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O anticatolicismo norte-americano e a questão

do batismo católico entre os presbiterianos

Sérgio Gini

1. O presbiterianismo norte-americano

A tradição reformada chegou aos Estados Unidos pelos puritanos ingleses, pelos
holandeses e, principalmente pelos escoceses e irlandeses. Da mesma forma que aconteceu em
outros países, pelo seu amplo espírito democrático e ortodoxia, o presbiterianismo norte-
americano também se dividiu em diversos outros ramos, com suas peculiaridades, algumas
delas de caráter étnico. O primeiro presbitério foi organizado em 1706, por fiéis imigrantes
irlandeses que tinham vindo do Ulster, uma das maiores províncias da Irlanda. O primeiro
sínodo foi constituído em 1717 e a primeira Assembleia Geral em 1789.
A influência do presbiterianismo escoto-irlandês é uma realidade incontestável nos
Estados Unidos.

Por volta de 1720, grandes ondas de presbiterianos escoceses-irlandeses


chegavam à América. Calcula-se que, cerca de 1750, cem mil deles haviam
entrado na América, sendo sua influência sentida em todas as treze colônias.
Eram descendentes de escoceses estabelecidos na Irlanda do Norte pelo
governo britânico após uma séria rebelião de irlandeses. No início
constituíram uma feliz e próspera colônia, mas em fins do século XVII o
governo inglês pôs em vigor certas restrições econômicas sobre eles que
resultou num êxodo para a América. Eles, por sua vez, trouxeram consigo uma
antipatia contra o governo inglês, assim como um profundo antagonismo à
Igreja oficial. Além de outras injustiças eles foram ainda forçados a pagar o
dízimo para sustentar a Igreja Episcopal da Irlanda, o que provocou um
ressentimento que foi carreado para o Novo Mundo. 1

O catolicismo norte-americano é fruto da imigração do século XVIII e que se


intensificou no início do século XIX com a chegada de levas de imigrantes franceses, irlandeses
e alemães católicos. Mendonça destaca que esses imigrantes provocaram “um grande e
ameaçador crescimento da Igreja Católica” nos EUA2. Logo, essas pessoas se inseriram nas
questões políticas e sociais do país, provocando preocupação por parte da maioria protestante,
principalmente no que se referia às eleições em alguns distritos. Nesse período, que vai de 1830
a 1845, foi instalado o movimento que é chamado de Nativismo Americano, profundamente

1
HAHN, 1989, p. 115.
2
MENDONÇA, 2008, p. 75.
protestante e contrário a participação dos imigrantes católicos nos assuntos administrativos do
país. Integrantes do movimento reorganizaram em 1844, nas eleições da cidade de Nova Iorque,
o Partido Republicano que se aliou ao partido Whig para derrotar o Partido Democrata,
influenciado por católicos.
O que ficou conhecido como Cruzada Protestante do Nativismo americano se iniciou
em 2 de janeiro de 1830 com a publicação do panfleto The Protestant, editado por George
Bourne. Seu alvo principal era denunciar a fé católica e instigar os leitores contra o que ele
chamava de “perigo católico” para a República. Billington destaca um trecho do artigo de “O
Protestante”: “Os objetivos desta publicação são o de inculcar as doutrinas do Evangelho contra
as corrupções romanas”3. Embora grande parte dos protestantes americanos tivessem algumas
tendências anti-estrangeiros, os ataques de Bourne não encontraram eco entre os protestantes
moderados. Bourne então entregou o cargo de editor para o Rev. William Craig Brownlee,
pastor da Igreja Reformada Holandesa de Nova Iorque, licenciado pela Igreja da Escócia em
1808, que o remodelou e ampliou os ataques à fé católica.
Em 1831 os nativistas fundaram em Nova Iorque a The New York Protestant
Association, com objetivo de estruturar o movimento. Já em 1832, a popularidade da associação
atraiu muitos nativistas para as reuniões. Como esses encontros eram abertos ao público, os
católicos também compareciam, ficando assim inevitável o debate entre os grupos. Muitas
vezes, os católicos eram obrigados a responder às maliciosas insinuações dos membros da
associação, aumentando o conflito. O barril de pólvora explodiu em maio de 1832, quando
houve um quebra-quebra na reunião da Associação. Em 1834, alguns católicos entraram no
auditório da Igreja Batista de Baltimore e atacaram o pregador. Os confrontos então chamaram
a atenção dos americanos moderados. Em 1833, diversos folhetos relatavam esses
acontecimentos, e alguns protestantes moderados começaram a enxergar os católicos como
perigosos4.
Embora ocasionalmente os católicos reagissem ao movimento nativista com violência,
foram os protestantes que produziram grandes atos de violência nos anos que se seguiram. Em
10 de agosto de 1834 uma turma composta de 40 a 50 pessoas incendiou a escola e o convento
das Ursulinas, em Charleston (Massachussets), inflamados por uma denúncia de imoralidade
contra a freira Elizabeth Harris, conforme havia sido publicado em um livro da ex-freira

3
BILLINGTON, R. A. The Protestant Crusade (1800-1860). New York: Macmillian Co., 1938, p. 53.
4
BILLINGTON, 1938, pp. 53-55.
Rebecca Reed, que teria passado seis meses no convento5. A decisão de incendiar a escola foi
tomada depois dos nativistas ouvirem um sermão anticatólico pregado pelo pastor
presbiteriano, o Rev. Lyman Beecher6, de Cincinnati.
Em sua pregação anticatólica Beecher, que era diretor do Lane Theological Seminary
em Cincinnati, tinha outro aliado de peso. Tratava-se de Samuel F. B. Morse, professor da
Universidade de Nova Iorque e inventor do telégrafo e do código de comunicações que leva o
seu nome. Como Beecher, Morse era presbiteriano e logo se juntou a este para anunciar uma
conspiração católica contra os EUA. Ambos escreveram vários comentários e artigos sobre a
“ameaça católica”. Em 1834 Morse escreveu The Foreign Conspiracies Against the Liberties
of the United States; voltou a carga em 1835 com The Imminent dangers to the Free Institutions
of the United States. Nesse mesmo ano, Beecher escrevia o célebre A Plea for the West, que
logo teve sua edição esgotada e foi editado novamente no mesmo ano.7

1.1. O presbiterianismo adere ao anticatolicismo

Foi no calor dos acontecimentos da década de 1830 que a Assembleia da Igreja


Presbiteriana aprovou uma série de “Atitudes com respeito ao Papado”. A primeira delas veio
em maio de 1835 - ano dos livros de Morse e Beecher - na Assembleia Geral da Igreja
Presbiteriana realizada em Pittsburgh. Um pedido do Presbitério de Baltimore foi encaminhado
solicitando uma posição da Assembleia sobre o tema das corrupções da Igreja Romana e o se
haveria algum dever no relacionamento da Igreja Presbiteriana. O relatório da comissão
designada para dar um parecer, depois de mais de uma semana de trabalho, nem foi para a
votação, sendo aprovado um substituto no último dia de reuniões8. A resolução final foi
publicada nos seguintes termos:

(1) Resolveu, deliberou e decidiu esta Assembleia que a Igreja Católica


Romana tem essencialmente apostatado da religião de nosso Senhor e
Salvador Jesus Cristo e, portanto, não pode ser reconhecida como uma Igreja
Cristã. (2) Resolveu que seja recomendado a todos de nossa comunhão, que
se esforcem para difundir a luz por meio do púlpito e da imprensa, bem como
de outros meios cristãos, para resistir à extensão do Romanismo e conduzir

5
Rebecca Reed escreveu o livro Six Months in a Convent em 1835, relatando supostas perversões sexuais no
convento das Ursulinas
6
Em A Plea for the West, Beecher alega que os católicos estavam engajados em uma conspiração internacional
para tomar o Vale do Rio Mississipi. Tive acesso à segunda edição de 1835.
7
Para mais informações sobre o movimento anticatólico nos EUA, consultar AHLSTROM, S. E. A Religious History
of the American People. Vol. 1. New York: Doubleday, 1975.
8
ENGLES, W. M. (editor). Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the United States of
America. From 1821 to 1835, inclusive. Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1835, p. 490.
seus fiéis para o conhecimento da verdade, como ela é ensinada na Palavra de
Deus. (3) Resolveu que é totalmente inconsistente com os mais elevados
deveres dos pais cristãos, colocar seus filhos para educação em seminários
católicos. 9

A decisão da Igreja Presbiteriana estava em consonância com aquilo que acontecia nos
Estados Unidos, inclusive com participações de ministros e membros da igreja na chamada
cruzada anticatólica. É digna de menção a terceira resolução que fala sobre a inconsistência do
ensino secular em escolas católicas para filhos de presbiterianos. Isso tinha a ver com uma
estratégia da cruzada que era desmoralizar escolas e conventos católicos, como já havia
acontecido no caso das Ursulinas. A sanha anticatólica chegou ao ponto de publicar obras de
ficção como se fossem casos verdadeiros. Foi o que aconteceu em 1836 quando Maria Monk
publicou um livro intitulado Awful Disclosures, onde relatava suas experiências como freira
católica, e como se envolveu em várias relações sexuais forçadas com padres de um seminário
anexo ao convento de Hotel Dieu, em Montreal, no Canadá. Ela também relata o assassinato de
freiras e crianças. O livro termina contando sua fuga espetacular para salvar seu bebê ainda em
gestação. O sucesso da obra foi imediato e provocou uma sequência, incentivada pelo Rev. J.
J. Slocum, da 1ª Igreja Presbiteriana Ward de Syracuse, Nova Iorque, onde Monk conta as suas
tentativas de suicídio. Quando é salva pela segunda vez, reconhece a intervenção divina e de
que precisa contar aos outros a sua história e os horrores do catolicismo10. Durante a guerra
civil, seus livros venderam mais de 300 mil cópias e chegaram a ser traduzidos para outros
idiomas. A última edição que se tem notícia saiu nos EUA em 1977. Entretanto, logo se
descobriu que os livros tratavam de fantasia da mente de uma pessoa perturbada. A mãe de
Monk confirmou que sua filha nunca pertencera a nenhum convento, jamais houvera sido freira
e que, quando criança, tivera distúrbios mentais. Posteriormente, os acontecimentos relatados
foram historicamente comprovados como improváveis por conta de erros históricos e
geográficos. Entretanto, o estrago que o movimento nativista fizera era muito grande.
Reunida em 1841, já sofrendo as divisões internas dos grupos denominados de Velha
Escola e Nova Escola11, a Assembleia da Igreja Presbiteriana tomou mais algumas “Atitudes

9
BAIRD, Samuel J. A collection of the acts, deliverances and testimonies of the Supreme Judicatory of the
Presbyterian Church: From its origin in America to the present time. Philadelphia: Presbyterian Board of
Publication, 1858, p. 560.
10
MONK, Maria. Awful Disclosures by Maria Monk of the Hotel Dieu Nunnery of Montreal. 2a. ed. Revised.
London: James S. Hodson, 1837.
11
A Old School representava os presbiterianos “conservadores” ante as doutrinas calvinistas. A New School,
influenciada pelos avivamentos, defendia uma perspectiva mais liberal, algumas inclusive arminianas. A maioria
da Velha Escola expulsou vários ministros da Nova Escola, criando um cisma em 1837. A Velha Escola recorreu à
justiça dos Estados Unidos para poder considerar a sua Assembleia Geral como a que representava a Igreja
Presbiteriana dos EUA. Em 1860 houve a reaproximação dos dois grupos. Para saber mais, consultar GILLETT, E.
contra o Papado”, com relação a ampliar o doutrinamento de seus fiéis contra a corrupção do
papado. Ao total, são seis resoluções:

(1) Resolveu que seja designado um pregador para entregar um sermão antes
de cada Assembleia onde nos mostre tópicos relacionados com a controvérsia
entre católicos e protestantes. (2) Resolveu que esta Assembleia recomende
seriamente aos pastores de todas as congregações sob a nossa jurisdição, que
usem o púlpito e a imprensa com coragem, porém, com temperança, para
explicar e defender as doutrinas e princípios da Reforma e para chamar a
atenção e expor os erros e superstições do Papado. (3) Resolveu que o mais
eficaz antídoto, não somente contra o papado, mas contra todas as formas de
erro, é a reunião solene de todos os pastores e presbíteros das nossas igrejas,
bem como nossos evangelistas nacionais e nos campos do exterior, para
diligentemente e majestosamente se engajarem na instrução do povo, e
especialmente das crianças e jovens, na Confissão de Fé e Catecismos da
nossa igreja. (4) Resolveu esta Assembleia, solenemente e afetuosamente,
avisar todos os nossos membros do perigo e improbidade de apoio, ou de
qualquer forma direta ou indireta de patrocínio ou incentivo, a escolas e
seminários católicos. (5) Resolveu esta Assembleia recomendar a especial
atenção dos nossos membros às obras sobre a Reforma e o Papado, que têm
sido publicadas pela Câmara de Publicação. (6) Resolveu que os delegados de
todos os Presbitérios sejam chamados, na próxima reunião da Assembleia,
para relatar o que foi feito em conformidade com essas resoluções. 12

Atendendo aos apelos da Assembleia, ainda para as sessões daquele ano foram
escolhidos para pregar sobre o tema do Papado os delegados Rev. Henry A. Boardman, pastor
da 12ª. Igreja da Filadélfia, e o Rev. Dr. Robert J. Breckinridge, moderador da Assembleia, um
dos expoentes da Velha Escola e pastor da 2ª. Igreja de Baltimore. Baird informa que a prática
de pregações contra o catolicismo nas sessões da Assembleia Geral durou até 1852 quando foi
finalmente revogada.13

1.2. Os presbiterianos legislam sobre a validade do batismo romano

Nesse contexto de profundo sentimento anticatólico e tendo que lidar com as questões
internas que dividiam as opiniões dos seus líderes, como o cisma entre a Velha e a Nova escola
e o problema da escravidão que começava a incomodar, não tardou surgir no seio da Igreja
Presbiteriana dos Estados Unidos dúvidas com respeito à validade ou não do batismo católico.

H. History of Presbyterian Church in the United States of America. Revised Edition. Vol. II. Philadelphia:
Presbyterian Board of Publication and Sabbath-School Work, 1864.
12
BAIRD, 1858, p. 561.
13
BAIRD, 1858, p. 561.
Temas relacionados ao batismo sempre estiveram nas pautas das Assembleias da Igreja
Presbiteriana desde o século XVIII. Em 1752 o Sínodo de Nova Iorque14 deliberou sobre o
batismo feito por impostores, provavelmente uma decisão ligada às preocupações dos
resultados do Grande Despertamento de 1734 que trouxe grande número de pessoas para as
igrejas e com isso não havia pastores suficientes para dar conta do rebanho15. O Sínodo decidiu
que se alguém se passasse por ministro presbiteriano e que batizasse crianças e adultos e pouco
depois fosse descoberto, se não tivesse sido licenciado ou ordenado, todos os seus atos eram
considerados nulos e inválidos16. Em 1814 a Assembleia deliberou sobre a validade do batismo
dos Unitaristas. A decisão foi que pela negação da doutrina da Trindade, esse batismo é
inválido17. Em 1819 entrou a questão sobre a validade do batismo praticado por um ministro
deposto, sendo confirmado que os atos somente seriam válidos se o ministro fosse legalmente
licenciado ou ordenado18. Em 1834 foi a vez do questionamento se um pastor presbiteriano
poderia batizar por imersão. A Assembleia confirmou a adoção da fórmula da Confissão de
Westminster, “não é necessário mergulhar a pessoa na água”, e desestimulou a adoção dessa
prática19.
Uma das decisões mais interessantes data de 1790 quando a Assembleia Geral deliberou
sobre a administração profana do batismo, a Assembleia Geral tomou a decisão relacionada
com a intenção do ministrante:

Resolve que é um princípio desta Igreja que a intenção dos ministros do


Evangelho não invalida as ordenanças da religião ministradas por ele.
Também é um princípio que, enquanto qualquer denominação cristã for
reconhecida por nós como uma igreja de Cristo, deveremos manter como
válidos os atos praticados por ela, não obstante as intenções particulares dos
ministros. Ainda, na medida em que nenhuma regra geral pode ser feita para
abraçar todas as circunstâncias, pode haver irregularidades nas administrações
particulares feitas por homens não conscientes do seu ofício, tanto na nossa
como em outras igrejas, que podem torná-las nulas. Mas, essas irregularidades
resultam muitas vezes de circunstâncias e situações que não podem ser
antecipadas e confirmam a regra, e devem ser deixadas para serem avaliadas
com prudência e sabedoria pelos Conselhos das igrejas que podem recorrer às
instâncias superiores. Em tais casos, é aconselhável administrar a ordenança
do batismo de forma correta onde houve um caráter profano da cerimônia.
Esses casos e circunstâncias, entretanto, devem ser questionados pelos
Conselhos das igrejas e comunicada a um Presbitério antes da decisão final. 20

14
Nessa época ainda não havia a Assembleia Geral, constituída em 1758 e que funcionou pela primeira vez em
1759.
15
HAHN, 1989, p. 119.
16
BAIRD, 1858, p. 102.
17
Loc. cit.
18
Ibidem.
19
BAIRD, 1858, p. 108.
20
Idem, pp. 102, 103.
Em 1845, a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana se reuniu, a partir do dia 15 de
maio, na 1ª. Igreja Presbiteriana de Cincinnati (Ohio). O moderador eleito na primeira sessão
foi o Rev. Dr. John M. Krebs, pastor da Igreja Presbiteriana de Rutgers Street, Nova Iorque, na
época a maior da denominação em número de membros. O tradicional sermão anual contra o
romanismo foi pregado pelo Rev. Dr. Nathan Lewis Rice, pastor de Lexington (Kentucky),
reconhecido polemista anticatólico e que já havia se envolvido em disputas com os Batistas em
questões sobre o pedobatismo e batismo por imersão. É importante destacar que Cincinatti era
o centro de onde partiam os grandes ataques do Rev. Lyman Beecher, polarizando com Nova
Iorque a influência do movimento nativista.
No dia 16 entrou a consulta do Presbitério de Ohio, do qual faziam parte as igrejas de
Cincinnati: “O batismo na Igreja de Roma é válido?”. A proposta da Comissão de Consultas
era pela resposta negativa, mas como o assunto chamou muita discussão foi adiado para maior
estudo. No dia 20, o assunto foi retomado e após várias discussões optou-se pela votação
nominal da proposta da Comissão para a negativa. Dessa forma 173 delegados votaram
favoravelmente à proposta e apenas 8 disseram não, sendo cinco pastores e três presbíteros21.
Outros 6 se abstiveram de votar, pois não tinham opinião formada, três pastores e três
presbíteros. Assim, “a Assembleia decidiu que o batismo na Igreja de Roma não é válido” 22.
No dia 27 foi apresentada uma minuta com os pontos de vista da Assembleia e lida perante
todos23. É importante, por amor à história, reproduzirmos as razões aceitas pela Assembleia que
consideraram o batismo católico inválido24.

A questão apresentada à Assembleia pelo Presbitério de Ohio, “O batismo na


Igreja de Roma é válido?”, é uma das questões mais graves e de grande
importância prática. A resposta a isso deve envolver princípios vitais para a
paz, pureza e a estabilidade da Igreja de Deus. Depois de uma grande
discussão, levada por diversos dias, esta Assembleia decidiu, por uma votação
quase unânime, que este batismo não é valido.
Porque, desde que o batismo é uma ordenança estabelecida por Cristo para sua
Igreja (Fórmula de Governo, Cap. VII, Mat. 28: 19,20) e para ser administrado

21
KLEIN (2000: 53,54) com base no artigo “General Assembly” de Charles Hodge para o The Biblical Repertory
and Princeton Review, de julho de 1845, apresenta, equivocadamente, a conta de 169 votantes pela proposta da
Comissão. O autor também comete um erro de informação ao afirmar que, dentre os que se posicionaram pelo
batismo romano, estavam Lord, Aitken e Charles Hodge. Quanto ao Rev. Lord está correto; já o Rev. Aitken disse
não ter opinião formada, embora assinasse o manifesto da minoria. Tanto Lord quanto Aitken defendiam que
as igrejas locais deveriam ter autonomia para decidir sobre o assunto. O Rev. Dr. Charles Hodge não participou
da Assembleia como delegado.
22
ENGLES, W. M. (editor). Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the United States of
America with Appendix. Vol. XI. Philadelphia: William S. Martien, 1845, p. 15.
23
Idem, pp. 34-37.
24
BAIRD, 1858, pp. 103 – 105.
somente por um Ministro de Cristo, devidamente chamado e ordenado para
ser um despenseiro dos mistérios de Deus (Diretório, Cap. VII, Sec. 1), segue-
se que nenhum rito administrado por alguém que não seja devidamente
Ministro ordenado da verdadeira e visível Igreja de Deus, pode ser
considerado como uma ordem de Cristo, qualquer que seja o nome que é
chamado, qualquer que seja a forma empregada na sua administração. Os
chamados padres romanos não são Ministros de Cristo, pois eles são
comissionados como agentes da hierarquia papal, a qual não é a Igreja de
Cristo, mas do Homem do Pecado, apóstata da verdade, o inimigo da retidão
e de Deus. Ela tem enganado a muitos sob a maldição de Deus, quem chamou
seu povo para sair dela, e para que não fossem participantes de suas pragas.
É a opinião unânime de todas as Igrejas Reformadas, que todo o corpo papal,
uma vez ramo da Igreja visível, se tornou totalmente corrupto e
irremediavelmente infiel. Foi a convicção disso que levou à Reforma, e a
completa separação do corpo Reformado da comunhão papal. Lutero e seus
coadjutores, sendo presbíteros devidamente ordenados quando deixaram a
comunhão Romana, que, depois, embora terrivelmente corrompida, foi a única
Igreja visível nos países onde habitavam, foram plenamente autorizados pela
palavra de Deus para ordenar sucessores ao ministério; e, assim, ampliar e
perpetuar as Igrejas Reformadas, como verdadeiras Igrejas de Cristo:
enquanto a adesão contumaz de Roma aos seus erros, como mostrada nas
decisões do Concilio de Trento (o qual adotou como autoritário) desligaram-
na da visível Igreja de Cristo, como herege e infiel. Esta foi a opinião dos
Reformadores, e é doutrina das Igrejas Reformadas até hoje. Está de pleno
acordo com isto a decisão da Assembleia Geral de nossa Igreja, de 1835,
declarando a Igreja de Roma como um corpo apóstata.
A decisão da Assembleia de 1835, obriga a uma resposta negativa à pergunta
proposta pelo Presbitério de Ohio, indispensável no plano da coerência; a
menos que estejamos preparados para admitir, em uma direta contradição das
normas da Igreja Presbiteriana, que o batismo não é uma ordem estabelecida
por Cristo exclusivamente para sua Igreja, e que pode ser administrado por um
representante do Homem do Pecado, um emissário do príncipe das trevas; que
pode ser administrado na diversão ou na blasfêmia, e ainda ser válido como
se fosse administrado por um despenseiro devidamente comissionado para os
mistérios de Deus.
Também não pode ser argumentado que a hierarquia papal está melhorando
seu caráter, e gradualmente se aproximando do padrão bíblico. Ela diz ser
infalível: promulga seus dogmas como doutrinas do céu; e pronuncia seu
maior anátema contra todo e qualquer homem que questionar sua autoridade
e se recusar a acatar suas decisões. Ela não pode recuar do plano que assumiu.
Ela adotou como suas as decisões do Concilio de Trento, as quais rebaixam a
palavra de Deus: pregando autoridade para os Apócrifos iguais ao Novo
Testamento; o qual declarou como seguro aquilo ensinado pela santa Igreja
mãe, na autoridade das tradições e dos Pais, como sendo o verdadeiro e único
sentido das Escrituras. Contra todo aquele que negar esta posição, ou que
questionar sua autoridade, ela profetiza as mais amargas pragas.
Deste modo, ela deturpa a verdade de Deus; ela rejeita a doutrina de
justificação pela fé; ela substitui o mérito humano pela retidão de Cristo; e se
auto-inflige a pena do Evangelho do arrependimento. Ela declara oficialmente
seu, então chamado, batismo como uma regeneração, e o recebimento da
hóstia consagrada na eucaristia, como sendo o recebimento do próprio Cristo,
a fonte e o manancial da graça, e com ele toda graça que se possa receber. É
esta a verdade? A confiança neste sistema é uma verdadeira religião? Pode,
então, o corpo papal ser uma Igreja?
A Igreja (isto é, a Igreja visível) como definida em nossos padrões, é todo o
corpo daquelas pessoas, juntas com seus filhos, que fazem profissão da santa
religião de Cristo e se submetem às suas leis (Fórmula de Governo, Cap. II.
Sec. 2). Certamente então, como os dogmas e as práticas papais de Roma não
são a santa religião de Cristo, deve-se admitir que o corpo papal não é uma
Igreja de Cristo em nenhum aspecto; e não sendo, seus representantes, sejam
eles chamados padres, bispos, arcebispos, cardeais ou papa, não são Ministros
de Cristo em nenhum sentido, porque eles não têm ligação nenhuma com sua
verdadeira Igreja; e não sendo verdadeiros Ministros de Cristo, eles não têm
poder algum para administrar as ordenanças Cristãs, e o rito que eles chamam
de batismo não é, em nenhum sentido, considerado como um batismo cristão
válido.
Além disso, pelo significado deturpado e pelos rituais supersticiosos que
adicionaram às cerimônias que realizam, com o nome de batismo e da
eucaristia, a natureza simbólica e o verdadeiro sentido de ambas as
ordenanças, batismo e ceia do Senhor, perdem o sentido e são completamente
destruídas – então, se pudéssemos sob alguma possibilidade dar à ela o nome
de Igreja, ela ainda seria uma igreja sem as duas grandes ordenanças do
Evangelho; ela também não administra o batismo cristão e nem celebra a ceia
do Senhor.
Ademais, desde que, pelo 11º cânon do Concílio de Trento, ela declara que a
eficácia de suas ordens depende apenas da intenção do ministrante, nenhum
homem sabe com precisão se a administração de qualquer ordenança é mera
zombaria ou não. Nenhum católico romano coerente pode estar certo de que
foi devidamente batizado, ou que recebeu a verdadeira eucaristia: ele pode não
saber se o padre que oficializou em seu altar é um padre verdadeiro, nem que
exista na verdade algum padre verdadeiro, ou que alguém realmente tenha sido
consagrado em toda a comunidade papal. A hierarquia papal tem seu próprio
ato solene encoberto, todas as coisas são incertas, e envolve todos seus ritos
na mais obscura incerteza. Até neste patamar, somente, a validade de seu
batismo poderia ser negada.
Não seja o fato de que em algumas instâncias, agora ou depois, ocorram uma
piedade aparente nos membros de sua comunidade, e inteligência, zelo e
consciência em alguns de seus padres, que venha trazer qualquer objeção
contra a posição tomada aqui pela Assembleia. As virtudes dos indivíduos não
purificam o corpo do qual são membros. Estamos julgando o caráter de um
corpo que clama ser a Igreja de Cristo – não pelas opiniões ou práticas de seus
membros individuais, mas por seus padrões e pelas práticas que permite.
Vinculado a ele está a autoridade da Igreja – sob a pena de sua mais pesada
maldição – para entender as Escrituras apenas no sentido em que a Igreja
entende e explica-o; um católico romano coerente não pode receber a
verdadeira religião, ou as doutrinas da graça. Se ele assim o fizer, deve
renunciar o papado, ou hipocraticamente dissimular seus sentimentos, ou deve
se preparar para enfrentar as trovoadas de sua ira. A verdadeira religião e uma
adesão inteligente a Igreja de Roma são completamente incompatíveis e
impossíveis. A Igreja e o papado são polos que se repelem no sistema moral.
As dificuldades podem, eventualmente, surgir em casos individuais. Pode não
ser fácil em todos os momentos perguntar se um candidato para admissão na
Igreja de Cristo foi ou não batizado; se foi batizado por um pastor papista ou
não. Em todos esses casos duvidosos o Conselho da Igreja deve agir com
iluminação. Mas, é mais seguro e útil para a paz e a edificação, abraçar um
princípio bem estabelecido para a nossa orientação, e continuar agindo sob o
temor de Deus, deixando todas as consequências na mão dele, do que nós
mesmos sofrermos sem nenhum princípio afixado, e ficarmos à mercê das
circunstancias.
Enquanto algumas outras Igrejas podem hesitar em executar os princípios da
Reforma, no total repúdio ao batismo católico romano, bem como ao conjunto
do papado, nós, como Presbiterianos, nos sentimos obrigados a agir no
princípio estabelecido por nossa Assembleia desde 1790 que, enquanto um
corpo, somos reconhecidos como uma verdadeira Igreja e que nossas
ordenanças são consideradas válidas e nada mais.
Em 1835 a Assembleia declarou o papado como apóstata de Cristo e como
uma igreja falsa. Como não a reconhecemos como uma parte visível da Igreja
de Cristo, nós não podemos, consistentemente, considerar seus sacerdotes
senão como usurpadores das funções do ministério sagrado, suas ordens como
antibíblicas, e seu batismo como totalmente inválido.25

O Rev. Dr. John C. Lord, da Igreja de Buffalo (Nova Iorque) em seu nome e da minoria,
fez constar as razões de sua discordância ao relatório, nos seguintes termos:

1) Porque enquanto não estamos preparados para afirmar que o batismo na


Igreja de Roma é válido para sempre, ainda pensamos que uma decisão geral
sobre não ser cristão o batismo na comunhão papal envolvendo uma afirmação
de que toda a Igreja Católica permanece na apostasia, está baseada em pontos
de vista errados da própria natureza da ordenança.
2) Porque para decidir esta questão, entendemos que a Assembleia Geral
assume que a Igreja de Roma não é a Igreja de Cristo, sendo o batismo em sua
comunhão necessariamente inválido. Uma inferência que nenhuma das Igrejas
Reformadas tenha feito a partir das mesmas premissas; uma inferência que
nega o batismo dos reformadores que testemunharam contra Roma como o
anticristo; uma inferência capaz de colocar-nos em colisão com as igrejas
irmãs com quem mantemos correspondência; e porque não vemos que essas
inferências decorrem, necessariamente, das premissas, e em nossa opinião o
argumento está prejudicado por apresentar a questão como em relação à
corrupção de Roma, na qual estamos todos de acordo.
3) Porque acreditamos que a questão do rebatismo de convertidos do
romanismo deve ser decidida pelas igrejas locais que os recebem, em função
das circunstâncias que podem surgir de cada caso, e que uma positiva e
definitiva regra não seria estabelecida com sabedoria, não sendo clamada por
uma exigência atual, com demanda judicial no curso normal das decisões,
mediante apelo e recurso, ou mediante a revisão, quando cada caso é
considerado nos seus méritos; mas como mera questão abstrata que, a nosso
ver, seria sensato deixar como sempre as Igrejas Reformadas deixaram-no.
John C. Lord, Thomas Aitken, John Hendren, James McNair, Henry
McDonald, Samuel E. Hibben, John Warnock e William Burton.26

Como era de se esperar, a decisão da Assembleia logo ganhou comentários nos meios
teológicos. O mais influente e incisivo foi o do renomado professor do Seminário de Princeton,
Nova Jérsei, Rev. Dr. Charles Hodge. No tradicional The Biblical Repertory and Princeton
Review, edição do mês de julho daquele ano, Hodge comenta os assuntos que foram debatidos
na Assembleia Geral, como, aliás, fazia costumeiramente todos os anos (de 1835 até 1868). Em

25
ENGLES, 1945, pp. 34-37
26
ENGLES, 1845, p.37.
um artigo de 27 páginas ele refuta, ponto a ponto, a decisão da Assembleia em não considerar
válido o batismo católico27. As considerações de Hodge, divergindo de seu concílio maior,
demonstram o seu vigor teológico e tom irônico:

Qualquer decisão da Assembleia Geral é digna de grande respeito, mas uma


decisão sustentada pela maioria quase impõe um silêncio aos dissidentes. E
ainda acreditamos que a Igreja será pega de surpresa. Homens estão dispostos
a questionar sobre que nova luz foi descoberta? Que implacável necessidade
induziu a Assembleia a pronunciar Calvino, Lutero, e todos os homens de sua
geração, assim como milhares de pessoas que não receberam outro batismo
diferente do batismo romano ao serem recebidos nas Igrejas Protestantes,
terem vivido sem batismo? 28

Klein destaca que Hodge não questionou a legitimidade da decisão da Assembleia e sim
a sua “sabedoria”29, contrária aos princípios e práticas protestantes como já afirmara o Dr. Lord.
Para Hodge os argumentos de que o batismo católico romano seria inválido porque não é
administrado por ministros ordenados de Cristo seriam próprios da discussão sobre
“regularidade” ou “irregularidade” e não de ser “válido” ou “inválido”:

Cristo designou uma certa classe de homens para pregar o Evangelho e


administrar os sacramentos. Se qualquer um que não for desta classe, desejar
fazer o serviço está irregular e o seu sentido é inválido. Válido, no entanto,
corretamente significa aproveitável (capaz de efeito). Uma coisa é válida
quando se aproveita a sua adequada finalidade. Assim, um título é válido
quando se torna aproveitável para transmitir um título de propriedade; um
casamento é válido, quando se torna aproveitável para constituir uma relação
conjugal. Às vezes, a validade de algo depende de sua regularidade; como uma
escritura se não for regular, se não for feita de acordo com o direito, não se
aproveitará para a sua finalidade. Outras vezes, no entanto, a validade de algo
não depende das regras feitas para regulamentar o modo de fazer.30

A extravagância da decisão, na opinião do teólogo de Princeton, estava em confundir as


críticas à Igreja de Roma com o significado do sacramento, desviando-se do padrão doutrinário
protestante e bíblico:

Estamos, portanto, constrangidos a considerar a decisão da Assembleia como


conflitante com nossos padrões doutrinários e com a Palavra de Deus; e como
incompatível com os princípios protestantes, assim como com a prática do
mundo protestante. Não temos escrúpulos em dizer isso. Para protestarmos
contra a decisão de 169 membros (sic) da Assembleia, nos escondemos atrás

27
HODGE, Charles. The General Assembly. The Biblical Repertory and Princeton Review. Vol. 17, no. 3, 1845, July,
pp. 444-471.
28
HODGE, 1845, p. 444.
29
KLEIN, 2000, p. 54.
30
HODGE, 1845, p. 453.
de uma multidão de 169 milhões de homens fiéis, que, desde a Reforma, têm
mantido a maior oposição à doutrina católica. 31

Sua oposição ao rebatismo é enfática, inclusive contra a sugestão de Lord de deixar o


assunto por conta do próprio candidato à admissão na Igreja:

Temos ouvido repetidamente dos contestadores que essa discussão toda é


atribuída a uma importância demasiada do batismo. Que mal há, questionam
eles, em declarar um tipo de batismo inválido? Ou de repetir a ordenança?
Também ouvimos dizer, por parte dos irmãos, para deixar a decisão sobre o
batismo para o requerente à admissão em nossa comunhão. Se ele quiser ser
rebatizado, será rebatizado; se ele estiver satisfeito com o batismo recebido na
Igreja de Roma, não haverá insistência para repetir a ordenança. Não temos
nenhum sentimento supersticioso sobre este assunto, mas nos opomos
totalmente à repetição. 1.) Porque ela consiste de uma declaração que não é
verdadeira. Ela declara que o batismo não tem todas as características
essenciais do sacramento. Ela declara que o batizando nunca antes houvera
sido um Cristão, o que de fato não é verdade. 2.) Porque não temos nenhum
exemplo de autoridade nas Escrituras para a repetição do rito; e essa repetição
é proibida pela nossa Confissão de Fé e é contrária à prática de toda a Igreja
Cristã. 3.) Porque ela é contrária à própria natureza da ordenança. Baptismus
est signum initiationis.32

Na edição do The Biblical Repertory and Princeton Review de abril de 1846, Hodge
volta à carga em suas opiniões teológicas ao comentar duas publicações que refutaram as suas
críticas feitas quase um ano antes33. Sobre os artigos do jornal Watchman and Observer, de
Richmond (Virgínia)34, Hodge diz que iria aguardar a conclusão da publicação dos mesmos
para poder se manifestar. Quanto aos outros, assinados por Theophilus, em The Presbyterian,
números 11 e 12, é que ele faz um extenso comentário de 24 páginas. O The Presbyterian era
editado na Filadélfia e em Nova Iorque pelo Dr. William M. Engles, secretário executivo (cargo
remunerado) da Igreja Presbiteriana. Hodge enfatiza mais uma vez que a Igreja Católica
também faz parte da Igreja de Cristo, naquilo que ele considera essencial:

Que os romanistas, enquanto denominação, professam a verdadeira religião,


significando que as doutrinas essenciais do Evangelho, as doutrinas que
cremos serem verdadeiras para salvar a alma, são como nós pensamos. 1.)
Porque eles acreditam que as Escrituras são a Palavra de Deus. 2.) Eles

31
Idem, pp. 469, 470.
32
HODGE, 1845, p. 470.
33
HODGE, Charles. Essays in the Presbyterian by Theophilus, on the question: Is Baptism in the Church of Rome
valid?. The Biblical Repertory and Princeton Review. Vol. 18, n o.2, 1846, April, pp. 320-344.
34
Os artigos no Watchman and Observer eram assinados por Henley. Na verdade, seu autor era o Rev. Dr. J. H.
Thornwell, professor de Teologia do Seminário de Columbia (Carolina do Sul), e um dos que defenderam a não
validade do batismo católico na Assembleia de 1845. Esses artigos foram reproduzidos no livro editado por
ADGER, J. B.; GIRARDEAU, J. I. The Collected Writings of James Henley Thornwell. Vol. II – Theological and
Controversial. Richmond: Presbyterian Committee of Publication, 1873, pp. 279ss.
aceitam que as Escrituras devem ser compreendidas assim com foram
compreendidas pelos Pais Cristãos. 3.) Eles professam os três credos gerais da
Igreja, o dos Apóstolos, o Niceno e o Atanasiano, ou como estão resumidos
no credo de Pio V. Eles acreditam em um Deus, o Pai Todo-Poderoso, criador
do céu e da terra, e criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. No Senhor
Jesus Cristo, o filho unigênito de Deus, gerado por seu Pai antes de todos dos
mundos, Deus de Deus, Luz de Luz, o verdadeiro Deus do verdadeiro Deus,
gerado não criado, sendo da mesma substância que o Pai, aquele que fez todas
as coisas. Que para todos os homens, e para nossa salvação, desceu dos céus,
e se encarnou pelo Espírito Santo na Virgem Maria, e se fez homem. E foi
crucificado também por nós, sofrendo sob Pôncio Pilatos, e foi enterrado. E
no terceiro dia subiu novamente com glória para julgar os vivos e mortos, e
seu Reino não terá fim. E eles acreditam em uma igreja católica e apostólica.
Eles reconhecem um só batismo para remissão de pecados e esperam a
ressurreição dos mortos para entrarem no mundo da vida.35

O artigo de Hodge de 1846 foi publicado novamente na coletânea Essays and Reviews,
reunindo diversos artigos e ensaios de Charles Hodge e editado em 1857, com o título Is the
Church of Rome a part of the Visible Church?36.
Logo após o falecimento de Hodge, em 1878, seu filho, o também professor de
Princeton, Rev. Dr. Alexander Archibald Hodge, reuniu seus principais artigos no livro The
Church and its Polity37. O comentário sobre a decisão da Assembleia Geral de 1845 foi incluído
na obra com o título Validity of Romish Baptism, demonstrando a força daqueles argumentos e
a atualidade para a Igreja Presbiteriana da época.

1.2.1. Decisões similares nas outras denominações presbiterianas

A decisão de 1845 acabou se refletindo nas outras denominações presbiterianas. Em


1861, a questão escravagista havia dividido a Igreja Presbiteriana e uma nova igreja foi formada
com os presbitérios e sínodos do sul dos Estados Unidos, favoráveis à manutenção da
escravidão: a Igreja Presbiteriana nos Estados Confederados da América38, mais conhecida
como Igreja Presbiteriana do Sul. Sua Assembleia Geral manteve os símbolos de fé, a forma de
governo, o diretório de culto e a constituição da igreja mãe. Em 1864 a Assembleia Geral
deliberou sobre o entendimento do batismo como sepultamento, chegando a uma conclusão que
relacionava o batismo católico. Vejamos:

35
HODGE, 1846, pp. 340, 341.
36
HODGE, Charles. Essays and Reviews. Selected from The Princeton Review. New York: Robert Carter & Brothers,
1857, pp. 221-244.
37
HODGE, Charles. The Church and its Polity. London: Thomas Nelson and Sons, 1879, pp. 190-215
38
Em 1865 a igreja mudou de nome para Presbyterian Church in the United States, porém continuou sendo
denominada como Southern Presbyterian Church.
Confirmamos, como a Igreja Reformada em geral, que o batismo foi instituído
para significar e selar nossa convivência com Cristo na sua morte e
ressurreição, com todos os benefícios, entre os quais estão a remissão dos
pecados, regeneração e a vida eterna. O que estiver fora disso é falso e não
pode ser válido como batismo cristão. É neste terreno que a nossa igreja tem
rejeitado o batismo católico romano.39

A rejeição, no caso, se referia à decisão de 1845 quando a igreja ainda estava unida. Na
Assembleia Geral de 1870 foi nomeada uma Comissão para apresentar um relatório sobre “de
quais igrejas seriam reconhecidos os batismos”, por conta de uma questão envolvendo o
batismo da Igreja Cristã Campbellita (imersionista e como condição essencial para a salvação)
40
, na próxima reunião geral em 1871. A Comissão foi composta pelos ministros Dr. R. L.
Dabney, Dr. Thomas E. Peck, Dr. J. B. Adger e Dr. George Howe. 41
Na reunião da Assembleia Geral de 1871, realizada na Igreja Presbiteriana de Huntsville
(Alabama), foi lido e aprovado o relatório. Um detalhe curioso é que a votação da proposta deu-
se no mesmo dia em que o Comitê de Missões Estrangeiras anunciava a criação no Brasil
(Campinas), do Presbitério de São Paulo que ficou subordinado ao Sínodo da Virgínia 42. Eis
algumas considerações do relatório:

Reafirmamos que o batismo, por um clérigo impostor, que nunca, de fato,


recebeu a ordenação para o ministério em qualquer igreja de Cristo, ou por um
ministro devidamente suspenso ou deposto, é inválido e, portanto, nulo.
Embora a intenção pessoal do ministrante em qualquer igreja de Cristo não
invalide a ordenança da comunhão, uma blasfêmia e uma intenção profana na
administração do batismo podem, sim, torná-lo inválido; mas, nesse caso o
Conselho da igreja e o seu pastor são os melhores juízes e devem decidir sobre
essas circunstâncias particulares de re-administrar o sacramento de forma
regular. Todavia, os batismos administrados pelas comunhões Unitária e
Católica Romana são inválidos. Recomendamos respeitosamente à
Assembleia que reafirme essas regras. 43

39
ALEXANDER, W. A. (editor). A Digest the Acts and Proceedings of the General Assembly of the Presbyterian
Church in the United States, from its organization to the Assembly of 1887. Richmond: Presbyterian Committee
of Publication, 1888, p. 346.
40
O Movimento Campbellista foi iniciado em 1809 por Thomas Campbell, ex-pastor Presbiteriano, e seu filho,
Alexander Campbell, na Pensilvânia e na Virgínia. O movimento estava inserido no chamado “Movimento
Restauracionista” do início do século XIX. Rejeitavam algumas doutrinas calvinistas e pregavam que o batismo
deveria ser por imersão e seria condição essencial para a salvação. Os campbellistas foram conhecidos como
“Discípulos de Cristo”.
41
ALEXANDER, 1888, p. 351.
42
BAIRD, E. T. (editor). Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the United States. Vol. III.
Columbia: Presbyterian Publishing House, 1871, p. 29
43
BAIRD, 1871, p. 30.
O relatório justifica sua posição contra o batismo católico chamando a Igreja Romana de
“Anticristo”, “Babilônia” e “apóstata” e que “perverteu o santo batismo” proferindo o
“encantamento ex opere operato”. Ao final, o relatório foi aprovado com as recomendações
para que os Presbitérios fiscalizassem suas igrejas no cuidado com o batismo e que fossem
publicadas instruções sobre o batismo e o batismo das crianças, especialmente para os pais. 44
Outra denominação Presbiteriana que legislou no mesmo período sobre a validade do
batismo católico foi a Igreja Presbiteriana Unida da América do Norte45. Organizada em 1858
por meio de uma junção de dois ramos da Igreja Reformada Escocesa na Pensilvânia e em Ohio,
esta denominação era considerada ultraconservadora nas doutrinas calvinistas, inclusive
aceitando apenas o cântico dos Salmos em suas liturgias. Em 1869, na Assembleia Geral
realizada em Monmouth (Illinois), surgiu o assunto da validade do batismo romano questionado
pelo Sínodo de Pittsburgh. Foi formada uma comissão com os ministros Dr. John T. Pressly,
Dr. Joseph Clokey e Dr. James Patterson para estudar o assunto e apresentar um relatório na
Assembleia do ano seguinte. 46
Em 1870 a sua Assembleia Geral ocorreu na 1ª. Igreja Presbiteriana Unida de Pittsburgh.
O relatório da Comissão formada no ano anterior (dizendo que não era válido) foi apresentado
e debatido em várias sessões se arrastando o debate por vários dias47. Um pedido foi feito para
que o tema fosse mais bem estudado e apresentado na Assembleia do próximo ano, porém foi
negado o prazo48. Seguiram-se mais de uma série de discussões e propostas de emendas até que
a Assembleia aprovou, por 77 votos a 19, uma resolução do Rev. David Paul: “define esta
Assembleia que o batismo católico romano não é reconhecido como válido”. Entretanto, após
a contagem dos votos, a Assembleia reconsiderou a questão e adotou outra resolução, com o
voto concorde de dois terços dos presentes: “Considerando que o assunto do batismo católico
romano é de grande importância e que há uma diversidade de opiniões, resolvemos que a
Assembleia encaminhe para os Presbitérios a seguinte pergunta: “O batismo católico romano é
válido?”49. Estava clara a total incompetência da Assembleia de tomar uma decisão sobre o
assunto, jogando a responsabilidade aos presbitérios.

44
Idem. pp. 32, 33.
45
A United Presbyterian Church of North America se uniu com a Presbyterian Church in the United States of
America em 1958, no ano de seu centenário.
46
Minutes of the Eleventh General Assembly of the United Presbyterian Church of North America. In: The
Evangelical Repository and United Presbyterian Review. Vol. VIII, n o. 3, August, 1869, p. 134.
47
COOPER, J. T. (editor). Minutes of the General Assembly of the United Presbyterian Church of North America.
Vol. III, no. 2. Pittsburgh: United Presbyterian Board of Publication, 1870, p. 108
48
COOPER, 1870, p. 113.
49
Idem, p. 114.
Na Assembleia do ano seguinte, realizada na 2ª. Igreja Presbiteriana Unida de Xenia
(Oregon), finalmente chegou-se a uma conclusão sobre o assunto, não sem antes haver polêmica
e debates acalorados. Foram apresentados os relatórios dos Presbitérios contendo as suas
decisões e uma proposta foi feita para que fosse considerada a “ negativa da validade do batismo
romano”. Entretanto outro ministro propôs um substitutivo em vista “da confusão que
caracterizou os relatórios apreciados”, solicitando que fossem novamente encaminhados aos
Presbitérios50. O substitutivo foi votado, porém a maioria decidiu que a questão fosse resolvida
naquela Assembleia mesmo. O fato inusitado é que, por uma proposta de um dos membros da
Comissão, a Assembleia decidiu adotar o resultado dos Presbitérios: 494 votos pela nulidade
do batismo romano, 41 favoráveis e 82 abstenções. A confusão se deu na resolução aprovada:

1º.) Declaramos que a questão encaminhada sobre a validade do batismo


católico romano foi respondida de forma negativa; 2º.) Acreditamos que,
embora como regra geral o batismo católico romano deva ser considerado
como inválido, ainda acreditamos poder haver muitas exceções à essa regra
na igreja; por conseguinte, esta Assembleia considera oportuno deixar a
questão de rebatizar pessoas da Igreja Romana ao critério dos Conselhos
locais.51

Outra denominação que deliberou sobre o tema foi a Igreja Presbiteriana Cumberland,
em 187652. Na Assembleia Geral realizada em Bowling Green (Kentucky) foi encaminhada
uma questão do Presbitério de Miami solicitando o posicionamento da Igreja sobre a validade
ou não do batismo católico. A Comissão respondeu que o cerne da questão estava em
reconhecer a Igreja de Roma como verdadeira igreja cristã. Nesse caso, “todos os protestantes
estão de acordo e declaram a hierarquia de Roma como anticristã e idólatra. Seus sacerdotes
não são ministros de Cristo porque estão submissos ao poder do Papa de Roma, o chefe do
poder anticristão ou o homem do pecado”. Frisava também que a Igreja de Roma havia
“acrescentado uma série de ritos supersticiosos e cerimoniais ao batismo, pervertendo o ritual

50
COOPER, J. T. (editor). Minutes of the Thirteenth General Assembly of the United Presbyterian Church of North
America, at is meeting in Xenia, O., May 24th to June 1st. Vol. III, no. 3. Pittsburgh: United Presbyterian Board of
Publication, 1871, p. 267.
51
COOPER, 1871, p. 282.
52
A Cumberland Presbyterian Church é resultado de uma cisão na Igreja Presbiteriana ocorrida em 1810 quando
esta denominação, por meio do Sínodo de Kentucky, dissolveu o Presbitério de Cumberland (próspera região às
margens do Rio Cumberland, naquele Estado) e despojou os seus ministros. Um dos problemas era que o
Presbitério de Cumberland havia ordenado vários pastores sem o preparo educacional exigido pelo Sínodo. Após
a dissolução, um novo Presbitério foi organizado fora da denominação, se constituindo em um Sínodo em 1813
e em Assembleia Geral em 1829. No começo do século XX era a terceira maior denominação presbiteriana dos
EUA. Em 1906 a maior parte de suas igrejas retornou à Igreja Presbiteriana. Um fato relevante é que a Igreja
Presbiteriana Cumberland foi a primeira denominação Reformada, nos EUA, a ordenar ao ministério da Palavra
e Sacramentos uma mulher, em 1889: Reva. Louisa Mariah Layman Woosley.
simples ordenado por Cristo”. A conclusão: “pode um ritual pagão ser considerado como
batismo cristão?”. A Comissão fechava o relatório afirmando que a Igreja não podia reconhecer
o batismo católico como válido, porém, “não obstante, cada Conselho de igreja tem que decidir
por si o que deve ser feito em cada caso particular; nenhuma regra absoluta pode ser prevista
para atender as especificidades de cada caso” 53
. Após aprovado o relatório foi aprovado
também uma resolução nos seguintes termos: “Como uma denominação protestante, não
dependemos da sucessão regular da Igreja Romana, ou de qualquer outra organização cristã,
para termos autoridade para pregar o Evangelho e ministrar as ordenanças da Igreja”.54

1.2.2. A revisão das decisões (algumas contradições)

Em 1859, antes da cisão por conta da questão escravagista, a Assembleia Geral da Igreja
Presbiteriana reafirmou a decisão tomada em 1845 ao analisar uma questão proposta pelo
Presbitério de Tuscaloosa (Alabama) sobre se a ordenança do batismo deveria ser administrada
a uma pessoa antes da recepção em uma igreja, mesmo que tivesse uma carta de recomendação
da Igreja da Nova Escola, porém que tivesse apenas recebido o batismo católico romano. A
resposta da Assembleia foi de que “o simples fato de que uma pessoa tenha sido membro de
uma ou outra igreja, não tem nada a ver com seu batismo original” por isso continuava valendo
a decisão de 184555.
Na Assembleia de 1875, surgiu uma questão encaminhada pelo Presbitério de Genesee
(Michigan): “Deve um convertido do romanismo, ao ser admitido na Igreja Presbiteriana, ser
novamente batizado?”. A decisão foi idêntica àquela tomada pela Igreja Presbiteriana Unida
quatro anos antes, e evidenciava a incompetência do concílio no assunto: “a decisão da questão
deve ser deixada para julgamento de cada igreja local, guiada pelos princípios que regem o tema
do batismo, em conformidade com as normas da nossa Igreja” 56. Ao comentar essa decisão, o
historiador francês Émile Léonard destaca a confusão que trouxe para a Igreja Presbiteriana,
principalmente pela sua forma de governo, transformando-a numa “esplêndida confissão de
incapacidade teológica” 57. Klein, entretanto, opta por entender que esse posicionamento foi o

53
BROWN, J. R. (editor). Minutes of the Forty-Sixth General Assembly of the Cumberland Presbyterian Church in
the United States. Vol. 14. Nashville: Cumberland Presbyterian Publishing House, 1876, pp. 23, 24.
54
BROWN, 1876, p. 42.
55
MUDGE, L. S. (editor). Digest of the Acts and Deliverances of the Presbyterian Church in the United States of
America. Vol 1. Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1923, p. 50.
56
MUDGE, 1923, p. 50.
57
LÉONARD, 2002, p. 120.
mais adequado em uma época de transição e que os Conselhos locais estavam “orientados pelos
princípios, no caso do batismo, como ‘dispostos nos símbolos da nossa Igreja’”58. Embora
trouxesse, implicitamente, uma revogação da decisão de 1845, não foi isso que se verificou na
prática, pois a decisão ainda, de certa forma, estava valendo, pois se deveria “levar em
consideração as normas vigentes” que eram contra a validade do batismo romano. Tanto é
verdade que na Assembleia de 1876, realizada na Igreja Presbiteriana do Tabernáculo do
Brooklyn (Nova Iorque) o assunto voltou e em forma de polêmica. Na reunião do Sínodo do
Missouri, em 14 de outubro 1875, foi levantada a questão da decisão da última Assembleia e
de que estaria em discordância com os princípios do presbiterianismo por ter a Igreja Católica
apostatado como verdadeira religião cristã59. A decisão foi encaminhar um requerimento para
a próxima Assembleia Geral para que esta confirmasse as decisões tomadas em 1835 e em 1845.
O documento que entrou na pauta da Assembleia de 1876 trazia a seguinte pergunta: “uma
pessoa batizada na Igreja Romana e posteriormente recebida na Igreja Presbiteriana deveria ser
recebida como se tivesse vindo direto do mundo sem nunca ter recebido o batismo cristão”60.
O Rev. Dr. William L. Breckinridge, representante do Sínodo do Missouri, apresentou uma
súmula para que a Assembleia reafirmasse a decisão de 1835. Os debates foram parar nas
páginas do The New York Times, conforme relato:

“Ele [Breckinridge] leu então um longo documento com o objetivo de atacar


ferozmente os dogmas da Igreja Católica como falsos, monstruosamente
blasfemos e anticristãos, e sustentando os diversos argumentos contra o
sacramento do batismo apresentados no requerimento, um resumo do que já
havia sido publicado no The Times. Denunciou a doutrina da absolvição e da
confissão e disse que o perdão dos pecados, tal como praticado pelos
sacerdotes romanos, era uma usurpação aos poderes do Deus Todo-Poderoso.
A Igreja Católica Romana crê e professa haver um único Deus, mas na
realidade cultua muitos [outros deuses] e tem pouca reverência para com o
Criador. O recurso à idolatria nos seus cultos é chocante e tem provado que
ela não é uma igreja para salvar os homens e sim para treinar idólatras,
desafiando os sagrados mandamentos de Deus. Não somente adoram a Virgem
Maria como a Rainha do Céu, mas também manifestam uma reverência tola
para ‘coisas’ santas como ossos, pregos da cruz e roupas velhas. Neste
momento de sua denúncia contra os costumes da Igreja Católica, o orador
contestou os seus colegas delegados que liam jornais ao invés de ouvi-lo.
Tendo recebido uma fraca atenção da Assembleia, ele continuou salientando
a impiedosa e blasfema doutrina da infalibilidade e o poder de um padre em
criar o Todo-Poderoso a partir de pão e vinho, que nada mais é do que um

58
KLEIN, 2000, p. 59.
59
Religious Conferences, In: The New York Times, 20/05/1876. Disponível em:
<http://query.nytimes.com/mem/archive-free/pdf?_r=1&res=940DE6DE1F3FE73BBC4851DFB366838D669FDE>
60
HATFIELD, E. F. (editor). Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the United States of
America, with an Appendix. New Series, Vol. 4. New York: Presbyterian Board of Publication, 1876, p. 38.
deboche bêbado ou um vício indulgente, que não o exclui de cumprir com a
função de lidar com os mistérios sagrados”.61

Após seguiram-se os debates sobre o discurso do Rev. Breckinridge, também anotados


pelo jornalista:

Dr. Knox aprovou a intenção de espírito do Dr. Breckinridge, mas depreciou


tanto tempo gasto na explanação do argumento. O Dr. G. W. Chamberlain, do
Brasil, disse que foi comovido a se simpatizar com as afirmações do Dr.
Breckinridge e instado a, calorosamente, aprovar a resolução. O Dr. Bryer, em
oposição à adoção da resolução, declarou que espera o Milênio para breve e,
assim, instou que os relacionamentos dos religiosos liberais sejam de
tolerância para com a Igreja de Roma.62

Entre os que se manifestaram estavam o Rev. George W. Chamberlain, do Presbitério


do Rio de Janeiro, delegado do Sínodo de Baltimore, que terá participação na mesma discussão
no Brasil, em 1888 quando da criação do Sínodo da Igreja Presbiteriana Brasileira, como
veremos adiante.
Depois de longos debates, o requerimento do Sínodo do Missouri ficou sobre a mesa da
Assembleia, sendo nomeada uma Comissão para estudar o assunto e entregar um relatório no
próximo concílio, em 1877. A Comissão foi composta pelos ministros Rev. Dr. William L.
Breckinridge, Rev. Dr. Philip Schaff, Rev. Dr. Norman Seaver, Rev. Dr. Thomas H. Skinner e
pelos presbíteros Truman P. Handy e George Junkin. 63
Em maio de 1877 a Assembleia Geral se reuniu em Farwell Hall, Chicago (Illinois).
Entretanto, a discussão que monopolizou as reuniões foi sobre a redução do quórum do concílio,
trocando a representação presbiterial pela sinodal64. Com isso, a Comissão nomeada um ano
antes para dar o relatório sobre o caso do rebatismo de católicos teve seus trabalhos postergados
para o ano seguinte. A Assembleia Geral de 1878 se reuniu na 3ª. Igreja Presbiteriana de
Pittsburgh (Pensilvânia), tendo sido eleito moderador o Rev. Francis L. Patton, de Chicago,
renomado teólogo e futuro presidente da Universidade Princeton (Nova Jérsei). O desgaste do
assunto do rebatismo era evidente o que levou o concílio a tomar uma decisão inusitada, ou
seja, se recusar a fazer uma nova deliberação sobre a validade do batismo católico romano. A
decisão aprovada pelo concílio foi lacônica:

61
The Presbyterian Assembly, In: The New York Times, 28/05/1876. Disponível em:
< http://query.nytimes.com/gst/abstract.html?res=9E04E3D7143FE63BBC4051DFB366838D669FDE&scp=17&sq=roman+baptism&st=p>
62
Idem.
63
HATFIELD, 1876, p. 54.
64
ATWATER, L. H. The General Assembly. In: The Presbyterian Quarterly and Princeton Review, Vol. 6, n o. 23,
1877, p. 536ss.
A Comissão nomeada pela Assembleia de 1876, ratificada (com algumas
alterações) pela Assembleia de 1877, para relatar sobre a validade do batismo
católico romano, recomenda, respeitosamente, para a adoção da Assembleia
Geral o seguinte: Resolve que está fora do expediente desta Assembleia fazer
qualquer nova deliberação sobre este assunto.65

Simples direta, porém contraditória. Qual decisão estava valendo? Outros problemas ainda
viriam a ocorrer no seio a Igreja Presbiteriana no tratamento desse tema.
Em 1879 a Assembleia Geral se reuniu em Nova Iorque, na 1ª. Igreja Presbiteriana de
Saratoga Springs, e teve que, novamente, tratar sobre o assunto da validade do batismo católico
romano. Um encaminhamento do Sínodo de Baltimore, ao qual pertencia o Presbitério do Rio
de Janeiro, pedia à Assembleia para ela “expressamente anular ou reafirmar a deliberação da
Assembleia de 1835 que declarou a Igreja Católica Romana ter, essencialmente, apostatado da
religião do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e, que por isso, não é reconhecida como uma
Igreja Cristã” e que a Assembleia também “revertesse o ato da Assembleia de 1875 no tocante
à validade do batismo católico romano”66. Depois de várias discussões, foi aprovado um
substitutivo ao relatório, retirando a parte sobre o batismo, mas, no entanto, mantendo a decisão
de 1835.

Resolveu esta Assembleia, em pleno acordo com as palavras de nossa


Confissão de Fé, a respeito da Igreja de Roma e do seu também chamado
cabeça espiritual, em reafirmar a deliberação, sobre este assunto, da
Assembleia de 1835, que se aplica à hierarquia romana liderada pelo Papa,
falsamente alegada como a Igreja, que se opôs de forma absoluta e
irreconciliável com as doutrinas das Sagradas Escrituras, e que está
corrompendo e degradando uma grande parte da Igreja de Cristo sobre a qual
tem usurpado o supremo controle.67

A decisão enfatizava que a Igreja Católica Romana continuava sendo reconhecida como
apóstata e opositora das verdades bíblicas. Entretanto, na questão da validade do batismo
praticado por essa igreja o concílio mantinha a decisão de 1875 que era de que os casos fossem
analisados pelas igrejas locais. É importante ressaltar que nessa mesma Assembleia foi
apresentado um relatório sobre o crescimento das escolas mantidas pela Igreja Católica nos
Estados Unidos, tendo as igrejas sido conclamadas a contem a expansão educacional católica68.

65
HATFIELD, E. F. (editor). Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the United States of
America, with an Appendix. New Series, Vol. 5. New York: Presbyterian Board of Publication, 1878, p. 23.
66
HATFIELD, E. F. (editor). Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the United States of
America, with an Appendix. New Series, Vol. 5. New York: Presbyterian Board of Publication, 1879, pp. 627, 628.
67
HATFIELD, 1879, p. 630.
68
Op. cit.
Sobre o batismo católico, o supremo concílio da Igreja Presbiteriana “lavara as mãos”, deixando
para as igrejas locais uma decisão que era prerrogativa sua. Esta decisão, no entanto, tem todas
as marcas da “indecisão” de 1875, que não diz que o batismo católico é válido, nem que é. A
decisão de deixar a questão ao julgamento de cada Igreja pode refletir, tanto a ausência de um
consenso como sua presença. Os dois lados apenas concordaram em discordar? Faltam-nos
fontes que informem como essas igrejas trataram da questão, mas não seria equivocado supor
que grande parte delas continuou a prática do rebatismo.
Um exemplo disso aconteceu na Assembleia Geral de 1885, realizada em Cincinatti
(Ohio), na 1ª. Igreja. Subiu ao concílio uma apelação do presbítero Walter Bradshaw, da Igreja
Presbiteriana de Princetown (Nova Iorque), contra uma decisão do Sínodo de Nova Iorque. O
caso era o seguinte: o Conselho da Igreja local, ao examinar o candidato Edward Francis
Graham, vindo da Igreja Católica, para ser admitido, não reconheceu a validade do seu batismo
romano, requerendo que fosse rebatizado. Bradshaw foi voto vencido e apresentou um recurso
ao Presbitério de Albany, alegando que o batismo católico romano foi reconhecido pela Igreja
Presbiteriana como válido e que o requerente, para gozar os privilégios da comunhão da Igreja,
não deveria ser rebatizado. Por sua vez, o Presbitério, agindo de acordo com a decisão de 1875,
negou provimento ao recurso enfatizando que os motivos eram “que a Igreja Presbiteriana não
tinha nenhuma decisão judicial sobre o assunto da validade do batismo católico romano e que,
por determinação da Assembleia Geral, deixou a decisão da validade desse batismo ao
julgamento das igrejas locais” 69
. O presbítero Bradshaw apelou da decisão do Presbitério de
Albany ao Sínodo de Nova Iorque, argumentando que o Presbitério tinha se recusado a
considerar a questão por se ater a uma deliberação da Assembleia Geral. O Sínodo, com base
no já revisado Livro de Ordem, seção 100, rejeitou o recurso de Bradshaw e anotou em ata que
a sua decisão foi por unanimidade. A última alternativa do presbítero da igreja de Princetown
foi recorrer da decisão do Sínodo à Assembleia Geral, argumentando que “o batismo católico
era considerado válido e que era inconstitucional o Conselho exigir o rebatismo” 70. A Comissão
Judicial da Assembleia apresentou o seguinte relatório, aprovado por unanimidade pelos
conciliares:

A Comissão entende não haver razões para o encaminhamento desta questão


e está convencida de que o Sínodo de Nova Iorque teve boas e suficientes
razões para negar provimento ao recurso do Sr. Bradshaw, e ainda está mais

69
ROBERTS, W. H. (editor). Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the United States of
America, with an Appendix. New Series, Vol. 8. Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1885, pp. 593,
594.
70
ROBERTS, 1885, p. 594.
convencida que estas razões, da mesma forma, devem prevalecer nesta
Assembleia – ou seja, que as deliberações da Assembleia Geral deixaram com
as igrejas locais o direito de decidir sobre a validade do batismo de católicos,
em casos particulares, e que a Igreja de Princetown agiu conforme essas
deliberações -, portanto, sua Comissão recomenda que a Apelação e o Recurso
do Sr. Bradshaw contra a ação do Sínodo de Nova Iorque não sejam
reconhecidos.71

Este caso é um claro exemplo de que o rebatismo pode ter prevalecido em diversas igrejas
presbiterianas no século XIX, por conta do profundo anticatolicismo protestante levado a cabo
até o final daquele século.
Um ano antes desse episódio, a Igreja Presbiteriana do Sul em sua Assembleia Geral
realizada no Mississipi, na Igreja Presbiteriana de Vicksburg, reafirmou a sua posição contrária
ao reconhecimento do batismo católico ao analisar uma petição do Conselho da Igreja de
Anderson (Carolina do Sul). O relatório aceito pelos conciliares reproduziu a decisão da
Assembleia de 1871. 72
O tema voltou ao debate na Igreja Presbiteriana do Sul em 1914, na Assembleia
realizada na Igreja Presbiteriana Central de Kansas City (Missouri). Um requerimento do
Presbitério do Alto Missouri pedia à Assembleia que anulasse a decisão de 1884 e que
reconhecesse o batismo católico romano73. Entretanto, a Assembleia não aceitou deliberar
aquele assunto74.

1.3. A prática entre os presbiterianos estadunidenses hoje

A decisão da Igreja Presbiteriana de 1875, reafirmada pela jurisprudência criada em


1885, jamais foi alterada, embora o seu Livro de Ordem traga novas orientações sobre o assunto.
Essas orientações, frutos de deliberações laterais no sentido de uma aproximação maior com a
Igreja Católica, reafirmada pelos princípios ecumênicos do final do século XX, nos levam a
afirmar que há um consenso entre as igrejas locais em apenas receber católicos em suas
comunhões por meio da profissão de fé. Em 1953 a Junta de Educação Cristã da Igreja
Presbiteriana publicou Presbyterian Law for the Local Church, uma série de práticas legais que

71
Loc. cit.
72
WILSON, J. R. (editor). Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the United States, with
an Appendix. Vol. 6. Wilmington: Jackson & Bell, Water Power Presses, 1884, p. 206.
73
LAW, T. H. (editor). Minutes of the Fifty-Fourth General Assembly of the Presbyterian Church in the United
States, with an Appendix. Richmond: Presbyterian Committee of Publication, 1914, p. 35.
74
LAW, 1914, p. 62.
as igrejas sob sua jurisdição deveriam seguir e que, ainda hoje, as orientam juntamente com o
Livro de Ordem. Sobre a recepção de católicos como membros, a recomendação é:

Alguém batizado na Igreja Católica pode ser recebido por profissão ou


reafirmação da fé. A igreja local deve agir com discrição quando o modo de
recebimento for o rebatismo, se desejado pelo novo membro; apesar de que a
igreja deveria ter o cuidado de não exigir o rebatismo de quem já tenha sido
batizado em nome do Deus triuno.75

Em 1958, exatamente cem anos depois de sua constituição, a Igreja Presbiteriana Unida
na América do Norte (United Presbyterian Church in the North America) se uniu à Igreja
Presbiteriana. Convém recordar que esta denominação já havia recomendado em 1871 que as
igrejas locais decidissem sobre a necessidade ou não de rebatismo de católicos.
A Igreja Presbiteriana do Sul (Presbyterian Church in the United States) que havia
rompido com a Igreja Presbiteriana em 1861 por causa da questão escravista, finalmente se uniu
a esta em 1983, exatos 122 anos após a cisão. Embora nunca tenha aceitado como válido o
batismo católico romano, a Igreja Presbiteriana do Sul sofreu uma divisão em 1973, 10 anos
antes da fusão, quando várias de suas igrejas, de teologia conservadora, se retiraram para fundar
a Igreja Presbiteriana na América (Presbyterian Church in America). Entre outras acusações de
liberalismo teológico estava a de tolerância para com os católicos.
Após as fusões com a Igreja Presbiteriana Cumberland, em 1906; com a Igreja
Presbiteriana Unida em 1958 e com a Igreja Presbiteriana do Sul em 1983, a Igreja Presbiteriana
dos Estados Unidos é, atualmente, a maior denominação reformada naquele país. Em seus
documentos oficiais o reconhecimento da Igreja Católica como igreja cristã está confirmada,
bem como a aceitação de seu batismo.

Reconhecemos com gratidão a Igreja Católica Romana pelo apoio fiel à nossa
busca por uma unidade cristã visível e a esperança que possamos explorar
novas dimensões da vida em comunhão, bem como encontrar novas
oportunidades de cooperação e enriquecimento (Regras de Disciplina). 76

E,

Como há um só corpo, há um só Batismo (Ef. 4: 4-6). A Igreja Presbiteriana


(EUA) reconhece todos os batismos com água em nome do Pai, do Filho e do

75
BLAKE, E. C. Presbyterian Law for the Local Church. 1a. ed. Philadelphia: The Division of Publication of the Board
of Christian Education, 1953, p. 45.
76
KIRKPATRICK, Clifton. The Constitution of the Presbyterian Church (U.S.A.), Part II, Book of Order 2007-2009.
Louisville: The Office of the General Assembly, 2007, p. D-12.
Espírito Santo, administrado por outras igrejas cristãs (Os Elementos do Culto
Cristão).77

* Texto completo em GINI, Sérgio. Um só batismo. Do anticatolicismo norte-americano


ao proselitismo brasileiro: a prática do rebatismo na tradição reformada. Jundiaí: Paco Editorial,
2011

77
KIRKPATRCK, 2007, p. W-2.3003-3006.