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Nina Lugovskaia

Eu Quero Viver
Diário de Uma Adolescente na Rússia Bolchevique

Tradução de Maria Nóvoa

Círculo de Leitores

Título original: IL DIÁRIO DE NINA

Capa: JOSÉ NEVES

NOTA
As fotografias da capa e do interior são fruto de uma pesquisa iconográfica de Irina
Ossipova.
Agradece-se a Irina Ossipova por ter tornado possível a publicação deste livro.

UPk
PreiIntr
Prir Seg Ten
ISBN 972-42-3465-7
789724’234656
Copyright © 2004 Edizioni Frassinelli Impresso e encadernado para Círculo de Leitores
por Tilgráfica, SA
Rua da Amarela - Ferreiros, Braga
no mês de Agosto de 2005
Número de edição: 6266
Depósito legal número 227 577/05

Sumário

Prefácio, de Vittorio Strada 7


ntrodução, de Natasha Perova 13
O diário
Primeiro caderno 23
Segundo caderno 111
Terceiro caderno 229
Um achado arqueológico: a voz adolescente da denúncia, de Elena Kostioukovitch 309

Prefácio

Vittorio Strada

Até há poucos anos, até à agonia e morte dos regimes comunistas, era particular do
central, soviético, o conhecimento do seu passado e do seu presente era controlado, no seu
interior e na sua esfera de influência, ou seja, de hegemonia, pelo poder que neles
dominava de modo absoluto: sujeito às directivas ideológicas e propagandísticas de tal
poder, este conhecimento não tinha valor científico e era fruto de uma falsificação
sistemática. No exterior destes regimes, nos países livres, dedicavam-se a este
conhecimento estudiosos de várias tendências, na maioria críticos, senão adversários do
comunismo, mas mesmo assim capazes de garantir um quadro da realidade comunista
substancialmente verídico, como se confirmou depois da derrocada do sistema soviético.
Além destas duas formas opostas de conhecimento dos regimes comunistas, houve uma
terceira, de especial interesse, embora rejeitada e denegrida por quem, nos países livres,
concordava com a ideologia e a política comunistas ou com elas colaborava. Tratava-se
dos testemunhos de quem vivera sob esses regimes e que, por vários motivos e em
diversas circunstâncias, se libertara, fugindo para o estrangeiro: o «caso Kravcenko», logo
depois do fim da Segunda Guerra Mundial, é talvez o exemplo que mais deu que falar.
Nos últimos anos do regime soviético, quando, depois da morte de Estaline, começou o
lento, mas inexorável declínio, surgiram testemunhos provenientes de quem, continuando
a viver no seu interior, fazia chegar ao estrangeiro textos de documentação e denúncia, na
sua maioria literários, mas frequentemente também de carácter histórico e político: o
grande exemplo é a obra de Alexandre Soljenitsin, cujo Arquipélago de Gulag despertou
um movimento de libertação em muitas consciências (em especial em França e, embora
menos, em Itália), enquanto suscitava uma campanha hostil da parte da esquerda
ocidental.
rEsta situação, no entanto, já pertence ao passado. Depois de mais de setenta anos de
hegemonia marxista-leninista e de censura total, o colapso do sistema soviético e suas
repercussões em todo o mundo comunista tornou de novo possível realizar no país da
Revolução de Outubro uma investigação histórica livre sobre o passado comunista, em
colaboração com os historiadores ocidentais, outrora vituperados pelos ideólogos do
regime. Embora nestes últimos tempos, em concomitância com a situação política geral do
país, se note uma alarmante tendência restauracionista, que funde as nostalgias
imperialistas soviéticas com os sentimentos nacionalistas, inaugurou-se na Rússia uma
situação historiográfica fecunda, que já deu bons resultados.
Para além das investigações históricas de várias tendências e cores, o acontecimento mais
importante da Rússia pós-comunista foi a chamada «revolução dos arquivos» (archivnaia
revoliuciá), isto é, a possibilidade de acesso aos materiais conservados nos arquivos do
regime comunista, fonte primária do conhecimento de uma realidade, a soviética, que foi
ocultada e alterada por décadas de censura e propaganda. É verdade que nem todos os
arquivos foram abertos e que, pelo contrário, a sua abertura é cada vez mais controlada,
mas, sem dúvida, que a quantidade e qualidade informativa de material que está hoje à
disposição dos historiadores são de molde a justificar o termo «revolução».
Estes materiais de arquivo, novos, preciosos e esclarecedores, podem subdividir-se em
duas categorias: a primeira diz respeito ao vértice do poder comunista, ou seja, aos
mecanismos de decisão que, num sistema totalitário como o soviético, estavam
essencialmente concentrados nas instituições supremas (Comité Central do Partido
Comunista e, sobretudo, Politburo), mas que se ramificavam perifericamente em relação
às questões menos importantes. O segundo tipo de documentos tem a ver, não com os
governantes, mas com os governados, não com o vértice da pirâmide, mas com a sua base,
não com os poderosos, mas com os que não tinham poder, isto é, as massas, o povo.
Através destes documentos (de especial interesse e valor; por exemplo, os rigorosos
relatórios preparados pela polícia secreta para o poder central sobre o estado de espírito
dos vários estratos da população, da «opinião pública», digamos, embora tal «opinião»
pública fosse e continue até hoje a ser secreta nos relatórios reservados), conhece-se o
mundo soviético de um ponto de vista inteiramente novo, o dos submetidos, e abre-se uma
nova história do comunismo «de baixo», escutando vozes sufocadas durante décadas.
Entre este último tipo de fontes, têm especial importância os documentos que, como os
diários, implicam por excelência uma expressão directa de ideias, sentimentos e opiniões;
documentos raros,
porque, decerto, perigosos para os seus autores caso caíssem nas mãos da polícia secreta,
mas provavelmente destinados a ver a luz do dia no futuro, em número menos exíguo do
que o actual.
Os diários dos cidadãos soviéticos, hoje estudados pelos historiadores, podem subdividir-
se em duas categorias: na primeira, incluem-se os de quem aspirava a ser um cidadão
soviético exemplar ou, pelo menos, normal, em conformidade não só com as directivas do
regime, mas também com os seus valores comunistas, colectivistas, antiburgueses, anti-
religiosos, etc. Para alcançarem este objectivo, os interessados tinham de desenvolver uma
verdadeira operação de auto-educação, para extirparem de dentro de si sentimentos ou
«preconceitos» pré-revolucionários (individualistas, por exemplo); o diário tornava-se
assim o instrumento de registo deste «exercício espiritual» (político) de autopurificação.
Uma forma semelhante ao diário deste tipo era a chamada «autobiografia», escrita por
quem aspirava a ser membro do partido ou que, fazendo já parte dele, mas tendo caído no
pecado de alguma «heresia» política (trotskista, por exemplo), queria demonstrar estar
emendado e ser de novo um comunista puro. Destas «autobiografias» às «confissões»
arrancadas nos processos politicos (nem sempre, nem apenas, com torturas e ameaças, mas
muitas vezes também com aquele «paternalismo» do partido que unia monstruosamente o
inquisidor e a sua vítima e que levava esta última a uma «sinceridade» suicida, primeiro
moral e depois física) e até às falsas acusações contra os amigos, o passo era breve: em
qualquer caso, era a linguagem do poder que dominava e triunfava, com uma tal força que
se gravava na mente do submetido, destruindo nele o mínimo sinal de autonomia.
Vejamos, por fim, a segunda categoria do diário soviético, aquela que nos interessa e cujas
características excepcionais se destacam do pano de fundo constituído por tudo quanto se
disse até agora. Trata-se do diário de quem, embora vivendo sob a pressão destruidora do
regime, permanecia livre, íntegro e resistente ao terror e horror do poder e encontrava
coragem para registar diariamente as suas reflexões. Até pode compreender-se se a pessoa
que escreveu o diário é da geração anterior, se foi educada na Rússia pré-revolucionária e
não esqueceu a atmosfera de liberdade, pelo menos interior, que respirou.
O que surpreende é que o diário seja escrito com plena liberdade de pensamento por uma
pessoa jovem, nascida depois da subida ao poder do Partido Comunista; uma pessoa que,
além do mais, não se opunha ao regime em nome de quaisquer ideias ilusórias, que
podiam ser consideradas um «desvio» no interior da ideologia comunista, mas que era
animada por um ilimitado espírito crítico e uma prodigiosa ânsia
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de liberdade. É este o caso, que se saiba até agora único, do diário de Nina Lugovskaia,
aqui oportunamente oferecido ao leitor, pela primeira vez quase na íntegra, pouco depois
da sua publicação na Rússia.
Trata-se do «diário de uma estudante», como diz o subtítulo da edição original (o título é
Eu Quero Viver, escrito entre 1932 e
1937 por uma rapariga de nível social modesto, que tinha treze anos quando começou a
registar as suas impressões e reflexões. Foi presa cinco anos depois de começar a escrever
o diário, o qual constituiu para a polícia política (que sublinhou as frases mais
«criminosas» do ponto de vista do regime) a prova da sua «culpa» de anti-soviética e
anticomunista. Assim, a jovem foi condenada e deportada. A mãe e as irmãs mais velhas
tiveram a mesma sorte. Quanto ao pai, já estava preso.
Nota: Kotchu Zhit, sob a direcção de Irina Ossipova e Natasha Perova, Formika-S,
Moscovo 2003.

O diário desta rapariguinha (um texto que pode comparar-se ao de Anne Frank, vítima de
outro sistema totalitário) não é, fundamentalmente, «político»: as anotações de Nina dizem
sobretudo respeito à sua vida interior, às suas difíceis relações consigo mesma, com a
família e os colegas, os primeiros sentimentos da adolescência, os impulsos para
desenvolver a sua personalidade, uma feliz vontade de viver, às vezes contrabalançada por
um desespero no limite do suicídio, uma ânsia de liberdade que condena à solidão (e
depois à detenção) num mundo que a liberdade ignora e condena, tudo escrito com uma
maturidade de análise e um fervor de alma que encantam. Mas o que espanta ainda mais é
o facto de Nina intercalar na esfera do privado considerações e apreciações sobre o
domínio público, o mundo que a rodeia, o regime e os seus dirigentes, incluindo Estaline.
São juízos críticos cortantes, que não são vulgares nem no Ocidente, e que demonstram
uma intolerância radical face ao sistema de poder e à realidade social, feitos com uma
precisão de diagnóstico e um rigor que não se esperaria de uma pessoa tão jovem, que
nasceu e cresceu naqueles anos terríveis da Rússia comunista.
Disse-se que o diário de Nina Lugovskaia não é «político», mas o que há nele de
especificamente «político» tem muito interesse para o historiador que, além de encontrar
no conjunto do texto um documento excepcional sobre a vida secreta mas real da
sociedade sob o regime comunista, tem ao dispor testemunhos precisos sobre
determinados aspectos importantes da realidade soviética da época. Por exemplo, a 31 de
Agosto de 1933, Nina escreve: «Passam-se coisas estranhas na Rússia. Fome,
canibalismo...», e prossegue referindo as
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histórias de quem chegava a Moscovo vindo da província, onde «não vão a tempo de
recolher os cadáveres nas estradas», devido à terrível fome que, sobretudo na Ucrânia,
assolava a população camponesa. Sabe-se hoje que esta fome foi o resultado, organizado
pelas autoridades, da colectivização forçada e violenta dos campos. Este extermínio, que
em ucraniano se chama golodomor (morte à fome), foi calado durante décadas pelas
autoridades comunistas responsáveis, e, claro, pelos seus apoiantes no mundo. Foi pela
primeira vez objecto de um estudo documentado no livro de Robert Conquest, The
Harvest of Sorrow. Os demógrafos russos e ucranianos calcularam que morreram neste
genocídio, entre 1932 e 1933, de sete a oito milhões de pessoas. É claro que Nina não
podia saber destes números nem da envergadura do desastre, mas o próprio facto de falar
dele no diário com um grande desprezo, numa altura em que uma verdadeira «conspiração
do silêncio» escondia este crime, é mais um sinal da lucidez política e humana desta
estudante, para a qual o regime comunista não podia senão reservar o gulag.
A leitura do diário desta Anne Frank russa permite-nos apreciar um documento humano de
rara sensibilidade sobre a formação de uma jovem mulher nas condições extremas de um
regime como o soviético, no período da sua apoteose estalinista, e admirar a
independência moral e intelectual desta rapariga, a sua prodigiosa capacidade de continuar
ela mesma e de não ceder à doutrinação total posta em prática pelo regime, a sua angústia
e revolta pela entrega da pátria nas mãos do opressor. Este diário, no qual se misturam o
«público» e o «privado», é talvez uma excepção (não sabemos se se encontrarão
testemunhos análogos), mas é também a confirmação de que a liberdade espiritual não
pode ser liquidada mesmo onde a norma é a opressão.
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Introdução

Natasha Perova

Nina Lugovskaia nasceu em Moscovo a 25 de Dezembro de 1918, numa família de


intelectuais da primeira geração. Começou a escrever o seu diário em 1932, com a idade
de treze anos. A última anotação data de 2 de Janeiro de 1937: no dia seguinte, o NKVD (a
policia secreta antecessora do KGB) fez uma busca ao apartamento onde vivia,
confiscando todos os documentos que aí se encontravam. Dois meses mais tarde, ao cabo
de uma série de bárbaros interrogatórios, Nina foi presa, ao mesmo tempo que a mãe e as
duas irmãs, e condenada a cinco anos de trabalhos forçados num campo de Kolyma (o
mais duro do «arquipélago de gulag»). O pai, Sergei Rybin (depois Lugovskaia), estava a
cumprir pena por ser activista do Partido Socialista Revolucionário (na época, todos os
partidos não bolchevistas eram ilegais).
Como era de prever, o diário de Nina foi objecto de um estudo atento por parte do
NKVD; as passagens consideradas incriminatórias foram sublinhadas a lápis vermelho (os
sublinhados foram mantidos neste livro). A jovem foi acusada de «intenções terroristas
contra Estaline», com base em passagens como a seguinte:
Depois senti de repente raiva e desprezo contra quem tinha ousado tirar-mo [o pai].
Na realidade, os examinadores teriam podido encontrar bases de acusação bem mais
sólidas se a mãe, a quem o diário fora parar às mãos, não a houvesse convencido a
eliminar os parágrafos mais comprometedores. As partes riscadas por Nina e parcialmente
recuperadas por Irina Ossipova (ver mais à frente nesta Introdução) encontram-se em
itálico no texto.
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Depois de um breve período de relativa prosperidade nos anos 20, a prisão de Sergei, em
1929, pôs fim ao desafogo da família, lançando-a na mais completa pobreza. Nina
menciona-o de passagem, quase não dando importância a uma situação que implicava a
fome constante (as refeições eram constituídas apenas por chá, pão e batatas) e a falta de
vestuário (a jovem possuía um único vestido, que usava tanto na escola como nas festas).
Nina era a única da casa que se interessava por política e que lia os jornais. O pai estava
quase sempre longe, e Nina não tinha muitas oportunidades para discutir com ele durante
as suas breves passagens por Moscovo. Não podia sequer falar com a mãe, cheia de
trabalho, obrigada a labutar de manhã à noite para sustentar a família. As irmãs só
pensavam nas aulas de arte e música e nos rapazes. Mas partilhar os pensamentos com as
colegas da escola também não era aconselhável. Só lhe restava o diário, seu único
confidente.
Os primórdios dos anos 30, caracterizados por palavras de ordem bombásticas,
manifestações públicas de entusiasmo da parte da classe operária e uma suposta confiança
num futuro radioso sob a bandeira do comunismo, foram um período de terror para todo o
país. Quem tinha ideias próprias, devia guardá-las para si: as paredes tinham ouvidos. Tal
como Anne Frank, Nina Lugovskaia era obrigada a viver num ambiente hostil, quase na
clandestinidade. E, à semelhança de Anne, era assolada pelos problemas normais da
adolescência: amores românticos não correspondidos, a relação com os pais e os colegas
da escola, a descoberta gradual da realidade e a procura de uma identidade própria. Na
verdade, estes temas pareceriam quase banais se não soubéssemos o futuro terrível que
esperava a jovial rapariguinha.
No entanto, a sua natureza optimista e brilhante prevaleceu sobre a depressão da
adolescência e a sensação de alienação face à vida soviética. O diário está cheio de
desabafos juvenis, observações inteligentes, retratos muito vivos, auto-análises intuitivas e
reflexões sobre todo o tipo de assuntos. Nina possuía um talento literário evidente e teria
podido aspirar à carreira de escritora (afirma várias vezes ser essa a sua intenção).
As suas perspicazes observações sobre os acontecimentos verificados no seu país foram
transcritas à máquina no dossiê do NKVD e incluídas na acusação, na qualidade de
material incriminatório. Lendo-as hoje, não podemos deixar de ficar estupefactos: como
foi possível que frases tão ingénuas tenham custado a liberdade a uma rapariguinha e
destruído a sua vida sem qualquer motivo?
Nina sobreviveu aos campos, mas nunca foi escritora. Passou o resto da sua existência no
silêncio. A sua veia artística, no entanto,
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tinha de revelar-se de qualquer maneira: tornou-se pintora de paisagens e cenógrafa,


provavelmente graças ao homem que desposou no fim dos anos 40 em Kolyma: Viktor
Templin, artista e preso político. Nina e a sua família deixaram os campos de trabalho em
1942, mas ficaram retidas em Kolyma até 1947, ano em que obtiveram a transferência
para os Urales. Em 1959, Nina estabeleceu-se com o marido em Vladimir, a duzentos
quilómetros de Moscovo, onde viveu com ele até morrer, em 1993.
Os amigos e os colegas da nova cidade não conheciam o seu passado, vendo nela apenas
uma pessoa reservada, honesta e gentil. A rapariguinha de olhar vivo morrera dentro dela:
a que conseguira sobreviver aos campos de trabalhos forçados era uma mulher muito
diferente.
Entre o início dos anos 50 e o fim da década de 60, quando muitas vítimas do terror
estalinista foram reabilitadas, Nina apresentou vários pedidos nesse sentido, mas os seus
recursos foram sempre recusados.
O motivo era simples: sendo muito jovem para suportar torturas físicas e pressões
psicológicas, assumira a sua culpa durante o processo. É muito claro no seu testemunho
que foi obrigada a assinar uma «confissão» na qual admitia ter cometido crimes
inaceitáveis. («Estava à frente dos portões do Kremlin: esperava que Estaline saísse para
disparar contra ele.» Ninguém se preocupa em perguntar-lhe se tem uma pistola e se sabe
manejá-la.)
A sua sentença só foi revogada por «falta de provas» em 1963, depois de ter escrito uma
carta a Krutchev na qual explicava que, na época dos interrogatórios, estava disposta «a
assinar qualquer coisa para pôr fim às torturas».
No fim dos anos 80, fez diversas exposições em Vladimir e foi publicado em França um
catálogo de arte dedicado às suas obras.
O terror
Embora o diário fale por si, é talvez necessário dedicarmos alguma atenção ao contexto
histórico e à biografia dos pais de Nina.
Os anos 30 representaram um período particularmente feroz do terror estalinista na Rússia.
Em Dezembro de 1959, quando fez cinquenta anos, Estaline já tinha liquidado ou calado
todos os seus opositores, afirmando-se o líder indiscutível do país. A torrente de
panegíricos composta por ocasião das comemorações do seu nascimento deu início à
reescrita da história russa e a uma intensa lavagem ao cérebro da população, com
consequências devastadoras para a vida intelectual soviética. O assassínio, em 1934, de
Sergei Kirov, primeiro-secretário
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do Comité Regional do Partido Comunista de Leninegrado e principal adversário de


Estaline a nível de popularidade, permitiu-lhe levar a cabo uma purga dentro do partido,
em simultâneo com uma campanha de buscas e processos-relâmpago às organizações e
actos definidos como «terroristas».
Em 1935, a maior parte dos revolucionários da velha guarda foi presa e obrigada a assinar
testemunhos relativos ao seu suposto envolvimento numa vasta conspiração para
assassinar Estaline e outros líderes políticos, derrubar o Governo soviético e restabelecer o
capitalismo, do qual Estaline «salvara o país». As purgas começaram. Meio milhão de
pessoas foram expulsas e outras confessaram publicamente os «erros» passados (qualquer
desvio da linha oficial do partido). Surgiram novas categorias de crimes políticos como,
por exemplo, ter havido contactos, por muito ténues que fossem, com os «inimigos do
povo» ou a não denúncia de alguma acção suspeita (que incluía a não comunicação às
autoridades competentes de uma conversa privada). Evitavam-se os inimigos do povo
como se foge da peste. Os seus cônjuges pediam imediatamente o divórcio ou eram presos
dali a pouco. Encorajava-se os filhos a denunciarem os pais. Realizavam-se processos
exemplares, nos quais os acusados admitiam publicamente ter cometido todo o tipo de
crimes contra o Governo soviético.
Eram poucos os que acreditavam na veracidade de tais testemunhos, mas a maior parte das
pessoas pensava que as acusações deviam ter um mínimo de fundamento. Vários
revolucionários inabaláveis, que haviam sobrevivido aos cárceres do czar, à Revolução de
1917 e à guerra civil, aceitaram difamar-se durante os processos conduzidos nos anos 30.
Entregaram a sua vida ao partido, convencidos de que este tinha o direito de punir ou
perdoar. Quanto aos que não se dobravam, o NKVD recorria ao sistema dos
interrogatórios contínuos, nos quais os inquisidores se sucediam por turnos, vinte e quatro
horas por dia. Privados de sono e de alimentação, os presos aceitavam assinar fosse o que
fosse para poderem dormir e acabar com as torturas. As ameaças contra a família que
ficara em casa eram também um eficaz instrumento intimidatório. Poucos eram os que
conseguiam suportar semelhantes pressões durante muito tempo.
As purgas não atingiram apenas o vértice do partido e a elite institucional; também se
abateram sobre os oficiais do Exército Vermelho e, na prática, sobre pessoas de todos os
estratos sociais, independentemente da sua profissão.
Todos os membros das várias oposições foram presos; foram dissolvidas até as
organizações bolcheviques da primeira hora e dos sobreviventes dos cárceres czaristas. A
nível local, as purgas também
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prosseguiam indiscriminadamente. As pessoas desapareciam sem deixar rasto. De repente,


ouvia-se bater à porta durante a noite: o infeliz era arrancado do seu lar e levado para
longe da família, regra geral para nunca mais voltar.
Quem não era liquidado acabava nos campos de trabalho. Em finais dos anos 20, a mão-
de-obra era escassa nas regiões da Ásia Setentrional e Central e do Extremo Oriente:
decidiu-se então usar o trabalho dos presos e, em 1930, fundou-se o gulag (Glavnoe
Upravleníe Lagerei, ou Direcção Central dos Campos de Trabalho), cuja função era gerir
as novas empresas que se serviam da mão-de-obra dos presos. No fim da década, havia
campos de trabalho em todo o lado, até em Moscovo. O arquipélago de gulag era separado
das zonas adjacentes por recintos de arame farpado munidos de torres de vigia, e os presos
políticos obrigados a trabalhar ao lado dos criminosos comuns. A taxa de mortalidade era
elevadíssima: segundo a maioria das estimativas, vinte milhões de pessoas morreram nos
campos de trabalho durante os anos do terror estalinista.
Os pais
Os pais de Nina não foram personagens historicamente famosos, mas sim pessoas comuns:
tudo o que se sabe deles tem origem nos ficheiros do NKVD. É, portanto, compreensível
que existam várias lacunas no que respeita à sua biografia e que alguns períodos da sua
vida permaneçam envoltos em mistério. Encontraram-se na terra natal de Sergei Rybin,
nos arredores de Luga, onde a mãe de Nina ensinava Matemática na escola e aonde o pai
regressou em 1910, depois do exílio na Sibéria. Quando constituíram família, em 1914,
decidiram mudar o apelido para Lugovskoi - Lugovskaia, do nome da cidade de Luga. Era
habitual os revolucionários anticzaristas mudarem de apelido. Em 1915, nasceram duas
gémeas, Olga e Eugenia.
O pai de Nina, Sergei Fedorovitch Rybin, nasceu em 1885 no seio de uma família
desafogada de camponeses (depois expropriada pelos bolcheviques). Estudou por si
próprio e diplomou-se no Instituto Comercial de Moscovo. Ainda jovem, alistou-se no
Partido Socialista Revolucionário e foi preso e mandado para o exílio repetidamente,
primeiro pelo governo czarista e depois pelas autoridades soviéticas. Entre 1917 e 1919,
até os socialistas serem ilegalizados pelos bolchevistas, ocupou posições de relevo em
vários órgãos eleitos, na qualidade de representante do PSR.
Depois do seu regresso do exílio, a família mudou-se para Moscovo, em 1922, cheia de
esperanças de participar na nova política
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económica (NEP) de Lenine, que permitia alguma liberdade empresarial.


Sergei Rybin fundou um artel, ou cooperativa, chamada O Formigueiro. Partindo de um
forno de pão, a actividade depressa floresceu: em 1928, possuía sete fornos e dezanove
postos de venda e dava trabalho a quase quatrocentas pessoas. Os trabalhadores tinham
direito a refeições gratuitas e bilhetes para o teatro, a par de outras regalias: biblioteca,
barbeiro e escola. Além do mais, a cooperativa enviava regularmente dinheiro a presos
políticos e exilados.
Em finais de 1928, Rybin foi convocado pelas autoridades competentes para que admitisse
no conselho de administração alguns funcionários comunistas. Recusou com determinação
e não cedeu, nem sequer perante a ameaça de dissolução da sua cooperativa. Foi preso em
Janeiro de 1929, juntamente com um numeroso grupo de accionistas, e condenado a três
anos de exílio no Norte. A mulher foi imediatamente despedida e obrigada a abandonar as
suas funções de bibliotecária. Tinham acabado para a família os tempos de prosperidade.
Em 1932, Rybin regressou a Moscovo, onde conseguiu arranjar um trabalho de
contabilista.
Três anos mais tarde, porém, foi novamente preso e exilado para o Cazaquistão. Em 1937,
nova prisão: de regresso a Moscovo, foi acusado de ser dirigente de «uma organização
contra-revolucionária dos socialistas revolucionários, com o objectivo de empreender
acções terroristas contra os líderes comunistas». Rybin declarou-se não culpado, mas foi
condenado a dez anos de trabalhos forçados. Libertado em 1947, morreu em finais dos
anos 50.
Durante os longos períodos de ausência, escrevia frequentemente às filhas, na tentativa de
influenciar a sua educação e de lhes transmitir os seus elevados princípios morais.
A mãe de Nina, Liubov Vassilievna Samoilova (1887-1949), nasceu no seio de uma
família de professores de aldeia e também estudou para professora no Instituto Superior
Feminino de Moscovo. Devido às prisões repetidas do marido, o governo da casa e o
sustento das três filhas eram da sua inteira responsabilidade.
A NEP foi adoptada depois da guerra civil e do «comunismo de guerra», sobretudo por
vontade de Lenine. Era um plano de desenvolvimento económico que dava aos
camponeses a possibilidade de comercializarem livremente para si uma parte das suas
colheitas, e a criação de pequenas e médias empresas com mão-de-obra assalariada. A
«nova política económica» foi abandonada depois de 1929, quando triunfou no interior do
grupo dirigente do partido o projecto de Estaline e dos seus mais estreitos colaboradores,
que consistia no início do processo de industrialização forçada do país e na consequente
colectivização da agricultura. A maior parte dos defensores da NEP foi então presa.
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No decurso dos anos 20 e 30, a crescente escassez de alimentos e bens de primeira


necessidade levou, em todo o país, à formação de longas filas de espera. Em breve seria
introduzido o sistema de racionamento, com quinhões muito reduzidos. A distribuição
baseava-se num critério de classes: os operários implicados no ciclo produtivo vinham em
primeiro lugar, depois o resto da mão-de-obra e, por fim, os empregados. «Muitas vezes,
quando chegava a nossa vez, já não havia nada nas lojas», escrevia Liubov Vassilievna ao
marido. Era tudo racionado, e a família de Nina pertencia claramente à categoria mais
baixa.
A mãe, atarefada a ganhar o essencial para sobreviver e a lutar pelo pão de cada dia,
censurava-se amiúde por não prestar suficiente atenção à educação das filhas.
Em Janeiro de 1937, em simultâneo com a prisão do marido, foi convocada e sujeita a
interrogatório pelo NKVD. Recusou colaborar e, dois meses mais tarde, foi presa.
Segundo o relatório dos oficiais da organização, as raparigas, em lágrimas, despediram-se
da janela: «Até à vista, mãe! Coragem!»
E ela respondeu: «Adeus, minhas filhas. Adeus para sempre.»
Liubov Vassilievna rejeitou todas as acusações e tentou convencer os seus carcereiros de
que o marido era um cidadão soviético leal. Recusou-se a assinar qualquer testemunho e
apenas admitiu ter recolhido dinheiro e alimentos para enviar aos colegas de Sergei, no
exílio.
Em conjunto com as filhas, foi condenada a cinco anos nos campos de trabalho e, depois,
ao desterro. Morreu em 1949, em Magadan. Foi reabilitada em 1957, a título póstumo.

O diário
Irina Ossipova, que descobriu e publicou o diário, é membro do Centro de Estudos
Memorial de Moscovo, uma organização que opera no campo histórico e educacional, e
participa em iniciativas ligadas ao respeito pelos direitos humanos. Fundado em 1988, o
centro recolhe e estuda documentos relativos à repressão política na URSS entre 1918 e
1954 e aos movimentos dissidentes da era de Brejnev. Baseando-se na sua investigação,
levada a cabo nos arquivos, Ossipova escreveu vários livros sobre as diversas formas de
resistência nas prisões estalinistas.
O seu trabalho levou-a a entrevistar os sobreviventes dos gulag russos. Ouviu histórias
terríveis de torturas e humilhações, submissões e mortes. Por fim, decidiu dedicar a sua
atenção aos casos de resistência dentro dos campos. Começou então a estudar os relatórios
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sobre os adversários dos bolcheviques, como os socialistas revolucionários, os anarquistas


e os mencheviques, presos a partir de 1918, quando o partido no poder começou a
transformar-se em regime. Os dissidentes políticos encarcerados lutaram duramente para
que lhes fosse reconhecido o estatuto de «presos políticos», e o seu protesto manifestou-se
de diversas formas, incluindo a greve de fome e o suicídio público.
No decurso das suas investigações, deu com a história de Sergei Rybin, o pai de Nina. A
pasta relativa à sua prisão continha também documentos sobre a família e o diário da filha,
considerado material incriminatório. Irina ficou de imediato impressionada com o estilo
límpido e a escrita entusiástica da jovem: uma voz do passado ainda viva.
Uma descoberta verdadeiramente rara: as cartas e os diários confiscados durante uma
prisão eram, regra geral, destruídos, a menos que constituíssem provas contra os acusados.
Os ficheiros do NKVD começam todos com uma lista dos documentos confiscados e
acabam com a enumeração das cartas eliminadas, por serem irrelevantes para o caso em
questão. São, por isso, poucos os diários e as cartas que chegaram até nós e, entre estes, só
uma quantidade mínima possui méritos literários.
O diário de Nina é constituído por três cadernos grossos, compilados de maneira
descontínua: a rapariga alternava períodos em que escrevia duas vezes por dia com meses
inteiros sem fazer uma única anotação. Muitas páginas são de âmbito exclusivamente
pessoal e dizem, com frequência, respeito às suas atitudes para com os colegas da escola, à
indiferença dos rapazes e às falsas esperanças que lhe davam.
Esta edição reproduz quase na íntegra o texto original. No que respeita aos trechos
suprimidos, assinalados no texto com parênteses rectos, foram eliminadas as passagens de
conteúdo repetitivo, demasiado obscuras ou sem interesse. O critério seguido foi o da
integridade: preferiu-se eliminar alguns trechos inteiros, preservando os restantes sem
omissões internas, embora com um mínimo de revisão. Respeitou-se também a cronologia
das anotações.
O leitor que tenha a oportunidade de ler o diário ficará estupefacto com a visão clara e
sóbria que esta adolescente tem da realidade soviética. Nina apanha os detalhes com
perspicácia e tem uma extraordinária capacidade de compreensão da situação do seu país.
Já em
1932, define Estaline como «um canalha» que sufoca a liberdade da Rússia. Descreve
acontecimentos como a fome na Ucrânia, a queda do gigantesco avião Máximo Gorki, a
cerimónia de boas-vindas aos
20

exploradores do pólo salvos pelos pilotos soviéticos, as buscas levadas a cabo pelo NKVD
no apartamento em que vive, a vida na escola com os seus medos, a falsidade...
Os comentários sobre a morte de Kirov são espantosos para uma adolescente de catorze
anos, indignada com a liquidação de dezenas de pessoas, fuziladas sem julgamento devido
ao desaparecimento de um único bolchevique. E o desdém cresce quando relembra que o
assassínio do czar Alexandre II (1881) teve como consequência a execução de cinco
terroristas, um enforcamento colectivo que indignou toda a sociedade russa.
Mas o diário não conta apenas os horrores do estalinismo: Nina era uma rapariguinha
como as outras, com as suas mudanças de humor, alegres descobertas e esperanças
frustradas. O amor atravessa as páginas dos cadernos, dando vida a episódios felizes ou
tristes. Nina descreve os seus estados de espírito com tanta mestria que é difícil não
reconhecermos neles o período da nossa própria adolescência, com todos os seus
tormentos. Escreve tão bem (não é por acaso que sonhava ser escritora) que as cenas que
conta ganham vida aos olhos do leitor.
Entre as passagens sublinhadas pelo NKVD, encontram-se as que se referem à sua
tendência suicida, que se faz sentir nos períodos de depressão mais aguda. Nina era
ligeiramente estrábica e, à semelhança de todos os adolescentes, sobrevalorizava este
defeito, responsabilizando-o pelo pouco sucesso com os rapazes e pelos amores não
correspondidos. O NKVD considerou tal estado de espírito o resultado da sua
incapacidade de assumir o estatuto de cidadã soviética: um crime.
Mas não só: pensava-se que era natural que os familiares de um preso albergassem
sentimentos de vingança contra o regime. O melhor, portanto, era neutralizá-los. Muitos
inocentes foram, por isso, sujeitos a sofrimentos e torturas, só por serem considerados
potenciais «inimigos do povo». O destino de Nina foi o de uma «culpada sem culpa»: a
sua vida foi apenas uma das muitas que a desapiedada máquina estalinista destruiu.
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Primeiro Caderno
23

8 de Outubro de 1932
[...] São dez e meia da noite. A Eugenia toca piano enquanto me apresso a traduzir o
sentimento que me invade quando ouço música. Amo-a de uma maneira inimaginável,
mas quase doentia e amarga. Parece-me impossível exprimir por palavras a sensação
complexa e profunda que me invade, uma fragilidade e uma delicadeza que começa
dolorosamente a agitar-se na minha alma, qualquer coisa que me faz tanger os nervos de
prazer e dor. Sinto um não sei quê de indefinido que quer exprimir-se.
Oh, como gostaria, em momentos semelhantes, de unir-me ao canto das minhas irmãs, de
derramar tudo o que me avassala num som melodioso e muito belo. O único resultado é,
pelo contrário, um som rouco, triste e trémulo, tão calado que deixa morrer dentro de mim
este impulso incompreensível. Um encanto misterioso e ardente filtra-se através das mais
diferentes melodias, ora alegres e brejeiras, ora cheias de penosos sofrimentos.
O amor! Como não pensar nele, quando por todo o lado se canta a sua juventude? Como
não sonhá-lo, quando o apresentam como uma taça a transbordar de êxtase e felicidade, de
onde se evola o fantástico fumo azul do ignoto? Estas são palavras que me emocionam:
Foi nos arrabaldes de Granada, onde vivem, é sabido, os espanhóis, onde se ouvem sem
descanso as serenatas. Donas de rara beleza fumam cigarros, reina sempre um Verão sem
fim, ouvem-se guitarras murmurando, castanholas dia e noite ressoando.
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Uma noite, numa viela escura,


com a longa espada à cintura,
passeava, à hora estabelecida,
don Rodrigo Jerez de Malaga.
Cintilava ao luar a espada sua,
inundada de luz estava a rua.
De repente, frente a don Malaga, parada,
Surge a imagem da senora Lolita, delicada.
Estes versos, acompanhados de uma melodia simples e maliciosa, agradaram-me muito,
porque revelam ao olhar curioso um horizonte cheio de mistério, animado pelos fantasmas
indistintos de uma vida desconhecida e romântica. [...]

9 de Outubro de 1932
Quando fui comprar pão, eram dez e meia. O Sol já ia bastante alto e iluminava a terra
com os seus raios pálidos. O Outono sentia-se no ar, e o dia estava fresco e seco. O vívido
céu azul, parecido com uma cúpula, abraçava a terra, e apenas no horizonte revoluteavam
os perfis nebulosos das tuias, envoltas num denso fumo silencioso. Uma terna luz tépida
parecia evolar-se das árvores, amarelas e tranquilas, e o céu cintilava através da rede
transparente de ramos e folhas secas. Já há algum tempo que não estava um dia tão bonito.
Nota: Na Rússia, como se verá melhor mais à frente, as pessoas levantam-se tarde e
deitam-se muito tarde.

Hoje fui sozinha para a escola, porque a Ira e a Ksiusha estavam atrasadas. Quando me
aproximava, vi os nossos colegas, entre os quais o Leuvka. Estavam no pátio, num espaço
bem iluminado, e a sua figura bem-feita destacava-se, vívida, com a larga camisa escura,
no meio daquela companhia alegre e variegada.
Quando chegou a aula prática, o Leuvka, que estava de costas para nós, passava a vida a
virar-se para arreliar o companheiro e, notando que eu o observava, desatou a rir e
levantou um dedo em jeito de ameaça. Eu, naturalmente, fiz o mesmo sinal para o
professor.
Logo depois da aula, fomos direitinhos buscar as merendas. Eu e a Zina distribuímo-las e,
sem me dar conta, nem prestei muita atenção ao Leuvka.
Na aula de Geografia houve outra vez chamadas. Estávamos três na carteira: eu, a Zina e a
Ira. Atrás do Leuvka havia uma livre e, rindo, propus à Ira que fosse lá sentar-se, mas ela
recusou. De repente, o
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Budulia e o Leuvka mudaram-se com armas e bagagens para a segunda carteira, muito
perto de nós. Fiz-lhes de novo um desenho, mas, devo reconhecer, sem conseguir grande
coisa. «No entanto, é bonito», disse à Ira com uma sensação agradável, mas sem estar
muito emocionada. «É, mas só de longe. De perto não é bonito, tem o nariz arrebitado.»
Todavia, já estou quase habituada a ver-lhe uma cara graciosa e uns grandes olhos azuis,
até de perto.
Mesmo à frente de casa, reparei na natureza: o ar à minha volta estava tépido e bastante
luminoso; a ocidente, ardia ainda uma débil faixa de luz fosca e avermelhada e o luar
amarelo e brilhante jorrava através das nuvens.

11 de Outubro de 1932
Hoje é o meu dia livre. De manhã, fui comprar pão. O dia estava frio e triste. Depois, eu, a
Eugenia, a Olga e o Kolia jogámos às cartas. Ganhou ele.
Nota: Nikolai (Kolia) Keller, primo de Nina.

Agora estou de muito mau humor, não tenho vontade de fazer nada, fico zangada ao
lembrar-me do dia de ontem. Na aula de Canto, o Leuvka e o Staska continuaram a
bichanar e a apontar-nos o dedo; a Ksiusha, como de costume, mostrou-se impossível.
Enquanto ia para casa, tudo me irritava: a tagarelice sem pés nem cabeça da Ira, as risadas
da Ksiusha. Estava desiludida, embora sem razão, mas tinha uma sensação de desconforto.
O meu comportamento na escola! Quando aprenderei a dominar-me? Tinha prometido a
mim mesma que não me sentaria perto do Leuvka, e instalei-me ao seu lado; tinha jurado
que não o esperaria perto da escola e andei à procura dele com os olhos; quando o vi atrás
dos outros, chamei-o como uma doida. Como os pensamentos racionais são diferentes da
louca realidade!
Ontem à noite, veio à nossa casa o Iuri, amigo da Olga, um rapaz comprido e magro,
muito feio. Puseram-se a falar de quem estava apaixonado por quem, dizendo tudo um ao
outro. Pareceu-me um tanto estranho e, a bem dizer, até desagradável ouvi-los falar assim
destas coisas.
Regra geral, viver é uma maldição. A melancolia invade-me de novo.- a ressurreição de
um momento já passou, a escola já não me atrai e os olhos azuis quase não me
emocionam. Como pude apaixonar-me tanto e de uma forma tão inesperada e depois
desapaixonar-me num abrir e fechar de olhos? Dantes, condenava os que se inflamam e
não tardam a arrefecer, porque na minha opinião o amor era um
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sentimento sólido, forte e estável. Agora, no entanto, parece-me estranho e um pouco


ridículo recordar tudo isto.
Que é a vida? Porquê viver? Vive até morreres, responderão. É fácil de dizer! Pois,
apaixonamo-nos na juventude, depois casamos, fazemos filhos e, na velhice, cozinhamos
envoltas em resmunguices sem esperança: isto é vida? Terei vontade de viver assim? Do
que tenho vontade é de vir a ser grande, extraordinária. Sonhos, sonhos! Só os sonhos me
dão a possibilidade de ser feliz, ao menos de vez em quando.
Oh, como gosto de escrever! Escrevi e acalmei. É como se uma qualquer mão tivesse
posto a minha alma em ordem, não deixando nem uma partícula infinitesimal que possa
perturbar-me.

13 de Outubro de 1932
À primeira hora tivemos Biologia. Quando chegámos à sala, já tinha tocado a campainha e
o professor estava na aula. O Alka aproximou-se de mim, deu-me um bocado de papel, e
disse-me a rir «Lê este bilhete» e sentou-se no seu lugar. Abri e vi a seguinte frase: «O
quinto ano anda doido porque o chimpanzé apaixonou-se pela Lugovskaia.» Como não
rir? Virei-me para os colegas. Abrindo a boca, o Leuvka gritou: «E então, Luga?» «Então
nada, é uma boa história.» A aula decorreu com alegria.
À segunda hora, tínhamos Educação Física, mas o professor faltou. Os rapazes não se
portaram muito bem e, dali a pouco, chegou à sala a professora da turma ao lado. Pelo
aspecto, uma vydvizhenka.
Nota: Termo que indicava um trabalhador (frequentemente um operário) que subiu por
mérito próprio.
Depois de nos ter dado para fazer uma composição com as palavras «imperialistas,
capitalismo, oportunistas, entusiastas, trabalhadores, nova sociedade», foi-se embora, mas
voltou várias vezes no decurso daquela hora para nos vigiar.
Ao fim da manhã, depois de nos termos despedido da Zina, eu, a Ira e a Ksiusha virámos
para uma viela e, empoleiradas numa cerca baixa, pusemo-nos à espera da Ju e do
Leuvka.
A estrada estava escura, tépida e deserta. Já os esperámos muitas vezes noutras ocasiões,
mas nunca nos aproximámos tanto do caminho pelo qual deviam passar.
Nota: Ju: Júlia Ivanovka, professora de Nina e mãe de Leuvka.
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14 de Outubro de 1932
Fui sozinha para a escola: atrasei-me e as minhas amigas já se tinham ido embora. Não
fiquei muito sentida. Era Russo à primeira hora e a A. V. chamou ao quadro o Leuvka, que
se aproximou com um ar muito tranquilo, pegou no giz e parou à espera.
Nota: Alexandra Vassilievna, professora de Russo e vice-directora.

O seu corpo harmonioso lembrava, mesmo sem querer, a figura da Ju I. Via-se, pelas suas
respostas, que não tinha estudado nada. A turma toda soprava-lhas e eu perguntei em tom
eloquente: «Ira, porque estão todos a responder?»
O Leuvka portou-se tão mal na aula de Alemão que a N. G. foi obrigada a mudá-lo de
lugar, mas mesmo assim não se acalmou, começou a atirar com o barrete juntamente com
os outros colegas e lançou-o para o nosso banco umas quantas vezes.
Estabeleceu-se uma confusão inimaginável durante a aula prática.
O professor reuniu toda a gente à volta de um aparelho, para nos explicar a sua estrutura,
mas depois saiu do laboratório para ir buscar qualquer coisa. Os rapazes começaram a
fazer macaquices à vez, e estavam muito cómicos. O Leuvka saltou para cima da mesa e
ria a bom rir, vendo o Staska a fazer de bobo e a cair uma e outra vez no chão
escorregadio.
Por falar no Staska, percebi qualquer coisa no seu comportamento em relação a mim:
quando olho para ele durante as aulas, dou quase sempre com os seus olhos postos em
mim. É tão raro encontrar uns azuis como frequente ser observada por uns castanhos, o
que suscita em mim uma sensação ao mesmo tempo aprazível e desagradável, como se
qualquer coisa formigasse cá dentro ao de leve.
A caminho de casa, comentei a brincar: «No fim de contas, isto é tudo muito estúpido.»
«Porquê estúpido?», perguntou a Ira. «Porque sim... esta história toda com o Leuvka.»
«Não é nada estúpida! Não percebo. Explica-te.» Depois da conversa, claro que cada uma
de nós ficou na sua.

17 de Outubro de 1932
A mamã chegou e mandou as minhas irmãs às compras. Como de costume, puseram-se a
discutir. Gritaram as três umas com as outras enquanto eu, sentada no meu quarto, pedia a
Deus que não se lembrassem de mim. A Eugenia e a Olga ainda continuam a discutir. Oh,
meu Deus! É ridículo e penoso olhar para elas e pensar que não nos damos bem. Não é
raro o papá e a mamã resmungarem, mas nós não nos calamos. [...]
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Não sei como faremos, mas eu e a Ira decidimos ir procurar a casa do Leuvka, da qual
sabemos a direcção. A decisão nasceu por si, num grande segredo. Não queríamos que a
Ksiusha e a Zina soubessem. Depois das aulas, saímos da escola. Estava uma temperatura
muito amena. Não se via ninguém além de nós. «Vamos», disse a Ira baixinho. Virámos
para o Mosteiro. Dali a pouco, ouvimos um grito conhecido: «Luga! Esperem!» «Oh, cala-
te, estúpida!», sussurrei sem me virar, empurrando a minha amiga para uma viela escura.
Mas a Ksiusha não se deu por vencida. Por fim, conseguimos desembaraçar-nos dela e
continuámos o nosso caminho.
Estávamos com um certo medo mas, ao mesmo tempo, sentia uma excitação agradável
espalhando-se-me pelo corpo. A rua era suja e escura. Virámos para uma ruela estreita e
tortuosa, com muitas vedações e pátios escuros. Mas eis a nossa viela. É pequeníssima,
com casas de dois ou três andares. Encostadas uma à outra, olhando em volta, dirigimo-
nos depressa ao lugar que procurávamos, saltitando de um lado para o outro. Por fim, a
sua casa, de três andares, feita de pedra, com janelas rasgadas e luminosas. Passámos-lhe à
frente umas quantas vezes. Não tenho palavras para descrever a tensão e a agitação que
sentia.
No regresso, na rua Pirogovskaia, encontrámos o Alka que, ao ver-nos, ficou espantado:
«Luga!» E desatou a rir. Quando já estava bem longe, exclamei, zangada: «Que figura de
parva!»

21 de Outubro de 1932
Sempre que crio na minha fantasia qualquer coisa de nobre e puro, a minha imagem
embate nesta vil realidade. Vejo os homens e os rapazes tão puros na minha fantasia como
são vulgares e dissolutos na vida real. Ó cruel realidade, que me toca o coração com
brutalidade e sem cerimónias! E, no entanto, continuo a gostar do Leuvka, com o seu
corpo tão esbelto e atlético.
Ontem, obrigaram-nos a voltar para a sala por mau comportamento. A uma dada altura, o
Leuvka correu para a minha carteira, pegou numa caneta e exclamou: «Ah, Luga,
esqueceste-te da caneta!» Eu prendi-lhe a mão, tirei-lhe a caneta e disse num tom irónico e
de troça: «Obrigada.» Ele foi sentar-se outra vez e eu fiquei muito tempo com a sensação
viva da sua mão ágil e magra. Agora, ando atormentada pela pergunta: o Leuvka presta-me
ao menos um pouco de atenção? É difícil dizer, claro, mas arde-me na alma uma centelha
de esperança.
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Vida! Como esta vida é complicada e simples ao mesmo tempo! Porque não me
enveneno? Às vezes tenho vontade, até sonho com isso, mas estou certa de que nunca o
farei.
Nota: O texto original foi sublinhado pelo juiz de instrução, a cujas mãos chegou depois
de ter sido confiscado em 1937. Esta e outras páginas foram sublinhadas, reunidas à parte
nos Extractos do diário de Lugovskaia Nina Sergeievna», juntas a outros documentos
relativos ao caso e usadas para confirmar as «opiniões contra-revolucionárias da acusada».
Porquê?
Só me resta encolher os ombros e arquear as sobrancelhas, perplexa. A Eugenia e a Olga já
andam no instituto, mas eu ainda tenho muitos anos insuportáveis de escola pela frente até
poder dizer com ar indiferente: «Vou encontrar-me com os meus amigos.»
Nota: Escola de nível universitário. Ao contrário da universidade em si, que se dividia em
faculdades e não existia em muitos sítios, o instituto limitava-se a uma área de ensino
(Instituto Têxtil, Poligráfico, etc.) e encontrava-se em todo o lado. A sobreocupação dos
edifícios escolares obrigava à organização das frequências num esquema de turnos.

22 de Outubro de 1932
Tentarei descrever este dia nos mínimos detalhes, sem me esquecer de nada. Saí de casa à
uma menos três minutos’. O tempo estava frio e húmido. Caía uma chuvinha fina e gélida
desde a manhã. Cheguei à paragem do eléctrico (onde costumamos encontrar-nos) e decidi
esperar pela Ira e pela Ksiusha. Não queria ir sozinha, mas também não chegava nenhuma
delas. A chuva continuava a cair e parecia que não se iria embora até ao cinzento e
desesperado lusco-fusco outonal. Resolvi apanhar o eléctrico e aproximei-me da paragem.
O condutor já estava sentado e entrei. Havia pouca gente, cuja presença mesmo assim me
oprimia de um modo indefinido. Tudo me intimidava: o silêncio desagradável que reinava
no eléctrico, os rostos estranhos e desconhecidos que queria (e, ao mesmo tempo, receava)
olhar. Sem pousar os olhos em ninguém, sentei-me num lugar livre, observei de passagem
o rapazinho sentado à minha frente e virei-me para a janela na esperança de ver a Ira ou a
Ksiusha. O eléctrico pôs-se em movimento. Através do vidro, observava fixamente a rua
onde, à frente dos meus olhos, passavam figuras indistintas. Voltei a mim quando senti
baterem-me nas costas e ouvi dizer em voz alta: «O bilhete, cidadã.» Virei-me para a
cobradora, estendi-lhe vinte copeques e respondi mecanicamente: «Um.»
Havia pouca gente no vestiário e quase nenhum casaco. Alguns colegas e algumas
raparigas estavam de pé perto dos nossos cabides. Sem falar, passei para a outra ponta,
despi lentamente o casaco, enfiei
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devagar o colbaque na manga e, não sei porquê, desatei e voltei a atar a pasta. Não queria
chegar sozinha à sala de aula, mas, como não tinha outro remédio, desci as escadas,
atravessei o átrio e entrei ao mesmo tempo que um grupo de colegas que também vinham
do vestiário.
Perto da porta, o Staska e o Alka encontravam-se numa ponta das carteiras e o Leuvka na
outra. Uma mão segurava um fio eléctrico e as outras estavam entrelaçadas. «Luga, queres
ver? Dá-me a mão.» Pousei a pasta, sentei-me na ponta da carteira e dei uma mão ao Alka
e a outra ao Leuvka. Não é estranho? A corrente percorreu-me o corpo, tremulando
levemente. O Leuvka apertou-me a mão. De repente, alguém gritou: «Atenção!» Como
um bando de pássaros, todos correram para os seus lugares no meio de um grande
alarido. Depois, caiu um silêncio expectante. Apareceu à porta um homem que olhou para
nós, murmurou qualquer coisa e desapareceu. «Leuvka!», desatou a gritar o Staska.
«Senta-te aqui.» «Já vou.»
O Leuvka pegou nos cadernos e instalou-se na nossa fila, enchendo-me de felicidade.
Senti uma necessidade incontrolável de falar com alguém, saí e voltei ao vestiário, onde
afluía um rio de alunos. Ao ver entre eles o gorro vermelho da Ira, aproximei-me
rapidamente e, caminhando ao seu lado, sussurrei com alegria: «O Leuvka está sentado
atrás de nós.» «O quê?» ”Depressa, despe o casaco.»
Sem esperar pela Ksiusha, caminhámos para o átrio, onde lhe contei todas as aventuras
dos momentos anteriores. «Sabes», declarou a Ira, «pressentia que hoje ia acontecer
alguma coisa de extraordinário.» Eu sorri em silêncio, porque não acreditava nela. Mas
depois começou a aula. O Staska encontrava-se sentado atrás de nós com o Alka, porque o
Leuvka não estava ali naquele momento. Mais tarde, sentou-se na quarta fila, mesmo atrás
de nós, o que não nos agradou muito porque era preciso virarmo-nos para o ver.
Tivemos Geografia à primeira e segunda horas. O professor fez chamadas e nós passámos
a aula a trocar bilhetinhos com os rapazes. É fácil de dizer, mas difícil de fazer. Víamos
que as nossas colegas olhavam para nós e riam, mas já era tarde, tínhamos chegado àquela
fase em que nada podia impedir-nos de fazer parvoíces, mesmo sabendo que são
parvoíces. Para falar com franqueza, eu própria não me lembro se sabia ou não que o que
estava a fazer era uma tolice, porque naquele momento só pensava no Leuvka e no quanto
estávamos a divertir-nos. No fim da aula, sossegámos um bocado e prometemos a nós
próprios acabar com tanta asneira.
As aulas seguintes passaram a uma velocidade incrível, embora tenha havido chamadas a
Alemão. O Leuvka estava sentado atrás, um tanto de lado; eu espreitava-o de soslaio,
quase a medo, como
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se estivesse a fazer qualquer coisa de errado. Quando percebeu o meu olhar, perguntou:
«Apago a luz?» «Aposto que não te atreves.» «O quê?» «Aposto que não te atreves.»
Virou-se sem dizer nada, provavelmente também sem ter percebido, mas tocou no
interruptor. Ficámos por alguns momentos mergulhados numa agradável penumbra. O
rosto da professora, sentada de costas para a luz, era uma mancha escura. O Leuvka
acendeu a luz, apagou-a e acendeu-a outra vez. «Quem é o engraçadinho? Popov, anda
sentar-te aqui.» E indicou-lhe a primeira carteira da nossa fila. Obediente, o Leuvka
mudou de lugar.
Noite
Quando a mamã chegou a casa, a Maria Fedorovna’ contou que, numa ruela, mataram pai,
mãe e filha às seis da manhã. Esta história não me impressionou muito. Uma hora depois,
enquanto escrevia o diário, já a tinha esquecido.
Nota: Irmã do pai de Nina.

Às dez da noite, bateram com força à porta. «Pergunta quem é», avisei a mamã, que foi
abrir. «Quem é?», indagou. «Nós», responderam as minhas irmãs. Abriu, e a Eugenia e a
Olga entraram com expressões sérias. «Meninas, vão a casa da avó, deixámos-vos lá
comida. «Não», respondeu a Olga em voz surda, sem olhar para a mamã. «O que foi?
Porque estão tão tristes?» As minhas irmãs foram para o quarto e eu e a mamã seguimo-
las. «Que aconteceu?» «Agora... não posso dizer», respondeu a Eugenia com um trejeito,
enquanto a Olga apoiava os cotovelos na mesa e se punha a chorar. «Mas que foi?
Degolaram o papá?» «Não.» «Então que aconteceu?» Pensei que talvez o Vânia tivesse
morrido.
Nota: Um amigo das irmãs mais velhas.

«Mas falem... estou preocupada», insistiu a mamã. «Foi a mãe da Shura... mataram-na!»
«O quê? A Kolebanskaia?», exclamou a mamã.
«Sim, esta manhã. Ainda estavam na cama. Degolaram o pai e abriram a cabeça à mãe
com um machado. A Shura está viva, mas o mais certo...
»«Quem os matou?»
«Um louco que vivia no apartamento deles.
A Shura acordou, desatou a gritar e correu para a janela, mas ele atingiu-a na cara com o
machado.»
Nota: Tratava-se de um apartamento comum, ou colectivo. Os kommunalnye pulularam na
União Soviética desde os anos 20 até ao início dos anos 80. O objectivo era resolver a
crise de alojamento nas grandes cidades. Ao princípio, os proprietários podiam escolher os
seus inquilinos (normalmente parentes vindos do campo, empobrecidos pelas
expropriações); mas quando estes morriam ou se iam embora, o seu lugar era ocupado por
estranhos impostos pelas autoridades. Juntavam-se assim pessoas dos mais diversos
estratos sociais, muitas vezes incompatíveis, obrigadas a partilhar em grupos de vinte,
vinte e cinco, uma única sala e uma única
cozinha (de onde a necessidade de se ter empregada, para não se ser obrigado a frequentar
os locais «promíscuos»)- A mistura explosiva destas coabitações forçadas acabava muitas
vezes, como neste caso, em tragédia, e inspirou muitas páginas da literatura russa do
século XX.
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Eu estava de pé com uma expressão tranquila. Senti-me invadida por uma opressão
estranha e por uma raiva terrível e sem esperança contra aquele bandido. Oh, vida!
Lembrei-me do conto de Kuprin, Tentação.
Nota: Neste conto, escrito por volta de 1910, o escritor Alexandre Ivanovich Kuprin
(1870-1938) narra a história de um marido que volta à mulher amada depois de anos de
peregrinações e que, no último momento, morre debaixo das rodas do comboio em que
chegou, ficando com o corpo despedaçado e coberto de sangue.

Como é horrível e repugnante! Só posso calar-me e imaginar a Shura lutando à vista da


mãe ferida. Ainda ontem esteve connosco. É uma rapariga alegre e graciosa, de quinze
anos, com enormes olhos castanhos e uma pele macia e delicada. Muito alegre e um tanto
superficial. Veio-me à cabeça a nossa conversa. Que horror! E agora está no hospital.
Sentia-me de certo modo ofendida com a ideia de que a vida pudesse seguir o seu curso
depois desta tragédia. A Eugenia preparou-se para começar a desenhar, a Olga foi dormir e
a mamã tinha qualquer coisa a fazer. Como se não houvesse acontecido nada! Invadiu-me
uma vontade profunda de matar aquele bandido que, pelo contrário, quase de certeza
ninguém matará, porque é um louco. Nem acredito! Agora, a minha felicidade e tudo o
que me aconteceu hoje parecem-me insignificantes face ao terrível e definitivo do que
sucedeu.
24 de Outubro de 1932
Que aborrecido! Como tudo é infinitamente aborrecido e vazio! O Leuvka, como de
costume, sem atenção, com desprezo, de olhos fixos sei lá onde, mas não em mim. Falei
um bocadinho com ele: faz-me morrer de riso e, porquê mentir, anima-me muito. Agito-
me com uma sensação agradável quando os seus olhos me fitam. Nas aulas, estive sempre
a falar com os colegas e sentia-me em forma. Na aula de Alemão, o Leuvka soprou-me as
respostas sem pudor enquanto estava voltada para o quadro e quase desatei a rir.
Mas quando fomos para o laboratório, já estava outra vez desanimada. Enquanto
cantarolava a Carmen com o olhar fixo à minha frente, censurava-me, abatida, e a dor e o
despeito apertavam-me o coração. Lançava olhares ora à Ira e à Zina ora ao Leuvka, que,
por sua vez, ora nos observava a nós ora aos outros rapazes.
Antes do fim da aula, a Ksiusha aproximou-se, abraçou-me e, sorrindo apenas, fitou-me.
Assaltada por um sentimento de angústia,
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Perscrutei-lhe os olhos azul-claros e continuei a cantarolar baixinho:


«Se tu não me amas, eu amo-te, se eu te amo, toma cuidado!»
Arqueando as sobrancelhas finas, a Ksiusha sorriu e disse-me:
«Nina, tenho vontade de chorar.»
Eu compreendi-a. Era insuportavelmente agradável sentir que estava ali uma pessoa que
via o que acontecia na minha alma e tentava ajudar-me.
A caminho de casa, fomos todo o tempo a discutir as relações existentes na família da Ju I.
Tinha tanta vontade de a imaginar na intimidade! Não só a ela mas também ao Leuvka.
Quando a Ira se foi embora, a Ksiusha perguntou-me:
«Endoidecemos?»
«Estamos doidas varridas, Ksiusha. Ah, se o Leuvka não existisse!»
«Mas o que sente ele?
Se calhar nada ou a mesma coisa que sentimos nós.» «Mas olha para nós.» «Da mesma
maneira que nós olhamos para ele.»
Durante um intervalo, o Leuvka magoou-se num olho numa briga com os rapazes. Senti
uma pena insuportável ao vê-lo entrar na sala de rosto muito vermelho, tapando o olho
com a mão. Enterneci-me ao ver aquele rapaz magro e minúsculo, de cabelos claros e
expressão zangada.

27 de Outubro de 1932
Nunca acontece nada de especial na escola. O Leuvka? Ora, acho que da minha parte já
está tudo acabado. Hoje consegui atrair o seu olhar mais de uma vez, mas não senti
nenhuma emoção, só um ligeiro prazer. Reparei também que olhava para as outras
raparigas, mas nem por isso liguei. Em suma, nada de especial.
À última hora, a Ju I. chegou com o Kiriusha.
Nota: Irmão de Leuvka.

A Ira disse que, logo que viu o menino, o Leuvka correu para ele, beijou-o e pegou-lhe ao
colo. Não vi a cena mas, quando saí do vestiário, já pronta, reparei que o Leuvka estava
perto da porta com ele. Veio-me outra vez à cabeça a mesma pergunta insistente: Como se
comportarão entre eles quando estão em família? Agora sei que o Leuvka gosta do
Kiriusha.
Ontem fui ao teatro ver O Grilo da Lareira.
Nota: Segundo o conto homónimo de Charles Dickens, levado à cena pela primeira vez
em 1915 pelo Primeiro Estúdio do Teatro de Arte de Moscovo (MchAT).

Ao princípio não me agradou muito e depois foi ainda pior, porque dei comigo a viajar
naquele mundo desconhecido feito de belas senhoras, vestidos elegantes, perfumes caros.
No intervalo, eu e a Ira fomos ao foyer, confundindo-nos com a multidão dos vistosos
vestidos de seda. Aqueles
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trapos que as senhoras gostam tanto de vestir causaram-me uma péssima impressão.

31 de Outubro de 1932
No laboratório, enquanto o professor nos descrevia as diferentes peças de um aparelho, o
Guiria e o Leuvka, que estavam atrás, iam repetindo tudo mal. O Leuvka quase sufocava
de tanto rir. Quando acabou a aula, foram todos para o outro lado da sala e eu e a Ira
ficamos no mesmo sítio a conversar. Às tantas, senti que me puxavam por um braço e,
para meu espanto, vi à frente o próprio Leuvka que, morrendo a rir, apontou para a nossa
frente e disse:
«Luga, olha, o Guiria ligou o motor!»
Sentindo que devia dizer qualquer coisa, virei-me para o Guiria, que tinha o rosto radiante
de satisfação, e exclamei em voz austera:
«Não tens juízo, Guiria!», e voltei-me depressa para não desatar a rir na sua cara.
À quarta hora, tivemos Canto. Como de costume, pusemo-nos de maneira a ver o Leuvka,
que estava sentado ao pé do piano e que, mesmo a meio da aula, começou a escrever a giz
numa capa: LUGA! Escrevia, olhava-me e ria, fazendo aquelas covinhas nas faces.
Depois, quando fomos para o terceiro andar, dei com ele à minha frente, mas esperou que
passássemos e pôs-se na fila atrás de nós.

1 de Novembro de 1932
Tenho um desejo novo: aprender a tocar piano. Não é má ideia, mas é impossível. Quem
me dera! Quando voltaram da escola, a Eugénia e a Olga tocaram piano e cantaram e eu
juntei-me a elas. Sentia a alma leve e descuidada. Adoro este estado de felicidade, quando
me invade uma vontade irreprimível de fazer bem a tudo e a todos.
Perturba-me a ideia de que, não sabendo tocar, me sentirei pouco à vontade nas festas,
quando for grande. Nem imagino o que farei e sinto-me ao mesmo tempo assustada e
curiosa.
Fascina-me a ideia de uma vida descuidada? Sim, sem dúvida. Quando ouço o foxtrote ou
músicas semelhantes, é como se visse à minha frente a imagem de jovens alegres, mas
nem por isso dissolutos. Sonho ser a protagonista dessa festa, mas é só um sonho. A razão
diz-me, pelo contrário, com firmeza e insistência, que não estou à altura... sim, não estou à
altura de conviver com pessoas inteligentes, de espírito vivo e cheias de interesse. Embora
estando plenamente convencida de «não ser como elas», continuo a ter esperanças num
futuro brilhante.
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Sonhos, sonhos! Oh, as rapariguinhas da minha idade terão as mesmas fantasias que eu?
Se sim, as últimas esperanças morrerão; se não, talvez venha a viver ainda como quero e a
conhecer a felicidade da vida e da juventude.

2 de Novembro de 1932
Ainda mal tinha escrito as primeiras três palavras quando a mamã me chamou para o chá.
Deixei o diário em cima da mesa e fui para o quarto dela. Eram onze e meia. Pus-me a
contar-lhe as coisas divertidas que tinham acontecido na escola. Estávamos nós a rir e a
brincar quando, de repente, bateram à porta com brusquidão. A Betka começou a ladrar
furiosamente e eu levantei-me de um salto, com os nervos tensos, como acontece às vezes
na presença de um barulho inesperado. «Quem é?». perguntei, aproximando-me da porta e
segurando a Betka pelo cachaço.
Uma voz masculina e rude gritou:
«O porteiro.»
Ainda tinha dúvidas, mas larguei a Betka e abri com uma ligeira hesitação. A luz estava
apagada no corredor e a escada também se achava às escuras. Só se distinguia vagamente
o perfil de uma figura masculina com o casaco puído, o barrete e um grande bigode. Atrás
dele apareceu o rosto de outro homem. Durante um segundo, parei a reflectir: Sim ou não?
Depois, afastei-me e deixei passar o porteiro, seguido de dois oficiais e dois soldados do
Exército Vermelho.
Naquele momento, a mamã apareceu à porta do quarto.
«Quem mora aqui?», perguntou o primeiro homem, que era russo e envergava um casacão
novinho em folha.
«A família Lugovskaia.»
«O Rybin vive aqui?»
«Vive», e a mamã indicou o papá. Depois de uma série de formalidades. o mesmo oficial
tirou do casaco duas folhas, abriu-as e. dando uma ao papá e outra à mamã, disse:
«Isto é para si e isto para si. Quantos quartos ocupam?», perguntou depois à mamã.
«O apartamento todo.»
«Então os quartos são todos vossos?»
«Claro», intrometeu-se o porteiro. «Se dizem o apartamento todo, quer dizer que é todo
deles.»
A seguir, o russo perguntou ao papá:
«Têm correspondência?»
«Correspondência? Não, acho que não», respondeu o papá com voz tranquila e uma ligeira
expressão de desprezo.
«E livros?
Há?» «Estão aqui.» Abriu o pequeno armário amarelo e apontou para as duas prateleiras
de baixo: «Estejam à vontade.»
«Entretanto, vamos ao outro quarto», disse o segundo oficial, que tinha um casaco e um
barrete de couro avermelhado e umas calças azuis e largas. Entrando no quarto da Eugenia
e da Olga. tirou o casaco, pousou-o na mesa e pôs-se a
37

revistar livros e cadernos. Eu fiquei no corredor, roendo as unhas e fazendo de conta que
observava aquela busca sem qualquer emoção quando, na realidade, calava na alma a raiva
e o ódio que sentia por aquelas duas pessoas.
Fiquei logo impressionada com a antipatia das suas expressões. O primeiro, o que
envergava o casacão, era louro e tinha os olhos cinzentos e penetrantes. Os seus lábios
finos esticavam ligeiramente para cima quando sorria, o que tornava o seu rosto muito
desagradável. O segundo, o do casaco, era mais baixo: percebemos depois que era um
judeu de estatura pequena. Tinha os cabelos pretos cortados curtos, um típico nariz de
judeu, os olhos castanhos e um rosto muito rosado; na sua pele lisa via-se, repugnante, a
sombra da barba feita.
Entrei no quarto e sentei-me na cama, continuando a roer as unhas e tentando acalmar as
tremuras que sentia nas pernas. Às tantas, ouvi as vozes das minhas irmãs e precipitei-me
para o corredor: «As raparigas chegaram!» Entraram tranquilamente e despiram os
casacos. A mamã observou-as com uma expressão estranha:
«Se quiserem comer, o pão está na cozinha.»
Fomos todas para lá e, enquanto a Eugenia e a Olga bebiam chá, contei-lhes o que tinha
acontecido. Sentia-me agitada e as pernas tremiam-me cada vez mais. Entretanto, a busca
continuava no outro quarto. A Olga sentou-se e começou a desenhar algumas caricaturas.
A Eugenia, por seu lado, pegou num livro e eu sentei-me ao lado dela enquanto ia
observando o pequeno judeu, o porteiro, a Olga ou a mamã, sentada numa cadeira com o
rosto pálido.
Respondíamos a todos os comentários que o militar fazia com alguma observação mordaz,
casquinando. Houve uma altura em que pegou no mealheiro e disse, sorrindo:
«Há muitas poupanças aqui?»
«Muitas», apressou-se a responder a mamã.
«Podem tirar-se com uma faquinha», atirou a Eugenia, com um tom de voz entre o
desprezo e o escárnio. A seguir, o militar empoleirou-se no armário e vasculhou os papéis
cheios de pó que estavam lá em cima.
«Vai sujar-se todo.»
«Sim, tem algum pó.»
«Têm de nos avisar antes de vir.»
«Está bem, avisaremos da próxima vez.»
«Espalharemos ainda mais», observou a mamã entre dentes.
Parecia que o tempo não passava. A Olga receava pelo seu diário e eu ainda mais pelo
meu: logo que me lembrei do que lá estava escrito, fiquei horrorizada. Quando o militar
entrou no meu quarto. a tensão subiu ao máximo. Ficámos as três juntas. A porta estava
aberta. O soldado que passou pelo corredor olhou para nós e sorriu. O primeiro juÍsz de
instrução também chegou depressa ao meu quarto.
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O papá passeava no corredor.


«Passou toda a vida assim», observou a Eugenia.
«Quem? O papá?»
«Sim. Quem sabe se não é mais divertido?»
Terminada a busca no meu quarto, o louro regressou ao corredor, desta vez sem barrete, e
reparei no seu cabelo espesso e ondulado. Abriu o armário da roupa de casa e afastou com
o pé os sapatos velhos e sujos, sem se baixar. Depois abriu a tampa do baú, onde havia
muitas coisas, nem todas limpas. Virando-se para a mamã, o juiz de instrução disse: «Tire
estas coisas, por favor.»
«Isso não faz parte das minhas obrigações», respondeu a mamã.
Portanto, foi o porteiro que tirou para fora as valenki sujas.
Nota: Botas feitas inteiramente de feltro.

Continuávamos a seguir os seus movimentos com um sorrisinho nos lábios. A busca


acabou, por fim, e foram todos para o quarto da mamã, excepto nós as três. Eu caminhava
de um lado para o outro à frente da porta aberta, tentando perceber o que diziam a partir
dos fragmentos de palavras que conseguia ouvir. Eram quase três horas e esperávamos,
tensas, sentadas na cama. «Levá-lo-ão ou não?» Os minutos passavam muito devagar. O
silêncio era total no quarto do papá. Depois, por fim, ouvimos passos e os cinco estranhos
saíram para o corredor. «Até à vista!» «Venham mais vezes!» Riram e bateram com a
porta.
«Viva! Está tudo bem!»
De manhã, na escola, tive uma vontade irreprimível de contar à Ira o que acontecera. Só
esqueci o sucedido quase no fim das aulas.

5 de Novembro de 1932
Hoje obrigaram-nos a marchar pelas ruas, o que me irritou muito, mas ainda me revoltou
mais a situação de impotência em que me encontrava. Enquanto caminhávamos no chão
lamacento e frio, à luz húmida e fraca deste dia de Outono, batendo os pés enregelados
sempre que parávamos, ia amaldiçoando de mim para comigo o poder soviético com todas
as suas invenções, vangloriando-se perante os estrangeiros, etc. e arrepiando-me com as
canções desafinadas e desordenadas que somos obrigados a cantar. Decidi firmemente não
ir à manifestação, o que, em parte, acalmou um pouco o meu orgulho ferido.
Nota: Referência ao aniversário da Revolução de Outubro. Os bolcheviques tomaram o
Palácio de Inverno de Sampetersburgo a 25 de Outubro de 1917, segundo o calendário
juliano em vigor no tempo do império czarista e que foi depois substituído pelo calendário
gregoriano, no qual esta festa calha a 7 de Novembro. Portanto, os festejos da Revolução
«de Outubro» eram em Novembro.
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8 de Novembro de 1932
Acontecimento surpreendente. Veio agora mesmo aqui a Ira, que não conseguia de modo
nenhum pedir-me de maneira explícita que lhe contasse o que aconteceu em nossa casa a 1
de Novembro. Oh, que criança! Eu continuei a responder às suas perguntas até ela ter
percebido. Aconteceu então uma coisa inimaginável: apareceu no seu rosto uma expressão
diferente. Receava pronunciar aquela palavra que para mim não significava nada de
especial. Sim, é muito pequena para ouvir certas coisas.
Oh. como me dava vontade de rir aquela criança, que acha inconveniente falar de uma
busca! Quando a porta se fechou atrás dela, pus-me à janela a olhar para o passeio por
onde ia passar e murmurei, sorrindo com ironia: «Ainda é pequena. Uma criança.» Oh,
meu Deus, como as pessoas podem ser ingénuas! Não foi por acaso que lhe contei tudo
antes de lhe dizer que é uma criança. Ha, ha! Por esta não esperava ela. E se calhar agora
deve estar a pensar que vão prender-lhe o pai só porque esteve em minha casa. Em minha
casa, onde houve uma busca! Ha, ha!

2 de Novembro de 1932
Nos últimos tempos, tudo voltou à normalidade e não há realmente nada para escrever. O
dia de ontem só foi diferente por causa do funeral da mulher do Estaline. Nadezhda
Allilueva. Estava muita gente e aborreceu-me ver toda aquela multidão alegre e curiosa,
que se empurrava tentando espreitar para dentro do caixão. Rapazinhos corriam na calçada
gritando «Viva!» e batendo os pés.
Eu caminhava de trás para diante, ouvindo o que diziam os transeuntes. De vez em
quando, conseguia apanhar algumas palavras, misto de espanto e sarcasmo. Não tenho
pena daquela mulher: de facto, a mulher de Estaline não podia de modo nenhum ser boa,
tanto mais que era bolchevique.
E depois aquele artigo, aquele anúncio do jornal ainda a tornou mais antipática. Que
czarina! É estranho ouvir dizer que Estaline tem filhos e que era casado. Não consigo
imaginar a sua vida privada nem as suas relações familiares. À noite, quando a Eugenia e
a Olga chegaram. não sei porquê peguei-me com toda a gente. Mexeu-me com os nervos a
sua tagarelice animada, as risadas e a admiração pelo caixão da AUiJueva.
Quando depois começaram a falar da sua escola e das aulas de Desenho, fui de novo
assaltada pela inveja ou, se não inveja, de certeza que qualquer coisa muito parecida. Elas
sabem desenhar, cantar,
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tocar piano, dançar e fazer muitas outras coisas de que eu não sou nem nunca serei capaz.
Mas em que é que sou pior do que elas?
Resta apenas esta minha escrita infeliz, que não traz utilidade nem vantagens e que é só
uma vã perda de tempo. E o tempo é tão necessário! Para qualquer coisa é preciso tempo.

14 de Novembro de 1932
Ontem à noite estava à espera da mamã, que tinha ido ao teatro. Já era meia-noite e meia e
não chegava. Em casa, já estavam todos a dormir. Pus o fervedor de água no primus, vesti-
me, subi para o peitoril e espreitei pela bandeira.
Nota: O primus era um pequeno fogão de querosene de origem militar (foi usado na
Primeira Guerra Mundial), de chama fraca. Não podia faltar na casa russa já que o fogão
da sala, quando havia, servia para aquecer, mas não para cozinhar. Foi imortalizado por
Bulgakov em Margarita e o Mestre quando, no fim, o diabólico gato Behemoth incendeia
Moscovo com um primus.
Todas as casas russas têm janelas com uma parte superior móvel (a bandeira), que está
sempre desimpedida para se arejar a casa no Inverno, quando as janelas estão bloqueadas
por camadas de diverso material isolante.

Na estrada, estava tudo deserto e silencioso. Só de vez em quando se ouvia um ruído de


passos na terra gelada. Ficava então alerta, mas nunca era ela. Como já estava enregelada,
desci e continuei a esperar sentada no chão do corredor, embrulhada no casaco. Ao meu
lado, a Betka escutava, alerta. Nos cantos dos seus olhos castanhos acendia-se e reluzia às
vezes uma chamazinha vermelha.
Estava quase convencida de que a mamã nunca mais chegaria, que acabara os seus dias
debaixo de um eléctrico. Imaginava o que faria sem ela e se valeria a pena continuar a
viver. Quando ouvi bater a porta, sobressaltei-me. A Betka pôs logo as orelhas em pé, foi
farejar debaixo da porta e começou a abanar o rabo, hesitante.
Fui até à porta, encostei a orelha ao buraco da fechadura e pus-me à escuta. Ouvi o
barulho de passos pesados. A Betka sentou-se e começou a ganir baixinho. Era a mamã!

16 de Novembro de 1932
Ontem, calhou ficar sentada quase ao lado do Leuvka. Creio que já escrevi como são
volúveis as suas simpatias, tanto para com as raparigas como para com os rapazes. É a
mais pura verdade. Estávamos a rir quando começou a falar de qualquer coisa comigo,
fazendo de tolo. O Alka, por seu lado, parece ter sofrido uma mudança estranha: chega à
sala, senta-se na carteira ao lado da nossa e desata a tagarelar connosco por tudo e por
nada.
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Hoje falei à mamã da festa e, tal como pensava, não tem nada contra. Aliás, até me
pareceu contente. Contei-lhe tudo, com sinceridade.
Lavei o vestido que quero levar. Como é o único que tenho, pu-lo a secar por cima do
primus.
Depois de me vestir, primeiro fui comer a casa da avó. Estava lá a Olga, que semicerrou os
olhos com malícia e disse: «Então, Nina, vais à festa?» «Vou», respondi, exageradamente
fria e despreocupada. Fui ter com a Ira às cinco e meia. Ainda estava em casa e, para
minha grande alegria, não se pusera com arrebiques. Como passavam os minutos e a
Ksiusha não chegava, comecei a preocupar-me. Por fim, lá conseguimos sair as três.
Estava um fresquinho agradável na estrada, os lampiões projectavam uma luz fraca e eu
tentava não pensar na festa, porque sentia-me um tanto agitada. A Ksiusha também estava
com medo.
Por fim, chegámos ao pé da casa da Natasha. Subimos ao quarto andar, onde nos pareceu
ouvir risos atrás da porta. A Ira tocou e alguém abriu a porta. Entrámos e olhámos em
volta. Não havia ninguém.
«Somos as primeiras?»
«Não, não.»
Na sala que nos indicaram, havia um piano e numerosos espelhos pendurados nas paredes.
Sentámo-nos, sem saber que fazer nem de que falar. A Ksiusha estava muito intimidada e
até me irritou.
Felizmente, os outros chegaram todos logo a seguir. Alguém tocava piano e nós
começámos a jogar ao loto. Espantava-me a desenvoltura do Alka com as raparigas.
Depois, chegaram a Ju I. e o Leuvka. Olhando de soslaio, vi o seu rosto virado para nós.
Tinha um barrete à moda, com a pala comprida. «Ah, Leuvka! Vais apanhar!», gritou o
Alka. «Tem outra vez os calções de bobo», sussurrou-me a Ira. Quando despiu o casaco e
se sentou ao meu lado, o Alka perguntou-lhe: «Porque demoraste? Estava à tua espera.»
«Tive que esperar pela minha mãe, que não me deixava sair sozinho.» [...]
Depois, jogámos às adivinhas e às «sortes».
Calhou-me a mim ser o oráculo e tive de obedecer. Punham-me os rapazes à frente um a
um, perguntando:
«O que acontecerá a este?»
«O eléctrico vai cortar-lhe as pernas.»
Desataram todos a rir. Ao princípio, comecei a responder, mas depois fui ficando sem
saber que dizer e sentia que estava a corar muito debaixo do xaile, enquanto a Ju I. me
ajudava.
A Ksiusha teve de beijar alguém e escolheu-me a mim. Pusemos uma fila de cadeiras, uma
à frente da outra, sentámos os rapazes e vendámos os olhos da Ksiusha.
«Vamos trocar, Luga», propôs o Alka.
«Está bem.»
Dei-lhe o meu lugar, cobri-o com o xaile e sentei-me na sua cadeira. Nisto, a Ksiusha
abraçou-o com força e tentou beijá-lo.
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Então puxei-a para trás, empurrei o Alka e apressei-me a ocupar o meu lugar. Mas ela
percebeu. Meu Deus! Que gargalhadas! O Alka corou, sentou-se e disse:
«Abraçou-me a sério!»
Enquanto bebíamos chá, estávamos sentadas não longe do Leuvka e do Alka. Não me
aborrecia, pelo contrário. Como sempre, observava todos em silêncio e estava bem, muito
bem. A Ira tentava gracejar, mas a sua tagarelice irritava-me. A seguir, chegou a altura de
dançar. Que pena tive de não saber fazer nada! Nem tocar piano, nem dançar! O Leuvka
esteve todo o tempo com o cotovelo apoiado no piano, numa pose que parecia artística.
Quando voltámos a jogar loto, pôs-se de pé tão perto de mim que até lhe tocava ao de leve
nos joelhos. O tempo passou-se com alegria e, embora não goste muito de jogos, diverti-
me bastante.

17 de Novembro de 1932
Hoje na escola estava tudo muito aborrecido. Não houve nada de interessante. Creio que
foi o primeiro dia em que não me senti bem. Estava sentada na sala cheia de sol quando,
de repente, me veio à cabeça o Verão e os tempos em que, das janelas da escola, podiam
ver-se o restaurante e as mesinhas ao ar livre.
Voltaram-me à ideia as luzes claras na distância e os contornos indistintos, o jardim cheio
de sombra com as veredas estreitas, os choupos jovens tremendo com languidez, uma
grinalda de luzes vermelhas e azuis e uma fonte cuja água esguichava e caía em pérolas na
bacia onde, como por encanto, se reflectiam as lanterninhas e os namorados.
Uma vida misteriosa, descuidada e sedutora emanava daquele jardim e envolvia-me
enquanto estava sentada na sala escura, perto da janela aberta, inspirando o ar tépido da
noite, que um inebriante aroma de heliotrópio perfumava.
O coração batia-me, inquieto e atormentado. Naqueles dias de Verão já distantes, quando
as noites eram muito belas, sentei-me muitas vezes no peitoril, às escuras, pensando no
Leuvka. A imagem provocava-me uma dor viva e sentia o rosto afogueado. Ao imaginar o
seu corpo magro, as calças muito curtas e os olhos azuis, que parecem enormes, sentia-me
desesperar.
Mas tudo isto já passou. As noites arrefeceram, os seus olhos empalideceram e o meu
coração permanece tranquilo quando eles me observam cintilando levemente. Agora sinto-
me indiferente. Meu Deus! Que felicidade senti e o que restou! Sem querer, comecei a
acreditar que o amor é uma grande coisa.
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18, 24, 25 de Novembro de 1932 [...]

27 de Novembro de 1932
Inverno, Inverno. Parece-me que nunca gozei tanto o Inverno. Que quadro maravilhoso!
Neve, neve. Montes brancos e friáveis dos lados da rua. Tortuosos caminhos amarelo-
claros serpenteiam nos passeios. O céu está cinzento e de uma tristeza serena. As árvores,
as casas, a terra... está tudo sob um manto de neve. Caminhamos, falamos e, de repente,
aparece-nos um grupo de árvores imóveis, com os ramos estendidos sob uma capa de
neve.
Através da rede que formam entrevê-se uma casa, também ela imóvel e tranquila, com
uma luz avermelhada na janela. Uma teia de ramos cobertos de geada, que emolduram os
palácios entre a névoa.
Vejo a escuridão tingida de azul que flutua no ar, vejo aquele leve véu branco e sinto na
alma tanta felicidade que até dói.
Para mim, Inverno também é patinar, esquiar. Vejo logo o gelo liso e cintilante, a multidão
animada e ouço o ligeiro estridor dos patins; como um relâmpago, vejo logo a imagem de
um campo branco e ilimitado, o bosque coberto de neve, as árvores imóveis e ouço nos
pés os esquis deslizando ao longo de uma colina parecida com uma onda.
Estranha coisa, a vida. Houve um tempo em que pensava ser livre e dar sentido a tudo,
mas agora não poderia fazê-lo nem que quisesse. Compreendo que isto é amor, isto alegria
e aquilo outra coisa qualquer, mas, a certa altura, tudo parece misturar-se num único
sentimento, que se esconde no mais profundo da alma. Que não quer mostrar-se por
completo, mas que espreita furtivamente quase como uma sombra incerta. Não sei
explicar. Tentei sufocá-lo mais de uma vez.

5 de Dezembro de 1932
Meu Deus! Nos últimos dias, consegui amaldiçoar a escola quase uma dezena de vezes.
Nem um minuto de tempo livre. Embora muito a contragosto, tenho de infringir até as
regras que fixei para mim própria e estudar Biologia. Está bem, pronto... mas, depois,
amanhã é Geografia e a seguir Matemática! Tenho tanta vontade de escrever, ler, tocar
piano e sonhar um bocadinho! E não disponho nem de um minuto para mim.
Hoje acordei às oito, porque tinha que estudar biologia. Lá fora ainda não estava sol.
Encontrava-me ainda meio a dormir, afundada na almofada fresca, e gozava estes minutos
de paz, que gostaria de prolongar. Mas não podia. E se ficasse aqui? Esta ideia traiçoeira
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tocou e cresceu-me na cabeça. Revi mentalmente as aulas que teria na escola e reflecti,
morta de sono: que fazer?
Dentro de mim, uma voz dizia-me com insistência que tinha de ir, que todos os dias são
importantes, enquanto outra sussurrava baixinho, sedutoramente: «Fica, fica.» Sonhava de
olhos abertos em não fazer nada todo o dia e em ocupar-me só com os meus assuntos. A
segunda voz tentou-me durante um momento, mas depois a razão venceu o desejo.
Levantei-me e pus-me a estudar.
Houve qualquer coisa que me disse toda a manhã que não haveria chamadas e que podia
estudar tranquilamente, sem agitações nem pressas. Na escola também me senti serena. As
minhas colegas diziam-me que sim, que ia haver chamadas, mas eu continuava a não
acreditar e tinha a certeza de que não me aconteceria nada. O meu pressentimento revelou-
se correcto e fiquei felicíssima.
Sim, aconteceu qualquer coisa ao Leuvka, que parece um delinquente. A tal ponto que até
eu, que sou sempre condescendente com as suas fanfarronices, começo a achá-lo
insuportável. Não consigo habituar-me a vê-lo sempre no meio dos outros fanfarrões da
escola, não tolero o ar insolente e descarado com que trata os professores. Aflige-me e
ofende-me ver que o meu ídolo começa a cair do pedestal no qual o colocou a minha
imaginação, unida à sua beleza.

8, 11, 15, 21 de Dezembro de 1932 [...]

30 de Dezembro de 1932
As férias começaram ontem. O desejo fortíssimo que tinha nos últimos tempos realizou-se
por fim. Que felicidade não pensar durante algum tempo na escola, não andar com os
cadernos atrás de mim, não aprender de cor a antiga Babilónia nem as propriedades físicas
do solo em Biologia e não adiar mais escrever no diário, no qual nem sequer toquei na
última semana.
Que agradável é sentir-me plenamente livre! Se tiver vontade, desenharei, escreverei e
lerei ou pegarei nos patins e irei ao rinque, onde me atrai o gelo opaco e ao mesmo tempo
transparente e as pessoas que deslizam, velozes como flechas. No dia 9 haverá outra
festinha em casa da Ju I. Embora tente afastar o medo, tenho um pouco de receio. Quando
me lembro disso, sinto mover-se qualquer coisa nas profundezas da minha alma, qualquer
coisa que me dói ligeiramente.
Adiando tudo para as férias, não pego no diário desde 25 de Dezembro. Foi um dia
estranho. Não me lembro de alguma vez na vida ter passado um dia assim. Antes de tudo,
foram os meus anos. Doeu-me
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a indiferença com que recebi os presentes e senti-me um tanto envergonhada perante a


mamã. Tudo porque a Júlia teve a ideia de organizar uma pequena festa.
Primeiro, tinha decidido não ir mas, depois, quando chegou o momento e me vi naquele
estado de reclusão voluntária, os meus sentimentos desdobraram-se. Ao fim da manhã,
tinha tanta vontade de participar nela que até me custava dominar-me, procurando por
todos os meios sufocar a voz que queria convencer-me a ficar.
Decidi ir, mas, depois, soube que a mamã não queria e tive de ficar em casa. Passei o resto
do tempo como uma alma penada, sem fazer nada, caminhando de um lado para o outro
nos quartos e quase chorando de raiva. À noitinha, no entanto, consegui escapar por
alguns minutos e fui ter com a Ira. Quando regressei, sentia-me mais alegre e tranquila,
como se não tivesse acontecido nada.
Gostaria de escrever muito mais, mas não estou com inspiração. Gostaria de escrever um
conto, mas não sei sobre quê. Falta-me o enredo. De vez em quando, passam-me algumas
ideias pela cabeça, mas são sempre vagas, nebulosas e informes.

4 de Janeiro de 1933
Passei o fim do ano de uma maneira absolutamente normal. Como sempre, li um livro e
esperei pela mamã, que chegou a casa perto da meia-noite. A rádio passou o coro d’A
Internacional.
Nota: Os programas soviéticos de rádio começavam às seis da manhã com o hino nacional
da União Soviética e acabavam à meia-noite com o coro d’A Internacional.

Oh, como gosto desta canção! E eis o meu fim de ano. Estive duas vezes no rinque de
patinagem e agora doem-me muito as pernas. Como de costume, não estou a fazer nada e
sofro pelas horas perdidas em vão. Sim, por infelicidade, é uma coisa que está sempre a
acontecer-me, e acho difícil livrar-me desta nostalgia.
Hoje, por exemplo, desagradava-me tanto deixar de sonhar que continuei a fazê-lo. Li
Tchekov em casa da avó, porque na nossa estava sempre alguém, mas até enquanto lia
arranjava maneira de pensar noutra coisa. Todos temos os nossos defeitos. Como gostaria
de criar tudo ao mesmo tempo: fazer um desenho lindíssimo, escrever qualquer coisa de
belo, tocar bem piano e ler muito! É preciso é conseguir! Complicado! Além disso, ainda
há as batatas para ir buscar, o Inglês e a patinagem.
A festa da Ju I. aproxima-se. A Ira não vai e eu também não queria ir, mas desta vez
venceu o amor-próprio. Envergonhava-me pensar
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que não teria coragem de ir sem ela e, por isso, decidi-me pelo sim, embora tenha medo.
Hoje, sob o impulso de uma emoção nova, escrevi: «Sim, foi há tanto tempo!»
Durante o chá, eu, a Eugenia e a Olga parecíamos parvas a falar deste assunto, mas ficou-
me na cabeça uma ideia fixa. Com efeito, já quase não penso no Leuvka, só de vez em
quando, de maneira confusa, mas isso ainda não significa que ele me seja indiferente.
Tanto ele como a Ju I. têm os olhos muito belos, nem eu sei quais me agradam mais.

6 de Janeiro de 1933 [•••]


10 de Janeiro de 1933
Ontem à tarde, por volta das cinco, fui a casa da Ira com o coração nas mãos: Virá ou não
virá? O Sol descia no céu, mas tinha outra coisa na cabeça. Entrei no pátio, subi as escadas
e bati à porta. Abriram passado um minuto.
«A Ira está?»
«Está.»
Passei para a sala de jantar. A Ira vestia uma blusa branca e uma camisola vermelha, na
qual espetara um elegante alfinete. Sem hesitar, perguntei:
«Vens?»
«Vou.»
Fiquei feliz.
Saltámos literalmente para fora de casa e dirigimo-nos ao eléctrico. Na paragem
pretendida, saímos e encaminhámo-nos na direcção da casa da Ju I. Quando já estávamos
perto, vimos que a entrada principal se encontrava fechada, mas depois abriram-na.
Subimos as escadas até à porta do apartamento. «Oh, que medo!» Mas agora não havia
nada a fazer, não podíamos ficar especadas na escada. Enchi-me de coragem e bati. Atrás
da porta, ouvimos a voz da Ju I., que veio abrir, e demos connosco num corredor
comprido. «Dispam os casacos, meninas», disse ela, acompanhando-nos ao seu quarto.
Notava-se uma certa falta de à-vontade. A conversa não era espontânea.
Passado um bocado, chegaram outras raparigas. Com elas, apareceu não se sabe de onde o
Leuvka, que, no entanto, logo se eclipsou. Parecia mais alegre. Tive uma impressão
deprimente do apartamento daju I., talvez porque havia outros estranhos presentes, talvez
por causa do tédio que ao princípio nos assaltou a todos.
Dali a pouco, passámos para a sala de jantar e daí para uma salinha onde eu, a Ira e um
outro nos sentámos no sofá. A alegria apoderou-se de nós a pouco e pouco e, quando
começámos a beber o chá, já estávamos mais animadas e contentes e comemos com
apetite. Antes de nos deixar ir para casa, a Ju I. reuniu-nos numa sala e falou-nos
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da escola e dos nossos colegas. Ouvi-a com atenção, fitando os seus olhos azuis quase sem
respirar. Quando saí para a rua, sentia-me feliz.

18 de Janeiro de 1933
Doidias antes do fim das férias, fui assaltada de repente por uma tal aversão ao estudo e à
escola que fiquei sem vontade nenhuma de voltar às aulas e de aprender de cor todas
aquelas lições, quando poderia aproveitar o tempo para ler livros interessantes, pelos quais
comecei a apaixonar-me.
Em vez disso, tinha de abandonar aquela vida e de a substituir por aquelas aulas
aborrecidas, que não dão resultado nenhum a curto prazo.
Mas durou pouco. Nos últimos tempos, tento sempre não me esquecer de duas regras que
conseguem melhorar tanto o meu humor que sinto-me muitas vezes simplesmente
satisfeita. A primeira tirei-a do provérbio «O estudo é amargo mas os seus frutos são
doces». Quando me parece particularmente insuportável estudar, esta frase aparece-me de
qualquer lado nas profundezas da minha cabeça, e tranquilizo-me.
A outra regra está em viver o presente em função do futuro.
Às tantas, uma pessoa tem fome e diz: «Não faz mal, de futuro será melhor.» Ou tem uma
sede tão insuportável que o estômago até arde, mas sufoca o desejo e diz: «Em breve
poderemos comprar um saco de caramelos e beber todo o chá que quisermos» Às vezes
dá-me vontade de ler, mas tenho que fazer os deveres. Que fazer? Sinto-me revoltada, mas
não importa: «O estudo é amargo mas os seus frutos são doces; virá o tempo em que
poderei fazer só o que quiser, sem pensar na escola.»
Nota: Alusão ao «chá» vprikusku-. punha-se um bocadinho de açúcar, uma colherada de
mel ou, como Nina, um caramelo debaixo da língua e bebia-se água fervida. Na época, o
verdadeiro chá, o chá vnakladku, era um luxo.

Por falar em escola, hoje fui com um vestido novo. Ao princípio, não me sentia muito à
vontade, mas depois esforcei-me por pensar de outra maneira e, afastadas as superstições,
não liguei mais.
Nota: Segundo uma crença russa, quando se veste um vestido novo pode acontecer alguma
coisa de mal ou chumbar num exame.

Passei estes dois últimos dias a estudar. Na escola estava um frio tão insuportável que até
deixava cair a caneta das mãos lívidas e sentia o corpo todo tremendo de febre.
O Leuvka cortou o cabelo e ficou ridículo e feio. Ao olhar para ele, lembrei-me sem
querer de uma altura, aqui há três ou quatro anos,
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em que a Eugenia e a Olga me contaram, a rir, que os rapazes da sua escola ficavam muito
feios uma vez por mês, quando iam cortar o cabelo. O Leuvka mudou de uma maneira
incrível: a sua bela cabeça cheia de cabelos encaracolados está quase careca, a nuca
termina em ponta e parece que as orelhas lhe cresceram. Todo o seu rosto parece diferente.
Apesar do frio, diverti-me muito nestes dias, tanto mais que, à terceira ou segunda hora,
para nos aquecermos, tínhamos que vestir o casaco, puxar a gola para cima e encostar-nos
todos uns aos outros.
Ontem, deixaram-nos ir para casa depois da quarta hora. Cá fora, ainda não estava
completamente escuro: havia um crepúsculo azul, invernoso. O céu sereno, azul-claro, só
para os lados do horizonte ficava um pouco cinzento, como se tivesse nuvens imóveis ou
toldadas de fumo. No pano de fundo deste véu cinzento, destacava-se, com a nitidez da
erupção de um vulcão, uma enorme nuvem negra, parada no ar gelado. Os lampiões
enfileiravam-se em linha recta pela rua, como manchas claras e vivas.
Eu e a Ira caminhávamos à frente, seguidas pela Ksiusha. A Ira pairou o tempo todo.
Espantou-me como conseguia tagarelar tanto sem parar, mas é assim todos os dias.
Aqueles mexericos estúpidos aborreceram-me e irritaram-me: eram os vestidos, era um
casal que se tinha separado... em suma, qualquer coisa. E só tem doze anos. Que fará
quando tiver catorze? O remédio é encolher os ombros.

Noite
A mamã chegou por volta das dez ou das onze e trouxe o meu casaco de pele. Vesti-o logo
e fiquei sentada assim durante uma hora, enquanto ela e o papá falavam de qualquer coisa.
Eu ouvia em silêncio. Não queria fazer perguntas nem dizer nada. Já aconteceu eu ter-me
metido nas discussões e o papá mandar-me calar.
Assim, há algum tempo que procuro pensar bem antes de me intrometer, embora depois
esqueça estes bons propósitos e volte ao mesmo. Mas já não me zango com o papá; apenas
rio de mim própria, pensando com satisfação malévola: -Ah, deste-te mal! Bem, da
próxima vez serás mais inteligente.» Mas é difícil uma pessoa dominar-se. Há muito
tempo que luto contra mim própria, mas não vejo grandes resultados, é verdade. A única
coisa que sei fazer é calar-me. No entanto, não digo a ninguém aquilo que normalmente
me atormenta. Para quê? Há gente que tem o mau hábito de espalhar aos quatro ventos
tudo o que sabe.
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19 de Janeiro de 1933
Ontem ou anteontem, na aula de Ciências Sociais, enquanto o Evtchikevitch falava da
preparação dos novos quadros para a indústria socialista e do facto de estarem agora a
abrir-se novos institutos, comecei a pensar que talvez pudesse perguntar-lhe porque se
fecham os velhos. Ao dizê-lo à Ira, sentia-me muito tranquila, mas quando, às tantas,
decidi que iria perguntar mesmo, o coração começou a galopar-me... Esperava que o
Evtchikevitch acabasse de falar e repetia para o meu coração: «Cala-te.» Mas não só não
se calava como batia mais forte... Claro que, depois da minha pergunta, ouvi das boas, e já
não tive vontade de responder.

21 de Janeiro de 1933
Vinte e sete graus negativos. Apareceram nas janelas alguns arabescos e uma geada
parecida com muitas plumas. Arranjei-me para ir à explicação da T. S}.
Nota: Tatiana Sergeievna, explicadora de Alemão.

Vesti-me e desci as escadas. Andavam-me às voltas na cabeça fragmentos de versos de


poesias alemãs que tinha decorado à noite e durante toda a manhã. Enquanto descia os
degraus, repetia-os mentalmente, muito concentrada. Quando cheguei ao último patamar,
parei de repente. Aquelas palavras alemãs tinham-me escapado todas de repente.
Em baixo, a luz débil do dia entrava pela janela e reinava uma ligeira penumbra.
Distinguiam-se nuvens brancas de vapor erguendo-se devagar do solo e subindo os
degraus da escada. Ouvia-se gorgolejar; parecia quase um murmúrio. «Ah, rebentou um
cano», pensei, avançando. Entre os degraus e a porta da entrada formara-se uma poça de
água morna, que seria quase impossível atravessar sem a ajuda do calorífero a vapor que
caíra ao chão, formando uma espécie de ponte. Os canos estavam gelados. Consegui abrir
a porta gelada e saí para a rua.
O céu opalino estava límpido, de um rosa-claro. Para onde quer que olhasse, via uma luz
rosada, que impregnava densamente o ar, conferindo a todos os objectos um ar vago e
nebuloso, envolvendo-os num véu também ele rosado. Senti no rosto o gelo dos vinte e
sete graus negativos e um arrepio agradável percorreu-me o corpo todo. A neve dura
rangia-me debaixo dos pés. Meti as mãos nas mangas e pus-me a caminho com ar
estouvado, recomeçando a murmurar a poesia. Sentia o gelo entrando-me pelo nariz e
cortando-me a respiração.
Cheguei a casa da Ira (vou sempre buscá-la), entrei no pátio e fechei a cancela atrás de
mim. À direita, o muro de uma grande casa
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cinzenta; à esquerda, uma pequena construção de um andar com as janelas congeladas. O


Sol, erguendo-se como uma bola cor-de-rosa, iluminava debilmente a neve cintilante.
Entrei no átrio tépido e, dando um puxão à porta da rua, que estava fechada, bati três vezes
com força na porta de dentro, revestida a couro. Durante um bocado, ninguém apareceu;
depois, ouviram-se passos. Foi a Lusha que abriu.
Nota: A empregada.

«A Ira está em casa?»


«Está.»
Avancei pelo corredor.
«Nina?», gritou a mãe da Ira da sala.
«Sim», respondi. Entrando, exclamei em voz alta:
«Bom dia!»
A Ira estava sentada à mesa, arrumando qualquer coisa com atenção.
«Que fazes?» Nenhuma resposta. Em silêncio, a Alenushka olhou-me de soslaio com os
seus grandes olhos azuis.
Nota: A irmã mais nova de Ira.

«Ouve, Nina», começou a O. A., «a Ira não vai hoje à escola. Prenderam-lhe o pai...»
A voz embargou-se-lhe e ficámos caladas por um momento. Depois, respondi baixinho:
«Ah!» E fiquei ali sem saber que fazer.
Nota: Olga Alexandrovna, mãe de Ira.

«Não digas a ninguém e não expliques à T. S. porque é que a Ira não foi.»
«Está bem, está bem», respondi, decidida.
Ninguém saberia nada por mim. Os pensamentos voavam-me em turbilhão na cabeça.
Aquela família que estava ali sentada sem falar impressionava-me: a silenciosa Alenushka,
a Ira e a mãe, que chorava. Que sofra, também eu sofri. Lembrei-me do que aconteceu há
quatro anos, quando também a nós nos tiraram o nosso pai. Acordei de manhã sem saber
de nada. A avó entrou e disse: «Vais à escola? Prenderam o papá.» «Não.» Quando se foi
embora, desatei a chorar. Depois, senti de repente raiva e desdém por quem ousou levar-
mo.
Agora arrancaram-no à Ira, destruíram-lhes a felicidade e a tranquilidade. violaram-lhes a
maneira como vivem, os hábitos, tudo o que lhes é caro. Também nós vivíamos bem antes
de o papá ser preso, mas depois... parece que caímos do céu para um turbilhão de
privações e tensões. Agora também eles, que todas as manhãs comiam manteiga e bebiam
café, perderão tudo se o deportarem para Ust-Sysolsk, para qualquer cidadezinha do
Norte.A Ira continuará a estudar, mas alimentará na alma toda a sua raiva contra eles. Oh,
bandidos! Patifes! Como ousam fazê-lo?
Nota: Ust-Sysolsk era o antigo nome da capital da República Autónoma dos Komis.
Depois de 1930, a cidade foi chamada Syktyvkar e, no início dos anos 30, tornou-se um
dos principais centros do sistema prisional soviético. De facto, era onde ficava a sede da
direcção do Ust-Vymskijlager, que tinha até 23 100 prisioneiros colocados na construção
de estradas e ferrovias, e a dos Severnye lagerja osobogo naznacenija, que acolheram até
49 800 detidos, empregados no abate de árvores e na prospecçâo de minerais. Havia
muitos campos de trabalhos forçados em todo o território da República dos Komis.
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Caminhava de um lado para o outro na sala, rangia os dentes e, parando de vez em


quando, sussurrava: «E a O. A. não trabalhará.» A minha mãe trabalhava, mas ela não o
fará. Passarão dois ou três anos e será como se tivesse envelhecido dez, mas não poderá
trabalhar. E a Ira?... Ainda amará o pai ao fim de um afastamento de três anos? Eu deixei
de amar o meu. Foi preciso muito tempo para voltar a habituar-me a ele e por pouco não o
tratava com cerimónia.
Oh. bolcheviques, bolcheviques! A que ponto chegaram, que estão a fazer? Ontem, a Ju I.
falou ao meu grupo de Lenine e. naturalmente, da nossa «edificação». Como me fazia mal
ouvir tantas mentiras despudoradas nos lábios de uma mulher que estimo tanto, quase
venero! Pouco me importa que o Evtchikevitch minta, mas ela, com aquele seu jeito de se
apaixonar sinceramente pelas coisas... E altera assim a verdade? E conta mentiras a quem?
A crianças que não acreditam. que sorriem de si para consigo em silêncio, dizendo:
«Mentes, mentes!»
Hoje tive um sonho horrível. Não me recordo de tudo, mas houve uma cena que se me
gravou bem na memória: parecia-me que havia qualquer coisa de familiar em todo o
sonho, mas não conseguia lembrar-me de quê. Um homem, nu até à cintura, parece-me
que com um rosto belo distorcido por um esgar de dor, lutava com alguém que lhe prendia
as mãos e lhe pousava no peito uma espingarda, empurrando com tanta força que até se
sentiam ranger os ossos. Apoderou-se de mim uma repugnância invencível, até tive
vómitos...

22, 23 de Janeiro de 1933 [...]


6 de Fevereiro de 1933
Tenho andado interessada no meu colega Dima, um rapazinho de cerca de doze anos, mas
que parece mais velho. Tem o cabelo preto, liso e bem penteado, com a risca ao lado, as
sobrancelhas arqueadas, os olhos pequenos e pretos e lábios finos, sorrindo quase sempre
com desdém.
Observei-o sempre de soslaio e não tenho confiança nenhuma com ele porque, regra geral,
trata as raparigas com desprezo. Aqui há algum tempo, percebi que é um rapaz vivo e
muito inteligente, o que espicaça o meu amor-próprio, porque considerava-o uma pessoa
estranha. Pelo contrário, na última reunião exprimiu-se tão bem que fiquei espantada.
Nota: Vadim (Dima) Linde.
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Reli o diário e pareceu-me muito estúpido aquilo que dantes ocupava os meus
pensamentos. Porque voa o tempo tão depressa? É incompreensível.

13 de Fevereiro de 1933
Oh, tempo, tempo! Dava tudo para que passasse mais devagar! Às vezes, ainda deitada na
cama, olho o ponteiro negro das horas, que gira sem piedade, e penso: «Quem me dera que
parasse!» Mas não, o tempo corre, corre sem parar, sem interrupções... Há um ou dois
meses, quando ainda gostava do Leuvka, não ligava aos ponteiros. Voava num turbilhão
sem tempo nem horas. Os próprios dias voavam e deles ficava apenas uma recordação
agradável e confusa.
Agora voltei a entrar no ramerrame de sempre e aborrece-me muito encontrar o Leuvka e
não sentir nem um frémito, não estar a observá-lo horas a fio sem despregar os olhos dele.
Se bem que, para falar verdade, de vez em quando dou-lhe uma espreitadela, mas há
sempre algum bom motivo que me impede de o fitar durante muito tempo. Logo que vira a
cabeça para mim, volto-me imediatamente. Ando com um humor bastante aceitável. Às
vezes até me parece apaixonar-me pelas aulas. Sem exagerar, neste momento não tenho
nem um minuto livre. Estudo, estudo, às vezes leio e nunca consigo passear. Nos últimos
tempos, sinto-me indiferente quase até ao ridículo em relação a tudo o que me rodeia.
Acontece-me ter vontade de vaguear num infinito campo de neve, de me perder entre os
flocos leves e de passear gozando a natureza. Mas não tenho tempo. Ultimamente, até
deixei de ter esperanças no futuro. Não tenho esperança em nada, não penso em nada. Só
às vezes «sonho». É uma sensação muito estranha: transporto-me para um mundo
diferente, no futuro, mas sem esperança. É como se começasse a ler um livro. Dantes,
quando era pequena, chamava-lhe um «jogo», mas agora não lhe chamo nada.

15 de Fevereiro de 1933
Estou a ler a biografia de Lermontov... Regra geral, quando leio a biografia de algum
escritor, tento logo perceber se há alguma semelhança entre nós. É um desejo que percebi
pela primeira vez há muito tempo, e fico sempre contente quando encontro traços comuns
(o que acontece muito raramente), porque me parece que assim posso ter esperanças de vir
a ser escritora.
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E, no entanto, não sei escrever. Como posso ter talento se não consigo escrever uma única
página sem trabalhar cada frase, uma por uma, tentando perceber como hei-de redigi-la?
Assim não vou longe.
Às vezes penso que tudo melhorará com o passar dos anos e que era muito pequena
quando comecei a escrever, mas Lermontov começou aos treze e fê-lo logo muito bem.
É tão difícil adivinhar o futuro! Dantes, há um ano, estas dúvidas sobre mim mesma
condicionavam-me profundamente, mas agora é como se os sentimentos tivessem
enfraquecido; as coisas negativas atormentam-me muito menos, o que, por um lado, é
bom... É estranho, até o diário quase não o escrevo para mim, mas para alguém, e não é
raro ter medo de escrever qualquer coisa menos conveniente. Bem tento sufocar este
sentimento, mas não há nada a fazer. Em geral, os sentimentos não são muito dóceis: nós
dizemos uma coisa e eles outra.
Na escola, não há grandes novidades. Continuo a ter o Leuvka debaixo de olho, mas não
acontece nada de anormal. Hoje lembrei-me de uma coisa interessante-, como são
diferentes as minhas relações com o Leuvka e com o Alka! O Alka é meu amigo e o
Leuvka meu... como dizer? Namorado, talvez? Claro que o termo não é exacto, mas a
verdade é que tenho uma atitude diferente com cada um deles.
Ontem, durante o intervalo, estava sozinha junto do aquecedor quando o Leuvka saiu da
sala. Ao passar-me à frente, olhou-me e perguntou: «Então, Luga, estás ao quentinho?»
«Estou», respondi. Quando se afastou, pensei, não sem alegria e espanto, que, com ele, me
encontro sempre na mesma situação.
Não tem nada de especial, mas...
É uma pena que o Leuvka seja mais novo do que eu. Claro que é um amor-próprio muito
estúpido mas, na realidade, não dá raiva? Colocar este rapaz ao meu nível... apesar de
tudo, já não sou uma criança.

24 de Fevereiro de 1933
Neste período de tempo, pensei e senti muitas coisas. Às vezes tinha uma vontade terrível
de escrever tudo, mas o maldito tempo... nem um minuto. E agora, que contar?
Cada vez me torno mais fechada e taciturna. É um bem ou um mal? Às vezes pego nos
assuntos, aprofundo-os e volto a examiná-los para que tudo seja claro e compreensível
para mim. O mais importante, porém, é a minha última decisão: ser o mais reservada
possível. Já não rio nem brinco com os que me são queridos e vou-me afastando deles a
pouco e pouco.
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Parece-me, no entanto, que não tenho um mundo meu no qual possa refugiar-me em
contemplação. Vivo como num sonho, tranquila, silenciosa, sem que nada aconteça. É
verdade que não sucede nada, mas os sentimentos existem na mesma, e às vezes intensos.
O que é um mundo interior? Se calhar, engano-me ao dizer que não tenho nenhum. Mundo
interior e sentimentos não são a mesma coisa?
A alma humana é estranha: está pronta a ter esperança em qualquer situação. Quando tudo
parece acabado, eis que a esperança espreita de qualquer lado, timidamente, crescendo a
pouco e pouco e acabando por se apoderar do coração. Nos últimos tempos, aconteceu-me
muitas vezes sentir que as minhas esperanças morriam e voltavam a ressurgir. Que
tormento e que dor sentir que uma esperança (sobretudo quando embalada muito tempo),
desaparece de repente! Como o coração fica vazio e pesado!
Da primeira vez, aconteceu-me na escola, com o Leuvka: às tantas, a esperança de que me
amasse (como é estranho e ridículo pronunciar esta palavra!) abandonou-me.
Aconteceu na aula de Desenho. De certeza que os meus colegas me acharam ridícula,
porque desataram a rir e começaram a chamar-me «tola»; até me pareceu que o Leuvka
gritou «vesga»
Nota: Com efeito, Nina era ligeiramente estrábica.

Corei e, enquanto continuava a desenhar como se não fosse nada, pareceu-me que
qualquer coisa se me destroçava na alma e que a esperança se desvanecia, misturando-se
com a indignação. Que desagradáveis são semelhantes momentos!
Embora seja um engano pensar que raciocino com bom senso, repeti para mim própria as
minhas razões e reencontrei a paz. Mas a maior desilusão que tive nestes dias foi o fim da
confiança que depositava no meu talento literário e que acalentei no coração durante
muitos anos. Não tenho talento; agora, não tenho senão uma angústia e um vazio
inexprimíveis. Estes factos obrigam-me a sussurrar mais de uma vez, com amargura: «Se
olharmos em volta com fria atenção, a vida não passa de uma brincadeira vazia e
estúpida.»”’

1 de Março de 1933 [...]

12 de Março de 1933
Chega a Primavera. Sente-se o perfume desta estação em cada rajada de vento. A brisa
transporta qualquer coisa de novo, fresco e jovem. Primavera... Avança furtivamente,
imperceptível e silenciosa,
Nota: Citação de «Tédio e Tristeza», poema de Mikhail Iurievich Lermontov (1814-1841).
Nina repete muitas vezes esta expressão no seu diário.
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e só de vez em quando nos chega a sua respiração tépida. O gelo começou a derreter
ontem, o sol já aquece bastante e formam-se riscas negras e molhadas nas calçadas. A
Primavera penetrou-me na alma e transporta-me de maneira insuportável para qualquer
lado, para «lá», rumo aos bosques e aos campos.
No ano passado, no fim de Abril, fui com a Olga às Colinas dos Pássaros.
Nota: Bosque e lugar panorâmico, com uma vista esplêndida sobre Moscovo, pouco
distante da casa de Nina.

Oh, como apreciei aquele momento! Caminhava quase tentando aprisionar nos pulmões o
máximo possível de ar primaveril; contemplava o céu claro e azul e as nuvens leves, o rio
Moscova, escuro, alegre e frio, ao longo do qual deslizavam lajes finas, e as árvores
vestidas de verde; no som de uma destas lajes de gelo batendo contra a margem, em cada
trinado dos pássaros, em cada exclamação das crianças que formigavam na outra margem,
em cada sopro de vento, parecia-me ouvir gritar mil vozes: «A Primavera!»
A natureza exultava e saudava a chegada daquela beleza tão esperada. Apetecia-me correr
por entre a vegetação densa, em cumes altos, por charcos húmidos, para me fundir num
todo com a natureza e unir-me àquele grito forte... Lembro-me que, enquanto
regressávamos a casa às dez da noite, não me saía da cabeça a alegria daquele dia que mal
chegara ao fim. Mas a este prazer unia-se também um sentimento do qual tentava libertar-
me, que não compreendia e não conseguia exprimir... e que me oprimia. Era a sensação de
uma certa insatisfação, como uma angústia por qualquer coisa.
Durante o nosso último dia livre, organizei os meus papéis e encontrei algumas páginas
que tinha escrito a propósito do passeio nas Colinas dos Pássaros e mais outras coisas.
Nota: Na União Soviética dos anos 30, a -semana» era um período de seis dias, dos quais
seis de trabalho e um de repouso, ou livre, que não era o mesmo para todos.

De repente, senti de novo uma vontade insuportável de escrever. Será tudo de facto apenas
uma ilusão? Não terei mesmo talento?
Na verdade, quantas pessoas da minha idade seriam capazes, só graças à sua vontade, de
escrever um monte de páginas que não são de deitar fora, sobre tantos assuntos diferentes?
Tenho andado a pensar em escrever um romance com o título «Depois da felicidade»;
ainda não tenho nada de concreto em mente e, de momento, nem sequer procuro imagens
vívidas, deixo tudo na névoa até às férias. Às vezes, na onda de qualquer sensação,
surgem-me na cabeça imensos assuntos, intensos e rápidos como um relâmpago. Como
não tenho a possibilidade de tomar apontamentos a tempo, no dia seguinte já se
desvaneceram. Desaparecem sem deixar rasto, como nuvens no céu azul.
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15 de Março de 1933
Hoje não fui nem à escola nem ao Alemão. Sinto-me mal; aliás,
mais exactamente, estou com um humor tão absurdo que não me apetece fazer nada, nem
sequer ler. A Eugenia e a Olga aconselharam-me a fazer resumos dos livros que leio... Não
é má ideia e talvez me permita crescer; aprenderei a fazer uma crítica literária.
O Dima 1. começa a irritar-me a sério. É um rapaz engraçado, mas gostaria que fosse mais
simples, mais criança. Não é possível olhá-lo sem rir: é um pequeno gentleman (gosta de
empregar esta palavra), sempre com a roupa asseada e em ordem, o sorriso depreciativo e
um tanto altaneiro e os olhos inteligentes, muitas vezes trocistas. Mas, o que é mais
importante, sabe muitas coisas e é perspicaz.
Arma-se em parvo ou é uma coisa natural para ele? Isso é que me
interessa saber. Às vezes, ri-se de uma maneira tão infantil e contagiosa que fico
espantada. Por infelicidade, cada vez penso mais que
sou uma simples mortal. E a culpa é do Dima. De facto, vi nele um rapazinho fora do
comum e compreendi-me melhor a mim própria. Ontem levou para a escola o jornal mural
que preparou e no qual se mete com alguns colegas. É muito divertido. Todos correram a
lê-lo e ouviam-se risos por todo o lado. O Dima passeava por perto, lançando de vez em
quando um olhar à sua obra. Ele tem um lado
! ridículo, mas também qualquer coisa boa.
! É difícil aceitar a ideia de que sou uma pessoa comum. Aborrece-me pensar que todos os
indivíduos têm um mundo interior tão com[ plexo e sentimentos tão profundos como os
meus. No entanto, apesar de isto ser verdade, o certo é que também li muitos livros que
narram histórias de adolescentes, e nunca reconheci os meus traços em nenhum deles. Pelo
contrário, nos adultos sim, o que me dá um certo
orgulho.
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17 de Março de 1933
«Os meus dias escoam-se e passam depressa, como ondinhas no regato.»

18 de Março de 1933
Onde foi parar o meu lema «Vive e tem esperança»? Passou, já não acredito nele. Não
acredito nem quero acreditar.

24 de Março de 1933
E já passou metade das férias... Tudo é enfadonho, estúpido e pouco interessante. O que é
a vida? Ando com uma desagradável sensação de amargura na alma e pergunto-me de
cinco em cinco minutos: «O que é a vida?» Só há uma resposta correcta e simples: «A
vida é uma brincadeira vazia e estúpida.» É fácil dizê-lo. mas não tenho vontade de
acreditar a sério que a vida seja uma brincadeira, ainda por cima estúpida.
Ontem, caminhando pela rua, admirando o crepúsculo azul à minha volta, ouvindo as
barulhentas amas chamando as crianças à sua guarda e contemplando os palácios altos e
grandes, as casas e as silhuetas escuras das pessoas que passavam, pensava: «Mas o que é
a vida? Andar nas lojas, gritar às crianças. Porque se construíram estas casas e esta rua tão
bem lajeada?» Esta manhã fui a casa da Ksiusha perguntar-lhe se vinha comigo ao teatro.
Mas, entretanto, pensava com uma espécie de dolorosa angústia: «Para quê tudo isto, o
teatro e todas as outras coisas, tudo... O que é a vida?»
A Eugenia e a Olga cantavam no quarto. Passeei durante muito tempo no corredor,
escutando-as. Depois, entrei e sentei-me ao pé da janela. De vez em quando, o vento
fresco entrava pelo postigo aberto. O sol iluminava o quarto e as sombras trémulas das
plantas dos vasos reflectiam-se nas costas da Eugenia. Levantei-me. Ouvia, observava a
camisola castanha da Eugenia, as silhuetas leves, e pensava com tristeza: «O que é a
vida?»
Regressei há pouco do teatro, onde houve um concerto dos alunos da escola de música. Ao
princípio, escutei com atenção, invejando um pouco aquelas raparigas e rapazes, mas
depois... Depois, cansei-me e continuei a segui-los, distraída. Deprime-me qualquer
esforço ligado à escola, por mais pequeno que seja. Não quero ter de me preocupar tanto
com ela, apetece-me afastar-me, passar pelo menos alguns dias sem fazer nada, sem
pensar. Será por causa do cansaço? Não sei.
Recusaram dar ao papá a autorização de residência.
Nota: Alusão ao documento de identidade que atestava a residência em Moscovo. Não o
tendo obtido, o pai de Nina era obrigado a deixar a capital num período de dez dias, visto
que estava em situação irregular. Em Dezembro de 1932, o Governo soviético decretou
que a «autorização de residência» era obrigatória para todos os cidadãos maiores de
dezasseis anos, habitantes de algumas grandes cidades como Moscovo, Leninegrado,
Karkov, Kiev, Minsk, etc. (mais tarde, a medida veio a abranger todo o território
soviético). Não se podia trabalhar num local onde não se residia oficialmente. O
documento tinha de ser visado pela polícia e havia disposições secretas para que fosse
negado a determinadas categorias, entre as quais a dos contra-revolucionários.

Que tempestade na minha alma! Não sabia que fazer. Invadiu-me uma raiva
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impotente. Comecei a chorar. Caminhei de um lado para o outro pelo quarto, praguejei,
cheguei à conclusão de que é preciso matar estes patifes.
Nota: As frases em itálico foram riscadas no diário pela própria Nina: a sua mãe, que leu
uma parte, aconselhou-a nesse sentido por medo das consequências imprevisíveis em caso
de busca. Só foi possível decifrar algumas palavras.

Parece ridículo, mas não é uma brincadeira. Durante alguns dias, estirada na cama,
imaginei como farei para o matar. As suas promessas de ditador, patife e bandido, vil
georgiano que estropia a Rússia. Como é possível? A grande Rússia e o grande povo
russo caíram por inteiro nas mãos de um velhaco. Como é possível? Como é possível que
a Rússia, que durante tantos séculos lutou pela liberdade que por fim conseguiu
conquistar, que esta Rússia tenha de repente caído na servidão?
Nota: Depois desta pergunta, foram riscadas no diário doze linhas que é impossível
decifrar.

Cerrava os punhos, furiosa. Matá-lo, (indecifrável), o mais depressa possível!


Vingar-me a mim e ao meu pai (indecifrável), matar (indecifrável).
No dia em que o destino do papá foi decidido, não pude permanecer em casa. Vesti-me e
saí para a rua. Estava húmido, uma névoa fria cobria as ruas escuras. De vez em quando,
farrapinhos daquele vivo manto cinzento rasgavam-se e, por um minuto, podiam
distinguir-se os objectos com nitidez, mas depois era tudo de novo envolto pela névoa. Na
obscuridade húmida deslizavam e desapareciam silhuetas cinzentas e confusas.
Observando com desagrado o nevoeiro cinzento e turvo, só então me voltou à cabeça o
pensamento de sempre: «O que é a vida? Como o destino troça cruelmente dos homens!»

29 de Março de 1933
Acabou. O meu pai foi-se embora esta manhã. Para onde? Tenho medo de o escrever: as
paredes veriam e denunciariam. Mas já não está connosco. Que importa para onde foi?^ O
meu pai partiu, doente, cego de um olho, e eu estou aqui sentada a escrever o diário.

Noite
Parece que aconteceram poucas coisas, mas voou tudo tão depressa, de uma maneira tão
nítida e intensa, que dá a sensação de terem sido muitas. Como um turbilhão... num fluxo
imparável, brotaram em mim novos pensamentos, sentimentos e emoções. Se começasse a
descrever tudo por ordem, não transmitiria a impressão correcta do que
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gostaria de dizer. É pena que já me sinta mais calma e que esteja a desaparecer aquela
sensação de invulgaridade, proporcionada por momentos tão obscuros de tormentosa
angústia. Sinto-me a regressar ao quotidiano. Oh, como tudo volta a ser repugnante e
estúpido!
Anseio por emoções, fortes emoções interiores, que me despertem a alma para a luta.
Começo a viver seguindo uma orientação espiritual. Encontro estas emoções da alma em
muitas coisas diferentes-, a música, a beleza da natureza e dos homens, a vida. Não aquela
que vivo com tantos outros, mas uma vida dinâmica, cheia de significado, luta e
sofrimentos que, por sua vez, se baseiam nas emoções.
Cria-se assim um ciclo indissolúvel, talvez aquele círculo de acontecimentos e sensações a
que muitas vezes se chama vértice da vida. É possível que ainda não tenha começado a
viver. Se a infância é apenas um agradável prelúdio da vida, posso ter esperança num
futuro em que a minha alma ávida de sugestões encontre muito alimento.
Mas parece-me que divaguei muito e que tudo isto são só parvoices. «Ter esperança é
humano.» Penso que deve ser verdade, não há homem que viva sem esperança, que não
nos abandona nem nos momentos mais terríveis da vida.
Por volta das cinco, quando estava em casa da avó a ler um livro, chegou o papá. Como
sempre nos últimos tempos, fitei-o com ar de interrogação:
«Então?» Raramente faço mais perguntas. Para quê? Nos últimos tempos, tenho começado
a amar muito o meu pai. Dantes não sentia grande coisa por ele, mas agora, desde que lhe
recusaram a autorização de residência, isto é, por outras palavras, desde que o mandaram
sair de Moscovo no prazo de dez dias, a situação é bem diferente. Amo-o porque é um
revolucionário, amo-o porque é um homem que defende uma ideia, um homem de acção, e
porque manteve com firmeza as suas opiniões, nunca as trocando por nenhum bem
material desta vida. Emagreceu muito, tem a pele amarelecida e as rugas aprofundaram-
se-lhe no rosto taciturno e severo.

30 de Março de 1933
Ontem não tive paciência suficiente para escrever tudo o que queria. Direi apenas que o
papá foi à polícia saber se o autorizavam a permanecer em Moscovo durante pelo menos
dois dias, mediante a apresentação de um atestado médico. Esperávamos o seu regresso
com impaciência. Passou uma hora e ele sem chegar. Outra meia hora. Tínhamos
combinado que, caso a resposta fosse negativa, iria ter com a mamã ao trabalho. A Sônia
olhava pela janela, caminhava agitada,
Nota: Tia de Nina por parte da mãe, médica.
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murmurava qualquer coisa; a avó estava deitada e consultava o relógio de vez em quando.
O seu regresso já não era muito provável, mas... ter esperança é humano, e era o que eu
fazia junto com os outros.
Alguém abriu a porta por volta das oito. Levantei a cabeça do livro e pus-me à escuta.
Seria ou não ele? Desta vez, a esperança não me iludiu. Recomecei a ler, atenta aos seus
passos.
Quando a porta se abriu devagar, senti que as faces me ardiam e que corava de alegria, de
tão contente que estava por aquele insignificante adiamento de dois dias.
O papá sentou-se, sorrindo com alegria. Desatámos a perguntar-lhe isto e aquilo, coisas
insignificantes. «Até que enfim chegaste», repetia a avó. «O coração quase me rebentava
dentro do peito. Ao menos antes podia ir dormir, mas agora...»
Depois, a voz tremeu-lhe e embargou-se-lhe. Debulhou-se em lágrimas e, soluçando, caiu
na cama. O papá começou a justificar-se. A Sônia levou-lhe as gotas.
Examinei-o. Não tinha o rosto taciturno. Notava-se o esboço de um sorriso, um tanto
desmaiado. Estava perturbado e pareceu-me que brilhava nos seus olhos qualquer coisa
que se assemelhava a uma lágrima. Disse-lhe algumas palavras de censura e surpreendi-
me com a minha voz vibrante que, no entanto, se interrompia, incerta, a cada palavra,
como se qualquer coisa na minha garganta me fizesse espremer as palavras com
dificuldade.
A Avó acalmou-se depressa. Sentada, inclinada sobre o livro, pensei: «É um anjo e não
uma mulher.» Quem sabe como seria na juventude, se agora, aos sessenta e sete anos, tem
um coração tão maravilhoso! Em geral, quando as pessoas envelhecem, passam a vida a
resmungar, a suspirar e a queixar-se, mas nunca notei nada de semelhante nela em todo o
tempo que passámos juntas. Ao princípio, os outros, e confesso que eu também,
apreciavam-na pouco, e continuam a fazer a mesma coisa! A maneira como a Sônia a
trata! Senti pela avó um grande amor e uma ternura misturada com compaixão...
A Eugenia e a Olga chegaram mais tarde e, pouco depois delas, o A. G. Liashok.
Nota: Andrei Grigorevitch Liashok era membro do Partido Socialista Revolucionário. Foi
preso em 1929 juntamente com o pai de Nina. Uma vez solto, voltou para Moscovo.

É muito gordo, bem conservado e com barriga; tem as coxas grossas apertadas nas calças
e um rosto amplo e afável. Dantes, não me agradava. O corpo robusto e maciço, o rosto
satisfeito e aquele ar muito apático e tranquilo desagradavam-me fisicamente. Via nele
apenas o homem, no verdadeiro sentido da palavra, e não
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conseguia olhar para ele sem repugnância. Provocava em mim uma ligeira náusea, como
um réptil. Mas agora, desde o início destes problemas todos, a minha atitude mudou.
Comecei a reparar apenas no lado revolucionário da sua personalidade. Em suma, um
homem como o papá.
Estávamos muito apertados na sala e a Sônia disse-nos com irritação:
«Porque não vão para casa?»
A Eugenia e a Olga levantaram-se logo, vestiram os casacos e encaminharam-se para a
porta sem prestar atenção ao Liashok, que se despedia delas. Foi uma situação muito
embaraçosa, porque ele continuou a estender-lhes a mão, gritando:
«Eugenia e Olga, meninas, gostei de vos ver.»
Os seus dedos faiscavam-me à frente dos olhos enquanto os agitava rapidamente no ar,
como se quisesse atrair-lhes assim a atenção. Eu também gritei atrás delas:
«Eugenia, Olga, ouçam, está a falar convosco.» Mas não se viraram.
Entretanto, a avó tinha feito café e disse várias vezes atrás da porta: «Abram». Ninguém
lhe prestou atenção. «Kolia, abre a porta à avó», gritei. Despedi-me do A. G. com
desenvoltura e saí à procura das minhas irmãs. Estavam ofendidas e não queriam ficar
nem mais um minuto naquele apartamento, mas a avó lá conseguiu convencê-las a beber o
café na cozinha.
Mas porque falei? Não estou nada satisfeita comigo. Há muito tempo que procuro
obstinadamente aprender a calar-me, mas não consigo. Não, não consigo. Agora comecei a
falar tanto que tenho de me ocupar seriamente comigo.
Estou a ler Ana Karenina. Que emoção tão forte desperta em mim! Tolstoi era realmente
um grande escritor, que conseguia descrever as personagens e os seus sentimentos de uma
maneira muito viva, perfeita e, sobretudo, fiel. Já tinha começado a ler este romance há
dois ou três anos, mas na altura interrompi. Naquele tempo ainda não percebia o que agora
me parece muito claro e compreensível; há passagens que até releio duas ou três vezes.

31 de Março de 1933
Amanhã, escola. Já imagino como será difícil estudar este último trimestre. Tenho vontade
de cair numa espécie de torpor, para não me distrair. Caminhar como um boneco de corda,
fazer os deveres e, ao menos durante algum tempo, não desejar nada. Como voariam
depressa estes dois meses! Depois, abre-se uma vida sem penas e feliz. E esquecerei
completamente a escola, os estudos.
Pois! Tenho de travar esta última luta decisiva de uma maneira brilhante. Agora parece-me
tudo muito fácil, até quase interessante. No entanto, sinto que, passadas as duas primeiras
semanas, chegará
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a Primavera e o campo atrair-me-á de um modo insuportável, bem como qualquer outro


local que não faça parte da vida de todos os dias! Vai ser interessante ver o que acontecerá
depois do início das aulas. Já elaborei um plano para levar a bom porto o último trimestre.
Será que não tenho força de vontade suficiente para viver uns meses como deve ser, como
me diz a razão? É preciso saber dominar os desejos.
Hoje o papá vai outra vez à polícia. Alguma coisa hão-de dizer-lhe. A Sônia e a Noskova,
uma mulher simples e muito simpática, colega da Sônia e membro do Soviete de
Moscovo, estão dispostas a ir com ele. Como diz o papá a brincar, puseram-no debaixo da
sua asa protectora. Têm um conhecido na polícia, com a ajuda do qual esperam obter
algum adiamento. Depois da primeira explosão de indignação e desespero, todos se
acalmaram um pouco.
Pelo menos aparentemente, tudo em casa voltou à rotina. O papá estuda à noite, lê o jornal
de manhã, caminha pela sala e depois vai a qualquer lado. Deixámos de o agredir e as
discussões sem sentido que havia entre nós cessaram por completo. Talvez mesmo por
isto, ou quem sabe se por outro motivo qualquer, comecei a ocupar-me das tarefas de casa
quase com prazer. Faço muito menos caretas; só quando me aborrecem muito.
Agora o papá foi-se embora outra vez.
«Bem, adeus. Nina, se calhar não tornamos a ver-nos!» Fez-me as últimas recomendações
insignificantes sobre as plantas, que é preciso regar, e saiu, acrescentando no entanto, que
talvez lhe dêem uma prorrogação de outros cinco dias. Se o meu pai tem esperança, então
já significa muito. Gosto dele, agrada-me muito sentir o amor de que cheguei a duvidar.
Eram dúvidas que me faziam sofrer.

30 de Abril de 1933
A rádio está a transmitir dança clássica. Imagino as salas claras, muito iluminadas, os
espelhos, o chão e os pares dançando em turbilhão...

1 de Maio de 1933
Hoje não fui à manifestação. Até agora, não houve nenhum ano em que tenha ficado em
casa no 1°. de Maio, mas... nada é eterno, e os meus hábitos também mudam. Costumava
ir sempre com a mamã, mas ela foi ter com o papá a Mozhaisk,
Nota: durante as festas O pai de Nina tinha arranjado trabalho nos arredores de Moscovo e
morava na aldeia de Marfin Brod, na região de Mozhaisk.
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e fiquei sozinha. Que melancolia! Como parece tudo vazio e taciturno sem a mamã! Como
o meu coração está triste e melancólico!
Hoje, quando saí para a rua, tive uma sensação estranha. O vazio à minha volta era
absoluto, como se estivesse tudo morto. Só de vez em quando caminhavam, balançando-se
lentamente, alguns jovens vestidos de festa. O barulho dos meus passos ressoava solitário,
ecoando na rua deserta. Era esquisito ver um caminho sem vivalma num dia quente de sol,
cheio de vida invisível.
Passei por casa da Ira. As árvores do seu pátio começavam a lançar rebentos, e dos botões
que se abriam com timidez despontavam jovens folhas verde-claras, delicadas e tenras.
Quando regressei a casa, a rádio transmitia em directo a reportagem do desfile militar na
Praça Vermelha. Ouvia-se a banda tocando a marcha e as pessoas gritando ao longe
«Viva!» Estes sons pareceram-me muito simpáticos e familiares

2 de Maio de 1933
Amanhã, escola. Até me sinto contente, porque em casa anda tudo muito aborrecido e
horrível. Se não fossem as aulas, não quereria ir, arranjaria outro passatempo, mas agora...
agora tenho vontade de fugir deste tempo livre que tenho de ocupar estudando. Na escola,
o tempo não passará de um modo tão perceptível. Se ao menos a mamã chegasse depressa!
Mamã! Como tudo é absurdo e vazio sem ti. a tua ausência faz-me doer o coração! Já nem
tenho vontade de viver mais! O que me impede de morrer? Porque não me enveneno
agora? Porquê? «Vida! Porque me seduzes? Se Deus me desse forças, destroçar-te-ia.»
Nota: Citação do poema «As Contas com a Vida. Dedicado a V. G. Belinski», de Alexei
Vassilievitch Kolcov (1809-1842).

Mas, por qualquer razão, não consigo destroçar a minha vida. Oh, ainda não é assim tão
horrível viver, ou, de facto, Deus não me dá forças para o fazer. Gostaria de me livrar
deste desconforto, e hei-de conseguir, mas não completamente, não tenho forças para me
desembaraçar dele de todo.
Noite
Não me apetece nada estudar. Meu Deus! Tenho vontade de deixar tudo para trás e viver.
Porque eu quero viver. Viver! Não sou uma máquina de corda para trabalhar sem
interrupções e sem descanso. Sou uma pessoa. Quero viver! Esquecer tudo! Felizmente,
amanhã há
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escola. Embora seja verdade que não estarei preparada para as chamadas de Ciências
Sociais, pelo menos terei tréguas.
Mas que vão para o diabo! Só a Genia consegue apaixonar-se por estas coisas e ler durante
horas a fio o que disseram Lenine e Estaline e quais são as realizações da nossa União
Soviética.
Nota: Uma colega.

Oh, vida! Que o diabo te leve!


E faço de novo a mesma pergunta: «O que é hoje o Leuvka para mim?»
Passou a paixão, e o seu ardor inquieto
já não me atormenta o coração,
mas não consigo deixar de amar-te!
Tudo o que não és tu é vão e falso,
tudo o que não és tu é morto e não tem cor.
Acrescento da minha parte que também tu és vão e falso.
Mas... não consigo fundir-me na vida vulgar, o meu amor, ó amigo, sem ciúmes,
permanece o mesmo, o amor de outrora?
Nota: Citação do poema «Passou a Paixão» (1858), de Alexei Konstantinovitch Tolstoi
(1817-1875).

5 de Maio de 1933
Hoje li durante todo o serão Fumo de Turgueniev. Já há algum tempo que não pegava nas
suas obras. Quantas qualidades encontrei naquilo que só há um ano me pareceu tão
aborrecido e horrível! Saboreei com prazer a beleza dos doces matizes da sua linguagem
tão musical. Quanto mais me entusiasmava com a graça e a fluidez do seu estilo, mais me
convencia de que não tenho talento nenhum. Mas deixou-me uma sensação estranha, que
me ficou gravada na lembrança... Não compreendo esta ausência de vontade dos amantes.
Ou eu nunca me apaixonei ou estamos perante pessoas muito especiais. Não sei que
pensar, mas não me entra na cabeça aquela submissão do herói quando se apaixona pela
Irina. Como ainda não tenho as ideias muito claras a este propósito, não me arrisco a
exprimir nem sequer as emoções e os sentimentos mais simples.
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13 de Maio de 1933
Parece que ainda ontem era Janeiro, quando pensava com horror que ainda tinha muito
para estudar. E agora? Só quinze dias. Só meio mês e ficarei livre! De vez em quando,
tenho dúvidas: serei feliz quando tiver acabado os estudos? Terminarão estes sofrimentos
que me prostraram? Não será tudo como antes? Seria horrível!
Nestes últimos dois ou três dias tenho-me sentido muito desanimada. A sensação de ser
muito feia tortura-me como nunca. Quantas vezes me aproximei esta manhã do espelho,
olhando-me com repugnância! Acho-me tão horrível que nem consigo sair à rua. É
terrívelmente doloroso caminhar ao lado de todas aquelas pessoas simples e comuns,
respirar o mesmo ar que elas, olhá-las e reparar que mais de um par de olhos me observa,
talvez com silencioso nojo.
Já há alguns anos que comecei a espantar-me, a pensar como era possível que a Eugenia, a
Olga, a mamã, o papá, todos os nossos conhecidos e as minhas amigas pudessem olhar-
me, falar e rir comigo como com todos os outros. Como conseguem suportar o meu olhar,
disforme e detestável? Eu própria não consigo ver um estrábico sem sentir aversão.
Qualquer defeito físico é horrível, mas parece-me que este é um dos piores.
Quando era mais nova, com onze ou doze anos, magoavam-me muito as brincadeiras dos
rapazinhos e os seus gritos ofendiam-me. A coisa atenuou-se com o passar do tempo, e
hoje ligo menos, mas a imagem que tenho de mim é horrível. Gostaria de não pensar
nisso, de esquecer e não fazer caso, mas nos últimos tempos quase nunca consigo. Assim,
a felicidade é impossível... A juventude com a sua alegria fechou-me a porta na cara. Não
consigo estar no meio dos outros, que são jovens, despreocupados e felizes, e sentir que
perturbo o seu estado de espírito com a minha presença. Às vezes, quando estou na escola,
olho as outras raparigas alegremente nos olhos, como se não fosse nada comigo, sem me
importar, mas depois lembro-me de repente como sou e volto-me, pesarosa.
Ontem passei quase todo o dia a pensar no que me impede de me envenenar. É uma saída
simples e fácil. E acabarão todos os meus tormentos. O que me trava? O que me leva a
caminhar por estas ruas, olhando os transeuntes de soslaio? O que me faz estudar aguelas
lições odiosas e insuportáveis? O que me obriga a ouvir em silêncio e com o coração
amargurado, quando às vezes o Leuvka. de quem, apesar de tudo, gosto tanto, passa por
mim sem parar e me grita de repente «Luga. a vesga»?
Há uma maneira de me desembaraçar disto tudo, de acabar com estes sofrimentos. Sinto-
me na verdade atraída por esta vida transbordando
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de tormentos? Será possível que uma «brincadeira vazia e estúpida» possa atrair-me?
Continuo a sonhar com uma juventude maravilhosa, cujas portas estão fechadas para
sempre para mim. E também sonho vir a ser uma rapariga bonita, apesar dos meus olhos
estrábicos. Sonho mais estúpido do que este...

18 de Maio de 1933
A vida... é uma brincadeira vazia e estúpida! E, além disso, é uma brincadeira desgraçada,
malvada. Morreu a minha última esperança. Ainda há pouco pensava com prazer no Verão,
no facto de que seria feliz. Mas agora já não o espero. Como posso sossegar quando sei
que, daqui a três meses, começará de novo a mesma vida fútil e enfadonha de sempre? Tal
como agora, voltarei a tremer com as chamadas de Biologia e a decorar horas a fio coisas
que são absolutamente inúteis para mim. Mais uma vez, sem saber o motivo, tentarei pôr-
me à altura de alguém até que, percebendo que nunca o conseguirei, sofrerei e me irritarei
de novo. E para quê? A que propósito? Se calhar apenas porque é preciso fazer qualquer
coisa e decidiram encher-nos com muitas disciplinas. Bem, com tanta pancada na cabeça,
como é que alguém pode passar o Verão com sossego? Eu não.
Como seria feliz se me deixassem em paz, me dessem livros, me permitissem fechar-me
completamente em mim própria e esquecer o que acontece no mundo! Só então talvez me
sentisse verdadeiramente tranquila e satisfeita. Anteontem desapareceram os meus óculos;
perderam-se no nosso apartamento e sabe-se lá onde foram parar. Deu-me um nervoso...
Uma pessoa procura, procura e nada. E nem sequer sei quem posso culpar. É como se
todos tivessem combinado exasperar-me: um pegou neles, outro escondeu-me a bola, ou
então foi a Ksiusha, não sei.
E neste ponto toca a fazer o empréstimo para «O primeiro ano do segundo plano
quinquenal»’, uma coisa que me põe fora de mim. Ontem não resisti e arranquei da porta o
manifesto com a mensagem de propaganda.
Nota: Os cidadãos soviéticos eram «obrigados» a adquirir obrigações do Estado que
serviam para financiar projectos específicos, como no caso dos que eram previstos pelos
vários planos quinquenais. No essencial, isto correspondia ao pagamento de um imposto,
já que o valor destas obrigações nunca era restituído nas décadas seguintes. Foram pagas
apenas nos anos 80 e a soma devolvida foi à volta de um centésimo por cada rublo. Além
disso, muitos dos detentores das obrigações já haviam morrido ou tinham-nas deitado fora,
considerando-as papel velho. A venda destas obrigações era acompanhada de campanhas
de propaganda e manifestações.
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Ainda ontem, na escola, a professora de Biologia passou-nos os deveres para o Verão e


disse-nos que era imprescindível que os fizéssemos, por ordem do Governo. O Governo!
Como se atreve a dar ordens! Uma corja de patifes que se juntou para mandar no povo,
como se fôssemos obrigados a submeter-nos a eles, como se tivéssemos de obedecer a um
qualquer bandido judeu e venerar Estaline!
Hoje, a Eugenia anunciou que ia à manifestação para a emissão do empréstimo. «Vais?»,
exclamei, estupefacta. «É uma ordem. Não me pus a discutir, porque é inútil.» «Então vão
lá reclamar o empréstimo.
pus
Por mim. não o faria nem que me pagassem.» «Nós também éramos assim quando
andávamos na escola», objectou tranquilamente a Eugénia. quase com ironia. Oh.
velhacas!
Até se dão ao luxo de dizer com indiferença: «É uma ordem.» Não acredito! Que asco...!
Ah. povo russo, que dizer dos camponeses ignorantes e das massas operárias quando as
pessoas cultas e os estudantes aceitam tranquilamente semelhantes infâmias! Estão
prontos a apelidar de estúpidos os que se opõem ao Governo. «Vou para não me olharem
de lado», disse a Eugenia entre outras coisas. Ha, ha! Tem medo de perder as boas graças
dos superiores! E se os estudantes dizem isto, imagine-se as massas.
Não, os Russos não podem conquistar a liberdade e nem sequer viver em liberdade.
Encontram-se sob o poder de alguém desde que os eslavos chamaram os varangianos para
os governar.
E estarão sempre sob um jugo. Temos de concordar com as palavras de Turgueniev.
segundo as quais «para o povo russo, a liberdade é menos necessária do que qualquer
outra coisa». Não é necessária porque o povo não sabe defendê-la.
Nota: Mercadores normandos dos séculos ix-xi, que percorriam os cursos de água da
planície russa. Segundo a lenda, fundaram florescentes colónias comerciais, dando origem
aos principados de Novogorod e de Kiev, que se fundiram em 882, criando o Estado da
Rússia.

21 de Maio de 1933
Tenho mudanças de humor bruscas e frequentes... De momento, decidi não tentar
adivinhar o futuro e não pensar no que acontecerá daqui a três meses nem como
poderemos viver sem a Ju I. Não vale a pena fazê-lo, é estúpido e irracional reflectir sobre
isso; seja como for, não levará a nada. Só quero uma coisa: acabar a escola. É indiferente
como passarei o Verão e se serei feliz. Quero interromper todas as relações que tenho com
as pessoas, excluindo naturalmente a minha família, da qual não é muito difícil separar-
me, uma vez que já me afastei dela.
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Nos últimos tempos, tudo me irrita e me põe fora de mim: as animadas tagarelices da
Eugenia e da Olga. as suas discussões, a atitude que todos os meus familiares têm em
relação à política e todo o sistema político actual, que é insuportável. Cheguei a um ponto
em que nem sequer consigo responder com calma às perguntas que me fazem em casa
sobre a escola e como vão os exames. Fechei-me por completo em mim própria. É-me
doloroso e difícil suportar até as mínimas tentativas feitas pelos outros para penetrarem no
meu mundo interior. Sinto que ofendo toda a gente; sei que se preocupam comigo, mas
não posso fazer nada. Não, não é verdade que não possa. Dizê-lo não é difícil, mas logo
depois percebo dentro de mim contradições e confusões... receio que o mundo que
construí caia por terra.
E tenho um medo terrível porque, se destruir o meu pequeno mundo, liquidarei também
aquela tranquilidade relativa que, apesar de todos os sofrimentos, me é mais cara do que
qualquer outra coisa. Além disso, estou tão habituada a tudo isto que nem consigo
imaginar como pode viver-se de outra maneira. Estaria muito bem se não fosse esta gente
aborrecida e insuportável. Zumbem-me à volta como moscas, importunam, irritam e
desferem golpes onde tento proteger-me de qualquer contacto indelicado.

24 de Maio de 1933
Tive «Suficiente» no primeiro exame de ontem (a Ira também). Não me sinto muito
culpada por isso, a responsabilidade é da professora, que não nos deu nem tempo nem
mais livros para aprofundar a matéria e que, além disso, não nos explicou absolutamente
nada. Por isso, não estou muito amargurada, embora sinta um certo descontentamento, já
que este é o único exame que não posso recordar com grande satisfação.
À noite, estive muito tempo com a mamã e com a avó, esperando a chegada do papá. Para
minha grande surpresa, a determinada altura olhei bem para dentro de mim e percebi que
não queria que chegasse. Que descoberta horrível! Que asco, que horror! Não consigo
perceber porque senti uma coisa assim. Estava tranquilamente sentada a ler na poltrona, à
frente da mesa, e sabia que se o papá chegasse aquela serenidade me seria roubada. Teria
de deixar de ler, seria obrigada a sorrir e, o que é ainda pior, teria talvez que falar de mim.
O papá chegou por volta da meia-noite: já quase não o esperávamos. Tentando sufocar a
desilusão, levantei-me e fui até à entrada. Começaram as conversas e as perguntas.
Contou-nos que vive num sítio muito bonito e convidou-me para ir ter com ele logo que
acabasse
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a escola. Claro que disse que sim, mas... e os meus projectos para o Verão? Não estarei
mesmo destinada a realizar os meus sonhos? Pelo que o papá conta, parece que está muito
bem. Há cerejeiras-bravas e lilases. Corre um rio ali perto e há a toda a volta pequenos
bosquezinhos de bétulas, aveleiras e arbustos e, entre os seus ramos, centenas de
passarinhos.
Enxoto os pensamentos que o papá desperta em mim com estas descrições da natureza,
porque receio imaginar tudo de uma beleza exagerada.
Tento mesmo não pensar. Já sei por experiência própria como a imaginação engana
facilmente e como me é depois doloroso desiludir-me e separar-me das maravilhosas
visões criadas pela fantasia, para as substituir pela miserável realidade. Sei até muito bem,
mas neste momento tenho à frente dos olhos os arbustos de lilases, as flores brancas, leves
e transparentes da cerejeira-brava, as bétulas jovens de folhas encaracoladas e os
passarinhos, cujos trinados creio que nunca ouvi.

25 de Maio de 1933
Ontem, ao levantar-me da cama, nem sequer tive tempo de pousar os pés no chão quando
me saltou aos olhos a última gaveta da minha escrivaninha, onde costumo guardar o diário
e a roupa interior. A gaveta não estava toda fechada e viam-se bocados de tecido branco,
provavelmente de roupa tirada à pressa. Precipitei-me para ela e abri-a. O diário estava à
mostra, a roupa branca quase não o escondia. «Mas isto é suspeito. Alguém lhe terá posto
as mãos em cima?» Levantou-se na minha alma uma tempestade de indignação à ideia de
que alguém possa conhecer a minha vida interior, os meus desejos, aspirações,
pensamentos e sentimentos mais recônditos. «Fizeram mesmo semelhante coisa?» Passado
um bocado, a Eugenia trouxe-me uma pequena fronha de seda vermelha com uma
aplicação de croché. «Toma, Nina, é tua, não é?»
«É», respondi, pegando-lhe com indiferença. Logo que se foi embora, atirei a fronha com
raiva para cima da mesa, apertei a cabeça entre as mãos e exclamei: «Patifes! Velhacos!»
Aquela fronha estava exactamente na última gaveta. Portanto, não havia dúvidas, agora
era tudo claro. Agachei-me no chão sem saber que fazer e de repente lembrei-me que
estava há muitos anos no peitoril uma velha chave enferrujada. «E se funcionasse?»
Peguei nela e, depois de algumas tentativas, consegui fazê-la girar. A gaveta fechou-se.
A raiva que sentia por quem me tirara o diário estava a passar: «Agora nunca mais lhe
tocarão, tenho a certeza.» Mas quando à noite
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cheguei ao quarto, reparei que havia sinais de nova tentativa. Via-se que alguém tentara
abrir a gaveta, mas desta vez a chave salvara-me. Decidi descobrir quem fora e porque o
fizera. Perguntei à Olga: «Andaste a mexer na minha gaveta, que está toda de pernas para
o ar?» «De pernas para o ar ou não, queria abri-la. Fecha-la à chave?» «Fecho.» «Porquê?
Precisava do livro de plantas medicinais.» Não pude responder nada.
A angústia rói-me e consome-me o coração. Que devo fazer? Viver é tão aborrecido e
pouco interessante! Durante um ano inteiro, não pintei, não toquei e não peguei na caneta,
esperando o Verão com alegria e pensando na altura em que poderia por fim desenhar,
tocar e escrever. Ha, ha! Decidi que sou uma espécie de génio e que de repente pegarei
num lápis e começarei a desenhar maravilhosamente. Hoje à noite tive que assistir à
derrocada de mais este sonho. Desaprendi completamente de desenhar. As minhas
esperanças morrem todas. Despedaçou-se tudo aquilo para que vivi um ano inteiro, tudo o
que me entusiasmava e me mantinha viva; ficaram só uns pobres cacos. Que horror!
E isto enquanto a Eugenia e a Olga tocam, cantam e pairam alegremente. O coração dói-
me, sinto um nó na garganta que me faz sangrar. Vida horrível! De vez em quando,
apetece-me contar a alguém tudo o que me sufoca, tenho vontade de me apertar contra a
mamã ou as minhas irmãs e desatar a chorar, soluçando amargamente como uma criança.
Só assim me sentiria um pouco mais aliviada. Que devo então fazer? Não posso viver
assim. Se tivesse veneno à mão...

27 de Maio de 1933 [...]


2 de Junho de 1933
Eis-me de novo em Moscovo. Parti no dia 30 de manhã e cheguei ontem à tardinha. A
natureza do sítio onde vive o papá desiludiu-me? Oh, não! Fiquei muito impressionada e
espantada.
Eu e a mamã partimos de Moscovo no comboio das nove. Ia bastante gente na carruagem.
Avançávamos com uma lentidão irritante; as rodas ecoavam pesadamente. Um vento frio e
impetuoso soprava pelo postigo aberto; o céu, coberto de nuvens baixas, estava cinzento e
toldado. À frente dos nossos olhos desfilavam campos, bosques e pequenas aldeias; muito
perto dos carris, abetos baixos, plantados ao lado uns dos outros, estendiam-se numa fila
interminável. As suas copas escuras misturavam-se de maneira estranha com os pequenos
ramos de uma tenra acácia verde-clara.
71

Eu contemplava pelo postigo aberto a sucessão de bétulas, os abetos e, de vez em quando,


esbeltas faias acastanhadas. Talvez seja possível definir a natureza por palavras, descrevê-
la de modo a que possamos imaginá-la com as suas cores vivas e naturais. Oh, não, há
qualquer coisa de inatingível e insuperável que não pode ser descrito por palavras e que só
um artista genial consegue captar. Desde o momento em que comecei a escrever que o
meu objectivo é dar uma imagem da natureza; esforcei-me muito, mas... não consegui
nada. Decidi tentar escrever, não com a caneta nem com o lápis, mas com o pincel; de
facto, dantes sabia desenhar. Depois da escola talvez possa ir para o Instituto Têxtil
especializar-me na vertente artística. Claro que terei de trabalhar e penar muito, mas... e
depois?
A vida é mais fácil para quem tem um objectivo preciso. Para mim, o objectivo agora é
este.
Depois de Golitsyno, o comboio começou a andar muito mais depressa. Às vezes, a
velocidade era tanta que eu nem conseguia distinguir as verstás nos postes, que
desapareciam velozmente. Enquanto viajávamos, veio-me à cabeça uma boa ideia: porque
não reeducar-me? Porquê não ser feliz? Sei por experiência própria que nunca conseguirei
ser feliz continuando como sou; portanto, preciso de mudar. Nos meus sonhos, imagino-
me uma rapariga feliz e alegre, divertida e fogosa, com sede de viver, jovial e, sobretudo,
graciosa (não se riam^, por favor).
Nota: Antiga medida russa, equivalente a 1,067 km. (N. da T.)

Nalguns passos do diário, Nina dirige-se a leitores imaginários. Mais à frente, dirigir-se-ã
ao próprio diário, chamando-lhe «querido amigo».

Como se vê, descrevi o meu oposto. Mas não faz mal, é só uma desgraça pela metade: se
parar de pensar na inutilidade da vida e esquecer toda aquela série de perguntas-enigmas
insolúveis, posso vir a ser exactamente como quero. Mas como não pensar nisto tudo? É
verdade que posso pôr tudo de parte durante dois ou três dias, talvez uma semana, mas não
mais. Seja como for, enquanto estava naquela carruagem decidi regenerar-me. «Se
conseguiste forçar-te a ser infeliz, obriga-te agora a ser feliz», dizia a mim própria.
Com efeito, não fui sempre um bicho-do-mato, assim tão séria e calada. Houve um tempo
em que era como a maior parte das crianças: alegre, cheia de amor-próprio e até um tanto
conversadora. Uma vez, no Outono (lembro-me bem daquele dia), eu e a Olga estávamos
a conversar sentadas no peitoril, enquanto o tépido sol outonal caminhava para o
horizonte; recordo-me de que tinha na alma uma sensação de calor e prazer, leveza e
alegria. Falávamos sobre o facto de
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todos os homens desabafarem com alguém nos momentos de dor e não só... Vão logo
tentar contar aos outros qualquer novidade, por mais insignificante que seja. Fiquei
espantada e decidi que nunca faria
o mesmo.
De início, sofria terrivelmente. Acontecia-me ter vontade de contar muitas coisas e às
vezes até o fazia, mas ninguém me escutava com atenção. Pelo contrário, até notava que
aquilo que mais levava a peito não interessava nada aos outros. Nos meus raros momentos
de sinceridade, e exactamente porque tinha aprendido a calar-me por causa de tanto
sofrimento, exigia que quem me ouvia estivesse muito atento. Como, pelo contrário,
nunca era assim, fechei-me ainda mais dentro de mim mesma. O meu amor-próprio,
mórbido, não admitia estas faltas de atenção.
Assim, cheguei ao meu destino com a firme intenção de mudar.

3 de Junho de 1933
Demos alguns passos nos carris e vimos o papá. Vinha ao nosso encontro devagar,
apoiando-se num grosso cajado branco. Mostrava um cansaço profundo no corpo magro e
um tanto curvado e no rosto bronzeado, de barba comprida. O tempo seguia o seu rumo.
Entrámos juntos na estação, do lado onde havia tabuletas indicando «Sala de Espera» e
«Bar». À direita, perto da entrada, o papá pôs-se no fim da pequena fila que se formara
onde se vendiam jornais e revistas. Eu e a mamã aproximámo-nos de uma das mesinhas,
pousámos as nossas coisas nas cadeiras e ficámos à espera. Passados uns minutos, o papá
chegou com um jornal na mão e pusemo-nos a caminho. Uma vez atravessada toda a
cidade, metemos por uma estrada molhada e lamacenta, entre intermináveis campos
verdes e extensões de terra castanha lavrada.
O céu cinzento pairava, pesado, sobre as colinas, e chegavam-nos fortes rabanadas de
vento. A pouco e pouco, fui compreendendo que me tinha iludido ao pensar que poderia
ser alegre e feliz; deveria ter-me limitado a desejá-lo apenas. De resto, não devia
enfurecer-me nem irritar-me. Vimos, atrás de uma colina baixa, a curva cintilante de um
riozinho. Ao longo das duas margens, estendiam-se pequenos bosques de bétulas, matas e
arbustos.
Descendo a colina, vimos uma aldeola rodeada de árvores, aos pés da qual se enovelava
um rio veloz e tortuoso, salpicado de algumas ilhotas cobertas de matas e erva, no meio de
manchas de areia amarela.
Atravessámos uma pequena ponte para o outro lado e metemos por um caminho
escorregadio. À nossa frente, um arco semicircular,
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com o reboco a esboroar-se aqui e ali, passava por cima do caminho e unia dois casebres
de pedra de um andar. Entrando no pátio, subimos os degraus tortos e a abanar e chegámos
a um corredor. O papá abriu a última porta e entrámos no seu quarto. Era baixo e tinha um
tapete azul.
Apesar do ar um tanto viciado, a primeira impressão foi muito favorável. Reinava uma
penumbra agradável, proveniente de uma janela pequena, e viam-se algumas garrafas com
perfumados ramos de cerejeira-brava cheios de cascatas de flores brancas.
Havia uma mesa coberta com um papel branco perto da janela, ao longo da parede uma
cama simples de ferro com uma colcha azul-escura e, atrás dela, estava pendurada uma
prateleira grande com alguns objectos pequenos arrumados. Via-se uma outra prateleira
idêntica de frente para a janela e uma cómoda também tapada com papel branco.
Encostado a um canto, um monte de canas de pesca de madeira de aveleira. À direita,
perto da porta, um pequeno forno de tijolo. Aquele quartinho pobre, com a sua decoração
miserável, seria na realidade sujo e pouco atraente se não fossem as folhas de papel branco
na mesa e na cómoda, os perfumados cachos de cerejeira-brava e a penumbra azul, a cuja
luz suave todos os objectos pareciam mais belos e elegantes.

4 de Junho de 1933 ’
Nunca estive tão bem como durante esta viagem a casa do papá. Um não sei quê de
especial, extraordinário e poético irradiava daquele recanto perdido, encantando-me. Era
tão agradável voltar do rio a tremer, molhada e esfomeada, e acender o forno, aquecer-me
e estirar-me na cama a repousar, tanto a nível físico como moral!
Sentia-me feliz e despreocupada e o coração batia-me com serenidade quando, à noite,
com os olhos fechando-se-me de sono, me sentava à mesa perto da mamã, que cabeceava
enquanto esperava o papá. Como era agradável ler os contos de Turgueniev e ouvir o
pranto monótono da guitarra atrás da parede, as pancadas leves e uniformes das máquinas
da fábrica e as gotas que caíam com um chapinhar surdo! Estirava-me com prazer no duro
colchão de palha, tapava-me com uma manta quente e adormecia num sono profundo,
saudável e sem sonhos.
Ao fim da tarde do dia seguinte, decidimos ir pescar, apesar da chuva. O Moscova
arrastava com rapidez as suas águas transparentes e corria serpenteando como uma fita
cintilante através dos campos, entre os salgueiros chorosos.
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Foi junto deles que nos instalámos para pescar. Atrás de nós, entrevia-se a fábrica branca
através dos ramos das árvores; à nossa frente, o rio rumorejava quase enfurecido e
indignado, transportando as suas águas e agitando-as entre os braços para passar pelas
ilhotas que lhe barravam o caminho.
Sentei-me em cima de um pequeno cesto, embrulhada no casaco de carneiro. A chuva
tamborilava, raivosa, no encerado, e o vento frio e cortante agitava as árvores. Observei
como formava um grande vértice e redemoinhava nas copas encrespadas das bétulas, que
curvavam os troncos delgados, obedientes, cujas folhas murmurejavam lamentosamente.
Quando regressámos a casa, a escuridão já era total. Um forte aguaceiro estival substituíra
aquela chuvinha fina e fria. Que agradável caminhar sentindo-o fustigar-me o rosto!
Na manhã seguinte, eu e a mamã começámos a preparar-nos para partir. O vento amainara
um pouco, já não chovia e, em lugar das pesadas nuvens negras, o céu estava agora
coberto por um denso véu cinzento-amarelado, que pairava imóvel. Elevava-se do rio uma
névoa branca e espessa. Saímos de casa por volta das dez. Beijei o papá com emoção,
porque tinha um bocadinho de vergonha de não ficar com ele.
O caminho amarelo e lamacento estendia-se à nossa frente como uma fita sem fim.
Passadas algumas horas, vimos Mozhaisk. Passando pelos quintais de trás das casas e
atravessando as hortas, chegámos por fim à estrada que ia da periferia ao centro da cidade.
Algumas pequenas casas decrépitas erguiam-se dos dois lados da via enlameada e
esburacada. Percorrendo-a, fomos dar a uma colina alta onde se encontrava o centro de
Mozhaisk. Passámos um largo e seguimos por uma ruela em direcção à estação,
embelezada por umas árvores pequenas que despontavam de quando em quando entre a
erva, e por um canteiro solitário, perto da estátua de Lenine.
De certeza que o monumento era uma das atracções da cidade de Mozhaisk. Fosse lá
quem fosse que a tivesse criado, tentara provávelmente fazer uma caricatura e nunca
esperara que a sua obra acabasse num lugar de honra. Via-se no pedestal um pequeno anão
pintado de forma a parecer mármore, com as pernas curtíssimas e uma grande cabeça
calva. Era pela cabeça, pela barbicha saliente e pela pose de orador que se percebia que o
homenzinho, que por trás se parecia com um bloco de pedra grosseiramente talhado, não
era outro senão Lenine. Ainda não era meio-dia quando chegámos à estação. Cansadas,
apanhámos o comboio para Moscovo.
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10 de Junho de 1933
Os dias passam, monótonos e enfadonhos, mas a tal ponto fugazes que sinto que estes três
meses de Verão passarão sem deixar rasto. Não terei tempo nem para me habituar a esta
nova situação, nem para retomar uma vida normal. Espero o início das aulas quase com
impaciência, para me afastar de mim própria, esquecer e não pensar em nada. Ontem à
noite, quando me preparava para dormir, a Olga veio ter comigo. «Ah, professora!», disse,
dando-se ares de importância. «Todos nós achamos que vais ser professora.» «Quem são
esses todos?», perguntei, de imediato interessada. Espantava-me que falassem de mim
nestes termos, mas ao mesmo tempo estava contente porque, diga-se o que se disser, tenho
um orgulho diabólico.
«O que vais ser?», continuou a Olga, sem responder à minha pergunta. «Estás a crescer de
uma maneira muito séria e taciturna.» Já deitada na cama, pensei que eles decerto não
sabiam que a sua professora sofria noite e dia. É ridículo ler a uma pessoa qualquer esta
palavra: «Sofre.» A resposta espantada e desdenhosa será: «Sofre o quê? Finge.» Finjo?
Nem eu sei. Só sei que estou mal, que uma pedra me sufoca o coração de uma maneira
insuportável. Para quê sonhar com o futuro? Não prevejo nada de bom, ninguém me
arrancará do coração esta rocha com a qual não posso ser feliz. Pode-se vir a ser alegre e
vivo. Tudo isto é possível, mas não se pode vir a ser feliz.

20, 24, 28 de Junho de 1933 [...]

29 de Junho de 1933
Ontem li «Gogol no Liceu». Todos os grandes escritores tinham alguma característica
específica, qualquer coisa de extraordinário, de fora do comum, desde pequenos.
«Gogol no Liceu» faz parte, juntamente com «Gogol Estudante» e «A Escola de Vida do
Grande Humorista», da trilogia biográfica dedicada ao grande escritor Nikolai Vasilievitch
Gogol (1809-1852), escrita por Vassili Petrovitch Avenarius (1839-1923) por volta de
1910.

Gosto muito de ler textos sobre a infância dos grandes homens, e faço-o com dois
objectivos: em primeiro lugar, dá-me muito prazer e, em segundo, tento descobrir alguma
semelhança entre mim e eles. Do exterior, pode parecer ridículo, mas, por outro lado, que
me resta fazer? Tentei todas as vias e o meu talento ainda não se revelou. Se a esperança
enfraquece a cada dia que passa e não há nada para a alimentar, não tenho outro remédio
senão recorrer a este último expediente. É natural que encontre com frequência
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analogias, mesmo pouco perceptíveis, entre mim e um escritor. Se não me sinto gratificada
de todo, pelo menos sinto-me aliviada.

4 de Julho de 1933
Marfin Brod, Mozhaisk
Hoje o tempo está horrível e tenho de confessar que estou a aborrecer-me imenso. Não
tenho absolutamente nada para fazer. A Eugénia e a Olga desenham. Por mim, leria com
prazer, mas não há livros: ficou tudo naquela desgraçada bagagem. Felizmente, ao menos,
mudamos para um quarto maior. Deve ser o triplo do primeiro e tem uma vista belíssima.
O tecto e as paredes são caiados e duas grandes janelas italianas, de onde se vê o parque,
abrem-se para o campo. À tardinha, o sol atravessa os vidros e projecta os seus raios
tépidos no chão e nas paredes brancas.
Às vezes, eu. a Eugenia e a Olga discutimos a situação actual, as condições dos operários,
a cultura e muitas outras coisas, sempre com o mesmo estado de espírito. Elas esforçam-se
por defender a situação em que vivemos, enquanto eu. pelo contrário, sou sempre muito
crítica. Mesmo quando já não tenho mais argumentos e não me resta senão calar-me,
continuo na minha. Nunca poderei concordar com elas e reconhecer o verdadeiro
socialismo no sistema actual, nem pensar que os horrores a que assistimos fazem parte da
ordem das coisas.

8 de Julho de 1933
Marfin Brod, Mozhaisk
No dia 5 à noite, o papá e a mamã partiram para Moscovo. Que melancolia! É tão estranho
ver a cama vazia da minha mãezinha, ouvir o riso louco e pavoroso da coruja ou o seu
grito prolongado e pensar que a minha querida mamã está muito longe! Nos últimos dois
dias, a chuva caiu quase sem parar, só houve breves interrupções. Ontem e hoje fomos ao
bosque à procura de cogumelos; todas molhadas e a tremer, com as saias tão encharcadas
que até estavam negras, abrimos caminho entre as bétulas, sob os ramos verdes, dos quais
caíam milhares de pingos frios ao mínimo sopro de vento. Despontando de repente, o Sol
espalhou os seus raios pelo bosque. As gotas de chuva que pendiam das folhas e na erva
verde e fresca acenderam-se como milhares de luzes. Tudo se iluminou à minha volta. Das
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profundezas da mata, dos troncos cobertos de musgo, dezenas de minúsculos e reluzentes


sóis olharam para mim.
Por mim. chamaria desmiolados a todos os jovens de hoje em dia, em geral, e à Eugenia e
à Olga em especial. E isto é verdade!
Tentemos comparar os estudantes de antigamente com os de hoje. É possível encontrar
alguma semelhança entre as pessoas toscas dos nossos dias, na maior parte dos casos não
emancipadas de todo, capazes de qualquer baixeza se tirarem o mínimo benefício disso, e
os jovens do século passado, cheios de vida, inteligentes, sérios (com poucas excepções) e
dispostos a sofrer por um ideal em qualquer momento?
Decidi comportar-me de outra maneira. Quero estar cheia de alegria de viver e ser jovial e
radiosa! Quero ser, pelo menos em parte, como eles. Oh, saberei ser assim! Tenho a
certeza. Basta-me esforçar-me um pouco e... serei completamente diferente.

12 de Julho de 1933
u
Marfln Brod, Mozhaisk
Há já dois dias que a incerteza me rói: vou para Moscovo a 15 com a mamã ou fico aqui
com o papá até ao dia 17? Tanto uma como a outra possibilidade são tão atraentes que não
consigo decidir-me. Ontem à noite, a minha irmã Eugenia estava de tão mau humor que
não fazia outra coisa senão resmungar, o que, diga-se, acontece muitas vezes. Discutiu e
zangou-se com toda a gente e mostrou-se especialmente insuportável comigo. Passou o
tempo a cobrir-me de insultos e comentários ácidos. Que raiva! Senti ferver em mim toda
a indignação que acumulei dia após dia desde que estamos aqui e apeteceu-me atirar-lhe
com o meu orgulho e amor-próprio feridos.
Mas fiquei calada e, fingindo que não estava nada ofendida, decidi esperar com
impaciência a altura em que poderei finalmente não lhe dirigir a palavra nem pôr-lhe a
vista em cima. Tentarei ser mais fria e reservada com ela, não discutir sobre nada e ter em
comum o mínimo possível. Mas isto são só pensamentos, que não podem concretizar-se a
partir do momento em que vivemos no mesmo quarto, passamos as noites na mesma cama
e estamos sempre a encontrar-nos cara a cara na nossa vida doméstica.
Este Verão passou todo no meio de discussões intermináveis. Chegamos a um tal nível de
mesquinhice que nem uma xícara passávamos umas às outras. Quando qualquer de nós
pedia à outra para fazer alguma coisa, só respondíamos: «Faz tu.» Tenho de reconhecer
que
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sou de gancho, mas o facto é que as minhas irmãs davam comigo em doida; queriam tudo
e estavam sempre a pedir-me: «Dá-me», «Traz-me», «Fecha» e por aí fora. No fim, quase
passámos a vias de facto, mas o pior foi quando ficámos as três sozinhas sem a mamã.
Foram dias incríveis. Discutíamos de manhã à noite e só se ouviam no ar as palavras:
«Animal», «Parva», «Idiota».
A que ponto se pode chegar! Por isso, agora, enquanto as nossas escaramuças continuam,
fico horrorizada só de pensar na nossa vida
em casa sem a mamã. A que se deve este deixar andar, esta incapacidade de autodomínio,
esta horrível mesquinhez? Como a vida estraga as pessoas! A mamã seria assim na nossa
idade? Claro que não. Mas é natural. Como não sermos mesquinhos quando é preciso
fazer
contas por cada pedaço de pão; como não discutirmos e perdermos
a cabeça quando sentimos no estômago uma fome insuportável que nos rói e nos devora?

Ontem, depois de ter pensado outra vez nisto tudo, decidi partir
para Moscovo. É tempo de repousar, já me atormentei bastante
para este Verão. E senti-me tão atraída pela cidade, os velhos hábitos, o meu quarto, a
querida maneira do costume de passar o tempo...

20 de Agosto de 1933 [...]

21 de Agosto de 1933
Sessenta copeques por um quilo de pão branco! Cinquenta copeques o litro de querosene!
Moscovo murmura. Nas filas, gente zangada. com fome, cansada, lança invectivas contra
o poder e amaldiçoa a vida. Não se ouve em lado nenhum uma palavra de defesa dos
odiados bolcheviques. Os preços sobem assustadoramente, desde o pão aos outros bens de
consumo. Sem querer, todos pensam: «Que acontecerá daqui a algum tempo, se agora o
pão já custa o dobro e dois quilos de batatas custam cinco rublos no mercado e
desapareceram das lojas estatais?»
O que comerão os operários no Inverno, quando já agora não há hortaliças, nada?
Nota: As lojas de Moscovo dividem-se em algumas categorias. Há as comerciais, com
imensas mercadorias de todos os géneros, que se át. vendem a qualquer um. São lojas
onde há sempre animação: senhoras maquilhadas e aperaltadas, com vestidos elegantes,
apertam-se nos balcões. É a chamada aristocracia soviética Cem segredo, naturalmente),
constituída na maior parte dos casos por judeus e mulheres de membros do partido e dos
seus funcionários. A gente simples não frequenta estes locais amplos, impregnados da
fragrância dos perfumes.
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As lojas comerciais encontram-se nas movimentadas ruas principais de Moscovo. As suas


grandes montras estão decoradas ricamente. à primeira vista, não passa pela cabeça de
ninguém que aquilo que aqui se vende custa fortunas e que é por isso que não se vêem
que aqui
operários. Há já dois anos que o Estado se lançou nesta especulação, com o objectivo de
eliminar desapiedadamente os «nepmen privados» e criar o «nepman estatal».
Nota: A NEP, ou «nova política económica», iniciada por Lenine nos anos 20, originou
uma espécie de «capitalismo de Estado» e o surgimento de uma classe desafogada,
constituída por pessoas chamadas precisamente nepman. Nina emprega a expressão de
uma maneira obviamente irónica. (Para mais informações sobre a NEP, ver Introdução, p.
18.) Torgsin é a abreviatura de torgovlja s inostrantcami, «comércio com os estrangeiros».

Em comparação com estas elegantes lojas, até se repara pouco nos pequenos
estabelecimentos de montras pequenas, mas recheadas de todos os géneros de produtos. O
transeunte pode ser tentado a entrar. mas acaba por parar à porta ao ler a tabuleta que diz
«Loja de acesso reservado». De facto, nem todos podem aí fazer compras.
Ao longo da Tverskaia e. sobretudo, da Petrovka. entre os muitos dísticos coloridos, dá-se
de caras com um cartaz sobre um portão: «Torgsin».
Estas lojas são como uma espécie de museus, onde se expõem produtos que eram de uso
corrente antes da guerra. Encontra-se aqui de tudo e. em comparação, até as lojas
comerciais são miseráveis. De facto, o comércio com os estrangeiros é muito activo e
também inclui os cidadãos soviéticos: basta que tenham ouro e prata. Estes «Torgsin» são
a prova evidente da derrocada do valor do nosso dinheiro: na verdade, o rublo vale um
copeque de ouro.
Por fim, a quarta e mais numerosa categoria de lojas: as cooperativas estatais, os
quiosques e coisas do género. Encontram-se espalhadas na periferia de Moscovo, longe
das ruas elegantes da cidade. Estão quase sempre vazias, salvo nos dias em que os
operários e os empregados recebem os seus míseros salários. Nessas alturas, vêem-se
longas filas cheias de gente e ouvem-se insultos e gritos.

Noite
Estive de péssimo humor durante os primeiros dois ou três dias. Perguntava com temor:
«O que me acontecerá se já cheguei a este ponto?» Passei serões inteiros, cheios de ócio e
angústia, vagueando pelos cantos. Às vezes, parecia-me enlouquecer. Tinha o coração
cheio de uma angústia desesperada e pesada. Ecoavam na sala o som do piano e
melancólicas canções. Ó Senhor! Perguntava-me, angustiada.
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o que estaria a acontecer-me. Seria assim todos os dias? (E a ideia do ópio voltava-me à
cabeça com insistência.) A revolta e a indignação quase me sufocavam, parecia-me que os
nervos me iam saltar a qualquer momento.
Sufocava nesta atmosfera horrível e penosa, roía as unhas, apertava a cabeça, tinha
vontade de chorar, de soluçar... Mas continuava a suportar tudo em silêncio, falava com a
mamã como se não fosse nada, voltava-me e mordia os lábios, atormentada, contendo as
lágrimas a custo. A certa altura, senti um desejo irreprimível de me atirar para o colo de
alguém, de me refugiar no seio de alguém que me amasse e compreendesse e de desatar a
chorar copiosamente, como uma criança. Oh, como me sentia só, abandonada e inútil
naqueles momentos!

28 de Agosto de 1933
A vida é só uma sequência de desilusões. O que tenho desde o nascimento? Desilusões,
desilusões, desilusões. Que me lembre, acompanharam sempre a minha vida. Primeiro,
foram as pessoas que me desiludiram, e depois o amargo e penoso desengano da vida.
Lembro-me do tempo em que o mundo me parecia muito belo. Naqueles dias, nunca
perdia tempo a reflectir sobre a injustiça da vida, ainda não sabia como as pessoas são vis,
via apenas o lado belo da existência e não olhava para lá das aparências. Foram tempos tão
felizes! Era a infância, com as suas alegrias e dores repentinas, a infância alegre e
despreocupada. Mas já passou.
Continua tudo a desiludir-me. A mamã, o papá, as minhas irmãs... Agora vejo tudo à sua
verdadeira luz. E convenço-me com amargura de que não há nada de belo neste mundo.
Só ainda não me desiludi comigo própria. Ha. ha! Não é estranho? Ainda acredito em
mim. estou convencida de que poderei ser feliz. Mas chegará o tempo em que até esta
confiança desaparecerá; quando me desiludir comigo própria, virão dias em que o
desencanto será ainda mais amargo.

31 de Agosto de 1933
Passam-se coisas estranhas na Rússia. Fome, canibalismo..} As pessoas que chegam da
província contam muitas coisas. Narram que não
Nota: Nina refere-se à fome que atingiu muitas regiões agrícolas da União Soviética
depois da colectivização forçada da terra, realizada entre 1928 e 1934. Em paralelo com a
«deskulakização», ou seja, a deportação de centenas de milhares de camponeses cuja
única culpa era possuírem algumas cabeças de gado e umas tantas alfaias, o Governo
soviético introduziu medidas duríssimas, entre as quais a requisição das colheitas. A
Ucrânia, em especial, foi atingida entre 1932 e 1933 por uma gravíssima fome que o
Governo de Moscovo não fez nada para aliviar. Pelo contrário, aproveitou a ocasião para
submeter a indómita população ucraniana.
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vão a tempo de recolher os cadáveres nas estradas, que as cidades da província estão
cheias de gente com fome, de camponeses dilacerados. Por todo o lado, horríveis roubos e
banditismo.
E a Ucrânia? A fértil, vasta Ucrânia... Que lhe aconteceu? Já ninguém a reconhece. É uma
estepe morta e silenciosa. Já não se vê o centeio alto e dourado nem o trigo sedoso e não
ondulam ao vento as suas espigas pesadas. A estepe está coberta de ervas daninhas. Já não
existem as grandes e alegres aldeias ucranianas com os seus casebres brancos, nem se
ouvem as vibrantes canções ucranianas. Aqui e ali, entrevêem-se aldeias moitas, vazias.
Os homens foram-se embora.
Os fugitivos chegam às grandes cidades teimosamente, sem parar. Mandaram-nos para trás
mais de uma vez. Longas filas condenadas a uma morte certa. Todos lutam pela
sobrevivência. Na tentativa de chegarem a Moscovo, as pessoas morrem nas estações
ferroviárias, nos comboios. E que acontece aos campos ucranianos abandonados? Oh. os
bolcheviques contornaram mais este perigo. Mandaram os rapazes do Exército Vermelho
colher os insignificantes lotes de terra semeada na Primavera.

4 de Setembro de 1933 [...]

5 de Setembro de 1933
Outono, alazão sacode a crina junto do rio, na sombra da mata, se difunde o estridor azul
das suas ferraduras [.. .f
Nota: Citação do poema «Outono» (1910), de Sergei Alexandrovitch Esenin (1895-1925).

Chegou o primeiro ataque de desconforto desde que começou a escola. Não é muito forte
e vai passar depressa, mas o problema não é esse. O facto é que está provado que não me
aguentarei nem um mês. Já faço votos para que a escola acabe depressa. Como
conseguirão a Eugenia e a Olga fazer tudo? Estudam muito bem, tocam piano, cantam,
dançam e ainda desenham. Decerto nasceram sob uma estrela mais afortunada, conseguem
tudo, todos as amam e admiram. E eu? O que sou eu? Começo a convencer-me de que não
sou capaz de fazer nada. Se às vezes me destaquei dos outros, foi só graças à incrível
perseverança com que estudo.
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Como é cruel a natureza e como escarnece de nós! Dotou-me de paixão, perseverança,


rara e extraordinária paciência e até de uma certa força de vontade, mas depois esqueceu-
se do essencial: o talento.
Como pude enganar-me de maneira tão atroz? Como pude acreditar que estava à altura das
minhas irmãs? Como pude pensá-lo? Não é ridículo? Não é grotesco uma pessoa ser tão
pateta ao ponto de achar que é inteligente e de se considerar um génio? Até a minha cara é
estúpida. É só ver este rosto obtuso, que nunca exprime nada, e estes olhos zangados e
idiotas. Ninguém se atreve a dizer que é possível uma pessoa ser inteligente com uma cara
assim. Porque é que o Criador troçou assim tanto de mim? Porque não morri primeiro?
Ah, a Eugenia e a Olga! Estudaram todo o programa da nona classe só num mês e
passaram com «Excelente» no exame de admissão ao instituto! Não faziam nada na escola
e eram sempre as melhores. E eu? Quem acreditaria que preparei apenas um exame de
Biologia até ficar com a cabeça a andar à roda, até à náusea, e que decorei todas as
biografias?

22 de Setembro de 1933
Meu Deus, que tormento!... Maldito seja o dia em que nasci, em que vi a luz pela primeira
vez. Agora compreendo porque é que os adultos gostam tanto de recordar a infância e a
choram com tanta saudade. Há dois anos, não o percebia. O que havia de belo na minha
infância? Nessa altura, parecia-me tudo horrível, mas agora, o que não daria para voltar
àqueles dias! Mas o tempo não anda para trás. Pelo contrário, passarão alguns anos,
terminarei a escola, inscrever-me-ei no instituto... Oh, então sim, terei de verdade
saudades da escola, da alegria e da liberdade! Sim, liberdade, porque, apesar de tudo, em
comparação com o que virá depois, isto é liberdade.
Na escola consigo esquecer-me de mim própria e dos meus pensamentos penosos e sem
resposta, e recomeço a viver e a agir. As aulas não são tão aborrecidas e insuportáveis
como o tempo que passo em casa, porque tenho à minha volta muitas outras pessoas,
muitos amigos com quem partilho os mesmos interesses e os mesmos pensamentos. Na
escola sinto-me grande e forte, sinto que todos vivem em mim e eu neles. Todos num e um
em todos.
Ontem, no encontro dos Pioneiros, a Liza caluniou-nos de maneira revoltante a mim e às
nossas colegas que se retiraram da organização.
Nota: A inscrição na organização dos Pioneiros era praticamente obrigatória. Quem saía
das suas fileiras ou se recusava a entrar, como no caso de Nina, era considerado suspeito
de oposição ao regime. O sistema do boicote, que tinha na recusa de falar com o
«subversivo» uma das formas mais difundidas, era um meio de ostracismo
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Se antes já ninguém gostava dela, agora tornou-se odiosa para todos. Discutimos
animadamente durante o intervalo e decidimos isolá-la. Quase todos nos apoiaram,
dizendo que estavam de acordo connosco. Oh. vai pagá-las! Não deixaremos que se ria de
nós, obrigá-la-emos a arrepender-se da sua língua venenosa. O boicote geral não é uma
brincadeira!

28 de Setembro de 1933 1
Deveres, meus Deus, tantos deveres! Malditos bolcheviques! Não pensam em nós, jovens,
não pensam que também nós somos pessoas. Um tal Bubnov’ Csabe-se lá que raio é,
porque não é um homem como os outros), diz todos os absurdos que lhe vêm à cabeça.
Escreve artigos nos jornais a propósito da escola, defendendo que é preciso ; aumentar o
estudo, a disciplina. Mas nenhum deles consegue compreender a coisa mais simples, e que
é que deste modo diminuem o nosso rendimento escolar.
Eu própria estou consciente de que comecei a estudar pior: perdi o interesse e tudo me
enjoa e me cansa. Esta manhã pensei que tenho de crescer depressa para me ir embora
deste país de bárbaros e selvagens.
Nota: Trata-se de Andrei Sergeievitch Bubnov (1884-1938), comissário do povo para a
Instrução e responsável pelas reformas do ensino dos anos 30.
2 de Outubro de 1933 [...]

17 de Outubro de 1933
Hoje, eu e a Ksiusha fomos passear ao Mosteiro das Virgens. Quando chegámos, tivemos
de parar numa curva para deixar passar um automóvel. Tinha um aspecto estranho, de
longe até parecia uma ambulância. As janelas eram muito grandes e estava iluminado por
dentro... Passou à nossa frente tão devagar e tão perto que distingui claramente as pessoas
que iam sentadas nos bancos. Eram cinco ou seis homens, dois vestidos à civil e os outros
com fardas militares.
Seguiam sentados em silêncio, imóveis, estranhamente tensos e observavam quem
passava.
Nota: Alusão a Estaline que, segundo se dizia, ia muitas vezes visitar a campa da mulher,
Nadezhda Sergeievna Allilueva, sepultada no cemitério do Mosteiro das Virgens.

O militar que ia sentado à janela mais perto de nós, olhou-nos longamente e até virou a
cabeça. Não pode ser, não nos teremos enganado? Seria ele?
Nota: Aqui foi apagada uma linha.

Não podia acreditar e


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ainda agora me parece impossível. Estugámos o passo. Mais depressa, mais depressa!
Tínhamos de chegar a tempo ao mosteiro. Talvez conseguíssemos vê-lo outra vez.
Seguimos quase a correr, porque havia muita gente na paragem.
Como os esporádicos lampiões reluziam debilmente, havia pouca visibilidade nas ruas.
Aproximámo-nos do cemitério.
Nota: Neste ponto, foi apagada uma linha.

Através do pequeno postigo dos portões de ferro fundido, via-se o caminho asfaltado da
entrada principal, no qual passavam silhuetas escuras de vez em quando. À direita,
erguiam-se algumas barracas de madeira para os operários. À nossa frente, estendia-se,
negra e comprida, a descida que ia dar ao lago, ao longo do qual corria o espesso muro do
mosteiro. Salgueiros negros e retorcidos debruçavam-se para a água e via-se ao longe uma
fila de luzinhas claras, onde ficava a rua que segue ao lado do rio.
A solidão e escuridão daquele lugar eram inquietantes. Tínhamos
parado na calçada perto dos portões e dissemos entre dentes, quase num sussurro: «O
automóvel pode estar ali atrás do muro, perto do
lago, onde não há ninguém.» Mas estava tão escuro que não tivemos coragem de nos
embrenhar naquelas trevas assustadoras. Ficámos durante muito tempo no mesmo lugar,
falando baixinho e esperando que
alguém tomasse aquele caminho. Por fim, passou um homem diante de nós, rumo ao lago.
Fomos logo atrás dele, metendo pela descida íngreme.
A visão do muro escuro e rachado era inquietante e a água estava calma e imóvel,
reflectindo os lampiões aqui e ali. Ao longe, havia algumas casas
na margem. Atrás de nós, ouviam-se vozes estridentes de mulheres ou crianças. Sentindo-
nos seguras, caminhámos mais depressa até alcançarmos a curva, onde as luzes da cidade
não chegavam e tudo parecia mergulhar nas trevas. Mais à frente, ouvi gritos de vozes nas
culinas. «Vamos voltar para trás! Seja como for, não nos servirá de
nada.» Regressámos a correr.
Os nossos passos ecoaram em surdina sob as arcadas de pedra da entrada. Ladeavam o
caminho densos grupos de abetos; não se viam campas nem cruzes. Foi tudo devastado.
No fundo escuro, recortavam-se os altos campanários da antiga igreja branca, com as
cúpulas douradas a brilhar. Alguns abetos azuis rodeavam um tabernáculo branco, também
ele com a sua cúpula de ouro. Na realidade, o que
queríamos?
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18 de Outubro de 1933 [...]


20 de Outubro de 1933
O papá conhece uma pessoa excelente, de nome Piotr Ivanovitchl
Ainda me lembro da primeira vez que o vi no Gabinete do Tesouro. Depois, mandaram-no
preso para o Norte porque descobriram que vivia sob um nome falso. Ficou lá seis anos e
regressou na mesma altura que o papá.
Nota: Piotr Ivanovitch Komarov, amigo e ex-colaborador do pai de Nina na cooperativa.

Uma vez, na Primavera, há uns dois anos, veio a nossa casa. Abri-lhe a porta e. enquanto
despia o casaco, um pouco tímido e confuso, meteu-me na mão um par de luvas cinzentas,
dizendo: «Tome, podem ser úteis.»
Aceitei-as e agradeci. «Se calhar é maluco.» Guardei-as com uma certa relutância. Eram
luvas mais do que vulgares, daquelas baratas, com os dedos muito compridos. Atirei-as
para um canto escondido da gaveta e tapei-as com outras coisas.
Recordei muitas vezes este episódio. Tentava evitar o P. I. e nutria por ele uma forte
antipatia. Mas, na verdade, devo esquecer a minha estranheza porque, sob todos os outros
pontos de vista, o P. I. é uma pessoa maravilhosa. Fala devagar, arrastando as palavras
como se cantasse. Tem um rosto tranquilo, bondoso e até talvez um tanto fleumático.

29 de Outubro de 1933 [...]

30 de Outubro de 1933
Hoje não há aulas... Esperei durante cinco dias e de repente... Que vida é esta?
Estragaram-me o dia livre! Resolveram chamar-nos à escola por volta das nove da manhã.
A Ksiusha deve chegar daqui a dez minutos, e pôr-me-ei a caminho. A vida humana é uma
coisa horrível. Um monte de contradições e mais nada. Não há verdade nem justiça na
vida, é tudo uma mentira, uma ilusão. A ilusão está até na própria verdade, em tudo, tudo,
e existirá sempre. Os homens nunca verão o tempo em que todos serão iguais no mundo,
em que uns não terão o direito de obrigar e ofender os outros, em que não haverá fortes a
decidir tudo e fracos sem direitos.
A vida é uma luta. E vence sempre o mais forte, que se eleva até ao céu, enquanto o fraco
lhe rasteia aos pés. E o que é a mulher? A mulher é um cão que aspira a elevar-se até ao
dono e que sonha
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ocupar a sua posição, mas que não consegue realizar este seu objectivo. O que é a
libertação da mulher? Uma miragem, apenas uma alucinação.

8 de Novembro de 1933
Era melhor nunca ter havido esta interrupção. Preferia que me tivessem engaiolado o
tempo todo em vez de me libertarem e me permitirem respirar a plenos pulmões, para
depois me fecharem outra vez. Como me parece estranho e grotesco lembrar-me do estado
de espírito com que ia para a escola no princípio do ano, quando achava tudo fácil e
interessante! Os meus projectos e as minhas esperanças! É incrível como era ingénua aqui
há dois meses! E agora? O que está a acontecer-me? Não tenho forças para estudar, mas é
preciso. Porquê? Sei lá! Todos estudam e é o que também farei.
Assalta-me de novo a mesma melancolia que sentia o ano passado, mas desta vez as coisas
estão um bocadinho mais fáceis, porque já não fico calada dias a fio, retorcendo-me de
dor, e às vezes até consigo falar sobre a escola com a mamã e o papá e amaldiçoar a minha
vida à sua frente. Ando incrivelmente pouco reservada, impaciente, estou sempre a
resmungar e a enfurecer-me. Que posso fazer? Além de não servir para nada, custa muito
viver em silêncio. Ah. como é horrível viver! Se a escola ardesse e nos deixassem em paz,
ficaria muito contente. Não posso fazer nada, descuidei os estudos e assim continuo.
Como mudar esta vida horrorosa? Às vezes invejo os tempos de antigamente, quando não
era preciso estudar e se podia fazer o que se queria durante todo o dia.
Passei estas festas de Outubro de uma maneira especial.
Nota: Referência ao aniversário da Revolução (ver nota da p. 39).

A 6 de Novembro, fui com a Olga ao Malyi Teatr ver a Liubov Iarovai. Havia já algum
tempo que não ia ao teatro. Tinha perdido o hábito e não me sentia atraída. Agora, pelo
contrário, tenho imensa vontade de ir. Na verdade, se calhar, nunca tinha visto verdadeiros
artistas em acção. Os outros também eram bons actores, mas não há comparação com o
espectáculo a que assisti desta vez.
Uma maravilha, um encanto!
Nota: Espectáculo baseado na peça de Konstantin Trenev (1876-1945), escrita em 1926.
Conta a história de um casal separado pela guerra civil. Ela é professora e torna-se
comunista enquanto ele permanece no Exército Branco.

A nossa vida decorre como de costume, aborrecida e insignificante, muito cheia de


futilidades. Em compensação, no palco, onde estas tontices não existem, a vida é
belíssima, belíssima tanto nos momentos de desespero como nos de louca felicidade. No
palco, podemos contemplá-la
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sem deturpações nem sujidades e começamos nós próprios a viver. Observando o


sofrimento dos outros seres humanos, sentimo-nos felizes e vivos. Esquecemos tudo, tudo,
e vemos à nossa frente apenas aquelas pessoas novas e interessantes, que têm em si
qualquer coisa de misterioso e fascinante, qualquer coisa que se chama vida.
Podemos viver só da vida dos outros. Não pertencermos mais a nós mesmos, não sermos
mais nós mesmos, mas sentirmos e vivermos o que sente um outro! Nunca tinha sequer
imaginado que as pessoas pudessem representar assim, com tanta naturalidade, sem
artifícios. Não, não consigo descrever a impressão profunda que produziu em mim. No
intervalo, fiquei sentada, sem vontade, esvaziada, continuando a rever mentalmente a voz
lacrimosa e sofrida da Liubov Iarovaia. Oh. meu Deus! Que boa actriz!
Nota: Nina refere-se à actriz Vera Pashennaia. Neste local, foram riscadas duas linhas no
texto original.

E o tenente Iarovoi? Como tremia a sua voz quando, apertando a cabeça, exclamava:
«Liuba! Não posso deixar-te!»
Enquanto os olhava, sofria duas vezes, atormentava-me com eles e por eles. Por que
lutavam? Porque estragaram tudo, perderam a vida e morreram? Aconteceu sentir-me
amargurada e ofendida em nome daqueles homens nobres, cheios de ideais. Como os
nossos infames bolcheviques troçaram deles, transformando as suas aspirações e os seus
sonhos em horríveis caricaturas, construindo sobre os seus sofrimentos e as suas vidas,
sacrificadas por uma grande causa, o bem-estar. a riqueza de Estaline. as atribulações de
todo um povo. Depois do teatro, a nossa vida pareceu-me ainda mais repugnante e
entediante...
Ontem fui com a Eugenia ver O Demónio.
Nota: Ópera de Anton Grigorevitch Rubinstein (1829-1899) e Pavel Alexandrovitch
Viskovatov (1842-1905), baseada no poema homónimo de M. I. Lermontov. Foi levada à
cena pela primeira vez no Teatro Bolshoi, em 1875

Tenho tido sorte nestes dias, pois é a segunda vez que vou de graça ao teatro. Mas a ópera
tinha um outro espírito e houve trechos que nem sequer ouvi, enquanto pensava na Liubov
Iarovaia.

9 de Novembro de 1933
Hoje não fui à escola e fiquei em casa todo o dia. Lá fora há neve e tenho vontade de ir
passear, mas não posso, não tenho tempo... Para que me atormento, para que fico em casa
dias inteiros em busca dos «Muito Bons», quando já esqueci tudo o que estudámos o ano
passado e, de certeza, que não me lembro de nada melhor do que
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o Alka? Eu devia era não querer saber e não me importar de ter «Suficientes». Então...
teria o dia todo livre: bastar-me-la querer e poderia passear, tocar, desenhar, escrever. Que
bom! Mas... sinto que não posso abandonar os estudos, não quero ser menos do que a Ira e
os outros. A invencível aspiração de ser a melhor em tudo é um impulso muito forte em
mim, sou excessivamente ambiciosa.
Estou sempre a pensar na maneira de me organizar para estudar pouco e me sair bem na
escola. Podia tentar fazer lá todos os deveres, ao menos os que fossem possíveis, decorar
menos as coisas e não me armar em parva. Talvez me habituasse num ou dois meses. Pelo
menos o ano passado dormia o que queria, mas agora nem isso consigo. Odeio mais a
escola e os estudos a cada dia que passa. Sonho com a liberdade, mas, quase sem me dar
conta, habituei-me de tal modo a esta vida aborrecida e monótona que já não seria capaz
de a abandonar, mesmo que a oportunidade se apresentasse.
Às vezes, apetece-me passear, rebolar-me na neve, mas sei que, no fundo, não tiraria daí
grande alegria, porque já estou habituada a viver sem isso. O ano passado era muito
estúpida: falava do Leuvka e era tudo muito ingénuo e velho ao mesmo tempo. Agora leio
e espanta-me como pude escrever tanta parvoíce. Talvez daqui a uns anos risque estas
linhas. Não fui à manifestação, porque na véspera deitei-me tarde e não me apetecia
levantar-me cedo.
Nota: O desfile comemorativo do aniversário da Revolução.

De manhã, ouvi na rádio os «Vivas!» e a orquestra. De certo modo, senti-me triste por não
estar a participar na vida colectiva.
Nota: Neste ponto foram riscadas quatro linhas ao texto original.

A juventude é bela porque aspira à luta, à justiça, procura a verdade e tenta alcançá-la;
depois, quando de experiência em experiência conhece realmente a vida, a vontade de
combater desaparece.
O jovem terá então de se resignar com os homens e a mentira, que sentirá crescer também
dentro de si, e não se espantará nem horrorizará quando perceber que tudo é miséria
moral, que «está tudo mal». Eu própria já me resignei com a vida: aquilo que dantes me
indignava já não me faz confusão. Ao princípio, senti-me feliz por ter começado a viver
com mais tranquilidade, mas, pensando bem, se calhar não há nada de bom neste
comportamento.

11 de Novembro de 1933
Adeus, Rússia maculada!
País de escravos, país de senhores.
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E vós, uniformes azuis.


E tu, povo submisso.
Atrás dos picos do Cáucaso,
Dos teus donos me esconderei,
Dos seus olhos que tudo vêem,
Dos seus ouvidos que tudo ouvem [...]
Nota: «Adeus, Rússia Maculada» (1841) é um célebre poema de M. I. Lermontov, escrito
pelo autor pouco antes da sua morte. Logo a seguir, foram riscadas duas linhas no texto do
diário.

Temos de amar a nossa pátria e a sua gente, mas é horrível viver entre selvagens, entre as
massas populares incultas e pouco civilizadas. Entre o rude povo russo, selvagem, que não
entende nada, não sabe nada, cruel, primitivo como uma fera, que só quer satisfazer as
suas necessidades e não conhece nem a honra, nem o orgulho.
Viver com um infinito rancor contra tudo e todos, a começar por baixo, pelos camponeses
ignorantes, odiar a multidão estúpida, que ora se submete até ao ridículo, ora se revolta de
uma maneira horrível.
Nota: Neste ponto, estão riscadas quatro linhas no texto original.

e aspirar a ajudá-la com todas as forças. Não há nenhuma nação no mundo tão vasta,
talentosa e ignorante como a nossa pobre «Rússia maculada».

12 de Novembro de 1933
Faço anos daqui a um mês e meio, mas isso não me faz mais feliz. Já lá vai o tempo em
que, ansiosa, contava os dias e as horas que faltavam. Forço-me a alegrar-me mas não
consigo. Há uns anos, pensava que o dia 25 de Dezembro seria sempre para mim uma data
de eterna felicidade, mas... Até ao ano passado, amava e esperava este dia, mas de repente
tudo mudou, sou outra pessoa muito diferente da Nina de outrora, tenho novos interesses e
desejos, e tudo o que me apaixonava no passado parece-me agora um tédio.
As velhas alegrias vão-se para sempre. É horrível. Vão desaparecendo com cada dia, cada
ano que passa, e a vida fica mais triste. Feliz quem ama e é amado; ou melhor, feliz quem
nasce sob uma boa estrela. Enquanto os «vencidos», como eu, não têm outro remédio
senão sofrer e chorar. «Que o vencido chore.»
Nota: Citação da ópera A Dama de Espadas, de Piotr Uitch Tchaikovski (1840-1893), com
libreto de Alexandre Sergeievitch Pushkin e representada pela primeira vez em 1890.

Para mim, o amor é um tormento inútil. Amo, amo a mamã, amo a Ju I., mas de uma
maneira dilacerante, aos soluços.
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Que maldição ser um monstro mas ter alma! Se tivesse dinheiro! Dinheiro, dinheiro! E se
o tivesse? Oh, iria ao teatro todos os dias, veria todos os espectáculos! Não precisaria
então de ter vida própria, contemplaria a dos outros e vivê-la-ia. Não teria nada a perder e
nunca seria infeliz, bem pelo contrário... Então porque comecei a ler livros e a estudar?
Porque queria aprender, pensar, compreender? Oh, se fosse uma moça camponesa inculta
e ignorante, então sim, seria feliz. Trabalharia muito, mas, em compensação, estaria bem e
divertir-me-ia.
Mais cedo ou mais tarde, virá o dia em que amaldiçoarei o momento em que nasci.

14 de Novembro de 1933
O meu estado de espírito muda a uma velocidade espantosa: ora estou desiludida e
melancólica, ora tenho um comportamento de desafio, ora me sinto invadida por estranhas
fantasias. Estas transformações irritam-me muito, fazem-me zangar e enervam-me.
Gostaria de ser sempre igual a mim própria: ou alegre e forte ou com ódio à vida. Mas o
horrível é que a minha alma não dá ouvidos nem à razão, nem à vontade.
Hoje, por exemplo, atormento-me, amaldiçoo a vida e estou com vontade de esganar toda
a gente, mas tenho a certeza de que amanhã já verei as coisas de outra maneira e a vida
não me parecerá tão horrível. Então, ponho-me a fazer os odiados deveres com prazer e
começo a construir um grandioso e brilhante castelo de desejos para o meu futuro. Mas
não tenho nenhum objectivo definido e real. Porque vivo? Em nome de quê? Só Deus
sabe, porque por mim acho que não sirvo para nada.
Até o meu diário, que deu origem a tantas reflexões e discussões, resolveu tirar licença.
Não tenho tempo e, a pouco e pouco, o desejo de escrever vai diminuindo. Mas alguma
vez tive mesmo este desejo? Não era só uma ilusão, uma vã tentativa de perseguir a
perfeição? Gostava de compor apenas na cabeça, mas no papel as coisas passavam-se de
outra maneira, o fervor desaparecia e não saía nada que se visse. Agora, nem sequer sonho
em vir a ser um génio, não tenho mais aspirações, já nem o meu «jogo» do costume
resulta.
Às vezes, interessa-me examinar o meu passado em pormenor. Em pequena, a minha
personalidade já mostrava algumas fraquezas: uma desconfiança que, por vezes, chegava
ao absurdo, uma índole sonhadora. Nunca contarei a ninguém quais eram os meus
pensamentos, as minhas expectativas e qual era ou como chamava ao meu «jogo». Nos
últimos anos, gostava de ficar sentada horas a fio no meu quarto,
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cismando, falando sozinha, sonhando, vivendo, refazendo a mesma coisa de mil maneiras
diferentes.
Quando tinha sete, oito anos, a minha circunspecção tornou-se doentia: em cada palavra
via um significado escondido, uma conjura contra mim, tinha medo de tudo e, quando
ficava sozinha, verificava todos os cantos e recantos para ter a certeza de que não estava lá
ninguém. Naqueles anos, acontecia-me muitas vezes ter sonhos incríveis, reais e
pavorosos, que esperava com horror. Acordava coberta de suores frios e com o coração a
galopar.
Havia um sonho que se repetia com frequência. Não queria dizer nada de especial, mas
provocava-me náuseas a nível físico. Tive a mesma sensação ainda durante anos, mesmo
quando estava acordada. Tentei compreendê-lo e analisá-lo com atenção para perceber as
razões, mas nunca consegui. Era tão estranho que acabei por pensar: «Não estarei doente a
nível psíquico? Isto não serão ataques de um determinado tipo de loucura?» Às vezes, há
momentos em que parece que vamos endoidecer, que qualquer coisa vai quebrar... é uma
sensação louca, selvagem e insensata. Grito como um animal amedrontado, berro tanto
que fico com os cabelos em pé...

18 de Novembro de 1933
«Que maldição ser horrenda!»... No último dia em que não tive escola, levantei-me muito
tarde, sorumbática, revoltada e pronta a debulhar-me em lágrimas. Estava de péssimo
humor. Depois, de repente, de uma maneira completamente inesperada, parece-me que me
caiu do céu uma ideia atraente, de que nunca me tinha lembrado: deixar tudo e estudar em
casa. O meu mau humor desapareceu num abrir e fechar de olhos. Ficaria em casa sozinha
durante todo o dia. Já imaginava o encanto daquela vida que revolucionaria os meus
hábitos: poderia tocar piano, escrever, desenhar, ler à vontade e, claro, estudar.
Este novo projecto atraía-me tanto que não pensei noutra coisa durante todo o dia. E
quando recomeçaram os aborrecidos e monotonos dias de trabalho, pareceu-me que era
tudo menos penoso e amargo. Adormecia e acordava com o mesmo pensamento imutável:
«Em breve, em breve.» As dúvidas assaltavam-me de vez em quando: «Se calhar vai ser
impossível. Que parvoíces inventei?» A alegria desapareceu a pouco e pouco, a escola
tornou-se insuportável de tão repugnante e horrível, os professores e os estudantes
nausearam-me, e o medo das chamadas deu-me volta ao estômago.
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29 de Novembro de 1933
Como e quando aconteceu... Que importa? O facto é que há já cinco dias que não vou à
escola. Estou em casa sozinha e passo o tempo bem e alegre: rio muito, sentada sem
ninguém, começo a correr pelos quartos sorrindo, toco piano horas a fio e leio um
bocadinho. A Ksiusha vem cá todos os dias contar-me as novidades da escola, esse lugar
com o qual me apetece cortar para sempre. Como me exaspera e me irrita esta falta de
liberdade, os laços que, de certo modo, tenho com esse mundo horrível e asqueroso, que
gostaria de esquecer de uma vez por todas! Por felicidade, pelo menos uma parte dos meus
desejos realizou-se.
O tempo passa veloz e imperceptível. Estudo muito menos e com mais prazer. A minha
calma só hoje foi um tanto perturbada. De facto, a Eugenia está de péssimo humor,
exactamente como me acontecia muitas vezes a mim, e contagiou-me: senti de novo uma
certa insatisfacão, uma espécie de raiva contra a vida. Ao almoço, o papá meteu-se
comigo:
«Vamos vaguear pela Rússia, Nina. Seja como for, não me darão autorização de
residência.»
«Vamos», exclamei, exultando com aquela alegria inesperada.
Imaginei logo cenas encantadoras... Bosques, campos, caras novas, cidades
desconhecidas... Torrentes rumorejantes, rios grandes e tranquilos. Teias de ramos e
folhas, erva perfumada, húmidas agulhas de pinheiro, um vasto e infinito mar de
ondulantes searas, o vento, o querido vento estival e, sobretudo, o céu azul, distante, ora
pesado ora acariciando, coberto de nuvens ou sereno, ridente à noite e turquesa de
manhã...
Espreguiçar-me no bosque, onde nunca pés humanos caminharam, ao lado dos troncos
verdes e cheios de musgo das bétulas, deitar o corpo na terra tépida, esconder-me entre a
erva cintilante, perfumada de saúde e alegria, e, com as mãos debaixo da cabeça,
contemplar os ramos entrelaçando-se e formando uma tenda viva e oscilante, onde as
pequenas folhas verdes se agitam, sussurram e brilham ao sol, onde as flexíveis cúpulas
das brancas bétulas se balançam, deixando entrever o céu azul, nítido e exultante,
inundado de raios de sol!
Para que preciso dos livros, de estudar? Não fui feita para passar a vida numa sala
sufocante, entre a loucura dos homens. Liberdade! O meu coração grita por liberdade.
Quero fundir-me com a natureza, levantar voo sobre a terra com o vento livre e voar... para
terras distantes e desconhecidas. E o facto é que me prendem, me atormentam, me
torturam e me envenenam a vida.
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5 de Dezembro de 1933
Também estes cinco dias passaram a correr. Quase nem me dei conta disso.A ideia de ir
outra vez para a escola é horrível, mas é preciso. Já começaram os exames do trimestre e a
mamã diz que não posso faltar de modo nenhum.Talvez não resista mais de cinco dias. A
escola já não me parece tão horrível como dantes, mas tenho medo de que tudo volte
rapidamente ao que era. Agora sinto-me muito bem, tranquila e alegre. Não vejo gente,
não tenho contacto com ninguém, estou sempre sozinha e não há ninguém para me
lembrar que sou feia e estrábica.
Eu própria também me esqueço, mas basta que veja um estranho, que troque duas ou três
palavras com ele, para logo, com penosa evidência, começar a imaginar o meu olhar
repelente e desagradável. Tento não fixar o interlocutor, viro-me e inclino a cabeça e sinto
dentro de mim uma revolta feroz contra todos e contra mim própria. É horrível saber que
sou feia, mas é ainda mais horrível estar entre gente normal, sentir que todos reparam
nisso. Pensam que sou assim tão taciturna e insociável por natureza, mas não! Não é por
acaso que se diz que «a alma dos outros é uma floresta impenetrável».
Nunca ninguém saberá que foi o facto de ser feia que me fez assim. Agora, sou um duplo
monstro: um monstro físico e um monstro moral. Um criou o outro. A deformidade física
tornou-me insociável e atormentada, deturpou, transformou a minha alma à sua imagem,
fez de mim um horrível poço de contradições. Obrigou-me a calar-me e a ser má, forçou-
me a sofrer. Apesar de tudo, no mais profundo da minha alma, às vezes sinto um desejo
ardente de ser uma pessoa como a Eugenia, a Olga, a mamã, como os outros. Sei que não
será possível e é insuportável.

15 de Dezembro de 1933
Os dias vão e vêm... Não depressa, mas inadvertidamente. A 19, tenho de ir para a escola,
e será ainda mais aterrador do que antes, porque desabituei-me das pessoas, tornei-me
selvagem e extravagante. O que pretendo? Uma única coisa: viver sozinha. Dantes não
pensava que a felicidade fosse tão pouco para mim. Este isolamento momentâneo não me
fez nada bem. Pelo contrário, perdi de tal maneira o hábito de estar com pessoas que até na
presença da minha família me sinto muito feia e não sei onde me hei-de meter.
Tudo me parece ridículo e disforme: as minhas mãos grandes e vermelhas, despontando
das mangas muito curtas, e o meu corpo curvo, que tento endireitar tornando-o ainda
menos natural e harmonioso.
Desde que estou em casa da avó que nunca mais consegui esquecer-me da minha cara, dos
olhos, do meu aspecto corcunda. É superficialidade? Não discuto, mas é horrível pensar
que as coisas que provocam tanta dor e sofrimento são apenas banalidades.
Talvez o verdadeiro problema seja este meu amor-próprio obsessivo e exasperado. Fazia-
me bem estar mais com as pessoas, habituando-me a não ligar ao facto de ser feia. Mas
faço exactamente o contrário. A mamã tinha razão quando dizia que seria ainda mais
difícil voltar à escola depois desta pausa, mas eu nem que me habituasse misturaria a vida
quotidiana no meio das pessoas com os meus breves períodos de solidão. Na verdade,
como são bons os dias em que fico sozinha e sou feliz (quase sempre)! O papá mete-se
comigo e diz que em breve me fartarei de viver como um eremita, mas está muito
enganado: quanto mais me encontro sozinha, mais prezo a minha solidão. Sim, percebo
que uma vida assim não agrade a toda a gente: o dia de hoje não é diferente do de ontem
nem do de amanhã. Mas, ao mesmo tempo, é tão bom!
Tenho tocado muito piano. Só é pena que ainda não consiga executar coisas difíceis. Mas
resolvi seriamente que vou aprender. Hoje vesti as calças de ginástica da Olga, corri pelos
quartos inundados de sol, saltei e brinquei com a Betka. Do lado de lá da janela, via-se o
céu azul, pequenas nuvens brancas, a neve e luminosos raios de sol. Tudo está silencioso e
tranquilo na minha alma: o paraíso na Terra. Quem trocaria isto pelo barulho e a vozearia
da escola, por aquela agitação sem fim e pelas aulas tão cansativas e aborrecidas?
Gostaria de saber o que pensam as outras mulheres e raparigas. Talvez assim conseguisse
compreender-me a mim mesma. Nós, mulheres, não nos conhecemos porque não temos
ninguém com quem aprender. Os grandes escritores são todos homens e descrevem as
mulheres do seu ponto de vista. Não nos conhecem. Mas para mim é indispensável saber a
opinião das mulheres, seus desejos e necessidades.
Por mim, sou um emaranhado do infinito caos de todas as aspirações e necessidades que
animam tanto homens como mulheres. E tenho muito orgulho em dizer que desprezo estas
últimas pela estupidez e impotência que demonstram ao serem incapazes de se subtrair ao
poder dos homens e de se libertarem da escravidão. Odeio esta fraqueza da personalidade
feminina.

16 de Dezembro de 1933
Hoje, a Ksiusha propôs-me de repente não ir à escola até às férias. Sentada a pensar o que
fazer, ouvia uma voz dentro de mim repetindo
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cada vez com mais insistência: «Fica.» Estou quase convencida de que ficarei em casa,
mas a decisão depende da mamã e do papá. No entanto, perante eles, sinto alguma
vergonha por mudar as minhas decisões assim de um momento para o outro. Em
compensação, como me atraem mais estes dez dias! E depois, mais outros quinze, livres e
despreocupados.
Hoje peguei nos meus velhos cadernos de 1928-29, li o que escrevi e não pude deixar de
rir. São tão ingénuos, pueris e simples! No entanto, já em 1929-30 se notam sinais das
minhas ideias no que respeita à colectivização, à ruína dos camponeses. Já então
começava a exprimir-me contra os bolcheviques, censurando-os pela boca dos meus
heróis. Eram textos sérios, com algumas analogias com a maneira como escrevo hoje.

20 de Dezembro de 1933
Encontro-me em casa... O tempo está ameno e tranquilo. As nuvens espalham uma neve
pequena e leve, que não é fria, mas refresca agradavelmente o rosto. Um manto azul cobre
o céu a ocidente e o horizonte entrevê-se, confuso, na névoa. E eu estou em casa. Às vezes
sinto uma grande melancolia, tenho saudades do ar gelado, do horizonte turquesa e do céu
luminoso e azul.
Voltei a prometer a mim própria passear todos os dias durante as férias. Se a Ksiusha
ficasse em Moscovo, iríamos juntas ao rinque de patinagem e correríamos nas Colinas dos
Pássaros. Mas vai para o campo e é a única pessoa com quem poderia passear. E agora?
Tenho de andar sozinha, olhando em volta a cada momento para ver se não terei algum
delinquente por perto. Ora, não é impossível!
Uma vez, ouvi por acaso uma conversa entre a mamã e o papá. Falavam de mim e
ficaram-me na cabeça sobretudo as palavras dele: «É tão limitada que não se interessa por
nada que não tenha a ver com ela. Até desaprendeu de falar.» Senti-me amargurada e
ofendida com aqueles discursos. Ao princípio, ainda pensei em ir falar com eles, mas
depois mudei de ideias. Para quê humilhar-me mais uma vez?
Vai ser difícil para mim viver neste mundo. Para que sirvo? Para trabalhar num escritório e
passar a vida a fazer contas infindas ou para ser professora de alunos indisciplinados,
odiosos, que troçam e escarnecem das pessoas? Destino pouco invejável! Nunca
alcançarei cumes mais elevados, porém, talvez, antes disso, os meus sonhos me tenham
abandonado e as minhas esperanças tenham morrido. Mas sei que viver será mais penoso.
Não é por acaso que os velhos recordam a mocidade com tanta emoção e triste alegria.
Como acabarei? A minha angústia, a minha melancolia...
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21 de Dezembro de 1933
A minha vida decorre em condições estranhas, pouco normais. Sou como um condenado
sem esperança de ser libertado e que, no entanto, sonha com a libertação. Passo o tempo a
pensar numa única coisa: isto é, em mim mesma. Na verdade, vendo o diário, não existe
nele nada a não ser eu. Sempre eu e eu. É verdade, durante muito tempo não escrevi mais
nada. Talvez desde a Primavera deste ano, antes do Verão.
Como amaldiçoei a escola e os estudos no ano passado! Mas na altura era mais fácil do
que agora. Para começar, agora sei cada vez melhor que vou decidir-me a abandoná-la. Na
altura, foi a Ju I. que me impediu de o fazer. Depois, no princípio do ano, o mérito foi, em
parte, do Leuvka. Agora a Ju I. foi-se embora e o Leuvka anda um brigão e um parvo.
Odeio outra vez a escola, como dantes. «Tédio e Tristeza!»-’ Tenho a alma vazia e sem
alegria e o coração cheio de angústia. No início do ano passado foi completamente
diferente. Se melhor ou pior, não sei.
Hoje folheei o diário, li uns excertos sobre o Leuvka e... fiquei envergonhada. Meu Deus!
Era tão parva! Como podia ser capaz de tanta estupidez? Esta história toda com ele é
horrível, só estávamos no quinto ano. Aquilo deve ter sido tudo inventado por mim e
quando penso nisso não posso senão desprezar-me, tanto por aquela estúpida paixão como
porque não a escondi das minhas amigas, da Ira e da Ksiusha. Que desonra! Correr atrás
dele, corar com cada olhar seu e sorrir feliz quando me dirigia a palavra!

22 de Dezembro de 1933
Há bocado, por volta das quatro, saí de casa para levar a Betka a passear. Ainda havia luz e
os campos estavam desertos e silenciosos. Meti pela rua que vai dar ao rio e fui atrás de
uma mulher. Tenho vergonha de o confessar, mas estava com medo da solidão que amo
tanto. No entanto, como era o meu primeiro passeio sozinha, sem companhia, é
compreensível que me sentisse um tanto estranha, visto que não tinha ao lado ninguém
conhecido.
Felizmente, a rua estava animada. De vez em quando, vinham-me transeuntes ao encontro,
atrás de mim caminhava um homem, e também passou um recoveiro com um bonito
cavalo a trote. Se desse passeios assim com mais frequência, talvez deixasse de ter medo
dos homens que encontro. Os homens estragaram-me a vida e ainda ma
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estragarão mais no futuro. E de quem é a culpa? Da mamã. Para que inculcou em mim
desde pequena este vergonhoso medo deles, proibindo-me de andar sozinha?
Como foi penoso reconhecer a minha impotência e nulidade, a minha involuntária mas
completa subordinação ao homem! Como podemos libertar-nos desta vassalagem se nos
encontramos sempre em seu poder? Por causa deste medo, perdi momentos belíssimos e
muitas horas que teria podido passar sozinha no bosque e nos campos. Tinha medo de
encontrar um «patife» que me agredisse de repente e sem motivo.
Mas ainda é tempo de mudar, e lutarei logo que se apresentar a oportunidade. Já não tenho
medo de andar sozinha de noite na rua, nem de descer as escadas desertas e escuras, o que
é um passo em frente.

24 de Dezembro de 1933
Tenho muita vontade de ir passear para a rua. Aborreço-me em casa e não me apetece
fazer nada. Nos últimos dias, comecei a descuidar os estudos, não consigo concentrar-me,
empenhar-me, sinto-me outra vez insatisfeita, assaltada por desejos confusos. É possível
ter-se uma vida de eremita aos quinze anos? Não haverá, nos melhores anos da minha
vida, nenhum prazer, nenhuma distracção, apenas um saber estéril, enfadonho e inútil, que
cheira a morte e putrefacção? Só tenho quinze anos!
É verdade que me desabituei de qualquer outro tipo de vida e que já não sinto nenhum
desejo urgente de alegria. A monotonia, a falta de interesses e os longos dias e meses
passados na solidão desembocaram numa angústia surda e infinita. Já não me interessa
nada: nem pintar, nem tocar, nem estudar seja que disciplina for, nem escrever.
Tudo é monótono e pouco relevante, tudo na vida implica obrigações inevitáveis e
aborrecidas. Nem o desporto, os patins ou os exercÍcios físicos me dão algum prazer.
Há algum tempo que, quando vou fazer alguma coisa, repito para mim própria: «É assim
que devo fazer», e não: «É assim que quero fazer.» Agora, como de resto era dantes, as
minhas ocupações preferidas são ficar muito tempo de manhã na cama, adormecendo de
vez em quando e sonhando sempre o mesmo, com diversas variantes. Digo a mim própria
que devo levantar-me, mas na realidade procuro prolongar este prazer o mais possível.
Às vezes, tenho muita vontade de sonhar, embora dê comigo a pensar, sem intenção:
«Porque são só sonhos?» Consigo fantasiar durante
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muito tempo, horas a fio, imaginando tudo com clareza, construindo os diálogos,
metendo-me na pele das várias personagens. O que quero muito é ler, ler sem parar, mas
também aqui as odiosas palavras «é preciso» não me dão paz, impedem-me de abrir os
romances e ordenam-me que mergulhe nos livros de História. E como gosto de
romances... Esqueço tudo, vivo a apaixonante vida de outro alguém, transporto-me para
um mundo desconhecido e maravilhoso.

26 de Dezembro de 1933
No princípio deste mês, comecei a suplicar à mamã que me marcasse uma consulta no
oftalmologista, no hospital. O meu defeito não me dava paz, ainda tinha muito viva a
lembrança da escola e das minhas relações com as pessoas. Lembrava-lhe todos os dias,
mas ela não fazia caso, com a desculpa de que não há dinheiro, mas de certeza era porque
estava convencida de que fosse uma coisa supérflua. Em parte tem razão, porque é
impensável que me façam a operação, mas continuei a ter esperanças. Agora, que passo o
tempo todo em casa sem ver ninguém, esqueci-me dos meus olhos e já não falo deles com
a mamã.
Ontem, de repente, lembrou-se sozinha e pediu ao papá, que, ao princípio, não estava nada
de acordo e agora não põe objecções, que me marcasse a consulta. Esta sua atenção
pareceu-me muito estranha. Não terão lido o meu diário? Só por ele poderiam saber
qualquer coisa. É muito plausível que o tenham feito, mas não estou nada angustiada por
isso. Olha, que leiam! Se não muda nada... Desde que não comecem a querer falar dele...
Se o fizerem, não ficarei calada e insultá-los-ei.
Os laços que me prendem à minha família são horríveis. Estou tão habituada à solidão e ao
isolamento que me tornei exageradamente independente e não suporto que me façam
observações ou me preguem sermões. Não quero ser assim, mas basta que alguém me
critique por alguma coisa para eu começar logo a responder torto e com maus modos. A
relação mais complicada que tenho é com o papá. Porquê? Não faço a mínima ideia.
Temos mais ou menos a mesma personalidade, e deve ser por isso mesmo.
Converso muito pouco com ele. Aliás, regra geral, falo tão pouco que chego a ser ridícula.
Mas quando nos pomos a discutir, acabamos sempre a insultar-nos. Sinto logo contra ele
uma irritação incompreensível, que não consigo controlar. Que diabo! Não consigo mesmo
dominar-me. O papá sempre foi um bocadinho rezingão, mas este defeito foi piorando
com a idade (como acontece quase sempre).
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Resmunga por tudo e por nada: contra a rádio, a mamã, nós, e sobretudo contra mim, que
estou sempre à mão. Resmungar faz-lhe tanta falta como comer e dormir.
Mas isto não me impede de o respeitar e estimar muito. Se há pessoa com autoridade e que
me serve de referência em quase tudo é o meu pai. As suas palavras são como ouro (quer
dizer, para ser mais precisa, só na política e no saber. As suas expressões rançorosas e
sarcásticas são verdades para mim. e quanto mais acutilantes mais prazer me dão. Admiro
muito o meu pai: de simples camponês, tornou-se uma pessoa instruída, inteligente,
surpreendentemente evoluída. Não é fácil, e claro que nós não lhe chegamos aos
calcanhares.
No que nos diz respeito, já temos pouca consideração por nós mesmas, mas o nosso pai
ainda tem menos. Critica a juventude soviética no seu conjunto, mas a nós, em especial,
considera-nos as raparigas mais estúpidas, subdesenvolvidas e limitadas da face da Terra.
O facto de sermos mulheres também contribui para isso. As mulheres são todas criaturas
ruins, não só para ele como para muitos homens. Ainda bem que não tenho nenhum irmão.
A diferença de tratamento entre ele e nós seria colossal.

1 de Janeiro de 1934
Há bocado, saí com a Ira para conversar um bocadinho. Com ela, não preciso de pensar no
que hei-de dizer, porque fala pelos cotovelos. Não me diverti muito. Pelo contrário,
pareceu-me quase ridículo caminhar ao seu lado, escutando aquelas suas aventuras
frívolas que não me interessam nada. É provável que também não estivesse a divertir-se,
mas continuou a descrever-me com grande prazer o tipo de vida que leva e a maneira
como passa o tempo com os encantadores colegas da sua amiga V.. que tem quinze anos, e
do seu admirador, um belo grego de trinta. Em sua casa há todas as noites namorico e
foxtrote.
Se fosse outra pessoa a contar-me, nunca teria acreditado que a Ira, com treze anos, leva
esta vida. Deste ponto de vista, parece muito mais velha do que eu. Já é uma rapariga
interessante, esbelta e alegre. que sabe falar e dançar com qualquer cavalheiro. Afirma que
esta companhia não lhe agradava ao princípio, mas que depois lhe tomou o gosto.
Eis como devem ser as raparigas! E não monstros como nós, pensando na igualdade e
exigindo ser consideradas pessoas. Quem
Nota: Foi riscada uma linha.
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culcou em nós estas ideias estúpidas? Porque nos envergonhamos quando os homens nos
pagam o eléctrico ou quando nos convidam para irmos ao teatro e compram eles os
bilhetes? Que parvoíce! Temos de compreender que somos só mulheres e nada mais e que
é ridículo e estúpido esperarmos outro tratamento.
Estou convencida de que a Ira não se espantará, antes ficará lisonjeada. quando um belo
dia aquele grego lhe estender o casaco ou se precipitar para a ajudar a apertar os
atacadores dos sapatos. E terá razão. A Olga acha normal que os homens dêem o lugar às
mulheres no eléctrico, mas eu ainda penso que é uma vergonha. Se perceber que o homem
é incomensuravelmente superior a mim. abandonarei as minhas aspirações à igualdade e
até ficarei satisfeita com as esmolas que eles nos derem.
Em suma, tornar-me-ei mulher e começarei a reparar nos sorrisinhos meio sarcásticos e
meio ofensivos com que nos presenteiam quando conversam com uma cortesia exagerada.
Hoje, o papá fez-me compreender com crueldade que não sou mais do que uma mulher,
dizendo:
«Vocês não se comparam aos rapazes, que são excelentes pessoas. Vocês são só
raparigas.»
Fiquei especada com um sorriso amarelo e não me zanguei. Deve ter razão, não há
comparação. E voltaram-me à cabeça os meus sonhos e as minhas aspirações, que nunca
se realizarão.

7 de Janeiro de 1934
Estava em casa sozinha: era a verdadeira felicidade. Dizia a mim própria que há duas
saídas: uma, mudar a minha vida, o que é impossível; a outra, acabar com ela, o que
também não é possível. Só tenho um remédio. E ria da involuntária falta de lógica da
alternativa: só me resta continuar a viver sem mudar nada. Mas será possível? Temos três
impossibilidades, e a última é a impossibilidade mais possível.
Esta minha impotência era penosa, muito penosa. «Posso envenenar-me», reflectia eu, «
não à socapa, como pensava antes, mas de uma maneira perfeitamente legal. Se alguém
me oferecesse por brincadeira um frasquinho de ópio, não recusaria e bebê-lo-ia
calmamente. Mas assim... sem ninguém saber... não posso. A perspectiva parece-me
estranha e assustadora. Que pensará a mamã? Que será da mamã e dos outros todos, mas
sobretudo da mamã?
Atormenta-me tudo o que é inevitável, enquanto o que sonho é impossível. A minha
solidão tortura-me, mas... porque não sei desembaraçar-me ou fugir dela?
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Ontem fui às Colinas dos Pássaros com a Eugenia e a Olga. Foi, nestes últimos dias, a
primeira hora feliz de esquecimento. Diverti-me muito e nem uma vez me lembrei da
minha cara feia. Foi como se tivesse ido passear sem mim.
São o meu rosto e o meu sexo que me atormentam mais do que tudo e com mais
frequência. Sou uma mulher! Há lá coisa mais humilhante?
Sou uma cadela! E, no entanto, acho uma ofensa e uma vergonha servir as refeições ao
papá e ao Kolia. Que direito têm de ficar sentados, conversando e rindo, enquanto sou
obrigada a levar-lhes colheres e pratos? Mesmo sendo pior do que eles, inferior a eles, que
importa? Sou um ser humano, uma pessoa livre! Quero ser livre!
Mas não, despedaçar-me-ão e obterão o que querem. Ainda agora o papá tenta fazer de
mim uma escrava humilhada. Deve querer que nunca me ponha a mim própria a pergunta
fatal que ele próprio me ensinou: «Que direito têm?» Acabarei por render-me? Não,
nunca!

11 de Janeiro de 1934
Há bocadinho, sentei-me na cozinha a desenhar. Não estava ninguém em casa a não ser eu
e a Betka. Nisto, ouvi baterem à porta de uma maneira que não era a nossa’ e que até
assustava, de tão insistente. Ainda continuei a desenhar, sem ligar. Já estou habituada a
estas coisas. Sabia que eram estranhos e não tencionava abrir. Se não fosse a posição ilegal
do papá, não haveria nada a recear, mas como vive connosco sem autorização de
residência, é preciso ter cuidado.
Nota: Desde o Verão de 1933 que a família de Nina tinha uma maneira especial de bater à
porta, de modo a poder reconhecer a chegada do pai, que se deslocava ilegalmente a
Moscovo, uma vez que lhe fora revogada a autorização de residência.

A polícia pode chegar a qualquer momento. Neste período, antes do XVII Congresso,
andam à procura de todos os que não têm documentos. De que têm medo? Não se sabe...
O desconhecido tocou e bateu durante muito tempo. Pus de lado o lápis e o papel,
descalcei os sapatos e fui para o corredor sem fazer barulho. Naquele momento, uma
mulher saiu do apartamento ao lado e disse em voz alta: «Não devem estar em casa.» «E
deixaram o cão?», perguntou uma voz masculina. O homem ainda bateu algum tempo. A
Betka. sentada no baú, ladrava furiosamente. De pé ao seu lado, sentia o coração
galopando-me dentro do peito.
Quando, por fim, a Betka deixou de ladrar, concluí que o homem se tinha ido embora.
Passados cerca de vinte e cinco minutos, porém, bateram de novo à porta, desta vez com
mais calma. Pareceu-me que
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foram três vezes, mas não tenho a certeza. A Betka começou outra vez a ladrar. Sem ousar
mexer-me, pensei: «Logo que for possível, tenho de escapar. Mas não posso fugir: o papá
pode chegar de um momento para o outro e tenho de estar em casa para lhe abrir a porta.
Seja como for, só espero até às quatro. Depois, pego na Betka e saio de mansinho para
casa da avó. O homem virá de novo?» Ainda faltava meia hora para as quatro e não sabia
como havia de a passar. Estava aterrorizada, não conseguia concentrar-me em nada.
Malditos bolcheviques, como vos odeio! Hipócritas, mentirosos e patifes...

17 de Janeiro de 1934
À noite, já passava das onze, enquanto estávamos a tomar chá, chegou o Kolia, que num
sussurro nos comunicou que o comité da administração do prédio tinha decidido fazer uma
ronda. «Tem de partir imediatamente», disse ao papá. «Já. depressa.» O papá estava
calmo, até parecia bem-disposto. se calhar por causa da singularidade da sua posição. No
entanto, continuou a beber o chá, acompanhando-o com pão. No entanto, notei nele uma
certa pressa e uma agitação mal controlada. Sem querer, pensei: «É preciso muito
autodomínio e muita força de vontade para se manter a calma numa situação destas.» Até
eu me senti nervosa e com o coração apertado.

18 de Janeiro de 1934 [...]


31 de Janeiro de 1934
O que me aconteceu? Há apenas três ou quatro dias, estava alegre e contente, ria e
conversava muito na escola. Depois, de repente, houve uma reviravolta e sinto de novo o
tédio e a angústia. Quero compreender o motivo desta mudança. Quero, mas por agora não
consigo. Correu tudo bem até 28, dia em que não fui à escola, porque o papá tinha
marcado uma consulta no hospital, com o Strakhov.
Nota: Famoso oftalmologista e cirurgião da época.

Um facto curioso: durante as férias, antes de recomeçar as aulas, sofria pavorosamente por
causa dos meus olhos. Receava voltar à escola, depois de uma interrupção tão longa, e
sentir a minha monstruosidade de modo especialmente doloroso. E afinal... nada! Nada me
perturba nem agita, esqueci-me de todo dos olhos e nem sequer queria ir ao médico,
porque «isto» já não me inquietava.
O Strakhov disse que é preciso operar. Não me admirei nem senti medo, porque já há
algum tempo que estou habituada à ideia. Mas
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também não me alegrei. De início, até me divertiu a ideia de passar uns dias no hospital e
fiquei de excelente humor: o que dantes era um sonho irrealizável ia agora concretizar-se;
aquilo que sempre me parecera incrível e angustiante era agora normal e natural.
O sonho era belo precisamente porque era um sonho, habituara-me a ele, amava-o, mas...
quando surgiu a possibilidade concreta de o realizar, assustei-me, senti que não devia
acontecer. Imaginava que passaria a ser normal, mas sabia que não era por isso que seria
mais feliz. Quer me façam a operação, quer não, é igual, nem penso nisso. Então porque
estou de tão mau humor? Será por causa do colóquio na escola? Não, não é isso.
Sinto toda a aridez e infâmia do que me rodeia, o que me sufoca de um modo terrível. Ver
a injustiça, a mentira e a crueldade e sentir-me impotente! Mas que fazer? O homem nunca
será completamente livre? A liberdade será só uma ilusão? Esta luta infinita que a
humanidade trava há séculos em prol da liberdade terá perecido em vão?
Ontem de manhã, elevou-se nos ares um balão em honra do XVII Congresso do partido.
Sem ligarem ao mau tempo e arriscando a vida, três homens corajosos voaram em
direcção às nuvens escuras e desapareceram na névoa húmida. Segundo as informações
recebidas do balão, alcançaram uma altitude de 20,6 km. As últimas notícias chegaram à
terra entre as três e as quatro da tarde. O balão começou a perder altitude e entrou num
banco de nuvens.
Nota: A 30 de Janeiro de 1934, a bordo do balão Osoaviakbim, Andrei Vasenko (1899-
1934), Pavel Fedoseenko (1898-1934) e Ilia Usiskin (1910-1934) atingiram os 22 000
metros de altitude. Durante a descida, houve uma avaria e o balão caiu. Os pilotos foram
sepultados na Praça. Vermelha de Moscovo.

Depois acabou tudo, durante a noite e a manhã de hoje não houve novidades. Soubemos à
tarde que se encontraram fragmentos do balão e dos cadáveres, terrivelmente mutilados.
Eram os três homens corajosos que o balão tinha levado no dia anterior para a remota
estratosfera. Estavam longe, muito longe, sozinhos no espaço infinito e no ar rarefeito.
Depois ouviram o vento sibilando-lhes nos ouvidos enquanto caíam em direcção à terra, a
uma velocidade incrível. Faltava-lhes a respiração e lá em baixo esperava-os a morte,
horrível e inevitável.

10 de Fevereiro de 1934
Tenho quinze anos. Dizem que são os melhores anos da vida, mas não acho. Quando era
pequena, vivia feliz por causa da minha
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estupidez infantil e da minha ingenuidade, feliz porque não lia e ainda não sabia nada.
Agora compreendi que a felicidade é uma parvoíce que não existe, que não é possível
encontrar no mundo. Às vezes, parece que está aqui sentada ao lado, chamando-me e
provocando-me, que me basta estender a mão para a possuir. Mas é um engano, uma
miragem. O que é a felicidade? Um deslumbramento de sol, que desliza pela parede e
pousa na minha mão. Basta fechar o punho e... nisto escorrega-me das mãos e, como uma
mancha amarela, salta-me sem barulho para o rosto e dedos.
Como hei-de viver agora? Porque é impossível viver assim! Que hei-de inventar? Se ao
menos tivesse alguém que me pudesse ajudar a encontrar o caminho! Pareço uma criança
que se perdeu numa grande cidade desconhecida. Caminha um dia, caminha dois,
pergunta: «Onde é a minha casa?» Mas a quem interessa onde é a sua casa, de onde vem?
Quem pode saber onde é a sua casa? Cada um segue metido consigo, absorto nos seus
próprios pensamentos, e a criança caminhará pelas ruas desconhecidas de uma cidade
estranha durante uma semana, duas, um mês inteiro, até que alguém lhe esborrache a
cabeça com uma pedra ou que algum pesado eléctrico a dilacere.
A minha situação é ainda pior, perdi-me de todo, não consigo ir para casa porque estou
num beco sem saída. Quem me dará a mão, quem ajudará a criança a encontrar a sua
«casa»? Ninguém me compreende, ninguém se interessa por mim, não querem ensinar-me
a viver! Cada um tem as suas preocupações, têm todos muito que fazer para poderem
interessar-se por mim. E eu? Bem, tenho vergonha de dizer que sofro, tenho vergonha de
me abrir com alguém. Mas a quem o direi?
Ao papá, que nos despreza, que está sempre a resmungar contra nós, que todos os dias nos
chama desmioladas, dizendo que não compreendemos nada e que somos estúpidas? A ele
que, quando lhe implorei a chorar que me tirasse da escola, tentou acalmar as minhas
lágrimas prometendo levar-me mais vezes ao cinema e aos museus? Como se chorasse por
um fugaz capricho infantil, como se me humilhasse ao ponto de chorar a frente dele
apenas por parvoíce!
Envergonho-me por não haver conseguido conter as lágrimas e por lhe ter dado um
motivo para dizer que sou uma criança superficial e tola. Mesmo que o diga só para si,
pensa-o sempre. Confiar a este homem a minha alma, as minhas inquietações e os meus
sonhos? Se calhar, ia sugerir-me outra vez que fôssemos ao Museu da Técnica. Podia
contar tudo à mamã, mas para quê? Talvez ela compreenda como tudo é insuportável para
mim e como sofro, mas não
105

perceberá porquê. Apiedar-se-á de mim, mas não me indicará o caminho e, no dia


seguinte, já terá esquecido toda a nossa conversa, pois precisa de ganhar o pão com o suor
do seu rosto.
Às minhas irmãs, nunca contarei nadinha. De resto, não me compreenderiam nem
poderiam ensinar-me nada, visto que só têm dezoito anos. Mas apenas por mim não
conseguirei encontrar a saída, perdi-me nos meus pensamentos e desejos, as dúvidas
assaltam-me, não me compreendo, só sei que estou sozinha, completamente sozinha no
mundo. Anseio tanto por um amigo, por carícias, por amor! Mas amar quem? Não me
refiro a nenhum rapaz, não, isso não, quero simplesmente amar. Porquê esta angústia? Se
nem eu sei... O que me angustia? A angústia não fala: chega, rói-me e dilacera-me a alma e
além dela não há nada. Quero livrar-me dela, acordar sentindo só leveza e serenidade. Ai,
vida! É coisa que nunca acontecerá. Este sofrimento inquieto matará a minha juventude.
O papá diz que a vida é uma luta, que é preciso lutar, mas como lutar, com que objectivo,
com que fim? Combater contra a angústia ou por dinheiro, não sei. Só sei uma coisa: sou
infeliz, pavorosamente infeliz, tenho o coração despedaçado. «Ah, quanto sofri, quanto
penei.» Se tivesse um objectivo que amasse e para o qual vivesse, então não teria medo de
me atirar para a luta!

17 de Março de 1934
Já estou em casa desde 4 de Março. Senti-me atraída pelo meu diário mais de uma vez,
mas não consegui concentrar-me. Os olhos doem-me, ficam logo cansados e ainda tenho
de copiar os meus apontamentos do hospital. Hoje também não vou poder escrever muito:
já passa das nove e a mamã deve estar a chegar. Estive muito tempo no hospital, aí uns
quinze dias.
Aquela vida nova e estranha pareceu-me amena, agradável: lembro-me vagamente, como
num sonho bom, do tempo da convalescença, quando passava dias inteiros na cama com
os olhos fechados, ouvindo de vez em quando os outros doentes conversando sobre vários
assuntos. Passava o tempo meio acordada e meio a dormir, num estado de debilidade
ensonada.
Habituei-me depressa àquelas pessoas estranhas, que ao princípio achava antipáticas, mas
com quem rapidamente encontrei afinidades. A dor, os medos comuns, a vida no mesmo
quarto, os mesmos desejos e interesses, tudo isto nos aproximou. Agora até lamento não
ter começado a escrever enquanto lá estava: já me esqueci de quase tudo, aquela
experiência tornou-se um emaranhado de lembranças vagas e confusas.
106

Depois de estar em casa há tanto tempo, fogem-me os pormenores dos dias que passei no
hospital. Como acontece muitas vezes, afastei os momentos mais difíceis e dolorosos.
Ficou-me de todo este período uma sensação confusa, mas agradável. Desde que
mergulhei de novo nos horrores da minha vida familiar, na angústia de não fazer nada, nos
desejos inúteis, comecei a ter saudades do hospital. Quem me dera lá!
Hoje à noite, sentada com a Eugenia, não conseguia esconder a angústia, tinha de
confessar a minha solidão. Pensei muito por onde começar a falar de mim, queria fazê-lo,
mas havia alguma coisa que me impedia. No fim, só disse uma frase:
«Ah, quem me dera no hospital!»
A Eugenia não ligou nada a estas palavras. Se as tivesse escutado com atenção, ter-me-ia
compreendido, talvez percebesse como estou mal.

18 de Março de 1934
Não há muito tempo, disse à Eugenia: «Eras capaz de me dar um frasco de ópio sabendo
que me envenenaria com ele?» «E porque não? Claro que sim.» «Eu não... Eugenia, estás
a falar a sério?» «Estou.» «Então dás-mo?» «Dou, mas arranja tu o ópio.» «Está bem. Mas
não me enganes.» De vez em quando, vem-me à cabeça esta nossa conversa. Repito a mim
própria que tenho de me envenenar. É estúpido viver quando sei que nunca nada mudará
no futuro, quando sei que toda esta longa vida será, tal como o dia de hoje e o de ontem,
apenas tormento, uma angústia sem saída. É estúpido e ridículo viver assim.
Mas como acabar com esta vida? Ainda tenho tantas coisas para fazer e tanta vontade de
viver! Todos os meus desejos estão ligados a esta vida. «Terminarei este caderno em
Março?», penso. E. um minuto depois, lembrando-me das minhas intenções: «Qual Março
nem meio Março, não haverá Março para ti!» É difícil morrer quando ainda não se
acertaram as contas todas com a vida. Tenho de me vencer a mim própria. Já vivi bastante
e já aprendi tudo, se não o faço agora... depois arrepender-me-ei.
A mamã gritou-me mesmo agora: «Não escrevas muito para os olhos não te doerem!» E
que me importa? Para que os quero? Mas então por que razão fiz a operação? Ah, pensava
que ia ser agradável! Mas não, nem nisso tive sorte! Hoje, observando as minhas colegas,
tentei com todas as forças manter os olhos direitos. Foi insuportável sentir um deles
afastar-se de moto próprio. Aproximei-me agora do espelho e olhei-me muito tempo:
«Não, continuo igual! É tempo
107

de morrer... Basta, já chega!» Mas não tenho vontade de morrer. Vou tentar superar-me
pela última vez. Tenho de ir buscar o ópio a casa da avó. Vou já... Ai, que difícil...

21 de Março de 1934
Naquele dia não me envenenei. Porquê? Na verdade, fui buscar o ópio a casa da avó, mas
acabei por não lho pedir. Sinto que não me teria envenenado mesmo que o tivesse. De
certo modo, fui lá apenas para satisfazer uma imposição odiosa, para me justificar perante
mim mesma. Seja como for, não me teria envenenado, ainda tenho muita vontade de viver.
Em todo o caso, enquanto me preparo para morrer, tenho de pensar no destino do meu
diário. Que será dele? É claro que, não encontrando nenhum bilhete, todos se atirarão a
ele, procurando explicações para um gesto tão estranho, e começarão a lê-lo, a julgá-lo e a
discuti-lo. E sei quantos sorrisos e risinhos despertará aquilo que tenho de mais secreto,
aquilo que escondi de todos e amei à minha maneira, aquilo que provocou em mim tantos
tormentos.
Queira Deus que o-meu diário não chegue às mãos do papá! Embora esteja morta, é
desagradável saber que começarão a caluniar-me, a definir-me como uma mocinha
estúpida e limitada, uma sonhadora sentimental e hipocondríaca. Talvez seja verdade, mas
não me perceberão, não compreenderão a minha angústia nem que sofria de verdade,
mesmo que por parvoíces, sofria a sério como nunca nenhum deles sofreu. Daqui a dez ou
quinze anos, as minhas irmãs falarão aos filhos com saudade e desdém da sua estranha
irmã Nina.
Nos últimos dias, tenho sentido às vezes um desejo fortíssimo de contar tudo a alguém, de
me abrir completamente, de gritar: «Quero viver! Para que me atormentam, me obrigam a
estudar e me ensinam boas maneiras? Não preciso de nada! Quero viver, rir, cantar, ser
alegre. Só tenho quinze anos. Afinal, este é o melhor período da vida. Eu quero viver,
ensinem-me a viver!»
Mas não direi a ninguém estas verdades. Não compreenderiam e rir-se-iam de mim. Nem
sequer tenho necessidade de que me compreendam. A única coisa que exijo é que me
tratem a mim e aos meus pensamentos seriamente e com um certo respeito. Que não volte
a acontecer aquilo que sucedeu recentemente, quando disse ao papá que me aborrecia e ele
me respondeu, rindo-se de mim: «Detesto as pessoas que passam a vida a dizer que se
aborrecem!» «Pois bem, fica a saber que nunca mais to direi!», repliquei com maldade.
Aconteceu a mesma coisa com a mamã.
108

24 de Março de 1934
A velha vida de sempre começa a dominar-me: de novo o mesmo silêncio, a mesma
angústia, os mesmos sonhos... Mais uma vez, dou comigo a baixar os olhos quando passo
pelas pessoas na rua, espreito obsessivamente cada olhar seu, às vezes mesmo casual,
tento não dar nas vistas, encolho-me, inclino a cabeça. De momento, a situação é pelo
menos tolerável, mas tenho a certeza de que não passarão mais de quinze dias sem que isto
tudo comece a enervar-me... Quando penso que tenho de me atormentar toda a vida por
culpa destes olhos, fico horrorizada. Já me estragaram metade da vida e se calhar vão
estragar-me a outra metade. Que posso fazer com eles? A que dedicar-me? Hei-de ser
música... pintora... ou escritora?
Já experimentei tudo. Reconheço que a música não me puxa: não me fascina nada e, à
parte um bom ouvido e a capacidade de memorizar depressa, não tenho nenhum talento
musical. Portanto, devo abandoná-la. Quanto ao desenho, comecei muito cedo. Lembro-
me bem do meu primeiro desenho: um casebre de camponeses, que copiei da caixa dos
lápis e aumentei várias vezes. Depois deste primeiro passo, apaixonei-me e fiz imensos
desenhos, uns copiados e outros que tirei da imaginação. E até tive sucesso. A mamã dizia
a brincar que eu ia ser retratista. Mas nunca me deu para pintar, desde o princípio que não
consigo trabalhar as cores com confiança. Por isso, odiei-as sempre e acabei por as ignorar
de todo.
Ser escritora também é uma hipótese atraente. Comecei a compor os primeiros versos há
sete ou oito anos e, a pouco e pouco, fui passando à prosa, porque não me-saíam grandes
poemas e me aborrecia estar uma hora às voltas com cada linha, escolhendo a rima certa.
Comecei com entusiasmo a escrever romances, contos e excertos. É difícil dizer se eram
bons. O que podia escrever uma criança ainda muito pequena, que tinha lido pouco e
vivido ainda menos? As minhãs obras eram ingénuas e, às vezes, estúpidas. Como não as
mostrava a ninguém, também nunca tinha críticas sérias. Se quiser ser alguém, será
necessário escolher uma destas vias. Mas qual? Não sei. E nos últimos anos deixei tudo,
porque perdi o interesse por tudo.

26 de Março de 1934
Por qualquer razão, lembrei-me do Verão passado, quando passei alguns dias com a tia, no
sítio onde trabalha. Como se estava bem! Havia um rio estreito e sinuoso, em cujas
margens se viam bétulas baixas e os imutáveis aglomerados de salgueiros, e aldeias aqui e
ali. Estava sempre sozinha e tinha medo de tudo: do roçagar das folhas
109

e do ranger dos pinheiros. Mas como a liberdade, o bosque e aqueles lugares remotos me
atraíam, decidi-me por fim a percorrê-los, apesar de ter um medo terrível.
A casa erguia-se na orla de um bosquezinho que subia uma encosta suave. Os pinheiros
cresciam no meio do matagal baixo e denso. Um caminho estreito, ladeado de abetos
jovens e densos, descia para um charco. Vagueava muitas vezes naquelas passagens
estreitas e caprichosas, com frequência enredando-me nos densos ramos espinhosos,
cobertos de finas teias e de tal modo entrelaçados que não filtravam os raios do Sol.
Às vezes, com um misto de medo e de secreto prazer, trepava aos pinheiros altos e ficava
ali sentada, longe de sol.
Numa ocasião, meti por uma estrada que, no fim, ia dar a um caminho ladeado de bétulas.
Alegres jorros de sol inundavam a erva húmida durante todo o dia. A pouco e pouco, o
caminho foi-se transformando num carreiro que se perdia no charco, onde os meus pés se
afundaram na erva molhada. À minha volta, tudo brilhava e cintilava à luz do sol.
Contemplei com atenção a sombra-escura dos arbustos e as folhas trémulas, tentando
gravar tudo na memória.
Mas passava a maior parte do tempo no cemitério, onde abria caminho por entre as cruzes
esquecidas e cobertas de ervas daninhas, disseminadas entre os pinheiros e rodeadas de
framboeseiros muito grandes, cujos frutos maduros colhia durante horas. À tardinha, ia
para aquela língua de terra contemplar as longas sombras azuladas das árvores, iluminadas
pelo Sol baixo, agora rosa-pálido. Também fui, mais de uma vez, a um grande charco onde
me punha a saltar de um lado para o outro ou a apanhar delicados miosótis húmidos entre
a erva molhada.
O meu diário está a acabar. Até que enfim! Por qualquer razão, esperava que isto
acontecesse com grande impaciência. Agora, parece-me natural perguntar: «Onde
escondê-lo?» É possível que haja uma busca de um momento para o outro. Podem
encontrá-lo por acaso e dar com palavras improferíveis sobre Estaline. Cairá nas mãos de
espiões, que o lerão e rirão do meu delírio de amor. É preciso escondê-lo.
110

Segundo Caderno
111

28 de Março de 1934
Ah! Ainda deu tempo para inaugurar este novo caderno em Março. Sente-se lá fora o
perfume da Primavera. A neve já derreteu quase toda, até fora da cidade há pouquíssima. A
água da Primavera inunda as hortas; os caules das couves, já do ano passado, parecem
pauzinhos secos nas plantas castanhas. A erva seca da estação anterior começa a verdejar
nos morros e nas pequenas colinas secas. O rio está grande e agitado. A água parece raiada
de aço por causa do gelo que ainda não derreteu. Alguns pedaços que ainda ficaram no
fundo emprestam à-superfície uma cor de ferro. A água ondula, inquieta, e faz
redemoinhar na margem argilosa e húmida as suas ondas pequenas, mas longas,
empinando-se ligeiramente na crista.
O vento forte abana com violência os pequenos e solitários grupos de árvores e parece
ulular entre os seus ramos ainda despidos. As Colinas dos Pássaros, que se vêem do outro
lado do rio, parecem miniaturas. Aqui e ali, vêem-se pedaços negros de terra sem neve,
que a água tornou viscosos. A verdadeira Primavera ainda não chegou. Vamos ver que
efeito terá em mim. Por enquanto, não me sinto angustiada. Pelo contrário, respiro com
intensidade este vento jovem. Não sinto mais nada.
Regresso à escola daqui a três dias; aliás, estou muito contente por conseguir não pensar
nisso. Comporto-me como se ainda tivesse duas semanas de férias. Por enquanto, trato das
flores: semeámo-las com a mamã e agora vou espreitá-las aí umas dez vezes por dia para
ver se já germinaram. Faço fantasias gigantescas sobre o futuro das minhas plantas (a
mania de sonhar nunca me abandona) e imagino que terei carvalhos até ao tecto e uma
grande tuia de ramos verdes e viçosos. Como embelezariam a sala! Mas é só um sonho.
113

Estou a ler «Atrás da Porta Fechada». É um livro que me proibiram de ler. Já mo tinham
tirado uma vez e não o vi em lado nenhum durante muito tempo. Encontrei-o por acaso e,
claro, que não perdi a oportunidade para o ler. Na verdade, se fosse só um romance
obsceno, não lhe ligaria tanto, mas as memórias deste médico, que tratava doenças
venéreas, estão a revelar-me uma quantidade surpreendente de coisas que não sabia,
abrem-me os olhos para uma vida, que, para mim, está coberta pela película do profano. É
uma desilusão contínua.
Livro de 1. S. Fridljand (1888-1960), médico especialista em doenças venéreas. Foi
reeditado cinco vezes entre 1927 e 1928.

29 de Março, 5 de Abril de 1934 [...]

11 de Abril de 1934
Acabou também a segunda semana. Não faz mal, sobrevive-se. Decidi fazer uma pequena
pausa e estou a estudar muito menos, mas juro que voltarei a empenhar-me a partir de 1 de
Maio, antes dos exames. A escola absorveu-me muito. Esqueci por completo o hospital,
apaguei da memória a Zara, que parecia uma japonesa com os seus olhos exóticos, e a
Niura, esbelta e minúscula, com a voz agradável, vibrante e o rosto simpático. Até me
esqueci da bela Nina, com os olhos grandes e expressivos, pretos, à sombra das pestanas
compridas.
De vez em quando, como numa visão encantada, vem-me à memória a alta enfermaria
branca, a cama macia e asseada e a figura severa mas simpática de Strakhov. O sol
também inundava a luminosa sala de operações. No entanto, estas recordações agradáveis
misturam-se de repente, sem eu querer, com a amargura e a revolta por a operação não ter
corrido bem. Penso muito pouco nos meus olhos. Preocupei-me tanto com eles que agora
estou farta, tanto mais que, com esta operação, a minha última esperança foi por água
abaixo. A revolta e as maldições do passado deram lugar a uma resignação surda.
Tento não pensar nos exames. Ainda falta, mas tenho muito medo. Estou a gostar da
escola, onde consigo afastar-me de mim mesma, olvidar as ideias obsessivas que vou
chocando na tentativa de ser feliz e até esquecer que serei obrigada a estudar ainda durante
muitos anos. Na escola, nunca me sinto sozinha, estou sempre rodeada de dezenas de
pessoas que vivem em situações semelhantes à minha. Depois, há os professores velhos e
novos, aqueles que se amam e os que se odeiam: acontece sempre qualquer coisa, todos os
dias há novidades.
114

Agir, mexer-me, correr pelas escadas, tranquiliza-me a alma e os pensamentos. Nos


intervalos, mas também durante as aulas, posso sempre falar e exprimir as minhas
opiniões, o que ajuda a sentir-me bem. Já não acontece nada de desagradável e tenho
relações excelentes, ou pelo menos boas, com as minhas colegas. Aos rapazes, pelo
contrário, nada nos une.
Estes últimos formam um grupo muito unido. Os dois indisciplinados da turma, o
Leidman e o Gorelov, foram expulsos já há algum tempo. Ficaram o Leuvka, o Budulia, o
Antipov, o Tolka, o Filia, o Timosha, o Zinok, o Linde, o Sakharov e o Uklon. São quase
todos sossegados e bons alunos e estudam com vontade. Andam metidos consigo e não
aborrecem as raparigas.
Acho muito simpático o Leuvka Popov, compridíssimo e ridículo. Tem um bonito rosto
sempre sorridente e alegre. Os seus olhos azuis brilham e cintilam. Chamam-lhe a atenção
quase todos os dias, mas não é um delinquente. Os seus disparates são sempre bem-
humorados e um pouco infantis. Fá-los de uma maneira tão despreocupada que não se
pode olhar para ele sem rir. É corajoso e tem uma «alma sincera», simples. Basta olhar
para a sua cara, um pouco descarada e estupidamente alegre, para se perceber o tipo de
rapaz que é.
O Budulia, o companheiro do Leuvka, tem os olhos azuis e límpidos e é um rapazinho
risonho, que dá gargalhadas altas e contagiosas. O Antipov, por sua vez, é um intelectual:
estuda bem e as suas piadas são argutas, mas tem um rosto banalíssimo, falando com uma
voz um tanto anasalada. O Tolka veio este ano para a nossa turma. Apesar de ser repetente,
é um excelente rapaz. Quando se ri, até é bonito. O sorriso torna-o mais belo: formam-se-
lhe nas faces duas covinhas alongadas e os olhos cintilam-lhe, astutos e maliciosos.
O Timosha, de rosto simples, tem feições de camponês. O mais antipático é o Zinok.
Chamam-lhe assim porque tinha um fraquinho pela Zina. Desde que aconteceram algumas
coisas desagradáveis, ninguém o estima nem gosta dele. Os rapazes estão sempre a meter-
se com ele e a irritá-lo. Tem um ar entre deprimido e esquivo: quando olho para ele, penso
sempre no ditado «Água mole em pedra dura tanto bate até que fura».
Não conheço nada bem o Sakharov, que só chegou à turma a meio do ano. É estranho,
taciturno e tem imensos «Insuficientes» por ser muito lento. Tem uma voz baixa,
profunda, e o rosto cor de azeitona; com os seus grandes olhos pretos e reluzentes, parece
um cigano. O Uklon é um rapaz magro, com o nariz comprido sempre vermelho, razão por
que lhe deram a alcunha de «bêbedo». Não é
115

muito inteligente e está sempre a resmungar, mas, por qualquer motivo, é o melhor amigo
do Linde, que deixei de propósito para o fim, porque tenho muitas coisas a contar sobre
ele.
12 de Abril de 1934
No início deste ano escolar, agradavam-me sobretudo dois colegas: o Leuvka e o Linde.
Por qualquer razão, o ano passado apaixonei-me pelo Leuvka. Bonito, de olhos azuis, filho
da Ju I, apareceu inesperadamente na turma e pareceu-me logo uma pessoa fora do
comum, diferente dos outros todos e, ao mesmo tempo, simples e alegre. O insólito
interesse que tinha por ele cedo deu lugar a mais qualquer coisa. Mas decorrido um ou
dois meses, comecei a examiná-lo melhor e percebi que é um rapaz normalíssimo. Durante
algum tempo, suponho que por hábito, o meu coração continuou a bater por ele, mas na
realidade já não sentia o mesmo de antes.
Agora, a minha atenção vai toda para o Linde. É muito janotarum tipo extravagante e,
embora não seja de uma grande beleza, a sua inteligência impressiona. Estudo-o com
atenção há muito tempo, mas não consigo compreendê-lo. Às vezes, aborrece-me o
sorrisinho de desdém e superioridade com que olha sobretudo para as raparigas, mas,
precisamente por isso, gostaria de merecer um daqueles seus sorrisos simpáticos e raros.
Porque é raro ele rir com sinceridade.
Quando sorri, levanta o lábio superior e deixa entrever os dentes brancos e esplendorosos,
parecidos com os de um roedor. «Quem é ele?», pergunto-me muitas vezes. Talvez um
génio extraordinário, talvez um parvo fenomenal. É isso que gostaria de saber.
Durante algum tempo, corremos como umas estúpidas atrás dele quando ia para casa e,
nas aulas, metíamo-nos com ele. Mas agora decidi mudar de comportamento e não lhe
ligar. Há dois dias que não vai à escola. Como uma parva, comecei então a fazer de conta
que era tudo muito enfadonho sem ele. Todos se riram, mas parece-me que a Ira acreditou.
Amanhã vou parar com a brincadeira, para este «fingir que estou apaixonada» não se
tornar exagerado.

18 de Abril de 1934
Ah, esperemos que o Verão chegue depressa! Não desejo outra coisa. O Kolia e a avó
dizem que sou uma preguiçosa porque já estou outra vez a pensar nas férias. Não é
verdade, mas preciso de sonhar ou desejar qualquer coisa.
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Agora estou sozinha em casa. A mamã foi a casa de uma conhecida e o papá também saiu.
De momento, as nossas relações são péssimas. Às vezes, não o suporto e odeio-o. É
horrível quando se mete na minha vida. Ontem discutimos por qualquer razão, chamou-me
burra e ofendeu-me, dizendo-me toda a espécie de baixezas. Jurei a mim mesma que as
nossas relações têm de mudar, porque a situação tornou-se insuportável. Decidi agredi-lo e
insultá-lo menos, mas, em compensação, não lhe pedirei mais nada nem procurarei os seus
mimos.
A sua prepotência põe-me fora de mim. Dou graças a Deus por não viver nos séculos
XVIII ou XIX, quando o pai era senhor absoluto da sua família. Não teríamos uma vida
nada fácil às mãos do meu estimado pai. A aversão que sinto chegou a tal ponto que, às
vezes, gostaria que não tivéssemos pai. Ao menos assim podia imaginá-lo um homem
bom.
A Eugenia e a Olga desaparecem dias inteiros no instituto, onde desenham e escrevem.
Parece que a Olga tem bons resultados, mas a Eugenia fica-lhe um pouco atrás. Tenho
pena por ela. As relações com as minhas irmãs melhoraram. Se calhar é porque nos vemos
pouco. Aqui há dois ou três dias, apeteceu-me imenso contar tudo à Eugenia, abrir-me
com ela com franqueza. Mas não pode ser, não consigo falar do estrabismo... Tenho muita
vergonha. Nessa noite, até chorei quando a Eugenia não estava a ver.
Há alguns dias que a minha alma trava um combate. Continuo com esta vida atormentada
ou devo tentar mudar? Pergunto a mim própria: «Um monstro não deve viver, não pode ter
amigos?» Sim, é preciso muciar. Se sou assim, paciência! Que diferença faz? Nem todos
podem ser belos, não vale a pena angustiar-me tanto. Tentarei não pensar nisso. Tenho que
ser um bocadinho mais alegre e sociável.
Em breve acabarei de estudar, em breve chegará o Verão. Sinto o mesmo do ano passado.
Não penso em nada, sobretudo nos exames, e não paro de sonhar. Espero fazer imensas
coisas novas. Se calhar, depois, não realizarei nem uma, mas é bom fantasiar. Tenho tanta
vontade de sol, de verde e de liberdade!

22 de Abril, 6, 8, 9 de Maio de 1934 [...]


18 de Maio de 1934
Sinto-me cada vez mais preguiçosa e apática. Hoje também não teria escrito se não fosse a
história de ontem. Não consigo livrar-me deste pensamento. Ontem a Ksiusha chegou por
volta das oito. Estávamos a preparar-nos para ir jogar à bola com a Ira quando, na altura
117

em que íamos a sair, começámos por acaso a falar com a Eugenia dos colegas da escola. E
a Ksiusha saiu-se com esta frase:
«Eu sei quem anda atrás da Nina.»
Desatei a rir e disse:
«Ora, ninguém anda atrás de mim. Quando muito, atrás de ti.»
A Ksiusha continuou:
«Um rapaz alto.»
«Como é, louro ou moreno?», perguntou a Eugenia.
«Louro, de olhos azuis.»
Naquele ponto, comecei a ficar zangada, mas tentei entrar na brincadeira e continuei a rir.
Mas a Ksiusha estava agitada e já não conseguia calar-se.
«E sabes como se chama?», perguntou à Eugenia. Então, virei-me e ameacei-a com o
punho, já sem rir. Só queria que se calasse, mas não me ligou.
«Tem um bonito nome. Chama-se Leuvka.»
Empalideci. Era a primeira vez que mencionávamos o nome dos nossos colegas na
presença das minhas irmãs.
Que fazer? Desatar a rir outra vez e ir-me embora? Foi horrível, infame da sua parte.
Percebi que não podia fazer de conta que não era nada comigo e que devia protestar, puni-
la por aquela graçola descarada e inadmissível. Atirando a bola para um canto, disse com
raiva:
«Já não vou. Vai tu sozinha.»
Estava mesmo zangada. Depois, sentei-me à escrivaninha e comecei a ler.
«Nina, vá lá», disse a Eugenia. «Olha que ainda penso que é a sério.»
Hesitei por um momento e depois precipitei-me para chamar a Ksiusha, mas já se tinha
ido embora e fartei-me de chamar estúpida a mim mesma por aquela tentativa falhada de
reconciliação. Queria ocupar-me a fazer qualquer coisa, mas não conseguia. Como um
episódio insignificante pode perturbar uma pessoa! Visto que não suportava ficar em casa,
saí.
Passei por casa da Ira, mas não estava. O meu humor era péssimo. Tentei mais de uma vez
repetir mentalmente a cena, para tentar perceber qual de nós duas tinha razão. A Ksiusha
tinha o direito de dizer aquilo? Era razoável eu ter ficado tão zangada? Mas os
pensamentos fugiam. Aborrecida e melancólica, caminhei sem pensar em nada. Passei
várias vezes por casa da avó e da Ira, enquanto repetia para mim própria, amuada:
«Parvoíces! Tudo parvoíces!» Se a Ksiusha tivesse dito outro nome, talvez o do Tolka, ter-
me-ia zangado? Reflecti muito nisso. Não seria tudo porque o Leuvka não me era
indiferente, porque sentia uma certa simpatia por ele? Sim, se calhar não tinha feito caso
se a Ksiusha dissesse outro nome. Mas que parvoíce! Pensava que de noite me acalmaria e
que na manhã seguinte me levantaria despreocupada. Mas não, desta vez não.
A mesma angústia, o mesmo tédio. Não me apetece estudar geografia e amanhã tenho
exame. A mamã chamou-me para ir passear, mas não fui. Não tenho vontade nenhuma.
Que farei com ela e com o papá? O papá recomeçará os seus sermões insuportavelmente
lógicos.
118

Nos últimos tempos, não o tolero. Zango-me a cada palavra sua, ofendo-o, espicaço-o, e
por mais que prometa a mim própria corrigir-me. não consigo.
Em parte por isto tudo, não suporto estar em casa, até tenho vómitos, e sinto-me atraída sei
lá para onde, para longe. Estudo pouquíssimo e quase não leio. Sinto-me sempre enfadada
e agressiva. Não tive sorte na vida. Penso muitas vezes que se calhar todas as pessoas são
assim, todos têm a mesma angústia. No entanto, vêm-me sempre à cabeça a Olga e a
Tatiana e fico convencida de que existem pessoas mais felizes do que eu.
Nota: As irmãs do romance Eugênio Oneguine (1831), de A. S. Pushkin (1799-1837).

Há bocado, fui para a rua. Está um dia quente, de Verão. O perfume era tão bom que até
cortava a respiração. A Eugenia e a Olga não estão na cidade. A mamã e o papá foram às
Colinas dos Pássaros. Por mim. não tenho vontade de ir lá. mas é exasperante ficar em
casa. Uma pessoa está sempre alerta, de ouvido à escuta para os passos e as vozes que vêm
da escada. A cada momento pode chegar alguém do comité de administração do prédio ou
da milícia a pedir informações do papá. É desagradável.
Estava pronta para ir ter com a Ira, mas mudei de ideias. Porquê? Tudo me é estranho e
hostil em casa dela. A Ksiusha, que é minha amiga, não está. Porque me aborreço com a
Ira? Porque não gosto das coisas que faz? Sinto-me superior, não me interessa dançar
foxtrote, ler a sorte nas cartas pensando nos rapazes ou passar o tempo em cavaqueiras
inúteis. Apetece-me estar com gente interessante e séria e falar de coisas importantes. Mas
isso nunca me acontecerá. Então, com que sonho? Um belo amor. Que parvoíce! E a
angústia. A angústia rói. Sinto na alma um vazio profundo e, ao mesmo tempo, um sufoco
e uma náusea. Que hei-de fazer? Como viver toda a vida?
Bem, amanhã há exames. Não me apetece estudar. De resto, quem estuda nesta altura?
Para os preparar, a nossa turma dividiu-se em dois grupos. O nosso é muito bom. A Ira, a
Zina, a Ksiusha, a Liza K, a Mussa, outras duas raparigas e todos os rapazes. É uma
alegria. Apercebi-me de que há períodos em que estou de mau humor. Agora é um deles.
Até na escola começo a aborrecer-me. Mau sinal. Ah, que a escola acabe depressa,
depressinha!
O céu está muito claro e já quase não há vento, mas tenho a janela fechada. Como livrar-
me desta angústia? Se a Ksiusha vier... mandá-la-ei embora ou nem lhe abrirei a porta. De
resto, quase de certeza que também está no campo. Mais ninguém pode chegar e, portanto,
a angústia vai consumir-me todo o dia. Brrrr! Agora, para me distrair, pus-me a
experimentar vestidos. Que rapariga séria!
119

Nos últimos tempos, eu e a Ksiusha tornámo-nos muito amigas. O que nos une? Ela é
alegre e eu também tento ser. Temos as duas pouca consideração pelas mulheres: da minha
parte, tenho uma péssima opinião, sobretudo de mim. Quanto aos homens, se bem que
muitas vezes os odeie e os ache uns patifes, estimo-os pelo seu pragmatismo e engenho e
pela habilidade que têm em manobrar a vida.

20 de Maio de 1934 [...]

27 de Maio de 1934
Só tenho mais dois exames e depois... basta! Vai chegar o Verão. Espero-o, mas sei lá
porquê! Tanto o dia de ontem como o de hoje (não estudei nada, embora devesse) já me
fizeram compreender como será. Que angústia, que enfado! Que horror passar o Verão
todo em Moscovo! Que farei? Nestes dois últimos dias, percebi perfeitamente como é
terrível estar só. A Ksiusha vai para fora da cidade e passou há bocado por aqui. Antes de
nos despedirmos, estivemos a conversar sobre todo o género de indecências inadmissíveis.
É incrível o poder de atracção que tem sobre mim. Mesmo quando consigo não ceder de
todo, o que ela diz acaba sempre por me impressionar.

1 de Junho de 1934
Parece que ainda foi ontem que pensava com angústia no tempo que faltava para começar
o sétimo ano e na altura em que, por fim, terminaria os sete anos da escola. Era um sonho
muito distante, irrealizável.. E agora é realidade. Passei para o sétimo ano. Mas não estou
contente ou emocionada, nem fico feliz por saber que a escola terminará em breve.
Pergunto-me porquê. Porque ainda me esperam longos e desesperados anos de estudos:
primeiro a escola superior, depois a universidade... A seguir, quando também a acabar, que
farei? Irei trabalhar? Pior ainda, ao menos quando se está a estudar espera-se que qualquer
coisa de novo aconteça no futuro...
Já não acredito nas minhas ilusões, o que me satisfaz muito. Decidi qual será o meu
futuro: o de uma pessoa simples, como tantas outras. Os sonhos são uma coisa
completamente diferente da vida; pelo contrário, distanciam-nos da realidade, são uma
maneira de nos fortalecermos... De momento, só de vez em quando sinto necessidade de
dar asas à fantasia. Sonho sempre com as mesmas coisas, com algumas pequenas
variações, mas vivo as minhas fantasias com uma embriaguez profunda, entrego-me a elas
de alma e coração. Imagino-me
120

completamente diferente daquilo que sou na realidade, daquilo que nunca serei na vida...
melhor, claro.
Que tédio! A apatia tomou conta de mim, de vez em quando tento sacudi-la, mas rendo-me
quase de seguida, enquanto procuro encontrar alguma calma e não pensar em tantas
coisas. Sinto um vazio na alma, que não sei como preencher. Ontem fui à escola buscar a
caderneta. Tive notas excelentes, mas não fiquei entre os melhores, porque não me
empenhei o suficiente na socialização. É pena. Tenciono não estudar nada no ano que
vem; se não mudar de ideias, tanto melhor.
Ficámos na escola mais de três horas, mas o tempo passou depressa e estávamos todos
alegres. A chefe do grupo pôs-nos a trabalhar aí uma hora. Encontrei o Leuvka, que foi à
escola pela mesma razão. Não há nada a fazer, sinto por ele o que não sinto pelos outros.
Quer dizer que gosto dele? Se calhar, mas não é o mesmo sentimento intenso e profundo
do ano passado: as emoções que experimentava não desapareceram de uma vez por todas,
mas transformaram-se em qualquer coisa que agora se assemelha mais à simpatia, ao
desejo de vê-lo mais vezes, de falar com ele, de fazer qualquer coisa na sua companhia.
Quanto ao Linde, pelo contrário, tudo mudou. É frequente achá-lo antipático e não me
apetece falar-lhe nem encontrá-lo. Mas, no fundo, tento sempre comportar-me à sua frente
de maneira a que me julgue de uma maneira positiva, que me considere superior às outras
raparigas. Aqui há tempos encontrei-o na rua. Foi a 29 de Maio, já passava das nove.
Tinha ido fazer o exame de Química e estava de regresso a casa, com a cabeça cheia de
fórmulas e contas. Não longe de casa, lembrei-me do Linde, mas esqueci-o logo a seguir e
voltei a pensar naquela maldita reacção química que me pusera a cabeça em água no
decurso do exame.
Caminhava depressa, sem ligar a quem passava. Nisto, senti alguém passando-me muito
perto, andando na direcção oposta. Virei-me à pressa. Era o Linde, um tanto desajeitado,
com as calças muito curtas e o barrete usbeque. Virei-me várias vezes, sorrindo.
Foi pena não o ter visto de frente. Se não tivesse passado tão perto de mim, nem teria
notado. Se calhar reparou em mim no último minuto, e foi por isso que veio ao meu
encontro, desviando-se bruscamente. E foi graças a este movimento que reparei nele.
Neste momento, não odeio a escola, que me obriga a não pensar em mim própria e a
deixar-me andar. Ontem fiquei lá de bom grado, contemplando os rostos tão familiares.
Consegui conhecer toda a gente num ano. Houve algumas vezes que dei de caras com o
Maximov, um bonito rapaz do sétimo ano. É verdade, é um bonito rapaz, e interessante.
121

Ontem tinha uma camisa preta que lhe fica muito bem, realçando-lhe os olhos muito
grandes e cinzentos e o remoinho de cabelo que tem na testa. Os seus olhos não estão
sempre sorridentes como os do Leuvka. No outro dia, por exemplo, quando estava sentado
na aula, vi-lhos muito, muito sérios. Ontem estava muito bonito e aproximou-se várias
vezes de nós enquanto corria com os outros colegas.
Ah, que pena eu ser míope! Preciso de tanto tempo para observar bem qualquer rosto! E
como deve ser agradável uma pessoa sentir-se bonita! Deve ser uma sensação que enche a
alma de orgulho, que nos permite olhar as pessoas cara a cara, sabendo que nos admiram,
em lugar de nos escondermos, esperando que trocem de nós. Lembro-me de uma vez a
mamã dizer que a beleza também acarreta sofrimento, mas o que é isso comparado com a
felicidade que a beleza proporciona? Os grãozinhos de dor dissolvem-se nela. Amo os
bonitos, gosto de contemplar a beleza, de a observar estudando cada pequeno traço do
rosto, cada cintilação do olhar.
Estou a mudar muito. A solidão já não me atrai; pelo contrário, sufoca-me, quero viver e
agir e os sonhos não me chegam. Mas esta minha aspiração choca contra um obstáculo: a
falta de novos amigos. Não tenho nenhum além da Ksiusha e da Ira. É muito pouco, uma
situação quase ridícula.
Hoje, a Ira trouxe-me um passarinho nascido há muito pouco tempo, com o bico ainda
amarelo. Fiquei feliz como uma criança. / Passei uma hora inteira a tratar dele. Tentei dar-
lhe de comer e de beber. Não come nada, e a comida que lhe meto na boca fica lá. Ou
ainda é muito pequeno ou está muito fraco. Passa o tempo a dormir no ninho que lhe
fizemos e é provável que morra antes de amanhã. Que pena, gostava tanto de tratar dele!
Algumas pequenas alegrias e ocupações deste género e seria verdadeiramente feliz. Afinal,
percebi que sou uma mulher normalíssima, sem nada de especial. Agora percebo o desejo
das mulheres de terem filhos: é apenas aspirar a encontrar o caminho para a felicidade, a
preencher de qualquer maneira o oprimente, insuportável vazio da alma.

4, 9, 10 de Junho de 1934 [...]

14 de Junho de 1934
Tenho andado alegre nos últimos dias. Vou todas as noites jogar voleibol com a Ira e
divirto-me com a Alenushka. A Ira passou por aqui há bocado e, num repente de
sinceridade, dei-lhe a ler uns ex
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excertos do meu diário, só algumas páginas inocentes. Também conversámos imenso a


propósito do Linde, e a Ira comprometeu-se a tentar conhecê-lo melhor no ano que vem.
Depois destes encontros entre amigas, sinto-me sempre mais tranquila.
O campo atrai-me de uma maneira incrível. Quanto mais bonito está o dia, mais a
recordação dos campos e dos bosques se aviva e me acalma. Fascinam-me tanto! No início
do mês, fomos com a mamã a Bogorodskoe, onde vive a minha tia e os filhos. Passámos o
dia todo a passear. Havia uma mata a sério, cheia de grandes pinheiros fragrantes e de
silvados impenetráveis. Era tão bonito que tive pena de não haver nenhum assim no sítio
para onde vamos. Mas agora não quero pensar que me aborrecerei, prefiro sonhar que
darei longos passeios nos campos dos arredores, também à tardinha e à noite, com algum
jovem e alegre companheiro de viagem.

20 de Junho de 1934
Todos os dias pensei pegar no diário, mas adiei sempre até hoje. Até os dias que, à
primeira vista, são livres de obrigações, passam a correr no meio de tantas miudezas. Nos
últimos tempos, comecei a tricotar umas meias e passei horas a fio a fazer e a desfazer
para as acabar. Não é uma actividade muito divertida. No fim, fartei-me das meias e não
quis saber mais do trabalho. Ainda bem, porque assim fiquei livre de um momento para o
outro. O tempo está bonito e apetece-me ir a casa da Ira, mas decidi iescrever o diário.
Hoje houve muitos temporais; o ar está fresco e puro e o céu claro, mas pairam nos seus
limites nuvens cinzentas e escuras, acasteladas de uma maneira bizarra. Penso muito no
campo; embora saiba perfeitamente que os meus sonhos são estúpidos e irrealizáveis, não
me apetece privar-me deles.
Ontem recebemos a tripulação do barco Tcheliuskin, que tinha ficado bloqueado no gelo;
são homens que passaram dezenas de dias em cima de um bloco de gelo, em condições
pavorosas, esperando morrer no oceano a qualquer momento. O mundo seguia todo a sua
sorte... E muitos deles não esperavam voltar. Mas regressaram, graças a um pequeno
grupo de corajosos aviadores que, numa situação
Nota: O barco Tcheliuskin, com uma capacidade de 7500 toneladas, construído em 1933,
tentou nesse ano fazer a travessia de Murmansk para Vladivostoque. A expedição foi
organizada por Otto lulevitch Schmidt (1891-1956) e o comandante era V. I. Voronin, o
mesmo que participou na missão de socorro a Umberto Nobile, em 1928. A 13 de
Fevereiro de 1934, o barco encalhou no mar de Chukots. Os participantes da expedição
foram salvos por um grupo de aviadores comandados por Mavriki Trofimovitch Slepnev
(1896-1965); no seu regresso, foram os primeiros a ser agraciados com o título de Heróis
da União Soviética.
123

proibitiva, aceitaram correr o risco de aterrar naquele banco de gelo perdido na vastidão
branca.
Foi organizada em Moscovo uma recepção triunfal aos homens do Tcheliuskin e aos
aviadores. Nunca em nenhuma festa ouvi gritar vivas com tanto entusiasmo e fervor como
durante o acolhimento a estes homens. Tinha uma vontade tremenda de também ir à Praça
Vermelha. Ouvindo a rádio, desatei a chorar, quer pela simpatia que sentia por aqueles
grandes heróis, quer por outra coisa qualquer que é difícil explicar, ou seja, pelo desejo de
participar no triunfo comum, de formar um todo com aquela multidão compacta e
emocionada e de gritar um ardente viva com ela. Chorava também porque isso não era
possível.
A rádio não fez outra coisa durante todo o dia senão falar dos homens do Tcheliuskin. À
noite, decidi ir também receber o aviador Slepnev, que mora não longe de nós. Na rua
tinham erguido um arco alto, decorado com grinaldas de fitas vermelhas e flores, onde
estava o retrato de Slepnev. As pessoas começaram a reunir-se por volta das oito da noite.
Chegou um camião, que tinha em cima uma mesa coberta com um pano de tecido
vermelho. Cerca das dez, a multidão era imensa. Dos dois lados da rua, só se viam corpos
atropelando-se uns aos outros. A multidão ora avançava, ora recuava como uma onda, e
não havia força que impedisse o seu movimento. Tinham instalado um projector numa
varanda. Estava tudo pronto para a chegada do aviador...que não chegou.
Fui-me embora amuada, mas na realidade, sem querer, também me sentia um tanto
aliviada. Com efeito, estava apavorada com tantos encontrões. Tinha medo de que aquela
multidão incontrolável pudesse causar alguma desgraça. A recepção ao Slepnev foi adiada
para hoje.

21 de Junho de 1934
Ontem fui outra vez ver o Slepnev e arrastei comigo a Eugenia, a Olga e a sua amiga
Pokrovskaia. Assim, a espera foi divertida. Havia de novo muitos encontrões e um mar de
gente, mas antes de o Slepnev chegar até se conseguia estar de pé. Por volta das nove,
ecoaram vozes provenientes da tribuna: «Está a chegar, está a chegar! Silêncio!» A
multidão começou a murmurar e acabou por se calar. Por entre as duas filas de gente,
passaram dois carros que pararam não muito longe de nós. A multidão ávida avançou.
Os aviadores saíram dos automóveis e dirigiram-se à tribuna, ao som de uma famosa
canção que se difundia no ar, acompanhados de muitos vivas e aplausos. Flores voavam
sobre a calçada. Só percebi
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qual era o Slepnev quando começou a falar. Não se ouviam as palavras, mas procurei
esticar-me para a frente, tentando, ao menos, ver-lhe a cabeça e a figura baixa e forte, de
farda azul. De vez em quando, virava o rosto para o nosso lado e via-lhe as f eições duras
e viris e o boné branco da farda.
O comício acabou dali a pouco e o Slepnev foi para casa. A multidão foi atrás dele, mas eu
virei na direcção da minha casa, embora na realidade não me apetecesse, nem pudesse ir
ter com a avó. Enquanto caminhava angustiada pela rua, sentia-me de péssimo humor,
ainda que não compreendesse o motivo. Aproximei-me várias vezes da casa de Slepnev,
contemplei o seu retrato e li as palavras escritas na erva com flores «Viva o camarada
Slepnev». Senti-me emocionada e comovida.
Por fim, decidi-me a entrar no pátio. Os automóveis enfeitados de grinaldas, folhas e
flores ainda estavam à frente da entrada. Mulheres e raparigas acotovelavam-se à sua
volta. Meti-me entre elas e depois recuei, pensando-, «Porque me aborreço? Porque estou
triste?» Tinha muitos pensamentos às voltas na cabeça. Os meus interesses pessoais, de
todos os dias, pareciam-me irrelevantes, idiotas, e a minha vida toda estúpida e repugnante
até à vulgaridade. Parecia-me impossível ter de viver assim, precisava de algum gesto
heróico, de ser famosa...
Não compreendia o que queria. A glória? Não, acho que não. Viagens, gestos heróicos?
Não, só queria ver mais uma vez o Slepnev de perto, visto que tivera tanto trabalho e
pensara tanto nele. Quando me acalmei um pouco, senti-me triste e ofendida.

23 de Junho de 1934
Vêm-me muitas vezes à cabeça os homens do Tcheliuskin e os aviadores. Recordo-os com
entusiasmo. Paro muitas vezes à frente das montras para ver o Schmidt, o Slepnev e os
outros. Observo com atenção a cara deste aviador e cada vez gosto mais: um rosto viril,
belo, com grandes olhos claros, como que dilatados pela inquietude.
Uma noite, ouvimos na rádio a gravação da reportagem A tripulação do Tcheliuskin
recebida em Moscovo, Vivas sem fim ecoavam na Praça Vermelha, os discursos voavam
da tribuna e eu e a Eugenia. entusiasmadas e sorridentes, tentávamos não perder uma
palavra que os heróis pronunciavam. Mas então lembrámo-nos daqueles três que. num dia
de névoa, voaram para a estratosfera. Esqueceram-se deles. O nosso governo não gosta de
falar dos seus insucessos. Só sabe vangloriar-se. Não será tão cedo, se alguma vez o fizer,
que recordará os gloriosos nomes de Vasenko. Fedoseenko e Usvskin.
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A 27, parto de Moscovo. As dúvidas e os receios não tardaram a substituir a alegria que
sentia. Há qualquer coisa que me diz com insistência que nem lá poderei escapar a esta
angústia. Mesmo assim, apetece-me ir.
Nota: Na província de Smolensk, onde Nina e a mãe iam passar as férias.

Fui há pouco tempo com a Olga à galeria Tretiakov, mas os seus pintores quase me
desiludiram. Nem o Sishkin, nem o Levitan me impressionaram nada. Caminhei triste
pelas salas. Mas há alguns quadros muito belos, que me ficaram gravados na memória: «A
Doente», de Polenov, diante do qual ficámos muito tempo, o quadro de Kuindzhi e poucos
outros.

23 de Junho, 5 de Julho de 1934 [...]

8 de Julho de 1934
Como sempre, não me apetece escrever. Por isso, os meus textos são sempre fragmentados
e não dizem grande coisa. É capaz de ser muito longo e aborrecido descrever em
pormenor a viagem de combóio e a chegada ao campo. Bem, mesmo assim vou tentar.
Lembro-me que o dia da nossa partida de Moscovo, a 27 de Junho, foi horrível, porque
estava de péssimo humor. De manhã, fui com a mamã ao centro comprar várias coisas,
entre as quais tintas. Um pensamento assaltava-me vezes sem conta: os homens do
Tcheliuskin. Contemplava as montras das lojas para observar mais uma vez os retratos dos
heróis e, em particular, confesso, do Slepnev.
Dantes, ria das raparigas sentimentais, apaixonadas pelos heróis famosos e pelas
celebridades. Mas sou melhor do que elas? Embora não me sinta apaixonada, não ando
muito longe. De dia para dia cresceu dentro de mim o desejo ardente de o ver, já não nos
retratos
mas em carne e osso.
Por isso, durante aquele último dia de permanência em Moscovo, animada por uma
esperança que, no fundo, me envergonhava, examinei com insistência todas as pessoas que
tinham um boné alto e branco com insígnias que, na realidade, não sabia distinguir.
Portanto, observei toda a gente: marinheiros, aviadores e gente com outras profissões. Nas
ruas mais movimentadas, a Petrovka e o Kuznecki most, os bonés brancos eram muitos, e
eu perscrutava atentamente todos aqueles rostos masculinos com os meus olhos míopes
que não vêem nada a três passos de distância.
Zangava-me comigo própria e prometia a mim mesma que não voltaria a fazê-lo enquanto,
vermelha de vergonha, virava obstinadamente
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a cabeça para o outro lado. No mercado Smolensky, ao corrermos depressa para o


eléctrico, passou-nos ao lado um homem alto de uniforme azul, com um boné branco que
me pareceu muito familiar. Apoderou-se de mim uma agitação tão grande ao ver aquele
bonito perfil e os olhos grandes e azuis que, esquecendo-me de tudo, virei-me para ele
num repente, quase fazendo cair uma criança.
Caminhava com rapidez e agilidade e só consegui entrever-lhe o boné branco. Pensei que
tinha de ir atrás dele, mas como, se tinha a mamã ao lado e era impossível explicar-lhe
semelhante gesto, ainda por cima quando o eléctrico estava prestes a partir? Quem era?
Não sei, porque só vi a cara do Slepnev nas fotografias e não o conheço ao vivo. A mamã
chegou à noitinha, por volta das sete, e só então começámos a preparar-nos. Tinha quase a
certeza de que não nos despacharíamos a tempo, mas afinal enganei-me e saímos para a
estação pouco depois das nove.
Ao chegarmos, descobrimos que o comboio sairia à uma da noite. Aquela interminável
espera na calçada suja e poeirenta... De pé. junto a um muro de pedra, observei as pessoas
que me passavam à frente e se dispunham em fila. Era gente do povo, miserável e
esfarrapada, camponeses entre os quais me sentia uma estranha, embora os amasse.
Passavam muitas vezes homens bêbados, soltando imprecações vulgares.
Enquanto andava pela estação pedindo informações sobre isto e aquilo, a mamã ouviu por
acaso dizer que havia uma fila à parte para as pessoas até aos quinze anos. Fiquei
contentíssima com esta novidade inesperada, porque assim poderia instalar-me na
carruagem sem dar nem receber as cotoveladas do costume. Foi o primeiro momento de
sorte do dia. Uma vez no comboio, a mamã ocupou a parte superior e foi a dormir durante
o primeiro troço da viagem.
Eu sentei-me em baixo, ao lado do postigo aberto, a ouvir as conversas banais dos
passageiros. Depois, quando a carruagem adormeceu, sentei-me em cima da mesinha e
estiquei-me para o postigo a olhar a paisagem. De vez em quando, passava pelas brasas e
não pensava em nada. Tinha uma agradável sensação de repouso e tranquilidade. Subi
pouco antes da manhã, mas não consegui adormecer. Fiquei deitada de olhos fechados,
ouvindo as conversas na carruagem. De todos os passageiros, só nós éramos intelectuais
de férias. Tive muita vergonha face àquelas pessoas semiesfomeadas. que não sabem o que
é um minuto de repouso.
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13 de Julho de 1934
Passou um terço do mês... Regressamos a Moscovo dentro de quinze dias. Bem, ainda é
cedo para pensar nisso. Por ora vivo no presente, à parte os sonhos do costume, de que não
consigo desembaraçar-me e aos quais não vale a pena prestar muita atenção. A situação
aqui não é especialmente alegre, mas também não é enfadonha como esperava. O dia
passa-se naqueles trabalhos miúdos, rotineiros no mundo agrícola. Estou o dia inteiro em
casa e só fomos ao bosque três ou quatro vezes. Há aqui à volta campos e extensões de
prados, mas nada me atrai.
De início, evitava os camponeses, mas depois o meu comportamento mudou e agora
escuto-os com interesse quando passam por cá. Os proprietários da casa que alugámos
tornaram-se para mim como pessoas de família, e, claro, mais os filhos do que os pais.
Têm quatro-. A Cátia, uma rapariguinha de onze anos com o rosto redondo e os olhos
alegres e provocantes, o Sania, de nove anos, sossegado e sensato, o teimoso Misha, de
sete anos, e o mais novo, o Petia, um pequeno de quatro anos, gordinho, rubicundo,
caprichoso como todas as crianças e um bocadinho mimado.
Quanto às outras crianças, não vejo nenhuma a não ser o Egor, filho do Khorkov, um
rapaz muito vivo e alegre, de olhos escuros.
Nota: Tikhon Ivanovitch Khorkov, que pertencia à cooperativa de que fazia parte o pai de
Nina, foi preso e mandado para o exílio em 1929, juntamente com todos os outros
membros. Regressou a Moscovo depois da libertação. Durante o Verão, a sua família ia
passar férias ao campo.

São todos muito louros e de olhos azuis-, típicas crianças russas. Impressiona-me a sua
independência e precocidade. Desembaraçam-se muito bem sem os adultos e, na maior
parte dos casos, não precisam da sua ajuda, o que é fácil de explicar a partir do momento
em que os pais trabalham de manhã à noite e as crianças passam o dia sozinhas.
Estou sempre atenta, tentando gravar tudo na memória. Escuto com avidez o que os
camponeses contam da vida que levam e, depois de ter ouvido tanta coisa, ainda odeio
mais os bolcheviques.
Lembro-me muito bem dos sonhos estúpidos que tinha sem querer, quando ainda estava
em Moscovo e pensava no campo. É claro que a realidade se revelou completamente
diferente, mas já estou tão habituada a que os meus sonhos não se realizem que já nem
ligo. A minha febre artística foi um fracasso. Só fiz três esboços mal-amanhados desde que
estou aqui. Mas também não podia ser de outra maneira: não há modelos para copiar e não
sou uma desenhadora tão exímia que apanhe as imagens no ar.
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29 de Julho de 1934
A 28 de Julho, preparámo-nos para partir, rumo a Moscovo. Até então, andava com mil
ideias ridículas e pouco habituais sobre a maneira como viveria na cidade e ainda mais no
que faria no kolkhoz para onde iria em Agosto com a Eugenia e a Olga. As minhas irmãs
esperavam o momento com impaciência. Escreviam-me a dizer que lhes custava muito
estar em Moscovo e que tinham uma vontade terrível de partir o mais cedo possível.
Depois, mudaram de ideias de repente. Fiquei perplexa. Porquê? O que as levava a
renunciar a uma viagem na qual haviam posto tantas esperanças?
Nota: Acrónimo de kollektivnoie krehoriaistvo, «empresa colectiva». Os kolkhoz eram
instituições agrícolas soviéticas, constituídas a partir de 1918 na forma de cooperativas
voluntárias de camponeses, proprietários dos meios de produção usados, enquanto a terra
permanecia propriedade do Estado, que a cedia gratuitamente a título perpétuo. Tornaram-
se, a partir de 1927, o fulcro da colectivização agrícola forçada, considerada um dos
crimes mais cruéis do regime estalinista, que custou (segundo os cálculos de Soljenitsin)
vinte milhões de vidas humanas. Os habitantes das cidades passavam muitas vezes as
férias nos kolkhoz, onde podiam hospedar-se com modéstia a troco de alguns trabalhos
leves.

Lembrei-me de uma carta que me tinham escrito a dizer que chegara o Vânia, um jovem
apaixonado pela Tata, que fora visitá-las mas não para saber dela.
Nota: Um colega de escola das irmãs mais velhas.

Veio-me à cabeça uma suposição absurda: «E se foi por causa dele que decidiram ficar em
Moscovo? Será que as soube interessar a este ponto?» Recordava-me que me tinham
escrito dizendo que tencionavam ir passear com o Vânia para fora da cidade, com a
intenção de pintarem a natureza.
Não me lembro de mais nada. Bem, depressa saberei. Não é pelo facto em si, mas claro
que a sua recusa em ir para o kolkhoz muda completamente os meus planos. Como a
minha experiência aqui acabou, pensava que a minha vida sofreria nova reviravolta muito
em breve.
E agora? Ficamos aqui até dia 5, e depois... Moscovo??? Viver naquela cidade pálida e
aborrecida? Que horror!
Nos últimos dias, a vida aqui tornou-se insuportavelmente monìtona, mas não me agrada
nada partir, quando penso no pó e no calor sufocante das ruas da cidade. Tenho que
decidir. A mamã deu-me a escolher o dia 28 ou 5... Pronto, atormento-me e não sei que
fazer. Se conseguisse forçar-me a andar por fora todo o dia a pintar, então faria sentido
ficar, mas se tenho de continuar nesta vida enfadonha... é melhor partir.
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30 de Julho de 1934
Moscovo recebeu-me muito mal. Logo que desci para a plataforma, senti-me assaltada
pela velha angústia que bem conheço. À entrada da estação, mandaram-nos parar por
causa do tamanho das nossas bagagens, e provavelmente teríamos pago uma multa ao
Estado se não fosse um carregador que nos conduziu até à praça. Eu e a mamã trocávamos
olhares a propósito desta avidez pelo lucro que demonstram tanto o Estado como os
carregadores. Senti-me ofendida e revoltada ao pensar que esta é a minha pátria e que sou
obrigada a viver num país assim.
Estávamos perto da estação quando ecoou no passeio a voz horrenda e rouca de um
bêbado. Era um rapaz novo, com o rosto horrivelmente retorcido e babado. Soltava
imprecações e tentava libertar-se das mãos de um polícia, que parecia pequeno em
comparação com ele. O estado de embriaguez levou-o a despir a camisa e a agitar os
braços robustos e musculosos. «Aqui estão os cidadãos soviéticos», pensei.
A multidão formigava entre as pedras escuras de Moscovo. O seu estilo de vida, tão
diferente do que deixei a 280 verstás daqui, parecia-me estranho e horrível. Desagradava-
me aquela gente da cidade, bem vestida, de mãos e rosto brancos e cuidados. Olhava as
mulheres com os seus vestidos vistosos e decotados, os rostos embonecados e os cabelos
pintados. De um pequeno restaurante saíam canções embriagadas e sons de foxtrote... E
vinham-me à cabeça todos agueles que trabalham dias inteiros por um pedaço de pão,
sujos, rotos, com os rostos rudes mas simpáticos.

31 de Julho de 1934
Como era de esperar, as primeiras horas que passei em Moscovo foram horríveis. Quando
cheguei a casa à uma da noite, bati à porta. Dali a bocado, ouviu-se a voz da Olga: «Quem
é?» «A Nina», respondi. «Nina!?» Havia naquela exclamação surpresa e
descontentamento, nem sombra de alegria. Senti-me mal. Quando fiquei sozinha e me
deitei, senti de repente um enorme peso e amargura na alma...
Tinha saudades do campo? Talvez não, mas as coisas lá tinham corrido um bocadinho
melhor, só nos últimos dias começara a aborrecer-me. E aqui, deitada às escuras, chorava.
Como me pareciam horríveis Moscovo, o meu quarto, os palácios grandes e quadrados!
Vinham-me à cabeça, as escuras noites azuis do campo, de que tanto gostava, o silêncio e
a liberdade, a Lua redonda e branca. Sopra apenas uma brisa, agitando no silêncio as
espigas maduras, que se curvam docemente. A noite vive... e sentimo-nos tão leves e
felizes!
130

Ontem também vivi de recordações. Tudo me voltava à memória: a mulher do Kutuzov,


serena e bondosa, a mãe, uma mulher magra e viva, o I. A., tão incrivelmente simpático e
simples, e o pequeno Petiushka.
Nota: Iakov Alexeevitch Kutuzov. Foi preso e exilado em 1929, juntamente com os outros
membros da cooperativa. Depois de solto, também passava as férias em Smolensk.

Via o seu rosto expressivo como se estivesse à minha frente. Ora sorri, tímido e confuso,
ora ri perdidamente como um gaiato, ora espreita com os seus olhinhos azuis, astutos e
maliciosos...
Tinha saudades dos campos e daquela vida. Lembrava-me das noites escuras em que
montava na sela de uma égua alta e cinzenta e galopava até ao prado, onde a deixava
pastar. De regresso a casa, inspirava com prazer o ar nocturno, contemplando os abetos
negros e a erva molhada e fria. Era feliz naqueles momentos.
Até o dia da partida foi bom. Segurando as rédeas de uma égua chamada Strelka, batemos-
lhe com força para não chegarmos tarde. Quando inclinava a cabeça, via-lhe o olho
inteligente e bondoso, e ficava cheia de vergonha e pena dela.
Também recordo o velho cão Liutka e a Marussa, a vaca amarela. E quando trepávamos
ao telhado dos estábulos? Estive lá muito bem nos primeiros dias, mas... vê-se que tenho
alma de cigana, não consigo estar muito tempo no mesmo lugar.

2, 3 de Agosto de 1934 [...]

11 de Agosto de 1934
Há já uma semana que estamos em casa da tia Sônia e ainda não escrevi nada mais
detalhado. Nunca tenho tempo. Passo dias inteiros a pintar com as minhas irmãs ou a
despachar as tarefas domésticas. Tudo aquilo de que me recordava já se me apagou da
memória. Às vezes, esta aldeia lembra-me Mozhaisk. Também lá, na casinha cheia de
fumo, fazíamos as tarefas domésticas, insultávamo-nos e discutíamos umas com as outras.
Na altura, se calhar ainda era pior. Agora, pelo menos, somos mais crescidas, embora seja
só um ano, o que se vê.
Parece-me que a minha personalidade está a mudar, porque a melancolia assalta-me muito
menos. Ou por isto ou porque a vida em contacto com a natureza me descontrai, o facto é
que quase não ligo aos pequenos atritos que surgem com as minhas irmãs ou com a minha
tia. Na verdade, acontecem muitas vezes, e, embora lhe chame pequenos, são terríveis.
131

12 de Agosto de 1934 [...]


15 de Agosto de 1934
Não sei porquê, tenho andado de muito mau humor. A Eugenia e a Olga (e eu atrás) vão à
noite a casa dos Anossov, onde se toca acordeão, se canta e todos estão alegres. Eu
aborreço-me e sofro, porque não consigo participar na alegria geral. Sento-me à parte,
triste e amuada. As minhas irmãs riem, entusiasmam-se com a voz do Vitia A. e
embaraçam o jovem acordeonista com os seus olhares. É um ambiente jovem e animado.
A Nadiusha, que tem nove anos, é a melhor: tem uma carinha graciosa, o corpo musculoso
e os olhos pretos e cintilantes. Dança melhor do que qualquer um e é a benjamim do
grupo.
A Eugenia e a Olga estão a aprender a tocar acordeão, de repente deu-lhes a paixão. Olho-
as com um pouco de inveja, porque também gostaria de experimentar, mas não me
deixam. De resto, também nunca o faria à frente dos rapazes. É um tormento ver que as
minhas irmãs agradam muito mais do que eu. Não consigo ser como elas; noutras
circunstâncias, talvez conseguisse. Que hei-de fazer para ser alegre e não triste? Está tudo
contra mim. Agora, por exemplo, tenho fome e não há pão. Apetece-me ir para Moscovo,
tenho uma vontade desesperada de ver a mamã.
Por fim, saímos daquela casa horrível, de pesadelo, que não é nossa e onde todos podem
censurar-nos e gritar-nos. Hoje repetiu-se com a Sônia uma cena habitual. Chegou do
trabalho quando eu e a Olga já estávamos a almoçar. Esperamos sempre a sua chegada
com medo, receosas. Sem querer, quase a tremer, examinamos-lhe o rosto, pensando como
estará desta vez o seu humor. Hoje parecia bastante bem-disposta. «Ah, meninas, tenho
uma fome!», disse. Levantei-me logo para lhe servir a sopa. O almoço começou e todas
comÍamos com uma certa sensação de alívio.
Nisto, bateram e apareceu à porta a cabeça de uma rapariga, filha de camponeses,
acompanhada de um rapazinho.
«Podemos?»
«Entrem», respondi, sem pensar. Tinham ido ao hospital a uma consulta, mas muito tarde;
a Sônia já saíra. Ao vê-los, enfureceu-se, gritou-lhes e mandou-os embora. Depois,
começou tudo outra vez.- «Porque os deixaram entrar? Mandem-nos sempre embora. Já
tinha dito.» «Não disseste nada.» «Querem que os veja aqui?», gritava ela, sem prestar
atenção à tímida tentativa de nos defendermos.
Depois, a calma voltou a reinar durante algum tempo. Os rapazes chegaram com o
acordeão e o Vitia pôs-se a cantar. Mas a Sônia queria lá saber! Continuou a gritar,
censurando a nossa preguiça, e não falou mais durante toda a noite.
132

17 de Agosto de 1934
Tenho fome e vontade de voltar para Moscovo. Estou farta de desenhar, farta de ir ouvir
tocar acordeão, bem, farta de tudo!
Hoje decidimos ir dormir para o palheiro, mas nem isso me alegra muito. Já sei que vão
estar lá os rapazes na pândega. Bem, não importa. Hoje escrevi à mamã para desabafar. A
minha alma de vagabunda perturba-me. Mal me habituo a um lugar, acho logo tudo pouco
interessante e começo a aborrecer-me. A escola recomeçará daqui a pouco, mas este ano
não tenciono estudar com especial afinco. Por isso, espero-a sem temor e até com um certo
interesse.
Neste momento, estamos as três sentadas num campo. Perto de nós há aveia amarela cheia
de grãos e, atrás, rodeia-nos um anel de pequenos abetos escuros. O céu está claro, azul e
coberto de cirros altos e brancos, que têm por cima uma outra camada de cúmulos escuros
de formas bizarras e contornos níveos. A Eugenia e a Olga pintam.
Um pequeno camponês muito vivo, de olhos cinzentos, sentou-se há bocado perto de nós,
e de vez em quando faz alguma observação arguta com uma pronúncia muito especial.
Espero que se vá embora para me deitar mais comodamente na erva perfumada e poder
perder-me nas minhas fantasias estúpidas mas felizes.
23 de Agosto de 1934 [...]

25 de Agosto de 1934
Conto os dias que faltam para a partida rumo a Moscovo. Só três. Ah, ainda três dias e, ao
mesmo tempo, apenas três dias! Espero com paciência e relativa tranquilidade, porque sei
que serão poucos os dias interessantes em Moscovo. Passarão quinze dias, no máximo um
mês, e serei invadida pela melancolia. Ou talvez não?
Falta meia hora para o almoço. Se calhar, como tenho tanta vontade de ir para Moscovo,
espero este momento, não tanto para comer como para poder dizer que já passou meio dia.
Não, não é verdade. Apenas sinto necessidade de fugir ao tédio e à melancolia. E não
tenho outro sítio para onde ir a não ser Moscovo.
Estou sentada no parque, num dos caminhos isolados cobertos de ervas daninhas, e gozo a
natureza infinitamente bela. O vento assobia e as nuvens correm, inquietas. A erva está
húmida, fresca e fragrante. As sombras mexem-se ondulando, sussurram, e sinto-me
atraída pelo bosque tépido e perfumado que se vê ao longe, pelas cores que os reflexos do
sol multiplicam e pela sua frescura. A sorveira-brava, viva e grande, avermelha-se entre os
silvados.
133

Um afectuoso e fiel cão vadio, esfomeado, dorme aqui perto, ressonando de vez em
quando com o focinho apoiado na pata. Tem um bonito focinho preto com manchas
vermelhas e brancas, os olhos salientes, expressivos e alegres, e o pêlo amarelo e
encaracolado. Corre comigo pelo parque e mordisca-me afectuosamente, a brincar. Gosto
tanto dele e faz-me tanta pena que gostaria que nunca nos separássemos.

2 de Setembro de 1934
Recomeçou a tormenta de tudo aquilo que estou habituada a odiar, que às vezes também
me agrada, mas por pouco tempo: a escola. Ontem fui com a Ira, que cresceu e está mais
bonita, parece uma mulherzinha. Fomos assaltadas e rodeadas por uma série de caras
conhecidas e menos conhecidas, simpáticas e odiosas, que não vimos durante todo o
Verão. A partir daquele momento, esperavam-nos longos meses de vida em comum.
O tédio quotidiano passou e chegou a vida; porque é vida ter laços estreitos, de qualquer
natureza, com as outras pessoas. Eis os colegas da turma, crescidos, alegres, animados, de
olhos bondosos. É tão agradável sentir que estamos ligados no mesmo esforço! Como
sempre, os rapazes juntam-se a um canto. São mais tímidos, mas riem com os seus rostos
simpáticos e bronzeados.
O Leuvka, alto e musculoso, com a pele cor de azeitona, suscita de novo, como sempre,
uma profunda simpatia e o desejo de admirar, sem parar, os seus prodigiosos olhos azuis.
As outras fisionomias, os outros cabelos claros e olhos turquesa, parecidos uns com os
outros, também despertam na alma qualquer coisa de caloroso e belo. Entre eles, há um
moreno, alto e magro, com a pele amarelada e escura, que provocou em mim uma
sensação desagradável. Não sei o que esperava do Linde, mas decerto que não encontrá-lo
assim tão grosseiro. Quando ouço aquele seu tom de voz baixo e pomposo, sinto uma
antipatia e um ressentimento que quase sufocam qualquer provável interesse. É ridículo e
desagradável de uma maneira horrível.
Ontem, as horas passadas na escola foram animadas por uma novidade. Nem a nossa
delegada de turma, muito comprida e má, conseguiu sufocar a nossa alegria. Chegaram à
nossa turma alguns rapazes novos: são zaragateiros e brigões. Um deles, o repetente
Voroncov, parece uma fera acossada, tem um aspecto miserável, é solitário e odioso, tem
uma cara de bandido, vermelha e picada pelas bexigas. Mas isso perturbou-me e
amargurou-me pouco: escapei da manifestação e, enquanto caminhava para casa com o
casaco aberto ao vento, tinha a alma cheia de vagas esperanças.
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Sentia-me leve e alegre. A situação em casa pareceu-me insuportável de tão aborrecida e


tive vontade de voltar para a escola.

3 de Setembro de 1934
Ontem, as aulas recomeçaram com regularidade: são compridas e aborrecidas e não há
nada melhor do que os intervalos, durante os quais passeamos, falamos uns aos outros e
vamos para o pátio ouvir conversas estúpidas e vulgares sobre os nossos colegas, mas que
depois nos envolvem mesmo que não queiramos, porque não há mais nada que fazer. O
único momento de alegria é à merenda, quando nos sentamos a quatro e quatro numa mesa
separada e rimos, olhando umas para as outras e observando os rapazes de soslaio.

5 de Setembro de 1934
Há na vida situações extraordinárias: aconteceu uma hoje. Para dizer a verdade, o dia
começou de um modo normalíssimo. Como de costume, passei por casa da Ira uma hora
antes do início das aulas e pusemo-nos a caminho da escola ao longo da rua sufocante e
quente. Foi a mesma espera aborrecida antes que se começasse, o desfile aos pares em
volta do pátio, os olhares furtivos aos rapazes.
À primeira hora, tínhamos Russo. O professor não foi por qualquer razão e nós pusemo-
nos a fazer uma grande algazarra até mandarem alguém calar-nos. Aquela balbúrdia, no
entanto, aborrecia-me.
Estávamos sentadas nas carteiras, observando os rapazes com uma inveja mal disfarçada.
Continuavam a correr, brincavam, entravam e saíam da sala e, de vez em quando, via-lhes
os olhares indiferentes e irónicos. Envergonho-me de o reconhecer...
Considero-me muito mais séria do que os outros, mas serei mesmo? Tenho, na verdade,
uma opinião diferente sobre a maneira como devem ser as relações entre rapazes e
raparigas? Oh, de certeza que sou pior do que as outras, mas esforço-me muito por ser
séria e esconder o meu verdadeiro eu. É verdade que os meus desejos não são exactamente
idênticos aos delas; ambiciono qualquer coisa de completamente diferente, que é ao
mesmo tempo positiva e ambígua, qualquer coisa que, de algum modo, possa associar a
serenidade e a felicidade. Penso muito nisto, reflicto e tento compreender a minha alma e
os meus sentimentos, tão desesperadamente intrincados. Era o que estava a fazer àquela
hora normal de um dia absolutamente insólito.
À segunda hora, tínhamos Canto. Esperávamos com impaciência e curiosidade que
aparecesse o novo professor, que nunca havíamos
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visto. Tínhamos pensado que talvez fosse um jovem louro que encontráramos algumas
vezes na escola. Sentados à frente do piano, que não funcionava, os rapazes, aborrecidos,
atiravam pão uns aos outros. Passado um bocado, chamaram-nos para a sala, onde
finalmente o vimos. Era um homem baixo, de pernas curtas e cabeça muito grande,
coberta de uma cabeleira espessa e eriçada, em honra da qual lhe pusemos logo a alcunha
de «porco-espinho». Lembrava muito as caricaturas que estão sempre a aparecer nos
nossos jornais soviéticos, representando os ex-burgueses e os capitalistas estrangeiros.
Passámos a aula quase toda a rir.
A situação tornou-se particularmente incontrolável quando o recém-chegado nos gritou:
«Então, meninas, calem-se!»
Desatámos a rir como loucas, ou pela sua pronúncia de verdadeiro judeu, ou porque os
rapazes começaram outra vez a atirar pão uns aos outros. Isto, enquanto se ouvia ecoar em
vários pontos da sala uma cançoneta em voga, muito estúpida. Durante o intervalo, fomos
ao parque que fica ao lado do Mosteiro das Virgens.
A aula seguinte era Geografia, mas como ainda não há professor, tivemos outra hora livre.
Enquanto caminhávamos por uma ruela, encontrámos o Leuvka e o Sigaev a fumar,
dando-se grandes ares. Convencida de que fazia uma coisa muito divertida e fora do
comum, dirigi-me a eles e disse despreocupadamente, examinando de baixo para cima os
seus rostos satisfeitos:
Nota: Nina e a sua colega Zina.

«Têm mais?»
Por um instante, pareceu que não tinham percebido. O Leuvka olhou para mim,
surpreendido.
«Têm mais cigarros?»
«Oh, claro!»
O Sigaev tirou um do bolso da camisa e acendeu um isqueiro. Debrucei-me sobre a
chama, semicerrando os olhos, acendi o cigarro e segui em frente, aspirando mais de uma
vez. Sabia que os transeuntes observavam a cena, admirados e abanando a cabeça. As
nossas colegas riam e, embora eu só esboçasse um sorriso, sentia uma gargalhada louca e
irreprimível sacudindo-me por dentro. Regressámos muito alegres e a tresandar a fumo.
Como não podíamos entrar na sala daquela maneira, corremos à casa de banho a lavar a
boca.
Quando abri a porta da sala, senti um baque no coração: estavam todos sentados nas
carteiras, em silêncio. Dei alguns passos e... vi o rosto comprido e severo da professora de
Alemão, fitando-me atrás de um livro: «Não, não, para a rua.» Girei nos calcanhares sem
responder e, enquanto me encaminhava para a porta, dei de caras com a Zina (a minha
companheira de infortúnio), que estava estupefacta. Saímos para o átrio. De início, a Zina
sentia-se aflita e aterrorizada.
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Vagueando pela escola à procura da Alexandra Vassilevna ou do director, encontrámos o


Timosha. Andava à procura do Linde, que a Varvara Fedorovna pusera na rua antes de nós
e que agora chamava à sala.
Nota: A professora de Alemão.

«Oh, então o Linde também foi expulso!» Ao sabermos que não éramos as únicas,
sentimo-nos logo melhor, decidimos não ligar ao que acontecera e resolvemos ir ao Parque
das Virgens. Caminhávamos ao longo das veredas largas, rindo e fazendo algazarra,
quando de repente ouvimos a voz familiar do Leuvka chamando-me. O Leuvka, o Sigaev
e o Linde, que parecia muito pequeno ao pé deles, vinham ao nosso encontro. «Oh, amigos
da desgraça!», gritou a Zina. Estávamos animadas. Azar para as pessoas e azar para aquela
professora de Alemão! E aqui... Ha, ha! «Também vos pôs na rua?» «Nem fomos à aula»,
respondeu o Leuvka, rindo com aquela sua voz baixa, de homem, enquanto nos observava
do alto da sua estatura.
A situação parecia-me estranha e divertida ao mesmo tempo. Não consigo habituar-me à
ideia de que os nossos colegas já não são crianças, mas sim adolescentes, e que a diferença
entre nós cresce de ano para ano. De repente, o Leuvka interrompeu-se e gritou: «Olha
como o avôzinho dorme contente!», e desatou a rir, seguido pelo Sigaev e pelo Linde, com
a sua gargalhada profunda semelhante a um rugido. Também sacudida pelo riso, a Zina
pegou-me na mão e apertou-ma.
De resto, não era possível não rir: no canto de um banco estava deitado um homem a cair
de bêbado. O Leuvka começou a sacudir-lhe o pó do casaco, enquanto ele mexia os olhos
semicerrados e sonolentos. «Não estás alegre de mais, Leuvka?», perguntou a Zina. «Não
tenhas medo que não acabarei como este bêbado.»
Depois, separámo-nos e passámos o resto do tempo a vaguear pelo parque.
No intervalo, houve uma discussão animada com a Ira e a Mussa Ivianskaia. Passada uma
hora, deixaram-nos ir embora. Foi um dia em que nunca me senti triste nem aborrecida.
Ao fim da tarde, joguei voleibol com a Ira e em casa estive muito alegre.

7 de Setembro de 1934
Que estranho! O dia decorre tranquilo, mas, como de costume, tenho uma sensação de
insatisfação cada vez mais forte, quase obsessiva. E, no entanto, estivemos muito alegres:
rimos muito, divertimo-nos, não tivemos algumas aulas, mas... Em casa, tenho medo de
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exprimir livremente os meus pensamentos, tento distrair-me, sonho. Não me apetece fazer
os deveres. Receio a angústia que sinto crescer em mim. É terrível pensar como será
depois. Já sinto os primeiros sintomas da tristeza que em breve me invadirá, se bem que de
momento ainda sejam ligeiros e insignificantes.
Mas conheço-me muito bem, cada vez melhor, para não ter ilusões. Não é inútil o hábito
que tenho há algum tempo de pensar em tudo e examinar as coisas uma por uma, com
atenção. Graças a esta análise contínua, comecei a compreender que não sou tão estranha e
incompreensível como pensava, que tenho em comum com os outros muitos traços,
incluindo bizarrias e desejos.
É frequente eu conseguir prever o que sentirei ou farei numa determinada situação, o que
me dá algum alívio. Depois, gosto de pensar. Se bem que não consiga escutar muitas vezes
a voz da razão (e basta ver, por exemplo, o comportamento que tenho na escola, a
confusão que faço e a minha preguiça), tranquiliza-me a percepção constante que tenho da
minha consciência e racionalidade.
Agora tenho que estudar, porque só passarão para o oitavo ano os melhores alunos. Mas já
que o meu presente é tão belo, não quero pensar no futuro. A escola é divertida, apesar das
minhas aspirações confusas e irrealizáveis. Ao princípio, o Linde parecia-me odioso, mas
agora sinto-me atraída de novo pela indiferença com que trata tanto as raparigas como a
escola. A Ira escreveu-lhe um bilhete a perguntar-lhe qual era a colega que mais lhe
agradava. «Lutem umas com as outras», respondeu. «Serei da vencedora.» Isto
impressionou-me muito e despertou o meu orgulho feminino. A natureza das mulheres é
incrível! Digamos que gosto do Linde precisamente porque lhe sou indiferente; de
contrário, tenho a certeza de que o odiaria. Dou comigo outra vez a observá-lo à socapa.
O Leuvka é o rapaz que me atrai mais: é esbelto, longilíneo, alegre, espontâneo e tem uns
olhos lindíssimos. Também gosto do Tolka, que é muito simpático. Quanto ao Maximov,
do oitavo ano, embora a Ira diga que é um parvo, agrada-me observar o seu rosto e os seus
grandes olhos, que pousam em nós distraidamente.
Hoje tive «Bom» a Matemática, o que não me deixa muito insatisfeita; pelo contrário,
sinto-me indiferente, porque penso que não teria podido preparar-me melhor. O nosso
professor de Matemática é um velho alto e extravagante, com poucos cabelos grisalhos e
as pernas rígidas, que não dobram à altura dos joelhos. Tem um rosto grande, com
algumas rugas e um pouco saliente. É simpático e ensina bem, com a sua voz segura,
calma e convincente. Traz sempre vestido um fato impecável azul-escuro e uma bonita
camisa amarelada, daquelas
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com o colarinho aberto que estão tanto na moda entre os jovens; nele, o efeito é burlesco e
insólito.

10 de Setembro de 1934
Que estranho! Durmo muito, estudo pouco e, durante algumas aulas, fico de repente
sonolenta, não consigo levantar a cabeça, sentindo os olhos pesados e a fecharem-se-me.
Hoje, na aula de Ciências Sociais, cujo professor é o Evtchikevitch, nosso velho
conhecido do quinto ano, os rapazes escreveram no quadro: «Saudações do Guenia ao avô
Vassa».
Quando o Evtchikevitch entrou, jovem, com aquele seu aspecto janota e a poupa a fazer
uma onda, soaram na sala risinhos abafados. Aproximando-se da secretária, permaneceu
em silêncio e depois disse baixinho: «Quem fez isto? Olha que escrever estas coisas!» A
turma ficou em silêncio. «Quem está hoje de turno para ajudar na aula?» A Vera Lobanova
levantou a mão. «Viste quem foi?» «Não, apaguei o quadro duas vezes, mas agora...»
«Apaga de novo.» E enquanto a Vera passava a esponja molhada no quadro, acrescentou
com maldosa tranquilidade: «É preciso saber.» Depois, começou a lição, com o «Guenia»
lendo os seus trabalhos de casa. Todos escutavam com impaciência a sua voz muito forte e
decidida e alguns riam com a sua cadência. Que tédio!
A seguir, o Linde levantou-se, magro, cor de azeitona e irrequieto, e encaminhou-se para o
quadro arrastando os pés. Rindo com a boca escondida atrás das mãos, ouvi-o falar,
interrompendo-se com mugidos inarticulados. Agradava-me o facto de poder olhá-lo cara
a cara. Aproveitando a oportunidade, observei o seu rosto, a testa alta, os olhos muito
pretos erguendo-se rapidamente de vez em quando, os movimentos nervosos e irregulares
das mãos e das pernas quando se atrapalhava e procurava as palavras. Escutei com atenção
o seu discurso inteligente e interessante. «Que diabo, fala muito bem!» Não, sem dúvida
que é um rapaz e pêras.
À quinta hora, a professora de Biologia não apareceu. Os rapazes levantaram-se,
dispersaram-se pela sala e depois correram para o pátio, gritando: «Perigo, perigo!» As
raparigas ficaram sentadas nas carteiras, as mais briosas fazendo os trabalhos de casa e as
mais agitadas tagarelando ou escrevendo bilhetinhos aos rapazes.
Sentada com o rosto entre as mãos, raciocinava e analisava como é meu hábito. Sentia-me
muito mal, doía-me a barriga. Tinha inveja do alarido que faziam os rapazes e gostaria de
também participar na confusão e algazarra geral. Mas seguraram-me o bom senso, típico
das mulheres, e o medo de algum gesto violento da parte deles.
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«Espera», disse com os meus botões, «cresceste muito depressa em comparação com os
teus colegas.» O resultado foi o tédio e a dor. Gostaria que as minhas relações com os
rapazes da escola fossem diferentes, sérias e amistosas. Amistosas? Mas o interesse que
tenho por eles é excessivo, parvo, tudo menos de colega!
Para me distrair, pus-me a vaguear pela sala, espreitando os cadernos das minhas colegas.
Numa carteira da primeira fila, os rapazes tentavam tirar a tinta de um tinteiro. Eu e a
Ksiusha começámos a arrancar-lhes das mãos os trapos que serviam para o limpar. Como
alguém tinha enfiado lá dentro um pedaço de papel, tirámo-lo, ensopámos tudo de azul e
escondemo-nos dos dois lados da porta para assustar quem entrasse. Não conseguimos
com as raparigas, mas depois entrou o Leuvka a correr. Pus a mão de fora com tanta
rapidez que ele não teve tempo de travar e bateu em cheio no papel.
A tinta sujou-lhe toda a metade esquerda do rosto. «Oh, Luga, vai para o diabo!», disse-
me, mergulhando um dedo no tinteiro todo azul e sujando-me por sua vez a cara. Parei
naquela altura? Mas nem por sonhos! Apesar de resistir com os braços fortes e compridos,
continuei a esfregar-lhe o papel no rosto. Estava furioso, mas eu não desistia.
Os outros rapazes gritavam à porta. Quando voltei para a minha carteira, as raparigas
desataram a rir, porque tinha a cara suja de tinta e a blusa desfraldada. Apressei-me a
ajeitar a blusa, peguei num lenço e corri para a casa de banho com a Ksiusha. A situação
era ao mesmo tempo embaraçosa e divertida. Onde fora acabar o tédio! O Leuvka veio
atrás de mim, rindo e esfregando a cara. Já não estava zangado. «Nunca me lavei tão
bem», gritou. Estavam feitas as pazes.

12 de Setembro de 1934
À noite fui a casa da avó. Na mesa, encontrei um bilhete surpreendente da Ksiusha. «Vem
logo que leias esta carta. Temos de comunicar-te um segredo importante.» A seguir
vinham vários pontos de exclamação. Curiosa, imaginando que fosse qualquer coisa sobre
mim, corri para casa dela. Mas a novidade era que o Leuvka e o Tolka deviam partir às dez
da manhã de bicicleta pela rua Leninegradski.
Decidimos logo ir vê-los para nos metermos com eles, mas o meu relógio pregou-nos a
partida e atrasei-me meia hora. Chegámos à casa onde mora o Tolka às dez e vinte. Claro
que já não estavam. Depois de termos vagueado um pouco por ali, fomos embora
descontentes, conscientes do ridículo da situação. No que me diz respeito, estou a
140

mudar; ou melhor, já comecei a transformar-me. As coisas que há um ano me pareciam tão


importantes, já não me interessam. Pelo contrário, gosto da escola, e nos dias livres
aborreço-me porque não tenho vontade nem de estudar nem de ler, mas só de ir a qualquer
parte divertir-me.
Hoje tentei durante todo o dia dominar um mau humor cada vez mais forte, mas não
consegui. Vieram os pensamentos e, com eles, a melancolia. A vida fitou-me de frente com
olhos pouco alegres, antipáticos. É uma vida avara, sem alegria. A mamã anda abatida,
doente e sempre atarefada. Não temos dinheiro, é uma miséria. E o meu mundo interior, os
meus ideais, são ainda mais miseráveis. Na escola ando numa roda-viva e não penso, mas
em casa... a monotonia e inactividade arrastam consigo pensamentos sombrios que me
atormentam sem parar. E não tenho nenhum objectivo. Tudo é desagradável e odioso.
Quero viver, divertir-me sem pensar muito. Os livros já não me apaixonam. Leio um
bocadinho e... começo outra vez a reflectir e a sentir-me infeliz. Qualquer dia, sabe-se lá
quando, ainda me ponho a beber para fugir à infelicidade...
Procurei qualquer coisa que pudesse interessar-me, mas não encontrei nada. A literatura?
Mas que escrever? De momento, não estou em condições de conceber estúpidas histórias
de amor. A vida distorceu-se e é-me impossível descrevê-la de maneira clara e viva. Ah, a
minha situação irrita-me e revolta-me, estou como suspensa no ar. Libertei-me das
camadas baixas da vida, mas não tenho força para voar rumo às altas. Acabarei por ser
uma simples e insignificante dona de casa e mãe!

13 de Setembro de 1934
Já há muito tempo que o nosso grupo se dividiu em dois: de um lado as raparigas bem-
educadas e do outro as irrequietas e rebeldes. O ano passado, esta separação não era assim
tão clara. Éramos unidas; fazíamos menos barulho, quase nunca nos metíamos em
confusões e andávamos muito menos com os rapazes. Agora, pelo contrário, é mais do que
evidente.
O grupo da Ussatchevka acalmou-se de todo e não faz senão estudar, enquanto o do
Mosteiro das Virgens se desleixou de todo: deixámos de estudar e fazemos mais confusão
do que os rapazes. Por isso, o Mosteiro das Virgens e a Ussatchevka estão em guerra
aberta. Elas lamentam-se e olham-nos de lado (se calhar também nos
Nota: ssatchevka era o nome de uma rua não longe da escola de Nina.
141

espiam). Ora, que nos importa? Queremos divertir-nos, queremos viver. As raparigas que
estão do nosso lado continuam a trocar bilhetinhos com os rapazes, a correspondência é
cada vez mais intensa. Mas é verdade, eu pessoalmente não lhes escrevo. Talvez seja por
orgulho, mas o facto é que me limito, mesmo assim raramente, a fazer uma ou outra
pergunta às outras sobre o conteúdo das suas mensagens.
Hoje, a Ira, a Zina e a Mussa começaram a falar da festa. Dá-me muita raiva o facto de os
rapazes darem tão pouca importância às festas, quando são os colegas que nos estão mais
próximos! Tenho a certeza de que não vai dar em nada, mas mesmo assim decidi participar
na iniciativa. Receio que os rapazes se virem de repente contra mim, o que seria uma pena.
Entretanto, a «componente masculina» do nosso grupo também se dividiu. Agora é mais
difícil ver o Leuvka ou o Tolka, que são uns parvos, na companhia do Linde, do Antipov
ou do Timosha, jovens que, pelo contrário, terão futuro. No entanto, nos últimos tempos
prefiro os patetas, com quem se pode falar e brio car com simplicidade.
Hoje, o Tolka convenceu-me a levar para a escola a válvula da minha bicicleta, dizendo
que ma consertará. Observei-o de perto pela primeira vez e admirei-me por nunca ter
reparado nos sulcos profundos e viris que tem à volta dos olhos e da boca e no esplendor
dos seus olhos azuis.
Às vezes observo encantada o Leuvka quando, animado, pálido, com os olhos enormes
como lanternas, vira para mim a cabeça despenteada e desgrenhada. Não sei nada do outro
grupo, porque não me interessa ninguém a não ser o Linde e o Antipov, que é um rapaz
tranquilo e simpático, que parece um sonhador. O Linde interessa-me, mas acho que
também me irrita.
Hoje à tarde, quando saímos da escola, parecíamos malucas. Diziamos palavrões,
discutíamos e ríamos, no meio de uma grande balbúrdia. Quando atravessámos a rua,
começámos a meter-nos com o Linde: «Dima, tens os sapatos às avessas!» Ele estugou o
passo. A Ksiusha desatou a rir ainda mais e gritou: «Oh, não aguento mais!» «Tão nova e
não aguentas mais? Ora!!!»
Mas quando cheguei a casa, senti vergonha pela maneira como nos havíamos comportado.
De certeza que nos mandou para aquela parte e se riu de nós no seu íntimo, ainda mais
convencido de que as raparigas são tolas e frívolas. Sou uma estúpida! Nunca mais o farei.
Chega! Já tenho quinze anos.
142

14, 15 de Setembro de 1934 [...]

22 de Setembro de 1934
A Ju I. zangou-se com o nosso mau comportamento, gritou e gesticulou de olhos
esbugalhados. Mas não tivemos medo. O que queríamos era continuar a rir, na paródia. E
com efeito foi assim. Desta vez, os bilhetinhos que trocámos com os rapazes não foram
inúteis, porque decidimos organizar uma noitada. Os rapazes hesitaram durante muito
tempo, o Antipov permaneceu calado, mas os nossos fizeram pressão, levantaram a voz e
obtiveram uma resposta. Por fim, convencemos o Tolka a dizer-lhes que, ao menos,
precisávamos de nos encontrar para discutir o assunto de viva voz. Na realidade, já
tínhamos decidido tudo há muito tempo, mas era preciso dizer aos rapazes.
À noite, depois das aulas, reunimo-nos todos a discutir ao luar. Sombras escuras
estendiam-se dos troncos. O Antipov e o Timosha, de lado e em silêncio, sorriam
embaraçados e diziam que sim praticamente a tudo. Via-se pela desenvoltura do Tolka que
só ele se sentia à vontade. Regressámos a casa juntos, rindo e conversando com animação.
Até há pouco tempo, nunca me aconteceu observar apaixonados de perto e, por isso,
depois de ter reparado na grande atenção que o Tolka prestava à Mussa, desatei a rir e a
brincar. Na escola, o Tolka virava a cabeça, olhava primeiro para nós, depois fitava-a com
os olhos brilhantes e aproximava-se dela. Era divertido vê-los quando discutiam ou
conversavam sobre qualquer coisa. O Tolka inclinava-se e sorria com os olhos
amendoados, grandes e expressivos, semicerrando-os de uma maneira fascinante. Nesta
altura, pára muito mais vezes a falar connosco e está muito amigo das raparigas. O
Leuvka, pelo contrário, um estouvado incurável, continua a dizer palavrões atrás uns dos
outros, mas a sua má-educação desaparece no vazio quando se ri com o rosto rosado, os
seus grandes olhos azuis reluzindo descaradamente.
Sim, claro que isto é tudo muito intrigante, mas já há um mês que acontece o mesmo.
Cresce dentro de mim uma sensação incómoda e a ânsia que me martiriza ainda é ligeira,
mas como será depois? O Linde não aparece há uma semana. Embora me custe a crer, a
Ksiusha viu-o passar hoje de bicicleta. «Se ele não tem bicicleta!», disse o Antipov. Mas
ela insiste que o viu. Que vadio!
Apesar disso, quando chego à escola a primeira coisa que faço é olhar para as árvores
onde costumam estar os nossos colegas, tentando descobri-lo exactamente a ele, àquele
rapaz de pele cor de azeitona, magro e tosco, mas muito, muito interessante.
143

27 de Setembro de 1934
Já tínhamos combinado a festa para o dia 30, estava tudo decidido e até já leváramos
dinheiro. O Linde não aparecia, mas prometera ir à festa. Ontem, de repente, o Leuvka
anunciou: «No dia 30 não posso. Vou estar ocupado das cinco às nove.» «Então anda
depois das nove», escreveu-lhe a Ira. «Não, ficarei muito cansado. De agora em diante,
vou ter que fazer todos os dias livres.» Que pena!
É um fanfarrão que ontem passou o dia a dizer asneiras mas, sem ele, tudo será aborrecido
e pouco atraente. Nem o Linde me fascina assim. Tentei convencer o Leuvka por todos os
meios, mas ele continuou a teimar que não. Era estranho ouvir este mata-sete, que tem
sempre qualquer história com as raparigas, recusar festinhas e passeios na sua companhia.
Lembrei-me das suas palavras o ano passado: «Não sou um depravado.» É verdade, é
evidente. Mas que fazer? Não se pode arrastá-lo à força! No fim, decidimos fazer a festa
mesmo sem ele.
De repente, a noitada pareceu-me uma ideia aborrecida; a determinada altura já não nos
interessava. Mas reunir-nos-íamos na mesma se... Hoje de manhã, perguntei à mamã
quando queria festejar o dia do seu santo: «A 30.» Claro. Tenho sempre uma sorte! Aqui
anda a mão do diabo! Não posso mesmo ir à festa. E gostava tanto! Na escola, disse-o
logo à Ira, que reuniu as outras colegas; depois de alguma reflexão, decidiram adiar tudo
para o dia 6. Devo reconhecer que não esperava. Significa que gostam de mim!
Escrevemos de imediato ao Leuvka: «Tal e tal, ela pode a 6. E tu?» O velhaco respondeu
que não e o Tolka replicou, agastado:
«E cancelam a festa por causa de uma pessoa?»
«Não, eu também não posso.»
O Tolka protestou imenso, dizendo que falta muito para o dia 6. Mesmo assim, ficou
decidido. Ainda bem.
1 de Outubro de 1934
Hoje fiquei em casa. Tinha de lavar os vidros e passar a ferro. Há duas naturezas
diferentes lutando dentro de mim. Uma é a mulher... a outra o ser humano. Trata-se de um
conflito doloroso. Tenho que tomar uma decisão, escolher uma ou a outra. Sei que terei de
sufocar a mulher, mas muitas vezes é impossível. Uma espécie de honestidade para com a
mamã obriga-me a ceder. E de novo sinto inveja dos rapazes. «Oh, se fosse rapaz!» Seria
livre: ao regressar da escola, teria a possibilidade de fazer o que quero, sem me preocupar
minimamente com as tarefas domésticas. O meu egoísmo é compreensível, mas depois
digo a mim mesma: «Se queres chegar a algum lado, elimina os
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bons sentimentos que te levam a ajudar em casa.» É um gesto censurável, mas necessário!
Olha a Eugenia e a Olga: andam por aí todas desgrenhadas e desarranjadas. A mamã passa
a vida a gritar-lhes, mas elas, entretanto, conseguem fazer outras coisas.
Eu, pelo contrário, só posso sonhar: amanhã começarei a tocar piano, depois aprenderei a
tocar bem, depois desenharei, depois... E ainda nada, nada, só sonhos. Deixei de estudar,
não terei mais «Muito Bom» e deverei contentar-me com «Bom»; ao menos nisto mantive
a palavra dada. Estudar na escola é um absurdo. Posso sempre recuperar e por ora tenho
outras coisas para fazer. Quero começar a escrever, mas tenho a sensação de que não vai
sair nada. Dá-me a fúria, sonho ao ponto de me sentir mal e depois... acalmo.
Casarei só por casar. Desposarei um desgraçado qualquer que só quer uma mulher,
submeter-me-ei a ele e permitir-lhe-ei que me faça a coisa mais natural e repugnante do
mundo. Depois terei filhos e a minha vida será como a de qualquer outra. Oh, mocidade,
mocidade! Feliz de quem acredita nas suas ilusões e sonhos! É tudo muito triste.

2 de Outubro de 1934
No dia 23 de Setembro, alguns colegas do coro haviam ficado de vir ter com a Eugenia e a
Olga. Tinham organizado um ciclo «coral» e estavam a preparar-se para uma exibição em
Outubro. Finalmente ia poder vê-los todos de novo! Esperava este dia com tanta
impaciência que corri logo para casa mal acabaram as aulas, sem passar pela avó. Ouvi
vozes e risos atrás da porta.
«Já chegaram.» Bati e a Nina P. veio abrir, dizendo em voz alta:
«Deve ser a Zhorka.»
«- Não, não adivinhaste», respondi, pensando que estivesse sozinha e entrando no
corredor.
Nota: Colega de Eugenia e Olga.

E dei de caras com um rosto (estava tão próximo que era só um rosto) masculino; uma
cabeça bonita, ligeiramente inclinada, e dois olhos azuis, enormes e expressivos. «Olá.»
«Ah, olá!», respondeu, entre a admiração e o escárnio. Mas quando saí de novo da sala, já
não havia ninguém no corredor.
«Entro ou não entro?», pensei. «E depois o que digo? O que faço?» Estava perto do quarto
das minhas irmãs, de onde saíam várias vozes cantando, uma bela e masculina, de baixo, e
outras femininas. «Quem terá a voz de baixo? De certeza que o Sócrates. Ah, poder vê-lo!
Entro?» Caminhava pelo corredor. «Então? Porquê esperar?» Mas no fim desisti e fui
comer a casa da avó. Quando regressei, era o momento
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de entrar com a desculpa de entregar o embrulho que o Kulikovski levara à avó. Comecei
a sentir-me nervosa. «Também não os verei desta vez.» A Olga saiu a buscar água para
alguém.
«Dá cá», disse o Andrei B. saindo para o corredor.
Nota: Andrei Bart, a seguir mencionado só como Bart ou Andrei.

Depois do primeiro copo, pediu devagar, mas com um certo ênfase: «Noch einmal.»
Nota: »Mais» (alemão).

Eu estava sentada à mesa da cozinha e olhava de soslaio para o corredor escuro, onde só
se viam umas pernas compridas e a silhueta de um homem, mas já observara bastante bem
o Bart no primeiro encontro. Ouvindo as vozes e a cantoria, quanto mais esperava, mais a
minha curiosidade aumentava. Tentava por todos os meios convencer-me a entrar no
quarto.
Por fim, foi a Olga que veio em meu socorro. Furtivamente, por uma fresta da porta,
consegui ver o Sócrates. Estava entre o piano e a estante, com os cotovelos apoiados nas
muletas. Tinha os cabelos louros, o largo colarinho da camisa era branco e tapava com
uma mão o rosto, que eu não conseguia ver-lhe. Só pude examiná-los quando saíram. O
Eugênio, pequeno e para o forte, o Zhorka, simples e rústico, o Sócrates, poiado às
muletas, que eu olhava com piedade e vergonha ao mesmo tempo, e o alto e belo Andrei
B.
Nota: Neste ponto, além de sublinhar, o procurador pôs também um ponto de interrogação.

Eu observava-os e eles observavam-me a mim. Senti-me divertida e embaraçada quando o


Andrei disse à Olga: «A tua irmã...» e mais qualquer coisa. Baixei logo a cabeça como se
estivesse a ler e pedi à Eugenia para abrir a porta.
Ficou-me assim a vontade de voltar a vê-los. À noite, a Eugenia e a Olga puseram-se a rir
de mim, fazendo comentários positivos sobre o meu aspecto. Mas sei que são só tretas.

3 de Outubro de 1934
Enquanto durou o bom tempo, aos intervalos passeávamos no pátio sem nos dignarmos
sequer a olhar. Mas, com as chuvas, somos obrigados a ficar no átrio... Passamos o
Inverno a andar de um lado para o outro, aos choques e aos encontrões, sempre com medo
que algum engraçadinho bata contra nós, nos magoe ou nos ofenda. Este ano, os alunos do
sétimo são terríveis, verdadeiros malcriados. A meio do ano, voltar-me-á a angústia, a
vontade de fugir. A escola não me atrai nada. As coisas que me interessam são outras:
escrever cartas, o Linde, o Leuvka, os segredos da Ira, os «nossos».
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«Nós» não somos assim muitas: a Ira, a Zina, a Mussa, que dantes era uma rapariguinha
normalíssima e risonha e que agora se transformou numa bonita jovem de olhos castanhos,
esbelta e de peito cheio; a Raia K., belíssima, com os olhos pretos e ardentes e aquelas
suas mãos delicadas e femininas; a Clara A., que suponho que é lituana e que tem os olhos
cinzentos e às vezes consegue ser muito graciosa; a Mila E., baixa, mas com um corpo
incrivelmente bem-feito e um bonito rosto de olhos escuros; e, por fim, eu e a Ksiusha.
Nós as duas afastámo-nos muito delas, a Ksiusha porque é ignorante, vulgar e
declaradamente cínica e eu... porque não sou bonita, não sei (ou não quero) trocar
bilhetinhos com os rapazes, não tenho nenhuma história de amor e muitas vezes insulto
todos com maldade, julgando com desprezo as suas acções. O nosso grupinho é agressivo
e mandrião. Há quem diga que «andamos atrás dos rapazes».
Com efeito, os colegas são um dos grandes assuntos, se não o único, das nossas conversas.
Todas têm um apaixonado e todas, cada qual à sua maneira, têm uma carinha bonita; só eu
é que não! Que tristeza!
Nós, pelo nosso lado, também temos as nossas preferências: esta prefere o Leuvka e
aquela outro qualquer; para a Ira, o melhor é o Linde, e tanto a Raia como eu somos da
mesma opinião. Tento ser indiferente e discreta e parece-me que consegui nos últimos
tempos. A Raia, pelo contrário, interessa-se tão abertamente pelo seu inteligente e
extravagante herói que o Tolka já me disse uma vez: «Sei muito bem por quem chora.»
Um destes dias, depois da escola, por um fim de tarde escuro e chuvoso, a Ira e a Raia
vieram comigo. Visto que seria inútil, nem lhes perguntei o que as levava a arrastarem-se
tão longe pela lama. Quando contei o sucedido à Ksiusha, perguntou, curiosa: «Não terão
ido a casa do Linde?» Na realidade, já havia imaginado qualquer coisa assim, embora nem
me tivesse atrevido a pôr uma hipótese tão ousada.
Logo que nos encontrámos, a Raia contou tudo sem rodeios. A Ira, pelo contrário, não se
descoseu durante o dia inteiro e só desembuchou à última hora. «Nem te conto», disse-me
a meia-voz. «Estivemos em casa do Linde.» Claro que não falámos de outra coisa durante
o caminho. Ah... estiveram em casa do Linde, falaram-lhe, e era outro Linde, não o que
estamos habituadas a ver na escola. Estiveram perto dele e também viram a irmã. Naquele
ponto, fiz mil perguntas sobre os mais pequenos pormenores, tentando imaginá-lo à porta
a conversar. Pronto, vejo-o a rir, arrastando os pés de maneira estranha e inclinando a
cabeça; agora fala, enredando-se nas palavras enquanto gesticula.
147

Sentia-me um tanto zangada, não porque não me tinham convidado (não iria), mas porque
não haviam achado necessário dividir aquele momento comigo. Cada dia há mais segredos
e, não sei como, perturba-me o facto de eles girarem sempre à volta da Ira, que, por seu
lado, os fomenta.

5 de Outubro de 1934 [...]

6 de Outubro de 1934
A Eugenia e a Olga têm um amigo que se chama Valia K. Já lhes tinha chamado a atenção
quando andavam no sétimo ano por causa dos seus dentes brancos e dos olhos cinzentos.
Depois da escola, a sua amizade continuou: de Inverno, vão patinar juntos e, de Verão,
passeiam no parque de diversões ou encontram-se em casa. A Eugénia e a Olga acham-no
superficial, um jovem oco e aéreo, não lhe têm nenhum respeito e até saem de propósito
só para não estarem com ele.
Costuma vir visitar-nos na noite da véspera do dia livre; assim, de cinco em cinco dias,
aparece muito alegre e sorridente, faz uma vénia e conta todo o tipo de ninharias. Às
vezes, a Eugenia e a Olga tocam piano, cantarolando qualquer coisa: a conversa banal e
tonta do Valia não lhes interessa, mas não podem mandá-lo embora. Na verdade,
suportam-no porque lhes repara os utensílios eléctricos e a bicicleta, tapa as fendas das
caixilharias e tem uma cara bonita.
No dia 29 à noite, a Eugenia e a Olga não estavam em casa. O Valia foi buscar a chave à
avó e decidiu esperá-las. Eu cheguei às onze, ele começou a falar de futebol e eu não
podia ir-me embora. De resto, nem queria, porque era divertido falar com ele assim
sozinha sem me envergonhar pelo facto de estar a passar o serão com um jovem. Propôs-
me um jogo que consistia em barrar vários quadrados numa folha do caderno. Sorri,
divertida, cobrindo a folha de desenhos estranhos. Depois, fizemos figurinhas com o papel
e agradou-me muito perceber que não me sentia nada agitada na sua presença. Quando se
foi embora, ainda me ria como uma maluca, sozinha no quarto.
Com um sorrisinho malicioso, a Eugenia e a Olga quiseram logo saber como tínhamos
passado o serão e tentaram convencer-me de que o Valia gosta de mim. Ontem voltou de
novo e mais uma vez as minhas irmãs não estavam em casa quando cheguei. Preparava-
me para ir direita a casa da avó quando ele começou de repente a contar-me algumas
histórias de Kerch.
Nota: Cidade da Ucrânia, na província da Crimeia.
148

Estava a ouvi-lo encostada à parede e, não sei porquê, comecei


a enervar-me.
Senti-me perturbada com a maneira um pouco vulgar e muito simples como contava a
história de um rapaz que fora dormir só com as ceroulas e que depois vestira a camisa, as
calças e o casaco. Não achava que fosse assim tão tosco. Na realidade, não disse nada de
especial, mas falou tanto, prendendo-se com tantos detalhes sobre o guarda-roupa
masculino que começou a parecer-me odioso.
Foi uma sensação que não diminuiu nem quando chegaram a Olga e a Eugenia, com a qual
começou a jogar à mesma coisa que comigo na outra noite. Já não me agradavam os seus
olhos cinzentoescuros postos em mim, nem o seu bonito sorriso. Isto tudo despertou em
mim uma sensação confusa, pouco clara e muito perturbadora.

9, 10 de Outubro de 1934 [...]

12 de Outubro de 1934
Ontem: aulas extenuantes e aborrecidas, incompreensão, revolta e medo, intervalos
monótonos e penosos no átrio, cheio de rapazotes vulgares, sonolência e cansaço durante
as últimas horas. Todo o dia a esperança de que mude qualquer coisa, de que a situação se
torne mais serena e interessante. As últimas horas pareciam insuportavelmente aborrecidas
e horríveis. O professor de Física, um velho alto e pavoroso, de rosto amarelo, hirsuto e
simiesco, que ainda por cima gagueja, principiou por nos explicar qualquer coisa, depois
começou a fazer chamadas e a atormentar-nos, dando más notas a toda a gente.
Farta de ter medo, estava sentada, apoiada à carteira e escutava, desanimada. A Ira e a
Raia atiravam bilhetinhos para trás e para diante e riam. «Pronto, lá voltamos ao mesmo.
Cá está de novo a tristeza», disse de mim para comigo. Pelo menos ainda resisti um mês e
meio. «Nina, virás amanhã à uma? Vais mesmo aceitar a aposta?», cochichou-me a Mussa,
voltando-se. «Virei.» «Sei que não virá», comentou a Ira. «Virei se não me acontecer
nada», respondi, tentando sorrir. «Ficarás doente de propósito.» «Porquê de propósito?»
Enquanto regressava a casa, parecia-me estar um pouco mais serena, mas continuava a
pensar como poderia evitar ir à escola no dia seguinte. Que podia fazer? Envenenar-me?
Este pensamento não me causava medo nem horror, não queria saber da vida. Parecia-me
a solução mais simples. Em casa da avó, peguei num frasco de ópio. «E se de repente
mudasse de ideias?» Almocei e fui para casa. Pus vinte
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gotas escuras num copo e bebi-as antes de ir para a cama. Bebi-as mesmo! Um sabor
áspero e amargo espalhou-se-me pela boca e queimou-me o nariz.
Contente com a minha coragem, aninhei-me nos cobertores, pronta a adormecer. Mas não
conseguia. Meio a dormir, pensava no que sucederia no dia seguinte. Não podia acreditar
que estaria morta. Era estranho, como se me dividisse em duas: uma parte de mim sentia-
se contente por não ter de ir à escola, por causa da aposta com o Vadim M. enquanto a
outra tremia.
Nota: Vadim Mtiller.

Começava a sentir-me confusa, fraca e tonta, parecia que alguém me puxava a cabeça para
trás. Dei um salto de repente, como se estivesse com uma convulsão.
Acordei quando a mamã entrou no meu quarto. Queria abrir os olhos e pensava: «E se me
traí?» Observei a luz brilhando através das pestanas semicerradas. Quando a mamã apagou
a luz, acalmei e disse qualquer coisa. Dali a uns minutos, consultei o relógio. Faltavam
vinte minutos para a uma.- «Já passaram duas horas e meia. Que quer dizer?» Sentei-me
na cama, abraçando os joelhos: «Vinte gotas. Não seria ópio? Não, não pode ser. Mas
então porque não faz efeito?»
A minha pulsação estava muito rápida e sentia calor. Atirei a cabeça para trás, descontraí e
pensei: «O que significa isto tudo?» Depois, acordei outra vez. Ainda estava escuro e o
luar brilhava na parede. «Que horror! Enganei-me? Se calhar não era ópio! Irei ter com o
M.? Oh, não! Mas que posso fazer? Agora já não fará efeito... Mas bebi vinte gotas... O
que seria então?»
Aninhei-me e tentei voltar a adormecer. «Tenho tanto azar! Decido envenenar-me e nem
isso consigo!» De manhã, levantei-me como sempre e corri logo a casa da avó. Que havia
no frasco? Descobri que era uma mistura de ópio e outro remédio.

18 de Outubro de 1934
Hoje fui com a Ksiusha ao Teatro Bolshoi, para a última despedida ao Sobinovl
Esperámos três horas e, quando por fim atravessámos a entrada alta do Bolshoi, estávamos
enregeladas. A grande escadaria de degraus baixos encontrava-se enfeitada com grinaldas
negras e nos degraus havia perfumados ramos de abeto. Uma luz quente e amarela
emanava dos enormes candelabros entalhados e os polícias, em sentido, pareciam estátuas.
Uma tranquila e escura fila de pessoas atravessava a sala em silêncio. O corpo, coberto de
flores, estava num
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pedestal. De baixo, viam-se as mãos amarelas e a cabeça oval. O coro cantava baixinho
uma austera marcha fúnebre... Perto da parede estava uma menina pequena, de olhos
escuros e sérios, envergando um vestido de malha branca e, ao seu lado, uma mulher e um
senhor grisalho.

20 de Outubro de 1934 [...]

21 de Outubro de 1934 [...]

22 de Outubro de 1934
Este meu estado de espírito entre a perplexidade e a tensão, se não o tédio, está a passar.
Hoje na escola divertimo-nos imenso. Como a professora de Alemão faltou, pusemo-nos a
escrever bilhetinhos ao Leuvka. A nossa troca de correspondência correu muito bem ao
princípio, mas depois ele começou a disparatar, dizendo até palavrões... Que porco!
Deixámos logo de lhe escrever, mas divertimo-nos na mesma. O Leuvka é o mais parvo da
nossa turma. Nenhum outro consegue praguejar com tanta liberdade e gosto ou dizer
maldades de todos os tipos, mas também nenhum outro tem um riso tão encantador e
contagioso.
Estava muito zangada com ele, mas enquanto conversava com a Ira no fim das aulas, não
pude deixar de admirar-lhe a cabeça um pouco inclinada para trás, os esplêndidos cabelos
dourados, a testa belíssima, os olhos semicerrados e o sorriso espontâneo, insolente,
malicioso e muitas vezes desdenhoso, mas tão bonito! Oh, tão belo, atraente e alegre! Não
consigo compreender como uma pessoa tão culta, que leu tantos livros e que vem de uma
boa família, pode ser indisciplinada de uma forma tão odiosa.
Não há muito tempo, a Mussa disse-me:
«Sabes uma coisa, Nina? Há um rapaz que gosta de ti.»
«De mim?... Que bom!... Mas é melhor não me dizeres quem é, para eu não mudar o meu
comportamento.»
«Não sejas estúpida.»
«Está bem. Então quem é?»
«O Margosha.»
«O Margosha? De onde te veio essa ideia?»
«Foi ele que me disse.»
«Oh, pára com isso, não acredito. Quando?»
«Ontem. Eu e a Zina estávamos a trocar bilhetinhos com ele e perguntámos-lhe de quem
gostava. E ele escreveu: ”Da Lugovskaia.»
A Mussa continuou a contar outras tolices, mas não acreditei nela. Porque haveria de
acreditar? Porque veio a Mussa informar-me desta troca de bilhetinhos? Agora não
conseguirei acalmar-me. A incerteza aborrece-me; tenho de descobrir se é verdade ou não.
Quase não acredito. Como poderia ser de outro modo? O Margosha estava só a tentar
livrar-se dela. Quem seria assim maluco ao
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ponto de dizer com franqueza de quem gosta? Mentiu, deu uma boa risada e eu... quase,
quase acredito, mas felizmente não de todo. No entanto, não consigo deixar de pensar nele
e de o observar pelo canto do olho. Tentei encontrar alguma coisa de especial na maneira
como me olha, mas não vi nada.
Agora, esta minha atenção em relação ao Margosha está a diminuir, se bem que, sem
querer, continue a seguir tudo aquilo que faz. Ouço todas as novidades que me transmite a
Mussa, com a qual o M. fala muito durante as aulas. Uma vez aproximei-me e ele olhou
para mim enquanto dizia qualquer coisa. Fiquei feliz, apesar de ter a certeza absoluta de
que não gosto dele.

25 de Outubro de 1934
A Mussa é uma judia pequena e graciosa. Tem os ombros redondos, as coxas cheias e
arredondadas, seios desabrochando e um corpo esbelto. O cabelo é preto e fino, os olhos
castanhos e quentes e o rosto rosado, macio e opaco. Não tinha reparado na sua beleza. É
muito viva, palradora, inteligente e parece que agrada muito aos rapazes. Por seu lado,
também gosta muito de passar o tempo com eles.
Há um aluno do nono ano, de olhos escuros um tanto bovinos e rosto redondo e simpático,
que a cobre de atenções, espicaça-a, brinca com ela e chama-lhe afectuosamente a sua
«pequena moreninha». Parece que ela anda fascinada, sobretudo nos últimos tempos, o
que faz o Margosha dar em doido.
As relações entre nós as duas são excelentes. É muito aberta comigo e estou-lhe muito
grata por isso, ainda que não possa pagar-lhe na mesma moeda porque não consigo ser
assim sincera com ninguém. Não pretende nada de mim. Ontem, no nosso dia livre, a Ira
foi a casa dela. Enquanto conversavam, a Ira irritou-a mais de uma vez com a história do
Margosha, acabando por lhe mostrar um bilhetinho assinado B. M. A Mussa, que, na
realidade, está muito curiosa e que se calhar também se sentiu espicaçada, contou-me
tudo, e reflectimos as duas sobre qual podia ser a explicação. Na escola não tínhamos
reparado em nada que indicasse a existência de alguma relação entre eles, não vimos
olhares nem alusões. Seria possível que se controlassem a esse ponto? [...]

26 de Outubro de 1934
Se estivesse apaixonada pelo Margosha, não pensaria nele tanto como agora. Apesar disso,
continuo a repetir para mim mesma que
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não gosto dele. Recordo a minha paixão pelo Leuvka, quando passava horas a fio a olhá-lo
e empalidecia e tremia de cada vez que lhe dirigia a palavra, entusiasmando-me com tudo
o que fazia. Mas não era amor. O Margosha interessa-me, sinto-o. No caso de alguns
rapazes, nem reparo neles, mas a este percebo-o com todo o meu ser. Sem querer, sem
olhar para ele, sigo e escuto todas as suas palavras.
Mas o Margosha gosta da Mussa. E eu? O que posso desejar? Tenho a certeza de que é
verdade, mas, apesar disso, todos os dias espero dele uma palavra ou um sorriso. É difícil,
mas também intrigante, esconder os meus sentimentos dos outros, tentar não mostrar
nenhum interesse particular pelo Margosha. Procuro não olhar para ele mais vezes do que
o costume. Até agora estou a conseguir, mas o esforço e a contínua espera por qualquer
coisa põem-me terrivelmente nervosa. Às vezes, não consigo impedir-me de o observar, o
que é insuportável. Depois, a vergonha de mim própria até me queima.
A Mussa fala-lhe com espontaneidade e brinca com ele de um modo natural e simpático. E
pensar que só tem catorze anos! Eu tenho quase dezasseis e sou uma rapariga horrível e
estúpida. Às vezes sinto tristeza e vergonha bem no fundo da minha alma. Sei que sou
uma pessoa incapaz, banal e aborrecida. Nunca ninguém se interessou por mim, nem
sequer por um segundo. Sou cada vez com mais frequência invadida por momentos de
uma tristeza insuportável. De repente, há qualquer coisa que me afecta e mal consigo
controlar-me. Receio que também este ano tenha de interromper a escola e passar uns dias
em casa se não quiser ficar deprimida.
O Margosha é intrometido, desajeitado como um urso e divertido. Mas gosto de o
observar, gosto de ver a sua figura descomposta no átrio e de receber de vez em quando
um olhar seu, casual e indiferente. Preciso de me deslocar para outra carteira e tentar
esquecer, mas não faço senão exasperar-me com o que devia cortar pela raiz. Tudo isto
passará em breve, tem que passar: mal chego a casa, espero com impaciência o dia
seguinte e a escola, e durante as aulas só penso no momento em que irei para casa.
A E. V. é a nossa professora de Literatura. Não é nova, mas tem uma cara muito simpática,
belíssima, com os olhos escuros. Agrada a todos, todos gostam dela. Zanga-se raramente e
está sempre calma e segura. As raparigas decidiram que eu sou a sua aluna preferida.
Levaram a sério várias coincidências e puros acasos e agora dizem sabe Deus o quê.
Insistem para que eu seja chamada de novo a Literatura, de modo a ter um «Muito Bom»,
e zangam-se porque não estou de acordo.
Por isso, comecei a ter alguma aversão a esta professora, uma espécie de sensação de
indignação e raiva. No intervalo para o almoço,
153

ela própria veio ter comigo e perguntou-me: «Lugovskaia, por acaso não queres ser
chamada outra vez para teres ”Muito Bom”?» «Não, não quero», respondi
categoricamente, voltando a atenção de novo para o prato. Mas hoje, no fim das aulas, a
Mussa aproximou-se de mim com a cara radiante e disse-me: «Pronto, está decidido.
Parabéns!» Pensando que estivesse a falar da aposta com o Margosha, apertei-lhe a mão
com força. Mas afinal foi a Mussa que resolveu ir ter com a E. V. para lhe dizer que estou
muito mais bem preparada do que o simples «Bom» que tive, e ela mostrou-se logo
disposta a chamar-me outra vez. Por isso, amanhã lá tenho de estudar de novo O Demónio
Branco, porque não posso arriscar-me a que a chamada corra mal.
Nota: Conto de Leão Nikolaievitch Tolstoi, escrito em 1904, mas censurado e publicado
apenas em 1910.

27 de Outubro de 1934
Estudar outra vez O Demónio Branco? Oh, meu Deus! Em qualquer caso, não terei
«Muito Bom», porque não estou capaz de dizer duas frases seguidas e é necessário falar
pelo menos cinco minutos sem parar. Não é terrível, mas é desagradável ser interrogada de
novo e não melhorar a nota. Para que foi a Mussa falar com a E. V.? Sinto-me muito mal,
não estou à altura da situação, tenho raiva e vergonha e não posso fazer nada.
Sou a pessoa mais vulgar e banal do mundo, e o pior é que, no passado, tanto eu como os
outros achávamos que tinha muito talento. Que ilusão estúpida e triste!
Há já muito tempo que deveria ter acalmado e sossegado, mas tendo a revoltar-me cada
vez mais. Por exemplo, porque é a Ira tão graciosa e inteligente e vai tão bem na escola?

28 de Outubro de 1934
Quando soube pelas outras que o Margosha gosta de mim, tive logo por ele um sentimento
negativo, quase uma aversão, se bem que da sua parte não houvesse sinais de uma
simpatia especial. Comecei a observá-lo e ouvi-lo com atenção e esta repulsa passou-me
depressa. Nos últimos tempos, tive a sensação de que não gostava nada de mim, mas ele
começa a interessar-me e o seu rosto já não me parece tão tosco. Ontem, durante a
distribuição dos cadernos de Zoologia, passou-me o meu sem se virar, com um gesto
indiferente. Senti-me ferida e muito zangada com ele. Esta não ta perdoo!
154

Aconteceu a mesma coisa com a E. V. Gosto cada vez mais dela desde que as minhas
colegas me convenceram de que tem um fraquinho por mim, mas ontem, quando me dei
conta de que é tudo uma treta e que afinal é a Ira a sua preferida, mudei logo de
comportamento, embora acalentando na alma o desejo de atrair as suas simpatias.

29 de Outubro de 1934 [...]

30 de Outubro de 1934
Como em todos os dias livres, aborreci-me. De dia, fui a casa da Ira para ver se conseguia
divertir-me um bocado. Estava sentada na cama, alta, magra, com os bastos cabelos soltos
(uma avalanche de cabelos)... e um vestido velho, agora curto. Falámos de parvoíces.
Sugeriu-me que fôssemos a casa da Mussa, mas recusei, receando encontrar alguma
pessoa estranha ou os seus pais. É doloroso e ridículo imaginar o que deveria fazer ou
dizer nesse caso.
O papá esteve aqui a noite passada. Senti de novo dentro de mim um nó na garganta e uma
raiva tremenda contra os bolcheviques, mas também um desespero profundo pelo meu
estado de impotência. Tive pena dele, vagabundo, doente e sem casa.
Mais tarde, como lera Lermontov, pensei em escrever um poema. Sorrindo, peguei numa
folha de papel e num lápis e escrevi qualquer coisa de insensato. De início, quis rasgar
tudo, mas depois decidi passar para o diário a parte que me saiu melhor.
Odeio o mundo, e ainda assim amo infinitamente o mesmo mundo. Como é odiosa a vida
que se escoa arrastada apenas no terror! O meu destino, lento e furtivo, é viver numa
concha estreita e escura. E calar os meus sonhos íntimos ou aquilo em que só eu reparo.

9 de Novembro de 1934
Na manhã do dia 6, a Eugenia acordou-me cedo. «Queres ir ao Teatro Novo? Tenho
bilhetes.» Embora me apetecesse continuar a dormir, forcei-me a dizer que sim. Por volta
das onze, estávamos à frente da Casa do Governo, no passeio largo, asfaltado, belo e
muito limpo que segue ao longo do rio. As encrespadas e escuras ondas do Moscova
agitavam-se entre as margens de pedra e passavam debaixo
155

da ponte cinzenta e baixa. Quando tirámos os casacos e entrámos no foyer, senti-me pouco
à vontade com o meu vestido amarrotado e talvez também sujo. Aterrorizava-me a ideia de
que algum amigo da Eugenia pudesse aproximar-se e começar a falar com ela, enquanto
eu ficaria ali, ridícula e horrível, roendo as unhas e olhando para outro lado, maldizendo a
minha vida. Não há meio de me libertar desta timidez!
Se estivessem naquele teatro umas pessoas quaisquer, um público normal, sentir-me-ia
bem, mas achava-me completamente estranha e ridícula no meio daquela família alegre e
unida, onde todos se cumprimentavam e sorriam. Esqueci-me de que, na realidade,
ninguém me prestava atenção.
Enquanto subíamos ao primeiro andar, parámos na escadaria a olhar para baixo, vendo a
multidão que passava. Fiquei tão aterrorizada, mesmo naquela altura, que o coração quase
me parou dentro do peito. Exactamente por isso, deu-me vontade de rir. Antes do início
das cerimónias oficiais, um tal Iuri T. aproximou-se da Eugenia.
Nota: Iuri Tupikov, colega de Eugenia, que depois veio a ser seu marido.

Como já estávamos sentadas e o lugar ao lado dela se encontrava ocupado, sentou-se ao


meu lado com toda a naturalidade, e eu fiquei no centro da conversa. Assim no meio,
mantive os olhos baixos, virando e revirando entre as mãos o talão do bengaleiro e
sentindo-me tola e ridícula.
Quando a Eugenia nos apresentou, olhei a medo para aquele jovem sentado ao meu lado e,
sem mesmo o cumprimentar, fiz-lhe desajeitadamente um aceno de cabeça. Lembro-me
dos seus olhos pretos, a que as pálpebras semicerradas davam um ar turvo, como os de um
bêbado. A Eugenia diz que são «olhos de desequilibrado». O meu estado de espírito era
intolerável, de chorar. Sentia uma tremenda cólera e um embaraço terrível porque, por
minha causa, a Eugenia sentara-se comigo, longe dos amigos, quando poderia muito bem
estar lá em baixo com eles.
Depois, passou tudo e até acedi a descer. Conheci o Eugênio, um rapaz simpático, alegre e
vivo. Enquanto dizia qualquer coisa à minha irmã, tentava observá-lo bem, lançando-lhe
breves olhares. Tinha a testa estranhamente quadrada, o cabelo ondulado e claro e uns
olhos que me deram a impressão de ser duas manchas azuis.
No mesmo dia, à tardinha, fui à récita da escola. A diferença entre o instituto superior,
frequentado por pessoas adultas e sérias, e a minha escola, com as suas matérias sem
interesse e os seus professores aborrecidos, apareceu-me com desoladora clareza. Que
tédio insuportável!
156

12 de Novembro de 1934
Os amigos da Eugenia e da Olga ficaram de ir a nossa casa no dia 8. Esperava aquela noite
com ânsia e terror, começando a recear que não aparecessem. Por acaso, o Vânia, o pintor,
também lá estava. Impressionada com a sua presença, não ousava atravessar a soleira e
passava continuamente à frente da porta, olhando na sua direcção, mas não me decidindo a
entrar no quarto. Encontrava-se sentado com os cotovelos apoiados na mesa, na penumbra
azul do abajur, era belo e viril e tinha qualquer coisa de poético. De vez em quando,
chegava aos meus ouvidos o som da sua voz baixa, cativante e tranquila. Passavam-me
pela cabeça todo o tipo de parvoíces.
Os rapazes começaram a chegar por volta das nove. Ainda passou um bocado até eu
conseguir vencer a minha timidez, e talvez nunca me tivesse decidido se a Eugenia não
batesse na parede, gritando:
«Nina Pequena anda cá.»
Nota: As «Ninas Grandes», Nina P. e Nina K., eram colegas das irmãs.

Naquela altura, fui. As visitas estavam sentadas na cama e nas cadeiras. À minha frente, a
Nina tocava piano enquanto o Nikolai N., de pé no meio da sala com o seu corpo pequeno
e forte, numa pose pitoresca, cantava qualquer coisa muito alto.
Lancei um rápido olhar a todos, encostei-me à parede e o medo passou-me. A alegria e
espontaneidade eram gerais. Como ninguém me prestava atenção, comecei a sentir-me à
vontade, quase por acaso. Toda a gente parecia amável e até bondosa. Estava lá o Andrei
B., um belo rapaz desembaraçado e espirituoso, de enormes olhos azuis espreitando de
soslaio, o Sereuja, baixo, simpático, muito engraçado e inteligente, e o Nikolai N., um
tanto rude, desenvolto e alegre.
Tive muita pena de não ver o Eugênio. Esperei-o até às onze no segredo do meu coração.
A Olga também estava muito contrariada pela mesma razão, e quando o Zhorka lhe contou
que o Eugênio tinha ido a outra festa, vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Com efeito,
parece-me que anda a gostar dele mais do que de costume. Puseram-se a dançar depois do
chá, enquanto eu os observava, sentada a um canto. O Sereuja ensinava a Olga a dançar
tango e percebi pela primeira vez como os seus olhos cinzentos são sérios e inteligentes.
Ao fim da noite, suponho que a mais contente de todos era eu. De resto, sentia-me também
muito satisfeita por não ter tido medo de entrar no quarto.
Ontem à noite, houve uma festa na Casa de Estudantes onde vivem uns amigos da Eugenia
e da Olga. O seu grupo levava à cena um vaudeville curto e elas tinham-me convidado.
Fui com a Ksiusha por
157

volta das nove. Saímos por engano uma paragem antes da II Donskaia e, muito agitadas,
corremos rindo por uma ruela escura e deserta. Por fim, conseguimos chegar ao nosso
destino e entrámos, olhando em volta com ar perdido. As caras que vimos eram todas
desconhecidas, estranhas, quase inimigas!
Por fim, encontrámos à entrada o Zhorka, a quem a Eugenia e a Olga tinham pedido que
viesse ao nosso encontro. Acompanhou-nos até às primeiras filas e instalou-nos. À nossa
volta, alguns estudantes, que me pareceram simpáticos, conversavam e faziam um grande
alarido. Eu observava tudo o que acontecia perto de mim, tentando não perder um gesto,
uma palavra. Depois chegou o Sócrates, com o cabelo claro e as compridas suíças escuras
no rosto pálido: um homem fascinante. Como se sentou atrás de nós, pus-me a ouvir o
assunto da sua conversa com outra estudante. Continuava a sentir uma certa pena dele.
Depois de me ter ambientado um pouco, fui aos bastidores... e de repente dei comigo no
camarim das mulheres. Tinha várias actrizes à minha frente e nem um rosto conhecido.
Passaram alguns momentos de embaraço, durante os quais sentia os seus olhos silenciosos
postos em mim. Não compreendia: a maquilhagem tê-las-la mudado assim tanto? Nisto,
entrou uma rapariga com um vestido turquesa e uma cabeleira clara e reconheci a Eugenia,
mas só pela voz. Mesmo assim, apesar de me ter ambientado passado um bocado,
continuei sem coragem para levantar os olhos até aos seus rostos maquilhados.
Eis que a comédia começou. O Eugênio decidira iluminar as caras dos artistas,
mergulhados numa escuridão absoluta, com pequenas lanternas eléctricas. De vez em
quando, notavam-se objectos atrás das pregas ondulantes do palco, e sentia-me mal ao
ouvir as gargalhadas maldosas e trocistas do público. Mas foi ainda pior quando
levantaram o pano e apareceram no palco a Eugenia e a Nina K. Senti-me embaraçada e
aterrorizada por elas e passei toda a peça com medo de que se enganassem.
Mas correu tudo bem. Depois de uns poucos aplausos, o público levantou-se, e eu e a
Ksiusha fomos aos bastidores. Estavam todos emocionados e agitados. O Andrei B.,
pavoroso com os cabelos empoados e o nariz postiço, dizia graças sem parar e,
debruçando-se para a Olga, limpava-lhe o rosto, tirando-lhe a maquilhagem. Depois de se
terem vestido, a Eugenia e a Olga pegaram nas suas bugigangas, passaram por um
comprido corredor iluminado e dirigiram-se ao quarto 208, onde vivem o Zhorka, o Kolia
N., o Ozerov e o Eugênio. Durante a comédia, o Eugênio parecera-me particularmente
simpático
158

e, naquele momento, pensava com alegria nas maravilhosas entoações da sua voz.
Eu e a Ksiusha andámos no corredor de um lado para o outro, perto do quarto 208, até o
Nikolai N. nos ter convidado a entrar. Estava uma confusão de doidos. Nas camas,
amarrotavam-se desordenadamente casacos, fantasias e folhas. Sentámo-nos numa delas.
Em lugar de irem dançar, as raparigas ficaram muito tempo a conversar com o Zhorka e o
Eugênio. A dada altura, decidiram apagar as luzes e apenas algumas lanternas ficaram a
iluminar os perfis mergulhados na penumbra. Todos riam e brincavam. Aproveitando a
escuridão, pus-me a observar o Eugênio e senti crescer dentro de mim uma certa simpatia,
afecto e doçura. Cansado e ensonado, estava sentado com a camisa ligeiramente aberta no
peito e sorria, encantador e amável. O Bait, pelo contrário, já não me agradava nada e
admirei-me muito quando, à saída, se voltou para mim e me estendeu a mão: observou-me
com um olhar penetrante, expressivo e surpreendido, que eu devolvi quase sem querer, de
uma maneira intensa mas tranquila. Sim, gosto muito do Eugênio. Veremos o que
acontecerá.
13 de Novembro de 1934
Já descarrilei outra vez. Não encontro paz e assaltam-me pensamentos e desejos
inexprimíveis e ingénuos. Ontem, o Zhorka e o Andrei B. vieram visitar as minhas irmãs.
O Andrei B. tinha uma aula de dança, durante a qual fiquei a olhá-lo sem conseguir conter
o riso, porque é alto e muito pouco gracioso. Enquanto dançava com a Olga, apertavam-se
um ao outro: ele inclinava o bonito rosto magro e elevava o corpo dela, pequeno como
uma miniatura, com a cabeça erguida para ele.
Mostravam-se soltos e naturais à sua maneira. Enquanto brincavam, o Andrei acariciava a
cabeça da Olga e apertava-a tanto contra si que comecei a sentir-me pouco à vontade por
eles e a achar a situação ridícula. A Olga namoriscava com ele, se calhar sem sequer se
aperceber, mas com uma coqueteria toda feminina, piscando os olhos matreiros de uma
maneira um tanto zombeteira. Já enlouqueceu o Zhorka, que agora vem todos os dias a
nossa casa, e penso que o Eugênio gosta dela. Ontem, o Bart também se mostrou
particularmente afectuoso com ela.
Passo a vida a sonhar com o instituto superior e, acho... com o Eugênio. Há algum tempo,
o papá disse-me que as inscrições do Instituto Têxtil abrem em Janeiro. Tenho a certeza de
que só aceitam os estudantes que terminaram o oitavo ano, mas mesmo assim pedi
159

à Eugenia para se informar bem. Que bom seria livrar-me de uma vez por todas desta
escola odiosa e sufocante! Levaria, por fim, uma vida completamente diferente. Enfim,
apesar de o meu caso ser quase desesperado, apetece-me tanto sonhar!
Penso muitas vezes na maneira como o Eugênio levantava a cabeça quando sussurrava
qualquer coisa à Olga e como ria de um modo que só ele sabe. Parece-me que gosto
demasiado dele. É provável. Sei que depois ficarei desiludida e que esta minha paixão
parva passará, mas isso virá depois... Agora... o seu rosto é iluminado por um halo de luz e
sinto alegria, paz e serenidade na alma.
A escola já não me interessa; não preciso dela para nada: já quase não ligo ao Margosha e
até me esqueço de pensar no Linde. E o Leuvka? Não, ainda não perdeu o fascínio que
exerce sobre mim. Tal como dantes, não consigo deixar de sorrir quando vejo o seu
estranho corpo magro, a cabeça desgrenhada, na qual há ainda tanto de adolescente, se não
mesmo de infantil, e os olhos vivos, insolentes e presunçosos. Às vezes, lembra-me o
Dolokov de Guerra e Paz.
Tive hoje uma notícia incrível: o Leuvka, que está sempre a dizer palavrões e a troçar das
mulheres de um modo vulgar, escreveu um bilhetinho à Ira: «Ira, gosto de ti e cabe-te
decidir se ficas ou não depois da escola. Obedeço à tua vontade.» Fiquei estarrecida e,
tenho de admitir, magoada.

18 de Novembro de 1934
Hoje, o Zhorka e o Eugênio vieram ter com a Eugenia e a Olga. O Eugênio
cumprimentou-me com os olhos risonhos e brilhantes; observei-os por uns instantes e
depois olhei para outro lado. A Olga propôs ao Zhorka ler um manual escolar enquanto a
Eugenia ia para o meu quarto com o Eugênio. Ainda hesitei, mas... fui atrás deles. Claro
que preferia ouvir um romance a um manual escolar.
«Posso?», perguntei, entrando. «Claro!» O Eugênio, sentado ao lado do candeeiro da
mesa, preparava-se para ler. «Espera um minuto», disse a Eugenia. «Vou buscar o meu
caderno.» E saiu. Levantei-me, examinei os livros e, virando-lhe as costas, pensei com os
meus botões: «Eis-nos sozinhos. Lembras-te das parvoíces que imaginaste quando tivesses
uns minutos assim?» E sorri.
A Eugenia regressou, eu sentei-me, apoiei os cotovelos nos braços da poltrona e, sem
mexer os olhos, pus-me a fitar o Eugênio. Como estava a ler, não podia embaraçar-me
com as suas atenções. Observei-lhe o rosto absolutamente normal, os olhos pequenos, o
nariz
160

direito e um tanto largo, a testa esquiva, a nuca, as orelhas minusculas bem chegadas à
cabeça e o cabelo claro e flexível, com ondas regulares. Sempre que fazia um comentário,
olhava-me pelo canto do olho, e era agradável encontrar os seus olhos umas vezes
cinzentos e outras azul-claros.
Pediram-me que posasse para eles. Depois de hesitar muito, acedi por fim e sentei-me.
Nunca senti nada tão agradável nas poses anteriores, que foram sempre um suplício.
Agora, pelo contrário, com a cabeça encostada à parede, fitava o caderno da Eugenia de
olhos semicerrados, invadida por uma sensação muito agradável e tranquila.
Amo-o! Este pensamento muito doce não me saía da cabeça. «O que quero? Nada. Quero
ficar aqui sentada e que ele me diga alguma coisa.» Não via a hora de fitar de novo os seus
olhos de perto, como sucedera quando nos víramos de pé ao lado um do outro e ele me
dissera: «Ninotchka, mas porque não quer posar?» Os seus olhos estavam de um azul-
escuro parecido com o céu ao crepúsculo. «Que tormento ser a mulher, a mãe, o irmão ou
a irmã de um desenhador!», disse o Eugênio. «Mas é muito bom ser da família de um
desenhador de talento», respondeu a minha irmã. «Sim, se for bom, de certeza!»,
acrescentei com jovialidade. «Estão a troçar de nós, Eugénia!», concluiu o Eugênio, rindo.
Depois calaram-se, enquanto eu, sem querer, continuava a sorrir. «Como o seu nariz e os
seus lábios são cheios e infantis!», observou a minha irmã. «Se ainda sou uma criança...»,
murmurei, rindo. A minha irmã respondeu-me, lançando-me um olhar significativo e
sorridente.
Quando se prepararam para partir, não me escapei como fazia sempre. O Zhorka foi o
primeiro a despedir-se. Gosto dos seus grandes olhos claros, mas tenho a impressão de que
não simpatiza comigo. O Eugênio avançou e apertou-me a mão à pressa, com o seu olhar
afectuoso; tive a sensação de que queria sorrir-me. Foi o último a sair e fiquei a olhá-lo.
Sabia que, ao fechar a porta, se viraria e o seu último olhar se pousaria também em mim.
Fui para a cama agitada, sonhando: «Talvez venha amanhã.»
Lembrei-me de uma noite em que o Eugênio estava em nossa casa, mais sério e
carrancudo do que de costume, sem prestar atenção às pilhérias e risos dos outros. Reparei
que também roía as unhas. Toda a noite esperei com inexplicável impaciência a chegada
da Dussa, que afinal não apareceu. Porque desejava tanto vê-los juntos? Para o ver
sobressaltar-se e animar-se? Ou esperaria que as minhas suposições fossem falsas? Sei lá!
Chegada a hora de dançar, virou-se duas vezes para mim enquanto tocava piano. Da
primeira, os nossos olhos encontraram-se e ele perguntou com vivacidade: «Estou a tocar
muito
161
alto?» Da segunda, quase não reparei e só vi o movimento da sua cabeça pelo canto do
olho.
Agora compreendo, por fim, a razão daqueles estranhos olhares: pensa que me aborreço e,
por bondade, tenta incluir-me na conversa. Já me chamou «Ninotchka» duas ou três vezes,
mas ninguém repara porque ainda sou pequena. Para mim, no entanto, é divertido.

Noite
Graças a algum milagre, hoje só tive duas aulas na escola, e ainda bem, porque até a essas
duas me custou resistir. É um ambiente no qual me sinto uma estranha; a vida escolar
passa-me ao lado sem me tocar. De vez em quando, a Mussa, a pequenota, virava-se muito
animada e dizia qualquer coisa com os olhos pretos e brilhantes. Respondendo à pergunta
que lhe fora feita no jogo «verdade ou consequência» sobre de quem gostava, o Margosha
escreveu-lhe: «De ti.» Ela fez uma expressão indiferente, um pouco admirada e com uma
pontinha de desagrado, no momento em que me ouviu comentar: «Era de esperar.»
Esta situação toda deixou-me insensível, porque agora estou interessada no grupo que vem
cá a casa. Esquecendo completamente a professora, que explicava a matéria, tapei os olhos
com a mão e tentei imaginar o rosto do Eugênio. Regressei a casa com a esperança de o
encontrar. A janela da Eugenia e da Olga estava iluminada e viam-se algumas sombras
encostadas à parede. Pensei que deviam estar a desenhar e subi depressa as escadas.
Parei à porta. Alguém tocava piano. Devia ser a Eugenia, que executava um trecho sério.
«Quer dizer que não está cá ninguém.» Bem, não podia ter sorte todas as noites. De
qualquer maneira, senti-me desmoralizada. Fiquei sentada no meu quarto durante mais de
uma hora, sem tirar nem o chapéu, nem o casaco. Sentada na mesma poltrona da noite
anterior, tentava recordar-me bem dele com todas as forças. Mas desvanecera-se tudo.
Era estranho pensar que talvez não o visse durante um mês. De vez em quando, sonhava
com os olhos abertos. Será verdade que o Eugênio gosta da Dussa? Quando ontem à noite
a Olga lhe perguntou se a Dussa ia aparecer, não respondeu e continuou às voltas com um
caderno que examinava com atenção. Passado um bocado, enquanto me faziam o retrato, a
Eugenia perguntou-lhe a mesma coisa. «Deve ter arranjado uma desculpa plausível»,
respondeu, sublinhando com tom irónico e trocista a palavra «plausível» enquanto, sem se
interromper, continuava a fitar a folha de papel.
162

Mais tarde, reparando no meu rosto carrancudo, a Eugenia disse jovialmente: «Amanhã
vamos convidar o Eugênio!» Virei-me de repente e, apertando a cabeça, pensei: «Com que
alegria esperarei o dia de amanhã! E se as minhas irmãs decidirem ir antes a casa dele?»

22 de Novembro de 1934 [...]

23 de Novembro de 1934
Hoje não fui outra vez à escola. É o canto do cisne do meu amor. Depois, terei de acabar
com isto tudo, tentar esquecer e não esperar mais nada. Agora, não faço nada nem leio de
propósito. Quero embalar-me na espera, na desilusão, nos meus sonhos. As horas passam
tristemente mas, ao mesmo tempo, também são agradáveis. A Eugenia e a Olga chegarão
tarde, porque têm voleibol e depois vão ao quarto
208. Nem vale a pena pensar em esperar o Eugênio em nossa casa. Por orgulho, nunca o
convidarão, porque agora sabem de certeza que ele não precisa de ninguém a não ser da
sua Dussa.

24 de Novembro de 1934
O Eugênio não veio, claro. Esperei-o durante muito tempo e continuei na expectativa
mesmo quando já não havia nenhuma esperança. O Zhorka e a Olga chegaram às nove.
Abri a porta, ouvindo uma voz masculina. Se bem que não se parecesse com a voz do
Eugênio, senti-me feliz. Mas era o Zhorka. «A Eugenia?», perguntei, com o coração
galopando-me dentro do peito. «Ficou a dar a primeira demão a uma tela.» Queria dizer
que estava no quarto 208. Continuei a esperar até às onze. Andei para trás e para diante
durante uma hora inteira, até ter a cabeça a andar à roda. Depois, deixei-me cair na
poltrona, triste e zangada.
«Se ao menos a Eugenia regressasse, talvez pudesse contar alguma coisa.» Estava com
uma disposição tremenda ontem à noite, e sei porquê: o Eugênio não quis vir ter connosco
sem a Dussa. Lembro-me que a Eugenia esteve toda a noite sorumbática, calada e absorta.
A certa altura, quando estávamos as duas sozinhas na cozinha, sentei-me ao seu lado e
pedi-lhe: «Vá, conta alguma coisa.» «Não, hoje não.» Ficou calada durante muito tempo e
depois, de repente, levantou-se num ímpeto e disse-me: «Sonhei com o Eugênio duas
noites seguidas.» Pronto, fiquei a saber quem não lhe saía da cabeça.
A Eugenia regressou a casa à meia-noite, feliz, radiosa, e sorriu-me, piscando-me um olho.
«Está feliz», repeti para mim própria muitas
163

vezes, atormentando-me. Mas, fosse por que razão fosse, não quis contar-me nada. Talvez
receasse que eu pensasse sei lá o quê. Não consegui decidir-me a perguntar-lhe nada e fui
para a cama amuada e deprimida. «Amanhã irão ao instituto e à biblioteca com... o
Eugênio. Têm tanta sorte!»
Adormeci pouco depois. Estava exausta e sentia-me emocionalmente destruída por estes
pensamentos todos. Quando acordei, as minhas irmãs já estavam a beber o chá. Talvez
hoje o convidassem. «Eugenia!», gritei. «O que é?» «Hoje à noite chegas tarde?» «Não
sei. Se calhar sim.» «Onde vais agora?» «Desenhar para o estúdio... Queres vir connosco?
Podes ficar a ver.» Sentei-me na cama: «Convosco? Já vou!» «Mas despacha-te.» Oh, não
era preciso dizer! Vou vê-lo! Quero lá saber do estúdio e dos quadros! Isto é que é sorte!
Esqueci logo as dores dos últimos dois dias, de tal maneira que depois já quase não as
lembrava.
E lá fomos para onde eu tanto desejara ir, onde havia uma outra vida feliz e apaixonante.
O instituto estava deserto. Os quadros dos estudantes e dos professores estavam
pendurados no comprido corredor do departamento artístico. As raparigas elogiavam com
tanto entusiasmo o estudo de Bruni falavam com tanta paixão do seu trabalho, do seu
ateliê, que imaginei vivamente aquela existência distante e inalcançável.
Nota: Trata-se do pintor Lev Alexandrovitch Bruni (1894-1948). Alude-se aqui,
provávelmente, a uma famosa aguarela que se julgava perdida e que foi encontrada em
1933 e restaurada para a exposição de 1934, organizada pelo historiador de arte A.
Tchegodaev.

No estúdio reinava o caos absoluto: havia, espalhados por todo o lado, cavaletes com e
sem tela, quadros em todas as paredes e esboços incompletos pelo chão e em todos os
cantos. No meio da sala, duas colunas grossas tinham ao lado pequenas naturezas mortas.
As minhas irmãs mostraram-me e contaram-me tudo. O Zhorka chegou logo a seguir.
Sozinho! Depois de terem escolhido todos um lugar para trabalhar, a Eugenia perguntou:
«O Eugênio vem?» «Não sei.» Não estou em condições de dizer agora o que senti naquele
momento. Apesar de tudo, era melhor estar ali do que ficar em casa a atormentar-me.
Instalei-me atrás de uma coluna e comecei a desenhar. Estava tudo calmo. Ao longe, ao
fundo daquele corredor tão vazio e comprido, que sempre me atemorizara, bateu uma
porta.
A Olga espreitou pelo buraco da fechadura: «É o Eugênio.» Fechei o meu caderno à pressa
e pus-me a examinar os desenhos da Eugénia, esperando com uma certa ansiedade.
Ouviram-se passos do outro lado da porta e depois ele entrou. «Olá.» «Então?» «Olá.»
Olhei-o de
164

soslaio por um instante, mas não pareceu reparar em mim. Depois, ao passar entre os
cavaletes e os bancos, viu-me e disse: «Ah, Nina, olá! Que irmãzinha fiel!»
«Sim, vim ver», respondi, escondendo o rosto no caderno para não corar, mas fazendo-o
de maneira a ver o seu rosto sorridente.
Pôs-se às voltas no estúdio à procura de qualquer coisa, deslocando os cavaletes, falando e
rindo. Depois, parou atrás de mim, ao lado da janela. Enervei-me ao sentir que se mexia
nas minhas costas, porque receava que visse o meu trabalho. Não era uma situação
agradável. Não estava nada satisfeita, gostaria de vê-lo mais de perto, de modo a que
pudesse dizer-me alguma coisa. Depois, parei de desenhar e comecei a ler o Hamlet.
Ele andava pelo estúdio, mastigando qualquer coisa. «Que está a ler, Nina? Hamlet? Ah,
ah!» Parara junto do meu cavalete. Como me sentia pouco à vontade, passei para o outro
lado, onde ele não me podia ver, mas onde eu conseguia distinguir de vez em quando a sua
mão esguia e a sua querida cabeça. Ficou calmamente sentado durante algum tempo, mas
depois, não resistindo mais, levantou-se, passou-me ao lado e parou de repente a observar-
me. Cobri o meu desenho com a mão e virei-me: os seus olhos azuis fitavam-me. «Deixe-
me ver, Nina.» Abanei a cabeça, mas ele pegou-me de repente na mão, afastou-a com
delicadeza e disse com um tom doce de censura: «Então?» «Ainda não fiz nada. Mal
comecei», respondi, mergulhando nos seus olhos sorridentes e corando.
Tentei não deixar escapar nenhuma oportunidade para o olhar uma e outra vez. Quando
todos acabaram de desenhar, o Zhorka examinou o trabalho do Eugênio e disse.- «Sabes, o
teu estilo é semelhante ao do Potapov.» «Não, não é verdade.» Como eu estava mesmo ali:
«Nina, veja, estes quadros não são parecidos?», perguntou-me inesperadamente,
mostrando-me o trabalho do Potapov. «Acho que não», murmurei, afastando-me, de
certeza com ar de parva. Tinha medo de parecer ridícula, receava que o Eugênio tivesse
adivinhado tudo e se estivesse a rir de mim.
«Venha connosco. Vamos almoçar todos juntos», propôs o Eugênio.
«Isso quer dizer que almoçaremos convosco!», observou a Eugenia.
«Vamos, Eugenia?» «Não.»
«Vem, Nina?»
«Sozinha?», perguntei, sorrindo (não era uma recusa).
Cumprimentaram-se, apertando as mãos uns aos outros, enquanto eu olhava para o outro
lado. Depois, acenei com a cabeça e disse:
«Até à vista.»
O aceno era para todos, mas só fitei o Eugênio. Sou muito estúpida! Expus-me de um
modo evidente, via-o muito bem, mas já era
165

tarde. Percebi isso no instante em que me despedi, mas naquela altura não tive tempo para
pousar o olhar também no Zhorka. À saída do estúdio, passei o livro ao Eugênio e disse:
«Tome o seu Hamléh.
As minhas irmãs desataram a rir: «Ah, ah, HamlétU «Sim, o HamléU, repeti de propósito,
enquanto olhava o Eugênio e sorria. «Hámlet», sussurrou ele com doçura, quase como se
receasse ofender-me. Que rapaz bondoso e sensível! «Até amanhã!», gritou a Eugenia, que
depois girou nos calcanhares e acrescentou: «A menos que queiram aparecer hoje!» O
Eugênio não disse nada e virou-se. «Apareçam todos!», berrou de novo a Eugenia. Já
estávamos do outro lado. Olhei de novo e, por um instante, vi o seu rosto esboçando um
sorriso. Calou-se e, claro... não apareceu.
Embaraça-me e confunde-me o facto de ele querer meter conversa comigo. Porque não o
fazem nunca nem o Zhorka, nem o Andrei? Claro que sei muito bem que isso não significa
nada de especial da sua parte, mas, sem querer, fico mais corajosa e tenho medo de me
trair. Como se lhe correspondesse, dou comigo a olhá-lo cada vez mais longamente. Será
terrível se o perceber!

25 de Novembro de 1934 [...]

26 de Novembro de 1934
De manhã, sinto-me esperançada e de bom humor, enquanto a noite é sempre feita de
desilusões e pensamentos tristes. Quero livrar-me deste beco sem saída, quero encontrar
um remédio para esta vida enfadonha e monótona. Seja como for, sou jovem, desejo viver,
agir e ser feliz. O papá e as minhas irmãs consideram-me uma pessoa insensível e de
carácter frio. Mas será assim? Não sonho com um outro mundo, não me transfiguro na luta
e na acção?
É absolutamente necessário que deixe a escola. Mas como? Os exames de admissão aos
cursos superiores são em Janeiro. Já nem falo do Instituto Têxtil, qualquer coisa serve
desde que não seja a escola... Talvez pudesse pensar numa faculdade operária’ou nalgum
curso
Nota: Alusão às rabfak Qrabochi fakultei), as faculdades operárias instituídas em 1920.
Preparavam para a universidade pessoas que não possuíam nenhum diploma, mas que
eram recomendadas por entidades implicadas no processo de produção, que lhes pagavam
todos os estudos (ou elas ou o Estado soviético). A instituição das faculdades operárias, de
cariz obviamente político, tinha por objectivo a democratização do ensino superior e a
preparação dos quadros dirigentes das camadas operária e camponesa. Os estudantes das
faculdades operárias tinham precedência para se inscreverem nas universidades, que
obedeciam a numeras clausus. Os cursos preparatórios, pelo contrário, não garantiam nem
bolsas de estudo, nem o direito de precedência.
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preparatório... Hoje pensei, toda confiante, em ir ter com o Kolia para rever com ele a
matéria de Física e receber novos trabalhos de casa. Estudo, estudo, estudo!
Sinto que tenho as forças necessárias para esta labuta longa e difícil, mas quero saber
porque o faço e, sobretudo, preciso de um professor que me oriente e me ajude. Sozinha,
sem o apoio de ninguém, ou pior ainda, com tantos comentários sarcásticos, não
conseguirei. Tinha tanta esperança de que o Kolia me desse uma mãozinha! Não bastará
um mês para me preparar? Tinha um plano de trabalho, examinei tudo o que devia estudar
e não me parecia impossível. Já que sentia energia e interesse suficiente para enfrentar a
luta iminente, fui a casa da avó ter com o Kolia.
Mas de repente a timidez assaltou-me. O Kolia estava sentado, absorto, fazendo um
desenho técnico com ar indiferente. Receei que troçasse de mim e gostaria de ter tido a
mamã como intermediária. Permaneci em silêncio, vagueando pela sala: «Não deveria
falar, não posso e não sou capaz. Mas fá-lo-ei.»
Olhando pela janela, por fim perguntei ao Kolia: «Em que ano da faculdade operária se
entra com sete anos de escola?» «Queres saltar um ano?», perguntou-me. «Quero.»
«Duvido. Não consegues preparar-te num mês.» Naquele ponto, não só não lhe disse que
precisava de ajuda como nem sequer tive coragem para lhe pedir algum pequeno conselho.
Voltei para casa amuada, sentindo que me tinham posto no meu lugar.
Como posso suportar isto? Não tenho os manuais de Física e de Química que são
necessários. Que fazer? Tenho de andar para a frente. Não serei capaz? Estava triste e
abatida. Mais uma vez, esperei o Eugénio, contra vontade. Ao menos que a Eugenia e a
Olga chegassem! Por fim, decidi-me. É preciso resolver e experimentar. Não faz mal
tentar, e posso sempre voltar para a escola.

30 de Novembro de 1934
Tenho-me empenhado muito nestes últimos dias. À noite, vou ter com o Kolia, que me faz
perguntas e me passa trabalhos de casa, tentando convencer-me a voltar para a escola. Não
acredita que eu queira mesmo inscrever-me noutro lado e acha que não é possível. Mas eu
continuo com esperança. Ontem, a mamã começou a falar de alguns cursos preparatórios
para entrar no Instituto de Línguas Estrangeiras. Fiquei tão contente!
Se calhar não poderei ver mais o Eugênio, nem seguir a existência fascinante das minhas
irmãs, que sempre imaginei fantástica e maravilhosa.
167

Paciência! Terei, por fim, os meus próprios interesses e uma vida só minha. É terrível
pensar que são só sonhos e que tenho de voltar para a escola. Fico apavorada só de pensar
naquelas horas todas de aulas, mas tenho a certeza de que agora me empenharei. Se ao
menos pudesse saber depressa, com precisão, se será possível inscrever-me no Instituto
Têxtil!
Fico tão irritada com a indiferença e a desconfiança dos adultos em relação a mim! Não
acreditam neste meu empenho e pensam que é um capricho infantil ou, pior ainda, nem se
dão conta. Se ao menos alguém tentasse informar-se! A mamã parece ser a única pessoa
que me compreende e aprova os meus esforços.
Mas o tempo voa. Se calhar não conseguirei preparar-me em condições. Chumbarei e...
voltarei para a escola, ainda por cima envergonhada. Outra vez os terríveis pesadelos
durante as horas das aulas e aquela sensação de opressão e mal-estar. A aspiração a viver
outra vida impede-me de seguir as lições e atormenta-me. E há mais: o instituto e o
Eugênio. Durante as aulas, quase consigo esquecê-lo e não sou atormentada pela
lembrança dos seus olhos azuis e da noite tão feliz que passou em nossa casa. Mas, de vez
em quando, volta-me tudo à cabeça, agitando-me. E espero-o involuntariamente todas as
noites.
É isso. Todas as noites recomeça uma tímida espera: «Talvez venha. São só seis horas...»
Depois passa uma hora, passam duas, e digo a mim própria: «Bem, quer dizer que não
virá.» Então espero pelas minhas irmãs, porque falam-me dele de vez em quando e fico
feliz só de ouvir o seu nome. Discutiu com a Olga e agora não se falam, mas continua
amigo da Eugenia. Estão as duas apaixonadas por ele.
Aborrece-me e irrita-me que seja tão popular e não consigo ultrapassar este sentimento. Se
calhar são ciúmes involuntários, e, se é assim, funcionam ao contrário. Não me irrito com
as pessoas que gostam dele, mas com ele. Apesar de ocupar tanto espaço na minha alma e
de eu querer tanto idealizá-lo, a ideia de que não sou a única torna o meu sentimento
vulgar e banal.
Espero o meu dia livre cheia de esperança, pensando: «Se ao menos pudesse vê-lo uma
vez de cinco em cinco dias!» Ontem à noite, para não mostrar de maneira muito evidente o
meu interesse pelas visitas ao instituto, perguntei à Eugenia: «A que horas vão amanhã de
manhã?» «Por volta das nove.» «Oh, tão cedo! Mas acorda-me. Talvez também vá, se
conseguir sair da cama.» «Talvez?», replicou a Eugenia, acrescentando com indiferença:
«Amanhã seremos menos. Só eu, a Olga e o Zhorka.» Permaneci calada. «O Eugênio vai
ao teatro com a Nina P.», explicou. «Este Eugênio é maluco por teatro.» «Foi a Nina que o
convidou.»
168

Mais tarde, quando a conversa virou outra vez para o mesmo assunto, a Eugenia disse que
ele já não queria ir ao teatro e que lhe oferecera o seu bilhete. De certo modo, fiquei
satisfeita por ela ter preferido ir desenhar para o estúdio. Talvez o Eugênio... era uma
suposição tão absurda que nem mentalmente consegui terminá-la e até me envergonhei
dos meus pensamentos.
Não podia senão recordar o brilho afectuoso dos seus olhos e o toque incrivelmente meigo
da sua mão. Que estupidez! Perguntava-me: «Vou ou não vou? Valerá a pena?» Sabia de
antemão que tudo seria um tédio sem ele, mas, por outro lado, tinha esperança. Talvez
passasse pelo estúdio antes de ir para o teatro. No fim, saí com as minhas irmãs. Tinha de
o fazer para que não suspeitassem de nada.
E eis de novo o comprido corredor claro, com as paredes cheias de quadros, e o grande
estúdio de pernas para o ar. Fui outra vez sentar-me no canto do fundo. Contemplei o lugar
onde ele se sentara naquele dia e recordei o seu casaco azul e o rosto risonho. Aproximei-
me à socapa do seu retrato. A Eugenia esperava com impaciência que chegasse a tarde,
porque ia encontrar-se com ele na biblioteca.
Enquanto ouvia bater a pesada porta ao fundo do corredor, ironizava com amargura sobre
o meu amor fracassado e invejava a minha irmã: «Tem tanta sorte!» A caminho de casa,
animada por uma sensação estranha, observei durante muito tempo aquela ruela onde vira
pela última vez a sua silhueta de perfil e o seu rosto, que contemplara, implorante. E
enquanto me sentira aliviada no meu último dia livre, hoje, pelo contrário, estava
deprimida e cansada.
Em casa, dei-me conta de que esperara vê-lo durante todo o dia. Maldição!! Que
vergonha! Estirei-me no quarto, na penumbra... a sonhar. Era-me tudo tão indiferente e
aquela batalha havia-me desgastado tanto que já nem sequer tinha forças para lhe resistir.
E imaginei parvoíces durante cerca de uma hora, num doce esquecimento.
A Olga foi à Casa dos Estudantes e depois ao cinema e convidou-me, mas a sensatez e
uma certa discrição prevaleceram em mim. Sim, sabia que, com a Olga, não devia vê-lo, e
que esta atracção passaria. Pensar agora nela faz-me sorrir. Que pena! A vida é tão
aborrecida quando não há emoções!

1 de Dezembro de 1934
Sonho de novo com o Eugênio. Peguei numa fotografia dele que as minhas irmãs tinham e
contemplei-a longamente, emocionada. Oh, meu Deus! Se pudesse vê-lo ao menos um
minuto! Lembro-me de uma ocasião em que, com todo o aspecto de ter valsado com
frenesi, se estirou na cama e sorriu de um modo fascinante.
169

2 de Dezembro de 1934
Foi sorte ou azar? O Eugênio esteve aqui ontem. O coração galopou-me dentro do peito e,
de repente, as mãos começaram a tremer-me com nervosismo. Bateu à porta da maneira
combinada e eu fui abrir, pensando que era a Olga. E vi inesperadamente os traços
definidos da sua silhueta no lusco-fusco das escadas. Quase não respondeu ao meu tímido
«olá» e, sem me prestar atenção, pôs-se a falar com a Eugenia. Fiquei na cozinha a morder
os lábios. «Esperava-o, mesmo pensando que eram sonhos.»
Depois, foram para o quarto pintar. Não conseguia fazer nada senão caminhar com
nervosismo, tentando ouvir a sua voz. Vinda do quarto da mamã, a voz estridente do
Zhorka abafou a sua. Tinham-se dividido aos pares. Entrei umas tantas vezes, procurando
qualquer coisa na estante dos livros e observando as suas costas à socapa. Depois, fiquei
muito tempo sentada no meu quarto.
Visto que conseguira «ir lá», fui-me acalmando aos poucos e até li uma ou duas páginas,
mas depois ouvi outra vez o seu riso e não resisti mais: zangada e magoada, encostei o
ouvido à parede fria. O som era tão amplificado que conseguia ouvir as palavras com toda
a nitidez. Escutei com avidez, sem tentar perceber o sentido, mas apenas deixando-me
embalar pela sua voz.
A tentação de «ir lá» era cada vez mais forte. Peguei no espelho e dei um jeito ao cabelo e
ao vestido, enquanto roía as unhas e pensava que tinha de descarregar a tensão. Portanto,
entrei no quarto, arrastando atrás de mim o meu caderno de esboços. Avancei, pousei o
caderno no piano e dirigi-me à mesa para ver os desenhos que estavam a fazer. Achavam-
se os dois absortos no seu trabalho e não me prestaram a mínima atenção; fiquei ali algum
tempo e preparava-me para me ir embora quando, de repente, o Eugênio se virou para
mim. Com a mão apoiada nas costas da cadeira e um sorriso condescendente, começou,
como se tivesse alguma coisa de importante a dizer: «Então, Nina? Como vai a vida?» É
assim que os adultos falam às crianças. Num jeito ainda mais pueril, respondi: «Bem.»
^«A Stiusha?» «Quem?», perguntei, enquanto me dava conta de que sorria com todos os
dentes... e corava. «Sim, como se chama? A Ksiusha.» «Ah! Provavelmente está em casa.»
Encaminhei-me para a porta. «Nina, anda cá, quero contar-te uma coisa», disse-me então a
minha irmã. Voltei para trás de bom grado. «Então?» Desatou a rir: «Não, conto-te
amanhã.» «Vá, Eugenia!» «Queres ficar connosco?», acrescentou. «Porquê? Aqui
aborreço-me», resmunguei, continuando a observar o desenho com um ar muito atento.
Depois, fitei a minha irmã, que olhava para mim com malícia. Sobressaltei-me,
envergonhei-me e saí à pressa. Fiquei muito tempo
170

atrás da porta, sentindo-me angustiada e reflectindo com uma mão na testa. Eis o que me
dizem sempre os adultos: «Como vai a vida?» Sentia na alma uma dor indefinida,
prolongada e incessante como uma dor de dentes, que se difunde, oprimente. Arrastava-me
para baixo, enquanto eu tentava libertar-me dela a todo o custo. Continuei a andar assim
pelo quarto, triste e sem esperança, repetindo: «É como falam sempre às crianças.» Era
como uma revelação inesperada.
A Nina e a Dussa deviam chegar por volta das oito, mas já eram nove e meia e ainda não
tinham aparecido. «Ficarei aqui sentada toda a noite sem o ver?» Tinha vontade de chorar
de raiva e dor. Fui de novo ouvir durante muito tempo a sua conversa através da parede,
franzindo a testa e mordendo os lábios para não me debulhar em lágrimas. Mais uma vez,
não consegui resistir e decidi entrar para ouvir rádio. Fui para junto do piano e apoiei os
cotovelos, olhando em frente, sem pensar. Sentia-me débil e fraca como depois de uma
grande dor física; invadiu-me uma enorme sensação de paz e tranquilidade.
A minha irmã e o Eugênio trabalhavam e, de vez em quando, conversavam. Aproximei-me
da mesa para pegar no caderno e vi os bilhetes do eléctrico por acaso. «Dás-me alguns,
Eugenia?», perguntei. Foi o Eugênio que me respondeu, levantando de repente a cabeça e
sorrindo: «Não, não dá.» Fitei-o a rir e vi-me devorada pelo fascínio dos seus olhos
cinzentos e do seu rosto risonho. Tinha um sorriso maravilhoso, mas naquela noite não
sorria muito.
Por volta das onze, anunciaram que o camarada Kirov membro do Politburo, foi morto em
Leninegrado.
Nota: Sergei Mironovitch Kirov (1886-1934), primeiro secretário do Comité Regional do
Partido Comunista em Leninegrado, foi assassinado a 1 de Dezembro de 1934,
provavelmente por ordem de Estaline. Logo a seguir ao seu assassínio, sessenta e nove
antigos «Guardas Brancos» (ver nota da p. 194) foram presos e fuzilados sem processo. O
assassino, Leonid Nikolaev, que levara a cabo o homicídio por encomenda, foi justiçado
no mesmo mês de Dezembro; treze pessoas, que não tinham relação alguma com o
sucedido, foram condenadas e fuziladas ao mesmo tempo que ele. O assassínio de Kirov
foi interpretado como um acto de terrorismo político contra o regime e serviu de pretexto
ao início das repressões em massa, especialmente cruéis, entre 1936 e 1939.

«Oh, meu Deus!», exclamou o Eugênio em voz comovida, levando a mão ao rosto. Senti-
me envergonhada por esta notícia não me ter perturbado nada; pelo contrário. fiquei
contente. «Isto quer dizer que a luta continua, que ainda há organizações e indivíduos
justos. Significa que nem todos engolem as mentiras do socialismo.» Gostaria de ter sido
testemunha deste facto terrível e sensacional, que só poderá ter consequências desastrosas.
Não se falou de outra coisa durante o resto do serão. Quando se preparavam para sair,
fiquei no quarto das minhas irmãs. O Eugênio arranjou maneira de me fazer um aceno por
cima da cabeça da Olga,
171

agitando o seu montinho de folhas. A sua delicadeza e cuidados impressionam-me. Se


calhar, trata-me desta maneira só porque sou uma garota. Maldição! E eu que estou
apaixonada por ele!

8 de Dezembro de 1934
O Eugênio passou cá por casa no dia 4 ou 5, parece-me. Como veio com o Zhorka, não foi
muito embaraçoso para mim ficar com eles. Pus de parte a vergonha e os medos e
permaneci no quarto das minhas irmãs durante todo o serão. É estranho, mas não senti
nenhuma satisfação; recordei a noite em que ele e a Eugenia estiveram no meu quarto.
Agora penso nele com muito mais distância, às vezes até me parece que a paixão passou
ou que, pelo menos, diminuiu muito. Mas é só porque o vejo muito raramente; quando
acontece, não mostro nenhuma atenção especial e tento (só na aparência, claro) não lhe
ligar.
Nessa noite, o Zhorka e o Eugênio saíram muito cedo; como não conseguia resistir, fui
acompanhá-los à porta e fiquei com eles até vestirem os casacos, apesar de me sentir
terrivelmente inútil. Esperava-o sempre, todos os dias, de manhã à noite.
Num dos meus dias livres, a Eugenia pediu-me para lhe copiar algumas fichas. Acedi com
prazer e pensei: «Copiarei quando ”ele” estiver presente.» Terei muitas coisas para
esclarecer.
A ideia agradava-me tanto que esperei a «sua» chegada muito alegre e sorridente. À noite,
a Eugenia perguntou-me: «Gostas do Eugénio? Não é tão querido?» «O Eugênio? Sim, é
um rapaz muito alegre», respondi, fazendo de conta que não era nada comigo, mas
pensando com os meus botões: «Se calhar notou alguma coisa.» Dali a bocado, atacou
outra vez: «Sabes, Nina, coraste quando ele falou contigo.» «Quando? Da última vez?»
«Não, antes.» «Oh, quando me perguntou: ”Como vai a vida?” Já me lembro, já me
lembro. Corei porque fiquei admirada.» Enquanto falava, tentava com todas as forças
permanecer tranquila e não corar de novo.
Que diabo está a acontecer? Como sabem que gosto «dele»? Terão lido o meu diário? Não,
não acredito que tivessem um comportamento tão abjecto, seria muito baixo. No entanto,
desconfiam de alguma coisa. À noite, quando a Olga me vê assim melancólica, pergunta-
me sempre: «Por acaso não estarás apaixonada, Nina?» «Não, não estou apaixonada por
ninguém», respondo com indiferença. «Mas olha que devias. Se quiseres, conto-te mais
coisas do Eugênio.» «De facto, seria interessante se fosse recíproco, mas já está
comprometido.»
Os rapazes eram para vir ontem; esperei por eles durante toda a tarde. Não tinha forças
para fazer nada. Caminhava pela casa, ora
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tocando, ora lendo, e repetia de mim para comigo: «Agora sofrerei e terei medo de me
mostrar.» Por volta das seis, chegaram a Dussa e o Andrei B. « Ah! Até que enfim vou vê-
los juntos!»
O Andrei portou-se de um modo terrível: não deixava a Olga em paz, mirando-a com os
seus enormes olhos de louco. O seu corpo alto e desajeitado debruçava-se sobre ela,
pequenina e namoradeira. Mas no fim, até a própria Olga ficou farta e acabou por se
zangar. Comecei a preocupar-me: eram quase dez e «ele» e o Zhorka não chegavam.
Eu e a Olga sentámo-nos na cozinha a beber chá. Logo que nos instalámos à mesa,
bateram à porta. Percebi de imediato, pela maneira de tocar, que era o Eugênio. Tinha
repetido a mim própria durante toda a noite que devia dominar-me, mas mesmo assim pus-
me em pé de um salto e fui abrir quase a correr. Vieram três: o Zhorka, «ele» e o Nikolai
N.
Por um momento, na confusão, parei no corredor e percebi que «ele» olhava para lá da
minha pessoa, na direcção da Dussa, que saía do quarto. Quase não consegui beber o chá e
só me sentei fazendo de conta que não era nada comigo para enganar a Olga. Sufocando a
tremura das mãos, esmigalhei o açúcar e comecei calmamente a mastigar o pão, que de
repente deixou de me saber bem. As minhas mãos tremiam cada vez mais.
Estava muito contente por ter o pretexto das fichas; de outro modo, não teria nenhum
motivo para ir ao quarto das minhas irmãs. Portanto, sentei-me à minha mesa a copiá-las.
Nisto, a Olga deixou-os e foi para o meu quarto: «Vou trabalhar aqui, porque de contrário
não consigo fazer nada.» Fiquei a ponto de me debulhar em lágrimas de raiva quando vi a
minha última esperança feita em frangalhos. Depois, chegou o Zhorka e fiquei muito
tempo com eles a ler, até começar a não poder mais.
Sentei-me ao lado da Betka, fazendo-lhe festas na cabeça enquanto escutava o que se
dizia. «Ele» nunca fora assim: gritava, ria e pronunciava muitas vezes o nome da Dussa.
Eu censurava-me, mordendo os lábios e sentindo-me muito infeliz. Angústia e despeito.
Às vezes, a porta da entrada abria-se lá em baixo e o vento soprava com um som
tremendo, ululando, enquanto o ar frio entrava pela frincha da porta.
Tive ciúmes quando, com a cabeça entre as mãos, magoada, o ouvi dirigir-se à Dussa com
afecto, quase ternura? Não, não tenho nada contra a Dussa; pelo contrário, até sinto uma
certa simpatia por ela. Tem um rosto muito delicado e nobre, a testa branca e lisa, os olhos
muito pretos e as mãos tão macias e alvas que parecem quase transparentes. Agora não
tenho dúvidas de que «ele» está apaixonado por ela.
173

Por volta das dez, interromperam o trabalho e começaram a tocar piano e a fazer confusão.
Aguentei-me durante muito tempo no quarto da mamã, atrás da porta, encostada à parede,
com o coração pesado de tristeza. Por fim, entrei. A Eugenia, a Dora e o Nikolai, sentados
ao piano, tocavam a seis mãos «Tchizhik-Pyzhik»
Nota: Canção estudantil do fim do século xix.

O Andrei encontrava-se encostado ao armário com o olhar perdido no vazio. «Ele» estava
sentado à mesa, iluminado pelo candeeiro, e olhou-me com indiferença.
Roendo uma unha, aproximei-me da cama, lancei um olhar imbecil ao monte de cadernos
e à colcha em desordem e depois, com um sorriso amarelo devido à estúpida situação em
que me encontrava, voltei a encaminhar-me para a porta. O Andrei, de rosto pálido e olhos
esbugalhados, continuava a olhar para trás de mim, na direcção de um ponto mal definido.
Tive pena dele, porque atrás de mim, no outro quarto, estavam a Olga e o Zhorka. Senti
vergonha e, ao mesmo tempo, fiquei divertida, mas também voltei a prometer a mim
própria não pôr lá mais os pés. Como a Dussa me pedira para a avisar quando fossem
onze, esperei até essa hora, mergulhada na leitura de um livro de Bernard Shaw.
Então entrei de novo para comunicar as horas e já estava a sair quando «o» ouvi cantar
baixinho «A minha fogueira...»
Canção popular cigana inspirada numa poesia de 1853, de Iakov Petrovitch Polonski.

Sim, via-se que se sentia muito bem. A Dussa ainda ficou durante algum tempo e eu fiz o
mesmo. O Eugênio tocou ao piano Os Contos de Hoffmann; todos conversavam e riam;
nisto, através da balbúrdia geral, chegaram-me aos ouvidos as palavras do Nikolai:
Nota: Excertos de piano baseados na ópera musical de Jacques Offenbach (1818-1880),
por sua vez inspirada nos contos fantásticos de E. T. A. Hoffmann (1776-1822).

«Tem os olhos estrábicos.» Fiquei aterrorizada: cerrei os punhos e apurei o ouvido. «Ela»,
gritou o Eugênio; depois, não percebi mais nada. Apeteceu-me gritar, chorar de dor e
desespero.
Tocam de novo Os Contos de Hoffmann, de novo cantam. Quando a Dussa e o Nikolai
saíram, senti uma alegria sem esperança por «ele» não se ter ido embora. Entrei então com
a Olga e sentei-me na cama. Cansado, o Andrei observava a Olga com um olhar mau e
desesperado; o Eugênio e a Eugenia estudavam qualquer coisa a quatro mãos ao piano.
Apetecia-me esquecer-me de tudo; sentia-me reconfortada só por poder olhar para ele.
Mas claro que não fiquei; apesar de tudo, tive o bom senso de sair. E agora ainda o espero.
Pode ser... que parvoíce, que parvoíce!
174

A Eugenia e a Olga chegaram muito felizes, entusiasmadas e alegres. Eu, pelo contrário,
não sei porquê, hoje sinto-me especialmente triste. A vida delas é tão bela e fascinante! E
eu não tenho nenhuma minha. Vivo a sua existência, os seus interesses. O passado está na
escola, aquilo a que aspiro está nalgum ponto de um futuro muito distante, e neste
momento só tenho o vazio à minha volta. O vazio!!!
O Kolia e a avó pensam que sou preguiçosa. Fazem comentários pungentes todos os dias,
quando vou almoçar. Acabarei por acreditar no que dizem. Convenci-me, por fim, de que
não conseguirei preparar-me a tempo para nenhuma faculdade operária, embora continue a
ser-me difícil abandonar esse sonho. Procuro apenas não pensar em nada e não me
empenho muito. Que cansaço e que vazio tremendo!
E agora ele! Como é terrível amar alguém a quem não só sou indiferente como nem sequer
repara em mim! Fala-me, mas como se falasse à Betka, e olha-me, de vez em quando,
como se observasse a mobília inanimada de um quarto. Não sei o que quero; trago na alma
trevas e desordem, como um rio que transbordou.
Sei, em breve estourarei. Como será, ainda não sei. Ou me debulharei em lágrimas ou,
para fugir de mim mesma e da solidão, irei para a escola, pronta a abandonar-me a um
namorico vulgar e dissoluto; ou talvez me envenene. Sinto que qualquer coisa de
indefinido se aproxima e me arrasta. E não tenho meios para combater o amor e a
nostalgia.
Se ao menos tivesse um interesse, um projecto, amigos! Tenho de me distanciar: é o
melhor remédio contra uma doença chamada amor. Passo o dia a combater sozinha com
pensamentos, sonhos e desejos. Os meus nervos contraem-se, enfraquecem, provocam-me
uma forte dor física. E o mais importante é que a alma também sofre, como se tivesse
qualquer coisa de estranho que oprime, suga...
Se ao menos soubesse qualquer coisa de mais concreto da faculdade operária, ganharia
mais coragem. Mas não posso desperdiçar tanta energia, forças e tensão para nada. Parece-
me que toda a minha confiança e sonhos sobre o futuro se desvaneceram e não podem
realizar-se nem renovar-se. Ainda acabo por começar a habituar-me à ideia da escola. Mas
não, é impossível.
Pronto, mais uma aula enfadonha e enervante. À frente, a Mussa arrulha com o Margosha,
ao lado a Ira, de olhos brilhantes, troca bilhetinhos com o Leuvka, de algum ponto lá de
trás ouve-se o riso da Ksiusha. Só eu, a estranha, desperto em todos sentimentos de
desconfiança e antipatia. É como se me tivessem posto numa turma de
175

pessoas que falam uma língua incompreensível para mim e que têm desejos e aspirações
indecifráveis. Não, tenho de acabar com a escola. Que martírio! Não sei porquê, começo a
ter medo «dele».

10 de Dezembro de 1934
Tinha esperanças num serão como aquele que havíamos passado a três, eu, a Eugenia e
«ele». E exactamente porque tinha tanta esperança, não aconteceu nada. Ontem, a Eugenia
disse-me que ia convidá-lo hoje para ensaiarem o espectáculo e eu fiquei em pulgas.
Ontem passou por aqui, mas só porque estava cá a Dussa. Enquanto o examinava, invadiu-
me de repente uma sensação de desilusão e tive medo de que o amor pudesse fugir. Mas
bastou que se pusesse a dançar uma valsa, com aquele seu rosto alegre, para eu ficar de
novo embriagada com o seu sorriso. Olhou-me e sorriu-me outra vez enquanto tagarelava.
Pela minha parte, esperava aquele sorriso, procurava-o.

11 de Dezembro de 1934
Hoje é um dia estranho. Ontem à noite, já estava deitada quando chegaram a Eugenia e a
Olga. O que me levou a levantar-me? Esperava que me contassem alguma coisa ou que,
pelo menos, mencionassem o seu nome. Mas não o fizeram. Não sei como, mas a conversa
foi parar ao assunto mais escaldante: o poder soviético, os bolcheviques, a vida actual.
Tínhamos ideias diametralmente opostas e parecÍamos pessoas que vêem a quererem
explicar as cores a um cego. Não conseguimos entender-nos...
Como é possível refutar a sua argumentação preconceituosa e irreflectida, do tipo «Quem
não está com os bolcheviques é contra o poder soviético». «Tudo isto é provisório» ou
«As coisas vão melhorar»? Os cinco milhões de mortos
na Ucrânia foram um fenómeno provisório? As sessenta e nove pessoas que fuzilaram
foram um acidente de percurso? Sessenta e nove! Que governo, com base em que poder,
poderia decretar semelhante sentença com tanta frieza e crueldade? Que país poderia, com
semelhante brandura e obediência servil, consentir e concordar com todos os horrores que
estão a acontecer?
Nota: De fome, em consequência da colectivização (ver nota da p. 81-82).
Referência às execuções sumárias depois do assassínio de Kirov (ver nota da p. 171)

Discutimos durante uma hora, mas claro que cada uma ficou com a sua opinião. Como
amaldiçoei a minha estupidez e incapacidade de
Referência às execuções sumárias depois do assassínio de Kirov (ver nota da p. 171)
176

me exprimir! Como foi possível não conseguir provar às minhas irmãs a mentira do
sistema bolchevista. com armas tão poderosas como a verdade e com os factos que temos
à frente dos olhos? Na verdade, é preciso ser-se muito incapaz!
Mesmo assim, fui para a cama muito feliz e animada. Na verdade, depois, a Eugenia
contou como as aulas iriam correr bem no instituto. Estão as duas entusiasmadas, ansiosas
por trabalhar e alegres. Sem dar por isso, a sua jovialidade contagiou-me. Trabalhar,
trabalhar, e depois... depois?! Perdi-me em pensamentos doces e ingénuos.
Na manhã seguinte, no entanto, acordei de péssimo humor, imaginando que, sendo assim
tímida e receosa, triste e feia, em breve acabaria no meio de operários rudes e
semianalfabetos. Rapazes vulgares escarneceriam de mim com as suas graçolas de mau
gosto. Terrível! Não seria melhor voltar à escola e prolongar a infância? A minha nova
vida não será apenas mais uma forma de tortura?
Terei de decidir tudo isto sozinha. A Eugenia e a Olga andam concentradas em si mesmas
e na arte, e a mamã no seu trabalho. Ninguém me aconselhará sobre o que fazer, ninguém
quer perceber como me sinto em dificuldades, aterrorizada. O papá veio hoje e trouxe
algumas informações sobre o Instituto Poligráfico. Há uma pequena esperança de que eu
possa entrar. Mas com este sonho prestes a concretizar-se, enchi-me de repente de medo e
perdi a vontade.
Não pude deixar de rir porque, no fundo, os meus sonhos estavam todos concentrados
«nele», para:
Colher com olhos apaixonados o sorriso dos lábios, os olhares.
Nota: Citação do romance em verso Eugênio Oneguine, de A. S. Pushkin.

Não tenho vontade nenhuma de estudar e muito menos de me encontrar noutro ambiente.
E pronto, tenho medo. Não posso inscrever-me no Instituto Têxtil e os outros não me
interessam para nada. Percebi só hoje que a minha energia toda, a força que me
empurrava, era apenas o amor. Como os meus pais ficariam indignados e chocados se
soubessem que a filha se abandonou a sentimentos tão estúpidos, pelos quais está pronta a
virar a vida de pernas para o ar!

14 de Dezembro de 1934
É surpreendente: porque acaba sempre tudo em tragédia para
mim? Acaba, escrevo. Sim, porque é o fim, o fim do meu amor por ele, o fim dos meus
sonhos e das minhas esperanças. Dá-me vontade
177

de rir pensar que, há apenas dois ou três dias, receava que a minha paixão diminuísse.
Agradava-me, despertava em mim sensações novas, interessantes e aprazíveis, fazia-me
bater o coração com mais força e levava-me a emocionar-me e a sentir uma alegria que
nunca antes experimentara.
Brincava e jogava com o amor. Deixava-me embalar docemente pelas cócegas que me
faziam as suas pequenas patas macias, de onde de repente saíram garras afiadas. Estive
bem, até estas garras terem aparecido. Como podem sentir-se tantas emoções diferentes e
desencontradas numa única noite, no intervalo de duas ou três horas? Foi assim para mim
a noite de ontem.
Começou, como de costume, com a esperança tímida e feliz de que ele chegasse.
Esperava-o desde as seis com uma ansiedade crescente, mas também com a tranquilidade
e a paciência a que já estou habituada. Perguntava-me se estaria a desapaixonar-me ou se o
amor continuaria o mesmo, mas dentro dos eixos, como um hábito. Em lugar de me
atormentar, o amor fazia-me feliz. A Eugenia apareceu às sete. Com a minha espera
dilacerante e habitual, fui atrás dela para o quarto.
«A Olga foi patinar?» «Foi.» «Parece-me que hoje está frio.» «Não, pelo contrário, está
bom tempo!» Durante um bocado, continuámos a trocar frases que me deixavam na mais
completa indiferença. «Vamos dar um passeio!», propôs a Eugenia. «Quer dizer que não
virá ninguém», pensei, acedendo a ir com ela. Vesti o casaco devagar, sem vontade
nenhuma, enquanto a alegria e o entusiasmo desapareciam no nada num abrir e fechar de
olhos. Senti-me vazia, cansada e a esperança transformou-se em desilusão. Tudo me
parecia indiferente, se bem que já esperasse o amanhã no cantinho mais remoto da minha
alma.
Quando passámos por casa da avó para deixarmos as chaves, a Eugenia disse-me: «A Nina
e o Eugênio devem vir por volta das oito.» «Então não podemos chegar atrasadas»,
comentei, sorrindo com alegria.
«Muito bem, vai ser uma noite feliz», pensei com os meus botões. No fim, não saímos e
sentei-me a ler, numa espécie de espera radiante.
«Porque vem? A Dussa não estará cá. A Nina? Não. Talvez a Eugénia?» Não. No fundo,
não acreditava que a Eugenia lhe fosse indiferente, embora pudesse parecer. A Olga... mas
fora patinar e ele sabia. Algum diabinho mau pôs-se a agitar-se alegremente e a brincar
dentro de mim: «Isso quer dizer... quer dizer...» Nem sequer foi um pensamento preciso,
mas percebi muito bem o que estava a sugerir-me aquele diabinho que vivia no meu
coração.
Fiquei muito alegre e despreocupada. Não achava que gostasse de mim, mas saber que não
lhe interessava nenhuma outra bastava-me
178

para me deixar contente. A Eugenia tocava piano, eu contemplava-lhe as costas, sorrindo


com beatitude. Nisto, a Betka começou a ladrar com preguiça, sem se mostrar zangada, e
eu fui ao corredor. Ouviam-se vozes lá em baixo. «A Nina?» Sim, tinham chegado os dois.
Dominei-me e esperei que a campainha tocasse antes de abrir a porta.
Primeiro entrou a Nina e depois ele. Como de costume, lançou-me um olhar indiferente e
disse: «Boa noite.» Mas nem isto me fez zangar, arrefecer o meu entusiasmo ou entristecer
a minha alma. Enquanto despia o casaco, dirigiu-me a pergunta do costume, à qual já me
habituei: «Então, Nina, como vai a vida?» «Como de costume!», respondi, afoita. «Bem?
Copiou as fichas?» «Não peguei mais nelas desde aquele dia.» Enquanto pronunciava esta
frase, dei-me conta de que me ria de maneira exagerada, como se estivesse embriagada.
Uma vez sozinha, observei as minhas mãos e pensei, entre a revolta e a bonomia: «Podiam
tremer mais. E o coração também podia bater mais depressa. O amor estará a
desaparecer?» Estúpida! E o que pensaste duas horas mais tarde?
Ele e a Eugenia puseram-se a tocar uma valsa a quatro mãos. Senti que não devia entrar.
Ele ria de vez em quando, e a sua alegria despeitava em mim ora felicidade, ora dor.
«Eugenia, toca a valsa!», ouvi dizer a voz da Nina. Entrei. Ele estava ao piano. Encostei-
me à parede a observá-lo, presa de uma sensação de alegria e revolta que não conseguia
dominar. Ontem estava especialmente simpático. O casaco ficava-lhe muito bem e os
olhos brilhavam-lhe de alegria quando chegou.
A Nina não quis dançar, entristeceu, amuou e sentou-se na cama. A Olga chegou dali a
pouco: com a saia comprida escura e a blusa macia e castanha tinha um ar tão gracioso e
namoradeiro que até eu fiquei impressionada e compreendi porque se apaixonara o Andrei.
A partir do momento em que «ele» viera, sabendo muito bem que ela estava a patinar,
nunca suspeitei de nada. A Olga sentou-se ao piano, «ele» e a Eugenia instalaram-se ao
lado da Nina e, soltando risadas, disseram qualquer coisa.
Como estava atrás do candeeiro, não via o que acontecia na cama, mas quando por acaso
me levantei, mal pude sufocar um grito. «Ele» estava deitado com a cabeça pousada no
peito da Nina, tapando o rosto com a mão, enquanto a Eugenia, rindo, lhe despenteava o
cabelo ondulado. «Pronto, assim estás melhor», dizia a minha irmã. Quando se levantou,
tinha uma expressão pensativa, quase triste. «Vá, Eugénia, vamos desenhar», sugeriu.
A Eugenia deu-lhe as folhas e começou a preparar qualquer coisa; ele ficou parado com
elas na mão, de olhar fixo, até que a Nina lhe disse: «Senta-te». «Quero desenhar, mas não
tenho nada na cabeça!»
179

Fiquei admirada, mas tranquila; ainda não suspeitava de nada. Ainda ouvi algum tempo a
Olga e a Nina tocando piano e cantando, enquanto repetia, sorrindo: «Amo-o tanto!»
Apesar de, na verdade, não querer dar tanta importância a um amor que deu uma
reviravolta assim estúpida, não pude deixar de sorrir e brincar: «Que tragicomédia! Três
irmãs apaixonadas pelo mesmo jovem simpático. Só nos falta discutirmos umas com as
outras! Não, tenho de esconder bem os meus sentimentos.» Deu-me vontade de rir, mas,
ao mesmo tempo, tinha vergonha (uma vergonha estúpida e falsa). E a minha gargalhada
deu-me ainda mais vontade de rir.
A Nina foi-se embora dali a pouco. Fiquei no meu quarto até ouvir os passos de alguém no
da mamã. Como queria companhia, nem que fosse por um minuto, também entrei. A
Eugenia estava deitada na cama com a cabeça metida na almofada. Como, na verdade, não
estava nada à espera, não consegui dominar a minha admiração: «Que foi?» «Não me
sinto bem... uma intoxicação por causa do aquecimento», respondeu-me com um esgar.
Não acreditei e olhei-a com atenção. «Nunca pensei que me acontecesse.» «Porquê?
Sucede a todos. Estás anémica.» E repetia com os meus botões.- «Que quer dizer isto
tudo?»
«Vá, sai, quero dormir.» Estas palavras fizeram-me ficar com a pulga atrás da orelha. Que
seria? Agora já não havia nada que desse vontade de rir. «Será que a Olga e o Eugênio...
Não, ele sabia que a Olga tinha ido patinar. Estaria à espera que ela regressasse? Que
parvoice! O que quererá dizer? A Eugenia veio-se embora.» Tentei escutar o que estava a
acontecer atrás da parede, mas o silêncio era completo. Num abrir e fechar de olhos,
invadiu-me uma calma deprimente por não vir nenhum som «daquele» quarto.
A dúvida assaltou-me. «Esta noite vai acabar em lágrimas», pensei, ainda sorrindo.
Passado um bocado, a Eugenia levantou-se e comecei a acalmar-me. Nisto, apareceu-me à
frente: «Nina, vamos dar um passeio. Dói-me a cabeça.» «Um passeio?», perguntei,
admirada e receosa não sei de quê. «Vamos.»
Não tardou muito que as minhas dúvidas se desfizessem. Caminhávamos na neve gelada e
dura da rua, à luz fraca dos lampiões. O ar estava de um frio penetrante, mas o que me ia
na alma? A Eugenia contou-me que não fora ela a convidá-lo, mas sim a Olga, e que havia
já algum tempo que reparava que o Eugênio gostava dela. Por isso, deixara-os de
propósito a sós, para que se explicassem.
Tinha que sorrir a todo o custo, fazendo perguntas e respondendo com indiferença,
enquanto o meu coração era presa da dor e do tormento. «A Olga tem sorte», continuou a
Eugenia. «Todos se apaixonam
180

por ela.» Senti-me muito infeliz e sozinha ao compreender que este meu sofrimento
duraria não um nem dois meses, mas a vida inteira. Se não for pelo Eugênio, será por
outro qualquer. Os meus amores nunca serão correspondidos. Passada meia hora,
regressámos a casa. Instalei-me a copiar as fichas, mas, de vez em quando, não
conseguindo continuar sentada, ia encostar o ouvido à parede. O Eugênio falava em voz
baixa, de um modo estranho e hesitante, muito diferente do que era costume. Quando
entrei para perguntar qualquer coisa, lancei-lhe um olhar de fugida. Estava sentado,
abandonado contra as costas da cadeira, cora as mãos cruzadas no peito, o olhar fixo num
canto e o rosto encovado e triste. A Olga, também séria, achava-se sentada ao seu lado.
Saí logo mordendo o lábio. Apetecia-me chorar e sentia uma certa irritação em relação à
Olga. «É inveja», pensei, sorrindo. Tinha medo de entrar naquele quarto; enquanto dantes
o esperava com fervor, agora pedia a Deus que se fosse embora. Tive de voltar lá mais
duas ou três vezes para esclarecer as palavras que não compreendia, e vi sempre no seu
rosto aquela expressão séria, de sofrimento desesperado. Por fim, ouvi alguém mexer no
cabide do corredor. «Graças a Deus», pensei, aliviada.
Mas não, voltou a entrar no quarto e ficou o tempo suficiente para eu pensar que me tinha
enganado. Fui examinar o cabide e, de facto, faltava o seu casaco. «Não consegue deixá-
la.» Apurei o ouvido. A Eugénia saiu do quarto. «Deixou-os a sós», pensei, magoada.
Logo a seguir, ele também saiu. Logo que se foi embora, corri ao quarto das minhas irmãs.
Estavam de pé, examinando um desenho.
A Olga tinha o rosto e a voz estranhamente calmos; parecia quase exultante. Sentei-me na
cadeira, pensando de mim para comigo: «Não me vou embora. Quero lá saber que se
zanguem! Não arredo pé. Talvez comecem a falar à minha frente.» Mas não o fizeram.
Quando já estava deitada, a Olga perguntou qualquer coisa à Eugenia em inglês. «Sim»,
respondeu ela.
Levantei-me e saí. No meu quarto, descalcei os sapatos à pressa e encostei-me à parede.
As minhas irmãs falavam de qualquer coisa em voz baixa. Despi-me e deitei-me. Julgo
que, pela primeira vez na minha vida, não conseguia adormecer nem estar quieta. Sentia
uma grande agitação dentro de mim. Sentei-me abraçada aos joelhos, fitando de olhos
esbugalhados o vidro da porta, por onde entrava a luz que vinha da cozinha.
As vozes das minhas irmãs atormentavam-me e dilaceravam-me. «Se ao menos me
dessem a possibilidade de saber o que aconteceu!» Esperei assim, até que a luz da cozinha
se apagou e a mamã foi para
181

o quarto, onde ainda continuou a mexer e remexer durante algum tempo. Por fim, ficou
tudo às escuras. Saltei da cama e, descalça, só com a camisa de noite, corri de novo para a
parede. Foi com um prazer doloroso que me encostei à pedra fria. Não sei porquê,
imaginei a minha figura: seminua, ridícula e infeliz.
Do outro lado da parede, ficaram caladas durante muito tempo. Só sentia um zumbido no
ouvido. Depois, a Eugenia disse qualquer coisa em voz alta e irritada: «Estás a ouvir,
Olga?» Ela respondeu muito baixinho e pareceu-me que chorava. «Então diz»,
acrescentou a Eugénia, desta vez em tom mais baixo, mas de uma maneira muito clara.
Levei as mãos à cabeça e, cambaleando, deixei-me cair na cama, desatando num pranto
silencioso, debruçada entre os joelhos levantados.
Não compreendia bem o que sentia, mas era uma dor atroz, qualquer coisa que fervia
dentro de mim... Agarrando os cabelos com os punhos cerrados e mordendo o lábio,
solucei convulsivamente quase sem lágrimas, tentando dominar-me; mas ia uma
verdadeira tempestade dentro de mim. Quando consegui acalmar um pouco, apoiei-me na
almofada.
A Eugenia e a Olga continuavam caladas. Levantei-me e saí para o corredor, depois de ter
aberto a porta devagarinho. A do quarto das minhas irmãs encontrava-se semicerrada e lá
dentro reinava o silêncio. Só a Olga tossia, tentando dominar-se, e pensei outra vez que
devia ter chorado. A mamã folheava qualquer coisa, ouvia-se o sussurro de papéis. «Está a
trabalhar», pensei, regressando ao meu quarto. Fiquei sentada durante muito tempo,
embrulhada no cobertor, com o olhar mergulhado na escuridão, pensando. De vez em
quando, um soluço sacudia-me o peito e não conseguia engolir as lágrimas.
Pensei que este amor tivesse acabado: «Agora tenho de mudar, forçar-me a não o amar, a
não o esperar, não posso perguntar nada dele à Eugenia e à Olga, nunca mais devo vê-lo. E
se houvesse alguma possibilidade de entrar no MPI?»
Moskovski Poligrafitcheski Instituí, Instituto Poligráfico de Moscovo.
«Não o faças.» Mas era superior às minhas forças. «Poderei ir à festa do fim de ano... A
minha primeira impressão não me tinha enganado. Daquela vez, na Casa dos Estudantes,
adivinhei que gostava da Olga.»
Recordei então aquele serão feliz e o seu rosto maravilhoso. Fiquei sentada, de vez em
quando perdida nos meus sonhos. Como, no entanto, não queria ceder à tentação, afastei
os meus desejos. As lembranças confundiam-se e misturavam-se, mas permaneciam
sempre fonte de uma dor aguda e incompreensível.
Depois, reflecti: «Devo esquecê-lo. Não posso estar apaixonada por ele. Fui longe de
mais.» Mas continuei a lembrar o seu rosto doce e o seu olhar fixo no vazio, ontem à
noite. Hoje de manhã, fiquei
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muito tempo deitada com os olhos fechados, tentando não acordar. Depois, pus-me outra
vez a pensar e a recordar. «E como estudar com este estado de espírito?» Vêm-me outra
vez à cabeça o ópio e a morte.

Noite
Visto que não consigo fazer nada, vou pôr-me a escrever no diário. Os olhos doem-me e
ardem-me. Tenho as pálpebras inchadas e custa-me abri-las. Fiquei muito tempo sozinha
no quarto estreito das minhas irmãs, sentada no chão, no canto entre o piano e a estante,
chorando. Não só chorei como solucei, contorcendo-me e agarrando febrilmente a ponta
do piano com os dedos.
Só agora compreendo que tive esperança até ao último momento decisivo e que este amor
era absolutamente diferente, muito mais intenso e profundo do que o que senti pelo
Leuvka. Se calhar, se não fosse a noite de ontem, acabaria numa brincadeira. Agora, não o
esquecerei tão cedo.
De dia aguentei-me e dominei-me, mas quando a Eugenia chegou e começou a tocar
piano... Estive muito tempo em silêncio, procurando uma desculpa para lhe perguntar o
que aconteceu ontem. Mas ela calou-se, obstinada, embora parecesse bastante alegre e
houvesse qualquer coisa de maldoso no seu silêncio.
«Diz-me, Eugenia, a Olga e o Eugênio chegaram a alguma conclusão?», perguntei por fim
com jovialidade. «Não, não tinham nada de especial a dizer. Que havia para concluir?»
«Estás a mentir», pensei. Mas não insisti. A Olga não estava em casa. Fora a casa da Nina
com os amigos. «Oh, não devia ir, mas vou na mesma», disse a Eugenia. «Não devias
porquê?» Não respondeu. Isso queria dizer que ele estaria lá. Já não havia nada de
divertido no facto de estarmos as duas apaixonadas por ele.
A minha irmã cantava uma velha canção cigana. Ao lado do calorífero a vapor, eu
escutava com a cabeça inclinada. Apesar de sentir um terror mortal na alma, continuava a
lutar contra mim mesma. Depois, começou a vestir o casaco, enquanto eu tocava com um
dedo uma cançoneta que não me saíra da cabeça todo o dia: Acabarei a vida debaixo de
um comboio suburbano, sorrindo sob as rodas.
Nota: Popular cançoneta cómica, também conhecida pelo primeiro verso: «Porei um
chapéu negro e irei à cidade de Anapa.»
Não fazia sentido, mas também era terrível e trágica. Senti-me agitada.
«Estás triste, Nina?» «Estou.» «Então anda comigo.» «Não.» Senti os olhos enchendo-se-
me de lágrimas e os lábios tremendo involuntáriamente. «Porquê?» Escondi o rosto entre
as mãos e... chorei. Fiquei furiosa comigo própria e com medo que adivinhasse. «Porque
vou
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aborrecer-me.» Tentou consolar-me e propôs-me acompanhá-la à paragem do eléctrico.


«Tu também estás triste?», perguntei. «Estou. É triste perder um amigo.» «Está
definitivamente apaixonado pela Olga?», intuí. «Está.» «Declarou-se?» «Sim... não sei... a
Olga não me contou pormenores.» «Claro que contou», repliquei em voz dura, lembrando-
me da noite anterior. A Eugenia deu-se por vencida: «Pois foi, escreveu-lhe um bilhete e a
Olga disse-lhe que ama o Zhorka.» «Disse-lho assim?»
«Deve estar a sofrer terrivelmente. O dia de hoje foi um pavor. Sabes como costuma ser
alegre, sempre a brincar, mas hoje, entre uma aula e a outra, fingia que lia um livro. E eu
não aguento. As outras já começaram a reparar na minha tristeza. Se soubesse de certeza
que o Eugênio está em casa da Nina, não iria. Mas não consigo ficar em casa, a tristeza
assalta-me.» «Então imagina a tristeza que me assalta a mim», pensei. Nisto, tive vontade
de revelar: «Oh, Eugenia, eu também o amo!»
Mas dominei-me, reflectindo que era estúpido estarmos as duas apaixonadas. Enquanto
subia para o eléctrico, disse-me: «Qualquer dia conto-te toda a história em pormenor,
como discutiram e porque se apaixonou o Eugênio por ela.» Esqueci todas as precauções,
apertei-lhe a mão com gratidão e fiquei muito tempo a dizer-lhe adeus quando o eléctrico
partiu. Depois voltei para casa.
As lágrimas sufocavam-me e toldavam-me a visão, mas nem sequer tinha forças para as
combater. Descalcei uma luva e mordi a mão. «Pronto, agora vou.» Em casa, desatei a
soluçar; ao princípio, parecia que qualquer coisa travava as lágrimas e sentia apenas um
tormento dentro de mim, mas depois abandonei-me a um pranto desfeito e senti-me
melhor. Agora estou a escrever. Sinto na alma um nó que me sufoca, uma dúvida
tremenda, uma pergunta: «Porquê tudo isto?»
Sofro e sinto-me mal. Porquê? Esperava mesmo que ele me amasse, antes ou depois? Não.
Era uma brincadeira, mas brinquei muito a sério. Eu sofro, a minha Eugenia sofre e ele
também. Agora é tudo um drama. E pensar que ainda há pouco tempo eram todos tão
alegres e despreocupados! Porque fez a Olga as pazes com ele? A Olga??
Sim, estou sentida com ela porque é melhor do que eu e todos a amam, porque sabe ser
afectuosa, alegre, namoradeira e porque é a causa, ainda que involuntária, da minha
infelicidade. «Tenho pena por ele», disse ela à Eugenia. Mas eu sabia, sentia que esta
compaixão e embaraço eram acompanhados por uma espécie de jovialidade orgulhosa que
a levava a sorrir, talvez às escondidas, e a alegrar-se.
E isso ofende-me. Em geral... pode descrever-se o que está a acontecer dentro de mim?! A
consciência de que sou feia surge-me de novo, cada vez mais profunda e terrível,
atormentando-me. Hoje li
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outra vez um conto de Telessov, «Sem Rosto»; nunca como agora me pareceu tão próximo
e compreensível. É assim que acabarei, se não for antes. Nunca tinha lido assim. Apesar de
chorar, forçava-me a falar. Às vezes, a minha voz tremia e interrompia-se. Soluçava, mas
este sofrimento proporcionava-me uma certa sensação de prazer.
Quem sabe como se teria divertido quem me ouvisse falar!
Nota: Nikolai Dmitrievitch Telessov (1867-1957), autor de contos populares dedicados ao
amor e à morte.

À noite, quando fui ter com a Eugenia, a minha irmã mirava-se ao espelho. «É bonita. Eu,
pelo contrário... Maldição!! Porquê?» Era muito doloroso, sobretudo porque não existia
culpa nem culpados.

15 de Dezembro de 1934
Este ano, o Eugênio mudou-se para o quarto 208 da Casa dos Estudantes, juntamente com
o Ozerov, o Nikolai N. e o Zhorka. Ao todo são quatro jovens alegres e extrovertidos que,
como acontece com todos os rapazes, se apaixonam e, por sua vez, agradam às raparigas.
Entre as que vão mais vezes ter com eles encontram-se a Eugenia e a Olga. São jovens
cheias de vida, sempre as primeiras, excelentes em tudo o que fazem, seja pintura,
desporto ou teatro. Era precisamente isto que as unia ao quarto 208.
Tinham organizado um ciclo de teatro e encontravam-se muitas vezes no quarto dos
rapazes para ensaiar. O Zhorka gostava da Olga já desde o ano passado, e este amor foi
sendo cada vez mais intenso e profundo. Mas eram amigos, e como a Olga tinha por ele
apenas amizade, o Zhorka não se atrevia a declarar-se e contentava-se com a situação.
No meio dos preparativos e dos ensaios para o espectáculo, a Olga começou a mostrar um
fraquinho pelo Eugênio, que era o encenador. Ele é daquele tipo de pessoas que não
consegue não agradar, em especial às mulheres. É incrivelmente bondoso, sensível, vivo e
inteligente. O seu sorriso e os seus olhos seduzem. É, como se costuma dizer, a alma do
grupo.
Neste círculo de estudantes que se assemelha a uma família simples e afectuosa, no qual
as pessoas andam de braço dado ou se abraçam com toda a naturalidade, ele atraía
involuntariamente muita gente. Como é sempre delicado com todos, era difícil adivinhar
naquela altura de quem gostava. Nem a Olga conseguia compreendê-lo, apesar de o amar.
Depois do espectáculo, a Dussa, aquela rapariga bonita e atraente por quem o Nikolai N.
estava apaixonado, começou a andar com eles.
185

Muitos pensavam que o Eugênio também gostava dela, o que convenceu a Olga a abafar
os seus sentimentos e a interromper qualquer relação com ele durante algum tempo. Uma
vez, durante as aulas, ela escreveu-lhe um bilhete muito descarado e ofensivo e ele pediu-
lhe explicações: «O que foi? Que aconteceu?» «Quero ofender-te. Tenho razões para
isso.» Ferido e talvez também curioso, pediu-lhe: «Diz o que foi.» A Olga recusou e, no
fim, discutiram.
Passaram três semanas. A Olga começou a sentir que a sua paixão estava a diminuir e que
conseguia mirar com indiferença aquele sorriso fascinante e aqueles olhos azuis. Ele
continuou a não lhe falar nem a dar-lhe a mínima atenção e, entretanto, pôs-se a fazer
olhinhos à nossa irmã Eugenia. Pareciam amigos muito afectuosos. A Eugenia, como
todas, apaixonou-se por ele.
Nunca lho disse e se calhar nem o pensava, mas ficava muito contente ao vê-lo, quando
ele começou a aparecer cada vez mais cá em casa. Só havia uma nota discordante: a
discussão com a Olga. Esta, no entanto, decidiu reconciliar-se, aproximou-se dele durante
a aula e disse-lhe: «As nossas relações estão horríveis. Vamos fazer as pazes.» «A situação
também é insuportável para mim.» Através da Eugenia, a Olga fez-lhe saber a causa da
sua discussão: antes gostava dele, mas agora já tinha passado.
«Mas que lhe deu? Eu amava-a!», exclamou o Eugênio, cuja paixão, que permanecera
escondida e, se calhar, nunca viria à luz do dia, se inflamou de novo ao encontrar um
obstáculo. Desde sempre que albergara nele este sentimento, mas conseguira escondê-lo
tão bem que a Olga não só não se dera conta como até se confundira. E agora? Agora?
Ficou aterrado com a possibilidade de estar tudo perdido. Como podia tê-la deixado fugir?
Por fim, uma noite, decidiu declarar-se em nossa casa: «Olga, acabou tudo? Não ficou
nada?» «Nada.» «Então desculpa. Não te atormento mais.» Naquela noite, não conseguiu
fazer mais nada e ficou sentado, com uma expressão abatida, silenciosa e estranha: «A
felicidade esteve tão perto, foi tão concretizável! Agora não é possível fazer o tempo andar
para trás.» Embrenhado na sua dor, esqueceu-se de tudo e de todos. De repente, a Eugenia
percebeu o que ele representava para si e que pessoa extraordinária tinha perdido. Iniciou-
se então um drama pesado e silencioso. Ele nunca se dirigia à Olga nem se aproximava
dela. Não parecia, nem por sombras, aquele rapaz que saltitava por entre os cavaletes,
gritando alegremente: «Eu gosto dela, mas ela não quer dar-me um beijo.» Os do grupo
perceberam que acontecera alguma coisa a ele e à Eugenia, mas nunca conseguiram
estabelecer qualquer relação entre os dois e muito menos intuíram que a Olga estivesse
metida no barulho.
186

Neste momento, os sentimentos da minha irmã Olga são complexos. Como qualquer
mulher, sente-se lisonjeada e contente com o seu sucesso, mas como também tem pena
dele, cobre-o de atenções e passa a vida a dirigir-lhe convites. Porque não quer que ele
deixe de amá-la? Sem querer, a Eugenia e a Olga sorriem perante esta complexa teia que
acabou por se criar.
Eu também sorrio entre as lágrimas. Escapar do amor, como a Olga? Estou atrasada, já
devia tê-lo feito pelo menos há três dias, quando não sabia de nada. E agora? A dúvida não
me sai da alma. Continuar a amar é inútil e estúpido, mas como erradicar este amor? Não
quero separar-me deste sentimento que desenvolvi e alimentei e que me fazia sofrer, mas
que também me dava tanta alegria. Sou como uma mãe, que não pode deixar de amar um
filho caprichoso e mau, visto que faz parte dela. Mas é preciso acabar com isto.
Amanhã, na escola, tenho o exame para a selecção profissional. Vou, mas estou muito
apavorada. Outra vez a escola. É terrível imaginá-lo... No entanto, devo esquecê-lo e
considerá-lo, a ele e ao seu amor, uma coisa interessante, mas que não tem nada a ver
comigo. Maldição!
Nota: Espécie de teste de orientação profissional.
Acabarei a vida debaixo de um comboio suburbano, sorrindo sob as rodas.
Mas o amor não quer acreditar que não há nenhuma esperança, que já não existe nenhuma
possibilidade de ver aquele querido rosto risonho e a luz daqueles olhos.

Noite
Lutei todo o dia e consegui. Li um romance sobre os nossos terroristas russos sem nunca
me distrair, mesmo quando, às voltas com as frias palavras do texto, de vez em quando era
de novo assaltada pelo mesmo pensamento doloroso e obsessivo. Só passaram dois dias
desde aquela noite. Vejo muito bem que tenho sempre a mesma coisa na cabeça, mas esta
hipótese que elaborei hoje de lutar contra mim própria está a dar resultado. Nunca me
permito um momento de tréguas e obrigo-me a andar sempre ocupada, o que já me parece
suficiente.
Mas, mesmo sem querer, de vez em quando a dúvida, uma pergunta sufocante, irresolúvel
e muda, abre caminho no mais profundo da minha alma. Basta que dê um poucochinho de
liberdade à fantasia para que o desejo e as recordações voltem a flutuar-me na alma.
187

Pronto, o Zhorka e a Olga chegaram e fazem-me vir dolorosamente à memória tudo o que
eu precisava de esquecer. Quando a Olga me disse que ela e a Eugenia tinham ido
encontrar-se com a Nina, senti como que um punhal atingindo-me em cheio no coração e
os olhos marejaram-se-me de lágrimas sufocantes.
Lembrei-me do estado em que «ele» estava naquela noite: infeliz e triste, com o rosto
muito diferente do costume, desanimado. Recordo-o, como se fosse hoje, saindo do
quarto, magoado, devagar, calçando as galochas no lusco-fusco do corredor com um
desespero quase apático. No coração, uma perturbação sufocada mas persistente e um
terror, uma estranha sensação de peso e vazio, um desespero sem esperança.
Nas escadas, apertou as belas mãos brancas com angústia e parou por um momento a
escutar a dor dilacerante que sentia no peito, com um estranho sentimento de medo, mas,
ao mesmo tempo, deixando-se embalar pelo sofrimento. Depois desceu, com lentidão,
pesadamente, apoiado ao escorregadio corrimão de grades.
E pensar que poderia ter tido aquela rapariga pequenina, coquete e alegre, sempre
simpática e doce! Tão feminina, atraente, com os olhos verdes e brilhantes, amendoados à
oriental, astutos quase até ao descaramento! Parecia tão especial e bondosa! E amava-o!
Sentia uma grande dor no peito despedaçado, a vida parecia inútil e pavorosa. Mas, no
entanto, atraía-o.
Pus-me a ler as minhas observações anteriores, onde escrevi que era muito infeliz. Mas o
que era essa tristeza comparada com o que sinto agora?

16 de Dezembro de 1934
Ontem, durante uma aula, passou um bilhetinho à Eugenia, que o leu e corou (um mistério
para mim). Não quis contar o que estava escrito nem à Olga, nem a mim, porque o bilhete
dizia no fim-. «Não contes a ninguém.» Penso que, se calhar, foi qualquer coisa do tipo:
«Não me deixes; tenho medo do que poderei fazer.» É uma coisa que se deduz do
comportamento da Eugenia, que também ontem passou todo o serão com ele.
Não consigo deixar de pensar: «Que sorte! Como estará ele agora? Outra vez alegre ou
pensativo e taciturno?» Não há meio de conseguir vencer uma certa cólera causada pela
necessidade de o esquecer, juntamente com o que sinto por ele. Mas tem que ser! Quem
sabe? Talvez consiga preparar-me para a faculdade operária, o que me distrairia um pouco.
Não consigo fazer nenhum esforço. Sou uma histérica estúpida!
188

17 de Dezembro de 1934
Hoje fui ao teste de selecção profissional. Foi muito agradável caminhar pelo passeio
escorregadio, à luz azulada das ruas, antes da alvorada. Gostaria muito de sair de casa
todos os dias para estudar com esse raro vigor da alma tipicamente matutino; não para ir à
escola, mas rumo ao lugar que sonho, onde há outras pessoas fascinantes e onde tudo me
atrai. Só então poderia dizer: «Também para mim começou uma vida nova. Uma vida
nova!»
Apesar de tudo, a escola, onde já não ia há um mês, agradou-me. Pairava uma atmosfera
alegre e despreocupada nas amplas salas iluminadas. Percebi com prazer que os rapazes já
não me interessavam. No fim de contas, o Margosha não passa de um «urso» desajeitado e
feio, e o Leuvka, com os seus cabelos despenteados, já não me sobressalta.
As minhas colegas contavam as suas aventuras. A Mussa falava muito entusiasmada do
Margosha e da sua amizade. Parecia-me tudo um tanto aborrecido e ridículo. Sentia de
maneira espantosa e clara que nem um fiozinho me ligava à escola. Não amo as pessoas e
compreendi que nunca quereria saber dos «seus» interesses. Embora seja tudo menos
inteligente e especialmente culta, os interesses da Ira, que é muito mais inteligente do que
eu, parecem-me não só superficiais como também estúpidos, raiando a vulgaridade.
Porquê?
Ontem, a mamã disse-me que nem vale a pena pensar na faculdade operária, que só aceita
inscrições a partir dos dezassete anos. Mas não posso de maneira nenhuma continuar na
escola. Odeio aquiIo tudo e não tarda que também os meus colegas me pareçam horríveis.
No fim, aborrecida, pensei como seriam as aulas de futuro, se já no primeiro dia estava tão
pouco entusiasmada. Por acaso, a Ira tinha consigo Os Contos de Hoffmann;
agradavelmente comovida, recordei aqueles longos serões felizes da minha estranha vida
de eremita e os acordes tristes e sonhadores de Os Contos de Hoffmann. O passado recente
que devia esquecer irrompia de novo.
Ontem, enquanto passeávamos de mãos dadas, escorregando na superfície lisa e compacta
do gelo, a Eugenia disse-me: «Era assim que caminhava com ele.» E apertou-me a mão
contra o peito. Porque me desagradou, porque sofri? Ele caminha com ela, delicado, triste
e muito doce.

18 de Dezembro de 1934
O rinque de patinagem. Gelo azulado, salpicado de neve imaculada. As silhuetas velozes,
um tanto curvadas, dos patinadores. Z-z-z-z...
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O gelo range e desfaz-se sob a lâmina cortante de um patim. Está a ficar escuro. O rinque
mergulhou no crepúsculo. Que agradável é rodopiar ao som da música, deslizar, rodar,
virar! Que extraordinária sensação de leveza e velocidade!
Perto de mim, ao lado de um edifício estranho e escuro, a Olga e o Iuri T. rodopiam,
retalhando o gelo com ligeireza e segurança. De mãos dadas, velozes e graciosos,
descrevem semicírculos na superfície escorregadia. O Iuri não é muito alto, enverga um
blusão de esqui azul e patina muito bem. É encantador e simpático.
Quando voltámos ao vestiário, quase me carregaram em braços. Não sentia as pernas de
tão cansada, ao ponto de perder o equilíbrio.
A ideia da escola atormenta-me e angustia-me de novo. Em casa, falei com a mamã, que
disse: «Mas o que te aborrece tanto na escola?» «Tudo.» Nem eu sei, mas sinto que não
aguento mais. Já me imagino a andar durante mais seis meses a passear pelo átrio durante
os intervalos das aulas, a ouvir estupidamente aquelas histórias de amor e a gritar palavras
vulgares aos catraios da escola.
«Gosto tanto de dormir!», disse à mamã. «Esqueço tudo, todos os pensamentos que dão
comigo em doida.» «Deixa-te de tolices, Nina», respondeu-me. «Dão contigo em doida
porquê? Estuda e pronto.» Sorri e arrependi-me de ter tentado confiar-me à mamã esta
única vez na minha vida.

19 de Dezembro de 1934
Ontem houve uma festa em casa da Mussa. Não sei porquê, mas estava muito alegre. Nem
o tédio, nem o bizarro comportamento dos rapazes e nem sequer todas aquelas conversas
estúpidas e vulgares afectaram o meu estado de espírito. Só tinha vontade de rir e de me
divertir. Até que enfim umas tréguas de mim mesma e da minha secular solidão! Escutei
com prazer o gramofone ribombando, estridente, e em especial o disco Argentina, do qual
ainda ouço ecoando-me nos ouvidos as últimas palavras: «Não mais esquecerei.»
Nota: Palavras de Tango Argentina, canção popularizada na Rússia nos anos 20 e 30: «Sob
o céu quente da Argentina, onde o horizonte é tão azul a sul... Não mais esquecerei os
abraços apaixonados da senhorita dos olhos negros nem a Argentina.»

Apesar disso, repeti para mim própria pela centésima vez que tinha de me livrar desta
situação, desta superficialidade vulgar e estúpida. E voltaram-me à cabeça as festas
alegres e simples dos estudantes do instituto, que se reúnem para se divertir, sem sinais
destas insinuações vulgares.
190

Por volta das oito, chegou a Olga K., de quem a Mussa me tinha falado muito. Imaginava-
a completamente diferente: tanto que, quando entrou, fiquei um tanto desiludida. É baixa e
trazia um aventalzinho preto. A sua simplicidade e liberdade de modos notava-se à
primeira vista. Cumprimentou toda a gente com desenvoltura e sentou-se no sofá, ao lado
da Ira. Tinha o cabelo claro, avermelhado, e os olhos negros, aveludados e profundos.
Quando sorria, acendiam-se e cintilavam. Nunca vi olhos assim! São tão negros que não
se consegue distinguir onde acaba a íris e começa a pupila: um esplendor completamente
negro. Era maravilhosa quando enrubescia.
20 de Dezembro de 1934
O Eugênio vem cá amanhã. Como nos dias agora já distantes, aguardá-lo-ei sofrendo e
com esperança. Embora a dor já não seja tão forte e lancinante, ainda o amo, estou sempre
a pensar nele. Sonhei que me sorria com ternura. Sentado ao meu lado, perguntava-me:
«Como vai a vida?»
Acho importante ir à escola, que me distrai e me dá a possibilidade de esquecer, mas
continuo a ter os mesmos momentos de tédio e revolta. No entanto, brinco, divirto-me e
observo os rapazes. Por agora, não gosto de nenhum e sinto-me muito bem assim. Ontem
tivemos duas horas livres e só ficámos na sala eu, a Ksiusha, uma outra colega e cinco ou
seis rapazes, que diziam porcarias e vulgaridades terríveis, que só os jovens de quinze ou
dezasseis anos podem pronunciar. Senti um ódio insuportável, gostaria de viver noutro
ambiente.
Eu e a Ksiusha fomos para o átrio, onde a balbúrdia era infernal, e corremos atrás dos mais
pequenos, que berravam e fugiam por todo o lado, discutiam uns com os outros e riam a
bandeiras despregadas. Lá em baixo, as raparigas do oitavo ano tinham-se reunido perto
do vestiário com o Maximov, que falava com elas em tom de escárnio, olhando-as de
cima, como só os belos podem fazer, semicerrando astutamente os grandes olhos cinzentos
e fascinantes. Sentia-me muito bem e fiquei emocionada. Deu-me vontade de correr e
saltar.
Hoje fiz o teste de avaliação de Física e, claro, que tive «Insuficiente». Fiquei sentada
sozinha com as mãos a tremer, sentindo-me estranha: encontrava-me pela primeira vez
numa situação verdadeiramente difícil. Mas ao fim de duas horas esqueci tudo e, durante a
aula de Desenho Técnico, já parecia que não acontecera nada. O professor verificou os
cadernos, enquanto eu escrevia numa folha de papel o tema para o teste de selecção
profissional: o que quero ser e mais outras coisas. Nisto, reparei que a folha estava a
deslizar e dei um salto na direcção do Lazar que, sentado, se preparava para a ler.
191

Atirei-me a ele com uma velocidade surpreendente e agarrei-o pelo colarinho com uma
mão, enquanto estendia a outra para a folha. Ele afastou-se de mim e atirou-a ao Leuvka:
«Leuvka, toma!» Mas este, apanhado desprevenido, confundiu-se; debruçando-me na
carteira, consegui agarrar a folha e, triunfante, regressei ao meu lugar. Só então me
lembrei que o professor de Desenho Técnico vira tudo e que não podemos comportar-nos
assim nas aulas. Na realidade, enfureço-me raramente, mas quando acontece, esqueço tudo
e só penso na vingança.
O Eugênio vem amanhã e, caso estranho, é também amanhã que teremos os testes de
orientação profissional. Portanto, não tenho que estudar. Como teria ficado feliz apenas
uma semana atrás!
Mas agora sei que não posso arranjar desculpas para entrar no quarto das minhas irmãs a
fim de o ver... não posso mesmo lá ir, terei de ficar sozinha, o que significa enlouquecer.
Estudarão desenho juntos, como fizeram das outras vezes, como fizeram naquela famosa
noite. A Eugenia contou-me muitas coisas que, de novo, me impressionaram e agitaram.
No dia seguinte ao acontecido, o Eugênio foi ter com ela a chorar. Implorando-lhe que o
ajudasse a superar a infelicidade, disse-lhe: «Tudo poderia ter sido diferente! A culpa é
toda da Olga! Devia ter-me dito!» Emagrecera e andava muito abatido. Não falava com a
Olga e mostrava-se distraído e amuado com a Eugenia. Hoje, pelo contrário, voltou alegre.
Rindo, disse à Eugenia: «Sabes, está a passar. Entrei no quarto e encontrei o Zhorka e a
Olga, que estava sentada na cama, embrulhada no casaco. Olhei para eles quase com
calma e só senti uma dorzinha no peito.»
Já esqueceu? Tão depressa? E o que farei eu? Não posso acreditar. Será possível esquecer
tudo em cinco dias? Que absurdo! Ou ele não teve forças para lutar ou decidiu... ah, não,
que absurdo! Será que não resistiu? E para quê mentir à Eugenia? E amanhã vem outra
vez. Respeito-o muito para pensar que não foi capaz de se vencer. Mas não é possível
esquecer... o que acontecerá amanhã? Tenho de ir a qualquer lado, apetece-me tanto vê-lo!
A Olga disse-me: «No amor, é preciso insistir.» Esta frase vem-me à cabeça contra a
minha vontade e obriga-me a permanecer na incerteza: devo continuar a tentar?

27 de Dezembro de 1934
«Ele» estava tão fascinante há uma semana, no dia 21 de Dezembro! Enquanto falava,
rindo com amabilidade, os olhos cintilavam-lhe no rosto jovem e fresco. Dirigiu-me a
palavra em mais de uma ocasião.
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Senti-me feliz, esqueci a Olga e tudo o que acontecera irremediávelmente. Já não me


torturava a ideia de que me falara como se eu fosse uma criança. Não queria pensar
absolutamente em nada. Esperei-o com ansiedade durante alguns dias. Se calhar percebeu
que, no amor, não é assim tão fácil uma pessoa distanciar-se, e que a batalha ainda não
terminou. Pode ser que passe a noite de fim de ano connosco ou não. Se não o vir durante
mais um mês, talvez me passe.
Sinto-me muitas vezes inquieta na escola e parece que preciso de fazer alegres loucuras.
Nesses momentos, tenho uma sensação tangÍvel e belíssima em todo o corpo: força e
juventude. Mas de novo surgem taciturnos estados de espírito. Hoje, o Maximtchik foi à
escola. Estava perto da janela, com os cotovelos apoiados no peitoril, belo, soberbo e
altaneiro, com um blusão cinzento e calças de esqui verdes, cheias de pregas.
Tinha a cabeça bem levantada. Que cabeça maravilhosa! Trazia o cabelo castanho e
espesso penteado em anéis regulares. Parecia vir de outro mundo. Em comparação com
ele, os nossos colegas são todos desengraçados e odiosos, excepto o Leuvka, que passou a
aula a trocar bilhetinhos com a Ira; estive feliz porque, como era eu a passá-los, podia
olhá-lo e tocar-lhe nas mãos quentes. [...]

29 de Dezembro de 1934
Hoje o tempo está divinamente bonito. À tarde, caiu uma neve muito leve e fina, que
pousava no chão em farrapos transparentes e vaporosos como o ar. O contacto dos flocos
no rosto era agradável, doce e fresco. O ar estava coberto de nuvens muito altas e
delgadas, através das quais se via o céu. Havia luz, porque o Sol quase conseguia brilhar.
Com uma melancolia e uma alegria quase mórbida, sentindo-me como numa prisão,
contemplei pela janela o turbilhão branco e vaporoso dos flocos de neve.
Tudo parecia belo, tranquilo e maravilhoso. Apeteceu-me deixar-me ir naquele turbilhão
leve, sereno e sobrenatural, sentir a frescura no rosto e respirar o ar puro e cristalino. À
tardinha, ficou tudo estranhamente silencioso e quente. O manto macio de neve brilhava,
muito branco e alegre, e as pessoas passeavam com afoiteza, cheias de energia, rindo.
Estive todo o dia inquieta, agitada por pensamentos estranhos e caóticos. Não me lembro
de nenhum. Não sei o que quero, do que preciso ou o que é bem ou mal neste mundo, se
haverá algum tipo de vida que me satisfaça e se, em geral, vale a pena viver. Os sonhos de
uma felicidade estúpida e inalcançável lutavam com qualquer
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coisa de poderoso, incompreensível, sedutor e atraente. Não sei que decisão tomar, não sei
quem serei... Isto é tudo estúpido, incompreensível e escuro.

30 de Dezembro de 1934
Passaram muitos dias desde que o Nikolaev. membro de um grupo terrorista clandestino,
assassinou o Kirov no Smolny. Muitos artigos nos jornais deram grande relevo a este facto
e muitos demagogos, papagaios oradores de profissão, e muitos porta-vozes dos sovietes.
gente cobarde e patética, gritaram sobre as cabeças dos trabalhadores, agitando os punhos:
«Torçamos o pescoço à víbora!» «Fuzilemos o traidor, cujo vil disparo arrebatou das
nossas fileiras...», etc. Perdido qualquer sentido de consciência e dignidade humana,
muitos cidadãos soviéticos comportaram-se como animais e levantaram a mão a favor do
fuzilamento.
É difícil acreditar que, no século XX haja um canto da Europa onde os bárbaros medievais
conseguiram estabelecer-se e onde as ideias primitivas convivem de modo singular com a
ciência, a arte e a cultura. Ainda antes do início das investigações, ainda antes de se saber
de que organização se tratava, mais de cem antigos membros do Exército Branco foram
mortos só porque, para sua desgraça, se encontravam em território soviético.
Nota: O Exército Branco era o nome não oficial que, no decurso da guerra civil (1918-
1921), designava a linha oposta à revolucionária, representada pelo Exército Vermelho.
Depois da vitória deste último e do restabelecimento da unidade nacional (1921), deixou
de ser crime ter pertencido ao Exército Branco. No entanto, como vemos, os antigos
membros do Exército Branco foram os primeiros a ser presos e eliminados no início das
grandes purgas dos anos 30.

Hoje fuzilaram mais catorze «conspiradores». Cem vidas contra uma bolchevique. Tudo
isto lembra involuntariamente o reinado de Alexandre II no século XIX e as
movimentações da «Narodnaia Volia».
Nota: Literalmente: «Vontade do povo.» Sociedade secreta russa, fundada em 1879 para
unificar, num corpo centralizado, todos os grupos de conspiradores que tinham por
objectivo derrubar a autocracia czarista pela violência. A organização concentrou todas as
suas forças para assassinar o czar Alexandre II, o que conseguiu no dia 1 de Março de
1881.

Que furor e agitação se espalhou pelo povo quando se deu a execução dos seis assassinos!
Nota: Nina está enganada: os terroristas enforcados em 1881 foram só cinco: Kibaltchitch,
Mikhailov, Perovskaia, Zheliabov e Rysakov. Os bolcheviques.
Porque não se indigna agora ninguém? Porque é agora tudo considerado perfeitamente
normal e natural?
Porque não diz ninguém com franqueza e sinceridade que são uns canalhas? E que direito
têm estes bolcheviques de tratar o país
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e a sua gente de uma maneira tão cruel e arbitrária, de com tanta impunidade proclamar
leis ultrajosas em nome do povo, de mentir e de se esconder atrás de palavras muito
importantes, que agora perderam o seu significado:
«socialismo» e «comunismo»?
Chamar vilão àquele que enfrentou a morte com consciência e coragem, que não teve
medo de ser fuzilado pelas ideias em que acreditava e que era melhor do que todos os
chamados dirigentes da classe trabalhadora!
O que pensarão no estrangeiro? Também dirão:
«É assim que deve ser»? Oh. não! Meu Deus, quando mudará isto tudo? Quando
poderemos dizer de verdade que o poder pertence ao povo e que temos igualdade e
liberdade totais? O que temos agora não é socialimo. é a Inquisição!

1 de Janeiro de 1935
Chegou o Ano Novo! Nunca comecei um ano... de maneira tão insólita, nunca o início foi
tão triste. Ontem estive agitada todo o dia, enquanto esperava pelas minhas irmãs, e
continuei na mesma quando me pus a ajudar a Olga a arredar os móveis. Tirámos uma
cama e uma mesa, assim o quarto delas ficou mais espaçoso e alegre. Primeiro, chegou o
Andrei B. e depois a Nina. O Andrei deu imensos parabéns à Olga, mas ela troçou dele,
erguendo a cabeça e sorrindo com desdém.
Com excepção do Nikolai N., do Sereuja e da Dussa, todos os outros chegaram às nove.
Não consegui sufocar uma exclamação quando me passaram à frente nove pessoas em fila,
uma à frente da outra. Algumas fizeram-me um aceno de cabeça e outras seguiram sem
dizer nada. O Iuri T. apertou-me a mão. O Eugênio envergava um casaco macio castanho-
claro e umas bonitas calças cinzentas. Por mim, continuava a perguntar: «Ainda o amo ou
não?»
Eu própria já não sabia. A única coisa certa era que já não experimentava aquele
sentimento forte, agradável e seguro do passado, mas uma sensação pesada e
incompreensível, que me aniquilava. Vê-lo já não me dava prazer, apenas dor. Todos
dançavam e eu passeava o olhar de um par para o outro, encolhida num canto entre o
piano e a estante dos livros. Reflectia e observava.
Um rapaz esgalgado, de nariz chato, com uma testa que lhe comia quase metade do rosto,
de voz sonora, tocava piano e ria das suas próprias e insípidas graçolas. O Boris (um
amigo do Iuri T.), alto e bonito, vagueava pelo quarto sem dançar.
Nos primeiros minutos, até me esqueci de pensar no Eugênio, mas depois fui invadida por
uma sensação desconhecida e desagradável ao perceber que, sem querer, não tirava os
olhos dele enquanto dançava. Logo que me dei conta disso, desviei o olhar. Dançava com
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todas menos com a Olga, mas não estava alegre como de costume. Eu sentia-me
terrivelmente só, inútil e quase deslocada. Queria que alguém se aproximasse de mim e
me dissesse alguma coisa ou que, pelo menos, me convidasse para dançar. Mas quem tinha
tempo para mim, para uma rapariguinha tonta e selvagem?
O Iuri T. disse-me qualquer coisa em determinada altura. Depois, quando ficámos
sozinhos no corredor, acrescentou: «Não gosto de a tratar por você.» Mas eu, de novo
enervada, respondi: «E eu não estou habituada a tratar as pessoas por tu.» Dali a pouco, foi
ajudar a Eugénia a preparar o jantar. Sentia-me confusa de cada vez que lhe dirigia a
palavra e, no fim, concluí que não podemos mudar-nos a nós mesmos.
Sentei-me à mesa entre a Eugenia e o Eugênio. Fiquei tão feliz! De vez em quando, virava
a cabeça para espreitar à socapa o seu doce perfil e os seus olhos. Mas, depois, esta
proximidade tornou-se um tormento. Às vezes, oferecia-me pão ou vinho, e era terrível
pensar que só o fazia por cortesia, porque é correcto e sensível. Que dor!
A dada altura, entornou vinho nas calças e exclamou: «Nina, acha que a nódoa não sai?»
Sem conseguir perceber do que estava a falar, fitei-o nos olhos com ar de idiota. Depois,
quando por fim compreendi, encolhi os ombros e murmurei, embaraçada: «Não sei, acho
que sim», e virei-me logo para o outro lado. Estava envergonhadíssima. Tinha calor por
causa do vinho e a cabeça começava a latejar-me. Sentia uma dor cada vez mais intensa no
peito. O baile recomeçou depois do jantar, mas eu fiquei de lado a olhar. Ele dançava com
doçura e graça, dobrando ligeiramente o corpo, seguindo o ritmo e fazendo o seu par
rodopiar com velocidade e agilidade. Eu amava todos os seus movimentos, o rosto sério e
absorto, o casaco peludo de lã. Lancei-lhe olhares tão longos uma ou duas vezes, que deve
ter percebido. Correspondeu-me, mirando-me de fugida, o que me assustou. Virei-me para
outro lado, sentindo nas costas o seu olhar de interrogação.
Uma vez dançou com a Olga, que me atirou um olhar cheio de significado. Enquanto
rodopiava, observei-lhe o rosto. Estava completamente absorto e os seus olhos pareciam
ainda maiores e mais afáveis. Depois, foi ajudar a Eugenia a arranjar o chá, e os seus
cuidados torturavam-me: ora me oferecia um doce, ora uma fatia de bolo. Não suportava a
ideia de que talvez tivesse pena de mim: ficava louca.
Quando chegou a altura das nozes, saí da cozinha para evitar as suas atenções, mas ele
ainda me gritou: «Nina, quer umas nozes?» «Não, não quero.» Fui para o quarto da mamã,
onde dali a pouco entrou a minha irmã Eugenia, que comentou, oferecendo-me outra vez
nozes: «Não sejas tão tímida!» Devia ter sido ele a pedir-lhe para me
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vir procurar, e envergonhei-me. Depois de ter bebido o chá, fiquei na cozinha a roer as
unhas, cada vez mais nervosa. Não, o meu amor não tinha passado: apenas mudara, era
doloroso... Chegava-me do outro quarto a sua voz e a sua gargalhada despreocupada e
ruidosa. Estava a imitar alguém e, por um momento, lembrei-me do Eugênio descuidado
de outros tempos.
Antes de se irem embora, ainda dançaram. Entretanto, aconteceu uma coisa desagradável
ao Zhorka, que vomitou, pelo que o Eugênio ficou mais algum tempo com ele na cozinha.
Quando depois voltou ao quarto, tinha o rosto sério e preocupado. Como o Zhorka não
podia ir para casa naquele estado, dormiu na nossa arca. O Iuri, também ele meio ébrio, o
Nikolai e o Eugênio começaram a preparar-se para partir. A dada altura, ficámos quatro:
eu, encostada à parede, a Eugénia, o Iuri e o Eugênio.
«Nunca mais bebo», disse o Iuri T. «E faz muito bem», murmurei, olhando em frente.
Sentia que o Eugênio estava a observar-me. Como não conseguia suportar o seu olhar,
virei-me para ele: fitava-me com ar sério; depois, sorriu e os seus olhos brilharam com
doçura. Mirando-o longamente, devolvi-lhe o sorriso.
Não falou muito com a Olga mas, quando o fazia, ficava absorto, com o olhar terno,
luminoso e profundo. Senti-me assustada e incomodada. Já estávamos a despedir-nos
quando a Olga o chamou de repente de parte, dizendo: «Eugênio, anda cá um minuto.»
Observei com atenção tanto a ele como à minha irmã e, pelo canto do olho, vi que lhe
pegava na mão. «Gosto de ti», sussurrou a Olga com malícia e afecto. «Eu também gosto
de ti», respondeu ele em voz baixa, decidido. «Estão todos bêbados. Tu és o único sóbrio e
amoroso.» «Bem», replicou, brincando e rindo. Nisto, tomou-lhe o rosto entre as mãos e
afagou-lhe o cabelo: «- Oh, minha querida Olga!»
Como não estava em condições de suportar mais, virei-me logo para a mesa. «Até à vista,
Nina.» Estendeu-me a mão e eu, sentindo até uma certa alegria, apertei-lha. Foi o meu
último olhar para aquele rosto doce e quente, que me é tão querido. O Iuri, que na verdade
bebera de mais, beijou a mão à Eugenia e à Olga, desculpando-se por ter trazido uma
quarta garrafa. O Nikolai, agora mansinho e gentil, ria alegremente, com os olhos
brilhando por causa da embriaguez.
Fui para a cama às três, mas, apesar da hora tardia e do vinho, não conseguia adormecer.
Eugênio, Eugênio! Ah, o fim de ano! Vinham-me de contínuo à cabeça algumas cenas da
noite. Fosse para onde fosse, sentia-me estranha e inútil, estúpida e muitas vezes ridícula.
Lembrava-me que, antes do fim, o Eugênio entrara e ficara de pé perto de mim, um pouco
atrás. Não me virara. Dissera-me qualquer
197

coisa, mas eu não percebera logo. Depois, tartamudeara uma resposta e sorrira como uma
estúpida.
Tive um sono agitado e inquieto; ora sonhava a sério, ora recordava, meio acordada. Visto
que não consegui dormir, levantei-me zangada, abatida e infeliz. Hoje fui a casa da Ira;
não conseguia estar sozinha. O Zhorka dormiu todo o dia na cama, no quarto da Eugenia e
da Olga, e vai passar lá mais uma noite. Está muito mal, depois de ter bebido tanto.

4 de Janeiro de 1935
Não sei como aconteceu, mas tive a triste ideia de dizer à Ira que gostava de um dos
conhecidos das minhas irmãs. Falei-lhe delas muitas vezes e também lhe contei o drama
entre a Olga e o Eugênio, claro que calando os meus sentimentos. Tinha a certeza de poder
dominar-me e, portanto, de esconder na perfeição o que sentia, tanto mais que falava
muito pouco do assunto e sempre com extrema atenção. Nunca me passaria pela cabeça a
ideia de que alguém pudesse conhecer o meu segredo.
A Ira tanto insistiu que conseguiu fazer-me falar do assunto. Depois, disse-me: «Sei quem
é.» «Então escreve. Se adivinhares, não negarei», respondi-lhe com indiferença. Mas
quando me passou um bocado de papel, o terror assaltou-me: «E se de repente...? Que
parvoíce! Até pode escrever Zhorka ou outro qualquer, mas não Eugênio.» Desdobrei e
estava escrito: «Eugênio.» «O quê? Não, não posso acreditar, enganei-me. Como sabias?»
A Ira sorriu com os olhos brilhantes, enigmáticos: «Também não sei. Há já algum tempo
que me parecia.» «Não, não é possível», pensei. Passaram-me pela cabeça suspeitas
parvas e estúpidas: «Se calhar conhece-o ou coisa assim.» Envergonhei-me e fiquei
furiosa, mas não podia fazer nada e tive de me resignar.
Ontem fui ao cinema ver Chapayev e regressei por volta das oito. Encontrei em casa a
Nina K., o Iuri T. e o Eugênio. Lancei um olhar ao quarto e vi-o sentado de perfil,
iluminado, debruçado sobre o desenho. Como não se virou, não sabia o que havia de fazer
para o ver de frente. Tinha de ir a casa da Ira, mas antes de sair fiquei muito tempo à porta,
escutando a sua voz e o seu riso soluçado. «Mais um minuto. É a última vez.»
No fim, fui-me embora. Sentia-me estranha mas, de qualquer modo, contente. Em casa da
Ira estavam o Tolka e a Mussa, que me disse:
Nota: Filme de culto, de 1934, realizado pelos irmãos Sergei e Georgi Vassiliev, sobre o
herói da guerra civil Vassili Chapayev (1887-1919)- O filme encontra-se entre os
primeiros cem da filmografia mundial.
198

«Nina, queres ver como sei do que falaste da última vez?» «Ah! Então escreve.» Já ria de
mim para comigo ao pensar como ficaria desiludida quando percebesse que estava
enganada. Mas não estava. O bilhetinho tinha escrito «Eugênio». Era de mais para
qualquer capacidade humana.- como sabia a Mussa, se eu nunca lhe falara dele? Nem uma
vez dissera o seu nome.
Olhei para a Ira com perplexidade e fui com a Mussa para o outro quarto. «Lembras-te que
fui eu que disse que o patronímico do Vadim M. era Eugenievitch? Perguntaste-mo e
repetiste aí umas duas vezes Eugenievitch», explicou. Não podia negá-lo, fora mesmo
assim. Como era possível que um incidente tão insignificante me houvesse traído?
«A culpa é minha», pensei com amargura. «Ainda não aprendi a dominar-me.» E agora
tenho de pagar. Não faz mal, aprende-se com os erros que estas coisas nunca se devem
fazer. Apetecia-me chorar de raiva e não queria olhar para a Mussa de frente. Sentia uma
vergonha terrível e só queria ir para casa.
Depois de ter discutido com a Mussa, fiquei furiosa e taciturna. Estava tristíssima. A
seguir, pusemo-nos a falar do suicídio, contei-lhes a minha tentativa de me envenenar e
todos desataram a rir com o seu cómico fim. Insisti várias vezes com a Ira para me dar
ópio. Quando cheguei a casa às onze, pensei: «O Eugênio estará cá ou não?» E tentei não
me iludir.
A Nina K. e o Eugênio iam mesmo a sair. A Nina já estava à entrada, vestida; o Eugênio
voltou para trás e entrou na sala. Ouvindo apenas a sua voz, corri para o meu quarto. Não
sairia para me despedir; como não queria enganar-me a mim própria e tencionava cumprir
a minha resolução, esperei que se fossem embora.
Passado um minuto, vesti-me à pressa e desci a correr com a Betka: «Ao menos vejo-o de
longe.» Em baixo, ainda se ouviam as suas vozes; depois, de repente, pararam. Peguei na
cadela ao colo, pus-me à espera e, nisto, senti passos a subir. De início, queria voltar para
trás e esconder-me, mas enchi-me de coragem e comecei a descer com calma. Ao ver-me
com a Betka ao colo, o Eugênio parou na penumbra da escada, admirado, e espreitei-lhe o
rosto sorridente e estupefacto. «Ah, olá! A Eugenia já está deitada?», perguntou. «Não,
penso que não.» E separámo-nos. «Nina, pode esperar por mim?», gritou de cima. Parei
involuntariamente. «Claro», respondeu a Nina K. Recomecei a andar, tentando corrigir o
meu erro.
Fiquei muito tempo a olhar pelas janelas da avó para o canto escuro do pátio por onde
passariam ele e a Nina K. Tudo era confusão e desespero na minha alma; sentia-me
irritada... De súbito, lembrei-me do ópio. «Vou beber tudo. Deve fazer efeito, mesmo
misturado com outra coisa. É melhor acabar com tudo. Estou cansada.»
199

Antes de ir para a cama, bebi uma xícara com cerca de sessenta gotas escuras. «A avó vai
zangar-se mal dê pela sua falta e perguntar-me-á o que aconteceu, mas não interessa.
Talvez já esteja morta.» Bebi e deitei-me. Não tardou que sentisse uma fraqueza nos
braços. Doía-me muito a cabeça e só queria dormir. Não tardei a cair num sono profundo.
Agora sinto-me muito mal, tenho náuseas e estou entorpecida. Para que fiz o que fiz? Não
consigo compreender.

7 de Janeiro de 1935
Ontem perguntei à Eugenia: «Que farias se gostasses de alguém que ama outra?» «Teria
de esquecê-lo», respondeu com um olhar carregado de significado e compreensão.
Esquecer? Sim, esquecer. «Está bem, esquecerei. De resto, porque não experimentar?»,
pensei. Passado um minuto, já decidira que seria assim. A Eugenia começou a falar-me
dele: «Anda com os olhos tão cansados, velhos e cheios de rugas!» «Quer dizer que o
amor pela Olga o atormentou.» «Não, ele diz que já passou tudo e que foi um erro.»
«Então não a ama?», perguntei, animando-me. Talvez consiga conquistar o seu amor,
quem sabe? E voltei a desviar a conversa para o assunto inicial. A Eugenia perguntou-me
quem era o rapaz e a que grupo pertencia. Foi divertido e, ao mesmo tempo, desagradável,
dizer-lhe uma mentira. Se soubesse em quem pensava!...
Hesitei durante muito tempo sobre o que fazer; no fim, pensei: «Mesmo sendo a solução
mais difícil, combaterei e esquecerei tudo. De resto, não devo nunca escolher o caminho
mais fácil. Em qualquer caso, nunca poderão existir relações normais entre nós. Portanto,
é estúpido vê-lo uma vez por semana e esperar e sofrer todos os dias.»
Agora luto e penso seja no que for. Logo que ele me vem à cabeça, digo «chega» e penso
noutra coisa. Socorro-me logo de alguma fantasia nova. Mas quando me distraio e começo
a sonhar, volto logo ao mesmo. Já voei para outros espaços e tempos onde me vejo em
conversa amena com o Eugênio. É uma situação sempre tão agradavel! E de novo tenho
de me desenredar da teia de fantasias que me envolve, e pensar noutra coisa.

9 de Janeiro de 1935
É estranho. Nos dois últimos dias, tenho combatido o amor com firmeza, mas parece-me
obter o resultado oposto. Não só não o esqueci, como estou sempre a pensar nele. Quer
dizer, não penso mesmo, porque o proibi a mim própria, mas lembro-me dele. Recordo-o
sempre, mesmo que quase a nível inconsciente. E passo o dia sozinha. Às vezes apetece-
me que as aulas recomecem depressa...
200

Ontem, a Eugenia disse que sente de novo amor pelo Eugênio. Conseguiu vencer-se, mas
como estudam juntos todas as noites, está sempre a pensar no mesmo. A Eugenia toca
piano, sonhando e deliciando-se com o doce suplício do amor. Pergunta-me pela minha
paixão, se passou, se amo um bom rapaz. Não lho descrevo em pormenor porque... de
repente poderia perceber quem é.

11 de Janeiro de 1935 [...]


14 de Janeiro de 1935
As minhas irmãs expuseram alguns trabalhos de pintura e a Olga convidou-me a ir lá hoje.
Verei de novo o corredor comprido, o caos do estúdio, os rostos animados... Anteontem
também fui lá. Entrei sorrindo, um tanto perdida, escondendo o rosto no colarinho.
Estavam muitas pessoas, mas como conhecia todas, alegrei-me e tranquilizei-me. Instalei-
me perto da Olga, no canto mais afastado, observando-a a desenhar. Eram só risos e
piadas. As minhas irmãs têm um grupo maravilhoso de amigos jovens, alegres e
inteligentes. [...]
Hoje, o meu interesse pelo instituto tem uma nova motivação, porque deve estar lá o
Eugênio. A luta que travei não foi em vão. As recordações vão-se esfumando a pouco e
pouco e, em qualquer caso, proíbo-me de evocá-las. A paixão já quase passou, mas
continuo a desejar vê-lo, porque não consigo resistir. Estou muito contente, pois deve vir
hoje a nossa casa. Durante as férias, vai para casa da família, na província. Por fim,
esquecê-lo-ei, mas de momento não quero privar-me do prazer de o ver.

16 de Janeiro de 1935
Na noite do dia 14, senti de novo a agitação do costume. Tal como dantes, arrumei o
quarto das minhas irmãs com uma sensação estranha. Não conseguia estar sentada,
qualquer coisa fervilhava, tremia dentro de mim. Como sempre, fui abrir a porta,
despreocupada e feliz. Quando entrou, o coração começou a bater-me com força dentro do
peito. Passei a noite a copiar fichas com ele e com a Eugenia.
Tentei sufocar as dúvidas e as perguntas, abandonando-me a uma tranquila sensação de
prazer e serenidade. Não o amava como dantes e, embora os seus olhos já não fossem tão
fascinantes, qualquer coisa permanecera, como a sua doçura e sensibilidade. Naquela noite
observei-o bem. O seu rosto não me emocionava, se bem que continuasse a ser sacudida
por algo que não conseguia definir. Era um sentimento surdo e nada agradável, que
cresceu de forma desmesurada quando a Olga entrou.
201

Alegre e fascinante, olhou o Eugênio tapando o rosto com o colarinho, riu com os seus
olhos esplendorosos e disse: «Eugênio, faz os olhinhos que tu sabes. Vá, peço-te!» E
semicerrou os seus com ar de provocação. Observei-os com atenção. Ele agitava-se, ria,
brincava com afectação e lembrava-me o Eugênio de outros tempos.
Sofria. Para interromper esta cena de qualquer maneira, arrastei a Olga para fora do
quarto, sussurrei-lhe «coquete» e não a deixei entrar durante algum tempo. Mas depois
percebi que a minha atitude podia parecer suspeita, e parei. Quando, pouco depois, a Olga
foi ter com a mamã, sofri por um instante. Senti-me inquieta, mas em breve a dor se
aplacou.
O Eugênio permanecia tranquilo, sem falar. A minha paixão adormecia. Viva! Que prazer
me dava aquela calma, mas... tinha saúdades do amor, tanto mais porque ainda havia
qualquer coisa que me perturbava. Ah, como este Eugênio é adorável, apesar de tudo!

17 de Janeiro de 1935
Mudaram o meu dia livre. Não consigo imaginar-me assim de repente a ir para a escola,
enquanto a mamã e as minhas irmãs ficam em casa. Não, é terrível! Tão estranho! Amanhã
iremos às aulas, mas invadiu-nos um espírito de revolta muito profundo e inextirpável. As
injustiças todas das autoridades enfurecem-nos e levam-nos a lutar para defender os
nossos direitos. Nunca nos submeteremos sem combater. Lutaremos também desta vez.
Ontem, quando voltávamos para casa, eu e a Ira decidimos fazer uma petição. Não temos
nada a perder e até pode ser que consigamos algum resultado. Foi demorado e
atormentado escrevê-la. Não tÍnhamos nenhum motivo válido para querermos ter o
mesmo dia livre dos outros, mas tentámos inventar vários. Quando a Ira se preparava para
a passar a limpo, lembrámo-nos de que podiam acusá-la de ser a sua instigadora. Era
melhor escrevê-la à máquina. «Vamos a casa do Linde.» «Vamos.»
Rindo, vestimos os casacos e pusemo-nos a caminho. Não estava em casa. Como já
acontecera da primeira vez, a mãe abriu-nos a porta e disse-nos, pronunciando as palavras
com ar fatigado: «O Dima está na escola.» «Mas hoje é o nosso dia livre e não há escola.»
«A sério? Então onde está o Dima?» Estampou-se nos nossos rostos o embaraço e a
admiração: «Não sabemos.» A Ira escreveu-lhe um bilhete, que lhe deixámos com o
rascunho da petição.
Hoje de manhã, voltámos a casa dele. Tínhamos medo de que houvesse mal-entendidos.
«O Dima está?», perguntei a uma senhora que nos abriu a porta e que nem teve tempo de
responder, porque
202

logo uma voz profunda soou atrás dela: «É para mim, é para mim.» Entrámos. «Sentem-
se, por favor», disse-nos o Linde, torcendo e retorcendo as mãos como de costume.
Tinha o quarto de pernas para o ar e via-se uma máquina de escrever na secretária.
«Pronto, toma», continuou, estendendo-me a folha. «Passei-a à máquina e revi-a.» «É isto
mesmo que queríamos.» Examinei a folha fingindo ler, enquanto a Ira perguntava ao Dima
o que fizera ontem na escola. «Ah! Eu? Hum, hum, como era o dia livre, fui ao cinema.»
«E hoje vens?» «Não, hoje não posso.» «Então ainda bem que resolvemos passar por
aqui.» «Sim, tenho que sair para fazer uma radiografia.»
Estava de pé, com os cotovelos pousados nas costas da cadeira que tinha à frente. Magro,
mais alto do que eu, parecia esbelto assim vestido de azul. Não conseguia reconhecer-lhe o
rosto. Quando saímos para as escadas, apoiei-me ao corrimão e desatei a rir, quase
sufocada.
Mas esperava-nos uma desilusão na escola. Os nossos colegas aceitaram a proposta de má
vontade. Troçaram, zombaram e no fim as assinaturas saíram tão ridículas que até tivemos
de cortar algumas. Pareceram-me todos tão odiosos e estranhos! Senti de novo vontade de
fugir sei lá para onde. E só era o primeiro dia! Acabámos por conseguir convencer quase
toda a turma a assinar, excepto o Valia 1. e o Margosha. Por qualquer motivo, o Antipov
também não se decidia pelo sim ou pelo não.
À última hora, percebi que o Valia 1. se virava para nos observar. Ri-me com a Ksiusha de
uma vez, durante as férias, em que fomos a casa dele e o convidámos para ir ao cinema,
dizendo-lhe o sítio onde devíamos encontrar-nos, mas já tencionando faltar ao encontro. O
coitado esteve à nossa espera até congelar. Agora, fitava-nos com os seus olhos dóceis e
cheios de censura como os de um cão.

20 de Janeiro de 1935
A escola... Uma nuvem quente, narcótica... De quem são aqueles olhos, de quem é aquele
sorriso... aquela multidão de estudantes a rir... De vez em quando, um triste regresso à
realidade. Mas, mais frequentemente, uma sensação de atordoamento face às
fanfarronices, às vulgaridades e à baixeza. Troçamos do Valia 1, ridículo e odioso, e
discutimos o Leuvka eoB, antipático mas especial. Tentei muitas vezes decifrar os seus
grandes olhos escuros e as bonitas sobrancelhas arqueadas. O Leuvka anda agora com um
fato de colarinho branco e é tão fascinante que receio que percebam que gosto dele.
Hoje chegámos à escola às duas para nos encontrarmos com os do primeiro turno. A
Ksiusha gosta do Maximov e decidimos mandar-lhe
203

um bilhetinho. Por sorte, tinha-se demorado mais tempo. Estava a conversar com uma
rapariga muito bonita de outra escola, primeiro na sala dos professores e depois no
corredor. Entusiasmada, corada e também preocupada, a Ira pôs-se a andar à volta deles,
mas não houve meio de lhe passar o bilhete.
Depois de terminar a conversa, o Maximov foi ao ginásio, onde o quinto ano fazia
ginástica; eu também entrei e, fingindo observar os alunos, segui-o com os olhos. Falava
com um rapaz e não era boa educação interrompê-los. Quando, por fim, ficou sozinho,
aproximei-me muito e disse: «Maximov, toma este bilhete.» Virou-se para mim sem
mudar de posição, continuando com as mãos nos bolsos.
«E se não o aceita?», pensei com terror. «O quê?», perguntou-me, admirado. «Toma este
bilhete», repeti, indicando-o com os olhos. Pegou nele com calculada lentidão. Senti-me
aliviada, mas também gelada, e voltei para junto das outras.
Entretanto, os nossos colegas tinham surripiado da bolsa da Mussa um bilhetinho da Olga
K. para entregar ao Vadim M. Senti tanta raiva e desprezo por eles! Ignóbeis, velhacos! É
verdadeiramente surpreendente que pessoas instruídas e de boas famílias tenham uma
ideia tão miserável da honra e da honestidade. Tive vergonha por eles, que se acham muito
bons e no fim são cobardes e desonestos.
Do fundo do coração, pensava: «Serão assim tão estúpidos ao ponto de nem sequer
saberem o que é o dever e a nobreza de espírito? Ou sabem e, mesmo assim, comportar-se-
ão toda a vida como patifes sem princípios e ainda por cima idiotas?» Costumo reflectir e
julgar todas as minhas acções, todas as palavras, e rejo-me pelos princípios da justiça e da
honra. Não consigo compreender como pode alguém comportar-se de uma maneira tão
mesquinha. E foram precisamente o Leuvka, o Antipov e o Tolka.

25, 29 de Janeiro de 1935 [•••]

30 de Janeiro de 1935
[...] Estão uns dias de Inverno maravilhosos. O tempo está ameno e neva. Neva sem
tréguas, lentamente, sem parar. É uma neve ligeira e silenciosa. Os flocos rodopiam,
pálidos, à luz dos lampiões. O ar está muito limpo e leve, e trago na alma uma
tranquilidade invulgar. A juventude, o fervor e a alegria de viver fazem-se sentir com
intensidade.
Hoje foi um dia agitado. Ao princípio da segunda hora, quando a professora ainda não
tinha chegado, alguém começou a atirar bolas de neve. Só percebi quando a brincadeira já
começara e o «Zyria» de pé
Nota: Valia Leitin tinha duas alcunhas: «Crocodilo» e «Zyria».
204

num banco, apanhava punhados de neve branca e farinhenta do peitoril da janela e a


atirava à Mila Egorova, uma rapariga gorducha que tentava defender-se em vão.
Enquanto ela corria pela sala com a cabeça e as tranças cobertas de flocos brancos e
macios, a professora chegou: «Mas o que é isto? Bolas de neve? Egorova! Leitin! Vou
chamar a A. V.! Que vergonha!» E saiu. «Parvo, crocodilo!», gritou o Margosha, muito
zangado. «Apanhado com a boca na botija!» Ah, «Zyria»!
A A. V. chegou quase logo a seguir. «Olhe o que fizeram», disse a professora de Biologia.
«Neve por todo o lado, no chão e nas carteiras. A Egorova tem o cabelo e as costas cheios
de neve.» «Então?!», exclamou a A. V., pequena e poderosa déspota. Era curioso ver
aquela mulher minúscula, insignificante e de olhos azuis e frios tratando os rapazes com
tanta coragem e segurança. Parecia tranquila: «Venham já comigo, Ivianskaia e Sharova.»
Nota: O apelido de Mussa era Ivianskaia.

«E eu fico aqui?», pensei zangada e pronta a pedir à A. V. que também me chamasse a


mim.
«Lugovskaia!».
Esbocei um sorriso. «Saiam!» Saímos da sala todas contentes. Era a minha primeira visita
ao gabinete do director: por incrível que pareça, sentia-me quase orgulhosa. Apesar disso,
o coração galopava-me dentro do peito e estava agitada: «Meninas, temos de combinar o
que vamos dizer, como responder. De certeza que nos chamaram por causa daquela aula
de Matemática. Lembram-se que escreveu os nossos nomes?» Aproveitando a ausência da
A. V., aconselhámo-nos à pressa nas escadas. Entretanto, a Lisa K., a Kempert, a Egorova
e outros rapazes juntaram-se a nós.
Atravessámos o átrio como um rebanho desordenado, rindo e cochichando, enquanto a
nossa pequena torturadora gritava, encolerizada: «Que escândalo! Não querem estudar
numa escola soviética! Só querem fazer confusão! Não há lugar para vós na nossa
escola!» Parou ao lado do gabinete: «Primeiro os rapazes.» Deixadas sós, ganhámos nova
coragem. Aquela situação tão pouco vulgar alegrava-nos e divertia-nos muito.
Estávamos tão agitadas que não nos preocupávamos com nada e não fazíamos senão rir às
gargalhadas.
No intervalo, corremos ruidosamente para a sala. Depois, fomos almoçar. Dali a pouco, os
rapazes regressaram. Tinham-lhes perguntado se pertenciam a alguma organização contra-
revolucionária clandestina e julgo que os haviam interrogado.
Cobardes, desprezíveis, patéticos bolcheviques! Têm tanto medo de tudo que levam a
sério uma brincadeira inocente! Por piada, os
205

rapazes tinham escrito um documento que continha as ordens de um imperador chamado


Krok II. Claro que isto amedrontou logo os seus pobres professores soviéticos. Que
medonho clima reaccionário há na União Soviética! Nunca se viu coisa assim!
Nem as escolas, o mundo das crianças, que devia ser o menos tocado pela pesada
influência do poder dos «trabalhadores», estão imunes. Em parte, os bolcheviques têm
razão. São cruéis e bárbaros na sua selvajaria, mas, do seu ponto de vista, têm razão. Com
efeito, se não amedrontassem as crianças desde o princípio, o seu poder iria por água
abaixo. Educam-nos para sermos escravos dóceis, destruindo inexoravelmente o espírito
de rebeldia.
Qualquer indício de atitude crítica face à realidade, qualquer sinal de liberdade e
independência são severamente punidos. E os bolcheviques alcançam o seu objectivo.
Mataram para sempre aquele espírito de rebeldia que murmurava, surdo, no íntimo, na
alma de tantas pessoas. E naquelas em que gritava aos quatro ventos, nessas esmagaram-
no tanto que nunca mais se reerguerá.
No entanto, como nunca nos passou pela cabeça que também nós poderíamos ser
convocadas por razões políticas, ríamos muito, esperando a nossa vez. Por fim, os rapazes
saíram. «Klempert e Egorova!», chamou a A. V. Elas entraram. «Meninos!», gritámos aos
nossos colegas. «De que falaram mais?» «Oh, andam sempre à procura de partidos!»
Depois, saíram também as duas primeiras.
«É a vossa vez.»
Avançámos as três. «Primeiro a Ivianskaia», ordenou a A.V. De repente, do lado de fora
daquela odiosa porta, começámos a ter medo. Ouvíamos a voz baixa e estridente da Mussa
dizendo qualquer coisa. «Agora não te esqueças do que deves dizer», cochichei à Ira.
Fomos chamadas as duas.
A A. V. estava de pé. O director, um homem pequeno e muito desagradável, de costas
largas, encontrava-se sentado atrás da secretária. O seu rosto vulgar, destituído de qualquer
beleza e qualquer simpatia interior (para já não falar da exterior), era o rosto típico de um
operário endurecido, que vira muito, repugnante, de quem fizera carreira graças à
inscrição no partido e à capacidade para obedecer às ordens vindas de cima com rapidez e
sem objecções. Com o ar de uma pessoa habituada a tratar exclusivamente com gente
vulgar, ladrões e talvez também prostitutas, nem por sombras parecia adaptado a uma
escola.
Quando entrámos, indicou-nos com um aceno de cabeça um lugar perto da parede. A Ira
tinha as mãos atrás das costas e a cabeça ligeiramente inclinada. Eu apoiei os cotovelos
num ressalto da parede, talvez com demasiada despreocupação para uma conversa com
uma pessoa tão importante e bem colocada, e pus-me a observar a mesa
206

e os móveis. A A. V. vagueou um pouco sem olhar para nós e disse ao director: «Faça a
estas duas as mesmas perguntas que fez à Manskaia. O caso é o mesmo.»
Logo que se foi embora, o director deu início a um interrogatório mesquinho e repugnante.
«Discutiram a propósito da morte do Kirov e do Kujbyshev?»
Nota: Valerian Vladimirovitch Kujbyshev (1888-1935) era membro do Comité Central e
presidente do Gosplan, o organismo oficial encarregado de programar e gerir o
desenvolvimento económico soviético. Por altura da sua morte, correu o boato de que fora
vítima de um subtil e desumano crime estalinista, à semelhança de outros dirigentes do
sistema soviético (por exemplo, Mikhail Vassilievitch Frunze, em 1925, e Sergo Grigori
Konstantinovitch Ordzhonikidze, em 1937). Provavelmente, Kujbyshev pagou um preço
muito alto por ter aberto um inquérito à morte misteriosa de Mikhail Frunze.

«Só houve manifestações», respondi, confusa. «Não, quer dizer, entre os alunos.»
Tinha uma voz calma, quase amável e persuasiva.
«Não, nunca falámos disso.»
«Mas por acaso não disseram que morreu muita gente este ano por qualquer razão?»
«A...ah! Uma vez dissemos qualquer coisa», respondeu a Ira. «Primeiro o Kirov, o
Kujbyshev e o Sobinov e agora o Ippolitov-lvanov...»
Nota: Mikhail Mikhailovitch Ippolitov-lvanov (1859-1935) foi um famoso compositor e
director de orquestra, aluno de Nikolai Andreievitch Rimsky-Korsakov.

«Bem, mais nada?» «Não, acho que não.»


Esperou em silêncio, batendo com a caneta. «- Acho que não fizemos nada de censurável»,
murmurei, já incapaz de me conter. Ele examinou-me com aqueles seus olhos horríveis,
nojentos, repugnantes e verdes como os de um gato: «De censurável? Não foram
convocadas para ouvir explicações. Estão aqui para ser interrogadas e devem responder.»
E como se só então tivesse reparado, exclamou em voz súbitamente dura e áspera: «Põe-te
direita!» Perfilei-me e olhei-o com uma irritação e uma animosidade crescentes, mas
também com uma certa vergonha por ter sido censurada. «Tu respondes às perguntas e eu
tiro as conclusões. Não é da vossa conta fazê-lo. Nem sequer aos professores permito que
tirem conclusões quando falam comigo.» Um verdadeiro ditador! Foi a primeira
escaramuça da minha vida com as chamadas «autoridades locais».
«E com quem mais falaram disso?» «Com mais ninguém. Foi só entre nós as duas.»
«Então porque sabem os outros alunos do assunto?», indagou, mostrando uma lista de
nomes. «Se calhar discutiram entre eles», sugeriu a Ira. Depois de cada pergunta, havia
uma pausa durante a qual me tranquilizava um pouco. No fim, o director disse com ar
meditabundo: «Podem ir.»
O contínuo indicou-nos a nossa sala, onde havia aula de Física. Não só não conseguimos
estar com atenção nem responder às perguntas,
207
como continuámos a cochichar entre nós com ansiedade e revolta. O Nikolai G. veio
sentar-se perto de nós. É um rapaz repelente, pequeno e vulgar, de olhos de judeu, quase
vermelhos, e orelhas salientes. «Então, Luga?» «Nada. Perguntou-nos a mesma coisa que
aos rapazes. Sobre o Kirov e os outros.» «Há espiões no nosso grupo.» «Há por todo o
lado», resmunguei evasivamente, preocupada.
Esta convocação do director fez-me pensar que, na realidade, o Nikolai G. é precisamente
o mais estranho e o mais suspeito de todos, e convenci-me que fora ele a dar com a língua
nos dentes. Não vÍamos a hora de a aula acabar! Durante o intervalo, eu, a Mussa e a Ira
encontrámo-nos na entrada e contámos umas às outras os nossos respectivos diálogos com
o director. A A. V. perguntara à Mussa: «Mas não tens uma amiga de nome Olga?» E
tomou nota do nome, da escola e da turma.
É de mais! Que direito têm eles de vasculhar as nossas amizades pessoais fora da escola?
Que horror! Isto não acontecia nem nas escolas czaristas! A burocracia nunca foi tão
velhaca, minuciosa e enfadonha. Sim, deve haver no grupo algum espião, que falou da
maldita carta que os rapazes roubaram, e que era da Olga K. para o Vadim M.
Quando voltámos à sala depois do toque, encontrámos o director. Estavam todos de pé.
Dizia qualquer coisa na sua voz desagradável, sem pronunciar bem a letra «s» nem as
sibilantes, o que já era antipático por si. Viemos depois a saber que, na nossa ausência,
falou da petição que fizemos a propósito do dia livre e que entregámos à A.V., e da qual eu
e a Ira éramos as instigadoras. Que estranho estarmos ausentes precisamente nós as três
quando o director começou a falar! Não deixou escapar nada, e a história das bolas de
neve foi apenas um pretexto para enumerar todas as nossas faltas, verdadeiras e
inventadas.
Não conseguimos concentrar-nos na aula de Literatura. Estávamos exaltadas e, ao mesmo
tempo, preocupadas. A última hora, pelo contrário, passou muito bem. As raparigas
voltaram a corresponder-se com o «Zyria» e a Ira com o B. Foi ontem que as minhas
colegas decidiram pôr fim à troca de bilhetinhos com o «Zyria». Por isso, acabaram por
lhe perguntar se gostava mesmo de mim ou não. «Na verdade, não», respondeu. Foi uma
situação muito estúpida: na realidade, nunca me correspondera com ele, mas lia os seus
bilhetinhos. Depois terminou tudo de uma maneira triste. A Zina escreveu-lhe que fora
uma brincadeira e o «Zyria» respondeu: «Nesse caso, amém!» O incidente estava
encerrado.
208

2, 3, 5, 6, 8 de Fevereiro de 1935 [...]


10 de Fevereiro de 1935
Não me importaria de ler os contos e os romances de Tchekov até ao infinito. Encontro-me
neles a cada passo! Conheço tão bem aquele tom desesperado, o pessimismo e a
impotência que me são tão íntimos e próximos! Como poderia não me reconhecer no
Ivanov’ e no Treplev?
Nota: O homem inútil», personagem principal do drama Ivanov, de Anton Pavlovitch
Tchekov.

Personagem principal do drama de Tchekov A Gaivota, que acaba por se suicidar.


São inadaptados, insatisfeitos com a vida, atormentados por uma atmosfera estagnada e
opressiva. Mas que fazer? A vida é assim. Nunca foi nem nunca será diferente. O que é a
energia e o entusiasmo, a alegria e a felicidade? Momentos pouco frequentes. Os
escritores gostam de os juntar, criando o quadro de uma existência ideal, mas não passa de
uma mentira, não é a vida.
Sinto-me muito velha, incapaz de lutar e de agir. É um desespero, uma desolação esta em
que me encontro há muito tempo. Pensei muitas vezes que, sem dar por isso, a minha vida
decorrerá toda neste pessimismo sem esperança e que não ficará nem um desejo, nem um
sonho.
Ontem, a Ira e o Leuvka combinaram encontrar-se. Já são bons amigos e serão felizes;
passarão os longos serões escuros conversando. Invejo-os. Inveja! Que sentimento odioso!
Persegue-me por todo o lado, envenena-me a existência. Uma pergunta: «Porque não és
assim? Porque não pediste? Porque não consegues obtê-lo?»
Seria normal se só invejasse a Ira, mas receio estar também com ciúmes, porque ainda
sinto alguma coisa pelo Leuvka. Dá-me mais alegria vê-lo a ele do que aos outros e sou
atormentada pela sua beleza, pelos seus olhos azuis e brilhantes, tão maravilhosos! É alto
e chocarreiro com o seu casaco curto, e ontem voltou a despertar em mim um sentimento
muito semelhante ao amor. Sim, estava com a Ira, falava com ela, ama-a. Para mim é
terrível! Terei ciúmes?
Falou muito à Ira da sua vida e contou-lhe que, durante um tempo, não tinha onde dormir.
Um rapaz da rua... e agora é tão fascinante! Mesmo tendo o ar de um rapazinho, vê-se que
sabe muitas coisas, que viveu imensas experiências, que viu muito. Não! Que parvoíces!
Estarei apaixonada? Parvoíces, mas... Agora apetece-me tanto pensar nele como dantes no
Eugênio, que, de resto, ainda não chegou a Moscovo. Que lhe aconteceu? Parece que o
Leuvka lhe faz sombra...
209

15, 19, 20 de Fevereiro de 1935 [..

21 de Fevereiro de 1935
Como a Ira não foi hoje à escola, dei um bilhete seu ao Leuvka e comecei a seguir com
atenção o que fazia. Durante as primeiras horas, não estava alegre, mas parecia tranquilo.
Às vezes falava com os outros rapazes e era repreendido. Mas depois! Depois, passou o
resto do dia sem rir uma única vez, não contou nem uma piada e ficou sentado sozinho,
mergulhado na leitura de um livro. Eu virava-me de vez em quando e via-o com os
cotovelos pousados na carteira, sentado, imóvel, com ar concentrado, fitando em frente
com os seus olhos grandes e sérios. Tinha o rosto pensativo, quase triste.
Só tinha olhos para ele e pensava mais uma vez se não estaria apaixonada. À última hora,
animou-se um pouco e meteu-se com o Shunia*. Houve alguns momentos em que
encontrei por um segundo os seus olhos cintilantes e risonhos. Os seus cabelos
despenteados pareciam uma auréola de ouro escuro na testa alta e branca.
Sim, continuo apaixonada pelo Leuvka. Que fazer agora? Ainda posso lutar, mas que
sucederá a seguir? Não compreendo o que sinto por ele. Não é a mesma coisa que sentia
quando andávamos no quinto ano nem o que me atraiu para o Eugênio. Não quero as suas
atenções nem que me escreva bilhetinhos. E, no entanto, sinto-me atraída por ele. É um
sentimento cada vez mais forte e tenaz, que me leva a virar-me e olhá-lo. Como combater
este impulso que me martiriza e enreda?
O Leuvka nunca foi completamente indiferente para mim. No quinto ano, sentia uma
atracção impetuosa de cada vez que conseguia ter a sorte de poder falar com ele, quando o
seguia com o olhar todas as tardes, à saída da escola, e tremia perante os seus olhos azuis e
luminosos. Depois, este sentimento passou e deixou de me atormentar, embora
continuasse a olhá-lo com grande prazer e ele ocupasse um lugar especial no meu coração.
O que a seguir senti pelo Linde não conseguiu sufocar esta atracção, que não foi abafada
nem pela minha estúpida paixão pelo Margosha. Acho que ele só me foi absolutamente
indiferente quando estive apaixonada pelo Eugênio. De resto, naquele período, também
não fui à escola. Veremos o que acontecerá. A situação não é das melhores.
Um colega com apenas treze anos.
210

23 de Fevereiro de 1935 [...]


24 de Fevereiro de 1935
As minhas irmãs romperam completamente com o Eugênio e não há qualquer contacto
entre eles. A Eugenia queria interromper a história de amor que tinha com ele e não sei se
conseguiu, mas, de momento, nem ela, nem a Olga falam dele. É como se já não existisse
para elas. Eu também já quase o esqueci, mas às vezes lembro-me e gostaria de o ver,
fazer reviver a recordação do seu rosto.
E o Leuvka? Hoje chamou-me «Ninka»’, o que me agradou.
Nota: Diminutivo carinhoso de Nina.

Uma vez, a Ira disse-me: «Mas ele gosta muito de ti.» Não lhe perguntei o que dissera de
mim, mas penso que a atitude do Leuvka não é só de um amigo. Pelo meu lado, não
consigo considerá-lo apenas um igual, tanto em relação a mim como às outras.
A noite passada houve um incêndio. Estava quase a adormecer quando ouvi a Olga gritar:
«Mamã, olha! Fogo!»
Corri logo ao seu quarto. Atrás do palacete em frente, grassava um brilho avermelhado,
que de vez em quando espevitava e depois se dissolvia num semicírculo de chamas.
Parecia o Sol a nascer. Num primeiro momento, tive muito medo e senti o coração
apertado por um terror agudo. Um nó inamovivel bloqueou-me a garganta.
Fiquei muito tempo sentada na mesa ao lado da janela; contemplando aquela cúpula
vermelha e tentando sufocar um arrepio de horror, pensei na terrível realidade que é a
vida, da qual conheço apenas os aspectos positivos. O que só raramente se entrevê, o que
traz a morte, é para mim estranho e carregado de medo. Depois, já deitada, vieram-me à
cabeça pensamentos estranhos.
A escuridão aterrava-me, parecia-me povoada por criaturas vivas que me observavam num
silêncio maligno, sinistro e circunspecto que me aterrorizava. Porque tem a escuridão este
efeito sobre as pessoas? Sabia que não estava nem podia estar ninguém no quarto. O que
provoca tanto medo?
Para as pessoas, o mais temível é o desconhecido. E a escuridão é o desconhecido. Haverá
alguma presença muda e invisível à nossa volta? Se calhar, há vida depois da morte e os
mortos continuam aqui. Não os vemos e eles não podem fazer-nos mal, mas sentimos a
sua presença. Esta sensação oprime e aterroriza.
Basta que esteja sentada um bocadinho sem fazer nada, deixando vaguear o pensamento e
examinando os sentimentos, para logo, sem querer, me sinta invadida por uma sensação
conhecida e melancólica,
211

um mal-estar espiritual e moral, mórbido e oprimente. É para não ter a possibilidade de


remoer e afastar bem de mim esta sensação funesta que tento estar sempre ocupada.

4 de Março de 1935
Que estranho! Já era Primavera, a neve derretera quase por completo, os rebentos estavam
túrgidos e nós, como sempre, esperávamos os dias quentes e perfumados, quando, de
repente, o gelo voltou. Agora, a Ira e o Leuvka não sabem onde hão-de encontrar-se. Em
casa, a mãe poderia suspeitar de alguma coisa, e na rua está frio. Por isso, decidimos que
de vez em quando viriam cá a casa. Encontro-me numa situação ridícula, ao facilitar os
encontros de um rapaz de quem gosto com outra pessoa.
No entanto, não só não tenho ciúmes da Ira como não me sinto incomodada. Parece-me
que a minha simpatia é só amizade e que, em parte, se deve à influência perturbadora da
beleza dele, mas mais nada; e começo a acalmar. O Leuvka veio por volta das nove, mas a
Ira ainda não tinha chegado. Era estranho, divertido e emocionante ver uma presença
masculina no meu quarto. A primeira vez.
Enquanto o Leuvka despia o casaco, eu estava à porta do quarto sorrindo e pensando no
que havia de fazer para não o intimidar; apesar de tudo, viera a casa de outra pessoa. Ao
ouvi-lo, a Olga apareceu; provavelmente pensou que era alguém para ela. Sem virar a
cabeça, tentando não rir, imaginei o olhar estupefacto e malicioso da minha irmã.
Cumprimentaram-se e o Leuvka entrou no quarto.
Alto, magro e esbelto, estava lindíssimo com a camisa cinzenta de mangas arregaçadas.
Dissemos qualquer coisa um ao outro, duas ou três frases. Depois, para evitar o silêncio e
visto que o via tenso, propus-lhe jogarmos xadrez. Mas como exactamente naquele
momento chegou a Ira, pu-los à vontade e deixei-os um bocadinho a sós.
A Eugenia sorria com malícia (sabia o que estava a acontecer) e eu sentia-me desajeitada e
deslocava-me aos saltos. Depois entrei e passámos juntos o resto do serão, sem falar de
nada de importante. De vez em quando, observava-o de trás do quebra-luz e via os seus
olhos cinzentos e risonhos, de que gosto tanto, e o cabelo louro tão bonito, macio e
ondulado.
Durante a noite, convenci-me ainda mais de que não é um rapaz sério, de que é um
cabeça-de-vento, com uma inteligência banalíssima; mas nada pode alterar a profunda
simpatia que sinto por ele. Tal como antes, continua a ser para mim o rapaz mais simpático
do grupo. Estive sempre com um estado de espírito alegre e muito animado e, mais tarde,
recordei com prazer as suas palavras e gestos.
212

O Leuvka com as suas risadinhas estridentes e agudas, o Leuvka um tanto rústico, um


tanto desastrado mas, a seu modo, também espirituoso.
Seja como for, ficámos todos com a sensação de ter sido uma noite inútil, desperdiçada.
Foram-se embora tarde, por volta da meia-noite. Corri ao quarto das minhas irmãs.
«Então? Gostaram dele?»
«Fez-me lembrar o Pat», comentou a Olga. Senti-me um pouco ofendida com as suas
palavras, porque não queria ouvir comparar o maravilhoso, simpático e famoso Leuvka
com aquele adolescente alto e feio que a visitava.
A mamã não me perguntou nada. Só me disse, sorrindo:
«Nina, é a primeira vez que um jovem de cabelos dourados vem à tua casa.»
«É verdade.»
Senti-me grata por aquele seu comportamento simples e cheio de tacto. «É admirador de
quem? Da Ira?» «Tem de ser de alguém? Veio e pronto.» Entretanto, pensei de mim para
comigo: «Se calhar, as minhas irmãs disseram alguma coisa.»
Hoje passou-se uma história divertida com o Leuvka. Estava eu em casa da Ira quando o
Tolka apareceu sem avisar. Abri a porta: «Estás sozinho?» «Há uma pessoa à espera lá
fora», respondeu-me em voz baixa, fazendo-me sinal para a rua. «Vou-me embora. A Ira
que saia.» «Onde vais? Ao menos entra para salvar as aparências. De contrário, que
pensará a mamã?» A Ira deu-lhe um livro e disse que sairia depois de comer qualquer
coisa. Passados cinco minutos, o Tolka apareceu de novo com um bilhetínho.
Receávamos que a O. A. suspeitasse de qualquer coisa. «Então já devolveu o livro?»,
perguntou. «É que tínhamos de copiar uma coisa.» O Leuvka escrevera que queria
encontrar-se com a Ira, mas visto que ela não tinha tempo (que ideia lhe passou pela
cabeça?), decidira ir até ao centro. «Vamos atrás dele», disse a Ira.
Saímos. «Ó Ira, onde vamos? É impossível encontrá-lo no centro. Eu não vou.» «Não,
vamos», retorquiu em tom quase imperioso, saltando para o eléctrico que partia sem me
dar tempo de reflectir. Claro que não encontrámos ninguém no centro e voltámos para casa
de orelha murcha.
De caminho, parámos em casa do Tolka, que nos disse que tinham ido primeiro ao
Kuznecki e que haviam passado outra vez pela casa da Ira, que não estava. Deu-nos uma
grande vontade de rir porque, na prática, tínhamos andado atrás uns dos outros. Não, não
gosto do Leuvka, que só me emociona quando está perto. Se não o vir, esqueço-o.

7 de Março de 1935
Há uns dias, o Leuvka e a Ira encontraram-se outra vez cá em casa. Instalei-os no meu
quarto e fui para o das minhas irmãs. Não estava ninguém em casa. Tentei meter a cabeça
num livro, procurando controlar tanto uma certa curiosidade como a cólera que, de vez em
quando, sentia contra mim própria por me ter deixado enredar numa situação tão ridícula.
A porta estava aberta e ouvi alguém sair do meu quarto. «Quem será?», pensei, fingindo,
no entanto, que não era nada comigo e continuando a ler com as orelhas em pé.
No fim, a voz sufocada da Ira soou do corredor:
«Nina! Que é?»
Fiquei perplexa: a Ira estava parada, virada para a parede, alta e magra, com a bonita
cabeça preta, tapando o rosto com uma mão.
«Ira, o que quer isto dizer?»
«Nada. Vai ter com ele.»
«Mas o que aconteceu?»
«Já te disse que nada.»
Sentado, com os cotovelos pousados na mesa, o Leuvka olhou-me com ar sério e
indiferente, mas um tanto envergonhado, procurando fazer de conta que não acontecera
nada.
«O que foi, Leuvka?»
«Oh, não sei!», respondeu, curvando os cantos da boca com bonomia.
«Mas estas coisas não acontecem sem uma razão.»
«Levantou-se e saiu», replicou, sorrindo.
Enquanto atravessava o quarto, continuei:
«Vocês são muito estranhos! Que hei-de fazer-vos?»
Ficou calado e sem olhar para mim. A situação era um tanto desagradável.
«De que estavam a falar?»
«De nada. Eu estava ali sentado sem dizer nada e ela saiu.»
«Oh, então foi-se embora porque tu estavas calado?»
Ficámos de novo em silêncio, enquanto eu pensava no que mais havia de dizer:
«Porque não vais consolá-la?»
«O quê? É melhor deixá-la acalmar-se. Não te preocupes!» concluiu, rindo. Pareceu-me
outra vez o Leuvka de sempre.
Perguntei-lhe qualquer coisa sobre os seus estudos de arte, mas como as suas respostas
concisas em breve esgotaram o assunto, fiquei sem saber que fazer. Apoiado num
cotovelo, o Leuvka passava várias vezes os dedos pelos cabelos anelados e finos, quase
cinzentos, pondo à mostra uma testa ampla, delicada e branca como a das crianças, com
veiozinhos azuis.
Não conseguia ver-lhe o rosto atrás do candeeiro. «Então vai chamá-la.» Saí. Sentada na
cama das minhas irmãs, com a cabeça inclinada, a Ira fitava o tecto com os seus grandes
olhos negros e tristes. «Ira, não vais ter com ele?» Nesta altura, saiu. Que acontecera entre
eles? Estava curiosa e com inveja da sorte que a Ira tinha por amar, passar horas ao lado
do seu apaixonado e poder falar com ele.
Sem querer, escutei as suas vozes, agora alegres e joviais. O Leuvka ria e eu senti
necessidade de lhe ver os olhos e a boca, sorrindo com
214

gosto e insolência. Fechei a porta com raiva e liguei o rádio para não os ouvir. A mamã
chegou a casa pouco depois:
«Agora combinas os encontros entre eles?»
Parei a pensar por um momento e depois respondi:
«É.»
Não queria mentir, parecia-me inútil. Havia qualquer coisa que me levava a ser sincera
com ela. Parecia-me que compreenderia. Falámos toda a noite. A mamã proibiu outros
encontros do género, salvo em raras ocasiões. Como era de imaginar, exprimiu opiniões
muito críticas e negativas sobre o amor. Eu defendi a Ira e através dela, ao mesmo tempo,
também a mim própria. A mamã repetia: «O amor é uma idiotice. Se acontece, é preciso
combatê-lo. Que absurdo!» Desconcertou-me.
Em todo o caso, tenho muita consideração pela minha mãe para não ignorar as suas
palavras. No entanto, o que disse abalou as minhas ideias pelos alicerces. O amor, nada
mais que um absurdo? Boa! Sem reflectir, a mamã classificava de absurdo aquilo que nos
dá vida, felicidade e energia e que é o sentido da existência. Estupendo! Não há mais nada
a acrescentar!
Revi mentalmente uma dúzia de romances e não encontrei em nenhum uma ideia
semelhante. Tudo aquilo para que queria viver, que parecia sublime, importante e sério,
não passava de um estúpido capricho. Ou a mamã tem uma visão muito simples a este
respeito (talvez tenha mudado com os anos e agora seja outra pessoa), ou o amor é mesmo
o casamento, os filhos e por aí fora. E aquilo que parece tão extraordinário será apenas
uma miragem?

11 de Março de 1935
A música encheu-me de tristeza... Como a vida é cheia de contradições! Quem me dera
deitar-me e ouvir um concerto toda a noite na rádio, dissolvendo-me no doce langor
provocado pelos sons, que me lembram qualquer coisa de misterioso e maravilhoso. Não
se deve, não se deve perder um minuto desta vida preciosa e atormentada. Preencho todos
os instantes, tenho medo dos meus pensamentos e não quero preocupar-me com o futuro.
Por agora, decidi apenas estudar. Terei tempo para aprender a falar e comportar-me em
sociedade. Mas, antes de mais, é preciso saber de que falar e temos de nos preparar para
nos inserirmos bem. De vez em quando, apetece-me levar uma vida aventurosa e
fascinante, mas tenho de me preparar para que não me escape. Sinto-me relativamente
equilibrada a nível interior.
Ontem houve uma festa em casa da Mussa. Além dela e de mim, estavam também a Ira, o
Leuvka e o Tolka. Um serão aborrecido,
215

com muitas conversas vazias, como de costume. Não há meio de me libertar do fascínio
do Leuvka, o que começa a ser uma coisa estúpida. Observar os seus olhos, ouvir as suas
risadinhas estranhas e agudas, tudo isto provoca em mim um grande prazer. E pensar que
tem um carácter quase abominável!
Pois, como é importante o aspecto exterior! Quase contra a minha vontade, procurei com
tenacidade aqueles olhos que pareciam cinzentos e que cintilavam com uma luz clara. O
Leuvka estava bastante alegre, contava histórias desconchavadas e inverosímeis e ria com
frequência. Lembro-me de ter dito em voz baixa à Mussa: «- O Leuvka é cabeludo.»
Rimos enquanto ele nos observava de passagem, de soslaio, com os olhos faiscando de
desconfiança, quase aborrecidos.
Depois do chá, sentámo-nos a jogar às cartas. «Tenho calor», anunciou o Leuvka
passeando pela sala. Depois, começou a lançar furiosamente as cartas para cima da mesa
até que, levantando-se de repente, atirou com o baralho todo, que se espalhou na toalha.
«Pr’ó diabo! Vou para casa.» E saiu à pressa, com o rosto taciturno, quase mau.
A Ira e o Tolka seguiram-no logo; examinei-os enquanto vestiam os casacos, tentando
perceber o que acontecera. O Leuvka estava de pé, zangado, amuado, encostado à parede,
com a cabeça inclinada. Tinha o rosto imóvel, empedernido, preocupado e absorto e os
olhos fugidios. Já antes me parecera que falava muitas vezes sem olhar o interlocutor de
frente.
Quando saíram, a Mussa começou a contar-me qualquer coisa, mas percebi com raiva que
naquele momento não queria saber de nada senão do Leuvka. Apaixonei-me por ele? Não,
não cheguei a esse ponto, mas há qualquer coisa. A sua figura alta, ainda adolescente,
impressiona-me, parece-me extraordinária. Sim, estou outra vez apaixonada! Que
estúpido!
Cheguei a casa de muito mau humor. O meu equilíbrio interior irá de novo por água
abaixo? As minhas irmãs contaram-me duas notícias sensacionais, faladas nos jornais. Na
rua Sadovaia-Triumfalnaia, quatro rapazes abordaram duas raparigas que não conheciam,
oferecendo-se para as acompanhar. Numa ruela afastada, porém, começaram a importuná-
las, abraçando-as. Uma delas conseguiu libertar-se e fugiu, mas a outra caiu e morreu de
repente. Mais tarde, descobriu-se que levara uma facada no peito.
Há poucos dias, quando regressava a casa com um admirador, a Tonia P.. uma rapariga do
grupo das minhas irmãs, foi abordada por quatro rapazes que, de repente, se puseram a
esmurrar o seu acompanhante. Ingénua, a Tonia tentou defendê-lo e os rapazes agarraram-
na. Aproveitando-se do facto, o acompanhante saltou um muro e ficou a observar em
segurança como evoluía a situação. Os delinquentes
216

espancaram a Tonia e foram-se embora. Só então o outro rapaz conseguiu levá-la para
casa. «É o socialismo, a cultura soviética!», comentei, sufocada pela revolta.
Começou uma discussão e eu fui para o meu quarto, quase a estrebuchar. A revolta
sufocava-me, sentia-a subir-me à garganta como um vómito que queimava. Parece-me que
seria capaz de os fuzilar a todos por andarem a vangloriar-se e a mentir, pelas vidas sobre
as quais foi construído o famigerado socialismo. E sou uma mulher. Que fazer? Esta
eterna dependência dos homens, a incapacidade e a estupidez levam à loucura! E não há
saída. Maldição! Não pode dar-se nem um passo sem os homens. É terrível!
Alguma vez os homens serão honestos? E, mesmo que venham a sê-lo, será agradável
receber esta atitude de respeito da sua parte como se fosse uma esmola? A mamã é culpada
em muitos aspectos porque, desde a nossa mais tenra idade, inculcou-nos uma ideia que
nos envenena a vida: «Não andem sozinhas, podem ofender-vos.» E não se refere apenas
ao perigo daqueles a quem chamam caceteiros. Aterroriza-nos: o risco mais grave é o da
violência carnal. Este medo da violência pende em cima de toda a nossa vida como uma
ameaça tremenda. Porque é isso a coisa mais terrível para uma mulher? Como a vida é
horrível se for considerada sob semelhante ponto de vista!

14 de Março de 1935
Muitos estudantes não acham uma virtude estudar com afinco e seriedade durante dias e
dias e desprezam aqueles a quem chamam «marrões». Mas se tivermos um «Insuficiente»,
as mesmas pessoas torcem o nariz, pensando que somos «incapazes e perdedores».
Portanto, vemo-nos entre dois fogos, tentando não cair em nenhum dos dois.
Significará isto que devemos adaptar-nos à opinião dos outros? Sim, claro. A opinião dos
outros tem sempre um papel importante nas escolhas boas ou más das pessoas. Seria
preciso ser-se muito inteligente e autónomo, estar-se acima de todos e não se ter
consideração pelo próximo para poder ignorar os seus comentários. Pelo meu lado,
respeito os outros e as suas opiniões.
É estranho que numa escola, um estabelecimento de ensino, se despreze o estudo,
relegando-o para o último lugar, porque se considera quase reprovável os alunos
estudarem bem, serem disciplinados e terem boa reputação. Porquê esta inimizade e esta
luta secular entre a administração escolar e os estudantes? Porque incomodamos os
professores com gracinhas de mau gosto e porque não convivemos amigavelmente,
ajudando-nos uns aos outros?

217

É preciso deitar abaixo a barreira que separa os alunos dos professores: o problema deve
ser encarado de maneira diferente. Os professores proíbem sempre qualquer coisa aos
alunos e fazem observações desagradáveis, o que é exasperante. Não há condições para
poderem desenvolver-se os aspectos positivos da sua personalidade. Prevalecem os seus
piores instintos, que não lhes dão nenhuma alegria a nível espiritual. Não é estranho que o
mundo se baseie na inimizade? Ou será uma lei da natureza?
Na quinta-feira passada, fiquei mais aborrecida do que devia. Tive muitos «Bons». Uma
vergonha, face à Ira e aos outros que tiveram «Muito Bom». Foi desagradável ter de
reconhecer que não sou dotada, que sou mais estúpida do que os outros. Tenho mais dois
anos do que a maior parte dos meus colegas e não é por isso que sou mais culta, antes,
talvez, pelo contrário. Por que cargas de água deitei fora estes dois anos de vida? Serei
mesmo assim tão incapaz?
Sou orgulhosa e, creio, presumida e ambiciosa. Decidi ter só «Muito Bons» nas chamadas
e por isso, pela primeira vez, atirei-me aos livros durante muitos dias. Foi estranho e, às
vezes, agradável, ter aquela sensação de segurança e tranquilidade, típica do homem culto.
Tenho muito medo de geografia, pois sinto que não estou preparada. Vai-me muita
confusão na cabeça e, ainda por cima, um grande vazio. Não! Não pode ser! Serei assim
tão estúpida?
Mas que destino trapaceiro é este? Não me deu nada: nem o corpo, nem a capacidade, nem
o talento. Mas o amor-próprio sim, e também o orgulho e a ambição. É uma crueldade!
Além do mais, sou mulher dos pés à cabeça. Privar uma mulher de beleza e fascínio é
troçar dela. Diga-se o que se disser, para ela o mais importante é o desejo quase
inconsciente de agradar, que a acompanha por todo o lado...
Agradar mesmo àqueles que não amamos, mesmo àqueles que achamos desagradáveis
porque, no fundo, é maravilhoso pensar que despertamos interesse e que este sentimento
insólito se chama amor. Será apenas sinal da mesquinha vaidade e estupidez femininas?
No entanto, sei que é muito bom sabermos que agradamos a alguém. Para que me
passassem este mal-estar e estas estranhas ansiedades que me atormentam o coração
bastaria que a pessoa amada correspondesse ao meu amor, bastaria a percepção de ser
amada.
O que me pergunto é: «Porque desvanece e começa o pessimismo a dar lugar a um estado
de espírito normal?» Se calhar é só o sentimento mórbido e infundado que se encontra
muitas vezes nas raparigas adolescentes, ou talvez a consequência de pensamentos sérios e
opressivos. Em parte, a primeira hipótese deve ser correcta, mas a segunda parece-me,
sem dúvida, mais válida.
Houve uma altura em que não passava uma hora sem que pensasse no meu aspecto
desgraçado. E ainda assim não era mau quando
218

me lembrava sozinha, mas ai de mim quando eram os outros a reparar na minha fealdade!
Viver com este pensamento horrível, com a consciência de se ter um defeito e com uma
inveja secreta dos outros, uma inveja que se transforma em ódio... Como podia não
detestar a vida?
Mas acabou. A operação fez o seu papel; embora não me tenha tirado completamente o
estrabismo, corrigiu o sentimento que eu albergava dentro de mim. De repente, esse
sentimento começou a desaparecer. Quando a vida me fortaleceu o suficiente para sufocar
este impulso, quase esqueci o meu ferrete. Mas às vezes ainda me lembro, e sinto-me de
novo ferida pela velha dor. Para mim, é estranho que ninguém me fale agora disso.
Ninguém, nem sequer o Nikolai, tão horrível e repugnante. Porquê? São todos assim tão
nobres? Ou será que o meu defeito está mesmo menos evidente?

15 de Março de 1935 [...]


18 de Março de 1935
No instituto frequentado pelas minhas irmãs, o trabalho cultural entre os estudantes está
muito bem organizado: têm um coro e um grupo de teatro amador. Este último já está a
funcionar há muito tempo. Contrataram um encenador, que anda a ensaiar a peça «A Vida
Privada». A Eugenia é uma entusiasta e todos os outros membros andam sempre animados
e alegres. O ensaio geral foi no dia 16 de Março; nisto, a Eugenia ficou afónica. E ainda
por cima tinha que cantar! «Não posso representar», disse ao encenador. «Mas é
indispensável. Não deve abandonar os outros. Vá para o palco.»
No fim, representou, esforçando terrivelmente a voz. Não pôde cantar e no último acto
quase não conseguiu falar. A estreia foi marcada para 18 de Março. Como o instituto
queria que a peça fosse representada, o encenador obrigou a Eugenia a ir para o palco.
Não sei porque estavam todos convencidos que lhes passaria a rouquidão, tanto a ela como
à Nina P. A Nina de facto curou-se, mas a Eugenia não estava melhor... e sobretudo não
queria ser ridícula aos olhos do público.
Chegou a manhã. A Nina e a Eugenia passaram o dia a comer ovo batido, a beber leite a
ferver com manteiga e a ensaiar alguns excertos. A Eugenia não sabia o que fazer. Havia o
risco de acabar tudo num escândalo monumental. Os cartazes estavam afixados, os
convites distribuídos e encontrava-se tudo a postos.
Às cinco, apareceu o Iuri T., que se sentou pensativo na cama, ao lado da Eugenia.
Tentando convencê-la, puxou-lhe os braços, que ela
219

tinha cruzados atrás da cabeça. «Não posso, Iuri», disse-lhe a determinada altura a minha
irmã, quase a meia-voz. «Vai dizer-lhes isso. Experimentem falar-lhes, tu e a Nina.» «Esta
Nina rebelde convenceu-te», comentou o Iuri, irritado. A Nina zangou-se imenso e
começou a gritar: «Não sou rebelde. Convencí-a a quê? De resto, a voz voltou-me.» «Mas
se uma pessoa está doente com anginas, o que se há-de fazer?»
No fim, foram-se os dois embora e pareceu-me que a Eugenia acalmou. Depois, fui a casa
da Ira, onde fiquei até às nove. Não sei porquê, quando estava a subir as escadas veio-me
de repente à cabeça um pensamento persistente, que me agitou: «E se de repente tivessem
ido todos embora?» Abri a porta devagar, fitando o bengaleiro. «Só está aqui um casaco. A
Eugenia deve ter levado o outro para fazer de cobertor.» Quase sossegada, entrei no
quarto. A Olga e o Zhorka estavam à janela, mas não havia sinais da Eugenia. «Vai haver
espectáculo. Vieram cá o encenador e o Iuri e levaram-na. Tu vais?», perguntou a Olga.
«Eu? Vou pensar.»
Ir ver a Eugenia em dificuldades, sofrer o tempo todo, sentir-me mal e recear cada palavra
sua? Atormentar-me e corar com ela a cada gargalhada do público? Não, obrigada. E ainda
por cima sem poder ajudá-la, sendo apenas uma espectadora passiva. «Não vou», disse à
Olga, começando a despir-me. Quem sabe o que estaria a fazer? De certeza que a
preocupar-se terrivelmente.
Era estranho, mas quando o encenador chegara, a Eugenia nem sequer protestara. Talvez
por estupefacção, vestira-se logo. «Quase chorava», comentou a mamã. Não, é terrível
uma pessoa subir ao palco e representar sabendo que vai falhar, esperar com terror o som
rouco que vai sair-lhe da garganta, provocando as gargalhadas do público, e esforçar a voz
até não poder mais, até às lágrimas. Depois disto, é possível que se deixe o teatro para
sempre.

22 de Março de 1935
Não há muito tempo, li outra vez Infância, Adolescência, Juventude, de Tolstoi, e talvez só
agora perceba como ele é importante enquanto escritor. Só Tolstoi é capaz de reproduzir
com tal precisão o passado distante. Nunca ninguém tomou sobre si a pesada tarefa de
descrever três fases tão importantes da vida. Ninguém como ele para as representar de
maneira tão magistral. Tolstoi consegue contar em poucas páginas muito mais do que
outros em livros inteiros.
A minuciosa elaboração do romance salta aos olhos desde as primeiras linhas. Nenhum
acontecimento é descrito sem motivo, e indica-se em cada um deles as características e os
vários aspectos da
220

personalidade de cada personagem. Nunca deparamos com aquela pesada massa de


conceitos que encontramos muitas vezes nos escritores que não apanham a essência
principal do facto. Em Tolstoi, está tudo no seu lugar, tudo é bem construído e encantador.
Impressiona-me rever dores semelhantes às minhas em muitos passos desta obra. Também
isto se deve ao facto de Tolstoi ter sabido discernir e descrever os traços comuns a todas as
pessoas que vivem determinadas fases da vida, aspectos bem conhecidos de todos e, por
isso mesmo, preciosos. Poder-se-ia objectar que talvez seja aborrecido ler factos que todos
sabem de cor e salteado. Pelo contrário, são muito interessantes e podem exercer uma
influência benéfica sobre o leitor. Tolstoi é um dos poucos que pode dizer da própria
infância: «Feliz, feliz aquele tempo da infância, que não tem limites. Como não a
amarmos e não nos embalarmos na sua recordação?»
Sim, a sua infância foi muito agradável. Se Tolstoi se descreveu a si mesmo em Nikolenka
Irtenev sem dúvida que temos muito em comum.
Nota: Personagem principal da trilogia.

Também ele era terrivelmente tímido e reservado.


É interessante como há uma descrição precisa a este respeito: «O sofrimento das pessoas
tímidas deriva da incerteza do julgamento que se faz delas; quando se exprime claramente
uma opinião, seja ela qual for, o sofrimento passa.» Mas esta timidez está muito ligada ao
amor-próprio.
Tolstoi não era bonito, o que o magoava muito. «Eu era pudico por natureza, mas o meu
pudor foi reforçado pela convicção da minha deformidade. E estou convencido de que
nada influencia mais um homem do que o seu aspecto físico; não tanto o aspecto físico
enquanto tal, como a convicção de que este é ou não atraente.»
Existem muitas semelhanças entre a adolescência de Tolstoi e a minha: há muita desolação
em ambas, com a única diferença de que a minha é ainda mais deprimente. Tolstoi escreve
sobre a sua tendência a isolar-se neste período da vida para sonhar e pensar: «De toda esta
fatigante elaboração moral, não retive nem a astúcia do intelecto, que enfraqueceu em
mim a força de vontade, nem o hábito de uma análise moral constante, que destrói a
frescura do sentimento e a clareza do intelecto.»
Nota: Sublinhado pela própria Nina.

«Neste período, que considero o limite da adolescência e o início da juventude, os meus


sonhos baseavam-se em quatro sentimentos: o amor por ela, a mulher imaginária que
sempre sonhara da mesma maneira e que esperava encontrar a qualquer momento e em
qualquer lugar. O segundo sentimento era o amor pelo amor. O terceiro,
221

a esperança numa felicidade insólita, gloriosa. O quarto e mais importante, o desgosto


comigo próprio e o arrependimento, tão fundido com a esperança na felicidade que não
tinha nada de triste.»
Não estou completamente de acordo com esta última frase: o arrependimento atormenta-
me sempre.

23 de Março de 1935 [...]

27 de Março de 1935
Há muito tempo que as festas não me deixavam uma impressão tão alegre como a que se
realizou outro dia em casa da Ju I. Gosto muito dela outra vez, com paixão e entusiasmo,
mas ao mesmo tempo com uma sensação de tranquilidade e alegria. Faz-me bem cada
olhar seu, cada palavra sua. A Ju I., muito viva e jovial, andava por entre nós, ria e
conversava. O filho, o Kiriusha, é fascinante e vai ser parecido com ela. Possui um rosto
delicado e rosado, com a testa branca, como a do Leuvka, e grandes olhos cinzentos, de
pestanas escuras. Tem um riso contagioso quando enruga o nariz pequenino e semicerra os
olhos, e uma voz alta e sonora. E eu estou apaixonada pelos três.
Gosto de Leuvka, mas sem desejo e, portanto, sem sofrimento. Amo sobretudo o seu rosto,
mas esqueço-o completamente quando não o vejo. Senti-me feliz durante todo o serão e
também quando regressei a casa. A Ju I. prometeu levar o Kiriusha a casa da Ira amanhã
ou depois de amanhã. Que bom!

28 de Março de 1935
Os dias passam todos assim: levanto-me por volta das oito e meia ou nove com uma
sensação de pesar pelo fim do meu esquecimento feliz e tranquilo e pelo facto de ter de
enfrentar de novo a esgotante e enfadonha sequência das mesmíssimas tarefas, dos
mesmíssimos desejos. O primeiro pensamento costuma ser: «Não poderei dormitar mais
meia horinha, mais cinco minutos?»
E, como em extraordinário êxtase, mergulhar numa almofada e abandonar-me a um sono
ligeiro? Assim, nunca tenho vontade de começar outro dia previsível ao pormenor,
semelhante ao anterior e que não traz nada senão enfado e irritação comigo própria e com
os outros.
Mas devo levantar-me. Como uma máquina, começo a vestir-me, não sem algumas
dificuldades, enquanto me andam às voltas na cabeça os mesmos pensamentos. Tudo
calculado até aos mínimos detalhes. Depois de apertar o cinto e de calçar os pesados
sapatos masculinos,
222

pego num pente e num espelhinho, olho pela janela, consulto o termómetro e começo a
pentear-me. Tenho muitos pensamentos ligeiros, vagos e confusos, que parecem brotar
todos ao mesmo tempo. «Preciso de me pentear com atenção, tem andado a cair-me muito
cabelo.» Passado um bocado, sinto-me transportada para o futuro: «Vai ser bom quando
ficar comprido e me tapar as orelhas.»
Lá fora, há neve na rua... Não vou abrir o postigo; está frio. Ou deveria? «Oh, papá!
Estragou uma planta; que veio ele fazer aqui? Não, não posso ser assim mazinha... Os
ramos têm rebentos: é uma tília. Isto não é um lilás, é um sabugueiro.» Faço a cama e lavo
a cara, enquanto penso na melhor maneira de empregar o dia. Depois, ponho o fervedor a
aquecer e sento-me a ler no quarto das minhas irmãs.
A seguir, vou buscar o pão a casa da avó e levo a Betka a passear. Costumo beber o chá
sozinha, mas quando estou com a mamã, ficamos sentadas juntas, sem dizer nada,
enquanto mastigamos o pão. Reprimo a angústia que me persegue e tenta penetrar em
mim. Passo todo o dia a pensar nisso, a tentar fazer o maior número de coisas possível. De
vez em quando, sento-me ao piano e arranho qualquer coisa, desajeitada e sem me sentir
minimamente gratificada.
Nisto, começo a pensar que em breve tocarei ou pintarei muito bem. Leio de novo. O
aborrecimento aumenta. Se o papá chega, começamos a discutir. Entra de repente no
quarto e com voz quase calma mas importuna, pergunta: «Que estás a ler, Nina?»
«Tolstoi», respondo, pensando com os meus botões: «Fala com calma, domina-te.» «O
quê exactamente?» «Já te disse mais de uma vez.» «E depois?»
Fico calada e domino com todas as minhas forças a raiva incipiente, tentando concentrar-
me na leitura. «E o que me trarás hoje da avó?» «Não sei.» «Nunca respondas ”não sei”,
deves saber tudo», respondera pela centésima vez. «E como queres que saiba?», começarei
a gritar. «Trarei aquilo que ela me der.» «Porque te irritas?» Permanecerei em silêncio.
«Sabes, Nina, é preciso transplantar esta planta.» Não me voltarei. «Tem muitos rebentos.
Transplanta-a.» «Não.» «Porquê? Transplanta-a já.» «Não quero. Transplanta-a tu!», direi
nessa altura, elevando a voz. «E depois? Qual é a dificuldade?», responderá ele
impassível, quase afectuoso. «Estas violetas não valem nada.» «Porque te lembraste das
violetas? Se nem sequer fui eu que as plantei!», pensarei de mim para comigo, cerrando os
punhos. Mas continuarei calada, relendo a mesma frase pela centésima vez. «Papá, vá, não
me aborreças.»
No melhor dos casos, vai para a cozinha e começa a andar de um lado para o outro e a
resmungar. Ouço-o mesmo sem querer, fervendo de raiva. «Onde estará o pano?», rezinga.
«Não há nada, não se encontra nada. Que gente! Três filhas, e não arrumam nada. Que
223

anarquia!» Dantes protestava e respondia-lhe torto, mas agora calo-me e parece-me dar em
doida com esta fúria acumulada e silenciosa, que muitas vezes se transforma em ódio.
«Nina!», grita. «O que é?» «Anda cá.» Fazendo um esforço, levanto-me e vou ter com ele.
«O que é?» «Qual é o meu pão?» «Sabes muito bem que o teu pão está ali.» E vou-me
embora, batendo com a porta. Passado um bocado, volta à carga. Eu não consigo aguentar
e começo a barafustar contra ele, sem me arrepender.
Parece que não espera outra coisa. Grita-me e vai-se embora, quase satisfeito. Sentada no
meu canto, acalmo um pouco e censuro-me por não me ter dominado.
A análise dos meus comportamentos e o consequente desejo de me aperfeiçoar não me
abandonam e complicam-me a vida. Não há nada que me satisfaça, vejo em tudo uma
justa condenação de mim própria. Agita-se e começa a crescer um insuportável, habitual e
atormentador desejo de esquecimento e tranquilidade. Mantenho-o à distância, lendo. Mas
aborreço-me e logo me apetece qualquer coisa: ir a algum lugar encontrar-me com alguém
para me esquecer de mim própria.
Serve-me até a Ksiusha e não me importa que não se consiga dizer nada inteligente com
ela... é melhor do que estar sozinha.
Ou então vou para a escola e distraio-me com os professores e com os colegas. É raro que
não estejam amuados ou zangados, mas sempre é melhor. Vou quase todos os dias a casa
da Ira, onde às vezes encontro a Mussa ou o Leuvka. Quando não está ninguém, jogamos
xadrez e falamos disto e daquilo. Tranquiliza-me muito aquele ambiente confortável e
familiar que, por sorte, ainda não me aborrece, com o grande sofá, os livros e o gatinho
estouvado.
Mas se me acontece passar todo o dia em casa, chego à noite com um humor desastroso.
Não consigo fazer nada, custa-me ler e, censurando-me a mim própria, fico sentada com a
Eugenia e a Olga à espera das onze horas. Como de costume, penso e lastimo as minhas
dores. Queria tanto ser feliz! Mas o que é preciso? Amar e ser amada? Nem isso. Bastaria
que aquele que amo estivesse perto de mim e me desse a possibilidade de cuidar dele.
Não, menti ao dizer que não quero ser amada. Às vezes gostaria tanto de ser amada, que as
minhas tristezas e alegrias fossem importantes para alguém! Quero um amigo e,
reconheço, um amigo homem. Desejo o amor para não estar assim tão eternamente só.
No entanto, como é preciso colmatar o vazio da vida, é natural que me case depressa,
pondo de lado todos os aspectos desagradáveis que uma mulher tem de enfrentar, nem que
seja só para ter filhos e poder amar e acariciar alguém. Os projectos ambiciosos vão-me
interessando
224

menos. Já não me importa ser uma pessoa medíocre que não conseguirá fazer nada em
condições. Sinto que, para mim, a felicidade reside no amor, sempre a renascer e
maravilhosamente novo.
Às vezes tenho a impressão de que cresci muito depressa, e que é por isso que os meus
desejos não são os de uma rapariga de dezasseis anos; há muitas coisas que já são para
mim verdades absolutas, e o passado parece-me um erro da juventude.
Sou tão feliz quando chega a hora de ir para a cama! O sono! Oh, como é belo! Adormeço
logo ou fico deitada, deleitando-me, quase sem pensar. É raro sonhar, mas os sonhos já
não me transportam para um outro mundo, e abandono-os. Dormir, dormir! É o meu único
desejo. O sono é tranquilo, profundo, quase sem sonhos e retemperador.

29 de Março de 1935
O S. A. acaba de chegar de Kashira, onde trabalha.
Nota: Sergei Alexandrovitch Keller, marido de Sônia, a irmã da mãe. Apanhado pelas
várias operações de perseguições em massa, era obrigado a viver em Kashira, a cerca de
cem quilómetros de Moscovo.

Na véspera dos dias livres, vem a Moscovo. Mandou-me buscar vodca e depois, de
repente, rindo com amabilidade, sugeriu-me que bebesse. «Claro!», respondi, desatando a
rir. «Muito bem!» Bebi o copinho que me serviu e comecei a comer qualquer coisa. A
vodca, só um bocadinho amarga, aqueceu-me a garganta; o fluxo quente desceu-me pelo
esófago, difundindo o seu calor pelo meu corpo.
Espalhou-se-me uma sensação muito agradável na cabeça, que senti quente e pesada. Mas
estava completamente sóbria... Depois de alguns copos, o S. A. ficou muito amável e
corado; de costume tão reservado, começou a falar muito. Por qualquer razão, as rugas do
seu rosto doce delinearam-se com mais nitidez, e foi como se só naquele momento eu
tivesse reparado na sua velhice.
Falava do trabalho. Eu ia pensando que era uma excelente pessoa e um trabalhador
precioso, que eu dantes não conhecia, e que devia ser um engenheiro perfeito, amado por
todos e sabendo do seu ofício: a personagem ideal de um conto. Fitando os seus olhos de
um azul-vivo e procurando qualquer coisa para lhe responder, anotei e critiquei cada
palavra minha, meditando no facto de a análise dificultar muito as relações simples e
naturais entre as pessoas, tornando-as premeditadas.
225

6 de Abril de 1935
Como definir este estado de espírito? É como se quisesse qualquer coisa, como se tivesse
a sensação de não comer há muito tempo: tenho fome, mas a minha voracidade não é
física e sim espiritual. Falta-me alguma coisa que mal percebo, intangível, que foge à
consciência. A incerteza desaparece e eis que me parece que vou conseguir captar e
compreender o que me ferve sem tréguas na alma. É o sangue. O sangue a ferver. [...]
Sim, sem dúvida que quero o amor que nunca experimentei e que, portanto, é um amor
desconhecido, diferente do que pressinto. Claro que me refiro ao amor por mim. Não é
ridículo? E, no entanto, tenho uma vontade quase mórbida de estar perto de alguém, de ser
amada, de saber que alguém me espera e se preocupa comigo. Tenho a certeza de que esta
minha tensão nervosa e este desejo sem nome passariam logo.
Para as mulheres, a presença física é muito importante. Todas, sem excepção, partilham o
mesmo desejo de amar e serem amadas. Não é possível criticá-las, porque é esta a sua
natureza. Observo as minhas amigas. A Ksiusha? Tem um amigo com quem se encontra de
vez em quando e que gosta dela. Esta necessidade de amor está apagada nela e não lhe
provoca nenhuma perturbação. Lembro-me que houve um tempo em que gostava do
Maximov e lhe escreveu um bilhete: tudo se desenrolou de um modo simples e sem
tormentos.
A Ira tem um romance com o Leuvka. No que respeita a este aspecto da vida, a Ira tem
comportamentos muito curiosos. Se tivesse outro tipo de educação e vivido em condições
diferentes, seria agora uma rapariga dissoluta, porque gosta muito de namorar e de ter
relações estreitas com os homens. Ou seja, gosta muito de ser mulher, mas também tem o
sentido da decência, que a trava e a induz a parecer inocente, pelo menos a nível exterior.
Interessa-se muito pelos rapazes. Quem sabe quantos bilhetinhos lhes escreveu! Mas como
é tão bonita, espera ser correspondida de cada vez que escreve.
Eu, pelo contrário, nunca poderia fazer o mesmo nem que quisesse, porque sou feia e,
além disso, muito ambiciosa e orgulhosa para suportar recusas ou ser alvo de troça. Às
vezes acontece à Ira. A Mussa é uma criança, mas já agrada a muitos rapazes; portanto,
também nela está satisfeita a vaidade feminina. Há pouco tempo, soube pela Ksiusha que a
Zina também tem um namorado e que até a Vera
1., de aspecto sério e diferente do das nossas colegas, já viveu alguns romances. E ainda
muitas, muitas outras.
Mas eu não! É uma excepção. Não é normal, e tudo o que sai da normalidade desemboca
na doença, na estranheza. O que a Ira já sabe
226

aos catorze anos, é para mim ainda desconhecido e inatingível. Cada vez me convenço
com mais dor como a falta de beleza e de jeito na infância têm consequências terríveis e
devastadoras. Basta dizer que, sem falar dos primeiros anos de vida, nunca tive um único
rapaz por amigo.
Pode parecer idiotice, mas o certo é que a falta de conhecimento dos rapazes se misturou
em mim com um interesse mórbido e estranho por eles, com o desejo constante de estar
com eles e de os estudar, precisamente na idade em que, pelo contrário, deveriam ser
simples amigos; para mim, não, foram sempre outra coisa. Lembro-me, por exemplo, de
que no quinto ano já via os meus colegas como homens; e não é para admirar: apesar de
tudo, já tinha catorze anos, os mesmos que a Ira tem agora. O facto é que, na nossa idade,
dois anos fazem uma grande diferença. Os meus interesses eram tão diferentes dos das
minhas amigas que não nos entendíamos entre nós. Se as minhas potencialidades
houvessem encontrado uma saída, a falta de à-vontade teria passado de maneira indolor,
mas como foi reprimida e aprisionada, desenvolveu-se e começou a penetrar-me e a
atormentar-me.
Às vezes juro a mim mesma que nunca abandonarei os meus filhos à mercê da sua
imaginação acesa, que criarei para eles uma atmosfera sã, serena e alegre, que me
preocuparei e olharei constantemente por eles. Sei, por experiência própria, como é
importante seguir com desvelo todas as emoções da criança. É uma grande arte sermos
capazes de a compreender e de a guiar para o caminho correcto, sem restrições nem
sofrimentos. E é um dever sacrossanto de todas as mães dedicarem toda a vida ao seu
filho, para que este não venha a ser estranho e degenerado como eu.
227

Terceiro Caderno
229

7 de Abril de 1935
Estamos só no princípio de Abril e já é Primavera. Não há neve e hoje eu e a Ksiusha
fomos para a escola sem chapéu e com o casaco de meia-estação. Foi muito agradável
sentir a penetrante e repentina frescura primaveril da tarde, com o vento impetuoso e
irregular de Abril envolvendo-nos como uma onda fria, cercando-nos o pescoço e o corpo,
soprando os cabelos para trás e açoitando o rosto.
Fomos todo o caminho a rir e a dizer parvoíces, sem pensarmos no tempo que estávamos a
perder sem esperança, nos livros que nos esperavam ou no estudo. E assim... amar tudo, a
Ksiusha, o crepúsculo da tarde, a gente que passa, o frio do vento no rosto e no cabelo.
Mas quantas pessoas tenho à minha volta? Tantas e tão diferentes que, no fim, ficamos
com a cabeça a andar à roda e sentimo-nos como numa névoa; não sei porquê, são todas
velhas e carrancudas, correm sei lá para onde e olham-nos de soslaio, com hostilidade e ar
escarninho.
De vez em quando, os rapazes gritam-nos qualquer coisa ou metem-se connosco, mas não
nos zangamos; pelo contrário, desatamos a rir por ser tudo tão alegre e belo. Eu e a
Ksiusha ficámos muito tempo à entrada da Casa dos Estudantes: ríamos ao vento,
observando os universitários com curiosidade. A maior parte já não é jovem. Estão todos
pálidos e magros e têm os rostos tristes e mortiços, as testas franzidas. Tivemos pena
deles, mas sentíamo-nos alegres.
«E pronto. Amanhã vem, minha amiga», disse eu a determinada altura. «Não sou tua
amiga. O teu melhor amigo é o ”Zyria”, a seguir vêm a Ira e a Mussa e só depois eu»,
respondeu-me de repente a Ksiusha, em voz séria. «Mas que parvoíce é essa?», protestei,
dando-lhe a mão e procurando a melhor maneira de me explicar e justificar,
231

enquanto caminhávamos ao lado uma da outra no passeio. «Primeiro, tira lá o ”Zyria”, que
não é para aqui chamado. Quem inventou toda esta história?» «Tu.» «A sério? Disse que
gosto dele? Disparate! Agora outra coisa: tu, a Ira e a Mussa são o mesmo para mim, gosto
de aspectos diferentes de cada uma de vós. Mas, no conjunto, gosto de todas da mesma
maneira.» «Sim, e a Mussa?» «O que tem? Não gosto mais dela do que de ti.»
Sou terrivelmente presumida, de uma presunção que até dá vómitos. É por isso que fiquei
tão contente quando percebi que a Mussa, a Ksiusha e a Ira gostam muito de mim. A mais
sincera e ingénua das três é a Mussa, que me disse já há algum tempo que gosta de mim. É
sempre tão terna e afectuosa! Gosto dela, mas o que sobretudo me agrada é o seu aspecto,
a figura pequena e graciosa, o rosto bonito e doce, as faces rosadas e a pequena boca
macia; adoro observar os seus olhos de pestanas negras e espessas, que cintilam e piscam
enquanto fala. Gosto de a abraçar, de lhe acariciar as costas e de sentir os seus seios
macios e bem feitos.
Mas não nos une nenhum laço intelectual nem a respeito como pessoa; se calhar, nem
gosto dela. É uma rapariga tão superficial e vazia! À noite, quando nos encontramos,
saúda-me, sorri com alegria e diz: «Tenho tantas coisas para te contar! Que notícias!»
Depois, tem início uma torrente sem fim de histórias, todas sobre o mesmo assunto: a que
horas chegaram de casa da Olga, quem lá estava e de que falaram. É uma tagarelice que às
vezes me irrita, por ser tão oca e sem interesse.
Mas a Mussa vive para isto, e tenho de reconhecer que conta as histórias com tanta
vivacidade que estas até parecem interessantes. Pertence àquele tipo de pessoas sempre
prontas a contar uma aventura e às quais acontece sempre qualquer coisa. Parece-me que
conseguem criar romances inteiros a partir do nada e transformar uma formiga num
elefante. Encontro-me de bom grado com a Mussa de três em três ou de quatro em quatro
dias, mas passar com ela o tempo todo, responder com sorrisos afectuosos às suas efusões
de ternura e estar sempre calma e atenta... Às vezes, não consigo dominar-me e digo
alguma grosseria; então ela ofende-se, e eu zango-me comigo mesma e peço-lhe desculpa.
Chegou a vez da Ksiusha. É estúpida, estouvada e vulgar, mas somos excelentes amigas.
Preciso dela e às vezes vou procurá-la, o que nunca acontece com a Mussa, que jamais me
deu uma ajuda concreta. De facto, é bem sabido que a amizade pelas pessoas depende, em
parte, do que elas fazem por nós. Eu e a Ksiusha estamos ligadas por um laço estranho:
partilhamos o sentido de humor, uma grande vontade de nos divertirmos e a paixão pelo
desporto. Atraem-me os
232

passatempos que me dão a conhecer coisas novas e me fazem esquecer as velhas, adoro
divertir-me e tenho uma enorme paixão pela actividade desportiva.
Somos as duas rebeldes, irreverentes e descaradas: barafustamos muitas vezes contra o
governo e provocamos as pessoas na ma. Regra geral, os meus mecanismos de
autodomínio funcionam melhor e, às vezes, sou eu a abrandar os seus gracejos pesados e
ousados, mas na maior parte dos casos alinho com ela. Embora cora vergonha de o
confessar, deixo-me influenciar por ela muitas vezes, mesmo quando o bom senso me diz
para ser mais prudente e reservada.
Estupidamente e sem esperança, gostaríamos as duas de ser homens, a quem invejamos
tudo: ela a sua superioridade física e eu também a intelectual; ou seja, sofro mais.
Nenhuma das duas gosta de coqueterias e não suportamos o comportamento das outras
raparigas. Temos muitas vezes pontos de vista diferentes, e discutimos, mas também existe
muito em comum: se me apetece ir patinar, vou com a Ksiusha; se me apetece pregar uma
partida a um professor ou fazer gazeta a uma aula, só posso contar com a Ksiusha. Neste
sentido, somos almas gémeas. Nunca tinha reflectido sobre os seus sentimentos, mas, se o
tivesse feito, veria que o seu amor por mim estava a diminuir. Em qualquer caso, parecia-
me estranho que de vez em quando me dissesse que gostava de mim, acusando-me de
preferir as outras.
Agora a Ira. Confesso que o meu sentimento por ela é mais forte do que pelas outras duas.
É dominadora e não gosta de ouvir os outros; prefere que os outros a ouçam a ela. É uma
rapariga excepcional, interessante, inteligente e perspicaz, insistente até à obstinação,
teimosa, feminina e caprichosa; consegue atrair os homens e agradar às mulheres.
É bastante espirituosa e de um à-vontade extraordinário em sociedade, conversa com
amabilidade e está quase sempre alegre. Possui aquela feminilidade que eu não tenho em
absoluto e sabe valorizá-la tão bem que, às vezes, admiro-a. Reparando ora numa, ora
noutra das suas facetas mais fascinantes, por vezes... invejo-a. O que não me agrada nela e
me impede de a respeitar é a maneira como se comporta com os rapazes, a sua coqueteria
e tortuosidade. Não estou a criticar os sentimentos que tem por eles, mas sim o seu
comportamento, as suas atitudes...
Por mim, considero um rapaz apenas um rapaz, mas ela comporta-se de tal maneira que
exclui qualquer tipo de amizade, deixando espaço só para uma relação amorosa. O seu
desejo mais forte é conquistar alguém que não só lhe escreva bilhetinhos como a ame de
alma e coração, demonstrando-o abertamente. Conseguiu o que deseJava com o Leuvka,
que é terno, ingénuo, simples e bom e que está nas suas mãos.
233

Mas quantos esforços para se apoderar de um rapaz! Quantos bilhetinhos mandados a


quantas pessoas! Por outro lado, como censurá-la? Eu, que seria igual a ela se não fosse
faltar-me coragem para ir direita ao objectivo sem me esconder e sem me importar com o
que pensam os outros? No entanto, tenho de reconhecer que os seus meios nem sempre
são os mais subtis.
Pensando melhor, a regra que dita que são os rapazes que devem escrever primeiro os
bilhetes é uma idiotice. Será parvoíce... mas a Ira violou-a. A consequência? Há muito
quem a despreze e se meta com ela. Começou a usar pó-de-arroz, parece-me, e põe outra
coisa qualquer nas faces. O seu rosto já não é o de uma adolescente de catorze anos; a Ira
aparece propositadamente triste ou agitada; às vezes, os olhos brilham-lhe de uma maneira
pouco natural e desenha-se-lhe na boca um sorriso artificial.
Sempre desprezei e desconfiei das pessoas que gostam muito de roupa, mas a Ira adora e
sabe vestir-se bem. Para que se mostra desta maneira? Para que anda de saltos altos e com
aquelas blusas provocantes? E é muito astuta e calculista com os rapazes na maneira de
sorrir e de os olhar. Um dia está triste ou insuportável e no outro gentil e afectuosa.
Lembro-me de que falava e ria muitas vezes com os outros só para fazer sofrer o Leuvka,
e para sentir o prazer de ver mais uma vez que ele a ama.

8, 15, 17 de Abril de 1935 [...]

18 de Abril de 1935
A escola acaba daqui a pouco. Oh, como espero esse momento! A sua proximidade
liberta-me da nostalgia e deste desespero feroz. Quando já não tenho forças para estudar,
lembro-me de que este é o último esforço, o último! E... sinto-me logo mais forte, leve e
contente. É que não será uma libertação só por três meses, como nos anos passados, mas
para sempre! E espera-me uma vida desconhecida, inquietante mas muito bela.
O Leuvka mostrou o diário à Ira. Como gostaria de o ler! Não é simples curiosidade, e sim
um interesse profundo por ele e pelos seus sentimentos. Não acredito que o Leuvka seja
mau nem que possa praticar actos mesquinhos: o diário revelá-lo-ia. Não, é um bom rapaz,
mas infeliz. Como estamos habituados a vê-lo alegre e despreocupado, parece que não tem
emoções sérias.
E, no entanto, foi uma criança sem família: a mãe divorciou-se e voltou a casar, e isto tem
consequências duras na criança. Depois, o padrasto morreu e o Leuvka ficou sozinho,
inseguro e procurando sempre alguma coisa. Agora tem a Ira. Porque o atormenta ela? E
ele
234

bebe assim tanto por sua causa. Oh, a vida é terrível! Se duas pessoas se amam, para quê
atormentarem-se? Porque não são felizes? Esquecer tudo e amar, amar... O Leuvka escreve
no diário: «É tudo tão horrível, são todos uns porcos. Receio que tenha de acertar contas
com a vida...»

20 de Abril de 1935
Durante a aula de História, senti de repente uma dor de barriga tremenda. Fiquei sentada
com a cabeça entre as mãos, olhando de través. Tudo o que me rodeava era indiferente,
sem interesse, desagradável. Ofuscada por uma tensão obtusa e sem ouvir nada, só
pensava numa coisa: «Quando acabará a aula? Puf, isto é horrível!» Ora me apetecia que
reparassem e tivessem pena de mim, ora inclinava a cabeça de propósito para que não se
notasse nada. [...]
Acabada a aula, fui-me embora. Esperei muito tempo no vestiário, porque houve alguém
que se sentiu mal e as contínuas entravam e saíam com expressões sérias e preocupadas.
Quando me aproximei para pegar no casaco, distingui na penumbra a silhueta do director,
que estava de joelhos com uns frasquinhos na mão.
A dor de barriga passou logo. Já não queria ir para casa e só me convenci a fazê-lo com
medo de que as dores voltassem. Na rua, o dia estava ameno e cheio de sol; rapazes e
raparigas corriam no alegre rodopio dos raios. Não vi nenhum dos nossos. Apanhei o
eléctrico e debrucei-me para fora, contra o vento; a voz do Tolka gritou-me qualquer coisa
do Mosteiro das Virgens e virei-me rapidamente na sua direcção, com um sentimento de
festa. Vi alguns colegas da escola, levantei a mão, disse-lhes adeus e houve alguém que
me respondeu, enquanto os outros paravam a observar-me. Por qualquer razão, à medida
que o eléctrico se afastava a pouco e pouco, fazendo-os diminuir e perder os contornos,
pareceram-me muito queridos e bons. [...]
Curioso! Quando cheguei a casa, senti de repente tanto tédio e desapontamento por ter
saído da escola que comecei a pensar no que farei durante o Verão, se já agora fico farta
com uma hora de liberdade a mais. De momento, só quero uma coisa.- estar com pessoas e
pensar em agradáveis futilidades. Parece que o que para mim era um tormento há um ano
é agora o meu único prazer.
Às nove, fui ter com a Ira e a Ksiusha. Está uma noite muito bela, amena como no Verão.
O vento transporta uma humidade perfumada e fresca. Encontrei-as com a Talka no fim da
Rua Pirogovka. Falavam da escola e de se haverem pegado e tirado a bola aos rapazes
durante os exercícios físicos. Imagino como deve ter sido divertido. Já que decidiram ir a
casa do «Zyria», agora põe-se-me a questão angustiosa e irresolúvel do vestido. Sim!
235

Não é superficialidade nem preconceito, mas sim... amor-próprio e orgulho. Que faço?
Chego lá com uns sapatos de homem, uma saia manchada e uma blusa remendada para um
Shunia qualquer me tratar mal? Não, isso não! Então? Não vou? Mas quero tanto! Sei que
serei a pior do ponto de vista da roupa, mas apetece-me ir na mesma. Uff, que horror, que
convenções! Mas não quero que se riam de mim.
Depois... tenho um pouco de medo. E se faço figura de estúpida? Sim, sem dúvida que
estarei taciturna, medonha e amuada. Não deverei preocupar-me com a opinião deles? Não
ligaria se soubesse que sou inteligente, mas tenho muitas dúvidas.
Que interessa ter o quociente mais alto, como se verificou nos exames de selecção
profissional? Que interessa que todos digam que sou esperta? Esta capacidade,
reconhecida só no papel, não me interessa para nada, quero ser assim na vida. Porque
consegue a Ira conversar com tanto à-vontade e graça? E a Mussa? A Mussa, que não sabe
o que é um eclipse da Lua e pensa que um veleiro e um navio a vapor são a mesma coisa,
porque sabe ela conversar? Maldição!

21 de Abril de 1935 [...]

23, 25, 27 de Abril de 1935 [...]

30 de Abril de 1935
Não, provavelmente nunca aprenderei a viver. Caminho, procuro qualquer coisa para
fazer, mas não encontro nada, sento-me em qualquer lado e começo a pensar. Só agora
compreendi como estes pensamentos são estúpidos, monótonos e angustiantes, como
existe neles pouca liberdade criativa e o quanto são miseráveis. Percebi que não sou
inteligente nem suficientemente talentosa, mas resignar-me... nunca!!
Não quero nem posso dizer com tranquilidade: «Se a natureza não te deu talento e de
qualquer modo não obterás nada, descontrai e vive como os outros: em silêncio e sem dar
nas vistas.» Sou muito ambiciosa e orgulhosa para me dar por vencida, para admitir que
não me adapto à aventura. Até hoje, ainda não consegui aprender a encarar com
serenidade a superioridade da Ira em relação a mim. Porque é incontestável, o que me dói
muito e me leva a estar sempre a competir com ela.
De momento, a minha vida não é senão autoflagelação, humilhação e ultraje. Todas as
piadas que não são ditas por mim, todos os gestos oportunos que não são meus, levam-me
sempre à mesma pergunta atormentadora e corrosiva: «Porque não fui eu que inventei,
236

porque não fui eu que fiz?» Começo a vasculhar na cabeça, passando em revista tudo o
que existe nela, e não encontro nada. Nada! Que palavra horrível!
A ambição é uma coisa terrível. Significa que nunca estarei satisfeita, que tentarei sempre
estar acima dos outros e que, alcançada a meta, me sentirei espantosamente só. Não sei se
hei-de combater este sentimento, renunciando assim para sempre a todos os meus
projectos, ou se devo desenvolver a minha vida, ambicionar, desejar e atormentar-me.
Quando existe ambição e talento, os resultados podem ser brilhantes. Mas ambição sem
talento? Que chacota!
Dantes, pensava que tinha força de vontade, mas agora até nisso começo a desiludir-me.
Durante a semana passada, quase me apaziguei. O subtil e pútrido lodo da vida começava
a assentar quando fiquei bastante perturbada com a festa onde vi os irmãos Zelenin, na
qual todos eram inteligentes e evoluídos excepto nós, raparigas estúpidas e repelentes,
talvez só excluindo a Ira. Senti-me de novo tremer, ansiando pelos livros e pelas aulas.
Ontem houve uma festa em casa da Ira. Dos rapazes, só foram o «Zyria» e o jovem
Zelenin, conhecido apenas por Volodia. Ou porque se sentiam embaraçados entre tantas
raparigas ou por qualquer outro motivo, estavam os dois de mau humor, sobretudo o
Volodia. Sentado entre a Tâmara e a O. A., ficou calado durante quase todo o chá,
levantando apenas de vez em quando os pequenos e obstinados olhos azuis. Havia no seu
rosto qualquer coisa que atraía e repelia ao mesmo tempo; as grandes orelhas saídas e os
olhos muito distanciados davam-lhe ao rosto uma expressão estranha. [...]
O Volodia parece-me cada vez mais um rapaz simples e vulgar, taciturno, um pouco
desajeitado e maluco. Desde que percebi como é, não tenho tanto interesse por ele. Já não
tento evitar olhá-lo; pelo contrário, observo-o com curiosidade e só lhe viro costas quando
os seus olhos pousam sobre mim de uma maneira insistente e desagradável.
Parece (mas só parece) que gosta da Ira. Escrevem-se os dois, mas não pode dizer-se nada
de definitivo. A Ira é bonita e ri com coqueteria, desfechando olhares vivos e atraindo as
atenções. Como anda muito direita, parece ainda mais alta e bem-feita do que já é. Faz-me
lembrar a Varenka de «Depois do Baile».
Nota: Conto de 1. N. Tolstoi.

O Volodia Zelenin já não gosta nada da Mussa e, às vezes, até faz um ar de desprezo
quando ouve os seus comentários. A Mussa desiludiu-me definitivamente, porque não é
muito inteligente. Estou num período em que me agrada ainda menos, enquanto a Ira me
espanta com a sua presteza e perspicácia. Não só gosto dela, como também a respeito.
237

1 de Maio de 1935
Maio alegre, esplêndido Maio! O mês mais belo, o mês da juventude, do amor e dos
desejos, com as suas noites amenas, o lânguido perfume do lilás e da cerejeira-brava e o
vento carregado de humidade. Como de costume, este mês não me trouxe nada senão o
vago sonho de um irrealizável amor de Maio e uma amarga indolência. Mas, apesar de
tudo, sinto-me atraída pelas fragrantes trevas da noite, pelo sussurro dos rebentos a
desabrochar e pelo céu escuro. O desejo de ser levada pelo vértice da vida, de me
abandonar aos sonhos e às fantasias, palpita-me no seio com volúpia.
Há muitos anos que sonho com esta vida apaixonada, feita só de sentimentos; sabendo que
é impossível, nunca quis até hoje separar-me das minhas fantasias. Não posso viver com
paixão: para isso, teria de ser bonita e mulher dos pés à cabeça. Portanto, tenho de viver
com a cabeça. Mas como? Rompendo com tudo o que me é tão querido e que estou tão
habituada a desejar, abandonando a maneira como costumo olhar para as coisas e
começando a construir um mundo novo, baseado não nos sonhos nem nos desejos loucos,
mas no estudo da ciência?
Este ano dei um passo decisivo no caminho da minha vida. Experimentei viver da maneira
que tinha imaginado e que, parecia-me, me faria feliz. Pus o estudo de lado. De início, tive
de me esforçar para me obrigar a pensar que era tudo uma parvoíce e que havia outras
coisas mais necessárias. Neste ano alternaram-se dois estados de espírito, que se fundem
sempre num único sentimento de ambição, muito desenvolvido, que chega a ser vaidade.
Desperta agora, com especial vigor, o corpo de uma rapariga de dezasseis anos, madura e
sonhadora e, por isso mesmo, desejosa de atrair e amar, esquecer este mundo enfadonho
de fórmulas e problemas e, eliminado um indefinido «ainda é cedo», mergulhar numa vida
insensata, alegre e banal. Apetece-me estudar febrilmente, com obstinação. Passam-me
pela cabeça mil fantasias sobre o instituto e o trabalho teimoso que desenvolverei ao lado
de colegas diligentes. Apetece-me ser inteligente, cheia de brios. Mas para quê? Para
ocupar nesta vida um lugar de destaque, que dê nas vistas.
O primeiro destes desejos, o de ser feliz assim como sou, sem raciocinar muito, cresceu
dentro de mim; abandonei-me a ele, pois que era o mais fácil de realizar e o mais
agradável. Mas os anos passados a estudar com tenacidade marcaram-me os pensamentos
e continuei a lutar, perguntando a mim própria qual seria a maneira mais correcta de viver.
Não foi fácil deixar de fazer os deveres, receber os «Suficientes», fingindo não ligar, e não
estar atenta nas aulas.
238

Tentei adquirir aquele ar alegre e um pouco estouvado que têm as outras raparigas que
levam este tipo de vida. Lutei muito contra a minha timidez e reprimi o meu sentido
profundo e inato do decoro. E fiz coisas revoltantes, convencida de que este era o caminho
correcto.
Até deixei de ler, enxotando para longe de mim tudo o que me lembrava o trabalho
paciente. Neste ano, deixei-me andar tanto que quase já nem sei obrigar-me a estudar e
estou sempre a tentar escapar para algum lado, para o mais longe possível de mim própria.
Talvez porque nunca agradei a ninguém, sinto um forte desejo de agradar, quase mórbido,
uma ideia fixa que tem a ver com o meu orgulho.
O meu orgulho, ferido desde sempre, procura agora com avidez uma satisfação qualquer e
incita-me a agradar a todos, até aos que são antipáticos ou desconhecidos; e o meu
mesquinho amor-próprio feminino é atiçado e embalado pela sensação de estar a ser
observada com interesse. Envergonho-me a tal ponto que, às vezes, nem no diário me
decido a escrever sobre isso. Forço-me agora a fazê-lo para me humilhar ainda mais e,
talvez, ganhar juízo.
A minha vida toda gira à volta dos rapazes; comparado com eles, todo o resto é irrelevante
e pouco interessante. Quando estou a ler e a estudar, passo a vida a distrair-me e a pensar
nalgum deles. É um pensamento insistente e perturbador. Vêm-me à cabeça factos, frases e
palavras... Na cama, só penso numa coisa. Sonho muitas vezes e, presa de uma espécie de
privação estranhamente perceptível, sofro e dou-me conta de que criei tudo a partir de
uma fantasia idiota.
Na escola, procuro sempre qualquer coisa, observo os mínimos movimentos de quem me
rodeia, fito alguém e, se por acaso encontro um olhar, logo se insinua no mais profundo da
minha alma o germe de um pensamento, como uma sombra da imaginação: «Agrado-
lhe?» [...]

3 de Maio de 1935 [...]


8 de Maio de 1935
Já exames? Tão de repente e tão depressa? Pronto, já não arrastarei mais a sacola nem lhe
meterei os livros dentro. Pensei tão pouco neles que agora parecem-me terríveis, novos e
inesperados. Este ano atormentado, monótono e cheio de vicissitudes parece-me um sonho
confuso! Saiu-me tudo da cabeça como se nunca tivesse vivido. O passado não me
interessa, vivo apenas no presente e no futuro.
A primeira prova escrita é depois de amanhã: Literatura. Nem quero pensar. A sua
proximidade inquieta-me e alegra-me ao mesmo
239

tempo, pois o fim está à vista. Depois, o Verão. Não espero nada do Verão, como dantes; já
não sonho. Mas desejo-o, talvez porque estou habituada a esperar. A vida anda mais
tranquila, mas também enfadonha e monótona, sem desejos nem perspectivas. Os velhos
pensamentos, os velhos pesadelos regressam de vez em quando.
Ontem fui estudar Matemática a casa da Ira. O Leuvka já lá estava. Sentei-me de frente
para o espelho e mirei-me, não por acaso, mas com o habitual desejo de me saber
apresentável. O ambiente era alegre, primaveril e agradável. Tinha ao lado a Ira e o
Leuvka, ambos simpáticos e amados.
Mas do claro quadradinho do espelho olhava-me uma figura tão desajeitada e horrível, que
senti uma grande vergonha pelo meu rosto tremendo e ridículo, pelos cabelos
desgrenhados e espetados por cima das orelhas, por todo o meu corpo sem atractivos.
Virei-me, pronta a debulhar-me em lágrimas de impotente revolta e desespero, e durante
muito tempo não consegui desembaraçar-me da sensação de imerecido e horrível ultraje.
[...]

10 de Maio de 1935 [...]

15 de Maio de 1935
Durante os exames, há muita alegria e nenhum medo e, o que é mais importante, a escola
nem tem tempo de me aborrecer. Durante duas horas, mantém o seu fascínio de lugar
alegre, cheio de vida e de barulhos escondidos, ecoando de sons estranhos. As orais
superaram todas as minhas expectativas. Soprei as respostas com desfaçatez, sem dar
ouvidos aos professores e respondendo-lhes com descaramento; até consegui passar
bilhetinhos com as soluções aos que estavam a fazer exame.
Aquelas duas horas decorreram numa alegre tensão. Sorrindo às escondidas, tentei salvar
os fracos, temi e emocionei-me pelos outros, esqueci-me por completo de mim própria,
nem sequer tive tempo de pensar no que iriam perguntar-me. Agora não há aquela espera
penosa, a minha energia e actividade fazem passar o tempo mais depressa. Lembro-me
como o coração me bateu com força dentro do peito quando o Leuvka fez oral de
Literatura. Como não estava bem preparado, mordia os lábios com um ar perdido e
desconsolado.

19 de Maio de 1935
Ontem despenhou-se o enorme avião de oito motores Máximo Gorki, orgulho e glória da
nossa URSS e detentor de todos os recordes
240

a nível mundial.
Nota: Era o maior avião do mundo, construído em 1934 sob a direcção do engenheiro
Andrei Nikolaevitch Tupolev.

Quer dizer, não sei nada de concreto sobre este último aspecto, visto que não se pode
acreditar nos nossos jornais. O Máximo Gorki descolou juntamente com dois biplanos, um
dos quais se aproximou de mais ao iniciar a sua pirueta da morte. O azul-celeste, que
parece tão terno e tudo menos assustador, está cheio de casualidades horríveis. O biplano
chocou contra a asa do Máximo Gorki e aquela massa de sessenta e cinco metros começou
a rodopiar, fendendo o horizonte soalheiro, no qual sempre flutuara livre e tranquilo, à
medida que ia perdendo peças. O biplano também caiu com o Máximo Gorki.
Só restaram, daquele gigante belo e harmonioso, um monte de metal cinzento e vermelho
e quarenta e sete cadáveres informes, que um minuto antes eram pessoas vivas, que
pensavam e tinham sentimentos e que sobrevoavam Moscovo com alegria e o coração aos
saltos. Pilotos e passageiros, homens e mulheres, transformaram-se de repente numa
horrível papa esborrachada e em sangue, morna e pegajosa, de onde sobressaía o branco
dos cérebros e dos ossos.
Que coisa horrível e sem remédio! Por causa de um descuido inadmissível do piloto,
quarenta e sete pessoas tiveram uma morte pavorosa. E o Máximo Gorki também era bom,
já que se desfez só por ser atingido por um aeroplano tão pequenino! Não foi construído
com um verdadeiro objectivo prático, visto que não tinha um grande significado nem para
a indústria dos transportes, nem para a militar. Era só para que a nossa União Soviética
ocupasse um dos primeiros lugares no mundo e pudesse dizer: «Vejam a nossa técnica
aeronáutica! Vejam que gigantes construímos!» Quantas coisas nossas são só fachada, não
se baseando no bom senso! Armam-se em bons e nós sofremos por causa disso.

22 de Maio de 1935 [...]


26 de Maio de 1935
A cerejeira derrama-se sobre a neve,
a vegetação está em flor e coberta de orvalho,.}
A cerejeira... Está na minha mesa. Um ramo maravilhoso e viçoso de flores brancas. Os
cachos alvos, leves e transparentes curvam-se com doçura e têm um perfume primaveril
tão inebriante! O jardim da Ira cobriu-se de vegetação escura e luzidia, e passo horas
sentada
Nota: Versos de um poema de S. A. Essenin, escrito em 1910.
241
a contemplar as folhas e a erva. Nunca gozei a Primavera como agora... ou já terei
esquecido?
Dantes, o vento primaveril, o céu luminoso e o verde atormentavam-me, mas agora sou
feliz. Sim, não tenho medo de dizer que sou feliz quando posso inalar os aromas da
Primavera e ver a cerejeira branca desabrochando à minha volta. Caminho pela rua e
admiro cada folhinha nova, os ramos ondulantes, a erva fresca reluzindo ao sol. Que me
importam os exames, que me importam as aulas?
De manhã, estendo-me no peitoril a ver as sombras escuras alongando-se na rua e o Sol
claro rompendo. Passo muito tempo deitada, com o rosto inclinado para a frente e os olhos
fechados, ou então encosto a cabeça e contemplo o céu tingindo-se de azul-claro. O vento
matinal é um sedutor. Amo-o como se amam as pessoas, e as suas carícias queimam-me e
agitam-me, obrigando-me a sorrir-lhe. É fresco, impetuoso e doce. Às vezes tenho vontade
de o personificar.
Ontem à tarde caiu um aguaceiro, a primeira chuva tépida e estival. Eu e a Mussa
estávamos deitadas no peitoril, falando de coisas sem importância, enquanto eu saboreava
a chuvinha perfumada e a humidade, contemplando uma nuvem escura sobre as Colinas
dos Pássaros. Quando a minha amiguinha se foi embora, passei por casa da Ira, onde
encontrei o Leuvka.
Tudo na minha alma transbordava tanto de felicidade e alegria de viver, tudo era um canto
primaveril tão doce, um pouco triste e maravilhoso, que não tive vontade de pensar na
minha solidão nem me feriu aquela intimidade entre o Leuvka e a Ira, como costumava
acontecer. A noite estava esplêndida. Sem pensar se era decente ou não, fiz tudo o que me
veio à cabeça e ri da minha felicidade. A presença do Leuvka era, para mim, um facto
simples que não me obrigou a dominar-me e a controlar-me.
Depois das dez, fomos sentar-nos no jardim. O céu luminoso e claro começava a escurecer
e a ocidente, lá longe, atrás de uma árvore, uma estrelinha pálida tremeluzia com timidez.
A terra húmida, as folhas molhadas e os rebentos cheiravam a água e a flores, perfumavam
o ar como só é possível numa amena noite de Maio.

27 de Maio de 1935
Acabei a escola para sempre e o próximo ano é uma interrogação. Sinto-me tão pequena,
indefesa e ignorante fora deste ambiente, no meio do mundo enorme! Gosto muito da
escola? Não. Neste momento, é-me querida e familiar como um velho quarto onde se
viveu dezenas de anos e que, apesar de tudo, custa abandonar, porque está ligado a muitas
recordações, boas e más.
242

Mas não continuarei na escola, isso não, para acabar com a insatisfação e o tédio, para
nunca mais me sentir humilhada e estúpida perante crianças de treze anos. Não, nunca
mais voltarei à escola. Este ano tem de haver uma grande mudança na minha vida. Bem,
pr’ó diabo! Sabe-se lá quando será isso! Agora acabei, passeio e sou livre. Viva!
Aqui há uns dias, eu, a Ira e o Leuvka passámos por casa do Linde. Não estava, mas a mãe
e a avó, muito contentes, insistiram para que entrássemos e esperássemos o «Dimotchka»
Nota: Diminutivo carinhoso de Dima.

É evidente que o põem as duas num pedestal.


Concordámos, só para lhe escrever um bilhetinho, e entrámos no quarto que já
conhecíamos e que desta vez nos pareceu maior e mais luminoso; a escrivaninha à frente
da porta, grandes poltronas castanhas revestidas a pele (provavelmente muito cómodas e
fofas) ao longo das paredes e muitos, muitos livros.
Enquanto a Ira escrevia, a avó, pequena, grisalha e muito simpática, conversava connosco
e fitava-nos, através dos óculos redondos, com olhos acariciadores, bondosos e cheios de
amor, amor por nós, amigos do seu adorado neto. Não me lembro como começou a
conversa sobre a escola mas, a determinada altura, disse: «O Dimotchka está a fazer
exames.» «Está?», perguntou um de nós. «Sim, sim», respondeu a avó com naturalidade,
sem perceber a nossa admiração.
Trocámos um olhar rápido com o Leuvka, cujos olhos brilharam com astúcia. «Estão a
correr-lhe bem?», perguntou. «Porquê? Não sabem?» «É que somos de outra turma e não
os fazemos ao mesmo tempo.» «Ah! Só lhe fizeram perguntas difíceis em Geografia. O
professor queria chumbá-lo. Quer dizer, teve problemas em Geografia.»
Enquanto falava, balbuciando um bocadinho, observei-a com atenção, disse que sim com a
cabeça e os meus lábios contraíram-se e esboçaram um sorriso. Mas não havia razões para
rir, e sim chorar. Agora percebíamos que o Linde andara a enganar a família, que passara
todo o ano sabe-se lá onde e que mentira. [...]

8 de Junho de 1935
Ontem houve uma festinha em casa da Ira. Queria muito que fosse um sucesso e que não
se assemelhasse aos nossos encontros passados com os rapazes, enfadonhos e cheios de
obscenidades, de modo a que permanecesse uma boa recordação dos colegas e da vida
escolar. Estes dias sem nada para fazer passaram de uma maneira insólita. Todos
estávamos emocionados, falávamos muito da festa, juntávamos
243

dinheiro e Ímos dos vertiginosos cumes do entusiasmo e da exaltação para as negras


profundezas ào pessimismo sem esperança. A noite foi perturbada diversas vezes, mas
depois tudo se organizou; no fim, de repente, o diabo andou de novo à solta. Depois de
termos levado uma vida tranquila e rotineira, caracterizada por desejos e inquietudes
reconhecíveis, a brusca interrupção de tudo isto pôs-nos a todos com a cabeça a andar à
roda.
Como no caso de todas as pessoas habituadas a uma vida ordenada e harmoniosa, o chão
cedeu sob os meus pés e deixei-me flutuar no espaço, ao sabor do vento e do humor, de tal
modo que em breve confundia os dias e as coisas; formou-se-me na cabeça uma confusão
horrível de conversas vãs, acontecimentos, juras. Parecia que ia suceder qualquer coisa de
grande, mas, na realidade, continuávamos a girar sobre nós próprios no vazio insólito e na
distracção daquela existência ociosa, ao mesmo tempo agradável e desagradável.
Para juntar dinheiro e procurar pessoas que pudéssemos convidar, eu e a Ira andámos
várias vezes ao dia de cá para lá, passando a pente fino todas as ruelas adjacentes à
Zubovka, ora de um lado, ora do outro. Foi de tal maneira que não tardou que as
conhecêssemos de cor. Levávamos aquelas viagens a cabo com imutável tenacidade; eu
corria a casa da avó a telefonar, com os números todos na cabeça. Habituei-me de tal
maneira que, no fim, deixei de ter medo e dei comigo a conversar tranquilamente com os
rapazes. [...]
Como queríamos organizar uma reunião diferente, com vinho e namoro, pensámos em
sentar rapazes e raparigas alternadamente, mas logo se pôs a pergunta: «Como?» Seria
estúpido pôr a Mussa sentada com o Linde e eu com o Volodia. Para evitar desavenças,
consultámos o Boris M. «Não sei», resmungou, afastando-se a bambolear e a agitar a mão.
«Vou chamar o ”professor” Zelenin.» «Então vai lá.» Entretanto, chegou o Volodia: «O
que foi?»
A Mussa explicou-lhe. «Está bem», disse, sentando-se no sofá e começando a apontar os
nomes numas tiras de papel. Sem pensar muito, pôs a Raia com o Margosha e, o que é
difícil de acreditar, quis-me a mim ao seu lado. «Não tens nada contra mim, pois não?»,
perguntou, sorrindo. «Oh, não, para mim é indiferente.» O Linde calhou à Mussa, que
exclamou: «O Dima? Nunca, nem pensar!» «Então como há-de ser?», indagou o Volodia.
Embora sem grande vontade, peguei na minha tirinha e pousei-a ao lado da do Dima:
«Pronto.» No instante seguinte, levantei-a e acrescentei: «Oh, com o Linde! Mas de que
vou falar com ele?» No fim, no entanto, não mudei mais. O Volodia ficou com a Ira, o que
era mais ou menos de esperar desde o princípio, e mais ninguém quis fazer outras
mudanças. Portanto, decidimos assim: a Ira sentada entre os
244

dois Zelenin, de um lado a Olga e o Dima, do outro a Raia e o Boris e à frente eu e a


Mussa.
Os rapazes levaram quatro garrafas de vinho e a comida não parecia má.
Nota: Na realidade, tratava-se de uma bebida feita de fruta fermentada, de elevada
graduação alcoólica; às vezes, Nina também chama vinho às bebidas muito alcoólicas,
como a vodca.

Estávamos todos sentados à mesa, mas ninguém começava a comer. A situação, além de
ridícula, era muito desagradável. A Mussa virou-se para mim e sussurrou-me: «Olha que
horror!» Estava habituada a outro tipo de companhia e esta falta de jeito dos rapazes
parecia-lhe tremenda. «Meninos, o costume é começarem vocês», exclamei. Mas eles só
soltaram uma risadinha. Falavam, embaraçados, e nenhum deles se decidia a começar.
«Nina, apesar de tudo, tu também és uma ”cavalheira”», disse a Ira. «Tens razão.»
Sorrindo, servi-me de vinho a mim e à minha dama, Mussa. De uma maneira ou de outra,
os rapazes também se puseram a servir e a beber vinho; num primeiro momento, o Iuri
bebeu muito, mas continuou sóbrio e em silêncio; o Boris, pelo contrário, não tardou a
ficar com os copos e começou a rir. Falava em voz alta e continuava a beber e a servir
vinho à Raia. Dali a pouco, era este o par mais embriagado de todos.
O Volodia bebia pouco e a Olga e o Dima quase nada. Sentado com um ar aborrecido, o
Dima tentou fazer alguns brindes. Depois, o Volodia interveio com as suas piadas. Eu
comia em silêncio e ia bebendo a pouco e pouco o líquido denso, cor de laranja e
transparente. Às tantas, a Mussa meteu-se comigo, citando a famosa fábula em verso «O
Nosso Gatinho Vaska Ouve e Come».
Nota: Fábula de Ivan Andreievitch Krylov (1768-1844).

Depois de dois copos, propus à Mussa que bebêssemos ao despique, embora o seu copinho
fosse duas vezes mais pequeno do que o meu. Provámos de tudo. No fim, já não fazia
diferença, esvaziava um copo atrás do outro, tentando perceber o efeito que o vinho tinha
em mim, mas não sentia a cabeça a andar à roda. Continuava tranquilamente a analisar os
meus pensamentos: tinha as ideias muito claras. Mas, de repente, senti-me perfeitamente à
vontade. A timidez desapareceu e todos me pareceram muito próximos e queridos.
Gritei qualquer coisa, propus ao Margosha continuar e fi-lo rir, rindo eu própria. É
provável que tivéssemos continuado a beber se a mãe da Ira não interviesse, proibindo-me
de o fazer. Ao todo, aviei dez ou onze copinhos, mas como comi muito fiquei só um
bocadinho embriagada. Só tinha calor, um calor de morrer, que me punha o rosto em fogo
e às vezes me subia à cabeça, que sentia como esborrachada; parecia que uma força a
apertava dos dois lados com a mesma intensidade. Se calhar, é a isto que se chama «estar
com os
245

copos», mas não via os objectos girando-me à frente dos olhos e poderia jurar a pés juntos
que não estava embriagada.
As raparigas riam e diziam que eu tinha os olhos bêbedos, brilhantes e esquivos. Levantei-
me da mesa e fui ao espelho; sentia-me muito alegre e com vontade de fazer todo o tipo de
disparates... A pouco e pouco, levantaram-se todos e alguém sugeriu que fôssemos para o
jardim. Eu ria, com a certeza de não estar embriagada, apesar daquela despreocupação,
daquela loquacidade insólita para mim e do esquecimento total do presente e do futuro.
«Vá, Margosha, vamos beber mais!» Ele soltou uma risadinha, fitou-me com olhos de
louco e abanou a cabeça. Peguei-lhe no braço: «Vá! Que medricas! Vamos beber!»
Entortando os olhos, respondeu-me: «Eu, medricas? Se não nos deixam beber...» «Não te
ponhas com parvoíces. Vais ver que deixam.» Arrastei-o para a mesa e peguei no copo
dele e no meu; o Iuri correu a tirar-nos a garrafa e a mãe da Ira zangou-se, proibiu-me
categoricamente de desencaminhar o Margosha e disse: «Vão passear.» Cedi, peguei na
mão do Margosha e continuei a repetir: «Ó Margosha, tens medo de beber?» «Não me
deixam beber», repetiu ele. Na rua, completamente às escuras, as sombras negras tinham
coberto a praceta e avançavam sobre nós. Ao longe, distinguiam-se vagamente as silhuetas
claras e magras da Ira e do Volodia, que iam à frente.
O álcool despertara em mim uma incrível sede de acção; não parava quieta, aproximava-
me ora de um, ora de outro, parecia doida e ria muito. «Margosha!», disse. Depois,
cambaleei com os olhos turvos e balbuciei, rodando o dedo à frente do seu rosto: «Tlim,
tlão, s’il vou plait.» Ele riu e perguntou num tom de voz ridículo e admirado: «Mas porque
não me larga ela?» Apesar de tudo, consegui arrastá-lo para dentro de casa, mas como já
tinham levado o vinho, regressámos ao jardim.
A noite estava esplêndida, amena e quase sem vento. Pairava um perfume doce de
humidade, o frio da noite penetrava por entre os ramos, o céu estava luminoso e azul, as
nuvens baixas e escuras. Parei no campo de voleibol e olhei em volta; a Ira e o Volodia
passaram perto de mim discutindo teatro animadamente, e depois o Margosha e a Raia,
muito juntinhos. As outras raparigas tinham ido sei lá para onde, e fiquei sozinha com o
Iuri. Portanto, que fazer senão começar também a passear? Caminhámos devagar, sorrindo
no escuro. Falamos muito e com toda a liberdade, como se ele não fosse o Iuri, uma
pessoa que me é completamente estranha, mas sim a Ira ou a Mussa.
Agora, ao lembrar-me disso, fico horrorizada e envergonhada. Sentia-me muito
amargurada e ofendida por me ter calhado o Iuri e por andar a passear e a conversar logo
com ele, de quem eu sempre troçara. De vez em quando, dizia uma parvoíce qualquer e
corria para
246

as minhas amigas ou entrava em casa. Quando saía, porém, chocava invariavelmente com
ele. O desgraçado era tão asqueroso que todos fugiam dele e tinha de se contentar comigo.
Por meu lado, sem nenhum sítio para onde ir, continuava a passear sufocando o tédio; de
vez em quando, cambaleava e roçava-lhe com as costas no braço. A minha personalidade
habitual estava humilhada pela situação em que me encontrava face às outras raparigas.
Sentia-me ferver de inveja e orgulho ferido e culpava-me a mim própria por isso. A outra
«eu», aquela bêbada, só queria divertir-se, esquecer e não ligar a nada. Eis porque o álcool
me era indispensável: sem ele, sentiria uma enorme angústia.
Esta recordação horrível do Iuri e a ideia de que posso ter-lhe dito coisas reveladoras tem-
me atormentado o dia todo, faz-me sofrer e sinto um aperto gelado que parece roer-me a
boca do estômago. Separámo-nos por volta da uma, mas primeiro sentámo-nos na sala de
jantar a ouvir o Volodia, cuja língua se soltara por efeito da bebida ou de outra coisa
qualquer, que contou o enredo de uma peça de teatro com os cotovelos pousados na mesa,
olhando sobretudo a Olga e o Dima; eu estava do outro lado da mesa, observando
tranquilamente o seu perfil.
Tem feições regulares, o nariz direito e grande, a testa pequena e convexa, o queixo
voluntarioso e redondo, as sobrancelhas claras e os olhos pequenos e avermelhados. O
Margosha estava encantador, amoroso e patetinha: ria o tempo todo, de vez em quando
entortava os olhos como um tolo e convidava toda a gente para dançar; depois, de repente,
deu-lhe o nervoso e zangou-se. Disse idiotices de bêbado tão engraçadas que todos rimos e
nos divertimos imenso, mas o mais importante foi que nenhum dos rapazes se pôs com
grosserias.

18 de Junho de 1935
O meu lado feminino fala tão alto que abafa todos os outros sentimentos. Estou sempre a
pensar nos rapazes: nos irmãos Zelenin e nos outros. Temo-nos encontrado muitas vezes
com eles nos últimos tempos e, há dias, fomos para fora da cidade. O Margosha
apaixonou-se pela Olga e não a larga. Ela tem uma atitude muito afectuosa e, por isso, ele
anda de bom humor, muito delicado e amável. Como nunca consegue esconder os
sentimentos, é sempre facílimo olhar para o seu rosto e dizer se está zangado ou contente.
Fiquei com uma impressão geral muito agradável deste passeio. Embora me tenha
aborrecido um bocadinho nalgumas alturas, foi um dia completamente diferente daqueles
que passamos em Moscovo. Em Bolshevo, fomos dar um passeio em dois barcos. O
riozinho, um afluente do Moscova, é muito pitoresco, lento e profundo, com frescas
247
enseadas cobertas de golfãos, rápidos e margens onde se alinham salgueiros com os ramos
pendentes.
Penetrávamos muitas vezes na sua sombra densa. Eu e a Ira estávamos num barco com o
Iuri e o Shunia, o outro era ocupado pelo Volodia, o Margosha, a Mussa e a Olga. De
início, foi tudo muito alegre: dizíamos piadas uns aos outros, ríamos e remávamos.
Escolhemos um lugar no canavial, no meio da erva, e encostámos à margem. Os rapazes
despiram-se logo e foram tomar banho. A Mussa e a Olga continuaram de barco à procura
de lírios e eu, a Ira e o Volodia ficamos na margem.
Não compreendo a razão por que foi precisamente desses momentos que me ficaram
recordações agradáveis. Deitámo-nos debaixo das árvores a comer e a conversar com toda
a naturalidade. Passado um bocado, fomos os três dar um passeio de barco. Estávamos
alegres e serenos e eu sentia-me muito satisfeita por ter o Volodia sentado ao meu lado.
Como explicar este sentimento? Ou começo a gostar dele ou foi só uma questão de
vaidade feminina.
Cinco horas depois, devolvemos os barcos e fomos para o bosque, mas aqui comecei a
sentir-me menos feliz. O Margosha estava com a Mussa e a Olga; a Ira pôs-se com
caprichos insuportáveis e amuos horríveis; o Volodia passeava ora com o Shunia, ora com
as outras. Eu, pelo meu lado, não podia estar com o Iuri, por quem sentia agora uma
enorme antipatia; para mais, estava sempre calado. Embora compreendendo-o, fiquei
irritada.
O bosque era tipicamente nórdico mas, apesar disso, apreciei o passeio até o Volodia ter
resolvido meter-se comigo.
Nota: Isto é, espinhoso e inóspito, pouco próprio para passear.

Enquanto estávamos sentados a descansar e a comer, começámos a falar de lutas. Nisto, o


Volodia disse: «Vamos lutar.» «Está bem», respondi com ar de desafio. «Não, contigo
não.» «Porquê? Tens ideias estranhas sobre a minha força!» «É que tens quase dezanove
anos.»
Senti-me tão magoada e ofendida! Corei e fiquei séria, mas observei com ar indiferente:
«Ainda falta muito para os dezanove.» De propósito ou por acaso, atingira-me no ponto
mais vulnerável da minha alma, que sempre tentei afastar e no qual procuro não pensar.
Atírou-mo à cara com brutalidade, como uma acusação indiscutível e horrível.
Com vontade de desatar a chorar, zangada e ultrajada, levantei-me de repente, toda a
tremer por dentro: «Vamos, Ira.» Este incidente destruiu a minha placidez e tranquilidade
e durante muito tempo não consegui esquecer o seu tom escarninho e ofensivo ao dizer:
«Tens quase dezanove anos.» Porque me ofendem a cada passo? Sou assim tão repugnante
e velha ao ponto de nem sequer despertar compaixão?
248

Ao que cheguei! A pedir compaixão? Por um instante, achei odioso aquele rapazinho de
ombros largos e olhos pequenos e fixos. [...]
Não sei o que está a acontecer-me. Só sei que dou muitas vezes comigo num estado de
total e estúpida ausência de pensamentos, que raia a idiotia. Parece que a minha memória
diminuiu; quase não penso, e do passado ficou-me apenas uma dor tonta e sufocada e um
amor-próprio desconfiado, atento e doente. Maldição!! Estou outra vez deprimida. Sem
ocupação, morro de tédio, mas não me apetece fazer nada.

20, 30 de Junho de 1935 [...]

2 de Julho de 1935
Kashira
As três horas de viagem de comboio levaram-me para longe de Moscovo, até ao pequeno
e buliçoso núcleo da futura cidade. Aqui é tudo asseado, espaçoso e, de certo modo,
poético: casinhas brancas e novas, passeios claros e, à volta, o bosque com bétulas altas e
flexíveis. A mata é muito grande e solitária e está ao abandono. Galhos e folhas juncam a
terra seca e há por todo o lado silvas e muitas árvores baixas, carvalhos e bordos.
Sinto-me pouco alegre e um tanto estranha. Esta rapidez dos comboios, que cobrem
grandes distâncias em pouco tempo, não deixa de me surpreender e assustar. Penso pouco
no presente e no futuro e estou sempre a lembrar-me de Moscovo, dos meus amigos, dos
nossos encontros e dos passeios. Gosto muito deles e sinto-me triste, como se nunca mais
fôssemos encontrar-nos. Até parece que me dói por ter partido e não poder vê-los hoje.
[...]
Na estação, apanhámos um autocarro feito artesanalmente a partir de um camião. Foi aqui
que tive os primeiros contactos com os colegas de trabalho do S. A. Eram quatro: um
russo velho de roupa suja e três judeus, asseados e cuidados. Observei dois deles com
especial atenção: um, o mais velho, era gorducho, de sorriso um tanto irónico e com os
olhos de um azul intenso; o outro, muito jovem, tinha o rosto inteligente e franco e os
olhos castanhos muito escuros. Enquanto caminhávamos para casa, deixaram-se ficar para
trás e ouvi uma conversa impertinente, travada em voz alta. «É esta?», perguntou o mais
novo. «Não, outra.» «Esta parece mais séria.» Depois uma risadinha e mais qualquer coisa
que o vento levou.
Naquele momento, senti-me supérflula, estranha e ridícula. Fomos almoçar com o S. A. à
cantina, uma salinha estreita com três mesinhas de quatro lugares. O S. A. conhecia toda a
gente, cumprimentava uns
249

e outros e conversava. Eu fiquei sentada num canto, sem saber onde meter as mãos nem
para onde olhar.
Sentou-se connosco um homem jovem. Ainda não sei quem é, mas percebia-se que devia
ser um engenheiro importante. Gostei da sua voz baixa de barítono, muito agradável e
profunda. Era muito desenvolto, seguro, calmo e falava devagar, muitas vezes em tom
irónico. Tinha o cabelo muito claro, com um matiz prateado, bem tratado e ondulado,
parecido com o do Leuvka. O seu rosto branco e frio era um tanto cheio, os olhos de um
azul-vivo e os lábios carnudos, sensuais e femininos, belos e frescos.

3 de Julho de 1935
Kashira
Apesar de satisfeita e cheia de recordações, sinto-me um pouco triste. Talvez seja ridículo
reconhecê-lo, mas o certo é que me afeiçoei ao nosso grupo de Moscovo, o primeiro e
talvez o último da minha vida. Este ano, pela primeira vez, tive amigos do sexo masculino,
queridos e bons. Não os esquecerei por muito tempo. Às vezes, parece-me que esta é a
primeira emoção viva e clara da minha vida. Agora, ocupam todos os meus pensamentos e
cada gesto desperta em mim uma nuvem de recordações. Como não tenho nenhum
comigo, preencho a solidão com reminiscências do passado.
Ontem à noite caiu uma chuvinha. O tempo estava anormalmente calmo e ameno. À
minha volta, a mata vicejava, molhada e perfumada. Enquanto eu e o S.A. colhíamos
flores, senti-me angustiada. Gostaria tanto que no seu lugar estivesse um outro, mais
jovem, interessante e capaz de me emocionar!
Lembrei-me de Bolshevo, coberto de erva e mata, e das flores brancas da camomila.
Quando estávamos a apanhá-las, o Volodia Z. avançara a passos largos, viera até nós e
tirara-nos uma flor, que depois restituíra, rindo. Eu e o Iuri Z. tínhamos entrado pelos
silvados dentro e ele saíra todo branco, coberto de pequenas flores viscosas.
Hoje fui apanhar bagas. Não estava ninguém no bosque, que nalguns pontos é tão denso
que é quase impossível passar. Não estava sozinha, o que me alegrou. Tinha comigo um
pequeno fox terrier. De quem será? Não sei. É muito simpático, alegre e sociável.
Escondi-me entre os arbustos, deitei-me na erva e colhi bagas.
Não tardou muito que perdesse a noção de onde estava e comecei a vaguear ao acaso: ora
ia dar a caminhos estreitos e cheios de sombra ou a grandes clareiras cobertas de tojos, ora
me embrenhava na escuridão e humidade da mata, onde tudo era tranquilo e o vento
soprava
250

lá em cima. Jorros de luz pálidos e incertos iluminavam aquela atmosfera silvestre e


solitária, extremamente agradável.
Ontem, ao fim da tarde, fui passear para o centro da vila. A noite caía devagar, com
delicadeza. Num terreno vazio, jogava-se voleibol. Aproximei-me a medo: algumas
raparigas voavam nos baloiços, rindo com pouca graça.
Gostava tanto que os irmãos Zelenin, por qualquer estranho acaso, ficassem em Moscovo
até 6, dia do meu regresso!
Aborreço-me. O S. A. prometeu levar-me ao Oka, mas desapareceu sei lá para onde. Se
calhar, teve alguma reunião, mas garantiu que vinha cedo. Como não comprei leite, agora
não temos nada para comer e sinto-me um tanto inquieta. Doem-me as pernas e não me
apetece passear. Uff! O bosque ou é muito atraente ou me mete medo com a sua solidão.
Posso caminhar todo o dia por este «deserto silvestre» sem encontrar vivalma.

3 de Agosto de 1935 [...]

25 de Agosto de 1935
O Verão passou, como passa tudo neste mundo, e o Inverno frio e rígido está aí a bater-nos
à porta. Como será a minha vida? Não irei para a escola e parece que nem para a faculdade
operária. Portanto, que farei? Anteontem fiz o último exame e comecei a ficar farta desta
monotonia do tempo livre, porque já não tenho nenhum objectivo. E apenas há uns dias
atrás vivia de mil sentimentos e sensações! Uma nova situação, novas pessoas... Senti-me
alegre por ir ter uma vida nova, mas também percebi na alma uma pontinha de mágoa e
saudades da escola.
O MPI é um instituto medíocre, pobre e sujo. Escadas estreitas e íngremes, corredores
baixos e salas de aulas esquálidas, miseráveis e pouco acolhedoras. Nas provas escritas,
não conheci ninguém a não ser as três raparigas sentadas perto de mim; por isso, imaginei
toda a gente melhor do que era na realidade. As orais foram a 23. Os corredores encheram-
se de examinandos: as suas conversas e gargalhadas eram tão estúpidas e vulgares que até
feriam os ouvidos. Os rapazes (operários e não operários) soltavam risadas ambíguas e
trocavam gracejos de duplo sentido, e as raparigas encolhiam-se contra a outra parede para
os evitar.
Nos primeiros momentos, senti uma solidão terrível e fui assaltada por uma sensação de
timidez e falta de à-vontade. Ninguém fazia caso de mim e aquilo começava tudo a irritar-
me. Mesmo nesse instante entrou uma rapariga que eu conhecia, jovem mas já marcada, se
não por uma vida licenciosa, decerto que por uma excessiva desenvoltura.
251

Tinha os olhos desagradáveis, muito pequenos e semicerrados de uma maneira depravada.


Ao olhá-la, era-se levado a pensar: «Eis aqui uma rapariga soviética.»
Reconhecem-se as raparigas deste tipo em qualquer lugar: têm sempre uma boina berrante,
o cabelo muitas vezes pintado, frisado e armado, apanhado atrás da orelha nua, pequena e
branca como porcelana, o vestido à última moda, confeccionado sem gosto nem elegância
mas vistoso, e o rosto, que promete tanto aos homens, talvez um tanto impudente e
imperturbável.
Assim, esta minha conhecida não era lá muito agradável, mas toda a gente tem os seus
lados positivos, e ela também. Era alegre e conversadora e não me senti incomodada.
Dado que o mal nasce do ócio, as pessoas tornam-se melhores e mais solidárias em
situações deste género. Fiz o exame de Russo à pressa e corri para a outra sala, onde tinha
prova de Matemática.

26 de Agosto de 1935
Isto é estúpido, de uma estupidez horrível. Volto para a escola! E quem afirmava há quinze
dias a sua decisão inabalável? Quem pensava que não teria mais nada a ver com a escola?
Será culpa minha? Vão transferir o MPI para Lefortovo e seria uma loucura ir para lá.
Assim, estou no ponto de partida. Entretanto, há o risco de não voltarem a aceitar-me na
escola. O director quase me recusou. Hesitou e disse-me que já não há lugar e que é
melhor eu ir para a n.° 42. Amanhã vou falar com a Ju 1, depois voltarei à escola e, se for
admitida, irei dar a feliz novidade à família.
Os irmãos Zelenin chegaram há pouco, vi-os pela primeira vez em casa da Ira. O Iuri está
na mesma: taciturno, bizarro, mas tudo menos feio. O Volodia cresceu, parece frenético e
fala com argúcia e uma certa licenciosidade rebuscada e refinada. Por qualquer razão,
estou com muita vontade de ver o Iuri e de... o soprar à Ira, pois pareceu-me que a atitude
que tem para comigo não é pior do que a que tem para com ela.
Sabendo do meu regresso à escola, muitos pensarão que não resisti e que me rendi. Não,
nunca cederei, só recuei. Sinto-me imatura e estúpida à frente das pessoas que conheço, o
que não pára de me atormentar. Em que estranho erro caem as pessoas a propósito das
minhas capacidades? Todos pensam que sou muito inteligente, o que me faz ainda pior.
Juro por tudo o que há de mais sagrado na minha vida, por todos os tormentos por que
passei, que nunca deixarei que o meu filho (se o tiver) chegue ao ponto em que me
encontro. A coisa mais horrível
252

para as crianças é darem consigo em situações anormais. A criança educada de maneira


severa, normal e tranquila não terá dificuldades.

30 de Agosto de 1935
Que novidade! Hoje, a mamã disse-me que leu o meu diário porque tinha medo de
encontrar nele alguma coisa de contra-revolucionário. Seria muito engraçado se tivesse
dado com o que escrevi sobre os irmãos Zelenin e os outros. Por princípio, não gostei
muito, mas também não me zanguei, porque sei que o faz para meu bem.
Desisti da faculdade operária. Percebi de repente que não me daria uma grande cultura
geral, e ser alguém que não terminou os estudos é o mesmo que contradizer-me a mim
própria e aos objectivos que fixei. Decidi voltar à escola, mas com a condição de ir em
Janeiro para a faculdade operária da Universidade Estatal de Moscovo. Agora quero ir
para lá. E é fundamentalmente esta a razão por que desisti do Poligráfico. De vez em
quando, ainda me censuro, mas não há remédio. Não vale a pena pensar nisso.
Não me aceitaram na escola n.° 35. Já é certo, embora o director (um abelhudo horrível)
me dê esperanças. Como não acredito, amanhã mesmo vou matricular-me na nova escola
n.° 45, que fica perto da nossa casa. Porque haveria de ser pior do que as outras? Aliás, a
n.° 35 também era nova quando lá estudei, tal como a escola n.° 2, na Ussatchevka, que
agora é uma escola-modelo.
Portanto, vou para a n.° 45. Não é muito mau e o melhor é que me matricule depressa para
não me deixar tentar à vista da Mussa, da Ira e dos outros. Como é grande, haverá muita
gente e muitas coisas novas. Seja como for, ir-me-ei embora em Janeiro. Há uns dias,
passei pela n.° 35 e encontrei a Ju 1, que tentou convencer-me a ir para os cursos
propedêuticos do Instituto Pedagógico. Ah. os professores! Como escasseiam os
pedagogos, ela decidiu aproveitar-se da minha posição sem saída. Mas nem pensar! Não
tenciono ser professora para me porem o jugo. Por felicidade. Deus deu-me a conhecer
esta famosa profissão ainda há pouco tempo.
No trabalho da mamã, estão a decorrer os exames de admissão para a escola de sete anos
que vai começar este ano’. Como não conseguia fazer tudo sozinha, coitada, levou-me a
mim e à Ira. Foi engraçado e curioso dar indicações e explicações a pessoas adultas e a
velhos. Mas depois habituámo-nos e começámos a sentir-nos à vontade. Uma vez nas
carteiras, estes operários estranhos e hostis
Nota: A mãe de Nina era professora numa escola concebida para alfabetizar e instruir as
classes mais desfavorecidas. O ciclo completo era de sete anos e o exame de admissão
determinava o ano em que se começaria.
253
transformaram-se em meninos obedientes e tímidos. As mãos tremiam a muitos, em
especial aos velhos e às mulheres. Coravam, atrapalhavam-se e tratavam-nos com amizade
e afecto.

31 de Agosto de 1935
Em parte, sinto-me satisfeita por ter andado tão ocupada este Verão. Cresci, deixei de ter
medo e habituei-me às dificuldades; só é frequente aparecer-me na testa uma ruga
profunda e uma expressão de interrogação, meditabunda e sem resposta. Fiquei fora de
tudo e arrependo-me de ter desistido da matrícula na faculdade operária do Instituto
Poligráfico. Bem, desde que me arrume, o incómodo passará! Corri as escolas todas e
nenhuma tem lugar.
Estive na n.° 35- A Ju I. fez uma última tentativa para convencer o director. Pequeno e
horrível, respondeu com um risinho, em tom reservado e conciso, afirmando que agora já
não era possível fazer nada; a querida e simpática Ju I. falou-lhe de mim, pediu-lhe com
doçura e disse-lhe que não se podia deixar de fora uma aluna tão dotada e que seria melhor
descartar o Linde, que não passara nos exames. Apesar de tudo nela implorar, tanto o
sorriso suplicante como a figura palpitante, ele cortou-lhe friamente a palavra.
Envergonhei-me e achei horrível que se humilhasse, pedisse e tivesse de ouvir um não por
minha causa. Tem uns lábios tão ternos! Como é jovem e lisa a sua pele em volta da boca
e nas narinas cinzeladas!
Saí com uma sensação de rejeição e fui à escola n.° 6, onde estuda agora o Volodia Z. e
onde eu também já andei. De momento, não estou em posição de escolher se quero ou não
estudar com o Volodia, ou se quero ou não o segundo turno: o importante é que me
aceitem. Mas como a directora estava em reunião e não havia mais ninguém com quem
falar, vim-me embora de mãos a abanar.
Este ano começou a vida no verdadeiro sentido da palavra; por isso, sem querer, todos os
pensamentos estúpidos sobre os rapazes, o meu aspecto e as nossas relações foram
empurrados para um cantinho, e a sensação de desdobramento enfraqueceu. Agora penso
pouco nos aspectos contingentes. Passei estes anos todos a debater-me entre dois
extremos: de um lado, a vida séria, o estudo e a ciência e, do outro, os sonhos femininos,
os desejos e os rapazes.
Como ambos os aspectos têm o mesmo peso na minha natureza, não é possível decidir
com base no instinto; deve ser a racionalidade a determinar qual deles é mais importante e
necessário. Hesitei muito, mas agora sei que é preciso abandonar a superficialidade e
dedicar-me à ciência de alma e coração. Mas como aligeirar esta escolha? Como torná-la
leve e serena? Apesar de tudo, o primeiro estilo de vida
254

tem raízes profundas em mim e perturba-me de mais para que possa desembaraçar-me
dele com facilidade.
Para o esquecer, tenho de o experimentar tantas vezes ao ponto de ficar farta, mas uma
irritação insatisfeita fere-me o amor-próprio. Deixar «esta» vida significa render-me,
dizer: «Não consegui ser interessante, não consegui atrair nem um rapaz, não consegui o
que queria.» Mas eu não quero render-me! De facto, bastar-me-ia agradar a alguém para
me acalmar e perder qualquer interesse pelo foxtrote, os rapazes e as conversas absurdas.
[...]

3 de Setembro de 1935
Que se passa comigo? Tenho a sensação de que vai acontecer qualquer coisa de
assustador, desconhecido e inelutável. Não tenho vontade de estudar nem de fazer nada e
sinto medo. Naquele lugar não há tranquilidade; tudo me oprime, inquieta e horroriza.
Ando na escola n.° 2 da Ussatchevka. Porque estou então descontente? O oitavo ano é
excelente. Mas como são todos bons alunos e muito preparados, sinto-me limitada e pouco
inteligente; é terrível estudar no meio deles. Tenho vergonha de o confessar, mas gostaria
de voltar atrás, à n.° 35.
A Ira disse-me ontem que o director decidiu aceitar-me, e começou para mim um dilema
medonho. Para onde ir? Suponho que nunca tive uma sensação tão atormentadora nem
dúvidas tão terríveis. Se a transferência fosse impossível, acalmaria, mas a mamã disse:
«É como preferires. Queres mudar?» Naquele momento, senti de repente que perdia toda a
minha independência e firmeza e que voltava a ser uma criancinha pequena.
Passo a vida com saudades da Mussa, da Ira e de todos. Os meus novos colegas são
estranhos e incompreensíveis para mim. Na escola, estou alerta e inquieta como num
campo inimigo. E quantas dúvidas, quantas perguntas! Parece que a velha vida criou
raízes profundas em mim e que a amo muito.
As minhas palavras caras sobre a ciência e a vida séria são todas ocas. Continuo a mesma
rapariga superficial e estúpida, que pensa com tédio no estudo, e que, ao mesmo tempo, é
sonhadora e vaidosa e procura ideais na vida. Tenho muitas vezes vontade de me chamar
Oblomov a mim própria.
Nota: Personagem principal do romance homónimo de Ivan Alexandrovitch Gontcharov
(1812-1891), símbolo do intelectual em crise, presa da inacção e do fatalismo.

Envergonho-me por esta fragilidade, mas não consigo condenar-me tranquilamente a uma
vida no meio destes estranhos. Meu Deus! Portanto, que fazer? Perdi-me na vida mal ela
começou. Para quê ficar
255

onde não me agrada? Saber viver é precisamente escolher o melhor. O problema é que não
sei o que é melhor, para onde hei-de ir! Não sei nada. É estranho! Numa mulher, estes
estados de espírito costumam acabar em lágrimas, mas eu não sei chorar, não sei sofrer de
uma maneira feminina; no entanto, continuo a sentir um nó na boca do estômago. [...]

6 de Setembro de 1935
Hoje é o primeiro dia livre deste ano escolar. Estou de bom humor e tranquila, porque
ando na minha velha escola. Acabaram-se as dúvidas e os tormentos. Depois de baloiçar
tumultuosamente «sem leme nem velas», cheguei a um porto tranquilo. É incrível como a
beleza voltou. Com que desenvoltura me comportei ontem! Acabou-se a tensão
desagradável que senti na escola n.° 2. Agora falta-me o mais assustador: recuperar os
meus papéis. E se não mos dão?
É estranho ter-me safado até agora, apesar de tantas garotices. O papá não anda nada
contente e diz que sou uma catraia, mas quero lá saber! Parece-me que o horror do ano
passado em relação à escola não se repetirá e que este ano estudarei com alegria. Estou a
adquirir a capacidade de aceitar com calma as minhas limitações e mediocridade, mas não
posso renunciar ao desejo de estudar, pois isso significaria perder a minha última meta. É
provável que consiga destacar-me da multidão graças a muito empenho e obstinação, mas
nunca serei mais do que uma burra carregada de livros, porque não possuo aquela veia a
que se chama talento.

12 de Setembro de 1935 [...]

23 de Setembro de 1935
Estão a pintar o meu quarto e sujaram o diário. Que raiva! Ficou tão imundo e ilegível que
tive de copiar algumas passagens. Paciência!
Os dias fogem como nuvens antes de uma tempestade, com uma força tão inverosímil que
ainda nem tive tempo de cair em mim. Talvez por isso, não me rendo à melancolia. Os
meus pensamentos e aspirações concentram-se numa única coisa: estudar, estudar e
estudar. Ser inteligente, o que é muito difícill (para não dizer mais). Aprendi a encarar os
meus defeitos com serenidade; ou seja, aprendi a não me dar por vencida, porque zangar-
me e encolerizar-me significa admitir que a luta é desigual. E eu combato todos os dias,
todos os minutos. Só tenho uma coisa na cabeça, e acho estranho como o pensamento
pode concentrar-se assim. Não houve um único passo, um único desejo que não tenha
despertado esta reflexão.
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Conhecia o poder de um pensamento, uma única e ardente paixão. Vivia em mim como
um verme, roeu-me e queimou-me a alma}
Nota: Citação do poema «Meyzi», de Lermontov, escrito em 1839Alusão à «História da
Rússia», obra em cinco volumes de Mikhail Nikolaevitch Pokrovski (1868-1932).

É o meu pesadelo. Ser inteligente! Quando ouço as explicações durante as aulas, vem-me
sempre à cabeça a mesma ideia: «É preciso saber bem a matéria, é preciso estudá-la com
atenção.» Em casa, deito-me e levanto-me com uma ideia fixa: «Hoje vou ler PokrovskP e
começar a estudar Alemão.» O pior é que são só intenções. A culpa é minha? Não sei.
Nunca tenho tempo.
Na verdade, não posso dormir só seis horas, porque adoeceria. Meu Deus! O que
aconteceu à minha inteligência, à minha memória? Era por causa delas que me achavam
dotada. Sim, na verdade tinha-as, mas foram-se. A roda da sorte girou; não, pior, a roda da
sorte desceu a pique. Talvez volte a subir, mas a memória não voltará, isso não. É horrível
sabê-lo.
Às vezes começo a censurar a mamã por não se ter apercebido do estado de morbidez em
que caí nos anos passados e por não haver tentado salvar-me. Venci a minha angústia, mas
a que preço! Dizem que é frequente verificar-se um enfraquecimento da memória depois
de uma histeria aguda; é muito provável que eu estivesse doente, mas... agora não há
remédio! Tenho de tentar outras coisas. O meu plano está pronto, já é quase velho, muito
familiar. O essencial é o aproveitamento máximo do tempo e um empenho racional,
intensivo.
Preciso de amadurecer e fazer de modo que, no fim destes dez anos, possa dizer a mim
mesma com satisfação: «Sim, agora podes considerar-te inteligente e evoluída.» Horrível!
E não há maneira de mudar! Dói-me que ninguém acredite que percebo isto tudo com
muita mágoa; tenho a certeza de que muitos pensam que ando à caça de elogios. E, como
sempre, espero que tudo mude e que a memória chegue para nunca mais esquecer nada de
nada.
Estou sempre a pensar como hei-de organizar a minha vida para combinar os elementos
agradáveis com os que são necessários e para que não voltem os estados de espírito do ano
passado. Decidi estudar com uma pessoa: a Mussa (ou a Ira). É verdade que precisarei de
mais tempo, mas, em compensação, depois sentir-me-ei muito melhor. Tenho de aprender
a falar, e não posso fazê-lo sozinha; portanto, é uma vantagem. Empregarei o resto do
tempo a estudar seriamente,
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em grande escala. É triste não conseguir separar-me destes estúpidos verbos no futuro.
Afinal, já estou a preparar-me há quase um mês... Oblomov...
Como se vê, aprendi a filosofar. «Filosofar é aprender a morrer», disse alguém. Para mim,
é ao contrário: significa aprender a viver. Agora não tenho tempo para pensar em rapazes,
no aspecto exterior ou no que aconteceu. Fá-lo-ei quando for inteligente. Também tentei
ler na escola durante os intervalos, mas receio cansar-me muito e obter o efeito contrário.
De momento, não gosto nem me interessa ninguém em especial, e a mulher que há em
mim está serena. Claro que se faz sentir, mas não me atormenta nem perturba o estudo.
Durante as aulas, viro-me muitas vezes para observar a outra ponta da sala, a chamada
«Kamchatka», onde estão sentados o Leuvka e o «Zyria». É possível que esteja enganada,
mas parece-me que o «Zyria» olha muitas vezes para os meus lados. Dá-me tanta vontade
de rir quando encontro os seus grandes olhos castanhos e esbugalhados!
Nota: A natu’ A Kamchatka é uma península na extremidade nordeste da Rússia. Era como
se chamava às carteiras do fundo da sala, onde se sentavam os piores alunos da turma.

Sufoco uma risadinha e viro-me, mas depois, à socapa, como por acaso, passeio o olhar
pelas carteiras de trás e fico zangada se o seu rosto comprido e chocarreiro não estiver
voltado para mim. Atrás da sua cabeça negra há uma outra, que examino: clara, ondulada,
coberta de cabelos dourados muito macios, caindo sobre as têmporas, encaracolados e
desgrenhados na nuca, frequentemente inclinada para trás contra a parede verde-escura. A
única pessoa de quem posso gostar e por quem sinto uma calorosa simpatia é o Leuvka.
Cresceu ainda mais e emagreceu, mas continua com o mesmo ar descarado e astuto e os
mesmos olhos esplendorosos. As outras dizem que está mais feio, mas eu acho que não.
Para mim, é sempre bonito.

3 de Outubro de 1935 [...]


6 de Outubro de 1935
Noite esplêndida. Escura e límpida. Atrás das casas, a Lua, azul, embrulha-se nas nuvens.
O vento, acariciador e terno, sopra obstinadamente do sul, transportando um cheiro a
Outono, seco e perfumado. Sussurra-me sempre qualquer coisa de bom, belo e distante e
inspira-me uma tristeza inquieta. Poderia passar horas a senti-lo e a ouvi-lo falar da
felicidade, dos bosques e da distância.
O vento transporta tanto consigo!
Sopra sabe-se lá de quais terras desconhecidas e longínquas, cheias de flores, erva e
árvores.
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A natureza tem um encanto especial no Outono. A erva nunca é tão seca e áspera nem as
cores do bosque tão belas e variadas. O vento sopra, e a inquietude vai crescendo devagar,
devagarinho. Por qualquer motivo, uma pessoa sente-se sempre só e com vontade de amor,
ternura e afecto. E, no entanto, é prodigiosamente belo...

11 de Outubro de 1935 [...]

16 de Outubro de 1935
Há guerra na Abissínia. Guerra! Horrível. Sei que há vítimas, ataques, granadas e bombas
explodindo, e não consigo meter na cabeça que começou uma carnificina lá muito longe,
no calor sufocante de África. Aprendemos nos livros o que é a guerra e, sobressaltados,
lemos as descrições de ventres esquartejados e troncos humanos sem braços nem pernas,
mas estes relatórios frios são uma coisa; outra, que nem consigo imaginar, é que neste
momento se arrancam membros e que morrem homens.
E, à minha volta, a vida decorre com tanta indiferença e tranquilidade que até ofende. As
pessoas estudam e trabalham como sempre; como sempre, vivem as suas paixões
mesquinhas face à morte implacável. [...]

23 de Outubro de 1935
A minha vida está a mudar muito. Quero estudar pouco, porque basta-me ter «Bom» em
todas as disciplinas; pensarei no «Muito Bom» quando estiver no décimo ano, que é o
último. Na escola ensinam-se muitos pormenores inúteis, que logo se esquecem, mas que
é preciso aprender de cor. E por isso se desperdiça tanto tempo. Meu Deus! Como os dias
se escoam depressa e eu sem conseguir fazer nada!
Afastei-me um bocadinho da Mussa e da Ira por causa dos rapazes. Sempre achei estranha
a sua companhia, mas agora ainda mais, porque o Dima está muito zangado comigo. Que
verme! Cada vez me torno mais cautelosa. Fico possessa com a sua presunção, egoísmo e
narcisismo. Para ele, todas as pessoas foram criadas por sua causa, para assegurar os seus
caprichos e servir os seus objectivos.
Lembro-me que já a 29 de Setembro, na festa em casa da Ira, o Dima propôs que
brindássemos ao seu bom sucesso. Como, em parte, já conheço este seu sucesso, recusei-
me a fazê-lo, ao que ele comentou com tranquilidade: «Não bebes em minha honra? Como
queiras.» Depois, sussurrou ao ouvido da Mussa: «Bem, nunca mais lhe perdoarei esta.»
Esquisito! Uma rapariga tímida e calada, que tem medo
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e evita toda a gente, de repente desperta no Dima uma grande antipatia! Parece-me que me
considera mais inteligente e perigosa do que sou na realidade. [...]

3 de Novembro de 1935
A companhia da Ira e da Mussa tem uma influência negativa sobre mim. Sim, sem elas,
poderia ainda corrigir-me, mas arrastam-me sempre, e eu, com a minha falta de força de
vontade, não consigo subtrair-me à sua influência. Passamos o dia inteiro a falar dos
rapazes e andam-nos sempre na boca os nomes do Dima, do Nikolai e do Iuri. Quantas
vezes repetimos as suas frases e palavras e comentamos os seus gestos! É preciso
reconhecer que, apesar de tudo, o primeiro lugar destas conversas é ocupado pelo Dima: o
que fez, porquê, como se levantou, como olhou, como sorriu. Meu Deus! O tempo que se
desperdiça nestas futilidades e o que se poderia fazer!
Não, agora percebo porque é que as mulheres são tão mais estúpidas do que os homens.
Na verdade, têm uma particularidade: a de passarem o tempo ociosamente, empregando-o
de maneira irracional. Costumo ouvir as conversas na rua: os rapazes discutem com fervor
a guerra, os automóveis, como se constrói um eléctrico, o cinema; as raparigas, ou não
dizem nada ou só lhes saem da boca parvoíces sobre... os rapazes. E nem uma vez, nem
uma vez’ ouvi homens e rapazes falando de nós.Que espanto!
Mas como mudar esta situação? Poderia tentar meter conversa com a Mussa sobre a
Abissínia, mas ela não lê os jornais e mandar-me-ia para aquela parte com a minha
Abissínia. E depois os rapazes desprezam-nos tanto que nunca aceitariam falar de coisas
sérias connosco.
Neste período, eu e a Mussa estamos sentadas com o Leuvka e divertimo-nos muito.
Passamos as aulas a meter-nos uma com a outra e a fazer uma grande balbúrdia. Ontem,
na aula de Física, perdemos de tal modo as estribeiras que toda a turma ficou a olhar para
nós. Organizámos um «manicómio», pendurámos na parede um anúncio sobre os
mentecaptos e cada uma de nós declarava a outra louca. Mas também passámos a vida na
brincadeira com o Leuvka; não temos nem uma conversa séria. [...]
Hoje tirei o dia para ir buscar um relógio a Bogorodskoe. Gelei até aos ossos, cansei-me e
o metropolitano fez-me dores de cabeça. Dá-me sempre prazer descer a este subsolo
estranho e belo, semelhante a um edifício alto e luminoso. A minha satisfação nunca
diminui quando observo os trilhos na estreita passagem semicircular do túnel, onde as
luzes brilham debilmente na escuridão.
Nota: Sublinhado pela própria Nina.
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É muito belo seguir sentada na magnífica carruagem cintilante e rasar os estreitos muros
cinzentos para desembocar durante um minuto numa estação azul ou cor-de-rosa, ora alta
com esbeltas colunas de mármore, ora coberta de arcos com as paredes revestidas de
vistosos ladrilhos esmaltados. A Estação Kropotkinskaia é muito bonita com a sua
tonalidade rósea e as elegantes colunas poligonais desabrochando para cima.
De facto, abrem-se como lírios antes de chegarem ao tecto, e corolas brancas alargam-se
nas abóbadas. Lâmpadas eléctricas invisíveis projectam luz de baixo para cima e tanto o
tecto como a parte superior das colunas parecem aéreos e leves.
O sentimento que sempre foi sufocado em mim, e que nunca encontrou uma saída normal
durante dezasseis anos, tenta, às vezes, irromper para o exterior. Quero ter uma relação
terna e ardente e revolta-me muito não conseguir agradar a ninguém. Que estranho! Tenho
necessidade de dar largas a este excesso de sensualidade, para depois me libertar dele. O
problema é que, de momento, nem sequer consigo apaixonar-me.

4 de Novembro de 1935
O ano passado e os anteriores foram caracterizados por uma histeria prolongada, curiosa e
obstinada. Venci-a, mas paguei um preço muito alto, à custa das minhas capacidades.
Dantes, era tudo menos estúpida e tinha uma memória excelente; agora, perdi-a de todo,
sim, de todo. Às vezes sinto-me tão amargurada! Se me lembrasse de tudo o que leio, meu
Deus, as coisas e os factos interessantes e múltiplos que eu já saberia!
Por exemplo, li agora o jornal e tentei reconstituir mentalmente o seu conteúdo: já esqueci
metade. A Ira tem uma memória excelente; lembra-se de tantas futilidades que chega a
admirar como cabem tantas coisas naquela cabecinha de testa estreita. É pena que não seja
um rapaz, pois talvez tivesse futuro.
Que rasgo de génio me atingiu? Apetece-me escrever, mas não tenho nada a dizer. Em
geral, minto; um outro, no meu lugar, encontraria muitos assuntos, mas comigo nem a
fantasia funciona.
»

8 de Novembro de 1935
A festa passou, a grande festa revolucionária: sinto na alma uma revolta surda e uma
insatisfação nada festivas. Aborreço-me, estou triste e não tenho vontade nenhuma de
estudar. Que espanto! Leio com prazer livros científicos sérios e folheio os jornais com
interesse.
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mas a repulsa despeita em mim logo que me cheira a escola, a regras, a ordem imposta.
Há dias, rebentou um escândalo na escola. O oitavo ano em peso fez gazeta a um teste de
Literatura. Só ficou a Lisa K., que foi contar tudo ao director. Por isso, resolvemos
boicotá-la. No dia seguinte, passaram-nos uma ensaboadela terrível, descobriram a contra-
revolução e procuraram os instigadores. O pobre Leuvka foi chamado duas vezes à
direcção e voltou com os olhos vermelhos. A coisa foi de tal maneira que chegou quase à
expulsão da escola. Por um lado, até gostaria, porque... Para onde iria? Provavelmente
tentariam encaixá-lo na faculdade operária, e eu iria com ele para ficarmos juntos. Bem, é
um absurdo quase perfeito, há um por cento de probabilidades que se concretize.
Apetece-me viver e agir com mais intensidade e nem sequer tenho um lugar onde ir à
noite. A Mussa anda com o Dima e os outros, que não me aceitam, e a Ira tem um
namorado. Na verdade, ainda tenho coisas para fazer hoje, além dos trabalhos de casa. Os
trabalhos de casa! Olhe para onde olhar, choco sempre com eles; parece-me que vou dizer
adeus aos «Muito Bons» no segundo trimestre. Tenho de reconhecer que as minhas
mudanças de humor, o descontentamento e as perturbações que sinto são a própria
essência da minha sensualidade insatisfeita. Preciso de amar, mas não há ninguém na
escola. Decerto que não o Dima. Na verdade, só há um rapaz interessante, mas é um
delinquente.

17 de Novembro de 1935
Despi o casaco e, enquanto o entregava no vestiário, pensei como havia de fazer para me
ver ao espelho e perceber se estava bem ou se parecia muito masculina. A minha cara e o
meu corpo feios não me dão paz. Incomodada, comecei a caminhar com as mãos juntas
sobre a barriga, como uma menina de boas famílias. Tenho medo de fazer um gesto a mais
e parecer ridícula. Depois de tirar o número, fui para o fundo do vestíbulo amplo e
luminoso.
O edifício resplandecia, limpo e belo. No patamar, dois lances de uma ampla escadaria
branca levavam ao primeiro andar, mas subi por outras escadinhas mais modestas ao
fundo do prédio. No segundo andar, fiquei atordoada cora um barulho de vozes graves,
quase de adultos. De repente, assustada, parei nos degraus, virei a cabeça e olhei para o
patamar.
Um rapaz alto e robusto aproximou-se da balaustrada e olhou para mim. Sobressaltei-me,
fiquei envergonhada e fugi. Precisava de ir lá a qualquer custo, ou a minha memória nunca
voltaria. Por outro lado, fazer mais uma vez o exame de selecção profissional... não me
apetecia
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nada. Parecia-me que só encontraria rapazes e tinha um medo terrível. Por isso, não fui.
Meditabunda, dei a volta ao palacete e regressei a casa.
Foi uma gritaria! A mamã e todos os adultos, em geral, não nos compreendem. Querem
que liguemos a tudo, que arrumemos, limpemos e cozinhemos. É muito fácil falar quando
não têm mais em que pensar, excepto na cozinha. Para a mamã, é a mesma coisa ir
trabalhar ou ficar em casa ocupada nos afazeres domésticos: tanto num lado como noutro,
perde tempo.
E eu? Para mim, cada minuto é precioso. Passo todo o dia procurando qualquer coisa de
novo, de útil. Tanto na escola como em casa, só tenho um pensamento: conhecer. E de
repente é preciso descascar batatas ou lavar pratos! Ou seja, mergulho no torpor durante
uma ou duas horas, repetindo para mim própria: «O tempo passa, passa, e estás a perder
este tempo de ouro.»
Pergunto-me muitas vezes o que será justo. Devo abandonar qualquer trabalho físico e
entregar-me à ciência? Deixo de prestar atenção às censuras da mamã que, cansada e
envelhecida, começa a fazer o almoço enquanto eu estou sentada a ler? Ou, pelo contrário,
ajudo-a em tudo, sou uma filha e uma mulher exemplar e, em compensação, permaneço
estúpida e medíocre para sempre? Não, por nada no mundo!
Devo demonstrar que a mulher não é mais estúpida do que o homem, que é um ser
humano capaz de trabalhar e criar. Sei como pensam os homens, como se consideram
superiores e se sentem ofendidos quando uma mulher os bate em qualquer coisa. Tenho
tanta vontade de lhes provar que somos melhores, que as nossas cabeças não estão a
abarrotar de rapazes e vestidos! Pois é, oxalá tivesse outra companhia e me encontrasse
noutra situação, com pessoas sérias e inteligentes! [...]
Não é por acaso que se diz «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades». Não há muito
tempo, apenas o ano passado, cada um de nós tinha um papel completamente diferente: eu
era a melhor da turma e tinha excelentes relações tanto com a Ira como com a Mussa.
Gozava de autoridade junto delas e ambas tentavam ficar sentadas ao meu lado nas aulas
ou andar comigo nos intervalos. A Ira tinha muito sucesso com os rapazes, o que irritava a
Mussa. O Leuvka e o Tolka estavam apaixonados por ela. De resto, também não era
indiferente ao Antipov e ao Linde, com quem mantinha uma brilhante correspondência
durante as aulas, enquanto namoriscava com o Leuvka.
A Mussa já começava a prometer muito, mas ainda era uma miúda. Andava com a Olga,
ninguém gostava dela e só a suportavam por ser sua amiga e porque servia de correio. A
própria Mussa dizia que
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os rapazes a intimidavam e que ficava sentada num cantinho sem falar, observando toda a
gente com um olhar amedrontado. Sentia-se perdida na sua presença; foi uma altura em
que o Dima até troçava dela muitas vezes.
E eis que, passados uns meses, o Dima regressa de Balaklava e encontra no lugar da
menina tímida uma senhorinha encantadora, de olhos maliciosos, alegre e inteligente. A
mudança foi de ficar de boca aberta, poucas conseguem transformar-se assim. Observo-a
com frequência e penso: «Como aconteceu? Dantes não tinha estas belas pestanas em
leque nem este ”diabinho nos olhos (como diz o Dima)».
Sabe ser coquete com simpatia e subtileza e dizer qualquer parvoice com requebros
encantadores. Nunca encontrei ninguém com tanta vivacidade. Não consegue estar sentada
em silêncio: arranja sempre qualquer coisa de que rir e conversar, arma confusão ou
começa a desenhar. Agora, põe a cabeça a andar à roda a mais de um rapaz. Começaram a
amimá-la e a admirá-la e deixaram de troçar dela.
A Mussa é agora como as mulheres que têm sucesso; qual gatinho, arranha languidamente
com a pequena pata de veludo, sob a qual se escondem as garras de uma tigrinha. A
coqueteria penetrou-lhe no sangue e na carne; é coquete comigo, com o D. A. com o Dima
e com os outros.
Nota: Um professor.

Não se pode imaginar a Mussa sem coqueteria. Logo que percebeu que era encantadora,
tornou-se presunçosa, segura de si e muitas vezes despudorada. Brinca frequentemente
com maldade, sabendo que sairá sempre incólume.
E como luta? Morde, arranha, dá pontapés e consegue o que quer, mas basta tocar-lhe para
fazer um escândalo e ficar ofendida. Também sabe atirar baldes de água fria: muda de
repente, estampa-se-lhe no rosto expressivo um ar altivo e sério, arqueia as sobrancelhas
devagar, olha de soslaio e diz: «Pára, Nina, não tem graça» ou «Isso não tem piada. Está
quieta.» Sei que aprendeu estes modos com a Olga.
Apesar de ver nela tantos aspectos negativos, gosto muito da Mussa: todos somos atraídos
pelas qualidades que não possuímos. E é esta a imagem da nova Mussa. Tornou-se
independente e, de repente, percebi que já não precisa de mim. Agora sou eu que tenho de
me aproximar dela e imitá-la. Uh, que raiva!
A Ira também se ressente da sua influência e enche-a de atenções. Envergonha-me tanto
que nós as duas, crescidas e inteligentes, nos abaixemos servilmente perante esta
borboletinha! Parece-me que todos o percebem e se riem de mim e da Ira quando nos
debruçamos sobre a Mussa e ouvimos as suas tagarelices com atenção. Tenho vergonha e
gostaria de me afastar dela para não ser ridícula.
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Mas a situação menos invejável é a da Ira, porque os rapazes deixaram de lhe prestar
atenção: não existe para o Dima, e o Nikolai e o Iuri odeiam-na. De mim, o Dima não
gosta, o que sempre significa que não sou só um vazio. Para não permanecer na sombra, às
vezes tenho muita vontade de o fazer zangar, brincando com o seu amor-próprio. Gostaria
de saber o que pensa de mim, mas para isso teria de o perguntar à Mussa, o que nunca
farei para que nem ele nem ela pensem que tenho algum interesse.

20 de Novembro de 1935
Sentei-me à espera do psiconeuropatologista. A salinha graciosa e acolhedora, com
cómodas cadeiras de verga entrançada, estava quase vazia. O olhar repousava nas suas
paredes escuras. Sentei-me perto da mesa, recostei-me, cruzei as pernas e, de repente, tive
a agradável sensação de não estar numa sala de espera desconhecida, mas num quarto
familiar e querido. Nem tinha vontade de me levantar quando chegou a minha vez. Entrei
timidamente no consultório.
Vi um médico enorme e escuro sentado atrás da secretária. O facto de ser um homem
assustador e taurino despertou logo em mim antipatia, desconfiança e embaraço. Sentei-
me e observei-o de soslaio. Ele olhou-me com atenção, fitando-me com os seus grandes
olhos de bovino. Às tantas, decidi que ele não sabia nada e que não acreditaria numa única
palavra sua. Por isso, enquanto me fazia várias perguntas e me examinava, eu só esperava
que acabasse.
Mandou-me levantar, pegou-me na cabeça e observou-me os olhos: «Nasceu com este
olho assim?» «Nasci», respondi com indiferença. Obviamente, tal como eu pensava, não
disse nada de sensato e vim-me embora insatisfeita, zangada e deprimida. «Portanto,
reparou logo nos olhos... Então nota-se assim tanto? Claro que se nota. Por que cargas de
água imaginaste que não?» Quer dizer que sou outra vez um monstro?! Sim, outra vez.
Sento-me à frente do espelho, observo-me... e choro. Há tanto tempo que não chorava!
Não conseguia, só sentia uma pressão insuportável cá dentro.
Não me rendi perante nada, sempre procurei uma saída: inscrevi-me na faculdade operária
e não desesperei quando não fui admitida; perdi a memória e esperei sempre que voltasse,
mas é irremediável. Voltarei a ter dias inteiros de tormentos, horror e segregação. Durante
este tempo, vivi um equívoco feliz, convencendo-me de que não tinha este pesadelo. Mas
nada feito, só tenho vergonha por mim.
Não há nada mais horrível na vida do que ser feia, ainda por cima a cara, os olhos!
Maldição! Soluço de raiva impotente, arranco os cabelos e sei que nunca puderei mudar.
Uma pessoa dá em doida ao ser assim marcada para toda a vida, sem razão. Não há culpa
nem culpados
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e viro-me contra mim. Ódio, desprezo e raiva. Amanhã não poderei olhar ninguém nos
olhos, terei vergonha. Quer dizer, acabaram-se as ilusões, acabaram-se os sonhos. Não,
não posso viver assim! Meu Deus, estou a dar em doida! Apesar de todos os pequenos
inconvenientes, ontem era feliz. Que fazer agora? Que fazer?
Quero gritar ao mundo: «Que hei-de fazer?» Não acredito nos médicos, as operações
nunca darão resultado e sinto-me ridícula ao ter pena de mim. E não tenho esperança.
Como aconteceu isto tudo? Porque não pensava em nada ontem, dantes? Porque acalmei
depois da operação, pondo uma pedra sobre o assunto? A sério que não tive este aspecto
durante algum tempo? Não sei. Ao que parece... estava enganada!
Mal tinha começado a mudar, mal começava a tranquilizar-me, quando de repente...
Criatura estúpida e feia! Então para que me foi dado aquilo a que chamam orgulho e amor-
próprio? Quero esplendor e glória, amor e felicidade, e recebo vergonha, ódio e desespero.
Desespero! Que palavra melodiosa e terrível! Desespero significa morte. Não há nenhuma
saída.
Nota: Sublinhado pela própria Nina.

Sinto de novo uma pequena cobra viscosa e pesada a roer-me perto do coração. É a ira da
impotência, o ódio de um monstro. Um ser repugnante, do tamanho de um percevejo.
Sinto-me estranha: como irei amanhã à escola, como andará tudo isto sobre os velhos
carris, se não sou a mesma, se me sinto outra vez infeliz e rejeitada? Antes, o pensamento
predominante na minha cabeça era se havia de me aproximar mais do Nikolai ou do Iuri
(um projecto irrealizável mas virtualmente possível); agora, só me resta rir e afastar estas
ideias, porque todas as palavras que trocar com um rapaz estarão ligadas à minha imagem
física. Poder-se-ia objectar que é uma banalidade, mas, apesar de tudo, sou uma mulher.
Meu Deus, como sou estúpida! Não há diferença nenhuma entre as minhas últimas
anotações e as primeiras. Tanto o estilo como as expressões são iguais. Nestes três anos,
não dei nenhum salto qualitativo a nível do meu amadurecimento. O médico diz:
«Passará.» Não, nunca passará.

22 de Novembro de 1935
A encantadora gatinha de angora, de pêlo macio e sedoso, pôs de fora as garras afiadas.
Ontem, a Mussa disse-me, rindo: «Vá, mexe-te, gorda!» Fiquei calada. «Estás zangada?»
«Não. Desprezo-te tanto que nem sequer consigo zangar-me», respondi-lhe no mesmo
tom. «Que víbora!»
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Pensei que o assunto ficara arrumado, mas hoje começou a dizer-me em voz alta e com
insolência: «Eh, gorducha! Estás gorda, Nina». «Cala-te, Mussa!»
Ela riu, esbugalhando os olhos com ingenuidade: «Não te zangues, Nina. Chamo
gordinhas a todas as pessoas de quem gosto.» «E eu peço-te para não o fazeres», retorqui a
meia-voz, receando que alguém nos ouvisse (teria vergonha). «Ouve, é um diminutivo
carinhoso. Já te disse que chamo o mesmo a todos. Tu também és gordinha, como os
outros», arrulhou a Mussa. «Como os outros?», indaguei, um tanto ferida e ofendida.
«Sim, como os outros. Vá, gorducha, não te zangues», respondeu sem compreender.
«Mussa, ou te calas ou não falo mais contigo.» Virei-lhe as costas, furiosa.
Não, que direito tem? Como se atreve a ofender-me? Naquele momento, as raparigas da
carteira de trás chamaram-me: «Lugovskaia, pergunta à Mussa que horas são.»
«Perguntem vocês.» Porque decidiu a Mussa ofender-me de repente? Quereria imitar o
Dima, que adora estas graçolas? Depois, virou-se e disse em voz alta, num tom um tanto
trocista: «Não quer falar comigo porque lhe chamei gorda. Mas não é verdade?» Sentada e
sem olhar para ninguém, senti ódio por ela e desprezo por mim.
Estava tão impotente que não encontrava palavras para responder às suas piadinhas, mas
ela continuava a espicaçar-me. «Mussa, já te pedi para te calares.» Ficou na sua durante
algum tempo, mas depois decidiu fazer as pazes: «Não te zangues, Nina.» Com
inexprimível ingenuidade, acrescentou: «Para mim, não és gorda e sim magrinha,
magrinha. Está bem?» Pronunciou a palavra «gorda» com um prazer muito especial,
aproximando-me os dedinhos do rosto para me mostrar como sou magra.
Fitei com ar severo os seus olhos astutos, alongados como os de uma japonesa e com as
pestanas abrindo-se em leque, procurando em vão palavras ásperas. A cólera apossara-se
de mim e abafara todos os outros sentimentos. A vergonha cobrira-me o rosto de manchas
vermelhas: «Mussa, se soubesses a vontade que tenho de te bater!» Mas ela não se rendeu.
Virando-me, continuei: «Tenta compreender que estás a humilhar-te. Não terás um pingo
de amor-próprio? Não te sentes ofendida por eu não querer falar contigo? Mas não,
continuas. Vá, pára.» «Nina, porque estás tão vermelha?», gritou alguém lá de trás. Houve
quem se virasse e senti que, apesar de tudo, a vitória era da Mussa, porque eu não soubera
opor-lhe a devida resistência. Baixei a cabeça e fiquei sentada assim durante o resto da
aula, mas a Mussa depressa recobrou ânimo e começou a tagarelar alegremente com as
outras. Agora não nos falamos e odeio-a, mas não me farto de a observar e, custa-me
confessá-lo... de a invejar.
267

28 de Novembro de 1935
«A preguiça é nossa mãe e nasce antes de nós», diz o provérbio. É o segundo dia que estou
em casa. Embora se justifique, sinto que não irei à escola durante algum tempo.
Ontem muito cedo fui com a mamã à Butyrka. O dia raiava e a luz da manhã derrotava as
trevas da noite. Estranho: o sopro elusivo e apenas perceptível da manhã impregnava a
noite azul. O ar estava muito fresco e puro; pelo menos parecia, porque tinha-me
levantado há pouco tempo e sentia-me cheia de energia e alegria. Caía uma neve rala e
fina, e as pessoas azafamavam-se à minha volta.
Nota: O pai de Nina estava preso na cadeia de Butyrskaia («a Butyrka»).

Cheguei à cadeia enregelada e furiosa. Havia imensa gente. Viam-se mulheres ensonadas
sentadas nos bancos, cheias de embrulhos, pacotes, cabazes e sacos. Quase todas
mulheres, e muito diferentes umas das outras: velhas e novas, enérgicas ou empedernidas
pela dor, simples e intelectuais, muitas operárias. Todas tinham uma expressão de apatia e
dor surda.
Quanto aos presos políticos, sentem-se algumas mudanças: a Butyrka é agora a sua cadeia
e já quase não os deportam sem processo nem instrução, como há cinco anos. E usam um
tom mais cortês com as famílias.
Meu Deus! Não me apetece nada ir à escola amanhã. Vai haver Desenho Técnico e eu não
fiz nem um. Vou passar toda a noite a prepará-los e, além disso, tenho de ir buscar os
esboços a casa da Mussa. A mamã deixar-me-á ficar em casa? E se não deixasse? Estaria
bem arranjada! Mas não, vai deixar. É verdade que estou adoentada.
Já quero outra vez deixar a escola. Aqui há dias, saí a conversar com a Ju I. e disse-lhe:
«Ju I., gostava de falar consigo.» «Então vá, minha filha», respondeu-me daquela maneira
afectuosa que só ela possui, dando-me o braço. «Ju I., sei que sou uma vadia, mas quero
sair da escola outra vez. Acha que haverá admissões à faculdade operária em Janeiro?»
«Não, Nina, não. Nunca há vagas no Inverno nas faculdades operárias de bom nível.»
«Nunca?» «Nunca. Vou falar com a Cláudia Ivanovna, mas é difícil. Não é melhor
continuares na escola? Ou será que a situação económica anda mal na tua casa? Queres
dizer-me porque não tencionas estudar mais na escola?»
Eu, claro, respondi: «Veja, Ju I., estou com dezasseis anos e só tenho à minha volta
colegas de catorze.» «Que tolice! Dantes notava-se que és mais velha, mas agora isso vai-
se atenuando a cada ano que passa. E depois são poucos os que têm catorze anos. A
maioria tem quinze e em breve fará dezasseis; ou seja, a tua idade.» Não lhe respondi que,
entretanto, daqui a um mês, farei dezassete anos
268

Meu Deus! Já dezassete e ainda me sinto uma garota pequena! Que estúpida! Não vivi
nada nestes dezassete anos, não tenho absolutamente nada para recordar. Não falo só dos
sentimentos, embora seja preciso reconhecer que eles ocupam um lugar importante na vida
enquanto impulso para o estudo, o trabalho e a própria vida. Mas eu não tive amigos, não
tive alegrias.
A Eugenia e a Olga recordarão muito do seu passado: as loucas correrias nas veredas
escondidas do Parque Sokolniki, os alegres rodopios no rinque de patinagem, o voleibol,
os serões com os amigos e com os que as amavam. Daqui a três anos, a Mussa lembrará
com prazer as noitadas emocionantes, cheias de encanto e bonitos rapazes: o sucesso, os
bailes vertiginosos, a coqueteria, a graça e a vaidade.
A Nina, pelo contrário, não tem nada para recordar. Cada uma delas dirá um dia: «Sim,
vivi e nada mal!» Para mim, «houve juventude», mas estou insatisfeita com a vida, que
não apagou as esperanças de quem me enganou, e comigo mesma, que não soube apreciar
nem a vida, nem as pessoas.

12, 21 de Dezembro de 1935 [...]

24 de Dezembro de 1935
Não sei chorar, só odiar com aridez e maldade. Odeio tudo: eu própria, o mundo, quero
qualquer coisa que não pode obter-se e estou sempre insatisfeita comigo. Apetece-me
chorar, mas não sou capaz; aborreço-me, sinto-me angustiada e envergonho-me por ter
fracassado na vida. Mas Deus sabe que a culpa não é minha, não é minha. Onde posso ir
buscar inteligência e talento? Oh, se fosse inteligente, faria tantas coisas! Sinto-me muito
atraída pelo trabalho, mas falta-me a segurança. Por isso... é impossível. Quero deixar a
escola e os livros. Para que me servem agora? Há já algum tempo que me convenci de que
sou medíocre, mas não consigo habituar-me à ideia. É muito penoso. Porque desejo
apaixonadamente sensações fortes e fora do comum, neste momento iria até à depravação.
E se a mamã lesse isto? Bah! São só disparates!
Hoje estudei todo o dia, mas como no fim não aprendi nada, desanimei. Não vale a pena
estudar para ter sempre «Insuficiente». Ora, que me dêem o que quiserem! Não me
apetece fazer nada e, de qualquer forma, não conseguirei seja o que for. Se fosse um
«burro carregado de livros», como Tchekov diz em qualquer lado, ao menos teria sorte em
qualquer coisa. Mas nada, fui derrotada em todas as frentes.
Nota: A palavra nada foi sublinhada pela própria Nina.

Uma vez, o Leuvka disse: «A Nina é um bom amigo.»


269

Parece que todos dizem o mesmo. Se, ao menos, houvesse um que se apaixonasse para
satisfazer o meu amor-próprio! Depois não precisaria de mais nada. Mas, ao menos, uma
vez! Tenho dezassete anos! Estas linhas poderiam pegar fogo, de tanto que as palavras me
queimam. Oxalá pudessem contar os tormentos que se me acumulam na alma desde que
pus os pés na escola! Esta idiota que ainda anda no oitavo ano tem dezassete anos. Meu
Deus! Não, as linhas não sabem falar. A Eugenia e a Olga têm muitas visitas masculinas: o
Zhorka, o Iuri e, mais raramente, o Valia. Também não são inteligentes nem bonitas, mas
qualquer coisa devem ter. Sim, sei que é alegria. Sem dúvida que são raparigas capazes:
tocam e cantam. Não tenho sono nem me apetece estudar. Tenho uma vontade louca de
apanhar uma fúria.

29 de Dezembro de 1935
Durante dois dias não consegui forçar-me a escrever o que aconteceu a 27. Era horrível e
vergonhoso lembrar-me disso, mas voltava-me à cabeça a todo o momento. Fui tratada
com ignomínia e desprezo a Literatura e a Química Meu Deus, que vergonha!
Nota: Nina tivera «Bom» nas duas disciplinas e não «Muito Bom», como se esperava.

Não consegui olhar ninguém de frente! Parecia que todos riam de mim. O problema não é
ter respondido por forma a não obter «Muito Bom», mas sim o da minha completa
incapacidade. Como pude não saber a resposta de uma pergunta tão simples? Que desonra!
Significa que sou uma verdadeira cretina. Não, não, tenho imensa vergonha. Estou
desesperada e de cabeça perdida. Em casa, chorei lágrimas amargas e depois fui ao CKB,
mas para nada.
Nota: Provavelmente, o Hospital Clínico Central.

À noite, tinha perdido a voz.


O Iuri e o Valia vieram visitar a Eugenia e a Olga e resolveram meter-se comigo. Fiquei
tão zangada que me afastei deles e não quis falar mais. Sofri muito e senti-me irritada,
indignada até às lágrimas. Como estes dois incidentes se deram ambos no mesmo dia,
desanimei muito. Não fui à escola nem ontem nem hoje, tentei dormir todo o dia, não fiz
nada e só tinha na cabeça um pensamento, pesado como uma pedra: «Para quê ir agora à
escola e estudar?» Às vezes tinha vontade de abandonar a escola, tudo, e cheguei mesmo a
pensar em suicídio. Agora este pesadelo passou para segundo plano e trago náusea na
alma, náusea até ao horror. Não sei que fazer, não posso ler porque esqueço-me logo de
tudo. Não tenho absolutamente nenhum objectivo na vida e isso é terrível. O orgulho e o
amor-próprio não me permitem ser uma falhada, não quero resignar-me perante nada.
270

4 de Janeiro de 1936
Na noite de 1 de Janeiro e na manhã seguinte, percebi o movimento do tempo. Eis que se
escoa, enorme e implacável, lento e inflexível. Rodou outro ano e... desapareceu. Já nem
penso nele, viro-me sempre para a frente, sonho e desejo qualquer coisa outra vez e não
tenho nem uma recordação para caracterizar o ano passado. A vida foi incolor e cinzenta.
Envergonho-me tanto por estar com dezassete anos, que cheguei ao ponto de começar a
mentir e a dizer que tenho dezasseis. É a primeira vez que dou comigo a fazê-lo e parece-
me que começo a arrepender-me de ter deixado a faculdade operária no Outono, mas
agora não há remédio. Estou disposta a estudar outra vez durante um ou dois meses sem
descanso, só para sair da escola. Esta consciência da minha impotência é uma tortura
contínua. Estraguei o meu humor, mas já sou capaz de manter o meu equilíbrio sob
controlo. Agora consigo fazê-lo, estou diferente. Os amigos das minhas irmãs já não me
intimidam, não passo o tempo calada e, sobretudo, sei divertir-me, rir e brincar. Passei o
fim do ano em casa, com as minhas irmãs, e dancei e participei nos seus jogos sem ter
medo de ninguém. E sei porquê: dantes, ninguém me prestava atenção porque era
pequena, o que me atormentava imenso. Ficava logo tímida, medrosa e estúpida.
Não dizia uma única palavra porque receava que troçassem de mim. Ou então, pensava:
«E se não me ligassem nada?» Agora, devem ter decidido todos que já sou crescida e
convidam-me para dançar, conversam comigo, etc. Estive alegre, fiz macaquices e saltei.
O Kaplan não me ligou nenhuma e levei a mal: passou a noite a fazer a corte à Olga, com
ternura e de maneira explícita. Procurava-a por todo o lado e metia-lhe carinhosamente na
boca gomos de tangerina.
O Eugênio chegou quando ainda não estava ninguém. Fui abrir, convencida de que era a
mamã. Quando encontrei pela frente aquele rosto que não via há tanto tempo, como de
costume tive um baque no coração, que começou a galopar-me dentro do peito; mas a
seguir tratei-o como aos outros. O Eugênio arranjou uma iluminação extraordinária:
embrulhou as lâmpadas em papel colorido e ficou tudo muito bonito e festivo. Lembro-me
que à mesa houve animação e gargalhadas; a Nina P. começou a distribuir beijos e toda a
gente riu, soltando exclamações.
Foi fascinante: a Nina bebia muito e namoriscava com o Andrei, que é um tanto esquisito
e repelente. Está sempre calado, respira pelo nariz comprido e solta risadinhas sinistras.
Incomodou toda a gente e portou-se como um dedo espetado num olho. Mas escapava
muitas vezes para outro quarto com a Nina, talvez para a beijar ou tentar abraçar. Um
porco incrível! Tenta sempre tocar e roçar. Só tem uma coisa bela: os olhos, grandes, azuis
e muito claros.
271

10 de Janeiro de 1936
Amanhã devo ir à escola, mas como não peguei num livro durante as férias e nem pensei
no assunto, tenho a impressão de que acabei há muito tempo e para sempre. Não me
apetece ver ninguém, nem sequer a Mussa e a Ira, que são como estranhas. Nem me dá
para pensar nelas; tenho o coração muito duro, sou pouco sensível por natureza e esqueço
os amigos demasiado depressa. Ou então não existiam laços entre nós nem qualquer
interesse comum a não ser os rapazes, dos quais me ocupava só porque era o que lhes
despertava a atenção.
As minhas emoções e o meu «eu» absorveram todos os meus pensamentos e sentimentos e
esqueci-me do que me rodeia, limitando-me a observar tudo através do prisma das minhas
emoções. Habituada a uma severa planificação dos meus dias e das minhas ocupações,
perco-me sempre na presença de mudanças inesperadas; por isso, as férias passaram
inadvertidamente, esfumaram-se, deixando-me uma sensação de insatisfação com tanta
frivolidade e futilidade.
Há uns dias, fui ao neuropatologista, que me examinou com todo o rigor (dado que era
uma consulta paga). Claro que não encontrou nada de especial e receitou-me dois
medicamentos e emplastros. Posso curar-me, mas não espero tirar disso nenhuma alegria.
Hoje fui ao Instituto Têxtil inscrever-me, em segredo, na faculdade operária. Aprendi com
as amargas experiências que tive e, portanto, até ao último momento não falarei destas
tentativas a ninguém. Ontem surripiei às minhas irmãs o guia universitário e escondi-o.
Hoje a tarde, aproximei-me do palacete onde funciona o instituto com o coração nas mãos;
até já ia a pensar no que havia de fazer se encontrasse algum dos seus conhecidos.
No interior do instituto, o vaivém de estudantes era constante: uns acabavam de chegar e
despiam os casacos, enquanto outros voltavam a vesti-los para se irem embora. A uma
determinada altura, pareceu-me ver o Iuri a chegar; como não sabia onde havia de
esconder-me, comecei a vaguear, entrei na parte do edifício onde funcionam os cursos
didácticos e perguntei a uma funcionária onde se encontrava a secretaria da faculdade
operária. «A faculdade operária não é aqui. Fica noutro edifício.» «Pode dizer-me onde?»
«Ali, atravesse a rua, é na Donskaia, número 51.»
O coração acelerou-se-me dentro do peito: «O quê? 51? Quer dizer, com a Eugenia e a
Olga?» Era mesmo uma sorte. Vim para casa convencida de que vão aceitar-me, porque
me disseram para voltar a passar lá daqui a uns dias. Nas outras faculdades operárias
responderam-me logo que não. Agora, nem a escola me mete medo. Voltarei à faculdade
operária a 13 de Janeiro e saberei tudo de uma vez por todas. Entretanto, viverei de
esperanças.
272

11 de Janeiro de 1936
O meu pai está preso há uns meses. É estranho, mas já nenhuma de nós se perturba ou se
horroriza e falamos do facto com tranquilidade, como de uma coisa normal. As
investigações acabaram há pouco e a mamã pediu autorização para lhe fazer uma visita.
Marcaram-na para hoje. Já o mês passado fez o mesmo para ela e para mim. Hoje fomos
buscar a autorização à Lubianka 1 e faltei à escola.
Nota: O edifício que alberga os serviços secretos políticos (1917-1922: VCK; 1922-1934:
GPU; 1934-1954: NKVD; 1954-1991: KGB; desde 1991: FSB) encontra-se na Praça
Lubianka. Na parte de trás do palacete situa-se a tristemente célebre cadeia de Lubianka;
diz-se que a sua parte subterrânea (dez pisos ou talvez mais) ocupa todo o espaço da
gigantesca praça. Era aqui que se fuzilavam os «inimigos do povo» e onde devem
encontrar-se as valas comuns das vítimas do regime. O acesso a esta zona ainda é vigiado
e proibido.

Hesitei muito, sem saber se havia de ir à escola ou visitar o papá. Não me apetecia perder
o primeiro dia, mas como não ir vê-lo? Mais tarde, percebi com desagrado que o meu
desejo de o visitar tinha muito a ver com a minha terrível vaidade. Pensei muitas vezes
que, se não fosse, o papá me chamaria egoísta, e que, no caso contrário, ficaria muito
satisfeito com aquela filha que o amava. Sem querer. talvez também pensasse: «E as mais
velhas não vieram!» Queria mesmo isso (que se estabelecessem diferenças) e pensava
mais na satisfação da minha vaidade do que no prazer que daria ao papá.
Deram-nos a autorização, mas só para a mamã. De repente, senti-me ofendida até às
lágrimas e rangi os dentes para não desatar a chorar. Tinha mesmo vontade de ver o papá?
É muito possível. Mesmo assim, naquele momento não pude deixar de pensar em fazer
qualquer gesto ou dizer qualquer coisa que desse nas vistas, por forma a que as pessoas à
minha volta reparassem em mim e pensassem: «Que excelente filha!»
Insultei-me logo a mim própria por ter semelhante pensamento e saí furiosa como um
demónio. Tinha os olhos marejados de lágrimas de desdém e apetecia-me gritar ou fazer
qualquer coisa que os ofendesse, como rasgar a autorização ou atirá-la à cara deles.
Patifes! Mas não fiz nada, não tive uma crise de histerismo e nem sequer chorei. Em vez
disso, segui caminhando calmamente, pensando que não estava nada preocupada por não
ir ver o papá, mas sim por aqueles canalhas sentados no poder não terem a mínima
consideração por nós.
Sofria por orgulho, por amor-próprio e... é tudo! Parecia-me que a minha raiva
extravasava e me afogava no seu fel. Odiava toda a gente! Quem quer que encontrasse na
rua! Observava os transeuntes com um olhar sorumbático e furioso, carregando o cenho.
Ao mesmo tempo, convencida de que todos me prestavam atenção, ia pensando no
sentimento que o meu aspecto despertava nas pessoas.
273

Hoje, o dia esteve esplêndido. O Sol dourado, brilhante e claro cobria tudo de luz. Um
fumo ligeiro e claro velava o céu e havia no ar uma névoa muito transparente. O céu de
um azul desbotado espreitava por entre raras nuvens brancas e pequenos flocos de neve
iam caindo na terra muito devagar. O ar cintilava e reluzia numa teia dourada de raios.
Nestes dias, tenho lido algumas coisas sobre Tolstoi e, sem querer, vejo-me de novo
influenciada pelo seu pensamento. Sempre tive a paixão pelo perfeccionismo; agora, de
repente, vieram juntar-se-lhe uma autocrítica clara, uma auto-revelação calma e
desapiedada e a cruel sinceridade tolstoiana. Aperfeiçoa-te, minha amiga! Veremos o que
será de ti.
Mas tenho de reconhecer que cada vez encontro mais coisas em comum com Tolstoi: a
mesma figura desgraçada, por causa da qual sofreu tanto na juventude e na infância, uma
auto-análise precoce, o orgulho desmesurado e até a vaidade, esta eterna procura de
qualquer coisa e a incapacidade de encontrar paz. Às vezes vejo nele palavras que podiam
ter sido ditas por mim, ou porque somos mesmo parecidos, ou porque é precisamente aqui
que se manifesta a extraordinária genialidade de Tolstoi, que captou com tanta fidelidade
os movimentos da alma.
13 de Janeiro de 1936
Sempre tive sobressaltos de humor de todos os tipos, incríveis, mas nunca assim. Estamos
no terceiro trimestre. Foi o primeiro dia de escola e sinto-me de péssimo humor, como se
andasse há dois meses a estudar sem tréguas. É como se não tivesse descansado. Aqui há
tempos, sentia-me cheia de forças; depois das férias, ia à escola com uma certa esperança
e tinha desejos, mas agora... angústia.
Hoje, nas aulas, ri-me, fiz de parva e não me esforcei nada, porque sei que sou idiota. Em
casa, é tudo tão penoso que dá vontade de chorar. Fui à faculdade operária, mas não
encontrei o director; enquanto esperava por ele, fui assaltada pela hesitação. Vinham-me à
cabeça toda a espécie de dúvidas velhacas e pusilânimes e não conseguia entender qual
seria o mal menor. Não consegui encontrá-lo.
E continuei a perguntar-me: «Será cómodo para ti ter aulas à noite? Estarás sozinha entre
gentalha que rirá e troçará de ti. Só terás à tua volta uma quantidade de mal-encarados,
sentar-te-ás sozinha a um canto, olhando de esguelha, desconfiada e atemorizada, sentindo
que em todos aqueles corações bate o escárnio e a hostilidade.» Meu Deus, as coisas que
inventa a minha imaginação fértil! Os castelos que constrói no ar e os poços escuros para
onde me atira!
274

Esperei uma hora, mas o director não chegou. Atormentada, sem paz, regressei a casa.
Vim todo o caminho com a alma assaltada por estas dúvidas. E em casa... bati e ouvi
passos masculinos atrás da porta. Quem abriu foi o Eugênio, que se afastou para o lado
com a sua característica agilidade e perguntou: «De onde vem?» «Hã... de casa de uma
amiga.» Fiquei um bocadinho confusa com a surpresa, mas depois passei o resto do tempo
a dar em doida. Não por causa dele, claro, mas devido à minha solidão... Não, não quero,
não quero mais sofrer por despeito! P’ró diabo! Não o farei. Esfregarei na cara de todos
que sou feliz.

14 de Janeiro de 1936
Amanhã vou à faculdade operária. Aceitar-me-ão ou não? Provavelmente, não. Bem,
veremos. Sinto uma tal repulsa pelas aulas que já nem consigo fazer nada. Estou uma
indisciplinada. A constância, a força de vontade, a racionalidade nas acções e todos os
meus lados positivos desapareceram. Estou insuportavelmente impulsiva e não tenho um
pingo de perseverança. É tudo mole como papa, não acabo nada.
Amanhã vou à faculdade operária. A escola não é lugar para uma rapariga de dezassete
anos. A Mussa e a Ira, de quem gosto mas que não respeito, não me satisfazem nem
preenchem o vazio interior que sentem os adolescentes ainda quase virgens de vida. Hoje
dormi muito, não fui à escola e, tal como durante as férias, senti uma tranquilidade
despreocupada e não notei a habitual inquietude na alma.
Não há nada mais horrível do que um pensamento ou um sentimento que não nos largam;
assaltam-nos e oprimem-nos dia e noite e, embora possam ser mesquinhos e
insignificantes, tornam-se um tormento com o passar do tempo. Não é por acaso que se diz
que uma das torturas mais horríveis é a água caindo gota a gota, sem parar, no mesmo
ponto da cabeça. Estranho suplício, que ao princípio parece ridículo, quase agradável, mas
que passadas algumas horas se transforma num pesadelo. Parece que se vai ganhando a
impressão de um martelo a bater na testa e cada contacto ecoa no cérebro e em todo
o corpo.

15 de Janeiro de 1936 [...]

17 de Janeiro de 1936
Parece que a hipótese da faculdade operária foi um fiasco. Disseram-me para passar lá no
dia 25. Embora continue a alimentar algumas esperanças, sinto na alma que não vai dar
em nada. Sossego-me
275

e digo de mim para comigo: «Não faz mal, Nina. Só vais à escola mais cinco dias. Depois,
passarás para a faculdade operária.» Nisto, um pensamento mau insinua-se de longe: «Pois
sim, vais ver se te aceitam.» Quando me dizem «Volte daqui a uns dias, mas não posso
prometer nada», quer dizer que as coisas vão mal. Mesmo assim, tenho esperança e não
vou à escola.
É estranho: a mamã não me proíbe de ficar em casa, como se compreendesse o meu estado
e estivesse de acordo comigo. Mas não pode ser. Será que anda tão atarefada que decidiu
deixar-nos à solta? Não, também não. Se calhar, sabe que eu tenho as minhas razões e
tenta não se intrometer, porque tem confiança em mim. Meu Deus! Coitada da mamã!
Tenho tanta pena dela e odeio tanto os que a fazem sofrer! Às vezes apetece-me tanto
ajudá-la!
Tenho sempre a sensação de que vai acontecer qualquer coisa de inesperado e que tudo
mudará. Mas não se passa nada. E ela está velha, doente e apática, tanto em relação a nós
como ao papá. Parece um cavalo de tiro que se cansou muito e que agora caminha todo o
dia por inércia, transportando pesos, embora já não tenha forças, e suportando que lhe
batam com docilidade e paciência.
A mamã sabe qual é o seu dever. Cumpri-lo-á até perder as forças por completo, até
morrer, enquanto o seu «eu» e todas as outras preocupações permanecem em segundo
plano. Se tiver tempo para escutar o seu «eu» e para se preocupar com outras coisas, fá-lo-
á: se não, tentará pôr tudo de lado com serenidade e espírito de sacrifício. A minha mamã
é a mãe ideal. Nunca vi mãe assim, excepto a avó.
Dedicou a vida toda a nós. Para ela, ter filhos era o mais importante, porque isso
significava perder-se, renunciar a si própria e viver só para eles. De momento, não se
preocupa nada com a saúde, fala serenamente da morte como de uma libertação e não
tenta melhorar a sua vida, porque sabe que cada hora de descanso é um copeque a menos
para nós.
Não sabia que as pessoas podem trabalhar de uma maneira tão alucinante: de manhã à
noite, de manhã à noite todos os dias, sem repouso, sem alegrias. E as filhas, às quais se
dedicou de alma e coração, pelas quais abafou a própria existência, caminham de nariz no
ar e recusam-se a ver o que quer que seja, além das suas pequenas, ignóbeis vidas. A mais
nova, sobretudo, imagina que não nasceu por acaso, que é dotada de um talento
extraordinário e que, portanto, é uma pena perder tempo com miudezas como os afazeres
domésticos, como uma pequena ajuda à mamã, quanto mais não seja para a consolar. As
filhas não se dão ao trabalho de remendar nem lavar a roupa e andam como mendigas,
sujas e desarranjadas. Três egoístas sem alma, que não amam a própria mãe. Mas vejamos
a sua alma. Meu Deus! O que ali vai de ideias elevadas e maravilhosas, pensamentos
276

e projectos! Que abnegação e heroísmo quando, deitando-se cómodamente na cama macia,


sonham com o futuro!
Entretanto, o papá está preso na Butyrka. Está preso com o seu ódio selvagem e
impotente, a sua vitalidade, talento e olhos doentes. Hoje fui à Cruz Vermelha Política
apresentar uma petição.
Nota: A Cruz Vermelha Política entrou em funcionamento depois da revolução de
Fevereiro de 1917, sob a presidência da lendária revolucionária Vera Figner. Na Primavera
de 1918, o Governo bolchevique reconheceu oficialmente esta organização, cujo objectivo
principal era a ajuda aos detidos a nível jurídico, material e médico, sobretudo através da
apresentação de petições em prol do melhoramento das condições de detenção, do pedido
de redução da pena dos condenados, da assistência de advogados no decurso das
averiguações preliminares e dos processos, do fornecimento de alimentos, medicamentos,
roupa, jornais e livros. Em 1922, a direcção passou para E. P. Peshkova, primeira mulher
de Máximo Gorki que, de início, obteve também autorização para visitar as prisões e os
outros lugares de reclusão. Nos primeiros anos da década de 30, foram encerradas todas as
filiais da URSS, permanecendo em funções apenas a velha sede central de Moscovo,
provavelmente graças aos laços estreitos que ligavam Ekaterina Peshkova a alguns
expoentes do círculo estalinista. Em 1936, com a chegada de Ezhov ao Comissariado do
Povo para os Assuntos Internos, as suas actividades sofreram uma redução drástica.

Curiosa instituição, que faz tanta propaganda e não mexe uma palha.
Escutei o que diziam as pessoas à minha volta, que tentam há vários anos sem conseguir
nada. Há muita gente e aquele sítio até enoja, parece um buraco. Dão informações
escassas e dizem: «Tentaremos, mas vai ser difícil.» Que resposta digna!
Não ando a estudar nada, mas amanhã tem de ser, porque vou à escola no dia 19. Já não
quero ser inteligente e séria nem fazer nada. Dançarei o tempo todo, farei parvoíces,
divertir-me-ei e sentir-me-ei viva. De repente, compreendi que só se é jovem uma vez e
que tenho de aproveitar, porque nunca mais terei esta possibilidade. Eu quero viver!
De repente, dei-me conta de que já tenho dezassete anos e de que este é o melhor período
da existência (segundo dizem).
Nota: Sublinhado por Nina.

Por mim, ando meia a dormir, como se tivesse trinta, e as alegrias passam por mim mas
não param. Contas feitas, não me restará na vida nem uma recordação, nem uma imagem
feliz e emocionante. E a vida sem um único minuto de felicidade não é vida.
Quero amar; enganar-me, mas amar. A velhice sem amor é um pesadelo. Dou-me conta,
com horror, de que arrasto uma existência penosa e penso logo: «Não faz mal, ainda há
tempo para remediar tudo.» Daqui a dez anos, sentirei calafrios, arrepender-me-ei e
soltarei imprecações por não ter encontrado nada na vida, mas nessa altura já não haverá
nada a esperar.
277

21 de Janeiro de 1936
Quero convencer-me a deixar de estudar, porque sou uma tola que, de qualquer forma,
nunca será ninguém. Mas não posso: os livros e a sabedoria continuam a atrair-me. Não
consigo ler, porque tenho imensas coisas para fazer, incluindo as aulas. É a vida! Estou de
bom humor, mas tenho sono.

22 de Janeiro de 1936 [...]

30 de Janeiro de 1936
Maldição! Não queria escrever sobre os meus insucessos, porque até tenho vergonha de
pensar neles. Sempre acreditei que, no fim, a minha ideia tivesse êxito, mas agora... De
novo o desconforto e a melancolia. Na minha vida, nunca se realizou um desejo, nem um!
Estou cansada, farta e não quero continuar a ser uma falhada. Não quero! Envergonho-me
pelo meu mau humor e pelos meus fracassos. Na verdade, não tenho culpa! Sorte
malvada! Ou, se calhar, sou eu que não sei fazer nada.
Recusaram-me em todo o lado: na faculdade operária de Arquitectura, no MTI e nos
outros cursos preparatórios; parecia que tinham combinado.
Nota: Moskovski Tekstilny Institut: Instituto Têxtil de Moscovo.

E eis-me de novo na escola. Tédio... e angústia! Quando penso que já tenho dezassete anos
e que a minha vida é incolor e cinzenta, sinto muito medo. Na verdade, chorarei muito
estes anos desperdiçados de maneira tão insípida.
Na escola, ando direitinha e não respiro. Seja pela minha superficialidade, seja pela dos
meus amigos, o certo é que quase enlouqueço. Aliás, estou muito sentida. Não fui à escola
nos últimos seis dias; ao princípio estava doente e depois, confesso, fui mandriona. Mas
nenhuma delas veio ver-me. Ninguém! [...]
Outro insucesso. Ah, se estas máculas desaparecessem ou se conseguisse vencê-las! Mas
como? Bato sempre no mesmo ponto, no facto de ter perdido as minhas capacidades; perdi
a memória, mas o amor-próprio duplicou. Tenho muitas saudades da Primavera, acho que
nunca a desejei tanto. Sei que uma e outra vez... serei feliz quando vir a vegetação e sentir
aquele sopro indescritível que tanto amo. Porque a amo e a quero agora? Fico com o
estômago embrulhado só de pensar nas aulas, mas não tenciono render-me. Tenho de obter
aquilo que quero. Mas como hei-de fazer? Choco em todo o lado com o tom frio e oficial
dos directores, com os quais não consigo falar como se fala com os outros seres humanos,
e tenho vergonha de o pedir à mamã, que o ano passado acabou por se ver numa situação
muito embaraçosa por minha culpa. Senhor! Ajuda-me!
278

31 de Janeiro de 1936
Oblomovismo! Hoje, às seis e meia, a mamã acordou-me. Ainda antes de eu perceber que
tinha de me levantar e ir para a escola e que não tinha vontade nenhuma de o fazer, disse:
«Está um frio de morrer, Nina. Vinte e cinco graus negativos! Nem sei se te diga para
saíres.» Fiquei calada, mas também comecei a duvidar: ir ou não? Quanto mais reflectia,
mais me apetecia dormir. A preguiça espreitava: «Não sei, mamã», respondi, tentando não
pensar na minha horrível falta de força de vontade.
Saindo do quarto, a mamã vira-se para mim e pergunta: «Apago a luz ou não?» Medito
por alguns instantes, desisto e viro-me para o outro lado: «Apaga.» Mas não consigo
dormir e penso: «Ei, tu, Oblomov, que vergonha!» Mas permaneço deitada recordando a
tranquila aldeia de Oblomovka e o pequeno Iliusha, que a mãe deixa em casa ao primeiro
pretexto, para que durma mais e não enregele lá fora.
Nota: Oblomovka era a propriedade do personagem principal de Oblomov, que se
chamava Iliusha (diminutivo de Ilia).

Pois sim, mas o Iliusha não sabia o mal que a mãe estava a fazer-lhe e, portanto, não teve
culpa do que depois lhe aconteceu. Eu, pelo contrário, já tenho dezassete anos, percebo
muito bem que isto não pode ser e, no entanto, insisto em prejudicar-me. Oblomovismo e
falta de força de vontade. E como não percebe a mamã que está a fazer de mim um
farrapo? Ou melhor: que já sou um farrapo? Ela não tem nada a ver com o Oblomov, mas
eu, tal como ele, aconchego-me nos cobertores e começo a imaginar o idílio da minha vida
futura.
Não durmo, mas deixo-me transportar de tal maneira que, às vezes, parece-me sonhar.
Uma aldeia belíssima e um jovial grupo de jovens, todos divertindo-se muito; eu também
estou alegre, emocionada e feliz. Às vezes, imagino coisas tão inverosímeis e estúpidas
que, passada uma hora, tenho vergonha de pensar nelas, mas quando as crio parecem-me
verdadeiras e fascinantes.
Assim, estou na cama até às nove. Começa a clarear e os reflexos das luzes na minha
parede estão a empalidecer. Dói-me a nuca, porque estou deitada e tenho vontade de
dormir, mas não de me separar do sonho. Em todo o caso, adormeço na mesma, acordo às
onze e fico deitada, sonhando de olhos abertos até às três. Esta agora!
Quando por fim me levantei, o fascínio do sonho já se ofuscara, se perdera e começava a
parecer-me uma fraqueza imperdoável e estúpida. Perfilam-se (de novo) fantasias e de
novo aspirações ambiciosas. Quanto a estudar, diacho!, ainda não me apetece. São cinco
horas, acabei de me levantar e não terei tempo para fazer nada, porque vem cá hoje o Iuri
T. (o namorado da Eugenia). As minhas irmãs chegam
279

amanhã e ele quer redecorar-lhes o quarto. Pois que o faça: «que a criança se divirta com o
que quiser, desde que não chore».

5 de Fevereiro de 1936 [...]


11 de Fevereiro de 1936
Sou muito má; é possível que haja maldade em quase todos os meus sentimentos, e choro
de raiva e ódio.
Não escrevo nada da faculdade operária, mas isso não significa que não pense nela. Preto
no branco, estou na faculdade operária. De certeza que não conseguirei fazer nada e que
vou queixar-me, mas não de mim, claro. Não teimei em ir a todas as faculdades operárias
e a todos os cursos possíveis? Fui seis vezes seguidas ao MTI e quase me recusaram, tal
como no Instituto de Arquitectura e nos seus cursos preparatórios. Que restava então?
Por qualquer razão, veio-me à cabeça a ideia do Instituto de Agricultura. Às tantas, é
mesmo esta a minha vocação, mas fica no fim do mundo, onde Judas perdeu as botas, no
Parque Petrovski (o que é a mesma coisa), e ir até lá... que prazer! No entanto, até a isso
estou disposta. Hoje, depois de alguns minutos de completo desespero, decidi falar com a
mamã, a ver se este assunto fica arrumado a 13. Peço-lhe a ela para ir falar à faculdade
operária de Arquitectura e eu vou a correr para o Instituto de Agricultura.
Para dizer a verdade, não me apetece nada ir à escola a 13 de Fevereiro, porque vou ser
chamada a Geografia. Como é uma matéria que não sei nem nunca saberei, vou fazer outra
vez má figura. Que humilhação! Tentarei marcar com a mamã para o dia 13. Quero muito
acreditar que vai dar tudo certo e até estou confiante, mas as minhas esperanças caem por
terra logo que penso melhor. Invadem-me a alma a agitação e o desassossego típicos dos
momentos em que me sinto encurralada. Sei que existia uma saída, mas não soube
encontrá-la a tempo e agora é tarde. Decerto que é tarde.
Uma vez começado o segundo semestre, já saberia tudo há algum tempo se não fosse a
Eugenia. Desgraçada!
Tinha-lhe dado o atestado, pedindo-lhe que perguntasse na faculdade operária se me
aceitariam ou não. Pensava que seria melhor se fosse ela, mas, com a sua habitual
frivolidade, não conseguiu encontrar nem falar com o director durante seis dias (quando
penso nisso, odeio-a). Hoje, quando lhe critiquei a falta de atenção, zangou-se de repente
(como se fosse ela a parte ofendida) e chamou-me fedorenta. Isso não! Esta não lhe
perdoo, Eugenia Sergeievna! Não se pode ser insensível e egoísta a este ponto.
E assim se passaram em vão vários dias preciosos. É horrível pensar que esta minha
iniciativa não terá êxito. De resto, parece-me que a
280

minha paciência vai acabar por se esgotar. Meu Deus, que vontade de trocar esta escola
malcheirosa como um pântano por outra coisa, qualquer coisa, é-me indiferente. Apetece-
me chorar de raiva e desespero.
A Eugenia e a Olga são pessoas estranhas. Nunca encontrei ninguém tão obtuso e
superficial (para já não falar do seu limitado desenvolvimento mental). Não consigo
compreender como podem faltar à palavra dada e cometer semelhantes indelicadezas de
um modo geral. Fazem-no não por estupidez, mas por frivolidade, uma frivolidade que
não as deixa reflectir sobre a vida.
Parece que a existência as protege e acarinha, que tudo lhes sai bem. Esvoaçam como
borboletas e não pensam em nada. Pois que esvoacem até queimarem as asinhas!

16 de Março de 1936
Meu querido amigo!
Nota: Aqui, Nina já não se dirige aos presumíveis leitores (ver nota da p. 72), mas sim ao
diário, exactamente como fez Anne Frank ao escrever «Querida Kitty».

Há algum tempo que não te falo nem divido contigo as minhas amarguras. Pensas que isso
acontece porque ando a divertir-me e te acho aborrecido? Oh, não! Continuo infeliz como
dantes e, à imagem do passado, não tenho ninguém. Compreendes? Ninguém com quem
possa falar a não ser contigo. Sim, sei, já sei que estás espantado e perguntas porque não
recorri então a ti, já que és o meu único amigo. É muito difícil responder a isso. Há muitas
razões; só não sei se vais considerá-las válidas. Bem, mas é igual: estou habituada a
contar-te tudo.
Se bem te lembras, da última vez falámos da faculdade operária. Na altura, embora
também me atormentasse muito, a ideia obcecava-me e inspirava-me, anunciando coisas
que eu nem sequer conseguia imaginar. Era uma esperança pela qual valia a pena viver e
trabalhar. Agora, descambou em definitivo. Não interessa o que aconteceu nem por quanto
tempo ainda me torturou. O importante é que cheguei outra vez ao fundo de um horrível
poço escuro.
Estou farta de ser infeliz e uma falhada e foi por isso que nem a ti disse nada. Estou farta
de me lamentar contigo e até perante ti tenho vergonha desta vida, na qual nunca houve
senão fracassos. Esperei durante este tempo todo que, de repente, acontecesse alguma
coisa que me animasse e me fizesse rir e brincar como os outros, mas...
Lembras-te? Houve uma altura em que quase não ia à escola. Quando a história da
faculdade operária foi por água abaixo, disse para mim: «Bem, Nina, agora atira-te aos
livros. Já chega de preguiça por este ano. É tempo de trabalhar.» Foi o que fiz. Na
verdade, sabes que sou capaz, sobretudo quando estou motivada. Tinha de novo um
objectivo; de resto, quem está a afogar-se agarra-se até a uma palhinha.
281

Decidi (e tenho vergonha de falar nisso) tentar matricular-me outra vez na faculdade
operária no Verão. Apesar de tudo, a minha obstinação é louvável, embora eu seja muito
ridícula. Preciso que me felicitem e tentarei que assim seja.
Passo agora ao meu estado. Voltei à escola e os primeiros dias até foram agradáveis,
porque tinha saudades das pessoas. Nisto, comecei a reparar que já não tinha ao lado as
minhas velhas amigas Ira e Mussa, mas sim pessoas estranhas e incompreensíveis. De
repente, tornara-me insignificante, tinham-me esquecido. Duvidei, esperei, zanguei-me e
atormentei-me.
A Mussa, que é insuportável com os seus caprichos, afeiçoara-se a outras raparigas.
Sempre fui tão segura de mim e do seu afecto que fiquei passada. Continuávamos sentadas
ao lado uma da outra nas aulas e ela parecia continuar carinhosa e alegre, mas, ao mesmo
tempo, era diferente. Já não me dizia nada, nunca tinha um gesto mais caloroso e fugia
sempre de mim durante os intervalos. Meu Deus, os intervalos eram um tormento! Até
soluçava de raiva.
Estava só e ninguém do nosso grupo reparava em mim. Às vezes, aproximava-me, mas
quase sempre saía do átrio, porque não estou para mendigar atenções. Não, se calhar não
compreendes isto. Sinto o coração despedaçado ao lembrar-me de como era dantes. Agora,
aos intervalos, sinto que preferem qualquer um que não seja eu. Pensei muito nas razões
deste arrefecimento. A Mussa já não gosta de mim. E a Ira? É verdade que não gosto
muito dela, mas irrita-me a sua táctica. Quando estamos sozinhas, entra logo em
confidências, mas na presença dos outros faz de conta que não me vê. Já não lhe sirvo para
nada porque estou mais estúpida.
Por isso, sinto-me estranha na escola, onde nem sequer existe uma intimidade aparente. Às
vezes tenho vontade de combater e conquistar a Mussa de novo, mas isso significa adulá-
la e humilhar-me um pouco perante ela, ir a sua casa e suportar aquela companhia
licenciosa... Não, obrigada... É incrível: não gosto deles nem nenhum deles me atrai, mas
sinto uma vergonha terrível pelo meu estado de humilhação. Esta nova desgraça abateu-
me. Sinto-me enervada e já chorei muitas vezes, mas quantas mais são as desgraças, mais
me obstino em vencê-las! E luto.
Perdoa-me, mas este mês traí-te em pensamento. Foi talvez por isso que escrevi, mas a
pensar num amigo verdadeiro, de carne e osso, capaz de ver e ouvir! É que tu nunca me
respondes nada.
Fomos ver o meu querido papá aqui há pouco tempo. Deixou crescer a barba e parece um
padre. Vai partir em breve para Alma-Ata’.
Nota: Alma-Ata («Pai das Maçãs») era, nos anos 30, um conhecido local de exílio. Sergei
Fedorovitch Rybin foi condenado a três anos de exílio no Cazaquistão.
282

Agora gosto dele, A cadeia, os detidos, um grande pátio, passagens estreitas, uma
janelinha e o rosto do papá, soluços, gritos, histerismos: é tudo como um sonho, como
uma cena no cinematógrafo.
Preparo-me para partir rumo a Alma-Ata. Sonho com isso como com a faculdade operária.
Irei para esta remota terra asiática, passearei nas montanhas, comerei maçãs e talvez,
durante pelo menos algum tempo, fuja de mim mesma. Alma-Ata! Pai das Maçãs! Oh,
como deves ser bela! Não, não irei. Não está nas minhas mãos.

23 de Março de 1936
Começaram as férias. São só cinco dias, mas sempre descanso. E estou exausta. Sinto pela
primeira vez na vida que ando mesmo cansada. Dói-me a cabeça, passo a vida com sono e
tenho uma série de sintomas de fadiga geral. E só cinco dias para descansar! Vou ter
imensas aulas no quarto trimestre. Tenho de me encher de paciência. Ainda dois meses e
meio de aulas. É tanto! Os exames... Que castigo!
Lá fora é Primavera, a minha décima sétima Primavera. E tenho nas costas estes dezassete
anos! Meu Deus! O que já vivi e como vivi mal em dezassete anos! Passo muito tempo
absorta nas minhas lembranças, o que costuma ser sinal de velhice. Se não tenho nada nem
no presente, nem no futuro! Diacho! Tirei muito pouco destes dezassete anos. Podia ser
culta e inteligente e sou uma tola. Que coisa! A partir de uma certa altura, deixei de
progredir. E, assim, ou não passo da cepa torta ou, pior ainda, estou como o caranguejo.
Nada de cartas do papá. É estranho. Espero-as todos os dias. Que lhe terá acontecido?
Não, não, não pode ser nada terrível. Porque me vem à cabeça todo o tipo de parvoíces...
11 de Abril de 1936
Sem dúvida que nos habituamos a tudo neste mundo: é o único dom justo da natureza. Já
estou habituada a tudo, o que é um bem, mas de vez em quando indigno-me. É possível
que a capacidade de resignação e habituação seja um fenómeno usual nos medíocres, mas
também é a sorte da mediocridade.
Hoje resolvi passar por casa da Ira, onde estava um rapaz chamado Mitia, do nono ano,
parvo e oco como os outros, e a Mussa, bonita e desenfreada até à devassidão. E hoje
decidi também que é melhor a solidão completa do que uma companhia do género. Não,
não consigo forçar-me a baixar-me tanto, por muito que isso também tenha os seus
aspectos positivos.
Agora compreendi muitas coisas de maneira incontornável, sem lugar para dúvidas. Sou
uma mediocridade absoluta. Por isso, não
283

posso ir para nenhuma MGU.


Nota: Moskovski Gossudarstvenni Universitet: Universidade Estatal de Moscovo.

Seria estúpido. Posso tentar a sorte no campo da arte figurativa, onde, com paciência,
ainda se pode fazer alguma coisa. Considerando tudo com realismo, como deve ser, sou
uma mediocridade.

21 de Maio de 1936
Enésimo ataque de loucura. Chegou há algumas horas e martela-me e fustiga-me como
quer. Assim, sem aviso prévio, fiquei com os nervos à flor da pele. Até andava bem e a
estudar muito, muitíssimo. Este mês passou como todos os outros. É tudo tão igual que
não há nada que contar, a não ser talvez que as relações com as minhas amigas estão um
tanto mais fáceis. Nalguns casos, a Mussa foi a primeira a invocar a nossa amizade, o que
é bom sinal. No que me diz respeito, nunca lhe perguntei nada a propósito dos seus laços
com a T. e os outros e muito menos a censurei por ser fria. É a única maneira que tenho de
lutar: mostro-me indiferente, tranquila e independente. Sei que funciona.
Jurei a mim própria não escrever no diário sob a influência das minhas emoções. Não
quero fazê-lo. Se não escrevo nada, é porque corre tudo como de costume. Os exames
começam a 25. Meu Deus! Dá-me forças para sobreviver até ao dia 17 e para passar nos
exames. Uma vez livre deles, poderei descansar, descansar sem fim. Quero tirar disto o
máximo de prazer para sobreviver nestes dias. Enquanto estive distraída a desenhar um
mapa, não me veio à cabeça nenhuma parvoíce, mas agora que já acabei fui assaltada por
todo o tipo de pensamentos desagradáveis.

23 de Maio de 1936
Oh, como me entusiasma saber que em breve estarei livre, que o Verão será todo meu, o
tempo todo meu e que poderei fazer o que me der na gana! Mas é assim: neste momento
não posso pensar no Verão, olhar à minha volta ou contemplar a natureza. Basta reparar só
uma vez como é maravilhosa para que a paz se estilhace.
Todavia, deixei de amar a natureza. A sua beleza já não me comove nem inquieta como
dantes. Deixei até de a sentir, de certo modo fiquei insensível, morreu-me qualquer coisa
na alma. Mas não, esta qualquer coisa despertará de novo mal eu veja uma mata, um
campo, e passeie na sombra densa do bosque de bétulas ou debaixo das abóbadas escuras
de um carvalhal. Nessa altura, o encanto da natureza voltará. Como os campos devem
estar maravilhosos! Tanta erva, tantas flores!
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Maio, Maio! És o mais belo de todos os meses. Como o ar se perfuma com cada folhinha
que desponta, com cada raminho que nasce, como o céu é claro e fresco, que vegetação,
que noites amenas e calmas! Em breve, escaparei pelo menos três dias para o campo, no
início de Junho. Hei-de apodrecer nesta horrível cidade de Moscovo? Oh, tenho de
aproveitar este Verão como nunca! Sinto em mim uma tal sede de vida, de prazeres... Digo
tantos disparates! Não me parece que queira assim tanto sair de Moscovo como dou a
entender. Vai dar ao mesmo. É que neste momento estou muito bem-disposta.

1 de Junho de 1936
Bem, pronto. Tive «Suficiente» em Álgebra e andei em baixo durante dois dias por causa
disso. Apetecia-me chorar continuamente de raiva e indignação contra mim própria. Era
noite quando me deu vontade de acabar com a vida, mas já passou. No entanto, continuo
sem saber em absoluto o que hei-de fazer de mim e da minha existência. O tempo está
esplêndido. Apetece-me ir para o campo e até tremo ao pensar que ainda tenho de estudar
durante dezassete dias.

4 de Junho de 1936
A beleza é uma coisa muito poderosa. A beleza em geral e a humana em particular. Na
aparência, sou uma pessoa séria, não alimento ilusões e sei muito bem que um rosto bonito
pode esconder uma alma muito feia. Mas, mesmo sabendo-o, apaixono-me pelo belo. Um
monstro, pelo contrário, desperta em mim uma sensação de repugnância e, na melhor das
hipóteses, compaixão. É uma maneira horrível de ver as coisas e condeno-me por isso,
mas acontece independentemente da minha vontade. Tenho uma espécie de aspiração
instintiva à beleza.
Nesta altura, estão a passar no cinema um filme que se chama O Rapaz da Garagem. Se
falar no seu conteúdo, o fascínio desaparece todo. Por isso, não vou fazê-lo, até porque
não há razão, mas nunca na vida vi artista tão extraordinária como a Franziska Gaal.
Nota: Franziska Gaal (1904-1972), Fanny Zilverich de seu verdadeiro nome, era uma
actriz alemã de origem húngara que se mudou nos anos 30 para Hollywood, onde
trabalhou com realizadores famosos como Cecil B. De Mille. No decurso desses anos,
conheceu uma grande popularidade na União Soviética com os filmes O Rapaz da
Garagem (1933), Katharina, die Letzte (1936) e Mamã Improvisada (1934).

Tem os olhos muito grandes, castanhos e amendoados, e pestanas enormes. E representa


de uma forma indescritível.
Tem todo o aspecto de uma coquete vestida de homem. Que vida, fogo e fascínio em cada
gesto! Vi o filme cinco vezes e poderia ver
285

mais cinco. Estou doida com a Franziska. Se fosse um homem, poderia chamar-se paixão
a este sentimento. Recordo cada pormenor e, às vezes, aparecem-me à frente o seu rosto, a
sua figura, os seus olhos.
Tirei a máscara: sou invejosa. A insatisfação, o tormento causado por saber que sou feia, o
desejo de ser inteligente, tudo é consequência da inveja. Inveja! Nem sequer sou
ambiciosa: só invejosa. Quando estou sozinha, é frequente contentar-me com a minha
miserável vida, não querer nada e estar quase satisfeita. Mas basta que encontre alguém
melhor do que eu (o que está sempre a acontecer) para a minha tranquilidade ficar
destruída. Então, zango-me não só com a pessoa, mas também comigo própria, por ter
perdido o tempo em vão. Gostaria de fazer qualquer coisa para ser melhor e libertar-me
desta constante e insuportável sensação de humilhação. Ou seja, sou invejosa e nado em
rancor.
O tempo está lindíssimo, mas não há nada a fazer, dado que vou estudar até ao dia 17.
Também não quero ler (estou com uma espécie de bloqueio). Olho pela janela e farejo
como um cão o ar fresco transportado pelo vento.

15 de Junho de 1936
O último exame de Alemão é depois de amanhã. A seguir, ficarei livre durante todo o
Verão. Tenho tanta vontade de descansar que até esqueci a faculdade operária. Tudo o que
quero é sair de Moscovo, mas o que acontecerá no Outono? É um dado adquirido que não
irei para a escola (se é que se pode acreditar em mim). As faculdades operárias estão quase
fechadas e não conseguirei preparar-me outra vez durante o Verão, não porque não tenha
forças, mas porque estou com um estado de espírito péssimo. Apatia e indiferença. Não
tenho o entusiasmo juvenil nem a energia do ano passado. Parece-me que este ano
envelheci e habituei-me a todos os meus defeitos. Uma vez que me convenci que não
tenho dotes particulares, perdi qualquer interesse pela ciência e a leitura. Não tenho
nenhum objectivo final, o que é uma fonte de dor, mesmo quando escrevo com extrema
indiferença.
Imaginemos um ser que vive sem saber porque faz o que faz, com a firme consciência de
que não tem razão para agir, que tudo no mundo é estúpido e supérfluo e que não há nada
com que valha a pena perder tempo. Sou eu. Aflige-me saber que é tudo inútil: a vida, eu
própria e o mundo que me rodeia. E não consigo livrar-me deste tormento, porque, de
verdade, não sei com que objectivo vivemos. Tenho medo de passar mal o Verão e de não
conseguir enxotar esta mosca que não me larga. No Outono, irei talvez para os cursos de
preparação do Instituto Pedagógico. Não interessa.
286

27 de Junho de 1936
Gavrilov Iam
Nota: Gavrilov Iam era uma vila, elevada a cidade depois de 1938 (segundo as novas
divisões administrativas). Ficava na região de Iaroslavl, a quatro horas de comboio de
Moscovo.

O diário representa-me bem: mostra toda a mesquinhez da minha alma, que as reflexões
com que choca de vez em quando não conseguem esconder. Para me compreender, basta
prestar atenção àquilo que normalmente constitui o objecto dos meus pensamentos. Hoje
reli algumas passagens e reconheço que fiquei envergonhada: o pessimismo e os rapazes,
os rapazes e o pessimismo. Percebo que é negativo, mas esta negatividade é o meu «eu»,
e, por isso, tenho uma profunda antipatia por mim mesma. É a primeira contradição, mas
há muitas mais.
Petchorin diz em qualquer lado que os defeitos físicos afectam o homem de uma maneira
ou de outra, atrofiando uma parte da alma. Tem toda a razão, a começar por mim. Tenho
um corpo tão desproporcionado que é raro encontrar-se algum mais desgraçado: estatura
mais que média, constituição atlética, sobretudo por causa dos ossos largos, de
camponesa, ombros muito desenvolvidos que parecem os de um homem robusto, tronco
atarracado, pernas e braços feios.
Nota: Personagem principal, cínico e desiludido, do romance de Lermontov, Um Herói do
Nosso Tempo (1840).

Agora o rosto: é feio, claro, mas o importante não são as feições em si, mas sim aquilo que
distingue uma fisionomia da outra; no meu caso, uma certa inércia triste e carregada (não
vejo mais nada no meu aspecto). Esta expressão desagradável tem a sua correspondência
nos vários pormenores da cara: a testa alta, mas tudo menos nobre; as sobrancelhas muito
largas e curtas; os olhos pequenos, de gato (verdes seriam bonitos de mais), maus e
inexpressivos e que, além do mais, têm um defeito que não se pode esconder e que me
deturpou a alma; o nariz um tanto arrebitado; e os lábios grandes, grossos e um pouco
carnudos. É um rosto como indefinido, sem personalidade nem nada que o distinga de mil
outros igualmente disformes e anónimos. Sim! E é preciso acrescentar que um bonito par
de orelhas saídas completam o quadro.
Eu própria não compreendo a minha personalidade. Em traços gerais, no entanto, sou
assim: muito pessimista, uma chorona sem esperança nem vontade, tétrica, reservada e
solitária. Sou invejosa. Estes são os aspectos que me distinguem; os outros são iguais aos
da maioria dos seres humanos: vontade fraca, falta de esperteza, memória e capacidades
medíocres, mesquinhez e por aí fora.
Assim, não tenho uma única característica positiva nem no aspecto exterior, nem na
personalidade. Só possuo uma qualidade: as pestanas
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compridas, mas... são tão claras que nem se notam. Nem eu sei quando começaram a
desenvolver-se na minha personalidade diversos aspectos anormais. Não me lembro quase
nada da infância e contaram-me poucas coisas.
Quando era muito pequena, vivíamos na Sibéria com a família dos D., que também tinham
um filhinho. Castigavam-no muitas vezes e eu ia sempre suplicar ao seu pai que perdoasse
ao meu amiguinho, coisa que normalmente conseguia, porque toda a gente sabe como é
difícil dizer não às crianças pequenas.
Depois, confundo a sucessão dos acontecimentos. Lembro-me de viver já em Moscovo
com a avó e o papá, num andar bonito e muito grande. A mamã e as minhas irmãs vieram
ter connosco depois. Estou sozinha (julgo que não tinha amigos, porque não me lembro) a
brincar com um ursinho claro na sala grande e quase vazia. Por qualquer razão, a
impressão de vazio e solidão ao meu redor manteve-se bem viva. Naquela altura, houve
um incêndio de noite, e o papá foi açordar-me e levou-me para a rua. Não tive medo
nenhum, só senti curiosidade. Sim, recordar a infância de repente é sinal de velhice.

29 de Junho de 1936
Gavrilov Iam
Chove e aborreço-me. Devemos partir para Moscovo a 1 de Julho. Não tenho nada contra.
Preciso de muito para estar alegre? Só alguém com quem possa passear pelos bosques,
pescar, andar de barco e entregar-me às pequenas distracções estivais, de um modo geral.
Mas como não tenho à mão ninguém assim, aborreço-me. Embora viesse com a Olga, na
realidade sinto-me sozinha, sobretudo quando ela está com o Zhorka. Não há nada mais
desagradável do que fazer de pau-de-cabeleira. Ainda se suporta uma ou duas vezes, mas
quando se arrasta anos a fio, é uma situação odiosa. Porque será que ninguém se parece
comigo? E porque me sinto bem apenas com a Ksiusha, como se fôssemos uma só pessoa?
Ah, se eu fosse mais inteligente!

14 de Julho de 1936
Gavrilov Iam
Pronto, era isto que receava: começo a aborrecer-me. Os dias decorrem preguiçosos e
tranquilos: levanto-me, bebo o chá, tomo banho, almoço, durmo, tomo outro banho e
assim por diante até ao fim do dia. E, apesar de haver tanto tempo, parece que nunca
chega, porque cada um espera pelo outro e todos vagueamos sem ocupação
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e sem sentido. Cresce uma atmosfera tão monótona que uma pessoa até tem vontade de se
enforcar. E é um tédio também porque há poucas pessoas; aliás, ninguém conhecido.
Passo o Verão como se tivesse quarenta anos; ou seja, exactamente como a mamã. Mas
isto é normal? Sinto-me doente por causa da falta de actividade física, estou magra e tenho
palitos no lugar das pernas e dos braços. Que bom seria remar! Que agradável seria afastar
o ócio e a monotonia da vida! A minha fantasia cresce e a Olga diz que tenho uma
imaginação desmesurada. Não sei, se calhar tenho.

7 de Agosto de 1936
Lebedian
Nota: Cidade da região de Lipeck, não longe de Voronez.

Passei do Norte para o Sul, de Gavrilov Iam, perdida entre as florestas de pinheiros e a
sombria natureza nórdica, para a alegre Lebedian, cheia de viçosos pomares, quase
estendida entre as estepes e muito mais acolhedora e simpática.
Gavrilov Iam é uma cidadezinha feia, com casas estreitas apertadas umas contra as outras:
não tem um arbusto nem uma árvorezinha. Cidade industrial, transpira um tédio
insuportável. Quase todos os seus habitantes são operários, embora também se encontrem
pequeno-burgueses. A fábrica transformou a fisionomia da cidade: as ruas estão cheias de
gente atarefada e é raro encontrar-se uma viela perdida, mergulhada no tédio.
As pessoas são muito antipáticas; eu e a Olga chamávamos-lhes «sapos de Iam». Rostos
femininos exaustos, maus e alongados, apareciam com descaramento nas janelas quando
passávamos na rua; sentíamos que nas nossas costas se tecia em silêncio uma teia de
comentários e mexericos. No fim, já odiávamos toda a gente e sobretudo os operários,
grosseiros, estúpidos e limitados no pior sentido da palavra.
É curioso: quanto mais repelentes os homens, mais simpáticos os cães (em Lebedian é ao
contrário). Em lugar da tão apregoada solidariedade entre os trabalhadores, reinava em
Iam um perfeito antagonismo entre os operários locais e os que vinham de fora. Era
normal haver discussões e pancadaria. Na minha opinião, concentram-se em Iam todos os
horrores das cidades de província. Foi uma felicidade quando nos viemos embora.
Gosto muito de mudar e de andar de um lado para o outro. Aliás, até falei disso mais do
que uma vez com a Olga. Não consigo viver no mesmo sítio durante muito tempo sem
começar a aborrecer-me; a dada altura, tudo o que é minimamente repetitivo parece-me
insuportável, salvo raríssimas excepções.
289

Lebedian é um lugarzinho perdido e desconhecido; por isso é tão interessante. Ergue-se


num penhasco alto sobranceiro ao Don, muito azul. A rua que segue ao longo do rio
permite ver em todas as direcções, a uma grande distância: o rio amplo e claro, formando
poderosos meandros através da planície, perdendo-se atrás das árvores e brilhando ao
longe de repente; alegres povoados onde abundam os jardins; as margens baixas e viçosas
do Don; uma ponte alta e cinzenta suspensa no ar; atalhos amarelos seguindo do penhasco
para o rio.

5 de Outubro de 1936
Apetece-me escrever versos, mas as rimas não me vêm à cabeça. Começou para mim um
período de apaziguamento e tranquilidade interior. Na verdade, apostei muito neste ano.
Decidi, e por enquanto espero para ver as consequências. Tenho de empregar todas as
minhas forças e concentrar toda a minha energia, vontade e capacidade para conseguir o
mais possível. Na Primavera, examinarei o que fiz e avaliarei se vale a pena continuar a
trabalhar, se há esperanças para o meu talento. Nessa altura, ou renunciarei à luta ou terei
a certeza da vitória.
Se calhar, estou só a enganar-me e a adiar o momento fatal, de que tenho muito medo, em
que não conseguirei renunciar aos meus sonhos mesmo depois de ter a certeza de que não
são realizáveis. Mas por enquanto a minha posição para este ano está definida e sinto-me
tranquila. Os anos passados foram uma doença que atinge alguns jovens na idade da
mudança. Parece que saí vencedora, embora com grandes baixas.
O meu diário é uma crónica curiosa: a 4 de Outubro do ano passado, escrevi que queria
estudar, que estava cheia de energia e que ia apostar tudo nos anos seguintes. Mas o vigor
só deu para um mês; depois, comecei a choramingar e a martirizar-me. Estou com
curiosidade para saber quanto aguentarei agora. Mas, de momento, repito para mim
própria que não posso fraquejar e que tenho de estudar todo o ano, estudar e estudar.
A atitude das minhas amigas da escola vai ter uma grande importância. Por agora, as
nossas relações são boas: a Mussa diz que gosta muito de mim (mas, com a sua
personalidade, é possível que mude de um dia para o outro), e a Tânia e a Ira vão atrás
dela. No entanto, é uma situação muito instável; se ficar sozinha como no ano passado, a
escola será para mim um fardo bem pesado. Agora não estão cá os rapazes que nos
dividiram o ano passado, o que é uma sorte para mim.
Em resumo, no que diz respeito à escola, sentimo-nos bem, andamos alegres, estudamos
as três com bastante afinco, temos notas discretas, nas aulas fazemos travessuras com
moderação, tagarelamos
290

um bocadinho, discutimos outro bocadinho e às vezes trocamos umas palavras com os


rapazes (mais com o Leuvka e o Doroshenko, menos com o Margosha). Nos intervalos,
passeamos no átrio e andamos aos encontrões com os rapazes. Ou por outra, os rapazes
dão-nos encontrões e nós batemos-lhes. Quando uma de nós os atinge de uma maneira
particularmente eficaz, a nossa aprovação é grande.
O Leuvka tem um amigo do sétimo ano que possui um daqueles rostos que salta aos olhos
logo no primeiro momento e que fica gravado na memória. É de estatura mediana, louro, e
tem uma cara muito expressiva e original, de feições regulares, pele pálida e intrigante e
olhos de um azul-vivo, tremendamente descarados. O seu atrevimento ultrapassa todos os
limites da desfaçatez; é um rapaz experiente, que não é possível atrapalhar nem
surpreender com nada.
As minhas amigas estão interessadas nele, porque, em geral, gostam de brincar e
namoriscar com rapazes deste género. De momento, a situação apenas me diverte, dado
que não ultrapassa os limites da brincadeira. Costuma estar com o Leuvka ao pé da janela,
diz piadinhas que depois me contam, arma-se em engraçado e pisca os olhos. Em resumo,
é um rapaz muito curioso e alegre.
Chamou-lhe a atenção a Ira, em quem não é difícil reparar porque não é pequena, e
começou a meter conversa com o seu habitual descaramento: de resto, não tem qualquer
problema em aproximar-se o mais que pode de uma perfeita desconhecida, em pôr-se à
sua frente e fitá-la com insistência e sem dizer palavra, atrapalhando-a. O seu olhar é
calmo e fixo, presunçoso e despudorado. Examina as raparigas como se fossem
mercadorias.
É surpreendente como estes jovens ainda de pouca idade conseguem alcançar tanta
depravação, cinismo e baixeza. É ofensivo e triste que já tenha uma falta de respeito tão
profunda pelas minhas amigas e por mim, metendo tudo no mesmo saco. Sim, em todo o
caso é preciso dizer que nunca me importuna como os outros e que me evita em silêncio,
fitando-me com um olhar viscoso. Digo-o com orgulho, visto que não é por eu ser feia
(neste aspecto, a Tânia não é melhor do que eu), mas devido a um traço mais importante
que os homens reconhecem numa mulher: tenho um ar que desencoraja todos os tipos de
avanços. Seja como for, estou forte o bastante para me sentir segura de mim.
Uma vez, a Ira estava com um bilhetinho e ele deu um salto de repente na sua direcção,
inclinou-se muito e fez um gesto com a mão: «É para mim?» «Não, por acaso não é.»
«Que pena!» Uma outra vez, zumbindo à sua volta, perguntou: «Queres comprar-me uma
tiubeteika? Ou queres que ta empreste? Hã?...»
Nota: Chapéu usbeque.

A Ira apressou-se a recusar.


291
Deixa-nos sempre estupefactas com a sua desfaçatez. Outra vez, quando nos
preparávamos para regressar a casa, aproximou-se e disse: «Esperem, vou acompanhar-
vos.»
Tudo isto é bastante curioso, mas não me afecta; na verdade, até neste aspecto assumi um
sólido ponto de vista filosófico. Dantes, ofendia-me com a atitude dos nossos colegas em
relação a nós, raparigas. Nunca falámos do assunto porque, em geral, não conversamos em
grupo, mas notava-se uma profunda falta de respeito e até um comportamento escabroso,
como se fôssemos umas quaisquer... Só alguns dos rapazes que nos conheciam melhor
tinham uma opinião um tanto diferente de nós, mas não tenho a certeza.
Agora, o seu veneno é-me indiferente. No fundo, não percebem nada de raparigas nem,
em geral, das relações humanas. Não me condeno minimamente por me aproximar sem
receio de um colega do sexo masculino, conversar ou brincar com ele e mostrar-me um
bocadinho maliciosa. Eles (o Antipov, o Timosha, o Linde) não compreendem que a sua
maneira de se relacionarem com as raparigas é anormal, que estudar no mesmo grupo há
quase dez anos e nem sequer cumprimentar as pessoas é, pelo menos, descortês. Nós
vemos neles apenas colegas, mas a maioria dos outros rapazes e raparigas olham uns para
os outros como se fossem seres de outro planeta.
No que diz respeito às minhas relações com os rapazes, eles são-me completamente
indiferentes enquanto tal, excepto aqueles por quem tenho simpatia na qualidade de
colegas. Comecei a adoptar com eles um comportamento alegre, simples e brincalhão, mas
reservado, que a qualquer momento (perigoso) pode transformar-se numa atitude brusca.
Depois há a «Kamchatka». Com esses não tenho nenhuma relação, é raro trocarmos uma
palavra e com alguns nunca sequer falei.
As excepções são o Leuvka e o Linde. Com o Leuvka (já vem de longe!) tenho boas
relações, embora ande a ficar irritada com algumas das suas características: a grosseria e o
ar de delinquente (percebe-se a influência do amigo). Quanto ao Linde, é uma pessoa que
vale a pena estimar; parece-se um bocado com o Volodia Z. na inteligência e talento, mas
é mais sério, simples e atraente sob muitos pontos de vista. Embora não de todo,
aproxima-se do meu ideal, do tipo de homem que sou capaz de respeitar.
Há sempre alguém na turma que me interessa; agora é o Linde. Tenho consciência de que
quase nem reparava na sua presença no início do ano escolar; depois, sem dar por isso,
comecei a pensar muito nele. Tudo concorre para isso: a sua presença na escola, alguém
que pronuncia o seu apelido... Como o encontro muitas vezes a caminho de casa, é claro
que não tenho outro remédio senão lembrar-me dele.
292

Ao reparar no meu interesse excessivo, que pode arrastar-me para o âmbito da fantasia e
da idealização, tentei eliminá-lo. É na altura em que decidimos lutar contra qualquer coisa
dentro de nós que esta se fortalece, pelo menos ao princípio. Neste caso, foi o mesmo.
«Que significa isto?», perguntei a mim própria. Veio-me logo à cabeça todo o tipo de
ideias. E, como se não bastasse, a Ira contou-me que o Linde escreveu à nossa colega O.
mensagens de amor e versos, que lhe passou juntamente com os desenhos.
Nota: Aparecerá a seguir também como Liussa O. ou só Liussa.
Este facto despertou a minha curiosidade e reavivou o meu interesse.
Ela é feminina, alta, magra e um tanto frágil, caminha e mexe-se com agilidade. A sua
testa está em harmonia com as outras feições. O cabelo muito espesso e preto tem um ar
macio, os olhos negros são enormes, serenos e amáveis, e o bonito sorriso faz-lhe aparecer
covinhas nas faces. É séria e boa aluna. Se o Linde é mesmo delicado como penso, a sua
aparência tão refinada, atraente e, ao mesmo tempo, austera não podia senão chamar-lhe a
atenção.
A minha atenção anda muito atraída por este par durante as aulas, o que muitas vezes me
impede de ouvir o professor, mas não acontecerá mais. Hoje, não pensarei nele, porque é
muito mais fácil prevenir a doença do que curá-la. Assim, hoje é o último dia de liberdade
para os meus pensamentos: quem sabe no que pode transformar-se este interesse ligeiro e
vão por uma pessoa que não repara nem nunca reparará em mim? Pode esperar-se tudo de
mim menos um namorico despreocupado e, por isso, tenho muito medo de me prender a
sério. Digo a toda a gente que nunca me apaixonarei na escola, porque não há ninguém em
condições, ninguém digno de atenção.
Existe apenas um que corresponde às minhas fantasias. De momento, não consigo amar
um homem que não admiro. As aparências vêm em segundo plano. Que estranho! Quando
um rapaz gosta de uma rapariga, combate pelo seu amor, luta com insistência. Eu não
consigo fazê-lo: sentir-me-ia humilhada ao demonstrar atenção por alguém que não se
interessa por mim e teria vergonha de lhe falar e de me aproximar.
Quero que pense que é a pessoa que menos me interessa. Se caminho ao lado do Linde,
afasto-me de propósito o mais possível; se as outras falam com ele, não participo nas suas
conversas nem por nada. Quero demonstrar a todo o instante que me é antipático, que não
o amo. Só houve uma vez em que lhe disse duas palavras, pelas quais me censuro.
Estávamos perto do quadro, eu, a Ira, o Linde e outra pessoa qualquer. «Porque não
entregaste o caderno?», perguntou-me a Ira. «Porque não quero ter ”Insuficiente”.» Ele
ouviu e desatou a rir, mas
293

depois pareceu controlar-se e apressou-se a fazer uma cara séria. Na altura, nem me
lembrei que não devia prestar-lhe atenção. Ao ver que ríamos, disse ele: «Olha, eu tive um
”Muito Insuficiente”.» A Ira perguntou-lhe qualquer coisa, suponho que em qual
disciplina. «Em Alemão.» «Eu também tive ”Muito Insuficiente”», acrescentei eu com
vivacidade, começando de repente a gesticular de maneira estranha. E é tudo.
Quando gostamos de alguém, toda a vida se concentra à sua volta: falamos para que ele
ouça e fazemos para que ele repare. Durante as aulas, as respostas não são para o
professor, mas para ele. Faz-se tudo para ele e só ele. Já tive esta experiência com o
Eugênio e não quero repeti-la, não quero lágrimas inúteis.
Tudo o que perturba o estudo... xó, embora! A consciência da minha impotência agudizou-
se assim tanto só porque vim a saber por acaso da paixão do Linde? Posso competir com a
O.? Com aquela rapariga sofisticada, que nunca dirá uma grosseria nem fará um gesto
deselegante? E eu? Eu mando todos para o diabo com voz selvagem e não me ensaio para
esmurrar os rapazes que me importunam. Não será caso de começar a mudar? A
transformação só pode dar-se em nome de qualquer coisa, e eu devo esquecer aquele que
me inspira. É fácil, porque se trata apenas de uma paixoneta e nada mais, mas a minha
cabeça tonta pergunta: «Não farei melhor em iniciar uma batalha?» No entanto, é difícil
pensar no sucesso quando existem dúvidas. É melhor ouvir a voz da razão.
A Eugenia e a Olga dizem-me com frequência que sou bonita. Uma ocasião, o Iuri fez-me
o mesmo elogio (foi a primeira vez que o ouvi da boca de um homem). É verdade ou não?
Não sei. Não acredito, e os factos confirmam que não devo acreditar.

13 de Outubro de 1936
Vá, canta para nós, vento alegre, vento alegre, vento alegre...
Quem está alegre ri,
quem quer consegue,
quem procura sempre alcança}
Seria muito bom se estas últimas linhas fossem a minha divisa. Que bom rir e conseguir-se
sempre o que se quer! Mas para isso é preciso qualquer coisa... Porque não tenho essa
«qualquer coisa»? Também conseguirei o que quero; o problema é que não sei o que
quero, porque quero muito, quero tudo.
Nota: Excerto de uma famosa canção do filme russo Os Filhos do Capitão Grant (1936).
294

Passarei este ano a combater: é o meu compromisso. Portanto, não me deixarei desesperar.
Que as dúvidas e as desilusões todas venham só no Verão, quando acabar o nono ano e eu
tiver vagar para olhar para dentro de mim, examinar o ano inteiro e verificar o que fiz. Por
agora, muita fé, forças apontadas à luta e esperança na vitória. Viva!

15 de Outubro de 1936 [...]

22 de Outubro de 1936
Como explicar que acalmei de repente? E parece que vai durar o ano inteiro: ou repousei
bem durante o Verão e reequilibrei o meu sistema nervoso, ou o objectivo que impus a
mím mesma para este ano faz-me melhor, ou fiquei simplesmente estúpida, deixando-me
andar. Estou quase satisfeita com a minha vida, habituei-me às notas boas e às medíocres e
já quase não me atormento: mal sinto qualquer coisa a ferver, sufoco-a logo.
Em casa, os meus dias são tão racionais e planificados com tanta rigidez que não teria
nada a apontar mesmo que quisesse. Parece que toda a energia, todos os pensamentos se
concentraram no estudo, na leitura e no resto; não há nem um minutinho desperdiçado em
conversas supérfulas e acções inúteis. Realizo aqui o meu ideal.
Na escola, não passo as aulas exactamente da maneira que gostaria. Devia ouvir o
professor com mais atenção, mas é tão agradável recostar-me e repousar ao som da sua
voz, tanto a nível físico como mental! No entanto, nem quando me sinto livre para não
ouvir consigo dedicar-me às reflexões alheias às aulas, que, apesar de tudo, talvez
ajudassem o meu crescimento intelectual. Semelhante «programa» pode, na verdade,
acarretar uma série de dificuldades: ora é o professor que se zanga e chama a atenção
quando repara nalguma falta de disciplina, ora é a Mussa que diz que se aborrece e que
tem vontade de pairar comigo. Isto não é uma brincadeira, Mussa! Se és amiga de uma
pessoa, não tens o direito de não respeitar os seus desejos e os seus direitos! A minha
liberdade de acção é um tanto limitada: se lhe dou pouca atenção, ofende-se, e quando se
ofende quem fica mal sou eu.
Já que é preciso descansar durante o dia, considero a escola um local de repouso, onde me
distraio dos pensamentos sérios, vivo de maneira espontânea, faço travessuras como uma
criança e me permito dizer parvoíces, rir a bandeiras despregadas e trocar olhares
maliciosos com o Leuvka.
Em casa, pelo contrário, sinto-me logo alguns anos mais velha. Ou discuto com as minhas
irmãs, o que é horrível mas não tem remédio, ou estudo, o que me acalma sempre. O que
não tenho, e que é
295

indispensável para a minha evolução, é um círculo de conhecidos inteligentes, cultos e


sérios, com quem possa falar de assuntos interessantes.
A Mussa e a Ira são boas raparigas a quem me afeiçoei, mas muitas vezes não as respeito;
nessas alturas, a situação torna-se confrangedora, porque, ao estar com elas, também não
me respeito a mim própria. No entanto, separar-me significaria ficar completamente só. O
homem é um animal social e deve viver na companhia dos seus semelhantes.
Às vezes vem-me à cabeça a ideia de ser eu a influenciá-las, mas não acredito: tenho uma
índole muito fraca e medrosa, uma inteligência insuficiente e ambições a mais. Sei que as
minhas tentativas nunca poderão interessar-lhes. Por isso, para não testemunhar conversas
angustiantes e ocas nem participar em brincadeiras estúpidas e às vezes até vulgares, tento
não me encontrar com elas fora da escola. A amizade superficial que tenho por elas e a
minha «identidade» escolar desaparecem à porta do mercado onde a Ira e eu nos
separamos para seguir em direcções diferentes.
Vem-me então ao encontro uma pessoa com outras exigências, desejos e pensamentos.
Ontem fiz este breve percurso do mercado a casa com o Linde; não ao seu lado, claro:
seguimos em paralelo, cada um no seu passeio. Enquanto caminhava, ia pensando nele
com angústia; apetecia-me virar-me mas, por orgulho, não me permiti fazê-lo. Só ao
chegar à curva olhei de fugida para a sua figura indolente, com aquela insólita maneira de
andar.
Hoje, o Linde fez um trabalho sobre os acontecimentos em Espanha.
Nota: Alusão à Guerra Civil de Espanha, que se desencadeou em Julho de 1936. No
seguimento da vitória eleitoral obtida nesse ano pela Frente Popular (constituída por
republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas), o general Francisco Franco encabeçou
uma insurreição contra o Governo republicano apoiada por algumas divisões do exército e
com a ajuda militar dos países nazi-fascistas (Alemanha e Itália). Os republicanos, pelo
seu lado, contavam com o auxílio das Brigadas Internacionais e com os abastecimentos
provenientes, na maior parte secretamente, da União Soviética. Além disso, a URSS
acolheu milhares de crianças espanholas que ficaram órfãs e que foram colocadas em
orfanatos «de luxo» para serem educadas na fé comunista. Os acontecimentos em Espanha
foram seguidos de perto na URSS durante os primeiros anos da Guerra Civil: todos, até os
alunos das escolas, sabiam da participação soviética no conflito, embora fosse proibido
falar disso a nível oficial, uma vez que a União Soviética aderira em 1937 à Comissão de
Não-intervenção, proposta pela Grã-Bretanha.
Sim, é um rapaz muito inteligente. Bem, para ser franca, em lugar de o escutar com
atenção, observei-o, examinando-lhe o rosto e a figura: é muito agradável permitir-me
estas liberdades de vez em quando. Tem um rosto estranho, que me lembra o de qualquer
bichinho, talvez porque se afunila em baixo e na direcção do nariz, uma testa ampla e
inteligente, o cabelo preto, a pele escura e escuros os pequenos olhos castanhos, muito
perspicazes, que espreitam de fugida
296

e nos examinam de soslaio. Tem uma fisionomia muito definida e um perfil interessante e
original. Perturba-me por ser tão brilhante e recordar-me a minha estupidez a cada
momento.
Neste caso, o meu interesse por ele baseia-se na frustração. O Linde ofende-me de cada
vez que tem boas notas (e tem imensas), que responde bem ou que diz uma piada
interessante. Estou sempre a comparar-me com ele em todas as suas acções. É como um
espinho para mim. É-me difícil não o olhar nem o ouvir, o que de resto faço com toda a
tranquilidade já que, neste caso, não estamos em presença de uma paixão e sim, pelo
contrário, de uma forma de antipatia. Quando todos riem, lanço-lhe um olhar rápido e
tranquilizo-me se o vejo também a rir; quando digo uma estupidez, faço logo votos para
que não a tenha ouvido. E assim por diante, o tempo todo.
É o meu tipo ideal, a única pessoa com quem gostaria de ser parecida. Que pensará e qual
será o seu mundo interior? Deve ser inalcançável e complexo. Parece que tem,
merecidamente, uma excelente opinião de si próprio, o que transparece sempre nele. De
resto, vê-se que tem consciência da sua perfeição, embora se mostre sempre comedido e
com um tacto natural. O Linde ainda há-de vir a ser alguém importante.
Não me culpo de ter uma conduta reprovável, por isso não me interessa saber se os outros
me olham com um sorriso desdenhoso. Sim, quero desafogar agora, tendo a certeza de que
o recato chegará no seu devido tempo, aborrecendo-me muito. E daqui a dois meses terei
dezoito anos. Que horror!

28 de Outubro de 1936
Quem não se adapta morre. Eu podia morrer ou adaptar-me. Adaptei-me, e esta capacidade
cresce em mim a cada ano que passa. Dantes, a minha falta de beleza atormentava-me;
agora, a sensação já quase passou. Dantes, envergonhava-me da minha idade e a
consciência que tinha dela envenenava-me a vida na escola; agora, penso nela com
serenidade ou nem sequer me lembro disso; só me sinto magoada de quando em quando
por alguma palavra casual.
O ano passado, a consciência da minha estupidez e incapacidade enfurecia-me e
desesperava-me, mas agora já começo a conseguir filosofar sobre o facto de nem todos
serem génios e que até os simples mortais são úteis à sociedade. Ainda não consigo bem,
mas, na verdade, a filosofia (enquanto reflexão abstracta e objectiva sobre as coisas) não é
típica da impulsividade e do amor-próprio da juventude.
No fim de contas, é uma visão absolutamente correcta: é impossível que todas as pessoas
tenham o mesmo grau de inteligência, cada um trabalha e vive conforme as suas
capacidades. Esta conclusão
297
satisfaz-me como princípio e sei que a aceitarei de todo daqui a algum tempo. No entanto,
percebo algumas discrepâncias que me perturbam; gostaria de as eliminar, mas não posso,
não sou capaz. É sempre um tormento para mim pensar que o meu ambiente é superficial e
oco. Mas é a verdade. Não quero condenar nem considerar a Ira, a Mussa e a Tânia
inferiores a mim. É pena, mas estou ao seu nível (exteriormente) e tenho interesses tão
fúteis como os delas. Todos os dias conversas estúpidas e monótonas... Porquê?
Enquanto as mulheres são muito monocórdicas e limitadas, os homens, mesmo os mais
medíocres, interessam-se por tudo. Sem dúvida que a horrível herança que nos foi deixada
pela outra geração desempenha aqui um papel muito importante. Ou será que a mulher é
simplesmente mais estúpida? É uma pergunta penosa para mim. Nada se conquista de
graça e nós temos de conquistar a igualdade. E será que nós, mulheres, tentamos
conquistá-la?!
Afundamo-nos no nosso poço lamacento, escavado há dezenas de séculos, e gritamos
frases que os homens «inventaram» para nós. «Viva a igualdade de direitos!», «Abri
caminho às mulheres», sem nos darmos ao trabalho de pensar que são só frases. Uma parte
de nós acalma o seu amor-próprio feminino com palavras e a outra maior) nem sequer se
ofende com a sua condição.
Que hei-de fazer para quebrar este círculo vicioso? Às minhas amigas não interessa nada a
não ser os rapazes (a propósito disso, têm sobre eles uma opinião tão corrupta e depravada
que consideram o amigo do Leuvka o homem ideal, pondo-o claramente acima do Linde).
As conversas giram sempre à volta deste assunto ou de gracejos obscenos: de resto, não
sou melhor do que elas no que diz respeito a porcarias e indecências. Embora
horrorizando-me comigo própria. o facto é que as digo, porque não posso passar o tempo
calada ou a falar de coisas sobre as quais elas não querem pensar e que nem eu saberia
tratar.
Oh. como compreendo os rapazes! No seu lugar, desprezaria as mulheres e não lhes
falaria. As minhas antigas amigas, que andam na nossa turma, são um pouco mais sérias
do que nós, mas tresandam a morte e tédio a três verstás de distância. Sabem falar com
vivacidade das aulas, mas de uma maneira muito limitada; nos intervalos, esperam com
ansiedade a aula seguinte e até tremem quando são chamadas. Como não consigo suportar
este enterro formal, abraço a causa da estupidez, da indisciplina e da superficialidade.
Às vezes, durante as aulas, uma pessoa sente-se pronta a avançar de cabeça erguida, a lutar
e a insultar, só para libertar os músculos jovens e deixar sair por algum lado a infinita
reserva de energia. É por isso que estamos sempre a implicar umas com as outras ou a
dizer piadas que nos envergonham e divertem.
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6 de Novembro de 1936
Que agradável é, às vezes, sentir-me completamente livre, caminhar sem pressa, pensar
sem tensão, conversar quando me apetece e repousar, repousar.
A minha opinião é que o diário não serve para nada, é uma coisa inútil e supérfula e, por
consequência, um mal. Como não melhora o estilo de escrever nem é necessário aos
vindouros, para que serve então? Mas enfim, dá-me muito prazer escrever e contar tudo o
que me vai na alma.
Sou muito estranha, nunca encontrei ninguém como eu. Tenho o desejo de agradar,
namoriscar, divertir-me, ser feminina e interessante, rir e brincar sem reservas e, às vezes,
até dizer disparates; o desejo de preencher a minha vida com momentos brilhantes, alegres
e vivos. Ao mesmo tempo, ambiciono estudar, tenho pensamentos austeros e tenazes sobre
o futuro e o objectivo da vida, um bom senso acentuado, o desejo de encontrar na
existência qualquer coisa de sério e muito belo, a aspiração de dedicar-me à ciência.
Tenho uma grande paixão pelo trabalho físico que chega a provocar dores de braços e de
costas.- o corpo é percorrido por uma languidez extenuada e sente-se forte e jovem; é por
isso que amo o desporto, a corrida e as brincadeiras desenfreadas. Esta vida triste,
monótona e enfadonha que estou condenada a levar e que não posso ou não sei destruir,
não me satisfaz nada de nada.
Dou muitas vezes comigo a não ter respeito por mim, o que é atroz. Primeiro, desprezo-
me como mulher, enquanto representante desta parte humilhada e inferior da raça humana.
Mas não há remédio. O que me atormenta mais é a companhia que tenho, as pessoas com
quem ando. Por muito estranho que seja, às vezes desprezo-as: é horrível e desonesto em
relação a elas: considerá-las amigas e com presunção sorrir para mim própria das suas
palavras; ora as invejo e à sua alegria, ora só quero afastar-me delas.
Não sou sincera com elas porque não me compreenderiam. Resta-me aborrecer-me
escutando as suas tagarelices e envergonhar-me pensando que algum estranho possa ouvir
as nossas conversas. É uma sensação obsessiva. No corredor, no vestiário, na sala, durante
as aulas: conversas, conversas e mais conversas sempre sobre os rapazes. Às vezes, penso:
«Senhor, de que falar? De Espanha? Se elas não lêem os jornais! De livros? Não temos
muitas leituras em comum. Elas gostam de romances levezinhos e envolventes, mas de
nível literário muito baixo, em que eu nem sequer toco.»
Claro que também leram os clássicos, mas não posso falar de um tema planeado de
antemão só com o objectivo de discutir coisas inteligentes. Parece-me muito falso e
desagradável. Não posso! É por isso, para me ocupar com qualquer coisa, que começo a
fazer
299
parvoíces até me esquecer de mim própria. Depois, farto-me de me chamar estúpida. Mas
o facto é que me permito fazer disparates.
É interessante: a Ira e, se calhar, também as outras pensam que a minha paixão pelo
Eugênio me influenciou tanto que me fez perder, em parte, as faculdades mentais e ficar
menos inteligente. É surpreendente como, para elas, tudo se reduz ao amor. Ah, mulheres,
mulheres! Como sois monótonas e superficiais!
Apetece-me ir para a escola, gosto muito da escola, sim, amo-a. Porquê? Não sei. Na
escola ando alegre, rio-me, não me sinto só e, de alguma forma, sou cúmplice e estou
unida aos outros. E dantes não? As pessoas mudam, e de certeza que numa coisa estou
diferente: não restou nada da menina má de antigamente, taciturna e medrosa como um
bichinho, que odiava toda a gente incluindo a si própria, que se atormentava com
perguntas e dúvidas e que, horrorizada, com orgulho e um amor-próprio fervoroso,
esperava que todos a ofendessem e troçassem dela.
No entanto, também dantes me acontecia gostar da escola; depois, às vezes, era invadida
pelo tédio e assistia às aulas com indiferença, revolta e infelicidade. E as outras pessoas
afastam-se sempre dos infelizes e dos patéticos. Todos me evitavam, todos se
distanciavam e, tal como agora, eu só queria falar, rir e ter relações simples e amigáveis
com os rapazes. Sentia-me ofendida quando, durante as aulas, estes começavam a dizer
palavrões, a portar-se de maneira vulgar ou a molestar as raparigas. Nunca mais me
aconteceu, mas naqueles momentos gostaria de ser um rapaz para não suportar aquelas
ofensas, aquelas injúrias imerecidas, sem fundamento, odiosas e terríveis. É tremendo
sentirmos que nos desprezam a cada momento!
Mas agora já mudaram muitas coisas. Cresci e daqui a dois meses faço dezoito anos. É
desagradável, mas tenho a coragem de repetir a mim própria que não é uma desonra, que
também se pode andar na escola com dezoito anos sem se ser infantil. Sim, é
desagradável, mas cada vez mais tento não pensar nisso nem envergonhar-me. Afinal, são
só dois anos de diferença.
O meu aspecto já não me atormenta tanto; de facto, ninguém mo lembra. Como não tenho
nada a temer, sinto-me mais leve e livre durante as aulas. Lutei muito contra mim própria,
mas agora alcancei a meta e desvinculei-me para sempre do odioso «charco do ”Muito
Bom”», como disse o papá. [...]
11 de Novembro de
1936 [...]

20 de Novembro de 1936
Quando é preciso estudar muito, fico sempre com um humor estranho, porque uma voz
diz-me para não perder muito tempo com
300

isso e outra lembra-me como é horrível ter más notas, ficar em silêncio e não saber nada.
Na verdade, ando a estudar muito pouco e até estou satisfeita. «Não acabes no ”charco dos
Muito Bons”!», disse-me o papá.
Às vezes, quando penso nas minhas capacidades ou no Linde, sou assaltada pela
melancolia. Na maior parte das vezes, estes pensamentos são inseparáveis: basta pensar
nele para me lembrar de quanto sou tonta e ele brilhante. Bem ou mal, talvez daqui a um
ano ou dois este assunto deixe por fim de me atormentar.
Como sou má e invejosa! Sempre o Linde! É o único rapaz que respeito profundamente,
por ser a única pessoa de talento à minha volta. É o meu ideal de homem. Mas é muito
estúpido ter um ideal e não conseguir alcançá-lo. Sim, os ideais são inatingíveis e também
pode acontecer que eu, por hábito, o idealize de mais. Não é que goste dele; apenas o
invejo.

23 de Novembro de 1936
A véspera do dia livre é uma noite de preguiça e de repouso, mas às vezes também de
dúvidas, pensamentos e conclusões difíceis. Quando tenho tempo, deixo-me embalar nas
minhas reflexões: não há nada pior para mím, que agora devo agir e trabalhar e não
abandonar-me às meditações. Em especial nesta única noite livre, não tenho vontade de
fazer nada nem de estudar. Durante este breve repouso, posso dar-me ao luxo de um ócio
agradável, escrevendo o diário.
Ontem senti com intensidade a simpatia que tenho pelo Linde. Apetecia-me observá-lo e
atrair a sua atenção. Estar ao seu lado durante as aulas já significa qualquer coisa para
mim. Quando chegou a altura do treino militar, algumas pessoas, entre as quais ele, foram
praticar tiro para outra turma. Eu não o fiz por estúpida cobardia, mas observei-o com o
coração nas mãos.
Quando estão em minoria, as raparigas ficam sempre um bocadinho emocionadas, não se
sentem à vontade, não sabem que fazer e esperam sempre alguma partida da parte dos
rapazes. Dado que o Linde se ria, o que me deu um grande prazer, armei-me em palhaço e
fui atrás deles. Como e onde estava, longe ou não de mim, parecia-me que tudo tinha um
significado especial e revelava sinais misteriosos.
«O primeiro contacto físico é decisivo», diz o Petchorin a dada altura. É extraordinário
como o contacto físico pode perturbar! O Linde foi praticar tiro e, quando ia a deitar-se no
chão, roçou-me na perna, provocando em mim uma sensação muito agradável. Já reparei
que é tímido por natureza, orgulhoso e muito reservado. Ontem estava escrito que havia de
me desencontrar dele todo o dia. Encontrava-me eu perto da porta, a olhar para o corredor,
quando passou atrás de
301

mim. Não o vi logo, mas de repente ouvi a sua voz baixa dizendo qualquer coisa a um
amigo e senti nas costas o contacto fugaz do seu casaco quente. Não fui percorrida por
nenhuma corrente eléctrica e não me senti gelada nem a arder, mas este momento tão
quente e intenso foi muito agradável.
Sim, passou atrás de mim, roçou as minhas costas, e o seu contacto foi agradável e quente.
Hoje, pelo contrário, quase nunca pensei nele, mal o observei e senti um certo
arrefecimento, porque surpreendi-o a fazer de pateta. O meu amor tem de ser ideal; sei que
isso não acontece, mas digo-o na mesma. [...]
Há pouco tempo, folheando um opúsculo sobre a Sofia Kovalevskaia*, personalidade
maravilhosa e mulher de uma inteligência não feminina mas multifacetada, convenci-me
ainda mais de que sou estúpida, irremediavelmente estúpida, e que nunca me destacarei
dos milhões de pessoas a que chamam as massas, as multidões.
26 de Novembro de 1936
Hoje houve uma reunião de grupo a propósito da indisciplina. Mais uma! Uma turma é
uma coisa estranha (enquanto grupo específico de pessoas). Entendo-me com todos e
simpatizo com muitos, mas parece que o diabo anda à solta quando estamos juntos. Temos
uma atitude péssima, reprimida e maldosa em relação aos professores. Não é bonita nem
aquilo a que agora se chama o comportamento «soviético».
Estamos sempre a tentar aborrecer os professores e a troçar deles; depois, recusamo-nos a
falar do assunto, para não traírmos os nossos amigos (é assim que se conquista o nosso
respeito). Para falar com franqueza, hoje, contemplando a minha turma como um conjunto
estranho, senti uma certa repulsa por aqueles seres estúpidos e teimosos e tive de me
esforçar para me calar e permanecer solidária com eles. De resto, supondo que tivesse
intervindo, que faria?
Apontaria o dedo ao Leuvka, ao Linde e a mais um ou outro. Oh, como me zanguei, como
odiei o Linde! Que vontade de lhe atirar à cara acusações graves e justas! Hoje vi-o um
bocadinho diferente do costume. Era evidente que se esforçava por dominar a irritação.
Ah, Linde! E, no entanto, gosto dele, agrada-me a sua sinceridade e inteligência. É a única
pessoa que discute os factos com racionalidade e é um prazer ouvi-lo.
Nota: Genial matemática russa (1850-1891), célebre pela sua teoria do movimento de um
sólido com um ponto fixo (Prémio da Academia de Ciências de Paris, 1888), que ainda
hoje tem o seu nome. Viveu e trabalhou na Alemanha e na Suécia. Personalidade
multifacetada, poliglota, foi autora de romances e peças de teatro em sueco.
302

Sabe falar de forma aberta e corajosa, como fez hoje. Disse mais ou menos o seguinte:
«Atribuo o meu comportamento na turma ao facto de me aborrecer... é por isso que me
comporto assim... claro que poderia não perturbar os outros, mas... de momento não
consigo.» Percebi muito bem como foi difícil para ele dizer isto à frente de uma turma que
despreza profundamente e que, por sua vez, não o compreende (e ele sabe).
Esforçou-se muito para pronunciar estas palavras sinceras e duras. Fez-se um silêncio
absoluto enquanto falava. O seu rosto ficou vermelho, depois branco e a seguir outra vez
vermelho; até o pescoço escureceu, enquanto ia lançando olhares assassinos. Também
gostei, embora ao mesmo tempo sentisse uma alegria maldosa. Tratando-se dele, há dois
sentimentos que lutam dentro de mini: a atracção e a inveja.

28 de Novembro de 1936
Chegará a altura em que não me envergonharei da minha idade e deixarei de escondê-la?
Não sei.
A Olga diz que não é bonito discutir nem fazer as garotices que eu faço. Em parte tem
razão, porque já estou com dezoito anos, mas é que me encontro num ambiente de
crianças. Não é justificação, mas sei que tenho razão. Na escola ando numa excitação
contínua, num permanente estado de agitação para não me aborrecer e não me revoltar
com pensamentos incómodos sobre a minha idade e capacidades.
Uma vez, a Ira disse que se nota em mim esta afectação e uma certa falta de naturalidade,
que rio e faço barulho, mas que não me divirto. Na escola, não posso ficar nem um minuto
sossegada e calada; estou sempre a procurar pretextos para me divertir e alguém com
quem discutir, brincar ou falar. Preocupada em fugir ao meu «eu», nem reparo, nem me
interessa saber se aquilo que faço é bom ou mau e que impressão produzo nas minhas
amigas e nos meus colegas.
Tenho uma justificação mais forte do que todas as opiniões e juízos. Pelo menos na escola,
não quero sofrer nem padecer. Na verdade, pareço endemoninhada: apareço aqui e ali, não
me sento em lado nenhum, rio e armo-me em parva sem nunca me cansar. Depois, de
repente, fico taciturna e sombria, para, no momento seguinte, voltar a parecer doida.
Estranho: olhe para onde olhar, encontro sempre um sorriso e uma gargalhada, o que me
dá prazer. Às vezes, meio virada, espreito para trás, observo a fila dos alunos, e aqueles
rostos que tão bem conheço parecem-me próximos, mas incompreensíveis. E todos
despertam em mim um sentimento de calor e simpatia. Sobretudo à última hora, dá-me
vontade de falar e brincar com cada um deles. [...]
303

O Linde não tem nenhuma relação comigo, não me presta a minima atenção e não se virou
nem uma vez para mim. Porquê? Ora, que parvoíce! Ninguém se vira para mim, sou
sempre eu a tomar a iniciativa e agora não tenho vergonha. Bem, se quero alguma coisa
dos rapazes, tem de ser assim. Não gosto das raparigas, não tenho nada em comum com
elas. Queria tanto que os rapazes tivessem consideração por mim! Enfim, é uma história
que já tem barbas.
Hoje, durante a leitura do discurso de Estaline conversámos com um rapaz, o Moskal, que
tem boas relações comigo e com a Mussa.
Nota: Alusão ao discurso feito por Estaline a 25 de Novembro de 1938 no VIII Congresso
(extraordinário) dos Sovietes da União Soviética, dedicado à aprovação da nova
constituição da URSS (adoptada a 5 de Dezembro de 1936).

Agora estou em casa e entrou tudo outra vez nos eixos. Sou a Nina do costume, já com
dezoito anos, pensando constantemente nos livros, no estudo e na cultura e receando
perder um minuto precioso em conversas estúpidas.

22 de Dezembro de 1936
Como nascem a paixão e o amor? O amor brota de repente e não se pode conter, é como
uma torrente que galgou a margem e inunda a alma e o corpo; ou então avança certeiro e
furtivo até ao coração, como um ladrão que se esconde entre os amigos e colegas; mas
também pode chegar de surpresa, mascarado pela inveja e uma maldade profunda. [...]
O amor é um sentimento surpreendente, que transporta consigo muitas coisas novas e
invulgares, que nos leva a reparar em cada tolice e a admirar um movimento, uma palavra.
A pessoa em quem nunca tínhamos reparado passa a ser de repente muito querida e
próxima e perturba tanto como o cheiro da comida agita quem tem fome.
Três palavras sobre o Linde: ontem foi um dia em que me senti muito próxima dele.
Mandaram-no sentar na carteira à minha frente e passei a aula a contemplar-lhe a nuca e as
costas. Tenho por ele um sentimento estranho: não me emociono quando o vejo, o coração
não me bate mais depressa do que o costume, o rosto não me arde e não fico sem ar, mas
estou sempre a pensar nele. Observei-lhe o casaco azul de pêlo comprido, a cabeça
inclinada e os cabelos pretos e lisos, que acabam no pescoço com um caracol escuro.
Estava em picos, agitava-se, bamboleava-se e devia sentir-se zangado. Às vezes ria e, sem
querer, também me esforcei por rir, para
304

que me ouvisse. Às tantas, virou a cabeça (tinha motivo para isso), mas como eu também
me voltei antes de poder pensar fosse no que fosse, não pude ver-lhe o rosto.
Depois de jurar a mim própria que não voltaria a fazê-lo, repeti a mesma parvoíce passado
um segundo. Foi como estender as mãos quando se cai para a frente. É quase impossível
cairmos sem tentarmos parar. É curioso: este seu movimento de se virar provocou em mim
uma série de pensamentos, não de pensamentos verdadeiros, mas de sinais, sombras de
reflexões. [...]
Na aula prática de Física, fiquei sentada na ponta da carteira; na do lado, estavam o Linde,
o Uklon e o Leuvka, de modo que este último encontrava-se muito perto de mim. Assim,
perguntei-lhe qualquer coisa, sabendo que a pergunta seria transmitida ao Linde, dado que
o Leuvka não devia fazer ideia da resposta. Portanto, chegou por intermédio do Leuvka,
mas não estava certa. Quando já me arranjara para encontrar a solução sozinha e até já
esquecera o sucedido, o Leuvka gritou-me: «Já vi no livro: 0,79.» «Obrigada», disse,
vendo o Linde metendo o livro na pasta. Queria dizer que resolvera verificar para me dar
uma resposta exacta. Foi muito simpático da sua parte.
E de repente tive uma grande vontade de ir ao teatro onde o nosso grupo combinara ir.
Queria vê-lo, passar o serão com ele, mesmo que indirectamente. Que estúpida! Fiquei
cheia de esperanças só por causa de um gesto que não significa nada. Mas basta cantar o
hino do amor! Apeteceu-me continuar o meu doce jogo com o Moskal para me distrair e
esquecer o Linde. Este sentimento e a minha irritação falsa e estúpida começam a dar-me
nervos.

28 de Dezembro de 1936 [...]


2 de Janeiro de 1937
Foi-se outro ano da minha vida. Um ano breve e insignificante de que já não preciso. Não
quero recordá-lo, não quero pensar nele. E porque deveria fazê-lo? Olho em frente, só em
frente. Os insucessos do passado fazem-me melhor e não me atormentam porque é com os
erros que aprendemos. É uma espécie de prefácio ao novo ano, um sinal da minha
renovação.
O último dia de aulas foi a 29 de Dezembro e fizemos a árvore de Ano Novo’ na escola.
As aulas tinham acabado com alegria e
Nota: Quando Nina escreve, a árvore de Ano Novo (assim se rebaptizou a árvore de Natal)
e as festas natalícias acabavam de ser reintroduzidas pelo regime. Depois da Revolução,
eram «criminosos» todos os que tentavam celebrar as festas religiosas (Páscoa, Natal); por
consequência, tinham caído em desuso símbolos rituais como os ovos pintados ou a árvore
de Natal, que anteriormente era sempre um abeto (um decreto de Pedro I, em 1600,
obrigava a que a árvore fosse replantada na floresta depois de «usada»). Com a
transformação do estilo revolucionário (1917-1935) no estilo tradicionalista-totalitário (a
partir de 1937) são recuperados alguns gestos culturais do passado czarista: escolas
separadas, uniformes obrigatórios para os estudantes de todos os níveis e vários
funcionários do Estado, casamento de branco, embora só civil, dragonas e estrelas para os
militares e algumas celebrações «camufladas», de modo a parecerem «festas pagãs e
proletárias». Por ordem específica do Governo, renasce a celebração do Natal com a
designação de «Ano Novo» e o abeto de Natal passa a chamar-se «Abeto de Ano Novo».
A festa de Ano Novo tem dois protagonistas inéditos: a «Virgem da Neve» e o velho «Avô
Gelo» que, tal como Maria e José, assistem à chegada do «Ano Menino». Representações
teatrais, distribuição de presentes e animados jogos realizam-se a nível oficial, a partir de
1935, junto das luxuosas residências dos membros do Governo da URSS e do Comité
Central do Partido Comunista.

305

vivacidade e eu estava absorta nos meus pensamentos sobre os rapazes e a escola. Muito
bem-dispostas, eu e a Mussa sentámo-nos na última carteira, atrás do Linde, o que foi
suficiente para me emocionar e encher de brio. Sim, como era agradável vê-lo ao pé de
mim, ouvir a sua voz, observá-lo. Mas como não estou apaixonada, também consegui
ocupar-me de outros assuntos. Pegámos num ramo do abeto e enfeitámo-lo, oferecemos
caramelos a toda a gente e divertimo-nos muito. [...]

3 de Janeiro de 1937
Três palavras sobre o fim do ano. Foi bastante animado e alegre: podia ter sido ainda mais,
mas houve quem se divertisse muito. Apesar de ser estranha, fiquei muito satisfeita
comigo própria.
Nota: Nina passou o fim do ano na Casa dos Estudantes, na companhia da irmã, Olga.

Ou porque mudei ou porque estou com um aspecto mais maduro, o facto é que todos
falaram comigo de igual para igual e não me senti embaraçada. Tal como eu, a Olga
conhecia pouca gente; por isso, estivemos juntas. Não demorei a travar relações com dois
ou três jovens com quem me senti muito à vontade.
Um deles era o Iuri M., um homem maduro, casado (estava lá também a mulher,
pequenina e simpática) e que se via que já passara muitas dificuldades. Trava-se sempre
amizade com pessoas assim, porque são muito simples e sabem despertar confiança. A
simplicidade e a segurança geram simpatia nas pessoas tímidas; senti-me à vontade com
ele precisamente porque não podia haver namoricos entre nós.
Gostei muito de um outro rapaz, o Boris, de estatura mediana, bem-feito e com uma cara
bonita e simpática. Há rostos masculinos que agradam muito às mulheres porque cada
traço evidencia firmeza, coragem e força. O dele era assim, com o nariz direito e nobre e
os lábios pequenos sorrindo sempre com doçura, mas com uma certa ironia.
306

O maxilar inferior ligeiramente saliente e os sulcos duros e direitos da boca davam um quê
de característico à sua fisionomia (a propósito, o nosso Kolia tem uma expressão e um
sorriso parecidos com os do Boris). Os olhos eram pretos e grandes e as pestanas espessas.
Como estava sozinho (sem par) e a aborrecer-se, passou a primeira parte da noite a
conversar comigo e com a Olga.
O vinho deu-nos mais alegria e sociabilidade, fazendo-nos rir mais vezes e tornando-nos
mais simpáticos aos olhos uns dos outros. Da noite (para já não falar da manhã), fiquei
com uma lembrança indistinta, delicada, agradável e cheia de amizade e simpatia. Certos
sinais de ternura, o contacto quente de uma mão, um sorriso doce, um olhar sorridente e
amigo... tudo o que não tem conteúdo nem vale a pena exprimir por palavras.
Quando bebemos alguns copos de vinho, a primeira sensação nova é a proximidade com
quem nos rodeia, o desaparecimento das barreiras que existiam e que voltarão a surgir no
dia seguinte. Sentimo-nos queridos e considerados. Quem nunca experimentou uma
emoção agradável, semelhante a uma tontura, ao receber o aperto excitante de uma mão
forte e masculina, ao sentir de repente que nos pousam a mão nas costas com doçura, ou
ao ficar a sós com alguém numa sala, a dizer qualquer coisa, olhando um belo rosto
emocionado? É talvez uma agitação exagerada, mas bela e inocente.
Vale a pena dizer umas palavras sobre um rapaz que me ofendeu. Cerca de três dias antes
do fim do ano, ele e uma rapariga foram levar-nos um abeto. A Eugenia não estava e eu
tive de os receber. Fiquei com boa impressão do Dânia, que é um rapaz alto e alegre.
Encontrando a Eugenia no instituto, disse-lhe que gostava de mim e, por brincadeira,
acrescentou que estava muito apaixonado.
No dia seguinte, voltou a falar no assunto, dizendo que me ia fazer a corte e que queria
declarar-se. Na verdade, pediu à Eugenia para não me dizer nada (ela não cumpriu a
promessa e fez mal). Claro que estava a brincar, mas não há fumo sem fogo. Seja como
for, antecipei a alegria e os risos a propósito deste jogo, e as alusões das minhas irmãs e do
Iuri T. acenderam a minha imaginação. Assim, quando o Dânia chegou, atrasado, senti-me
um pouco estranha e atrapalhada ao cumprimentá-lo.
Estava curiosa por saber o que faria e diria, mas o certo é que não aconteceu nada.
Terminado o jantar, chegou o momento de nos divertirmos, mas o Dânia nem reparou em
mim. Atraí-lhe muitas vezes o olhar: sentia-me perturbada, embaraçada e também zangada
com ele. Por volta das quatro, encontrou-me sozinha na cozinha, mas não lhe dei
oportunidade de falar. Receando que se fosse embora, apressei-me a pedir-lhe desculpa
por lhe ter partido o copo.
307

A conversa foi breve. A Olga disse-me depois que eu só disse coisas banais (por isso, não
as repito aqui). Assim, acabou o nosso conhecimento. Quer dizer, dirigiu-me outra vez a
palavra quando já era quase de manhã: «Nina, está a dormir?» Não estava, mas zangara-
me quase até às lágrimas por causa do chão todo vomitado. «Não, não é possível
adormecer no meio desta confusão. É preciso estar-se muito bêbado para dormir.» «Então
quer dizer que eu vou dormir», respondeu.
E é tudo. Um facto insignificante, mas, como as ninharias abundam na minha vida,
escrevo-o por curiosidade. Foi um tanto desagradável e embaraçoso para a Eugenia e os
outros, que agora não dizem uma palavra nem sobre o Dânia, nem sobre mim, o que
significa que mudou de ideias, já que não se repetem os comentários negativos.
Nota: É a última anotação do diário. No dia seguinte, 4 de Janeiro, houve uma busca na
casa onde Nina vivia com a família, durante a qual foi confiscada toda a correspondência
relativa ao pai de Nina, a literatura sobre os socialistas revolucionários e os diários das
filhas, Nina e Olga, o que deu início ao processo e à sua detenção.
308

Um achado arqueológico:
a voz adolescente da denúncia
de Elena Kostioukovitch
A vida na União Soviética dos anos 30 não era de molde a que se escrevessem diários. Era
a época em que os famigerados troike condenavam inocentes ao fuzilamento, a apoteose
de Estaline estava no apogeu, os campos de trabalho proliferavam e perseguiam-se
«inimigos do povo» sempre novos. Uma ameaça real: a polícia podia, em qualquer altura,
irromper por uma casa, revistá-la e prender os seus habitantes. Mãos estranhas
começariam então a folhear páginas que não eram destinadas sequer às pessoas mais
queridas, mas só aos olhos e à memória de quem escrevia. Nestas condições, como
podiam confiar-se os pensamentos à tinta e ao papel?
Ao mesmo tempo, no entanto, a formação e a vida dos intelectuais russos (que cultivavam
a leitura e a declamação, as conversas sobre temas morais, filosóficos e éticos e o diálogo
interior como método de disciplina mental) levava as pessoas a escreverem diários. Anotar
os pensamentos mais secretos era uma prática indispensável, um trabalho com vista à
aquisição do espaço espiritual deixado livre pela religião, dado que a ortodoxia tem um
carácter essencialmente não escrito, oral. Alguns escreviam diários para vencer o medo e o
mutismo de uma época terrível. Outros confiavam-lhes o seu protesto contra a psicologia
«comunitária», gregária, que caracterizou a população russa desde tempos muito recuados
até aos nossos dias. Tanto num caso como noutro, este diálogo com a própria pessoa era o
baluarte supremo da liberdade, ainda que reduzida às dimensões da folha de um caderno.
Parte notável e indispensável do trabalho de escritores e artistas, os diários foram muitas
vezes publicados nas edições das obras completas. É claro que, tal como tudo o que se
imprimia no regime soviético, também eles eram sujeitos à censura. Os leitores atentos
percebiam a inelutabilidade dos excertos suprimidos, tentavam avidamente descobrir
309

o seu conteúdo e reagiam com alegria quando alguém, na clandestinidade, trazia à luz
alguma passagem eliminada. Assim, eram muito populares nos anos 70 as citações orais
dos excertos apagados dos diários de Erenburg. Era frequente censurarem-se e mutilarem-
se até os diários de escritores mortos muito antes da era dos bolcheviques (o que
aconteceu, como todos bem sabiam, no caso do Diário de Um Escritor, de Dostoievski).
Com a queda do poder soviético, os diários foram reimpressos na versão original, em
edições periódicas e em volumes, muitas vezes acompanhados de importantes notas
críticas. Nestes diários, que constituíram uma das grandes fontes de informação no
período da perestroika, encontramos expressas as ideias (dantes desconhecidas e hoje em
muitos aspectos reveladoras da história e da cultura soviéticas) de homens de letras
famosos como Ivan Bunin, Mikhail Prishvin, Ilia, Ilf e Evgeni Petrov, Danil Kharms e
David Samoilov. Um acontecimento muito especial foram as memórias escritas, baseadas
nos velhos diários da irmã de Marina Cvetaeva, Anastácia. Os diários de Romain Rolland
sobre a sua viagem à URSS nos anos 30 foram publicados cinquenta anos depois da sua
morte (tal como o próprio indicou expressamente em testamento), lançando uma nova e
inesperada luz sobre as ideias dos intelectuais europeus em relação ao que estava a
construir-se na União Soviética. E descobrimos assim que, embora defendendo o novo
Estado dos Sovietes por uma questão de considerações ideológicas, os visitantes europeus
recolheram muitos aspectos trágicos da edificação soviética e que, confiando os seus
pensamentos às páginas secretas, se exprimiram com sinceridade sobre o verdadeiro rosto
deste poder.
O diário predispõe a considerações pessoais e familiares e a uma análise sincera das
atitudes individuais face à realidade. Por isso mesmo, admiramo-nos ao ver como, nos
diários dos soviéticos dos anos
30, a alma humana se revela quase totalmente devorada pelo Estado. Neste sentido, são
emblemáticos os diários do dramaturgo Alexandre Afinogenov, publicados pela editora
Sovetski Pisatel em 1960, quando ainda vigorava a censura, com o título «Excertos
Escolhidos dos Diários e das Notas do Dramaturgo, de 1927 a 1941». Afinogenov
celebrizou-se em 1930, ao escrever a peça «O Medo», onde o protagonista, um professor,
diz as seguintes palavras:
Que aconteceu às pessoas? Realizámos uma análise objectiva com base em algumas
centenas de indivíduos de diversos estratos sociais... O estímulo comum no
comportamento de oitenta por cento dos examinados é o medo... A leiteira receia a
confiscação da vaca, o camponês a colectivização forçada, o trabalhador soviético
310

as constantes depurações, o funcionário do partido a acusação de desviacionismo, o


cientista a de idealismo e o técnico a de sabotagem.
No entanto, depois de ter sabido diagnosticar com tanta exactidão o que estava a acontecer
no seu país em 1930, o mesmo Afinogenov fala no seu diário, em 1937, no apogeu do
ezhovshtchina, o terror estalinista, na altura em que acabara de ser pronunciada e
executada a sentença de fuzilamento de Kamenev, Zinoviev e dos outros acusados de alta
traição, da «[...] grande clemência da nossa revolução»!
O crítico contemporâneo Benedikt Sarnov comenta assim os diários de Afinogenov:
Sente-se, em todas as páginas, o impaciente desejo do autor não só de declarar [...] a sua
lealdade, mas de gritar com uma paixão quase patológica: «Amo! Amo esta vida nova!
Sou-lhe devoto de todo o coração, com toda a alma, com cada átomo, cada molécula do
meu ser!»
Tudo leva a pensar (observa Sarnov) que Afinogenov escreveu estas páginas de propósito.
É como se estes excertos que testemunham a sua devoção ao regime fossem destinados a
olhos estranhos. Como se o dramaturgo pensasse que, no infeliz caso de ser preso ou de
sofrer uma busca (e, como sabemos, Nina Lugovskaia foi presa em consequência de uma
busca) e de o diário cair nas mãos da policia secreta, estas páginas íntimas seriam o mais
seguro testemunho da sua lealdade política.
De facto, na era pós-soviética, já não sujeita à censura, a revista Sovremennaia
Dramaturgia (1993, n. 1, 2, 3) publicou os fragmentos do diário de Afinogenov que não
tinham sido incluídos nos «Excertos Escolhidos». Esta parte do diário está escrita de uma
forma insólita, na medida em que representa um esboço de peça de teatro, um verdadeiro
texto dramatúrgico. Intitula-se «Acta de Interrogatório».
inquisidor: Não acredito no seu diário.
eu: Já sabia.
inquisidor: Porquê?
eu: Porque se estamos à espera de ser presos e temos um diário, é lógico que se pense que
o escrevemos para o futuro leitor-lnquisidor e que, portanto, embelezamos o mais
possível, para nos desculparmos. E, por assim dizer, «redigimos», corrigimos, cortamos e
apagamos as anotações precedentes, relativas aos anos passados. Foi isso que pensou,
não?
311

INQUISIDOR: Foi.
eu: Eu também. A partir do momento em que compreendi que devia ser preso, pensei
várias vezes se não seria melhor deixar de escrever o diário. Mas decidi que não, que não
era preciso. Apesar de tudo, no fundo, não acreditava que seria preso... É natural que o
senhor não acredite no diário, é assim que deve ser: se encontrasse nele ideias negativas,
então julgá-lo-ia digno de atenção e acusar-me-ia. É compreensível. Mas o senhor não
acredita no que escrevi para mim próprio. Já o sabia e pensei nisso, o que me deu de
repente a solução do problema: sim, era preciso continuar a escrever. Porque se pensasse
que o senhor acreditaria no diário, escrevê-lo-ia como para um estranho e então adeus
sinceridade comigo próprio; ou seja, sentiria os seus futuros olhos naquelas páginas. Mas
como já sabia que não acreditaria em nada e se limitaria a rir para si próprio depois de o
ler, libertei-me de repente da sua presença durante o meu trabalho no diário e recomecei a
escrever com toda a liberdade e simplicidade, como dantes, nos anos passados...
O requinte psicopático deste excerto lembra Kafka, 1984, de Orwell, ou a Lenda do
Grande Inquisidor de Os Irmãos Karamazov de Dostoievski. Portanto, naquelas décadas,
as pessoas mentiam até ao próprio diário, isto é, a si mesmas, como se os pensamentos
mais íntimos pudessem ser ouvidos por estranhos? A única explicação para uma contorção
literário-psicopática tão complexa talvez esteja na palavra que Afinogenov escolheu para
título da sua peça mais famosa: «O Medo».
E eis como reagia à vida do seu tempo um outro intelectual indubitavelmente sábio e
nobre, o grande escritor Kornei Tchukovski (anotação do diário de 22 de Abril de 1936):
Ontem, no congresso, fiquei sentado na sexta ou sétima fila. Virei-me: Boris Pasternak.
Fui ter com ele e trouxe-o para as primeiras filas (havia um lugar livre ao meu lado).
Nisto, aparecem Kaganovitch, Vorochilov, Andreev, Zhdanov e Estaline. O que foi pela
sala! Ele (Estaline) estava de pé, um pouco cansado, pensativo e majestoso. Sentia-se nele
o hábito do poder, força e, ao mesmo tempo, qualquer coisa de feminino, doce. Virei-me:
toda a gente tinha expressões apaixonadas, ternas, inspiradas e risonhas. Vê-lo, vê-lo
apenas era, para todos nós, a felicidade... Acolhíamos cada gesto seu com veneração.
Nunca me passou pela cabeça que seria capaz de sentimentos semelhantes. Enquanto o
aplaudíamos, ele tirou o relógio (de prata) e mostrou-o ao público
312

com um sorriso encantador; todos nós começámos a sussurrar «o relógio, o relógio,


mostrou o relógio»; depois, saindo, já perto do vestiário, recordámos de novo aquele
relógio. Pasternak passou a vida a sussurrar-me palavras exaltadas sobre ele... Estávamos
os dois ébrios de alegria...
Lendo estes dois documentos, um dos quais acabado de publicar (graças à perestroika),
ficamos estupefactos, custa-nos a acreditar. Vemos pessoas inteligentes e cultas dialogando
consigo próprias nos anos 30 e tentando persuadir-se, aturdir-se. Convenciam-se de que
amavam o regime, de que amavam Estaline! E não o escreviam num texto qualquer, mas
nos respectivos diários! Drogavam-se a si próprios. Era um verdadeiro delíquio: amor,
paixão adolescente, hormonal, pelo ditador, pelo poderoso Estaline, pelo criminoso
calejado e assassino.
Quem, pelo contrário, nunca fez declarações de amor ao tirano no seu diário foi Nina
Lugovskaia, uma verdadeira adolescente, apaixonada, muito menos culta e mais ingénua
do que os grandes escritores e poetas, uma simples adolescente perturbada, ela sim, por
autênticas tempestades hormonais! As suas ternuras secretas não iam para Estaline, mas
sim para um colega de turma. E, tal como a criança da história de Andersen, via o tirano
sem a «roupa nova» que os homens de letras e os filósofos lhe tinham vestido.
Se bem que ainda imatura, se bem que privada de interlocutores verdadeiramente cultos,
Nina soube pôr preto no branco, chamar o mal pelo nome, apontar o dedo aos criminosos
e definir em que consistia a sua culpa. Chamou mentira à mentira, elevando-se assim
acima dos estudiosos de profissão, tanto do ponto de vista filosófico como da crítica
social.
[...] Ainda amará o pai ao fim de um afastamento de três anos? Eu deixei de amar o meu.
Foi preciso muito tempo para voltar a habituar-me a ele e por pouco não o tratava com
cerimónia.
Oh, bolcheviques, bolcheviques! A que ponto chegaram, que estão a fazer? Ontem, a Ju I.
falou ao meu grupo de Lenine e, naturalmente, da nossa «edificação». Como me fazia mal
ouvir tantas mentiras despudoradas nos lábios de uma mulher que estimo tanto, quase
venero! Pouco me importa que o Evtchikevitch minta, mas ela, com aquele seu jeito de se
apaixonar sinceramente pelas coisas... E altera assim a verdade? E conta mentiras a quem?
A crianças que não acreditam, que sorriem de si para consigo em silêncio, dizendo:
«Mentes, mentes!»
Diário, 21 de Janeiro de 1933
313

Não é por acaso que, no diário, Nina foca questões tão escaldantes, procura formulações
exactas e não deixa assuntos por exprimir ou meditar. O facto é que esta rapariguinha de
catorze anos se obrigava a um exercício quotidiano, julgando que ser escritora era a sua
vocação, o seu caminho. Di-lo num dos seus cadernos, comparando-se com um modelo
muito ambicioso: o genial, inalcançável Lermontov.
[...] Estou a ler a biografia de Lermontov... Regra geral, quando leio a biografia de algum
escritor, tento logo perceber se há alguma semelhança entre nós. É um desejo que percebi
pela primeira vez há muito tempo, e fico sempre contente quando encontro traços comuns
(o que acontece muito raramente), porque me parece que assim posso ter esperanças de vir
a ser escritora.
E, no entanto, não sei escrever. Como posso ter talento se não consigo escrever uma única
página sem trabalhar cada frase, uma por uma, tentando perceber como hei-de redigi-la?
Assim não vou longe.
Às vezes penso que tudo melhorará com o passar dos anos e que era muito pequena
quando comecei a escrever, mas Lermontov começou aos treze e fê-lo logo muito bem.
Diário, 15 de Fevereiro de 1933
O sofrimento, por o talento recebido de Deus não ser talvez tão grande como o de
Lermontov, é uma frustração típica de muitos jovens escritores principiantes. Para Nina, o
modelo escolhido e inalcançável é precisamente a literatura clássica, o que é significativo.
Com efeito, na Rússia dos anos 30, a arte, em geral, estava a sofrer a acção de ruptura do
futurismo e cubismo, e a perspectiva alterada e distorcida dos quadros (não sem a
influência dos cânones representativos dos ícones da antiga Rússia) reflectia o
desenvolvimento deformado e convulso da linha da nova história russa, tão trágica como
no passado. A arte representava os estados de alma que na Alemanha de antes da guerra
eram encarnados pelo expressionismo de George Grosz. Os ritmos criados na Alemanha
por Kurt Weill e Bertold Brecht tornaram-se, na literatura russa, a frase quebrada de
Babel, no manifesto, o estilo agressivo de Maiakovski, no teatro, as invenções
provocatórias de Meierkold. Para Nina, no entanto, é como se todos estes ritmos e
humores não existissem. A sua forte e invulgar autonomia intelectual reflecte-se, mais uma
vez, na propensão para o estilo clássico. A formação dos gostos e ideias de Nina também
deve ter sido influenciada pelo pai, sempre ausente e não muito amado, mas incrivelmente
respeitado.
314

Este pai, preso e exilado, teimava em educar as filhas à distância. Diz ele a Eugenia:
Escreve-me a dizer se estás de acordo com a minha ideia sobre Tolstoi enquanto filósofo e
político. Verifica a minha opinião sobre o seu livro. Só então tudo se tornará claro.

Este pai, pensador taciturno e solitário, não só procurava um ponto de apoio no


nacionalismo conservador, como inculcava nas filhas opiniões antipáticas de natureza
racista, dirigidas contra os judeus. De vez em quando, Nina repetia debilmente e sem
convicção estas filípicas paternas, empregando a palavra «judeu» em sentido abstracto,
como sinónimo de «bolchevique, comissário, usurpador». Certas afirmações que nos
ferem os ouvidos chegam a parecer pouco naturais, sobretudo se tivermos em conta que
muitos dos amigos e confidentes de Nina descritos no diário eram judeus. E não só: Nina
casou precisamente com um judeu, Viktor Templin, com quem viveu muitos anos, até à
morte.
Nota: Khotchu Zhit. A edição russa, a cargo de Perova e Ossipova, compreende algumas
cartas de Sergei Rybin, originariamente incluídas pelo procurador no processo de
instrução de Nina.

Este pai, separado da família, mas que nunca deixava de pensar nela, era talvez o único
que sancionava as impressões e os contactos de Nina e que a ajudava a não resvalar para a
mentalidade soviética.
Em geral, a propósito dos vossos educadores: não são eles que têm culpa e sim o sistema,
que é muito tosco. É como se quisessem transformar as pessoas em engrenagens: montam
o mecanismo, põem-no em movimento e nós rodamos como um objecto insensível, sem
alma.
[...] Noutras condições, seria tudo diferente, mas agora é preciso agir em função das
circunstâncias. Ao empenharmo-nos nesta luta pelo direito a uma existência humana,
minha querida, temos de investir muitas energias para o conquistarmos, aspirarmos a um
lugar digno e não nos perdermos na multidão como um grão de areia na estepe...
E ainda dirigindo-se a Eugenia:
[...] Sei que estudarás e te dedicarás por inteiro à arte pura, mas tens de saber de antemão
que o teu caminho será difícil durante muito tempo e que precisarás de uma grande força
de vontade para superar todos os obstáculos.
315

Eugenia, que acabou no cárcere juntamente com Nina, a mãe e a irmã gémea, Olga (por
causa dos diários «subversivos» desta última), é outro destino criativo irrealizado. Quanto
a Nina, conhecêmo-la melhor, porque temos nas mãos o texto que nos permite seguir o
desenvolvimento do seu potencial de crítica e aprendiz de escritora.
Nina tenta muitas vezes compor o esboço ambiental ou psicológico e representar as cenas
com vivacidade, descrevendo os movimentos, os factos sem importância e os mínimos
detalhes. Mas há no texto um outro aspecto encantador: as reflexões prolíficas, as
descrições de paisagens e sentimentos e até as apaixonadas invectivas políticas estão
recheadas de pormenores quotidianos quase prosaicos.
Agora arrancaram-no à Ira [o pai], destruíram-lhes a felicidade e a tranquilidade,
violaram-lhes a maneira como vivem, os hábitos, tudo o que lhes é caro. Também nós
vivíamos bem antes de o papá ser preso, mas depois... parece que caímos do céu para um
turbilhão de privações e tensões. Agora também eles, que todas as manhãs comiam
manteiga e bebiam café, perderão tudo se o deportarem para Ust-Sysolsk...
Diário, 21 de Janeiro de 1933
A rapariguinha odeia a polícia política, que eliminou, destruiu a família da amiga, mas,
entretanto, deixa escapar um pequeno detalhe, «comiam manteiga», que nos diz muito da
miséria, da pobreza em que vivia até quem podia considerar-se com sorte, porque se
encontrava não no interior, mas no exterior do recinto de arame farpado! Ficam também
outros pormenores semelhantes: por exemplo, o único vestido, que depois da escola Nina
lavava e secava ao calor da chama de querosene, para depois voltar a envergá-lo na
mesma noite, na festinha da amiga.
As cenas da vida quotidiana descritas por Nina são bem conhecidas de um grande número
de pessoas que viveram a pobreza soviética, as paixões que sente são típicas das
adolescentes nervosas e sensíveis, independentemente da época em que vivem, e as suas
veleidades literárias são o indício de um desenvolvimento espiritual ainda muito difuso na
Rússia. O que não se encontra com tanta frequência são as observações sociais precisas, o
rigor e a resistência ideal expressa por Nina. Estes são os seus traços inconfundíveis,
específicos, característicos.
É de uma maneira igualmente original e rigorosa que trabalha Irina Ossipova, a
descobridora e «arqueóloga» da história estalinista
316
que encontrou o diário. Esta estudiosa achou um texto em consonância com a sua própria
vida, sobretudo quando jovem. A nota dominante da vida de Irina Ossipova é o seu
entusiasmo, uma natureza apaixonada e capaz de uma abnegação quase heróica. A sua
vida de adulta divide-se em duas: a primeira é o seu passado de engenheira na máquina da
indústria militar soviética, na produção de aparelhagens de localização por rádio; a
segunda é a sua existência actual, a vida depois do fim da era soviética, que ela sente
como um renascimento. É a vida depois daquele dia, em 1988, em que Irina, que já
deixara a indústria da defesa em 1985, foi a uma reunião no enorme pavilhão do palacete
da fábrica de lâmpadas eléctricas de Moscovo. Naquele dia, reuniram-se, talvez pela
primeira vez, em Moscovo pessoas a quem tinham morrido parentes e amigos no gulag
estalinista.
Os organizadores do encontro estenderam telas gigantescas (4 x x 2,5 m) e propuseram
aos presentes que afixassem nelas nomes, endereços e fotografias daqueles cujas vidas
tinham sido despedaçadas pelas prisões e pelos campos, no período que vai dos anos 30 à
década de cinquenta. No tempo de Estaline, não se davam informações às famílias dos
presos e fuzilados. Todos tinham nos lábios a mesma pergunta: onde, quando e como
morrera o seu ente querido. «Tentaremos encontrá-los nos arquivos da KGB, tentaremos
contar os seus últimos dias»: foi uma promessa que ninguém pronunciou abertamente no
palco (só tinham passado seis anos do fim da era Brejnev), mas que ficou subentendida.
As pessoas aproximaram-se e afixaram fotografias e mensagens. Uma hora depois, as telas
estavam cheias de camadas e camadas de mensagens e fotografias.
Irina foi ter com os organizadores e ofereceu a sua colaboração voluntária. Entrou assim
no grupo dos «arqueólogos do gulag» e iniciou um caminho que a conduziria a uma
quantidade de descobertas e que permitiria que muitas dezenas de pessoas prestassem uma
última homenagem aos seus entes queridos.
Tenhamos presente que Irina não é pessoa para suspirar de comoção perante qualquer
pequena informação sobre os terríveis campos de trabalho. Numa longa conversa
(gravada) que tivemos a 28 de Novembro de 2003, contou o seguinte:
Seis meses depois desta reunião, comecei o meu trabalho, que consistia em transcrever os
registos das pessoas que foram presas na era estalinista. Muitos diziam que haviam sido
presos sem motivo, que eram verdadeiros homens soviéticos e que não tinham culpa. A
pouco e pouco, comecei até a sentir uma certa irritação com esta posição... Queria
encontrar os que tinham lutado contra o regime soviético, que eram verdadeiramente
«culpados», que representavam uma força rara e preciosa: a resistência...
317

Depois de trabalhar doze anos nos arquivos da ex-KGB, Irina Ossipova baseou-se nos
processos de instrução para escrever sete livros que dedicou àqueles que representavam
esta grande força da «resistência». São livros sobre os adversários do regime aniquilados
nos campos estalinistas: sobre os mártires da fé religiosa («Se o Mundo Vos Odeia...
Mártires da Fé no Regime Soviético»), sobre a «verdadeira Igreja Ortodoxa», igreja de
oposição em relação à oficial, sobre os judeus ortodoxos, os chassidianos, e a
clandestinidade chassídica nos anos 30 do terror bolchevique. Prosseguindo nesta via e
criando uma base de dados a partir da documentação processual dos adversários do poder
soviético, examinando os arquivos relativos aos socialistas por ordem alfabética, Ossipova
encontrou o processo de Sergei Fedorovitch Rybin. O pseudónimo do socialista
revolucionário Rybin era o topónimo Lugovskoi («que vem da Luga»), que depois passou
a ser o apelido da família. Era ele, o pai de Nina Lugovskaia, a rapariguinha que escreveu
o diário.
Lendo a documentação, Irina Ossipova ficou com a certeza de que a família deste homem
fora toda presa. Quando pediu para consultar os documentos e os registos dos
interrogatórios, foram-lhe parar às mãos os cadernos do diário de Nina.
Depois de ler o diário, Irina Ossipova deu-se conta de que «encontrei-me de frente com o
meu passado, com qualquer coisa profundamente pessoal... Na verdade, ele fala de mim.
O apelido do meu padrasto era Schmidt. Tínhamos um nome alemão; isto é, segundo os
que nos rodeavam, éramos fascistas. Como foi depois da guerra, perseguiam-me na
escola... Éramos filhos de um inimigo do povo que fora preso... Como Nina...»
Irina Ossipova é muito mais jovem do que a autora do diário, mas a história soviética foi
longa. Resistiu sete décadas e foi monocórdica o bastante para dar a mais de uma geração
de adolescentes de talento a possibilidade de forjarem o carácter numa atmosfera de
inferno soviético. Nina, que viveu antes da guerra, descreve a fome. Mas também houve a
mesma fome depois! Irina Ossipova e todos os que hoje têm sessenta anos lembram-se
desses tempos na Rússia. Nina falava da fome com simplicidade e naturalidade, como de
uma circunstância normal da vida quotidiana:
Às tantas, uma pessoa tem fome e diz: «Não faz mal, de futuro será melhor.» Ou tem uma
sede tão insuportável que o estômago até arde, mas sufoca o desejo e diz: «Em breve
poderemos comprar um saco de caramelos e beber todo o chá que quisermos.»
Diário, 18 de Janeiro de 1933
318
Perante um texto tão extraordinário, a perspectiva de um esforço enorme não deteve Irina
Ossipova, que transcreveu integralmente todo o diário guardado nos arquivos. No decurso
deste trabalho, eliminou as repetições mais cansativas e corrigiu as ambiguidades. Depois,
em colaboração com a editora Glas, de Moscovo, e com a sua directora, uma outra pessoa
entusiasta, capaz e infatigável, Natasha Perova, foram preparadas duas edições de baixa
tiragem, uma em russo e outra em inglês. Para isso, foi necessária a ajuda de um
patrocinador. Quem se ofereceu foi o mecenas Francis Greene, jornalista de guerra, autor
de vários filmes de televisão e filho de Graham Greene, escritor conhecido em todo o
mundo e muito popular na Rússia. As duas publicações, ambas da responsabilidade de
Ossipova e Perova, foram apresentadas ao público numa forma reduzida. Decidiu-se então
publicar um texto mais completo com o apoio editorial da Frassinelli. Ossipova e a
redacção desta editora elaboraram novamente o texto, com base em critérios de
legibilidade, coerência e bom senso.
Existem, em qualquer diário, factos e considerações importantes e episódios puramente
secundários. E embora cada palavra seja importantíssima para nos dar uma ideia da
personalidade de quem escreve e da realidade circundante, era impossível publicar este
diário numa versão integral. O texto ficaria muito longo face à capacidade normal de
atenção e ao tempo à disposição do leitor moderno. Foram portanto eliminados alguns
excertos (noutros casos, dias inteiros) em que se contavam mais pormenores de
acontecimentos já descritos ou factos que o leitor já conhecia. O texto conservado, no
entanto, não sofreu sínteses nem interpolações e conserva a sua fidelidade ao documento
original.
Por altura da apresentação do projecto às várias editoras a nível internacional, houve muita
gente que comparou Nina a Anne Frank. A célebre escritora contemporânea Liudmila
Ulickaia explica assim este paralelo, no seu prefácio à edição alemã da Hauser Verlag:
Existem motivos para que os diários de Anne Frank e Nina Lugovskaia possam ser
considerados documentos afins.
Antes de mais, ambos pertencem à micro-história, esse novo sector da história que se
destacou enquanto disciplina autónoma. A grande história observada através do destino de
um indivíduo: não do líder, do dirigente, do filósofo ou do escritor, mas do solitário e
insignificante grão de areia. De homens que não fazem a história, mas que estão
mergulhados nela. São testemunhos casuais, involuntários e, precisamente por isso, muito
verdadeiros.
319

Tanto Anne Frank como Nina Lugovskaia são adolescentes egocêntricas, concentradas na
sua vida interior e absortas nas emoções que acompanham a maturação sexual. Ambas têm
relações complexas com os pais: Anne Frank vive um conflito profundo com a mãe; Nina
Lugovskaia uma reacção negativa ao pai. É um traço muito característico da adolescência.
Encontram-se as duas em situações extremas, mas o caso de Anne Frank é muito mais
grave: já está encurralada, já foi condenada, e a força dos seus diários reside precisamente
no facto de nós, leitores, já o sabermos numa altura em que ela ainda não abandonou a
esperança de sobreviver.
A situação extrema em que vive Nina Lugovskaia é partilhada por milhões de crianças
como ela e seus pais. Estão todos condenados, mas não há a certeza de que o fim seja
trágico... Morreram milhões de pessoas tanto nos campos soviéticos como nos alemães,
mas Anne Frank é uma judia numa Holanda ocupada pelos nazis e Nina Lugovskaia é uma
russa entre os seus compatriotas esmagados por um regime totalitário.
Nas memórias de Alexandre Orlov, contemporâneo e testemunha dos crimes estalinistas,
conta-se o seguinte: numa reunião no Kremlin, um alto funcionário do partido, Mironov,
comunica a Estaline o andamento das investigações do caso Reingold, Pikel e Kamenev,
acusados (contra a verdade dos factos) de alta traição. Mironov refere que Kamenev não
confessa, que opõe uma resistência obstinada e que há poucas esperanças de conseguir
dobrá-lo.
- Portanto, pensa que Kamenev não confessará? - perguntou Estaline, semicerrando os
olhos com astúcia.
- Não sei - respondeu Mironov. - Não se deixa persuadir.
- Não sabe? - indagou Estaline, fingindo-se admirado e olhando fixamente Mironov. - E
sabe quanto pesa o nosso Estado com todas as suas fábricas e máquinas, o exército, o
armamento e a marinha?
Mironov ficou atrapalhado e calou-se, esperando que Estaline levasse tudo para a
brincadeira, mas ele continuou a observá-lo com insistência, aguardando uma resposta.
Mironov encolheu os ombros e disse, hesitando como um aluno que está a fazer um
exame:
- Ninguém pode saber, José Vissarionovitch. Estamos no âmbito das grandezas
astronómicas.
- E um único homem pode opor-se à pressão de um peso tão astronómico? - perguntou
Estaline com severidade.
320

- Não - respondeu Mironov.


- Então nunca mais venha dizer-me que Kamenev ou outro preso qualquer é capaz de
suportar esta pressão.
Não sabemos quanto pesava em 1935 o Estado soviético com as suas fábricas,
armamentos e marinha. Sabemos apenas que, entre as pessoas corajosas, inteligentes e
adultas, havia bem poucas que duvidavam da impossibilidade de suportar a pressão com
que o maior criminoso da época, Estaline, hipnotizava o país. Nina também não resistiu à
tortura durante os interrogatórios: rendeu-se e assinou a sua acusação. No entanto, agora
que temos na mão o seu diário, não poderíamos concordar menos com a ideia estalinista
das medidas e dos pesos.
Os cadernos permaneceram nos arquivos dos serviços secretos durante o tempo das
purgas, dos campos e também na época em que Nina, que regressou miraculosamente viva
de Kolyma, mas emudecida para sempre, perdeu o sonho de ser escritora e pintou quadros
(assim, passou da arte da palavra à arte do silêncio) numa pequena cidade da província,
sem tornar a ver Moscovo. Os manuscritos souberam suportar aquilo que Nina não
aguentou. Não emudeceram e conservaram a voz de Nina com toda a sua variedade de
tiradas ora perturbadas, ora engraçadas, que não foram trabalhadas nem corrigidas. O que
resta dessa época terrível e distante? As vozes. Que procuram os arqueólogos de hoje? O
que se disse. E eis que encontraram um espólio precioso, raro. Acharam, perfeitamente
intacta, a voz adolescente da denúncia.
ELENA DUNDOVICH
Docente na Faculdade de Ciências Políticas de Florença, estuda há vários anos a história
da União Soviética, com particular incidência no período do estalinismo. Recentemente,
foi responsável, em colaboração com F. Gori e E. Guercetti, pelo último volume dos Anais
da Fundação Giangiacomo Feltrinelli, dedicado ao estudo do sistema concentracionário
soviético, com o título Gulag Storia e Memória, editado pela Feltrinelli.

ELENA KOSTIOUKOVITCH
Tradutora literária, é autora de ensaios e professora convidada em numerosas
universidades italianas, ultimamente na Estatal de Milão. Activa no mundo académico e
no editorial, trabalha como consultora. No caso da Frassinelli, é responsável por todos os
livros dos escritores russos B. Akunin e Liudmila Ulickaia e, no da Bompiani, pelos
volumes Narratori russi contemporanei e Racconti e storielle degli Ebrei. Traduziu para
russo, entre outros, Calvino, todos os romances de Eco e muitos livros de história e
semiótica. Em 1988, ganhou o prémio da melhor tradução do ano; em 1999, o Prémio
Literário Zoil. Foi também distinguida com o Prémio Grinzane Cavour-Moscovo.

IRINA OSSIPOVA
Nascida em 1941 em Moscovo, engenheira radiotécnica, trabalhou num instituto de
investigação até 1985. À semelhança de muitos outros expoentes da «inteligência
técnica», sempre se interessou muito pela história alternativa da Rússia e leu todas as
publicações clandestinas dos dissidentes, incluindo Arquipélago de Gulag. Foi uma das
323

primeiras a fazer parte do Centro de Estudos Memorial de Moscovo, compilando as


histórias das vítimas do estalinismo. Em 1991, trabalhou na reabertura dos arquivos do
KGB e, em 1992, escreveu o primeiro livro sobre a resistência no interior dos campos de
trabalho. Nos anos sucessivos, publicou três volumes sobre as perseguições dos católicos
na Rússia, dois sobre a Igreja das catacumbas e um sobre o destino trágico dos judeus
ortodoxos, os chassidianos. Foi durante o estudo dos relatórios sobre os adversários dos
bolcheviques que descobriu o diário de Nina Lugovskaia. Dirige um grupo de
historiadores que examinam os arquivos existentes em toda a Rússia. O seu último livro
trata do massacre da aristocracia russa nos anos 30.

NATASHA PEROVA
Filóloga e tradutora, fundou a editora Glas New Russian Writing, com sede em Moscovo,
especializada na tradução para inglês da literatura russa contemporânea.

VITTORIO STRADA
Nasceu em 1929 em Milão, onde se licenciou em Filosofia. Em
1957, mudou-se para Moscovo, onde fez um doutoramento de investigação na Faculdade
de Filologia da Universidade Lomonossov. Regressou a Itália em 1961 e, até 1969, foi
redactor da editora Einaudi, em Turim, publicando estudos sobre a literatura e a cultura
russa. De 1970 a 2003, foi professor de Língua e Literatura Russa na Universidade Ca’
Foscari de Veneza. De 1992 a 1996, dirigiu o Instituto Italiano de Cultura em Moscovo. É
autor de vários livros sobre a cultura e literatura russa. Fundou a revista Rossija/Russia,
que se publica actualmente em Moscovo, e concebeu a Storia delia letteratura russa em
sete volumes, publicada em parte em Itália pela Einaudi e na íntegra em França pela
Fayard. Colabora com o Corriere delia Sera, onde apresentou pela primeira vez o diário
de Nina Lugovskaia. Pode ler-se o seu perfil autobiográfico no seu livro Autoritratto
autocritico. Archeologia delia rivoluzione d’Ottobre, edições Liberal.