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RESUMO do LIVRO A PASSAGEM DO MEIO de JAMES HOLLIS

Por GYSELLE FROTA CURSO DE FORMAÇÃO EM ARTETERAPIA EVELINE CARRANO

MÓDULO III – DESENVOLVIMENTO HUMANO MARÇO/2017

1. A PERSONALIDADE PROVISÓRIA

Quando nascemos, recebemos múltiplas lentes: a herança genética, o sexo, a cultura


específica e as variáveis no nosso ambiente familiar e todas constituem a nossa ideia de
realidade.

Talvez o primeiro passo necessário para que a passagem do meio seja significativa seja
reconhecer a parcialidade da lente que recebemos da nossa família e da nossa cultura, e através
da qual fizemos nossas escolhas e sofremos suas consequências. Todas essas informações
geraram uma vida condicional, que não representa quem somos, mas o modo como fomos
condicionados a ver a vida e fazer nossas escolhas. Assim sendo, acreditamos que a nossa
maneira de encarar o mundo é a única forma como ele pode ser visto e nem sequer suspeitamos
da natureza condicionada da nossa percepção.

Fomos ligados à pulsação do cosmos no útero da nossa mãe e de repente fomos


lançados ao mundo para dar início a um exílio e a busca por recuperar essa ligação perdida, onde
até a mesmo a religião pode ser vista como projeção dessa busca. Sendo assim, quase todos nós
sobrevivemos como pessoas meramente neuróticas, ou seja, divididas entre a natureza
intrínseca da criança e o mundo para o qual fomos socializados.

Podemos até concluir que a personalidade adulta não examinada é um agregado de


atitudes, comportamentos reflexos psíquicos ocasionados pelos traumas da infância, cujo
objetivo fundamental é controlar o nível de sofrimento experimentado pela memória orgânica
da infância que conduzimos dentro de nós. Podemos chamar essa memória orgânica de
CRIANÇA INTERIOR, e nossas várias neuroses representa estratégias inconscientemente
desenvolvidas para defender essa criança.

A natureza do sofrimento infantil pode ser generalizada de forma ampla em duas


categorias básicas:

1. A experiência da negligência e do abandono;


2. A experiência de ser esmagado pela vida.

Aquilo que chamamos de personalidade provisória é uma série de estratégias


escolhidas pela frágil criança para lidar com a angústia existencial. Esses comportamentos e
atitudes são tipicamente agregados antes dos cinco anos de idade e são elaborados dentro de
um surpreendente leque de variações estratégicas com um motivo comum – a autoproteção.
Embora as forças externas desempenhem um importante papel na maneira como a
criança percebe o eu e o mundo, a influência fundamental sobre a nossa vida é oriunda do
caráter do relacionamento entre pais e a criança. Os antropólogos descrevem os processos
cognitivos das chamadas culturas primitivas e comentaram que eles repetem as nossas formas
infantis de pensamento. Essas culturas eram caracterizadas pelo pensamento animista e
mágico.

PENSAMENTO ANIMISTA – as energias internas e externas são consideradas aspectos


da mesma realidade.

PENSAMENTO MÁGICO – acredita-se que a realidade interior exerce um efeito sobre o


mundo exterior e vice-versa.

Ao tentar decifrar o ambiente pais-filho, a criança interpreta a experiência de três


maneiras básicas:

1. A criança interpreta fenomenologicamente o vínculo palpável e emocional, ou sua falta,


como declaração sobre a vida em geral. É esta a percepção primordial que forma a
capacidade de confiar na criança.
2. A criança interioriza comportamentos específicos dos pais como declaração a respeito
do eu. Como a criança raramente consegue objetivar a experiênc
3. ia ou perceber a realidade interior do pais, a depressão deles, a raiva ou a ansiedade
serão interpretadas como declarações de fato a respeito da criança.
4. A criança observa os comportamentos das lutas do adulto com a vida e interioriza não
apenas esses comportamentos, mas também as atitudes que eles sugerem a respeito do
eu e do mundo. Assim, a criança tira grandes conclusões a respeito de como lidar com o
mundo.

As conclusões sobre o eu e o mundo baseiam-se claramente na experiência


extremamente limitada de um pai e uma mãe específicos que reagem a questões particulares.
Essa experiência é excessivamente personalizada pelo pensamento mágico, que diz que “toda
essa experiência é organizada para mim e diz respeito a mim”; as conclusões resultantes
também são exageradamente generalizadas, uma vez que só podemos avaliar o desconhecido
através daquilo que conhecemos até aqui.

O caráter individual dessa defeituosa noção do eu, bem como as estratégias que são
desde cedo elaboradas e moldadas numa personalidade variam segundo a natureza da
experiência infantil. A partir de cada categoria de sofrimento – de abandono ou de opressão –
um complexo de comportamento se expande como reação inconsciente e reflexa.

Quando a criança é oprimida, ela vivencia a imensidão do Outro jorrando através de


frágeis fronteiras. Por não possuir nem a objetividade de identificar a natureza do problema
como Outro, e por não possuir os elementos necessários a uma experiência comparativa, a
criança reage de forma defensiva, tornando-se excessivamente sensível ao ambiente e
“escolhendo” a passividade, a co-dependência ou a compulsividade para proteger o frágil
território psíquico. A criança aprende variadas formas de acomodação, pois a vida é vista como
inerentemente opressiva para um eu relativamente impotente.
Diante o abandono – ou seja, proteção e carinho insuficientes – a criança poderá
“escolher” padrões de dependência e/ou passar toda a vida na busca incessante de um Outro
mais positivo.

Essas feridas, bem como as várias reações inconscientes adotadas pela criança interior,
tornam-se fortes determinantes da personalidade adulta. A criança não consegue incorporar
uma personalidade que se expressa livremente; em vez disso, é a experiência da infância que
molda seu papel no mundo. A partir do sofrimento da infância, portanto, a personalidade adulta
é mais uma reação reflexa às primeiras experiências e traumas da vida do que uma série de
escolhas.

O modelo junguiano identifica essa reação reflexa, carregada de sentimento, com a


natureza do complexo pessoal. O complexo, em si mesmo, é neutro, embora conduza uma carga
emocional associada a uma imagem experiencial, interiorizada. Quanto mais intensa a
experiência inicial, ou quanto maior o período de tempo pelo qual ela foi renovada, mais poder
tem o complexo na vida da pessoa. É impossível evitar os complexos porque temos uma ão
história pessoal. O problema é que não somos nós que temos os complexos e sim os complexos
que nos possuem. Alguns complexos são úteis pois protegem o organismo humano, mas outros
interferem com a escolha e podem até mesmo dominar a vida de uma pessoa.

De todos os complexos, os mais poderosos são as experiências interiorizadas dos pais


que chamamos de COMPLEXO MATERNO e COMPLEXO PATERNO pois, fomos expostos ao
tratamento que eles nos deram e às suas estratégias diante da vida.

Portanto, todos nós vivemos, inconscientemente, reflexos agregados do passado.


Mesmo nos primeiros anos de vida, uma crescente divisão se desenvolve entre a nossa natureza
inerente e o nosso eu socializado.

Quase toda sensação de crise na meia-idade é provocada pela dor dessa separação. A
disparidade entre a concepção interior do eu e a personalidade adquirida torna-se tão grande
que o sofrimento não mais pode ser reprimido ou compensado. Ocorre então o que os
psicólogos chamam de descompensação. A pessoa continua a atuar a partir de antigas atitudes
e estratégias, mas estas já não são eficazes. Os sintomas de aflição da meia-idade devem na
verdade ser bem recebidos, pois representam não apenas um eu instintivamente firmado
debaixo da personalidade adquirida, mas também uma poderosa imposição de renovação.

2. O ADVENTO DA PASSAGEM DO MEIO

Pressões tectônicas e intimações sísmicas

A passagem do meio começa como uma espécie de pressão tectônica que vem de baixo
para cima. A noção adquirida do eu, com suas percepções e complexos agregados, sua defesa
da criança interior, começa a ranger e ringir contra o Si-mesmo, que busca a própria realização.

Muito antes de a pessoa tornar-se consciente de uma crise os indícios e os sintomas já


estão presentes: a depressão reprimida, o abuso do álcool, o uso de drogas para intensificar o
ato sexual, casos amorosos, constantes mudanças de emprego, e assim por diante – numa
tentativa de anular, desprezar ou deixar para trás as pressões interiores.

Do ponto de vista terapêutico, os sintomas devem ser bem recebidos, pois eles não
apenas servem de flechas que apontam para a ferida, como também exibem uma psique
saudável e auto-reguladora em funcionamento.

Segundo Jung, a NEUROSE “precisa em última análise ser compreendida como o sofrimento
de uma alma que não descobriu seu significado”.

É possível, portanto, dizer que, ao sofrer as pressões tectônicas da psique, poderemos


não descobrir o supremo propósito da vida, mas estamos obrigados a descobrir o significado do
conflito, o choque entre os eus ocasionado pela passagem do meio. Uma nova vida emerge
desse choque predeterminado, dessa morte-renascimento. Somos convidados a recobrar a
própria vida, a vivê-la mais conscientemente, a extrair da desgraça um significado.

O despertar para a passagem do meio ocorre quando somos radicalmente arremessados


em direção à consciência. Fato esse que pode muitas vezes diante de uma doença grave e o luto.

Trata-se de uma experiência psicológica. Ocorre quando a pessoa se vê obrigada a


encarar a sua vida como algo mais do que mera sucessão linear de anos. Quanto mais a pessoa
permanece inconsciente, mais provável que ela encare a vida apenas como uma sucessão de
momentos que conduzem a um vago objetivo, cujo propósito se tornará claro em seu devido
tempo. Quando a pessoa é lançada em direção à consciência, uma dimensão vertical, Kairós,
intercruza o plano horizontal da vida; o intervalo de vida da pessoa é expressado numa
perspectiva profunda: “Quem sou, então, e para onde estou indo?”.

A passagem do meio tem início quando o indivíduo se vê obrigado a formular


novamente a pergunta sobre o significado que percorria a imaginação da criança, mas que foi
apagado com o passar dos anos. A passagem do meio começa quando a pessoa precisa enfrentar
questões até então evitadas. A questão da identidade volta a estar presente e o indivíduo não
pode mais fugir da sua responsabilidade diante dela. Novamente, a passagem do meio começa
quando perguntamos: “Quem sou eu, além da minha história e dos papeis que representei?”

Todas essas grandes perguntas foram feitas pela criança que fomos um dia, enquanto
observávamos em silêncio os adultos, mas, o peso da educação da educação escolar, a pressão
da vida familiar e o processo de aculturação gradualmente substituem a sensação de admiração
reverente da criança por expectativas normativas e certezas culturais.

Os tremores sísmicos frequentemente ocorrem no final da casa dos vinte anos, mas é
muito fácil deixarmos de dar atenção a eles nessa época em que nossa vida encontra-se no auge.

Um novo tipo de pensamento

A infância se caracteriza pelo pensamento mágico. O ego da criança ainda não foi
testado na prática, ainda não está claro a respeito dos limites existentes. O mundo externo e
objetivo, bem como o mundo interno e o faz-de-conta são frequentemente confundidos. Os
desejos parecem possibilidades e até mesmo probabilidades. Eles representam o narcisismo da
criança que quer acreditar que é o centro do cosmo. Esse tipo de pensamento é inflacionado e
ilusório, mas numa criança é inteiramente saudável e maravilhoso. “Quando eu crescer vou usar
um vestido branco e me casar com um príncipe.”, “Vou ser um astronauta.”

Tente se lembrar de seus desejos mágicos na infância e reflita a respeito do que a vida fez a
eles.

O pensamento mágico da criança é bastante desgastado pela dor e confusão da


adolescência. Apesar de tudo, o ego não testado persiste e exibe o que poderíamos agora
chamar de pensamento heróico, que se caracteriza por um maior realismo, sem dúvida, mas
ainda permeado de considerável capacidade de esperança, de projeção do desconhecido
através de fantasias de grandeza e realização.

O pensamento heróico, com suas esperanças e projeções escassamente moderadas


pelos hábitos do mundo, ajudam o jovem a deixar o lar e mergulhar, como deve na vida.

Podemos dizer que a pessoa se encontra na passagem do meio quando o pensamento


mágico da infância e o pensamento heróico da adolescência não mais coincidem com a vida que
ela vivenciou. Qualquer pessoa na meia-idade terá testemunhado o colapso de projeções,
esperanças e expectativas, e experimentado as limitações de talento, da inteligência e,
frequentemente, da própria coragem.

Por conseguinte, o tipo de pensamento que caracteriza a passagem do meio é chamado


de pensamento realista. Este nos confere senso de perspectiva.

Desse modo, a vida nos leva em direção a uma perspectiva diferente, a uma
acomodação da inflação e da arrogância, e ensina a diferença entre esperança, conhecimento e
sabedoria:

ESPERANÇA – se baseia no que poderia ser;

CONHECIMENTO – é a lição valorizada da experiência;

SABEDORIA – é sempre humilde, jamais inflacionária. A sabedoria de Sócrates, por


exemplo, era a certeza de que ele não sabia nada (mas seu “nada” era muito maior do que as
certezas dos sofistas e dos supostos sábios da sua época ou da nossa).

O pensamento realista da meia-idade tem como meta obrigatória o restabelecimento


do equilíbrio, a restauração de um relacionamento humilde, porém digno da pessoa com o
universo.

Mudanças de identidade

*O inconsciente frequentemente reconhecerá a resistência e exigirá uma mudança em


imagens de sonho como uma casa sendo inundada ou abalada, um carro roubado ou afogado,
ou a bolsa ou a carteira da pessoa, contendo sua carteira de identidade, roubada ou perdida.
Essas imagens sugerem que o antigo estado do ego está se tornando inadequado.

Além das muitas subfases, sendo cada qual uma transição que exige algum tipo de
morte, existem na vida quatro fases principais, cada qual com o poder de definir a identidade
da pessoa.

Primeira Identidade – INFÂNCIA – se caracteriza principalmente pela dependência do ego com


relação ao mundo objetivo dos pais. A dependência física é óbvia, mas a dependência psíquica,
na qual a criança se identifica com a família é ainda maior. Nas culturas antigas a idade adulta
começava com o despertar da puberdade. Não importa o quão geográfica, cultural e
ideologicamente diferentes as tribos, todas desenvolviam importantes ritos de passagem da
dependência da infância para a independência da idade adulta, divididos tipicamente em seis
estágios:

1. a separação dos pais, frequentemente através de um rapto ritual;


2. a morte, na qual a dependência da infância é “morta”;
3. o renascimento, com o qual o novo ser, apesar de incipiente, é favorecido;
4. os ensinamentos, no qual ensina-se ao neófito os mitos fundamenteis da tribo para fornecer-
lhe a ideia de um local espiritual, dos privilégios e responsabilidades dessa tribo particular, e
do conhecimento da caça, da educação dos filhos e das demais atividades necessárias ao
desempenho das atividades da idade adulta;
5. a provação, que envolve mais frequentemente uma outra separação para que o iniciado
possa aprender que existe uma força interior que deve ser para enfrentar a tarefa exterior;
6. o retorno, através do qual a pessoa reingresse na comunidade com o conhecimento, a base
mítica e a força interior necessárias ao desempenho do papel do adulto.

Segunda Identidade – PUBERDADE (PRIMEIRA IDADE ADULTA) – sem os tradicionais ritos de


passagem o jovem se caracteriza pela confusão espiritual e instabilidade do ego. O ego
incipiente é bastante maleável e vítima da influência dos companheiros e da cultura pop, ambas
adquiridas de outros adolescentes confusos.

A segunda passagem tem como tarefa fundamental, a solidificação do ego através da


qual o jovem reúne força suficiente para deixar os pais, ingressar no mundo maior, e lutar pela
sobrevivência e pela realização do desejo. Às vezes, na meia-idade, a pessoa ainda não deu os
passos decisivos que a afastam da dependência e a conduzem ao mundo. Algumas ainda podem
estar vivendo com os pais. Outras podem não ter a força e o valor pessoal necessário para
arriscar se envolver num relacionamento. Outras podem ainda não ter conseguido enfrentar as
tarefas profissionais com a força e decisão necessárias. No caso dessas pessoas, o corpo pode
ter cronologicamente chegado à meia-idade, mas seu Kairós ainda é na infância.

Chamo de PRIMEIRA IDADE ADULTA o período que se estende a aproximadamente dos


doze aos quarenta anos. O jovem que sabe, bem no íntimo, que não possui clara noção do eu só
pode tentar agir como os outros adultos. É uma ilusão compreensível achar que se nos
comportarmos como nossos pais, ou nos rebelarmos contra seu exemplo, seremos desse modo
adulto. Ocorre que a dependência da infância torna-se parcialmente submersa e é projetada
sobre os papeis da idade adulta. Esses papeis assemelham-se a túneis paralelos. Saímos da
confusão da adolescência e caminhamos por esses túneis supondo que eles confirmarão nossa
identidade, tornar-nos-ão realizados e paralisarão os horrores do desconhecido. A primeira
idade adulta, que pode na verdade se estender por toda a vida, é uma existência provisória,
destituída da profundidade e da qualidade única que torna a pessoa um verdadeiro indivíduo.

Os complexos paterno e materno bem como a autoridade dos papeis oferecidos pela
sociedade possuem poder suficiente para atrair as projeções de qualquer um que ainda esteja
explorando a vida no mundo. O Si-mesmo frequentemente se expressa através de sintomas,
mas o poder das projeções é tão grande que podemos manter afastadas as principais questões
da jornada. Quando as projeções se desgastam a pessoa não mais consegue evitar a revolta do
Si-mesmo. Ela precisa então admitir sua impotência e perda de controle. O ego nunca esteve no
controle, mas, ao contrário, é dirigido pela energia dos complexos maternos, paterno e coletivo,
sustentado pelo poder das projeções sobre os papeis oferecidos pela cultura àqueles que
tencionam se tornar adultos.

Terceira Identidade – SEGUNDA IDADE ADULTA – tem início quando as projeções da pessoa se
dissolvem. A sensação de traição, do fracasso das expectativas, o vazio e a perda de significado
que ocorrem com essa dissolução, criam a crise da meia-idade. É nessa crise, contudo que a
pessoa tem a oportunidade de tornar-se um indivíduo. O trabalho com os idosos, em que cada
um tem de enfrentar a perda e antever a morte, expõe claramente duas categorias:

1. aqueles para quem a parte que resta da vida ainda está repleta de desafios, ainda merece
bom esforço;
2. aqueles para quem a vida está cheia de amargura, arrependimento e medo.

Os primeiros são invariavelmente aqueles que passaram por uma luta anterior, experimentaram
a morte da primeira idade adulta e aceitaram maior responsabilidade pela sua vida. Eles passam
seus últimos anos vivendo de modo mais consciente. Os que evitaram a primeira morte são
perseguidos pela segunda, com medo de que sua vida não tenha sido significativa.

Só é possível alcançar a segunda idade adulta quando as identidades provisórias são


abandonadas e o falso eu é destruído. A dor dessa perda pode ser compensada pelas
recompensas da nova vida que se segue.

Quarta Identidade – MORTALIDADE – envolve aprender a viver com o mistério da morte.

Outra forma de examinar essas identidades em transformação é classificar seus


diferentes eixos:

IDENTIDADES EIXO FUNCIONAMENTO


Relacionamento
INFÂNCIA entre os pais e a *
criança
O ego, o ser consciente da pessoa, luta para se
projetar no mundo e criar o mundo no mundo. A
PRIMEIRA IDADE
O ego e o mundo dependência da infância i levada para o inconsciente
ADULTA
e/ou projetada sobre vários papeis, e o indivíduo
orienta-se basicamente para o mundo exterior.
Quando sua hegemonia é derrubada, o ego
humilhado começa então a dialogar com o Si-mesmo.
SEGUNDA IDADE O ego e o Trata-se de um mistério além da nossa compreensão
ADULTA Si-mesmo mas seu esclarecimento nos proporcionará uma
magnificência maior do que o nosso curto período de
vida possivelmente é capaz de encarnar.
Se não tivermos algum relacionamento com o drama
Si-mesmo e Deus
MORTALIDADE cósmico, estaremos restringidos a uma vida efêmera,
(cosmos)
superficial e árida.

A retirada das projeções

Diante do terrível mundo exterior e da imensidão desconhecida do interior, nossa


tendência natural é projetar a nossa ansiedade sobre os nossos pais. Quando somos obrigados
a deixá-los, temos a tendência de projetar o conhecimento e o poder sobre as instituições, as
figuras de autoridade e os papeis socializados. Entre as muitas projeções possíveis, as mais
comuns ocorrem sobre as instituições do casamento, da paternidade, da maternidade e da
carreira.

Viver diariamente com outra pessoa desgasta automaticamente as projeções. A pessoa


a quem entregamos a nossa alma, a quem abrimos o nosso intimidade, acaba demonstrando ser
apenas mero mortal como nós, temerosa, necessitada e que também projeta intensas
expectativas. Os relacionamentos íntimos de qualquer espécie carregam grande peso porque
são os que tem maior probabilidade de repetir o Outro Íntimo que outrora foi o pai e a mãe.
Mas o ser amado torna-se esse Outro Íntimo, sobre quem são projetadas as mesmas
necessidades e a mesma dinâmica, no mesmo grau em que estamos inconscientes. Não é de
causar surpresa, que as pessoas acabem escolhendo alguém o mais parecido ou diferente
possível dos seus pais, pelo simples motivo que os complexos paterno e materno participam o
tempo todo da escolha.

Outro papel que recebe fortes projeções de identidade é a paternidade e a maternidade.


Nos julgamos capazes de saber o que é adequado para o nosso filho. Temos certeza de que
podemos evitar os erros que nossos pais cometeram. Porém, todos somos culpados de projetar
a vida que não vivemos sobre nossos filhos. Jung observou que o maior fardo de que uma
criança precisa carregar é a vida não vivida de seus pais. A mãe e o pai “corujas” são
estereótipos, mas o ciúme que o pai e a mãe pode sentir do sucesso do filho também é
extremamente insidioso. Desse modo, um fluxo constante de mensagens, abertas e ocultas,
bombardeiam a criança. Esta portará consigo a raiva e a mágoa dos pais e sofrerá a amplitude
total das manipulações e coerções. O pior de tudo é que podemos inconscientemente esperar
que a criança faça com que nos sintamos felizes com nós mesmos, que preencha nossa vida e
nos conduza a um local mais elevado.

Geralmente quando atingimos a passagem do meio, nossos filhos encontram-se na


adolescência, rebeldes e geralmente tão irritantes quanto fomos com nossos pais, e resistem
furiosos às nossas projeções. Se compreendermos o quão difíceis e perigosos os complexos
materno e paterno são como obstáculos para a jornada do indivíduo em direção à
individualidade, saberemos que esses adolescentes estão certos ao resistir à exigência de que
sejam extensões dos seus pais. Não obstante a lacuna entre as expectativas da paternidade e da
maternidade e os atritos familiares causam ainda mais dor àqueles que se encontram na
passagem do meio.

Freud acreditava que o trabalho e o amor eram os requisitos fundamentais da sanidade.


Tanto aqueles que alcançam seu desejo quanto os que são pressionados a satisfazer a
necessidade de outra pessoa, frequentemente acabam entediados com sua carreira. Para cada
aspirante na escalada profissional existe um executivo exausto que anseia por uma vida
diferente.

Nossa carreira, como o casamento e a paternidade ou a maternidade, é um veículo


fundamental para a projeção da:

1. identidade, que julgamos ser confirmada através do visível domínio de um conjunto de


habilidades;

2. proteção, que receberemos ao sermos produtivos e;

3. transcendência, que superará a insignificância do espírito através de sucessivas realizações.

Quando essas projeções se dissolvem, e a insatisfação com a maneira como estamos


usando a energia vital não pode mais ser deslocada, encontramo-nos na passagem do meio.

Quanto mais tradicional o casamento, quanto mais rígido o papel de cada sexo, mais
provável é que os parceiros se vejam arrastados para direções opostas. O homem, após chegar
ao topo, diminuiria o seu ritmo ou se aposentaria. A mulher, tendo dedicado-se à vida familiar,
sente-se desvalorizada e estagnada, e passa a querer voltar a estudar ou encontrar um trabalho
renovador. Acontece aqui, que cada um dos parceiros esgotou uma importante área de
projeção de identidade e deseja recomeçar. A boa notícia diz respeito ao fato de que uma
genuína renovação pode surgir dessa insatisfação e outra faceta do potencial do indivíduo pode
ser explorada para benefício de todos. A má notícia é que uma projeção só pode ser trocada por
outra, mas mesmo assim, a pessoa se aproxima mais daquele encontro com o Si-mesmo. Se um
dos cônjuges se sente ameaçado pela mudança, e resiste, ele pode estar certo de que passará a
conviver com um parceiro zangado e deprimido. Na aprovação do casamento, a mudança não
ocorrerá necessariamente para melhor, mas será inevitável. De outro modo, o casamento
poderá não sobreviver, especialmente se impede o crescimentos de qualquer um dos parceiros.

Ainda outra projeção, que precisa ser dissolvida na meia-idade, está relacionada com o
papel do pai ou da mãe como protetor simbólico. Mesmo quando o relacionamento com os pais
foi problemático ou distante, um dos pais, ou ambos, ainda estão simbolicamente presentes
para proporcionar uma barreira psíquica invisível. Enquanto a figura da pai ou da mãe estiver
viva, sobreviverá um amortecedor psíquico contra o desconhecido e perigoso universo. Quando
ela é removida, a pessoa frequentemente sente o sopro da ansiedade existencial.

Embora existam muitos outros tipos de projeção que não conseguem sobreviver à
primeira idade adulta, a perda de expectativas com relação ao casamento, aos filhos, à carreira
e aos pais como protetores são as que mais se destacam.

Marie-Louise von Fraznz descreve cinco estágios de projeção:

Primeiro – a pessoa se convence de que a experiência interior (ou seja, inconsciente) é


verdadeiramente exterior.

Segundo – ocorre um reconhecimento gradual da discrepância entre a realidade e a imagem


projetada (quando se deixa de amar alguém, por exemplo).

Terceiro – a pessoa se vê obrigada a reconhecer essa discrepância.

Quarto – ela levada a concluir que estava de algum modo errada originalmente.

Quinto – a pessoa precisa procurar dentro de si mesma a origem da energia projetada. Este
último estágio, a busca do significado da projeção, sempre envolve a busca de maior
conhecimento de si mesmo.

A erosão das projeções, o retraimento das esperanças e expectativas que elas


personificam, é quase sempre dolorosa, mas é um pré-requisito necessário do
autoconhecimento. Para cada criança interior, cheia de medo e procurando abrigo no mundo
adulto, existe um adulto potencialmente capaz de assumir a responsabilidade por essa criança.
Ao tornarmos consciente o conteúdo das projeções estamos dando um grande passo em direção
à emancipação da infância.

A diminuição da esperança

Quando tomamos consciência de que somo imortais, as limitações da nossa vida


tornam-se repentinamente inevitáveis. O pensamento mágico da infância, bem como o
pensamento heróico da adolescência estendida, denominada primeira idade adulta, revelam-se
inadequados para as realidades da vida. As esperanças da imortalidade e celebridade do ego
incipiente são diretamente proporcionais ao medo e à ignorância infantil diante do mundo.
Analogamente a amargura e a depressão da meia-idade estão relacionadas com a quantidade
de energia investida nos desejos fantásticos da infância.

O ego precisa estabelecer uma base segura num universo grande e desconhecido. É
natural que a consciência do ego chegue a conclusão de que precisa se defender das
experiências avassaladoras da vida e compensar suas inseguranças através da grandiosidade.
Nossa insegurança, a ilusão de grandeza serve para manter as trevas afastadas quando vamos
dormir à noite.
Outra esperança da juventude relacionada com o ego é o desejo do relacionamento
perfeito. Embora tenhamos visto proliferar à nossa volta relacionamentos imperfeitos, temos a
tendência de supor que somos de algum modo mais sábios, mais capazes de escolher e, mais
bem equipados para evitar os revezes da vida. Porém, o Outro íntimo que satisfará nossas
necessidades , que tomará conta de nós, que sempre estará presente para nos apoiar, é
finalmente visto como pessoa comum, como nós mesmos, também necessitada, e que projeta
sobre nós expectativas bastante semelhantes às nossas. Os casamentos frequentemente
terminam na meia-idade, e uma das principais causas é a enormidade das esperanças infantis
que se impõem sobre a frágil estrutura existente entre duas pessoas. Os outros não satisfarão e
nem podem satisfazer as necessidades grandiosas da criança interior.

Somente quando reconhecemos a deflação das esperanças e expectativas da infância e


aceitamos a responsabilidade direta de encontrar por nós mesmos o significado é que a segunda
idade adulta pode começar.

Reconhecer que não podemos reviver a infância e nem podemos reverter a sua história,
que ninguém preencherá magicamente nosso vazio interior, é certamente doloroso, mais é aí
que tem início o possível caminho da cura. O mais difícil é ter confiança de que a nossa psique
se revelará suficiente para curar a si mesma. Mais cedo ou mais tarde, é preciso que ocorra esse
salto para a confiança em nossos recursos pessoais, caso contrário continuaremos a busca
infrutífera das fantasias da infância.

A experiência da neurose

Assim como o amor romântico pode ser encarado como loucura temporária, na qual as
tomam decisões para a eternidade baseada nas emoções do momento, também a turbulência
da passagem do meio pode assemelhar-se a uma crise psicótica na qual a pessoa age como se
fosse louca ou se afasta dos outros. Se entendermos que as suposições nas quais a pessoa se
apoiou a vida toda estão desmoronando, que as estratégias reunidas pela personalidade
provisória estão se desequilibrando, que uma perspectiva de mundo está se desintegrando,
então a agitação é perfeitamente compreensível. Nós não escolhemos as emoções; são elas
que nos escolhem, e possuem uma lógica toda particular.

A mulher que sofre uma depressão está voltando para dentro de si sua raiva
indesejada, sobre a única pessoa que ela tem permissão de atacar.

Todos somos neuróticos porque experimentamos uma separação entre o que somos e
o que fomos destinados a ser. O protesto sintomático da neurose, que se manifesta na
depressão, no abuso de substâncias ou no comportamento destrutivo, é negado a maior parte
do tempo possível. Mas os sintomas reúnem nova energia e começam a atuar autonomamente,
fora da vontade do ego.

O terapeuta sabe que os sintomas são indícios úteis que conduzem ao local da injúria
ou da negligência, apontando o caminho para a cura subseqüente. O terapeuta também sabe
que a experiência da neurose da meia-idade, quando pode ser enfrentada, representa uma
enorme abertura à transformação. Jung afirmou: “O irromper da neurose não é apenas uma
questão de probabilidade. Por via de regra ela é exatamente crítica. É geralmente o momento
em que o novo ajustamento psicológico, uma nova adaptação é exigida”. Isso implica que a
nossa própria psique organizou essa crise, produziu esse sofrimento, precisamente porque
houve uma injúria e a mudança precisa ocorrer.

Não existe cura porque a vida não é uma doença, nem a morte uma punição. Mas existe
um caminho que conduz a uma vida mais abundante e significativa.

Lembremo-nos de que Jung define a neurose como “o sofrimento que não descobriu o
seu significado”. Com efeito, o sofrimento parece ser um pré-requisito para a transformação da
consciência. Em outra obra Jung sugere que a neurose é “um sofrimento autêntico”. O
sofrimento autêntico requer encontros com dragões. O sofrimento não autêntico implica fugir
deles.

3. VOLTANDO-SE PARA O INTERIOR