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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

SETOR DE CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA, LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

MARIA CAROLINA DE ALMEIDA AMARAL

ANÁLISE DO CONTO “O PERU DE NATAL” DE MÁRIO DE ANDRADE

CURITIBA

2014
Dentre as figuras que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922,
Mário de Andrade destaca-se como um dos principais ícones do movimento
modernista brasileiro, e que teve influência decisiva na renovação da literatura no
Brasil. Produziu uma extensa obra que inclui desde romances, contos e poemas até
ensaios e críticas literárias. No que diz respeito a sua produção de contos, Mário de
Andrade buscou discutir questões modernas de identidade nacional e contribuiu
muito para a consolidação deste gênero na nossa literatura. Assim sendo, este
trabalho se ocupará de discutir e analisar um de seus contos intitulado “O Peru de
Natal”, publicado em 1947 no livro póstumo Contos Novos. O conto segue anexo ao
trabalho.

A escolha deste autor se deu em função do meu interesse pelo movimento


modernista brasileiro e sua relevância para a história da literatura no país. Mário de
Andrade, como representação máxima deste movimento, foi a escolha mais
atraente. A busca constante pela “identidade brasileira” e a inovação em suas
narrativas foram fatores decisivos para a consolidação daquilo que o Modernismo
procurava difundir. E por esses motivos as narrativas de Andrade são relevantes
para um estudo analítico.

O conto em questão foi escolhido por fazer parte de um grupo de quatro


contos (Vestida de Preto, O Peru de Natal, Frederico Paciência e Tempo de
Camisolinha) em que o autor apresenta o mesmo protagonista-narrador, Juca, em
diferentes momentos de sua vida, da infância à vida adulta. Nestes contos, Andrade
explora o universo subjetivo a vida de um homem, ao mesmo tempo em que indaga
a sua relação com o mundo exterior.

No conto “O Peru de Natal”, o protagonista é Juca, que, na idade de 19 anos,


tem como sua maior característica a transgressão. Ele não vive de acordo com as
normas tradicionais de sua família, agindo sempre em discordância das convenções
sociais que lhe são impostas. Isso porque, desde sua infância, ele tem uma “fama
conciliatória de louco” (ANDRADE, 1978, p. 96). Por isso, tudo lhe é permitido e,
segundo ele, é por esse motivo que em sua vida não há complexos psicológicos de
nenhuma natureza.
Além de protagonista, Juca é também o narrador. Portanto, o tipo de foco
narrativo que este conto apresenta é o de “narrador-protagonista”. Segundo Lígia C.
M. Leite, essa espécie de foco narrativo, o narrador “narra de um centro fixo, limitado
quase que exclusivamente às suas percepções, pensamentos e sentimentos”
(LEITE, 1993, p. 43). Isso nos permite ver os personagens somente a partir do ponto
de vista de Juca. Posto isso, observamos que o núcleo feminino da narrativa é visto
com grande afeto. São vários os momentos em que ele menciona suas “três mães”,
sua tia, sua irmã e sua mãe. Também há Rose, sua companheira, da qual ninguém
tem conhecimento.

Entretanto, quanto ao núcleo masculino da narrativa, Juca o caracteriza


negativamente, ou nada diz a respeito. De seu pai são apenas ditas características
negativas, e de seu irmão nada sabemos. Dessa forma, podemos fazer um paralelo
entre a personalidade de Juca e o conceito freudiano “complexo de Édipo”, como
cita Kristina Loff Knapp em sua tese “O leitor e a identidade nacional na contística de
Mário de Andrade” (KNAPP, 2010, p. 68). Ela nota que, uma vez que a relação do
narrador-protagonista com sua mãe é de afeição, com seu pai ela é combativa e de
rejeição.

Juca mora com suas “três mães” mais seu irmão, num ambiente patriarcal, de
classe média urbana e de tradição cristã. Não se pode inferir com exatidão a época
e o lugar em que se passa o conto, mas é possível deduzir a partir da outras obras
de Contos Novos em que Juca é o protagonista que o cenário é o subúrbio paulista
da primeira metade do século XX.

O enredo da narrativa gira em torno da primeira ceia de natal seguinte à


morte do pai, a quem Juca negativamente descreve como um sujeito sem vida e
medíocre, “o puro-sangue dos desmancha-prazeres” (ANDRADE, 1978, p.95). Para
Juca, era culpa de seu pai que sempre lhes faltara “aquele aproveitamento da vida”
(ANDRADE, 1978, p. 95). Seu pai vetava qualquer tipo de felicidade material: de
aquisição de geladeira a um bom vinho.

Apesar disso, ao resto da família a lembrança da figura do pai era sempre


algo penoso, “parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança
dolorosa a cada almoço” (ANDRADE, 1978, p. 95). Afinal, seu pai era a figura
familiar centralizadora, aquele que ditava as regras da casa. Esse cenário ilustra o
sistema patriarcal característico das tradicionais famílias brasileiras da época. Aos
homens era conferida a tarefa de decidir e mandar, e às mulheres restava somente
servi-los.

O narrador-protagonista exemplifica isso quando conta que em dias de festa


de aniversário o prato era peru, e quem cozinhava era sua mãe, sua irmã e sua tia.
Elas trabalhavam em todos os preparativos e serviam os convidados, mas nunca
lhes sobrava nada para comer:

“Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe


com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no
arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e
pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa
casa, peru resto de festa” (ANDRADE, 1978, p. 97).

Observa-se que as três personagens mulheres são caracterizadas pela sua


submissão ao sistema patriarcal vigente na família.

Mas, apesar de nos aniversários a família servir peru, na ceia de Natal isso
não se verificava. Juca descreve uma ceia simples, desprovida de muitos pratos
comuns à data festiva: “(...) ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da
Missa do Galo” (ANDRADE, 1978, p. 96). É o primeiro natal sem o pai. Portanto,
Juca usa de sua suposta “loucura” para propor uma maneira de celebração diferente
daquela que todos estavam habituados: “Bom, no Natal, quero comer peru.”
(ANDRADE, 1978, p. 97).

Diante de tão ousada proposta, os membros da família mostram-se


surpresos, afinal, não poderiam convidar ninguém, pois estão todos em intenso luto.
É nesse momento que Juca descarrega seu profundo desgosto a todo o ritual pelo
qual sua família passa em dias de festa, demonstrando sua compaixão a suas três
mães. Juca então expõe seu desejo de não ter outro parentes para a ceia, somente
os cinco integrantes da família. Ele também descreve com vários detalhes toda a
comilança na qual deseja para a festividade, tudo do que nunca se pôde desfrutar
naquela casa em virtude da natureza mesquinha do pai.

Mas mesmo depois de o protagonista expor seus planos a sua família e


provocar um sentimento de desejo em todos, ninguém revelou estar também
ansiando aquele momento. Ninguém queria a culpa de uma felicidade no decorrer
de um luto. Como nota Madalena Machado em seu artigo “Subjetividade Coexistida
em ‘O Peru de Natal’”, “A conservação da lembrança do morto impede a princípio a
tão pretendida renovação do amor familiar” (MACHADO, 2008, p. 8). Observa-se
aqui que mesmo o pai estando morto, ele ainda dita a direção dos acontecimentos
na família. Sua morte significou a estagnação de seus familiares. O que propiciou a
todos a possibilidade de redenção naquela ceia foi o caráter transgressor do
narrador-protagonista; afinal, fora ele “o louco” que planejara tudo aquilo.

“(...) todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito
aquilo e havia jeito fácil de empurrarem para cima de mim a... culpa de seus
desejos enormes.” (ANDRADE, 1978, p. 98)

No dia da tão esperada ceia de Natal, Juca relata a “felicidade nova que o
peru vinha imprimindo na família” (ANDRADE, 1978, p. 99). Todos estavam
extasiados com a ideia de se comemorar o Natal comendo pela primeira vez um
peru de verdade. Então Juca, num ato de ternura, resolve servir a todos e oferece a
sua mãe o prato com o pedaço mais abundante de peru. A mãe, acostumada com
sua posição submissa, sentindo-se comovida e lisonjeada, começa a chorar, o que
faz com que a tia e a irmã também se emocionem e chorem. É nesse momento em
que se instala o clímax da trama: por associação, o pranto evocara a “imagem
indesejável do pai morto” (ANDRADE, 1978, p. 100).

Para Juca, aquilo significava a ruína de seu plano. Seu pai “sentado ali,
gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade” (ANDRADE,
1978, p. 101) representava o contrário daquilo que ele desejava para aquele
momento. A sua imagem consegue interpor-se entre todos e faz instaurar um clima
fúnebre. A partir daqui, o foco narrativo do conto será caracterizado ainda por um
“monólogo interior”, como caracteriza Lígia C. M. Leite, em “O Foco Narrativo”
(LEITE, 1993, p. 70). Juca expressará numa sucessão clara de pensamentos aquilo
que está pensando e trava uma “batalha psicológica” entre o peru e seu pai. Este
cenário caracteriza o conflito principal da narrativa. Tomando “decididamente o
partido do peru”, ele idealiza uma manobra para descontruir a posição autoritária e
dominadora ainda ocupada por seu pai. Numa atitude “hipócrita e política”, Juca
toma aparentemente o partido de seu genitor e traz sua lembrança à tona como
alguém bom e generoso.

“— (...)Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto
trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas
resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em
família.” (ANDRADE, 1978, p. 101).

Tal estratégia acaba por estimular uma lembrança do pai diferente daquela
pesarosa que se observa no início da trama. Em seguida, é a mãe quem toma a
iniciativa de preservar e engrandecer a memória do pai, o que parece reconfortar a
todos. Podemos perceber aqui que a imagem do patriarca, que em um primeiro
momento é tratada com receio, faz uma transição e agora representa uma
“contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu”. Na batalha travada
por Juca, quem sai vitorioso é o peru “(...) o peru já convertera [a imagem do pai] em
dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação” (ANDRADE, 1978, p.
102).

Nesse sentido, o peru tem papel essencial na resolução do conflito da trama.


É ele o responsável pela retirada do pai da posição de patriarca que ele ainda
ocupava, mesmo morto. Ou seja, é através da manobra de Juca que há a extirpação
da culpa por sentir satisfação em detrimento ao luto. Também é notável o rearranjo
que os papeis familiares tomam, uma vez que é Juca que aparentemente ocupará o
lugar de patriarca. Quem observa isso é Gisele de Rocio Borges, em “O Projeto
Estético-Ideológico de Mário de Andrade”, quando nota que o narrador vai sair
vitorioso e fortalecido da “batalha psicológica” , uma vez que o lugar do patriarca
passa a ser seu. (BORGES, 2012, p.9)

Ao fim da noite, no desfecho da narrativa, observa-se de fato que a família


alcançou a tão desejada felicidade familiar, desconhecida até então. Para Juca (e
talvez para todos também), aquela primeiro peru de natal sem o pai simbolizava o
“início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais
complacente e cuidadoso de si” (ANDRADE, 1978, p. 102). Depois disso, quando
todos vão deitar-se, Juca mente que vai a uma festa de um amigo, que na verdade é
um encontro com Rose. Pode-se observar nessa passagem da narrativa que sua
transgressão é mais uma vez aceita e há a conivência de sua mãe.
A partir disso, podemos inferir que, embora todos saiam modificados da ceia,
Juca é o que mais sofre essa mudança. Além de acabar com o tabu da imagem de
seu pai que tanto lhe irritava, também tem a possibilidade de encontrar-se com sua
companheira sem sofrer nenhum tipo de retaliação. Seus desejos foram todos
realizados. Isso pode comprovar por outra perspectiva que Juca agora toma o lugar
que antes era ocupado por seu pai, o de patriarca da família. A ele é concedida –
além da viabilidade de fazer o que deseja – a tarefa de tomar frente às decisões
familiares, das quais a primeira foi a escolha de realizar uma ceia em meio a um
ambiente lutuoso.

Nesse sentido, podemos constatar no percurso de Juca uma temática


recorrente: a busca pela sua própria identidade. Madalena Machado salienta isso
quando reconhece que o narrador-protagonista vai desfazer a figura paterna ao
mesmo tempo em que constrói a sua própria historia familiar, com a sua própria
identidade desvinculada do autoritário pai. (MACHADO, 2008, p. 9)

É importante colocar aqui o projeto modernista de Mário de Andrade aparece


em Contos Novos como uma procura pela identidade nacional a partir da reflexão
sobre o núcleo familiar brasileiro. Depois de 20 anos da Semana de Arte Moderna,
Andrade ainda buscava a mesma temática. mas a partir de uma nova perspectiva.
como Madalena Machado comprova isso quando diz que “a reescritura da história
familiar de Juca é sinônimo de uma literatura que exprime a problemática subjetiva
sem as máscaras de um conservadorismo, reivindicação do Modernismo”.
(MACHADO, 2008, p. 2)

À vista disso, é plausível estabelecer também uma relação entre Juca e o


próprio Mário de Andrade. Em uma passagem de um artigo que o autor escreve para
O Estado de S. Paulo em ocasião do 20º aniversario da Semana de Arte Moderna,
ele cita: “Se mãe e irmãos não me amolavam com as minhas "loucuras", o resto da
família me retalhava sem piedade”. Sobre isso, podemos concluir que Juca, como
personagem ficcional, é um recurso que Mário de Andrade utiliza para discutir
questões do ambiente familiar que se encontravam – e provavelmente ainda se
encontram – profundamente enraizados na estrutura da sociedade brasileira.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Mário de. Contos Novos. 8ª ed. São Paulo: Martins. 1978.

______. O Movimento Modernista. Disponível em:


<http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2002/not20020210p2229.htm>
Acessado em: 4 de maio de 2014.

BORGES, Gisele do Rocio. O Projeto Estético-Ideológico de Mário de Andrade.


Revista Trías, v. 04, p. 01-11, 2012.

BRAIT, Beth. A Personagem. São Paulo: Ática, 1985 (Série Princípios)

GANCHO, Cândida Vilares. Como Analisar Narrativas. São Paulo: Ática, 2004
(Série Princípios)

GOTLIB, Nádia B. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1985 (Série Princípios).

KNAPP, Cristina Loff. O leitor e a identidade nacional na contística de Mário de


Andrade. 2010.

LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O Foco Narrativo. 6ª ed. São Paulo: Ática, 1993
(Série Princípios).

MACHADO, Madalena. Subjetividade coextensiva em "O peru de Natal". Palpitar,


Rio Grande do Sul, p. 01 - 11, 06 maio 2008.
ANEXO 1 – CONTO “O PERU DE NATAL”

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida


cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós
sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade:
gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades
econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser
desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no
medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas
felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira,
coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos
desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do
Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do
morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança
dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu
sugerira à mamãe a ideia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram
lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada
pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais
por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o
bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de
fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a
minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os
tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos;
desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha,
uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei,
de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta
parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais
falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando
exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem
de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me
salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se
realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado.
Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um
nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina:


ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo.
Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa
dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se
abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas
"loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar
ninguém por causa do luto.

Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já
comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa
parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-


que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra
desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão
uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as
três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário
de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma
imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do
peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam
da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem
feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não
tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no
enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num
naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem
servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que
era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia
de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com
bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que
havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na
casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a
receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado,
se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem
gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante
afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a
ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num
desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era
loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando
muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus
desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até
que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem
mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me
lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa
aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada.
E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos
dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo
que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo
o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da
ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido
numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que
até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o
diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada
um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de
filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de
burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um
Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira
naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e
principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja.
Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no
prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço
angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da
Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que
eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando.
Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no
refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha
também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não
chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e
chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se
tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de
meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso
Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A


carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas
e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção
mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas
papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma
incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era
manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar
o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do
peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem
gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente
obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me
interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que
inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que
hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu
pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto
trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não
mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi


diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam
o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto
por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a
seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma
inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de
contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente
vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever


«felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um
amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande
amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o
início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais
complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós
que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a
nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer
mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que
uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois


vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-
casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu
pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de
contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas
garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa,
porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose,
prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a
uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e
fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora,
Rose!...