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SUMÁRIO

Análise I 3
1. Apresentação 4
2. Introdução 5
2.1 O que é uma demonstração matemática? 5
2.2 Diferenças entre axioma, definição e teorema? 8
2.3 Por que axiomatizar 10
2.4 Por que construir? 10
3. O que é Análise? 12
3.1 A Análise na formação de professores 12
3.2 Um pouco de história 13
3.3 Organizando as ideias 16
3.4 Verdadeiro ou Falso? 18
3.5 Teoremas e Demonstrações 20
3.6 Métodos de Demonstração 21
4. Conjuntos e Funções 25
4.1 Noções de conjuntos 25
4.2 Inclusão de conjuntos. 29
4.3 Igualdade entre conjuntos. 29
4.4 Vazio, partes, união e intersecção 30
4.5 Produto cartesiano 32
4.6 Funções 33
5. Os Números Naturais 38
6. Números Inteiros 48
6.1 O conjunto dos números inteiros 49
6.2 Construção dos números inteiros 50
7. Números Racionais 54
7.1 Construção dos números racionais 55
8. Grandezas incomensuráveis 64
8.1 Números irracionais 64
8.2 Representação geométrica dos números irracionais 65

8.3 Provando que 2 é um número racional 68
9. Cardinalidade 74
9.1 Introdução 74
9.2 Conjuntos finitos e infinitos enumeráveis 74
9.3 Conjuntos não enumeráveis 79
10. Algumas propriedades dos números reais 82
10.1 Supremo e Ínfimo 84
ANÁLISE I
Fernando Kennedy da Silva

Análise I

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Apresentação

Caros Discentes,

Sejam bem-vindos ao estudo de Análise.


Provavelmente esta é uma das últimas disciplinas que faltam para vo-
cês se graduarem em Matemática. Os conteúdos apresentados neste livro
aprofundam o seu conhecimento anterior e têm como principal finalidade
ampliar sua intuição matemática e seu raciocínio lógico.
Para isso, você será introduzido na linguagem formal da Matemática,
onde os conceitos, proposições etc., são tratados com formalismo e rigor.
No entanto, a linguagem matemática clara e precisa que vamos usar não
será carregada em demasia, de forma a não prejudicar o desenvolvimento
das ideias e o próprio aprendizado.
Sem descuidar do rigor matemático, procuramos apresentar os con-
teúdos de uma maneira envolvente, de forma a lhe propiciar uma aprendi-
zagem autônoma e agradável. Caberão a vocês a busca do entendimento
dos conceitos, das demonstrações, bem como a resolução dos exercícios
propostos.
Os conceitos explorados são: conjuntos finitos, enumeráveis e não-
enumeráveis; números reais; sequências e séries de números reais.
Mesmo que os conteúdos possam lhe parecer difíceis em alguns mo-
mentos, enfrente o desafio. Estude com afinco e dedicação. Acreditamos
que esta disciplina vai lhe proporcionar uma visão mais abrangente da
Matemática, lhe abrindo horizontes como professor desta bela e desafi-
adora área do conhecimento humano.

Fernando Kennedy da Silva


Análise I

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Introdução

O que são os números reais? O que significa uma função ser contınua?
O que é limite de uma função ou de uma sequência?
Muitas perguntas como essas não são respondidas adequadamente
nos cursos de Matemática do Ensino Básico, e até mesmo no inıcio do
Ensino Superior. Mas as perguntas acima são particularmente negligen-
ciadas. Não necessariamente por falha dos professores e autores de livros
didáticos, mas porque de fato a complexidade das respostas vão muito
além do que parece. Enquanto os conceitos dos números naturais, intei-
ros e racionais são bem intuitivos e não muito difıceis de compreender, a
passagem dos números naturais para os números reais é bastante sutil.
Quando os livros falam da existência de números que não são racionais,
já pressupõem a existência de um conjunto maior, e jamais explicam
claramente que conjunto é esse. Na Universidade, quando em um curso
de Cálculo começa a se falar de limite, continuidade, derivada e integral,
os problemas de imprecisão de linguagem aumentam ainda mais. As
definições e argumentos se baseiam em uma noção vaga e não definida
de “proximidade”.
A disciplina de Análise é considerada um divisor de águas em qual-
quer curso de Matemática – seja Licenciatura, Bacharelado ou Matemá-
tica Aplicada – pois é justamente o momento em que nos desprendemos
desses conceitos vagos e imprecisos e começamos a aprender a enxergar
a Matemática e escrevê-la na maneira como os fazem os matemáticos
profissionais. Em um Curso de Bacharelado, é imprescindıvel para que
os alunos aprendam a escrever dissertações, teses e artigos acadêmicos.
Em um Curso de Licenciatura, é imprescindıvel para que os futuros pro-
fessores aprendam a usar a linguagem matemática da maneira correta.

O que é uma demonstração matemática?

Uma demonstração matemática é uma sequência finita de afirmações


em que cada uma ou é um axioma (afirmação que assumimos como
verdadeira) ou é uma consequência lógica das anteriores.
Essa definição não é precisa, e induz a vários questionamentos. Os
dois principais: o que é uma afirmação matemática? Quando uma afir-
mação é uma consequência lógica de outra(s)?
Essas perguntas só são completamente respondidas em um Curso
de Lógica. Na lógica matemática moderna (desenvolvida no inıcio do
Análise I

século XX), estabelece-se uma linguagem simbólica com regras claras

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para determinar quando uma sequência de símbolos é uma fórmula (o
equivalente a frase, na linguagem natural) e quando uma sequência de
fórmulas é uma demonstração correta. Essas regras são totalmente livres
de ambiguidades ou de interpretações intuitivas, de modo que é possıvel
criar um programa de computador que identifica se uma demonstração
está correta ou não.
No entanto, uma demonstração matemática completa no sentido da
lógica costuma ser tão longa que se torna inviável para demonstrar qual-
quer resultado um pouco mais complexo. Dessa forma, o conceito lógico
de demonstração matemática tem importância teórica e serve como refe-
rência para os matemáticos saberem que argumento é aceitável ou não.
Mas as demonstrações matemáticas que encontramos em livros e artigos
não são feitas baseadas estritamente em um sistema formal. Tem-se, sim,
como princípio, que uma demonstração matemática correta é aquela que
pode ser formalizada em um sistema lógico, desde que você tenha tempo
suficiente para fazê-lo, mas isso é ainda uma ideia intuitiva.
Então, o conceito de demonstração matemática, usada na prática,
é subjetivo e varia de disciplina a disciplina, o que tentarei responder
aqui é a seguinte pergunta: o que é uma demonstração matemática cor-
reta em um Curso de Análise?. Em outras palavras, tentarei aqui, à
medida do possível, responder à pergunta mais comum que ocorre na
disciplina de Análise e em outras em que se exige demonstrações razo-
avelmente rigorosas: quais argumentos são permitidos em uma demons-
tração?. Começamos, então, com uma lista do que podemos assumir em
uma demonstração no Curso de Análise.

• Deduções lógicas. As demonstrações cobradas em Análise usam


a linguagem natural, de forma que os argumentos lógicos usuais são
aceitos, desde que feitos corretamente. Por exemplo: se x + 0 = x,
para todo x, então, em particular, 0 + 0 = 0; se provamos A e
provamos que A implica B, então podemos concluir que vale B; se
provamos que A implica B e que B implica C, então podemos con-
cluir que A implica C. Esse tipo de argumento pode ser utilizado
sem justificar, mas com cuidado para não cometer falsas inferên-
cias (exemplo de inferência incorreta: provamos que A implica B
e provamos que A é falso, então concluímos que B é falso). Um
pouco de conhecimento de lógica proposicional pode ser útil para
evitar esses erros e usar melhor os argumentos lógicos.
• A interpretação usual do símbolo da igualdade. Assumimos
que a igualdade é um símbolo lógico e que as propriedades inerentes
a ela não precisam ser provadas. Por exemplo: se a = b então b = a;
se a = b e b = c então a = c; se a = b então a + c = b + c.
Análise I

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• Teoria ingênua dos conjuntos. Não sendo este um Curso de
Teoria dos Conjuntos, não precisamos definir e provar fatos bási-
cos sobre teoria dos conjuntos. Por exemplo: podemos assumir
a existência de pares ordenados, produto cartesiano e de outros
conjuntos, sem provar. Todavia, o uso da notação conjuntística
deve ser feito com cautela. O Capítulo 4 descreve o que podemos
assumir de teoria dos conjuntos e estabelece uma notação padrão.
Prestem atenção nesse capítulo.
• Princípio da indução finita e Princípio da boa ordem. Es-
ses dois princípios, que são propriedades inerentes dos números
naturais provadas em Cursos de Álgebra e Teoria dos Conjuntos,
podem ser usadas sem provar. Faremos um pequena abordagem
sobre este tema no Capítulo 5.
• Argumentos já utilizados com frequência. À medida que os
resultados vão avançando e ficando mais complexos, fica inviável
escrever todos os detalhes de uma prova. Então, em provas e listas
de exercícios, sempre surge a seguinte pergunta: o que podemos as-
sumir do que já foi provado em aula ou em listas de exercícios?. É
difícil responder a essa pergunta de maneira precisa, pois deve pre-
valecer o bom senso. É razoável assumirmos tudo que foi provado
anteriormente ao que está sendo provado no momento. Também
é razoável que argumentos muito parecidos com outros utilizados
exaustivamente não precisam ser repetidos. Aí entra expressões do
tipo “é óbvio que”, “claramente vale”, etc. Essas expressões não
podem ser usadas quando uma afirmação que fazemos parece ver-
dadeira mas não conseguimos prová-la com detalhes. Essas expres-
sões devem ser usadas quando fazemos o mesmo argumento várias
vezes e assumimos que o leitor já esteja familiarizado com ele. Por-
tanto, em provas e listas de exercícios, a menos que seja explicitado
se pode ou não usar algum resultado, pode utilizar tudo que foi
provado em sala e em exercícios anteriores (mesmo que esse não
tenha sido resolvido). No caso do exercício pedir explicitamente
algo já provado nas aulas ou na apostila, o(a) aluno(a) poderá usar
os resultados anteriores a esse (novamente, salvo instrução contrá-
ria, permitindo ou proibindo o uso de algum resultado). Detalhes
poderão ser omitidos, contanto que sejam visivelmente mais fáceis
do que os que estão sendo apresentados, e que argumentos seme-
lhantes já tenham sido utilizados em listas ou provas anteriores.

Agora vem a pergunta: o que não podemos assumir em uma demons-


tração no curso de Análise? Essencialmente, tudo que envolve qualquer
Análise I

interpretação intuitiva ou geométrica dos símbolos especıficos da lingua-


gem (as operações + e · e a relação <) e os símbolos e expressões que

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definimos a partir desses (módulo, elemento oposto, elemento inverso,
as constantes 0 e 1, limite, etc.). Ou seja, para efeito de demonstra-
ção, as operações de + e · são vistas apenas como funções de R2 em
R, e a relação < como uma relação em R2 , sem quaisquer significados
intuitivos ou geométricos. Da mesma forma para os outros conceitos de-
finidos a partir desses. Uma demonstração deve se apoiar estritamente
nos axiomas e nas definições, e jamais depender de alguma interpretação
intuitiva desses símbolos e termos. Isso não significa que a intuição e
a visão geométrica sejam inúteis em um Curso de Análise. Muito pelo
contrário, a intuição é uma ferramenta indispensável para encontrarmos
a demonstração, e argumentos intuitivos podem ser apresentados (espe-
cialmente em um livro didático ou numa aula) para ilustrar a ideia da
demonstração. Apenas não pode ser utilizada como parte indispensável
da demonstração. Ou seja, a prova do resultado não pode depender de
afirmações que fizemos baseadas somente em argumentos intuitivos. Fa-
zendo uma analogia, é como um detetive que investiga um crime: pela
intuição ele pode descobrir que um suspeito está mentindo ou escon-
dendo alguma coisa, e isso pode guiá-lo às pistas certas na investigação.
Mas perante o juiz precisa apresentar provas, e não opiniões baseadas
em intuição, para conseguir a condenação do réu.

Diferenças entre axioma, definição e teorema?

Um axioma é uma proposição matemática que assumimos ser verda-


deira, sem precisar provar.
Antigamente definia-se axioma como uma verdade evidente em si
mesma. Dessa forma Euclides aparentemente resolvia o problema de
regressão infinita nas demonstrações de geometria, ao estabelecer algu-
mas proposições que, de tão óbvias, dispensavam demonstração. Havia
ainda a distinção entre axiomas – que tratavam sobre as relações entre
grandezas em geral – e os postulados – que tratavam especificamente
da geometria.
Na matemática moderna, no entanto, não se usa mais o conceito de
“verdade evidente em si mesma”. Axioma passou a significar algo que
apenas assumimos como verdadeiro em uma teoria, sem precisar entrar
em juízo sobre o que significa ser verdadeiro e sem pressupor que existe
alguma noção absoluta de verdade.
Uma definição introduz um novo símbolo ou termo a partir dos já
existentes. Pode ser visto como uma simples abreviatura da linguagem,
pois sempre podemos reescrever as frases matemáticas usando apenas os
símbolos e termos ditos primitivos. Portanto, as definições formalmente
não estendem a teoria, nem aumentam sua expressividade, mas ajudam
Análise I

a tornar as proposições mais curtas e compreeensıveis.

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Como acontece com os axiomas, as definições não precisam ser pro-
vadas. Porém, a supressão de um axioma geralmente afeta toda a teoria,
enquanto uma definição, como já foi dito, apenas simplifica a linguagem
e a notação.
Os teoremas, por outro lado, são as proposições matemáticas que
provamos a partir dos axiomas (e das definições). Tecnicamente, tudo
que provamos em uma teoria é chamado de teorema, mas costumamos
usar algumas palavras para diferenciar os teoremas devido ao seu grau
de importância e papel no desenvolvimento de uma teoria. Assim, re-
servamos a palavra teorema apenas para os resultados mais importan-
tes. Costuma-se chamar de lemas aqueles resultados que provamos como
passo intermediário para provar um teorema. Temos ainda os corolários,
que são teoremas que seguem imediata ou facilmente de outro teorema.
A diferença entre axioma, definição e teorema depende do contexto,
porque uma mesma teoria pode ser formalizada de diferentes maneiras,
trocando esses conceitos. Por exemplo, o símbolo de desigualdade <
pode ser introduzido como um símbolo primitivo, e assim estabelece-
mos axiomas sobre essa relação. A partir daí definimos o que significa
um número ser positivo. Outros livros fazem o contrário: axiomatizam
o que significa um número real ser positivo e a partir daí definem a
desigualdade.
Teoremas e definições também frequentemente permutam de acordo
com a formalização que o autor escolhe. Um exemplo clássico em que
isso ocorre é na geometria vetorial no espaço. Alguns livros definem que
uma tripla de vetores no espaço é linearmente independente se não estão
contidos em um mesmo plano, e provam como teorema que uma tripla
é linearmente independente se, e somente se, a única combinação linear
entre eles que resulta no vetor nulo é tomando todos os coeficientes iguais
a zero. Outros livros fazem o contrário: definem uma tripla de vetores
como linearmente independente se a única combinação linear que resulta
no vetor nulo é a trivial, e provam que isso é equivalente aos vetores não
serem coplanares.
Também podemos introduzir uma teoria axiomática através de uma
definição, como fazemos quando definimos corpo ordenado completo a
partir de axiomas. Isso ocorre porque, na verdade, não estamos axioma-
tizando diretamente os números reais, mas o fazemos dentro do universo
da Teoria dos Conjuntos (explicar isso em mais detalhes apenas dá para
fazer em um Curso de Lógica ou Teoria dos Conjuntos).
O importante, no entanto, é identificar, pelo contexto que o curso
segue, o que precisa ser provado e o que está sendo assumido como
verdadeiro (seja por ser um axioma ou uma definição, ou por ser um
teorema já provado anteriormente).
Análise I

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Por que axiomatizar

Podemos nos perguntar qual é a vantagem da abordagem axiomá-


tica. Por que não construímos um conjunto específico que chamamos de
conjunto dos números reais e não provamos tudo que precisamos dire-
tamente para esse conjunto? Ou, por que não usamos simplesmente a
representação decimal, como “todo mundo” faz?
Por mais que axiomatizar uma teoria pareça muito complicado, ao
fazer isso temos mais controle sobre o nosso objeto de estudo, pois sepa-
ramos quais são as propriedades fundamentais desse objeto e deduzimos
as demais. Dessa forma, não precisamos nos preocupar com a estrutura
do objeto que estamos trabalhando (no caso, o conjunto dos números
reais), e também evitamos incorrer em erros de argumentação proveni-
entes de definições imprecisas.
Portanto já são duas vantagens práticas de provar teoremas axioma-
ticamente: melhor organização do raciocínio (sem se perder com excesso
de detalhes de uma definição “concreta” de números reais) e menor risco
de chegarmos a conclusões erradas (pois passamos a não depender da in-
tuição, que, como já foi dito, apesar de útil é bastante capciosa quando
dependemos apenas dela).
Uma outra vantagem é que demonstrações axiomáticas podem ser
aproveitadas em outras estruturas matemáticas que utilizam alguns axi-
omas em comum, facilitando muitas vezes nosso trabalho e ajudando a
entender teorias mais complexas utilizando argumentos já provados em
teorias mais simples.

Por que construir?

A outra pergunta que surge naturalmente é: se axiomatizamos os


números reais, por que, então, construi-los? Os estudantes perceberão
que fazemos a construção do conjunto dos números reais mas em ne-
nhum outro momento a utilizamos, porque todas as demonstrações são
axiomáticas. Por que, portanto, precisamos fazer a construção?
A questão fundamental é sobre a consistência da teoria. Isto é, pre-
cisamos provar que os axiomas que estamos assumindo não nos levem a
uma contradição, e, para provar isso, precisamos mostrar que existe um
modelo para esses axiomas. Assim, ao provarmos que existe um corpo
ordenado completo, estamos mostrando que os axiomas de corpo orde-
nado completo não conduzem a uma contradição, pois existe um objeto
matemático que satisfaz tais axiomas.
Entretanto, a questão aí é mais complicada. Para construirmos os
números reais, utilizamos os números racionais, além de operações con-
Análise I

juntísticas. Como sabemos que existe o conjunto dos números racionais?

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A construção dos números racionais é feita a partir dos números inteiros,
e a dos números inteiros a partir dos números naturais (o qual faremos
um breve estudo no Capítulo 5.

Análise I

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O que é Análise?

Análise é o ramo da Matemática que lida com os conceitos introdu-


zidos pelo Cálculo, tendo surgido justamente da necessidade de prover
formulações rigorosas às ideias intuitivas do Cálculo. Hoje é uma disci-
plina muito mais ampla, e tais tópicos são tratados em uma subdivisão
chamada Análise Real.
Se a Análise surgiu do estudo dos números e funções reais, sua abran-
gência cresceu de forma a estudar os números complexos, bem como es-
paços mais gerais, tais como os espaços métricos, espaços normados e os
espaços lineares topológicos.
Embora seja difícil definir exatamente o que seja Análise e delinear
precisamente seu objeto de estudo, pode-se dizer grosseiramente que a
Análise se dedica ao estudo das propriedades topológicas em estruturas
algébricas.
A Análise pode ser dividida em:

• Análise Real, que lida com o corpo dos números reais;


• Análise Complexa, que dedica ao estudo do corpo dos números
complexos;

• Análise Funcional, que aplica ao estudo do comportamento das


funções;
• Análise Harmônica, que se ocupa da composição de funções a
partir das componentes harmônicas;
• Análise Numérica, que estuda algoritmos e técnicas de Cálculo
Numérico aplicados aos problemas de matemática contínua.

A Análise na formação de professores

As disciplinas introdutórias de Análise, que costumam integrar os


currículos de Bacharelado e Licenciatura em Matemática, em geral são
totalmente dedicadas a uma apresentação rigorosa do Cálculo. Assim,
tal disciplina apresenta excelente oportunidade para desenvolver no es-
tudante de Licenciatura e futuros professores do Ensino Básico aquela
habilidade tão necessária no trato com definições, teoremas, demonstra-
ções, que são o embasamento lógico de toda a Matemática.
Análise I

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Diante disso, a Análise objetiva o desenvolvimento do raciocínio al-
gébrico abstrato e a habilidade de compreender simbologias, nomencla-
turas, definições e teoremas; ou seja, fornece ao professor as ferramentas
necessárias para que este possa pesquisar, compreender e questionar o
que é dito nos livros.
O estudo da Análise está direcionado aos formalismos utilizados em
Matemática e às demonstrações dos resultados estudados nas disciplinas
de Cálculo. Elon Lages Lima, um importante matemático brasileiro,
autor de alguns dos principais livros desta área adotados em Cursos de
Matemática, diz que um livro de Matemática não deve ser lido como se
lê uma novela; no primeiro caso deve-se se ter lápis e papel na
mão para reescrever com suas próprias palavras cada definição
ou enunciado de teoremas.
Uma vez que o professor de Matemática tem conhecimento sobre os
teoremas e demonstrações, ele se sente mais seguro ao ensinar os conteú-
dos, pois assim ele tem certeza da veracidade do que será transmitido ao
aluno. Faltando tal conhecimento ao professor, o mesmo poderá se sentir
inseguro sobre o conteúdo e assim poderá omitir certas informações que
poderiam facilitar a explicação para a melhor compreensão por parte do
aluno, prejudicando o desenvolvimento intelectual do mesmo.

Um pouco de história

A Matemática sempre representou uma atividade humana e, em todas


as épocas, mesmo nas mais remotas, a ideia de contar sempre esteve
presente. Um clássico exemplo da noção intuitiva de contagem era a
correspondência entre ovelhas de um rebanho e pedrinhas contidas em
pequenos sacos, ou marcas em pedaço de osso ou de madeira, ou ainda
por meio de nós em cordões, utilizados pelos incas.
Muitos anos ainda se passaram até que se iniciasse o desenvolvimento
teórico do conceito de número que, embora hoje nos pareça natural, foi
lento e complexo, envolvendo diversas civilizações.
Os registros históricos nos mostram a utilização de vários sistemas de
numeração, por exemplo, os povos babilônios de 2000 a.C., que desen-
volveram o sistema de numeração sexagesimal e empregaram o princípio
posicional; os egípcios, que já usavam sistema decimal (não posicional);
os romanos, que fizeram história através do uso simultâneo do princí-
pio da adição e do raro emprego do princípio da subtração; e os gregos
antigos, povos que utilizavam diversos sistemas de numeração.
Quase quatro mil anos separam as primeiras manifestações de nume-
ração escrita da construção do sistema de numeração posicional decimal
que utilizamos, munido do símbolo denominado zero. Esse símbolo foi
Análise I

criado pelos hindus nos primeiros séculos da era cristã. A concepção do

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zero foi ignorada, durante milênios, por civilizações matematicamente
importantes como a dos gregos e dos egípcios.
A invenção do zero foi um passo decisivo para a consolidação do sis-
tema de numeração indo-arábico, devido à sua eficiência e funcionalidade
em relação aos demais sistemas de numeração. Sem o zero, tornaria se
impossível efetuar 385 × 908 usando os algarismos romanos.
Um marco importante na história dos números e da matemática se
deu no século VI a.C., na Escola Pitagórica. Em seus estudos, os pitagó-
ricos envolviam-se de um certo misticismo, pois acreditavam que existia
uma harmonia interna no mundo governada pelos números naturais.
Desde Pitágoras pensava-se que, dados dois segmentos de reta quais-
quer, AB e CD, seria sempre possível encontrar um terceiro segmento
EF , contido um número inteiro de vezes em AB e um número inteiro
de vezes em CD. Expressamos essa situação dizendo que EF é um
submúltiplo comum de AB e CD ou que AB e CD são comensuráveis.
Essa ideia nos permite comparar dois segmentos de reta da seguinte
AB
maneira: dados dois segmentos, AB e CD, dizer que a razão é
CD
m
o número racional , significa que existe um terceiro segmento EF ,
n
submúltiplo comum desses dois, satisfazendo: AB é m vezes EF e CD
é n vezes EF .
Era natural imaginar que, para dois segmentos AB e CD dados,
era sempre possível tomar EF suficientemente pequeno para caber um
número inteiro de vezes simultaneamente em AB e em CD. Para os
pitagóricos, dois segmentos de reta eram sempre comensuráveis, sendo,
portanto, os números naturais suficientes para expressar a razão entre
eles e, de modo mais geral, a relação entre grandezas da mesma natureza.
O reinado dos números naturais, na concepção pitagórica, foi profun-
damente abalado por uma descoberta originada no seio da própria comu-
nidade pitagórica e que se deu, em particular, numa figura geométrica
comum e de propriedades aparentemente simples, o quadrado. Trata-se
da incomensurabilidade entre a diagonal e o lado de um quadrado.
Essa situação só foi contornada através do matemático e astrônomo
ligado à Escola de Platão, Eudoxo de Cnidos (408 a.C – 355 a.C.), que
criou a Teoria das Proporções para tratar as grandezas incomensuráveis
através da Geometria, que apesar do progresso, contribuiu para a de-
saceleração do desenvolvimento da Aritmética e da Álgebra por muitos
séculos.
O coroamento da fundamentação matemática do conceito de nú-
mero ocorreu somente no final do século XIX, principalmente através
dos trabalhos propostos por Richard Dedekind (1831–1916), Georg Can-
tor (1845–1918) e Giuseppe Peano (1858–1932). Esses estudos foram
Análise I

motivados pelas demandas teóricas que surgiram a partir do volume de

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conhecimento matemático adquirido a partir do Cálculo de Isaac Newton
(1643–1727) e Gottfried Leibniz (1646–1716), no século XVII.
É interessante estudar como o processo histórico da conceituação de
número assemelha-se à nossa própria formação desse conceito. Antes
de iniciarmos nossa vida escolar, admitimos os números naturais como
fruto do processo de contagem, da mesma forma que a humanidade os
admitiu até o século XIX. Entre os gregos da época de Euclides, números
eram os que hoje escrevemos como 2, 3, 4, 5 etc., ou seja, os números
naturais maiores do que 1. O próprio 1 era concebido como a unidade
básica a partir da qual os números, as quantidades, eram formadas. O
zero, como vimos, foi uma concepção já dos primeiros séculos da era
cristã, criada pelos hindus, para a numeração escrita. Para uma criança
aprendendo a contar, este ato só faz sentido a partir da quantidade
2, senão contar o quê? Ela só admite o zero depois de ter passado
alguns anos experimentando os números “de verdade”, isto é, contando
e adquirindo experiência, o que se dá no início de sua aprendizagem da
numeração escrita.
As frações eram admitidas pelos gregos não como números, mas como
razão entre números (2, 3, 4, etc.). Da mesma forma, os números nega-
tivos, inicialmente utilizados para expressar dívidas, débitos e grandezas
que são passiveis de serem medidas em sentidos opostos, só receberam
o status de números séculos após serem utilizados na matemática e em
suas aplicações. Aqui nota-se a semelhança com a nossa experiência
pessoal em Matemática.
A existência de grandezas incomensuráveis e a ausência de um tra-
tamento eficiente para expressá-las, isto é, o desconhecimento de uma
fundamentação teórica para o conceito de número real, não impediu o
progresso de ramos da matemática do século XVI ao século XIX. No
entanto, a complexidade dessa matemática conduziu a problemas para
cuja compreensão e solução o entendimento intuitivo não era suficiente.
É mais ou menos deste modo que formamos o nosso conceito de número
real: apesar de ouvirmos falar de números reais desde o Ensino Fun-
damental, concretamente só trabalhamos com números racionais. Isso
ocorre até mesmo no Ensino Superior.
Os números complexos apareceram no estudo de equações, no sé-
culo XVI, com o matemático italiano Girolamo Cardano (1501–1576),
mas também só adquiriram o status de número a partir de suas repre-
sentações geométricas, dadas no século XVIII pelos matemáticos Carl
Friedrich Gauss (1777–1855) e Jean Robert Argand (1768–1822) e da
sua álgebra, apresentada por W. R. Hamilton em 1833, na qual eles
eram definidos como pares ordenados de números reais. Estes, por sua
vez, foram construídos rigorosamente a partir dos racionais, décadas de-
Análise I

pois, por R. Dedekind e G. Cantor. Aqui também há um paralelo com


a nossa educação escolar: supondo conhecidos os reais, não é tão com-

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plicado concebermos os complexos. No entanto, o conceito rigoroso de
número real só se aborda no Curso de Análise. Isso, porém, é feito de
forma axiomática, isto é, o conjunto dos números reais é admitido por
axioma como um corpo ordenado completo, e não construído a partir
dos racionais, como deve ser feito.
Por fim, os números racionais podem ser construídos rigorosamente a
partir dos números inteiros e esses a partir dos naturais. Mas, e os núme-
ros naturais, os primeiros que são admitidos pela nossa intuição? Assim
se perguntaram alguns matemáticos do século XIX, na busca de com-
pletar o conceito matematicamente rigoroso de número. Eles podem ser
construídos a partir da Teoria dos Conjuntos ou podem ser apresentados
através de axiomas, como fez George Peano, em 1889.
Por fim, este curso pretende apresentar os conjuntos numéricos numa
ordem logicamente coerente – naturais, inteiros, racionais e reais – pas-
sando a limpo a conflituosa ordem histórica apresentada.

Organizando as ideias

Para resolver problemas matemáticos precisamos ter bem claro o que


devemos provar e o que estamos assumindo como verdade. É sobre isso
que falaremos agora. Começaremos observando as seguintes afirmações:

(a) A soma de dois números pares é sempre um número par.


(b) Todo brasileiro é carioca.
(c) A terra é um planeta.

(d) Se c é o comprimento da diagonal de um retângulo de lados a e b,


então c2 = a2 + b2 .
(e) Se a < 1, então a2 > a.

Todas as afirrmações acima se encaixam no conceito de proposição,


que damos a seguir
Uma proposição ou sentença é uma frase afirrmativa em forma de
oração, com sujeito, verbo e predicado, que ou é falsa ou é verdadeira,
sem dar lugar a uma terceira alternativa.
Por exemplo, as proposições (a) e (c) são claramente verdadeiras;
mais adiante nos convenceremos da veracidade da proposição (d). Por
outro lado, as proposições (b) e (e) são falsas. Com efeito, para constatar
a veracidade da sentença (b) teríamos que checar o registro de nascimento
de cada brasileiro e verificar se nasceu no Rio de Janeiro, mas isto é falso
pois o conhecido escritor Graciliano Ramos é um brasileiro nascido em
Análise I

Alagoas. Analogamente, para convencer-nos de que a proposição (e) é

16
1 1
falsa basta tomar a = e checar quer ( )2 = 1/4 não é maior do que
2 2
1
como a sentença afirrma. Em ambos os casos temos verificado que
2
as proposições (b) e (e) são falsas apresentando casos particulares onde
as mesmas deixam de valer. Estes casos particulares são chamados de
contraexemplos e são muito úteis para verificar a falsidade de algumas
proposições.
Notemos que as proposições (d) e (e) são do tipo:

Se P , então Q,

onde P e Q também são sentenças. Por exemplo, na proposição (e)


temos que:

P : c é o comprimento da diagonal de um retângulo de lados a e b,


Q: c2 = a2 + b2 ,

ou seja, estamos assumindo que P é verdade e usando este fato devemos


verificar se Q é verdade ou não.
Uma proposição condicional ou implicativa é uma nova proposição
formada a partir de duas proposições P e Q, que é escrita na forma:

Se P , então Q, ou P implica Q,

onde para o último caso usamos a notação: P ⇒ Q. Chamaremos a


proposição P de hipótese e a proposição Q de tese.
Por exemplo, na proposição condicional (f ) a hipótese é: a < 1 e
a tese é: a2 > a.
A partir de uma proposição condicional podem-se gerar novas propo-
sições que são de especial interesse para os matemáticos. Vamos chamar
o modo em que apresentamos uma proposição de forma positiva . Por
exemplo, quando enunciamos a proposição

Se como laranja, então gosto de frutas,

assumimos esta afirmação como sua forma positiva. Vamos descrever


agora como podemos obter novas proposições a partir desta.
Forma recíproca de uma proposição condicional: para construirmos
a forma recíproca, temos que trocar na forma positiva a hipótese pela
tese e vice-versa. Vejamos em nosso exemplo:
Análise I

17
Tabela 3.1: Recíproca de uma proposição.

Forma da proposição Hipótese Tese

Positiva como laranja gosto de frutas

Recíproca gosto de frutas como laranja

Assim, a recíproca de proposição de nosso exemplo é então:

Se gosto de frutas, então como laranja.

Forma contrapositiva de uma proposição condicional: Para ob-


termos a forma contrapositiva a partir da forma positiva de uma pro-
posição condicional podemos fazer primeiro sua forma recíproca e em
seguida negamos as hipóteses e teses da recíproca ou, também, podemos
primeiro negar as hipótese e teses da forma positiva e imediatamente
fazer a forma recíproca desta última. A forma contrapositiva também
é conhecida como forma contrarrecíproca . Usando novamente nosso
exemplo temos que:

Tabela 3.2: Contrapositiva de uma proposição.

Forma da proposição Hipótese Tese

Positiva como laranja gosto de frutas

Recíproca gosto de frutas como laranja

Contrapositiva não gosto de frutas não como laranja

Portanto, a forma contrapositiva escreve-se assim:

Se não gosto de frutas, então não como laranja.

Em particular, a forma contrapositiva de uma proposição poderá ser,


eventualmente, uma forma indireta muito eficaz de verificar resultados
em Matemática.

Verdadeiro ou Falso?

Uma das coisas que distingue a Matemática das demais ciências na-
turais é o fato de que um tema de Matemática é discutido utilizando-se
Análise I

a lógica pura e, por conta disso, uma proposição em Matemática, uma

18
vez comprovada sua veracidade, é aceita como verdade irrefutável e per-
manecerá assim através dos séculos. Por exemplo, até hoje usamos o
Teorema de Tales do mesmo modo que foi usado antes de Cristo e este
fato continuará valendo eternamente. Uma proposição matemática ou é
verdadeira ou é falsa e permanecerá assim para sempre.
Mas como saber se uma proposição é verdadeira ou falsa? A primeira
coisa que devemos fazer é tomar muito cuidado. As aparências enganam
ou, como diziam nossos avós, nem tudo que reluz é ouro.
Vamos analisar agora um fato aparentemente óbvio.
Pergunta: Num campeonato de futebol onde cada time joga a
mesma quantidade de jogos, cada vitória vale três pontos, o empate vale
um ponto e a derrota nenhum ponto. Em caso de empate, o critério
de desempate entre as equipes era o seguinte:

• A melhor equipe é aquela que tem mais vitórias.

Os organizadores decidiram passar a adotar o critério a seguir:


• A melhor equipe é aquela que tem mais derrotas.
Você acha que este último critério adotado é justo?
Com respeito a esta pergunta, o leitor deve ter respondido do se-
guinte modo:
Resposta: Um time que perdeu mais é pior que um que perdeu
menos; portanto, a mudança de critério é totalmente injusta. Acertamos
a sua resposta?
Na verdade, não houve mudança nenhuma de critério, ou seja, ambos
os critérios nos conduzem ao mesmo ganhador.
Para ver isso rapidamente, lembre-se de que se a equipe A perdeu
mais que a equipe B e ainda assim empataram, então ela deve ter ganho
mais, para que no fim do campeonato a equipe A ainda assim conse-
guisse empatar com a equipe B. Vamos mostrar isso precisamente. Se-
jam d1 , e1 , v1 o número de derrotas, empates e vitórias, respectivamente,
da equipe A. Do mesmo modo, sejam d2 , e2 , v2 o número de derrotas,
empates e vitórias, respectivamente, da equipe B. Suponhamos que a
equipe A obteve mais vitórias do que a equipe B, ou seja, que v1 > v2 .
Como cada equipe jogou o mesmo número de jogos, temos que

d1 + e1 + v 1 = d2 + e2 + v 2 (3.1)
Por outro lado, note que o número de pontos obtidos pela equipe A
é e1 + 3v1 . Do mesmo modo, o número de pontos obtidos pela equipe B
é igual a e2 + 3v2 . Como as duas empataram, temos que:
Análise I

e1 + 3v1 = e2 + 3v2 .

19
Ou ainda,

3(v1 − v2 ) = e2 − e1

ou
e2 − e1
v2 − v1 = − .
3
Como v1 − v2 > 0, temos que e2 − e1 > 0. Reescrevendo a equação
3.1, temos que:

e2 − e1 2
d1 − d2 = e2 − e1 + (v2 − v1 ) = e2 − e1 − = (e2 − e1 ).
3 3
Logo, temos que d1 −d2 > 0, pois e2 −e1 > 0. Isso significa que A teve
mais derrotas que B; logo, qualquer um dos dois critérios de desempate
usado nos leva à equipe vencedora.
Assim, como este exemplo mostra, ao depararmos com um problema
em Matemática, devemos ter cuidado ao tirar conclusões apressadas para
evitar que cometamos algum engano. Pode acontecer que uma situação
que é claramente falsa para um observador menos atento, se mostre
verdadeira quando fazemos uma análise mais criteriosa.

Teoremas e Demonstrações

Agora definimos o que entendemos por demonstração matemática de


uma proposição.
Uma demonstração em Matemática é o processo de raciocínio lógico e
dedutivo para checar a veracidade de uma proposição condicional. Nesse
processo são usados argumentos válidos, ou seja, aqueles que concluam
afirmações verdadeiras a partir de fatos que também são verdadeiros.
Como exemplo de demonstração citamos a argumentação usada para
mostrar na seção anterior que os critérios de desempate eram similares.
Sempre que, via uma demonstração, comprovemos a veracidade de
uma proposição passamos então a chamar esta de teorema . Assim, um
teorema é qualquer afirmação que possa ser verificada mediante uma
demonstração.
Alguns teoremas se apresentam na forma de uma proposição condi-
cional, isto é, uma sentença do tipo Se P , então Q ou implicativa da
forma P ⇒ Q. Nesse caso, a sentença P é chamada de hipótese e a
sentença Q é denominada de tese. Ou seja, a validade da hipótese nos
implica a veracidade da tese.
Um exemplo de teorema é o famoso Teorema de Pitágoras, cujo enun-
Análise I

ciado diz o seguinte:

20
Figura 3.1: Figura auxiliar para a demonstração do Teorema de Pitágoras

Teorema 3.1. (Teorema de Pitágoras). Num triângulo retângulo a


soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa.
Notemos que o Teorema de Pitágoras não está enunciado na forma
condicional, mas pode ser reescrito nessa forma como:
Teorema 3.2. (Teorema de Pitágoras). Se T é um triângulo retângulo
de catetos a e b e hipotenusa c, então c2 = a2 + b2 .
Observação 3.3. Em geral, é mais comum usar a palavra teorema ape-
nas para certas proposições que são de grande importância matemática,
chamando-se simplesmente de proposição ao resto das proposições ver-
dadeiras que admitem uma demonstração.

Métodos de Demonstração

Quando realizamos uma demonstração não existe um caminho único.


Dependendo do problema em questão podemos usar métodos diferentes.
A seguir ilustramos os seguintes três métodos:

• Demonstração direta.
• Demonstração por contraposição.
• Demonstração por redução ao absurdo.

Demonstração Direta

A demonstração direta é aquela em que assumimos a hipótese como


verdadeira e através de uma série de argumentos verdadeiros e deduções
lógicas concluímos a veracidade da tese.
Um exemplo de demonstração direta é a que daremos a seguir, para
o Teorema de Pitágoras enunciado anteriormente no Teorema 3.1. Com
efeito, usando a Figura 3.1 temos que a área do quadrado de lado a + b
Análise I

é a soma das quatro áreas dos triângulos retângulos congruentes pelo


critério lado-ângulo-lado (de catetos a e b) mais a área do quadrilátero

21
Q, o qual é um quadrado visto que cada um dos seus lados coincide com a
hipotenusa c dos triângulos retângulos de catetos a e b e, além disso, cada
um dos seus ângulos internos mede γ = 1800 −(α−β) = 1800 −900 = 900
(veja a Figura 3.1).
Portanto,
ab
(a + b)2 = 4 · + c2 ,
2
de onde

a2 + 2ab + b2 = 2ab + c2 ,

e consequentemente

a2 + b2 = c2 ,

como queríamos.

Demonstração por Contraposição

Este método é baseado no fato de que a veracidade de forma positiva


de uma proposição é equivalente à veracidade de sua forma contrapo-
sitiva, podendo ser esta última, eventualmente, mais fácil de se provar.
Por exemplo, a afirmação

Se não sou brasileiro, então não sou alagoano.

Por exemplo, provemos a seguinte proposição:


Proposição 3.4. Se N 2 é par, então N é par.

• Hipótese: N 2 é par.
• Tese: N é par.

Desafiamos o leitor a tentar mostrar esta proposição partindo da hi-


pótese e tentando concluir a tese. Note que podemos verificar que nossa
proposição é verdadeira para vários valores de N 2 como na Tabela a
seguir, mas isso não é uma prova matemática da nossa proposição.

N2 4 16 36 64 100 144

N 2 4 6 8 10 12

Mesmo verificando para um bilhão de valores de N 2 , sempre nos


restariam números para serem verificados. Como nossas tentativas de
Análise I

provar a forma positiva dessa proposição estão sendo frustradas, apela-


remos para mostrar a forma contrapositiva da mesma, isto é:

22
Proposição 3.5. Se N não é par, então N 2 não é par.
Neste caso, temos:

• Hipótese: N não é par.


• Tese: N 2 não é par.

Demonstração: Como estamos assumindo que N não é par, logo N tem


que ser ímpar, ou seja, existe p, número inteiro, tal que N = 2p+1. Logo

N2 = (2p + 1)(2p + 1)
= 4p2 + 2p + 2p + 1
= 4p2 + 4p + 1
= 2(2p2 + 2p) + 1
= 2q + 1

onde q = 2p2 + 2p. Logo, N 2 = 2q + 1 é impar e concluímos assim nossa


prova.

Demonstração por Redução ao Absurdo

Este método é uma das ferramentas mais poderosas da Matemática.


O nome provém do latim reductio ad absurdum e também é conhecido
como método do terceiro excluído devido ao mesmo estar baseado na lei
do terceiro excluído que diz o seguinte: uma afirmação que não pode ser
falsa, deverá ser consequentemente verdadeira.
De um modo geral, o roteiro que segue uma demonstração por redu-
ção ao absurdo é o seguinte:

• Assumimos a validade da hipótese.


• Supomos que nossa tese é falsa.
• Usando as duas informações anteriores concluímos, através de ar-
gumentos verdadeiros, uma afirmação falsa; como tal fato não po-
derá ocorrer, então nossa tese deverá ser verdadeira.

Vamos mostrar como o método funciona na prática provando a se-


guinte proposição:
1
Proposição 3.6. Seja x um número positivo, então x + ≥ 2.
Análise I

x
Destaquemos primeiramente a nossa hipótese e a nossa tese.

23
• Hipótese: x é um número positivo.
1
• Tese: x + ≥ 2.
x
Demonstração: Seja x um número positivo e suponhamos que a tese
1
é falsa, isto é, x + < 2. Usando que x > 0 e multiplicando por este
x
a desigualdade anterior, obtemos que

x2 + 1 < 2x.
Daí segue-se que x2 − 2x + 1 < 0 é equivalente a (x − 1)2 < 0, já que
1
x2 − 2x + 1 = (x − 1)2 , o que é impossível. Portanto, x + ≥ 2, como
x
desejávamos.

Algumas Dicas para Resolver Problemas

Nesta seção, damos algumas regras gerais que consideramos impor-


tante ter em mente na hora de resolver um problema de Matemática.
Elas são:

• Ler bem o enunciado do problema e utilizar todas as informações


disponíveis.
• Fazer casos particulares ou casos mais simples de problemas simi-
lares, para adquirir familiaridade com o problema.
• Mudar a representação do problema, transformando-o em um pro-
blema equivalente.
• Usar a imaginação pesquisando caminhos alternativos. Extrapolar
os limites!
Análise I

24
Conjuntos e Funções

Neste capıtulo introduzimos, de maneira informal, alguns conceitos


relacionados à Teoria dos Conjuntos.

Noções de conjuntos

Se procurarmos no dicionário a definição de “conjunto” encontrare-


mos explicações como “reunião das partes que formam um todo” ou
“qualquer coleção de seres matemáticos”. Outras tentativas de definição
de forma direta serão tão boas e inúteis quanto essas: serão incompreensí-
veis para quem já não tinha uma concepção prévia do que é um conjunto,
e utilizarão palavras praticamente sinônimas a conjuntos (reunião, cole-
ção, agrupamento). O leitor mais perspicaz e que está cumprindo sua
promessa de devorar estas notas detalhadamente poderá dizer: “Uma
definição como essas é circular, assim como as demonstrações circulares
que os estudantes inexperientes às vezes fazem”. De fato, os matemáticos
desistiram de definições diretas – tais como aquelas que os dicionários
fazem – para conceitos elementares (chamados “conceitos primitivos”),
pois perceberam que tal tipo de definição sempre cai em circularidade.
Por isso a abordagem axiomática é a que prevalece na Matemática Mo-
derna. Porém, não é o propósito desta disciplina fazer uma axiomática
da Teoria dos Conjuntos. Então nos limitaremos a discutir um pouco
mais o conceito intuitivo e fixar algumas notações.
Um conjunto é formado por objetos matemáticos. Se x é um objeto
matemático que faz parte de um conjunto y, dizemos que x pertence a
y, ou que x é elemento de y. Usamos a notação ∈ para pertence. Por
exemplo, 1 é um número natural. Ou seja, 1 pertence ao conjunto dos
números naturais. Escrevemos 1 ∈ N.
Propositalmente evitamos a notação costumeira de usar letras minús-
culas para “elementos” e letras maiúsculas para conjuntos. Isso porque
– ao contrário do que acontece na geometria, em que temos uma dis-
tinção do que é ponto e do que é reta – não há na teoria dos conjuntos
essa distinção entre elementos e conjuntos. Um conjunto é formado por
qualquer tipo de objeto matemático. Em particular, pode ser conjunto.
Ou seja, um elemento de um conjunto pode ser, ele próprio, conjunto.
Veremos exemplos de conjuntos de conjuntos mais à frente. Na verdade,
é visto na disciplina de Teoria dos Conjuntos, que na matemática tudo
é conjunto. Então, ao contrário do que diz no Ensino Básico, o símbolo
Análise I

∈ só pode ser usado entre dois conjuntos.

25
Usamos ∈ / como símbolo para “não pertence”.
Há basicamente três tipos de notações matemáticas para representar
conjuntos, todas elas usando os símbolos { e } (chaves).

• Notação 1: descrever todos os elementos entre as chaves,


separando-os por vırgulas. Exemplo: o conjunto {0, 1, 3, 4} tem
como elementos os números 0, 1, 3 e 4. Ou seja, podemos escrever
0 ∈ {0, 1, 3, 4}, 1 ∈ {0, 1, 3, 4} e assim por diante. Com essa
notação podemos explicar através de exemplos como os elementos
de conjuntos podem, eles próprios serem conjuntos. Compare
os conjuntos {0} e {{0}}. Ambos têm apenas um elemento. O
elemento do primeiro é o 0, e do segundo é o {0}. Ou seja,
podemos escrever 0 ∈ {0}, mas não {0} ∈ {0}. Por outro lado, é
verdade que {0} ∈ {{0}}, mas não é verdade que 0 ∈ {{0}}. Se
considerarmos o conjunto {0, {0}}, formado por dois elementos
– a saber, 0 e {0} – então podemos escrever tanto 0 ∈ {0, {0}}
quanto {0} ∈ {0, {0}}.
• Notação 2: escrever uma propriedade matemática que caracteriza
os elementos. Essa é a concepção de conjuntos elaborada pelo ma-
temático alemão Gottlob Frege. Um conjunto estaria diretamente
relacionado a uma fórmula que descreve seus elementos, como “o
conjunto dos números naturais que são divisíveis por 2” para de-
signar o conjunto dos números pares.
Nesta notação matemática, escrevemos da seguinte forma: entre
chaves, escrevemos primeiro a variável usada para representar os
elementos, escrevemos dois pontos ou um traço vertical (signifi-
cando “tal que”) e em seguida escrevemos a propriedade matemá-
tica que caracteriza os elementos desse conjunto. Ou seja, escreve-
mos

{x : P (x)}
ou
{x | P (x)}
onde P (x) é uma fórmula referente à variável x. Exemplo:

{x : existe n natural tal que x = 2n}

Essa forma de definir conjunto gerou inconsistência na Teoria de


Conjuntos de Frege, pois permite a construção do conjunto dos
conjuntos que não pertencem a si mesmo (isto é, {x : x ∈ / x}).
Análise I

Chame de X esse conjunto. Pergunta: X pertence a si mesmo?


Se X ∈ X, então X não satisfaz a condição de ser elemento de X e,

26
portanto, X ∈/ X. Se X ∈ / X, então por definição de X temos que
X é um elemento de si próprio, isto é X ∈ X. Chegamos numa
inevitável contradição. Esse argumento, criado pelo matemático
inglês Bertrand Russell, é conhecido como paradoxo de Russell.
Uma das maneiras de corrigir esse paradoxo é pré-fixando um con-
junto do qual separamos aqueles elementos com a propriedade de-
sejada. Escrevemos genericamente da seguinte forma:

{x ∈ y : P (x)}
ou
{x ∈ y | P (x)}.
Leia-se “o conjunto dos x pertencentes a y tais que P (x) é verda-
deira”. No exemplo dos números pares, podemos escrever

{x ∈ N : existe n natural tal que x = 2n}.


Ou, mudando a variável x para n (como costumamos fazer quando
trata-se de um número natural) e introduzindo símbolos lógicos (∃
para “existe” e ∧ para “e”)

{n ∈ N : ∃m ((m ∈ N) ∧ (n = 2m))}

Também usamos uma notação abreviada da seguinte forma:

{n ∈ N : ∃m ∈ N | (n = 2m))}
Leia-se: “o conjunto dos n pertencentes a N tais que existe m
pertencente a N tal que n = 2m”.
Na axiomática de Zermelo e Frankel para a Teoria dos Conjuntos,
chama-se axioma da separação aquele que para cada conjunto y e
cada fórmula P (x) garante a existência do conjunto {x ∈ y : P (x)}.
Esse axioma evita que o paradoxo de Russell leve o sistema a uma
contradição, mas, em vez disso, de tal paradoxo apenas segue que
“não existe conjunto de todos os conjuntos”.
Na teoria axiomática precisamos justificar, através dos axiomas, a
existência de cada conjunto que apresentamos. Como já dissemos
não ser esse o propósito da disciplina de Análise, trabalharemos
com a chamada Teoria Ingênua (ou Intuitiva) dos Conjuntos, e não
faremos a construção (isto é, justificativa da existência a partir dos
axiomas) de cada conjunto que definirmos.
Análise I

27
• Notação 3: escrever os elementos em função de uma ou mais
variáveis. Essa forma de escrita é semelhante à anterior e também
muito utilizada, mas convém chamar a atenção às suas diferenças.
Lembremo-nos da diferença entre oração e sujeito (e objeto), na
língua portuguesa, e de seus correspondentes na matemática. Uma
oração precisa possuir um verbo, o sujeito e o objeto. Uma oração
é uma afirmação, passıvel a ser julgada como verdadeira ou falsa,
enquanto o sujeito e o objeto correspondem a seres do universo.
Na Matemática, o correspondente às orações são as fórmulas, e o
correspondente aos sujeitos e objetos são os termos.
Aprendemos um “verbo” novo na matemática: ∈. A expressão
x ∈ y é uma fórmula, passível a ser julgada como verdadeira ou
falsa, uma vez que conhecemos quem é x e quem é y. Já a expressão
x2 + y 2 é um termo. Se atribuirmos valores a x e a y obtemos um
número, não uma fórmula que podemos julgar como verdadeira ou
falsa.
Assim, se T (x) é um termo dependente da variável x e se P (x) é
uma fórmula dependendo da variável x podemos definir o conjunto
{y : ∃x (y = T (x) e P (x))},
que escreveremos como
{T (x) : P (x)}

Olhando assim parece um pouco estranho, mas vejamos como isso


funciona num exemplo. Escrevemos
{n2 : n ∈ N}
para o conjunto de todos os quadrados perfeitos, em vez de escre-
vermos, na maneira mais extensa,
{m ∈ N : ∃n (m = n2 e n ∈ N)}.
Ou seja, n2 corresponde ao termo T (x) (ou, no caso, T (n)), e n ∈ N
a P (n).
Usamos muito esse tipo de notação para representar imagem de
função.
Eventualmente podemos ter mais variáveis, como no exemplo:
{x + y : x2 + y 2 = 1}
De modo geral podemos escrever
Análise I

{T (x1 , · · · , xn ) : P (x1 , · · · , xn )}

28
Assim como no axioma da separação, aqui também é necessário
que as variáveis estejam limitadas a um conjunto. Por exemplo:

{x + y : (x ∈ R) ∧ (y ∈ R) ∧ (x2 + y 2 = 1)}

Um abuso de notação comum é escrevermos x, y ∈ R em vez de


(x ∈ R) ∧ (y ∈ R). Mas usualmente apenas omitimos esse conjunto
R quando está claro no contexto. Mais uma vez deve prevalecer o
bom senso, no lugar de regras estritas.

Inclusão de conjuntos.

Dizemos que um conjunto x está contido em um conjunto y se todo


elemento de x também é elemento de y. Isto é, se vale a implicação

(z ∈ x) ⇒ (z ∈ y),
para todo z. Escrevemos x ⊂ y se x está contido em y.
Este é um ponto delicado. Muitos estudantes secundaristas – por
vezes, ou quase sempre, instigados pelos professores – tendem a decorar
um “macete” em vez de compreender a definição acima. O tal “macete”
equivocado é: “o símbolo ∈ só é usado entre elemento e conjunto, nunca
entre dois conjuntos; o símbolo ⊂ só é usado entre dois conjuntos.”
Ora, já vimos exemplos de que podemos usar ∈ entre dois conjuntos.
A segunda parte do “macete” é verdadeira: só se usa ⊂ entre dois con-
juntos. Mas, na realidade, também só se usa ∈ entre dois conjuntos, já
que, na Teoria dos Conjuntos, tudo é conjunto.
Considere, como exemplo, x o conjunto {0} e y o conjunto {{0}}.
Já vimos que x ∈ y (e são ambos conjuntos!). Mas será que podemos
afirmar que x ⊂ y? Vejamos. Temos que verificar se todo elemento
de x também é elemento de y. O conjunto x só tem um elemento: 0.
Ele pertence a y? Vimos que não. O número 0 é um elemento de um
elemento de {{0}}, mas não é ele próprio um elemento desse. Logo,
não é verdade que x ⊂ y. Mas pode um conjunto ao mesmo tempo
pertencer e estar contido em algum outro? Sim. Veja, por exemplo, que
{0} ∈ {0, {0}} e também {0} ⊂ {0, {0}}. Quando x está contido em y,
também dizemos que x é um subconjunto de y.

Igualdade entre conjuntos.

Um conjunto é caracterizado pelos seus elementos. Tal propriedade


é formalizada no sistema de Zermelo e Frankel pelo axioma da extensão,
Análise I

que diz o seguinte:

29
Dois conjuntos são iguais se, e somente se, eles possuem os mesmos
elementos.
Usando o símbolo da inclusão, podemos escrever a frase acima na
linguagem matemática como

(x = y) ⇔ (x ⊂ y ∧ y ⊂ x)

para todos conjuntos x e y.


Uma das consequências desse axioma é o seguinte ditado (esse é cor-
reto): em um conjunto não importa a ordem dos elementos nem con-
tamos repetições.
Por exemplo, os conjuntos {1, 2, 3, 4, 5} e {2, 1, 4, 5, 3} são iguais –
isto é, são duas representações diferentes para o mesmo conjunto – e
também são iguais a {1, 2, 1, 4, 3, 5, 2} e a {n ∈ N : 1 ≤ n ≤ 5}.

Vazio, partes, união e intersecção

Há um conjunto especial que não tem elemento algum: o conjunto


vazio. Sim, podemos dizer “o” conjunto vazio porque, pelo axioma da
extensão, se ele existe, é único (não existem dois conjuntos vazios diferen-
tes). E a existência é garantida pelo axioma do vazio. Sendo ele único,
podemos introduzir, sem risco de ambiguidade, um símbolo especıfico
para o conjunto vazio, que é ∅.
Note que ∅ ⊂ x, para todo conjunto x. De fato, todo elemento de
∅ pertence a x. “Como podemos dizer isso se ∅ não tem elemento?”,
perguntaria o leitor. Bom, se ∅ não estivesse contido em x, haveria um
y pertencente a ∅ que não pertence a x. Mas isso é impossıvel, pois não
existe y pertencente a ∅. Logo, ∅ ⊂ x, pelo que chamamos de argumento
de vacuidade.
Chamamos de Conjunto das Partes de x – e denotamos por ℘(x) –
o conjunto dos subconjuntos de x. Isto é,

℘(x) = {y : y ⊂ x}

A união de dois conjuntos A e B – denotada por A ∪ B – é o conjunto


de todos os objetos que pertencem a A ou a B. Isto é, x ∈ A ∪ B se, e
somente se, x ∈ A ou x ∈ B. Já a intersecção de A e B – denotada por
A ∩ B é o conjunto de todos os objetos que pertencem simultaneamente
a A e a B. Isto é, x ∈ A ∩ B se, e somente se, x ∈ A e x ∈ B.
Observe que a união está relacionada ao operador lógico ou, enquanto
a interseção está relacionada ao operador lógico e. Por isso a semelhança
do símbolo ∪ (união) com ∨ (o símbolo lógico usado para “ou”), e do
Análise I

símbolo ∩ (intersecção) com ∧ (o símbolo lógico usado para “e”).

30
Exemplos: {1, 2, 3} ∪ {2, 3, 4} = {1, 2, 3, 4}, e {1, 2, 3} ∩ {2, 3, 4} =
{2, 3}.
As propriedades relacionadas com as operações de união e interseção
constituem teoremas cujas demonstrações, em geral, não são difíceis. A
comutatividade e associatividade decorrem diretamente das definições,
e a distributividade é de verificação um pouco menos imediata.

• Comutatividade da união e da interseção

A ∪ B = B ∪ A, A ∩ B = B ∩ A.

• Associatividade da união e da interseção

(A ∪ B) ∪ C = A ∪ (B ∪ C), (A ∩ B) ∩ C = A ∩ (B ∩ C).

• Distributividade, de cada uma em relação à outra:

A ∩ (B ∪ C) = (A ∩ B) ∪ (A ∩ C), A ∪ (B ∩ C) = (A ∪ B) ∩ (A ∪ C).

Podemos considerar a união e a interseção de um número qualquer,


n, de conjuntos A1 , A2 , · · · , An . Nesse caso, é comum usarmos a notação
n
[ n
\
Ak := A1 ∪ A2 ∪ · · · ∪ An , Ak := A1 ∩ A2 ∩ · · · ∩ An .
k=1 k=1

Mais precisamente, a definição para essas uniões e interseções de n con-


juntos seria:
n
[
Ak := {x : x ∈ Ak , para algum k ∈ {1, · · · , n}}
k=1

n
\
Ak := {x : x ∈ Ak , para todo k ∈ {1, · · · , n}}
k=1

Se X é um conjunto de conjuntos – também usualmente chamado [ de


família de conjuntos – chamamos de união de X – denotada por X–
o conjunto [ de todos os objetos que pertencem a algum elemento de X.
Isto é, x ∈ X se, e somente se, existe y ∈ X tal que x ∈ y.
\
A intersecção de X – denotada por X – é o conjunto de todos os
objetos\ que pertencem simultaneamente a todos os elementos de X. Isto
é, x ∈ X se, e somente se, para todo y ∈ X temos x ∈ y.
[
Por exemplo, se X = {{1, 2}, {1, 3}, {1, 4}}, temos que X =
Análise I

\
{1, 2, 3, 4} e X = {1}.

31
Não existe intersecção do conjunto vazio, pois, pelo argumento de
vacuidade, isso daria o conjunto de todos os conjuntos, o que já vimos,
pelo paradoxo de Russell, que não existe. Não há qualquer outra restrição
para união ou intersecção
[ de uma família de conjuntos.
Observe que ∅ = ∅.
Assim como a união de dois conjuntos está relacionada a “ou” e a
intersecção de dois conjuntos a “e”, a união de família corresponde ao
quantificador existencial ∃ (existe), e a intersecção de família corresponde
ao quantificador universal ∀ (para todo).
A noção de complementar de um conjunto só faz pleno sentido quando
se fixa um conjunto U , chamado o universo do discurso, ou conjunto-
universo. O universo U pode ser visto como o assunto da discussão
ou o tema em pauta. Uma vez fixado U , todos os elementos a serem
considerados pertencerão a U e todos os conjuntos serão subconjuntos
de U , ou derivados destes.
Dado um conjunto A (isto é, um subconjunto de U ), chama-se com-
plementar de A, denotado por AC , formado pelos objetos de U que não
pertencem a A.
Lembremos que, uma vez fixado o conjunto A, para cada elemento x
em U , vale uma, e somente uma, das alternativas: x ∈ A, ou x ∈ / A. O
fato de que, para todo x ∈ U , não existe uma outra opção além de x ∈ A
ou x ∈/ A é conhecido em lógica como o Princípio do Terceiro Excluído;
e o fato de que as alternativas x ∈ A e x ∈ / A não podem ser ambas
verdadeiras ao mesmo tempo chama-se o Princípio da Não Contradição.
Por último, introduzimos a notação de subtração de conjuntos. De-
notamos por A \ B o conjunto de todos os elementos de A que não
pertencem a B. Isto é,

A \ B = {x ∈ A : x ∈
/ B}.

Produto cartesiano

Vimos que em um conjunto a ordem dos elementos não importa. Às


vezes precisamos considerar a ordem dos objetos, e para isso introdu-
zimos a noção de pares ordenados. Dados dois objetos matemáticos a
e b, denotamos por (a, b) o par ordenado cuja primeira coordenada é a
e segunda coordenada é b. A propriedade principal que caracteriza os
pares ordenados é a seguinte:

(a, b) = (c, d) se, e somente se, a = c e b = d.

Ou seja, nos pares ordenados, a ordem dos elementos importa. Por


Análise I

exemplo, temos {1, 2} = {2, 1}, mas (1, 2) 6= (2, 1).

32
Podemos analogamente definir uma tripla ordenada (a, b, c). De modo
geral, uma n-upla ordenada – onde n é um número natural maior do que
1 – é uma sequência (a1 , · · · , an ), e esta só será igual a uma outra n-upla
ordenada (b1 , · · · , bn ) se tivermos a1 = b1 , a2 = b2 , e assim por diante.
Sejam A e B dois conjuntos. Definimos o produto cartesiano de A e
B o conjunto de todos os pares ordenados (a, b) tais que a é um elemento
de A e b um elemento de B. Na notação matemática:

A × B = {(a, b) : a ∈ A e b ∈ B}

Quando A = B, usualmente escrevemos A2 no lugar de A × A. Da


mesma forma, denotamos por An o conjunto de todas as n-uplas orde-
nadas em que todas as coordenadas pertencem a A.
Uma relação entre os conjuntos A e B (ou relação binária em A, caso
tenhamos A = B) é qualquer subconjunto de A×B. Se R ⊂ A×B é uma
relação, escrevemos, eventualmente, aRb como abreviatura de (a, b) ∈ R.
Por exemplo, a relação de desigualdade ≤ em N pode ser vista como
o conjunto de todos os pares ordenados (n, m) em N2 tais que n é menor
ou igual a m. Mas quando queremos dizer que 1 é menor ou igual a 2,
escrevemos simplesmente 1 ≤ 2, em vez de (1, 2) ∈ ≤.

Funções

Uma função é uma relação f tal que, se (x, y) e (x, z) são ambos
elementos de f , então y = z.
Definimos o domínio de uma função f como o conjunto

{x : ∃y | (x, y) ∈ f }

e a imagem de f é o conjunto

{y : ∃x | (x, y) ∈ f }

Uma função de A em B é uma função cujo domínio é A e cuja ima-


gem está contida em B. Observe que, a partir da definição de função
como conjunto de pares ordenados, não é possıvel determinar o contra-
domínio de uma função. Qualquer conjunto que contém a imagem pode
ser considerada um contradomínio da função. Por exemplo, a função
{(x, x2 ) : x ∈ R} pode tanto ser considerada uma função de R em R
como uma função de R em R+ .
Observe, pelas definições acima, que, se f é uma função de A em
B, para cada x pertencente a A existe um único y pertencente a B tal
que (x, y) ∈ f .
Análise I

Por esse motivo, para cada x pertencente ao domínio de f podemos


introduzir a notação f (x) para o único y tal que (x, y) ∈ f .

33
Notação: se escrevemos f : A → B, estamos dizendo, implicita-
mente, que f é uma função de A em B.
Uma operação binária em um conjunto A é uma função de A2 em
A. No lugar de f ((x, y)) escrevemos simplesmente f (x, y)
Função injetora. Dizemos que uma função f é injetora quando,
para todos x, y pertencentes ao domínio de f , se x 6= y então f (x) 6= f (y).
Por exemplo, a função f (x) = x2 , com domínio R, não é injetora, pois
se tomarmos x = 2 e y = 2, temos x 6= y mas x2 = y 2 , pois ambos
são iguais a 4.
Função sobrejetora. Dizemos que uma função f é sobrejetora em
relação a um conjunto B se a imagem de f é B. Ou seja, se para todo
y ∈ B existe algum x pertencente ao domínio da f tal que f (x) = y.
Quando está claro no contexto quem estamos considerando como con-
tradomínio, podemos omitir a menção ao conjunto B. Por exemplo, se
escrevemos que uma determinada função de A em B é sobrejetora, sig-
nifica sobrejetora em relação a B. Do mesmo modo, se dizemos que uma
função f : A → B é sobrejetora, significa ser sobrejetora em relação a B.
Função bijetora. Dizemos que uma função f é bijetora em relação
a um conjunto B se f é injetora e é sobrejetora em relação a B. Valem
as mesmas observações anteriores para omitirmos, quando possível, a
menção ao contradomínio B.
Note que toda função é sobrejetora em relação à sua imagem, assim
como toda função injetora é bijetora em relação à sua imagem.
Uma função bijetora também é chamada de bijeção.
Inversa de função. Se R é uma relação binária, definimos a inversa
de R – que denotaremos por R−1 – o conjunto {(y, x) : (x, y) ∈ R}.
Dizemos que uma função f é inversível se sua inversa (como relação)
é uma função. Dizemos que f é inversível em relação a B se ela é
inversível e se o domínio da inversa é B. Quando especificamos um
contradomínio, ser inversível passa a significar ser inversível em relação
a esse contradomínio.
Por exemplo, se dizemos que uma função f de A em B (ou uma função
f : A → B) é inversível, queremos dizer inversível em relação a B.
Análise I

34
Exercícios Propostos

1. Decida quais das afirmações a seguir estão corretas. Justi-


fique suas respostas.
(a) ∅ ∈ ∅;
(b) ∅ ⊂ ∅;
(c) ∅ ∈ {∅};
(d) ∅ ⊂ {∅};
2. Demonstre as propriedades de distributividade:
(a) a operação de união em relação à interseção;
(b) a interseção em relação à união.

3. Dados A, B ⊂ R, demonstre as relações de De Morgan:


(a) (A ∪ B)C = AC ∩ B C ;
(b) (A ∩ B)C = AC ∪ B C ;
4. Prove as seguintes generalizações das identidades de De
Morgan:
n
[ \n
(a) ( Ak )C = (Ak )C
k=1 k=1
n
\ n
[
(b) ( Ak )C = (Ak )C
k=1 k=1

5. Prove que uma função f é inversível em relação a B se, e


somente se, ela é bijetora em relação a B.
Análise I

35
6. Sejam f e g duas funções, e suponha que a imagem de g
está contida no domínio da f . Mostre que o conjunto

{(x, z) : ∃y | ((x, y) ∈ g ∧ (y, z) ∈ f )}

é uma função.
A função definida no exercício acima é chamada de composi-
ção de f e g, e é denotada por f ◦g. Verifique que, para todo
x pertencente ao domínio da g, temos f ◦ g(x) = f (g(x)).
Pela condição do exercício, observe que se g é uma função
de A em B, e f é uma função de B em C, então f ◦ g existe
e é uma função de A em C.
7. Sejam g : A → B e f : B → C funções. Prove que:
(a) Se f e g são injetoras, então f ◦ g é injetora.
(b) Se f e g são sobrejetoras, então f ◦ g é sobrejetora.
(c) Se f e g são bijetoras então f ◦ g é bijetora.
(d) No caso do item (c), prove que (f ◦g)−1 = g −1 ◦f −1 .
8. Valem as recıprocas nos itens (a) e (b) do exercıcio ante-
rior? Por que? Qual “parte” da recıproca é verdadeira?
Por exemplo, se f ◦ g é injetora, podemos concluir que al-
guma das funções f ou g é injetora? Qual? Justifique suas
respostas, sempre provando ou dando contra-exemplos.
9. A função identidade no conjunto A é a função {(x, x) : x ∈
A}. Ou seja, é a função f (x) = x. Denotamos a identidade
no conjunto A por IA .
Prove que uma função f : A → B é inversível em B se, e
somente se, existe uma função g : B → A tal que

f ◦ g = IB e g ◦ f = IA .
Análise I

Prove, ainda, que quando existir tal g, necessariamente vale


g = f −1 .

36
10. Seja f uma função de A em B e seja X um subconjunto de
A. Definimos a restrição de f a X – e denotamos por f | X
(ou f |X ) – o conjunto {(x, y) ∈ f : x ∈ X}. Nas condições
acima, prove que:
(a) f |X é uma função de X em B.
(b) Se f é injetora, então f |X é injetora.
(c) Se f |X é sobrejetora em relação a B, então f é
sobrejetora em relação a B.

11. O conjunto das partes ℘(A) de um conjunto A é o conjunto


formado por todos subconjuntos do conjunto A. Prove o
Teorema de Cantor: Se A é um conjunto, não existe uma
função f : A → ℘(A) que seja sobrejetiva.
Sugestão: Suponha que exista uma tal função f e considere
X = {x ∈ A; x ∈
/ f (x)}.

Análise I

37
Os Números Naturais

Os conjunto dos números naturais, N = {1, 2, 3, · · · }, é definido a


partir dos seguintes axiomas:

1. N possui um elemento que denotamos por 1; isto é, postula-se que


1 ∈ N.
2. Existe uma função s : N → N satisfazendo:
a) s é injetiva, isto é, dados j, k ∈ N, s(j) = s(k) se e somente se
j = k;
b) s(N) = N \ {1}.
Para cada número natural k, s(k) é chamado sucessor de k e
denota-se s(k) = k + 1. Portanto, (b) afirma que 1 é o único
elemento de N que não é sucessor de nenhum outro número natu-
ral
3. Se A ⊂ N é tal que 1 ∈ A e s(A) ⊂ A, isto é, k ∈ A implica
k + 1 ∈ A, então A = N.

Os 3 axiomas acima são conhecidos como Axiomas de Peano em ho-


menagem ao matemático italiano Giuseppe Peano (1858 - 1932), criador,
entre outras coisas, da lógica simbólica, que foi quem primeiro os formu-
lou. O terceiro axioma é conhecido como Princípio da Indução Matemá-
tica. Ele pode ser traduzido para o seguinte enunciado mais diretamente
utilizado nas aplicações.
Teorema 5.1. (Princípio da Indução Matemática) Seja P uma propo-
sição acerca dos números naturais. Suponhamos que P seja tal que:

1. P [1] vale, isto é 1 verifica a proposição P ;


2. Se P [k] vale, então vale P [k + 1], isto é, se k verifica a proposição
P , então seu sucessor k + 1 também a verifica.

Então, P é válida para todos os números naturais.

Demonstração: Denotemos por A o conjunto dos números naturais


satisfazendo P . Então, por hipótese, temos 1 ∈ A; e se k ∈ A então
k + 1 ∈ A. Pelo terceiro axioma de Peano temos que A = N, que é o que
Análise I

teríamos que demonstrar.

38
As provas matemáticas em que se aplica o Teorema 5.1 são chamadas
provas por indução. No item (2) no enunciado do Teorema 5.1, a hipótese
de que P [k] é válida é chamada hipótese de indução. Como primeiro
exemplo de prova por indução, vamos demonstrar que, para todo k ∈ N,
vale s(k) 6= k. Neste caso, a propriedade P [k] é s(k) 6= k. Com efeito,
1 6= s(1), pois 1 não é sucessor de nenhum número natural; em particular,
1 não é sucessor de si próprio. Logo vale P [1]. Além disso, se, para
um certo k ∈ N, vale s(k) 6= k, então, pela injetividade da função s,
s(s(k)) 6= s(k), isto é, s(k + 1) 6= k + 1, e, portanto, vale P [k + 1], o que
conclui a prova por indução de que s(k) 6= k, para todo k ∈ N.
O terceiro axioma de Peano implica, em particular, que todos os
números naturais podem ser obtidos a partir de 1 tomando-se reiterada-
mente sem cessar (começando-se pelo próprio 1) a aplicação sucessor s
que também denotamos por · + 1, obtendo sucessivamente 1 + 1, 1 + 1 +
1, 1+1+1+1 etc. Os nomes e as notações para a seqüência de sucessores
de 1 no sistema decimal usual são bastante familiares a todos nós:

2 := 1 + 1,
3 := 1 + 1 + 1,
4 := 1 + 1 + 1 + 1,
5 := 1 + 1 + 1 + 1 + 1,
6 := 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1,
7 := 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1,
8 := 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1,
9 := 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1,
10 := 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1,
··· ··· ··· ··· ··· ··· ··· ··· ··· ··· ··· ···

A adição de números naturais

Por meio da aplicação · + 1 podemos facilmente definir a operação


de adição ou soma de dois números naturais qualquer. Intuitivamente,
podemos estabelecer que a soma do natural j com o natural k é obtida
aplicando-se k vezes a transformação · + 1 a j, isto é,

j + k = j +1 + 1 + · · · + 1 . (5.1)
| {z }
k vezes

A rigor, a definição de soma de dois números naturais que acabamos


de dar está imprecisa do ponto de vista lógico, já que recorremos à
Análise I

expressão k vezes cujo significado matemático ainda não foi definido. O

39
procedimento mais correto é definir essa operação passo a passo fazendo
uso do Princípio da Indução. Assim, primeiro definimos

j + 1 := s(j), (5.2)
o que está de acordo com a notação j+1 que adotamos para o sucessor
de j, s(j). Uma vez que já temos a definicão de j + k para k = 1,
podemos definir recursivamente

j + (k + 1) = (j + k) + 1 (5.3)
Isto significa que se já tivermos definido, para um certo k ∈ N, quem
é j + k, resultará também imediatamente definido, através de 5.3, quem
é j + (k + 1). Chama-se esse procedimento de definição por indução
(indutiva) ou definição por recorrência (recursiva).
Usando o Princípio da Indução podemos provar que a operação de
adição de números naturais definida acima tem as propriedades de asso-
ciatividade, comutatividade e a lei do corte. Mais especificamente, para
todos j, k, l ∈ N, valem:
1. (j + k) + l = j + (k + l);
2. j + k = k + j;
3. Se j + l = k + l então j = k
Observação 5.2. A propriedade da associatividade nos permite escrever
simplesmente j + k + l em lugar de (j + k) + l ou j + (k + l).

A ordem entre os números naturais

O resultado seguinte exibe uma propriedade da adição dos números


naturais que dá origem à noção de ordem usual entre os mesmos.
Teorema 5.3. Dados dois números naturais quaisquer, m e n, uma e
somente uma das possibilidades abaixo é válida:
1. m = n;
2. Existe d ∈ N tal que m + d = n;
0 0
3. Existe d ∈ N tal que m = n + d .
Definição 5.4. Dizemos que o natural m é menor que o natural n, ou
que n é maior que m, e denotamos m < n, se existe d ∈ N tal que
m + d = n. A notação, n > m equivale a m < n e a notação m ≤ n
significa m < n ou m = n. Se m < n, o número natural d tal que
Análise I

m + d = n é denotado nm. Observe que essa notação é coerente com a


notação n1 para o antecessor de n.

40
A relação < tem as propriedades:

1. Se m < n e n < p então m < p;


2. Se m < n e p ∈ N então m + p < n + p;
3. Dados dois números quaisquer m, n ∈ N vale uma e somente uma
das seguintes possibilidades: ou m < n, ou m = n, ou n < m.

A terceira propriedade é o próprio Teorema 5.3 reescrito de forma


distinta. A primeira e a segunda propriedade decorrem diretamente da
definição de <.
Com efeito, se m < n e n < p então existem d1 e d2 tais que m+d1 = n
e n + d2 = p. Decorre daí que (m + d1 ) + d2 = p, isto é, m + (d1 + d2 ) = p
e, portanto, m < p. Quanto à segunda, se m < n então m + d = n, para
algum d ∈ N, então n + p = (m + d) + p = (m + p) + d e, portanto,
m + p < n + p.
O seguinte resultado é uma conseqüência imediata do Teorema 5.1.
Teorema 5.5. (Princípio da Indução Matemática (segunda versão))
Seja n0 ∈ N e seja P [n] uma proposição acerca dos números naturais
n ≥ n0 . Suponhamos que:

1. A proposição P [n0 ] é verdadeira;


2. Para todo k ≥ n0 , a proposição P [k] implica P [k + 1].

Então, P [n] é válida para todo n ≥ n0 .


Demonstração: Se n0 = 1 então o enunciado acima é o próprio Teo-
rema 5.1. Se n0 > 1, então, para cada n ∈ N, consideramos a proposição
Q[k] = P [(n0 1) + k]. Então, a hipótese (1). acima afirma que vale
Q[1], ao passo que a hipótese (2) do enunciado afirma que Q[k] implica
Q[k + 1]. Pelo Teorema 5.1 segue que vale Q[k], para todo k ∈ N, isto é,
vale P [n] para todo n ≥ n0 .

O produto dos números naturais

O produto de dois números naturais, m·n, m, n ∈ N, pode ser definido


recursivamente, como já foi feito para a adição, da seguinte forma:

m·1 = m
m · (n + 1) = m·n+m
Análise I

41
As duas linhas acima constituem o modo rigoroso de expressar a
definição informal bastante conhecida:

m · n = m + m + m + ··· + m.
| {z }
n vezes

No que segue, freqüentemente, denotaremos m · n simplesmente por


mn, como é usual.
Usando o Princípio da Indução, é possível provar as seguintes propri-
edades bem conhecidas e satisfeitas pelo produto de números naturais.
Para todos m, n, p ∈ N temos:

1. (mn)p = m(np);
2. mn = nm;

3. Se mn = mp então n = p;
4. Se m < n então mp < np;
5. m(n + p) = mn + mp.

Dado qualquer m ∈ N, definimos mk , para todo k ∈ N, estabelecendo


que m1 = m e mk+1 = m · mk . Analogamente, o fatorial de um número
natural n é definido indutivamente pondo-se 1! = 1 e (n+1)! = (n+1)·n!.
Expresso de modo menos formal, temos

mk = |m · m
{z· · · m} .
k vezes

n! = n(n − 1)(n − 2) · · · 2 · 1.

O Princípio da Boa Ordenação

Dado um conjunto A ⊂ N, dizemos que m0 é o menor elemento de A,


ou é o elemento mínimo de A, se m0 ≤ m, para todo m ∈ A. É imediato
verificar que o elemento mínimo, quando existe, é único. Com efeito, se
m0 e m1 são dois elementos mínimos de A, então m0 ≤ m1 , pois m0 é
mínimo, e m1 ≤ m0 , pois m1 também é mínimo. Logo, m0 = m1 .
Se considerarmos o próprio conjunto N, vemos que 1 é o elemento
mínimo de N, já que, para todo m ∈ N, ou m = 1, ou m é o sucessor de
algum outro número natural, o qual é menor que m.
Analogamente, M0 ∈ A é chamado o maior elemento de A, ou o
elemento máximo de A, se m ≤ M0 , para todo m ∈ A. A prova de que
o elemento máximo de A ⊂ N é único, quando existe, é feita de modo
Análise I

idêntico ao que foi feito para provar a unicidade do mínimo. Nem sempre

42
um subconjunto não-vazio de N possui elemento máximo. O próprio N
não o possui, já que para todo m ∈ N, m + 1 ∈ N e m < m + 1.
No entanto, em relação ao mínimo, vale o seguinte princípio funda-
mental:

Teorema 5.6. (Princípio da Boa Ordenação) Se A ⊂ N e A 6= ∅ então


A possui um menor elemento.
Demonstração: Dado n ∈ N, denotemos Jn := {k ∈ N : 1 ≤ k ≤ n}.
Seja A um subconjunto não-vazio de N. Como A é não-vazio, N \ A 6= N.
Se 1 ∈ A, então 1 é o elemento mínimo de A, já que 1 é o elemento
mínimo de N. Suponhamos, então, que 1 ∈ / A, isto é, 1 ∈ N \ A. Seja
X := {n ∈ N : Jn ⊂ N \ A}. Como J1 = 1, temos 1 ∈ X, já que estamos
supondo que 1 ∈ N \ A. Se para todo m ∈ X tivermos m + 1 ∈ X então,
pelo Princípio da Indução, teremos X = N, o que implicará N \ A = N
e daı A = ∅, contrariando a hipótese de que A é não-vazio. Assim, deve
existir m0 ∈ X tal que m := m0 + 1 ∈ / X. Afirmamos que m, assim
definido, é o elemento mínimo de A.
Com efeito, se p < m então p ∈ Jm0 ⊂ N \ A, e, portanto, p ∈ / A.
Logo, para todo p ∈ A devemos ter m ≤ p, o que prova que m é o
elemento mínimo de A e conclui a prova.
A seguir damos alguns exemplos mais práticos de demonstrações por
indução. Neles faremos livre uso das propriedades dos números reais já
bastante conhecidas por você (uma exposição mais formal sobre essas
propriedades será feita mais adiante).
Exemplo 5.7. Para cada n ∈ N, a soma dos n primeiros números
naturais é dada por
1
1 + 2 + ··· + n = n(n + 1). (5.4)
2
Com efeito, chamemos P [n] esta fórmula. Nesse caso, P [1] é
1
1= 1·2
2
que, portanto, é verdadeira. Suponhamos agora que valha P [k], isto é,
1
1+2+·+k = k(k + 1).
2
Somando (k + 1) a ambos os membros desta equação, obtemos uma nova
equação cujo o membro esquerdo é 1 + 2 + · · · + (k + 1), que é o membro
esquerdo da fórmula P [k + 1]. Por outro lado, após somarmos (k + 1) à
1
Análise I

equação P [k], o membro direito da nova equação é k(k + 1) + (k + 1) =


2

43
1
(k + 1)(k + 2). Assim, somando (k + 1) à equação P [k] obtemos
2
1
1 + 2 + · · · + (k + 1) = (k + 1)(k + 2),
2
que nada mais é que P [k + 1]. Assim, pelo Princípio da Indução Mate-
mática (Teorema 5.1), segue que P [n], isto é, a equação 5.4, é verdadeira
para todo n ∈ N.
Exemplo 5.8. Para cada n ∈ N, a soma dos quadrados dos n primeiros
números naturais é dada por
1
12 + 22 + · · · + n2 = n(n + 1)(2n + 1). (5.5)
6
1
De novo, chamando P [n] esta fórmula, vemos que P [1] é 1 = 1·2·3
6
e, portanto, é verdadeira. Suponhamos que valha P [k]:
1
12 + 2 2 + · · · + k 2 = k(k + 1)(2k + 1).
6
Somando (k + 1)2 a ambos os membros da equação P [k] obtemos
1
12 + 22 + · · · + k 2 + (k + 1)2 = k(k + 1)(2k + 1) + (k + 1)2
6
1
= (k + 1)(k(2k + 1) + 6(k + 1))
6
1
= (k + 1)(2k 2 + 7k + 6)
6
1
= (k + 1)(k + 2)(2k + 3).
6
O membro esquerdo da primeira equação desta cadeia de equações e o
membro direito da última equação coincidem com os membros esquerdo
e direito de P [k + 1]. Portanto, temos que P [k] implica P [k + 1]. Logo,
pelo Princípio da Indução Matemática, concluımos que 5.5 vale para
todo n ∈ N.
Exemplo 5.9. Dados dois números a, b ∈ N, a > b, provaremos que
a − b é um fator de an − bn , para todo n ∈ N. Com efeito, para n = 1 a
afirmação é óbvia. Suponhamos então que valha P [k] : a − b é um fator
de ak − bk . Então, temos

ak+1 − bk+1 = ak+1 − abk + abk − bk+1


= a(ak − bk ) + (a − b)bk .
Análise I

Pela hipótese de indução (vale P [k]), concluímos então que vale P [k+
1]. De novo, pelo Princípio da Indução, vemos que a afirmação vale para

44
todo n ∈ N. Como aplicação, deduzimos, por exemplo, que 13n − 8n é
divisível por 5, 17n − 13n é divisível por 4, etc., qualquer que seja n ∈ N.
Exemplo 5.10. A desigualdade 2n > 2n + 1 é verdadeira para n ≥ 3
(observe que ela não vale para n = 1, 2). De fato, chamando de P [n]
a desigualdade, vemos que vale P [3] já que 23 = 8 > 7 = 2 · 3 + 1.
Suponhamos que valha P [k] : 2k > 2k + 1. Levando em conta que
2k + 2 > 3 para todo k ∈ N, após multiplicar P [k] por 2, temos

2k+1 > 2(2k + 1) = 4k + 2 = 2k + (2k + 2) > 2k + 3 = 2(k + 1) + 1,

e assim obtemos P [k + 1]. Portanto, pelo Teorema 5.5 concluímos que a


desigualdade vale para todo n ≥ 3.
Exemplo 5.11. A desigualdade 2n ≤ (n+1)! pode ser estabelecida pelo
Princípio da Indução Matemática. De fato, inicialmente observemos que
vale P [1], já que 21 = 2 = 2 · 1 = 2!. Supondo que valha P [k], isto é,
2k ≤ (k + 1)!, multiplicando P [k] por 2, e usando o fato que 2 ≤ k + 2,
segue que

2k+1 ≤ 2(k + 1)! ≤ (k + 2)(k + 1)! = (k + 2)!,

o que nos dá que vale P [k + 1]. Portanto, o Teorema 5.1 implica que a
desigualdade vale para todo n ∈ N .
A seguinte versão do Princípio da Indução Matemática é, às vezes,
bastante útil. Alguns autores a chamam “Princípio da Indução Forte”.
Usamos a notação habitual {1, 2, ·, k} para denotar o conjunto Jk =
{j ∈ N : 1 ≤ j ≤ k}.

Teorema 5.12. (Princípio da Indução Forte) Seja S um subconjunto


de N tal que
1. 1 ∈ S.
2. Para todo k ∈ N, se {1, 2, ·, k} ⊂ S, então k + 1 ∈ S.

Então S = N.
Demonstração: Consideremos o conjunto X = N\S. Provaremos por
contradição que X = ∅. Suponhamos então que X 6= ∅. Então, pelo
Princípio da Boa Ordenação, X possui um elemento mínimo m0 . Como,
por (1), 1 ∈ S, temos m0 > 1. Por outro lado, como m0 é o menor
elemento de X = N\S, temos que {1, · · · , m0 − 1} ⊂ S. Decorre então
de (2) que m0 ∈ S, o que nos dá uma contradição e conclui a prova.
Análise I

45
Exercícios Propostos

1 1 1 n
1. Prove que + + ··· + = para todo
1·2 2·3 n(n + 1) n+1
n ∈ N.
1
2. Prove que 13 + 23 + · · · + n3 = [ n(n + 1)]2 para todo n ∈ N.
2
3. Prove que 3 + 11 + · · · + (8n − 5) = 4n2 − n para todo n ∈ N.
1
4. Prove que 12 + 32 + · · · + (2n − 1)2 = (4n3 − n) para todo
3
n ∈ N.
(−1)n+1
5. Prove que 12 − 22 + 32 + · · · + (−1)n+1 n2 = n(n + 1)
2
para todo n ∈ N.
6. Prove que n3 + 5n é divisível por 6 para todo n ∈ N.
7. Prove que 52n − 1 é divisível por 8 para todo n ∈ N.

8. Prove que n3 + (n + 1)3 + (n + 2)3 é divisível por 9 para


todo n ∈ N.
9. Prove a desigualdade de Bernoulli: dado x ∈ R, x > −1,
para todo n ∈ N vale

(1 + x)n ≥ 1 + nx.

10. Prove que n < 2n para todo n ∈ N.


11. Prove que 2n < n! para todo n ≥ 4, n ∈ N.
12. Prove que 2n − 3 ≤ 2n−2 para todo n ≥ 5, n ∈ N.
1 1 1 √
13. Prove que √ + √ + · · · + √ > n para todo n > 2,
1 2 n
n ∈ N.
Análise I

46
14. Sejam os números xn definidos do seguinte modo: x1 := 1,
1
x2 := 2 e xn+2 := (xn+1 + xn ) para todo n ∈ N. Use
2
o Princípio da Indução Forte (Teorema 5.12) para mostrar
que 1 ≤ xn ≤ 2 para todo n ∈ N.

Análise I

47
Números Inteiros

Os números naturais chamam-se “naturais” justamente por surgirem


“naturalmente” em nossa experiência com o mundo físico, já nos primei-
ros anos da infância.
Intuitivamente, podemos dizer que números são medidas de grande-
zas. Considerando que as grandezas podem ser discretas (que podem
ser contadas) ou contínuas (que não podem ser contadas). Definimos
os números naturais como sendo medidas de grandezas discretas; nas
palavras de Leonard Euler:
Definição 6.1. Número é o resultado da comparação de duas grandezas
da mesma espécie, sendo uma tomada como unidade.

Essa definição intuitiva de número natural é boa porque traduz em


palavras nossa experiência cotidiana de contagem, resumindo o que pode-
mos dizer com base no senso comum; entretanto, a definição não satisfaz
os critérios de precisão e rigor, característicos da matemática contempo-
rânea; também não serve para desenvolvermos uma teoria dos números
naturais no padrão axiomático-dedutivo. Para a Matemática, interessa
uma rigorosa teoria axiomática-dedutiva dos números naturais porque
isso significa tanto o aprofundamento de nossa compreensão quanto a
organização lógica dos conceitos e propriedades desses números, o que
nos possibilita a investigação de propriedades sutis (que não são eviden-
tes ou são contraintuitivas) e também permite aplicações em contextos
inusitados.
Como vimos no Capítulo 5 o conjunto dos números naturais, N =
{1, 2, 3, · · · }, é definido a partir dos seguintes axiomas:

1. N possui um elemento que denotamos por 1; isto é, postula-se que


1 ∈ N.
2. Existe uma função s : N → N satisfazendo:
a) s é injetiva, isto é, dados j, k ∈ N, s(j) = s(k) se e somente se
j = k;
b) s(N) = N \ {1}.
Para cada número natural k, s(k) é chamado sucessor de k e
denota-se s(k) = k + 1. Portanto, (b) afirma que 1 é o único
Análise I

elemento de N que não é sucessor de nenhum outro número natu-


ral

48
3. Se A ⊂ N é tal que 1 ∈ A e s(A) ⊂ A, isto é, k ∈ A implica
k + 1 ∈ A, então A = N.

Apenas como recordação, os números naturais são munidos de duas


operações internas: a adição (+) e multiplicação (·) que satisfazem as
seguintes propriedades:
• (Propriedade do fechamento da adição) Para todos a e b em N
tem-se: a + b pertence a N.
• (Propriedade associativa da adição) Para todos a, b e c em N tem-
se: (a + b) + c = a + (b + c).
• (Propriedade comutativa da adição) Para todos a, b ∈ N tem-se:
a + b = b + a.
• (Propriedade do fechamento da multiplicação) Para todos a e b em
N tem-se: a · b pertence a N.
• (Propriedade associativa da multiplicação) Para todos a, b e c em
N tem-se: a · (b · c) = (a · b) · c.
• (Propriedade do elemento neutro da multiplicação) Existe um ele-
mento 1 ∈ N tal que para todo a ∈ N tem-se a · 1 = 1 · a = a.
• (Propriedade comutativa da multiplicação) Para todos a, b ∈ N
tem-se: a · b = b · a.
• (Propriedade distributiva à esquerda da multiplicação em relação
à adição) Para todos a, b e c em N tem-se: a · (b + c) = a · b + a · c.
• (Propriedade distributiva à direita da multiplicação em relação à
adição) Para todos a, b e c em N tem-se: (a + b) · c = a · c + b · c.

O conjunto dos números inteiros

Os algarismos que usamos hoje em dia surgiram da Índia, no século


VII, e sua difusão pelo mundo se deve, em grande parte, aos árabes. Daí
a designação “indo-arábicos” atribuída a eles. A maneira de grafar esses
símbolos foi se modificando ao longo do tempo, e a forma moderna mal se
assemelha à original. Importa, porém, que foi a partir da Índia, quando
o Ocidente estava mergulhando na estagnação e no obscurantismo da
primeira fase do período medieval, que o sistema de numeração posicional
decimal começou a se tornar padrão. Inclusive o zero, que mesmo entre os
gregos do período alexandrino era usado apenas para indicar “ausência”
Análise I

(o que já era um avanço em relação a outras épocas e outros povos), com


os hindus ganhou “status” pleno de número.

49
Coube também aos hindus a introdução na matemática dos núme-
ros negativos. O objetivo era indicar débitos. O primeiro registro do
uso de números negativos de que se notícia foi feito pelo matemático
e astrônomo hindu Brahmagupta (598–?), que já conhecia inclusive as
regras para as quatro operações com números negativos. Bhaskara (séc.
XII), outro matemático e astrônomo hindu, assinalou que todo número
positivo tem duas raízes quadradas, uma negativa e outra positiva, e
salientou também a impossibilidade de se extrair a raiz quadrada de um
número negativo.
Ao introduzirem os números negativos, os hindus não tinham ne-
nhuma preocupação de ordem teórica. Na verdade, os progressos mate-
máticos verificados na Índia, por essa época, ocorreram quase que por
acaso e em boa parte devido ao descompromisso com o rigor e a for-
malidade.
Mas a aceitação e o entendimento pleno dos números negativos foi
um processo longo. Basta ver algumas designações que receberam: Stigel
(1486–1567) os chamava de números absurdos; Cardano (1501 – 1576),
de números fictícios. Descartes (1596–1650) chamavam de falsas as raízes
negativas de uma equação. Outros, como François Viète (1540–1603),
importante matemático francês, simplesmente rejeitavam os números ne-
gativos.

Construção dos números inteiros

Pretende-se aqui dar um sentido matemático a todas as expressões


do tipo a − b, para quaisquer a, b ∈ N, de maneira a poder tratar como
entes do mesmo conjunto tanto aquelas como 7 − 3, 5 − 1 e 4 − 0 quanto
aquelas como 3 − 7, 1 − 3 e 0 − 2, por exemplo. Nesse sentido convém
observar primeiro que subjacente a cada “diferença” a − b está o par
ordenado (a, b) ∈ N × N. Além disso é fácil ver que, por exemplo, a
igualdade em N
5−3=9−7
equivale a 5 + 7 = 9 + 3. De uma maneira geral, se a, b, c, d ∈ N, com
a > b e c > d, vale a equivalência:
a−b=c−d⇔a+d=b+c
Essas considerações, aliadas ao fato de que o conjunto dos inteiros a
ser construído, deve ser uma “ampliação” de N, nos faz definir a seguinte
relação de equivalência.
No conjunto N × N consideremos a relação ∼ definida da seguinte
maneira: para quaisquer (a, b) e (c, d) em N × N,
Análise I

(a, b) ∼ (c, d) ⇔ a + d = b + c

50
Para a relação ∼ valem as propriedades:

• Reflexiva, pois, como para todo (a, b) ∈ N × N, se verifica a + b =


b + a, então (a, b) ∼ (b, a);
• Simétrica, ou seja, se (a, b) ∼ (c, d), temos a + d = b + c. Temos
que a + d = b + c ⇒ b + c = a + d, e pela propriedade comutativa
temos c + b = d + a e, portanto: então (c, d) ∼ (a, b)
• Transitiva, pois, se (a, b) ∼ (c, d) e (c, d) ∼ (e, f ), então a+d = b+c
e c+f = d+e. Daí temos que a+d+f = b+c+f e c+f +b = e+d+b,
o que implica a + d + f = e + d + b e, portanto a + f = e + b, ou
seja: (a, b) ∼ (e, f ).

Uma simbologia convencionada para representar o conjunto dos nú-


meros inteiros é Z. Então,

Z = {· · · , −4, −3, −2, −1, 0, 1, 2, 3, 4, · · · }

Propriedades operatórias do conjunto dos números inteiros

• (Propriedade do fechamento da adição) Para todos a e b em Z


tem-se: a + b pertence a Z.
• (Propriedade associativa da adição) Para todos a, b e c em Z tem-
se: (a + b) + c = a + (b + c).
• (Propriedade do elemento neutro da adição) Existe um elemento
0 ∈ Z tal que para todo a ∈ Z tem-se: 0 + a = a + 0 = a.
• (Propriedade do elemento oposto da adição) Para todo elemento
a ∈ Z, existe um elemento, denotado por −a, tal que: a + (−a) =
−a + a = 0.
• (Propriedade comutativa da adição) Para todos a, b ∈ Z tem-se:
a + b = b + a.
• (Propriedade do fechamento da multiplicação) Para todos a e b em
Z tem-se: a · b pertence a Z.
• (Propriedade associativa da multiplicação) Para todos a, b e c em
Z tem-se: a · (b · c) = (a · b) · c.
• (Propriedade do elemento neutro da multiplicação) Existe um ele-
mento 1 ∈ Z tal que para todo a ∈ Z tem-se a · 1 = 1 · a = a.
Análise I

• (Propriedade comutativa da multiplicação) Para todos a, b ∈ Z


tem-se: a · b = b · a.

51
• (Propriedade distributiva à esquerda da multiplicação em relação
à adição) Para todos a, b e c em Z tem-se: a · (b + c) = a · b + a · c.
• (Propriedade distributiva à direita da multiplicação em relação à
adição) Para todos a, b e c em Z tem-se: (a + b) · c = a · c + b · c.
√ √
q q
3 3
Exemplo 6.2. Mostre que 7 + 5 2+ 7 − 5 2 é um número inteiro.

Demonstração: Seja
√ √
q q
3 3
7 + 5 2 + 7 − 5 2 = x.

Elevando ambos os membros ao cubo, temos:


3
√ √
q q
3 3
7+5 2+ 7−5 2 = x3 .

Desenvolvendo, obtemos:

√  √ 
r
14 + 3 3 7+5 2 7−5 2 ·x = x3

14 + 3x · 3 49 − 25 · 2 = x3

14 + 3x · 3 −1 = x3
14 − 3x = x3
x3 + 3x − 14 = 0

As possíveis raízes da equação polinomial são: {±1, ±2, ±7, ±14}.


Testando as raízes temos:

x=1 ⇒ 13 + 3 · 1 − 14 = −10 6= 0. Logo, 1 não é raiz.


x = −1 ⇒ (−1)3 + 3 · (−1) − 14 = −18 6= 0. Logo, −1 não é raiz.
x=2 ⇒ 23 + 3 · 2 − 14 = 0. Logo, 2 é raiz.
√ √
q q
3 3
Portanto, 7 + 5 2 + 7 − 5 2 é um número inteiro.
Análise I

52
Exercícios Propostos

10 √ 10 √
r r
3 3
1. Mostre que o número 2+ 3+ 2− 3 é um nú-
9 9
mero inteiro.
2. Classifique as proposições abaixo em verdadeiro (V ) ou falso
(F ).
(a) 0 ∈ N.
(b) 0 ∈
/ Z.
(c) −10 ∈
/ Z.
(d) N ⊂ Z.
(e) (2 − 3) ∈ Z.
3. Classifique as proposições abaixo em verdadeiro (V ) ou falso
(F ), sendo m, n e p números naturais distintos e não nulos.
(a) [(m + n) · p] ∈ N.
(b) [m · (n − p)] ∈ Z.
(c) (m + n) · (p + n) > 0.
(d) (m · p − m) ∈ N.

Análise I

53
Números Racionais

Sempre que a divisão de um inteiro por outro não era exata, os egíp-
cios antigos, já por volta do ano 2000 a.C., usavam frações para exprimir
o resultado. E usavam também frações para operar com seu sistema de
pesos e medidas.
Contudo, por razões difíceis de explicar, com exceção das frações 2/3
e 3/4, às vezes, os egípcios usavam apenas frações unitárias, ou seja,
frações cujo numerador é 1. Por exemplo, no problema 24 do papiro
Rhind (cerca de 1700 a.C.) no qual o escriba pede que se efetue a divisão
de 19 por 8, a resposta é dada, usando a nossa notação, por:
1 1
2+ +
4 8
Embora os egípcios não adotassem sempre o mesmo procedimento,
pode-se mostrar que toda fração entre 0 e 1 é a soma de frações unitárias,
o que representa uma garantia teórica para essa opção.
Aliás, o uso das frações unitárias, além de não ficar confinado ao
Egito antigo, se estendeu por vários séculos. Basta dizer que Fibonacci,
no seu já citado Líber abaci, escrito no século XIII d.C., não só as usava
como fornecia tabelas de conversão das frações comuns para unitárias.
É que, embora uma das finalidades dessa obra fosse divulgar os nume-
rais indo-arábicos e a notação decimal posicional, Fibonacci não chegou
a perceber a grande vantagem deste sistema: sua aplicabilidade para
exprimir frações. Por exemplo:
1
= 0, 25.
4
Mas convém registrar que os babilônios, 2 000 anos antes de Cristo,
apesar de algumas ambiguidades, decorrentes de não contarem com um
símbolo para o zero e outro para separatriz, conseguiram estender o
princípio posicional às frações no seu sistema de base 60.
Na verdade, o uso da forma decimal para representar frações, tal como
em 1/4 = 0, 25, somente começaria a vingar após a publicação, em 1585
de um pequeno texto de Simon Stevin (1548–1620) intitulado De thiende
(O décimo). Embora a essa altura a forma decimal já não constituísse
uma novidade para os especialistas, esse trabalho de Stevin alcançou
grande popularidade e conseguiu seu intento, que era ensinar a “como
Análise I

efetuar, com facilidade nunca vista, todos os cálculos necessários entre


os homens, por meio de inteiros sem frações”. A notação inicialmente

54
usada por Stevin acabou sendo melhorada com o emprego da vírgula ou
do ponto como separatriz decimal, conforme sugestão de John Napier
(1550–1617), feita em 1617.

Construção dos números racionais

Consideremos o conjunto Z × Z∗ = {(a, b) | a ∈ Z e b ∈ Z∗ }. De-


finamos nele a relação:

(a, b) ∼ (c, d) ⇔ a · d = b · c

Para a relação ∼ valem as propriedades:

• Reflexiva, pois, como para todo (a, b) ∈ Z×Z∗ , se verifica a·b = b·a,
então (a, b) ∼ (b, a);

• Simétrica, ou seja, se (a, b) ∼ (c, d), temos a · d = b · c. Temos que


a · d = b · c ⇒ b · c = a · d, e pela propriedade comutativa temos
c · b = d · a e, portanto: então (c, d) ∼ (a, b)
• Transitiva, pois, se (a, b) ∼ (c, d) e (c, d) ∼ (e, f ), então a · d = b · c
e c · f = d · e. Daí temos que a · d · f = b · c · f e c · f · b = e · d · b,
o que implica a · d · f = e · d · b e, portanto a · f = e · b, ou seja:
(a, b) ∼ (e, f ).

Temos então:
• (1, 2) ∼ (2, 4) ∼ (−31, −62)
• (5, 1) ∼ (−10, −2)

Uma simbologia convencionada para representar o conjunto dos nú-


meros racionais é Q. Então,
na o
Q= | a ∈ Z e b ∈ Z∗ .
b
Propriedades operatórias do conjunto dos números racionais

• (Propriedade do fechamento da adição) Para todos a e b em Q


tem-se: a + b pertence a Q.
• (Propriedade associativa da adição) Para todos a, b e c em Q tem-
se: (a + b) + c = a + (b + c).

• (Propriedade do elemento neutro da adição) Existe um elemento


Análise I

0 ∈ Q tal que para todo a ∈ Q tem-se: 0 + a = a + 0 = a.

55
• (Propriedade do elemento oposto da adição) Para todo elemento
a ∈ Q, existe um elemento, denotado por −a, tal que: a + (−a) =
−a + a = 0.
• (Propriedade comutativa da adição) Para todos a, b ∈ Q tem-se:
a + b = b + a.
• (Propriedade do fechamento da multiplicação) Para todos a e b em
Q tem-se: a · b pertence a Q.
• (Propriedade associativa da multiplicação) Para todos a, b e c em
Q tem-se: a · (b · c) = (a · b) · c.
• (Propriedade do elemento neutro da multiplicação) Existe um ele-
mento 1 ∈ Q tal que para todo a ∈ Q tem-se a · 1 = 1 · a = a.
• (Propriedade comutativa da multiplicação) Para todos a, b ∈ Q
tem-se: a · b = b · a.

• (Propriedade do elemento inverso da multiplicação) Para todo ele-


mento não nulo a de Q, existe um elemento, denotado por a−1 , tal
que a · a−1 = a−1 · a = 1.
• (Propriedade distributiva à esquerda da multiplicação em relação
à adição) Para todos a, b e c em Q tem-se: a · (b + c) = a · b + a · c.
• (Propriedade distributiva à direita da multiplicação em relação à
adição) Para todos a, b e c em Q tem-se: (a + b) · c = a · c + b · c.

Determinação da fração geratriz de dízimas periódicas

Definição 7.1. Denomina-se dízima periódica os números decimais que


são formados por números que se repetem infinitamente. Os algarismos
que se repetem são chamados de algarismos periódicos. Caso a dízima
periódica possuir após a vírgula algarismos que não se repetem, estes
são chamados de não periódicos.
Exemplo 7.2. Observe:

• 0, 555 · · · a parte periódica é o 5;


• 0, 132132132 · · · a parte periódica é 132;

• 0, 002500250025 · · · a parte periódica é 0025;


• 0, 32777 · · · a parte não periódica é 32 e a periódica é 7;
Análise I

• 0, 023858585 · · · a parte não periódica é 023 e a periódica é 85.

56
Quando temos uma parte inteira diferente de zero, devemos ver este
número como a soma da parte inteira com a parte fracionária.
Exemplo 7.3. Observe:

• 4, 315315315 · · · = 4 + 0, 315315315 · · · ;
• 1, 710979797 · · · = 1 + 0, 710979797 · · · .

Regras para determinação de uma fração geratriz

• Simples

Em uma dízima periódica simples, o período se apresenta imediata-


mente após a vírgula, como, por exemplo, 0, 4444 · · · ou 2, 5555 · · · ou,
ainda, 2, 343434 · · ·
Para obter a fração geratriz de uma dízima periódica simples, pode-
mos tratá-la como uma incógnita, isto é, x, por exemplo:

x = 0, 4444 · · ·

Em seguida, multiplicamos os dois termos da igualdade por uma potência


de 10 cujo expoente é igual à quantidade de numerais do período da
dízima.

x = 0, 444 · · ·
10x = 0, 444 · · · × 10
10x = 4, 444 · · ·

Subtraindo uma expressão da outra, isto é, fazendo:

(10x − x) = 4, 444 · · · − 0, 444 · · ·

obtemos:
4
9x = 4 ⇒ x = .
9
4
Assim, a geratriz da dízima 0, 444 · · · é a fração .
9
• Composta

Em uma dízima periódica composta, entre o período e a vírgula há um


ou mais numerais que não fazem parte do período, como, por exemplo,
0, 23333 · · · ou 1, 03242424 · · ·
De modo semelhante ao que foi feito anteriormente, nomearemos a
dízima de x.
Análise I

x = 0, 2333 · · ·

57
Visto que a parte não periódica é formado apenas por um algarismo,
multiplicaremos toda a expressão por 10, para separar a parte periódica
da não periódica.

x = 0, 2333 · · ·
10x = 0, 2333 · · · × 10
10x = 2, 333 · · ·

Em seguida, multiplicamos os dois termos da igualdade por uma po-


tência de 10 cujo expoente é igual à quantidade de numerais do período
da dízima.

100x = 23, 333 · · ·

Subtraindo as duas últimas expressões, temos:

(100x − 10x) = 23, 333 · · · − 2, 333 − · · ·

obtemos:
21
90x = 21 ⇒
90
Assim, a geratriz da dízima 0, 2333 · · · é a fração 21/90.
Dos dois exemplos visto anteriormente, generalizando, foram criadas
as seguintes regras:
Regra 1 : A fração geratriz de uma dízima periódica simples tem
como numerador o número formado pela parte periódica. O denomi-
nador, tantos noves quantos forem os algarismos que formam a parte
periódica.
Exemplo 7.4. Observe:
7
a) 0, 7777 · · · =
9
67
b) 0, 676767 · · · =
99
1
c) 0, 001001001 · · · =
999
Regra 2 : A fração geratriz de uma dízima periódica composta tem
como numerador o número formado pela junção das partes não periódica
e periódica menos o número formado pela parte não periódica. O de-
nominador tantos noves quantos forem os algarismos da parte periódica
acrescidos de tantos zeros quantos forem os não periódicos.
Exemplo 7.5. Observe:
135 − 13 122
a) 0, 13555 · · · = =
Análise I

900 900
4113 − 4 4109
b) 0, 4113113113 · · · = =
9990 9990

58
Dízimas periódicas e cíclicas

O que será que acontece se o denominador de uma fração irredutível


contiver algum fator primo diferente de 2 e 5? Consideremos o exemplo
da conversão de 5/7 em decimal, ilustrada abaixo. Na primeira divisão
(de 50 por 7), obtemos o resto 1; depois, nas divisões seguintes, vamos
obtendo, sucessivamente, os restos 3, 2, 6, 4 e 5. No momento em que
obtemos o resto 5, que já ocorreu antes, sabemos que os algarismos do
quociente voltarão a se repetir, resultando no período 714285. Essa
repetição acontecerá certamente, pois os possíveis restos de qualquer
divisão por 7 são 0, 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Vemos também que o período terá
no máximo seis algarismos.

No caso da divisão de 41 por 23, podemos garantir que a repetição


de um resto parcial ocorrerá no máximo até a 23a casa decimal. De fato,
para a fração 41/23, a dízima é a seguinte:

1, 78260869565217391304347826086956521739130434 · · ·

ou seja, ela apresenta um período enorme, formado por um “pacote” de


22 casas decimais.
m
Portanto, ao efetuarmos a divisão da fração irredutível , os únicos
n
restos possíveis serão {1, 2, 3, 4, 5, · · · , n − 1}. Assim, o processo de divi-
são que gera uma dízima periódica recomeça no enésimo passo ou antes
dele. O desenvolvimento decimal de m/n será periódico e seu período
terá, no máximo, n − 1 algarismos.
No caso do exemplo acima, a fração 41/23 tem por período seu “com-
primento” máximo: n − 1 = 23 − 1 = 22 algarismos.
Análise I

59
Exercícios Propostos

1. Explique porque não consideramos como números:


0
(a) .
0
1
(b) .
0
√3
2. n pode ser um número racional? Explique.

1+ 5
3. é um número racional? Explique.
2
√ √
q q
4. Mostre que o número x = 19 + 8 3 + 19 − 8 3 é raci-
onal.
5. Prove que 0, 9999 · · · é igual a 1.
√ √
q q
6. Mostre que o número x = 12 + 6 3 + 12 − 6 3 é raci-
onal.
7. Classifique as proposições abaixo em verdadeiro (V ) ou falso
(F ).
4
(a) ∈ Q.
5
2
(b) − 1 ∈ / Q.
3
1
(c) − ∈ Q − Z.
3
(d) 0, 333 · · · ∈ Q.
(e) 1, 9̄ ∈ Z.
15
(f) − ∈
/ Q.
11
Análise I

60
8. Escreve dois números racionais que estão entre:
3
(a) 0 e .
5
9
(b) 1 e .
4
3 1
(c) − e .
4 5
9. Calcule:
(a) 2, 33333 · · · · 1, 75.
(b) 1, 25555 · · · · 4, 44444 · · · .
(c) 0, 757575 · · · ÷ 0, 66666 · · · .
(d) 0, 6666 · · · − 0, 6.
(e) 0, 23 ÷ 0, 23333 · · · .
(f) −0, 17777 · · · + 0, 1.
10. Estabeleça a seguinte regra: toda diźima periódica simples é
igual a uma fração ordinária, cujo numerador é igual a um
período e cujo denominador é constituído de tantos 9 quan-
tos são os algarismos do período. Fique entendido também
que a dízima não tem parte inteira.
11. Estabeleça a regra para a dízima periódica composta.
Análise I

61
12. Determine as frações geratrizes das dízimas periódicas
usando a regra prática.
(a) 0, 151515 · · · .
(b) 0, 416416 · · · .
(c) 2, 1111 · · · .
(d) 20, 202020 · · · .
(e) 8, 121212 · · · .
(f) 0, 15555 · · · .
(g) 1, 15555 · · · .
(h) −2, 0171717 · · · .
(i) 2, 0077777 · · · .
(j) 100, 07777 · · · .
(k) 4, 0757575 · · · .

13. Se a = 0, 4̄ e b = 0, 3̄, então b a é igual a:
1
(a) .
9
2
(b) .
9
5
(c) .
9
7
(d) .
9
14. Qual é o 1999o algarismo após a vírgula na representação
decimal do número 4/37:
(a) 0.
(b) 1.
(c) 2.
(d) 7.
Análise I

(e) 8.

62
15. Mário estava fazendo esta divisão:
Cansado, não quis mais continuar. Marisa olhou e disse:
“Na verdade, você não precisa continuar! Assim já dá para
perceber qual é o resultado.” Marisa tem razão. Explique
por que e depois apresente o quociente da divisão.

Análise I

63
Grandezas incomensuráveis

Historicamente, a primeira evidência da necessidade dos números ir-


racionais ocorre com a ideia de “incomensurabilidade”. Na Grécia An-
tiga, os únicos números reconhecidos como tais eram os números naturais
2, 3, 4, etc. O próprio 1 não era considerado número, mas a “unidade”,
a partir da qual se formavam os números. As frações só apareciam in-
diretamente, na forma de razão de duas grandezas, como, por exemplo,
quando dizemos que o volume de uma esfera está para o volume do
cilindro reto que a circunscreve assim como 2 está para 3.
A descoberta de grandezas incomensuráveis foi feita pelos próprios
pitagóricos; e representou um momento de crise da Matemática.
Devemos lembrar que Pitágoras notara certas relações numéricas en-
volvendo o comprimento de uma corda musical e o som por ela emitido.
Ao que parece, ele fez observações semelhantes com relação a outros
fenômenos, intuindo daí que o número fosse de fato a essência de todos
os fenômenos, permeando a Natureza inteira. Sendo assim, era de se es-
perar que a razão de dois segmentos de reta pudesse sempre ser expressa
como a razão de dois números (naturais).

Definição 8.1. Dizer que a razão de dois segmentos A e B é a fração


m/n significa dizer que existe um segmento c tal que A = mc e B = nc.
Ora, com a descoberta dos incomensuráveis, ficou claro que isso nem
seria possível.

Números irracionais

Podemos conceber números cuja representação decimal não é nem


finita nem periódica. Esses são os chamados números irracionais.
É fácil produzir números irracionais, basta inventarmos uma regra de
formação que não permita aparecer período. Podemos conseguir isso, por
exemplo, utilizando dois algarismos quaisquer, como 5 e 0, colocando o 5
seguido de um zero, depois o 5 seguido de dois zeros, etc. Assim, temos:

0, 50500500050000 · · ·

Outros três números irracionais importantes e conhecidos são: π (lê-


se: pi), o φ (lê-se: fi) e o e (número neperiano). Temos, respectivamente,
os três números com suas 300 primeiras casas decimais:
Análise I

64
Número π

3,141592653589793238462643383279502884197169399375105820974
94459230781640628620899862803482534211706798214808651328230664
70938446095505822317253594081284811174502841027019385211055596
44622948954930381964428810975665933446128475648233786783165271
201909145648566923460348610454326648213393607260249141273 · · ·

Número φ

1,618033988749894848204586834365638117720309179805762862135
44862270526046281890244970720720418939113748475408807538689175
21266338622235369317931800607667263544333890865959395829056383
22661319928290267880675208766892501711696207032221043216269548
626296313614438149758701220340805887954454749246185695364 · · ·

Número e

2,7182818284590452353602874713526624977572470936999595749669
676277240766303535475945713821785251664274274663919320030599218
174135966290435729003342952605956307381323286279434907632338298
807531952510190115738341879307021540891499348841675092447614606
68082264800168477411853742345442437107539077744992069 · · ·

Os três pontos utilizados nos números irracionais não têm o mesmo


significado das dízimas periódicas, por exemplo. Aqui significa que os
algarismos se sucedem indefinidamente, sem nenhuma lei de formação
explicitada.
As raízes quadradas dos números naturais que são quadrados
perfeitos (0, 1, 4, 9, 16, 25, 36, · · · ), as raízes cúbicas de cubos perfeitos
(0, 1, 9, 27, 64, · · · ) e assim por diante, são números naturais.
As raízes quadradas dos números naturais que não são quadrados
perfeitos, cubos perfeitos e assim por diante; são números irracionais.

Representação geométrica dos números irracionais

Apesar de os irracionais não poderem ser escritos na forma de fração


não é correto dizer que eles não têm valor exato. Esse assunto foi ob-
jeto de preocupação entre os matemáticos da Escola pitagórica, por volta
séc. V a. C. Conta-se que Hippaso de Metaponto, filósofo grego, em uma
embarcação marítima, comprovou, geometricamente, que os números ir-
racionais tinham um valor exato, contradizendo as ideias dos pitagóricos
Análise I

fanáticos da época. Por esse motivo foi lançado ao mar.

65
Impossível de se verificar algebricamente, é verdade, mas de fácil vi-
sualização geométrica. Com os números reais em mãos, situaremos cada
um deles sobre uma reta, de modo que cada ponto da reta represen-
tará um número real. Esse ponto será chamado imagem do número.
Reciprocamente o número será chamado de abscissa do ponto.
Para construí-la procedemos da seguinte forma:
Passo 1: Marcamos, no eixo real, dois pontos para serem imagem de
0 e 1 respectivamente. Note que AB = 1.

Passo 2: Construímos um segmento BC, congruente a BA, com


origem em B e que forma um ângulo reto com o eixo. Observe:

Passo 3: Ligamos os pontos A e C para formar o segmento AC.


√ Pelo
teorema de Pitágoras, descobrimos que AC tem medida igual a 2.

Passo 4: Giramos no sentido horário o segmento AC, em torno


do ponto A, com o auxílio de um compasso, até0 se sobrepor ao eixo.

Pronto! O local onde o ponto C tocou o eixo (C ) é a imagem de 2.
Observe:
Análise I

66
√ O tamanho da hipotenusa (segmento AC) fornece o valor exato de
2. (Nesse caso não consideramos imprecisões nos aparelhos de medida
que dispomos). Devemos considerar réguas ideais, embora não existam
de fato.
Esse processo é válido para qualquer número irracional. Com esse
raciocínio fica provado que, ao contrário do que parece, os irracionais têm
valor exato. Embora números desse tipo possuam infinitas casas decimais
com algarismos que nunca repetem (indício de não possuir valor exato),
podemos visualizar geometricamente√(através de uma figura) que há um
“tamanho”
0
bem determinado para 2, é igual a medida do segmento
AC . Esse um valor exato. Como todos os irracionais têm segmentos
cujo tamanho é igual ao seu valor, fica provado que qualquer número
irracional tem valor exato, embora a primeira vista pareça o contrário.
√ Veja,
√ por
√ exemplo, como representamos os números irracionais
2, 3 e − 2 na reta:

A construção que se
√ segue
√ √ é bastante
√ sugestiva
√ para a representação
precisa dos números: 2, 3, 4, 5, · · · , n, · · · sobre a reta:
Análise I

67

Provando que 2 é um número racional

Antes de provar a irracionalidade de 2, devemos provar antes o
seguinte:
Lema 8.2. Se um número é par, então o quadrado também é par.
Demonstração: Pela hipótese, temos que o número é par. Façamos
então, m = 2x, com x ∈ Z. Elevando ao quadrado, temos:
m2 = (2x)2 = 4x2 = 2 · 2x2
Como x é inteiro, 2x2 também é. Qualquer número multiplicado por 2
é par. Portanto, o quadrado de qualquer número par é par.
Lema 8.3. Se o quadrado de um número é par, então esse número é
par.
Demonstração: Por hipótese, temos que o quadrado do número é par.
Vamos supor então que esse número seja ímpar. Façamos então, m =
2x + 1, com x ∈ Z. Elevando ao quadrado, temos:
m2 = (2x + 1)2 = 4x2 + 4x + 1 = 2(2x2 + 2x) + 1
Como x é inteiro, 2x2 +2x também é. Mas qualquer número multiplicado
por 2 e somado com 1 é sempre ímpar, o que contradiz a hipótese de que
o quadrado do número é par. Logo, temos um absurdo. Portanto, se o
quadrado do número é par, então esse número é par. √
Agora, podemos provar a irracionalidade
√ do número 2. √ Primeiro
vamos supor, por absurdo, que 2 seja racional, isto é, que 2 possa
ser escrito na forma a/b, com a ∈ Z e b ∈ Z∗ , de modo que a/b seja
irredutível (a e b são primos entre si). Temos, então,
Análise I

√ a
2= .
b

68
Segundo, elevando os dois membros ao quadrado, obtemos 2 = a2 /b2 ,
ou a2 = 2b2 . Isso significa que a 2 é par, logo, a é par.
Por outro lado, como a fração a/b é irredutível e a é par, então b
tem que ser ímpar. Daí, se a é par, existe um número inteiro m tal que
a = 2m. Substituindo em a2 = 2b2 , temos:

(2m)2 = 2b2 ⇒ 4m2 = 2b2 ⇒ b2 = 2m2

Ou seja, se b2 é par, então b também é par. Essa última dedução é um


absurdo, pois concluímos que b deveria ser ímpar e um número não pode
ser par e ímpar ao mesmo tempo. E também, porque a√e b devem ser
primos entre si. Por isso,√concluímos que a hipótese de 2 ser racional
é falsa e que, portanto, 2 é irracional.
√ √
Exemplo 8.4. Prove que 2 + 3 não pode ser racional.
√ √
Demonstração: Seja x = 2 + 3. Elevando ambos os membros ao
quadrado temos

x2 = 2 + 2 6 + 3

Reagrupando, temos

x2 − 5 = 2 6

Elevando ao quadrado novamente, temos:

x4 − 10x2 + 25 = 24

Reagrupando, temos:

x2 − 10x2 + 1 = 0

As únicas raízes racionais possíveis desta equação são −1 e 1. Subs-


tituindo x por −1 e por√ 1, nenhum
√ desses dois valores satisfazem a
equação. De modo que 2 + 3, que satisfaz a equação, não pode ser
racional.
Exemplo 8.5. Indique um número irracional entre 22/3 e 23/3.
Demonstração: Seja a o número procurado:
22 23
<a< .
3 3
Como 22/3 e 23/3 são números positivos maiores que 1, então:
Análise I

 2  2
22 23
< a2 <
3 3

69
Logo, 484/9 < a2 < 529/9. Podemos atribuir a a2 qualquer fração que
esteja entre 484/9 e 529/9. Por exemplo a2 = 495/9. Logo
484 495 529 484 529
< < ⇒ < 55 < .
9 9 9 9 9
Extraindo a raiz de todos os membros dessa desigualdade, temos:

484 √ 22 √
r r
529 23
< 55 < ⇒ < 55 < .
9 9 3 3

Assim, 55 está entre as duas frações dadas.
Análise I

70
Exercícios Propostos

1. Quaisquer que sejam o racional x e o irracional y, pode se


dizer que:
(a) x · y é irracional?
(b) y · y é irracional?
(c) x + y é racional?

(d) x − y + 2 é irracional?
(e) x + 2y é irracional?
2. Classifique as proposições abaixo em verdadeiro (V ) ou falso
(F ) e apresente um exemplo que confirme sua afirmação.
(a) O produto de dois números irracionais pode ser um
racional.
(b) A soma de um racional com um irracional é sempre
um irracional.
(c) A soma de dois irracionais é sempre um número
irracional.
(d) Se x e y são racionas, então x + y é sempre racional.

(e) 5·x, se x é racional, esse número pode ser racional.
(f) y 3 , se y é irracional, esse número pode ser racional.
3. Prove que a soma de dois números pares é sempre um nú-
mero par.
4. Prove que a soma de dois números ímpares é sempre um
número par.
5. Prove que o quadrado de um número ímpar é sempre ímpar.

6. Prove que 3 é irracional.

7. Prove que p é irracional, onde p > 1 é um número primo
Análise I

qualquer.

71
8. Decida se cada uma das frases dadas é verdadeira (V ) ou
falsa (F ). Não é preciso provar, basta justificar a escolha
feita.
(a) Um número real com infinitas casas decimais não
nulas é irracional.
(b) Uma dízima periódica composta é um número irra-
cional.
(c) 0, 9999 · · · = 1.
(d) Entre os números 1, 23456 e 1, 23457 não existe ne-
nhum número irracional.
(e) Entre os números 1, 23456 e 1, 23457 não existe ne-
nhum número racional.
(f) A soma de dois números racionais pode ser um nú-
mero irracional.
(g) A soma de dois números irracionais pode ser um
número racional.
(h) A soma de dois números irracionais é um número
irracional.
(i) O produto de dois números irracionais é um número
irracional.
(j) Um número irracional elevado a um número racional
pode dar um número racional.

3
9. Prove que 2 é um número irracional.

10. Prove que os números abaixo são irracionais:



4

(a) 5 − 2.
√ √
(b) 3 − 2.
√ √ √
(c) 2 + 3 + 5.

11. Coloque em ordem crescente os números reais:


Análise I

19 √ √ √
, 2, 3, 1, 5 e 1, 2̄.
20

72
12. Classifique as afirmações abaixo em verdadeiras ou falsas:
(a) Se x ∈ N, então x ∈ Z.
(b) Se x ∈ Q, então x ∈ R.
(c) Se x ∈ Z, então x ∈ N.
(d) Se x ∈ N, então x ∈ Q.
s r

q
13. Mostre que o número x = 2+ 2+ 2+ 2 + · · · é ra-
cional. (Sugestão: eleve ao quadrado os dois membros.)

Análise I

73
Cardinalidade

Introdução

Antes de iniciar o estudo de Cardinalidade, leia a situação a seguir,


conhecida como o “Hotel de Hilbert”:
“Era uma vez um hotel com um número infinito de quartos. Todos
estavam ocupados. Chegou um novo hóspede que necessitava muito de
hospedagem. Como o gerente poderia resolver seu problema?”
A primeira idéia que vem em nossa mente é colocar o novo hóspede
num dos quartos já ocupados. Pode não ser uma idéia brilhante, mas
resolveria a situação, se o antigo hóspede estivesse disposto a compar-
tilhar o seu quarto.
Veja só que “linda solução” podemos ter pelo fato de termos um
número infinito de quartos.
Numeramos os quartos do hotel

1, 2, 3, · · · , n, · · · .

Pegamos, então, o hóspede do primeiro quarto e o passamos para o


segundo. O do segundo quarto, passamos para o terceiro. Procedemos
assim sucessivamente.
Como resultado, todos os hóspedes ficam acomodados nos quartos
subsequentes e o primeiro quarto ficará livre para acomodar o hóspede
recém chegado.
O que você achou da solução?
A situação analisada ilustra a idéia de conjunto infinito enumerável,
isto é, de um conjunto infinito, cujos elementos podem ser colocados na
forma de uma lista.
Você pode perguntar:
Posso colocar em forma de uma lista todos os elementos de um con-
junto infinito?
Vamos ver que nem sempre isso é possível. Os conjuntos cujos ele-
mentos não podem ser dispostos em sucessão (não podem ser listados)
são chamados de conjuntos não-enumeráveis.

Conjuntos finitos e infinitos enumeráveis

Vamos considerar os conjuntos:


Análise I

N = {1, 2, 3, · · · } = conjunto dos naturais.

74
In = {1, 2, · · · , n} = conjunto dos naturais de 1 a n.
Com base nestes dois conjuntos temos a noção de conjunto finito e
infinito enumerável.
A idéia intuitiva que temos de um conjunto finito é de que podemos
contar seus elementos. Isso é o mesmo que colocar seus elementos em
correspondência um a um com os elementos de In , para algum n.
E quando um conjunto não é finito?
Na história da humanidade, houve muita dificuldade para compreen-
der e aceitar grandezas infinitas. As primeiras referências vieram com a
religião, em expressões do tipo “Deus é infinitamente bom”.
No campo da Matemática, um grande pesquisador, chamado Cantor,
desenvolveu um belo trabalho sobre conjuntos infinitos, introduzindo
o conceito de cardinalidade. Ele mostrou que há diferentes tipos de
conjuntos infinitos, não sendo possível, em alguns deles, colocar seus
elementos em sucessão (na forma de lista). Surgiram assim, os conceitos
de conjunto enumerável e de conjunto não-enumerável.
Intuitivamente, um conjunto é enumerável se seus elementos podem
ser colocados numa lista de modo que qualquer elemento do conjunto
pode ser alcançado se avançarmos o suficiente na lista.
Temos as seguintes definições.
Definição 9.1. Um conjunto X é dito finito se é vazio ou se, para algum
n, existe uma bijeção f : In → X. No último caso, dizemos que X tem
cardinalidade n, isto é, X tem n elementos.

Definição 9.2. Se X não for finito, dizemos que X é infinito.


Definição 9.3. Um conjunto infinito X é dito enumerável se existe uma
bijeção f : N → X.
Exemplo 9.4. Seja

X = {x ∈ R tais que | 5x − 3 |= 7} .

Qual a cardinalidade de X?
Temos que os elementos de X são as soluções da equação | 5x−3 |= 7,
ou seja,  
−4
X= ,2 .
5
Logo X tem 2 elementos. A função

f : I2 → X
−4
Análise I

é uma bijeção, onde f (1) = e f (2) = 2.


5

75
Exemplo 9.5. O conjunto I dos números inteiros positivos ímpares é
enumerável.
De fato, f : N →; f (n) = 2n − 1 é uma bijeção, como você pode
visualizar no quadro que segue:

1 2 3 4 5 6 ···

↓ ↓ ↓ ↓ ↓ ↓ ···

1 3 5 7 9 11 ···

Nota: Subconjuntos infinitos de conjuntos enumeráveis são enume-


ráveis.
Exemplo 9.6. O conjunto dos números inteiros Z é enumerável.
Vamos resgatar a idéia intuitiva. Podemos dispor todos os números
inteiros na forma de uma lista, como segue:

0, 1, −1, 2, −2, 3, −3, 4, −4, 5, −5, · · · .

Qualquer número inteiro, positivo ou negativo, será alcançado se


avançarmos o suficiente nessa lista.
Existem outros conjuntos enumeráveis?
A resposta é sim, sendo o conjunto dos racionais o exemplo mais
importante (e surpreendente). As proposições que seguem indicam um
caminho para provar esse e outros resultados interessantes.
Proposição 9.7. Se f : X → Y é injetiva e Y é enumerável, então X é
finito ou enumerável.
Demonstração: Como Y é enumerável, existe uma bijeção g : Y → N
. Consideremos a função composta h = g ◦ f : X → .

Como f e g são injetivas, o mesmo ocorre com h. Portanto,


Análise I

h : X → h(X) ⊂ N

76
é uma bijeção.
Como h(X) ⊂ N, ele é finito ou enumerável. Logo, X é finito ou
enumerável.
Proposição 9.8. Seja X enumerável. Se f : X → Y é sobrejetiva, então
Y é finito ou enumerável.
Demonstração: De maneira similar a proposição anterior note que
como X é enumerável existe uma bijeção g : N → X e portanto a função
composta f ◦ g : N → Y é sobrejetiva. Agora, para todo y ∈ Y defina
h(y) como o menor elemento em (f ◦ g)−1 (y).
Note que h : Y → N esta bem definida, pois todo subconjunto dos
naturais possui um menor elemento. Ainda, h é injetiva. Logo, pela
proposição anterior, temos que Y é enumerável.
Vamos relembrar a seguir um Teorema da Álgebra que é utilizado
para provar que o produto cartesiano de N por N é enumerável. Como
ele é um resultado preliminar necessário para essa prova o introduzimos
como um lema.
Lema 9.9. (Teorema da Álgebra). Todo número natural se decompõe
de maneira única como produto de fatores primos.
Proposição 9.10. N × N é enumerável.
Demonstração: Definimos

f :N×N → N
(n, m) 7→ 2n 3m

Temos que f é injetiva, pois

2n1 3m1 = 2n2 3m2 ⇒ (n1 , m1 ) = (n2 , m2 ),

pelo lema anterior.


Pela proposição 9.7 segue que N × N é enumerável.
Proposição 9.11. Se X e Y são enumeráveis, então X ×Y é enumerável.
Demonstração: Como X e Y são enumeráveis, existem f : N → X e
g : N → Y bijeções. Definimos

h:N×N → X ×Y
(x, y) 7→ h(x, y) = (f (x), g(y))

Então h é sobrejetiva. Como N × N é enumerável, pela Proposição 9.8,


temos que X × Y é enumerável.
Análise I

Corolário 9.12. O conjunto Q dos números racionais é enumerável.

77
Demonstração: Seja Z∗ o conjunto dos números inteiros não nulos,
isto é, Z∗ = Z − 0. Então Z∗ é enumerável. Pela Proposição 9.11, Z × Z∗
é enumerável.
Definimos

f : Z × Z∗ → Q
m
(n, m) 7→
n
Temos que f é sobrejetiva (pela própria definição de Q). Como Z × Z∗
é enumerável, pela Proposição 9.8, concluímos que Q é enumerável.
Resgatando a idéia intuitiva de conjunto enumerável, você pode se
perguntar: Como listar os elementos de Q?
Vamos exemplificar com os racionais positivos, Q+ . No quadro que
segue, ilustramos o procedimento. A lista é formada como indicado
pelas setas.

Observe que agrupamos os elementos cuja soma do numerador com


o denominador é a mesma, eliminando os elementos repetidos. Isso re-
sultará na lista
1 1 1 2 3
1, , 2, , 3, , , , 4, · · ·
2 3 4 3 2
que contém todos os racionais positivos.
Proposição 9.13. Sejam X1 , X2 , · · · , Xm , · · · conjuntos enumeráveis.
A união [
X= Xm
Análise I

é enumerável.

78
Demonstração: Como Xm é enumerável, podemos considerar os ele-
mentos de Xm como termos de uma sucessão xm1 , xm2 , xm3 , · · · .
Formamos o quadro

Este quadro contém todos os elementos de X. Como as setas indicam,


seus elementos podem ser dispostos em sucessão:

x11 , x21 , x12 , x31 , x22 , x13 , x41 , x32 , x23 , x14 , · · ·
[
Mais formalmente, note que a função f : N × N → Xn , dada por
[
f ((n, m)) = xnm , é uma bijeção, e portanto Xn é enumerável.

Observação 9.14. Temos que:

• A união finita de conjuntos enumeráveis é enumerável.

• O produto cartesiano finito de conjuntos enumeráveis é enumerável.


• O resultado anterior não é válido para produtos infinitos.

Conjuntos não enumeráveis

Segundo Cantor, dois conjuntos, A e B tem a mesma cardinalidade


quando é possível estabelecer uma correspondência biunívoca entre os
elementos de A e os elementos de B. Isso equivale a dizer que existe
uma bijeção entre A e B.
Vimos que o conjunto dos números racionais é enumerável.
Análise I

Não seriam, então, todos os conjuntos infinitos enumeráveis?

79
Em 1874 Cantor surpreendeu os matemáticos de sua época com uma
descoberta muito importante. Ele mostrou que o conjunto dos números
reais tem cardinalidade diferente da do conjunto dos números naturais.
Definição 9.15. Todo conjunto infinito que não é enumerável, é dito
não-enumerável.
Proposição 9.16. O conjunto dos números reais é não enumerável.
Demonstração: Vamos mostrar que o conjunto dos números reais entre
0 e 1 é não enumerável.
Para isso usaremos a representação decimal infinita, que é única para
todo número real. Se você não lembrar leia o Capítulo 2 do livro Análise
Matemática para Licenciatura, de Geraldo Ávila.
Vamos supor que é possível estabelecer uma correspondência biuní-
voca dos números reais do intervalo (0, 1) com os números naturais.
Podemos, então, escrever esses números em sucessão, x1 , x2 , x3 , · · · ,
conforme o quadro a seguir:

x1 = 0, x11 x12 x13 x14 · · ·


x2 = 0, x21 x22 x23 x24 · · ·
x3 = 0, x31 x32 x33 x34 · · ·
··· ··· ···
xn = 0, xn1 xn2 xn3 xn4 · · ·
··· ··· ···
onde xij são algarismos de 0 a 9.
Vamos, agora, estabelecer uma contradição. Vamos fazer isso usando
o “processo diagonal de Cantor”. Construímos um número diferente de
todos os listados. Como?
Trocando os algarismos da diagonal. Assim, esse novo número será
diferente de x1 , na primeira casa decimal, diferente de x2 na segunda casa
decimal, diferente de x3 na terceira casa decimal e assim sucessivamente.
Dessa forma chegamos a um absurdo. Concluímos, então, que o con-
junto dos números reais entre 0 e 1 é não enumerável.
Observação 9.17. O conjunto dos números reais tem a mesma cardi-
nalidade do intervalo (0, 1). De fato, a função
 π
y = tan πx −
2
é uma bijeção do intervalo (0, 1) na reta toda (−∞, ∞). Você pode usar
um software gráfico para visualizar esta bijeção.
Análise I

Veja que o resultado acima nos remete a uma reflexão sobre os nú-
meros irracionais, que voltarão a ser discutidos na próxima unidade.

80
Exercícios Propostos

1. Os números naturais podem ser escritos como a união dos


naturais ímpares e dos naturais pares:

N = {1, 3, 5, 7, · · · } ∪ {2, 4, 6, 8, · · · }

Esses dois conjuntos são disjuntos e infinitos. Dado um nú-


mero natural p > 2, atribua alguns valores para p, e mostre
que existem conjuntos A1 , A2 , A3 , · · · , Ap , infinitos e disjun-
tos, tais que
[p
N= Ai
i=1

2. Seja f : X → Y uma bijeção. Mostre que um desses con-


juntos é finito se, e somente se, o outro também é finito.

3. Usando a definição, prove que são enumeráveis:


(a) P é o conjunto dos inteiros pares.
(b) I é o conjunto dos inteiros negativos ímpares.
(c) Qp é o conjunto dos racionais com denominador p.

4. Sejam X finito e Y enumerável. Justifique os itens abaixo:


(a) Existe uma função injetiva f : X → Y ?
(b) Existe uma função sobrejetiva g : X → Y ?
5. Mostre que o conjunto de todas as sucessões cujos termos
são os algarismos 0 e 1 é não enumerável.
Análise I

81
Algumas propriedades dos números reais

Neste Capítulo 10 você terá a oportunidade de revisar algumas pro-


priedades dos números reais, que denotamos por R, as quais serão uti-
lizadas no decorrer do seu aprendizado.
Definição 10.1. Seja x ∈ R. O módulo, ou valor absoluto, de x é
definido por: 
 x, se x ≥ 0,
|x| =
 −x, se x < 0.

Observação 10.2. O módulo de x também pode ser definido por uma


das seguintes expressões:

| x |= max {x, −x} ou | x |= x2 .

É importante você já se familiarizar com as inequações a seguir, en-


volvendo módulo, pois inequações desse tipo serão de vital importância
nas seções seguintes.
Exemplo 10.3. Determine os valores de x tais que | x − a |< .
Temos:

| x − a |<  ⇔ − < x − a < 


⇔ a−<x<a+
⇔ x ∈ (a − , a + )

Podemos representar graficamente:

A solução é constituída pelos elementos x pertencentes a um intervalo


aberto de centro em a e raio .
Também podemos dizer que a solução é constituída pelos elementos
x tais que a distância de x até a é menor que . Neste caso, estamos
interpretando | x − a | como a distância de x até a.
Análise I

Proposição 10.4. Sejam x, y, z ∈ R. Então:

82
1. | x + y |≤| x | + | y | (Desigualdade Triangular).
2. | x · y |=| x | · | y |.
3. | x | − | y |≤|| x | − | y ||≤| x − y |.
4. | x − z |≤| x − y | + | y − z |.
Demonstração:
1. Temos as seguintes desigualdades:
− | x |≤ x ≤| x |
− | y |≤ y ≤| y |
Adicionando as desigualdades, obtemos:
−(| x | + | y |) ≤ x + y ≤ (| x | + | y |).
Portanto,
| x + y |≤| x | + | y |
2. Temos
| x · y |2 = (x · y)2 = x2 · y 2
Portanto
p √ p
| x · y |= x2 · y 2 = x2 · y 2 =| x | · | y | .

3. A primeira desigualdade dessa propriedade é trivial, pois a ≤| a |


para todo a ∈ R. Vejamos, então, a segunda desigualdade. Pela
propriedade 1, temos que:
| x |=| x − y + y |≤| x − y | + | y |
| y |=| y − x + x |≤| y − x | + | x |
Trabalhando com essas inequações, obtemos:

 | x | − | y |≤| x − y |
 | y | − | x |≤| y − x |
Multiplicando a segunda inequação por −1, vem:

 | x | − | y |≤| x − y |
 | x | − | y |≥ − | y − x |= − | x − y | .
Portanto,
− | x − y |≤| x | − | y |≤| x − y |
e, assim,
|| x | − | y ||≤| x − y |
Análise I

4. A demonstração desta propriedade fica como exercício.

83
Supremo e Ínfimo

Nesta seção nosso objetivo principal é introduzir os conceitos de su-


premo e ínfimo em R. Como ambos são similares, vamos centrar mais
nossa atenção na noção de supremo.
Vamos iniciar falando de conjuntos limitados. Temos a seguinte de-
finição:
Definição 10.5. Seja X um subconjunto de R.

• Dizemos que X é limitado superiormente se ∃b ∈ R tal que x ≤ b


para todo x ∈ X. Neste caso X ⊂ (−∞, b] e b é chamado uma
cota superior de X.
• Dizemos que X é limitado inferiormente se ∃a ∈ R tal que x ≥ a
para todo x ∈ X. Neste caso X ⊂ [a, +∞) e a é chamado uma
cota inferior de X.
• Se X é limitado superior e inferiormente, dizemos que X é limitado.
Observação 10.6. X é limitado ⇔ existem a, b ∈ R tais que X ⊂ [a, b].
Exemplo 10.7. Verificar quais dos seguintes conjuntos são limitados
inferiormente e/ou superiormente.
• X = {1, 3, 5, 7}
 
1
• X= , n∈N
n
• X = {−3n, n ∈ N}
Demonstração:

• Temos que 1 é uma cota inferior de X. Logo, X é limitado in-


feriormente. Temos, também, que 7 é uma cota superior de X.
Logo X é limitado superiormente. Concluímos, assim, que X é um
conjunto limitado.

• Podemos escrever
 
1 1 1 1
X= 1, , , , · · · , , · · ·
2 3 4 n

Temos que 0 ≤ 1/n ≤ 1, ∀n ∈ N. Logo, X é um conjunto limitado


(0 é uma cota inferior e 1 é uma cota superior).
Análise I

84
• Temos
X = {−3, −6, −9, −12, · · · , −3n, · · · }
Podemos ver que −3 é uma cota superior de X. Portanto, X é
limitado superiormente.
O conjunto X não tem cota inferior. Ele não é limitado inferior-
mente. Concluímos que o conjunto X não é limitado.

Proposição 10.8. Em R são equivalente:

i) O conjunto dos números naturais não é limitado superiormente.


ii) Dados a, b ∈ R, a > 0, ∃n ∈ N tal que an > b.
1
iii) Dado qualquer a > 0, ∃n ∈ N tal que 0 < < a.
n
Demonstração:

• i) ⇒ ii) Sejam a, b ∈ N, a > 0. Como N não é limitado superior-


b
mente, ∃n ∈ N tal que n > . Segue que an > b.
a
• ii) ⇒ iii) Em (ii) tomamos a > 0 e b = 1. Temos que ∃n ∈ N tal
1
que an > b. Logo, < a.
n
1
• iii) ⇒ i) Seja b ∈ R, b > 0. Então > 0. Por (iii) existe n ∈ N
b
1 1
tal que < . Logo, n > b e, dessa forma, nenhum elemento de
n b
R é cota superior de N.

Observação 10.9. Retome claramente em sua mente a noção de cota


superior de um conjunto. Procure visualizar geometricamente. Isso é
fundamental para você compreender o conceito de supremo de um con-
junto, que vamos definir agora.
Definição 10.10. Seja X ⊂ R um conjunto limitado superiormente.
Um elemento b ∈ R é dito supremo de X, se valem:
S.1 - Para qualquer x ∈ X, tem-se x ≤ b.
S.2 - Se c ∈ R e x ≤ c, ∀x ∈ X, então b ≤ c.
Análise I

Em outras palavras, podemos dizer que o supremo de X é a menor


das cotas superiores de X. Denotamos: b = supX.

85
Observação 10.11. Uma outra caracterização muito útil do supremo
é dada a seguir.
Considere qualquer número positivo  muito pequeno. Temos,

 S.1 − ∀x ∈ X, x ≤ b
b = supX ⇔
 S.2 − ∀ > 0, ∃x ∈ X, tal que b −  < x ≤ b.

Geometricamente podemos visualizar esta caracterização do supremo:

Em linguagem coloquial as condições (S.1) e (S.2) são dadas por:

S.1 - b é cota superior de X.


S.2 - Qualquer número menor que b não é cota superior de X.
Como você definiria o ínfimo de um conjunto limitado inferiormente?
A definição de ínfimo é análoga à de supremo. Vejamos:
Definição 10.12. Seja Y ⊂ R um conjunto limitado inferiormente. Um
elemento a ∈ R é dito ínfimo de Y , se valem:
I.1 - Para qualquer y ∈ Y , tem-se a ≤ y.
I.2 - Se c ∈ R e c ≤ y, ∀y ∈ Y , então c ≤ a.
Dessa forma, o ínfimo de Y é a maior das cotas inferiores de Y .
Denotamos: a = inf Y .
Também podemos escrever:


 I.1 − ∀y ∈ Y, a ≤ y
a = inf Y ⇔
 I.2 − ∀ > 0, ∃y ∈ Y, tal que a ≤ y < a + .

Geometricamente,
Análise I

86
O supremo e o ínfimo de um conjunto X são sempre elementos de X?
A resposta é negativa. O supremo e o ínfimo de X podem ou não
pertencer a X.
Exemplo 10.13. Vejamos:

1. Seja X = {2, 5, 7, 9}. Temos,

supX = 9 e inf X = 2.

Nota: Observe que neste caso o supremo de X é o elemento má-


ximo de X e o ínfimo de X é seu elemento mínimo. Sempre que um
conjunto X tem elemento máximo esse elemento é o supremo. De
forma análoga, sempre que X tem elemento mínimo, esse elemento
é o ínfimo.
2. Seja  
1 1 1 1
X= 1, , , , · · · , , · · ·
2 3 4 n
Facilmente podemos visualizar que supX = 1.
Qual é o ínfimo de X?
Se você pensou no zero você acertou, pois:

1
I1 - ∀n ∈ N, ≥ 0 (0 é cota inferior de X).
n
1
I2 - ∀ > 0, ∃n0 ∈ N tal que 0 < < . (Proposição 10.8, (iii))
n0

Logo, 0 é a maior das cotas inferiores, isto é, inf X = 0.


Nota: Observe que neste caso o ínfimo não pertece ao conjunto
X.
Análise I

87
 
n−1
3. Seja X = ,n ∈ N .
n
Podemos escrever,
 
1 2 3 n−1
X = 0, , , , · · · , ,··· .
2 3 4 n
Temos,
inf X = 0;
supX = 1.
 
1
4. Seja X = − ,n ∈ N
n
Temos que inf X = −1 e supX = 0.
 
1
5. Seja X = ,n ∈ N .
2n
1
Temos que inf X = 0 e supX = .
2
6. Seja X = {2, 4, 6, 8, · · · }.
Temos:
inf X = 2.
Como X não é limitado superiormente, X não possui supremo.

Acima vimos exemplos de alguns conjuntos cujo supremo e/ou ínfímo


não pertenciam ao conjunto. Porém em todos os exemplos, o supremo
e o infímo eram números racionais.
Você pode se perguntar se este comportamento se repete para todo
subconjunto limitado de números racionais, ou seja, se todo subconjunto
limitado de números racionais possuí supremo (ou ínfimo) em Q.
A resposta a pergunta acima é negativa. Existem subconjuntos li-
mitados de números racionais cujo supremo não é um número racional.
Para provar esta afirmação, precisamos primeiro da proposição
√ abaixo,
que já foi
√ demonstrada, pois é a demonstração de que 2 não é racional,
isto é, 2 é irracional.
Proposição 10.14. Não existe um número racional p tal que p2 = 2.
Proposição 10.15. Sejam

X = x ∈ Q tais que x > 0 e x2 < 2




Y = y ∈ Q tais que y > 0 e y 2 > 2



Análise I

Não existe supX em Q e não existe inf Y em Q.

88
Demonstração:
Vamos fazer esta demonstração em etapas.
1. O conjunto X não possui elemento máximo.
Seja x um elemento qualquer de X. Vamos mostrar que existe
em X um outro elemento maior que x. Consideremos o número
racional:
2 − x2
2x + 1
Como x ∈ X, 2 − x2 > 0 e x > 0. Portanto 2x + 1 > 0 e, dessa
forma,
2 − x2
> 0.
2x + 1
2 − x2
Tomamos um número r ∈ Q tal que r < 1 e 0 < r < .
2x + 1
A existência desse número racional r é garantida pela Proposição
10.8
Provemos que x + r ∈ X.
Temos, (x + r) > 0. Além disso,

0 < r < 1 ⇒ r2 < r (10.1)

2 − x2
0<r< ⇒ r(2x + 1) < 2 − x2 (10.2)
2x + 1
Usando as relações 10.1 e 10.2, temos

(x + r)2 = x2 + 2rx + r2 < x2 + 2rx + r


= x2 + r(2x + 1) < x2 + 2 − x2 = 2

Portanto, (x + r)2 < 2 e, dessa forma, x + r ∈ X. Concluímos que


X não possui elemento máximo..
2. O conjunto Y não possui elemento mínimo. (Exercício)
3. Se x ∈ X e y ∈ Y , então x < y. Sejam x ∈ X e y ∈ Y . Temos,

 x > 0 e 0 < x2 < 2
 y>0 e y 2 > 2.
Análise I

Portanto, 0 < x2 < 2 < y 2 ou 0 < x2 < y 2 . Como x > 0 e y > 0,


segue que x < y.

89
4. supX ∈/ Q. Vamos usar os resultados obtidos nas 3 etapas anteri-
ores.
Suponhamos que existe b = supX em Q. Então:

i) b > 0.
ii) b não satisfaz b2 < 2. De fato, como X não tem elemento
máximo (provamos na etapa 1), b ∈
/ X.
iii) b não satisfaz b2 > 2.
De fato, vamos supor que b2 > 2. Temos então que b ∈ Y .
Usando a etapa 2, segue que ∃a ∈ Y tal que a < b (Y não
tem elemento mínimo).
Utilizando o resultado obtido na Etapa 3, concluímos que
∀x ∈ X, x < a < b.
Portanto, b não é a menor cota superior de X, ou seja, b não
é o supremo de X, o que é uma contradição.

Por (ii) e (iii) temos que:


Se existir b = supX, então b2 = 2. Pela Proposição 10.14, sabemos
que não existe b ∈ Q tal que b2 = 2. Logo, não existe supX em Q.

Comprovamos, assim, que existem conjuntos de números racionais


que não possuem supremo em Q. Existem lacunas em Q. Você pode
ser perguntar, intuitivamente falando, se as lacunas de Q podem ser
completadas. A resposta é afirmativa, e o conjunto que contém Q, e
completa suas lacunas, é o conjunto dos números reais. Temos o seguinte
axioma:

Axioma 10.16. Em R todo subconjunto não vazio, limitado superior-


mente, possui supremo.
Observação 10.17. O Axioma acima implica que em R todo subcon-
junto limitado inferiormente possui ínfimo.

Observação 10.18. Existe√em R um número p tal que p2 = 2. Este


número é representado por 2 e é um número irracional.
O conjunto dos números irracionais é definido como o complementar
de Q em R, e é denotado por R − Q.
Vimos anteriormente que Q é um conjunto enumerável e que R é não
enumerável. Como a união de dois conjuntos enumeráveis é um conjunto
enumerável, concluímos que R − Q é não enumerável. √ √
Análise I

Entre os números irracionais mais conhecidos estão 2, 3, π e o


número neperiano e.

90
Você saberia listar 10 números irracionais que são maiores que 500?
É fácil, pois se x é um número racional e y um número irracional
então o produto de x por y é irracional.
Assim, podemos listar facilmente
√ √os 10 números
√ pedidos. Por exem-
plo, poderíamos tomar: 500 2, 501 2, · · · , 509 2.
Vamos finalizar o Capítulo enunciando um teorema muito impor-
tante, onde usamos fortemente os conceitos de supremo e ínfimo vistos
acima.
Proposição 10.19. (Princípio dos Intervalos Encaixados) Seja I1 ⊃
I2 ⊃ · · · ⊃ In ⊃ · · · uma sequência decrescente de intervalos fechados e
limitados, In = [an , bn ]. Então,

\
In 6= ∅,
n=1

isto é, existe pelo menos um número real x tal que x ∈ In , ∀n. Mais
precisamos, temos:

\
In = [a, b],
n=1

onde 
 a= sup {a1 , a2 , · · · , an , · · · }
 b= inf {b1 , b2 , · · · , bn , · · · }

Demonstração: Como I1 ⊃ I2 ⊃ · · · , temos que

a1 ≤ a2 ≤ · · · ≤ an ≤ an+1 ≤ · · ·

e
b1 ≥ b2 ≥ · · · ≥ bn ≥ bn+1 ≥ · · · .
Além disso, am ≤ bn , ∀m, n.
Logo, cada bn é uma cota superior do conjunto A = {a1 , a2 , · · · , an , · · · }
e cada am é uma cota inferior do conjunto B = {b1 , b2 , · · · , bn , · · · }.
Existem, então, a = supA e b = inf B em R.
Como a = supA, segue que am ≤ a, ∀m.
Como todo bn é uma cota superior de A,

a ≤ bn , ∀n.

Temos, então,

an ≤ a ≤ bn , ∀n.
Análise I

91
ou seja,

\
a∈ [an , bn ].
n=1

Exemplo 10.20. Verifique o príncipio dos intervalos encaixados para a


família de intervalos  
−1 1
In = , .
n n
Temos,
I1 = [−1, 1] .
 
−1 1
I2 = , .
2 2
···
 
−1 1
In = , .
n n
···
Os intervalos da família dada são fechados e limitados e satisfazem:

I1 ⊃ I2 ⊃ · · · ⊃ In ⊃ · · ·

Logo, todas as hipóteses da Proposição 10.19 são verificadas. Além disso,


temos que
an < 0, ∀n e bn > 0, ∀n.

\
Logo, 0 ∈ In , ∀n e, assim, 0 ∈ In .
n=1
Finalmente, é interessante constatar que
 
1 1 1
sup {a1 , a2 , · · · , an , · · · } = sup −1, − , − , · · · , − , · · · = 0
2 3 n
e  
1 1 1
inf {b1 , b2 , · · · , bn , · · · } = sup 1, , , · · · , , · · · = 0
2 3 n

\
Portanto, In = [0, 0] = 0.
n=1
Análise I

92
Exercícios Propostos

1. Mostre que X é um conjunto infinito se, e somente se, X


pode ser colocado em correspondência biunívuca com um
subconjunto próprio dele mesmo, isto é, se, e somente se,
existe uma bijeção entre X e um subconjunto próprio dele
mesmo.

2. Mostre que a união de 2 conjuntos disjuntos enumeráveis é


enumerável.
3. Dê 2 exemplos de conjuntos de números racionais que:
(a) Não possuem supremo em Q.
(b) Não possuem ínfimo em Q.
(c) Não possuem supremo nem ínfimo em Q.
4. Identifique se são verdadeiras ou falsas as afirmações que
seguem, justificando as suas respostas.
(a) Se X é um conjunto finito, o ínfimo de X e o su-
premo de X pertencem a X.
(b) Se um conjunto X tem supremo então ele admite
infinitas cotas superiores.
(c) O ínfimo de um conjunto limitado de números irra-
cionais é um irracional.
(d) Qualquer subconjunto ilimitado de números racio-
nais é denso em R.
5. Mostre que no Princípio dos Intervalos Encaixados não po-
demos retirar as hipóteses
(a) os intervalos são limitados.
(b) os intervalos são fechados.
Análise I

93