Sie sind auf Seite 1von 321

Über dieses Buch

Dies ist ein digitales Exemplar eines Buches, das seit Generationen in den Regalen der Bibliotheken aufbewahrt wurde, bevor es von Google im
Rahmen eines Projekts, mit dem die Bücher dieser Welt online verfügbar gemacht werden sollen, sorgfältig gescannt wurde.
Das Buch hat das Urheberrecht überdauert und kann nun öffentlich zugänglich gemacht werden. Ein öffentlich zugängliches Buch ist ein Buch,
das niemals Urheberrechten unterlag oder bei dem die Schutzfrist des Urheberrechts abgelaufen ist. Ob ein Buch öffentlich zugänglich ist, kann
von Land zu Land unterschiedlich sein. Öffentlich zugängliche Bücher sind unser Tor zur Vergangenheit und stellen ein geschichtliches, kulturelles
und wissenschaftliches Vermögen dar, das häufig nur schwierig zu entdecken ist.
Gebrauchsspuren, Anmerkungen und andere Randbemerkungen, die im Originalband enthalten sind, finden sich auch in dieser Datei – eine Erin-
nerung an die lange Reise, die das Buch vom Verleger zu einer Bibliothek und weiter zu Ihnen hinter sich gebracht hat.

Nutzungsrichtlinien

Google ist stolz, mit Bibliotheken in partnerschaftlicher Zusammenarbeit öffentlich zugängliches Material zu digitalisieren und einer breiten Masse
zugänglich zu machen. Öffentlich zugängliche Bücher gehören der Öffentlichkeit, und wir sind nur ihre Hüter. Nichtsdestotrotz ist diese
Arbeit kostspielig. Um diese Ressource weiterhin zur Verfügung stellen zu können, haben wir Schritte unternommen, um den Missbrauch durch
kommerzielle Parteien zu verhindern. Dazu gehören technische Einschränkungen für automatisierte Abfragen.
Wir bitten Sie um Einhaltung folgender Richtlinien:

+ Nutzung der Dateien zu nichtkommerziellen Zwecken Wir haben Google Buchsuche für Endanwender konzipiert und möchten, dass Sie diese
Dateien nur für persönliche, nichtkommerzielle Zwecke verwenden.
+ Keine automatisierten Abfragen Senden Sie keine automatisierten Abfragen irgendwelcher Art an das Google-System. Wenn Sie Recherchen
über maschinelle Übersetzung, optische Zeichenerkennung oder andere Bereiche durchführen, in denen der Zugang zu Text in großen Mengen
nützlich ist, wenden Sie sich bitte an uns. Wir fördern die Nutzung des öffentlich zugänglichen Materials für diese Zwecke und können Ihnen
unter Umständen helfen.
+ Beibehaltung von Google-Markenelementen Das "Wasserzeichen" von Google, das Sie in jeder Datei finden, ist wichtig zur Information über
dieses Projekt und hilft den Anwendern weiteres Material über Google Buchsuche zu finden. Bitte entfernen Sie das Wasserzeichen nicht.
+ Bewegen Sie sich innerhalb der Legalität Unabhängig von Ihrem Verwendungszweck müssen Sie sich Ihrer Verantwortung bewusst sein,
sicherzustellen, dass Ihre Nutzung legal ist. Gehen Sie nicht davon aus, dass ein Buch, das nach unserem Dafürhalten für Nutzer in den USA
öffentlich zugänglich ist, auch für Nutzer in anderen Ländern öffentlich zugänglich ist. Ob ein Buch noch dem Urheberrecht unterliegt, ist
von Land zu Land verschieden. Wir können keine Beratung leisten, ob eine bestimmte Nutzung eines bestimmten Buches gesetzlich zulässig
ist. Gehen Sie nicht davon aus, dass das Erscheinen eines Buchs in Google Buchsuche bedeutet, dass es in jeder Form und überall auf der
Welt verwendet werden kann. Eine Urheberrechtsverletzung kann schwerwiegende Folgen haben.

Über Google Buchsuche

Das Ziel von Google besteht darin, die weltweiten Informationen zu organisieren und allgemein nutzbar und zugänglich zu machen. Google
Buchsuche hilft Lesern dabei, die Bücher dieser Welt zu entdecken, und unterstützt Autoren und Verleger dabei, neue Zielgruppen zu erreichen.
Den gesamten Buchtext können Sie im Internet unter http://books.google.com durchsuchen.
s
I

r
BERNARDINO MACHADO

HOMENAGENS

COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
ioo3
HOMENAGENS
I

BERNARDINO MACHADO

HOMENAGENS

COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
I9O2
HARVARD C8LIERE LIMAM
COUNT OK SANTA EULÁLIA
COLLECTION
BIFTOf
Km ft. STETMH, 1*
O MARQUÊS DE POMBAL*

(AO SR. D. ANTONIO DA COSTA)

Meus Senhores!

O Instituto effectua hoje a conferencia


com que se propoz celebrar o centenario
do benemerito reformador da Universidade,
marquês de Pombal, o sabio ministro de
D. José, que, á força da auctoridade abso
luta do seu rei, fez brotar do paiz sobre a
implantação de numerosas innovações e me
lhoramentos uma abundante fonte de saber,
a qual para futuro levasse per si só o movi
mento ás grandes e pequenas rodagens do
complexo machinismo social que elle andava
montando com braço formidavel.

* Discurso commemorativo, 1882.


6 Homenagens

Chamei-lhe reformador da Universidade;


a mim sobretudo, que pertenço á Faculdade
de Philosophia, cumpre-me dizer creador.
Por isso entendi que da minha parte rendia
melhor o preito que, na qualidade de portu
guês e professor, me impunha a recordação
centenaria do grande marquês, consagrando
ao seu immortal espirito uma demonstração
do meu interesse pelo mesmo estabelecimento
scientifico a que elle dera vida.
Acho-me entre consocios, com cuja bene
volencia conto; confesso porém, Senhores,
que me sinto temeroso de accordar com a
minha voz a solemne resonancia historica
d'esta reunião.

Meus Senhores! A these de Wallace pa


rece suficientemente demonstrada: a nossa
evolução é cerebral.
A natureza na sua incessante perfectibili
dade formou o homem. Desde então todo o
seu cuidado é apertar cada vez mais as cir-
cumvoluçóes d'essa espiral que lançou em
torno da verdade, do bello e do bem.
Descobrir a verdade para a amar e para
O marquês de Pombal 7

a praticar, eis o supremo destino da natu


reza, eis o destino do homem!
Somme-se toda a complexidade duma
civilização — religião, philosophia, misteres,
instituições — e ha de encontrar-se, apurado
tudo, que ella se compõe de tres elementos
— sciencia ou verdade logica, arte ou verdade
affectiva, industria ou verdade util. Total, a
verdade.
Para ella teem corrido em ondas, por vezes
alterosas e até ensanguentadas, as gerações
umas após outras; debaixo da sua fascinação
andamos nós labutando, e é que não temos
socego, nós os povos hodiernos.
Foi quem, sobre os escombros do terra
moto de Lisboa, armou cavalleiro Sebastião
José de Carvalho e Mello, naquelle seculo
dezoito, que sentiu a meio de si desenca-
dear-se, com o arrebatamento dos genios de
D'Alembert e Diderot, o furacão da Ency-
clopedia.
E são suas as chispas gloriosas que aureo
lam os ferrenhos trabalhadores do nosso
tempo; um Darwin, por exemplo. Se lidou
esse! Lidou constantemente; e assim, alento
a alento, tirou de si a obra assombrosa da
theoria das transformações organicas, ou,
8 Homenagens

como para lhe perpetuar o nome melhor se


diz, o darwinismo. Tirou-o de si, a poder
de engenho, e com a paciencia com que o
oceano — explicou elle — floreja á superficie
os colossaes recifes coralinos feitos de ani-
malculos quasi invisiveis. Para sempre seja
bemdita a tua memoria, adoravel sabio!
Todo o ruido que o homem faz, é, afinal,
a edificação da verdade.
E com o que guarnece a sua casa e o seu
paiz, porque ella tem por si as forças todas
da ordem do mundo, desde a attracção
newtoniana até a solidariedade das conscien
cias. Mais ainda, é só ella quem na desor
dem governa, a tempestade com Maury, a
guerra com os Moltkes.
Por exprimir a arte da guerra, por ser a
eschola onde Pombal foi buscar o conde
de Lippe, é que a Prussia, estado facticio
— sem forças naturaes no interior por lhe
faltar uma determinação ethnologica, sem
forças naturaes no exterior, isto é, sem de
terminação geographica — apenas disciplina
e tactica, pelejou victoriosamente a campanha
dos sete annos, commandada pelo rei phi-
losopho, o grande Frederico, a quem só
Voltaire meteu medo. Mas Voltaire foi o
O marquês de Pombal 9

maior estrategico do seculo, e empunhava


não a verdade da desordem, mas a verdade
eterna.
Foi essa mesma a que nós tambem ja
brandimos; ao seu clarão, dobrámos o cabo
tormentoso e sulcámos mares nunca d'antes
navegados, no tempo em que eramos de força
para rasgar os aditos d uma nova edade.

Meus Senhores! Como Proudhon formu


lou, o clima faz a raça, a raça as idéas, mas
só a communhão d'estas merece chamar-se
nacionalidade. A nação é uma alma! excla
mava outro dia na Sorbonne o sr. Rénan.
Ter as paixões e os arranques do mesmo
pensamento, soffrer a sua obsessão com
todos os desvarios até, por elle ousar teme
rarias viagens e bater-se na Africa e na
Asia, sacrificar-lhe tudo, D. Fernando em
Tanger e a propria existencia em Alcacer-
quivir, arvorá-lo, um momento que fôsse!
triumphante nas terras e nos mares, cantá-lo
com Camões : assim se conquista o direito
de nação, foi como o conquistámos.
A nacionalidade é uma floração que tem
as suas raizes no pensamento.
10 Homenagens

Admiremos os feitos d'um Gama, d'um


Albuquerque, mas primeiro ajoelhemos aos
pés do altar que tanto antes o infante
D. Henrique levantára á sciencia no Pro
montorio Sagrado.
Rendamos primeiramente o culto profe
ssado pelo marquês de Pombal no preambulo
da carta de lei que diz:
«... Faço saber a todos que esta Carta
virem, que havendo Eu considerado que da
boa, e regular instrucçaõ da Mocidade he
sempre taõ dependente o bem Espiritual, e
a felicidade temporal dos Estados; para a
propagação da Fé, e augmento da Igreja
Catholica; e para o serviço dos Soberanos,
e utilidade publica dos Povos, que vivem
debaixo do seu Governo; como nestes Reinos
testificarao os Gloriosos, e fecundos progres
sos, com que por effeito dos Estudos, e da
Companhia, que o memorável Infante Dom
Henrique estabeleceo, e fundou na villa de
Sagres, e na cidade de Lagos, para a Astro
nomia, Geografia, Navegação, e Commercio
maritimo, se formarao os muitos Sabios, e
famozos Varões, que, depois de haverem
dilatado com os seus illustres feitos os Domi
nios desta Coroa na Africa Occidental, os
O marquês de Pombal 11

achou o Reinado do Senhor Rei Dom Manuel


taõ graduados, e taÕ experimentados ; naõ
só naquellas utilissimas disciplinas; mas tam
bem na mais sã, e mais sólida Politica
Christã, com que em poucos annos por mares
até entao desconhecidos descubriraõ, e Con
quistarao duas taõ grandes porções da Asia,
e da America ...»
Quanto póde a intelligencia, Senhores!
Nós só um ideal tivemos, elle a principio
nem passava d'uma chimera, e immortali-
zou-nos o nome.
Mas, por muito que uma concepção pro
pria nobilite um povo, não póde garantir-lhe
a nacionalidade senão pelo tempo que dure
a sua acção; concluida esta, ha de outra
concepção succeder-lhe, tambem nacionali-
zadora. Para manter os laços nacionaes, a
tradicção não basta; as gentes que não sabem
que fazer pelos progressos da humanidade,
tornam-se passivas das nações dignas d'este
nome, e tanto se aviltam e esphacelam, que
tudo nellas vem a destecer-se, até a religião
dos seus maiores.
Nós, depois das nossas conquistas, ficámos
sem accordo.
Nem surprehende. Só por ellas nos enle
12 Homenagens

varamos, para ellas somente nos haviamos


apparelhado em incessantes viagens e com
bates: entrámos na sua posse com o impeto
d'um antigo desejo, asperrimo, irracionavel.
Foi um delirio que veiu a ser uma prostração;
desatinados, obliterado o mesmo sentido das
passadas proezas, no paroxismo, arrancámo-
nos para a jornada d'Africa e lá succumbi-
mos.
Entretanto do choque do nosso corpo social
sobre o immenso imperio avassallado fusilou
uma faisca eterna, os Lusiadas. E o poema
das glorias patrias, mas é tambem o monu
mento da nossa miseria. Mostra-nos o que
um homem de genio pôde para a arte, em
contraste do que para o seu futuro e para
o mundo desperdiçou uma nação enervada
pelo proprio triumpho, a nação de Fernão de
Magalhães, a nação ainda do cosmographo
Pedro Nunes.
Por falta de pensamento que nos norteasse,
até a independencia tivemos perdida.
E comtudo estiveram deante de nós re
giões e sociedades tão apartadas, que nada,
parece, seria mais adequado para dilatarmos
tambem os dominios do espirito: accrescen-
tarmos a sciencia da natureza com desco
O marquês de Pombal .3

bertas maiores que as de nenhum viajante,


ainda que houvesse de chamar-se Alexandre
de Humboldt, porque eram as descobertas
de todo um povo viajante, e portanto des
envolvermos a nossa producção, adquirindo
mais materias primas, adquirindo e inven
tando novos processos; adeantarmos a scien-
cia dos costumes, fazermo-nos portanto nós
mais humanos e melhores os outros; emfim
desferirmos pujantemente o nosso estro artis
tico. Vibraria a alma portuguesa nos arroubos
dum novo e mais alto ideal!
Em vez d'essa exploração progressista, foi
bem outra a que exercemos quasi sempre,
barbara, esterilizadora. Desbaratámos tudo,
e em consequencia as nossas virtudes tam
bem. Uma fatalidade!
E nós, que ultrapassaramos ovantes as
antigas barreiras do mundo, chegámos a
ter medo d'elle, á sua força dominadora, a
mesma com que vararamos em remotissimas
paragens, e lançámos para fóra do reino uma
população laboriosa que encerrava os ger
mens d'onde havia de sahir um Spinosa e
já nos nossos dias um Disraeli! E nós, que
descerraramos as caligens do mysterioso
mar, nós, que affrontaramos o Adamastor,
'4 Homenagens

acabámos por ter medo a phatasmas, e,


entrevecidos, supersticiosos, fomo-nos escon
dendo todos debaixo da roupeta do jesuita,
nós antigos cavalleiros e homens de armas !
Ainda lá nos veiu encontrar o marquês de
Pombal.

O marquês de Pombal, meus Senhores,


sabia de cór a historia da nossa prosperidade
e grandeza, da nossa decadencia e ruina ;
sabia que só pela sciencia nos tinhamos enal
tecido, e que tombaramos de chofre, mal
se nos consumiu a razão inHammada pelas
irradiações do oiro e pedrarias. O seu pro-
gramma foi portanto este : arrancar do paiz
a inextricavel vegetação parasitaria que o
sugava, a ignorancia; e, depois d'elle bem
revolvido, semeá-lo de saber.
A ignorancia tinha um sacerdote, um pala
dino, um consocio, o jesuita: expulsou-o. Era
a ignorancia fanatica: quebrou lhe as armas
na Inquisição, e impossibilitou-lhe as victi-
mas, os christaos novos. Era deshumana :
aboliu a escravatura na metropole e eman
cipou os indios no Brazil. Era immoral :
comminou severamente os concubinatos pu
O marquês de Pombal i5

blicos. Era arrogante, odienta, cruel: abafou


no cadafalso a conspiração dos nobres. Era
vã, perdularia: mandou arrazar os vinhedos
dos campos do Tejo, Mondego e Vouga, e
denunciou o tractado de Methwen. Era a igno
rancia doutorada: demoliu o velho ensino.
Em summa, atacou-a a todos os lados e
subjugou-a sempre!
Foi a sua obra de destruição, que elle
cumpriu indefessamente, com o ciume do
seu amor pela vida collectiva da nação, um
ciume violento, e que elle cumpriu por isso
inexoravelmente, com desprezo até das vidas
individuaes, que, na verdade, se haveriam
tornado muito despreziveis, se tal sentimento
fosse legitimo.
E, ao passo que se sahia victorioso d'esta
lucta athletica, os seus olhos demandavam
o futuro. Anciava o o futuro, a felicidade
dos vindoiros.

A velha sociedade, Senhores, estava con


stituida em tres ordens, e estas divisões
impunham grandes linhas a quem tentasse a
sua reformação. Escusado será accrescentar
que ellas entraram no plano do marquês de
i6 Homenagens

Pombal. Para trabalhar para todo o paiz,


elle trabalhou pelo clero, pela nobreza e
pelo povo.
Serviu o clero, que, por signal, o remu
nerou bizarramente.
Quasi nunca se faz justiça ao clero. Esque-
ce-se demasiadas vezes que, se a Egreja teve
de pôr fatalmente os interesses da classe
em conflicto com os supremos interesses da
humanidade, ella, depositaria da religião —
essa sciencia primitiva, tão maravilhosa, que
se afigurou sobrenatural e por isso investiu
os seus sacerdotes num resplendor do céo —
se pretendia a obscuridade do mundo para
ella só rebrilhar nas trevas, e romanizava-se
e desnaturava o jesuita — como o progresso
é a lei de continuidade de tudo quanto existe,
e não ha forças que o empeçam — ella neces
sitava á sua parte de se alumiar cada vez
mais por esforços de meditação, e de mani
festar em publico as suas luzes para conservar
o prestigio que adira da sabedoria primitiva;
e, como tal, a Egreja serviu grandemente o
progresso.
Querem num só homem o exemplo d' esta
duplicidade de acção? Téem Urbano VIII,
amigo de Galileu, o papa que em cardeal lhe
O marquês de Pombal '7

dedicou versos; Urbano VIII, inimigo de


Galileu, o papa por meio de quem os jesuitas
o encarceraram no Santo Officio.
Havia porém sido expulsa a Companhia.
A Egreja que ficara, não era já romana, não
renegava da sua patria temporal; era a
mesma que com o bispo D. Paterno aqui em
Coimbra assentara desde o seculo xi os fun
damentos ao ensino collectivo, a mesma que
aliara o prior de Santa Cruz de Coimbra e
o abade de Alcobaça a el-rei D. Diniz para
a fundação da Universidade; era, pois, a
Egreja do progresso, não do obscurantismo.
Basta dizer que a compunham letrados tão
conspicuos como o grande Cenaculo. Ella foi
o briosissimo collaborador do marquês de
Pombal.
Com ella, que na maioria se recrutava do
povo e ia sagrar essa origem num estado
mais nobre do que a propria nobreza, pro
curou Pombal dirigir para as fecundas com
petencias civilizadoras nobreza e povo.
O problema traduzia-se na equação: fazer
com que ninguem deixasse de trabalhar e
com que o trabalho de cada um rendesse.
E tinha uma unica raiz racional: instruir.
Nesse proposito creou o marquês um
2
18 Homenagens

ensino especial no Collegio dos Nobres, e o


ensino geral, definitivo esse, com aulas espe
culativas e profissionaes, menores e maiores,
para o lavrador, para o artifice, para o nego
ciante e para os membros de todas as pro
fissões liberaes. Creou escholas para o paiz
inteiro, e meteu-o na eschola.
O Collegio dos Nobres foi para o tempo
um instituto modelo, e não devemos julgá-lo
fóra do seu tempo. Era privilegiado, sem
dúvida, mas na sua trama havia uns ares de
estabelecimento profissional ; e, depois, não
fazia mais do que reconhecer o privilegio
legal e necessario então existente, não vinha
reanimá-lo, tanto que, mal a influencia dos
estudos publicos tocou a alma portuguêsa,
logo o Collegio dos Nobres começou de ser
resorvido.
Estava aprestada a instrucção da aristo
cracia hereditaria.
Mas onde o estadista se sublimou para
os nossos respeitos e gratidão, foi nos des
velos com que todo se deu á instrucção que
era para o povo e de futuro seria para o
paiz inteiro. E é essa a maior obra do seu
genio.
Por ella sobretudo bem mereceu a coroa
O marquês de Pombal

civica com que a posteridade ainda um seculo


depois lhe galardoa o eminente prestimo.
Como havia, Senhores, de ter ordem e
praticar a lealdade o nosso commercio, como
então aproveitar a si e ás industrias que lhe
incumbia servir, se estava fallido dos simples
conhecimentos requeridos para arrumar as
suas transacções ? Em vista do que, o mar
quês de Pombal não só o fez condensar as
suas forças em companhias a que ainda não
chegara o momento historico de espontanea
mente se formarem; mas poz ao lado do seu
ajuntamento a aula de commercio, e tornou
obrigatorios os alumnos d'ella para todas
as grandes administrações, inclusivamente o
Estado.
As industrias tinham morrido ou definha
vam, sem mercado, sem technica. Elle
protegeu-as, restabeleceu-as, naturalizou-as,
levando até o puro capricho da moda a ves-
tirse de briche; e principalmente as impulsou,
abrindo dentro das mesmas fabricas officinas
de apprendizagem.
A agricultura desnorteara-se ; nós falsifi
cavamos o vinho, e, com todas as nossas
minas, esmolavamos o pão. Então elle sobre-
poz-nos a tutela que delegou para o norte
20 Homenagens

na companhia do Alto Douro; e, porque o


mal vinha do atrazo intellectual dos lavradores
— como poderiam lá rastrear as sãs praticas
agricolas, se andavam numa rotina escura,
sem entender ao menos o alphabeto das
letras e dos algarismos ? — por isso o mar
quês de Pombal lançou por cima delles a
luminosa rede de escholas regias que esten
deu desde a metropole até os indigenas ame
ricanos.
Só no reino elle mandou collocar 5o2 ca
deiras de primeiras letras, 5o2 mesas, por
tanto, junto ás quaes muita gente lograria ir
receber o pão eucharistico do espirito.
Exprimo-me assim, Senhores, porque são
as primeiras letras quem dá ao homem a
faculdade de conviver com os que falaram
ou escreveram memoravelmente a sua lingua,
os representantes da alma mater da patria,
aquelles que, entre muitos outros conselhos
valiosos, lhe persuadem o culto do civismo;
são ellas a unica consoloção na saudade pelo
parente ou amigo distante; e, com ellas, não
ha pobre que não possa amealhar no patri
monio commum uma observação nova ou
uma acção original, uma virtude das coisas
ou um heroismo seu. Que quasi sempre essas
O marquês de Pombal 21

migalhas, brilhantes que só na alma humana


crystallizam, vão enterrar-se na valla rasa
dos seus ignorados donos; e até das mãos
consagradas a puros lavores intellectuaes, até
dentro do templo da sciencia, ellas cahem
ás vezes para se sumir no limbo das noticias
diversas, onde acabo de ver referida a morte
do estudante de medicina, Leão Tillet, sacri
ficado em Paris na operação do crup a uma
creancinha *.
A instrucção primaria afervora o amor da
patria; mas a secundaria, como se entendia
no tempo do marquês, tinha o mais ambicioso
escopo de acordar para o amor da humani
dade, e por isso até se lhe chamava huma
nidades.
A nossa historia, com tantos tomos quantos
os autores domesticos, era o livro por onde
convinha começar a leitura; mas depois havia
que ler as grandes civilizações exploradas,
a Grecia e Roma principalmente. Já estava
mos senhores do nosso pensamento nacional,

# Depois d'isto escripto, o autor soube que o


sr. Grévy mandara ao cemiterio um dos seus aju
dantes collocar no peito do mallogrado Thillet a
insignia da Legião de Honra.
22 Homenagens

sabiamos expressar-nos á portuguêsa; res


tava aprender as leis geraes do pensamento e
acurar as regras do bom gosto.
Com esse fim, o marquês de Pombal abriu
aulas de latim, grego, logica, rhetorica, e nem
lhe esquecia encommendar a lingua santa ás
congregações religiosas.
E, como — á medida que nos erguessemos
no reino — a nossa vista, orientada pelas
tradições, devia ir abrangendo os paizes para
onde se nos alargava num horizonte glorioso
o campo da actividade futura, elle, a quem
esteve sempre presente o nosso destino, não
desatendeu o ensino geral das linguas indis
pensaveis ao nosso dominio nas possessões
e á nossa influencia entre vizinhos, quer da
Europa, quer de fóra, a principiar logo na
Africa mediterranea. Além de que o francês,
o italiano, o inglês eram ensinados evidente
mente com este fim diplomatico no Collegio
dos Nobres, e importou-os comsigo a legião
de estrangeiros que se pozeram ao serviço
da nossa renovação social. Até de Damasco
se aproveitou João de Sousa, autor duma
grammatica arabiga, e nosso negociador com
os Estados Berberescos.
Instrucção primaria e secundaria designa
O marquês de Pombal 23

ram-se conjuntamente pelo nome de estudos


menores.
Esmerou-se o marquês em os organizar.
Deu-lhes um corpo central — a Real Mesa
Censoria — membros intermedios — os dele
gados, um dos quaes na Bahia, e os visita
dores — além do professorado ; e, com os
preceitos que decretou ao funcionamento
d'esta hierarchia, administrou-os relevante
mente. Elle tanto zelava os estudos menores,
que no mesmo ensino livre os garantiu, exi
gindo carta "de habilitação aos que o profe
ssassem, o que havemos de confessar que é
bem preferivel á liberdade sem disciplina,
que entrega os paes de familia ao illusorio
conspecto dos reclamos.
Os estudos menores preparavam para as
Faculdades mediante um exame, ao modo
da madureza que recentemente houve.

Achamo-nos em presença da Universidade,


meus Senhores ! Levanta-se deante de nós
esta reedificação de incomparavel magnifi
cencia, que foi traçada com tamanho arrojo,
que um seculo passou já sem ser capaz de
a concluir.
Homenagens

E eu sinto-me embaraçado, Senhores, para


lhes falar da Universidade ! Em volta d'ella,
esvoaçam para mim quasi todas as imagens
da minha vida. Revejo os meus queridos
camaradas, que o vento da fortuna dispersou
rudemente ás maiores distancias, desde as
eminencias sociaes até o inacessivel fundo
do sepulcro, que, ai! ainda nas bancadas das
aulas cada anno tivemos de cerrar as nossas
fileiras para tapar os claros abertos pela
morte; e alembram-me os meus mestres,
com tantos talentos, a qual mais difficil de
transmitir, e outros mais professores, cuja
palavra reboava por todas as Faculdades
universitarias, e hoje apenas vibra nos echos
que deixou . . .
Perdoem-me a suspensão. A todas as
recordações pessoaes da Universidade deve
avultar a memoria excelsa do marquês de
Pombal.
Sim, Senhores, só um homem extraor
dinario pôde trazer para dentro da nossa
instrucção superior os derradeiros dois secu
los, em que a sciencia parecia have-la de
sertado; só forças descommunaes poderam
amplificá-la tanto, que nella viessem a caber
Bacon e Descartes, Newton e Leibnitz.
O marquês de Pombal 25

Imaginem ! Multiplicara-se a mathematica,


chegara-se á mechanica celeste, quer dizer,
a Laplace; a physica progredia com um
Franklin, por exemplo, o domador do raio
e da tyrania; já Buffon escrevera a historia
natural do homem ; houvera Rousseau, estava
até para explodir a revolução de 89; tinha
nascido Hegel: e nós marcavamos o passo
na doutrina aristotelica!
Não se condemna em absoluto a escholas-
tica. Foi o producto legitimo da meia-edade,
que, enclausurando em massas enormes o
homem especulativo, longe de todos os
interesses materiaes, evidenciou num novo
mundo, cujas sombras se projectaram sobre
toda a natureza, que, a dentro do cidadão e
do escravo, a dentro do senhor e do servo,
havia um fundo commum a todas as classes,
a alma humana; e produzia por um lado o
desenvolvimento intellectual que se chamou
escholastica, e por outro lado revindicava a
liberdade nas communas. A escholastica foi
o gymnasio onde a inteligencia se temperou
para as conquistas modernas. Mas, assim
como os exercicios physicos ahi se desman
dam em extravagancias funambulescas, as
contenções escholasticas tornaram-se num
26 Homenagens

espectaculo de circo, em vez de servirem de


revigorar os entendimentos para empresas
productivas. Pozeram-se os homens a philo-
sophar indefinidamente, desavisados de que
só pela cultura scientifica póde progredir a
philosophia, que é a mesma sciencia feita
consciente ; e, d'esse modo, nada vingaram
senão um systema de ignorância artificial,
como se expressa o marquês de Pombal na
carta de roboração dos Estatutos da Univer
sidade.
Era realmente phantasmagorica a nossa
instrucção superior. Assim concluira o seu
Compendio historico do estado da Universi
dade de Coimbra a meritissima Junta da
Providencia Litteraria, formada pelo mar
quês para a inspeccionar. Urgia restaurá-la
á sua verdade e pureza.
Os estudos menores haviam estreado a
nação nos dominios da racionalidade, e poli
ciado o pensar e o falar para que os per
corressem prudentemente. Cumpria seguir
ávante: inventariar as noções; alcançar a
systematização do mundo concreto, extensa
como as classificações historico-naturaes que
Linneu compoz a esse tempo, ou como as
ordenações legislativas dos costumes numa
O marquês de Pombal 27

nos, no seio das quaes em breve se geraria


o codigo napoleanico; e finalmente trans
cender aos principios abstractos que promo-
navam desde a suprema algebra.
A tamanha alteza quiz Pombal elevar a
nação; e encarregou a Junta Previdente de
elaborar em projecto a reorganização univer
sitaria, com o fim de lhe prevenir em todas
as partes um desenvolvimento harmonico.
Depois, das mãos de D. Francisco de
Lemos sahiu refundida a theologia, refundiu
a jurisprudencia o dr. João Pereira Ramos,
a medicina o dr. Antonio Nunes Ribeiro
Sanches, e José Monteiro da Rocha modelou
pela primeira vez a mathematica e a philo-
sophia. Preclaros autores da moderna Uni
versidade, nos Estatutos que lhe conferistes,
ficou o titulo nobiliarchico dos vossos pere
grinos talentos!
Os Estatutos não só dotaram a Universi
dade com a sciencia na sua unidade e varie
dade ; mas disciplinaram a sua acquisição para
mestres e discipulos com uma methodologia
que faz lembrar na deducção a sentença
de Condillac invocada por Lavoisier, e que
reclamava para a observação e experiencia
o espaço sobre o qual depois assentaram o
j8 Homenagens

observatorio astronomico, os muzeus, os labo


ratorios, os gabinetes e o jardim botanico. E
fizeram mais : franquearam a transmissão
scientifica, permitindo toda opinião, permi
tindo não só a mutua discussão entre os
alumnos, mas a discussão dos alumnos para
os professores, e ainda permitindo ao pé do
ensino official todo e qualquer outro que pre
tendesse as aulas e o publico universitario.
Chegou o dia 22 de setembro de 1772.
Nesse dia entrou o marquês de Pombal em
Coimbra para dar posse á Universidade da
sua Reforma. E o paiz pôde contemplar-lhe a
epica figura no fastigio da instrucção publica,
por elle erigida desde os fundamentos.
Elle, que iniciara o tirocinio das artes a
par com a educação civica, que constituira a
educação humanitaria, veiu pôr ao alcance
dos estudiosos as genuinas faculdades que
habilitavam para as magistraturas sociaes,
faculdades de trabalho proficiente, não já
de esteril jogo mental. E, juntamente com
o ensino oral em todos os graus, tornava
accessivel na mesma extensão o livro por
meio das typographias que fundou, a Im
pressão Regia e a Imprensa da Universidade.
E isto dizer que elle nos entregou os instru
O marquês de Pombal 29

mentos transmissores de todo o saber, por


tanto os transmissores das varias industrias, a
da justiça, a do patriotismo e a dos negocios,
da civilização em summa; e entregou-nos
tambem o proprio motor da prosperidade,
para que por nós mesmos vivessemos e
restaurassemos os fóros de nação, porque
commeteu superlativamente á Universidade
a funcção de produzir idéas suas, idéas por
tuguesas.
Emfim o marquês de Pombal preparou-
nos a soberania da razão para chegarmos a
alcançar a soberania nacional, deu-nos uma
nova Sagres para que outra vez nos repon
tasse o oriente. Foi o descendente directo
do infante D. Henrique, como elle sabio e
impassivel. Prodigiosos ambos! O infante
legou-nos a honra do passado; Pombal, a
esperança no porvir.
E ha portugueses que não têem olhos para
lhe reconhecer a descompassada estatura!
Mais!, de longe da patria, d'onde o coração
exilado esmalta atravez de lagrimas as visua
lidades nataes, um português provocou o des
mentido fulminante que na imprensa d'esta
cidade um distincto filho d'ella fez soar!
Pois o marquês de Pombal, enorme em
3o Homenagens

todo o tempo e em qualquer paiz, foi um


estadista singular para a nossa terra e sobre
tudo então para a sua epoca, epoca em que
ás suas poderosissimas mãos os caracteres já
de per si, pelo seu amolecimento, mal resis
tiam, epoca em que elle necessitou importar
para a sua obra até esta alavanca, o homem.
Meus Senhores! Tirem-se as consequen
cias a essa obra, e a nossa grandeza eviden
ciará a todos os olhos a do estadista que a
concebeu. Tirem-nas todos! Tire-as a Uni
versidade ! A ella direi em signal dos affectos
que lhe voto: a soberba construcção do mar
quês de Pombal precisa que a habite uma
alma feita de verdade e de justiça; inspirai-
lh'a e resuscitareis o nosso genio nacional!
A SOCIEDADE DE INSTRUCÇÃO
DO PORTO

Senhores deputados!

Se, para que nada se disperdice num paiz,


convem que as energias individuaes todas
se harmonizem e reciprocamente amparem,
não ha comtudo associações de tanto pres
timo como as associações promotoras de
instrucção.
Saber é poder; por isso só são fortes as
nações instruidas. A ignorancia, eis a causa
de todas as miserias — dos embaraços finan
ceiros, da penuria economica, do amoleci
mento de costumes. A ignorancia para tudo

Projecto de lei apresentado ao parlamento em 1 883.


3a Homenagens

empobrece o homem. Torna-o fraco operario,


incapaz de sustentar com vantagem ou sequer
com egualdade a luta da concorrencia; tor
na-o mau cidadão, que regateia ao estado
as suas dividas de sangue e de dinheiro;
finalmente arranca-lhe uma a uma as vir
tudes moraes com que os povos fraternizam
na cohesão de uma mesma familia. Toda a
nação doente é ver que é uma nação igno
rante; e não existe therapeutica efficaz, que
não disfarce apenas a molestia, que a cure
de raiz, nenhuma senão a instrucção.
Porque é que o programma politico da
nossa regeneração material principalmente
bem merece os applausos publicos? Porque,
ao passo que foi abrindo o caminho dos
mercados aos generos de cada região, ao
mesmo passo tem approximado os individuos
mais distantes; e d'esta vida em commum
formou-se uma eschola de mutua apprendi-
zagem.
Mas é obvio que tal apprendizagem é rude
e se torna por vezes violenta, que os ensina
mentos que se adquirem, batalhando pela
existencia, se pagam frequentemente muito
caro; e hoje então, que não só communica-
mos rapidamente uns com os outros, nós
A Sociedade de instrucção do Porto 33

portugueses, mas que de todos os lados o


paiz se franqueia aos trabalhadores estran
geiros, não ha só que recear alguns desastres
individuaes por entre a prosperidade publica,
é até mesmo para temer que o nosso atrazo
scientifico nos arrisque a uma ruina social.
Que importa levantar barreira nas alfandegas
ás correntes dos productos peregrinos, se o
saber e a habilidade do productor estranho
entram com elle livremente no paiz, e esses
são os nossos mais terriveis concorrentes ?
O proteccionista logico devia empecer-lhe
tambem o accesso. O resultado é ou que o
industrial forasteiro leva para a mãe patria
os leoninos lucros com que tivemos de remu-
nerar-lhe a sua superioridade, e pouco a
pouco o capital do nosso patrimonio se
exhaure, ou, quando elle se estabeleça defi
nitivamente entre nós com a sua riqueza,
que a herdem portuguêses no nascimento,
mas não nas tradições; e, se no primeiro
caso empobrecemos, no segundo desnacio-
nalizamo-nos.
De ambos os males padecemos, mas sobre
tudo do esquecimento dos bons e dos maus
dias da nossa terra. Não é mister que passem
muitos annos, e tudo, ainda os mais gloriosos
3
34 Homenagens

nomes, se apaga; as nossas classes menos


incultas sabem de cór as notabilidades fran
cesas, repetem as phrases dos seus discursos,
os seus versos, e pouquissimos de nós ainda
léem Garrett, de outro dia, poucos ainda léem
João de Deus, que é de hoje mesmo! Assim
vamos sendo conquistados pelo sangue e pelo
espirito estrangeiro, nós que tivemos espirito
bastante para sonhar novos mundos e sangue
para espalhar por todos elles.
Neste estado só a instrucção nos póde
valer; e quem mais instruir o paiz, maior
serviço lhe prestará.
Assim pensaram alguns patriotas por
tuenses, e fundaram em fevereiro de 1880 a
Sociedade de instrucção do Porto.
Bastariam os intuitos d'esta instituição sós
de per si para nos alentarem esperanças de
restabelecimento intellectual e social, porque
elles demonstram que não é irremediavel o
nosso mal estar. E, pois, certo que nem por
toda a parte andam obliteradas as faculdades
de comprehender e de sentir a fraqueza do
organismo nacional, e que nem todos já per
demos a hombridade para combater as suas
causas, para lhes contrapor a energia das
nobres dedicações. É felizmente certo. Quem
A Sociedade de instrucção do Porto 35

attentar bem no paiz, verá que nós não esta


mos para aqui unicamente a descançar das
labutações commerciaes no Brazil, gosando
este bello clima e desentorpecendo-nos em
velleidades eleitoraes e nobiliarchicas; sen-
te-se de todos os lados um estremecimento
de vida, temos impetos de tambem cá tra
balharmos na nossa terra, de trabalharmos
pela sua grandeza moral.
Que diremos então do que no estreito
decurso de tres annos commeteu e realizou a
Sociedade de instrucção do Porto?
Não é tempo ainda de medir o completo
alcance da sua acção. Essa acção tem-se
diffundido pelas camadas sociaes tão larga
mente e tão profundamente, que só o futuro
patenteará toda a importancia dos seus ser
viços. Mas o que póde asseverar-se desde já,
é que ha muito que entre nós não appareceu
exemplo de mais ardente e inquebrantavel
patriotismo.
Esta sociedade tem agitado na sua revista
mensal, nas discussões do seu conselho scien-
tifico, em congressos, em conferencias, em
manifestos, varias das mais interessantes
questões da actualidade, e em especial as
questões de interesse português. Dos seus
36 Homenagens

consocios alguns téem colligido novos mate-


riaes para o progresso dos estudos; ainda
agora um d'elles e distinctissimo, o medico
Gomes da Silva, anda herborizando em
Macau. Mas o que mais que tudo releva na
obra da sua pujante actividade, são os actos
do seu amor á causa popular.
A Sociedade de instrucção do Porto reco
nheceu com exacção que, se necessitamos
melhorar o ensino em todos os graus desde
a eschola até á Universidade, as reclamações
do trabalho não podem todavia aguardar
que essas necessidades fiquem satisfeitas: é
urgente applicar-lhe forças immediatas. A
nossa restauração mental ainda ha de levar
muito tempo, não se vê mesmo por agora
quando a instrucção publica chegará a distri
buir desde o alto do ensino superior quantas
. .idés* oaõ" precrias pars^.Lcpijulsar todas as
rodagens das nossas industrias.
E dupla a instrucção popular ; comprehenNJe
a instrucção primaria, que a todas as classes
sociaes serve, e a instrucção chamada profi
ssional, que não tem o inteiro significado
d'esta palavra, que se limita ás profissões
elementares, que é profissional, mas pro
fissional contigua á primaria.
A Sociedade de instrucção do Porto 37

Para fornecer uma e outra, a Sociedade


de instrucção celebrou exposições, exposição
dos modelos de gesso do lyceu do Porto em
julho de 1881, exposição de historia natural
em outubro do mesmo anno, exposição de
camelias em Lisboa em março de 1882,
exposição de pedagogia froebeliana em abril
immediato, exposição de industrias caseiras
em maio, e exposição de ceramica nacional
em outubro do mesmo anno; e, para que a
consulta d'estes grandes documentos vingasse
todos os seus proveitos, a sociedade animou
as suas exposições com trabalhos praticos
de rendeiras de Villa do Conde, Vianna do
Castello e Peniche, de oleiros do Porto e
seus arredores, etc, de modo que o visitante
entre a materia prima e o artefacto encon
trasse o processo. Ella celebrou centenarios,
o centenario de Frederico Froebel em 22
de abril de 1882, o centenario de Pombal.
E — não contente ainda de ter ministrado
as noções das coisas e dos officios nas suas
exposições e as noções não menos uteis dos
homens e do civismo nas suas commemora-
ções — entendendo que importava tornar per
manentes as exposições, accumulou collecções
scientificas, collecções artisticas e industriaes
38. Homenagens

e collecções pedagogicas, ás quaes só falta


casa para constituirem um magnifico museu,
e, entendendo que importava perpetuar as
memorias illustres, começou por abrir uma
subscripção para se levantar um monumento
ao infante D. Henrique.
Não é tudo. Formou uma bibliotheca ;
promoveu a creação de um curso de desenho
e de modelação para os oleiros do Porto,
auspiciando-o logo com a promessa de pre
mios para os alumnos operarios distinctos;
espalhou indicações e conselhos ácerca da
organização, dos methodos e dos livros do
ensino primario e primario technico ; e final
mente propoz-se ella mesmo a fundar a eschola
elementar de artes e officios e a eschola pri
maria inicial, o jardim da infancia.
Srs. deputados! E para a sociedade, cujo
prodigioso desenvolvimento mal esboçámos,
e em cujo futuro estão já expressamente inte
ressados o municipio e o districto do Porto,
é para a sociedade que el-rei e o governo já
reconheceram de poderosa iniciativa para a
prosperidade da nação, que nós temos a honra
de vos propor o seguinte projecto de lei :

Artigo i.° É concedida á Sociedade de


A Sociedade de instrucção do Porto

instrucção do Porto, para a fundação dos


seus institutos, a area dos terrenos ao na
scente do quartel de infanteria to da mesma
cidade, pertencentes á fazenda nacional, que
o governo julgar necessaria e fizer demarcar.
§ unico. Esta concessão caducará por mu
dança na sua applicação ou por dissolução
da sociedade.
Art. 2.0 Fica revogada a legislação em con
trario.
O CURSO SUPERIOR DE LETRAS

Senhores Deputados!

O estado, ao adoptar para o ensino offi


cial o Curso superior de letras, que a illus
tração e o civismo de ura principe saudoso
crearam, fez um acto de reconhecimento que
lhe é dado derogar, mas não trahir. Se o
Curso superior de letras tem uma impor
tancia nacional, o dever do estado é garan-
tir-lhe o desempenho da sua missão, e assim
a sua dignidade.
Ora essa importancia não se torna menos
real, porque se não evidencie a todos atravez
da confusão da nossa instrucção superior.

Projecto apresentado á Camara dos deputados em


1883.
42 Homenagens

Só tal confusão e o esquecimento do passado


a encobrem. Houve tempo em que se póde
dizer que as letras tinham o exclusivo do
ensino: ensinavam-se na eschola primaria as
primeiras letras, ensinavam-se nos collegios
as humanidades, que eram letras secunda
rias, e, até nas aulas superiores, para ser
medico, por exemplo, em vez de se praticar
nos theatros anatomicos e nas enfermarias,
lia-se nas bibliothecas.
Não vamos nós dar no excesso opposto.
Já foi um erro que a Faculdade de philoso-
phia da Universidade perdesse as suas pro
porções originaes. Não deixemos abater-se
o Curso superior de letras, que está desti
nado a ser para as profissões em que o
homem tem de aproveitar as forças moraes
o que as Faculdades de mathematica e phi-
losophia reunidas e a Eschola e Academia
polytechnicas devem ser para o aproveita
mento do mundo physico.
Comecemos desde já por fazer justiça a
um magisterio que não tem servido o paiz
só da sua cadeira, como lhe cumpria, mas
ainda em conferencias, em livros, em jornaes,
verdadeiro magisterio superior pelo -mereci
mento, mas não pela remuneração. Com este
O Curso superior de letras 43

fim, tenho a honra de submeter á vossa apre


ciação o seguinte projecto de lei:

Artigo i.° E elevado a 70026000 réis o


vencimento annual de professor do Curso
superior de letras.
Art. 2.0 Fica revogada a legislação em con
trario.
d
OS MARTYRES DA LIBERDADE

Senhores!

Antes de irmos tomar parte na festa por


tuense da liberdade, quizemos preparar-nos
dignamente para ella. Por isso viemos aqui
em piedosa romaria depor, com esta coroa
civica, as nossas homenagens sobre o tumulo
dos que por amor da liberdade arriscaram
tudo e tudo soffreram, até a morte. Que
digo eu, Senhores? Elles soffreram a incom
paravel dôr de se verem desconhecidos e de
serem condemnados e executados pelos pro
prios a quem pretendiam revelar, com a liber-

Allocução proferida no cemiterio do Prado do


Repouso, junto ao tumulo dos martyres da liberdade,
no dia 9 de julho de i883.
46 Homenagens

dade, o segredo de toda a força, de todos os


progressos!
Na luta com o obscurantismo, com os pre
conceitos, contra todas as formas da injus
tiça, elles foram vencidos, e o seu coroo
baqueou na sepultura. Mas, ao morrerem,
o seu sangue tingia com as purpurinas cores
duma aurora o horizonte politico da nação,
e para logo se levantou sobre ella, esplen
doroso, incontestavel, o sol da liberdade. O
espirito, pois, d'estes martyres não pereceu ;
triumphou, sobrevive.
Prometamos, Senhores, ser-lhe eterna
mente fieis; digamos a estes nossos queridos
mortos que podem ficar em paz, porque
sempre, no meio de quaesquer contrarie
dades da existencia, nos ha de guiar, como
um pavilhão glorioso, o exemplo das suas
virtudes.
E agora, Senhores, podemos ir á nossa
festa.
Viva a liberdade ! Honra e gloria aos mar
tyres da liberdade!
O EXERCITO LIBERTADOR
9 DE JULHO DE 1832

(Á ASSOCIAÇÃO LIBERAL DO PORTO)

Minhas Senhoras e Meus Senhores!

Agradeço commovido esta affectuosissima


manifestação da assemblêa. Eu já ha muito
que ambicionava ter ensejo de falar no meio
d'esta população tão activa e por isso tão
util, tão sympathica; esperava que a minha
palavra, singela, verdadeira, havia de ser aqui
bem entendida, e depois em parte alguma
ella poderia receber inspirações mais puras
para o serviço da causa publica. O acolhi-

Discurso pronunciado na sessão solemne da Asso


ciação Liberal do Porto, celebrada a 9 de julho de
i883 no salão da Sociedade Nova Euterpe.
Homenagens

mento que me fazem, penetra-me profunda


mente; eu sinto-me feliz pela cordialidade
com que reciprocamente entabolamos as
nossas relações, e empenhar-me-ei sempre
por as tornar cada vez mais intimas.
Convidado pela Associação Liberal de
Coimbra a representá-la nesta solemnidade,
já podem ver que não só aos seus desejos
annui, satisfiz os meus proprios. Os senti
mentos que tenho de lhes exprimir, são de
certo os d'ella, mas são tambem os meus.
E isto, que digo de mim, posso repeti-lo de
cada um dos meus collegas na commissão a
que presido.
A commissão principia o desempenho do
seu mandato por apresentar os cumprimentos
da Associação Liberal de Coimbra a esta
Associação que ainda ha pouco a distinguiu
com a sua visita, e que teve depois a ama
bilidade de desejar a d'ella. Mas não só um
dever de cortezia nos trouxe aqui. Outros
deveres mais antigos, contrahidos num domi
nio mais largo, no dominio da patria, impu
nham a nossa presença neste logar e nesta
occasião.
Nós deviamos estar hoje aqui para cum
primentarmos na pessoa moral d'esta Asso
O exercito libertador 49

ciação a nobilissima cidade do Porto, a


heroica fundadora do regimen liberal da
nação, e para tomarmos ao lado d'ella o
logar que a Coimbra pertence, porque tem
de certo direito a entrar no prestito festivo
da liberdade victoriosa quem nunca faltou a
defendê-la nos momentos attribulados das
suas contenções. Permittam-nos estas pala
vras, que não exprimem um vão amor pro
prio, mas traduzem, não o negamos, o justo
orgulho que sentimos por sermos, nesta terra
e neste anniversario, os representantes da
nossa capital scientifica, da Coimbra dos
batalhões academicos, d'esses bravos e gene
rosos moços em cujo sangue pulsou sempre
impetuosamente o mais interemerato amor
da patria! E cumpria-nos estar aqui não só
para celebrarmos as memorias d' esta data,
mas ainda para attestarmos claramente a
communhão de aspirações em que nos acha
mos todos os membros da familia liberal
portuguesa.
Falemos das nossas aspirações! Falemos
d'ellas para que esta entrevista alcance toda
a sua importancia; falemos d'ellas, até porque
nenhuma outra consagração melhor podere
mos prestar aos nossos queridos mortos.
4
5o Homenagens

Importa que estejamos, e que todos nos


vejam reunidos no mesmo zelo do futuro,
importa immenso, é absolutamente necessa
rio; porque a liberdade, que tantos sacrificios
custou para ser implantada no paiz, não vive
nelle uma vida tão florescente, que possamos
em socego esperar pelos seus fructos. Não!
ella ainda se não radicou profundamente por
todas as camadas sociaes da nossa terra,
ella ainda não penetrou bem na nossa alma
nacional.
E, se não, digam-me: que significa esta
crença cega, tão frequente, tão commum, na
omnipotencia de toda autoridade publica,
mas principalmente na omnipotencia dos
governos do estado? Entre nós pede-se tudo,
pede-se sempre, muitas vezes mesmo sem
saber o que, pedem os individuos, pedem
as corporações; e pouquissimos são os que
reclamam justiça, porque pouquissimos são
os que não fundam as suas esperanças exclu
sivamente no valor dos seus empenhos. De
modo que aos nossos homens publicos faz-se
mister uma força de caracter e uma força
de espirito extraordinaria para resistirem ás
solicitações que de todos os lados os assaltam,
e praticarem inalteravelmente o seu dever,
O exet cito libertador 5i

a despeito de tudo, embora percam depois


applausos, votos; para até mesmo não adul
terarem os sãos principios e acabarem por
acceitar a confusão que a maioria proclama
e insinua entre a autoridade e o arbitrio.
Esta confusão é o grande mal de que pade
cemos.
Não ha desastres que ella não provoque.
A autoridade publica, muitas vezes adulada,
tratada como uma providencia que tudo pode
dar ou negar a seu talante, successivamente
acariciada para que se considere omnipo
tente, que admira que um dia se perturbe
e, em vez da justiça que deve a todos, faça
o favor que alguem lhe pediu? Pois é o bas
tante para ficar comprometida por todo o
sempre. A justiça tem então um terrivel modo
de se vingar. Apparece logo um sem numero
de individuos que pretendem haver sido lesa
dos com o favor feito, e que só deixarão de
gritar, se forem egualmente servidos. Imagi
nem que voragem! D'ahi por deante a socie
dade offerece um contraste flagrante entre
as industrias, por um lado, que não sabem
fazer favores, que, inexoraveis, exigem dos
que as tentam exercitar, habilitações, appren-
dizagem, e, por outro lado, a industria com
52 Homenagens

placente dos empregos publicos; e o resultado


é despovoarem-se as mais para se encher só
esta. E quanto mais gente para lá for, tanto
mais se tornará necessaria, porque mau pes
soal obriga sempre a pessoal mumcroso.
Não estou a amesquinhar as funcções do
empregado publico. Sei, como toda a gente,
quanto essas funcções são essenciaes para a
vida regular dum povo culto. Digo mais : na
minha opinião nunca o estado chegará a
declinar de si a multiplicidade das adminis
trações como hoje tem, que o sobrecarregam
de certo, mas a que não póde eximir-se,
porque, devendo assegurar a ordem, isto é,
a policia e a justiça, e não podendo contar
com a efficacia theorica da lei, nem tão pouco
com o concurso espontaneo da maioria para
reprimir os seus transgressores, necessita,
elle estado, de ser a força, e tem portanto
que administrar não só a policia e a justiça,
mas quantos serviços as garantam. E não
só a ordem ha de o estado assegurar, ha de
assegurar tambem o progresso. Não me pro-
puz, pois, a atacar a acção administrativa
do estado; e menos podia desconhecer que
é sua attribuição inalienavel a iniciativa dos
melhoramentos que a nação reclame, porque
O exercito libertador 53

não ha de entender-se que todas as associa


ções são proficuas, que ellas não só repre
sentam a verdade economica e produzem a
riqueza, mas constituem a eschola da fraterni
dade, todas, excepto uma, e logo a maior, a
associação nacional: Nesta associação reside
incontestavelmente uma grande parte da boa
fortuna dum povo; só ella exalça o homem
da fraternidade da casa e da officina até á
fraternidade que se chama patriotismo. Já
vêem que aprecio, como ellas merecem, as
funcções dos empregados publicos; mas, até
porque as aprecio, as desejo bem desem
penhadas, e não acho que toda a gente esteja
no caso de bem as desempenhar; mas não
as aprecio até ao ponto de querer que todas
as mais industrias cessem para só se exercer a
do estado. Mal, muito mal, iria á nação que
assim tivesse realizado a utopia dos socia
listas, porque esse sonho, tão ideal como a
perfeição humana, vingava realizar-se como ?
pelo egoismo.
Combatamos com todas as nossas forças
esta monomania dos empregos publicos, ou,
melhor, combatamos a sua causa, que é a
confusão da autoridade com o favoritismo,
que é o desconhecimento da liberdade, por
54 Homenagens

que, convençamo-nos d'isto, a liberdade só


reina onde existe o respeito escrupuloso da
autoridade. Quem, em vez de respeitar a
autoridade, a corteja, faz acto de fraqueza,
demonstra que não tem força para viver do
seu trabalho, nem animo para tal indepen
dencia; e como ha de esse ser livre, se nem
sequer se possue ? A razão por que nos falta
ainda muito a liberdade, é porque estamos
ainda tão fracos, que mal até a conhecemos.
Temo-la nas leis, mas não nos costumes. Por
isso todas as nossas aspirações de liberaes se
resumem em tornar conhecida a liberdade.
Conhecida, ella se fará amar e servir. A
nossa formula, pois, é a instrucção.
Ergamos alto e firme em todas as nossas
festas a bandeira da instrucção ! Quem é
que póde ser livre sem o saber? Não conheça
as leis da natureza e queira ser um operario,
não conheça a lei moral e queira ser homem
e cidadão! Ser livre é saber. Toda outra
liberdade é fatalmente o desastre na indus
tria e a desordem na sociedade, toda outra
liberdade é a victoria, não do direito, não
do interesse social, mas exclusivamente da
força, ainda que seja a força bruta. Só com
a liberdade, que é o saber, se caminha em
O exercito libertador 55

progresso para a egualdade, para a felici


dade.
Qual deve ser o programma do ensino ? A
eschola tem de ensinar como se ha de proce
der na natureza e como se ha de proceder na
sociedade; tem de definir a liberdade que
pertence ao homem perante as forças phy-
sicas, e a liberdade que lhe pertence perante
os direitos dos seus semelhantes. Este é o
programma no mesmo sentido em que já o
formulara o grande patriota portuense Passos
Manuel, que mandou dar na aula primaria
noções da constituição, que revolucionou o
ensino secundario, transformando-o de huma
nista em humanista e naturalista, e pretendeu
incluir no lyceu gabinete, museu, labora
torio e annexar-lhe jardim, e que, além de
reformar os estudos superiores e especiaes,
póde affirmar-se que creou a Academia Poly-
technica e creou de facto em Lisboa e aqui
Conservatorios d'artes e officios. E o mesmo
programma que felizmente dirige os esforços
que, por um acordo commum, teem empre
gado em prol da instrucção os habitantes
d'esta cidade, as suas associações, a sua
camara, a sua junta geral e os seus gover
nadores civis com o seu benemerito secretario
56 Homenagens

geral *. Aproveito este momento solemne


para render ao Porto o tributo da minha
veneração pelo culto que assim professa á
instrucção, culto tão ferveroso, que o levou
a invocá-la para lhe erguer uma sociedade só
d'ella; e faço-me já juiz pelo futuro, affir-
mando-lhe que os seus nobres commeti-
mentos para a restauração intellectual do
paiz hão de merecer da liberdade que ella
accrescente aos agradecimentos de que se
lhe tornou devedora pelo seu triumpho nas
leis, novos agradecimentos pela sua domi
nação dos costumes publicos.
Fazer o operario e ao mesmo tempo fazer
o homem e o cidadão, tal deve ser a divisa
da educação nacional.
Esta obra patriotica, urge começá-la o
mais cedo possivel. Não se abandone nin
guem em momento algum da vida, mas
nunca então na primeira edade, porque a
inquietação das creanças, a sua febre de
movimento, a curiosidade do seu espirito,
são tambem supplicas. Dê-se-lhes a educação
physica e a educação da alma de que care-

* Sr. Taibner de Moraes.


O exercito libertador 57

cem. Abra-se a todas a eschola primaria, e,


podendo ser, que entrem para ella pelo jardim
da infancia. É a entrada propria da eschola
primaria ; e, se a não permitem os campos,
onde as distancias dos casaes á eschola são
grandes de mais para umas pobres crean-
cinhas, reclamam-na imperiosamente as cida
des.
Multiplique-se por toda a parte o ensino
primario; diffunda-se, como tão expressiva
mente se diz. E o baptismo social de todo
homem moderno. Ha um minimo de saber,
umas certas noções das coisas, um poder de
reflexão, uma quantidade de aptidões, que
constituem o fundamento do homem mo
derno, o fundamento portanto das sociedades
modernas. Nesse fundamento assentam a
felicidade individual e a felicidade publica.
Eis porque todo o individuo tem a necessi
dade e tem a obrigação de apprender a in-
strucção primaria, eis porque a sociedade
tem tambem a necessidade e a obrigação de
lh'a proporcionar.
Trabalhemos para que ninguem fique sem
ella, para que todos a adquiram, e para que,
depois de alcançada, ninguem venha a esque
cê-la!
58 Homenagens

São precisas escholas para apprender e


escholas para desenvolver e completar. A
lei deveria até, para bem, preceituar e san-
ccionar a instrucção obrigatoria de todos os
analphabetos, menores e maiores. Não póde,
e tem que confiar ás lições da experiencia
grande parte do ensino dos adultos. Pois, ao
menos, facultem-se os elementos do saber a
quantos os pedirem, e que para futuro nin
guem mais intervenha em nenhum dos graves
negocios da vida, como são umas eleições,
por exemplo, sem haver attingido o minimo
grau de cultura imprescindivel para o seu
tempo. Não fique uma só creança de hoje
sem a sua instrucção primaria. Onde não
bastarem as contribuições e os impostos,
suppram a falta os paes e as corporações
bem sorteadas em beneficio das suas familias
e das suas collectividades; suppra-a sobre
tudo a assistencia particular e publica em
favor de todos os necessitados. E neste in
stante, reflectindo na terra em que estou a
falar, lembro-me d'um nome que se tornou
abençoado do paiz pelo legado d'instrucção
que lhe deixou, e aponto para o exemplo
magnanimo do conde de Ferreira.
Eu disse ha pouco que collaborassem
O exercito libertador 59

todos, paes, corporações, individuos para a


perfeita realização da instrucção primaria;
mas ha muitas creanças que não têem familia,
ou é desgraçadamente como se a não tives
sem — são os pupillos da sociedade — . Por
ellas solto um brado bem alto, para que de
todos seja ouvido, e para que em toda a parte
o municipio, o districto e o estado ponderem
as suas responsabilidades tanto como aqui.
Não ha educação nacional firme, produ-
ctiva sem uma larga base de instrucção pri
maria. Por isso a instrucção primaria é para
nós, liberaes, mais do que um cuidado, uma
preoccupação ; por ella envidamos todos os
esforços, por ella representa neste dia 9 de
julho ao governo do estado a Associação
Liberal do Porto, assim como no dia 8 de
maio representou a Associação Liberal de
Coimbra. E falta-nos ainda tanto que fazer
para em todo o paiz se assentarem estes ali
cerces da educação nacional, que mal pode
mos já trabalhar em erigir todos os lanços
d'ella até o seu fastigio. Mas é indispensavel
ao menos pensarmos nisso.
Não basta que a instrucção, com a educa
ção que a acompanha, tenham arrancado ao
homem as resistencias que podiam oppôr-se
6o Homenagens

para desgraça d'elle ao progresso social, não


basta que o homem se haja convertido num
instrumento docil nas mãos da sociedade
pela sua communhão nas idéas e nos senti
mentos que intimamente a constituem; é
indispensavel que elle, acto continuo, se torne
activo, capaz de se governar a si e de accre-
scentar uma componente de força na vida
solidaria da nação. Quando o adolescente
concluiu a sua instrucção primaria, acaba
apenas de entrar na civilização ; resta ainda
que se habilite a contribuir para o progresso.
A obra de civilização, que é feita pela
eschola primaria, deve pois seguir-se a obra
de progresso. Qual ella seja, eis a questão
que passo agora a tratar.
E principio por perguntar: para onde vai
a maior parte da gente depois da eschola
primaria? Esta pergunta surprehende, não é
verdade? Parece incrivel, mas é assim: uma
minoria apenas frequenta as aulas elementa
res; pois nem mesmo o destino d'estes poucos
nós conhecemos. Parece que nos temos con
tentado de saber que ha aulas secundarias e
institutos e faculdades e escholas, que ha
tudo isto para os ricos, para os felizes, e que
nesta certeza descançamos, como se o maior
O exercito libertador tu

numero, ao fechar-se sobre elle a eschola


primaria, não se encontrasse isolado, sem um
guia para o conduzir desde as generalidades
que apprendeu ate á especialização do modo
de vida que tem de tomar. Pois esse maior
numero, que não vale tanto talvez, um por
um, somma comtudo o maior contingente de
energias da nação, é d'elle que em maior
parte depende a riqueza e a prosperidade
publica !
Começar não basta, é preciso proseguir e
concluir. E preciso não deixar incerto, tene
broso, esse espaço que medeia da eschola á
officina ; cumpre illuminá-lo tambem com o
ensino.
O ensino profissional impõe-se ao cuidado
de todos. Impõe-se ao estado, que é tambem
industrial, e que tem sobretudo de velar por
que se não apaguem os brios da grande
industria, a do patriotismo — e para esta
preparam todas as.escholas, mas propria
mente o alto ensino, que exerce logo por si
a industria das idéas novas, das inspirações
nacionaes — ; e impõe-se, na maioria dos
casos, ás localidades, ás classes. De facto,
todas as profissões são mais ou menos locaes,
mais ou menos privativas, com excepção das
62 Homenagens

duas que por toda a parte e em qualquer


classe se hão de exercer, a profissão de
homem e a de cidadão, e esta mesma se
torna especial, quando nós olhamos além das
nossas fronteiras para toda a sociedade. Eu
desejava ver os operarios de cada classe
e as classes affins associadas para administra
rem os estudos das suas profissões, desde
os mais simples sufficientes ás povoações
humildes até os mais complexos adequados
ao paiz inteiro; eu desejava que o municipio,
o distncto e o estado administrassem pela
sua parte os estudos preparatorios peculiares
ás escholas profissionaes das suas circum-
scripçÕes, e que, logo que duas terras limi-
trophes necessitassem dos mesmos estudos
por causa da homogeneidade das suas indus
trias, ellas se associassem para os admi
nistrar em commum. E, não podendo uma
classe, auxiliassem-na as corporações terri-
toriaes, e, quando uma d'estas não pudesse,
acudissem-lhe as outras.
Não me demoro com a economia da admi
nistração do ensino. Para que, se estamos
tão longe de o possuirmos em todas as varie
dades? Pretendi apenas mostrar que é a
iniciativa particular quem deverá em grande
O exercito libartador 63

parte completá-lo; mas, em primeiro logar,


está crear o que falta, parta por emquanto a
iniciativa d'onde partir. Tente-se de todos os
lados o que emprehende a Sociedade de
Instrucção! E collocar, ao lado dos estudos
que perfazem a educação para as classes
dirigentes, os estudos que habilitem para
os officios manuaes; é fazer communicar a
eschola primaria com outras escholas maio
res, não só para uns, para os abastados, mas
para todos, ricos e pobres! E que a eschola
profissional não cuide só dos interesses mate-
riaes, tenham tambem as suas horas o bello
e o bom, para que o operario não sáia d'ella
somente sabedor, mas delicado, mas humano.
Eu resumo-me. Universalize-se a instru
cção primaria, para que cada um mereça a
dignidade de compartir a civilização contem
poranea; e porque assim ter-se-hao acor
dado para o progresso todas as forças vivas
da nação, e poderá fazer-se na maxima lar
gueza o recrutamento das boas intelligencias
para os estudos secundarios e superiores,
quer dizer, poderá dar-se ás forças nacio-
naes toda a sua intensidade. E devo observar
quanto releva que os municipios sigam com
attenção o desinvolvimento dos alumnos das
64 Homenagens

escholas primarias para escolherem entre as


creanças pobres as que merecerem passar
ás aulas secundarias, e ahi subsidiarem-nas;
e quanto releva que os districtos façam egual
selecção nas escholas secundarias, e facul
tem ao merito o curso completo d'ellas e o
accesso e frequencia das aulas superiores.
Mas, depois de fornecida a instrucção pri
maria, é necessario não deixar em pousio as
faculdades nascentes de ninguem. Se nem
todos são para tudo, se ha desegualdades
originaes que só o tempo irá successivamente
desbastando, ha comtudo, para cada um,
logar na grande officina de trabalho dum
povo, e é necessario que cada um vá occupar
o seu, conscientemente, vantajosamente.
Minhas senhoras e meus senhores ! Só a
educação de todas as classes póde ter o nome
de nacional, e só com a educação nacional
completa apertaremos nas nossas mãos a
arma que nos fará fortes, que nos fará res
peitados, porque não ha para as victorias
senão o saber.
Bastará lembrarmo-nos de que a espada
victoriosa de D. Pedro, deante da qual neste
dia 9 de julho se abateram nesta cidade
os patibulos, foi ainda forjada na fornalha
O exercito libertador 65

ardente dos reformadores da nossa Univer


sidade, lá ganhou a tempera que a havia de
tornar invencivel; e de que por ella passaram
muita vez as fulgurações do saber de Mou
sinho da Silveira.
I
OS VETERANOS DA LIBERDADE

Senhores !

A nação deve amparo e auxilio a cada um


dos seus membros; é pela solidariedade de
todos que ella se organiza e robustece. Mas
quanto maior não é a sua obrigação para com
os que lutaram pelo seu desenvolvimento, á
custa de quem ella pôde lançar-se pelo cami
nho do futuro, desprendida das algemas com
que o despotismo lhe embaraçava os movi
mentos !
Não esqueçamos, pois, nunca os esfor
çados campeões das nossas liberdades consti-
tucionaes, e orgulhemo-nos de dividir com os

Projecto apresentado á Camara dos deputados em


1884.
68 Homenagens

que ainda restam, a prosperidade que deve


mos aos seus heroismos.
Animado d'estes sentimentos, tenho a
honra de vos apresentar o seguinte projecto
de lei:

Artigo 1.° Serão admitidos nas companhias


de reformados todos os soldados que nas
campanhas da liberdade pugnaram pelas insti
tuições constitucionaes.
Art. 2.° Fica revogada a legislação em con
trario.
GARRETT E O Sr. F. G. DE AMORIM

Senhores!

A obra collectiva de qualquer naçao exige


os esforços tenazes de cada um dos seus
membros a cada instante; mas não se cm-
prehende e faz logo á primeira geração, leva
ás vezes seculos. Para a promover e cumprir
é necessario atar indissoluvelmente o presente
ao passado. Mal das sociedades que ignoram
a sua estirpe e não dão valor ao patrimonio
grangeado pelos seus maiores! Por mais que
labutem, labutam em vão. Poderão iniciar
muito, mas não concluem nada ; ficam redu
zidas a imitar, perdem o caracter, desnacio-
nalizam-se. E que, além da ordem social
indispensavel para a vida simultanea dos
povos, ha outra ordem social, indispensavel
Homenagens

esta para o seu desenvolvimento successivo.


Se ambicionamos caminhar para o futuro
com passo largo e firme, se desejamos pro
gredir, coordenemo-nos com os nossos ante
passados, unamo-nos bem a elles. Só nesta
intimidade secular reside a consciencia, a
alma da nação, a sua fôrça. Mantenhamos
vivos na nossa memoria os portugueses pre
claros que souberam concentrar em si com
todo o brilho as idéas, sentimentos e aspira
ções da nossa patria.
Português de primeira grandeza foi incon
testavelmente Garrett. No drama da nossa
sociedade contemporanea coube-lhe um papel
principal; e quem pretender representá-la,
ha de collocar no primeiro plano e a toda a
luz a sua figura proeminente. Homem de
letras e de sciencia, escriptor e orador, mi
nistro e soldado, emigrado, elle poz ao serviço
da patria todas as suas extraordinarias facul
dades, fez-lhe todos os sacrifícios; e é em
grande parte producto seu esta civilização
que desfructamos. A quem o vá seguindo na
sua gloriosa carreira, lateja-lhe o coração com
as aspirações ideaes, com as dores a com as
esperanças que agitaram o paiz na prime1ra
metade do seculo; e hão de se lhe accender
Garrett e o sr. F. G. de Amorim V

e inflammar os sagrados brios do patrio


tismo, que ninguem sentiu melhor de que
elle, nem logrou communicar mais irresisti
velmente antes e depois de Camões. Por isso,
se é mister estudar a historia da nossa gente,
estudá-la a fundo, quem intentar conhecê-la,
precisa de conhecer primeiro a elle.
Para satisfazer a esta necessidade publica
escreveu o amigo intimo de Garrett, o sr.
Francisco Gomes de Amorim, o livro Garrett,
Memorias biográficas. Em honra ao seu me
recimento a Academia real das sciencias com
a sua autoridade conferiu-lhe espontanea
mente o premio instituido pelo illustrado
principe o senhor D. Fernando para coroar
a melhor obra literaria composta em home
nagem ao orador parlamentar do celebre
discurso do porto Pireo. E o governo, com-
penetrando-se do espirito da lei de 27 de
novembro de 1879, em cujo preambulo se
diz «Todos os paizes civilizados protegem
e auxiliam a publicação de obras de subido
merito scientifico, literario ou artistico, por
que as consideram os mais poderosos agentes
do progresso e desenvolvimento intellectual
e moral dos povos», o governo comprou pelos
diversos ministerios uma parte de seus exem
72 Homenagens

plares. Não pôde, porém, pagar as despesas


todas da publicação; e, como infelizmente
nem para os restantes o consumo do nosso
mercado chega, corre o sr. Gomes de Amo
rim o risco, em troca do seu trabalho, que
tem um grande preço moral e historico, que
lhe arruinou já a sua saude, de ficar arrui
nado economicamente. Seria uma crueldade.
Por isso nos dirigimos aos representantes da
generosa nação portuguesa com o seguinte
projecto de lei:

Artigo 1.° E o governo autorizado a


adquirir 5oo exemplares da obra Garrett,
Memorias biográficas, por Francisco Gomes
de Amorim, para serem distribuidos pelos
estabelecimentos publicos de instrucção, bem
como pelas escholas e bibliothecas particu
lares de reconhecida utilidade. •
Art. 2.0 Fica revogada a legislação em con
trario.

-
A UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Meus Senhores!

Por occasião do centenario pombalino, eu


disse que era mister que a Universidade
tirasse as consequencias todas da sua grande
reformação. E repito-o agora.
Um principio, sobretudo, dirigiu o autor
e os collaboradores da moderna Universi
dade, e resume o espirito d'esta obra prodi
giosa. Era o principio, ou, antes, a entra-
nhavel convincção de que só o saber domina,
de que só elle governa soberanamente o
mundo.

Oração de sapiencia recitada na sala dos actos


grandes da Universidade de Coimbra, no dia 16 de
outubro de 1885.
74 Homenagens

E é a pura verdade, meus Senhores. A


sciencia vale tanto, que, ainda seculos depois,
uma idéa que já se diffundiu por toda a
parte, quando já não é privilegio nem parece
instrumento preponderante de ninguem, re
cobra ás vezes o impeto primitivo, e levanta
do fundo da historia o povo que a concebera,
para lhe pagar a sua vida, insuffiando-a
nelle.
Amar, portanto, a sciencia, venerando-a
nos sabios e prezando-a nos estudiosos, ado-
rando-a então nos seus martyres ; servi-la
pelo estudo perseverante, obstinado, inelu
tavel, servi-la pela rigorosa applicação dos
seus dictames, quando mesmo se haja de
fazer por ella sacrifícios: eis, para quem
sente na alma os estos da sua patria, o que
deve constituir uma religião nacional.
E não só como cidadãos o saber nos en
grandece. A descoberta que hoje commove
uma nação, que a enriquece e nobilita, ha
de amanhã tornar-se num serviço á huma
nidade; depois de ter associado intimamente
nos gosos do mesmo trabalho os membros
d'uma collectividade, vai de volta pelo globo
levar a todo elle mais um vinculo de sym-
pathia. Este é o incomparavel poder da scien
A Universidade de Coimbra 75

cia. Só ella vinga realizar o supremo deside-


ratum : melhorar o homem.
Amar, portanto, e servir a sciencia é amar
e servir todas as virtudes; é mais até do que
obrigação nacional, é obrigação humanitaria.
Mas, se a sciencia, meus Senhores, é uma
religião, são templos as escholas, e aos seus
mestres e alumnos, mais do que a ninguem,
cabe velar cuidadosamente por ella; a todos,
e muito principalmente aos que temos a
honra de pertencer a um instituto d'alto
ensino, porque nesta moderna religião que
é a propria religião do progresso, quem
recebeu a sagrada missão de o dirigir e
accelerar, fomos nós, digo-o com a dôr pun
gentissima da minha mediocridade.
Será missão excessiva para as forças da
nossa instrucção superior ? Será. O saber
não se improviza; para o alcançar faz-se
necessario trabalhar arduamente, soffrer. Só
os povos que á sua custa grangearam esse
capital, parecem dignos, capazes de o multi
plicar — e o nosso patrimonio de idéas tor-
nou-se bem escasso.
É certo isso. A lei natural governa tam
bem a sociedade: a sociedade não dá saltos.
Póde um acontecimento surprehender-nos,
76 Homenagens

espantar com a sua enormidade, como se


de improviso nos assaltasse a catastrophe
duma montanha, que sempre imaginaramos
inabalavel . . . Ella caiu "de subito, mas havia
muito que a infiltração das aguas a estivera
minando surdamente ! Tambem na socie
dade, Senhores, só ha imprevidencias; revo
luções, nenhuma. Nem 89, a maior de todas,
o foi. Ficam-nos os olhos na grandeza de
tal data, mas porque nos esquecemos de que
antes d'ella desfilaram por seculos as fôrças
que haviam de emprehender essa tremenda
campanha.
Nós recebemos, sim, quasi unicamente,
uma herança de dissipações. Mas nem por
isso abdiquemos de todo o prestimo. Não
bastam esforços acumulados para o desem
penho da nossa missão? Pois não percamos
momento algum da vida para ao menos fazer
mos sementeira de quantas idéas encerra a
civilização actual, e confiemos na fecundidade
do torrão patrio. Tempo virá em que o nosso
paiz volte a ter originalidade, e, com ella, a
usufruir da força e prestigio antigo. Pudera!
Outros inventaram a bussola e a polvora;
mas fomos nós, as gentes d'esta peninsula,
os que cortámos por esses mares fóra em
A Universidade de Coimbra 77

demanda de novas terras ; fomos nós os que


as conquistámos para a renascença da huma-
dade. Confiemos, pois, neste clima, neste
sangue, no nosso genio nacional; e ávante!
E, se em alguma parte, Senhores, os cora
ções devem palpitar com os auspicios de
felicidade para a nossa cara patria, certa
mente que é aqui, a dentro da augusta cathe-
dral do ensino português.
A Universidade tem que ir na vanguarda
da legião que entre nós propugna pela causa
do futuro; a ella compete dar o exemplo de
todas as coragens e expôr-se a tudo, para
que não resvale das mãos d'esta nação o
estandarte em que se lê: pela verdade, pelo
bello e pelo bem.
Mas, por isso que formamos uma milicia,
lembremo-nos, meus Senhores, de que Victo
ria alguma é possivel sem disciplina, uma
disciplina inquebrantavel; e seja o nosso brio
unirmo-nos tão solidamente pela livre asso
ciação das nossas vontades, como se obede
cessemos á lei militar
Não! a sciencia não legisla só para os
outros, tambem submete a preceitos o pro
prio desenvolvimento. Todos os paizes civi
lizados se honram de possuir um codigo do
78 Homenagens

ensino, de o respeitar e executar; nós temos


cá tambem o nosso, e cumpre-nos egual-
mente guardá-lo e fazê-lo guardar escrupulo
samente. E, quando digo nós, abranjo desde
o prelado até os novatos. E necessario que
cada um tome a consciencia das suas respon
sabilidades, e que, sem aggressão reciproca,
no mais affectuoso convivio, cooperemos com
o mesmo generoso empenho para enraizar
nos costumes academicos as prescripções
salutares dos nossos estatutos : na exacta
observancia d'elles nos será dado apprender
as mesmas regras do seu aperfeiçoamento.
Desenganemo nos, Senhores, de que, no
instante em que postergarmos os nossos
deveres, estamos comprometendo os nossos
direitos, e desenganemo-nos, especialmente
nós autoridades universitarias, nós corpo do
cente, de que nos não achamos aqui apenas
para administrar o ensino de cada progra-
mma, mas que temos ainda de exercer sobre
estes moços a tutela que o paiz, que os seus
paes nos confiaram, tutela de amor, tutela
verdadeiramente paternal, que é a unica effi-
caz para dirigir naturezas tenras ainda, mas
sem dobrez, intemeratas, cheias de ideaes.
Um rapaz só excepcionalmente, num caso
A Universidade de Coimbra 79

morbido, sai um depravado. Póde, isso sim,


enthusiasmar-se por um farrapo, como se
segurasse nas suas mãos a propria bandeira
da justiça; mas não a rasgasse ninguem pri
meiro ! A justiça deslumbrará muita vez a
gente nova, mas nunca deixa de brilhar para
ella. E por isso que hoje d' este logar me
volto para os alumnos da Universidade e
lhes digo: approximae-vos dos vossos mes
tres para bem os conhecerdes e julgardes,
para os estimardes como elles vos merecem.
Approximemo-nos todos uns dos outros,
sem desconfiança, sem temor. Nem as intem
peranças da mocidade devem assustar ou
enfadar, nem tão pouco a prudencia, o come
dimento dos annos, é para descoroçoar ou
repellir. Temos d isto uma prova esplendida,
muito digna de ser memorada com prazer e
elogio, na festa que no recente anno lectivo
os estudantes de medicina celebraram em
honra do lente e decano jubilado da sua
faculdade, o sr. Costa Simões. Foi ali, no
laboratorio de histologia e physiologia geral,
trabalhando lado a lado, que elle teve tempo
e occasiões para desenthesourar as riquezas
do seu saber e da sua bondade, e que os
seus discipulos o fôram cingindo cada dia
8o Homenagens

mais estreitamente no enthusiasmo dos seus


affectos. Imitemos tão bello exemplo, Senho
res! Este uniforme que todos vestimos, não
basta de per si para fazer de nós uma cor
poração; para o sermos, temos de nos possuir
do [espirito de solidariedade, de camarada
gem.
Ha quem diga que a convivencia expõe,
vulgariza. Ninguem o creia! As relações entre
homens dignos aproveitam-lhes sempre. O
mestre tem sempre que aprender com o
discipulo, quando não seja outro, o melhor
conhecimento do ensino, e é nada menos
que o conhecimento das suas funcções peda
gogicas ; os discipulos, na intimidade dos
seus mestres, habituam-se a serem sinceros
— a não encobrirem a sua ignorancia —,
a serem modestos — a não se illudirem e
desvanecerem com o seu aproveitamento — ,
numa palavra, a procurarem incessantemente
a verdade. Nenhuma eschola se fecha entre
as quatro paredes da aula. Eschola é socie
dade, e estabelece-se não só dentro da aula,
á distancia da bancada ou da pedra á cathe-
dra, mas sempre que o professor se encontre
com o discipulo, nos museus, gabinetes e
laboratorios, examinando os mesmos objectos
A Universidade de Coimbra 81

e experimentando á mesma mesa, em excur


sões, em simples passeios, em qualquer con
versa, no mesmo desejo de ver, em commu-
nhão de impressões e de idéas, no mesmo
enlevo, no mesmo alvoroço intellectual. Es-
chola é familia, e tem como ella as suas
tradições, que aos antigos cumpre transmitir
fielmente aos recemchegados, para que nunca
se apague o culto dos antepassados e se
não quebre a cadeia que. deve ligar as nossas
aspirações ás nossas glorias. Porque é que
ha lições que só um pae sabe dar ? é porque
algumas só se podem dar e receber junto do
coração.
Aqui em Coimbra, permitam-me a obser
vação, vive-se muito á vista uns dos outros,
mas não na intimidade. Vemo-nos o bastante
para podermos, instinctivamente, sem mo
tivo, sympathisar ou antipathisar de parte
a parte; pouquissimo para podermos apre-
ciar-nos exactamente. E o resultado é ferir-
mo nos com injustiças mutuas, involuntarias
quasi sempre, mas que nem por isso deixam
de repercutir-se e ir bradando contra nós por
todo o paiz. O resultado á separarmo-nos
uns dos outros e separarmos de nós o paiz.
Meus Senhores, nada de agitações estereis!
6
82 Homenagens

Substituamos a todas esta unica, a agitação


das idéas. Onde a sciencia apaixona os ani
mos, nem sobra tempo para agravos, menos
para resentimentos e recriminações; reina
inalteravel concordia.
Unamo-nos e trabalhemos ! Só assim nos
acreditaremos. E, se ha instituição que pre
cise de autoridade, que não possa viver
sem ella, é, sem duvida, uma Universidade,
— para a conferir, para honrar os seus
graus, para que os seus diplomas valham
de facto, authenticamente, por documentos
publicos de capacidade — . Acreditemo-nos!
e que nunca jámais a nossa Universidade
volte a ser condemnada como inimiga da
autoridade e perigosa para a ordem, ella,
a quem principalmente cumpre sagrar toda
autoridade que pretenda ser legitima, ella,
d'onde deve sahir a soberana força ordena
dora da natureza e da sociedade, a força
da razão, da consciencia humana.
Termino com este voto, meus Senhores,
a oração que é pena que não fôsse pronun
ciada por quem a tivesse feito digna do titulo
d'ella, digna d'esta solemnidade, e d'esta
assembléa.
A ASSOCIAÇÃO
VICTORINO DAMASIO

Meus Senhores!

Ao tomar a presidencia d'esta sessão, sin-


to-me ternamente impressionado pelo for
moso espectaculo que tenho deante de mim.
Eu, que toda a vida tenho pugnado pela
cultura das gerações novas, orgulho-me da
minha campanha, ao ver que a nossa moci
dade estudiosa é assim. Disse outro dia no
parlamento o sr. ministro das obras publicas
que poucas vezes encontrara rapazes com
tão felizes disposições como os estudantes do
Instituto industrial e commercial de Lisboa.
Pois esta sessão é um documento solemne

Allocução proferida pelo autor na sessão solemne


de 12 de jnneiro de 1892, na qualidade de director do
Instituto industrial e commercial de Lisboa.
84 Homenagens

de como os nossos alumnos são já generosos


e bons! Elles comprehenderam perfeitamente
que nenhuma educação é completa, se a não
coroa a virtude; e a sua delicadeza inspirou-
lhes a fórmula mais tocante de a exercer.
Invocando a figura veneranda do sabio colla-
borador de Fontes Pereira de Mello, o pri
meiro director d'este estabelecimento, cujos
relevantes serviços ao ensino industrial são
dignos do maior reconhecimento, organiza
ram, sob os seus auspicios, a Associação
philantropico-academica José Victorino Da
masio, que tantos soccorros já tem prestado;
e, para perpetuar a lembrança do carinho
com que sempre os acolheu o desditoso se
cretario, Julio Cesar Machado, cuja tragica
morte ainda hoje nos commove, a paes e a
filhos, converteram-lhe o nome num premio
pecuniario annual para os subsidiados da
associação. Assim quizeram os alumnos do
Instituto industrial e commercial de Lisboa
dar um testemunho da sua mutua fraterni
dade e de respeitoso affecto pelos seus bem-
feitores. Nada mais sympathico, nada mais
grato, podem crê-lo, ao coração dos seus
mestres e ao meu. A sua elevação moral
assegura-nos tambem a sua applicação e o
seu aproveitamento.
D. ANTONIO DA COSTA

Meus Senhores!

Permitam-me que accentue as minhas ulti


mas homenagens ao querido morto que pie
dosamente viemos acompanhar até aqui.
Ninguem" lamenta com mais entranhavel
magua a perda que a nação acaba de soffrer
com a morte do illustre escriptor e homem
publico; porque eu não só tinha por elle a
sympathia, o respeito e a admiração que os
seus talentos e a nobreza do seu caracter
inspiravam, impunham, eu venerava-o como
a um mestre.
Foi, á luz dos seus bellos livros e dos
seus fecundos projectos e pareceres officiaes,

Allocução proferida á beira da sepultura, 25 de


fevereiro de 1892.
86 Homenagens

que meditei muitos dos difficilimos problemas


do governo da educação; e, o que é mais, na
sua convivencia, no seu exemplo, aprendi
a não desanimar nunca no apostolado da
nossa regeneração pelo ensino.
Nesta occasião, em que os sagrados inte
resses educativos correm talvez o risco de ser
preteridos por outros que, pela sua urgencia,
a muitos se afiguram mais momentosos, que
falta nos faz a sua penna de oiro ! Com que
enternecido alvoroço elle saberia vibrar o
grito de alarme até aos corações ainda mais
indifferentes !
Possa ao menos o prestigio da sua memoria
salvar-nos de um esquecimento que seria fatal
mente a nossa irremediavel mina! Achamo-
nos, é infelizmente certo, num passo bem
angustioso, o paiz atravessa uma formidavel
crise economica e moral; mas o nosso pro
fundo mal é a miseria da nossa cultura. Por
isso, á beira d'este tumulo, invocando a vida
generosa de D. Antonio da Costa, a sua
honrada imparcialidade e o seu alto criterio,
adjuro a todos a que se unam como numa
. só familia para cimentar a nossa futura pros
peridade no desenvolvimento da educação
nacional.
O CONGRESSO PEDAGÓGICO
DE MADRID

ALLOCUÇÃO INAUGURAL

Agradeço a v. ex.a, sr. D. Raphael de


Labra, as palavras carinhosas com que tão
eloquentemente celebrou a solidariedade das
glorias hespanholas e portuguesas.
Minhas Senhoras e meus Senhores, o nu
mero de adhesões que a idéa do Congresso
pedagogico hispano-português-americano en
controu no meu paiz e o conjuncto de tra
balhos, notas e memorias, de que tenho a

Allocuções proferidas em honra do Congresso


pedagogico hispano-português-americano celebrado
em Madrid por occasião do tricentenario de Colombo,
em 1892.
88 Homenagens

honra de ser portador, ou que posso desde


já annunciar-lhes, são a prova cabal não só
do apreço em que nós, portugueses, tivemos
o convite que nos era dirigido da cavalhei-
rosa Hespanha, mas ainda da importancia
que ligámos á propria realização do con
gresso.
Nem podia deixar de assim succeder.
As relações de parentesco que existem
entre as nações que falam o hespanhol e o
português, relações bem mais estreitas do que
os laços que prendem entre si toda a familia
latina, determinam uma orientação commum
ás resoluções dos problemas sociaes quo nos
incumbem. E, se ha algum que sobretudo
nos deva preoccupar, esse é o problema
educativo.
Só por isso convinha reunirmo-nos para
juntos o examinarmos, trocarmos sobre elle
as nossas idéas e coordenarmos as nossas
aspirações de reforma.
Acceite, pois, a digna commissão organi
zadora os protestos de reconhecimento que
em nome de Portugal lhe tributo; e eu pes
soalmente lhe estou deveras grato pela honra
que me conferiu, collocando me ao lado do
homem eminente que preside a este congresso.
O Congresso pedagógico de Madrid 89

Não saberia exprimir-lhes, minhas Senho


ras e meus Senhores, o vivo prazer, toda a
satisfação que sinto por me achar entre pes
soas que os mais nobres titulos exornam, e
entre as quaes conto alguns queridos amigos.

DISCURSO DENCERRAMENTO

Senhor Presidente !

Por mais vehemente que fôsse uma ou


outra divergencia de opinião, como a que
ainda agora se manifestou nesta assembléa,
felicito a v. ex.a e a commissão organizadora
pelo exito completo dos seus esforços.
O Congresso pedagogico hispano-portu-
guês-americano foi incontestavelmente uma
grande affirmação de doutrina e uma grande
affirmação politica, no genuino e bom sentido
da palavra.
Póde dizer-se que nenhuma das verdades
go Homenagens

fundamentaes que a sciencia moderna for


mula em materia de educação, deixou de
ser aqui expendida e revindicada.
O congresso proclamou a necessidade
da existencia d'um ministerio de intrucção
publica, para que o serviço do ensino não
corra o risco de ser sacrificado a qualquer
outro.
Proclamou a necessidade de que todos os
funccionarios da administração do ensino
possuam a competencia pedagogica; de que
a qualquer professor, ainda ao da mais
humilde eschola, seja licito ascender por
promoção até aos mais altos postos do
ensino; e de que se franqueiem as carreiras
do magisterio não só ao homem, mas tam
bem á mulher. E, assim constituidos os
quadros do ensino, proclamou a necessidade
de se reconhecer a legitima autonomia interna
das corporações docentes, entregando-lhes
a iniciativa na regulamentação dos exercicios
escholares e concedendo-lhes uma discreta
interferencia na organização dos serviços e
na distribuição dos fundos que lhes são con
signados.
Proclamou a necessidade de se ministrar
por egual a educação a ambos os sexos;
O Congresso pedagogico de Madrid 91

a necessidade de se multiplicarem e diver


sificarem as fórmas e os ramos de ensino,
de se diversificar mesmo o horario, para que
a nenhuma classe social se falte com o pão
do espirito, e, em especial, de se preparar o
magisterio por meio de escholas normaes,
bem como da accentuação do caracter peda
gogico das universidades e escholas profis-
sionaes; e a necessidade de se acudir com
pensões aos talentos desherdados da fortuna
para assim se alargar o campo de recruta
mento das classes dirigentes, e conjuncta-
mente a de se acudir não apenas com pensões,
mas com escholas especiaes, aos desherdados
da natureza, cegos, surdos-mudos e imbecis.
Proclamou a necessidade de se dar um
sentido liberal ao ensino, de tornar pessoal e
viril o trabalho do alumno, desde a instrucção
elementar até á superior, e de não cultivar
só o seu engenho, o seu gosto ou a sua habi
lidade oral ou manual, mas desenvolver-lhe
por completo todas as faculdades, formá-lo
integralmente para o desempenho das suas
multiplas obrigações sociaes, de tal modo
que não resulte um rotineiro, um dilettante
ou um ideologo, mas sim venha a ser um
collaborador consciente, independente e effi
92 Homenagens

caz na obra civilizadora da humanidade. E


proclamou a necessidade de se coordenarem
os varios graus da instrucção o mais perfei
tamente possivel, para que um individuo da
classe popular possa, sem desaproveitar a
educação que fez, transitar para as escholas
de ensino médio, e esse mesmo ainda, ou
um individuo da classe média, possa, com
egual economia de forças, chegar a frequentar
as escholas de alto ensino.
Proclamou finalmente a necessidade de
se estreitarem as relações entre professores,
entre discipulos e entre professores e disci
pulos, dum e de outro sexo, para que a
eschola seja a imagem idealizada da socie
dade; e ao mesmo tempo a necessidade de
se vincular organicamente a vida escholar
á vida social, para que a eschola receba os
influxos salutares da sociedade e reciproca
mente nella influa; a necessidade em summa
de se nacionalizar o ensino, de fazer passar
pela eschola um sopro de ardente patriotismo,
que tempere as almas juvenis para os rasgos
das mais nobres acções.
Esta rapida enumeração dos dictamens do
congresso evidencia a grandeza da sua obra
pedagogica.
O Congresso pedagogico de Madrid ç3

Politicamente, a causa da educação sai


d'aqui sem duvida alguma robustecida, pois
não é crivel que tantas vozes autorizadas,
que em cada sessão e em assembléa geral
se levantaram em seu favor, fiquem sem
resonancia na opinião. O echo d'essas vozes
irá repetindo atravez dos nossos paizes que,
para os povos como para as familias pros
perarem, é indispensavel que velem cari
nhosamente pela educação de todos os seus
membros sem excepção de ninguem, e sobre
tudo sem esquecimento dos fracos e dos
desventurados, isto é, a mulher, as creanças,
os pobres e os defeituosos.
Faço votos, minhas Senhoras e meus
Senhores, por que a celebração d'este con
gresso assignale uma data auspiciosa para
todas as nações que nelle se acham repre
sentadas, nomeadamente para esta hospita
leira nação, onde vejo com alegria que, em
volta dum nucleo de espiritos de eleição, se
estão por toda a parte constituindo centros
de vida educativa, num movimento de emu
lação que promete novos dias de gloria para
o genio hespanhol, tão digno dos mais ele
vados destinos.
A v. ex.a, sr. D. Raphael de Labra, que nos
94 Homenagens

presidiu com tamanha distincção, a cada um


dos illustrados educadores de quem me prézo
de haver sido companheiro de trabalhos estes
dias, e ao publico que nos animou com a sua
presença e nos deu o seu applauso, afianço
a minha sympathia e o meu reconhecimento.

ALLOCUÇÃO DE DESPEDIDA

Meus Senhores! <

Este banquete representa para mim um


traço de união entre o que fizemos c o que
temos de fazer. E o que temos de fazer,
exige toda a nossa diligencia e toda a nossa
actividade. Por mais que os governos, as
administrações locaes e os particulares criem
e multipliquem escholas, a nossa tarefa, a
tarefa dos educadores, é de per si mesma
immensa. Procurarei em algumas palavras
accentuar a sua magnitude.
O Congresso pedagogico de Madrid 95

Nós, hespanhoes e portugueses, depois


de havermos sido os illustres precursores da
civilização moderna, como que nos seques
trámos do proprio movimento que com tanto
ardor iniciaramos. E infelizmente forçoso
confessar que nos rapidos progressos scien-
tificos e industriaes dos ultimos tempos quasi
não tivemos a minima participação. Por isso
as grandes reformas da educação, a reforma
que implantou o ensino realista e a reforma
que logo após veiu implantar o ensino pra
tico, mal ainda se esboçam entre nós, e,
quando outras nações já estreiam novos me
lhoramentos da eschola, applicando-se sobre
tudo a fortalecer a educação moral e reli
giosa, que é o melhoramento que está hoje
na ordem do dia na França, na Inglaterra,
na Allemanha, a nós ainda nos falta quasi
tudo e é-nos necesario commeter todas as
reformas a um tempo.
Quão ardua, pois, não é neste momento
a missão educativa tanto em Hespanha como
em Portugal! Mas sei bem que, para por
sua parte a cumprir, o meu paiz póde contar
com o exemplo edificante dos educadores
hespanhoes. A todos elles tenho a honra
de saudar, erguendo um brinde a v. ex.a,
96 Homenagens

sr. D. Raphael de Labra, que tão dignamente


os personaliza como presidente do i." Con
gresso pedagogico hispano-português-ameri-
cano e como reitor da benemerita Instituição
livre de ensino. A D. Raphael de Labra !
O CONGRESSO GEOGRAPHICO
DE MADRID

Minhas Senhoras e Meus Senhores !

Agradeço ao sr. ministro do Brazil o sen


timento de estima pelo meu paiz que lhe
inspirou alguns dos mais calorosos relances
do seu excellente discurso.
Nada póde ser mais grato ao coração dos
hespanhoes e dos portugueses, aqui reunidos,
do que uma commemoração tão sympathica
da grandeza das suas patrias. A verdade é,
effectivamente, que esta abençoada civiliza
ção que a humanidade hoje desfructa, é em

Allocução proferida na sessão inaugural do Con


gresso geographico celebrado em Madrid por occa-
sião do Centenario de Colombo, em 1892.
7
98 Homenagens

grande parte creação nossa, é originaria


mente obra genial de Hespanha e de Por
tugal.
A historia, para ser fiel, para ser exacta
e completa, ha de reconhecer que a epocha
de potente renovação social a que se deu o
nome de renascença, não foi somente um
esplendido resurgimento literario, mas foi
tambem e sobretudo, por virtude dos nossos
esforços, um fecundo movimento scientifico,
d'onde veiu finalmente a desprender-se toda
esta formidavel labutação industrial do nosso
seculo. Outros povos descerraram á huma
nidade as portas do passado, nós abrimos-lhe
as portas do porvir.
Que revolução não opera tantas vezes nos
dominios do saber o conhecimento d'uma
nova especie mineral, vegetal ou animal, ou
d'um novo documento da vida moral do
homem! Imagine-se, pois, que extraordinario
impulso não imprimiria ao progresso do espi
rito humano o apparecimento surprehendente
dum numero prodigioso de regiões, floras
e faunas, de linguas e costumes, nunca até
então conhecidos nem sequer sonhados, de
todo o mundo, em summa, de maravilhas de
que fomos os heroicos descobridores.
O Congresso geographico de Madrid 99

As nossas descobertas geographicas mar


cam incontestavelmente o inicio da grande
cultura scientifica moderna.
Passou-se, em honra nossa, com a huma
nidade o mesmo que succede com o indi
viduo, porque a geographia é o fundamento
imprescindivel d'uma educação perfeita. Por
isso não só como português, mas também
como educador, me congratulo pela reunião
d'este congresso geographico, e cordialmente
me associo aos seus benemeritos organiza
dores.
INSTITUCION LIBRE
DE ENSENANZA

Qual o poder espiritual que tem presidido


ao moderno renascimento pedagogico em
Hespanha?
Este renascimento data de dois homens
eminentes: um philosopho, Sanz del Rio, e
um historiador, Fernando de Castro. Um
elaborou o pensamento nacional, o outro
exerceu a propaganda patriotica.
Sanz havia estado- dois annos na Allema-
nha, onde conviveu com Leonhardi, genro de
Krause. As suas lições, a principio syste-
maticas, foram com o tempo tomando uma
feição de pura investigação philosophica ; e

Madrid, 1892.
102 Homenagens

nada mais fecundo do que este trabalho


aturado de livre racionalização a que elle
submetia os seus discipulos. Das Universi
dades de provincia vinham professores para
o ouvir. De Madrid, seguiam o seu curso
homens como Salmeron, Francisco de Castro
e Francisco Giner. Sem que elle jamais
falasse de educação, foi altamente educativo
o seu ensino, porque obrigava cada um a
pensar por si, a dirigir-se. A sua palavra,
difficil, não podia torná-lo popular; mas a
sua influencia fez-se sentir poderosamente
entre os caudilhos da politica e da pedagogia.
Philantropo dum grande fundo moral,
dedicado a todas as causas nobres, D. Fer
nando de Castro, que se reconhecia discipulo
de Sanz, foi o apostolo do ensino. A sua
iniciativa desentranhou-se em fundações da
maior valia.
Fm 1867 a doutrina de Sanz é incluida no
Index. Atacada no parlamento, o governo
move contra o philosopho um processo; e
não duvida, para o ferir, nomear expressa
mente para a Universidade central um reitor
estranho ao corpo docente, desafiando este
attentado a briosa exaltação da mocidade
academica, que, no dia da posse do novo
Instilvcion libre de ensefianja 1o3

reitor, irrompeu violentamente em ameaças


contra elle e contra o ministro do fomento
e o embaixador português, que o acompa
nhavam, a ponto de ser preciso expulsá-la á
força do paranympho para a posse se effe-
ctuar. Salmeron, Francisco de Castro e Fran
cisco Giner mostram-se solidarios com Sanz,
e são com elle condemnados e demitidos.
Sobrevem a revolução de 1868. A Junta
preparatoria recondu-los, e o governo pro
visorio, composto de antigos liberaes con
servadores sob a presidencia de Serrano,
confirma-os. A reitoria da Universidade cen
tral, offerecida primeiro ao mestre, a Sanz,
que a declina, é confiada ás mãos amoraveis
de Fernando de Castro. E, volvidos alguns
annos, em 1873, a instrucção vê os seus
amigos no poder, Salmeron no ministerio e
Una na direcção geral.
Com a restauração de 1876, publica-se
uma real ordem, na qual o ensino universi
tario é taxado de nefasto á religião e ás
instituições. Protestam logo contra a affronta
os professores de Galliza, Linares, de zoolo
gia, e Calderon, de chimica, encarregando
pelo telegrapho Francisco Giner de apre
sentar o protesto. Secundam-nos em Madrid
(04 Homenagens

Salmeron e Ascárate. O reitor, Pisa Pajares,


pede a sua exoneração.
Desde esse momento, Giner assume a
direcção do noyo movimento pedagogico.
Entregue o protesto, é procurado pelo mi
nistro da graça e justiça, que lhe declara
ter-se o governo visto na necessidade de
comprazer com o espirito do grupo carlista
alliado, mas que se tranquilizem os profe
ssores de Madrid, porque não se procederá
contra elles e haverá mesmo todas as contem
plações para com os de Galliza. Giner averba
de indignidade o acto do governo, que, por
motivo politico, assim pretendera desacre
ditar o magisterio.
As blandicias seguem-se as comminações.
Giner a nada cede. Por isso, mesmo doente
como estava, é preso e desterrado para Cadiz,
onde teve de entrar para o hospital da Facul
dade de medicina. Instauram-se ao mesmo
tempo os processos academicos, vindo os
professores protestantes a ser condemnados
pelos conselhos das Universidades e pelo con
selho superior de instrucção publica e, com
elles, todos os professores suspeitos de menos
orthodoxos. Castellar, Montero Rios, Moret,
Figuerola, renunciam as suas cathedras.
Institucion libre de ensefíanja 10S

D'esta effervescencia se gerou a Instituição


livre de ensino, de Madrid.
Refugio do novo ideal educativo, ahi vão
fazer conferencias muitos pensadores abali
zados; e até antigos conservadores, conver
tidos a Sagasta, como Gamaso, o econo
mista, e Alonso Martinez, lâ vão receber o
baptismo liberal.
Em 1 88 1 o partido liberal sobe ao governo,
e restabelece os professores nos seus postos.
A Instituição entra então na sua phase
organica; fica dentro d'ella Giner, que recruta
um grupo de collaboradores, Hermenegildo
Giner, Cossio, Torres Campos, Sarna, Rubio,
Flores,... muitos d'elles seus discipulos, com
quem trata de pôr em pratica os mais effi-
cazes methodos de ensino. Consultando os
livros dos melhores pedagogos, e visitando
os estabelecimentos principaes de educação,
nada lhes é estranho. O seu ardor de saber
só é comparavel á abnegação com que o
diffundem, nas aulas dentro da casa da Insti
tuição, na imprensa por meio de livros e do
seu boletim, e no trato intimo.
Giner reune em si o cerebro de Sanz e o
coração de Castro. A sua autoridade na
cadeira da Universidade attrahe adhesões á
•Homenagens

Instituição; e quem uma vez lá entrou, vin-


cula-se-Ihe para sempre.
Saem discipulos para a provincia, consti-
tue-se a associação dos antigos alumnos; e,
pouco a pouco, este centro de iniciativa
intellectual e moral vae irradiando pelo ma
gisterio, pela administração e pela politica.
Nella se inspiram os ministros liberaes titu
lares da pasta de fomento, o deputado Labra
no parlamento e nas suas bellas campanhas
eleitoraes, e Riano, Una e Robledo na admi
nistração; com elle estão, no alto ensino de
philosophia, Salmeron em Madrid e Fran
cisco de Castro em Sevilha, e são seus missio
narios quasi todos os modernos professores
de ensino superior e, normal. Viu-se bem esta
solidariedade no brilhante congresso peda
gogico, celebrado sob a presidencia de Labra
por occasião das festas colombinas.
Muitas creações importantes attestam offi-
cialmente a influencia da Instituição. Apon
tarei só uma, que sobreleva entre todas, a do
Museu pedagogico de Madrid, onde Cossio,
seu director, e Rubio, seu secretario, teem
accumulado tudo que ha de precioso e inte
ressante em mobiliario e em material e publi
cações de ensino. E um verdadeiro centro
lnstitucion libre de ensenan^a 107

normal superior, que põe em communicação


os caudilhos das novas doutrinas pedagogicas
com o magisterio das escholas normaes.
Hoje a phalange mais avançada das scien-
cias e das artes em Hespanha forma ao lado
da Instituição. Sabios como Macpherson e
D. Conceição Arenal, artistas como D. Emilia
Pardo Bazan e Beruetti, visitam-na, são seus
amigos. E póde affirmar-se que o paiz a
acompanha. Emquanto os professores da
Instituição conduzem ranchos de voluntarios
de todas as classes, homens e senhoras, em
visitas e excursões — aos campos, aos museus
e monumentos e ás fabricas — em Madrid,
em Bilbau, na Corunha, etc, organizam-se
jogos e orpheons nacionaes, e por varias
cidades se multiplicam as exposições artis
ticas; e é com o subsidio das populações
que a Instituição ou, a seu exemplo, outros
philantropos como a Senhora Dávila em
Granada, vão buscar a casa das familias
pobres as creanças invalidas para as levar
durante as ferias a respirarem ar puro e a
tonificarem-se no mar.
Por toda a parte um mesmo sentimento
patriotico de regeneração agita profunda
mente a alma hespanhola.
O INFANTE D. HENRIQUE

Estes Annaes veem a seu tempo. Repre


sentam tambem uma homenagem á memoria
preclara do grande infante. A obra da mo
derna civilização é sobretudo scientifica, e
foram as nossas navegações e conquistas que
rasgaram á sciencia os novos horisontes.
Mas — se a vista de tantas maravilhas e o
trato de gentes tão estranhas iniciaram uma
era de progresso irresistivel em todos os
ramos do. saber — mais do que quaesquer
outras, as sciencias naturaes datam de então
o seu prodigioso desenvolvimento.
E que immensa é hoje a sua acção! Não

Artigo de apresentação dos Annaes de Sciencias


Naturaes, 24 de janeiro de 1894.
110 Homenagens

ha dominio do espirito humano em que


ellas se não tenham reflectido. Não falando
nas industrias, suas filhas legitimas, que são
as theorias e escholas historicas e evolu
cionistas nas sciencias sociaes e o realismo
na literatura e na arte senão manifestações
do predominio das idéas naturalistas ? Che-
gou-se a ponto de mais d'um philosopho e
educador, passando do conhecimento a uma
immoderada admiração, endeusar a natureza,
como se não fôsse ainda mais admiravel o
genio perseverante do homem, que prescruta
e desvenda os seus mysterios.
A idolatria da natureza materializou um
tanto a vida moderna, requintando as com-
modidades e os gosos até ao egoismo; mas
estes excessos fôram de sobejo resgatados
pela propria dignificação do corpo humano,
instrumento precioso do bem, e conjuncta-
mente pela dignificação da mulher, que, como
meio de reproducção, andava desprezada,
da creança, que se descurava tambem como
uma coisa physica, dos operarios, que, sob a
designação de mechanicos, se confundiam
com as massas inertes, em summa, de todos
os humildes. Tudo quanto estava proximo
da natureza, foi envolvido no mesmo amor.
O Infante D. Henrique til

O coração seguiu a marcha da intelligen-


cia, que se voltara com desvelo para o estudo
das almas simples e das instituições rudimen
tares, como se as sciencias moraes e sociaes
quizessem ir ao encontro das sciencias natu-
raes para lhes pedir o segredo das suas des
cobertas. 1
E, de facto, com os bons methodos, com
a prática da observação e comparação, trans-
plantaram-se dum para outro campo muitas
doutrinas fecundas; e até, como sempre
succede no ardor das generalizações, não
faltou quem proclamasse uma assimilação
absoluta, que a consciencia moral e a nossa
dignidade repellem.
O que é verdade, é que se deu á educação
a sua base, e que ninguem póde conside-
rar-se instruido sem uma larga preparação
naturalista. Os grandes educadores o téem
exemplificado comsigo.
Não prestam as sciencias naturaes só pelo
interesse, para assim dizer, material que nos
provém de conhecermos o mundo physico;
mas ainda pelo valor intrinseco do proprio
conhecimento. A noção dum phenomeno, a
lei que o regula, téem, não ha duvida, uma
segura importancia objectiva; mais impor
112 Homenagens

tante comtudo é o criterio pelo qual o espi


rito humano as descobriu, habilitando-se
desde logo a emprehender mais altos desco
brimentos. Eis o que é preciso que o natura
lismo não esqueça, sob pena de não preencher
a sua funcção educativa!
O CONGRESSO
VITÍCOLA NACIONAL DE 1895

Senhor Presidente !

Ainda que não fôsse representante de algu


mas coroorações que se lembraram do meu
nome, eu não faltaria neste logar. A Real
Associação Central da Agricultura Portu
guesa projectou este Congresso, quando eu
tinha a honra de ser ministro das obras pu
blicas, commercio e industria, e ella sabe
perfeitamente o acolhimento cordial que lhe
fiz. (Apoiados) Por isso eu não podia deixar
de vir aqui significar a v. ex.a, como repre
sentante da Real Associação, as minhas con
gratulações pelo exito feliz e completo de tão
patriótico projecto. .
A questão dos vinhos é, sem duvida algu
8
ii4 Homenagens

ma, a nossa principal questão economica


(Apoiados). Não temos outro elemento com
paravel de riqueza. E este, o vinho, otnosso
principal artigo de exportação (apoiados); e
precisamos de pensar não só em que os terre
nos que já destinamos á cultura da vinha,
prometem ainda uma producção maior do
que a actual, mas tambem nesses largos tra
ctos de terreno que desgraçadamente ainda
hoje se acham incultos no nosso paiz. (Apoia
dos) A esses terrenos é da maior convenien
cia levar a cultura da vinha. Todos sabem,
e esta assembléa especialmente, que não ha
cultura mais colonizadora. (Apoiados)
A necessidade colonizadora tem sido reco
nhecida ha muitos annos entre nós; e eu
tentei satisfazê-la pelos meios que se me afi
guraram mais praticos. Póde dizer-se que a
colonização official se achava interrompida
desde o tempo das nossas navegações e con
quistas até ao decreto que publiquei, sendo
ministro das obras publicas.
Por esse decreto quiz que o Estado désse
o exemplo colonizador. Infelizmente até hoje
ainda se não fez sequer o arrolamento das
propriedades na posse do Estado que eu de
sejava que fôssem acoureladas para centros
O Congresso viticola nacional de i895 1 15

colonizadores; nem ao menos foi ainda con


vocada a commissão colonizadora que enca
rreguei de proceder a esses trabalhos, e que
era constituida pelos srs. Visconde de Chan-
celleiros, José Maria dos Santos, Sertorio do
Monte Pereira e Antonio Isidoro de Sousa.
É pois urgente, não só em face da nossa
actual producção, mas na previsão do muito
que devemos esperar da viticultura portu
guesa, que se cuide com todo o interesse da
collocação dos nossos vinhos. (Apoiados)
Devemos pensar antes de tudo no primeiro
mercado, que é o nosso proprio paiz. (Apoia
dos)
Evidentemente, pelo incremento das indus
trias, e portanto por um progresso na eco
nomia nacional, o nosso paiz deverá ser um
consumidor maior do que é actualmente.
Além de que o paiz não se restringe ao con
tinente e ilhas adjacentes, a patria portuguesa
estende-se até ás colonias ; e, se devemos
contar com as colonias para a producção
dos generos agricolas, inclusivamente o trigo,
que tanto nos falta, devemos contar com
ellas tambem para nosso mercado de con
sumo, especialmente para mercado de vinhos.
(Apoiados)
Homenagens

Por mais que se cerceiem os nossos domi


nios, que ainda são grandes, apesar do muito
que a voracidade estrangeira tem arrancado
á nossa fraqueza, a verdade é que não deve
mos deixar de pensar na exportação dos
nossos vinhos para as nossas colonias. (Apoia
dos)
Como assegurar, como desenvolver a ex
portação dos nossos vinhos para fóra do paiz ?
Eis logo depois a outra questão.
Não só os mercados para vinhos, mas os
mercados, em geral, podem dividir-se em
mercados de producção, como são os grandes
centros novos, de trabalhadores, e em mer
cados de consumo, que são sobretudo as
nações ricas, que téem já classes com riqueza
para se poderem dar gostos requintados.
D'ahi vem que os mercados se dividem natu
ralmente, uns para os vinhos de pasto co-
mmuns, e outros, que são as nações mais
ricas, mais poderosas, não só para vinhos
de pasto communs, mas ainda para vinhos
generosos.
Os nossos mercados são : para os vinhos
communs, principalmente o Brazil, e, para
os vinhos generosos, principalmente a Ingla
terra; o que está rigorosamente dentro da
O Congresso viticola nacional de i8y5 1 17

classificação que acabo de indicar á assem-


bléa.
Não nos póde ser muito difflcil fortalecer-
nos nestes dois mercados. Para nos assegurar
o mercado inglês, temos a primazia dos no
ssos vinhos; e, para fornecermos o mercado
do Brazil, temos do nosso lado o patriotismo
dos portugueses que ali estão.
Mas, sr. presidente, não devemos tratar
só de fortalecer-nos em mercados já con
quistados; devemos fazer por levar os nossos
vinhos de pasto a todos os centros de popu
lação portuguesa espalhados pelo mundo, e
por levar os nossos vinhos generosos á Alle-
manha e á Russia e, na America, aos Estados
Unidos do Norte, e, atrás dos vinhos gene
rosos, que são os introductores de todas as
nossas mercadorias, levar tambem os vinhos
de pasto.
Quaes os meios para realizar este deside-
ratum ?
Para conhecer esses meios, sr. presidente,
é indispensavel conhecer quem são os nossos
competidores.
Não os temos para os vinhos generosos,
Porto e Madeira. Para os vinhos de pasto
temos duas ordens de competidores, temos
u8 Homenagens

os que produzem muito, e temos os que pro


duzem bem. Os nossos competidores são,
não falando senão dos principaes, quanto á
perfeição, a França, quanto á abundancia, a
Hespanha, e tambem, pela abundancia da
colheita e pelo aperfeiçoamento do fabrico,
a Italia. Todos sabem o que a Hespanha tem
feito para a conquista de novos mercados.
Ainda ha pouco, o sr. Moret, quando minis
tro, parecia estar tão seguro da conquista do
mercado do Brazil, que se expressava em
termos, a meu ver, desesperança desme
dida em uma circular dirigida ás camaras de
commercio hespanholas. Mas, se os nossos
competidores são estes, se temos competi
dores pela abundancia e pela perfeição, os
meios de que devemos usar para a luta, não
são senão produzir, sob o ponto de vista
commercial, proporcionalmente mais do que
a Hespanha a tão bem como as nações que
melhor produzem.
Achando-me no seio d'este congresso, devo
significar-lhe todo o meu respeito, toda a
minha veneração pelos esforços que a inicia
tiva particular tem envidado neste sentido,
tanto para haver producção mais intensa
como para haver aperfeiçoamento no fabrico
O Congresso viticola nacional de i895 119

do vinho. Sobretudo, sr. presidente, a luta


sustentada pelos viticultores portugueses con
tra os successivos flagellos da vinha é verda
deiramente admiravel! Nesta segunda metade
do seculo téem-se succedido os flagellos tão
de perto, que a cada um que sobrevem, pa
rece que a viticultura portuguesa vai succum-
bir; e ella tem-se sempre levantado, tem
subido até á altura que demonstra este con
gresso! {Vo\es: — Muito bem)
Isto pelo que toca ao ponto de vista, a
que chamarei naturalista ou industrial. Mas
ainda ha o ponto de vista social; quero dizer,
a agricultura, como qualquer industria, pre
cisa de se associar, e nestes ultimos tempos
os comicios realizados em defesa do trigo e
em defesa do vinho nacional provam bem o
espirito de camaradagem da agricultura por
tuguesa ! (Apoiados)
E a agricultura portuguesa, sr. presidente,
convenceu-se de que para o seu desenvolvi
mento precisava sobretudo de se instruir.
São notaveis os progressos que a instrucção
agricola tem recebido: basta visitar algumas
propriedades, que são verdadeiros modelos
em qualquer parte; basta ver a profusão de
publicações que se occupam das questões
120 Homenagens

agricolas, especialmente de viticultura! E


nesta campanha pela instrucção agricola cabe
incontestavelmente uma parte nobre e glo
riosa ao Instituto de Agronomia, cujos pro
fessores são continuadores dignissimos da
obra encetada por Ferreira Lapa e Silvestre
Bernardo de Lima. (Vo^es: — Muito bem)
Sr. presidente, durante a minha gerencia
ministerial, entendi que devia acompanhar
este movimento para fomentar a intensidade
da producção, e fiz pela primeira vez a distri
buição de adubos chimicos e de preparados
cupricos garantidos. Seguindo o pensamento
do meu illustre antecessor, o sr. Visconde
de Chancelleiros, eu pela primeira vez pude
adquirir plantas exclusivamente dentro do
paiz para a renovação dos nossos vinhedos;
e accrescentei o numero de viveiros officiaes,
ao norte e ao sul do paiz.
Para fomentar o aperfeiçoamento do fa
brico, tendo vistos os resultados obtidos pela
Companhia Vinicola do norte do paiz, resul
tados realmente credores de todo o applauso,
entendi que devia, ao sul, subsidiar uma
outra companhia, tambem credora de todas
as sympathias, a União vinicola e oleicola de
Vianna do Alemtejo, para ella poder levar a
O Congresso viticola nacional de i895 121

effeito a construcção de um lagar e adega


sociaes.
Egualmente dei a mão ao movimento asso
ciativo, e apoiei no parlamento e no meu
ministerio a proposta para a formação de
syndicatos agricolas, apresentada pelos srs.
deputados Alfredo Barjona de Freitas e Diniz
Moreira da Motta. Estimo devéras ter ensejo
de prestar homenagem, deante de um, a
ambos esses deputados, que fôram os pri
meiros a exemplificar a importancia do prin
cipio associativo, organizando um um syn-
dicato no continente e o outro um syndicato
nas ilhas.
E, como a grande mola é a instrucção, eu,
de mais a mais, na minha antiga e nunca
esquecida qualidade de professor, procurei
impulsar o ensino agricola, reformando as
escholas de viticultura, no sentido de as
tornar verdadeiramente práticas para prepa
rarem capatazes viticolas e mestres de ade-
s gas, e dotando o Instituto agricola com mais
tempo lectivo para o ensino da viticultura e
com uma quinta annexa para campo de expe
riencias. Mas, — como o ensino não se faz
unicamente nas escholas, e o ensino não é
só para os adolescentes, é também para os
122 Homenagens

adultos —, honrado pela collaboração dos srs.


Jayme Batalha Reis e Cincinato da Costa,
iniciei no paiz conferencias para a vulgari
zação dos melhores processos de cultura da
vinha e de fabrico dos nossos vinhos, bem
como das prescripções que os commerciantes
devam seguir para a collocação dos vinhos
no estrangeiro. E, sr. presidente, além do
ensino dado na eschola, além do ensino dado
pela palavra oral, pude fundar uma biblio-
theca agricola, destinada a espalhar pelo paiz
as melhores publicações agricolas, e portanto
tambem sobre viticultura.
Infelizmente, depois que sahi do ministerio,
não sei que estas minhas iniciativas, que não
eram mais do que um impulso com que cor
dialmente procurava cooperar para o desen
volvimento do paiz, não sei, digo, que estas
minhas iniciativas proseguissem. Já no ultimo
anno não me consta que se distribuissem adu
bos chimicos e preparados cupricos; parece
que se desfez por fim o arrendamento que eu
mandara fazer da quinta annexa ao Instituto
agricola; e, que eu saiba, ainda ninguem
poude aproveitar-se da bibliotheca de que
acabei de falar, a bibliotheca agricola! Pois
estes são os meios pelos quaes nós lograria
O Congresso viticola nacional de i8g5 1 23

mos ir-nos habilitando, cada vez mais, a


arcar com os nossos competidores.
Assim habilitados, a nossa empreza re-
duz-se á propaganda dos nossos vinhos. Ora
fazer a propaganda dos nossos vinhos não é
senão instruir o estrangeiro sobre as distin-
ctas qualidades que caracterizam os vinhos
portuguêses.
A iniciativa particular muito tem feito já
para a propaganda dos vinhos portuguêses
no .estrangeiro. Ainda ultimamente é para
citar com louvor a iniciativa da Associação
Commercial do Porto, que foi aos Estados
Unidos expôr os nossos vinhos no certamen
de Chicago, onde elles obtiveram o galardão
merecido. A imprensa patrocinou este inicia
tiva, e o Commercio do Porto, orgão que
honra a imprensa portuguesa, mandou publi
car um jornal especial, que foi largamente
espalhado, e que muito concorreu de certo
para o conhecimento dos nossos vinhos na
America.
Eu, sr. presidente, tinha tambem o dever
de acompanhar a iniciativa particular na pro
paganda dos nossos vinhos, e nesse sentido
pensei, auxiliado por alguns homens compe
tentes, em fazer a propaganda ao norte e ao
134 Homenagens

centro da Europa. A propaganda consistiria


na organização de exposições e de laborato
rios junto aos nossos consulados, e em con
ferencias e publicações que despertassem a
attenção publica e demonstrassem e poze-
ssem bem em relevo as altas qualidades dos
productos das nossas vinhas.
Depois de mim, pensou-se de outro modo;
mas parece-me que se quiz fazer um tour de
force, tentando quasi o impossivel. Nós, como
já tive occasião de dizer, devemos tentar a
collocação dos nossos vinhos de pasto nos
mercados onde os vinhos generosos são os
seus naturaes introductores, quero dizer, de
vemos levar os nossos vinhos de pasto á
Inglaterra, á Allemanha e á Russia. Levá-los
á America do sul, ás republicas hespanholas,
parece-me coisa tão difficil, coisa tão arris
cada quasi, como se pensassemos em levar
a competencia á propria Hespanha.
Não basta, sr. presidente, fazer a propa
ganda dos nossos vinhos . . .
Eu vejo que já passou a hora e não desejo
por modo algum abusar da assembléa. Por
mais que procurasse resumir-me, não con
segui acabar.
{Vo^es: — Fale, fale).
O Congresso viticola nacional de i895 125

Agradeço a manifestação da assembléa.


Não basta, sr. presidente, fazer a pro
paganda dos nossos vinhos, não basta de
monstrar a sua valia, as suas qualidades, é
indispensavel defendê-los dos nossos compe
tidores. E preciso defendê-los dentro do paiz
e fóra d'elle. Estas duas questões, a questão
da defesa dos vinhos dentro do paiz e da sua
defesa fóra d'elle, téem sido ultimamente
agitadas.
Para os defender dentro do paiz temos
um meio, que é o imposto de importação.
Como v. ex.a sabe, durante a minha ge
rencia, pretendeu-se abaixar o direito de
importação dos vinhos hespanhoes. Por todo
o paiz se reclamou contra semelhante pre-
tenção; e, antes mesmo d'este movimento
geral da opinião, achando-me em Santarem
com o professor em quem ha pouco falei, o
sr. Cincinato da Costa, eu declarava catego
ricamente que não seria com a minha assi-
gnatura que se franquearia a entrada dos
vinhos hespanhoes em Portugal. (Apoiados.
Vo^es: — Muito bem). E porque?
Os argumentos apresentados em favor da
reducção do imposto de importação eram
estes: primeiro... (O sr. Manuel Pestana:
126 Homenagens

— O primeiro, se v. ex.a me permite, é que


não havia lei que tal auctorizasse. — ) Tem
v. ex.a razão. Mas o governo podia levar ás
camaras uma proposta de lei nesse sentido.
Não a levaria eu, e não a levaria, porque
nenhum dos argumentos adduzidos me pare
cia convincente. (O sr. Manuel Pestana: —
Apoiado —)
Dizia-se que precizavamos de assegurar a
nossa clientela no Brazil. Mas a primeira
condição para assegurarmos uma clientela é
não nos desacreditarmos. (Apoiados) Este era
o argumento do presente.
Falava-se tambem do futuro, e dizia-se que
provavelmente o paladar se deshabituaria dos
nossos vinhos e se voltaria para os vinhos
hespanhos. E então iriamos pela lotação pre
parar a transição para esse futuro ? ! (Apoia
dos)
Depois, e era este para mim o principal
reparo, havia o governo da nossa terra de
decretar a falsificação dos vinhos portuguêses,
porque outra coisa não era o que se pedia ?
(Muitos apoiados).
O exemplo citado da França não colhe.
(O sr. Manuel Pestana: — Apoiado — ) Não
queria mesmo que o imitassemos, porque
O Congresso viticola nacional de i895 127

não desejo nunca que o commercio deixe de


proceder de boa fé. (O sr. Manuel Pestana :
— Apoiado — ) Mas, em summa, a França
procurava os nossos vinhos para apresentar
um producto que tem uma acceitação uni
versal; e nós iamos desfigurar e comprometer
os nossos!
O exemplo tambem citado da Hespanha
nos ultimos tempos não procede, egualmente.
A Hespanha abriu as suas portas, não a um
vinho interior aos seus, mas a um vinho
francês para melhorar o seu producto. Não
digo que façâmos o mesmo, não acho bem
que o vamos fazer. Mas era outra coisa.
E, quando afinal devessemos importar os
vinhos hespanhoes, era pelo menos preciso
sujeitá-los a um regimen semelhante ao dos
trigos, garantindo-se um preço ao vinicultor,
da mesma fórma que se garante ao produ-
ctor do trigo.
Em summa, já disse o bastante, creio,
para justificar perante v. ex.a e perante esta
assembléa a decisão que tomei como ministro
das obras publicas.
E, já que falo neste assumpto, preciso
denunciar á assembléa duas maneiras pelas
quaes até certo ponto se póde sophismar a
128 Homenagens

decisão que tomei contra a importação dos


vinhos hespanhoes.
Um dos sophismas é ir o negociante por
tuguês a Hespanha e fazer lá a lotação. Para
este não ha outro remedio senão o patriotismo,
a educação moral. Eu confio no patriotismo
da nossa gente o bastante para crer que um
ou outro exemplo não se generalizará. Sahir
da patria para faltar aos deveres que ha para
com ella, é procedimento de contrabandistas,
porque a legislação que nos rege, não se
restringe ao nosso territorio, estende-se a
todo o territorio onde esteja um português.
Outro sophisma de que se póde lançar
mão, é o abuso da liberdade de transito con
cedida aos vinhos hespanhoes. Hoje ha depo
sitos alfandegarios dos vinhos hespanhoes.
Nesses depositos é prudente vigiar se o tra
tamento que se faz aos vinhos hespanhoes,
serve para que, tendo sido impedida pela lei
a sua livre entrada, ella se esteja dissimula-
damente effectuando.
A outra questão, a da defesa dos nossos
vinhos fóra do paiz, é a questão dos tratados,
e essa não me competia a mim. Lamento
que se não tenha dado nesse caminho o largo
passo que ao governo competia dar.
O Congresso viticola nacional de i895 129

Quando a Italia vai pelos tratados conquis


tando mercados, quando a Hespanha não só
tenta esta conquista, mas até num accordo
provisorio com a Inglaterra tambem já ca
minha abertamente neste sentido, a nossa
morosidade, a nossa incuria é verdadeira
mente lamentavel! (Apoiados)
Nós precisamos absolutamente de trata
dos! Não falo do tratado com o Brazil, que
circumstancias dolorosas para o nosso cora
ção parecem distanciar, mas precisamos de
garantir tanto quanto possivel a entrada dos
nossos productos na Inglaterra, e precisamos
de tratados com a Allemanha e com a Russia,
que instam pela sua parte por negociá-los
comnosco.
Sr. presidente, esta é a competencia leal,
e é assim que teremos de nos defender d'essa
competencia.
A competencia desleal são as falsificações
feitas dentro e fóra do paiz.
O que antes de mais nada é preciso, é
não levar por toda a parte a convicção de
que já não temos senão vinhos falsificados.
Cumpre-nos tratar este assumpto com discre-
ção, e eu infelizmente não a tenho visto. Não
se leve ao estrangeiro a idéa e a presum
9
13o Homenagens

pcão de que Portugal já não tem vinho bas


tante para o seu negocio e que o está falsi
ficando.
Ha falsificações dentro do paiz? Punam-se,
assim como todas as falsificações dos generos
alimenticios, ou quaesquer outras.
Não é o governo que deve fazer a fiscali
zação, porque isso é uma chimera ; façam-na
os particulares! Por isso acho indispensavel
que em cada districto haja junto do agronomo
um laboratorio, para que qualquer individuo
possa fazer a fiscalização por si. Esta é que
é a verdadeira fiscalização efficaz. Concordo
todavia com o relatorio em que é absoluta
mente necessario traçar um processo para a
verificação das falsificações.
Quanto ás falsificações no estrangeiro, á
venda de vinhos estrangeiros, e principal
mente de vinhos hespanhoes, com o nome
de vinho português, isso está sob a commi-
nação do tratado de commercio celebrado
em Madrid em 1891, que eu como ministro
tive a honra de levar o governo a ratificar.
O que precisamos, portanto, é lançar mão
d'elle; e não sei realmente como é que o
não temos feito, porque este convenio foi
sem duvida alguma a melhor arma defensiva
O Congresso viticola nacional de i895 131

que os representantes portugueses, um dos


quaes já morreu, Oliveira Martins, podiam
arrancar ao congresso madrileno. Parece que
em frente da Hespanha, que está exportando
para o Brazil vinhos seus com o nome de
portugueses, nós cruzamos os braços, como
se aquelles vinhos não fôssem lá fazer com
petencia comnosco. O governo hespanhol,
em documentos que tiveram toda a publici
dade, referiu-se a essas falsificações, e nós
pelos nossos agentes não procurámos saber
o que havia a tal respeito para se applicarem
as disposições do convenio!

Não desejo alongar-me mais. Esta magna


questão dos vinhos é extremamente compli
cada ; é tambem a de todas as industrias
subsidiarias, é a questão do alcool, a questão
do vasilhame e a questão da navegação. E
mister que os governos se convençam da
necessidade de proteger estas industrias, que
são subsidiarias da industria dos vinhos ; mas
que haja todo o criterio no modo de as pro
teger, porque não é pelos meios que ás vezes
se têem proposto no parlamento, que esta
protecção se pôde tornar benefica.
Finalmente a questão dos vinhos, como
32 Homenagens

todos os problemas economicos, prende-se


intimamente com a nossa situação financeira ;
e nós não poderemos resolver nem esta, nem
nenhuma outra questão economica, emquanto
pesar o onus incomportavel da tributação
sobre a economia publica! Com um imposto
predial tão desegual e tão elevado a pesar
sobre o agricultor, com o onus do imposto
industrial, e ainda por cima com o do imposto
do consumo sobre o negociante, não é possi
vel. Nem reciprocamente as finanças melho
ram pelo excessivo agravamento das taxas
fiscaes. E por isso que eu entendo que do
seio d'este congresso deve sahir um brado
bem alto ao nosso governo, de que ha só um
modo de vencer as dificuldades financeiras,
e esse modo é administrar bem !
(Muitos apoiados. O oradorfoi applaudido
com uma salva de palmas.)
O ASYLO DE S. JOÃO

Minhas Senhoras e Meus Senhores!

Convidado a presidir a esta festa, expri


mirei em algumas palavras os sentimentos
que ella me inspira.
Achamo-nos em frente de um dos pro
blemas mais palpitantes das sociedades mo
dernas. Trata-se não só da educação, que é
questão vital em todos os seus dominios, mas
da educação da mulher, que uns querem
contrahir ao destino domestico, emquanto

Allocução proferida na sessão solemne da distri


buição dos premios aos alumnos do Asylo de S. João,
de Lisboa, em 24 de junho de 1 8g5.
.34 Homenagens

outros pretendem abrir-lhe o accesso a todas


as carreiras profissionaes ; e trata-se sobre
tudo de dar á mulher uma educação liberal,
quando tantas influencias se enredam facil
mente na sua sensibilidade para lhe enfra
quecer e avassalar a vontade.
Afortunadamente que nos podemos con
gratular pela solução satisfactoria dada aqui
a tão complexo e delicado problema.
Por isso, dirigindo os nossos cumprimentos
ao digno corpo docente do asylo, e felicitando
as suas alumnas laureadas, não devemos
esquecer o nome glorioso do seu fundador,
o grande patriota José Estevão, que a sua
vida e todo o seu genio consagrou á causa
da liberdade; e rendamos-lhe a homenagem
que mais grata seria ao seu coração, attes-
tando que a sua obra prospera, que não foi
infundada a sua confiança na capacidade
educativa da mulher portuguesa, e que aos
seus primitivos cooperadores, que ainda
temos o prazer de ver representados nesta
solemnidade, novos obreiros de um e de
outro sexo se teem vindo congregar, egual-
mente animados da mais ardente fé nos altos
designios da civilização.
D'entre elles gostosamente me cumpre hoje
O Asylo de S. João 1 35

especializar os dois protectores, cujos retratos


vamos inaugurar, para que fiquem assigna-
lando a sua memoravel benemerencia, a
sr.a D. Izabel Romeira e o fallecido general
Craveiro.
L
JOÃO DE DEUS

Ha muito que a discussão da Cartilha


Maternal, tão procellosa nos primeiros tem
pos, serenou; e todos, a uma voz, glorificam
o seu autor.
A critica não emmudeceu, os dissidentes
não desappareceram ; mas a propria impu
gnação serviu para pôr bem saliente o cara
cter genial da nova arte de leitura, e o que
ninguem já agora faria com justiça, é recusar
a sua admiração e o seu reconhecimento á
obra patriotica do eminente pedagogo.
As bellas letras, pela voz do seu mais que
rido representante, pregaram a cruzada civi
lizadora das primeiras letras, e o prestigio
d'essa voz communicou-se á doutrina, e, o
que mais é, á causa do magisterio.
i38 Homenagens

De toda a parte affluiram discipulos, que


vinham receber na intimidade do poeta uma
especie de sagração. Não téem conta os
professores que elle formou! A sua casa
foi por muito tempo a nossa principal in
stituição de ensino normal. Alli, todo o dia
enclausurado, elle, que ama com delicia a
natureza, apostolava incessantemente o seu
methodo.
Ao mesmo tempo o seu livro, dedicado ás
mães de familia, veiu fortalecê-las no exer
cicio da sua missão educativa. As mulheres,
que sabiam de cór os seus versos, ficaram
encantadas de encontrar na Cartilha Mater
nal a mesma adoravel singeleza, e puderam,
como nunca, reter junto de si o espirito irre
quieto de seus filhos nessa tenra edade da
vida em que tão preciso lhes é o calor do
lar domestico.
A festa que se vai celebrar em honra de
João de Deus, é já em grande parte o coro
de agradecimentos de todos que tiveram a
fortuna de ler nas primeiras palavras as mei
gas confidencias da ternura maternal.
1895
Diário lllustrado.
João de Deus

João de Deus deu á causa da educação


mais do que a sua amoravel cartilha maternal,
deu-lhe toda a sympathia e todo o prestigio
do seu nome aureolado. Ninguem melhor do
que o grande lyrico para convidar as mães
á sua missão educativa, e para transmitir a
todos os corações um impulso fervoroso pela
emancipação dos espiritos. A sua propaganda
espalha-se com a fama dos seus versos; e
é preciso aprender a ler até para bem os
poder admirar.
1895
Mala da Europa.
JOSÉ ELIAS GARCIA

Meus Senhores!

Vindo por aqui * em piedoso cortejo, nós


fazemos hoje o caminho que em vida seguiu
José Elias Garcia.
Professor, muito naturalmente ambicionou
servir na sua carreira publica a profissão que
tão nobremente exercia. Mas nelle havia
mais do que a bem legitima paixão pelo seu
mister ; mais do que o profissional, havia o
patriota, animado do santo ardor de coope-

Allocução proferida na commemoração civica de


21 de abril de 1895, celebrada pela população da ca
pital.
* Por deante da Eschola primaria central n." 1,
de Lisboa.
142 Homenagens

rar para a felicidade da nação, para a sua


ordem e para o seu progresso, pelo fecundo
desenvolvimento dos serviços do ensino. Elle
pertencia á pleiade generosa dos politicos
educadores, que consideram a sua missão
como um magisterio e põem todo o empenho
em proteger e [conduzir os humildes e os
fracos para a sua emancipação. Na tribuna,
como na cathedra, sorria-lhe o mesmo ideal
de liberdade e de amor.
Eu, que o vi de perto sahir á estacada,
que fui por vezes seu companheiro nas lutas
parlamentares, posso dar testemunho da
grandeza do seu animo. Ninguem entre nós
exemplificou melhor a bondade e a tolerancia,
que são as supremas virtudes de todo o
homem, mas principalmente do politico e do
mestre. Rico de talentos nativos e levantado
pela confiança dos seus concidadãos aos
postos proeminentes, elle usou sempre da
influencia e dos poderes da sua jerarchia,
não com o soberbo desdem dos orgulhosos,
que tudo lhes julgam devido e a todos pre
tendem acorrentar ao carro dos seus trium-
phos, mas com a humana cordialidade de
quem estremece de sympathia ao soffrimento
dos outros e se julga obrigado a acudir-lhes
José Elias Garcia 143

na medida precisamente dos bens de que a


natureza, a fortuna e o valor do proprio
esforço o investiram. Militar austero, a vida
foi sempre para elle um campo aberto de
acção civica.
Da sua bondade e tolerância me lembro
por mim. Unidos no mesmo culto da patria
e nos mesmos ternos sentimentos de affecto
pela infancia e pelo povo, divergiamos porém
na nossa concepção das formas de governo,
cujos progressos elle capitulava de indispen
saveis á marcha da administração publica,
emquanto que eu os esperava dos proprios
progressos da nossa regeneração adminis
trativa; e todavia, apesar d'esta divergencia
que tanto irrita os espiritos facciosos, foi
com o concurso que elle espontaneamente
solicitou de professores seus correligionarios,
que eu pela primeira vez entrei á Camara
dos pares.
Mas não fala em mim agora só a gratidão
pessoal, só o antigo collega e o amigo. Tenho
nesta solemnidade de recordar sobretudo o
forte impulso que José Elias Garcia, o pri
meiro vereador do pelouro da instrucção, deu
ao movimento escholar da capital, impulso
d' onde sahiu o valioso agrupamento de bene
144 Homenagens

meritos trabalhadores que ahi illustram o


nosso ensino primario; e de pedir a Deus
que a inscripção do seu nome sobre esta
bella eschola, edificada sob a sua gerencia
municipal, defenda como um sagrado palla-
dio a causa da educação popular em todo o
paiz.
Meus Senhores ! Collocando esta lapide,
que vou ter a- honra de descerrar, Lisboa
rende uma homenagem intima de saudade
a um dos mais queridos membros da sua
familia. Nenhum tambem ainda lhe quiz
mais, nenhum cuidou dos seus filhos com
mais entranhavel devoção !
O CONCURSO PECUÁRIO
DE M O N T E M OR-O-VELHO
1 DE MAIO DE 1896

Meus Senhores!

Agradeço ao sr. presidente da camara e


presidente do syndicato agricola o favor de
hospitalidade que me permite ocupar este
logar de honra, tão lisonjeiramente para o
meu antigo affecto por Montemór-o-velho.
Eu nunca passava por deante d'esta villa,
que não me estivesse tentando a visitá-la a sua
soberba figura, coroada pelos muros vetustos
do seu castello, que lembram ainda grandio
samente os heroicos tempos de incertezas e
de dores da fundação da nossa nacionalidade ;
e anciava por admirar a belleza d'estes sitios,
que inspiraram a Fernão Mendes Pinto a
ardente paixão das viagens que o levou por
10
146 Homenagens

esse mundo a correr as aventuras tão viva


mente dramatizadas nas suas Peregrinações.
Montemor-o-velho, que encerra no seu seio
o precioso tumulo de Diogo d'Azambuja, o
valente fronteiriço d'Africa, póde sentar-se
com orgulho nas margens d' este patrio Mon
dego, — cujo curso, á semelhança da nossa
historia, vem desde a serra da Estrella, isto
é, desde Viriato, até ao oceano, isto é, até ás
nossas navegações e conquistas —, porque
varios dos feitos illustres d'essa historia es
maltam o seu brazao.
Mas não fôram só as memorias do nosso
passado e o meu amor pelas paisagens da
nossa terra o que me trouxe aqui. Decidiu-me
a vir hoje o convite do meu prezado amigo
Alfredo Barjona, que me não perdoaria a
falta á festa do syndicato agricola em que elle
mais pensava, quando, com Diniz Moreira
da Motta, iniciou em cortes a consagração
legal d'esta ordem de instituições entre nós ;
convite a que amavelmente se quiz associar
o digno presidente d'este concelho e do seu
syndicato agricola, o sr. José Galvão. Eu
não tenho quasi nunca outro meio de agra
decer os obsequios, senão acceitando-os.
E agora cresce ainda o meu agradeci
O Concurso pecuário de Montemor-o-velho 147

mento, porque tive o gosto de conhecer de


perto uma povoação que, respeitosa das suas
nobres tradições, é sobretudo a continuadora
das fortes gerações obscuras que, com o
suor do seu rosto, amassaram o patrimonio
territorial que usufruimos.
Aos technicos compete apreciar, com todo
o conhecimento de causa, o certamen pecua
rio, cujos principaes lidadores vamos pre
miar, e elles indicarão o sentido em que os
creadores devam dirigir os futuros esforços
para melhor os aproveitarem; a impressão,
porém, que d'este espectaculo se nos impõe
a todos, é deveras consoladora, porque prova
quanto póde a intelligencia e a vontade das
nossas populações ruraes, ainda quando em
luta com as inclemencias do tempo.
Eu saúdo os competidores e principal
mente os vencedores d'este torneio civiliza
dor. E felicito o syndicato agricola pelo bom
exito do seu commetimento.
DUARTE FAVA

Meus Senhores!

É sempre com lagrimas de dor que vemos


partir para a eterna viagem d'além-tumulo
algum dos membros d'esta nossa familia por
tuguesa, já de si tão pouco numerosa para
as ousadias do seu genio; mas, quando esse
membro realizava pelo seu caracter, como
Duarte Fava, o perfeito modelo do cidadão,
a sua perda fere intimamente a alma da
nação no que ella tem de mais nobre, a sua
sensibilidade moral. Com a morte dos bons,
sentimo-nos enfraquecidos na nossa solida-

Allpcução proferida á beira da sepultura, em


Lisboa, 1o de maio de 1896.
15o Homenagens

riedade social. Por isso é tão profunda a


commoção que nos avassalla neste transe !
Duarte Fava era um d' estes generosos
espiritos, cada vez mais raros, que sabem
exemplificar pelas suas virtudes como se
póde resolver dignamente o problema da
vida, mesmo quando ella é tão difficil como
entre nós se tem tornado a vida de todos
que trabalham, mesmo quando ella é tão
cheia de lutas interiores como a vida militar
das nações atormentadas pelos desmandos
da politica.
Meus Senhores! Neste logar sagrado pela
religião de nossos maiores, todos que fomos
amigos e companheiros de Duarte Fava,
inspiremo-nos da sua memoria para prose-
guir corajosamente na obra patriotica a que
elle de coração se devotou até expirar!
D. FRANCISCO GINER

Senhores!

Dos estrangeiros que hoje fazem opinião


em assumptos de pedagogia, um dos mais
eminentes é sem duvida o douto professor
hespanhol, Francisco Giner.
O seu saber só é comparavel aos seus
serviços. De Madrid, onde elle é a alma da
Institucion libre d'ensenan\a, a sua influencia
irradia por toda a Hespanha; e é verdadeira
mente bello e educativo este espectaculo das
relações cordiaes em que o magisterio da

Candidatura, da iniciativa do autor, para socio


honorario do Instituto de Coimbra, 3 de julho de
1896.
152 Homenagens

nação visinha se une intimamente entre si


para o efficaz desempenho da sua missão.
Saudemos na pessoa do illustre cathedra-
tico da Universidade central, de Madrid, o
sabio e o patriota.
DR. JOAQUIM AUGUSTO SIMÕES
DE CARVALHO

Senhores!

Lisonjeia-me deveras ser o relator da can


didatura do meu sabio lente, o dr. Simões
de Carvalho, a socio honorario do Instituto.
Eu sou dos que puderam admirá-lo, quando
ainda a sua palavra vernacula, tão abundante
como a sua illustração, revestia as formas
mais animadas e insinuantes para prender a
attenção dos seus discipulos e conduzir-lhes

Candidatura, da iniciativa do autor, para socio


honorario do Instituto de Coimbra, 3 de julho de
1896.
54 Homenagens

o raciocinio atravez dos complicados pro


blemas da sciencia.
Elle pertencia a uma pleiade de professores
que deram o mais intenso brilho ao magiste
rio universitario. Emquanto nós, alumnos de
mathematica e philosophia, iamos á medicina
ouvir Silva Gayo, a direito Augusto Barjona
e a theologia o Padre Albino, muitos alumnos
das outras Faculdades vinham ás nossas
ouvi-lo a elle.
A sua eloquencia não perdia nada das
bellas qualidades que a exornavam, quando
o escriptor se revezava ao orador. O seu
livro de philosophia chimica é a um tempo
uma obra de sciencia e uma obra d' arte;
foi, lendo-o, que, á entrada dos estudos natu
ralistas, muitos dos rapazes da geração que
precedeu a minha, e ainda da minha, se
apaixonaram por elles até virem a cultivá-los
com grande lustre. E do que era a sua prosa,
fluente e elegantissima, dão-nos de perto
testemunho tantos e tantos artigos com que
elle por successivos annos honrou a nossa
Revista.
Não resisto a duas palavras mais. No trato
particular o homem não desdizia um ápice
dos primores do mestre; por isso ouvi-lo ou
Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho 1 55

lê-lo era conhecê-lo. A sua figura, natural


mente correcta e nobre, não precisava de se
compor para sahir a publico.
Folgo muito de me associar de todo o
principio aos meus collegas na homenagem
que lhe vai ser prestada.
BISPO CONDE
D. MANUEL CORREIA DE BASTOS PINA

Senhores!

Ninguem de sentimentos deixa de se cur


var respeitosamente perante os sacerdotes
que de coração se devotam na sociedade ao
apostolado do bem; e não ha dúvida que é
credora de eterno agradecimento esta nobre
instituição, o christianismo, que não só tem
doutrinado as gentes, mas tem sido a mais
copiosa fonte de gosos elevados para a alma,
sobretudo dos desherdados da fortuna. A
moral precisa certamente de ter por si os
argumentos da razão, mas nunca poderá

Candidatura, da iniciativa do autor, para socio


honorario do Instituto de Coimbra, 3 de julho de
1896.
158 Homenagens

passar sem o condão affectivo de tornar


attrahente a virtude.
Esse condão, poucos prelados da egreja
lusitana o terão possuido em tão subido grau
como o actual chefe da diocese de Coimbra :
todos que nesta mesma casa o ouvimos,
estamos ainda captivos do prestigio pessoal
da sua palavra.
O Instituto deve-lhe assignalados obse
quios, e são bem conhecidos os relevantes
serviços por elle patrioticamente prestados á
vida espiritual da nação.
Em nome do nosso sincero apreço pelos
seus talentos e do nosso profundo reconheci
mento pelas suas benemerencias, considero
justificadissima a proposta para que se lhe
confira o diploma de nosso socio honorario.
E muito natural que lh'o vote uma assem-
bléa a quem a personalidade do venerando
antistite dá tamanho realce.
JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO

Senhores!

Poucos filhos d' esta cidade a téem illus-


trado tanto nos ultimos tempos como Joa
quim Martins de Carvalho; e o seu nome é
tambem uma honra para a academia a que
a nossa sociedade, em grande parte, per
tence, porque, se o venerando jornalista não
cursou aulas nunca, não é menos certo que
o seu espirito se desenvolveu sob a influencia
da Universidade e no diuturno convivio de
alguns dos varões mais eminentes d'ella.
Conceder-lhe o titulo de nosso socio effe-

Candidatura, da iniciativa do autor, para socio efte-


ctivo do Instituto de Coimbra, 3 de julho de 1896.
16o Homenagens

ctivo será simplesmente fazer justiça aos


provados meritos do publicista que, do alto
da tribuna da imprensa, tem estado, com
inesgotavel erudição, a professar ás novas
gerações o ensino da nossa historia contem
poranea, durante uma larga vida, que é ao
mesmo tempo uma clara lição moral de tra
balho e de civismo.

Ti 1
RODRIGUES DE FREITAS

Na crise tão dolorosa que atravessamos,


quando o mal parece ter conquistado entre
nós o reino d este mundo, mais que nunca
se torna necessario que, ao menos na hora
solemne do passamento, ao partirem para a
viagem da eternidade, os homens de bem
recebam a sua justa consagração.
Morreu com Rodrigues de Freitas um dos
caracteres mais nobres da nossa terra. Elle
era um dos raros membros, infelizmente tão
dispersos, da classe dirigente, cuja virtude
ainda tem logrado confortar com o seu lumi-

0 Instituto, julho de 1896.


6a Homenagens

noso exemplo a alma nacional, guiando-a


amoravelmente pelos caminhos já quasi per
didos da honra e da salvação. E em tão
permanente communicação com ella estava,
e tamanha era a autoridade que ao seu saber
prestava a logica da sua vida, que bem se
póde affirmar que o seu pensamento fazia
parte integrante da consciencia publica. Como
professor ou como jornalista e tribuno, a sua
personalidade insinuava-se ; mas, embora a
sua palavra escripta fôsse tão persuasiva,
para ter perfeita idéa das faculdades de irra
diação sympathica que o animavam, era
necessario conhecer o orador. Elle sabia
alliançar ao aprumo da sua inquebrantavel
firmeza de convicções uma doçura, uma tal
complacencia de tom e de maneiras, que
irresistivelmente se apoderava do seu audi
torio. E, por isso, porque era um delicado,
não se envolvia em todos os combates : não
o retrahia a doença, mas a sua terna senti
mentalidade. Luctador indefesso, procurava
comtudo tomar a posição, d'onde os seus
ataques, visando aos erros sociaes, não pu
dessem ferir o coração dos seus concidadãos,
que tanto amava ! A sua politica era uma
politica de bondade, cuja formula elle ainda
Rodrigues de Freitas i63

nos legou no seu testamento: «devoção pelos


doentes e pelos fracos».
Filho do Porto, foi sem dúvida nos ultimos
tempos a sua encarnação mais pura; e a falta
que lhe faz, não póde ser medida. Tantas
vezes á custa da sua precaria saude, não
houve momento difhcil em que a sua voz
dedicada não soasse bem alto para que a
cidade do trabalho, centro potente de inicia
tiva e de independencia, theatro de acções
generosas na guerra e na paz, mantivesse
sem desfallecimentos contra todos os assaltos
a sagrada bandeira das suas tradições. E
oxalá, na fragua dos negocios, ella não deixe
nunca de ouvir o seu apello !
A mim a noticia da sua morte feriu-me
como um dobre de finados pelo eximio pa
triota de que se vê desamparada a revin-
dição da liberdade e da justiça em Portugal,
e pelo amigo, cuja perda me alanceia o cora
ção com os espinhos da mais amarga saudade.
A EXPOSIÇÃO CALLIGRAPHICA
DE COIMBRA

Meus Senhores!

Felizmente que a presidencia (festa assem-


bléa, que me foi tão amavelmente confiada,
não obriga a provas; senão ver-me-ia em
apuros para lhes falar com idoneidade no
assumpto que nos reune. Eu sou comtudo
um dos mais ferverosos adeptos da calligra-
phia; e, se confesso a minha impericia, não
o faço para me desvanecer, como quem ima
ginasse que o proprio dos grandes homens

Discurso inaugural da Exposição calligraphica rea


lizada no Atheneu Commercial de Coimbra, em 9 de
julho de 1896.
166 Homenagens

é escrever uns gatafunhos, mas sim para me


penitenciar de não ter a boa letra que devia.
A boa letra é a nitidez da escripta. O que
vale o mesmo que dizer que é a nitidez do
raciocinio; porque, se a palavra nos serve
maravilhosamente para representarmos tudo
que excede a percepção dos sentidos, e só
por ella alcançamos as imagens da propria
alma, a palavra escripta tem sobre a ora),
que é tão fugaz, o inapreciavel condão de
fixar as nossas idéas, permitindo-nos entre
laçá-las em todas as suas relações, isto é,
raciocinar amplamente.
Por isso, a duas condições deve sobretudo
satisfazer a fórma da letra: ser facil de escre
ver e ser facil de ler. Pessoas haverá que
deixem de escrever, porque não sejam capa
zes de acompanhar a marcha do seu pen
samento ; e está claro que mal poderemos
penetrar o nosso ou o pensamento alheio,
se elle não fôr expresso em caracteres bem
legiveis. O problema da calligraphia consiste
em alliar, sem esquecimento da hygiene, estas
duas condições fundamentaes.
Mas a calligraphia não tem só um valor
individual. Indispensavel á fidelidade dos do
cumentos e portanto á segurança dos con
A Exposição calligraphica de Coimbra 167

tractos, ella adquire, além d'esse, um alto


valor moral. Não admira, pois, que se vá
exigindo cada vez mais nas relações sociaes
e que já se exija tanto no trato mercantil ; e
é de necessidade que faça parte integrante
da primeira educação de toda a gente.
Fóra mesmo da esphera dos negocios, a
ninguem medianamente culto é licito obrigar
os outros a perderem tempo na impertinente
decifração de rabiscos. O desleixo graphico
denuncia uma reprehensivel falta de urbani-
dade, de deferencia pessoal.
D'aqui se deprehende o cuidado que nos
deve merecer a escripta. Tomemos o exem
plo de homens de letras, como Camillo Cas
tello Branco, cujos autographos se podem
dizer modelos calligraphicos. A calligraphia,
no perfeito sentido da palavra, possue inclu
sivamente o poder artistisco de attrahir o
escriptor para as suas composições ; e eu
estou convencido de que muitos individuos
de talento não escrevem, unicamente porque
se aborrecem da sua letra.
Por todas estas razões, que provam a im
portancia da calligraphia, me congratulo pelo
facto da presente exposição, que tenho o
prazer de inaugurar; e, em nome do público,
i68 Homenagens

agradeço a todos que para ella contribuiram


com trabalhos tão notaveis, e principalmente
ao seu promotor, o sr. Olympio Ferreira
Lopes da Cruz, que é já hoje o digno conti
nuador das honrosas tradições de seu pae, o
sr. Luiz Adelino Lopes da Cruz, a quem se
deve a iniciativa da nossa primeira exposição
calligraphica, celebrada no Porto em 1 891 .
ARTHUR L01SEAU

Falleceu em França o decano do magis


terio. secundario, o sr. Arthur Loiseau, que
com tanta predilecção e desvélo cultivou a
nossa literatura.
Admira como, longe do nosso paiz, que só
pôde visitar de corrida nos ultimos annos, o
distincto professor alcançou a somma tão
notavel de conhecimentos da nossa vida na
cional e até da nossa lingua, que bem clara
mente se patenteia em varias publicações
suas, onde, se é possivel apontar uma ou
outra inexactidão de facto, o que segura

is Instituto, 1896.
Homenagens

mente se encontra, é a expressão mais calo


rosa de sympathia pelas nossas tradições e
pelo nosso genio. Era grande admirador de
Camões, e havia sido mesmo a leitura de
uma traducção dos Lusíadas o que o attrahira
para as letras portuguesas.
Uma das suas ultimas memorias versou
sobre a Universidade de Coimbra, a propo
sito da monumental obra do dr. Theophilo
Braga; e, ainda por occasião do centenario
henriquino, elle leu em Paris um formoso
panegyrrco dos nossos descobrimentos.
Arthur Loiseau tinha sido agraciado em
1893 pelo governo português com a co-
mmenda de S. Thiago.
Aqui rendemos á sua memoria o tributo
do nosso reconhecido affecto.
A ACADEMIA DE COIMBRA

Minhas Senhoras e Meus Senhores!

Neste dia, em que por todo o paiz, com


uma enternecedôra effusão religiosa, todos
os annos se entoam canticos á virtude na
sua encarnação mais pura e mais tocante,
tambem por muito tempo a nossa Universi
dade, como que em nome da bemdida se
nhora, imagem sacrosanta do amôr maternal,
abençoava os esforços dos seus alumnos,
distribuindo premios aos mais distinctos.
Nós, que pela nossa fundação somos um
instituto de veteranos universitarios, quize-

Allocução pronunciada no sarau do Instituto de


Coimbra, no dia 8 de dezembro de 1896, em honra
dos alumnos laureados da Universidade de Coimbra.
Homenagens

mos reviver a amoravel tradição, abrindo


hoje as nossas salas á brilhante pleiade aca
demica, em cujo seio sempre se renova o
nucleo das nossas assembléas.
Offerecemos-lhe uma festa muito simples,
mas que de certo lhe será gratissima: algu
mas horas de intima convivencia com os seus
mestres e com a sociedade de Coimbra. Os
seus mestres são a sua segunda familia, e
querem-lhe como aos herdeiros do seu espi
rito. Coimbra, pelos enlevos da sua historia
e da sua paisagem, pela graça scintillante
do seu genio, e até pela cariciosa voz tão
scismadora das suas filhas, póde dizer-se a
terra natal da meditação e do estudo, e é do
coração universitaria.
Em nome da direcção do Instituto, saúdo
com vivissima sympathia os nossos hospe
des, fazendo votos por que, ao calor d'esta
reunião, a que as senhoras, a poesia e a
musica vão communicar toda a irradiação
dos seus encantos, se estreitem ainda mais
as caroaveis relações entre professores e alu
irmos, e entre a academia e a sociedade de
Coimbra. Assim nós tambem preludiaremos
auspiciosamente aos nossos trabalhos!
DR. FRANCISCO ANTONIO
RODRIGUES D'AZEVEDO

Meus Senhores!

Vimos, pelo Instituto de Coimbra, render


as ultimas homenagens ao nosso socio honora
rio, dr. Francisco Antonio Rodrigues d' Aze
vedo, o respeitavel ancião a quem ainda ha
poucos dias animavam todas as graças com
que a natureza se compraz de exornar a
quadra final da vida humana. Um brilho inte
rior parecia coar-se atravez de toda a sua
figura tão nitida, resplendendo-lhe no olhar,
scintillando-lhe no sorriso e aureolando-lhe
a cabeça com o nimbo radioso dos seus bellos

A 'locução proferida á beira da sepultura, em


Coimbra, 13 de janeiro de 1897.
174 Homenagens

cabellos brancos. Do autoritario que elle


fôra, por temperamento e por educação, o
seu grave aspecto tinha-se dulcificado com
os annos, tomando os tons insinuantes que
tornam a autoridade irrecusavel.
Duplamente venerando, como sacerdote
e como professor, o seu nome fica inscripto
com honra nos fastos da tribuna sagrada e
da cathedra docente da nação. Foi sobre
tudo um orador; e do orador sagrado e
cathedratico conservou até aos derradeiros
momentos o porte nobre, a compostura do
gesto com a pureza e elevação da dicção.
Fazia gosto ouvir da sua boca, incisiva e
sobria, os poderosos accentos da nossa lingua
vernacula !
Meus Senhores! O Instituto de Coimbra,
como representante das letras patrias neste
logar, curva-se reverente sobre o feretro de
um dos mais encanecidos membros da sua
familia.
O SEGUNDO CONGRESSO
DO MAGISTÉRIO PRIMARIO

Meus Senhores!

Estou certo de interpretar fielmente o de


sejo unanime da assembléa, começando por
agradecer aos dignos promotores d'este con
gresso a sua benemerita campanha ; e, pe
ssoalmente eu devo tambem antes de mais
nada exprimir á commissão promotora e a
toda a corporação o meu profundo reconhe
cimento pela affectuosa lembrança que de
mim guardaram.
O nosso primeiro congresso, meus Senho-

Allocução inaugural do segundo Congresso do ma


gisterio primario, celebrado em Lisboa nos dias 12,
i3 e 14 de abril de 1897.
Homenagens

res, não só foi um acto moral que muito


honrou o magisterio primario, como demons
tração da cordialidade de relações entre os
seus membros e do seu zelo pela sagrada
missão que lhes está confiada, mas foi ainda
um acto politico de felizes consequencias,
porque varios dos principios por elle procla
mados se acham hoje inscriptos na legislação
do paiz.
De ambos os modos espero que este se
gundo congresso servirá a causa da educação
nacional. Por isso me congratulo devéras
pela sua reunião, sentindo só não poder vêr
aqui alguns dos meus dedicados collabora-
dores de 1892, que no intervallo decorrido
foram pela morte arrebatados do seu posto.
MEUS PAES

A coragem do bera parece ter desappare-


cido quasi de todo da sociedade portuguesa;
não se põe fé na honra, e os raros que
lutam pelo cumprimento do dever, — mais
que nunca difficil ! — são ignominiosamente
apodados de fracos. Só se reconhece o valor
dos que assaltam os direitos publicos e repar
tem com mão larga o patrimonio commum
pelos bandos insaciaveis. Esses são os chefes,
e apregoam-se por toda a parte em brados
enthusiasticos os seus brilhantes rasgos de
alma. Que educação social !

Vanguarda, de 24 de junho e 1897.


13
178 Homenagens

Não sei de onde nos ha de vir o remedio ;


mas uma sociedade assim necessita recon
stituida desde os fundamentos.
Apellemos sobretudo para a educação
feminina! Muito mais do que o nosso sexo,
a mulher possue em germen o espirito de
sociabilidade e de previdencia, d'onde brotam
as grandes virtudes civicas. Recordo-me de
que, em casa de meus paes, todas as pessoas
que nos visitassem, encontravam sempre o
acolhimento mais generoso; mas esta hospi
talidade mantinha-se por prodigios de econo
mia. Nas ferias do Natal, meu pae, que era
aliás exemplarissimo financeiro, vinha per-
guntar-me — «Sabes quanto este anno se
gastou cá em casa?» — ; e mostrava-me,
com uma admiração enternecida pela mila
grosa administração de minha mãe, a conta
final das despesas domesticas.
E nestes exemplos de familia que se aprende
irresistivelmente a religião do bem!
DR. DAMÁSIO JACINTHO FRAGOSO

Meus Senhores!

A nossa Universidade relembrará sempre


com saudade o periodo da sua vida em que
um brilhante grupo de theologos, ao qual
pertencia o dr. Damasio Jacintho Fragoso,
animava o seu ensino com as mais prodi
giosas audacias do talento. Distinctissimos
pelo saber, apaixonavam-nos sobretudo as
scintillantes requestas da palavra; e era de
ver como, no ardor das refregas, elles pro
prios sacudiam de si galhardamente a invul
neravel autoridade da sua erudição para
melhor patentearem em toda a nudez a pu-

Allocução proferida á beira da sepultura, era


Coimbra, 1 de dezembro de 1897.
18o Homenagens

jante musculatura das suas faculdades. Dia


lecticos admiraveis, tinham mais que ninguém
a perspicacia, o engenho e o impeto comba
tente!
Succederam-se as gerações, outros nomes
vieram illustrar já tambem os fastos nacio-
naes das sagradas letras; mas nada pôde
ainda empalidecer para o culto dos seus con
temporaneos a fama d'essa phalange gloriosa.
E o Instituto de Coimbra, fiel á sua grande
memoria, deposita hoje sobre a campa do
seu ultimo representante um ramo de immar-
cessiveis laureis.
A ACADEMIA DE COIMBRA

Meus Senhores e Minhas Senhoras!

O Instituto, este centro de reunião co-


mmum a professores e a alumnos, á aca
demia e á sociedade de Coimbra, de novo
se veste hoje de galas para receber festiva
mente os estudantes laureados da Universi
dade, discipulos, companheiros e hospedes
dilectos dos seus consocios.
Só a virtude é digna de premio; mas cla
ramente que é uma virtude o estudo, quando,
mais ainda que a legitima ambição de cultura

Allocução do presidente do Instituto de Coimbra


no sarau literario-musical offerecido na noite de 8
de dezembro de 1897 aos alumnos laureados da Uni
versidade.
182 Homenagens

pessoal, o impulsa e realenta o anceio de


bem servir os progressos da civilização.
Quantos transes acerbos e quantas dôres
nos não assaltam no seu caminho!
Sem estudo, não póde haver liberdade
nem dignidade de acção; estudo e acção con-
fundem-se mesmo. Cada vez se vai com-
prehendendo melhor que a instrucção é o
proprio trabalho, e que, como elle, se deve
orientar pela suprema lei do universo, que
é a lei moral, sob pena de irremediavel este
rilidade e mallogro. A eschola, para desem
penhar a sua missão, tem de ser um orgão
vivo da sociedade, pulsando com as suas
esperanças e com as suas amarguras, iden
tificada com o seu destino ; isto é, — porque
o não direi ? — toda a eschola, desde a pri
maria até a superior, tem de ser sobretudo
uma instituição politica.
Os titulos de honra de uma Universidade
não estão só nos espiritos que ella fórma a
dentro das suas aulas, mas tambem nos ser
viços sociaes que conjunctamente presta em
deredor de si, tanto nas grandes verdades
que descerra e propugna, como nos avisos,
ensinamentos e conselhos que a todo instante
amiudam os seus theologos, os seus juris
A Academia de Coimbra 183

consultos, os seus medicos, os seus letrados


e homens de sciencia, nos estudos com que
valoriza o patrimonio commum, nas culturas
novas que vai até ás colonias implantar, nas
enfermidades e nas epidemias locaes que de-
bella e extingue, nos direitos que revindica,
nos batalhões ardentes que improviza em
sagrada defesa da honra e da independencia
da patria . . . E tudo isto tem feito na sua
gloriosa carreira, e ainda nos mais recentes
dias, a nossa querida Universidade.
Saudemo-la, pois, nos seus melhores filhos!
O TERCEIRO CONGRESSO
DO MAGISTERIO PRIMÁRIO

M1nhas Senhoras e Meus Senhores!

Este afan com que uma classe pobre, dis


persa por todo o paiz, duas vezes no mesmo
anno se congrega para zelar os sagrados
interesses do serviço que lhe está confiado,
a quem é que não demonstra eloquentemente
o seu civismo e como ella se alvorota e softre
com as attribulações da hora presente? A
quem não ha de inspirar sympathia e res
peito ?
O magisterio primario comprehende bem

Discurso inaugural do terceiro Congresso do ma


gisterio primario, celebrado no Porto nos dias 27,
28, 29 e 3o de dezembro de 1897.
i86 Homenagens

os deveres civicos da sua missão docente.


Oxalá todos vissem como elle que a nossa
rehabilitação nacional, dia a dia mais difficil,
é obra toda de abnegação, e que só vinga
remos alcançá-la pelo estreitamento dos laços
sociaes e pela democratica intervenção das
classes laboriosas na gestão da causa publica!
E, se ha causa que precize defendida, é a
da educação; porque é a primacial de todas,
— a educação é o viatico da alma! — , e
porque é, ao mesmo tempo, de todas a mais
desamparada entre nós, digo-o muito embora
nesta cidade, que viu nascer um conde de
Ferreira, o magnanimo doador da eschola
primaria, e onde rebrilham para sempre com
um nimbo celestial as excepcionaes figuras
d'um padre Balthazar Guedes, o pae dos
orphãos, como na sua amoravel linguagem
lhe chamava o povo, e dum padre Sebastião
de Vasconcellos, o piedoso medico das enfer
midades moraes da juventude.
Já me não atrevo a comparar-nos com a
Allemanha, que, aonde quer que se fixe um
nucleo de filhos seus, envia professores que
lhes afervorem o culto da patria; ou com a
Inglaterra, cujas universidades delegam mi
ssionarios que vão com o facho da civilização
O terceiro Congresso de instrucção primaria 187

illuminar os ultimos recessos da sociedade ;


ou com a França, que, pela sua fé no ensino,
diffundindo-o e aperfeiçoando-o, conseguiu
regenerar todos os seus quadros, inclusiva
mente os do seu pessoal governativo, e ahi
está de novo erguida á admiração do mundo.
Mas até das pequenas nações, como a Bel
gica, a Hollanda, a Suissa, nos deixámos
distanciar immenso ! Aqui mesmo a visinha
Hespanha nos póde apontar com desdem
para provincias suas, onde não ha nem um
analphabeto !
Nós nem ensinamos nem temos que ensi
nar, porque desgraçadamente não conhece
mos quasi nada da nossa terra e da nossa
historia. A nossa ignorancia é geral, de todas
as classes; e a das classes abastadas e diri
gentes é ainda a maior e imperdoavel.
Bem hajam, pois, os professores primarios
que se não poupam a trabalhos para por sua
parte a combaterem!
A mim, sabem-no, ter-me-ão sempre cor
dialmente ao seu lado para os acompanhar
na sua generosa campanha.
f
JOÃO RODRIGUES VIEIRA

Meus Senhores!

Corta o coração ver cahir de golpe no


chão do cemiterio algum dos nossos mais
vigorosos companheiros de trabalho, sobre
quem a vida apenas ainda projectava os pri
meiros alvores da felicidade. E João Rodri
gues Vieira merecia-a bem, até pela sua
effusiva confiança nella!
A sua figura, cheia de animação, mas a um
tempo jovial e modesta, não havia ninguem
a quem não captivasse ! Artista de talento,
impregnava sempre as suas relações sociaes
de uma delicadeza penetrante; como se a sua

Allocução proferida á beira da sepultura, em


Coimbra, 6 de janeiro de 1898.
190 Homenagens

alma affectuosa possuisse o condão de con


centrar em si todo o perfume das flores
que tão predilectamente lhe inspiravam as
risonhas tintas da sua paleta.
Nós, os seus consocios do Instituto de
Coimbra, devemos-lhe uma convivencia en
cantadora, que não olvidaremos jámais.
O CONGRESSO EM HONRA
DA CARTILHA MATERNAL

Minhas Senhoras e Meus Senhores!

Nada mais santo do que a campanha contra


o analphabetismo, tenho-o dito e repito ince
ssantemente!
Os tempos mudaram, e o ideal humano
da moderna civilização está muito longe da
simplicidade do ideal religioso ou heroico
d'outras eras. A vida complicou-se, e o seu
novo factor principal é a propria liberdade
do homem.
Como é que, no meio da estonteante

Allocução enviada ao presidente da Academia dos


Estudos livres para ser lida na sessão inaugural do
Congresso celebrado em janeiro de 1898 em honra
da Cartilha Maternal.
192 Homenagens

complexidade do nosso seculo, ha de por si


governar-se ura povo, cujos cidadãos na
immensa maioria nem sequer ainda indivi
dualmente sabem conduzir-se ? Porque só a
palavra escripta e lida nos póde conferir a
plena consciencia de nós mesmos, e, com
ella, a força e a dignidade d'acção ! A pala
vra oral, tão fugaz ! não basta. Precisamos
de a fixar deante de nós para bem penetrar
mos no intimo da nossa alma.
E por isso que, com o maior gosto, adhiro
ao pensamento d'este Congresso, que celebra
um dos mais generosos e fecundos esforços,
envidados não só em Portugal, mas em todo
o mundo culto, pelo aperfeiçoamento do
ensino das primeiras letras. A Cartilha Ma
ternal tem todo o cunho do genio do seu
autor !
Para mais, João de Deus, como já antes
d'elle o grande Castilho, fazendo-se amora-
velmente o pedagogo da infancia, deu á
causa da instrucção o prestigio sem egual do
seu aureolado nome. Chegou a ser moda a
adopção do seu methodo; e sobretudo as
mães, que adoravam o poeta, sentiram-se,
mais que nunca, attrahidas por elle para o
desempenho do seu magisterio domestico.
O Congresso em honra da Cartilha Maternal 198

São, pois, de pura justiça todas as home


nagens que se rendam á memoria do glorioso
mestre; e nenhuma de certo tão eloquente
como esta solemne demonstração da efficacia
da sua obra educativa.
Acceite a benemerita Academia d'Instru-
cção popular que a promoveu, os meus
francos louvores.

)3
MOUSINHO D'ALBUQUERQUE

Minhas Senhoras e Meus Senhores!

Já se não póde agora dizer, depois das


fulgurantes victorias do nosso exercito, que
vivemos indignamente apenas dos reflexos
do esplendor passado! A gloria de Mousinho
d' Albuquerque não o illumina só a elle, mas
a toda a nação, que, pelas assombrosas
proezas de um dos seus filhos, acaba de
revelar de novo ao mundo os inesgotaveis
thesouros de valor que o seu coração ence
rra. E como a lamina d'aquella espada a
rija tempera do caracter nacional !

Allocução pronunciada na presidencia da sessão


solemne do Centro Commercial do Porto em 17 de
janeiro de 1898.
196 Homenagens

Quem, ao vê-lo partir para Africa, vatici


nara as suas epicas campanhas? Pois nin
guem, neste lance de expiação, representa
como elle, até na melancolia da sua figura,
a alma da nossa gente, como elle torturada
e sonhadora, como elle ardente e ousada
até ao heroismo!
Quantas dedicações obscuras não jazem
ahi anciosas por acudir com o seu braço e
o seu peito pela felicidade da patria ? Cha-
mem-nas, attraiam-nas ; e do seio do nosso
abençoado sólo brotará, como por encanto,
uma formidavel legião de austeros batalha
dores promptos a todos os commetimentos
que possam revindicar-nos o nosso antigo
posto na vanguarda da civilização.
A fôrça atavica dos nossos brios não se
extinguiu! Sabem o que ha de sobrehumano
no arrojo de Chaimite ? é a herança de honra
dos antepassados, que se sublima de geração
em geração até aos mais impossiveis prodi
gios! Por cada um dos seus membros que
prodigaliza, esta familia Mousinho d'Albu-
querque resuscita cada vez com mais arran
que no indomavel denodo dos seus descen
dentes. Permita Deus que assim succeda á
grande familia portuguesa!
Mousinho d'Albuquerque 197

Que é preciso para nos salvarmos? uma


só coisa : que communguemos com os nossos
bravos soldados no mesmo espirito de nobre
sacrificio, e sejamos tão bons cidadãos para
o governo do paiz como elles se provaram
na sua defesa. Eis a lição moral que, sobre
tudo,- pretendo tirar dos* nossos brilhantes
feitos d'armas.

Senhor Joaquim Mousinho d'Albuquerque!


Não tenho medalhas para lhe entregar ; mas,
se as trouxesse, seriam feitas do ferro luzente
das nossas charruas e das nossas bigornas
^para bem fielmente lhe traduzirem toda a
esperançosa gratidão do nosso povo!
JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO

Meus Senhores!

Nada tão edificante como o espectaculo


da ascensão moral do homem! Contemplan-
do-o, reconhecemos, absortos, que, de todas
as forças do universo, nenhuma póde medir-se
com a da vontade. Não ha obstaculos que
ella não vença; e, quando, cançado de a
acompanhar na sua aspera carreira pelo bem,
o organismo desfallece, ella ergue victoriosa-
mente para o ceu a alma humana, que de lá
fica para sempre illuminando as outras almas
com o seu resplendor.
Joaquim Martins de Carvalho foi um aca
bado exemplar d' esse inegualavel poder.

O Instituto, novembro de 1898.


20O Homenagens

Pobre e desajudado, a si proprio se fez


pela mascula energia do seu caracter. Era
um mesquinho operario, e chegou a ser um
dos nossos mais valorosos publicistas, com
provando assim com o seu admiravel exem
plo que não ha eschola que suppra a da vida,
nem disciplina como a da adversidade. Já
nos ultimos annos de existencia, agrilhoado
pela doença á casa e por fim ao leito, a fres
cura do seu rosto testemunhava a todos o
viço d'aquelle cerebro, que era uma mara
vilha de memoria e de erudição.
Trabalhador indefesso, os revezes da sorte
infundiram-lhe o dom do sacrifício ; e a hom
bridade com que arrostou os maiores perigos
nas lutas contra o despotismo, nunca mais
esmoreceu no seu coração patriotico.
Elle fez da imprensa uma tribuna de pro
paganda ardente, d'onde sem cessar celebrava
os feitos e as datas gloriosas ou infaustas da
nossa historia, memorando piedosamente o
nome de cada heroe ou martyr da liberdade
e independencia nacional, e d'onde, com
egual perseverança e com intransigente de
nodo, denunciou sempre os riscos que a
democracia corria pela sua propria incuria
ou pelas ameaças dos poderosos. E o pres
Joaquim Martins de Carvalho 201

tigio do seu civismo communicava-se á sua


palavra, que era por todos escutada com
veneração. Tanto a autoridade moral se im
põe, ainda em meio das sociedades scepticas
e corruptas!
Esta cidade sobretudo deve-lhe um pro
fundo amor, só comparavel ao que tambem
por ella e pelos seus membros mais desva
lidos teve outro filho do povo, Olympio
Nicolau Ruy Fernandes; e o Instituto de
Coimbra, — a cujo gremio elle pertencia,
honrando as letras com as suas pacientissimas
investigações —, do coração pranteia saudo
samente o seu trespasse.
GARRETT

Minhas Senhoras e Meus Senhores !

Lembram-se de quando, ao saber casada


em segundas nupcias a esposa, que o julgara
morto em Alcacer-Kibir, D. João de Portu
gal, velho e desfigurado, á pergunta — Quem
és tu ? — responde, apontando com o bordão
de peregrino para o seu bello retrato juvenil
de cavalleiro — Ninguem. — ?
Quantas vezes tambem, confrontando as
magnificencias d'outr'ora com as miserias
presentes, nós não temos soluçado o mesmo
grito de desalento !

Discurso proferido na presidencia da sessão sole-


mne celebrada pelo Atheneu Commercial do Porto
no dia 4 de fevereiro de 1899.
204 Homenagens

Não! A lei geographica que põe aos pés


das mais soberbas eminencias os abysmos
mais profundos, não se verifica no mundo
moral. Nós não estamos condemnados a ex
piar ignominiosamente a gloria deslumbrante
dos nossos fastos. As grandezas históricas,
se são como as altas montanhas, é porque,
como ellas, pela sua fôrça de attracção, des
viam da queda os corações piedosos que fiel
mente se inclinam no seu culto.
Não! Não póde estar morto nem mori
bundo um povo em cujo peito palpita sempre
viva a religião dos seus maiores! O que faz
a fôrça das nações, é a sua cohesão, a sua
cordialidade; e nós, reunindo-nos perante o
altar da patria para celebrar com todo o
fervor a memoria dos nossos queridos mortos,
não estamos longe de estreitar indissoluvel
mente os nossos vinculos sociaes. Commemo-
rações, como esta, são efficacissimas escholas
de civismo.
D'entre os genios bons da nosssa terra,
nenhum mais do que Almeida Garrett me
rece as homenagens posthumas dos seus
compatriotas, porque ninguem contribuiu
mais do que elle para a reviviscencia da
sociedade portuguesa.
Garrett io5

A sua nobre figura destaca á frente da


legião sagrada dos audazes campeadores da
liberdade entre nós. Não ha só a tyrannia
das instituições e dos costumes, ha tambem,
e é a sua alliada, a tyrannia dos preconcei
tos, das academias e dos classicos, da moda
e da rotina ; e, emigrado e soldado da nossa
emancipação politica, pela qual se bateu
dentro das linhas de defesa d esta invicta
cidade, Garrett foi ao mesmo tempo um dos
principaes caudilhos da emancipação do espi
rito nacional. Camões, Fr. Luis de Sousa, as
Viagens na minha terra, desferem golpes tão
decisivos no absolutismo, como Almoster e
Asseiceira.
E com que enternecido affecto elle se des
velou sempre pelos fracos e humildes ! Tudo
com o povo e pelo povo! exclamava. E que
effectivamente não são só os sabios e os
artistas que possuem o condão das idéas e
das emoções originaes, como não só ás cla
sses altas da sociedade pertence privilegia
damente o arbitrio do poder. Assim como
aquella simples creada Brigida e até a pobre
da mulata Rosa de Lima fôram as doces
collaboradoras de Garrett, assim o povo,
ainda o das raças conquistadas para a civili
206 Homenagens

zação, deve ser discretamente chamado a


collaborar com o seu voto no governo da
collectividade. No povo reside a inspiração
profunda de todo o progresso, e é preciso
consultá-lo.
Desta concepção resulta o grande prin
cipio moderno da democratização do ensino.
Quantas observações, que não têem podido
desabrochar na consciencia publica por falta
de cultura ! e quantos sentimentos delicados
e generosos se não perdem á tôa, que pre
ciosamente se deviam engastar no oiro puro
da lingua vernacula! Como havemos de ter
sciencia, arte e industria, como havemos de
respeitar a justiça, se não prepararmos cabal
mente a massa dos operarios e cidadãos ?
Onde iremos recrutar os mestres e os magis
trados ? Onde acharemos publico para as
nossas obras primas, onde apoio para a vir
tude ? Por isso Garrett se dedicou tanto á
causa do ensino, e publicou o seu tratado da
Educação e ambicionava mesmo que toda a
sua obra se diffund1sse educativamente pelo
povo. «A missão do literato, do poeta, disse
elle, é revestir das formas mais populares o
estudo dos factos, e derramar assim pelas
nações um ensino facil, uma instrucção inte-
Garrett 207

llectual e moral que, sem apparato de sermão


ou prelecção, surprehenda os animos e os
corações da multidão.»
E não só a educação, mas toda a assis
tencia se deve ao povo. Neste sentido, o
socialismo é uma verdade incontrastavel; e
Garrett foi dos primeiros a proclamá-lo. Na
camara dos pares, dos magnates, proferiu
elle estas notaveis palavras: «A sociedade
deve esforçar-se em fornecer trabalho ao que
precisa trabalhar para viver; a sociedade tem
obrigação de sustentar o que envelheceu e
se impossibilitou no serviço d'ella.» E accen-
tuou: «Amparar o seu semelhante, valer- lhe
nas afflicções, na pobreza, na doença, na
morte, é innato desejo, é natural precisão
de todo o homem social : o que será entre
portugueses!»
Quer isto dizer que Almeida Garrett fosse
um revolucionario ? Foi-o, sobretudo, com a
penna na mão; mas não que elle não prefe
risse que a evolução, que é a lei suprema
tanto da sociedade como da natureza, se
operasse serenamente entre os homens. Num
prefacio do Catão, — tragedia que, com vi
sivel intento, dedicou á sua terra natal, ao
Porto, chamando-lhe «illustre pelo sangue
208 Homenagens

dos seus martyres» — , elle tracejava assim


a literatura do porvir: «Da união da arte
antiga com a arte moderna, da plastica com
o espiritualismo, do bello das formas com o
bello ideal, do consorcio da Helena homerica
com o Fausto dantico, é que tem de nascer
o bello Euphorion, o genio, o principio, o
symbolo da arte regenerada». E esta foi
essencialmente tambem a formula do seu
pensamento politico; queria conciliar o pro
gresso com a ordem. Mas, para que na
marcha das nações a evolução se realize
ordeiramente, é mister que as classes diri
gentes, a exemplo de Garrett, se inspirem
com toda a lisura no bem publico, que é
sobretudo a integridade e a honra nacional.
Se os poderosos abandonam o povo, e elle
se encontra apenas com um punhado de
intransigentes para revindicar todos os seus
direitos, direitos individuaes, direitos associa
tivos e corporativos, direitos constitucionaes,
todos, desde o direito de prover á alimen
tação e instrucção dos seus filhos até o
direito de não ver polluida nem infamada a
bandeira augusta dos seus antepassados, que
admira que um dia estale novamente a revo
lução, com todo o seu infando cortejo de
Garrett 209

desastres e dores ? Num d'esses desesperados


transes tambem Garrett teve de pegar em
armas.
Procuremos evitá-lo, Senhores e minhas
Senhoras. A todos me dirijo neste momento
solemne. Façamos tudo por combater o mal
sem ferir a ninguem; que, para afugentar as ,
cubicas dos maus, bastará, — espero-o —.,
que sempre, como hoje, ergamos bem alto
para o ceu, com inalteravel brilho, a chamma
ardente do nosso patriotismo.
ANTHERO DE QUENTAL

Minhas Senhoras e Meus Senhores !

A Universidade não é só a eschola official,


a que tenho a honra de pertencer, mas tam
bem a não menos gloriosa eschola mutua
dos seus alumnos, a que ainda hoje pertenço
pelo affecto e pela saudade.
São elles que, discutindo tudo e apaixo-
nando-se sempre pelas mais nobre soluções,
tanto nos sacodem os nervos entorpecidos
com a graça scintillante das suas risonhas
ironias, como, nas horas graves do perigo,
avançam intrepidamente a defender com a

Allocução proferida na presidencia da sessão sole-


mne celebrada em honra de Anthero de Quental pela
academia de Coimbra, no Instituto, em 29 de maio
de 1899.
212 Homenagens

sua palavra e com o seu braço a honra e os


direitos dos cidadãos.
A academia de Coimbra tem sido um
permanente fóco de agitação patriotica. E, —
se ainda hoje o amor das nossas coisas a não
leva devotamente por esses campos fóra a
estudá-las tão de perto como seria necessario
para ella dar toda a côr da sua originalidade ás
nossas lucubrações scientificas — , no estudo
pessoal dos melhores autores, feito com toda
a curiosidade da sua viva intelligencia e com
todas as sympathias do seu coração ardente,
tem haurido as mais puras inspirações para
a renovação do espirito nacional.
Não ha na Universidade uma Faculdade
de letras? criam-na os seus alumnos nas suas
palestras e nos seus escriptos, e raro será
no paiz o movimento literario que não parta
de Coimbra. A Universidade não possue um
ensino philosophico, um ensino historico e
moral bastante? professam-no elles entre si,
e dos seus galhardos torneios sahem já arma
dos cavalleiros dos novos ideaes os mais
destros lidadores.
Assim tem vindo a academia de Coimbra
a demonstrar que a lei soberana dos estudos
é tambem a liberdade e a fraternidade.
Anthero de Quental 2l3

Numa Universidade quer-se que todos


dentro d'ella estejam entre si unidos, como
se constituissem uma só familia, tendo uns
pelos outros, professores e discipulos, o ca
rinho de irmãos, fraternalmente e liberal
mente unidos no culto da verdade, acima da
qual não ha logar para mais nada, porque,
se a Universidade, como toda a gente, deve
o seu respeito ás instituições vigentes que
representam legalmente a vontade da nação,
ella não é nem um partido, nem uma seita,
não esta escravizada a qualquer dogma po
litico ou religioso, não jura por nenhum,
antes é egualmente seu indeclinavel dever
examiná-los todos sem escrupulos para bem
poder desempenhar-se da sua missão de su
prema preceptora nacional, a quem princi
palmente compete esclarecer a consciencia
publica. A verdade não se conquista senão
pela livre iniciativa individual.
Prodigioso agitador de idéas e de senti
mentos, ninguem encarnou melhor este espi
rito universitario do que Anthero do Quental,
ninguem lhe foi mais fiel durante toda a vida.
Póde mesmo dizer-se que elle viveu sempre
a vida singela, ingenua e altiva, de indepen
dencia e de cordialidade, dos bons tempos de
214 Homenagens

Coimbra. Associação e liberdade, accentuava


elle aqui em rapaz, taes são os unicos princí
pios salvadores do mundo moderno; e nunca
mais cessou de o repetir em toda a parte,
com a sua logica cerrada e empolgante, não
como quem reclamava um privilegio delicado
das classes dirigentes, que reservassem para
si tambem a posse e o gôso dos bens moraes,
mas como um direito sagrado de todos,
inherente á dignidade humana. Simples estu
dante, revindica-o para todos os que pensam
e sentem ; cidadão, para todos os que traba
lham.
A sua voz, inflammada de commoção,
de uma sonoridade que ninguem mais teve
depois de Herculano, em lance algum deixou
de vibrar em prol dos humildes, exigindo
dos poderosos que, pela sua probidade, re
partissem com elles os fructos do patrimonio
commum, unicamente confiado em deposito
á sua guarda e recta administração, e não
amortizado ao seu egoismo.
Mas era sobretudo pelo proprio esforço,
pela sua instrucção e educação, que elle
esperava que o povo havia de melhorar de
sorte. O seu largo e tenro socialismo tinha
raizes profundas no seu rigido liberalismo.
Anthero de Quental 21 5

Começa a sua carreira, escrevendo, aos


dezoito annos: «Um dos grandes symptomas
de regeneração e progresso moral do seculo
em que vivemos, é sem dúvida o desvelado
carinho com que, quasi por toda a parte,
cuidam grandes e pequenos com interesse e
desinteresseiramente no melhoramento e in-
strucção do povo.» «Remissa e vagarosa,
porém, vai a instrucção por esta bôa terra
de Portugal; e ai de nós, se não se attende
a este grave mal com promptos remedios,
ai de nós!» Preside em 1871 ás notaveis
conferencias populares do Casino. E, em
1890, pouco antes de desapparecer, exclama:
«Esse dinheiro que o povo português, num
impeto de paixão patriotica, vai dar sem
contar para inuteis armamentos, melhor se
empregaria no fomento da instrucção pu
blica.»
Apostolo da educação popular, quer uma
educação «pratica, effectiva e verdadeira
mente democratica, em que os trabalhado
res, pelo estudo e pela gerencia dos proprios
interesses, pela revindicação dos seus pro
prios direitos, adquiram a consciencia da
sua posição.»
E elle mesmo põe ao serviço docente do

i
2l6 Homenagens

povo as suas extraordinarias faculdades, e,


para melhor o servir, abre-lhe os inesgotaveis
thesouros da sua convivencia, tão rica de
sublimes ensinamentos. Ao seu lado é que
a democracia portuguesa ensaia alguns dos
mais rasgados voos com que busca alar-se a
toda a altura dos seu augustos destinos.
Meus Senhores ! Nenhuma outra memo
ria merecia mais a veneração da mocidade
coimbrã do que a do lendario academico,
do philosopho, pamphletista e poeta, que foi
a fôrça dirigente, protestante e renovadora,
mais prestigiosa do seu tempo, aqui em meio
dos seus lentes, lá fóra em meio dos poderes
officialmente constituidos. Elle é que foi
sempre a autoridade !
E exerceu-a, sobretudo, pela magia pessoal
da sua bondade, attrahindo as almas a um
novo ideal de justiça, que, primeiro do que
ninguem entre nós, elle cantou nas suas odes,
ideal heroico, que manda fazer o bem, ainda
que por elle nos sacrifiquemos, sem espe
rança de outra vida que não seja a vida
da communidade em cujo seio amantissimo
fômos gerados. «O drama do ser termina
na libertação final pelo bem», eis a sua syn-
these da moderna doutrina.
Anthero de Quental 21J

Os amigos intimos de Anthero de Quental


chamaram-lhe santo; e de facto elle só d'um
peccado póde ser accusado, e é da sua abne
gação até á extrema deshumanidade para
comsigo.

Meus Senhores! São aridos e tristes os


dias que vão decorrendo. Chega ás vezes a
parecer que não ha em Portugal logar para
os homens de bem, e que elles se acham
para ahi reduzidos a um ignominioso prole
tariado da virtude, condemnado tambem,
por falta de trabalho, a emigrar ou a morrer.
Mas não ! Com o nosso genio nacional,
senhor de uma das maiores fôrças historicas
da civilização, e com as riquezas territoriaes
que ainda nos restam das nossas seculares
prodigalidades, nada é para desesperar.
Tenham fé ! Olhem que não estão sós.
Ha alguem que, dia a dia, obscuramente mas
indefesamente, lida pelo futuro da patria. Ii
o nosso bom povo trabalhador. Trabalhem
com elle e ponham-se â sua frente, que a
nossa salvação será certa.
Aw.- I
A ACADEMIA
DOS ESTUDOS LIVRES

A Academia dos estudos livres, de Lisboa,


é a obra enthusiastica de um grupo de ho
mens novos pertencentes a profissões diver
sas, mas todos intimamente unidos no seu
emprehendimento pela mesma ardente paixão
da liberdade e da patria. D'elles devem sobre
tudo mencionar-se dois dos seus primitivos
directores, Bartholomeu Rodrigues e Migue'
de Seixas, porque, mais do a ninguem, a
esses, ás suas tão porfiadas como insinuantes
diligencias e aos seus sacrificios pessoaes, se

Moledo do Minho, 10 de outubro de 1899.


220 Homenagens

deve o logar de honra que, logo de princi


pio, a Academia tomou entre as nossas insti
tuições de ensino.
Irresistivelmente, em volta d'elles, anima
dos do mesmo fogo sagrado, vieram congre-
gar-se muitos moços de grande valor sahidos
das escholas ou apenas entrados no seu ma
gisterio, e até vários homens já de consu-
mmado saber, entre os quaes alguns estran
geiros tão addictos ao serviço da nação como
se fôssem seus filhos. E não só a instrucção
diffundiam sobre todas as classes os gene
rosos membros d'este corpo docente, a que
tive a fortuna de presidir; mas também a
educação, pelas lições da sua convivencia e
do trato com tantas pessoas de forte auto
ridade moral que vinham encorporar-se no
seu auditorio para lhes patentear a sua sym-
pathia e applauso. O proprio João de Deus,
no periodo de enclausuramento em que todo
se consagrava ao apostolado da sua Cartilha
Maternal, me lembro de lá ter visto, assis
tindo a uma das minhas conferencias.
Para mim, a Academia dos estudos livres
foi sempre um centro de cordialidade, onde
tenho passado algumas das horas mais gratas
da minha vida. Atravez de todas as vicissi
A Academia dos estudos livres 221

tudes, ei-la agora continuando com inque


brantavel vigor a sua nobre campanha por
meio da organização de excursões ás locali
dades mais interessantes do paiz. D'aqui
felicito a direcção pela sua iniciativa; e do
coração acompanho os excursionistas na sua
visita a Alemquer, que saudo carinhosa
mente.
V
DR. JULIO CESAR
DE SANDE SACADURA BOTTE

Meus Senhores!

Poucas pessoas passarão tão serenamente


pelo mundo como o dr. Julio Cesar de Sande
Sacadura Botte. Não faltando em nenhum
logar e em nenhuma occasião ao chama
mento do dever e ás responsabilidades do
seu desempenho, parecia ter sempre o pro
pósito de o cumprir sem ruido, nem esten-
tação, com o maior desprendimento pessoal,
como quem achava em si mesmo, na intimi
dade da consciencia, a melhor recompensa
dos seus serviços.

Allocução proferida á beira da sepultura, em


Coimbra, 29 de dezembro de 1899.
224 Homenagens

Mas este retrahimento não era frieza.


Elle não soffreu nunca o contagio da aridez
do coração que, em Coimbra, — onde aliás a
mocidade e a natureza estão perennemente
em festa — , emmurchece e definha, que é uma
dôr! muitas das intelligencias mais cultas. A
sua compostura, genuinamente cathedratica,
nada tinha, porém, de agreste, antes se ame
nizava com todos os donaires da mais fina
affabilidade ; e a sua mão delicada tanto se
estendia affectuosamente para os seus eguaes,
como era prompta em abrir-se a quem quer
que necessitasse da sua generosa protecção.
Na sua palavra revia-se toda a polidez do
seu trato. E, pela distincção com que expunha
os assumptos ainda mais triviaes ou ingratos,
elle foi um dos professores que melhor téem
sabido honrar a fidalga tradicção de verna-
culidade e apuro da linguagem universitaria.
A sua morte arrebata-nos um illustre
homem de sciencia, e, o que é mais, um
primoroso exemplar do homem de sociedade
e do homem de bem. Eu, que de perto o
conheci e devéras o apreciava, ponho nesta
homenagem, que venho render-lhe em nome
do Instituto, toda a sensibilidade das minhas
proprias recordações.
O LICENCIADO ALBERTO PESSOA

Meus Senhores!

A cruel doença acaba de arrebatar-nos de


golpe, na plenitude da força, um dos espi
ritos mais activos, mais cultos e prestantes,
da nossa sociedade.
Devéras dedicado á sua terra natal, a esta
sorridente Coimbra, cujos progressos acari
ciava com deleite, Alberto Pessoa, á frente
de um importante estabelecimento annexo á
nossa Universidade * e de uma afamada casa
de educação que fundara, serviu exemplar
mente, com desinteresse e nobreza, a sagrada
causa do ensino nacional.

Allocução proferida á beira da sepultura, em


Coimbra, 23 de fevereiro de 1900.
# A Imprensa da Universidade.
i5
226 Homenagens

Mais que modesto, austero para comsigo,


se, pela recta conformação do seu procedi
mento, o seu caracter se impunha ao respeito
geral, a sua delicada singeleza insinuava-se
brandamente na intimidade, careando-lhe as
sympathias de quantos com elle tratassem
de perto, especialmente das creanças, dos
seus discipulos, em cujo convivio a pallidez
um tanto severa da sua physionomia parecia
aquecer-se e colorir-se com os mais doces
clarões da sua cordialidade. •
O Instituto de Coimbra deveu-lhe, como
funccionario publico e como consocio, ser
viços inapreciaveis, que venho relembrar
neste angustioso lance com um reconheci
mento que tem muito tambem de pessoal.
O GRUPO MUSICAL
JOSÉ MAURICIO, DE COIMBRA

Meus Senhores!

Agradecendo devéras ao Grupo musical


José Mauricio a amabilidade de querer fes
tejar a sua nova séde com a inauguração do
meu retrato, felicito-o por dispor agora de
uma casa, onde póde não só effectuar os seus
ensaios, mas tambem vai ter a sua biblio-
theca e sala de leitura, e onde começa já hoje
a reunir as familias dos seus consocios.
E por meio de associações artisticas como
esta que o trabalhador tem de fazer um

Allocução pronunciada na sessão solemne de 25


de dezembro de 1900.
228 Homenagens

aprendizado não menos indispensavel que o


dos officios, o aprendizado do civismo.
Reunir pelo prazer ou pela dôr é bem
mais facil do que pela communhão de inte
resses e de principios. Para escutar, por
exemplo, um bello trecho de musica, aco
rrerá toda a gente, sem distincção de classes
ou de partidos, ricos e pobres, sabios e igno
rantes, republicanos e monarchicos. A pie
dade tão pouco mede distancias. Nas sole-
mnidades mais emotivas, até os bons e os
maus se misturarão sem desconfiança, tro
cando entre si um brando olhar de paz e de
fraternidade. Vejam como a egreja, onde
hoje mesmo solemnizamos em côro o natal
de Christo, tem sido, por seculos, um logar
bemdito de perdão e de arrependimento.
Pela arte se inicia a moral. Amar o bello
é o primeiro passo para amar a virtude. E,
em Portugal, não é só o povo, os grandes
tambem, e mais do que elle, necessitam ainda
de aprender a distinguir o bem do mal pelo
que é bonito e pelo que é feio. Por isso mal
poderemos figurar dignamente no concerto
da moderna civilização, emquanto o operario
não tiver ocios e os dirigentes não aprovei
O Grupo musical José Mauricio 229

tarem os que têem, para se policiarem pelo


culto espiritualista da arte.
Alguns julgam a vida coisa tão séria, que
a ninguem consentem um sorriso sequer,
nem d'homem para mulher, nem para um
berço. Pobres d'aquelles que assim se mor
tificam ! A vida é, de certo, coisa séria, dolo
rosa mesmo muitas vezes infelizmente, mas,
ainda no lance mais pathetico em que nos
morre um ente amado, todos sentimos allivio
em cobrir-lhe o caixão de coroas de flores.
A arte que nos recreia, é a mesma que nos
consola. A maviosa voz feminina que enleva
o marido, quando elle entra em casa, a des-
cançar da sua aspera lida, é a mesma que
entôa os cantos mais sentidos de saudade
pela sua ausencia. A vida é mesmo tão séria
e tão penosa, que é preciso aprender a ali
geirá-la, a levá-la ao menos com resignação.
Todos os prazeres são legitimos, quando
servem a cimentar e melhorar a vida domes
tica e social. A mulher que apura o caldo da
panella e alegra com uns raminhos de salsa
o prato que vai para a mesa, é uma bene
merita, que está cuidando da saude, da eco
nomia e da honra do lar, porque não é só
ella que tomará com mais gosto a sua refei
23o Homenagens

ção, ella abrirá, além do seu, o apetite do


marido, conseguindo a um tempo alimentá-lo
melhor e afastá-lo da dissipação e dos vicios
da taberna e das más companhias. Ainda
hontem, voltando á tarde para minha casa,
caminho de Cellas, eu fui ouvindo, commo-
vido, a conversa de duas boas mulheres,
uma das quaes contava á outra as anciadas
combinações que tentara para o seu Antonio
comer grão de bico, — que é de tamanho
sustento e fartura! dizia —, até acertar em
dar-lh'o numa tão saborosa salada, que sem
pre desde então elle o repete com delicia.
Ha lá descoberta de astro ou metal, chimica
alguma que valha mais do que esta ?
A moça que entrança, enrola e penteia
com mais graça o seu cabello, o rapaz que
estende com mais garbo o braço ao seu par,
não se deleitam egoistamente só a si, pra
ticam tambem uma bôa acção, encantando-
nos a todos que os vemos. E os paes que
alindam, cheios de ternura, os filhos mimosos
da sua alma, das mesmas fitas e rendas com
que os enfeitam, fazem laços moraes com
que mais indissoluvelmente se abraçam e
docemente apertam em volta d'elles o circulo
das sympathias.
O Grupo musical José Mauricio 23 1

O modo de andar mais depressa na vida


não é sempre seguir pela lisa estrada aberta:
a sua monotonia enfada, adormenta. Muitas
vezes vale mais fazer como as creanças, que
tomam por entre as sebes, a colher boninas
e violetas. Parece que se perde tempo, mas
não é tanto assim. Já terão experimentado.
Vê-se á frente mais uma flor, corre-se, vôa-se
para ella, e, dentro em pouco, quando menos
se esperava, chegou-se ao termo do percurso.
Os caminhos aridos, por mais que encurtem,
parece que nunca acabam. Mesmo no trato,
para ganharmos os corações, não havemos
de ir para elles seccamente, hirtamente, é
mister cingi-los com todas as flexuosidades
da delicadeza. Quantos homens eu tenho
conhecido de grande intelligencia natural,
que nada fazem e dão, porque nunca a fecun
daram com as sadias lagrimas do chôro e do
riso! Não ha verdadeiro talento sem sensi
bilidade.
Todos têem obrigação de tornar a vida
aprazivel para si e para os outros. Não devia
sequer ser tolerado a ninguem andar pelas
ruas a assombrá-las de má cara, tanto mais
que muitos o fazem de proposito para se
dar uns ares imponentes, superiores. Eu, se
232 Homenagens

pudesse, reclamava contra elles uma postura


municipal. Como a todos, particulares, mu
nicipios e governo, devia ser defeso levanta-
rem-nos deante dos olhos por essas cidades
e villas edificios vis, como tantos ainda se
constroem, que positivamente nos tiram dias
de vida.
De todas as bellas artes, nenhuma mais
tocante do que a musica. A architectura, a
esculptura, até a pintura com toda a fôrça
de expressão que se póde pôr na luz d'um
olhar, se não são meramente decorativas e
não accrescentam só o esplendor das suas
obras ao mundo de maravilhas da natureza,
se nos falam tambem da alma, não são com-
tudo para comparar com a musica, irmã da
poesia, evocação, grito, arrulho e suspiro
alado, que é o proprio rythmo da linguagem
do coração.
Por isso tambem não ha arte mais social.
Nenhum sentido faz falta como o do ouvido,
d'ahi vem mesmo que a tristeza do surdo é
tão profunda. E o musico não póde, como
os outros artistas, fechar-se com o seu prazer
dentro de quatro paredes: elle espalha-se e
volita-lhe pelos ares fóra. Em toda a sua
magia orchestral, a musica é logo de per si
O Grupo musical José Mauricio 233

uma socialização. Mas para que insistir? A


prova da sociabilidade musical, téem-na aqui:
é este Grupo, esta reunião, esta festa.
Faço votos cordiaes pela prosperidade do
Grupo José Mauricio. E oxalá o povo, que
é quem é capaz de tudo e com quem tudo
se pôde vingar entre nós, elle, que, com o
seu amoravel estro, desferiu de si o mais
florido e gemebundo cancioneiro, oxalá o
nosso brioso povo multiplique pelo paiz socie
dades congeneres,, instrumentaes e vocaes,
dum e d'outro sexo, que, fundidas numa fe
deração musical portuguesa, todos os annos,
nas datas memoraveis dos grandes jubileus
e dos grandes luctos nacionaes, erga bem
alto, que rebôe vibrantemente por toda a
parte, o hymno augusto da liberdade e da
patria !
DR. AUGUSTO ROCHA

Meus Senhores!

Com Augusto Rocha desapparece um dos


maiores talentos e um dos mais infatigaveis
trabalhadores do nosso tempo.
O talento borbotava-lhe na menor con
versa. E a quem não tratasse com elle de
perto, bastava lê-lo. Na sua prosa, esmaltada
de luzentes reflexos metallicos, como uma
lamina de vistoso torneio, crepitavam electri-
camente as desgarradas chispas da mais exu
berante apojadura intellectual. O trabalho a
que se submetera desde muito novo, accu-
mulando com o seu curso scientifico e medico

Allocução proferida á beira da sepultura, em


Coimbra, 3i de janeiro de 1901.
236 Homenagens

serios estudos linguisticos, historicos e philo-


sophicos, exercitando-se na polemica e no
athletismo dos mais brilhantes centros da
academia do seu tempo, e tenteando o seu
pulso de escriptor para as publicações da
edade madura, entre as quaes só citarei, para
prova da sua inquebrantavel perseverança, a
Coimbra Medica, que redigiu durante vinte
annos consecutivos, sem a mais pequena sus
pensão, pontualissimamente, quasi até expi
rar, o trabalho encarnara-se-lhe tão profun
damente, que, ao ter nos ultimos dias de
romper com elle por imposição formal dos
seus dedicados collegas assistentes, as lagri
mas saltaram-lhe dos olhos.
Por isso, sempre de ponto em branco, elle
pôde, ainda nas aulas, medir-se com outros
espiritos de jeleição, como eram, para não
falar senão dos mortos e dum quasi de todo
occulto na penumbra da sua modestia, os
seus condiscipulos Antonio Maria de Senna,
Joaquim Antonio da Silva Sereno e Joaquim
Urbano da Costa Ribeiro, e pôde, logo á
entrada da sua carreira clinica, terçar armas,
sem desfallecimento nem desaire, com per
sonalidades já consagradas, do maior vulto
E em Augusto Rocha o homem de sciencia
Dr. Augusto Rocha 23j

duplicava-se de um artista. A garridice da


sua figura, coroada docemente pela fluidez
dos seus ondeados cabellos loiros, e, mais
que aprumada, tocada de um certo ar trium-
phal, realçava com um mixto de desplante e
de graça infantil o entono da sua esmerada
dicção, ampla e nitente; e, ainda que, pela
ponta de altaneria que ostentava, cheio de
emulação, sempre em riste, atirando-se volu
ptuosamente e soffregamente a todas as are
nas, estimulasse um tanto o seu auditorio á
primeira impressão, não havia ninguem, por
mais prevenido e hostil mesmo, que elle não
acabasse por magnetizar e seduzir com as
galas e fulgores do seu opulento engenho.
Viu-se bem no recente Congresso nacional
de medicina celebrado em 1898 em Lisboa,
onde foi verdadeiramente empolgante ao ler
a sua formosa memoria sobre a Influencia
dos congressos na constituição scientifica da
medicina.
Em publico é que elle gostava de se vêr.
Tinha a paixão scenica. E, se algumas vezes
o seu animo militante o levou, por amor a
um gesto de efteito, a commeter injustiças,
só quem não viveu na sua intimidade, é que
não sabe, como, arrefecendo, o enfrenesia
238 Homenagens

mento do ataque cedia nelle de chofre a uma


simples palavra amiga que falasse austera
mente á ingenua docilidade do seu caracter.
Foi um luctador. Cathedratico, deixa illus-
tremente assignalada no magisterio a sua
innovadora passagem por importantissimos
serviços, em que avulta a criação do labora
torio de bacteriologia da Universidade, o pri
meiro do seu genero instituido no paiz ; e
não limitou a sua campanha a dentro das
paredes da sua aula, acudiu num lance inol
vidavel a esta cidade, presa de uma cruel
epidemia, e, tanto aqui como fóra, a nação
achou-o sempre prompto a tomar o nobre
posto que lhe competia na sagrada defesa
da vida dos seus concidadãos. Nos fastos
patrioticos da nossa Universidade está inscul
pida com letras de oiro a data do Congresso
nacional de tuberculose, que, sympathica-
mente iniciado por discipulos seus, foi prin
cipalmente a obra compassiva da sua pode
rosa participação. Se semeou aggravos,
nenhum de certo se levanta hoje para con
testar que elle foi um lutador valoroso, que,
acima de tudo, lutou pelo progresso da scien-
cia e da patria.
A morte, fulminando-o rudemente no cora-
Dr. Augusto Rocha

cão, veiu lembrar a todos que elle o tinha, e


retalhado por tanta augustia, — até pela maior
de todas, a de perder um filho! — que bem
merecia, ao depor as armas de combate, o
lenitivo de ver estenderem-lhe as mãos, sem
o minimo resentimento, num cerrado preito
de admiração, os seus adversarios ainda os
mais intransigentes. E pôde talvez, nas azu
ladas brumas do seu crepusculo, parecer-lhe
que iam despontar de novo para elle os can
didos dias de outrora, de amor e de aspira
ções infinitas, da sua sanguinea mocidade,
voltando a encontrar ao seu lado, junto ao
seu coração moribundo, o coração palpitante,
ardente e generoso de um dos seus melhores
condiscipulos, que é hoje honra e gloria da
Universidade e da medicina portuguesa, o
dr. Daniel de Mattos.
Meus Senhores! Eu tambem fui seu con
discipulo, estudámos muita vez á mesma
banca, alumiados pelo mesmo tradicional
candieiro, idealizámos nos mesmos passeios,
de gorro e capa ao vento por esses deliciosos
campos fóra, vivémos em commum esta fei
ticeira vida de estudantes que irmana para
sempre os homens com laços que nada já
póde destecer . . . Nada, nem a morte !
i

i
í
A ESTUDANTINA
DE S. THIAGO DE COMPOSTELLA

excellentissimo prelado !
Sábios Lentes !
Prezados Hospedes!
Esperançosos Académicos!
Meus Senhores !

Hespanhoes e portugueses, depois de ter


mos epicamente descoberto ignorados mun
dos, precisamos hoje de alguma da nossa
heroicidade atavica para nos irmos tambem
descobrindo de parte a parte. Ha ainda entre
nós um mar tenebroso de preconceitos que
rasgar ousadamente. Eu, que me honro de
pertencer á espiritual phalange dos que ha

Discurso proferido na sala dos actos grandes da


Universidade de Coimbra, em 22 de fevereiro de 1901.
16
242 Homenagens

muito se veem esforçando pela nossa approxi-


mação peninsular, saúdo com a maior effusão
os juvenis argonautas que agora nos chegam
da Universidade compostellana. Nenhuns
outros, de certo, mais proprios para a estrei
tar do que os sympathicos filhos d'essa lusi
tana Galliza, que tão poeticamente enlaça as
suas origens comnosco. Bem vindos sejam!
A historia, constituindo-nos em duas na
ções distinctas, Hespanha e Portugal, para
compartirmos por egual a hombridade de
povos independentes, não quiz condemnar-
nos por isso desnaturadamente a uma vida
de repulsão e de lutas, mas sim confiou-nos
com a independencia a grata missão de mais
e melhor nos amarmos, de sincera e digna
mente nos alliarmos, pela livre inclinação das
nossas vontades.
E tudo nos convida a cumpri-la !
O nosso tempo é, mais que nunca, de
cordialidade. No mundo moral moderno dá-se
já uma verdadeira gravitação universal. Esta
attracção das almas faz-se até segundo a
mesma lei que rege a attracção physica dos
corpos; e por isso os dois grandes problemas
da civilização são engrandecer as almas pela
instrucção e encurtar as suas distancias pelo
A Estudantina de S. Thiago de Compostella 24.3

trabalho, para mais as attrahir. O socialismo


ha de provir inelutavelmente do poder ma
gico do desenvolvimento das nossas facul
dades, que todas conspiram para o bem, e
de est'outra vara de condão que um dia nos
poz em communicação pela palavra oral,
outro dia pela palavra escripta, outro pela
impressa, e que, depois de ter submettido
para sempre á sagrada causa da paz e do
amor até a força do vapor que ruge no vulcão
e a fôrça da electricidade que troveja no raio,
domesticado em grande parte o globo, não
se passa quasi um instante sequer que não
desentranhe dos corpos uma nova vibração
com que mais nos enleia e commove amora-
velmente as almas.
O patriotismo é sem dúvida um direito,
mas o . internaciolismo é ao mesmo tempo
um dever. Assim como a vida autonoma dos
municipios e das provincias é condição indis
pensavel para a solida organização nacional,
assim a das nações para a organização geral
da sociedade. Mas organizar não é separar.
A humanidade que, logo que pôde, iniciou a
sua educação cosmopolita pela arte, religio
samente, levada da fé commum, fazendo,
por exemplo, da Europa medieval um só
244 Homenagens

estado unificado pela adoração da cruz, ella


que a foi successivamente adeantando pela
industria, derruindo barreiras entre povos e
classes, em nome não já da felicidade numa
outra vida, mas nesta mesma, em que não é
licito abandonar ninguem á simples consola
ção de um doirado sonho celestial, ha quanto
não anceia por dar execucão ao seu ideal de
ver todos os seu% membros vinculados, sem
antagonismos egoistas, scientificamente, pelos
principios supremos da razão, num senti
mento desinteressado de pura justiça! Ella
anda nesse afan por toda a parte ; e, se no
velho continente as desegualdades antigas,
tão arreigadas ! mais reagem, no novo a sua
obra já deslumbra nos Estados Unidos da
America dfc Norte, e agora mesmo começa
a reluzir nos da Australia, o novissimo con
tinente.
E é esta politica de cordialidade, sobre
que as classes governantes mal chegam ainda
a entender-se, a que cada vez proclama com
mais energia a consciencia publica, que é
quem hoje ergue clamorosamente a sua voz
para protestar na Inglaterra contra as violen
cias aos boers, na Allemanha contra as cruel
dades de uma punição sem quartel aos chinê
A Estudantina de S. Thiago de Compostella 24S

ses, e na Austria-Hungria e na França contra


os odios de raça e de religião. Fala-se, e
ainda bem, na educação do povo ; mas p
povo é afinal quem principalmente nos educa.
Esta politica de cordialidade é a que elle,
sempre nas avançadas do progresso, esboça
já na sua formidavel cohorte internacional,
dia a dia mais numerosa e disciplinada para
a campanha das revindicações sociaes, que
todos, ainda os mais endurecidos, vai con
quistando, não á mão armada, que nada
edifica sobre a terra, mas pelos milagres da
união e da piedade e assistencia mutua.
Receia-se alguem d'esta candida aspira
ção ? Pois as boas relações internacionaes
são mesmo necessarias á liberdade das na
ções, porque é nos mal entendidos, nas des
confianças e malevolencias que se interpõem
entre ellas, que se estriba a tyrannia, quando
não póde cevar-se nas dissensões intestinas.
E quem ha que não comprehenda, depois
de tantas experiencias, que toda associação,
grande ou pequena, só póde hoje em dia
constituir-se, sustentar-se e valer pelo res
peito reciproco dos seus associados? Que é
que deu á França imperecivel gloria? A sua
epopeia liberal. Que foi que a abateu? O
246 Homenagens

imperio, duas vezes o imperio. Que é que


fez a unidade italiana e a unidade allemã ?
O liberalismo. Que é que a compromete e
quiçá venha a pô-la em risco? A centralização
autocratica e militarista. Que é que tornou
extraordinariamente grande, rica, poderosa
e querida a Inglaterra contemporanea? O
seu liberalismo. Que é que lhe traz as pun-
gitivas dificuldades da hora presente? O
imperialismo. Que'é que resuscitou a Grecia?
O heroismo da liberdade. Só por ella nos
salvaremos tambem, Hespanha e Portugal.
Meus Senhores ! Deixemo-nos levar na
aftectuosa corrente. E hespanhoes e portu
gueses, conscios e ciosos uns e outros dos
nossos direitos, mas tambem da solidarie
dade do nosso destino, demo-nos franca
mente as mãos, abracemo-nos, mais do que
como bons visinhos, como bons irmãos.
A Estudantina de S. Thiago de Composlella 247

Meus Senhores!

A sua visita, que nos trouxe dias de festa,


relembra-me a sua Santiago, envolta, como
numa negra mantilha, nas pesadas sombras
da lendaria cathedral, — cuja molle immensa
parece mesmo o montanhoso coroamento dos
escalvados terrenos graniticos convisinhos — ,
e as esfusiadas de vida que, em meio d'aquella
ascetica desolação, irrompem, á maneira de
um proteste, dos olhos radiosos das mulhe
res e do fogo da physionomia e do gesto, da
animação e da alegria dos rapazes. Toda
risonha de revoadas de esperanças neste
mundo, ergue-se donairosa ao pé da vetusta
cathedral a celebre Universidade. Tenho
ainda bem presente a gentileza do estudante
que m'a andou amostrando, com uma illus-
tração rara para a sua tenra edade: alumno
de direito, de tudo me dava conta, da sua e

Discurso proferido no Instituto de Coimbra na


noite de 23 de fevereiro de 1901.
248 Homenagens

das outras Faculdades. Eu sahi encantado.


Depois é uma cabeça de mulher, toucada de
gloria, que revejo, a da illustre gallega, honra
das letras hispanicas, Emilia Pardo Bazan,
cujo forte perfil avulta pulchramente como a
mascara de um medalhão romano, e cujo
pasmoso talento, robusto, invasor, mundial
como o genio do povo-rei, é ao mesmo tempo
natural, desprendido, ondeante e subtil, fe
minino até na sua propria exuberancia. E a
essa grata imagem se veem juntar na minha
mente as dos abalizados professores, titu
lares do ensino compostellano, que pude
conhecer e admirar mais tarde, uns ainda
hoje no seu posto de combate, proseguindo
nas rijas arrancadas contra a ignorancia e o
erro, outros já infelizmente prostrados pela
morte no proprio campo das suas galhardas
façanhas pelo progresso e emancipação do
espirito humano ! O que eu me sentia, o que
me sinto attrahido por elles, por todo esse
heroico grupo hespanhol de strenuos pala
dinos do ideal, cujo centro, mais que diri
gente, emotivo de acção, se esconde modes
tamente em Madrid, na amoravel Instituição
livre de ensino!... Que saudades! E todo
o meu coração que pulsa estremecidamente
A Estudantina de S. Thiago de Compostella 249

á secussão magnetica de algumas das minhas


mais caras lembranças.
Nesse grupo penso, sempre que penso no
futuro da Hespanha, da prodigiosa Hes-
panha, tão digna de resurgir na historia para
os mais brilhantes destinos. A elle rendo
tambem neste momento as minhas homena
gens, ao acolher aqui, em nome do Instituto
de Coimbra, estes seus discipulos, nossos
amaveis hospedes, filhos da laboriosa e do
lente Galliza, almas gemeas das nossas, que
o mesmo sol aquece e colore egualmente,
que a terra engalana e perfuma de eguaes
flores, que o mesmo largo mar abraça e
enamora com os seus mysteriosos cantos
longiquos, e que o mesmo sangue embala e
atormenta com os mesmos sonhos e a mesma
crispação do infinito.
Meus Senhores ! A antiga intimidade artis
tica e religiosa entre Hespanha e Portugal
accresceram notavelmente desde o meado do
ultimo seculo, pelo esforço sobretudo do povo
trabalhador, as relações industriaes e econo
micas, dia a dia mais numerosas e estreitas.
E oxalá que estas romagens da mocidade
universitaria das duas nações se repitam e
amiudem de uma á outra, para que, ao conta
Homenagens

gio do seu enthusiasmo primaveril, commun-


gando fervorosamente no mesmo culto da
verdade e do bem, ellas entrem de vez no
convivio scientifico e politico, que ha de con
solidar para sempre o seu poderio e o seu
prestigio moral !
O EXERCITO LIBERTADOR

8 DE MAIO DE i834

Minhas Senhoras e Meus Senhores!

A Associação Liberal de Coimbra voltou


a tomar o seir posto de combate, não para
atacar ninguem, mas para pugnar contra o
erro e a oppressão, pela verdade e pelo di
reito. E, como, sob a presidencia do emi
nente cidadão, que fôra secretario das nossas
constituintes de 182o, o visconde de S. Jero-
nymo, inaugurou em 1875 a sua primeira
campanha, assim inaugura agora esta, cele
brando hoje, como então, a entrada trium-
phante do glorioso exercito libertador nesta

Discurso proferido na presidencia da sessão so-


lemne celebrada no salão do paço municipal de Coim
bra, na noite de 8 de maio de 1901.
252 Homenagens

cidade, não só para honrar a memoria dos


bravos que, atravez de tantos perigos, defen
deram e revindicaram a liberdade, mas tam
bem para que jámais esqueçam os damnos
e torturas que lhes infligiu o eterno inimigo
da sociedade e da civilização, a reacção.
A nova acommetida do negro bando, é
indispensavel arredar para sempre da nossa
terra a repetição de tão dolorosas e degra
dantes scenas. E graças a nossos paes, que
já para isso não temos de pegar em armas,
bastará envidarmos um nobre esforço patrio
tico, que póde e deve ser grande e decisivo
pela estreita união de toda a familia liberal!
Nós descançámos demais. E certo que a
liberdade nunca desfallece de todo, e, menos
que em nenhum outro, em peitos portugueses.
Quando o despotismo a imagina avassalada,
ei-la que irrompe de repente com todo o
fulgor, como em 1 385, como em 1640, como
em 1820, como de 1828 a 1834. E em parte
alguma podemos contar mais com os prodi
gios do amor da liberdade do que nesta histo
rica Coimbra, que foi a capital dos heroicos
fundadores da nossa nacionalidade, e tem
sido preferentemente a capital das novas
gerações, de cujo seio sahem sempre os
O exercito libertador 253

mais ardentes soldados das franquias nacio-


naes.
Mas a propria lição do passado nos acon
selha a ser mais acautelados e vigilantes. Por
mais frondosa e abundante de fructos que se
nos mostre a arvore da liberdade, não nos
persuadamos nunca de que ella se radicou
já tanto no coração do paiz, que nada a possa
abalar e enfraquecer. Foi essa confiança cega
o que nos comprometeu ultimamente.
Vimos a nação constituir o governo po
pular das suas parochias, descentralizar os
municipios, crear verdadeiros parlamentos
districtaes, e o principio electivo vivificando
todas as instituições, até chegar a intervir
pela lei constitucional de 1 885 na formação
da camara dos proceres.
E, do mesmo passo, a instrucção pros
perava: ao lado da iniciativa local, princi
palmente dos municipios, que multiplicava
escholas primarias, procurando pela assis
tencia publica povoá-las de alumnos, o go
verno fundava em Lisboa o Museu agricola e
em Lisboa e no Porto os Museus industriaes,
e ia espalhando pelos districtos escholas in
dustriaes e laboratorios, estações e escholas
agricolas; estreava-se ainda pela iniciativa
234 Homenagens

local o ensino primario complementar, e o


estado planeava o ensino secundario médio
para o sexo feminino, sendo pelas cortes
discutida com ardor a reforma dos Iyceus ;
imprimia-se pelo concurso das administra
ções, central e territorial, um forte impulso
ao ensino normal para habilitação de profe
ssores primarios, o ministerio das obras pu
blicas amplificava os Institutos agricolas e
industriaes e o ministerio do reino accres-
centava, ainda que modestamente, as dota
ções do ensino superior; transformava-se
radicalmente a antiga junta consultiva de
instrucção num grande conselho de eleição
de todo o magisterio; e annunciava-se para
breve o estabelecimento definitivo dum mi
nisterio especial para os negocios docentes.
A liberdade parecia garantida.
Mas, dentro em pouco, um vento de insa
nia começou a soprar; e, quando alguns po
liticos sinceros tentaram em 1893 travar a
derrocada liberal, já era tarde de mais para
a força de tão poucos. Dissolveram-se asso
ciações, annullou-se quasi a vida parochial,
reduziu-se o numero dos concelhos, suppri-
mindo-se-lhes as regalias, amesquinhou-se de
todo a administração districtal, suspendeu-se
O exercito libertador 255

dictatorialmente o parlamento, e, usurpado


o exercicio do poder legislativo, dictatorial
mente se lançaram e cobraram impostos, di
ctatorialmente se promulgou até uma nova
constituição retrogada. E tudo isto se fez
affrontosa e impunemente, sem que a nin
guem valesse o recurso para os tribunaes.
Ao mesmo tempo, fechavam-se escholas,
abandonava-se o ensino geral para um e outro
sexo da classe media, proclamava-se o do
gmatismo do ensino secundario official e es-
cravizava-se-lhe em tudo o ensino particular e
domestico: cortaram-se os meios de trabalho
ao ensino superior e ameaçou-se e preteriu-se
o seu magisterio de opiniões mais avançadas;
do conselho superior de instrucção publica
não se conservava mais do que o nome ; e o
ministerio de instrucção publica durou ape
nas um momento. Tanto é certo que, quando
soffre a liberdade, soffre tambem com ella a
instrucção.
Assim chegámos ao lastimavel estado
actual, a este ultimo acto, tão longo já para
os nossos brios, em que, sobre um scenario
de ruinas, temos vistos fusillar lobregamente,
quasi sem intervallo, as iras, as ameaças e
os attentados dos poderosos estrangeiros. Um
25Ó Homenat

dia a Inglaterra, outro dia a Allemanha,


outro a França. Faltava Roma ? Não ! não
faltava. Ella tivera artes de assestar occulta-
mente, antes de ninguem, as suas baterias ;
nós é que, na cegueira em que viviamos, não
davamos por isso. A reacção religiosa le
vantou egrejas ao lado das nossas, oppoz
aos nossos seminarios os seus noviciados,
substituiu os nossos padres, e até, parece,
alguns dos nossos prelados, pelos seus; e,
emquanto não vingava empolgar o governo
de toda a sociedade portuguesa, foi-se apo
derando do espirito dos fracos, dos velhos
e doentes, das mulheres, das creanças. A
maior parte dos hospitaes, asylos e colle-
gios está nas suas mãos. E foi preciso que
o povo, que é quem hoje em todas as partes
revindica a causa da liberdade e da justiça,
foi preciso que o nosso povo, indignado, se
revoltasse contra mais uma das suas aggre-
ssões, já insolentemente feita a descoberto,
para que os nossos corações, sobresaltan-
do-se, dessem rebate de todo o risco que
corriamos.
Juntemo-nos, pois, de vez, decididos, não
é só a não desertar jámais do nosso posto
de honra, é a nunca mais dispersar sequer.
O exercito libertador 257

A situação está longe de ser desesperada.


Não podemos confiar na lei e nos seus agen
tes, nem na justiça dos tribunaes, que tentam
mesmo ás vezes ameaçar-nos com processos
arbitrarios e inquisitoriaes; mas ainda se não
improvizam alçadas que levantem deante de
nós a figura tetrica do patibulo. Já não é
pouco sermos, como somos, açoitados na
nossa honra nos pelourinhos estrangeiros. A
situação é critica, sem dúvida. Desesperada
que fôsse, porém, haviamos de vencer, como
os nossos maiores em 1834, e os vindoiros
haviam certamente de poder celebrar o nosso
triumpho, como hoje estamos celebrando o
d' essa gloriosa epoca.
O que cumpre instantemente, é arcar, sem
nenhuma transigencia ingenua, onde quer
que elle nos aftronte, com o despotismo, para
o desalojar de todos os seus baluartes e redu-
ctos. Os liberaes de então comprehenderam
bem que elle era solidario em todos os seus
campos, e, a golpes redobrados, feriram-no
incessantemente com a promulgação da carta
constitucional no campo politico, com as re
formas fiscaes da Terceira no campo econo
mico, e com a extincção das congregações
no campo religioso. Palmella, Mousinho da
»7
a58 Homenagens

Silveira, e Silva Carvalho com Joaquim An


tonio dAguiar personificam em volta do rei-
soldado, esta triplice campanha. Cumpre-nos,
hoje, como então, restaurar a liberdade em
cada um dos seus dominios.
Por isso eu assisto com júbilo ao duplo
movimento generoso que neste momento
agita e apaixona a alma nacional. Querem-se
substituir por livres associações religiosas as
obnoxias congregações servis, e as prepo
tentes companhias capitalistas por syndicatos
agricolas e associações industriaes de classe
fundadas sobre o cooperativismo.
E tão necessaria é uma liberdade como a
outra. A sociedade não vive só de interesses,
mas tambem de crenças. A religião é o co
roamento moral da arte. Por isso a Deus,
ideal de todo o bem, se erguem basilicas,
como a nossa Sé Velha, que nos encantam
pela solemne harmonia das suas proporções,
e esses templos se recamam de esculpturas,
como tantas de Santa Cruz, e de quadros,
como os do nosso Grão Vasco e da nossa
Josepha d'Obidos, e á divina imagem, ence
rrada em preciosa custodia, — como a dos
Jeronymos, que vale só por si um poema — ,
sôbre um throno de luzes e de flores, os
O exercito libertador

sacerdotes, com as suas vestes de brocado e


pedrarias, erguem o calix da saudação e o
incenso thuriferario, emquanto o povo, em
trajes tambem de gala, lhe entôa em côro os
seus hymnos mais enternecidos. E a santa
aspiração, a anciosa convergencia de todas
as emanações affectivas da arte para o su
premo bem!
A religião é a união das almas pelo amor,
como a economia o é pelo trabalho. E quem
mais religioso do que nós, filhos d'este aben
çoado paiz, onde tudo fala ao coração, tudo
inspira affectos, tudo convida a amar, d' este
paiz, onde o sol cada dia nos faz uma nova
surpreza com os prodigios arrebatadores das
suas auroras e occasos, e, quando se esconde,
ainda reflecte a sua magia em luares incom
paraveis, d'este paiz, onde o campo se es
trella tanto como o ceu, onde o rouxinol
vem fazer o seu ninho e cantar os seus
amores, e onde a voz da mulher é uma
música e a poesia brota espontanea do estro
do povo ? Como não haviamos de ser reli
giosos, e com a exuberancia artistica que
tanto caracteriza este tão meridional catho-
licismo ?
O que é preciso, é moralizar a religião, é
»«
26o Homenagens

contrapor á religião do sobrenatural, da su


perstição, da crença num outro mundo e do
desprêso d'este, a da fé neste mundo e no
seu immanente progresso para a justiça e
para o bem. Ninguem pretende destruir a
religião; o que pretendemos, é fazê-la sin
cera e pura, tornando-a voluntaria e livre.
Mas não basta erigir sobre a liberdade as
associações religiosas e economicas; falta-nos
ainda fundar nella as associações politicas
que não temos, porque não podem merecer
tal nome os centros dos diversos partidos,
sem contacto com o povo, onde a cubica do
poder reune os homens de opiniões as mais
diversas e até oppostas. Todas essas asso
ciações são indispensaveis, mesmo para se
fortalecerem umas ás outras. Da sua força
collectiva é que ha de resultar a força de
independencia e dignidade da nação.
Em todas ellas devemos pensar, quando
damos o nosso voto para a constituição das
auctoridades, desde as parochiaes até ás do
estado. Esse voto decide de todas as liber
dades publicas. Por isso d'este logar exoro
a todos os liberaes não só para que elejam
com toda a consciencia, mas ainda para que
nunca se abstenham de ir á urna. Entendo
O exercito libertador 261

mesmo que a lei devia, como na Belgica,


preceituar a obrigatoriedade do voto, que é
a obrigatoriedade da liberdade, e tambem,
como lá e em tantos cantões suissos, a pro
porcionalidade eleitoral, que é para que a
nimguem fique pretexto de se abster, des
alentado, por não ter comsigo a maioria.
E, se todas as liberdades são necessarias,
e todas são solidarias, e d'ahi as graves di
ficuldades d'este momento, repare-se que
tambem por isso, em compensação, a victoria
que alcançarmos para uma, ganhará logo
terreno para as outras.
A reacção religiosa é tambem politica, e
reciprocamente. Foi ella que sustentou no
throno o governo usurpador de D. Miguel,
foi até mesmo a curia romana a unica corte
estrangeira que o reconheceu. Reciproca
mente, quando foi que se auctorizaram os
jesuitas, proscriptos de Portugal por Pombal,
a cá voltarem? De 1828 a 1834. Quando, já
depois de abolidas, estiveram para se intro
duzir de novo as congregações? Em 1848.
E, ultimamente, sob que gabinete mais re
cresceram as tentativas reaccionarias, e a
sua propaganda mais lavrou, chegando a
arrolar, além das classes ricas e ociosas e da
26a Homenagens

gente simples das aldeias, até numerosos


membros das classes trabalhadoras das cida
des? Foi sob o gabinete dictatorial de 1894.
E o congresso dos prelados, celebrado em
S. Vicente de Fóra, em Lisboa, abençoava
os dictadores.
Ahi téem o jornalismo ultramontano : é ao
mesmo tempo absolutista.
E, para comprovar como a reacção reli
giosa é ao mesmo tempo reacção economica,
que opprime o trabalhador, bastará citar-lhes
os dizimos, que o regimen liberal extinguiu:
elles consumiam improductivamente 33 °/0
dos rendimentos da terra, e eram consu
midos em grande parte pelo clero regular.
Todos sabem os impostos que, sob color de
esmolas e de emprestimos, Roma lança sobre
o paiz; e, emquanto nelle estanciarem as
congregações, o seu aboletamento continuará
a pesar esmagadoramente sobre a economia
nacional. Por isso, quando clericaes e mesmo
indiscretos liberaes nos falem das difhcul-
dades economicas para nos affastarem da
questão religiosa, respondamos-lhes : Já esta
mos tratando d'ellas!
As ordens religiosas atacam a um tempo
a verdadeira religião, cujos primeiros vin-

»
O exercito libertador 263

culos devem ser os do amor da familia, por


que pregam o voto de celibato; a cooperação
economica, porque pregam o voto de po
breza; e o progresso politico da sociedade,
porque pregam o voto de obediencia servil.
Digamo-lo bem claro aos nossos prelados,
para que se desilludam: as ordens monas
ticas são a obediencia absoluta a Roma com
desaire para todos nós. Acceitando-as, pro-
tegendo-as, elles vão irremediavelmente ferir
a patria, portanto a si proprios, á sua digni
dade tambem. D'aqui, d'ao pé de Santa Cruz,
onde jaz D. Affonso Henriques, memoremos-
lhes a lenda do bispo negro, que envolve o
facto historico da violencia com que o nosso
primeiro rei castigou o legado pontificio vindo
a Coimbra para depor o seu bispo. E não
só a lenda e a historia antiga lhes podem
servir de lição e escarmento ; successos muito
proximos falam eloquentemente a este res
peito. Lembrem-se os bispos que reclamam
agora as congregações religiosas, de que
foram ellas que tramaram a guerra feita aos
vigarios geraes seus antecessores de 1834 a
i839, desauctorizando-os até ao ponto de
sei em pela curia romana declarados nullos os
sacramentos que ministrassem os parochos
264 Homenagens

Collados por elles. E não estará sequer viva


no seu coração a dôr pelo desacato com que,
já depois, até as irmãs da caridade se recu
saram a subordinar-se á sua jurisdicção ?
Mas, ainda quando as ordens monasticas
não ultrajassem directamente a sua auctori-
dade prelaticia, o episcopado português não
devia perfilhá-las. O ultramontanismo é ura
crime de lesa-patriotismo. Basta apontar um
facto. Quem foi que nos ultimos tempo elJe
mais freneticamente agrediu entre nós ? To
dos o sabem: foi o homem que mais se con
substanciou com a alma da nacionalidade
portuguesa, o seu immortal historiador, Ale
xandre Herculano. Os prelados, advogando
a causa das congregações, estão sem querer
chamando sobre o sólo da patria a invasão
inimiga de um exercito estrangeiro que, por
não trazer armas na mão, não é menos peri
goso, porque combate, enfranquecendo-nos,
exterminando-nos pela superstição.
Até nas colonias, onde muitos liberaes ha
que as admitem, como se ellas fôssem ne
cessarias á obra civilizadora das missões re
ligiosas, até lá ellas nos estão depredando.
Quem, nos ultimos annos, encetou a nossa
expropriação e desprestigio colonial, antes
O exercito libertador 265

da Inglaterra, da Allemanha e da França,


foi Roma, a oligarchia reaccionaria, que nos
cerceou o nosso padroado de Goa, e nos
arrancou o de Pekim, onde tinhamos sé e
seminario a attestarem que, primeiro que
ninguem, lá chegaramos com o facho da ci
vilização christã. Defraudou-nos em proveito
das suas proprias missões de propaganda, e,
para com o oiro das nossas conquistas, com
prar as boas graças dos que hoje são mais
poderosos, — porque são mais livres — , do
que nós. E quem senão o negro bando rea
ccionario ensina aos indigenas do nosso ultra
mar uma lingua que não é a nossa ? Elles
não empolgam só os nossos bens; dilaceram,
sem piedade, os nossos mais entranhados
affectos.
Querem os prelados portugueses pôr-se em
lucta aberta com a liberdade, com a nossa
independencia nacional? Não o espero do
seu patriotismo. Mas, se, em vez de eman
ciparem as almas, como o missionario Ba
rroso, actual bispo do Porto, no ultramar,
se, em vez de revindicarem os direitos histo
ricos de Portugal á consideração da metro
pole catholica, como anno passado na propria
Roma o bispo d'esta diocese de Coimbra, se,
266 Homenagens

em vez d'isso, hastearem na sua mão a ban


deira da reaccão, por maiores que sejam as
suas virtudes e por maior que seja a vene
ração que lhes consagramos, nós, liberaes,
não mais poderemos beijar-lhe essa mão. E
nem consentiremos que se tente castigar os
nossos filhos, porque se recusem tambem
a beijá-la.
A ASSOCIAÇÃO LIBERAL
DE COIMBRA

A Associação liberal de Coimbra, além de


celebrar com o maior lustre o festivo anni-
versario da entrada do exercito libertador
nesta cidade no dia 8 de maio, honrar sole-
mnemente em 26 do mesmo mez a memoria
preclara do grande patriota Joaquim Antonio
d'Aguiar, e saudar pela voz do seu presi
dente o auspicioso certamen da filial coimbrã
da União dos atiradores civis portugueses,
identificou-se com o movimento da nação em
prol da liberdade religiosa, instando com o

Mensagem de 20 de julho de 1901.


268 Homenagens

governo pela prohibição do ensino aos mem


bros das congregações, pela publicação dos
nomes e destino do pessoal congreganista e
pela creação e organização dos serviços de
inspecção official do ensino, fez profissão
publica de dois principios que devem ser
base da nossa regeneração politica, a obri
gatoriedade do voto, que envolve o principio
do suffragio universal, e a representação
equitativa de todos os partidos proporcional
mente ao numero dos seus eleitores, fundou
a Associação das creches, dotando logo a
cidade alta com uma, que inaugurou no dia
8 de maio, está colligindo meios para subsi
diar uma colonia de creanças pobres, de
compleição debil, que vão nos proximos
mezes retemperar-se com o ar e com os
banhos do mar, promoveu, em sessões pre
paratorias de uma grande assembléa que ha
de reunir- se em outubro, a formação de uma
cooperativa, operaria de consumo, a cujo
cargo virá a ficar a sustentação de cozinhas
economicas para as classes trabalhadoras, e
não só inaugurou no dia 26 de maio cursos
de instrucção de adultos, que proseguirão
depois de ferias, e vai por estes dias collocar
em varios estabelecimentos particulares caixas
A Associação liberal de Coimbra 269

de esmolas ou mealheiros para soccorro aos


analphabetos, mas empenha os seus maiores
esforços para constituir uma associação, em
que as senhoras tomem principal parte, que,
no principio do novo anno lectivo, possa
abrir um collegio para a educação liberal do
sexo feminino, contando, a demais, que para
então começará tambem a funccionar um
curso de enfermeiras, de sua iniciativa. E
não resumi ainda por completo a sua acção
generosa. Acima de todas as obrigações,
impunha-se-lhe a de ser uma verdadeira
sociedade, digna do seu nome, pugnando
corajosamente pela causa da honra e da se
gurança individual dos seus socios. D'essa
obrigação teve que se desempenhar duas
vezes, num processo disciplinar academico
e num processo crime do foro commum : de
ambas ellas reclamou, como lhe cumpria,
para os accusados o direito de serem julga
dos, com todas as garantias de justiça, pelos
tribunaes legaes competentes, e não pelo
arbitrio da auctoridade ou pela murmuração
das ruas, porque tanto lhe repugna o despo
tismo do poder como o da multidão.
A Associação liberal de Coimbra deve
estar contente de si; e eu, que tenho de me
270 Homenagens

ausentar com demora, — declinando a sua


presidencia, reconhecido, — faço votos sin
ceros por que ella continue fielmente, na mais
perfeita cordialidade de cooperação entre os
seus membros, sem jamais faltar a nenhum
com a sua assistencia, a sua nobilissima
campanha.
A i/ EXPOSIÇÃO
DE BELLAS-ARTES EM COIMBRA

Meus Senhores!

Quando hontem, de manhã, recebi o con


vite do sr. Pinho Henriques, fiquei surprehen-
dido pela novidade e atrevimento da tenta
tiva — uma exposição de pintura e esculptura
em Coimbra ! — mas surprehendido e sedu
zido ao mesmo tempo, surprehendido sympa-
thicamente, porque apesar dos meus cabellos
brancos, eu sou sempre um irreductivel
crente, e creio deveras no esforço, tão pa
ciente como arrojado, das nossas classes
trabalhadoras. Formei por isso logo tenção

5 de dezembro de 1901.
27a Homenagens

de vir á inauguração d'esta exposição; e da


melhor vontade cedi depois ao pedido que
pessoalmente me fez o seu promotor para
lhes dizer o que penso d'ella.
Qual o significado e alcance d'este modesto
certamen? E mais uma tentativa envidada
pelas ultimas gerações para fazerem com que
Coimbra mereça o titulo de Lusa Athenas,
não só pelo seu brilho nas sciencias e nas
letras, mas tambem nas bellas artes. E não
ha dúvida que, graças a tão generosa cam
panha, esta cidade, além de despertar para
a guarda e enthesouramento do seu espolio
artistico, tem-se recentemente embelezado
com successivas construcções, deante das
quaes já paramos com um certo enlevo.
Mas quanto, apesar de tudo, não falta para
se chegar a ter uma nova cidade digna da
antiga, cujas preciosas reliquias ainda hoje
ahi attestam como fômos grandes tambem
pelo coração ; quanto não falta para a tornar
digna d'esta sonhadora natureza, tão florida
e nupcial, que a não ha mais propria para
accender inspirações no estro nativo da nossa
gente !
E não basta melhorar architectonicamente
as habitações, não é menos preciso melhorar,
A /.* Exposição de Bellas-Artes em Coimbra 273

espiritualizar tambem o seu interior, e tal é


o principal fim que se propõem a pintura e
a esculptura. Quando a sociedade moderna
conseguir levá-las a todas as moradas, até ás
mais modestas, terá realizado uma das suas
mais nobres e abençoadas aspirações.
Fala-se, mesmo entre nós, de providencias
de hygiene e moralização publica, e nada,
de facto, mais urgente, principalmente entre
nós. Mas convençam-se todos de que essa
obra de saneamento social não se póde fazer
só directamente; e um dos grandes meios
por que ella se ha de ir effectuando, é pelo
derramamento da instrucção esthetica, que
leve a todas as classes o gosto, o conforto e
a dignidade das emoções delicadas. Um qua
dro, um busto que se ponha dentro de uma
sala, exige logo que se abram mais rasgadas
as janellas para que entre a luz e se veja
bem, e, com a luz, entrará o ar e a saude,
e, sob a magia das recordações que se ence
rrem nesse quadro ou nesse busto, o marido
e o filho hão de sentir-se mais attrahidos
para o seu lar e fixar-se nelle.
Ah! a arte tem a maior virtude educativa.
Não é só, abrindo uma eschola, que se fecha
uma prisão. E num paiz, onde infelizmente
18
274 Homenagens

aos ocios da população, ás horas e dias


feriados da nossa mocidade, quasi se não
abrem senão casas perigosas, mais que em
parte alguma a abertura de uma exposição
como esta merece ser festejada. Cumpri
mento com toda a effusão o seu benemerito
iniciador, assim como os talentosos artistas
que tão louvavelmente para ella contribui
ram.

{
JOÃO PENHA

Á tarde, depois de jantar, eu era um dos


mais assiduos frequentadores do gabinete de
trabalho de Crespo; e contasse que, em fal
tando algum dia, já um bilhete d'elle, incisi
vamente convidativo, me vinha chamar ás
nossas leituras e aos nossos largos passeios,
ad agros, como dizia João Penha.
Moravam ambos numa das casas das boas
senhoras Seixas, na mais pequena, um pouco
recolhida da rua, a mesma, onde morara
tambem Alvaro do Carvalhal, que estou re
vendo, com os seus grandes olhos mortiços,

Escripto para um numero especial da Chronica,


em 8 de janeiro de 1902.
Homenagens

o pequeno bigode descahido e os lisos cabe-


llos, mais negros do que a sua capa e batina,
a destacarem funereamente sobre a palidez
exangue do rosto, e onde morava ainda
Alberto Braga, o inexhaurivel, o inegualavel
conversador, naquella alcantilada Couraça de
Lisboa, por onde eu, na minha vibratilidade,
nunca subia sem a mais dôce commoção, a
olhar para a belleza tocante da paisagem, e
a enlevar-me, já de longe, na convivencia de
tão bellos espiritos. Quantas lembranças ella
me evoca! Mal se sahia d'entre os Palacios
Confusos, logo na volta, a casinha branca,
que mais parecia uma capella, da familia
Vianna, mãe, filha e filho, 0 joven Antonio
Vianna, grupo de pureza tão esthetica; de
pois, a livraria do famoso theologo dr. Motta
Veiga, estudando copiosamente á janella;
depois, num rez-do-chão, a mais loira das
mulheres, com as mais doiradas das crean-
ças, a enfeitar chapeus de senhoras; defronte
dos dois poetas, a Mimi das Miniaturas de
Crespo; e, para cima, a esbaterem-se nas
brumas do mysterio, o helenista Moraes e o
rhetorico Borges de Figueiredo.
Como tudo está hoje tão mudado! Só não
mudou a encantadora paisagem do Mondego.
João Penha 277

Quasi tudo mais morreu, desappareceu, dis-


persou-se. Até a propria casa de João Penha
e Crespo foi impudentemente alinhada, e
demoliram a escada e o balcão que davam
accesso para ella. Nem esse sóco glorioso
respeitaram!
Toda a casa era habitada pelo genio de
João Penha, que descia sobre nós domina-
doramente do seu segundo andar, envol-
vendo-a no seu legendario prestigio. Mas
raro ali o tinhamos pessoalmente comnosco;
e, na casa principal, onde ficava a espaçosa
sala de jantar, só nos dias festivos, quando
os debates se prolongavam á mesa, em torno
do peru assado com farinha de pau na enxun
dia, á moda brazileira, pela receita do nati-
vista Crespo. O seu quarto era um sanctuario
inviolavel. Quem tinha poesia ou prosa para
lhe mostrar, ia lá apenas entregar-lh'a; e
elle depois a restituia com as suas correcções,
singelamente, accrescentando antes um gesto,
um sorriso de incitamento ás esperanças do
neophyto do que qualquer dissertação oral.
Os mais vivos commentarios, reservava-os
para os acalorados lances dialecticos em que,
nas horas de ocio, a sua critica austera,
atravez dos seus gracejos e paradoxos, se
278 Homenagens

exercia peripateticamente cá por fóra. Por


isso até poucos adivinhavam quanto aquelle
parnasiano, a quem as excentricidades da
vida exterior davam a apparencia dum chefe
de bohemia, era, ao mesmo tempo, na clau
sura da sua cella, um matinal estudioso,
paciente manuseador de todos os codigos e
apostillas, que saberia mais tarde honrar no
seu escriptorio os creditos do insigne cau-
sidico Manuel Penha, seu paternal irmão.
Avaliava-se d'elle pelas aulas, onde, como
sempre em publico, a sua timidez contras
tava pasmosamente com a scintilação crepi
tante da sua conversa na roda intima dos
seus amigos. Havia comtudo alguem que
bem pudera fazer revelações a esse respeito;
era Crespo, que, mal o sentisse, recolhendo
á noite, corria logo a cerrar-se, de candieiro
apagado, cautelosamente, não viesse elle
interpelá-lo com perguntas e questões sobre
a lição do dia seguinte, a querer levar de
assalto assumptos que Crespo, essencial
mente artista, um tanto supersticioso, cria
que, só acotovellado á banca, de sebenta
adeante, numa branda concentração proxima
do somno, podiam, sem risco de estenderete,
ser convenientemente digeridos e cabecea-
João Penha 279

dos. Nada de brincadeiras com coisas tão


serias !
Mesmo no gabinete de Crespo, de ordi
nario só Jde passagem João Penha assomava
no vão da porta, á nossa espera para sairmos
todos juntos, de monoculo, a cabeça bam
boleante, com a ampla capa pendente da gola
presa pelo alamar, mais que correcto, primo
roso, um ar sybilino, entre ironico e vidente,
intimando-nos á partida. E lá iamos levados
magneticamente, a escutar a sua palavra.
Porque elle era o centro de attracção dos
nossos inquietos espiritos, anciosos de se
desprenderem de todo o formalismo e ritual
academico para se arremessarem fervente-
mente em todos os jogos livres da imaginação
e do pensamento. Sob o seu influxo, a effer-
vescencia cerebral com que reagiamos á dis
ciplina sempre um tanto rigida e dogmatica
das aulas officiaes, desaffogava-se, tomava
azas e volitava pelo ar, na descuidosa palpi
tação das mais remontadas aspirações. De
per si só, com os seus talentos e a sua cul
tura, elle personificava um verdadeiro ensino
universitario, como, antes d'elle, João de
Deus e Anthero. E o que era esse magiste
rio, aprecie-se, basta, por dois discipulos
280 Homenagens

seus, que se foram tornando seus collabora-


dores e emulos, Crespo e Junqueiro.
João Penha era para nós, seus contempo
raneos, mais até do que um mestre; era o
pontifice d'esta independente egreja coimbrã
em que sempre as almas juvenis, sedentas
de ideal, téem ido commungar na pura ado
ração da verdade, do bello e 'do bem. Cheio
de curiosidade por tudo, tão repentista como
laborioso, poeta e prosador impecavel, humo
rista, a sua figura, de fino relevo original, não
tinha comtudo arestas que ferissem. Admi-
rava-se e estimava-se. Tão delicado de cora
ção como de feições e de maneiras, a sua
superioridade não doia a ninguem; e, com
tantas prendas singulares, o que ainda agora
mais me lembra d'elle, é a sua cordialidade.
Quantas vezes, de inverno, elle voltou
acima ao seu quarto, onde guardava, a bom
recado, os lenços de seda com que as cari
nhosas das irmãs o presenteavam na vinda
de ferias, para me atar um ao pescoço, que
me preservasse do frio da tarde ! E um anno,
que fiquei reprovado num dos meus exames,
elle, que tanto se perturbava com a impre
ssão do grande publico, ao receber a sinistra
noticia, saltou indignado, em impetos de ir
João Penha 28.

para a rua amotinar as massas, clamando:


E preciso fazer uma revolução!
João Penha revolucionario! A mim fez-me
sorrir, mas foi de sincero enternecimento, no
mais desvanecido alvoroço de gratidão.
A ESTUDANTINA DE VALLADOLID

Meus Senhores!

Com enternecido alvoroço de jubilo, o Insti


tuto de Coimbra reabre hoje as suas salas á
reunião da mocidade academica de Hespanha
e Portugal; e, em seu nome, me congratulo
deveras pela repetida troca de visitas entre
os juvenis representantes das duas nações
irmãs, porque é assim, approximando-se,
conhecendo-se e estimando-se, que elles po
dem preparar-se eficazmente para bem se
auxiliarem no desempenho das arduas res
ponsabilidades que sobre uns e outros im-

Allocuçao pronunciada no sarau dado pela aca


demia de Coimbra no Instituto, em 17 de fevereiro de
1902,
284 Homenagens

pendem para futuro. Como não hão de ficar


para sempre mutuamente devotados, melhor
do que pelos artificios da mais habil das
diplomacias, aquelles que, um dia, num inter-
vallo d'estas recepções solemnes, sentados á
mesma banca de estudante em intimo desa
fôgo, palrando com legitima emulação das
glorias das suas patrias, de repente, assal
tados por egual pensamento das amarguras
da hora presente, emmudeceram, as lagrimas
a saltarem-lhes dos olhos? O transporte de
dor com que então sympathicamente se abra
çaram, firmou um pacto sagrado de alliança
que nada jámais é capaz de romper.
Ah! Estas suas carinhosas viagens são um
nobre passatempo das suas ferias. Ellas não
divertem só, instruem, educam; e não for
mam só os sentimentos humanitarios, acen-
dram, vivificam e elevam o patriotismo.
Quem é que, de volta ao seu lar, mais ainda
do que pelos soberbos ou graciosos quadros
do paiz natal, se não sentirá encantado e em
polgantemente commovido pelo espectaculo
que ao mesmo passo se lhe vai desdobrando
pelo caminho, do esforço, das canceiras e
sacrificios com que os seus antepassados,
accrescentando e melhorando a obra da natu
A Estudantina de Valladolid 285

reza, em fervorosa lide de sol a sol, coroaram


de pinheiraes o pincaro dos montes, socal
caram a oliveira e a vinha na escarpa das
encostas mais fragosas, aclimataram a laran
jeira na dobra do mais esquivo valeiro, e,
em porfiada luta com a torrente das aguas,
converteram o areal da planicie no campo
fertil do milharal e da horta ? O que lhes
não devemos, a esses heroicos trabalhadores,
que, tanta vez mesmo, tiveram de interrom
per a sua rija faina para acudirem, nos mais
arriscados lances, pela vida da sua progenie!
A elles devemos sobretudo o melhor de nós
mesmos, o nosso nome.
Cumprimentando os gentis alumnos da
Universidade de Valladolid, faço cordiaes
votos por que a illustre Hespanha encontre
nas suas novas gerações os valorosos filhos
de que, como nós, precisa.

Com as novas gerações volve sempre a

Escripto para o n.° unico Portugal e Hespanha


dedicado pela Academia de Coimbra d Estudantina
de Valladolid.
286 Homenagens

florescer sobre a terra a primavera da alma.


Felizmente que o mal, que nada edifica, tem
contra si as proprias forças hereditárias da
vida. Vejam como, neste mesmo momento,
contrasta a jovial e affectuosa expansão com
que por toda a parte os estudantes trocam
entre si visitas, estendendo-se as mãos d um
paiz para outro, com a rude e barbaresca
expansão brutalmente pregada pelos diri
gentes das nações mais poderosas contra as
mais fracas. Salve-a Deus, generosa moci
dade hespanhola e portuguesa! E que, sob
este nosso constellado ceu, cresçam e vin
guem outra vez as virtudes historicas que
nos immortalizaram o nome !
ATHENEU COMMERCIAL
DE COIMBRA

Minhas Senhoras e Meus Senhores !

Só duas palavras, para encerramento d'esta


sessão commemorativa da fundação do Athe-
neu Commercial de Coimbra e dos beneme
ritos serviços que lhe tem prestado o seu
socio protector, o sr. Cassiano Martins Ri
beiro, porque não quero turvar a impressão
que nos deixaram os excellentes discursos
que acabamos de ouvir. Além de que, por
mais que me lisonjeie a consideração com
que me distinguiram, collocando-me neste

Allocução proferida, a 18 de maio de 1902, na


presidencia da sessão solemne do 6." anniversario do
Atheneu Commercial de Coimbra.
288 Homenagens

logar de honra, não devo retardar, já agora,


o desafogo por que de certo todos suspi
ram; que, eu não me illudo, sei perfeita
mente que, nestes saraus festivos, a palavra
dos oradores, por mais auctorizados e que
ridos que sejam, não passa nunca de um bom
pretexto para se prestar culto á eloquencia
de outras bocas bem mais inspiradas e inspi
radoras.
A minha pena mesmo é que os nossos em
pregados do commercio quasi só nas occa-
siões solemnes, como esta, estreitem o seu
convivio com o bello sexo. Mas se a sua
classe é ainda tão exclusivamente masculina !
E não o digo com pezar, só no legitimo inte
resse da mulher, que não tem menos do que
o homem o direito de exercer qualquer pro
fissão para ganhar a vida independentemente;
lamento-o tambem no interesse do proprio
, homem, que, longe da mulher, jámais desen
volverá por completo as suas faculdades de
iniciativa e de trabalho, e sobretudo no inte
resse da constituição e bôa harmonia da
familia e da sociedade.
Emquanto a mulher e o homem se não
associarem nos mesmos misteres desde a
juventude, tratando-se, dia a dia, de perto,
O Atheneu Commercial de Coimbra 289

mal lograrão conhecer-se, e a escolha dos


esposos continuará a fazer-se como a eleição
dos deputados, o que, sem ter eguaes incon
venientes para o homem, porque a mulher é
quasi sempre ainda melhor do que se ima
gina, tem-nos infelizmente gravissimos, de
sastrosos, tanta vez, para ella e para os filhos.
Sem ella, que, pela sua presença, acendre os
sentimentos delicados da classe, quando dei
xará a vida mercantil de prejudicar a vida
domestica, e ousaremos emfim esperar ver
satisfeita esta justa aspiração de que as lojas
se fechem durante os dias santificados e ao
meio dia e ao anoitecer dos dias uteis, de
modo que os negociantes e os seus empre
gados possam desempenhar-se conjuncta-
mente das suas obrigações de uma e de
outra vida ?
E não são menos importantes as conse
quencias sociaes da livre participação da
mulher no trafego commercial. Primeiro, a
classe ganharia logo em dignidade, porque,
quando se virem senhoras ao balcão e á
escrevaninha, ninguem mais se atreverá,
penso, a entrar, como hoje, de chapeu na
cabeça numa casa de negocio, e os proprios
negociantes, começando naturalmente a inte
19
290 Homenagens

ressar-se pelas suas empregadas, pondo-lhes,


por exemplo, cadeiras para ellas descança-
rem, como já lá por fóra é de lei, em breve
chegarão a olhar com mais attenções e des
velos por todo o seu pessoal. Depois — rele-
vem-me os amaveis membros do Atheneu
Commercial, que tão gentis se mostram para
com os seus freguezes, a minha pondera
ção — não é verdade que a todos será sem
pre, em geral, mais grato fazer as suas com
pras a senhoras do que a homens ? Mas não
é simplesmente isto ; ha mesmo artigos que
só ellas podem vender com competencia e,
para que não dizer tudo ? sem ridiculo. Admi-
te-se lá por ventura um empregado de loja
de modas a explicar a uma menina como
ella se deve vestir? Não é sequer decoroso.
E, quando a mulher occupar os empregos
sedentarios do commercio, que hoje o homem
usurpa, sobrarão outros tantos caixeiros via
jantes, que vão da metropole até ás colonias
cimentar solidamente as nossas relações eco
nomicas e com ellas a riqueza e o engran
decimento da patria.
Eis porque, congratulando-me devéras por
esta festa, prova brilhante da cordialidade
dos membros do Atheneu Commercial e do
O Atheneu Commercial de Coimbra 291

apreço que merecem á sociedade coimbrã,


aqui luzidamente representada, faço sinceros
votos por que, no baile com que solemniza-
rem o proximo anniversario da fundação da
sua sympathica sociedade, já possam tirar
para par algumas companheiras da sua tão
util e nobre profissão.
DR. JOAQUIM AUGUSTO SIMÕES
DE CARVALHO

Meus Senhores!

Venho aqui, coberto de lucto pela morte


d'um dos nossos eminentes homens de scien-
cia, que foi ao mesmo tempo um dos mais
egregios vultos da nossa Universidade, o
dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho.
Grande orador e grande escriptor, o seu
ensino, que fez a instrucção e o encanto de
successivas gerações durante trinta annos
ininterruptos, revestia, com as formas mais
agradaveis, o tom solemne d'uma verdadeira
magistratura social. Com elle, aprendia-se

Allocução proferida á beira da sepultura, em


Coimbra, 15 de junho de 1902.
*94 Homenagens

mais do que simplesmente a sciencia ; apren-


dia-se a amá-la como um dever, como um
bem, e a venerar como sacerdotes os seus
mestres. A sua palavra vibrante, commovida,
tinha o maravilhoso condão de elevar todos
os assumptos á dignidade moral; e, em todas
as questões que elle agitasse, sentia-se pulsar
fundo no seu coração o interesse humano.
Exemplar acabado do professor, foi sempre
o humanista, o educador, cônscio de que
sobre elle impendia com todas as suas graves
responsabilidades o sagrado encargo do go
verno das almas juvenis.
Tudo na sua majestosa figura, até o seu
ar antigo, que tão bem se ajustava com a
grandeza heraldica das tradicionaes pompas
academicas, contribuia para firmar no animo
dos discipulos a sua auctoridade paternal.
Bastava a sua só presença para infundir á
sala da aula um aspecto imponente, quasi
religioso; e eu, que tive a honra de ser seu
alumno, ainda agora o estou vendo na cathe-
dra, envolto nas severas dobras da capa
doutoral, a alvura das mãos e do rosto des
tacando sobre o fundo negro da batina, com
a coroa dos seus raros cabellos cingida, como
num nimbo, pelos reflexos brilhantes da sua
Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho 295

vasta fronte, nervosamente tenso o corpo


todo, quasi sem gesticular, mas extraordina
riamente moveis os olhos e a boca, falando-
nos numa melopêa e com uma uncção tão
penetrante que a sua lição assumia para nós
todo o prestigio dum apostolado.
O seu zelo pelo magisterio confundia-se
com o seu acrysolado culto pela patria. Ser-
viu-o nobremente pela eloquencia das suas
prelecções, pelos seus claros escriptos, entre
os quaes serão sempre apreciadas como um
primor as suas Lições de Philosophia Chi-
mica, e pela devoção com que, em todas as
occasiões, celebrou os nossos fastos docen
tes, assignaladamente no centenario da re
forma pombalina da Universidade, a que,
com inexcedivel solicitude filial, pôde consa
grar um digno padrão de reconhecimento
nas palpitantes paginas da sua substanciosa
Memoria Histórica da Faculdade de Philo
sophia. E, com o peito assim constellado de
serviços, quando atingiu felizmente o termo
da sua benemerita carreira, quem dos pode
res publicos ou das corporações officiaes aco
rreu a entregar-lhe, em festiva homenagem,
algum dos laureis por elle galhardamente
conquistados em tão porfiosas lides escho
296 Homenagens

lares ? Quantas vezes, desde então, se ouviu


sequer pronunciar o seu nome illustre ?
Ai! como em Portugal morrem depressa
os melhores servidores da nação !
DR. BERNARDO ANTONIO
SERRA DE MIRABEAU

Meus Senhores!

O dr. Bernardo Antonio Serra de Mira-


beau, cuja rija compleição, mais ainda que
a edade, a cruel doença acaba de prostrar,
foi, além dum cathedratico emerito, auste
ramente consagrado ao diuturno desempenho
do seu magisterio, um fervoroso crente na
virtude soberana do ensino, em que por si
proprio procurou multiplicar-se, mostran-
do-se tão insigne na regencia da ardua espe
cialidade que tinha officialmente a seu cargo,
como na larga doutrinação humanista que

Allocução proferida a beira da sepultura, em


Coimbra, 13 de janeiro de 1903.
298 Homenagens

livremente professava para a disciplina geral


da juventude.
Por isso, pelas viris esperanças que punha
nas nossas instituições docentes, ninguem
conhecia melhor a vida de cada uma, sobre
tudo a da sua Universidade, que elle amava
religiosamente, como bem lh'o demonstrou
na devoção dos seus serviços, entre os quaes
sobresahe pela magnitude a sua Memoria
Histórica da Faculdade de Medicina, a que
pertencia, monumento pedagogico do mais
puro classicismo, erguido com todo o carinho
literario pelas suas mãos piedosas. E com
que fremente enlevo elle associava sempre
as nobres tradições heroicas da academia
de Coimbra aos gloriosos épos do nosso
immorredoiro genio nacional! A solemne
intimativa do seu gesto um tanto marcial
imprimia então um grave accento de irre
sistivel transporte á sua poderosa palavra,
diserta e castiça, accendendo de novo na
sonoridade da sua voz os eloquentes brios
que, logo na adolescencia, entre condiscipu
los, na sua lendaria Beira, lhe_ haviam addi-
tado ao appellido de familia um cognome
celebre. E que, sob o severo aspecto d'aquelle
erudito sabio, palpitava insoffridamente um
Dr. Bernardo Antonio Serra de Mirabeau 299

coração generoso de liberal e patriota, que


saberia, em qualquer lance, solver com a
maior hombridade todas as sagradas obri
gações d'honra do cidadão.
Não se eximia a nenhuma, por grande ou
minima que fôsse. E nem o seu animo bizarro
era capaz de se cerrar, indifferente, ás soli
citações de ninguem ; posso, com sobejo mo
tivo, atestá-lo, eu, que, na qualidade de pre
sidente do Instituto, de que elle era muito
digno socio honorario, e pessoalmente, como
seu amigo, tanta vez recorri aos seus desin
teressados bons officios sem nunca lhe esgo
tar a infatigavel complacencia. Ai, nestes
tristes tempos, em que o grosseiro e lethal
egoismo das nossas classes dirigentes tudo e
todos ameaça contaminar, que immensa falta
não faz ao nosso anciado meio a figura assim
espiritual dum homem superior, exemplar
mente fiel ao dever e ao bem, que, sem
orgulhos, na simplicidade estoica da sua exis
tencia, de todos os labores e canceiras parecia
sentir-se bastante recompensado só pelo pra
zer de, aos domingos, desenclausurado das
suas absorventes occupações, atravessar,
entre os respeitos geraes, as ruas da cidade,
aprumando-se ternamente ao braço gentil da
3oo Homenagens

filha amantissima! Tocante quadro, que não


esquecerei jámais.
Meus Senhores ! Com o dr. Serra de Mira-
beau, não é só um dos ultimos illustres re
presentantes duma geração valorosa que
desapparece; vai-se tambem cada vez mais
com esses venerandos velhos o culto do ideal"
DR. PEDRO AUGUSTO
MONTEIRO CASTELLO BRANCO

Com a morte do dr. Pedro Augusto Mon


teiro Castello Branco desappareceu d'entre
nós uma das personalidades mais geralmente
queridas, e que mais falta fazem neste meio
d'intellectuaes, onde é forçoso confessar que
a paixão das idéas, desprendendo-se por
vezes de todo o liame social, disperdiça
muito do seu poder militante em deploraveis
excessos e conflictos. Elle era um salutar
exemplo de quanto a bondade governa os
espiritos, ainda os mais irrequietos e diffi-
ceis de disciplinar. Estimado sempre pela
nobreza do seu caracter, foi na eschola da
vida publica que se lhe acendraram e desen
volveram as tendencias do seu animo natu-

O Instituto, fevereiro de 1903.


302 Homenagens

ralmente generoso, e que elle adquiriu o


largo conhecimento dos homens e aquella
delicadeza de tacto que tornavam tão procu
rado o seu conselho e tão penetrante e efficaz
a sua bôa influencia. Habitando um arra
balde, d'ares lavados como o seu coração, a
sua casa offerecia a quantos lá iam, um centro
moral, quasi unico, de benevolencia e apa-
ziguamento, não menos hygienico do que o
proprio sitio. Dir-se-ia que elle escolhera de
proposito para residencia uma cumiada, de
onde abraçasse com a vista os poeticos en
cantos de Coimbra sem nada poder de lá
distinguir das suas mesquinharias, e que na
belleza d'essas grandes linhas, que contem
plava, embevecido, a sua alma affectuosa se
inspirava incessantemente para a obra de
união e cordialidade a que se devotara.
Da vida, tão portuguêsmente leal e dedi
cada, do dr. Pedro Augusto Monteiro Cas
tello Branco colhamos todos a preciosa lição
civica que ella encerra, e assim prestaremos
a melhor homenagem á sua memoria saudo
sissima.
ÍNDICE

Pag.
O Marquês de Pombal 5
A Sociedade de instrucção do Porto 3i
O Curso superjor de letras 41
Os Martyres da liberdade 45
O Exercito libertador 47
Os Veteranos da liberdade 67
Garrett e sr. F. G. de Amorim 69
A Universidade de Coimbra 73
A Associação Victorino Damasio 83
D. Antonio da Costa 85
O Congresso pedagógico de Madrid 87
O Congresso geographico de Madrid 97
A Institucion libre de ensenanza 100
O Infante D. Henrique 109
O Congresso viticola nacional de 1895 n3
O Asylo de S. João, de Lisboa 1 33
João de Deus 1 37
José Elias Garcia 141
O Concurso pecuario de Montemor-o-velho. . . 145
Duarte Fava 149
D. Francisco Giner i5i
Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho 1 53
Bispo Conde 157
Joaquim Martins de Carvalho \5q
Rodrigues de Freitas 161
A Exposição calligraphica de Coimbra i65
Índice

Pag.
Arthur Loiseau. 169
A Academia de Coimbra 171
Dr. Francisco Antonio Rodrigues d'Azevedo... . 173
O segundo Congresso do magisterio primario. 175
Meus Paes 177
Dr. Damasio Jacintho Fragoso 179
A Academia de Coimbra 181
O terceiro Congresso do magisterio primario.. i85
João Jodrigues Vieira 189
O Congresso em honra da Cartilha Maternal. . 191
Mousinho d'Albuquerque K)5
Joaquim Martins de Carvalho 3% . . . . 198
Garrett 2o3
Anthero do Quental 211
A Academia de estudos livres 219
Dr. Julio Cesar de Ssnde Sacadura Botte 223
O licenciado Alberto Pessoa 225
O Grupo Musical José Mauricio, de Coimbra . . 227
Dr. Augusto Rocha 235
A Estudantina de S. Thiago de Compostella . . 241
O Exercito libertador 2S1
A Associação liberal de Coimbra 267
A 1." Exposição de bellas.-artes em Coimbra.. . 271
João Penha 275
A Estudantina de Valladolid 283
O Atheneu commercial de Coimbra 287
Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho .... 293
Dr. Bernardo Antonio Serra de Mirabeau 297
Dr. Pedro Augusto Monteiro Castello Branco. 3oi
Preço - BOO réin
I

the
stamped below. incurred

m Please return promptly.