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PROJETO FAPEAL/CNPQ-FUNESA

Impacto sócio-econômico da crise do setor fumageiro em Arapiraca/AL e perspectivas.


Projeto para o Desenvolvimento Local.

FUMO E DESENVOLVIMENTO
LOCAL EM ARAPIRACA /AL
Primeiras observações e análises
para a elaboração
do diagnóstico sócio-econômico
municipal e regional.

Jean Baptiste Nardi


Coordenador

Arapiraca, outubro de 2004


II

FUMO E DESENVOLVIMENTO LOCAL - RESUMO

Esse trabalho é o resultado de uma pesquisa preliminar visando fornecer futuramente


um amplo diagnóstico sobre a situação sócio-econômica em Arapiraca e região, no Estado
de Alagoas, Brasil.
Até o final do século XX, o fumo foi a principal atividade econômica de Arapiraca. Em
1998 o setor entrou numa crise estrutural que anuncia o fim dessa cultura. Analisam-se as
causas e as primeiras conseqüências sócio-econômicas dessa crise.
Baseado em teorias sobre o Desenvolvimento Local, o trabalho salienta as dificuldades
de aplicação de algumas destas, em particular a definição de um território de ação. Além
de a influência do fumo na formação da sociedade local, tenta evidenciar os empecilhos ao
desenvolvimento, relacionados com as mentalidades, as dificuldade de solucionar
problemas concretos, elaborar propostas e realizar ações adaptadas à realidade local.
Estuda projetos propostos ou em andamento bem como o potencial de diversos atores
locais. Busca ainda soluções delineando novos campos de pesquisa relativos em prioridade
às atividades agrícolas alternativas e categorias sócio-profissionais da população.

SOBRE O AUTOR

Jean Baptiste Nardi nasceu em 1952 na cidade de Marselha, na França, mas viveu até os
20 anos na Alemanha de onde ganhou a paixão para os charutos brasileiros. Em 1978
chegou ao Brasil e visitou as fábricas da Bahia. Interessou-se pela língua e cultura do país
e graduou-se em Estudos Luso-Brasileiros na Universidade de Provence (França). A partir
de 1982 consolidou seus laços com o Brasil e acabou por se radicalizar no país.
Especializou-se em história econômica do Brasil, sendo mestre e doutor pela Universidade
de Provence e Unicamp (São Paulo), tendo o fumo como tema principal de pesquisa.
Além de artigos publicados em revistas brasileiras e estrangeiras (França, Portugal) e
comunicações em congressos, Jean Baptiste Nardi escreveu vários livros.
A ABIFUMO (Associação Brasileira da Indústria do Fumo) publicou sua “História do
Fumo Brasileiro”, em 1985, no Rio de Janeiro, obra premiada como “melhor publicação do
ano” pela ABERJE (Associação Brasileira dos Editores de Revistas e Jornais de
Empresas).
III

Em 1987, a Editora Brasiliense (São Paulo) editou “O Fumo no Brasil Colônia”, na


Coleção Primeiros Passos (n. 121) e, em 1996, um extenso volume intitulado “O fumo
brasileiro no período colonial. Lavoura, comércio e administração”.
Em 2002, saiu na Editora Pontes de Campinas (São Paulo) o livro “Antigo sistema
colonial e tráfico negreiro: novas interpretações da história brasileira”.
Antes de estudar na universidade, Jean Baptiste Nardi formou-se profissionalmente em
turismo e gestão hoteleira e trabalhou durante uns dez anos da hotelaria. Ensinou português
na França, foi professor na Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia, na
Universidade Estadual de Alagoas (FUNESA) e colaborou com o Centro de Memória da
Unicamp (CMU).
A partir de 1999, começou a questionar os objetivos de sua pesquisa acadêmica e como
esta poderia contribuir a resolver os problemas sócio-econômicos da Região Fumageira do
Nordeste em crise onde vivia. Passou a integrar o grupo daqueles que pensam em
Desenvolvimento Local e tentam transformar a pesquisa em ação. Organizou em 2001 o
“Seminário sobre a Cultura do Fumo na Bahia” e dá hoje assessoria a várias associações,
instituições e grupos de população carente para a elaboração de projetos e diagnósticos.
Está atualmente estudando os problemas sócio-econômicos em Arapiraca, Alagoas, onde
trabalha como pesquisador pela FAPEAL – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
Alagoas e o CNPq.
Jean Baptiste Nardi é considedado como um dos melhores especialista da história e
economia do fumo no Brasil, em particular a da região Nordeste. Nas suas horas perdidas
compõe músicas e escreve poesias (em português), sendo algumas delas já publicadas em
revistas e jornais.
1

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................................ 7
INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................................... 6
CAPÍTULO 1: DEFINIÇÃO DO TERRITÓRIO, TEORIA E PRIMEIROS ENSAIOS .............................. 8
1. PRESUPOSTOS TEÓRICOS.................................................................................................................... 8
1.1. Nova ideologia.................................................................................................................................... 8
1.2. A produção do conhecimento local ou territorial.............................................................................. 10
1.3. Definir um território: uma tarefa complexa ...................................................................................... 12
1.4. Um exemplo de aplicação teórica: o Projeto de Território ............................................................... 17
2. A REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA E O CONCEITO DE “RURBANIDADE”.................... 20
2.1. A formação da Região Fumageira de Arapiraca ............................................................................... 20
2.2. Análise das estatísticas e das concentrações populacionais .............................................................. 21
2.3. Outros índices de rurbanidade.......................................................................................................... 23
2.4. A Educação como fator de transição................................................................................................. 25
3. CONCLUSÃO......................................................................................................................................... 27
CAPÍTULO 2: DECADÊNCIA DA CULTURA DO FUMO NO NORDESTE. MITO E
REALIDADE. CRISES E MUDANÇAS ESTRUTURAIS.............................................................................. 30
1. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA. ............................................................................................................... 30
2. DESENVOLVIMENTO DA FUMICULTURA NO NORDESTE E NO BRASIL................................ 33
2.1. Período colonial: exclusividade do fumo de corda ........................................................................... 33
2.2. O século XIX : mercado interno, charutos e primeiros cigarros ....................................................... 34
2.3. A era dos cigarros industrializados ................................................................................................... 36
2.4. A virada dos anos 60 e o milagre brasileiro ...................................................................................... 37
3. CRISES DO FUMO NO NORDESTE .................................................................................................... 38
3.1. A crise dos anos 75-85 e a concentração da cultura do fumo de corda em Alagoas ......................... 38
3.2. A atual crise em Alagoas e no Nordeste ........................................................................................... 42
3.2.1. O eterno problema dos dados..................................................................................................... 42
3.2.2. A evolução da produção em Alagoas......................................................................................... 43
3.2.3. A interação dos fatores............................................................................................................... 44
3.2.4. Síntese - Periodização da cultura do fumo no Nordeste............................................................. 52
3.2.5. Noções de ciclo, crise e decadência ........................................................................................... 55
4. CONCLUSÃO......................................................................................................................................... 56
CAPÍTULO 3: A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE ARAPIRAQUENSE ............................................... 60
1. COMPLEXIDADE DA SOCIEDADE LOCAL ..................................................................................... 61
2. ONDE FOI O DINHEIRO DO FUMO?.................................................................................................. 63
2.1. Faturamento teórico global entre produtor e empresa....................................................................... 63
2.2. A repartição do valor da produção de fumo entre os agricultores..................................................... 64
2.3. A riqueza na zona urbana.................................................................................................................. 67
3. TENTATIVA DE AVALIAÇÃO DA REPARTIÇÃO SÓCIO-PROFISSIONAL DA POPULAÇÃO DE
ARAPIRACA .............................................................................................................................................. 72
4. MENTALIDADES E DESENVOLVIMENTO LOCAL ........................................................................ 81
4.1. A cultura em Arapiraca..................................................................................................................... 81
4.2. Algumas mentalidades ...................................................................................................................... 85
5. CONCLUSÃO......................................................................................................................................... 88
CAPÍTULO 4: PROGRAMAS E PROJETOS, ATORES LOCAIS: DÚVIDAS E
ESPERANÇAS .................................................................................................................................................... 91
1. AGRICULTURA: ONDE AGIR? ........................................................................................................... 91
2. TRÊS CASOS DE IMPOTÊNCIA .......................................................................................................... 95
2.1. A água com cor de suco de caju da Vila Bananeiras......................................................................... 95
2.2. Os excluídos da luz de Mundo Novo. ............................................................................................... 96
3.3. Aquelas mulheres do Conjunto Mangabeiras que queriam trabalhar................................................ 97
2

3. A LUTA PELO PODER E A RENDA FÁCIL ....................................................................................... 98


4. A TRANSFERÊNCIA DE RENDA: FOME ZERO E PETI................................................................. 100
5. APARÊNCIAS OU PROJETOS CONCRETOS: MAMONA, AVESTRUZ, MANDIOCA? .............. 102
6. AÇÃO OU REPRESENTAÇÃO: AS SECRETARIAS DE AGRICULTURA? .................................. 105
7. INICIATIVA E PARCERIA: ÚNICO FATOR DETERMINANTE?................................................... 108
8. UMA NOVA FORÇA EM CONSTRUÇÃO: UMA LUZ NAS TREVAS? ......................................... 110
9. CONCLUSÃO....................................................................................................................................... 111
ESBOÇO DE UM DIAGNÓSTICO OU CONCLUSÃO PROVISÓRIA..................................................... 113
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA .................................................................................................................. 117
1. REFERÊNCIAS GERAIS ..................................................................................................................... 117
2. REFERÊNCIAS DO SITE INTERNET WWW.REDEDLIS.COM.BR, ACESSADO EM 2004 ....... 120
3. REFERÊNCIAS DO SITE INTERNET WWW.REDESOLIDARIA.COM.BR, ACESSADO EM 2004
................................................................................................................................................................... 121
4. REFERÊNCIAS DE DIVERSOS SITES INTERNET ACESSADOS EM 2004.................................. 121
5. REFERÊNCIAS DO III SEMINÁRIO NOVO RURAL BRASILEIRO. ...................... 122
6. REFERÊNCIAS DO NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DE SERGIPE.......................................................................................................................... 123
7. DOCUMENTAÇÃO EMPRESARIAL, INSTITUCIONAL E ANUÁRIOS ESTATÍSTICOS ........... 124
8. JORNAIS E REVISTAS........................................................................................................................ 125

TABELAS E GRÁFICOS
TABELA 1: POPULAÇÃO URBANA E RURAL NA REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA –
2000..................................................................................................................................................................28
GRÁFICO 1: PRODUÇÃO DE FUMO NO NORDESTE (BA+AL) 1945-1990...........................................46
GRÁFICO 2: PRODUÇÃO DE FUMO AM ALAGOAS 1945-2002.............................................................49
GRÁFICO 3: EVOLUÇÃO DO MERCADO INTERNO DO FUMO 1940-2000..........................................50
GRÁFICO 4: EVOLUÇÃO DO CONSUMO PER CAPITA – CORDA X CIGARROS – 1940-2000..........52
GRÁFICO 5: COMPARAÇÃO DA PRODUÇÃO DE FUMO FOLHA X CORDA 1920 – 2000.................52
GRÁFICO 6: EXPORTAÇÕES DE FUMO DO NORDESTE (BA+AL) 1975 – 2003..................................54
GRÁFICO 7: PERIODIZAÇÃO DA PRODUÇÃO DE FUMO NO NORDESTE (BA+AL) 1945-2002......58
TABELA 2: FATURAMENTO TEÓRICO DO AGRICULTOR E DA EMPRESA NA REGIÃO
FUMAGEIRA DE ARAPIRACA.....................................................................................................................69
TABELA 3: FATURAMENTO TEÓRICO E RENDA BRUTA MENSAL, POR CATEGORIAS DE
PRODUTORES.................................................................................................................................................71
TABELA 4: COMPARAÇÃO DA EVOLUÇÃO DO ICMS ARRACADADO EM ARAPIRACA E A
PRODUÇÃO DE FUMO – 1998-2002.............................................................................................................73
TABELA 5: EVOLUÇÃO DO PIB PER CAPITA EM ARAPIRACA E ALAGOAS....................................74
TABELA 6: EVOLUÇÃO DO ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO MUNICIPAL (IDH-
M)......................................................................................................................................................................75
TABELA 7: EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DE ARAPIRACA 1991-2003...............................................76
TABELA 8: PARTICIPAÇÃO DE ARAPIRACA NO SETOR EMPRESARIAL.........................................77
TABELA 9: REPARTIÇÃO DA POPULAÇÃO DO MUNICÍPIO DE ARAPIRACA POR SETORES DE
ATIVIDADES, INCLUINDOS OS INATIVOS POR VOLTA DE 2000.......................................................80
TABELA 10: NÚMERO DE ESTABELECIMENTO E DE PESSOAS EMPREGADAS POR SETORES DE
ATIVIDADES EM ARAPIRACA – 1997 – RESUMO..................................................................................83
3

TABELA 11: NÚMERO DE ESTABELECIMENTO E DE PESSOAS EMPREGADAS POR SETORES DE


ATIVIDADES EM ARAPIRACA – 1997........................................................................................................83
TABELA 12: PARTICIPAÇÃO AGRÍCOLA DE ARAPIRACA NO ESTADO DE ALAGOAS EM
2000...................................................................................................................................................................96
TABELA 13: PARTICIPAÇÃO DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA DE ARAPIRACA NO ESTADO EM
2000...................................................................................................................................................................97

ANEXOS..............................................................................................................................................................131
ANEXO 1: PROJETO DE TERRITÓRIO...............................................................................................................I
ANEXO 2: MAPA DO ESTADO DE ALAGOAS...............................................................................................III
ANEXO 3: MAPA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA..................................IV
ANEXO 4: FORMAÇÃO DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA........................V
ANEXO 5: MUNICÍPIO DE ARAPIRACA: LISTA E MAPA DAS COMUNIDADES DA ZONA RURAL......VI
ANEXO 6: MUNICÍPIO DE ARAPIRACA: LISTA E MAPA DAS COMUNIDADES DA ZONA URBANA...IX
ANEXO 7: REGIÕES DE PRODUÇÃO DE FUMO NO BRASIL EM 1980......................................................XI
4

APRESENTAÇÃO

Especialista em história e economia do fumo no Brasil, conheço Arapiraca há mais de


vinte anos e regularmente fiz visitas para pesquisar sobre a evolução da cultura na região.
Sabendo da crise, e findo meu contrato de professor visitante pela Universidade Estadual
de Feira de Santana, na Bahia, vim em 2001 para me informar sobre a situação. Entre julho
e novembro daquele ano passei várias semanas e percebi que a crise era muito mais do que
uma simples queda de produção como já tinha acontecido em várias ocasiões. Preocupado
pelo tamanho do problema, fiz uma proposta de seminário sobre a questão, similar ao
evento que eu tinha organizado em maio do mesmo ano na Bahia. Por razões técnicas, o
seminário foi substituído por várias reuniões com os principais responsáveis das secretarias
de agricultura, municipal e estadual, sindicatos rurais, FACOMAR, representante de
empresas fumageiras etc. Sentido a necessidade de aprofundar a análise da crise, suas
causas e conseqüências, fiz uma proposta de estudo neste sentido à Fundação Universidade
Estadual de Alagoas – FUNESA e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
Alagoas – FAPEAL. Esta mostrou-se muito interessada pelo assunto e, em convênio com o
CNPq, concedeu-me uma bolsa de três anos voltada para o seguinte tema: “Impacto sócio-
econômico da crise do setor fumageiro em Arapiraca/AL e perspectivas. Projeto para o
Desenvolvimento Local”.

Presente em Arapiraca desde setembro de 2003, iniciei primeiras linhas de trabalho, mas
é somente a partir de janeiro deste ano 2004 e depois de minha mudança para esta cidade
que começou verdadeiramente a atual pesquisa.

Mais do que a questão do fumo, percebi que era preciso, antes de qualquer estudo
técnico ou específico, conhecer a cultura local, saber como as pessoas daqui pensam,
agem, ciente de que não poderia haver estudo aprofundado e propostas de mudanças sócio-
econômicas possíveis sem eu ter este conhecimento preliminar.
5

Os últimos meses foram de descobrimento do município mediante o contato com as


comunidades rurais e urbanas, de aprendizagem da cultura local, de integração, mesmo que
superficial. Tentei participar da vida comunitária, administrativa e política da cidade e
tornar-me “quase cidadão arapiraquense”.

Destarte, minha pesquisa é cotidiana, com seus momentos de alegria e desanimo,


porque ela envolve os encontros profissionais, amistosos, casuais. A priori toda pessoa é
objeto ou ferramenta de pesquisa porque pode me trazer um pouquinho da vida, história e
mentalidade local; toda situação vivida ou testemunhada é fonte de pensamento.

Lamento não ter conseguido até agora juntar pessoas, em particular do meio acadêmico,
para formar grupos de estudos, muitas pessoas confundindo meu dinamismo e entusiasmo,
indispensáveis para a pesquisa ir para frente, com uma vontade de dominação e poder
pessoal. Aproveito para agradecer aqui o Prof. Moisés Calu de Oliveira que, por sua
experiência e amizade, sempre me dá apoio e orientação.

O relativo isolamento surtiu muitas dúvidas sobre os fundamentos desta primeira


relação de pesquisa. Seria válida a avaliação e descrição da sociedade? Seria o leitor pronto
a aceitar eventuais observações críticas vinda – algumas pessoas não deixaram de pensar
nisso - de um “estrangeiro” apesar de eu estar neste país há mais de vinte anos e ter por
referências comparativas (se houver necessidade) a cultura paulista ou, mais próxima
daqui, baiana?

O estudo que apresento aqui é o fruto da observação e reflexão de apenas alguns meses
de trabalho. É obviamente parcial e, sem dúvida, mostra defeitos, erros de percepção e sua
divulgação visa, além de trazer os resultados da pesquisa a quem trabalha na área agrícola
ou social do município, proporcionar debates. As críticas, sugestões são bem-vindas e
agradeço antecipadamente aqueles que contribuirão desta forma na elaboração do
diagnóstico final, previsto para outubro de 2006.

Jean Baptiste Nardi


6

INTRODUÇÃO

Não é novidade dizer que o Estado de Alagoas se distingue pelos piores índices sociais
e econômicos do Brasil. O economista Fernando José Lira, no final da década passada, fez
um balanço bastante relevante das causas da crise geral, conjuntural e estrutural, pelo qual
estava passando a sociedade alagoana (LIRA, 1997 e 1998). Mais de cinco anos depois, a
situação parece idêntica, senão pior. Os índices divulgados pelo IBGE (PNAD) em agosto
passado são significativos dessa tendência, embora sejam muito criticados, em particular
pelo governo estadual, por serem referentes ao ano 2001 e, por isso, não refletiriam a
evolução positiva que se constataria em 2004. Por exemplo, a mortalidade infantil é de
57,7 por mil (Brasil, 27,7/1000), o analfabetismo entre pessoas de mais de 15 anos de
31,2% (Brasil, 11,8%, Nordeste, 23,4%) (GA, 43/2004)

Entretanto, pesquisas feitas por outros institutos ou organizações dão resultados


semelhantes. O instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, por exemplo, verificou a
diminuição do número de pobres no Brasil, de 41% para 33% enquanto houve um leve
aumento em Alagoas, de 63,4% para 63,5%. A renda do alagoano, que passou de R$ 173
para R$ 188, teve um dos menores crescimentos regionais. A exclusão social está em torno
de 71,5%. A riqueza do Estado está nas mãos de 4.920 famílias ou, em outras palavras, a
renda salarial média de 1% da população é 20,7 vezes maior do que a renda média de todo
o resto da população (O JORNAL, 288/2004).

Outro estudo realizado pelo Ministério do Trabalho mostra que apesar de apresentar um
índice positivo de número de postos de trabalho criados entre fevereiro de 2003 e fevereiro
de 2004 (+3,4%), aumentou o número de desempregados em Alagoas perdendo-se 4.943
empregos nos dois primeiros meses do ano 2004 (-1,9%), sendo a maior queda registrada
nos setores agropecuário e construção civil (GA, 41/2004).

Fernando Lira aponta como principais causas da crise as estruturas do Estado e da


sociedade alagoanos e a tendência da antiga elite em perpetuar a situação, fazendo com que
7

o padrão de crescimento historicamente adotado mantenha a desigualdade social, pela a


concentração de renda e a formação de uma sociedade primitiva, pobre e ignorante (LIRA,
1997). “Essa situação, diz Lira, nos leva a afirmar que, em Alagoas, há uma defasagem
muito grande entre a taxa de crescimento econômico e o nível de desenvolvimento
humano, chegando a dar a impressão de que não é mais possível reverter esse quadro
social” (IDEM: 170). As soluções que sugere estão na vontade política, na
macroeconomia, com prioridade na educação: “Em suma, assegurado um projeto de
desenvolvimento que contemple a infra-estrutura básica, o potencial natural de recursos
naturais, a universalidade da educação de qualidade, a qualificação profissional, uma
melhor distribuição de renda, o desenvolvimento de ciência e tecnologia voltadas para o
estudo de programas locais e para um modelo de produção agrícola e não agrícola que
estimule a pequena e média produção, Alagoas passará a reunir as condições para superar o
ciclo de reprodução permanente e crescente da ignorância, do subemprego, da pobreza, da
miséria e da estrutura coronelista do poder (LIRA, 1998:132).

Nesse contexto, como se enquadra a situação de Arapiraca, e por extensão da região


fumageira, devido à atual crise pela qual está passando a cultura do fumo? Como extrair o
particular do geral, destacar o que é especificamente local do que é estadual? Podem existir
soluções “embaixo” para problemas que têm que ser resolvidos “em cima”?

Diferentes das propostas tradicionais, macro, microeconômicas ou sociais, surgiram


novas abordagens para solucionar os problemas da sociedade que privilegiam as noções de
local, de desenvolvimento integrado e sustentável ou projeto de território, a solidariedade,
a economia popular.

No primeiro capítulo deste trabalho, discutiremos, ainda que rapidamente, essas


questões teóricas de Desenvolvimento Local. Em seguida, tentaremos analisar a
problemática da cultura e economia do fumo e as causas da atual crise. Em terceiro
capítulo, refletiremos sobre o papel do fumo na formação da sociedade arapiraquense e, no
estado atual da nossa pesquisa, sobre as características da mesma. O quinto capítulo já
tratará da dificuldade de solucionar problemas concretos, elaborar propostas e realizar
ações adaptadas à realidade local.
8

CAPÍTULO 1: DEFINIÇÃO DO TERRITÓRIO, TEORIA E


PRIMEIROS ENSAIOS

Todo projeto para o Desenvolvimento Local passa pela noção de “território”,


geralmente definido como área de ação. No entanto, é preciso conhecer, mesmo que
sumariamente, as diferentes teorias do Desenvolvimento Local para entender as
divergências de percepção do “território” de que decorrem as dificuldades de definição.

1. PRESUPOSTOS TEÓRICOS

1.1. Nova ideologia

Nos anos 70 do século passado, começou a esgotar-se o modelo fordista, ou seja, a


acumulação como fator de crescimento econômico e a indústria e urbanização como base
do desenvolvimento. Na década de 80, apareceram novas percepções do que deveria ser o
desenvolvimento, sendo uma delas, a procura do ajustamento da sociedade e da economia
tanto a nível setorial quanto espacial, pensando-se em processo produtivo (CIF/OIT, 2002).
A questão do meio ambiente também entrou como fator decisivo das políticas, como
consta a II Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento
(CNUMAD), conhecida com Eco 92, que se realizou no Rio de Janeiro, contando com a
participação de 179 países durante a qual se idealizou a Agenda 21 ou programa de
Desenvolvimento Local para o século 21.

Dessa Conferência nasceram os conceitos de “desenvolvimento regional integrado” e


“sustentabilidade”.
9

A integração corresponde à articulação entre os atores que interagem num mesmo local,
os fatores que influenciam no processo de desenvolvimento, a busca de “um equilíbrio
dinâmico nas relações possibilitando aflorar as forças unificadoras, que levam à integração
e minimizar as forças divisoras, que levam à competição” (FONTES, VELLOSO, DIOGO,
2004)

Os documentos do Ministério do Meio Ambiente facilitam a compreensão da idéia de


“sustentabilidade”:

“Entende-se por desenvolvimento sustentável aquele que concilia métodos de proteção


ambiental, eqüidade social e eficiência econômica, promovendo a inclusão econômica e
social dos indivíduos nos circuitos de produção, cidadania e consumo. Esse estilo de
desenvolvimento deve oferecer um amplo conjunto de políticas públicas capaz de
universalizar o acesso da população aos serviços de infra-estruturas econômica e social,
mobilizando os recursos para satisfazer as necessidades presentes, sem comprometer a
capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.(...)”. (MMA, 2000,
grifos nossos)

São sete as dimensões de sustentabilidade que esse conceito incorpora: (i) ambiental e
ecológica; (ii) social; (iii) política; (iv) econômica; (v) cultural; (vi) espacial; (vii)
institucional” (IDEM).

Aqui, temos dois aspectos importantes. Trata-se de um método, ou técnica relacionada a


um modo de pensar e agir, que visa a duração, ou seja, tenta construir aqui e agora uma
sociedade, um patrimônio viável que poderá ser transmitido à futuras gerações.

Durante os anos 90 aprofundou-se o pensamento e apareceram novas abordagens da


sociedade. A globalização e seus efeitos perversos em termos de disparidade de nível de
vida, as modificações dos sistemas produtivos e financeiros, as nações cada vez mais
dependentes dos movimentos e intercâmbios mundiais, a destruição do meio ambiente, o
desenvolvimento das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (NTIC) e a
velocidade da circulação da informação, o surgimento de novos modos de organização
empresarial e novos setores de atividades, tudo isso proporcionou o questionamento dos
fundamentos do sistema capitalista nas suas diversas modalidades e sua capacidade em
satisfazer as necessidades básicas e o bem-estar das populações. Essa crítica também deu
luz a novas fontes de reflexão sobre as maneiras de resolver os problemas geridos pelo
10

capitalismo e inverter a tendência negativa deste a fim de a humanidade evoluir para um


sistema mais justo e igualitário e realmente democrático.

Na “Era da Informação” em que estaríamos, pensa-se em “economia solidária” – já


qualificada por alguns autores provavelmente otimistas demais de “pós-capitalista” – onde
o mercado seria um lugar de trocas de bens e serviços e cujos lucros seriam revertidos para
o crescimento das comunidades e não para o proveito de alguns. Procura-se definir novos
“territórios” com forte identidade cultural, não obrigatoriamente correspondentes às
divisões administrativas existentes e parcialmente desvinculados das noções de Estado e
Nação. Tenta-se criar em nível local redes de relações entre forças produtivas e
consumidores pertencentes a faixas sociais excluídas, eliminando os fatores que travam o
desenvolvimento ou desviam este de seus objetivos humanos, ou seja, a melhoria das
condições de vida das populações, visando sobretudo a qualidade. Até se imagina, talvez
de forma prematura, em estabelecer contatos entre as diversas redes localmente
constituídas, em diversos países – ou “territórios” – e conectá-las entre si para formar redes
maiores de nível mundial (REDEDLIS, 2004; REDESOLIDARIA, 2004).

1.2. A produção do conhecimento local ou territorial

Nessa saudável efervescência ideológica e teórica, temos que achar nossos


posicionamentos e caminhos quando estamos confrontados à realidade dos problemas
sócio-econômicos e que procuramos soluções mais “pés no chão”, ou seja, mais
pragmáticas. Por mais generosas que sejam as ambições, estas não parecem suficientes
para resolver as imediatas questões técnicas, político-administrativas, financeiras,
educacionais, culturais ou meio ambientais que encontramos. As inter-relações entre todos
esses problemas tornam ainda mais difícil a compreensão da substância e do
funcionamento da sociedade, que seja local, nacional ou globalizada.

Por isso, acreditamos que não pode existir ação e desenvolvimento sem, primeiro, a
existência de um sólido substrato de conhecimentos e informações sobre a sociedade
construído através da pesquisa, independentemente da linha ideológica que motiva esta ou
sustenta seus objetivos finais.
11

Voltada para o local ou o regional, a pesquisa apresenta vários aspectos e devemos parar
um instante para definir, na medida do possível, os campos do conhecimento e da
informação.

O conhecimento é uma soma de saberes, o intelectual, acadêmico, técnico, profissional,


artístico, cultural etc. É uma capacidade cognitiva analítica e prática. Por essa razão, o
campo do conhecimento compreende a transmissão dos saberes, isto é, a educação e a
formação mas ainda a aptidão a aprender, adquirir ou integrar estes para utilizá-los de
forma prática. O conhecimento apresenta-se assim como um “capital”, uma fonte de
desenvolvimento pela inovação (FORAY, 2000).

Esse “capital intelectual” é intangível, mas, em termos econômicos, representa um valor


incalculável. Thomas A. Stewart mostrou a importância do espaço que conquistou dentro
das empresas e que as mais competitivas hoje são aquelas que fazem o melhor uso dos
conhecimentos (STEWART, 1998). O “valor” do capital intangível (educação, formação,
pesquisa, saúde) supera muitas vezes o do capital tangível (estruturas e equipamentos,
estoques, recursos naturais). Segundo as estimações de Kendrick em nível nacional, o
capital intangível representava 35% do capital total norte-americano em 1929 e 53% em
1990 (APUD FORAY, 2000: 20).

A produção de conhecimento não se limita à pesquisa, pois a prática também gera


conhecimentos, nas formas learning by doing, learning by using (“aprendendo fazendo,
aprendendo utilizando”) descritas por Arrow e Rosenberg (IDEM: 12).

A informação difere do conhecimento na medida em que é desprovida de matéria


cognitiva, ou seja, segundo Steinmueller, “a capacidade que dá o conhecimento de gerar,
extrapolar e inferir novos conhecimentos e informações” (IDEM: 9); também pode ser
interativa e maquinal ou gestual. Ao contrário, a informação permanece uma matéria
inerte, um “conjunto de dados formatados e estruturados” (IDEM, IBIDEM). Em outras
palavras, “a mobilização de um recurso cognitivo é sempre necessário à reprodução do
conhecimento, enquanto uma simples máquina de xerox permite reproduzir uma
informação” (IDEM, IBIDEM).

Em Desenvolvimento Local, a pesquisa alimenta-se de informações sobre as quais se


elaboram os projetos. Procuram-se as oportunidades, as ameaças, os pontos fortes e fracos
quando se estabelece um diagnóstico, ou seja, os elementos que deverão ser desenvolvidos,
12

promovidos e os que deverão ser suprimidos ou corrigidos. Bocayuva e Silveira (2004) até
propõem a construção de indicadores específicos ou “bases de referências compartilhadas”
identificando dificuldades e caminhos possíveis para definir estratégias de ação.

Nota-se aqui que essa percepção faz parte dos princípios de Pesquisa &
Desenvolvimento ou Ciência & Tecnologia do desenvolvimento sustentável, tendo aqui
um cunho particular, um pouco restrito (MMA, 2000).

Embora “uma boa base estatística” seja necessária (COELHO, 2004), as informações
não são compostas unicamente de dados quantitativos. Aliás, pensamos que, pelo
contrário, as informações qualitativas são a principal base do conhecimento para o
Desenvolvimento Local. A apreensão e definição do território passam por uma
identificação dos atores, agentes, das redes de relações e mentalidades, da história ou
formação econômica e social do território, em breve, de informações meramente sócio-
culturais.

As soluções para os problemas derivariam mais da compreensão da organização da


sociedade local, de sua identidade, do que de sua economia e neste sentido concordamos
com Augusto de FRANCO (2, 2004) quando diz que “o papel determinante da economia é
um mito”. As mudanças econômicas, inclusive relações de trabalho e modo de produção,
serão mais provavelmente a conseqüência de um novo modo de pensar e agir, ou
transformação das mentalidades, do que o resultado da instauração aleatória de uma nova
ordem social ou de um sistema econômico ainda mal delineado.

Nesse contexto, a pesquisa que se considerava antes como “regional” deve ser então
pensada como local e de forma cada vez mais pormenorizada, em função da área
abrangente pelo projeto de desenvolvimento. Assim devemos hoje, mais do que nunca,
produzir o conhecimento a partir da “pesquisa territorial” sendo a definição do território
uma condição prévia bastante árdua a realizar.

1.3. Definir um território: uma tarefa complexa

Discutir as questões de região, território, espaço é penetrar num mundo extremamente


diversificado de teorias e abordagens por entre os geógrafos (ISNARD, 1982; CORRÊA,
13

1985; SANTOS, 1979, 1985 e 1997, DAMIANI / CARLOS / SEABRA, 2001), mas ainda
os historiadores (MORAES, 2002), economistas, sociólogos (PAULA, 2004) e, na
administração pública, entre outros, os encarregados do planejamento ou políticas
econômicas e sociais.

A complexidade reside na dificuldade em definir uma área em que se possa


simultaneamente falar em aspectos geográficos e meios ambientais, formação histórica e
cultural, questões de linguagem, organização social e econômica, divisão administrativa,
etc. Existe realmente no mundo uma área em que todos esses elementos se integrem para
formar numa entidade única, coerente, dentro de limites claramente definidos? E se fosse,
seria que qualquer parte do globo se incluísse dentro de uma dessas áreas?

Para Juarez de Paula (PAULA, 3, 2004), um território pode ser físico-geográfico, etno-
cultural, sócio-econômico ou político e ser assim um simples bairro, uma bacia
hidrográfica, uma região etc. Pelo mesmo autor, “todo território é uma construção
subjetiva”, ou seja, é criado de forma autoritária pelo sujeito que elabora a ação, exógena
ou endógena.

Existem várias concepções. Por exemplo, para a Agenda 21 brasileira, o território se


limite ao município. Os Arranjos Produtivos Locais, elaborados por alguns estados,
definem o território em função de uma determinada atividade que incluem vários
municípios a até uma região geográfica definida tal qual o Agreste, o Sertão em Alagoas
(PAPL, 2004). Para a recém-criada (2003) Secretaria Especializada Regional do Agreste e
Baixo São Francisco, o território seria variável conforme as grandes ações que pretende ter
nesse espaço bem como as ações locais pontuais em diversos lugares do interior alagoano
(AÇÃO REGIONAL,1, 2004).

De maneira mais simples, Didier Minot diz que “é o projeto que faz o território e não o
contrário” (MINOT, s/d). O projeto vem se delineando pelo detecto de um problema local
a ser resolvido; trata-se de determinar a área em que há ocorrência deste e qual é a área em
que a ação (soluções) possa ser efetivamente praticada.

Mas, como diz Paula, a definição do território introduz vários problemas e, em


particular, a integração das populações que podem se sentir excluídas do processo
territorial e da representatividade ou legitimidade dos agentes locais. Em breve, “a chave
14

para a construção de um desenho territorial que se traduza efetivamente numa unidade de


desenvolvimento é o protagonismo local”.

No entanto, as coisas não são tão simples assim, pois há uma dialética entre o que vem
“de fora” ou “de cima” e o que sai “de dentro” ou “de baixo”. Muitos projetos, para não
falar de programas e políticas não têm bons resultados em nível local porque são decididos
em nível superior, por exemplo, em Brasília, em função de realidades às vezes abstratas ou
demais condensadas, e não correspondem às necessidades reais ou não são aplicáveis em
determinados territórios. Geralmente, os programas agrícolas são pensados em função das
condições de produção ou de organização das regiões Sul, Sudeste ou Centro-Oeste e
raramente do Nordeste.

Cabe lembrar aqui que a formação do sul do Brasil ocorreu há uns 150 anos e teve seus
fundamentos principais na imigração européia, em pessoas às vezes naturais da mesma
aldeia que criaram neste país colônias com espírito comunitário, coletivo que se perpetua
até hoje. A colonização no Nordeste tem 500 anos e baseia-se num sistema oligárquico,
isto é, não democrático, dividido entre a grande propriedade agrária e o minifúndio de
subsistência que dificulta qualquer tipo de iniciativa ou ação coletiva.

Por outro lado, as forças locais nem sempre têm condição de promover o
Desenvolvimento por falta de uma instituição que conceitue o projeto, inicie-o, coordene a
ação, acompanhe sua realização. Também órgãos que participam ativamente do
Desenvolvimento Local muitas vezes não possuem os recursos humanos e o conhecimento
metodológico necessários para a elaboração de projetos territoriais. Desta forma, o
resultado da maior parte das iniciativas locais e até das políticas publicas municipais tem
um caráter extremamente reduzido. Em suma, o “protagonismo local” que permitiria a
definição do território a nível local careceria de atores unificadores, consensuais e
devidamente formados ou capacitados.

Próxima desta percepção é a opinião expressa por Franklin Coelho (COELHO, 2004):
“A organização do território que objetiva o Desenvolvimento Local deve ter como ponto
de partida o pacto territorial que viabilize a associação de interesses promovida entre os
diversos atores regionais, que se conservam independentes, com vista a obtenção de
determinados objetivos. Isto pressupõe a indicação de uma estrutura organizacional que dê
conta da constituição de um espaço de interação dos diversos atores e da construção de
15

uma entidade responsável pelo encaminhamento e implementação das diversas ações


propostas”. E completa o autor dizendo que as tentativas de Desenvolvimento Local no
Brasil “se realizam de forma fragmentada, como um arquipélago de experiências”; “As
experiências têm demonstrado que não se impõem identidades territoriais. Estas
identidades se constroem socialmente a partir de um espaço social herdado. Espaço este
que se caracteriza pela fragilidade dos recursos de poder de uma economia popular e
solidária” (grifos nossos).

“Pacto territorial” é outra expressão para designar o que chamamos de “Projeto Comum
de Desenvolvimento” que se origina na mobilização popular a partir de um determinado
problema local. Quem atua na esfera social e econômica sabe muito bem o quanto é difícil
conscientizar, animar, reunir populações, mesmo quando se trata de questões de interesses
de categoria ou simples dificuldades casuais. O Desenvolvimento Local junta-se, em certas
modalidades, ao espírito sindicalista, para detectar, denunciar e solucionar um problema
por meio da justa reivindicação mas vai além disso, pois procura estabelecer novas formas
de relações que permitam antecipar a criação ou pioria de situações críticas.

Muitas organizações tais a Agenda 21, o Fórum para o Desenvolvimento Integrado e


Sustentável – FDLIS, SEBRAE, ONGs e comissões ou outros grupos formadas pelas
prefeituras padecem de coordenação e competências jurídicas claramente definidas, razões
pelas quais, infelizmente, muitas vezes suas ações são restritas.

O fundamento da ação é uma questão justamente destacada por Paula: “Quem possui a
autoridade, representatividade e legitimidade para decidir sobre o futuro das pessoas?”
Para ele, na base do desenvolvimento estão: a democracia, as relações sociais e a formação
de redes onde o poder é horizontal e não vertical, uma mudança radical de comportamentos
onde não se pensa mais em dominação política, exploração econômica e exclusão social.
Porém, podemos perguntar onde começa a rede, quem a inicia, a organiza, a conduz? Quais
são seus objetivos, suas dimensões espaciais, sua área de atuação?

Sintetizando parcialmente a questão no estado da discussão, a definição do território,


área de ação ou sujeito do desenvolvimento, passaria pela criação de uma instituição ou
organização democrática, capaz de reunir as forças sociais, econômicas e político-
administrativas locais dentro de um projeto comum determinado por uma situação
16

específica. Seria ao mesmo tempo a representação, expressão, vontade e o agente das


populações territoriais.

Na impossibilidade de combinar todos os elementos que possam encontrar-se numa


determinada área, inicialmente em vista, haveria então de abrir mão de diversos aspectos
para restringir o território ao ponto onde se possa reunir a maior parte desses elementos.
No domínio sócio-econômico, por exemplo, o espaço geográfico e meio ambiental seria
secundário na medida em que seria apenas um elemento a levar em consideração, mas não
determinante. Entre a totalidade e o particularismo há de procurar um meio termo.

O aspecto predominante no território – e parece haver uma quase unanimidade por entre
os autores consultados – são as relações sociais que se estabelecem num processo histórico
combinatório assim como diz Milton Santos: “Modo de produção, formação social, espaço
– essas três categorias são interdependentes. Todos os processos que, juntos, formam o
modo de produção (produção propriamente dita, circulação, distribuição, consumo) são
histórica e espacialmente determinados num movimento de conjunto, e isto através de uma
formação social” (SANTOS, 1979: 14).

Ampliando essas noções haveria de procurar como essas relações sociais se manifestam
de ponto de vista formal e informal, ou seja, como a sociedade está organizada de maneira
geral e do ponto de vista individual. Em outras palavras, seria necessário antes saber como
os indivíduos se relacionam entre si, dentro do meio familiar, na rua, no bairro ou na
comunidade rural, e nos agrupamentos que inclui associações, empresas e cooperativas,
instituições administrativas etc.

As populações territoriais seriam, de certa forma, esses micro-grupos sociais que Michel
Maffesoli assimila ao tribalismo (MAFFESOLI, 2002), idéia que também desenvolve John
Naisbitt para quem a volta das tribos é uma das conseqüências da globalização, um de seus
paradoxos (NAISBITT, 1994).

Para Fredrick Barth (APUD CUCHE, 1996: 86-87), é na relação entre os grupos que
devemos procurar a identidade. Nada é mais complexo do que a definição de cultura e
identidade como lembra Denys Cuche (CUCHE, 1996).

Já tivemos oportunidade de discutir essas questões (NARDI, 2002) e preferimos, talvez,


falar hoje em mentalidades.
17

Segundo Alex Mucchielli, uma mentalidade carrega em si uma visão do mundo e gera
atitudes e comportamentos em atos, um conjunto de predisposições psicológicas voltado
para um sistema de crenças e valores (MUCCHIELLI, 1985: 17-18). É um componente
essencial da identidade cultural de um grupo, aliás, dependente e estreitamente relacionada
a outros elementos que formam a identidade de um grupo (origens, posses, composição,
relações, produções...) (IDEM: 21). E o autor enfatiza a importância da mentalidade
dizendo que “não se pode escapar de seu conhecimento para compreender as ações
coletivas” (IDEM: 22).

A identidade determina-se em função da origem comum (genealogia, hereditariedade),


história, língua, religião, psicologia coletiva (personalidade de base), vínculo a um
território etc. Isso não significa que o indivíduo esteja “preso” num sistema mental etno-
cultural que lhe dá o sentimento de pertencer a uma comunidade e que não haja
subjetividade, ou seja uma representação que ele se faz da realidade social e de suas
divisões. A identidade é uma construção social e não uma aquisição definitiva que se
elabora na relação que opõe o grupo com os outros e possui em si uma dinâmica que lhe
permite evoluir.

Em segunda síntese, o território corresponde a uma identidade cultural que se manifesta


por seus modos de pensamento, sua linguagem, seus comportamentos, suas representações
e relações sociais. É a formação e organização da sociedade que precisa ser estudada, pois
é ela que deverá ser transformada e o conhecimento do processo pela qual ela está no
estado atual permite prever o resultado de ações futuras.

1.4. Um exemplo de aplicação teórica: o Projeto de Território

O chamado “Projeto de Território” que apresentamos aqui tem nossa preferência por
entre as várias aplicações das teorias do Desenvolvimento Local (Ver anexo 1).

O primeiro passo seria criar um Grupo de Reflexão e Pesquisa, constituído por


membros da sociedade, na parte comunitária, administrativa, econômica ou educacional.

Nota-se aqui que tentamos esboçar esse grupo, conhecido como Centro de Pesquisas
Regionais de Arapiraca – CEPRAR e cujos objetivos e modos de funcionamento,
18

infelizmente, foram mal compreendidos por algumas instâncias acadêmicas, levando à


paralisação – esperamos provisória – do Centro.

O Grupo de Reflexão detecta ou define o problema inicial que pode ser do domínio
social, econômico, meio ambiental, político-administrativo etc. Realiza uma pesquisa de
campo em termos quantitativos (dados estatísticos) e qualitativos (depoimentos da
população) que são analisados, classificados para elabora um diagnóstico. Este pode
receber vários nomes em função dos órgãos que o realizam e de seus objetivos: Plano
Estratégico, Plano Diretor etc.

O diagnóstico divide-se em três partes. A primeira parte define o território, partindo do


problema inicial, onde são destacados os aspectos sociais, econômicos, de geografia e meio
ambiente, sem esquecer a história, cultura, identidade, constituindo um todo homogêneo,
coerente. A segunda parte compreende, por um lado, uma análise dos fatores externos, ou
contexto, com dois vetores, o das oportunidades (hipóteses) e o das ameaças (fatores de
risco), e por outro lado uma análise interna. Nesta, separam-se os pontos fortes
(potencialidades) e fracos (debilidades) do território. Em terceira parte, faz-se um balanço
entre o os fatores externos e internos, a relação das causas do problema inicial, as aberturas
e os obstáculos, os aspectos a serem valorizados e promovidos, soluções para revitalizar os
elementos mais frágeis, novas possibilidades etc.

Em cada etapa do processo de análise ou elaboração do diagnóstico, devem surgir


propostas concretas, ou seja, que sejam efetivamente realizáveis, em curto ou médio
prazo, com objetivos alcançáveis em função de recursos financeiros, materiais e humanos
realmente disponíveis e com resultados visíveis. No balanço, faz-se uma avaliação das
condições de realização das propostas, e estabelece-se uma hierarquia das mesmas em
função das prioridades.

Por fim, cada proposta desemboca em um projeto, integrado aos outros, formando um
conjunto coerente.

Seguindo nossa linha de pensamento, é esse conjunto que constitui o Projeto de


Território ou, em outras palavras, este é a resultante da determinação de um problema, de
seus aspectos positivos e negativos, do território em que ocorre e onde se possa agir
diretamente e de conhecimentos aprofundados sobre o mesmo território. Isso modifica
sensivelmente a percepção que geralmente se tem das ações possíveis e que faz com que se
19

elaborem grandes projetos quase unilaterais, com conhecimentos parciais da realidade


territorial, de suas características e de seus limites internos e externos: pensa-se no caso em
municípios ou regiões geográfica e administrativamente existentes.

Em segunda etapa, de realização efetiva do Projeto de Território, o Grupo de Reflexão e


Pesquisa transforma-se em Comitê Coordenador (ou Gestor) ao qual se agregam pessoas
que viriam a formar o Conselho Consultivo. As competências do Comité e do Conselho
são planejar, administrar, coordenar ou, mais especificamente, seria definir os objetivos, as
metas, planejar por etapas, avaliar as chances de sucesso, adaptar, realizar, avaliar e
adaptar e realizar de novo, finalizar.

Os princípios de funciomanento de cada projeto são iguais a qualquer outro. Deveriam


ser em curto ou médio prazo, procurando recursos humanos e materiais, contando com a
participação de Atores (instituições, empresas, comunidade etc) que realizariam o projeto e
de Parceiros (IDEM) que ajudariam a concretizá-lo.

A realização de cada projeto finaliza o Projeto de Território e o Comitê e Conselho se


extinguem com ele ou seus membros se encaminham para formar um novo Grupo de
Reflexão e Pesquisa e elaborar outro Projeto.

Falando de medidas e projetos concretos, é bom salientar, para concluir, que a maioria
dos diagnósticos e propostas que tivemos oportunidade de consultar avançam medidas do
tipo: é preciso “promover, incentivar, estimular, elaborar, reunir, criar” etc. Raramente,
mesmo nos documentos que oferecem ações com objetivos claramente definidos e
estratégias detalhadas, encontramos idéias simples. Sugerir uma mudança de política do
governo em determinado setor não é uma medida concreta, “fomentar o artesanato”
tampouco é. Pedir o asfaltamento de estradas em zona rural para facilitar o escoamento da
produção e dizer quem vai estudar os aspectos técnicos, o custeio, financiar e realizar a
obra, é, sim, proposta concreta.

Por isso, acreditamos que devemos pensar antes de tudo em “mini-projetos”. A maior
parte dos grandes problemas não podem ser resolvidos de maneira global. Solucionar um
problema é ter o conhecimento de sua complexidade e dos elementos que constituem
problemas menores ou sub-problemas interrelacionados. A eliminação ou menorização
desses sub-problemas reduz a complexidade do problema maior e resolve parcialmente
este, senão totalmente.
20

O Desenvolvimento Local, para nós, e como seu nome sugere, não é “macro”, mas sim,
“micro”.

2. A REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA E O CONCEITO DE


“RURBANIDADE”

2.1. A formação da Região Fumageira de Arapiraca

Em nosso projeto “Conseqüências sócio-econômicas da crise do fumo em Arapiraca e


região”, a definição do território da Região Fumageira de Arapiraca (RFA) onde se poderia
aplicar medidas de desenvolvimento não consiste simplesmente em agregar os municípios
produtores, analisar a cadeia produtiva e seus problemas, mas passa pela procura de
elementos comuns que possibilitem a ação.

Nesse contexto, se analisarmos a RFA, composta de 10 municípios, podemos ver que


sua formação depende de vários vetores (Ver anexos 2 e 3).

O esquema Formação dos municípios da RFA (Ver anexo 4) mostra o processo


histórico-administrativo pelo qual se constitui a RFA.

Por um lado há o centro que se constrói a partir do distrito ou comarca de Anadia (1801,
antigamente Marechal Deodoro, 1636)1 e da subdivisão em municípios aos passos das
emancipações respectivas. Assim há nitidamente um ramo que se determina com Limoeiro
de Anadia (1882), de onde se extraem os municípios de Arapiraca (1924), Junqueiro
(1903-1947), Taquarana (1962), Coité do Nóia (1962), e, em seguinte, separando-se de
Arapiraca, Lagoa da Canoa (1962) e Craíbas (1982).

O processo histórico é aparentemente diferente, pois Arapiraca e Craíbas se


emancipariam por razões principalmente socioeconômicas enquanto todos que se criam em
1962 seriam resultantes de uma divisão geral, político-administrativa.

1
Anadia é apenas uma subdivisão de Marechal Deodoro, as outras são Maceió, Atalaia, Rio Largo, São
Miguel dos Campos, Pilar, Coruripe, quase todos criados na primeira metade do século XIX.
21

Por outro lado, constatamos que outro ramo provém de Penedo (1636) e as subdivisões
de Traipu (1835) e Igreja Nova (1890)2. Da primeira, aparecem Girau do Ponciano e Feira
Grande, com emancipação em 1958, também no quadro de uma reforma administrativa
geral. Da segunda vem o município de São Sebastião.

Dos municípios oriundos de Penedo, Girau do Ponciano e Feira Grande integram-se à


RFA de maneira significativa em termos de produção, enquanto os de Limoeiro de Anadia,
Taquarana e São Sebastião têm pouca expressão (entre 0,5 e 4%). Junqueiro, vindo de
Limoeira de Anadia não pertence à dita região, mas está vinculado a Arapiraca por outras
questões, em particular os recursos hídricos, que seriam motivos de definição de outro
território. A contigüidade apareceria então como um fator não relevante para a definição do
território da RFA.

Culturalmente, no sentido antropológico da palavra, as subdivisões sucessivas,


corresponderiam também a uma mutação das mentalidades, uma diferenciação da visão do
mundo que deveria, supostamente, se constatar em variações lingüísticas (sotaque, léxico)
(SANTOS, 1995) e nas práticas culturais (folclore, música, literatura oral etc.), aspectos
que, infelizmente, são raramente estudados, restringindo-se os trabalhos a uma simples
listagem das manifestações (MAPEAMENTO, 2002).

Associado, por exemplo, a um critério geográfico, os municípios vindos de Limoeiro de


Anadia estariam mentalmente vinculados ou voltados para a capital, Maceió, enquanto os
demais estariam mais atraídos pela bacia do Rio São Francisco. O caráter urbano de
Arapiraca, segunda cidade do Estado de Alagoas, funcionando como uma “capital do
interior”, também deixa supor uma cultura específica no seu município em relação aos
vizinhos que permaneceram mais rurais.

É este aspecto que vamos estudar agora a partir da noção de rurbanidade

2.2. Análise das estatísticas e das concentrações populacionais

O conceito de rurbanidade, ou seja, o encontro do mundo rural e urbano,


principalmente nos seus aspectos sociais – cultura e valores – vem sendo discutido

2
As outras subdivisões de Penedo, no século XIX, foram Piaçabuçu e Porto Real do Colégio
22

recentemente devido à dificuldade de classificar, pelos critérios habituais, populações que


se situem, quer na zona rural com hábitos urbanos, quer na zona urbana com
comportamentos rurais3.

A análise da RFA proporciona algumas observações neste sentido.

Estatisticamente falando, os dez municípios da RFA totalizaram 376.688 habitantes no


ano 2000. Dessa população, mais da metade (54%) estaria morando na zona urbana. Mas o
dado é enganador. Na verdade, apenas o município de Arapiraca apresenta uma forte
urbanização (82%), em todos os outros municípios a população é essencialmente rural. A
cidade de Arapiraca representa sozinha 40% da população urbana da região. A média
regional é de 66% de ruralidade e 70% se excluímos o município de Arapiraca (Ver tabela
1).

As sedes de municípios que são consideradas como zona urbana não passam de vilas.
Com excepção de São Sebastião, Girau do Ponciano, Lagoa da Canoa e Craíbas, que
abrigam mais de 6.000 habitantes, todas as cidades possuem entre 2.000 e 4.500 habitantes,
o que corresponde à população de vilas do município de Arapiraca que são consideradas
como zona rural: Bananeiras, São Francisco, Canaã, Capim, São José, Pau d’Arco4 etc. As
infra-estruturas dessas vilas e sedes de municípios, muitas vezes, são de nível similar.

TABELA 1: POPULAÇÃO URBANA E RURAL NA REGIÃO FUMAGEIRA


DE ARAPIRACA – 2000

MUNICÍPIO POP. POP. POP. % % Taxa de


alfabetização
URBANA RURAL TOTAL Urbana Rural
Arapiraca 152.354 34.112 186.466 82 18 60,07
Campo Grande 3.703 5.431 9.134 41 59 39,06

3
Devemos o termo de rurbanidade aos trabalhos do III Seminário - Novo Rural Brasileiro. A
dinâmica das atividades agrícolas e não-agrícolas no novo rural brasileiro. Fase III do Projeto Rurbano.
Campinas, 3 e 4 de julho de 2003 - NEA – Instituto de Economia/Unicamp disponibilizados pelo site internet
da Unicamp.
4
Nas estatísticas, os dados populacionais relativos a essas vilas incluem comunidades vizinhas que são na
verdade povoados separados do centro. Assim Bananeiras concentra 12 comunidades, totalizando 9.414
pessoas, mas a vila mesma possui cerca de 5 mil habitantes; a população da vila Canaã está em torno de 2 mil
pessoas mas atinge o total de 4.994 moradores, considerando seus 12 sub-distritos (SEBRAE-AL, 1999).
23

Coité do Nóia 2.519 9.474 11.993 21 79 46,99


Craíbas 6.608 14.181 20.789 32 68 41,27
Feira Grande 3.557 17.713 21.270 17 83 41,88
Girau do Ponciano 8.858 20.716 29.574 30 70 41,60
Lagoa da Canoa 8.886 11.102 19.988 44 56 47,85
Limoeiro de Anadia 2.105 22.158 24.263 9 91 45,92
São Sebastião 9.408 19.716 29.124 32 68 42,46
Taquarana 4.371 19.716 24.087 18 82 44,81
TOTAL 202.369 174.319 376.688 54 46
% 53,7 46,3 100,0
MÉDIA RFA 34 66 45,19
FONTES: SEPLAN/AL, Anuário 2002

Na periferia de Arapiraca, encontram-se concentrações que são classificadas como zona


rural ou como bairro. Batingas por exemplo, com mais de 5 mil moradores, pertence à
zona rural enquanto, com 2500 moradores, Boa Vista – que é limítrofe a Batingas – é
bairro. Batingas em termos de infra-estrutura, de configuração, apresenta-se como um
bairro idêntico a outros da cidade, mais Boa Vista se parece mais como um povoado.
Quais são os critérios que determinam se uma concentração é rural ou urbana? Em certos
lugares, segundo as Secretaria Municipal das Obras Públicas, a zona rural começa a 1 km
de um limite pré-definido. Ao norte da cidade, por exemplo, é a Rodovia AL 220 que serve
de limite e, em conseqüência, Planalto é bairro e o Conjunto Mangabeiras um povoado
rural apesar deste, por abrigar o “lixão”, estar totalmente integrado ao sistema urbano (Ver
anexos 5 e 6).

Com esses exemplos, vemos que a localização, a concentração populacional, os


aspectos político-administrativos, as infra-estruturas não são suficientes para separar de
maneira nítida os caracteres rurais e urbanos. Haveria em todas essas sedes de municípios,
vilas e os bairros um tipo de “cultura comum” que seria entre o rural e o urbano, ou seja, a
rurbanidade

2.3. Outros índices de rurbanidade


24

Não podemos esquecer que, durante décadas, Arapiraca viveu ao ritmo da lavoura do
fumo. Na cidade, nas praças do centro, os produtores se reuniam para vender suas bolas:
quem não se lembra da “pedra”? Em inúmeras ruas havia salões cheias de mulheres e
crianças destalando fumo e cantando; os rolos ficavam à mostra nas calçadas; os armazéns
das exportadoras estavam abarrotadas de folhas; a cidade toda cheirava a fumo... Isso
contribuiu a manter o espírito rural na cidade.

Outros fatores intervêm na duplicidade ou dubiedade entre o rural e o urbano. A


agricultura em zona urbana é um deles. Oliveira (2001) mostrou a importância das
lavouras, essencialmente alimentícias, na Região Metropolitana de Fortaleza, com a
ressalva que se trata de uma integração de municípios, inclusivos agrícolas, dentro de uma
comunidade urbana. A situação em Arapiraca é muito diferente. Vemos dentro do
perímetro urbano culturas que não são exclusivamente voltadas para a alimentação. Assim
encontramos grande terrenos (4 a 5 ha.) com fumo, associado à mandioca ou o feijão, em
bairros tais quais São Luiz, Nova Esperança, Boa Vista ou Planalto e pequenas áreas em
outros bairros periféricos (Cavaco, Brasiliana etc.). A presença de lavouras dentro da zona
urbana favorece a permanência de um espírito rural na cidade.

Convém assinalar também que muitos agricultores residem na cidade e que outros
grandes comerciantes ou empresários possuem terras que arrendam, recebem o aluguel em
produtos da lavoura e são desta forma totalmente vinculados às atividades agrícolas.

Existem ainda hoje outros índices de ruralidade em Arapiraca. Os comércios de


produtos agropecuários e máquinas agrícolas, a circulação de carroças, animais, pessoas
em trajes campestres, a própria feira-livre onde os agricultores expõem seus produtos à
venda se juntam para criar um ambiente rural.

As principais indústrias são relacionadas como a agricultura: fumo (Capa, Universal


Leaf, Souza Cruz, Danco, Incofusbom), criação de frangos e galinhas (Luna Avícola,
Coopagreste) ou atividades diversificadas (grupos Coringa e Bananeira). Até recentemente
Arapiraca contava com cerca de 20 indústrias de beneficiamento de fumo de corda e
exportadoras de fumo em folha.

Doralice Sátyro Maia fala de “subespaços rurais”, “resíduos” e até de “resistências”


para designar a permanência desses traços rurais dentro da cidade, inclusive os hábitos
(MAIA, 2001).
25

O caráter caótico do trânsito na cidade pode também ser um índice de que Arapiraca
ainda não adquiriu os reflexos urbanos. O desrespeito das regras básicas do Código de
Trânsito é quase constante: faixas para pedestres, sinalização horizontal e vertical, mãos,
não uso do cinto de segurança e do capacete etc. A circulação de inúmeras bicicletas e
motos não facilita a organização do movimento, mas também influem a ausência de
sincronia entre os sinaleiros, a alternância ilógica das mãos, os espaços insuficientes ou
inadequados para o estacionamento. Em breve, e de maneira geral, inexiste um plano de
trânsito coerente, mostrando assim a carência da visão urbana por parte dos responsáveis
da Prefeitura Municipal ou que, pelos menos, estes não souberam acompanhar o progresso
da cidade.

O mesmo poderíamos dizer a respeito das infra-estruturas básicas. A cidade não tem
saneamento, a iluminação pública é deficiente, há locais sem energia (FACOMAR, 2003).
Mas o aspecto mais saliente é a falta de calçamento em bairros junto ao centro. Em
Primavera e Brasília, por exemplo, apenas alguns grandes eixos são pavimentados, mais da
metade das ruas são de terra e cheias de buracos, sem falar na lama em época de chuvas.
Esses bairros são parecidos às vilas da zona rural tais quais Bananeiras, São José, Batingas
ou Canaã. As ruas de outros bairros residenciais como, por exemplo, Nova Esperança,
Brasiliana, Planalto são totalmente desprovidas de calçamento e estes não seriam muito
diferentes de povoados rurais se não fosse a aparência mais conceituada de algumas casas e
moradias.

Em muitos aspectos, Arapiraca se mostra como a vila que cresceu rapidamente demais.

2.4. A Educação como fator de transição

Maria José Carneiro (2004) e sua equipe estudaram a população jovem de duas
comunidades rurais, nos estados do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. A autora
mostra que o vai-e-vem entre a tradição e a modernidade leva a formação de um espaço
indefinido, justamente qualificado por ela de rurbano.
26

Os valores se modificam paulatinamente quando os jovens são confrontados, na zona


urbana, à escolarização, o mundo do trabalho, novas regras de comportamentos que os
afastam do mundo de origem. Porém, outros valores, que não são unicamente materiais
(posse de terra, moradia), levam os jovens a apreciar o mundo rural, notadamente em
termos de qualidade de vida e apesar da falta de perspectiva de emprego e de lazeres:
sossego, segurança, relações de amizade etc.

A escolarização parece ser um dos fatores principais de mudanças no mundo rural, tanto
por razões educacionais quanto materiais no município de Arapiraca.

A taxa de alfabetização é extremamente baixa na RFA (45%), sendo desta forma um


indicador de continuidade de uma sociedade tradicional em termos de cultura e valores na
região, além de ser um forte elemento de compreensão de certos modos de pensamentos e
hábitos em zona urbana. No município de Arapiraca, a taxa é mais elevada (60 %), por
causa da cidade, mas não há dúvida que somente na zona rural a taxa seria sensivelmente
igual aos demais municípios, em torno de 50%.

Completado a 4ª série, quando chegam até lá, os adolescentes da zona rural nem sempre
têm possibilidade de continuar os estudos, por não haver escola das 5ª à 8ª série na sua
comunidade. A falta de transporte desanima o aluno. O mesmo acontece quando se trata de
se matricular no ensino médio. As escolas estão todas na cidade e o baixo nível de renda da
população, muitas vezes inferior a um salário mínimo, o custo do transporte (3,00 reais por
dia) e sua pouca freqüência (termina o serviço às 19h00) impossibilita aqueles que
gostariam de estudar irem para a cidade. Somente aqueles que têm um parente disposto a
alojá-los na cidade podem progredir na escolarização. Muitos jovens que encontramos se
queixaram dessa situação, podendo eles ser sinceros ou sendo isso apenas uma desculpa
para justificar terem parado os estudos.

A eles acrescentam-se os alunos do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil –


PETI, instaurado em 2000, que recebe as críticas quase unânimes por desvincular as
crianças do meio rural, em particular por não terem mais a possibilidade de aprender as
técnicas transmitidas por gerações. “Quando saem do PETI, eles não querem mais saber de
agricultura, não querem trabalhar e não sabem fazer mais nada” é a opinião mais comum
por parte dos pais e até dos responsáveis do programa.
27

De fato, a escola, de maneira geral, abre horizontes ou perspectivas que os pais não
tiveram. Mas outros elementos vêm modificar o cenário. A televisão, por exemplo, é um
elemento que vem perturbar as tradições por mostrar uma “janela sobre o mundo” e veicula
valores nacionais, globais muito diferentes do lugar.

A melhoria dos conhecimentos, a modificação de valores, do tradicional para o


moderno, não são unicamente responsáveis pela ociosidade dos jovens da zona rural. O
mundo rural não oferece as oportunidades de realização pessoal cuja vontade a Educação e
o contato com a cidade despertaram. Os limites do mercado de trabalho, das perspectivas
profissionais, horizontal e verticalmente, isto é, a variedade de profissões e as
possibilidades de progressão nelas, viriam aumentar o sentimento de “inutilidade”.

Mesmo aqueles que tencionam se dedicar à agricultura, ou já trabalham neste setor,


ficariam “frustrados” por outros limites que são impostos, na maioria dos casos em
Arapiraca, pelo tamanho reduzido da terra (a média da propriedade está abaixo de 5 ha) e a
impossibilidade de desenvolver nela atividades alternativas e/ou novas tecnologias. Quem
pode ser “empresário agrícola” (visão moderna, desenvolvida da agricultura) com um
punhado de tarefas?5 A questão agrária, portanto, contribui de maneira fundamental para
desanimar o jovem rural nos dias de hoje.

Isso deveria permitir pensar que a cidade oferece uma oportunidade para os jovens da
zona rural. Mesmo assim, aparece que em Arapiraca os jovens urbanos não são muito
diferentes, como veremos mais adiante.

3. CONCLUSÃO

O Desenvolvimento Local oferece um amplo painel de abordagens e conceitos que


convergem para a mesma finalidade: mudar o sistema econômico vigente, ou corrigir suas
imperfeiçoes, com nova metodologia de planejamento visando melhorar as condições de

5
Um hectare em Alagoas é equivalente a, aproximadamente, três tarefas. Lembra-se que se considera como
Agricultura Familiar a propriedade que vai até 4 módulos fiscais de 15 ha, ou seja, um total de 60 ha. A
maioria dos produtores da RFA, e de outras regiões do Nordeste, possuem apenas um terço de um módulo. A
redefinição da Agricultura Familiar, portanto, ou a diferenciação das faixas de produtores aparece como
fundamental na elaboração de políticas. Aliás, isso foi uma reivindicação da CONTAG quando da criação do
PRONAF (Santos, 2001).
28

vida das populações, preservando o meio ambiente. Por entre os inúmeros caminhos
possíveis, privilegiamos os conhecimentos aprofundados sobre um determinado território,
a cultura e as mentalidades porque a transformação do mundo corresponde a uma evolução
da “visão” que se tem dele.

No território sumariamente definido como “Região Fumageira de Arapiraca” destaca-se


a noção de “rurbanidade”, mentalidade situada entre o campo e a modernidade, onde
aparece que a educação é o principal fator de transição entre os dois mundos.

Agora é preciso saber como Arapiraca se tornou “capital do fumo” e o porque da atual
crise que atravessa essa lavoura para entender melhor, depois, o papel do fumo na
formação da sociedade local e as conseqüências dessa crise.
29
30

CAPÍTULO 2: DECADÊNCIA DA CULTURA DO FUMO NO


NORDESTE. MITO E REALIDADE. CRISES E MUDANÇAS
ESTRUTURAIS.

A cultura do fumo é uma das atividades tradicionais do Nordeste brasileiro. Ao lado do


açúcar, sem nunca ter o mesmo porte e a mesma fama, o fumo se firmou como uma das
lavouras mais importantes da região, desde os primórdios da colonização. A Bahia e
Alagoas destacaram-se como estados produtores e exportadores. No entanto, a cultura do
fumo, hoje, é apenas um resíduo do esplendor do passado.

A questão da decadência da cultura do fumo no Nordeste alimentou muitas histórias que


se contam, pois a narrativa popular, a lenda, é outra tradição conhecida da região. Assim,
ouvia-se falar em declínio em época em que a cultura estava se expandido.
Paradoxalmente, os dados estatísticos refletiam quedas que não eram percebidas pelos
próprios atores da cadeia produtiva e aconteciam crises no campo e nas indústrias que as
estatísticas oficiais não repercutiam.

O objetivo desse capítulo, portanto, é fazer uma avaliação da evolução da cultura do


fumo no Nordeste, de 1945 até hoje, e mostrar que a realidade é muito mais complexa do
que a tradição oral narra; é preciso diferenciar as noções de decadência e crise.

1. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA.

A literatura sobre o fumo nordestino fez bastantes progressos em relação às décadas


anteriores. Várias teses universitárias foram defendidas e órgãos governamentais
realizaram pesquisas técnicas, além daquelas que estamos desenvolvendo há cerca de vinte
anos.
31

Alguns trabalhos são específicos demais para serem utilizados como fonte de análise de
nosso tema. É o caso da tese de Fernando Lira (LIRA, 1987). Cláudia Malta traçou o
“perfil sócio-econômico das famílias de produtores e trabalhadores na região fumageira de
Alagoas” (MALTA, nov/99), mas o resultado do estudo só serve em termos comparativos
com a situação atual, pesquisa de campo nossa em curso.

Paulo Henrique Almeida, recuando até o início da colonização, aponta como causas da
decadência na Bahia após a segunda guerra mundial, fatores importantes tais quais as
condições do mercado, internacional e nacional (demanda), as mudanças no consumo (do
charuto para o cigarro), fatores técnicos e financeiros (dificuldades de adaptação, carência
de capital) (ALMEIDA, 1983). A pesquisa, porém, foi realizada antes das crises que
flagelariam a fumicultura nas décadas de 70, 80 e 90.

É também o caso da tese sobre o espaço agrícola alagoano de Evanilde Gusmão


(GUSMÃO, 1985). A autora tenta mostrar que existe uma “luta entre o capital canavieiro
e o capital fumageiro” sendo o latifúndio e a expansão dos canaviais responsáveis pelas
“dificuldades” do cultura do fumo, além de outros aspectos financeiros (acesso ao crédito)
e técnicos. No entanto ela comete muitos erros. Ao basear-se em dados relativos à década
de 70 e critérios seletivos da “região fumageira” do IBGE onde há municípios em que o
fumo é apenas uma atividade marginal, a influência da cana-de-açúcar sobre a cultura do
fumo nas áreas onde é realmente se concentra é quase nula, aliás, como demonstra a
evolução do espaço rural no período 1980-2000, em Arapiraca por exemplo (OLIVEIRA,
2004). Gusmão também tem uma visão limitada da cultura do fumo; reduz esta à produção
de “folha” (setor empresarial) e esquece que a atividade se destina principalmente ao fumo
de corda (setor artesanal) de que resulta relações sociais bem distintas. Assim ao falar do
avanço das relações de produção capitalistas no campo ela é forçada a constatar que as
relações, no caso do fumo, não são totalmente capitalistas e até são pré-capitalistas
(justamente por causa do fumo de corda), entrando os fatos em forte contradição com as
idéias que ela desenvolve.

A tese apresenta os defeitos de muitos trabalhos de cunho marxista onde a teoria supera
a realidade. A autora, pesquisando no campo, tinha, a nosso ver, um tema de ouro –
realização naquela época mais fácil do que hoje – que era a existência dessas relações pré-
capitalistas, típica da época colonial e de muitas décadas do século XIX. Contrapondo-as
32

às relações realmente capitalistas, o estudo teria permitido trazer uma valiosa luz sobre a
evolução da agricultura nordestina, sem fugir de sua linha ideológica.

Outra tese de caráter marxista é a de José Alberto Ramos que apresenta as mesmas
carências. O autor insiste em comprovar que a decadência é o fato das empresas –
principalmente multinacionais – e da concentração do capital. Deixa de lado, contudo, os
fatores internacionais (queda da demanda do fumo baiano), setoriais (campanhas
antitabagistas, mudanças nos produtos e nos hábitos dos consumidores) e ainda muitos
outros tais como as questões fiscais, omitindo o autor o fornecimento de dados estatísticos
comparativos relativos à produção ou a composição do capital empresarial (RAMOS,
1990).

A concentração deve-se à existência de dezenas, senão centenas, de pequenas ou


microempresas (armazéns) que não puderam enfrentar a queda da demanda do fumo
baiano no mercado internacional, por causa da carência ou dispersão do capital e da falta
de interesse, ou impossibilidade, em aumentar os recursos técnicos. O mesmo fenômeno
ocorreu no período 1890-1910, quando a miríade de pequenas empresas deixou lugar a um
grupo reduzido de grandes consórcios – de capital nacional – não por vontade de
“dominação capitalista”, mas, simplesmente, por uma necessidade de sobrevivência
empresarial (NARDI, 2001).

Em trabalhos mais recentes, a Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia (SEAGRI)


fez uma avaliação da situação na Bahia e lançou um “programa de revitalização” da cultura
(MESQUITA / OLIVEIRA / EPSTEIN, 1999) que, pelo que soubemos, não chegou a ser
implantado por razões administrativas e técnicas. Em documento editado na Internet, os
mesmos autores destacam a questão da decadência, fazendo um retrospecto da economia
fumageira na Bahia desde o início até os dias atuais; analisam com bastante clareza a
situação presente, faltando ainda elementos que os limites do estudo proposto talvez não
permitisse desenvolver (MESQUITA / OLIVEIRA, 2004).

Último trabalho conhecido é a tese de Moisés Calu de Oliveira que mostra como se
reorganiza aos poucos o espaço agrário na região fumageira de Alagoas a partir do declínio
da cultura do fumo (OLIVEIRA, 2004). A pesquisa, apesar de ter sido realizada antes da
recente e grave crise do setor, vai ser um importante instrumento para a compreensão das
mudanças a virem e o planejamento da economia regional.
33

Por fim, convém citar alguns estudos que se inscrevem na continuidade de nossas
pesquisas sobre a história e economia do fumo brasileiro; constituem uma tentativa de
esclarecer os aspectos mais escuros das últimas décadas de fumicultura no Nordeste.

Em 2001, na ocasião do Seminário sobre a cultura do fumo que realizamos em parceria


com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais no município de Irará, na Bahia, esboçamos a
idéia de “falsa decadência” como um dos fatores de análise da recente evolução da
fumicultura nordestina, mostrando, do ponto de vista da Bahia, a estreita relação entre os
Estados da Bahia e de Alagoas, onde se houvesse crise em um dos Estados, o mesmo
talvez não acontecesse ao nível regional (NARDI, jul/2001). Dois anos depois, retomamos
a mesma idéia, desta vez com o ponto de vista de Alagoas (NARDI, 2003).

A comparação ou integração dos Estados da Bahia e de Alagoas numa só “unidade


produtora” – aqui designado por simplificação como “Nordeste” – é uma chave para a
compreensão da evolução da fumicultura em cada um deles, além dos inúmeros fatores de
interferência; permite diferenciar as noções de decadência e de crise e explica a
divergência das percepções locais.

2. DESENVOLVIMENTO DA FUMICULTURA NO NORDESTE E NO BRASIL

O fumo brasileiro caracteriza-se pela existência simultânea de dois produtos muito


diferentes por suas técnicas de produção e seus destinos comerciais e industriais: o fumo de
corda e o fumo em folha.

2.1. Período colonial: exclusividade do fumo de corda

O fumo de corda é um produto exclusivamente brasileiro. É o fumo que os índios


fabricavam aqui e cuja técnica os colonos portugueses aperfeiçoaram, criando máquinas e
apetrechos para preparar a corda, as bolas e os rolos.

A cultura comercial do fumo no Brasil começa por volta de 1570 nas regiões costeiras
da Bahia e de Pernambuco a que pertencia o atual Estado de Alagoas. Segundo relatórios
34

holandeses, por volta de 1630, o fumo é cultivado na região de Porto Calvo e no litoral sul,
sendo o primeiro de melhor qualidade. Entretanto, a ocupação holandesa, com os conflitos
que ocasiona, favorece o crescimento da cultura na Bahia que se consolida como primeira
região fumageira do Brasil-colônia.

Em 1674, Portugal estabelece o Monopólio Real dos Tabacos e transforma a Bahia em


região produtora exclusivamente voltada para o mercado externo. O fumo de qualidade é
exportado para Portugal e Europa, sendo a Espanha o principal comprador. O fumo de
refugo é enviado para a Costa da Mina, na África Ocidental, onde serve de moeda para
comprar escravos.

Um pouco da produção baiana fica para o consumo local e também vai para o Rio de
Janeiro. Contudo, com a descoberta do ouro e o desenvolvimento da atual região Sudeste, a
quantidade do fumo baiano é insuficiente para atender as necessidades. Começa então, por
volta de 1720, a cultura do fumo em Minas Gerais. Cresce tanto a produção que o fumo
mineiro chega a ser exportado fraudulosamente para as colônias espanholas vizinhas de
Montevidéu e Buenos Aires.

À véspera da Independência, o Brasil produz cerca de 9.500 toneladas, sendo 9 mil pela
Bahia e 500 pelas Minas Gerais. O mercado europeu representa 70% das exportações e a
África os 30% restantes.

Devemos notar que a produção fumageira do Brasil é composta quase exclusivamente


de fumo de corda. A produção de fumo em folha, embora começasse por volta de 1750,
representa 1% das exportações e é destinado à Índia Portuguesa (NARDI, 1996).

2.2. O século XIX : mercado interno, charutos e primeiros cigarros

Após a Independência, a produção brasileira de fumo modifica-se.

Até a extinção do tráfico negreiro, em 1850, a produção de fumo de corda na Bahia


ainda é importante. Mas no espaço de poucos anos ela fica substituído pela produção de
fumo em folha destinado à fabricação de charutos, principal produto consumido no mundo
no século XIX. É o que chamamos de “primeira revolução fumageira brasileira” (NARDI,
2002).
35

Essa mudança realiza-se no Recôncavo baiano e a área cultivada expande-se na periferia


da região para a produção de fumo de corda (Sertão).

Desenvolve-se a indústria dos charutos na Bahia, mas a maior parte do fumo em folha é
exportada para a Alemanha que é naquela época grande consumidora, além de ser o centro
do comércio internacional do fumo.

O fumo de corda da Bahia é destinado ao mercado interno, mas pelas dificuldades das
comunicações internas, todas as províncias – depois estados – começam a produzir este
fumo em quantidades variáveis. A produção cresce sobretudo em Minas Gerais, São Paulo
e no Rio Grande do Sul. Em 1920, esses três estados, com a Bahia, representam 80% da
produção brasileira.

O fumo de corda é picado pelo próprio consumidor que enrola seu cigarro. Mas também
é desfiado de forma semi-industrial e serve para a fabricação manual de cigarros. Assim
aparecem fábricas de fumo desfiado e cigarros nas principais capitais do país ainda que as
maiores indústrias se desenvolvam no Rio e em São Paulo.

A partir de 1880, a fabricação dos cigarros passa a ser totalmente mecanizada graças à
invenção de máquinas cada vez mais sofisticadas. Depois de 1910, o cigarro torna-se o
principal produto do fumo consumido no mundo.

Todos os fumos cultivados no mundo são de tipo escuro, ou negro. Mas criam-se nos
Estados Unidos, por volta de 1870, novos tipos de fumos - o virgínia e o burley -
conhecidos como “fumos claros” cujo mercado não pára então de crescer. Os fumos claros
começam a ser produzidos no Brasil em 1920, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina: é a
“segunda revolução fumageira brasileira”.

A Souza Cruz, indústria de cigarros criada em 1903 no Rio de Janeiro e comprada em


1914 pela British American Tobacco, está na origem dessa mudança. Rapidamente a
produção sulina cresce até suplantar a produção dos demais estados. Em 1940, o Rio
Grande do Sul e Santa Catarina já representam 40% da produção nacional.

A partir daí, o Brasil divide-se em três regiões, conforme o tipo de fumo cultivado (Ver
anexo 7):

a) A primeira região é a região Sul (RS, SC e PR) com os fumos claros para cigarros;
36

b) A segunda região reúne parte da produção da Bahia e de Alagoas com o fumo em folha
escuro para charutos e cigarros;

c) A terceira região compreende outra parte da Bahia e de Alagoas e todos os outros


estados do Brasil, com destaque de Minas Gerais, com o fumo de corda (NARDI,
1985).

Nota-se aqui que o Estado de Sergipe pertence exclusivamente à terceira região. Reage,
como qualquer outro estado, às flutuações da produção nacional de corda mas fica alheio
aos movimentos do “Nordeste fumageiro” tal qual o definimos, razão pela qual não ficou
incluído nesta mesma área em estudo.

2.3. A era dos cigarros industrializados

Após 1940, o comércio internacional do fumo conhece uma grande transformação, os


cigarros fabricados com os fumos claros passam a dominar o mercado mundial. Em
conseqüência, cai progressivamente o consumo de cigarros de fumos escuros e a produção
deste tipo de fumo.

No Brasil, constata-se o mesmo fenômeno, com algumas especificidades.

O processo de industrialização do país, iniciado em 1910, acelera-se e favorece a


consolidação da região fumageira do Sul. Também melhora o poder de compra do
brasileiro que passa a consumir mais cigarros industrializados. Tudo isso facilita o
crescimento da Souza Cruz que já é, em 1910, o maior fabricante do país e a indústria mais
mecanizada e continua sua conquista do mercado nacional antes limitado ao Sul e Sudeste.

Outra conseqüência da industrialização dos cigarros é o desaparecimento da cultura do


fumo de corda em São Paulo que cai de 12 mil toneladas em 1920 para um mil em 1940.
Mas cresce a produção em outros estados, em particular Alagoas, para a produção em
corda e o abastecimento de fábricas locais de fumo desfiado e cigarros. Por sua ótima
qualidade, o fumo de Arapiraca ganha uma boa reputação no Brasil e sua produção triplica
entre 1955 e 1965, passando de umas 5 mil t. para 16 mil.
37

2.4. A virada dos anos 60 e o milagre brasileiro

Durante os anos 60 ocorrem dois fatos que mudam o cenário fumageiro nacional.

O primeiro é a crise do Zimbabwe, colônia inglesa da África que se torna independente


e sofre durante muitos anos de um embargo comercial. Os fumos claros que produzia –
cerca de 100 mil toneladas – faltam no mercado internacional e é a região sul do Brasil que
recupera esse mercado (NARDI, 1985).

A cultura expande-se no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, formando


paulatinamente a primeira região fumageira do mundo com, hoje, mais de 600 mil t. que
equivalem a quase 10% da produção mundial, incluindo todos os tipos de fumo.

Pulam as exportações brasileiras dos fumos claros fazendo aos poucos do Brasil o
primeiro exportador mundial. O volume passa de 31 mil t. em 1960 para 53 mil em 1970,
alcança 145 mil em 1980 e hoje se situa em torno de 350 mil t.

O segundo fato é a reforma tributária de 1966 que é desfavorável às pequenas e médias


empresas e provoca a falência de diversas fábricas de cigarros. Isso beneficia a Souza Cruz
que rapidamente atinge 60%, 70% e até 85% do mercado nacional, hoje.

Durante a fase conhecida como “milagre brasileiro”, entre 1966 e 1975, entram no
Brasil outras empresas multinacionais tais quais a Philip Morris e a R. J. Reynolds que
tentam competir com a BAT, dona da Souza Cruz. Mas a Souza Cruz existe no país há
muitos anos e possui uma experiência deste que os outros grupos não têm. Assim após
anos de luta, apenas a Philip Morris consegue se manter no Brasil ficando com uma fatia
de 15% do mercado nacional.

A esses fatos temos que acrescentar a urbanização constante da população brasileira.


Entre 1950 e 1990, a taxa de urbanização cresce ao ritmo de 10% a cada decênio, passando
de 35% para 75%, atingindo hoje 80%. A migração para as cidades afasta o consumidor de
fumo de corda mais disponível nas vilas da zona rural. Isso tem um reflexo na cultura
desse gênero. Sua participação na produção nacional de fumo cai de 50% para 8% entre
1950 e 1990. O cultivo de fumo de corda desaparece de quase todos os estados brasileiros.
Minas Gerais, por exemplo, que produz cerca de 15 mil t. até meados dos anos 70, mal
38

chega a 2 mil em 1990. A produção de corda restringe-se então à Bahia e Alagoas o que
vai gerar uma primeira crise entre 1975 e 1985.

3. CRISES DO FUMO NO NORDESTE

3.1. A crise dos anos 75-85 e a concentração da cultura do fumo de corda em


Alagoas

A crise da produção nordestina, isto é, da Bahia e de Alagoas, entre 1975 e 1985 é


extremamente complexa. Envolve os dois produtos que são o fumo de corda
(aproximadamente 30% na Bahia e 80% em Alagoas) e o fumo em folha para exportação.
Tem sua origem em fatores financeiros e no comportamento dos compradores
independentes de fumo e das empresas fumageiras.

É antes uma crise de superprodução.

O fato principal que inicia a crise é o dobramento do preço do fumo na Bahia, entre
1974 e 1978, em dólar, ou seja, em valor constante, tanto ao nível do produtor (corda e
folha) quanto na exportação, sendo que este sobe de menos de 1 dólar o quilo para 2
dólares. As causas dessa mudança não são ainda muito claras. Pode ter razões nacionais e
internacionais. A queda da produção de fumo de corda em outros estados brasileiros ou de
fumo em folha escuro em outros países pode ter aumentado a procura do fumo baiano e ter
tido um efeito no preço. Mas constatamos que entre 1970 e 1975 dobra também o preço na
Indonésia, principal concorrente de fumo baiano no mercado internacional, passando de
1,24 para 2,27 US$/Kg (FAO, 2004). Acreditamos então que, em reação, as empresas da
Bahia “reajustaram” o preço do fumo local para adequá-lo ao mercado externo, havendo
um efeito similar no preço da corda.

Independentemente disso, a elevação do preço não surte modificação imediata


significativa do volume produzido na Bahia. Pelo contrário, provoca o aumento da procura
do fumo alagoano cujo preço é quase a metade do que na Bahia. Sobe também o preço em
39

Alagoas, mas em proporção inferior; assim, em 1980, ele ainda é abaixo do preço do fumo
baiano de 1976.

Em conseqüência opera-se entre 1975 e 1985 uma transferência radical da produção de


fumo da Bahia para Alagoas.

Os compradores de corda incentivam a produção em Alagoas. Por isso, esta dá um salto


de 65% entre 1976 e 1977, passando de 20 mil para 30 mil t. e a lavoura expande-se nos
municípios da região fumageira. No início dos anos 80 existem treze empresas de fumo
desfiado em Arapiraca.

Durante alguns anos, as produções baiana e alagoana de corda, em vez de se completar,


somam-se, chegando a níveis absurdos: cerca de 50 mil toneladas em 1982! A oferta é duas
vezes superior à demanda e o mercado acaba regulando a produção. Na luta feroz que opõe
os dois estados, por uma questão de qualidade e preço, a Bahia está obrigada a abrir mão
desse fumo, entre 1983 e 1985, ficando apenas com o fumo em folha. É um fato histórico
de primeira importância, pois termina aqui 400 anos de cultura do fumo de corda na Bahia.

As empresas do setor de fumo em folha, principalmente exportadoras, também têm um


papel fundamental no desenvolvimento da cultura em Alagoas.

A partir de 1946, corretores de empresas baianas vão abastecer-se em fumo em folha


mais barato de que na Bahia. O fumo arapiraquense é exportado pelo porto de Salvador
como se fosse baiano, mas as quantidades são pequenas.

A reforma tributária de 1966 cria o ICMS que modifica as condições de


comercialização interestadual, elevando o custo da expedição do fumo de Alagoas para a
Bahia. Por essa razão, as empresas nacionais e estrangeiras já atuando na Bahia instalam
armazéns em Arapiraca e fazem as expedições de fumo pelo porto de Maceió. No início da
década de 80, dez empresas exportadores atuam em Alagoas.

Com o aumento do preço na Bahia, como já dissemos, cresce a demanda de fumo em


folha em Arapiraca e aumenta a produção. E na Bahia, assim como no caso do fumo de
corda e na mesma época, a produção de fumo em folha da Bahia diminui. A queda, porém,
não é tão drástica quanto a do fumo de corda, pois limita-se à uns 50%. Em termos
empresarial, registra-se a mesma tendência, pois em 1982 sobram 18 firmas exportadoras
das 32 firmas que existiam na Bahia em 1970 (MESQUITA / OLIVEIRA, 2004).
40

Acrescenta-se que, em Arapiraca, o fumo era associado à cultura do algodão que na


primeira metade da década de 80 foi abandonada por causa da praga do bicudo,
favorecendo ainda o aumento da produção local de fumo.

Na saída da crise, em 1985, Alagoas representa cerca de 90% do fumo de corda


produzido no Brasil e 50% do fumo em folha nordestino.

Logo, a crise dos anos 75-85 atinge profundamente e exclusivamente a Bahia de forma
negativa e dela resulta a concentração da cultura em Alagoas. As conseqüências na Bahia,
porém, são relativas na medida em que os segmentos do fumo de corda e do fumo em folha
são totalmente diferenciados, o que não é o caso de Arapiraca. Na Bahia, embora diminua,
permanece a produção o fumo em folha para charutos nacionais e exportação que, em
termos econômicos, representava cerca de 80% do valor gerido pelo fumo no Estado, em
transformação industrial, comércio e tributos.

Contudo, a transferência da produção para o Estado de Alagoas, por mais interessante


que fosse em termos financeiros imediatos, talvez não fosse uma boa opção em termos de
qualidade e volume produzido e exportado. Com efeito, entre 1980 e 1985 a produção da
Indonésia aumenta consideravelmente, de 85 mil t. para 161 mil (FAO, 2004), ocupando
um espaço antes preenchido pela Bahia no mercado internacional, ainda que o tipo de
fumo asiático, principalmente o sumatra, seja um pouco diferente do baiano.

Em reação, as empresas começam a produzir na Bahia o fumo sumatra, geralmente em


campos próprios por razões essencialmente técnicas mas em prejuízo dos pequenos
produtores locais tradicionais. A Agro-Comercial Fumageira, por exemplo, planta 500 ha.
deste fumo no final da década de 80. Além da exportação, este tipo serve para capas de
charutos nacionais que assim perdem um pouco de sua autenticidade que fez sua reputação.
Na década de 90 outras empresas entram nesse ramo.

Mas isso não impede a concorrência de crescer, em particular do Equador cujo tabaco
negro compôs o volume das 3.600 toneladas produzidas em 1987 (ECUADOR, 2004). As
exportações triplicam em menos de 10 anos: 241 t. (1985), 700 t. (1990) e 750 t. (1995)
(FAO, 2004)

A concentração em Alagoas, obviamente, torna a produção deste Estado altamente


vulnerável. O paradoxo é que ela se realiza com produtos cujo consumo está em declínio.
A crise dos anos 75-85 que a beneficiou por último, na verdade, foi apenas o sinal
41

anunciador da crise que conhece hoje o setor fumageiro a região de Arapiraca no Estado de
Alagoas e podemos dizer que, já naquela época, esta era previsível.

Vemos do ponto de vista estatístico como se efetua a transferência da produção de fumo


da Bahia para Arapiraca ou como Alagoas passa a superar a Bahia entre 1945 e 1990 (ver
gráfico 1).

GRÁFICO 1

PRODUÇÃODE FUMONONORDESTE (BA+AL) 1945-1990 - Toneladas

70.000 64.478

60.000 51.687
46.804 47.440
44.538 46.414
50.000 42.135
37.280
40.000 45.517
29.529
34.068
31.414 31.586
39.199
30.000
17.619 16.026
20.000 16.885 27.198
10.549
5.339
10.000 1.287
-
1945 1955 1965 1975 1980 1985 1990

BAHIA ALAGOAS TOTAL

FONTES: IBGE, pesquisa de campo.

É preciso anotar aqui uma das maiores dificuldades da pesquisa: as estatísticas nunca
separam o fumo de corda do fumo em folha e temos que recorrer a informações de campo
e estimativas. Aliás, os dados não precisam ser rigorosamente exatos, desde que estejam
coerentes: o que importa são as tendências. Também é bom lembrar que ambos os produtos
são cultivados em áreas separadas na Bahia, enquanto são misturados em Alagoas.

Até 1980, a produção da Bahia fica relativamente estável. Contudo, sente-se a


conseqüência do aumento da produção em Alagoas, com a leve diminuição da produção
entre 1945 e 1965. Entre 1975 e 1980, aparece a crise de superprodução onde se somam a
produção de ambos os estados. Entre 1980 e 1985 as curvas se cruzam e mostram
nitidamente a transferência de produção de um estado para outro. Em 1985 a participação é
inversa em relação à de 1965.
42

A crise na Bahia, porém, não foi percebida pelo setor produtivo e empresarial do fumo
em folha, concentrado no Recôncavo, já que apenas o setor do fumo de corda foi atingido e
sendo este cultivado em regiões periféricas, ou Sertão. No caso de Alagoas, vemos que não
se pode falar de maneira alguma de decadência, mas sim, de crescimento. Porém, segundo
opiniões relatadas por Gusmão, dá para entender que certos atores do setor fumageiro de
Arapiraca, em 1983, já percebiam o aumento da produção, e até seu excesso, como uma
crise e diziam que se não se tomasse providência esta ia ser pior: como já salientamos a
atual crise era previsível. As questões das relações de produção, da qualidade, dos preços,
da assistência técnica estavam no centro dos problemas e, sobretudo, os produtores
enfrentavam grandes dificuldades financeiras, não tendo a maioria apoio do governo
federal e acesso ao crédito (GUSMÃO, 1985). Isso é um ponto importante que, além de
prejudicar bastante os pequenos produtores, seria um dos fatores da atual crise. Com efeito,
ao financiar sua cultura com recursos próprios, o produtor ficava sujeito à especulação dos
atravessadores por ser geralmente obrigado a vender sua safra por um vil preço a fim de
satisfazer seus gastos de produção (insumos ou outros); quando o financiamento era da
responsabilidade das empresas, aumentava a dependência do produtor em relação a aquelas
e este pouco podia influir sobre o estabelecimento dos preços.

3.2. A atual crise em Alagoas e no Nordeste

Hoje a cultura nordestina está em crise e caracteriza-se pela queda vertiginosa da


produção em Alagoas a partir de 1998.

3.2.1. O eterno problema dos dados

A análise da crise em Alagoas fica, mais uma vez, sujeita à escassez de dados. As
informações fornecidas pelo IBGE, que constituem a fonte oficial, não correspondem com
dados de outras origens (Secretaria de Planejamento do Estado, empresas) e de maneira
alguma à realidade constatada no terreno. A discrepância de dados decorre antes da falta de
recursos do órgão que não pode realizar aprimoradas pesquisas de campo em cada ano.
Por outro lado, convém dizer que os produtores, por desconfiança ou ignorância, não
43

sempre comunicam as informações exatas, exagerando ou diminuindo a área cultivada, a


produção e o valor da venda.

Isso vem modificando as percepções da evolução do setor por aqueles que utilizam
apenas esses dados (pesquisadores universitários ou técnicos) e por aqueles que estão
confrontados à verdadeira situação.

Assim, o IBGE continua registrando altos índices de produção entre 1998 e 2000
enquanto se verifica o declive nas roças e nas indústrias. Em 1998 e 1999 o volume
produzido seria de, respectivamente, 31.270 e 32.148 t., isto é, sensivelmente igual ao dos
anos anteriores e a crise ocorreria somente em 2000 com 15.876 t. (menos 50,6%). No
entanto, a produção de folha em Arapiraca, que está atrelada à produção de corda, registra
quedas sucessivas de 25%, 37,5% e 49,3% entre 1998 e 2000, segundo fontes empresariais.

A crise, portanto, começa efetivamente em 1998 e para medi-la de forma quantitativa e


comparativa temos que recorrer a cruzamento de informações e cálculos que permitem
obter dados nunca satisfatórios, pois deixam margens a dúvidas. Voltamos a dizer que vale,
sobretudo, a tendência.

3.2.2. A evolução da produção em Alagoas

Se observarmos a evolução da produção de Alagoas de 1945 para cá, vemos que a


produção cresce até 1990 (ver gráfico 2).

Depois há uma primeira caída de uns 27% entre 1990 e 1995. No entanto, há
divergências nos dados relativos ao período 1991-1994, indicando alguns uma tendência à
produção elevada, com uma média em torno de 31 mil t. e outros uma tendência ao declino
com uma média de 27 mil t.

Em 1996, as fontes registram uma possibilidade entre 22 e 28 mil t. e convergem em


1997 para uma safra de 29.322 t.

Independentemente das variações naturais da produção e da origem dos dados, podemos


dizer que entre 1980 e 1997, a fumicultura alagoana se mantém relativamente estável.
Porém, talvez seja artificial na medida em que não corresponderia a uma demanda efetiva
44

de fumo, sobretudo no que diz respeito ao de corda, o que explicaria a diferença de volume
entre 1990 e 1995.

GRÁFICO 2

PRODUÇÃO DE FUMO EM ALAGOAS - 1945-2002 - toneladas

35.000 31.584
31.414
29.322
30.000 27.198

25.000 23.120 21.053


20.000 17.619
16.885
13.151 12.281
15.000
8.772
10.000 6.670
5.339
5.000 1.287
-
1945 1955 1965 1975 1980 1985 1990 1995 1997 1998 1999 2000 2001 2002

FONTES: IBGE, SEPLAN/AL, EMPRESAS, pesquisa de campo.

A partir de 1998, há uma tremenda queda de 77% da produção no espaço de três anos.
Em 2001 há uma pequena recuperação, mas em 2002 a safra volta a cair, mostrando a
tendência dos anos a virem.

Em termos empresariais, o setor fumageiro em Arapiraca reduz-se, hoje, a poucas


empresas; sobra apenas uma exportadora, uma empresa que beneficia fumo para capa de
charutos e uma ou duas indústrias que produzem fumo de corda desfiado.

Como explicar essa crise?

3.2.3. A interação dos fatores

Uma das primeiras causas da crise é a queda geral do consumo interno do fumo.
45

No gráfico 3, vemos que o consumo aumenta entre 1950 e 1980 mas depois cai. No ano
2000 está igual ao consumo de 1950.

GRÁFICO 3

EVOLUÇÃO DO MERCADO INTERNO DO FUMO


1940-2000 - Gramas por habitante

2015 2125
1828
1712
1444 1389 1348

1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000

FONTES: IBGE, ABIFUMO, AFUBRA.

A crise econômica geral do Brasil é em parte responsável pela diminuição do consumo,


mas a parte mais importante deve-se, sem dúvida, às campanhas antitabagistas no país,
aliás, como no mundo inteiro. Nos últimos 15 anos cresceu a população mundial, mas o
consumo global de fumo permaneceu estável, o que corresponde a uma diminuição efetiva
do consumo per capita (AFUBRA, 2004).

No Brasil, as campanhas começam na década de 70 e a legislação torna-se mais dura a


partir de 1986, com destaque da Lei Federal n. 9294/96 e suas emendas ulteriores que
restringem mais e mais a publicidade, o comércio e consumo do fumo.

A segunda causa da crise é a queda do consumo do fumo de corda, em prol dos cigarros
industrializados.

O gráfico 4 mostra que, até 1960, os consumos de cigarros e de corda evoluem de


maneira sensivelmente igual; o aumento do consumo dos cigarros não parece interferir nas
vendas de corda, até estas se elevam um pouco entre 1940 e 1950. Na década de 60, há um
46

declive de ambos os produtos devido provavelmente às condições gerais da economia


brasileira da época. Mas entre 1970 e 1980 a situação modifica-se; há um forte crescimento
do consumo dos cigarros enquanto se nota nitidamente o declínio do de corda. É o
resultado da competição entre as multinacionais. O leve encolhimento do consumo dos
cigarros entre 1980 e 1990 não impede a queda contínua do fumo de corda.

A partir de 1990 aparece o contrabando dos cigarros que domina uns 30% do mercado
em 2000. Isso acelera a queda do fumo de corda. Esse contrabando é uma das
conseqüências diretas da lei antifumo de 1996.

O gráfico 5 ainda evidencia a diminuição da importância do fumo de corda na produção


fumageira brasileira. Enquanto representava ainda metade da produção nos anos 50, hoje
chega apenas aos 4%. Lembramos aqui o efeito da urbanização da população brasileira
durante essas décadas.

Todos os dados convergem para a mesmo conclusão: o fumo de corda é destinado a


desaparecer um dia ou outro ou, se conseguir se manter, ficará a um nível extremamente
reduzido, nunca voltará a ser o que era antes.

GRÁFICO 4

EVOLUÇÃO DO CONSUMO PER CAPITA - CORDA X CIGARROS


1940-2000
Corda = Gr/Hab - Cigarros = Unidade/Hab

1.172
1.052
800 845 1.011
748
542
650
646 636
464 180
410 67
254

1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000

CORDA Cigarros - Mercado Oficial


Cigarros - Mercado Oficial e Ilegal
47

FONTES: IBGE, ABIFUMO, AFUBRA, GAZETA.

GRÁFICO 5

COMPARAÇÃO DA PRODUÇÃO DE FUMO


FOLHA X CORDA 1920-2000 - EM %

72 92 96
67 84
56

44 16
33
28 8 4

1920 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000

FOLHA CORDA

FONTES: IBGE, ABIFUMO, AFUBRA

Outra causa é a queda do consumo de cigarros escuros, ficando estes tipos de fumo
quase restritos à fabricação de charutos e misturas para cachimbo. Hoje representam uns
20% dos fumos consumidos no mundo.

Só para dar um dado, a França, que sempre foi um dos principais consumidor desse
tipos de fumo, viu cair de 70% as vendas de cigarros escuros em 25 anos. A formação da
União Européia e a quebra do monopólio estatal nesse país nos anos 70 facilitaram a
circulação dos cigarros de fumos claros, modificando o gosto dos fumantes. O mesmo
fenômeno ocorreu na Espanha, embora mais rápido, pois entrou na União somente em
1986 (ENTREVISTAS). Outros dados confirmam essa tendência: as exportações dos
Camarões, na África, um dos principais fornecedores da França em fumos escuros para
cigarros, caíram de 2 milhões de toneladas em 1980 para 290 mil em 1995 e 90 mil em
1998, ou seja, de quase 100% em 18 anos (FAO, 2004).
48

Podemos ter uma idéia dessa queda no Brasil comparando as exportações da Bahia e de
Alagoas entre 1975 e 2003 (ver gráfico 6).

Vemos que a tendência geral está no declínio, pois em 25 anos as exportações passam
de 37 mil t. para pouco mais de 6 mil, ou seja uma queda de 84%.

Há uma primeira fase de contração entre 1975 e 1984 com um declive geral de 50%.
Porém, a repartição entre a Bahia e Alagoas difere. Assim como no caso do fumo de corda,
Alagoas passa a superar a Bahia. É, de certa forma, lógico, pois a produção de fumo em
folha em Arapiraca depende da produção de fumo de corda. As exportações de Alagoas
dobram entre 1975 e 1980 enquanto caem pela metade na Bahia. Isso se deve ao aumento
do preço na Bahia. Até 1983, as exportações de Alagoas se estabilizam, mas continuam
diminuindo na Bahia. No ano seguinte (1984), a Bahia recupera-se um pouco e cai a
produção de Alagoas. Os dois estados estão no mesmo nível.

Dez anos depois (1994) a situação parece relativamente estável, sensivelmente idêntica
à do ano de 1983 no qual Alagoas representa 75% das exportações e a Bahia 25% (seria
talvez uma fase de recuperação em nível regional, mas faltam dados para confirmar essa
opinião).

Mas a partir de 1995, as exportações globais voltam a cair: -40% em 1996 e –20% em
1998. Desta vez é Alagoas que mais padece da crise. Em 2000, o resultado é catastrófico,
pois o volume é de apenas 1.654 t., o que representa uma queda de 90% em relação a 1995
(17.125 t.) e 76% em relação ao ano anterior (7.119 t.). Em 2003, a perda regional é de
70% mas de 86% em Alagoas e 7% na Bahia, em relação a 1995 e anos anteriores.
49

GRÁFICO 6

EXPORTAÇÕES DE FUMO DO NORDESTE (BA+AL)


1975-2003 - Toneladas

40.000 37.100
35.000 32.940

30.000 25.968
25.000 22.113 21.840
21.425
18.620
20.000 12.731
11.699
15.000 12.787
10.106 9.193 6.461
10.000 6.066 6.410
5.000
-
1975
1980

1982
1983
1984

1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
-

BAHIA ALAGOAS TOTAL

FONTES: ABIFUMO, AFUBRA, CACEX, SEAGRI/BA

O fumo em folha de Arapiraca, portanto, sofre tanto do declínio da procura


internacional quanto da diminuição da produção de fumo de corda à qual está relacionado.

Aqui surge uma pergunta à qual, infelizmente, não é possível responder: foi a
transferência da produção da Bahia para Alagoas responsável pela queda das exportações
nordestinas? Embora fosse o fumo alagoano mais barato do que o da Bahia, a qualidade
não era a mesma. Podemos pensar que os fabricantes de cigarros de fumos escuros,
principalmente europeus e norte-africanos, para enfrentar a concorrência dos cigarros de
fumos claros, preferiram baratear seus produtos em prejuízo da qualidade, levando as
empresas exportadoras a incentivar a produção alagoana de qualidade inferior. Porém, esta
mesma perda de qualidade pode ter afastado os consumidores dos cigarros escuros e
provocado em conseqüência a queda da demanda de fumos nordestinos. Quem sabe se
50

esses consumidores (internacionais) não estivessem prontos a desembolsar mais para fumar
cigarros escuros de qualidade?

Há ainda fatores internos que teriam tido uma grande influência na crise. A questão está
ainda em suspenso, pois a realidade da crise é atualmente objeto de estudo e não se
reuniram ainda todos os elementos de análises. Venhamos aqui responder a algumas
hipóteses que são lançadas pelos atores em Arapiraca.

O primeiro fator seria a fim do financiamento bancário para a cultura do fumo. Alguns
testemunhas dizem que essa mudança ocorreu há 5 ou 6 anos. Mas a legislação que proíbe
o crédito bancário para a cultura do fumo teve início na safra de 2001. A crise é anterior. O
que aconteceu provavelmente é que, com a crise de produção, os agricultores não tiveram
mais as condições de sacar as dívidas e os bancos deixaram de financiá-los.

O secundo fator seria o grande estoque que teriam acumulado as empresas e alguns
produtores de fumo de corda: esse estoque teria sido liberado a partir de 1998. É mais
provável que a queda das vendas tenha proporcionado grandes quantidades de fumo
estocado. Mesmo assim, é difícil acreditar que esses estoques pudessem representar 10 ou
15 mil toneladas durante cinco anos, ou seja, um total de 50 a 75 mil toneladas. É mania
pôr a culpa em alguém (geralmente as empresas, os produtores ou os poderes públicos)
quando não se pode explicar um acontecimento.

O terceiro fator seria, segundo muitas pessoas, a baixa qualidade que teria adquirido o
fumo em Arapiraca nos últimos anos. Os produtores misturariam o fumo com água, areia
ou outras folhas para aumentar o peso e conseguir melhores preços. Mas discordamos
dessa opinião porque já se falava a mesma coisa no período colonial e temos como prova
disso vários relatórios da época bem como o Alvará de 1775 que baixou o Marquês de
Pombal, ministro de Portugal, sobre as formas adequadas de cultivar o fumo (NARDI,
1996). Portanto, acreditamos que as eventuais misturas no fumo de corda sempre
existiram.

Se houver de considerar um fator interno decisivo, seria, sem dúvida, a especulação


sobre os preços e a safra. Basta ver o incrível nível que alcançou o preço do fumo de corda
em 2003, fora de qualquer realidade econômica. Atingiu 12 até 13 reais o quilo, o que
corresponde a quatro vezes o preço “normal” e muito mais considerando que, em 2002,
alguns produtores chegaram a vender o quilo por 60 centavos de reais! A pressão por parte
51

de “alguns compradores” atingiu também a Bahia puxando para cima o preço do quilo de
folha, até duas vezes o valor estipulado pelas empresas locais.

O alto preço de 2003 incentiva os produtores a plantar fumo este ano (2004) e prevê-se
uma grande safra, mas com um preço muito baixo e um grande número de quebras por
entre os pequenos fumicultores iludidos que até arrancaram os pés de mandioca pensando
enriquecer-se com o fumo. Ainda circulam lembranças da “época de ouro” e falsas idéias
do tipo “com 1.200 quilos de fumo se podia comprar um caminhão ou o carro do ano”.
Assim constroem-se as lendas, alimentando o imaginário popular... As condições
climáticas não são favoráveis, em particular o excesso de chuva, a qualidade não será boa.

Independentemente disso, pensamos que o principal fator da crise é a qualidade do fumo


de Arapiraca vendido como se fosse do tipo Brasil-Bahia enquanto não é: não tem sabor e
sua única vantagem é sua ótima combustibilidade.

Com efeito, o problema da perda da qualidade do fumo nordestino questiona a


incapacidade da Região em aproveitar-se da conjuntura favorável criada pelo “boom” do
consumo mundial de charutos poucos anos atrás.

O arranco começa em 1996 e ocorre principalmente nos Estados Unidos e na União


Européia – e por reflexo no Brasil. O mercado norte-americano cresce de maneira
espantosa; passa de 3,6 bilhões de unidades em 1995 para 5,2 bilhões 1997, ou seja, um
aumento de mais de 40% em dois anos. Em 1997, vendem-se quase 11 bilhões de unidades
nos sete países que mais fumam charutos e cigarrilhas. A França é o segundo país
colocado, com mais de 1,5 bilhões, seguido pela Alemanha com 1,2 bilhões e a Grã-
Bretanha com 1 bilhão; a Espanha, a Bélgica e os Países Baixos consomem, em conjunto,
1,9 bilhões de unidades (ENTREVISTAS).

A parte dos charutos feitos à mão é reduzida: representa menos de 5 % do consumo


global. No entanto a procura cresce consideravelmente. Assim a produção de Cuba passa
de 60 para 160 milhões de charutos entre 1991 e 1998 e está atualmente entre 200 e 300
milhões de unidades. Além dos havanas existem os charutos da República Dominicana,
Honduras, Nicarágua, Jamaica, México (IDEM).

Em 1996, segundo fontes empresariais, a Bahia não consegue atender a repentina e


grande demanda em charutos por parte dos estrangeiros. Em 1997, o valor das exportações,
com 1,74 milhão de dólares, aumenta de 63% em relação ao ano anterior. Mas o produto
52

nacional não agrada aos estrangeiros e nos anos seguintes a queda é inevitável, sendo 2001
o pior ano com 201.204 dólares. Em 2002 e 2003 há uma pequena recuperação, subindo o
valor para cerca de 290 mil dólares (SEAGRI/BA, 2004).

O “boom” dos charutos aumenta a procura dos fumos escuros para enchimento e capa,
porém, convém assinalar que as quantidades necessárias para a fabricação de charutos são
ínfimas em relação aos volumes consumidos pela indústria dos cigarros: 100 toneladas
permitem produzir milhões de charutos, grandes e pequenos; o impacto do “boom dos
charutos”, portanto, em termos de quantidade produzida é relativamente pequeno. Mesmo
assim cresce a produção de fumos para charutos em muitos países. Nos Estados Unidos a
folha connecticut ganha fama e até chega a ser importada pelos fabricantes da Bahia! O
Equador passa a produzir ótimas folhas connecticut e sumatra e conquista mercados
externos. Aumenta também a produção em outros países do Caribe como a República
Dominicana – isso a partir dos anos 60 devido ao embargo contra Cuba – e da América
Central tais quais o Honduras, a Nicarágua e o México (VOILACIGARS, 2004). Existem
outros países produtores de fumos escuros para charutos que se apresentam como grandes
concorrentes do Brasil: Camarões e Filipinas (DENIS, 2004).

3.2.4. Síntese - Periodização da cultura do fumo no Nordeste

A síntese dos dados da produção nordestina no período 1945-2003 permite discutir a


relação entre crises e decadência (ver gráfico 7).

Para simplificar a leitura do gráfico 7, arredondamos os dados e colocamos duas fases


gerais, uma resumindo os anos 1945-1975 e outra com dados anuais de 1976 a 2002.

Assim, o período apresenta cinco fases. A primeira, de 1945 a 1975, é de estabilidade,


com uma produção média de 48 t. ao ano, excluindo-se as pequenas variações anuais por
fatores climáticos, técnicos ou econômicos. As produções da Bahia e de Alagoas
completam-se.

A segunda fase corresponde a uma crise de superprodução de 10 anos, entre 1975 e


1985. As produções baianas e alagoanas somam-se, chegando o pico ao absurdo de 86 mil t.
em 1982. A oferta é de muito superior à demanda e, como já dissemos, o mercado regula a
53

produção que volta ao seu nível médio anterior. Mas, como também vimos, é uma fase de
mudança radical nas estruturas da produção, passando toda a produção de corda da Bahia e
parte da de folha para o Estado de Alagoas.

A crise deixa então marcos profundos e se a terceira fase, que dura 12 anos, de 1985 a
1997, é de relativa estabilidade, há uma leve tendência ao declínio, decorrente da
diminuição da demanda em fumos escuros para cigarros no mercado internacional.

GRÁFICO 7

PERIODIZAÇÃO DA PRODUÇÃO DE FUMO NO NORDESTE (BA+AL)

1945-2002 - Mil toneladas arredondas

resumo variações anuais

86
79 77
69
65 60
58 58
52 50 47
47 45 46 47 44 44
42 44
tendência 37 39
34 30 34 35 35 32
Estab 23
Crise de 21 18
30 15
superprodução Estabilidade relativa 12 anos
Crise
anos 10 anos Estab. ?
3 anos
1945

1965

1976

1978

1980

1982

1984

1986

1988

1990

1992

1994

1996

1998

2000

2002

Fontes: IBGE, ABIFUMO, AFUBRA, GAZETA, SEAGRI/BA, SEPLAN/AL, Pesquisa de campo.


54

Assim prepara-se a crise que ocorre na quarta fase, de 1998 a 2000. Mas o mercado
externo é apenas um elemento desta crise, já que se combina com a queda da demanda do
fumo de corda no mercado interno. No caso, a lei antifumo de 1996, involuntariamente,
favorece o desenvolvimento do consumo de cigarro de contrabando que prejudica o
consumo de fumo de corda no Brasil e a produção deste.

Estamos hoje na quinta fase que é, talvez, de estabilidade, mas por quantos anos?

A produção de fumo de corda baseia-se num sistema de comercialização ultrapassado. É


praticamente o mesmo sistema que existia durante o período colonial. É baseado no
individualismo, na especulação e manipulação dos preços que faz com que existe uma
grande disparidade de volume e de valor produzido, de um ano para outro. Enquanto havia
muito fumo, ou seja, muitos produtores, muitos comerciantes e muitos consumidores, até
que esse sistema podia ainda existir. Entretanto o mundo mudou e, hoje, com a retração do
mercado, o sistema não é mais sustentável. Isso significa que, para que permaneça a
cultura do fumo, de corda e de folha, há de mudar os modos de comercialização a fim de
reestruturar a produção com o objetivo de estabilizar a oferta e os preços, escoar mais
facilmente os produtos. Em suma, trata-se de modernizar a produção de um produto
tradicional e essa mudança, a nosso ver, só poderá se realizar se for feita em nível coletivo,
isto é, mediante a associação e acordo de todos os atores da cadeia produtiva. É isso
possível?

Existe ainda um pequeno mercado para o fumo em folha, principalmente para os


charutos, e acreditamos que dificilmente acabará, o que deixa supor que poderia
permanecer essa lavoura por muitos anos pelo menos na Bahia.

A França, a Espanha e a África do Norte são os principais consumidores de fumos


escuros para cigarros. Os ex-monopólios estatais francês e espanhol – a SEITA e a
TABACALERA – criaram alguns anos atrás uma empresa comum: a ALTADIS. Esta
comprou este ano o monopólio dos tabacos de Marrocos e, sem dúvida, tentará adquirir os
monopólios da Argélia e da Tunísia (ENTREVISTAS). Isso significa que a ALTADIS
estaria se transformando em principal multinacional para o comércio dos fumos escuros.
Pode ser uma vantagem, na medida em que poderia controlar os mercados e consolidar a
oferta, incluindo a produção na Bahia e em Alagoas. Por outro lado, poderia influir
55

negativamente na produção nordestina, deixando a região para outra mais vantajosa, se os


produtores daqui não satisfaçam suas necessidades.

Mas o maior problema atual é a descoberta recente da presença no fumo de


nitrosaminas, substâncias muito cancerígenas, também existentes em produtos alimentícios
defumados. No caso do fumo de Arapiraca registraram-se teores altíssimos, até 20 vezes
superiores ao máximo estabelecido pelas autoridades sanitárias. Soubemos que a
ALTADIS não vai comprar fumo de Arapiraca este ano e o futuro da produção de fumo em
folha está comprometido. A solução está na pesquisa agronômica e química e temos que
aguardar os primeiros resultados para saber se essa cultura poderá continuar nesse Estado.

3.2.5. Noções de ciclo, crise e decadência

Em economia ou história quantitativa, poderíamos pormenorizar a análise da curva


separando o período, sobretudo entre 1975 e 2002, em ciclos Kondratieff, Juglar ou
Kitchin com seus respectivos momentos de expansão, depressão e recuperação. Talvez isso
ajudasse a aprimorar a compreensão das crises. Contudo, faltam ainda muitas informações,
quantitativas e qualitativas, que permitam tal metodologia.

Por enquanto, vemos que a tendência – ou movimento secular – de 1945 a 2002 é o


declínio. Contudo, não se trata de uma lenta descida, mas sim, em final de período, de uma
crise brusca e profunda, pois até 1997 a produção consegue manter o mesmo nível mínimo,
próximo do que era no início do período.

Em outras palavras, se a decadência corresponde a uma realidade geral, comparando os


dois extremos do período, em nenhum caso é adequada a palavra para os anos anteriores a
1997. Até poderíamos falar de crescimento entre 1976 e 1982 se não fossem as condições e
conseqüências do aumento da produção.

Nota-se, sim, a existência de duas crises estruturais maiores que envolvem tantos os
lugares de produção quanto os volumes e tipos de fumo produzidos.

A primeira crise (1975-1985) leva ao sumiço da cultura do fumo de corda da Bahia sem
atingir totalmente o setor do fumo em folha. Não se trata de decadência mais de termino
56

puro e simples de uma cultura tradicional e secular; se fosse uma empresa falaríamos em
“falência”.

Hoje, os agentes da cadeia produtiva bem como as pessoas vinculadas à economia dos
Estados da Bahia e Alagoas consideram que a fumicultura está em decadência sem
perceber que se trata de uma nova crise, de certa forma “anunciada” pela primeira. Não
conhecemos suas conseqüências, pois estamos ainda vivendo a situação; apenas podemos
especular sobre o futuro da fumicultura nordestina. Assim acreditamos que ainda por
muitos anos haverá necessidade de fumos em folha nordestinos no mercado internacional,
para charutos, cigarros e misturas, embora o volume dificilmente puder ultrapassar 2 ou 3
mil toneladas. No que diz respeito ao fumo de corda, é mais provável que o cultivo
desaparecerá progressivamente.

4. CONCLUSÃO

Mostrar a realidade dos fatos e destruir os mitos faz parte do papel do economista, ou do
historiador-economista, para trazer uma melhor compreensão dos mecanismos que regem
um setor de atividade e contribuir com uma adaptação mais suave às mudanças necessárias
para a melhoria das condições de vida das populações. É pelo menos o que tentamos fazer.

Assim, a decadência da cultura do fumo no Nordeste é ao mesmo tempo um mito e uma


realidade. É uma realidade porque, efetivamente, houve diminuição da produção de fumo
de corda, do fumo em folha e das exportações entre o final da segunda guerra mundial e
hoje. No entanto, é também um mito porque foi se repetindo anos após anos que a cultura
estava em decadência em época em que não era. Justifica-se essa percepção apenas pelo
seu caráter local ou setorial e circunstancial, quando cai a produção em determinado lugar
e de determinado produto. Mas de maneira global, isto é, a nível regional, a evolução da
fumicultura apresenta-se diferentemente. Com efeito, o que se considerava como
“decadência” era, na verdade, crises estruturais de grande importância e não se pode
confundir crise com decadência. A construção do mito deve-se, tanto pelos atores quanto
pelos autores de teses, ao fato de ter considerado os problemas de forma parcial e,
sobretudo, não ter considerado a estreita ligação entre os Estados da Bahia e de Alagoas; as
57

análises que se fizeram até agora não conseguiram agregar os inúmeros elementos e fatores
que contribuíram nas crises e finalmente para a decadência da cultura do fumo nordestino.

Por outro lado, esse estudo mostra que não podemos limitar-nos a simples análises
quantitativas e que múltiplas razões econômicas nacionais e internacionais, técnicas,
fiscais, legislativas e também sociais e psicológicas interferiram na evolução da
fumicultura tornando extremamente complexa a análise da questão. Os movimentos
nacionais e mundiais que influíram sobre o declínio são importantes e resultou deles a
queda simultânea do consumo global do fumo, dos cigarros de fumos escuros e do fumo de
corda.

As estruturas da produção, e suas mudanças, porém, intervieram de maneira inelutável


nas duas crises que castigaram a produção entre 1980 e hoje. A concentração da produção
de corda em Alagoas e a transferência de parte da produção da Bahia para o mesmo
Estado, sem dúvida, foi o fato decisivo para o termino da fumicultura no Nordeste.

A mistura dos segmentos dos fumos para corda, cigarros e charutos, até chegando a ser
produzido numa só planta como acontece em Alagoas, com suas respectivas relações de
produção, técnicas e práticas comerciais, impossibilitou qualquer forma de organização e
planejamento da produção por parte dos órgãos agrícolas, e até das empresas e dos
produtores, prejudicando o desenvolvimento diferenciado de cada um desses segmentos.

A maior parte da produção nordestina mergulhou num sistema de produção arcaico,


baseado num produto tradicional herdado da época colonial, onde quem regia as
quantidades de todo o setor era um grupo de atravessadores e especuladores. Isso provocou
a perda da qualidade do fumo considerado Brasil-Bahia, da reputação internacional e
nacional deste, e impediu a volta a qualquer forma de produção estruturada, em particular
na Bahia para a produção e fabricação de fumos e charutos aceitos, com a mesma demanda
do que antigamente, nos mercados nacionais e internacionais.

Não adianta culpar hoje os empresários, os agricultores, as multinacionais ou os poderes


públicos pela situação atual. Todos têm um pouco de responsabilidade. Todos reagiram em
função do contexto da época e dos interesses respectivos.

O que importa hoje é que a crise do fumo atinge profundamente Arapiraca e sua região:
numa rápida avaliação, perderam-se uns 25 mil empregos na zona rural e 8 ou 10 mil na
indústria e no comércio, no espaço de cinco anos.
58

Isso significa que o fumo ocupou um espaço dominante na economia de Arapiraca e


teve uma influência primordial sobre a formação da sociedade local e sua organização. A
crise deveria ser o revelador desse processo histórico.
59
60

CAPÍTULO 3: A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE


ARAPIRAQUENSE

No primeiro capítulo, falamos de volta ao tribalismo como conseqüência e paradoxo da


globalização. Mas seria um nova forma de tribalismo e não o comunismo primitivo de
Marx. Até ainda podemos pensar que a fragmentação das nações e regiões em territórios
múltiplos desemboque em uma nova forma de feudalismo pela economia autárquica e a
importância dos poderes locais.

A sociedade arapiraquense – e por extensão da RFA – tem seus fundamentos na


colonização e evolução do século XIX. Apresenta, como em muitas partes do Nordeste,
rastros organizacionais daquelas épocas. São alicerces sobre os quais o tempo parece ter
tido uma influência relativa na medida em que grupos e mentalidades se mantiveram nas
atuais relações de produção no campo aos passos que se introduziram, parcialmente, no
campo e na cidade, as relações capitalistas.

Em outras palavras, no seu processo histórico de formação, a sociedade local teria


integrado aos poucos às estruturas tradicionais os elementos da sociedade tecnológica, para
chegar a um agregado – é cedo demais para falar de sistema – extremamente complexo.

Falar em organização da sociedade arapiraquense ainda é prematuro no estado atual de


nossa pesquisa. No entanto, podemos avançar algumas hipóteses.
61

1. COMPLEXIDADE DA SOCIEDADE LOCAL

Na zona rural, a economia de subsistência, formada pelo grande número de micro e


pequenos produtores no campo, define-se pelas relações pré-capitalistas através da figura
do atravessador – similar ao manufatureiro-comerciante da época mercantilista – presente
há décadas na cultura de fumo e que se mantém na produção recente de hortaliças, e pelas
mentalidades que são o empirismo, o conservadorismo, a marca do sagrado e do profano
(ROCHER, 1968, V2).

As relações capitalistas no campo caracterizam-se pelo sistema de “parceria” – ou


sistema integrado – em que o produtor e a empresa estabelecem um “contrato” de
fornecedor e comprador, incluindo assistência técnica e financiamento. É praticado pelas
exportadoras de fumo em folha, o grupo Coringa, a Luna Avícola, entre outras empresas da
região. Muitos consideram o sistema como uma forma de proletarização disfarçada do
camponês, o que não deixa de ser verdade, mas ele apresenta aspectos positivos na medida
em que o produtor pode organizar-se, planejar e até ser “empresário agrícola”. O que vale
mais? Depender do atravessador com uma produção de qualidade e preço aleatórios ou
depender da empresa com produto de qualidade e preço certo?

Na RFA, coexistem ambos os sistemas. Isso é mais saliente na cultura do fumo onde os
agricultores de dividem em três categorias, conforme o tipo de fumo produzido,
independentemente de serem considerados da Agricultura Familiar ou não.

A grande maioria dos fumicultores (+ ou – 75%) só produz o fumo de corda que vende
aos atravessadores, também chamados de “ambulantes”, e permanece no sistema pré-
capitalista ou mercantil da época colonial.

Outros (+ ou – 20%), além do fumo de corda, entraram no sistema de parceria,


vendendo o fumo em folha no pé (para capa de charuto) ou depois da secagem (para
enchimento de cigarros). Constituem uma categoria intermediária, parcialmente capitalista,
mas com tecnologia limitada.

A introdução recente do cultivo dos fumos claros ou “brancos” trouxe na região a


cultura moderna ou de alta tecnologia. Em princípio, os agricultores (+ ou – 5%) dedicam-
62

se exclusivamente a esse tipo de fumo. Estão totalmente no sistema de relações


capitalistas.

Juntam-se a estes produtores aqueles que estão em outros setores agrícolas e praticam
uma agricultura diversificada ou a pecuária; são médios e grandes produtores, fazendeiros,
com recursos próprios ou acesso fácil ao crédito; são empresários: é o agronegócio. É o
setor que recebe mais ajuda do governo federal. Em 2003, foram liberados 32,5 bilhões de
reais para a agricultura por meio do Plano Agrícola e Pecuário, sendo 27 (83%) destinado
ao agronegócio e 5,4 (17%) para a Agricultura Familiar, apesar de esta gerar “7 de cada 10
emprego no campo”, segunda apostilha do Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento.

Considerando apenas essas categorias, haveria de saber como se estruturam as relações


sociais que não se reduzem aos modos de produção, mas incluem também as relações
familiares ou de parentesco, os agrupamentos de interesses diversos tais quais as
associações comunitárias ou profissionais, os partidos políticos etc. Haveria de esclarecer
as noções de estatutos, prestígio (produtor de cana de açúcar, criador de gado), as
aspirações reais de cada uma para melhorar de vida e os meios que as pessoas estão prontas
para utilizar para esse fim. Haveria de analisar como o grau de escolaridade e formação
profissional interfere nessas relações.

Na cidade, as estruturas são ainda mais complexas na medida em que as atividades, ou


categorias sócio-profissionais, são diversificadas, como veremos mais adiante.

Partindo do conceito de “rurbanidade”, podemos pensar que também se estabeleceram


na zona urbana relações “mercantilistas”, ou seja, pré-industriais às quais se acrescentaram
alguns elementos de capitalismo, de tecnologia. Logicamente, o comércio deveria superar a
indústria. A análise da repartição da riqueza oriunda do fumo entre o campo e a cidade,
entre as diferentes categorias sócio-profissionais urbanas, deveria esclarecer um pouco o
processo de formação da sociedade local.
63

2. ONDE FOI O DINHEIRO DO FUMO?

A comparação do faturamento teórico do produtor e da empresa de fumo desfiado


quando da mudança quantitativa de produção mostra a desvantagem que leva o produtor
em relação à empresa e, de certa forma, como se formou a sociedade econômica
arapiraquense.

Não levamos em consideração os custos de produção (impossíveis a avaliar nessa


discussão) nem o papel dos atravessadores que resgatariam parte do lucro das empresas.

2.1. Faturamento teórico global entre produtor e empresa

Na tabela 2, consideramos dois anos A e B com produção similar à dos anos 2003 e
2004.

No ano A, a oferta de fumo de corda é fraca, 6 mil toneladas e, em conseqüência, a


procura é alta, a concorrência forte e o preço médio oferecido alto: R$ 10,00 o quilo. O
valor da produção é então de 60 milhões de reais, o que corresponde ao faturamento do
agricultor.

Supomos que todo o fumo seja desfiado e empacotado por uma empresa. As 6 mil
toneladas permitem produzir 150 milhões de pacotinhos de 40 gramas (o peso líquido é na
verdade de 36 ou 38 g) que, vendidos a R$ 1,00 a unidade, dão um faturamento de 150
milhões de reais, quase três vezes superior ao do agricultor.

No ano B, o alto preço do fumo precedente anima o agricultor que dobra sua produção.
Mas o aumento da oferta tem um efeito sobre a demanda e cai o preço médio para R$ 5,00.
Assim, o faturamento do agricultor é igual ao do ano anterior enquanto aumentou suas
despesas em insumos, terra ocupada e tempo de trabalho e, consequentemente, diminuiu
sua renda líquida.
64

TABELA 2: FATURAMENTO TEÓRICO DO AGRICULTOR E DA EMPRESA


NA REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA
AGRICULTOR PRODUÇÃO CORDA PREÇO MÉDIO VALOR DA PRODUÇÃO
KG R$ R$
ANO A 6.000.000 10,00 60.000.000
ANO B 12.000.000 5,00 60.000.000

EMPRESA FUMO DESFIADO


Nº de pacotinhos de 40 g
ANO A 150.000.000 1,00 150.000.000
ANO B 300.000.000 1,00 300.000.000
FONTES: pesquisa de campo, 2004

A empresa dispõe este ano de mais fumo, 12 mil toneladas, com as quais fabrica o
dobro do número de pacotinhos em relação ao ano anterior e também fatura duas vezes
mais, ou seja, 300 milhões de reais e cinco vezes mais do que o agricultor.

Dessa forma, vemos que a variação da produção de fumo de corda tem uma
conseqüência global e natural no volume e na circulação do dinheiro na região (diminuição
ou aumento). A repartição do valor, porém, é desigual.

2.2. A repartição do valor da produção de fumo entre os agricultores

Em pesquisa de campo realizada junto a 80 estabelecimentos rurais de fumo,


delinearam-se várias categorias de produtores.

Os de grande porte (não consultados porque se encontram dificilmente na roça) plantam


entre 20 e 40 tarefas (7-13ha.), mas eles não são unicamente agricultores. A maior parte
deles tem um comércio na cidade sem vinculo nenhum com o setor agrícola ou outra
atividade principal. Empregam muitos trabalhadores rurais e eles mesmos não trabalham
diretamente a terra. Nesse caso é difícil avaliar o tamanho real da propriedade bem como a
renda familiar, isto é, a proporção que representa o fumo e as outras atividades no
empreendimento. É possível ver à beira das estradas campos de fumo que se estendem até
o horizonte, cobrindo mais de 40 ha., que são terras arrendadas divididas entre 5, 6 ou 7
65

proprietários. Nesta categoria entram as empresas, principalmente de fumo de corda


desfiado, que possuem grandes extensões de terra, cultivam as mesmas diretamente ou as
arrendam. Uma empresa, por exemplo, tem 110 tarefas, arrenda 80 e planta 30.

A primeira categoria estatisticamente considerada inclui alguns muito grandes


produtores que plantam entre 20 e 40 tarefas (7-13 ha.); diferenciam-se da categoria
anterior pelo fato deles viverem no campo e trabalharem diretamente a terra. Utilizam a
mão-de-obra familiar, às vezes na base do mutirão e, eventualmente, trabalhadores rurais
em função das etapas da lavoura. Representam 11,3% da amostra.

Os grandes agricultores (11,3%) plantam entre 10 e 19 tarefas (3 a 6ha.). Utilizam


essencialmente a mão-de-obra familiar e ocasionalmente um ou dois trabalhador rural. Os
médios (27,5%) plantam entre 5 e 9 tarefas (1,6 a 3,3 ha.), com mão-de-obra familiar. Os
pequenos (50%) plantam entre 1 e 4 tarefas (0,3 a 1,3 ha.), sozinhos e com mão-de-obra
familiar. A média geral de área cultivada com fumo é de 2,8 ha. Vê-se que a grande
maioria dos fumicultores se situa abaixo de 10 tarefas (3 ha.), sendo a metade na categoria
que vai até 4 tarefas.

Nota-se que essa classificação difere um pouco das estatísticas do IBGE ou de outras
pesquisas porque consideramos apenas os produtores de fumo. OLIVEIRA (2004), por
exemplo, realizou outra pesquisa de campo em Arapiraca com os estabelecimentos onde há
fumo e outras lavouras. Aqueles de até 5 ha. (15 tarefas), representam 75%, de 5 a 10 ha.
(15 a 30 tarefas), 16,5%, de 10 a 20 ha. e mais de 20 (30 a 60 tarefas), 9,2%.

A produção máxima segundo a maior parte dos informantes é de 3 bolas por tarefas, ou
seja 900 kg/ha., o que é um rendimento relativamente baixo. Mas a maioria não consegue
isso, chegando apenas a 2 bolas quando não for 1,5 ou 1 só como no ano passado,
chegando o rendimento a 300 kg/ha.

Daí calcula-se a renda bruta média entre as diferentes categorias na base de um preço de
5 reais (Ver tabela 3).
66

TABELA 3: FATURAMENTO TEÓRICO E RENDA BRUTA MENSAL,


POR CATEGORIAS DE PRODUTORES
PRODUTOR N. DE ÁREA RENDI- PRO- PREÇO FATURAMENTO RENDA
BRUTA
ESTABELE- MENTO DUÇÃO MÉDIO
MENSAL
CIMENTOS MÉDIO TOTAL

N abs. % Tarefas Tarefas KG KG R$ R$ % R$


mini média
maxi
MUITO GRANDE 9 11,3 20-40 30 200 6.000 5 30.000 55 2.500
GRANDE 9 11,3 10-19 15 200 3.000 5 15.000 28 1.250
MÉDIO 22 27,5 5-10 7,5 200 1.500 5 7.500 14 625
PEQUENO 40 50,0 1-4 2 200 400 5 2.000 4 167
TOTAL 80 100,0 10.900 54.500 100
FONTES: Pesquisa de campo, 2004

Nesse cálculo, constatamos que 83% da renda do fumo ficam na mão de 22,6% dos
produtores e 4% somente em posse de 50% dos produtores que nem conseguiriam ter um
salário mínimo de renda bruta mensal. Imaginamos o que seria a renda real, descontados os
gastos em eventuais adubos e terra arrendada, em horas trabalhadas, A repartição seria
ainda mais desigual se incluíssemos a produção dos agricultores de grande porte que
indiretamente são produtores de fumo e de que falamos acima.

Então, considerando o faturamento teórico global, permanece a quantia de dinheiro


quase a mesma na zona rural, independentemente do volume produzido, pela variação do
preço médio. Mas a repartição interna do valor gerido deixa o pequeno agricultor, isto é, a
maioria, sempre nas mesmas condições de vida, sem possibilidade de melhoria, em
particular de investir em terra, maquinaria, tecnologia ou atividades alternativas.
67

2.3. A riqueza na zona urbana.

Conforme a tabela 2, o volume do dinheiro na zona urbana aumenta consideravelmente


em relação à zona rural, em qualquer circunstância, devido à transformação industrial da
matéria-prima e o produto que é vendido dentro e fora do município. Conhece variações
em função das oscilações da produção, mas quando aumenta a oferta, a empresa lucra duas
vezes, primeiro na compra da matéria-prima, porque oferece um preço menor e, segundo,
no faturamento, porque vende o produto manufaturado pelo mesmo preço enquanto
diminui seu custo de produção; o lucro proporciona investimentos, inclusive na
diversificação dos setores de atividade.

Embora o raciocínio seja baseado numa situação meramente teórica, ele permite
entender que a riqueza do fumo ficou quase sempre transferida do campo para a cidade,
mantendo a zona rural em situação sócio-econômica de estagnação, ao passo que crescia a
zona urbana. A indústria atraiu o dinheiro de fora pela venda de seu produto, aumentou o
volume e a circulação interna, fortaleceu e ampliou as atividades econômicas e melhorou o
padrão de vida da população urbana.

Nota-se aqui que o fumo vendido em corda teve um efeito similar, ainda que de menos
importância, pois o preço é apenas um pouco superior ao preço pago ao agricultor e de
muito inferior ao do produto manufaturado. Seria talvez em torno de 12 e 7 reais,
respectivamente, nos anos A e B.

Analisando os dados recentes, podemos ver que a variação da produção de fumo influi
na economia geral do município através da evolução da arrecadação do ICMS.

Na tabela 4, observamos que o valor do imposto em Arapiraca é relativamente estável


entre 1999 e 2002 apesar de uma pequena queda; se levássemos em consideração a
inflação, esta diminuição seria maior. Pormenorizando, o ICMS conheceu uma queda em
2000 e 2001 (-10% e -7%) e teve uma pequena recuperação em 2002 (+14%). Isso seria o
reflexo da produção do fumo nos anos anteriores onde se constata um movimento similar
com uma queda em 1999 (-38%), e 2000 (-49%) e uma recuperação em 2001 (+84%).
Também vemos que, com o aumento da produção de fumo, aumenta a participação de
Arapiraca na arrecadação do ICMS estadual, pois está acima de 3% em 1999 e 2002 e em
torno de 2,5% nos anos de queda.
68

TABELA 4: COMPARAÇÃO DA EVOLUÇÃO DO ICMS ARRACADADO EM ARAPIRACA E A


PRODUÇÃO DE FUMO – 1998-2002
ARAPIRACA REGIÃO Taxa de Taxa de %
FUMAGEIRA
crescimento crescimento Arapiraca/Estado
ANO ICMS (R$) FUMO (t.) ICMS FUMO ICMS
1998 21.053
1999 13.430.490,72 13.151 -38 3,4
2000 12.114.872,89 6.670 -10 -49 2,4
2001 11.317.807,03 12.281 -7 +84 2,5
2002 12.934.937,80 8.772 +14 -29 3,1
FONTES: SEPLAN/AL, Pesquisas de campo

Agora é fácil imaginar o que representou a riqueza do fumo quando a produção era de
30 mil toneladas na região fumageira e 15 mil no município de Arapiraca (anos 70 e 80). A
atividade teria gerido anualmente, na mesma base de cálculo, mais de 1 bilhões de reais,
cabendo a metade “somente” em Arapiraca. Mesmo sendo a cifra muito inferior, e pagando
apenas 10% de impostos, o setor do fumo, sozinho poderia ter realizado quase todo o
orçamento da prefeitura municipal!

No entanto, por causa da informalidade patente da economia alagoana (70 a 80%), o


setor público, ou seja, a administração municipal não recebeu todos os devidos benefícios
da cultura fumageira pela falta de arrecadação de impostos.

Isso significa que a prefeitura de Arapiraca (e dos municípios vizinhos) deixou de


recolher recursos que teriam permitido a melhoria das infra-estruturas urbanas e rurais e
atrair mais empresas e indústrias, gerando empregos e renda, desenvolvendo de forma
geral a economia e as condições de vida da população. Boa parte dos problemas tais quais
a mortalidade infantil, o analfabetismo, a pobreza poderiam ter sido parcialmente
resolvidos. Destarte, a população urbana, bem como a rural, permaneceu em nível sócio-
econômico extremamente baixo.

Nota-se que a informalidade - ou não cobrança de impostos – ao contrário do que


muitos pensam, não gera riqueza, mas sim, pobreza. A desproporção do setor informal é
responsável pelo aumento da carga tributária no setor formal, prejudicando a geração de
empregos e renda e o crescimento econômico local e nacional. Se acrescentarmos ao caso
69

de Arapiraca a situação dos mais de 5.500 municípios brasileiros, num processo piramidal,
aumenta a dívida pública dos estados e externa do país. Isso gera ainda mais dependência
(FMI) e desigualdade social (GONÇALVES/ POMAR, 2000 e 2002).

Com a crise do fumo que se delineou no decorrer da década de 90 e, sobretudo a partir


de 1998, mostrando uma queda de 70% da produção, agravaram-se o desemprego e a
pobreza no município. Mesmo assim, aumentou a riqueza, pois cresceu o PIB per capita
passando de 1.475 para 1.667 e 2.376 dólares nos anos 1991, 1996 e 2000. A taxa foi de
+13% entre 1991 e 1996 e +42,5% entre 1996 e 2000, sendo esta última superior à taxa
constatada no Estado de Alagoas no mesmo período (Ver tabela 5).

TABELA 5: EVOLUÇÃO DO PIB PER CAPITA EM ARAPIRACA E ALAGOAS


ARAPIRACA ESTADO
ANO US$ Taxa de crescimento % US$ Taxa de crescimento %
1991 1.475,13 1151,66
1996 1.667 +13 2361 +105
2000 2.376 +42,5 2488 +5,4
FONTE: IBGE

Essa situação paradoxal é um forte índice de que a repartição do dinheiro do fumo foi
desproporcionada e que apenas uma pequena faixa da população se aproveitou realmente
da riqueza que, conforme o faturamento teórico que descrevemos, apesar da crise
fumageira, continuou existindo. Escavou-se então o abismo entre os mais ricos e os mais
pobres. Uma grande parte da população, hoje mais carente, de baixa renda ou sem renda
nenhuma, ficou assim excluída do processo de desenvolvimento que a cultura do fumo
desencadeou e a percentagem que representa em constante aumento.

Apesar disso, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) teria


consideravelmente melhorado em Arapiraca, com um aumento de 38,7% entre 1991 e
2000. No Estado de Alagoas, em comparação, teria sido menor com um aumento de
somente 18,3%. Lembramos que o IDH varia de zero (nenhum desenvolvimento humano)
a um (desenvolvimento humano total) e agrega no cálculo a esperança de vida, a taxa de
alfabetização e a renda per capita. Mas pensamos que essa evolução se deve a uma
mudança de metodologia na elaboração do IDH, pois, no mesmo período, o crescimento
70

médio na região fumageira de Arapiraca foi de 74,4%. Chega a +94% em Lagoa da Canoa,
o que parece fora da realidade. Pensamos que, para melhorar o índice, muitos municípios
tenham matriculado oficialmente um grande número de alunos nas escolas, sem levar em
consideração a qualidade do ensino e a evasão escolar; ainda haveria de contabilizar o
número de pessoas que deixaram a escola depois da 3ª ou 4ª série, esqueceram tudo, isto é,
ler e escrever, e voltaram a ser analfabetos... (Ver tabela 6).

TABELA 6: EVOLUÇÃO DO ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO


MUNICIPAL (IDH-M)
1991 2000 Taxa de crescimento %
Arapiraca 0,473 0,656 +38,7
Média RFA 0,328 0,572 +74,4
Estado de Alagoas 0,535 0,633 +18,3
FONTES: SEPLAN/AL

A crise fumageira mais recente, nos últimos oito anos, acarretou novos problemas
principalmente urbanos.

Em pano de fundo há o crescimento demográfico. Entre 1996 e 2000, a população


passou de 173.339 para 186.466 habitantes, ou seja, com uma taxa de crescimento de
+7,6%, quase o dobro da taxa do período 1991-1996. A população urbana que representava
80% alcançou 82%, tendo um crescimento de 10,2% (Ver tabela 7).

Segundo estimativas, a população era de 193.103 habitantes em 2003, apresentando


uma taxa de crescimento de +3,6%. Isso significa que em cada dia desses três anos
apareceram seis novas pessoas para nutrir, vestir e a quem fornecer moradia, educação,
emprego etc. E não há como a tendência recuar.

O desemprego na agricultura trouxe para a cidade novos moradores que se aglutinaram


em favelas, tal a do Caboje no centro de cidade, e outra sem nome no bairro Conjunto
Mangabeiras (AT, 9 e 36). A maior parte veio da zona rural de Arapiraca e dos municípios
vizinhos.

A violência cresceu: agressões, furtos e roubos, embriaguez e brigas, tráfico de drogas,


etc. Entre 2002 e 2004 houve um aumento de 50% das ocorrências nos cincos bairros mais
71

afetados, passando de 439 para 660 o número de casos, sendo mais da metade constatados
no Centro, e o ano 2004 ainda não terminou... (AT, 38/2004).

O Conselho Tutelar e Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente também


registra o aumento de 36% nos atendimentos, no mesmo período. O “direito à convivência
familiar e comunitária” é que domina com 66% dos casos.

As doenças sexualmente transmissíveis (DST) parecem estar em progresso. Em 1998,


foram notificados 51 casos de “sífilis não especifica” (SEBRAE/AL, 1999) e hoje,
oficialmente, são 70 casos de AIDS (Agência de Notícia da AIDS, 2004). Mas muitos
doentes não comunicam o fato, outros nem fazem o teste enquanto a maior parte da
população, inclusive aqueles que têm acesso à educação, tem relações sexuais sem
camisinha... É assustador! Talvez seja mais de 300 o número de pessoas contaminadas no
município...

O trânsito é cada vez pior porque a prefeitura não conseguiria acompanhar o


crescimento “selvagem” da população (AT, 38/2004).

São assim inúmeros problemas administrativos crescentes, sempre mais agudos, que o
governo municipal – e estadual – tem que enfrentar, sem ter os recursos suficientes para
isso, já que o fumo não injeta tanto dinheiro quanto antes, mesmo sendo este na economia
informal.

TABELA 7: EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DE ARAPIRACA 1991-2003


POPULAÇÃO % Taxa de Taxa de
crescimento % crescimento %
ANO URBANA RURAL TOTAL URBANA TOTAL URBANA
1991 131.449 33.930 165.379 79
1996 138.243 35.096 173.339 80 +4,8 +5,2
2000 152.354 34.112 186.466 82 +7,6 +10,2
2003* 193.103 +3,6
*estimativa
FONTES: IBGE, SEPLAN/AL
72

3. TENTATIVA DE AVALIAÇÃO DA REPARTIÇÃO SÓCIO-PROFISSIONAL DA


POPULAÇÃO DE ARAPIRACA

É quase impossível, pela falta de informações adequadas, saber com exatidão quais são
as atividades da população de Arapiraca. Como incluir o setor informal, os inativos,
aqueles que vivem de bico, os desempregados reais, os ociosos? No entanto vamos tentar
uma avaliação juntando dados e cálculos, por mais arbitrárias que sejam determinadas
classificações e aleatórios os resultados.

Arapiraca representa pouco mais de 8% da população do Estado. Oferece sensivelmente


as mesmas percentagens do que o Estado pelo sexo e as faixas etárias.

Partindo deste princípio, podemos arriscar dizer que os dados relativos à população
economicamente ativa em Arapiraca são parecidos aos do Estado. Em Alagoas, no ano
2002, 54% da população total eram ativos, 63% viviam em zona urbana e 61% eram de
sexo masculino, tendo 88% dos homens entre 25 e 49 anos (SEPLAN/AL, 2003). Em
Arapiraca, a população ativa contaria então, em dados arredondados, em torno de 100.000
indivíduos, sendo 63.000 na zona urbana, 61.000 homens e 55.000 deles com idade entre
25 e 49 anos.

Arapiraca também representa entre 8% e 9% da atividade econômica estadual em


termos de número de estabelecimentos, mas somente de 4% a 4,5% no que diz respeito ao
número de empregados, mostrando o dado a desocupação de parte da população
arapiraquense (subemprego) (Ver tabela 8).

TABELA 8: PARTICIPAÇÃO DE ARAPIRACA NO SETOR EMPRESARIAL


Ano Número de empregados Número de estabelecimentos
Arapiraca Estado % Arap/Est Arapiraca Estado % Arap/Est
1999* 11.478 253.468 4,5 2.920 33.326 8,8
2000* 12.013 272.183 4,4 1.158 14.087 8,2
2001** 12.549 316.015 4,0 3.129 35.417 8,8
FONTES: SEPLAN/AL, Anuários 2002* e 2003**
73

A contribuição do município no ICMS estadual é de apenas uns 3%, ilustrando a


fraqueza ou falta de dinamismo da economia local. Ambos os dados ainda podem ser um
indicador da importância da economia informal: pessoas que trabalham sem carteira
assinada e sonegação de impostos. A livre venda de CD piratas é apenas uma amostra
dessa prática.

Em 1999, o setor informal representava no Estado de Alagoas 86,8% da agricultura,


72,4% dos serviços e 60,5 % da indústria; por setor, apenas a administração pública, os
serviços sociais e os transportes e comunicação apresentavam uma taxa de formalidade
superior a 75%. (LIRA, 2004).

Em dados oficiais, pelo número de pessoas empregadas, o comércio (29,9%), a


administração pública (26,0%)6, a indústria de transformação (21,2%) e os serviços
(18,9%) agregam 96% da população ativa de Arapiraca (89% no Estado).

No entanto, para quem vive em Arapiraca é fácil perceber que a vida sócio-profissional
da cidade é muito diferente desse retrato estatístico oficial, pelo número de feirantes, de
ambulantes e estudantes que circulam pelas ruas, pelo forte sentimento do desemprego
devido a pouca oferta de trabalho, pela escassez de dinheiro.

Apesar da carência e incerteza das informações, tentamos avaliar a repartição da


população arapiraquense em função de todas as atividades, incluindo os inativos e os
estudantes. Agregamos dados oficiais de várias fontes, fizemos algumas estimativas e
cálculos; não foi possível extrair o setor informal (Ver tabela 9).

Assim, por volta de 2000, em Arapiraca a população ativa representaria 87.974 pessoas,
ou seja, 47% da população total.

O número é relativamente esdrúxulo (mas perto daquele calculado acima a partir dos
dados do Estado) porque incluímos na população ativa os desempregados pela
impossibilidade técnica de separar aqueles que são realmente desempregados e procuram
um trabalho daqueles que trabalham no setor informal, ou vivem de bico. Desconhece-se a
cifra exata do desemprego. O dado utilizado é próximo daqueles que são geralmente

6
A importância deste setor em Arapiraca é natural por ser a segunda cidade do Estado, mas, mesmo assim, é
inferior no que diz respeito ao número de pessoas que ela ocupa em Palmeira dos Índios ou Maceió e que se
situa em torno de 35% da população ativa.
74

avançados (entre 20 e 30 mil pessoas) por responsáveis da cidade. A categoria


representaria 13,9% da população total e 29,4% da população ativa. No estado de Alagoas,
a taxa de desemprego em 1999 era de 18,6% na zona urbana e 6,9% na zona rural (LIRA,
2004).

Por razões similares, consideramos como ativas as pessoas assistidas, famílias


contempladas por diversos programas sociais, baseando-nos em dados dos programas
Fome Zero, Bolsa Alimentação, PETI etc. Muitas vivem somente da renda dos programas
e outras têm algumas atividades. Completariam 10,7% da população total e 22,7% da
população ativa.

Sendo essas duas últimas categorias consideradas como inativas, a população


efetivamente ativa totalizaria 42.074 pessoas e 23% da população total; tampouco seriam
dados correspondentes à realidade devido, em particular, ao tamanho do setor informal.
Devemos então entender as categorias “desempregados” e “assistidos” como
intermediárias entre ativa e inativa e significativa de um importante potencial humano.

Feitas essas ressalvas, a agricultura, ou setor primário, aparece como dominante com
20,5% da população total, o que não é surpreendente por uma cidade qualificada de
“capital do fumo”. Pretende incluir o dado, baseado no número de estabelecimentos rurais
do município, a Agricultura Familiar e os trabalhadores rurais.

Fica um pouco “reajustada” a importância da administração pública (3,5%). A este dado


agregam-se as percentagens do comércio (3,9%) e os serviços (2,5%) que também
corroboram a vocação terciária das atividades urbanas com um total de 9,9% da população
ativa.

A indústria também está reposicionada em 2,8%, confirmando-se deste modo o


sentimento da carência do setor secundário ou “parque industrial” arapiraquense.

Os outros setores que incluem o abastecimento em energia, a mineração, a construção


civil são insignificantes, com 0,2%.

A complexidade da classificação da população em categorias sócio-profissionais está na


dificuldade de considerar pessoas que atuam nos setores primários, secundários e
terciários, com registros especiais ou sem registro (informalidade). São os autônomos, que
75

incluem os empregados domésticos, trabalhadores temporários, empregadores, feirantes,


artesãos, moto-taxistas, prostitutas, pessoas ativas sem especificação.
76

TABELA 9: REPARTIÇÃO DA POPULAÇÃO DO MUNICÍPIO DE ARAPIRACA POR SETORES DE


ATIVIDADES, INCLUINDOS OS INATIVOS POR VOLTA DE 2000
SETORES N. PESSOAS ATIVOS INATIVOS % POP. %
TOTAL
POP.
ATIVA
Agricultura 18.052 9,7 20,5
Indústria 2.429 1,3 2,8
Comércio 3.437 1,8 3,9
Serviços 2.167 1,2 2,5
Administração pública* 3.115 1,7 3,5
Outros setores** 174 0,1 0,2
Autônomos, Setor não especificado*** 12.700 6,8 14,4
Desempregados 25.900 13,9 29,4
Assistidos 20.000 10,7 22,7
TOTAL ATIVOS 87.974 - 100,00
Crianças de 0 a 9 anos 32.053 17,2
Idosos 60 anos e + 13.354 7,2
Estudantes 52.881 28,4
TOTAL INATIVOS 98.288 -
Complemento técnico 204 204 0,1
TOTAL 186.466 87.974 98.492 100
% 47 53

DETALHES SOBRE OS SETORES N. PESSOAS % TL


POP.
Administração pública* 3.115 1,67
Governos federal, estadual, municipal 1.568 0,84 1,8
Educação, Professores e administração 594 0,32 0,7
Saúde e serviços sociais 625 0,34 0,7
Outros serviços coletivos, sociais e 328 0,18 0,4
pessoais

Outros setores** 174 0,09


Extração mineral 25 0,01 0,0
SIUP 73 0,04 0,1
Construção civil 76 0,04 0,1
77

Autônomos, Setor não especificado*** 12.700 6,81


Empregados domésticos, Trabalhadores 9.000 4,83 10,2
temporários, Empregadores, Não
remunerados, Sem especificação
Feirantes 2.200 1,18 2,5
Artesãos 400 0,21 0,5
Moto-taxistas 800 0,43 0,9
Prostitutas 300 0,16 0,3
FONTES: SEPLAN/AL; SEBRAE/AL; OLIVEIRA 2004; Pesquisa de campo; Cálculos nossos

Este “setor não especificado” representaria 14,4% da população ativa e a maioria


trabalharia no comércio e nos serviços que viriam a constituir, realmente, os primeiros
setores de atividades.

A avaliação, por exemplo, mostra o peso dos feirantes, com 2,5% da população ativa,
equivalente à percentagem da indústria, e integra a atividade da “maior feira livre do
Nordeste” no perfil sócio-econômico da cidade.

Também os artesãos, presentes todas as sexta-feira na Praça Luiz Pereira Lima e todo
evento econômico ou cultural, os moto-taxistas circulando de forma permanente pelas ruas
e as prostitutas, constatadas em inúmeros bares e “tocas”, se destacam como categorias, o
que não parece estranho para quem mora em Arapiraca: somente no bairro Brasília,
computar-se-iam 35 prostíbulos, ou seja, um estabelecimento por uma população
masculina de 200 pessoas!

Por entre as pessoas inativas, entram as crianças de 0 a 9 anos que não vão na escola, os
idosos de 60 anos e mais, embora muitos deles continuem trabalhando e os estudantes.
Juntas, as três categorias atingem 53% da população e totalizam 98.288 pessoas.

Esse número elevado se deve ao contingente importante de estudantes que constituem


quase um terço da população (28,4%). São alunos oficialmente matriculados e vale aqui o
que já dissemos a respeito do IDH-M. Acrescenta-se que existe cerca de 60 escolas no
setor informal...

Por fim, incluímos um dado “técnico” para completar o número certo de habitantes de
Arapiraca, 186.466 pessoas.
78

É possível pormenorizar o perfil, graças à pesquisa realizada em 1997 pelo


SEBRAE/AL sobre o número de estabelecimentos (2.791) e pessoas ocupadas da cidade
(7.896). Os dados são semelhantes àqueles fornecidos para o ano 1999 pela SEPLAN
(2.920 estabelecimentos e 8.493 pessoas ocupadas se extraídos os funcionários públicos).
Trata-se do setor formal.

Apesar de algumas imperfeições, o levantamento é valioso. Há imprecisão na


classificação de atividades, entre comércio e serviços, e faltam muitas categorias, tais quais
as padarias, os artesãos; os moto-taxistas não aparecem porque acreditamos que seja uma
atividade relativamente recente. Também não corresponde mais à realidade de hoje, visto
que o setor de beneficiamento de fumo ainda era importante e sua participação caiu
consideravelmente. A pesquisa carece de análise e, por essa razão, depois de corrigidos
alguns erros, redistribuímos os dados por setores de atividades para estabelecer a
importância relativa de cada um deles (Ver tabelas 10 e 11).

O comércio representa 55% dos estabelecimentos e 58,1% das pessoas ocupadas, é


seguido pelos serviços com, respectivamente, 41,6% e 28,7% e a indústria com 3,4 e
13,3%.

O setor de Distribuição, Alimentação (14,7%) é o primeiro empregador e poderia ser


relacionado com o setor de bares e restaurantes (10,5%). O setor automobilístico, ao qual
acrescentamos os comércios e serviços relativos a motos e bicicleta (marginais) aparece em
segundo lugar (13,2%).

O setor Bebidas e Fumo (11%) contava com 12 estabelecimentos de beneficiamento do


fumo que empregava 233 pessoas, mas, hoje, essa atividade não passa de 3 ou 5
estabelecimentos e menos de 100 pessoas ocupadas, caindo a participação do setor
provavelmente abaixo dos 10%.

O setor dos Transportes (10,6%) não inclui os moto-taxistas que são cerca de 800, no
setor formal e informal, e com eles viria a subir o setor no ranking.

Acima dos 10% se classifica ainda o setor de Vestuário e Calçados (10,1%).


79

TABELA 10: NÚMERO DE ESTABELECIMENTO E DE PESSOAS EMPREGADAS


POR SETORES DE ATIVIDADES EM ARAPIRACA – 1997 – RESUMO
SETORES DE Número de % Número de pessoas %
ATIVIDADES Estabelecimentos
Ocupadas
COMÉRCIO 1.535 55,0 4.591 58,1
INDÚSTRIA 95 3,4 1.050 13,3
SERVIÇOS 1.161 41,6 2.255 28,7
TOTAL 2.791 10,00 7.896 100,0
FONTES, SEBRAE/AL, 1998, 1999.

TABELA 11: NÚMERO DE ESTABELECIMENTO E DE PESSOAS EMPREGADAS


POR SETORES DE ATIVIDADES EM ARAPIRACA – 1997
SETORES DE ATIVIDADES Número de % Número de %
Estabelecimentos pessoas
Ocupadas
DISTRIBUIÇÃO, ALIMENTAÇÃO 430 15,4 1.162 14,7
SETOR AUTOMOBILÍSTICO, MOTOS, BICICLETAS 247 8,8 1.039 13,2
BEBIDAS E FUMO 41 1,5 868 11,0
TRANSPORTES 656 23,5 839 10,6
BARES E RESTAURANTES 397 14,2 828 10,5
VESTUÁRIO, CALÇADOS 230 8,2 794 10,1
SAÚDE, BELEZA 227 8,1 456 5,8
COMUNICAÇÃO, CULTURA, LAZER 160 5,7 453 5,7
CONSTRUÇÃO, METAIS, VIDROS 84 3,0 386 4,9
BANCOS, ESCRITÓRIOS 61 2,2 269 3,4
COMÉRCIOS E SERVIÇOS PARA CASAS E LOJAS 83 3,0 266 3,4
ARTIGOS DE LUXO, PRESENTES 53 1,9 150 1,9
MADEIRAS, MÓVEIS 52 1,9 150 1,9
TURISMO, HOTELARIA 20 0,7 85 1,1
SETOR AGRÍCOLA 21 0,8 75 0,9
OUTROS 29 1,0 76 1,0
TOTAL 2.791 100 7.896 100
FONTES, SEBRAE/AL, 1998, 1999.
80

Todos os demais setores se situam abaixo de 6%. Alguns setores se destacam porque
existe uma atividade dominante. É o caso do setor Saúde, Beleza que representa 5,8% por
causa do número de farmácias (111 pessoas) e também do setor Comunicação, Cultura,
Lazer que conta com 108 pessoas nas oficinas eletrônicas de rádio e TV. O setor Madeiras,
Móveis têm reputação de ser importante da cidade, mas sua participação é baixa (1,9%),
inferior ao setor Construção, Ferramentas, Vidros (4,9%). Podemos constatar a fraqueza do
setor Turismo, Hotelaria (1,1%). O setor Agrícola é insignificante porque é formado
essencialmente por depósitos de adubos; é possível que a participação seja ainda menor
hoje, devido à queda da demanda em adubos por causa da crise da cultura do fumo.

Esse retrato da repartição sócio-profissional da população de Arapiraca abre algumas


perspectivas.

Em termos de metodologia e teoria, é fundamental ultrapassar o caráter rígido das


estatísticas e classificações oficiais, indispensáveis para análises comparativas, e
considerar elementos ou fatores meramente locais, descritivos da realidade local. Há de
combinar o que dizem os dados (pesquisa quantitativa) e o que se constata visualmente nas
ruas ou nas roças (pesquisa qualitativa). Neste sentido, o caso dos feirantes, moto-taxistas
ou prostitutas é significativo.

Falta ainda, além de dados certos, a definição de um conceito para classificar as


categorias ambíguas que são os Desempregados, Assistidos, Estudantes (trabalho infanto-
juvenil) e outras, sem falar da Informalidade.

Em resumo, Arapiraca é um município onde a agricultura ainda é uma das principais


atividades, o setor terciário domina na cidade. Em termos de planejamento ou
Desenvolvimento Local, aparece que há carências no setor industrial e no turismo.

Existe, aparentemente, uma grande “reserva” de mão-de-obra, provavelmente


desqualificada, e, apesar do número importante de estudantes, faltariam escolas ou cursos
professionalizantes.

Tudo isso mostra a necessidade de proceder a um estudo mais aprofundado sobre o


trabalho em Arapiraca, visando a integração progressiva do setor informal na oficialidade,
com a devida cobrança de impostos que disponibilizariam à prefeitura os recursos
necessários para investir em infra-estruturas, programas de desenvolvimento sociais e
81

econômicos, promoção da cidade para atrair empresas e visitantes que gerariam renda de
que toda a população se beneficiaria.

4. MENTALIDADES E DESENVOLVIMENTO LOCAL

O espírito rural, mercantil, são elementos estruturantes das mentalidades locais,


elaboradas com o tempo, ou “longa duração”, para utilizar um termo prezado pelos
historiadores. Também se constrói um inconsciente coletivo que se manifesta por atitudes,
comportamentos variados e aqui estamos entrando no mundo complexo da psicologia
(VOVELLE, 1982). Com os elementos constituintes da “personalidade de base”
estaríamos entrando na “alma do povo arapiraquense”. Esse campo de análise, porém, é
amplo e é preciso de muito tempo para penetrar em profundeza em todas os cantos ocultos,
por todos os caminhos sinuosos, e conhecer verdadeiramente o “ser arapiraquense”. Por
essa razão, vamos discutir aqui apenas alguns aspectos dessas mentalidades, começando
por um assunto muito polémico que é a cultura em Arapiraca.

4.1. A cultura em Arapiraca

As carências da cultura em Arapiraca são regularmente lembradas pelo único jornal da


cidade, Alagoas em Tempo. No entanto, convém falar rapidamente da(s) definição(ões) do
termo. A palavra “cultura”, nas mais das vezes, é associada, às atividades intelectuais, ao
saber, à instrução, às noções de conhecimentos livrescos e em artes. Alguns diferenciam
esta cultura, qualificada de “erudita”, da cultura “popular” que se refere às tradições, ao
folclore, o artesanato.

Na dialética entre o “erudito” e o “popular”, a cultura arapiraquense apresenta-se de


uma forma mais complexa e profunda e o jornal acima citado parece ter muito bem
integrado essa característica. Dedicou, por exemplo, seu número 35, de 9 de agosto de
82

2004, ao tema com duas páginas inteiras, além do editorial, e a seguinte manchete: “A
morte anunciada da cultura”.

Segundo Ana Cavalcante, autor dos artigos, o município “é considerado como um


celeiro de cultura, com representantes de destaque em várias áreas, do artesanato, teatro,
folclore, literatura, artes plásticas e música, para citar algumas”.

Com unanimidade, a falta de apoio e investimento institucional é responsável pelo


vácuo cultural.

Não existe lugar adequado para espetáculo variado, com acústica, iluminação, cenário
de qualidade e conforte para os espectadores. O Espace, local para realização de eventos,
não é apropriado para espetáculos culturais e, segundo a opinião de Albério Carvalho,
presidente da ONG Candeiro Aceso organizadora do Festival de Artes de Arapiraca desde
2003, a sala da Casa da Cultura não passa de “um grande salão com um monte de cadeira”.

De fato, o ponto forte desta Casa é sua biblioteca, com um acervo de aproximadamente,
20 mil títulos, embora nem todos nas prateleiras, por falta de um sistema informático e
funcionários. A freqüentação média situa-se entre 200 e 350 pessoas por dia. Em sala
anexa, há exposição permanente de produtos artesanais que a Casa promove, todas as
sexta-feira, na praça na frente de seu prédio, com a Feira de Arte onde os artesãos fazem
uma amostra de seus produtos e, segundo eles, as vendas são boas; também há
apresentação no quiosque de grupos musicais e de danças locais e regionais.

Por falta de apoio, a Fundação Morro Santo, não conseguiu fazer a encenação da Paixão
do Cristo na Páscoa de 2003, que acompanhava, desde 1996, a procissão do Morro Santo
da Massaranduba, tradição religiosa na Semana Santa existente havia mais de um século.
Para o coordenador da Fundação, Wagno Luís de Godez, as pessoas de Arapiraca têm
cultura, mas “a maioria não tem contato com a arte e, por isso, não gostam. O problema é a
falta de incentivo” (AT, 10/2003).

Mesma constatação de Sérgio Lúcio, diretor do trio elétrico Chiclete com Cachaça, a
respeito da Micaraca 2003. “O evento não contou com o apoio da prefeita. Em vez dela
incentivar os foliões, disse que não queria a festa e que a Micaraca seria acanhada”. De
fato o carnaval fora de época – que em qualquer outro lugar faz sucesso – foi um fracasso
público e muitos pensavam que seria a última edição. “É uma pena”, lamentou um
estudante, acrescentando que “Não existe nenhuma outra festa na cidade onde a gente
83

possa se divertir de graça” (AT, 10, 2003). No entanto, a edição de 2004 aconteceu de 10 a
12 de setembro, mas apesar do ano eleitoral, não foi melhor, para o publico e até encolheu,
segundo o jornal Alagoas em Tempo (AT, 40, 2004)

De uma maneira geral, conforme o folclorista e historiador Zezito Guedes, as festas


tradicionais são esquecidas, pois “nos últimos 30 anos o poder público têm colocado as
tradições culturais em segundo plano, valorizando o modismo e tudo que vem de fora”.
Existiam festas em muitos bairros. Até o patrimônio arquitetural não é preservado em
Arapiraca (AT, 35, 2004).

É lugar-comum dizer que a televisão é responsável pela falta de interesse das pessoas
por atividades “culturais” tão simples quanto a leitura de jornais, o cinema ou o teatro. Mas
poderíamos acrescentar as outras culturas de massa que são a radio e a indústria do disco
que diminuem o interesse pelo espetáculo “erudito”. A vulgarização das fitas video e do
videocassete, e agora do DVD, transformou a vida do homem, pois ele tem o
entretenimento em casa (quase) de graça.

É a constatação que faz Jonas Medeiro da Rocha, proprietário do circo Estrela do


Brasil. Não podendo mais fazer as longas viagens custosas pelo Nordeste, o circo muda de
bairro em Arapiraca em cada duas, três semanas, em função da aceitação do público; vai ao
encontro deste, como antes se fazia de vilas em vilas, povoados em povoados. “As
telenovelas liquidaram o teatro circense”, diz Jonas. Ele estranha ao constatar que o
público é hoje constituído na sua maioria por homens adultos, em vez de crianças, que vêm
ver as “rumbeiras”. Enquanto, antigamente eram apenas uma atração de intervalo, hoje
virou quadro principal do circo: “O pessoal está mais interessado em pornografia, não
entendo porque isso acontece, disse Jonas, na praia ou na piscina eles podem ver mulheres
com menos roupas” (AT, 10, 2003).

Ir ao circo por esse motivo seria o resultado da baixa renda da população que não tem
condição de freqüentar piscinas e praias como não tem o poder aquisitivo para comprar
revistas, cassetes video e DVDs especializados. Mesmo vestida, a “rumbeira” seria um
suporte para soltar a imaginação do homem e os especialistas em psiquiatria relacionariam
provavelmente esse comportamento a uma grande frustração, uma “miséria” sexual...

Mas também a falta de lazeres na cidade é patente. A depressão é uma das maiores
causas de suicídio em Arapiraca (CAVALCANTE, 2001).
84

O que seria típico de uma cidade quase não existe. O único cinema, alguns anos atrás,
só mostrava filmes pornôs, como na maioria das pequenas cidades do interior. Sobra então
a freqüentarão dos bares, cabarés, strip-tease, das “tocas” e danceterias.

As casas de festas, tipo Evento’s ou Espaço Livre, parecem substituir, na cidade, o baile
ou forró de noite de sábado da zona rural como se vê pela simplicidade do lugar –
geralmente um galpão meio aberto – e a apresentação de uma banda de qualidade
discutível (um teclado e um cantor, às vezes um contrabaixo).

Impressionante é o número de lugares de prostituição. São, na maioria dos casos,


espaços em fundo de casa, de uma tristeza incrível, assim como a boate de strip-tease (By
Nights Drinks).

A juventude, na faixa etária entre 10 e 29 anos7, representa 41% da população do


município de Arapiraca. Os jovens ociosos da cidade, por não ter projetos e oportunidades
como os da zona rural, geralmente se concentram em “gangs”, “galeras” (CARNEIRO,
2004), “tribos” e outras turmas (micro-grupos).

Parece que cada um desses grupos tem seus lugares prediletos e não se misturam entre
si, sobretudo no que diz a classe média com o povo. A classe média ou elite se reúne em
festas privadas ou em clubes fechados. A classe trabalhadora prefere estabelecimentos do
tipo “bar do caldinho” que são pontos de encontro, de entretenimento (DVD musical e
jogos de futebol) e de descontração.

O inclassificável “Bar do Paulo” faz exceção. Existindo há mais de 30 anos, ali se


encontram nas noites de final de semana todas as galeras que, além de escutar música
diferenciada (do rock dos anos 50 até os sucessos mais recentes da MPB), discutem de
tudo, resolvem problemas, refazem o mundo ou namoram.

Na verdade, a vida cultural em Arapiraca não se diferenciaria da de outras cidades de


mesmo porte do Brasil. Limeira, no interior paulista, por exemplo, tem uma aparência mais
desenvolvida, o centro possui muitos prédios altos que caracterizam as grandes cidades
brasileiras; mas, e apesar do poder aquisitivo da população e o nível educacional serem
maiores do que em Alagoas, a vida noturna é bem parecida à de Arapiraca8. Os jovens

7
As estatísticas não deixam destacar a faixa etária 15-25 anos que seria mais adequada para falar da
juventude.
8
A laranja teve no crescimento de Limeira um papel similar ao do fumo em Arapiraca.
85

arapiraquenses vestidos com elegância que vão ao forró, show de Calypso, Karisma ou
qualquer outra banda, são iguais a todos os demais jovens que, nas pequenas cidades do
Brasil, querem se divertir, escutar música, dançar e paquerar.

A análise da cultura em Arapiraca, portanto, responde essencialmente a uma questão de


condições sócio-econômicas e à percepção que se faz dela, tradicional ou superficialmente,
e sempre de forma negativa. Arapiraca tem cultura, contudo não é aquela que muitos
gostariam que fosse, ou seja, uma cultura urbana e elitista.

Muitos esquecem a simples definição do dicionário brasileiro mais comum, o Aurélio,


que define a cultura, entre outros sentidos, como “O complexo dos padrões de
comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais
transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade”. É o que também
chamamos de mentalidades. Por isso, enganam-se aqueles que pensam que não existe
cultura em Arapiraca.

Destarte, a visão da cultura em Arapiraca fica distorcida por uma elite que não quer
enxergar como ela também é, essa mistura de rural e urbano, de passado com modernidade.
Não adiante querer que Arapiraca seja igual a qualquer grande cidade ou capital do país,
porque não é. Por isso, há de valorizar a cultura local, deixando de desprezar o “popular”.
Pelo contrário, há de resgatar esta cultura, tentar compreendê-la em todas as suas
modalidades e graus de desenvolvimento, ampliá-la, dando-lhe por isso os meios
financeiros, materiais e educacionais, pois assim se transformaria paulatinamente, a
momento qualquer, em “erudito” genuinamente arapiraquense.

4.2. Algumas mentalidades

O catolicismo é forte em Arapiraca, o que não impede superstições e medos populares,


em particular, contrapondo-se à fé em Deus, a crença nas forças do mal, no diabo. A
maioria da população não conhece outros lugares, outras realidades, e tem uma “visão do
mundo” (cultura) restrita, o que leva as pessoas a acreditar em coisas que não existem,
lendas que nascem na vida “urbana” ou “moderna” e se acrescentam às crendices
populares trazidas do campo, carregadas de religiosidade, de reminiscências de velhos
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substratos herdados da cultura indígena ou colonial. A fofoca e o rumor, com o tempo e


suas transformações sucessivas, também podem virar lenda. O medo do desconhecido e
das mudanças, comum à maior parte das culturas tradicionais, vem alimentando os contos.
Ainda se diz, por exemplo, que, antigamente, o produtor de fumo trocava todo ano de carro
– carro zerinho claro – ou podia comprar duas motos. Há gente que narra que, 20 anos
atrás, com 1.200 quilos de fumo se podia adquirir um caminhão, o que é obviamente
impossível, pois mesmo sendo vendido o quilo a 5 dólares (o preço estava em torno de 1 a
2 dólares), ou seja 15 reais, daria 18 mil reais, nem o valor atual de um carro popular...
Mesmo assim o agricultor parece crer e sonha que com umas tarefas de fumo poderá se
tornar rico... Não adiante falar para ele que a cultura do fumo, hoje, é de alto risco que há
mais chance de perder tudo do que ganhar dinheiro, pois para plantar fumo há produtores
que até arrancaram os pés de mandioca, de valor de venda menor mas totalmente seguro.
As lendas são tenazes... Parte importante das populações dos Estados vizinhos que vieram
morar em Arapiraca foram iludidas pela “lenda da riqueza” do município, ou “falsa
riqueza”, devido à reputação do fumo.

Talvez por causa da religiosidade, as pessoas são honestas embora em determinadas


situações é possível que apareça alguém para tirar proveito. Podemos relacionar esse valor
a outro que seria o respeito da ordem. Atrelar-se-ia a esses valores o fatalismo – a
aceitação da vida como ela é – e seu corolário que é acreditar que ela é o resultado da
vontade de Deus e que só ele pode mudá-la; isso faz com que as pessoas se acomodem de
qualquer situação e vivem em total passividade.

Apesar de sua honestidade, em inúmeros casos, o arapiraquense não cumpra o que ele se
comprometeu a fazer. Assim não vai a um simples encontro amistoso ou profissional, não
comparece em reunião ou evento ainda que tenha “assegurada”, “garantida” sua presença,
não entrega trabalho ou outros documentos que prometeu. Quem não ficou esperando um
colega, a relação profissional que, muitas vezes, nem tenta avisar a ausência, nem
apresenta desculpa? A palavra, em Arapiraca, não tem valor; é falta de comprometimento.
Esse comportamento existe no campo quando, por exemplo, o produtor firma, de forma
oral, um “contrato” de fornecimento de matéria-prima a um atravessador, uma indústria ou
empresa e, na hora de vender, conclui a venda com outro comprador porque este oferece
um preço muito atrativo. Em setores profissionais urbanos, não é muito diferente. O
resultado dessa mentalidade é que se torna difícil dar fé na palavra do outro. A falta de
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comprometimento estabelece nas relações uma desconfiança quase permanente e embaraça


qualquer forma de ação, impedindo a continuidade desta ou, pior, sua simples realização.
O arapiraquense parece acreditar que quando fala que “faz” está “fazendo acontecer”...

O fato da palavra não ter valor também está relacionado à outra mentalidade que é o
individualismo, para não falar de egoísmo. Cada um vê seus próprios interesses antes dos
interesses comuns, mudando às vezes suas opiniões ou ações em função daqueles; é
oportunismo. A luta pelo poder é uma das manifestações, embora esta seja carregada de
ambigüidade, pois todos aqueles que querem alcançar o poder se declaram lutar por ele
para o “bem de todos” e alguns não deixam de ser sinceros. Em paralelo, ou pano de fundo,
há a procura pela renda fácil, mediante o acesso a cargos públicos, por nomeação, eleição
ou concurso. Não é novidade dizer que o dinheiro público é a maior fonte de renda dos
alagoanos e, assim que vimos, o setor, como categoria sócio-profissional, é importante em
Arapiraca. Em situação de crise, de escassez de empregos e oportunidades de renda, de
atividades autônomas, a função pública aparece como o único refúgio seguro e quando
afunda o barco: “salve-se quem puder!” Assimilam-se essas atitudes à luta pela
sobrevivência. Podemos vincular o individualismo à mentalidade das aparências, a
vaidade, que seria responsável por boa parte do fracasso dos projetos e programas, até
criaria empecilhos para a efetivação de qualquer ação ser.

Em forma de síntese provisória, poderíamos dizer que o “ser arapiraquense” possuiria


uma mentalidade basicamente tradicionalista. Seria conservador da ordem vigente e
procuraria a estabilidade. Na suas relações com o outro seria elitista e individualista. Seus
conhecimentos seriam baseados em experiências práticas e concretas; também seriam
irracionais na medida em que ele acreditaria em “lendas” e seria supersticioso, caráter
talvez herdado do substrato etnográfico que é o índio ou caráter meramente brasileiro. A
honestidade e a vaidade constituiriam um paradoxo, pois a primeira é duradoura e
verdadeira enquanto a outra é ilusória e constitui uma “mentira”. As mentalidades assim
esboçadas fazem o retrato de uma sociedade aparentemente aberta, mas fechada em si
mesma que adota um duplo discurso, um que procura a melhoria da vida e outro que
preconiza o statu quo

Em termos de Desenvolvimento Local, isso questiona os fundamentos da ajuda que se


possa dar a pessoas necessitadas. Realmente, seríamos ousados em afirmar que não é
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qualquer pessoa que merece auxílio. A ajuda torna-se totalmente ineficaz se, por parte da
pessoa que a recebe não há nenhum sinal de continuidade, ou seja, que o apoio foi útil e
serviu para, senão de modo ocasional, a dita pessoa se conscientizar que ela mesma pode
modificar suas condições com um pouquinho de ação própria. Quem procura melhorar a
vida das pessoas mais carentes está muito ciente disso. Confrontada todos os dias a
situações extremas, a pessoa que tenta mudar as coisas, muitas vezes, fica sem saber o que
fazer. A vontade, a generosidade tem seus limites. A partir do momento em que a pessoa
beneficiada só recebe e não aceita, de maneira alguma, fazer qualquer coisa para ajudar a si
mesmo, então não há solução moral, religiosa ou política que possa funcionar.

Também levanta-se muito cepticismo no que diz respeito às chances de instaurar-se em


Arapiraca uma “economia solidária”. É difícil pensar em soluções comunitárias ou
coletivas para resolver os problemas locais. Preciso, portanto, ainda aprofundar os
conhecimentos das mentalidades locais para descobrir os meios que os moradores estão
prontos a aceitar para mudar deles mesmos a própria vida deles. Enquanto não se fizer esse
trabalho de fundo, pensamos que todas as experiências de desenvolvimento estarão sujeitas
ao mesmo destino, isto é, terminar no nada.

5. CONCLUSÃO

Tentar descrever uma sociedade em toda sua complexidade não é tarefa fácil. Vemos
que os dados estatísticos não são suficientes para repartir a população em camadas sociais
coerentes, por serem incompletos. Além disso, o caráter oficial, a padronização dos
critérios de seleção das estatísticas, necessária para as comparações, deixa de lado
especificidades locais que o olhar do morador ou do pesquisador facilmente percebe.
Assim, mesmo que de maneira imperfeita, acreditamos ter integrado aos dados
quantitativos elementos qualitativos (categorias) que fazem com que o leitor arapiraquense
se sinta mais próximo de nosso retrato do que das tabelas frias do IBGE ou outro órgão.

Por outro lado, a pesquisa qualitativa sobre as mentalidades mostra a grande dificuldade
em traduzir para quadros sintéticos numerosos fatos constatados no cotidiano, nas relações
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familiares, profissionais, amistosas ou simplesmente em encontros casuais na rua, na sala


de espera do médico ou de um escritório. É preciso amontoar, cruzar, muitos dados
impessoais: não se pode contar tudo o que se vê e se houve, sem se arriscar a ferir algumas
susceptibilidade, sem falar em difamação, mesmo que involuntária. As “histórias de vida”
dos arapiraquenses dariam motivo para a redação de um livro... Vale lembrar que
iniciamos nossa pesquisa há menos de um ano.

O ideário – conjunto das idéias – e a ideologia – processo de formação e sistema do


ideário – de Arapiraca ainda é um estudo para ser feito. Mesmo assim, os primeiros pontos
que destacamos deveriam servir de base para ver como as mentalidades se transformam e
interferem na questão do Desenvolvimento Local.
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91

CAPÍTULO 4: PROGRAMAS E PROJETOS, ATORES LOCAIS:


DÚVIDAS E ESPERANÇAS

Ainda não esgotamos os contatos, a observação e análise dos diferentes fatores,


positivos ou negativos, do Desenvolvimento Local que se encontram no município de
Arapiraca. Nesta parte, vamos discutir alguns programas ou projetos em andamento, os
atores locais, que deixam tanto dúvidas quanto esperanças sobre a realização efetiva de
mudanças em Arapiraca.

1. AGRICULTURA: ONDE AGIR?

Parece haver muitas carências na observação da realidade agrícola de Arapiraca de que


resultam programas e projetos inadaptados e, em conseqüência, sem objeto ou conduzidos
à ineficiência. Basta observar a produção agrícola, para perceber o imenso potencial que
possui o município (Ver tabela 12).

Nas lavouras temporárias, o fumo domina, mas por quanto tempo? O que poderia
substituí-lo? A introdução da cana-de-açúcar e do arroz não seria possível devido à
estrutura agrária e o meio ambiente do município. As lavouras que já existem (abacaxi,
algodão, feijão, mandioca e milho) poderiam ser expandidas, mais outros produtos tais
como amendoim, batata doce, fava aparecem como novas opções.
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TABELA 12: PARTICIPAÇÃO AGRÍCOLA DE ARAPIRACA


NO ESTADO DE ALAGOAS EM 2000
ARAPIRACA ESTADO
PRODUTO QUANTIDADE QUANTIDADE MEDIDA %
ARAP/EST

I – PRODUÇÃO VEGETAL - LAVOURAS TEMPORÁRIAS


Abacaxi 1750 18634 mil frutos 9,4
Algodão herbáceo 240 2023 t. 11,9
Amendoim 0 34 -
Arroz 0 40687 -
Batata doce 0 13162 -
Cana-de-açúcar 0 27798034 -
Fava 0 238 t. -
Feijão 4472 35560 t. 12,6
Fumo 4800 15876 t. 30,2
Mamona 0 2 -
Mandioca 92802 360952 t. 25,7
Milho 8000 42544 t. 18,8

II – PRODUÇÃO VEGETAL - LAVOURAS PERMANENTES


Banana 0 4175 mil cachos 0
Café 0 5 t. 0
Castanha de caju 0 78 t. 0
Coco-da-baia 0 56118 mil frutos 0
Laranja 0 186353 mil frutos 0
Limão 0 2742 mil frutos 0
Mamão 0 236 mil frutos 0
Manga 0 18033 mil frutos 0
Maracujá 0 76746 mil frutos 0

III- PRODUÇÃO ANIMAL


Asininos 235 7804 Cabeça 3,0
Bovinos 16532 778750 Cabeça 2,1
Bubalinos 0 2105 Cabeça 0,0
Caprinos 2622 48718 Cabeça 5,4
Codornas 0 103912 Cabeça 0,0
93

Coelhos 0 1598 cabeça 0,0


Esquinos 1143 45537 cabeça 2,5
Galinhas 463302 1863346 cabeça 24,9
Galos, frangos, pintos 465000 2439758 cabeça 19,1
Muares 1334 23143 cabeça 5,8
Ovinos 2945 99326 cabeça 3,0
Suínos 4179 105919 cabeça 3,9
Vacas ordenhadas 4126 160399 cabeça 2,6

IV – PRODUÇÃO DE ORIGEM ANIMAL


Ovos codornas 0 561 mil dúzias 0,0
Ovos galinha 2377 18400 mil dúzias 12,9
Mel de abelha 2560 13941 kg 18,4
Leite 4679 217886 mil litros 2,1
FONTES: SEPLAN/AL, anuário 2002

TABELA 13: PARTICIPAÇÃO DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA DE ARAPIRACA


NO ESTADO EM 2000
ARAPIRACA ESTADO
PRODUTO VALOR VALOR % % %
Mil Reais Mil Reais Prod/TL Arap Prod/TL Est Arap/Est
PRODUÇÃO VEGETAL - LAVOURAS TEMPORÁRIAS
Abacaxi 875 4.691 6,4 0,6 18,7
Algodão herbáceo 168 1.298 1,2 0,2 12,9
Amendoim - 10 - 0,0 -
Arroz - 8.209 - 1,0 -
Batata doce - 3.919 - 0,5 -
Cana-de-açúcar - 734.204 - 88,5 -
Fava - 203 - 0,0 -
Feijão 1.878 20.700 13,8 2,5 9,1
Fumo 2.880 9.214 21,1 1,1 31,3
Mamona - 1 - 0,0 -
Mandioca 6.496 39.184 47,6 4,7 16,6
Milho 1.360 7.718 10,0 0,9 17,6
TOTAL 13.657 829.351 100,0 100,0 1,6
FONTES: SEPLAN/AL, anuário 2002
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Constatamos que, em Arapiraca, não se pratica nenhuma lavoura permanente e haveria


de ver as condições técnicas para implantar essas atividades; não vemos a priori
dificuldades na produção de bananas ou outras frutas, sobretudo na parte sul do município
onde os recursos hídricos são mais importantes (mais ou menos abaixo da rodovia AL220
de nosso mapa em anexo 5).

A parte norte do município é a área que parece mais propícia à atividade de criação
(pastagens) e a participação da produção animal de Arapiraca no Estado mostra que o
município ainda possui muitas oportunidades de expansão em caprinos, ovinos, suínos ou
codornas, coelhos, além de galinhas, frangos e ovos que representam aproximadamente um
quarto da produção estadual. A estrutura agrária limitaria a pecuária e a produção de leite.

O valor da produção restringe-se às lavouras temporárias, por não haver produção


permanente e, infelizmente, faltar os dados relativos à produção animal (Ver tabela 13).
Vemos então que Arapiraca atinge apenas 1,6% da produção estadual, devido à
importância da cana-de-açúcar que representa 88,5% do valor. Mesmo extraindo este valor
do total estadual, Arapiraca nem chega aos 15% do valor da produção no Estado e a
introdução e ampliação de atividades aumentaria este percentual. É uma questão de
competição e de política geral.

Esse rápido exame mostra que Arapiraca está muito abaixo de seu potencial de
produção, tanto em termos de quantidade e valor atuais quanto na abertura de novas
atividades diversificadas. O aproveitamento desse potencial passaria pela organização das
cadeias produtivas de tal maneira que os agricultores e criadores de animais – sobretudo os
da pequena Agricultura Familiar que são a maioria – não entrem em negócios arriscados,
assegurando-lhes o financiamento adequado, a assistência técnica e a venda de seus
produtos.

Mas veremos que as estruturas dos órgãos agrícolas, os programas de financiamento, as


propostas de atividades não se ajustam à essa realidade do município.
95

2. TRÊS CASOS DE IMPOTÊNCIA

Em exemplo da pouca eficiência da ação como conseqüência das mentalidades, vamos


examinar três casos concretos onde a burocracia, a falta de coordenação, de simples apoio
leva a ação a um impasse.

2.1. A água com cor de suco de caju da Vila Bananeiras

Na Vila Bananeiras, o problema é relativamente simples. A comunidade (5 a 7 mil


pessoas) é abastecida por uma nascente (dita do riacho Piauí) ela mesma alimentada por
várias pequenas nascentes. Em cima e por volta da nascente há importantes roças do fumo
que usam agrotóxicos, águas sujas escorregando vindo de casas situadas em cima e há
ainda muitas outras causas de poluição no percurso das águas até a nascente. O sistema de
tratamento da água, de responsabilidade da CASAL, a Companhia de Abastecimento em
Água, consiste em um pequeno tubo do tamanho de dois punhos reunidos onde, de vez em
quando, um funcionário vem acrescentar cloro! Além do mais existe apenas uma bomba,
insuficiente em determinadas hora, deixando a população sem água nenhuma... Em dias de
chuva a água que sai da torneira tem cor de suco de caju!

Em 1999, fundou-se o Movimento pela Água de Qualidade (MAQ), associação que


desde aquela época não pára de reclamar da situação. Mas até agora nenhum técnico da
Prefeitura apareceu para fazer uma avaliação do problema, nem houve intervenção junto à
CASAL para melhorar o sistema. Basta um pouco de boa vontade para resolver a questão,
porque em termos financeiros o investimento é insignificante, sobretudo que cada
domicílio (acima de 800) contribui com mais de 11 reais por mês à CASAL, taxa que é
aplicada em zona urbana e corresponde ao melhor serviço de tratamento.

Desde 22 de março de 2004 (Dia Nacional da Água) e a marcha realizada em


Bananeiras, as ações se incentivaram e a mídia, imprensa e audiovisual, repercutiu os
diversos eventos, abrindo mais ou menos o debate e deixando a cada parte se expressar.
Ninguém, porém, mudou de posição e o povo continue agüentando. O acesso à água de
qualidade é um direito do cidadão do século XXI!
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2.2. Os excluídos da luz de Mundo Novo.

O caso de Mundo Novo também é dramático.

As carências do abastecimento em energia no campo são, infelizmente, freqüentes em


quase todos os municípios brasileiros. O programa LUZ NO CAMPO lançado pelo
governo Fernando Henrique Cardoso, foi substituído pelo programa LUZ PARA TODOS,
do governo Lula. Mesmo assim, parece insuficiente para atender os casos mais críticos. Em
Mundo Novo, povoado situado a uns 10 km da sede do município, a comunidade inteira
(136 casas, umas 800 pessoas) fica sem energia enquanto os postos da rede pública
(CEAL) ficam a menos de 300 metros do centro do povoado; apenas alguns moradores têm
acesso a ela por intermediação de rede privada (fazendas) às quais pagam contas altíssimas
(de 20 a 30 reais mensais enquanto pela rede pública não passaria de 5 a 8 reais). Durante a
noite os moradores tem medo de sair, muitos já foram assaltados até em casa (roubo de
fumo, aparelhos eletrodoméstico, veículos...) e até assassinatos são registrados. Imaginem
uma noite onde não se possa assistir à televisão, nem tomar água fresca no verão e ter que
comer alimentos apodrecidos por falta de meios de conservação (geladeira): há muitos
casos de doenças.

Segundo vários depoimentos, essa situação deve-se a fatores políticos... A CEAL,


Companhia de Energia responsável pela rede pública, do Estado, também desprezou a
comunidade apesar dela ter ligado recentemente muitas casas mais ou menos isoladas em
várias comunidades. Em entrevista concedida por responsáveis da empresa, soubemos que
Mundo Novo não estava incluindo em nenhum projeto em andamento, sendo a desculpa
que o serviço técnico não dispunha do mapeamento da comunidade. Este mapeamento foi
efetuada em 2003 por técnicos do ITERAL no quadro do programa LUZ NO CAMPO.
Mas conforme responsáveis do Instituto, o processo parou quando foi substituído pelo
programa Lula. Mas esperamos até hoje a intervenção de uma boa vontade. A interferência
entre as esferas governamentais (municipal, estadual e federal) é parcialmente responsável
por esse bloqueio. Hoje, o acesso à luz é um direito básico do cidadão; há de terminar com
essa situação “insustentável” que, por ironia, acontece na comunidade chamada “Mundo
Novo”...
97

3.3. Aquelas mulheres do Conjunto Mangabeiras que queriam trabalhar

Outro problema, mais complexa é o do Conjunto Mangabeira, dito bairro do “lixão”,


por onde passam muitas pessoas “responsáveis” para constatar as desastrosas condições de
vida da população sem que se essas visitas se transformem em ações concretas. A
inauguração da usina de tratamento do lixo, por exemplo, cuja obra deveria terminar em 30
de junho de 2004 e foi adiada “por razões burocráticas” e apresentava todos os sinais de
abandono em final de setembro. Os sessenta e mais empregos prometidos estão
desmanchados no ar...

Quase 300 famílias de moradores vivem diretamente ou indiretamente de catar o lixo,


mas a Associação dos Catadores conta com apenas 86 afilhados e mais uns 50 pessoas
ainda não cadastrados. A Associação, que não é registrada, poderia se transformar em
cooperativa produtiva, mas padece de apoio técnico, administrativo e incentivo.

O mesmo acontece com o grupo de mulheres que, em 2003, começou a se organizar de


forma autônoma para trabalhar com artesanato e costura. Perderam o local que a prefeitura
lhes tinha emprestado quando se principiaram as obras da referida usina e acabaram por
desistir. Mas essas mulheres são animadas, têm vontade de produzir, e competências, mas
faltam-lhes as condições mínimas para se estruturar em associação ou cooperativa, em
particular a assistência técnica.

Fizemos várias reuniões com elas, procurando os meios de organização; convidamos


pessoas para falar de cooperativismo, crédito. Até conseguimos de uma amiga nossa,
empresária e dona de uma fábrica de confecção de Feira de Santana, Bahia, Intima e Bela,
uma doação de cerca de 50 kg de retalhos de panos, tecidos, alguns quase inteiros, e linhas
que, bem utilizados, poderiam permitir a formação de um capital inicial para comprar
máquinas ou mais insumos. Mas os problemas são imensos, desde as condições financeiras
dessas mulheres, as carências em educação e formação profissional, sem falar nos
empecilhos decorrentes do próprio meio ambiente e das infra-estruturas do bairro. O grupo,
por exemplo, não conseguiu vender sua produção do ano passado por não ter meios de
transporte para levar os artigos a locais de venda.

Sentimo-nos, como elas, isolado e impotente diante das dificuldades de acesso a


informações e recursos materiais e humanos. Precisamos de pessoas voluntárias,
98

competentes em associativismo, formação de pessoal administrativo, sistema de crédito;


necessitamos de material de construção ou local, e tudo que vier da boa vontade.

Se não se dá valor e apoio a quem quiser trabalhar, a quem vamos ajudar?

3. A LUTA PELO PODER E A RENDA FÁCIL

A interferência da política, a luta pelo poder (independentemente de suas motivações) e


a renda fácil contribuem negativamente para a formação de atores de primeiro plano.

É o caso, por exemplo, da Federação das Associações Comunitárias de Moradores de


Arapiraca – FACOMAR.

O movimento comunitário no município de Arapiraca é bastante desenvolvido. Existem


70 associações rurais e 37 urbanas, ou seja, em teoria, cerca de 1.800 moradores por
associação. Porém, nem todos os habitantes são sócios e algumas comunidades rurais ou
bairros tal o Centro não possuem associação.

Em 2003, o desentendimento entre os principais dirigentes na FACOMAR depois das


eleições internas provocou uma cisão e a criação de outra entidade, a União das
Associações de Moradores de Arapiraca – UNAMAR. No entanto, apenas a FACOMAR,
vinculada com a Prefeitura, tinha legitimidade institucional. Muitas associações,
teoricamente da UNAMAR, na verdade, mantiveram o contato com a FACOMAR.

Independentemente disso, as duas federações parecem ser mais uma plataforma política
do que um instrumento de ação em prol das comunidades9. Os dois presidentes afastaram-
se do cargo em 2004, por serem candidatos a vereador, em coligações diferentes (aliás,
como muitos responsáveis de outras instituições).

A maior parte dos presidentes de associação é afiliada a partidos políticos ou apóia


abertamente determinados candidatos (vereador ou prefeito) e não querem “ser visto” em
companhia de outro candidato. Alguns trocam seu apoio por dinheiro ou outras vantagens
materiais.

9
O fato do ano 2004 ser de eleições municipais pode ter influído nesta percepção nossa.
99

Outros presidentes preferem ser apolíticos e abrem sua porta a todos os candidatos ou
nenhum deles. Desta forma respeitam a deontologia associativa que pressupõe que o
presidente seja o representante da comunidade inteira, na qual se expressam várias
opiniões políticas, e por essas duas razões não pode, dentro das atribuições e funções pelas
quais foi eleito, se pronunciar a favor de tal ou tal candidato ou partido.

A filiação ou apoio a um determinado partido pode vir lesar a comunidade, pois, sendo
os adversários eleitos na prefeitura, estes não teriam escrúpulos em “castigar” a
comunidade do dito presidente deixando de assumir o compromisso pelo qual também
foram eleitos, que é de administrar toda a população sem forma alguma de discriminação.

De maneira geral, acreditamos que essas questões venham prejudicar o movimento


comunitário como ator local, pois, além da divisão institucional, os associados parecem ter
pouco interesse nas associações. Em 2001, na ocasião do diagnóstico efetuado pela
FACOMAR, a taxa de adesão ao trabalho foi em torno de 5% na zona rural e 24% na zona
urbana. As reivindicações e/ou ações são geralmente voltadas para questões de infra-
estruturas (calçamento de rua, iluminação, segurança, abastecimento em energia e água,
creche, escola, casa de farinha, campo de futebol etc.).

Apesar de todos esses problemas, Arapiraca possui um movimento comunitário


relativamente estruturado. Parece-nós imprescindível para o desenvolvimento do
município que as associações voltem a ser reunidas numa só Federação, qualquer que seja.
A união faz a força, diz o ditado. O movimento representa um “protagonista local” em que
as populações podem diretamente participar das ações em prol de seu próprio
desenvolvimento, é uma ferramenta de primeira importância para a sensibilização, o
crescimento indispensável do espírito coletivo, cooperativista, e a mobilização das forças
populares para participar de forma ativa na gestão e busca de soluções dos problemas
sociais e econômicos do município.

Na mesma linha de pensamento, vemos que a luta pelo poder e a renda fácil está
perturbando a criação da Cooperativa de Crédito Rural de Alagoas – COOPCRAL. A idéia
foi lançada em 2003 e inspirada pela SICOOB de Feira de Santana, na Bahia, que funciona
muito bem.

Não podemos entrar em detalhes nesse assunto em andamento. Salientamos apenas que
a COOPCRAL ainda não existe e nem começou a funcionar que já vive de brigas internas
100

a respeito da eleição da diretoria e dos salários dos membros da mesma. Por enquanto
espera-se a decisão do Banco Central para sua criação, mas mesmo assim, o ambiente em
que está se construindo deixa supor que corre o risco de não atingir seus objetivos e fechar
rapidamente suas portas como muitas outras cooperativas alagoanas. O sistema
cooperativista dificilmente funciona em Alagoas. Já houve várias tentativas que foram
desastrosas tais quais à da CAPIAL criada nos anos 80.

Independentemente da validade das opiniões expressas pelas pessoas que entrevistamos,


vê-se que os interesses são quase sempre os mesmos que vêm danificar as iniciativas em
prol das populações desfavorecidas: a burocracia, o poder pessoal e o aproveitamento de
instituições para ganhar (muito) dinheiro.

4. A TRANSFERÊNCIA DE RENDA: FOME ZERO E PETI

Os programas sociais de transferência de renda, tal o Fome Zero e o Programa de


Erradicação do Trabalho Infantil – PETI deixam boas esperanças para as populações mais
carentes, mas nem sempre atingem os resultados esperados em Arapiraca. Sem levar em
consideração os desvios, supostos ou comprovados, dos recursos, muitas famílias
contempladas não procuram melhorar de vida, pela formação, busca de emprego ou
atividade, e se limitam a viver com o dinheiro recebido (renda fácil) cuja quantia, às vezes,
corresponde ao salário mínimo que a família, ou seu chefe teria se tivesse trabalhando. O
baixíssimo nível salarial do Brasil é responsável por esse tipo de comportamento.

O programa Fome Zero do Governo Federal é um fracasso segundo o depoimento do


responsável por sua implantação, Carlos Alberto. Múltiplos são os problemas:
administrativos, políticos, financeiros, criminosos. Existem inúmeras irregularidades.

Arapiraca deveria ter oito comitês gestores mas cinco seriam suficientes para realizá-lo.
No entanto, existe apenas um que “não vem cumprindo suas atividades... porque não sabe
– ou não quer – fazer o programa funcionar”. Dois integrantes do comitê eleito passaram
por um treinamento para saber como o programa funcionar, mas “por incapacidade ou má
vontade esse treinamento não foi bem passado para os outros integrantes”. Além do mais
101

todos os integrantes do comitê têm um vínculo com a prefeitura ou são funcionário do


município, impedindo o controle democrático do programa.

Para Carlos Aberto, a questão também é político-financeira porque, com o Fome Zero e
a criação dos cartões, o dinheiro passa diretamente do Governo Federal para o beneficiário
enquanto nos programas anteriores os recursos transitavam pelos cofres estaduais e
municipais. Mesmo assim, há registro de desvios. Cerca de 20 mil famílias são
teoricamente contempladas pelo Programa Fome Zero, mas na realidade nem todas são
atendidas. Em Canaã, apenas 10% das 250 famílias cadastradas há dois anos receberão o
cartão. Ainda há comerciantes e funcionários públicos que recebem indevidamente o
benefício (AT, 20).

Na área da educação, a situação é muitas vezes crítica, aliás, como no Brasil inteiro, e
não convém aqui tratar dos numerosos problemas que existem em todo o município de
Arapiraca: estabelecimento, material, transporte, salário e formação dos professores,
merenda etc. (AT, 32). Podemos contudo dizer quer a falta de recursos municipais e a
migração rural, decorrentes da crise do fumo, são fatores agravantes.

O PETI - Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, de que se beneficiam 7.532


crianças, apesar de seus generosos objetivos gera muitos problemas. Sem falar das
denuncias feitas pela Câmara de vereadores de desvio de verbas por parte da responsável
do programa na Prefeitura, vê-se, sim, as crianças nas escolas, mas não nas salas de aulas.
Em determinadas comunidades o PETI funciona no salão comunitário por que não tem
espaço na escola. Muitas vezes não tem mesa nem cadeira com prancha para escrever. Os
professores e monitores reclamam da falta de material didático, de orientação; algumas
turmas compreendem alunos que vão da 2ª até a 7ª série, obrigando-os a uma complexa
pedagogia diversificada.

Como já falamos, o risco do PETI é que as crianças saem sem conhecimento de técnica
agrícola e não querem mais trabalhar na roça, ficando na ociosidade e, por alguns deles, na
marginalidade.

Mesmo assim o PETI e seu recém-criado Fundo Comunitário dão alguns exemplos de
retornos positivos. Na Vila São José, 154 famílias utilizam o crédito oferecido – 400 reais
por família - para desenvolver a criação de bodes, cabras e porcos (O JORNAL,
102

19/09/2004). No total, são 250 famílias contempladas pelo sistema no

município.

5. APARÊNCIAS OU PROJETOS CONCRETOS: MAMONA, AVESTRUZ,


MANDIOCA?

De vez em quando aparecem projetos de iniciativa pública ou privada que se


apresentam como atividades alternativas ou tentativas de reorganização de cadeia
produtiva. Contudo, as ambições que mostram deixam margem a dúvidas sobre as
possibilidades de concretização em Arapiraca pela defasagem entre o custo dos projetos e a
estrutura minifundiária do município. Vamos examinar três casos relativos à mamona,
mandioca e avestruz.

A Secretaria Estadual de Agricultura organizou em Limoeiro da Anadia (18 de abril de


2004), na Fazenda Sta Bernadete, da empresa fumageira CAPA, uma reunião com
palestras de engenheiros da EMBRAPA de Campina Grande/PB sobre o cultivo e a
utilização da Mamona, inclusive o passeio pelo campo experimental da fazenda. O público,
essencialmente composto de técnicos agrícolas, era importante.

O motivo da apresentação era integrar o Estado de Alagoas num projeto incluindo


vários estados, principalmente nordestinos, que previa plantar 4 a 5 milhões de hectares de
mamona. Pode ser cultivada junta ao feijão ou o amendoim e tem um ciclo de 250 dias e a
produção ótima é de 12.000 kg/ha. Entre seus derivados destacam-se a torta para adubo e o
óleo utilizado como combustível, também chamado de biodiesel.
103

As experiências efetuadas na Bahia, na Paraíba e no Rio Grande do Norte deram,


segundo os palestrantes, certo graças ao convênio entre a EMBRABA que promoveu a
lavoura e os governos estaduais que garantiram a compra. O Banco do Brasil e o Banco do
Nordeste permitiram o financiamento da mamona através do PRONAF.

A palestra principal que durou quase duas horas, por mais interessante que foi, falhou
muito em termos informativos sobre os aspectos realmente técnicos, a questão da
assistência técnica e dos aspectos financeiros (custo de produção e renda bruta e líquida)
fundamentais para os pequenos agricultores.

Em última notícia, o governo de Alagoas, teria assinado um contrato para a construção


de uma usina de biodiesel, mas não em Arapiraca...

O Consiagre é um consórcio intermunicipal para a produção, industrialização e


comercialização de produtos da Agricultura Familiar do Agreste, abrangendo um área de
13 municípios, mas sendo decorrente de um acorde entre 9 municípios (prefeituras).
Arapiraca estaria com a cota maior de participação financeira do projeto com 50% de
contribuição. Foi criado em 2003, mas em abril de 2004 estava ainda em fase de
implantação e na reunião ordinária, que ocorreu em 4 de abril na Câmara Municipal,
poucas pessoas compareceram.

Mostraram-se os objetivos da entidade, sua estrutura, seus modos de funcionamento,


tudo muito bem planejado. Foi feito um relatório das reuniões preliminares realizados nos
municípios, dos recursos materiais e humanos existentes nas secretarias municipais de
agricultura, do andamento da implantação da sede e dos problemas de financiamento.

O Consiagre, apesar de seus objetivos ambiciosos, aparentemente circunscreve-se à


mandioca, da qual fabricaria farinha através de uma subsidiária, a Fecularia, obtendo a
matéria-prima por meio de um termo de adesão assinado pelo agricultor que se
comprometeria a fornecer as raízes, condição difícil a realizar, pois o preço do produto é
extremanente variável e incontrolável e o produtor sempre vende a quem oferece mais...

Sem pressupor dos fundamentos e dos resultados da entidade, a apresentação a que


assistimos nos deixou com certa perplexidade no que diz respeito aos objetivos reais do
Consórcio. Pretendem seus dirigentes “comercializar os produtos” da Agricultura Familiar
mas se restringem à mandioca da qual se pretende “fabricar farinha”. Seria então uma
indústria cujos lucros iriam onde? Para os municípios? O que acontecerá com as diversas
104

casas de farinhas comunitárias ou privadas espalhas pelos municípios? Porque criar tal
estrutura enquanto uma cooperativa seria mais adequada? O Consiagre, com as dúvidas
que levanta, aparece mais como uma iniciativa privada tentando utilizar os recursos
públicos para a montagem, funcionamento e administração de interesses particulares do
que uma entidade voltada para o bem do pequeno agricultor.

Por entre as atividades alternativas, a criação de avestruz firma-se como um “bom


negócio”. É incentivada por um convênio entre a empresa Multiaves, Banco do Nordeste e
Governo de Alagoas. Em palestra ministrada em 6 de agosto de 2004, no Hotel Plaza pela
Mandacaru, empresa de cursos e projetos agropecuários, foi apresentado o projeto, o
custeio e financiamento.

Os palestrantes mostraram as possibilidades técnicas e financeiras de criação, as


vantagens da carne em relação a outras (aspectos nutritivos) e o imenso mercado, nacional
e internacional aberto para o animal; apontaram-se ainda as atividades anexas: ração para
animal, plumas (muito utilizadas na época do carnaval para as fantasias) decoração de
ovos, curtume.

Por exemplo, segundo os palestrantes, o brasileiro consome 36 kg de carne de boi por


ano, poderia comer 1 kg de carne de avestruz proporcionando a produção de 8 mil
toneladas. As exportações no primeiro ano poderia representar 2 mil toneladas,
representando menos de 1% de toda a carne exportada pelo Brasil, havendo-se assim
muitas possibilidades de expansão, em particular para os mercados da China, da União
Européia e dos Estados Unidos.

Conforme o “termo de parceria” o projeto, prevê a contribuição do BNB pelo


financiamento à altura de 92 milhões de reais, o que parece muito elevado para o iniciar
uma nova atividade, talvez arriscada apesar do otimismo dos palestrantes e/ou atores. O
governo, entre outras atribuições, seria encarregado de promover e facilitar a associação de
criadores e fornecer a assistência técnica, o que parece irrisório em relação ao custo do
investimento e os eventuais retornos em impostos; é pouco provável que chegue a atuar
nesses campos, pois a assistência técnica do governo é e sempre foi quase nula: basta ver o
estado da Secretaria de Agricultura em Arapiraca. Por fim a Multiaves, além de
participação técnica, se obrigaria a comprar as aves.
105

Teoricamente, os micros, médios e grandes agricultores poderiam criar avestruzes;


pensa-se ainda em condomínio (agrupamento de pequenos produtores); estava previsto
agregar uma centena de criadores nos três primeiros anos do projeto. O investimento,
porém, seria de 131 mil reais para uma receita de 120 mil ao ano, na base de 10 casais de
avestruzes (20 aves), em um hectare de terra. Qual é o pequeno agricultor que tem
condição de investir tal quantia? Qual seria o banco que tomaria o risco de financiar um
agricultor de poucos bens, qual seria a garantia? Os idealizadores do projeto talvez
pensassem nisso quando falaram que o governo poderia criar um fundo de aval.

A exposição clara e concisa do palestrante, a apresentação de dados convincentes sobre


o futuro da atividade, não tirou as dúvidas quanto à implantação efetiva do projeto em
Alagoas, pelo menos na área da Agricultura Familiar ou do pequeno agricultor; parece,
como a maior parte dos projetos, reservado a uma categoria de agricultores de porte médio
ou grande: o pequeno agricultor, por falta de terras, de recursos, e por sua necessidade de
produzir gêneros alimentícios para seu próprio sustento estaria excluído de tal atividade.

A criação recente de uma cooperativa, ao nível do Nordeste (Alagoas, Pernambuco,


Paraíba e Rio Grande do Norte) viria confirmar isto: “Trata-se de uma cooperativa (...)
fundada por um grupo de empresários, pecuaristas e profissionais liberais ligados ao
agronegócio” (GA, 29/08/2004); a criação de avestruz foi implantada há cinco anos no
município de São Sebastião e não em Arapiraca...

Esses três projetos, embora tenham chance de realização em Alagoas, não parecem
adequado, por suas próprias estruturas, para o município de Arapiraca. Confrontados com a
realidade territorial, eles superam as possibilidades e desta forma não passam de propostas,
vindo de interesses privados, e justificativas para dizer que se faz algo do que real vontade
de resolver os problemas neste município.

Qual será a realidade efetiva do PAPL-AL, Programa de Mobilização para o


Desenvolvimento de Arranjos e Territórios Produtivos locais no Estado de Alagoas, que
prevê beneficiar 27 mil produtores e empresas de pequeno porte? Teoricamente, um gestor
local seria encarregado “de articular uma rede de parceiros e produtores/empreendedores,
visando a construção de um plano de ação para o desenvolvimento do programa” (PAPL,
2004)? Na região de Arapiraca (Agreste) seriam fortalecidas a cultura da mandioca e a
movelaria.
106

Será que o plano de ação se transformará em ação real?

6. AÇÃO OU REPRESENTAÇÃO: AS SECRETARIAS DE AGRICULTURA?

Continuando nesse pensamento, e por razões totalmente diferentes, as duas secretarias


de Agricultura, municipal (SMA) e estadual (SEAGRI) têm pouca atuação em termos de
desenvolvimento agrícola.

Uma das principais causas é a falta de recursos.

A SEAGRI alguns tempos atrás dispunha apenas de um carro (às vezes sem
combustível) e um técnico, insuficiente para atender as eventuais necessidades de apoio ou
assistência (não é caso único no Brasil). O órgão, seguindo as diretivas estaduais, este ano
2004, estava mais preocupado pela importante questão da febre aftosa que motivou várias
reuniões em nível regional. Existem projetos e muitas participações em eventos.

Vários técnicos trabalham na SMA, mas não vimos muitos resultados concretos no
campo, ainda que saibamos que há assistência técnica e desenvolvimento de projetos.
Também atua na construção de poços artesianos e açudes para irrigação.

Entretanto, para a opinião da população rural, a Secretaria Municipal está muito carente
e não consegue atender as necessidades.

Outra razão seria a falta de conhecimento territorial comprovado pela linguagem e


metodologia inadequada entre técnicos e agricultores familiares, como pudemos constatar
no caso do PRONAF

Acompanhamos alguns técnicos que foram nas comunidades para apresentar o


PRONAF, o programa de financiamento da Agricultura Familiar do governo federal.

As reuniões ocorriam geralmente no salão comunitário ou, mais simplesmente, debaixo


de uma árvore. Relativamente poucas pessoas compareceram. Em Canãa, cuja população é
de mais 1.500 moradores, por exemplo, o publico foi de 35 pessoas que chegaram a
horários diversos (reunião em 4 de março). No sítio Fernandes, com cerca de 1000
habitantes, apenas 18 pessoas participaram (reunião em 9 de março).
107

As explicações muitas vezes eram expressas com linguagem técnica pouco acessível aos
produtores. No final de algumas reuniões ouvimos conversas particulares entre os
agricultores, cada um procurando do outro saber o que tinha entendido e percebemos que
se transmitiam desta forma muitas informações errôneas.

Por outro lado, o financiamento do PRONAF é associado a uma atividade, um projeto


produtivo, sem a renda do qual o credor não poderá reembolsar o dinheiro emprestado. Os
técnicos se limitavam a fornecer informações gerais e nenhuma sobre a maneira de
preparar um projeto produtivo, que tipo e fazer o orçamento.

Assim, tivemos a impressão que a única informação que sobressaiu dessas reuniões,
pelo menos na maioria da população presente, é que através do PRONAF se podia “tirar o
dinheiro”, considerando o agricultor este dinheiro como uma “doação”, pois este ia ser
utilizado inadequadamente para a compra de alimentos, roupas ou ainda sacar outras
dívidas.

Os técnicos da SMA cadastravam os interessados no final das reuniões.

Assim, a SMA apenas teve um papel meramente administrativo, no caso, uma extensão
do programa PRONAF sem grande interferência nos seus objetivos; o que era importante
era cadastrar e não saber se o dinheiro ia ser efetivamente utilizado para os devidos fins.

Tivemos depois confirmação da falta de atuação da SMA neste particular quando


ocorreram problemas com os bancos financiadores do PRONAF (Banco do Brasil e Banco
do Nordeste) a partir do final de maio e até o mês de agosto. Não houve intervenção para
ajudar os agricultores, por depoimento dos mesmos e dos próprios técnicos da SMA. Se
acontecesse em alguma ocasião, isso não chegou a nosso conhecimento.

O principal problema das secretarias de agricultura, que, infelizmente, não é privilégio


das de Alagoas ou de Arapiraca, estaria nas suas estruturas e na (in)definição de suas
competências.

A falta de recursos patente (existe há anos...) corresponde a uma política geral onde o
investimento no setor primário é deficiente, apesar do Brasil ser um país onde a agricultura
é uma atividade dominante. O agronegócio recebe a maior parte das verbas alocadas ao
desenvolvimento agrícola. Os programas em prol da Agricultura Familiar, que em número
108

de estabelecimentos é majoritária, não atingem os pequenos produtores que também


constituem uma maioria.

Nesse contexto, as secretarias de agricultura teriam apenas um papel administrativo, ou


seja, relativamente passivo. Seriam encarregadas de montar e mostrar projetos sem ter as
condições necessárias para realizá-los.

A questão da Assistência Técnica é significativa deste pensamento, pois as secretarias


estão na incapacidade de fornecê-la, por não ter meios materiais e humanos, e é disso que a
agricultura de base mais precisa. As empresas agrícolas passam assim a assumir esse papel
técnico, mediante o sistema de parceria, bem como parte do financiamento, transferindo
para o setor privado o que seria uma responsabilidade do setor público. Isso iria ao
contrário da política geral, pois as empresas agem em função de seus interesses próprios e
não dos interesses sociais e coletivos.

A transformação das secretarias de agricultura em Arapiraca em verdadeiros atores


eficientes passaria então por uma articulação das políticas municipal e estadual, uma
repartição dos papéis, uma definição clara de seus objetivos, voltados para uma melhoria
das condições de produção do minifúndio de subsistência, característico da realidade
agrícola do município e uma reorganização das cadeias produtivas junto ao setor privado.

7. INICIATIVA E PARCERIA: ÚNICO FATOR DETERMINANTE?

Moisés Calu de Oliveira mostrou na sua tese de mestrado (OLIVEIRA, 2004) o papel
fundamental que tiveram e tem algumas empresas em Arapiraca e região para o
Desenvolvimento Local, tanto no setor da agricultura pelas culturas que promovem quanto
na cidade em termos de empregos.

A base é o sistema de parceria, assim como já discutimos. No setor de fumo, destacam-


se a Universal Leaf Tabacos e a Souza Cruz que, desde 1999, estão desenvolvendo com
sucesso a cultura dos fumos claros para cigarros, com tecnologia e relações de produção
modernas; o investimento anual supera o milhão de dólares. Agregam hoje uns 150
produtores que já plantam em torno de 350 hectares e produzem cerca de 700 toneladas.
109

Ainda pouco expressiva, esta lavoura cresce em cada ano; sua expansão, contudo,
dependeria exclusivamente de fatores internacionais.

O grupo Coringa é o maior comprador de fumo, mandioca e milho da região. A Luna


Avícola também favoreceu a cultura do milho para a criação de frangos, galinhas e
produção de ovos que expande pela região. Embora o nível seja muito mais modesto a
Coopagreste (galinhas, ovos) tem uma ação similar. O grupo Unicompra, rede de
supermercados, também é importante para o escoamento da produção local, em particular
de produtos alimentícios agrícolas artesanais ou semi-industriais: geléias, mel, leite, queijo,
animais de pequeno porte etc.

Outras formas de iniciativa e parceria existem e permitem o desenvolvimento de novas


atividades.

As hortaliças fazem sucesso em Arapiraca apesar de sua implantação e desenvolvimento


encontrar as mesmas dificuldades de sempre (assistência técnica, crédito, organização da
cadeia produtiva) (SOUZA, 2002). A iniciativa local que principiou a atividade recebeu o
apoio da Prefeitura que implantou o programa “Cinturão Verde”, recebendo recursos do
Ministério da Integração Nacional, em torno de 2 milhões de reais. Hoje, mais de 20
comunidades estão produzindo em torno de 500 mil caixas de legumes e verduras e
Arapiraca abastece 40% da Ceasa de Maceió.

A cultura orgânica também tem tudo para dar certo, apesar dela ainda ser muito tímida.
Originou-se em iniciativas privada e associativa tais quais, respectivamente, a Vale Verde
e a Aragreste (Associação Rural Agro-ecológica do Agreste), ambas criadas em 1996.
Apesar de ser vista como uma volta ao passado, a cultura orgânica possui regras e técnicas
rígidas (SILGUY, 1998; DOUZOU, 2001). Na Europa as exigências são tais que muitos
produtores não conseguem ser “habilitados” para colocar nos seus produtos o label
“orgânico” ou “biológico”. Em Arapiraca, o mesmo acontece: pouco mais da metade dos
associados da Aragreste podem vender seus produtos em feiras. As dificuldades técnicas
não teriam sido (ou não seriam) superadas sem o apoio de várias entidades, em particular o
Instituto de Desenvolvimento Rural de Alagoas (Ideral). Com o projeto “Vida Rural
Sustentável”, o Movimento Minha Terra (MMT) e o SEBRAE conseguiram quase dobrar o
número de produtores orgânicos no município que hoje deve contar com uns 50
110

estabelecimentos. O mesmo projeto está sendo desenvolvido em outras cidades e existem


feiras em Maceió, Arapiraca e Santana do Mundaú.

Com esses exemplos, vemos que a parceria é um fator determinante para a realização de
ações concretas que dão resultados. Que seja privada, individual ou associativa, a iniciativa
precisa de instituições que lhe permite estruturar-se. Nesse sentido, foi recentemente criada
a empresa Ara Pesquisa (www.arapesquisa.com) que pretende cadastrar todas as empresas,
industriais, comerciais ou de serviços, e instituições de Arapiraca, dando acesso aos sites
das mesmas. Esse banco de dados inédito futuramente poderá ser um ótimo instrumento
para a identificação de atores e busca de parceiros.

8. UMA NOVA FORÇA EM CONSTRUÇÃO: UMA LUZ NAS TREVAS?

Vem se construindo em Arapiraca uma nova força a partir de três entidades, com apoio
de vários parceiros, que são o SEBRAE/AL, o Fórum do Desenvolvimento Local Integrado
e Sustentável – FDLIS e a Agenda 21

Não precisa mais apresentar o SEBRAE que há anos, com pesquisas e projetos próprios
além de participação em grandes programas, contribui ao Desenvolvimento Local
(SEBRAE/AL, 1997, 1998, 1999).

Criado em 1999, seguindo o programa chamado de “Comunidade Ativa” (FONTES,


2004), o Fórum do Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável é composto de um
conselho de mais de 75 membros que representam os mais diversos setores de atividade,
profissões e administração: associação comercial, sindicatos rurais, secretarias municipais,
professores universitários, empresas privadas, estabelecimento de ensino regular e
professionalizante etc.

Atualmente trabalham uma equipe gestora de cinco pessoas. Conforme alguns


integrantes desta coordenação, o FDLIS não realiza diretamente os projetos que lança, mas
pretende detectar os problemas e apoiar, até “pressionar”, os órgãos competentes para
solucionar os problemas. Eis aqui alguns exemplos: Revitalização do comércio (mediante
melhoria das infra-estruturas), Parque Ceci Cunha, Praça da Rodoviária, Banda PETI,
Unidade de produção de alimentos Centro administrativo (redução de contrapartida),
111

Barragem da Bananeira (redução de contrapartida), Centro de zoonoses (redução de


contrapartida de equipamento).

Uma das realizações das qual o FDLIS se sentiu mais útil é a alfabetização de jovens e
adultos em que o programa, junto com escolas da rede municipal e estadual, com apoio de
MEC, atendeu 10.800 alunos em três anos enquanto a meta era de 10 mil.

No entanto, o FDLIS aparece mais como um conselho consultivo, sem poder real, uma
autoridade moral mais do que um órgão com largas competência e margem de ação.

Assim que já foi dito, a Agenda 21 é uma idéia que surgiu na já citada II CNUMAD de
1992. A agenda de Arapiraca nasceu em julho de 2004 e tem um plano de ação de 14
meses, com recursos principais de Ministério do Meio Ambiente, de que depende.

Podemos entender um pouco os princípios da Agenda 21 mediante as nove etapas que


se propõe realizar: Cadastrar os potenciais parceiros do Desenvolvimento Sustentável,
Definir e estabelecer formas de legitimação da Agenda, Informar a comunidade sobre os
objetivos e as ações da Agenda, Capacitar os atores relevantes à construção da Agenda,
Elaborar os diagnósticos técnicos e participativos, Elaborar a Agenda, Elaborar o Plano de
Ação definido pelo Fórum da Agenda, Implantar a Agenda.

A Agenda 21 apresenta-se como um projeto “de cima” feito com atores “de baixo”.

A a nosso ver, a grande dificuldade que encontraria a Agenda é, primeiro, a dificuldade


em motivar, reunir pessoas participantes de forma efetiva e constante. Precisa de tempo
para isso. O segundo receio é que a equipe esteja presa por suas obrigações “contratuais”
em relação ao MMA, tendo que cumprir as etapas, realizar os trabalhos e que, também por
falta de tempo, todo esse trabalho fique na superficialidade.

Apesar desses empecilhos, todas as pessoas que participaram das reuniões do


SEBRAE/AL, FDLIS e da AG21, nos últimos meses tiveram o sentimento que um forte
movimento estava se criando e que o “protagonismo local” estaria se associando aos
programas (inter)nacionais.

Existem, com certeza, muitas divergências no que diz respeito à teoria e metodologia do
Desenvolvimento Local, a percepção do território, os modos de ação, mas isso só pode ser
benéfico. A vontade é comum: melhorar a vida no município de Arapiraca.
112

9. CONCLUSÃO

A exposição de alguns dos supostos atores do Desenvolvimento Local em Arapiraca


mostra que não basta existir como órgão ou instituição para ter automaticamente uma ação
positiva. Pelo contrário, os problemas internos, estruturais ou outros, prejudicam o
funcionamento das entidades e o alcance dos objetivos imediatos ou planejados de que
resultaria a melhoria das condições sociais e econômicas do município.

Os exemplos de situação de impasse, a discrepância entre o potencial agrícola de


Arapiraca e as propostas de atividades patenteia a ineficiência dos atores quando não há
conhecimento territorial e coordenação suficientes. Muitas iniciativas comunitárias ou
individuais estagnam não porque não se sabe como transmitir as informações, que podem
circular de forma errônea, ou a quem recorrer, havendo vários centros de decisão. A
parceria, quando não é exclusivamente do mundo empresarial, ou seja, voltada para
interesses privados, só pode dar bons resultados se as competências ou atribuições dos
parceiros são claramente definidas e integradas para realizar projetos onde os executantes e
os beneficiários participam de forma realmente ativa. O mundo é feito de incertezas, mas a
esperança no Desenvolvimento Local não pode se alimentar de objetivos escusos.
113

ESBOÇO DE UM DIAGNÓSTICO OU CONCLUSÃO PROVISÓRIA

Arapiraca nasceu e cresceu com o fumo, viveu ao ritmo de sua produção. Visto pelo
cunho da evolução dessa lavoura, o que narramos é muito diferente da tradicional história
dos Manoel André, Nunes Pereira ou Paula Magalhães. Ainda que criada na segunda
metade do século XIX, a sociedade que se assentou no fumo reproduziu os moldes
herdados da época colonial, na base de relações mercantilistas, ou seja, pré-capitalistas. O
processo de formação não diferiria, nas suas linhas gerais, do de toda a sociedade alagoana,
se acreditamos no que diz Fernando Lira a esse respeito e o contexto geral, a crise
conjuntural e estrutural do Estado de Alagoas, não é muito favorável ao Desenvolvimento
Local de Arapiraca.

Mostra-se apenas do ponto de vista local, com suas particularidades, como a


desigualdade se instaurou com, por um lado, uma elite mercantil – e não agrária como em
114

outras regiões de latifúndio – e, por outro lado, uma população rural confinada na
economia de subsistência, minifundiária, com estruturais mentais bloqueadas que a
impedem de sair da cultura do fumo e outra população urbana, acomodada nas suas
péssimas condições de vida. As mentalidades se construíram em função dessa dicotomia e
são ameaças permanentes.

Entretanto, Arapiraca possui inúmeros recursos naturais de qualidade: clima, terra, água.
As oportunidades de atividades agrícolas são diversificadas: milho, algodão, fumo,
mandioca, feijão, hortaliças, frutas, apicultura e piscicultura, criação de animais de
pequeno porte. O solo é rico em mais de dez tipos de minerais. Em termos empresariais ou
industriais, o município ocupa uma posição estratégica, central em relação ao Estado de
Alagoas e parte dos estados vizinhos de Pernambuco, Sergipe e Bahia. As rodovias
estaduais e federais, mesmo sendo algumas delas parcialmente danificadas, são boas. Neste
sentido, o abastecimento em matéria-prima, bem como o escoamento dos produtos, não
apresenta problemas maiores. O potencial humano é grande e principalmente jovem, isto é,
adaptável.

Mas a economia, até anos recentes, esteve quase que exclusivamente relacionada a uma
só atividade agrícola: o fumo. A organização da sociedade impede em curto prazo
mudanças estruturais fundamentais. O conservadorismo, bem como o conformismo,
dificulta a introdução de novas tecnologias e formas de organização social e produtiva. O
individualismo compromete as organizações e ações coletivas. A falta de
comprometimento impossibilita a realização de projetos a médio ou longo prazo.

As infra-estruturas do município, tanto na zona rural quanto na zona urbana, são


deficientes: energia, água, ruas e estradas sem pavimento, transporte e comunicação. Em
quase todos os setores agrícolas, há carência ou desorganização da cadeia produtiva. A
estrutura fundiária dominante que é o minifúndio fecha a porta a muitas mutações. O
analfabetismo também é um obstáculo à implantação de uma “nova cultura”. Associado à
desqualificação profissional, ele tira o eventual interesse dos empresários ou impossibilita
a instalação de novos estabelecimentos industriais, de comércios ou serviços. Os
agricultores, artesãos e microempresários padecem de informações em particular sobre os
sistemas de crédito existentes, e alguns desses sistemas de adaptabilidade às condições e
necessidades dos clientes.
115

De forma geral, as carências na circulação da informação, qualitativa e quantitativa,


desfavorecem a construção coletiva e coordenada de novos modos de pensar e agir. A
maior parte dos projetos federais e estaduais elaborados por tecnocratas em altas esferas
dos governos é muitas vezes imprópria para as realidades locais. Na mesma linha, a falta
de conhecimentos pormenorizados sobre o município prejudica o planejamento. É ausente
ou insuficiente a atuação dos órgãos de pesquisa territorial. Tampouco existe uma
instituição de coordenação entre os diferentes atores, politicamente independente ou
suprapartidária, visando a ação integrada dos mesmos.

Em contrapartida, a divulgação regular dos índices sociais e econômicos do Estado,


colocando o mesmo quase sempre em último lugar da federação brasileira, às vezes ao
nível dos países mais pobres, faz com que está crescendo uma consciência por entre os
responsáveis políticos e muitos atores da necessidade urgente de reverter às tendências.
Localmente, o mesmo forte sentimento parece animar os atores e a população,
incentivando os mesmos a organizar-se territorialmente, independentemente ou não das
ações exógenas. Isso abre a porta a qualquer sugestão, iniciativa, em qualquer setor da
administração pública, sociedade e economia, que for para melhorar o que já existe ou
inovar.

No estado atual de nossa pesquisa, não podemos ter propostas imediatas. Como já
frisamos setorialmente em quase todas as partes do texto, o Desenvolvimento Local na sua
totalidade dependeria de conhecimentos, coordenação, e elaboração de micro-projetos
concretos, integrados, voltados para a resolução de problemas maiores formando assim
uma estrutura piramidal. Tentar solucionar os problemas da Educação, por exemplo, é
enfrentar um dragão tentacular. Aumentar o número de escolas, melhorar a formação dos
professores, dar-lhes mais material didático, providenciar a merenda, estão medidas ao
alcanço do município mas que também dependem de uma política geral, nacional, que está
longe de satisfazer as necessidades qualitativas e quantitativas. A educação é um
investimento em longo prazo, quem recolheria os frutos da presente ação seria a geração
que está nascendo agora. Em suma, a chave do Desenvolvimento Local estaria mais na
metodologia do que na execução de programas e projetos, mesmo bem conceituados,
parciais e aleatórios.
116

A nossa concepção, uma entre muitas outras, do Desenvolvimento Local a partir do


Projeto de Território tal qual o que descrevemos em início desse trabalho poderia ser o
ponto de partida de um debate sobre as formas, ou estratégias, que deveriam ter o processo
em Arapiraca: como resgatar as informações e construir o conhecimento e pensamento
territorial; como disso extrair, criar soluções originais, inovadoras, mesmo que inspiradas
por experiências de outras regiões, vindas diretamente daqueles que vivem e observem a
realidade; como instaurar na população o sentimento que ela tem que tomar conta de seu
próprio destino e arregaçar as mangas; como reunir as forças de apoio; como, sem esquecer
a herança cultural, construir os alicerces de uma nova sociedade arapiraquense.

O Projeto Comum de Desenvolvimento consiste em responder a algumas perguntas do


tipo: O que esperamos do futuro? Como queremos ver Arapiraca e sua região daqui a
alguns anos? O que queremos deixar para nossos filhos? O que podemos fazer aqui e agora
para vivermos melhor e que nossa progenitura não tenha que sofrer os mesmos males que
nós? Qual é nossa “visão do futuro” para utilizar uma terminologia do Ministério de Meio
Ambiente e da Agenda 21?

A visão compartilhada do futuro determinará parte das ações e a integração de todos


aqueles, cidadãos ou instituições, que se reconhecem nesse empreendimento. O discurso,
as intenções, nem sempre transparentes, a defasagem entre as realidades locais e as
propostas, alguns sucessos relativos tendem a mostrar que ainda há muito caminho para
percorrer antes de chegar a um consenso sobre os métodos adequados para ativar o
processo de desenvolvimento.

Construir o Desenvolvimento Local é um desafio. As teorias e suas aplicações, em todas


as modalidades, são válidas somente se a população do território-alvo estiver pronta a
aceitar as mudanças necessárias para seu bem-estar. Por isso ela tem que substituir sua
atual “visão do mundo” para outra, passando da realidade presentemente vivida para um
futuro próximo, incerto mas que não pode ser pior. Há de superar o medo, ter coragem e
ousadia. As mutações sociais, econômicas, espaciais, não se farão sem essa transição para
um novo “ser arapiraquense” que compartilha os problemas, divide o poder pelo exercício
da real democracia, a consciência da cidadania, isto é, o sentimento de pertencer a uma
mesma comunidade, visando o coletivo antes dos interesses particulares.
117

A principal ameaça externa de Arapiraca, hoje, é o mercado nacional e internacional do


fumo negro que está quase esgotado enquanto o dos fumos claros depende quase que
exclusivamente de fatores internacionais por ser manuseado por multinacionais. “Acabou-
se o fumo...” cantavam as destaladeiras. Arapiraca, portanto, está passando hoje por um
importante momento de sua história, uma virada. A crise e fim previsível da cultura
fumageira vai obrigar a população a adotar outros modos de pensar e agir para tomar conta
de seu destino se não quiser se transformar em uma babilônia decadente. Vai precisar
construir o que não foi feito quando o fumo gerava riqueza, erguer as colunas de uma nova
sociedade. Sem saber, Arapiraca já começou esta mudança.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Nota prévia. Devido ao importante número de documentos consultados pela Internet, bem
como fontes de mesma origem, a apresentação da presente bibliografia difere das normas
geralmente estabelecidas.

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www.gazetaweb.com
127

ANEXOS
128

ANEXO 1: PROJETO DE TERRITÓRIO................................................................................................................I

ANEXO 2: MAPA DO ESTADO DE ALAGOAS................................................................................................III

ANEXO 3: MAPA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA....................................V

ANEXO 4: FORMAÇÃO DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA.........................V

ANEXO 5: MUNICÍPIO DE ARAPIRACA: LISTA E MAPA DAS COMUNIDADES DA ZONA RURAL....VI

ANEXO 6: MUNICÍPIO DE ARAPIRACA: LISTA E MAPA DAS COMUNIDADES DA ZONA URBANA...IX

ANEXO 7: REGIÕES DE PRODUÇÃO DE FUMO NO BRASIL EM 1980......................................................XI


I
ANEXO 1: PROJETO DE TERRITÓRIO

GRUPO DE REFLEXÃO E PESQUISA

PROBLEMA
INICIAL

PESQUISA
Quantitativa Qualitativa
(dados (depoimentos)
estatísticos) Análise
Classificação

DIAGNÓSTICO
ANÁLISE ANÁLISE
EXTERNA INTERNA

OPORTU- AMEAÇAS PONTOS PONTOS


NIDADES FORTES FRACOS

DEFINIÇÃO DO
TERRITÓRIO

BALANÇO

PROPOSTAS PROPOSTAS

PRIORIDADES

PROJETO PROJETO PROJETO PROJETO PROJETO

PROJETO DE TERRITÓRIO
II

PROJETO DE TERRITÓRIO
Longo prazo

GRUPO DE REFLEXÃO E PESQUISA =


COMITÉ COORDENADOR (GESTOR)

Administra, Planeja, Coordena

Definir os objetivos, as metas


CONSELHO CONSULTIVO
Planejar por etapas
Avaliar as chances de sucesso, adaptar
Procurar recursos humanos e materiais
Realizar
Avaliar, adaptar
Realizar
Finalizar

CADA PROJETO

Curto ou médio prazo

Recursos humanos e materiais

Mobilizar Financiar

ATORES PARCEIROS

Pessoas, moradores, de qualquer Instituições (bancos, empresas,


profissão desde que sejam úteis órgãos governamentais ou não,
para o projeto (conhecimentos) etc.)

Instituições, órgãos locais, Financiam


associações Fornecem material ou pessoas

Realizam o projeto Ajudam a realizar o projeto

FINALIZAR
III

ANEXO 2: MAPA DO ESTADO DE ALAGOAS, POR MUNICÍPIOS

ELABORAÇÃO: Jean Baptiste Nardi


IV

ANEXO 3: MAPA DOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO


FUMAGEIRA DE ARAPIRACA

Craíbas
Coité Taquarana
do
Nóia
ARAPIRACA
Girau do Limoeiro do
Ponciano Anadia
Lagoa
da
Canoa

Feira
Grande

Campo
Grande São
Sebastião

ELABORAÇÃO: Jean Baptiste Nardi


V

ANEXO 4: FORMAÇÃO DOS MUNICÍPIOS


DA REGIÃO FUMAGEIRA DE ARAPIRACA

MARECHAL
DEODORO 1636

ANADIA
1801

Limoeiro de Anadia
1882

Arapiraca
1924

Junqueiro
1903, 35,
47

Belém Maribondo Mar Tanque Taquarana Lagoa da


1962 1962 Vermelho d’Arca 1962 Canoa
1962 1962 1962

Coité do
Noiá
1963

Craíbas
Girau do 1982
PENEDO TRAIPU Ponciano
1636 1835 1958

Feira Grande
São Brás 1954
1889/1935
Campo Grande
1960

IGREJA São Sebastião


NOVA 1960
1890

FONTES: SEPLAN/AL. ANUÁRIO ESTATÍSTICO DE ALAGOAS 2002


VI

ANEXO 5 : MUNICÍPIO DE ARAPIRACA,


LISTA E MAPA DAS COMUNIDADES DA ZONA RURAL

1 - ALAZÃO
2 - ALTO DOS GALDINOS
3 - BAIXA DA HORA
4 - BAIXA DA ONÇA
5 - BAIXA DO CAPIM
6 - BÁLSAMO
7 - BANANEIRAS
8 - BARREIRAS
9 - BATINGAS
10 - BOM JARDIM
11 - BOM NOME I
12 - BOM NOME II
13 - BRAÚNAS
14 - BREU
15 - CAJARANA
16 - CAMPESTRE
17 - CANAÃ
18 - CANGANDU
19 - CAPIM
20 - CARRASCO
21 - CORREDOR
22 - ESPORÃO
23 - FAZENDA VELHA
24 - FERNANDES
25 - FLEXEIRAS
26 - FURNAS
27 - GENIPAPO
28 - GRUTA D’AGUA
29 - INGAZEIRA
30 - ITAPICURU
31 - LAGOA CAVADA
32 - LAGOA D’ÁGUA
33 - LAGOA DE DENTRO
34 - LAGOA DO MATO
35 - LAGOA DO POÇÃO
36 - LAGOA NOVA
37 - LARANJAL
38 - LOGRADOURO SÃO PEDRO
39 - MANGABEIRAS
40 - MASSARANDUBA
41 - MULUNGU
42 - MUNDO NOVO
43 - OITIZEIRO
44 - OLHO D’ÁGUA DE CIMA
45 - PAU D’ARCO
VII

46 - PAU FERRO DOS LARANJEIRAS


47 - PÉ LEVE VELHO
48 - PERUCABA
49 - PIAUÍ
50 - POÇÃO
51 - POÇO DA PEDRA
52 - POÇO DE BAIXO
53 - POÇO DE SANTANA
54 - QUATIS
55 - RIO DOS BICHOS
56 - SANTA MÔNICA
57 - SAPUCAIA
58 - SERRA DOS FERREIRAS
59 - SERROTE DO JOÃO DIAS
60 - TABOQUINHA
61 - TAQUARA
62 - TERRA FRIA
63 - TINGUI
64 - UNBUZEIRO
65 - VARGINHA
66 - VILA APARECIDA
67 - VILA SÃO FRANCISCO
68 - VILA SÃO JOSÉ
69 - VILA SÃO VICENTE
70 - XEXEU
71 - BARRO VERMELHO
VIII

LOCALIZAÇÃO DAS COMUNIDADES RURAIS

PI

AL 115

68

CR 70 63 32
AL 486 11 a
51
20 66
30 TA
44
23 AL 110
05 27
21 08 40 43 35
AL 220 54 58
17 36 69
39 56
50
BA 42 19 22
64 14
11 31

16
67 10
LA
59 24
AL 220
46 71
55
65
33

13 03 25
41 01

04 09 18
53
57
45 26 47
62
61
06 07
49
48 15

52
AL 115 28
LC 37
60 29
34

FONTES: FACOMAR e Pesquisa de Campo; ELABORAÇÃO: Nardi, 2004 AL 110 SS


IX

ANEXO 6: MUNICÍPIO DE ARAPIRACA,


LISTA E MAPA DAS COMUNIDADES DA ZONA URBANA

01 - ALTO DO CRUZEIRO
02 - BAIXA GRANDE
03 - BAIXÃO
04 - BOA VISTA
05 - BRASÍLIA
06 - BRASILIANA
07 - CACIMBAS
08 - CAITITUS
09 - CANAFÍSTULA
10 - CAPIATÃ
11 - CAVACO
12 - CONJUNTO MANGABEIRAS
13 - ELDORADO
14 - GUARIBAS
15 - ITAPUÃ
16 - JARDIM ESPERANÇA
17 - JARDIM TROPICAL
18 - MANOEL TELES
19 - NOVA ESPERANÇA
20 - NOVO HORIZONTE
21 - O. D’ÁGUA DOS CAZUZINHAS
22 - OURO PRETO
23 - PLANALTO
24 - PRIMAVERA
25 - SANTA EDWIGES
26 - SANTA ESMERALDA
27 - SÃO LUIZ
28 - SÃO LUIZ II
29 - SENADOR ARNON DE MELO
30 - SENADOR NILO COELHO
31 - SENADOR TEOTÔNIO VILELA
32 - SÍTIO RIACHO SECO*
33 - VERDES CAMPOS
34 - ZÉLIA ROCHA
35 - CENTRO**
36 - POÇO FRIO**
37 - ROSA CRUZ**

* Não localizado em mapas da cidade


** Não possui associação comunitária
X

LOCALIZAÇÃO DAS COMUNIDADES URBANAS (BAIRROS)

BA
e PI
AL 220
23
16
12

30 06 TA
25
08 29
02 26 AL 110
11 10
37 20

13 01 15 AL 220

31 LA
34 03 05

36
35 22
CENTRO 17
09
18

07
24

27

28
19
14
21

33 SS
AL 110
04

FONTES: FACOMAR e Pesquisa de Campo; ELABORAÇÃO: Nardi, 2004


XI

ANEXO 7: REGIÕES DE PRODUÇÃO DE FUMO NO BRASIL EM 1980

Região 2
BA+AL
Fumos escuros
Folha
(cigarros)
(charutos)
16%

Região 3
BA+AL +
outros estados
Fumos escuros
Corda
(cigarros)
5%

Região 1

RS+SC+PR
Fumos claros
Folha
(cigarros)
79%

FONTES: Nardi, 1985