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Notas sobre como terminar os seus

projetos e contornar o perfeccionismo


euorganizado.com (https://www.euorganizado.com/blog/como-terminar-os-seus-
projetos-e-contornar-o-perfeccionismo)

Eu estava querendo escrever um novo texto sobre perfeccionismo aqui no blog


faz já um bom tempo.

O primeiro e único artigo unicamente dedicado à esse tema é esse aqui


(https://euorganizado.com/blog/perigos-do-perfeccionismo), de outubro de
2016. Um pouco antigo, um pouco superficial e sem a pá de coisas valiosas que
eu aprendi sobre o tema nesse meio tempo. A intenção estava registrada, a tarefa
estava criada, mas eu não conseguia parar e escrever. O assunto é amplo,
complexo e cheio de pequenas nuances específicas que eu não conseguia
generalizar.

O perfeccionismo, por definição, é aquele defeito que usa uma máscara de


virtude para conseguir entrar dentro da sua cabeça sem ser barrado na porta. Ele
é o ímpeto e o instinto de querer conseguir sempre o melhor resultado, no menor
tempo, sem nem um tropeção ou passo em falso para contar história. Ou seja:
ele é impossível, pequeno gafanhoto. Até aí tudo bem, a gente sabe disso. A
gente fala sobre isso, a gente tenta criar gatilhos que favoreçam a ação e a
conclusão dos nossos projetos. A gente tem um monte de boas intenções, isso os
anais da história podem comprovar. Eu sei que eu tenho, pelo menos.

Mas e na prática? Eu realmente consigo entender as engrenagens que me fazem


ceder à esse instinto?

Eu consigo virar o perfeccionismo do avesso e realmente entender como ele


funciona? Eu consigo fazer as ações precisas que me ajudam a finalizar os meus
projetos? Um pouco, mas nem tanto. Ano passado, em 2017, eu fiz uma live-
aula-ao-vivo no Instagram (https://www.instagram.com/euorganizadocom/)
sobre esse tema (elas acontecem sempre na última terça-feira do mês, pra quem
não sabe) e a quantidade de pessoas que se identificaram e que relataram
problemas iguaizinhos aos meus foi avassaladora. Eu me toquei que esse tema
precisava de mais pesquisa, sim. Precisava de mais vento, mais experiências
compartilhadas e mais dicas eficazes.

Entra uma pessoa muito importante na história: a linda e fofa da Diana, do site
Hábito Organizado (http://habitoorganizado.com/).

Ela começou o site esse ano e eu a conheci pelo melhor lugar da internet – o
Twitter. Comecei a acompanhar as suas atualizações e aí, mais dia menos dia, vi
que ela estava lendo um livro sobre produtividade e desenvolvimento pessoal
que eu não conhecia: o Finish (https://amzn.to/2IqyZQY), do Jon Acuff. Esse
livro ainda não tem em português, para a nossa tristeza, mas eu já conhecia o
autor e tinha gostado um bocado do primeiro livro dele que eu tinha lido – o Start
(https://amzn.to/2uIerBw). Ele fala, nesse primeiro livro, sobre como tirar os
seus projetos da gaveta, superar o medo de colocar a sua ideia no mundo e
realmente colocar o seu sonho para andar. Com o tempo, o Jon percebeu que
ainda faltava uma parte muito importante nessa equação.

A conclusão do projeto.

O subtítulo desse segundo livro dele é: “se dê o presente da finalização”, em uma


tradução livre minha. Depois de anos de sucesso do primeiro livro, ele fez
questão de voltar e dar o acabamento perfeito para toda essa discussão de “como
tirar os seus projetos da gaveta”. E, sinceramente, graças à Deus que ele fez isso.
Porque esse livro é perfeito. PERFEITO PERFEITO PERFEITO. E se você não
se identifica tanto com essa dificuldade, vá ler o Start. Ele é ideal para as pessoas
que se atrapalham na hora de começar as coisas e dar o pontapé inicial nos seus
projetos. Essa pessoa, porém, não sou eu. Cês sabem disso.

O meu problema nunca foi começar nada – nisso eu sou foda.

O meu maior problema é terminar as minhas ideias maravilhosas. Porque toda


ideia que eu tenho, é claro, é maravilhosa. Todo sonho é ambicioso, toda
iniciativa tem muitas chances de sucesso. “Se eu apenas terminasse de fazer as
tarefas necessárias para concluir os meus desejos, tudo ia dar certo”, o meu
cérebro sussurra. Mas eu não consigo, fazer o quê. Tudo era muito difícil, muito
custoso.

Por anos e anos, o perfeccionismo me fez acreditar em histórias da carochinha.


E me fez acreditar mesmo, de pés juntos. Esse livro foi como se tivessem feito
um imenso buraco na caverna onde eu estava vivendo e, pela primeira vez, eu
consegui ver a luz da fora. Eu vi o Sol da Realização e compreendi como a vida
poderia ser incrível se eu estiver disposta a ser imperfeita. Eu sei que isso pode
soar pretensioso, mas quem também já sofreu com essa punheta de começar mil
coisas e não terminar nenhuma vai me entender. Preciso dizer, também, que o
perfeccionismo não é um vilão.

A vontade de ser cada vez melhor, cada mais profissional, cada mais impecável
pode ser usada pro bem.

Mas quem administra essa energia é você. E você, meu bem, é um ser humano
cheio de falhas, limitações, influências externas e experiências traumatizantes.
Todo mundo é. Se você usar essa matéria prima para o mal, você vai morrer
cheio de arrependimentos, cheio de amargura. E eu não sei você, mas eu quero
morrer feliz. Feliz por ter aproveitado todas as oportunidades que eu quis e por
ter, na medida das minhas capacidades e recursos, dado o curso exato que eu
queria pra minha vida.

Tem coisa mais fina que isso? Tem luxo maior do que esse?
aproveita pra salvar essa imagem aí no Pinterest para se lembrar dessas ideias legais
depois. <3

Algumas pessoas acham que o oposto do perfeccionismo é o


fracasso. Não é. O oposto é terminar.
O que o nosso cérebro nos diz, vez após vez, é que se a gente cometeu um erro
(ou três, ou quatro ou dez) a gente fracassou. Se tinha uma única maçã podre no
nosso cesto, é melhor jogar tudo fora. Afinal de contas, agora o nosso projeto
está maculado. Ele não é mais perfeito, redondo e reluzente. Ele é só humano. E
quem quer dizer isso das suas iniciativas, não é mesmo? A gente quer a
perfeição. A gente quer a correntinha de hábitos miraculosamente perfeita – sem
imprevistos, sem interrupções, sem erros.

E você já sabe que isso é impossível, lá no fundo. Teoricamente você já sabe


disso.

Mas a prática, como sempre, é outra história. E o que o Jon defende, logo no
início do livro, é que o dia mais difícil na vida de qualquer perfeccionista nato é o
dia depois do dia perfeito. O dia seguinte ao dia em que tudo saiu como
planejado e que as suas tarefas foram de vento em popa. A gente adora esse dia,
né? Quando você acorda, cumpre todos seus hábitos matinais com louvor,
almoça na hora certa, faz todas as escolhas mais saudáveis do que comer ao
longo do dia, vai dormir com o coração preenchido e com o corpo cansado e sabe
que todas as suas tarefas mais importantes foram realmente feitas.

Quem é que não gosta disso, cara?

É o dia depois desse dia perfeito que quebra os perfeccionistas, segundo o Jon.
Quando você não tem mais a chance de fazer tudo da melhor possível, você
termina se desanimando e jogando a porra toda pro alto. Quem se identificou
com isso rola essa página até o final e deixa um “EU!” lá nos comentários, faz o
favor. Ver a nossa imperfeição cara a cara, olho no olho, machuca o nosso ego.
Saber que a gente vai precisar andar com os nossos projetos de um jeito
imperfeito, em zigue-zague, machuca mais ainda. Pelo menos para mim. Eu
detesto imprevistos, interrupções e qualquer coisa que me impeça de ser
perfeita.

Eu detesto quando eu mesma não consigo agir da forma exemplar que o meu
cérebro diz que eu deveria.

Mas, como diz o Jon: “Você não vai ser perfeito, mas sabe o que é mais
importante do que a perfeição? Você sabe o que vai te servir e te ajudar muito
mais do que o perfeccionismo? Seguir em frente de um jeito imperfeito”. Seguir
em frente – essa expressão maravilhosa. Conquistar algumas coisas, falhar em
outras, apreender um bocado e poder dizer, de peito aberto, que você fez tudo o
que queria fazer. Tem coisa melhor do que dizer que você realmente terminou
aquele projeto que vivia parado no fundo da sua gaveta? E daí se você colecionar
alguns fracassos ao longo do caminho? Você sempre vai ter a chance de tentar de
novo amanhã, cara. O fracasso, pequeno ou grande, nunca é definitivo. Ele dura
só um dia.

Uma outra mentira do perfeccionismo é: você consegue dar


conta de tudo. Eu estou aqui para te dizer que você não
consegue.

Eu mesma vivo dizendo isso e, surpresa surpresa, nem sempre consigo colocar o
meu próprio conselho em prática. De alguma forma, por causa de N fatores, a
gente cresce pensando que precisamos conseguir fazer tudo. Dar conta do
trabalho, ganhar promoções, manter a casa sempre limpa, perfumada e pronta
pra receber a rainha da Inglaterra e ainda ter tempo de ler uma penca de livros.
Todos os assuntos deveriam ser conduzidos com elegância – desde as pequenas
coisas até as grandes decisões de vida.

A gente deveria estar sempre à postos, sempre arrumados, sempre dispostos a


ajudar o próximo e nunca titubear perante um desafio. A gente precisa dar conta
de tudo ao mesmo tempo sem falhar.

“A nossa tentativa de fazer muitas coisas ao mesmo tempo parece nobre e


honrável, não é? Olha pra gente: trabalhando demais, sem descansar, quase
chegando à beira do esgotamento. Reduzindo a qualidade de todas as coisas
porque a gente insiste em querer fazer de tudo. A gente pode compartilhar essa
atitude com honra no Instagram. Essa é a luta, essa é a animação verdadeira.” –
diz o próprio Jon.

E uma das estratégias para contornar o perfeccionismo é, justamente, decidir


quais são as coisas (áreas da vida, frentes de trabalho ou expectativas irrealistas
que você ainda mantém) que você vai deixar de lado. Ou, dizendo de outra
forma: quais são as coisas nas quais você não vai ser excelente. Porque a verdade
continua sendo uma só: você não consegue ser o modelo perfeito em todas as
áreas da vida. Não consegue, cara. Não tem como. O exemplo que o próprio
Jon dá é relacionado à manutenção da casa.
Ele mora em um subúrbio dos Estados Unidos, daqueles que tem casinhas fofas
com uma grama lindona na frente, sabe? E ele diz que todos os vizinhos cuidam
muito bem das suas gramas. Eles contratam serviços especializados, aparam a
própria grama diariamente, plantam flores, etc., etc.

Cuidar da sua casa é um bom objetivo de se ter? Com certeza que sim. A
qualidade do lugar em que a gente mora importa e impacta a nossa felicidade e a
nossa paz mental? Sem discussões. Mas na hora do vamos ver, na hora do
aperto, ninguém vai morrer porque o seu móvel está com poeira. Ou porque os
cantinhos do banheiro estão meio sujos. Alguma coisa vai precisar ser deixada
de lado, meu bem.

Até você ter tempo ou dinheiro de fazer tudo exatamente do jeito que você quer,
em todas as frentes.

Até lá, qual ideal irrealista você vai deixar de lado? Quais são as coisas que você
suporta não ser o melhor exemplo do mundo para, nesse meio tempo, conseguir
mandar bem no que realmente te importa?

Se você quer terminar algo, faça isso ser divertido.

Um conselho perigoso, é claro, porque a gente sabe que nem tudo o que a gente
tem que fazer pode se tornar divertido. Nem todas as nossas obrigações são
passíveis de mudanças e, por um lado, almejar ter um futuro totalmente
divertido, gostoso e que atenda à todos os nossos gostos pessoais é muita
ingenuidade. A vida acontece de uma forma impetuosa e, às vezes, a gente
precisa fazer o que não quer.

Atenção para aquelas duas pequenas palavrinhas ali, ó: às vezes.

Nem sempre, meu povo. Esse conselho é assustador de tão real e, para mim, ele
caiu como uma luva. Principalmente quando a gente fala de projetos pessoais
sobre os quais a gente tem total controle: perder peso, ganhar peso, se exercitar
semanalmente, ser mais saudável, começar um negócio, estudar uma coisa
nova, mudar de casa ou começar um passatempo qualquer. Quanto mais
divertido for o caminho que a gente escolheu para chegar no objetivo, maiores
são as chances da gente terminá-lo.

Quem é que disse que o caminho tem que ser sofrido, afinal de contas?
Quem foi o infeliz que decidiu que se uma coisa for fácil, ela não conta? Isso
pode ser verdade em alguns aspectos muito específicos, mas pelo amor do santo
cristo, cara: você não precisa sofrer pra conseguir o que você quer. Que
afirmação mais estúpida e, ao mesmo, tão necessária. Essa “regra invisível” é
uma das regras preferidas do perfeccionismo, também. Porque quanto mais
trabalhoso, dificultoso, desafiador e bizarramente complexo for o seu objetivo,
mais propenso você vai estar a deixar ele de lado.

E isso é tudo o que parte do seu instinto perfeccionista quer: ver você desistir.

Porque, afinal de contas, se você nunca tentar, não tem como dar errado, né?
Ninguém vai apontar dedos, nenhum membro da família ou colega de trabalho
vai soltar um comentário maldoso, você não vai perder nenhum dinheiro e nem
desperdiçar o seu precioso tempo. Seria o cenário perfeito não fosse um pequeno
detalhe: você vai ser criticado de qualquer forma. Você vai cometer erros quer
você queira quer não. Essa é só uma das falácias do perfeccionismo – e para
contorná-la você precisa jogar a seu favor.

De que forma você pode aumentar as chances de você realmente se exercitar


toda semana?

Quais são os parâmetros que mais te motivam quando o assunto é “exercícios


físicos”?

Eu mesma, uma pessoa que nunca imaginou ver nem um ponta de felicidade
nesse tema, sei de algumas coisas que me divertem um bocado. Aulas de dança
é uma delas. Fazer exercícios aeróbicos, aqueles nos quais você sua e põe as
tripas pra fora, é outro. Não precisar sair de casa e pegar ônibus, então, nossa.
Isso me deixa feliz que nem pinto no lixo. Quais são as coisas que você pode
fazer pra se divertir mais no caminho do seu projeto? O que é que vai aumentar
as chances de você cumprir essas tarefas porque elas são, quem diria, realmente
divertidas e prazeirosas de fazer? Se isolar na Ilha do Sofrimento é um
passaporte sem volta para que vários projetos morram pra sempre na sua gaveta,
meu filho. Fique ligado.

Quanto mais perto você chega de terminar o seu projeto, mais


interessantes se tornam todas as outras coisas da sua vida.
Conforme o Jon nos explica, essa é uma das últimas táticas do perfeccionismo.
No início da estrada, ele te diz que você está doido. Que você é novo demais,
velho demais, pobre demais, inexperiente demais, gordo demais ou burro
demais para fazer o que você quer. Depois, ele nos joga contra a parede e nos
apresenta duas opções radicalmente opostas: ou a gente faz bem feito, cem por
cento impecável, ou a gente desiste. Não tem espaço para erros ou para meio-
termos. Ou é ou não é. Depois de tudo isso, se você conseguiu tornar o seu
objetivo final divertido e realmente progrediu nele, a armadilha é outra.

Você começa a se entusiasmar com os mil outros projetos que você poderia estar
fazendo.

Inclusive porque, a gente bem sabe, qualquer objetivo dá trabalho. Por mais
divertido que seja, o seu objetivo provavelmente vai te exigir um bocado de
esforço. Escrever a sua tese, arranjar outro emprego, começar um bico paralelo,
aprender uma nova língua ou um novo instrumento – o que for. Tudo isso é
trabalho e trabalho nem sempre é confortável. O instinto de fugir da raia e de
fazer alguma outra coisa (mais fácil ou mais divertida) quase sempre aparece. E
isso é o que o Jon chama de “esconderijos”.

O lugar para onde você vai quando você quer fugir de ter que terminar aquela
porra que você começou.

Existem dois tipos de esconderijos: aquelas coisas que são claramente uma
perda de tempo (ver o feed do Instagram eternamente, acompanhar todas as
atualizações do Facebook, ficar no sofá meio que vendo, meio que não, o
programa que os seus pais estão vendo na TV, etc.) e as iniciativas nobres que
realmente precisam ser feitas, mas que não têm nada a ver com o seu objetivo
principal.

Esses são os esconderijos mais perigosos, cara.

Eles são sacanas, perniciosos e, o pior de tudo, usam a Manta da Nobreza para
disfarçar a sua verdadeira sacanagem. O Jon dá um exemplo pessoal disso: a sua
vontade de sempre zerar a sua caixa de email e de nunca deixar de responder
ninguém. Como dono de empresa, escritor famoso e vários outros títulos
importantes, ele recebe muitos emails por dia. E, até certo ponto, é realmente
legal zerar a sua caixa de entrada. Mas para ele (uma pessoa que facilmente
poderia pagar alguém para ser o seu assistente e lidar com o volume colossal de
emails recebidos) isso era um esconderijo. Principalmente porque ele podia
justificar o tempo perdido no email para ele mesmo – era uma coisa nobre,
percebe?

Era uma tarefa profissional da qual ele não podia escapar.

Só que ele podia. No estágio da carreira em que ele está, emails se tornam
preocupações bem pequenas e facilmente administráveis por outras pessoas. Ele
mesmo diz que chegou à conclusão que de todas as centenas de emails recebidos
por dia, só meia dúzia deles exigiam uma resposta realmente pessoal dele.
Todos os outros poderiam ser respondidos por outra pessoa, se ela estivesse à
par da situação.

Fugir do que a gente realmente tem que fazer, ou do que a gente quer fazer, é
muito fácil, meu povo.

“Você nunca vai terminar acidentalmente fazendo um projeto difícil”. O Jon diz
e eu assino embaixo. Ninguém termina, de repente, escrevendo todo o pré-
projeto do TCC que estava enrolando há semanas. Ninguém completa, como
que por milagre, a planilha intricada e complexa do pagamento dos funcionários
do mês. Ninguém realmente acaba fazendo algo muito difícil acidentalmente.
Preste bem atenção na sua lista de tarefas e nos atos compulsivos que você nem
lembra de ter feito depois.

Eles provavelmente são esconderijos, acidentais ou conscientes, que te afastam


d’A Coisa Principal.

Um obstáculo nobre é uma tentativa de fazer o seu objetivo ser


mais difícil do que precisa ser para que você não precise
terminá-lo e possa, ainda assim, parecer respeitável.

Duas desculpas que pegam muita gente pelo pé e que atrasam ou impedem
projetos lindíssimos de verem a luz do dia: “eu não posso fazer X até fazer Y” ou
o bom e velho “se eu for fazer X, eu preciso fazer de tal forma”. A primeira
armadilha é tinhosa e ela te faz criar uma lista incrivelmente irrealista de coisas
que você precisa fazer para conseguir chegar às vias de fato do seu objetivo final.
Eu não posso fazer nenhum exercício físico até eu realmente escolher a rotina
ideal para mim, por exemplo. Eu preciso ir no médico, estudar bastante sobre
musculação, escolher a academia perfeita, comparar o preço de todos os pacotes
das academias perto de mim, ir em pelo menos três estúdios de pilates antes de
tomar a minha decisão e, de preferência, ir em um bom nutricionista antes de
começar a fazer qualquer exercício.

Ao invés de simplesmente caminhar por cinco minutos no seu quarteirão, você


prefere criar uma lista hercúlea de itens que, colocados lado a lado, transformam
o seu humilde projeto (não ser mais tão sedentária, por exemplo) em uma
verdadeira maratona para ser a maior atleta que o mundo já viu. Fala sério, né?
Eu já consigo enxergar à distância esse tipo de desculpa hoje em dia. Nem
sempre consigo fugir dela, mas eu já vi que eu faço muito isso. E a pior coisa
dessa desculpa é que ela veste o chapéu da responsabilidade. “Eu não tô
fugindo”, você diz pra você mesmo. “Eu estou sendo responsável, ora bolas”.

REALLY QUEEN?

Responsável ou covarde? Responsável ou com medo de colocar o seu na reta?

Verdade seja dita, a gente sempre pode melhorar e aperfeiçoar os nossos


objetivos com o tempo. Você começa caminhando no quarteirão e, algumas
semanas depois, você já não é mais uma pessoa sedentária. Se esse era o seu
objetivo final, você já o conquistou. Parabéns! Você quer criar um objetivo novo?
Fique à vontade, ninguém vai te impedir. Você pode decidir que vai começar a
correr ou que vai entrar em uma academia. Esse é o próximo nível de uma
mesma categoria de objetivos, percebe? É da mesma família, mas é um
objetivo diferente do primeiro. E para entrar numa academia você também não
precisa fazer muitas acrobacias. Corte pela metade a lista do que você acha que
precisa fazer e simplesmente faça.

Essa foi a abordagem que me fez tirar o Eu Organizado do papel, sinceramente.

O segundo tipo de desculpa super comum é aquela que, como eu falei lá em


cima, só te dá duas opções: ou eu me transformo em um Campeão Estadual de
Natação ou eu nem ponho os pés na piscina. Ou o meu site vai ganhar o prêmio
brasileiro de melhor conteúdo já visto ou eu sequer abro uma conta no Twitter.
Ou – o pior tipo de distração de todas – se eu não conseguir estar cem por cento
focado, eu não trabalho. Mano: se você realmente esperar estar totalmente livre
de distrações e de compromissos para fazer aquele trabalho ou projeto paralelo
criativo que você sempre quis, sabe quando é que cê vai fazer isso?
NO DIA DE SÃO NUNCA.

O Jon fala que esse segundo tipo de armadilha é justamente aquela que só te dá
duas opções extremas de ação. Não existe meio termo, não existe
“minimamente bom”. Ou é do seu jeito (ou melhor: do jeito do seu
perfeccionismo) ou não é de jeito nenhum. “Se você quer que seja feito, tente
fazer do jeito mais fácil”. Esse é o conselho que o Jon dá nesse capítulo e ele
resume muito bem o melhor antídoto de todos.

Descomplique, cara. Corte pela metade o seu objetivo final (pra que escrever
vinte página se você pode escrever dez? alguém vai morrer por isso?), se dê o
dobro de tempo para concluir a sua meta (faz mesmo muita diferença perder 10
quilos em mais duas semanas do que o planejado?), faça uma lista simples das
coisas mínimas que você precisa fazer para tirar o seu projeto da gaveta e abra os
olhos para a miríade de opções que você tem para colocar essa ideia em prática.

Não precisa ser o vencedor, não precisa o melhor, não precisa ser em tempo
recorde. Só precisa ser.

Eu já li mais livros sobre como conquistar as minhas metas do


que cumpri as minhas metas de verdade. Isso provavelmente é
sinal de alguma coisa... de alguma coisa ruim.

Um outro exemplo de um esconderijo muito nobre e bastante popular: a leitura.


Ler esse artigo, por exemplo, com certeza é um bom primeiro passo, mas eu
quero de verdade que você faça duas coisas com esses ensinamentos: reflita e
pense em ações práticas que vão te ajudar a terminar os seus projetos e, em
seguida, tome as ações necessárias para que isso aconteça. Uma última dica bem
importante que o Jon compartilha é o hábito de (sem ser super perfeccionista
nisso também) anotar o seu progresso.

Para cada objetivo, ele pede pra que você crie de 1 a 3 pontos de progresso.

Você não precisa se transformar no Tim Ferris e anotar todo copo de água que
você tomar ou anotar todas as calorias específicas de cada coisa que tem no seu
prato. Esse exercício não pode ser tomado pelo perfeccionismo – porque se for,
vai ser só mais um esconderijo de araque. A ideia é que você defina um objetivo
claro (deixar de ser sedentário é bem diferente de correr uma maratona de 5 km,
por exemplo) e que anote, semanalmente, a quantidade de unidades/medidas
que te fizeram chegar mais perto dele.
Um, dois ou três pontos de controle e só, nada mais do que isso.

Se o seu objetivo é deixar de sedentário, por exemplo, anote quantas vezes você
saiu pra andar na rua. Para ir até a padaria, para pegar seu filho na escola, para
levar o cachorro pra passear. Três vezes no dia? Duas vezes no dia? Depois de
alguns dias fazendo isso, some os números: quantas vezes na semana você saiu e
andou na rua? Se você é sedentário de raiz, sair dez vezes pra andar na sua
durante a semana já é um bom começo. O propósito desse exercício é que você
se concentre no quanto você já andou e não no que te falta andar. Porque o
perfeccionismo também adora desencorajar a gente.

Principalmente quando estamos no meio, bem no meio mesmo, de chegar à


nossa meta.

É muito fácil pensar: “Nossa, tô tentando fazer tal coisa há semanas e não
cheguei nem na metade. É melhor eu parar por aqui mesmo”. Mas quer ver você
se animar rapidinho? Ver que você escreveu, nos últimos 10 dias, 5 páginas por
dias. Os números não mentem, meu povo. A sua sensação e a percepção que
você tem de você mesmo pode flutuar de acordo com o seu humor ou de acordo
os acontecimentos do dia. Mas se o seu objetivo é escrever alguma coisa que
possa ser medida em páginas, o que quer que seja, é muito bom ver que você
escreveu 50 páginas nos últimos 10 dias. Para quem estava com o TCC, a
dissertação ou o livro parado, 50 páginas é um progresso imenso comparado ao
que você tinha no início.

Isso já é alguma coisa.

E esse é um grande segredo pra você começar a finalizar os seus projetos e,


depois, aperfeiçoar em cima do que você já fez: estar satisfeito em conseguir
realizar alguma coisa. Alguma coisa não é nada.

Alguma coisa não é uma vontade enterrada embaixo de várias caixas lá no fundo
da sua mente. Alguma coisa é o início. É o mínimo necessário pra que você
avance cada vez mais, usando o próprio início imperfeito e titubeante como
bússola e como fogo para continuar seguindo em frente. É a melhor coisa que
você pode fazer com o seu tempo, a sua energia e o seu dinheiro, meu bem.
Acredite em mim.