You are on page 1of 51

Universidade do Sagrado Coração

Centro de Ciências Sociais Aplicadas


Curso de Comunicação Social, hab. em Jornalismo

Apostila
História da Comunicação

Docente responsável: prof. Ms. Luís Henrique Marques

2º semestre de 2003 (revisada)


Apostila de História da Comunicação 2
Luís Henrique Marques

ÍNDICE

1. APRESENTAÇÃO 3

2. COMUNICAÇÃO E CULTURA 4

3. COMUNICAÇÃO ORAL 5

4. OS PRIMEIROS REGISTROS DA LINGUAGEM 6

5. A TIPOGRAFIA E O SURGIMENTO DA IMPRENSA 8

6. A IMPRENSA NA ERA MODERNA 13

7. A COMUNICAÇÃO NA ERA CONTEMPORÂNEA 23

8. ARPANET (1969): A SEMENTE DA INTERNET 42

9. O IMPACTO DAS NOVAS TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO 45

10. BIBLIOGRAFIA GERAL 51


Apostila de História da Comunicação 3
Luís Henrique Marques

1. APRESENTAÇÃO
A presente apostila é resultado das primeiras experiências da disciplina
História da Comunicação do curso de Jornalismo da Universidade do Sagrado
Coração (USC). Ela traz uma leitura essencial de alguns entre os principais textos
sobre a história dos meios de comunicação social no mundo ocidental (em função
da amplitude do tema, foi necessário restringir o âmbito dos meios estudados). A
proposta deste material é ser uma introdução ao assunto, o que não dispensa a
leitura dos originais em que a apostila se fundamenta nem tão pouco de outras
obras.
A abordagem da História da Comunicação que aqui se apresenta, busca
estudar o surgimento e evolução dos meios de comunicação ao longo da História
sob uma perspectiva cultural ou, em outras palavras, a partir da constatação das
evidências históricas acerca do que mudou no comportamento das sociedades
ocidentais (qual o impacto que isso trouxe para as pequenas e grandes
comunidades) a partir do surgimento e crescimento da mídia. Um capítulo final
aborda o desenvolvimento dos meios de comunicação (com especial enfoque para
a imprensa) no Brasil.
É fundamental salientar ao leitor que os fatos históricos não acontecem
segundo uma exatidão cronológica, como talvez julgue o senso comum. Por
vezes, é difícil aos historiadores identificar a ordem cronológica exata desses fatos
(o que, em princípio, não se trata do mais importante). Portanto, uma certa
cronologia dos fatos aqui apresentada apenas se justifica por questões didáticas.
Na realidade, nem sempre a História é bem assim.

___________________________
O autor
Luís Henrique Marques é jornalista com bacharelado e mestrado pela Universidade
Estadual Paulista, campus de Bauru. Docente do curso de Jornalismo da Universidade do
Sagrado Coração (USC) nas áreas de Ética Jornalística, História da Comunicação e
Redação em Jornalismo Impresso, atua também como assessor de imprensa da
Faculdade de Medicina de Marília (Famema). É ainda professor da disciplina Introdução à
Teologia e Metodologia das Ciências da USC. Atualmente, é colunista e repórter
colaborador da revista Cidade Nova (de âmbito nacional), jornalista-colaborador da
Pastoral da Comunicação (PasCom) da Diocese de Bauru pela qual – em parceria com o
curso de Jornalismo da USC - produz o boletim Notícias Diocesanas, veiculado
semanalmente pela Rádio Veritas FM.
Apostila de História da Comunicação 4
Luís Henrique Marques

2. COMUNICAÇÃO E CULTURA
A comunicação não é um fenômeno isolado nem contemporâneo, mas está
integrada aos processos culturais presentes em cada momento da História. De
fato, segundo Mitchell Stephens (1993), “não compreendemos o amplo papel
político que a divulgação de notícias tende a exercer em qualquer período e em
qualquer sociedade”. Ainda para este autor, “as notícias divulgadas por uma
determinada sociedade refletirão obviamente as preocupações culturais e políticas
específicas daquela sociedade”.
Tem-se a impressão que a comunicação é um fenômeno recente, se
considerada hoje, como “de massa”, em função do emprego sempre crescente da
tecnologia. Diz Virgílio Noya Pinto (1995): na realidade, quando encaramos a
comunicação numa perspectiva histórica, verificamos que as técnicas se
transformaram, mas conteúdo e significados permaneceram os mesmos”.
Stephens (ibid) reforça este argumento dizendo: “Freqüentemente, estamos
tão ansiosos por elogiar inovadores e proclamar furos de reportagem, que
acabamos por ver inovações e furos onde deveríamos enxergar conexões e
continuidades”.
Para compreender historicamente a comunicação, é preciso analisar sempre
como esta foi gestada e utilizada pela comunidade. Para tanto, é necessário
compreender as realidades nas quais o homem se encontra quando do
surgimento e expansão dos fenômenos comunicacionais. “... sem a compreensão
do fluxo de notícias através de distintas sociedades, o entendimento da vida
dessas sociedades é limitado”. (Stephens, ibid)
Para sobreviver no ambiente natural em que se encontra, o homem se vê
obrigado a desenvolver um “outro ambiente”, a cultura. Afirma Herskovits (In Pinto,
1995) sobre a cultura: “o conjunto complexo que inclui conhecimentos, crenças,
arte, moral, leis, costumes e quaisquer capacidades e hábitos adquiridos pelo
homem como membro da sociedade”.
Da cultura, é importante destacar:
º
1 O conjunto das relações dos homens entre si, que caracteriza, ao mesmo
tempo, a estática e a dinâmica da existência social o que implica, através do
processo de comunicação, no aprendizado (como aculturação e como contato e
difusão). Este, por sua vez, nos remete sempre a formas de dominação.
2º O conjunto das formas de expressão de que se serve o homem como a arte
em geral, a partir da qual é possível captar a visão de mundo de uma sociedade
num certo momento histórico.
3º O conjunto das relações dinâmicas entre os homens e seu meio natural,
relações estas que se manifestam mediante o emprego de técnicas ao dominar
o ambiente através da ciência e da técnica, o homem tem buscado eliminar o
binômio “espaço-tempo”, fazendo da sociedade o que Marshall McLuhan chamou
de “aldeia global”.
A partir destas considerações, conclui Virgílio Noya Pinto (ibid): “a
comunicação é o conjunto das relações dos homens entre si, das formas de
expressão das quais se servem e do emprego de técnicas”.
Apostila de História da Comunicação 5
Luís Henrique Marques

3. COMUNICAÇÃO ORAL
A obsessão com as notícias é uma característica humana de todos os tempos
e sociedades. De fato, inclusive nas sociedades de cultura oral (ou pré-letradas),
grande parte do tempo é consumida com a troca de notícias.
Por quê? A importância das notícias está além dos assuntos que estas
focalizam. Estas revelam a consciência – e portanto, nos traz segurança – que
temos da realidade. Logo, a obsessão pelo consumo de notícias revela a infinita
sede de conhecimento do homem.
O valor da notícia está no fato de ser contada, comunicada. Nossa obsessão a
contar notícias é a mesma que a de recebê-las. Stephens (1993) afirma que “o ato
de contar notícias traz consigo uma série de gratificações para o ego: a
oportunidade de parecer bem-informado, culto e atualizado (abandonando-se à
vaidade do ‘primeiro saber’); a ocasião de chamar atenção, de se exibir e de
ganhar apreço; além do privilégio de brindar os acontecimentos com suas próprias
conclusões”.
O desejo pela notícia, mesmo em sociedades orais, sempre impulsionou o
aumento da velocidade de sua divulgação. Essa difusão revela também a
evidência de um compromisso social, isto é, a própria sociedade tem se ocupado
sempre mais disso.
As informações sobre a difusão oral das notícias, a despeito de sua
antigüidade, provém de uma literatura antropológica recente. Esta, por sua vez,
não é mais que uma “filtragem” do olhar dos estudiosos, missionários e
colonizadores.
É fato, contudo, que os métodos de coleta e difusão oral de notícias revelaram-
se impressionantes, podendo ser considerados as “raízes” do próprio jornalismo
contemporâneo. Exemplo: o “telégrafo humano sem fio” do povo zulu (África).
Nas sociedades orais, os locais de reunião eram locais de difusão “das últimas
notícias”. Exemplo: o mercado (que encerra, a propósito, uma relação simbólica
entre a notícia e o comércio). Tais locais, por seu caráter agradável, favoreciam a
difusão das informações.
Além do uso de recursos como tambores e fumaça, a divulgação de notícias
nas sociedades orais dependia especialmente da movimentação das pessoas.
Nesse sentido, o comércio tem uma importância especial.
Nos povos iletrados, há uma evidente confusão entre fofoca e notícia. Quanto
maior e mais organizada a sociedade, mais seriedade e precisão passou a ser
exigida na divulgação oral das notícias.
Para amplificar com precisão e seriedade este trabalho, as várias sociedades
passaram a contar com a atuação dos:
a) mensageiros (que transportavam as notícias previamente editadas);
b) apregoadores (que divulgavam as notícias em horários e locais prescritos;
eram mais formais em sua linguagem);
c) trovadores (que cantavam as notícias).
Entre estes, alguns eram reverenciados (inclusive por razões religiosas) e outros
até ridicularizados.
Apostila de História da Comunicação 6
Luís Henrique Marques

O valor das notícias

Era determinado pelo interesse prático (exemplo: perigo, morte, guerra) ou


ainda por prazer e diversão.
As qualidades da notícia exigidos pelo jornalismo moderno também estão
presentes na seleção das notícias nas culturas orais: impacto, apelo emocional,
conflito, atualidade, proximidade, proeminência e o inusitado. Também os relatos
de histórias são os mesmos em todos os tempos: acidentes, terremotos,
expedições militares, esportes, tempo, morte e violações de leis.
A sensação que um fato provoca no público varia conforme a amplitude deste
público. Quanto maior o público, maior o formalismo na difusão do fato.
O entretenimento e a informação – dos quais se revestem as notícias, hoje –
são categorias presentes desde a antigüidade na divulgação dos acontecimentos.
Satisfazem não apenas exigências pessoais (de prazer e conhecimento) como
sociais (de segurança e solidariedade). Nesse último caso, a troca de informações
de indivíduos favorece e renova o vínculo destes com a sociedade.
A difusão oral das notícias demonstrou-se vulnerável, apesar da formalização
da linguagem e até adoção de objetos para complementar os relatos, conforme
constatado em alguns casos. Essa vulnerabilidade acontecia em função das
distorções, imprecisões, exageros, acomodações em estereótipos e incapacidade
física de chegar a comunidades distantes.

4. OS PRIMEIROS REGISTROS DA LINGUAGEM


A escrita surge na história da humanidade para possibilitar a memorização e
reelaboração do pensamento. Através dela, a divulgação de notícias sofre uma
influência, dando margem a uma certa objetividade que irá se consolidar,
particularmente, com o desenvolvimento do jornalismo.
Para De Fleur (1993), “a mudança para a fala e a comunicação através de
linguagem possibilitou modificações empolgantes da existência humana na
medida em que sociedades em várias partes do mundo realizaram a transição de
um estilo de vida de caça e coleta para a criação das grandes civilizações
clássicas”.
Segundo pesquisas de historiadores, o registro mais antigo da escrita data de
3100 a.C., na Mesopotâmia, região na qual foram encontradas tabuletas de barro
cujos registros possuem conteúdo comercial. Mais tarde, em 1700 a.C., os
sumérios criam um alfabeto – cuja novidade era justamente a representação do
som no lugar da idéia, isto é, uma escrita (fonética), pela qual caracteres
representam sílabas - ao qual os gregos acrescentam as vogais, 750 anos mais
tarde1, tendo sido ainda modificado e melhorado pelos romanos. O uso da escrita
vai ter ampla evolução com o surgimento do papel, em 105 d.C., na China2.

1
“A história da escrita” – diz De Fleur (ibid) – “é a passagem da representação pictórica
para sistemas fonéticos, da representação de idéias complexas com imagens ou
desenhos estilizados para a utilização de simples letras dando a entender determinados
Apostila de História da Comunicação 7
Luís Henrique Marques

Porém, essa evolução, inicialmente – mesmo se atinge todos os cantos da


Terra – ainda não chega a todos rapidamente, em função do analfabetismo.
“Levou milhões de anos para nossa espécie adquirir a capacidade de usar a
linguagem”, afirma De Fleur (ibid). E continua: “Levou muitos séculos para que o
ato de escrever se tornasse uma realidade, mas este foi um período de tempo
relativamente curto”. Por essa razão, o uso da escrita como meio de comunicação
é adiado ainda por um bom tempo. De fato, a fala permanece, na Antigüidade,
como o instrumento de comunicação universal e mais veloz. Esta, entretanto,
desde sempre apresentou limites. É o caso da comunicação oral em longas
distâncias, as quais, exigem um instrumento mais seguro de difusão de notícias.
Vale salientar aqui que a eficiência na circulação de notícias se revela, desde o
início da humanidade, como vital à sobrevivência das comunidades. Isso porque, a
identidade de um povo é (sua história, religião etc) é preservada, justamente, pela
circulação de notícias. Não é a toa que os governos buscaram, desde cedo,
apropriar-se da escrita para fazer uso dessa como instrumento político eficiente e
eficaz para a manutenção da ordem estabelecida. Vejamos, nesse sentido, alguns
exemplos clássicos da história antiga.

As Actas Romanas e o Tipao Chinês

No Império Romano surgem as Acta (boletins informativos manuscritos


exibidos diariamente em local público ou vendidos). Foram mantidas durante 280
anos, pelo menos, submetidos à censura prévia. Circularam espontaneamente
pelo Império. O conteúdo das Acta: matérias de interesse do governo e de
interesse humano (sensacionalismo).
No Oriente, também o Império chinês fez uso da escrita para governar. Ali,
surge o tipao, espécie de relatório do governo imperial destinado aos governos
provinciais.
Um dado curioso: o fim do Império Romano coincide com o aumento do
analfabetismo na Europa. Na Idade Média, com o advento do cristianismo
institucionalizado, parte do grande poder econômico e político da Igreja, diante de
uma maioria analfabeta, está indiscutivelmente ligado ao domínio da produção
intelectual (e, portanto, escrita) da Antigüidade e do período em questão.

Comércio cosmopolita

Com o Renascimento, há uma evolução das transações comerciais, as


quais, por sua vez, têm grande dependência das notícias escritas difundidas por
cartas, mensageiros e agentes, sobretudo a partir do momento em que o cenário
político assume contornos de contexto internacional (as nações européias
começam a se firmar como tais).

sons”. Para tanto, o primeiro passo a ser dado para a criação da escrita foi a
padronização das imagens, cada uma das quais (cada símbolo) representava uma
determinada idéia, coisa ou conceito.
2
Vale ressaltar que foram os egípcios, de certo modo, os precursores do papel, com a
invenção do papiro 2500 a.C..
Apostila de História da Comunicação 8
Luís Henrique Marques

5. A TIPOGRAFIA E O SURGIMENTO DA IMPRENSA


Do século 15 ao 17

No século 15 da Era Cristã, uma invenção não só revoluciona a circulação de


notícias, mas toda a realidade social, econômica, política e cultural da Europa: o
alemão Johan Gutenberg (um humilde ourives de Mainz) cria a imprensa de tipos
móveis (um século antes, chineses e coreanos já tinham feito experiências com
tipos móveis, porém sem a prensa). Nasce a tipografia.
Vale repetir: o contexto é de expansão das fronteiras geográficas, filosóficas e
econômicas na Europa. Em função disso, as notícias – agora publicadas e
reproduzidas em uma escala maior - passam a atingir um maior público, de forma
mais rápida e confiável. Muda também a forma de construção do pensamento.
Livretos e panfletos são criados, primeiramente, para serem lidos em voz alta.
Há também uma grande difusão de panfletos. Como não poderia deixar de ser, os
governantes são os primeiros a explorar as vantagens da imprensa. Estes
controlam todo o sistema de produção gráfica, mas são obrigados, volta e meia, a
apelar às massas através dessas publicações (garantia da legitimidade).
No século 16, em função da Reforma Protestante, a divulgação de conteúdos
religiosos conflitantes levaram tipógrafos católicos e protestantes a várias formas
de condenação (inclusive, a morte).
Nesse mesmo período, as baladas (notícias cantadas) ainda permanecem em
grande circulação. Estas, agora, são impressas e, de tendência chauvinista, têm
como objetivo divertir o público. Também com a difusão da imprensa, a ciência
progride, substituindo a visão mística do poder dos monarcas e da Igreja.

Transformações no conteúdo e formato das notícias

A crescente difusão de notícias gera a concorrência e se dá acerca dos mais


variados temas. E, assim, aos poucos e sempre mais, exige-se audácia das
notícias impressas (sensacionalismo). Isto é, as pessoas têm curiosidade sobre
vida de personagens importantes da sociedade (tragédia, aventura, talento,
beleza, violência, sexo).
Nesse período, fofoca e notícia se confundem, gerando desde aquele período
– e ainda antes do jornalismo tal como conhecemos, o conflito entre público e
privado. Contraditoriamente, convenções sociais exigem dos relatos conclusões e
ensinamentos moralistas (necessidade psicológica)
O inesperado também é exigido nessas notícias, bem como o sobrenatural
(reflexo da mentalidade de uma época). O que, nesse período, poderia ser
considerado uma espécie de jornalismo popular (ou ainda uma literatura popular)
passa a ser identificado, pela elite, com as notícias sensacionalistas. As classes
abastadas se preocupam em saber sobre arte, política e economia.
Observa-se que as notícias impressas revelam uma concentração no
extraordinário, o que reflete o pensamento predominante, mas não o cotidiano de
uma sociedade e determina a clara diferença entre interesse humano e realidade
humana.
Apostila de História da Comunicação 9
Luís Henrique Marques

Cresce o uso de estereótipos e clichês. O mundo passa a ser visto por muitos
através de fórmulas (é um “mundo velado”); o extraordinário é transformado em
ordinário (falta reflexão sobre causas e conseqüências, e existe uma
descontinuidade no lugar de conexões).
Todas essas alterações na maneira de divulgar notícias, ao mesmo tempo,
reflete e confirma a conveniência dos divulgadores de notícias já daquele período
– que passam a ser identificados como jornalistas: o prazo de entrega do material
para publicação passa a ser determinado. Com efeito, nessa época, a
periodicidade dos livretos começa a se firmar e a inovação dos livretos semanais
passa a exigir uma inovação jornalística, marcada por as alterações no conteúdo e
formato de divulgação das notícias, conforme dito anteriormente. É o início, o
embrião, da própria indústria jornalística.

O jornal

O jornal como hoje conhecemos e do qual se originaram os diários e


semanários, surgiu, na Europa, nos primeiros anos do século 17 “sem fazer
barulho”. De fato, não há data precisa para o aparecimento do 1º jornal impresso.
Até o momento, os jornais mais antigos cujos exemplares foram encontrados por
historiadores datam de 1876.
Muitas dessas primeiras publicações desapareceram com o tempo e de outras
não é possível identificar a autoria. A propósito, o anonimato dos criadores dos
primeiros jornais, no início do século 17, revela que a publicação desses
periódicos era uma prática arriscada diante do poder público da maioria dos
países europeus que, convenientemente e desde logo (conforme dissemos
anteriormente), rogou para si o direito de censura e autorização da publicação de
materiais impressos.
É fato, contudo, que há registros da circulação de jornais em período anteriores
a essa data de 1876. Para definir quais publicações são, de fato, jornais, entre
tantos materiais impressos que a humanidade já produziu – desde o surgimento
da imprensa de Gutenberg -, os historiadores têm levando em conta algumas
características básicas para a classificação de um material impresso como jornal,
a saber:
a) é publicado regularmente e com freqüência;
b) inclui variedade de assuntos abordados;
c) apresenta título consistente e reconhecível, além do formato próprio.

A Gazzetta veneziana

Desde o início do Renascimento, a cidade de Veneza (Itália), por ser centro de


poder e comércio, se firma como centro difusor de notícias (é provável que a
“agência de notícias” do alemão Fugger tenha se instalado ali). Em função desse
contexto, venezianos criam uma forma de publicação periódica de notícias
(décadas anteriores ao jornal impresso), apelidada de gazzetta (a palavra tem
origem em antiga moeda local).
Apostila de História da Comunicação 10
Luís Henrique Marques

Estima-se que esses boletins manuscritos tenham surgido depois de 1550. As


gazzete3 também ficaram conhecidas como avisi ou avvisi. Traziam, sobretudo,
notícias políticas e militares. Não se sabe, ao certo, quem produzia as gazzete
(alguns historiadores acreditam tratar-se do governo; outros, de escritores
profissionais de notícia, os avvisatori).
Em Strasburgo, na Alemanha, no ano de 1609, Johann Carolus passou a
imprimir um semanário, acredita-se, produzido a partir de um material manuscrito.
Os primeiros jornais europeus impressos reuniam notícias curtas e de locais
diversos, assim como eram organizadas as gazzette.

O Coranto holandês
Amsterdã (Holanda) se transformou, nesse mesmo período, uma cidade
cosmopolita e, por isso mesmo, mais tolerante em relação às questões religiosas.
Ali, a exemplo do que acontecia em outras regiões da Europa, o comércio
necessitava da circulação de notícias. Os moradores da cidade passaram, então,
a organizar os Corantos, boletins informativos periódicos “bruscos e impessoais”,
considerados entre os principais precursores do jornal tal como o conhecemos
hoje (De Fleur, 1993).
Os editores do coranto holandês (largamente difundido em outros países,
como na Inglaterra) tiveram que lidar com a novidade que era a expectativa dos
leitores por uma nova edição, bem como com o fato de que a edição anterior era
considerada obsoleta (firma-se o padrão de periodicidade). Também a avaliação
das notícias (quanto à sua importância) foi alterada. Outra prática foi a
“antecipação dos acontecimentos”, o que veio a aguçar ainda mais o apetite do
leitor por novas notícias.
Emerge, também nos outros países onde o jornal impresso ganhava espaço, a
figura do editor, de quem era exigido a capacidade de transformar a miscelânia de
matérias em uma publicação atraente e razoavelmente coerente.

Superando limitações

Os primeiros jornais possuíam graves limitações:


a) restringiam-se quase que exclusivamente a notícias estrangeiras;
b) freqüentemente, eram irresponsáveis (as informações, a exemplo do que já
acontecia com a comunicação, não eram checadas e sua origem, muitas vezes,
era fruto de boatos, distorções ou mesmo fococas).
A partir do século 18, o jornal cresce, por conta de uma maior autonomia e
liberdade (em relação aos governantes) e em função da publicação de um leque
maior de notícias e do aumento da freqüência na distribuição. A cobertura de
importantes catástrofes, matérias de interesse humano e notícias de âmbito
nacional, contribuíram particularmente para o desenvolvimento do jornalismo
nesse período. A publicação dessas notícias periodicamente e o seu acesso mais

3
Gazzette, em italiano, é o plural de gazzetta.
Apostila de História da Comunicação 11
Luís Henrique Marques

facilitado à população em geral, exigiu, por sua vez, maior responsabilidade


pública do jornalista sobre o que ele passou a fazer.

Relação imprensa-ciência

Em relação aos primeiros jornais, cientistas resistiram à exposição de seus


trabalhos para os leigos. Contudo, em parte, foi graças à divulgação jornalística
que a revolução científica (iniciada a partir do século 17 e que coincide com o
Renascimento) foi possível, até porque, a própria comunidade científica
necessitou da circulação de suas próprias produções. O que aconteceu com
Galileu Galilei é passível de compreensão a partir do fato de que, naquela
circunstância, faltou a adequada circulação de informações sobre suas teorias.
Com o tempo, a distância entre o cientista e o público foi diminuída pela
periódica, veloz e ampla divulgação científica. A especialização científica, por
outro lado, voltou a afastar o cientista do público.

Notícias de Negócios

A partir da segunda metade do século 17, o jornal começa a se transformar em


uma grande força econômica, atraindo mercadores, financistas, comerciantes. A
divulgação de notícias de negócios começa a se configurar o surgimento de uma
importante categoria de notícia: “a prestação de serviço”.
Os jornais passam também a se mostrar um atraente espaço para a divulgação
de produtos comercializáveis: surgem os anúncios. E a publicação de informações
de interesse comercial diário, por sua vez, revelava um outro limite evidente dos
primeiros jornais a ser superado.

No Brasil
“Primeiras batalhas4
A imprensa surge tardiamente no Brasil. Há razões internas e externas a
explicar a sua ausência na Colônia. A Coroa Portuguesa sempre criou obstáculos
ao seu desenvolvimento para impedir que as críticas à dominação metropolitana
se propagassem através das folhas impressas. Além disso, os núcleos urbanos
eram pouco significativos na sociedade colonial havendo predominância de uma
população do campo, analfabeta, constituída na sua maioria por escravos,
dispersa em áreas distantes. Estes fatores representaram empecilhos para a
consolidação da imprensa.
Apesar das dificuldades, diários e panfletos circularam nos pequenos e
grandes centros urbanos. A barreira do analfabetismo era contornada pela
comunicação oral: a leitura da voz alta, nas esquinas, nas farmácias ou nos
serões familiares possibilitava a divulgação das mensagens, muitas vezes de

4
Texto extraído do livro “Imprensa e História do Brasil”, de Maria Helena R. Capelatto,
Contexto/EDUSP, 2a ed., 1994, página 38.
Apostila de História da Comunicação 12
Luís Henrique Marques

conteúdo público – antilusitano e anticolonialista. Esses pequenos jornais tinham


duração efêmera.
A vinda da Família Real para o Brasil, em 1808, agitou a sociedade e dentre
as várias modificações ocorridas nessa época, apontamos a criação da Imprensa
Régia, fato que favoreceu o surgimento de inúmeros jornais na Capital do Reino e
também nas províncias: Bahia, Pernambuco, Maranhão, São Paulo.
A imprensa de oposição política ganhou destaque nas lutas pela
independência. As críticas à Coroa desencadeavam a censura e esta chegava a
impedir a circulação de jornais. O Correio Braziliense tornou-se famoso não só
pelas críticas ao governo mas principalmente porque foi publicado em Londres
devido ao seu impedimento no Brasil. Alguns autores exaltam a combatividade de
José Hypolito da Costa, o proprietário. Outros reduzem a importância desse
periódico, argumentando que esteve ligado aos interesses ingleses e só atuou na
Europa sem repercussão no Brasil. Apesar disso causou preocupações à Coroa
que fez circular, também em Londres, O Investigador Português para fazer frente
ao órgão opositor.
A luta pela independência colocou em campos opostos a imprensa oficial
ou oficiosa e a de oposição. Esta última caracterizou-se pela linguagem enérgica e
violenta.
Em 1821 surgiu o Revérbero Constitucional Fluminense, escrito por ‘dois
brasileiros amigos da nação e da Pátria’ – Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da
Cunha Barbosa. Esse órgão doutrinário batalhou pela independência, opôs-se à
volta de D. Pedro a Portugal e aos projetos de recolonização da Metrópole. Os
proprietários deixaram de publicar o jornal em 1822 por considerarem seus
objetivos atingidos. Isso não os livrou das perseguições que resultaram em
deportação e exílio.
O Malagueta, também surgiu em 1821, atingindo grande popularidade até
1822. O proprietário Luis Augusto May, defensor das causas brasileiras, foi vítima
de perseguições e espancamentos.
O português João Soares Lisboa destacou-se como defensor da liberdade
de imprensa no Brasil, através de seu órgão – O Correio do Rio de Janeiro – lutou
pela independência e propôs a convocação da Constituinte com eleições diretas.
A Constituinte foi convocada e depois dissolvida. Seguiu-se, então, um
período de ausência de liberdade para a imprensa. João Soares Lisboa foi preso,
condenado e anistiado sob a condição de deixar o país. Desobedeceu às ordens
do exílio; ficou para participar da Confederação do Equador e foi morto durante
combate.
A atuação da imprensa nesse movimento teve muita importância. O Typhis
Pernambuco, fundado e dirigido por frei Caneca, instigou a população contra o
governo que, entre outras arbitrariedades, dissolvera a Constituinte. O periódico O
Desengano dos Brasileiros também teve papel significativo na Confederação.
Nessa época, tornou-se famoso Cipriano Barata. Através de suas
Sentinelas da Liberdade, escritas muitas vezes no cárcere, travou polêmica
acirrada com o político conservador Visconde de Cairu (José da Silva Lisboa).
Cipriano afirmou:
Apostila de História da Comunicação 13
Luís Henrique Marques

‘Toda e qualquer sociedade onde houver imprensa livre está em liberdade;


esse povo vive feliz e deve ter alegria, segurança, fartura. Se pelo contrário,
aquela sociedade ou povo, tiver imprensa cortada pela censura prévia presa
e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, é povo escravo, que
pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro’.

Essa afirmativa data de 1823, ano em que teve início um período de intensa
repressão política. Jornalistas foram perseguidos, espancados, processados e
deportados.
Na fase de Abdicação, Regência e Maioridade alguns jornais se
destacaram. Dentre ele a Aurora Fluminense de Evaristo da Veiga, que fez
campanha pela abdicação de D. Pedro I.
Durante a Regência proliferaram os pasquins, jornais de formato reduzido e
poucas páginas, de linguagem violenta e função agitadora. Tinham curta duração
e entraram em declínio após a Maioridade. Outros jornais dessa mesma época
sobreviveram por mais tempo.
Em 1827 surgiu o famoso Jornal do Commercio do Rio de Janeiro; em 1829
o Observador Constitucional (São Paulo) de Líbero Badaró que promoveu intensa
luta pela liberdade de imprensa. Badaró acabou sendo assassinado.
Na segunda metade do século XIX começaram a aparecer os jornais
republicanos. O primeiro foi o O Apóstolo (1849) de Minas Gerais. O Jornal do
Commercio, O Correio Paulistano, Diário de Pernambuco e muitos outros
transformaram-se em arautos de uma nova era”.

6. A IMPRENSA NA ERA MODERNA


Notícias e Revolução

Segundo Stephens (1993), os jornais tendem a ser veículos moderados,


quando não conservadores. Isso, contudo, não é o que se observa em períodos
revolucionários, como é o caso dos períodos imediatamente anteriores e durante
as Revoluções Americana e Francesa.
Nos Estados Unidos do século 18 (então colônia britânica), os jornais
demonstraram exercer significativa influência política, mais sobre o público do que
contra os dominadores e sua política colonialista. Os jornais coloniais americanos,
ao difundir opiniões revolucionárias, alimentaram na população um sentimento
nacionalista (união e emancipação), pois, de fato, a troca de informações solidifica
uma identidade comum. Detalhe: com o passar do tempo, a restrição prévia do
governo às publicações deixou de existir, embora os editores estivessem sujeitos
às penalidades pós-publicação.
Na França do mesmo período, os jornais tiveram um papel político ambíguo. A
ausência de uma imprensa agressiva e a própria falta de notícias – uma vez que o
governo imperial francês tinha completo controle sobre a circulação das mesmas –
contribuiu significativamente para a derrubada da monarquia naquele país. Por
outro lado, isso favoreceu uma certa difusão de notícias (sobretudo faladas) que,
por se tratarem, na realidade, mais de rumores, alimentaram o descontentamento
das massas em relação ao império e à burguesia, motivando-as à revolta.
Apostila de História da Comunicação 14
Luís Henrique Marques

Após as revoluções na França e nos EUA, observa-se, nestes dois países,


uma postura política diferenciada dos jornais. No caso da França, com a ascensão
de Napoleão ao poder, este retoma o controle sobre a imprensa. Já, nos EUA, a
imprensa – há tempos acostumada a assumir uma postura de contestação política
–, apesar de algumas tentativas de controle pelo governo norte-americano, passa
a servir os diferentes partidos que, agora, lutam pela hegemonia política na nação
recém-formada. O partidarismo dos jornais norte-americanos levou os jornalistas
até mesmo a se atacarem mutuamente. Esse quadro é compreensível, face ao
fato de que o governo republicano – de princípios democratas – possibilita a
expressão de muitas “vozes”. Os jornais, ao menos de uma certa forma, passam a
ser, diante do governo, representantes das muitas vozes da população.

Desenvolvimento dos jornais e circulação de massa

A história identifica que a economia do jornalismo faz ora a opção dos jornais
por atingir leitores mais abastados (porque atraem mais anunciantes), ora por
atingir leitores mais pobres (porque isso aumenta a circulação). Nos EUA,
amenizadas as disputas partidárias no período pós-revolução, os jornais voltam-se
aos negócios e, em função disso, aos leitores.
Benjamin Day funda, em 1833, o jornal Sun cujo lema se tornou “brilha para
todos”. De caráter bastante popular (seja pelo preço seja pelo conteúdo), em
pouco tempo, atinge um amplo público. Jornais como este formaram o que ficou
conhecido como “imprensa pobre”. Sobre esse tipo de imprensa, De Fleur (1993)
afirma: “um dos mais importantes aspectos do jornal de tostão de (Benjamin) Day,
e dos que se seguiram, foi a redefinição de ‘notícia’ para se adaptar aos gostos,
interesses e capacidades de leitura do nível menos instruído da sociedade”.
O surgimento da imprensa a vapor no lugar do velho modelo inventado por
Gutenberg acelera e amplia a produção de jornais – inclusive diários – em
milhares de exemplares. Isso contribui para que os editores, aos poucos e sempre
mais, se desvinculem da interferência financeira dos políticos. Ao mesmo tempo,
esses jornais contribuem para que as camadas mais pobres da população
participem mais do processo político do país.
Na Inglaterra, contudo, o processo é bem diferente. O governo mantém o
controle sobre a imprensa, inclusive com a manutenção do antigo imposto sobre
as publicações (o imposto do Selo). Muitos jornais existem clandestinamente para
não pagar o imposto. Essa imprensa marginal estimula a população a participar
dos assuntos do governo, até que esse imposto é abolido em 1855
Nos EUA, a imprensa passa a ter uma circulação massiva, sendo o lucro
obtido dos anúncios e não mais da circulação. Nesse período, destaque para a
ação de Joseph Pulitzer cujo primeiro jornal – o New York Wolrd – passa de 20 mil
exemplares em 1883 para uma tiragem de 190 mil durante a semana e 250 mil
aos domingos, em 1887. Ele mistura sensacionalismo, política progressiva e
campanhas para chamar a atenção sobre si, constituindo o que ficou conhecido
como “novo jornalismo”. A disputa de Pulitzer com seu ex-empregado William
Randolph Hearst deu origem ao que ficou conhecido como “jornalismo amarelo”,
Apostila de História da Comunicação 15
Luís Henrique Marques

quando as tiragens dos seus jornais ultrapassaram a marca de um milhão de


exemplares. 5
Em Londres, na Inglaterra, por iniciativa do próprio Pulitzer em parceria com
Alfred Harmsworth, é fundado o Daily Mirror cujo formato – tablóide – ganha força
a uma nova onda de jornalismo popular. Nos EUA, surge então o Daily News. (O
termo tablóide surgiu inspirada num produto farmacêutico da década de 1880 sob
forma de comprimido e de fácil digestão).
Do incentivo à revolução no século 18 com seu discurso progressista contra os
monopólios imperialistas, os jornais passaram eles mesmos a constituírem um
novo monopólio, o “do saber”, uma vez que este passou a estar sob o controle do
capital.

“Primeiros gêneros da cultura de massa6

Bem cedo, as grandes agências de imprensa tornaram-se, com efeito,


utilizadoras assíduas das redes de comunicação à distância, demasiado satisfeitas
por á não dependerem dos pombos correios para o transporte de seus telegramas
A agência francesa Havas é fundada em 1835; a alemã Wolff, em 1849, e a
britânica Reuter, em 1851. A agência americana, Associated Press (AP), inicia sua
história em 1848. No entanto, somente as três européias começam sua atividade
como agências internacionais. Apenas na virada do século é que a americana vai
empreender essa via. Por um acordo explícito assinado em 1870, o cartel Havas,
Reuter e Wolff partilha entre si o mercado mundial. O território da agência
parisiense é mais especialmente a Europa Meridional; o da Wolff, a Europa
Central e Setentrional. Quanto à britânica, vai se modelar segundo as linhas de
força do império. Desde o início, um de seus alvo privilegiados será a informação
comercial e financeira. A originalidade de Havas é o fato de combinar informação
com publicidade. Por essa acumulação, será a precursora dos grupos multimídia
do século XX. Outra originalidade é a história complexa de suas imbricações com
o Estado. Na seqüência da Primeira Guerra Mundial, Wolff deixa de ser uma
agência mundial. E, por isso mesmo, as agências Havas e Reuter acabam sendo

5
A concorrência entre os diários do chamado “jornalismo amarelo” norte-americano
assumiu proporções alarmantes. Tudo se justificava para vencer a concorrência. Tantos
foram os excessos, que a sociedade daquele país, representada por grupos e instituições
organizadas (igrejas, partidos políticos, empresários etc) e pelas próprias organizações de
editores e publicadores, reagiu agressivamente a essa prática jornalística e conseguiu
fazer com que os jornais passassem a observar normas que melhor regulassem o
trabalho da imprensa. A expressão “jornalismo amarelo” tem origem num primitivo
personagem – o “Garoto Amarelo” – que foi um dos recursos (no caso, o uso de desenhos
coloridos) que os jornais desse período utilizaram como artifício para vencer a
concorrência, chamando a atenção do público.

6
Trecho extraído da obra “Comunicação Mundo: história das idéias e das
estratégias”, de Armand Mattelart, Editora Vozes, 1994, página 27.
Apostila de História da Comunicação 16
Luís Henrique Marques

reforçadas até os anos 30, época em que as agências americanas AP e United


Press (UP) hão de começar a caçar notícias no mesmo terreno.
A rápida progressão das redes das grandes agências é paralela ao advento
de uma imprensa liberada dos constrangimentos a censura. De 1853 a 1861, a
Grã-Bretanha suprime os ‘impostos sobre o saber’ que entravavam o
desenvolvimento de uma imprensa de massa. Os Estados Unidos já se
encontravam na dianteira pois, bem antes de 1850, tinha surgido uma imprensa
cotidiana, a preços módicos, lida pelo povo.
Na França, em 1881, a legislação marca uma etapa. A imprensa e a
atividade editorial são livres. O depósito prévio é suprimido, assim como a caução
e a taxa. Os únicos delitos da imprensa são a provocação ao crime, a incitação de
militares à desobediência, os ultrajes ao presidente da República, os gritos
sediciosos, os ultrajes aos bons costumes, as difamações e injúrias pessoais, a
ofensa contra chefes de Estado e agentes diplomáticos estrangeiros. Divulgação,
venda e afixação são autorizadas. O diretor é responsável pela publicação; seu
nome deve figurar no jornal. Tal era, em substância, o conteúdo da lei francesa de
29 de julho de 1881, saudada como a grande lei sobre a liberdade de imprensa e
considerada como a vitória da burguesia republicana.
Em 1890, ‘Le Petit Parisien’ gaba-se por ser o primeiro cotidiano popular
europeu a ultrapassar a tiragem de um milhão de exemplares. O ‘New York
Journal’ do americano William Randolph Hearst, emblema da imprensa
sensacionalista, não chega a atingir essa cifra, a despeito de seus suplementos
dominicais e seus ‘comics’. De um e outro lado do Atlântico, a concorrência
estimula a procura dos primeiros gêneros da cultura de massa. Na França, onde
‘Le Petit Journal’ e ‘Le Petit Parisien’ travam uma guerra encarniçada entre si, o
folhetim se converte em um dos trunfos do jornalismo popular. Introduzido a partir
de 1836, esse gênero atingirá seu apogeu no meio da década de 1880, quando
esse jornais vão publicar dois ou três folhetins ao mesmo tempo com a ajuda
importante de campanhas promocionais.
Nos Estados Unidos, a luta entre os suplementos dominicais do jornal de
Hearst e do ‘New York World’ de Joseph Pulitzer vê surgir, em 1894, os primeiros
‘comics’. Em menos de quinze anos, a primeira estratégia de penetração do
mercado internacional terá atingido o ponto de bala a partir desse tipo de produto
editorial. Em 1909, Hearst cria o primeiro ‘syndicate’, International News Service: a
função dessa agência é vender aos jornais material literário, artigos de divulgação
científica, palavras cruzadas e histórias em quadrinhos. Vai suceder-lhe, em 1915,
o King Feature Syndicate: entre seus produtos de base estão os ‘comics’.
Conseqüência da reestruturação desse gênero em torno do ‘syndicate’: o fim do
estágio artesanal em benefício da divisão do trabalho e da produção (a agência
arroga-se o direito de ‘autor’; pode retocar, suprimir e modificar, encontrar um
sucessor por ocasião do desaparecimento do desenhador; tem, portanto, uma
política editorial); uma ‘padronização do material que proporciona uma certa
homogeneidade me face do mercado internacional e elimina os aspectos críticos
ou agressivos que poderiam afastar os clientes de países com costumes, religião
ou princípios políticos diferentes’
No entanto, é no domínio da indústria cinematográfica que se prepara o
primeiro processo importante de internacionalização da cultura de massa
Apostila de História da Comunicação 17
Luís Henrique Marques

nascente. As primeiras projeções cinematográficas realizaram-se em Paris e


Berlim, em 1895; no ano seguinte, em Londres, Bruxelas e Nova Iorque. Os
irmãos Lumiére disputam com Edison a primazia da invenção dessa técnica.(...)”

A Reportagem e o método jornalístico


Os primeiros jornalistas norte-americanos (do início do século 19) eram, ao
mesmo tempo, editores, publicadores e impressores. Presos às oficinas
tipográficas, estes esperavam das agências de correios as notícias que iriam
preencher as páginas de seus jornais.
Essas notícias podiam ser provenientes de outros jornais (sobretudo,
europeus), inclusive. Na falta dessas notícias, inseriam ensaios (artigos) escritos
às pressas. Um facilitador da coleta de informações é o telégrafo, que permitiu a
divulgação de notícias diárias.
A prática da reportagem começa a surgir, aos poucos, com a ação dos
jornalistas que passam a colher algumas notícias locais. Nos EUA, eles começam
a ser identificados, mais ou menos, a partir de 1870. Seu método de coleta de
informações parece se inspirar no próprio método científico em crescimento
naquele período. Também a Guerra Civil naquele país faz gerar um
amadurecimento na função do jornal que passa a ocupar-se mais em colher, editar
e relatar as notícias (superando e muito a antiga concepção de jornal segundo a
qual este deve ser um órgão de opinião partidária).
A coleta de notícias se intensifica a partir do momento em que os editores
mandam seus “repórteres” até os paquetes, ferrovias, portos e navios em busca
de informações mais atualizadas. Essa busca pelas notícias gera a competição
entre os editores que pretendem ser “mais oportunos” que seus concorrentes.
Com o crescimento das cidades norte-americanas e européias, começa a se
evidenciar a atuação dos repórteres locais, cujo trabalho de observação se torna
útil aos jornais e sobretudo aos leitores que não têm mais tanto acesso a notícias
da sua própria cidade. No início, contudo, esses “repórteres” não eram
profissionais e tinham essa atividade como um “bico”.
Em seguida, surgem os “repórteres parlamentares” (na Inglaterra) que cobriam
as sessões do Parlamento, registrando os debates ali realizados. Inicialmente,
foram proibidos de tomarem nota (o que acabava gerando muitas distorções) e
depois lhes foi permitido anotarem (passaram a usar a estenografia e a
taquigrafia). Experiência semelhante passou a ser feita junto aos tribunais de
justiça e “de polícia”. Mas foram as coberturas de assassinatos e guerras que mais
contribuíram para o aprimoramento do método jornalístico.

Investigação

As notas dos primeiros repórteres, em geral, não incluíam citações ou


declarações (exceto se de pronunciamentos públicos), porque raramente as
pessoas eram entrevistadas. Ao mesmo tempo, mantinham o velho problema do
partidarismo, o que favoreceu, inclusive, alterações no comportamento das fontes
mais visadas pelos jornalistas (autoridades civis, policiais, religiosas, empresários
Apostila de História da Comunicação 18
Luís Henrique Marques

e outros) que passaram a se organizar na forma de atender a imprensa, cuidando


especialmente de sua “aparência”.
Algumas dessas fontes passaram a adotar mediadores na sua relação com a
imprensa, os relações públicas. Por outro lado, a agressividade de alguns
jornalistas, contribuiu para inibições e desconfianças por parte das fontes.

A veneração do fato

Na segunda metade do século 19, a exatidão torna-se palavra de ordem para o


jornalismo norte-americano. Os editores passaram a preocupar-se em separar a
informação do fato do ponto de vista sobre o fato. Os fatos passam a valer por si
mesmos. Surge, então, a regra da “pirâmide invertida” (organiza a matéria em
função dos fatos e não das idéias ou cronologias; os fatos mais importantes
merecem destaque). Essa regra, contudo, só foi adotada após algumas décadas
desde seu surgimento.
Os acontecimentos passam a ser vistos a partir de “instantes discerníveis e
dramáticos, desempenhados por personagens coerentes e reconhecíveis” – o que
tem grande aceitação pelos leitores. Esse posicionamento modifica os padrões
éticos do jornalismo que passam a proclamar a importância da imparcialidade.
Nesse período, surgem as grandes agências de notícias (especialistas em
divulgação dos fatos em detrimento da opinião). O primeiro “esboço” de agência
de notícias existiu durante o século 19, função desempenhada, de certo modo,
pela agência britânica dos correios (que recebia uma taxa em troca do
fornecimento de sumários em inglês de artigos publicados em jornais
estrangeiros). A primeira agência privada de notícias surgiu na França em 1832,
estabelecida por Charles Havas. Este, inicialmente, usou de pombos-correio e do
telégrafo para divulgar suas notícias. Com isso, se consolida o conceito de notícia
como “mercadoria” (reveja texto de Mattelart na página 13).
Aliada a imparcialidade, a objetividade passa a ser outra bandeira levantada
pelos jornalistas norte-americanos (os europeus só irão adotar esta postura bem
mais tarde). Para tanto, passaram a seguir as seguintes regras:
a) verificar que suas preferências pessoais não transpareçam abertamente em
suas notícias (apesar disso não ser possível inteiramente e existir o conflito
com a chefia e classe patronal);
b) evitar a utilização de terminologias evidentemente carregadas de valores;
c) usar do equilíbrio na apresentação das versões.

Diferenciação de funções no jornalismo e profissionalização

Em seguida, surge a distinção entre os repórteres (noticiaristas) e os redatores


de editoriais (articulistas ou editorialistas). Os primeiros noticiavam posições sobre
os fatos e os demais, as defendiam ou não.
Os anunciantes, por sua vez, passaram a preferir jornais cujos
posicionamentos editoriais configuravam uma aparente neutralidade.
No final do século 19, os jornalistas passam a se considerar profissionais
(conquistaram espaços nas universidades e fundaram suas próprias organizações
de categoria).
Apostila de História da Comunicação 19
Luís Henrique Marques

No Brasil
Reportagem gráfica (caricatura, charges etc)

“A Campainha e o Cujo” foi a primeira caricatura publicada no Brasil. Esse


material – uma crítica a um anúncio do jornal Correio Oficial para a contratação de
um redator por três contos e 600 réis – foi publicado no Jornal do Commercio, do
Rio de Janeiro, no dia 14 de dezembro de 1837, de autoria de Manuel de Araújo
Porto Alegre. Historiadores registram, entretanto, experiências anteriores, ainda
que incipientes. Porém, segundo Bahia (ibid), Rafael Bordalo Pinheiro, natural de
Portugal, é considerado o primeiro caricaturista do Brasil, com trabalhos regulares
nos jornais do Rio de Janeiro.
Ainda no período imperial, vários artistas passam a ilustrar os jornais da
época e se destacam ao promover um significativo desenvolvimento nesse tipo de
arte gráfica. É o caso de Ângelo Agostini que, de 1876 a 1898, edita sua Revista
Ilustrada. Nesse período, “na ausência da fotografia”, escreve Juarez Bahia
(1990), “a ilustração registra o mais fielmente possível as mudanças que ocorrem
na sociedade imperial e republicana”. E completa: “Mas também acrescenta a
essa visão a sátira, a ironia, a informalidade e o deboche”, que mais tarde, irá
definir o papel da caricatura, da charge e de outros recursos gráficos utilizados, no
jornalismo, por ilustradores.
A partir do início do século 20, a caricatura passa a se consolidar, uma vez
que a ilustração populariza a informação e recebe o nome de reportagem gráfica.
Essa mudança tem relação com os avanços da impressão. “Em 1985, o clichê” –
escreve Bahia (ibid), “que resulta do processo de zincografia, permite a
reprodução de desenhos documentais, como se fora fotografia”.
Com o surgimento dos primeiros fotógrafos profissionais e sua contratação
em jornais cariocas e paulistas, entre 1898 e 1900, tem início o desenvolvimento
da reportagem fotográfica, o que obriga a informação gráfica à especialização na
charge, cartum, história em quadrinhos e caricatura. A expansão da reportagem
gráfica ganha força nesse período, também em função da ampla ilustração de
novos produtos editoriais que acompanham o jornal (sobretudo aos domingos),
entre os quais estão os suplementos.
O avanço dos meios eletrônicos impõe ao jornalismo impresso alternativas
limitadas. Nesse contexto, a ilustração se consolida, de uma vez, como parte da
opinião, de evidente posicionamento político e ideológico. Nesse sentido, entre as
revistas brasileiras que se especializaram na ilustração humorística e de crítica,
vale destacar O Malho, Fon-Fon, A Manha e O Tico-Tico. Essas revistas não
assumem, contudo, o sucesso nas proporções das similares norte-americana,
inglesa e francesa.

A Revolução de 1930 e a modernização do jornalismo


“A revolução (de 1930) não assegura, desde logo, como era do seu
objetivo, a democracia formal de inspiração liberal, basicamente porque não se
liberta totalmente dos grupos oligárquicos e das contradições ideológicas, mas
muda o país e moderna as instituições”. A afirmação é do jornalista e escritor
Apostila de História da Comunicação 20
Luís Henrique Marques

Juarez Bahia (1990). Para ele, essa modernização chega também aos jornais e,
em seguida, ao rádio, revistas, livros e propaganda – que vão constituir o aparato
a nascente indústria cultural brasileira – os quais são atingidos por significativas
transformações.
Essa modernização começa pelo posicionamento de parte da imprensa em
relação aos fatos que abalam as antigas estruturas do País nos anos 30 (como é o
caso da Revolução Constitucionalista de 32): esta se alinha com as reivindicações
que pedem a modernização do Estado brasileiro, tais como o voto livre, secreto e
universal, o acesso de todas as camadas sociais aos benefícios do
desenvolvimento, o fim do colonialismo etc. Cada vez mais independente do poder
político, a imprensa brasileira se coloca na condição de “voz do povo” e pressiona
o governo a mudanças, como foi a promulgação da Constituição de 1934 por
Getúlio Vargas.
A modernização da imprensa brasileira é verificável também na inovação
dos conteúdos e aprimoramento dos seus recursos técnicos (exemplo: a
introdução do sistema ofsete); pela utilização de uma ortografia simplificada; pelo
uso do material enviada por agências (Associated Press e Reuters) na cobertura
internacional. Esse desenvolvimento da imprensa – e especificamente dos jornais
– contribui para o desenvolvimento dos outros veículos de comunicação que, por
sua vez, pressionam os jornais a constantes inovações.

A revista O Cruzeiro
A evolução do jornalismo impresso brasileiro no final da década de 1920
possui um marco: a revista O Cruzeiro (que, nos dois primeiros anos, foi
conhecida simplesmente como Cruzeiro, nome inspirado na constelação do
Cruzeiro do Sul). Sua proposta editorial é revolucionária, tanto em termos de
conteúdo quanto de impressão e veiculação da notícia, desbancando
consideravelmente as concorrentes mais diretas da época, Revista da Semana e
Mundo Ilustrado. Seu fundador e proprietário: Assis Chateabriand.
Segundo Juarez Bahia (1990), “as matérias do primeiro número de O
Cruzeiro refletem o que o país aspira”. De fato, a revista abandona as
característica de um jornalismo colonial para estampar a imagem de um país
voltado para o futuro, em pleno progresso. Com o passar do tempo e sua
consolidação como um dos principais veículos de comunicação impressa do Brasil
no período de 1920 a 1970, aproximadamente, O Cruzeiro “alia à sua agilidade,
dinâmica e objetividade, uma visão realista do país”. (Bahia, ibid) O sucesso é
tanto que a revista chega a publicar, de abril de 1957 a setembro de 1965, sua
edição em espanhol, para a América Latina.
Como dito acima, o produto de Chateabriand – editada no Rio de Janeiro e
acessível a leitores dos principais Estados brasileiros numa tiragem de 50 mil
exemplares, inédita em sua categoria – muda a concepção de revista semanal
ilustrada do país em sua época, seja pelo talento e criatividade de sua redação,
seja pelo seu modo de produção industrial, o qual concilia organização e meios
técnicos com sensibilidade e improvisação. Entre as “estrelas” de O Cruzeiro
estão os artistas Portinari, Di Cavalcanti, Guignard; os caricaturistas e humoristas
Apostila de História da Comunicação 21
Luís Henrique Marques

Péricles (autor de “Amigo da Onça”), Ziraldo, Carlos Estevão e Vão Gogo (Millôr
Fernandes), entre outros.
Enquanto marco no trabalho de reportagem, O Cruzeiro revolucionou o
jornalismo impresso brasileiro:
a) ao valorizar a fotografia, que assume função prioritária e se especializa,
diferenciando-se do simples “retrato”. Há inovação com o uso da
fotografia em primeiro plano (utilizado para fixar o rosto da pessoa
fotografada);
b) com o acabamento das reportagens produzido pelos ilustradores;
c) ao publicar em espaços nobres matérias sobre temas até então pouco
explorados como a mulher, a moda, a música, o teatro, a vida social;
d) ao se autopromover, por exemplo, com o patrocínio de concursos de
arquitetura e fotografia;
e) ao inaugurar a grande reportagem;
f) ao criar a primeira dupla de reportagem (formada pelo repórter e
fotojornalista), responsável pela cobertura de grandes eventos.

Após décadas de incontestável sucesso e registro de alguns dos fatos mais


importantes daquele período (como a chegada apoteótica de Santos Dumont ao
Rio de Janeiro e, mais tarde, o desembarque do homem na lua) e, precisamente,
a partir da morte de Assis Chateaubriand (em 1973) , O Cruzeiro mergulha em
uma grave crise financeira, que atinge, inclusive, toda a cadeia de Diários e
Emissoras Associados, o maior império jornalístico do continente.
Em 1979, a revista é assumida pelo jornalista Alexandre von Baumgarten,
informante do então Serviço Nacional de Informações (SNI) sob “as bençãos” do
governo militar de João Figueiredo. Apesar da evidente decadência do veículo
(agora, mensal e com um número bastante inferior de páginas), Baumgarten é
beneficiado ilegalmente por subsídios do governo. Ele não permanece vivo (é
assassinado em outubro de 1992, com suspeita de envolvimento do próprio
governo federal), no entanto, até a publicação da última edição de O Cruzeiro (que
levou o selo de “edição histórica”) cuja data foi o dia 15 de novembro de 1982.

A organização da categoria dos jornalistas


“Dois anos após a instalação do governo provisório de 1930, o presidente
(Getúlio Vargas) assina decreto determinando a expedição da carteira de jornalista
aos empregados. Um diploma legal de 1933 reitera garantias ao exercício
profissional e estende aos sindicatos o direito de fiscalização como entidades
colaboradoras do Departamento Nacional de Trabalho”. (Bahia, 1990)
Em 1934, é criada a Ordem dos Jornalistas Brasileiros nos mesmos moldes
da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Mas esta tem vida curta. Em pouco
tempo, a medida se mostrará em contradição aos interesses do Estado. Ainda
sim, prosseguem as iniciativas de formalização da categoria dos jornalistas. Já na
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aparecem normas específicas sobre
direitos e deveres do jornalista. Em 1962, o Decreto 1.177 estabelece o
regulamento sobre o Registro do Jornalista Profissional.
Apostila de História da Comunicação 22
Luís Henrique Marques

Mas é a partir do Decreto-Lei 972, de 17/10/1969, que é definida


juridicamente a profissão de jornalista tal a conhecemos hoje. O decreto passa a
prever a obrigatoriedade do diploma universitário para o exercício da profissão, o
que, mais tarde, é confirmado pela Constituição de 1988.
Os primeiros cursos superiores de jornalismo nascem, no Brasil, na metade
do século 20. O primeiro deles foi o da atual Faculdade Cásper Líbero, de S.
Paulo. Mas só nos anos 80 é que os grandes jornais do Rio e de S. Paulo passam
a oferecer estágio (depois de uma seleção) aos universitários, o que veio a romper
um longo preconceito. O estágio, entretanto, será proibido a partir de 1978.
No início, o estudo de jornalismo passou a oscilar equivocadamente entre a
aprendizagem das técnicas da tipografia oferecida pelos profissionais e suas
representações de classe junto às universidades e uma formação excessivamente
acadêmica, submetida à visão das faculdades de filosofia e letras. Com a
especialização da função do jornalista e a partir de reestruturações dos cursos em
1950, há uma ampliação do ensino das disciplinas de comunicação. Entre as
instituições que estão a frente dessa reestruturação, a Universidade Federal de
Brasília (UnB) e a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de S. Paulo
(ECA/USP).
Entretanto, a distância entre as universidades e o mercado de trabalho
permanecem, não obstante os esforços de ambos os lados de realizarem uma
aproximação efetiva através de seminários, cursos e programas de treinamento
para recém-formados. Mais recentemente, o Sindicato dos Jornalistas
Profissionais do Estado de S. Paulo, com as “bênçãos” da FENAJ (Federação
Nacional dos Jornalistas) iniciou a realização de experiências de estágio-piloto,
através do trabalho conjunto dos próprios sindicatos, universidades e empresas,
tendo em vista retomar a possibilidade dos universitários estagiarem em
empresas, obedecendo regras bem definidas, para que não se configure utilização
de mão-de-obra barata nem falta de vagas para profissionais já formados.
Apostila de História da Comunicação 23
Luís Henrique Marques

7. A COMUNICAÇÃO7 NA ERA CONTEMPORÂNEA


Quadro de descobertas na área da comunicação social: de 1844 a 1986

Ano Acontecimento
1844 Primeira transmissão por telegrama entre as cidades de Washington e
Baltimore (EUA)
1851 Funcionamento do telefone, idealizado por Alexander G. Bell
1860 o americano Bullock constrói a primeira imprensa rotativa
1884 o alemão Mergenthaler inventa a linotipia
1895 Os irmãos Lumière, em Paris, fazem a primeira projeção de cinema
1901 é feita a primeira transmissão de telegrafia sem fim entre dois
continentes – Poldhu, na Inglaterra, e Sain-Thomas, na Terra Nova
1920 Aparece a primeira válvula termoiônica a serviço do rádio
1922 Aparecem na Inglaterra as primeiras imagens de televisão
1936 Programas regulares de TV. Em 1939, acontecem nos EUA as primeiras
transmissões de TV comerciais
1938 Orson Welles realiza a primeira transmissão radiofônica de terror,
simulando a invasão de marcianos na Terra e semeando pânico em
Nova Iorque
1960 Início da telemática como meio de transmissão de informações à
distância
1962 a transmissão de imagens entre Estados Unidos e Europa através do
primeiro satélite artificial “Telstar”
1986 Biarrits (França) torna-se a primeira cidade do mundo com videotelefone
para todos os seus habitantes
Fonte: CASADO, Alfredo. Os meios de comunicação social e sua influência sobre
o indivíduo e a sociedade. Tradução: Attílio Cancian. São Paulo: Cidade
Nova, 1987, 93p. (Cadernos Humanidade Nova)
(No textos a seguir, notas sobre uma retrospetiva histórico-crítica a partir do
surgimento dos meios audiviosuais)

O advento dos meios audiovisuais:


O surgimento da tecnologia do cinema aconteceu a partir da resolução de 3
problemas técnico-científicos:

1. Princípios da projeção de sombras (a projeção e a câmara escura):


Para a criação de um projetor iluminado (capaz de fazer passar a luz através
de uma transparência para lançar uma imagem numa tela refletora em um
aposento escurecido), foi necessária a compreensão de princípios da ótica, o que
culminou com a utilização de lentes e espelhos (inclusive, espelhos côncavos para

7
Optamos aqui pela “Comunicação na Era Contemporânea” e não “Imprensa na Era
Contemporânea” por julgar que a primeira é mais ampla e, por isso, mais coerente com o
conteúdo que é estudo nesse capítulo.
Apostila de História da Comunicação 24
Luís Henrique Marques

a focalização de uma fonte artificial, de modo a passar luz através da lente na


intensidade adequada).
Essa criação foi possível graças ao trabalho do jesuíta alemão Athanasius
Kircher. Importante também foi a descoberta da chamada câmara escura cuja
idéia básica é olhar por um buraquinho para um compartimento dentro do qual, na
parede oposta, há uma imagem fraca e invertida de uma cena externa8. A esse
respeito, escreveu De Fleur (1993):

“Kircher prosseguiu refinando sua aparelhagem. Ele, também, tinha uma


queda para o espetacular, e arranjou formas pelas quais podiam ser contadas
estórias, ilustradas com imagens projetadas de transparência. Diversos
inventores posteriores acrescentaram requintes à ‘lanterna mágica’ e outros
ainda exploram sua utilização como meio de divertimento. Assim, por volta de
1645, ficou pronta a solução para o primeiro problema técnico básico do filme
de cinema”.

2. Como o ser humano percebia a ilusão do movimento contínuo


O provável precursor da solução deste problema foi um aparelho chamado
taumatrópio (as crianças inglesas e francesas brincavam com ele no começo do
século 19). Esse brinquedo sugeria a idéia de movimento pela acelerada
apresentação seguida de figuras ligeiramente modificadas. “O brinquedo em si
mesmo não tem particular significação, exceto pelo fato de depender do fenômeno
do retardo visual e sugerir que uma ilusão em movimento possa ser gerada pela
rápida apresentação seguida de figuras ligeiramente modificadas”. (De Fleur, ibid)
Foi o cientista belga Joseph Plateau que, através de sua tese de doutorado,
delineou os problemas de visão que tinham que ser levados em conta ao se
produzir a ilusão do movimento no observador humano. Por essa razão, Plateau é
considerado o pai do filme de cinema.

3. A tecnologia da fotografia e de como tirar fotos em seqüência rápida de objetos


particularmente em movimento
O surgimento da fotografia está ligado aos princípios da câmara escura. Para a
projeção das imagens, ao invés da tela refletora, foi utilizado um papel capaz de
capturar a imagem revertida em função deste estar revestido por uma película de
um produto químico sensível à luz.
Louis Daguerre (França), William Talbot e John Herschel (Inglaterra)
produziram a fotografia, entre janeiro e março de 1839, utilizando-se do mesmos
princípios gerais, mas de técnicas mecânicas diferentes. Daguerre foi capaz de
produzir uma imagem nítida, com pormenores, sobre uma chapa polida de cobre
recoberta com prata metálica e exposta a vapores de iodo (para formar iodeto de
prata). Talbot e Herschel produziram o negativo do qual era necessário fazer o
positivo. Entretanto, o produto inglês era bem inferior em qualidade de imagem

8
“Quando suficientemente reduzida em tamanho, dotada de uma lente e de uma
superfície refletora removível, coberta com uma película de um produto químico sensível
à luz, ela (a câmara escura) virou a câmara com que hoje capturamos as imagens
invertidas de cenas refletidas lá dentro.
Apostila de História da Comunicação 25
Luís Henrique Marques

que o de Daguerre (cujo nome foi adotado a nova descoberta: daguerreótipo).


Este último foi um sucesso!

A expansão da fotografia

Nos EUA, em função da depressão econômica da década de 1840, a utilização


do daguerreótipo tornou-se uma importante alternativa econômica, sobretudo para
os jovens que não poderiam passar pela universidade. O uso de retratos também
veio a calhar na sociedade americana cuja população está inquieta e dividida pela
Guerra Civil (retratos era uma forma de reduzir a dor da separação daqueles que
partiam para os campos de batalha). Além disso, o retrato representava posição
de prestígio social.
A utilização da chapa seca indicou o aperfeiçoamento da fotografia que veio a
substituir as chapas de vidro umedecidas por uma película de colódio sobre as
quais eram suspensos produtos químicos sensíveis à luz. Foi o surgimento do
filme flexível (entre 1880 e 1890) e da lâmpada elétrica que viabilizou, afinal, a
criação do cinema.

O surgimento do cinema e sua transformação em veículo de massa

No início da última década do século 19, Thomas Alva Edison, além da


lâmpada (descoberta diretamente relacionada aos avanços obtidos com o estudo
da eletricidade naquele período), é responsável pela criação da câmara de cinema
e de um projetor de filmes animados9. Outros inventores, de outras partes do
mundo, também contribuíram para isso. Do cinetoscópio, de Edison (1894),
surgiram uma série de aperfeiçoamentos cujo retorno financeiro – em função da
evidente atração exercida junto ao público – se tornou logo realidade.
Desde o início, os filmes de cinema estiveram voltados para um conteúdo de
baixo gosto cultural e nível intelectual. Para os primeiros espectadores, eram
exibidas comédias ingênuas e com muita pancadaria. No início, na realidade, o
conteúdo era o que menos importava, mas sim a novidade do “movimento”. Houve
tentativas no sentido de exibir assuntos mais sérios, mas não foram bem
recebidas pelo público. Desde cedo, a “indústria” do cinema estabeleceu um
relacionamento sistemático com o público: selecionava-se o filme segundo sua
audiência.
A expansão dos cinemas “poeira” (pobres, improvisados, onde eram exibidos
filmes que excitavam o público), durante a primeira década do século 20,

9
Esta informação divide os historiadores, sobretudo norte-americanos e europeus. Para
os últimos – e mais especificamente, para os franceses – foram os irmãos Lumière os
primeiros a utilização um equipamento de projeção de cenas em uma tela, conforme
assinala Mattelart (1994) (Eles exibiram A saída dos operários das usinas Lumière e A
chegada do trem à estação, ambos mudos, com cerca de 1 a 2 minutos de duração, em
preto e branco e com cenas captadas através de uma câmara fixa). De Fleur (ibid) lembra
que no final do século 19, dezenas de inventores norte-americanos e europeus
reclamavam para si o direito pelas patentes de muitos produtos, entre os quais, câmaras
ou projetores de filmes animados.
Apostila de História da Comunicação 26
Luís Henrique Marques

anunciava a consolidação do cinema como veículo de massa, sobretudo nos EUA


e, em particular, por atrair a massa de imigrantes que ali chegaram naquele
período.10
Com o passar do tempo, a novidade do movimento perdera graça. O público (a
família, especialmente) exigia filmes mais longos, com conteúdo mais
interessante. Isso dá margem para o surgimento dos astros de cinema. Com o
advento da Primeira Grande Guerra, a indústria cinematográfica norte-americana
cresce (enquanto que a européia é obrigada a cessar sua produção) e ganha o
mercado internacional (que não diminuíra o interesse pelo produto, mesmo com o
conflito). (confira textos a seguir)
A Guerra também exerce influência política sobre o cinema americano que é
mobilizado pelo governo federal daquele país como parte de um esforço global
para “vender a guerra ao público norte-americano”.
A partir do final da década de 1920, a trilha sonora chega ao filme. A essa
altura, o cinema norte-americano já estava consolidado como fonte de recursos
para economia, entretenimento para as famílias e inovação cultural.
Muitos fatores parecem contribuir para o declínio do cinema enquanto veículo
de massa nos EUA (o que é observável, em parte, em outras regiões do mundo).
Entre estes, um dos principais é o surgimento e expansão da TV (a partir de 1960)
e, em seguida, do vídeo cassete. Existem outros:
- depressão econômica,
- mudança da população para os subúrbios,
- peso crescente nos custos de mão-de-obra dos filmes (e conseqüente
elevação do preço dos ingressos/diminuição do número de freqüentadores).

O cinema arte da Europa11

O cinema europeu, a partir da década de 10, aproxima-se dos grandes


movimentos artístico-literários. Na França, os filmes tentam romper com a
narrativa do cinema clássico. O uso de recursos que expressam sentimentos e
idéias dentro de um contexto poético caracteriza o impressionismo francês. Além
disso, os filmes ficaram marcados pelo uso de artifícios técnicos como o
enquadramento e o ritmo.
Na Alemanha, a maior forma de arte utilizada pelo cinema foi o
expressionismo. Os conflitos internos e externos vividos pelos personagens eram
representados de uma maneira quase que deformadora da realidade. O gabinete
do Dr. Caligari, de Robert Weine, é o marco do cinema alemão.

10
Foi um francês o primeiro a produzir um filme de ficção. Viagem à Lua, de Georges
Mélies, produzido em 1902, introduziu no cinema a utilização de efeitos especiais,
cenários, figurinos e, mais tarde, os filmes coloridos. Porém, cabe ao norte-americano
David Griffith o título de criador da linguagem cinematográfica, por conta da introdução do
corte e da montagem além do desenvolvimento da câmera.
11
Extraído de “Sétima arte”, trabalho produzido pelos alunos Fábio Marinari, Juliana
Diogo, Kátia Carrero e Laura Mendonça Tosta, do curso de Jornalismo da USC, disciplina
História da Comunicação.
Apostila de História da Comunicação 27
Luís Henrique Marques

As revoluções e o clima de difusão das idéias pregadas por elas fizeram do


cinema russo uma representação clássica do construtivismo artístico. Serguei
Eisenstein, com o seu O Encouraçado Potenskim homenageia brilhantemente a
Revolução Russa de 1917.
Na Itália, surge o neo-realismo no pós-guerra. Os cineastas assumem
posição crítica frente aos problemas sociais e reagem contra os esquemas de
Hollywood. Os maiores nomes do cinema italiano são Roberto Rossellini, com
Roma e Cidade aberta, e Federico Felini com A doce vida (1960).

A origem de Hollywood

Os estúdios de Hollywood na Califórnia nasceram em 1910, até então suas


sedes ficavam na cidade de Nova Iorque. A explicação mais plausível para essa
mudança é que o clima da cidade seria mais favorável às filmagens e uma vez
que naquela época não existiam as grandes produções de cenários, as paisagens
variadas favoreciam a escolha do local.
Essa mudança para Hollywood gerou muitos empregos, o que tornou a
mão-de-obra mais barata, com exceção dos atores que passaram a ganhar mais
pelo seu trabalho.
Muitos estúdios se instalaram na cidade, entre eles a Universal Pictures, a
New York Picture e a Biograph cujo produtor era David Griffith, criador da
linguagem cinematográfica.

Altos e baixos do cinema norte-americano

Com a Primeira Guerra, a Europa começou a viver uma crise gigantesca.


Produtores, diretores e atores europeus foram para a América em busca de
melhores condições de trabalho. E encontraram. Começa, então, uma fase de
grande desenvolvimento do cinema norte-americano. Atores começam a comprar
mansões em Beverlly Hills onde, até então, só viviam magnatas do petróleo,
promovendo suas badaladas festas (...), com seu estrelismo divulgado pela
imprensa sensacionalista.
A partir daí, censura, declínio e ascensão marcaram o cinema norte-
americano. Uma curiosidade à parte é que o cinema como não se poderia
imaginar, tinha seus momentos de maior ascensão durante as piores crises
enfrentadas pela sociedade. Talvez uma explicação fosse a busca de uma
realidade alternativa, sem tantos problemas, uma espécie de fuga da vida difícil
que as pessoas levavam.
Junto com essa ascensão, surge o Código de 1930 que instituía a
obrigatoriedade à gloria do bem sobre o mal em todos os filmes, levantando a
moral do povo norte-americano e o espírito de patriotismo. (...)
No final da década de 30 e começo da de 40 surgem grandes produções
como E o vento levou, Casablanca e Cidadão Kane, este último do ator e diretor
Orson Welles que inovou a estética do cinema e cujo filme é considerado uma
obra-prima da história do cinema.
Apostila de História da Comunicação 28
Luís Henrique Marques

No Brasil
“Uma pequena história do cinema brasileiro12

Pra quem acha que o cinema no Brasil teve uma origem tardia, está muito
enganado. Em 8 de julho de 1896 (apenas sete meses após a histórica exibição
dos irmãos Lumière) aconteceu a primeira sessão de cinema no Brasil realizada
na cidade do Rio de Janeiro.
Dois anos mais tarde, Afonso Segreto realiza o primeiro filme brasileiro
com cenas da Baía de Guanabara.
A partir de 1915, começaram a ser produzidos filmes inspirados na literatura
brasileira. Iracema, O Mulato e O Guarani são algumas das obras da época.
Na década de 30 é inaugurada a companhia Cinédia no Rio de Janeiro, o
primeiro estúdio cinematográfico do Brasil que produz filmes como Alô, Alô Brasil!;
Alô, Alô Carnaval e Onde estás, felicidade? E lança atores como Oscarito e
Grande Otelo.
A companhia Atlântida é fundada em 1941 e logo surgem os filmes de
chanchada que fazem enorme sucesso no país.
O investimento mais ousado da indústria cinematográfica brasileira foi sem
sombra de dúvida a Companhia Vera Cruz , inaugurada no ano de 1949 em S.
Bernardo do Campo. Amácio Mazzaropi, um dos grandes nomes da Companhia
vive o personagem caipira mais bem sucedido do cinema nacional.
A partir dos anos 50, surgem produções de grande valor para o cinema
brasileiro como Rio Quarenta Graus, de Nélson Pereira dos Santos, e o premiado
no festival de Cannes em 1962, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte.
Na década de 80, o cinema brasileiro começa a acumular prêmios em
festivais internacionais, com destaque para Eles não usam Black-Tie, de Leon
Hirszman, vencedor do Leão de Outro em Veneza. Produções como Memórias do
Cárcere, Pixote e Eu sei que vou te amar ganham prestígio internacional.
Mas é em meados da década de 90 que o cinema nacional alcança maior
destaque lá fora com os indicados ao Oscar: O Quatrilho (1996), O que é isso
companheiro? (1998) e Central do Brasil (1999)”.

12
Extraído de “Sétima arte”, trabalho produzido pelos alunos Fábio Marinari, Juliana
Diogo, Kátia Carrero e Laura Mendonça Tosta, do curso de Jornalismo da USC, disciplina
História da Comunicação, 2º semestre de 2000.
Apostila de História da Comunicação 29
Luís Henrique Marques

“Nasce um novo cinema

Um capítulo a parte no cinema brasileiro, o Cinema Novo, rompe com


qualquer valor estético da época. Surgido no começo da década de 60, o
movimento propôs a realização de filmes de autor, de baixo custo, preocupados
com a realidade social e a cultura brasileira.
Pode-se dizer que o Cinema Novo originou-se de jovens idealistas que se
reuniam em sessões semanais na Cinemateca do Museu de Arte Moderna e
tinham como lema “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”.
Os filmes dessa época se caracterizavam por imagens de pouco
movimento, falas geralmente longas e cenários simples, tudo retratando a
realidade social gerada pelo subdesenvolvimento.
Nomes como Glauber Rocha, de Terra em transe e Deus e o diabo na terra
do sol, e Rui Guerra, de Os Frizis são os principais representantes desse
movimento que pretendia promover uma discussão política sobre a situação do
país.”

O Telégrafo e o Telégrafo sem fio

A invenção do eletromagneto foi fundamental para o surgimento do telégrafo.


De fato, na década de 1830, bastava apenas reunir informações decorrentes desta
invenção e outras existentes naquele período para se chegar ao telégrafo. Isso foi
finalmente viabilizado pelo norte-americano Samuel F. B. Morse.
Apesar das dificuldades iniciais (incluindo grandes perdas financeiras), o
telégrafo elétrico passou a ser utilizado com a instalação de fios destinados a
maioria dos principais centros demográficos dos EUA. Mesmo oferecendo
subsídios, o governo norte-americano não foi capaz de manter para si os direitos
do novo sistema.
No dia 27 de julho de 1866, uma mensagem cruzou o Oceano Atlântico
viajando em cabos que uniu EUA e Inglaterra (a iniciativa foi de Cyrus W. Field).
Dez anos mais tarde, Alexander Graham Bell conseguiria transmitir a voz humana
por meio de fios elétricos (veja quadro a seguir).
A partir de teorias formuladas por James Maxwell (Escócia), Heirinch Hertz
demonstrou a existência de ondas eletromagnéticas capazes de se locomover à
velocidade da luz. O italiano Guilhermo Marconi (início da década de 1890)
inventa o que ficou conhecido como telégrafo sem fio, partindo do pressuposto
que se ondas hertzianas podiam ser geradas e dectadas por um aparelho, estas
poderiam transmitir sinais ao longo de grandes distâncias. O aparelho sem fio de
Marconi, contudo, no início não ganha as massas, mas permanece nas mãos de
poucos (grupos comerciais, militares e do governo).
Apostila de História da Comunicação 30
Luís Henrique Marques

"A era do fio*

Em 1876, (Alexander) Graham Bell registra, nos Estados Unidos, a patente


da invenção do telefone. No ano seguinte, a Bell Telephone Company empreende
a exploração comercial de seu aparelho. Em 1882, estabelece sua primeira filial,
em Antuérpia, na Bélgica. Em 1885, é criada a American Telegraph and
Telephone (ATT) que se tornará a matriz do sistema Bell. Durante cerca de cem
anos, a ATT conseguirá conservar seu quase-monopólio privado sobre as redes
de telecomunicações dos Estados Unidos. Será preciso esperar pela grande vaga
de desregulamentação, no início dos anos 80, para assistir ao seu
desmantelamento.
Em 1881, a rede telefônica americana conta com 123.000 aparelhos. Na
Europa, a Grã-Bretanha escolhe, no começo, confiar no setor privado a extensão
de suas linhas; no entanto, em 1881, Londres tem apenas 1.100 assinantes.
Somente em 1912 é que o Estado toma o controle de todo o sistema. Na França,
o telefone se implanta sob o ‘modelo administrativo’ que já mostrou suas reais
capacidades com o telégrafo. Mas, como do outro lado do Canal da Mancha, a
administração funciona com maior lentidão. Em 1888, Paris conta com 5.800
aparelhos, ou seja, 70% do total das dez primeiras cidades francesas. As
primeiras comunicações telefônicas internacionais são estabelecidas, em 1887,
entre Paris e Bruxelas; em 1891, entre Londres e Paris e, em 1892, entre Paris e a
Suíça. Em cada ocasião, é preciso assinar, previamente, uma convenção bilateral
para autorizar a transmissão. Somente em 1906, no Congresso de Berlim, é que
vão surgir os primeiros acordos multilaterais com a elaboração da primeira
‘Convenção Radiotelegráfica Internacional’”.
__________________
* Trecho extraído da obra “Comunicação Mundo: história das idéias e das estratégias”, de
Armand Mattelart, Editora Vozes, 1994, página 24.

Início do Rádio
Na véspera do Natal de 1906, acontece a primeira transmissão radiofônica,
feita para os navios da costa norte-americana do Atlântico por obra de Reginald A.
Fessenden. A partir de então o rádio experimenta uma rápida evolução
tecnológica.
Ainda na primeira década de 1900, Lee De Forest inventa a válvula de vácuo
(ou simplesmente válvula como ficou conhecida na época), o que facilitou a
recepção das transmissões radiofônicas (transmissor torna-se mais leve e portátil)
e o que deu grande impulso à indústria da eletrônica. “O equipamento de rádio,
outrora tão enorme e pesado que só navios podiam transportá-lo com facilidade,
agora se tornou cada vez mais leve e portátil”, escreve De Fleur (1993)
O início da indústria do rádio é marcado pelo constante conflito judicial entre os
inventores da nova tecnologia e pelo alto investimento das indústrias do setor.
Com o início da Primeira Grande Guerra, o aperfeiçoamento dessa tecnologia fica
sob o controle do governo por razões militares.
Apostila de História da Comunicação 31
Luís Henrique Marques

David Sarnoff13 , ao escrever o texto abaixo reproduzido (um memorando


redigido em 1916), preconizou “a caixinha de música do rádio” através de uma
proposta economicamente lucrativa a partir da qual o rádio se tornaria acessível a
todas as famílias comuns. É um texto que, por seu valor de “profecia”, tornou-se
clássico na história do rádio:

“Tenho em mente um plano de desenvolvimento que faria do rádio um


‘utensílio doméstico’, no mesmo sentido que o piano ou o fonógrafo. A idéia é
levar música às casas através do sem-fio.
Embora isso tenha sido tentado no passado por fio, foi um insucesso porque
fios não se prestam a esse projeto. Com o rádio, contudo, seria inteiramente
exeqüível. Por exemplo – um retransmissor de radiotelefonia tendo um
alcance, digamos, de 40 a 80 quilômetros, pode ser instalado num
determinado ponto onde seja produzida música instrumental ou vocal ou
ambas. O receptor pode ser na forma de uma simples ‘Caixinha de Música de
Rádio’ e preparada para diferentes comprimentos de onda, que deverão ser
intermutáveis mediante um simples torção dum botão ou pressão em um
interruptor.
A ‘Caixinha de Música de Rádio’ pode ser acrescida de válvulas
amplificadoras e um alto-falante, tudo podendo ser montado elegantemente
em uma caixa. Esta pode ser instalada em cima duma mesa na sala de visitas
ou na sala de estar, o interruptor colocado na posição adequada e a música
transmitida ser recebida...
O mesmo princípio pode ser ampliado para numerosos outros campos como,
por exemplo, ouvir palestras em casa que possam ser perfeitamente audíveis;
também acontecimentos de importância nacional podem ser simultaneamente
anunciados e recebidos. Resultados de partidas de beisebol podem ser
transmitidos no ar graças à utilização de um aparelho instalado no estádio. O
mesmo seria aplicável em outros locais. Esta sugestão seria especialmente
interessante para fazendeiros e outros moradores de locais afastados das
cidades. Com a aquisição de uma ‘Caixa de Música de Rádio’, eles poderiam
desfrutar concertos, palestras, música, recitais etc. Se bem que eu haja
indicado os campos mais prováveis de utilidade para um aparelho desses,
ainda existem numerosos outros setores aos quais pode ser estendido o
princípio”. (In: De Fleur, 1993)

Nos EUA, após a Guerra, apesar de tentativas governamentais, o destino do


rádio foi traçado como uma “arena de concorrência comercial”, diferentemente do
que aconteceu, por exemplo, na Inglaterra e na então União Soviética.
Em 1920, Dr. Frank Conrad (da Companhia Westinghouse) inicia uma série de
transmissões à noite, de sua casa. Várias pessoas passaram a receber os sinais
em seus receptores amadores e a pedir por canções através de correspondência

13
Engenheiro de rádio que progredira rapidamente nas fileiras da Companhia Marconi
Americana, ficou conhecido por conseguir “grande atenção pública durante o
afundamento do malsinado Titanic, rasgado por um iceberg no meio do Atlântico”. (De
Fleur, ibid). Sarnoff foi responsável por decifrar as mensagens recebidas do local do
desastre, utilizando seu manipulador telegráfico em uma estação de rádio, em Nova
Iorque (EUA).
Apostila de História da Comunicação 32
Luís Henrique Marques

e de telefonemas. O número de ouvintes aumenta em pouco tempo (a experiência


é precursora dos disc jockeys).
A Westinghouse compra a idéia de Conrad e, ao montar a Estação KDKA de
Pittsburgh, passa a fabricar largamente os receptores, dando início ao rádio
doméstico. No mesmo ano de 1920, a fim de estimular a compra dos receptores, a
empresa anuncia a irradiação dos resultados da eleição presidencial daquele ano.
O acontecimento foi um sucesso, o que provocou a intensa procura por receptores
e o surgimento expressivo de novas estações de rádio.
Essa “corrida pelo rádio” gerou, contudo, graves conflitos, em função da
sobreposição das faixas de transmissão das várias estações e da falta de uma
legislação adequada que regulasse o uso do limitado espectro de freqüências.
Ainda assim, a “corrida” continuou (surge a transmissão em forma de rede pela
conecção entre as emissoras através de um fio).
A partir de 1932, o entusiasmo pelo rádio declina, uma vez que o lucro diminui
(este permanecera concentrada sob a venda dos receptores). Foram feitas
algumas tentativas para reverter essa situação como a cobrança direta dos
ouvintes, que não deu certo. A solução surgiu quando o rádio passou a trabalhar
com anunciantes.
Quanto à questão legal, esta foi resolvida com a promulgação da Lei Federal
de Comunicações, em 1934 cujo embrião foi a Lei do Rádio de 1927. A partir
desta última, as ondas da radiocomunicação foram consideradas públicas, o que
exigiu uma reorganização do quadro de emissoras. Estas tiveram que pedir
licença para funcionamento, concedida desde que a estação justificasse estar a
serviço do interesse público.

A Era de Ouro do Rádio

Apesar da Grande Depressão (a crise econômica de 1929) e a Segunda


Grande Guerra Mundial, o rádio nos EUA seguiu crescendo com o aumento da
renda com os anúncios. Além disso, durante a crise, o rádio “preencheu as
necessidades de milhões de pessoas em dificuldade” (De Fleur, 1993).
Às vésperas da Segunda Grande Guerra, o rádio estava amplamente difundido
e gozava de excelente condição técnica. Além disso, já havia consagrado o
trabalho de muitos jornalistas e resolvido sua disputa com a imprensa.

Radiojornalismo

O radiojornalismo, no início, imitou a imprensa escrita. Entretanto, o público do


rádio (menos concentrado ao receber as notícias que o público leitor de jornal e de
revista) passou a exigir do radiojornalismo uma linguagem apropriada (vocabulário
e estrutura de oração próprias). Isso facilitou também o desempenho dos locutores
(noticiaristas).
A cobertura radiofônica da Segunda Guerra Mundial foi particularmente
importante na revelação do poder de alcance do rádio cuja maioria das notícias
eram cobertas ao vivo. A exemplo do que aconteceu na Revolução Americana
com os jornais coloniais, o rádio favoreceu, durante o período da guerra, o
Apostila de História da Comunicação 33
Luís Henrique Marques

fortalecimento do sentido de identidade nacional. As rádios nacionais, nesse


sentido, foram particularmente importantes para o crescimento do poder público.
Em contrapartida, passou a ocorrer o enfraquecimento das comunidades
menores a qual deu lugar a uma comunidade etérea. Até que, ao ser substituído
pela televisão enquanto “posição de principal encontro da nação”, o rádio optou
pela segmentação do seu público. Isso lhe garantiu a sobrevivência. Os ouvintes
do rádio passaram a constituir outras pequenas sociedades etéreas (cujo vínculo
era etário, étnico ou profissional e nunca o da vizinhança). Além disso, “ele (o
rádio) atende à sua audiência em ocasiões quando a televisão é inadequada”. (De
Fleur, ibid)

No Brasil
O rádio: do início à era de ouro
No Brasil, a novidade do início da década de 1920 é a chegada do rádio14.
Já em 1923, é instalada a primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio
de Janeiro (depois, Rádio Ministério da Educação e Cultura), que entra no ar no
dia 20 de abril daquele ano sob a iniciativa do cientista Roquete Pinto, seu
principal incentivador. “Levar a cada canto um pouco de educação, ensino e
alegria” era o lema de Roquete Pinto. Ele cria, inclusive, o que ficou chamado
como Jornal da Manhã, programa baseado na leitura dos jornais diários,
intercalado por comentários de improviso.
Outras estações surgem em pouco tempo e a competição pela audiência
faz nascer novos gêneros de programa, como a narração de jogos de futebol, o
radioteatro, humorismo e programas musicais que, nos anos 30, levam o público a
lotar os auditórios das emissoras. Para tanto, as estações de rádio investem
sempre mais, inclusive, pagando bons salários e cachês e mantendo anunciantes
regulares. Segundo Bahia (ibid), os “anos dourados” do rádio brasileiro
conheceram 4 etapas importantes: a dos locutores e apresentadores; a dos
cantores; a da radionovela, e a da informação. É nesse período que o uso da
propaganda no rádio brasileiro é regularizada (até então, as emissoras
sobreviviam com mensalidades pagas por quem tinha aparelhos receptores e por
doações de entidades).
A Rádio Nacional, com sede na cidade do Rio de Janeiro, entra no ar em 12
de setembro de 1936 e se torna um marco na história do rádio brasileiro,
especialmente por desenvolver o radiojornalismo. Em 1941, a Rádio Nacional
chega ao 5º lugar do ranking mundial das emissoras mais potentes, chegando
inclusive a emitir em espanhol e inglês um boletim diário do Departamento de

14
“O nascimento do rádio no Brasil em 23 é precedido de uma experiência que o Rio de
janeiro acompanha com grande interesse: em 1922, nas festas do centenário da
Independência, o presidente Epitácio Pessoa lança as transmissões provisórias da Rádio
Corcovado, montada pela Westinghouse como demonstração. Na programação, restrita á
Exposição Internacional, conferências e música erudita”. (Bahia, ibid) Além disso, no dia
06 de abril de 1919, é fundada a Rádio Clube de Pernambuco, em Recife, sob o comando
de Oscar Moreira Pinto que trouxera um transmissor importado da França. Ainda segundo
os historiadores, há indícios de experiências amadoras com o rádio antes de 1922.
Apostila de História da Comunicação 34
Luís Henrique Marques

Imprensa e Propaganda, o DIP (órgão oficial de imprensa do governo Vargas,


responsável pela censura no País).

A evolução industrial da televisão

A TV herdou muitas das tradições do rádio, o que a poupou de passar pelas


mesmas dificuldades pelas quais passou seu antecessor. De fato, sua tecnologia
estava de tal sorte avançada que foi capaz de colocar facilmente aparelhos
receptores para venda; não precisou ser controlado pelo governo, e desde o início,
sua base financeira era a propaganda.
A posse do aparelho televisor passou a significar posição de prestígio social.
Em função da Segunda Grande Guerra e do congelamento imposto pelo governo
norte-americano em 1948 (devido a uma série de problemas técnicos que exigiam
um disciplinamento na política de concessão de novos canais), o crescimento da
popularidade da televisão foi retardado até 1952. A partir deste ano, foi
determinado o fim do congelamento. Há, então, um grande crescimento no
número de estações e na compra de aparelhos de TV.
Após 1950, os cabos coaxiais15 passam a serem usados largamente,
sobretudo para a atender a transmissão de programas a grandes distâncias.
Depois das primeiras experiências, surgem as CATVs (Televisões de Antena
Comunitária), que passaram retransmitir os sinais para várias casas ligadas
através dos cabos sob o pagamento de uma taxa mensal. Surgem novas disputas
legais, desta vez entre as estações originadoras dos programas e as pequenas
estações retransmissoras. Com o tempo, a proposta das chamadas TV a cabo foi
se definindo pela transmissão do sinal de canais especiais, segmentados
conforme o gênero.

O vídeo-teipe

Em 1952, Charles Ginsberg e outros 5 engenheiros da empresa Ampex criam


um sistema que permite a gravação do programas em fita magnética. O vídeo-
teipe (VCR) surge publicamente, afinal, em 1956. Isso facilitou a produção dos
programas que, agora, não eram mais vitimados pela apresentação ao vivo.
Muitas escolas também passam a adotar o vídeo-teipe, acreditando num
aprimoramento do sistema de ensino. Entretanto, os estudantes ainda preferem a
presença do professor.
Até 1960, o vídeo-teipe baseou-se em rolos de fita e num formato pouco
portátil. A partir dos anos 70, seu formato é reduzido, tendo sido projetada uma
grande procura pelo novo equipamento. No entanto, isso não aconteceu por
razões técnicas: nesse período, havia 5 fabricantes diferentes de VCR cujos
produtos eram incompatíveis entre si. Após disputas e grande perda de dinheiro, a
padronização é alcançada.

15
“Cabos coaxiais são fios encerrados em plástico rodeado por uma blindagem metálica
para evitar a perda de sinal ou interferências neste. (De Fleur, ibid)
Apostila de História da Comunicação 35
Luís Henrique Marques

Em meados dos anos 70, a Sony (empresa japonesa) coloca no mercado seu
sistema Betamax de vídeo-teipe (mais leve e barato). Isso gerou novas brigas nos
tribunais, até que em 1984, a Suprema Corte norte-americana decide pela livre
comercialização dos vídeos-teipe. A vitória da Sony não dura muito: a concorrente
japonesa Matsushita cria o Sistema Vídeo Doméstico (VHS) permitindo a
gravação de até 6 horas em um único cassete. Em 1987, o produto da Sony torna-
se obsoleto.

A linguagem televisiva e o telejornalismo

Os primeiros produtores de televisão enfrentaram, “de cara”, um sério


problema: como preencher a tela, em função da limitada cobertura dos
acontecimentos (poucas equipes de filmagem; pesados equipamentos; demorado
processo de revelação do filme; ênfase na fotografia local e não na reportagem
temática).
Os telejornais, desde o início, optaram por posições não radicais (a imagem
choca muito mais que as palavras), mesmo se sensacionalistas, seja por causa do
cumprimento do ideal de objetividade, seja por conta da influência moderada dos
proprietários, do governo e dos patrocinadores.
Uma característica parece perseguir o telejornalismo desde o seu surgimento:
a criação de notícias a partir da cobertura de outras notícias. Outra característica
também é mantida desde as sociedades pré-letradas: uma certa jocosidade.
A superficialidade é também característica marcante na linguagem televisiva,
uma vez que – no que diz respeito ao ouvido – este é considerado “o sentido
menos agudo e menos esmerado”. A pressa e o fascínio, intensamente presentes
no cotidiano do jornalismo, também contribuem para a superficialidade.
Também a ampliação da distância entre o emissor e o receptor da notícia é
característica marcante da linguagem televisiva, não obstante ao fato aparente do
público desejar que as notícias sejam relatadas de forma familiar, agradável e
humana. A realidade dos telespectadores tornou-se indireta, uma vez que, cada
vez mais, falam e pensam sobre pessoas e lugares que não conhecem. Com isso,
foi fragilizada a capacidade das pessoas ouvirem e contarem as suas próprias
notícias.
Um ponto positivo para a televisão: a possibilidade de compartilhar notícias
com culturas distantes e diferentes, é capaz de disseminar valores comuns.
Entretanto, corre-se o perigo de, ao expor muito uma cultura à publicidade pela
televisão, acabar comprometendo sua própria identidade, em função da
superficialidade a que acaba se sujeitando.
O grande investimento em publicidade, incentivou a publicidade prematura na
TV e as conseqüências perigosas dessa prática: ao invés de conhecermos o real,
limitamo-nos a idealizações as quais, talvez nunca, se tornem realidade. Aliado a
isso e embora não se trate de uma característica exclusiva nem do rádio nem da
televisão, a divulgação de notícias favoreceu a publicidade dos indivíduos. Ela traz
vantagens políticas ou financeiras, mas não faz justiça aos seus “objetos” por
distorcer ou simplesmente focalizar que não tem mérito. O seu maior problema é,
dada “a intensidade de luz jogada sobre alguém em especial”, esta acaba
ofuscando a verdade sobre essa mesma pessoa.
Apostila de História da Comunicação 36
Luís Henrique Marques

Para refletir

Jornalistas vivem de vender reportagens sobre mudanças, positivas ou negativas. Isso teria se
alterado com o surgimento e desenvolvimento dos meios audiovisuais?
O surgimento dos meios eletrônicos de comunicação surpreenderam por sua velocidade e
amplitude. Entretanto, parecem não ter surpreendido quanto ao conteúdo das mensagens
veiculadas. Mesmo com a tendência à simplificação (sobretudo a partir do desenvolvimento dos
meios eletrônicos e do método jornalístico), os jornalistas, hoje, tendem ao discurso prolixo.
Ao se esforçar por superar toda desinformação, fantasia, falta de entendimento com a
superabundância de notícias, o jornalismo (e a ciência) cerceou a liberdade às idéias e às teorias.
Estas estão sempre em perigo, sob a pena de se desintegrarem em virtude de novos fatos. Uma
medida prática, contudo, pode ser tomada: melhorar a seleção e distribuição das notícias.

No Brasil
A imprensa e a censura militar
Ninguém resiste ao golpe militar de 1964. Nem mesmo o Supremo Tribunal
Federal, que dirá a imprensa! Esta, na realidade, é um dos grandes alvos do
governo militar que se instaurou no Brasil a partir de 64 e permaneceu no poder
até 1985, quando suas forças se esgotaram, cedendo lugar ao regime
democrático. De fato, uma imprensa livre e contestadora, tal qual surgiu no Brasil
a partir dos anos 30, não é interessante ao regime ditatorial que não quer nem
permite ser contestado em qualquer uma de suas atitudes. É evidente16.
Uma dos sinais visíveis da intervenção governamental no trabalho da
imprensa é a presença, nas redações, do chamado “livro negro da censura”.
Explica Bahia (ibid): “Nas redações, o livro negro é um pequeno caderno de capa
preta em que se acham classificados, quase sempre breves, sumários,
comunicados, na sua maioria sem assinatura, procedentes dos censores... ditando
o que pode e o que não pode ser publicado”. Ainda segundo Bahia (ibid), “o
controle da opinião se faz por meio de avisos escritos, levados aos editores até
pelo telefone, decretos, portarias, resoluções, éditos.”
O regime militar segue governando o País com o mesmo apoio que tivera
da classe média, do empresariado, da oligarquia agrária e da ala conservadora da
Igreja, alimentando suas reformas de base com discursos ufanistas e apregoando
o chamado “milagre econômico” (até se transforma em “desastre econômico” em
meados dos anos 70). Os militaristas, com o passar do tempo, pregam uma
democracia relativa, mas por conta do chamado “perigo comunista”, na prática,
obstruem qualquer tentativa de abertura política.
Escreve Bahia (ibid): “A convivência das ideologias dominantes no golpe de
64 é interrompida pelo impasse ético que se cria entre os líderes militares e os
diretores dos grandes jornais que toleram tudo, menos a censura ‘vexatória’,
executada por delegados do arbítrio”. E completa: “A imprensa conservadora teme
o prolongamento das medidas ditatoriais e embora exalte acertos econômicos se

16
É no mínimo curioso constatar, no entanto, que a própria grande imprensa – inclusive
grandes veículos liberais como o Correio da Manhã – criticou o governo de João Goulart
pelo estado de corrupção que existia no País no período imediatamente anterior ao golpe
de 64, chegando a pedir o seu afastamento da presidência da República.
Apostila de História da Comunicação 37
Luís Henrique Marques

mostra pessimista quanto à evolução política e cética quanto à liberdade de


opinião”.
O fortalecimento do poder militar cresce na mesma medida em que suas
relações com a imprensa se agravam. Veículos e profissionais, especialmente do
jornalismo impresso, são perseguidos com atitudes que vão desde a cassação de
credenciais (para repórteres que trabalhavam em repartições públicas), o
cancelamento da publicidade governamental, a instalação das leis de imprensa e
de segurança nacional (entre as quais, a mais temida foi o Ato Institucional nº 5, o
AI-5) até à prisão e tortura.
A censura militar parece chegar ao auge quando, em 1970, são criadas as
Normas Doutrinárias da Censura Federal:

“No manual elaborado por técnicos do Serviço de Censura e entregue não


só aos censores, mas também aos diretores de emissoras de rádio e TV,
produtores de programas, cineastas, teatrólogos e artistas que se queiram
autocensurar, a legislação censória aparece consolidada.
As Normas dizem o que pode e o que não pode ser levado ao público, o que
é e o que não é próprio. Desaconselham a dissolução do vínculo matrimonial
(o casamento deve ter tratamento digno, sério e respeitoso, sob pena de
multa de 2 a 50 salários mínimos, duplicada na reincidência; de qualquer
maneira, programas com cenas de casamento devem ser submetidos ao
Serviço de Censura de Diversões Públicas, em Brasília, pelo menos 72 horas
antes da primeira transmissão ao público), o comportamento que comunique
intenções lascivas ou obscenas, que provoque em menores de quatorze
anos, por exemplo, curiosidade por vícios e prazeres como beijos lúbricos e
atitudes sugestivas de desejos sexuais.
Os censores são instruídos a proibir para menores de dezesseis anos
exibições de ato sexual. Aos menores de dezoito anos devem ser proibidas
as exibições de pormenores do ato sexual, de detalhes de atos terroristas que
possam induzir à sua prática. Segundo as Normas, só devem ser liberadas
inteiramente obras que despertem na audiência ‘as responsabilidades cívicas,
incentivando-as a participar da vida comunitária’.
As emissoras de rádio e televisão são proibidas de apresentarem programas
de apelo à caridade ou ao sentimento público; a exibição de pessoas
aleijadas ou com doenças incuráveis. As Normas estabelecem que cada
programa será examinado na Censura Federal por três censores. Em 48
horas eles deverão ter pronto um parecer sobre o programa”. (In: Bahia,
1990)

É nesse contexto que a imprensa se supera para realizar o seu trabalho,


criando artifícios que lhe permitam, de alguma forma, burlar a censura militar. É o
caso, por exemplo, do uso freqüente da notícia em off the record (sem
identificação da fonte). “Sem demora, esse tipo de informação se transforma em
regra do noticiário, construindo um jornalismo de versões dirigidas pelo interesse
exclusivo de quem as revela, sempre protegido pelo anonimato”. (Bahia, ibid). Por
outro lado, “essa prática sobrecarrega o veículo obrigado a acolher o que lhe traz
o informante não identificado, causando danos à sua reputação e enfraquecendo a
sua credibilidade”. Vale salientar que a censura, por sua vez, tinha o hábito de
também usar o off para proibir e, depois, negar a proibição em público.
Apostila de História da Comunicação 38
Luís Henrique Marques

Mas a imprensa segue sua luta criativamente. De fato, nunca o jornalismo


brasileiro foi tão criativo quanto em relação ao regime militar de 1964 a 1985. Além
disso, a própria censura apresenta falhas. Ela não é uniforme nem consegue
seguir a risca suas próprias normas. Ao contrário, mostra-se subjetiva e aleatória,
permitindo a uns o que é negado a outros. A censura mostra-se também hilária,
conforme relata Juarez Bahia (ibid) ao registrar o seguinte fato:
“9-9-75. O Jornal de Brasília publica notícia sobre o desfile militar dos 153
anos de independência na Capital Federal. A matéria é considerada ofensiva,
talvez por registrar as dificuldades de um oficial da Marinha para se manter
equilibrado em cima de um cavalo; e por estranhar que alguns agrupamentos
marchavam a passo de ganso, comprometendo a unidade da marcha”.

A população em geral permanece, contudo, alheia aos fatos que envolvem


o conflito entre a imprensa e o regime militar. “A sociedade já não sabe distinguir
entre desinformação e censura, como pouco ou nada percebe sobre a
autocensura num clima de censura plena”. Mesmo com a iniciativa do então
presidente João Figueiredo de devolver ao País a liberdade política, a censura e o
terror que ela produz na perseguição a todos os contrários ao governo (e em
especial à imprensa) permanecem e só vão desaparecer de forma gradativa,
juntamente com a própria ditadura.

“A imprensa contestadora17
Os jornais políticos, questionadores da ordem burguesa, sempre foram os
mais visados . Essa ‘má’ imprensa (anarquista, comunista, socialista etc) em raros
momentos gozou de liberdade. A pesquisa desses periódicos é de extrema
importância para o estudo dos movimentos sociais, mas há dificuldade de acesso
a eles porque sempre viveram escondidos e perseguidos.
A liberdade restrita desaparece completamente nas épocas de ditaduras.
Nesses momentos, até mesmo a ‘boa’ imprensa sofre pressões. Em nome da
ordem, a vigilância se amplia e atinge a todos os jornais: nenhuma crítica é
tolerada – a sociedade e seus dirigentes são inatacáveis.
Durante o Estado Novo, Júlio de Mesquita Filho e Paulo Duarte publicaram,
em 1938, ilegalmente, o jornal Brasil, de oposição à ditadura. Acabaram sendo
expulsos do país. Anos depois, Paulo Duarte condenou o procedimento de seus
colegas que dobraram a espinha perante o ditador.
‘A imprensa’, afirmou o jornalista indignado, ‘aderiu servilmente ao Estado
Novo. Este tudo fez para prostitui-la. Fatigada da esbórnia fascista voltou ao seu
engano, reergueu-se e pôs o chão a ditadura. Hoje prossegue na reação mas seu
aspecto exterior ainda é acafajestado, o jeito das decaídas, com fundo bom,
vítima de certas circunstâncias, mas de pouca educação, necessitada de direção,

17
Texto extraído do livro “Imprensa e História do Brasil”, de Maria Helena R. Capelatto,
Contexto/EDUSP, 2a ed., 1994, página 38.
Apostila de História da Comunicação 39
Luís Henrique Marques

de um treino duro e prolongado e assistência para apresentar-se como uma


verdadeira dama’.
Paulo Duarte ‘atirou a primeira pedra’ contra os que não lutaram em prol da
liberdade. Mais adiante veremos que ‘seu’ jornal – O Estado de S. Paulo – nem
sempre se comportou como uma ‘dama digna’. Antes de 1937 e em 1964 abriu
caminhos para as ditaduras; depois foi perseguido por elas – no Estado Novo o
expropriaram e na década de 70 o censuraram.
A imprensa, nem sempre tem com a sua protegida – a liberdade – o
carinho que ela merece. Mas quando a repressão a atinge, lamenta sua ausência
e lutar para recuperá-la.
A última ditadura (de 1964), a ‘boa imprensa – a grande’ foi uma das
responsáveis pelo seu surgimento e fim. Lutou pela abertura política mas nessa
batalha destacou-se a imprensa alternativa – a ‘nanica’ – que apesar de pequena
demonstrou muita força. Os guardiães da ordem, nunca a consideraram ‘boa’ mas
a toleraram, talvez como válvula de escape.
Essa imprensa, que se caracterizou pela atitude renovadora, independente
e polêmica, permitiu que os jornalistas críticos nela encontrassem espaço para o
combate político e a criatividade. É bom lembrar que esses jornais tiveram
atuação mais significativa numa época de intensa repressão – a década de
setenta. Muitos deles se salientaram pela resistência ao governo autoritário.
Com reduzidos recursos técnicos e financeiros, as pequenas empresas
jornalísticas introduziram no mercado jornais em formato tablóide, com publicação
semanal, procurando inovar na forma e no conteúdo. Vale mencionar alguns
deles: Opinião, Movimento e Em tempo, que se destacaram como jornais
combativos, atuando em períodos diferentes, e contribuindo para a abertura
política. O Pasquim também desempenhou esse papel mas de forma peculiar:
com ironia, irreverência, humor e descontração.
Bondinho, Ex. Versus, Lampião, também se integram na categoria de
imprensa alternativa, mas a temática política não foi a tônica desses jornais. A
contestação se manifesta sobretudo no âmbito da ‘moral’ e dos ‘bons costumes’.
Os jornais alternativos, críticos do regime, apesar de tolerados foram
mantidos sob severa vigilância. Enfrentaram não apenas os rigores da censura
mas também o ataque de grupos de extrema-direita que lançaram bombas nas
bancas de jornais onde eram vendidos.
Essa imprensa ‘malcomportada’ teve atuação marcante numa conjunta
especial de nossa história e está à espera de estudos que esclareçam sobre seu
significado, surgimento e desaparecimento.
Nessa mesma época circularam, clandestinamente, jornais da esquerda
radical. Como pregavam a destruição completa da ordem estabelecida nunca
puderam se apresentar em público.
Graças aos cuidados dos ‘guardiães’ da sociedade, a ‘má imprensa’ – a
clandestina e a tolerada – não consegue se expandir nem proliferar. Tem sempre
pequeno porte, público reduzido e vida curta. A ‘boa imprensa’ – a grande –
também enfrenta dificuldades mas tem muitos recursos e goza de privilégios que
lhe permitem contorná-las.
O confronto ‘boa-má’ imprensa traduz uma luta político-ideológica na qual
se envolvem os defensores da ordem estabelecida e os que a criticam. Entre
Apostila de História da Comunicação 40
Luís Henrique Marques

esses dois extremos há muitas nuanças; as críticas e defesas são diversificadas,


cabendo ao historiador captar todos os matizes.
Os pequenos jornais que expressam reivindicações específicas de
determinados grupos sócio-políticos são muito importantes para os estudos
históricos. Eles existem desde o Brasil Colônia e proliferaram na Segunda metade
do século XIX. Os títulos dos periódicos exprimiam o grupo do qual eram porta-
voz ou os seus próprios de luta. Menciono como exemplos O Periódico dos
Pobres (Rio de Janeiro), O Brado da Miséria (Pernambuco), A Voz do Povo
(Belém do Pará), A Voz do Artista (Goiás), O Amigo do Escravo (Rio de Janeiro),
O Operário (Fortaleza), A Questão Social (Santos).
Além desses jornais de luta política e social há registros de periódicos de
frivolidades, com conteúdo mais ameno ou de literatura. Em Porto Alegre, foram
encontrados cinco jornais humorísticos do século XIX. Cabe mencionar também o
Espelho Diamantino, jornal feminino publicado em 1826-7, o Jornal das Senhoras
de 1852 e o Jornal das Famílias (revista que circulou de 1863 a 1878). O uso
dessa imprensa permite compreender os padrões de comportamento e moral da
época, como atesta a historiadora Miriam Moreira Leite.
A pequena imprensa de conteúdo sócio-político, literário ou de
entretenimento em geral, teve continuidade no século XX e representa um
manancial de pesquisa dos mais significativos.”

A informação monopolizada
O processo de industrialização dos meios de comunicação, iniciado no
Brasil a partir da Segunda Grande Guerra, com o hoje extinto império de Assis
Chateaubriand, revela um constante esforço empresarial em monopolizar a
informação. É que se observa, atualmente, com as Organizações Globo, não só a
principal organização nacional nessa área, mas a quarta no mundo. O caráter
desses monopólios é quase sempre de origem familiar.
“A monopolização dos meios de massa se manifesta” – escreve Bahia
(1990) – “na ausência de contrapropaganda, da oposição de idéias pelos mesmos
métodos de difusão, do confronto de opiniões livremente expressas”. “Ela se dá,
também, num crescente estado de conformismo social, quando as exceções não
são suficientes para conter o transbordamento dos elementos conformistas”,
completa.
Virgílio Noya Pinto (1995) afirma que “a imprensa aos poucos rompe o
esquema da censura, criticando a política socieconômica, denunciando
escândalos e apoiando as reivindicações populares”. A anistia concedida aos
exilados políticos, em 1979 e, mais tarde, em 1985, a eleição do presidente
Tancredo Neves, promovem, de uma vez, uma “virada na página” da história do
Brasil. Novas dificuldades surgem, sem dúvida, mas estas não estão mais
vinculadas ao autoritarismo.
Apostila de História da Comunicação 41
Luís Henrique Marques

“Oligopólio da radiodifusão brasileira18


A Rede Globo praticamente dobrou o número de suas concessões de TV
nos últimos anos, comprando parte do capital de grupos independentes em São
Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. A família Marinho tem participação
societária em 32 emissoras de televisão, sendo dez exclusivas e o restante em
sociedade com empresários locais. São 11 emissoras no Estado de São Paulo, 8
no Paraná, 7 em Minas Gerais, 4 no Rio de Janeiro, 1 em Brasília e outra em
Recife. Em 94, os Marinho tinham participação em 17 emissoras de TV em todo o
país.
É uma proporção alta, considerando o total de TVs em cada Estado. Em
São Paulo, onde há 40 emissoras, a família Marinho tem 28% das concessões.
No Paraná, a proporção é de 33; em Minas, de 35%, e no Rio, de 29%. Como a
participação é concentrada nesses Estados, o número diminui para 12 em âmbito
nacional.
A família Abravanel (sobrenome do empresário Silvio Santos, do SBT)
aparece ligada a dez emissoras de televisão: uma a mais do que há seis anos.
A Rede Bandeirantes e o SBT também cresceram, mas em menor escala.
A família Saad, da Rede Bandeirantes, aparece no cadastro como acionista de 12
emissoras de TV, três a mais do que possuía em 94.
Esse período também coincide com a expansão do império televisivo da
Igreja Universal do Reino de Deus, que já possui pelo menos 12 emissoras de TV,
distribuídas em três redes: Record, Rede Mulher e Rede Família. No nome do
bispo Edir Macedo, fundador da Universal, existem apenas duas emissoras de TV
(a Record de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e a Record de São Paulo)
e cinco de rádio.
O decreto-lei 236, editado há 37 anos para impedir a concentração dos
meios de comunicação nas mãos de poucos grupos, estabelece que nenhuma
entidade ou pessoa física pode possuir mais do que dez emissoras de televisão
no país, sendo, no máximo, cinco em VHF e cinco em UHF. A punição para quem
infringe o artigo é a perda da concessão. A legislação se mostrou inócua porque
as emissoras do próprio governo interpretam que o limite é por pessoa física –
considerando cada acionista individualmente – e por empresa, sem levar em
conta o parentesco entre os titulares das companhias.
Os oligopólios da radiodifusão se formaram a partir dessa brecha da lei. As
concessões são registradas em nome de pessoas diferentes de uma mesma
família. Avós, pais, filhos, irmãos e cônjuges se tornam sócios de empresas
distintas e cada um pode controlar até dez emissoras de TV. Três gerações da
família Marinho aparecem como acionistas de TVs no cadastro do governo: o
patriarca Roberto Marinho, os filhos José Roberto, João Roberto e Roberto Irineu

18
Texto extraído de trabalho produzido pelos alunos Allan Russo, Daniel Camerine,
Camila Turtelli, Ciomara Oliveira, Fernando Papassoni, Reinaldo Chaves e Renata
Moreira na disciplina História da Comunicação, curso de Jornalismo da USC, 2º semestre
de 2000.
Apostila de História da Comunicação 42
Luís Henrique Marques

e cinco netos. O mesmo sistema é adotado pelas demais famílias que controlam
os grandes grupos nacionais de radiodifusão e se repete nos grupos.
A lei também não permite que uma empresa ou pessoa tenha duas
concessões na mesma cidade, mas, usando a brecha de registrar emissoras em
nomes de parentes, a família Saad conseguiu ter duas concessões de TV em São
Paulo (TV Bandeirantes e Canal 21).
A consultoria jurídica do Ministério das Comunicações tem interpretação
igual a das empresas privadas em relação aos limites fixados pelo decreto-lei 236.
Segundo a consultoria, a lei estabelece limites sem levar em conta a existência de
parentesco.
O projeto de Lei de Comunicação Eletrônica de Massa, preparado há dois
anos pelo Ministério das Comunicações, propôs limitar o número de concessões
próprias de cada grupo a 30% da audiência potencial do mercado, medida pelo
número de residências com aparelhos de TV. A proposta é inspirada no modelo
norte-americano. Nos Estados Unidos, cada grupo pode cobrir no máximo 35% do
total de domicílios do país. Se o limite de 30% fosse aplicado no Brasil, a Rede
Globo teria de reduzir drasticamente sua participação em empresas. Sua rede
própria atual cobre 54,09% dos domicílios com TV. Só as cinco emissoras
principais, conhecidas como cabeças-de-rede – TVs Globo de São, Paulo, Rio de
Janeiro, Brasília, Recife e Belo Horizonte - cobrem 27,7%.
O Ministério das Comunicações não reconhece como sua a proposta do
projeto de Lei de Comunicação Eletrônica de Massa, embora o texto tenha sido
preparado por funcionários do ministério.”

8. ARPANET (1969): A SEMENTE DA INTERNET19


“A semente da Internet foi implantada em 1969, quando o Departamento de
Defesa Norte-Americano (DOD), ainda no tempo da guerra fria com o bloco
soviético, prevendo que um possível ataque do inimigo desmantelasse a sua rede
de comunicações altamente centralizada, patrocinou um novo projeto chamado
Arpanet (Arpa vem da expressão Advanced Reseach Project Agency) para sua
descentralização. Outra vez, os militares tomando iniciativa tecnológica.
O Arpanet inicialmente ligou, através das novas técnicas de redes, um
grande número de universidades que faziam pesquisas científicas com fundos
militares. Caso um dos ‘nós’ desta rede fosse destruído pelo inimigo, o restante
continuaria a funcionar normalmente. Razões altamente estratégicas.
Logo de início, a Arpanet fez sucesso. Todas as universidades, outras
organizaçõees e suas redes desejavam se interconectar com a Arpanet. Foi então
que surgiram os problemas de gerência e controle das redes.

19
Trechos extraídos do livro “Do fortran à internet: no rastro da trilogia educação, pesquisa
e desenvolvimento”, de Tércio Pacitti, 2a edição atualizada, Makron Books, 2000, p. 177 e
338.
Apostila de História da Comunicação 43
Luís Henrique Marques

Isso levou à separação em duas redes: a Milnet, que interligava os sites


militares e uma Arpanet menor, para os sites não-militares. Mais tarde
transformou-se na NSF-NET (National Science Foundation).
Mesmo com essa separação, as duas redes, a Milnet e a NSF-NET, ficaram
ligadas graças a uma técnica chamada IP (Internet Protocol) que possibilita ao
tráfego de informações ser roteado de uma rede para outra. Em combinação com
o TCP (Transmission Control Protocol) que controla transferência de dados,
formou a dupla TCP-IP, hoje famosa e tão conhecida pelo pessoal da Internet.
Embora existissem apenas duas redes, nessa época o IP foi projetado para
rotear dezenas de milhares de redes.
Um fato não muito usual na época foi que o IPpermitiu a uma máquina se
comunicar com qualquer outra máquina da rede. Embora este esquema pareça
hoje tão óbvio, na época as rede consistiam de um grande número de terminais
(fossem eles burros ou inteligentes) que poderiam se comunicar somente através
das grandes máquinas centrais (mainframe) e não diretamente entre si.
Foi o início da Internet. A explosão da Internet ocorreu na década de 90.
(...)”

“A Internet não é uma rede, é uma rede de redes, todas, livremente,


intercambiando programas e informações, quaisquer que sejam suas plataformas
ou protocolos.”

“A Internet se compõe de grandes corporativas, entre outras, por exemplo,


a ‘American On-Line’, ‘Prodigy’, ‘Compuserve’, ‘ATT’, ‘Digital Equipment’, algumas
dessas últimas reacionárias aos padrões universais, assim como milhares de
pequenas ‘LANs’, as das empresas, as redes das universidades, das escolas
elementares e secundárias, os provedores de acesso, o que permite aos usuários
comuns se juntarem à Internet. Segundo estatísticas, existem cerca de dezenas
de milhões de usuários da Internet, crescendo na razão de um milhão por mês. É
arriscado afirmar a precisão das estatísticas.
Vale a pena mencionar que a AOL e a Compuserve têm suas redes
independentes. Por forte pressão pública, elas foram obrigadas a se conectarem e
reverem seus protocolos que eram diferentes da Internet.”
Entre as ferramentas e grandes recursos computacionais disponibilizados
pela Internet, estão o Archie, Gopher, Wais e o famoso World Wide Web (WWW).
“O WWW é baseado em uma tecnologia chamada hipertext, cujo acesso a dados
ou textos não é seqüencial, podendo o usuário criar suas próprias ligações
associativas e, agora, mais abrangentemente, a hypermedia, que manipula textos,
gráficos, sons, imagens, de uma maneira rápida, intuitiva e poderosa. Hoje, já está
sendo possível usar na Internet aplicações transacionais que vem a ser um valor
agregado, muito conveniente, em vez de navegador de hipertexto estático. O
significado das siglas mencionadas acima, suas descrições e funcionalidades
encontram-se em qualquer manual da Internet.
O enorme número de redes, suas dissimilaridades, plataformas e protocolos
trouxe a reboque o TCP-IP (Transmition Control Protocol/Internet Protocol) que é
um conjunto de protocolos de comunicação desenvolvido pelo DARPA (Defense
Advanced Research Projects Agency). Notem mais uma iniciativa pragmática dos
Apostila de História da Comunicação 44
Luís Henrique Marques

projetos militares impulsionando o desenvolvimento tecnológico do setor civil


norte-americano, como já mencionado diversas vezes neste livro.
Esta iniciativa trouxe o FTP (File Transfer Protocol) e o SMTP (Single Mail
Transfer Protocol) para transferir em geral e o e-mail em particular; a Telnet,
protocolo que prevê a emulação dos diferentes terminais para poderem interagir;
visto não serem do mesmo fabricante, ou melhor, com a mesma plataforma
operacional (...); o protocolo TCP, que controla e transfere dados, e o protocolo
IP, que aciona o mecanismo de roteamento.”

O jornalismo on line: nota histórica

O New York Times foi o pioneiro no assunto, em meados de 1970, cobrando


uma pequena taxa aos usuários de computadores, colocando seu editorial a
disposição de todos. No Brasil, o boom do jornalismo on line ocorreu ao mesmo
tempo do surgimento da Internet em 1995. Jornal do Brasil, Estado de São Paulo,
Folha de São Paulo , O Globo e Estado de Minas largaram na frente. A Folha de
São Paulo lançou o Folha On Line, um dos primeiros jornais virtuais nacionais, e
inovou a cada cobertura internacional. Como na guerra de Kosovo, com
depoimentos de pessoas que estavam na região do conflito via e-mail. A primeira
grande “Guerra da Internet”, no Brasil, foi mesmo a de Kosovo. Os jornais latinos
criaram suas versões eletrônicas ao mesmo tempo que os brasileiros.

Indicação de leitura sobre o assunto:

MOHERDAUI, Luciana. Guia de estilo web: produção e edição de notícias online,


São Paulo: Senac, 2000.

Fatos marcaram a história do jornalismo on line:

1992 – lançados os jornais virtuais: CNN, Chicago Tribune, entre outros.


1994 – lançados os jornais virtuais: ESPN, The New York Times, Financial
Times, entre outros.
1995 – lançados os jornais virtuais: Usa Today, Washington Post, Le Monde
entre outros
1996 – lançados os jornais virtuais: El Tiempo (Colômbia), El País (Espanha),
entre outros
1997 – 2,6 mil jornais estão na internet.
1999 – mais de 3 mil jornais na internet.
Apostila de História da Comunicação 45
Luís Henrique Marques

9. O IMPACTO DAS NOVAS TECNOLOGIAS DE


COMUNICAÇÃO
Uma reflexão
“Novas tecnologias de comunicação: democracia cultural ou
ideologia da modernização?20
Luiz Octávio de Lima Camargo
(Bacharel em Jornalismo e Doutor em Sociologia do Lazer.
Diretor do Centro de Estudos do Lazer, do SESC, São Paulo)

A questão permanece atual, ainda que se lamente o descaso com que


sempre foi tratada. A cada impacto provocado por novas tecnologias de
comunicação, a controvérsia é suscitada, mas sem ultrapassar a polêmica nos
jornais sobre um ou outro caso mais escandaloso. Assim foi com o rádio, com a
televisão, com as histórias em quadrinhos e agora com o computador. A pergunta
é sempre a mesma: qual é o resultado da ação destes meios sobre as pessoas?
Esta pergunta se multiplica: o resultado seria a maior possibilidade de acesso ao
patrimônio cultural da humanidade (democracia cultural)? Ou mais um artifício
cinicamente utilizado pelas classes dominantes para, sob a embalagem, de uma
falsa melhoria, perpetuar os mecanismos de desigualdade entre as classes
sociais (ideologia da modernização)?
O atraso no debate existe, por motivos diferentes, tanto na sociologia da
comunicação como na sociologia da educação, como rapidamente abordaremos
ao longo deste texto. De qualquer forma, o discurso das ciências da comunicação
ainda traz subjacente uma relutância em se aceitar o fenômeno da televisão,
como um modelo cultural de produção e de reprodução da sociedade, e as
ciências da educação ainda ruminam as primeiras questões sobre a legitimidade
deste meio tecnológico.
Enquanto isso, a televisão cresceu, expandiu-se e, ao menos na forma
como existe hoje, está fadada ao desaparecimento. Comunicadores e educadores
perderam. Será que vai acontecer o mesmo com os novos modelos de difusão
cultural que estão surgindo no bojo de novas descobertas tecnológicas?
Aprofundar o tema deste debate é, pois, vital tanto para as ciências da
comunicação como para as ciências da educação, ao menos para se evitar que
se remoce sempre de um ponto zero e para que se saia logo da esterilidade que
vem marcando as discussões.

Democracia cultural

Cada vez mais se ouve falar em democracia cultural, mas


lamentavelmente, não se conhecem estudos conceituais aprofundados sobre o
termo. O uso da denominação cultural se faz sobretudo em organismos e

20
Texto extraído da obra “Novas tecnologias de comunicação: impactos políticos, culturais
e sócio-econômicos, de Anamaria Fadul (org.), Summus Editorial, 1986, p. 67
Apostila de História da Comunicação 46
Luís Henrique Marques

instituições que, com isso, querem destacar seu esforço na promoção cultural. É
um conceito, enfim que fez carreira fora da universidade. Mais operacional do
ponto de vista da ação que da reflexão.
Vou partir, pois, das conceituações correntes. Que aceitam e rejeitam a
denominação.
O conceito de democracia cultural (1) está estritamente ligado a um outro
conceito, este sim mais explícito e aprofundado, o do desenvolvimento cultural.
Ambos os conceitos são normativos, diga-se logo de início. Ou seja, baseiam-se
não na observação de um fato ou de um processo social e sim na atribuição de
valores que se julgam desejáveis para a coletividade em questão. A grosso modo,
pode-se dizer que tanto o desenvolvimento cultural como a democracia cultural
são conceituações que pressupõem uma interação profunda e, ao mesmo tempo,
uma relativa autonomia entre as instâncias econômica, política, social e cultural
de uma sociedade.
Desta forma, poder-se-ia dizer que uma sociedade pode ser desenvolvida
economicamente, isto é, ter atingido um estágio avançado de instalação de seu
potencial de riquezas, sem necessariamente ser desenvolvida do ponto de vista
social, ou seja, sem que essas riquezas sejam bem distribuídas por toda a
população. Da mesma forma, dir-se-ia que uma sociedade pode ter desenvolvido
suas forças produtivas e os níveis de distribuição das riquezas, sem constituírem
necessariamente uma democracia política, ou seja, sem que os cidadãos tenham
iguais oportunidades de acesso à gestão da sociedade onde estão inseridos. E,
finalmente, que todas as sociedades atuais, mesmo as que não cumpriram seu
projeto industrial, mesmo as que conseguiram eliminar as grandes desigualdades
sociais, mesmo as que conseguiram estabelecer os canais de comunicação
rápida e eficiente entre os dirigentes e população, normalmente através de
partidos políticos e associações, todas as sociedades atuais são
subdesenvolvidas culturalmente.
Quais seriam os indicadores deste subdesenvolvimento cultural? Variados:
em nenhum país do mundo atual, a educação escolar conseguiu romper as
cadeias burocráticas que tornam uma reprodução do passado, de um conceito
acadêmico do saber. Nenhuma sociedade atual conseguiu também uma razoável
sistematização da educação fora da escola, à mercê dos determinismos ora da
indústria cultural ora dos desígnios ideológicos do estado. Em nenhuma
sociedade atual, a prática física saudável no lazer conta com mais de 20% de
aderentes entre as respectivas populações adultas. Nenhuma sociedade atual
conseguiu criar mecanismos de acesso da população trabalhadora ao teatro, aos
museus, enfim, a uma fruição estética elaborada. Nenhuma sociedade conseguiu
produzir um modelo de televisão ao mesmo tempo inteligente e agradável. Sejam
as controladas pelo Estado, sejam as controladas pela publicidade, conseguem o
prodígio de ser, na maior parte da programação, ao mesmo tempo
desinteressantes e entediantes. Nenhuma sociedade atual conseguiu estabelecer
estruturas eficientes de preservação do patrimônio cultural. Da mesma forma,
ainda estamos longe, de encontrar um modelo de política cultural que ao mesmo
tempo preserve o acesso à produção de bom nível e a valorização das
peculiaridades regionais: ou se boicota a produção exterior ou se submete a
diferentes modalidades de colonialismo cultural. Nenhuma sociedade confere aos
Apostila de História da Comunicação 47
Luís Henrique Marques

seus animadores culturais o mesmo estatuto atribuído aos animadores da vida


econômica, política ou aos trabalhadores sociais. Ou seja, finalmente, conhecem-
se hoje projetos bem sucedidos de desenvolvimento econômico, de
desenvolvimento político, de desenvolvimento social, conhecem-se hoje exemplos
de democracia econômica, de democracia política, mas não se conhece um só
exemplo de política cultural sadia.
Em cima desses indicadores, surge assim o conceito de desenvolvimento
cultural cujo produto mais exemplar seria a democracia cultural, colocando em
questão o conjunto de determinismos que impedem aos indivíduos o acesso à
totalidade de bens culturais produzidos pela civilização.

Ideologia da modernização

Um aprofundamento da reflexão converge necessariamente ao tema deste


debate. Qual é o interesse subjacente ao discurso dos defensores dessa
democracia cultural: um real acesso dos indivíduos às primícias da cultural local
ou um projeto de modernização da sociedade? E esta modernização da
sociedade, responde a um desejo de plena realização dos indivíduos ou se
trataria de mais um projeto camuflado da sociedade industrial capitalista?
Esta questão é antiga, inclusive na América Latina (2). Data do pós-guerra,
quando nossas sociedades aproveitam-se da momentânea paralisação da
produção industrial dos países desenvolvidos ou de sua canalização para fins
bélicos. Sob inspiração da recém-criada Comissão Econômica para a América
Latina (CEPAL), da Organização das Nações Unidas (3), nossas sociedades
latino-americanas sentiram a ocasião propícia para romper contra a injusta ordem
econômica mundial, que condenava os países da periferia a serem, ad eternum,
produtores de matérias primas subvalorizadas contra as manufaturas
supervalorizadas dos países do centro. A sociologia do desenvolvimento, aliás, é
um produto desta situação histórica. O projeto industrial das sociedades latino-
americanas passava, contudo, pela necessidade de uma mudança cultural das
nossas sociedades, ainda marcadas pela tradição e por formas de valorização
dos tempos sociais pouco adequadas aos interesses da indústria crescente.
Instalou-se a ambigüidade e os primeiros a denunciar os desvios da
modernização foram os antropólogos, tendo à frente, no Brasil, nomes eminentes
como os de Darci Ribeiro (4), Antonio Cândido (5), e, mesmos liberais, como
Gilberto Freyre (6). Para estes antropólogos, independente da orientação político-
ideológica, firmava-se a certeza de qual tal projeto de modernização da sociedade
acenava enganosamente ao nosso índio, nosso caboclo ou nosso mestiço, com a
possibilidade de melhor condição de vida nas grandes cidades, mas condenando-
os na realidade à situação de subproletários urbanos. A ambigüidade para esses
autores consistia em reconhecer a legitimidade do desejo que orienta os
migrantes na busca de melhores condições de vida nas cidades, mas na certeza
igual, de que bem sucedidos ou não, tais trabalhadores perdiam suas raízes
culturais numa nova sociedade incapaz de oferecer um modelo alternativo
eficiente.
Por modernização passou-se então a entender a ideologia camuflada nas
ações que visavam a transformar nosso homem tradicional em instrumento
Apostila de História da Comunicação 48
Luís Henrique Marques

eficiente da produção industrial capitalista. Da modernização econômica à


modernização cultural o passo foi rápido. No Brasil, o estudo que conheço é o de
José Reginaldo Prandi (7) sobre a evolução do conteúdo da revista Família Cristã,
da década de 40 à década de 70, denunciando a Igreja Católica como uma das
promotoras da modernização cultural da sociedade brasileira e, como tal,
legitimadora do projeto capitalista da sociedade brasileira. Para o autor, inclusive,
o próprio conceito de democracia cultural poder ser incluído entre as dimensões
da ideologia da modernização.

Reprodução ou produção da sociedade

Como se percebe, é muito difícil estabelecer uma tradição da reflexão


científica sobre o tema, de tal forma ainda é incipiente o debate. Poucos dos
autores mencionados, inclusive, consideram-se agentes desse debate. Há um
impasse difícil de ser transposto entre, de um lado, a reflexão científica, de tipo
fatalista, carregada, de desconfiança sobre o tema, sensível ao peso dos
condicionamentos sociais e, de outro, a ação dos trabalhadores sócio-culturais,
mais voluntaristas, necessitados e, por isso mesmo, atentos a todo espaço
possível ao seu desenvolvimento.
Os sociólogos da comunicação, inspirados na herança de Tocqueville,
sempre se preocuparam com a questão: o que os meios de comunicação fazem
das pessoas? Esta questão, naturalmente, privilegia a observação dos conteúdos
dos meios e, sobretudo, a ideologia dos proprietários desses meios. Os
sociólogos da educação, privilegiando a observação do sistema escolar , se
ocuparam principalmente em observar as limitações do ensino face a um objetivo
mais amplo de superar as desigualdades de classes sociais. Contudo, estas
questões ainda que importantes restringem-se apenas à observação dos
mecanismos de produção de classes sociais. Há necessidade de questões que
permitam também observar a transformação da sociedade, os seus mecanismos
de produção.
Os recentes Congressos de Sociologia da Comunicação, da Associação
Internacional de Sociologia, Upsalla (1978) e México (1982), mostram que esta
nova perspectiva já está presente. Surge uma nova questão: o que os indivíduos
fazem dos meios de comunicação, ou seja, como os indivíduos reelaboram a
mensagem, além e apesar de receptores, aparentemente passivos, convertem a
mensagem dos emitentes e convertem-se em agentes de um processo de
mudança?
Pensando mais nos sociólogos presentes, deixo a minha contribuição em
cima da questão central deste debate. Não resta dúvida de que a revolução da
informática é uma das pontas de lança do desenvolvimento econômico atual e,
nos países capitalistas, passa a constituir mais um elemento da já sobejamente
estudada indústria cultural, com a sua ideologia peculiar e com seus desígnios já
conhecidos. É importante assim que se estimulem estudos que dêem conta dessa
nova roupagem de um já antigo mecanismo de reprodução social. Mas, por outro
lado, é importante que se amplie o espaço para a discussão sobre as novas
perspectivas de difusão e de reelaboração da cultura, abertas por esta revolução
da informática. Especificamente para as ciências da educação, é importante que
Apostila de História da Comunicação 49
Luís Henrique Marques

se mostre como esta revolução afeta seu campo de análise, tornando


ultrapassado o debate centrado na escola, desta vez definitivamente.
Há, pois, que reformular a questão-título do debate. Não se trata de
hipóteses excludentes mas de dimensões possíveis da análise de um mesmo
fenômeno, uma centrada na reprodução, outra centrada na produção da
sociedade.
Ideologia da modernização? Sem dúvida, se analisarmos a permanência
da estrutura da indústria cultural. Democracia cultural? Por ora, apenas um
projeto.

Notas
1. Ver Dumazedier, J. Valores e Conteúdos do Lazer. São Paulo, SEC/CELAZER, 1981.
2. Camargo, Lol. Genèse du loisir dans les pays en voie de développement – le cas du Brésil.
Tese de doutorado, Univ. Sorbone, Paris V, 1982.
3. CEPAL/ONU. El desarollo de America Latina, en la post-guerra. 1963.
4. Os índios e a Civilização. Petrópolis, Vozes, 1977.
5. Os Parceiros do Rio Bonito. Rio, José Olympio, 1964.
6. “On the Iberian Concept of time”, “in” The American Scholar, (32) (3), 1963.
7. Catolicismo e Família. São Paulo, Cebrap, 1974.”

“A Era da Informação21
(...) O regime capitalista vive, hoje, o que costumamos denominar economia
de mercado. A charmosa denominação identifica uma série de dispositivos que
comandam, com sempre menor possibilidade de apelo ou resistência, o mundo da
produção e da troca dos bens materiais. Mesmo os países que ainda permanecem
sob o regime socialista – como é o caso da China – buscam maneiras de inserir-
se na economia moderna, sob o risco de se isolarem em definitivo num mundo
assumidamente globalizado.
Segundo a literatura corrente, globalização não é o fenômeno recente,
como se poderia supor, mas representa um processo de larga maturação, com
ciclos de retratação, ruptura e reorientação, em que antigos costumes se mesclam
com novos signos. Na atualidade, pode ser descrita a partir de algumas
características vinculadas às relações econômicas, à ideologia política, à lingua
predominante e aos modos de comunicação. Vejamos:
a) Relações econômicas: as relações econômicas do mundo globalizado
são moldadas pelas exigências das empresas, corporações ou
conglomerados multinacionais e planetários (o Estado é compelido a
reduzir sua presença direta na economia nacional, privatizar as
empresas sob seu controle, promover a redução dos seus gastos,
principalmente na área social, mantendo-se porém, o papel de guardião
dos interesses transnacionais).
b) Ideologia política: o ideário neoliberal é reafirmado globalmente como
única opção possível, legitimando uma visão de mundo coerente com o

21
Trecho extraído do livro “Sociedade da Informação ou da Comunicação?”, de Ismar de
Oliveira Soares, Editora Cidade Nova, 1996, página 9.
Apostila de História da Comunicação 50
Luís Henrique Marques

novo cenário econômico e ordenando as relações sociais (a ideologia


liberal afirma o ‘direito à liberdade individual’ como sendo anterior ao
direito à vida e ao direito à sobrevivência. Como, porém, não se
garantem oportunidades iguais no exercício da liberdade, forma-se uma
sociedade de desiguais, onde todos pagam para que seja garantida a
liberdade de alguns).
c) Língua predominante: a língua inglesa garante o intercâmbio entre os
agentes financeiros mundiais e passa a ser utilizada como idioma
universal nos campos da cultura e do turismo (oitenta e oito por cento de
toda a literatura científica e técnica são veiculados em inglês).
d) Modos de comunicação: a revolução tecnológica no campo dos recursos
e dos meios de comunicação – possibilitada pela telemática e pela
tecnologia dos satélites – amplia de forma excepcional a capacidade de
produção, acumulação e veiculação de dados e informações. A
capacidade de armazenamento dos bancos de dados de todos os
computadores conectados à Internet equivale, por exemplo, a mais de
cinqüenta milhões de CD-ROMs. E um CD-ROM pode-ser armazenar
toda uma enciclopédia.
A globalização da economia atinge de forma direta o mundo da cultura. Os
bens simbólicos (difundidos através de filmes, programas de TV e de rádio, livros,
revistas e jornais) já não escapam a uma subordinação inapelável à nova prática
econômica, alimentando – segundo alguns críticos – o imaginário da maior parte
dos seres humanos de todas as raças, religiões e poder aquisitivo.
“O fato é absolutamente preocupante”, garante o editor-chefe do jornal
alemão Neues Deutschland, Reiner Oschmann1. Na verdade, tornou-se consenso
afirmar que as questões políticas e culturais (do mesmo modo que os assuntos
econômicos) são tratadas, hoje, sob o olhar vigilante e a permanente interferência
de bancos, corporações multinacionais e da própria mídia mundial. Essa razão
pela qual o tema da globalização da economia vem ganhando cidadania nos
fóruns internacionais, despertando a atenção sobretudo dos estudiosos da
cultura”.

______________
1
A opinião foi emitida em palestra durante o II Fórum Folha de Jornalismo e Mídia, organizado pelo
jornal Folha de São Paulo em 13 de outubro de 1995.
Apostila de História da Comunicação 51
Luís Henrique Marques

10. BIBLIOGRAFIA GERAL


BAHIA, Juarez. Jornal, história e técnica – história da imprensa brasileira. São
Paulo: Ática, 4a ed., 1990, 445p.
CAPELATO, Maria Helena. Imprensa e história do Brasil. São Paulo:
Contexto/EDUSP, 2a ed., 1988, 78p.
CASADO, Alfredo. Os meios de comunicação social e sua influência sobre o
indivíduo e a sociedade. Tradução: Attílio Cancian. São Paulo: Cidade Nova,
1987, 93p. (Cadernos Humanidade Nova)
DeFLUER, Melvin & BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da comunicação de
massa. Tradução: Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993,
397p.
MATTELART, Armand. Comunicação Mundo: história das idéias e das
estratégias. São Paulo: Editora Vozes, 1994.
MOHERDAUI, Luciana. Guia de estilo web: produção e edição de notícias online,
São Paulo: Senac, 2000.
PACITTI, Tércio. Do fortran à internet: no rastro da trilogia educação, pesquisa e
desenvolvimento. São Paulo: Makron Books, 2ª edição atualizada, 2000, 453p.
PINTO, Virgílio Noya. Comunicação e cultura brasileira. São Paulo: Ática, 4a.
ed., 1995, 77p.
RIZZINI, Carlos. O jornalismo antes da tipografia. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1977, 204p.
SOARES, Ismar de Oliveira. Sociedade da informação ou da comunicação?
Sâo Paulo: Cidade Nova, 1996, 80p. (Pensar Mundo Unido)
STEPHENS, Mitchell. História das comunicações – do tantã ao satélite. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, 693p.