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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

DEPARTAMENTO DE ESTUDOS ESPECIALIZADOS

EDU03071 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS) - TURMA K


(2017/2)

Professora Bianca Ribeiro Pontin

Ricardo Gausmann Pfitscher - 00046266

A Cultura Surda

Este relato aborda reflexões acerca do filme “E seu nome é Jonas”, de Richard
Michaels, que estreou nos EUA em 1979. A reflexão traz elementos discutidos principalmente
a partir do artigo “Surdos” de Bianca Ribeiro Pontin e Emiliana Faria Rosa e do artigo
“Língua de sinais brasileira: aspectos linguísticos” de Lodenir Becker Karnopp, ambos
publicados na Apostila de Libras da UFRGS em 2014.
Ao se tratar da importância da Língua de Sinais como elemento principal na
abordagem do enredo cinematográfico cabe destacar, para fins de contextualização, que,
segundo Karnopp, apenas em 1984 a UNESCO declarou que a Língua de Sinais passaria a ser
reconhecida enquanto um sistema linguístico legítimo. Em seguida, no ano de 1987, a
Federação Mundial do Surdo, rompendo com o paradigma oralista, decretou a primeira
Resolução sobre Língua de Sinais. Neste decreto formula-se como direito fundamental que
“pessoas surdas e com grave impedimento auditivo devem ser reconhecidas como uma
minoria linguística, com o direito específico de ter sua língua de sinais nativa aceite como sua
primeira língua oficial [...]”. No Brasil, tão somente, apenas em 2002, com a luta das

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comunidades dos surdos, ocorreram as conquistas tanto do reconhecimento da cultura surda
quanto da oficialização da Língua Brasileira de Sinais.
Contextualizamos os períodos das conquistas relativamente recentes das comunidades
surdas, pois devemos levar em conta o ano de produção do filme que cumpre um papel
relativo a sua respectiva época. “E seu nome é Jonas” foi produzido em período anterior às
conquistas que as comunidades surdas obtiveram globalmente. Apesar de um roteiro
carregado por narrativas clichês, machistas (considerando a época e o patriarcado a pleno
vapor) e por uma atmosfera onde os personagens adultos se encontram imbecilizados, o filme
ainda nos convida para uma reflexão fundamental que é o fato de desmistificar as visões
naturalizadas pelo preconceito e pela desinformação a respeito da pessoa surda. O
protagonista deste drama, um menino de mais ou menos seis anos, além de incompreendido
pelos seus pais e familiares é massacrado psicologicamente até praticamente o desfecho do
filme. A figura paterna é implodida pelo preconceito já na metade da trama – não coube ao
personagem “pai” nem sequer a retomada de consciência. O avô (por sinal outra referência
masculina), figura afetiva e amiga do garoto, morre. Resta ao personagem materno a
superação de seu próprio desconhecimento e preconceito em relação à surdez de Jonas. A
atmosfera preconceituosa em relação ao menino é perturbadora.
O filme situa a aquisição da oralidade e o uso de prótese auditiva como forma de
normalização do garoto. O personagem é exposto a uma série de disciplinamentos e rigores
psíquicos-corporais, mutilando toda e qualquer forma de expressão que não seja a oralização.
O filme evidencia uma relação direta entre a clínica médica e a normalização do surdo,
negando-lhe qualquer diferença. Aqui, podemos trazer a contribuição do artigo de Bianca
Ribeiro Pontin e Emiliana Faria Rosa. As autoras revelam que historicamente a falta da
audição não é aceita por médicos, pela escola e pela família. Assim, os métodos de
normalização, tais quais as cirurgias, as medicações, os treinamentos fonoaudiológicos, as
próteses auditivas e implantes são tidos como artefatos que buscam tornar o sujeito surdo
parecido com o sujeito ouvinte. Esta visão clínica simplista vai de encontro ao conceito de
corpo danificado e se afasta das dimensões da cultura e da identidade da comunidade surda.
As autoras reforçam a necessidade do surdo ser compreendido não pela falta, mas pela
diferença.

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Em seu desfecho, infelizmente, o filme explora rapidamente a vivência dos
personagens na comunidade surda. Porém, evidencia que o encontro dos personagens com a
comunidade libertou o garoto de sua longa clausura. Mais uma vez é importante ressaltar o
artigo de Potim e Rosa, o qual nos diz que o encontro entre surdo-surdo promove a identidade
surda. Tanto nas comunidades, quanto nas escolas ou associações, o encontro entre surdos
promove a descoberta de experiências, de necessidades e de artefatos culturais semelhantes
entre eles. Assim, a Língua de Sinais apresenta-se central na constituição da identidade e da
cultura surda. A alegria do garoto Jonas é triunfante ao ser compreendido quando expressa
com sinais o desejo por hot dog. Naquele momento, seu sorriso expressa sua liberdade por
poder se fazer ser compreendido. A comunidade surda é apresentada à mãe do protagonista de
modo desmistificante, quebrando o medo de um encontro com uma “anormalidade” tão
temida pelo pai do garoto.
O filme demarca oposições fortes entre a) a clínica médica e fonoaudiológica com
seus aparatos técnicos normalizadores e crianças surdas angustiantemente disciplinadas e
incompreendidas e b) a escola e a comunidade surda onde a Língua de Sinais conecta uns aos
outros de forma espontânea, revelando um ambiente humanizador e com crianças felizes.
Talvez expresse um velho conflito entre os paradigmas da ciência e da cultura.
As autoras Pontin e Rosa (p. 05) sublinham a importância de pensarmos a cultura e a
identidade surda na relação com a Língua de Sinais:
Existem vários significados para a palavra cultura, mas relacionado às pessoas surdas, ela
representa identidade. Hall (1997) diz que a cultura “determina uma forma de ver, de interpelar, de
ser, de explicar, de compreender o mundo”. Sendo assim, os surdos têm seus hábitos, modos de
ver, compreender, explicar, os quais são compartilhados na comunidade surda, junto às
experiências, as histórias, o humor; este compartilhamento ocorre através do visual, do olhar, da
língua de sinais. Pode-se assim afirmar que a cultura surda se expressa através da língua de sinais.

Para além do olhar, da expressão facial e da própria presença do outro, a Língua de


Sinal é o elemento que estabelece a relação e o compartilhamento cultural entre os surdos.
Efetivando-se como o mais forte marcador identitário entre os surdos.