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RISANDA DOS REIS SOARES

SÃO VICENTE DE CABO VERDE NO


PÓS-GUERRA (1945-1960)

Orientador: Doutor Maciel Santos, Professor Catedrático

UNIVERSIDADE DO PORTO - FACULDADES DE LETRAS

Porto

2009

I
RISANDA DOS REIS SOARES

SÃO VICENTE DE CABO VERDE


NO PÓS GUERRA (1945-1960)

Dissertação apresentada para a obtenção do


Grau de Mestre em Estudos Africanos – área
histórica no curso de mestrado em Estudos
Africanos, conferido pela Universidade do
Porto

Orientador: Doutor Maciel Santos, Professor Catedrático

UNIVERSIDADE DO PORTO - FACULDADES DE LETRAS

Porto

2009

II
Agradecimentos

À Universidade do Porto – Faculdade de Letras, pela iniciativa e por acreditar na


realização de mais um Mestrado em Cabo Verde, bem como aos docentes por todo essa
aprendizagem, pela força e pelas palavras de incentivo.

Um agradecimento especial para o meu orientador Professor Doutor Maciel Santos a


todo o apoio dado na materialização desse trabalho.

Ao Msc. Isidoro Costa pela sua pronta disponibilidade, apoio e palavras de incentivo.

A todas as outras pessoas que tiveram a paciência de me ouvir e pelos sábios


conselhos/contributos que muito ajudaram para melhorar o resultado desse trabalho.

E os últimos, mas sempre os primeiros, a minha família em especial aos meus pais:
Antónia Soares e Jorge Soares por toda a dedicação, confiança, apoio, incentivo e o
esforço que sempre fizeram para que seus filhos tivessem a formação e oportunidades
que eles não foram possível ter.

III
“Para começar um grande projecto é preciso valentia.
Para terminar um grande projecto é preciso perseverança.”
Autor desconhecido

Dedicatória

Dedico este trabalho aos meus pais: Jorge e Antónia

IV
Resumo

A ilha de São Vicente foi socialmente a mais recente do arquipélago, devendo o seu
desenvolvimento ao impulso da revolução industrial europeia e a presença inglesa, com
a implementação das companhias de carvão.

Com o decréscimo do movimento das embarcações e as crises agrícolas que ocorreram


nos anos quarenta a ilha ficou numa situação bastante difícil tendo-se solicitado a
metrópole vários apoios que seriam empregues na realização de obras. No entanto as
respostas tardias fizeram com que muitas pessoas saíssem a procura de sustento para as
suas famílias, dirigindo a emigração para o exterior nomeadamente para a colónia de S.
Tomé, na condição de contratados. A maior parte dos que ficaram não resistiram e
fizeram aumentar o número de mortalidade na ilha.

Nesse contexto do pós-guerra assiste-se ao aprofundar da crise em São Vicente, que


somente viria a conhecer sinais de melhorias a partir dos anos cinquenta do século XX,
altura que a produção agrícola em Cabo Verde melhora bastante de vido as chuvas e
paralelamente começam a chegar ajuda financeira a metrópole através dos Planos de
Fomento, destinados ao desenvolvimento económico da metrópole e das colónias.

Face a essa conjuntura manifesta-se a vontade de muitos entusiastas a favor da


atribuição á Cabo Verde do estatuto de colónia adjacente, como forma da metrópole
assumir com mais eficácia e prontidão os problemas da colónia. No entanto, após
muitas discussões nada foi feito até a independência da colónia.

De forma a enriquecer melhor o trabalho recorreu-se a análise de composições antigas


que retratam a vivência social da ilha, evidenciando todos os pontos importantes do
trabalho que ora se apresenta.

Palavras-chaves: Colónia, São Vicente, II Guerra Mundial

V
Abstract

From the historical and social point of view, São Vicente island is the last to be settled
in the Archipelago of Cape Verde. Its development in the 19th century is closely related
the Europeand Industrial Revolution and the British presence on the island, especially
due to the establishing of coaling companies.

With the decline of the port movement and frequent agricultural crises in the 1940’s, the
island fell into a deep economical depression. Several times, help and investments in the
port infrastructure were solicited from Portugal. However, insufficient and late response
of metropolis caused massive emigration of contracted laborers, especially to the colony
of São Tomé. Many out of those who stayed on São Vicente perished.

This profound economical crisis on São Vicente is only to be attenuated in the 1950’,
due to more abundant rainy seasons and financial help through Planos de Fomento
which goal is to boost economical development of the colonies.

In this more favorable context, there is a growing movement in favor of the attribution
to Cape Verde of a status of ‘adjacent colony’ as a way to make Portugal assume more
efficiently and rapidly the main problems of the colony. However, after a lot of debates,
nothing is done till the independence of the colony in 1975.

In order to enrich this thesis, I have analyzed lyrics of songs that depict the social life on
the island in order to better illustrate all the main points of the present work.

Key-words: colony, São Vicente, 2 World War

VI
Índice de Quadros

Quadro n.º 1 – Evolução da população de São Vicente (1807 a 1832)……...…………8


Quadro n.º 2 – Aprovação de Contas do Concelho de São Vicente 1946……...……..33
Quadro n.º 3 – Saldos das contas de exercício (1931/32-1947) ………………………34
Quadro n.º 4 – Aprovação de Contas – 1947 …………………………………………35
Quadro n.º5 – Investimentos em Cabo Verde – 1958 …………………………….......40
Quadro n.º 6 – Unidades Industriais em São Vicente (1946-1949) …………………..41
Quadro n.º 7 – Principais produtos exportados de Cabo Verde (1951-52) ……..….…42
Quadro n.º 8 – Distribuição verbas para as colónias de Cabo Verde – 1949 …………44
Quadro n.º 9 – Carga carregada segundo a nacionalidade das embarcações – 1947 a
1951 ……………………………………………………………………………………49
Quadro n.º 10 – Relações dos investimentos dos contratados nas diferentes colónias..59
Quadro n.º 11 – Emigração, Imigração e Retornados (1906 a 1973) …………….…..62
Quadro n.º 12 – Emigração Geral segundo as ilhas de precedência – 1945 a 1960 ….63
Quadro n.º 13 – Total dos nascimentos e Óbitos no concelho de São Vicente – 1945 a
1952 …………………………………………………………………………...……….65
Quadro n.º 14 – Eleições para deputados á Assembleia pelo círculo de Cabo Verde
(1949 a 1957) …………………………………………………………………….…….74
Quadro n.º 15 – Eleições para Presidente da República (1949 a 1958) ………………75

VII
Índice de Gráficos

Gráfico n.º 1 – Movimentos das embarcações – 1947 a 1951 …………………..…….48


Gráfico n.º 2 – Carga descarregada segundo a nacionalidade – 1947 a 1951 ………...48
Gráfico n.º 3 – Total de Nascimentos e Óbitos no Concelho de São Vicente – 1945 a
1952 ………………………………………………………………...………………….65

Índice de Figuras

Figura n.º 1 – Ilha de S. Vicente – 1945 ……………..……………………………….15


Figura n.º 2 – chegada do 1º Corpo de tropas expedicionárias portuguesas á Mindelo –
1942 ……………………………………………………………………………………24
Figura n.º 3 – Grupo do pessoal médico do Hospital Militar …………………………27
Figura n.º 4 – N/M Serpa Pinto trazendo o 1º corpo de tropas expedicionárias á
Mindelo ……………………………………………………………………..………….28
Figura n.º 5 – Interior do Mercado de Verduras – Mindelo – 1943 …………..………36
Figura n.º 6 – Consultório Hospital de Mindelo – 1943 ……………...…………...….47
Figura n.º 7 – Esquadra Britânica no porto de Mindelo - 1948 ………………..…….67

VIII
Índice Geral

I - Introdução ………………………………………………………………………..………… 1

II – A ilha de São Vicente e a chegada dos ingleses .…………..…………………..…………..4

1 – A política colonial portuguesa a partir dos anos 30. …………….………………….…16

2 – A questão do rearmamento das colónias e suas precursões na ilha de São Vicente …..23

III – A situação sócio-económica da ilha de São Vicente .....…………………………………29

1- O movimento das embarcações e das mercadorias em Cabo Verde .……………...….48

2- Movimentos Associativos de Assistência e de Classe ………………………………. 51

3 – O problema da adjacência ……………………………………………………………53

IV – As consequências da crise…………………………………………………..…………....57

1- Emigração …………………………………………………………………………….57

2 – Mortalidade…. ………………………………………………………………...…….64

3 - Repercussões da Guerra na Cultura Mindelense ……………………………….……68

a) Comportamento Eleitorais…………………………………………………...……68

b) Reflexos Culturais …………………….……………………………….…………76

V – Conclusão …………………………………………………………………………...……82

VI – Fontes Documentais …………………………………………………………………......85

VII – Anexo ……………………………………………………………………………………X

IX
I – Introdução

O presente trabalho de investigação cujo objectivo é a obtenção do grau de mestre em


Estudos Africanos tem como tema: São Vicente de Cabo Verde no Pós-guerra (1945-
1960).

Para desenvolver a pesquisa pretende-se servir do espaço geográfico e social da ilha de


São Vicente, estabelecendo as balizas cronológicas entre 1945 e 1960. A partir do ano
de 1945 porque procura-se relatar até que ponto e como os efeitos do pós-guerra
fizeram-se sentir em Cabo Verde e mais especificamente em São Vicente, e até 1960
por ser um período de viragem na história dos países africanos, com os movimentos de
emancipação.

As motivações que determinaram a escolha da ilha de São Vicente prendem-se com


razões pragmáticas e afectivas. Trata-se do espaço onde vivemos e onde dispomos de
algumas condições materiais objectivas para levar a cabo este empreendimento.

São Vicente é socialmente a ilha mais recente do arquipélago. Não se enquadrando nos
paradigmas de ocupação quinhentistas, o espaço só viria a ter população humana com
carácter de permanência entre finais do século XVIII e início do século XIX. A ilha só
foi povoada graças ao eclodir da revolução industrial, à corrida imperialista na qual o
seu porto serviu de palco para as estratégias de ocupação da África ao sul do Sara e das
índias.

Sob o impulso industrial e imperialista dos países do norte, desenvolveu-se em São


Vicente uma urbe voltada para a prestação de serviços aos navios que passavam pelo
seu Porto rumo ao Atlântico Sul. A cidade do Mindelo desenvolvia, tornou-se um dos
mais importantes pólos de desenvolvimento do país e da colónia com o seu Porto
Grande. À margem da actividade portuária, desenvolveu uma sociedade activa e
dinâmica com todas as características que se costuma designar de “sociedade de
cidades-porto”.

1
No entanto, as inovações nas técnicas de navegação, a alteração nos combustíveis, o
desvio das rotas, são consideradas, entre outros, os factores que fizeram decair as
actividades em torno do Porto Grande e com elas a vivacidade da emergente sociedade
mindelense.

O arquipélago de Cabo Verde é caracterizado pela sua profunda vulnerabilidade face à


conjuntura mundial. As crises cíclicas, a escassez de recursos de vária ordem colocam
ao país sérios problemas de subsistência humana. Na ilha de São Vicente a situação é
agravada pela quase ausência absoluta de zonas irrigadas e com uma igualmente quase
absoluta escassez de chuva.

Neste sentido uma das medidas apoiadas pelo governo como forma de resolver a crise
foi a emigração, facilitando a saída para novos destinos nomeadamente para os países
da Europa.

O quadro traçado serve de pretexto para a análise da situação vivida pela sociedade
mindelense entre 1945 e 1960.

As repercussões da II Guerra Mundial são consideradas a priori, uma das grandes


causadoras do aprofundamento da crise vivida em São Vicente. Para além dos aspectos
estruturais e constantes, é de realçar o período das secas, designadamente a de 1946 a
1948 como outro factor que explica a estrutura da crise social em Mindelo.

A caracterização histórica - social do Mindelo nos anos imediatos ao pós-guerra obriga


a considerar várias dimensões, que determinam a articulação deste trabalho.
Assim, optou-se por seguir os pontos abaixo indicados:
 Contextualizar a ilha de São Vicente - onde se fez um levantamento histórico da
mesma, desde o povoamento até a vinda dos ingleses, nomeadamente os
condicionalismos da sua chegada, da sua vivência e do seu contributo para o
desenvolvimento de São Vicente nos diferentes sectores

2
 Analisar a situação política, económica e social – onde se fez uma ligação entre
todos esses sectores, uma vez que estão intrinsecamente ligados, com a
problemática em estudo
 Analisar as consequências dessa crise

A metodologia utilizada baseou-se essencialmente no recurso as fontes escritas, tendo


sido analisadas fontes primárias cabo-verdianas e portuguesas, daquilo que dispomos na
Câmara Municipal de São Vicente, do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde e dos
arquivos de algumas instituições públicas.
Recorreu-se ainda as fontes orais, tendo sido entrevistados duas pessoas que relataram a
sua vida e a vivência social em São Vicente e os seus contributos foram enquadrados no
trabalho.
No entanto reconhece-se que muitas coisas ficaram por aprofundar devido a
indisponibilidade de deslocar ao Arquivo Histórico Ultramarino e ao Arquivo do
Tombo. Lamentamos que o Arquivo Histórico de Cabo Verde tenha poucas
informações para pesquisas científicas e ainda o facto de não dispor de muitos
documentos.

3
II – A ilha de São Vicente e a chegada dos ingleses

Apesar de haver diversos debates e posições antagónicas em relação à descoberta das


ilhas de Cabo Verde, havendo historiadores que se posicionam na tese de que
anteriormente à chegada dos portugueses teriam aportado nessas ilhas, frotas de outras
nacionalidades, aceita-se a tese de que as ilhas de Cabo Verde foram descobertas em
Dezembro de 1460 (inicialmente cinco: Sal, Maio, Boavista, Santiago e Fogo) como
atesta a carta régia de 1460, redigida por D.Afonso V, indicando como autores desse
feito, António da Nola e Diogo Gomes (Albuquerque & Santos; 2001, vol.I:23 a 39).
Pouco tempo depois os colonos portugueses e escravos da costa ocidental africana
chegaram a Santiago e ao Fogo, dando assim início ao povoamento das ilhas de
Sotavento.

A Ilha de São Vicente somente viria a ser descoberta a 22 de Janeiro de 1462, tendo
sido doada ao Duque de Viseu, a título de dependência da Ilha de Santo Antão. Contudo
três séculos após o seu descobrimento a ilha ainda se encontrava desabitada.

A fraca presença e controlo do governo português na região norte do arquipélago de


Cabo Verde, ficou claramente demonstrada pelas incursões frequentes de muitos
estrangeiros. Nota-se o caso da presença constante de baleeiros americanos nos mares
de Barlavento, entre os meses de Novembro e Dezembro, altura em que cardumes de
baleia passavam por esta região, fugindo aos mares gélidos do rigoroso Inverno do
Atlântico setentrional (Silva, 2005:24-27).
“Alguns anos mais tarde o açoriano António Aniceto Ferreira, capitão-mor da ilha da
Boavista, regista o caso de uma embarcação americana, proveniente de Nantuket, que
tendo capturado cerca de 90 toneladas de baleia, derreteu parte delas dentro do
próprio Porto Grande de S. Vicente.” (Silva, 2005:27)

Umas vezes eventual outras de duração mais prolongada, holandeses e franceses


marcaram presença na ilha de São Vicente, antes da sua ocupação efectiva. Segundo
Correia e Silva (2005), os holandeses tiveram uma presença mais longa, cerca de quatro

4
meses, datada de 1629, altura em que a frota holandesa se dirigia para a conquista da
cidade de Olinda no Brasil.

Nessa altura São Vicente era um campo de pastagem com uma aldeia denominada de
Nossa Senhora da Luz, constituída por pastores e alguns pescadores das ilhas vizinhas
de Santo Antão e São Nicolau.

Assume-se pelos poucos dados existentes que a primeira proposta de povoamento tenha
partido de uma iniciativa privada em 1734, quando um senhor de nome João Távora
propôs ao governo português um contrato de concessão onde ficaria assegurado a
ocupação e a fortificação do porto da ilha, por um período de 10 anos, podendo em
contrapartida desfrutar-se de todos os rendimentos que a ilha produzisse.
No entanto o governo português, na pessoa do Governador Bento Gomes Coelho, não se
mostrou interessado na altura tendo o Távora voltado o seu interesse e se instalar no
Brasil. (Almeida, 2009:8)

Seria a partir de 1781, que a coroa portuguesa teria iniciado as tentativas de povoamento
da ilha e como forma de atrair ocupantes efectivos para a mesma, limitando desta forma
a presença dos moradores da ilha de São Nicolau, Santo Antão e dos estrangeiros, que
aportavam a ilha sem autorização do governo português. “Uma concretização do
Decreto [elaborado em 1781] foi o Ofício do Ministro Martinho de Mello, que a 19 de
Dezembro de 1788 ordenou ao Governador [de Cabo Verde] a adopção de todas as
providências para que se levasse a efeito o povoamento de S. Vicente” (Fundo […],
1984:5)

Apesar de essa tentativa ter fracassado, a partir dessa data torna-se imperativo para a
coroa portuguesa o povoamento da ilha, tendo-se seguido várias tentativas.

No ano de 1794 começam a ser enviados da metrópole condenados que deveriam


cumprir as suas penas na ilha de São Vicente: “[…] o iate Bom Sucesso vindo de Lisboa
transportava presos, géneros e ferramentas destinadas à ilha de São Vicente. Tendo-se
naufragado à entrada da cidade, os presos aproveitavam para fugir, embarcando em

5
navios estrangeiros, informou o Governador. Em Junho do mesmo ano chega outro iate
com presos que seriam transportados para «(…) as ilhas de barlavento que se reputam
de melhor clima (…) para dali passarem a povoar a ilha de S.Vicente, quando para
esse efeito se dirigirem as ordens necessárias (…)»” (Lopes, 2005:74)

Por ordem da carta régia de Julho de 1795 chegavam a ilha 20 casais e 50 escravos
vindos da ilha do Fogo e sob o comando de João Carlos da Fonseca Rosado, na altura
capitão-mór da referida ilha e pretendendo alargar as suas possessões interessa-se pelo
povoamento da ilha de São Vicente. Dois anos mais tarde chegariam mais colonos a ilha
do porto grande.
Rosado vai repartir as terras pelos colonos, e demarcas os terrenos da Câmara e ainda
determinar o perímetro da povoação. (Almeida, 2009:9)

No ano de 1797 o governador Marcelino António Bastos recebe ordens para proceder ao
povoamento da ilha pondo em prática o anteriormente estipulado na carta régia de 1795.
No final desse mesmo ano apresenta um relatório dando conta do estado das
sementeiras e as despesas efectuadas no transporte, compra de mantimentos e outros,
para além da chegada de presos vindo da metrópole. (Lopes, 2005:75)

Por sugestão do governador Marcelino António Bastos a povoação passa a ter o nome
de D. Rodrigo, em homenagem a D. Rodrigo de Sousa Coutinho antigo Ministro da
Marinha.

Muito embora se reconhecesse as boas condições que o Porto Grande oferecia, todas as
tentativas de povoamento conhecera o seu fracasso devido as condições naturais
adversas que a ilha apresentava (calamidades naturais), que provocavam a morte e
fomes da pouca população que aí se estabelecia.

O empreendimento de João Carlos do Rosado fracassou em 1814, devido a grandes


dificuldades causadas pelos períodos de seca e consequentemente a população não tinha
como sobreviver. Seguiu-se ainda o Inácio de Melo que após ter exposto ao Governador

6
Geral a situação da ilha solicita autorização para administrar a ilha e apoio urgente as
poucas pessoas ainda estavam na ilha. (Lopes, 2005:76)

Em 1819 segue-se mais uma tentativa de povoamento, desta vez sob a iniciativa do
então Governador António Pusich, levou para a ilha 56 famílias pretendendo reforçar a
ideia de que São Vicente poderia ter as condições para ser a capital do país, numa altura
onde o governo da capital do país sediada na Praia viajava frequentemente para São
Vicente, fugindo as más condições climáticas sazonais da capital do país.
Pusich altera o nome da povoação e passa a ser designado de Povoação D. Leopoldina
em homenagem a imperatriz Maria Leopoldina da Áustria, esposa de D. Pedro IV.

No entanto 3 anos depois Pusich vê falhado a sua tentativa de povoamento não obstante
as várias “injecções” de fundos como forma de manter a povoação na ilha. (in Cabo
Verde - Boletim de Propaganda e Informação, Ano V, nº 62, 1 de Novembro de 1954)

Como forma de incentivar o povoamento estabelece-se uma nova legislação em 1834,


concedendo benefícios nomeadamente a concessão gratuita de terrenos por aforamento
e isentos de dízimos durante 10 anos, mas em contrapartida o concessionário deveria
construir alguns edifícios administrativos essenciais a dinamização e efectivação do
povoamento da ilha e também erigir uma igreja, para além de outras regalias. (Lopes,
2005:78)

Até o ano quarenta do século XIX a população da ilha de São Vicente não chegava ao
meio milhar, conforme nos elucida o quadro n.º 1, demonstrativo dos fracassos dos
empreendimentos para a construção da mais nova cidade do arquipélago. De 1807 a
1827 a população cresceu no total de 5 pessoas, para nos 5 anos seguintes crescer para
mais 95 pessoas. Esta análise deve ser considerada tendo em conta as permanências e
saídas quando as condições de sobrevivência na ilha mostravam-se intransponíveis.

7
1
Quadro n.º1 – Evolução da População em São Vicente de 1807 a 1832
ANO Nº População
1807 200
1827 205
1832 300

Apesar do decreto ministerial de 1838 estabelecer que o governo da metrópole deveria


mudar para a ilha de São Vicente, tal nunca efectivamente aconteceu devido as
resistências dos habitantes da Santiago em aceitar tal decreto2. (Almeida, 2009:12)

Vinte anos depois, por decreto régio, reforça-se as medidas de povoamento, altura onde
o povoamento ainda não tinha conhecido os objectivos desejados, inclusive o
estabelecimento de residências de acolhimento dos comerciantes e o fraco número de
pessoas com residência efectiva, cenário que iria mudar no final do século XX.

No processo de colonização e desenvolvimento da ilha de São Vicente estiveram


presentes duas grandes influências externas: a Britânica e a Portuguesa.
No entanto, esta última seria durante muito tempo inexpressivo. As autoridades
portuguesas mostraram-se incapazes de proteger esta ilha da presença de piratas e
corsários e optaram por deixar a ilha nas mãos dos investimentos e presença inglesa,
como a seguir se descreve.

Nos finais do séc. XVIII a Revolução Industrial na Inglaterra conhece um novo


dinamismo que fez acelerar a sua produção industrial. O desenvolvimento técnico,

1
Demografia Cabo-verdiana: subsídios para o seu estudo, Praia, Instituto Caboverdiano do Livro, Praia,
1985
2
A 11 de Junho de 1838 publicou-se o decreto-lei que determinou que: “A cidade do Mindelo será a
capital das ilhas de Cabo-Verde, e como tal residirá nella o respectivo Governador Geral e as principais
autoridades desta província.” Esta decisão deveu-se ao facto de na altura, a ilha de São Vicente
apresentar melhores condições de vida do que a ilha de Santiago: “Causando gravíssimo prejuízo e
transtorno à Administração publica da Província de Cabo Verde o retirarem-se em certos mezes do anno
as principais Authoridades da Ilha de S. Thiago, aonde presentemente se acha fixada a Sede d´aquelle
Governo, para se subtrahirem às moléstias que periodicamente se desenvolvem na mesma ilha, […] e por
existir felizmente n´aquelle archipelago uma outra ilha, a de S.Vicente, que gosa de melhor clima e de
outras vantagens, entre as quaes merece attenção o possuir um porto dos mais espaçosos e seguros da
Monarchia: Hei por bem determinar que as principaes Authoridades do Governo Geral de Cabo Verde
assentem residência permanente na sobredita ilha de S.Vicente.

8
aliado à necessidade de aumentar o mercado comercial para a venda dos produtos
ingleses e de trazer matérias-primas das colónias, ocasionou a revolução no sector dos
transportes, entrando o navio a vapor nos mercados do mundo.
Esse novo meio de transporte, acarretava uma frequente manutenção e abastecimento.
Desta forma era necessária a criação de postos de abastecimento em locais estratégicos
e de fácil acesso, permitindo que os barcos tivessem mais espaço para as cargas
comerciais.

É neste contexto que os Ingleses começam a demonstrar o seu interesse meramente


comercial pela ilha de São Vicente. No primeiro quartel do século XIX, com total
permissão do governo português, enviaram hidrógrafos para fazerem um estudo mais
preciso das condições do porto de São Vicente. Em 1819, chegaram a ilha os
hidrógrafos Vidal e Mugde. Quase vinte anos depois, os ingleses conseguiriam a licença
para instalarem um depósito flutuante de carvão de pedra no porto do Mindelo, tendo
tido pouca duração. Seria nos finais dos anos trinta, que os ingleses iriam concentrar os
seus esforços no desenvolvimento do porto de São Vicente, aumentando
consideravelmente o fluxo de navios à ilha (Fundo […], 1984:6).

O interesse dos ingleses ficou somente pela ilha de São Vicente, devido às boas
condições geográfica e portuária, que não encontraram em nenhuma outra ilha deste
arquipélago, passando a servir de entreposto comercial e serviço postal entre Inglaterra,
América do Sul, África e Ásia.

A efectivação dessa presença inglesa na Ilha de São Vicente, teve início em 1838, altura
em que o Cônsul, Mr. John Rendall instalou na ilha a 1ª companhia inglesa, a East
India, criando assim o primeiro depósito de carvão e a instalação efectiva dos ingleses.
Nesta mesma altura, o Marquês de Sá da Bandeira decretou que a povoação na baía do
Porto Grande adoptasse o nome de Mindelo, em memória do desembarque do exército
liberal expedicionário de D. Pedro IV nas praias perto da localidade do Mindelo em
Portugal. Dava-se assim, início a construção da futura cidade de Cabo Verde. (Fundo
[…], 1984:13 & Ramos, 2003:91)

9
No entanto, em 1836 já havia interesses por parte dos Ingleses em desfrutar da situação
privilegiada da baia. O inglês John Lewis visitou a ilha com o objectivo de avaliar as
condições do porto para servir de escala aos navios da inglesa Companhia das Índias
Inglesas, proposta que foi recusada pela coroa portuguesa.

A carvoeira East India teria uma presença passageira no Mindelo. Porém, em 1850 a
companhia Royal Mail Steam Packet inicia a instalação de depósitos de carvão para
abastecimento dos barcos que passavam rumo ao Atlântico Sul. Neste sentido viu-se
necessário criar infra-estruturas que apoia-se esse comércio tendo sido construída a
alfândega da ilha.

No ano seguinte, a companhia inglesa Visger & Miller`s instala novo depósito de
carvão de pedra. Patent Fuel, Thomas & Miller, MacLoud & Martin, Companhia de
St.Vincent de Cabo Verde, a Wilson & Sons Cª LTD e a Cory Brothers são outras
empresas carvoeiras em actividade nessa época. (Silva, 2005:103)

O grande fluxo de navios no porto representava grandes oportunidades de emprego.


Esta actividade provocou um rápido aumento da população vinda de quase todas as
ilhas do arquipélago, principalmente homens. Isto numa 1ª fase, uma vez que depois se
passou a admitir as mulheres nos trabalhos portuários. “À medida que a cidade – porto
vai vingando, a imigração tende a deixar de ser masculina e individual, para se tornar
bissexual e familiar.” (Correia e Silva, 2005: 120).

Esses trabalhadores eram denominados de: estivadores, catraeiros, mergulhadores, etc.,


que trabalhavam tanto nas instalações carvoeiras, como no porto.

A ilha de São Vicente, torna-se inevitavelmente um atractivo, uma nova esperança para
as pessoas das outras ilhas, nomeadamente camponeses das ilhas de Santo Antão e São
Nicolau que viam no Porto Grande uma oportunidade de fugirem às secas cíclicas que
assolavam as ilhas rurais causando terríveis ‘crises de fome’ e de conhecerem um
mundo novo que era a cosmopolita e movimentada Mindelo (Silva, 2005:112).

No entanto a ilha encontrava-se juridicamente sob a dependência da ilha de Santo


Antão, facto que começava a trazer alguns problemas, devido a dinâmica que essa

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cidade do Mindelo havia conhecido nessa altura e o facto das comunicações entre as
ilhas serem deficientes, não obstante a proximidade das mesmas. Torna-se imperativo
constituir um governo local e ainda algumas instituições importantes a nova dinâmica
que o porto e a ilha tinham adquirido, nomeadamente a instituição de uma alfândega de
categoria de despacho maior, devido a afluência em número sempre crescente dos
navios que aportavam a ilha.3 (Lopes, 2005:80)

Em Março de 1852, após visita do Governador-geral de Cabo Verde a ilha, foram


tomadas algumas deliberações, nomeadamente a criação de uma Comissão Municipal,
formada por 5 (cinco) membros: o juiz ordinário, juiz de paz, e escrivães, com todas as
atribuições e obrigações de uma Câmara Municipal, mas que somente seria efectivada a
substituição da denominação de Comissão para Câmara em 1879, recebendo também o
estatuto de cidade.
A ilha de São Vicente estava formalmente desligada das dependências da ilha de Santo
Antão. (Idem:81)

A prosperidade dessa população em franco crescimento seria abalada em 1852, ano em


que a ilha de São Vicente é desgraçada pela peste amarela e estima-se uma redução de
quase metade da população dos 1400 habitantes existentes na ilha. No entanto passada o
perigo dessa doença, Mindelo volta a reanimar-se e a sua população aumenta com o
contributo da emigração das outras ilhas. (Almeida, 2009:16-17)

Em 1879, dos 3717 habitantes da Ilha, 3497 eram naturais de Cabo Verde, (inclui-se
aqui os imigrantes das outras ilhas) e dos 114 estrangeiros, 86 eram britânicos, mas até a
viragem desse século este número atingiu uma centena. Havia em São Vicente mais
estrangeiros do que naturais de Portugal. (Fundo […], 1984:33).

3
Outras medidas administrativas começaram a ser tomadas, nomeadamente “o estabelecimento de uma
botica [farmácia] por conta do governo; a designação de um facultativo para fazer visitas aos navios e
outros serviços; a transferência das funções de chefes das alfândegas do circuito norte, que eram
desempenhadas pelo chefe da Boavista, para o de S.Vicente; a criação de uma comissão denominada do
“Bem Comum e Melhoramento da Agricultura” para responder as solicitações de distribuição de
terrenos e fazer desenvolver a agricultura; a nomeação de um Patrão-Mor para o policiamento do porto;
a proibição de construção de casas fora dos “alinhamentos necessários”

11
Apesar dos ingleses serem pessoas muito reservadas vivendo isolados do povo, pois não
permitiam que os nacionais se aproximassem do seu meio social (exemplo: criação dos
grandes salões de bailes privados, edificação de uma igreja própria, etc); havia sempre
nacionais (cicerones), que os acompanhavam no seu dia-a-dia, como serventes ou
ajudantes, nomeadamente nas práticas desportivas (golfe, ténis, cricket, o footing
(atletismo), a natação, e o cross) para além dos contactos diários que mantinham com os
seus empregados domésticos e os trabalhadores das carvoeiras. Os ingleses eram
considerados a elite da terra. Como se referiu anteriormente, as relações de maior
proximidade com os naturais da ilha, verificavam-se mais a nível laboral.

O povo mindelense aprendeu com os ingleses, para além das bases linguísticas
necessários para o contacto e dessas práticas desportivas acima referidas, vários ofícios,
entre os quais: carpintaria, ferraria, serralharia electromecânica, electricidade,
contabilidade, serviços administrativos, entre outros.

De referir que o ensino dessas práticas acabou por impulsionar o desenvolvimento


económico da ilha, mas foram introduzidas como benefício próprio para os ingleses,
uma vez que a população vivia em condições miseráveis, enquanto faziam lucrar os
investimentos dos ingleses, sem qualquer intervenção por parte do governo português,
que preferia ficar a margem das actividades inglesas. (Silva, 2005:116-118).

De referir ainda que, a sociedade mindelense também herdou desses estrangeiros os


hábitos e costumes sociais, gastronómicos, morais e éticos. Os jovens do Mindelo, como
não podia deixar de ser, cedo começaram a imitar os ingleses em tudo quanto faziam,
desde a aprendizagem da língua até o modo de vestir e proceder. Eram muitos os
mindelenses que dominavam razoavelmente a língua, quer no falar, quer no escrever.
[…] Formas de procedimento que se enraizaram na sociedade mindelense, em todos os
níveis, chegando-se até ao exagero de alguns falarem o português deturpado, tal como
os ingleses faziam. (Matos, 16)

No ano de 1879 a ilha encontrava-se dotada de vários edifícios, tendo alguns sido
construídos por altura da criação da Comissão Municipal em 1852. Desses edifícios
destaca-se a Igreja (Nossa Senhora da Luz), a alfândega, um quartel (Fortim d´el Rei),
um palacete do governo, os Paços do Concelho (edifício Administrativo onde se situa a

12
actual Câmara Municipal, a cadeia civil, um mercado municipal, um armazém de
vendas a grosso da companhia Millers, que fornecia a população mindelense e as outras
ilhas, lojas de revenda, padarias, tabernas, talhos, casas fornecedores de refeições, três
hotéis, tendo também iniciado a construção outras infra-estruturas, obras de saneamento
e de embelezamento da cidade.

A nível da educação construíram escolas primárias para os dois sexos em separado. Foi
inaugurado a 10 de Junho de 1880 a escola Camões, destinada a formação feminina e a
constituição da primeira biblioteca pública, em homenagem ao tricentenário da morte
do escritor Camões e com abertura ao público quatro meses depois com mais de mil
volumes, adquiridos por donativos dos mindelenses. (Almeida, 2009:19)

Seria também neste mesmo ano lançado as bases para a construção do primeiro hospital
da ilha, para dois anos mais tarde ser a primeira ilha do arquipélago a dispor de água
canalizada, resolvendo um dos principais problemas que afectava a ilha.

Graças ao progresso económico que possibilitou o desenvolvimento da ilha, a vila do


Mindelo foi-lhe atribuído o estatuto de cidade nesse mesmo ano, cem anos depois do
início das diversas tentativas de povoamento.

Seguiu-se então a construção de mais edifícios públicos e com o crescimento


populacional começaram a alargar progressivamente as zonas habitacionais. No entanto
devidas as várias actividades do porto, uma área muito grande do centro da cidade foi
entregues as companhias carvoeiras para as construções de vários edifícios
administrativos ingleses, residenciais, salões de convívio, etc.

Nos finais da década de 80 do século XIX, verificou-se um crescimento considerável da


população, de 3717 pessoas em 1979 para os 6561 em 1889, mesmo considerando a
grande fome que assolou as ilhas de Cabo Verde nos anos de 1883 a 1885.

Este progressivo crescimento populacional, devido em parte pela grande entrada de


pessoas das outras ilhas, começou a preocupar a Administração da ilha, quando em
1890 verificou-se o primeiro decréscimo da navegação ao porto da ilha, tendo sido
chamada a atenção da metrópole sobre a situação vigente: No ano seguinte, em 1890,

13
começou no Porto Grande o primeiro grande decréscimo da navegação. Isso criou
imediatamente problemas. No mês de Maio começou «a sentir-se excesso de
trabalhadores, em consequência de muita gente que tem affluido de outras ilhas», e
calculava-se que logo que terminassem os trabalhos de canalização das águas do
«Norte», não seriam «sufficientes as obras particulares para ocupar os individuos que
procuram trabalho braçal?» (Fundo […], 1984:58)

Quatro anos mais tarde o porto volta a conhecer um relativo aumento da navegação,
continuando os anos seguintes com oscilações dos números de navios que aportavam a
ilha.

Paralelamente a essas crises a população continuava a crescer, expandindo-se cada vez


mais para o interior da ilha. A cidade do Mindelo entrava no século com um plano
urbanístico bem definido, tendo a Administração delimitando-se o limite físico do
centro da cidade das outras zonas mais periféricas e contava com uma população a
rondar os 7.000 habitantes.

De referir a implementação no ano de 1901 da Câmara Judicial com sede na cidade do


Mindelo e que abarcava os concelhos de São Vicente, São Nicolau, Sal e Boavista: Esta
decisão foi motivada pela urgente necessidade «de se facilitar uma profícua, prompta e
benefica administração de justiça», considerando que a ilha de S.Vicente, com uma
população de cerca de 7000 pessoas, era «a mais concorrida por europeus e
frequentada pela navegação inter-oceanica» e contribuída «com mais que metade da
receita pública da província, sendo a sua capital, a cidade de Mindello, a mais
importante do arquipélago, tanto em população, como em comércio. (Fundo […],
1984:62).

Apesar de haver uma tendência geral do senso comum de verem este período da
chegada dos ingleses, 1830 até princípios do século 20 como um período de grande
prosperidade na cidade do Mindelo, não corresponde a realidade uma vez que a
população vivia em condições precárias em habitações com pouca ventilação, com
salários muito baixos e sem o mínimo de condições de higiene. Apesar de os trabalhos
do caís oferecer meios de trabalhos a população, trazia por outro lado problemas de

14
saúde aliados aos trabalhos do carregamento do carvão sem protecção que provocava
graves problemas respiratórias.

Como qualquer outra cidade-porto a prostituição torna-se um meio de subsistência da


classe pobre e em São Vicente ganha tamanha proporção que as autoridades são
forçadas a tomarem medidas severas de controlo, devido a propagação de doenças
venéreas que assolavam a população, sendo que passaram a limitar as zonas onde se
pudessem fazer tal actividade e impor a fiscalização sanitária periódica de forma
obrigatória.

Esta situação agravou-se ainda mais principalmente com a entrada e permanência do


numeroso contingente de tropas expedicionárias na ilha, por um período de quase 6
anos, uma vez que não havia controlo por parte das unidades sanitárias, acabando por
serem também veículos transmissores de doenças sexualmente transmissíveis.

Seria esse o cenário socioeconómico, que retrata a difícil vida mindelense, a permanecer
até aos anos quarenta do século XX em estudo, como veremos mais adiante, não
obstante todas as tentativas da Câmara em ajudar a população e as várias notas enviados
ao governo solicitando ajuda a ilha de São Vicente, tendo sido realizadas as primeiras
manifestações na ilha declaradamente contra o governo português.

Trata-se de um período marcado claramente pela decadência do porto e por


arrastamento o profundo mergulhar na crise da população.

Figura n.º 1 - Ilha de São Vicente - 1945

Autor: Foto Melo

15
1 - A Política Colonial Portuguesa a partir dos anos 30

A tentativa de mudança desse cenário acima referido, caracterizado pelo completo


domínio da presença estrangeira, acontece com a mudança do regime político português
em 1926, a implantação do Estado Novo. Seria no entanto em 1930, que Oliveira
Salazar procura mudar este cenário atribuindo um novo estatuto as colónias com a
publicação do Acto Colonial – o Decreto n.º 18570, de 08 de Julho. Foi o primeiro
documento constitucional a ser publicado e comportava quatro capítulos: o I refere-se as
garantias gerais, o II refere-se ao “indígena”, o III sobre o regime político e o IV refere-
se as garantias económicas e financeiras. O Acto Colonial traduzia-se na tentativa de
centralização do poder concentrada no Ministro das colónias, em detrimento da acção
da Assembleia Nacional e das estruturas administrativas das colónias.4

No que se refere a estrutura ideológica imperial durante o Estado Novo, podemos


distinguir três fases: a primeira inicia-se no ano de 1926 a 1945 corresponde ao período
na qual a Europa assume o papel de civilizar as regiões colonizadas, numa clara posição
de superioridade civilizacional; a segunda decorre do ano de 1945 até o ano de 1960
altura onde a ONU reconhece o direito de autonomia aos povos colonizados e também
ano que se inicia as reivindicações á autodeterminação das colónias africanas
portuguesas e a terceira inicia-se em 1960 e prolonga-se até ao fim do Estado Novo,
altura marcada por rebeliões armadas nas então colónias de Angola, Moçambique e
Guiné.5

No que se refere a primeira fase e de forma resumida essa revisão reforça a função
integradora do projecto colonial, insistindo na missão imperial como a expressão de um
ideal colectivo baseado num imperativo histórico e político. Nessa fase as colónias
deveriam servir como local de instalação e acolhimento do excedente populacional da
metrópole, para o escoamento de matérias-primas e ainda para como mercado para os
produtos europeus. Destaca-se nesse período alguns opositores dessa revisão
constitucional, entre os quais o general Norton de Matos, que se mostrou contra o

4
In, A Reformulação do conceito do Império – Diciopédia 2009 [DVD-ROM], Porto Editora, 2008
5
Idem

16
trabalho forçado nas colónias e a favor da igualdade social que permitisse aos nativos
das colónias desempenhar cargos de relevância na administração das mesmas.6

Em relação a segunda fase, esta fundamentava-se na ideologia de que as colónias


deveriam estar dotadas de estruturas industriais e ainda deveriam ser criadas
mecanismos legais que estabelecessem as relações comerciais entre as colónias e outras
nações estrangeiras. Por causa da pressão internacional os territórios ultramarinos
portugueses passam a ser designados de “províncias ultramarinas” que mais não eram
segundo as palavras de Oliveira Salazar: “o prolongamento natural e indispensável do
Ocidente”. No entanto manteve-se o “Estatuto do Indígena”.7

A terceira fase que compreende o período entre 1961 até 1974, tem-se uma reforma a
nível jurídico que revogaria o Estatuto do Indígena e procederia a outras reformas
profundas. Caracteriza-se ainda por um período de grande desenvolvimento económico
nas colónias de Angola e Moçambique. Verifica-se uma maior autonomia em relação as
colónias: liberalização da entrada de naturais da metrópole. Cria-se em 1961 o Espaço
Económico Português (EEP), procurando-se reforçar a unidade da nação, na qual se
preveria a implementação de um “mercado único”, na qual se estipulava a eliminação
das barreiras alfandegárias entre a metrópole e as colónias e ainda a criação de uma
moeda única. No entanto tais medidas não chegaram a efectivar-se, principalmente
porque entrou-se no período conturbada das guerras coloniais.8

Segundo Matoso este Decreto incorporado na Constituição em 1933, resumia os


princípios dos diplomas anteriores e apresenta novas directrizes nas quais deviam
sujeitar-se as colónias, apresentando um quadro jurídico-institucional geral orientada
pela nova política que se queria implementar nos territórios coloniais portugueses. De
entre essas novidades destaca-se o reforço da legitimação da soberania portuguesa sobre
as colónias (“função histórica e essencial de possuir, civilizar e colonizar domínios
ultramarinos”) e ainda restrições a presença e concessões comerciais estrangeiros e
privados nas colónias. No domínio político destaca-se a introdução do cargo de
Governador-Geral em substituição dos Altos-Comissários, com reduzidos poderes de

6
Idem
7
Idem
8
Idem

17
jurídicos e administrativos e ainda o fim da autonomia financeira de que disponham as
colónias, devendo estas estar, para além de outras restrições, proibidas de contrair
empréstimos com estrangeiros. (Matoso, 1998: 253 e 254).

A constituição elaborada para o Estado Novo e referindo-se ao artigo 146º legalizava o


trabalho forçado nas colónias, muito embora limitando-o aos trabalhos nos serviços
públicos: “O Estado não pode forçar os indígenas a trabalhar senão nos serviços
públicos de interesse geral para a colectividade, em ocupações em que os benefícios
lhes digam respeito, na execução de decisões judiciais de carácter geral, ou para a
execução de obrigações fiscais.”

A questão colonial ganha nesse período uma importância excepcional nunca vista
tendo-se inclusivamente surgido algumas conferências e exposições com o tema central
a questão colonial: em 1 de Junho realiza-se a Conferência Imperial Colonial; em 1934
realiza-se a I Exposição Colonial e reúne-se o I Congresso de Intercâmbio Comercial
com as Colónia na cidade do Porto, para além de outras conferências que decorreram
nas próprias colónias. (Idem:254)

A nível económico essa revisão constitucional estipulou como grandes linhas de acções
que deveriam dar o impulso necessário a economia colonial de entre elas: as barreiras
alfandegárias que regulavam a entrada de produtos estrangeiros concorrentes aos
produtos portugueses e concessão de benefícios na percentagem mínima de 50% dos
direitos as mercadorias produzidas na metrópole.

A 8 de Junho de 1936 realiza-se a I Conferência Económica do Império Colonial, entre


os quais foi discutida a questão do excesso da população em Portugal, que poderia ser
aliviada com o envio de pessoas para as colónias, para além de se instituir que a função
das colónias deveria ser a de produção de matérias-primas, destinadas a metrópole que
depois deveriam ser transformados em manufactoras que em troca, seguiriam para
consumo nas colónias. (Almeida, 1979:229)

18
Realce para esse mesmo ano, a 29 de Outubro, a criação do Campo de Concentração de
Cabo Verde9, no Tarrafal - ilha de Santiago, que serviria de prisão para os condenados e
presos políticos, que conheceria o primeiro encerramento provisório em1946, ano em
que se estipula que tenham morrido mais de trinta democratas. No entanto seria reaberto
em 1949 por altura das primeiras eleições “livres” em Portugal no Estado Novo, para
acolher presos políticos, maioritariamente comunistas ou simpatizantes.

Embora essas medidas políticas se destinassem a todas as colónias portuguesas, e no


caso específico da ilha de São Vicente, tais decisões não foram efectivadas tendo em
conta a própria situação de crise que se vivia em Portugal. Isto é, o facto de a partir dos
anos 20, Portugal se ter tornado mais dependente financeiramente da Grã-Bretanha,
devido a avultada dívida externa que mantinha com este país e com a garantia de este
país estrangeiro suportar os custos de infra-estruturas que de certa forma atenuava os
problemas de desemprego e ainda servia como fonte de receitas para a colónia. “ Mas a
Inglaterra era ainda, já o sabemos, o primeiro fornecedor da economia portuguesa (em
combustíveis, máquinas e manufacturas…), o seu principal cliente (vinho do Porto,
cortiça, resinosos…) e o transportador do grosso das mercadorias importadas ou
exportadas pelo País; era também o principal investidor estrangeiro em Portugal
(controlava os transportes urbanos, os telefones, as comunicações, importantes
explorações minerais …) e fora o seu principal credor externo.” (Idem: 265)

No ano de 1937 surgem rumores de negociações entre Portugal e Alemanha, alertando


para uma possível concessão das colónias portuguesas para a Alemanha nomeadamente
a colónia de Angola, que prontamente foram desmentidos por Salazar: “Alheios a todos
os conluios, não vendemos, não cedemos, não arrendamos, não partilhamos as nossas

9
A Colónia Penal do Tarrafal foi criado através do Decreto-lei n.º 26:539, em 1936, no âmbito da
reorganização dos serviços prisionais, enquadrada na vertente prisões especiais. Destinado a presos
políticos e sociais no Ultramar que tivessem cometidos crimes políticos e os presos de delito comum
quando não respeitavam as normas de disciplinas e mostravam-se como maus exemplos para os outros
presos da metrópole e ainda os que tivessem cometidos crimes de rebelião: a ofensa contra o prestígio da
República ou contra o prestígio do Presidente da República ou do Governo, a propaganda ou outro meio
de provocação à disciplina social, o não cumprimento dos deveres da função pública ou das ordens da
autoridade, o encerramento de fábricas ou cessação de qualquer industria sem causa legítima, a ofensa
contra a bandeira, o Hino nacional ou qualquer emblema do Estado [etc]. No entanto desde 1931 que
eram enviados para Cabo Verde, ilha de São Nicolau, presos políticos para o Colónia Penal que ali
existia. (Tavares, 2007:63-65)

19
colónias, com reserva ou sem ela de qualquer parcela de soberania nominal, para
satisfação dos nossos brios patrióticos. (…)” (Idem:232)

No entanto a questão colonial fora posta em evidência nos membros de comunicação


social internacional e nos organismos internacionais, quando Hitler reivindica à
Alemanha o direito de possuir colónias.

No ano de 1940 é inaugurado com grande destaque em Lisboa a I Exposição Colonial


do Mundo Português, demonstrando a realidade cultural africana, como forma
exibicionista do governo de Salazar, gastando mais de 100.000 contos nessa exposição.
Nesse mesmo ano morria em Cabo Verde vítimas da fome 20.000 pessoas numa
população estimada em 180.000 habitantes. (Idem: 241)

Destinado a encobrir o colonialismo, em 1941 o governo português aprova o decreto


31207, referente ao Estatuto Missionário, onde estipula como lema: cristianizar e
educar, nacionalizar e educar: “Passam a estar nas mãos da Igreja a fundação e
direcção de escolas primárias, secundárias, profissionais, seminários, escolas de
catecismo, assim como enfermarias e hospitais.” (Idem:244)

Nesse mesmo ano em Cabo Verde registam-se 9000 mortes causadas pela fome devido
a falta de chuvas e de assistência da metrópole: “Na ilha do Fogo há povoações
desaparecidas, e parecem de fome cerca de 40 pessoas por dia. Na cidade da Praia,
ilha de S.Tiago, funda-se uma associação de beneficência (SAGA), dirigida pelo
Governo, que sobretudo se dedica a fazer escoar trabalhadores esfomeados e “livres”
para a ilha de S.Tomé. No seu transporte por barco morrem dezenas. Só na travessia
do Cubango morrem 18[...].” (Idem:245)

De acordo com a carta das Nações Unidas, artigo 73, aprovado a 24 de Outubro de
1945, na qual Portugal viria a ser membro a 14 de Novembro de 1955, dizia que os
estados membros responsáveis por outros territórios deveriam prestar informações sobre
os mesmos, no que diz respeito ao aspecto político, socioeconómico e educacional dos
seus povos.

20
No entanto a revisão constitucional de 1945 da Carta Orgânica dispôs no artigo 246,
ponto único que “no Estado da Índia e nas colónias de Macau e Cabo Verde as
respectivas populações não estão sujeitas nem a classificação de indígenas, nem ao
regime do indigenato na sua acepção legal”, portanto reafirmou-se o estatuto do
indigenato, que estava em vigor desde 1926, para os territórios da Guiné, São Tomé e
Príncipe, Angola, Moçambique e Timor.

Sugere-se que ao invés de passar ao estatuto de colónias adjacentes, deviam formar


primeiro um regime de transitório onde o arquipélago pudesse gozar de um estatuto
mais descentralizado do que o de ilhas adjacentes. Surge nesta altura uma outra questão
aliada a própria denominação: províncias ultramarinas. A substituição do termo colónias
por províncias ultramarinas na constituição, implicaria uma mudança da mesma de
forma a evitar que todo o que fosse escrito anteriormente sobre as colónias perdesse a
sua autoridade jurídica e também implicaria uma mudança também nas estruturas
administrativas: Ministério das Colónias, Conselho do Império Colonial, Ordem do
Império Colonial, Escola Superior Colonial e Agência-Geral das Colónias, são
exemplos e que deveriam também ser alvo de modificações nos seus regulamentos
internos.
Tratava-se de uma decisão que deveria ser introduzida lentamente, através de leis
ordinárias, que iriam substituindo lentamente a nomenclatura das colónias, até que
fossem resolvidos os problemas administrativos que a adopção do termo províncias
ultramarinas implicaria.

Estes trâmites legais iam contra as expectativas daqueles que acreditavam que esta seria
uma forma que rapidamente poderia resolver a situação de crise que se vivia em Cabo
Verde, porque era um processo bastante moroso para a resolução rápida que os
apoiantes do estatuto da adjacência pretendiam.

No ano de 1946 é aprovada a proposta de lei n.º 2066 da Lei Orgânica do Ultramar
Português, prevendo-se que a partir daquele ano era necessário rever a legislação sobre
na qual se regia a administração das colónias, numa tentativa de driblar os movimentos
anticolonialistas. (Almeida, 1978:266)

21
Em relação a Cabo Verde, na sessão da Assembleia do dia 19 de Janeiro de 1951, fica
aprovado no ponto único artigo 1º da Constituição o seguinte: A administração do
arquipélago de Cabo Verde poderá ser integrada, parcial ou totalmente, no sistema da
administração metropolitana. (Actas das Sessões da Câmara Corporativa, diário nº 70)

Na mesma sessão, leva-se a cabo uma revisão e reformulação do texto dos artigos do
Acto Colonial, devidas as pressões externas contra o colonialismo. Procurou-se
constituir uma legislação que abrangesse todas as colónias, tendo em conta as
diversidades, as realidades geográficas e o meio social de cada colónia, mas
principalmente devido ao desenvolvimento das mesmas.

De entre outras reformulações, continua-se a definir uma descentralização


administrativa e também a autonomia financeira, mas trata-se de uma autonomia
relativa, uma vez que decisões de foro político e administrativo, nomeadamente
autorização de contratos ou empréstimos que exigem cauções ou outras garantias;
arrendamento ou venda de propriedades, entre outros. As funções legislativas e
executivas são sempre exercidas sob a fiscalização dos órgãos de soberania, Assembleia
Municipal, Ministro do Ultramar ou pelo governador.

O governo português afirmaria que Portugal não administrava territórios que poderiam
ser incluídos na categoria de indicada pelo artigo 73º da Carta das Nações Unidas.

Somente na 15ª Assembleia Geral da ONU em 1960, é apresentada o relatório


comprovativo da situação das colónias portuguesas, onde se admitiu (menos Portugal)
que os estados sob dominação portuguesa não eram autónomos.

22
2 - A questão do rearmamento das colónias

Sabe-se que Portugal manifestou imediatamente após o inicio da guerra a sua política de
neutralidade, apesar de alguns actos do chefe do Governo, Salazar, ter demonstrado um
apoio não declarado a Alemanha e a Itália.10 No entanto era necessário defender a
soberania portuguesa, não somente no continente como também nas ilhas e nas
colónias.

Essa mudança de atitude por parte do Governo português estava também relacionada
com o desenvolvimento económico das colónia, nomeadamente de Angola e de
Moçambique, impulsionada com a entrada de colonos portugueses que tinham
dinamizado as culturas do café, do milho e do algodão, na qual resulta na criação de
recursos para novos investimentos. A esse desenvolvimento económico impôs ao
Governo português uma presença mais atenta às mesmas afastando qualquer tentativa
que pudesse por em causa a soberania portuguesa nas colónias.11 Nesse sentido
envidam-se todos os esforços no reapetrechamento militar, substituindo várias armas
que se encontravam obsoletas e comprando armamento em diferentes países da Europa.

Era necessário ainda proteger as regiões de Açores e Cabo Verde, por serem zonas de
interesses estratégicos no atlântico. Assim sendo desde 1940 que tinham sido enviados
para ilhas e as colónias tropas expedicionárias armados.

Para reforçar essa medida foi aprovado a 30 de Março de 1942, no Diário do Governo o
decreto-lei n.º 31:943, na qual no artigo primeiro se estipula: “O Ministro das colónias
fica autorizado a requisitar aos Ministérios da Guerra e da Marinha os oficiais que
julgue conveniente mandar às colónias a fim de procederem aos estudos e trabalhos
necessários à defesa das mesmas.” Ficariam salvaguardadas o mesmo vencimento que
10
“Timor sofreu, por duas vezes, invasão, primeiro pelos Australianos (1941), depois pelos Japoneses
(1942) que o ocuparam por três anos, destruindo e matando milhares de portugueses e indígenas a seu
bel-prazer sem que sequer fossem quebradas as relações diplomáticas entre Portugal e Japão. Em
Macau, igualmente os Japoneses controlam de facto a administração. Salazar foi também forçado a
ceder aos Aliados (Grã-Bretânia e Estados Unidos) bases militares nos Açores, em 1943. […] parace
claro que as simpatias de Salazar estavam muito mais com a Alemanha e a Itália (em cujos regimes ele
tanto se inspirara), do que com as demo-liberais Inglaterra e Estados Unidos, aliadas ao seu inimigo de
sempre, a União Soviética.” (Marques, 1986:381-382)
11
In, Colonialismo do Estado Novo – Diciopédia 2009 [DVD-ROM], Porto Editora, 2008

23
usufruíram na metrópole e ainda teria direito a ajudas de custo diários que seriam
estabelecidas através de um despacho do Ministério das Colónias, conforme o artigo 2º
desse mesmo decreto-lei.

Em Outubro de 1943 foi mobilizado 100.000 homens no continente e também para as


ilhas e colónias.

Figura n.º2 - Chegada do 1º Corpo de Tropas Expedicionárias Portuguesas a Mindelo - 1942

Autor: Desconhecido

A 21 de Dezembro de 1943 é dado a conhecer a todos os concelhos de Cabo Verde um


edital solicitando a incorporação de recrutas naturais da colónia, para reforço das tropas
expedicionárias que se encontravam em São Vicente, nascidos nos anos de 1919 a 1923,
devendo os mesmos apresentar ao chamamento de inspecção para a tropa de reforço.
Segundo a Portaria dos Recursos Serviços de Recrutamento da Colónia, artº 164, as
pessoas que conseguissem encontrar desertores, recebiam como prémio o valor de
20$00 por cabeça. Os mancebos (recrutas) recebiam o valor de 3$50 de abono diário
para alimentação, destinado ao tempo que estiveram concentrado a espera do embarque
para São Vicente, quando estes residiam em zonas rurais distantes dos centros de cidade
ou noutras ilhas.12

12
In, Reletórios e Correspondéncias enviadas e recebidas pelo Chefe da Repartiçao Central dos Serviços
de Administraçao Civil, Instituto do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, caixa nº 222

24
Entre os anos de 1940 a 1945 foram mobilizados cerca de 180.000 homens da
metrópole para as colónias e ilhas.13

A entrada dos militares portugueses em São Vicente trouxe alguns transtornos a


população, uma vez que foram delimitadas áreas reservadas somente a movimentação
dos militares, sentindo a população lesada, por se tratar de zonas onde habitualmente
frequentavam, muito embora a Câmara, tivessem tentado sensibilizar as pessoas para a
necessidade de haver uma zona militar restrita, aos quais não estavam habituados. Sobre
esse assunto nos informa o relatório do então vice-cônsul Britânico da ilha, a 03 de
Dezembro de 1943, que diz o seguinte: “A circulação das pessoas foi restringida pelos
militares limitando a área em que as pessoas podiam fazer as suas vidas. Em
consequência, a fome, o sobrepovoamento dessas áreas e condições de insalubridade
aumentou, assim como qualquer possibilidade de fazer negócio. A tensão entre os
militares e a população também aumentou, dando origens a motins.” (Gatlin,
1990:185)

Wahnon (2006) diz-nos o seguinte: Só em São Vicente desembarcaram mais de 3.000


soldados que, mostrando um total desprezo pelos direitos dos habitantes da ilha viriam
a ocupar ainda e sem mais cantigas tudo o que de melhor havia no Mindelo em matéria
de organizações recreativas e desportivas, entre os quais o Clube de Tenis do Mindelo
que foi transformado em uma enorme garagem, o clube social Gremio Recreativo
Mindelo onde ficou a funcionar o Quartel General, o Clube dos Ingleses [...], o Liceu
onde foi instalada uma enorme oficina para o conserto das botas de tropa [...], a
Câmara Municipal14, esta transformada em hospital militar, além de parte de nosso
hospital, [...], e muitos outros prédios e propriedades [...] Quanto a tropa propriamente
dita eram tantos os abusos, que os atritos com a população passaram a ser frequentes,
chegando a haver mesmo focos de rebelião em várias zonas da ilha. (pg. 20-21)

13
Actas das Sessões Parlamentares, 15 Dezembro, 1945, pag. 129-130
14
A 26 de Setembro de 1945, a Câmara Municipal recebe um ofício do Comando Militar de Cabo Verde,
nº1466, disponibilizando uma verba no valor de 72.447$00,para custear as despesas de reparação do
edifício dos Paços do Concelho que esteve ocupado pelas Forças Expedicionárias, in Actas das Sessões
da Câmara Municipal de São Vicente de 27 de Setembro de 1945.

25
Questionado sobre a presença militar portuguesa na ilha, o Sr. Gregório Dias
desdramatizou os acontecimentos acima referidos dizendo que, do que ele teve
conhecimento tratou-se de pequenos incidentes que prontamente foram resolvidos,
resultados de algum desentendimentos, relacionado com festas que os militares não
poderiam entrar pelo facto de não serem convidados. Relatou um episódio que
aconteceu na zona periférica da cidade, em Salamansa, onde realizava uma festa e os
militares portugueses impedidos de entrar utilizaram a violência para conseguirem o seu
intento, ao qual todos os rapazes da festa ripostaram. Os que não entraram nesse
conflito, partiram a correr e a festa terminou com esse incidente.15

Sobre o mesmo assunto o Sr. Arnaldo Lima também tem a mesma opinião. Disse que
tratava-se de pequenas quezilas que na maior parte das vezes ocorria nas festa e o
principal motivo eram as moças de Mindelo que despertavam o interesse dos militares e
resultava em confronto quando os namorados ou os irmãos estavam próximos e
desaprovavam as investidas dos militares.16

Com o término da guerra as tropas expedicionárias seguem imediatamente para


Portugal. A 27 de Setembro de 1945 o Comando Militar de Cabo Verde envia um ofício
(nº 1466 de 26 de Setembro de 1945), disponibilizando uma verba no valor de
72.447$00 a fim de custear as despesas de reparação do edifício dos paços do Concelho,
que serviu de abrigo as tropas expedicionárias.

A população mostrou-se saudosa com a saída dos militares, reconhecendo


principalmente a ajuda médica e medicamentosa que lhes tinham prestado durante a sua
presença na ilha.

15
Entrevista realizada no dia 14 de Setembro de 2009, na residência do mesmo, zona da Ribeira Bote
16
Entrevista realizada no dia 19 de Setembro de 2009, no restaurante do mesmo, na rua de Matijim
(Centro Histórico da Cidade do Mindelo)

26
Foto n.º3 - Grupo de pessoal Médico do Hospital Militar

Autor: Desconhecido

No entanto o relatório administrativo do Concelho de São Vicente, referente ao ano de


1947, diz-nos que o Comando Militar fez a entrega de materiais para reparação dos
edifícios do Paços do Concelho, na zona do Lazareto, e dos Falcões17 e outros locais
onde estiveram, no valor de 150.986$73. Não foram feitas reparações na zona de
Lazareto, por se considerarem desnecessárias, uma vez que ainda não havia interesse
habitacional, apesar de mais tarde ter-se tornado no posto militar da ilha. Fizeram
reparações nos Falcões e os restantes materiais foram, em parte entregues a SAGA
(órgão competente, encarregue da venda e regulação dos preços dos produtos) para
venda, tendo o dinheiro sido aplicado na construção de obras, segundo o relatório,
devidamente autorizadas pelo Governo.

17
A fundação dos Falcões de São Vicente, mais conhecida pelos Sokol, foi uma organização originária da
Checoslováquia, voltada para actividades desportivas, cultura física e ensinamentos de boa conduta ética
e social, contribuindo para a prática do desporto na ilha, que incluíam marchas ao estilo paramilitares,
paradas, ginásticas rítmicas entre outros exercícios. Pensa-se que a criação da Mocidade Portuguesa foi
inspirada nos Sokol, uma vez que a sua criação teve lugar logo após a visita a Cabo Verde do então
Presidente da República Portuguesa, General Carmona, na qual os Sokol haviam participado no programa
de recepção do Presidente. A criação da Mocidade Portuguesa em Cabo Verde marcou o fim dos Sokol,
uma vez que os dirigentes foram substituídos por sargentos metropolitanos e o espaço da organização fora
também substituído pela Mocidade Portuguesa. (Wahnon, 2006:14-15)

27
Em Novembro do mesmo ano o Comando militar começa a embarcar os seus materiais
para a metrópole. A Câmara Municipal solicitou ao comando a oferta de uma
camioneta-tanque, que seria de grande ajuda aos serviços municipais.
O hospital militar montada para assistência aos militares que também auxiliavam a
população com cuidados médicos e fornecimento de medicamentos aos mais
desfavorecidos, fora também desmantelado.

Figura n.º4 - N/M Serpa Pinto trazendo o 1º Corpo de Tropas Expedicionárias a Mindelo

Autor: Desconhecido

28
III – A Situação socioeconómica da ilha de São Vicente

A partir dos anos 40 do século XX a situação sócio-económica que se viviam em Cabo


Verde torna-se muito grave. O bloqueio económico que Portugal estava sujeita pelos
aliados devido a sua política do não-alinhamento ou neutralidade, trouxe graves
consequências as suas colónias. No caso de Cabo Verde, muito dependente da ajuda da
metrópole, essa situação agrava-se com as secas prolongadas que causaram, durante este
período em estudo, a grande fome de 1947-48. (Carreira, 1977).

Como forma de resolver esta situação devastadora, provocada pelas grandes secas
prolongadas, pela fraca circulação marítima entre e para fora das ilhas, pela decadência
do Porto Grande, pela falta de investimentos em obras municipais, que garantiam o
emprego de muitas pessoas (são algumas causas para o aprofundar da vivência difícil
em que se encontravam as ilhas de Cabo Verde) o governo português intensifica a
política da emigração, como forma de diminuir o número de desempregados a seu cargo
e ainda pensando na ajuda que os imigrantes poderiam dar as suas famílias que ficaram.

Num país onde a principal actividade económica era a agricultura, depare-se com uma
situação bastante difícil, uma vez que trata-se de um país onde as secas são cíclicas e
quando há pluviosidade ou são demasiado fracas ou são muito fortes, acabando por
arrastar consigo o pouco que se tem das terras cultiveis para o mar. Aliada a este
cenário, tem-se os fortes ventos que acabam também por provocar a erosão das poucas
terras cultivadas, que se mantém até hoje graças a perseverança do homem cabo-
verdiano.

Com a situação agrícola deficiente a pecuária também é deficitária, devido a


inexistência de campos de pastagem. O número de animais mortos destinados ao
consumo da população é elevado, havendo em toda a ilha, do total de 1870 animais no
ano de 1946, um decréscimo para 1100 animais, no ano de 1947.

Em São Vicente no período pós- guerra, os efeitos da crise são mais devastadores. Fraco
em recurso, completamente dependente da actividade portuária e das outras actividades
que gravitavam a volta do porto e da qual dependiam a sociedade mindelense e da
importação de géneros alimentícios das outras ilhas, devida a existência de poucas

29
extensões de cultivo na ilha. Esta situação vai agravar-se com a progressiva decadência
do Porto Grande, com os desvios das rotas comerciais para os portos de Las Palmas e
Dakar.

Entre os anos de 1944 a 1945 todos os fornecimentos de bens a São Vicente estavam
nas mãos dos portugueses, suplantando os ingleses. Devido a posição neutral de
Portugal na guerra, o negócio do carvão passou também a ser dirigidos pelos
portugueses até ao término da guerra. (Gatlin, 1990:185)

De referir ainda, que o Porto Grande produzia o maior volume de receitas da colónia,
com as actividades de reexportação do carvão e óleos combustíveis. (Fundo […],
1984:93).

A 22 de Fevereiro de 1946, o deputado Adriano Moreira, representando Cabo Verde


chama a atenção da Assembleia Municipal para a situação difícil da colónia de Cabo
Verde. Reclama uma maior participação e atenção a colónia de Cabo Verde e diz ainda
que esta não tem merecido a mesma atenção que as colónias mais ricas tinham
merecido. Aproveita essa mesma sessão para abordar a questão dos vencimentos,
dizendo que estes não eram uniformes para as colónias e pede ainda a revisão e
actualização do diploma legislativo colonial nº 38, que regula os vencimentos,
encontrando-se em vigor desde o ano de 1923, com um regime de vencimentos
complicado e dividido em quatro categorias (vencimento de categoria, vencimento de
exercício, subsídio eventual e subvenção colonial) e afirma o seguinte: “Não importa,
pois, ao Estado saber se o funcionário é europeu, africano ou asiático, preto ou branco,
como não lhe interessa averiguar se ele é alto ao baixo, gordo ou magro, sóbrio ou
imoderado.”

Apelando a unidade que sempre caracterizou o império, disse ainda que esta deveria ser
real e não meramente discursiva. E sendo o Império muito vasto com grande
diversidade de povos, torna-se imperativo promover uma política de igualdade social
entre os mesmos, não beneficiando somente os indivíduos de origem europeia: “O
exclusivismo racista leva os povos à ruína e à morte”

30
O deputado Adriano Moreira, justifica a sua intervenção como uma realidade que se
mostra urgente adaptar-se uma vez que as outras potências coloniais começaram a
mudar as suas formas de tratamento para com os nativos das colónias.

Validando essa informação relativo aos baixos vencimentos temos o Relatório


Administrativo do Concelho de São Vicente enviado a Administração Central da
Colónia em 1949 que diz-nos que o trabalhador do estado recebe o vencimentos no
valor de 8$00 diários e no privado o valor de 6$00 diários para os homens, sendo que
para as mulheres o valor é de 4$50 diários, valores insuficientes para a manutenção de
uma família, quando uma refeição modesta e elementar custa em média 5$70.

Esta situação dos baixos vencimentos aplicados na ilha de São Vicente continua a ser
abordada nos relatórios seguintes. O relatório de 1958, diz o seguinte: As despesas com
o pessoal administrativo é de 37,2%, bem baixo dos 50% que a lei impõe como máximo,
a verdade é que os salários dos serventuários estão num baixo nível, os mais baixos a
8$00 diários, sem alimentação e sem alojamento [...], as mulheres também empregadas
nos serviços municipais com as mesmas funções de outros trabalhadores assalariados
com resultados produtivos tanto ou melhor que aqueles recebem metade desse valor,
4$00 diários, para todas as despesas diárias quando se sabe que o milho, alimentação
basilar se vende a 1$40 litros. 18

De referir ainda a paralisação de muitas obras iniciadas pela Câmara, nomeadamente o


calcetamento de algumas ruas principais da cidade, que aguardavam o envio de mais
remessas para a sua continuidade, mas que devido a essa paralisação muitos operários
estavam desempregados. Esta situação levou a Câmara a solicitar ajuda ao Governo
Ultramarino, conforme se pode ler o seguinte: “A crise dos trabalhadores resultante da
fraca movimentação do Porto e da paralisação de obras do estado e de particulares,
agravados com o considerável aumento do custo de vida, […], solicita-se a Provedoria

18
In, Relatórios da Inspeção à Càmara Municipal de São Vicente, 1954, realizado por A. Mendes Serra,
Intendente Administrativo, que reporta o periodo de Agosto de 1948 a 1954 – Instituto do Arquivo
Histórico Nacional de Cabo Verde, RPSAC, caixa nº 126

31
Geral da Assistência Pública a concessão de um subsídio no valor de 50.000$00, para
a realização de obras de utilidade pública e empregar os operários.”.19

Perante a resposta do Governo que não havia possibilidades de transferência de nenhum


valor, uma vez que todo o orçamento estava sendo utilizado para os propósitos
anteriormente indicados, a Câmara volta a propor ao Governo que os autoriza-se a
fazerem movimentações de alguns montantes que se encontravam no Banco Emissor,
proveniente dos saldos não orçamentados dos anos anteriores. E ainda em caso de
recusa, e dispondo o Município do Fundo de Reserva, pedia-se autorização superior
para movimentar os montantes que também se encontravam depositados neste mesmo
banco. (Actas das Sessões […], 22 de Maio de 194720

No entanto essas medidas não tiveram aval favorável porque todas as movimentações
bancárias teriam de ter aprovação superior, ou seja, os pedidos de empréstimos aos
Bancos somente poderiam ser feitos por solicitação do governo das colónias ou com
intervenção do governo da Metrópole, não estando nas atribuições dos Bancos a
concessão de créditos à Corpos Administrativos das Colónias. (Actas das Sessões […],
de 01 de Abril de 1947)

A 05 de Junho de 1947 a Câmara Municipal envia um comunicado ao Governo da


Colónia relatando a situação decadente da classe trabalhadora: “Todos os dias, há
meses, ocorrem aos poucos postos de trabalhos, grande nº de trabalhadores a procura
de emprego estando a sua situação a degradar cada vez mais. A Câmara tenta fazer
todos os sacrifícios em manter as suas obras em andamento, até que se iniciam as
obras dos trabalhos agrícolas desse ano e assim possam suavizar a situação. A verba
destinada as obras esta próxima de esgotar mostrando-se incortornavél o despedimento
dos trabalhadores. É necessário recorrer ao Fundo de Reserva de forma a manter os

19
In, Actas das Sessões da Câmara Municipal de São Vicente, de 14 de Novembro de 1946
20
Solicita-se mais uma vez ao governo o reforço da verba destinada as obras de calcetamento de ruas,
uma vez que estas se mostram insuficiente e afirma-se a importância de continuação das mesmas não
somente para a utilidade pública como auxílio a grande número de operários que estavam a trabalhar nas
referidas obras. Não havendo possibilidades de transferência de verbas, estando todos a serem utilizados
para os propósitos indicados, solicitou-se ao governo a utilização do saldo não orçamentado do ano de
1946 no valor de 111.901$79, que se encontrava depositado no Banco Emissor.

32
trabalhos até que as condições melhorem.” Propõem a tutela a aprovação de um crédito
no valor de 80.000$00 a sair do Fundo de Reserva.

A 18 de Setembro de 1947 a Câmara solicita mais uma vez ao Governo, a autorização


para utilizar do Fundo de Reserva do ano de 1946, como forma de reforçar o pagamento
dos trabalhadores que se encontravam com grandes dificuldades económicas.
O quadro n.º 2 mostra-nos o balancete para aprovação das contas referentes ao ano de
1946, na qual se expressa em termos contabilísticos as despesas e as receitas do
concelho de São Vicente, sendo que as despesas correspondem a remuneração dos
factores produtivos, ou seja, obrigações a pagar e as receitas correspondem a
remuneração das rendas efectuadas e/ou dos serviços prestados, ou seja, direitos a
receber, que representam no conjunto entradas e saídas de valores monetários para o
referido concelho.
Procedendo-se a análise do quadro n.º2 verifica-se que as receitas foram superiores as
despesas, sendo que os valores nele traduzido demonstram que o resultado (receitas-
despesas) resulta no valor de 214.427$72 para o ano de 1945 e o total seria o valor de
271.908$74. Seria com base nesse valor que a Câmara fazia a solicitação de utilizar
parte deste valor que se encontrava no fundo de reserva.
Quadro n.º 2 - Aprovação Contas 1946
Saldo 1945 250.481$74
Receitas 1946 1.047.147$74
Despesas 1946 1.025.720$02
Saldo para 1947 311.901$79

Segundo o Engenheiro Rui de Sá Carneiro21 no seu discurso proferido na 2ª Conferência


da União Nacional, realizada no Porto, em Janeiro de 194922 a situação económica das
colónias era bastante próspera, depois de se terem aplicado medidas para a organização
dos orçamentos coloniais, sendo que a partir dos anos 1931-32 e até o ano de 1947
começaram a demonstrar a sua eficácia com saldos bastante expressivos totalizando
cerca de 3 milhões de contos, ficando assim distribuídos esse valor conforme o quadro

21
Subsecretário de Estado das Colónias
22
In, Boletim Geral das Colónias, Ano XXV – N.º284, Fevereiro de 1949

33
n.º1, na qual se incidem os défice apresentados por algumas colónias nos períodos de
crise:
Quadro n.º 3 - Saldos das contas de exercício das colónias (1931/32 – 1947)
Colónia Saldos das Contas Saldo definitivo
(valor em contos) (valor em contos)
Cabo Verde 55.000 6.000
Guiné 150.000 14.000
S.Tomé 80.000 17.000
Angola 750.000 200.000
Moçambique 1.500.000 312.000
Índia 11.000.000 (rupias) 20.000 (rupias)
Macau 32.000.000 (pacatas) 90.000 (pacatas)
Timor 5.000.000 (pacatas) 7.000 (pacatas)

Nessa mesma conferência Carneiro elucida para o facto de que essas receitas foram
utilizadas em proveito do interesse público, nomeadamente no reforço dos serviços da
saúde, da educação e às missões, que disponham sempre de valores mais elevados de
ano para ano. No entanto como se pode verificar no quadro acima, os saldos definitivos
continuavam a ser bastante expressivos. Carneiro afirma no seu discurso que: “Evitou-
se a ruína, e a Metrópole e as Colónias apresentam-se hoje com finanças sãs.”23

No entanto essas verbas não poderiam resolver a situação difícil das colónias e também
de Portugal, assolada por muitas revoltas da classe trabalhadora, que tinham
organizados uma serie de greves por reivindicações económicas, manifestações,
concentrações, marchas de fome e várias outras formas de luta, uma vez que não havia
um uso coerente e eficaz do governo na utilização desses saldos: “De Dezembro de
1946 a Junho deste ano, as reservas de ouro e outras disponibilidades do Banco de
Portugal no país e no estrangeiro diminuem em mais de um milhão e meio de contos (a
riqueza nacional é esbanjada em compras inúteis: em 1946 compraram-se 163.000
contos de fios e tecidos que a indústria nacional poderia produzir; só com a compra de
automóveis ligeiros, na sua maioria de luxo, gastam-se, nos primeiros seis meses de
1947, 155.752 contos; a importação de trigo, milho e batata, em 1946, orça pelos
500.000 contos; a de bacalhau, pelos 171.400 contos; a de lã, primeiros 6 meses de

23
In, Boletim Geral das Colónias, Ano XXV – N.º284, Fevereiro de 1949

34
1947, pelos 129.908 contos, etc). Entretanto, com a compra de todo o material
ferroviário despendem-se apenas, em 1946, cerca de 27.000 contos…” (Almeida, 1979:
269)

Ainda no ano de 1947 essas despesas aumentam consideravelmente para além dos
produtos acima referidos destacam-se as despesas que o Governo tinha com as forças de
repressão, pelo Ministério da Guerra e da Marinha: “A despesa prevista com as forças
repressivas é de 158.213 contos (mais 35.538 contos que no ano anterior). Para a
PIDE (fora as despesas com “bufos” e vários departamentos do Estado) são destinados
11.051 contos (isto é, cerca de metade de todos os gastos com a saúde pública). Num
total de despesas do Estado de 5.694.484 contos, 1.319.911 contos são consumidos
pelos Ministérios da Guerra e da Marinha.” (Idem: 269-270)

Nas Actas das Sessões da Câmara do dia 08 de Janeiro de 1948 é enviado mais um
comunicado ao Governo, mostrando a situação difícil dos trabalhadores da ilha de S.
Vicente e solicita-se ainda a utilização do saldo de gerência do ano de 1947 no valor de
60.000$00.

Da análise do quadro n.º 4 verifica-se que: as contas aprovadas referente ao saldo de


1946 foram superiores aos previstos, ou seja as receitas foram maiores, ou ainda
podemos pensar que as despesas também foram maiores, mantendo-se o saldo positivo.
Em relação ao ano de 1947 podemos dizer que houve um aumento tanto a nível das
receitas como também com as despesas, uma vez que a Câmara tinha aprovado valores
inferiores no ano anterior. Nesse sentido teve-se que aumentar os valores (receitas e
despesas) tendo em conta o aumento da população activa.
Quadro n.º 4 - Aprovação Contas 1947
Saldo 1946 311.901$79
Receitas 1947 1.117.170$96
Despesas 1947 1.050.220$92
Saldo para 1948 378.841$83

A 07 de Outubro de 1949, a Câmara volta a insistir e envia mais uma nota ao Governo
solicitando o reforço da verba destinado ao pagamento dos trabalhadores, face a falta de

35
trabalhos para os empregar, a diminuição dos movimentos do Porto Grande, os reflexos
da crise agrícola, insistiu mais uma vez para ser aprovada a autorização para o
levantamento do Fundo de Reserva do ano de 1947, do valor de 28.464$58, que
segundo orçamento enviado em anexo destinava-se aos trabalhos de alargamento e
renovação da rede eléctrica da ilha.

No ano de 1949 é oferecido a Cabo Verde o valor de 11.000$00, pelas colónias de


Angola, Moçambique, Guiné e São Tomé, por iniciativa do então Ministro das Colónias
o Capitão Teófilo Duarte, que tinha conseguido mobilizar as outras colónias para a
precária situação a que se encontrava a colónia de Cabo Verde.24

Figura n.º5 - Interior do Mercado de Verduras (Plurin d'Virdura) - Mindelo - 1949

Autor: Desconhecido.25

Após várias comunicações da situação dos trabalhadores desempregados em São


Vicente, chega a 05 de Agosto de 1950, a aprovação no Boletim Oficial n.º 31, da
retirada do valor de 50.000$00 do fundo de reserva do ano de 1948, destinada a
construção de novas obras na cidade.

Esta situação acima referida demonstra que as solicitações de ajuda ao governo da


colónia tinham resposta muito tardias, quando se sabe que as verbas solicitadas,
24
In, Actas das Sessões da Câmara Municipal de São Vicente, de 14 de Novembro de 1949
25
Senhora de classe alta comprava o milho e dá-o as senhoras para o pilar em troca de alguns tostões.

36
poderiam ser movimentadas porque faziam parte dos fundos de reservas e dos saldos
positivos dos anos anteriores, depositados no Banco Ultramarino, que não se
encontravam contemplados nos orçamentos dos anos seguintes e que numa situação
difícil em que se apresentava a sociedade da lha era aceitável a retirada desses valores.

Entre os anos 1947-1949 o país depara-se com a maior crise agrícola. A falta de chuvas
nas regiões de cultivo, nomeadamente em Santo Antão26, que desde 1945 não tinha
chovido e o facto de ser a ilha que mais mantimentos enviava a São Vicente, trás
consequências gravíssimas aos mindelenses, que também não podem recorrer as
reservas das outras ilhas uma vez que a situação é de crise geral. (Brito-Semedo, 2006:
305-306)

“ (…) Anos maus, agricolamente falando, prolongando-se com altos e baixos, mais
baixos do que altos, de 1940 a 1953 sangraram a economia da província desfalcando-a
de mais de 200 mil contos, empregues só na aquisição de géneros alimentícios
indispensáveis, (…)” (Almeida, 2007:110)

Seria a partir de 1954 que se poria em práticas medidas efectivas para a resolução dessa
situação. O governo propõe uma série de actividades como forma de empregar o maior
número de trabalhadores que tinham sido despedidos das actividades portuárias devido
a fraca movimentação dos navios.

Estes investimentos realizados a partir da década de 50 do século do século XX,


também designado como “os anos dourados” para Portugal, tiveram como principal
objectivo fazer crescer os seus investimentos aproveitando-se da mão-de-obra barata
das colónias.

26
A ilha de Santo Antão cuja actividade agrícola era a principal actividade económica tinha entrado em
franco declínio no período pós- guerra. A situação é tal forma grave que chega-se a importar produtos
fora do país, nomeadamente de Angola, que nas épocas normais de colheitas mais se produz nesta ilha
(milho e feijão) como forma de socorrer as populações das zonas mais dependentes da produção agrícola,
permitindo que esses géneros fossem adquiridos a baixo preço. “Fica temporariamente suspensa a
cobrança do imposto 3% ad-valorem, destinado aos corpos administrativos dos concelhos da Ribeira
Grande e do Paúl, sobre o milho e o feijão entrados nos respectivos concelhos para reabastecimento da
Ilha de Santo Antão. Cumpra-se”, in Diploma Legislativo nº 909 – Boletim Oficial nº 25 de 22 de Junho
de 1946

37
Assim autoriza-se e dá-se início a 1ª fase dessas actividades, designadas por o I Plano
de Fomento, aprovado pela Lei n.º 2058, de 29 de Dezembro de 1952, resultado do
enquadramento de Portugal no Plano Marshall e da sua adesão à OECE, onde foram
elaborados planos de desenvolvimento anuais e de médio e longo prazo, cujas metas
foram a de melhorar o nível de vida, aliviar as pressões demográficas, melhorando a
produtividade do trabalho e reduzindo o emprego. Assim os principais objectivos eram:
fomentar a agricultura, aumentar a produção da energia eléctrica, conclusão das
indústrias de base existentes, instalação da siderurgia, desenvolvimento de meios de
comunicação e de transportes e ainda incentivos ao desenvolvimento da marinha
mercante, da refinação do petróleo e da produção de adubos. No entanto não são
disponibilizados verbas à saúde pública, ao ensino e a investigação científica.

Em relação a Cabo Verde o Plano previa o aproveitamento de recursos e povoamento,


comunicações e transporte, abrangendo o primeiro a irrigação, a produção de energia
eléctrica, e o segundo os caminhos-de-ferro e os portos.

Dos 4.354.834 contos, couberam a Cabo Verde a quantia de: 51.111 contos, aplicados
no aproveitamento de recursos e no investimento nos transportes couberam a Cabo
Verde a quantia de 45.678 contos, o que totalizaram o montante de 96.789 contos.

Ainda no I Plano de Fomento Ultramarino foram realizados alguns reajustes também a


nível financeiro, uma vez que se constatou que as verbas anteriormente destinadas eram
insuficientes. De entre as alterações propostas as principais para Cabo Verde a questão
dos transportes: “Em Cabo Verde as obras portuárias exigem, para se poderem realizar
em condições satisfatórias, seja elevada para 80.000 contos a verba de 45.000 que lhes
estava consignada. Sendo dispensável, por o serviço estar assegurado por empresa
particular, a verba de 10.000 contos destinada a transportes marítimos, o custo global
do Plano é elevado para 137.000 contos, devendo o novo encargo de 25.000 ser
coberto, como demais nesta província, por subsídio reembolsável da metrópole.” (in,
Actas da Câmara Corporativa, n.º 45, Abril de 1955)

O relatório do I Plano de Fomento foi alargado para uma dotação de 137.000 contos. No
entanto ficaram por gastar 44.000, cerca de 32%. Em sessão plenária do dia 30 de
Outubro de 1958, na Assembleia Nacional, o então deputado Dr. Duarte Silva disse que

38
era «na realidade muito, sobretudo se considerarmos que Cabo Verde é uma província
onde tudo está por fazer. E mais ainda é de lamentar o facto quando verificamos que as
verbas não gastas dizem respeito a estradas e portos, precisamente as obras que (…)
mais necessárias são ao arquipélago».

As acções decorrentes do I Plano ficaram muito aquém dos resultados previstos, uma
vez que a maior parte dos investimentos foram canalizados para as infra-estruturas, que
imediatamente não se mostraram rentáveis, sendo que o desenvolvimento almejado
seria conseguido após a elaboração e efectivação do II Plano.

Numa 2ª fase, o II Plano de Fomento Ultramarino, aprovado pela Lei n.º 2094 de 24 de
Novembro de 1958, teria como objectivo essencial dar seguimento aos trabalhos
iniciados no I Plano, nomeadamente dar mais incentivos no sector industrial
estabelecendo-se um programa mais coerente, onde se estabeleceu algumas medidas
institucionais: criação do Instituto Nacional de Investigação Industrial e do Banco de
Fomento Nacional e foram tomadas medidas que propiciassem o investimento privado
nas industrias e nas actividades financeiras. Para todo esse investimento prevê-se uma
verba no de 3.387.000 contos em Portugal e 9 milhões de contos nas colónias.

No que se refere a Cabo Verde, no II Plano continuam os investimentos nas obras de


regadio, nos trabalhos de rearborização e nas medidas de fomento pecuário, continuação
das pesquisas de águas subterrâneas para abastecimento da população e para fins
agrícolas, conclusão das obras do Porto Grande de São Vicente e do Porto Novo de
Santo Antão e começo dos outros nas outras ilhas, conclusão da construção da estrada
do Porto Novo à zona norte da ilha de Santo Antão, bem como o início de outras
estradas e seguimento dos trabalhos iniciados de estabelecimento de uma rede de
aeródromos nas principais ilhas; mas dar-se-ia especial atenção aos investimentos de
melhoramentos de carácter social, da saúde e da instrução, do conhecimento científico
do território e do apetrechamento dos serviços públicos. (Actas […], 26 Novembro de
1959, pg. 801)

Na elaboração dos programas dos designados Planos de Fomentos eram tidos em conta
algumas fontes de recursos, igualmente aplicados na metrópole: orçamento da
província, fundos autónomos, instituições de providência, empresas seguradoras,

39
instituições de crédito, entidades particulares, autofinanciamento, empréstimos e
subsídios.

Sendo assim, dos 9 milhões de contos a que estavam destinados o II Plano de Fomento
para todas as colónias portuguesas, 5 milhões deveriam ser obtidos por empréstimos da
metrópole e 4 milhões deveriam provir dos recursos das próprias províncias.

Em relação a colónia de Cabo Verde o exposto acima não foi aplicado devida a precária
situação económica da mesma: Cabo Verde – Nem tem capacidade de crédito nem esta
em condições de mobilizar qualquer importância para despesas concernentes ao Plano
de Fomento. O seu financiamento (210 000 contos) fica, pois, integralmente a cargo da
metrópole. (In, Actas [...], 25 de Setembro de 1958, pg.239)

No entanto quase seis meses depois, as obras ainda não tinham iniciado e nem fazia-se
ideia de quando é que poderiam começar, aguardando-se primeiro, inspecções técnicas,
aos quais as condições climáticas ainda não tinham permitido realizar (ventos fortes,
agitação do mar) e ainda as avaliação técnicas que não se encontravam concluídas.

A 12 de Abril de 1958 é apresentada para apreciação na Câmara Corporativa um


documento registando a situação precária da colónia de Cabo Verde, solicitando um
reajustamento dos investimentos na mesma, conforme nos indica o resumo no quadro
em baixo:
Quadro nº5 – Investimentos em Cabo Verde - 1958
INVESTIMENTOS MILHARES DE
CONTOS
Revisão da cartografia geral 3,5
Aproveitamento dos recursos (Agricultura, 79
Silvicultura e Pecuária)
Industria (Pesca) 5,5
Comunicações e Transportes (execução do plano 113
rodoviário; portos e aeroportos)
Instrução e Saúde 9
Total 210

Este II Plano previa uma actuação de conjunto abarcando os aproveitamentos


hidroagrícolas, a protecção do solo e defesa contra a erosão, o fomento florestal e o

40
fomento agrário, tendo-se previsto o investimento de 3000 contos na cultura do café,
esperando que a produção desse produto iria melhorar consideravelmente a volume das
exportações da nossa colónia.
Outra actividade que seria apoiada no valor de 5500 contos, neste segundo plano seria a
pesca, reconhecida que era a grande diversidade de quantidade de peixes nas águas das
ilhas de Cabo Verde, fomentado-se a indústria pesqueira.

No que se refere as indústrias da ilha os relatórios Administrativos consultados fornece-


nos o seguinte quando, quanto a produção na ilha, de 1946 a 1949. De referir a falta de
dados referentes ao ano de 1948. No entanto pode-se verificar que das poucas
produções da ilha a tendência foi de descida da produção ou de oscilações com ligeiros
aumentos, nomeadamente nas poucas indústrias alimentícias, o que mais uma vez
demonstra-nos a situação difícil da ilha no período pós-guerra.

Quadro nº 6 – Unidades Industriais em São Vicente (1946-1949)


Indústrias Unidade Produção
1946 1947 1948 1949
Bolachas quilos 174.170 239.100 - 162.594
Cal barricas 1.730 550 - 1.500
Calçado pares 1.083 670 - 584
Refrigerantes litros 26.420,4 28.231,7 - 21.831,3
Óleos não comestíveis quilos 24.820 10.101 - 10.388
Sabões quilos 21.820 41.809 - 34.247
Pães quilos 654.255,35 560.729,15 - 472.543,75
Massas quilos 20.700 4465 - 12.515
Tabacos quilos 19.083 17.401,5 - 148.955
Energia Eléctrica kw 79.834 74.109 - 97.270
Gelo quilos 10.500 48.450 - 5.500ª
Nota:ª - a fábrica não funcionou no 2º e 3º trimestre

A situação económica das ilhas de Cabo Verde começa a melhorar progressivamente a


partir do início dos anos cinquenta, altura em que as ilhas começam a ser agraciadas
pelas chuvas, que trazem muitos benefícios a economia interna, para além de melhorar
significativamente a vida da população. O quadro nº 7 mostra-nos essa melhoria
económica, em relação a produção interna e a exportação, referente aos anos de 1951 a
1952. No entanto os dados estatísticos fornecidos não nos permitem saber qual o

41
contributo da ilha de São Vicente, no fornecimentos de produtos para exportação, uma
vez que os mesmos dizem respeito a exportação geral de Cabo Verde nesse período.

Quadro nº7 – Principais produtos exportados de Cabo Verde (1951-1952)


Produtos 1951 1952
Quantidades Valores Quantidades Valores
em quilos em em quilos em
escudos escudos
Aguardente 180 2.200 280 3.030
Café 52.347 1.162,207 87.411 2.092,179
Frutas verdes 33.745 77.713 31.202 74.038
Milho 6.969 8.005 22.120 35.289
Peixe em conserva 246.378 3.580,369 579.520 8.097,092
Peixe em salmoura 56.795 397.565 48.471 474.811
Peixe seco 33.756 135.024 36.801 107.504
Peles e couros 24.716 272.321 41.658 452.028
Mostarda 34.805 166.575 1.406 6.378
Sal comum 23.583.820 2.270.192 24.296.646 2.342.280
Sementes de purgueira 1.566.146 2.338.891 2.705.432 4.756.304
Sementes de rícino 22.453 708.724 145.033 651.797
Tabaco 1.145 14.078 1.525 21.315

A administração do Concelho reclama no relatório de 1949, uma redistribuirão mais


justa dos apoios e verbas destinadas as ilhas do arquipélago, para a persecução de obras
e também para assistência da população. Segundo o quadro em baixo extraído do
referido relatório, comparativamente com as outras ilhas com menor número
populacional, nomeadamente a Brava, a Boavista e o Fogo, estas recebem mais apoio
do estado do que a ilha de São Vicente, que recebe mensalmente grande número de
pessoas de diversas ilhas e que não possui meios de subsistência para além dos
movimentos do porto, uma vez que como já se referiu anteriormente a ilha não possuía
grandes estruturas agrícolas.

De referir que a produção do aguardente tinha sido expressamente proibida pelo


Governo, através do Diploma Legislativo n.º 724 de Dezembro de 1941. No entanto
desde o ano de 1912, tinham sido publicados vários Diplomas, destinados a
regulamentação da produção e comercialização desse produto, nomeadamente através
do pagamento de taxas alfandegárias internas e externas, que sucessivamente eram

42
aumentadas e ainda as restrições sobre o número de alambiques que poderiam funcionar
em Cabo Verde.

Sobre esta questão Carreira (1982) diz-nos o seguinte: [...] era em parte a política de
entravar as produções locais de forma a facilitar a conquista dos mercados pelos
produtos similares de origem metropolitana – neste caso os aguardentes e os
conhaques [...]

No entanto os produtos exportados eram de pouca qualidade e no caso do vinho, metade


da produção destinava-se as colónias: “Segundo o relatório do Decreto 24976, mais de
50% da produção vinícola portuguesa é absorvida pelas colónias. Para o membro da
Assembleia Nacional Henrique Cabrita, o vinho para lá enviado seria adulterado por
produtos químicos. O seu colega Pacheco de Amorim condena também o chamado
“vinho para preto”, que se exporta para África.” (Almeida, 1979: 226)

Essa ideia é confirmada por Matoso que disse que o Governo Português na sua política
de desenvolvimento da sua indústria interna privilegia os produtos da metrópole em
detrimento dos mesmos produzidos na colónia. “Noutros casos relativamente
importantes os exportadores coloniais não conseguiram bonificar os seus produtos. O
tabaco, o álcool e a aguardente pagam direitos como se fossem artigos estrangeiros.
No primeiro caso para proteger a indústria tabaqueira metropolitana (novamente a
CUF, desta vez contra os interesses coloniais…), e nos outros para impedir a
concorrência à viticultura.” (Matoso, 1998:257)

Como consequências dessas restrições os produtores da aguardente em Cabo Verde,


começam a produzi-lo e a comercializa-lo de forma clandestina, inter-ilhas e com a
navegação de longo curso que aportava na ilha de São Vicente.

Tendo em conta esses aspectos acima referido estima-se que a produção da aguardente
tenha sido superior ao que as estatísticas oficiais nos apresentam.

43
Relativamente a produção industrial, a partir de 1945, através do Decreto nº 34562, de
01 de Maio, que se mostrou importante criar uma legislação que regulamenta-se a
produção no Ultramar, principalmente às produções que se encontram nas mãos dos
estrangeiros, aos quais o governo português não tinha até então nenhum controlo: “[...]
as companhias estrangeiras não se acham registadas nem nas colónias e nem no
continente e o exercício da sua industria se faz sem qualquer fiscalização ou
autorização. [...] Desta situação privilegiada resulta que o Estado é desfalcado, por
falta de pagamento de contribuição e impostos, e isto tanto na metrópole como nas
colónias; que a balança económica é desfalcada, pela drenagem do ouro para fora do
Império; que as garantias do cumprimento das obrigações por parte das companhias
estrangeiras, quando discutidas contenciosamente, são precárias.” (in, Actas da
Câmara Corporativa, n.º 103, Fevereiro de 1954).

Em relação a indústrias estrangeiras fixadas em Cabo Verde, até a data de 1954, essa
legislação nunca foi posta em prática. O documento acima referido diz-nos que: “Em
Cabo Verde, Guiné, Moçambique e Macau nenhuma providência legislativa foi
publicada, não obstante em algumas dessas províncias se terem iniciado estudos para
esse efeito, pelo que tem de considerar-se que, nesta matéria, teriam apenas aplicados
os preceitos do Comercial relativos a sociedades anónimas e de seguros.”

Quadro nº 8 – Distribuição de verbas para a Colónia de Cabo Verde (1949)


ILHAS/CONCELHOS MONTANTES DISTRIBUÍDOS

(valores anuais)
Obras Assistência
Boavista 448.500$00 133.000$00
Brava 1.016.000$00 262.000$00
Fogo 1.230.000$00 39.000$00
S. Nicolau 1.501.000$00 117.000$00
Santa Catarina 1.787.000$00 932.000$00
Tarrafal 2.174.6000$00 1.043.000$00
Praia 4.663.500$00 3.515.000$00
Paúl 2.099.500$00 887.000$00
Ribeira Grande 1.976.000$00 813.000$00
Maio 327.500$00 75.000$00
São Vicente 516.582$00 24.000$00

44
Decorrente dessa grave crise económica, presencia-se também o agravar da situação
social, que já se mostrava bastante débil com a decadência do Porto Grande, em finais
do século XIX.

O fim da guerra representou uma mudança de ordem mundial, na qual se exteriorizou


nas manifestações de exultação que ocorrem em todo o Mundo, esperando pelo triunfo
das democracias liberais e desaparecimento das ditaduras. Em Cabo Verde a notícia do
fim da guerra foi também aclamada com muita esperança, nomeadamente na ideia que
as mudanças internacionais significaram para as colónias uma maior abertura com vista
a modernização das mesmas e no caso específico da ilha de São Vicente, representou o
acender das esperanças nos tempos áureos do Porto Grande.

Na entrevista feita ao Sr. Gregório Dias ele afirma que nesse dia as pessoas saíram a rua
após terem ouvido um senhor que tocava um tambor anunciando o fim da guerra por
onde passava: “Guerra já terminou… guerra já terminou!”27

O Sr. Arnaldo Lima afirma que estava na escola e a professora comunicou que: “a
grande guerra tinha enfim terminado”. No entanto passado esse momento diz que não
via nas pessoas aquela euforia apesar de nesse dia o assunto ter sido o mesmo: a guerra
tinha terminado e os Aliados tinham vencido.28

Tendo em conta que se encontra perante uma cidade-porto, com todas as características
que se pode observar numa cidade deste género, nomeadamente o facto de quase todos
os serviços gravitarem a volta das actividades do porto, depara-se com uma crise social
que se alastra a quase toda a população. A classe da elite corresponde ao que melhor
consegue contornar essa situação, principalmente os comerciantes. O restante da
população vive em condições sub humanas, com problemas de alimentação e
higiénicos-sanitários. Essa situação faz aumentar consideravelmente o número de
indigentes que vagueavam pelas ruas do Mindelo.

Segundo o relatório Administrativo de 1949 a população havia aumentado


consideravelmente com a entrada de pessoas das outras ilhas do Barlavento, que
27
Entrevista realizada no dia 14 de Setembro de 2009, na residência do mesmo, zona da Ribeira Bote
28
Entrevista realizada no dia 19 de Setembro de 2009, no restaurante do mesmo, na rua de Matijim (Zona
Histórica do Mindelo)

45
passando por graves necessidades nas ilhas de origem, nomeadamente nas ilhas de
Santo Antão e São Nicolau, ilhas essencialmente agrícolas, que viam em São Vicente
uma possibilidade de melhorar a sua situação, ou pelo menos uma porta de saída para
outras paragens.

Apesar de haver grandes movimentações de contratados para outras colónias,


continuava a haver na ilha grande número de pessoas desempregados e debilitadas
fisicamente, que não lhes permitia ter essa possibilidade de saída como contratados.

“ (…) a morte do carvão como combustível necessário à propulsão dos navios de longo
curso que demandavam o Porto Grande, lançou na miséria o grosso da população do
Mindelo e criou ali um legião de indigentes (…)” (Almeida, 2007:110)

“ (…) Há em S.Vicente 17.000 pessoas que constituem peso morto, 85% da população
arrastando uma vida de privações e de miséria.” (Almeida, 2007:124)

Os relatórios da Administração do Concelho de São Vicente referentes aos anos de 1946


e 194929 chamam a atenção para o número crescente de delinquentes juvenis que
vagueavam pelas ruas da cidade cometendo furtos, devendo para a resolução deste caso
criar uma colónia penal agrícola ou um internato/escola de artes e ofícios, destinado a
regeneração de menores e dirigidos pelos Salezianos.

Esses mesmos relatórios mostra-nos a situação precária de saúde e higiene que


afectaram a ilha no pós Segunda Guerra Mundial. Doenças como a sífilis, a lepra, a
tuberculose e outras doenças venéreas, preocupavam a administração, pelo facto de não
haver formas eficazes de tratamentos e em número suficiente para toda a população.

De referir que o hospital da ilha não estava convenientemente preparado para receber
doentes afectados por essas doenças, uma vez que não possuía alas de isolamento e nem
medicamentos adequados, sendo que os doentes eram enviados para as suas casas e
ficavam a sua sorte, provocando o alastramento das doenças contagiosas: “Em Cabo
Verde no ano de 1950 contam-se somente três hospitais com 380 camas… Não

29
In, Relatórios da Administração do Concelho de São Vicente, referente aos anos de 1946 a 1949,
Instituto do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, RPSAC, caixa nº 125 e 126

46
contando com as cinco enfermarias designadas por hospitais regionais.” (Almeida,
1979: 288)

Esta situação agravou-se ainda mais com o crescente aumento da prostituição na ilha,
principalmente com a permanência do numeroso contingente de tropas expedicionárias
na ilha, por um período de quase 6 anos, uma vez que não havia controlo por parte das
unidades sanitárias, acabando por serem também veículos transmissores de doenças
sexualmente transmissíveis.

Aliada a estas doenças consideradas mais graves devido ao número de mortes que
faziam anualmente, tem-se ainda doenças gastro-interites agudas, que provocavam a
debilidade de grande número da população pobre que vivia em péssimas condições
habitacionais.

No entanto a administração do concelho da ilha agradeceu a oferta de materiais e


medicamentos pelo Hospital Militar, aquando da saída das tropas expedicionárias da
ilha. Essa ajuda foi muito aplaudida pela Administração do concelho que possuía uma
unidade hospitalar civil com poucos recursos e desta forma fornecia tratamento
insuficiente e inadequado, havendo somente o serviço de cirurgia, uma maternidade, um
dispensário para consultas externas, enfermeiros de medicina geral e inexistência de
locais de isolamento para os doentes com doenças infecto-contagiosas e nem meios de
desinfecção ou esterilização dos materiais hospitalares. Nessas condições era difícil
melhorar a situação da população através dos cuidados médicos.

Figura n.º 6 - Consultório do Hospital de Mindelo - 1943

Autor: Desconhecido

47
1 – Movimentos das embarcações e das mercadorias em Cabo Verde
Neste ponto torna-se necessário analisar as entradas e saídas das embarcações em Cabo
Verde. No entanto as informações encontradas reportam-se a partir do ano de 1947 até
1951, uma vez que não foi possível encontrar dados estatísticos anteriores a essa data.

Gráfico nº 1 – Movimento das Embarcações 1947 a 1951

3500

3000

2500

2000
P ortugues es
1500 E s trangeiros
1000

500

0
1947 1948 1949 1950 1951

O Gráfico n.º 1, regista que houve mais entrada de embarcações estrangeiras do que
Portuguesas, sendo que a maior parte eram navios de longo curso que aportavam no
Porto Grande. A situação começou a inverter a partir de 1950, altura em que as
embarcações portuguesas começam a chegar em Cabo Verde em maior número, sendo
também a partir desta data que se regista um aumento considerável dos movimentos
marítimos no geral depois da grande guerra. (vide quadro em anexo n.º1)

Gráfico nº 2 – Carga Descarregada segundo a nacionalidade das embarcações – 1947 a 1951

300.000
250.000

200.000
1947
150.000 1948
100.000 1949
50.000 1950

0 1951
sa
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G
g

la
rtu

I
ru
Es
Po

48
Quanto ao volume cargas e descargas realizadas em Cabo Verde durante o período
compreendido entre 1947 a 1951, pode-se constatar através do gráfico n.º 2, na qual os
números referem-se a quantidades em toneladas, que os navios de nacionalidade inglesa
descarregavam maiores quantidades de mercadorias, seguido pelas embarcações
americanas e norueguesas, respectivamente. Esta tendência iria manter-se para as
embarcações inglesas que até o ano de 1951 continuaram a ser os que mais mercadorias
descarregaram em Cabo Verde, seguidos pelos noruegueses.
De referir a grande quantidade descarregada por navios não identificados de outras
nacionalidades nas estatísticas. (vide quadro em anexo n.º2)

Quadro n.º 9- Carga carregada segundo a nacionalidade das embarcações - 1947 a 1951
Nacionalidades
Ano Portuguesa Americana Belga Espanhola Francesa Grega Holandesa Inglesa Norueguesa Suiça outras
1947 3.881 12 11 534 56 16 3.398 3.456
1948
1949 5.801 70 36 12 1 17.854
1950 5.286 2.227 9.334 4.878 16.793
1951 8.580 5.984 2.927 2.360 237 2.212 4.779 927
Obs.: Quantidades em toneladas

Em relação ao carregamento de mercadorias em Cabo Verde, verifica-se através do


quadro n.º 9, que os navios portugueses eram os que mais carregavam nessa época.
No entanto nota-se que a partir do ano de 1950 aumenta consideravelmente o número de
carregamentos efectuados em Cabo Verde, começando a aparecer embarcações de
outras nacionalidades, o que se deduz que a situação económica começava a demonstrar
algumas melhorias, após a grande seca de 1947-48.
Realça-se ainda a falta de informações em relação ao ano de 1948 e de os Boletins de
Estatística não mencionarem quais eram as mercadorias que entravam e quais as que

49
saíam de Cabo Verde, o que não nos permite saber se eram produtos nacionais que eram
exportados.

Fazendo uma análise nossa dos quadros acima, verificamos que o quadro nº 5 verifica-
se que as descargas dos navios portugueses eram muito menores do que os estrangeiros,
apesar de a partir do ano 1950, terem aumentado o número de navios portugueses.
Pensa-se que esse aumento dos navios devia-se ao grande número de emigrantes que
saíam para a Europa, porque de outro modo não se justifica a presença de grande
número de barcos, se o número de carga e descarga de materiais eram muito pouco
comparativamente aos dados dos movimentos estrangeiros.
Trata-se de uma época onde a entrada de mão-de-obra na Europa era necessária para a
sua reconstrução e que segundo os dados estatísticos, a partir dos anos 50 regista-se uma
grande saída de emigrantes.

50
2 – Movimentos Associativos de Assistência e de Classe
A 7 de Junho de 1956, aproveitando-se da apresentação de uma nova legislação
corporativa metropolitana, é apresentada uma adaptação das mesmas as províncias
ultramarinas, justificando-se a importância de o ultramar dispor de uma dispositivo
legal que regulamenta-se a existência de algumas organismos corporativos e de
coordenação económica existentes na altura.
Em Cabo Verde são indicadas 3 sindicatos: Sindicato Nacional dos Empregados do
Comércio e Ofícios Correlativos (Portaria Ministerial n.º11240, de 17 de Janeiro de 1946);
Sindicato dos Inscritos Marítimos (Portaria n.º 8455 de 25 de Outubro de 1947) e Sindicato
dos Operários das Empresas Fornecedoras de Combustíveis e Água à Navegação
(Portaria n.º 14174, de 10 de Março de 1951)

Dos relatórios do Governo analisados constatou-se a indicação de alguns movimentos


associativos na ilha de São Vicente. Mas devido a própria situação que se vivia na altura
em estudo, havia anos que essas associações não apresentavam nenhuma actividade
voltando ao activo nos anos seguintes.

Dessas associações existente a que sempre manteve-se “de pé” com muitas dificuldades
foi a Associação de Caridade, fundada em Fevereiro de 1947, com apoios religiosos (na
administração e assistência) e de comerciantes (apoio financeiro) albergava crianças
órfãos e ainda apoiava crianças carenciadas, famílias pobres e recém nascidos.

Havia ainda a Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Barlavento, que também


ajudou a população mindelense, tanto na recolha de alimentos e roupas para distribuição
aos mais necessitados, como também, aproveitando-se do facto do seu corpo gerente ter
elementos ligados ao grande comércio e a administração da ilha, para chamar a atenção
do governo central das colónias para a situação difícil de todos os cabo-verdianos. No
entanto, o relatório do ano de 1949, diz-nos que naquele ano os sócios tinham
manifestado pouco interesse pela associação.

Sobre a Associação Comercial dos Lojistas de Barlavento, a Associação Operária Cabo-


verdiana e ainda o Sindicato Nacional dos Inscritos Marítimos de Cabo Verde,

51
desconhece-se se estes tiveram um papel social activo como a primeira, embora o
relatório do Concelho de São Vicente dos anos de 1946 a 1949, informa-nos que não
tiveram nenhuma actividade apesar de os seus estatutos estarem aprovados.30

De referir a criação a 17 de Janeiro de 1946 do Sindicato Nacional dos Empregados do


Comércio e Ofícios Correlativos da Colónia de Cabo Verde com sede na Praia. Este
organismo de carácter corporativo, com personalidade jurídica, representava todos os
profissionais que dentro da colónia trabalhavam no ramo do comércio, escritórios
comerciais e botequins, deveria garantir os interesses dos seus associados e velar por
melhores condições de trabalho, higiene e segurança. Poderiam ser admitidos como
sócios, indivíduos de ambos os sexos, portugueses ou estrangeiros, maiores de 18 anos e
pagar a devida cota mensal. Este sindicato afirmava o seu respeito pelos princípios e
finalidades da colectividade nacional e renunciava expressamente toda e qualquer
actividade contrária aos interesses da Nação Portuguesa, repudiando a luta de classes.31

Dos relatórios analisados da Administração do Concelho de São Vicente não foi


encontrado nenhuma referência a esse sindicato, nem a menção se havia uma delegação
na ilha, uma vez que se trata de ilha com forte vocação comercial.

De referir ainda a não referência, nesses mesmos relatórios, de actividades sociais


levados a cabo pela Igreja Católica.

Das entrevistas realizadas aos Sr.s Gregório Dias e Arnaldo Lima, eles desconheceram a
existência de tais associações, dizendo que se os mesmos existiam não sabiam quais as
suas actividades e muito menos onde ficavam sediados.

30
In, Relatórios da Administração do Concelho de São Vicente, referente aos anos de 1946 e 1947,
Instituto do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, RPSAC, caixa nº 125 e 126
31
In, Diário do Governo, I Série, nº III, ano 1946

52
3 - O Problema da Adjacência
Nesse contexto de crise geral dos anos 40 do século XX entram em “cena” vários
adeptos da atribuição à Cabo Verde do estatuto de território adjacente, ficando em pé de
igualdade com os arquipélagos da Madeira e dos Açores e chamando a responsabilidade
portuguesa na resolução da crise.

Um dos grandes nomes que defendeu essa causa no órgão competente, foi o Dr.
Adriano Duarte Silva, então deputado de Cabo Verde na Assembleia Nacional
Portuguesa. No seu discurso em sessão plenária de 30 de Outubro de 1958, para além de
reivindicar o comprimento do orçamento por parte do governo português, para se
proceder o acabamento de obras cruciais para o desenvolvimento sustentado de Cabo
Verde, nomeadamente os transportes, enfatizando a situação do Porto Grande da ilha de
São Vicente, que no seu entender deveria estar melhor apetrechado como porto de
reabastecimento que era e pela importância que desempenhava como sendo o principal
porto de reabastecimento da metrópole, chegando a fornecer quantidades superiores de
combustíveis líquidos em relação ao porto de Lisboa, tendo em atenção que o porto de
São Vicente era meramente um porto de escala.

Acrescenta ainda que a intervenção do estado português não se deveria limitar-se


somente ao seu apetrechamento, mas também a actualização dos preços de combustíveis
que continuavam a ser bastantes baixos em comparação com outros portos de
reabastecimento. Facto que no entanto, não impedem que esses portos continuam a
receber mais barcos porque o tempo de abastecimento é menor: “A razão por que
muitos barcos preferem Dacar a S.Vicente é que, enquanto naquele porto o combustível
lhes pode ser fornecido à razão de 1000 toneladas por hora, em S.Vicente não
conseguem obter mais do que 300. E o tempo como se sabe é dinheiro.”

Ele finaliza o discurso com o pedido para a adjacência de Cabo Verde a Portugal e de
todos os benesses daí advenientes. (in Actas das Sessões da Câmara Corporativa, 22
Fevereiro 1946, Diário das Sessões nº 35)

Em seguida, houve várias declarações públicas a favor da adjacência, mas com uma
outra finalidade, que era a preservação das colónias, tendo em conta a ameaça da
descolonização.

53
De entre esses apoiantes desse novo estatuto a Cabo Verde, estava o então Ministro dos
Negócios Estrangeiros, que a 8 de Novembro de 1958, publica no jornal Diário Popular,
integrado no Boletim Económico, o texto sobre o nome de ``Cabo Verde: ilhas
adjacentes``, na qual ele expressa o seu apoio ao deputado Dr. Adriano Silva dizendo
que: ``tal integração constitui imperativo nacional.`` Relata com alguma triste a
situação da colónia cabo-verdiana enaltecendo a capacidade desta colónia em contornar
as suas adversidades com espírito de sacrifício e denuncia as pesadas imposições fiscais
da metrópole alegando que as mesmas são injustas para um povo que muito pouco tinha
para dar: “Os portugueses de Cabo Verde são evoluídos e capazes. Esgotam as
possibilidades de aprendizagem de que dispõem, mesmo alguns a quem o pão falta. E
muitos e muitos se afirmam e acreditam entre o melhor escol lusitano (…) O próprio
dinheiro é sobrecarregado e diminuído por força do regime vigente: cem escudos que
para ali vão, da metrópole, deixam dez no banco. Pagam-se cem escudos e recebem-se
noventa (…) Pescarias, conservas, rum, pozolanas que, aproveitadas em soluções
técnico-económicas adequadas, poderiam ser riqueza progressiva, nem pobreza são.”

Este texto acima referido surgiu numa altura em que as independências africanas
estavam na ordem do dia por isso, pensa-se que esse apoio de um membro do governo
da metrópole tinha como finalidade a angariação de simpatias políticas. No mesmo
texto ela afirma que: “O Noroeste de África vai-se autonomizando em Estados
independentes que vão surgindo. Na efervescência dos seus nacionalismos confusos, a
expansão e o desejo de absorção têm de considerar-se, objectivamente, como um
fenómeno biológico. Anulá-lo, limitá-lo ou contê-lo, só por outro mais forte. E nisso,
como no futebol e em tudo, é primacial a antecipação da jogada. [...] A Europa ou se
fixa na África e nela mantém e completa a sua europeização ou acabará por ser o que é
geograficamente: uma península asiática. E nós, portugueses, não podemos ceder um
só dia na consolidação do que lá temos.”

Opinião favorável a adjacência, mas com alguma cautela, tem o Dr. Manuel Ribeiro de
Almeida, que foi Presidente da Câmara Municipal de São Vicente e da Associação
Comercial, Industrial e Agrícola de Barlavento, fundador e director do jornal Notícias
de Cabo Verde, afirmou que: a integração de Cabo Verde no regime administrativo
metropolitano é o corolário natural das condições de verdadeira assimilação dos

54
naturais da província que atingiram, de há muito (...), um estado de adiantamento no
campo civil e político que justifica plenamente o conceito. Mas mostra uma certa
prudência quando afirma o seguinte: gostaríamos de ver o assunto largamente debatido
na imprensa, porque segundo ele havia muita gente que não encaravam este estatuto
com simpatia, preocupados com os encargos fiscais aos quais Cabo Verde poderia vir a
estar sujeito, que poderiam passar a ser superiores as que estavam a ser aplicados na
altura, que eram considerados bastante elevados para a fraca produção do país, nesse
sentido era necessário uma maior divulgação e esclarecimento por parte dos meios de
comunicação social. 32

Como não poderia deixar de ser, aparecem pessoas com algumas ressalvas e cepticismo
quanto ao estatuto de colónias adjacentes. Uma delas foi de uma das figuras ilustre de
São Vicente, o advogado Dr. Bento Levy. Este afirmou que o progresso de Cabo Verde
dependia somente da melhoria da sua situação financeira, independentemente de sua
administração estar ou não ligado a metrópole.

Disse ainda que não era contra a descentralização de poderes, uma vez que acredita que
um governo local teria sempre um conhecimento mais profundo dos problemas, aos
quais mais rapidamente também teria capacidade de dar respostas. Em relação aos
corpos administrativos realça que caso venha a ser atribuído este estatuto a Cabo Verde,
o problema estaria na compreensão e integração de um novo meio [Cabo Verde], por
parte de governadores habituados a metrópole, tarefa que não era fácil. (Boletim de
Propaganda e Informação, Ano IV, n.º 42: 17-18)

A 19 de Janeiro de 1951, discutiu-se na Sessão da Câmara Corporativa33 o estatuto de


colónia adjacente para Cabo Verde e quais seriam os proveitos a retirar desse estatuto.
A Câmara afirma que: como colónia o arquipélago desfruta de ampla autonomia,
possui um governador com largos poderes, junto do qual actua o Conselho do Governo,
onde tem voz os representantes locais. Demonstram-se que com este estatuto Cabo
Verde não teria nada a ganhar e o quanto dispendiosa iria ser a sua administração: a
legislação e o regime fiscal teriam de ajustar-se aos moldes metropolitanos, a sua

32
In, Cabo Verde Boletim de Propaganda e Informação, Abril de 1959
33
Diário das Sessões nº 70, pg. 296

55
autonomia seria suficiente para lhe não deixar receber subsídios regulares do Estado
(...), no entanto reconhece alguns benefícios que a colónia poderia ter com esse estatuto:
a sua importância económica e estratégica como nó de comunicações marítimas e
aéreas no Atlantico e o facto de já alguns dos seus serviços (defesa, aeroportos,
meteorologia) estarem ligados a Ministérios metropolitanos.

Neste sentido recomenda-se nessa sessão a maior prudência na atribuição deste estatuto
de colónia adjacente, podendo-se começar por estabelecer um regime de transição caso
o governo da metrópole opta-se pela implementação desse estatuto.

Não obstante a polémica, os vários discursos contra e a favor do estatuto de ilhas


adjacente, Cabo Verde manteve-se com o estatuto de colónia até a implementação da
independência que viria a acontecer a 15 de Julho de 1975.

56
IV - Consequências da crise

1 - Emigração

Apesar de muitos apelos, a situação bastante difícil em Cabo Verde e mais alarmante da
população mindelense, ao governo português, nenhum teve efeito prático e urgente.
Uma das medidas tomadas pelo então governo foi a abertura a emigração, em muitos
casos forçada, tendo-se como exemplo a emigração para S. Tomé, onde somente uma
minoria conseguiu regressar a ilha, mas também para a Europa: Holanda, Portugal,
França, Luxemburgo, Itália, Suíça, etc.

Com esta nova orientação dos imigrantes cabo-verdianos para outros destinos,
decresceu consideravelmente as saídas para os Estudos Unidos da América, que até este
período tinha sido o principal país receptor dos emigrantes cabo-verdianos, embora se
realce que a partir de 1919, os Estados Unidos tinham impostos algumas restrições a
entrada de emigrantes no país.

“A emigração – aliviando as ilhas de certo número de bocas a sustentar – para países


desenvolvidos, em particular para a Europa, constitui um dos principais factores da
cessação de essas hecatombes. Trabalhando duramente nos países de destino, mas
auferindo salários elevados em relação aos possíveis de obter nas ilhas, esses
emigrantes tornaram-se nas principais fontes de divisas (…)” (Carreira, 1984: 128)

De referir que essa prática da emigração dirigida a cólonia de São Tomé, não
representava uma novidade, uma vez que era conhecida desde finais do século XVIII,
mas que nesse período intensificou-se, devido também aos graves problemas de fome.

A emigração para São Tomé e Príncipe tem as suas raízes históricas no ano de 1863,
altura da criação de grandes extensões de roças de café e cacau. Devido a falta de mão-
de-obra e coincidindo com a grande estiagem que assolou Cabo Verde nos anos de 1850

57
- 1866, o governo português resolve essa situação através de uma emigração orientada
para São Tomé, regulada pela Portaria Régia nº 250, de 19 de Dezembro de 1863.34

Nos anos 40 a emigração para São Tomé e Príncipe tinha como principal motivo a fome
que assolou as ilhas de Cabo Verde. Mas a partir dos anos 50 a fome deixa de ser o
principal motivo passando a explicar a sua partida como forma de melhorar as suas
condições de vida, escassez de trabalhos e porque tinha-se a ilusão de que em São Tomé
os trabalhos eram melhor remunerados.

Toda essa situação estava directamente relacionada com a crise económica que se vivia
na cidade do Mindelo. No entanto, parece-nos que essa procura de melhores condições
de vida, representava uma fuga a condição de miséria que a população mindelense
vivia. Nascimento (2008) mostra-nos que as pessoas por ele entrevistadas utilizam com
maior frequência a palavra necessidade em vez da palavra fome. No crioulo de Cabo
Verde, na variante de São Vicente, passá necessidad, significa eufemisticamente passar
fome. Por isso, o facto de se ter substituído a terminologia portuguesa pela cabo-
verdiana, não lhe retirou o significado uma vez que continuou a significar a mesma
coisa.

“A partir da II Guerra Mundial, o número de cabo-verdianos cresceu nas roças [de


São Tomé] e, devido à maior liberdade de movimentos de que eles e suas famílias
desfrutavam, puderam assim conservar parte da sua cultura e permanecer como uma
comunidade distinta no arquipélago equatorial.” (Nascimento, 2003:91)

Em Junho de 1954, numa entrevista concedida a Revista Cabo Verde, nº57, o deputado
por Cabo Verde, Dr. Adriano Duarte Silva, mostrou-se preocupado com a saída de
tantos cabo-verdianos para as roças de São Tomé, demonstrando que depois haveria
necessidade de trabalhadores em Cabo Verde por altura da realização do I Plano de
Fomento. Não reconhece que essa emigração fosse proveitosa para Cabo Verde, porque
não havia uma valorização dessa mão-de-obra, que trabalhavam em péssimas condições
e realça o problema dos salários que eram muito baixos: “Se realmente a economia de

34
Esta Portaria Régia viria a ser alterada a 18 de Maio de 1864, onde se poderia ler o seguinte: “O
governador, em qualquer transporte de que possa dispor, ou nos paquetes, faça transportar para as ilhas
de S.Tomé e Príncipe, até 1000 indivíduos de ambos os sexos, empregando para esse fim todos os meios
possíveis de persuasão”, Carreira, 1983, 150-151.

58
S.Tomé necessita dos nossos trabalhadores, deverá remunerá-los convenientemente. A
verdade é que os serviçais que voltam, regressam em geral com a saúde abalada e com
escassas economias.”35

O vencimento estipulado nos contratos de trabalho para São Tomé estava assim
definido: 100$00 mensal para os homens e 70$00 para as mulheres, com alojamento,
alimentação e algum vestuário por conta entidade patronal. (Almeida, 2007:136)

Sobre a questão dos vencimentos aplicados aos contratados cabo-verdianos para as


outras colónias portuguesas, elucida-nos o quadro n.º 8 que nos mostra a variação
salarial nas mesmas.

Quadro n.º 10 - Relação dos vencimentos dos contratados nas diferente colónias
(valores mensais)
CONTRATADOS COLÓNIAS
Angola Ilha do Princípeª São Tomé
Homens 100$00 80$00 90$00
Mulheres 60$00 60$00 70$00
Menores de 14 a 16 anos (sexo masculino) 40$00 40$00 40$00
Menores de 14 a 16 anos (sexo femenino) 30$00 30$00 30$00
Menores de 16 a 18 anos (sexo masculino) 60$00 40$00 40$00
Menores de 16 a 18 anos (sexo femenino) 50$00 30$00 30$00

Notas: ª – a partir do 3º ano de trabalho haveria um aumento de 20$00 para os homens e as mulheres e de
10$00 para crianças com idades compreendidas entre 16 a 18 anos, para ambos os sexos.

A situação dos trabalhadores em S. Tomé sempre suscitou preocupações ao governo da


colónia de Cabo Verde, uma vez que era a colónia para onde se dirigiu maior número de
cabo-verdianos.

A partir do ano de 1945 começam a ser elaboradas propostas de regulamento da


emigração para as colónias de São Tomé, Moçambique e Angola. Em Maio de 1948 é
produzido um projecto de Diploma Legislativo para Trabalhadores cabo-verdianos
contratados para as outras colónias.

35
In, Revista Cabo Verde, Boletim de Informação e Propaganda, 1 de Junho 1954, Ano V, nº57

59
A 02 de Junho de 1952 é aprovado as alterações ao Diploma legislativo, n.º 956 de 04
de Setembro de 1947, que regulava as contratações para São Tomé. Estas alterações
surgiram da recolha e uniformização de pareceres, resultantes de inquéritos dirigidos
por todos os administradores dos concelhos de Cabo Verde, nas quais foram ouvidas
todas as pessoas que tinham regressado de São Tomé. Dessa alterações propostas nesse
novo diploma, procurava-se salvaguardar os interesses dos contratados cabo-verdianos,
nomeadamente assegurar-lhes o cumprimento do contrato, prevendo-lhes um tratamento
mais humano, depois de comprovadas que os mesmos estavam sujeitos a castigos
corporais, melhorias de vencimento comparativamente com o das outras colónias,
medidas de protecção as crianças com menos de 14 anos, melhorias na alimentação e
fornecimento de vestuários

Duarte Silva, deputado para Cabo Verde apresentou algumas alternativas caso o
Governo insistir em manter essa emigração. A primeira seria de que os serviçais cabo-
verdianos deveriam trabalhar em alternância, ou seja, viajariam para São Tomé nos
períodos de escassez das chuvas em Cabo Verde e regressariam na época das águas,
onde o trabalho da terra exigiria mais trabalhadores. A segunda alternativa era de que
deveriam eliminar os contratadores, com a justificação de que eram os únicos que
beneficiavam com grandes margens de lucros dessa emigração, passando a haver uma
corporação governamental que trataria dos contratos colectivos entre o Sindicato de
Cabo Verde e o Grémio dos agricultores de São Tomé.

Durante o período pós-guerra alguns autores estimam uma redução de 30% da


população mindelense.

Segundo Carreira, o período compreendido entre 1946 a 1973 é considerado o período


de maior êxodo para o exterior, preferencialmente para os países europeus. (Carreira,
1983: 107)

Claúdio Furtado (1993) corrobora a afirmação de Carreira e afirma que: é a partir da


década de cinquenta que assistimos a uma saída em massa de cabo-verdianos. Ele
explica que dois factores estiveram na origem dessa saída: a seca que assolou as ilhas na
década de quarenta e ainda a II Guerra Mundial que trouxe “graves problemas
económicos para as ilhas, nomeadamente uma estagnação, falta de empregos,

60
impossibilidade de importação de alimentos ou de outros recursos da metrópole.
Acresce-se a isto o relativo abandono que a administração colonial votou Cabo Verde,
destituído mesmo do mínimo de recursos financeiros para o desenvolvimento de obras
de infra-estruturas primordiais para a economia da ilha. ”

Furtado (1993) afirma ainda que: “O fluxo migratório anteriormente voltado


preferencialmente as Américas e continente africano passa a direccionar-se a partir
dos anos 50, para os países da Comunidade Económica Europeia (CEE) e para
Portugal. Os países da CEE conheciam um período de grande prosperidade e expansão
económica, necessitando de mão-de-obra, mesmo não sendo esta especializada.”

No entanto, o governo português começa a submeter a partir de 1940, a emigração legal


a um rigoroso controlo, tornando-o mais burocrático, centralizador e moroso, uma vez
que aumentou a documentação exigida e o tempo de espera pela emissão dos vistos e
ainda centralizou-se os serviços de emissão de passaportes na sede do Governo que
implicavam mais despesas com a deslocação e alojamento. (Carreira, 1983:107)

O quadro em seguida, nº8, Correia demonstra-nos a situação da emigração relativo ao


período compreendido entre 1906 a 1973. Em relação ao período em estudo, pode-se
verificar que, entre os anos 1943 a 1952, o número de emigrantes forçados é
consideravelmente maior que a emigração espontânea e do total dos emigrantes, apenas
uma pequena percentagem regressaram a Cabo Verde. No período compreendido entre
1953 a 1962, houve uma inversão dos números, apresentando-se um aumento
considerável da emigração espontânea em comparação com a forçada. No cômputo
geral a emigração e a imigração aumentaram consideravelmente entre esses dois
períodos. No entanto apesar de se verificar uma entrada de grande número de imigrantes
e retornados o saldo continua a ser negativo, porque saem mais pessoas do que entram.
(Carreira, 1983:248)

61
Quadro nº 11- Emigração, Imigração e Retornados (1906 a 1973)
Períodos Emigração Imigração e Retornos Saldo
Espontânea Forçada Total Imigrantes Retornos Total
1906-1918 20797 10602 31399 … 6593 6593 -24806
1919-1932 6627 8988 15615 … 3123 3123 -12492
1933-1942 5605 1542 7147 4524 2434 6958 -189
1943-1952 8121 30304 38425 7818 5794 13612 -24813
1953-1962 30522 18466 48988 24241 8240 32481 -16507
1963-1973 104767 12744 117511 73128 … 73128 -44383
Total 176439 82646 259085 109711 26184 135895 -123190

Importa neste ponto fazer um pequeno esclarecimento sobre o termo “forçada”. Ainda
do recente trabalho de Nascimento (2008), não se tratava de uma situação onde o poder
central impunha de forma coerciva a emigração, mas tratou-se principalmente de uma
situação imposta pela própria conjuntura interna, onde a emigração aparece como a
única forma de salvação das dificuldades económicas. Diz ainda que a presença policial
era somente para garantir que o contrato fosse cumprido. (Nascimento, 2008:15-17)

Pondo em análise os quadros nº 9 e 10,verificamos que o nº de emigrantes era muito


grande tendo em conta o nº precário de nascimento, pensamos que se tratava de uma
medida, por um lado, para atenuar a situação de crise que se vivia, por outro, o governo
português estimulava a saída de pessoas jovens com a preocupação de redimir os
movimentos ligados a luta de libertação, que se tinha iniciado nos anos 50.

No quadro nº 10, Carreira apresenta-nos a situação dos emigrantes tendo em conta as


suas ilhas de origens. Pode-se verificar que no ano de 1945 o número de emigrantes é
maior na ilha de São Vicente. No ano de 1948 houve um aumento progressivo dos
emigrantes de São Vicente, embora em menor números do que Santiago e Maio, mas
que a partir de 1949 a 1950 aumentou a sua cifra em relação a todas as ilhas, facto que
viria a repetir-se em 1952. De referir ainda o caso da ilha de Santo Antão que vinham
registando poucas saídas, mas que no ano de 1960 regista o seu maior número de saídas
e também em relação as outras ilhas.

62
A partir de 1953, os dados estatísticos passam a ser apresentados sem a indicação das
ilhas de proveniência, passando a constar as terminologias: “Nascidos na Metrópole,
Nascidos em Cabo Verde, Nascidos nas outras Colónias e Estrangeiros”.

Quadro nº 12 – Emigração geral, segundo as ilhas de procedências - 1945 a 1960 (H+M)

Anos Santiago Fogo Brava Santo S.Vicente S.Nicolau Sal Boa Não Total
e Maio Antão Vista indicadas
1945 209 … … 3 348 … … … … 560
1946 1920 113 4 3 457 111 7 … … 2615
1947 5729 5 42 1 580 1 4 … … 6362
1948 3813 7 65 8 682 5 … … … 4582
1949 557 13 76 10 573 7 … … … 1236
1950 196 17 53 282 1053 3 14 … … 1618
1951 838 25 96 13 369 11 59 … … 1411
1952 603 33 89 1292 1537 14 81 3 … 3652
1953 … … … … … … … … 1707 1707
1954 … … … … … … … … 2508 2508
1955 … … … … … … … … 5097 5097
1956 … … … … … … … … 2796 2796
1957 … … … … … … … … 1840 1840
1958 749 37 102 145 272 129 1 1 2741 4177
1959 … … … … … … … … 2839 2839
1960 474 107 4 1475 170 378 1 2 1522 4133

Uma vez que a situação de crise era geral em todas as ilhas e devido ao mito de
prosperidade do Porto Grande, continua-se a registar um elevado número de pessoas
provenientes das outras ilhas, em busca de uma vida melhor, nomeadamente de Santo
Antão e São Nicolau, uma vez que estas eram ilhas predominantemente agrícolas e não
possuíam outros meios de superação dessa crise geral, não obstante terem a prática da
pastorícia mas, que como se sabe também não tinha condições para se desenvolver tal
actividade.

63
2 - A Mortalidade

Uma outra das consequências gravíssimas verificadas nesse período foi o elevado
número de óbitos e nados vivos. De referir a grande crise de 1947-48, que se analisa em
seguida.

Da consulta que se fez aos levantamentos do historiador António Carreira, depara-se


com o problema dos dados estatísticos analisados apresentarem uma grande deficiência
uma vez que o controlo da mortalidade era precário e o facto de também haver neste
período um precário resenciamento populacional. Desta forma estima-se que esse
número seja superior ao mencionado pelo autor. (“…continuamos a não dispor de
informações oficiais ou outras, detalhadas, coerentes e de algum modo insuspeitas.”)
(Carreira, 1984:109)

Este controlo era feito tendo em conta o número de famintos que se deslocavam aos
albergues de acolhimento, não sendo possível saber o número exacto ou pelo menos
aproximado, das pessoas que acabavam por falecer a caminho desses albergues que
ficavam localizados nos centros urbanos.

“A evasão aos registos é praticamente impossível de evitar por maior que tivesse sido a
fiscalização oficial. As perturbações de toda a ordem causadas pela deslocação, em
grandes grupos, de famintos impossibilitavam o controlo do obituário.” (Idem:121)

Pode-se constatar que a ilha onde se ocorreu maior número de mortandade, foi a ilha de
Santiago, seguidamente da ilha de São Vicente. O que se tem de ter em conta nessa
análise é que a ilha de Santiago detinham a maior concentração populacional do que em
São Vicente e que essas informações não podem ser analisadas sem se terem em conta
essa variável. (Idem: 117-118)

Neste sentido, pode-se deduzir, com margem para erro, que a situação é mais crítica na
ilha de São Vicente, uma vez que o número de óbitos ocorrido nesta ilha aproxima-se
do da ilha de Santiago, que como se referiu anteriormente, tinha a maior concentração
populacional.

64
Pelo que se conhece das poucas informações que existem, os mais afectados por esta
situação e na qual se regista o maior número de mortandade, são os indivíduos de
parcos recursos económicos. A grande e a pequena burguesia conseguiu contornar essa
crise. Estima-se que tenham morrido “brancos”, da elite devido as pestes que
acompanharam essa crise e não devido a fome. (Carreira, 1984:119; 132)

De referir ainda que essa elevada taxa de mortandade, deveu-se ainda as doenças e
epidemias, pragas de insectos, como se pode verificar pelos dados do quadro nº 10, que
contribuíram para a devastação da pouca área verde e dos gados ainda existente. As
secas prolongadas provocam a diminuição das zonas irrigadas, das nascentes e das
águas subterrâneas. (Carreira, 1984:130)

Os anos mais críticos foram sem dúvida de 1947 a 1948, período de grande seca em
Cabo Verde.

Quadro n.º 13 – Total de Nascimento e óbitos no Concelho de São Vicente (1945 a


1952)

ANOS Nº Nascimentos Nº Óbitos % Saldo Demográfico %


1945 1670 974 0,58 696 0,42
1946 872 773 0,89 99 0,11
1947 789 1034 1,31 -245 -0,31
1948 678 1250 1,84 -572 -0,84
1949 666 727 1,09 -61 -0,09
1950 743 492 0,66 251 0,34
1951 891 433 0,49 458 0,51
1952 914 562 0,61 352 0,39

Gráfico nº 3 – Total de Nascimento e óbitos no Concelho de São Vicente(1945 a 1952)

65
Outro factor que acabou por contribuir para agravar a situação foi a má distribuição das
ajudas, marcadas pela diversidade na sua distribuição, que variava de concelho para
concelho, sendo que umas vezes se distribuíam dinheiro, outras géneros alimentícios
crus – na maioria das vezes o milho – e em outras ocasiões refeições quentes – cachupa.
Essa distribuição era feita sem nenhuma forma de controlo.

Carreira (1984) dá-nos conta de um relato do então inspector da administração, António


Policarpo de Sousa Santos, informando-nos dos conflitos de interesses pessoais e de
competências entre as autoridades, com graves repercussões nos trabalhos de assistência
às populações, tratando de divergências nas formas de efectuar as distribuições dos
géneros e ainda quais eram as obras públicas prioritárias.

Apesar desse relatório fazer referência ao Concelho da Praia, demonstra-nos a situação


tensa que se vivia em Cabo Verde, tendo sido enviado o citado inspector para averiguar
a situação das ilhas, após terem sidos enviados ao Governo algumas acusações que
recaiam sobre os funcionários da colónia.

Em Fevereiro de 1949 acontece um trágico acidente na ilha de Santiago que vitimou


234 mortes e 100 feridos causado pelo desabamento de um moro que suportava um
alpendre, mandado construir pelo Governo para albergar os desfavorecidos e fornecer-
lhes a refeição diária (sopa) que era a única refeição que tinham. (Almeida, 1979: 283)

Seria a partir de 1960 que o Governo viria a tomar medidas planificadas de actuação,
visando o combate mais eficiente em tempo útil das crises agrícolas em Cabo Verde,
evitando ainda os desperdícios que tinham sido cometidos anteriores. Assim, a 21 de
Março desse mesmo ano enviou-se uma comissão de trabalho para elaborar um relatório
mais completo possível, onde se definiriam as especificidades de cada ilha.

De referir ainda ao facto de existir nessa altura, na ilha o único liceu do arquipélago, o
que fez aumentar o número de intelectuais na mesma, contribuindo para a tomada de

66
consciência da situação, pressionar o governo português e de procurar soluções
externas.

Figura n.º 7 - Esquadra Britânica no Porto Grande – Mindelo. 1948

Autor: Desconhecido36

36
Fotografia de Foto Melo 1948 - Home Fleet Britânica, na sua viagem de agradecimento aos Países
Aliados pelo esforço e apoios prestados durante a II Grande Guerra.

67
3 - Repercussões do Pós-Guerra na Cultura Mindelense

a) Comportamentos Eleitorais

Durante o período em estudo ocorreram duas importantes eleições presidências


decorrentes de vários descontentamentos e greves ocorridas a nível nacionais e de
violentas repressões e perseguições: a de 1949 e a de 1958. Em relação ao primeiro
marca um período de viragem na história de Portugal, uma vez que ocorreu num
período logo após ao fim da segunda grande guerra e representava uma viragem para os
novos tempos modernos, tendo ocorrido em Portugal várias manifestações contra o
partido fascista no poder de Oliveira Salazar.

No entanto essa viragem foi sentido pelo próprio governo que em Setembro de 1945,
dissolve a Assembleia Nacional anunciando eleições livres e a tão aclamada abertura
política. Destaque para dois grandes movimentos: a MUD (Movimento de Unidade
Democrática) e a MND (Movimento Nacional Democrático), em representação da
oposição constituídas por milhares de pessoas.

Em Outubro de 1945 o PCP (Partido Comunista Português) condena veemente as


manobras políticas do governo de Salazar e estabelece uma aliança com a MUD,
apresentando uma única lista em representação da oposição. (Matoso, 1998: 347)

No que se refere as eleições de 1949 assistiu-se ao levantar de uma oposição forte e


grande contra o Estado Novo constituída por: comunistas, moderados, velhos
democráticos e socialistas e tendo como candidato o general Norton de Matos, que
assessorado por um grupo notável de conselheiros denunciou o governo fascista, não se
coibindo de denunciar todos os males e fracassos do governo, prometendo implementar
a democracia em caso de vitória nas eleições. (Marques, 1986:389)

No entanto as suas convicções sobre as colónias não se tinham alterado, mostrando-se


completamente a favor da manutenção das mesmas. Assim escreveu em 1943 no
Memórias e Trabalhos da minha vida: Se alguém passar ao vosso lado e vos segredar
palavras de desânimo, procurando convencer-vos de que não podemos manter tão
grande império, expulsai-o do convívio da Nação.” (Almeida, 1979:254)

68
No entanto a fraqueza dessa oposição que poderia ter mudando o rumo da História de
Portugal nessa época deveu-se as suas cisões internas relacionados com os que eram
partidários de ideologias arcaicas para a modernidade que se queria introduzir em
Portugal e ainda devido ao facto de alguns partidos realizaram acções individuais em
função dos seus interesses. (Idem: 392)

O general Carmona foi eleito sem oposição, uma vez que o candidato da oposição, o
general Norton de Matos desistiu nas vésperas do acto eleitoral, receando a derrota, uma
vez que se mostrava desacreditado na reforma dos cadernos eleitorais e na liberdade de
voto.

Essa vitória do governo da situação demonstrava que a oposição não estava ainda
preparada para combater o Estado Novo, o que resultou no fortalecimento do mesmo,
não obstante os resultados eleitorais terem sido sempre controlados de forma
fraudulenta de modo a garantir a vitória dos candidatos do Estado Novo.

Seria reaberto nesse mesmo ano para acolher presos políticos, maioritariamente
comunistas ou simpatizantes da oposição, o Campo de Concentração de Cabo Verde em
Tarrafal – ilha de Santiago.37

Em 1949 Portugal torna-se membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico


Norte) tendo sido realizado algumas mudanças constitucionais defendendo-se das
críticas ao colonialismo. O Acto Colonial de 1930 sofreu alterações no que se refere ao
estatuto dos indígenas e na designação das colónias passando as mesmas a serem
designadas de Províncias Ultramarinas.

37
A Colónia Penal do Tarrafal foi criado através do Decreto-lei n.º 26:539, em 1936, no âmbito da
reorganização dos serviços prisionais, enquadrada na vertente prisões especiais. Destinado a presos
políticos e sociais no Ultramar que tivessem cometidos crimes políticos e os presos de delito comum
quando não respeitavam as normas de disciplinas e mostravam-se como maus exemplos para os outros
presos da metrópole e ainda os que tivessem cometidos crimes de rebelião: a ofensa contra o prestígio da
República ou contra o prestígio do Presidente da República ou do Governo, a propaganda ou outro meio
de provocação à disciplina social, o não cumprimento dos deveres da função pública ou das ordens da
autoridade, o encerramento de fábricas ou cessação de qualquer industria sem causa legítima, a ofensa
contra a bandeira, o Hino nacional ou qualquer emblema do Estado [etc]. No entanto desde 1931 que
eram enviados para Cabo Verde, ilha de São Nicolau, presos políticos para o Colónia Penal que ali
existia. (Tavares, 2007:63-65).
Mais tarde, a partir de 1961 seria utilizada para “acolhimento” de presos políticos africanos que teriam
luta pela independência das colónias

69
Com a morte de Carmona em 1951 foram realizadas novas eleições as quais serviram
para reabrir questões antigas com adeptos a defenderem a restauração da monarquia
para além de dos democráticos. Mas a ideia primeira era de que o Estado Novo deveria
“desaparecer” e instituir o regime democrático.

A oposição moderada propôs para Presidente o almirante Quintão Meireles e a esquerda


Rui Luís Gomes, ao qual o Supremo Tribunal de Justiça vetou-lhe a candidatura
acusando-o de comunista. Meireles desiste nas vésperas das eleições e sem oposição
Craveiro Lopes, candidato do governo é eleito Presidente.

Em 1955 a comunidade internacional permitiu a entrada de Portugal nas Nações Unidas


após duas recusas anteriores. A partir dessa altura houve algumas mudanças políticas e
sociais em benefícios da população portuguesa, nomeadamente melhoria nos
vencimentos, fomento de obras públicas e das indústrias. No entanto as perseguições a
oposição mantiveram-se.

Seria nesse cenário acima referido que se realizariam as eleições de 1958, demonstrando
a crise por que passava o Estado Novo. Nessa altura as atitudes do chefe do governo
português, Oliveira Salazar, encontravam forte oposição dentro do próprio governo e
por parte dos que se tinham mantido na neutralidade até aquele momento.

De entre as reivindicações dos opositores do regime, apelavam a maior abertura política


de forma a terem mais candidatos, reformas administrativas adequados aos novos
tempos, novas formas governativas internas como também nas colónias.

Para essas novas eleições Salazar escolheu o Almirante Américo Tomás em


representação do regime, uma vez que a sua primeira escolha, Craveiro Lopes tinha sido
vetado pela Comissão Central da União Nacional. A oposição centro-esquerda escolheu
o general Humberto Delgado38 e a extrema-esquerda escolheu Arlindo Vicente.

De entre esses dois últimos, Humberto Delgado granjeou as simpatias das populações
por onde passava tendo suscitado enorme entusiasmo e apoios em todo o país. Esse

38
Na altura Humberto Delgado era oficial-aviador no activo e ao mesmo tempo Director Geral da
Aeronáutica Civil. Tinha demonstrado ser, até então, grande defensor da política Salazarista. (Marques,
1986: 397).

70
facto permitiu uma aliança política entre os dois blocos da esquerda, a 30 de Maio de
1958 com o intuito de unirem forças contra o governo fascista português, estabelecendo
linhas de acção comuns.

Em relação às colónias a oposição nunca cogitou a possibilidade de libertação das


mesmas, muito pelo contrário afirmou que as mesmas deveriam ser mantidas, porém
com políticas mais eficazes: “Na Proclamação de Humberto Delgado, [diz] que é seu
objectivo manter e consolidar os nossos compromissos e direitos internacionais de
potência ocidental, geograficamente dispersa, mas política e moralmente unida e
indissociável” (Almeida, 1979: 349)

A oposição demonstrou que tinha força política para mudar o regime e em reacção o
governo no poder preparou em caso de derrota nas eleições uma acção militar, caso que
não intimidou o general Delgado tendo o mesmo seguido com a campanha mesmo
receando os conhecidos actos fraudulentos nos actos eleitorais, como seria de esperar de
eleições realizadas durante a vigência de um regime fascista, que acabou por se verificar
nos resultados onde Delgado ficou muito aquém das suas expectativas, tendo-lhe sido
atribuído pelo governo 25% do total dos votos.

Os actos fraudulentos não representavam novidades para a Oposição uma vez que
conheciam todas as formas ilícitas que o governo utilizava e facto comprovado tinha
sido o que aconteceu no ano anterior aquando das eleições para os deputados onde os
votos tinham sido adulterados: “Nas eleições para deputados [em 1957] apenas são
recenseados 1.300.000 portugueses, quando Portugal e colónias têm mais de 20
milhões de habitantes. A Oposição Democrática, que só se candidata em quatro
distritos, é excluída no de Lisboa, e apenas se mantém até ao fim em Braga… Em
numerosas terras, o eleitorado segue a palavra de ordem de abstenção dada pela
Oposição Democrática.” (Idem:342)

Terminado o acto eleitoral as repressões a oposição intensificaram. Humberto Delgado


e os seus partidários foram demitidos e perseguidos, sendo que o general acabou por
exilar-se na Embaixada do Brasil e depois na Argélia e os seus partidários julgados e
presos. Delgado condenou os actos fraudulentos dessas eleições cometidas pelo governo

71
dizendo que tinha sido ele o vencedor das eleições de 1958 e o grande número de
pessoas que não tinham dirigidos as urnas.39

O general Delgado seria assassinado a 13 de Fevereiro de 1965 por uma brigada da


PIDE perto da localidade de Badajoz em Espanha, quando tentava entrar
clandestinamente em Portugal.

As cisões internas no governo eram muito evidentes, tendo alguns membros sido
afastados por discordarem das práticas governativas de Oliveira Salazar.

A própria Igreja Católica que tinha mantido a sua posição neutral durante todo esse
período conflituoso da política portuguesa começa a reagir contra o governo fascista
referindo que o mesmo prejudicava as acções religiosas da Igreja, participando em
manifestações contra o regime.

Depois da projecção e apoio quase incondicional dos portugueses ao general Humberto


Delgado nas eleições de 1958, o governo da ditadura alterou a legislação, vetando as
eleições directas para o Presidente da República, passando a ser eleito em concertação
da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa.

O cenário das eleições em Cabo Verde não foi diferente daquilo que se verificou em
Portugal e no caso específico de São Vicente, daquilo que se pode verificar houve
alguns factos que não se conseguiu chegar a uma explicação concreta uma vez que a
nossa análise foi feita com base somente em documentos oficiais enviados para a
Administração da Colónia. Em Cabo Verde não houve nenhum movimento da oposição
que tivesse contestado os actos eleitorais e dessa forma não ficou registado nenhum acto
fraudulento como se pode documentar em Portugal.

39
“Em São Vicente, Cabo Verde, foi concedido o direito de voto a padres e sacristães que haviam
chegado da capital apenas alguns dias antes das eleições, enquanto muitos dos votantes incluídos na
lista para as últimas eleições legislativas, foram excluídos desta eleição presencial.” (Humberto
Delgado, in Marques, 1986:398)

72
As eleições legislativas de 1949 que ocorreram em São Vicente, no edifício da Câmara
Municipal, para eleições do Deputado da Nação pelo círculo de Cabo Verde, tiveram
uma única lista encabeçada pelo Dr. Adriano Duarte Silva.40

Depois de seguirem os tramites legais de acordo com o previsto na constituição, a


Assembleia Eleitoral do concelho de São Vicente iniciou o processo de votação as
09:00 e encerrariam o acto eleitoral as 12:30, ao que se seguiu mais duas horas de
trabalho dos escrutinadores e demais trabalhos decorrentes do acto eleitoral, tendo sido
apurados 2099 votos a favor do Dr. Adriano Silva dos 2265 cidadãos recenseados no
concelho. Em seguida as listas de votos entradas na urna foram queimadas, em
cumprimento do artigo setenta e um, do Decreto-lei n.º 37.570 de 03 de Outubro de
1948.

Seguiu para conhecimento do governo os seguintes documentos comprovativos do acto


eleitoral: dois cadernos de recenseamento, três editais, um modelo da lista do candidato
e dois cadernos das actas da eleição do Deputado da Nação.

Em 1953 realizam-se novas eleições para o Deputado da Nação pelo círculo de Cabo
Verde. Seguiu-se os mesmos trâmites eleitorais acima referidos, tendo sido apurados
2228 votos a favor de Adriano Silva, dos 2433 eleitores recenseados, tendo sido
anulados 3 votos de eleitores aos quais se alegou na acta que votaram com certidões
passadas pelo círculo eleitoral da Guiné.

Da pesquisa realizada aos Certidões de Eleitor verificou-se que os 3 eleitores aos quais
foram anulados os seus votos, eram naturais de São Vicente, mas por se encontrarem
fora do país, foram recenseados no concelho da Guiné e de Bolama e no concelho de
Farim em Portugal. No entanto foram validadas os votos de outros eleitores que
apresentaram as mesmas certidões de recenseamento emitidos noutros concelhos.

40
O Dr. Adriano Silva sempre foi o candidato mais apoiado para assumir o cargo de representante da
Colónia de Cabo Verde, na Assembleia Geral. Em todas as campanhas eleitorais havia um forte lobby a
favor do mesmo. Nas eleições de 1949, há um forte apoio a sua campanha no único jornal então existente,
o Notícias de Cabo Verde, servindo-se ainda do jornal para emitir desmentidos públicos dos que não eram
apoiantes do Dr. Adriano Silva, chegando mesmo a publicar dizeres como: Os bons caboverdianos e os
amigos da nossa Terra votam todos no Dr. Adriano e Quem deseja o progresso de Cabo Verde deve
votar no Dr. Adriano. in, Notícias de Cabo Verde, Ano XIV, Nº 231, 10/10/1945

73
Outro aspecto importante a referir esta relacionada com a duração do acto eleitoral de
1953 em comparação com o de 1949. Verificou-se o de 1953 teve inicio as 9:00 e
terminou as 17:00 as votações ao que se seguiu os trabalhos normais acima referidos na
pós-votação. Esse facto chamou-nos a atenção porque a diferença de votantes entre os
actos eleitorais de 1949 e 1953 é de 132 votos, conforme se pode verificar no quadro n.º
12 e no entanto o segundo durou mais tempo com essa pequena diferença de votantes,
ao qual se pensa que os trabalhos decorreram em tempo recorde em relação ao primeiro
acto eleitoral ou de facto verificou-se a existência de actos fraudulentos também em
Cabo Verde, nesse caso em São Vicente.

Seguiu-se as eleições para Deputado da Assembleia por Cabo Verde em 1957. Nesse
acto eleitoral, assiste-se ao mesmo “cenário” do que se verificou nas eleições anteriores,
tendo-se mais uma vez sido eleito o Dr. Adriano Silva.

Quadro n.º 14 – Eleições para deputado à Assembleia pelo círculo de Cabo Verde (1949 a
1957)
Ano Total Eleitores Total Votos Votos Nulos Votos a favor Candidato Eleito
1949 2265 2099 --- 2099 Dr. Adriano Silva
1953 2433 2231 3 2228 Dr. Adriano Silva
1957 2791 2791 --- 2791 Dr. Adriano Silva

Fonte: Actas das Sessões das Eleições (1949 a 1957)

As eleições presidenciais de 1951 decorreram em Cabo Verde também sob vigilância do


Governo, tendo sido indicados pelo mesmo as listas das pessoas que deveriam integrar
as mesas de assembleia de votos, assim como tinha ocorrido em 1949.

Em São Vicente o local de votação foi no edifício do Paços do Concelho (Câmara


Municipal) e dos 2127 recenseados exerceram o direito de voto 1674 indivíduos, tendo
todos votados a favor do General Francisco Higino Craveiro Lopes. Após a votação
queimaram na presença dos membros da mesa, os boletins de votos que deram entrada
na urna. A acta da sessão fora anexas os cadernos eleitorais, os editais afixados e o
modelo das listas deitadas na urna, conforme as normas exigidas, tendo esses
documentos seguido para a Administração da Colónia.

74
Em relação a esse acto eleitoral constata-se que pela acta da sessão que 453 eleitores
não se dirigiram as urnas, facto que nos chama a atenção quando se compara os
números relativos aos eleitores que não compareceram aos outros actos eleitorais
correspondendo em média a cerca de 200 eleitores.

Quadro n.º 15 – Eleições para Presidente da República (1949 a 1958)


Ano Total Eleitores Total Votos Votos Nulos Votos a favor Candidato Eleito
1949
1951 2127 1674 --- 1674 Dr. Higino Lopes
1958

75
b) Reflexos Culturais

A nível cultural o ambiente que se vivia na altura em estudo não proporcionava grandes
obras. O único jornal que ainda continuava a editar números era o Notícias de Cabo
Verde (São Vicente – 1931-1962) sob a direcção de Manuel Ribeiro de Almeida,
propriedade de grandes comerciantes Este jornal teve uma duração de 31 anos, no
entanto resistiu algumas interrupções, no entanto chegou a ser o único órgão de
imprensa em toda a Colónia. Em relação as revistas havia o Cabo Verde – Boletim de
Propaganda e Informação (Praia – 1949-1964), durou 16 anos e a Claridade – revista
de artes e letras (São Vicente – 1936 – 1960) que durou 24 anos, também com algumas
interrupções, devido a ausência de alguns colaboradores e problemas financeiros.
(Brito-Semedo, 2006:174; 175)

Eram todos periódicos não oficiais, que estavam sujeitos a fiscalização sendo que
qualquer publicação deveria primeiro ser submetida as autoridades para validação antes
da impressão e divulgação, chegando a casos de retirar-lhes formas de financiamento,
quando as matérias publicadas assumiam um carácter interventivo e crítico quanto se
tratava de assuntos sociais e políticos.

Desses foram encontrados alguns números da revista Cabo Verde – Boletim de


Propaganda e Informação e ainda uma edição do Jornal Notícias de Cabo Verde

Eram muito pouco os que nessa altura ainda despendiam o seus recursos na compra de
jornais e/ou revistas. Em relação aos outros media, havia somente a rádio e eram muito
pouco as famílias que na altura possuíam um aparelho de rádio e as notícias eram
vinculadas entre a população de boca-a-boca, nos cafés, nos mercados, onde havia
concentração de pessoas. Não se sabe se os grandes comerciantes possuíam aparelhos
de televisão.

No entanto foi através da música que muitos compositores cabo-verdianos exprimiam as


suas posições em relação a II Guerra Mundial e o Pós-guerra e acabaram por representar
o ensejo e as preocupações da vivência social nas ilhas. De entre essas composições
destacamos algumas em baixo, com a tradução para o português, baseando-se
essencialmente do conhecimento da língua crioula como nativa da ilha.

76
Convém esclarecer que o que se pretende não é fazer uma análise da música, porque não
é a nossa área de domínio, mas demonstrar através das letras das composições o retrato
da vivência da população mindelense no período em estudo. Trata-se de temas que, de
forma pouco explícita ou encriptada denunciavam a situação social, tendo sido muitos
alvos de traduções para o português antes de serem tocadas nas rádios.

A composição “Hitler”, escrita pelo compositor B. Lèza em 1944, demonstra a posição


do compositor a favor dos aliados, trata-se da expressão de um sentimento comum,
porque as composições eram retratos sociais. Através dos jornais e da rádio iam tendo
informações sobre o que se passavam no mundo fora e o final da guerra eram aguardo
com alguma expectativa de mudança. Todos estavam a favor dos aliados e almejavam o
fim da guerra.
“HITLER” “HITLER”
Hitler ca ta ganhá guerra n`é nada Hitler não vai ganhar a guerra, não
Guerra é di nos aliado Guerra é dos nossos aliados
Águia negra vencida na campo di batalha Águia negra vencida no campo de batalha

Nô tâ pô fé na British Nós temos fé no British


Nô tâ confia na tude sê valor Nós confiamos no seu valor
Der Fuhrer jâ stâ pirdide Der Fuhrer esta perdido
Co tude sê horror Com todo o seu horror

Churchill é um barra di aço Churchill é uma barra de aço


Qui câ tâ derretê Que não derrete
Na terra, na mar e no ar Na terra, no mar e no ar
El tem qui vencê... Ele tem de vencer...
Morna de B.Léza Traduçao nossa

Foram feitas também composições sobre o término da guerra. A composição “ Vitória”


demonstra como a notícia do término da guerra foi acolhida com muito entusiasmo e
esperança de que melhores dias estavam por vir. No entanto, as condições de vida da
ilha mantiveram-se e a falta de emprego era preocupante.

A canção “Vitória” traduz essa expectativa da população mindelense e não só, de todos
os cabo-verdianos. Aos mindelenses a vitória dos aliados traduzia o voltar aos velhos
tempos de reanimação de Porto Grande com entrada de navios e consequentemente
mais trabalhos. Na última quadra a frase (Mesa de pobre que tem fome) parece
desenquadrada do assunto da guerra, mas pensa-se que o autor aproveitou para chamar a

77
atenção para a miséria em que a população vivia, uma vez que todas as canções eram
alvos de censura. Os cantados na língua crioula eram traduzidos para o português e
assim as autoridades seleccionavam os que podiam passar na rádio.

“VITÓRIA” “VITÓRIA”
Lulu nha Antónia general Giraud Lulu, D. Antónia, general Giraud
Djunta bo voz co Mari Pi Junta a tua voz com a de Mari Pi
Nô bem cantâ Morna de Vitória Vamos cantar a Morna da Vitória
Que ta luniá Montgomery Que ilumina Montgomery

Sês câ contente co ês nôs cantiga Se não estão contente com a nossa cantiga
Nem quês ca crê nô tem que cantal Se não quiserem, temos de cantá-la
Se dj`el bá boca de rapariga Se já está na boca de rapariga
Ês tâ rendê incondicional Vai render incondicional

Por isso um biba pa Inglaterra Por isso, um viva para a Inglaterra


Que comê ês carne el tchupa tutano Que comeu a carne e o chupou o tutano
Untrum pa Rússia que ba Berlim Outrossim para a Rússia que foi a Berlim
Na pêto forte de Maricano No peito forte do americano

É si que é staca é si que é nôs fé É assim a nossa estaca e a nossa fé


Cabo quês bai dja tchiga um nome De todos os sítios libertados chegou um nome
Pulso de aço, pêto de bronze Pulso de aço, peito de bronze
Mensa de pobre que tenê fome. Mesa de pobre que tem fome.
Morna de R.Peres e Kaká Barbosa Tradução nossa

Na composição seguinte intitulada de “27 de Setembro” o autor mostra-nos o


descontentamento das pessoas que tiveram de ser recrutados para enquadrar a exército
português, depois de terem prestado o serviço militar, como se pode verificar na terceira
quadra (Eu vou voltar/Meu caminho outra vez para a tropa)

Percebe-se que o autor refere-se a pessoas com família formada, que vêm-se obrigados
a sair da ilha de Santiago para virem a ilha de São Vicente, local onde se encontravam
os militares portugueses.

Essa integração dos militares cabo-verdianos era vista para os nacionais como uma
coisa irremediável, triste e causava muito sofrimento às famílias, talvez por pensarem

78
que se tratava uma viagem para a Europa na luta efectiva na guerra e não meramente
para defesa das ilhas em caso da guerra chegar a Cabo Verde.

“27 de Setembro” “27 de Setembro”


Dia 27 de Setembro Dia 27 de Setembro
´M recebê um grande notícia Recebi uma grande notícia
Que causam nha tristéza Que me deixou muito triste
Pamô ramede ca tem Porque não tem solução

Quond sol ta bá ta cambâ Quando o Sol ia se pôr


Mi sentado na praia di Rubado Estava sentado na praia de Rubado
´M bem fazêbo ess morninha, cretcheu Eu fiz essa morninha, cretcheu (querida)
Pa b lembrâ sempre na mi Para lembrares sempre de mim

Oh Neto qui côsa é ess Oh Neto, que coisa é essa


Cá`s bem faze bô amigo Que vieram fazer ao teu amigo
´M tâ torna bai Eu vou voltar
Nha caminho outra vez pa tropa Meu caminho outra vez para a tropa

C`ta levom más trapassado O que me deixa mais triste


É sodade de nha mãe má nhas irmãs É a saudade da minha mãe e das minhas irmãs
Ó mãe ca bocês tchora nada Oh mãe, não chore
Fé na Deus ´m ta torna volta Com fé em Deus ei-de voltar
Morna de Djidjungo Tradução nossa

A morna “Sodade de São Nicolau” foi escrita na década de 40 e representa o desespero


das pessoas que viram-se obrigados a seguir para a colónia de São Tomé, como
contratados das roças, fugindo a precária situação económica das ilhas. Apesar de ser
uma composição que retrata a saída de um natural da ilha de São Nicolau, pensa-se que
esta pessoa seria uma das muitas que saíram da ilha rumo a São Vicente em busca de
melhores condições de vida.

No entanto essa morna acabou retratar todos os que se encontravam na situação de


contratados para as roças de S. Tomé. Esta morna tornou-se num música mais cantadas
pela Cesária Évora que a tem levado a todos os cantos do mundo com os seus concertos
e a expressão sodade é imediatamente ligada ao povo das ilhas de Cabo Verde, assim
como a expressão morabeza.

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“SODADE DE SÃO NICOLAU” “SAUDADE DE SÃO NICOLAU”
Quem mostrabo êss caminho longe? Quem mostrou-te esse caminho longe?
Êss caminho pa Santomé Esse caminho para São Tomé
Sodade, sodade, sodade Saudade, saudade, saudade
Dess nha terra Sanicolau Da minha terra São Nicolau

Si bô ´screvê`m Se tu me escreveres
´Mta ´screvêbo Eu também te escrevo
Si bô ´squecê´m Se tu me esqueceres
M´ta esquecebo Eu também te esqueço
Até dia qui bô volta Até um dia que tu voltares
Sodade, sodade Saudade, saudade
Sodade de nha terra Sanicolau Saudade da minha terra São Nicolau

Morna Popular Tradução nossa

A composição “Quatr´hora de madrugada” retrata o desespero da população


mindelense, principalmente dos familiares quando, as quatro horas da madrugada, os
jovens eram recrutadas para trabalhar nas roças de S.Tomé.

Demonstra ainda algum descontentamento com a polícia política (PIDE), quando se


refere ao Mota Carmo, capitão do exército das forças expedicionárias em São Vicente,
que segundo a composição os jovens eram recrutados e colocados durante a noite na
prisão da cidade designada de Vôvô e eram levados de madrugado para o embarque no
cais onde a firma Willson fazia a descarga e carga do carvão. (Rodrigues e Lobo,
1996:83)

Importa referir que das pesquisas realizadas ao longo do trabalho e aos materiais
oficiais consultados não foram encontradas nenhuma referência a prisão dos recrutados
antes de seguirem para o trabalho nas colónias.

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“QUATR´HORA DE MADRUGADA” “QUATRO HORAS DE MADRUGADA”
Quatr´hora de madrugada Quatro horas de madrugada
Gente de Sancente impé População de São Vicente esta de pé
Tâ gritá, tâ tchorá, A gritar, a chorar
Tâ sperá largá A espera de ver sair
Sis fidjo pâ Sant´mé. Seus filhos para S. Tomé.

Grande rabolice na “Vôvô” Grande agitação na “Vovô”


Por causa di nhô Mota Carmo Por causa do senhor Mota Carmo
Qu´rê trá Sanconte sê povo Que quer tirar São Vicente o seu povo
Djudado pâ ses catchôr, Ajudado pelos seus capangas
Amigo de sê amo. Amigos do seu amo.

Wilson ê cais pa carvon Wilson é cais para o carvão


Pa povo ca fica descontente Para o povo não ficar descontente
La ês bai imbarcòne Lá foram embarcados
De boxe de sês sorriso. Com sorriso falso.
Pa nôs ê indeferente! Para nós é indiferente!

Morna Popular Tradução nossa

A composição “Destino d´Home” também retratou o sofrimento daqueles que fugindo


as crises das ilhas, tiveram de optar pela emigração para outras paragens.

A saída dos cabo-verdianos era visto como uma fatalidade, ou seja tinham de seguir
viagem, para poderem ajudar as suas famílias que ficavam, mas também era a única
forma de escaparem da morte certa.

“DESTINO D´HOME” “DESTINO D´HOME”


Oli´m na meio di mar Estou aqui no meio do mar
Ta sigui nha distino A seguir o meu destino
Na caminho d´América No caminho para a América
É qu´é triste pa´m dixâ nha terra É triste eu deixar a minha terra
Sima é triste `m dixâ nha mãe Como também é triste eu deixar a minha mãe
Sodade bem morâ na nha peito... Sodade veio morar no meu peito...
Dixâ´m bai pa´m ca morrê Deixa-me ir para não morrer
Bai terra longe Ir para terra longe
É distino d´home É destino de homem
Distino sem nome Destino sem nome
Qui nô tem qui cumpri Que nós temos de cumprir
Dixa´m sigui nha distino Deixa-me seguir o meu destino
Es distino di meu Esse meu destino
Bai pa´m dixa nha mãe Ir e deixar a minha mãe
Sodade bem morâ na nha peito... Sodade veio morar no meu peito...
Dixâ´m bai pa´m ca morrê Deixa-me ir para não morrer
Morna de B.Léza Tradução nossa
81
V – Conclusão

Descoberta a 22 de Janeiro de 1462, a ilha de São Vicente constitui uma das mais novas
ilhas de Cabo Verde no que se refere a sua ocupação efectiva. Comparativamente com a
ilha de Santiago que seria a primeira a ser povoada, esta somente viria a conhecer um
povoamento efectivo a partir do século XX.

Todo o esforço realizada pela administração das colónias de Cabo Verde, visavam dotar
a ilhas das mínimas condições de habitabilidade que permitissem por seu torno o
desenvolvimento do seu porto, devido a boa posição geoestratégica da ilha, na qual um
porto poderia ser uma grande fonte de rendimento para a colónia e para a metrópole.

Muito embora se reconhecesse as boas condições que o Porto Grande oferecia, todas as
tentativas de povoamento conhecera o seu fracasso devido as condições naturais
adversas que a ilha apresentava (calamidades naturais), que provocavam a morte e
fomes da pouca população que aí se estabelecia, não obstante a todos as cartas régias
que previam a criação de incentivos fiscais e aduaneiros nunca antes aplicados nas
outras ilhas, chagando a situação de pela carta régia de 1838 determinar que o governo
da colónia deveria sediar-se na ilha de São Vicente, justificando-se as melhores
condições que a ilha proporcionava em comparação com a ilha de Santiago, na qual nos
períodos de grande humidade e pragas de insectos deslocavam a administração para as
ilhas de clima mais acolhedoras.

O verdadeiro desenvolvimento populacional da ilha acontece com a presença e


investimento efectuados pelos ingleses que reconheceram as boas condições do porto,
providenciaram a construções de algumas infra-estruturas que permitiram a instalação
de Companhias carvoeiras. Esse investimento dos ingleses representou a abertura de
muitos postos de trabalhos, permitindo a fixação das pessoas que viram nessa época
uma saída para as épocas de crise agrícola nas ilhas.

A imigração de pessoas das outras ilhas, devido ao crescente aumento da navegação que
por sua vez desenvolveu muitas outras actividades que gravitavam a volta do porto,
fomentou o desenvolvimento daquela que seria a mais nova das cidades de Cabo Verde,
após 100 anos das primeiras tentativas de povoamento.

82
O “el dorado” cabo-verdiano não passava de uma grande mentira, porque todo esse
desenvolvimento geradora de lucro não era aproveitada no desenvolvimento da cidade,
seguindo para os cofres das empresas inglesas e do governo português. A população
vivia em más condições de habitabilidade, aliada ao facto de recebem muito pouco e de
trabalharem em condições precárias que resultava na maior parte das vezes no
aparecimento de muitas doenças respiratórias. No entanto representava na altura a única
forma de rendimento certo na ilha uma vez que a mesma nunca teve uma forte vocação
agrícola.

Numa tentativa de reverter o cenário acima descrito e recuperar para si o monopólio das
actividades nas colónias, o governo português promove uma mudança constitucional
que aconteceria com a implementação do novo Regime Estado Novo, que procedeu a
aprovação de vários decreto-leis que fundamentavam a imperialismo português, numa
tentativa de rentabilizar cada vez mais as colónias, tornando-as as novas formas de
rendimento de Portugal.

Foram também aprovados novos decreto-lei numa tentativa de encobrir a precária


situação socioeconómica das colónias devido as varias pressões internacionais. Mudam-
se o estatuto das colónias passando as mesmas a designarem-se por províncias
ultramarinas, e as populações passar a ter o estatuto de assimilados ao invés de
indígenas.

A partir do ano de 1951 ganha corpo vários debates a favor e contra a adjacência de
Cabo Verde, passando a integrar a administração da metrópole, numa tentativa de
minimizar e resolver mais prontamente as crises que assolavam o arquipélago, apesar de
até a independência nada ficou resolvido. A questão da adjacência ganha actualmente
novas discursões/debates uma vez que esta a decorrer todos os demarch para que Cabo
Verde passe a ser membro da União Europeia.

Nesse mesmo ano, a câmara de São Vicente enviou várias notas ao Governo das
colónias solicitando a permissão para utilizar os saldo positivos dos fundos de reservas
de forma a auxiliar a população que passava fome devido ao franco declínio das
actividades do porto, a falta de chuvas que assolava todo a arquipélago e ainda a
paralisação de muitas obras. Esses vários apelos tiveram respostas muito tardias.

83
Fugindo a essa situação muitas pessoas foram obrigadas a emigrar para colónias
nomeadamente para S. Tomé, na condição de contratados, onde a situação também não
era melhor.

No entanto, a situação financeira de Portugal não era melhor, devendo-se aos maus
investimentos, numa altura onde todos os países europeus procuravam formas de saírem
das (ruínas) da guerra, apesar de Portugal ter adoptado uma politica de neutralidade
colaborante.

Foi aprovado dois planos de fomentos que deveriam resolver a situação económica da
metrópole e das colónias, financiados pelo plano marshall e que visavam o
desenvolvimento dos recursos das colónias. No entanto, a demora entre a aprovação e a
efectivação dos trabalhos foi um dos aspectos negativos desses planos, aliada ao facto
de que os valores aprovados ficarem muito aquém daquilo que deveria ser utilizado no
fomento desses recursos.

O fim da II Guerra Mundial trouxe repercussões a todos os níveis, tendo sido analisadas
as que ocorreram a nível das eleições e nas manifestações culturais durante o período
em estudo. As eleições representavam novos ventos de mudanças que resultariam no
triunfo das democracias em detrimento das ditaduras e todas as liberdades e garantias
dai advenientes. Os reflexos culturais espelham os sentimentos do povo em relação a
essa nova ordem mundial. Optou-se por demonstrar nas composições nacionais todos os
principais pontos abordados no trabalho.

Não obstante a falta de alguns documentos que não constavam no Arquivo Histórico
Nacional, e a falta de recursos financeiros que propiciassem a ida ao Arquivo Histórico
Ultramarino e ao Arquivo do Tombo, pensamos que conseguimos apresentar um
trabalho aceitável dentro das limitações apresentadas.

Urge trazer para o Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde toda a documentação em
suporte papel e informático sobre a nossa História, permitindo que qualquer pessoa que
queira fazer investigação sobre a sua história tenha a sua disposição, todo o material que
se encontra disponível noutros arquivos, fora de Cabo Verde.

84
VI – Fontes documentais

1 - Fontes Primárias:

- Cabo Verde:

 Arquivo Histórico Nacional – Praia: Relatórios e Correspondências do Governo


da Colónia, Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil, Caixas
nºs: 031, 033, 125, 126, 173, 174, 178, 179, 180, 221, 222, 223, 227, 438, 439,
459, 465, 466, 492, 493, 494 e 495
 Actas das Sessões da Câmara Municipal de São Vicente de 21 de Junho de 1945
a 1960
 Boletim Oficial da Província de Cabo Verde de 1945 a 1955
 Revista Cabo Verde – Boletim de Informação e Propaganda – 1949 a 1958
 Jornal Notícias de Cabo Verde – Ano XIV, 1945, nº 231 e 232

- Portugal:

 Diários do Governo de Portugal - 1945 a 1955


 Boletim Geral das Colónias: Ano XXV - n.º 284, 1949; Ano XVIII – n.º203;
Ano XXXXIV – n.º 401, 1958
 Diários das Sessões da Assembleia Nacional Portuguesa nº 31, 47, 51, 65, 70,
79, 95
 Actas da Câmara Corporativa nº 2, 12, 27, 39, 45, 47, 58, 65, 75, 98

2 - Bibliografia Geral

 ALBUQUERQUE, Luís & SANTOS, Maria Emília Madeira (1991), História


Geral de Cabo Verde – Instituto da Investigação Científica Tropical/Lisboa e
Direcção Geral do Património Cultural de Cabo Verde/Praia, Lisboa
 ALMEIDA, Germano (2009) – Viagem pela História de São Vicente [1462-
1934], Ilhéu Editora, São Vicente
 ALMEIDA, Manuel Ribeiro de (1997) – Problemas económicos de Cabo Verde
e outros escritos (1946-1959), Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro

85
 ALMEIDA, Pedro Ramos de (1979) – História do Colonialismo Português em
África – Cronologia, século XX, vol. III – Editorial Estampa, Lisboa
 BRITO-SEMEDO, Manuel (2006) – A Construção da Identidade Nacional,
Análise de Imprensa entre 1877 e 1975, Instituto da Biblioteca Nacional e do
Livro, Praia
 CARREIRA, António (1977) - Cabo Verde - Classes Sociais, Estrutura
Familiar Migrações, Biblioteca Ulmeiro
 CARREIRA, António (1982) – Estudos da Economia Caboverdiana, Imprensa
Nacional/Casa da Moeda, Lisboa
 CARREIRA, António (1983) – Migrações nas Ilhas de Cabo Verde, Instituto
Caboverdeano do Livro, 2ª Edição
 CARREIRA, António (1984) – Cabo Verde – Aspectos sociais. Secas e fomes
do século XX, Biblioteca Ulmeiro, 2ª Edição
 CRUZ (B. Leza), Frank Xavier da (1950) – Razão da Amizade Cabo-verdiana
pela Inglaterra, Rio
 DESHAIES, Bruno – Metodologia de Investigação em Ciências Sociais,
Instituto Piaget
 DIAS, Juliana Braz (2004) – Mornas e Coladeiras de Cabo Verde, Brasília,
 Fundo de Desenvolvimento Nacional – Ministério da Economia e das Finanças,
1984 - Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do
Mindelo – Praia
 FURTADO, Claúdio Alves (1993) – A Transformação das Estruturas Agrárias
numa Sociedade em Mudança – Santiago, Cabo Verde, Ed. Instituto do Cabo-
verdiano do Livro e do Disco
 GATLIN, Darryle John (1990) – A Socio-Economic History of São Vicente de
Cabo Verde, 1830-1970, (Tese de Doutoramento), University of California, Los
Angeles
 LIMA, Mesquitela (1992) - A Poética Crioula de Sérgio Frosuni- uma leitura
antropológica. Lisboa/Praia, Instituto da Cultura e da Língua
Portuguesa/Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco.
 LOPES, Baltazar. (1997) - Chiquinho. Mindelo, Edições Calabedotche.

86
 LOPES, Maria José (2005) – Surgimento de Câmaras Municipais nas ilhas do
Norte: Santo Antão, S. Nicolau e S. Vicente, Notas para o seu estudo, Colecção
Monografias, Instituto do Arquivo Histórico Nacional, Praia
 MATOS, Mário - Contos e Factos. Mindelo, Editora.
 MATOSO, José (1998) – O Estado Novo (1926-1974), Vol. 7, Editorial Estampa
 MARQUES, A.H. de Oliveira (1986) – História de Portugal – Das revoluções
liberais aos nossos dias, Vol.III, Palas Editores, Lisboa
 NASCIMENTO, Augusto (2003) – O Sul da Diáspora – Cabo-verdianos em
plantações de S.Tomé e Príncipe e Moçambique, Edição da Presidência da
República de Cabo Verde
 NASCIMENTO, Augusto (2008) – Vidas de S.Tomé segundo vozes de
Soncente, Ilhéu Editora, Cabo Verde
 SILVA, Alveno Figueiredo e (2003) – Aspectos político-sociais na música de
Cabo Verde do século XX – Instituto Camões, Praia
 SILVA, António Correia e (2005) - Nos tempos do Porto Grande do Mindelo.
Praia - Mindelo, Centro Cultural Português.
 TAVARES, José Manuel Soares (2007) – O Campo de Concentração do
Tarrafal (1936 – 1954): A Origem e o Quotidiano – Edições Colibri, Lisboa
 QUIVY, Ramond, CAMPENHOUDT, Luc Van – Manual de Investigação em
Ciências Sociais, Gradiva Publicações, Lda, 2ª Edição
 PEREIRA, Alexandre (2003) - Como escrever uma tese, Edições Sílabo, Lisboa
 RODRIGUES, Moacyr e LOBO, Isabel (1996) – A Morna na Literatura
Tradicional – Fonte para o estudo histórico-literário e a sua repercussão na
sociedade, Instituto Cabo-verdiano do Livro e do Disco, Praia
 RAMOS, Manuel Nascimento (2003) – Mindelo D`Outrora
 WAHNON, Donald M. (2006) – A Minha vida – Akron, Ohio

VII – Fontes Orais- Gregório Dias - entrevista realizada no dia 14 de Setembro de


2009, as 18:00, na residência do mesmo, na zona da Ribeira Bote – São Vicente

- Arnaldo António Lima - entrevista realizada no dia 19 de Setembro de 2009, as 10:00


no restaurante do mesmo, na rua de Matijim – Zona histórica da cidade - São Vicente

87
VII – ANEXOS

1 – Quadros e Gráficos

Quadro nº1 - Movimentações de entrada Navios em Cabo Verde - 1947 a 1951


Ano Portugueses Estrangeiros Total
1947 72 803 875
1948 92 897 989
1949 95 672 767
1950 3230 732 3962
1951 3093 690 3783

Fonte: Boletim Trimestral de Estatística dos anos de 1947 a 1951

Quadro n.º 2- Carga descarregada segundo a nacionalidade das embarcações - 1947 a


1951
Nacionalidades
Ano Portuguesa Americana Belga Espanhola Francesa Grega Holandesa Inglesa Norueguesa Outras
1947 34.707 63.115 7.186 3.717 8.123 172.094 59.482 14.839
1948
1949 26.678 30.050 895 15.212 3.617 112.829 59.828 62.745
1950 11.996 4.076 16.967 14.284 209.190 81.705 78.466
1951 13.073 30.098 256.929 68.728 105.712
Obs.: Quantidades em toneladas

18.000
16.000
14.000
12.000
1947
10.000
8.000 1948
6.000 1949
4.000
1950
2.000
0 1951
sa
In a
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Po

Gráfico nº 1

X
Gráfico nº 2

6000

5000 S antiago e Maio


F ogo
4000 B rava
S anto Antão
3000
S .Vicente
S .Nicolau
2000
S al
B oa Vista
1000
Não indicadas

0
1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960

2 - Fotos

1948 – Cidade do Mindelo

1948 – Cidade do Mindelo

XI
Réplica da Torre de Belém – Mindelo

1938 – Pavimentação da estrada da Rua de Lisboa

1941 - Desfile da Chegada do 1º Corpo de Tropas Expedicionárias


Portuguesas a Mindelo

XII
1940 - Foto Melo. Chegada dos náufragos de um navio Italiano a Mindelo

Esse navio, foi torpedeado por engano por um Submarino Alemão, ao largo da Ilha de
St. Antão, durante a IIª Grande Guerra.

O caricato da cena é que foram considerados prisioneiros de guerra, por influência do


governo Inglês, mas em Mindelo não havia onde albergar tanta gente, por isso, foram
distribuídos por decreto do Governo da Colónia, pelas casas de algumas famílias da
Terra, mediante o pagamento de umas senhas para as despesas com os mesmos.

XIII
1948 - Partida da imagem de Nossa Senhora de Fátima

1942 – Carregadeiras do cais

1942 - Puxando uma Zorra

XIV
1956 – Foto Melo. Chegada do Presidente da República Portuguesa, Craveiro Lopes a
Mindelo

1956 – Muldura humana recebendo o Presidente da República Portuguesa

1956 - Foto Melo. Entrada do Presidente Português, Craveiro Lopes no pátio do Liceu
Gil Eanes, para o Coktail de boas vindas, oferta das forças vivas da Cidade de Mindelo.

XV
Fotografia datada dos finais de 40, princípios de 50, de autoria do Comandante Eurico
Serradas Duarte.
Navio Oceanográfico, Baldaque da Silva.

XVI