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18 a 31 de Julho de 2016 | Nº 113 | Ano V •Director: José Luís Mendonça • Kz 50,00

ARTES PÁG. 8 ECO DE ANGOLA PÁGS.4-5

MANIFESTO

CONEXÕES FEMININAS
DA ACADEMIA
ANGOLANA DE LETRAS

CONEXÕES MÚLTIPLAS
NO ESPAÇO PRIVADO
DIÁLOGO INTERCULTURAL PÁG. 13

JOSÉ L. HOPFFER ALMADA


“REMEMORAÇÃO DO TEMPO
E DA HUMIDADE”
2 | ARTE POÉTICA 18 a 31 de Julho de 2016 | Cultura

POEMA DE FILIPE ZAU


Cultura
Jornal Angolano de Artes e Letras
Um jornal comprometido
com a dimensão cultural do desenvolvimento

Nº 113 /Ano V/ 18 a 31 de Julho de 2016

E-mail: cultura.angolana@gmail.com
site: www.jornalcultura.sapo.ao
Telefone e Fax: 222 01 82 84

CONSELHO EDITORIAL

UM DIA
Director e Editor-chefe:
José Luís Mendonça
Secretária:
Ilda Rosa
Assistente Editorial:
Coimbra Adolfo (Matadi Makola)
Fotografia:
Paulino Damião (Cinquenta)
Poema hoje dedicado ao Éder Arte e Paginação:
(e, porque não, a todos os Éderes ainda sem oportunidade
Sandu Caleia
de revelarem as suas reais capacidades e competências, dentro
Jorge de Sousa
ou fora dos seus respectivos espaços de convivência intercultural)
Alberto Bumba
Sócrates Simóns
Edição online: Adão de Sousa
A minha pele é escura como a noite.
Traz cicatrizes do açoite
e marcas do tráfico negreiro. Colaboram neste número:
A minha cor escura não ilude
Angola:Adriano de Melo, Analtino Santos, Filipe Zau,
a intolerância e a inquietude: Lito Silva,Norberto Costa
sou africano, podia ser antilhano,
afro-brasileiro ou afro-americano. Marrocos: Aziza Rahmouni

A minha pele é escura como a noite Portugal: Inácio Rebelo de Andrade


e para que não haja engano,
não sou cigano, nem indiano.
Sou africano por cultura e opção.
Poderia ser mouro, antilhano,
afro-brasileiro ou afro-americano.
Em qualquer dos casos Normas editoriais
Serei o teu ás, o teu campeão,
aquele que tanto procuras
para a vitória da tua equipa O jornal Cultura aceita para publicação artigos literário-científicos e re-
ou, até mesmo, da tua selecção. censões bibliográficas. Os manuscritos apresentados devem ser originais.
Todos os autores que apresentarem os seus artigos para publicação ao
jornal Cultura assumem o compromisso de não apresentar esses mesmos
A minha pele é escura como a noite artigos a outros órgãos. Após análise do Conselho Editorial, as contribui-
e o sangue azul a que pertences ções serão avaliadas e, em caso de não publicação, os pareceres serão
é tão vermelho como o meu. comunicados aos autores.
Provéns de árabe, de berbere,
ou talvez de um negro escravo qualquer Os conteúdos publicados, bem como a referência a figuras ou gráficos já
que, para a serventia da Coroa, publicados, são da exclusiva responsabilidade dos seus autores.
entrou por Lagos ou por Lisboa…
Os textos devem ser formatados em fonte Times New Roman, corpo 12,
Depois de alforriado,
e margens não inferiores a 3 cm. Os quadros, gráficos e figuras devem,
lá para os lados de Alfama, ainda, ser enviados no formato em que foram elaborados e também num
Serias um bailador de fado ficheiro separado.
em casas rotuladas pela má fama.
Propriedade
A minha pele é escura como a noite.
Agora por conveniência,
sinto vontade de te dizer,
que encontrei num nobre europeu
parte da minha ascendência. Sede: Rua Rainha Ginga, 12-26 | Caixa Postal 1312 - Luanda
Redacção 222 02 01 74 |Telefone geral (PBX): 222 333 344
A outra a que pertenço Fax: 222 336 073 | Telegramas: Proangola
tem séculos de humilhação E-mail: ednovembro.dg@nexus.ao
e décadas de independência… Conselho de Administração
António José Ribeiro
Perdoa a minha indignação, (presidente)
mas entende a minha pertinência Administradores Executivos
nesta nossa conversação. Victor Manuel Branco Silva Carvalho
Só os burros não mudam… Eduardo João Francisco Minvu
e um dia… um dia, meu caro, Mateus Francisco João dos Santos Júnior
aprenderás a julgar os homens Catarina Vieira Dias da Cunha
apenas pelo seu valor moral e ético. António Ferreira Gonçalves
Basta, tão somente, que te revelem Carlos Alberto da Costa Faro Molares D’Abril
o segredo do teu código genético. Administradores Não Executivos
Olímpio de Sousa e Silva
In, "Meu Canto à Razão e à Quimera das Circunstâncias" Engrácia Manuela Francisco Bernardo
ECO DE ANGOLA | 3

“EXPRESSÕES EM PRATA” NO MUSEU DA MOEDA


Cultura | 18 a 31 de Julho de 2016

O PASSADO NA CONTEMPORANEIDADE
ADRIANO DE MELO sua cultura pelo mundo, a importância
da unidade, os benefícios da liberdade e
Quando entramos no Museu da Moe- a actual aposta no desenvolvimento do
da,os nossos primeiros anfitriões são vá- país estão patentes na mostra em peças
rias peças de prata, com desenhos exu- como “A Vitória é Certa”, de Fineza Teta,
berantes e diferentes, que configuram a “Liberdade em Ascensão”, de Mayembe,
mensagem de vários criadores angola- “Angola 40 Anos”, de HelgaGambôa. O
nos sobre o que representam os 40 anos crescimento do país é uma das princi-
do país e qual a importância do passado pais propostas temáticas da maioria dos
ou da tradição no mundo moderno. artistas convidados, por representar o
Onze é o número de peças que a or- renascer da esperança, num país que du-
ganização escolheu para mostrar, atra- rante anos sofreu devido a guerra civil e
vés de duas gerações de artistas plásti- por séculos pagou os danos da escrava-
cos, o papel da tradição na construção tura. MpambukidiLunfidi, com “Angola
da personalidade e da identidade na- A Primeira-Dama da República, Ana Paula dos Santos, inaugurou a exposição e elogiou a criatividade dos artistas 40 Anos”, ou M’PandaVita, no seu “Ango-
cional. A exposição, que fica aberta ao la - 40 Anos de Ebulição”, são as provas
público até o próximo dia 25, de terça a tica e a organização da exposição, ideali- também ter sido parte da minha vida e a deste reconhecimento e elogio a paz e
domingo, das 9h00 às 17h00, é tam- zada pela CIPRO, pela originalidade de de qualquer um que não tenha nascido aos ganhos proporcionados por estas
bém um alerta para os perigos da acul- cada uma das 11 peças. “São peças cria- depois de 2005, quando o “bum” tecno- em diferentes sectores da sociedade. A
turação e da desvalorização das raízes das por angolanos que querem dar a co- lógico começou a por nas nossas casas dinâmica actual e as mudanças e influên-
tradicionais angolanas. nhecer como pensa o país e transmitir a os modernismos eléctricos. cias que o modernismo trouxe ao país,
Sem menosprezar as novas tendên- quem não o conhece”, considerou. “Mawte”, de Etona, é outro motivo em especial nas artes, esta demonstrada
cias do contemporâneo, “Expressões No final, a Primeira-Dama desejou a de pensamento. Ao ver a escultura, em “Angola, o nosso tempo Próprio”, de
em Prata”, traz também uma dose de todos os convidados um interessante apesar do autor dizer o contrário e o Miguel Gonçalves e na “Contemporanei-
modernidade, pelo talento de jovens encontro com Angola ao longo de 40 justificar, fico sempre com a sensação dade”, de Amândio Vemba.
criadores, que mostraram a beleza da anos, assim como pediu um maior incen- de estar a olhar para um dos símbolos A grandeza e o papel da mulher na
diversidade e a aposta na preservação e tivo e aposta nos demais criadores de ar- de referência da cultura angolana, o História do país, no seu desenvolvimen-
divulgação do legado da tradição. “Exor- tes, de forma a terem a possibilidade de Pensador. O critério está no olhar de to e na estabilização das famílias é enal-
tar o país pela riqueza cultural” foi assim expressar o seu talento. quem for visitar a exposição. tecida por Patrícia Cardoso na escultura

Olhar a criação
que a Primeira-Dama da República, Ana A proposta de Massongi Afonso é o “Mukembu”, um elogio e homenagem a
Paula dos Santos, considerou a exposi- batuque, uma peça cujo papel na cultura todas as angolanas.
ção, depois de a ter inaugurado. Para mim, “Expressões em Prata” são angolana é fundamental até hoje. Com A mostra, que não se circunscreve so-
As peças, disse a Primeira-Dama, são 40 anos da história de Angola bem justi- traços singulares, “Pensando Cultura”, mente a cultura angolana, destaca tam-
sugestivas e permitem aos visitantes ter ficados pelas esculturas expostas, por- propõe um elogio as artes e a tradição ao bém os símbolos nacionais, num claro
uma ideia da significância da criativida- que como parte da geração de 80 consi- som do batuque rítmico. alerta à sua importância e maior divul-
de dos seus criadores. Ana Paula dos go me rever em algumas das peças, co- Os ganhos da paz, a determinação dos

MITO GASPAR NO PALÁCIO DE FERRO


gação hoje, numa época em que a acul-
Santos elogiou também a escolha temá- mo “Fogareiro”, de António Ole, por angolanos, a luta pela emancipação da turação começa a ganhar mais espaço.

FIEL DIFUSOR DOS ANCESTRAIS


ANALTINO SANTOS pelo público. Este tema marca a trajec- clore de Malange que conquistaram o
tória do artista, pois, no longínquo ano país, causando a recorrente homena-

N
o dia 8 de Julho, sexta-feira, o de 1983, fê-lo conquistar o Primeiro gem aos Ndengues do Kota Duro, trou-
Palácio de Ferro fugiu um pou- Festival da Canção. Na época fazia parte xeram um ritmo mais acelerado. Este
co do simples facto de ser pal- do Trio Henda, em representação da exigente cultor do Kimbundu ainda te-
co e fez-se esteira de uma reunião so- província da Huíla. ve tempo para a memorável canção "O
lene, com a estrela apresentar-se co- Artesão de ritmos que fundem a tradi- que será”, uma música que marca uma
mo um fiel difusor da mensagem dos ção à modernidade, amante da boa con- Angola destroçada pela guerra.
ancestrais por via do canto. Ouve, es- versa, cantou “Mahezu” e fez uma via- Sem desprimor pelos demais presen-
teriliza no coração e desabafa em mú- gem espiritual solitária com “Kassexi”, tes, um outro ilustre de Malanje (o poeta
sica para uma maioria que acorreu ao que explica ser uma adaptação moderna Lopito Feijóo) alterou o alinhamento
local ciente e seduzida pela forma lú- daquilo que os nossos antepassados musical ao solicitar novamente “Man Po-
dica e leve como este interpreta/ar- cantavam. “KibukaKya Mona” fez os espí- lé”, para deleite dos presentes e da sua
ranja misoso e jisabu. ritos sossegarem, um momento mais Mi- esposa inspiradora Mamá África, que su-
Com o suporte da Banda Movimen- to, apenas com o seu tradicional violão e biu ao palco e abriu caminho para dança.
to, Mito Gaspar iniciou a actuação em a percussão amena de Correia. “Hassa” Apesar de Mias Galhetas transportar
grande, não poupando alegrias, ao in- ainda confirmava o momento de intros- o baixo com um groove africano, o bom deriam harmonizar-se com a marimba
terpretar o seu grande sucesso “Man pecção, que é , conforme explicou Mito, ritmo de Kintino, os solos bem inspira- de um mestre como o Tio Maduro.
Polé”, canção que narra a estória do ho- uma poderosa oração de uma mãe cren- dos saídos da guitarra de Teddy Nsin- O espectáculo de Mito Gaspar en-
mem que aproveitava-se das mulheres te para proteger o seu filho da inveja das gui, ou mesmo as harmonias dos tecla- quadrou-se no programa de activida-
nas cerimónias fúnebres. vizinhas e dos maus espíritos. dos de Chico Madne trazerem marcas des musicais da III Trienal de Luanda e
“Havemos de Voltar”, um dos mais Agostinho Neto foi outra vez invoca- da música tradicional, era possível um foi antecipada pela actuação dos gru-
emblemáticos poemas de Agostinho do num kimbundudu estaladiço em pouco mais de ousadia com a inclusão pos Kituxi e Seus Acompanhantes e
Neto, mereceu uma arrojada tradução “Eme Nzambimuenhu”, originado do de instrumentos de matriz angolana, União Rebita. Calabeto fez o mesmo
para o kimbundu, dando vazão ao arre- poema "Renúncia Impossível". “Pala- que bem poderiam dar um outro toque. percurso e desfilou os seus sucessos
piante “Hadia Tu Vutuka”, bem recebido nhe N`go” e “Mana Minga”, temas do fol- Os tambores ocidentais de Correia po- sete dias antes, 1 de Julho.
4| ECO DE ANGOLA 18 a 31 de Julho de 2016 | Cultura

ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS


MANIFESTO
A
literatura em Angola é um facto de ocorrência antiga. Ela deve ser
sempre especificada em função da sua dualidade. Por um lado, fa-
zendo referência à criação popular oral, na qual encontramos as
múltiplas criações literárias de tradição oral; e por outro, referindo a lite-
ratura escrita que surgiu em Angola através da acção da colonização por-
tuguesa e dos intelectuais angolenses.
Na tradição dos povos de Angola encontramos múltiplos géneros de perma-
nência oral, que na maior parte dos casos são apontados como narrativas, sen-
do umas longas e outras breves. Mas há também máximas, textos de expressão
dramática, preces, estórias e crónicas das comunidades, provérbios, adivi-
nhas, poesia, música e canto. A incompreensão, pelo cânone e pelas instâncias
literárias ocidentais, do modo e da forma como tais géneros literários são
mantidos e divulgados no seio das comunidades ditas tradicionais, não impe-
de que as populações permaneçam cientes dos conhecimentos veiculados por
estas. Toda a organização social das sociedades “tradicionais” de Angola é ge-
ralmente regida por tais conhecimentos: a origem do Mundo e de Deus; o posi-
cionamento dos deuses, veiculadores de dados ordenadores de formas de
convivência; o funcionamento dos órgãos de poder e as regras de sucessão; o
surgimento de “génios” da natureza, a articulação entre a sociedade e a natu-
reza; as normas do casamento e o ordenamento dos sistemas de descendên-
cia; a manutenção dos vivos e os problemas trazidos pela morte e outras ques-
tões do foro jurídico e social são não apenas geridas por sistemas sociais de ri- Boaventura Cardoso e A. B. Vasconcelos
tuais, mas também e sobretudo por evidências pautadas ou expostas nas múl-
tiplas narrativas orais criadas pelas pessoas. Essas narrativas são mantidas autores do regime e, em seguida, compilada em livro) da obra colectiva Voz de
por grupos, comunidades e populações, como se de documentos escritos se Angola Clamando no Deserto. Oferecida Aos Amigos Da Verdade Pelos Naturais
tratassem. Há verdadeiros arquivos orais, guardados por sapientes conhece- (1901), o primeiro manifesto colectivo de intelectuais angolenses, um verda-
dores e regedores das normas endógenas que as comandam. deiro libelo acusatório e uma denúncia das práticas discriminatórias do sistema
Na sociedade angolana moderna, quando se fala de literatura, pensa-se em colonial português em Angola. É desse movimento nativista oitocentista e do
primeiro lugar naquilo que é criado por um escritor angolano imbuído do es- início do século XX que ecoam os primeiros lampejos da literatura angolana es-
pírito moderno, seguindo um natural pensamento estruturado da ordem cul- crita e dos estudos sociais angolenses.
tural mundial. Estamos, assim, perante um romancista, um contista, um poe- A simbiose entre escritores e analistas dos fenómenos sociais regista em
ta, um ensaísta ou um crítico literário. São as instâncias do sistema literário Angola a sua marca a partir do último quartel do século XIX. Jornalistas e es-
internacional que ditam esta forma estruturada de entendimento da literatu- critores como José de Fontes Pereira ou João da Ressurreição Arantes Braga,
ra. Apesar da dualidade de critérios, devido aos processos e relações sociais assim como escritores e analistas sociais talentosos como Joaquim Dias Cor-
ocorridos no conjunto da sociedade angolana, a Academia Angolana de Letras deiro da Matta, Pedro Félix Machado, Pedro da Paixão Franco ou Francisco das
(AAL) assinala que ambos os modelos citados são hoje paradigmas de criação Necessidades Ribeiro Castelbranco (também autor da primeira História de
complementares e enriquecedores da modernidade angolana. Angola) desempenharam importantes funções, tanto nas suas bancas de jor-
Em Angola, os primeiros documentos impressos datam de 13 de Setembro nal, quanto no acto de criar cenas para os seus escritos, bem como na publica-
de 1845, na sequência da criação do Boletim do Governo-Geral da Província ção de textos de estudos culturais e de análise social da situação da colónia.
de Angola. O surgimento desse órgão traz igualmente a informação acerca da Há, contudo, um espaço ténue entre uma e outra actividade: o escritor analisa
nova denominação de Angola, que passa doravante para a designação de Pro- os dados que lhe são postos à disposição e recria a natureza e o imaginário des-
víncia de Angola, reunido assim os antigos «Reino de Angola» e «Reino de ses mesmos dados e dá vida aos seus personagens, incrustando-os nos múlti-
Benguela». Em 1863, a Província de Angola passou assim a estar dividida em plos contextos de vivência da sua obra; o cientista social alimenta-se dos factos
cinco distritos, a saber: Luanda, Benguela, Moçâmedes, Ambriz e Golungo Al- sociais nas suas múltiplas dimensões e versatilidade, observa-os e interpreta-
to, os quais passaram a estar subdivididos em concelhos. os, fazendo recurso a um conjunto variado de técnicas e métodos de estudo das
Desde a criação da imprensa em Angola que vemos surgir no país uma for- colectividades humanas, para colocar no papel e noutras formas de transmis-
ma esclarecida de jornalismo, em que distintos jornais e intelectuais desem- são de texto e de imagens aquilo que observou ou lhe foi dado a interpretar. Tan-
penham um papel de charneira. Nesses cerca de 50 anos até ao início dos anos to um como o outro encaminham os múltiplos recursos que têm ao serviço do
1900, assiste-se em Angola a múltiplas formas de actuação, tanto dos actores saber, das famílias, dos grupos sociais, das comunidades humanas e da socieda-
representantes do colonialismo português, quanto daqueles que, de forma es- de, no passado como no presente, em estreita complementaridade, desempe-
clarecida, combatiam a actuação do sistema. As resoluções saídas da Confe- nhando papéis importantes no âmbito do conhecimento e da mudança social. A
rência de Berlim de 1885 constituíram um factor impulsionador para as ac- Academia Angolana de Letras manterá certamente essa tradição centenária de
tuações que se seguirão. Com efeito, foi na sequência dessas resoluções que os simbiose e complementaridade entre escritores e cientista sociais.
Estados Imperiais decidiram posteriormente criar uma nova cartografia do A Literatura e os Estudos Sociais Angolanos desempenharam desde sempre
continente africano, determinando as suas fronteiras como lhes aprouvesse. um papel importante, tanto como meio de retenção e reprodução do imaginá-
A publicação de múltiplos jornais tornou possível o surgimento de uma plêia- rio e de conhecimentos sobre os povos e a sociedade, quanto para a com-
de de jornalistas angolanos e, sobretudo, de profissionais empenhados na luta preensão dos fenómenos e das dinâmicas sociais a ela inerentes.
pela causa do país. Muitos desses jornalistas eram escritores, estudiosos e notá- Durante o período colonial, em que a sociedade estava cindida em dois
veis analistas dos fenómenos políticos, económicos, sociais e culturais do seu grandes grupos (o estrato dominante e o estrato dominado), a literatura e os
tempo, sobressaindo-se pelas matérias escritas e por posicionamentos que ho- estudos sociais coloniais serviram sobretudo os desígnios da classe domi-
je podem ser identificados como nativistas, porque nessa altura já lutavam pela nante. Mas a classe dominada, integrada pelas comunidades e populações
causa da independência. O manuscrito intitulado Voz de Angola, dado à estam- do país, que foram desde sempre consideradas como estratos ou grupos de
pa em 1874, não obstante o facto de ter vindo à luz sem assinatura, é um docu- «primitivos» e «selvagens», de «indígenas» ou gentes «sem cultura», no si-
mento notável que deve ser lido, discutido, aclarados os seus autores e devida- lêncio a que foram remetidos pelo colonialismo português, pautavam-se por
mente divulgado. Na mesma linha, seguir-se-á a publicação no primeiro ano do regras precisas de convivência social, de organização e de estruturação dos
século XX (inicialmente, de importantes peças jornalísticas de confronto com seus conhecimentos e modos de vida, guardando formas específicas de sa-
Cultura | 18 a 31 de Julho de 2016 ECO DE ANGOLA | 5

beres sociais endógenos e, dentre estes, tipos diversificados de narrativas uma merecida e eterna homenagem aos Heróis da Pátria e aos escritores e
convenientemente estruturadas. Pautavam-se por regras precisas de convi- cientistas sociais que lutaram pela liberdade e pela independência nacional,
vência, de organização e de estruturação dos seus conhecimentos e modos concretizada a 11 de Novembro de 1975 – momento sublime proclamado pe-
de vida, guardando formas específicas de preservação da memória colectiva lo poeta e ensaísta António Agostinho Neto, Primeiro Presidente de Angola, o
e cuja permanência os vincula ao presente. patrono da Academia Angolana de Letras.
No decurso da primeira metade do século XX, a actuação dos «filhos do Um mês após a independência, a 10 de Dezembro de 1975, os escritores an-
país» mostra o declínio completo da luta nativista e vai ser preciso esperar al- golanos proclamaram a primeira organização cultural angolana: a União dos
gumas décadas para o seu reavivar em finais da década de quarenta e inícios Escritores Angolanos (UEA), que desempenha hoje um papel de vanguarda na
da década de cinquenta. Alguns trabalhos de natureza histórica e sociológica tarefa de criação literária e artística. Desde os anos que se seguiram aos nossos
constituirão notáveis contributos para compreender esse período, sendo de dias, os escritores e investigadores sociais engajaram-se na apresentação de
assinalar o já citado Voz de Angola Clamando no Dezerto (1901), História de novas propostas literárias e no estudo e interpretação dos novos quadros so-
uma Traição, de Pedro da Paixão Franco (1911) e Relato dos acontecimentos ciais, dando uma inestimável contribuição para os processos de reconstrução
de Dala Tando e Lucala, de António de Assis Júnior (1917). A Academia Ango- nacional, para a consolidação da revolução e do poder popular e para conquis-
lana de Letras assume a herança intelectual desses talentosos escribas ango- ta da paz, dos processos de coesão nacional e da formação da Nação Angolana.
lenses, que fizeram das suas penas uma arma de luta pela afirmação e emanci- A Academia Angolana de Letras assinala o valioso tributo das obras dos escri-
pação social, política, cultural e espiritual dos angolanos. tores e dos cientistas sociais angolanos à criação simbólica da cidadania e da
A partir do ano de 1948 e seguindo o exemplo das gerações precedentes, um nacionalidade angolanas, que tanto têm contribuído para moldar os imaginá-
grupo de jovens intelectuais funda em Luanda um novo movimento cultural e rios e as maneiras de ser, de sentir e de estar da comunidade nacional nas suas
literário, crismado pelos estudiosos da literatura e dos movimentos culturais variadas dimensões (económica, social, política, cultural e espiritual).
como «Vamos Descobrir Angola!» ou «Geração de 48». Esse movimento de jo- A Academia Angolana de Letras homenageia os membros fundadores da
vens intelectuais empreende uma nova estética literária, de pendor social e na- União dos Escritores Angolanos, os precursores e fundadores dos Estudos So-
cionalista, assente nos motivos e nas aspirações de vida das populações indí- ciais Angolanos, assume a responsabilidade de contribuir para a definição dos
genas. Surgem no mesmo período movimentos culturais e revistas de vocação cânones Literários e das Ciências Sociais e Humanas Nacionais, contribuindo
nacionalista, tais comoo «Movimento dos Novos Intelectuais de Angola» ainda para o estudo obrigatório de autores angolanos das áreas de humanida-
(1948) e Mensagem – A Voz dos Naturais de Angola (1951-1952). Poetas como des no sistema nacional de ensino (geral, técnico-profissional e superior).
Viriato da Cruz (1928-1973), Agostinho Neto (1922-1979), Mário Pinto de An- A Academia Angolana de Letras advoga a criação literária e social, bem co-
drade (1927-1990) e António Jacinto (1924-1991) destacaram-se no processo mo a democracia criativa e crítica nas suas vertentes cultural e científica, co-
de construção da nova constelação literária, sendo de sublinhar o nome do es- mo postulados inalienáveis da liberdade humana. Nesta perspectiva, a Acade-
critor e cientista social Óscar Ribas (1909-2004), como figura incontornável mia Angolana de Letrasconstitui um espaço essencial de liberdade e de res-
na formulação de novas propostas no estudo do quotidiano social e cultural ponsabilidade cultural e social dos escritores e dos cientistas sociais angola-
das populações angolanas autóctones de língua kimbundu. nos. A liberdade de criação, a liberdade de pensamento, a liberdade de ex-
Em 1952, estudantes, escritores e investigadores sociais oriundos de Ango- pressão, as liberdades académicas e a responsabilidade social e cultural dos
la, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe criam, no co- escritores e dos cientistas sociais são princípios essenciais que nortearão o
ração da capital da Metrópole, o Centro de Estudos Africanos (CEA), que assi- funcionamento da Academia Angolana de Letras.
nala um momento de viragem epistemológica no estudo dos fenómenos so- Hoje, perante os novos e grandes desafios culturais e sociais, os escritores e
ciais das colónias africanas sob administração portuguesa. Integram essa nova investigadores sociais angolanos reunidos em torno da Academia Angolana
iniciativa dois escritores e estudiosos angolanos: António Agostinho Neto e de Letras assumem e renovam o compromisso secular de trabalhar para a dig-
Mário Pinto de Andrade. Os movimentos literários e culturais iniciados em fi- nificação das Línguas Nacionais, da Literatura e dos Estudos Sociais Nacio-
nais da década de quarenta do século XX inspiram o surgimento do moderno nais, honrando o génio criador e inventivo do Homem Angolano, e baseados
nacionalismo angolano na década seguinte. Escritores e estudiosos sociais, na brilhante tradição das gerações precedentes, colocam o conjunto da sua
tais como Viriato da Cruz, Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, António Ja- acção criativa e dos saberes endógenos herdados ao longo dos séculos, ao ser-
cinto e Mário António Fernandes de Oliveira (1934-1989) intervêm como pro- viço das populações, das comunidades e dos povos, e em especial, das gera-
tagonistas desses movimentos colectivos de luta pela libertação nacional. São ções vindouras. Assim, neste momento de proclamação e celebração dos es-
perseguidos, julgados e condenados pela máquina policial e judicial colonial. critores e cientistas sociais, a Academia Angolana de Letras afirma-se como
No início da década de sessenta, alguns desses intelectuais lideram a Luta um espaço de diálogo interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar, de
Armada de Libertação Nacional. Nessa década crucial da luta pela autodeter- criatividade literária e cultural, de reprodução e divulgação de saberes endó-
minação, escritores e investigadores sociais criam em Argel, capital da Repú- genos, de comunicação cultural inter-geracional e de renovação, projecção e
blica Argelina, o Centro de Estudos Angolanos (CEA), que publica o primeiro consolidação do nosso destino e imaginário colectivos – A ANGOLANIDADE.

(Manifesto aprovado na Assembleia Constituinte da AAL,


manual de História de Angola de pendor nacionalista. Pela primeira vez é

realizada no passado dia 7 de Julho de 2016)


exaltada a gesta gloriosa do Povo Angolano desde o período mais antigo ante-
rior à implantação do sistema colonial. A Academia Angolana de Letras rende

Membros da AAL Membros presentes


6 | LETRAS 18 a 31 de Julho de 2016 | Cultura
A propósito de uma mukanda vinda do outro lado do Atlântico
TRANSVERSALIDADES NOS ESTUDOS (LITERÁRIOS)
ANGOLANOS NO BRASIL SOMAM E SEGUEM
NORBERTO COSTA de académicos entre finais dos anos (ISSN 2179-7528) como o dossiê ‘Áfri- forma, giram em torno do trinómio
60/ e princípios dos anos se ocuparam cas: história, literatura e pensamento história, literatura e pensamento so-

O
Brasil é, provavelmente, o país dos estudos africanos dos PALOP, parti- social’ ”, sublinhando que“ é fruto de cial africano”, acrescentando que
do continente americano que cularmente Angola (Gerald Bender, au- desdobramentos das actividades do “Desejamos uma saborosa leitura a
mais tem desde longa data a tor de “Angola sob domínio colonial grupo de pesquisa Áfricas, vinculado todos, despertando novas reflexões e
preocupação de conhecer a África. Esta português”- história política-, profusa- ao Laboratório de Estudos das Dife- inauditos debates”.
suposição parece tornar-se uma certe- mente divulgada entre nós), como em renças e Desigualdades (LEDDES) da Já no fim da missiva lembram que
za, se voltarmos o nosso olhar para o relação à literatura destacamos os pro- Universidade do Estado do Rio de Ja- “lembramos também que a Transver-
papel pioneiro desenvolvido pela Uni- fessores Russel Hamilton e Gerald Mo- neiro (UERJ), bem como de parcerias sos: revista de história recebe artigos
versidade de São Paulo em torno dos ser (entre outros raros) os nomes mais com outros núcleos de estudos, pes- em fluxo contínuo”, basta que para
estudos africanos, ainda nos anos 60, badalados entre nós. quisa e extensão, tais como o Labora- tanto que “Aceda à página da revista,
com a contratação do escritor Castro Voltando ao Brasil, a divulgação da tório de Estudos Africanos (LEÁFRI- conheça o nosso dossiê, vejam as re-
Soromenho para ministrar o curso da literatura angolana e dos demais 4 PA- CA) da Universidade Federal do Rio gras e enviem seus materiais para os
Sociologia da África Negra, inspirado na LOP e mesmo africana, em geral, sofre de Janeiro (UFRJ).” próximos números.”
sua experiência e vivência em África, um grande “élan” , com a publicação Os subscritores enfatizam que “ Finalmente, subscrevem a “mukan-
mas sobretudo no “sertão” da Lunda, pela editora “Ática”, igualmente sob Assim, como o tecido africano estam- da” os Prof. Dr. Silvio de Almeida Carva-
para onde fora trabalhar como funcio- coordenação de Fernando Mourão, de pado na capa deste número da Trans- lho Filho, da LEÁFRICA/UFRJ e Prof. Dr.
nário público ao serviço da administra- títulos de autores angolanos como versos, o seu dossiê e notas de pes- Washington Santos Nascimento (AFRI-
ção colonial portuguesa. Aliás, espaço Wanhenga Xitu, Luandino Vieira, Pe- quisa tecem tramas com fios policro- CAS - LEDDES/UERJ)”. A quem agrade-
geográfico que serve de pano de fundo petela, Boaventura Cardoso e Jofre Ro- máticos: há uma diversidade de ob- cemos e que mandem sempre notícias
da sua trilogia de Camaxilo. cha, para não falar dos caboverdeanos jectos e abordagens relativos à mul- destas e outras transversalidades entre
Os estudos africanos e, sobretudo, Oswaldo Alcântara, Manuel Lopes e tifacetada África, mas que de certa Angola e o Brasil.
angolanos, referidos ao plano literário, Teixeira de Sousa, ou dos moçambica-
sofreram um grande impulso com a in- nos José Craveirinha, Orlando Mendes
trodução da pesquisa, análise e divulga- e Luis Beranrdo Honwana. Em relação
ção das Literaturas Africanas de Língua á África de língua oficial francesa des-
Portuguesa, de que resultaram a inser- tacamos a publicação do romance his-
ção na grelha curricular na Faculdade tórico “Sundjata”, de Djibril Tamsir
de Ciências Humanas e Sociais da USP Nyane, e romancista do nigeriano,
nos meados dos anos 70, das Literatu- Chinua Acehe, com o título “O mundo
ras Africanas de língua portuguesa, se despedaça”, cujo um dos persona-
com destaque para a angolana e a cabo- gens, Okonkuo, se suicida para recu-
verdiana, as mais pujantes entre as cin- sar a agressão colonial.
co. São pioneiros dessa ‘démarche’ di- Rebobinando o caso de Angola, nos
dáctico-pedagógica os prof.drs. Fer- anos 80 poetas como João Maimona vi-
nando Mourão e Maria Aparecida San- ram os seus poemas publicados no Su-
tilli, consagrando-se assim como os plemento literário de Minas Gerais, as-
precursores dos estudos das literaturas sim como Lopito Feijó, na revista “Di-
africanas de língua portuguesa no Bra- mensão”, sem esquecer o caso do jovem
sil. Depois dessa experiência inicial os oriundo do Uíge, Luís Queta, falecido
estudos literários africanos estende- precocemente no princípio dos anos
ram-se para outras universidades bra- 90, que teve os seus poemas publicados
sileiras, chegando a ganhar foro de cida- num outro periódico brasileiro, que
dania na media brasileira, sobretudo chegou ao nosso conhecimento por via
em alguns órgãos especializados, como de uma exposição realizada pela BJLA,
na revista África da USP e de estudos da na extinta galeria Humbiumbi, do fina- Luandino, Xietu e Pepetela
linguagem da Universidade fluminen- do promotor cultural Tirso do Amaral,
se, sem prejuízo do centro de estudos cujo vazio deixado no panorama da di-
Afro-Asiáticos, sob coordenação do vulgação das artes é notório, apesar da
Prof. Cândido Mendes. Entretanto, pequenez do seu espaço, entregue hoje
quando em 2007 estivemos na PUC/ aos serviços de restauração. Porém, nos
São Paulo sentimos pouco os ecos des- últimos anos a divulgação da literatura
tes estudos universidade afecta à igreja angolana no Brasil tem destacado figu-
Católica, pelo que chegamos à conclu- ras da nova vaga como Isabel Ferreira,
são que era uma “aventura académica”, Jonh Bela, Ngonguita Diogo, entre ou-
conseguida por meia dúzia de africanis- tros, nomeadamente na Baía e não só,
tas interessados no conhecimento cien- com o concurso da “prata da casa”

“Tranversos- revista
tífico de África. Nesta senda, em finais

de história”
de 1983, o professor português Alfredo
Margarido, publica um interessante ar-
tigo sobre “A emergência da literatura Nesta senda da divulgação da reali-
angolana”, no mais cotado jornal paulis- dade social, cultural e literária angolana
ta, o Estado de São Paulo, constituindo no Brasil, recebemos há dias a notícia
na verdadeira uma pedrada no charco da existência da “Transversos: revista
do marasmo reservado à África na de história”, através da nossa caixa de
grande imprensa brasileira, cujo diapa- correio electrónico.
são dos seus intelectuais parece afinar Em carta subscrita pelos responsá-
mais para o gigante do norte - os Esta- veis da publicação pode ler-se:
dos Unidos da América. Em se tratando “É com imensa alegria que apresen-
dos Estudos Unidos, duas a três figuras tamos a Transversos: revista de história Castro Soromenho
LETRAS | 7

BALUMUKA
Cultura | 18 a 31 de Julho de 2016

ESTREIA DE RÚBIO PRAIA


âmbito da III Trienal de Luanda. Rúbio Praia disse que algumas
Apresentado pelo escritor Victor crónicas foram publicadas em 2004,
Amorim Guerra, o livro, de 165 páginas, no complemento Vida Cultural do
traz uma temática diversificada que vai Jornal de Angola. “De lá para cá, es-
desde o bullying, fuga à paternidade, o crevi para o programa Kialumingo
crescente número de igrejas, prostitui- (RNA), em 2009, depois estive no se-
ção e a educação enquanto processo de manário Agora, onde também escre-
formação integral do homem. via crónicas.
“Nós angolanos, jovens principal- Enquanto coordenador da área
mente, precisamos de ter uma postura cultural e sociedade do jornal, viven-
diferente. Devemos influenciar as pes- ciei muitas situações como violação,
soas de forma a terem um comporta- o crescer da violência e do crime em
mento positivo que se reflicta na so- si. Estes temas todos e mais alguns
ciedade, ou seja, uma sociedade sadia inéditos que escrevi de 2012 a 2014
faz-se com pessoas sadias”, aconse- é que fazem esta compilação de cró-
Rúbio Praia lhou Rúbio Praia que acredita que nicas jornalísticas e literárias que é o
“com o Balumuka, do quimbundo, que Balumuka”, esclareceu.
significa acorda, as pessoas poderão Victor Amorim Guerra considerou

R
úbio Praia, prémio Maboque uma compilação de crónicas literá- ler, reflectir e pensar sobre o estado de que a obra de Rúbio Praia ultrapassou

“RETRATOS DO LIBOLO” II
Jornalista Revelação em rias e jornalísticas, sair à luz do dia coisas e a postura que devem tomar a sua condição profissional de jorna-
2013, viu a sua primeira obra, 29 de Junho, no Palácio de Ferro, no dentro da sociedade”. lista e foi para o lado da literatura.

No dia 10 de Julho, decorreu, no tórico-culturais, antropológicos e


Salão Multiusos da Missão Católica socio-identitários.
de Santo António de Calulo, o lança- Em Retratos do Libolo, Carlos Fi-
mento do livro Município do Libolo, gueiredo que de forma destemida e
Kwanza-Sul, Angola: Aspectos lin- desapaixonada palmilhou o territó-
guístico-educacionais, histórico- rio que se encontra entre os rios
culturais, antropológicos e sócio- Luinga, Longa e Kwanza bem como
identitários”, Vols. 1 e 2, e foi apre- a Estrada Nacional 120, apresenta-
sentado o segundo volume da Obra nos aspectos como a Geografia, o
Retratos do Libolo, inserida no relevo a Hidrografia e seus recur-
"Projeto Libolo". sos, o clima, o solo, a fauna e a flora,
O Projecto Libolo é uma inicia- o café do Libolo, e até insectos típi-
tiva que abraça o estudo de as- cos. No livro, encontramos ainda
pectos linguístico-culturais, his- aspectos sociológicos e históricos.

A DOR MAIOR
DE UM CONTRATADO
Em cada dia do contrato,
Não é durante o dia, muito pior
naquela imensidão de cafeeiros, do que o suor
quando granjeia a terra e a pele a arder;
com outros companheiros; muito pior
não é quando se alaga de suor, é quando a noite chega de repente
porque o sol brilha lá em cima — e daqueles que amou,
e abrasa a roça inteira de calor; que estão no quimbo àquela hora
não é então que sente (lembra-se bem de todos, um a um,
a dor maior de estar ali. a mulher, mais os filhos que deixou),
não ter nenhum
Não é, não é… junto de si…

Escravo negro do Rio de Janeiro Inácio Rebelo de Andrade


8| ARTES 18 a 31 de Julho de 2016 | Cultura

Keyezua Ana Silva

CONEXÕES FEMININAS
CONEXÕES MÚLTIPLAS NO ESPAÇO PRIVADO
Inaugurada no dia 11 de Julho e ções de identidade, memória, história, diferentes questões e suscitam-se no-
aberta ao público até ao dia 26 de tradição e modernidade num contexto vos discursos. Reflectir sobre este pro-
Agosto, na galeria do edifício Sede do específico, intimista mas global ao cesso sob o ponto de vista feminino e
Banco Económico, está uma exposição mesmo tempo. em África leva-nos a repensar acerca
colectiva das artistas Ana Silva, Keye- A noção de globalização no contexto da apropriação cultural e técnica, não
zua e Rita GT, sob a designação de Co- do pós-modernismo tem implicações como um processo histórico de coloni-
nexões Femininas. de natureza antropológica. Definido zador / colonizado mas a repensar na
Explorando a noção de identidade como “as características de natureza mudança de paradigma que permite
feminina no espaço privado e no con- sócio-cultural e estética, que marcam o considerar o objeto não como uma en-
texto multicultural e intercultural capitalismo da era contemporânea” o tidade física acabada, finalizada, mas
através do objecto de arte, torna-se Pós-modernismo coloca a reflexão nu- sim como uma construção sociotécni-
parte de um processo de diálogo num ma época em que (co)habitamos num ca – “A apropriação questiona assim
enquadramento mais alargado de de- universo imagético, repleto de signos, não somente o desfasamento entre o
senvolvimento humano, histórico e ícones, ruídos visuais –fantasia - em prescrito e o efectivo (adaptação), ob-
cultural. Podemos falar de Multicultu- detrimento dos objectos e por vezes da rigando a pensar os processos inter-
ralidade porque trata de diferentes experiência (real). Propostos pela tec- médios que são as formas de se aperce-
culturas que coabitam no mesmo es- nologia e pela necessidade de criar a ber e entender o prescrito e as formas
paço, e de interculturalidade porque ilusão, completar o vazio, a simulação de actuar, de viver com eles em contex-
cada uma delas tem incluso o resulta- substitui a realidade e entra muitas ve- tos particulares (apropriação)”.
do de várias culturas adquiridas pelas zes em colisão onde o individual pre- A viagem individual de cada uma das
experiências e vivências de cada um. domina sobre o colectivo. artistas é colocada num espaço seu, in-
Para a curadora Sónia Ribeiro “não Ao mesmo tempo que a globalização timo mas em permanente dialogo num
se trata de falar de feminismo mas do e a tecnologia podem esbater essa dis- espaço entre espaços, por vezes em
olhar feminino e do resultado da inte- tância como espaço de comunicação confronto com o outro, no qual o todo é
racção destas artistas acerca das no- entre culturas, colocam-se no caminho maior do que a soma das partes.”

Rita GT
Cultura | 18 a 31 de Julho de 2016 ARTES | 9

ÍCONES E PAISAGENS
DA MINHA TERRA
DE FRANCISCO VAN DÚNEM (VAN)

Amilkar, VAN e Teresa Mateus Moradia, 2016, objecto intervencionado Onda, 1995, objecto encontrado

Dia e Noite, 2016, objecto e técnica mista sobre tela Quadro de Van No mato a estranheza, 2016, objecto e técnica mista sobre tela

Dia 12 de Julho no CAMÕES, o Mestre gens construtivas e interpretativas, a outros espaços de conhecimento e Educação Visual e Tecnológica na Escola Supe-
Francisco Van Dúnem (Van) inaugura- reinventando formas e (re)utilizando sabedoria; digamos que uma contri- rior de Viana do Castelo (1994). Foi co-funda-
va a exposição “ÍCONES E PAISAGENS materiais considerados pobres, tais buição, ao mesmo tempo que um aler- dor e professor de desenho, gravura e pintura e
DA MINHA TERRA”, que assinala qua- como desperdícios de serralharia, car- ta sobre os perigos que ameaçam a di- também director da Escola Média de Artes Plás-
tro décadas do seu percurso artístico. pintaria, alvenaria, pedaços de im- versidade ecológica, biológica, étnica ticas em Luanda (1994/1997). Concluiu o Mes-
Na exposição individual “ÍCONES E prensa escrita, peças artesanais entre ou linguística, num alerta para aquilo trado em Educação Artística na University of
PAISAGENS DA MINHA TERRA” Van outros. (...) Nesta missão, esforcei-me que ainda podemos”. Surrey Roehampton em Londres. Actualmente,
apresenta cerca de noventa obras iné- por permanecer como um dos inicia- é docente da disciplina de desenho no Curso de
ditas, em expressões diversificadas dos nas linhas estilísticas das artes SOBRE O ARTISTA Arquitectura da Faculdade de Engenharia da
(dez pinturas, setenta desenhos, uma tradicionais angolanas, aliado às ten- Francisco Van-Dúnem (Van) nasceu no Icolo Universidade Agostinho Neto e Professor cola-
instalação, um vídeo e cinco objectos dências mundiais de arte contempo- e Bengo e fez os estudos primários e secundá- borador do Instituto Superior de Artes.
de materiais diversos). Através deste rânea. (...) as sensações aqui transmi- rios em Luanda. Concluiu a licenciatura em Conta no seu percurso com perto de 30 ex-
trabalho, Van revisita e reinventa a sua tidas foram colhidas nos meios urba- posições individuais e mais de uma centenas
muito cara angolanidade, reafirmada nos e periféricos, rurais e de informa- de exposições colectivas apresentadas em An-
como recorrente fonte de inspiração e ções prévias do mundo das artes vi- gola e outros países, como Argélia, Brasil, Bul-
fio condutor de toda a sua obra. Mer- suais e plásticas. Nada foi inventado gária, Cabo Verde, Cuba, Espanha, Gabão, Itália,
gulha nas raízes profundas da sua Ter- em absoluto (...). África do Sul, Inglaterra, Namíbia, Jugoslávia,
ra, sem contudo deixar de se assumir Amilkar Feria Flores, curador da ex- Hungria, Guiné Bissau, Inglaterra, Namíbia, ex-
como um artista da sua época, que re- posição diz, “Em ÍCONES E PAISA- Jugoslávia, Hungria, Moçambique, ex-Checos-
flecte, interroga e questiona, chaman- GENS DA MINHA TERRA, o artista ele- lováquia, Zâmbia, Rússia, Noruega, Suécia, Por-
do a atenção para contradições que vou-se, ganhou uma distância crítica tugal, Congo, França, Alemanha, EUA, Japão e
marcam as novas realidades sociais e para compreender, com a acuidade da China. Entre os Prémios recebidos, incluem-se:
urbanas do mundo actual. Sobre ÍCO- sua experiência, tudo o que conforma Prémio Mural Cidade de Luanda/1985; Pré-
NES E PAISAGENS DA MINHA TERRA o vasto horizonte de seus domínios mio Banco de Fomento Exterior/1990; Prémio
diz o artista: “tentei, mais uma vez, fa- poéticos. É sem margem de suspeita, Ensa-Arte/1996; Prémio Ensa-Arte/2004;
zer aproximações com outras lingua- um caminho rico que abre novas rotas Prémio Nacional de Cultura e Artes/2008.
10 | artes 18 a 31 de Julho de 2016 | Cultura

Panaibra

O GRANDE MUSEU
ENTREVISTA AO COREÓGRAFO PANAIBRA GABRIEL

DAS DANÇAS TRADICIONAIS


MATADI MAKOLA mostrando que a coreografia não é um PG - Pois. Posso tomar como exem- análise estética que resulta numa pro-

O coreógrafo e bailarino moçam-


trabalho isolado, dilui-se em diferen- plo quando fiz uma obra que intitulei posta super contemporânea. Foi um

bicano Panaibra Gabriel nos faz


tes campos da arte, como a música, "Mafalala", na qual procuro observar o trabalho bastante premiado. Isso

perceber, de modo lúcido e sim-


artes visuais, poesia. É uma questão corpo de Moçambique e do moçambi- mostra que há muitos ângulos de se

ples, como a dança sobressai desse


de continuar a trabalhar na transver- cano novo. Não é mais aquele ser a pu- chagar ao problema, e questionar deu-

estar em constante movimento, e


salidade da coreografia. lar vestido de saias de pele. Existe um me novos elementos, outra maneira

nos convida a pensar se a vida, este JC - Como posicionar o passado


novo corpo. Como criar desta visão as de ler os códigos da memória colecti-

movimento constante, não seria africano, no que toca a danças, nes-


ferramentas que me possibilitem re- va. Mas é preciso recriar com o lado in-

uma dança. Não seria, inconscien- te mundo globalizado e de eféme-


tratar a vida contemporânea? O resul- telectual activo e investir ainda mais

temente, apenas uma dança sob o ras criações?


tado foi uma obra que analisava os tra- na nossa criatividade, de forma a esti-

embalo das tensões pessoais e co- PG - Uma das coisas importantes é


jectos diários da vida dos moçambica- mularmos a arte.

lectivas das sociedades. a visão do JC - Como qualifica as similarida-


nos, desde o sair de casa ao serviço,

seu trabalho "Mafalala", referen-


não esquecermos que existe um gran-
des entre as danças de angola e Mo-
mercado e comércio informal. Notei

ciado nesta entrevista concedida


de museu daquilo que são as danças
çambique?
que esta labuta diária de levar coisas

ao Cultura, esgota-se neste dançar


tradicionais, que funciona como fonte
PG - Eu penso que há uma história
pesadas na cabeça torna-o num corpo

o viver. a convite da alliance Fran-


de inspiração e espólio sobre como os que no seu dia-a-dia luta contra a sua

çaise de Luanda e do Centro Cultu-


nossos antepassados definiam as gravidade. Foi interessante pesquisar que confere similaridade, algo que a

ral Brasil-angola, veio a Luanda pa-


suas sociedades nas suas criativida- só a partir desta realidade, que não é história já não pode mais alterar. As

ra pesquisa e proferir uma palestra


des artísticas. Por outro lado, é preci- alheia a muitos países africanos. En- semelhanças são notáveis nas danças

animada sobre coreografia e dança


so compreendermos que estamos a contrei vocabulários suficientes e ma- de salão, e nas companhias de danças

contemporânea africanas, que teve


viver outra realidade e que há uma teriais coreográficos, nesta relação de tradicionais vemos que há muito ain-

lugar no anfiteatro do Centro Cultu-


evolução tanto estética como intelec- peso, verticalidade e como o corpo é da por descobrir entre os nossos po-

ral Brasil-angola na tarde do dia 11


tual que é preciso não deixarmos à afectado pelo impacto do dia-a-dia e vos, e para isso é preciso criarmos

de Junho, sexta-feira.
margem. Porque este processo foi na- da carga da vida. Encontrei uma forte maior aproximação, estabelecendo
tural, antes de termos passado por sé- metáfora observando apenas o corpo, plataformas de conhecimento mútuo

Jornal CULtUra - Que ferramen-


culos de opressão. Esta vontade e ne- permitindo assim reinventar temática que possam facilitar avanços no de-

tas de imaginação têm hoje os co-


cessidade de busca de valores afecta a e estética que tem a ver com o novo senvolvimento artístico.

reógrafos africanos?
ligação com a geração vigente, que
JC - Qual é o grande desafio dos
moçambicano. Não devemos deixar a

Panaibra Gabriel - Há todo um es-


agora se apropria de novas heranças
coreógrafos africanos de hoje?
arte presa ao discurso que se volta to-
culturais. Mas é importante nesta fase
PG - Para mim, o grande desafio
talmente para o passado. Ganhamos
paço que deve ser agregado a um sa- de definição observarmos mais, es- nova dinâmica e isso exige de qual-
ber fazer que já existe. As iniciativas tarmos mais atentos à metamorfose quer coreógrafo necessidade de trans- continua a ser a abertura. É preciso
como estas, de quer traçar uma plata- do nosso dia-a-dia, apesar de hoje formação. Outro exemplo é o meu tra- chegar a um lugar lá no cérebro para
forma de intercambio, são um cami- sermos pessoas indissociáveis do te- balho "Tempo e Espaço - Solos da Mar- sermos criativos. Esta abertura não
nho para a criação de oficinas, produ- lemóvel e do automóvel. Há ainda coi- rabenta", que desperta alguma preo- assenta no discurso de não haver pes-
ções conjuntas e comunhões que pos- sas particulares e novas por desco- cupação quanto à incompreensão de soas que pensam, mas há vezes que há
sam estimular a novidade e termos re- brir, e isso só acontecerá se aguçar- seguir o ocidente ou agarrar-se à Áfri- tantas barreiras e falta de oportunida-
sultados como a aplaudida tentativa mos de forma desafectada o nosso ca por se resgatar. Decidi criar esta des que limitam o individuo. É preciso
em teatro e dança do musical baseado senso de criação e de pesquisa. obra à base do vocabulário estético desenvolver mais acções que estimu-

JC - Descobrir, pesquisar, encon-


nas tenções emocionais das persona- das danças tradicionais e tribais, mas lem oficinas, residências artísticas e

trar novas imagens...


gens do romance Niketche, da escrito- anulando os significados codificados programas de formação. Lembro que
ra moçambicana Pauline Chiziane, pelo gesto. Porque foi apenas uma uma vez fiz um programa em Moçam-
Cultura | 18 a 31 de Julho de 2016 ARTES | 11

bique e não tive dúvidas de como os Magoma, do congolês democrata da como uma bienal, e passou a adoptar, em
Moçambicanos têm talento na dança, Faustin Linyekula, dos moçambica- 2009, o nome "Kinani".
mas nota-se claramente que o grau de nos Janete Mulapa, Orácio, da Senega- Em 2006, iniciou um novo projecto de forma-
fraqueza está na criatividade. Fomos lesa Fatou e do congolês brazzavile ção em dança (IN)DEPENDENCIA, projeto de
educados numa sociedade cujo proce- Cloram. Também podemos sempre ci- formação integrando jovens bailarinos com e
der é copiar dos adultos e fazer. É pre- tar nomes que já granjearam sucesso sem deficiência física, o projecto culminou com a
ciso quebrar um pouco isso porque como Germaine Acogny, que é uma criação de vários espectáculos apresentados em
não é a única forma de podermos fazer das pessoas que deram muito pela Maputo, França, Ilha Mayote e Ilha Reunião e
arte, há outros caminhos. É preciso dar dança contemporânea no continente. Estados Unidos da América, mais tarde, desen-
oportunidade de conhecimento. O de- Bem, teríamos uma lista cheia de no- volveu um núcleo de formadores no bairro de
safio é exactamente encontrar pessoas mes, porque acredito firmemente que Matendene onde lançou o primeiro projecto de
que estejam neste patamar de conheci- cada um seja somente igual a si. Não os criação de grupos amadores de dança inclusiva.
mentos, abertas à criação e com um cito somente pelo resultado final, mas Em 2006, em Paris, a sua criação Dentro de Mim
olhar vanguardista acima de tudo. Não pelo processo que cada um tenta bus- Outra Ilha, ganhou o segundo prémio nos En-
basta apenas o corpo ter habilidade físi- car para desenvolver o seu trabalho, contros Coreográficos de África e do Oceano Ín-
ca, porque a dança criativa não quer propondo-nos um processo indivi- dico. Dois anos mais tarde, com a sua obra “Ma-
apenas um corpo super atlético e que dual muito próprio. Estes nomes tam- falala2” foi um dos vencedores em Zurique, Suí-
faça os melhores saltos, mas um corpo bém nos mostram que os jovens de- ça, do Prémio Mecenato ZKB (2008), em segui-
consciente dos saltos que está a fazer. vem ter a possibilidade de aceitar as da, através do projeto “time and space:the mar-
Maior consciência corporal e profunda diferentes formas do pensamento rabenta solos” ganhou o Prêmio incentivo de
leitura de si próprio podem ajudar no contemporâneo. Sylt Quelle Cultural para SouthernAfrica
posicionamento da criação nova. Em (2009), um prémio da Fundação, Alemã Kunst:
termos estéticos, há muito por se explo- Biografia de Panaibra Gabriel Mafalala, Sete, Heróis desconhecidos.... Raum Sylt Quelle em colaboração com o Goethe-
rar nas danças folclóricas e que podem Bailarino e coreógrafo de Moçambique, é um Em 2003, Gabriel organizou o seminário inter- Institut de Joanesburgo.
ser melhoradas com uma maior análise, dos precursores da dança contemporânea na- nacional com o tema: "Como ensinar e estimular a As suas obras “Tempo e espaço: os Solos da
saber como o corpo se curva nesta ou quele país. Nascido em Maputo, dedicou-se ao dança contemporânea em um contexto africa- Marrabenta” ,”Limites”, "Ponto de Intercepção"
naquela dança. Pode-se mesmo desen- teatro, música e dança e completou a sua forma- no?”. Segue a esta iniciativa a criação de um pro- têm sido mostradas na África, EUA, América do
volver técnicas a partir desta introspec- ção em dança contemporânea em Lisboa, com grama de desenvolvimento educacional “1º Está- Sul e Europa.Em 2013, seu o espectáculo “Tem-
ção e análise dos ritmos e camadas cul- artistas como Vera Mantero (Portugal), Frans gio de Desenvolvimento Coreográfico”, com dura- po e Espaço: Os Solos da Marrabenta” foi consi-
turais que necessitam ainda serem me- Poelstra (Países Baixos), Reggie Williams e Meg ção de seis meses, obedecendo uma estrutura de derado o melhor de dança em Portugal. E, em
lhor analisadas. A falta de conhecimen- Stuart (Estados Unidos) com o apoio do festival trabalho de 8h durante 5 dias por semana. O curso 2015, premiado melhor performance em Sa-
tos que possibilitariam a análise coreo- Danças na Cidade. foi desenvolvido em parceria com "Danças na Ci- raievo (MESS Festival).Desde 2012-2014 tem
gráfica é o grande empecilho. Em 1998, ele fundou e desenvolveu CulturAr- dade" (Lisboa) e escola PARTS (Bruxelas). Coreó- participado como director artístico e coreógra-
te, uma estrutura artística voltada ao sector pro- grafos como David Zambrano (Venezuela), Tho- fo do projecto Incluarte.
CC - Do que vê no trabalho de ou- fissional e criativo de dança, onde vem desenvol- mas Hauert (Suíça), Mat Vooter (Países Baixos), Para além de criar e dirigir obras de dança,
tros, que nomes de coreógrafos vendo diferentes projectos, desde criação de es- Arco Renz (Alemanha), Lia Rodrigues (Brasil), Panaibra Gabriel Canda tem dado aulas de téc-
africanos deveriam merecer mais a pectáculos, a projetos educativos, oficinas, resi- Clara Andermatt (Portugal), Faustin Liyekula nica de movimento, aulas de composição coreo-
nossa atenção? dências e plataformas, e desenvolve colabora- (RDC) ou Boyzie Cekwana (África do Sul) fizeram gráfica, improvisação e história da dança, deu
PG - Temos em África artistas que ções com artistas da África Austral (África do Sul, parte do quadro docente para o curso. aulas em seguintes universidades: Universidade
têm um trabalho pessoal muito im- RD Congo, Senegal, Madagáscar) e da Europa. Em 2004, criou o espectáculo “Dentro de Nova de Lisboa, UCLA- Universidade da Califór-
portante e que estão numa direcção Em 2000, apresentou a sua primeira cria- Mim Outra Ilha (Em mim outra ilha)” que teve nia, Universidade de Vermont, Universidade do
interessante. Falo de pessoas como os ção, A Ópera do Tambor, no Centro Cultural uma torné de 3 meses pela Europa. Em 2005 lan- Novo México, Clare Smith College Park em Was-
jovens coreógrafos sul africanos Ro- Franco-Moçambicano, em Maputo, uma pro- çou a primeira plataforma de dança contempo- hington, e tem orientado workshops em diversos
byn Orlin, Boyze Cekwana, Gregory dução da CulturArte, mais tarde a Criação rânea em Moçambique, hoje em dia denomina- festivais no mundo.

MUSEU ESPECIALIZADO
A moeda na construção da História
ADRIANO DE MELO Mas ao virar à esquerda, começamos país, assim como o algodão, eram par- A infra-estrutura, que é uma inicia-
por entrar no mundo da moeda, este vil te das notas. A exposição permanente tiva do Banco Nacional de Angola e co-

A
companhar a história do país, a metal, que durante anos definiu o des- inclui também alguns símbolos e pro- meçou a ser construída em Janeiro de
partir da evolução da moeda, é, tino de civilizações e construiu Nações. dutos que eram usados, antes das 2013, hoje é uma referência da baixa
desde Maio, a nova proposta A história começa pela Macuta e Reis e moedas e notas nas trocas comerciais, de Luanda.
que a baixa de Luanda oferece aos passa pelo Centavo, Escudo e o Angolar como o sal ou o zimbo, assim como ar-
seus habitantes e visitantes, de terça- até chegar ao Kwanza. tefactos guardados, ao longo de anos,
feira a domingo, das 9h00 às 17h00. Num percurso, que pode ser feito pelo Banco Nacional de Angola, como
O museu, vocacionado apenas para em minutos ou horas, os visitantes parte do seu acervo.
a história e evolução da moeda em An- têm a possibilidade de conhecer as Apesar de alguns jovens usarem o
gola, do período colonial até aos dias mudanças que ocorreram no dinheiro local mais para fazer fotos suas (“sel-
de hoje, tem sido, nestes primeiros usado no país ao longo de anos. Se nas fies”), uma boa parte ainda vai para lá
meses um “ponto comum” da maioria primeiras notas e moedas vemos vá- cheia de curiosidade em entender o
dos luandenses, ávidos de conheci- rios símbolos e líderes portugueses, que vêm. O modernismo, típico de um
mentos e curiosidade. É muito usual impressas sob orientações do Banco museu contemporâneo, está bem pa-
para qualquer visitante ver muitas Nacional Ultramarino, para a então tente no local.
crianças no recinto, acompanhadas Província de Angola, depois temos o Claro que para prevenir qualquer
pelos pais, ou um encarregado de edu- Kwanza, o símbolo máximo de um po- dano, a direcção do museu criou re-
cação, uma prática que se tinha redu- vo libertado, impresso já pelo Banco gras para proteger o património ali pa-
zido bastante nos últimos anos, devi- Nacional de Angola. tente. Uma das regras é a proibição do
do, em parte, à dinâmica da vida, onde A cada nota do kwanza também te- uso de flash durante as fotos. A equipa
o tempo é um factor crucial. mos um registo da própria História do de segurança montada no local está lá
Actualmente, logo à entrada do mu- país. As notas traziam desenhos sobre para fazer cumprir cada regulamento,
seu, com uma estrutura arquitectónica vários assuntos, todos ligados aos ob- de forma a preservar o património, no
muito diferente das demais instituições jectivos do país na época. O incentivo à âmbito de um amplo projecto nacional
do género, está a exposição “Expressões luta pela paz, a aposta na educação, ou de valorização da herança histórica e
de Prata”, em regime temporário. o petróleo, como uma das riquezas do cultural do país.
12| ARTES 18 a 31 de Julho de 2016 | Cultura

XI FESTECA
OS GUERREIROS DA GLOBO DIKULU
E A IMAGINAÇÃO ESVOAÇANTE DE ANN KLATT
MATADI MAKOLA Homenagens que tem procurado evitar uma exces- palco do FESTECA, disse-nos que “o

O pano do palco da XI edição do


siva exposição pública. Nasceu em prémio é de Angola”.

Festival Internacional de Teatro do


O grupo Ombaka, da província de
Vinde mais vezes, Ann Klatt
Luanda mas passa toda infância e ado-

Cazenga (FESTECA), que decorreu


Benguela, que conta com mais de seis lescência em Mbaza Kongo, onde toma

no Centro de Animação Artística


participações no FESTECA, foi o es- os primeiros contactos com o teatro. A vinda da actriz alemã Ann Klatt é

"ANIM´ART" de 8 a 17 de Julho, abriu


colhido desta vez. Criado a 5 de Mar- Tem um percurso inteiro no Elinga, on- sem sombra de dúvida, em jeito de

com um grito de bravura aos feitos


ço de 2005 na cidade de Benguela, é de, sem favor de ser membro fundador, respaldo antecipado, o grande ganho

da organização, que fez de tudo para


dos mais dinâmicos da região sul, ga- divide a direcção do grupo com Mena que o instituto cultural alemão -

termos a festa do teatro, a contracor-


nhando assim alguma atenção me- Abrantes. Coordenadora do importante GOETHE - conseguiu dar às Artes Cé-

rente de tantas incertezas financei-


diática. Conta com uma participação Festival Internacional Elinga, mas que nicas neste ano que esperamos o florir

ras. Mas a noite de abertura do certa-


internacional no Festival de Inverno só chegou na terceira edição e claudi- do festival internacional de teatro in-

me reservava outras peripécias, do


de Moçambique. Tem em destaque as cou, ficando a promessa da quarta sem fanto-juvenil. Até então o GOETHE não

atraso sentido e reclamado às lágri-


peças “Quando a Realidade Atinge”, data e local previstos. Na possível vida se envolvia de forma tão positiva e

mas de alegria de Nani Pereira...


“O Técnico”, “Sonhei com Manguxi”, fora dos palcos, visto que ainda estamos acertada com o teatro, nessa sua em-
“A Lei” e “O Elevador”. muito longe dos actores viverem do tea- preitada cultural que tudo indica estar
A noite caía e a chegada de convida- Algumas figuras da génese do tea- tro, mesmo para consagrados do quila- disposto a direccionar as suas inten-
dos ilustres trazia a certeza de que a tro angolano foram distinguidas. Con- te de Nany, Kangombe ou Adelino…, se ções para lá da Mutamba.
arte pode ser fundamental na des- ceição Diamante, natural de Luanda, desdobra como jurista. Ann dirige uma companhia de tea-
construção de estereótipos e precon- tem uma carreira de mais de 30 anos, Nas poucas palavras de agrade- tro de bonecos, um trabalho mais
ceitos. A 6ª Avenida do Cazenga agita- num percurso que se estende nos pal- cimento, interrompidas pelas lá- complexo que o da escola de marione-
va-se aos poucos que iam chegando cos e nas telenovelas. É um dos rostos grimas que lhe caíram insubmis- tas. Faz um pouco de tudo: monta o ce-
gente de diversos estratos sociais e do grupo Julu, de forte intervenção no sas, foi precisa em dizer que o tea- nário, as roupas e, e mais difícil, faz
origens. Toda a poeira daquela rua teatro comunitário. Volta a ser nome tro, como arte colectiva, precisa de voar a sua imaginação. O teatro de bo-
sem asfalto e as ainda precárias (mas sonante neste festival que já em 2014 momentos como estes e que é uma necos é um trabalho sofisticado e novo
possíveis) condições que o centro ofe- a elegeu como melhor actriz . das poucas acções de homenagem que é voltado para um público supe-
rece, contribuíram mais ainda para o Africano Kangombe tem se nota- prestadas à sua pessoa. rior aos quatro anos de idade, já sendo
mérito de Orlando Domingos e sua bilizado como figura transversal e David Caracol sobressaiu ainda desenvolvido em países como França
equipa, que somam mais de duzentos ponto de unidade da classe teatral, neste ano de 2016 com uma actuação e Inglaterra. Esta linguagem, mais vi-
espectáculos e um leque de mais de além das suas meritórias habilida- brilhante em “Cartas da Guerra”. A ver- sual, trabalhando a expressão corpo-
três mil actores movimentados nestes des reconhecidas no excelente tra- dade é que este actor do Horizonte ral com mais afinco, permite às crian-
11 anos de FESTECA. Porque mais po- balho de gestão do Oásis. Foi, a nível Njinga Mbande voltou a mostrar a sua ças desenvolverem as suas emoções.
bres estaríamos se toda a máquina internacional, consultor da ONU pa- competência em passar no casting de Onde busca inspiração para fazer
não soubesse se arrojar com discipli- ra o Teatro e Culturas Étnicas Ango- “Posto Avançado do Progresso”, outro coisas tão estranhas e fugidias à ima-
na para manter firme o único festival lanas. Por si encabeçado, a nível lo- filme de produção portuguesa. Mas a ginação comum? Um dos actores pre-
internacional de teatro ainda operan- cal o Oásis foi segundo lugar no FE- boa nova não para aí: David recebeu sentes no encontro perguntou, curio-
te de forma regular, agora acudido pe- NACULT de 1989 e Prémio Nacional em Março passado o prémio de me- so em saber como ultrapassar o pro-
lo Circuito Internacional de Teatro, or- de Cultura e Artes de 2014. Pelo fac- lhor actor do Festival de Las Palmas, blema da falta de imaginação. Ann, de
ganizado na Centralidade do Kilamba. to de estar entre os homenageados, em Espanha, pela sua actuação em sorriso nos lábios, orientou que usa
Convictos deste propósito estavam Jo- que lhe valeu um diploma e troféu, “Posto Avançado do Progresso”. como método o recurso às artes plás-
sé de Oliveira Bastos, vice-admistra- também disse: “Não tem sido fácil Com cerca de 30 anos de teatro, o XI ticas. Disse ser uma pessoa atenta às
dor do Cazenga para Área Política e continuar, mas o teatro é sempre FESTECA não podia estar céptico ao artes plásticas e à dimensão pictórica
Social, Viera Lopes, director nacional uma arte gratificante”. bom momento da carreira deste actor dos quadros, que lhe servem de fundo
da Acção Cultural do ministério da A actriz e figurinista Anacleta Perei- angolano, recado que deve ser baixa- e onde busca os traços da composição
Cultura, directores de grupos de tea- ra, a nossa “Nani” do Elinga Teatro, do às embaixadas de Angola no es- de personagens que dá vida. Esta di-
tro, actores, jornalistas e demais pre- uma das poucas sobreviventes do nú- trangeiro para que estas possam fazer rectora alemã apresenta ideias que
sentes, imbuídos no espírito da se- cleo embrionário do qual nasce o Elin- o seu trabalho de expansão cultural e são uma alternativa à mesmice e cli-
guinte afirmação: “ Juventude e Arte – ga de hoje, acautelou-nos de imediato ajudar no acesso a projectos interna- chés de composição que vem se evi-
O Futuro nas Nossas Mãos”. ser uma pessoa de lágrimas fáceis e cionais. Das suas poucas palavras no denciando no nosso teatro.

Africano Kangombe Anacleta Pereira Conceição Diamante David Caracol


Cultura | 18 a 31 de Julho de 2016 DIÁLOGO INTERCULTURAL | 13

JOSÉ LUÍS HOPFFER ALMADA


“REMEMORAÇÃO DO TEMPO E DA HUMIDADE”
AUTOBIOGRAFIA ORTÓNIMA
mote Lembras-te e dos versos em re-
frão Todos nós éramos/todos nós fo-
mos; Livro que sectoriza o leitor para

Nasci numa aldeia


cada livro de cenários profusos, mas

à sombra de um sobrado
numa linha de remarcação do sujeito

e da austera penumbra das montanhas


poético complexo.
O arco e a lira em José Luís Hopffer

Ainda criança
Almada também armam-se da recor-

exauri-me nas exaustas margens das ribeiras


dação, da ontologia, da epifania e da

galguei a húmida orografia da Assomada


litania. São orações, se quisermos,

e fiz-me árvore do planalto


em toda a sua ambivalência, por-

D
ecorreu, dia 1 de Julho, nos Pa- quanto empreendem os versos tanto

O serpentear das estradas


ços do Concelho de Lisboa, a na retroversão do passado (ecos e

fez-me desembocar no mar


apresentação pública do livro ressonâncias) do Poeta, como na

e desaguar no silêncio
“Rememoração do Tempo e da Humi- prospecção do futuro (desejos e pul-

junto a uma cidade


dade (Poema de Nzé de Sant’y Ago)” do sares) no projecto poético tornado li-

espraiada em azul e murmúrio


poeta caboverdeano José Luís Hopffer vro. Fica-nos a dúvida: será que a pai-
Almada e dirigente da Associação Ca- xão vigorosa do puro texto a varrer a

De costas para o mar


boverdeana de Lisboa. temporalidade o nascedouro do épi-

insinuei-me
Filinto Elísio escreve que “O livro de co moderno?”

- para além da ilha -


José Luís Hopffer Almada, “Rememo-

na lenta e transparente
ração do Tempo e da Humidade” (Im-

caminhada das nuvens


prensa Nacional Casa da Moeda), (...)

para de Leipzig
reconfirma algo já escrito nas estrelas

loucamente beijar
das letras cabo-verdianas.

com amor e com ardor


Hopffer Almada realiza neste seu

a neve com odor


novo livro a articulação de seis outros

a carvão e melancolia
‘livros’ – ‘A infância e os mitos assina-

para da Europa
lados’ e o subtítulo ‘Assomada noc-

longamente acariciar
turna revisitada’; ‘Terra Longe-Diás-

com ardor e com amor


poras’; ‘Sanvicentinas (Reformula-

o níveo e silente frio


ções Mindelenses)’; ‘Revisitações da
Casa do Tempo e do Saber’; ‘Praia-

Hoje sei que sou


nas’; e ‘(Es) pasmos da Desesperança

um simples signo de adão e eva


e da Dor de Liberdade (ou Reencena-

e do seu éden pétreo no Pico de António


ções da Maturidade dos Tempos e dos
Heróis Reinventados)’. Livro que,

José Luís H. Almada

Rodrigo de Matos vence


aporta em subtítulo ‘Poema de Nzé di
Sant’ y Águ’, que o ressignifica em
completude assonante do verso em

Grande Prémio Press Cartoon Europe


O cartoonista Rodrigo de Matos foi o
vencedor do Grande Prémio Press Car-
toon Europe. O português venceu o con-
curso que distingue os melhores car- Rodrigo de Matos
toons publicados em jornais, revistas e
meios de comunicação online de toda a to do mundo, este ano, no Brasil.A cola-
Europa. O cartoon premiado caricatura o borar com o semanário 'Expresso' des-
futebol e a crise económica portuguesa. de 2006, o cartoonista luso vai, agora,
Promovido pelo Press Cartoon Bel- receber o prémio no Festival Interna-
gium, o Press Cartoon Europe atribui cional de Cartoon, em Knokke-Heist, na
um prémio no valor de 8.000 euros. Bélgica, sendo que o segundo prémio
Este ano, o galardão foi entrege a Ro- foi atribuído a Tjeerd Royaards e o ter-
drigo de Matos, graças ao cartoon ceiro a Hajo de Reijger, ambos por car-
que revela um mendigo com uma ti- toons publicados na Holanda.
gela nas mãos, a ser servido com uma Natural de Angola, Rodrigo de Ma-
concha onde está colocada uma bola tos estudou jornalismo em Coimbra,
de futebol. onde também se licenciou em Ilustra-
O objetivo passar por fazer referên- ção Editorial e de Imprensa. Atual-
cia à crise económica no país e ao apu- mente, reside em Macau e publica no
ramento de Portugal para o campeona- jornal macaense 'Ponto Final'.
14 | DIÁLOGO INTERCULTURAL 18 a 31 de Julho de 2016 | Cultura

ENTREVISTA DE AZIZA RAHMOUNI, POETA MARROQUINA


AO POETA PORTUGUÊS LUIS FILIPE SARMENTO
Aziza Rahmouni - Você poderia nos contar um pouco do seu caminho
criativo diversificado entre a produção e escrita?
Filipe Sarmento - Desde que percebi que a criação de fenómenos artísticos
passaria por uma boa parte das 24 horas de cada dia da minha vida, vários fo-
ram os caminhos que se cruzaram. Desde logo a literatura, mas também o ci-
nema, o jornalismo, mas também o teatro. Diria que é um caminho atípico.
Não só porque não pertenço a esse universo de gente que começou a ler clássi-
cos aos 5 anos e a escrever poesia aos 6, mas porque passei por uma infância
igual a tantas outras em Portugal no início dos anos 60 do século passado. Co-
mo quase todos os rapazes desse tempo acalentei sonhos de ser jogador de fu-
tebol, locutor de rádio, bombeiro, piloto de aviões ou astronauta. Foi a colabo-
ração precoce nos suplementos juvenis dos jornais, o que foi um acaso da mi-
nha vida, que me fez aproximar de um mundo até então completamente des-
conhecido para mim. Entro muito cedo para as redacções dos jornais onde vi-
ria a conhecer os mais importantes intelectuais portugueses. Pela simples
prática de estar simplesmente à escuta nas suas tertúlias fui descobrindo o
mundo fantástico dos livros e dos seus contadores de histórias, dos pensado-
res, dos artesãos das palavras mágicas.
A paixão seria inevitável. E, talvez por mimese, comecei a escrever as minhas
primeiras histórias e os meus primeiros poemas, mas com uma forte influência
da técnica jornalística que já então praticava. Percebi que o jornalismo é uma

FS - Evidentemente. A relação das nossas experiências com o fascínio pelo


das disciplinas superiores da literatura e, a partir dele, as ficções são mais reais,
mais próximas do leitor. Contudo, o fascínio pela linguagem leva-me a experi-
mentalismos modernistas e à descoberta de outras. Surge, assim, o cinema e, mundo desconhecido que encerramos em nós mesmos está plasmado em cada
consequentemente, a televisão. 40 anos depois do meu primeiro livro e 35 anos poema, em cada reflexão, em cada parágrafo de uma história aparentemente
depois da minha primeira série de filmes para televisão permanece o mesmo inventada onde o real está tão presente como na realidade que nos envolve. Es-
fascínio por esse mistério que nos leva a criar a partir do real novas formas da crevemos para saber quem somos e com quem comunicamos. Nesse diálogo
sua interpretação, para compreendê-lo e saber um pouco de quem somos. tem-se a consciência de que hoje sou diferente de ontem e diferente de ama-

AR - Você tem um ritual de escrita, horários fixos ou um lugar tão


nhã. É uma relação que nos leva à repetição da diferença num universo de di-

especial?
versidades que nos constituem em cada fenómeno experimentado.

FS - Os rituais vão mudando com o tempo. Quando era jovem, preferia escre- AR - Você gosta mais de escrever ou traduzir e por quê?
ver à noite, madrugada fora, acompanhado por um bom vinho do Porto. Hoje, FS - A escrita e a tradução são faces da mesma moeda. Com a primeira navego
prefiro levantar-me cedo, por volta das 7 horas da manhã e dar início ao meu no meu barco, sem destino, em busca de novos territórios. Na tradução, rein-
trabalho de escrita. Costumo escrever numa longa mesa de madeira, virado pa- vento o território de outro, desterritorializo-me e viajo numa dimensão para-
ra a parede. São horas de interioridade, de reflexão, de sonho. Ao fim e ao cabo, é lela com a mesma paixão, com o mesmo fulgor, com o mesmo rigor. É desta
todo um mundo de ficções que se convoca para chegar ao grande objectivo que é relação que surge, por vezes, novas relações com os autores que traduzo.
comunicar. Comunicar, confrontando ideias, criticando ou denunciando os in- Novas famílias, novos mundos, novas sensações com a dimensão fascinante
sultos que os senhores do mundo lançam contra os povos. Sobretudo contra os de um outro idioma.

AR - Antes do lançamento de um livro, o que você sente?


povos do Sul. Neste meu pequeno mundo, como se fosse o atanor de um alqui-

FS - A tranquilidade absoluta de que esta viagem já ninguém me pode ti-


mista, vão surgindo as ideias que darão corpo e vestuário às minhas obras. Sem-
pre em silêncio. Solitariamente.

AR - Você escreve o texto só uma vez ou repetidamente?


rar. O prazer de vê-lo voar pelas livrarias nacionais e estrangeiras. Mas tam-

FS - Um texto, no meu caso, é submetido a várias versões, por vezes num exer-
bém a disponibilidade de aceitar o convite que o livro me faz a viajar com
ele para outras paragens. Quando um livro sai sinto também o terror de não
cício obcecado pelo jogo da linguagem. Os meus livros vão surgindo de frag- voltar a escrever outro.

AR - Você é sensível à crítica literária?


mentos escritos à mão, sobretudo em viagem, exercícios de reflexão filosófica,

FS - Se ela é honesta, sim. Se ela tem como função ser megafone de interesses
linguística, histórica e que, mais tarde se adaptarão à obra em execução. Fruto
de uma das minhas paixões maiores que é a leitura e o cinema. Quando chega o
momento em que, conscientemente, não tenho nada mais a acrescentar, seja à alheios a mim e ao meu livro, não.

AR - Qual é o segredo do sucesso?


ficção, ao ensaio ou ao poema, dou por terminado o livro. Depois, deixo-o des-

FS - Creio que não há receitas. O sucesso acontece para lá do ofício do escri-


cansar num arquivo oculto no meu computador, depois de salvo numa pen, du-
rante algumas semanas. Ao revisitá-lo vou descobrir se ele está definitivamente
acabado ou se exige alterações. Terminado este processo, segue para o editor. A tor. Não me sujeito a modismos. Lanço experiências literárias. Se elas têm eco
partir daqui deixa de me pertencer. Esqueço-o. E raramente regresso a ele. junto dos receptores fico feliz. Se não têm, não deixarei de fazer o meu cami-

AR - O que represente a escrita para você?


nho com a autenticidade que me exijo em cada obra. Não busco sucessos. Os

FS - Começou por ser uma paixão pela descoberta da linguagem. Hoje, a lite-
sucessos são sempre exteriores a nós. Têm vida própria. E não deixo que in-
fluencie a minha mais profunda intimidade. O sucesso pode ser, num ou nou-
ratura é um membro da minha família mais íntima. Com quem me entendo, com tro caso, um suplemento vitamínico contra o medo de uma seca criativa. E
quem me zango, com quem me rio, com quem, por vezes, corto relações e a nunca deverá ser o leitmotiv do escritor. O escritor em si vive fora do sucesso.
quem retorno sempre movido por novas sensações de paixão, por um erotismo O sucesso é um múltiplo abraço do desconhecido a quem agradeço pela gene-
revivificador e transformador do ser. A literatura, sendo um espaço da interiori- rosidade que transporta em si mesmo.

AR - Através da escrita, você deve passar mensagens ou apenas contar


dade, só acontece quando sai. Só é real quando explode. Nós só somos o que so-

histórias?
mos quando saímos. Ser é sair. E quando se sai há sempre algo de novo que nos

FS - Toda a minha escrita é comprometida com o tempo que vivo. É uma escri-
espera e nos leva pelos caminhos misteriosos da sedução que nos conduzirão ir-
remediavelmente ao fascínio, ao deslumbramento. Mas a literatura também é
um espaço de profundo agradecimento pela existência que me tocou viver. ta da actualidade, do momento transformador da humanidade, das suas convul-

AR - Há algumas "partes" de você, a sua experiência, em sua escrita?


sões, das suas arbitrariedades, dos seus confrontos ideológicos. As histórias es-
tão lá. Basta observá-las com atenção e detalhe. No detalhe de uma foto há uma
Cultura | 18 a 31 de Julho de 2016 DIÁLOGO INTERCULTURAL | 15

história oculta por contar que não se pode dissociar do universo onde está inte- que assassina a fraternidade entre povos, que vilipendia
grada. Seja no romance ou na poesia, presididos pelas mensagens humanistas e a diferença, que envilece culturas, que promove mortandades.
contra todo e qualquer poder que tente anular a livre expressão da humanida- Esta é a Europa da globalização da pobreza e da miséria,
de. Não somos propriedade de ninguém. Fazemos parte de um corpo que sem da normalização digital das mentes, dos alimentos, das medidas,
nós seria mais pobre. Essa é a grandeza do edifício humano. das fardas virtuais, da descaracterização do homem regional.

AR – O Facebook abre os horizontes. Vocês acha que ele aproxima o lei-


Esta é a Europa dos criminosos, dos assassinos, dos corruptos,

tor do escritor?
dos títeres, das marionetas, dos vermes. Esta é a Europa

FS - Sem dúvida. A revolução comunicacional operada pelas redes sociais


dos cadáveres, do sangue putrefacto, da prosa enlameada
pelos detritos das fortunas roubadas às nações. Esta é a Europa
veio transformar e alimentar a relação não só entre o escritor e o seu leitor, mas que deflagrou a democracia, a política, o consenso,
entre todos os seres humanos. Para o bem e para o mal. Mas as revoluções en- a Europa que se suicida dia a dia nos cadafalsos da especulação,
cerram sempre riscos e se assim não fosse ainda estaríamos a viver em grutas dos famigerados mercados, das bolsas e dos seus carrascos.
sem saber da existência do outro. O Facebook é um enorme salão de confronto Esta Europa é um imenso Vesúvio, de múltiplas crateras, o terramoto
de diferenças, de reencontros, de pacificações históricas, de movimentos huma- da vergonha, o dilúvio da ambição, o esgoto do caos.
nistas pela igualdade de todos os seres humanos independentemente das suas Esta Europa é uma Comissão de loucos, fanáticos, cobardes,
ideologias ou opções religiosas, da cor da pele ou das suas geografias. O Face- o buraco negro da dignidade humana.
book é um mundo virtual onde a existência é tão real como na minha cidade. Foi
nesse enorme salão de eventos que nos encontrámos e nos sentámos para esta (Luís Filipe Sarmento, do livro "A Casa dos Mundos Irrepetíveis", 2015)
conversa fraterna sobre um tema que é em si toda a vida desde há milhões de
anos até ao infinito.

Luís Filipe Sarmento nasceu a 12 de Outubro de 1956. Licenciado em Fi-


_____________________

Esta foto
captura-me
losofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Escritor, Tradu-

representa-me
tor e Realizador de Televisão. Jornalista, editor, realizador de cinema e ví-

autentifica-me
deo. Professor de Escrita Criativa. Alguns dos seus textos encontram-se tra-

depois de morto.
duzidos em inglês, espanhol, francês, italiano, mandarim, japonês, romeno,

No regresso à poesia
macedónio, croata e russo.

rasgo-a.
O tempo não captura
o mistério do poema.

(Luís Filipe Sarmento, do livro "Efeitos de Captura", 2015)

Esta é a Europa das fraudes, dos impedimentos, do desprezo


humano, da corrupção, das proibições, das barreiras,
dos muros da vergonha, das cortinas que escondem misérias,
do assalto às multidões. Esta é a Europa sem memória,
da festa dos eleitos em reuniões clandestinas em hotéis de luxo,
da manipulação, da destruição da esperança, do holocausto
programado. Esta é a Europa sem solidariedade,

BIBLIOTECA ONLINE TEM MAIS DE TRÊS


MIL LIVROS GRATUITOS EM PORTUGUÊS
Uma biblioteca online disponibiliza associada uma classificação que indi- nar como "uma espécie de montra". em breve com a colaboração da escri-
gratuitamente mais de 3.000 livros ca se é pesquisável, se está sob a forma O projecto tem ainda um blogue, tora Adília Lopes.
em português europeu, além de ter 25 de fotografias (ou seja, com fotos de que actualmente concentra artigos Em números, o blogue tem 275 se-
reedições de títulos que estavam de- cada página) ou se tem alguma restri- publicados na imprensa sobre livros, guidores, o 'site' teve 43.079 visualiza-
saparecidos e um espaço de edição de ção de acesso. antigos ou recentes, mas que Ângela ções desde que se autonomizou, em
originais de novos autores. O 'site' também já reeditou 25 livros Correia quer desenvolver para um es- Abril de 2015, e no dia em que foi mais
O projecto Biblitrónica Portuguesa que deixaram de existir em papel, obras paço de crítica e crónicas, contando visitado alcançou os 8.593 visitantes.
nasceu em 2007, no Departamento de antigas ou difíceis de encontrar por não
Literaturas Românticas da Faculdade serem apetecíveis comercialmente pa-
de Letras da Universidade de Lisboa, ra as editoras convencionais, mas que
pela professora Ângela Correia e alu- "mantêm o interesse público" e que es-
nos, mas autonomizou-se no ano pas- tão libertos de direitos de autor.
sado para um endereço próprio. Os objectivos destas publicações,
A generalidade destes livros está segundo a docente, "são vários".
disponível em formatos que permitem "Um deles é darmos espaço de ex-
impressão ou que podem ser descar- perimentação a novos autores que
regados gratuitamente para leitura nunca tenham conseguido publicar
em dispositivos pessoais. numa editora e a novos ilustradores,
A secção dos cerca de 3.000 "livró- além das pessoas que aprendem como
nicos" funciona como um portal para se faz um original, desde a revisão do
os livros em língua portuguesa que es- texto à paginação e à articulação com a
tão presentes 'online', é a zona mais ilustração", explicou.
utilizada pelos leitores e pretende ser Os novos autores que queiram ser
exaustiva. publicados têm de aceitar condições
São livros de todo o género, sem como a inexistência de troca de di-
qualquer critério de qualidade asso- nheiro e a cedência de direitos para
ciado. Cada publicação é classificada que o livro fique disponível a toda a
por nome do autor e pelo título, tendo gente, porque o projecto quer funcio-
16| BANDA DESENHADA 18 a 31 de Julho de 2016 | Cultura