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Prática Simulada Penal - FAESA

Profs. Magali Gláucia e Paulo Vitor Saiter

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DO ____ JUIZADO ESPECIAL


CRIMINAL DA COMARCA DE VILA VELHA

LETISGO, (nacionalidade), (estado civil), atleta profissional, (filiação), inscrito no


CPF sob o nº ..., residente e domiciliado na Rua Almirante, 14, Vila Velha/ES, por seu(ua)
advogado(a) que a esta subscreve, cujo instrumento de procuração com poderes
especiais segue anexo (doc. 1). vem, respeitosamente à presença de Vossa Excelência,
oferecer

QUEIXA-CRIME

com fundamento legal nos artigos 100 §2º do Código Penal e 30 do Código de
Processo Penal, em face de SERENA, (nacionalidade), (estado civil), (filiação) inscrito no
CPF sob o nº ..., residente e domiciliado na (endereço completo), cidade de Vila Velha/ES
pelas razões de fato e de direito a seguir expostas:

I – DOS FATOS

No dia 02/04/2017, o Querelante faz aniversário e planejava, para a ocasião, uma


reunião com parentes e amigos. No dia 25/03/2017, resolveu, então, enviar o convite
por meio da rede social, publicando postagem alusiva à comemoração em seu perfil
pessoal, para todos os seus contatos.

A Querelada Serena, vizinha e ex-namorada de Letisgo, que também possui perfil


na referida rede social e está adicionada nos contatos de seu ex, soube assim da festa e

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do motivo da comemoração. Então, de seu computador pessoal, publicou na rede social


uma mensagem no perfil pessoal de Letisgo, com os seguintes dizeres:

“não sei o motivo da comemoração, já que Letisgo não passa de um


idiota, bêbado, irresponsável e sem vergonha!” [...] “ele trabalha todo
dia bêbado! No dia 27/10/2016, ele cambaleava pela faculdade,
inclusive, estava tão embriagado no horário do expediente que a
empresa em que trabalha teve que chamar uma ambulância para
socorrê-lo!”.

No mesmo momento da publicação, o Querelante visualizou a mensagem e ficou


completamente envergonhado, cancelando a festa comemorativa.

II – DO DIREITO

Sabe-se que a intimidade, a honra e a imagem são direitos constitucionalmente


protegidos, conforme preceitua o art. 5º, X da CF.

Honra é o conjugado de qualidades, físicas, morais e intelectuais de um ser


humano, que o fazem merecedor de consideração no meio social e promovem sua
autoestima. Representa “o valor social do indivíduo, pois está ligada à sua aceitação ou
aversão dentro de um dos círculos sociais em que vive”.

Ela se divide em honra subjetiva e objetiva, podendo a esta definir, de forma en


passant, como a visão que a sociedade tem acerca das qualidades do indivíduo e àquela,
pelo sentimento que cada pessoa possui de si mesmo.

Conforme acima narrado, o Querelante, atleta profissional, como a maior parte


da população atual, possui um perfil em uma das redes sociais existentes na Internet e
o utiliza diariamente para entrar em contato com seus amigos, fãs e colegas de trabalho.

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Ocorre que, em certa data, ao planejar uma festa de aniversário, pela


praticidade, resolveu encaminhar um convite virtual, publicando postagem alusiva à
comemoração em seu perfil pessoal, para todos os seus contatos.

Após este ato, foi surpreendido por um comentário em sua publicação, de sua
ex-namorada Serena, que ainda fazia parte de sua rede social. A Querelada,
gratuitamente e sem qualquer razão, escreveu que “Letisgo não passa de um idiota,
bêbado, irresponsável e sem vergonha!”.

Não satisfeita, com a finalidade de denegrir sua reputação acrescentou, ainda


que “ele trabalha todo dia bêbado! No dia 27/10/2016, ele cambaleava pela faculdade,
inclusive, estava tão embriagado no horário do expediente que a empresa em que
trabalha teve que chamar uma ambulância para socorrê-lo!”.

Ora, é evidente, pelas declarações supra, que a Querelada deve incorrer nas iras
dos crimes de injuria e difamação, previstos, respectivamente, nos artigos 140 e 139 do
Código Penal, posto que ofendeu a honra objetiva e subjetiva do Autor.

No que se refere ao crime de injúria, é a honra subjetiva que acaba sendo


atingida. A honra subjetiva é o sentimento de cada um a respeito de seus atributos
físicos, intelectuais, morais e demais dotes da pessoa humana. É aquilo que cada um
pensa a respeito de si mesmo em relação a tais atributos.

O crime de injúria está previsto no art. 140 do CP, que assim preconiza:

Art. 140 – Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:


Pena - detenção, de 1(um) a 6 (seis) meses, ou multa.

Já a difamação, é a imputação ofensiva de fato(s) que atenta(m) contra a honra


e a reputação de alguém (honra objetiva), com a intenção de torná-lo passível de
descrédito na opinião pública. Está prevista no art. 139 do CP. Vejamos:

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Art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua


reputação:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

Importante esclarecer a diferença entre a injúria e a difamação, sendo que esta


“pressupõe atribuir a outrem fato determinado ofensivo à reputação. Na injúria, tem-se
veiculação capaz de, sem especificidade maior, implicar ofensa à dignidade ou decoro”
(STF: Inq. 2.543/AC, Rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno).

A sua consumação dos crimes se dá quando a ofensa à dignidade ou ao decoro


chegam ao conhecimento da vítima, sendo irrelevante que os dizeres tenham sido
proferidos na presença da vítima ou que tenham chegado ao seu conhecimento por
intermédio de terceira pessoa.

Importante ainda ressaltar que os crimes foram cometidos por meio que facilita
a divulgação (art. 141, III CP), qual seja, publicação na rede mundial de computadores e,
portanto, deve incidir a causa de aumento de pena de 1/3 (um terço).

Cabe destacar também o concurso formal impróprio de crimes com previsão no


art. 70 CP (segunda parte), posto que, com apenas uma ação, a Querelada praticou dois
delitos diversos. Assim, mister a aplicação cumulativa das penas, já que houve ação e os
crimes concorrentes resultaram de desígnios autônomos.

Por fim, importante registrar que o Querelante, após o fato ocorrido, não sabia
o que dizer aos amigos, em especial a Krisman, Astor e Hellio, que estavam ao seu lado
naquele instante. Muito envergonhado, Letisgo tentou disfarçar o constrangimento
sofrido, mas perdeu todo o seu entusiasmo e cancelou a festa comemorativa, o que
demonstra um intenso abalo moral.

Assim sendo, mister a aplicação de fixação de valor mínimo a título de


indenização, pelos danos sofridos, nos termos do art. 387, IV do CPP.
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III – DOS PEDIDOS

Diante do exposto, requer à Vossa Excelência, após manifestação do


Ministério Público, a designação de audiência de conciliação entre as partes.

Caso não haja acordo, o recebimento e autuação da presente queixa-


crime, citando-se a Querelada para responder aos termos da presente ação penal, sob
pena de revelia, e ao final, que seja condenada nos termos dos artigos 139 e 140, na
forma do 141, III do Código Penal.

Requer, outrossim, a produção de todas as provas em direito admitidas e


a intimação das testemunhas do rol abaixo, em caráter de imprescindibilidade.

Pleiteia, por fim, nos termos do art. 387, IV do Código de Processo Penal,
que seja ao final fixado valor mínimo de indenização ao Querelante.

Nestes termos, pede deferimento.

Local, 24 de setembro de 2017.

Advogado
OAB

ROL DE TESTEMUNHAS:
1. Astor, (residência);
2. Hellio, (residência).
3. Krisman, (residência);