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CIDADES

REVISTA CIENTÍFICA
VOLUME 11 - NÚMERO 19 - 2014

EQUIPE EDITORIAL

Coordenação Editorial
Silvana Maria Pintaudi - UNESP/RC

Editores deste número temático


Carlos Tapia
Manoel Rodrigues Alves

Comissão Editorial
Grupo de Estudos Urbanos (GEU)
Ana Fani Alessandri Carlos – USP
Jan Bitoun - UFPE
Marcelo Lopes de Souza - UFRJ
Maria Encarnação Beltrão Spodito - UNESP/PP
Mauricio de Almeida Abreu - UFRJ (in memoriam)
Pedro de Almeida Vasconcelos - UFBA
Roberto Lobato Corrêa - UFRJ
Silvana Maria Pintaudi - UNESP/RC

Conselho Científico
Amélia Luisa Damiani - USP
Ana Clara Torres Ribeiro - UFRJ (in memorian)
Arlete Moysés Rodrigues - UNICAMP
Carles Carreras - Universitat de Barcelona
Horacio Capel - Universitat de Barcelona
José Alberto Rio Fernandes - Universidade do Porto
José Aldemir de Oliveira - UFAM
José Borzachiello da Silva - UFC
Leila Christina Dias - UFSC
Maria Adélia Aparecida de Souza - USP
Odette Carvalho de Lima Seabra - USP
Paulo César da Costa Gomes - UFRJ
Suzana Pasternak - USP

Secretaria
Carlos Henrique Costa da Silva
César Simoni Santos
Isabel Pinto Alvarez

Apoio
André Felipe Vilas de Castro

Capa
Murilo Arruda

Revisão de língua portuguesa


Maria Inêz Fonseca

Revisão de língua espanhola


Carlos Tapia
Conferência da revisão
Caroline Christine
Laura Adami Nogueira
Luiana Cardozo
Maíra Cristo Daitx
Manoel Rodrigues Alves
Silvana Maria Pintaudi
Talita Heleodoro
Veruska Bichuette

Normalização bibliográfica
Laura Adami Nogueira
Luiana Cardozo

Sistema eletrônico de editoração de revistas


Paulo Fernando Jurado da Silva

Projeto gráfico e diagramação


Pró-Salas

Revisão
Talita Heleodoro
Veruska Bichuette

Impressão gráfica
Suprema Gráfica

Publicação semestral sob responsabilidade do Grupo de Estudos Urbanos - GEU


Avenida Professor Lineo Prestes, 338
São Paulo, SP, Brasil. CEP: 05508-000
(Correspondência postal aos cuidados de Silvana Maria Pintaudi e-mail: smpintaudi@gmail.com)

Site: revista;fct.unesp.br/index.php/revistacidades
Informações e envio de textos: cidadesrevista@gmail.com

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On demande I’échange/ Si richiede lo scambo/ Man bittet um Austausch

CIDADES: Revista científica/ Grupo de Estudos Urbanos - Vol. 1, n. 1, 2004 -


São Paulo: Grupo de Estudos Urbanos, 2004 -
v. 11., n. 19; 21cm., il.

Semestral
2014, v. 11, n. 19
ISSN 1679-3625 (impresso)
2448-1092 (on-line)

I. Grupo de Estudos Urbanos

CDD (18.ed): 910.13


CDU: 911.3

Suprema Gráfica e Editora


São Carlos/SP. (16) 3368-3329
suprema@supremagrafica.com.br
S arlos M
Cilvana aria ePM
Tapia anoel Rodrigues Alves
intaudi

palavras do editor
06
silvana maria pintaudi

prólogo
10
carlos tapia e manoel rodrigues alves

texto 01
44 el fetichismo del espacio público: multitudes y ciudadanismo a principios del siglo xxi
manuel delgado

texto 02
80 aproximación a los procesos socioespaciales en las ciudades contemporáneas: espacio
público y vida política
mariano pérez humanes

texto 03
130 la producción contradictoria del espacio urbano y las luchas por derechos
ana fani alessandri carlos

texto 04
164 neoliberalismo y vida cotidiana en los márgenes urbanos
núria benach rovira

texto 05
196 urbanismo participativo o urbanismo democrático. crisis y crítica.
jorge minguet medina

texto 06
234 o programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da
cidade?
cibele saliba rizek
procesos extremos na constituição da cidade

texto 07
266 a plasticidade da metrópole de são paulo: reprodução do espaço, financeirização
e propriedade de terra
isabel aparecida pinto alvarez

texto 08
296 crise urbana: a expropriação extrema dos citadinos nas políticas de espaço
fabiana valdoski ribeiro

Cidades Volume 11 Número 19


Pumário
Srólogo do Editor
alavras

texto 09
332 transformaciones del espacio urbano, consideraciones para una metodología de
aproximación
carmen guerra de hoyos

texto 10
382 contraespacios públicos. procesos y miradas desde oriente
marta lópez-marcos

texto 11
426 procesos extremos y emergentes: un marco descriptivo y visual de las ciudades
contemporáneas.
natália de carli, simona pecoraio e carolina prieto de la viesca

texto 12
470 transformações culturais e contradições urbanas do espaço público
contemporâneo
manoel rodrigues alves

texto 13
498 procesos extremos en las ciudades argentinas en las últimas décadas
julio arroyo

texto 14
550 relatos de lo extremo: acuerdos entre sueños y despertares de ciudad futura
carlos tapia
P

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Cibele Saliba Rizek

Professora Associada do Instituto de Arquitetura e


Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP). Doutorado
em Sociologia e Livre-docência em Estudos Sócio Econômicos
da Urbanização. Pesquisadora NAPUrb – Mundialização e
Urbanização e do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania
(FFLCH – USP). Co-coordenadora do LEAUC – Laboratório de
Estudos do Ambiente Urbano Contemporâneo (IAU-USP).
Atualmente concentra sua pesquisa no estudo de processos de
segregação socioespacial e na produção habitacional no Brasil.
texto 06
Cibele Saliba Rizek

O Programa minha casa a implantação de programas


minha vida entidades: e políticas sociais e culturais
provisão de moradia no bastante diversas, mas articu-
avesso da cidade? ladas e entrecruzadas de for-
ma nem sempre explícita e
clara.
Entre essas políticas,
Cibele Saliba Rizek
(Universidade de São Paulo. destacam-se alguns elemen-
São Carlos, Brasil) tos que apontam para uma
cibelesr@uol.com.br primeira compreensão das
formas recentes de produção
Resumo de moradia, vinculadas a um
Esse texto se inscreve processo de constituição e
em uma trajetória de investi- aplicação do programa Minha
gações relativas à produção Casa Minha Vida e Minha
do espaço e da vida social nas Casa Minha Vida modalidade
periferias da cidade de São Entidades e seus desdobra-
Paulo. Mais recentemente, mentos, inclusive para a pro-
procesos extremos na constituição da cidade

esses espaços e condições de dução do espaço e das franjas


vida vêm apresentando indíci- da cidade, nas periferias da
os de transformações e re- região metropolitana de São
modelações resultantes de um Paulo
conjunto de processos, dentre
os quais pode-se mencionar
236

Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

Palavras chaves housing production, linked to


Habitação social. Se- a process of formation and im-
gregação urbana. Pobreza. plementation of the Housing
Cidades. Program Minha Casa Minha
Vida and MInha Casa Minha
Abstract Vida/ Entidades ( developed
This text results from a long for the social movements and
process of research on the social organizations) and its
production of space and so- consequences, including the
cial life in the suburbs of São production of space and the
Paulo. Recently, these spaces city’s fringes, on the outskirts
and living conditions are show- of the metropolitan area of
ing signs of changes and reno- São Paulo.
vations resulting from a num-

06
ber of new elements, among Keywords
which we can mention the im- Social housing. Urban
plementation of very different segregation. Poverty. Cities.
social and cultural policies and
programs, articulated in not al-
ways visible way.
Among these policies,
the highlight some elements
that point to a first under-
standing of the recent forms of
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Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

Esse texto se inscreve programa Minha Casa Minha


em uma trajetória de investi- Vida e Minha Casa Minha vida
gações relativas à produção modalidade Entidades e seus
do espaço e da vida social nas desdobramentos, inclusive
periferias da cidade de São para a produção do espaço e
Paulo. Mais recentemente, das franjas da cidade, nas peri-
esses espaços e condições de ferias da região metropolitana
vida vêm apresentando indí- de São Paulo
cios de transformações e re- Assim, esse texto tem
modelações resultantes de um por objetivos:
conjunto de processos, dentre 1- Apresentar e discu-
os quais a implantação de pro- tir o Programa Minha Casa
gramas e políticas sociais e cul- Minha Vida e a modalidade
turais bastante diversas, mas Entidades, no quadro das polí-
articuladas e entrecruzadas de ticas sociais do Brasil contem-
forma nem sempre explícita e porâneo no período posterior
clara. à sua implantação em 2009,
Entre essas políticas, buscando apreender dimen-
procesos extremos na constituição da cidade

destacam-se alguns elementos sões e aspectos da proposta


que apontam para uma primei- nos governos do Presidente
ra compreensão das formas re- Lula e da Presidente Dilma
centes de produção de mora- Rousseff. Trata-se de discutir
dia, vinculadas a um processo o programa não apenas do
de constituição e aplicação do ponto de vista de seu impacto
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Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

sobre a cidade, mas como par- de entidades populares pro-


te de um conjunto de políticas venientes dos movimentos de
sociais e de assistência que moradia, que fizeram parte do
dão uma conformação nova que se pôde identificar (com
à questão social brasileira por Oliveira: 2007 e outros auto-
um lado, e por outro lado às res) como a Era das Invenções,
relações entre questão social como momento de institui-
(marcada pela desigualdade e ção - no bojo das lutas pela
pela pobreza como condição redemocratização - dos movi-
historicamente ligada às clas- mentos sociais e urbanos que
ses subalternas e trabalhadora reivindicaram serviços, bens,
no Brasil) e os governos recen- acesso à cidade sob a égide
tes, capitaneados pelo Partido do “direito à cidade” em uma
dos Trabalhadores; apropriação livre da expressão

06
2- Apresentar uma pri- de H. Lefèbvre.
meira discussão da face habita- Desse modo, o
cional e urbana dessas políticas Programa Minha Casa Minha
sociais, encarnadas na modali- Vida – Entidades coloca-se no
dade do Programa Minha Casa cruzamento de dimensões e
Minha Vida – Entidades, exa- aspectos relevantes para com-
tamente porque nela se pode preensão: dos vínculos entre
apreender mediadores e ope- a cidade na sua face periféri-
radores, bem como resquícios, ca e nas suas reconfigurações
permanências e redefinições mais recentes; dos novos
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Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

programas de produção pú- moradia mais significativos em


blica de habitação na sua face suas articulações regionais e
voltada para a população de nacionais vão das ocupações
mais baixa renda; de um con- de edifícios no centro da cida-
junto de mutações, modula- de de São Paulo (exigindo di-
ções e reconfigurações dos reito à cidade e à moradia nas
movimentos de moradia, tan- áreas centrais) à coordenação
to nas relações lideranças/ e gestão de alguns empreendi-
bases como nas relações com mentos do referido programa
os atores públicos (ministério nas franjas ou fronteiras da
das cidades, fundos públicos) cidade, nas periferias urbanas
e atores privados (donos de de São Paulo (e/ou região me-
terras, construtoras) em uma tropolitana). Assim, ao buscar
constelação de operadores. identificar algumas das linhas
Nessa constelação é possível de força que instituem e des-
encontrar pistas e indícios que tituem dispositivos e sujeitos
permitam compreender des- sociopolíticos nesse quadro
lizamentos e reconfigurações de cruzamentos, determina-
procesos extremos na constituição da cidade

das representações e práticas ções e indeterminações, mo-


desses movimentos. Essas dulações e transformações,
reconfigurações podem ser talvez seja possível tangen-
reconhecidas a partir do fato ciar e identificar, de um lado
que, em menos de 15 anos, as relações entre a dinâmica
alguns dos movimentos de habitacional e urbana que tem
240

Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

lugar a partir das diretrizes políticas de habitação.


do programa e, de outro, os O Brasil conta hoje
processos que parecem dese- com a sexta economia capita-
nhados a partir das conforma- lista do mundo, combinando
ções recentes do que se pode crescimento econômico, suas
pensar como lulismo (deno- oscilações e a reprodução de
minação de André Singer que desigualdades que parecem
caracteriza os governos Lula diminuir relativamente menos
e Dilma Rousseff) (A. Singer: do que a pobreza e a miséria.
2011). É preciso, ainda, consi- No último período de cresci-
derar que o fenômeno Lulismo mento, produziu-se uma cer-
pode ser identificado bem ta estabilidade do mercado
como circunscrito no tempo de trabalho, apesar da desa-
e no espaço dos processos de celeração dos anos recentes

06
reconfiguração do lugar do (2011/2013), com a produção
Brasil no contexto mundial tanto de empregos formais,
dos processos de acumulação caracterizados por baixos salá-
financeirizada. rios, como por postos e formas
Assim é preciso carac- de trabalho precários. Essa du-
terizar, em linhas muito gerais plicidade entre crescimento e
o contexto brasileiro para que precarização das relações de
se tenha um quadro mais ní- trabalho parece se relacionar
tido das políticas sociais, en- a uma transformação da com-
tre as quais as mais recentes posição do emprego a partir
241

Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

das redefinições da inserção possível constatar a dualidade


brasileira nos processos mun- que caracterizou as políticas
dializados de financeirização, sociais brasileiras e que pare-
de hegemonia da acumula- ce estar presente também na
ção financeira desde os anos política habitacional e urbana
noventa. Assim, o Brasil - em com um programa de habi-
conjunto com a ampliação tação dividido entre o estí-
da base do assalariamento e mulo a uma habitação social
a instituição das políticas so- de mercado (Shimbo:2012) e
ciais redistributivas, como o uma habitação social produ-
Bolsa Família – teve, nos anos zida – pelo menos aparente-
dos governos Lula e Dilma mente – com a participação
Rousseff, um significativo au- das entidades populares. O
mento do salário mínimo, ao avanço da pesquisa, porém,
mesmo tempo que ocorria aponta, crescentemente, mais
um recrudescimento impor- coincidências do que duali-
tante das condições de traba- dades entre as duas faces do
lho como fica evidente pelo programa Minha Casa Minha
procesos extremos na constituição da cidade

número de acidentes e mor- Vida, apresentando, na versão


tes, pela rotatividade da força Entidades, formas complexas
de trabalho, com um aumento de invisibilização e silencia-
de 10% na última década, além mento dos movimentos de
do crescimento das terceiri- moradia que ocuparam papel
zações. Dessa perspectiva, é relevante na problematização
242

Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

e nas reivindicações urbanas políticas sociais com uma con-


no Brasil. formação que pode ser descri-
Ainda assim é possível ta nos termos que seguem:
reconhecer, nessa dualidade 1) Proeminência
– ao menos no âmbito nomi- do agronegócio que se articu-
nal - das políticas sociais bra- la a um investimento de me-
sileiras, traços que apontam nor monta em programas de
tanto para fortes relações in- incentivo à agricultura familiar
tersetoriais entre programas como dimensão de acomoda-
sociais e seus operadores, ção e gestão de conflitos;
como para um conjunto de 2) No campo do
privatizações cruzadas (como trabalho: reformas da legisla-
os programas que entrelaçam ção do trabalho, encolhimento
bancos e empresas na privati- de direitos e sua normalização,

06
zação da cultura e da saúde); especialmente sob a égide e a
para a hegemonia do capital aura do empreendedorismo,
financeiro (securitização, fi- que se somam a uma pequena
nanceirização, monetariza- secretaria de “economia soli-
ção) que se alia fortemente à dária” no âmbito do mesmo
força do agronegócio como ministério;
eixo de uma política de expor- 3) Políticas de as-
tações. Assim a configuração sistência à saúde, de assistên-
das políticas chamadas de de- cia social e de redistribuição
senvolvimento se conjugam às de renda, implementadas por
243

Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

parcerias público-privadas, o de mercado. Pelo menos num


que se estende ao campo do primeiro momento, a moda-
financiamento da cultura; lidade entidades parecia con-
4) No campo da templar o movimento social
habitação: o Programa Minha de moradia, em sua dinâmica
Casa Minha Vida – de forte in- multifacetada (regionalmente
centivo econômico à cadeia e entre inspirações políticoi-
produtiva da construção civil e deológicas diversas) com uma
incorporadoras, de caracterís- política pública de âmbito na-
ticas anti cíclicas, com fortes cional. Com o avanço dos em-
desdobramentos para os vín- preendimentos e o desenrolar
culos entre capital financeiro dos processos em tela, porém,
e capital imobiliário, ao qual essa legitimidade e essa espe-
se acrescenta uma quantida- rança se desvaneceram quase
de relativamente pequena de por completo.
recursos para a modalidade A partir dessas dimen-
PMCMV Entidades – na pro- sões é possível compreender
porção de mais ou menos 1/20 que o crescimento da eco-
procesos extremos na constituição da cidade

do montante de investimen- nomia brasileira impulsionou


tos. É importante notar aqui um suposto desenvolvimento
que a modalidade Entidades econômico com um déficit im-
teria sido responsável por um portante de direitos sociais, o
suposto contraponto ao incen- que implicou a contemplação
tivo e incremento das soluções desse déficit por um governo
244

Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

marcado por sua origem nas Além disso, é preciso


classes trabalhadoras, ainda compreender que o déficit de
que de modo bastante focali- moradia – relacionado à ques-
zado e pontual, na medida das tão de uma demanda que não
urgências mais flagrantes, en- se traduz em renda suficiente
tre as quais, a moradia. Cabe para o aluguel ou a proprieda-
aqui discutir a questão do dé- de – bem como outras carên-
ficit de moradias que envolvia, cias de resolução mais urgente
em 2008, pouco menos de 6 foram produzidos ao longo da
milhões delas. Porém é pre- história brasileira e jamais fo-
ciso, também, mencionar que ram superados pelos períodos
pouco mais de 80% desse dé- de crescimento ou desenvolvi-
ficit está composto por uma mento econômico. Foram, ao
faixa de renda familiar entre contrário, atualizados ao lon-

06
0 e 3 salários mínimos (cerca go da história brasileira em um
de US$ 845). O déficit é ainda processo de socialização das
discutível na medida em que perdas (cf. expressão de C.
o número de imóveis desocu- Furtado) mesmo quando hou-
pados na cidade de São Paulo ve, por meio de lutas e con-
praticamente coincide com o quistas, alguma recuperação
número de unidades habita- econômica e do poder aquisiti-
cionais que deveriam suprir a vo das classes populares.
demanda.

245

Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

Assim, a questão do se faz sob a égide da pobreza,


déficit de moradia – entre do que se entendeu classica-
outros déficits e carências – mente como “atraso”, mesmo
é bastante complexa e essa que seja necessário definir,
complexidade permite per- a cada momento da história
ceber que o PMCMV e sua do país, o que se entende por
modalidade Entidades acaba atraso e por modernização.
por construir uma demanda Dessa perspectiva é
solvável pela incorporação de possível apontar que (Rolnik
subsídios públicos destinados e Nakano: 2009), que o pro-
às construtoras e incorpora- grama Minha Casa Minha Vida
doras, empresas que, ao lado tem origem no programa chile-
da abertura de seu capital nas no de habitação social. Desse
bolsas de valores, acabam por ponto de vista, é possível per-
apresentar, a partir da institui- ceber importantes transver-
ção do programa, altas taxas salidades internacionais entre
de crescimento de produção e as políticas sociais latino-ame-
de lucratividade. Há aqui uma ricanas (programas de trans-
procesos extremos na constituição da cidade

forte atualização de um cres- ferências condicionadas de


cimento econômico da cadeia renda, como o Chile Solidário,
produtiva da construção civil programas de habitação, pro-
e de suas empresas – aliás em gramas de atenção à saúde,
processo de concentração, fu- entre outros). Se é possível
sões e aquisições entre si – que reconhecer transversalidades
246

Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

entre países e entre políticas diretos e indiretos, grandes


sociais, também é possível empresas e bancos ganham
apontar cruzamentos entre destaque. Por outro lado, tam-
as políticas sociais no interior bém é necessário reconhecer
de cada país como, por exem- que esse universo de políticas
plo, as privatizações cruzadas sociais e de habitação são par-
entre saúde e cultura. Desse te dessas experimentações,
ponto de vista, talvez seja im- constituindo-se como palco de
portante reconhecer que, no intervenção de um conjunto
âmbito latino-americano, arti- de atores públicos, privados,
culou-se, nas últimas décadas, intermediários, em diferentes
um conjunto de experimentos níveis de atuação territorial,
e de programas sociais que fa- organizações internacionais,
zem do continente um labora- nacionais e locais. Aqui tam-

06
tório de ensaios, de tentativas bém combinam-se conquistas
e de formas de parcerias públi- sociais - ainda que de modo
co-privadas e de focalizações focalizado – encolhimento de
no âmbito das políticas de direitos, formas de circulação
combate à pobreza, na con- de programas e políticas, ten-
tramão dos processos de uni- dências internacionais cuja
versalização de direitos. Entre formulação remonta aos gran-
os operadores e financiadores des organismos e agências
desses programas, um mix como Banco Mundial e outros.
de fundos públicos, subsídios
247

Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

Dessa perspectiva, as face urbana. Algumas dessas


políticas sociais e seus progra- perguntas e questões podem
mas constituem uma dimen- ser formuladas como segue:
são importante para caracte- O que permanece e o que se
rizar o contexto brasileiro – e, transforma em relação a ou-
talvez, até mesmo, o latino tras formas de ver e de com-
americano – contemporâneo. bater carências, sobretudo do
São elementos, em parte no- ponto de vista dos programas
vos em parte reformulados, habitacionais? Há um ponto de
cujo percurso nem sempre inflexão em meio a permanên-
pode ser periodizado sem difi- cias e redefinições da trama de
culdades, já que os programas desigualdades? Quais transfor-
sociais – e entre eles o PMCMV mações e de que magnitude
– apresentam continuidades ocorreram no âmbito das rela-
e descontinuidades em rela- ções entre setores e políticas
ção a programas anteriores setoriais, nas intermediações
de financiamento habitacio- e seus agentes, nas relações
nal, como o Crédito Solidário. entre Estado e a assim chama-
procesos extremos na constituição da cidade

Ainda assim os programas so- da “sociedade civil”, nos ope-


ciais e habitacionais colocam radores destas políticas, pen-
algumas questões que apon- sados como parceiros e como
tam para uma requalificação margens do Estado? Quais são
da chamada questão social os eixos e a lógica das rela-
brasileira, em especial na sua ções entre capital imobiliário
248

Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

e financeiro e Estado em suas social” brasileira, bem como


novas e perversas formula- das formas de combatê-la e re-
ções no bojo de governos produzi-la.
chefiados pelo Partido dos
Trabalhadores? Como se re- algumas Considerações
produzem e até mesmo se Em primeiro lugar, a
ampliam desigualdades no in- questão da habitação em suas
terior de programas de habita- fortes relações com os proces-
ção que aparecem como des- sos de segregação socioespa-
tinados a mitigar a escassez, cial são lugares fundamentais
a carência de moradia e de para que se possa apreender
cidade? Nesse âmbito, a im- os embates e dimensões con-
portância do PMCMV e de sua temporâneas sobre a pobre-
modalidade Entidades acaba za no Brasil, assim como suas

06
se desenhando como meca- configurações, para além da
nismo que produz e reproduz legitimação das formas de
importantes desigualdades no nomeação, contagem, classi-
seu âmbito mais concentrado ficação, administração e con-
e mais visível – as metrópoles trole dos pobres. Nesse senti-
brasileiras, onde a situação do cabe observar que um dos
de carência e desigualdade se dirigentes das entidades que
conforma como uma das mais compõem o programa MCMV
fortes evidências das transfor- em São Paulo tenha afirmado
mações recentes da “questão que “não há mais pobres no
249

Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

Brasil”. Essa forma perversa – bolsa família, programas


de invisibilidade da pobreza de assistência e de saúde,
ganha diversas denominações: PMCMV, Minha Casa Melhor
“ classe C”, classes médias, es- (financiamento de eletrodo-
tratos de consumo, entre ou- mésticos e móveis)? Como se
tras. De fato, os mais pobres relacionam – se é que ainda se
entre os pobres – exatamente relacionam - com o ideário e
os estratos que compõem o a linguagem dos direitos con-
“déficit” habitacional – são os formada pelos movimentos
alvos dessa invisibilidade face sociais? Como benefícios, sub-
aos programas sociais e de ha- sídios e programas criam su-
bitação denominados – faixa 1 jeitos na forma de operadores
(com renda familiar até 1600 e públicos-alvo segmentados
reais). Pode-se ainda apontar por gênero, faixa etária, ca-
que os territórios populares, rência específica, conforman-
favelas e periferias especial- do-se como expedientes eco-
mente, são os lugares e tra- nômicos de monetarização?
mas da cidade onde é possível Dessa perspectiva o
procesos extremos na constituição da cidade

perceber e problematizar os PMCMV Entidades – menos


efeitos mais impactantes dos diverso do programa que se
programas sociais e de habi- volta às construtoras do que
tação. Afinal qual o impacto e se supunha no início da pes-
como são operacionalizados quisa – seria um expediente de
e percebidos os “benefícios” financeirização e dinamização
250

Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

dos processos de acumula- proporções dão uma ideia da


ção financeirizada do capital, disparidade entre as duas mo-
conformando-se como uma dalidades do programa. Como
variante da produção de ha- alguns trabalhos demonstram,
bitação social de mercado a partir do final da primeira dé-
com a participação de entida- cada deste século, houve uma
des populares? Ou o PMCMV forte centralização do capital
Entidades deve ser considera- em grandes empresas constru-
do como mais uma expressão toras que, ao mesmo tempo,
do combate à pobreza como abriram seu capital nas bolsas
negócio e como mercado que de valores, captando poupan-
acabou por enredar movimen- ças e investimentos de dentro
tos e associações populares e de fora do país. Algumas de-
como parceiros de uma políti- las tiveram lucros que aumen-

06
ca de Estado? taram 500% em apenas um ano
(Shimbo:2012). Essas grandes
PMCMV – A POBREZA COMO empresas atuam em âmbito
NICHO DE NEGÓCIOS nacional e tiveram sua expan-
São 634 empreen- são basicamente assentada no
dimentos na Região chamado segmento econômi-
Metropolitana de São Paulo, co. Há exemplos de produção,
dos quais apenas 15 relativos a partir do PMCMV, em que a
ao MCMV- Entidades (dados captação de subsídio permite
de setembro de 2013). Essas a entrada e a construção de
251

Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

empreendimentos da chama- na bolsa de valores, fusões e


da faixa 1 – até R$1600 reais de aquisições, planos, sobretudo
renda familiar – o que fornece empresariais, voltados para
as credenciais necessárias para os segmentos C e D, de menor
a produção voltada para ou- renda e devidamente coleti-
tras faixas de renda com maior vizados. Assim, tanto saúde
lucratividade. Assim esse mix quanto habitação – anterior-
de capital financeirizado cap- mente bastante apoiadas em
tado nas bolsas e mercado reivindicações assentadas
de ações, subsídios estatais em um imaginário de direitos
e produção para o chamado – não sofreram apenas pri-
segmento econômico como vatizações, mas passaram a
“modelo de negócios”, pare- ser um nicho de negócios de
ce viabilizar grandes lucros de expressiva lucratividade e de
grandes conglomerados de nítida captura por um arranjo
capitais centralizados em em- financeiro e produtivo em que
presas de atuação nacional e as dimensões de eficiência e
mesmo internacional. lucratividade empresarial se
procesos extremos na constituição da cidade

É preciso apontar, submetem continuamente à


ainda, que um processo se- dinâmica financeirizada das
melhante vem tendo lugar bolsas de valores e de ações.
nas empresas que operam Pelo menos desse ponto de
planos de saúde no Brasil – vista é possível perceber um
abertura de capital, atuação processo de financeirização e
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Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

monetarização das políticas inclusão da questão de gêne-


sociais – no mínimo habitação ro, conferindo a posse e pos-
e transferências condiciona- teriormente a propriedade
das de renda, como o bolsa às mulheres na qualidade de
família – ao lado de processos responsáveis pelas famílias,
de assistencialismo e policia- procedimento que será repro-
mento que perpassam os pro- duzido pelos programas de
gramas de saúde e de cultura transferência condicionada de
como o Plano de Assistência renda. Pode-se ainda apontar
Integral à Saúde da Família e que o PMCMV, em sua primei-
programas como o Projeto ra fase, priorizava as famílias
Guri; políticas de assistência chefiadas por mulheres, apro-
aos moradores de rua, entre ximando a dimensão de gêne-
outros. ro da dimensão familiar e ma-

06
Ainda do ponto de vista terna. Ao contrário da fase I,
da inserção dos programas de a fase II do programa prioriza
habitação no leque de políticas famílias em situação de risco
sociais e de combate à pobre- a serem removidas para áreas
za, é preciso assinalar alguma supostamente mais seguras.
transversalidade em relação, Esse procedimento acaba por
por exemplo, à dimensão de se incluir em um processo
gênero. Dessa perspectiva, complexo de remoções, que
os programas habitacionais recobraram legitimidade e têm
brasileiros foram pioneiros na como alvo as assim chamadas
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Cidades Volume 11 Número 19


Cibele Saliba Rizek

populações em “áreas de ris- chamada Zona Leste. O que


co”, bem como remoções que parece explicar essa concen-
têm por objetivo a realização tração no último anel periféri-
de grandes projetos urbanos co da metrópole são as incon-
vinculados aos eventos espor- táveis dificuldades de acesso à
tivos e outros. (A esse respei- terra, o que atira os empreen-
to é importante notar que, na dimentos para onde ela ain-
cidade do Rio de Janeiro, os da é disponível e passível de
empreendimentos do PMCMV compra, em especial porque
estão colados às áreas de in- as construtoras constituíram,
tervenção que preparam a ao longo do processo de cria-
cidade para a Copa de 2014 e ção e depois de instalação do
a Olimpíada de 2016, confor- programa MCMV, bancos de
me dados do Observatório da terrenos que, inclusive, aca-
Metrópoles, RJ, 2013) bam por valorizar suas ações
Pode-se, ainda, à guisa nas respectivas bolsas de va-
de conclusão bastante preli- lores. Em disputa de mercado
minar de pesquisa, apresentar com as empresas, as entida-
procesos extremos na constituição da cidade

alguns resultados que apon- des se veem empurradas para


tam uma forte concentração as franjas da região metropo-
dos empreendimentos do litana, reproduzindo proces-
PMCMV Entidades nas perife- sos clássicos de segregação
rias da região metropolitana socioespacial, prejudicando
de São Paulo, em especial na fortemente o acesso à cidade
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Cidades Volume 11 Número 19


O programa minha casa minha vida entidades: provisão de moradia no avesso da cidade?

e comprometendo as formas metropolitana. Por outro lado,


de mobilidade. Esses e ou- a entrada no programa acaba
tros fatores parecem apontar, sendo uma das únicas alter-
ainda, o caráter duvidoso da nativas para atender as bases
permanência e fixação das fa- desses movimentos de mora-
mílias de mais baixa renda nos dia. Acaba assim constituindo
empreendimentos produzidos -seum novo “mercado”, viabi-
pelo programa, tanto na mo- lizado pelo acesso a recursos
dalidade Entidades, como na e subsídios que criam uma
modalidade dominante, espe- demanda solvável, que produ-
cialmente no que diz respeito zem uma demanda, que final-
à faixa de menor renda. mente se expressa, por meio
O programa MCMV do programa, em demanda
Entidades exige, assim, uma de mercado, o que é bastante

06
“via crucis” necessária para a diverso do enfrentamento do
viabilização dos empreendi- déficit ou da demanda real de
mentos pelas organizações moradias para baixa renda.
populares. Essa via crucis vai Diante desse proces-
da pesquisa de terrenos à con- so, as entidades provenientes
tratação da obra com recursos dos movimentos de habita-
bastante escassos, o que aca- ção também sofrem transfor-
ba por inviabilizar os empreen- mações. Em primeiro lugar,
dimentos habitacionais em atuam em consórcio – como
áreas mais centrais da região de resto já vinham fazendo
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Cidades Volume 11 Número 19


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nas ocupações dos edifícios moradia popular.


vazios do centro da cidade Essa discussão remete
de São Paulo. Esses consór- aos vínculos entre as questões
cios contornam a dificuldade de sustentabilidade, vulnera-
de contratação de entidades bilidade e mobilidade urbanas
pequenas, em especial nas interligadas e a seus leques
regiões metropolitanas e na e escopos de significação.
região metropolitana de São Dessa perspectiva, se tomar-
Paulo. Em segundo lugar é mos a o PMCMV como o maior
preciso notar que esses trâmi- e o mais importante programa
tes exigem um grau elevado habitacional brasileiro, já que
de profissionalização e ges- todos os demais foram subs-
tão de operações, que fazem tituídos pela força, inclusive
com que uma liderança tenha eleitoral e econômica desse
afirmado: “somos uma máqui- mesmo programa, talvez fos-
na”. De movimentos sociais a se possível indicar que:
máquinas que produzem em- 1) O fato de o pro-
preendimentos habitacionais grama se voltar muito mais
procesos extremos na constituição da cidade

afinal a linguagem, o ideário, para a constituição de uma de-


o direito à moradia e à cidade manda solvável por habitação
vão lentamente dando lugar do que para sanar o déficit de
a mais uma parceria entre en- moradias localizado nas cama-
tidades populares e progra- das de menor renda implica,
mas estatais de subsídios à sobretudo, uma dinamização
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das empresas e da cadeia da compromete a sustentabilida-


construção e incorporação, in- de desses empreendimentos,
clusive pelas práticas dos ban- em suas dimensões sociais
cos de terrenos que funcionam e ambientais diz respeito às
como alavancas de valoriza- precárias condições de fixa-
ção financeira dessas mes- ção das populações de menor
mas empresas no mercado de renda nos empreendimentos
ações. Esse elemento desloca do programa à luz do que já
a dimensão da sustentabilida- ocorreu com os conjuntos ha-
de vinculada às questões am- bitacionais produzidos pelas
bientais para uma sustentabi- companhias municipais de
lidade dos ativos financeiros habitação – COHABs - e pelas
das grandes construtoras, em companhias estaduais - como
detrimento das possibilidades CDHU. Essa dimensão acaba

06
de contemplar as questões de por ser agravada pelo fato de
moradia como direito, bem que em alguns empreendi-
como de localização. Afinal a mentos do PMCMV voltados
raridade do espaço, e do espa- para a população de menor
ço urbano, em particular aca- renda (faixa I), já é possível
bou por se agravar, gerando perceber que parte das mora-
práticas de especulação imobi- dias foi ocupada por facções
liária e de formas de expansão vinculadas ao mundo do cri-
urbana para além do acesso à me, como os pontos de trá-
cidade. Outra dimensão que fico e de comercialização de
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drogas ilícitas. Esse parece de menor escala no Estado de


ser um aspecto que vincula São Paulo, essas distâncias se
essas práticas com sua locali- dramatizam em relação aos
zação, isto é, a distância dos equipamentos de saúde e edu-
empreendimentos em relação cação e mesmo em relação
aos territórios mais consolida- ao pequeno comércio. Além
dos das cidades. dessas dimensões, a questão
2) Para além das da mobilidade se agrava, em
questões que consideram as especial para as populações
regiões metropolitanas brasi- de menor renda, exatamen-
leiras, a exemplo de São Paulo te aquelas que precisam dos
e do Rio de Janeiro como capa- equipamentos públicos como
zes de se articular em múltiplas dimensões cotidianas impres-
centralidades, os empreen- cindíveis para sua própria re-
dimentos do PMCMV – e do produção. A saída para essas
PMCMV Entidades ainda mais distâncias quase sempre é
– acabam por estender a tra- o transporte individual, por
ma e a malha urbana, criando meio da comercialização de
procesos extremos na constituição da cidade

periferias, agravando a distân- carros usados, que acabam


cia relativa dessas centralida- sendo uma das condições que
des pela dinâmica imobiliária viabilizam a mudança para
que o programa, por um lado periferias cada vez mais dis-
cria, por outro, alimenta. Se se tantes dos centros. Como se
tomar o exemplo de cidades pode facilmente depreender,
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esse componente tem implica- do processo de industrializa-


ções nas condições gerais de ção e urbanização. Conforme
mobilidade urbana, tanto nas aponta Oliveira, a produção
regiões metropolitanas, como da vulnerabilidade se ancora
em cidades de menor porte. no fato de que “os grupos so-
3) As dimensões ciais vulneráveis se tornaram
até aqui apresentadas pare- vulneráveis, pela ação de ou-
cem apontar para uma produ- tros agentes sociais” (p. 9). A
ção e reprodução de condições partir dessas considerações
de vida urbana vulneráveis em a vulnerabilidade vai além da
múltiplas dimensões. Se for linha de pobreza e seu princi-
levada em conta a concepção pal mecanismo se assenta nos
socioeconômica de vulnera- usos e formas do trabalho,
bilidade (ver R. Castel, As me- mesmo que os diagramas que

06
tamorfoses da questão social, faziam com que cidadania e di-
L. Kowarick e F. Oliveira) é reitos se assentassem no que
preciso notar que a dimensão Castel chamou de sociedade
econômica, apesar de sua cen- salarial, tenham se esgotado
tralidade, não esgota todas as ou tenham sofrido importan-
faces e desdobramentos do tes revezes, a partir dos anos
fenômeno. A vulnerabilidade noventa, no contexto brasilei-
social e urbana foi produzi- ro. Mesmo assim, ainda com
da e reproduzida ao longo da Oliveira, mas também a partir
história brasileira e da história de Castel, Kowarick e Telles, o
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contraponto à vulnerabilidade críticas que amadureceram


se relaciona, em suas dimen- por décadas – os processos de
sões sócio políticas, à passa- afastamento dos conjuntos e
gem e ao trâmite das carências empreendimentos de habita-
aos direitos, no contraponto à ção social dos equipamentos
noção de “beneficiários” ou públicos necessários à produ-
públicos-alvo, que respondem ção e reprodução da vida dos
a processos de produção de beneficiários desses empreen-
uma demanda. Dessa pers- dimentos, em especial os de
pectiva é preciso observar, menor renda. Considerando
em primeiro lugar, a produção os exemplos que a história da
de conjuntos habitacionais de habitação social no Brasil ofe-
baixa renda no último anel da rece, é bem possível que a per-
periferia das cidades, a exem- manência dos beneficiários de
plo da Região Metropolitana menor renda acabe compro-
de São Paulo, mas também das metida pela dinâmica mesma
cidades de menor porte no in- da formalização, já que a co-
terior do Estado de São Paulo, brança de taxas condominiais
procesos extremos na constituição da cidade

assim como o aprofundando e impostos, frequentemente


do desenho das desigualda- inviabilizaria ou compromete-
des socioespaciais, recrudes- ria parcelas da renda, redun-
cendo os mecanismos clás- dando em novas migrações
sicos de segregação urbana intra urbanas, frequente-
e reproduzindo – apesar das mente para locais ainda mais
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distantes dos centros de em- deveriam revertê-lo. Trata-se,


prego e trabalho e/ou equipa- assim, de uma vulnerabilidade
mentos e serviços. Esses argu- produzida não pela ausência,
mentos parecem apontar para mas pela presença de progra-
um processo de produção de mas de promoção público-pri-
moradias que atende às de- vada de habitação social em
mandas de um mix de capitais que a parceria e a promiscui-
imobiliários e financeiros, mais dade entre Estado e capitais
do que o déficit real de habita- privados se mostram rigoro-
ção, reservando um lugar cen- samente imprescindíveis para
tral na dinâmica urbana para um processo potencializado
os processos de acumulação de acumulação financeira.
financeira e cumprindo larga- (L. Shimbo:2012 e D. Sanfelic:
mente a função do desenho 2013, que apontam expressivo

06
do programa habitacional tal crescimento da lucratividade
como articulado pelas grandes das empresas que investem
construtoras em parceria com no segmento econômico, a
o Estado. Desse modo, pensan- partir de 2007).
do a vulnerabilidade urbana
como processo sócio-históri-
co, é possível apontar seu re-
crudescimento pelos mesmos
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do ponto de vista discursivo,
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