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Ceremonies ofPossession in Europe's Conquest of the New World, 1492-1640

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Seed, Patrícia
C e r i m ô n i a s de p o s s e n a c o n q u i s t a e u r o p é i a d o n o v o m u n d o ( 1 4 9 2 - 1 6 4 0 ) /
Patrícia Seed; t r a d u ç ã o Lenita R. Esteves. - S ã o Paulo: Editora U N E S P , 1 9 9 9 .
- (UNESP/Cambridge)

T í t u l o o r i g i n a i : C e r e m o n i e s o f P o s s e s s i o n in E u r o p e ' s C o n q u e s t o f N e w
World. 1492-1640.
ISBN 85-7139-270-6

1. A m é r i c a - D e s c o b r i m e n t o e e x p l o r a ç õ e s 2. C o n q u i s t a d o r e s - A m é r i c a
- História - Século 16 3. C o n q u i s t a d o r e s - A m é r i c a - H i s t ó r i a - S é c u l o 17
4. Ritos e cerimônias - América - História - Século 1 6 5. R i t o s e c e r i m ô n i a s
- América - História - Século 17 6. R i t o s e c e r i m ô n i a s - E u r o p a - História
- Século 16 7. R i t o s e c e r i m ô n i a s - E u r o p a - H i s t ó r i a - S é c u l o 1 7 I. T í t u l o .
II. S é r i e .

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1

CASAS, JARDINS E CERCAS


SINAIS D A POSSE INGLESA N O N O V O M U N D O

"Em 15 de dezembro, eles [os peregrinos] baixaram âncora


para visitar a região que haviam descoberto ... E depois examina-
ram o lugar mais detidamente, e resolveram onde erigir sua mo-
radia; e no dia 25 começaram a construir a primeira casa de uso
c o m u m , para abrigá-los e t a m b é m às suas mercadorias." 1 Assim
W i l l i a m Bradford descreve o início da c o l o n i z a ç ã o inglesa em
Plymouth, no estado americano de Massachusetts, em 25 de de-
zembro de 1620. Esse é um relato normal e prosaico da posse ingle-
sa do Novo Mundo. Não houve ordem ritual de desembarque, nin-
guém se ajoelhou para reivindicar a terra, 2 não houve cerimônias
em torno do desembarque, nenhuma cruz foi fincada e a ninguém
foi entregue um retalho de grama ou graveto. Não se descreveu
nem se desfraldou nenhuma bandeira, nenhuma declaração solene
foi feita ou registrada pelos líderes da expedição, como era caracte-
rístico das cerimônias espanholas de posse. Em vez disso, a descri-
ção de Bradford, como as de outros peregrinos, revela uma tomada
de posse do Novo Mundo guiada pela mais mundana das decisões,
"onde erigir sua moradia", onde construir "a primeira casa". 3 Uma
década depois, John Winthrop descreveria a posse da Colônia da
Baía de Massachusetts iniciando-se "pela construção de uma casa
ali".4 Mas os conquistadores da Nova Inglaterra não foram de modo
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algum os únicos colonizadores ingleses a descrever seu assenta-


m e n t o no Novo Mundo dessa maneira.
Mais ao sul, em J a m e s t o w n , cerca de catorze anos antes da
fundação do assentamento de Plymouth, os colonizadores da Vir-
gínia estavam procurando um lugar para fixar residência. George
Percy descreveu a ocupação inglesa em J a m e s t o w n em termos
i g u a l m e n t e m u n d a n o s : " N o décimo-terceiro dia, c h e g a m o s ao
nosso assentamento no território de Paspiha. No décimo-quarto
dia desembarcamos todos os nossos homens, que pusemos para
trabalhar". 5 O relato de George Popham, feito em 1607, descreve
a escolha de um lugar para a s s e n t a m e n t o no dia 18 de agosto e,
no dia seguinte, "no décimo-nono dia de agosto, fomos todos à
praia, onde fizemos escolha para nossa plantação". 6 Aqui, como em
outros pontos, transparece o caráter banal da t o m a d a de posse
inglesa. Quando os ingleses retornaram, em 1587, e encontraram o
local de seu primeiro a s s e n t a m e n t o em Roanoke abandonado e
em ruínas, a primeira "ordem dada foi a de que todos os homens
deveriam ocupar-se da restauração daquelas casas que encontramos
de pé, e t a m b é m fazer novas cabanas para aqueles que necessi-
tassem". 7 Restaurar as casas, e não cerimonialmente afixar símbo-
los da autoridade européia, foi a primeira ordem de trabalho para
aquele dia.
Embora alguns dos primeiros esforços colonizadores t a m b é m
t e n h a m consistido em fincar cruzes ou ler sermões, essas ações
foram m u i t a s vezes omitidas. M a s n e n h u m a expedição inglesa
jamais deixou de mencionar a construção de uma casa. 8 Uma peça
do início do século XVI, observando melancolicamente os impérios
de além-mar espanhol e português, lamentava: "Se aqueles que são
ingleses/Pudessem ter sido os primeiros/Que lá tivessem tomado
posse/ E feito primeira construção e moradia". 9
Está longe de ser uma coincidência o fato de os relatos da
ocupação inglesa do Novo M u n d o geralmente começarem com a
descrição da atividade banal de construir casas. Embora outras fon-
tes de direitos tais c o m o a "descoberta" t e n h a m sido posterior-
m e n t e alegadas c o m o justificativas para a posse inglesa do Novo
Mundo, os próprios colonizadores em geral não fizeram uso desse
argumento. 10 Da mesma forma, esse argumento não foi empregado
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na Inglaterra da época pelos advogados das colônias. Em vez disso,


os ingleses do século XVI e do início do século XVII geralmente
construíam seu direito de ocupar o Novo Mundo sobre alicerces
muito mais familiares em termos históricos e culturais: construir
casas e cercas e plantar jardins. O rei descreveu como os fundadores
da Companhia da Virgínia foram humildes requerentes ... para fa-
zer habitações e plantações", 11 ou seja, construir casas (habitações)
e cultivar jardins ou lavouras (plantações). Construir a primeira
casa foi crucial para os estágios iniciais do a s s e n t a m e n t o inglês,
principalmente por causa de seu significado cultural como registro
de estabilidade, carregando historicamente um sentido de perma-
nência que faltava até mesmo em outros lugares da Europa con-
tinental.
A característica central da sociedade inglesa foi, e ainda é, a
aldeia. "A Inglaterra é u m país de aldeias", escreveu o geógrafo
Brian Roberts. M e s m o nos dias de hoje, estima-se que existam
treze mil aldeias, muitas das quais podem documentar mil anos de
existência contínua no mesmo local. 12 As fronteiras das freguesias
em Lincolnshire, Berkshire e Devon, por exemplo, r e m o n t a m a
mais de mil anos. 1 3 Embora a peculiar fixidez do povoado inglês
possa dever-se parcialmente à localização do país em uma ilha, sem
um território contíguo para o qual pudesse expandir-se, há um
caráter fixo e permanente do povoado inglês que não existe em
outros lugares da Europa. Portanto, ao estabelecer uma casa, um
inglês estava assumindo um modelo de assentamento fixo que ha-
via durado séculos. Construir uma casa no Novo Mundo era, para
um inglês, um sinal claro e inequívoco da intenção de ficar - talvez
por um milênio. 14
As casas também estabeleciam um direito legal à terra sobre as
quais eram construídas. Erigir uma moradia fixa (não-móvel) sobre
um território criava, na legislação inglesa, um direito virtualmente
inexpugnável de possuir o lugar. 15 Dispor objetos físicos como casas
para estabelecer um direito à terra era uma característica singular
e notável da lei inglesa. Todos os outros sistemas legais europeus
que viriam ao Novo Mundo - o francês, o espanhol, o português e
o holandês - exigiam permissão formal ou registros escritos para a
aquisição do título da terra, até mesmo nos casos em que esta era
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aparentemente ociosa. 16 Na legislação inglesa, nem uma cerimônia


nem um documento, mas sim a ação ordinária de construir uma
moradia criava o direito de posse. A presença e a ocupação contí-
nua do objeto - a casa - m a n t i n h a m esse direito.
Além da casa, outro tipo de objeto físico também criava direi-
tos semelhantes de posse e propriedade. Fixando um limite, como
uma sebe ao redor dos campos, e empreendendo algum tipo de
atividade que demonstrasse o uso (ou a intenção de usar, ou seja,
limpar a terra), qualquer pessoa podia estabelecer um direito legal
à terra aparentemente sem utilização. 1 7 C o m o com a casa, a ati-
vidade na terra, e não permissões, cerimônias ou declarações por
escrito, criava a propriedade. O o b j e t o c o m u m - casa, cerca ou
outro marcador de divisa - significava propriedade.
A preocupação dos ingleses com as divisas e com os marcado-
res de divisas na qualidade de indicadores significativos de proprie-
dade caracteriza os primeiros registros ingleses de terras vendidas
ou doadas entre 600 e 1080 d. C. Chamados de "perambulações",
esses registros contêm descrições altamente detalhadas de objetos
físicos próximos aos limites, c o m o se tivessem sido descritos du-
rante uma caminhada (ambulação) em torno das bordas (períme-
tro) de uma propriedade. Mesmo esses primeiros registros apontam
a sebe como o segundo marcador de divisa mais usado. 18 No início
da Idade Média, a importância cultural das divisas estava bem
estabelecida, sendo amplamente entendida e utilizada na aquisição
de propriedades. 19 Divisas ao redor da terra - uma cerca (estacas de
madeira) ou uma sebe - estabeleceram a propriedade em práticas e
costumes legais há muito existentes na Inglaterra. 20
D o século XIV em diante, a cerca ou sebe adquiriu t a m b é m
outro significado: tornou-se o principal símbolo não apenas da pro-
priedade, mas especificamente da propriedade privada de terra. 21
Em m u i t a s partes da Inglaterra medieval, um grupo de pessoas
muitas vezes partilhava um interesse coletivo em um pedaço de
terra. Mas durante os séculos XIV e XV, a propriedade coletiva foi
cada vez mais dando lugar à propriedade privada individual. Esse
processo social (mais tarde legal) foi chamado de m o v i m e n t o de
cercamento. Formalmente, um cercamento significava que os pro-
prietários coletivos deveriam trocar seus direitos partilhados sobre
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um grande pedaço de terra por direitos privados sobre um pedaço


menor. Para estabelecer-se a propriedade definitiva do terreno me-
nor, este era marcado nas divisas. "Cerque bem, para que seu terre-
no fique inteiramente em seu poder", escreveu William Lawson,
autor de um livro popular sobre jardinagem. 22
O movimento de cercamento ganhou força durante o século
XVI, eliminando uma parte considerável das terras partilhadas ou
de propriedade coletiva, e fazendo que muitas pessoas ficassem
sem terra. 23 Assim, no início da colonização ultramarina inglesa,
cercar a terra com cercas ou sebes significava estabelecer a proprie-
dade especificamente individual. Salvo raras exceções, os ingleses
criaram propriedades privadas nas Américas. M e s m o quando os
a s s e n t a m e n t o s c o m e ç a v a m c o m concessões coletivas, as terras
eram logo subdivididas e passavam para mãos de proprietários pri-
vados. 24 Desse modo, fechar e cercar foi ainda mais crucial para os
primeiros colonizadores, porque era o meio habitual de estabelecer
a propriedade privada. Os ingleses partilhavam um entendimento
singular segundo o qual a ação de cercar criava legitimamente uma
propriedade privada exclusiva no Novo Mundo.
Os tipos de cercas podiam variar. Em Rhode Island, coloniza-
dores ingleses empregaram m e m b r o s da tribo Narragansett na
construção de cercas de pedra.25 Com mais freqüência, os primeiros
ocupantes ingleses do Novo M u n d o usaram sebes, cercas e pali-
çadas para isolar sua propriedade agrícola. As sebes e cercas eram os
métodos anglo-saxões clássicos e t a m b é m do início da Inglaterra
medieval para criar divisas de propriedade; a paliçada (estacas
pontudas colocadas bem próximas umas às outras) era, no século
XIII, o meio inglês clássico para confinar animais numa reserva de
caça. 26 A variedade de madeiras disponíveis no Novo Mundo para
a construção de cercas logo fez delas a forma mais popular de cer-
camento. 2 7 C o m o observa o paisagista V. R. Ludgate, as estacas
pontudas colocadas perto umas das outras foram "sem dúvida as
precursoras da cerca de estacas". 28

Quando a propriedade não era voluntariamente cercada, ofi-


ciais locais e até m e s m o do remo exigiam que os colonizadores
ingleses construíssem cercas. Em 1639, um Tribunal Distrital de
Rhode Island determinou que "deve haver cercas suficientes, sejam
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elas sebes ou cercas de mourão e arame, construídas ao redor dos


campos de milho que serão plantados ou semeados" em Rhode
Island. 29 Entre as primeiras leis aprovadas pela assembléia da Vir-
gínia (25 de março de 1623) estava a disposição segundo a qual
"todo h o m e m livre deve cercar um quarto de acre de terra antes
da festa de Pentecostes" (8 de setembro de 1623) - uma injunção
repetida pelo legislativo em 1632, 1642 e 1646. " T o d o h o m e m
deve fechar sua terra com cercas suficientes ou então plantar." 3 0
Numa data posterior, até m e s m o a altura mínima das cercas foi
fixada em 1,35 m. 31 Leis semelhantes foram impostas no vale do
rio C o n n e c t i c u t e na colônia de Maryland.' 2
Lá na Inglaterra, os oficiais ingleses estavam igualmente preo-
cupados c o m a construção de cercas. A C o m p a n h i a da Virgínia
enviou instruções para o governador Francis Wyatt, em 1621, deter-
minando que as terras da companhia deviam ser cercadas. 33 Após a
extinção da Companhia da Virgínia, o rei enviou duas ordens su-
cessivas (quase idênticas) aos governadores, determinando que os
colonos construíssem cercas em suas terras. Em virtude da vasta
extensão do Novo Mundo e da impossibilidade de realmente cercar
todo o domínio reivindicado por um indivíduo, a construção de
uma cerca algumas vezes era ordenada para uma porção da terra
no intuito de simbolizar a propriedade. Em suas instruções ao go-
vernador da Virgínia, o rei Carlos ordenou que todo colono "seja
obrigado, para cada 2 0 0 acres que lhe sejam concedidos, a fechar
e devidamente cercar pelo menos um quarto de acre de terra". 3 4
Embora o significado das cercas fosse muitas vezes racionalizado
em termos práticos, tais c o m o o intuito de proteger lavouras da
invasão de animais predadores, estava claro que elas t a m b é m ti-
nham um sentido político. Apenas nas colônias inglesas é que os
oficiais - a Coroa, os tribunais, as assembléias locais - ordenavam,
de forma consistente e regular, que se construíssem cercas. 35 O mo-
tivo é que as cercas e outros tipos de divisas t i n h a m significado
legal. As cercas criavam a suposição de propriedade no direito me-
dieval inglês; sua presença visível na paisagem indicava fisicamente
a efetiva ocupação inglesa, e comunicava direitos ingleses. Além
disso, a cerca impedia que o gado destruísse a evidência da proprie-
dade privada, o ato de possuir por meio do plantio.
I

r\j—=

co —
TIPO DESCRITO POR TliO Aí AS AMBVREY

: — = ALGUNS TIPOS POSTERIORES DE CERCAS

Cn—= -w JSLff^

ALCVMAS CERCAS ANTIGAS

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UD—=

FIGURA 1 - Algumas cercas antigas no Novo Mundo inglês. Extraído de V. R. Ludgate, Cardens of the Colonists (Washington, D. C.. 1941).

NJ =
.36 P A T R Í C I A SEED

Além de determinarem a construção de cercas, os oficiais do


mundo colonial inglês muitas vezes ordenavam uma outra ação
relacionada à propriedade privada - a agnmensura. Desde o início, a
Companhia Londrina da Virgínia empregou agrimensores e buscou
avidamente informações sobre a cartografia do local. "Em 1616,
quando a Virgínia e as Bermudas estavam quase sob a m e s m a
administração, agrimensores e representantes do governo foram
enviados às duas plantações", escreveu Alexander Brown. 3 6 Embora
os agrimensores oficiais não tenham aparecido por várias décadas
em Massachusetts, todas as colônias contratavam agrimensores,
geralmente nas fases iniciais da colonização. 3 7
O principal trabalho do agrimensor durante o período colonial
da história americana consistia em avaliar formalmente os limites
da propriedade privada, uma tradição que perdurou durante a ex-
pansão para o oeste. 3 8 De fato, a agrimensura foi originalmente
justificada na Inglaterra c o m base no argumento de que criaria
descrições mais detalhadas dos limites das terras privadas. 39 Dentre
outros colonizadores europeus, os holandeses t a m b é m enviaram
agrimensores, mas para que projetassem o desenho dos fortes, e
não para assegurar os limites das propriedades privadas. 40 Os suecos
enviaram um agrimensor em 1634, mas para descrever os limites
políticos de um território comprado dos índios, e não para estabe-
lecer a propriedade privada.41 Mapas de limites de propriedades pri-
vadas nem sequer surgiram na França antes de 1650. 42 Nenhuma
outra colônia européia empregou agrimensores tão extensivamen-
te; nenhum outro colonizador europeu considerou ser tão central,
para a legitimação da posse, o estabelecimento de propriedades
privadas ou divisas no Novo Mundo. 4 3
O gesto de afixar símbolos da propriedade individual, plan-
tando cercas e sebes, era algumas vezes chamado pelos coloni-
zadores de "melhoria" [improvement]. Embora no discurso popular
de hoje a palavra signifique apenas tornar algo melhor, a palavra
[improvement] significou, em primeiro lugar, cercar grandes tratos de
terra anteriormente abertos. Originou-se com os movimentos de
cercamento na Inglaterra do século XVI. 44 "Melhorar" [improve] a
terra significava, inicialmente, reivindicá-la para o próprio uso agrí-
cola ou pastoril, cercando-a com um dos símbolos arquitetônicos
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característicos do século XVI, a cerca. O historiador William Cronon


escreve que a cerca "para os colonizadores talvez representasse o
mais visível símbolo de uma paisagem melhorada".45 M e s m o nos
Estados Unidos dos dias de hoje, a cerca continua sendo legalmente
uma melhoria. 46 Fechando toda a propriedade ou apenas parte dela,
a cerca simbolizava a propriedade inglesa de um modo cultural-
mente forte.
Assim, os ingleses que ocuparam o Novo Mundo inicialmente
inscreveram sua posse afixando seus próprios símbolos de proprie-
dade c u l t u r a l m e n t e fortes - casas e cercas - na paisagem. M a s
embora as casas e as cercas registrassem a posse por meio de marca-
dores fixos, houve um segundo modo de assegurar a posse. A pro-
priedade da terra podia ser assegurada simplesmente por meio de
seu uso, em atividades agrícolas ou pastoris. Nos séculos XVII e
XVIII, as melhorias t a m b é m se referiam a duas atividades repeti-
damente empreendidas na mesma terra: o pastoreio (de animais
domésticos) e o plantio. U m colonizador da Nova Inglaterra es-
creveu: "Sem encontrar então maneira mais adequada de melhorar
[as terras do que] a criação [animais domésticos]". 47 "Considero que
a jardinagem deve ser aplaudida e encorajada em todos os países",
escreveu William Temple. "É um serviço público prestado ao país ...
que ... melhora o planeta." 4 8

Plantar o jardim

"No dia 2 de julho [1548], encontramos águas rasas, onde sen-


timos um perfume muito doce e forte, c o m o se estivéssemos no
meio de algum jardim delicado." Assim os ingleses descreveram sua
aproximação da terra na Virgínia. 49 " O solo", acrescentaram eles,
"é o mais farto, suave, frutífero e saudável de todo o mundo."' 10
Cinqüenta anos mais tarde, John Winthrop usaria uma expressão
quase idêntica, descrevendo "um ar tão doce e agradável que nos
refrescou, veio u m cheiro da praia c o m o o perfume de um jar-
dim". 5 1 "Que prazer pode existir ... no cultivo de vinhas, frutas ou
ervas, no ... planejamento de seus campos, jardins, pomares", es-
creveu John Smith, da Nova Inglaterra. 52 George Wither também
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descreveria a Nova Inglaterra como um jardim, e James Rosier pro-


clamou o litoral do estado do Maine c o m o "uma terra cuja agra-
dável fertilidade se preserva para ser o jardim da natureza". 5 3
M e s m o antes de começarem a se estabelecer fora da terra na-
tal, os ingleses estavam predispostos a ver o mundo ultramarino
c o m o um jardim. O "Discourse on Western Planting" ["Discurso
sobre o Plantio Ocidental"], de Richard Hakluyt, apropriou-se sele-
tivamente das descrições, feitas por antigos escritores franceses, da
abundância agrícola da Flórida a fim de defender o colonialismo
inglês; W a l t e r Ralegh invocava o significado do n o m e "Flórida"
com o mesmo intuito. 5 4 Até outras áreas do mundo - tais c o m o a
Ásia - eram vistas, por meio da literatura de viagem traduzida,
como um jardim. 55
Os exploradores espanhóis foram atraídos ao Novo Mundo por
histórias, extravagantes e verdadeiras, de ouro; os portugueses
foram seduzidos por histórias de temperos e de madeiras com subs-
tâncias corantes; mas os ingleses, muito mais que qualquer outro
grupo de colonizadores, foram tantahzados pelo jardim. 5 6 Refe-
nam-se às suas próprias atividades na ocupação do Novo Mundo
como plantar o jardim. "Plantar nos solos mais suaves, agradáveis,
mais fortes e férteis" é c o m o Richard Hakluyt, o Velho, descreveu
a colonização potencial em 1584. 57 O motivo de as metáforas agrí-
colas e de jardinagem terem um apelo tão forte para os ingleses (e
somente para eles) merece ser considerado. 58
No início do século XVII, o jardim surgiu c o m o uma forma de
arte para os ingleses. Foram traduzidas dúzias de livros vindos da
França e da Itália sobre a estética da jardinagem, e escreveram-se
obras sobre a apreciação estética dos jardins. O crescente interesse
nas funções puramente ornamentais ou estéticas dos jardins - uma
tendência que tem continuado até os nossos dias 59 - não atenua o
fato de o jardim ter tido outro sentido, mais básico e tradicional, na
cultura inglesa.
Talvez já no século VIII, o inglês arcaico criou uma diferencia-
ção entre plantas selvagens e aquelas cultivadas. 60 O termo inglês
wild em seu sentido moderno mais amplo significa tudo o que não
é refreado - pessoas, s e n t i m e n t o s , animais, plantas. Aplicado a
um animal, o termo significava "não domado nem domesticado";
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 39

aplicado a plantas, significava "não cultivado"; o Oxford English


Dictionary indica que ambas as acepções remontam ao século VIII.
O par de t e r m o s wild/cuhivated [selvagem/cultivado] significava
assim uma diferença crítica entre o selvagem (incontrolado) e o
civilizado.
No início do século XI, os ingleses c o m e ç a r a m a erigir uma
barreira física - uma cerca ou muro - para separar o selvagem do
cultivado. Essa barreira definia um pedaço de terra fechado e de-
dicado ao cultivo de flores, frutos ou legumes, chamado jardim. 61 A
popularíssima edição, organizada por Barnabe Googe, de Husbandry,
de Conrad Heresbach (1557), declarava que "a primeira coisa neces-
sária para um jardim é a água. A segunda é que ele seja fechado". 62
M a s a colocação de u m marcador de divisa - um c e r c a m e n t o -
entre o selvagem e o cultivado t a m b é m transformou o jardim.
Ao adquirir um limite físico, o jardim inglês começou a signi-
ficar posse. Embora os povos do Novo Mundo certamente culti-
vassem plantações, e seus terrenos fossem às vezes descritos como
"semelhantes a jardins", a maioria dos agricultores nativos da Amé-
rica não confinava seus terrenos c o m muros ou cercas. O fato de
a maioria dos americanos nativos não cercar seus terrenos para
simbolizar a propriedade convenceu os ingleses de que, apesar de
parecerem jardins, as plantações nativas não criavam o direito de
posse.
C o m o a criação de divisas tinha há muito tempo estabelecido
a propriedade legal na lei e nos c o s t u m e s ingleses, a cerca ou o
muro do jardim o transformaram num símbolo de posse. Assim,
um dos ensaios sobre jardinagem mais populares no século XVII
afirmava de um modo relativamente etnocêntrico: "O uso de jar-
dins parece ter sido a mais antiga e generalizada de todas as formas
de posse entre os seres humanos". 6 3 Mas o jardim simbolizava a
posse apenas no contexto inglês e era um símbolo antigo apenas se
o século XI puder ser considerado "antigo".
Assim, uma das primeiras ações dos colonizadores ingleses no
Novo M u n d o era plantar u m jardim c o m o sinal de posse. Logo
depois de construir uma casa, "um jardim era formado, e as semen-
tes de frutas e legumes não-nativos da região eram plantadas". 6 4
John Smith plantou "no topo de uma ilha rochosa" da costa do
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Maine um jardim que produzia verduras frescas em junho e julho.


O s colonizadores que se m u d a r a m para o norte do vale do rio
Connecticut em 1636 plantaram cuidadosamente jardins perto do
rio como um sinal de posse. Seguindo ordens do rei, o governador
Berkeley, da Virgínia, exigiu em 1641 que todo colono que tivesse
um terreno c o m mais de 2 0 0 acres plantasse um jardim e o cer-
casse. 65
U m a solução para a inabilidade de cercar todo o pedaço de
terra reivindicada pelos ingleses era plantar e cercar uma pequena
parte daquela terra, um jardim. C o m o um sinal de posse, o jardim
representava toda a ambição colonial de possuir a terra, estabele-
cendo uma parte do projeto de um modo central e visível. Nenhum
outro país utilizou o jardim da mesma maneira, porque em ne-
nhum outro país europeu o jardim era símbolo de posse.
Enquanto o próprio jardim representava o esforço colonial de
uma forma visível e fixa, os ingleses descreviam-se " p l a n t a n d o "
o jardim. De acordo c o m o Oxford English Dictionary, "planting"
["plantar"] significava originalmente "fixar no solo de modo que as
plantas possam crescer". No inglês do século XVI, "plantar" signi-
ficava fixar ou estabelecer qualquer coisa que se assemelhasse ao
gesto de fixar no solo. Em Good Newes from Virgínia, o reverendo
Alexander Whitaker declarou que a colônia inglesa em Jamestown
"tinha se enraizado melhor e, c o m o uma planta que se espalha,
cuja parte superior foi muitas vezes podada, renova seu crescimen-
to e se espalha mais gloriosamente". 66 Plantar era a ação dos coloni-
zadores no Novo Mundo; metaforicamente, eles eram plantas em
relação ao solo, e portanto seus assentamentos coloniais eram men-
cionados como plantações.
Assim, quando os ingleses se referiam mais freqüentemente às
suas colônias no Novo Mundo como plantações, estavam referin-
do -se a si próprios, metaforicamente, no ato de tomar posse. 67 Os
holandeses algumas vezes também se referiam ao estabelecimento
de suas colônias com o verbo plantar (planten). Mas não descreviam
a si próprios c o m o plantadores, nem usavam a palavra plantações
para seus assentamentos agrícolas, preferindo usar tanto a palavra
colônias (coloniên) para seus assentamentos, quanto os termos casas
e famílias (huyghesinnen) para si próprios. 68 Os holandeses não iden-
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 41

tificavam a si próprios c o m o agricultores nem a sua missão ultra-


marina como fundamentalmente agrícola.
Plantar, o jardim ou a colônia, significava mais do que o sim-
ples trabalho na terra. Em 1580, Richard Hakluyt expressou sua
esperança de "induzir nossos ingleses ...a plantar uma colônia em
algum local conveniente, e assim possuir a região".69 Plantar signi-
ficava o que William Strachey descreveu em 1612 c o m o "posse
efetiva". 70 O conteúdo da expressão "tomar posse efetiva" foi ela-
borado por John C o t t o n em 1630. Consistia num princípio de lei
natural, escreveu ele, que "num solo desocupado, aquele que toma
posse dele, e nele assenta cultura e criação [husbandry], torna-se seu
de direito". 71 "Assentar cultura" não se referia à língua ou a leis de
conduta, como pode acontecer hoje. Tinha um sentido bem dife-
rente: plantar e criar animais domésticos, "criação" ["husbandry"],
cuidar da criação de animais, cultivar plantas e frutas, plantar o
jardim. 72 Assim, plantar o jardim não envolvia nem apenas o mero
exercício físico nem a mera apreciação estética; plantar o jardim era
um ato de tomar posse do Novo Mundo para a Inglaterra. Não era
uma lei que dava aos ingleses o direito de possuir o Novo Mundo,
era uma ação que estabelecia esses direitos.
A idéia de que a atividade agrícola significava posse t a m b é m
tem uma história caracteristicamente inglesa. A agricultura, como
as casas, significava um tipo de permanência. As divisas das terras
e as linhas que desenhavam os campos saxônicos arados do século
X são algumas vezes idênticas às divisas e linhas do final do sécu-
lo XX. 73 Dessa forma, não havia apenas aldeias de setecentos anos,
mas também lavouras de setecentos anos na Inglaterra do início da
era moderna. Os ingleses que chegavam ao Novo M u n d o enten-
diam que suas atividades agrícolas demonstravam uma intenção de
estabelecer um assentamento permanente.
Embora "assentar cultura e criação" fosse uma expressão fre-
qüentemente usada para descrever as ações pelas quais os ingleses
plantavam uma colônia e assim se apossavam da terra, havia um
outro par de verbos ainda mais c o m u m para descrever essa ativi-
dade: "encher" e "sujeitar". "Aquela [terra] que é c o m u m e nunca
ninguém encheu ou sujeitou está livre para qualquer um que quei-
ra possuí-la e melhorá-la", escreveu John Wmthrop. 7 4
42 P A T R Í C I A SEED

Encher e sujeitar a terra

Embora fossem ocasionalmente empregados c o m referência


ao povoamento de uma terra relativamente despovoada, 75 os ver-
bos "encher" e "sujeitar" eram termos principalmente ligados às
técnicas da agricultura inglesa não empregadas pelos índios. "En-
cher" significava enriquecer o solo, plantando grãos ou utilizando
um fertilizante inglês conhecido. 76 A terra que eles [nativos] nunca
engordam com esterco ou com qualquer outra coisa, nunca a aram
ou cavam como fazemos na Inglaterra", escreveu T h o m a s Harriot
em 1585. 7 7 Utilizar esterco animal c o m o fertilizante parece ter
sido a preferência caracteristicamente inglesa (sendo o adubo com-
posto preferido na Europa continental), e a ela se referiram c o m
grande repugnância os franceses medievais. 78 O esterco e suas apli-
cações eram freqüentemente objeto de comentário tanto nos livros
ingleses de jardinagem populares q u a n t o nos aristocráticos. 7 9 De
fato, o verbo to manure [adubar com esterco animal], no inglês do
século XVI, significava "possuir", "cultivar", c o m as mãos, assim
c o m o "enriquecer a terra c o m esterco". 8 0 " S u j e i t a r " - o uso de
implementos - parece ter significado o uso do arado anglo-saxão
puxado por bois. A prática de atrelar bois a arados c o m e ç o u na
maioria dos países da Europa ocidental nos séculos IX ou X, com
sua primeira evidência na Inglaterra saxônica datando do século
XI. 81 Ambas as palavras referem-se a métodos caracteristicamente
europeus e algumas vezes distintivamente ingleses de trabalhar o
solo.
O uso desses dois termos não foi acidental. Eles se originaram
do livro do Gênesis. A citação bíblica mais popular na ocupação
inglesa do Novo Mundo - Gên. 1:28, "Crescei e multiplicai-vos, e
enchei a terra, sujeitai-a"82 - era muitas vezes descrita c o m o "grande
estatuto dado a Adão e à sua posteridade no Paraíso". 83 Dizia o an-
glicano Richard Eburne:

Foi ordem expressa de Deus a Adão, Gênfesis] 1:28, que ele de-
veria encher a terra e sujeitá-la. Por virtude desse estatuto ele e os
seus tiveram desde então o privilégio de se espalhar por toda parte e
de ter, ocupar e usufruir qualquer região ou terra que encontrassem
ainda não ocupada.84
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 43

Linguagem virtualmente idêntica usou o puritano Robert


C u s h m a n . "Se, portanto, qualquer filho de Adão encontrar um
lugar vazio, ele tem direito de vir, encher e sujeitar a terra ali", 85
uma citação que une o conceito de terra desocupada ("encontrar
um lugar vazio") ao conceito de sujeitar a terra.
O argumento lógico, baseado nas escrituras, para expropriar
terras nativas também foi mencionado em leis e escritos bastante
considerados. John Locke invocou o entendimento caracteristica-
mente inglês do Gên. 1:28. "Deus e sua razão lhe ordenaram que
sujeitasse a terra ... Aquele que, em obediência ao desígnio de Deus,
sujeitou, arou e semeou qualquer porção dela, com isso anexou-lhe
algo que era sua propriedade." 86 O trecho bíblico foi até incorpo-
rado à lei de Massachusetts entre 1633 e 1637: "Está declarado e
ordenado por esta Corte e por sua autoridade que as terras que
qualquer índio desta jurisdição possuiu, melhorou, sujeitando a
mesma, ele tem direito a ela, de acordo com o que está escrito em
C ê n . 1:28 e 9:1, e S a l m o s 115, 116". 8 7 O s m e s m o s s e n t i m e n t o s
também apareciam na literatura de jardinagem. "Quando Deus fez
o homem à sua imagem ... e ordenou a ele que O representasse em
autoridade, colocou-o em ... um jardim e pomar de árvores e er-
vas." 8 8 A convicção da fé dos ingleses de que suas práticas agrí-
colas sozinhas garantiam direito legítimo à terra origmava-se de
sua linguagem. E nenhum desses argumentos lógicos de inspiração
divina foi jamais submetido a uma exame crítico.
O s ingleses e n c o n t r a r a m uma autorização bíblica para sua
ocupação da terra no Gênesis: "Crescei e multiplicai-vos". 8 v Mas
essa associação do Gênesis às práticas agrícolas é uma proposição
unicamente inglesa. C o m o observou Jeremy Cohen, tanto na teo-
logia medieval judaica quanto na cristã, esse versículo do Gênesis,
"crescei e multiplicai-vos", era interpretado c o m o referindo-se
apenas à reprodução humana. A frase era polêmica na Europa do
século XVI entre os líderes da Reforma, pois era interpretada em
todo o resto da Europa como uma justificativa da atividade sexual
humana. Os líderes da reforma usavam essa passagem principal-
mente para apoiar seu argumento segundo o qual Deus havia orde-
nado a reprodução humana. Assim, tanto Martinho Lutero quanto
Filipe Melanchthon (autor da Confissão de Augsburgo) usaram esse
.44 PATRÍCIA SEED

versículo para atacar a ênfase conferida pela Igreja Católica ao celi


bato - que se oporia a essa ordem natural vinda de Deus.'"1
A singular conexão inglesa da frase "Crescei e multiplicai-vos,
e enchei a terra" com a agricultura nasceu não da tradição eclesiás-
tica tradicional, mas da cultura folclórica anglo-saxônica. Nas ceri-
mônias folclóricas medievais, Gên. 1:28 era ritualmente repetido
c o m o um e n c a n t a m e n t o para curar solos e animais infecundos.
Junto com o Pai-nosso, a prece genérica para todos os ritos de cura,
o trecho do Gênesis era invocado em rituais que tinham o intuito
de tornar o solo fértil para as pastagens e o plantio. A frase bíblica
era cantada ao entardecer sobre uma nesga de solo infértil, do qual
a grama fora retirada. A frase era dividida em quatro partes ("cres-
cei", "e multiplicai-vos", "e enchei", "a terra"), e a cada trecho can-
tado borrifava-se sobre a nesga de solo uma mistura de água benta
c o m os produtos que dela brotassem. A combinação de encanta-
mento e gesto ritual era repetida várias vezes em todo o campo. 9 1
Enquanto o Pai-nosso era muitas vezes recitado nos ritos de
cura anglo-saxões, Gên. 1:28 era usado estritamente para tornar a
terra fértil de novo. Em nenhum outro ponto da Europa ocidental
esse trecho bíblico foi adaptado dessa maneira. Assim, na Inglaterra
medieval, e apenas ali, Gên. 1:28 ganhou uma interpretação gene-
ralizada, ligada à fertilidade agrícola, e não à humana. 9 2 A cons-
tante encenação dessa interpretação especificamente inglesa da
passagem bíblica em sermões e discussões sobre o t e x t o entre os
ingleses confirmava sua transparência para outros falantes da lín-
gua, que não t i n h a m idéia de quão incompreensível essa inter-
pretação poderia ser para alguém que viesse de outra tradição
nacional, e de como era culturalmente específica sua interpretação
bíblica. C o m o resultado, os ingleses do século XVII - puritanos,
católicos e t a m b é m anglicanos - partilhavam um e n t e n d i m e n t o
segundo o qual Gên. 1:28 se referia à melhoria da capacidade re-
produtiva da terra com o uso de animais e implementos agrícolas
ingleses que aumentavam o rendimento do solo.

Alguns estudiosos modernos argumentaram que Gên. 1:28 é


um convite ao abuso da terra, e que a crueldade moderna contra a
natureza tem suas raízes nesse versículo. 9 3 O s colonizadores in-
gleses do século XVII não t i n h a m esses escrúpulos modernos, e
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 45

expressavam inequivocamente a idéia de que seria "um bem, ou


melhor, algo superior a qualquer coisa que possuamos, se a [terra]
fosse cultivada [manured] e utilizada adequadamente". 9 4 Os pri-
meiros fracassos na criação do gado ou nas plantações européias
não conseguiram refrear esse entusiasmo; os colonizadores ingleses
não se i n t i m i d a r a m c o m os primeiros percalços. E n t r e t a n t o , se
Gên. 1:28 justifica a crueldade moderna para c o m a natureza,
então essa ligação é característica e singularmente inglesa.
Mas essa interpretação e esses modos de pensar baseados nas
escrituras não eram simplesmente um traço cultural c o m u m que
estabelecia identidades individuais ou de um grupo. Esse sentido
localmente significativo do Gênesis justificou o direito inglês à
posse das Américas. Foi invocado nas leis de Massachusetts e em
inúmeros escritos dos primeiros colonizadores ingleses e dos advo-
gados das colônias para expressar seu entendimento de como o do-
mínio inglês sobre o Novo Mundo fora legitimamente constituído.
Continua a ser invocado como o fundamento da lei de propriedade
inglesa. Na introdução ao volume sobre a propriedade, em seu
Commentaries on the Laws ofEngland, uma obra ainda citada em
escritos legais na Inglaterra e em todo o mundo de língua inglesa, 95
William Blackstone invoca Gên. 1:28 para justificar os princípios de
ocupação de terra empregados pelos ingleses no Novo Mundo e em
outras regiões. A seleção desse trecho bíblico originou-se de uma
familiaridade cultural criada e repetida por rituais campestres e por
sermões, que consistentemente reforçavam a impressão singular-
mente inglesa de que o trecho estava ligado à agricultura, e de que
as ações relacionadas à agricultura se ligavam ao direito legal. A
idéia de que plantar um jardim estabelecia a posse continuou ope-
rando na tomada de posse de terras por parte dos ingleses até o
século XVIII.
No decorrer da exploração do Pacífico Sul, o capitão James
C o o k recebeu ordens de tomar posse das ilhas que havia desco-
berto. O s oficiais do Almirantado inglês, entretanto, pareciam ter
dificuldades em dizer a Cook exatamente o que fazer. Na primeira
viagem de Cook, ordenaram que ele tomasse posse "afixando mar-
cos e inscrições adequadas, c o m o os primeiros conquistadores e
possuidores". Em 1772, acrescentaram que ele deveria t a m b é m
.46 P A T R Í C I A SEED

"distribuir entre os habitantes algumas das medalhas que recebera,


para que elas ficassem c o m o marcas de sua passagem por lá".'"' E
para sua viagem final, em 6 de julho de 1776, C o o k recebeu ins-
truções de t a m b é m "distribuir entre os habitantes coisas que per-
manecessem como traços e testemunhos de sua passagem por lá". y/
Embora Cook tenha realizado essas ações como lhe havia sido orde-
nado, de sua própria iniciativa t a m b é m plantou jardins e soltou
um par de animais domésticos nas ilhas que havia atingido. E, pos-
teriormente, foram essas ações que os ingleses com mais freqüência
entenderam c o m o indicações de que Cook havia estabelecido um
domínio inglês em grande parte do Pacífico Sul.* 8
U m exemplo ainda mais surpreendente de c o m o a ação de
plantar o jardim era culturalmente persuasiva (apesar das ordens
oficiais de realizar outras ações) ocorreu durante a ocupação inglesa
das ilhas Falkland (Malvinas). D u r a n t e a ocupação inglesa das
ilhas, o chefe da expedição realizou vários atos de posse, incluindo
o de afixar uma placa num prédio. Então, minutos antes de o navio
partir, o médico da expedição saltou do navio e plantou alguns
legumes num jardim. Quando chegou o m o m e n t o das negociações
internacionais com os espanhóis, não foram aquelas ações oficiais,
mas a improvisada horta de legumes plantada pelo médico da expe-
dição que os altos diplomatas ingleses invocaram c o m o prova da
legitimidade da reivindicação inglesa das ilhas." Nem as cerimônias
formais nem as ações do líder da expedição foram tão culturalmen-
te persuasivas, mesmo para os diplomatas ingleses oficiais, quanto
o jardim plantado.
Plantar o jardim foi a principal metáfora para a ocupação do
oeste dos Estados Unidos durante os séculos XVIII e XIX. "O mito
do jardim já se encontrava implícito na visão iridescente que o sé-
culo XVIII tinha de uma expansão continental americana", escreve
Henry Nash Smith. De B e n j a m i n Franklin a T h o m a s Jefferson,
passando pelo Homestead Act de 1862, o entendimento metafórico
do assentamento do oeste americano c o m o a ação de plantar um
jardim continuou a ser regra, apesar dos desafios e das contradições
que o próprio terreno opunha a essa imagem. 1 0 0
O estilo britânico de sancionar a autoridade envolvia |ardins,
ou pelo menos um imperialismo de uma variedade relacionada à
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 47

jardinagem. A própria banalidade dos atos de posse britânicos era


notável desde o início. No entanto, apesar das ligações com a posse,
a ação de plantar conservou seu caráter notavelmente mundano.
No inglês do século XVII, "garden" ["jardim"] tornou-se um substi-
tuto humorístico para "lugar-comum". 101 Mas essa banalidade, sua
característica mais marcante, não desfez sua ligação com o colonia-
lismo. Jardins de todos os tipos, m e s m o os elaborados e formais,
muitas vezes estiveram relacionados à sua função colonizadora ori-
ginal.
Em toda a Europa, os jardins botânicos coletavam primeiro
plantas do vasto e novo reservatório que era o Novo Mundo. "A
grande era do Jardim B o t â n i c o foi subseqüente à descoberta do
Novo Mundo", escreve John Prest. 102 Embora os jardins botânicos
da Inglaterra muitas vezes se apropriassem de plantas americanas
e as usassem para favorecer a expansão colonial em outros luga-
res, 103 esses jardins nas colônias t a m b é m funcionavam c o m o um
legado duradouro de um sistema colonial que t o m o u posse me-
diante a ação de plantar u m jardim. 1 0 4 Em m u i t a s das antigas
possessões inglesas, os jardins botânicos foram construídos nos
pontos onde a agricultura européia havia sido estabelecida ante-
riormente. Quando os britânicos tomaram a colônia holandesa da
Cidade do Cabo, escolheram um jardim onde haviam sido plan-
tadas ervas para prevenir o e s c o r b u t o entre as tripulações que
rumavam para a índia e o transformaram no Jardim Botânico Mu-
nicipal. Uma sebe de amendoeiras e espinheiros, plantada ao redor
da propriedade do primeiro governador, tornou-se, sob o domínio
inglês, o local do Jardim Botânico Nacional. Quando os historia-
dores britânicos reescreveram a história das origens da Colônia do
Cabo, a ação de plantar a sebe transformou-se no início do assen-
tamento. 1 0 5 O terreno do atual Jardim Botânico de Sydney foi onde
os primeiros "9 acres de milho" foram plantados em l/SS. 1 "* ^
Os conceitos de melhoria, de "encher a terra" e "sujeitá-la" sig-
nificavam várias ações: construir residências fixas e permanentes
num pedaço de terra, erigir cercas, plantar sebes, introduzir animais
domesticados, usar fertilizante inglês (esterco) e arados. Algumas
vezes, essas ações resultaram na criação de símbolos arquitetônicos
fixos; outras vezes isso não aconteceu. Em alguns casos, eram sim-
.48 P A T R Í C I A SEED

plesmente ações realizadas repetidamente sobre a terra, isto é,


agricultura e criação [husbandry]. Todas tinham em c o m u m a ex-
pressão da autoridade colonial não por meio de textos escritos ou
d o c u m e n t o s , mas mediante ações. M a s a c o m p e t ê n c i a legal de
reivindicar a terra simplesmente por essas ações não foi apenas um
preceito colonial; continua a operar até mesmo nos Estados Unidos
contemporâneos. 1 0 7
Escrevendo recentemente sobre as teorias de posse norte-ame-
ricanas, a jurista Carol Rose declarou que a "posse, dessa forma,
significa uma ação evidente, por meio da qual todo o mundo en-
tende ... [que uma pessoa tem] uma intenção inequívoca de apro-
pnar-se ... para seu uso individual". C o n t i n u a a autora: "A supo-
sição tácita de que existe algo c o m o uma 'ação evidente', que de
forma inequívoca anuncia ao universo a apropriação de uma pessoa
... [é uma suposição] que a platéia pertinente interpretará, de forma
fácil e natural, como alegação de propriedade". 108 Plantar jardins e
soltar animais domésticos constituíam tais "ações evidentes" para
os ingleses do século XVII. Mas na raiz dessa crença havia um cons-
truto cultural.
Outro modo de expressar o conceito de Rose a respeito do que
seja uma "ação evidente" é o ditado popular inglês que diz que "as
ações falam mais alto que as palavras". É a ação evidente que se
afirma estabelecer a propriedade, o gesto ou movimento físico. Mas
n e n h u m a outra língua européia usada no Novo M u n d o parece
abrigar um ditado semelhante, m u i t o menos tal crença. Daí fica
muito fácil concluir que se "as ações falam mais alto que as pala-
vras", elas falam apenas em inglês. Plantar um jardim, soltar um
animal doméstico, cercar um terreno, construir uma casa, nada
disso expressava propriedade para platéias francesas da época, para
quem a entrada cerimonial era o contraponto de uma ação eviden-
te expressando a posse. Embora os franceses também sancionassem
sua autoridade colonial mediante gestos e movimentos, as ações e
os gestos que empregavam eram inteiramente diferentes. Para os
ingleses, as ações falavam mais alto que as palavras; elas falavam
quase tão alto para os franceses. Mas o problema era que tratava-
se de ações inteiramente diferentes que falavam para cada uma das
duas culturas. Uma cerimônia de plantar um estandarte real insti-
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 49

tuía a posse colonial francesa, do mesmo modo que plantar uma


cerca ou um jardim o fazia para os ingleses. E se atos c o m o plantar
jardins e construir cercas e casas não expressavam a propriedade
para outros europeus, c o m o seria possível esperar que veiculassem
claramente intenções e direitos para os povos indígenas, que não
conheciam a língua e nem a tradição cultural dos ingleses?
A suposição de que ações evidentes são suficientes para ex-
pressar a propriedade baseia-se, assim, na existência de pessoas que
partilham o sistema cultural no qual as ações falam. Se a platéia
pertinente não é, por sua cultura, inglesa, essas ações deixam de
veicular uma mensagem clara. Pois a clareza não depende da ação,
mas sim da comunidade que a interpreta. As ações podem falar -
ou seja, elas podem significar de forma clara - apenas se existe
um c o n t e x t o cultural c o m u m que é partilhado pelos que as inter-
pretam.
No entanto, todos os colonizadores, oficiais do governo e teó-
ricos políticos ingleses interpretavam as ações de seus compatriotas
- plantar jardins, construir cercas ou casas, e expressões da teoria
da propriedade baseada no trabalho - como ações universalmente
evidentes - que estabeleciam a posse. Mas essas construções eram
culturais, dependentes de um sistema local de interpretação do
Gênesis, da fixidez dos assentamentos populacionais e agrícolas da
Inglaterra e do entendimento legal c o m u m de c o m o os direitos de
propriedade sobre a terra eram criados e expressos (por meio de cer-
cas, sebes e outras formas de cercamento. Nenhum entendimento
desse tipo existia entre cidadãos ou súditos de qualquer outra po-
tência européia. No entanto, os ingleses acreditavam piamente que
essas ações lhes asseguravam o direito de possuir o Novo Mundo.
Por mais culturalmente específicos que fossem os entendimentos
dessas ações, a ausência delas era usada para negar aos povos indí-
genas do Novo M u n d o o direito de posse sobre suas terras.
Em contraste com as práticas familiares de cercamento, cons-
truções de cercas e criação de ovelhas, as práticas dos índios eram
descritas por um acúmulo de negativas. "E quanto aos nativos da
Nova Inglaterra", escreveu John Winthrop, "eles não cercam terras
"em t ê m uma habitação fixa, nem domesticam gado para com ele
melhorar sua terra" (grifo meu). A frase acumula as deficiências dos
50 P A T R Í C I A SEED

nativos - "não cercam", "nem habitação fixa", "nem gado domesti-


cado"- estabelecendo uma série de faltas que pode ser resumida no
final como a incapacidade de "melhorar". "Não cercam" significava
que eles não tinham cercas; "nem habitação fixa" significava que
eles não tinham aldeias permanentes à moda dos ingleses, "nem ga-
do domesticado" significava que os nativos não tinham uma fonte
confiável de carne ou esterco com o qual pudessem "encher" seus
campos. Não tendo uma habitação fixa (aldeias inglesas perma-
nentes), animais domésticos nem cercas, os índios (argumentavam
Winthrop e outros puritanos) não instituíam pleno domínio sobre
suas terras: "E assim [esses nativos] têm apenas um direito natural
a essas terras", ou seja, um direito que poderia ser extinguido com
a chegada daqueles que tinham um direito civil estabelecido pela
ação evidente da melhoria 1 0 9 - construir cercas, plantar jardins e
erigir casas - , os sinais ingleses de posse.
Sancionar a autoridade colonial apenas por meio da ação física
- ação evidente, como mais tarde seria chamada - significava que
não era necessário falar nada porque se supunha que as ações ex-
pressassem significados em si próprias. Em contraste com isso, os
franceses t a m b é m criaram autoridade mediante ações, mas, dife-
rentemente dos ingleses, criaram-na por meio da ação ritualizada,
e não mundana.

Notas

1 W . Bradford, History ofPlymouth Plantatiott, W . Davis (Ed.), N e w York 1908,


p.105.
2 Quando os peregrinos chegaram a Cape Cod, e m 11 de novembro de 1620, e
"caíram de joelhos abençoando a D e u s do céu", eles o fizeram n u m gesto de
gratidão por terem sobrevivido a uma viagem perigosa, e não c o m o uma ceri-
mônia de posse. Bradford, Plymotith Plamation, p.95.
3 "[Eles] resolveram onde erigir suas moradias; e no v i g é s i m o - q u i n t o dia de
dezembro começaram a construir a primeira casa." N. M o r t o n , New Englands
Memoriall, N e w York, 1937; publ. orig. 1669, p.22. "Depois de desembar-
carmos e observarmos os lugares ... c h e g a m o s a uma c o n c l u s ã o ... ficar no
continente, tendo resolvido pela manhã que todos desembarcariam para cons-
truir casas." Mourt's Relation (publ. orig. 1622), in; A. Young, Chromcles ofiht
Pilgrim Faihers, 2.ed., Baltimore, 1974, p. 167-8.
4 J. W i n t h r o p , The History of New England frcm 1650 io 1640, James Savage (Ed.),
Boston, 1825, 2v., v . l , p.290.
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 51

5 D. B. Quinn (Ed.) Observations gathered out of "A Discourse of the Plan-


tation of the Southerne colonie in Virgínia by the English, 1606" by Hon.
George Percy, Charlottesville, Va., 1967, p.161.
6 A. Brown (Ed.) Gênesis of the United States, New York, 1964, p.191-2.
7 T h e Lost (Second) Colony, in: R. Hakluyt, Voyages to the Virgínia Colonies,
London, 1986, p. 144-5.
8 Popham leu um sermão em 1607; Percy plantou cruzes em Chesapeake e às
margens do rio James. Brown (Ed.) Genesis, p.164, 191-2; Quinn (Ed.) Obser-
vations, p.10, 20. T h o m a s Yong fixou "as armas de Sua Majestade numa
árvore" do rio Delaware em 1634. A. C. Meyers, Narratives ofEarly Pennsyl-
vania, West New Jersey, and Delaware, 1630-1707, New York, 1912, p.41.
Thomas Gates fez que sua autorização e um sermão fossem lidos; Letter to
the Governor and Council of Virginia to the Virgínia Company of London,
July 7, 1610, in: Brown (Ed.) Genesis, p.402-13, esp. 407. Winthrop descreve
o início da Colônia da baía de Massachusetts da mesma forma, "construindo
uma casa ali". Winthrop, History ofNew England, v.l, p.290.
9 A New Interlude and a Mery of the Nature of Life {ca. 1519), reproduzido in: E.
Arber (Ed.) The First Three English Books on America, Birmingham, Inglaterra,
1985, p.xxi.
10 Os ingleses do século XVII eram ambivalentes quanto ao direito à posse com
base na "descoberta". Algumas vezes as viagens de Caboto foram invocadas
de forma defensiva como uma descoberta, mas a retórica inglesa logo refez a
descoberta, transformando-a em "descoberta e plantio". J. Brereton, A Briefe
and True Relation of the Discoverie of the North Part of Virgínia (1602), in:
D. B. Qumn, A. M. Quinn (Ed.) The English New England Voyages, 1602-1680,
London, 1983, p.168, 175. C o m mais freqüência a idéia do direito de posse
com base na descoberta era criticada. Ver, por exemplo, J. E. Thompson (Ed.)
Thomas Cages's Traveis in the New World, Norman, Okla., 1958; W. Washburn,
Dispossessing the Indian, Seventeenth-Century America, James Morton Smith,
Chapei Hill, N. C., 1959, p.16-8, 26. A descoberta tornou-se uma parte cen-
tral da retórica que justificava as reivindicações inglesas em relação ao Novo
Mundo apenas no século X I X - a decisão da Suprema Corte dos EUA em
1823, no caso Johnson vs. Macintosh. F. Cohen, Handbook of Federal lndian Law,
Washington, D. C., 1942, p.292.
11 S. Lucas, Charters ofthe Old English Colonies in America, London, 1850: primeira
carta da Virgínia, 10 de abril de 1606, p.l; segunda carta da Virgínia, 23 de
março de 1609, p.12.
12 B. Roberts, Planned Villages from Medieval England, in: A. R. H. Baker,
(Comp.) Man Made the Land: Essays in English Histoncal Geography, Newton
Abott, Devon, 1973, p.46-58.
13 H. R. Loyn, Anglo-Saxon England and the Norman Conquest, 2.ed., London,
1991, p.169.
14 A interpretação dada por Perry Miller ao papel da "cidade na colina" foi forte-
mente criticada por T . D. Bozeman, To Live Ancient Lives: T h e Primitivist
Dimension in Puntanism, Chapei Hill, N. C „ 1988, p.90-115; P. Miller,
Errand into lhe Wilderness, Cambridge, Mass., 1956, p . l l , 158-9.
15 Até mesmo no final do século XVIII, W. Blackstone, Commentaries on the Laws
of England, New York, 1968; repr. da ed. de 1808, v.2, cap.l, seção 4, declara:
52 P A T R Í C I A SEED

"Até mesmo os seres inferiores ... mantinham um tipo de propriedade per-


manente em suas moradias ... Assim, uma propriedade se estabelecia muito
depressa na casa e na moradia de cada homem".
16 Para uma análise do sistema mais próximo ao dos ingleses (que também re-
queria a utilização a fim de estabelecer a propriedade), ver o apêndice ao
capítulo 4.
17 Nas cidades inglesas, as divisas das propriedades públicas eram e ainda são
inspecionadas e anualmente demarcadas com novas estacas de madeira os
marcadores de divisa. A. R. H. Baker, Field Systems m Medieval England, in:
Baker (Comp.) Man Made lhe Land, p.59-68.
18 As árvores eram as divisas mais freqüentemente mencionadas. O. Rackham,
Trees and Woodland in lhe Briiish Landscape, ed. rev., London, 1983, p.44,
184-6. As transferências de terras privadas feitas por portugueses e espanhóis
muitas vezes incluíam caminhadas pelas divisas, mas o ponto crucial era o
movimento de caminhar, e não a identificação visual de ob]etos físicos.
19 Baker, Field Systems in Medieval England, p.67. Ver também H. L. Cray,
English Field Systems, Cambridge, Mass., 1915; C. S. e C. S. Orwin, The Open
Fields, Oxford, 1954. Para a terminologia legal associada a essa ação, ver W
S. Holdsworth, A History of English Lave, 2.ed., London, 1937, 12v., v.7, p.59.
Bosques de pequenas árvores que se cultivavam de quando em quando para
uso doméstico eram cercados, na época anglo-saxônica, por divisas feitas de
terra. Rackham, Trees and Woodland, p. 114. Para o a u m e n t o do número de
sebes na época medieval, ver ibidem, p. 188.
20 O agnmensor inglês R. Agas, A Preparative w Plaming of Landes... (1596), classi-
ficava a especificação de uma divisa num mapa como uma ação que trazia
"perfeição ao trabalho, e que talvez no futuro seja, de muitas formas, ex-
t r e m a m e n t e necessária e lucrativa". Citado por R. Kain, E. Baigent, The
Cadastral Map in the Service of lhe State: A History of Property Mapping,
Chicago, 1992, p.4. Tabor alega que qualquer barreira constituía uma "cerca",
incluindo diques, margens e muros; G. Tabor, Old-Fashioned C.ardening, New
York, 1925, p.186.
21 Arrendatários em comum começaram a ser eliminados no século XIV pelo
processo de cercamento. J. Thirsk, Tudor Enclosures, London, 1959
22 W. Lawson, A New Orchard and Carden, London, 1618, p.16. Há três edições
desse livro que datam do início do século XVII. John Winthrop possuía um
exemplar, assim como outros líderes do assentamento puritano. T. Tusser,
Five Hundred Points of Cood Husbandry, William Mavor (Ed.), London, 1812;
publ. orig. 1573, p.200. "Administração ruim perde por falta de boa cerca; boa
administração fecha."
23 Kain & Baigent, The Cadastral Map, p.237; J. Thirsk, Enclosingand Engrossing,
in: H. P. R. Finberg (Ed.) The Agrar,an History cf England and Wales, Cam-
bridge, 1967, v.4 (1500-1640), p.200-55; Thirsk, Tudor Enclosures, observa que
a agricultura em campo aberto tmha dado lugar ao cercamento no sul e no
leste da Inglaterra por volta de 1500, tendência que se alastrou considera-
velmente nessa época até a região central, mas deixando uma boa parte do
centro e grande parte do norte da Inglaterra sem cercamento.
24 Algumas formas iniciais de assentamento inglês na Nova Inglaterra foram
coletivas. "Uma cidade consistia num trato de terra com estatuto legal de-
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 53

finido sancionado, cedido a um grupo de colonos, de modo que o assenta-


m e n t o da Nova Inglaterra, pelo menos inicialmente, foi ... um empreendi-
mento comunitário." Kain & Baigent, Cadastral Map, p.285-6; N. Salisbury,
Matutou and Providence: Indians, Europeans, and the Making of New England,
New York, 1982, p. 142-3; S. B. Kim, Landlord and Tenant in Colonial New York-.
Manonal Society, 1664-1775, Chapei Hill, N. C., 1978, p.41.
25 D. Gookin, Historical Collections of the Indians in New England, in Massa-
chusetts Historical Society, Collections, Boston, 1792, v.l, p.141-227, esp. p.210.
2 6 V. R. Ludgate, Cardensofihe Colomsts, Washington, D. C., 1941, p.7; Rackham,
Treesand Woodland, p.152-3, 184-196; J. M. C ü b e n , Huntmg andHunting Reser-
ves in Medieval Scotland, Edinburgh, 1979, p.82-7.
27 W. Cronon, Changes in the Land: Indian, Colonists and the Ecology of New
England, New York, 1983, p.130.
28 Ludgate, Cardens, p.7. As paliçadas no Novo Mundo, assim como as cercas de
estacas, tinham uma disposição horizontal. A cerca de estacas foi uma criação
do século X I X nas cidades da Nova Inglaterra dedicadas à construção naval.
Tabor, Old-Fashioned Gardemng, p. 186-9.
29 C. Bridenbaugh, Fat Mutton and Liberty ofConscience: Society in Rhode Island,
1636-1690, Providence, 1974, p.34| Records of the Colony of Rhode Island and
Providence Plamations, Providence, 1856, v.l, p.76, 78, 90, 96.
30 Hening, Statutes, v . l , p.126, 199, 244, 332. Em março de 1642 e em outubro
de 1646, quem não cercasse a terra seria responsabilizado por danos causados
pelo gado.
31 Hening, Statutes, v . l , p.458, mar. 1657.
32 Ver W. H. Browne (Ed.) Proceedings andActsofthe General Assembly ofMaryland,
v.l de Archives ofMaryland, Baltimore, 1993, p.90 (oct. 1640), para a exigência
em relação a cercas. Para alturas semelhantes de cercas na Virgínia, ver The
Laws ofthe Province ofMaryland, Wilmington, Del., 1978; publ. orig. 1718,
p. 127-30. Ver também L. Carner, The Begtnnings ofAgncuhure in America, New
York, 1968; publ. orig. 1923, p.167, 183.
3 3 Hening, Statutes, v.l, p. 115, 24 de ]ulho de 1621.
3 4 W. M. Billings, The Old Dominion in the Seventeenth Cenwry. A Documentary
History of Virgínia, 1606-1689, Chapei Hill, N. C „ 1975, p.56. As instruções
datadas de 1639 eram virtualmente idênticas àquelas dadas ao governador
William Berkeley.
3 5 No Brasil colonial, eram mais comuns as multas do que as ordens de cercar
a propriedade. Concedia-se aos proprietários de gado agressivo um mes para
que se livrassem desses animais, caso contrário pagariam multas substanciais
(2.000 reais - o custo das vacas mais caras da região) (São Paulo, 10 de feve-
reiro de 1590). Se o gado ou porcos causassem danos à lavoura de alguém, o
proprietário dos animais pagaria uma multa calculada por cabeça de animal
que possuísse (independentemente de quantos tivessem causado o dano;,
acrescida do pagamento pelos danos ao proprietário do terreno (14 de abril ae
1590). Quando bandos de cavalos e vacas entraram durante a noite e causa-
ram danos, o conselho de São Paulo simplesmente determinou que cavalos; e
vacas não seriam mais permitidos na vila daquela data em d i a n t e ^ O ae
janeiro de 1598), Actas da Câmara da Vila de São Paulo, São Paulo, 1914, v i,
P 384-5, 395-7- v 2 p 37 288-9. Os preços são citados com base em Alcântara
.54 PATRÍCIA SEED

Machado, Vida e morte do bandeirante, 2.ed., São Paulo, 1978, p.54. Liberar as
estradas, e não construir cercas, era mais importante para o conselho da vila
de São Paulo. Ver, por exemplo, Actas, v.2, p.409.
3 6 B r o w n (Ed.) Cenesis, p.458; ver t a m b é m as instruções dadas ao governador
Francis W y a t t , em 24 de julho de 1621, in: Hening, Statutcs, v . l , p.116; " O sr.
William Claybourne, agrimensor, foi enviado para medir as terras dos plan-
tadores e fazer um mapa da região".
37 Procecdings and Acts of General Asstmbly of Maryland, v . l , p.59, fev -mar., 1638
1639, para o pagamento ao agrimensor de Maryland. Massachusetts não indi-
cou agrimensores até 1682. William Penn, "Instructions" (1681), in: Mcmoirs
ofthe Historical Society of Pennsylvania, Philadelphia, 1827, v.2, p.213-21. Ver
t a m b é m E. T . Price, Dividing lhe Land\ Early A m e r i c a n Beginnings of O u r
Property Mosaic, Chicago, 1995.
3 8 "Todos os fatos que comprovam a propriedade dos plantadores privados deve
rão ser expostos detalhadamente e os limites registrados pelos agrimensores'
(set. 1632). Hening, Statutcs, v . l , p.197; J. R. Stilgoe, Comrnon Landscapc oj
America, 1580 to 1845, N e w Haven, 1982, p.99-107, 112. "Em meio a um de-
bate acalorado e difícil sobre um l e v a n t a m e n t o federal da rede [propriedade
privada de terras], eles [os Congressistas] esqueceram-se de determinar um
s i s t e m a de c a m i n h o s ' a r t i f i c i a i s ' . " I b i d e m , p. 133. V e r t a m b é m N. ]. W .
T h r o w e r , Original Survey and Land Subdivision, Chicago, 1966
3 9 Já no século X V , os mapas locais ingleses abrangiam "problemas externos de
bens fundiários, mostrando c o m o se limitavam as partes contíguas de terra,
resolvendo contestações de direitos ou de divisas. Ralph Agas, em seu tratado
A Preparative to Plotting of Landes and Tenements for Survetgh, datado de 1596,
argumenta a favor de mapas de propriedades baseando-se na alegação de que
as divisas para cada pedaço de terra poderiam ser mostradas c o m mais deta-
lhes n u m mapa do que n u m livro. P. D. A. Harvey, Maps in Tudcr England,
Chicago, 1987, p.79, 91.
4 0 "Particuliere instructie voor den Ingeníeur ende landmeter C r y n Fredicxsz",
in: A. J. F. V a n Laer (Trad. e ed.) Documems Rclating to New Netherland 1624
1626, in lhe Henry E. Huntington Library, San Marino, Calif., 1924, p 132. S
Alpers, The Art ofDescribing: DutchArt in lhe Sevenleenih Ceniurv, Chicago, 1983,
p. 148-9.
41 A agrimensura foi mantida nos arquivos reais da Suécia. Reverendo Israel
Acrelius, T h e Account of the Swedish Churches in N e w Sweden, in: Myers
(Ed.) Narratives of Early Pennsylvania, p.61.
4 2 Kain & Baigent, Cadastral Map, p.209-10.
4 3 A abordagem muito diferente das divisas na colônia portuguesa é explorada
no apêndice ao capítulo 4, intitulado "As abordagens inglesa e portuguesa da
questão das fronteiras e seus legados".
4 4 Segundo o Oxford English Diaionary.«improve' - "melhorar, obter lucro a partir
de, valer-se de algo utilizando-o para lucros próprios Especialmente usado e m
referência à ação de fechar e cultivar terras virgens" U m a segunda definição,
t a m b é m obsoleta, é "fazer a terra dar lucros, cercar e cultivar (terras virgens),
portanto, tornar a terra mais valiosa ou melhor por esses meios O sentido
antigo, ou algo relacionado a ele, permaneceu nos séculos X V I ! e X V I I ! nas
colônias americanas".
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 55

4 5 C.ronon, Chances in the Land, p. 130. O relatório feito pelo governador Mac-
quarie sobre sua administração "está coalhado de referências a muros de pe-
dras, de tijolos, cercas de arame e madeira, paliçadas, estacadas e tipos indefi-
nidos de 'cercas f o r t e s " . L. A. Gilbert, The Royal Bctamc Cardens, Sydney: A
History, 1816-1985, Melbourne, 1986, p.18.
46 "Improvement", Words and Phrases, Saint Paul, Minn., 1959, v.20, p.491, 495.
Uma cerca só náo constitui uma melhoria em passagens preferenciais nas
estradas de ferro (p.493).
47 O termo citado pela autora é husbandry, que não tem, em português, uma
tradução precisa. Husbandry, dependendo do contexto, pode significar criação
de animais, agricultura ou economia doméstica. À medida que a palavra for
sendo traduzida nos diferentes contextos, o termo em inglês será indicado
entre colchetes. (N. T . )
48 Johitson's Wonder- Worleing Providence, 1628-1651, p.99; The Works ofWilliam
Temple, London, 1757, 4v. Upon the Gardens of Epicurus; or of Gardening in
the year 1685, v.3, p 195-237, esp. 231. Bridenbaugh descreveu o plantio de
sementes de grama, a construção de cercas para confinar o gado e a drenagem
de pântanos. Bridenbaugh, Fai Mution and Liberty of Conscience, p.31-4. H. S.
Russell, A Long, Deep Furrow: Three Centuries of Farming in New England,
Hanover, N. H., 1976.
4 9 P Amadas, A Barlow, T h e First Virgínia Voyage, in Hakluyt (Ed.) Voyages to
>he Virgínia Colonies, p.66 A respeito de c o m o isso aumentou expectativas
"realistas sobre o Novo Mundo, ver K. O. Kupperman, Roanoke: TheAban-
doned Colony, N e w Vork, 1984, p.16-7.
0 Amadeus & Barlow, First Voyage, p.71.
Wimkrop's Journal, J. K Hosmer (Ed ), New York, 1908, 2v., v.l, p.47. A apre-
ciação do jardim por meio desses sentidos, particularmente o do olfato, era
característica da literatura de ]ardinagem do período. Lawson, A New Orchard
«"d Carden, p.56-7.
J Smith, DtscriptionofNev England (1616), in: Barbour (Ed.) Works, v.l, p.347.
Além do benefício que surgirá para ordenar a fertilidade da Natureza/
Naquele rude jardim.* C. Wither, " T o His Fnend Captam John Smith", prefá-
C1° a John Smith, A DescrtpiionofNewEngland (1616), in: Barbour, Works, v.l,
P_315; Rosier's True Relation of Waymouths' Voyage, 1605, in: H. S. Burrage
54 „ •> EarlV £igHih and French Voyages, 1M-1608, New York, 1906, p.388.
Hakluyt cita partes do relato de Jean Ribault sobre a Flórida. E. G. R. Taylor
Ed ) The Original Wrmngs and Corresponderia of the Two Richard Hakluyts,
London, 1935, 2v., v.2, p.222. The Works ofWaher Ralegh, Kt, History of the
"orld,Oxford, 1829, v.2, p 6 8 - 9 (livro 1, cap.3). Se qualquer um dos dois
''vesse usado a descrição feita por Cabeza de Vaca sobre os nativos hostis da
rida e as crises de fome, teria chegado a uma conclusão diferente. A narra-
tlva de Cabeza de Vaca foi originalmente publicada em 1542 como La rdaciin
Mo Alvar Niine: Cabeza de Vaca de Io acaescido en Las índias en Ia armada
55 r d e V " " p0r SW^O' Pànfilo de Narviez desde el ano de veyme e siete.
citação 'Jardins de frutas há muitos maiores que em nossas terras da Euro-
pa retirada de um livro que Edward Arber chamou de "o primeiro livro
lnSles sobre a América", e que, na realidade, é um esboço esquemático das
V l a gens portuguesas à índia e náo contém referência alguma ao Novo Mundo
.56 PATRÍCIA SEED

A citação se refere a um local a vinte léguas do que foi, até 1520, a capital
portuguesa na Ásia. Arber (Ed.) English Books, p.xxiu-xxxv, esp. xxix.
56 Para os mitos portugueses e espanhóis, ver B. Pastor, Armaiurc Of Lonquest,
Stanford, Calif., 1992; S. Buarque de Holanda, Visão do paraíso, 5.ed., Sao
Paulo, 1992; C. Erdmann, A idéia da Cruzada cm Portugal (1940). Muitos escri-
tores de língua inglesa supuseram equivocadamente que os espanhóis e p o r
tugueses estivessem procurando um "|ardim" paradisíaco nas Américas. O
eminente estudioso brasileiro Sérgio Buarque de Holanda criticou essas inter-
pretações de sua própria obra feita por estudiosos americanos, dizendo que se
tratava de interpretações nacionalistas que resultavam apenas da 'visão popu-
lar de uma sociedade agrária" (isto é, os Estados Unidos; p.x-xi). Só Colombo,
em sua terceira viagem, parece localizar o Paraíso no Novo Mundo (perto do
Orenoco). Nuova raccoha colombina, Roma, 1992, p t . l , 2, p.35-7. A genera-
lização inadequada feita a partir da experiência inglesa, resultando na idéia de
que o Paraíso era um lugar físico, aparece, por exemplo, em J. Prest, The Botanic
Gardcn and lhe Re-Creation ofParadise, New Haven, 1981, p.32. Ver o capítulo
5, nota 149, para mais detalhes.
57 R. Hakluyt, o Velho, Inducements to the Likmg of the Voyage Intended
Toward Virgínia, 1585, ín: Quinn & Quinn (Ed.) English New England Voyages,
p.181-2, e R. Hakluyt, Discourse of Western Planting, in: Taylor (Ed.) Two
Hakluyts, v.2, p.211-326. Ver também John Smith, "Qual tem sido o melhor
trabalho dos grandes Príncipes do mundo, senão o de plantar países". J. Smith,
Advertisemems for the Unexperienced Plamers of New-England (1631), in: Barbour
(Ed.) Works, v.3 p.276-7. A terra precisava apenas ser "cultivada, plantada e
adubada por homens industriosos, ajuizados e experientes". Descnpuon ofNev
England (1616), in íbidem, p.333.
5 8 Até m e s m o Deus aparece c o m o o Primeiro Jardineiro para F Bacon, O f
Gardens, TheEssays, 1625, London, 1971; publ. ong. 1625, p.266, dessa forma
sancionando, aparentemente, o plantio inglês.
59 J. Parkinson, Paradisi in Sole Paradisus Terrestris, London, 1629, é um dos primei
ros tratados sobre jardinagem, combinando interesses práticos e estéticos
Bacon, Of Gardens, p.266-79, expõe os princípios estéticos dos |ardms do início
do século XVII. A recente literatura secundária sobre a estética dos |ardins
inclui J. Dixon Hunt, Gardens and the Picturesque. Studies in the History of
Landscape Architecture, Cambridge, Mass., 1994; D. Chambers, The Plamers
of English Landscape Garden: Botany, Trees and the Georgics, N e w Haven,
1993; idem, Discovering in Wide Landskip "Paradise Lost" and the Tradition
of Landscape Description in the Seventeenth Ceniuiy, Journal of Garden History,
v.5, p.15-31; e R. Bisgrove, The National Trust Book ofthe English Garden, New
York, 1990. Até bibliografias históricas sobre |ardinagem tendem a focalizar as
dimensões estéticas. B. Henrey, Brmsh Bctamcal and I iorucultural Lnerature Befort
1800, London, 1975, 3v., v.l, p.155,169, omite (entre outras) a popularíssima
obra de G. Markham, Cheape and Good Husbandry for the wtll-ordtrm$ ofbeasb
and fowles, and for the generall Cure oftheir Diseases, London, 1614 Para o século
XVIII, ver Henrey, Botamcal Lnerature, v.2; J. Bassm, T h e English Landscape
Garden in the Eighteenth Century: T h e Cultural Importance of an English
Institution, Albion, v . l l (1979), p. 15-32; H Ritvo et al„ An English Anadii
Landscape and Architecture in Britam and America San Martno, C a h f , 1992
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 57

60 "Wild", Oxford English Dictionary, definições I e 2; exemplos posteriores estão


na entrada "garden", definição 5a.
<51 A primeira citação do Oxford English Dictionary para "garden" data de 1028. H.
Ritvo, At the Edge of the Garden: Nature and Domestication in Eighteenth
and Nineteenth-Century Britam, in: An English Arcadia, p.306, afirma que a
primeira citação data do século XIV, o que deve constituir um erro de impres-
são. A mais vivida descrição do século XVII é do Paradise Losi, de John Milton:
"Paradise wnh her endosure green /As vrith a rural mound the champaign [open
couniryl head / of a steep vilderness, vrhosc hairy sides / With thicket overgrown, gro-
tesquc and wild, / Access denied ". Esses versos se desenvolvem a partir das idéias
de um |ardim fechado, cuja função é manter a distinção entre o selvagem e o
cultivado. J Milton, Paradise Losi, New York, 1975, v.4, p. 132-7. [Uma tradu-
ção do mesmo trecho para o português é: "o Paraíso, cuja muralha verde está
coroando, / qual vaiado rural, a alta campina / sobranceira a penedos escarpa-
dos, / a hirsutas brenhas, a profundos antros, / que a tão sagrado sítio o acesso
tolhem". J. Milton, O paraíso perdido, trad. Antônio José Lima Leitão, Rio de
Janeiro, Belo Horizonte: Vila Rica Editoras Reunidas, 1994, p.138. Nesta tradu-
ção, a palavra jardim, que deriva de garden, está sendo empregada em seu sen-
tido etimológico, que abrange as acepções de/ardim e também de horta. (N. T.)]
62 C. Heresbach, Foure Boolees of Husbandry, B Cooge (Ed.), Amsterdam, 1971;
publ. orig. 1577, p.50. Os habitantes da Utopia de T h o m a s More tinham
grandes jardins fechados" e "construíam grandes depósitos |unto aos jardins".
T. More, Utopia, livro 2, cap.2, trad. Raphe Robinson (1551), ed. rev., London,
, 1808, v.2, p.20-1.
AO u
* precedendo os milharais ou o gado", Temple, Works, v.3, p.207.
4 Citado por Ludgate, Cardens ofthe Colonists, p.l.
5 Smith, Description ofNew England (1616), in: Barbour (Ed.) Works, v.3, p.344;
•homas, Cultural Change, in: W W Fitzhugh (Ed.) Cultures in Comact: The lm-
PM of European Contacts on Naiive American Cultural Institutions, A.D. 1000-1800,
Washington, D. C., 1985, p. 111 ; Ludgate, Cardens ofthe Colonists, p.3; Bülings, Old
ommion, p.56. O governador Berkeley refere-se ao ato de "fechar e cercar* como
sinônimo de "empaliçar" ['impa/mg'], ou seja, fincar "estacas" ['pales']. Embora
os rebanhos fossem raramente confinados durante os primeiros anos da colô-
ni3' 0 |ardlm era marcado pela cerca. Tabor, Old-Fashioned Cardemng, p.l86-7.
6 ? Whitaker, Ccod Newes, p 23
s ingleses referem-se consistentemente a si próprios como os "plantadores".
r°wn (Ed.) Cenesis, p.507. Cartas patentes a De La Warr, por exemplo, refe-
r e m se à colônia "a ser plantada na Virgínia*, in íbidem, p.380, 28 de fevereiro
e "510. Em 1609, R Cray interrogava *Em nome de que direito podemos
fntrar na terra dos selvagens, tomar-lhes sua herança legítima, e nos plantar
'ugar deles, náo tendo sido lesados ou provocados por eles" A resposta
e Cray foi que os ingleses tinham o direito de *nos plantar no lugar deles"
c <ray, A Ccod Speede to Virgínia, London, 1609 Para a Nova Inglaterra, os
^ « m p l o s incluem F. Higginson, New England's Plamauon (1630), e W. Wood,
68 v Prosrect, London, 1634.
"" Kensselaer Bowter Manuscripts, trad. A. J F. Van Laer (Albany, 1908),
P '36-53, Issack de Rasière (1628), in idem, Doatmems Relating to A/w Neiher
'""d, p 198
58 P A T R Í C I A SEED

69 Essa foi sua introdução à tradução feita por John Florio da primeira viagem
de Cartier. Taylor (Ed.) Two Haleluyts, v . l , p. 164-5 (grifo meu).
70 W. Strachey, The Histories ofTravell into Virgínia Britania (1612), L. B. Wnght,
V. Freund (Ed.), London, 1951, p.9-10. «Nenhum príncipe pode reivindicar
mais nenhuma dessas novas descobertas ... portanto, aquilo que seu povo
descobriu, de que tomou posse efetiva."
71 J. Cotton, God's Promtse to His Plantations, London, 1630, relatado em í >W
South Leaflets, n.53, v.3, p.6 (grifo meu). A afirmação de John Winthrop: "Toda
a Terra é o jardim do Senhor, e Ele a deu aos filhos de Adão para que fosse
cultivada e melhorada por eles". General Considerations for the Planters in
New-England (1629), in: Young, Chromcle of the First Planters, p.271-8.
72 U m dos livros mais populares do início do século XVU era Cheape and Good
Husbandry, de G. Markham. Ver também Sir Hugh Platt Jewel Hotise Ari
and Nature; livro 2, Diverse new sorts ofsoyle not yet broughi imo any publu use
for manuring of hoth pasture and arable ground, London, 1594. Lawson usa as
frases "Camponês por seus direitos e pelo cultivo do solo" e "ter belos e
agradáveis pomares ... é uma parte fundamental da economia doméstica
[.husbandry] ... e a economia doméstica [husbandry] mantém o mundo", W.
Lawson, A New Orchard and Garden, London, 1618, prefácio. Lawson tem
outros dois capítulos com o termo "husbandry" no título: "Husbandry of
Hearbs" ["Cultivo de Ervas"] (cap.8) e "Husbandrie of bees" [Apicultura"]
(cap.10).
73 Loyn, Anglo-Saxon England, p. 167; Orwin & Orwin, Open Fields, p.29. "Por
volta de 1200, muito da paisagem moderna [da Inglaterra] \í era reconhecível
... as proporções dos campos, charnecas e bosques não eram muito diferentes
do que são agora." Rackham, Trees and Woodland, p.39. In: Lawshall (Suffolk),
8 5 % das sebes atuais já estavam lá em 1612; 6 2 % das sebes em Conington
(Huntingdonshire) estavam lá em 1595. Ibidem, p. 192.
74 Winthrop' s Conclusions, p.6; Winthrop, Htstory of New Lngland, v.l, p.290.
75 Richard Eburne escreveu em 1624: "Quando encontramos uma região bas
tante vazia de pessoas, nós a tomamos, possuímos, pois pelas leis de Deus e
das nações, temos o direito legal de tomá-la como se fosse nossa, e também
de abastecê-la e enchê-la com nosso povo". R. Eburne, A Platne Pathway to
Plantations, L. B. Wnght (Ed.), Ithaca, N. Y., 1962, publ. ong 1624, p.32. Sir
William Alexander, em An Encouragement to Colontes (1624), sugere que as
terras são "praticamente desertas, e podem ser enchidas seguindo-se a in-
junção 'Crescei e multiplicai-vos". Wnght, Plante Pathwav, p 141 F. Bacon
refere-se genericamente (sem referências bíblicas) a plantar um povo Of
Plantations, ín idem, Essays, p.198-204.

76 R. Hakluyt descreveu o solo como "cheio de todos os tipos de grãos' Taylor


(Ed.) Two Haleluyts, v . l , p. 164-5 (grifo meu).
77 T. Harriot, Brief and True Report of the New Found Land of Virgínia, in
Hakluyt, Virgínia Voyages, p.116.
78 Loyn, Anglo-Saxon England, p. 166-7. P l a t t J e w e l House, livro 2, p.52, observa
o desdem dos lombardos pelo esterco.
79 G. Markham, Cheap and Good Husbandry, p. 153; Platt Jewel House, p 33-8,
Lawson, Orchards and Gardens, p 4; Platt, The Garden cftten, London, 1655,
p.33, 36, 38, 56-8, 65, 67-8, 77-9, 93, 107, 148-9, contém instruções exten
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 59

sivas, entre outras, sobre o uso de esterco de cavalo para ervilha e anis, esterco
de vaca pulverizado para morangos, esterco de pombo para morangos, mis-
tura de esterco de cavalo e vaca para as raízes do pé de damasco. Até John
Parkinson, Paradisi Sole, p.2-3, 461-2, 535-6, 550, descreve detalhadamente
o esterco de que animal deve ser usado para qual tipo de solo, assim como
quando aplicá-lo. Tusser, Good Hushandry (1573), p.30-2. Ver também C. S.
Orwin, A History ofEnglish Farming, London, 1949, p.62; D. Woodward, An
Essay on Manures: Changing Altitudes to Fertilization ín England, 1500-1800,
in: J. Chartres, D. Hey (Ed.) English Rural Society, 1500-1800: Essays in Honor
of Joan Thirsk, Cambridge, 1990, p.251-78.
80 "Manure", Oxford English Diciíonary, forma verbal, § 1, 2, 3, respectivamente.
"Deixar a principal parte do solo empregado em |ardins ou ser de propriedade
comum ... além de alguns pontos de terra que qualquer pessoa em particular
vá adubar para seu próprio uso particular." Bacon, Of Plantations, p.201.
81 Loyn, Anglo-Saxon England, p.157-61.
82 Cotton, God's Promise (1630); Winthrop, Conclusions, p.5; outras ínjunções
similares do Gênesis incluem Cên. 13:6, 11, 12; 24:21; 41;20, trechos invo-
cados por R. Cushman, Reasons and Considerations, in: Young (Ed.) Chronicles
of lhe Pilgrim Eathers, p.244. Cên. 1:28 foi utilizado ainda em 1722 por S.
Stoddard (1643-1729), An Ansvrer to Some Cases ofConsaence, incluído em P.
Miller, T. H. Johnson (Ed.) The Puriians, New York, 1938, p.457.
83 Cushman, Reasons, p.244.
84 Eburne, Plame Paihvray, p.41.
85 Cushman, Reasons.
86 J. Locke, Second Treause, $ 36, in: P. Laslett (Ed.) Two Treauses of Government,
London, 1967. Para um comentário sobre a interpretação lockiana do Gê-
nesis, ver J. Tully, A Discourse on Property: John Locke and His Adversaries,
Cambridge, 1980, p.60, 65.
87 Li ws cfihe colonial and Staie governmems in relation io Indians and Ittdian Affairs
from 16SS io 18S1 inclusive (Washington, D. C., 1832). Salmos 107:39: "Deus
preparou a terra para ser semeada e plantada', segundo a interpretação de
Eburne, Plame Paihway, p.41
88 Lawson, New Orchard (1618), p.56.
89 Cên. 9:1 A outra importante |ustificativa baseada nas escrituras era a idéia
de que os ingleses eram o povo escolhido de Deus. Em 1609, o pregador angli-
cano Wilham Symonds invocou Cên. 12:1-3 para |ustificar o assentamento
na Virgínia. Ver também o sermão de R. Cray, A Good Speed to Virgínia, citan-
do Josué 17:14-18 "Por que me deste tu a posse de uma só herança e de uma
só parte, sendo eu um povo tão numeroso?' Wright, Religion, p.90-3. J. W
McKenna, How Cod Became an Englishman, in: D. J. Cuth, J. W. McKenna
(E<J) Tudor Rute and Rewluuon, Cambndge, 1982, p.25-43.
9 0 J Cohen, Be fertilt and Increase, Fill the Eanh and Master Ir. The Ancient and

Medieval Career of a Biblical Text, Ithaca, 1989, p.307-11


91 T. O. Cockayne (Ed.) Leechdoms. Wortcunnmg, and Starcraft ofEarly England,
London, 1961, 3v„ v.l, p 398-405,
Cohen, "He lemU'
3 L Whue, The Histoncal Roots of Our Ecological Crisis, Science, v.155,
P 1203-7, 1967 Para a crença de Bacon na dominação da natureza, ver N.
.60 PATRÍCIA SEED

W o o d John Locke and Agraria* CapiiaHsm, Berkeley, 1984, p.24; para outros

estudiosos, ver C o h e n , "Be Ferlile", p.15-8.


9 4 I. S m , t h (1631), in: Barbour (Ed.) Works, v.3, p.276-7. "Manured , nesse uso,
significa "cultivada". Ver "manure", Oxford English Dictionary, _
9 5 Blackstone, Commentanes on lhe Laws of England, v.3, p.2^ A c i t a ç a o oeml, .
1 2 8 é a primeira nota de rodapé no capítulo sobre propriedade Para exemplos
de utilização recente de Blackstone e m duas ex-colônias inglesas ver : C . M.
Rose, Possession as the O n g t n of Property, Umversity o\ Uncago Law Revie*
v.52, p.73-88, 1985 (Estados Unidos), e H. Reynolds, The Law o\ lhe Land,
Ringwood, Vic., 1987 (Austrália).
9 6 The Journals of Captam lames Coole, v . l , The Voyage ofthe Endtavour, \7bb 1771,
p.cclxxxii (30 de julho de 1768). A ação foi repetida pela Resolution', ver ibidem,
v.2, The Voyage ofthe Resolution and Advemure, 1772-1775, p.clxviii (25 de j u n h o
de 1772).
9 7 Ibidem, The Voyage ofthe Resolution, p.ccxxm.
9 8 The Journals of Captam James Coole, J. C. Beaglehole (Ed.), Cambridge, 1955-
1967, 3v. O a s s e n t a m e n t o da Austrália começou c o m a plantação dos famo-
sos "9 acres de milho" e m Sydney e m julho de 1788. Ver Gilbert, The Royal
Botanic Gardens, Sydney, p.11-2. T . Harnot, Brief a n d T r u e Report, in: Hakluyt
(Ed.) Voyages to Virginia, p. 135-6, descreveu essas ações c o m o o que deveria ser
feito pelos ingleses.
9 9 U m a horta de legumes plantada foi mencionada e m 1765 c o m o o início do
a s s e n t a m e n t o inglês pelo secretário de Estado da Inglaterra para o departa-
m e n t o do sul. Ver J. Goebel, The Sruggle for the Falklands, N e w Haven, 1927,
p.233-4. Q u a n d o abandonaram a ilha, eles deixaram uma placa de c h u m b o
afixada a um fortim, e não a uma árvore (p,410).
100 H. N. Smith, Virgínia Land: The American West as a Symlvl and Alnh, Cambndge,
Mass., 1950, p . 1 2 3 - 3 2 , 1 6 5 - 2 1 0 , citação na p. 124. Para uma observação seme
lhante sobre um período anterior, ver Kupperman, Roanolee, p.16-7. [Homestead
Act - Lei norte-americana concedendo 160 acres de terra devoluta a colonos,
sob a condição de que permanecessem 5 anos n o local, promovessem aper-
feiçoamentos na propriedade e pagassem taxas. O s moradores deveriam ser
cidadãos ou candidatos à cidadania americana, chefes de família ou maiores
de 21 anos, independentemente de seu gênero. (N. T . ) ]
101 "Garden", Oxford English Dictionary, def. 5c
102 Prest, The Carden ofEden, p.l.
103 O s britânicos transferiam borracha e chichona do N o v o M u n d o para fazer
plantações agrícolas fora de seus hábitats naturais e m áreas sob controle polí-
tico inglês. L. H. Brockway, Science and Colonial Expanuon T h e Role of the
Bntish Royal Botanic Gardens, N e w York, 1979, cap.6 e 7. Para a c o n s t r u ç ã o
cultural dos jardins botânicos c o m o recriadores do paraíso (incluindo-se t a n t o
sua ordem q u a n t o os c o n h e c i m e n t o s medicinais), ver Prest, Carden ofEden,
p.9, 42-6, 54-9, 88-90.

104 Os jardins botânicos coloniais t a m b é m funcionavam c o m o c e n t r o s de coleta


local. Na Austrália, os Jardins Botânicos de Canberra dedicam-se exclusiva-
mente a plantas australianas. O s jardins de Sydney e Melbourne t ê m notáveis
coleções de plantas importadas das regiões vizinhas (fora da Austrália) Sobre
a história de algumas dessas funções e m S y d n e y , ver G i l b e r t , Roval
C E R I M Ô N I A S DE POSSE 61

Gardens, Sydney, p.26, 55; para sua exportação para a Inglaterra e outras loca-
lidades, ver íbidem, p.28, 34-8. Além disso, o Jardim de Sydney servia como
solo de experimentação para o cultivo de plantas inglesas importadas (p.45,
48). Sobre outros |ardins botânicos coloniais, ver Brockway, Science and
Colonial Expansion, p.75-6.
105 Na realidade, a sebe foi plantada oito anos após o início do assentamento, e
não tinha uma ligação formal com a reivindicação de propriedade. M. C.
Karsten, The Old Company's Garden ai lhe Cape and lis Supertntendents, Cape
Town, 1951; H. Ciliomee, Die Kaap tydens dit Eersie Bmse Bewind, 1795-1803,
Pretória, 1975.
106 Gilbert, Royal Boianic Gardens, p . 1 1 - 2 , 1 6 .
107 Simplesmente cortando e removendo o mato anualmente, uma pessoa nos
Estados Unidos de ho|e pode sancionar a posse que lhe dá o direito de proprie-
dade sobre a terra. Words and Phrases, v.20, p.495-6.
108 Rose, Possession, p.76, 84.
O argumento de Winthrop (derivado do papa Inocêncio IV) de que ter terra
em comum criava um direito natural (mas não civil) à terra tornou-se depois
conhecido na lei norte-americana como "direito aborígine". W. C. Canby,
American Indian Law in a Nuishell, 2.ed., St. Paul, Minn., 1988, p.256-60;
Cohen, Federal Indian Law, p.291-4; M. E. Pnce e R. N. Clinton (Ed.) Law and
lhe American Indian, Charlottesville, Va. 1983, p.527-78; J. Y. Henderson, The
Doctnne of Aborigina! Rights in Western Legal Tradition, in: M Boldt, J,
A. Long (Ed.) The Quesi for Justice: Aboriginal Peoples and Aboriginal Rights,
Toronto, 1985, esp. p. 191-8; M. J. Kaplan, Issues in Land Claims: Abonginal
Title, in I. Sutton (Ed.) Irredeemable America-. The Indians' Estate and Land
Claims, Albuquerque, N M., 1985, p.71-86. Embora Winthrop nunca o tenha
reconhecido, seu argumento deriva da lei canônica católica. Em seu Uapparatus
<*d decretalia (cap de voto), o papa Inocêncio IV escreveu: "No início, tudo era
[tido] em c o m u m por todos, até o advento do uso, e os primeiros homens
introduziram a apropriação de uma coisa por um homem, e de outra por
outro*. Citado em A. Wanderpol, La doctnne scolasttque du droit deguerre, Pans,
1^19, p.226; Wimhrop's Conclusions, p.6-7.