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1 cm

8, 5 cm 14, 3 cm 14, 3 cm 8, 5 cm

Tudo melhora quando o autor morre.


Parece que emana de páginas póstumas uma
claridade que nos ofusca o bom senso. Foi
nesse engodo que caíram os organizadores
deste livro. Achando que faziam jus
ao mais importante autor nacional morto
desde Rodrigo de Souza Leão, consideraram
importante publicar este outro azul. Porém,
qualquer revista aos botecos de Morretes-PR
não demoraria a encontrar este candango
estirado numa mesa de canto, a se dizer mais
poeta que professor universitário (duas doses)
e mais tradutor que gente (cinco doses).

guilherme gontijo flores


Por mais bem escritas que sejam as notas
e observações feitas à obra, não terem ido a
fundo em fato tão básico põe uma sombra
de credulidade e sentimentalismo às opiniões
dos organizadores. Peço ao leitor que não

21 cm
espere destas páginas mais do que
poemas-piada, obscurantismo e o Leminski
nosso de todo dia.
Não sei quais serão as consequências desta
revelação à carreira do senhor Gontijo Flores.
guilherme gontijo flores (Brasília, 2014) Com sorte, estará morta com o autor ainda
é poeta, tradutor e leciona latim vivo. O Saramago ganhou o Nobel assim,
afinal, então sinto estar desejando só o
na UFPR. Estreou com os poemas
melhor ao autor.
de brasa enganosa em 2013, finalista
Por fim, devo dizer que da distância que
do Portugal Telecom. Em 2014 lançou
escrevo, acho graça sim no livro; um
o poema-site Troiades - remix para
fracasso em fracassar, se quiser. Rio dele e
o próximo milênio. Essas obras deram ou en não com ele, que fique claro. Mas, riamos,
início à tetralogia Todos os nomes saio d por ser poeta e morto o autor, talvez não
o fra
que talvez tivéssemos. Como tradutor, casso sejamos pegos na malha fina do
entre vários outros, publicou sobre
o hum politicamente correto.
A anatomia da melancolia, or
de Robert Burton (2011-2013,
premiado com APCA e Jabuti) Leandro Rafael Perez (mora quase em Diadema,
São Paulo, e é formado em linguística pela USP.
e Elegias de Sexto Propércio (2014). Autor de turnê a meio mastro, 2014).
l’azur Blasé
ou ensaio de fracasso sobre o humor
l’azur Blasé
ou ensaio de fracasso sobre o humor

guilherme gontijo flores

Organização:
Rodrigo Tadeu Gonçalves & Adriano Scandolara

Notas:
Adriano Scandolara

Posfácio:
Rodrigo Tadeu Gonçalves
Copyright ©2016 – Kotter Editorial

Direitos reservados e protegidos pela lei 9.610 de 19.12.1998.


É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, das editoras.

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Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Arte da capa: Marcelo De Angelis

Revisão ortográfica: Kotter Editorial

Editoração eletrônica: Fernando Ribeiro

Editores assistentes: Ricardo Pozzo

Cristiane Nienkötter

Editor: Sálvio Nienkötter

Direitos reservados à

Ateliê Editorial Kotter Editorial Ltda.

Estrada da Aldeia de Carapicuíba, 897 Rua das cerejeiras, 194

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Impresso no Brasil

Foi feito o depósito legal

2016
1ª edição
Sumário

nota ao texto 7

11 parte da ética
35 cítrica
41 acadêmica
55 etílica
63 cataio
71 a vida e as opiniões
do barnabé guilherme gontijo
flores, servidor do estado

85 excurso

notas 93
prefácio interessantíssimo 141
nota ao texto

Triste editar um livro póstumo: a dor da perda de um


amigo se mistura ao desejo de consumir uma obra, como
se ela nos fosse espólio entregue fora de seu tempo. Dá-
la ao outro é, talvez, partilhar esse sentimento ambíguo
de saudade e rapina. Neste caso, encontramos em meio
aos textos guardados do poeta Guilherme Gontijo Flores
algumas obras inacabadas, que pretendemos doravante
publicar, sempre que possível. Além deste l’azur Blasé,
que comentaremos logo abaixo, havia uma série de
poemas esparsos, que ainda avaliamos, e um poema longo
provisoriamente intitulado Naharia, que continha imagens
de fotógrafos anônimos (talvez o próprio Flores), e alguns
ensaios em estado mais ou menos acabado. Tudo indica
que este livro, tal como Naharia, junto com brasa enganosa
(2013) e o poema-site, Tróiades – remix para o próximo
milênio, formariam a tetralogia Todos os nomes que talvez
tivéssemos. Entre os pertences do poeta, encontramos
ainda uma folha com outros nomes (em ordem alfabética)
descartados para a tetralogia anunciada e que talvez possam
lançar luz sobre o projeto como um todo: 4 formas da fuga, A
arte da fuga, A seara dos seres, Aterra revirada [sic], Ao visconde
as abóboras trementes, carnívoros carnófitos, Disjecta membra,
Humores, Modos de fuga, O reino e a ruína, Pletora, Pontos de
fuga, Proposições, Raios rédeas reinações, Terebintina, Variações
fugazes sobre vários temas.

7
No caso de l’azur, ao contrário dos outros textos
encontrados no computador pessoal do poeta, os poemas
estavam todos agrupados numa pasta física ironicamente
cor-de-rosa, com o título do livro escrito à mão em caneta
azul. Dentro da pasta, uma folha com seu subtítulo,
sem qualquer explicação sobre a origem e a função dos
poemas, todos em folhas soltas sem numeração, porém
agrupados numa divisão aparentemente bem organizada
em subseções: todas as folhas eram impressas, sem indicar
quaisquer alterações posteriores, o que nos sugeriu um
estado avançado de acabamento. Tentamos, tanto quanto
possível, manter a ordem que nos parecia mais certa a partir
da pasta encontrada. Não sabemos, e não saberemos nunca,
se o poeta pretendia dar mesmo à luz estes poemas, se eram
anotações para um projeto futuro, ou meras garatujas.

Por fim, resta-nos agradecer à família, que nos possibilitou


a realização desta obra. Só o tempo dirá quanto ela nos
interessa.

Os organizadores

8
sacerdote em tolices sutilíssimas
e no gosto impreciso das palavras
(Naharim al-Qabir)

And so I mocked her in magnificent measure.


Or was it that I mocked myself alone?
(Wallace Stevens)

Depois de tirar os homens das entranhas da terra, o demiurgo


Orekajuvakai quis fazê-los falar. Mandou que eles se colocassem
em fila, um atrás do outro, e convocou o pequeno lobo para fazê-
los rir. Ele fez todo tipo de macaquices, mordeu a própria cauda,
mas nada aconteceu. Então Orekajuvakai chamou o pequeno sapo
vermelho, que divertiu a todos com seu andar cômico. Na terceira
vez em que ele passou ao longo da fila, os homens começaram a
falar e rir às gargalhadas.
(“A origem da linguagem”, mito Terena)

9
parte da ética

11
l’azur

Elle est rétrouvée


Quoi? L’étern… bah,
(vous connaissez bien Rimbaud).

fulguração abismal
do azul do infinito
a braçadas sem
destino — o poeta
diverte-se no
borbulhar repetido
das pernadas na
piscina

13
a bên
ção pai
enquan
to não
te co
mo pe
ço tu
do me
nos u
ma voz

14
cansós

não pense que agrada tanto


nunca sucumbi a um servo

nunca lancei
abraços nessa cruz
coisa de matronas
que beijam
marcas de chicotes

eu
mesmo sendo criada
só cavalgo cavaleiros

15
2

no peito tímido
meu mugido de cervo
enlouquecido em extravios
minha descara
e a donzelice (dentr’
outras cousas)
mui bem perdida
nas ondas do mar de vigo

– a mais feliz vaga do mar de vigo –


e eu bem queria, mãe
que ao me levar
você me jogasse
nesse mar cruel
e inchado
das ondas purpúreas

16
monumento ao falecido poeta laureado

inscriptio funebris

Sois vós o Sol mais fulgurante ao meio dia,


Pois que o fulgor do texto vosso não se encerra
Em placa, pórtico, parede ou pradaria;
Mas persiste, silente, seja em paz ou guerra.

Que tal renome ao Mal do mundo nunca anua;


Porém, supino assim, cansais-vos, dom da Terra:
Sentai-vos, pois, em vossa praça esquina ou rua,
calado na obra, enquanto o mestre-de-obras berra.

17
o amor é do tamanho de uma pica
(ela gritou (enquanto ele por cima
chegava encabulado e assim fica
tímido com o tamanho dessa rima
(aqui convém sinceridade a pica
nunca tem o tamanho para a rima
(ou assim ele pensa) inda por cima
de encabulado o pau prostrado fica)
mas ela apalpa alegre
alegre o homem
se revigora e segue sem desgrude
até que os dois se fartam sem saber
(ou bem sabendo tanto faz
(o homem
fica e ela trabalha (o hollywood
ninguém mais fuma (agora é démodé))))

18
bruma aparecida
parede
barco

haiku ready-made tirado do nome de


bruna aparecida parede barco,
minha desconhecida

19
o roedor concreto

oroboro mequetrefe apoiado no poste

– a mão se entranha boca adentro


rato que rói as próprias
unhas
os ombros frouxos compondo o quadro
sob
os olhos fundos fixos sobre própria fúria –

oroboro mequetrefe apoiado no poste


oroboro mequetrefe apoiado no poste
oroboro mequetrefe apoiado no póste

20
paralaxe pro meu instagram

copa 2014 — a melhor


carne da cidade

21
back to the 80’s (ou “como era gostosa a nossa
poesia”)1

No Brasil, como em alguns outros


países, sobretudo latino-americanos,
por terem começado um pouco antes
e terminado muito depois, os anos 80
duraram pelo menos duas décadas.

(Darcy Ribeiro)

horatiana

fogo de pirra
é o que espirra

sílex

silêncio?
nem quando
pencil

1 Ao ilustríssimo sr. editor organizador e anotador das Obras


póstumas completas: sim, o subtítulo faz referência ao programa de
pornochachanda do Canal Brasil.

22
passante-trafficjam

cocota maravilha
atrapalhando
a trilha do trânsito

linguistics pour bandeira

mais pessoas foram


para pasárgada
do que ele

23
nippon-fawcett

sol vermelhaço
rompe o
cabaço da manhã

on the edge of my seat

sem eira
na beira
da cadeira
parado pregado olhando
pra tv

24
mars pathetica

cansei de ser dadá


larguei minha babá
prefiro o bbb

são-joão-harakiri

entre um hi-fi e outro


cai cai balão
no meu hai kai

25
uma gertrude para bartleby

ele prefere a
ele prefere o
ele prefere que
ela prefere
ele prefere o que
ele prefere comer
ele prefere comer batata
ele prefere comer sentado
ele prefere comer poesia
ele prefere
ele prefere canseira
ele prefere pasto
ele prefere sozinho
ele prefere
claro
ele prefere não
ele prefere que
não
ele não
prefere

26
ainda para vinicius f. barth

uma bailarina de degas


em tarde cinza “dor
de cotovelo” ela me disse
“eu te disse?” dor
de quem? claro
que não havia chuva
sob a tarde cinza &
o medo não
passava
de um personagem de cartoon

liquefeito em aquarela

27
moeurs contemporains

Oh boy!
I usually only get this excited
when they say the title
of a movie in the movie.

(Peter Griffin)

em meio à dor dos livros


a carne é triste
hélas
e tudo que eu diria
não daria sequer
metade de tudo
que eu diria

(sob as tramas do dia


o bairro chinês plaina
por sobre o metropolitano
que nunca se entrega às nossas vistas)

28
e é ríspido esse púrpura violento
de fanta uva pousada sobre a mesa
ou recordar tua mão
num cigarro perdido
e ao fundo uma sirene de bombeiros
como inventar uns versos
e dizer que não são meus
l’infini du ciel
c’est l’azur
le plus
blasé
porque de fato
não
são

29
msgs

guiltyboy diz > 10h32min

eu disse naum ha mais nada pra fazer


q jah num teja feito LOL
terencio de boteco e outros blefes
msm q dito e feito – o que fazer? =)

hornyson diz > 10h36min

tbm se ela me deu um peh na bunda


do meu <3zinho q eh de merda =(
posso enrolar a perda noutra perda
(diz o ditado WTF) na bunda! KKKKK

guiltyboy diz > 10h38min

q bunitinhu a dor de cutuvelo


diz a goxtosa do 8avo andar
mas dah q eh bom... (e o teu livro no prelo?)

hornyson diz > 10h59min

(nem fale desse rolo) vai que caem


as putapaga – a cerva eu vo pagah :P
c topa? guiltyboy está offline

30
2 em 1

e agora com cara de tacho


um metapoema
cravado de rimas
que visto feito os brincos brancos
invisíveis
da minha amada

(que nunca nunca


nunca nem sequer
pensou em perguntar)
:
“se eu te roubasse
uma caneta

você me odiaria?

nem tanto já respondo


(você meu personagem
cale a boca)

mas se eu roubasse tua


caderneta favorita teu
querido diário
teu verso mais secreto?

você
poderia me passar a cola?”

31
etnoplágio

canção polar dos eremitas dos confins das terras


geladas transcrita pelo poeta no exato momento de sua
execução em meio à tempestade de neve

Nhóóóóóóóóóóóóóin
Nhóóóóóóóóóóóóóin
Nh(friopracaralho*)in
Nhóóóóóóóóóóóóóin
Nhóóóóóóóóóóóóóin

*traduzido do scholovsky.

32
a voz

Um abutre farto do abismo


pousa entre postes
enquanto aguarda
sua eletrocussão

33
cítrica

35
avalio sucos de limão
por estalos de língua
recortes de azedo
no céu da boca

37
não critiquem minha rima
amor e
dor quem rima
é sempre a
vida

só canto dissabor
com sumo de laranja-
lima

38
poeta ao molho de laranja
na ceia do antropofágico aníbal
lecter – eis a verdadeira
fragmentação
a mais interessante fragment
ação
do sujeito contemporâneo

39
acadêmica

41
el mono-mimo

1.
1. projeto

(what’s the world?)

poder-se-ia pensar que


possivelmente
a partir das leituras de
abc
uma proposta
x
coubesse a contextos com
l–m
contudo as contraposições
de
fgh
em torno de contextos como
k–n
nos levam repensar a possibilidade de
x como x1
apenas nos novos contextos
j–o
aqui ainda como germe
de proposta
(calma que ainda é só
monografia calma que ainda
é só mestrado calma que
ainda é só doutorado calma que pós-doc
é assim mesmo)

43
2. escrita

(silêncio: demandar o impossível)

citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita
citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita
citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita

(respiraanotatraduzindicaanotaretraduzindicaapontaroda
pé)

citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita
citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita
citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita
citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita
citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita
citacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacitacita

(suspiro de vitória)

44
3. conclusão

(comment dire?)

tácita

45
é como aquela
palavra que escapa
e desliza sobre outra
palavra que
escapole
e teima em apontar
outra palavra e mais
outra
até que só nos resta
o silêncio ou o belo
dum
putamerda
e ali carinhosamente aninhar
o desencontro da língua
no desencontro do mundo

46
metáfora

é esta definição
da vida média de uma
macroestrela
ou a cadência
em que me
digo
que estou
vivo?

47
tese primeira — a vida sexual de f. pessoa

certa vez2

2 a data mais provável


segundo estudiosos
teria um terminus
post quem em 11 de fevereiro de 1900 (dado
o efervescente crescimento
dos seus pelos pubianos e dos inevitáveis
hormônios juvenis do poeta
sobretudo se considerarmos
que o primeiro
heterônimo nascia em 1894
com o sugestivo nome de
chevalier de pas
o que garantiria suficiente intimidade entre
os dois
ao longo de 6 anos)
enquanto o terminus ante quem
não pode passar
de 1910 – quando o excesso de heterônimos
já produziria uma
subversão erótica que choca
seus comentadores

48
debaixo do chuveiro
(outras fontes afirmam
que dentro da banheira
de espumas e água quente3)
excessivamente acompanhado – uma
quase sauna solitária4 –
ele por fim
se bolinou5

3 a suposta banheira
(indiscutivelmente não poderia
se tratar de
hidromassagem)
não fazia parte da mobília
pessoana confirmada pelas escavações
bibliográficas mais
recentes
4 a proposta aventada pelos
biógrafos mais
“assanhadinhos”
implica a versão da sauna
de um homem só (cf.
pereira, 1996 passim; nogueira, 1983;
contra junqueira,
1999 – numa verdadeira selva
de citações e contra-
fações) como tópos
heteronímico de matiz
pagã
5 o mote literário da auto-

49
tese segunda — como contar a história

como contar a história


sem história sem

bolinagem é atestado ao
menos desde 1623
numa edição contestável (muitos
implicam um forja
quiçá mal feita
(v. kloptschock, 1942)
da carta
de caminha diante dos índios
roçando suas próprias
“vergonhas” por euforia
entre seus novos espelhos (pp. 521-4)
passando por poemas eróticos anônimos dos
séc. xvii e xviii e desaguando ao menos
em finais do xix
na multimasturbação parnaso-simbolista
entre verlaine e o jovem e ainda desconhecido
rimbaud (cf. putain, 2000, n. 3, p. 2) x
x a metanota – por desgastante
que seja –
não pode ser evitada
se considerarmos que a discussão
biográfica entre os maudits franceses
ainda é um
caso aberto
que põe em cheque toda a
argumentação biobibliográfica de putain
por mais que convincente

50
erfahrung
(c’est très chic!)
pra contar
se bombas sobre bombas são também
as metabombas
são milagres no ar
que
cataplof
explodem sem ninguém
que possa testem-unha-teste-mar

mas como imaginar


uma pós-bomba
a bomba pra acabar com toda
bomba?

51
tese terceira — torção

Pegue uma palavra banal como grama, esta que a gente pisa e
você pesa no tédio do cotidiano ou na força incompreensível
dos dias de sol, e a faça retornar direto ao gramma grego
da letra, um μ a mais, um alfabeto alheio, a γράμμα, essa
causa arcaica da nossa gramática, gramatologique ou não,
ou grammar, mundo da regra gravitacional das tradições,
e veja que na escócia desandou em glamour, corruptela
popular com sentido de magic, enchantment, encantamento,
glámsýni ilusório, agarre-se a esse mesmo glamur, ou glamor
esbanjado pelas nossas divas, que tradutoriamente também
chamamos charme, do charme francês, carme do carmen
latino que assim te traz ao nosso canto, num quê de salvação.

52
tese quarta — ars longa de lévi-strauss

Que relação pode haver


entre, de um lado, a resposta
ao chamado da madeira
podre, a percepção
olfativa do mau cheiro,
a aquisição de um pênis mole,
a não-percepção de um espetáculo,
a não-ingestão de uma bebida
cheia de vermes e, do outro,
o estupro de uma virgem
e a ingestão de um sariguê assado?

53
meu nome é legião

afirma o pós-moderno de plantão


com pose
e cigarro
(mentolado) à francesa
enquanto atravessa a avenida
em seu glamour
sem auréolas baudelairianas

até que numa cena de (oh the gore!)


genocídio sintético
um caminhão de fruta (n)o(s) atropela
à moda roland barthes
etílica

55
a dor da gente
como a dor do mundo
é sem nome
— um olho na réstia de sol
que ainda assola a mesa —
nem tem metáfora que aguente:
A Miséria do Mundo A Condição
Humana A Queda etc.
pensa
de mão no queixo
o novo intelectual
enquanto encara
melancólico a quente
inescrutável
garrafa de heineken
com seu verde indecente e insensato
que num quartil solar
reluz ainda cheia

57
inserção no mercado

o poeta
por mais que
poeta
sábio antena da raça
tá sem grana

pior
tá no bar

e logo saca
um livro
oferto imediato
na infinita troca
por um chopp :

58
microvers de guardanapo

“gar
çon
me
traz

por
fa
vor
mais

um
(eu
te

pe
ço)
chopp?”

59
Horácio não falava da ressaca
que nós contemporâneos tanto temos
a barca afunda e longe vão-se os remos
que lançamos ao mar — aquela vaca
hoje mesmo o poeta mais babaca
escreve algum soneto mais ou menos
feito um bukowski
entoando threnos
pelo poder do deus que o contra-ataca

por certo esses romanos se bebiam


tanto nos seus banquetes literários
imunes logo eram ou então
ao menos literariamente e não
curtiam despender os seus erários
além do carpe diem
ou mentiam?

60
ou o poema sonoro

Não há revolução sem cognac.


(Pedro Velho)

p/ luís câmara cascudo e mussum

ôinos quibombo lodevi


caxaxa pombe sura biala
burbo mfebo ualua
quiçanga kitoto uisk
birra malavu malufu
nzombo sak ê cana
vermut gerês brande
tafiá cau im sope empombe
jeribita jurubita peripita
pim gá xinaps codório
mé bagá seira para ti

61
cataio

63
na velha china um velho sábio:

“houve um fabricante
e ele fez
uma taça de vidro inquebrável
o próprio imperador o recebeu
com seu presentinho
e ele
após tomá-la às magras mãos do líder
jogou-a no chão

maior não podia ser seu susto

mas o outro a pegou da terra


amassada e torta
como um vaso de bronze
depois com seu simpático martelinho de bolso
arrumou vagaroso a taça

– julgava ter os bagos de um deus –

‘e alguém mais sabe essa fórmula?’


(atenção!)
o fabro negou

o imperador o mandou degolar


senão hoje teríamos ouro por merda”

65
geração diet coke

p/ bernardo brandão

o meu primeiro mestre chinês


foi um professor
da autoescola
(e mais precisamente
o professor de motos)

foi o meu primeiro mestre


(ele não era bem
chinês) foi ele
quem me ensinou
primeiro
como era preciso
equilíbrio

(eu nem sabia andar


de bicicleta)

66
tanka oulipo

cincocincocin
cosetesetesete
cincocincosim
comsetesetesete
setesetesetese

67
videogame

é numa jornada incessante que aquele chinês anônimo


encara as cores da sempre mesma tela numa jornada aquele
anônimo chinês incessante encara a tela mesma sempre
numa jornada de trabalho incessante o chinês encara a
mesma sempre a tela numas 60 horas numa jornada de
trabalho encara aquela tela numa jornada de trabalho umas
60 horas por semana aquela tela incessante ele anônimo
a encara um chinês no trabalho de 60 horas por semana
incessante ele encara um trabalho a jornada e produz
incessante na tela a jornada de trabalho produz uma soma
incessante o chinês anônimo a tela produz uma soma a
jornada incessante o chinês uma soma anônimo o chinês
encara as cores da soma das peças que ele produz anônimo a
60 horas a semana de cores que ele produz são 10mil peças
d’ouro incessante anônimo que ele produz são as cores que
chinês produz de ouro anônimo ele encara o mercado são 60
horas incessantes em peças d’ouro trocáveis intercambiáveis
do anônimo chinês ele troca essas cores em euros anônimos
na terra de eurásia ele troca incessante o trabalho uma soma
de anônimos uma troca de horas em ouros em euros produz
uma soma o chinês ele encara o trabalho uma soma de cores
as mesmas 1 homem 2 homens 60 horas 10mil peças d’ouro
trocadas ao homem não pesam 10 euros a soma o chinês o
trabalho

68
pepitas de ouro

poesia é comer o cu do silêncio.

***

depois da técnica o inverso — de tanto estar no poético,


virar um bukowski pra ver se a poesia sai no mijo.

***

escritor de merda diz, ou acha que diz alguma coisa, sempre


que escreve. dizer é pouco, é muito além do que interessa,
dizer é quase de macacos.

***

depois de ler os profundos comentários do mais novo


crítico o poeta se descobre enfim inspirado pelas musas.

***

ó latinistas de harvard, quantos de vós pagastes vossos


estudos com uma bolsa de futebol?

***

69
prefiro o brecht de raiz, quando era um preto velho e não
puxava o saco do partido.

***

moral para gertrude stein: ontem, ao ler um texto intitulado


ontem, pensei que palavras bestas, como ontem, de nada
serviriam.

***

manual de metafísica: creio que haja algo além e aquém do


olho, e só.

***

fui dar um pulinho no abismo do brega, e já volto.

***

até baudelaire tinha os seus dias de fábio de melo.

***

há quem pense em paubucetacu, há quem escreva, prefiro


quem os chupe.

70
a vida e as opiniões
do barnabé guilherme gontijo flores,
servidor do estado

O tédio é a pior forma de tristeza.


(rodrigo madeira)

71
1. Begin the beguine

Não fui criado para o filho certo


nem para o único
e mesmo assim em algo o sou
ainda que isso nada diga
de mim de outro estulto qualquer
eu não me congratulo
pois cada meu fracasso
não fora antes planejado
porém não disse nada inusitado
e em cada passo armado
o risco de cair
se deu como a delícia
por descumprir a sina ignorada
O tédio não foi bom
nem mau nem meu nem médio
e confesso que nunca
pensei pular do prédio
para espetáculo da turba
que ajuntada na pressa
logo estaria estupefatamente
desinteressada
Eu pensei no passado
aquela velha igreja por exemplo
eu muito mais me a adentro
do que alguma vez
pisei no seu mistério
e cada templo em que passei
mais parecia a casa

73
envelhecida dentro de um museu
como aquela matriushka que nunca tive
porque estava em outra parte
falseando outra história
Eu não sorvi do sangue das vitórias
eu nem mesmo as contei
em nada fui desapontado
e creio não desapontei
na tarefa tão árdua de um abraço
eu recuava ao tempo da família
dos quadros apagados
dos nomes sem memória
e de um brasão talvez
perdido nas gavetas inventadas
de algum antepassado
que hoje sumiu sem deixar traço
e sem abrir no espaço
uma ferida falsa
à qual eu me apegasse

Toda história é cansaço

74
2. Quanto à canção de amor

A tua ausência me dói


seria mais uma frase
de merda para qualquer
parte do poema qualquer
que nem penso em escrever
e ainda assim eu escrevo
aqui agora e inútil
justificá-la por frase
feita com sinceridade
do meu estoque mental
falacioso e mais fácil
do que a dor sim verdadeira
de pensar não te pensar
por saber que a tua ausência
todos bem sabem sequer
existe logo não me
nada e por isso eu prefiro
tua lembrança me dói
tanto que canto pra ver
se soa menos banal
cantar um outro estribilho
tua presença me dói
tanto quando entra pelos
sete buracos da minha
cabeça igualzinha a este
sabonete que hoje entrou
por apenas um buraco
tão ínfimo da cabeça

75
(no desatento do banho)
do meu pau e assim presente
quanto inútil é que se fez
dentro de mim como eu mesmo
que só resta rejeitá-lo
e falsamente voltar
a mijá-lo talvez por
gozar talvez dessa dor
que por sair é que dói
nesta cena tão dolor
osamente repetida

76
3.

Disseram que ontem mesmo


ela morreu
matou-se me disseram
um pássaro sem penas
(ó metáfora pungente)
estilhaçado no concreto ao meio dia
e embasbacada
ei-la eu diria
a minha cara normalmente de pastel
cumprindo o seu dever de horror cotidiano
enquanto pensa
na discrição atrás dos olhos
(a pupila sequer se move
a sobrancelha não tremula)
e se concentra por lembrar
qual era o nome dela?

Será que viram


o nome do meu tédio?
a carapuça não me serve
ela morreu disseram
pensando seriamente sobre o assunto
eu não lembro seu rosto
então como era jovem
vou lamentando
enquanto hesito
ela era jovem?
era ela bela?

77
será que loira e sensual
atormentada porque bela
e mal reconhecida em seu talento
ofuscada coitada
pelos peitos descomunais
ou pelas ancas
(que palavra impensada
ou só pensada
ninguém ouviu)

No olho da mente
eu foco em suas ancas
assumo eu não me lembro
do nome eu não me lembro
do rosto eu não me lembro
de nada
mas como não pensar nas ancas
ainda que inventadas?
que triste história
alguém repete
eu bem consinto
não me restou
mais do que ela

78
4. Do fabulário geral

A cena é de um tapir em transe


por causa de tamanhos tédios
travado no trânsito urbano

mas que apoiado no volante


te encara com cara cansada
e relata seu suburbano

affair com uma sarigueia


de família desconhecida
embora em lato sensu bela

com isso ele consegue apenas


comunicar naquele instante
o tédio que o corrói nas veias

por causa desse trafficjam


você no entanto nem concebe
o que seria um sariguê

79
e que diabos é tapir?
você tenta falar franzido
para então devorá-lo ali

no centro do engarrafamento
enquanto pensa que não deve
ser crime ambiental comê-lo

se todos sabem que esse ato


não passa da antropofagia
realizada nas cidades

o sangue ainda assim te delicia

80
5.

Este meu corpo


tal como tudo quanto é meu
é só pronome
não tanto pelo corpo
mas pelo meu
este meu corpo que designa o homem
que hoje sou
e que é tão meu
quanto o outro corpo de uma foto antiga
que insiste sendo meu
e nem existe
e não se encontra em parte alguma
tão menos meu do que meus livros
que meus sapatos
que meus cabelos
que vão caindo a cada ano
e ainda meus a despedir-se pelo ralo

É dele quanto falo


e nele falo
como se fosse meu e não eu mesmo
aquele corpo
como se fosse meu o corpo nesta foto
com seu sorriso
(sorriso meu? seria o mesmo)
forçado como todo riso
que aparece nas fotos
seja ele meu ou não

81
E nele fica a culpa
de tudo quanto eu erro
maldita mão
não obedece
esta coluna já não presta
língua que não se cala
língua de pedra e pó
penso o que não queria
a minha mente
faz o que bem quiser
a culpa não é minha
é meu estresse
talvez meu tédio
o meu cansaço

Este corpo que chamo meu


esta mente estes olhos
tijolo por tijolo
eu os queria na palma da mão

82
6. Finale glorioso

Só falamos ou quase
de mim você ficou
na sombra como os pais
da égua inominada
do clint eastwood naquele
banguebangue que você
gostava e agora já não lembra
qual era o nome mesmo?
então façamos só você e eu
mais um experimento
para encerrar o expediente
seria assim apenas
pro teu contentamento
de leitor pró-ativo
com nome jubiloso
algo como poética
do reconforto sim?
pois pegue um bom copo portátil
(de alumínio cria um
melhor efeito ao texto)
retire a tampa e monte
até ficar perfeito
encha seu copo até a boca
e meta a boca nele
tome uns 2 ou 3 goles
daquela mesma água

83
(pouco importa o sabor
eu prefiro pensar
que seja água da talha)
já chegamos ao ponto
desfaça o copo de uma vez
e veja como a água que
se espalha no carpete
(imagine um carpete)
seja agora a melhor
metáfora da tua vida
você sorriu? você
voltou a pensar se
cortaria os teus pulsos?
você não acha mesmo que a tua
vida não serve de metáfora?

84
excurso

85
Os melhores sonetos de guilherme
gontijo flores vulgo barnabé
ou servidor do estado homem de fé
de grana de bom gosto mero verme
porém ando contente em tanto ver-me
na capa da revista (mais chulé)
com pose de maldito baudelaire
nos traços reverentes de vermeer
mas ai o que mamãe diria agora
antes nascesse o meu poeta gauche
do que essa rala guache do deboche
papai não fale assim no online da ágora
eu sei são só sonetos & canhestra
me escreve a mão canhota que não presta

87
elogio do fracasso

bye bye mecenas que eu nunca vi


patronos bancos prizes marmeladas
adiós muchachas
ninfas depiladas
iates vulvas
que sequer comi

sayonara sucesso
(can’t you see?)
badalação conta bancária — nadas
que tudo me dariam nas bancadas
da glória em cosmopolitan party

fico tranquilo
a fome é coisa pouca
tenho miojo e a tv aberta
não deixa que eu me perca
em zap a esmo

penhoro o notebook
corto a coca
dispenso a secretária
(é a coisa certa)
e fico de office-boy para mim mesmo

88
burocrática

mesmo com a parafernália da informática


usb hightech
rede futurista
conectada num sistema pluralista
a grandiosa incompetência burocrática

capaz de contrariar a lógica


da prática
na praxe positiva de uma normalista
arquivista
que insista
em anotar na lista
a grandiosa incompetência burocrática

permite a cada instante


a pane general
izada
a fila de escritório
a papelada
possivelmente kafkiana no seu mal

estar mais consumado


essa cara de tédio
o cafezinho doce além da conta
cada
falso emperrado
sem conserto
sem remédio

89
saideira

valoroso qual chumbo


ou melhor
cobre
vociferando em litros rima
pobre
que o último poema
bandalheiro
sussurre como quem sabe do novo
rimado
– inato e já velho –
com ovo:
“até logo até logo companheiro”

90
nem num estrondo
nem num suspiro este mundo termina
mas num só grande gordo metafísico
com toda papelada do mundo
(ele a passa sem pressa
por toda extensão da sua imensa bunda)
com toda nossa papelada
inútil
e nela ele assinala o sentido possível
todo nosso horror sob
o signo do
vazio

91
notas

Adriano Scandolara (UFPR)

93
o título

l’azur Blasé: Ao contrário do português e do italiano, em


que a líquida ‘r’ se converteu em ‘l’, azur em francês mantém
o som aspirado final da origem médio-oriental da palavra
que designa esta cor (também chamada de bleu, com a
diferença de que bleu tem origem europeia), lazurd, segundo
o dicionário Houaiss, provavelmente provindo do árabe
lazaward ou do persa lajward, referindo-se à pedra lápis-
lazúli – e a mesma origem têm as palavras azur, do espanhol
e romeno, e azure, do inglês. Já blasé, que pode ser traduzido
por “indiferente”, “apático”, é o passado particípio do verbo
blaser, que significa algo como “deixar insensível ao gosto
através do abuso, além da saciação”. l’azur Blasé significaria,
portanto, “o azul indiferente” e, à primeira vista, seria
aparentemente uma referência poética ao céu. Sobre o que
pode ter motivado o poeta a recorrer ao francês para o título
de um livro que é evidente que foi escrito em português
(apesar de algumas referências estrangeiras), poderíamos
sugerir talvez alguma forma de ironia em relação à poesia
francesa, do século XIX em especial. O simbolista Stéphane
Mallarmé (1842–1898) vem à mente, que, como sabemos,
foi autor de um poema intitulado “L’azur” e cujo famoso
volume de poemas traduzido magistralmente pelos poetas
Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari (que inclui,
aliás, o referido poema), intitulado simplesmente Mallarmé,
incluía em seu projeto gráfico uma capa azul.

Entre o que parece ser os títulos descartados para o nome


do livro (anotados à caneta no canto da folha de rosto, como

95
se fossem sugestões pensadas após a impressão da página,
mas descartadas, acredita-se, por motivos desconhecidos),
lê-se ainda, não sem alguma dificuldade, índigo, anil
varonil, azoxo, purpurul, azúrpura e – talvez os mais
intrigantes, cujo sentido só pode ser esclarecido pela relação
fonética com essa sugestão anterior – l’azur Pure e l’azur
Puré. Apesar de bizarros, esses neologismos têm uma razão
de ser: é muito possível que Flores estivesse aludindo ao
termo purplue retirado de um momento da correspondência
de John Keats (1795–1821), que ilustra um episódio
candidamente ridículo da vida privada do grande poeta
romântico inglês e que parece harmonizar com o teor
geral do livro de Flores. Trata-se de um trecho da carta
à sua amada Fanny Brawne, datada aproximadamente de
fevereiro de 1820, que traduzo abaixo:

Andei escrevendo a semana inteira com uma pena


velha e vil, o que é excessivamente desgracioso. A
culpa é da Pena: eu a consertei, mas ainda tende
muito a fazer os “es” fechados. Essas últimas
linhas, no entanto, estão num estilo bem melhor
de caligrafia, ainda que desfiguradas por um
borrão preto de geleia de cassis; que deixou uma
marquinha em uma das páginas do Ben Jonson de
Brown, o melhor livro em toda sua obra. Eu lambi,
mas continua ainda bem azúrpura - eu não sabia
se dizia azul ou púrpura, por isso, no mesclar-se
desse pensamento, escrevi azúrpura, o que poderia
ser um nome excelente para uma cor composta a
partir das duas, e que ficaria muito bem em voga
na próxima primavera.

A cor a que Keats se refere era provavelmente a cor anil,


também chamada de índigo, por ser extraída das plantas
do gênero Indigofera, originária da Índia. No tempo

96
de Keats, a tintura era fabricada já na Inglaterra, num
processo bastante perigoso para os trabalhadores, como
comenta Wordsworth (1770–1850) em seu famoso poema
autobiográfico The Prelude (X, vv. 229-32), num trecho
sobre as condições de trabalho dos tintureiros em sua
cidade natal de Cockermouth. Que Keats desconhecesse
essas questões em torno do seu imaginário “azúrpura” é
algo que poderia ser explicado pela reclusão do próprio
poeta, causada pelos seus já bem-conhecidos problemas de
saúde (a saber, a tuberculose). É evidente que Flores, em
sua reputada erudição, deveria ter em mente, ao compor
este volume, essas questões que se entrecruzam como o teor
ridículo da vida íntima do poeta (dada a imagem de Keats
sujando desajeitadamente seus livros de geleia e lambendo-
os em seguida, que relata em tom jocoso à sua amada) e do
problema social subjacente a algo tão banal para o cotidiano
quanto a tintura das roupas.

97
epígrafes

Naharim al-Qabir foi um poeta místico persa do período


medieval. Acredita-se que tenha sido contemporâneo de
Jalaluddin Rumi (1207–1273) mas, ao contrário de Rumi,
suas exatas datas de nascimento e morte, porém, são
desconhecidas, e sua obra sobrevive apenas em fragmentos.
É provável que Flores tenha tido acesso à poesia de al-
Qabir via a coletânea An Anthology of Persian Mystic
Poetry organizada e traduzida pelo orientalista britânico
George Moustapha. É provável que esta epígrafe seja uma
retradução do próprio Flores dos seguintes versos em
inglês:

A priest in his most subtle foolishness


And in that hazy taste words seem to have

Wallace Stevens foi um poeta modernista norte-americano


nascido em 1879 em Reading na Pensilvânia. Estudou
em Harvard, formou-se em direito em Nova York em
1903 e em 1916 mudou-se para Hartford, Connecticut,
onde viveu o resto da vida, trabalhando como executivo
numa companhia de seguros. Começou a escrever poemas
ainda em Harvard, mas suas obras mais famosas surgiram
tardiamente, e o seu primeiro livro, Harmonium, só foi
publicado em 1923, compondo um caso raro, na poesia, de
um autor cuja carreira começou só depois dos 40 – bastante
diferente do nosso poeta em questão, o Gontijo Flores, que
começou a escrever poesia ainda na faculdade, no começo
dos seus vinte anos e já tinha um livro publicado, o brasa

98
enganosa, bem como diversos manuscritos (dentre os quais o
próprio l’azur Blasé, bem como também o poema narrativo
Naharia e as Tróiades) quando completou seus 30 anos.
Após sofrer de câncer de estômago, Stevens morreu no dia
2 de agosto de 1955, aos 75 anos de idade. O poema citado
nesta epígrafe se chama “Le Monocle de Mon Oncle” e está
presente no volume Harmonium.

Perto do final da vida, Gontijo Flores desenvolveu um


interesse crescente pela obra do antropólogo e etnólogo
estruturalista francês Claude Lévi-Strauss (1908–2009), o
que nos dá pistas textuais para sugerir a hipótese de que
essa epígrafe, bem como outras referências constantes a
Lévi-Strauss presentes ao longo do livro, foram acréscimos
posteriores, daquilo que conviria descrever como sintomas
de um fastio de civilização que tomou conta do poeta após
ele se mudar de Curitiba para Rio Sagrado (boatos contados
por amigos e conhecidos do poeta dizem que ele falava com
frequência do colapso do mundo ocidental, especialmente
quando embriagado). A presente epígrafe foi retirada do
volume 1 das Mitológicas, p. 151, na tradução de Beatriz
Perrone Moisés. Os Terena são um povo indígena do
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e interior de São Paulo,
com uma população total atual de cerca de 24.000. O mito
recontado em questão parece associar o cômico e o fracasso
do cômico (como aponta o título deste livro) às raízes da
linguagem.

99
parte da ética

Do grego, éthos (“moral”, “caráter”), a ética estuda os


princípios que governam o julgamento moral. Aqui parece
que temos uma retomada, então, da poesia moral pela obra
de Gontijo Flores que encontramos na primeira parte de seu
livro de estreia Brasa enganosa intitulada “réstias”, mas que,
segundo estudiosos da crítica genética com acesso aos seus
manuscritos preservados, se chamava, no primeiro esboço
do livro, “minima moralia”. Essa revisitação do tema aqui,
no entanto, parece ocorrer sob um viés bastante diferente.

L’AZUR

A epígrafe aqui retoma o famoso poema “L’éternité” (1872)


do poeta simbolista francês Arthur Rimbaud (1854–1891),
– com cuja fama, inclusive, o próprio Flores faz piada em
seu bem-humorado bah, vous connaissez bien Rimbaud (“bá,
vocês conhecem bem Rimbaud”). A ironia no poema se
encontra no contraste entre a noção aberta e grandiloquente
de eternidade em Rimbaud, que consistiria em “onde o
mar encontra o sol”, numa cena de viagem marítima,
com a banalidade da cena doméstica do poeta batendo as
pernas na miniatura controlada e paródica do mar que é a
piscina. Nesse sentido, Flores parece fazer uma referência
indireta ao conto “Death Is Not the End” do escritor norte-
americano David Foster Wallace (publicado em Breves
Entrevistas com Homens Hediondos), que descreve também
a situação de um poeta (laureado, no conto de Wallace)
reclinado à beira da piscina – e a temática do poeta laureado
encontra eco também em L’azur Blasé num dos poemas
que se seguem, “Monumento ao Falecido Poeta Laureado”.
Como primeiro poema do livro, “L’azur” funciona muito
bem como introdução aos seus temas principais: o azul, a

100
eternidade, a ironia, o francês, a metapoesia e as imagens de
liquidez.

(SEM TÍTULO)

Composto de 10 versos bissilábicos, este poema parece fazer


referência à imagem freudiana clássica do filho matando
o pai, mas num contexto antropofágico brasileiro. É
intrigante, no entanto, que Flores, como poeta (e, portanto,
aspirante a desenvolver sua própria voz) peça ao pai tudo
menos isso.

CANSÓS

Temos aqui uma dupla atípica de poemas de eu-líricos


mulheres, tratando do sexo a partir do viés feminino. O
título se refere ao gênero lírico medieval desenvolvido
em Provença, e a presença de lugares-comuns da poesia
trovadoresca galego-portuguesa como as “ondas do mar
de Vigo” parece ambientar esses dois poemas como um
tipo de paródia ou pastiche. Apesar de assumir um tom
cômico ao tratar desse outro lado do ato sexual (Flores já
fez poemas sobre o ato sexual da perspectiva masculina em
brasa enganosa), há uma dimensão mítica aqui encontrada na
transformação do poeta, então, na figura de Tirésias, que,
segundo o mito grego, havia se transformado de homem
em mulher e que, ao ser interrogado sobre quem teria mais
prazer durante o sexo, ele haveria respondido que era a
mulher e por isso foi cegado.

101
MONUMENTO AO FALECIDO POETA LAUREADO

Há muita especulação sobre quem possa ter sido o falecido


poeta laureado que Flores aqui homenageia. Algumas
fontes indicam que seja Bruno Tolentino (1940–2007), uma
interpretação que seria coerente com o tom elevado dos
versos do poema, ao passo que essa atribuição também já
foi feita a Roberto Piva (1937–2010), cujo nome foi dado a
uma rua de São Paulo após sua morte, ao curitibano Wilson
Bueno (1949–2010); e há até mesmo quem diga que Flores
refira-se aqui, ironicamente, a si mesmo. Considerando
o quanto a linguagem deste poema destoa do restante do
livro, ele parece também ser outro pastiche.

“O AMOR É DO TAMANHO DE UMA PICA”

hollywood: referência ao mesmo tempo tanto aos lugares


comuns das histórias de amor hollywoodianas que o poema
parece parodiar – dos quais o cigarrinho pós-coital é o
mais notável – quanto a uma marca de cigarros que de fato
se chama Hollywood, que ficou especialmente famosa no
Brasil ao longo dos anos 80 por conta de suas campanhas
publicitárias marcantes.

démodé: o mesmo que “brega”, “cafona”, “fora-de-moda”,


mas, com um toque afrancesado (démodé traduz-se
literalmente por “fora de moda”, “desmodado”), como é
costume em l’azur Blasé. Curiosamente, a palavra “démodé”,
conforme seu uso se tornou mais raro, tornou-se ela própria
démodé, o que parece ser adequado para os propósitos do
poema.

102
(SEM TÍTULO)

Há muito mistério em torno de quem possa ser Bruna


Aparecida Parede Barco. Flores faz referência à técnica do
ready-made, popularizada com a obra “A fonte” de Marcel
Duchamps, famosa por consistir num urinol retirado
da parede de um mictório e exibido como uma obra de
arte. Essa tradição, por sua vez, encontra seu reflexo e
continuação na forma literária, como indica a crítica
Marjorie Perloff num comentário sobre o poeta Kenneth
Goldsmith, na obra dos poetas conceituais. É possível que
Goldsmith tenha sido uma influência para Gontijo Flores,
uma hipótese corroborada pela presença da antologia
de poesia conceitual Against Expression, organizada por
Goldsmith e Craig Dworkin, em sua biblioteca pessoal.
É possível que Bruna seja um personagem fictício, uma
invenção de Flores, mas a referência ao ready-made faz com
que essa hipótese seja pouco plausível, já que é da natureza
do ready-made que ele parta de algo já criado por outrem e
não inventado pelo autor. No entanto, o absurdo de que as
duas possibilidades convivam parece estar indicada já no
próprio poema pelos grupos semânticos antitéticos: bruma
e aparecida (um oxímoro já que a bruma esconde, dificulta
a visão), parede e barco (a oposição entre o doméstico e
fechado, representado pela parede, com a abertura do
horizonte no mar vislumbrada à bordo do barco). Pensando
nisso, então, pode-se observar que este poema retoma o
mote do primeiro poema, “L’azur”.

O ROEDOR CONCRETO

É provável que o “concreto” no título seja uma referência à


poesia concreta da década de 1960, interpretação coerente

103
com a revisitação concretista (outro pastiche?) presente na
estrofe que encerra aqui o poema.

oroboro: Ouroboros, oroboros, oroboro ou uróboro,


do grego οὐροβόρος é um símbolo antigo utilizado por
tradições herméticas e alquímicas representado por uma
serpente ou dragão que devora a própria cauda. Possui
diversos sentidos, dependendo do contexto, mas no
geral costuma estar relacionado a uma noção de ciclo e
autorreflexão.

PARALAXE PRO MEU INSTAGRAM

paralaxe: a palavra significa, segundo o dicionário Houaiss,


“deslocamento aparente de um objeto quando se muda o
ponto de observação” e é provável que Flores tenha tido
contato com o termo via sua tradução coletiva do poema
Paraíso Reconquistado, a continuação do épico Paraíso Perdido
do poeta John Milton (1608–1674), com a qual sabemos que
ele teve envolvimento durante os anos de 2009 e 2010. No
quarto livro do poema, ocorre que o personagem de Satã,
se esforçando para fazer Jesus cair em tentação, o eleva ao
alto para que possa ver toda a paisagem. Diz os versos na
tradução de Barth/Bianeck/Flores/Gonçalves/Scandolara:

Levou o Salvador à parte oeste


Do alto monte, que lá pudesse ver
Outra planície, longa mas não larga;
Banhada pelo mar do sul, e ao norte
Se estende uma cadeia de montanhas
Que protegia a messe e o lar dos homens
Do gélido Setentrião; no meio
Cortada por um rio em cujas margens
Havia uma Cidade Imperial,

104
Com torres, templos, altos e orgulhosos,
Em sete montes, bela de palácios,
Teatros, banhos, aquedutos, pórticos,
Troféus, estátuas, arcos do triunfo,
Jardins e bosques que ele pôde ver
Parado acima desses altos montes:
Que estranha paralaxe, ou truque ótico
Multiplicou-se pelo ar, que lente
De telescópio, é caso curioso:
Por fim, o Tentador rompe o silêncio:

(vv. 25-43, grifos meus)

No original:

He brought our Saviour to the western side


Of that high mountain, whence he might behold
Another plain, long, but in breadth not wide,
Washed by the southern sea, and on the north
To equal length backed with a ridge of hills
That screened the fruits of th’ earth and seats of men
From cold Septentrion blasts; thence in the midst
Divided by a river, off whose banks
On each side an Imperial City stood,
With towers and temples proudly elevate
On seven small hills, with palaces adorned,
Porches and theatres, baths, aqueducts,
Statues and trophies, and triumphal arcs,
Gardens and groves, presented to his eyes
Above the highth of mountains interposed.
By what strange parallax, or optic skill
Of vision, multiplied through air, or glass
Of telescope, were curious to enquire.

105
A “estranha paralaxe”, no caso miltoniano, envolve a
possibilidade da visão de uma cena muito mais ampla
do que se poderia ver, de fato, elevado no ar, por conta
da curvatura da Terra no horizonte. No caso floresiano,
porém, o efeito da paralaxe ocorre não num plano macro
(tampouco ela é adjetivada como “estranha”, sendo, mais
do que qualquer coisa, uma paralaxe mundana), como em
Milton, mas micro, ocultando, como se pode ver, uma das
letras do nome do restaurante de nome desconhecido, de
modo a sugerir a palavra “puteiro”. Parte daí o humor do
duplo sentido (de muito baixo nível, podemos acrescentar,
algo anômalo dada a alta complexidade que é comum à obra
do poeta) do texto acrescentado: “a melhor carne da cidade”.
Aqui esse duplo sentido deriva dos sentidos possíveis
da palavra “carne”, que se referiria, a princípio, ao prato
(“carne vermelha”, como oposição, por exemplo, às opções
de “frango” ou “peixe”) que seria servida pelo restaurante
e que é ressignificada no novo contexto pós-paralaxe de
modo a assumir um sentido sexual, como na expressão
lugar-comum “prazeres da carne”. Um lugar que venda
a carne desse segundo tipo seria, como era de se esperar,
um prostíbulo – um “puteiro”, como a imagem sugere –, e
assim a inserção do texto “Copa 2014” passa a ser um triste
comentário social sobre o turismo sexual no Brasil.

Há ainda a possibilidade de contrastarmos este poema


de Flores com as teorias do filósofo Slavoj Zizek sobre
paralaxe, mas isso certamente tomaria muito tempo para a
análise de um poema simples como este.

instagram: o instagram é (ou foi, no caso de o leitor estar


lendo isto num ponto avançado do futuro, em que ele possa
deixar de ter existido, conforme é comum ocorrer com esse
tipo de serviço, muitas vezes dotado de vida curta) uma
rede social, lançada em 2010. O nome é uma palavra-valise

106
fundindo “instant camera” (câmera instantânea) e “telegram”
(telegrama), o que explica a sua função: compartilhar fotos
pequenas, em formato pré-definido, de forma instantânea
e telegráfica. O site permite a aplicação de efeitos nas
fotos, tais como diversos tipos de filtros, muitos dos quais
são utilizados para conceder às imagens, como efeito
estilístico, uma atmosfera deliberadamente envelhecida.
Numa inversão curiosa de expectativas, no entanto, Gontijo
Flores, até a data de sua morte e até onde temos notícia, não
estava registrado nessa rede social, o que faria com que sua
referência a ela fosse estranhamente irônica.

A respeito do restaurante, há muita especulação. A


foto não é das mais claras, e só sabemos que se trata
de um restaurante, de fato, por conta de comentários
apócrifos feitos pelo próprio poeta e registrado por seus
interlocutores, como o Prof. Dr. Rodrigo Gonçalves, que
assina o prefácio deste volume. As informações ainda assim
são escassas. Sabemos que existe um restaurante chamado
“Outeiro” e que Flores o frequentou, mas não sabemos onde
ele se localiza, já que tal informação não foi preservada –
poderíamos presumir, dada a biografia do poeta, que ele
estaria localizado ou em Belo Horizonte, ou em Brasília,
ou em Vitória. No entanto, mesmo recorrendo aos dados
biográficos, o tal restaurante poderia ainda assim não se
encontrar em nenhuma dessas cidades, ou então poderia
até mesmo não existir, de fato, além do mundo do discurso
das narrativas de Gontijo Flores – que, se os informantes
nos são uma fonte confiável, eram constantemente dotadas
de elementos inusitados e mirabolantes, beirando por
vezes o sobrenatural, sobretudo quando o tal restaurante
estava envolvido, o que o revestia de uma aura mítica, de
certa forma indistinta da famosa Pasárgada de Manuel
Bandeira. No entanto, ainda que o restaurante “Outeiro” de
fato exista (e sirva carne), nada garante que a foto seja uma

107
representação fiel dele. Dado o estilo padrão comum da
tipografia da fachada, ela poderia muito bem ter sido forjada
por Flores para se obter os efeitos visuais desse poema-
fotografia. Seria necessário uma maior pesquisa biográfica
para se chegar a conclusões mais precisas a respeito.

BACK TO THE 80’S

Nesta seção, Flores demonstra, com sensibilidade lírica, um


anseio típico de nossa geração que é a nostalgia por épocas
não vividas, a sensação de deslocamento por viver no tempo
presente e não em outra época anterior idealizada. No caso,
Flores, que nasceu em 1984, idealiza a década de 1980, que
se encerrou quando ele tinha apenas 6 anos de vida. A nota
explicativa de rodapé, num exemplo de engenhosidade
meta-irônica, parece fazer parte do poema.

Darcy Ribeiro: nascido em Montes Claros, Minas Gerais,


em 1922, foi antropólogo, ensaísta, romancista e educador,
ministro da educação no governo João Goulart e fundador
da Universidade de Brasília (1963). Intelectual de obra
vasta e diversificada, destacou-se também como senador da
República. Obras publicadas: Maíra (1976), Utopia selvagem
(1982), Migo (1988) e O Povo Brasileiro (1995). A citação
da epígrafe não foi encontrada, e é possível congitar que
se trate de um équivoco ou mesmo uma fraude de Gontijo
Flores.

horatiana: referência a Quinto Horácio Flaco (65–8 a.C),


poeta latino, autor de livros como as Odes, as Sátiras e as
Epístolas. Pirra foi uma das “musas” (no sentido moderno
e não clássico do termo, de mulher amada que serve de
inspiração para o poeta) de Horácio, e Flores foi grande

108
leitor do poeta, tendo traduzido as suas Odes ao longo de seu
projeto de doutorado.

Sílex: do latim, significa “rocha”.

pencil: num tom que lembra a poesia do paranaense Paulo


Leminski (1944–1989), Flores aqui faz um trocadilho com a
palavra “penso”, do verbo “pensar” e pencil, a palavra inglesa
para lápis, rimando com silêncio. Mas o chiste revela ainda
algo profundo da relação entre as tradições da poesia oral
e a poesia escrita na qual ela foi se convertendo ao longo
dos anos. Rejeitando, assim, tanto uma leitura logocêntrica
centrada filosoficamente na noção de presença, que valoriza,
portanto, a voz oral, quanto a leitura desconstrucionista de
um filósofo como o francês Jacques Derrida (que argumenta
a favor de se valorizar a escrita em relação à oralidade em
seu livro Gramatologia), Flores parece sugerir a existência de
um elo indissolúvel entre o pensamento, a voz e a escrita.

trafficjam: palavra-valise composta de traffic e jam, num


exemplo de criação joyciana com a subtração do espaço
numa palavra de uso comum da língua inglesa: traffic jam,
“engarrafamento”. A passante pode ser tanto uma referência
ao poeta francês Charles Baudelaire quanto à Garota de
Ipanema.

linguistics: trata-se de uma referência ao famoso exemplo


conhecido dos acadêmicos dos estudos linguísticos de uma
frase do inglês aparentemente compreensível a qualquer
falante, porém incoerente sob uma análise mais profunda:
“More people have been to Russia than I have”. Bandeira
aqui é uma alusão óbvia ao poeta Manuel Bandeira (1886–
1968), que menciona a cidade mítica de Pasárgada em seu
poema “Vou-me embora pra Pasárgarda”.

109
nippon-fawcett: “nippon” é uma referência ao Japão; Fawcett
é provável que se refira ao músico brasileiro Fausto Fawcett,
autor não só do clássico “Kátia Flávia”, mas também de
canções como “Gueixa Vadia”, uma narrativa burlesca sobre
um turista cientista marginal americano que se envolve
com uma prostituta aparentemente japonesa, presente
no primeiro álbum de Fawcett, Fausto Fawcett e os Robôs
Efêmeros (1987).

on the edge of my seat: expressão em inglês usada para querer


dizer que o falante estava atento diante de uma tela de
cinema ou televisão, particularmente durante os momentos
mais tensos de um filme ou outra obra do tipo.

mars pathetica: ao que tudo indica, uma paródia da expressão


ars poetica, que é como ficou conhecido popularmente o
poema da “Epístola aos pisões” (Ad pisones) de Horácio.

harakiri: prática de suicídio ritual japonês que envolve


cortar o próprio ventre com uma espada. Apesar de que a
maioria das palavras desse poema se amarram não tanto
pelo semântica quanto pela proximidade fonêmica (hi-fi –
cai cai – hai-kai), é difícil compreender, no entanto, qual
seria a relação entre o santo São João e o harakiri.

UMA GERTRUDE PARA BARTLEBY

Gertrude Stein: poeta e prosadora modernista nascida em


1874 nos EUA e falecida em 1946 na França. Sua obra inclui
o livro de novelas Three Lives (1906), seu grande romance
The Making of Americans (1911), a prosa poética Tender-
Buttons (1912) e o romance autobiográfico The Autobiography
of Alice B. Toklas (1933).

110
Bartleby: personagem homônimo de uma novela de autoria
de Herman Melville (1819–1891), mais conhecido por seu
colossal romance Moby Dick (1851). “I’d rather not” (algo
como “prefiro não”) é o célebre bordão do personagem.

UMA BAILARINA DE DEGAS

Este poema já apareceu anteriormente em brasa enganosa


e é muito curioso que reapareça aqui, inalterado senão
pela piada de que ele ainda permanece dedicado ao poeta,
fotógrafo, ilustrador e tradutor curitibano, porém radicado
em Buenos Aires, Vinicius Ferreira Barth, nascido em 1986
(a quem ele também aparece dedicado em brasa). “Degas”
aqui é o pintor impressionista francês Edgar Degas (1834–
1917), famoso por pintar bailarinas.

MOEURS CONTEMPORAINS

Este poema enigmático parece retomar os ares franceses


ou, ao menos, parodicamente franceses, do livro. O título
significa algo como “padrões contemporâneos”. A primeira
estrofe alude ao poema “Brisa marinha” de Mallarmé: La
chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres (A carne é triste, ai!
E eu já li todos os livros), mas a estrofe final, em francês é
original (em português: O infinito do céu / é o azul / o mais
/ indiferente) e reafirma o título do livro, antecipado pela
epígrafe de Griffin.

MSGS

Abreviação para “mensagens” muito usada por jovens na


internet. Este poema, retomando o virtuosismo do poeta

111
para a técnica do soneto, já explorado anteriormente
em brasa enganosa, consiste no que parece ser o mero
relato de uma conversa online entre dois rapazes típicos
(provavelmente entre 18 e 30 anos), mas, sob um olhar mais
detido, revela uma estrutura de métrica e rima.

LOL: para que o texto siga seu ritmo e complete a rima,


esta expressão deve ser lida como lots of laughs (“muitas
gargalhadas”), para rimar com “blefes”.

ETNOPLÁGIO

Temos aqui mais uma ocorrência da presença do poeta


e fotógrafo curitibano-porteño Vinicius Ferreira Barth
em l’azur Blasé, ainda que não abertamente nomeada.
Em primeiro lugar, precisamos dizer que a presença
deste poema na pasta rosa é anômala: enquanto todas as
outras páginas na pasta foram impressas na mesma fonte
(Garamond), a página em que este poema em particular se
encontra parece ter sido impressa em fonte Cambria e conta
ainda com rabiscos feitos com caneta azul no que parece ser
a caligrafia (ou, talvez melhor dizendo, cacografia) de Flores
(vide figura).

112
Além disso, apesar de as folhas todas na pasta apresentarem
graus diversos de avarias (amassados, pequenos rasgos,
manchas provenientes de líquidos de toda natureza), as
da folha deste poema em muito superam todas as outras.
Ao que tudo indica, o “etnorroubo” aqui é muito menos
metafórico e muito mais literal, uma vez que o poema
em questão já havia sido publicado por Barth no blog
escamandro, na data de 16 de dezembro de 2011 (http://
escamandro.wordpress.com/2011/12/16/cano-polar-
dos-eremitas-dos-confins-das-terras-geladas-transcrita-
pelo-poeta-no-exato-momento-de-sua-execuo-em-meio-
tempestade-de-neve/), e está incluso no manuscrito do
seu primeiro e (infelizmente) ainda inédito livro, Molho
Vinagrete. Temos notícia, através do próprio e do poeta
Bernardo Lins Brandão, que Flores teve acesso a esse
manuscrito em questão antes de seu falecimento e que, nas
ocasiões em que pôde discuti-lo sem a presença de Barth,
aproveitou para criticá-lo ferozmente. É irônico, portanto,
que ele venha a aparecer roubado aqui e profundamente
revelador de uma faceta do caráter Flores que imagino que
a maioria de nós desconhecesse. Outra hipótese, porém,
considerando elementos como o fato de que os dois
poetas eram bastante próximos, como se pode averiguar,
e que esta é a primeira reprodução impressa do poema
(e que a internet, como se sabe, é uma fonte das menos
confiáveis), é a de que, na verdade, o poema teria sido
ditado inicialmente por Flores e que seria Vinicius que o
teria roubado – portanto, ao roubá-lo de volta, Flores o
estaria retornando ao seu lugar de direito (o que justificaria
suas críticas reservadas como mal-estar e ressentimento).
Apesar de plausível, esta hipótese não me parece das mais
sólidas, pelo simples fato de que, em matéria de humor, o
“Etnorroubo” é infinitamente superior a qualquer outro
poema em l’azur Blasé – mais plautino do que terenciano,
poderíamos dizer. Em vez da ironia sutil, da paródia que

114
mal se pode reconhecer como tal e das tentativas de um
wit refinado demais para ser legitimamente cômico que
caracterizam o que Flores parece chamar de “fracasso sobre
o humor”, temos o contraste simples do subtítulo longo
(“canção polar dos eremitas dos confins das terras geladas
transcrita pelo poeta no exato momento de sua execução em
meio à tempestade de neve”) com a singela palavra “nhóin”,
que significaria, segundo Barth/Flores, num floreio cômico
retórico genial, “frio pra caralho”. Não há como sabermos,
no entanto, qual dos dois ou se qualquer um deles, de fato,
viajou aos “confins das terras geladas” (seria território
dos inuit? ou talvez Oymyakon, na Sibéria?) e ouviu esta
canção aqui registrada, à moda do poeta norte-americano e
tradutor da chamada etnopoesia, Jerome Rothenberg. Neste
caso, creio, devemos confiar na boa fé do poeta.

cítrica

Esta seção contém três poemas unidos pela temática


inusitada das frutas cítricas (limão, laranja-lima e laranja,
respectivamente) e poderia representar uma anomalia num
livro organizado por temas mais abrangentes como a ética
ou a academia. No entanto, sob uma leitura detida, há de se
notar que a palavra “cítrica” é um anagrama de “crítica”, via
o deslocamento delicado da letra ‘r’, que pode se situar ou na
sílaba que contém o ‘t’ ou na anterior, podendo representar,
assim, um tipo de deslocamento freudiano típico do
mecanismo de recalque psicológico. Tal interpretação
parece coerente com o conteúdo dos poemas que tratam, em
ordem, de avaliações (AVALIO SUCOS DE LIMÃO / por
estalos de língua...), críticas (NÃO CRITIQUEM MINHA
RIMA..) e, por fim, um juízo de valor (…eis a verdadeira
/ fragmentação / a mais interessante fragment/ação...).

115
Assim, portanto, ao falar de frutas cítricas, Flores estaria, na
verdade, tratando indiretamente da crítica literária.

acadêmica

Esta seção é autoexplicativa, pelo menos quando se tem em


mente os dados biográficos: tendo obtido os graus de mestre
e doutor e trabalhando como professor numa Universidade
Federal, Flores aproveita aqui para ironizar as trivialidades
da vida acadêmica.

EL MONO-MIMO

É um poema sobre o ato de se escrever uma monografia,


dissertação ou tese acadêmicos, dividido em 3 partes,
correspondentes ao projeto (que tipicamente é apresentado
antes de se começar a pesquisa e representa o seu germe),
a escrita em si (ridicularizada aqui pelo mantra “cita, cita,
cita”, que ironiza o quanto do trabalho acadêmico costuma
não ser tanto redigido pelo autor quanto citado de outras
fontes) e a conclusão que, em oposição ao maior volume das
partes anteriores, deve ser, como ele diz, “tácita” – e aqui
a singeleza dessa única e solitária palavra, em contraste,
parece reunir poeticamente com alto grau de sucesso a
forma e o conteúdo.

mono: esta palavra, que em português parece meramente


indicar um resumo para o termo “monografia”, pode ainda
ecoar mono, que no espanhol significa “macaco”. Com isso, o
acadêmico se resume a um macaco imitador.

116
É COMO AQUELA

Este é mais um dos poemas particularmente vulgares de


Flores – uma vulgaridade, diga-se de passagem, que só se
torna cada vez maior conforme progredimos na leitura deste
pequeno volume – em que o eu-lírico tenta justificar com
a bela imagem do desencontro da língua e o desencontro
do mundo o seu notório mau hábito de proferir palavrões
gratuitamente. Os finais de verso “merda”, “aninhar” e
“língua” também evocam uma imagem grotesca que pode
sugerir uma perversão sexual do poeta: o fetiche pela
coprofagia. O que isso tem a ver com a academia permanece
um mistério.

METÁFORA

É importante notar que este poema é a primeira ocorrência


aqui de um fenômeno recorrente entre os poemas da seção
acadêmica que é o fato de ele se encerrar sem ser resolvido,
com ponto de interrogação, trazendo à tona tematicamente
a questão da dúvida como parte da busca (baldada) pelo
conhecimento, numa possível influência socrática sobre
a poesia de Flores. Como leitores, ficamos tão confusos
quanto o eu-lírico em traçar a relação entre a vida média de
uma macroestrela (para uma estrela com cerca de 10 vezes a
massa do Sol, essa expectativa é de 100 milhões de anos) e a
cadência da afirmação da vida humana. Podemos encontrar
essa relação no tédio, talvez, que é um tema recorrente em
L’azur blasé e é especialmente pertinente na seção acadêmica,
o que evoca a imagem da demora aparentemente eterna, por
exemplo, de uma reunião tediosa de departamento.

117
TESE PRIMEIRA – A VIDA SEXUAL DE F. PESSOA:

O célebre poeta modernista português Fernando Pessoa


(1888 — 1935) é famoso pelo seu recurso literário dos
heterônimos – diferentes eu-líricos com diferentes histórias
de vida para um mesmo poeta – , dos quais os principais
seriam Alberto Caeiro, Ricardo Reis (que Flores já havia
parodiado num poema de Brasa enganosa), Álvaro de
Campos e o chamado Fernando Pessoa ele-mesmo – mais
o prosador Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego.
Flores aqui parece aludir à prática da masturbação, mas
é difícil de ter certeza. É provável que essa dúvida se
dissipasse se tivéssemos acesso à bibliografia que Flores
cita, mas parece que o poeta se esqueceu de incluí-la no
livro – e tampouco encontramos os nomes desses autores,
infelizmente, em sua biblioteca pessoal, o que pode sugerir
que ele tenha tido contato com eles em bibliotecas visitadas
ao longo de sua trajetória acadêmica que começa em Vitória,
passa por Belo Horizonte e termina em Curitiba. Ao que
tudo indica também, as notas de rodapé foram incluídas
por ele mesmo e constituem parte integral do poema, sendo
outra vez mais uma possível referência técnica ao contista
e romancista norte-americano David Foster Wallace, que
ficou conhecido entre os leitores por fazer uso recorrente
das notas de rodapé e de fim de livro como recurso
narrativo (vide, por exemplo, seu famoso romance Infinite
Jest (1996)).

TESE SEGUNDA – COMO CONTAR A HISTÓRIA:

erfahrung: conceito alemão significando “experiência”,


sobretudo no jargão filosófico, mas mais num sentido de
coerência entre as experiências da vida, cuja ausência o

118
poema parece denunciar, do que no sentido mais amplo de
“experiência” propriamente.

cataplof: onomatopeia para explosão. O fato de estar em


itálico, assim como o alemão e o francês de erfahrung e c’est
très chic pode ser uma sugestão semiótica de que o ruído da
bomba seria um tipo de linguagem.

TESE TERCEIRA — TORÇÃO

É difícil precisar exatamente a fonte em que Gontijo Flores


encontrou essa trívia etimológica curiosa. Ele certamente
estava já familiarizado com a etimologia das palavras
portuguesas “grama” e “charme” com suas respectivas
origens grega e latina, mas o mesmo não se dá na etimologia
escocesa de “glamour”, e é muito provável que ele tenha
visto em algum lugar que não foi registrado. A amarração,
pela via da linguagem, entre várias coisas que não parecem
ter relação entre si é, como se sabe, uma característica
recorrente da poesia de Flores.

TESE QUARTA — ARS LONGA SELON M. LEVI-


STRAUSS

Mais um poema inspirado em Lévi-Strauss. O título alude


ao ditado latino “ars longa uita breuis” (a arte é longa, a vida
é breve), ele mesmo uma tradução de um ditado grego do
médico Hipócrates, Ὁ βίος βραχύς, ἡ δὲ τέχνη μακρή. Uma
possível tradução para esse título, então, que mistura, de
forma excessivamente erudita, o latim e o francês, seria
“Arte longa (vida breve) segundo o Sr. Lévi-Strauss”.
Como em outros poemas desta seção, ele termina numa

119
interrogação. De fato, não sabemos qual a relação entre
essas coisas listadas pelo poema.

sariguê: um dos vários nomes para os animais do gênero


Didelphis, também chamados de gambá, no português
brasileiro (não confundir com o cangambá, o animal
preto com uma faixa branca no corpo que acabou sendo
conhecido por esse nome, mas cujo nome científico é
Mephitis mephitis) ou opossum, no português europeu, e
também conhecido pelos termos mucura, timbu, cassaco,
micurê, raposa, taibu, tacaca, saurê ou ticaca.

MEU NOME É LEGIÃO

“Legião” era como eram chamados os batalhões do exército


romano. A expressão “meu nome é Legião”, no entanto, tem
origem religiosa, na medida em que parte dos evangelhos
bíblicos, que descrevem o episódio em que Jesus encontrou
um homem possuído por demônios e o exorcizou. Diz
Marcos 5:7-9:

E, clamando com grande voz, disse: Que tenho eu


contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te
por Deus que não me atormentes.
(Porque lhe dizia: Sai deste homem, espírito imundo.)
E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe
respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque
somos muitos.

E Lucas 8:30:

E perguntou-lhe Jesus, dizendo: Qual é o teu nome? E


ele disse: Legião; porque tinham entrado nele muitos
demônios.

120
E Mateus 8:29-31:

E eis que clamaram, dizendo: Que temos nós contigo,


Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos
antes do tempo?
E andava pastando distante deles uma manada de
muitos porcos.
E os demônios rogaram-lhe, dizendo: Se nos
expulsas, permite-nos que entremos naquela manada
de porcos.

sem auréolas baudelaireanas: referência ao poema em prosa


de Charles Baudelaire, presente no seu volume Spleen de
Paris, intitulado “A Perda da Auréola” em que o personagem
do poeta se explica a um interlocutor sem nome a respeito
de ter sido encontrado numa casa de baixa reputação
(prostíbulo), ao que se segue uma descrição de como o
poeta, quase atropelado na rua de macadame, acabou
perdendo a sua auréola na lama, o que lhe permitiu entrar
impunemente no mundo baixo das vilezas cotidianas.

Roland Barthes: Nascido em 1915, Barthes foi um teórico


francês da teoria da literatura, filósofo, crítico, linguista
e semiólogo, associado às escolas do estruturalismo e do
pós-estruturalismo, conhecido por ideias como o “grau
zero da escrita” e a “morte do autor”. Algumas de suas obras
principais, além dos dois ensaios homônimos que contêm
essas duas ideias famosas, são O Prazer do Texto, S/Z e A
Câmara Clara. Morreu em março de 1980.

121
etílica

Parece haver uma progressão narrativa ao longo deste


trecho. No primeiro poema, há um eu-lírico cuja garrafa
ainda está cheia. Depois, o poeta troca um livro por (mais)
um chopp (“Inserção no Mercado”), depois mais outro
(“Microvers”), conforme a linguagem vai se deteriorando:
da verbosidade acadêmica da seção anterior e da reflexão
dolorosa no primeiro poema, para o estilo mais singelo
do segundo, com versos monossilábicos na sequência, até
culminar na ressaca ou na sua antecipação (cujo estilo é
paradoxalmente lúcido, no entanto, à moda da poesia latina
que ela menciona) e, por fim, na balbuciação incoerente.

INSERÇÃO NO MERCADO

O título faz referência à já bem-conhecida e documentada


dificuldade que os livros de poesia têm de se inserir no
mercado editorial. Segundo fontes anedóticas, tal episódio
aqui descrito de fato ocorreu num bar em Curitiba, numa
noite entre 2011 e 2012, mas há dúvidas sobre se o livro
em questão era o livro Os 25 Melhores Poemas de Charles
Bukowski (Bertrand Brasil, 2008), o que teria sido muito
apropriado e significativo em diversos níveis (a capa desse
volume é ilustrada pela imagem de uma garrafa de bebida,
visivelmente alcoólica, é óbvio, porém indistinta; Flores
estaria encenando, portanto, nesse gesto a substituição do
simbólico pelo real), ou se se tratava de um exemplar de
Sonhos Pluviais (Abrali, 2009), do poeta carioca radicado em
Curitiba e sócio da Academia Paranaense de Poesia Ralf
Gunter Rotstein.

122
MICROVERS DE GUARDANAPO

Mais uma vez um poema de influência francesa, temos


aqui uma referência clara a Rimbaud, cujo poema “Cocher
ivre” (“cocheiro bêbado”, e a temática alcoólica aqui parece
reforçar o elo entre Flores e o simbolista) descreve um
cocheiro caindo da carruagem também na forma de um
soneto de versos monossilábicos (Rimbaud, no entanto,
utiliza rimas sistematicamente em seu poema, diferente
de Flores, que só o faz no último verso das duas primeiras
estrofes).

HORÁCIO NÃO FALAVA DA RESSACA

Nos moldes do soneto petrarquiano padrão, este poema


reclama da falta de menções à ressaca da parte de poetas
clássicos, curiosamente justo o tipo de insight cômico e
absurdo que se pode esperar de um acadêmico no bar depois
de bêbado – irônico, portanto, e mais ainda por zombar dos
sonetistas num soneto.

Horácio: vide nota anterior em “horatiana” (Back to the 80’s)

feito um bukowski: referência ao poeta e prosador Charles


Bukowski (1920–1994), nascido Heinrich Karl Bukowski na
Alemanha e naturalizado norte-americano, autor de mais
de 30 volumes de poesia (dos quais um dos mais célebres é o
Love Is a Dog from Hell (1977)) e 6 romances, além de livros
de contos e não-ficção. Ficou famoso pelo seu alcoolismo,
tematizado em inúmeros poemas. Ao contrário dos
romanos, no entanto, Bukowski falava bastante da ressaca:
um de seus poemas mais famosos é intitulado “Hangovers”.

123
carpe diem: literalmente “colha o dia”, um dos lugares-
comuns da lírica latina, popularizado pelo poema “A
Leocônoe”, no livro das Odes de Horácio.

OU O POEMA SONORO

A poesia sonora é um desenvolvimento do início do


século XX promovido por vanguardas europeias como o
dadaísmo e o futurismo, valorizando o aspecto sonoro das
composições poéticas em detrimento do seu significado –
ou melhor, encontrando novo significado nessa aparente
privação de sentido. O italiano Filippo Tommaso Marinetti
(1876–1944), por exemplo, explorou esses recursos em seu
famoso poema futurista Zang Tumb Tumb (1914) que faz
largo uso de onomatopeias para descrever a ação em guerra,
tal como foi no campo de batalha de Trípoli, em que o
poeta participou. Outros autores de poesia sonora incluem
Richard Huelsenbeck (1892–1974), inventor do poema
bruitista (do francês bruit, “barulho”, “ruído”), Hugo Ball
(1886–1927), cofundador do Cabaret Voltaire dadaísta, Kurt
Schwitters (1887–1948) e Tristan Tzara (1896–1963), que,
além de ser um dos fundadores do dadaísmo, foi responsável
por desenvolver o poeme simultane (“poema simultâneo”),
que consiste num poema lido em línguas diferentes, com
ritmos e tonalidades diferentes, na voz de duas ou mais
pessoas diferentes, ao mesmo tempo. Por outro lado, o
título deste poema parece aludir ao livro de Herberto Helder
Ou o poema contínuo.

Pedro velho: Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, mais


conhecido simplesmente como Pedro Velho (1856–1907)
foi médico, boticário, fundador do jornal A República (em
1889) e, ao fim da monarquia, político, responsável por

124
proclamar a república no Rio Grande do Norte, tornando-se
o primeiro governador do estado.

luís câmara cascudo: Outra grande personalidade do Rio


Grande do Norte, Luís da Câmara Cascudo (1898–1986)
foi um historiador, antropólogo, advogado e jornalista
brasileiro, professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje
Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte (UFRN), dedicado ao estudo da cultura brasileira.
Entre 1921 e 1985, foi autor de mais de 60 livros.

mussum: nome pelo qual é conhecido o ator e humorista


carioca Antônio Carlos Bernardes Gomes (1941–1994),
bem como o de seu personagem interpretado nos esquetes
e filmes do grupo dos Trapalhões, contracenando com
Renato Aragão (Didi), Manfried (Dedé) Santanna e Mauro
Faccio Gonçalves (Zacarias), sendo o único negro no grupo
e um dos raros negros da televisão brasileira. Tornou-se
conhecido por seus bordões como “negão é o teu passádis”
e “quero morrer prêtis se eu estiver mentindo”, além de
piadas recorrentes sobre álcool, referindo-se, famosamente,
à cerveja como “ampola” (ou “ampolis”) e à cachaça como
“mé”.

cataio

Catai ou Cataio era o antigo nome para a China,


originalmente usado para designar o norte da China, e
difundiu-se rapidamente na Europa depois da publicação do
livro de Marco Polo, onde há uma distinção entre o norte
da China, Catai, e o sul, Manji. Curiosamente, a planta mais
famosa do litoral paranaense, onde Gontijo Flores morou
nos seus últimos anos, é a cataia, comumente usada para dar

125
gosto à cachaça; o que pode servir de amarração entre as
duas partes do livro.

NA VELHA CHINA UM VELHO SÁBIO:

A citação indica que não se trata, de fato, de um poema


original, mas de uma tradução ou transcriação sobre
uma fonte anterior – e a prática desse deslocamento e
apropriação claramente não destoa do restante do livro,
como se pode atestar. É difícil, porém, localizar a fonte
exata do autor a quem Flores aqui se refere. Qual seria
este velho sábio? É provável que não seja Confúcio, mas
sim um dos chamados Sete Sábios do Bosque de Bambu,
posteriores, do século III d.C. – e, de fato, pelo menos um
exemplar de um livro que tratava dessas figuras podia ser
encontrado na biblioteca pessoal do poeta, o La Bureaucratie
Céleste, Recherches Sur L’économie Et La Société De La Chine
Traditionnelle (Paris: Gallimard, Bibliothèque Des Sciences
Humaines, 1968), do sinólogo franco-húngaro Étienne
Balázs (1905–1963). É provável que esta narrativa tenha
sido contada pelo sábio Ruan Ji (210–263), que, além de
sábio, foi músico e poeta, sobre o qual constam várias
anedotas no folclore popular.

GERAÇÃO DIET COKE

A geração Diet Coke à qual Flores se refere pode não


necessariamente ser a dele (apesar de que as gerações mais
recentes conhecem esse mesmo produto, a Coca-cola sem
adição de açúcar, que pode ser consumida por diabéticos,
como Coca Zero), e, ainda que o poema seja em primeira
pessoa, não há qualquer fonte biográfica que afirme que
Flores não soubesse andar de bicicleta quando tirou a

126
carteira de motorista, nem de que ele tivesse um instrutor
chinês, que parece ser invenção sua com base no arquétipo
popular do mestre chinês, tal como se pode ver em diversos
filmes, de Karate Kid (1984) a Kill Bill (2003).

bernardo brandão: nascido em Belo Horizonte me 1981,


Bernardo Lins Brandão é formado em Grego Antigo
pela Faculdade de Letras da UFMG e mestre e doutor em
Filosofia Antiga pela Faculdade da Filosofia Antiga pela
UFMG, onde estudou a filosofia de Plotino. Foi professor
na PUC-MG e na UFOP. Atualmente, é professor de Grego
Antigo na UFPR. Seu livro de poemas, Rua Musas, foi
publicado em 2013 pela editora Patuá.

TANKA OULIPO

O tanka é um poema curto da tradição japonesa, parente


do haicai. Assim como o haicai consiste de um poema de 3
versos, com cada verso contendo, em ordem, 5, 7 e 5 sílabas,
o tanka é constituído por uma primeira parte, chamada de
kami-no-ku, que se parece com um haicai (mesmo número
de sílabas), seguida de uma segunda parte, shimo-no-ku, com
dois versos de 7 sílabas. O termo era a princípio, no século
VIII, utilizado para distinguir entre poemas curtos (tanka)
e poemas longos (choka), mas na era moderna passou a se
referir a um gênero específico muito praticado por poetas
como Masaoka Shiki (1867–1902) e os poetas de sua revista
literária Hototogisu, no século XIX, e Yosano Tekkan (1873–
1935) e sua revista Myojo no século XX. Ele foi introduzido
à poesia brasileira pelo imigrante japonês Teijiro Suzuki que
veio para o Brasil em 1906.

OULIPO é uma sigla para Ouvroir de littérature potentielle, ou


Oficina de Literatura em Potencial, nome de um influente

127
grupo literário do século XX da França. Ele foi fundado
por Raymound Queneau e François Le Lionnais, com o
propósito de reunir escritores e matemáticos interessados
em compor obras experimentais baseadas em restrições.
Alguns de seus membros mais célebres foram o poeta
Jacques Roubaud e o romancista Georges Perec. Seu
romance La Disparition (que poderia ser traduzido como
O sumiço), de 1969, se tornou famoso por ter sido inteiro
composto sem se utilizar a letra e, logo a vogal mais comum
da língua francesa.

VIDEOGAME

Em mais uma instância da onipresença quase opressora


de Gertrude Stein sobre l’azur Blasé, temos aqui o
reemprego das técnicas de repetição e microvariação de
Stein, aplicadas, de forma sem dúvida muito adequada,
à temática do trabalho monótono e alienante tal como
praticado hoje na China – e que este poema se insira na
seção do livro chamada cataio representa um salto temporal
e de ambientação, da China da sabedoria ancestral para a
China moderna pós-comunista, industrializada e altamente
competitiva. O título “Videogame” é dos mais enganosos:
a julgar por ele, era de se esperar um poema leviano,
talvez algo sobre o prazer do poeta em se divertir com
jogos eletrônicos, como se diverte na piscina no poema
que abre o livro. No entanto, o que temos, em vez disso,
são 18 pesados versos sobre a brutalidade das condições
de trabalho chinesas (as mesmas condições de trabalho
a que os operários são submetidos para a produção de
eletrônicos, como os próprios consoles de videogame),
como uma aproximação e representação, porém – e aqui
o caldo engrossa mais um bocado ainda –, de uma prática
mais recente, mas não menos alienante e brutal, de se

128
submeter trabalhadores a muitas e muitas horas jogos
online (chamados popularmente de MMORPGs, Massively
Multiplayer Online Role Playing Games) para acumularem
dinheiro virtual e depois convertê-lo em dinheiro real – no
geral, vendendo esse dinheiro virtual para jogadores de
países mais desenvolvidos dotados de dinheiro real, mas
indispostos a se dedicar à longa tarefa repetitiva e tediosa
de acumular dinheiro virtual. A essa prática se chama
gold-farming (“cultivo de ouro”) e teve início na Coreia do
Sul, mas rapidamente se alastrou pela China. É difícil dizer
qual a relação que Flores teve com essa mídia, se ele era
um jogador constante ou não (provavelmente não, dada
a qualidade precária da conexão de internet da zona rural
em que morava), mas é evidente que o assunto parece ter
estimulado a sua faceta neomarxista (como ele mesmo
se declara em “Song of Itself”), produzindo um dos seus
poucos poemas declaradamente políticos. Justamente por
isso, sua presença em l’azur não deixa de ser aberrante. Será
que ele estaria tentando dizer algo com a inclusão de um
poema tão sério no cerne de um livro cômico ou ao menos
pretensamente cômico? É difícil dizer, e essa dificuldade é
aumentada de forma exponencialmente, na medida em que
aqui as referências aos “ouros” que os trabalhadores chineses
ganham nesses jogos-trabalho de imediato se amarra
verbalmente com o próximo “poema” do livro, as “Pepitas
de ouro”.

PEPITAS DE OURO

Destoante do restante do livro, que consiste em poemas de


fato, “Pepitas de ouro” é uma lista de aforismas aludindo a
uma tradição de literatura sapiencial, que remete à literatura
bíblica dos Salmos, Provérbios e Eclesiastes, tanto quanto a
autores modernos como Henry David Thoreau (1817–

129
1862) e Friedrich Nietzsche (1844–1900). No entanto,
essa sapiencialidade aqui se encontra deslocada, como se o
poeta procurasse buscá-la não no Ocidente ou no Oriente
Próximo, mas no Extremo-Oriente, conforme foi deixado
evidente aqui já nos poemas anteriores a relação entre essa
imagem de uma China antiga e a sabedoria que ela inspira
e pode ainda inspirar. É provável que o orientalismo em
Guilherme tenha suas raízes aqui num poema de Bernardo
Lins Brandão publicado em Rua Musas sobre Qin Shi
Huang, o que pode ser um motivo pelo qual um dos poemas
anteriores, “Geração Diet Coke”, seja dedicado a ele.

dizer é pouco, é muito além do que interessa, dizer é quase de


macacos: Gontijo Flores parece aqui retomar as ideias do
pensador judaico do século XX Walter Benjamin (1892–
1940), de que o que é importante para a poesia é justamente
o incomunicável, tal como expresso em seu famoso ensaio
“A Tarefa do Tradutor” (1923).

musas: as musas na mitologia grega clássica eram 9 deusas


filhas de Zeus e Mnemósine (a Memória), responsáveis
por inspirar poetas e artistas – em alguns casos, aliás, como
quis Homero e a tradição posterior, cantando literalmente
através da boca do poeta. Seus nomes são Calíope
(responsável pela épica), Clio (pela história), Erato (a poesia
lírica), Euterpe (canção e poesia elegíaca), Melpomene (a
tragédia), Polímnia (hinos sacros), Terpsícore (dança), Tália
(comédia) e Urânia (astronomia).

brecht de raiz: Bertold Brecht (1898–1956) foi um poeta,


diretor de teatro e dramaturgo alemão, responsável por
noções como o do “teatro épico” e da Verfremdungseffekt
(algo como “efeito de estranhamento”). Foi autor de
centenas de poemas e dezenas de peças. Brecht nunca foi

130
filiado de fato ao Partido Comunista, mas foi ganhador do
Prêmio Stalin da Paz em 1954.

até baudelaire tinha os seus dias de fábio de melo: Charles


Baudelaire (1821–1867) foi um dos maiores poetas da
literatura francesa, responsável pelo influente volume
de poemas As Flores do Mal (1857), bem como o Spleen de
Paris, pequenos poemas em prosa (1869), e um dos primeiros
pensadores da experiência da modernidade. O Padre Fábio
de Melo é um padre católico nascido em 1971 que se
apresenta musicalmente desde o final da década de 1990,
tendo gravado 12 álbuns de estúdio, dos quais pelo menos
um, Vida (2008), foi premiado com o Disco de Diamante.
Também é escritor, publicando 11 livros entre 2006 e
2012, como Quem Me Roubou de Mim? (2008), Mulheres de
aço e de flores (2008), Cartas entre Amigos – sobre ganhar e
perder (2010, com Gabriel Chalita) e Orfandades – o destino
das ausências (2012). Não está evidente qual relação Flores
tenta traçar entre os dois, além, talvez, do contraste entre a
personalidade sinistra de Baudelaire, tal como apresentada
por sua poesia, e a figura simpática e benevolente do padre.

a vida e as opiniões

como é um poema só dividido em várias partes, eu vou manter


como eu fiz antes, com um parágrafo sobre o poema todo e aí as
marcações para cada parte complicada. abaixo tá o texto inteiro,
que eu copiei lá e colei aqui e complementei, que aí fica mais fácil
do que sugerir onde tem colocar mais coisa e tal. Tem que corrigir
também que o último poema tá com número 5 e não 6. E não
esquece de apagar esta rubrica)

131
Este título estranho para uma seção de 6 poemas que
agem como um poema só remete ao título do romance do
autor Laurence Sterne (1713–1768), The Life and Opinions
of Tristram Shandy, Gentleman (1759), em português A
Vida e Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy. Há uma
forte autoironia, no entanto: Guilherme Gontijo Flores
não é nenhum gentleman, mas um “barnabé”, o termo
pejorativo para funcionário público, “servidor do estado”,
tal como ele reafirma, de forma repetitiva e redundante,
logo na sequência. Como se sabe, Gontijo Flores de
fato foi funcionário público (professor de Universidade
Federal), o que faz com que esses poemas tenham algo
de autobiográfico. No entanto, o fato de o título ser em
terceira pessoa pode sugerir um afastamento entre a pessoa
real e o personagem que discorre pesada e longamente nas
páginas seguintes, numa voz discursiva e monótona de
longas estrofes em bloco de texto que em nada lembram
o Gontijo Flores leve e visualmente interessante do brasa
enganosa, como se estivesse de fato dando voz, portanto,
ao seu lado barnabé para quem “o tédio não foi bom / nem
mau nem meu nem médio”. Evidências textuais indicam
que este ciclo consistia a princípio de apenas 3 e não 6
poemas: “Begin the beguine” (à época sem título), “Quanto
à canção de amor” e “Finale glorioso”, tal como pode ser
visto numa postagem de 11 de abril de 2013 do blogue
da revista Modo de Usar & Co. (http://revistamododeusar.
blogspot.com.br/2013/04/guilherme-gontijo-flores.html).
É muito provável, portanto, que os poemas 3, 4 e 5 sejam
acréscimos posteriores, e é possível ainda que o 3 tenha
sido motivado por um evento verídico, ainda que não
tenha acontecido na UFPR de fato, até onde se tem notícia,
ao passo que o poema 4, “Do fabulário geral”, um tipo de
quase terça rima com versos octossilábicos, é mais um caso
de um poema inspirado por Lévi-Strauss, cuja influência
sobre este livro até agora, ainda que tardia, tem se revelado

132
tremenda. Apesar do tom psicodélico de (autointitulada)
fábula do poema, é importante apontar que ela tem raízes
num episódio real que ocorreu muito próximo do final
da vida do poeta. Temos rumores — cuja autenticidade é
sempre de difícil comprovação — que demonstram que,
nas semanas anteriores aos eventos misteriosos em torno
de sua morte, Flores havia sido processado pelo IBAMA
por crime ambiental. Segundo consta no processo, em
uma de suas várias viagens pelo Brasil em seu conhecido
Fusca, ele teria se flagrado num imenso engarrafamento
após dias de exaustão, consumo de cachaça e privação
de sono, quando de repente uma anta teria atravessado
a estrada, aproveitando a calmaria do engarrafamento.
Profundamente entediado e já alucinando, num delírio
alimentado pela leitura dos textos de antropologia, em
que a anta apareceria antropomorfizada conversando com
ele, o poeta teria saído do carro, matado o animal com as
próprias mãos e começado a comê-lo ali mesmo, na frente
dos outros motoristas, que assistiram horrorizados ao
espetáculo monstruoso. Segundo outros rumores póstumos,
esse não seria o único episódio estranho do final de sua
vida. Poucos dias após o incidente, ele ainda teria aparecido
nu em pelo para uma reunião docente na Universidade,
apenas pintado com pintura de guerra Tupinambá, feita de
urucum e jenipapo. Apesar da estranheza causada, a reunião
teria corrido normalmente, mas a polícia seria acionada na
sequência quando Flores tentava realizar uma circuncisão
forçada – sem dúvida como rito de iniciação – num aluno
orientado por ele, que não conseguimos identificar. Parece
claro que tudo isso – desde o tom autobiográfico, a temática
do tédio, do corpo e do mito – se encontra articulado de
forma subjacente neste ciclo de poemas; o que nos leva a
pensar se esses rumores não teriam sido criados a partir
da leitura dos poemas, tal como vemos que acontecia nas
biografias de poetas gregos, romanos e provençais.

133
rodrigo madeira: poeta paranaense nascido em 1979 em Foz
do Iguaçu, autor dos livros Sol sem pálpebras (2007) e Pássaro
ruim (2009).

Begin the beguine: provável referência a uma música de jazz


bastante popular do compositor Cole Porter (1891–1964)
escrita em 1934 com esse título. “Beguine” é uma palavra
do crioulo caribenho com o sentido de “mulher branca”,
mas que passou a ser associada a um tipo de música e dança
lenta. A associação entre o verbo “begin” (começar) com este
ser o primeiro poema do ciclo é evidente.

tapir: outro nome para o animal conhecido popularmente


como “anta” (Tapirus terrestris).

clint eastwood: ator, diretor e produtor norte-americano


nascido em 1930, famoso por sua participação em filmes de
“spaghetti Western” na chamada trilogia do Homem Sem
Nome, dirigida por Sergio Leone. Flores já fez referência
ao gênero cinematográfico num poema anterior de brasa
enganosa intitulado “Song of Itself”

excurso

Esta última seção apresenta uma problemática já a partir do


próprio título. O dicionário Houaiss, por exemplo, define
“excurso” tanto como “excursão, jornada” quanto como
“desvio do tema, do assunto principal; digressão”. Não há,
no entanto, nenhum desvio do tema (e qual seria o tema
de l’azur Blasé? Como poderíamos defini-lo) e, diferente
de como costuma acontecer com desvios e digressões,
não há qualquer retorno ao tema na sequência – muito
pelo contrário, aliás, em vez disso, esta seção é a última,

134
que encerra o livro. Por isso parece mais sensato pensar
na origem etimológica de excurso, via latim, ex + cursus,
literalmente “correr para fora”, o que pode nos indicar para
uma concepção de “saideira”, como se diz popularmente.
Outra vez, porém, a possibilidade do duplo sentido –
dicionarizada e etimológica – parece enriquecer a leitura: a
saideira como uma digressão da qual não se retorna.

OS MELHORES SONETOS DE GUILHERME

Este poema faz a ponte entre os poemas autobiográficos


da seção anterior sobre o tédio e o pessimismo
autodepreciativo desta seção final, reafirmando a sua
posição como “barnabé”, mas com o senso de humor
mais marcado que define o tom desta seção, em vez do
cansaço anterior. O título alude à plaquete que Flores
esboçou publicar (porém nunca publicou) que teria esse
título e conteria os diversos poemas que ele escreveu com
esse formato clássico: assim, “Os melhores sonetos de
Guilherme” seria tanto o nome da publicação quanto o
nome do poema. Nota-se aí o fastio crescente do poeta com
a civilização (“servidor do estado homem de fé / de grana de
bom gosto mero verme...”), o que nos faz arriscar pensar se,
talvez, sua morte precoce não tenha sido forjada para poder
fugir mais completamente da vida em sociedade. Depois de
ter sido ganhador do Jabuti de 2014 na categoria tradução,
com a Anatomia de Melancolia, sua imensa fama conquistada
como finalista do prêmio Portugal Telecom 2014, na
categoria poesia, com o brasa enganosa, pode ter sido um
catalisador para isso, visto que, nem mesmo morando num
lugar afastado como Rio Sagrado ele pôde ter paz depois da
cerimônia – por mais que não tivesse ganhado a prêmio de
fato – e as ligações e visitas constantes de jornais e revistas
acabaram levando-o à loucura. É muito provável que seja a

135
isso que aludam os versos “contente em tanto ver-me / na
capa da revista”.

com pose de maldito baudelaire: mais uma referência ao poeta


francês. Vide a nota para “Pepitas de Ouro”.

nos traços reverentes de vermeer: referência ao pintor holandês


Johannes Vermeer (1632 – 1675), cuja especialidade – cenas
da vida doméstica da classe média – parece ser coerente
com a temática do poema, além de ser uma quase rima
conveniente para “Guilherme”–“verme”–“ver-me”.

antes nascesse o meu poeta gauche / do que essa rala guache do


deboche: referência óbvia ao “Poema de Sete Faces” de Carlos
Drummond de Andrade, somada de um jogo de palavras
muito ao gosto anos 80 de que Flores era fã.

online da ágora: provavelmente a rede social Facebook, em


que o poeta tinha um perfil.

mão canhota: referência autobiográfica: Flores era canhoto.

ELOGIO DO FRACASSO

bye bye mecenas que eu nunca vi: este verso, num exemplo
clássico da poesia pós-moderna de fusão da cultura erudita
e popular, é uma clara referência à canção “Rua Augusta” de
Ronnie Cord (também gravada mais tarde por Raul Seixas
e Os Mutantes), cujo refrão declara: “Bye, bye Johnnie /
Bye, bye Alfredo / Quem é da nossa gangue não tem medo”,
que deixa evidente o contraste entre a soberba do eu-lírico
vanglorioso de Cord e o eu-lírico de Flores que confessa
– talvez também não sem algum grau de vanglória – o
próprio fracasso. Mecenas é uma referência a Caio Cílnio

136
Mecenas (70 a.C. – 8 a.C.), político romano e conselheiro de
confiança do imperador Augusto, responsável por oferecer
proteção política e patronato a poetas latinos importantes
como Virgílio, Horácio e Propércio. Com o tempo, seu
próprio nome passou a designar qualquer patrocinador de
escritores e artistas no geral.

sayonara: (さようなら) “Tchau” ou “adeus”, em japonês.


Também é o título de um filme de 1957 com Marlon
Brando sobre um relacionamento trágico entre um militar
americano e uma japonesa.

can’t you see?: mantendo a temática recorrente de citar


canções, pode ser aqui uma referência a pelo menos três
músicas, uma intitulada “Can’t you see?” do grupo de
southern rock Marshall Tucker Band; a outra, à canção
“Don’t dream it, be it” do musical cult The Rocky Horror
Picture Show (1975), em que se ouve um verso a perguntar,
em tom ascendente, “Can’t you just see it?”, logo antes do
refrão; por fim à canção Games da banda Nazareth, que traz
em seu refrão “Can’t you see? / We’re not going to play at
your games.” As canções estão interligadas ao poema pelas
questões de sucesso e fracasso.

BUROCRÁTICA

Podemos encontrar aqui uma última referência à língua


francesa no livro, se nos lembrarmos que “burocracia”
é uma palavra de origem francesa, unindo o “-cracia”
(do kratos grego, “poder”) que se encontra em palavras
como “democracia” (lit. “poder/governo do povo”) ou
“aristocracia” (“poder/governo dos melhores”) ao bureau
francês (“escritório”), criando, como nos diz o Houaiss, a
palavra “burocracia, para indicar a influência crescente dos

137
escritórios e da administração na atividade humana”. Como
se pode ver, há outros poemas em l’azur Blasé onde Gontijo
Flores ironiza a ineficácia burocrática, o suficiente para
podermos afirmar que a temática permeia uma boa parte do
livro, sobretudo a partir de sua segunda metade.

possivelmente kafkiana no seu mal: alusão ao escritor judeu


de língua alemã Franz Kafka (1883–1924), autor de obras
célebres como A Metamorfose (1915), O Artista da Fome
(1924), O Processo (1925, póstumo) e O Castelo (1926,
póstumo), os dois últimos dos quais tratam extensivamente
dos males causados pela burocracia.

SAIDEIRA

até logo até logo companheiro: referência ao poeta russo


Sierguéi Iessênin (1895–1925). Seu último poema – um
“último poema bandalheiro”, como diz Flores – tem esse
verso como título e como primeiro verso, escrito em seu
próprio sangue após o poeta cortar os pulsos numa tentativa
infelizmente bem-sucedida de suicídio; o que indicaria
um incrível mau gosto de Gontijo Flores na seleção
temática. Tal como o poema de Flores, “Até logo, até logo,
companheiro” consiste num poema breve de 8 versos, em
duas quadras rimadas. Esse poema foi traduzido para o
português por Augusto de Campos, com auxílio de Bóris
Schnaiderman.

NEM NUM ESTRONDO

Os primeiros versos e título deste poema remetem a versos


famosos do poeta modernista norte-americano naturalizado

138
inglês Thomas Stearns Eliot (1888–1965), na estrofe final de
seu “The Hollow Men” (1925), que diz:

This is the way the world ends


This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

Gontijo Flores, no entanto, neste último poema – em que


as menções à “papelada” podem ser, outra vez, uma alusão
crítica à burocracia –, nega que o mundo acabe seja num
estrondo (“bang”) seja num suspiro (“whimper”), mas sim
em uma imagem cujo tom é muito mais grotesco e muito
menos lírico.

139
prefácio interessantíssimo 6

Rodrigo Tadeu Gonçalves (UFPR)

6 N. dos E.: tratava-se anteriormente de prefácio, cujo conteúdo, por


ser considerado ofensivo apesar de sincero, foi movido à posição
de posfácio, em nome apenas do respeito à amizade entre os dois
autores e da liberdade de expressão.
Dado o trivial e fortuito fato de eu ter sido grande amigo
pessoal do finado poeta, instou-se a mim escrever um
prefácio para sua obra póstuma, recém-encontrada.
Naturalmente, poeta bom é poeta morto. Isso serve para
os grandes gênios, Morrison, Winehouse, Russo bem
como todo aquele que não sabe fazer poesia. Por que não
valeria também para o antigo Guilherme Gontijo Flores?
No entanto, não sou poeta, talvez crítico por não saber
fazer poesia, e a tarefa sobrepesa-me nos lombos, mas,
em memória a um grande homem, prolífico, excelente
manejador de machados, motosserras e enxadas, cozinheiro
de mão única, pai de família, alcoólatra gourmet, traficante
de inhotinga7, bom marido e pai de dois filhos, agraciados
com vultuosa pensão governamental (da qual o poeta
ele-lírico parece escarnecer ao zombar as instituições
que financiaram sua fausta vida), visionário, laureado
poeta profundo e zombeteiro, entrepreneur de literatura e
tradução, aceito a incumbência, não sem um não-sei-quê
de incompetência misturada com vergonha e afeto por uma
vida que se foi na tenra idade.

Os boatos são muitos, mas corre à boca pequena que seu


assassinato se deu em virtude de um duelo (sim, poetas
ainda duelam, quer me parecer) com tal capoeirista do
candonga (de Xandão alcunhado) que muito se irritou com
o negócio da china que passou a ser o tráfico internacional
de inhotinga como ingrediente exclusivo de cachaças e
cervejas artesanais, o que bem pode ser mentira, mas cujos
indícios do próprio então-futuro-ex-autor talvez se deixem

7 Trata-se de uma planta rara da mata atlântica, também conhecida


como canela-inhotinga (nome científico Cryptocarya mandioccana),
mas de variada nomeação popular: canela-batalha, canela-branca, canela-
noz-moscada, canela-lajeana, etc.

143
entrever na forma críptica do futuro do indicativo da
primeira pessoa do singular em ortografia renascentista,
onde a semivogal já aparece grafada j no poema intitulado
“trafficjam”. Bem quisto por toda a comunidade do
Candonga, onde sempre foi recebido com cachaças e
cervejas baratas de presente gracioso, o referido então
poeta parece ter sentido algum embaraço relacionado ao
presente volume, não publicado em vida pelo simples fato
de não se tratar de boa poesia. O uma vez versejador deve
ter percebido que não valeria a pena dar a lume (num dos
sentidos literais do termo, o lume talvez seja o destino
mais benéfico deste livro, como veremos) os versos ora
apresentados aquele mesmo autor de brasa enganosa (livro de
pretensões sublimes), mas, como todo grande autor morto,
raspa-se o fundo do tacho em busca de alguns vinténs (dos
quais alguma parte caber-me-á, suponho, por este exercício
de crítica), que quiçá nunca cheguem a ser ganhos.

Um crítico mais bem-disposto teria talvez aproximado


estes rascunhos ao apócrifo segundo livro da Poética, pelo
caráter complementar e cômico dos dois volumes, mas
quer nos parecer que tal exercício de laudatória vã retórica
certamente soaria pura bazófia, e não tenho coragem
de sequer levantar a possibilidade em nome da amizade:
Guilherme não desejaria mentiras desse porte. Tudo isso
pelo simples motivo de que não posso me furtar a dissecar
a partir do próximo parágrafo, quando se encerra o breve
excurso biográfico dessa vida perdida na flor da idade
apaixonada dos trinta anos que faria o grande homem e
amigo em questão não tivesse ele sido imolado antes do
tempo.

Conforme prometido acima, passo à exposição do motivo


pelo qual o presente volume, muito embora indigno de
nota, deve ser publicado como complemento à obra do

144
poeta. A questão toda se resume a um simples motivo
básico: com o subtítulo de ‹ensaio de fracasso sobre o
humor›, o próprio espirituoso – e agora espiritual – autor
escancara sua maior fragilidade, a saber: o humor, aqui,
inexiste. Inexiste no sentido puro da própria denotação do
termo escolhido: “fracasso”. Não há humor, mas fracasso.
Numa vã tentativa de operar através de fina ironia, o
agora defunto pensou ser capaz de fazer rir a um eventual
esforçado leitor. Com todo esforço a que pude aceder pelo
peso da memória afetiva que tenho pelo agora mero nome
de Flores — “somente sobram nomes” diria ele próprio
num momento mais feliz da sua produção —, o resultado
continua a ser um fracasso inconscientemente anunciado,
um metafracasso se preferirem. Como querer fazer rir a um
leitor com um volume cuja máxima nota de humor é uma
epígrafe do gênio da comédia Peter Griffin, sendo que todas
as outras tentativas de sua própria lavra falham? Trocadilhos
infames que repetiram a quinta série perpetuamente não são
a grande poesia. São má poesia. Não há poesia nos versos
rudes e toscos ora publicados a contragosto (entretanto
garantidos por mandato judicial impetrado pela agora
viúva). Dada a referida decisão judicial, que me obrigou a
escrever este prefácio, sob supervisão do oficial de justiça
que se senta a meu lado impressionado com a velocidade em
que escrevo usando apenas três dedos no teclado, mandato
em mãos, incapaz de entender literatura, é-me impossível
furtar-me à tarefa.

Escrevo, então. O poeta inicia sua coletânea com uma


patética imagem de homem branco (embora tivesse vivido
anos cercado de natureza atlântica) boiando em uma piscina,
forçando-nos a imaginar o ultrajante contraste cromático
de suas pernas quase transparentes contra o fundo azulado
de uma linda piscina. A pobreza da imagem fala por si. Passa
a seguir a querer comer o próprio pai, traço detestável e

145
reprovável de caráter que, já se vê, parece ter inexistido.
Quanto à sequência, “Cansós”, que direi de tal barafunda
de vozes femininas, que, estivesse vivo o autor, teria feito
corar a mais pudica feminista no tribunal em que seria
condenado por discriminação de gênero? Em “Monumento
ao falecido poeta laureado”, o “autorreflexivo” poeta parece
não ter tido espelho em casa, fato certamente decorrente da
pobreza rural em que afundou-se em decorrência de infeliz
vício. Pobre poeta. Que dizer dos obscenos e pobres versos
sobre a pica aninhados em um sem-número de parênteses
– recurso possivelmente considerado sofisticado, dado o
esgotamento dos recursos técnicos de que dispunha o então
Flores, cérebro já diluído em cummings estereotipado?
Quem ele esperava enganar? E quem esperava enganar, se
todos sabiam e tacitamente aceitavam que Bruna Aparecida
era sua amante, e, dizem, nem mulher era? Palíndromos
não melhoram a situação, então ‹oroboro›, grafia mais feliz
em português do que em grego antigo, perde a chance de
ser usado em um belo soneto à moda antiga – forma, aliás,
que o outrora Flores parece não ser capaz de compor, dada
a evidente falta de perícia versejatória abundante e se-
espraiante evidente nos versos deste livro.

Em “Back to the 80’s” o finado teria tido grandes chances


de ter melhor sucesso, tivesse ele escolhido uma dicção
mais próxima das dublagens brasileiras dos filmes dos anos
80, tarefa na qual poderia facilmente ter sido auxiliado
pelos excelentes amigos e poetas, o cristão Bernardo
Lins Brandão, e o helenista hard-rock Vincius Barth.
Malogrou novamente, e o resultado são versinhos de
ocasião que mal podem ser chamados de verdadeira boa
poesia. A sátira à caçula das ciências humanas, a excelente
e virtuosa linguística, verdadeira ciência em meio a
tanto blábláblá das humanidades, mira certo mas atinge
o alvo errado, misturando alhos com bagulhos. Muito

146
mau-gosto. Referências biográficas ao seu péssimo gosto
musical, de Fausto Fawcett a Mars Volta, não parecem
ajudar: continuamos na mesma, à espera da epifania da
poesia gostosa e matreira que lemos em seu début literário.
Gertrude Stein coraria de ver o que se fez com a sua
excelente boa poesia em “Uma Gertrude para Bartleby”.
Shame on you! Que dizer de MSGS, que tenta transformar
em material literário a sabida incapacidade intelectual e
discursiva dos jovens de hoje em dia, que preferem rsrs
a um bom Ah Ah Ah, forma sobejamente encontrada nos
excelentes autores de antanho, como Plauto e Terêncio?
E em 2 em 1 o malfadado agora-quiçá-anjo tenta fazer um
metapoema usando a palavra “metapoema”. Não haveria
ninguém ali para impedir tamanha desfaçatez?

A seção seguinte, cítrica, subestima a capacidade intelectual


do esforçado leitor ao fazer um trocadalho com a palavra
“crítica”. Não percebo. Não há nada de errado com a
profissão de provadores de limões, limas e laranjas em
geral, que submetem-se a anos de treinamento para
poder emitir julgamentos precisos e sofisticados sobre a
acidez, citricidade e para compor cartas e cardápios para
harmonização com as mais variadas espécies de viandas
de bom gosto. Shame on you! Mais motivo para processos
judiciais natiganhos, caso o poeta não estivesse desnato.
Sorte a dele. Devo ressaltar que, ao menos nesta seção, o
esforçado aspirante a grande poeta maneja rimas de maneira
quase proficiente. Mais uns cinquenta anos de vida ter-lhe-
iam aproximado do excelentíssimo estilo parnasiano de que,
em vida, Flores tanto escarnecia, obviamente por não ser
capaz de pintar belos poemas como os bilaquianos.

Em academica, o refinado ex-autor cospe no prato em


que comeu com avidez, mamando nas tetas da máquina
de que zomba efusivamente. Claramente, trata-se de

147
um recalque poético-acadêmico, pois todos sabem que
o objetivo de Flores era igualar-se no campo acadêmico
a Edward Fraenkel, excelentíssimo filólogo, mas, assim
como se dá com sua recusa dor-de-cotovelística a Bilac,
deixa transparecer sua incapacidade técnica e a óbvia
impossibilidade de tornar-se um filólogo superstar
de primeiro escalão. Eu, ao menos, ainda vivo e galgo
os degraus do cursus honorum em busca do estatuto de
germânico filólogo. Antes ele do que eu. Merece destaque
o escárnio demonstrado pelo excelente poeta Fernando
Pessoa, que, todos sabem, teve intensa vida sexual. Mais
recalque, portanto.

A mais autobiográfica de todas as seções do parco livreto


é, por fim, etílica, em que o esforçado poetastro esmiuça
sua longa e árdua luta com o vício. Cinco vezes na rehab,
cinco vezes interrompidas por fuga, não foram capazes de
torná-lo mais sociável no que tange ao beber socialmente.
Morreu de falta de sede. Não sem tentar levar o presente
autor ao fundo do poço do álcool, solicitando-me a presença
em bebedeiras que acabavam cada vez mais tarde (nas tardes
do póstero), com saideiras que tornavam-se verdadeira
demonstração do princípio algorítmico da recursio ad
infinitum. Salvei-me, graças a Cristo. Pobre poeta, critica
os antigos por não conhecerem a ressaca, demonstrando
nada menos do que mera ignorância sobre os processos de
bebedeira greco-romanos, tornados incólumes e impérvios
ao desagradável processo pelo uso de uma polida e bela
pedrinha de ametista (gr. amethistés, “não-intoxicável”, aliás
tema de um belo poema de seu brasa enganosa). Tivesse o
ora-possível-fantasma estudado mais em vida, ao invés de
afundar-se em luxúria e devassidão, evitaria a gafe que é o
poema com tal tema. “Ou o poema sonoro” é tão ruim que
supera qualquer letra de canção do brasileiro Djavan, e, por
isso, não merece mais do que esta frase.

148
A seção cataio: o que dizer sobre essa nem-sequer-palavra?
O que a China e os aforismos abundantes têm a ver com
o que quer que seja aqui? Desculpe, caro leitor, minha
paciência parece estar em vias de esgotar-se. Mas também
o está o libelo. O etéreo autor parece não ter conseguido
voltar de seu pulinho “no abismo do brega”, onde deve ter
estraçalhado os miolos e espargido as pobres escarpas com a
inânia de sua deteriorada massa cinzenta. (Não comentarei
o gosto escatológico do autor por chupar cus). Mas como
aceitar que sob o título de cataio haja poemas que sequer
façam referencia à China, mas sim a outros pontos do
Oriente? Se não estamos diante de pura ignorância, será sem
dúvida má fé.


A tediosa seção “A vida e as...”, de título tão pernóstico que


me recuso a copiá-lo na íntegra, falha em ser paródia de
literatura de verdade, pela qual mereceria censura. Pena
não ser eu o editor, para poupar meu finado amigo desta
vergonha póstuma.

O livro encerra-se com mais uma seção (pasme, leitor!).


Finalmente. De saideira o ex-Flores conhece bem. Ponto
para ele. Entretanto, só posso lamentar o uso indevido do
único poeta moderno merecedor da própria alcunha de
poeta, T. S. Eliot, em uma paródia malcheirosa de «The
Hollow Men». O gordo metafísico, eterna nêmesis do
poeta, que lutou contra a burocracia com unhas e dentes
podres de cachaça: ao menos, uma boa imagem. Quem
sabe até cômica. E é assim que termina o mundo do finado
poeta Guilherme Gontijo Flores: não com um trovão, mas
com um sussurro. Um ligeiro assoviar flatulento do álcool
fermentado. Assim, esperava eu, mero crítico e amigo,
mas o mundo infelizmente terá acesso a esta malfadada
coletânea.

149
Como talvez uma defesa ao livro, devemos considerar como
este livro pode nos ajudar a compreender os melhores
momentos de sua obra de estreia, muito embora eu mesmo
não consiga perceber como isso poderia acontecer. As notas
de Adriano Scandolara (jovem acadêmico com veleidades
de poeta), ainda que incompetentes em muitos pontos do
seu intuito laudatório, servem como um esforço de amostra
de como isso poderia ocorrer. Embora as falhas de seu
trabalho sejam claras — note-se como deixa de comentar
a morte de Roland Barthes atropelado por um caminhão,
ponto fundamental para o tremendo mau-gosto do poema
“Meu nome é Legião”, que se estende para o poema seguinte
“Saideira”, noutra piada infeliz com o suicídio — elas
esclarecem, porém de modo algum diminuem ou justificam
a ruindade geral da obra. Mais uma vez, nossa falta de
respeito com um escritor morto só vem a nos servir como
monturo que circula pelas livrarias sob a égide de novidade.

Faça bom proveito, você que me lê. Conselho amigo: pare


por aqui8.

8 Para a escrita deste prefácio, gostaria de agradecer imensamente


às ideias e contribuições do poeta e crítico franco-russo Louis
Dölnicov, do lógico polonês Kazimierz Ajdukvewicz e do alquimista
que criou a Founders Centennial IPA.

150
Agradecemos a Vinicius Ferreira Barth pela cessão do texto
que aparece no poema “Etnoplágio”, que, fora o título, é de
sua autoria.

151
Este livro foi impresso nas oficinas gráficas da Kotter
Editorial [www.kotter.com.br] em papel pólen Bignardi
off-withe, de 90 gr/m2, tipologia Source Sans Pro 10/13, no
inverno de 2016.