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Filiado à CUT/FENAJUFE

Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Ano XVIII - nº 64


e do Ministério Público da União no DF Fev-Mar/2010
Bois de
resistência

TT CATALÃO

Tão ameaçado de extinção quanto o peixe-


boi, o boi de carnaval de Alagoas criou alter-
nativas de supervivência que hoje fazem par-
te da programação de pré-festejos de Maceió, com
torcidas e 28 bois em desfile. Um começo meio por baixo,
quase como pedintes de cachaça e tira-gostos, colocavam trapos no
lugar do couro na armação de arame e bambu, e um arremedo de chifre. Ou
eram crianças batendo lata para brincar o carnaval. A coisa cresceu e em 2003 a
Liga foi fundada. Impressiona o número de crianças nos dois dias de desfile na
arena aberta do Multieventos da Prefeitura, na Pajuçara. O boi tem força na comu-
nidade e atua em diversas campanhas; daí não gosta de ser chamado só “de carna-
val”, por trabalhar o ano todo. Os bois, em si esculturas dançantes (cerca de 2,5m),
mereciam uma expo de artes plásticas pela riqueza de leituras e temas. Fogem do
rigor do bumba-meu-boi clássico e adotam enredos que podem ir desde o Chaves e
a escolinha do Chico Anysio até a “fraternidade com a China” no Boi Dragão, Mon-
teiro Lobato, Dicionário Aurélio, aniversário do Teatro Mal. Deodoro, a solidarieda-
de, o sertão na santíssima trindade Lampião–Padim–Luis Gonzaga e uma ópera
curta sobre o boi que deveria ser aposentado por bons serviços, mas acaba no
matadouro. É a diferença que o carnaval de Alagoas pode oferecer. As batidas são
mistas: tem uma levada afro, forte, toques funk com o maracatu mordendo. Excelen-
tes instrumentistas, com destaque especial no balé-duelo entre boi e vaqueiro, e
grande senso teatral para contar o tema em dramatizações rústicas de comovente
entrega do pessoal. Bem-vinda também a fusão com os Guerreiros na festa (este
ano homenagearam Mestre Benom). CONTINUA NA PÁGINA CENTRAL

2 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


RODOLFO STUCKERT
AO LEITOR

Os desafios de
O ano de 2010 será atípico,
2010
não há orçamento para bancar a nossa revisão sa- “Vamos precisar
ao menos no Congresso Na- larial. Vamos ter de enfrentar a Secretaria de Fi- de força total
cional. Um ano corrido, em nanças do Ministério do Planejamento novamente. nos corredores
razão das eleições que se Por isso, desde o início do ano temos articulado
do Congresso.
aproximam. Nós, servidores para que o STF se reúna com o Planalto para resol-
do Judiciário e do MPU, con- ver essa questão. Teremos também que estar pre-
Cada um de nós
tinuamos firmes e imersos em parados para novos ataques da mídia, que insiste tem a missão de
uma luta constante, uma luta em dizer que ganhamos muito. E ainda teremos de colaborar para
ROBERTO STUCKERT

contra o relógio e em prol da trabalhar o ano eleitoral a nosso favor. que o projeto
aprovação de nossos PCCRs. Para sairmos vitoriosos de tantas batalhas é caminhe o mais
Os projetos de lei que tra- necessário, desde já, estarmos unidos. Recente- rápido possível.
Roberto Policarpo
tam do Plano de Cargos, Car- mente o Sindjus realizou uma reunião para defi- Se todos se
Coordenador-geral reira e Remuneração dos tra- nir as estratégias desse combate e convidou to- mobilizarem,
do Sindjus balhadores do Judiciário e do das as associações tanto do Judiciário quanto do sem dúvida,
MPU (PL 6613/09 e PL 6697/ MPU para participar. Todos, independentemente chegaremos lá.”
09, respectivamente) estão em processo de trami- de posições políticas e ideologias, devem estar
tação. Atualmente estão na Comissão de Traba- juntos nesse momento. Só assim teremos chance
lho, Administração e Serviço Público na Câmara de conquistar nosso objetivo: aprovar os dois pro-
dos Deputados. Ambos têm o mesmo relator, o de- jetos ainda no primeiro semestre.
putado Sabino Castelo Branco (PTB/AM). Portanto, prepare-se. Os próximos meses se-
O Sindjus tem mantido contato com o rela- rão de muita pressão, de muita mobilização e de
tor e com outros parlamentares para acelerar a muito enfrentamento. Temos que ter consciência
tramitação, mas nós sabemos que essa não será de que os obstáculos são complicados, mas o so-
uma batalha fácil. Muito pelo contrário, temos nho é possível. O otimismo e a esperança devem
uma série de dificuldades em nosso caminho. vencer qualquer barreira. Em breve vamos precisar
Devemos estar preparados para lutar contra a de força total nos corredores do Congresso. Cada
falta de vontade política que impera quando se um de nós tem a missão de colaborar para que o
trata de nossas lutas. projeto caminhe o mais rápido possível. Se todos
Também devemos vencer o discurso de que se mobilizarem, sem dúvida, chegaremos lá.

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OPINIÃO

Justiça de transição
E m seguida às comemorações do Dia Internacional
dos Direitos Humanos, em dezembro, o presiden-
te da República, em cerimônia no Itamaraty para en-
conta de tensões vivenciadas no seio do governo, re-
definida como Comissão Nacional de Verdade.

trega do Prêmio Direitos Humanos 2009, editou o de- Resolução da OEA (2006) reconhece a impor-
creto de aprovação do novo Programa Nacional de tância do direito à verdade para o fim da impunidade
Direitos Humanos. Ao adotar, em 1996, o Programa e a proteção aos direitos humanos. As divergências
Nacional de Direitos Humanos, o Brasil foi um dos pri- que precederam a aprovação do Programa opuseram,
meiros países do mundo a seguir a recomendação da de um lado, o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria
Conferência Mundial de Direitos Humanos (Viena, Especial de Direitos Humanos, com a ideia de consti-
1993): atribuir aos direitos humanos a condição de tuir a comissão não só como resposta às expectativas
política pública governamental. Desde então, impor- de familiares de pessoas torturadas e mortas nos anos
ARTHUR MONTEIRO

tantes revisões têm sido objeto de atenção dos prota- da ditadura (sem que, em muitos casos, sequer os cor-
gonistas desse campo, no caso brasileiro por meio de pos tenham sido localizados), mas também com po-
uma interlocução construtiva entre governo, parlamen- deres para recuperar arquivos ainda em mãos de ór-
José Geraldo de
to e sociedade civil, cujo instrumento eficiente é a sé- gãos militares e de segurança, que permitam elucidar
Sousa Junior rie de Conferências Nacionais de Direitos Humanos. casos de desaparecimentos e responsabilizar agentes,
Reitor da Universidade de em face da natureza imprescritível das violações co-
Brasília, professor da Faculdade Uma das mais significativas atualizações, metidas. De outro lado, o ministro da Defesa Nelson
de Direito e coordenador do levada ao PNDH 2 a partir de 2002, foi a inclusão dos Jobim, apoiado em premissa, a meu ver errada, de que
projeto O Direito Achado na Rua direitos econômicos, sociais e culturais, de forma coe- a Lei de Anistia e a interpretação de seu alcance duplo
rente com o princípio de indivisibilidade e interdepen- (aos militantes políticos e aos agentes de repressão)
dência de todos os direitos humanos, expresso na De- seria fruto do acordo político de 1979, com o objetivo
claração de Viena. O PNDH 2, orientado também pe- uma reconciliação nacional. Ele advogaria, portanto,
los parâmetros estabelecidos na Constituição de 1988, uma comissão de reconciliação, mas não de justiça.
“A justiça de tran- incorporou ações no campo da garantia do direito à
sição é um esforço educação, saúde, previdência e assistência social, tra- A reivindicação de incluir uma Comissão de
para a construção da balho, moradia, meio ambiente, alimentação, cultura Verdade e Justiça, mesmo na forma atual de Comis-
e lazer, de forma conjugada com estratégias de elabo- são de Verdade, decorre da Conferência Nacional de
paz sustentável após
ração orçamentária e metas gerenciais de execução. Direitos Humanos realizada em dezembro de 2008 com
um período de Ao lado de mobilizações para desenvolver uma cultu- caráter deliberativo. Decorre também da natureza co-
violação de direitos ra de respeito aos direitos humanos, a previsão de re- gente do direito internacional dos direitos humanos,
humanos. Implica cursos orçamentários para assegurar a sustentabilida- expressa em decisões de tribunais internacionais que
revelar a verdade, de de programas e dos órgãos responsáveis. indicam ao Brasil a necessidade de concluir o proces-
processar perpetra- A nova atualização (PNDH 3) chamou a atenção so de democratização com a verdade sobre os fatos,
dores de crimes, pela imediata e concertada objeção a algumas de suas para evitar repetições de ciclos de violência.
diretrizes, mobilizando segmentos conhecidamente re- Essa reivindicação inscreve-se nos fundamentos do
conceder reparações fratários ao aprofundamento democrático provenien- que se denomina justiça de transição, que pode ser
às vítimas e reformar te dos avanços da Constituição de 1988. Tive ensejo definida como esforço para a construção da paz sus-
instituições respon- de fazer crítica a essas reações em artigo no Correio tentável após um período de conflito, violência em
sáveis por abusos.” Braziliense (Desafio à Educação, p. 15, 20/01/2010). massa ou violação sistemática dos direitos humanos.
Aqui, quero por em relevo a nova proposta para a ques- Esse conceito é proposto por Paul Van Zyl, vice-presi-
tão, que cuida da instalação de uma comissão nacio- dente do International Center for Transitional Justice.
nal com amplos poderes para apurar crimes da dita- Examinando os elementos-chave da justiça transicio-
dura militar e responsabilizar os agentes culpados. nal, o que não se pode perder de vista, à luz de seus
enunciados, é que a justiça transicional admite sim
O pró-labore de José Geraldo Trata-se da originalmente chamada Comis- reconciliação, mas implica necessariamente processar
para este artigo é doado são de Verdade e Justiça, que, seguindo modelo ado- os perpetradores dos crimes, revelar a verdade sobre
mensalmente à campanha de
voluntariado Eu Doo Talento
tado em países com necessidade de apurar violações crimes, conceder reparações às vítimas e reformar as
(veja em www.sindjusdf.org.br) de direitos durante regimes de exceção, acabou, por instituições responsáveis pelos abusos.

4 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


ARTE EM BRASÍLIA

RINALDO MORELLI*

‘‘
A série Equivalências faz links entre texturas. Orgânicas e urbanas. É uma rima de detalhes que somente a luz revela

‘‘
e a fotografia aproxima. Na galeria elas são expostas em grandes paineis, que a meu ver pedem silêncio e reflexão.

* Fotojornalista por sobrevivência material, artista por sobrevivência da alma. Fundador do grupo de fotógrafos Ladrões de Alma.
Fundador e presidente da AFOTO – Associação de Fotógrafos de Brasília. E professor de fotografia (sempre).

Revista do Sindjus
www.sindjusdf.org.br
Edição
Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário e do MPU no DF Usha Velasco (DRT-DF 954/99)
SDS, Ed. Venâncio V, s. 108 a 114, Brasília-DF, 70393-900 • (61) 3212-2613 Reportagem
Carlos Tavares
Daniel Campos
Coordenadores-Gerais Marília Guedes de Albuquerque Fabíola Góis
Ana Paula Barbosa Cusinato Newton José Cunha Brum Thais Assunção
CAPA: FOTO DE HILDE VANSTRAELEN

Berilo José Leão Neto Coordenadores de Formação


Roberto Policarpo Fagundes Colaboradores
e Relações Sindicais José Geraldo de Sousa Junior
Coordenadores de Administração José Joventino Pereira de Sousa TT Catalão
e Finanças Antônio José Oliveira Silva
Cledo de Oliveira Vieira Eliane do Socorro Alves da Silva Revisão
Jailton Mangueira Assis Ana Paula Barbosa Cusinato
Coordenadores de
Raimundo Nonato da Silva Comunicação, Cultura e Lazer Projeto gráfico e arte
Coordenadores de Assuntos Sheila Tinoco Oliveira Fonseca Usha Velasco
Jurídicos e Trabalhistas Maria Angélica Portela Tiragem
José Oliveira Silva Valdir Nunes Ferreira 15.000 exemplares

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 5


MOBILIZAÇÃO

Folia
Em carnaval histórico, milhares vão
às ruas protestar contra as denúncias
de corrupção no governo do DF

Thais Assunção
cidadã
E para comemorar também,

VALCI ROSA
pois os últimos acontecimen-

A indignação com os escândalos de


corrupção no DF, somada à muita
irreverência, levou cerca de dez mil pes-
tos mostram que a justiça
está cumprindo seu papel”,
afirmou, referindo-se à pri-
soas ao Pacotão, principal bloco carna- são do governador, ordena-
valesco de rua de Brasília, que comple- da pelo Superior Tribunal de
tou 32 anos. Os foliões lotaram a qua- Justiça (STJ).
dra 302 norte, local da concentração, e “O Pacotão é um bloco
o tradicional percurso pela contramão da tradicional e conhecido por
W3, nos dias 14 e 16 de fevereiro. seus protestos políticos,
“Fora Arruda. Roriz nunca mais”. A que congregam as pesso-
frase, estampada na camisa vermelha do as. Por isso nos juntamos a
Bloco dos Trabalhadores na Rua, que se ele com o Bloco dos Traba-
uniu ao Pacotão, contribuiu para forta- lhadores na Rua, para mos- Policarpo e Ana Paula: Sindjus marca presença na folia
lecer o movimento da população revol- trar a nossa indignação
tada com os escândalos de corrupção com tudo que está acontecendo no ce- ro nas meias e das diversas “Eurides”
no GDF. O bloco foi organizado pela CUT- nário político de Brasília”, disse a pre- com sua famosa bolsa – alusão à filma-
DF com apoio do Sindjus. sidente da CUT, Rejane Pitanga. gem onde a deputada aparece guardan-
O governador afastado José Rober- do maços de dinheiro. Nem os cachor-
to Arruda, preso pouco antes do carna- Panetone com dinheiro – “Você ros escaparam: havia vários fantasiados
val, tornou-se o tema das marchinhas do aceita um pedaço do panetone mais caro de panetone.
Pacotão – ao lado de outros persona- da história?” Assim o chefe de cozinha Já se passaram mais de três déca-
gens do escândalo, como os deputados internacional Tony Martins oferecia uma das desde que o Pacotão saiu às ruas
distritais Leonardo Prudente e Eurides degustação do prato do dia aos foliões: pela primeira vez. O jornalista paraiba-
Brito. O sarcasmo e bom humor foram panetone recheado de dinheiro. Vestido no Ivan Pimentel estava lá. E, neste car-
os elementos principais, e logo todos es- com o uniforme de trabalho, Tony, com naval de 2010, carregava com orgulho
tavam com as letras na ponta da língua. muito bom humor, usou a sua própria a prova: o LP lançado em 1978 com as
Champanhe com Panetone, Arrombaram profissão para satirizar a esfarrapada ex- marchinhas da época, com destaque
a Caixa de Pandora, Faltou Panetone na plicação do governador para o gasto de para Pacote de Abril, referência a medi-
Papuda e a campeã deste carnaval, a dinheiro público no escândalo. das do então presidente Ernesto Geisel
marchinha Bolsetão da Eurides, fizeram O chefe de cozinha acredita que a no ano anterior.
o maior sucesso entre o público. situação de Arruda tende a piorar e ele Ivan afirma que o bloco é um impor-
O coordenador geral do Sindjus, Ro- não terá opções senão renunciar ao car- tante e irreverente espaço de manifes-
berto Policarpo, acompanhou o bloco e go. “Acho que vamos conseguir dar um tação dos brasilienses, que todos os anos
disse que a mobilização da sociedade é basta nessa situação. A população tem traz à tona fatos marcantes da política
fundamental para mudar o quadro de cor- que gritar, agitar e sair às ruas, por isso nacional. “O Pacotão é marcante pelas
rupção. “A população está cansada de eu vim ao Pacotão”, reforça. bandeiras que levanta. Acompanho to-
escândalos e não pode ficar parada. Te- A presença de milhares de foliões dos os anos e acredito na força das mar-
mos que nos unir para exigir punição aos fantasiados indicava que Tony tem ra- chinhas para denunciar injustiças e es-
corruptos. O Bloco dos Trabalhadores na zão. A fantasia mais popular foi a de pre- cândalos, como esse mensalão do DEM
Rua é uma ótima oportunidade para isso. sidiário, ao lado do panetone, do dinhei- no DF”, ressalta.

6 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


RENATO ARAUJO/ABR

Presidiários (acima):
fantasia das mais
populares. Ao lado,
o chef de verdade
protestou com uma
iguaria de mentiri-
nha; folião junta
dinheiro à camisa
do Bloco dos Traba-
lhadores; e até cães
foram fantasiados
de panetone

RODRIGO OLIVEIRA

RENATO ARAUJO/ABR RENATO ARAUJO/ABR

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 7


SAÚDE

Volta às
origens
Cesarianas desnecessárias ainda predominam,
mas trabalhos de conscientização começam
a reforçar a opção pelo parto normal

Fabíola Góis 15%. O Brasil está entre os países com


as maiores taxas de cesarianas: o ín-

O momento do parto é sempre mo-


tivo de preocupação para mães
de primeira viagem, ou mesmo para
dice de 40% é muito acima do reco-
mendado. E se os dados de hospitais
públicos e particulares forem compa-
as que já têm filhos. Afinal, é sempre rados percebe-se que se faz mais ce-
angustiante a espera pelo bebê gera- sáreas nos particulares, onde o ín-
do durante nove meses. A mulher se dice chega a 80%. Patrícia fez
preocupa com o pré-natal, com a saú- Seja por medo de sentir dor ou de questão de ter
de dela e do fi- ter alguma complicação na hora do Beatriz (3 anos)
e o recém-
PERIGO lho, com os pro- nascimento, muitas mulheres preferem nascido Davi de
fissionais que os marcar o dia da cirurgia. Nem sequer parto normal,
depois de ver
A cesariana aumenta em atendem. Mas o aguardam o início do trabalho de par- a filmagem da
excesso de aten- to, que sinaliza que o bebê está pronto cesariana de
25 vezes ção provoca in- para nascer. Armam-se de tecnologia e uma prima
ISABELA LYRIO

o risco de morte materna.


seguranças que profissionais para garantir que nenhum
Mesmo assim, nos hospitais interferem até imprevisto ocorra. Mas será que essa
particulares brasileiros, mesmo na esco- prática é a mais saudável?
lha do tipo de O pior é quando o profissional
80% parto: normal ou pressiona ou indica cesariana para a
dos partos são cirúrgicos. cesárea? E cada paciente sem que haja a real necessi-
A OMS alerta: o índice vez mais mulhe- dade. E isso tem sido cada vez mais Mães saudáveis
máximo aceitável é de
res no país op- comum no Brasil. Foi o que aconteceu
Adepta à teoria de que o parto nor-
15% tam pela cirurgia
na hora de parir
com Patrícia (nome fictício), que per-
cebeu no médico a ansiedade por ter- mal é melhor, a analista judiciária Patrí-
– que contraria a minar logo o parto dela porque tinha cia Coelho Carvalho Falcão preferiu su-
natureza do ser humano, o bom senso uma série de grávidas para atender no portar as contrações a ter que realizar
uma cesariana. O primeiro parto, de sua
e os cuidados com a segurança, já que consultório. Resultado: a desconfian-
filha Beatriz, hoje com três anos, foi com-
esse tipo de parto aumenta em 25 ve- ça de Patrícia se confirmou. Ela não
plicado. Mesmo assim ela não desistiu
zes o risco de morte materna. conseguiu ter parto normal. “Tenho
de ter o segundo filho de parto normal.
Segundo a Organização Mundial certeza de que se ele tivesse esperado
A médica optou por induzi-lo porque na
da Saúde (OMS), uma taxa de cesaria- mais um pouco meu bebê poderia nas- 37ª semana o pequeno Davi já estava
na aceitável está na faixa de 10% a cer sem a cirurgia.”

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com 3,2 kg e 50 cm. “O parto normal é período, preparando-as para um parto e natural e cuidados com o recém-nascido.
sempre melhor. Depois que eu vi a fil- um puerpério saudáveis. A futura mamãe O chefe da Seção de Assistência Nu-
magem da cesariana da minha prima, assiste a palestras como Psicologia da tricional da Secretaria, Adelmir Soares
fiquei traumatizada”, contou Patrícia. Gravidez, Tipos de Parto, Primeiros Cui- Mangabeira Júnior, explica que cerca de
No Tribunal de Justiça do DF e Territó- dados com o Bebê, Amamentação, Shan- 30 a 40 grávidas são atendidas por ano
rios (TJDFT), o Programa de Assistência tala, e faz atividades físicas orientadas. e todas elas recebem orientações sobre o
Materno-Infantil existe desde 2005 e foi No Superior Tribunal de Justiça (STJ) parto. “Muitas mães são sutilmente ori-
criado para acompanhar e orientar a ges- há um grupo de gestantes coordenado entadas a fazer cesariana quando surge
tante e a mãe que amamenta, para ga- pela Secretaria de Serviços Integrados de qualquer dúvida ou temor durante a gra-
rantir melhor qualidade de vida nesse Saúde. Além de reuniões periódicas com videz. Ainda há uma cultura de insegu-
período. O Grupo de Gestantes acompa- as futuras mães, há um manual com dicas rança em relação ao parto e elas optam
nha as magistradas e as servidoras nesse para uma gestação saudável, alimentação pela cirurgia por medo”, observa.

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SAÚDE

Um desafio cultural movimento de humanização do parto


que, futuramente, originou a Rede pela
Se por um lado nem todos os obs- obstetras optam pela cesárea porque, Humanização do Parto e Nascimento
tetras acompanham todas as etapas do além de poder marcar a hora, os planos (Rehuna), da qual é uma das funda-
parto, nos últimos dez anos aumentou de saúde pagam mais por ela do que doras. Só o primeiro filho dela preci-
consideravelmente o número de dou- por um parto normal”, observa. sou nascer em um hospital, na Ingla-
las (mulheres que auxiliam as futuras A ONG, que tinha sede em Alto Pa- terra, porque estava sentado. Mesmo
mamães no momento do parto). Elas raíso (GO) e agora está no DF, pretende assim o parto foi normal.
são mais do que parteiras: além da ex- desenvolver campanhas de conscienti- Autora de dois livros sobre o tema,
periência, têm instrução sobre o assun- zação sobre a importância do parto nor- Lívia Penna forma doulas e integra a
to e cuidam também do lado emocio- mal e domiciliar. “A mulher tem abdica- ONG Casa da Luz. “Muitos médicos
nal da mulher. do do poder dela de dar à luz e deixa obstetras trabalham com doulas porque
As doulas procuram se manter atu- esse momento maravilhoso nas mãos de o parto fica mais tranquilo. Outros des-
alizadas participando de cursos e even- médicos. Ela precisa se colocar na con- conhecem e têm preconceito. Mas isso
tos voltados para o nascimento. Como dição de mulher e ser dona desse pro- é uma questão de tempo; acho que o
em novembro cesso”, defende Renata Beltrão. trabalho das doulas ainda é pouco co-

‘‘
do ano passa- Essa é a mesma opinião da partei- nhecido”, comenta.
do, quando de- ra Naolí Vinaver Lopez. Desde 1987 Para ela, os principais desafios das
Muitos obstetras
zenas de dou- ela afirma ter atendido, no México, doulas são ter o trabalho valorizado e
optam pela cesárea las, mães e cerca de mil partos domiciliares e par- reconhecido, ser aceitas pelos profissio-
porque, além de poder profissionais ticipado como conferencista em con- nais de saúde como parceiras do traba-
marcar a hora, os da saúde parti- gressos de parteiras em mais de trin- lho de parto e ter apoio oficial, por meio
planos de saúde pagam ciparam do ta países. Naolí teve três filhos em de inclusão nas políticas públicas de
workshop Blo- partos domiciliares. atenção ao parto e nascimento.
mais por ela do que queios sexuais O tema está na moda. O filme Or- Existem duas categorias de doulas:
por um parto normal. no nascimento gasmic Birth, uma produção de 2007 as particulares (cujo preço de atendi-
e formas de com legendas em português, é exibido mento varia de R$ 500 a 3 mil por par-
Renata Beltrão, secretária
executiva da Casa da Luz desbloqueá- em salas particulares do DF e tenta des- to) e as comunitárias, mulheres da co-
los – preven- mistificar a crença de que o parto é do- munidade que fazem o curso promovi-
ção e atendi- loroso e perigoso por natureza, e que do pelos hospitais públicos e atuam de-
mento de complicações no parto domi- deveria ser deixado totalmente nas pois como voluntárias nas maternida-
ciliar, ministrado pela parteira mexica- mãos dos médicos. O filme mostra as po- des, assistindo as mulheres.
na Naolí Vinaver Lopez. tencialidades emocionais, espirituais e
Foi uma oportunidade para trocar físicas do parto, com o acompanhamen-
experiências e saber quais as novidades to do parto de onze mulheres que dão à
no mundo. Renata Beltrão, secretária luz do jeito mais natural possível (ge-
executiva da ONG Casa da Luz e orga- mem, beijam e riem).
nizadora do evento, defende o parto Naolí diz que no México o número
natural sem a intervenção de médicos de cesáreas também é alto. “É um de-
ou de alguém que possa interferir no safio cultural: a cultura do medo impe-
envolvimento entre mãe e filho. “Nós ra. Com o avanço da medicina, as mu-
defendemos o respeito à mulher e ao lheres começaram a achar que precisa-
bebê. O tipo de parto é consequência. vam de ajuda para parir”, explica. Para
Mas sabemos que as cesarianas salvam ela, existe em todo o mundo um movi-
vidas e em alguns casos são necessári- mento de humanização do parto.
as”, afirma. A nutricionista Lívia Penna, doula
Renata, que também é doula e for- por opção e amor ao trabalho, teve
madora de doulas, teve dois filhos em cinco filhos, todos com parto normal,
FOTOS: ARTHUR MONTEIRO

casa e lamenta o número de partos ci- quatro deles em casa. Ela começou a
rúrgicos no Distrito Federal. “O tecnicis- atender as mulheres após ter seu se-
mo está predominando entre essas mu- gundo filho, hoje com 25 anos. Duran-
lheres. Elas esquecem que a formação te a preparação para o nascimento
médica é intervencionista e que muitos dele, Lívia entrou em contato com o
10 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010
Parto em casa
A obstetra Carla Daher é adepta do
parto natural e domiciliar. Mãe de três
filhos, sendo dois nascidos em casa, a
médica começou a ser procurada por
mulheres que também querem ter os fi-
lhos nas próprias residências. Carla tem
um consultório, mas pretende em breve
realizar todo o pré-natal nas casas das
pacientes. Ela explica que há poucos
profissionais na área que fazem o mes-
mo trabalho que ela, e há muita procu-
ra. “Alguns partos demoram muito.
Quando vejo que não há como a crian-
ça nascer naturalmente, levo a mãe para
o hospital”, afirma.
Carla Daher gosta de dizer que é
mais parteira do que obstetra, mas, se
tiver que fazer uma cesariana, faz com
tranquilidade. “O parto normal é mais
saudável. É o encontro da mulher com
seu filho e com o seu próprio corpo.
Houve uma medicalização do parto, mas
hoje há uma tendência a voltar às ori-
Carla Daher: a gens e parir em casa”, opina. A médica
tendência é
voltar às origens.
explica que o índice de complicação é
Renata Beltrão muito baixo nos partos em casa. “Dos
(abaixo): partos que atendo, em gestações de
“Defendemos o
respeito à mulher
baixo risco, o índice de cesáreas gira em
e ao bebê” torno de 3%. É um bom índice, segun-
do a OMS”, explica.

O que são as doulas?


A palavra grega doula vem (Portaria 28, de maio de 2003),
sendo utilizada desde as pesqui- reconhecem, após uma década de
sas de Marshall H. Klauss e John pesquisas científicas, a enorme
H. Kennel, no início da década de contribuição da presença da doula
90, para designar as mulheres no momento do parto. Ficou de-
capacitadas a dar apoio continua- monstrado que o parto evolui com
do a outras mulheres (e aos seus maior tranquilidade, mais rapidez,
companheiros e familiares), pro- menos dor e menos complicações
porcionando conforto físico, apoio maternas e fetais. Na América do
emocional e suporte cognitivo, Norte estima-se que existam de
Fonte: www.doulas.org.br

antes, durante e após o nascimen- dez mil a doze mil doulas. No Bra-
to dos filhos. sil, a demanda de mulheres e insti-
Hoje, a Organização Mundial de tuições que solicitam esse serviço
Saúde e os ministérios da Saúde de ainda é bem menor, mas também
vários países, entre eles o Brasil vem crescendo significativamente.

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 11


SAÚDE

Trabalho pioneiro em São Sebastião


Na Casa de Parto de São Sebasti- de Parto Normal criado pelo Ministé- independentemente de pré-natal feito
ão não há mesas de cirurgia. A mulher rio da Saúde em 1999. Em 2005 foi na rede pública. As exigências são de
pode escolher como quer ter o filho: editada a Lei 11.108, que garante à que a grávida tenha feito pelo menos
de cócoras, em cima da cama articula- mulher a presença de um acompa- seis consultas de pré-natal registradas
da ou dentro da banheira. Desde 2001, nhante na hora do parto e pós-parto no cartão de gestante, esteja com to-
a unidade, vinculada à Secretaria de nas maternidades públicas do país. dos os exames normais e não tenha
Saúde do DF, faz pelo menos um parto A Casa de Parto recebe mulheres feito cesarianas ou cirurgias pélvicas.
por dia. Há nove anos, esse número de todas as regiões do DF e Entorno, “Aqui as mulheres escutam músicas,
era maior: dois por dia. Até hoje só foi
registrado um óbito, mas o bebê mor-
reria em qualquer hospital: ele teve
embolia aminiótica (quando o líquido
aminiótico e outros resíduos penetram
na circulação sanguínea).
A enfermeira especializada em obs-
tetrícia Euzi Adriana Bonifácio é uma
das responsáveis pela Casa de Parto.
Ela explica que a instituição segue o
modelo do Sistema Único de Saúde
(SUS) e se encaixa no perfil de Centro

Euzi, enfermeira obstetriz:


mulheres podem optar por
ter o filho de cócoras, na cama
articulada ou na banheira
FOTOS: ARTHUR MONTEIRO

Recém-nascido
na Casa de
Parto: processo
humanizado

12 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


sentam nas bolas de pilates para Estudos científicos apontam
aliviar as dores lombares e podem evidências de que os partos reali- Tipos de parto
ficar com quem quiserem. Estamos zados com a presença de um
preparadas para atender rapida- acompanhante trazem benefícios
NORMAL:
mente o recém-nascido que estiver e evitam problemas à saúde da
em sofrimento. Temos incubadoras gestante. O Ministério da Saúde Não se pode decidir o momento do
para transporte até o hospital”, ex- tem promovido uma série de ações nascimento do bebê. É preciso espe-
plica a enfermeira. para humanizar os partos no país. rar as contrações e a dilatação do
A Casa de Parto foi ameaçada Cerca de catorze estudos científi- colo do útero.
de fechamento no ano passado cos brasileiros e internacionais, re- As contrações (as famosas “dores do
por causa de uma divergência en- alizados com mais de cinco mil parto”) se assemelham a cólicas. Elas
tre médicos, enfermeiros e o go- mulheres, mostram que as gestan- começam fracas e espaçadas, e vão
verno do DF. O Conselho Regional tes que contam com um acompa- aumentando até chegar à fase de
de Medicina e o Sindicato dos Mé- nhante no parto e no pós-parto fi- expulsão. A dilatação do colo deve
dicos do DF alegaram que os en- cam mais tranquilas e seguras du- chegar a dez centímetros para que o
fermeiros não estão aptos a reali- rante o processo. bebê nasça.
zar os procedimentos sozinhos e O Ministério da Saúde promo- O trabalho de parto dura, em média,
pediram a presença de ginecolo- ve cursos nas maternidades vin- 12 horas, mas é apenas nas duas
gistas no local. Até fevereiro de culadas ao SUS para conscienti- últimas horas que as contrações se
2009 os partos eram feitos por zar os profissionais sobre a ne- tornam mais fortes.
obstetras, mas os onze médicos cessidade de mudar práticas e hu-
Na maioria dos casos, é necessário
que estavam lotados na unidade manizar partos. Há campanhas realizar uma episiotomia (corte ao
foram transferidos para o Hospi- em defesa do parto normal. Os se- lado da vagina) no momento da pas-
tal Regional do Paranoá. O Con- minários chamados Qualificação sagem do bebê, para evitar ruptura
selho Regional de Enfermagem na atenção obstétrica e neonatal nos músculos do períneo. Os pontos
entregou à Secretaria de Saúde humanizados com base em evi- caem sozinhos, mas precisam ser bem
toda a fundamentação legal que dências científicas foram criados lavados para evitar infecções.
ampara o trabalho dos enfermei- com o apoio das secretarias esta-
A permanência da mãe no
ros obstetrizes nas casas de par- duais e municipais de Saúde, de
hospital após o parto é geralmente
to. São catorze unidades de parto organizações profissionais e de or-
de 24 horas.
existentes em todo o Brasil. ganismos internacionais.
O custo para os pais e para o
hospital é menor.

O exemplo da bela CESARIANA:


A mãe pode decidir quando
A modelo Gisele Bündchen, mãe será o parto.
há pouco mais de dois meses, deu
A mulher não sente as “dores do
exemplo a todo o mundo ao ter o
parto”. Geralmente a dor é maior
parto dentro de sua casa nos Esta-
depois da cirurgia. Necessita de uma
dos Unidos. O bebê nasceu em uma
Gisele e Benjamin em capa maior dose de analgésicos.
banheira. “Queria um parto em casa,
de revista: “Queria estar
consciente no nascimento” sempre achei muito importante por- A cesárea não deixa de ser uma
que queria estar consciente na hora cirurgia, com todos os riscos de
do nascimento. Eu não queria estar complicações.
dopada e sim presente”, explicou Gisele em recente entrevista ao
O tempo de internação da mãe após
Fantástico, onde contou que se preparou com yoga e meditação. O
parto durou oito horas, mas ela afirmou que não sofreu. “Não foi a cesariana é, em média, de 48 horas.
nem um pouco dolorido. Durante todo o tempo eu estava muito fo- A mulher não deve pegar peso ou
cada. Depois de cada contração eu pensava assim: o meu bebê está fazer esforço físico por, pelo menos,
mais perto, ele está mais perto”, contou. dois meses após a cirurgia.

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 13


ENQUETE

A hora do
parto
Cesariana ou parto normal? Você conhece os benefícios do parto normal para o bebê e a
mãe? Essas e outras perguntas povoam a mente das gestantes. A influência dos médicos e
as opiniões alheias podem fazer a decisão pender para o método aparentemente mais fácil
– a cesariana –, mas isso não significa que ela seja a melhor opção. Preocupado com o
número crescente de cesarianas no país, cinco vezes maior do que o recomendado pela
OMS, o Sindjus ouviu a opinião das servidoras que aguardam a chegada dos seus filhos.
ARTHUR MONTEIRO
ARTHUR MONTEIRO
ARTHUR MONTEIRO

ISABELA LYRIO

Eu prefiro o parto normal. Conheço os benefícios do Este é o meu primeiro filho; Tenho um problema no ovário
Ainda não conversei com o parto normal, mas acho que estou com oito meses de que não permite o parto nor-
obstetra sobre isso, mas as condições da mãe e do gravidez e pretendo fazer mal, por isso não tive escolha.
conheço a facilidade de bebê têm que ser ideiais. cesariana. Eu quero a cirurgia Mas, caso não tivesse esse
recuperação e os benefícios Meu primeiro filho nasceu para fugir da dor. Eu sempre problema, escolheria a cesari-
para a mãe e o bebê. por cesariana; segundo a desmaio quando sinto muita ana mesmo, porque tenho
Este será o meu primeiro médica, eu não tenho estru- dor. Acho que querem mudar muito medo da dor. Quando
filho; estou com cinco tura corporal para o parto a mentalidade das mulheres eu nasci minha mãe deveria
meses e uma semana. normal. Sou ansiosa, tenho para decidir pelo parto nor- fazer parto normal, mas
Eu quero que o parto seja medo da dor. Estou grávida mal, mas não me convencem. acabou sofrendo vinte horas e
normal porque acho que de seis meses e minha filha A maioria das minhas amigas no final fez cesariana. Isso
será mais tranquilo. deverá nascer de cesariana. fizeram cesariana. influenciou a minha decisão.

Ana Caroline da Anne Araújo Comber – Caroline de Moura Xavier Cristiane Silva
Mota Pazini – TJDFT MPDFT Evaristo – TJDFT Piconcelli – MPDFT

14 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


ARTHUR MONTEIRO

ARTHUR MONTEIRO

ISABELA LYRIO

ISABELA LYRIO
Eu queria que o meu Conheço os benefícios do Minha primeira filha tem um Eu prefiro o parto normal.
primeiro filho nascesse de parto normal, mas prefiro ano e dois meses. Meu Estou com seis meses de
parto normal, mas não foi cesariana. Estou com dois médico decidiu sozinho pela gestação e este é o meu
possível. O normal é parto meses de gravidez; é o meu cesariana, no primeiro parto. segundo filho. O meu
normal; cesariana, só se segundo filho, e o primeiro Eu não tive escolha, e por primeiro parto foi cesariana,
não tiver jeito mesmo. nasceu com cesariana. Tenho isso me arrependo. Mas mas eu não gostei; a
A maioria das minhas medo da dor e conto com a ainda tenho medo do parto recuperação demorou e foi
amigas quer cesariana, não questão da programação, pois normal. Acho que há 90% de muito incômoda. O parto
sei o que se passa na a médica vai entrar de férias chance deste parto também normal é um método
cabeça delas... Mas eu não, na época do parto. Ela ficou ser cesariana. Eu prefiro, natural e saudável, e eu
muito obrigada, prefiro contente quando falei que porque deve ser muito mais acredito que será melhor
o parto normal. preferia a cesariana. tranquilo que o parto normal. para mim e para o bebê.

Gabriela Galvão Silveira Vanessa de Souza Érica Pires Carneiro – Cátia Betânia Chagas –
Melo Ferrari – TJDFT Dias – TJDFT MPDFT MPDFT

ARTHUR MONTEIRO
ARTHUR MONTEIRO
ISABELA LYRIO

ISABELA LYRIO

Escolhi a cesariana Na hora do parto, pretendo Este é meu primeiro filho e Meu filho de dois anos nasceu
porque tenho muito aguardar ver se há dilatação; quero fazer cesariana, por de parto normal e foi tudo
medo da dor e do des- se houver, faço parto normal. questão de planejamento e muito tranquilo. Espero que
conforto do parto normal. Se for demorar muito, faço para fugir da da dor. Prefiro este seja normal também. Não
Eu não sou adepta ao cesariana. Não quero ficar ter o meu filho da maneira gosto de ambiente hospitalar
parto normal, embora sofrendo durante muitas mais fácil. O médico me nem de cirurgia. Durante mi-
saiba das vantagens do horas. Minha teve dois apoiou, mas disse que, se eu nha primeira gravidez procurei
pós-parto. Mas acho que partos normais e rápidos; quiser mudar para o parto me informar, fiz ioga para
a cesariana é melhor acho isso perfeito. Mas normal, ele também aceita. gestante, conversei muito com
também por causa do grande parte das minhas Meu marido me apoia tam- a professora. Quando a gente
planejamento, dá para amigas prefere cesariana, bém, apesar de sabermos os tem informação, tem muito
marcar a data do parto. por causa da comodidade. benefícios do parto normal. mais tranquilidade.

Márcia Alves de Verônica Reis da Rocha Daniele Alves de Juliana Magalhães de Pinho
Oliveira – MPDFT Verano – TJDFT Sousa –MPDFT Cruz – MPDFT

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 15


Festa libertária
O popular na 2ª Conferência Nacional de Cultura

16 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


TT CATALÃO Emblemático da cultura em movimento, o boi de carnaval de cessar lixo estrangeiro, batidas, matérias reusadas, repertórios li-
Alagoas provoca uma oportuna reflexão para os encaminhamen- quidificados, influências, divergências, convergências e até inter-
tos da 2ª Conferência Nacional de Cultura, entre 10 e 14 de mar- ferências que logo são mastigadas e devolvidas com talento, ma-
Saiba mais nos sites: ço deste ano, em Brasília. A Conferência consolida, institucional- landragem, agilidade e admirável jogo de cintura.
www.cultura.gov.br e
blogs.cultura.gov.br/cnc mente, o longo pacto entre sociedade e governo iniciado na ges- Mário de Andrade, no Estado, fez esse primeiro percurso na
tão Gil do Ministério da Cultura. São muitas as frentes abertas e o busca de mapear e criar uma sistematização desse jorro. Curioso
desafio de tornar política pública de Estado os conceitos assumi- como a tradição do popular (sempre mutante) e as vanguardas
dos pelo MinC é imenso. Na raiz de tudo está a ampliação da (experimentais e desafiadoras) se encontram na busca atual das
cultura como processo vivo, incorporado e praticado em diversas políticas públicas acenadas por essa guinada da velha Lei Roau-
expressões das linguagens artísticas, com acesso aberto a um maior net com o reforço para os Fundos para as artes aplicadas. Tudo
número de brasileiros (não só como platéia-mercado, mas criado- que está fora da roda que gira no mercado precisa criar estrutu-
res-ativos) e testemunho da pluralidade do país. ras de existência e continuidade, o que, paradoxalmente, vai inte-
A segunda Conferência vem referendada por uma extraordi- ressar ao próprio mercado padrão, que
nária mobilização nacional. Foram 3.500 reuniões em mais da saberá buscar (e filtrar) nos alternativos
metade do total dos municípios brasileiros. Os encontros setori- as forças potenciais para usarem em suas
ais construíram uma pauta tão ampla quanto a ambição de mar- grades de “sucessos”.
TEMAS:
car a diferença estrutural de uma gestão fundamentada em par- A Conferência dá essa chance de
ticipação e rigor com recursos públicos e a antiga política do mexida no grande balaio da complexi- • Produção simbólica e diversidade cul-
balcão para “iluminados”. Essa ampliação da cultura além da dade cultural e mestiça do Brasil. As tural: produção de arte e bens simbólicos;
arte encontra nos Fundos, regulamentados por sociedade e go- forças se apresentam com a clara cons- diálogos interculturais; formação no campo
da cultura e democratização da informação.
verno, o caminho para permitir que o popular e, curiosamente, ciência de que nem o Estado é sobera-
as vanguardas experimentais saiam do eventual descontínuo para no e autocrata para determinar os ca- • Cultura, cidade e cidadania: cidades
uma visibilidade assegurada com chance de permanência, regis- minhos nem as empresas ou núcleos como espaço de produção; intervenção e tro-
cas culturais; acesso a bens culturais.
tro, circulação e, óbvio, cheguem ao mercado sem intermediári- da elite pela “arte do consumo” são
os que desidratem suas estéticas para o fast food geral. Palatá- as referências que vão polarizar os de- • Cultura e desenvolvimento sustentá-
veis, mas íntegros. bates. Hoje temos mais vozes, mais gru- vel: importância estratégica da cultura no pro-
A Conferência abre espaço e tempo para essa questão da arte pos organizados, mais pensares e sa- cesso de desenvolvimento.
brasileira fora das lentes viciadas na referência de “celebridades”, beres fora dos esquemas, mais visões • Cultura e economia criativa: economia
“aprovações” de grandes centros ou mesmo batismo de intelec- pela diversidade e mais chances de cul- criativa como estratégia de desenvolvimento.
tuais. É que a explosão criativa do povo brasileiro é tão radical- tura não ser só entretenimento (que

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


• Gestão e institucionalidade da cultu-
mente inovadora e ousada que o país, no seu aparato de mídia e vale e muito), mas ferramenta de dig- ra: fortalecimento da ação do Estado e da

17
universidades, nunca conseguiu acompanhar a tal dinâmica da nidade e respeito. A festa é libertária participação social; participação social na ges-
cultura em movimento. Vorazes e antropofágicos, os que fazem a quando um povo transmuta a adversi- tão; implantação dos sistemas nacional, es-
cultura popular matéria viva têm capacidade insaciável para pro- dade em consciência. taduais e municipais de cultura.
SOCIEDADE

O pesadelo do
crack

18 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


Disseminada em Fabíola Góis 10 –, ela é consumida por moradores
de rua, jovens que já tiveram iniciação
Brasília há pouco
mais de um ano, a A o lado do muro da Vara da In-
fância e Juventude, na 910 Nor-
te, havia uma lona preta que abrigava
em outras drogas e até mesmo curio-
sos. Se necessário, eles vendem até a
roupa caso seja para saciar a vontade
droga começa a dois homens maltrapilhos, sujos, pa- – ou a “fissura”. São comuns casos
invadir o Plano recidos com moradores de rua. Apa- de prostituição entre homens, mulhe-
rentemente inofensivos, eles passavam res e crianças que não conseguem lar-
Piloto e atinge cada desapercebidos por quem circulava gar o vício e precisam de dinheiro para
vez mais as classes pelo local. Mas só mesmo a partir de comprar a droga.
uma denúncia anônima, em janeiro No Centro de Assistência Psicosso-
média e alta deste ano, é que a polícia começou a cial para Usuários de Álcool e Outras
investigar que naquele lugar havia cri- Drogas (CAPSad), no Guará, são vári-
minosos travestidos de gente humil- os os casos de atendimento de usuá-
de. Eram traficantes de crack, uma dro- rios de crack. As histórias comovem até
ga avassaladora, subproduto da coca- mesmo quem está acostumado a lidar
ína, que já saiu da periferia e começa com a droga. Sônia Machiutti, geren-
a atingir a classe média. Ninguém pas- te da unidade, conta que há casos
sa incólume: advogados, enfermeiros, onde o dependente chegou a gastar
servidores do Judiciário. Gente escla- todo o salário do mês, em torno de R$
recida também passou a arruinar suas 3 mil, em um final de semana para
vidas pela dependência do crack. satisfazer o vício. “Como o efeito é
Mas é na periferia que a droga faz muito rápido, o usuário quer ingerir a
o maior número de vítimas. Por ser droga logo em seguida. Só para quan-
barata – cada pedra custa de R$ 5 a do acabam as pedras”, disse.

Sônia Machiutti, gerente do


CAPSad Guará, conta que um
dependente já chegou a gastar
com o crack, em um final de
semana, todo o salário de R$ 3 mil

Efeito rápido e
intoxicação intensa
O crack é fumado por ser uma forma
rápida (e barata) de chegar ao cérebro e
produzir efeitos. A pedra é quebrada e
fumada de diversas maneiras e em
diferentes recipientes, enrolada no cigarro
de tabaco ou misturada na maconha.
O crack é também consumido em
cachimbos improvisados feitos com tubos
de PVC ou latas de alumínio, muitas vezes
coletados no lixo. O uso de latas favorece
a aspiração de grande quantidade de
fumaça pelo bocal, promovendo uma
intoxicação pulmonar intensa.
FOTOS: ARTHUR MONTEIRO

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 19


SOCIEDADE

“A família
toda adoece”
Joana já inter- O crack não só atinge o
nou o filho dez
vezes, mas ele usuário, mas também as fa-
não conseguiu mílias. Quem conta é Joana,
vencer o vício:
“Não sei mais o
mãe de Jorge, 27 anos, usuá-
que fazer” rio da droga. O jovem come-
çou com maconha. Depois
passou a usar merla. Ao ex-
perimentar o crack, não con-
seguiu mais largar o vício.
Moradora do Riacho Fundo I,
Joana* confessa não ter mais
forças para lutar pela vida do
filho. Jorge* parou de estudar
no 2º grau, deixou de traba-
lhar e passa dias fora de
casa. Quando volta, está com
fome, sujo e magro. “A famí-
lia toda adoece. Eu vivo à
base de antidepressivos. Meu
marido está com câncer na
próstata. E não aguento ver
meus outros filhos sofrerem
pelo irmão. Não sei mais o
que fazer”, admite.
Joana, merendeira da rede
pública, procurou o CAPSad
Guará como a última tentati-
va para livrar o filho das dro-
gas. O rapaz diz que não con-
segue mais se dominar e che-
gou a dizer a ela: “Mãe, você
acha que estou nessa vida
desgraçada porque eu que-
ro?”. Joana já o internou dez
vezes. O rapaz chegou a ficar
em uma casa de repouso por
nove meses. Saiu, passou dois
meses sem usar droga e vol-
tou para o crack. Perdeu a
mulher, que não aguentou
mais conviver com ele. Jorge
* Os nomes são fictícios

costuma vender o que vê pela


frente para comprar a droga.
Leva objetos de casa. Come-
çou a praticar crimes, como
assaltos e roubo de carros.
FOTOS: ARTHUR MONTEIRO

20 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


Consumo cresce entre “gente grã-fina”
A reportagem da Revista do Sind- comuns carros de “gente grã-fina” pa- mas ações de policiais militares. Os usu-
jus percorreu algumas das áreas do rar em pontos estratégicos onde há ven- ários não se escondem nem mesmo
Plano Piloto onde a droga desafia a dedores da droga. Segundo José Jorge, quando veem a farda de longe. É difícil
polícia. No Setor Comercial Sul, no co- é assustador o aumento do consumo conseguir identificar quem é morador
ração de Brasília, o crack é fumado dia de crack nas classes média e alta. “Eles de rua e quem é usuário. Em geral, o
e noite, sob os olhos das autoridades não gostam de falar, mas quando ‘pu- dependente de crack é arredio, arisco.
policiais, que não conseguem impedir xamos’ a placa do carro no registro do E chegam a ser agressivos entre eles,
a disseminação da droga. Bem perto Detran podemos conferir quem são es- quando dividem o mesmo cachimbo.
do posto da Polícia Militar há becos e sas pessoas, onde moram e a profissão. Flanelinha e pedreiro, José*, 36
passagens subterrâneas onde os vici- Muita gente está estragando a vida por anos, mora em Planaltina e trabalha
ados proliferam. Ali eles consomem conta do crack”, observa o policial. no Plano, mas antes de ir para casa
esse subproduto da cocaína que leva A área central de Brasília está to- costuma fumar umas pedras de crack
à dependência já na segunda traga- mada por traficantes e usuários da no Setor Comercial. “Eu fumo porque
da. “Esse é um problema social e não droga. Além do Setor Comercial, a in- gosto. O dinheiro é meu. Gosto de
de polícia. Só podemos atuar caso eles cidência maior de consumo e tráfico é beber também”, revela. Para José, in-
provoquem dano ao patrimônio públi- no Setor de Diversões Sul (Conic) e nas gerir álcool e fumar crack dá um “ba-
co ou estejam envolvidos com algum quadras finais da Asa Norte. Grande rato” maior.
tipo de crime, como tráfico ou furto”, parte dos policiais não vê o usuário Depois de revistá-lo, policiais mili-
afirma o cabo José Jorge, do 1º Bata- como criminoso, mas como um doen- tares o liberam. “Não tem o que levar
lhão da PMDF. te que precisa de tratamento. É por isso para a delegacia. Não encontramos a
Acostumado a lidar com os depen- que nem todas as abordagens termi- pedra porque provavelmente ela já foi
dentes, o policial conta que, nas ma- nam nas delegacias. fumada. Portanto, não há flagrante”,
drugadas no SCS, são cada vez mais A reportagem acompanhou algu- explica o cabo José Jorge.

Ação policial no Setor Comercial


Sul: local passou a ser cada vez
mais procurado pelas classes média
e alta em busca de crack

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 21


SOCIEDADE

Nas comerciais e superquadras nado em um terreno baldio, no par-


que Boulevard. As investigações apon-
Em outra esquina do SCS, uma ver pontos em brasas, bem caracterís- taram que o jovem perdeu a vida por-
adolescente grávida, sentada no meio- ticos da queima das pedras da droga. que roubou dinheiro de um traficante.
fio, esconde a latinha que usa para O consumo acontece em ritmo fre- Ele queria, segundo a polícia, pagar
fumar crack. Ela não admite o uso, mas nético. A maioria dos usuários passa dívidas acumuladas. Os chefes da
os soldados que por lá circulam con- dias sem comer, dormir ou voltar para “boca” o amarraram em uma árvore,
tam que ela frequenta o local e se pros- casa. Esquecem-se da higiene pessoal deram socos, pontapés e coronhadas
titui para comprar a droga. e dos amigos. Os moradores das qua- e, por fim, atiraram cinco vezes.
Perto dali, na Rodoviária e em vá- dras próximas ficam incomodados, Romeiro considera preocupante o
rias quadras do Plano Piloto – na 110, chamam a polícia, mas não conseguem avanço do crack no DF. “A polícia não
710, 314, 315, 316, 710 e 715 norte se livrar de assistir as cenas deprimen- vai resolver o problema do crack. São
e 109 sul), jovens tes de uso da droga. necessárias campanhas preventivas e
de bermudas, ja- Uma das primeiras vítimas do trá- uma ação conjunta do governo local
quetas e bonés fico de crack no Distrito Federal era um e federal”, afirma o delegado.
deixam os pilotis morador da 314 norte. No ano passa- Em uma das primeiras apreensões
dos prédios e do, o rapaz de 25 anos morreu brutal- neste ano, ao lado do muro da Vara
saem em busca de mente assassinado. A polícia encon- da Infância e da Juventude, na 909
um cachimbo ou trou o corpo dele 28 dias depois de norte, os policiais prenderam Iromar
uma latinha im- ser espancado, torturado e morto a ti- Rodrigues da Silva, 33 anos, e apreen-
provisada que sir- ros em uma área de cerrado, na altura deram um adolescente de 15, com 35
va para fumar cra- da 912 norte. pedras grandes de crack, 23 pedras pe-
ck. Em algumas O delegado-chefe da 2ª DP (Asa quenas, fragmentos da droga e R$ 454
comerciais das Norte), Antônio Romeiro, conta que foi em dinheiro. O flagrante foi às 11h do
quadras é possível difícil localizar o corpo dele, abando- dia 27 de janeiro.

Antônio Romeiro, delegado-


chefe da 2ª DP, e pedras de crack Danos à saúde
apreendidas: “São necessárias
campanhas preventivas”
São vários os tipos de danos cau-
sados pelo uso de crack. Além
dos problemas respiratórios pela
inspiração de partículas sólidas,
sua ação estimulante leva à per-
da de apetite, falta de sono e
agitação motora, além de dificul-
dade de ingerir alimentos, que
pode levar à desnutrição, desidra-
tação e gastrite. Podem ser tam-
bém observados sintomas físicos
como rachadura nos lábios, pela
falta de ingestão de água e de
salivação, cortes e queimaduras
nos dedos das mãos e às vezes
no nariz, provocados pelo ato de
FOTOS: ARTHUR MONTEIRO

quebrar e acender a pedra. Além


disso, o usuário fica mais exposto
ao risco social e de doenças.
Fonte: Ministério da Saúde

22 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


Jovens em risco
É no início da adolescência que os
jovens brasileiros experimentam álcool
e maconha pela primeira vez. O con-
sumo de outras drogas costuma ocor-
rer um ano e meio depois da primeira
tragada ou do primeiro copo – em
média aos 14,9 anos, como mostram
as pesquisas.
O uso de álcool entre adolescen-
tes é controverso. Ao mesmo tempo
em que a lei brasileira proibe a venda
Unidade pública no Guará: para menores de 18 anos, é comum o
de cada dez novos casos
recebidos por dia, seis têm consumo pelos jovens – seja em casa,
relação com o crack em festas ou mesmo em ambientes
públicos. Por não ser uma droga proi-
bida, o álcool acaba fazendo parte da
realidade dos jovens, até mesmo com
Atendimento limitado a permissão ou a omissão dos pais.
Mesmo as drogas consideradas
O crack está disseminado em Bra- para um atendimento qualificado. Fal- “menos agressivas”, como o álcool ou
sília há pouco mais de um ano. Há vin- tam profissionais e espaço físico. O ide- a maconha, podem ser catastróficas.
te anos, estava restrito a uma área no al seria a construção de CAPSad em A maconha, por exemplo, pode cau-
centro da capital de São Paulo, conhe- cada região administrativa. Localida- sar alterações na motivação e levar a
cida como “cracolândia”. Nos últimos des com mais de cem mil habitantes um estado de apatia semelhante à de-
dois anos, proliferou em todo o país. têm indicação para implantar pelo me- pressão, cujo tratamento é difícil. Isso
O Ministério da Saúde lançou um nos uma unidade de atendimento a sem contar com o efeito trampolim.
programa de emergência para comba- dependentes químicos. Assim, um usu- As pesquisas afirmam que quem usa
ter o uso de crack, com investimentos ário do Riacho Fundo não precisaria um tipo de droga rompe uma barreira
de R$ 117,9 milhões até o fim de se deslocar até o Guará para conse- psíquica e tem maior propensão a uti-
2010. Ao todo, 108 cidades devem ser guir atendimento. Essas unidades dão lizar outras.
atingidas. A proposta é aumentar o nú- apoio e encaminham os usuários à in- Estudos realizados em Brighton,
mero de leitos e de profissionais dedi- ternação em hospitais gerais, quando Inglaterra, pesquisaram os efeitos do
cados à saúde mental, instalar novos necessário. No Guará, a unidade aten- ecstasy – droga cada vez mais utiliza-
núcleos de apoio à saúde da família e de cerca de seis mil pacientes. De cada da no DF – entre jovens para quanti-
mais centros de atenção psicossocial. dez novos casos recebidos por dia no ficar alguns dos efeitos em um perío-
Em todo o Distrito Federal e Entorno Guará, seis têm relação com o crack. do de nove dias. Apesar da documen-
há apenas três unidades de atendi- O tratamento para o usuário nem tação de efeitos nocivos, o estudo su-
mento para usuários de drogas, em So- sempre surte efeito. Uma equipe mul- geriu que os efeitos em curto prazo
bradinho II, Ceilândia e Guará. A pre- tidisciplinar faz a avaliação necessá- são relativamente modestos. Essa
visão é que outros três sejam abertos ria e indica quais recursos podem ser pode ser uma das razões pelas quais
ainda este ano, em Santa Maria, Pla- empregados para os pacientes. Em muitos usuários não percebem a in-
naltina e Gama. geral, ministram-se medicamentos tensidade do risco. O ecstasy provoca
Mas o atendimento ainda é limita- para conter a ansiedade e a vontade alteração das células nervosas do cé-
do e a rede dispõe de poucos recursos de usar a droga. rebro, principalmente as que possu-
em a substância serotonina, que pode
diminuir proporcionalmente à quan-
ONDE PROCURAR AJUDA tidade e ao tempo de uso.
CAPsad (Guará): 3567-1967 • Capsad (Sobradinho): 3591-2779
Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 23
OUTROS EUS

A maior riqueza do homem


é a sua incompletude. Os caminhos da
mente
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
“O prêmio do autoconhecimento é o
amor-próprio e autorrealização”, afir-
filme), é definida como a busca de realiza-
ção por meio do autoconhecimento.
ma a técnica do STM Luciana Carla de Al- Apoiada pelo mestre holandês Guido
que vai lá fora, meida Lopes. Preocupada com esse tema Sleddens, Luciana trabalhou por três anos
desde a adolescência, ela conta que aos 17 com as técnicas, aplicando-as em sua pró-
que aponta lápis,
anos começou a sentir “sente sede de co- pria vida, e depois concluiu a graduação nos
que vê a uva etc. etc. nhecimento – na verdade, de autoconheci- Estados Unidos. Ela explica que a metodo-
Perdoai mento”. Os questionamentos existenciais logia Avatar trabalha o sistema de crenças
Mas eu preciso ser Outros. a fizeram procurar respostas em universos do ser humano: “São técnicas para a pes-
que iam além do mundo acadêmico. Mas soa melhorar sua vida de acordo com seus
Eu penso renovar o homem um dia, aos 19 anos, descobriu que tinha próprios planos. O que você acredita tem
usando borboletas. lúpus, doença autoimune que não tem cura consequência sobre o que você vivencia. As
e pode trazer consequências graves. chaves mentais que aprisionam o ser hu-
O diagnóstico, entretanto, não a desen- mano são destrancadas”, sustenta.
Manoel de Barros
corajou. Luciana partiu para o estudo da O Avatar foi criado pelo pesquisador, am-
doença, para que ela mesma pudesse se aju- bientalista e psicólogo educacional norte-
dar. “Comecei a pesquisar para descobrir americano Harry Palmer. Estudante discipli-
como ter uma vida saudável”, recorda. nada, Luciana segue todas as suas lições.
Entretanto, as provações não pararam “No primeiro nível você trabalha o seu uni-
por aí. Alguns anos depois Luciana engravi- verso. Depois que me familiarizei com a téc-
dou, mas sua alegria não durou muito. O nica, decidi me tornar master para ensinar
Do alto dos seus 91 anos,
bebê viveu por apenas quinze dias. A pro- outras pessoas”, diz.
o poeta Manoel de Barros funda tristeza pela perda da criança, porém, A servidora também é especialista em
ensina que o ser humano não a afastou da caminhada rumo ao auto- massagem ayurvédica e em shantala (mas-
é incompleto, e que isso não conhecimento. Ela se agarrou à certeza de sagem para bebês e crianças); ela participa
que a vida não era dor, de que havia algo de uma ONG que oferece massagens em cre-
é defeito; é qualidade. maior. “Sempre senti que o sofrimento não ches e asilos. Luciana acredita que o Avatar
Assim como ele, muitas outras era uma verdade absoluta; a minha forma mudou sua vida e que ajudou a garantir a
pessoas precisam ser Outras. de atuar perante as circunstâncias da vida sua saúde. “Passei por grandes transforma-
era o que fazia a diferença”, explica. ções pessoais e profissionais. Hoje ministro
E são. Esta coluna publicará
Luciana engravidou novamente e deu à workshops Avatar em Brasília e o curso com-
mensalmente histórias de gente luz uma menina, que hoje está com treze pleto em várias cidades do Brasil. Também
que concilia o serviço público anos. Em 2002 tomou posse no STM e co- levei o Avatar para o Equador”, conta ela.
com as mais diversas meçou um curso de Direito, influenciada Na esteira das mudanças positivas, Lu-
pela família de advogados. Mas ainda não ciana trocou o curso de Direito pelo de Psi-
atividades. São atletas, chefes se sentia realizada. Então, em 2004, fez uma cologia: “Estou feliz e realizada. Atualmen-
de cozinha, professores, descoberta que mudaria sua vida. te sou membro da Comissão de Qualidade
pintores, mágicos, mecânicos, “Descobri uma técnica de autodesen- de Vida do STM e estou comprometida com
volvimento que abriu um leque de horizon- a promoção da saúde emocional das pes-
músicos... A lista não tem fim.
tes, expandiu a minha consciência e me per- soas”, comemora.
mitiu conhecer um pouco mais sobre as in-
terações sutis entre as pessoas”, relata. A Para conhecer as técnicas ensinadas por
técnica, chamada Avatar (nada a ver com o Luciana, acesse www.avatarepc.com

Fev-Mar/2010
24 Revista do Sindjus • Fev/2010
Servidora do
STM, Luciana é
instrutora de
uma técnica de
audodesenvolvi-
mento e participa
de uma ONG
que oferece mas-
sagens em cre-
ches e asilos

RODRIGO OLIVEIRA

Revista do Sindjus
Revista • Fev-Mar/2010
do Sindjus • Fev/2010 25
MEIO AMBIENTE

Como criar um
União dos moradores e mobilização
da sociedade fizeram do Olhos
D’Água um modelo de parque
ecológico urbano – que infelizmente
não é seguido no resto do DF
paraíso
Carlos Tavares cooper de 2.100 metros e por várias que vinham se esconder aqui, mas isso
trilhas menores que percorrem o cer- é coisa do passado”, diz o administra-

U
m reduto de vegetação do cerra- rado e a mata, passando pela nascen- dor do parque, Ezechias Vasconcelos.
do e de mata ciliar, pistas de cor- te, pela lagoa e por um circuito edu- Se o visitante seguir a trilha das
rida sem buracos, telas de alambrados cativo sobre o cerrado. águas vai parar na Lagoa do Sapo –
intactas, banheiros limpos, parque in- Encravada no meio do parque, no referência à Sociedade dos Amigos do
fantil seguro e conservado, circuito in- fundo de um pequeno vale ladeado de Parque Olhos D’Água, mas também ao
teligente de ginástica e caminhos lim- árvores imensas, a nascente foi recen- anfíbio que, curiosamente, pouco é vis-
pos, sem um pedaço de papel no chão. temente revitalizada e é um remanso to no lugar. Esse é um dos espaços
Será que estamos mesmo falando de para as pessoas, pássaros e outros pe- mais procurados pelas crianças, que se
um parque de Brasília, uma cidade que quenos animais, ornado por plantas tí- divertem apreciando patos, peixes e
nos últimos anos apenas desprezou picas que se exibem, exuberantes, às tartarugas. É o caso da pequena Bian-
seu patrimônio verde e os espaços pú- margens de um pequeno córrego. “Já ca, de três anos: “Quero ver a tartaru-
blicos de cultura e lazer? tivemos muitos problemas com inva- ga”, suplica a garotinha enquanto pas-
Por incrível que pareça, estamos. sões, usuários de drogas e traficantes seia com a mãe.
Mas as perfeitas condições do parque
não se devem a decisões governamen-
tais e sim à mobilização da comuni-
dade. Durante anos, um grupo de mo- Nascentes: adote essa ideia
radores do final da Asa Norte lutou
contra os interesses da especulação Um dos melhores exemplos do pro- cos metros da Lagoa do Sapo, tratou
imobiliária – e muitas vezes contra a grama Adote uma Nascente, do Insti- de ornar o veio com uma miniatura de
inércia do governo – para transformar tuto Brasília Ambiental (Ibram), está ponte de madeira, colocou um banco
as futuras quadras 413 e 414 norte dentro do Parque Olhos D’Água. An- para descanso e contemplação do es-
no Parque Ecológico e de Uso Múlti- tes cercada por plantas invasoras, com paço, construiu um jardim em volta da
plo Olhos D’Água. seu córrego transformado em lixeira e passarela e deixou o ambiente irreco-
O lugar, antes abandonado, trans- alvo de depredações por visitantes pro- nhecível, de tão agradável.
formou-se num oásis. Um passeio por blemáticos, agora a nascente parece Isso tudo sem falar nos benefícios
ali dá a sensação de que não estamos um recanto extraído de um livro de que o gesto trouxe para a preserva-
em Brasília ou em qualquer outro meio fábulas infantis. A empresa que ado- ção do manancial. Criado em 2002, o
urbano do mundo. Inaugurado em tou o olho d’água, encravado no cen- programa Adote uma Nascente preten-
1994, o parque possui 21 hectares de tro de uma pequena mata ciliar, a pou- de mudar a feição de todas as duzen-
área verde, cortados por uma pista de

26 Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010


ARTHUR MONTEIRO

tas nascentes do Distrito Federal, a


maioria exposta à depredação e mal
conservada. Outra vez o Parque Olhos
D’ Água serve de exemplo.
Para participar do programa basta
preencher um cadastro e não ter pen-
dências judiciais. O voluntário pode
participar como adotante (responsá-
vel direto pela proteção e recuperação
das nascentes) ou padrinho (que co-
labora com os adotantes na execução
das ações). Segundo as normas do
Oásis urba-
Ibram, os adotantes em potencial es- no: mata
colhem o olho d’ água a ser adotado, ciliar abriga
nascente e
sob a orientação do instituto. lagoa

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MEIO AMBIENTE

Um oásis em meio ao abandono


O Olhos D’Água é um parque mo- Com relação às outras dezenas de par- te isso não ocorre fora de Brasília. As
delo. Mas, ironicamente, ele não se faz ques do Distrito Federal, administra- pessoas só querem colaborar quan-
modelo para outros do Distrito Federal, dos pelo Instituto Brasília Ambiental do se fala em Plano Piloto, mas não
porque estes teriam que ofertar ao pú- (Ibram), a realidade infelizmente não se interessam pelas outras regiões ad-
blico uma razoável variedade de atri- é essa. O Parque da Ermida Dom Bos- ministrativas”, admite a coordenado-
butos ecológicos e educativos, em ter- co está abandonado, assim como o ra de Parques do Ibram, Rosatilde
mos de meio ambiente, além de contar Bosque dos Pequizeiros em Planalti- Santana Carvalho.
com uma estrutura de lazer e diversão na, o Parque Três Meninas em Santa O instituto enfrenta problemas de
para pessoas de todas as idades. Maria, o Ezechias Heringer, no Guará, pessoal e de orçamento. Conta com
Além desses aspectos, o parque e por aí vai. Os mais conservados, se- apenas 0,2% do orçamento do GDF
Olhos D’Água dá também uma lição gundo o Instituto, são o de Águas Cla- (equivalente a R$ 20 milhões por ano)
de convivência coletiva. Se, fora de ras, o de uso múltiplo do Lago Norte, para administrar, licenciar obras e fis-
suas cercas, todos reproduzissem o cli- o Parque Urbano do Paranoá e Jequi- calizar agressões ao meio ambiente em
ma do lugar, as ruas ficariam mais lim- tibás, em Sobradinho. 72 parques distribuídos pelo Distrito
pas, as pessoas mais educadas e qual- A organização da unidade da Asa Federal. Segundo o presidente do
quer garoto seria capaz de dar aulas Norte deve muito ao programa Abra- Ibram, Gustavo Souto Maior, “não dá
de cidadania e meio ambiente. ce um Parque, que atraiu dezenas de para depender somente de recursos
O Olhos D’Água é tido como um empresas e de pessoas físicas, possi- oficiais. Por isso criamos o Abrace um
exemplo de parque ecológico urbano bilitando a montagem da atual estru- Parque, que conta com a iniciativa pri-
até por prefeituras de outros estados. tura e a sua manutenção. “Infelizmen- vada e nos ajuda muito”, afirmou.

Os vários recantos
do parque: lição de
convivência coletiva

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O programa, criado em agosto de
2008, aprovou inicialmente nove pro- Abrace um parque você também
jetos para onze parques, entre eles o
Olhos D’Água. De acordo com o Ibram, O programa Abrace Um Parque doação de sementes e mudas; recu-
essas unidades ecológicas urbanas vão abrange pessoas físicas ou jurídicas. O peração de áreas degradadas.
interessado pode fazer doações de bens
receber em 2010 investimentos de cer- 4) Paisagismo: criação, revitalização
ou apresentar propostas em duas mo-
ca de R$ 4 milhões, que serão utiliza- dalidades: espontânea (formuladas a ou adequação paisagística.
dos para instalar novos equipamentos, qualquer momento) e induzida (previs-
recuperar áreas degradadas, construir 5) Educação ambiental: atividades
ta em edital). Há sete linhas de ação:
científicas, didático-pedagógicas e de
e reformar edificações, plantar árvo-
lazer em harmonia com a natureza; pro-
res e fazer estudos ambientais. 1) Serviços: segurança e limpeza; for- dução e divulgação de eventos cultu-
Os recursos, no entanto, não vi- necimento de guias e brigadista. rais e educativos.
rão dos cofres públicos. O Ibram apos-
tou em parcerias com a comunidade 2) Obras: instalação e manutenção de 6) Doação e manutenção de bens:
equipamentos de lazer, esporte e edu- equipamentos de informática, de trans-
para propiciar aos brasilienses o privi-
cação; construção e reformas de edifi- porte, pesquisa, fiscalização e outros.
légio de ter um parque ao lado de casa. cações, preferencialmente sustentáveis.
Mas ainda há muito a fazer em um ano 7) Acervo técnico e científico: le-
marcado pelas eleições, Copa do Mun- 3) Conservação dos recursos na- vantamento e monitoramento de espé-
do e escândalos. Sem falar nas dificul- turais: recuperação de rios, córregos, cies endêmicas e raras; elaboração e
lagos etc; reconstituição da cobertura publicação de estudos técnico-científi-
dades políticas e administrativas em
vegetal; manutenção da biodiversida- cos; elaboração de plano de manejo,
todo o DF, após as denúncias do Men- de; produção, plantio, manutenção e plano de uso ou similar.
salão de Arruda.

FOTOS: ARTHUR MONTEIRO

Revista do Sindjus • Fev-Mar/2010 29


Ezechias: “O
FOTOS: ARTHUR MONTEIRO

parque só
resistiu porque
a união dos
moradores foi
muito grande”

Conservação envolve toda a comunidade


Se fosse pela vontade dos empresári- 100%, segundo ambientalistas, morado- trimônio verde do lugar, mediram sua ex-
os do setor de imóveis, o Parque Olhos res e administração. tensão, seu potencial ecológico e levaram
D’Água não existiria. Não foi por falta de Ezechias credita esses resultados ao um documento às autoridades, ainda em
pressão dos especuladores que as super- que chama de “gestão diferenciada”, ou 1993. Elas se reuniram ao professor de Edu-
quadras 413 e 414 norte e as comerciais administração compartilhada: o cidadão, cação Física Pedro Henrique Vinhal para criar
414 e 415 norte deixaram de ser constru- as empresas, as crianças, as escolas, to- a Sociedade de Amigos e Protetores do Par-
ídas, lembra Ezechias Vasconcelos. “O par- dos participam e exigem a conservação do que Olhos D’Água, ONG que, com a ajuda
que só resistiu porque a pressão da socie- local. A organização é tão visível que to- da entidade Patrulha Ecológica, conseguiu
dade e a união dos moradores foi muito dos se orgulham de participar da estrutu- ampliar o raio de proteção da área.
grande”, explica, referindo-se ao grupo ra de conservação, do frequentador ao em- O trabalho feito por Celeste, Marisa e
Amigos do Parque. presário, dos funcionários da limpeza ao Fernando está descrito em uma tese de
A legislação que hoje protege a área presidente do Ibram, Gustavo Souto Mai- pós-graduação em Ecoturismo assinada
estabelece os objetivos de preservar as or: “O que vemos aqui é um exemplo que por Gustavo Henrique Amorim, em 2004.
nascentes, olhos d’água, córrego, lagoa, deve incentivar empresários de outros lo- Aliás, esse é um dos principais objetivos
mata de galeria e fauna; recuperar áreas cais a investir nos nossos parques”, disse. de um parque ecológico e de uso múlti-
degradas; desenvolver programas de edu- A consolidação do parque deve-se em plo: produção de atividades científicas e
cação ambiental e pesquisas sobre os ecos- grande parte a duas mulheres obstinadas. pedagógicas. Professores e estudantes de
sistemas locais; e proporcionar lazer à po- Antigas moradoras das quadras vizinhas, as outros centros de ensino superior também
pulação. Uma simples visita mostra que o professoras Maria Celeste e Marisa de Góes se debruçam sobre o ecossistema do par-
regulamento é seguido em praticamente fizeram os primeiros levantamentos do pa- que para realizar suas pesquisas.
Estudantes de biologia e de engenha-
ria florestal da UnB estão empenhados em
encontrar uma solução para as leucenas e
Planos para o futuro vorismo. Outra preocupação são as crianças
as braquiárias, duas espécies exóticas ao
com necessidades especiais, que vão contar
Outros motivos de orgulho para os fre- com um playground acessível a todo o públi- cerrado. Elas são consideradas pragas em
quentadores são uma horta, um túnel de bar- co infantil. Ezechias batalha ainda pela ilumi- lugares como parques e reservas, porque
ro e garrafas pet moldado por alunos da Es- nação da área até 21h – atualmente ela encer- impedem o crescimento de outras espéci-
cola Classe 415 Norte, o Bosque dos Ipês, plan- ra às 20h. Também busca parceria para adotar es e se alastram com facilidade. “Temos
tado por estudantes há quinze anos, e a re- a nascente que fica na área da 213 norte. Por que substituir as leucenas aos poucos”,
cente biblioteca comunitária. Entre os planos ficar em parte fora da poligonal do parque, tem explica Ezechias Vasconcelos, referindo-se
para o futuro próximo estão a construção de sofrido agressões com o despejo de lixo pela à leguminosa sertaneja predadora que já
paredão de escalada e de um circuito de ar- população e por moradores de rua. formou um bosque, entre o parque infantil
e a sede da administração.

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SOS Asa Sul ção de jogar lixo e entulho”, acrescenta.
Rangel utiliza o parque há algum tem-
O Ibram atualmente concentra o tra-
balho em duas comissões: a de Revitaliza-
No final da L2 sul, o Parque Ecológico po e diz que, mesmo com um programa ção de Parques e a de Recategorização e
e de Uso Múltiplo é o retrato do abando- para tornar o espaço frequentável, as coi- Revisão de Poligonais (que são as áreas
no. Embora sendo do mesmo tamanho e sas estão muito lentas. “Não se vê nada de um parque). “O plano de manejo do
com fisionomia ecológica muito semelhan- acontecer, a não ser a construção da casa parque da Asa Sul está quase pronto e as
te à do Olhos D’Água, ele vive sendo alvo da administração, feita com material bio- parcerias com o Ipoema (Instituto de Per-
de vandalismo, invasões de usuários de degradável”, reclama, enquanto se exer- macultura: Organização, Ecovilas e Meio
drogas e moradores de rua, que usam suas cita num pequeno parque com equipamen- Ambiente) e o Instituto Holístico estão
nascentes para lavar roupa e cozinhar. tos de ginástica – o único sinal de que o dando certo”, acredita a coordenadora do
Basta entrar em sua pequena e densa espaço deveria se destinar a lazer, cultura, Ibram Rosatilde Santana Carvalho.
mata de vegetação típica (também amea- educação ambiental, esporte e ecologia. A solução para melhorar o estado dos
çada pela braquiária e a leucena) para per- “Se a sociedade não se mobilizar, como parques problemáticos no Plano Piloto e
ceber vestígios dos intrusos: fogareiros de ocorreu na Asa Norte, não vejo solução nas cidades satélites passa pelo programa
pedras e madeira, pedaços de roupas nos para este parque”, afirma. do Ibram, ampliando-se o apoio da socie-
córregos, latas de cerveja e garrafas pet – Somente a partir de 2009 o lugar co- dade, pessoas físicas e jurídicas e ONGs.
sem falar na área próxima à mata, que está meçou a ser beneficiado, de forma muito Passa também pela adoção de um novo
virando uma espécie de lixão da Asa Sul. lenta. “As benfeitorias são quase imper- sistema de administração, que depende de
“Ali jogam de tudo: sofá velho, cadei- ceptíveis, mas ainda é cedo para criticar um projeto à espera de votação na Câma-
ras, entulho de construção, sacolas plásti- com veemência”, reconhece Rangel. O que ra Legislativa. Ele deve dividir os parques
cas, tudo que não devia fazer parte do lu- se pode dizer é que o parque tem o mes- em ecológicos, urbanos e distritais, mas
gar”, reclama Rangel Moreira Viotti, mora- mo potencial ecológico e de uso múltiplo pode permanecer por muito tempo nos es-
dor da 308 sul e especialista em sistemas do Olhos D’Água, e que pode vir a ser im- caninhos dos parlamentares, devido aos es-
de informações. “Em termos de segurança portante para melhorar a qualidade de cândalos que paralisaram a máquina le-
o que existe são apenas placas com proibi- vida dos moradores. gislativa e estatal no DF.

Parque no final da L2 sul: potencial


ecológico e de múltiplo uso
semelhante ao do Olhos D’Água

Revista
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