrum illud caput ad suportar afrontas e injúrias. Não veio
diadema gemmatum, sed ut ad coronam para preparar aquela cabeça sagrada
spineam praepararet. Non, inquam, para uma diadema incrustrada de
venerat, ut constitueretur supra sceptra pedras preciosas, mas para uma coroa
magnificus ; sed ut crucifigeretur illusus. de espinhos. Não veio, digo, para ser
Item, Leo papa in quodam sermone de constituído nobre sobre os cetros, mas
Epiphania ait: Sed apparet illos, scilicet para ser ultrajado com a crucificação.
ludaeos, carnaliter cum Herode sapuisse Ainda, o Papa Leão, em certo sermão
et regnum Christi commune cum huius sobre a Epifania28, disse: Ora, era
mundi potestatibus aestimasse, ut et isti evidente que eles, a saber, os Judeus,
temporalem sperarent ducem et terrenum carnalmente, junto com Herodes,
metueret ille consortem. Ex hiis verbis tenham entendido e julgado o reino de
clare patet quod regnum Christi non fuit Cristo comum aos poderes deste
tale, quale est regnum terrenorum, nec mundo, dado que tanto estes
Christus fuit dux temporalis ; et per esperassem um líder temporal e
consequens rex fuit minime temporalis. terreno, como aquele temesse um
consorte. Destas palavras aparece
claramente que o reino de Cristo não foi
tal qual é o reino dos que são da terra,
que Cristo não foi líder temporal, e,
consequentemente, tampouco foi rei
temporal.
Item, Augustinus in epistola ad Ainda, Agostinho, na Carta aos
Madaurenses ait: Itaque non Christus Madaurenses, disse: Assim, não o
regno decoratus nec Christus terrenis Cristo ornado com o reino, nem o
opibus dives nec Christus ulla terrena Cristo opulento com as obras terrenas,
felicitate praefulgens ; sed Christus nem o Cristo que resplandece alguma
crucifixus per totum orbem terrarum felicidade terrena, mas por todo o orbe
praedicatur. Item, Gregorius in Pastorali terrestre é pregado o Cristo
ait: Ipse 'Dei et hominum Mediator' crucificado. Ainda, Gregório, na
regnum percipere vitavit in terris, qui Pastoral29, disse: “O Mediador entre
supernorum spirituum scientiam Deus e os homens”, tinha evitado
sensumque transcendens ante saecula apoderar-se do reino na terra; ele que,
regnat in caelis. Qui enim idcirco in carne transcendendo a ciência e o sentido dos

28
Leão Magno, Sermo XXXIV, 2, PL 54, 246.
29
Gregório Magno, Pastoral. I, 3, PL 77, 16, citado por Boaventura, Apologia Pauperum, in Doctoris
Seraphici S. Bonaventurae Opera Omnia, ed. PP. Collegii a S. Bonaventura, VIII, AD Claras Aquas, 1898,
9, p. 297; Miguel de Cesena, Appellatio contra libelum “Quia vir reprobus”. Datada em Munique, 26 de
Março de 1330 Parin, BN cod. Lat. 5154, fos. 179-253v., fo. 191.
42

venerat, ut non solum [nos] per passionem espíritos mais supernos, reina nos céus
redimeret, verum etiam per suam antes dos séculos. Com efeito, aquele
conversationem doceret, exempla que viera à carne, não só para [nos]
sequentibus praebens, rex fieri noluit. Ad redimir pela paixão, mas também para
crucis ergo patibulum sponte pervenit, [nos] ensinar por seu comportamento,
oblatam gloriam culminis fugit, poenam dando exemplos aos seguidores, não
probrosae mortis expetiit, ut membra eius quis se fazer rei. Portanto, dirigiu-se
discerent favores fugere, terrores minime espontaneamente ao patíbulo da cruz,
timere, pro veritate adversa diligere, recusou a glória oferecida no monte,
prospera formidando declinare. Item, experimentou a pena da morte infame,
Augustinus super illud Ioannis, Ergo cum para que seus companheiros
cognovisset quia venturi essent, etc., ait: aprendessem a recusar os aplausos, a
Putare ipsum regnare tunc jamais temer os terrores, a amar os
quemadmodum turbae putabant, erat eum inimigos em favor da verdade, a fugir
rapere, id est indebite trahere ac de ipso com horror das honrarias. Ainda,
aestimare. Ex hiis claret quod qui Agostinho, sobre aquela passagem de
putabant Christum regnare temporaliter, João (6, 15)30: Então, dado que
trahebant Christum indebite, ac de ipso soubesse que viessem, etc., disse:
etiam indebite aestimabant. Considerar que ele reinaria tal como a
multidão pensava, era pilhá-lo, isto é,
tomá-lo e julgá-lo de modo indevido.
Disto aparece que aqueles que
consideravam que o Cristo reinasse
temporalmente, tomavam o Cristo de
modo indevido, e também julgavam-no
de modo indevido.
Sed dicet aliquis quod Christus fuit Mas alguém dirá que o Cristo foi
rex temporalis, quamvis temporaliter non rei temporal, embora não tivesse
regnaret. Sed istam obiectionem confutat reinado temporalmente. Mas o bem-
beatus Augustinus super illud Ioannis, aventurado Agostinho refuta esta
Abiit Ihesus trans mare Galilaeae; qui ait: objeção ao tratar daquela citação de
Venit ipse unus, utramque personam in se João (6, 1)31: Jesus atravessou o mar da
portans sacerdotis et regis : sacerdotis Galileia. Ele diz: Ele veio uno, trazendo
per victimam, quam seipsum obtulit pro em si ambas as pessoas do sacerdote e
nobis Deo ; regis, quia regimur ab eo ; ex do rei: sacerdote pelo sacrifício,
quibus verbis constat aperte quod Christus oferecendo-se a si mesmo por nós para
non dicebatur rex nisi quia rexit; et per Deus; rei porque somos regidos por ele;
consequens quia regnavit. Sed non palavras a partir das quais consta
30
Provavelmente Ockham tinha em mente Agostinho, In Ioann. Evang. tr. XXV, 2, PL 35, 1597 = Cat.
aur. In Ioann. 6, § 2. Mas a citação não é literal.
31
Agostinho, In Ioann. Evang. tr. XXIV, 5, PL 35, 1595.
43

regnavit temporaliter ; ergo non fuit rex abertamente que o Cristo não era
temporalis. Item, glossa super illud chamado rei senão porque reinava; e,
Ioannis xviii, Regnum meum non est de consequentemente, porque reinou. Mas
hoc mundo, ait: Hoc est regnum, quod nos não reinou temporalmente. Portanto,
scire voluit; sed prius vicissim não foi rei temporal. Ainda, na glosa32
interrogando ostendere voluit quae et de sobre aquela passagem de João 18, 36:
regno suo hominum esset opinio, Meu reino não é deste mundo, disse:
Iudaeorum et gentium; qua ostensa aptius Este é o reino que quis que
utrisque respondet: 'Regnum meum non conhecêssemos; mas, ao interrogar
est de hoc mundo', [quasi]:' Decepti estis novamente, quis primeiramente mostrar
; non enim impedio dominationem que havia a dúvida dos homens, tanto
vestram in mundo, ne vane timeatis et judeus como gentios, sobre seu reino, a
saeviatis, sed ad regnum caeleste qual revelada mais aptamente,
credendo venire'. Hiis concordat respondeu a ambas: “Meu reino não é
Ambrosius in hymno Epiphaniae dicens : deste mundo” [como se respondesse]:
‘Estais enganados; com efeito, não
impeço vossa dominação no mundo, e
não temais e vos irriteis em vão, mas
crendo que venha o reino celeste”. Com
isto concorda Ambrósio33, que diz no
hino da Epifania:
Hostis Herodes impie, Impiamente, Herodes, Inimigo,
Christum venire quid times ? o que temes se o Cristo vir?
Non arripit mortalia, Não despoja o que é mortal,
Qui regna dat caelestia. Aquele que dá o reino celestial.
Istis etiam consonat glossa in Também é consoante a estas
principio libri Proverbiorum dicens: palavras a glosa34 para o princípio do
Parabolae graece, latine similitudines : livro dos Provérbios, que diz:
quod vocabulum ideo Salomon huic operi “Parábolas” em grego, “alegorias” em
imposuit, ut non iuxta litteram latim: por isso Salomão intitulou esta
intelligamus, quae dicit. In quo Dominum obra com este vocábulo, para que não
parabolice turbis locuturum significat, entendamos literalmente o que diz. No
sicut et nomine suo regno pacifico, que indica que o Senhor há de falar por
regnum Christi et ecclesiae, de quo parábolas para as multidões, assim
'Multiplicabitur eius imperium', de quo como também com o nome de seu reino

32
Gl. ord. ad Ioann. 18, 36; cf. Augustinus, In Ioann. Evang. tr. CXV, 1-2, PL 35, 1939.
33
Antes, Sedúlio, Hymnus (ad vesperas in Epiphania Domini) II, ed. J. Hümer, Viena, 1885, p. 164-5,
citado por Miguel de Cesena, App. IV, fo. 191.
34
Gl. ord. ad init. libr. Proverbios, citado por Miguel de Cesena, ibidem.
44

dictum est: 'Et regnum eius non erit finis, pacífico, o reino de Cristo e da igreja,
et super solium David et super regnum sobre o qual “será multiplicado seu
eius sedebit'. Ipse etiam Christus filius império”, sobre o qual foi dito: “E seu
David et rex spiritualis Israel. Ex hiis reino não terá fim, e sentará sobre o
aliisque quampluribus colligitur evidenter trono de David e sobre o reino”35. Ele
quod Christus non venit regnum suscipere próprio também o Cristo, filho de Davi,
temporale, nec rex fieri voluit temporalis, e rei espiritual de Israel. Destas
neque dignitates assumere temporales, sed palavras e de várias outras recolhe-se
rex extitit spiritualis Israel. Quomodo evidentemente que o Cristo não veio
autem tempore passionis recognovit se tomar o reino temporal, nem quis se
regem non temporaliter, sed spiritualiter, fazer rei do temporal nem assumir as
est in praecedentibus declaratum. dignidades temporais, mas mostrou-se o
rei espiritual de Israel. Ora, de que
modo reconheceu-se rei, não
temporalmente, mas espiritualmente, no
tempo da paixão, foi declarado
anteriormente.36
Secundum, in quo dicunt istum O segundo em que dizem37 ele
errare, est quod ideo Christus nullo modo errar é que, por isso, o Cristo não pode
potuit renuntiare regno et dominio renunciar de nenhum modo ao reino e
supradictis, quia, si fecisset, contra ao domínio antes mencionados, porque,
ordinationem Patris fecisset. Ad cuius se o fizesse, o faria contra a ordenação
intellectum dicunt esse sciendum quod do Pai. Para que se entenda isso, dizem
iste opinatur quod omnia de necessitate que cumpre saber que este tem a opinião
eveniunt, ita quod contradictionem de que tudo acontece necessariamente,
includit quaecunque aliter evenire quam de modo que há contradição em que,
eveniunt. Cuius ratio fundamentalis est, seja o que for, aconteça diversamente de
quia Deus omnia ab aeterno, quomodo como acontece. A razão fundamental
debeant fieri, ordinavit; contradictionem disso é que Deus, desde a eternidade,
autem includit quod ordinatio divina ordenou de que modo tudo deveria ser
impediatur; ergo contradictionem includit feito. Ora, há contradição em que a
quod quaecunque aliter eveniant quam ordenação divina seja impedida.
eveniunt. Istam rationem generalem ad Portanto, há contradição em que seja o
probandum quod omnia de necessitate que for aconteça diversamente de como
eveniunt ipse hic applicat ad materiam acontece. Essa razão geral para a prova
specialem, scilicet quod Christus non de que tudo acontece necessariamente é
potuit renuntiare regno et dominio aplicada por ele aqui numa matéria
supradictis. Quia Deus Pater ab aeterno determinada, a saber, que o Cristo não
35
Cf. Is 9, 7.
36
Cap. 93, 1254-1316.
37
Cf. Ockham, Dialogus I, 5, 2.
45

ordinavit quod Christus non renuntiaret pôde renunciar ao reino e ao domínio


regno et dominio; sed contradidionem antes mencionados porque Deus Pai
includit quod ordinatio divina impediatur, desde a eternidade ordenou que o Cristo
et per consequens contradictionem não renunciasse ao reino e ao domínio.
includit quod Christus faceret contra Ora, há contradição em que a ordenação
ordinationem Patris ; ergo divina seja impedida, e,
contradictionem includit quod Christus consequentemente, há contradição em
renuntiaverit regno et dominio que o Cristo tivesse agido contra a
saepedictis. Nec valet dicere ad ordenação do Pai; portanto, há
excusationem ipsius quod per potentiam contradição em que o Cristo tivesse
Dei ordinatam non potuit fieri quod renunciado ao reino e ao domínio tantas
Christus renuntiaverit regno et dominio, et vezes mencionado. E não vale dizer em
sic intelligit iste hic ; hoc tamen potuit favor dele que não pôde se dar que o
fieri per Dei potentiam absolutam, quae Cristo tivesse renunciado ao reino e ao
potest in omne illud, quod nequaquam domínio pela potência ordenada de
contradictionem includit. Quia iste Deus, tal como ele a entende aqui, o
impugnatus, ut quidam istorum que, no entanto, pôde ser feito pela
impugnatorum dicunt se audivisse ab ore potência absoluta de Deus, que pode
eius, et ipse postea in suis sermonibus quanto a tudo aquilo em que não há
declaravit, negat illam distinctionem qualquer contradição, pois este
theologorum de potentia Dei ordinata et contendedor, como alguns destes
absoluta, nitens multis rationibus contendedores dizem ter ouvido de sua
ostendere quod quicquid potest Deus de boca, e ele depois declarou em seus
potentia absoluta, potest etiam de potentia sermões38, nega aquela distinção dos
ordinata, et quicquid non potest de teólogos entre a potência ordenada e
potentia ordinata, non potest de potentia absoluta de Deus, esforçando-se para
absoluta. Unde quendam istorum mostrar por muitas razões que tudo que
impugnatorum propter illam Deus pode pela potência absoluta,
distinctionem et illa, quae sequuntur ex também pode pela potência ordenada, e
ipsa principaliter, acerbe prosequitur. tudo que não pode pela potência
Principalis autem ratio sua, quare negat ordenada, não pode pela potência
illam distinctionem de potentia absoluta et absoluta. Donde persegue duramente
ordinata, est quia, si Deus aliquid faceret alguns destes contendedores39 em razão
de potentia absoluta, quod non faceret de dessa distinção e, principalmente,
potentia ordinata, Deus posset aliquid daquilo que ela implica. Ora, sua
facere, quod non ordinavit se facturum ; et principal razão40, pela qual nega a
ita Deus esset mutabilis. Alia ratio sua est distinção entre a potência absoluta e a

38
Por exemplo, o sermão de João XXII: “Tulerunt iusti spolia impiorum” (Sb 10, 19), pregado em 1330.
Cf. Ockham, Contra Ioannem 22-23; Contra Benedictum III, 3.
39
Provavelmente Ockham faz referência a si mesmo.
40
Cf. Tulerunt..., op. cit.
46

quia in Deo idem est essentia et potentia. ordenada, é que se Deus fizesse algo
Sed in Deo non sunt duae essentiae ; ergo pela potência absoluta que não fizesse
nec duae potentiae. pela potência ordenada, Deus poderia
fazer algo que não se ordenou haver de
fazer, e, assim, Deus seria mutável.
Outra razão sua41 é que em Deus a
essência e a potência são o mesmo. Ora,
não há duas essências em Deus.
Portanto, nem duas potências.
Hiis visis, dicunt isti quod iste hic Visto isso, estes dizem que aquele
dogmatizat implicite haeresim proclama, implicitamente, uma heresia
detestandam, scilicet quod omnia que há de ser abominada, a saber, que
eveniunt de necessitate; ideo hic contra tudo acontece necessariamente; por
istum sic proceditur : Primo probant quod isso, assim se procede aqui contra ele:
non omnia eveniunt de necessitate; Primeiro, provam que nem tudo
secundo ostendunt quod nulla quantum ad acontece necessariamente; segundo,
divinam potentiam eveniunt de mostram que nada, no que toca à
necessitate; tertio moliuntur ostendere potência divina, acontece
specialiter quod, si Christus habuit necessariamente; terceiro, empenham-
regnum et dominium supradicta, ipse se em mostrar especialmente que, se o
potuit renuntiare absolute eisdem ; quarto, Cristo teve o reino e o domínio acima
declarant quomodo debet intelligi quod in mencionados, pôde renunciar
Deo est duplex potentia, scilicet absoluta absolutamente a eles; quarto, declaram
et ordinata, et quomodo Deus potest de que modo deve ser entendido que há
aliqua facere de potentia absoluta, quae em Deus uma dupla potência, a saber, a
non facit de potentia ordinata ; quinto ad absoluta e a ordenada, e de que modo
rationes, quae pro haeresi sua tanguntur, Deus pode fazer, pela potência absoluta,
respondent. alguns que não faz pela potência
ordenada; quinto, respondem às razões
que consideram a heresia dele.
Primo igitur probare conantur quod Portanto, primeiro buscam provar
non omnia eveniunt de necessitate, sed que nem tudo acontece
quod aliqua possent aliter evenire. Et necessariamente, mas que alguns
primo sic: Deus potuit et potest multa podem acontecer diversamente. E
facere, quae non fecit nec facit, et posset primeiro assim42: Deus pôde e pode
multa non facere, quae facit; ergo multa fazer muitos, que não fez nem faz, e
potuerunt et possent aliter evenire quam poderia não fazer muitos que faz.
evenerint et eveniant; et per consequens Portanto, muitos puderam e podem

41
Cf. ibidem e o sermão de João XXII “Deus autem rex noster” (Sl 73, 12).
42
Cf. Ockham, Ord. I, d. 43, q. 1.
47

non omnia eveniunt de necessitate, sed acontecer diversamente do que teriam


plura contingenter. Antecedens probatur acontecido e acontecem, e,
auctoritatibus manifestis. Nam, ut habetur consequentemente, nem tudo acontece
Matthaei iii, Ioannes Baptista ait: Potens necessariamente, mas muitos
est Deus de lapidibus istis suscitare filios contingentemente. A antecedente é
Abrahae ; et idem recitat Lucas, c. iii. Ex provada pelas autoridades manifestas.
quibus verbis, quae non solum mystice, Pois, como se tem em Mateus 3, 9, João
sed etiam ad litteram debent intelligi, patet Batista disse: Deus tem a potência de
quod Deus potuit de lapidibus suscitare suscitar destas pedras filhos para
filios Abrahae: quod tamen nequaquam Abraão; e o mesmo cita Lucas, cap. 3,
fecit. Secunda auctoritas habetur libro 8. Destas palavras, que não devem ser
Sapientiae c. xi, ubi sic scribitur: Quod entendidas somente de modo místico,
quidam errantes colebant mutos serpentes mas também literalmente, é patente que
et bestias supervacuas, immisisti illis Deus pôde suscitar das pedras filhos
multitudinem mutorum animalium in para Abraão: o que, no entanto, jamais
vindictam ; ut scirent quia per quae fez. A segunda autoridade provém do
peccat quis, per haec et torquetur. Non livro da Sabedoria, cap. 11, 15-20, onde
enim impossibilis erat omnipotens manus está escrito assim: Visto que alguns
tua, quae creavit orbem terrarum ex errantes cultuavam a serpentes mudas e
materia invisa, immittere illis a animais inúteis, enviaste a eles em
multitudinem ursorum, aut audaces vingança uma multidão de animais
leones, aut novi generis ira plenas et mudos, para que soubessem que aquilo
ignotas bestias, aut vaporem ignium pelo que alguém peca, também o pune.
spirantes, aut odorem fumi proferentes, Com efeito, não era impossível à tua
aut horrendas ab oculis scintillas mão onipotente, que criou o orbe da
emittentes ; quarum non solum laesura terra e a matéria informe, enviar a eles
poterat illos exterminare, sed et aspectus uma multidão de ursos ou de leões
per timorem occidere. Nam et sine hiis indomáveis, ou animais desconhecidos
uno spiritu occidi poterant. Hiis verbis de um novo gênero repletos de ira, ou
patenter asseritur quod Deus multis modis que expirassem um vapor de fogo, ou
poterat malos occidere et punire, quibus que exalassem um odor de fumaça, ou
tamen eos minime molestavit. Poterat que emitissem centelhas horríveis pelos
ergo multa facere, quae non fecit. olhos, que pudessem exterminá-los não
só pelo ataque, mas também matá-los
pelo medo. Pois, mesmo sem isso
poderiam ser mortos por um sopro.
Destas palavras, é patentemente
asseverado que Deus poderia matar e
punir de muitos modos maus pelos
quais, porém, jamais os molestou.
48

Portanto, poderia fazer muitos que não


fez.
Item, sicut legitur Danielis iii: Ainda, tal como se lê em Daniel 3,
Sidrach, Misach et Abdenago dixerunt ad 16-18, Sidrac, Misac e Abdênago
regem Nabuchodonosor: Ecce enim Deus disseram ao rei Nabucodonosor: com
noster, quem colimus, potest eripere nos efeito, eis que o nosso Deus, a quem
de camino ignis ardentis, et de manibus cultuamos, pode nos tirar do caminho
tuis, o rex, liberare. Quod si noluerit, de fogo ardente e libertar de tuas mãos,
notum sit tibi, rex, quia deos tuos non ó rei. Se ele não o quiser, saiba, ó rei,
colimus. Ex hiis verbis colligitur evidenter que não veneramos os teus deuses.
quod isti tres viri fideles, catholici atque Dessas palavras recolhe-se
sancti firmiter crediderunt quod Deus eos evidentemente que estes três homens
potuit liberare de camino ignis, et tamen fiéis, católicos e santos, acreditaram
nesciebant an eos voluerit liberare ; et per firmemente que Deus pôde livrá-los do
consequens ignorabant an eos esset caminho de fogo e, no entanto, não
liberaturus. Ergo firmiter crediderunt sabiam se acaso ele queria livrá-los.
quod Deus eos potuit liberare, esto quod Consequentemente, ignoravam se acaso
non esset eos liberaturus ; ex quo sequitur haveriam de ser livrados. Portanto,
evidenter quod crediderunt Deum posse acreditaram firmemente que Deus pôde
facere aliqua, quae non facit. livrá-los, ainda que não houvesse de
livrá-los. Disto se segue evidentemente
que acreditaram que Deus pudesse fazer
alguns que não faz.
Item, sicut legitur Lucae i, dixit Ainda, assim como se lê em Lucas
angelus ad Mariam : Non erit impossibile 1, 37, o anjo disse à Maria: Nenhuma
apud Deum omne verbum, volens per hoc palavra será impossível para Deus,
persuadere possibilitatem incarnationis : querendo com isso persuadir a
quae persuasio nullam haberet possibilidade da encarnação: persuasão
apparentiam, nisi Deus posset facere que não teria valor algum a não ser que
aliqua, quae non facit. Si enim Deus non Deus pudesse fazer alguns que não faz.
posset facere alia quam facit et faciet, Com efeito, se Deus não puder fazer
quantum ad rem non esset differentia inter diversamente do que faz e fez, quanto à
propositionem de futuro et propositionem coisa não haveria diferença entre a
de possibili, sed dicere : 'Deus potest proposição sobre o futuro e a
incarnari' tantum valeret acsi diceret: proposição sobre o possível, mas dizer:
'Deus incarnabitur'. Et ita, sicut per illam : “Deus pode se encarnar” seria o mesmo
'Non est impossibile apud Deum omne que dizer: “Deus irá se encarnar”. E,
verbum', non potest probari quod Deus assim, tal como por “Nenhuma palavra
incarnabitur, ita per ipsam non posset é impossível para Deus” não seria
probari quod Deus potest incarnari; quare possível se provar que Deus irá se
49

ad persuadendum possibilitatem encarnar, também não seria possível


incarnationis haec propositio : 'Non est provar por ela que Deus pode se
impossibile apud Deum omne verbum', encarnar, visto que, para persuadir a
esset inutilis. Patet igitur quod Deus potest possibilidade da encarnação, a
facere multa, quae non facit. Quod etiam proposição “Nenhuma palavra é
ratione probatur. Nam qui est omnipotens impossível para Deus” seria inútil.
potest multa facere, quae non facit; non Portanto, é patente que Deus pode fazer
enim dicitur aliquis omnipotens, quia facit muitos que não faz. O que se prova
omnia, quae facit, sed quia, sive faciat sive também pela razão. Pois aquele que é
non faciat omnia, potest. Deus autem est onipotente pode fazer muitos que não
omnipotens, sicut per scripturam sacram faz; com efeito, alguém não é dito
et symbolum Apostolorum et etiam per onipotente porque faz tudo o que faz,
symbolum, quod cantatur in missa, patet mas porque, faça ou não faça tudo,
aperte; ergo Deus potest facere multa, pode. Ora, Deus é onipotente, assim
quae non facit. como é claramente patente pela sagrada
escritura e pelo símbolo dos Apóstolos
e pelo símbolo que é cantado na missa43.
Portanto, Deus pode fazer muitos que
não faz.
Item, quod Deus possit facere multa, Ainda, que Deus possa fazer
quae non facit, probat Magister muitos que não faz, prova o Mestre das
Sententiarum, libro i, di. xliii, auctoritate Sentenças, livro 1, d. 43, pela
Salvatoris, Matthaei xxvi, An putas, quia autoridade do Salvador, em Mateus 26,
non possum, etc., sic dicens: Quod ut 53: Pensas acaso que não posso, etc., ao
certius firmiusque teneatur, scripturae dizer assim: Asseveramos pelos
testimoniis asseramus, Deum aliter facere testemunhos da escritura o que deve ser
posse, quam faciat. Veritas ipsa ait: 'An assumido como o mais certo e mais
putas, quia non possum rogare Patrem firme: que Deus pode fazer
meum, et exhibebit michi plus quam diversamente do que faz. A própria
duodecim legiones angelorum ?' Ex verdade diz: “Pensas acaso que não
quibus verbis patenter innuitur, quod et posso pedir ao meu Pai, e ele me dará
Filius poterat rogare quod non rogabat, et mais de doze legiões de anjos?” Destas
Pater poterat exhibere quod non palavras claramente se indica que tanto
exhibebat. Uterque igitur poterat facere o Filho podia pedir o que não pedia
quod non faciebat. como o Pai podia dar o que não dava.
Portanto, cada um deles poderia fazer o
que não fazia.
Item, Augustinus in Enchiridion, et Ainda, Agostinho – e o Mestre das
Magister Sententiarum allegat ibidem, ait: Sentenças alega o mesmo – disse no
43
Cf. Gn 17, 1; Credo Apostólico e o Credo Niceno-Constantinopolitano.
50

Omnipotens voluntas multa potest facere, Enchiridion44: A vontade onipotente


quae non vult facere nec facit. Item, pode fazer muitos que não quer fazer
Augustinus in eodem, ut Magister allegat nem faz. Ainda, Agostinho no mesmo
ubi supra, ait: Cur apud quosdam non lugar, como o Mestre alega no lugar
factae sunt virtutes, quae si factae acima, disse: Por que há virtudes não
fuissent, egissent illi homines feitas para alguns – as quais, se
poenitentiam ; et factae sunt apud eos qui tivessem sido feitas, esses homens
non erant credituri? teriam se penitenciado –, mas feitas
junto àqueles que não creram?
Tunc non latebit quod nunc latet. Nec Em tal momento, não se esconderá
utique Deus iniuste noluit salvos fieri, o que agora está escondido. Nem,
cum possent salvi esse, si vellet. Tunc in principalmente, Deus não quis salva-
clarissima sapientiae luce videbitur quod los injustamente, dado que pudessem
nunc piorum fides habet, antequam ser salvos, se o quisesse. Em tal
manifesta cognitione videatur, quam certa momento, na claríssima luz da
et incommutabilis et efficacissima sit sabedoria, se verá o que agora tem a fé
voluntas Dei, quae multa possit et non dos pios antes que seja visto pela
velit, nichil autem quod non possit, velit. cognição manifesta: o quão seja certa e
incomutável e muito eficaz a vontade de
Deus, que muitos pode e não quer; ora,
não quer nada que não pode.
Item, idem, ut recitatur ibidem, ait: Ainda, o mesmo45, como é citado
Dominus Lazarum suscitavit in corpore. no mesmo lugar46, disse: O Senhor
Nunquid dicendum est, non potuit Iudam suscitou Lázaro no corpo. Acaso deve
suscitare in mente ? Potuit quidem, sed ser dito que não pôde suscitar Judas na
noluit. Item, Augustinus super Genesim, mente? Certamente pôde, mas não quis.
et Magister recitat di. xliv, dicit sic: Talem Ainda, Agostinho Sobre o Gênesis47, e
potuit Deus hominem fecisse, qui nec o Mestre o cita na distinção 44, disse
peccare posset, nec vellet; et tamen talem assim: Deus pôde ter feito um homem
non fecit; ergo Deus potuit facere quod tal que não pudesse nem quisesse pecar,
non fecit. Unde et de illis, qui dicunt e, no entanto, não o fez. Portanto, Deus
Deum non posse facere aliud quam facit, pôde fazer o que não fez. Donde
dicit Magister Sententiarum, libro i, di. também quanto àqueles que dizem que
xliii in haec verba : Quidam tamen 'de suo Deus não pode fazer diversamente do
sensu gloriantes, Dei potentiam coartare que faz, disse o Mestre das Sentenças,
sub mensura conati sunt. Cum enim no livro 1, distinção 43, nestas palavras:

44
Cf. Agostinho, Enchir. 95, PL 40, 276; Pedro Lombardo, Sentent. I, d. 43, q. unica.
45
Agostinho, De natura et gratia 7, PL, 250-1.
46
Pedro Lombado, loc. cit.
47
Agostinho, In Gen. ad litt. 11, 7, PL 34, 433.
51

dicunt: Hucusque potest Deus et non No entanto, alguns48 “gloriando-se de


amplius, quid est hoc aliud, quam eius seus sentidos, buscaram resumir a
potentiam, quae infinita est, concludere et potência de Deus sob a medida. Com
restringere ad mensuram ? Aiunt enim : efeito, o que dizem: e até aqui Deus
Non potest Deus aliud facere quam facit, pode, e não mais; o que é isso, se não
nec melius facere illud, quod facit, nec enclausurar e restringir a sua potência,
aliquid praetermittere de hiis, quae facit'. que é infinita, à medida? Dizem, com
Ex hiis verbis constat aperte quod efeito: Deus não pode fazer senão o que
secundum Magistrum Sententiarum, qui faz, nem pode fazer melhor aquilo que
dicunt Deum non posse facere aliud quam faz, nem omitir algo do que faz”49.
facit, divinam potentiam infinitam ad Dessas palavras consta claramente que
mensuram conantur restringere ; et per segundo o Mestre das Sentenças,
consequens in articulum fidei de aqueles que dizem que Deus não pode
omnipotentia Dei impudenter impingunt. fazer algo diverso do que faz, visam
restringir a potência divina infinita a
uma medida; e, consequentemente,
atacam irrefletidamente o artigo de fé
sobre a onipotência de Deus.
Unde pro illis, qui sequuntur Donde cumpre mostrar para
doctrinam Thomae, quod ipse hoc aqueles que seguem a doutrina de
tenuerit, scilicet Deum posse aliqua Tomás que ele sustentou isso, a saber,
facere, quae non facit, est monstrandum. que Deus pode fazer alguns que não faz.
Libro enim secundo contra Gentiles, c. Com efeito, no segundo livro do Contra
xxiii probat ex intentione quod Deus non Gentiles, cap. 23, prova a partir da
agit de necessitate naturae in creaturis, intenção que Deus não age pela
sed per arbitrium voluntatis. Item, c. xxvi necessidade da natureza nas criaturas,
probat quod divinus intellectus ad certos mas pelo arbítrio da vontade. Ainda, no
effectus non coartatur; unde in fine cap. 26, prova que o intelecto divino não
capituli dicit: Sciendum tamen quod, é resumido a certos efeitos; donde, no
quamvis divinus intellectus ad certos fim do capítulo, diz: No entanto,
effectus non coartetur, ipse tamen sibi cumpre saber que, embora o intelecto
statuit determinatos effectus, quos per divino não seja resumido a certos
suam sapientiam ordinate producat. Item, efeitos, ele, porém, estabelece para si
c. xxvii probat quod nec voluntas Dei determinados efeitos, os quais produz
coartatur ad determinatos effectus; unde ordenadamente por sua sabedoria.
in fine concludit, dicens : Non igitur ex Ainda, no cap. 27, prova que nem a
necessitate divinae voluntatis aliqui vontade de Deus é reduzida a
effectus procedunt, sed ex eius libera determinados efeitos; donde, no fim,

48
Pedro Abelardo, Introd. ad Theol. III, 4-6, PL 178, 1091 ss.
49
Cf. Hugo de São Vitor, De sacramentis, I, 2, 22, PL 176, 214.
52

dispositione. Item, c. xxviii dicit: Per haec conclui dizendo: Portanto, alguns
autem excluditur quorundam error efeitos não procedem necessariamente
probare nitentium quod Deus non potest da vontade divina, mas de sua livre
facere nisi quod facit, quia non potest disposição. Ainda, no capítulo 28, diz:
facere nisi quod debet. Et post dicit sic : Ora, por isso está excluído qualquer um
Non est autem necessarium, si Deus suam que se esforce por provar o erro de que
bonitatem vult esse, quod Deus velit alia a Deus não pode fazer senão o que faz,
se produci ; et post: Ostensum est quod porque não pode fazer senão o que
Deus produxit res in esse non ex deve. E, depois, diz assim: Ora, não é
necessitate naturae, neque ex necessitate necessário, se Deus quer que sua
scientiae, neque voluntatis, neque bondade seja, que Deus queira que
iustitiae. Nullo igitur modo necessitatis outros diversos de si sejam produzidos.
divinae bonitati est debitum quod res in E, depois: Mostrou-se que Deus
esse producuntur. Item, libro tertio, c. xcv produziu as coisas no ser não a partir
ait: Nichil igitur Deus facere potest, quin da necessidade da natureza, nem da
sub ordine suae providentiae cadat: sicut necessidade da ciência, nem da
non potest aliquid facere quod eius vontade, nem da justiça. Portanto, a
operationi non subdatur. Potest tamen nenhum modo de necessidade da
alia facere quam ea, quae subduntur eius bondade divina é devida a produção
providentiae vel operationi, si absolute das coisas no ser. Ainda, no livro
consideretur eius potestas, sed nec potest terceiro, capítulo 9550, disse: Portanto,
facere aliqua, quae sub ordine Deus não pode fazer nada sem que caia
providentiae ipsius ab aeterno non sob a ordem de sua providência: assim
fuerint, eo quod mutabilis esse non potest. como não pode fazer algo que não se
Hanc autem distinctionem quidam non submeta à sua operação. No entanto,
considerantes, in diversos errores pode fazer outros além destes, que se
inciderunt. Quidam vero immobilitatem submetem à sua providência ou
divini ordinis ad res ipsas, quae ordini operação, se seu poder for considerado
subduntur, extendere conati sunt, dicentes absolutamente, mas não pode fazer
quod omnia necesse est esse [sicut sunt], alguns, que não tenham sido sob a
in tantum quod quidam dixerunt quod ordem de sua providência desde a
Deus non potest alia facere quam quae eternidade, visto que não pode ser
facit. Contra quod est quod habetur mutável. Ora, alguns, ao não
Matthaei xxvi: ' An non possum rogare considerar esta distinção, caem em
Patrem meum, et exhibebit michi plus vários erros. De fato, alguns se
quam duodecim legiones angelorum ?' Ex esforçam por estender a imobilidade da
hiis aliisque quampluribus, quae prima ordem divina às próprias coisas que
parte Summae et super primum librum estão submetidas à ordem, ao dizer que
Sententiarum et aliis locis diversis iste tudo necessariamente tem o ser [assim

50
Contra Gentiles III, cap. 98.
53

doctor determinat, patet expresse quod como o tem], a ponto que alguns
ipse erroneum reputat dicere quod Deus disseram que Deus não pode fazer
non potest alia facere quam facit vel quod outros além dos que faz. Contra isso há
omnia eveniunt de necessitate. o que se tem em Mateus 26, 53: “Acaso
não posso pedir ao meu Pai, e ele me
dará mais de doze legiões de anjos?”
Destas e de várias outras, que este
doutor determina na primeira parte da
Suma e sobre o Primeiro Livro das
Sentenças51 e em outros lugares
diversos, é expressamente patente que
ele considera errôneo dizer que Deus
não pode fazer outros além dos que ele
faz ou que tudo acontece
necessariamente.
Secundo eandem conclusionem, Segundo, a mesma conclusão, de
quod non omnia eveniunt de necessitate, que tudo não acontece necessariamente,
probant praedicti impugnatores sic : os mencionados contendedores provam
Creaturae rationales multa non faciunt, assim: as criaturas racionais não fazem
quae possent facere, ergo non omnia de muito do que podem fazer, portanto,
necessitate eveniunt. Consequentia est nem tudo acontece necessariamente. A
evidens; antecedens auctoritate et ratione consequência é evidente, a antecedente
probatur. Auctoritate primo sic : ii é provada pela autoridade e pela razão.
Machabaeorum c. vi, Eleazarus, qui pro Pela autoridade, primeiro, assim: em 2º
divinis legibus mortem sustinuit, cum Macabeus, cap. 6, 30, aquele que
plagis perimeretur, dixit: Domine, qui sustentou a morte em favor das leis
habes sanctam scientiam, manifeste tu divinas, visto que seria morto a golpes,
scis, quia, cum a morte possem liberari, disse: ó Senhor, que tens a santa
duros corporis sustineo dolores ; ciência, sabes manifestamente que eu,
secundum animam vero propter timorem ainda que pudesse libertar-me da
tuum libenter haec patior. Ex quibus morte, sustento as crueldades, as dores
verbis evidenter colligitur quod iste vir do corpo, pois segundo a alma por teu
sanctus potuisset infidelibus consentire, et temor de bom grado as sofro. Destas
sic a morte liberari; et tamen non palavras evidentemente se recolhe que
consensit; potuit ergo aliquid facere, quod este homem santo poderia ceder aos
non fecit. Item, Ecclesiastici c. xxxi de infiéis, e assim livrar-se da morte. No
beato divite sic scribitur: Qui potuit entanto, não cedeu. Portanto, pôde fazer
transgredi, et non est transgressus ; et algo que não fez. Ainda, Eclesiástico,
facere mala, et non fecit. Hiis verbis cap. 31, 10, sobre a riqueza bem-

51
Suma de Teologia I, q. 19, a. 3; In Sent., d. 43, q. 2, a. 1.
54

clarius dici non posset quod potest quis aventurada, assim se escreve: Aquele
facere aliquid, quod non facit. Item, sicut que pôde transgredir, e não
habetur Matthaei xxvi et Marci xiv, transgrediu; fazer o mal, e não fez. Não
discipuli Christi dixerunt: Ut quid perditio é possível dizer mais claramente com
ista unguenti facta est ? Poterat enim estas palavras que alguém pode fazer
unguentum istud venundari plus quam algo que não faz. Ainda, assim como se
trecentis denariis, et dari pauperibus ; et encontra em Mateus 26, 8-9 e Marcos
tamen non fuit venundatum nec datum 14, 4-5, os discípulos de Cristo
pauperibus ; ergo aliquid potuit fieri, quod disseram: Para que ter desperdiçado
tamen non fiebat. Nec enim Christus de este unguento? Com efeito, podia tê-lo
hoc, quod asseruerunt illud unguentum vendido por mais de trezentos denários,
potuisse venundari et dari pauperibus, e dá-los ao pobres, e, no entanto, não foi
ipsos aliqualiter reprehendit, sed de vendido nem dado aos pobres; portanto,
indignatione ipsorum de effusione pôde ser feito algo que, porém, não foi
unguenti super caput ipsius. Item, feito. Com efeito, não é do que
Matthaei xx, cum Christus interrogaret asseveraram sobre a possibilidade de se
Iacobum et Ioannem: Potestis bibere ter vendido o unguento e dá-lo aos
calicem, quem bibiturus sum ? pobres que Cristo igualmente os
responderunt: Possumus ; non dixerunt ' repreende, mas pela indignação deles
Bibemus '. Ex quo patet quod sciverunt se pelo derramamento de unguento sobre
posse bibere calicem Christi; nescierunt sua cabeça. Ainda, Mateus 20, 22,
tamen an essent bibituri. Item, Genesis quando Cristo interrogou a Tiago e
xxxi dixit Laban ad Iacob : Et nunc valet João: Podeis beber o cálice que haverei
quidem manus mea reddere tibi malum ; de beber? eles responderam: Podemos;
sed Deus patris tui heri dixit michi: Cave não disseram: “Bebemos”. Do que é
ne loquaris cum Iacob quicquam durius. patente que souberam que poderiam
Ex quibus verbis colligitur quod Laban beber o cálice de Cristo, não souberam,
potuit reddere malum Iacob ; et tamen non no entanto, se acaso o beberiam. Ainda,
fecit; ergo potuit aliquid facere, quod em Gênesis 31, 28-29, Labão disse a
minime fecit. Jacó: E agora certamente minha mão
tem como trazer-te o mal, mas Deus, o
teu pai, disse-me ontem: Cuida de não
falar a Jacó nada de mais duro. De
cujas palavras se colhe que Labão pôde
fazer o mal a Jacó e, no entanto, não fez;
portanto, pode fazer algo que jamais
fez.
Hoc etiam ratione probatur: Nam qui Isso também é provado pela razão:
potest mereri et demereri, potest facere pois aquele que pode merecer e
aliquid, quod non facit; nam si non posset desmerecer, pode fazer algo que não
55

aliter facere, non esset in potestate eius faz; pois se não pudesse fazer
aliter facere ; sed per illud, quod non est diversamente, não estaria em seu poder
in potestate alicuius, ipse non meretur nec o fazer diversamente; ora, por meio
demeretur. Sed homo potest mereri et daquilo que não está em poder de
demereri; ergo potest aliter facere et aliud alguém, ele nem mereceria nem
quam facit. Haec ratio confirmatur : Quia desmereceria. Ora, o homem pode
omne meritum est laudabile et omne merecer e desmerecer. Portanto, pode
demeritum est vituperabile. Sed illud, fazer diversamente e além do que faz.
quod non est in nostra potestate, ut Esta razão é confirmada: porque todo
possimus illud facere et non facere, non mérito é louvável e todo demérito é
est laudabile neque vituperabile; ergo vituperável. Ora, aquilo que não está em
omne meritum et demeritum est in nostra nosso poder, para que possamos fazê-lo
potestate, ut possimus illud facere et non e não fazê-lo, não é louvável nem
facere. Maior est evidens ; minor probatur vituperável; portanto, todo mérito e
auctoritate Augustini tertio de Libero demérito está em nosso poder, para que
Arbitrio, qui ait: Motus quo huc atque possamos fazê-lo e não fazê-lo. A maior
illuc voluntas convertitur, nisi esset é evidente; a menor é provada pela
voluntarius atque in nostra potestate, autoridade de Agostinho, no terceiro
neque laudandus cum ad superiora neque livro do Sobre o Livre Arbítrio52, que
culpandus homo esset cum ad inferiora diz: A menos que o movimento que
detorquet quasi quemdam cardinem converte a vontade para cá e para lá
voluntatis ; ex quibus verbis colligitur fosse voluntário e estivesse em nosso
evidenter quod illud, quod non est in poder, o homem, como que certo polo
potestate nostra, et tamen facimus, non est da vontade, nem seria louvado quando
laudabile nec vituperabile. Hiis concordat se voltasse ao que é superior nem
Sapiens mundi, iii Ethicorum, ubi probat culpado quando se voltasse ao que é
quod propter illa, quae non sunt in inferior; palavras das quais se recolhe
potestate nostra, neque laudamur neque evidentemente que aquilo que não está
vituperamur. Patet ergo quod omne em nosso poder e, no entanto, fazemos,
meritum et demeritum est in potestate não é nem louvável nem vituperável.
nostra; et per consequens possumus multa Com isso concorda o Sábio do mundo,
non facere, quae facimus, et similiter em Ética III53, onde prova que em razão
multa facere, quae non facimus. Quare daqueles que não estão em nosso poder,
concluditur evidenter quod non omnia de nem somos louvados nem vituperados.
necessitate eveniunt; aliter enim, ut probat Portanto, é patente que todo mérito e
Philosophus, non oporteret negotiari demérito está em nosso poder.
neque consiliari; quia de illis, quae de Consequentemente, podemos deixar de
necessitate eveniunt, non oportet negotiari fazer muitos que fazemos, e, de modo
neque consiliari. semelhante, fazer muitos que não
52
Agostinho, De libero arbítrio III, 1, PL 32, 1272.
53
Ética a Nicômaco III, 1, 1109b30-35; Tomás de Aquino, In libr. Eth. III, lect. 1, n. 383; lect. 4, n. 431.
56

fazemos. Donde evidentemente se


conclui que nem tudo acontece
necessariamente, com efeito, de outro
modo, como prova o Filósofo54, não
seria preciso discutir nem deliberar,
pois sobre aquilo que acontece
necessariamente, não é preciso discutir
nem deliberar.
Ostenso quod non omnia de Tendo sido mostrado que nem tudo
necessitate eveniunt, isti probare nituntur acontece necessariamente, estes se
quod nulla de necessitate eveniunt esforçam para provar que nada acontece
quantum ad divinam potentiam, quin necessariamente quanto à potência
Deus posset omnia impedire. Nam divina, visto que Deus possa impedir a
potentia divina non plus artatur ad istos tudo. Pois a potência divina não se
effectus quam ad illos; neque enim per resume mais a estes efeitos que àqueles;
praescientiam, neque per aeternam com efeito, nem pela presciência, nem
ordinationem, neque per immutabilitatem pela ordenação eterna, nem pela
ipsius, neque per aliquid, quod est idem imutabilidade dele, nem por algo que é
cum Deo, neque per aliquid, quod non est o mesmo com Deus, nem por algo que
Deus, potest Deus plus artari ad istos não é Deus, Deus pode estar restringido
effectus producendos vel conservandos a produzir ou conservar mais estes
quam ad illos. Cum igitur ostensum sit efeitos que aqueles. Portanto, dado que
quod aliqua non eveniunt de necessitate, tenha sido mostrado que algo não
sequitur quod nulla, inquantum fiunt a acontece necessariamente, segue-se que
Deo, eveniunt de necessitate. nada, enquanto é feito por Deus,
acontece necessariamente.
Pro illis autem, qui doctrinam Ora, para aqueles que sustentam a
Thomae tenent, ostendunt aperte quod doutrina de Tomás, mostram
haec sit intentio Thomae. Libro enim claramente que essa seja a intenção de
primo contra Gentiles, c. lxxxi, ait sic : Tomás. Com efeito, no primeiro livro
Voluntas non ex necessitate fertur ad ea, do Contra Gentiles, cap. 81, disse
quae sunt ad finem, si finis sine hiis esse assim: A vontade não é
possit, et post: Cum ergo divina voluntas necessariamente dirigida para aqueles
possit sine aliis esse, quinimmo nec per que estão para um fim, se o fim puder se
alia aliquid ei accrescat, nulla inest ei dar sem eles, e, depois: Portanto, visto
necessitas ut alia velit ex hoc quod vult que a vontade divina possa se dar sem
suam voluntatem, et per consequens nulla que outros se deem, melhor, visto que
inest ei necessitas ut quaecunque alia nada é acrescido a ela pelos outros, não
producat vel conservet. Et infra sic dicit: é inerente a ela nenhuma necessidade
54
Ética a Nicômaco III, 3, 1112ª18-29; Tomás de Aquino, In libr. Eth. III, lect. 7, n. 460-465.
57

Solum igitur illud bonum voluntas, para que queira algo outro a partir do
secundum sui rationem, non potest velle que quer a sua vontade, e,
non esse, quo non existente tollitur consequentemente, nenhuma
totaliter ratio boni. Tale autem nullum est necessidade é inerente a ela para que
praeter Deum. Potest igitur voluntas, produza ou conserve qualquer outro. E,
secundum sui rationem, velle non esse abaixo, diz assim: Portanto, a vontade,
quamcunque rem praeter Deum. Ex hiis segundo sua noção própria, apenas não
sequitur quod Deus potest destruere pode querer que não seja aquele bem
omnem rem aliam a se; et per consequens que, se não existir, elimina
respectu Dei nichil evenit de necessitate. completamente a noção de bem. Ora,
Item, prima parte Summae, q. xix, articulo tal nada é se não Deus. Portanto, a
tertio, dicit sic : Cum voluntas Dei sic vontade pode, segundo sua noção
possit esse perfecta sine aliis, cum nichil própria, querer que qualquer coisa
ei perfectionis ex aliis accrescat, sequitur deixe de ser, exceto Deus. Destas se
quod alia a se eum velle non sit segue que Deus pode destruir qualquer
necessarium absolute ; ergo contingenter coisa diversa de si. Consequentemente,
vult quaecunque alia a se. Et ita omnia alia nada acontece necessariamente a
a Deo eveniunt contingenter; et per respeito de Deus. Ainda, na primeira
consequens nulla de necessitate eveniunt, parte da Suma, questão 19, artigo
secundum istum doctorem. terceiro, diz assim: Visto que a vontade
de Deus possa ser tão perfeita sem os
outros, visto que nenhuma perfeição
seja acrescentada a ela a partir dos
outros, se segue que querer outros além
de si não seja absolutamente
necessário. Portanto, quer
contingentemente o que for diverso de
si. E assim tudo que é diverso de Deus
se dá contingentemente.
Consequentemente, nada acontece
necessariamente, segundo este doutor.
Tertio, isti impugnatores probare Terceiro, estes contendedores
conantur quod si Christus habuerit buscam provar que se o Cristo tivesse o
regnum temporale et dominium reino temporal e o domínio tantas vezes
saepedicta, ipse potuit absolute renuntiare mencionados, ele poderia
eisdem. Hoc autem unica ratione ad absolutamente renunciar a eles. Ora, se
praesens nituntur ostendere, quae talis est: esforçam por mostrar isso no presente
Non magis artabatur Christus ad por uma única razão, que é a seguinte:
habendum regnum temporale et Cristo não estava mais constrangido a
dominium universale rerum temporalium, ter o reino temporal e o domínio
58

quam ad redimendum genus humanum universal das coisas temporais do que


per suam passionem. Sed Christus non para a redenção do gênero humano por
artabatur nec necessitabatur ad salvandum meio de sua paixão. Ora, o Cristo não
genus humanum per passionem suam ; estava constrangido nem necessitado à
ergo non artabatur neque necessitabatur salvação do gênero humano por meio de
habere regnum et dominium antedicta. Ex sua paixão. Portanto, não estava
quo sequitur quod, si habuit regnum et constrangido nem necessitado a ter o
dominium antedicta, ipse potuit absolute, reino e o domínio antes mencionados.
ita quod contradictionem minime Do que se segue que, se teve o reino e o
includebat, renuntiare eisdem. Maior est domínio antes mencionados, ele pôde,
evidens ; minor probatur auctoritate absolutamente, de modo que não
Augustini, qui xiii libro de Trinitate, c. x, implicaria nenhuma contradição,
ut recitat Magister Sententiarum libro i, renunciar a eles. A maior é evidente; a
di. xliv, dicit: Quod fuit et alius modus menor é provada pela autoridade de
nostrae liberationis possibilis Deo, qui Agostinho, que, no livro XIII do Sobre
omnia potest; sed nullus alius nostrae a Trindade, capítulo 10, o qual é citado
miseriae sanandae fuit convenientior. pelo Mestre das Sentenças no livro I,
Hoc idem manifeste asserit idem Magister distinção 4455, diz: Visto que para Deus,
libro iii, di. xx. Nequaquam igitur que tudo pode, foi possível outro modo
necessitabatur Christus dicta regnum et para nossa libertação, mas nenhum
dominium, si ipsa habuit, retinere. outro foi mais conveniente para a cura
de nossa miséria. Isso mesmo asseverou
manifestamente o próprio Mestre no
livro III, distinção 2056. Portanto, Cristo
em nada foi necessitado a reter os
mencionados reino e domínio, se é que
os teve.
Quarto declarant quomodo debet Quarto, declaram de que modo
intelligi distinctio theologorum dicentium deve ser entendida a distinção dos
in Deo esse duplicem potentiam, scilicet teólogos, dizendo que há em Deus uma
absolutam et ordinatam ; et quomodo dúplice potência – a saber, a absoluta e
Deus potest aliqua facere de potentia a ordenada – e de que modo Deus pode
absoluta, quae non potest de potentia fazer alguns pela potência absoluta que
ordinata : dicentes quod non est não pode pela potência ordenada, ao
intelligenda dicta distinctio, sicut quidam dizer que tal distinção não deve ser
ignari putant, quasi realiter in Deo sit entendida tal como a consideram certos
duplex potentia, quarum una sit absoluta ignorantes, como se houvesse em Deus
et alia ordinata; quia unica potentia est in uma dupla potência, das quais uma seria

55
Pedro Lombardo, Sent. I, d. 44, c. 1; cf. Agostinho, De Trinitate XIII, 10, PL 42, 1024.
56
Cap. 1-4.
59

Deo, immo ipsa unica potentia est unica absoluta e a outra ordenada; porque há
essentia. Sed, sicut secundum Magistrum uma única potência em Deus, ou
Sententiarum libro i, di. xlv : Sacra melhor, a mesma potência única é a
scriptura, de voluntate Dei variis modis essência única. Ora, assim como,
loqui consuevit; et non est Dei voluntas segundo o Mestre das Sentenças no
diversa, sed locutio est diversa, ita livro I, distinção 4557, A sagrada
scriptura divina et sanctorum patrum de escritura costumou falar de vários
potentia Dei variis modis loqui consuevit; modos sobre a vontade de Deus; e a
et tamen non est diversa potentia Dei, sed vontade de Deus não é diversa, mas a
locutio est diversa ; quia scilicet, cum per locução é diversa, assim costumou falar
talia vocabula, ' potest', ' possibile ', ' a escritura divina e dos santos pais sobre
potentia ' et consimilia in significatione a potência de Deus, e, no entanto, a
convenientia, scripturae loquuntur de potência de Deus não é diversa, mas a
Deo, huiusmodi vocabula in diversis locis locução é diversa; a saber, porque,
accipiuntur aequivoce. Unde in quando as escrituras falam de Deus
quibusdam locis denotant vel important pelos vocábulos “pode”, “possível”,
omnia illa, quae non repugnant Deo “potência” e semelhantes na
facere. Sic accipitur hoc verbum 'potest' in conveniência da significação, tais
auctoritatibus superius allegatis, et in vocábulos são tomados equivocamente
multis aliis locis. Sic etiam accipitur hoc em diversos lugares. Donde, em alguns
nomen 'omnipotens' Genesis xvii, cum lugares denotam ou fazem referência a
dixit Dominus ad Abraham : Ego Deus tudo aquilo que não repugna a Deus
omnipotens, et in symbolo Apostolorum fazer. Assim esta palavra “pode” é
et etiam in symbolo, quod cantatur in tomada nas autoridades alegadas acima,
missa, cum dicitur : Credo in unum Deum e em muitos outros lugares. Assim
Patrem omnipotentem. Aliter huiusmodi também o nome “onipotente” é tomado
vocabula important vel connotant em Gênesis 17, 1, Eu o Deus onipotente,
solummodo illa, quae ordinavit se tanto no símbolo dos Apóstolos, como
facturum, et non omnia illa, quae potuit et também no símbolo que é cantado na
posset ordinare se facturum. Sic accipitur missa58, quando é dito: Creio em um só
Genesis xviii, ubi dixit Dominus : Num Deus, Pai onipotente. Diversamente,
celare potero Abraham quae gesturus sum estas palavras fazem referência ou
? quasi diceret, 'Non'; et tamen constat conotam unicamente aquilo que se
quod Deus non necessitabatur revelare ordenou haver de fazer, e não tudo
Abraham quae erat facturus ; sed ideo aquilo que pôde e pode se ordenar haver
dixit Num celare potero, etc., quia de fazer. Assim se toma Gênesis 18, 17,
ordinavit se revelaturum Abraham quae em que o Senhor diz: Acaso poderei
facturus erat. Sic accipitur Genesis xix, esconder de Abraão o que hei de fazer?
cum Dominus dixit ad Loth : Festina et como se dissesse: “Não”. No entanto,
57
Cap. 5.
58
Isto é, o Credo Niceno-Costantinopolitano.
60

salvare ibi, quia non potero facere consta que Deus não tinha necessidade
quicquam donec ingrediaris illuc, hoc est, de revelar a Abraão o que havia de
'Non faciam quicquam donec ingrediaris fazer; mas disse: Acaso poderei
illuc'. Sic etiam accipitur Marci vi, cum esconder, etc., por isso: porque
dicitur de Salvatore nostro : Non poterat ordenou-se haver de revelar a Abraão o
ibi virtutem facere ullam, nisi paucos que havia de fazer. Assim se toma
infirmos impositis manibus curavit: et Gênesis 19, 22, quando o Senhor disse
mirabatur propter incredulitatem a Ló: Apressa-te e refugia-te ali, porque
ipsorum ; et tamen constat quod Christo não poderei fazer o que for até que
inquantum erat Deus non erat impossibile entres ali, isto é, “Não farei o que for até
absolute facere ibi virtutem ; sed dicitur que entres ali”. Assim também é tomado
quod non poterat ibi facere virtutem Marcos 6, 5-6, quando é dito sobre o
ullam, quia propter incredulitatem illorum nosso Salvador: Não pudera fazer
noluit ibi facere virtutem. Sic ergo hoc nenhuma virtude ali, curou apenas
verbum 'potest' accipitur aequivoce in poucos enfermos pela imposição das
scripturis de Deo loquentibus: mãos: e admirou-se da incredulidade
quemadmodum idem verbum, cum deles. No entanto, consta que, enquanto
loquimur de hominibus, accipitur era Deus, não era impossível ao Cristo
aequivoce. Uno enim modo dicimur illa fazer absolutamente a virtude ali, mas
posse, quae de iure possumus, et illud disse que não pudera fazer ali nenhuma
dicitur posse fieri, quod licite et debite virtude, porque em razão da
fieri potest. Sic accipitur Genesis xxxix, incredulidade deles não quis fazer a
cum dixit loseph ad Aegyptiam : virtude ali. Desse modo, portanto, a
Quomodo ergo possum hoc malum facere palavra “pode” é tomada
? quasi diceret: 'Licite et de iure non equivocamente nas escrituras ao falar
possum'. Aliter dicimur posse illa, quae sobre Deus, do mesmo modo que, a
absolute possumus sive bene sive male ; mesma palavra, quando falamos sobre
aliter enim nequaquam peccare possemus. os homens, é tomada equivocamente.
Sic ergo hoc verbum 'posse ' accipitur Com efeito, de um modo se diz que
aequivoce in scripturis, cum loquitur de possamos aqueles que podemos por
Deo; unica tamen potentia realiter est in direito, e é dito poder ser feito aquilo
Deo, sed locutio est diversa. Et propter que licitamente e devidamente pode ser
istam diversam locutionem dicitur quod feito. Assim é tomado Gênesis, 39, 9,
Deus potest aliqua de potentia absoluta, quando José diz à egípcia: Como, então,
quae non potest de potentia ordinata, hoc posso fazer este mal? como se dissesse:
est, Deus potest aliqua, accipiendo “Não posso licitamente e por direito”.
verbum 'posse' secundum primam Diversamente, se diz que possamos
significationem eius, quae tamen non aqueles que podemos absolutamente,
potest de potentia ordinata: hoc est, haec seja para o bem, seja para o mal, com
est concedenda : 'Deus non potest illa', efeito, diversamente, jamais
accipiendo hoc verbum: 'posse' in secunda poderíamos pecar. Portanto, assim a
61

significatione eius. Et ita dicere quod palavra “poder” é tomada


Deus potest aliqua de potentia absoluta, equivocamente nas escrituras quando se
quae non potest de potentia ordinata, non fala de Deus. No entanto, há uma única
est aliud, secundum intellectum recte potência realmente em Deus, mas a
intelligentium, quam dicere quod Deus locução é diversa. E em razão desta
aliqua potest, quae tamen minime locução diversa se diz que Deus pode
ordinavit se facturum ; quae tamen si alguns pela potência absoluta que não
faceret, de potentia ordinata faceret ipsa ; pode pela potência ordenada, isto é,
quia si faceret ea, ordinaret se facturum Deus pode alguns, tomando a palavra
ipsa. Quia igitur, ut dicunt isti, iste “poder” segundo seu primeiro
impugnatus nescivit videre significado, que, porém, não pode pela
aequivocationem huius verbi 'potest', ideo potência ordenada, isto é, esta deve ser
male intellexit illam distinctionem concedida: “Deus não pode aqueles”,
theologorum de potentia Dei absoluta et tomando a palavra “poder” em seu
ordinata. Et tamen dicunt quod licet ipsam segundo significado. E, assim, dizer que
ad intellectum recte intelligentium Deus pode alguns pela potência
intellexisset, ipsam nichilominus absoluta que não pode pela potência
reprobasset respectu Dei; quia imaginatur ordenada não é senão, segundo o
quod sic Deus omnia necessario ordinavit entendimento dos que entendem
quod de necessitate absoluta oportet eum retamente, dizer que Deus pode alguns
facere illa, ita quod ipsum non facere ipsa que, porém, jamais ordenou-se haver de
contradictionem includit: quod in suis fazer; os quais, no entanto, se fizesse, os
sermonibus multis rationibus probare faria pela potência ordenada, uma vez
conatur. que, se os fizesse, teria se ordenado a
haver de fazê-los. Portanto, uma vez
que, como estes dizem, aquele
contendedor não soube ver a
equivocação desta palavra “pode”,
então, entendeu mal aquela distinção
dos teólogos sobre a potência absoluta e
ordenada de Deus. E, no entanto, dizem
que embora ele a tivesse entendido
desde o entendimento dos que a
entenderam retamente, não a reprovaria
menos com relação a Deus; uma vez que
havia imaginado que Deus ordenou
tudo tão necessariamente que era
preciso que o fizesse por uma
necessidade absoluta, de modo que não
fazê-lo, implica em contradição: o que
62

se esforça por provar em seus sermões


por muitas razões.
Quinto isti respondent ad rationem Quinto, estes respondem à razão
fundamentalem istius, quam hic ad fundamental59 daquele – a qual aplica
materiam applicat specialem, dicentes aqui a uma matéria determinada –
quod istud argumentum est omnino simile dizendo que este argumento é
argumento, quod recitat Magister completamente semelhante ao
Sententiaram libro i, di. xxxviii, per quod argumento que o Mestre das Sentenças
aliqui nitebantur probare quod si aliquid cita no livro 1, distinção 3860, por meio
posset aliter fieri quam fit, praescientia do qual alguns61 se esforçavam por
Dei posset falli. Est etiam simile provar que se algo puder ser feito
argumento, quod recitat di. xl, per quod diversamente do que é feito, a
aliqui conati sunt probare quod numerus presciência de Deus pode se enganar. É
electorum non potest augeri nec minui; et também semelhante ao argumento que
ideo similem habet solutionem. Quomodo ele cita na distinção 4062, por meio do
igitur argumentum istius solvi debeat, in qual alguns63 visam provar que o
libro praedicto Sententiarum et in número dos eleitos não pode ser
scripturis doctorum super Sententias aumentado nem diminuído; e, por isso,
studiosus poterit invenire, et super tem uma solução semelhante. Portanto,
litteram aliqualiter apparebit. como esse argumento deve ser
resolvido, o estudioso pode encontrar
no livro mencionado das Sentenças
tanto nos escritos dos doutores sobre as
Sentenças como de outro modo
aparecerá literalmente.
Rationes vero, per quas probare Já as razões pelas quais visa provar
conatur quod praemissa distinctio de que a anunciada distinção entre a
potentia Dei absoluta et ordinata non est potência absoluta e a ordenada de Deus
approbanda, facile dissolvuntur. Prima não deve ser provada são facilmente
enim ex falso intellectu procedit, quasi desmontadas. Com efeito, a primeira64
haec esset possibilis secundum sic procede de um falso entendimento,
distinguentes : 'Deus aliquid facit de como se, segundo os que propõem a

59
Supra, no § “O segundo em que dizem ele errar [...]”: “[...] A razão fundamental disso é que Deus, desde
a eternidade, ordenou de que modo tudo deveria ser feito. Ora, há contradição em que a ordenação divina
seja impedida. Portanto, há contradição em que seja o que for aconteça diversamente de como acontece.”.
60
Cap. 2.
61
Pedro Abelardo, Theol. Christ. III, 7, PL 178, 1109 ss.
62
Cap. 1.
63
Cf. [Hugo de São Vitor] (talvez Oto de Lucena), Summa Sentent. I, 12, PL 176, 63.
64
Cf. supra, no mesmo § antes mencionado: “[...]Ora, sua principal razão, pela qual nega a distinção entre
a potência absoluta e a ordenada, é que se Deus fizesse algo pela potência absoluta que não fizesse pela
potência ordenada, Deus poderia fazer algo que não se ordenou haver de fazer, e, assim, Deus seria
mutável.”.
63

potentia absoluta, quod non facit de distinção, essa proposição fosse


potentia ordinata'. Haec enim de inesse possível: “Deus faz algo pela potência
secundum eos est impossibilis et absoluta que não faz pela potência
contradictionem includit; quia eo ipso ordenada”. Com efeito, esta proposição
quod Deus aliquid faceret, ipse faceret sobre a inerência é, segundo eles,
illud de potentia ordinata. Haec tamen de impossível e implica contradição; uma
possibili: 'Deus potest aliquid facere de vez que disso mesmo que Deus faria
potentia absoluta, quod nunquam faciet de algo, o faria pela potência ordenada. No
potentia ordinata', in sensu divisionis entanto, esta proposição sobre o
accepta, vera est: quemadmodum ista de possível: “Deus pode fazer algo pela
possibili: 'Ille, qui est praedestinatus, potência absoluta que jamais fará pela
potest dampnari', vera est in sensu potência ordenada”, tomada no sentido
divisionis ; et tamen ista de inesse : da divisão, é verdadeira. Do mesmo
'Praedestinatus dampnatur', est modo esta é possível: “Aquele, que é
impossibilis et contradictionem includit. predestinado*, pode ser condenado”, é
Haec virtualiter est sententia Magistri verdadeira no sentido da divisão. No
Sententiarum, libro i, di. xl, qui entanto, esta sobre a inerência: “O
respondens obiectioni quorundam probare predestinado está condenado” é
nitentium quod numerus electorum non impossível e implica contradição. Esta é
potest augeri nec minui, sic ait: Quibus virtualmente a posição do Mestre das
respondemus, ex ea ratione dictum esse et Sentenças, no livro 1, distinção 4065,
verum esse, numerum electorum non que ao responder à objeção de alguns
posse augeri vel minui, quia non potest que se esforçam por provar que o
utrumque simul esse, scilicet ut aliquis número dos eleitos não pode aumentar
salvetur et non sit praedestinatus, vel ut nem diminuir, disse assim: Aos quais
aliquis praedestinatus sit et dampnetur. respondemos a partir desta razão que
Intelligentia enim conditionis implicitae seja dito e que seja verdadeiro que o
veritatem facit in dicto, et número dos eleitos não pode aumentar
impossibilitatem in vero. Si vero ou diminuir, porque ambos não podem
intelligatur simpliciter, impossibilitas non estar simultaneamente, a saber, que
admittitur, ut cum dicitur: Praedestinatus alguém se salve e não seja
potest vel non potest dampnari, et predestinado, ou que alguém seja
reprobus potest vel non potest salvari. In predestinado e seja condenado. Com
hiis enim et huiusmodi locutionibus ex efeito, o entendimento da condição
ratione dicti diiudicanda est sententia implícita faz a verdade quanto ao que é
dictionis. Alia namque fit intelligentia, si expresso e a impossibilidade quanto ao
per coniunctionem haec accipiantur dicta, verdadeiro. De fato, se for entendida
atque alia, si per disiunctionem, ut supra, absolutamente, não é admitida a

*
Ockham geralmente toma a palavra “predestinado” como sinônima de “aquele que há de ser salvo” (N.
do T.).
65
Cap. 1.
64

cum de praescientia agebatur, impossibilidade, como quando se diz: O


praetaxatum est. Si enim, cum dicis : predestinado pode ou não pode ser
Praedestinatus non potest dampnari, condenado, e o réprobo pode ou não
intelligas ita : id est non potest esse, ut pode ser salvo. Com efeito, nestas e nas
praedestinatus sit et dampnetur, verum locuções deste modo, o sentido da
dicis, quia coniunctim intelligis ; falsum expressão deve ser julgado desde a
autem, si disiunctim accipias, ut si noção do que é expresso. Pois um seria
intelligas istum non posse dampnari, o entendimento se estes que foram
quem dico praedestinatum. Potuit enim expressos fossem tomados por meio da
non esse praedestinatus ; et ita conjunção, e outro, se pela disjunção,
dampnaretur. Ex hiis verbis evidenter como foi abordado acima66, quando se
apparet quod secundum Magistrum tratava da presciência. Com efeito, se
Sententiarum haec est impossibilis : 'Prae- quando dizes: O predestinado não pode
destinatus dampnatur'; haec tamen habet ser condenado, entendes assim: isto é,
unum sensum verum: 'Praedestinatus não pode ser, dado que seja
potest dampnari'. Ita haec est impossibilis predestinado e seja condenado, dizes o
: 'Aliquid fit a Deo, et non de potentia verdadeiro, porque entendes
ordinata'; haec tamen habet unum sensum conjuntamente, mas dizes o falso se
verum : 'Aliquid potest fieri a Deo, quod tomares disjuntivamente, como se
non fiet de potentia ordinata'; et tamen, si entendesses que este que chamo de
fieret, de potentia ordinata fieret. Sic ergo predestinado não pode ser condenado.
illa de possibili in uno sensu est vera; et Com efeito, pôde não ser predestinado,
tamen illa de inesse de eisdem terminis est e, assim, será condenado. Destas
impossibilis. Nec debet aliquis de hoc palavras aparece evidentemente que
mirari, quod etiam de creaturis loquendo segundo o Mestre das Sentenças esta é
invenitur veritatem habere. Haec enim impossível: “O predestinado é
habet unum sensum verum : 'Album condenado”; no entanto, ela tem um
potest esse nigrum'; haec tamen est sentido verdadeiro: “O predestinado
impossibilis : 'Album est nigrum'. Haec pode ser condenado”. Assim, esta é
etiam habet unum sensum verum : 'Non impossível: “Algo é feito por Deus e
album potest esse album'; haec tamen est não pela potência ordenada”; no
impossibilis : 'Non album est album'. Qui entanto, ela tem um sentido verdadeiro:
igitur in hac materia catholice et secure “Algo pode ser feito por Deus que não é
loqui voluerit, necesse est quod inter feito pela potência ordenada”; e, no
propositiones de possibili et de entanto, se for feito, será feito pela
impossibili et de necessario et de inesse et potência ordenada. Portanto, assim,
etiam inter diversos sensus illarum de aquela sobre o possível é verdadeira
modo sciat distinguere; aliter enim num sentido e, no entanto, aquela sobre
faciliter ponet vel negabit unam pro alia et a inerência a respeito dos mesmos

66
Pedro Lombardo, Sent. I, d. 38, cap. 2.
65

incidet in errorem. Quare omni homini, termos é impossível. E ninguém deve se


qui non est in logica et theologia admirar com isso, dado que se vê que
excellenter instructus, expedit in hac seja igualmente verdade quando se fala
materia magis tacere quam loqui praeter das criaturas. Com efeito, esta tem um
illa, quae in scripturis reperiuntur sentido verdadeiro: “O branco pode ser
expressa. negro”. No entanto, esta é impossível:
“O branco é negro”. Também esta tem
um sentido verdadeiro: “O não branco
pode ser branco”. No entanto, esta é
impossível: “O não branco é branco”.
Portanto, quem quiser falar nesta
matéria católica e seguramente, tem
necessariamente de saber distinguir
entre as proposições sobre o possível e
sobre o impossível e sobre o necessário
e sobre a inerência e também entre os
diversos sentidos daquelas modais; com
efeito, de outro modo, facilmente porá
ou negará uma pela outra e cairá em
erro. Razão pela qual cabe, quanto a esta
matéria, a todo homem que não é
excelentemente instruído em lógica e
em teologia, antes calar do que falar
além do que é expressamente
encontrado nas escrituras.
Secunda ratio contra praedictam A segunda razão contrária à
distinctionem ex falso etiam intellectu distinção mencionada67 também
procedit, sicut tactum est supra. precede de um falso entendimento, tal
Concedendum est enim quod non sunt in como foi mostrado acima68. Com efeito,
Deo duae potentiae, quarum una sit deve-se conceder que não há em Deus
absoluta et alia ordinata; tamen hoc duas potências, das quais uma seja
verbum ' potest', cum loquimur de Deo, absoluta e a outra ordenada. No entanto,
aequivoce accipi potest, sicut supra a palavra “pode”, quando falamos sobre
declaratum extitit. Deus, pode ser tomada equivocamente,

67
Supra, ibidem: “Outra razão sua67 é que em Deus a essência e a potência são o mesmo. Ora, não há duas
essências em Deus. Portanto, nem duas potências.”.
68
Supra: no § “Quarto, declaram de que modo deve ser entendida a distinção dos teólogos[...]”: “e de que
modo Deus pode fazer alguns pela potência absoluta que não pode pela potência ordenada, ao dizer que tal
distinção não deve ser entendida tal como a consideram certos ignorantes, como se houvesse em Deus uma
dupla potência, das quais uma seria absoluta e a outra ordenada; [...]”
66

assim como apareceu declarado


acima69.
Super litteram. Si velit dicere quod Sobre a passagem: Se quer dizer
illi regno et dominio renuntiavit: Dicunt que renunciou àquele reino e domínio,
isti quod appellans non vult dicere quod estes dizem que o querelante não quis
Christus renuntiavit illi regno et dominio, dizer que o Cristo renunciou àquele
saltem proprie accipiendum verbum reino e domínio, ao menos tomando
'renuntiandi'; quia nunquam ante propriamente o verbo “renunciar”; uma
passionem suam habuit illa regnum et vez que antes de sua paixão nunca teve
dominium ; ideo non renuntiavit eisdem. aquele reino e domínio; por isso, não
Ostendat illam, si sciat: Ipse non vult eam renunciou a eles. Mostre a renúncia, se
ostendere, sed vult ostendere quod non souber: aquele não quer mostrar a
habuit ante mortem regnum et dominium renúncia, mas quer mostrar que não teve
temporale. Immo contrarium sacra antes da morte o reino e o domínio
scriptura supponit expresse: Dicunt quod temporal. Melhor: a sagrada escritura
hoc falsum est, et ad omnes auctoritates, supõe expressamente o contrário:
quas ad hoc probandum hic adducit, dizem que isso é falso, e quanto a todas
responsum est supra, c. xciii; ideo hic ad as autoridades que aqui traz para provar
ipsas non expedit respondere. Immo isso foi respondido acima, no capítulo
videtur quod nec potuerit renuntiare: Ista 93; por isso, aqui não cabe respondê-las.
in sensu divisionis falsa est, sicut ista est Melhor: vê-se que não poderia
falsa in sensu divisionis secundum renunciar: esta proposição é falsa no

69
Supra, ibidem: “e, no entanto, a potência de Deus não é diversa, mas a locução é diversa; a saber, porque,
quando as escrituras falam de Deus pelos vocábulos “pode”, “possível”, “potência” e semelhantes na
conveniência da significação, tais vocábulos são tomados equivocamente em diversos lugares. Donde, em
alguns lugares denotam ou fazem referência a tudo aquilo que não repugna a Deus fazer. Assim esta palavra
“pode” é tomada nas autoridades alegadas acima, e em muitos outros lugares. Assim também o nome
“onipotente” é tomado em Gênesis 17, 1, Eu o Deus onipotente, tanto no símbolo dos Apóstolos, como
também no símbolo que é cantado na missa, quando é dito: Creio em um só Deus, Pai onipotente.
Diversamente, estas palavras fazem referência ou conotam unicamente aquilo que se ordenou haver de
fazer, e não tudo aquilo que pôde e pode se ordenar haver de fazer. Assim se toma Gênesis 18, 17, em que
o Senhor diz: Acaso poderei esconder de Abraão o que hei de fazer? como se dissesse: “Não”. No entanto,
consta que Deus não tinha necessidade de revelar a Abraão o que havia de fazer; mas disse: Acaso poderei
esconder, etc., por isso: porque ordenou-se haver de revelar a Abraão o que havia de fazer. Assim se toma
Gênesis 19, 22, quando o Senhor disse a Ló: Apressa-te e refugia-te ali, porque não poderei fazer o que for
até que entres ali, isto é, “Não farei o que for até que entres ali”. Assim também é tomado Marcos 6, 5-6,
quando é dito sobre o nosso Salvador: Não pudera fazer nenhuma virtude ali, curou apenas poucos
enfermos pela imposição das mãos: e admirou-se da incredulidade deles. No entanto, consta que, enquanto
era Deus, não era impossível ao Cristo fazer absolutamente a virtude ali, mas disse que não pudera fazer ali
nenhuma virtude, porque em razão da incredulidade deles não quis fazer a virtude ali. Desse modo, portanto,
a palavra “pode” é tomada equivocamente nas escrituras ao falar sobre Deus, do mesmo modo que, a mesma
palavra, quando falamos sobre os homens, é tomada equivocamente. Com efeito, de um modo se diz que
possamos aqueles que podemos por direito, e é dito poder ser feito aquilo que licitamente e devidamente
pode ser feito. Assim é tomado Gênesis, 39, 9, quando José diz à egípcia: Como, então, posso fazer este
mal? como se dissesse: “Não posso licitamente e por direito”. Diversamente, se diz que possamos aqueles
que podemos absolutamente, seja para o bem, seja para o mal, com efeito, diversamente, jamais poderíamos
pecar. Portanto, assim a palavra “poder” é tomada equivocamente nas escrituras quando se fala de Deus.
No entanto, há uma única potência realmente em Deus, mas a locução é diversa.”.
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Magistrum Sententiarum: 'Praedestinatus sentido da divisão, assim como esta é


non potest dampnari'. Potuisset enim falsa no sentido da divisão segundo o
Christus habuisse regnum et dominium, et Mestre das Sentenças: “O predestinado
postea renuntiasse eisdem. Si fecisset, não pode ser condenado”. Com efeito,
contra ordinationem Patris fecisset: Ista seria possível que o Cristo tivesse o
falsa est secundum istos; quia sicut, si reino e o domínio e depois renunciasse
Christus per alium modum quam per a eles. E se o fizesse, o faria contra a
mortem suam liberasset genus humanum, ordenação do Pai: esta proposição é
non fecisset contra ordinationem Patris, falsa segundo estes, porque, assim
immo secundum ordinationem Patris, como se Cristo por um modo diverso de
quia, si Christus aliter liberasset genus sua morte tivesse libertado o gênero
humanum, Pater aliter ordinasset: ita, si humano, não teria agido contra a
Christus renuntiasset regno et dominio, ordenação do Pai, mas antes segundo a
non fecisset contra ordinationem Patris, ordenação do Pai, uma vez que, se o
immo fecisset ordinationem Patris, quia, Cristo tivesse libertado diferentemente
si Christus renuntiasset, Pater talem o gênero humano, o Pai teria ordenado
renuntiationem ordinasset. Et ita haec est diferentemente: assim, se Cristo tivesse
impossibilis : ' Christus fecit contra renunciado ao reino e ao domínio, não
ordinationem Patris ', sicut haec est teria agido contra a ordenação do Pai.
impossibilis : 'Aliquis dampnatur contra Melhor: teria feito a ordenação do Pai,
praedestinationem Dei', et haec similiter : porque, se o Cristo tivesse renunciado,
'Aliquid fit contra praescientiam Dei'. De o Pai teria ordenado tal renúncia. E,
istis tamen propositionibus de possibili: assim, esta é impossível: “O Cristo fez
'Christus potuit facere contra contra a ordenação do Pai”, assim como
ordinationem Patris', 'Aliquis potest esta é impossível: “Alguém é
dampnari contra praedestinationem Dei', condenado contra a predestinação de
'Aliquid potest fieri contra praescientiam Deus”, e, semelhantemente, esta: “Algo
Dei', et consimilibus, non est per omnem se dá contrariamente à presciência de
modum dicendum sicut de illis de inesse Deus”. No entanto, estas proposições
correspondentibus ipsis, sicut ex sobre o possível: “O Cristo pôde fazer
superioribus potest aliqualiter contra a ordenação do Pai”, “Alguém
intelligentibus apparere. Auctoritates pode ser condenado contra a presciência
vero, quas iste adducit, sunt de inesse et de Deus”, e semelhantes, não devem ser
non de impossibili; et ideo in nullo ditas de nenhum modo paralelo àquele
probant negativam de possibili. Qualiter das proposições sobre a inerência que a
autem intelligendae sunt, patet supra, c. elas correspondem, assim como pode de
xciii; ideo hic replicare nequaquam algum modo aparecer do que foi acima
oportet. entendido. Ora, as autoridades que
aquele apresenta são sobre a inerência e
não sobre o impossível; e, por isso, de
nenhum modo provam a negativa sobre
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o possível. Como, porém, devem ser


entendidas, é patente acima, no capítulo
93. Assim, não há por que voltar a isso
aqui.