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Notas de Aula para Variável Complexa I

João Carlos N. de Pádua

Universidade de Brası́lia, Departamento de Matemática


Esclarecimento. Estas Notas de Aula apenas registram o material
apresentado em sala de aula, para a turma A de Variável Complexa I,
do primeiro semestre de 2019. Elas não pretendem substituir nenhum
livro sobre funções de variáveis complexas.
Índice

Capı́tulo 1. Números Complexos 1


§1.1. Adição e multiplicação 1
§1.2. Conjugado e módulo de um número complexo 4
§1.3. Representação geométrica dos números complexos 7
§1.4. Forma polar de um número complexo 8
§1.5. Raı́zes da equação z n = a 12
§1.6. Apêndice: número complexo como par ordenado 15
Capı́tulo 2. Sequências e Séries de Números Complexos 19
§2.1. Sequências 19
§2.2. Séries 30
Capı́tulo 3. Funções Contı́nuas 43
§3.1. Funções 43
§3.2. Limites 47
§3.3. Funções Contı́nuas 53
§3.4. Apêndice 59
Capı́tulo 4. Funções Deriváveis 65
§4.1. Derivada 65
§4.2. Equações de Cauchy-Riemann 73
§4.3. Função Harmônica e Equação de Laplace 79
§4.4. Apêndice-Lema Fundamental do Cálculo 82
Capı́tulo 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e
seno 85

vii
viii Índice

§5.1. Séries de Potências 85


§5.2. Derivação termo a termo de uma série de potências 89
§5.3. Funções Exponencial e Trigonométricas 95
§5.4. Logaritmo 103
Capı́tulo 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy 115
§6.1. Integral de Contorno 115
§6.2. Existência de primitiva 127
§6.3. Teorema de Cauchy 129
§6.4. Extensão do Teorema de Cauchy 135
Capı́tulo 7. Fórmula Integral de Cauchy 139
§7.1. Fórmula Integral de Cauchy 139
§7.2. Teorema de Taylor 144
§7.3. Fórmula integral de Cauchy para as derivadas 148
§7.4. Funções Analı́ticas 149
§7.5. Desigualdade de Cauchy 154
§7.6. Teorema de Liouville 155
§7.7. Teorema Fundamental da Álgebra 155
§7.8. Produto de séries de potências 157
§7.9. Teorema de Morera 158
Capı́tulo 8. Teorema dos Resı́duos 161
§8.1. Introdução 161
§8.2. Ponto singular removı́vel 161
§8.3. Polos 164
§8.4. Representação em série em torno de ponto singular removı́vel
e de polo 168
§8.5. Ponto singular essencial 169
§8.6. Resı́duos 171
§8.7. Cálculo do resı́duo em polos simples 173
§8.8. Cálculo do resı́duo em polo de ordem m, m > 1 174
§8.9. Teorema dos resı́duos 179
§8.10. Integrais impróprias 181
§8.11. Integral de função racional 182
§8.12. Produto de uma função racional por seno ou cosseno 184
§8.13. Integrais próprias com cosseno ou seno 191
Índice ix

§8.14. Apêndice – Série de Laurent 192


Capı́tulo 9. Transformações de Moebius–aplicações 197
§9.1. Transformações de Moebius 200
§9.2. Razão Cruzada 204
§9.3. Aplicações a Problemas de Contorno 205
§9.4. Princı́pio do Máximo para Funções Harmônicas 208
Índice Remissivo 213
Capı́tulo 1

Números Complexos

1.1. Adição e multiplicação


Em uma primeira abordagem, é comum definir um número complexo z como
uma expressão do tipo
z = a + ib, (1.1)
onde a e b são números reais. Além disso, define-se a operação de adição de
dois números complexos z = a + ib e w = c + id por
z + w = (a + c) + i(b + d), (1.2)
e a operação de multiplicação por
zw = (ac − bd) + i(ad + bc). (1.3)
Por exemplo, se z = 3 + i e w = −1 + i2, então a soma desses números é
z + w = [3 + (−1)] + i(1 + 2)
= 2 + i3,
e o produto deles é
zw = [3(−1) − 1 · 2] + i[3 · 2 + 1(−1)]
= −5 + i5.

Nas definições (1.1), (1.2) e (1.3) existe um ponto que precisa ser esclare-
cido. Quando escolhemos a = c = 0 e b = d = 1 na multiplicação definida
em (1.3), i.e., z = 0 + i1 e w = 0 + i1, obtemos
ii = i2 = −1. (1.4)
É claro que o i não pode denotar um número real, visto que se x é um
número real, então x2 ≥ 0.

1
2 1. Números Complexos

Se não exite um número real que satisfaça a equação (1.4), precisamos


então definir o que seria o i e dar um sentido às expressões
ib e a + ib.
Uma maneira de definir um número complexo z, inclusive o i, é via par
ordenado: z = (a, b), onde a e b são números reais; “ordenado” significa
que (a, b) 6= (b, a) se a 6= b. Apresentamos essa abordagem no Apêndice a
este capı́tulo; lá daremos uma interpretação para as expressões (1.1), (1.2)
e (1.3).
No que segue, usaremos a forma tradicional z = a + ib e as definições
(1.2) e (1.3). Isso facilita o uso de números complexos, e é consistente,
pois é possı́vel atribuir um sentido às expressões (1.1), (1.2) e (1.3) via par
ordenado de números reais.
A primeira componente a em (1.1) é denominada parte real de z, deno-
tada por Re(z), e a componente b é a parte imaginária do número complexo
z, denotada por Im(z), ou seja:
a = Re(z) e b = Im(z).
Note que a parte imaginária é b (um número real) e não ib.
Por definição, dois números complexos z = a + ib e w = c + id são iguais
se, e somente se, a = c e b = d.
O conjunto dos números complexos, com as operações de adição e de
multiplicação definidas em (1.2) e em (1.3), é denotado por C.
As operações de adição e de multiplicação são associativas, i.e., para
quaisquer números complexos z1 , z2 e z3 , temos
(z1 + z2 ) + z3 = z1 + (z2 + z3 ) e (z1 z2 )z3 = z1 (z2 z3 ),
e são comutativas também:
z1 + z2 = z2 + z1 e z1 z2 = z2 z1 .
É fácil verificar essas quatro últimas igualdades, basta escrever z1 = x1 +iy1 ,
z2 = x2 + iy2 e z3 = x3 + iy3 , usar as definições (1.2) e (1.3), e calcular cada
membro das igualdades. Como exemplo, verificaremos a associatividade do
produto de z1 , z2 e z3 .
O lado esquerdo de (z1 z2 )z3 = z1 (z2 z3 ) é
 
(z1 z2 )z3 = (x1 + iy1 )(x2 + iy2 ) (x3 + iy3 )
 
= (x1 x2 − y1 y2 ) + i(x1 y2 + y1 x2 ) (x3 + iy3 )
 
= (x1 x2 − y1 y2 )x3 − (x1 y2 + y1 x2 )y3
 
+ i (x1 x2 − y1 y2 )y3 + (x1 y2 + y1 x2 )x3
1.1. Adição e multiplicação 3

e o lado direito é
 
z1 (z2 z3 ) = (x1 + iy1 ) (x2 + iy2 )(x3 + iy3 )
 
= (x1 + iy1 ) (x2 x3 − y2 y3 ) + i(x2 y3 + y2 x3 )
 
= x1 (x2 x3 − y2 y3 ) − y1 (x2 y3 + y2 x3 )
 
+ i x1 (x2 y3 + y2 x3 ) + y1 (x2 x3 − y2 y3 ) .
Usando a associatividade, a comutatividade e a distribuitividade dos números
reais, vemos que as partes reais dos números (z1 z2 )z3 e z1 (z2 z3 ) são iguais:
x1 (x2 x3 − y2 y3 ) − y1 (x2 y3 + y2 x3 ) = x1 x2 x3 − x1 y2 y3 − y1 x2 y3 − y1 y2 x3
= (x1 x2 − y1 y2 )x3 − (x1 y2 + y1 x2 )y3 .
Analogamente, mostramos que as partes imaginárias dos números (z1 z2 )z3 e
z1 (z2 z3 ) são iguais; isso completa a verificação da associatividade do produto
de números complexos.
Outra propriedade válida para as operações de adição e de multiplicação
é a distribuitividade:
z1 (z2 + z3 ) = z1 z2 + z1 z3 .
O elemento neutro da adição é 0 = 0+i0, e o da multiplicação é 1 = 1+i0,
ou seja
z+0=z e 1z = z,
para todo z.
Cada número complexo z = a + ib possui um inverso aditivo −z =
(−a) + i(−b), satisfazendo
z + (−z) = a + ib + [(−a) + i(−b)]
= [a + (−a)] + i[b + (−b)] = 0 + i0 = 0.
Visto que todo número complexo w possui um inverso aditivo, podemos
definir a subtração z − w:
z − w = z + (−w).
Todo z = a + ib 6= 0 possui um inverso multiplicativo, denotado por 1/z.
De fato, se x + iy denota o inverso multiplicativo de z, então a condição
z · (1/z) = 1 é equivalente a
(a + ib)(x + iy) = 1.
Pela definição (1.3), temos (ax − by) + i(ay + bx) = 1. Essa igualdade é
equivalente ao seguinte sistema linear de equações nas incógnitas x e y:
(
ax − by = 1
bx + ay = 0.
4 1. Números Complexos

Visto que a2 + b2 6= 0, esse sistema possui uma única solução dada por
1 a −b 
= 2 2
+i 2 . (1.5)
z a +b a + b2
A existência de inverso multiplicativo para cada w 6= 0, e a definição de
multiplicação de dois números complexos, permitem definir a divisão de z
por w:
z 1
=z· .
w w
Exemplo 1.1. Calcule a soma, a diferença, o produto e o quociente dos
números z = 1 + 3i e w = 2 − i. Em seguida escreva as partes real e
imaginária de cada um deles.

A soma e a diferença são


z+w = (1+3i)+(2−i) = 3+2i e z−w = (1+3i)+(−2+i) = −1+4i.
O produto de z por w é
zw = (1 + 3i)(2 − i) = [(1)(2) − 3(−1)] + i[1(−1) + 3(2)]
= 5 + 5i.

No cálculo do quociente z por w, em vez de usar a expressão (1.5) para


escrever 1/(2 − i), é mais rápido multiplicar o denominador e o numerador
por 2 + i, pois assim o novo denominador torna-se um número real [veja
(1.6)]. De fato,
z 1 + 3i (1 + 3i)(2 + i)
= =
w 2−i (2 − i)(2 + i)
−1 7
= + i.
5 5
As partes real e imaginária do produto e do quociente são: Re(zw) = 5,
Im(zw) = 5, Re(z/w) = −1/5 e Im(z/w) = 7/5.

1.2. Conjugado e módulo de um número complexo


Apresentamos em seguida as definições de conjugado e de módulo de um
número complexo.
Definição 1.2. Associamos a cada número complexo z = a + ib o seu
conjugado z̄, definido por
z̄ = a − ib,
e o seu módulo (ou valor absoluto) |z|, definido por
p
|z| = a2 + b2 .
1.2. Conjugado e módulo 5

z
b
|z |
−a
a x

−z −b z

Figura 1.1. Posições de z, z̄ e −z.

A Figura 1.1 mostra as posições de um número z = a + ib, de seu


conjugado z̄ e do número −z; note que |z| é a distância entre a origem
(0, 0) de R2 e o ponto (a, b). As seguintes propriedades são válidas quando
tomamos o conjugado de um número complexo:
(a) z + w = z + w;
(b) (zw) = z w;
(c) ( wz ) = z
w.
Para verificar a validade de (b), escrevemos z = a + ib, w = c + id e
usamos as definições de multiplicação e de conjugação:
zw = (ac − bd) + i(ad + bc) = (ac − bd) − i(ad + bc)
= (a − ib)(c − id) = z w.
O módulo do produto de dois números complexos é o produto dos
módulos desses números; vale o mesmo para o quociente:
(d) |zw| = |z||w|;
|z|
(e) | wz | = |w| ;

Um fato simples mas muito útil é a igualdade


zz = |z|2 . (1.6)
É fácil verificar que essa igualdade é verdadeira:
zz = (a + ib)(a − ib) = a2 − aib + aib + b2
= a2 + b2 = |z|2 .
Na verificação da igualdade (d), podemos usar (1.6) e (b); em seguida,
usamos a associatividade e a comutatividade dos números complexos:
|zw|2 = (zw)zw = (zw)(z w)
= (zz)(ww) = |z|2 |w|2 .
6 1. Números Complexos

Agora é só extrair a raiz quadrada


√ do primeiro e último termos, e teremos
a propriedade (d); lembre que a2 = a quando a ≥ 0.

1.2.1. Desigualdade triangular. A seguir enunciamos duas desigualdades


essenciais para o estudo das funções de variáveis complexas.
Proposição 1.3 (Desigualdade Triangular). Para quaisquer números z e w
são válidas as desigualdades triangulares
(a) |z + w| ≤ |z| + |w|

(b) |z| − |w| ≤ |z + w|.

Demonstração. Vamos mostrar que |z + w|2 ≤ (|z| + |w|)2 ; depois é só ex-
trair a raiz quadrada de ambos lados dessa desigualdade. Segue da igualdade
(1.6) que
|z + w|2 = (z + w)(z + w)
= (z + w)(z + w) (1.7)
2 2
= |z| + z w + z w + |w| .
Veremos a seguir que z w + z w é um número real e que
z w + z w ≤ 2|z||w|. (1.8)
De fato, observamos inicialmente que se α é um número complexo qualquer,
então α = α e α + α = 2 Re(α); além disso, Re(α) ≤ | Re(α)| ≤ |α|. Logo,
segue das duas igualdades que
z w + z w = zw + z w = zw + zw = 2 Re(zw), (1.9)
e das desigualdades que
Re(zw) ≤ |zw| = |z||w| = |z||w|. (1.10)
A desigualdade (1.8) decorre de (1.10) e (1.9).
Finalmente, em virtude de (1.8), segue de (1.7) que
|z + w|2 = |z|2 + z w + z w + |w|2
≤ |z|2 + 2|z||w| + |w|2 = (|z| + |w|)2 .
Agora extraı́mos a raiz quadrada do primeiro e último termos dessa desigual-
dade, para encontrar a desigualdade triangular do item (a).
Demonstrar a desigualdade triangular do item (b) é equivalente a mostrar
que
−|z + w| ≤ |z| − |w| ≤ |z + w|.
A desigualdade do lado esquerdo decorre da primeira desigualdade triangu-
lar, visto que
|w| = |(z + w) + (−z)| ≤ |z + w| + |z|
1.3. Representação geométrica dos números complexos 7

Figura 1.2. Disco de centro em z0 e raio r.

ou
−|z + w| ≤ |z| − |w|.
Analogamente, temos a desigualdade do lado direito:
|z| = |(z + w) + (−w)| ≤ |z + w| + |w|
ou
|z| − |w| ≤ |z + w|.
Isso completa a verificação da desigualdade triangular do item (b). 

1.3. Representação geométrica dos números complexos


A identificação de um número complexo z = x+iy com o ponto (x, y) de R2 é
sempre útil para interpretarmos alguns conceitos e hipóteses e/ou conclusões
de teoremas. Em particular, o número complexo z = x + i0 será identificado
como o ponto (x, 0). Assim, podemos considerar o conjunto dos números
reais x como um “subconjunto” dos números complexos, a saber os pontos
(x, 0) de R2 . Essa reta é o eixo-x, e é denominado eixo real. Analogamente,
os pontos (0, y) formam o eixo-y, o qual é conhecido como eixo imaginário.
Com essa representação temos uma interpretação útil: se z = x + iy e
se z0 = x0 + iy0 , então |z − z0 | é a distância entre os pontos (x, y) e (x0 , y0 )
de R2 . Com efeito,
|z − z0 | = |(x − x0 ) + i(y − y0 )|
p
= (x − x0 )2 + (y − y0 )2 .

A Figura 1.2 mostra a distância entre dois pontos do plano, e mostra


também uma região em forma de disco, cujo centro é z0 e o raio é r:
D = {z ∈ C : |z − z0 | < r}.
Na Figura 1.3 representamos uma região do plano correspondente ao ex-
terior de um disco, de centro em zero e raio 1, e uma região em forma de
coroa circular, com centro em z0 = 1 − i:
(a) |z| > 1 e (b) 1/2 ≤ |z − 1 + i| < 3/2.
8 1. Números Complexos

Figura 1.3. Imagens de |z| > 1 e 1/2 ≤ |z − 1 + i| < 3/2.

y
z+w

Figura 1.4. |z + w| ≤ |z| + |w|.

A região do item (a) é “aberta”, i.e., ela não contém os pontos da fronteira
|z| = 1. A região do item (b) contém apenas uma parte da fronteira, a
saber, os pontos do cı́rculo |z − 1 + i| = 1/2, e não contém a outra parte da
fronteira, i.e., |z − 1 + i| = 3/2.
Essa identificação de um número complexo z = x + iy com um ponto
P = (x, y) de R2 e, em particular, do módulo |z| como a distância do referido
ponto até a origem (0, 0), permite também uma interpretação da desigual-
dade triangular. Com efeito, em qualquer um dos dois triângulos do par-
alelogramo da Figura 1.4, o comprimento de um cateto, a saber, |z + w|, é
sempre menor ou igual à soma dos comprimentos dos outros dois catetos,
i.e., |z| + |w|.

1.4. Forma polar de um número complexo


A representação polar de um número complexo facilita o cálculo de potências
do tipo z n ; mesmo se usarmos o teorema do binômio, é muito trabalhoso
calcular um número do tipo

(1 + i 3)99 .
A representação polar, como veremos, simplifica esse tipo cálculo. O primeiro
uso da representação polar será na determinação das raı́zes da equação
z n = a.
1.4. Forma polar de um número complexo 9

r
y=r sen θ
θ

x=r cos θ x

Figura 1.5. Coordenadas polares.

Da Figura 1.5 é fácil ver como o uso de coordenadas polares permite


representar um número complexo z = x + iy, z 6= 0. De fato, Re(z) = x =
r cos θ e Im(z) = y = r sen θ, logo
z = r(cos θ + i sen θ). (1.11)
O r em (1.11) é o módulo |z|, e o ângulo θ, chamado de argumento de z
e denotado por arg z, não é único, visto que as funções seno e cosseno são
periódicas de perı́odo 2π. Por exemplo,
π π π π
i = cos + i sen = cos( + 2π) + i sen( + 2π)
2 2 2 2
e
−1 = cos π + i sen π = cos(π + 4π) + i sen(π + 4π).
Porém, quando restringimos os valores de θ ao intervalo (−π, π], passa
a existir um único número θ solução da igualdade (1.11), o qual é conhecido
como argumento principal de z e é denotado por Arg z.
De acordo com essas definições, Arg(i) = π/2 e π/2 + 2kπ, onde k
é um número inteiro, são os outros argumentos de i. Da mesma forma,
arg(−1) = π + 2kπ = (2k + 1)π e Arg(−1) = π.
Exemplo 1.4. Determine uma representação polar para os números
z =1+i ew = −1 − i.

Inicialmente observamos que |z| = |w| = 2. Logo,
√ 1 1  √ −1 −1 
z = 2 √ + i√ e w = 2 √ + i√ .
2 2 2 2
Temos então os sistemas de equações para determinarmos os argumentos φ
e ψ, de z e de w, respectivamente:
( √ ( √
cos φ = 1/ 2 cos ψ = −1/ 2
√ e √
sen φ = 1/ 2 sen ψ = −1/ 2
Portanto, um argumento para z é π/4, e um argumento para w é 5π/4. Ou
seja,
√   √  
z = 2 cos(π/4) + i sen(π/4) e w = 2 cos(5π/4) + i sen(5π/4) .
10 1. Números Complexos

Observação 1.5. A função tangente, e os sinais das partes real e imaginária


x e y, servem também para determinar os argumentos dos números z e w
do exemplo anterior. De fato, x = r cos θ e y = r sen θ, logo
y
tan θ = , x 6= 0.
x
Como z = 1 + i e w = −1 − i, temos
π
tan θ = 1 e θ = + kπ,
4
onde k é um número inteiro. Visto que Re(z) = Im(z) = 1 > 0, logo k = 0
e θ = arg(z) = π/4; por outro lado, Re(w) = Im(w) = −1 < 0, logo k = 1 e
θ = arg(w) = 5π/4.

A representação polar do produto de dois números complexos não nulos


é dada na próxima proposição.
Proposição 1.6. Se os números não nulos z1 e z2 são representados por
z1 = r1 (cos θ1 + i sen θ1 ) e z2 = r2 (cos θ2 + i sen θ2 ),
então o produto deles pode ser representado por
z1 z2 = r1 r2 [cos(θ1 + θ2 ) + i sen(θ1 + θ2 )]. (1.12)
Em outras palavras, o módulo de z1 z2 é r1 r2 , mas um argumento do produto
é a soma dos argumentos de z1 e de z2 .

Demonstração. Vamos calcular o produto dos números z1 e z2 :


z1 z2 = r1 (cos θ1 + i sen θ1 )r2 (cos θ2 + i sen θ2 )
= r1 r2 [(cos θ1 cos θ2 − sen θ1 sen θ2 )
+ i(cos θ1 sen θ2 + sen θ1 cos θ2 )]
= r1 r2 [cos(θ1 + θ2 ) + i sen(θ1 + θ2 )]


A Figura 1.6 ilustra esse resultado. Em seguida vamos demonstrar a


importante fórmula de Moivre:
Proposição 1.7 (Fórmula de Moivre). Para cada número inteiro n temos
a identidade
(cos θ + i sen θ)n = cos nθ + i sen nθ. (1.13)

Demonstração. Olhando z1 z2 z3 como (z1 z2 )z3 , segue de (1.12) que



z1 z2 z3 = (r1 r2 )r3 cos[(θ1 + θ2 ) + θ3 ] + i sen[(θ1 + θ2 ) + θ3 ]
  (1.14)
= r1 r2 r3 cos(θ1 + θ2 + θ3 ) + i sen(θ1 + θ2 + θ3 )
1.4. Forma polar de um número complexo 11

Figura 1.6. Produto de z1 por z2 .

Podemos usar indução finita para mostrar que o produto dos números
z1 , z2 , · · · , zn é dado por

z1 z2 · · · zn = r1 r2 · · · rn cos(θ1 + θ2 + · · · + θn )

+ i sen(θ1 + θ2 + · · · + θn ) .

Considerando nessa última igualdade o caso especial em que


zk = z, θk = θ e rk = r, k = 1, 2, · · · , n,
obtemos
z n = r n (cos nθ + i sen nθ). (1.15)
Por outro lado, visto que
z n = [r(cos θ + i sen θ)]n = r n (cos θ + i sen θ)n ,
segue de (1.15) que
(cos θ + i sen θ)n = cos nθ + i sen nθ. (1.16)
Fica assim verificada a fórmula de Moivre para o caso em que n é um número
inteiro positivo.
Resta o caso em que n é negativo. Inicialmente, observamos que
p
| cos θ + i sen θ| = cos2 θ + sen2 θ = 1.
Logo, segue de (1.5) que
1
= cos θ + i(− sen θ) = cos(−θ) + i sen(−θ);
cos θ + i sen θ
12 1. Números Complexos

a última igualdade decorre do fato que cos(−θ) = cos θ e sen(−θ) = − sen θ,


ou seja, a função cosseno é par e a função seno é impar. Agora usamos a
fórmula (1.16) com −n (note que −n é positivo, pois n é negativo):
1
(cos θ + i sen θ)n = [ ]−n
cos θ + i sen θ
= [cos(−θ) + i sen(−θ)]−n = cos nθ + i sen nθ.
Assim, a fórmula (1.13) é válida também para os números inteiros negativos.

Exemplo 1.8. Calcule

(1 + i 3)99 .

O módulo de z = 1 + i 3 é
q √
|z| = 12 + ( 3)2 = 2;
para obter um argumento de z temos de encontrar uma solução θ da equação

z = 1 + i 3 = 2(cos θ + i sen θ)
ou, de maneira equivalente, temos de determinar uma solução θ do sistema
de equações
(
cos θ = 1/2

sen θ = 3/2.
É claro que θ = π/3 satisfaz o último sistema de equações. Pela fórmula
(1.15), temos

(1 + i 3)99 = 299 [cos(99π/3) + i sen(99π/3)]
= 299 (cos π + i sen π) = −299 .

1.5. Raı́zes da equação z n = a


Usaremos agora a representação polar de um número complexo e a fórmula
de Moivre para determinar todas as raı́zes da equação z n = a.
Proposição 1.9. A equação
z n = a, a 6= 0,
possui exatamente n raı́zes, dadas na forma polar por
 
p
n φ + 2kπ φ + 2kπ
zk = |a| cos( ) + i sen( ) ,
n n
onde k = 0, 1, · · · , n − 1, e φ denota um argumento de a.
1.5. Raı́zes da equação z n = a 13

Demonstração. Todas as raı́zesp da equação z n = a estão sobre um cı́rculo


de centro em zero e raio |z| = n |a|. Com efeito,
p
|z n | = |a| ou r = |z| = n |a|. (1.17)
Para encontrar a posição exata de cada raiz sobre o referido cı́rculo, usaremos
as representações polares de z e de a:
z = r(cos θ + i sen θ) e a = |a|(cos φ + i sen φ),
onde r = |z|. Logo, em virtude da equação (1.13), podemos reescrever a
equação z n = a como
z n = r n (cos θ + i sen θ)n
= r n (cos nθ + i sen nθ) = |a|(cos φ + i sen φ).
Dessa última igualdade, e do fato que r n = |z|n = |a|, segue que
cos nθ + i sen nθ = cos φ + i sen φ. (1.18)
Essa igualdade (1.18) é equivalente ao sistema de equações
(
cos nθ = cos φ
(1.19)
sen nθ = sen φ.
As soluções do sistema (1.19) são dadas por
φ + 2kπ
nθ = φ + 2kπ ou θ= , (1.20)
n
onde k é um número inteiro qualquer.
Em seguida, substituı́mos os valores do módulo r e do argumento θ de
cada raiz, dados em (1.17) e (1.20), na representação polar de z, obtendo a
seguinte expressão para as raı́zes da equação z n = a:
 
p φ + 2kπ φ + 2kπ
zk = n |a| cos( ) + i sen( ) . (1.21)
n n
Variando o k em (1.21) de zero a n − 1, encontramos todas as n soluções da
equação z n = a, e elas são todas distintas entre si. 

A representação dessas n raı́zes no plano complexo corresponde aos


vértices de um polı́gono
p regular de n lados, inscrito em um cı́rculo de centro
em zero e raio r = n |a|; a diferença entre o argumento de uma raiz zj+1 e
o da raiz anterior zj é sempre igual a 2π/n, pois
φ + 2(j + 1)π φ + 2jπ 2π
− = ;
n n n
veja Figura 1.7.
Exemplo 1.10. Calcule as raı́zes das equações
(a) z 2 = −1
14 1. Números Complexos

Figura 1.7. Raiz enésima de a.

(b) z 3 = i
(c) z 5 + 32 = 0

(d) z 3 + 2 + i2 3 = 0

De acordo com a Proposição 1.9, para representar as raı́zes da equação


do item (a), precisamos de um argumento de −1; o argumento principal de
−1 é π. Logo, as duas raı́zes da equação z 2 = −1 são
p π π
z0 = | − 1|[cos + i sen ] = i
2 2
e
p 3π 3π
z1 = | − 1|[cos + i sen ] = −i.
2 2
Para a segunda equação, um argumento de i é π/2 (no caso, é o prin-
cipal), e o seu módulo é 1 (lembre que i = 0 + i1), logo as três raı́zes da
equação z 3 = i são
√ √
π π 3 1 5π 5π 3 1
z0 = [cos + i sen ] = +i , z1 = [cos + i sen ]=− +i
6 6 2 2 6 6 2 2
e
3π 3π
z2 = [cos + i sen ] = −i.
2 2
Essas três raı́zes da equação z 3 = i são os vértices de um triângulo equilátero
(veja a Figura 1.8).
Para escrevermos as soluções da terceira
p equação, lembramos que o ar-
gumento principal de −32 é π; além disso, 5 | − 32| = 2; logo, as cinco raı́zes
da equação z 5 = −32 são
π + 2kπ  π + 2kπ 
zk = 2[cos + i sen ], k = 0, 1, 2, 3 e 4.
5 5
Essas raı́zes são os vértices de um pentágono regular (veja a Figura 1.8).
1.6. Número complexo como par ordenado 15

Figura 1.8. As raı́zes de z 3 = i e de z 5 + 32 = 0.

A quarta equação é

3
√ −1 3
z = −2 − i2 3 = 4 −i
2 2

Assim, para determinarmos um argumento do número −2−i2 3, resolvemos
o sistema (
cos θ = −1
2 √
3
sen θ = − 2 .
Uma solução desse sistema é θ = 4π/3. Logo, as três raı́zes procuradas são

3
  (4π/3) + 2kπ   (4π/3) + 2kπ 
zk = 4 cos + i sen ,
3 3
onde k = 0,√1, 2. Marque esses três números sobre um cı́rculo de centro em
zero e raio 3 4.

1.6. Apêndice: número complexo como par ordenado


Um leitor atento, mesmo sabendo que com as definições (1.1), (1.2) e (1.3) é
possı́vel demonstrar todas as propriedades dos números complexos, e fazer
cálculos corretos em qualquer área cientı́fica, sente que deve existir alguma
maneira consistente de apresentar os números complexos, onde é possı́vel
definir a unidade imaginária i, e dar uma interpretação para as expressões
(1.1), (1.2) e (1.3).
Uma maneira tradicional de definir um número complexo z é via par
ordenado (a, b) de números reais. Aqui “ordenado” significa que
(a, b) 6= (b, a) se a 6= b.
16 1. Números Complexos

Definição 1.11. Definimos um número complexo z como um par ordenado


de números reais (a, b), i.e., z = (a, b). Por definição, dois números com-
plexos z = (a, b) e w = (c, d) são iguais se, e somente se, a = c e b = d. A
adição de dois números complexos z = (a, b) e w = (c, d) é definida por
z + w = (a + c, b + d), (1.22)
e a multiplicação desses números por
zw = (ac − bd, ad + bc). (1.23)
O conjunto dos números complexos, com as operações de adição e de multi-
plicação definidas em (1.22) e em (1.23), é denotado por C.

A primeira componente a do número complexo z = (a, b) é denominada


parte real, e a componente b é a parte imaginária de z .
As definições (1.22) e (1.23) não usam nenhum elemento desconhecido,
como i, elas usam apenas a adição e a multiplicação de números reais. Resta
mostrarmos que esses pares ordenados, com as operações (1.22) e (1.23),
satisfazem as mesmas propriedades fornecidas por (1.1), (1.2) e (1.3). Mais
ainda, já que a forma z = a+ ib é a mais conveniente para fazermos cálculos,
precisamos definir i no conjunto dos pares ordenados e darmos um sentido
às expressões (1.1), (1.2) e (1.3). É o que faremos a seguir.
As operações de adição e de multiplicação são associativas, i.e., para
quaisquer números complexos z1 , z2 e z3 , temos
(z1 + z2 ) + z3 = z1 + (z2 + z3 ) e (z1 z2 )z3 = z1 (z2 z3 ),
e são comutativas também:
z1 + z2 = z2 + z1 e z1 z2 = z2 z1 .
É fácil verificar essas quatro últimas igualdades, basta escrever z1 = (x1 , y1 ),
z2 = (x2 , y2 ) e z3 = (x3 , y3 ), usar as definições (1.22) e (1.23), e calcular cada
membro das igualdades.
Outra propriedade válida para as operações de adição e de multiplicação
é a distribuitividade:
z1 (z2 + z3 ) = z1 z2 + z1 z3 .

O elemento neutro da adição é b


0 = (0, 0) e o da multiplicação é b
1 = (1, 0),
ou seja
z+b 0=z e zb
1 = z, para todo z.
Para cada número complexo z = (a, b) temos um inverso aditivo −z =
(−a, −b) satisfazendo
z + (−z) = (a, b) + (−a, −b) = (0, 0) = b
0.
1.6. Número complexo como par ordenado 17

Todo z = (a, b) 6= (0, 0) possui um inverso multiplicativo z −1 :


a −b
z −1 = ( 2 , 2 ). (1.24)
a + b a + b2
2

De fato, se z −1 = (x, y), decorre da definição de inverso multiplicativo que


zz −1 = b1 ou (a, b)(x, y) = (1, 0).
Usamos a definição (1.23) nessa última igualdade para obtermos
(ax − by, bx + ay) = (1, 0),
ou, em forma equivalente, um sistema linear de equações nas incógnitas x e
y: (
ax − by = 1
bx + ay = 0.
Visto que a2 +b2 6= 0, esse sistema possui uma única solução dada por (1.24).
Agora vamos usar as definições de adição e de multiplicação de pares
ordenados para interpretar as expressões (1.1), (1.2) e (1.3).
Inicialmente, vamos justificar a identificação do número real x com o
número complexo (x, 0). De fato, usamos a definição (1.22) para mostrarmos
que
(a, 0) + (b, 0) = (a + b, 0),
e a definição (1.23) para escrever
(a, 0)(b, 0) = (ab − 0 · 0, a · 0 + 0 · b)
= (ab, 0).
Logo, as operações de adição e de multiplicação de números reais são preser-
vadas quando identificamos os números reais a e b com os números complexos
(a, 0) e (b, 0), respectivamente. De agora em diante escreveremos x = (x, 0)
para todo número real x.
Agora definimos i no conjunto dos pares ordenados de números reais.
Definição 1.12. A unidade imaginária em C é
i = (0, 1).

Segue da definição (1.23) que


ii = (0, 1)(0, 1) = (−1, 0).
Logo, pela identificação anterior entre o número real x e o número complexo
(x, 0), escreveremos −1 em lugar de (−1, 0):
i2 = −1.
Além disso, pela definição (1.23) temos que
ib = (0, 1)(b, 0) = (0 · b − 1 · 0, 0 · 0 + 1 · b) = (0, b). (1.25)
18 1. Números Complexos

Portanto, em virtude de (1.25) e da identificação adotada de x com (x, 0),


obtemos
z = (a, b) = (a, 0) + (0, b)
(1.26)
= a + ib.
Conclusão: existem maneiras consistentes de definir número complexo z,
inclusive o i, usando apenas as propriedades dos números reais. Uma delas
é usar par ordenado de números reais, como apresentado nesse Apêndice.
Além disso, após identificações apropriadas, as expressões (1.1), (1.2) e (1.3)
passam a fazer sentido.
Capı́tulo 2

Sequências e Séries de
Números Complexos

2.1. Sequências
Quando falamos de “sequência” de números complexos, mesmo sem conhecer
uma definição formal, lembramos de listas de números da forma
1 1 1
1, , , ··· , , ··· (2.1)
2 3 n
ou da forma
1 3 1 n+1 1
2+i , + i 2, ··· , + i n, ··· . (2.2)
e 2 e n e
Uma caracterı́stica essencial dessas listas de números é o fato de que a cada
número natural n corresponde um único número complexo zn ; em (2.1),
zn = 1/n, e em (2.2), zn = (n + 1)/n + i(1/en ). Em outras palavras,
podemos olhar para essas duas listas de números como duas funções cujo
domı́nio é o conjunto dos números naturais:
1 n+1 1
n 7→ zn = e n 7→ zn = + i n.
n n e
Essa caracterı́stica é o que define o conceito de sequência de números com-
plexos, a saber, uma sequência é uma função cujo domı́nio é o conjunto dos
números naturais e a imagem está contida em C.
Em geral, para esse tipo de função não se usa a notação f = f (n), o
hábito é usar uma notação sem o f :

{zn } ou z1 , z2 , . . . , zn , · · · .

19
20 2. Sequências e Séries de Números Complexos

Dizemos que z1 é o primeiro termo, que z2 é o segundo termo e que zn é o


enésimo termo da sequência {zn }.
Apresentaremos a seguir os conceitos de limite de uma sequência, e o de
sequência convergente. É com esses conceitos que vamos entender o que é
uma série convergente, e como se define a soma dessa série.
Intuitivamente, um número z é um limite de uma sequência {zn } se
o termo zn ficar arbitrariamente próximo de z quando n for suficiente-
mente grande. Para tentar esclarecer essa ideia de limite, vamos analisar as
sequências de (2.1) e de (2.2).
Cada termo 1/n da sequência de (2.1) é positivo, e é evidente que ele
decresce para zero assim que n cresce. A tabela a seguir apresenta os valores
de 1/n para alguns n:

n 10 100 1000 10000 ··· n→∞


1/n 0,1 0,01 0,001 0,0001 · · · 1/n → 0

Nessa tabela temos uma indicação de que, para primeira sequência, z = 0


deve satisfazer o conceito de limite, a ser definido logo abaixo.
Para descobrirmos um “candidato” a limite da sequência de (2.2), ob-
servamos que
n+1 1 1 1
=1+ e 0< n
< .
n n e n
Já que o limite de 1/n deve ser zero quando n tende ao infinito, é natural
esperar que o limite da parte real em (2.2) seja 1, e que o limite da parte
imaginária seja zero. Assim, a sequência de (2.2) deve convergir para o
número real 1 = 1 + i0. Isso será confirmado no Exemplo 2.2.
Apresentaremos a seguir os conceitos de limite de uma sequência e o de
sequência convergente.

Definição 2.1. Dizemos que um número complexo z é um limite da sequência


{zn } se para cada ε > 0 for possı́vel encontrar um número n0 = n0 (ε) tal
que
|zn − z| < ε para todo n ≥ n0 . (2.3)

Se z é um limite da sequência {zn }, dizemos que ela converge para z. Quando


a sequência {zn } possui um limite dizemos que ela é convergente e, quando
não possui, que ela é divergente.

Se uma sequência {zn } converge para z, escrevemos

lim zn = z ou zn → z quando n → ∞.
n→∞
2.1. Sequências 21

Figura 2.1. z é limite da sequência {zn }.

Para enfatizar o significado das desigualdades em (2.3), lembramos que


a distância entre os pontos zn = xn + iyn e z = x + iy é dada por
p
|zn − z| = (xn − x)2 + (yn − y)2 .
Logo, quando uma sequência {zn } converge para z, a desigualdade
|zn − z| < ε
diz que cada zn , a partir de n0 , está dentro de um disco de raio ε e centro
em z (veja a Figura 2.1); consequentemente, podem ficar fora desse disco no
máximo um número finito de termos, a saber, z1 , · · · , zn0 −1 .
A seguir verificamos que z = 0 e z = 1 são os limites das sequências de
(2.1) e de (2.2), respectivamente.
Exemplo 2.2. Use a Definição 2.1 para mostrar que
1
(a) limn→∞ n = 0;
(b) limn→∞ [ n+1 1
n + i en ] = 1.

Para mostrar que z = 0 de fato é o limite da sequência do item (a),


calculamos a distância entre zn e z = 0:
1 1
|zn − z| = | − 0| = .
n n
Seja ε > 0; logo, |zn − z| < ε se 1/n < ε, ou seja, se n > 1/ε. Portanto,
basta escolher n0 > 1/ε para obtermos
1
|
− 0| < ε para todo n ≥ n0 .
n
Fica verificado que z = 0 é o limite da sequência {1/n}.
Quanto à sequência do item (b), já obervamos antes da Definição 2.1
que o “candidato” a limite é o 1; agora vamos usar a condição (2.3) para
22 2. Sequências e Séries de Números Complexos

Figura 2.2. Posições dos números zn = i(−1)n .

confirmar isso. A distância entre zn e 1 é


n+1 1 1 1
|zn − 1| = |( + i n ) − 1| = | + i n |
n e n e (2.4)
1 1
≤ + n,
n e
onde, para passarmos da última igualdade à desigualdade, usamos a de-
sigualdade triangular |α + β| ≤ |α| + |β| e o fato de que |ie−n | = |i||e−n | =
e−n . Logo,
1 1
|zn − 1| ≤ + n
n e
1 1 2
≤ + = .
n n n
Visto que 2/n < ε se e somente se n > 2/ε, escolhemos n0 > 2/ε e con-
cluı́mos que
|zn − 1| < ε para todo n ≥ n0 .
Ou seja, confirmamos o limite do item (b), de acordo com a Definição 2.1.
A seguir apresentamos uma sequência que não converge.
Exemplo 2.3. Verifique que a sequência
zn = i(−1)n
não converge.

Inicialmente, observamos que zn = i no caso em que n é par, e que


zn = −i no caso em que n é impar. Devido ao fato de que zn “oscila”, em
infinitos ı́ndices, entre dois valores cuja distância entre si é |i − (−i)| = 2, é
natural esperar que essa sequência seja divergente.
Lembramos que o ε na Definição 2.1 é qualquer número positivo; logo,
usando um 0 < ε < 2, vemos que i não pode ser um limite de {zn }, pois
a desigualdade |zn − i| < ε não é satisfeita em infinitos ı́ndices, a saber,
em todo n ı́mpar; veja a Figura 2.2. Pelo o mesmo motivo, nenhum z 6= i
pode ser um limite dessa sequência; nesse caso, usamos um 0 < ε < |z − i|
2.1. Sequências 23

Figura 2.3. Limitação superior de |zn |.

e vemos que a desigualdade |zn − z| < ε não é válida nos infinitos ı́ndices
pares. Portanto, nenhum z pode ser limite da sequência {i(−1)n }.
Agora mostraremos que toda sequência {zn } convergente é limitada, ou
seja, existe uma constante K tal que
|zn | ≤ K para dodo n.

Proposição 2.4. Toda sequência convergente é limitada. De outro modo,


se uma sequência {zn } converge, então existe uma constante K tal que
|zn | ≤ K para todo n.

Demonstração. De fato, se zn → z quando n → ∞, então segue da


Definição 2.1, com ε = 1, que existe um n0 tal que
|zn − z| < 1 quando n ≥ n0 . (2.5)
Em virtude da desigualdade triangular |α + β| ≤ |α| + |β| (ou olhe para o
triângulo da Figura 2.3), obtemos
|zn | = |(zn − z) + z| ≤ |zn − z| + |z| ≤ 1 + |z| (2.6)
para todo n ≥ n0 .
Essa desigualdade (2.6) não se aplica aos termos z1 , . . . , zn0 −1 . Como
esses termos são em número finito, definimos
K = max{|z1 |, . . . , |zn0 −1 |, 1 + |z|}.
Segue de (2.6) e dessa escolha de K que |zn | ≤ K para todo n. 

Acabamos de mostrar que uma condição necessária para uma sequência


{zn } ser convergente é que ela seja limitada. Porém, uma sequência pode
24 2. Sequências e Séries de Números Complexos

ser limitada e não ser convergente, como a sequência do Exemplo 2.3. Com
efeito, ela é limitada (qualquer K ≥ 1 serve), pois
|zn | = |i(−1)n | = |i||(−1)n | = 1 para todo n,
e no entanto ela não converge, como já vimos no referido exemplo.
Exemplo 2.5. Verifique que a sequência
i
zn = en +
n
não converge.

Se essa sequência fosse convergente, ela seria limitada, porém


r
1
|zn | = (en )2 + ( )2 ≥ en → ∞ quando n → ∞.
n
Como a sequência {zn } não é limitada, ela não converge.
A proposição seguinte é muito útil para verificar se uma sequência é
convergente, simplificando um pouco o trabalho que fizemos no Exemplo 2.2.
Proposição 2.6. Uma sequência {zn }, com zn = xn + iyn , converge para
z = x + iy se, e somente se, as sequências de números reais {xn } e {yn }
convergirem para x e y, respectivamente.

Demonstração. Para verificarmos as duas asserções da proposição, basta


usarmos a relação
p
|zn − z| = (xn − x)2 + (yn − y)2 (2.7)
e a Definição 2.1. De fato, seja ε > 0; se zn → z quando n → ∞, pela
Definição 2.1, existe n0 = n0 (ε) tal que
|zn − z| < ε para todo n ≥ n0 .
Logo, em virtude de (2.7), (xn − x)2 + (yn − y)2 < ε2 para todo n ≥ n0 ; para
esses n temos então
(xn − x)2 < ε2 e (yn − y)2 < ε2 ,

ou, lembrando que a2 = |a|,
|xn − x| < ε e |yn − y| < ε.
Portanto, xn → x e yn → y quando n → ∞.
Reciprocamente, se as sequências {xn } e {yn } convergem para x e y,
respectivamente, então existe um n1 tal que
√ √
|xn − x| < ε/ 2 e |yn − y| < ε/ 2, para todo n ≥ n1 .
2.1. Sequências 25

Logo, para n ≥ n1 , segue da igualdade (2.7) que


p
|zn − z| = (xn − x)2 + (yn − y)2
q √ √
< (ε/ 2)2 + (ε/ 2)2 = ε.
Ou seja, zn → z quando n → ∞. 

O próximo teorema trata dos limites de soma, produto e divisão de


sequências.
Teorema 2.7. Suponha que as sequências {zn } e {wn } convirjam para z e
w, respectivamente. Então
(a) zn + wn → z + w quando n → ∞;
(b) zn wn → zw quando n → ∞;
(c) zn /wn → z/w quando n → ∞ e w 6= 0.

Demonstração. Decorre da desigualdade triangular |α + β| ≤ |α| + |β| que


|(zn + wn ) − (z + w)| = |(zn − z) + (wn − w)|
(2.8)
≤ |zn − z| + |wn − w|.
Por hipótese, |zn − z| → 0 e |wn − w| → 0 quando n → ∞; logo, pela
Definição 2.1 com ε/2 (em lugar de ε), existem números n1 e n2 tais que
|zn − z| < ε/2 para todo n ≥ n1
e
|wn − w| < ε/2 para todo n ≥ n2 .
Denotando por n0 = max{n1 , n2 }, temos que essas duas desigualdades an-
teriores são válidas para todo n ≥ n0 . Logo, decorre de (2.8) que
|(zn + wn ) − (z + w)| ≤ |zn − z| + |wn − w|
< ε/2 + ε/2 = ε
para todo n ≥ n0 . Portanto, fica verificado a asserção (a) do teorema.
Para demonstrar a asserção (b), somamos e subtraı́mos o termo zwn em
zn wn − zw, e obtemos
zn wn − zw = zn wn − zwn + zwn − zw
= wn (zn − z) + z(wn − w);
em seguida, usamos a desigualdade triangular e o fato de que |αβ| = |α||β|:
|zn wn − zw| ≤ |wn ||zn − z| + |z||wn − w|. (2.9)
Visto que {wn } converge para w, temos que |z||wn − w| → 0 quando n → ∞.
26 2. Sequências e Séries de Números Complexos

Precisamos mostrar também que |wn ||zn −z| → 0 quando n → ∞. Nesse


caso, segue da Proposição 2.4 que existe uma constante K tal que |wn | ≤ K
para todo n, i.e., a sequência {wn } é limitada; com esse K temos então que
|wn ||zn − z| ≤ K|zn − z| → 0 assim que n → ∞.
Portanto, em virtude da asserção (a) já demonstrada, a soma de sequências
do lado direito de (2.9) tende a zero e então a sequência {zn wn } converge
para zw.
Para demonstrar a asserção (c), precisamos inicialmente garantir que a
sequência {zn /wn } esteja bem definida para todo n ou, pelo menos, para
n ≥ n0 . Esse fato decorre da aplicação do Lema 2.8, apresentado logo
abaixo, o qual garante que os |wn | são maiores que uma constante positiva
a partir de um certo n0 , já que w 6= 0; assim a sequência {zn /wn } está bem
definida para todo n ≥ n0 .
Vamos demonstrar um caso especial da asserção (c) do teorema, a saber,
1 1
→ quando n → ∞; (2.10)
wn w
depois usaremos esse caso especial e a asserção (b), já demonstrada, para
completar a demonstração.
Para demonstrarmos (2.10), supomos n ≥ n0 e escrevemos
1 1 |wn − w| 2|wn − w|
− = ≤ , (2.11)
wn w |w||wn | |w|2
onde usamos |wn | ≥ |w|/2 na última desigualdade (Lema 2.8). Fazendo
n → ∞ no lado direito da desigualdade (2.11) vemos que 1/wn → 1/w.
Agora, para completar a demonstração da asserção (c), lembramos que
zn 1
= zn , (2.12)
wn wn
usamos o caso especial (2.10) e a asserção (b) do teorema:
zn 1  1 z
lim = lim zn =z = .
n→∞ wn n→∞ wn w w
Isso completa a demonstração do Teorema 2.7. 

Na demonstração do item (c) do Teorema 2.7 usamos que se uma sequência


converge para um limite não nulo, então, com a possı́vel exceção de um
número finito de termos, todos os demais não se anulam. Vamos enunciar
esse fato no lema a seguir.
Lema 2.8. Suponha que uma sequência {zn } convirja para z, onde z 6= 0.
Então existe n0 tal que |zn | ≥ |z|/2 > 0 para todo n ≥ n0 .
2.1. Sequências 27

Figura 2.4. Limitação inferior de |zn |.

Demonstração. Esse fato pode ser “deduzido” da Figura 2.4. De fato,


usamos a Definição 2.1 com ε = |z|/2, z 6= 0; para esse ε, existe n0 tal que
todo zn , a partir de n0 , tem de ficar dentro do disco de centro em z e raio
|z|/2. O ponto do bordo desse disco que fica mais próximo da origem é o
ponto médio do segmento que une a origem ao ponto z (logo, o disco dista
|z|/2 da origem). Portanto, como zn está no interior desse disco quando
n ≥ n0 , temos que |zn | ≥ |z|/2 quando n ≥ n0 . 

Usaremos o Teorema 2.7 para determinar o limite de uma sequência no


próximo exemplo.

Exemplo 2.9. Determine o seguinte limite


2n2 + n − 3
lim .
n→∞ 5n2 − 3n + 1

As duas sequências dessa fração não convegem, logo não podemos usar
o Teorema 2.7 diretamente. Porém, podemos reescrever essa fração de uma
maneira equivalente e apropriada ao uso do referido teorema. Com efeito,
dividimos por n2 o numerador e o denominador dessa fração para obtermos
uma expressão equivalente:
1 3
2n2 + n − 3 2+ n − n2
2
= 3 1 . (2.13)
5n − 3n + 1 5− n + n2

Decorre do item (a) do Exemplo 2.2 e do item (b) do Teorema 2.7 que
1 1 1
lim 2
= lim ( · ) = 0 · 0 = 0.
n→∞ n n→∞ n n

Agora, como sabemos que 1/n → 0 e 1/n2 → 0 quando n → ∞, podemos


aplicar o item (a) do Teorema 2.7 às duas sequências da fração do lado
28 2. Sequências e Séries de Números Complexos

Figura 2.5. Posições de |c| < 1, |c| = 1 e de |c| > 1.

direito em (2.13):
1 3 3 1
lim [2 + − ]=2 e lim [5 − + ] = 5.
n→∞ n n2 n→∞ n n2
Como o limite da sequência do denominador é diferente de zero, usamos o
item (c) do Teorema 2.7 para concluir que
1 3
2+ n − n2 2
lim 3 1 = .
n→∞ 5− n + n2
5

O próximo exemplo analisa a convergência das sequências {cn } e {ncn },


i.e.,
c, c2 , c3 , · · · , cn , · · · e c, 2c2 , 3c3 , · · · , ncn , · · · ,
onde c é um número complexo. Elas serão úteis em várias oportunidades.

Exemplo 2.10. Seja c um número complexo. Então


(a) limn→∞ cn = 0 se |c| < 1;
(b) limn→∞ |c|n = ∞ se |c| > 1; em particular, a sequência {cn } não
converge se |c| > 1;
(c) a sequência {cn } não converge se |c| = 1 e c 6= 1;
(d) limn→∞ ncn = 0 se |c| < 1.

A Figura 2.5 mostra a posição do ponto c dos itens acima em relação a


um disco do plano complexo. Seja D o disco de centro em zero e raio 1, i.e.,
D = {z ∈ C : |z| < 1};
o c dos itens (a) e (d) é um ponto qualquer do interior do disco D. O c do
item (b) é um ponto qualquer do exterior desse disco. O ponto c do item
(c) pertence ao bordo |z| = 1 do disco D, mas é diferente de 1.
2.1. Sequências 29

É claro que a sequência {cn } converge se c = 0. Quando |c| < 1 e c 6= 0,


escrevemos |c| = 1/(1 + r) com r > 0; pelo teorema do binômio, temos
n(n − 1) 2
(1 + r)n = 1 + nr + r + · · · + nr n−1 + r n
2 (2.14)
≥ 1 + nr.
Obtemos assim a desigualdade de Bernoulli
(1 + r)n ≥ 1 + nr. (2.15)
Essa desigualdade implica que
1 1
|cn − 0| = |c|n = n
≤ .
(1 + r) 1 + nr
Como 1 + nr → ∞ quando n → ∞, temos que cn → 0 quando n → ∞.
Fica verificado a asserção do item (a).
No caso em que |c| > 1, escrevemos |c| = 1 + r com r > 0 e usamos
novamente a desigualdade (2.15):
|c|n = (1 + r)n ≥ 1 + nr;
como 1 + nr → ∞ quando n → ∞, a sequência {|c|n } não é limitada. Logo,
pela Proposição 2.4, a sequência {cn } não converge para nenhum número
complexo.
Se |c| = 1 e c 6= 1, a sequência {cn } não converge. De fato, o argumento
desse c é um θ 6= 0; agora marque no cı́rculo |z| = 1 os pontos c, c2 , c3 , . . . ,
lembrando que quando multiplicamos dois números complexos os argumen-
tos deles são adicionados [veja Proposição 1.6]. É claro que os cn vão ficar
no bordo |z| = 1, mas não se aproximam de nenhum número complexo.
Quando c = 1 é claro que cn → 1 assim que n → ∞.
No caso do limite em (d), procedemos como em (a), mas agora supomos
n ≥ 2 e escolhemos o terceiro termo no desenvolvimento (2.14), obtendo
desse modo a desigualdade
(1 + r)n ≥ n(n − 1)r 2 /2 (2.16)
e, em virtude dela, temos:
n 2
|ncn − 0| = |ncn | = n|c|n = n
≤ .
(1 + r) (n − 1)r 2
A sequência do lado direito converge para zero quando n → ∞, logo ncn → 0
quando n → ∞. A asserção do item (d) do Exemplo 2.10 fica verificada.
O exemplo a seguir fornece uma outra maneira de ver que se |c| = 1,
c 6= 1, então a sequência {cn } não converge.
30 2. Sequências e Séries de Números Complexos

Exemplo 2.11. Mostre que se uma sequência {zn } converge, então para
cada ε > 0 existe um n0 = n0 (ε) satisfazendo
|zn − zm | < ε para todos n ≥ n0 e m ≥ n0 .
Quando uma sequência satisfaz essa condição, dizemos que ela é uma sequência
de Cauchy. Reciprocamente, pode-se mostrar que se uma sequência em C
é de Cauchy, então ela é convergente; essa recı́proca é muito útil, pois ela
serve para demonstrar que uma sequência converge quando não se conhece
um “candidato” a limite.

Como ser de Cauchy é uma condição necessária para uma sequência


convergir, temos que se ela não for de Cauchy, então ela não converge. Assim
temos uma outra maneira de verificar a asserção (c) do Exemplo 2.10:
|cn+1 − cn | = |cn ||c − 1| = |c|n |c − 1| = |c − 1| se |c| = 1.
Quando c 6= 1, a sequência {cn } não pode ser de Cauchy; basta considerar
a definição acima com 0 < ε < |c − 1| e m = n + 1 para se ter a negação da
definição. Logo {cn } não converge.

2.1.1. Unicidade do limite de uma sequência. Uma sequência possui


no máximo um limite, isto é: se uma sequência converge para z e w, então
z = w. De fato, em virtude da desigualdade triangular |α + β| ≤ |α| + |β|,
podemos escrever
|z − w| = |z − zn + zn − w|
(2.17)
≤ |zn − z| + |zn − w|.
Como zn → z e zn → w quando n → ∞, temos que o lado direito de (2.17)
tende a zero assim que n → ∞; lembrando que |z−w| ≥ 0, concluı́mos z = w,
ou seja, uma sequência ou não possui um limite ou possui exatamente um.

2.2. Séries
Agora queremos atribuir um sentido a uma expressão da forma
X∞
zn = z0 + z1 + · · · + zn + · · · , (2.18)
n=0
denominada série de números complexos. Associamos a essa série a sequência
de somas parciais {sn }, onde
s0 = z0 ,
s1 = z0 + z1 ,
s2 = z0 + z1 + z2 ,
······
sn = z0 + z1 + · · · + zn .
2.2. Séries 31

Definição 2.12. Dizemos que a série (2.18) converge quando a sequência


de somas parciais {sn } convergir para um número complexo s; nesse caso, o
número
s = lim sn
n→∞
é, por definição, a soma dessa série, e usamos a notação
X∞
zn = s.
n=0
Se a sequência de somas parciais {sn } não convergir, dizemos que a série
(2.18) diverge. O número zn chama-se termo geral da série.
No exemplo a seguir analisamos a convergência da série geométrica de
razão z.
Exemplo 2.13. A série geométrica
X∞
zn = 1 + z + z2 + · · · + zn + · · ·
n=0
converge se e somente se |z| < 1.
A soma parcial de ordem n dessa série é
1 − z n+1
sn = 1 + z + z 2 + · · · + z n = , se z 6= 1.
1−z
Quando |z| < 1, em virtude do Exemplo 2.10, item (a), temos que |z|n+1 → 0
quando n → ∞, logo a sequência de somas parciais {sn } converge, ou seja
1 − z n+1 1
lim sn = lim = , |z| < 1.
n→∞ n→∞ 1 − z 1−z
Portanto, a série gemétrica converge quando |z| < 1, sua soma nesse caso é
1/(1 − z), e escrevemos

X 1
zn = , |z| < 1.
1−z
n=0

Pelo Exemplo 2.10, itens (b) e (c), a sequência {z n+1 } não converge
quando |z| > 1, nem quando |z| = 1 e z 6= 1. Logo, a sequência de somas
parciais {sn } não converge quando |z| > 1, nem quando |z| = 1 e z 6= 1, ou
seja, a série geométrica diverge nesses casos.
Por último, quando z = 1,
sn = 1 + 1 + · · · + 1 = n + 1 → ∞ assim que n → ∞,
ou seja, a série diverge quando z = 1. Logo a série geométrica converge se e
somente se |z| < 1.
A seguir mostramos que a série harmônica não converge.
32 2. Sequências e Séries de Números Complexos

Figura 2.6. Soma parcial é maior do que uma integral.

Exemplo 2.14. A série harmônica


X∞
1 1 1
= 1 + + + ···
n=1
n 2 3
diverge.

Vamos mostrar que a sequência de suas somas parciais


1 1 1
sn = 1 + + + · · · +
2 3 n
não converge; acompanhe a Figura 2.6, onde foi traçado o gráfico da função
f (x) = 1/x, x > 0.
A soma das áreas dos n retângulos R1 , · · · , Rn é igual a sn , i.e.,
sn = área(R1 ) + área(R2 ) + · · · + área(Rn ).
Em seguida, note que essa soma de áreas sn é maior do que a área da região
delimitada acima pela hipérbole y = 1/x, abaixo pelo eixo-x e ao lado pelas
retas x = 1 e x = n + 1, logo
Z n+1
1
sn > dx = ln(n + 1);
1 x
como ln(n + 1) → ∞ quando n → ∞, concluı́mos que a sequência de somas
parciais {sn } tende ao infinito, ou seja, a série harmônica diverge.
No exemplo seguinte mostraremos que as p-séries
X∞
1 1 1
p
= 1 + p + p + ···
n=1
n 2 3
convergem quando p > 1. Ao contrário da série harmônica (caso p = 1),
agora a sequência {Sn } de somas parciais,
1 1 1
Sn = 1 + p + p + · · · + p ,
2 3 n
2.2. Séries 33

Figura 2.7. Soma parcial é menor do que uma integral.

é limitada superiormente.
Exemplo 2.15. A p-série
X∞
1 1 1
p
= 1 + p + p + ···
n=1
n 2 3

converge quando p > 1. Essa série diverge se 0 < p ≤ 1.

Usaremos uma propriedade fundamental dos números reais, a qual garante


que toda sequência crescente e limitada superiormente é convergente. A
sequência {Sn } é crescente, i.e.,
S1 < S2 < · · · < Sn < · · · ,
visto que Sn+1 − Sn = 1/(n + 1)p > 0. Logo, resta apenas mostrar que a
sequência {Sn } de somas parciais é limitada superiormente quando p > 1.
Uma cota superior para a sequência {Sn } pode ser obtida via uma com-
paração de áreas baseada na Figura 2.7, onde foi esboçado o gráfico da
função g(x) = 1/xp , x > 0 e p > 1.
A soma parcial Sn da p-série está relacionada com a soma das áreas dos
retângulos Q1 , Q2 , · · · , Qn−1 da seguinte maneira:
1 1 1
Sn = 1 + p
+ p + ··· + p
2 3 n
= 1 + área(Q1 ) + área(Q2 ) + · · · + área(Qn−1 )
Z n
1 n(1−p) 1
<1+ p
dx = 1 + + .
1 x (1 − p) p − 1
Como p > 1, o penúltimo termo do lado direito é negativo, logo
1
Sn < 1 + para todo n. (2.19)
p−1
34 2. Sequências e Séries de Números Complexos

Portanto, a sequência {Sn } é limitada e superiormente pela constante 1 +


1/(p − 1).
Agora basta lembrar que toda sequência de números reais, crescente e
limitada superiormente, converge. Portanto a p-série converge no caso em
que p > 1.
O que acontece se p < 1? Nesse caso a sequência {Sn } continua cres-
cente, mas agora o termo n(1−p) /(1 − p) é positivo e tende ao infinito assim
que n tende ao infinito; logo, a cota superior para Sn em (2.19) não é válida
quando p < 1. Na verdade, a sequência {Sn } é ilimitada no caso em que
p < 1, pois np < n para n ≥ 2, logo
1 1 1
Sn = 1 + p + p + · · · + p
2 3 n
1 1 1
> 1 + + + · · · + = sn > ln(n + 1) → ∞
2 3 n
quando n → ∞; a última desigualdade foi explicada no Exemplo 2.14. Como
a sequência {Sn } não é limitada, ela não pode ser convergente. Portanto a
p-série diverge se 0 < p < 1. O caso p = 1 foi visto no Exemplo 2.14.
Na proposição seguinte apresentamos uma condição necessária para uma
série ser convergente.
P∞
Proposição 2.16. Se a série n=0 zn converge, então zn → 0 quando
n → ∞.
P∞
Demonstração. Como a série n=0 zn converge, temos que a sequência
{sn } de somas parciais
sn = z0 + z1 + · · · + zn
converge para um número complexo s. Para n ≥ 2, temos que zn = sn −sn−1 ;
como sn − sn−1 → s − s = 0 quando n → ∞, concluı́mos que zn → 0 assim
que n → ∞. 

A condição zn → 0 quando n → ∞ não é suficiente para garantir que


a sequência de somas parciais {sn } seja convergente. De fato, na série
harmônica do Exemplo 2.14 temos que 1/n → 0 quando n → ∞, mas
sn → ∞ quando n → ∞, ou seja, a série

X 1
n
n=1
diverge.
Uma consequência útil da Proposição 2.16 é o seguinte corolário, o qual
serve para demonstrar que uma série não converge, bastando para isso ver-
ificar que o termo geral da série não converge para zero.
2.2. Séries 35

Corolário 2.17. Se a sequência {zn } não converge para zero, então a série

X
zn = z0 + z1 + · · · + zn + · · ·
n=0
diverge.
Exemplo 2.18. Verifique que a série
X∞
1 − cn
(2.20)
1 + cn
n=0
não converge se |c| < 1 ou se |c| > 1, onde c é um número complexo.

Vimos no Exemplo 2.10 que se |c| < 1, então cn → 0 quando n → ∞;


logo, pelo Corolário 2.17, como
1 − cn
→ 1 quando n → ∞,
1 + cn
a série (2.20) não pode convergir quando |c| < 1.
No caso em que |c| > 1, vimos no Exemplo 2.10, item (b), que |c|n → ∞
quando n → ∞. Logo, visto que |1/cn | = 1/|c|n → 0 assim que n → ∞,
concluı́mos que
1 − cn 1/cn − 1
= → −1 quando n → ∞,
1 + cn 1/cn + 1
Portanto, a série (2.20) não converge quando |c| > 1.
Uma aplicação imediata da Proposição 2.6 garante que uma série de
termo geral zn = xn + iyn converge se e somente se as séries

X X∞
xn e yn
n=0 n=0
convergirem. Essa observação é muito útil, pois existem testes de con-
vergência para séries de números reais que não podem ser adaptados para
séries de números complexos, como o teste de Leibniz ou o teste da inte-
gral; as hipóteses desses testes dependem da ordenação dos números reais.
Porém, eles podem ser usados para decidir se as séries das partes reais e
imaginárias convergem. Enunciamos a seguir essa equivalência.
Proposição 2.19. Uma série de números complexos

X
zn , onde zn = xn + iyn , (2.21)
n=0
converge se e somente se as duas séries de números reais
X∞ X∞
xn e yn
n=0 n=0
36 2. Sequências e Séries de Números Complexos

convergirem.

Demonstração. A relação entre as somas parciais dessas três séries é a


seguinte
Xn Xn n
X
sn = zk = xk + i yk = s̃n + ib
sn .
k=0 k=0 k=0
Segue da Proposição 2.6 que a sequência {sn } de números complexos con-
verge se e somente se as sequências {s̃n } e {b
sn } de números reais conver-
girem. 
Exemplo 2.20. Mostre que a série
X∞ n
i
(2.22)
n=1
n
converge.

Os valores possı́veis de in são i, −1, −i e 1. Usaremos a fórmula de


Moivre para representar esses valores em uma expressão única:
π π π π
in = [cos( ) + i sen( )]n = cos(n ) + i sen(n ).
2 2 2 2
Com essa representação de in podemos escrever a soma parcial sn da série
(2.22) da seguinte maneira
Xn Xn Xn
ik cos(k π2 ) sen(k π2 )
sn = = +i . (2.23)
k k k
k=1 k=1 k=1
Vamos denotar as duas somas parciais do lado direito em (2.23) por {s̃n }
e {b
sn }, respectivamente. Segue da Proposição 2.6 que a sequência {sn }
converge se e somente se as duas sequências {s̃n } e {b
sn } de números reais
convergirem.
Lembramos que cos(kπ/2) é zero quando k é impar, e vale ±1 se k é
par; analogamente, sen(kπ/2) é zero quando k é par, e vale ±1 se k é impar.
Assim, s̃2 = −1/2, s̃3 = −1/2, s̃4 = −1/4, s̃5 = −1/4, s̃6 = −5/12 · · · . Ou
seja, s̃2m = s̃2m+1 , e s̃2m corresponde às somas parciais da série
X∞
1 1 1 1 1
(−1)m = − + − + ···
2m 2 4 6 8
m=1 (2.24)
−1 1 1 1
= [1 − + − + · · · ].
2 2 3 4
Analogamente, temos sb1 = 1, sb2 = 1, sb3 = 2/3, sb4 = 2/3, sb5 = 13/15, · · · .
Ou seja, sb2m−1 = sb2m , e a sequência {b
s2m−1 } corresponde às somas parciais
da série ∞
X 1 1 1 1
(−1)m−1 = 1 − + − + ··· (2.25)
2m − 1 3 5 7
m=1
2.2. Séries 37

As séries (2.24) e (2.25) convergem pelo teste de Leibniz (veja Teorema 2.22
a seguir). Logo, as sequências {s̃n } e {b
sn } também convergem (por quê?).
Assim, a Proposição 2.19 garante que a série (2.22) converge.
Observação 2.21. Visto que é possı́vel determinar precisamente as somas
das séries (2.24) e (2.25), podemos mostrar que a soma da série (2.22) é
−1 π
s= ln 2 + i .
2 4
Com efeito, tomando x = 1 nas seguintes representações em série de Taylor
1 1 (−1)n+1 n
ln(1 + x) = x − x2 + x3 − · · · + x + · · · , −1 < x ≤ 1, e
2 3 n
1 1 1
arctan x = x − x3 + x5 − x7 + · · · , −1 ≤ x ≤ 1,
3 5 7
encontramos as somas das séries (2.24) e (2.25), − ln 2/2 e π/4, respectiva-
mente; lembre que arctan(1) = π/4.

Agora vamos relembrar o teste de Leibniz para séries alternantes.


Teorema 2.22 (Teste de Leibniz). Seja {an } uma sequência de números
reais satisfazendo as condições:
(a) a1 ≥ a2 ≥ a3 ≥ · · · ≥ an ≥ · · · ≥ 0;
(b) an → 0 quando n → ∞.
Então a série alternante

X
(−1)n+1 an = a1 − a2 + a3 − a4 + · · · + (−1)n+1 an + · · ·
n=1
converge.

Considerando que soma de sequências convergentes é convergente, e que


a soma de uma série é o limite de uma sequência (a das somas parciais),
é esperado que soma de séries convergente seja convergente. O teorema
seguinte registra esse fato.
P P∞
Teorema 2.23. Suponha que ∞ n=0 zn = A e n=0 wn = B, onde A e B
são números complexos. Então

X
(zn + wn ) = A + B.
n=0

Demonstração. Denotando as somas parciais das duas séries da hipótese


por
sn = z0 + z1 + · · · + zn e ŝn = w0 + w1 + · · · + wn ,
38 2. Sequências e Séries de Números Complexos

P∞
e lembrando que Sn = sn + ŝn é a soma parcial da série n=0 (zn + wn ),
temos
lim Sn = lim (sn + ŝn ) = lim sn + lim ŝn = A + B.
n→∞ n→∞ n→∞ n→∞
Isso demonstra a asserção do teorema. 

Outro fato útil será enunciado como teorema para facilitar futuras re-
ferências.
Teorema 2.24. Seja c 6= 0. Então

X ∞
X
zn = S se e somente se czn = cS.
n=0 n=0

Demonstração.
P Observamos que se Sn é a soma parcial de ordem n da
série ∞ z
n=0 n , então
σn = cz0 + cz1 + · · · + czn = c(z0 + z1 + · · · + zn ) = cSn
P
é a soma parcial da série ∞ n=0 czn . Se {Sn } converge para S, então {σn }
converge para cS. Por outro lado, se {σn } converge para cS, então
1 1
Sn = σn → (cS) = S quando n → ∞.
c c
Isso completa a demonstração do teorema. 

2.2.1. Convergência absoluta. Como no caso das séries reais, temos


muitas informações sobre a série

X
zn = z0 + z1 + · · · + zn + · · · (2.26)
n=0
quando sabemos que a série dos módulos do termo geral, i.e.,

X
|zn | = |z0 | + |z1 | + · · · + |zn | + · · · , (2.27)
n=0
é convergente.
Definição 2.25. Dizemos que a série (2.26) converge absolutamente quando
a série (2.27) for convergente, i.e., quando exitir um número σ tal que
σ = lim σn ,
n→∞

onde σn denota a soma parcial de ordem n da série (2.27), ou seja,


n
X
σn = |zk |.
k=0
2.2. Séries 39

Mostramos no Exemplo 2.13 que a série geométrica



X
zn = 1 + z + z2 + · · · + zn + · · ·
n=0
converge se e somente se |z| < 1. Na verdade, a série geométrica converge
absolutamente se |z| < 1. De fato, |z k | = |z|k e
n
X 1 − |z|n+1
σn = |z k | = 1 + |z| + |z|2 + · · · + |z|n = .
1 − |z|
k=0

Do Exemplo 2.10 segue que |z|n+1 → 0 quando n → ∞, no caso em que


|z| < 1, i.e.,
1
lim σn = , |z| < 1,
n→∞ 1 − |z|
ou seja,

X 1
|z n | = 1 + |z| + |z|2 + · · · = , |z| < 1.
1 − |z|
n=0
A seguir mostraremos que se uma série de números complexos converge
absolutamente, então ela converge. Porém, a convergência absoluta não é
uma condição necessária para que uma série seja convergente. A série (2.22)
confirma esse fato, visto que ela converge sem ser absolutamente convergente:

X
in 1 1
| |= e a série diverge.
n n n
n=1
P∞ P∞
Proposição 2.26. Se a série n=0 |zn | converge, então a série n=0 zn
também converge.

Demonstração. Seja zn = x Pn + iyn . De acordo com a Proposição 2.19, a


série de números complexos ∞n=0 zn converge se e somente se as séries de
números reais

X X∞
xn e yn (2.28)
n=0 n=0
convergirem. Vamos mostrar que essas duas séries convergem.
Inicialmente observamos que |zn | ≥ |xn | e |zn | ≥ |yn |, em virtude das
desigualdades
p p
|zn | = x2n + yn2 ≥ |xn | e |zn | = x2n + yn2 ≥ |yn |.
P∞
Por hipótese, a série n=0 |zn | converge, então o critério de comparação
para séries de números reais garante a convergência das séries

X ∞
X
|xn | e |yn |.
n=0 n=0
40 2. Sequências e Séries de Números Complexos

Sabemos que se uma série de números reais converge absolutamente, então


ela converge. Logo, temos a convergência das duas séries de (2.28). Agora
usamos
P∞ a Proposição 2.19 para concluir que a série de números complexos
n=0 n converge.
z 
Exemplo 2.27. Analise a convergência da série

X zn
.
n=1
n2

Pela Proposição 2.26, essa série converge quando |z| ≤ 1, pois


z n |z n | 1
= ≤ 2 se |z| ≤ 1,
n 2 2
|n | n
e a série (p-série, p = 2)
X∞
1
n=1
n2
converge (na verdade, o teste de comparação garante a convergência absoluta
da série).
Suponha agora que |z| > 1; logo, |z| = 1 + r, onde r > 0. Segue da
desigualdade (2.16) que
z n |z|n (1 + r)n n(n − 1)r 2 /2
= = ≥
n2 n2 n2 n2
r 2 r2
= − .
2 2n
A última sequência do lado direito converge para o número positivo r 2 /2;
segue do Lema 2.8 que existe n0 tal que
r2 r2 r2
− ≥ para todo n ≥ n0 .
2 2n 4
Em particular, essa sequência não converge para zero, logo a série do exem-
plo não converge no caso |z| > 1, pelo Corolario 2.17.
Para decidir se uma série de números complexos converge absolutamente,
podemos usar os testes de convergência para séries de números reais, como
o de comparação, o da razão e o da raiz, pois

X
|zn |
n=0

é uma série de números reais.


Vamos relembrar um desses testes, o da razão; esse e os outros dois testes
citados só se aplicam a séries que convergem absolutamente.
2.2. Séries 41

Teorema 2.28 (Teste da Razão). Seja {zn } uma sequência de números


complexos não nulos. Suponha que
|zn+1 |
lim = l.
n→∞ |zn |

Então a série
X ∞
zn
n=0
converge absolutamente se l < 1, e diverge se l > 1. Quando l = 1 esse teste
não é conclusivo.
Exemplo 2.29. Analise a convergência da série

X z 2n+1 z3 z5
(−1)n =z− + − ··· ,
(2n + 1)! 3! 5!
n=0
onde z é um número complexo fixado.

É claro que essa série converge quando z = 0, pois a soma parcial de


qualquer ordem é nula. Para z 6= 0, usaremos o Teste da Razão, com
z 2n+1
zn = (−1)n .
(2n + 1)!
Precisamos calcular o limite do seguinte quociente:
z 2(n+1)+1
|zn+1 | |(−1)n+1 [2(n+1)+1]! | 1
= z 2n+1 = |z|2 .
|zn | |(−1)n (2n+1)! | (2n + 3)(2n + 2)
O lado direito desse último quociente tende a zero assim que n → ∞, logo a
série do Exemplo 2.29 converge absolutamente também em todo z complexo
não nulo, pelo Teste da Razão.
Exemplo 2.30. Determine em quais z as seguintes séries convergem:
X∞ X∞
zn 1 zn
(a) n
(b) .
1+z n2 1 + z n
n=0 n=0

Aplicamos o teste da razão à primeira série no caso |z| < 1:


z n+1 /(1 + z n+1 ) n
= |z| 1 + z → |z|
z n /(1 + z n ) 1 + z n+1
n
assim que n → ∞, visto que z → 0 quando n → ∞, pelo Exemplo 2.10,
item (a). Portanto, quando |z| < 1, o teste da razão garante que a série do
item (a) converge absolutamente (logo, ela converge).
Por outro lado, no caso em que |z| > 1, temos
zn 1
n
= n
→1 (2.29)
1+z (1/z ) + 1
42 2. Sequências e Séries de Números Complexos

assim que n → ∞, pelo Exemplo 2.10, item (b). Em vista do Corolário 2.17,
a série do item (a) não converge no caso |z| > 1.
Note que essa última conclusão não seria possı́vel pelo teste da razão,
visto que |z|m → ∞ assim que m → ∞, no caso |z| > 1 [Exemplo 2.10, item
(b)]; logo,
z n+1 /(1 + z n+1 ) (1/z n ) + 1
= →1
z n /(1 + z n ) (1/z n+1 ) + 1
quando n → ∞. O teste da razão é inconclusivo quando o limite da razão é
1.
Vamos usar o teste de comparação para analisar a convergência da série
do item (b). No caso em que |z| < 1, sabemos do Exemplo 2.10 que z n → 0
quando n → ∞, logo
zn
lim = 0.
n→∞ 1 + z n
Esse limite existe também quando |z| > 1, e vale 1, como foi visto em (2.29).
Logo, se z satisfaz uma das desigualdades |z| < 1 ou |z| > 1, temos que a
sequência {z n /(1 + z n )} converge; logo, ela é limitada, pelo Proposição2.4,
i.e., existe constante K tal que
zn
≤ K para todo n.
1 + zn
Agora temos uma comparação entre o termo geral da série do item (b) e o
de uma série convergente:
1 zn
≤ K 1 para todo n.
2
n 1+z n n2
P∞
Como a 0 (1/n2 ) é convergente, o teste de comparação garante que a série
do item (b) converge absolutamente em cada z, tal que |z| < 1 ou |z| > 1.
Observação 2.31. Não analisamos a convergência das séries anteriores no
caso em que |z| = 1. Quando z = 1 a série do item (a) diverge, e a do item
(b) converge. Inicialmente, observamos que há infinitos z n de módulo 1 que
anulam o denominador 1 + z n , como z = −1 e n impar, ou z = i e n da
forma 2 + 4mπ. Porém, existe z de módulo 1, tal que 1 + z n 6= 0 para todo
n. Por exemplo, √ √
z = cos( 2π) + i sen( 2π).
Por quê? Para esse tipo de z, a série do item (a) não converge, visto que
|1 + z n | ≤ 1 + |z|n , e portanto
zn n
≥ |z| 1
= .
1+z n 1 + |z|n 2
Como o termo geral da série não converge para zero, ela não pode convergir.
Capı́tulo 3

Funções Contı́nuas

3.1. Funções
Uma função w = f (z), definida em algum subconjunto A de C e com imagem
em C, é uma correspondência que associa a cada z de A um único elemento
w de C.
O gráfico de f , i.e., o conjunto de pares ordenados
G(f ) = {(z, w) ∈ C × C : z ∈ A e w = f (z)},
pode ser identificado com um subconjunto de R4 . Assim, a não ser em casos
particulares como f (z) = |z|, onde os valores f (z) da função são números
reais, fica inviável uma representação gráfica como aquelas das funções reais
de uma ou de duas variáveis reais, cujos gráficos são desenhados em R2 e
em R3 , respectivamente.
Passamos então a olhar para a função w = f (z) como uma transformação
de C em C, colocando o domı́nio A em uma cópia de R2 e a imagem da função
em outra cópia de R2 .
Vejamos alguns exemplos de funções. A função
f (z) = z 2
está definida em todo z complexo. Se z pertence ao setor circular
C = {(r, θ) : r > 0, 0 < θ < 3π/8},
então θ = arg(z) satisfaz 0 < θ < 3π/8; sabemos da Proposição 1.6 que
arg(z 2 ) = θ + θ, logo 0 < arg(z 2 ) < 3π/4. Assim, como representado na
Figura 3.1, a imagem do conjunto C pela função f (z) = z 2 é o setor circular
D = {(r, θ) : r > 0, 0 < θ < 3π/4}.

43
44 3. Funções Contı́nuas

Figura 3.1. f transforma C em D.

Pela mesma razão, a função f (z) = z 2 transforma o semiplano superior,


i.e., o conjunto
A = {z = x + iy : y > 0},
no plano todo exceto os números reais positivos e o zero, i.e., no conjunto
B = C \ {w = u + i0 : u ≥ 0};
os número reais positivos não fazem parte da imagem B = f (A), visto que
eles são imagens por f tanto dos números reais negativos como dos positivos,
mas essas duas classes de números não estão no domı́nio A escolhido.
A função f (z) = z 2 , quando restrita ao semiplano superior A, é injetiva,
i.e., leva pontos distintos de A em pontos distintos da imagem B, ou seja:
f (z1 ) 6= f (z2 ) sempre que z1 6= z2 , z1 ∈ A e z2 ∈ A.
De fato, suponha que f (z1 ) = f (z2 ), i.e.,
z12 = z22 ou (z1 − z2 )(z1 + z2 ) = 0.
Como z1 = x1 + iy1 e z2 = x2 + iy2 pertencem a A, temos que y1 > 0 e
y2 > 0; logo, y1 + y2 > 0 e z1 + z2 6= 0. Assim, z1 = z2 e f , quando restrita
ao conjunto A, é injetiva.
Agora verificaremos que dado um w em B, existe um único z em A tal
que z 2 = w, ou seja, a restrição de f ao subconjunto A é sobrejetiva em B.
Para encontrar a expressão de z, representamos cada w de B em forma
polar, digamos
w = r(cos θ + i sen θ), θ ∈ (0, 2π),
e resolvemos a equação z 2 = w. Temos duas raı́zes z1 e z2 , a saber
√ θ θ √ θ + 2π θ + 2π
z1 = r[cos + i sen ] e z2 = r[cos( ) + i sen( )],
2 2 2 2
mas apenas a primeira z1 pertence ao conjunto A. Assim, existe um z1 em
A tal que z12 = w.
3.1. Funções 45

Figura 3.2. f transforma A em B.

Portanto, a restrição de f ao conjunto A é um bijeção de A em B


(veja Figura 3.2). Sendo assim, essa restrição possui uma função inversa
z = f −1 (w), w ∈ B, dada por
√ θ θ
f −1 (w) = r[cos + i sen ], w ∈ B.
2 2

Como veremos posteriormente, na Proposição 5.16, a função


h(z) = h(x + iy) = ex (cos y + i sen y). (3.1)
é uma das expressões que se usa para definir a função exponencial de uma
variável complexa. Essa função h é definida em todo z complexo, mas não é
injetiva em C, já que as funções seno e cosseno são periódicas, com perı́odo
2π.
Com efeito, escrevendo z1 = x1 + iy1 e z2 = x2 + iy2 , e supondo que
h(z1 ) = h(z2 ), temos que
ex1 (cos y1 + i sen y1 ) = ex2 (cos y2 + i sen y2 ).
Tomando o módulo de ambos os membros, lembrando que | cos θ + i sen θ| =
1, para todo θ, e que ex > 0 para todo x, obtemos ex1 = ex2 . Logo, x1 = x2
e então
(
cos y1 = cos y2
cos y1 + i sen y1 = cos y2 + i sen y2 ou
sen y1 = sen y2 .
As soluções do último sistema são y1 = y2 + 2kπ; portanto h(z1 ) = h(z2 ) se
e somente se (
x1 = x2
y1 = y2 + 2kπ,
onde k é um número inteiro. Logo, para h = h(z) ser injetiva temos de
restringir seu domı́nio a uma faixa horizontal com largura máxima 2π, e
ainda assim excluı́ndo os pontos de uma das fronteiras.
46 3. Funções Contı́nuas

Figura 3.3. h transforma z = x + iy0 em w = ex (cos y0 + i sen y0 ).

Um caso importante é a restrição de h = h(z) ao subconjunto


D = {z = x + iy : x ∈ R e − π < y ≤ π}.
Nessa faixa horizontal obtemos uma função injetiva, portanto inversı́vel.
Para determinar a expressão de h−1 , resolvemos a equação
h(z) = h(x + iy) = ex (cos y + i sen y) = w, w 6= 0. (3.2)
Como |h(z)| = ex 6= 0, consideramos apenas w 6= 0 na equação anterior.
Segue de (3.2) que
|ex (cos y + i sen y)| = |w| ou ex = |w|.
A solução única da última equação é x = ln |w|. Substituindo x = ln |w| em
(3.2), obtemos
|w|(cos y + i sen y) = w ou y = arg(w).
Por outro lado, como −π < y ≤ π, temos que de fato y = Arg(w). Portanto,
a função inversa de h é dada por z = h−1 (w), onde
h−1 (w) = ln |w| + i Arg(w), w 6= 0.
Essa função inversa é conhecida como a determinação principal do logaritmo
[veja Definição 5.27].
A Figura 3.3 mostra como a função h transforma as retas horizontais
z = x + iy0 , onde y0 pertence ao intervalo (−π, π], em um conjunto de
semirretas, partindo da origem, que “cobrem” todo o plano C, exceto a
origem (assim que y0 cresce de −π até π, as retas z = x + iy0 são levadas
por h em semirretas que giram, no sentido anti-horário, de próximo ao eixo
u negativo, mas abaixo dele, até cobrir o referido eixo). Essa é uma das
maneiras de visualizar que h = h(z) é uma bijeção da faixa horizontal D em
C \ {0}.
3.2. Limites 47

Figura 3.4. Gráfico de (sen x)/x.

3.2. Limites
Para motivar o conceito de limite de uma função vamos analisar o compor-
tamento da função
sin x
f (x) = , x 6= 0, (3.3)
x
em pontos próximos de x0 = 0. A escolha de uma função real de variável
real facilita os cálculos e permite usar o gráfico da função para interpretações
geométricas. Veja Figura 3.4.
Com uma calculadora podemos encontrar os valores (aproximados) da
função (3.3) em cinco números que se aproximam de zero, apresentados na
seguinte tabela:

x 1,0 0,5 0,1 0,01 0,001


f (x) 0,84147 0,95885 0,99833 0,99998 0,99999

Na segunda linha da tabela, vemos que os valores de f (x) se aproximam de


1 assim que x se aproxima de zero pela direita; a segunda linha da tabela
não se altera se trocarmos o sinal dos valores de x da primeira linha, visto
que a função (3.3) é par (quociente de funções ı́mpares). Portanto é natural
afirmar que os valores de f (x) tendem a 1 quando x tende a zero, ou que
L = 1 é o limite de f (x) quando x tende a zero.
É importante observar que a função (3.3) não está definida em x0 = 0,
e isso não interfere na existência do limite de f = f (x) quando x tende a
x0 = 0; o número 1 depende exclusivamente do comportamento de f nos
pontos arbitrariamente próximos a x0 = 0, à direita ou à esquerda desse
ponto.
A seguir daremos uma definição precisa do conceito de limite de uma
função f = f (z) quando z tende a z0 .

Definição 3.1. Dizemos que um número complexo L é um limite da função


f = f (z) quando z tende a z0 se para cada número ε > 0 for possı́vel
48 3. Funções Contı́nuas

Figura 3.5. Visualização das desigualdades em (3.4).

encontrar um número δ = δ(ε, z0 ) > 0 satisfazendo a condição


|f (z) − L| < ε sempre que 0 < |z − z0 | < δ. (3.4)

Nessa definição está subentendido que um disco sem o centro z0 , i.e.,


uma região do tipo
D = {z ∈ C : 0 < |z − z0 | < δ},
está contida no domı́nio da função f = f (z); essa convenção simplifica um
pouco os enunciados e não prejudica nenhuma das aplicações que faremos.
Para designar que L é um limite de f = f (z) quando z tende a z0 ,
usaremos as notações
lim f (z) = L ou f (z) → L quando z → z0 .
z→z0

A primeira desigualdade em (3.4) só precisa ser válida para z satis-


fazendo 0 < |z − z0 | < δ, logo não é necessário que a função seja definida no
ponto z0 para que exista limite; a função f = f (x) de (3.3) não é definida
em x0 = 0, mas mesmo assim ela tende ao limite 1 quando x se aproxima
de zero.
A Figura 3.5 procura enfatizar o significado das duas desigualdades em
(3.4). Para entender a ilustração, precisamos lembrar que se w1 = x1 + iy1
e w1 = x2 + iy2 , então
p
|w1 − w2 | = (x1 − x2 )2 + (y1 − y2 )2
representa a distância entre os dois pontos w1 e w2 do plano complexo.
Na primeira desigualdade de (3.4), o ε é um número positivo arbitrário,
justamente para mostrar que f (z) pode ficar tão perto de L quanto desejar-
mos, desde que z fique suficientemente próximo de z0 . A notação δ = δ(ε, z0 )
é para mostrar que, em geral, o δ depende de ε e de z0 .
Não é difı́cil mostrar que se existe um número L satisfazendo a desigual-
dade (3.4), então ele é único, ou seja, assim que z tende a z0 ou f = f (z)
3.2. Limites 49

Figura 3.6. limz→i f (z) = 3i.

possui um único limite L ou não possui nenhum; a demonstração da unici-


dade do limite está no Apêndice a este capı́tulo.
Exemplo 3.2. Considere a função f (z) = 2z + i e z0 = i. Mostre pela
definição de limite que
lim f (z) = 3i.
z→i

Seja ε > 0. Inicialmente escrevemos a distância entre f (z) e 3i e a partir


dela tentamos encontrar uma expressão para calcular a distância entre z e
i, donde se escolhe o δ em termos de ε:
|f (z) − 3i| = |(2z + i) − 3i| = |2(z − i)| = 2|z − i|.
Para obtermos a primeira desigualdade de (3.4), impomos 2|z − i| < ε, logo
|z − i| < ε/2; portanto o candidato natural a δ é δ = ε/2 (ou qualquer
número positivo menor do que ε/2). Com essa escolha de δ temos
|f (z) − 3i| < ε sempre que 0 < |z − i| < δ.
Ou seja, usamos a Definção 3.1 para mostrar que limz→i f (z) = 3i.
A Figura 3.6 ilustra as regiões envolvidas na demonstração anterior.
Exemplo 3.3. Mostre pela definição de limite que se g(z) = |z| e z0 = i,
então
lim g(z) = 1.
z→i

Como no exemplo anterior, começamos calculando a distância entre g(z)


e 1:
|g(z) − 1| = |z| − 1 = |z| − |i| ≤ |z − i|;
a substituição do 1 por |i| foi necessário para usarmos a desigualdade trian-
gular e encontrar a desejada relação entre as distâncias |g(z) − 1| e |z − i|.
Nesse caso, basta escolher δ = ε; assim temos
|g(z) − 1| < ε sempre que 0 < |z − i| < δ.
Mostramos pela definição que limz→i g(z) = 1.
50 3. Funções Contı́nuas

Exemplo 3.4. Mostre que a função


z
f (z) = , z 6= 0,
|z|
não possui limite quando z tende a zero.

De fato, quando z é um número real x, temos que


(
1 se x > 0
f (x) =
−1 se x < 0
Assim, quando z → 0 ao longo do eixo real temos que f (z) não tende a um
único número, contrariando a Definição 3.1: para todo z de um disco com
centro em zero, z 6= 0, terı́amos de ter f (z) arbitrariamente próximo de um
único valor L.
O próximo exemplo apresenta uma função que não está definida em
z0 = 0, como no Exemplo 3.4, mas agora existe o limite quando z tende a
zero.

Exemplo 3.5. Mostre que a função


z2
g(z) = , z 6= 0,
|z|
possui limite quando z tende a zero.

Quando z é um número real x, temos


(
x se x > 0
g(x) =
−x se x < 0;
assim, quando z → 0 ao longo do eixo real, temos que g(x) → 0. Podemos
substituir o eixo-x por qualquer outra reta que passe pela origem, digamos
y = ax, a 6= 0:
(x + iax)2 x2 (1 + ia)2 (1 + ia)2
g(x + iax) = = = |x| , x 6= 0,
|x + iax| |x| |1 + ia| |1 + ia|
e teremos o mesmo limite zero, assim que z se aproxima de zero ao longo da
reta.
Isso não demonstra que o limite limz→0 g(z) existe e que seja zero, apenas
indica que zero é um candidato a L, visto que ainda há uma infinidade de
outras maneiras de se aproximar de zero.
Precisamos então de outro procedimento; usaremos a definição de limite
com o “candidato” a limite sendo L = 0:
z2
|g(z) − 0| = | − 0| = |z| = |z − 0|, z 6= 0.
|z|
3.2. Limites 51

Para ε > 0, escolhemos δ = ε e obtemos:


|g(z) − 0| < ε sempre que 0 < |z − 0| < δ.
Ou seja, verificamos pela definição que limz→0 g(z) = 0.
O próximo teorema fornece os limites da soma, do produto e do quociente
de funções, quando conhecemos os limites das funções envolvidas nessas
operações; existe também um teorema para encontrar o limite de funções
compostas, o qual será apresentado na Proposição 3.15.
Teorema 3.6. Suponha que limz→z0 f (z) = A e limz→z0 g(z) = B. Então
(a) limz→z0 (f + g)(z) = A + B.
(b) limz→z0 (f g)(z) = AB.
 
f A , desde que B 6= 0.
(c) limz→z0 g (z) = B

Demonstração. Os argumentos para demonstrar esse teorema são os mes-


mos que foram usados na demonstração do Teorema 2.7, no contexto das
sequências; vamos apresentar aqui apenas o item (a); a demonstração dos
itens (b) e (c) está no Apêndice a este capı́tulo.
Decorre da desigualdade triangular que
|(f + g)(z) − (A + B)| = |(f (z) − A) + (g(z) − B)|
(3.5)
≤ |f (z) − A| + |g(z) − B|.
Seja ε > 0. Segue da primeira hipótese e da Definição 3.1 que existe δ1
satisfazendo
|f (z) − A| < ε/2 sempre que 0 < |z − z0 | < δ1 . (3.6)
Da segunda hipótese temos
|g(z) − B| < ε/2 sempre que 0 < |z − z0 | < δ2 . (3.7)
Com δ = min{δ1 , δ2 }, e z satisfazendo 0 < |z − z0 | < δ, temos a validade de
(3.6) e (3.7); logo, em virtude dessas desigualdades e de (3.5), obtemos
|(f + g)(z) − (A + B)| ≤ |f (z) − A| + |g(z) − B|
ε ε
< + = ε.
2 2
Assim fica demonstrado a asserção (a) do teorema. As demonstrações dos
itens (b) e (c) estão na Subseção 3.4.2. 
Exemplo 3.7. Use o teorema anterior para determinar o limite abaixo:
z2 + 2
lim .
z→i |z| + 1
52 3. Funções Contı́nuas

Observamos inicialmente que limz→i z 2 = limz→i zz. De fato, se h(z) = z


então é claro que limz→i h(z) = i, pois |h(z) − i| = |z − i| e, se ε um número
positivo qualquer, tomamos δ = ε e fica satisfeita a condição (3.4):
|h(z) − i| < ε sempre que |z − i| < δ.
Logo, pela asserção (b) do Teorema 3.6, obtemos limz→i zz = i2 .
Em seguida usamos a asserção (a) do citado teorema no limite do nu-
merador:
lim (z 2 + 2) = lim z 2 + lim 2 = i2 + 2 = 1.
z→i z→i z→i
Com a asserção (a) do Teorema 3.6 e o Exemplo 3.3, vemos que
lim(|z| + 1) = 1 + 1 = 2.
z→i
Finalmente, usamos a asserção (c) do Teorema 3.6 para concluir que
z2 + 2 1
lim = .
z→i |z| + 1 2
Exemplo 3.8. Calcule o limite
z3 − 1
lim .
z→1 z − 1

Não podemos aplicar a asserção (c) do Teorema 3.6 ao quociente de (ii),


pois limz→1 (z − 1) = 0. Porém, 1 é raı́z do polinômio p(z) = z 3 −1, logo p(z)
é divisı́vel por z − 1, o que dá a seguinte igualdade p(z) = (z − 1)(z 2 + z + 1);
portanto,
z3 − 1
= z 2 + z + 1, z 6= 1.
z−1
Como o lado direito dessa igualdade é igual ao lado esquerdo em todo z 6= 1,
podemos aplicar as asserções (a) e (b) do Teorema 3.6 ao lado direito para
calcular o limite
z3 − 1
lim = lim (z 2 + z + 1) = 3.
z→1 z − 1 z→1

A seguir, mostraremos que determinar o limite de uma função


f (z) = f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y)
quando z = x+ iy tende a z0 = x0 + iy0 é o mesmo que determinar os limites
das funções reais u = u(x, y) e v = v(x, y) quando (x, y) tende a (x0 , y0 ).
Proposição 3.9. Sejam f (z) = f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y), z0 = x0 + iy0
e L = U + iV . Então


 lim(x,y)→(x0 ,y0 ) u(x, y) = U
lim f (z) = L se e somente se e
z→z0 

lim(x,y)→(x0 ,y0 ) v(x, y) = V.
3.3. Funções Contı́nuas 53

Essa equivalência entre limites é natural se lembrarmos que, por um


lado,
p
|z − z0 | = (x − x0 )2 + (y − y0 )2 ,
logo z → z0 se e somente se (x, y) → (x0 , y0 ); por outro lado, em virtude da
identidade
p
|f (z) − L| = [u(x, y) − U ]2 + [v(x, y) − V ]2 , (3.8)
é claro que o primeiro termo de (3.8) tende a zero quando z tende a z0 se e
somente se u(x, y) − U e v(x, y) − V tenderem a zero quando (x, y) tende a
(x0 , y0 ), ou seja
lim u(x, y) = U e lim v(x, y) = V.
(x,y)→(x0 ,y0 ) (x,y)→(x0 ,y0 )

Uma demonstração formal (com ε e δ ...) da Proposição 3.9 será apresentada


no Apêndice a este capı́tulo.
Exemplo 3.10. Use a Proposição 3.9 para analisar o limite da função
f (z) = f (x + iy) = ex cos y + iex sen y
quando z → iπ.
p
Como |z −iπ| = (x − 0)2 + (y − π)2 , temos que z → iπ se e somente se
x → 0 e y → π. Logo, pela Proposição 3.9, temos que f (z) → −1 + i0 = −1,
quando z → iπ , pois
lim ex cos y = −1 e lim ex sen y = 0.
(x,y)→(0,π) (x,y)→(0,π)

3.3. Funções Contı́nuas


Vimos na seção anterior que uma função f = f (z) pode possuir um limite
quando z tende a z0 mesmo se não estiver definida em z0 . Agora vamos
considerar as funções definidas em z0 , que possuem limite quando z tende
a z0 , e que o limite seja f (z0 ); em sı́mbolos:
lim f (z) = f (z0 ).
z→z0

Essas são as funções contı́nuas em z0 , conforme a definição a seguir.


Definição 3.11. Dizemos que uma função f = f (z) é contı́nua em z0 se for
definida nesse ponto e se
lim f (z) = f (z0 ).
z→z0

A função f é contı́nua em um conjunto D quando ela for contı́nua em todos


os pontos de D.
54 3. Funções Contı́nuas

Decorre da definição de limite em termos de ε e δ, i.e., da condição (3.4)


com L = f (z0 ), que uma função f = f (z) é contı́nua em um ponto z0 de seu
domı́nio se para cada ε > 0 for possı́vel encontrar um número δ = δ(ε, z0 )
satisfazendo a condição
|f (z) − f (z0 )| < ε sempre que |z − z0 | < δ. (3.9)

Usaremos o Teorema 3.6 para mostrar que a soma, o produto e o quo-


ciente de funções contı́nuas são contı́nuas:
Teorema 3.12. Sejam f = f (z) e g = g(z) funções contı́nuas em algum
ponto z0 comum a seus domı́nios. Então:
(a) a soma f + g é uma função contı́nua em z0 ;
(b) o produto f g é uma função contı́nua em z0 ;
(c) o quociente f /g é uma função contı́nua em z0 , desde que g(z0 ) 6= 0.

Demonstração. Como f e g são contı́nuas em z0 , temos


lim f (z) = f (z0 ) e lim g(z) = g(z0 ).
z→z0 z→z0

Segue das asserções (a) e (b) do Teorema 3.6, respectivamente, que


lim (f + g)(z) = f (z0 ) + g(z0 ) e lim (f g)(z) = f (z0 )g(z0 );
z→z0 z→z0

agora basta lembrar que


f (z0 ) + g(z0 ) = (f + g)(z0 ) e f (z0 )g(z0 ) = (f g)(z0 )
para concluir que as funções f + g e f g são contı́nuas no ponto z0 .
Quanto à asserção (c) do Teorema 3.12, lembramos que g(z0 ) 6= 0 por
hipótese, logo podemos usar a asserção (c) do Teorema 3.6 para obtermos
   
f f (z0 ) f
lim (z) = = (z0 ).
z→z0 g g(z0 ) g
Isso demonstra as asserções (a), (b) e (c) do Teorema 3.12. 
Exemplo 3.13. Vamos aproveitar os limites já calculados nos exemplos
anteriores para apresentar algumas funções contı́nuas.
A função f (z) = 2z + i do Exemplo 3.2 é contı́nua em z0 = i, pois ela é
definida nesse ponto e, além disso,
lim f (z) = 3i = f (i).
z→i

Da mesma maneira, a função g(z) = |z| do Exemplo 3.3 é contı́nuas em


z0 = i, pois ela é definida nesse ponto e, além disso,
lim g(z) = 1 = g(i).
z→i
3.3. Funções Contı́nuas 55

Na verdade, essas funções f e g são contı́nuas em qualquer z0 , não só


em z0 = i, visto que
|f (z) − f (z0 )| = |(2z + i) − (2z0 + i)| = 2|z − z0 |
e que

|g(z) − g(z0 )| = |z| − |z0 | ≤ |z − z0 |;
logo, no caso de f , para um ε positivo qualquer, escolhemos δ = ε/2 e, no
caso de g, tomamos δ = ε. Assim, fica verificada a condição (3.9), e portanto
confirmamos que as funções f e g são contı́nuas em todo z0 .
Note que o δ nesses dois exemplos só depende de ε, ou seja, ele serve para
qualquer z0 de C; dizemos então que as funções f e g são uniformemente
contı́nuas em C.
A função
z2 + 2
f (z) =
|z| + 1
do Exemplo 3.7 é contı́nua em z0 = i, pois, como vimos lá,
1
lim f (z) = = f (i).
z→i 2
Com o Teorema 3.12 é fácil ver que cada polinômio
P (z) = an z n + an−1 z n−1 + · · · + a0
é uma função contı́nua em todo z de C; pelo mesmo teorema, toda função
racional, i.e., quociente de polinômios,
an z n + an−1 z n−1 + · · · + a1 z + a0
Q(z) = ,
bm z m + bm−1 z m−1 + · · · + b1 z + b0
é contı́nua nos pontos onde o denominador não se anula; em particular, são
contı́nuas nos seus respectivos domı́nios as funções
z+1
P (z) = z 3 + 2z − 3, Q(z) = , z ∈ C \ {i, −i}.
z2 + 1

Antes de demonstrar que a composição de funções contı́nuas é uma


função contı́nua, vamos relembrar a definição de função composta:
(g ◦ f )(z) = g(f (z))
em todo z do domı́nio de f tal que f (z) pertence ao domı́nio de g.
Teorema 3.14. Se uma função f = f (z) é contı́nua em z0 e se g = g(w) é
uma função contı́nua no ponto w0 = f (z0 ), então a função composta g ◦ f é
contı́nua em z0 .
56 3. Funções Contı́nuas

Figura 3.7. Função composta.

Demonstração. Seja ε > 0. Em vista da continuidade da função g = g(w)


em w0 = f (z0 ), podemos usar a condição (3.9) para encontrar um número
α > 0 satisfazendo
|g(w) − g(f (z0 ))| < ε sempre que |w − f (z0 )| < α; (3.10)
substituı́mos a letra δ por α na condição (3.9). Agora usamos a continuidade
de f = f (z) em z0 , com α em lugar de ε, para encontrarmos um número δ
satisfazendo
|f (z) − f (z0 )| < α sempre que |z − z0 | < δ. (3.11)
Portanto, se |z − z0 | < δ, segue de (3.11) que podemos substituir w por f (z)
em (3.10) e concluir que
|g(f (z)) − g(f (z0 ))| < ε;
ou seja, a função composta g ◦ f é contı́nua em z0 . 

A seguir apresentamos uma variação do teorema anterior, onde sub-


stituı́mos a hipótese de f ser contı́nua em z0 pela existência do limite
lim f (z) = L.
z→z0
Agora a função f não precisa ser definida em z0 , ou mesmo se for definida
em z0 não exigimos que L = f (z0 ); como veremos a seguir, se g for contı́nua
em L, então a função composta g ◦ f ainda possui limite quando z tende a
z0 .
Proposição 3.15. Se limz→z0 f (z) = L e se g é contı́nua em L, então
lim g(f (z)) = g(L). (3.12)
z→z0

A demonstração dessa proposição é praticamente a mesma do Teorema 3.14,


basta trocar f (z0 ) por L. Para conveniência do leitor, apresentamos essa
demonstração no Apêndice a este capı́tulo.
A seguir mostramos que uma função contı́nua transforma sequência con-
vergente em sequência convergente.
3.3. Funções Contı́nuas 57

Proposição 3.16. Se limn→∞ zn = z0 e se g é contı́nua em z0 , então


lim g(zn ) = g(z0 ). (3.13)
n→∞

Demonstração. Seja ε > 0. Como g é contı́nua em z0 , existe, pela condição


(3.9), um número δ > 0 satisfazendo
|g(z) − g(z0 )| < ε sempre que |z − z0 | < δ. (3.14)
Agora usamos que zn → z0 quando n → ∞, i.e., usamos condição (2.3), com
δ em lugar de ε, para encontrarmos um número n0 satisfazendo
|zn − z0 | < δ sempre que n ≥ n0 . (3.15)
Portanto, se n ≥ n0 , segue de (3.15) que podemos substituir z por zn em
(3.14) e concluir que
|g(zn ) − g(z0 )| < ε;
ou seja, fica verificado o limite (3.13). 
Exemplo 3.17. Seja {an } uma sequência de números reais, e suponha que
an → a quando n → ∞, a > 0. Verifique que

lim n an = 1.
n→∞
Use esse limite para calcular o seguinte limite
p
lim n |1 + z n |,
n→∞
nos casos em que |z| < 1 ou |z| > 1.

Inicialmente, lembramos que


√ 1
n
an = e n ln an .
Como an → a quando n → ∞, a > 0, e a função x 7→ ln x é contı́nua nos
reais positivos, segue da Proposição 3.16 que ln an → ln a quando n → ∞;
além disso, 1/n → 0 quando n → ∞. Logo,
1
lim ln an = 0.
n→∞ n
A continuidade da função x 7→ ex e a Proposição 3.16 garantem que
1
lim e n ln an = e0 = 1.
n→∞

Para determinar o segundo limite, suponha que |z| < 1, z fixado. Sabe-
mos do Exemplo 2.10, item (a), que z n → 0 quando n → ∞, logo
an = |1 + z n | → 1 quando n → ∞,
em virtude da continuidade da função z 7→ |z| e da Proposição 3.16. Então,
pelo primeiro limite concluı́mos que
p
lim n |1 + z n | = 1.
n→∞
58 3. Funções Contı́nuas

No caso |z| > 1, segue do exemplo citado, item (b), que 1/z n → 0 quando
n → ∞. Logo, usando novamente a Proposição 3.16, obtemos
lim |(1/z n ) + 1| = 1.
n→∞

Em seguida, colocamos z n em evidência e usamos o primeiro limite:


p p
lim n |1 + z n | = |z| lim n |(1/z n ) + 1| = |z|.
n→∞ n→∞

Decidir se uma função w = f (z) é contı́nua em z0 = x0 + iy0 é o mesmo


que decidir se as partes real Re[f (z)] e imaginária Im[f (z)] de f são contı́nuas
em (x0 , y0 ), como mostramos a seguir.
Proposição 3.18. A função
f (z) = f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y)
é contı́nua em z0 = x0 + iy0 se e somente se as funções reais u = u(x, y) e
v = v(x, y) forem contı́nuas em (x0 , y0 ).

Demonstração. De fato, se f é contı́nua em z0 então


lim f (z) = f (z0 ) = u(x0 , y0 ) + iv(x0 , y0 ).
z→z0

Em virtude da Proposição 3.9 temos que esse limite é equivalente aos dois
seguintes
lim u(x, y) = u(x0 , y0 ) e lim v(x, y) = v(x0 , y0 ),
(x,y)→(x0 ,y0 ) (x,y)→(x0 ,y0 )

ou seja, as funções u e v são contı́nuas em (x0 , y0 ). 


Exemplo 3.19. Determine as regiões em que as seguintes funções são
contı́nuas:
(a) f (z) = f (x + iy) = ex (cos y + i sen y);
p
(b) g(z) = g(x + iy) = ln x2 + y 2 + i arctan( xy ), x 6= 0.

Já que as partes real e imaginária de f , a saber u(x, y) = ex cos y e


v(x, y) = ex sen y, são definidas em todo (x, y) de R2 , e são contı́nuas nesses
pontos, temos que a função f é contı́nua em todo z = x + iy, em virtude da
Proposição 3.18.
A função g não está definida nos pontos z onde Re(z) = x = 0, i.e., o
domı́nio de g é C \ {iy : y ∈ R}; geometricamente, é o plano C menos o
eixo-y.
A parte real de g, i.e.,
p
u(x, y) = ln x2 + y 2 , (x, y) 6= (0, 0),
3.4. Apêndice 59

é contı́nua em seu domı́nio R2 \ {(0, 0)}, pois é uma composição das funções
contı́nuas

r(x, y) = x2 + y 2 , (x, y) ∈ R2 , s = r, r ≥ 0 e t = ln s, s > 0,

ou seja: u = t ◦ (s ◦ r).
A parte imaginária de g, i.e.,

v(x, y) = arctan(y/x), x 6= 0,

é também uma composição de funções contı́nuas nos seus domı́nios:


y
H(x, y) = , x = 6 0, e M (t) = arctan t;
x
ou seja, v = M ◦ H. Assim, segue da Proposição 3.18 que g é contı́nua em
todos os pontos do seu domı́nio C \ {iy : y ∈ R}.

3.3.1. Extensão contı́nua de uma função. Com frequência precisamos


estender o domı́nio de uma função de maneira que ela fique contı́nua nos
pontos acrescentados ao seu domı́nio. Se z0 é um desses pontos, e se existe
o limite de f = f (z) quando z tende a z0 , então existe extensão contı́nua de
f em z0 .

Exemplo 3.20. Determine a extensão contı́nua da função


z3 − 1
f (z) = , z 6= 1.
z−1
Como vimos no Exemplo 3.7, limz→1 f (z) = 3, logo definimos a extensão F
de f por:
(
f (z) se z 6= 1
F (z) =
3 se z = 1.
A função F é contı́nua em z = 1, pois
z3 − 1
lim F (z) = lim = 3 = F (1).
z→1 z→1 z − 1

Note que 3 é o único valor que produz extensão contı́nua da função f desse
exemplo.

3.4. Apêndice
Apresentaremos a seguir algumas demonstrações que foram evitadas ao
longo do Capı́tulo 3 para “aliviar” um pouco o texto.
60 3. Funções Contı́nuas

3.4.1. Unicidade do Limite. Suponha que L1 e L2 sejam limites de f =


f (z) quando z → z0 ; vamos mostrar que L1 = L2 . Suponha que L1 6= L2 ;
usamos a Definição 3.1 com ε = |L1 − L2 |/2 para encontrarmos um número
δ1 satisfazendo
|f (z) − L1 | < ε sempre que 0 < |z − z0 | < δ1 (3.16)
e um δ2 satisfazendo
|f (z) − L2 | < ε sempre que 0 < |z − z0 | < δ2 . (3.17)
Agora escolhemos um ẑ tal que 0 < |ẑ − z0 | < δ, onde δ = min{δ1 , δ2 };
somamos e subtraı́mos f (ẑ) à diferença L1 − L2 , usamos a desigualdade
triangular |α + β| ≤ |α| + |β| e, em seguida, usamos (3.16) e (3.17) com esse
ẑ:
|L1 − L2 | = |L1 − f (ẑ) + f (ẑ) − L2 | ≤ |f (ẑ) − L1 | + |f (ẑ) − L2 |
< ε + ε = |L1 − L2 |,
o que é uma contradição. Fica então verificado que L1 = L2 .

3.4.2. Demonstração das asserções (b) e (c) do Teorema 3.6. Ini-


cialmente mostraremos que se limz→z0 f (z) = L, então o módulo |f (z)| é
limitado por uma constante em todo z de um disco com centro em z0 :
Lema 3.21. Suponha que limz→z0 f (z) = L. Então existe um número δ > 0
tal que:
(a) |f (z)| ≤ 1 + |L| sempre que 0 < |z − z0 | < δ;
(b) |f (z)| ≥ |L|/2 sempre que 0 < |z − z0 | < δ.

Demonstração. Como f (z) → L quando z → z0 , tomamos ε = 1 na


Definição 3.1, e encontramos então um δ satisfazendo
|f (z) − L| < 1 sempre que 0 < |z − z0 | < δ. (3.18)

Por outro lado, em virtude da desigualdade triangular |α − β| ≥ |α| − |β|
e do fato que |x| ≥ x no caso em que x é um número real, temos

|f (z) − L| ≥ |f (z)| − |L| ≥ |f (z)| − |L|.
Logo, segue de (3.18) e da última desigualdade que
|f (z)| − |L| < 1 sempre que 0 < |z − z0 | < δ,
de onde obtemos que |f (z)| ≤ 1 + |L| para todo z do disco 0 < |z − z0 | < δ.
Fica verificada a desigualdade (a) do lema.
A cota inferior da asserção (b) do lema é trivial se L = 0; no caso em
que L 6= 0, usamos a Definição 3.1 de limite com ε = |L|/2 para encontrar
um δ satisfazendo
|f (z) − L| < |L|/2 sempre que 0 < |z − z0 | < δ. (3.19)
3.4. Apêndice 61

Agora usamos a desigualdade triangular citada acima, mas antes invertemos


as posições de f (z) e L, já que desejamos uma cota inferior:

|f (z) − L| = |L − f (z)| ≥ |L| − |f (z)| ≥ |L| − |f (z)|.
Dessa última desigualdade e de (3.19), obtemos
|L| − |f (z)| < |L|/2 sempre que 0 < |z − z0 | < δ,
de onde segue que |f (z)| ≥ |L|/2 para todo z satisfazendo 0 < |z − z0 | < δ.
Fica verificada a desigualdade (b) do lema. 

Demonstração do Teorema 3.6. Para demonstrar a asserção (b) do Teo-


rema 3.6, somamos e subtraı́mos o termo Ag(z) em f (z)g(z) − AB, reagru-
pando os termos em seguida:
f (z)g(z) − AB = g(z)[f (z) − A] + A[g(z) − B];
segue da desigualdade triangular |α + β| ≤ |α| + |β| e da cota superior para
|g(z)| dada no Lema 3.21 (com g em lugar de f e B no de L) que
|f (z)g(z) − AB| ≤ |g(z)||f (z) − A| + |A||g(z) − B|
(3.20)
≤ (1 + |B|)|f (z) − A| + |A||g(z) − B|,
para z em 0 < |z − z0 | < δ. Seja ε > 0. Visto que f (z) → A quando z → z0 ,
segue da Definição 3.1 que existe um δ1 satisfazendo
ε
|f (z) − A| < sempre que 0 < |z − z0 | < δ1 . (3.21)
2(1 + |B|)
Como g(z) → B quando z → z0 , existe também δ2 satisfazendo
ε
|g(z) − B| < sempre que 0 < |z − z0 | < δ2 . (3.22)
2(1 + |A|)
Com δ0 = min{δ, δ1 , δ2 }, e z satisfazendo 0 < |z − z0 | < δ0 , podemos usar
(3.21) e (3.22) em (3.20), de onde obtemos
ε ε
|f (z)g(z) − AB| < (1 + |B|) + |A|
2(1 + |B|) 2(1 + |A|)
ε ε
≤ + = ε.
2 2
Para demonstrar a asserção (c), inicialmente observamos que o quociente
f (z)/g(z) está bem definido em cada z no conjunto 0 < |z − z0 | < δ, em
virtude cota inferior para |g(z)| dada na asserção (b) do Lema 3.21:
|B|
|g(z)| ≥ > 0. (3.23)
2
Começamos demonstrando que
1 1
→ quando z → z0 . (3.24)
g(z) B
62 3. Funções Contı́nuas

Segue de (3.23) que se z é ponto de 0 < |z − z0 | < δ, então


1 1 |g(z) − B|
| − |=
g(z) B |B||g(z)|
(3.25)
2|g(z) − B|
≤ .
|B|2
Como limz→z0 g(z) = B, usamos a Definição 3.1 de limite com ε|B|2 /2 em
lugar de ε para obtermos um δ3 tal que
|g(z) − B| < ε|B|2 /2 sempre que 0 < |z − z0 | < δ3 . (3.26)
Seja δ0 = min{δ, δ3 }. Para z na região 0 < |z − z0 | < δ0 podemos usar (3.25)
e (3.26), logo
1 1 2|g(z) − B|
| − |≤ < ε.
g(z) B |B|2
Fica verificado o limite (3.24).
Para completar a demonstração da asserção (c), usamos o limite (3.24)
e a asserção (b) do Teorema 3.6 em
f (z) 1
= f (z) ,
g(z) g(z)
obtendo então que
 
f 1 A
lim (z) = lim [f (z) ]= ,
z→z0 g z→z0 g(z) B
desde que B 6= 0. Isto completa a demonstração do Teorema 3.6. 

3.4.3. Demonstração da Proposição 3.9. Inicialmente lembramos que


p
|f (z) − L| = (u(x, y) − U )2 + (v(x, y) − V )2 . (3.27)
Suponha que limz→z0 f (z) = L. Seja ε > 0. Pela Definição 3.1 existe um δ
satisfazendo
|f (z) − L| < ε sempre que 0 < |z − z0 | < δ. (3.28)
p
Visto que |z − z0 | = (x − x0 )2 + (y − y0 )2 e que
p
|u(x, y) − U | ≤ (u(x, y) − U )2 + (v(x, y) − V )2 ,
temos então de (3.27) e de (3.28) que
p
|u(x, y) − U | < ε sempre que 0 < (x − x0 )2 + (y − y0 )2 < δ;
ou seja, u(x, y) → U quando (x, y) → (x0 , y0 ).
Da mesma maneira mostramos que v(x, y) → V quando (x, y) → (x0 , y0 ).
3.4. Apêndice 63

Reciprocamente, suponha agora que u(x, y) → U e que v(x, y) → V


quando (x, y) → (x0 , y0 ); pelap definição desses dois últimos limites, existe
um número δ tal que se 0 < (x − x0 )2 + (y − y0 )2 < δ, então
ε ε
|u(x, y) − U | < √ e |v(x, y) − V | < √ .
2 2
p
Portanto, se z satisfaz |z −z0 | = (x − x0 )2 + (y − y0 )2 < δ, segue de (3.27)
que
p
|f (z) − L| = (u(x, y) − U )2 + (v(x, y) − V )2
r
ε ε
< ( √ )2 + ( √ )2 = ε,
2 2
ou seja, limz→z0 f (z) = L. Isso completa a demonstração da Proposição 3.9.

3.4.4. Demonstração da Proposição 3.15. O que faremos aqui é, essen-


cialmente, o que fizemos para demonstrar o Teorema 3.14. Seja ε > 0. Como
g é contı́nua em L, existe, pela condição (3.9), um número α > 0 satisfazendo
|g(w) − g(L)| < ε sempre que |w − L| < α; (3.29)
substituı́mos a letra δ por α na condição (3.9). Agora usamos que f (z) → L
quando z → z0 , com α em lugar de ε, para encontrarmos um número δ
satisfazendo
|f (z) − L| < α sempre que 0 < |z − z0 | < δ. (3.30)
Portanto, se 0 < |z − z0 | < δ, segue de (3.30) que podemos substituir w por
f (z) em (3.29) e concluir que
|g(f (z)) − g(L)| < ε;
ou seja, fica verificado o limite (3.12).
Capı́tulo 4

Funções Deriváveis

4.1. Derivada
Em seguida vamos considerar a classe das funções “deriváveis em um ponto”.
Como veremos, toda função derivável em um ponto é também contı́nua nesse
ponto, mas a recı́proca nem sempre é verdadeira. Essa e outras propriedades
das funções deriváveis, como a Regra da Cadeia, serão apresentadas a seguir.
De agora em diante, necessitaremos com frequência do conceito de ponto
interior de um conjunto, e também da definição de conjunto aberto.
Definição 4.1. Dizemos que um ponto z é ponto interior de um conjunto
A quando existir um disco aberto D de centro em z e raio r > 0 tal que
D = {w ∈ C : |w − z| < r} ⊂ A.
Se todos os pontos de um conjunto são pontos interiores, então dizemos que
esse conjunto é aberto. Um conjunto F é fechado se o conjunto complementar
C \ F for um conjunto aberto.
Exemplo 4.2. O conjunto
K = {z ∈ C : |z − a| < 2}
é um conjunto aberto.

De fato, fixe z1 tal que |z1 − a| < 2, i.e., um ponto de K. Seja r =


2 − |z1 − a|; o disco de centro em z1 e raio r está contido em K, i.e.,
D = {w ∈ C : |w − z1 | < r} ⊂ K.
É fácil se convencer desse fato pela Figura 4.1 (lado esquerdo), mas pode
também ser verificado usando a primeira desigualdade triangular:
|w − a| = |w − z1 + z1 − a| ≤ |w − z1 | + |z1 − a| < r + |z1 − a| = 2,

65
66 4. Funções Deriváveis

Figura 4.1. Pontos interiores.

ou seja, todo w de D é um ponto de K.


Os pontos z que satisfazem a condição |z − a| > 2 são os pontos do
exterior de K; de fato, fixe z2 tal que |z2 − a| > 2, e tome s = |z2 − a| − 2.
Para ver que o disco de centro em z2 e raio s, i.e.,
D = {w ∈ C : |w − z2 | < s},
está contido no exterior de K, usamos a segunda desigualdade triangular:

|w − a| = |w − z2 + z2 − a| ≥ |z2 − a| − |w − z2 |
≥ |z2 − a| − |w − z2 | > |z2 − a| − s = 2.

Um ponto z3 tal que com |z3 − a| = 2 é um ponto de fronteira de K,


visto que todo disco de centro em z3 contém ponto do interior e também
ponto do exterior do K.
O conjunto dos pontos de fronteira de K, i.e.,
∂K = {w ∈ C : |w − a| = 2},
é um conjunto fechado, visto que seu complementar é a união de dois con-
juntos abertos, logo esse complementar é um conjunto aberto.
Exemplo 4.3. O conjunto
U = {z ∈ C : Re(z) > 0}
é um conjunto aberto.

Com efeito, para cada z = x + iy de U , o disco aberto de centro em z e


com raio x está contido em U ; note que x = Re(z) > 0. Veja o lado direito
da Figura 4.1.
Definição 4.4. Seja z0 um ponto interior ao domı́nio de uma função f =
f (z). Dizemos que f é derivável em z0 quando existir o limite
f (z) − f (z0 )
lim . (4.1)
z→z0 z − z0
4.1. Derivada 67

Nesse caso, esse limite será chamado de derivada de f em z0 , e será denotado


por f ′ (z0 ). Dizemos que uma função é derivável em um conjunto aberto
quando ela for derivável em todos os pontos desse conjunto.

Outra maneira equivalente de escrever o limite (4.1) é substituir z por


z0 + h, onde h = z − z0 ; assim, z tende a z0 se e somente se h tender a zero.
Desse modo, o limite (4.1) é equivalente ao limite
f (z0 + h) − f (z0 )
lim . (4.2)
h→0 h
Em seguida, apresentamos alguns exemplos de funções deriváveis e também
de não deriváveis.

Exemplo 4.5. Use a Definição 4.4 para mostrar que a função f (z) = z 3 é
derivável em todo ponto z de C.

Fixemos um z0 qualquer e consideremos o quociente de diferenças:


f (z) − f (z0 ) z 3 − z03
= = z 2 + z0 z + z02 , z 6= z0 .
z − z0 z − z0
Pelo Teorema 3.6, o lado direito dessa identidade possui limite 3z02 quando
z tende a z0 , ou seja, f é derivável em z0 e sua derivada é f ′ (z0 ) = 3z02 .

Exemplo 4.6. Seja f (z) = z. Verifique que essa função não é derivável em
nenhum ponto de C.

Para um z0 fixado e h 6= 0, temos


f (z0 + h) − f (z0 ) z0 + h − z0 h
= = ;
h h h
considerando o quociente h/h sobre o eixo real (i.e., quando h = x, x 6= 0),
e sobre o eixo imaginário (i.e., quando h = iy, y 6= 0), temos
(
h 1 se h = x, x 6= 0
=
h −1 se h = iy, y 6= 0.

Assim, quando h → 0 ao longo do eixo-x, temos que o limite de h/h é 1;


por outro lado, quando h → 0 ao longo do eixo-y, temos que o limite de h/h
é −1. Limites distintos ao longo de dois caminhos que passam pela origem
indicam que o quociente de diferenças de f não possui limite quando h → 0.
Portanto f não é derivável em z0 .

Exemplo 4.7. Considere a função f (z) = |z|2 . Mostre que ela é derivável
em z0 = 0, com f ′ (0) = 0, mas não é derivável em nenhum z0 6= 0.
68 4. Funções Deriváveis

Para escrever o quociente de diferenças da função f (z) = |z|2 em um


ponto z0 qualquer, lembramos que |z0 + h|2 = (z0 + h)(z0 + h) e que |z0 |2 =
z0 z0 , logo
f (z0 + h) − f (z0 ) |z0 + h|2 − |z0 |2 h
= = z0 + z0 + h. (4.3)
h h h
Se z0 = 0, então segue de (4.3) que
f (0 + h) − f (0)
lim = lim h = 0,
h→0 h h→0

ou seja, f (z) = |z|2 é derivável em z0 = 0 e f ′ (0) = 0.


Por outro lado, se z0 6= 0 então não existe o limite em (4.3), visto que
h/h não possui limite quando h → 0, como vimos no Exemplo 4.6. Logo,
f (z) = |z|2 não é derivável em z0 6= 0.
O próximo teorema mostra que para uma função ser derivável em um
ponto é necessário que ela seja contı́nua nesse ponto. Porém, em geral, o
fato de uma função ser contı́nua em um ponto não é suficiente para que ela
seja derivável nesse ponto.
De fato, a função f (z) = z do Exemplo 4.6 é contı́nua em todo z de C,
pois
|f (z) − f (z0 )| = |z̄ − z¯0 | = |z − z0 |;
logo, para cada ε > 0, existe δ = ε satisfazendo |f (z) − f (z0 )| < ε sempre
que |z − z0 | < δ. Mas vimos que essa função não é derivável em nenhum
ponto de C.
Teorema 4.8. Se uma função é derivável em um ponto, então ela é contı́nua
nesse ponto.

Demonstração. Sejam f = f (z) uma função derivável em z0 . Para z no


domı́nio de f e z 6= z0 , podemos escrever
f (z) − f (z0 )
f (z) − f (z0 ) = (z − z0 );
z − z0
como f é derivável em z0 , o produto de funções do lado direito possui limite
finito f ′ (z0 ) · 0 = 0 quando z → z0 . Portanto, limz→z0 [f (z) − f (z0 )] = 0, i.e.,
lim f (z) = f (z0 ).
z→z0

Assim f é contı́nua em z0 . 

O próximo resultado mostra que a soma, o produto e o quociente de


funções deriváveis são deriváveis.
Teorema 4.9. Sejam f = f (z) e g = g(z) funções deriváveis em z0 . Então
4.1. Derivada 69

(a) a soma f + g é uma função derivável em z0 e


(f + g)′ (z0 ) = f ′ (z0 ) + g ′ (z0 );
(b) o produto f g é uma função derivável em z0 e
(f g)′ (z0 ) = f ′ (z0 )g(z0 ) + f (z0 )g′ (z0 );
(c) o quociente f /g é uma função derivável em z0 quando g(z0 ) 6= 0 e
 ′
f f ′ (z0 )g(z0 ) − f (z0 )g′ (z0 )
(z0 ) = .
g g(z0 )2

Demonstração. O quociente de diferenças para a função soma pode ser


escrito como:
(f + g)(z) − (f + g)(z0 ) [f (z) + g(z)] − [f (z0 ) + g(z0 )]
=
z − z0 z − z0
(4.4)
f (z) − f (z0 ) g(z) − g(z0 )
= + .
z − z0 z − z0
Visto que f e g são deriváveis em z0 , os quocientes do lado direito de (4.4)
possuem limites f ′ (z0 ) e g′ (z0 ) quando z → z0 , respectivamente; logo a soma
dos quocientes de diferenças possui limite f ′ (z0 ) + g ′ (z0 ) quando z tende a
z0 , pelo Teorema 3.6; portanto o limite do lado esquerdo de (4.4) quando z
tende a z0 também existe e vale f ′ (z0 ) + g ′ (z0 ). Isso demonstra a asserção
(a).
Para a função produto, inicialmente somamos e subtraı́mos o termo
f (z0 )g(z) ao numerador do quociente de diferenças do produto f g:
(f g)(z) − (f g)(z0 ) = f (z)g(z) − f (z0 )g(z) + f (z0 )g(z) − f (z0 )g(z0 )
= [f (z) − f (z0 )]g(z) + f (z0 )[g(z) − g(z0 )].
Dessa maneira podemos separar a fração do quociente de diferenças em duas
outras, colocando g(z) em evidência na primeira e f (z0 ) na segunda:
(f g)(z) − (f g)(z0 ) f (z) − f (z0 ) g(z) − g(z0 )
= g(z) + f (z0 ) . (4.5)
z − z0 z − z0 z − z0
Como g = g(z) é derivável em z0 , pelo Teorema 4.8 temos que g é
contı́nua em z0 , logo g(z) → g(z0 ) quando z → z0 ; assim, como f é derivável
em z0 , o primeiro termo do lado direito de (4.5) possui limite f ′ (z0 )g(z0 )
quando z → z0 , pela asserção (b) do Teorema 3.6.
O terceiro termo de (4.5) possui limite f (z0 )g′ (z0 ) quando z → z0 ,
pois g é derivável em z0 . Portanto o primeiro quociente de (4.5) tende
a f ′ (z0 )g(z0 ) + f (z0 )g ′ (z0 ) quando z → z0 . Fica demonstrada a asserção (b)
do Teorema 4.9.
70 4. Funções Deriváveis

A verificação de que a função quociente é derivável pode ser simplificada


se primeiro mostrarmos que
 ′
1 −g′ (z0 )
(z0 ) = (4.6)
g g(z0 )2
e, em seguida, usarmos a regra de derivação do produto em f /g = f (1/g).
Inicialmente observamos que a função quociente 1/g está bem definida
em todo z de um disco |z − z0 | < δ. De fato, g = g(z) é derivável em z0 ,
logo ela é contı́nua nesse ponto, ou seja,

lim g(z) = g(z0 ).


z→z0

Segue da asserção (b) do Lema 3.21 que |g(z)| ≥ |g(z0 )|/2 em algum disco
|z − z0 | < δ; como g(z0 ) 6= 0, tem-se que |g(z)| =
6 0 em todo z do disco
|z − z0 | < δ.
O quociente de diferenças para 1/g, com z no citado disco, z 6= z0 , é
(1/g)(z) − (1/g)(z0 ) −1 g(z) − g(z0 )
= .
z − z0 g(z)g(z0 ) z − z0
Visto que g é derivável em z0 , o quociente de diferenças do lado direito tende
a g ′ (z0 ) quando z → z0 ; além disso, pela mesma razão, g é contı́nua em z0 ,
logo g(z) → g(z0 ) quando z → z0 . Portanto as duas frações do lado direito
da última expressão possuem limites quando z tende a z0 , e o produto delas
tende, pelo item (b) do Teorema 3.6, ao número dado no lado direito de
(4.6). Em outras palavras, 1/g é derivável em z0 e a sua derivada é dada
por (4.6).
Finalmente, pela asserção (b) do Teorema 4.9 e por (4.6), temos
 ′  ′  ′
f 1 ′ 1 1
(z0 ) = f (z0 ) = f (z0 ) + f (z0 ) (z0 )
g g g(z0 ) g
1 −g′ (z0 )
= f ′ (z0 ) + f (z0 )( )
g(z0 ) g(z0 )2
f ′ (z0 )g(z0 ) − f (z0 )g′ (z0 )
=
g(z0 )2
Isto completa a demonstração do Teorema 4.9. 

Exemplo 4.10. Explique em quais pontos a função


z 5 − 2z
f (z) =
z3 + 8
é derivável, e determine a sua derivada nesses pontos.
4.1. Derivada 71

O domı́nio D de f são os z tais que z 3 +8 6= 0, ou seja, D = C\{z0 , z1 , z2 },


onde esses três pontos excluı́dos de C são as raı́zes da equação z 3 + 8 = 0,
i.e.,
p π + 2kπ  π + 2kπ 
zk = 3 | − 8|[cos + i sen ], k = 0, 1 e 2.
3 3
Esses três pontos são os vértices de um triângulo equilátero (faça um esboço
deles no plano).
A verificação de que z 5 e −2z são deriváveis em todo z é semelhante
ao que foi feito no item (a) do Exemplo 4.5. Assim, pela asserção (a) do
Teorema 4.9, as funções do numerador e do denominador de f são deriváveis
em cada ponto de D; logo, pela asserção (c) do mesmo teorema, f é derivável
em cada z ∈ D e a sua derivada é
(5z 4 − 2)(z 3 + 8) − (z 5 − 2z)(3z 2 )
f ′ (z) = .
(z 3 + 8)2

O próximo teorema garante que a composição de funções deriváveis é


derivável, e apresenta a “Regra da Cadeia” para calcular a derivada dessa
função composta.
Teorema 4.11. Se f = f (z) é uma função derivável em z0 , e g = g(w) é
derivável em w0 = f (z0 ), então a função composta g ◦ f é derivável em z0 ;
além disso, vale a regra de derivação
(g ◦ f )′ (z0 ) = g′ (f (z0 ))f ′ (z0 ).

Demonstração. Inicialmente escrevemos o quociente de diferenças para a


função composta (g ◦ f )(z) = g(f (z)):
(g ◦ f )(z)) − (g ◦ f )(z0 )) g(f (z)) − g(f (z0 ))
= . (4.7)
z − z0 z − z0
Em seguida usamos a fórmula (4.10) [do Lema 4.12 abaixo] no numerador
do quociente da direita em (4.7) com w = f (z) e w0 = f (z0 ), obtendo assim:
g(f (z)) − g(f (z0 )) f (z) − f (z0 ) f (z) − f (z0 )
= g ′ (f (z0 ))( ) + r(f (z))( ).
z − z0 z − z0 z − z0
Como f é derivável em z0 , temos que
f (z) − f (z0 )
lim [g ′ (f (z0 )) ] = g′ (f (z0 ))f ′ (z0 ). (4.8)
z→z0 z − z0
Resta mostrar que
f (z) − f (z0 )
lim [r(f (z))( )] = 0. (4.9)
z→z0 z − z0
72 4. Funções Deriváveis

Isso é consequência dos limites seguintes e do Teorema 3.6, item (b):


f (z) − f (z0 )
(a) lim = f ′ (z0 ) e (b) lim r(f (z)) = 0.
z→z0 z − z0 z→z0

O limite em (a) segue da hipótese de que f = f (z) é derivável em z0 .


Quanto ao limite em (b), sabemos do Lema 4.12 que limw→w0 r(w) = 0.
Logo, precisamos apenas mostrar que w = f (z) tende a w0 = f (z0 ) quando
z tende a z0 ; em outras palavras, temos de garantir que a função f = f (z) é
contı́nua em z0 . Essa continuidade de f = f (z) em z0 segue do Teorema 4.8
e da hipótese de que essa função é derivável em z0 . Assim, o limite em (b)
é zero.
Em virtude dos limites (4.8) e (4.9), fazemos z tender a z0 no quociente
de diferenças da função composta, ou seja,
(g ◦ f )(z)) − (g ◦ f )(z0 )) g(f (z)) − g(f (z0 ))
lim = lim
z→z0 z − z0 z→z0 z − z0
= g (f (z0 ))f (z0 ) + 0f ′ (z0 ),
′ ′

para concluir que g ◦ f é derivável em z0 e que vale a regra de derivação


(g ◦ f )′ (z0 ) = g′ (f (z0 ))f ′ (z0 ).
Fica demonstrada a Regra da Cadeia. 

A seguir apresentamos a fórmula que foi usada para reescrever (4.7). É


uma especie de fórmula de Taylor de ordem um para uma função g = g(w)
derivável em w0 .
Lema 4.12. Se uma função g = g(w) é derivável em w0 , então existe uma
função r = r(w), r(w) → 0 quando w → w0 , tal que
g(w) = g(w0 ) + g′ (w0 )(w − w0 ) + r(w)(w − w0 ). (4.10)

Demonstração. A expressão (4.10) pode ser usada para orientar a definição


da função r = r(w). Com efeito, para w 6= w0 temos
g(w) − g(w0 )
r(w) = − g′ (w0 ).
w − w0
Como g = g(w) é derivável em w0 , sabemos que
g(w) − g(w0 )
lim = g′ (w0 ).
w→w0 w − w0
De maneira equivalente
 g(w) − g(w0 ) 
lim − g ′ (w0 ) = 0. (4.11)
w→w0 w − w0
4.2. Equações de Cauchy-Riemann 73

Em virtude desse último limite fica natural definir



 g(w) − g(w0 )
w − w0 − g′ (w0 ) se w 6= w0
r(w) = (4.12)
0 se w = w0 .
Dessa definição, e do limite (4.11), temos que r(w) → 0 quando w → w0 .
Agora resta verificar que a expressão (4.10) é válida com essa definição
de r = r(w). De fato, para w 6= w0 , segue da definição de r(w) em (4.12)
que
g(w) − g(w0 )
r(w) = − g′ (w0 ),
w − w0
ou, de modo equivalente,
g(w) − g(w0 ) = g′ (w0 )(w − w0 ) + r(w)(w − w0 ); (4.13)
essa igualdade (4.13) também é válida quando w = w0 . Fica então verificado
a fórmula (4.10) com a definição de r(w) em (4.12). 
Exemplo 4.13. Explique porque a função h(z) = (z 3 + 8)50 é derivável em
todo z complexo e mostre que sua derivada é dada por
h′ (z) = 50(z 3 + 8)49 3z 2 .

A existência da derivada h′ (z) pode ser justificada observando que h é a


composição das funções g(w) = w50 com f (z) = z 3 + 8, i.e., h(z) = g(f (z));
tanto f como g são polinômios, logo são deriváveis em qualquer ponto de
seus domı́nios, pelo Teorema 4.9; assim, recorrendo ao Teorema 4.11, temos
que h é derivável em qualquer z e que
h′ (z) = g′ (f (z))f ′ (z) = 50(z 3 + 8)49 3z 2 .

4.2. Equações de Cauchy-Riemann


Em seguida deduziremos as equações de Cauchy-Riemann satisfeitas pelas
partes real e imaginária de uma função derivável em um ponto.
Teorema 4.14. Seja f (z) = f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y) uma função
derivável em um ponto z0 = x0 + iy0 . Então as funções u e v satisfazem as
equações de Cauchy-Riemann em (x0 , y0 ):
(
ux (x0 , y0 ) = vy (x0 , y0 )
(4.14)
uy (x0 , y0 ) = −vx (x0 , y0 ).
Além disso, a derivada f ′ (z0 ) pode ser calculada por uma das expressões

 ′
f (z0 ) = ux (x0 , y0 ) + ivx (x0 , y0 )
ou

 ′
f (z0 ) = vy (x0 , y0 ) − iuy (x0 , y0 ).
74 4. Funções Deriváveis

Demonstração. Como f = f (z) é derivável em z0 , sabemos que existe o


limite
f (z0 + h) − f (z0 )
lim . (4.15)
h→0 h
Vamos escrever o quociente desse limite com h real, i.e., h = x, x 6= 0,
f (z0 + x) − f (z0 ) u(x0 + x, y0 ) − u(x0 , y0 ) v(x0 + x, y0 ) − v(x0 , y0 )
= +i .
x x x
Em virtude da existência do limite (4.15), o lado esquerdo dessa igualdade
possui limite f ′ (z0 ) quando h = x → 0. Logo, decorre do Teorema 3.9 que o
lado direito dessa igualdade possui limite quando h = x tende a zero, tanto
na parte real quanto na imaginária, produzindo a igualdade
f ′ (z0 ) = ux (x0 , y0 ) + ivx (x0 , y0 ). (4.16)
De maneira análoga, escrevemos o quociente de diferenças de (4.15) com
h = iy, y 6= 0:
f (z0 + iy) − f (z0 ) u(x0 , y0 + y) − u(x0 , y0 ) v(x0 , y0 + y) − v(x0 , y0 )
= + .
iy iy y
Em virtude do limite (4.15), o lado esquerdo da última igualdade também
tende a f ′ (z0 ) quando h = iy → 0 e, como no caso anterior, o lado direito
dessa última igualdade possui limite quando h = iy tende a zero:
f ′ (z0 ) = vy (x0 , y0 ) − iuy (x0 , y0 ), (4.17)
onde substituı́mos 1/i por −i.
Como as duas expressões de f ′ (z0 ) em (4.16) e (4.17) são iguais, suas
partes real e imaginária são iguais, de onde deduzimos as equações de
Cauchy-Riemann para uma função derivável em z0 = x0 + iy0 :
ux (x0 , y0 ) = vy (x0 , y0 ) e uy (x0 , y0 ) = −vx (x0 , y0 ). (4.18)


É natural perguntar se a válidade das equações de Cauchy-Riemann


(4.14) no ponto (x0 , y0 ), juntamente com a continuidade da função f = f (z)
em z0 = x0 + iy0 , são suficientes para garantir que f = f (x) seja derivável
em z0 = x0 + iy0 ? A resposta, em geral, é não, como mostra o seguinte
exemplo.
Exemplo 4.15. A função
 5
z se z 6= 0,
f (z) = |z|4

0 se z = 0
é contı́nua em z0 = 0. Além disso, são válidas as equações de Cauchy-
Riemann em (0, 0) para essa função, mas ela não é derivável em z0 = 0.
4.2. Equações de Cauchy-Riemann 75

No ponto z0 = 0, temos limz→0 f (z) = f (0), pois


z5
|f (z) − 0| = | | = |z| → 0, z → 0.
|z|4
Assim f é contı́nua em z0 = 0. Na verdade, essa função é contı́nua também
em todo z 6= 0, por ser um quociente de funções contı́nuas.
Além disso, as equações de Cauchy-Riemann (4.14) são válidas para f
no ponto z0 = 0. De fato, o quociente de diferenças de f em z0 = 0 é
f (0 + h) − f (0) h4
= , h 6= 0. (4.19)
h |h|4
Agora usamos h = x, x 6= 0, nesse quociente:
u(0 + x, 0) + iv(0 + x, 0) − 0 x4
= = 1.
x |x|4
Como 0 = f (0) = u(0, 0) + iv(0, 0), podemos reescrever a fração do lado
esquerdo da seguinte maneira:
u(0 + x, 0) − u(0, 0) v(0 + x, 0) − v(0, 0)
+i = 1.
x x
Logo, fazendo x → 0, obtemos
ux (0, 0) + ivx (0, 0) = 1. (4.20)
Por outro lado, o quociente (4.19) com h = iy é igual a 1 também:
u(0, 0 + y) + iv(0, 0 + y) − 0 (iy)4
= = 1, y 6= 0.
iy |iy|4
Separando o lado esquerdo dessa igualdade em duas frações como no caso
anterior, e fazendo y → 0, encontramos
−iuy (0, 0) + vy (0, 0) = 1, (4.21)
onde usamos que 1/i = −i.
Segue das igualdades em (4.20) e (4.21) que
ux (0, 0) = vy (0, 0) = 1 e uy (0, 0) = −vx (0, y) = 0,
ou seja, as equações de Cauchy-Riemann são válidas em z0 = 0.
Porém, mesmo assim, a função f não é derivável em z0 = 0. Com efeito,
escrevendo o quociente (4.19) ao longo da bissetriz do primeiro quadrante,
i.e., h = t + it, e também ao longo do eixo-x, i.e., h = t, com t 6= 0, temos,
respectivamente (veja Figura 4.2):
h4 (t + it)4 h4 t4
4
= = −1 e = 4 = 1.
|h| |t + it|4 |h|4 |t|
Logo, não existe o limite desse quociente quando h → 0; portanto f não é
derivável em z0 = 0.
76 4. Funções Deriváveis

Figura 4.2. Duas aproximações da origem.

4.2.1. Condições suficientes para uma função ser derivável. No caso


em que as equações de Cauchy-Riemann são válidas apenas no ponto (x0 , y0 ),
a diferenciabilidade de

f = f (z) = u(x, y) + iv(x, y)

em z0 = x0 + iy0 ficará garantida se as quatro derivadas parciais ux , uy , vx


e vy forem contı́nuas em (x0 , y0 ), como no próximo teorema.

Teorema 4.16. Suponha que a função f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y) seja


definida em um disco de centro em z0 = x0 + iy0 , e que existam as derivadas
parciais ux , uy , vx e vy nesse disco. Se são válidas as equações de Cauchy-
Riemann no ponto (x0 , y0 ), e se as derivadas parciais anteriores forem
contı́nuas em (x0 , y0 ), então f = f (z) é derivável em z0 = x0 + iy0 .

Demonstração. O quociente de diferenças para f = f (z) com h = s + it é

f (z0 + h) − f (z0 ) u(x0 + s, y0 + t) − u(x0 , y0 )


=
h s + it
(4.22)
v(x0 + s, y0 + t) − v(x0 , y0 )
+i .
s + it
Como as derivadas parciais de u = u(x, y) e v = v(x, y) são contı́nuas,
podemos usar o Lema Fundamental do Cálculo (Lema 4.27), demonstrado
no Apêndice a este capı́tulo, para escrever:

u(x0 + s, y0 + t) − u(x0 , y0 ) = ux (x0 , y0 )s + uy (x0 , y0 )t + E1 (s, t)s + E2 (s, t)t

v(x0 + s, y0 + t) − v(x0 , y0 ) = vx (x0 , y0 )s + vy (x0 , y0 )t + F1 (s, t)s + F2 (s, t)t,

onde Ei (s, t) e Fi (s, t) tendem a zero assim que h = s + it tender a zero,


i = 1, 2; veja a Figura 4.3.
4.2. Equações de Cauchy-Riemann 77

Figura 4.3. (x0 , y0 ) e um ponto próximo.

Agora substituı́mos essas duas expressões nas frações de (4.22):


f (z0 + h) − f (z0 ) ux (x0 , y0 )s + uy (x0 , y0 )t + E1 s + E2 t
=
h s + it
(4.23)
vx (x0 , y0 )s + vy (x0 , y0 )t + F1 s + F2 t
+i .
s + it
Por hipótese, u e v satisfazem as equações de Cauchy-Riemann, logo pode-
mos substituir vy (x0 , y0 ) por ux (x0 , y0 ), e uy (x0 , y0 ) por −vx (x0 , y0 ); dessa
maneira, reescrevemos o quociente de diferenças de (4.23) como
f (z0 + h) − f (z0 ) E1 s + E2 t F1 s + F2 t
= ux (x0 , y0 ) + ivx (x0 , y0 ) + +i .
h s + it s + it
Para ver que o√limite do lado direito
√ existe quando h = s + it → 0, observa-
mos que |s| ≤ s + t e |t| ≤ s + t2 , assim
2 2 2

E1 s + E2 t F1 s + F2 t
| | ≤ |E1 | + E2 | e | | ≤ |F1 | + F2 |.
s + it s + it
Finalmente, lembramos que Ei (s, t) e Fi (s, t) tendem a zero quando h = s+it
tende a zero, i = 1, 2, para concluir que
f (z0 + h) − f (z0 )
lim = ux (x0 , y0 ) + ivx (x0 , y0 ),
h→0 h
ou seja, f é derivável em z0 = x0 + iy0 . 

Exemplo 4.17. Verifique que as seguintes funções são deriváveis em seus


domı́nios, e calcule as derivadas f ′ (z) e g ′ (z):
(a) f (z) = f (x + iy) = ex (cos y + i sen y);
p
(b) g(z) = g(x + iy) = ln x2 + y 2 + i arctan( xy ), x 6= 0.

Usaremos o Teorema 4.16 para mostrar que f e g são deriváveis em seus


domı́nios. As equações de Cauchy-Riemann são válidas para f . De fato, as
partes real e imaginária de f satisfazem
∂ x ∂ x ∂ x ∂
(e cos y) = (e sen y), (e cos y) = − (ex sen y).
∂x ∂y ∂y ∂x
78 4. Funções Deriváveis

Além disso, como essas quatro derivadas parciais são funções contı́nuas em
todo (x, y) de R2 , segue do Teorema 4.16 que f é derivável em z = x + iy. A
derivada f ′ (z) pode ser calculada com uma das fórmulas do Teorema 4.14:
f ′ (z) = ex cos y + iex sen y
= ex [cos y + i sen y] = f (z).
As equações de Cauchy-Riemann (4.14) são válidas para g em cada ponto
de D = {(x, y) ∈ R2 : x 6= 0}:
∂ p x ∂ y
(ln x2 + y 2 ) = 2 2
= (arctan( ))
∂x x +y ∂y x
∂ p y ∂ y
(ln x2 + y 2 ) = 2 = − (arctan( )).
∂y x + y2 ∂x x
Visto que ux , uy , vx e vy são funções contı́nuas nos pontos de D, segue do
Teorema 4.16 que a função g é derivável nos pontos de D. Agora usamos
uma das fórmulas do Teorema 4.14 para calcular g′ (z):
x −y
g′ (z) = 2 + i( 2 )
x + y2 x + y2
z 1
= = .
zz z
Exemplo 4.18. A função f (z) = f (x + iy) = x2 + iy 2 é derivável em algum
ponto z de C?

Como u(x, y) = x2 e v(x, y) = y 2 , sabemos pelas equações de Cauchy-


Riemann que f só pode ser derivável em pontos que satisfazem a condição
ux = vy , ou seja, x = y; a outra equação, uy = −vx , não impõe nehuma
restrição ao ponto (x, y), é 0 = 0. Visto que as funções u e v são contı́nuas
em todo (x, y) de R2 , segue do Teorema 4.16 que a função f é derivável nos
pontos da forma z = x + ix, x em R.
Quando as equações de Cauchy-Riemann são válidas em todos os pontos
de um disco com centro em (x0 , y0 ), podemos substituir a existência e a
continuidade das quatro derivadas parciais ux , uy , vx e vy em (x0 , y0 ) pela
continuidade de f nos pontos do disco; essa última condição é mais fácil de
ser verificada.
Teorema 4.19. Se f é contı́nua em um subconjunto aberto D de seu domı́nio
e, além disso, as equações de Cauchy-Riemann são válidas em todos os pon-
tos de D, então f é derivável em todos os pontos de D.

Esse é um caso especial do Teorema de Looman-Menchoff, cuja demon-


stração, e uma discussão do tema, podem ser vistas na Dissertação Condições
que Implicam a Analiticidade de uma Função, de Vanessa Alves de Freitas,
Unicamp, 2004 (arquivo em pdf na Biblioteca digital da Unicamp).
4.3. Função Harmônica e Equação de Laplace 79

Observação 4.20. Para a função do Exemplo 4.15, as equações de Cauchy-


Riemann são válidas no ponto z0 = 0, mas não são válidas em um disco
contendo z0 = 0, visto que se fosse terı́amos que essa função seria derivável
em z0 = 0, pelo Teorema 4.19.

4.3. Função Harmônica e Equação de Laplace


Iniciamos com a definição de uma classe muito especial de funções reais
u = u(x, y).
Definição 4.21. Dizemos que uma função u = u(x, y), definida em um
subconjunto aberto Ω de R2 , é harmônica em Ω quando:
(a) suas derivadas parciais até a segunda ordem existem e são funções
contı́nuas em Ω;
(b) u é solução da equação de Laplace nos pontos de Ω, i.e.,
uxx + uyy = 0.

As funções harmônicas são muito importantes para as aplicações, pois


elas são soluções da equação do potencial eletrostático e são também soluções
estacionárias da equação do calor.
Existe uma “ligação” essencial entre as funções f = f (z) deriváveis em
um conjunto aberto de C e as funções harmônicas. De fato, as partes real e
imaginária de f ,
u(x, y) = Re(f (x + iy) e u(x, y) = Im(f (x + iy),
são soluções da equação de Laplace, i.e.,
uxx + uyy = 0 e vxx + vyy = 0.
Temos então uma “fonte” de soluções da equação de Laplace. Esse fato é o
conteúdo do próximo teorema.
Teorema 4.22. Seja f (z) = f (x + iy) = u(x, u) + iv(x, y) derivável em
um conjunto aberto U . Suponha que as derivadas parciais de u e v até a
segunda ordem existam e sejam funções contı́nuas em U . Então u e v são
funções harmônicas em U , i.e.,
uxx + uyy = 0 e vxx + vyy = 0.

Demonstração. Visto que f é derivável nos pontos de U , valem as equações


de Cauchy-Riemann em U , ou seja, para todo (x, y) en U , tem-se:
ux (x, y) = vy (x, y) e uy (x, y) = −vx (x, y). (4.24)
80 4. Funções Deriváveis

Figura 4.4. Um conjunto convexo e um não convexo.

Calculamos as derivadas parciais com respeito a x da primeira equação de


(4.24), e com relação a y da segunda, para encontrar
uxx (x, y) = vyx (x, y) e uyy (x, y) = −vxy (x, y). (4.25)
Segue da continuidade das derivadas parciais de segunda ordem de v que
vyx (x, y) = vxy (x, y). Portanto, decorre de (4.25) que uxx + uyy = 0. Da
mesma maneira, em virtude da continuidade das derivadas parciais de se-
gunda ordem de u, verificamos que vxx + vyy = 0. 
Exemplo 4.23. As funções
(a) u(x, y) = ex cos y,(b) u(x, y) = ex cos y,
p y
(c) u(x, y) = ln x2 + y 2 e (d) arctan( ), x 6= 0,
x
são harmônicas em seus domı́nios, em virtude do Exemplo 4.17 e do Teo-
rema 4.22.
Observação 4.24. Na verdade, as hipóteses de continuidade das derivadas
parciais no teorema anterior, e na proposição seguinte, não são necessárias.
De fato, posteriormente, usando a Fórmula Integral de Cauchy, mostraremos
que se uma função w = f (z) possui a derivada de primeira ordem em um
conjunto aberto de C, então ela possui as derivadas de todas as ordens no
mesmo conjunto (veja Teorema 7.4).
Das expressões (4.16) para f ′ , e de suas análogas para f ′′ e f ′′′ , deduzi-
mos a existência e a continuidade das derivadas parciais de u e de v, até a
segunda ordem.

Para enunciar o próximo resultado, precisamos relembrar a definição do


conjunto convexo. Um conjunto é convexo quando dois pontos quaisquer do
conjunto podem ser unidos por um segmento de reta inteiramente contido
no conjunto. Veja a Figura 4.4.
Proposição 4.25. Seja f (z) = f (x + iy) = u(x, u) + iv(x, y) uma função
derivável em um conjunto aberto e convexo U ; suponha que as derivadas
parciais de u e de v sejam contı́nuas nos pontos de U . Se f ′ (z) = 0 em
todos pontos z de U , então f = f (z) é uma função constante em U .
4.3. Função Harmônica e Equação de Laplace 81

Figura 4.5. Conjunto poligonalmente conexo.

Demonstração. Sejam (x0 , y0 ) e (x, y) dois pontos de U . Vamos mostrar


que u(x0 , y0 ) = u(x, y), de onde segue que a função u = u(x, y) é constante
em U .
Como U é convexo, o segmento de reta unindo esses dois pontos está
inteiramente contido em U ; assim, podemos definir a função
φ(t) = u(x0 + t(x − x0 ), y0 + t(y − y0 ))
≡ u(x(t), y(t)),
para cada t ∈ [0, 1]. Em vista da continuidade das derivadas parciais de u,
podemos usar a regra da cadeia para calcular a derivada de φ:
φ′ (t) = ux (x(t), y(t))(x − x0 ) + uy (x(t), y(t))(y − y0 ).
Por hipótese f ′ (z) = 0 nos pontos z de um conjunto aberto U , logo segue
de (4.16) e de (4.17) que
f ′ (z) = ux (x, y) + ivx (x, y) = vy (x, y) − iuy (x, y) = 0.
Assim, todas as derivadas parciais de primeira ordem de u e de v são nulas
nos pontos de U . Portanto, φ′ (t) ≡ 0 no intervalo [0, 1] e então φ(t) é
constante nesse intervalo. Em particular, φ(1) = φ(0), ou seja,
u(x, y) = u(x0 , y0 );
portanto u é uma função constante em U .
Substituı́mos u por v na definição de φ e mostramos também que v é
uma função constante. Assim f = f (z) é uma função constante em U . 
Observação 4.26. Podemos ampliar a classe dos conjuntos na hipótese da
Proposição 4.25. Suponha que o conjunto U na proposição anterior satisfaça
a seguinte condição: dados dois pontos distintos de U , existe uma poligonal
(i.e., uma sucessão finita de segmentos de reta justapostos) unindo esses
pontos e inteiramente contida em U . Veja a Figura 4.5. Para esse tipo de
conjunto a mesma conclusão da Proposição 4.25 é válida.
Com efeito, a demonstração anterior mostra que as funções u e v são con-
stantes no primeiro segmento da poligonal; mas o ponto final do primeiro
82 4. Funções Deriváveis

Figura 4.6. Posição dos pontos (x0 , y1 ) e (x1 , y0 + t).

segmento é o ponto inicial do segundo segmento, logo, como u e v são con-


stantes no segundo segmento também, o valor da constante é o mesmo para
os dois primeiros segmentos (uma função não pode assumir dois valores no
ponto em comum aos dois segmentos). Continuando com esse argumento
chegamos ao segmento final e então o valor de f = f (z) em quaisquer dois
pontos é o mesmo.

4.4. Apêndice-Lema Fundamental do Cálculo


Lema 4.27. Suponha que uma função u = u(x, y) tenha derivadas parciais
ux e uy em todos os pontos do disco D: (x−x0 )2 +(y −y0 )2 < r 2 . Se ux e uy
são contı́nuas em (x0 , y0 ), e se s2 + t2 < r 2 , então é válida a representação
u(x0 + s, y0 + t) = u(x0 , y0 ) + ux (x0 , y0 )s + uy (x0 , y0 )t + E1 s + E2 t,
onde Ei (s, t) → 0 assim que (s, t) → (0, 0), i = 1, 2.

Demonstração. O teorema do valor médio será aplicado às funções x 7→


u(x, y0 + t) e y 7→ u(x0 , y), na seguinte expressão:
u(x0 + s, y0 + t) − u(x0 , y0 ) = u(x0 + s, y0 + t) − u(x0 , y0 + t)
(4.26)
+ u(x0 , y0 + t) − u(x0 , y0 ).
Pelo referido teorema, existe x1 no intervalo [x0 , x0 + s] tal que
u(x0 + s, y0 + t) − u(x0 , y0 + t) = ux (x1 , y0 + t)s, (4.27)
e existe também y1 no intervalo [y0 , y0 + t] tal que
u(x0 , y0 + t) − u(x0 , y0 ) = uy (x0 , y1 )t. (4.28)
Veja a Figura 4.6.
Agora escrevemos
ux (x1 , y0 + t) = ux (x0 , y0 ) + [ux (x1 , y0 + t) − ux (x0 , y0 )] (4.29)
e
uy (x0 , y1 ) = uy (x0 , y0 ) + [uy (x0 , y1 ) − uy (x0 , y0 )] (4.30)
4.4. Apêndice-Lema Fundamental do Cálculo 83

Em seguida definimos
E1 (s, t) = ux (x1 , y0 + t) − ux (x0 , y0 )
e
E2 (s, t) = uy (x0 , y1 ) − uy (x0 , y0 ).
Tendo em vista que (x1 , y0 + t) → (x0 , y0 ) e (x0 , y1 ) → (x0 , y0 ) quando
(s, t) → (0, 0), e que as derivadas parciais ux e uy são contı́nuas em (x0 , y0 ),
temos que Ei (s, t) → 0 assim que (s, t) → (0, 0), i = 1, 2.
Substituı́mos a expressão (4.29) com E1 em (4.27), e (4.30) com E2 em
(4.28), obtendo
u(x0 + s, y0 + t) − u(x0 , y0 + t) = ux (x0 , y0 )s + E1 s e
u(x0 , y0 + t) − u(x0 , y0 ) = uy (x0 , y0 )t + E2 t.
Finalmente, a substituição dessas duas últimas expressões em (4.26) com-
pleta a demonstração do lema. 
Capı́tulo 5

Séries de Potências,
Exponencial,
Logaritmo, cosseno e
seno

5.1. Séries de Potências


A seguinte classe de séries de funções, denominadas séries de potências,

X
an (z − z0 )n = a0 + a1 (z − z0 ) + · · · + an (z − z0 )n + · · · , (5.1)
n=0

onde os coeficientes an são números complexos, é indispensável no estudo


das funções de uma variável complexa.
O resultado principal deste capı́tulo diz que se uma série de potências
converge em um disco de raio positivo, então sua soma S = S(z) é uma
função derivável nos pontos desse disco e, além disso, a derivada S ′ = S ′ (z)
pode ser calculada por derivação termo a termo da série. Esse teorema será
usado com frequência no que segue.
Cada termo da sequência {Sn (z)} das somas parciais da série (5.1) é um
polinômio de grau menor ou igual a n:

Sn (z) = a0 + a1 (z − z0 ) + · · · + an (z − z0 )n . (5.2)

Definição 5.1. Dizemos que a série de potências (5.1) converge em z quando


a sequência de somas parciais {Sn (z)} for convergente. Nesse caso, a soma

85
86 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

S = S(z) da série (5.1) em z é o limite da sequência {Sn (z)}, i.e.,


S(z) = lim Sn (z).
n→∞
Se essa sequência de somas parciais não converge em algum z, dizemos que
a série de potências (5.1) diverge em z.

Uma série de potências sempre converge em z0 . De fato, visto que


Sn (z0 ) = a0 para todo n e que
lim Sn (z0 ) = a0 ,
n→∞
a série (5.1) converge quando z = z0 , e sua soma nesse caso é a0 . Porém,
quando z 6= z0 a série (5.1) pode ou não convergir.
Assim, nos três exemplos a seguir, as séries convergem em z0 = 0 e a
soma de cada uma delas nesse ponto é S(0) = 1 (lembre que, por definição,
0! = 1 e 1! = 1):

X X∞ ∞
X
1 n
(a) n!z n (b) z (c) zn. (5.3)
n=0 n=0
n! n=0
Para analisar a convergência dessas séries em z 6= 0, usamos o Teste da
Razão (Teorema 2.28) e vemos que a série do item (a) não converge, pois a
sequência
|(n + 1)!z n+1 |
| = (n + 1)|z| → ∞ quando n → ∞.
|n!z n |
O Teste da Razão aplicado à série do item (b) mostra que ela converge
em todo z complexo:
|z n+1 /(n + 1)!| |z|
n
|= →0 quando n → ∞.
|z /n!| n+1
A soma S = S(z) da série do item (b), i.e.,
z2 zn
lim [1 + z + + · · · + ] = S(z),
n→∞ 2! n!
é uma função definida em todo o plano C; neste capı́tulo, essa soma S = S(z)
será usada para definir a função exponencial ez .
Como vimos no Exemplo 2.13, a série geométrica do item (c) converge
em todo z do disco |z| < 1, e sua soma é
1
S(z) = , |z| < 1.
1−z
Vimos também que a série geométrica diverge em todo z tal que |z| ≥ 1.
As regiões de convergência dessas três séries de potências, a saber, um
ponto [z = 0 no exemplo (a)], o plano C no item (b), e um disco [o disco
5.1. Séries de Potências 87

|z| < 1 no item (c)], são os únicos tipos de subconjuntos do plano onde uma
série de potências qualquer converge, como enunciado no próximo teorema.
Teorema 5.2. Para uma série de potências

X
an (z − z0 )n = a0 + a1 (z − z0 ) + · · · + an (z − z0 )n + · · · (5.4)
n=0

ocorre uma e somente uma das alternativas:


(a) a série (5.4) converge apenas em z = z0 ;
(b) a série (5.4) converge absolutamente em todo z complexo;
(c) existe um número real positivo R tal que a série (5.4) converge
absolutamente nos pontos do disco |z − z0 | < R, e diverge nos
pontos da região |z − z0 | > R.

Em seguida apresentamos a definição de raio de convergência da série


de potências (5.4):
Definição 5.3. O número R dado no item (c) do Teorema 5.2, com as
extensões R = 0 no no caso (a) e R = ∞ no caso (b), é chamado de raio de
convergência da série de potências (5.4).

A demonstração desse teorema em um caso especial, simples mas impor-


tante, decorre do teste da razão, desde que seja feita a suposição:
|an+1 | 1
→ quando n → ∞, (5.5)
|an | R
onde R é um número real. De fato, com essa hipótese, podemos aplicar o
Teste da Razão à série (5.4):
|an+1 (z − z0 )n+1 | |an+1 ||z − z0 | |z − z0 |
n
= → ,
|an (z − z0 ) | |an | R
quando n → ∞; portanto a série (5.4) converge absolutamente quando
|z − z0 |/R < 1 e diverge quando |z − z0 |/R > 1, ou seja, ela converge
absolutamente quando |z − z0 | < R e diverge quando |z − z0 | > R . Em
outras palavras, R é o raio de convergência da série (5.4).
Para demonstrar o Teorema 5.2, no caso geral, precisamos do seguinte
resultado, conhecido como “Lema de Abel”.
Lema 5.4 (Abel). Suponha que a série de potências (5.4) seja convergente
em z1 6= z0 . Então essa série converge absolutamente em todo z tal que
|z − z0 | < |z1 − z0 |. Além disso, se essa série diverge em z2 , então ela
diverge em todo z tal que |z − z0 | > |z2 − z0 |.
88 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Figura 5.1. Lema de Abel com z0 = 0.

Demonstração. Vamos supor que z0 = 0 para simplificar a notação da


série (5.4). Veja a Figura 5.1. Por hipótese, a série
X∞
an z1n (5.6)
n=0
converge; logo, em virtude da Proposição 2.16, o termo geral an z1n dessa série
tende a zero quando n tende ao infinito. Em particular, pela Proposição 2.4,
a sequência formada pelo termo geral é limitada, ou seja, exite uma constante
M tal que |an z1n | ≤ M para todo n. Agora fixamos z tal que |z| < |z1 |. Em
seguida observamos que
|z| n |z| n
|an z n | = |an z1n |( ) ≤ M( ) .
|z1 | |z1 |
A série
X∞
|z| n
( )
|z1 |
n=0
converge, visto que ela é uma série geométrica de razão |z|/|z1 | < 1. Por-
tanto, pelo teste de comparação para séries de números reais, concluı́mos
que a série
X∞
|an z n |
n=0
converge, o que demonstra a primeira asserção do Lema 5.4.
A segunda asserção do lema é uma consequência imediata da primeira.
De fato, se a série (5.4) fosse convergente em algum z satisfazendo |z| > |z2 |,
então ela convergiria (absolutamente) em z2 , pela primeira parte do lema.
Mas isso contraria a hipótese sobre z2 . Logo, essa série diverge em todo z
que está fora do disco de centro em z0 = 0 e raio |z2 |. 

O Lema 5.4 pode ser usado para demonstrar o Teorema 5.2.

Demonstração do Teorema 5.2. Suponha que uma série de potências


não satisfaça a alternativa (a) do Teorema 5.2. Assim, essa série de potências
5.2. Derivação termo a termo de uma série de potências 89

converge em algum z1 6= 0 [estamos supondo z0 = 0 em (5.4)]. Pelo


Lema 5.4, a série (5.4) converge em um disco de centro z0 = 0 e raio |z1 |.
Tomando a união de todos esses discos de convergência, todos com centro
em z0 = 0, teremos um disco D de raio R e centro em z0 = 0. A série
de potências (5.4) converge nos pontos de D, pela definição de D. Se R é
infinito, então essa série de potências satisfaz a alternativa (b) do teorema
[e não satisfaz a (c)].
Por outro lado, se R for finito, então a série (5.4) não converge em
nenhum z3 , onde |z3 | > R, pois se ela convergisse em z3 , então, pela primeira
asserção do Lema 5.4, ela convergiria no disco de centro em z0 = 0 e raio
|z3 |; mas |z3 | > R, o que contraria a definição de R. Portanto, fica assim
garantido a existência de R satisfazendo o item (c) do Teorema 5.2. 

Observação 5.5. Demonstramos a exitência de R satisfazendo as condições


do item (c) do Teorema 5.2, no caso em que a série (5.4) não satisfaz os itens
(a) e (b). Porém, para calcular o raio R, sem a suposição (5.5), precisamos
p
do conceito de limite superior em lugar de limite, e da sequência { n |an |}
em lugar da razão |an+1 |/|an |. Os detalhes podem ser vistos em S. D. Fisher,
Complex Variables, página 106.

O Teorema 5.2 não dá nenhuma informação sobre a convergência ou não


da série (5.4) nos pontos z tais que |z − z0 | = R, no caso em 0 < R < ∞. O
raio de convergência das três séries

X ∞
X ∞
X
n zn zn
z , e
n n2
n=0 n=0 n=0

é R = 1, porém a primeira não converge em nenhum z do cı́rculo |z| = 1, a


segunda converge em todos os z tais que |z| = 1, exceto z = 1, e a terceira
converge em todos z do cı́rculo |z| = 1.

5.2. Derivação termo a termo de uma série de potências


O próximo teorema garante que a soma S = S(z) de uma série de potências
é uma função derivável no disco de convergência, e que a derivada S ′ (z)
pode ser calculada por derivação termo-a-termo.

Teorema 5.6. Seja



X
an (z − z0 )n (5.7)
n=0

uma série de potências convergente no disco |z − z0 | < R. Então a soma


S = S(z) dessa série é uma função derivável em cada ponto z desse disco
90 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

de convergência e, além disso,



X

S (z) = nan (z − z0 )n−1 . (5.8)
n=1

No curso da demonstração desse teorema será necessário usar que a série


(5.8) converge no mesmo disco |z − z0 | < R de convergência da série (5.7).
Esse fato está contido no próximo lema.
Lema 5.7. Se o raio de convergência da série de potências (5.7) é R > 0
ou R = ∞, então o raio de convergência da série (5.8) é R também.

Demonstração. Para facilitar a notação, suponha que z0 = 0, ou seja, a


hipótese passa a ser: a série
X∞
an z n (5.9)
n=1
converge no disco |z| < R. Mostraremos que R é também o raio de con-
vergência da série
X∞
nan z n−1 . (5.10)
n=1
Seja z um ponto do disco de convergência da série (5.9), i.e., |z| < R. Em
seguida, escolhemos um z1 tal que |z| < |z1 | < R. Observe que
1 |z| n−1
|nan z n−1 | = n( ) |an z1n |.
|z1 | |z1 |
Vamos mostrar que a sequência {n( zz1 )n−1 } é limitada. De fato, sabemos do
Exemplo 2.10, item (d), que se |c| < 1, então a sequência ncn → 0 quando
n → ∞; logo a sequência {ncn−1 } converge para zero também, pois essa
sequência tem todos termos nulos se c = 0 e, se c 6= 0, temos
1
ncn−1 = (ncn ) → 0 quando n → ∞.
c
Usando esse fato com c = z/z1 , |c| = |z|/|z1 | < 1, temos que a sequência
{n( zz1 )n−1 } converge para zero. Sendo convergente, a Proposição 2.4 garante
a existência de uma constante K tal que |n( zz1 )n−1 | ≤ K para todo n ≥ 2.
Portanto
K
|nan z n−1 | ≤ |an z1n |,
|z1 |
para todo P n ≥ 2. nComo |z1 | < R, a série (5.9) converge absolutamente em
z1 , i.e., ∞ n=1 |an z1 | converge; logo, pelo teste de comparação, a série (5.10)
converge em z. Portanto, o raio de convergência da série (5.10) é maior ou
igual a R.
Para ver que o raio de convergência da série (5.10) não pode ser maior
do que R, suponha que série (5.10) seja convergente em algum z2 tal que
5.2. Derivação termo a termo de uma série de potências 91

Figura 5.2. Demonstração do Teorema 5.6.

|z2 | > R. Agora escolhemos z3 tal que R < |z3 | < |z2 |. Segue do Lema 5.4
que a série
X∞
|nan z3n−1 |
n=1
converge. Em seguida, note que
|an z3n | = |z3 ||an z3n−1 | ≤ |z3 ||nan z3n−1 |,
para n ≥ 1. Usamos o teste de comparação para concluir que a série (5.9)
converge em z3 ; mas isso é uma contradição, pois o raio de convergência da
série (5.9) é R e |z3 | > R. Portanto o raio de convergência da série (5.10) é
exatamente R. 

Demonstração do Teorema 5.6. Vamos supor, sem perda de generali-


dade, que z0 = 0. Fixemos z no disco |z| < R; seja δ = (R − |z|)/2. Logo
z + h pertence ao disco |z| < R se |h| < δ; veja a Figura 5.2.
Em virtude do Lema 5.7, a série (5.10) converge no disco |z| < R, e sua
soma em z será denotada por g(z). Ou seja,
N
X
g(z) = lim gN (z), onde gN (z) = nan z n−1 . (5.11)
N →∞
n=1
Por hipótese, com z0 = 0, sabemos que
N
X
S(z) = lim SN (z), onde SN (z) = an z n . (5.12)
N →∞
n=0

A conclusão do Teorema 5.6 decorre facilmente da seguinte desigualdade,


a qual será demonstrada posteriormente:
N
SN (z + h) − SN (z) |h| X

− gN (z) ≤ 2 |an |(R − δ)n , (5.13)
h δ n=2
desde que 0 < |h| < δ.
92 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Com efeito, a soma parcial do lado direito em (5.13) converge para um


número real quando N → ∞, pois R−δ é um ponto do disco de convergência
da série (5.7), com z0 = 0; lembre que 0 < R − δ < R. Por outro lado, com
h fixado e 0 < |h| < δ, as sequências {SN (z + h)}, {SN (z)} e {gN (z)}
convergem, respectivamente, para S(z + h), S(z) e g(z) quando N → ∞.
Logo, quando N → ∞, obtemos da desigualdade de (5.13) que

S(z + h) − S(z) |h| X

− g(z) ≤ 2 |an |(R − δ)n . (5.14)
h δ n=2
Em seguida, fazendo h tender a zero em (5.14), como o lado direito tende a
zero, temos
S(z + h) − S(z)
lim − g(z) = 0
h→0 h
ou
S(z + h) − S(z)
lim = g(z).
h→0 h
Concluı́mos assim que S é derivável em z e que

X

S (z) = g(z) = nan z n−1 .
n=1

Resta então demonstrarmos a desigualdade (5.13). Substituı́mos z por


z + h na expressão de SN (z) em (5.12), e escrevemos a diferença
N
X
SN (z + h) − SN (z) = a1 h + an [(z + h)n − z n ];
n=2
observe que o termo a0 foi cancelado e que a1 (z + h) − a1 z = a1 h. Logo,
para h 6= 0, |h| < δ, temos
XN
SN (z + h) − SN (z) (z + h)n − z n
− gN (z) = an [ − nz n−1 ], (5.15)
h n=2
h
pois o coeficiente a1 foi cancelado na segunda subtração do lado esquerdo
da igualdade em (5.15).
Em seguida, usamos o teorema do binômio para escrever
Xn  
n k n−k
(z + h)n = h z = z n + nz n−1 h + · · · + nzhn−1 + hn ,
k
k=0
logo
Xn  
(z + h)n − z n n−1 n n−k k−1
− nz = z h
h k
k=2
n   (5.16)
X n n−k k−2
=h z h .
k
k=2
5.2. Derivação termo a termo de uma série de potências 93

Agora usamos a desigualdade triangular em (5.16), lembrando que |z| =


R − 2δ, pela escolha de δ, e que |h| < δ, para obtermos
Xn  
(z + h)n − z n n
− nz n−1 ≤ |h| |z|n−k |h|k−2
h k
k=2
n  
(5.17)
|h| X n
< 2 (R − 2δ)n−k δk ,
δ k
k=0

onde colocamos em evidência δ−2 , e completamos o somatório com os termos


(positivos) de ordem k = 0 e k = 1.
Por outro lado, o último somatório representa o desenvolvimento pelo
teorema do binômio de (R − 2δ + δ)n , ou seja
Xn  
n
(R − 2δ)n−k δk = (R − 2δ + δ)n = (R − δ)n .
k
k=0

Segue dessa última igualdade e de (5.17) que


(z + h)n − z n |h|
− nz n−1 ≤ 2 (R − δ)n . (5.18)
h δ
Finalmente, tomamos o módulo na igualdade (5.15), usamos a desigualdade
triangular no somatório e, em seguida, usamos a estimativa (5.18) para
obtermos
N
SN (z + h) − SN (z) X (z + h)n − z n
− gN (z) ≤ |an | − nz n−1
h n=2
h
N
X |h|
≤ |an | (R − δ)n .
δ2
n=2

Colocando |h|/δ2 para fora do somatório, tem-se a desigualdade (5.13). Isso


completa a demonstração do Teorema 5.6. 

A série que representa S ′ (z) é uma série de potências que converge no


disco |z − z0 | < R, como vimos no Lema 5.7, logo podemos aplicar o Teo-
rema 5.6 à série (5.8) e concluir que a função S ′ é derivável no mesmo disco
de convergência e que

X
′′
S (z) = n(n − 1)an (z − z0 )n−2
n=2
= 2a2 + 3 · 2a3 (z − z0 ) + · · · .
94 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Novamente, como a série de potências anterior converge no disco |z−z0 | < R,


o Teorema 5.6 garante que S ′′ é derivável nesse disco e que

X
S ′′′ (z) = n(n − 1)(n − 2)an (z − z0 )n−3
n=2
= 3 · 2a3 + 4 · 3 · 2a4 (z − z0 ) + · · · .
É claro que podemos aplicar esse raciocı́nio indefinidamente para concluir
que a soma S = S(z) da série (5.7) possui derivadas de todas as ordens, e
que elas podem ser calculadas pela derivação termo-a-termo das séries de
potências correspondentes às funções S, S ′ , S ′′ , S ′′′ , S (iv) , · · · :
(k + 1)!
S (k) (z) = k!ak + ak+1 (z − z0 ) + · · · ,
1!
onde k = 1, 2, · · · . Vamos enunciar todos esses fatos no
Corolário 5.8. A soma S = S(z) da série (5.7) possui derivadas de todas
as ordens nos pontos do disco |z − z0 | < R, e elas podem ser calculadas pela
derivação termo-a-termo de suas respectivas séries de potências:

X
S (k) (z) = n(n − 1) · · · (n − k + 1)an (z − z0 )n−k , (5.19)
n=k
onde k = 1, 2, · · · . Os coeficientes an são os coeficientes de Taylor da soma
S = S(z):
S (n) (z0 )
an = , n = 0, 1, 2, · · · . (5.20)
n!
Para encontrarmos a fórmula (5.20), observamos que a série que repre-
senta S (k) (z) converge em z = z0 , o centro do disco de convergência; logo,
S (k) (z0 ) = k!ak ,
pois, à exceção do primeiro termo, todos os outros termos da referida série
contém z − z0 , que se anulam em z = z0 . Fica assim verificada a fórmula
(5.20) para k = 1, 2, · · · . Segue da série (5.7) que S(z0 ) = a0 .
Observação 5.9. Se uma série de potências converge nos pontos do disco
|z − z0 | < R, e se sua soma é nula nesses pontos, então todos os coeficientes
dessa série são nulos. Ou seja,
X∞
an (z − z0 )n = 0 =⇒ an = 0, n = 0, 1, · · · .
n=0
Isso segue da fórmula (5.20), visto que nesse caso S(z) ≡ 0.
A implicação anterior é essencial no cálculo de soluções de equações
diferenciais ordinárias com coeficientes variáveis, pelo método das séries de
potências.
5.3. Funções Exponencial e Trigonométricas 95

Exemplo 5.10. Vimos no Exemplo 2.13 que a série geométrica converge


no disco |z| < 1 e que vale a igualdade
X∞
1
zn = .
n=0
1−z
O Corolário 5.8 garante que são válidas, no disco |z| < 1, as seguintes igual-
dades, obtidas por derivação termo-a-termo da última série de potências:
X∞ X∞
1 2
nz n−1 = 2
e n(n − 1)z n−2 = .
(1 − z) (1 − z)3
n=1 n=2

5.3. Funções Exponencial e Trigonométricas


Agora vamos apresentar a função exponencial de variável complexa, inspi-
rados na representação em série de Taylor da função exponencial de variável
real
x2 xn
ex = 1 + x + + ··· + + ··· .
2! n!
Consideremos a série de potências com centro em zero
X∞
zn z2 zn
=1+z+ + ··· + + ··· . (5.21)
n=0
n! 2! n!
Visto que a soma parcial da série (5.21) é
z2 zn
Sn (z) = 1 + z + + ··· + ,
2! n!
é claro que a série (5.21) converge em z = 0, pois Sn (0) = 1 para todo n,
logo limn→∞ Sn (0) = 1. A convergência absoluta dessa série em todo z 6= 0
segue do Teste da Razão, pois
z n+1
| |
(n + 1)! |z|
= → 0, n → ∞.
zn n+1
| |
n!
Como a série (5.21) converge em todo z complexo, e ela coincide com a
representação em série de potências da função ex no caso em que z = x,
vamos denotar a soma S(z) dessa série por ez , ou seja:
Definição 5.11.
z2 zn
ez = 1 + z + + ··· + + ··· . (5.22)
2! n!
Em seguida verificaremos algumas propriedades da função ez que acabamos
de definir, tı́picas de uma função exponencial.
Teorema 5.12. A função ez satisfaz
96 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

(a) (ez )′ = ez para todo z;


(b) ez1 +z2 = ez1 ez2 para todos z1 e z2 complexos;
(c) ez 6= 0 para todo z e e−z = 1/ez .

Demonstração. Como vimos acima, a série (5.22) converge em todo z


complexo, logo segue do teorema de derivação termo-a-termo de série de
potências, i.e., do Teorema 5.6, que

!′ ∞
X z n X z n−1
z ′
(e ) = = n
n! n!
n=0 n=1
X∞
zm
= = ez .
m=0
m!

Para verificar a asserção (b), basta mostrarmos que ez ec−z = ec , para cada
c fixado, pois, em seguida, substituindo nessa igualdade z = z1 e c = z1 + z2
encontraremos a igualdade do item (b) (a igualdade ez ec−z = ec é natural se
observarmos que a substituição c = z1 + z2 e z2 = c − z1 em ez1 +z2 = ez1 ez2
leva a ec = ez1 ec−z1 ).
Definimos a função h(z) = ez ec−z , onde z é um número complexo qual-
quer; mostraremos que ela é igual à constante ec . De fato, h é um produto
de duas funções deriváveis, a primeira pelo item (a), e a segunda por ser
uma composição de funções deriváveis. Usando as regras de derivação do
produto e da cadeia, obtemos

h′ (z) = ez ec−z − ez ec−z = 0, para todo z.

Logo, em virtude da Proposição 4.25, h é constante [para ver que as derivadas


parciais de suas partes real e imaginária são contı́nuas, lembramos que
(ez )′ = ez ]; temos então que h(z) = h(0) para todo z, ou seja,

ez ec−z = ec .

Agora substituı́mos z = z1 e c = z1 + z2 nessa última identidade para


concluirmos que
ez1 +z2 = ez1 ez2 .
Fica verificada a igualdade do item (b).
A asserção (c) segue de (b) ao substituirmos z1 por z e z2 por −z, pois
assim obtemos
ez e−z = e0 = 1,
donde ez 6= 0 em todo z e e−z = 1/ez . 
5.3. Funções Exponencial e Trigonométricas 97

5.3.1. Funções cosseno e seno. Introduziremos as funções cosseno e seno


a partir das suas séries de Taylor para o caso real:
x2 x4 x2n
cos x = 1 − + − · · · + (−1)n + ···
2! 4! (2n)!
e
x3 x5 x2n+1
sen x = x − + − · · · + (−1)n + ···
3! 5! (2n + 1)!
Consideremos então as séries de potências com centro em z0 = 0

X ∞
X
nz 2n z 2n+1
(−1) e (−1)n .
n=0
(2n)! n=0
(2n + 1)!

É claro que essas séries convergem em z0 = 0, com somas 1 e zero, respec-


tivamente. Quando z 6= 0, usamos o Teste da Razão: com z fixado, temos
para a primeira série
|(−1)n+1 z 2(n+1) |
(2(n + 1))! |z|2
= → 0,
|(−1)n z 2n | (2n + 2)(2n + 1)
(2n)!
quando n → ∞. Como o limite é menor do que um, o Teste da Razão garante
que a primeira série converge em todo z complexo não nulo. Portanto, a
soma da primeira série é uma função definida em C.
De maneira análoga mostra-se que a segunda série também converge em
todo z complexo.
Usaremos as somas dessas séries para definir as funções cosseno e seno
no plano complexo.
Definição 5.13.

X ∞
X
z 2n z 2n+1
cos z = (−1)n e sen z = (−1)n .
(2n)! (2n + 1)!
n=0 n=0

Visto que todas as potências da série do cosseno são pares, e que as da


série do seno são ı́mpares, temos que cos(−z) = cos z e sen(−z) = − sen z,
ou seja, cosseno é uma função par, e o seno é uma função impar.
Com o teorema de derivação termo a termo de série de potências pode-
mos facilmente mostrar que as funções cosseno e seno são deriváveis.
Teorema 5.14. As funções cosseno e seno são deriváveis em todo o plano
complexo e
cos′ z = − sen z e sen′ z = cos z.
98 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Demonstração. A série de potências que define a função cosseno converge


em todo ponto de C, logo, pelo Teorema 5.6, a soma dessa série é derivável
em todos os pontos de seu domı́nio, e sua derivada é obtida por derivação
termo a termo:
X∞ X∞
z 2n−1 z 2n−1
cos′ z = (−1)n 2n = (−1)n
n=1
(2n)! n=1
(2n − 1)!

X z 2k+1
=− (−1)k = − sen z.
(2k + 1)!
k=0
Da mesma maneira mostramos que a função seno é derivável em todo ponto
de C e que sen′ z = cos z. 

5.3.2. Fórmula de Euler. Essa fórmula estabelece uma ligação entre as


função exponencial e as funções cosseno e seno:
eiz = cos z + i sen z, (5.23)
válida para todo z complexo. Para verificar a identidade (5.23), tomamos a
soma parcial de ordem n = 2m + 1 da série (5.22), com iz em lugar de z, ou
seja:
2m+1
X (iz)n
S2m+1 (iz) =
n!
n=0
m m
(5.24)
X 2k X 2k+1
k z k z
= (−1) +i (−1) ,
(2k)! (2k + 1)!
k=0 k=0
onde usamos as relações i2k = (−1)k no caso em que n = 2k, e i2k+1 = (−1)k i
no caso em que n = 2k+1. Quando m → ∞, o lado esquerdo de (5.24) tende
a eiz e, como no lado direito temos as somas parciais das séries (convergentes)
que definem as funções cosseno e seno, respectivamente, obtemos
eiz = cos z + i sen z,
ou seja, fica verificada a fórmula (5.23).
A seguir, usaremos a fórmula de Euler para demonstrar algumas identi-
dades trigonométricas.
Proposição 5.15. Para todo z complexo são válidas as identidades
eiz + e−iz eiz − e−iz
cos z = e sen z = , (5.25)
2 2i
cos2 z + sen2 z = 1,
cos(z ± w) = cos z cos w ∓ sen z sen w
e
sen(z ± w) = sen z cos w ± sen w cos z.
5.3. Funções Exponencial e Trigonométricas 99

Demonstração. As expressões (5.25) são deduzidas da igualdade (5.23).


De fato, substituindo z por −z na indentidade (5.23) de Euler, encontramos

e−iz = cos z − i sen z. (5.26)

Somando as identidades (5.23) e (5.26), obtemos a expressão do cos z em


(5.25); depois subtraindo (5.26) de (5.23), obtemos a expressão do sen z.
A identidade trigonométrica cos2 z +sen2 z = 1 segue das relações (5.25).
De fato,
eiz + e−iz 2 eiz − e−iz 2
cos2 z + sen2 z = ( ) +( )
2 2i
e2iz + 2 + e−2iz e2iz − 2 + e−2iz
= + = 1.
4 −4
A identidade cos(z + w) = cos z cos w − sen z sen w escrita em termos das
expressões (5.25) é

ei(z+w) + e−i(z+w) eiz + e−iz eiw + e−iw eiz − e−iz eiw − e−iw
= − .
2 2 2 2i 2i
Para confirmar a validade dessa igualdade basta multiplicar as frações do
lado direito e usar que ea eb = ea+b .
Da mesma maneira podemos verificar as identidades para cos(z − w) e
sen(z ± w). 

A próxima expressão para ez é muito útil; ela poderia ter sido usada
para definir a função exponencial no plano complexo.

Proposição 5.16. Se z = x + iy, onde x e y são números reais, então

ez = ex (cos y + i sen y). (5.27)

Demonstração. Segue do Teorema 5.12, item (b), que

ez = ex+iy = ex eiy .

Em seguida, usamos (5.23) com y em lugar de z para completar a verficação


de (5.27). 

Exemplo 5.17. Euler uniu os números e, π e i em uma única equação

eiπ + 1 = 0.

De fato, decorre de (5.27) que

eiπ = e0 [cos π + i sen π] = −1 + i0 = −1.


100 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

5.3.3. Periodicidade das funções ez , cos z e sen z. Mostraremos agora


que a função z 7→ ez é periódica com perı́odo 2πi.
Proposição 5.18. ez = ew se e somente se z − w = 2kπi, onde k é número
inteiro. Em particular,
ez+2πi = ez para todo z,
ou seja, a função z 7→ ez é periódica de perı́odo 2πi.

Demonstração. Segue do Teorema 5.12, itens (b) e (c), que a equação


ez = ew é equivalente à equação
ez−w = 1. (5.28)
Agora escrevemos z − w = a + ib, onde a e b são reais. Em seguida, tomamos
o módulo em ea+ib = 1 e obtemos ea = 1, pois |eib | = 1 para todo número b
real; logo a = ln 1 = 0. Assim z − w = ib e então a equação (5.28) se reduz
a
eib = 1;
dessa igualdade, em virtude de (5.23), temos que cos b = 1 e sen b = 0,
portanto b = 2kπ, onde k é um número inteiro. Fica verificado que z − w =
2kπi.
Em particular, ez+2πi = ez em todo z complexo. 

A seguir verificaremos que as funções cos z e sen z são periódicas com


perı́odo 2π.
Proposição 5.19. As funções cos z e sen z são periódicas de perı́odo 2π,
i.e.,
cos(z + 2π) = cos z e sen(z + 2π) = sen z.

Demonstração. Em virtude da representação do cosseno em (5.25), e da


Proposição 5.18, temos
1 1
cos(z + 2π) = [ei(z+2π) + e−i(z+2π) ] = [eiz+2πi + e−iz+(−2πi) ]
2 2
1
= [eiz + e−iz ] = cos z.
2
Pelo mesmo motivo, sen(z + 2π) = sen z. 
Exemplo 5.20. Determine todos os z complexos tais que sen z = 3.

Podemos calcular esses números z via a expressão do seno dada em


(5.25):
eiz − e−iz
sen z = = 3.
2i
5.3. Funções Exponencial e Trigonométricas 101

Visto que e−iz = 1/eiz , reescrevemos a última igualdade como


e2iz − 6ieiz − 1 = 0.
Substituı́mos eiz por t e resolvemos a equação t2 − 6it − 1 = 0, cujas soluções
são
√ √
t = eiz = (3 ± 2 2)i = eln(3±2 2) eiπ/2

= eln(3±2 2)+i(π/2)
,
onde foi usado que eiπ/2 = i. Segue da Proposição 5.18 que
√ π
iz − [ln(3 ± 2 2) + i ] = 2kπi, k ∈ Z.
2
√ √
Dividimos essa igualdade por i, e observamos que 3 − 2 2 = 1/(3 + 2 2),
para escrever as soluções da equação sen z = 3:
π √
z = [ + 2kπ] ∓ i ln(3 + 2 2), k ∈ Z.
2
Observação 5.21. A desiguladade | sen x| ≤ 1, onde x é um número real,
não é válida para z = a + ib se b 6= 0. De fato, acabamos de calcular infinitos
números complexos z tais que sen z = 3.
Na verdade, as funções seno e cosseno não são limitadas no plano com-
plexo:
1 1
| sen(iy)| = | [e−y − ey ]| e | cos(iy)| = | [e−y + ey ]|
2i 2
tendem ao ∞ quando y → ±∞.
Exemplo 5.22. Mostre que a restrição da função z 7→ sen z à faixa
π π
D = {z = x + iy : − < x < , −∞ < y < ∞}
2 2
é injetiva.

Com efeito, suponha que z1 e z2 de D satisfaçam sen z1 = sen z2 . Vamos


mostrar que z1 = z2 . Em virtude de (5.25), temos
eiz1 − e−iz1 eiz2 − e−iz2
sen z1 = = = sen z2 .
2i 2i
Logo, da igualdade do centro obtemos
1 1
eiz1 − eiz2 = iz1 − iz2
e e
ou
1
(eiz1 − eiz2 )[1 + i(z +z ) ] = 0. (5.29)
e 1 2
Para ver que 1 + e−i(z1 +z2 ) 6= 0, suponha que
ei(z1 +z2 ) = −1 = eiπ .
102 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Então, em virtude da Proposição 5.18, temos que


z1 + z2 = (2k + 1)π, k ∈ Z.
Assim, z1 + z2 é um número real, i.e., z1 + z2 = Re(z1 + z2 ) = x1 + x2 .
Porém, como z1 e z2 pertencem a D, temos −π < x1 + x2 < π. Logo, z1 + z2
não é igual a (2k + 1)π para algum k em Z. Portanto, ei(z1 +z2 ) 6= −1.
Decorre do que acabamos de mostrar, e do produto em (5.29), que
eiz1 − eiz2 = 0.
Em vista da Proposição 5.18, sabemos que as soluções dessa equação são
z1 − z2 = 2kπ, k ∈ Z.
Dessa igualdade, temos que z1 − z2 = Re(z1 − z2 ) = x1 − x2 ; como z1 e z2
estão em D, segue que −π < x1 − x2 < π, logo k = 0. Assim, z1 = z2 e a
restrição da função seno ao conjunto D é uma função injetiva.

5.3.4. Tangente, cotangente, secante e cossecante. Para definir as


funções tangente, cotangente, secante e cossecante, precisamos determinar
todos os pontos z onde cos z 6= 0 e sen z 6= 0. Como o domı́nio das funções
cosseno e seno é o plano complexo todo, em princı́pio poderia haver outros
zeros além dos já conhecidos para as correspondentes funções reais cos x e
sen x. O próximo resultado mostra que não há novos zeros:
Proposição 5.23. Os zeros de cos z e sen z são precisamente os zeros das
funções reais cos x e sen x, ou seja:
(
cos z = 0 se e somente se z = (2k + 1) π2 , k ∈ Z,
sen z = 0 se e somente se z = kπ, k ∈ Z.

Demonstração. Segue de (5.25) que cos z = 0 se e somente se


eiz + e−iz = 0 ou eiz = −e−iz = eiπ−iz .
Pela Proposição 5.18, temos que (iz)−(iπ −iz) = 2kπi, onde k é um número
inteiro. Logo
z = (2k + 1)π/2, onde k é um número inteiro.
Ou seja, as soluções da equação cos z = 0 são as mesmas da equação cos x =
0, com incógnita x real.
De maneira análoga mostra-se que sen z = 0 se e somente z = kπ, com
k sendo um número inteiro. 

Agora definimos
sen z π
tan z = , z 6= (2k + 1) , k é um número inteiro.
cos z 2
5.4. Logaritmo 103

Essa função é derivável, por ser quociente de funções deriváveis, e sua


derivada é
cos z cos z − sen z(− sen z) 1
tan′ z = 2
= ,
cos z cos2 z
para z 6= (2k + 1)π/2, com k inteiro.
Dessa mesma maneira podemos definir as funções secante, cotangente e
cossecante, explicitando os respectivos domı́nios e calculando suas derivadas.

5.3.5. Funções cosh z, senh z e tanh z. Naturalmente, de posse da função


exponencial, podemos também definir as funções cosh z e senh z,
ez + e−z ez − e−z
cosh z = e senh z = ,
2 2
e tanh z:
senh z
tanh z = , ez + e−z 6= 0.
cosh z
Visto que ez + e−z = 0 é equivalente a e2z = −1 = eiπ , temos que
π
ez + e−z 6= 0 se e somente se z 6= (2k + 1) i.
2
É fácil ver que cosh(z + 2πi) = cosh z, senh(z + 2πi) = senh z, cosh(iz) =
cos z e senh(iz) = i sen z. Além disso,
cosh2 z − senh2 z = 1.

5.4. Logaritmo
Dado w em C queremos encontrar um número complexo z tal que
ez = w, (5.30)
ou seja, queremos achar um logaritmo de w. É claro que essa equação não
possui solução se w = 0, visto que pelo Teorema 5.12, item (c), ez 6= 0 em
todo z complexo.
Suponha então que w 6= 0. Seja φ o argumento principal de w; a repre-
sentação polar de w pode ser escrita em termos de exponencial:
w = |w|(cos φ + i sen φ) = eln |w| eiφ = eln |w|+iφ.
Dessa representação de w e de (5.30), temos que
ez = eln |w|+iφ .
Decorre dessa igualdade e da Proposição 5.18 que z − (ln |w| + iφ) = 2kπi,
ou seja:
z = log w = ln |w| + i(φ + 2kπ), onde k ∈ Z. (5.31)
104 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Portanto acabamos de calcular os logaritmos de w 6= 0. Lembramos que


a expressão φ + 2kπ representa todos os argumentos de w, os quais são
denotados por arg w.
Exemplo 5.24. Calcule os logaritmos dos números −2, −i e x, onde x é
um número real positivo. De modo equivalente, calcule todas as soluções z
das equações
ez = −2, ez = −i e ez = x, x > 0.

Segue de (5.31) que


log(−2) = ln | − 2| + i arg(−2) = ln 2 + i(π + 2kπ),
π
log(−i) = ln | − i| + i arg(−i) = 0 + i(− + 2kπ),
2
log x = ln |x| + i arg x = ln x + i(0 + 2kπ), x > 0,
onde k é um número inteiro.
Vimos na Proposição 5.18 que a função ez é periódica de perı́odo 2πi, e
acabamos de calcular as infinitas soluções da equação ez = w, com w 6= 0.
Então a função exponencial não é injetiva se considerarmos o domı́nio dela
como o plano todo. Portanto, para definir uma função logaritmo, i.e., uma
função inversa da função exponencial ez , precisamos escolher um subcon-
junto de C onde ez é injetiva.
A seguir apresentamos uma faixa horizontal, de largura menor do que
2π, onde a função z 7→ ez é injetiva.
Proposição 5.25. A restrição da função z 7→ ez ao conjunto
D = {z = x + iy : x ∈ R e − π < y ≤ π}
é uma bijeção de D sobre C \ {0}.

Demonstração. Para ver que a restrição da função exponencial a D é


injetiva, sejam z1 e z2 em D tais que ez1 = ez2 . Assim z1 − z2 = 2kπi,
k inteiro, em virtude da Proposição 5.18. Em outras palavras, x1 = x2 e
y1 − y2 = 2kπ.
Resta mostrar que k = 0 em y1 − y2 = 2kπ. Como y1 = Im(z1 ) e
y2 = Im(z2 ) pertencem ao intervalo (−π, π], temos que
y1 − y2 ≤ π − y2 < π − (−π) e y1 − y2 > −π − y2 ≥ −π − π;
segue dessas duas desigualdades que −2π < y1 −y2 < 2π; logo −1 < k < 1 e,
como k é um número inteiro, temos que k = 0; assim y1 = y2 e então z1 = z2 .
Portanto a função z 7→ ez , quando restrita ao conjunto D, é injetiva.
Para verificar a sobrejetividade em C \ {0}, seja w 6= 0; precisamos
apresentar z em D tal que ez = w. Basta observar que dentre as soluções
5.4. Logaritmo 105

Figura 5.3. Determinação principal do logaritmo.

da equação (5.30), dadas em (5.31), a solução z = ln |w| + iφ pertence ao


conjunto D, onde φ é o argumento de w satisfazendo −π < φ ≤ π. 
Observação 5.26. É claro que a faixa D pode ser substituı́da pela faixa
Dy0 = {z = x + iy : x ∈ R e y0 − π < y ≤ y0 + π}
para termos outra restrição da função z 7→ ez injetiva; a demonstração é
igual à anterior.

5.4.1. Função logaritmo. Agora estamos em condições de definir uma


função logaritmo.
Definição 5.27. A função
w 7→ z = Log w = ln |w| + i Arg w, (5.32)
é a função inversa da restrição da função ez ao conjunto D, i.e.
Log(ez ) = z para todo z ∈ D, eLog w = w para todo w 6= 0.
A função logaritmo definida em (5.32) é a determinação principal do logar-
itmo, ou o ramo principal dele; veja na Figura 5.3 as regiões envolvidas na
Definição 5.27.

Lembramos que Log w e Arg w denotam as determinações principais do


logaritmo e do argumento de w, respectivamente.
Exemplo 5.28. Se w = u + iv e u > 0, então
p v
Log w = ln( u2 + v 2 ) + i arctan( ). (5.33)
u

A parte real da função Log w é ln |w|, e |w| = |u + iv| = u2 + v 2 , logo
p
Re(Log w) = ln( u2 + v 2 ).

Para mostrar que arctan(v/u) é uma expressão para φ = Arg w quando


u > 0, lembramos que φ é a única solução no intervalo (−π, π] da equação
w = |w|(cos φ + i sen φ).
106 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Logo, u = |w| cos φ e v = |w| sen φ; como u > 0, temos


v
tan φ = .
u
Note que no semiplano Re(w) = u > 0, o argumento principal φ de w per-
tence ao intervalo (−π/2, π/2). Logo, podemos usar a função arcotangente,
i.e., a inversa da tangente, para representar o Arg w:
v
Arg w = φ = arctan( ), u > 0.
u
Ou seja, obtivemos a representação (5.33) para a determinação principal do
logaritmo, válida no semiplano u > 0.
Exemplo 5.29. Use a expressão do logaritmo em (5.33) para mostrar que
z
lim (1 + )n = ez . (5.34)
n→∞ n
Inicialmente fixamos um z complexo e escolhemos n0 tal que |z| < n0 .
Logo, os pontos 1 + z/n pertencem ao disco com centro em 1 e raio menor
do que 1 se n ≥ n0 , pois
z |z|
|(1 + ) − 1| = < 1 se n ≥ n0 . (5.35)
n n
Em particular, se n ≥ n0 , temos 1 + z/n 6= 0. Podemos então usar a
determinação principal do logaritmo para escrever
z z
1 + = eLog(1+ n ) ,
n
de onde obtemos, em vista do item (b) do Teorema 5.12:
z z z z
(1 + )n = eLog(1+ n ) · · · eLog(1+ n ) = en Log(1+ n ) .
n
Se n ≥ n0 , segue de (5.35) que a parte real de 1 + z/n é positiva; assim,
podemos usar a expressão (5.33) para mostrar que
z
n Log(1 + ) → z quando n → ∞; (5.36)
n
ou seja, sendo z = x + iy, basta mostrarmos que
r
x y y/n
lim n ln[ (1 + )2 + ( )2 ] = x e lim n arctan[ ] = y.
n→∞ n n n→∞ 1 + x/n
Esses dois últimos limites decorrem da regra de L’Hôpital, caso “0/0”, ao
substituirmos a variável n por uma variável real t → ∞, e t por 1/(1/t).
Finalmente, como a função f (z) = ez é contı́nua em z, usamos a Proposição 3.16
e o limite de (5.36) para escrever
z z
lim (1 + )n = lim en Log(1+ n ) = ez .
n→∞ n n→∞
Completamos assim a verificação do limite em (5.34).
5.4. Logaritmo 107

5.4.2. Continuidade da função logaritmo. Agora vamos determinar


uma região do plano complexo onde a função logaritmo definida em (5.32)
é contı́nua.
Inicialmente precisamos obter uma expressão para a função argumento
principal, i.e., para a função w 7→ Arg(w), w 6= 0, a partir da qual será
deduzida a sua continuidade.
Será conveniente denotar por P− o conjunto dos números complexos,
exceto os números reais negativos e o zero, i.e.,
P− = C \ {w = u + i0 : u é real e u ≤ 0}
= C \ (−∞, 0].
Seja w em P− , e vamos denotar por θ o argumento principal de w. Logo
−π < θ < π. Como queremos usar a função arcotangente na expressão do
argumento principal de w, e a imagem da função arcotangente é o intervalo
(−π/2, π/2), vamos calcular a tangente de θ/2, visto que −π/2 < θ/2 < π/2.
Dessa maneira
θ sen( θ2 ) sen( θ2 ) cos( 2θ ) sen θ
tan( ) = θ
= θ
= (5.37)
2 cos( 2 ) 2
cos ( 2 ) 1 + cos θ
Segue de w = u + iv = |w|(cos θ + i sen θ) que u = |w| cos θ e v = |w| sen θ;
logo, de (5.37) temos
θ v
tan( ) = .
2 |w| + u
Portanto, a expressão para θ = Arg(w) segue dessa última igualdade e do
fato que −π/2 < θ/2 < π/2:
v
θ = Arg(w) = 2 arctan( ), w ∈ P− . (5.38)
|w| + u

A seguir mostramos que a função logaritmo definida em (5.32) é contı́nua


nos pontos de P− .
Teorema 5.30. O ramo principal do logaritmo definido em (5.32) é uma
função contı́nua nos pontos de P− . Não existe o limite da função
w 7→ Arg(w)
quando w tende a um número real negativo.

Demonstração. A parte real da função definida em (5.32), w 7→ ln |w|, é


uma função contı́nua em todo w 6= 0, por ser uma composição das funções
contı́nuas
w 7→ |w| e t 7→ ln t, t > 0.
108 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Figura 5.4. Argumento principal é descontı́nuo nos reais negativos.

A continuidade da parte imaginária w 7→ Arg(w) nos pontos de P− segue


de (5.38) e do fato que uma composição de funções contı́nuas é contı́nua: as
funções
p
(u, v) 7→ v, (u, v) 7→ u2 + v 2 + u e t 7→ arctan t
são contı́nuas; além disso, |w| + u 6= 0 nos pontos w = u + iv de P− , pois ou
v 6= 0 e u assume qualquer valor, ou v = 0 e então u > 0; no primeiro caso
temos p √
u2 + v 2 + u > u2 + u = |u| + u ≥ 0,

e no segundo, temos u2 + v 2 + u = 2u > 0. Em ambos os casos, não ocorre
divisão por zero em (5.38).
Para ver que a função w 7→ Arg(w) não possui limite assim que w → u0 ,
onde u0 é um número real negativo, considere duas sequências wn = un +ivn
e ŵn = ûn + iv̂n , ambas convergindo para u0 quando n → ∞; suponha que
vn > 0 e que v̂n < 0. Veja a Figura 5.4. Note que
vn vn (|wn | − un ) 1
= = (|wn | − un ).
|wn | + un (|wn | + un )(|wn | − un ) vn
Como |wn | tende a |u0 | = −u0 , temos que |wn | − un tende a −2u0 > 0, e vn
é positivo e tende a zero, assim que n → ∞; logo, a fração do lado direito
tende a +∞. Portanto,
vn  π
Arg(wn ) = 2 arctan → 2 = π quando n → ∞.
|wn | + un 2
Por outro lado, como v̂n é negativo, repetimos esse procedimento e con-
cluı́mos que Arg(ŵn ) tende a −π. Assim a função argumento principal não
é contı́nua nos números reais negativos. 

5.4.3. O ramo principal do Logaritmo é derivável em P− . Em seguida


mostraremos que a função w 7→ Log w é derivável nos pontos de P− .
Teorema 5.31. O ramo principal do logaritmo definido em (5.32) é uma
função derivável nos pontos de P− . Além disso,
1
Log′ w = , w ∈ P− . (5.39)
w
5.4. Logaritmo 109

Figura 5.5. Log z é derivável em P− .

Demonstração. A imagem do conjunto P− pela função w 7→ Log w é o


conjunto
D− = {z = x + iy : x ∈ R e − π < y < π}.
Sejam w e w0 pontos distintos de P− , e z e z0 em D− as imagens de w e w0 ,
respectivamente; ou seja, z = Log w e z0 = Log w0 . Logo, temos ez = w e
ez0 = w0 . Assim
Log w − Log w0 1 z − z0 1 1 1
− = z − z0 = ez −ez0 − z0 . (5.40)
w − w0 w0 e − ez0 e z−z
e
0

Para ver que o lado esquerdo de (5.40) tende a zero quando w tende a w0 ,
lembramos que a função z = Log w é contı́nua em w0 , pelo Teorema 5.30;
logo, z = Log w tende a z0 = Log w0 quando w tende a w0 .
Por outro lado, a função z 7→ ez é derivável em z0 e sua derivada é não
nula, logo
1 1 1 1
lim ez −ez0 = e z −ez0 = z ′
= z0 .
z→z0
z−z0 limz→z0 z−z0 (e ) (z0 ) e
Portanto, quando w tende a w0 , temos que z tende a z0 , e assim o lado
direito de (5.40) tende a zero; consequentemente, o limite do lado esquerdo
de (5.40) tende a zero também, ou seja:
Log w − Log w0 1
lim [ − ] = 0.
w→w0 w − w0 w0
Em outras palavras,
Log w − Log w0 1
Log′ w0 = lim = .
w→w0 w − w0 w0
Fica assim demonstrado o Teorema 5.31. 

5.4.4. Potências complexas. Várias funções importantes são definidas


por meio do logaritmo. Iniciamos com z α , z 6= 0.
Definição 5.32. Para z 6= 0 e um α complexo fixado, definimos
z α = eα Log z . (5.41)
110 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Para calcular a derivada de z α , observamos que a função z α é uma


composição de duas funções deriváveis, uma que a cada z de P− associa
αLog z, e outra função que a cada w em C associa ew . Logo, pela regra
da cadeia, a função definida em (5.41) é derivável nos pontos de P− , e sua
derivada é dada por
1
(z α )′ = (eα Log z )′ = eα Log z α = αz α−1 .
z
De maneira análoga, para um a 6= 0, podemos definir az .
Definição 5.33. Para a 6= 0 fixado, definimos
az = ez Log a .

É uma composição de funções deriváveis em C: a função z 7→ z Log a


e a função w 7→ ew . Pela regra da cadeia, a composição é derivável e sua
derivada é dada por
(az )′ = (ez Log a )′ = ez Log a Log a = az Log a.
Exemplo 5.34. Encontre o maior subconjunto de C onde a função
f (z) = (1 + z)α
é derivável, e calcule as duas primeiras derivadas de f .

Podemos definir (1 + z)α como


f (z) = (1 + z)α = eα Log(1+z) , z 6= −1.
Pelo Teorema 5.31, vemos que a função composta z 7→ Log(1+z) é derivável
em todos os pontos z tais que 1 + z não seja um número real negativo; logo,
temos de excluir os pontos z = x+i0, com x ≤ −1. Assim, a função f = f (z)
é derivável em todos os pontos do conjunto C \ {z = x + i0 : x ≤ −1}.
Pela regra da cadeia, podemos calcular a derivada f ′ (z):
d α Log(1+z) α
f ′ (z) = (e ) = eα Log(1+z) = α(1 + z)α−1 .
dz 1+z
Com essa regra de derivação podemos calcular qualquer derivada de ordem
superior. Assim,
d
f ′′ (z) = [α(1 + z)α−1 ] = α(α − 1)(1 + z)α−2 .
dz
5.4.5. Função arcotangente. Com o logaritmo podemos obter expressões
para as funções inversas das funções trigonométricas.
Exemplo 5.35. Mostre que a restrição da função w = tan z ao conjunto
D0 = {z ∈ C : −π/2 < Re(z) < π/2}
é injetiva, e determine uma expressão para a função z = arctan w.
5.4. Logaritmo 111

Sejam z1 e z2 em D0 tais que tan z1 = tan z2 . Vamos mostrar que z1 = z2 ,


i.e., que a função tangente é injetiva quando restrita ao subconjunto D0 .
Segue de (5.25) e de tan z1 = tan z2 que
eiz1 − e−iz1 eiz2 − e−iz2
= .
i(eiz1 + e−iz1 ) i(eiz2 + e−iz2 )
A igualdade dessas duas frações implica

(eiz1 − e−iz1 )(eiz2 + e−iz2 ) = (eiz1 + e−iz1 )(eiz2 − e−iz2 ),

de onde obtemos e2i(z1 −z2 ) = 1 = e0 ; logo, segue da Proposição 5.18 que

z1 − z2 = kπ, onde k é número inteiro.

Como kπ é um número real, temos que Im(z1 ) = Im(z2 ) e que

z1 − z2 = x1 − x2 = kπ; (5.42)

além disso, já que z1 e z2 pertencem a D0 , temos que −π < x1 − x2 < π;


dessa desigualdade e de (5.42), segue que −1 < k < 1. Como k é um
número inteiro, essa última desigualdade implica k = 0, ou seja, x1 = x2 ;
logo, z1 = z2 .
Agora vamos explicitar z na equação w = tan z, supondo que z ∈ D0 .
Segue de (5.25) que
sen z eiz − e−iz
tan z = = = w, z ∈ D0 ,
cos z i(eiz + e−iz )
logo 1 − e−2iz = iw(1 + e−2iz ), ou
1 − iw i+w
e−2iz = ou ainda e−2iz = . (5.43)
1 + iw i−w
Observamos que Im(−2iz) = −2x ∈ (−π, π) pois z ∈ D0 , logo podemos
usar a determinação principal do logaritmo (Definição 5.27) para explicitar
a solução z da última equação de (5.43):
i+w i i+w
−2iz = Log ou z= Log .
i−w 2 i−w
A seguir definimos a função arcotangente.

Definição 5.36.
i i+w
z = arctan w = Log , w 6= ±i.
2 i−w
O domı́nio da função arcotangente é o conjunto dos w tais que w 6= ±i.
112 5. Séries de Potências, Exponencial, Logaritmo, cosseno e seno

Figura 5.6. Região onde Arctan w é derivável.

Exemplo 5.37. Verifique que a função w 7→ arctan w é derivável no con-


junto D1 = C \ {w = 0 + iv : |v| ≥ 1}, e que sua derivada nos pontos de
D1 é
1
(arctan)′ (w) = .
1 + w2
D1 é o maior subconjunto de C onde a função arcotangente é derivável.

Sabemos pelo Teorema 5.31 que a função t 7→ Log t, t 6= 0 e complexo, é


derivável em t se t não for um número real negativo; logo, a função
i i+w
w 7→ arctan w = Log , w 6= ±i,
2 i−w
é derivável em w se
i+w
(5.44)
i−w
não for um número real negativo. De outra maneira, precisamos determinar
o subconjunto de C onde a fração (5.44) é um número real negativo e, em
seguida, excluir esse subconjunto do domı́nio da arcotangente.
Para saber em quais w o quociente (5.44) é um número real negativo,
escrevemos w = u + iv e calculamos as partes real e imaginária dessa fração:

i+w 1 − u2 − v 2 (−2u)
= 2 +i 2 .
i−w u + (1 − v)2 u + (1 − v)2
Essa fração é um número real se e somente se u = 0; ela é um número real
negativo ou nulo se e somente se u = 0 e 1 − u2 − v 2 ≤ 0; logo v satisfaz a
desigualdade 1 − v 2 ≤ 0, ou seja, |v| ≥ 1.
Portanto, por composição de funções deriváveis temos que a função ar-
cotangente é derivável nos pontos do conjunto

D1 = C \ {w = 0 + iv : |v| ≥ 1}.
5.4. Logaritmo 113

Usamos a regra da cadeia para derivar a função arcotangente em cada ponto


de D1 :
i i−w d i+w
(arctan)′ (w) = ( ) ( )
2 i + w dz i − w
i i−w 2i 1
= ( ) 2
= .
2 i + w (i − w) 1 + w2
A Figura 5.6 mostra o domı́nio e a imagem das duas funções deriváveis
w = tan z, z ∈ D0 , e de z = arctan w, w ∈ D1 .
Capı́tulo 6

Integral de Contorno e
o Teorema de Cauchy

6.1. Integral de Contorno


O principal resultado deste capı́tulo é o Teorema 6.29, conhecido como Teo-
rema de Cauchy, a partir do qual se demonstram os resultados fundamentais
da teoria das funções de uma variável complexa, como a Fórmula Integral
de Cauchy.
Na apresentação desses dois teoremas, necessitamos das integrais de con-
torno, ou seja, da integral de uma função f = f (z), com z ∈ D, ao longo de
um caminho γ(t) = x(t) + iy(t), com t ∈ [a, b] e γ(t) ∈ D. Essencialmente, é
uma integral de função de uma variável real t ∈ [a, b], mas com imagem no
plano complexo C:
Z Z b
f (z) dz = f (γ(t))γ ′ (t) dt
γ a
Z Z (6.1)
b b
= u(t) dt + i v(t) dt,
a a

onde
u(t) = Re[f (γ(t))γ ′ (t)] e v(t) = Im[f (γ(t))γ ′ (t)].
O número complexo do lado direito de (6.1) fica bem definido no caso em
que as funções t 7→ u(t) e t 7→ v(t) são contı́nuas no intervalo [a, b]. Porém,
a continuidade é uma hipótese um pouco restritiva.
A próxima definição introduz uma classe de funções mais ampla do que
a das funções contı́nuas em [a, b], mas ainda com propriedades suficientes

115
116 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

f (t)
2

0
0 1 2 3 t

Figura 6.1. Gráfico de f .

para garantir que as integrais de u = u(t) e v = v(t) em (6.1) estão bem


definidas.
Definição 6.1. Dizemos que uma função real u = u(t) é contı́nua por partes
em [a, b] quando existir uma partição t0 = a < t1 < · · · < tn = b de [a, b]
satisfazendo:
(i) u é contı́nua em cada subintervalo (tk−1 , tk ), k = 1, 2, . . . , n;
(ii) u possui limites laterais finitos quando t tende aos extremos tk−1
e tk ; em t0 só haverá o limite lateral à direita, e em tn só o limite
lateral à esquerda.

É claro que toda função contı́nua em um intervalo fechado [a, b] é também


contı́nua por partes nesse intervalo; a partição pode ser formada apenas pelos
pontos a = t0 < t1 = b.
Exemplo 6.2. A função
(
1 se 0 ≤ t ≤ 1
f (t) =
t − 1 se 1 < t ≤ 2
não é contı́nua em t = 1, visto que
lim f (t) = 1 e lim f (t) = 0,
t→1− t→1+
mas é contı́nua por partes em [0, 2]. Com efeito, a função f é contı́nua nos
pontos dos subintervalos (0, 1) e (1, 2); além disso, os limites laterais de f
quando t tende a zero pela direita, e quando t tende a 2 pela esquerda,
existem e são finitos; os limites laterais de f quando t tende a 1 existem e
são finitos, logo f é contı́nua por partes no intervalo [0, 2]. Veja o gráfico de
f na Figura 6.1.

Exemplo 6.3. A função g = g(t) definida em [−1, 1] por


(
0 se −1 ≤ t ≤ 0
g(t) =
1/t se 0 < t ≤ 1
satisfaz o item (i) da Definição 6.1, mas não satisfaz o item (ii), pois
lim g(t) = ∞ e lim g(t) = 0,
t→0+ t→0−
6.1. Integral de Contorno 117

Figura 6.2. Gráfico de g.

ou seja, o ponto de descontinuidade t = 1 não é de “salto” finito (“salto” é


a diferença entre os dois limites laterais no ponto de descontinuidade). Veja
o gráfico de g = g(t) na Figura 6.2.

A integral de uma função u = u(t) contı́nua por partes em [a, b] está


bem definida: de fato, u é contı́nua em cada subintervalo (tk−1 , tk ), e os
limites laterais à direita em tk−1 e à esquerda em tk existem e são finitos;
logo podemos definir uma extensão contı́nua ûk para o intervalo [tk−1 , tk ] da
seguinte maneira: ûk = u(t) se tk−1 < t < tk e o valor de ûk no extremo tk−1
é o limite lateral à direita de u = u(t) em tk−1 , e o valor de ûk no extremo
tk é o limite lateral à esquerda de u = u(t) em tk . Dessa maneira, definimos:

Definição 6.4.
Z b n Z
X tk
u(t) dt = u(t) dt, (6.2)
a k=1 tk−1

onde
Z tk Z tk
u(t) dt = ûk (t) dt.
tk−1 tk−1

A seguir definimos a integral de uma função de variável real mas com


imagem no plano complexo.

Definição 6.5. Seja w = w(t) = u(t) + iv(t) uma função definida em um


intervalo [a, b] e com valores em C; suponha que as funções u e v sejam
contı́nuas por partes em [a, b]. Nessas condições definimos
Z b Z b Z b
w(t) dt = u(t) dt + i v(t) dt. (6.3)
a a a

Exemplo 6.6. Calcule as integrais das seguintes funções:


(a) Seja w(t) = cos t + i sen t, 0 ≤ t ≤ π.
(b) Seja f (t) = (|t| + t) + it, −1 ≤ t ≤ 1.
118 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Para a função do item (a), segue da Definição 6.5 que


Z π Z π Z π
w(t) dt = cos t dt + i sen t dt
0 0 0
= sen π − sen 0 + i(− cos π + cos 0) = 2i.

Usamos a mesma definição para calcular a integral do item (b):


Z 1 Z 0 Z 1 Z 1
f (t) dt = [ {(−t) + t} dt + 2t dt] + i t dt
−1 −1 0 −1
1 1
t2 t2
] + i[ ] = 1.
= [0 + 2
2 0 2 −1

São válidas as seguintes propriedades para a integral definida em (6.3).

Proposição 6.7. Sejam f = f (t) e g = g(t) funções contı́nuas por partes


em [a, b] e com valores em C. Então
Rb Rb Rb
(a) a (f + g)(t) dt = a f (t) dt + a g(t) dt.
Rb Rb
(b) a (cf )(t) dt =c a f (t) dt, onde c ∈ C.
Rb Rb
(c) Re( a f (t) dt) = a Re(f (t)) dt.
Rb Rb
(d) | a f (t) dt| ≤ a |f (t)| dt.

Demonstração. Para verificar item (a), escrevemos f (t) = u1 (t) + iv1 (t),
g(t) = u2 (t) + iv2 (t) e

(f + g)(t) = f (t) + g(t) = [u1 (t) + u2 (t)] + i[v1 (t) + v2 (t)]

Agora usamos a definição da integral (6.3) e a linearidade das integrais de


funções reais de variável real:
Z b Z b Z b
(f + g)(t) dt = (u1 (t) + u2 (t)) dt + i (v1 (t) + v2 (t)) dt
a a a
Z b Z b Z b Z b
=[ u1 (t) dt + i v1 (t) dt] + [ u2 (t) dt + i v2 (t) dt]
a a a a
Z b Z b
= f (t) dt + g(t) dt.
a a

Para verificarmos o item (b), escrevemos

(cf )(t) = (c1 + ic2 )(u1 (t) + iv1 (t)) = (c1 u1 (t) − c2 v1 (t)) + i(c2 u1 (t) + c1 v1 (t)),
6.1. Integral de Contorno 119

usamos a definição da integral (6.3) e a linearidade das integrais de funções


reais de variável real:
Z b Z b Z b
(cf )(t) dt = (c1 u1 (t) − c2 v1 (t)) dt + i (c2 u1 (t) + c1 v1 (t)) dt
a a a
Z b Z b Z b
= (c1 + ic2 )[ u1 (t) dt + i v1 (t) dt] = c f (t) dt.
a a a

A verificação do item (c) segue de


Z b Z b Z b
Re( f (t) dt) = Re( u1 (t) dt + i v1 (t) dt)
a a a
Z b Z b
= u1 (t) dt = Re(f (t)) dt.
a a

Quanto à desigualdade do item (d), ela é verdadeira no caso em que a integral


de f entre a e b é nula. No caso em que essa integral seja um número
complexo não nulo, usamos a sua representação polar
Z b
f (t) dt = reiθ , onde r e θ são números reais, r > 0.
a

Logo, como r é um número real, usamos o item (c) para escrevermos


Z b Z b
−iθ
r=e f (t) dt = e−iθ f (t) dt
a a
Z b Z b
−iθ
 
= Re( e f (t) dt) = Re e−iθ f (t) dt.
a a
  Rb Rb
Visto que Re e−iθ f (t) é uma função real, e que | a h(t) dt| ≤ a |h(t)| dt
quando a função h = h(t) é real, obtemos
Z b Z b
 −iθ   
r= Re e f (t) dt = | Re e−iθ f (t) dt|
a a
Z b Z b
−iθ
≤ |e f (t)| dt = |f (t)| dt,
a a

onde usamos a desigualdade | Re(w)| ≤ |w|, válida para qualquer número


complexo w, e o fato de que |e−iθ | ≡ 1 quando θ é um número real.
Para completar a demonstração da desigualdade (d), basta lembrar que
Rb
r = | a f (t) dt|, ou seja,
Z b Z b
| f (t) dt| = r ≤ |f (t)| dt.
a a


120 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Exemplo 6.8. Obtenha uma cota superior para o módulo da integral


Z π
2
eit dt.
0

Segue da desigualdade (d) que


Z π Z π
it2 2
| e dt| ≤ |eit | dt
0
Z0 π
= 1 dt = π,
0
2
pois |eit | = | cos t2 + i sen t2 | ≡ 1.
Em seguida apresentamos a classe de contornos que será usada de agora
em diante.
Definição 6.9. Um contorno (ou caminho ou curva) é uma aplicação γ de
um intervalo [a, b] com imagem em C, γ(t) = x(t) + iy(t), onde x e y são
funções contı́nuas em [a, b], e as derivadas x′ e y ′ são funções contı́nuas por
partes em [a, b], i.e., existe uma partição t0 = a < t1 < · · · < tn = b de [a, b]
satisfazendo:
(a) x e y são funções contı́nuas no intervalo [a, b], e deriváveis em cada
subintervalo (tk−1 , tk ), k = 1, 2, . . . , n;
(b) as funções x′ e y ′ possuem limites laterais finitos quando t tende
aos extremos tk−1 e tk ; em t0 só haverá o limite lateral à direita, e
em tn só o limite lateral à esquerda.
O traço de γ é a imagem da aplicação γ em C, ou seja, o traço de γ é o
seguinte subconjunto de C (ou de R2 ):
γ ∗ = {γ(t) : a ≤ t ≤ b}
= {(x(t), y(t)) : t ∈ [a, b]}.

É comum dizer que os pontos do traço de um contorno γ são parametrizados


por esse contorno.
Exemplo 6.10. Vamos identificar os traços dos seguites contornos:
(a) γ(t) = cos t + i sen t, 0 ≤ t ≤ 2π.
(b) γ(t) = sen t + i sen2 t, 0 ≤ t ≤ π/2.
(c) γ(t) = t + i|t|, −1 ≤ t ≤ 1.

O traço do contorno do √ item (a) é um cı́rculo de centro na origem e


raio um. De fato, |γ(t)| = cos2 t + sen2 t = 1; além disso, para cada ponto
z satisfazendo a equação |z| = 1, existe um t em [0, 2π) tal que γ(t) = z;
6.1. Integral de Contorno 121

Figura 6.3. Traços dos itens (b) e (c) do Exemplo 6.10.

de fato, em virtude da representação polar desse z com o único valor do


argumento de z em [0, 2π) denotado por t, temos

z = 1(cos t + i sen t)
= γ(t).

O traço do contorno do item (b) é um arco de parábola unindo os pontos


(0, 0) e (1, 1), já que y(t) = sen2 t = (x(t))2 ; veja a Figura 6.3; não confunda
os gráficos de x = x(t) ou de y = y(t) com o traço de γ.
No contorno do item (c), temos x(t) = t e y(t) = |t|; logo, o traço desse
contorno é o seguinte subconjunto de R2 :

γ ∗ = {(x(t), y(t)) : t ∈ [−1, 1]} = {(t, |t|) : t ∈ [−1, 1]}.

Nesse caso, o traço de γ coincide com o gráfico da função y = y(t), t ∈ [−1, 1].
Para ver que x = x(t) e y = y(t) satisfazem as condições da Definição 6.9,
observamos que elas são contı́nuas no intervalo [−1, 1] e que a função y(t) =
|t| não é derivável em t = 0, mas é derivável nos intervalos (−1, 0) e (0, 1);
além disso, y ′ = y ′ (t) possui limites laterais finitos quando t → 0 pela
esquerda, e também quando t → 0 pela direita. Assim, y ′ é contı́nua por
partes em [−1, 1]; a função x′ (t) ≡ 1 é contı́nua em [−1, 1].

Observação 6.11. Note que contornos distintos podem ter o mesmo traço.
O traço de γ1 (t) = cos t + i sen t, 0 ≤ t ≤ 4π, é igual ao traço do contorno γ
do item (a), ou seja, os pontos do cı́rculo |z| = 1, só que agora esses pontos
são as imagens de γ1 (t) para dois valores distintos de t.
Note também que o mesmo traço do contorno do item (b) pode ser
obtido com γ2 (t) = t + it2 , 0 ≤ t ≤ 1, pois y(t) = t2 = (x(t))2 e γ2 (0) = 0 e
γ2 (1) = 1 + i.

Agora estamos em condições de definir a integral de contorno.

Definição 6.12. Sejam γ = γ(t) um contorno definido em [a, b] e f = f (z)


uma função definida e contı́nua em algum conjunto contendo o traço de γ.
122 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Figura 6.4. Dfinição da integral de contorno.

A integral de f ao longo de γ é definida por


Z Z b
f (z) dz = f (γ(t))γ ′ (t) dt
γ a
Z Z (6.4)
b b
= û(t) dt + i v̂(t) dt,
a a
onde û = û(t) é a parte real do número complexo f (γ(t))γ ′ (t), e v̂ = v̂(t) é
a parte imaginária desse mesmo número.

As integrais de û = û(t) e de v̂ = v̂(t) estão bem definidas, visto que a


aplicação
t 7→ f (γ(t)) = u(x(t), y(t)) + iv(x(t), y(t))
é contı́nua em [a, b] e, da definição de contorno, temos que as partes real
e imaginária de γ ′ (t) = x′ (t) + iy ′ (t) são funções contı́nuas por partes em
[a, b], logo as funções
û(t) = u(x(t), y(t))x′ (t) − v(x(t), y(t))y ′ (t)
e
v̂(t) = v(x(t), y(t))x′ (t) + u(x(t), y(t))y ′ (t)
são contı́nuas por partes em [a, b].
Exemplo 6.13. Calcule a integral de f (z) = z̄ ao longo dos seguintes
contornos: (
t se 0 ≤ t ≤ 1,
γ(t) =
1 + i(t − 1) se 1 < t ≤ 2
e
γ1 (t) = t + it, onde 0 ≤ t ≤ 1.

Veja os traços de γ e de γ1 na Figura 6.5. Pela definição (6.4) da integral


de f ao longo de γ, temos
Z Z 2 Z 1 Z 2

f (z) dz = f (γ(t))γ (t) dt = t1 dt + [1 − i(t − 1)]i dt = 1 + i.
γ 0 0 1
6.1. Integral de Contorno 123

Figura 6.5. Traços de γ e de γ1 .

Para a integral de f ao longo de γ1 , temos


Z Z 1 Z 1 Z 1
f (z) dz = f (γ1 (t))γ1′ (t) dt = (t − it)(1 + i) dt = 2t dt = 1.
γ1 0 0 0

Observação 6.14. Os pontos inicial e final dos contornos γ e γ1 são os


mesmos, mas as integrais deram resultados distintos. Logo, em geral, a
integral definida em (6.4) depende do contorno γ.
O próximo teorema apresenta uma classe de integrandos cuja integral
ao longo de um contorno depende apenas dos pontos inicial e final desse
contorno. É claro que a função f (z) = z̄ não satisfaz as hipóteses do referido
teorema (qual hipótese não é válida?).
Teorema 6.15. Suponha que f = f (z) seja contı́nua em algum conjunto
aberto D contendo o traço do caminho γ : [a, b] → C, e que exista uma
função F = F (z) tal que F ′ (z) = f (z) em todo z de D (ou seja, f possui
uma primitiva F = F (z) em D). Então
Z
f (z) dz = F (γ(b)) − F (γ(a)).
γ
Em particular, essa integral não depende do caminho γ, depende apenas dos
pontos inicial e final dele.

Demonstração. Pela definição (6.4) da integral de contorno ao longo de


γ, e pela regra da cadeia, temos:
Z Z b Z b Z b
′ ′ ′ d(F ◦ γ)
f (z) dz = f (γ(t))γ (t) dt = F (γ(t))γ (t) dt = (t) dt
γ a a a dt
= F (γ(b)) − F (γ(a)),
onde usamos o Teorema Fundamental do Cálculo de funções de uma variável
real para obter a última igualdade. 
Exemplo 6.16. A integral de contorno de um polinômio ao longo de qual-
quer contorno fechado γ = γ(t), a ≤ t ≤ b, i.e., γ(a) = γ(b), é sempre
nula.
124 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

De fato, considere um polinômio de grau n,


p(z) = an z n + an−1 z n−1 + · · · + a1 z + a0 ,
com coeficientes complexos. É claro que
an n+1 an−1 n a1
P (z) = z + z + · · · + z 2 + a0 z
n+1 n 2
é uma primitiva de p = p(z), i.e., P ′ (z) = p(z) em todo z de C. Pelo
Teorema 6.15 temos que
Z
p(z) dz = P (γ(a)) − P (γ(b)) = 0,
γ
para qualquer contorno γ fechado.
Exemplo 6.17. Calcule a integral
Z
1
dz
γ 1 + z2
ao longo dos seguintes contornos: (a) γ1 (t) = t + it, 0 ≤ t ≤ 1 e (b)
γ2 (t) = 1 + eit , 0 ≤ t ≤ 2π.

Vimos no Exemplo 5.37 que a função z 7→ arctan z é derivável no con-


junto
1
D1 = C \ {z = 0 + iy : |y| ≥ 1}, arctan′ (z) = .
1 + z2
O traço de γ1 é um segmento de reta que une (0, 0) ao ponto (1, 1); o traço
de γ2 é um cı́rculo de centro em 1 e raio 1. Logo, os dois contornos estão
contidos no conjunto aberto D1 . Assim, podemos usar o Teorema 6.15 em
ambos os casos:
Z
1   i
2
dz = arctan γ1 (1) − arctan γ1 (0) = Log(−1 − 2i)
γ1 1 + z 2
e Z
1  
2
dz = arctan γ2 (2π) − arctan γ2 (0) = 0,
γ2 1 + z
pois o segundo contorno é fechado, i.e., γ2 (2π) = γ2 (0).
A hipótese de que f = f (z) possui uma primitiva em algum conjunto
aberto contendo o traço de γ no Teorema 6.15 não pode, em geral, ser
removida, como mostra o seguinte exemplo.
Exemplo 6.18. Calcule a integral de contorno da função f (z) = 1/z, z 6= 0,
ao longo do contorno fechado γ(t) = eit , 0 ≤ t ≤ 2π.

Pela definição (6.4), temos


Z Z 2π
1 it
f (z) dz = ie dt = 2πi,
γ 0 eit
6.1. Integral de Contorno 125

Figura 6.6. Traços de γ e de γ − .

e o contorno é fechado: γ(0) = γ(2π).


Em seguida vamos apresentar algumas propriedades das integrais de
contorno. Antes precisamos introduzir o conceito de caminho oposto a um
caminho γ = γ(t), t ∈ [a, b].
Definição 6.19. Para cada caminho γ = γ(t), t ∈ [a, b], associamos o
caminho oposto a γ, denotado por γ − , e definido por
γ − (t) = γ(a + b − t), t ∈ [a, b].
Os traços dos caminhos γ e γ − são iguais, mas os pontos desse traço são
percorridos em sentidos opostos assim que o parâmetro t cresce de a até b.

Teorema 6.20. São válidas as seguintes propriedades para uma integral de


contorno:
R R R
(a) γ [f + g](z) dz = γ f (z) dz + γ g(z) dz.
R R
(b) γ (cf )(z) dz = c γ f (z) dz, onde c ∈ C.
R
(c) | γ f (z) dz| ≤ M L, onde M é uma constante tal que |f (γ(t))| ≤ M
Rb
em todo t de [a, b] e L = a |γ ′ (t)| dt.
R R
(d) γ − f (z) dz = − γ f (z) dz, onde γ − (t) ≡ γ(a + b − t) é o caminho
oposto de γ.

Demonstração. Da definição da integral de contorno (6.4), e dos itens (a)


e (b) da Proposição 6.7, seguem facilmente as asserções (a) e (b) do teorema.
Quanto à asserção (c), usamos o item (d) da Proposição 6.7 e o fato de
que |f (γ(t))| ≤ M em todo t de [a, b]:
Z Z b Z b

| f (z) dz| = | f (γ(t))γ (t) dt| ≤ |f (γ(t))||γ ′ (t)| dt
γ a a
Z b
≤M |γ ′ (t)| dt.
a
126 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Agora basta observar que a última integral é a definição de L, e assim fica


demonstrada a desigualdade (c).
Para verificar a igualdade em (d), denotamos por τ = τ (t) a função de
[a, b] em [a, b], definida por τ (t) = a + b − t; pela regra da cadeia, temos
dγ − dγ dτ
(t) = [τ (t)] (t).
dt dτ dt
Logo
Z Z b Z b
− dγ − dγ dτ
f (z) dz = f (γ (t)) (t) dt = f (γ(a + b − t)) (a + b − t) (t) dt
γ− a dt a dτ dt
Z a

= f (γ(τ )) (τ ) dτ
b dτ
Z b

=− f (γ(τ )) (τ ) dτ ;
a dτ
a penúltima integral foi obtida ao fazer a substituição de variáveis τ (t) =
a + b − t, lembrando que dτdt dt = dτ . Note que a última das integrais dessa
cadeia, sem o sinal de menos, é a integral de f ao longo de γ, ou seja
Z Z
f (z) dz = − f (z) dz.
γ− γ


Observação 6.21. O número
Z b
L= |γ ′ (t)| dt,
a

usado na desigualdade (c) do teorema, pode ser maior do que o comprimento


do traço de γ, visto que a integral depende do caminho (i.e., da função) γ
e não só de seu traço; por exemplo, o traço do caminho γ(t) = reit , com
0 ≤ t ≤ 4π, é um cı́rculo de centro em zero e raio r, o comprimento do traço
é 2πr, e no entanto L = 4πr.

Exemplo 6.22. Use a desigualdade (c) do Teorema 6.20 para mostrar que
Z
eiz πR
| 2
dz| ≤ 2 ,
γ z +4 R −4
onde R > 2 e γ(t) = Reit , com 0 ≤ t ≤ π.

Uma cota superior M para


|eiγ(t) |
|f (γ(t))| = , (6.5)
|γ 2 (t) + 4|
6.2. Existência de primitiva 127

Figura 6.7. Traço de γ do Exemplo 6.22.

como definida em (c), pode ser encontrada da seguinte maneira: usamos a


desigualdade triangular |a + b| ≥ ||a| − |b|| no denominador de (6.5) para
encontrarmos a cota inferior |γ 2 (t) + 4| ≥ R2 − 4 e, como
|eiγ(t) | = |eiR cos t−R sen t | = |eiR cos t | |e−R sen t |
= e−R sen t ≤ 1 em todo t ∈ [0, π],
obtemos
|eiγ(t) | 1
|f (γ(t))| = ≤ 2 , no caso em que R > 2.
|γ 2 (t) + 4| R −4
Agora resta lembrar que L = πR para o contorno γ desse exemplo. Portanto,
Z
eiz πR
| 2
dz| ≤ 2 .
γ z +4 R −4

Observação 6.23. No cálculo de integrais impróprias usando o teorema dos


resı́duos (Seção 8.11 ou Seção 8.12), esse tipo de desigualdade é indispensável
para mostrarmos que
Z
eiz
lim dz = 0.
R→∞ γ z 2 + 4

6.2. Existência de primitiva


Apresentaremos agora condições suficientes para que uma função contı́nua
tenha primitiva. Antes, definimos os conjuntos estrelados em C.
Definição 6.24. Um conjunto aberto é estrelado com respeito a um ponto
p se, para todo ponto q desse conjunto, o segmento de reta que une p a q
estiver inteiramente contido nesse conjunto. Dizemos que um subconjunto
aberto de C é estrelado quando ele for estrelado com respeito a um de seus
pontos.

Todo conjunto convexo é estrelado com respeito a qualquer um de seus


pontos. Mas um conjunto pode ser estrelado com respeito a um de seus
pontos e não ser convexo, como o conjunto P− = C\(−∞, 0]. O conjunto P−
128 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Figura 6.8. Conjuntos estrelados.

Figura 6.9. Existência de primitiva em conjunto estrelado.

é estrelado com respeito a qualquer número real positivo; ele não é estrelado
com respeito a nenhum outro ponto. Veja a Figura 6.8.
A seguir apresentamos uma condição suficiente para que uma função
contı́nua definida em um conjunto estrelado tenha primitiva.

Teorema 6.25. Seja f = f (z) uma função definida e contı́nua em um


conjunto aberto e estrelado U . Se a integral de contorno de f ao longo do
bordo de cada triângulo inteiramente contido em U for nula, então existe
uma função F = F (z), derivável em U , tal que

F ′ (z) = f (z), em todo z ∈ U .


Em outras palavras, f = f (z) possui uma primitiva em U .

Demonstração. Suponha que U seja estrelado com respeito a z0 . Para


cada z de U , definimos
Z z
F (z) = f (w) dw;
z0

nessa demonstração, o sı́mbolo de integral de z0 a z significa integral de con-


torno ao longo do segmento de reta que une z0 a z, nesse sentido (digamos,
γ(t) = z0 + t(z − z0 ), 0 ≤ t ≤ 1). Vamos mostrar que F ′ (z) = f (z).
Fixemos z em U e seja r > 0 tal que o disco D de centro em z e raio
r esteja contido em U ; veja a Figura 6.9. Seja h tal que 0 < |h| < r. Por
hipótese, a integral ao longo do bordo do triângulo de vértices z0 , z e z + h
6.3. Teorema de Cauchy 129

é nula, logo
Z z+h Z z Z z+h
f (w) dw = f (w) dw + f (w) dw.
z0 z0 z
Com essa igualdade, simplificamos o quociente de diferenças:
Z Z z
F (z + h) − F (z) 1  z+h 
= f (w) dw − f (w) dw
h h z0 z0
Z z+h (6.6)
1
= f (w) dw.
h z
Para ver que o lado direito de (6.6) tende a f (z) quando h → 0, escrevemos
Z Z
1 z+h 1 z+h
f (w) dw − f (z) = [f (w) − f (z)] dw.
h z h z
A função f = f (z) é contı́nua em z, logo, para cada ε > 0, existe um δ > 0
[podemos escolher δ ≤ r] tal que
|f (w) − f (z)| < ε sempre que |w − z| < δ.
Assim, se 0 < |h| < δ, pela desigualdade do item (c) do Teorema 6.20,
obtemos
Z Z
1 z+h 1 z+h
| f (w) dw − f (z)| = | [f (w) − f (z)] dw|
h z h z
1
≤ ε|h| = ε.
|h|
Em vista de (6.6), acabamos de mostrar pela definição de limite que
F (z + h) − F (z)
lim = f (z).
h→0 h
Em outras palavras, ′
F (z) = f (z), ou seja a f possui primitiva em U . 

6.3. Teorema de Cauchy


O Teorema 6.15 garante que a integral ao longo de um contorno fechado γ
é nula no caso em que o integrando f = f (z) possui uma primitiva em um
conjunto aberto contendo o traço de γ.
Substituir a existência de primitiva por diferenciabilidade de f = f (z)
em conjunto aberto contendo o traço de γ não é suficiente para a integral
ser nula, como foi mostrado no Exemplo 6.18.
Porém, se γ parametriza o bordo de uma região “simples”, como uma
região do plano complexo delimitada por um triângulo, ou por uma elipse,
ou por um retângulo, e se f = f (z) for derivável em todos os pontos de um
conjunto aberto contendo uma dessas regiões, então a integral de contorno
de f ao longo de γ é nula. Essa é uma versão básica do Teorema de Cauchy.
130 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Figura 6.10. Contornos simples e com auto-interseção.

Em seguida daremos definições precisas das regiões e dos contornos a


serem considerados na apresentação desse Teorema.
Usaremos o teorema de Green na apresentação do teorema de Cauchy.
Para relembrar seu enunciado, precisamos de algumas definições. Lem-
bramos que um contorno (ou caminho ou curva) γ = γ(t) é fechado quando
γ(a) = γ(b); ele é fechado e simples quando γ(t1 ) 6= γ(t2 ) se a < t1 < t2 ≤ b;
veja a Figura 6.10, à esquerda; na mesma figura à direita, temos o traço
de um contorno fechado com auto-interseção fora dos pontos inicial e final,
logo é um contorno fechado que não é simples.
Definição 6.26. Dizemos que uma região G do plano é simples quando ela
puder ser representada por
G = {(x, y) ∈ R2 : a ≤ x ≤ b, φ1 (x) ≤ y ≤ φ2 (x)}
e também por
G = {(x, y) ∈ R2 : c ≤ y ≤ d, ψ1 (y) ≤ x ≤ ψ2 (y)},
onde as funções φj e ψj , j = 1, 2, são contı́nuas e suas derivadas são contı́nuas
por partes, φ1 (x) < φ2 (x) se a < x < b e ψ1 (y) < ψ2 (y) se c < y < d.

De acordo com a Figura 6.11, à esquerda, os pontos do bordo da região


G que estão acima do segmento de reta que une os pontos D e B formam
o gráfico de φ2 , os que estão abaixo desse segmento formam o gráfico de
φ1 ; analogamente, a parte do bordo que está à esquerda do segmento que
une os pontos A e C formam o gráfico de ψ1 , e os que estão à direita desse
segmento formam o gráfico de ψ2 .
Regiões delimitadas por cı́rculos, elı́pses ou triângulos são exemplos de
regiões simples. A região da Figura 6.11, à direita, não é simples, mas se
usarmos o eixo-y para dividi-la ao meio obteremos duas regiões simples G1
e G2 ; G1 é a parte que fica no segundo quadrante, incluindo a fronteira no
eixo y, e G2 é a parte que fica no primeiro quadrante, com a mesma fronteira
do eixo y.
Precisamos ainda definir o que é a orientação positiva dos pontos do
bordo de uma região simples.
6.3. Teorema de Cauchy 131

Figura 6.11. Uma região simples e uma união de duas simples.

Figura 6.12. Teorema de Green.

Definição 6.27. Dizemos que um ponto (x, y) é interior à região simples


da Definição 6.26 quando a < x < b e φ1 (x) < y < φ2 (x). Dizemos que
os pontos do bordo daquela região estão orientados no sentido positivo (ou
anti-horário) quando um observador que caminhe ao longo do bordo em tal
sentido vê os pontos do interior da região sempre à sua esquerda.

Agora estamos em condições de enunciar o teorema de Green.


Teorema 6.28 (Green). Suponha que as funções P = P (x, y) e Q =
Q(x, y), e suas derivadas parciais de primeira ordem, sejam contı́nuas em
algum conjunto aberto contendo a região simples G. Então temos a igual-
dade ZZ Z
∂Q ∂P
[ − ] dxdy = P dx + Q dy, (6.7)
G ∂x ∂y γ
onde γ é um contorno fechado, simples, cujo traço é o bordo da região G,
percorrido no sentido positivo.

Uma boa referência para o Teorema de Green é o livro “Calculus”,


volume II, de T. M. Apostol, segunda edição; na seção 11.24 desse livro
encontra-se uma abordagem analı́tica do conceito de orientação positiva.
O próximo teorema é essencial para a teoria de funções de variáveis
complexas.
132 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Teorema 6.29 (Cauchy). Seja f = f (z) definida e derivável em algum


conjunto aberto contendo uma região G simples. Suponha que γ seja um
caminho fechado, simples, parametrizando o bordo da região G. Então
Z
f (z) dz = 0.
γ

Demonstração. Demonstraremos uma versão mais simples do Teorema de


Cauchy, baseada no Teorema de Green. Para proceder assim, fazemos a
suposição adicional de que a derivada f ′ é uma função contı́nua em um
conjunto aberto U que contém G; a continuidade de f ′ não é necessária
para a validade do Teorema de Cauchy [veja Observação 6.30], mas é a
maneira que temos para concluir que as derivadas parciais ux , uy , vx e vy
são contı́nuas em U , e assim podermos usar o teorema de Green.
Com efeito, sendo z = x + iy, escrevemos f (z) = u(x, y) + iv(x, y); como
a derivada f ′ (z) = ux (x, y) + ivx (x, y) é uma função contı́nua nos pontos
de U , temos que as derivadas parciais ux e vx são funções contı́nuas em U ;
segue das equações de Cauchy-Riemann que uy e vy são também contı́nuas
em U .
Pela definição da integral de contorno (6.4), temos
Z Z b
f (z) dz = f (γ(t))γ ′ (t) dt
γ a
Z b
= [u(x(t), y(t))x′ (t) − v(x(t), y(t))y ′ (t)] dt
a
Z b
+i [v(x(t), y(t))x′ (t) + u(x(t), y(t))y ′ (t)] dt.
a
Essas duas últimas integrais no intervalo [a, b] são as integrais de linha
Z Z
u dx + (−v) dy e v dx + u dy.
γ γ
Calculando essas duas integrais de linha pelo teorema de Green (podemos
supor que γ parametriza o bordo de G no sentido positivo), temos:
Z ZZ ZZ
f (z) dz = [−vx − uy ] dxdy + i [ux − vy ] dxdy.
γ G G
Das equações de Cauchy-Riemann sabemos que ux = vy e uy = −vx em
cada ponto (x, y) de G, logo as duas últimas integrais são nulas e o teorema
de Cauchy está demonstrado, no caso em que a derivada f ′ é contı́nua. 
Observação 6.30. Teorema de Cauchy que acabamos de demonstrar é sufi-
ciente para todas as aplicações, pelo seguinte motivo: em 1900, o matemático
francês E. Goursat deu outra demonstração do Teorema de Cauchy, sem usar
o Teorema de Green, conseguindo dispensar a hipótese de que f ′ é contı́nua
6.3. Teorema de Cauchy 133

Figura 6.13. Cálculo do Exemplo 6.31.

em U ; essa demonstração pode ser vista em Complex Variables, S. D. Fisher,


pag. 119.
Com a versão do Teorema de Cauchy demonstrada por Goursat, pode-
se mostrar, como veremos nas próximas páginas (Teorema 7.4), que se uma
função f = f (z) é derivável em um conjunto aberto de C, então f possui
derivada de segunda ordem, logo a derivada f ′ é necessariamente contı́nua
no mesmo conjunto.

A seguir usaremos o Teorema de Cauchy para calcularmos uma integral


imprópria muito útil nas aplicações.
Exemplo 6.31. Mostre que
Z ∞ √
−x2 π −b2
e cos 2bx dx = e .
0 2
Aplicaremos o Teorema de Cauchy à região retangular G, com vértices
−R, R, R+ib e −R+ib, onde b > 0; veja a Figura 6.13; o bordo dessa região é
formado por quatro segmentos parametrizados por: γ1 (t) = t, −R ≤ t ≤ R,
γ2 (t) = R + it, 0 ≤ t ≤ b, γ3 (t) = t + ib, −R ≤ t ≤ R e γ4 (t) = −R + it,
0 ≤ t ≤ b.
Consdidere um contorno fechado e simples γ cujo o traço é a união dos
traços dos contornos γ1 , γ2 , γ3− e γ4− , i.e., os quatro segmentos do bordo de
G percorridos no sentido anti-horário; note a inversão no sentido de percurso
nos dois últimos contornos.
2
A função a ser integrada ao longo de γ é f (z) = e−z , a qual é derivável
2
em C e sua derivada f ′ (z) = −2ze−z é contı́nua em C. Pelo teorema de
Cauchy, temos Z
2
e−z dz = 0.
γ
Segue da definição de integral de contorno que
Z R Z b Z R
−t2 −(R+it)2 2
e dt + e i dt − e−(t+ib) dt
−R 0 −R
Z b
(6.8)
−(−R+it)2
− e i dt = 0.
0
134 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Para a primeira integral de (6.8), usando coordenadas polares, pode-se


mostrar que
Z R
2 √
lim e−t dt = π.
R→∞ −R
Para ver que a segunda integral tende a zero quando R → ∞, observe que
Z b Z b Z b
2 2 2 2 2
| e−(R+it) i dt| = |e−R i et −i2Rt dt| ≤ e−R |et −i2Rt | dt
0 0 0
Z b
−R2 2
=e et dt,
0

onde usamos a desigualdade (d) da Proposição 6.7 e o fato que |e−2iRt | ≡ 1.


Portanto, a segunda integral tende a zero quando R → ∞; a quarta integral
de (6.8) tende a zero pelos mesmos motivos.
Quanto à terceira integral de (6.8), observamos que
Z R Z R
2 2 2
e−(t+ib) dt = eb e−t −2ibt dt
−R −R
Z R Z R
2 2 2
= eb [ e−t cos 2bt dt − i e−t sen 2bt dt].
−R −R
2
A última integral do lado direito é nula, visto que e−t sen 2bt é uma função
impar em t. Obtemos então uma expressão apropriada para calcular a inte-
gral do exemplo:
Z R Z R
−(t+ib)2 b2 2
e dt = e e−t cos 2bt dt (6.9)
−R −R

Substituı́mos (6.9) em (6.8) e, em seguida, fazemos R → ∞ na igualdade



(6.8), lembrando que o limite da primeira integral é π, e também que os
limites da segunda e da quarta integrais de (6.8) são nulos. Dessa maneira,
obtemos Z ∞
√ b2 2
π−e e−t cos 2bt dt = 0,
−∞
ou seja Z ∞ √
2 2
e−t cos 2bt dt = πe−b .
−∞
Finalmente, o resultado desejado segue da observação de que o último in-
tegrando é uma função par, logo essa integral é o dobro da que queremos
calcular.
Em seguida usaremos o teorema de Cauchy para representar o Log z
como uma integral de contorno. Lembramos que
P− = C \ {z = x + i0 : x ≤ 0}.
6.4. Extensão do Teorema de Cauchy 135

Figura 6.14. Extensão do Teorema de Cauchy.

Exemplo 6.32. Verifique que


Z z
1
Log z = dw, z ∈ P− ,
1 w
onde o sı́mbolo de integral de 1 a z significa integral de contorno ao longo
do segmento de reta, inteiramente contido em P− , que vai de 1 a z, com
essa orientação. Lembramos que o conjunto P− é estrelado com respeito ao
número real 1.

Pelo teorema de Cauchy, sabemos que a integral de f (w) = 1/w ao


longo do contorno de qualquer triângulo, inteiramente contido em P− , é
nula. Logo, em virtude do Teorema 6.25, a função
Z z
1
F (z) = dw, z ∈ P− ,
1 w
é derivável e F ′ (z) = 1/z, z ∈ P− . Portanto, como Log′ (z) = 1/z em P− ,
temos que
(Log −F )′ (z) = 0, z ∈ P− .
Segue da Proposição 4.25 e Observação 4.26 que (Log −F )(z) ≡ c, onde c é
uma constante. Visto que Log 1 = 0 e que F (1) = 0, concluı́mos que c = 0,
ou seja, Z z
1
Log(z) = F (z) = dw, z ∈ P− .
1 w

6.4. Extensão do Teorema de Cauchy


Na demonstração da fórmula integral de Cauchy necessitaremos de uma
versão do teorema de Cauchy para regiões que não são simples, mas que
podem ser dividas em um número finito de regiões simples, como o exemplo
a seguir: tome uma região simples G e remova um pequeno disco D do seu
interior, resultando a região K da Figura 6.14.
Vamos escolher a orientação positiva para a fronteira da região K, isto
é, a parte externa da fronteira recebe a orientação anti-horária, e a interna
(o bordo do disco) recebe a orientação horária. Suponha que as duas partes
136 6. Integral de Contorno e o Teorema de Cauchy

Figura 6.15. Subdivisão de K em regiões simples.

da fronteira de K, com a orientação positiva, sejam parametrizadas pelos


contornos fechados e simples γ e γ1 , sendo γ1 o que parametriza o bordo do
disco D.
Agora enunciamos uma extensão do Teorema de Cauchy para uma região
como a que acabamos de apresentar.
Proposição 6.33. Seja K = G \ D a região que acabamos de definir, onde
G é uma região simples e D um disco contido no interior de G. Suponha
que a orientação da fronteira de K seja positiva, e que função f = f (z) seja
derivável em algum conjunto aberto contendo K e seu bordo (ou fronteira).
Então vale a seguinte extensão do Teorema de Cauchy:
Z Z
f (z) dz + f (z) dz = 0. (6.10)
γ γ1

Demonstração. Nessa região K, ao traçar, pelo centro do disco, duas re-


tas perpendiculares, cada uma delas paralela a um dos eixos de coordenadas
x ou y, obtemos quatro subregiões simples; na Figura 6.15 as quatro sub-
regiões simples estão ligeiramente afastadas uma das outras para facilitar a
visualização.
As interseções das duas retas com o interior de K produzem quatro
segmentos, cada um deles sendo bordo comum de duas regiões adjacentes e,
ao introduzir orientação positiva em cada subregião de K, vemos que cada
segmento será percorrido duas vezes, em sentidos opostos.
Aplicamos o teorema de Cauchy em cada uma das quatro subregiões,
denotadas por I, II, III e IV , obtendo
Z Z
f (z) dz = 0, f (z) dz = 0, (6.11)
∂(I) ∂(II)
e também Z Z
f (z) dz = 0 e f (z) dz = 0, (6.12)
∂(III) ∂(IV )
onde ∂(I), ∂(II), ∂(III) e ∂(V I) denotam os bordos das correspondentes
subregiões simples.
6.4. Extensão do Teorema de Cauchy 137

Figura 6.16. Integrais ao longo de γ e de γr são iguais.

Para obtermos a relação (6.10) entre as integrais ao longo de γ e de γ1 ,


basta somarmos membro a membro as quatro integrais de (6.11) e (6.12),
lembrando que a soma das oito integrais ao longo dos segmentos de reta nas
fronteiras das quatro subregiões se anulam. 
Exemplo 6.34. Calcule a integral de contorno da função f (z) = 1/z, com
z 6= 0, ao longo do bordo do quadrado de centro em z = 0 e vértices nos
pontos (±1, ±1), orientado no sentido anti-horário, parametrizado por um
caminho fechado e simples γ.

Em vez de calcular diretamente a integral de contorno ao longo de γ,


usaremos a equação (6.10) para calcular uma integral de f que é mais fácil;
nesse caso, calculamos a integral de f ao longo de um contorno γr (t) = reit ,
com 0 ≤ t ≤ 2π, o qual parametriza um cı́rculo de centro em zero e raio r,
contido no interior do quadrado.
O bordo da região entre γ e o cı́rculo ficará com a orientação positiva
se usarmos γ nos segmentos e o caminho oposto de γr no cı́rculo interno.
Nessas condições, segue de (6.10) que
Z Z
f (z) dz + f (z) dz = 0. (6.13)
γ γr−

Agora calculamos a integral de f ao longo de γr− :


Z Z Z 2π
1
f (z) dz = − f (z) dz = − it
ireit dt = −2πi.

γr γr 0 re
É claro que a integral de f ao longo de γ será 2πi, em virtude de (6.13).
Capı́tulo 7

Fórmula Integral de
Cauchy

7.1. Fórmula Integral de Cauchy


Inicialmente demonstraremos a Fórmula Integral de Cauchy usando a ex-
tensão do teorema de Cauchy, dada pela equação (6.10). Em seguida várias
consequências importantes dessa fórmula, como o Teorema de Taylor, o Teo-
rema de Liouville e o Teorema Fundamental da Álgebra, serão obtidas.

Teorema 7.1 (Fórmula Integral de Cauchy). Seja f = f (z) uma função


derivável em algum subconjunto aberto de C contendo uma região simples G
e o seu bordo. Suponha que esse bordo seja orientado no sentido positivo e
parametrizado por um caminho fechado e simples γ. Então para cada z do
interior de G vale a representação integral
Z
1 f (w)
f (z) = dw.
2πi γ w − z

Figura 7.1. Fórmula integral de Cauchy.

139
140 7. Fórmula Integral de Cauchy

Figura 7.2. Região K = G \ Dr (z).

Demonstração. Seja r > 0 suficientemente pequeno tal que o disco aberto


de centro em z e raio r, denotado por Dr (z), esteja contido no interior de
G, como na figura a seguir:
Parametrizamos o bordo desse disco por γ1 (t) = z+reit , com 0 ≤ t ≤ 2π;
note que a orientação do bordo do disco dada por γ1 é anti-horária; veja a
Figura 7.2. Por hipótese, f = f (z) é derivável em um conjunto aberto,
digamos U , o qual contém a região simples G. Logo, a função
f (w)
w 7→ , w 6= z,
w−z
é derivável no conjunto aberto U \{z}, o qual contém K = G\Dr (z). Assim,
podemos aplicar a extensão do teorema de Cauchy, i.e., equação (6.10), ao
integrando anterior na região K:
Z Z
f (w) f (w)
dw + dw = 0; (7.1)
γ w−z γ1 w − z

usamos γ1− para termos a orientação positiva no bordo de K. A integral ao


longo de γ1− é igual à integral ao longo de γ1 com o sinal trocado, logo essa
igualdade (7.1) é equivalente a
Z Z
f (w) f (w)
dw = dw. (7.2)
γ w−z γ1 w − z

Visto que a integral do lado esquerdo de (7.2) não depende de r, a Fórmula


Integral de Cauchy ficará demonstrada se mostrarmos que o limite da inte-
gral ao longo de γ1 , quando r → 0+ , é igual a 2πif (z), i.e.,
Z
f (w)
lim dw = 2πif (z). (7.3)
γ1 w − z
r→0 +

Para verificar esse limite, usamos a definição da integral de contorno em


Z Z 2π
f (w)
dw − 2πif (z) = if (z + reit ) dt − 2πif (z)
γ1 w − z 0
Z 2π
=i [f (z + reit ) − f (z)] dt.
0
7.1. Fórmula Integral de Cauchy 141

Como f é contı́nua em z, para cada ε > 0 existe um δ > 0 satisfazendo


|f (s) − f (z)| < ε sempre que |s − z| < δ;
em particular, para cada r no intervalo (0, δ), temos que |f (z+reit )−f (z)| <
ε, pois |z + reit − z| = |reit | = r < δ. Portanto, segue do item (d) da
Proposição 6.7 que
Z Z 2π
f (w)
| dw − 2πif (z)| = |i [f (z + reit ) − f (z)] dt|
γ1 w − z 0
Z 2π Z 2π
it
≤ |f (z + re ) − f (z)| dt < ε dt = 2πε,
0 0

ou seja, fica verificado o limite em (7.3).


Agora tomamos o limite na igualdade (7.2) quando r → 0+ , usamos (7.3)
e lembramos que a integral ao longo de γ não depende de r, para obtermos
Z
f (w)
dw = 2πif (z).
γ w −z
Assim fica demonstrada a Fórmula Integral de Cauchy. 

No exemplo a seguir usamos a Fórmula Integral de Cauchy em um


cálculo simples.
Exemplo 7.2. Calcule a integral de contorno
Z
eiz
2
dz,
γ z +4

onde γ(t) = i + 2eit , 0 ≤ t ≤ 2π.

Para usar Fórmula Integral de Cauchy, temos de reescrever o integrando


como
eiz eiz /(z + 2i)
= .
z2 + 4 z − 2i
Visto que a função z 7→ eiz /(z + 2i) é derivável em um conjunto aberto
contendo o disco |z − i| ≤ 2, e que z0 = 2i é um ponto interior desse disco,
temos
Z Z iz
eiz e /(z + 2i)
2+4
dz = dz
γ z γ z − 2i
ei2i π
= 2πi = 2.
2i + 2i 2e
A seguir usamos a Fórmula Integral de Cauchy para calcular uma trans-
formada de Fourier. Lembramos que a transformada de Fourier de uma
142 7. Fórmula Integral de Cauchy

Figura 7.3. Regiões simples do Exemplo 7.3.

função f = f (x) é definida por


Z ∞
F[f (x)](λ) = f (x)eiλx dx,
−∞
desde que essa integral imprópria exista (uma breve revisão de integral
imprópria pode ser vista na Seção 8.10)
Exemplo 7.3. Calcule a transforma de Fourier
Z ∞
1  1
F 2 (λ) = 2
eiλx dx.
x +4 −∞ x + 4

A região simples que usaremos deve conter o segmento [−M, M ] do eixo


real no seu bordo, pois
Z ∞ Z M
1 iλx 1
2+4
e dx = lim 2+4
eiλx dx.
−∞ x M →∞ −M x
Podemos unir M a −M com um semicı́rculo de centro em zero e raio M ,
contido no semiplano superior, y ≥ 0; como veremos a seguir, esse tipo de
região facilita os cálculos na hora de tomar o limite quando M → ∞. Veja
a Figura 7.3 O bordo dessa região simples pode ser parametrizada por um
contorno γ, fechado, simples, cujo traço é o segmento de reta de −M até
M , seguido do semicı́rculo CM (t) = M eit , 0 ≤ t ≤ π. Pela Fórmula Integral
de Cauchy, temos
Z iλz Z M Z
e /(z + 2i) 1 iλx eiλz eiλ2i
dz = 2
e dx + 2
dz = 2πi .
γ z − 2i −M x + 4 CM z + 4 2i + 2i
Esse uso da Fórmula Integral de Cauchy é válido porque a função f (z) =
eiλz /(z + 2i) é derivável no semiplano y > −1, e essa região aberta contém
a região simples escolhida, independente do M .
Agora resta mostrar que
Z
eiλz
lim dz = 0.
M →∞ CM z2 + 4
Essencialmente, vamos repetir o que foi feito no Exemplo 6.22; lá λ = 1.
Suponha λ > 0 (o caso λ < 0 tem de ser feito de outro modo). Para
7.1. Fórmula Integral de Cauchy 143

aplicar a desigualdade (c) do Teorema 6.20, precisamos estimar o módulo


do integrando quando |z| = M , i.e., z no traço de CM :
eiλz −λy
≤ e ,
z2 + 4 M2 − 4
onde usamos: |eiλ(x+iy) | = e−λy , pois |eix | = 1, e

|z 2 + 4| ≥ |z|2 − |4| = M 2 − 4 se M > 2,

pela desigualdade triangular. Visto que λ > 0 e y ≥ 0, temos que e−λy ≤ 1.


Segue então da desigualdade do item (c) do Teorema 6.20 que
Z

eiλz
≤ 1
2+4
dz 2−4
πM.
CM z M

É claro que quando M → ∞ o limite do produto do lado direito é zero.


Portanto, o limite da igualdade abaixo
Z M Z
1 iλx eiλz π
2
e dx + 2
dz = e−2λ
−M x + 4 CM z + 4 2
quando M → ∞, e λ > 0, é
Z ∞
1 π
eiλx dx = e−2λ .
−∞ x2 +4 2

Para o caso λ < 0, só teremos e−λy ≤ 1 se colocarmos a região simples


no semiplano y ≤ 0. Precisamente, consideramos o semidisco de centro em
zero e raio M , contido no semiplano y ≤ 0, para ser a região simples; agora
o traço de γ é o segmento de reta de M até −M , unido com o semicı́rculo
ĈM (t) = M eit , −π ≤ t ≤ 0. Pela Fórmula Integral de Cauchy, temos
Z iλz Z M Z
e /(z − 2i) 1 iλx eiλz e−iλ2i
dz = − 2
e dx + 2
dz = 2πi .
γ z − (−2i) −M x + 4 ĈM z + 4 −2i − 2i

Como λ < 0 e y ≤ 0, obtemos e−λy ≤ 1. Logo, o mesmo procedimento do


caso λ > 0 mostra que o limite quando M → ∞ da integral ao longo de ĈM
é nula. Portanto, concluı́mos que
Z ∞
1 π
2
eiλx dx = e2λ , λ < 0.
−∞ x + 4 2
Podemos reunir as integrais para λ > 0 e λ < 0 em uma única fórmula:
1  π
F (λ) = e−2|λ| .
x2 + 4 2
144 7. Fórmula Integral de Cauchy

Figura 7.4. Demonstração do Teorema 7.4.

7.2. Teorema de Taylor


Como primeira aplicação da Fórmula Integral de Cauchy, demonstraremos
que se f = f (z) for derivável no disco |z − a| < R, então f pode ser
representada nesse disco por sua série de Taylor em torno de a, i.e.,

f ′ (a) f (n) (a)


f (z) = f (a) + (z − a) + · · · + (z − a)n + · · · .
1! n!
Teorema 7.4 (Taylor). Seja f = f (z) uma função derivável em um sub-
conjunto aberto Ω de C. Então:
(a) f possui derivadas de todas as ordens em Ω;

(b) para cada disco |z − a| < R contido em Ω, a série de Taylor de f


em torno de a ∈ Ω, i.e.,

X f (n) (a)
(z − a)n ,
n!
n=0

converge nos pontos desse disco. Além disso, a soma dessa série
nesses pontos é f = f (z), i.e.,

X f (n) (a)
f (z) = (z − a)n , |z − a| < R.
n!
n=0

Demonstração. Seja a em Ω e denotemos por DR = DR (a) o subconjunto


dos z tais que |z − a| < R; como Ω é um conjunto aberto, podemos escolher
R tal que o disco DR esteja contido em Ω. Veja a Figura 7.4.
Inicialmente mostraremos que a função f pode ser representada por uma
série de potências com centro em a e convergente no disco DR , i.e.,

f (z) = c0 + c1 (z − a) + · · · + cn (z − a)n + · · · , |z − a| < R. (7.4)


7.2. Teorema de Taylor 145

Sejam z um ponto fixado de DR , r = |z−a| e γ(t) = a+r1 eit , 0 ≤ t ≤ 2π,


com r < r1 < R. Pela fórmula integral de Cauchy, temos:
Z
1 f (w)
f (z) = dw. (7.5)
2πi γ w − z
Como queremos potências de z − a, somamos e subtraı́mos a em w − z; além
disso,
1 1 1 1
= =[ ][ z−a ]. (7.6)
w−z w−a+a−z w − a 1 − ( w−a )
Agora usamos a identidade
1 y n+1
= 1 + y + y2 + · · · + yn + , y 6= 1,
1−y 1−y
com y = (z − a)/(w − a), no último termo da igualdade (7.6) para encontrar
z−a n+1
1 1 z−a z − a n ( w−a )
= [1 + + ··· + ( ) + z−a ].
w−z w−a w−a w−a 1 − ( w−a )
Efetuando a multiplicação indicada, encontramos
1 1 z−a (z − a)n (z − a)n+1
= + + · · · + + . (7.7)
w−z w − a (w − a)2 (w − a)n+1 (w − z)(w − a)n+1
Substituindo essa expressão (7.7) em (7.5), e tirando os termos (z − a)k do
sinal de integral, obtemos:
f (z) = c0 + c1 (z − a) + · · · + cn (z − a)n + Rn (z), (7.8)
onde Z
1 f (w)
ck = dw, k = 0, 1, · · · , n, (7.9)
2πi γ (w − a)k+1
e o resto Rn (z) é dado por
Z
(z − a)n+1 f (w)
Rn (z) = dw, z ∈ DR .
2πi γ (w − z)(w − a)n+1

Agora vamos mostrar que Rn (z) → 0 quando n → ∞. Aqui usaremos a


desigualdade (c) do Teorema 6.20. Como f é contı́nua no conjunto fechado e
limitado dos w em Ω tais que |w −a| = r1 , podemos escolher K satisfazendo
|f (w)| ≤ K para todo w tal que |w − a| = r1 ; além disso, em vista da
desigualdade triangular |α − β| ≥ ||α| − |β||, temos
|w − z| = |(w − a) − (z − a)| ≥ ||w − a| − |z − a||
= |w − a| − |z − a| = r1 − r.
146 7. Fórmula Integral de Cauchy

Com as desigualdades |f (w)| ≤ K e |w −z| ≥ r1 −r válidas quando |w −a| =


r1 , podemos estimar a integral que representa Rn (z):
f (w) K
| |≤ ;
(w − z)(w − a)n+1
(r1 − r)r1n+1
logo, como o comprimento do traço de γ é 2πr1 , obtemos
r n+1 K Kr1 r n+1
|Rn (z)| ≤ n+1 2πr1 = ( ) .
2π (r1 − r)r1 r1 − r r1
Visto que r < r1 , temos que (r/r1 )n+1 → 0 quando n → ∞, logo
Rn (z) → 0 quando n → ∞.
Segue de (7.8) e desse último limite que
|f (z) − [c0 + c1 (z − a) + · · · + cn (z − a)n ]| = |Rn (z)| → 0
quando n → ∞, ou seja

X
f (z) = cn (z − a)n para todo z no disco |z − a| < R.
n=0

Em virtude dessa representação de f = f (z) em série de potências con-


vergente no disco DR , podemos usar o Corolário 5.8 do teorema de derivação
termo-a-termo de série de potências para concluir que f possui derivadas de
todas as ordens no disco |z − a| < R, e que o coeficiente cn na representação
acima é o enésimo coeficiente de Taylor de f = f (z) no ponto a:
f ′ (a) f ′′ (a) f (n) (a)
c0 = f (a), c1 = , c2 = , ··· , cn = ,··· (7.10)
1! 2! n!
Visto que a é um ponto arbitrário de Ω, concluı́mos que f possui derivadas
de todas as ordens não só em DR , mas em todo o aberto Ω. Isso completa
a demonstração do Teorema de Taylor. 

7.2.1. Representação de funções em séries de Taylor.


Exemplo 7.5. Escreva a série de Taylor da função f (z) = Log(1 + z),
|z| < 1, em torno do ponto z0 = 0.

A função Log(1 + z) é derivável no plano complexo exceto nos números


z tais que 1 + z seja um número real negativo ou zero, i.e., o domı́nio de f
é o plano complexo menos a semireta {z = x + i0 : x ≤ −1}; logo a função
f é derivável no disco |z| < 1 e assim, pelo Teorema 7.4, é igual à sua série
de Taylor no disco |z| < 1.
Para calcular os coeficientes de Taylor precisamos de
1 1 2
f (0) = 0, f ′ (z) = , f ′′ (z) = − 2
, f ′′′ (z) = , ··· .
1+z (1 + z) (1 + z)3
7.2. Teorema de Taylor 147

É fácil ver que o enésimo coeficiente da série de Taylor de f no ponto zero


é dado por
f (n) (0) (−1)n+1
c0 = 0, cn = = , n = 1, 2, 3 . . .
n! n
Portanto
1 1 (−1)n+1 n
Log(1 + z) = z − z 2 + z 3 − · · · + z + · · · , |z| < 1.
2 3 n
Exemplo 7.6. Obtenha a expansão da função f (z) = sen z em série de
Taylor em torno do ponto z0 = π.

Sabemos que
sen′ z = cos z, sen′′ z = − sen z, sen′′′ z = − cos z, · · · .
Assim, lembrando que os coeficientes de Taylor no ponto z0 = π são dados
por sen(n) (π)/n!, n = 0, 1, 2, · · · , e que em π as derivadas de ordem par se
anulam, obtemos
1 1 (−1)n+1
sen z = −(z − π) + (z − π)3 − (z − π)5 + · · · + (z − π)2n+1 · · · .
3! 5! (2n + 1)!
Exemplo 7.7. Represente a função g(z) = tan z, |z| < π/2, em série de
potências de z.

É fácil ver que


1 ′ 2 sen z 2 + 4sen2 z
g′ (z) = sec2 z, g ′′ (z) = () = , g ′′′
(z) = ··· .
cos2 z cos3 z cos4 z
Como o enésimo coeficiente de Taylor é da forma cn = g(n) (0)/n!, obtemos
1 2 π
g(z) = tan z = z + z 3 + z 5 + · · · , |z| < .
3 15 2
Exemplo 7.8. Escreva a expansão de Taylor da função
i i+z
h(z) = arctan z = Log( ), |z| < 1.
2 i−z
Essa expressão de arctan z foi obtida quando resolvemos a equação tan w =
z e explicitamos a solução w usando o ramo principal do logaritmo (veja Ex-
emplo 5.35). Vimos também que h = h(z) é derivável no disco |z| < 1, logo
ela é igual à sua série de Taylor em torno de z0 = 0.
Para calcular os coeficientes de Taylor precisamos de
1 −2z 6z 2 − 2
h(0) = 0, h′ (z) = , h′′ (z) = , h′′′ (z) = ··· .
1 + z2 (1 + z 2 )2 (1 + z 2 )3
Logo
1 1 1
arctan z = z − z 3 + z 5 − z 7 + · · · , |z| < 1.
3 5 7
148 7. Fórmula Integral de Cauchy

7.2.2. Um caso particular da regra de L’Hôpital. Podemos usar o


Teorema de Taylor para obter um caso especial da regra de L’Hôpital.
Exemplo 7.9. Sejam f = f (z) g = g(z) funções deriváveis em um disco
|z − z0 | < δ. Verifique que se
f (z0 ) = 0, g(z0 ) = 0 e g ′ (z0 ) 6= 0,
então
f (z) f ′ (z0 )
= ′ lim .
z→z0 g(z) g (z0 )
De mesma maneira, se f (z0 ) = 0, g(z0 ) = 0, f ′ (z0 ) = 0, g′ (z0 ) = 0 e
g′′ (z0 ) 6= 0, então
f (z) f ′′ (z0 )
lim = ′′ .
z→z0 g(z) g (z0 )

De fato, as funções f e g podem ser representadas no disco |z − z0 | < δ


por suas séries de Taylor em torno de z0 , logo
f ′ (z0 ) f ′′ (z0 ) f (n) (z0 )
f (z) 1! + 2! (z − z0 ) + · · · + n! (z − z0 )n−1 + · · ·
= ,
g(z) g ′ (z0 ) g (z0 )
′′ g (n) (z0 ) n−1 + · · ·
1! + 2! (z − z0 ) + · · · + n! (z − z0 )
onde já usamos as hipóteses f (z0 ) = 0 e g(z0 ) = 0, e cancelamos o termo
comum z−z0 ao numerador e denominador do quociente. Essa representação
do quociente é válida na região 0 < |z − z0 | < δ. Agora é só tomar o limite
nesse quociente quando z tende a z0 .
O outro caso é similar, basta cancelar o termo comum (z−z0 )2 e proceder
da mesma maneira.

7.3. Fórmula integral de Cauchy para as derivadas


Usaremos a extensão do teorema de Cauchy, dada pela equação (6.10), e
as equações (7.9) e (7.10), para obter a fórmula integral de Cauchy para as
derivadas de f .
Proposição 7.10. Sejam f = f (z) uma função derivável em um conjunto
aberto contendo uma região simples G, e a um ponto interior de G. Então
Z
n! f (w)
f (n) (a) = dw, (7.11)
2πi γ (w − a)n+1
onde γ é um caminho fechado, simples, cujo traço é a fronteira da região G,
orientada no sentido positivo.

Demonstração. Considere um ponto interior a de G, e remova de G um


disco aberto de centro em a e raio r suficientemente pequeno para que o
disco esteja contido no interior de G; o traço do contorno γ1 (t) = a + reit ,
7.4. Funções Analı́ticas 149

Figura 7.5. Região G exceto um disco de centro em a.

com 0 ≤ t ≤ 2π, é o bordo desse disco, orientado no sentido anti-horário.


Veja a figura 7.5.
Pela extensão do Teorema de Cauchy dada na equação (6.10), aplicada
à função w 7→ f (w)/(w − a)n+1 , temos
Z Z
f (w) f (w)
n+1
dw + n+1
dw = 0; (7.12)
γ (w − a) γ1 − (w − a)

note que a orientação do contorno γ1 na equação (6.10) é oposta à que


escolhemos aqui, essa é a razão de termos usado γ1− em (7.12). A integral
ao longo de γ1 vale 2πicn , em virtude da equação (7.9) (basta substituir γ
de (7.9) por γ1 ). Assim, segue da expressão de cn dada em (7.10) que
Z
f (w) 2πi (n)
n+1
dw = f (a).
γ1 (w − a) n!
Dessa igualdade e de (7.12) segue a fórmula (7.11). 

Exemplo 7.11. Calcule a integral


Z
cos z
3
dz,
γ (z − π)

onde o contorno γ é fechado, simples, orientado no sentido positivo e seu


traço é dado pela equação |z| = 4.

Pela fórmula (7.11) temos


Z
cos z 2πi
3
dz = cos′′ (π) = πi.
γ (z − π) 2!

7.4. Funções Analı́ticas


Definição 7.12. Seja f uma função definida em um subconjunto aberto Ω
de C e com valores em C. Dizemos que f é analı́tica em a, a ∈ Ω, quando
150 7. Fórmula Integral de Cauchy

Figura 7.6. f é analı́tica em a.

existirem números complexos c0 , c1 , · · · , cn , · · · e um disco de centro em a e


raio r > 0 contido em Ω tais que

X
f (z) = cn (z − a)n , (7.13)
n=0

para todo z no disco |z − a| < r. Ou seja, f é analı́tica em a quando ela


puder ser representada por uma série de potências em um disco de centro
em a e contido em Ω. Uma função é analı́tica em Ω se ela for analı́tica em
todos os pontos de Ω.

Toda função analı́tica em a é derivável em um disco com centro em a.


De fato, se uma função é analı́tica em a, então segue de (7.13) que ela é a
soma de uma série de potências convergente em um disco de centro em a;
logo, pelo Teorema 5.6, ela é derivável em todos os pontos desse disco.
Por outro lado, se uma função é derivável em um disco de centro em a e
raio positivo, então o Teorema 7.4 garante que essa função é analı́tica em a,
visto que ela será representada nesse disco por sua série de Taylor em torno
de a.
Fica então verificada a seguinte equivalência:
Proposição 7.13. Seja f = f (z) uma função definida em um subconjunto
aberto Ω de C. Então f é analı́tica em a ∈ Ω se e somente se ela for
derivável em um disco de centro em a e raio positivo, contido em Ω.

As funções ez , sen z e cos z são deriváveis em todos os pontos de C, logo,


pela Proposição 7.13, elas são analı́ticas em todos os pontos de C, i.e., são
funções inteiras.
Pelo Teorema 5.31, o ramo principal do logaritmo, Log z, z 6= 0, é de-
rivável nos pontos de C que não são números reais negativos, i.e., essa função
é derivavel em P− . Logo, pela Proposição 7.13, a aplicação
z 7→ Log z, z 6= x + i0, x ≤ 0,
é analı́tica em P− .
7.4. Funções Analı́ticas 151

Figura 7.7. Gráficos de f e de g.

Os polinômios são deriváveis em todos os pontos de C, logo são funções


analı́ticas em C, ou seja, são funções inteiras. As funções racionais, i.e., os
quocientes de polinômios, são analı́ticas nos pontos onde o denominador não
se anula.
A função f (z) = tan z é analı́tica em C \ {z = (π/2) + kπ, k ∈ Z}, visto
que ela é um quociente das funções analı́ticas sen z e cos z.
Finalmente, lembramos que uma função é holomorfa em um conjunto
aberto D quando ela é derivável em todos os pontos de D. Portanto, uma
função é derivável em um conjunto aberto de C se e somente se ela for
analı́tica (ou holomorfa) nesse conjunto.
Observação 7.14. (a) A conclusão da Proposição 7.13 não é verdadeira
para uma função f = f (x) real de variável real x. No caso de função real de
variável real, a existência da derivada de primeira ordem em um intervalo
aberto, ou mesmo a existência das derivadas de todas as ordens em um
intervalo aberto, não é suficiente para garantir uma representação da função
em série de potências nesse intervalo, como mostram os seguintes exemplos:
( 2
e−1/x se x 6= 0,
f (x) = x|x| e g(x) =
0 se x = 0.
A função f possui derivada de primeira ordem em todos os números reais,
e a função derivada f ′ (x) = 2|x| é contı́nua em todos os reais, mas f não
possui a derivada de segunda ordem em zero, logo nem podemos escrever
sua série de Taylor no ponto zero, pois o coeficiente de Taylor f ′′ (0)/2! não
existe. Veja os gráficos de f e g na Figura 7.7.
Por outro lado, a função g possui derivadas de todas as ordens em zero,
e elas são todas nulas, i.e.,
g (n) (0) = 0, n = 0, 1, 2, · · · .
Vamos mostrar que g′ (0) = 0. A definição de derivada de g = g(x) em
x0 = 0 é
2
g(0 + h) − g(0) e−1/h 1/h
lim = lim = lim 1/h2 .
h→0 h h→0 h h→0 e
152 7. Fórmula Integral de Cauchy

A regra de L’Hôpital, aplicada no último limite, garante que g′ (0) = 0, visto


que
1/h 1
lim 2 = lim [−h ] = 0.
h→0 e1/h h→0 −2e1/h2
2
De maneira análoga, trocamos g(x) por g′ (x) = (2/x3 )e−1/x se x 6= 0
e usamos o mesmo raciocı́nio para mostrar que g′′ (0) = 0. Pode-se mostrar
que a enésima derivada g(n) (0) = 0.
A série de Taylor de g no ponto zero está bem definida e converge em
todo x real:
1 1
g(0) + g ′ (0)x + g ′′ (0)x2 + · · · + g(n) (0)xn + · · · ;
2! n!
a soma dessa série é a função nula, logo é diferente da função g em qualquer
intervalo aberto contendo o zero. Portanto, a função g não é analı́tica em
zero.

7.4.1. Zeros de uma função analı́tica. Seja f = f (z) uma função analı́tica
em z0 , i.e., f é derivável em algum disco com centro em z0 . Dizemos que z0
é um zero de ordem m de f se
f (z0 ) = 0, · · · , f (m−1) (z0 ) = 0, mas f (m) (z0 ) 6= 0.
Quando o zero é de ordem um, dizemos que ele é um zero simples; se a
ordem é dois, dizemos que é um zero duplo.
Exemplo 7.15. Os zeros da função sen z são kπ, k ∈ Z, e são todos simples,
visto que sen′ (kπ) = cos(kπ) = ±1. A função f (z) = cos z − 1 possui um
zero duplo em z0 = 0, visto que f (0) = 0 e f ′ (0) = 0, mas f ′′ (0) 6= 0. A
função g(z) = (z − 3)5 tem um zero de ordem 5 em z0 = 3; g(k) (3) = 0 se
k = 0, 1, 2, 3, 4 e g (5) (3) = 5!.

Seja z0 um zero de f = f (z), i.e., f (z0 ) = 0. Dizemos que z0 é um zero


isolado de f = f (z) quando existir um r > 0 tal que f (z) 6= 0 em todo z
satisfazendo 0 < |z − z0 | < r, i.e., com exceção do centro z0 , f não se anula
no interior de um disco com centro em z0 .
No Exemplo 7.15, existe uma distância de pelo menos π entre dois zeros
de sen z, e de pelo menos 2π entre os zeros de f (z) = cos z − 1; logo, são
todos zeros isolados. Na proposição a seguir veremos que todos os zeros de
uma função analı́tica, não identicamente nula, são isolados.
Porém, se a função for derivável apenas no zero z0 , então esse zero pode
não ser isolado, como vemos na seguinte função:
(
z 2 sen(1/|z|) se z 6= 0,
h(z) =
0 se z = 0.
7.4. Funções Analı́ticas 153

Essa função se anula em z0 = 0 e em |zk | = 1/kπ, k ∈ Z. O zero z0 = 0


não é isolado, pois em todo disco com centro em z0 e raio r existem infinitos
zeros, basta escolher k tal que 1/kπ < r, ou k > 1/rπ. Faça um esboço
no plano C de todos os zeros da função h. Para ver que h é derivável em
z0 = 0, observe que o quociente de diferenças
h(0 + z) − h(0) z 2 sen(1/|z|) − 0
= = z sen(1/|z|)
z z
tende a zero quando z tende a zero, pois | sen(1/|z|)| ≤ 1; ou seja, h′ (0) = 0.
Mostraremos a seguir que todos os zeros de uma função analı́tica, não
identicamente nula, são isolados.
Proposição 7.16. Seja f = f (z) uma função derivável em um disco D de
centro em z0 . Se f (z0 ) = 0 e se f não é identicamente nula em D, então
existem um número inteiro m ≥ 1, uma função g = g(z) derivável em D, e
um δ > 0 tais que
f (z) = (z − z0 )m g(z), g(z) 6= 0 em |z − z0 | < δ. (7.14)
Em particular, z0 é um zero isolado de f .

Demonstração. Suponha que o disco D seja |z − z0 | < r. Pelo Teorema


de Taylor, temos uma representação em série de potências de f em D:
f (z) = a0 + a1 (z − z0 ) + · · · + an (z − z0 )n + · · · , (7.15)
onde an = f (n) (z0 )/n!. Como f se anula em z0 , mas não é identicamente
nula em D, existe um inteiro m tal que
f (z0 ) = 0, · · · , f (m−1) (z0 ) = 0, mas f (m) (z0 ) 6= 0.
Logo,
f (z) = (z − z0 )m [am + am+1 (z − z0 ) + · · · + an (z − z0 )n−m + · · · ].
Para um z fixado na região 0 < |z − z0 | < r, lembrando que m está fixado,
o Teorema 2.24 garante que a série
am + am+1 (z − z0 ) + · · · + an (z − z0 )n−m + · · · (7.16)
converge, e que sua soma é f (z)/(z − z0 )m .
Essa série de potências (7.16) converge também em z0 , visto que cada
soma parcial, de ordem maior ou igual a m, calculada em z0 , é a constante
am . Como a série potências (7.16) converge em 0 < |z − z0 | < r e em z0 ,
concluı́mos que ela converge no disco |z − z0 | < r, e que sua soma é a função
( f (z)
m se 0 < |z − z0 | < r,
g(z) = (z−z0 ) (7.17)
am se z = z0 .
154 7. Fórmula Integral de Cauchy

Por outro lado, em virtude do teorema de derivação termo a termo de


séries de potências (Teorema 5.6), a soma g = g(z) da série (7.16) é uma
função derivável nos pontos do disco |z − z0 | < r. Além disso, segue de
(7.17) que f (z) = (z − z0 )m g(z) nos pontos de D.
Finalmente, como g(z0 ) = am 6= 0, e g = g(z) é contı́nua em z0 por ser
derivável nesse ponto, concluı́mos que existe δ > 0 tal que g(z) 6= 0 em todo
z do disco |z − z0 | < δ [use Lema 3.21, item (b), |L| = |am |]. Assim, z0 é
o único zero de f no disco |z − z0 | < δ. Isso completa a demonstração da
proposição. 

7.5. Desigualdade de Cauchy


A desigualdade de Cauchy fornece uma cota superior para a derivada enésima
(em um ponto) em termos do máximo do módulo da função no bordo de um
disco.

Teorema 7.17. Seja f = f (z) uma função derivável em um conjunto aberto


que contém o disco |z − z0 | ≤ r. Se |f (z)| ≤ M quando |z − z0 | = r, então
n!
|f (n) (z0 )| ≤ M, n ≥ 0.
rn

Demonstração. Pela fórmula de Cauchy para as derivadas de f , temos


Z
n! f (z)
f (n) (z0 ) = dz,
2πi γ (z − z0 )n+1

onde γ(t) = z0 + reit , 0 ≤ t ≤ 2π. Segue da definição de integral de contorno


que
Z 2π
(n) n! f (z0 + reit )
f (z0 ) = dt.
2πr n 0 eint
Rb Rb
Agora usamos a desigualdade | a ω(t) dt| ≤ a |ω(t)| dt e a hipótese |f (z)| ≤
M no bordo do disco, para obtermos
Z 2π Z 2π
n! f (z0 + reit ) n! f (z0 + reit )
|f (n) (z0 )| = dt ≤ dt
2πr n 0 eint 2πr n 0 eint
n!
≤ n M, n ≥ 0.
r


Usaremos essa desigualdade na demonstração do próximo teorema.


7.7. Teorema Fundamental da Álgebra 155

7.6. Teorema de Liouville


Dizemos que uma função é inteira quando ela for derivável em todo ponto
de C. A seguir usaremos a desigualdade de Cauchy para mostrar que se uma
função for inteira e limitada, então ela tem de ser constante. Esse resultado
é conhecido como Teorema de Liouville.
Lembramos que uma função f = f (z) é limitada em um conjunto D
quando existir uma constante K tal que |f (z)| ≤ K para todo z em D.

Teorema 7.18 (Liouville). Se uma função é derivável e limitada em C,


então ela é uma função constante em C.

Demonstração. Seja f = f (z) uma função derivável em todos pontos de


C, e suponha que exista uma constante K tal que |f (z)| ≤ K em todo z
complexo. Consideremos um disco com centro em z0 e raio r > 0. Podemos
usar a desigualdade de Cauchy do Teorema 7.17 para escrever
K
|f ′ (z0 )| ≤ .
r
Visto que essa desigualdade é válida para todo r, fazendo r → ∞, obtemos
f ′ (z0 ) = 0. Mas z0 é um ponto qualquer de C, logo f é uma função constante.

Observação 7.19. Não existe um Teorema de Liouville para função real
de variável real: a função f (x) = sen x é derivável em todo x e é limitada
em R, visto que
| sen x| ≤ 1 para todo x real,
mas ela não é constante.

7.7. Teorema Fundamental da Álgebra


Podemos usar o Teorema de Liouville para demonstrar o Teorema Funda-
mental da Álgebra, o qual garante que um polinômio
P (z) = an z n + an−1 z n−1 + · · · + a1 z + a0 ,
com grau n, n ≥ 1, possui n raı́zes complexas (não necessariamente distin-
tas).
Em geral, essa conclusão não se verifica quando substituı́mos C por R.
De fato, a equação x2 + 1 = 0 não possui raı́zes reais, porém a equação
z 2 + 1 = 0 possui exatamente duas em C, a saber z = ±i.
A seguinte desigualdade será usada na demonstração que daremos do
Teorema Fundamental da Álgebra: existe um R > 0 tal que
|an | n
|P (z)| ≥ |z| para todo z satisfazendo |z| ≥ R. (7.18)
2
156 7. Fórmula Integral de Cauchy

Em particular, |P (z)| → ∞ quando |z| → ∞.


A verificação de (7.18) só depende da desigualdade triangular |α + β| ≥
||α| − |β||. De fato, se z 6= 0,
 an−1 a1 a0 
|P (z)| = z n an + ( + · · · + n−1 + n )
z z z
n
an−1 a1 a0
= |z| an + ( + · · · + n−1 + n ) (7.19)
z z z
an−1 a1 a0
≥ |z|n |an | − | + · · · + n−1 + n | .
z z z
Agora observamos que
an−1 a1 a0
| + · · · + n−1 + n | → 0 quando |z| → ∞, (7.20)
z z z
pois
an−1 a1 a0 an−1 a1 a0
| + · · · + n−1 + n | ≤ | | + · · · + | n−1 | + | n |
z z z z z z
e cada fração do lado direito tende a zero assim que |z| → ∞; lembre que n
está fixado.
Logo, como an 6= 0, podemos usar a definição do limite (7.20) com
ε = |an |/2 para escolher um R > 0 tal que
an−1 a1 a0 |an |
| + · · · + n−1 + n | < para todo |z| ≥ R.
z z z 2
Segue de (7.19) e dessa última desigualdade que:
an−1 a1 a0
|P (z)| ≥ |z|n |an | − | + · · · + n−1 + n |
z z z
n
 an−1 a1 a0 
≥ |z| |an | − | + · · · + n−1 + n |
z z z
|an | n
≥ |z| , para |z| ≥ R.
2
Teorema 7.20 (Teorema Fundamental da Álgebra). Seja
P (z) = an z n + an−1 z n−1 + · · · + a1 z + a0
um polinômio de grau n, n ≥ 1, com coeficientes em C. Então a equação
P (z) = 0 possui n raı́zes em C.

Demonstração. Mostraremos inicialmente que P possui pelo menos uma


raiz em C, i.e., que existe z1 em C tal que P (z1 ) = 0. Suponha por con-
tradição que P (z) 6= 0 para todo z em C. Então a função
1
f (z) =
P (z)
é derivável em todo z de C.
7.8. Produto de séries de potências 157

Vamos mostrar que ela é limitada em C. Segue da desigualdade (7.18)


que
1 2
|f (z)| = | |≤ para todo |z| ≥ R,
P (z) |an |Rn
i.e., f é limitada no exterior do disco de centro em zero e raio R.
No disco |z| ≤ R, a função z 7→ |f (z)| é limitada, pois ela é contı́nua e o
disco é um conjunto limitado e fechado. Assim, o módulo |f (z)| é limitado
no disco |z| ≤ R e na região |z| ≥ R, ou seja, existe uma constate K tal que

|f (z)| ≤ K em todo z complexo.

Agora podemos aplicar o Teorema de Liouville para concluir que f =


f (z) é uma função constante, o que é impossı́vel pois o grau de P é maior
ou igual a 1. A contradição decorreu da suposição de que P (z) 6= 0 em todo
z. Portanto, existe z1 em C tal que P (z1 ) = 0.
Se o grau de P é um, a demonstração do teorema está completa; se
o grau de P = P (z) é maior ou igual a dois, sendo z1 uma raiz de P (z),
sabemos que o polinômio P é divisı́vel por z − z1 , i.e., P (z) = (z − z1 )Q(z),
onde o grau do polinômio Q(z) é n − 1 ≥ 1; em seguida usamos o mesmo
raciocı́nio acima, mas aplicado agora em Q(z) e encontramos uma raiz z2
de Q, logo uma segunda raiz de P (z); continuamos assim até que o grau do
último polinômio Q(z) seja zero. Isso completa a demonstração do Teorema
Fundamental da Álgebra. 

7.8. Produto de séries de potências


O próximo resultado sobre produto de séries de potências decorre facilmente
do Teorema de Taylor. A inspiração para definir uma série de potências como
produto de duas outras vem da multiplicação de polinômios

(a0 + a1 z + a2 z 2 + a3 z 3 + · · · )(b0 + b1 z + b2 z 2 + b3 z 3 + · · · )
= (a0 b0 ) + (a0 b1 + a1 b0 )z + (a0 b2 + a1 b1 + a2 b0 )z 2 + · · · .

Proposição 7.21. Sejam



X ∞
X
n
an (z − z0 ) e bn (z − z0 )n (7.21)
n=0 n=0

séries de potências convergentes em um disco D = {z : |z − z0 | < R}. Então


o produto dessas séries, i.e., a série de potências

(a0 b0 ) + (a0 b1 + a1 b0 )(z − z0 ) + · · · + (a0 bn + · · · + an b0 )(z − z0 )n + · · · ,


158 7. Fórmula Integral de Cauchy

converge em cada z de D, e temos a igualdade



X ∞
X ∞
X
n n
[ an (z − z0 ) ][ bn (z − z0 ) ] = cn (z − z0 )n ,
n=0 n=0 n=0
onde cn = a0 bn + a1 bn−1 + · · · + an−1 b1 + an b0 .

Demonstração. Sejam f = f (z) e g = g(z) as somas das séries de potências


de (7.21), respectivamente. Como essas séries convergem em um disco D,
sabemos pelo teorema de derivação termo a termo que f e g são deriváveis
em D, logo o produto f g é uma função derivável em D. Pelo teorema de
Taylor, temos que f g pode ser representada por sua série de Taylor em D,
i.e.,

X (f g)(n) (z0 )
(f g)(z) = (z − z0 )n . (7.22)
n!
n=0
Usando a regra de Leibniz para calcular a derivada enésima de um produto
de funções, mostraremos que o coeficiente de Taylor de ordem n em (7.22)
é o cn :
n  
(f g)(n) (z0 ) 1 X n (k)
= f (z0 )g(n−k) (z0 )
n! n! k
k=0
n
X n
X
f (k)(z0 ) g (n−k) (z0 )
= = ak bn−k = cn .
k! (n − k)!
k=0 k=0
Dessa última igualdade e de (7.22) concluı́mos a demonstração da Proposição 7.21:

X ∞
X
n
[ an (z − z0 ) ][ bn (z − z0 )n ] = f (z)g(z)
n=0 n=0

X
= cn (z − z0 )n .
n=0


7.9. Teorema de Morera


O próximo teorema apresenta uma condição suficiente para que uma função
contı́nua seja derivável.
Teorema 7.22. Suponha que f = f (z) seja uma função contı́nua em um
conjunto aberto U . Se a integral de f ao longo do bordo de todos os triângulos
inteiramente contidos U for nula, então f é derivável em U .

Demonstração. Seja D um disco aberto contido em U . Como o disco é


convexo e, por hipótese, a integral ao longo de todos os bordos de triângulos
com interior contidos em D é nula, o Teorema 6.25 garante que f = f (z)
7.9. Teorema de Morera 159

Figura 7.8. Triângulos inteiramente contidos em U .

possui primitiva em D, i.e., existe F = F (z) tal que F ′ (z) = f (z), z em


D. Segue do Teorema 7.4 que F possui derivada de segunda ordem em D,
logo f = f (z) é derivável nos pontos de D. Visto que para todo ponto de
U existe um disco com centro nesse ponto e contido em U , concluı́mos que
f é derivável nos pontos de U . 
Capı́tulo 8

Teorema dos Resı́duos

8.1. Introdução
Neste capı́tulo vamos analisar o comportamento das funções que são de-
riváveis (ou analı́ticas) em regiões da forma 0 < |z − z0 | < r, mas que não
são definidas em z0 , ou são definidas em z0 mas não são deriváveis nesse
ponto. Chamaremos esse ponto z0 de ponto singular isolado da função.
Mostraremos que para uma função de variável complexa existem três,
e somente três, tipos de pontos singulares isolados: os pontos singulares
removı́veis, os polos e os pontos singulares essenciais. Essas classificações
de pontos singulares, e algumas condições equivalentes, serão desenvolvidas
nas seções 8.2, 8.3, 8.4 e 8.5.
Na Seção 8.6, associaremos a cada ponto singular isolado de uma função
um número denominado resı́duo, o qual, especialmente no caso de polos,
será muito útil para calcular integrais impróprias de funções reais.

8.2. Ponto singular removı́vel


Considere a função
sen z
f (z) = , z 6= 0. (8.1)
z
Usando a série que define a função sen z, obtemos
sen z z2 z4
f (z) = =1− + + · · · , z 6= 0.
z 3! 5!
A série de potências do lado direito converge em z = 0, pois a soma parcial
de ordem n é constante, i.e., Sn (0) = 1 para n = 1, 2, · · · ; assim, a soma
S(0) = limn→∞ Sn (0) = 1. Essa série converge também em todo número
complexo z 6= 0, pelo teste da razão; logo, sua soma S = S(z) é uma função

161
162 8. Teorema dos Resı́duos

derivável em todo o plano complexo, pelo Teorema 5.6; em particular, S é


derivável em z0 = 0 e
S(z) = f (z) se z 6= 0,
ou seja, S é uma extensão de f e, além disso, é derivável no ponto singular
isolado z0 = 0.
De acordo com a próxima definição, o ponto z0 = 0 do exemplo anterior
é um ponto singular removı́vel da função f .
Definição 8.1. Seja f = f (z) uma função derivável nos pontos da região
0 < |z − z0 | < r. Dizemos que z0 é um ponto singular removı́vel de f quando
existir uma função fb = fb(z), definida e derivável no disco |z − z0 | < r, e tal
que fb(z) = f (z) na região 0 < |z − z0 | < r. Essa fb é uma extensão de f ,
derivável em z0 .

O próximo teorema mostra que se uma função f = f (z) for limitada


em torno de um ponto singular isolado z0 , então ele é um ponto singular
removı́vel de f .

Teorema 8.2 (Teorema de Riemann). Seja z0 um ponto singular isolado


de uma função f . Se existem números K e δ tais que
|f (z)| ≤ K em todo z da região 0 < |z − z0 | < δ, (8.2)
i.e., se f = f (z) for limitada em um disco sem o centro z0 , então z0 é um
ponto singular removı́vel de f .

Demonstração. Definimos uma função F por


(
(z − z0 )2 f (z) se 0 < |z − z0 | < δ
F (z) =
0 se z = z0 .
A função F é derivável em z 6= z0 , pois é um produto de funções deriváveis.
Para ver que ela é derivável em z0 também, vamos analisar o limite do
quociente de diferenças de F em z0 :
F (z) − F (z0 ) (z − z0 )2 f (z) − 0
= = (z − z0 )f (z), 0 < |z − z0 | < δ.
z − z0 z − z0
Em virtude da hipótese (8.2), temos que
|(z − z0 )f (z)| ≤ K|z − z0 | se 0 < |z − z0 | < δ,
logo
lim (z − z0 )f (z) = 0.
z→z0

Portanto, F é derivável em z0 e F ′ (z0 ) = 0.


8.2. Ponto singular removı́vel 163

Sendo F derivável em um disco aberto de centro em z0 , usamos o Teo-


rema de Taylor para escrever a representação de F em série de potências
F (z) = c2 (z − z0 )2 + c3 (z − z0 )3 + · · · + cn (z − z0 )n + · · ·
= (z − z0 )2 [c2 + c3 (z − z0 ) + · · · + cn (z − z0 )n−2 + · · · ],
onde foi usado que c0 = F (z0 ) = 0 e c1 = F ′ (z0 ) = 0.
Como foi visto na demonstração da Proposição 7.16, a série de potências
entre colchetes converge no disco |z − z0 | < δ, e tem como soma a função

 F (z) se 0 < |z − z0 | < δ,
g(z) = (z − z0 )2 (8.3)

c2 se z = z0 ,
a qual é derivável no disco |z − z0 | < δ. Segue da definição de F que
(
f (z) se 0 < |z − z0 | < δ,
g(z) = (8.4)
c2 se z = z0 .
Portanto, g(z) = f (z) na região 0 < |z − z0 | < δ, e ainda é derivável no
disco |z − z0 | < δ. Ou seja, z0 é um ponto singular removı́vel de f . 

A seguinte condição para um ponto singular ser removı́vel é uma con-


sequência imediata da demonstração do Teorema de Riemann.
Proposição 8.3. Seja z0 um ponto singular isolado de uma função f . Então
z0 é um ponto singular removı́vel de f se e somente se
lim (z − z0 )f (z) = 0. (8.5)
z→z0

Demonstração. Suponha que z0 seja um ponto singular removı́vel de f .


Então existe uma extensão fb de f , derivável em um disco |z − z0 | < δ. Logo,
lim (z − z0 )f (z) = lim (z − z0 )fb(z) = 0fb(z0 ) = 0.
z→z0 z→z0

Reciprocamente, se é válido o limite em (8.5), então a mesma demonstração


do teorema de Riemann mostra que z0 é um ponto singular removı́vel de
f. 
Observação 8.4. O Teorema de Riemann não faz sentido no caso de função
real de variável real. Com efeito, a função
|x|
f (x) = , x real e não nulo,
x
é derivável em qualquer região da forma 0 < |x| < δ, e é limitada em todos
os reais x 6= 0, pois |f (x)| ≡ 1. Como não existe o limite
|x|
lim ,
x→0 x
164 8. Teorema dos Resı́duos

é impossı́vel definir uma extensão contı́nua de f para o ponto zero; logo, não
existe extensão derivável de f em zero.

8.3. Polos
Considere a função
sen z 1 11 1
f (z) = = 3− + z − · · · , z 6= 0, (8.6)
z4 z 3! z 5!
onde usamos a série de potências que define a função sen z para representar
f como série. O ponto z0 = 0 é um ponto singular isolado de f .
Essa representação em série de f contém um número finito de potências
negativas de z, a saber,
1 1
3
= z −3 e = z −1 .
z z
Isso contrasta com a representação da função (8.1), onde z0 = 0 é um ponto
singular removı́vel; a série naquele caso só contém potências não negativas,
o que é essencial para a existência da extensão derivável de f em z0 = 0 (é
um fato geral, veja a Proposição 8.10).
Nesse caso da representação (8.6) não existe extensão derivável de f em
z0 = 0, mas podemos escrever
sen z H(z)
f (z) = 4
=
z z3
onde
1 2 1
H(z) = 1 − z + z4 − · · · .
3! 5!
Essa série de potências converge em z = 0, e converge também em z 6= 0,
pelo teste da razão. Logo, pelo teorema de derivação termo a termo de
séries de potências, a soma H = H(z) é derivável em todo z; além disso,
H(0) = 1 6= 0. Assim, de acordo com a próxima definição, z0 = 0 é um polo
de ordem três de f = f (z).
Definição 8.5. Dizemos que um ponto singular isolado z0 de uma função
f = f (z) é um polo de ordem m, onde m é um número inteiro positivo,
quando existir uma função H = H(z), derivável nos pontos de um disco
|z − z0 | < α, com H(z0 ) 6= 0, tal que
H(z)
f (z) = para todo z em 0 < |z − z0 | < α. (8.7)
(z − z0 )m
Dizemos que o polo é simples quando a sua ordem for um, i.e., m = 1.

Daremos agora exemplos de polos e identificaremos a ordem de cada um


deles.
8.3. Polos 165

Exemplo 8.6. Os pontos sigulares isolados z0 = 0 e z1 = 1 da função


1
h(z) = , z 6= 0, z 6= 1,
z(z − 1)2
são polos de ordens um e dois, respectivamente.
De fato, para o ponto singular z0 = 0, escrevemos h = h(z) como
1/(z − 1)2
h(z) = .
z
Visto que a função H0 (z) = 1/(z − 1)2 é derivável no disco |z − 0| < 1 e que
H0 (0) 6= 0, temos que z0 = 0 é um polo simples de h = h(z).
Para o ponto z1 = 1, reescrevemos h = h(z) como
1/z
h(z) = .
(z − 1)2
Visto que H1 (z) = 1/z é derivável no disco |z − 1| < 1 e H1 (1) 6= 0, temos
que z1 = 1 é um polo de ordem dois de h.
Exemplo 8.7. O ponto z0 = 1 é um polo simples da função
z
f (z) = , z 6= 0, z 6= 1.
Log z
Inicialmente, note que essa função está bem definida, pois Log z = 0 se
e somente se z = 1. De acordo com a Definição 8.5, precisamos mostrar que
H(z)
f (z) = ,
z−1
onde H = H(z) é uma função derivável em algum disco |z − 1| < δ e que
H(1) 6= 0.
Para conseguir o fator z −1 no denominador de f = f (z), desenvolvemos
a função Log z em série de Taylor no disco |z − 1| < 1, lembrando que
Log 1 = 0, Log′ (1) = 1 e que Log′′ (1) = −1:
1
Log z = 0 + 1(z − 1) − (z − 1)2 + . . .
2
1
= (z − 1)[1 − (z − 1) + . . . ].
2
Como mostramos na Proposição 7.16, a série de potências entre colchetes
converge no disco |z − 1| < 1, sua soma é uma função g = g(z) derivável no
mesmo disco, e g(z) 6= 0 nesse disco; lembre que Log z = 0 se somente se
z = 1.
Agora usamos a equação Log z = (z − 1)g(z), |z − z0 | < 1, na fração que
define f :
z z z/g(z)
f (z) = = = , 0 < |z − 1| < 1.
Log z (z − 1)g(z) z−1
166 8. Teorema dos Resı́duos

A função H(z) = z/g(z) é derivável em |z − 1| < 1 por ser um quociente


de funções deriváveis, onde o denominador não se anula nesse disco. Como
H(1) 6= 0, concluı́mos que z0 = 1 é um polo simples de f .
A proposição a seguir dá uma condição necessária e suficiente para que
um ponto singular isolado seja polo.

Proposição 8.8. Um ponto singular isolado z0 é um polo de f se, e somente


se, existirem uma constante c 6= 0 e um número inteiro m ≥ 1 tais que
lim (z − z0 )m f (z) = c. (8.8)
z→z0

Esse número inteiro m é a ordem do polo.

Demonstração. Se z0 é um polo de f de ordem m, então segue da Definição 8.5


que
(z − z0 )m f (z) = H(z), 0 < |z − z0 | < α,
onde a função H = H(z) é derivável no disco |z − z0 | < α e H(z0 ) 6= 0.
Logo, a função H é contı́nua em z0 e então
lim (z − z0 )m f (z) = lim H(z) = H(z0 ) 6= 0.
z→z0 z→z0

Ou seja, temos a condição (8.8) com c = H(z0 ) 6= 0.


Por outro lado, se vale a condição (8.8) com c 6= 0 e m ≥ 1, temos que a
função (z − z0 )m f (z) é limitada em alguma região do tipo 0 < |z − z0 | < α,
pelo Lema 3.21, item (a). Em virtude dessa limitação, usamos o Teorema
de Riemann (Teorema 8.2) para garantir que existe uma função F = F (z),
derivável no disco |z − z0 | < α, tal que
F (z) = (z − z0 )m f (z) em 0 < |z − z0 | < α.
Além disso, essa extensão F = F (z) da função (z − z0 )m f (z) não se anula
em z0 , pois
c = lim (z − z0 )m f (z) = lim F (z) = F (z0 ),
z→z0 z→z0

e c 6= 0, por hipótese.
Assim, se a condição (8.8) é válida, então
F (z)
f (z) = em 0 < |z − z0 | < α,
(z − z0 )m
onde F = F (z) é derivável no disco |z − z0 | < α e F (z0 ) 6= 0. Ou seja, z0 é
um polo de ordem m de f . 

Outra condição equivalente para que um ponto singular isolado seja polo:
8.3. Polos 167

Teorema 8.9. Um ponto singular isolado z0 é um polo de f = f (z) se e


somente se
lim |f (z)| = ∞. (8.9)
z→z0

Demonstração. Suponha que z0 seja um polo de f . Pela Definição 8.5 de


polo, existem um α > 0, um inteiro positivo m e uma função H = H(z)
derivável |z − z0 | < α, com H(z0 ) 6= 0, tais que
H(z)
f (z) = para todo z em 0 < |z − z0 | < α.
(z − z0 )m
Como H(z) → H(z0 ) 6= 0 quando z → z0 , temos
lim |f (z)| = ∞.
z→z0

Agora vamos mostrar que se |f (z)| → ∞ quando z → z0 , então z0


é um polo de f . Pela definição do limite (8.9), para M = 1 existe em
correspondência um α > 0 satisfazendo
|f (z)| ≥ 1 sempre que 0 < |z − z0 | < α.
Assim a função 1/f (z) está definida em 0 < |z − z0 | < α, e ela é limitada
nessa região:
1
| | ≤ 1 com z em 0 < |z − z0 | < α.
f (z)
Além disso, como z0 é um ponto singular isolado de f , a função 1/f é
derivável em alguma região do tipo 0 < |z − z0 | < r; podemos supor que α ≤
r, caso contrário é só diminuir o α. Nessas condições o Teorema 8.2 garante
que existe uma extensão fb da função 1/f , derivável no disco |z − z0 | < α.
Essa extensão fb se anula em z0 , pois |f (z)| → ∞ quando z → z0 , logo
1
|fb(z0 )| = lim |fb(z)| = lim = 0.
z→z0 z→z0 |f (z)|
Como z0 é um zero de fb, e ela não se anula em 0 < |z − z0 | < α, podemos
usar a Proposição 7.16 para escrever
fb(z) = (z − z0 )m g(z), |z − z0 | < α,
onde g = g(z) é uma função derivável no disco |z − z0 | < α, g(z) 6= 0
nesse disco, e m é um número inteiro positivo. Portanto, com a definição
H(z) = 1/g(z) no disco |z − z0 | < α, temos a representação desejada de f :
1 H(z)
f (z) = = , com z em 0 < |z − z0 | < α.
b
f (z) (z − z0 )m
Resta lembrar que H(z) = 1/g(z) é derivável em |z − z0 | < α e que H(z0 ) =
1/g(z0 ) 6= 0. Fica verificado que z0 é um polo de ordem m de f . 
168 8. Teorema dos Resı́duos

8.4. Representação em série em torno de ponto singular


removı́vel e de polo
A seguir mostraremos como representar uma função em série em torno de
um ponto singular removı́vel.

Proposição 8.10. Seja z0 um ponto singular isolado de uma função f .


Então z0 é um ponto singular removı́vel de f se e somente se for válida a
seguinte representação de f em série:

f (z) = a0 + a1 (z − z0 ) + · · · + an (z − z0 )n + · · · , (8.10)

em todo z da região 0 < |z − z0 | < δ, para algum δ positivo.

Demonstração. Suponha que z0 seja um ponto singular removı́vel de f .


Pela Definição 8.1, existe uma extensão fb de f , derivável em |z−z0 | < δ, para
algum δ. Logo, em virtude do teorema de Taylor, temos uma representação
de fb em série potências, válida no disco |z − z0 | < δ:

fb(z) = a0 + a1 (z − z0 ) + · · · + an (z − z0 )n + · · · .

Visto que f (z) = fb(z) se 0 < |z − z0 | < δ, encontramos a representação em


série de f dada em (8.10).
Reciprocamente, suponha que f = f (z) possa ser representada por uma
série como em (8.10). A sequência de somas parciais {Sn (z)} dessa série
converge em 0 < |z − z0 | < δ, com limite f (z); no ponto z0 ela converge
também, pois Sn (z0 ) é a constante a0 . Logo, a série de potências em (8.10)
converge no disco |z − z0 | < δ. Pelo teorema de derivação termo a termo
de séries de potências (Teorema 5.6), a soma da série (8.10) é uma função
derivável nos pontos do disco de centro z0 e raio δ. Portanto, essa soma da
série é uma extensão derivável de f para o disco |z − z0 | < δ; ou seja, z0 é
um ponto singular removı́vel de f . 

O desenvolvimento de uma função em torno de um polo z0 de ordem


m contém pelo menos a potência negativa 1/(z − z0 )m , e no máximo uma
número finito dessas potências.

Proposição 8.11. Seja z0 um ponto singular isolado de f = f (z). Então


z0 é um polo de ordem m de f se e somente se for válida a seguinte repre-
sentação de f em série:
c0 cm−1
f (z) = m
+ ··· + + cm + cm+1 (z − z0 ) + · · · ,
(z − z0 ) z − z0
em todo z da região 0 < |z − z0 | < α, com c0 6= 0.
8.5. Ponto singular essencial 169

Demonstração. Suponha que z0 seja um polo de ordem m de f . Pela


Definição 8.5 de polo, existem um α > 0 e uma função H = H(z) derivável
|z − z0 | < α, com H(z0 ) 6= 0, tais que
H(z)
f (z) = para todo z em 0 < |z − z0 | < α.
(z − z0 )m
Aplicando o teorema de Taylor à função H = H(z), obtemos a representação
em série de potências
H(z) = c0 + c1 (z − z0 ) + · · · + cm (z − z0 )m + · · · ,
válida no disco |z − z0 | < α. Logo, para cada z da região 0 < |z − z0 | < α,
fixado, segue do Teorema 2.24 com c = 1/(z − z0 )m e da convergência da
série que representa H que
c0 cm−1 H(z)
m
+ ··· + + cm + cm+1 (z − z0 ) + · · · =
(z − z0 ) z − z0 (z − z0 )m
= f (z).
Em palavras, essa série converge em cada z da região 0 < |z − z0 | < α, e sua
soma é f = f (z).
Note que os coeficientes ck dessa última série são os coeficientes de Taylor
da função H, e que c0 = H(z0 ) 6= 0.
Reciprocamente, suponha que seja válida a representação em série de
f = f (z) na região 0 < |z − z0 | < α, dada no enunciado da proposição, e
que c0 6= 0. Novamente, pelo Teorema 2.24, agora com c = (z − z0 )m , onde
z é um ponto fixado da região 0 < |z − z0 | < α, temos que a série
c0 + c1 (z − z0 ) + · · · + cn (z − z0 )n + · · ·
converge, e que sua soma é (z − z0 )m f (z). Essa série converge também em
z0 , pois suas somas parciais em z0 valem sempre c0 . Logo, essa série de
potências converge no disco |z − z0 | < α. Pelo teorema de derivação termo a
termo para série de potências, concluı́mos que a soma S = S(z) dessa série
é uma função derivável no disco |z − z0 | < α. Portanto,
S(z)
(z − z0 )m f (z) = S(z) ou f (z) = , 0 < |z − z0 | < α.
(z − z0 )m
Como S(z0 ) = c0 6= 0, temos que z0 é um polo de ordem m. 

8.5. Ponto singular essencial


Analisaremos agora o terceiro e último tipo de ponto singular isolado.
Definição 8.12. Dizemos que um ponto singular isolado z0 de f é uma
singularidade essencial se ele não for um ponto singular removı́vel, nem um
170 8. Teorema dos Resı́duos

polo, de f . De outra maneira, |f (z)| não é limitado em alguma região da


forma 0 < |z − z0 | < r, nem é verdadeiro que |f (z)| → ∞ quando z → z0 .

Para z0 ser uma singularidade essencial de f = f (z) tem de existir duas


sequências {zn } e {wn }, ambas convergindo para z0 , tais que |f (zn )| → ∞
quando n → ∞ (ou seja, |f (z)| não é limitado em alguma região da forma
0 < |z − z0 | < r), e a sequência {f (wn )} é limitada, i.e., |f (wn )| ≤ K para
todo n (ou seja, |f (z)| não tende ao infinito quando z tende a z0 ).

Exemplo 8.13. O ponto z0 = 1 é uma singularidade essencial da função

f (z) = e1/(z−1) , z 6= 1.

De fato, as sequências

1 1
zn = 1 + e wn = 1 + i
n n

tendem a 1 quando n → ∞, ao passo que |f (zn )| → ∞ e |f (wn )| ≡ 1. Assim,


|f (z)| não pode ser limitado em nenhuma região da forma 0 < |z − z0 | < r,
nem tender ao infinito quando z → z0 = 1.

Observação 8.14. É fácil obtermos um desenvolvimento de f (z) = e1/(z−1)


em uma região da forma 0 < |z − 1| < δ, basta usarmos a série de potências
de g(w) = ew . Com efeito, para w = 1/(z − 1), z 6= 1, temos

1 1 1 1
e z−1 = 1 + + 2
+ ··· + + ··· .
z − 1 2!(z − 1) n!(z − 1)n

Observe que nessa representação em série em torno do ponto singular essen-


cial z0 = 1 há infinitas potências negativas de z − 1.
É natural que seja assim, pois z0 = 1 não é ponto singular removı́vel,
caso em que o desenvolvimento em série não teria potências negativas de
z − 1 (veja Proposição 8.10). Esse z0 = 1 não é polo também, caso em que a
representação de f = f (z) em série teria pelo menos uma potência negativa
de z − 1, e no máximo um número finito delas (veja Proposição 8.11).
As relações entre os tipos de pontos singulares isolados e o aparecimento
de potências positivas e/ou negativas nas representações em séries ficam
evidenciadas na série de Laurent, a ser apresentada em um Apêndice deste
capı́tulo. As séries da Proposição 8.10, da Proposição 8.11 e essa de e1/(z−1)
são exemplos de desenvolvimento de uma função em série de Laurent. Note
que essas três representações em série são válidas em regiões da forma 0 <
|z − z0 | < δ, onde z0 é o ponto singular.
8.6. Resı́duos 171

Figura 8.1. As integrais de f ao longo de γ1 e γ2 são iguais.

8.6. Resı́duos
Inicialmente mostraremos que o seguinte número
Z
1
f (z) dz, (8.11)
2πi γ
onde f é uma função derivável na região 0 < |z − z0 | < δ e γ(t) = z0 + reit ,
com 0 ≤ t ≤ 2π, não depende do raio r, desde que 0 < r < δ.
De fato, consideremos dois números positivos r1 e r2 , 0 < r1 < r2 < δ,
e os correspondentes caminhos γ1 (t) = z0 + r1 eit e γ2 (t) = z0 + r2 eit , 0 ≤
t ≤ 2π. Os traços desses dois caminhos delimitam uma região em forma de
coroa circular; veja a Figura 8.1.
Podemos usar a extensão do Teorema de Cauchy dada pela equação
(6.10) para escrever (usamos γ1− em lugar de γ1 de (6.10), e γ2 em lugar de
γ) Z Z
f (z) dz + f (z) dz = 0
γ2 γ1−
ou Z Z
f (z) dz = f (z) dz. (8.12)
γ2 γ1
Assim, como a integral de (8.11) independe do raio r, o seu valor será usado
para definir resı́duo da função f em z0 .
Definição 8.15. Seja f uma função derivável na região 0 < |z − z0 | < δ. O
resı́duo de f em z0 é definido por
Z
1
Res(f ; z0 ) = f (z) dz, (8.13)
2πi γ
onde γ(t) = z0 + reit , 0 < r < δ e 0 ≤ t ≤ 2π; o traço do caminho simples γ
é um cı́rculo de centro em z0 , de raio r e orientado no sentido anti-horário.

Com a fórmula integral de Cauchy, ou a fórmula integral de Cauchy para


as derivadas, podemos calcular os resı́duos em polos. Daremos agora exem-
plos desse cálculo em situações simples. Em seguida obteremos fórmulas
172 8. Teorema dos Resı́duos

mais gerais para os casos de polos simples, e também para polos de ordem
maiores do que 1.

Exemplo 8.16. Considere a função


z
f (z) = , z 6= 0, z 6= 1.
Log z
Mostre que Res(f ; 1) = 1.
No Exemplo 8.7 verificamos que z0 = 1 é um polo simples dessa função,
e mostramos que ela pode ser reescrita da seguinte maneira:
H(z)
f (z) = , 0 < |z − 1| < δ,
z−1
onde
z
H(z) = 1 , |z − 1| < 1.
1− 2 (z − 1) + · · ·
Portanto, por (8.13) e pela fórmula integral de Cauchy, temos
Z Z
1 1 H(z)
Res(f ; 1) = f (z) dz = dz = H(1) = 1,
2πi γ 2πi γ z − 1

onde γ(t) = 1 + reit , 0 < r < δ e 0 ≤ t ≤ 2π.

Exemplo 8.17. Determine o resı́duo do ponto singular isolado z0 = 0 da


função
sen z
f (z) = 4 , z 6= 0. (8.14)
z
Sabemos que a representação em série de potências do seno, i.e.,
z3 z5
sen z = z − + − ··· ,
3! 5!
é válida em todo z de C. Logo, para z 6= 0, segue do Teorema 2.24 que
H1 (z) 1 2 1
f (z) = , z 6= 0, onde H1 (z) = 1 − z + z4 − · · · .
z3 3! 5!
A função H1 = H1 (z) é derivável em todo z, por ser a soma de uma série
de potências convergente em todo z; além disso, H1 (0) 6= 0. Portanto, por
(8.13) e pela fórmula integral de Cauchy para a derivada segunda de H1 ,
temos
Z Z
1 1 H1 (z) 1 1
Res(f ; 0) = f (z) dz = dz = H1′′ (0) = − ,
2πi γ 2πi γ z 3 2! 6

onde γ(t) = reit , r > 0 e 0 ≤ t ≤ 2π.


8.7. Cálculo do resı́duo em polos simples 173

8.7. Cálculo do resı́duo em polos simples


Com frequência precisamos calcular o resı́duo de pontos singulares de uma
função na forma
p(z)
f (z) = , q(z0 ) = 0 e q ′ (z0 ) 6= 0, (8.15)
q(z)
onde p e q são funções deriváveis nos pontos de um disco |z − z0 | < r.

Proposição 8.18. Sejam p = p(z) e q = q(z) funções satisfazendo as


hipóteses (8.15). Então z0 é um ponto singular isolado de f , e o correspon-
dente resı́duo é dado por
p(z0 )
Res(f ; z0 ) = . (8.16)
q ′ (z0 )
Além disso, z0 é um polo simples de f se p(z0 ) 6= 0, e é um ponto singular
removı́vel de f se p(z0 ) = 0.

Demonstração. Por hipótese, q = q(z) é derivável em um disco de centro


em z0 , q(z0 ) = 0 e q ′ (z0 ) 6= 0. Assim, z0 é um zero simples da função q.
Logo, em vista da Proposição 7.16, existe uma função g = g(z) derivável em
algum disco |z − z0 | < δ, g(z) 6= 0 nesse disco, tal que
q(z) = (z − z0 )g(z), |z − z0 | < δ.
Agora reescrevemos f na forma
p(z) p(z) H(z)
f (z) = = = , 0 < |z − z0 | < δ,
q(z) (z − z0 )g(z) z − z0
onde
p(z)
H(z) = , |z − z0 | < δ,
g(z)
é derivável no disco |z − z0 | < δ; lembre que g é derivável e não se anula
nesse disco, e que p = p(z) é derivável também. Em particular, z0 é um
ponto singular isolado de f .
Em seguida, usamos a expressão (8.13) com γ(t) = z0 + αeit , 0 ≤ t ≤ 2π,
onde 0 < α < δ, para que o traço de γ fique na região 0 < |z − z0 | < δ. Pela
fórmula integral de Cauchy, temos
Z
1 H(z) p(z0 )
Res(f ; z0 ) = dz = H(z0 ) = ′ ,
2πi γ z − z0 q (z0 )
onde foi usado que g(z0 ) = q ′ (z0 ), pois q ′ (z) = g(z) + (z − z0 )g′ (z). Portanto
fica verificada a fórmula (8.16).
174 8. Teorema dos Resı́duos

Para ver que z0 é polo simples no caso em que p(z0 ) 6= 0, basta observar
que
H(z)
f (z) = , 0 < |z − z0 | < δ,
z − z0
onde H = H(z) é derivável em |z − z0 | < δ e H(z0 ) 6= 0. Por outro lado,
quando p(z0 ) = 0, temos
p(z0 )
lim (z − z0 )f (z) = lim H(z) = = 0.
z→z0 z→z0 g(z0 )
Segue da Proposição 8.3 que z0 é um ponto singular removı́vel de f . 
Exemplo 8.19. Calcule os resı́duos das seguintes funções nos pontos sin-
gulares ao lado:
(a) f (z) = tan z, z0 = π/2;
1
(b) g(z) = , z0 = eiπ/3 .
z3 +1
Para a função f , usamos p(z) = sen z e q(z) = cos z; note que essas
funções são deriváveis em qualquer disco do tipo |z − π/2| < δ, p(π/2) 6= 0,
q(π/2) = 0 e que q ′ (π/2) 6= 0. Usamos então a fórmula (8.16):
π sen(π/2)
Res(tan z; ) = = −1.
2 − sen(π/2)
No caso da função g, usamos p(z) ≡ 1 e q(z) = z 3 + 1. Para ver que z0 é
um dos pontos singulares isolados de g = g(z), basta lembrar que z 3 + 1 = 0
se e somente se
 
p3 π + 2kπ π + 2kπ
zk = | − 1| cos( ) + i sen( ) ,
3 3
onde k = 0, 1, 2. Assim, z0 = eiπ/3 .
É fácil ver que as hipóteses (8.15) estão satisfeitas com z0 = eiπ/3 . Logo,
podemos usar a fórmula (8.16) para obter
1 1 1
Res( ; eiπ/3 ) = = e−2iπ/3 .
z3 +1 3(eiπ/3 )2 3

8.8. Cálculo do resı́duo em polo de ordem m, m > 1


De acordo com a definição de polo, um ponto singular isolado z0 é um polo
de f de ordem m se e somente se
H(z)
f (z) = , com z em 0 < |z − z0 | < α, (8.17)
(z − z0 )m
para algum α > 0, onde H é derivável no disco |z − z0 | < α e H(z0 ) 6= 0.
8.8. Cálculo do resı́duo em polo de ordem m, m > 1 175

Figura 8.2. Regiões |z − i| < 1 e |z + i| < 1.

Proposição 8.20. Suponha que f = f (z) satisfaça a hipótese (8.17). Então


o resı́duo do polo z0 de ordem m > 1 é dado por
H (m−1) (z0 )
Res(f ; z0 ) = . (8.18)
(m − 1)!

Demonstração. É uma aplicação imediata da fórmula integral de Cauchy


para a derivada de H de ordem m − 1, i.e., fórmula (7.11), com o traço de
γ no disco |z − z0 | < α. De fato,
Z
1 H(z) H (m−1) (z0 )
Res(f ; z0 ) = dz = . (8.19)
2πi γ (z − z0 )m (m − 1)!

Exemplo 8.21. Considere a função
Log z
g(z) = , z 6= 0, z 6= ±i.
(z 2 + 1)2
Verifique que ±i são polos de ordem dois de g, e calcule os respectivos
resı́duos.

Visto que (z 2 + 1)2 = (z − i)2 (z + i)2 , podemos escrever


Log z/(z + i)2 Log z/(z − i)2
g(z) = e g(z) = .
(z − i)2 (z + i)2
As funções
Log z Log z
e
(z + i)2 (z − i)2
são deriváveis, respectivamente, nos discos |z − i| < 1 e |z − (−i)| < 1, visto
que a função z 7→ Log z é derivável nos dois discos anteriores (eles não tem
ponto em comum com P− );veja a Figura 8.2. Além disso, o denominador
z + i 6= 0 no disco |z − i| < 1, e z − i 6= 0 em |z + i| < 1. Como Log(±i) 6= 0,
temos que ±i são polos de ordem dois de g.
176 8. Teorema dos Resı́duos

Agora usamos a fórmula (8.18) com m = 2 para cálcular o resı́duo de


cada um dos polos:
 Log z ′ π + 2i
Res(g(z); i) = (i) = .
(z + i)2 8
Da mesma maneira, obtemos
Log z ′ π − 2i
Res(g(z); −i) = ( 2
) (−i) = .
(z − i) 8
No Exemplo 8.21, foi fácil escrever g = g(z) na forma (8.17), bastou usar
a decomposição z 2 + 1 = (z − i)(z + i). Porém, nem sempre encontraremos
uma decomposição simples como a anterior. Nesses casos, devemos usar
o Teorema de Taylor para explicitar o fator (z − z0 )m . Fizemos isso para
um polo de ordem um no Exemplo 8.7, e para um zero de ordem m na
Proposição 7.16. A seguir, usaremos o mesmo argumento para um polo de
ordem dois.
Proposição 8.22. Suponha que p = p(z) e q = q(z) sejam deriváveis em
|z − z0 | < r, p(z0 ) 6= 0, e que z0 seja um zero de ordem dois de q, i.e.,
q(z0 ) = 0, q ′ (z0 ) = 0 e q ′′ (z0 ) 6= 0.
Nessas condições, z0 é um polo de ordem dois da função p/q, e seu resı́duo

p 6p′ (z0 )q ′′ (z0 ) − 2p(z0 )q ′′′ (z0 )
Res( ; z0 ) = .
q 3[q ′′ (z0 )]2
Demonstração. Usamos a Proposição 7.16 para reescrever a função q =
q(z) na forma
q(z) = (z − z0 )2 g(z), |z − z0 | < r, (8.20)
onde a função g é derivável no disco |z − z0 | < r e g(z) 6= 0 em algum disco
|z − z0 | < δ, δ ≤ r. Logo, com essa função g, escrevemos a função p/q na
forma (8.17):
p(z) p(z) p(z)/g(z)
= = , |z − z0 | < δ.
q(z) (z − z0 )2 g(z) (z − z0 )2
A função H(z) = p(z)/g(z) é derivável em |z − z0 | < δ, e H(z0 ) 6= 0.
Portanto, z0 é um polo de ordem dois da função p/q.
Agora usamos a fórmula (8.18) no cálculo do resı́duo:
p p ′ p′ (z0 )g(z0 ) − p(z0 )g′ (z0 )
Res( ; z0 ) = (z0 ) = . (8.21)
q g g(z0 )2
Para escrever g(z0 ) e g ′ (z0 ) em termos das derivadas de q, calculamos a
derivada de segunda ordem de (8.20), i.e.,
q ′′ (z) = 2g(z) + 4(z − z0 )g′ (z) + (z − z0 )2 g′′ (z),
8.8. Cálculo do resı́duo em polo de ordem m, m > 1 177

substituı́mos z = z0 , e encontramos g(z0 ) = q ′′ (z0 )/2; em seguida, derivamos


outra vez a expressão anterior, substituı́mos z = z0 e mostramos que g′ (z0 ) =
q ′′′ (z0 )/6. Substituindo essas expressões de g(z0 ) e g′ (z0 ) na fórmula do
resı́duo (8.21), obtemos
p 6p′ (z0 )q ′′ (z0 ) − 2p(z0 )q ′′′ (z0 )
Res( ; z0 ) = .
q 3[q ′′ (z0 )]2


Para usar a fórmula (8.18) precisamos conhecer a função H = H(z) e a


ordem m do polo. Quando não conhecemos a função H, mas conhecemos a
ordem m do polo, podemos calcular o resı́duo do polo z0 pela fórmula:
1 dm−1
Res(f ; z0 ) = lim [(z − z0 )m f (z)]. (8.22)
(m − 1)! z→z0 dz m−1

Essa fórmula decorre facilmente de (8.18) e do fato que H (m−1) é contı́nua


em z0 :
1 1
Res(f ; z0 ) = H (m−1) (z0 ) = lim H (m−1) (z)
(m − 1)! (m − 1)! z→z0
1
= lim [(z − z0 )m f (z)](m−1) .
(m − 1)! z→z0

À primeira vista, pode parecer que a fórmula (8.22) é a mais conveniente,


pois mesmo sem conhecer a função H = H(z) da representação (8.17) de
f , conseguimos cálcular o resı́duo. Porém, seu uso exige que determinemos
antes a ordem m do polo.
Exemplo 8.23. Calcule o resı́duo do ponto singular z0 = π da função
1
f (z) = , 0 < |z − π| < π,
sen2 z
usando as fórmulas (8.22), (8.18) e a da Proposição 8.22.
Cálculo do resı́duo usando (8.22). Como sen2 z possui um zero de ordem
dois em π, e o numerador não se anula, é natural esperar que a ordem do
polo z0 de f seja dois. Para confirmar esse valor, usamos a condição (8.8)
com m = 2, lembrando que sen z = − sen(z − π):
1 (z − π)2
lim (z − π)2 = lim = 1.
z→π sen2 z z→π sen2 (z − π)
(Justifique esse limite.) Sabendo que a ordem do polo é m = 2, derivamos
o produto (z − π)2 f (z):
2(z − π) sen2 z − (z − π)2 2 sen z cos z
[(z − π)2 f (z)]′ = .
sen4 z
178 8. Teorema dos Resı́duos

Depois de cancelar um sen z nessa fração, o denominador ainda fica com um


zero de ordem três. Assim, para evitar repetidos usos a regra de L’Hôpital
[Exemplo 7.9] no cálculo do limite de (8.22), reescrevemos o quociente an-
terior como
z − π  sen z − (z − π) cos z
[(z − π)2 f (z)]′ = 2 .
sen z sen2 z
Segue do Exemplo 7.9 que cada uma das frações possui limite, a saber
2(−1)0 = 0.
Cálculo do resı́duo usando (8.18). Agora desenvolvemos sen z em série
de Taylor, em torno de π, para encontrar a função H da fórmula (8.18)
[ou da representação (8.17)]. Como sen π = 0, sen′ π = cos π, sen′′ π = 0 e
sen′′′ π = − cos π, o teorema de Taylor garante que
1
sen z = (z − π)[−1 + (z − π)2 + · · · ].
3!
Com essa representação, reescrevemos f :
1
1/[−1 + − π)2 + · · · ]2
3! (z
f (z) = , 0 < |z − π| < π.
(z − π)2
A função
1
H(z) = 1
−1 + − π)2 + · · · ]2
3! (z
é derivável no disco |z−π| < π e H(π) 6= 0. Logo, z0 = π é um polo de ordem
dois da função f . Conhecendo H e a ordem m = 2 do polo, calculamos o
resı́duo via a fórmula (8.18):
1
H ′ (z) = {[−1 + (z − π)2 + · · · ]−2 }′
3!
1 1
= (−2)[−1 + (z − π)2 + · · · ]−3 [0 + (z − π) + · · · ].
3! 3

Portanto, Res(f ; π) = H (π) = 0.
Cálculo do resı́duo usando a fórmula da Proposição 8.22. Usamos p(z) =
1 e q(z) = sen2 z; p(π) 6= 0, q(π) = 0, q ′ (π) = 0 e q ′′ (π) 6= 0. Pela fórmula
da proposição, temos
1  6·0·2−2·1·0
Res 2
;π = = 0.
sen z 3 · 22
Observação 8.24. Se z0 é um polo de ordem m de uma função f = f (z),
sabemos da Proposição 8.11 que é válida a seguinte representação de f :
a−m a−1
f (z) = m
+ ··· + + a0 + a1 (z − z0 ) + · · · ,
(z − z0 ) z − z0
em alguma região da forma 0 < |z − z0 | < δ; note que apenas trocamos
as constantes c0 , · · · , cm−1 , cm , cm+1 da proposição por a−m , · · · , a−1 , a0 , a1 ,
8.9. Teorema dos resı́duos 179

respectivamente. Vamos mostrar que o resı́duo de f em z0 é o coeficiente de


(z − z0 )−1 nesse desenvolvimento, i.e.,
Z
1
Res(f ; z0 ) = f (z) dz = a−1 .
2πi γ
Com efeito, essa série converge na região 0 < |z − z0 | < δ, logo a parte
de potências não negativas, i.e.,
a0 + a1 (z − z0 ) + · · · + ak (z − z0 )k + · · · ,
converge no disco |z − z0 | < δ, e sua soma g = g(z) é uma função derivável
nesse disco, em virtude do teorema de derivação termo a termo para série
de potências. Assim, se γ(t) = z0 + αeit , 0 < α < δ, 0 ≤ t ≤ 2π, temos
Z Z Z
a−m a−1
f (z) dz = [ m
+ · · · + ] dz + g(z) dz
γ γ (z − z0 ) z − z0 γ
= 2πia−1 ,
pois a integral de g é nula pelo teorema de Cauchy e, além disso, usando a
definição de integral de contorno:
Z Z 2π (
1 1 it 0 se k ≥ 2
k
dz = k ekit
iαe dt =
γ (z − z0 ) 0 α 2πi se k = 1.
Portanto, fica verificado que Res(f ; z0 ) = a−1 ; confirmamos essa igualdade
no caso de um polo, mas ela é válida também para ponto singular removı́vel
e para ponto singular essencial.

8.9. Teorema dos resı́duos


Agora vamos enunciar o teorema dos resı́duos (veja Figura 8.3).
Teorema 8.25 (Teorema dos Resı́duos). Seja Ω um subconjunto aberto
de C contendo uma região simples D e seu bordo, orientado no sentido
anti-horário, e parametrizado por um caminho γ fechado e simples. Se f é
função derivável em Ω\{z0 , · · · , zk }, onde z0 , · · · , zk são os pontos singulares
isolados de f contidos no interior de D, então
Z
f (z) dz = 2πi[Res(f ; z0 ) + · · · + Res(f ; zk )].
γ

É fácil verificar que essa fórmula é válida no caso especial de três pontos
singulares. De fato, com dois segmentos de reta paralelos aos eixos coorde-
nados, dividimos a região simples D em três subregiões simples, denotadas
por I, II e III, cada uma contendo exatamente um ponto singular. De
cada uma dessas subregiões, removemos um disco aberto com centro em
z1 , z2 e z3 , e raio pequeno para que a fronteira do disco fique no interior da
180 8. Teorema dos Resı́duos

Figura 8.3. Teorema dos Resı́duos.

Figura 8.4. Uma possı́vel disposição de z1 , z2 e z3 .

subregião. Denotemos por ∂(I), ∂(II) e ∂(III) as fronteiras externas, orien-


tadas no sentido positivo, de cada subregião, e por γ1 , γ2 e γ3 as fronteiras
internas, orientadas no sentido horário. Veja a Figura 8.4 (as subregiões
estão levemente afastadas entre si para facilitar a visualização).
Assim, podemos aplicar em cada uma das novas subregiões a extensão
do teorema de Cauchy, i.e., a fórmula (6.10), para obtermos
Z Z Z Z
f (z) dz + f (z) dz = 0, f (z) dz + f (z) dz = 0
∂(I) γ1 ∂(II) γ2
e Z Z
f (z) dz + f (z) dz = 0.
∂(III) γ3
Somando membro a membro as três igualdades anteriores, lembrando que
as integrais nos segmentos da fronteira de duas subregiões adjacentes se
cancelam, obtemos
Z Z Z Z
f (z) dz = f (z) dz + f (z) dz + f (z) dz
γ γ1− γ2− γ3−
= 2πi[Res(f ; z1 ) + Res(f ; z2 ) + Res(f ; z3 )].

Nas próximas seções usaremos várias vezes o Teorema dos Resı́duos para
calcular integrais impróprias.
8.10. Integrais impróprias 181

8.10. Integrais impróprias


Dizemos que a integral imprópria
Z ∞
f (x) dx (8.23)
−∞

converge quando existem (e são finitos) os limites


Z 0 Z M
lim f (x) dx e lim f (x) dx.
N →−∞ N M →∞ 0

Nesse caso definimos


Z ∞ Z 0 Z M
f (x) dx = lim f (x) dx + lim f (x) dx. (8.24)
−∞ N →−∞ N M →∞ 0

Além da existência desses limites, está subentendido nessa definição que a


função f = f (x) é definida em todo x real, e que as integrais
Z 0 Z M
f (x) dx e f (x) dx
N 0
estão bem definidas.
Para algumas funções não existem os dois limites de (8.24), mas existe
o limite Z R
lim f (x) dx = J. (8.25)
R→∞ −R

O número J em (8.25) é conhecido como valor principal de Cauchy da inte-


gral imprópria. Quando o limite (8.25) existe, escrevemos
Z ∞ Z R
VP f (x) dx = lim f (x) dx = J.
−∞ R→∞ −R

É claro que uma integral pode ter o valor principal de Cauchy finito
e não ser integrável no sentido de (8.24), como no caso da função impar
f (x) = x. De fato,
Z ∞ Z R R
x2
VP x dx = lim x dx = lim [ ] = 0,
−∞ R→∞ −R R→∞ 2 −R

mas as duas integrais seguintes


Z 0 Z M
N2 M2
x dx = − e x dx =
N 2 0 2
não convergem quando N → −∞ e M → ∞.
Porém, quando o integrando é uma função par, i.e., f (−x) = f (x), e o
valor principal de Cauchy da integral imprópria é J ∈ R, é fácil verificar que
a integral imprópria converge para J no sentido mais restritivo (8.24).
182 8. Teorema dos Resı́duos

De fato, como f é par, temos


Z R Z R
1 J
lim f (x) dx = lim f (x) dx = . (8.26)
R→∞ 0 2 R→∞ −R 2
Por outro lado,
Z M Z 0 Z M
f (x) dx = f (x) dx + f (x) dx
N N 0
Z −N Z M
= f (x) dx + f (x) dx,
0 0
onde substituı́mos x por −x na integral sobre [N, 0], e usamos que f (−x) =
f (x), para encontrar a segunda igualdade. Quando N → −∞ e M → ∞,
as duas últimas integrais convergem para J/2, em virtude de (8.26). Logo,
a soma das integrais converge para J.

8.11. Integral de função racional


Em seguida mostraremos como calcular algumas integrais de funções reais
por meio do Teorema dos Resı́duos ou do Teorema de Cauchy.
No primeiro exemplo, o integrando é uma função racional, i.e., ela é o
quociente de dois polinômios. Além disso, esse integrando f = f (x) não
possui pontos singulares no eixo real.
Exemplo 8.26. Calcule a integral imprópria
Z ∞
1
4
dx. (8.27)
−∞ x + 1

A função de variável complexa “natural” que coincide com o integrando


de (8.27), quando restrita aos números reais, é
1
f (z) = 4 .
z +1
A região D escolhida para aplicar o Teorema dos Resı́duos é a metade do
disco de centro em zero e raio R, R > 1, contido no semiplano y = Im(z) ≥ 0.
Veja Figura 8.5.
É uma região apropriada por duas razões. Uma porque a fronteira de
D contém o segmento [−R, R] do eixo real, visto que o cálculo da integral
(8.27) depende do limite
Z R
1
lim 4
dx.
R→∞ −R x + 1

A segunda razão para a escolha dessa região D é que a outra parte da


fronteira de D é um semicı́rculo, onde |z| = R, o que facilita os cálculos no
momento de usar a desigualdade (8.29) abaixo.
8.11. Integral de função racional 183

Figura 8.5. Região D do Exemplo 8.26.

O Teorema dos Resı́duos pode ser aplicado a essa região D com [−R, R]
na fronteira, porque f não possui pontos singulares reais.
Os pontos singulares de f = f (z) são as raı́zes da equação z 4 + 1 = 0,
ou seja,  
p
4 π + 2kπ π + 2kπ
zk = | − 1| cos( ) + i sen( ) ,
4 4
onde k = 0, 1, 2, 3. Dessas quatro raı́zes, somente duas estão no semiplano
y = Im(z) ≥ 0, a saber,
z0 = eiπ/4 e z1 = ei3π/4 .
Usaremos a fórmula (8.16) com p(z) ≡ 1 e q(z) = z 4 + 1; q(zk ) = 0 e
q ′ (zk ) 6= 0, logo os pontos singulares são polos simples, e os resı́duos são
1 e−i3π/4 1 e−iπ/4
Res(f ; z0 ) = 3 = e Res(f ; z1 ) = 3 = .
4z0 4 4z1 4
O bordo de D, com a orientação positiva, pode ser parametrizado pelo
contorno γ1 (t) = t + i0, −R ≤ t ≤ R, para o intervalo [−R, R], e por
γ(t) = Reit , 0 ≤ t ≤ π, para o semicı́rculo.
Pelo Teorema dos Resı́duos, temos:
Z R Z
1 1
4
dt + 4
dz = 2πi[Res(f ; z0 ) + Res(f ; z1 )]
−R t + 1 γ z +1
√ (8.28)
π 2
= .
2
Como temos de fazer R → ∞ nessa igualdade, precisamos saber o limite da
integral ao longo de γ; vamos usar a desigualdade (c) do Teorema 6.20
Z

f (z) dz ≤ M L, (8.29)
γ

onde M é uma cota superior para |f (z)| sobre o traço de γ, e L é o


comprimento de γ. Para encontrar M , usamos a desigualdade triangular
|α + β| ≥ |α| − |β| ; assim,

|z 4 + 1| ≥ |z 4 | − |1| = ||z|4 − 1| = R4 − 1 quando |z| = R > 1.
184 8. Teorema dos Resı́duos

O comprimento do semicı́rculo é L = πR, logo


Z
1 πR
dz ≤ 4 .
4
γ z +1 R −1
Portanto, Z
1
lim dz = 0.
R→∞ γ z4 + 1
Com esse limite, fazemos R tender ao infinito em (8.28) para obtermos
Z ∞ √
1 π 2
4
dt = .
−∞ t + 1 2
Observação 8.27. O valor obtido é o “valor principal de Cauchy”, mas
como o integrando é uma função par, vimos na seção anterior que o valor
encontrado é também o da integral imprópria no sentido mais restrito [veja
(8.24)].

8.12. Produto de uma função racional por seno ou cosseno


Como no exemplo anterior, a função racional
1
f (x) = 2
x + a2
da próxima integral não possui pontos singulares sobre o eixo real.
Exemplo 8.28. Calcule a integral
Z ∞
cos x
2 + a2
dx, a > 0.
−∞ x
Pelas mesmas razões do exemplo anterior, continuaremos usando a região
D e os contornos γ1 e γ.
À primeira vista, o integrando “natural” para usar o Teorema dos Resı́duos
seria
cos z
,
z + a2
2
mas essa escolha não é boa porque | cos z| não é limitado em nenhum dos
semiplanos y ≥ 0 ou y ≤ 0, e isso dificulta o cálculo do limite da integral ao
longo de γ: ele não é nulo e é desconhecido; no exemplo anterior, o limite
análogo era nulo.
Portanto, em vez do cos z, usaremos a função eiz , pois essa está “ligada”
ao cos z pela relação
eiz = cos z + i sen z,
e |eiz | é limitado no semiplano y ≥ 0; esse fato será usado na demonstração
de que Z
eiz
lim dz = 0.
R→∞ γ z 2 + a2
8.12. Produto de uma função racional por seno ou cosseno 185

O único pólo (simples) da função


eiz
z 2 + a2
−a
em D é z0 = ia, e seu resı́duo é e /2ai, pela fórmula (8.16).
Segue do Teorema dos Resı́duos (ou da Fórmula Integral de Cauchy) que
Z R Z
eix eiz πe−a
2 2
dx + 2 2
dz = 2πi Res(f ; z0 ) = . (8.30)
−R x + a γ z +a a
Quanto à primeira integral dessa igualdade (8.30), lembramos que eix =
cos x + i sen x e que a função
sen x
x 2 + a2
é impar na variável x, logo
Z R
sen x
2 2
dx = 0.
−R x + a
Em virtude dessa observação, a igualdade (8.30) se reduz a
Z R Z
cos x eiz πe−a
2 2
dx + 2 2
dz = . (8.31)
−R x + a γ z +a a
Em seguida, usaremos a desigualdade (8.29), como no exemplo anterior,
para mostrar que o limite da integral ao longo de γ, quando R → ∞, é nulo.
Assim, escrevendo z = x + iy em eiz e lembrando que y ≥ 0 nos pontos do
traço de γ, temos
|eiz | = |e−y (cos x + i sen x)| = e−y ≤ 1;
além disso, pela desigualdade triangular, quando |z| = R > a, obtemos

|z 2 + a2 | ≥ |z 2 | − |a2 | = |z|2 − |a|2 = R2 − a2 ;
logo, usando essas duas últimas desigualdades encontramos o M da desigual-
dade (8.29):
eiz 1
|
2 2
|≤ 2 quando |z| = R > a.
z +a R − a2
Segue da desigualdade (8.29) e do fato que L = πR que
Z
eiz πR
dz ≤ 2 . (8.32)
2 2 R − a2
γ z +a
A fração do lado direito dessa desigualdade tende a zero quando R → ∞.
Em seguida, fazemos R tender ao infinito na igualdade (8.31), usamos
que o limite de (8.32) é nulo, para encontrarmos
Z ∞
cos x πe−a
2 2
dx = .
−∞ x + a a
186 8. Teorema dos Resı́duos

Figura 8.6. Região simples para o Exemplo 8.29.

8.12.1. A função racional possui ponto singular real. A função a ser


integrada agora não é par, e ainda possui ponto singular sobre o eixo real.
Exemplo 8.29. Calcule a seguinte integral imprópria:
Z ∞
1
5+1
dx.
0 x

O integrando natural é
1
f (z) = , z 6= e(2k+1)π/5 , k = 0, 1, 2, 3, 4. (8.33)
z5 +1
A presença do ponto singular z = −1 já indica que a região D usadas nos
exemplos anteriores deve ser alterada. Como a integral agora é sobre o
intervalo [0, ∞), a nova região deve conter na fronteira o intervalo [0, R]; há
diversas maneiras de escolher uma região que evite o −1, e ainda contenha
[0, R], mas há um motivo fundamental para escolher um setor circular de
abertura 2π/5 (veja a Figura 8.6), visto que a integral sobre o segmento de
reta da fronteira dado por tei2π/5 , 0 ≤ t ≤ R, será um múltiplo da integral
desejada:
Z R Z R
1 i2π/5 i2π/5 1
i2π/5 5
e dt = e 5
dt; (8.34)
0 (te ) +1 0 t + 1
lembramos que (ei2π/5 )5 = ei2π = 1.
O único ponto singular na região escolhida é a raiz z0 = eiπ/5 da equação
z5 + 1 = 0. Como o polo é simples, usamos a fórmula (8.16) com p(z) ≡ 1 e
q(z) = z 5 + 1; q(z0 ) = 0 e q ′ (z0 ) 6= 0; logo, o resı́duo é
1
Res(f ; z0 ) = .
5(eiπ/5 )4
Segue do Teorema dos Resı́duos (ou da Fórmula Integral de Cauchy) que
Z R Z Z R
1 1 1 1
5
dx + 5
dz − i2π/5 5
ei2π/5 dt = 2πi i4π/5 ,
0 x +1 γ z +1 0 (te ) +1 5e
8.12. Produto de uma função racional por seno ou cosseno 187

onde γ(t) = Reit , 0 ≤ t ≤ 2π/5, e o sinal de subtração é para compensar a


orientação trocada da parametrização tei2π/5 , cujo traço une (0, 0) ao ponto
Rei2π/5 .
Em virtude da igualdade (8.34), podemos reunir a primeira integral com
a terceira:
Z Z
 R 1 1 1
1 − ei2π/5 5
dx + 5
dz = 2πi i4π/5 . (8.35)
0 x +1 γ z +1 5e
De maneira similar ao que fizemos nos dois exemplos anteriores, usamos a
desigualdade (8.29) para mostrar que
Z
1 (2π/5)R 2π
dz ≤ se z = Reiθ , 0 ≤ θ ≤ e R > 1.
5 5
γ z +1 R −1 5
Por essa desigualdade, o limite da integral ao longo de γ, quando R tende
ao infinito, é zero. Tomando o limite na expressão (8.35), encontramos
Z ∞
1 1 π
5
dx = 2πi i4π/5 i6π/5
= .
0 x +1 5(e −e ) 5 sen(π/5)
Observação 8.30. A região usada no exemplo anterior pode ser adaptada
para mostrar que Z ∞
1 π/n
n+1
dx = ,
0 x sen(π/n)
onde n ≥ 2 é um número inteiro. Basta escolher um setor circular com
abertura 2π/n. Em particular, poderı́amos ter usado o setor circular 2π/4
(i.e., um quarto de disco no primeiro quadrante) para calcular a integral do
Exemplo 8.26.

A seguir integraremos outra função com um ponto singular sobre o eixo


real.
Exemplo 8.31. Mostre que
Z ∞
sen x
dx = π.
−∞ x
Como no Exemplo 8.28, usaremos eiz em lugar de sen z, por duas razões.
Uma é que sen z está “ligada” a eiz pela fórmula de Euler eiz = cos z+i sen z,
e a outra é que Z iz
e
lim dz = 0, (8.36)
R→∞ γ z

onde γ(t) = Reit , 0 ≤ t ≤ π; veja a Figura 8.7; apresentamos a demonstração


desse limite à página 189.
A função
eiz
f (z) = , z 6= 0,
z
188 8. Teorema dos Resı́duos

Figura 8.7. Região simples para o Exemplo 8.31.

possui um ponto singular sobre o eixo real, logo não podemos aplicar o
teorema de Cauchy a essa função na região D usada nos exemplos anteriores.
Para “evitar” o zero, retiramos de D um um semidisco de centro em zero
e raio ε, 0 < ε < R. A fronteira da nova região D0 é formada por dois
segmentos do eixo real, [−R, −ε] e [ε, R], e por dois semicı́rculos de raios R
e ε, ambos de centro na origem, parametrizados pelos caminhos γ(t) = Reit
e γε (t) = εei(π−t) , 0 ≤ t ≤ π; o traço do primeiro é percorrido no sentido
anti-horário, e o do segundo no sentido horário.
Como f = f (z), z 6= 0, é derivável em um conjunto aberto contendo
D0 , e essa região é uma união de duas regiões simples (basta dividir D0 pelo
eixo y), podemos usar o Teorema de Cauchy para escrever
Z −ε ix Z Z R ix Z iz
e eiz e e
dx + dz + dx + dz = 0. (8.37)
−R x γε z ε x γ z

A seguir substituı́mos x por −x na primeira integral de (8.37), e somamos


o resultado com a terceira integral:
Z −ε ix Z R ix Z R −ix Z R ix
e e e e
dx + dx = − dx + dx
−R x ε x ε x ε x
Z R (8.38)
sen x
= 2i dx,
ε x
onde usamos que sen x = (eix − e−ix )/2i. Decorre da substituição de (8.38)
em (8.37) que
Z R Z Z iz
sen x eiz e
2i dx + dz + dz = 0. (8.39)
ε x γε z γ z

Em seguida mostraremos que


Z
eiz
lim dz = −πi. (8.40)
ε→0+ γε z

Usando a representação de eiz em série de potências, temos


eiz 1 i2 z i3 z 2 1
= + [i + + + · · · ] = + r(z), (8.41)
z z 2! 3! z
8.12. Produto de uma função racional por seno ou cosseno 189

onde r(z) é a soma da série de potências entre colchetes; essa série converge
em todo z, logo sua soma é uma função contı́nua em C (na verdade é uma
função inteira). Integrando a igualdade de (8.41), obtemos
Z Z
eiz 1
dz = [ + r(z)] dz
γε z γε z
Z (8.42)
= −iπ + r(z) dz,
γε

onde calculamos a integral de contorno da função 1/z ao longo de γε ; nesse


cálculo podemos usar a definição de integral de contorno ou uma primitiva
adequada. A função r = r(z) é contı́nua no disco fechado |z| ≤ 1, logo ela
é limitada nesse disco, i.e., |r(z)| ≤ K se |z| ≤ 1. Com esse K, escolhendo
0 < ε < 1, e lembrando que L = πε, segue da desigualdade (8.29) que
Z
| r(z) dz| ≤ Kπε.
γε

Portanto, a integral de r(z) ao longo de γε tende a zero quando ε → 0+ .


Agora fazemos ε → 0+ na igualdade (8.42) e fica verificado o limite de (8.40).
Resta verificarmos o limite (8.36). Usar a desigualdade (8.29), com a
cota superior |eiz | = e−y ≤ 1, quando y ≥ 0, como foi feito no Exemplo 8.28,
não serve para mostrar que a integral ao longo de γ tende a zero quando
R → ∞. De fato, com M = 1/R e L = πR, a cota superior que conseguimos
não tende a zero assim que R → ∞:
Z iz
e 1
| dz| ≤ · πR = π.
γ z R
Nesses casos, para aproveitar o fato de que e−y tende a zero assim que
y → ∞, temos de usar a definição de integral de contorno e, depois usar
a desigualdade de Jordan, demonstrada no Lema 8.32, logo a seguir. Com
efeito, pela definição da integral ao longo de γ, temos
Z iz Z π iR(cos t+i sen t) Z π
e e it
dz = it
iRe dt = i eiR cos t e−R sen t dt.
γ z 0 Re 0
Na última integral aplicamos a desigualdade
Z b Z b
| ω(t) dt ≤ |ω(t)| dt,
a a
lembrando que |eiR cos t | = 1, para concluir que
Z Z π
eiz π

dz ≤ e−R sen t dt < ,
γ z 0 R
onde na última desigualdade usamos o Lema 8.32. Quando R → ∞, vemos
que a integral ao longo de γ tende a zero, e fica verificado o limite de (8.36).
190 8. Teorema dos Resı́duos

Figura 8.8. Desigualdade de Jordan.

Finalmente, fazendo ε → 0+ e R → ∞ em (8.39), e usando os limites


em (8.36) e (8.40), obtemos
Z ∞
sen x π
dx = .
0 x 2
Agora resta demonstrar a desigualdade de Jordan.
Lema 8.32 (Desigualdade de Jordan). Para cada R > 0 temos
Z π
π
e−R sen t dt < .
0 R
Demonstração. Inicialmente observamos que
Z π Z π Z π
2
e−R sen t dt = e−R sen t dt + e−R sen t dt
π
0 0 2
Z π Z 0
2
= e−R sen t dt + e−R sen τ (−dτ ) (8.43)
π
0 2
Z π
2
=2 e−R sen t dt,
0
onde fizemos a mudança de variável t = π − τ na integral de π/2 a π, e
usamos que sen(π − τ ) = sen τ .
Para estimar a última integral de (8.43), lembramos que a função t 7→
sen t é côncava no intervalo [0, π/2], visto que sen′′ t = − sen t ≤ 0 nesse
intervalo; veja a Figura 8.8; logo, o segmento de reta que une os extremos
(0, 0) e (π/2, 1) fica abaixo do gráfico do seno, i.e.,
2t π
sen t ≥ , 0 ≤ t ≤ .
π 2
Substituı́mos essa estimativa inferior do seno na última integral de (8.43) e
integramos, obtendo:
Z π Z π
2
−R sen t
2 π π
e dt ≤ e(−2R/π)t dt ≤ (−e−R + 1) < . (8.44)
0 0 2R 2R
A desigualdade de Jordan decorre da substituição de (8.44) em (8.43). 
8.13. Integrais próprias com cosseno ou seno 191


Figura 8.9. Apenas a raiz −2 + 3 está no interior do disco.

8.13. Integrais próprias com cosseno ou seno


No próximo exemplo, a integral não é imprópria, mas ela pode ser trans-
formada em uma integral de contorno ao longo do cı́rculo unitário |z| = 1.
Portanto, ainda podemos usar o teorema dos resı́duos. Vamos ilustrar como
funciona esse método em uma integral da forma
Z 2π
R(cos θ, sen θ) dθ,
0

onde R = R(x, y) é uma função racional, i.e., um quociente de polinômios


em duas variáveis reais.
A ideia é parametrizar o cı́rculo unitário |z| = 1 por z = eiθ e lembrar
que
eiθ + e−iθ z + z −1 eiθ − e−iθ z − z −1
cos θ = = , sen θ = =
2 2 2 2i
e
1
dz = ieiθ dθ = izdθ ou dθ = dz.
iz
Usaremos essas substituições no exemplo seguinte.
Exemplo 8.33. Calcule a integral
Z 2π
1
dθ.
0 2 + cos θ

Como parametrização do cı́rculo |z| = 1, no sentido anti-horário, us-


aremos γ(θ) = eiθ , 0 ≤ θ ≤ 2π. Fazendo as substituições anteriores no
integrando, encontramos
Z 2π Z
1 2 1
dθ = 2
dz. (8.45)
0 2 + cos θ i γ z + 4z + 1
Os pontos singulares da função√a ser integrada são as raı́zes da√ equação
z 2 + 4z + 1 = 0, ou seja, −2 ± 3. Dessas duas, apenas −2 + 3 está no
interior do cı́rculo unitário; veja a Figura 8.9. Essa raiz é um polo simples
192 8. Teorema dos Resı́duos

e o resı́duo pode ser calculado pela fórmula (8.16):


1 √ 1 1
Res( 2 ; −2 + 3) = √ = √ .
z + 4z + 1 2(−2 + 3) + 4 2 3
Segue do teorema dos resı́duos, ou da fórmula integral de Cauchy, que
Z
1 1 πi
2
dz = 2πi · √ = √ .
γ z + 4z + 1 2 3 3
Decorre dessa integral e de (8.45) que
Z 2π
1 2 πi 2π
dθ = · √ = √ .
0 2 + cos θ i 3 3
Observação 8.34. Se o integrando for uma função par em θ, podemos
calcular também as integrais de 0 a π, é só tomar a metade da integral de
−π a π, como em
Z π Z
1 1 π 1 π
2
dθ = 2
dθ = · · · = √ .
0 1 + sen θ 2 −π 1 + sen θ 2
Sugiro ao leitor completar os cálculos para confirmar o resultado.

8.14. Apêndice – Série de Laurent


Quando uma função f = f (z) é derivável (ou analı́tica) em um disco |z−a| <
R, vimos que ela pode ser representada por uma série de potências em torno
de a, i.e.,
f ′ (a) f (n) (a)
f (z) = f (a) + (z − a) + · · · + (z − a)n + · · · , (8.46)
1! n!
para todo z do disco |z − a| < R.
Se a função é derivável apenas em uma região da forma
R0 < |z − a| < R, R0 ≥ 0,
ou seja, em uma “coroa circular”, não podemos esperar uma representação
de f como a de (8.46).
Para esse tipo de região, a série de Laurent fornece uma representação
em série para f = f (z), mas agora com potências positivas e/ou negativas
de z − a, com coeficientes definidos por integrais; mais precisamente, se z
pertence à região R0 < |z − a| < R, então
c−3 c−2 c−1
f (z) = · · · + 3
+ 2
+
(z − a) (z − a) (z − a)1 (8.47)
+ c0 + c1 (z − a) + · · · + cn (z − a)n + · · · ,
onde os coeficientes são definidos por
Z
1 f (w)
ck = dw, k = 0, ±1, ±2, · · · (8.48)
2πi γ (w − a)k+1
8.14. Apêndice – Série de Laurent 193

Figura 8.10. Subdivisão da região r2 ≤ |z − a| ≤ r1 .

e o contorno γ(t) = a + δeit , R0 < δ < R, 0 ≤ t ≤ 2π; a expressão de ck em


(8.48) não depende do raio δ, desde que R0 < δ < R.
Para obter a representação (8.47), vamos repetir, essencialmente, o que
fizemos para encontrar a representação (8.46), nas páginas 144 e 145.
Sejam z um ponto fixado de R0 < |z − a| < R, r = |z − a| e γ1 (t) =
a + r1 eit , γ2 (t) = a + r2 eit , 0 ≤ t ≤ 2π, com R0 < r2 < r < r1 < R. Com
dois eixos ortogonais passando por a, dividimos a região r2 ≤ |z − a| ≤ r1
em quatro regiões simples, denotadas por I, II, III e IV ; e podemos supor
que o ponto z fixado esteja na região I.
Temos que a função f é derivável em um conjunto aberto contendo a
região I, logo podemos usar a Fórmula Integral de Cauchy nessa região para
escrever Z
f (w)
dw = 2πif (z). (8.49)
∂I w − z
Estamos supondo que o bordo ∂I da região simples I tenha orientação pos-
itiva.
Além disso, a função
f (w)
w 7→ , w 6= z,
w−z
é derivável em conjuntos abertos contendo as regiões II, III e IV . Em vista
desse fato, e adotando uma orientação positiva para o bordo de cada uma
dessas três regiões, temos, pelo Teorema de Cauchy:
Z Z Z
f (w) f (w) f (w)
dw = 0; dw = 0; dw = 0. (8.50)
∂(II) w − z ∂(III) w − z ∂(IV ) w −z
Somamos membro a membro as quatro igualdades de (8.49) e (8.50), lem-
brando que a soma das integrais ao longo dos segmentos nas fronteiras das
quatro regiões se anulam, para obtermos a representação de f :
Z Z
1 f (w) f (w)
f (z) = [ dw − dw]; (8.51)
2πi γ1 w − z γ2 w − z
194 8. Teorema dos Resı́duos

o sinal negativo entre as integrais decorre do fato da orientação de γ2 ser


oposta à do bordo interno.
A demonstração de que
Z
1 f (w)
dw = c0 + c1 (z − a) + · · · + cn (z − a)n + · · · , (8.52)
2πi γ1 w − z
onde os coeficientes ck são dados por
Z
1 f (w)
ck = dw, k = 0, 1, 2, · · · , (8.53)
2πi γ1 (w − a)k+1
é exatamente a mesma que fizemos no Teorema de Taylor, Seção 7.2; o
resto Rn (z) dado em (7.8) continua o mesmo, logo tende a zero da mesma
maneira.
Para representar a segunda integral de (8.51) em série em torno de a,
vamos repetir o que foi feito no Teorema de Taylor, mas agora usando a
soma parcial da série geométrica com (w − a)/(z − a), pois sobre o traço
de γ2 temos |w − a| < |z − a|. De fato, como queremos potências de z − a,
somamos e subtraı́mos a em w − z; além disso,
1 1 −1 1
= =[ ][ ]. (8.54)
w−z w−a+a−z z − a 1 − ( w−a
z−a )

Em seguida, usamos a identidade


1 yn
= 1 + y + y 2 + · · · + y n−1 + , y 6= 1,
1−y 1−y
com y = (w−a)/(z−a), no último termo da igualdade (8.54), para encontrar
1 −1 w−a w − a n−1 ( w−a
z−a )
n
= [1 + + ··· + ( ) + ]. (8.55)
w−z z−a z−a z−a 1 − ( w−a
z−a )

Substituindo essa expressão (8.55) na segunda integral de (8.51), e tirando


os termos 1/(z − a)k do sinal de integral, obtemos:
Z
−1 f (w) 1 1 bn (z),
dw = c−1 + · · · + c−n +R (8.56)
2πi γ2 w − z z−a (z − a)n
onde
Z
1
c−k = f (w)(w − a)k−1 dw, k = 1, 2, 3, . . . n. (8.57)
2πi γ2

bn (z) é dado por


O resto R
Z
bn (z) = 1 f (w)(w − a)n
R dw, z ∈ D,
2πi(z − a)n γ2 z−w
onde D = {z : r2 ≤ |z − a| ≤ r1 }.
8.14. Apêndice – Série de Laurent 195

Agora vamos mostrar que R bn (z) → 0 quando n → ∞. Aqui usaremos a


desigualdade (c) do Teorema 6.20. Como f é contı́nua no conjunto fechado
e limitado D, podemos escolher K satisfazendo |f (w)| ≤ K para todo w em
D; em particular, essa desigualdade vale para w tal que |w − a| = r2 ; além
disso, em vista da desigualdade triangular |α − β| ≥ ||α| − |β||, temos

|z −w| = |(z −a)−(w −a)| ≥ |z −a|−|w −a| = |z −a|−|w −a| = r −r2 > 0.
Com as estimativas superior de |f (w)| e inferior de |z − w|, podemos estimar
bn (z); de fato, para w sobre o traço de γ2 , temos
a integral que representa R
f (w)(w − a)n Kr2n
| |≤ ;
z−w r − r2
logo, como o comprimento do traço de γ2 é 2πr2 , obtemos
bn (z)| ≤ 1 Kr2n Kr2 r2 n
|R n
2πr2 = ( ) .
2πr (r − r2 ) r − r2 r
Visto que r2 < r, temos que (r2 /r)n → 0 quando n → ∞, logo
bn (z) → 0 quando n → ∞.
R
Segue desse último limite e de (8.56) que
Z
−1 f (w) 1 1
dw = c−1 + · · · + c−n + ··· . (8.58)
2πi γ2 w − z z−a (z − a)n
Em virtude de (8.51), (8.52) e (8.58), obtemos a representação para f =
f (z):
c−3 c−2 c−1
f (z) = · · · + 3
+ 2
+
(z − a) (z − a) (z − a)1 (8.59)
n
+ c0 + c1 (z − a) + · · · + cn (z − a) + · · · ,
válida em cada z da coroa circular R0 < |z − a| < R. Além disso, visto que
a função w 7→ f (w)/(w − a) é derivável em todo w tal que R0 < |w − a| <
R, usamos a extensão do Teorema de Cauchy (6.10) para substituirmos
os contornos γ1 em (8.53), e γ2 em (8.57), por um único γ(t) = a + δeit ,
0 ≤ t ≤ 2π, com R0 < δ < R, já que as integrais não se alteram. Portanto,
as expressões (8.53) e (8.57) podem ser unificadas na expressão (8.48).
Observação 8.35. Em geral, para encontrar a representação (8.47) de
f = f (z) em R0 < |z − a| < R evitamos usar a expressão (8.48) dos co-
eficientes, visto que nem sempre é possı́vel calcular as integrais ao longo
do γ. Frequentemente, obtemos a representação (8.47) de f = f (z) em
R0 < |z − a| < R de maneira indireta, via uma série geométrica ou algum
outro procedimento.
Como podemos garantir que a representação encontrada é a série de
Laurent, i.e., que os coeficientes são exatamente aqueles dados por (8.48)?
196 8. Teorema dos Resı́duos

Figura 8.11. Regiões 1 < |z| < 2 e 0 < |z − 1| < 1.

A garantia vem da unicidade da representação (8.47): pode-se mostrar que


a representação (8.47) de f = f (z) em R0 < |z − a| < R é única.

Exemplo 8.36. Obtenha os desenvolvimentos de Laurent para a função


1
f (z) = , z 6= 1, 2,
(z − 1)(2 − z)
válidos nas regiões 1 < |z| < 2 e 0 < |z − 1| < 1. Veja Figura 8.11.

Para a coroa circular 1 < |z| < 2 escrevemos


1 1 1
f (z) = = +
(z − 1)(2 − z) z−1 2−z
1 1 1 1
= +
z 1 − 1/z 2 1 − z/2
1 1 1 1 z zn
= [1 + + · · · + n + · · · ] + [1 + + · · · + n + · · · ];
z z z 2 2 2
os usos que fizemos de séries geométricas são válidos, pois |1/z| < 1 quando
|z| > 1, e |z/2| < 1 quando |z| < 2.
Para a coroa circular 0 < |z − 1| < 1 escrevemos
1 1 1
f (z) = = +
(z − 1)(2 − z) z−1 2−z
1 1
= +
z − 1 1 − (z − 1)
1
= + [1 + (z − 1) + · · · + (z − 1)n + · · · ].
z−1
Capı́tulo 9

Transformações de
Moebius–aplicações

Com frequência usamos funções de variáveis complexas na determinação de


solução de problemas de valores de contorno para a equação de Laplace

∆φ = φxx + φyy = 0. (9.1)

Uma aplicação fundamental ocorre quando não sabemos determinar uma


solução φ = φ(x, y) da equação (9.1) em uma região Ω, mas conhecemos
uma função
f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y),
derivável e injetiva nos pontos de Ω, cuja imagem é um conjunto aberto Ω1 ,
onde sabemos resolver a equação (9.1). Resolvemos a equação de Laplace
na região Ω1 e, em seguida, usamos a solução encontrada para determinar a
solução da equação (9.1) na região Ω.
Vamos detalhar um pouco esse processo: usamos as partes real u =
u(x, y) e a imaginária v = v(x, y) de f para definir uma transformação
T : Ω → Ω1 da forma

T (x, y) = u(x, y), v(x, y) , (x, y) ∈ Ω.

Quando Ω é um conjunto aberto, e f = f (z) é derivável e injetiva nos pontos


desse conjunto, pode-se mostrar que a imagem Ω1 = T (Ω) é também um
conjunto aberto.
Escolhidos a transformação T e o conjunto Ω1 onde sabemos resolver a
equação (9.1), o próximo passo é calcular a solução ψ = ψ(u, v) de (9.1) em
Ω1 , i.e., uma função com derivadas parciais contı́nuas até a segunda ordem

197
198 9. Transformações de Moebius–aplicações

Figura 9.1. Solução da equação de Laplace em Ω.

e satisfazendo a equação de Laplace


ψuu + ψvv = 0, (u, v) ∈ Ω1 .
Essas soluções são conhecidas como solução clássica da equação de Laplace.
Em seguida definimos a função

φ(x, y) = ψ u(x, y), v(x, y) , (x, y) ∈ Ω,
via a ψ já calculada e a transformação T . Veja a Figura 9.1.
Como veremos na próxima proposição, essa função φ é uma solução da
equação de Laplace em Ω, ou seja, ela possui derivadas parciais contı́nuas
até a segunda ordem e satisfaz a equação de Laplace
φxx + φyy = 0, (x, y) ∈ Ω.
Proposição 9.1. Seja f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y) uma função definida e
derivável em um conjunto aberto Ω. Suponha que imagem de f em R2 , i.e.,

Ω1 = { u(x, y), v(x, y) : (x, y) ∈ Ω},
seja um conjunto aberto também. Seja ψ = ψ(u, v) uma solução da equação
de Laplace em Ω1 , i.e.,
ψuu + ψvv = 0, (u, v) ∈ Ω1 .
Então a função

φ(x, y) = ψ u(x, y), v(x, y) , (x, y) ∈ Ω, (9.2)
é uma solução da equação de Laplace em Ω:
φxx + φyy = 0, (x, y) ∈ Ω.

O resultado seguinte será útil na demonstração dessa proposição.


Lema 9.2. Seja f (x+iy) = u(x, y)+iv(x, y) uma função definida e derivável
em um conjunto aberto Ω. Então as derivadas parciais de u = u(x, y) e
v = v(x, y), de todas as ordens, existem e são funções contı́nuas nos pontos
(x, y) de Ω.
9. Transformações de Moebius–aplicações 199

Demonstração. Verificaremos a conclusão do lema para as derivadas par-


ciais de segunda ordem; o raciocı́nio é o mesmo para as outras ordens.
Sabemos do Teorema 4.14 que a derivada f ′ (z) pode ser calculada por
uma das expressões

 ′
f (z) = ux (x, y) + ivx (x, y)
ou (9.3)

 ′
f (z) = vy (x, y) − iuy (x, y).
Pelo Teorema 7.4, existe f ′′ (z) e, em virtude do Teorema 4.14, podemos cal-
cular a derivada segunda f ′′ (z) = (f ′ )′ (z) de duas maneiras, uma derivando
com respeito a y na primeira expressão de f ′ , e outra derivando com respeito
a x na segunda:

f ′′ (z) = vxy (x, y) − iuxy (x, y)

e

 ′′
f (z) = vyx (x, y) − iuyx (x, y).
Dessas duas expressões para f ′′ (z) concluı́mos que
vxy (x, y) = vyx (x, y) e uxy (x, y) = uyx (x, y).
Além disso, visto que existe também a derivada f ′′′ nos pontos de Ω, temos
que f ′′ é uma função contı́nua nesses pontos, logo as quatro derivadas par-
ciais anteriores são funções contı́nuas em Ω.
Em seguida, derivamos em relação a x a primeira expressão de f ′ em
(9.3), e a segunda em relação y:

 ′′
f (z) = uxx (x, y) + ivxx (x, y)
e

 ′′
f (z) = −uyy (x, y) − ivyy (x, y).
Assim, uxx = −uyy e vxx = −vyy . Como no primeiro caso, a existência
da derivada f ′′′ garante a continuidade dessas quatro derivadas parciais nos
pontos de Ω. 

Agora podemos demonstrar a proposição anterior.

Demonstração da Proposição 9.1. Acima verificamos que as funções u =


u(x, y) e v = v(x, y) possuem derivadas parciais até a segunda ordem, e que
essas derivadas são funções contı́nuas em Ω. Por outro lado, como a função ψ
é uma solução da equação de Laplace, ela possui derivadas parciais contı́nuas
até a segunda ordem nos pontos de Ω1 . Logo, podemos usar a regra da cadeia
para calcular φx , φy , φxx e φyy a partir da definição (9.2):
φx = ψu ux + ψv vx e φy = ψu uy + ψv vy .
200 9. Transformações de Moebius–aplicações

Observamos que ψu e ψv dependem de u e de v, e que cada uma dessas


duas últimas dependem de x e de y; assim temos de usar a regra da cadeia
novamente (e a regra do produto) para calcular as derivadas de segunda
ordem de φ:
φxx = [ψuu ux + ψuv vx ]ux + ψu uxx + [ψvu ux + ψvv vx ]vx + ψv vxx ; (9.4)
analogamente, obtemos
φyy = [ψuu uy + ψuv vy ]uy + ψu uyy + [ψvu uy + ψvv vy ]vy + ψv vyy . (9.5)
Na soma φxx + φyy temos duas parcelas nulas, em virtude das equações de
Cauchy-Riemann ux = vy e uy = −vx :
ψuv [vx ux + vy uy ] = 0, e ψvu [ux vx + uy vy ] = 0.
Pelo Teorema 4.22, as funções u e v são harmônicas, logo as duas parcelas
seguintes são nulas também:
ψu [uxx + uyy ] = 0 e ψv [vxx + vyy ] = 0.
Eliminadas essas quatro parcelas nulas, resta na soma de (9.4) e (9.5) a
expressão:
φxx + φyy = ψuu [u2x + u2y ] + ψvv [vx2 + vy2 ]
= [ψuu + ψvv ][u2x + vx2 ],
onde a última igualdade decorre das equações de Cauchy-Riemann; lem-
brando que u2x + vx2 = |f ′ (x + iy)|2 e que ∆φ = φxx + φyy , temos
∆φ = |f ′ (x + iy)|2 ∆ψ.
Portanto, ∆φ = 0 sempre que ∆ψ = 0. Em outras palavras, a função
φ = φ(x, y) definida em (9.2) é uma solução da equação de Laplace. 

9.1. Transformações de Moebius


A classe de transformações
az + b
T (z) = , ad − cb 6= 0, (9.6)
cz + d
é muito útil para as aplicações. Elas são conhecidas como transformações
de Moebius (ou bilineares, ou lineares fracionárias ou ainda homográficas).
O domı́nio da transformação (9.6) é C \ {−d/c} no caso em que c 6= 0;
quando c = 0, temos que ad 6= 0, pois ad − cb 6= 0, logo d 6= 0 e então o
domı́nio de T nesse caso é C.
A hipótese ad − cb =6 0 é essencial para garantir que T = T (z) não seja
constante, pois
a(cz + d) − (az + b)c ad − cb
T ′ (z) = 2
= 6= 0.
(cz + d) (cz + d)2
9.1. Transformações de Moebius 201

Além disso, por essa mesma hipótese, a transformação T é injetiva em seu


domı́nio; de fato, se T (z1 ) = T (z2 ), i.e., se
az1 + b az2 + b
= ou az1 d + bcz2 = cz1 b + daz2 ,
cz1 + d cz2 + d
então (z2 − z1 )(ad − cb) = 0. Como ad − cb 6= 0, concluı́mos que z1 = z2 , o
que mostra que T é injetiva em seu domı́nio.
A trasnformação inversa de uma T da classe (9.6) é dessa classe também.
Basta resolver a equação
az + b (−d)w + b
w= ou T −1 (w) = .
cz + d cw + (−a)
A condição (−d)(−a) − bc 6= 0 é a mesma da hipótese ad − cb 6= 0.
As transformações (9.6) levam uma reta em reta ou cı́rculo, e levam um
cı́rculo em cı́rculo ou reta. O próximo exemplo confirma essa propriedade
em um caso especı́fico; o caso geral será verificado no próximo teorema.
Exemplo 9.3. Determine a imagem de
1
T (z) = , z 6= 0,
z
nos casos em que z são os pontos da reta vertical x = 1, ou da bissetriz do
primeiro quadrante y = x, ou do cı́rculo x2 + y 2 = −x.

Os pontos (u, v) da imagem de T satisfazem a igualdade


1 1 u − iv
u + iv = ou x + iy = = 2 ;
x + iy u + iv u + v2
logo,
u −v
x= 2 2
e y= 2 .
u +v u + v2
Em particular, as imagens por T (z) = 1/z das retas x = 1 e y = x são os
pontos (u, v) que satisfazem, respectivamente, as equações:
u2 + v 2 = u e v = −u.
A primeira equação corresponde ao cı́rculo (u − 1/2)2 + v 2 = (1/2)2 e a
segunda à uma reta, bissetriz do segundo quadrante do plano (u, v).
Para encontrar a imagem do cı́rculo x2 + y 2 = −x, observamos que
1 x −y
u + iv = ou u + iv = 2 +i 2 .
x + iy x + y2 x + y2
Logo, se x2 + y 2 = −x, então u = −1, ou seja, a imagem nesse caso é uma
reta vertical. Veja a Figura 9.2.
Nesse exemplo, a transformação T (z) = 1/z levou uma reta em uma
reta, e a outra reta em um cı́rculo. Além disso, um cı́rculo foi transfor-
mado em um reta. O próximo teorema mostra que esse comportamento de
202 9. Transformações de Moebius–aplicações

Figura 9.2. Imagens de cı́rculos e retas por T (z) = 1/z.

uma transformação particular é válido para toda T da famı́lia (9.6), e para


qualquer reta ou cı́rculo.
Teorema 9.4. As transformações da forma
az + b
T (z) = , ad − cb 6= 0, (9.7)
cz + d
levam reta em reta ou cı́rculo, e cı́rculo em cı́rculo ou reta.

Antes de iniciar a demonstração do Teorema 9.4, observamos que todo


cı́rculo (x − x0 )2 + (y − y0 )2 = r 2 e toda reta ay + bx + c = 0 em um plano
de coordenadas (x, y) podem ser representados por uma única equação da
forma
A(x2 + y 2 ) + Bx + Cy + D = 0, B 2 + C 2 > 4AD, (9.8)
onde A, B, C e D são números reais.
Para verificar essa afirmação, note que a reta ay + bx + c = 0 é a equação
(9.8) com A = 0, B = b, C = a e D = c; note que a e b não podem ser
ambos nulos, logo a condição B 2 + C 2 > 4AD está satisfeita.
Para o cı́rculo (x − x0 )2 + (y − y0 )2 = r 2 , elevamos ao quadrado os dois
termos e reagrupamos as parcelas na forma da equação (9.8):
1(x2 + y 2 ) + (−2x0 )x + (−2y0 )y + (x20 + y02 − r 2 ) = 0;
a condição B 2 + C 2 > 4AD nesse caso está garantida, pois r > 0 e então
4x20 + 4y02 > 4 · 1(x20 + y02 − r 2 ).

Reciprocamente, a equação (9.8) com A = 0 é a equação de uma reta.


Por outro lado, quando A 6= 0 na equação de (9.8), dividimos a igualdade
(9.8) por A e “completamos o quadrado” em x e em y, para obtermos o
cı́rculo
B 2 C 2 B 2 + C 2 − 4AD
(x + ) + (y + ) = r2, onde r 2 = > 0.
2A 2A 4A2
9.1. Transformações de Moebius 203

Demonstração do Teorema 9.4. Inicialmente consideramos c 6= 0, e es-


crevemos uma transformação de (9.7) como composição de transformações
de Moebius mais simples:
az + b 1 acz + bc 1 acz + ad − ad + bc
T (z) = = =
cz + d c cz + d c cz + d
(9.9)
a bc − ad 1
= +( ) .
c c cz + d
Nessa última expressão de (9.9) temos uma composição das seguintes trans-
formações de Moebius:
1 bc − ad
S1 (z) = cz, S2 (z) = z + d, S3 (z) = , S4 (z) = ( )z
z c
e da translação S5 (z) = z + (a/c). É fácil verificar que
T (z) = (S5 ◦ S4 ◦ S3 ◦ S2 ◦ S1 )(z)
= S5 (S4 (S3 (S2 (S1 (z))))).
Agora resta mostrar que cada Sk , k = 1, 2, 3, leva uma equação da forma
(9.8) em x e y em uma equação do mesmo tipo nas variáveis u e v. Em
outras palavras, leva reta ou cı́rculo em reta ou cı́rculo. Note que S4 tem o
mesmo comportamento de S1 , e o mesmo vale para S5 e S2 , só mudam as
constantes.
Verificaremos a asserção do Teorema 9.4 para a transformação S3 (z) =
1/z, z 6= 0; para S1 e S2 , o procedimento é análogo, basta lembrar que
c = c1 + ic2 e d = d1 + id2 .
Como foi visto no Exemplo 9.3, a igualdade u + iv = 1/(x + iy) implica
u −v
x= e y= .
u2 + v2 u2 + v2
Substituindo essas expressões de x e y na equação (9.8), obtemos
D(u2 + v 2 ) + Bu + (−C)v + A = 0. (9.10)
A condição B 2 + (−C)2 > 4DA é válida, visto que é a mesma de (9.8).
Portanto, a equação (9.10) representa uma reta no caso em que D = 0 ou
um cı́rculo quando D 6= 0.
Quando c = 0, temos que
a b
T (z) = z+ ,
d d
logo é uma composição de uma transformação do tipo S1 com outra do
tipo S2 , só mudam as constantes. A verificação da asserção do teorema é
similar. 
204 9. Transformações de Moebius–aplicações

9.2. Razão Cruzada


Definição 9.5. Para quatro números z1 , z2 , z3 e z4 , dois a dois distintos,
definimos a razão cruzada deles por
(z1 − z2 )(z3 − z4 )
[z1 , z2 , z3 , z4 ] = . (9.11)
(z1 − z4 )(z3 − z2 )
A seguinte extensão é conveniente: quando um dos zj for o infinito, suprime-
se da razão cruzada os dois termos envolvendo o zj , ou seja, se z1 = ∞, ou
z2 = ∞, ou z3 = ∞, ou z4 = ∞, a razão cruzada se reduz a, respectivamente:
z3 − z4 z3 − z4 z1 − z2 z1 − z2
, , , .
z3 − z2 z1 − z4 z1 − z4 z3 − z2
O próximo teorema mostra que a razão cruzada é invariante por trans-
formação de Moebius.
Teorema 9.6. Sejam w1 = T (z1 ), w2 = T (z2 ), w3 = T (z3 ) e w4 = T (z4 ),
onde T é uma transformação de Moebius, e os números z1 , z2 , z3 e z4 são
dois a dois distintos. Então
(w1 − w2 )(w3 − w4 ) (z1 − z2 )(z3 − z4 )
= . (9.12)
(w1 − w4 )(w3 − w2 ) (z1 − z4 )(z3 − z2 )
Demonstração. Suponha que nenhum dos pontos seja infinito. Para j, k =
1, 2, 3, 4, temos
azj + b azk + b (ad − bc)(zj − zk )
wj − wk = − = .
czj + d czk + d (czj + d)(czk + d)
Agora substituı́mos os valores de j e k de acordo com a definição de razão
cruzada:
(ad−bc)(z1 −z2 ) (ad−bc)(z3 −z4 )
(w1 − w2 )(w3 − w4 ) (cz1 +d)(cz2 +d) · (cz3 +d)(cz4 +d) (z1 − z2 )(z3 − z4 )
= (ad−bc)(z1 −z4 ) (ad−bc)(z3 −z2 )
= .
(w1 − w4 )(w3 − w2 ) · (z1 − z4 )(z3 − z2 )
(cz1 +d)(cz4 +d) (cz3 +d)(cz2 +d)


Podemos usar a razão cruzada para obter uma transformação de Moebius


que leva três pontos distintos z1 , z2 e z3 em w1 , w2 e w3 , basta considerar
z4 = z e w4 = w.
Definição 9.7. A transformação de Moebius w = T (z) que leva três pontos
z1 , z2 e z3 , dois a dois distintos, em w1 , w2 e w3 , também dois a dois distintos,
satisfaz a igualdade
(w1 − w2 )(w3 − w) (z1 − z2 )(z3 − z)
= . (9.13)
(w1 − w)(w3 − w2 ) (z1 − z)(z3 − z2 )
Aqui continua valendo a convenção adotada na definição de razão cruzada
para o caso em que um dos zj (ou wj ) seja infinito.
9.3. Aplicações a Problemas de Contorno 205

Figura 9.3. Regiões Ω e Ω1 do Exemplo 9.8.

9.3. Aplicações a Problemas de Contorno


Usaremos agora as transformações de Moebius na solução de problema de
valores de contorno (ou de fronteira). O exemplo seguinte é do livro Complex
Variables with Applications, A. D. Wunch.

Exemplo 9.8. Seja Ω uma região do plano R2 compreendida entre os


cı́rculos
1 1 1 1
C1 : (x − )2 + y 2 = ( )2 e C2 : (x − )2 + y 2 = ( )2 ;
2 2 4 4
a união desses dois cı́rculos formam a fronteira de Ω. Determine a solução
do seguinte problema de contorno para a equação de Laplace:


φxx + φyy = 0 se (x, y) ∈ Ω
φ(x, y) = 0 se (x, y) ∈ C1 (9.14)


φ(x, y) = 10 se (x, y) ∈ C2 .

Inicialmente transformamos a região Ω em uma região Ω1 na qual sabe-


mos resolver a equação de Laplace. Veja a Figura 9.3. Isso será feito com
uma transformação de Moebius, a qual será calculada de acordo com a
Definição 9.7.
Uma orientação para a escolha de três pontos da fronteira de Ω que vão
corresponder a três outros da fronteira de Ω1 é a seguinte: queremos que o
cı́rculo C1 se transforme na reta u = 0, logo associamos o ponto z1 = 1 ao
ponto w1 = 0 e z2 = 0 a w2 = ∞; para a fronteira C2 , associamos o ponto
z3 = 1/2 a w3 = 1; como z2 = 0 já vai em w2 = ∞, temos que o cı́rculo
C2 será levado na reta u = 1. De acordo com (9.13), a transformação de
Moebius procurada satisfaz a equação:
(1 − 0)(1/2 − z) 1−w 1−z
= ou w= .
(1 − z)(1/2 − 0) 0−w z
Note que os dois termos que dependem de w2 = ∞ foram suprimidos da
razão cruzada.
206 9. Transformações de Moebius–aplicações

A solução limitada do problema de contorno




ψuu + ψvv = 0 se (u, v) ∈ Ω1
φ(0, v) = 0 se −∞ < v < ∞


φ(1, v) = 10 se −∞ < v < ∞
é ψ(u, v) = 10u; a verificação é imediata.
Como ψ só depende de u, basta então encontrar u = u(x, y) a partir de
w = (1 − z)/z:
1 x − iy x −y
w = u + iv = −1= 2 2
−1=( 2 2
− 1) + i( 2 ).
z x +y x +y x + y2
Segue dessa igualdade que
x
u(x, y) = − 1.
x2 + y2
Em virtude de (9.2) e do fato que ψ(u, v) = 10u, obtemos a seguinte solução
da equação de Laplace em Ω:
x
φ(x, y) = 10( 2 − 1), (x, y) 6= (0, 0). (9.15)
x + y2
No Teorema 9.12 mostraremos que o problema de contorno (9.14) possui
uma única solução limitada, essa que acabamos de obter.
Em seguida apresentaremos mais um problema de contorno, mas agora
será necessário combinar uma transformação de Moebius com outra função
derivável para encontrar uma região Ω1 onde sabemos resolver a equação de
Laplace.
Exemplo 9.9. Seja Ω o semidisco x2 + y 2 < 1, com y > 0. Determine a
solução do seguinte problema de contorno para a equação de Laplace


φxx + φyy = 0 se (x, y) ∈ Ω
φ(x, y) = 10 se x2 + y 2 = 1, y > 0 (9.16)


φ(x, 0) = 0 se −1 < x < 1.

Nesse caso usamos uma transformação de Moebius para levar Ω no


primeiro quadrante de um plano (s, t); em seguida, usamos a aplicação
s + it 7→ u + iv = (s + it)2 para levar esse primeiro quadrante em um
semiplano Ω1 , onde é fácil encontrar uma solução do problema de contorno


ψuu + ψvv = 0 se (u, v) ∈ Ω1
ψ(u, 0) = 0 se 0 < u < ∞ (9.17)


ψ(u, 0) = 10 se −∞ < u < 0.
Veja a Figura 9.4.
9.3. Aplicações a Problemas de Contorno 207

Figura 9.4. Transformações do Exemplo 9.9.

Para encontrar a transformação de Moebius, escolhemos z1 = i para


ir em w1 = i e z2 = 1 para ir em w2 = ∞, pois assim o semicı́rculo da
fronteira de Ω vai na semirreta s = 0, t > 0. Finalmente, tome z3 = 0 para
ir em w3 = 1; lembramos que z2 = 1 também pertence ao segmento [−1, 1]
e vai ser levado em w2 = ∞, logo é natural esperar que esse segmento será
levado na semirreta dos reais positivos. Agora usamos (9.13) para encontrar
a w = T (z) que leva [i, 1, 0, z] em [i, ∞, 1, w], ou seja,
(i − 1)(0 − z) 1−w 1+z
= ou w= .
(i − z)(0 − 1) i−w 1−z
Vamos mostrar que a solução limitada do problema (9.17) é
10
ψ(u, v) = Arg(u + iv), v > 0. (9.18)
π
De fato, no semiplano v > 0 a função
p
u + iv 7→ Log(u + iv) = ln u2 + v 2 + i Arg(u + iv)
é derivável, pelo Teorema 5.31; logo, em vista do Teorema 4.22, a função
10
(u, v) 7→ ψ(u, v) = Arg(u + iv)
π
é harmônica em Ω1 , ou seja, ela é uma solução da equação de Laplace:
ψuu + ψvv = 0. Além disso, na fronteira v = 0 de Ω1 , temos:
10
ψ(u, 0) = 0 se u > 0 e ψ(u, 0) = π = 10 se u < 0.
π
Portanto, essa ψ é uma solução limitada do problema (9.17).
Em seguida, determinaremos uma expressão para calcular Arg(u+iv) em
termos de arctan(t/s). De fato, note que os pontos u + iv de Ω1 satisfazem
a igualdade
u + iv = (s + it)2 , s > 0 e t > 0.
Agora, visto que o argumento principal de qualquer número s+it, com s > 0
e t > 0, satisfaz as desigualdades 0 ≤ Arg(s + it) ≤ π/2, temos
Arg(u + iv) = Arg[(s + it)2 ] = Arg(s + it) + Arg(s + it)
(9.19)
= 2 Arg(s + it).
208 9. Transformações de Moebius–aplicações

Além disso, se s + it = r(cos θ + i sen θ) e s > 0, então tan θ = t/s, s > 0.


No primeiro quadrante do plano (s, t), sabemos que 0 < θ < π/2, logo
t
Arg(s + it) = θ = arctan( ), s > 0. (9.20)
s
Portanto, quando u + iv = (s + it)2 , com s > 0 e t > 0, usamos (9.19) e
(9.20) para reescrever a expressão (9.18):
10 20 t
ψ(u, v) = Arg(u + iv) = arctan( ), s > 0 e t > 0. (9.21)
π π s
Segue da definição de φ = φ(x, y) dada em (9.2), e de (9.21), que
20 t(x, y)
φ(x, y) = ψ(u(x, y), v(x, y)) = arctan( ), (9.22)
π s(x, y)
onde z = x + iy ∈ Ω e
1+z 1 − x2 − y 2 2y
s(x, y) + it(x, y) = =( 2 2
) + i( ). (9.23)
1−z (1 − x) + y (1 − x)2 + y 2
Agora substituı́mos s(x, y) e t(x, y) de (9.23) em (9.22) para obtermos a
solução da equação de Laplace em Ω:
20 2y
φ(x, y) = arctan( ), x2 + y 2 < 1, y ≥ 0. (9.24)
π 1 − x2 − y 2
Essa função φ não está definida em (x, y), onde x2 + y 2 = 1, com y > 0.
Porém, para um ponto (x0 , y0 ) desse semicı́rculo e (x, y) do interior de Ω,
temos
20 π
lim φ(x, y) = = 10,
(x,y)→(x0 ,y0 ) π 2
pois arctan(α) → π/2 quando α → +∞. Com esse limite de φ, definimos
uma extensão da função φ, contı́nua em Ω \ {(−1, 0), (1, 0)}:
(
2 2
b y) = φ(x, y) se x + y < 1, y ≥ 0,
φ(x,
10 se x2 + y 2 = 1, y > 0.

Essa φb = φ(x,
b y) é a única solução limitada do problema de contorno (9.16);
a unicidade da solução decorre do princı́pio do máximo apresentado a seguir.

9.4. Princı́pio do Máximo para Funções Harmônicas


No Exemplo 9.8, qualquer ponto do interior de Ω pertence a um dos cı́rculos
r r 1
(x − )2 + y 2 = ( )2 , < r < 1.
2 2 2
2 2
Dessa igualdade concluı́mos que x +y = rx; portanto, nesses pontos temos
1
φ(x, y) = 10( − 1),
r
9.4. Princı́pio do Máximo para Funções Harmônicas 209

logo
0 < φ(x, y) < 10, (x, y) ∈ Ω.
A função φ = φ(x, y) do Exemplo 9.9 também satisfaz as mesmas desigual-
dades
0 < φ(x, y) < 10 em Ω.

Vemos que cada uma dessas funções harmônicas possui a seguinte pro-
priedade: o valor máximo e o valor mı́nimo delas não ocorre em pontos
interiores de Ω. Toda função harmônica, não constante, possui essa pro-
priedade em cada conjunto aberto, limitado e conexo.
Um resultado mais simples, supondo que u = u(x, y) seja definida e
contı́nua em um conjunto limitado e fechado Ω, será demonstrado a seguir.

Teorema 9.10. Seja Ω um conjunto aberto e limitado de R2 . Suponha que


u = u(x, y) seja uma função contı́nua em Ω e que satisfaça as condições
(
∆u = uxx + uyy ≥ 0 em Ω
u≤0 em ∂Ω.

Então u(x, y) ≤ 0 em todos pontos (x, y) de Ω.

Demonstração. Inicialmente adicionamos um termo à função u para trans-


formar a desigualdade uxx +uyy ≥ 0 em uma desigualdade estrita, pois assim
ficará fácil ver que a nova função não atinge seu valor máximo em um ponto
de Ω.
Seja v = v(x, y) = u(x, y) + εx2 , onde ε é um número positivo qualquer.
Logo,
vxx + vyy = uxx + uyy + 2ε ≥ 2ε > 0. (9.25)
Por outro lado, como v é uma função contı́nua em conjunto fechado e limi-
tado Ω, existe um (x0 , y0 ) em Ω tal que

max v(x, y) = v(x0 , y0 ).


(x,y)∈Ω

Sendo (x0 , y0 ) um ponto de máximo de v, se (x0 , y0 ) é um ponto interior de


Ω, então vxx (x0 , y0 ) ≤ 0 e vyy (x0 , y0 ) ≤ 0; nesse caso, temos

vxx + vyy ≤ 0,

o que contradiz a desigualdade (9.25). Portanto, o ponto (x0 , y0 ) não per-


tence ao conjunto Ω, logo ele está na fronteira ∂Ω de Ω.
Sabendo que o valor máximo de v = v(x, y) em Ω é atingido em um
ponto da fronteira ∂Ω, temos então as seguintes desigualdades em um ponto
210 9. Transformações de Moebius–aplicações

(x, y) de Ω:
u(x, y) ≤ v(x, y) ≤ max v(x, y)
(x,y)∈∂Ω

≤ max u(x, y) + εr 2 (9.26)


(x,y)∈∂Ω

≤ 0 + εr 2 ,
onde r denota o raio de uma disco, com centro na origem, e que contém Ω; a
última desigualdade decorre da hipótese que u(x, y) ≤ 0 quando (x, y) ∈ ∂Ω.
Visto que a desigualdade (9.26) é válida para todo ε > 0, podemos fazer
ε tender a zero e concluir que
u(x, y) ≤ 0 se (x, y) ∈ Ω.
Isso completa a demonstração do teorema. 

O teorema que acabamos de demonstrar ainda não é adequado para


mostrar que o problema (9.14) possui no máximo uma solução, pois a solução
que determinamos não é definida em um ponto da fronteira ∂Ω, a saber (0, 0).
Porém, ela é a única solução limitada do referido problema. Essa unicidade
decorre da seguinte versão do princı́pio do máximo, cuja demonstração usa
o Teorema 9.10.
Teorema 9.11. Seja Ω um conjunto aberto e limitado de R2 . Suponha que
u = u(x, y) seja uma função contı́nua e limitada em Ω \ {P }, onde P é um
ponto da fronteira ∂Ω de Ω. Suponha também que u satisfaça as condições
(
∆u = uxx + uyy ≥ 0 em Ω
u≤0 em ∂Ω \ {P }.
Então u(x, y) ≤ 0 em todos pontos (x, y) de Ω.

Demonstração. Fixemos um ponto (x1 , y1 ) do interior de Ω. Denotemos


por M uma constante tal que u(x, y) ≤ M em todo (x, y) de Ω \ {P }, e
por D um número tal que as distâncias de P a qualquer outro ponto (x, y)
da fronteira ∂Ω seja menor ou igual a D; esse D existe porque o Ω é um
conjunto limitado. Além disso, seja P = (x0 , y0 ). Considere a função
p
M (x − x0 )2 + (y − y0 )2
hε (x, y) = ln[ ], (x, y) 6= (x0 , y0 ),
ln(ε/D) D
onde ε é um número positivo menor do que a distância de (x1 , y1 ) a P .
Vamos remover de Ω os seus pontos que estão contidos em um disco
fechado de centro em P e raio ε, i.e., consideremos o conjunto
p
Ω1 = Ω \ {(x, y) : (x − x0 )2 + (y − y0 )2 ≤ ε}.
9.4. Princı́pio do Máximo para Funções Harmônicas 211

Figura 9.5. Extensão do princı́pio do máximo.

Veja a Figura 9.5. Em seguida mostraremos que se (x, y) é um ponto do


interior de Ω1 , então
u(x, y) ≤ hε (x, y). (9.27)
Para verificar essa desigualdade, usaremos o Teorema 9.10. Definimos a
função v(x, y) = u(x, y) − hε (x, y) e vamos verificar que as hipóteses do
Teorema 9.10 são válidas para v. Uma simples aplicação da regra da cadeia
mostra que ∆hε = 0 nos pontos (x, y) de Ω1 ; logo, a função v(x, y) =
u(x, y) − hε (x, y) satisfaz a desigualdade
∆v = ∆u − ∆hε ≥ 0 nos pontos de Ω1 ,
visto que ∆u
p ≥ 0 por hipótese. Além disso, se (x, y) pertence à fronteira
∂Ω1 , temos (x − x0 )2 + (y − y0 )2 ≥ ε; como a função s 7→ ln s é crescente,
temos que
hε (x, y) ≥ M nos pontos de ∂Ω1 .
Portanto
v(x, y) = u(x, y) − hε (x, y)
≤ u(x, y) − M ≤ M − M = 0 nos pontos de ∂Ω1 .
Assim, podemos usar o Teorema 9.10 para concluir que
u(x, y) − hε (x, y) ≤ 0 se (x, y) ∈ Ω1 .
Em particular, como (x1 , y1 ) ∈ Ω1 , temos
u(x1 , y1 ) ≤ hε (x1 , y1 ).
Agora usamos que ln(ε/D) → −∞ quando ε tende a zero para concluir que
u(x1 , y1 ) ≤ 0; como esse ponto é um ponto arbitrário do interior de Ω1 ,
temos a conclusão do teorema: u(x, y) ≤ 0 nos pontos de Ω. 

Em seguida verificamos a unicidade de solução limitada para o problema


do Exemplo 9.8.
Teorema 9.12. O problema (9.14) possui no máximo uma solução limitada.
Em particular, a solução φ = φ(x, y) em (9.15) é a única solução limitada
do problema (9.14).
212 9. Transformações de Moebius–aplicações

Demonstração. Para verificar que o problema de contorno (9.14) possui no


máximo uma solução limitada, suponha que existam duas soluções limitadas
φ1 e φ2 ; tome S(x, y) = φ1 (x, y) − φ2 (x, y). É fácil ver que essa S satisfaz
Sxx + Syy = 0 em Ω e S(x, y) = 0 em ∂Ω \ {(0, 0)}.
Temos então ∆S ≥ 0 em Ω e S(x, y) ≤ 0 nos pontos de ∂Ω \ {(0, 0)}; é
claro que temos também ∆(−S) ≥ 0 em Ω e (−S)(x, y) ≤ 0 nos pontos de
∂Ω \ {(0, 0)}. Além disso, S = S(x, y) é limitada nos pontos de Ω, pois φ1
e φ2 são limitadas. Podemos então usar (duas vezes) o Teorema 9.11 para
concluir que
S(x, y) ≤ 0 e (−S)(x, y) ≤ 0 em todos (x, y) de Ω.
Portanto, S(x, y) = 0 e então φ1 (x, y) = φ2 (x, y) nos pontos de Ω. Fica
verificada a unicidade de soluções limitadas para o problema (9.14). 

A demonstração do Teorema 9.11 pode ser adaptada para o caso em que


a função u não está definida em dois (ou em um número finito) de pontos da
fronteira ∂Ω. Portanto, mostramos da mesma maneira que o problema de
contorno do Exemplo 9.9 possui no máximo uma solução limitada também.
Índice Remissivo

p-séries, 33 contı́nua, 53
contı́nua por partes em [a, b], 116
Caminho oposto, 125 cosseno, 97
Coeficiente de Taylor, 94 derivável, 66
Composição de contı́nuas é contı́nua, 55 exponencial, 95
Conjunto harmônica, 79
aberto, 65 holomorfa, 151
fechado, 65 injetiva, 44
Conjunto convexo, 80 seno, 97
Contorno sobrejetiva, 44
simples, 130 Funções hiperbólicas, 103
Contorno ou caminho, 120
Convergência Integral
de série de potências, 86 de função de variável real com valores
de séries, 30 em C, 117
de sequência, 20 ao longo de um contorno, 121
de função contı́nua por partes, 117
Derivação termo a termo de uma série
de potências, 89 Lema de Abel, 87
Derivada, 66 Limite
Desigualdade de Cauchy, 154 de função, 47
Desigualdade triangular, 6 Logaritmo, 103
Determinação principal do logaritmo,
105 Número complexo
adição, 1
Equação como par ordenado, 16
de Laplace, 79 conjugado, 4
Equações de Cauchy-Riemann, 73 definição, 1
definição de i, 17
Fórmula de Moivre, 10 divisão, 4
Fórmula integral de Cauchy, 139 igualdade, 2
Função módulo, 4
analı́tica, 149 multiplicação, 1
composta, 55 parte imaginária, 2

213
214 Índice Remissivo

parte real, 2 dos resı́duos, 179


fundamental da Álgebra, 155
Orientação positiva, 131 Teste
da razão, 41
Par ordenado, 15
de Leibniz, 37
Polos, 164
Traço de um contorno, 120
Ponto de fronteira, 66
Transformações de Moebius, 200
Ponto interior, 65
Ponto singular Zeros
essencial, 169 de ordem m, 152
isolado, 161 simples, 152
removı́vel, 162
Princı́pio do máximo, 209
Problemas de contorno, 205
Produto de séries de potências, 157

Raio de convergência, 87
Raiz enésima de um número, 12
Razão cruzada, 204
Região simples, 130
Resı́duo, 171
de polo com ordem maior do que um,
174
de polo simples, 173

Série
de Laurent, 192
Séries
convergência absoluta, 38
convergente, 31
divergente, 31
soma, 31
termo geral, 31
Séries de potências, 85
convergência, 85
derivação termo a termo, 89
raio de convergência, 87
Sequência, 19
convergente, 20
de Cauchy, 30
limitada, 23
limite, 20
soma, produto e divisão, 25
unicidade do limite, 30
Sequência de somas parciais, 30

Teorema
de Cauchy, 129
de Green, 131
de Liouville, 155
de Looman-Menchoff, 78
de Morera, 158
de Riemann, 162