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PLANTÃO PSICOLÓGICO, NOVOS HORIZONTES 97

RESENHA

PLANTÃO PSICOLÓGICO, NOVOS HORIZONTES

Rosilene LINARES

O livro “Plantão Psicológico: novos psicologias e permitindo se experimentar a


horizontes”, apresenta de forma clara e objetiva vitalidade de uma experiência que se a princípio
o desafio que os diversos autores se era vista como uma técnica alternativa,
propuseram vivenciar implantando o serviço de atualmente é encarada como um trabalho
Plantão Psicológico com base humanista, em metodologicamente rigoroso, sistemático,
diferentes contextos institucionais. fruto de observação e pesquisas com base
fenomenológica. Este autor salienta ainda,
A presente obra está estruturada em 8
que o leitor encontrará na presente obra muito
capítulos e 1 prefácio, sendo este último
mais provocações que modelos, sendo que
escrito por Wood, o qual distingue o Plantão
“uma das provocações significativas é a
Psicológico de uma conversa entre amigos, e
integração de trabalhos de base humanista
aponta-o como uma produtiva forma de
inseridos em instituições”.
aprendizagem para estagiários uma vez que
possibilta a ampliação do papel da
No capítulo seguinte, Rosenthal
psicoterapia. Wood, considera que o Plantão
apresenta o Plantão Psicológico enquanto
Psicológico está bem próximo da origem latina
uma “proposta de atendimento aberto à
da palavra planton, que significa plantar. Neste
comunidade”, no Instituto Sedes Sapientiae
sentido, o livro para ele está repleto de boas
novas, pois apresenta um Plantão Psicológico em São Paulo. Fundado em 1975 este Instituto
“tendo seus pés no chão”, pois procura ser oferece serviços de ensino e pesquisa nas
prático e responder às necessidades atuais de áreas da Psicologia e da Educação,
quem o procura. Além disso, associa-o ao “estimulando todos os valores que acelerem
sentido de plantar enquanto enraizar, uma vez o processo histórico no sentido de justiça
que, as experiências relatadas nos capítulos social, democracia, respeito aos direitos da
seguintes mostram um serviço inserido na pessoa humana.”
cultura brasileira, perfeitamente vivo e em fase
de crescimento. A proposta de criar o serviço de Plantão
Psicológico nesta Instituição foi da Dra.
O capítulo de introdução é de autoria de Rosenberg que inspirada nas experiências
Mahfoud, organizador do livro. Neste capítulo, das “walk-in clinics”, surgidas nos Estados
Mahfoud ressalta que, desde 1987, a então Unidos, já vinha oferecendo este serviço à
semente do Plantão Psicológico no Brasil, população que procurava no Instituto de
como modalidade de um Aconselhamento Psicologia da USP o atendimento regular em
Psicológico, vem passando por transformações aconselhamento psicológico, o qual tinha como
que buscam atender a realidade social referencial teórico a Abordagem Centrada na
rompendo com a teorização rígida de inúmeras Pessoa.

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Acreditando que as atitudes pilares da diante do outro, estar concentrado no cliente


Abordagem Centrada na Pessoa (empatia, e em si mesmo, apontando a Abordagem
congruência e aceitação incondicional) Centrada na Pessoa como um referencial
associadas ao desenvolvimento das teórico bastante adequado para o Plantão
potencialidades inerentes à pessoa e à Psicológico.
possibilidade de estimulação dessas
potencialidades, pudessem beneficiar a O terceiro e quarto capítulos abordam
população, que em determinado momento da uma experiência de Plantão Psicológico na
vida necessita de alguém que a escute de Escola vivenciada como desafio por Mahfoud
forma diferenciada, sem necessariamente ter numa escola de classe econômica “A”, e por
que se submeter a psicoterapia tradicional, o Drummond, Brandão, Silva e Mahfoud numa
Plantão Psicológico foi oferecido pela primeira escola pública de 2º grau num bairro operário
vez neste Instituto em agosto de 1980 como na periferia de Belo Horizonte (MG). Em ambas
um “curso de expansão” supervisionado e as escolas o Plantão Psicológico foi oferecido
coordenado por Rosenthal, que através de como um espaço para o aluno enquanto pessoa
seus alunos oferecia atendimento psicológico dotada de um potencial inovador e criador.
aberto à população. Na primeira escola a divulgação do serviço
A autora destaca que o Plantão se deu através de folhetos com trechos da
Psicológico não foi criado para acabar com as música “Quase sem querer” do grupo Legião
filas de espera do Instituto, nem para fazer Urbana e histórias em quadrinhos envolvendo
triagem e muito menos com a pretensão de alguns comentários a respeito do Plantão. Os
substituir a psicoterapia. O objetivo era oferecer alunos responderam de forma positiva à
à comunidade um novo tipo de serviço. Este proposta e aos poucos. O que era inicialmente
teve a duração de três semestres, atendendo curiosidade foi se agregando como um espaço
145 pessoas ( 52% eram mulheres e 48% onde a pessoa era privilegiada e não o problema.
homens) com profissões e grau de escolaridade O fato do trabalho estar inserido num contexto
diversificados. As avaliações efetuadas pelos institucional e como tal, dever responder às
clientes, através de comentários escritos a demandas da mesma, exige do profissional
respeito do Plantão, apontaram desde a uma constante criatividade no desenvolvimento
importância de ser ouvido, o alívio após o de novos métodos e instrumentos que atendam
desabafo até a “frustração da expectativa às necessidades e estejam no âmbito das
de que pudessem receber atendimento contribuições da Psicologia.
prolongado”. A experiência de Mahfoud neste sentido
De forma geral, Rosenthal aponta essa se deu no processo de Orientação Profissional
experiência como amplamente válida, uma e no trabalho de prevenção ao uso de drogas.
vez que conseguiu ser presença mobilizadora Para a Orientação Profissional a Instituição
para o cliente e para o plantonista. Destaca sugeriu a aplicação de testes, mas Mahfoud
que para o plantonista foi possível superar o e Brandão utilizaram trechos de músicas e
estereótipo de que a eficácia da ajuda poemas brasileiros, adaptaram o Método de
psicológica está diretamente associada à História de Vida apresentado por Julius
duração do atendimento, além de experimentar Huizinga no IV Fórum Internacional da
uma prática diferente da oferecida no período Abordagem Centrada na Pessoa, no Rio de
de graduação. Janeiro em 1989 e eventualmente testes de
personalidade. Para trabalhar o tema drogas,
Por fim, a autora faz uma reflexão sobre criaram o primeiro material brasileiro de
o ouvir, enquanto ser presença por inteiro Educação Afetiva, que procura modificar

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fatores pessoais considerados disponente à suas próprias inquietações e oferecer-lhe a


utilização de drogas (como auto-estima, oportunidade de falar sobre isso. O resultado
identidade, resistência a pressão de grupo apareceu logo no dia seguinte, quando os
etc.) sem necessariamente enfocar o tema alunos começaram a procurar o Plantão
drogas. Psicológico.

A atuação destes profissionais nos Após um semestre de atendimento,


remete ao fato de que embora inseridos numa surgiu a necessidade de sistematizar os dados
instituição, esta não tem necessariamente dessa experiência na tentativa de “entender
que ditar todas as formas de atuação, pelo com clareza as necessidades daqueles
contrário, ela deve ajudar o profissional a sujeitos” e posteriormente, dar um retorno à
encontrar caminhos novos, este é o sentido do instituição para que essa pudesse rever suas
trabalho que mobiliza. posturas. O primeiro passo foi adotar uma
metodologia fenomenológica que propiciasse
O Plantão Psicológico na escola pública categorizar as demandas trazidas pelos
surgiu dessa primeira proposta dirigida pelo alunos a partir dos relatórios escritos pelos
professor Mahfoud, o qual procurou aproveitar estagiários. Partindo da discussão do tema
os recursos pessoais e materiais de seus central de cada atendimento elaborou-se 15
estagiários, bem como os recurso da própria categorias, além de uma “demanda indeter-
instituição, inserida num contexto comunitário minada” caracterizada pelo aparecimento de
muito ativo. várias questões importantes durante o
Sendo um dos objetivos do serviço de atendimento ou pela não identificação de
atendimento em Plantão Psicológico a nenhuma demanda claramente definida.
mobilização do aluno, estabeleceu-se que As demandas categorizadas foram:
este teria plena liberdade para procurar o “dificuldade com drogas” , “insatisfação com
serviço e que em nenhum momento haveria
as atribuições e contingências”, “preocu-
encaminhamento por parte dos professores e
pações com conseqüências de ações ou
da direção. Tal postura permitiria ao aluno
decisões passadas”, “dificuldade em fazer
buscar o Plantão como um espaço para “rever,
escolhas”, “elaboração de perdas”, “arrependi-
repensar e refletir suas questões”, na certeza
mento e culpa”, “sexualidade”, “dificuldades
de que encontraria em qualquer horário de aula
alguém disponível para escutá-Io, por isso, os com a escola”, “busca de reconhecimento”,
estagiários estariam presentes nos três “incômodo com a maneira de ser e de reagir às
períodos de aula, de segunda a sexta-feira, e situações”, “desconfiança nos relaciona-
no sábado de manhã. mentos”, “insatisfação nos relacionamentos
com a família”, “falta de correspondência nos
Para que esta proposta fosse vista pelos relacionamentos amorosos”, “falta de
alunos como algo atraente e não como um reciprocidade nos relacionamentos já
serviço “pra doido” utilizou-se como recurso de estabelecidos” e “obter opinião profissional”.
apresentação, a música e o teatro. Num
determinado dia, durante o recreio, os Este levantamento permitiu verificar que
estagiários começaram a tocar músicas já algumas questões (gravidez na adolescência,
conhecidas no meio jovem, a distribuir panfletos professores, direção, abuso de álcool e
com a explicação do que seria o Plantão violência) que tanto a escola como os
Psicológico e dramatizar a vivência de um profissionais esperavam que fossem direta-
adolescente que se sentia incompreendido mente abordadas pelos alunos, acabaram
pela sua família. O intuito de tal apresentação aparecendo como temas subjacentes à real
era tocar o adolescente no que diz respeito às situação que os perturbava. Assim sendo, é

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importante atentar para a necessidade de se “RCA – relata como agiu”,”PR- propõe-se a


ter a atenção centrada na pessoa e não nas refletir” e “AP- apresenta possibilidades”.
expectativas anteriormente criadas a partir de
No que diz respeito ao encerramento do
determinados valores e vivências.
processo, foram identificadas três fases que
Mahfoud e seus colaboradores finalizam indicam o caminho percorrido pelo sujeito,
o capítulo ressaltando três aspectos ou seja, “MP - mudança de perspectiva”,
significativos dessa experiência de Plantão “ANA - assume nova atitude” e “DA - decide
Psicológico em escola pública. Primeiramente, agir.”
que o Plantão Psicológico mobilizou não só os Tendo categorizado as fases, o trabalho
alunos envolvidos no processo, mas a própria seguinte consistiu em descobrir a seqüência
instituição, incluindo a direção e os de aparecimento das mesmas. Analisando o
professores, os quais se permitiram olhar o conjunto dos casos, verificou-se uma certa
aluno como uma pessoa dotada de talentos semelhança, pois algumas fases (AQ, AH ou
que precisam encontrar espaço para a A V) aparecem no primeiro atendimento e outras
expressão. (MP, ANA e DA) no final do atendimentos,
além, é claro, das particularidades de cada
Em segundo lugar, que é importante
história.
identificar as pessoas com as quais se pode
contar na instituição, uma vez que existem Essa atividade de pesquisa procurou
aquelas que apoiam o trabalho e aquelas que sistematizar uma experiência subjetiva narrada
o boicotam. E finalmente, que é necessário ter no Plantão Psicológico sem a pretensão de
sempre firme a proposta inicial, retomando-a enquadrar tal processo em padrões rígidos e
junto a direção, aos professores e aos alunos. previsíveis, pelo contrário, foi uma tentativa de
apreender os diversos movimentos de mudança
No capítulo seguinte, Mahfoud, decorrentes deste tipo de intervenção.
Drummond, Brandão e Silva buscam
compreender o processo de cada atendimento No quinto capítulo, Cautella Junior
efetuado no Plantão Psicológico nesta escola apresenta a sua experiência de Plantão
pública, numa tentativa de “identificar suas Psicológico num hospital psiquiátrico,
fases, as mudanças de rumo e o movimento destacando que este serviço contribuiu para
que a pessoa realizava durante a sessão”, que a instituição reformulasse a sua postura
bem como, avaliar de forma mais rigorosa frente ao indivíduo institucionalizado.
esse tipo de intervenção. O material de Primeiramente o autor faz uma breve descrição
pesquisa foram 56 relatórios previamente do hospital, relatando ser um hospital de “
selecionados, descrevendo 37 casos de alunos porte médio e de curta permanência que atende
atendidos. pacientes do sexo feminino em quadro agudo
de doença mental.” Além do serviço de
As fases identificadas foram: “AQ - apre- psicologia, o hospital conta com psiquiatras,
senta a questão”, “AH ou ExQ - apresenta a terapeutas ocupacionais, assistentes sociais,
história da questão ou explora a questão”, recreacionistas e enfermeiros.
alguns alunos apresentavam várias questões
“AV-apresenta várias questões” ou “OQ-outra O serviço de Plantão Psicológico, nesta
questão” ou ainda “AmQ - amplia a questão”, instituição, nasceu em 1992 como uma
“PI - pede informação” e “Ol - obtenção da alternativa terapêutica, uma vez que as práticas
informação”, “RA - reafirma atitude”, “NC - não tradicionais de atendimentos individuais e de
comparece ao atendimento marcado mas volta grupo vinham apresentando algumas
numa nova sessão”, “RQR - relata como a limitações, particularmente decorrentes da
questão se resolveu”, “RQ - retoma a questão”, situação de que a instituição exercia uma

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certa pressão para que o indivíduo se vinculasse


foi estendido aos funcionários, diminuindo os
à psicoterapia e também pela dificuldade do
psicoterapeuta eleger o foco que realmente problemas de relacionamento entre os
era prioritário para o cliente, no caso da mesmos, e conseqüentemente gerando um
psicoterapia breve. campo terapêutico bem mais eficiente. Esse
serviço, por uma questão ética, foi prestado
O enfoque teórico adotado foi a por um profissional de fora da instituição.
Abordagem Centrada no Cliente e o
procedimento imediato consistiu em Desta forma, podemos afirmar que o
disponibilizar psicólogos que estariam num plantão psicológico pode ser um instrumento
lugar pré estabelecido, por um determinado de promoção da saúde, uma vez que “não
tempo. Os pacientes foram informados deste modifica somente aquele que é o alvo da
serviço pelos próprios profissionais e também intervenção”e se pensarmos que a mudança
através de cartazes. é um fator indispensável ao desenvolvimento
podemos afirmar ainda, que o Plantão
Cautella Junior destaca que o “ nível de Psicológico é um meio extremamente promotor
ansiedade, irritabilidade e agitação dos de desenvolvimento.
internos diminui significativamente após o
plantão psicológico” Outro aspecto ressaltado O sexto capítulo aborda o Plantão
é que a participação nos grupos deixou de ser Psicológico na Clínica-Escola da Pontifícia
efetuada por pressão institucional e passou a Universidade Católica de Campinas,
ser uma opção do cliente, o mesmo ocorrendo implantado em 1994, a partir do projeto de
com os atendimentos individuais. Os dois alunos do Curso de Especialização em
encaminhamentos internos e externos também Psicoterapias Institucionais do Departamento
sofreram alterações e tronaram-se mais de Psicologia Clínica.
eficientes.
No presente capítulo, Cury aponta que
Embora de forma geral, os internos embora inspirado no modelo de Aconselha-
tenham respondido de forma positiva ao serviço mento Psicológico desenvolvido no Instituto
de plantão, algumas limitações foram de Psicologia da USP, o serviço de Plantão
encontradas no que se refere a pacientes com Psicológico da PUC-Campinas funciona com
depressão profunda, quadros catatoniformes uma inovação, ou seja, a integração de
e pessoas com delírios graves. supervisores de abordagens teóricas
diferenciadas (cognitivista e centrada no
Após quatro anos de funcionamento, cliente). Portanto, as diferenças teóricas foram
um serviço semelhante foi oferecido aos familiares ultrapassadas tendo em vista uma” uma ajuda
dos internos, diferenciando-se do atendimento psicológica que se mostrasse mais empática
que já era oferecido pelo serviço social e pelo aos apelos da comunidade, neste contexto e
corpo médico. No plantão psicológico, a família época”, salvaguardando a autonomia de cada
encontraria espaço para manifestar seu mal- supervisor no que diz respeito às estratégias
estar e outras questões decorrentes do fato de clínicas.
terem um membro da mesma, instituciona-
lizado. No decorrer de três anos de O oferecimento deste serviço se deu
funcionamento a demanda aumentou devido ao alto índice de desistência da clientela
significativamente, inclusive gerando uma nova que ao procurar a Instituição enfrenta longas
situação, o aumento da procura do serviço filas de espera, bem como em decorrência de
após o cliente principal já ter tido alta. algumas pessoas buscarem ajuda na clínica
numa situação emergencial. Os plantonistas,
Encarando a instituição como um cliente alunos do último ano do curso de Formação de
em potencial, o plantão psicológico também Psicólogos, embora não cubram todos os

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horários de funcionamento da clínica, oferecem atendimento clínico bem mais flexível, que
o atendimento no Plantão Psicológico sem pode gerar uma certa economia para o sistema,
agendamento atendendo pessoas que uma vez que efetua encaminhamentos internos
livremente buscam ajuda para problemas de e externos, oferecendo uma relação de ajuda
natureza emocional. eficaz e diminuindo as listas de espera. Ao
estagiário-plantonista possibilita uma
Tecnicamente a ação do plantonista
consiste em oferecer ao cliente que procura o compreensão mais ampla da comunidade, um
serviço, o acolhimento adequado para que contato com pessoas e problemas
possa explicitar a “demanda emocional diversificados e até inesperados, possibilitando
que o aflige” naquele momento, o que dá o desenvolvimento do raciocínio clínico, além
ao atendimento um caráter imediato, sem de um amadurecimento pessoal e uma maior
visar necessariamente encaminhamentos autonomia em sua prática clínica.
psicoterápicos. Desta forma, o foco do
No último capítulo, Psicólogos de
atendimento não é a queixa em si, mas a
Plantão, Cury apresenta uma reflexão a
pessoa, numa tentativa de conferir-lhe
respeito das inúmeras contribuições da
autonomia e facilitar a reflexão na busca de
alternativas para enfrentar as dificuldades que Psicologia Humanista, particularmente da
experiencia. Abordagem Centrada na Pessoa, que iniciando
pela psicoterapia individual, grupos intensivos,
Embora o Plantão Psicológico represente encontros de comunidade, chega ao pronto
um avanço, Cury atenta para dois fatos atendimento psicológico amplamente infocado
importantes. Primeiro, para o risco de se neste livro, oferecendo uma nova forma de
tentar colocar neste serviço, a solução para intervenção, cuja autenticidade dependerá em
todos os problemas que envolve o sistema muito do psicólogo-plantonista, o qual não
Público de Saúde Mental, e segundo, para
pode permitir que este tipo de serviço seja
a urgência de evitar reproduzir nas clínicas-
-escola, os consultórios particulares. Para ela, mais uma forma de “ ludibriar a população.”
cabe ao plantonista, criar um contexto mais Afirma ainda, que profissionais e cidadãos
próximo de um modelo comunitário, onde a
psicólogos não podem ignorar as inúmeras
população possa verdadeiramente ter voz e
dificuldades presentes no contexto Latino
desenvolver uma certa autonomia emocional.
Americano e muito menos negar a missão
Relata ainda, que uma das grandes transformadora que cada um é chamado a
contribuições da implantação deste serviço exercer eticamente na instituição ou contexto
tem sido a transformação das pessoas em que atua. Para Cury, é necessário estar
envolvidas neste processo (supervisores, sempre de plantão, no sentido de ter “coragem
estagiários e clientes), possibilitando para superar dogmas e entusiasmo para
pesquisas que podem contribuir em muito
buscar o inédito. “
para a transformação das clínicas-escola de
Psicologia. Numa linguagem bastante acessível e
atraente, os autores conseguem atingir o
A vivência deste plantão foi descrita
numa recente pesquisa qualitativa com base objetivo de comunicar a seriedade de uma
fenomenológica onde foram analisados experiência de Plantão Psicológico em
depoimentos de supervisores, plantonistas diferentes contextos, possibilitando ao leitor
e funcionários da Clínica-Escola da PUC-Cam- acompanhar historicamente o desenvolvimento
pinas. O resultado demonstra que o Plantão deste serviço em nosso país, bem como os
Psicológico se apresenta como um desafios que entremeiam a sua prática.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA SILVA,R.O; CURY, V.E; CAUTELLA


JUNIOR,W. Plantão Psicológico: novos
MAHFOUD, M; DRUMMOND, D.M; WOOD, horizontes. São Paulo, Companhia
J.K; BRANDÃO, J.M; ROSENTHAL, R.W; Ilimitada, 1999.

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