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Ineficiência dos Pregões: Razões e Soluções

No Brasil licitação compreende procedimentos administrativos


rigidamente formais com forte participação jurídica, divorciados
do planejamento e da gestão, com a firme convicção dos
jurídicos e gestores de que somente a técnica jurídica é
suficiente para comprar e contratar com bom preço e com
qualidade.

No Brasil compra-se e contrata-se com total desprezo à técnica


e à gestão.

Tal concepção criou a cultura daquele Agente Público


(pregoeiro, comissão de licitação, fiscal e gestor de contratos,
ordenador de despesa, controle e auditor interno, jurídico entre
outros) de ter como foco o fornecedor e não o produto ou
serviço.

Todos os atos de julgamento vão ao encontro do fornecedor,


ficando em segundo plano o produto, serviço ou obra.

“Em síntese, o que se julga é a capacidade de o fornecedor ser


contratado pela Administração Pública e não o produto ou
serviço que ele pode oferecer.”

Essa cultura tem raízes tão profundas que mesmo com a


inversão de fases trazidas pelo Pregão e posteriormente pelo
RDC (onde se priorizou o julgamento da proposta em primeiro
lugar), mesmo a proposta sendo a melhor em qualidade e
preço, ela pode não ser contratada se o fornecedor estiver com
um documento em desacordo com o edital.

“É a cultura cartorial em detrimento da Administração


Gerencial. Uma total falta de sintonia com o interesse público.”

Temas importantes tais como Mapa de Risco, Gestão de Risco


e Compliance chegaram recentemente no cenário licitatório
brasileiro, cujas práticas podem dar um novo rumo à eficiência
nos Pregões, mas ousamos dizer que a falta de
profissionalização nas áreas de gestão de compras, gestão de
estoques, gestão de patrimônio, gerenciamento de serviços,
gerenciamento de obras, gerenciamento de projetos e gestão
contratual no Serviço Público, compromete os resultados que
tais ferramentas podem promover.

Não basta uma norma jurídica impor a existências de mapa de


riscos e gerenciamento de riscos se para tal não existem
profissionais que saibam mapear e gerenciar riscos contratuais.

Outro aspecto não menos importante que afeta a eficiência do


Pregão é a irresponsabilidade dos Gestores Públicos nos atos
de nomeações para tais funções, comprometendo todo o
sistema de execução do orçamento público na área de
investimentos e custeio.

Em tais nomeações, o nível de profissionalização é tão


pequeno que se tem como satisfatório um curso livre de 02 ou
03 dias para realizar a formação de um Pregoeiro. O nível
torna-se menor ainda quando o assunto é o aperfeiçoamento
anual desse e outros Agentes Públicos que atuam no processo.

A norma jurídica exige que o Pregoeiro seja capacitado para a


função, o que, entretanto, não se perguntou ao legislador, qual
era o nível de tal capacitação.

Nesse cotidiano o Pregoeiro funciona como gestor de compras;


gestor de qualidade; gestor de estoque; gestor de patrimônio,
contador (para fazer a leitura do balanço patrimonial do
fornecedor) e, adicionalmente precisa ser detentor de
conhecimentos jurídico sob pena de ser responsabilizado por
dano ao Erário e afronta ao principio da legalidade.

A análise e aprovação jurídica do processo pouco se aproveita


para a defesa do Pregoeiro e daqueles que atuam no processo
de compras e contratações públicas, inclusive o autor de
projetos e a Autoridade Administrativa, visto que a orientação
do Causídico não se vincula à decisão do Gestor.

Está claro na legislação que cada Agente Público responde


pessoalmente por suas decisões nos processos de licitações,
ainda que sua decisão tenha seguido um parecer jurídico.
Ineficiência dos Pregões: Razões e Soluções
Logo, por todos esses aspectos, entre tantos outros não
abordados neste artigo, ressaltamos que os procedimentos
criados pela legislação de licitações para comprar e contratar
não encontra na Administração Pública um ambiente
vocacionado e tecnicamente preparado para realizar sua
missão, que é a escolha da proposta mais vantajosa.

Como deveria ser esse ambiente?

Um ambiente dotado de toda estrutura tecnológica,


metodológica e de pessoal técnicos atuando de forma
sincronizada com os demandantes de bens, serviços e obras.

Agentes ocupados na construção e elaboração de processos


padronizados, informatizados e sistematizados para fazer a
gestão da licitação, contratação, execução, recebimento do
objeto, bem como o pagamento.

Agentes ocupados em estabelecer as necessidades,


parâmetros de qualidades, quantidades e estratégica de
suprimentos.

Esse é o ambiente no qual deve ser processado o que a leitura


da lei de licitações explica.

Vejamos que é preciso que a nova lei de licitações, cujo projeto


de lei tramita na Câmara dos Deputados, preveja a
obrigatoriedade de a Administração Pública providenciar essas
condições de trabalho, sob o risco de não passar de mera letra
posta num papel, sem qualquer efetividade.

“Ter regras jurídicas apenas com calorosos debates jurídicos,


em nível de pareceres e tribunais, não resolve a falta de
eficiência do Pregão. Precisamos de uma legislação
vocacionada para o planejamento, gestão, projetos e técnicas.”

Portanto, licitações e contratos administrativos requerem que


antes da lei seja bem definido pelo relatório de gestão: a
necessidade e o respectivo mercado; o se quer; por que quer;
para que se quer; quanto quer; para quando quer; e o custo do
que quer.

De posse dessas informações, cujo levantamento é necessário


para a elaboração do planejamento e gerenciamento, será
analisado como a lei de licitações estabelece os procedimentos
para tais respostas.

Nem sempre é possível se ter o que se planejou, por isso,


antes de abrir qualquer processo administrativo, deve-se
estudar a viabilidade legal das pretensões para não perder
tempo e dinheiro.

Está claro que a Administração necessita ser mais gerencial,


menos formalismos e documentos, fazendo uso da lei na
medida em que as técnicas de gestão apresentar relatórios
com as definições técnicas das demandas.

Para tanto é indiscutível que a Administração Pública, na


pessoa dos seus Agentes se aposse do saber e da técnica de
elaboração do planejamento, gerenciamento e gestão de
projetos, gestão de compras públicas: bens de consumo, bens
permanente, serviços e obras públicas.

Vamos lembrar que é muito comum, ao visitar uma


Organização da Administração Pública encontrar todos os
setores necessários à gestão, devidamente dispostos no
organograma da Instituição, contendo, inclusive a plaquinha de
identificação do nome do setor.

Porém que em variados casos observemos a má definição da


função do setor, como por exemplo: atribuir ao setor de
compras a tarefa de levantar os preços das soluções a serem
licitadas.

Entretanto, a atribuição de levantar o custo de uma solução


cabe ao autor do respectivo projeto/termo de referência, porque
não existe projeto sem custo. Isto é uma questão técnica.

Ocorre, por vezes, que tais setores só existem no


organograma, não são efetivos e resolutivos. Poucos possuem
plano de trabalho e ação efetiva de gerenciamento.
Após essa breve reflexão, podemos indicar alguns motivos
pelos quais impedem os Pregões na licitação do
ordenamento jurídico brasileiro, de serem mais eficientes:

1. Falta de PLANEJAMENTO como ferramenta de compras e


contratações de serviços;
2. Falta de CONHECIMENTO sobre a solução pretendida para
prover a necessidade;
3. Falta de CONHECIMENTO do mercado específico da
solução necessária;
4. Falta de gestão por processos;
5. Falta de recurso tecnológico para gerenciamento de compra,
estoque, qualidade, preço, projeto, fiscalização e gestão
contratual;
6. Falta de ação conjunta do gestor de estoque/serviços com o
gestor de licitação;
7. Atuação isolada dos Pregoeiros sem alinhamento com o
demandante e com o autor do projeto ou termo de referência;
8. Falta de pesquisa de preços praticados no âmbito da
Administração Pública;
9. Falta de pessoal técnico na Equipe de Apoio ao Pregoeiro;
10. Projetos básicos ou Termo de Referências mal elaborados,
insuficientes e imprecisos;
11. Pregão feito às pressas, sem atribuir tempo mínimo para
realizar diligências.
12. Falta da visão de gerenciamento contratual;
13. Gerenciamento contratual falho ;
14. Fiscalização sem acompanhamento;
15. Falta de gestão por resultado;
16. Falta de controle da qualidade;
17. Rigor legal excessivo.

Elencamos algumas razões de ineficiência dos Pregões:

1. Tempo longo de finalização dos processos devido a grande


quantidade de itens em um só processo;
2. Falta de padronização de qualidade para evitar fase de
amostras;
3. Falta de parcelamento de item divisível;
4. Falta de especificações técnicas alinhadas à realidade da
necessidade;
5. Falta de técnica de apuração média do preço de mercado
para saber com segurança o preço exequível;
6. Falta de conhecimento suficiente para justificar a decisão de
afastar um preço menor;
7. Falta de dados objetivos que identificam a qualidade de um
produto ou serviço para mostrar que o preço menor não é o
melhor;
8. Contratações de bens e serviços de baixa qualidade com
comprometimento da solução esperada;
9. Contratações de fornecedores que não cumprem o contrato
ou a Ata de Registro de Preços;
10. Processos com rigor excessivo de formalismo no
julgamento da proposta e da habilitação;
11. Falta de visão de negócio e excessiva visão regulamentar
por receio excessivo de punição.