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“Mulher, grande é a tua fé”

João Wesley Dornellas

Uma homenagem às mulheres no


Dia Internacional da Mulher

2006
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“Mulher, grande é a tua fé”
João Wesley Dornellas

Dedicatória:

Este livrinho, que fala de mulheres de fé, é uma homenagem especi-


al, neste Dia Internacional da Mulher, a todas as mulheres e, especi-
almente, às duas mulheres mais importantes da minha vida: Cilana,
minha mãe, e Alice, que tem sido companheira e amiga nestes 50
anos de casados, mãe amorosa de meus dois filhos, Wesley Jr. e Luiz
Otávio. Para elas, duas poesias escritas em momentos especiais:

A minha mãe

A minha mãe querida


é o segredo de toda a minha vida.
Ela me ensinou a orar
para as delícias do amor de Deus gozar.

A minha mãe querida


é o segredo de toda a minha vida.
Ela me criou, ela de mim cuidou,
ela é uma bênção que Jesus mandou.

(Poesia escrita em 13 de maio de 1945, Dia das


Mães, quando eu ainda não tinha 12 anos e estava
distante dela)

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Meu anjo protetor

Nunca fui muito de acreditar em anjos.


Tirando a beleza de algumas narrativas bíblicas,
todas relacionadas com o nascimento de Jesus,
em que os anjos aparecem e dão o seu recado,
nas outras vezes eles me pareciam
seres bem contraditórios.

As tendências ao esoterismo
que têm surgido ultimamente,
talvez porque as religiões tenham falhado
em sua missão de ensinar a verdade da Bíblia,
trouxeram à moda a figura dos anjos.

Não são, contudo, os anjos bíblicos


mas uma série de “anjos da guarda”
que, sob certas condições, aí estão
para atender nossos mínimos desejos
e nos proteger nos caminhos da vida.

Ou seja, um bando de anjos falsos


que ajudam a vender livros e, assim,
encher o bolso de seus espertos autores.

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O incrível, porém, aconteceu.
De uns tempos para cá,
por ter acompanhado pessoalmente,
minuto após minuto, hora após hora,
durante muitos dias e muitas noites,
a ação de um anjo em minha vida,
fui praticamente obrigado a acreditar
que os anjos existem.

Um deles transformou-se, de repente,


em meu anjo da guarda.
Presente ao meu lado em todos os momentos,
cuidando de mim com carinho especial,
tem-me ajudado a transpor, sem maiores problemas,
obstáculos terríveis que ameaçavam minha vida.
É isto! Eu tenho hoje o meu anjo da guarda
e me sinto muito feliz.
Ele é especial, apesar de exigente
e não deixar que eu faça aquilo que desejo.

Anjos normalmente têm nome.


Na Bíblia, Gabriel e muitos outros.
Nesses livros esotéricos, são tantos
que não dá para guardar.

Esse anjo que apareceu na minha vida,


cuidando de mim mais até do que preciso
– e do que possa eventualmente merecer –
também tem nome, um lindo nome:
Alice.
(Janeiro de 1996, menos de um mês depois da
minha cirurgia no coração.)

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Primeira Introdução
Os feministas da família
Papai feminista
Quando meu pai namorava minha mãe, ele estudava Teologia
em Juiz de Fora, preparando-se para ser pastor, e ela vivia em Paraíba
do Sul. Namoravam muito por cartas. Tenho guardadas todas as car-
tas que trocaram, mais de duzentas. As cartas do meu pai eram bem
mais longas e, muitas vezes, ele gastava papel e tinta para falar de
suas idéias, de comentar alguns sermões que havia pregado ou ouvi-
do e até fazer alguma reflexão religiosa. Meu pai era tão espiritual,
tão entregue à carreira para a qual foi chamado, que até nas cartas
de amor ele mostrava isto.
A que transcrevo abaixo, escrita em 31 de maio de 1932, é
um exemplo. A valorização da mulher é uma tônica dessa carta.
Muito antes do movimento feminista, papai o viveu intensamente.
Papai, como pastor e como pessoa, nunca discriminou as mulheres.
Como de resto, nunca teve preconceito algum de sexo, cor, idade ou
condição social.

“Minha muito amada Cilana,


“Quero enviar-te por estas linhas uma parte da dor que flagela
meu coração numa saudade interminável e infinita, pelo tempo que
parece longo, nesta pequena ausência de ti. E quisera eu, bem me-
lhor me fora, que nunca jamais estivesses longe dos meus olhos para
eu ver os teus que brilham na pureza de tua alma santa que os sãos
princípios de educação moral e religiosa dada por teus pais. Eles
refletem a dignidade e a beleza do teu coração tão grande.
A bênção de um coração nobre e virtuoso é maior do que a
grandeza que nós humanos podemos pensar. Quando Jesus ensina a
grandeza de coração, e a exige de seus seguidores, é porque o caráter
de Deus não permite outra coisa de cada indivíduo. Lendo as bem-
aventuranças de Jesus em Mateus, podemos aquilatar a beleza dos
ensinamentos de Jesus, que são proferidos com naturalidade extra-
ordinária mas revelando com exatidão o que o próprio Deus é, e
mostrando o que deve ser o homem.
E eu não me canso de pensar na beleza dos ensinos de Jesus.
Pensando neles, tenho vergonha de mim mesmo, por não poder nem
ao menos corresponder àquilo que eu acho que Deus exige de mim.
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Tirando o homem de uma posição desprezível, Jesus o colo-
cou em condições de filho de Deus, a quem ama como Pai. No entan-
to, Jesus demonstrou que o dever supremo do homem é servir ao
Senhor. O homem que não tem como motivo de sua vida servir ao
Senhor é um desgraçado, cuja existência perdeu a razão de ser.
Jesus não enfatizou as cerimônias e ritos como sendo a parte
principal da religião. Para ele, a religião é coisa vital. É o coração do
indivíduo que precisa andar em harmonia com a vontade de Deus. E
só o homem em comunhão vital com Deus é que pode obter garantia.
Porque não há força, senão Deus, capaz de dirigir os pensamentos do
indivíduo.
Jesus ensinou o homem a ser humilde. O que se exalta será
humilhado, o que se humilha será exaltado. Mas a humildade que ele
ensina é a humildade que leva o homem a desejar servir a Deus. É a
humildade que leva o homem a se colocar diante de Deus como um servo
fiel. Essa humildade requer amor, amor que busca o perdão para o próxi-
mo. Amor que procura servir sem esperança de recompensa nenhuma.
Essa humildade requer sinceridade. Jesus maltratou os fariseus
porque eram hipócritas. Deus é sincero nas suas obras e exige since-
ridade dos que o querem servir. O hipócrita, o desleal, não têm
comunhão com Deus porque Deus é verdade, Deus é luz. Deus exige
sinceridade. ‘Seja o vosso falar sim, sim, não, não’. O homem que
precisa fazer um juramento para ser acreditado, não é sincero, está
fugindo da comunhão com Deus. Deus é verdade e exige do homem
verdade. A mentira, nem por brinquedo, é do caráter de Deus. Deus
não é mentiroso. O mentiroso mente a si mesmo e não a Deus.
Às vezes, Cilana, eu me esqueço que estou te escrevendo
uma carta e vou discutindo assuntos que talvez não te interessam
muito mas a teólogos e pensadores. Não a ti que andas preocupada
com os afazeres domésticos e familiares. No entanto, é bom que de
quando em vez vás pensando nestas coisas transcendentais. Houve
tempo em que a mulher era considerada como escrava, e falava-se
de mulher como de objeto qualquer.
Hoje não, tudo mudou. A mulher hoje tem igualdade de direi-
tos e tem-se provado capaz de enfrentar os mesmos problemas e as
mesmas lutas dos homens. A mulher é capaz de penetrar nos assuntos
mais intrincados dos pensamentos e cogitações e resolvê-los com a
mesma argúcia e perícia do homem. À mulher está confiada grande
parte da regeneração da humanidade. Homens e mulheres são iguais.
Eu vejo que assim é. É tempo de entregarmos à mulher grande
responsabilidade na vida. Ela precisa ser um fator na regeneração mo-
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ral e espiritual da sociedade. Uma mulher santa e de princípios intangí-
veis, pode ser uma bênção para o mundo. Desse modo, precisamos
iniciar a mulher da Igreja no estudo dos problemas sociais e religiosos.
Precisamos fazê-la pensar além dos problemas domésticos.
Hoje tivemos uma boa aula sobre a coragem de Jesus e seus
ensinamentos sobre ela. Foi estupenda a aula. Corajoso não é quem
procura vencer os mais fracos pela força, pelas armas. Corajoso é
aquele que, desejando fazer a vontade de Deus, enfrenta até o sofri-
mento. Corajoso é quem enfrenta as questões sociais e morais dos
homens com o desejo de fazer alguma coisa para o bem dos outros.
Aquele que quer vencer para o seu próprio proveito, sem olhar para a
necessidade de seu vizinho, é um egoísta e não merece a mínima
consideração. Para Jesus, ter coragem é dar a sua vida em resgate de
muitos. Deus não pode perdoar o homem que vive em luxúria, go-
zando a vida, enquanto seu irmão chora e morre de fome, antes que
ele tenha feito tudo em seu auxílio. A vida feliz é a vida em harmonia
com a vontade de Deus.
Chega! Sempre me esqueço que estou te escrevendo uma car-
ta, minha santa e boa noivinha. Sei que gostaria antes de ler outras
coisas. Neste tempo, quando há tanto trabalho e tantas lutas, convém
que a gente passeie um pouco pela região dos sonhos. Sonhar é tão
bom!... Mas o melhor é sonhar acordado. Vale a pena a gente sonhar
num mundo bem pequeno, onde não haja ninguém para perturbar a
gente. Um lugar onde haja muita flor, muita música, alguns doces.
Mas em que a gente não fique sozinho.
Deus está por cima e nos dará o privilégio de um mundo
pequeno, nosso lar. Home, Sweet Home, lar, doce lar. Eu desejo que
quando Ele nos der a ventura de um doce lar, que o mesmo seja
construído sobre a vontade de Deus. Eu não quero ser egoísta imagi-
nando que a nossa casa será fechada para os outros. Não. Eu quero
ser feliz. Quero fazer-te feliz, tanto quanto estiver em mim fazê-lo.
Mas quero que a nossa felicidade seja repartida com os outros. Nossa
casa deve ser nossa mas dos outros também. Isto é verdade porque
a nossa vida não pertence a nós mas a Deus”.

Filho (também) feminista


Tendo pais como eu tive, não poderia ser de outra forma.
Sempre fui feminista. Muitas vezes dei cursos para mulheres executi-
vas objetivando motivá-las a ocupar o lugar que mereciam nas em-
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presas em que trabalhavam. Sobre isto fiz, num encontro nacional de
secretárias, uma palestra para quase 5.000 delas, reunidas no
Anhembi, em São Paulo. Sou testemunha de muitas discriminações
feitas às mulheres, mesmo em organizadíssimas empresas
multinacionais. Também tenho escrito em revistas técnicas de admi-
nistração e marketing artigos a respeito.
Num deles, eu falava da “Síndrome de Yentl”, expressão criada
por uma médica americana ao comentar a discriminação das mulheres.
“Yentl” é o título de um filme estrelado por Barbra Streisand. Na história,
Yentl era uma moça do século XIX que se faz passar por homem para
poder estudar o Talmude numa escola de rabinos, coisa que era proibida
às mulheres. Para conseguir o que desejava, Yentl teve que pagar um
preço bem alto, o mesmo que tem sido pago por mulheres de todo o
mundo para obter a plena igualdade em relação aos homens.
Muitas críticas eu recebi, do lado dos homens, é claro, porque
coloquei abaixo do título do artigo, em destaque, uma frase de Charlotte
Whitton: “das mulheres, exige-se que façam o dobro dos homens, na
metade do tempo e sem reconhecimento. Felizmente, não é difícil”.
Em outro artigo, cujo título era “A Supremacia das Mulheres”, recebi
igualmente algumas críticas bem fortes por parte dos homens.
É claro que a categoria é gente, não homens e mulheres,
sendo um absurdo classificar gente pelo sexo já que o mais impor-
tante são as diferenças individuais. No “Pigmaleão”, de George Bernard
Shaw, que foi filmado como “My Fair LadY”, o professor Higgins la-
menta por que as mulheres não podem ser como os homens. Na
realidade, a grande força das mulheres baseia-se justamente em não
ser como um homem.
Da mesma forma, tenho tentado ajudar a diminuir o proble-
ma que também ocorre em nossa Igreja. Fui um dos votos favoráveis
e entusiásticos, no Concílio Geral de 1971, à admissão, com todos os
direitos, das mulheres no ministério pastoral. E, é claro, por via de
conseqüência, no próprio episcopado.
Essa discriminação, que vemos em muitas páginas da Bíblia,
tem merecido rancores veementes de muitas mulheres, sem muita
razão, ao apóstolo Paulo. Sua frase em Gálatas 3:26, “Não pode ha-
ver judeu nem grego, nem escravo nem liberto, nem homem nem
mulher; pois todos vós sois um em Cristo Jesus” mostra, ao lado de
outras atitudes suas, a injustiça daqueles rancores. Apesar de tudo,
houve uma época em que era grande o preconceito, com afirmativas,
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que felizmente ficaram no passado, de que as mulheres só deveriam
cuidar de criança, cozinha e crença (igreja), expressão que veio do
alemão kinder, küche, kirche.
Alguns anos atrás, numa campanha promocional que minha
empresa, uma agência de publicidade, criou para a Linha de Produ-
tos Ginecológicos de importante laboratório farmacêutico, o tema da
mesma era a “luta pelos direitos da mulher”. Planejamos reproduzir
no material promocional, para lastrear a campanha, os “direitos” da
mulher. Apesar de ter havido um ano dedicado pela ONU às mulhe-
res, esses direitos não estavam reunidos num só documento. O jeito
foi, então, escrevê-lo. Foi um sucesso, apesar de bem simples e até
mesmo óbvio, o texto que eu escrevi. A campanha ganhou diversos
prêmios e um pôster colorido com os direitos teve mais de 60.000
cópias distribuídas em todo o Brasil. Eu o vi exposto em muitos con-
sultórios médicos, mesmo anos depois de sua distribuição. A ilustra-
ção mostrava a tradicional deusa do Direito, Temis, com sua balança
e espada mas com a faixa que tradicionalmente tapa os dois olhos
mantendo um bem aberto. Os “direitos” que “criei” são os seguintes:

Os sagrados Direitos da Mulher


I A mulher tem direito de ter saúde como mulher.
II A mulher tem direito à maternidade e ao aleitamento de seus
filhos.
III A mulher tem direito à educação e ao pleno desenvolvimento
de todas as suas potencialidades.
IV A mulher tem direito de iguais oportunidades de trabalho e à
mesma remuneração dos homens.
V A mulher tem direito de ser respeitada em todas as suas opini-
ões.
VI A mulher tem direito à liberdade e à autodeterminação.
VII A mulher tem direito de dizer não.

Segunda (e última) Introdução


Sou apaixonado pela vida e obra de muitas mulheres. Tenho
escrito artigos e falado muito a respeito delas. E também, como não
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poderia deixar de ser, tenho sido crítico de algumas, inclusive da Bíblia.
O texto que se seguirá é um comentário sobre algumas mulheres de
minha apreciação. Nas páginas do Antigo Testamento, pincei algumas
dessas figuras que me comovem, como Sara, a mulher de Abraão, Ra-
quel, Tamar, viúva de Er e de Onan, filhos de Judá, que era bisneto de
Abraão, Noemi e sua nora Rute. No Novo Testamento, a doce Virgem
Maria, mãe de Jesus, as duas grandes mulheres sem nome, a samaritana
e a siro-fenícia, e as irmãs Marta e Maria.
Na história da Igreja Metodista, meus destaques são Suzana
Wesley, a mãe de João Wesley, Bárbara Heck, a chamada mãe do
Metodismo nos Estados Unidos e no Canadá, e Mary (Marta) Walker
que, de certa maneira, também poderia ser chamada de mãe do
Metodismo brasileiro. Com relação à Igreja Metodista de Vila Isabel, eu
gostaria de homenagear algumas mulheres que ajudaram a construir
sua rica história, especialmente Ana Gonzaga, a mulher que foi fiel no
muito. Para terminar, “last but not least”, “por último e não menos impor-
tante”, como dizem os americanos, uma homenagem à minha mãe, uma
mulher realmente excepcional, cristã como nunca conheci outra, que
viveu para servir.
Se Deus me der tempo e disposição, futuramente incluirei no
meu texto outras mulheres que também acho muito importantes. Na
Bíblia, Débora, a primeira juíza, Ana, a mãe de Samuel, Maria Madalena
e Lóide e Eunice. Na história de nossa Igreja na Inglaterra, Mary
Bosanquet, mulher de John Fletcher, e Hanna Ball, a criadora da Es-
cola Dominical. No Brasil, Eunice Weaver, Layonna Glenn, uma Ame-
ricana que trabalhou 50 anos no Brasil, e Eula Kennedy Long, histori-
adora metodista e autora de muitos livros.
Apesar da incapacidade do autor, este texto foi escrito com
muito amor e carinho. Espero que gostem. E gostaria muito de rece-
ber comentários e sugestões para aperfeiçoá-lo nas próximas edi-
ções.

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Mulheres do Antigo Testamento
Sara, a mulher de Abraão
Os comentaristas bíblicos não dão muita importância à pessoa
de Sara, a não ser para dizer que era a mulher de Abraão. Nas poucas
vezes em que aparece, especialmente em alguns capítulos do livro de
Gênesis, muito pouca coisa se sabe dela. Era a mulher de Abraão e,
parece, sua meia irmã, isto é, seu pai também era o pai de Abraão.
Também se sabe, pela Bíblia, especialmente no capítulo 12 de Gênesis,
que era muito bonita. Razão pela qual, ao entrar no Egito, Abraão
recomenda a Sarai, para proteção dele, que ela não informasse a con-
dição de esposa mas de irmã. Isto gerou, por parte do Faraó, a vonta-
de de tê-la como mulher, levando-a para sua casa. Em virtude disto,
Abraão foi muito bem tratado no Egito. Quando foi descoberto, em
virtude de pragas que caíram sobre ele, que ela era esposa de Abraão,
o Faraó lhe devolve Sarai e manda que todos saiam do Egito.
Episódio parecido ocorre mais tarde em Gerar. Ao sabê-la irmã
de Abraão, Abimeleque, o rei de Gerar, mandou buscá-la. Outra vez
revelada a verdade, Abrão foi instado a deixar o lugar. Por duas
vezes, portanto, quase que Sarai, apesar de esposa de Abraão, acaba
caindo em mãos estranhas.
Deus havia feito uma promessa a Abraão, de que em sua
descendência seriam benditas todas nações da terra. Só que Sara,
por ser estéril, não dava sequer um filho a Abraão. Decidiu ela então,
como se precisasse, resolver, ela mesma, a promessa ainda não cum-
prida por Deus. No versículo 2 de Gênesis 16, ela diz ao marido que o
Senhor a tem “impedido” de dar à luz filhos. Assim, oferece sua serva
egípcia Hagar para que, através dela, fosse permitido a Deus cumprir
sua promessa. Assim, nasceu Ismael. Isto não constituiu nenhuma
solução mas, ao contrário, um grande problema. De início, por ter
dado um filho a Abraão, Hagar, como seria muito natural na luta pelo
poder, começou a fazer pouco de sua senhora. Ela tinha o grande
trunfo de ter dado um filho varão a Abraão.
Esse não era, contudo, o plano de Deus. Assim, Deus prome-
te a Abraão que sua esposa Sarai, cujo nome Ele mudou para Sara,
ficaria grávida e lhe daria um filho, que se chamaria Isaque. Ele, e
não Ismael, seria o filho da promessa. Mostrando Abraão preocupa-
ção com seu filho Ismael, Deus o tranqüiliza dizendo que ele também
seria abençoado e pai de uma grande nação, reforçando, ao mesmo
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tempo, que a Sua aliança seria estabelecida com Isaque, filho de
Sara. A promessa é realizada e, mais tarde, quando o filho da escra-
va caçoava de seu pequeno irmão Isaque, Sara intervém e pede ao
marido que Hagar e seu filho fossem expulsos dali, dizendo “porque
o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho”. Hagar
e Ismael saíram errantes pelo deserto de Berseba. Os dois irmãos só
se viram novamente no sepultamento do pai.
Tudo o que foi dito acima justifica, sem dúvida, a pouca im-
portância que a Bíblia e os seus comentaristas dão à figura de Sara,
que era certamente uma mulher rancorosa e com muitos defeitos.
Voltemos, no entanto, a promessa de que Deus lhe permitira ficar
grávida aos 90 anos de idade.
É justamente nesse episódio que se manifesta o caráter e a
personalidade de Sara. A princípio, ela duvidou e riu da situação para o
próprio Deus e este chegou a perguntar a Abraão o porquê do riso. É
preciso, agora, fazer um intervalo para dizer que os fatos até agora
narrados foram transmitidos oralmente de pais para filhos e destes para
os netos durante mais de 500 anos, quando a Bíblia começou a ser
escrita. É realmente um milagre a narrativa tão coerente da Bíblia, cujos
fatos foram retransmitidos de maneira tão precária. Havia, é claro, a
recomendação de Deus feita em Deuteronômio, capítulo 6, versículos 6
a 9: “Estas palavras que hoje te ordeno, estarão no teu coração; tu as
inculcarás a teus filhos, falarás delas assentado em tua casa, e andando
pelo caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te. Também a atarás como
sinal na tua mão e te serão como frontal entre teus olhos. E as escreve-
rás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas”. E parece que elas foram
muito bem seguidas.
Relembrando Sara que ela e Abraão eram velhos, avançados
em idade e que já lhe havia cessado o “costume das mulheres”, ex-
pressão poética para definir a menstruação, ela riu-se, pois, no seu
íntimo, dizia para consigo mesma: “depois de velha, e velho também o
meu senhor, terei ainda prazer?”. O que estava no seu íntimo, os
sentimentos profundos de sua alma sofrida, acabaram sendo reparti-
dos com alguém, que o texto bíblico não identifica , que foram transmi-
tidos, no decorrer de mais de quatro séculos, por pais a filhos e por
filhos a netos, até que fossem eternizados no texto definitivo da Bíblia.
É essa pérola do pensamento íntimo de Sara que a faz ser uma
grande mulher, digna das maiores homenagens, especialmente no Dia
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Internacional da Mulher. Porque ela foi uma grande mulher. Para Adão e
Eva, a ordem de Deus era apenas “crescer e se multiplicar, ser uma só
carne”. Para Sara, é muito mais do que isto. O “crescer e multiplicar”
passa a ter um novo significado que acaba caracterizando a espécie
humana, o amor – espiritual e também físico – entre um homem e uma
mulher. Pela primeira vez na Bíblia, fala-se do prazer que caracteriza as
relações homem-mulher. Ele foi criado por Deus mas, até hoje, parece
que se tem vergonha dele. É Sara quem lhe dá a relevância máxima na
Bíblia. Os homens, parece que em todo o decorrer da história humana,
foram quase sempre machistas e egoístas, nunca dando muita bola para
a satisfação da mulher.
Um filho não se gera somente com a união no útero de um
espermatozóide e um óvulo, que se transformam em ovo. Não! Mil
vezes não! Isto é coisa só para animais ou pessoas que se compor-
tam como se fossem. É muito mais do que isto. Um filho tem que ser
gerado por amor, com desejo e prazer. Com romantismo. Somente
assim, por serem desejados, podem ser amados e bem criados. A
Bíblia não revela a resposta à indagação de Sara mas o sucesso de
tudo nos faz crer, sem sombra de dúvidas, que ela é positiva. Numa
época mercantilizada como a de hoje, de mulheres que se transfor-
mam em objetos ou são assim transformadas pelos homens, a lição
de Sara é de uma verdadeira humanista, um ser humano integral,
que a absolve, pelas lições que o seu pensamento mais íntimo revela,
de tudo o que possa ter feito de errado em sua vida. Mais do que
humanista, no entanto, podemos dizer que a visão íntima de Sara é
humanizante. O de que o mundo necessita é de seres humanos que
sejam realmente humanizantes, que ajudem a melhorar esse nosso
pobre planeta.

Raquel – uma mulher que sofreu de amor


Nenhuma mulher na Bíblia foi tão amada como Raquel e pou-
cas foram tão bonitas como ela. Foi ela certamente, no entanto, entre
tantas histórias de mulheres que a Bíblia narra, uma das que mais
sofreram do mal de amor.
Depois de brigar com seu irmão pelo direito de primogenitura
e por uma bênção especial de seu pai Isaque, Jacó sabe, por inter-
médio de sua mãe Rebeca, que Esaú planejava matá-lo. Atendendo
aos conselhos da mãe, Jacó foge e se dirige às terras de seu avô
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Betuel e de seu tio Labão, irmão dela. Em sua caminhada, dormindo
num travesseiro de pedra, Jacó teve a visão da escada repleta de
anjos e recebeu grandes promessas do Senhor. Acordando, pegou a
pedra que havia posto por travesseiro e a erigiu em coluna, sobre a
qual derramou azeite. Ao lugar onde essas coisas aconteceram, que
outrora se chamava Luz, ele deu o nome de Betel, que significa “casa
de Deus”.
Saindo dali, Jacó foi na direção de Harã, terra de Betuel e
Labão. Já bem perto do seu destino, ele se encontra com rebanhos
de ovelhas e seus pastores, que lhes davam água retirada de um
poço. Pediu informações e, ao saber que eram de Harã, perguntou
sobre Labão e soube que sua filha mais nova Raquel vinha vindo com
ovelhas de seu pai para dar-lhes de beber.
Esse texto do capítulo 29 de Gênesis nos revela que Jacó
beijou a Raquel e, erguendo a voz, chorou, contando-lhe que era
filho de Rebeca, irmã de seu pai. Ela o levou a Labão que recebeu
muito bem o viajante e o hospedou por um mês em sua casa. Nesse
período, Jacó se apaixonou por Raquel, que era “formosa de porte e
de semblante”. Como Labão não queria que seu sobrinho trabalhasse
para ele de graça, pediu-lhe que declarasse o salário pretendido. Jacó
faz então sua proposta, que era, na verdade, um pedido da mão de
Raquel, como se dizia antigamente. E propôs servi-lo por sete anos
para casar-se com sua filha Raquel. E assim foi feito. Apesar do
longo tempo, a Bíblia nos diz que, para Jacó, os sete anos pareceram
como poucos dias pelo muito que a amava.
Ao fim dos sete anos, Jacó pede então para finalmente casar-
se com sua amada. Dissimuladamente, Labão convidou muitas pes-
soas para o banquete de casamento. Finda a festa, enganosamente
Labão conduziu sua filha Lia a Jacó, que coabitou com ela. Só pela
manhã é que Jacó percebeu que fora enganado, possivelmente pelo
costume de a noiva permanecer toda a festa coberta por um véu.
Reclamando a Labão, este alegou que não poderia dar “a
mais nova antes da primogênita”. E exigiu, para dar-lhe Raquel, que
Jacó lhe servisse por mais sete anos.
Uma das poesias mais bonitas da língua portuguesa é, sem
dúvida, o célebre soneto de Luiz de Camões, de quem gosto mais do
lírico dos sonetos de amor do que do épico de “Os Lusíadas”, que
narra a história de Jacó, que reproduzo aqui:

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“Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,


Dizendo: - Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!”
Esperar tanto tempo para a realização do seu sonho de amor foi
certamente uma dura provação para o casal de apaixonados. Para
Raquel, a provação foi muito maior. Ela parecia ser estéril, não po-
dendo pois realizar o sonho de toda a mulher que se casa por amor,
ter filhos. Por outro lado, Lia, a irmã mais velha ia tendo, um após
outro. Raquel, desesperada, toma sua serva Bila e a entrega ao ma-
rido para que a fecundasse e, de maneira indireta, lhe desse o filho
sonhado. E acabou lhe dando dois. A reação de Lia, que já não coa-
bitava com Jacó, como o texto bíblico indica, foi idêntica à de Raquel,
dando sua serva Zilpa a Jacó para que a fecundasse em seu lugar.
Assim, ela lhe deu mais dois filhos.
Num episódio que pode parecer inexplicável, Raquel “empresta”
seu marido à irmã em troca de mandrágoras, que eram plantas com
efeitos afrodisíacos, colhidas por Rubens, filho de Lia. A Bíblia nos fala
que à tarde, quando Jacó vinha do campo, Lia vai ao seu encontro e
exige o cumprimento do trato feito com Raquel: “esta noite me possui-
rás, pois eu te aluguei pelas mandrágoras de meu filho”. E assim se fez,
como nos diz a Bíblia, e Lia concebeu seu quinto filho e, a seguir, não se
sabe também o porquê, o sexto e uma filha.
Aí o texto bíblico fala que Deus “se lembrou” de Raquel e lhe
fez fecunda. Nasceu então José, que tem, como todos sabem, papel
importante na história daquela família e de todo o povo. Algum tem-
po depois, quando a família toda vinha de Harã, passaram em Betel,
erigiram um altar e caminharam em direção à Efrata. A pequena distân-
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cia dela, Raquel, grávida outra vez, deu a luz a outro filho, cujo nas-
cimento, diz a Bíblia, “lhe foi a ela penoso” e ela morreu. Esse filho, o
caçula de Jacó, chamou-se Benjamim.
Pode-se imaginar, pelo que foi narrado aqui, o amor sofrido
de Raquel por seu marido, tendo sido obrigada (é claro que eram
costumes da época) a “repartir” seu marido e não ter tido tempo para
curtir os filhos do grande amor a Jacó. Felizmente, no entanto, com
sua morte prematura, ela não sofreu com a ausência de José que foi
vendido como escravo por seus irmãos invejosos.
Ao final de sua vida, reunido com todo o seu clã, ao despedir-
se, Jacó relembra Raquel e fala do grande pesar que sentiu ao sepultá-
la “ali no caminho de Efrata, que é Belém”.
O poeta tinha toda a razão em seu soneto: “mais servira se
não fora para tão longo amor tão curta a vida”.

Tamar, a mulher que foi à luta


Aqui temos uma história bíblica em que o sexo é usado de
forma diferente daquela visão de Sara, contudo, não menos válida. A
história de Tamar e do seu relacionamento com seu sogro Judá e os
filhos dele está no capítulo 38 do livro de Gênesis.. A narrativa bíblica
é simples e compacta. Não dá muitos detalhes, a não ser os princi-
pais. Vale a pena ler, no entanto, a narrativa que está no volume
terceiro (“José, o Provedor) da tetralogia de Thomas Mann, o grande
escritor alemão, que tem o título geral de “José e seus Irmãos”.
Em sua narrativa – e vale a pena ler os quatro romances que
compõem a tetralogia – Thomas Mann, com sua imaginação e
criatividade, coloca um relacionamento entre ela e Jacó, em cujas
conversas ele lhe mostra a história do seu povo, as narrativas do
começo da Bíblia, o conhecimento de Jeová e, de ambas as partes,
um possível desejo de relacionamento amoroso entre um velho viúvo
e uma jovem que bem poderia ser sua neta. Da mesma forma, a
ambiciosa jovem pensava em Judá. Todavia, como narra Thomas Mann,
“seu amor-ambição se dera fora de tempo e de lugar”.
Voltou então seus olhos para o primogênito de Judá, um jovem
chamado Er, pedindo o apoio a Jacó para obter o que queria, isto é,
influenciando Judá a dar-lhe o filho em casamento. Pouco tempo de-
pois da união, “porque era perverso, o Senhor o fez morrer”. Viúva,
jovem, sem descendência e sem herança, longe de dedicar-se ao luto
pela separação tão trágica, esforça-se para que os costumes dos ju-
17
deus fossem devidamente respeitados. Isto significaria que o seu cu-
nhado Onan, para suscitar descendência a seu irmão, tinha que se
casar com ela. Mesmo contrariado, houve o casamento. Thomas Mann
fala que ele “se sentiu irritado vendo-se impelido a ser esposo substitu-
to e fundar uma descendência que não iria ser sua, mas de seu irmão”.
A Bíblia relata simplesmente que ele a possuía mas lançava sua semen-
te na terra, justamente para não gerar os filhos que seriam a garantia
para Tamar receber a herança. Como castigo, Onan também morre.
Tamar, voluntariosa e sem perder o sonho de receber sua
herança, quer então, para manter o costume, casar-se com o filho
mais novo de Judá, Selá, que tinha apenas 16 anos. Coisa com a qual
não concordaram nem Jacó, o avô, nem Judá, seu sogro. Com artifí-
cios, o quase adolescente Selá foi enviado para viver longe com al-
guns parentes. Judá pensava que, assim que o tempo passasse, ela
se esqueceria da pretensão. Crescendo Selá, já um homem como diz
a Bíblia, ela não lhe fora dada por esposa.
Informada que Judá estava seguindo para Timna para tosqui-
ar suas ovelhas, Tamar despiu as vestes de sua viuvez e, cobrindo-se
com um véu, se disfarçou e se assentou à entrada de Enaim, no
caminho de Timna. Vendo-a Judá, segundo a narrativa bíblica, teve-
a por meretriz, pois ela havia coberto o rosto. Judá quis então possuí-
la. Ela lhe pergunta o que ele lhe daria em troca do favor e ele res-
pondeu que um cabrito do seu rebanho. Como o cabrito não estava
com ele, ela exigiu um penhor até recebê-lo, justamente o seu selo
(um anel com seu sinete), o seu cordão e o seu cajado. Ele entregou
os objetos, a possuiu e ela concebeu dele. Logo depois, ela tirou de
sobre si o véu e tornou às vestes de sua viuvez. Mandando que um
empregado fosse levar o cabrito prometido, ele não a achou e todos
contestavam que houvesse por ali alguma prostituta cultual.
Passados três meses, foram informar a Judá que sua nora
estava grávida e Judá dá a ordem para que ela fosse trazida para fora
de casa para ser queimada, como era do hábito dessa época. Só
muito mais tarde, com Moisés, a pena dos adúlteros seria alterada.
Tamar manda dizer ao seu sogro que ela havia concebido do homem
de quem eram as coisas que tinha em mãos, o selo, o cordão e o
cajado. Reconheceu-os Judá e disse (versículo 26): “mais justa é ela
do que eu, porque não a dei a Selá, meu filho. E nunca mais a pos-
suiu”.
18
Tamar deu à luz dois gêmeos, que foram chamados de Zera e
Perez. Na genealogia de Jesus, de acordo com Mateus, estão menci-
onados os nomes de Tamar e de seu filho Perez.
“O que esta mulher está fazendo aqui?”, justamente na
genealogia de Jesus. Vale a pena ler o livro que tem como título a
pergunta sublinhada. Ele contém artigos escritos por diversas pesso-
as. A teóloga metodista Nancy Cardoso Pereira, autora do artigo que
dá nome ao livro, nos diz que Tamar “é uma mulher incômoda, no
mínimo irreverente. Ela não tem medo dos costumes e tradições; ela
não teme as leis e as instituições. Arranca justiça com seu corpo de
mulher oprimida. Denuncia com seu corpo prostituído a prostituição
do patriarca e seus mecanismos de dominação”.
“Mas o que esta mulher está fazendo aqui? O que o capítulo
38 acrescenta a esta discussão? É que Tamar tem denúncias mais
precisas e concretas contra Judá. Se a casa de Judá convive com o
poder e com a opressão dos irmãos é porque ele quebrou os precei-
tos e práticas que sustentavam a família como unidade produtora e
reprodutora livre. Judá não somente vendeu e escravizou os irmãos
das outras famílias... Judá rompeu com a solidariedade dentro de sua
própria casa. Para estabelecer o seu poder hegemônico, para susten-
tar a monarquia, Judá teve que romper com os direitos da mulher
dentro da Família. É justamente sobre isso que Tamar quer falar. E,
para isso, ela vai expor o seu corpo... porque foi o corpo da mulher
que foi violentado pelo patriarca”. Não sei o livro ainda está à venda.
Foi editado pela Editeo, casa publicadora de nossa Faculdade de Teo-
logia. No mesmo livro, há um outro artigo muito bom, “Em Deus não
há macho nem fêmea”, de autoria do saudoso Rev. Duncan Alexander
Reily, no qual o autor faz importantes considerações sobre “o Deus
que é pai e é mãe”, citando o grande teólogo Jürgen Moltmann que
dizia que Deus “não é meramente um pai no sentido masculino. Ele é
um pai maternal também... Ele tem que ser compreendido como o
Pai materno do único filho que Ele pariu e, ao mesmo tempo, Mãe
paterna do único Filho que gerou...”
Assim, rendendo as homenagens a Tamar, a pioneira da luta
feminista na Bíblia, podemos reconhecer a justiça de sua inclusão na
genealogia de Jesus. Dela só fazem parte quatro mulheres, Tamar, a
que simulou ser prostituta, Raabe, que era prostituta mesmo, e teve
seu nome incluído na galeria dos heróis da Fé da carta aos Hebreus,

19
Bate-seba, a mãe de Salomão, identificada apenas como mulher de
Urias, que foi atraída ao palácio por Davi que a viu tomando banho, e
de Rute, cuja história de fidelidade à sua sogra e ao Deus dela é um
exemplo para todos nós.

Noemi e Ruth, sogra e nora que se amavam


Que a Bíblia é um livro escrito por homens, todo o mundo
sabe. Por isto, com alguma justiça, ela carrega o mal de ser considera-
do um livro machista. Luiz Otávio, meu filho mais novo, conta num dos
seus romances, “A Visita”, que um anjo, uma mulher parecida com a
atriz Sharon Stone, faz uma visita ao seu personagem Elliot. Ele duvi-
da que ela seja realmente um anjo porque, normalmente, os anjos da
Bíblia são homens. Sharon, esse também era o nome da “anja”, con-
testa dizendo que essa impressão era normal por serem os autores da
Bíblia homens e machistas. Como argumento, ela diz que o anjo que
anunciou a Maria que ela tinha sido escolhida para conceber o Filho de
Deus, era uma mulher. O argumento era muito convincente: “Você
acha que ela receberia uma notícia daquelas de um homem? Era um
assunto muito delicado e íntimo, próprio de mulheres”. Os dois livros
da Bíblia que levam o nome de mulheres, Ester e Rute, padecem do
mesmo mal, tudo leva a crer que foram escritos por homens. O de
Rute conta a história dessa mulher que também faz parte da genealogia
de Jesus.
“No tempo em que julgavam os juízes, houve fome na terra”,
assim começa o livro de Ruth. Um homem chamado Elimeleque, sua
esposa Noemi e seus filhos Malom e Quiliom, todos efrateus de Belém
de Judá, emigraram para a terra de Moab. Morrendo o marido, Noemi
e seus filhos ficaram por ali. Eles acabaram se casando com duas
moabitas, Orfa, com Quiliom, e Rute, com Malom, e assim se passa-
ram dez anos. Os dois irmãos morrem também e Noemi decide vol-
tar a sua terra e aconselha as duas noras para que voltem ao seio de
suas próprias famílias. A princípio, as duas resolveram seguir a sogra
em sua caminhada de regresso à terra de Judá, onde a fome tinha
acabado e havia fartura de pão. Novamente, com palavras de deses-
pero e acreditando estar dando o melhor conselho, Noemi apela para
que as noras fiquem. Desta vez, Orfa a beijou, despedindo-se dela e
voltando para casa. Noemi pede a Rute que também voltasse ao seu
povo e aos seus deuses.
20
A Bíblia nos diz que Rute se apegou a Noemi e, assim, por
mais que a sogra insistisse, Rute continuou caminhando com Noemi
no rumo de Belém de Judá. Ela havia conhecido um novo Deus no
convívio com Noemi e não queria abandonar nenhum dos dois. Sua
resposta a Noemi é uma das passagens mais lindas da Bíblia, relata-
da no capítulo 1º de Rute: “Não me instes para que te deixe, e me
obrigues a não seguir-te; porque aonde quer que fores, irei eu, e
onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o
teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e aí
serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra
coisa que não seja a morte me separar de ti”.
As relações de sogra e nora, muitas vezes conflituosas, nor-
malmente por ciúmes mútuos, por serem muito comuns, já fazem
parte até do anedotário. Nos tempos bíblicos, a ordem de Deus era
seguida à risca. Uma mulher, ao casar-se, deixava sua família e era
absorvida por outra. Nos tempos modernos, a coisa ficou diferente.
Muitos casamentos se tornaram infelizes, ou mesmo terminaram, em
virtude da falta de entendimento entre sogra e nora. Mais raramente,
entre sogra e genro. Entre nora e sogra, mesmo nas famílias religio-
sas, nós encontramos, mesmo que seja quase imperceptível, algum
tipo de conflito.
Não foi isto o que aconteceu nas relações entre Noemi e suas
noras. Certamente, não se pode criticar a decisão de Orfa de tentar,
em sua própria terra, construir uma nova vida. Nem poderíamos cri-
ticar Rute, apesar do seu afeto a Noemi, se ela tivesse tomado idên-
tica decisão. O afeto que ligou de maneira indelével as duas mulhe-
res certamente foi devido ao Deus de Noemi. Apesar das reclama-
ções que Noemi faz a Deus a respeito do seu sofrimento, tentando
até mudar seu nome para Mara, “porque grande amargura me tem
dado o Todo-poderoso”, o certo é que o Deus que ela apresentou a
Rute era um Deus de amor e de misericórdia. E Rute aprendera a
confiar nEle.
O romance de Boaz, meio parente de Elimeleque, com Ruth,
com pleno apoio – e até com o ensino, por parte de Noemi, de algu-
mas artimanhas próprias das mulheres – foi, segundo narra a Bíblia,
muito bonito. Nunca faltou nada às duas mulheres, pela bondade de
Boaz, que começara a gostar dela, e pelo caráter de Rute, confome
ele se expressa para ela: “toda a cidade do meu povo sabe que és
21
mulher virtuosa”.A antiga propriedade da família foi resgatada por
Boaz e eles se casaram.
Rute, uma estrangeira que havia adotado, pelo testemunho
de sua sogra, o Deus verdadeiro, passa a fazer parte da história do
povo escolhido. Todo o povo, inclusive os anciãos, disseram de ma-
neira muito clara a Boaz: “somos testemunhas; o Senhor faça a esta
mulher, que entra na tua casa, como a Raquel e a Lia, que ambas
edificaram a casa de Israel; e tu, Boaz, há-te valorosamente em Efrata,
e faze-te nome afamado em Belém. Seja a tua casa como a casa de
Perez, que Tamar teve de Judá, pela prole que o Senhor te der desta
jovem”. Esse reconhecimento da importância de Tamar como parte
importante do povo de Israel justifica bem o que está contido no
capítulo anterior.
Rute concebeu e a chegada de seu filho Obede trouxe muita
alegria. As mulheres diziam a Noemi: “ele será o restaurador da tua
vida e o consolador da tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu
à luz, e ela te é melhor do que sete filhos”.
Melhor ainda, Rute tomou o menino e o pôs no regaço de sua
sogra e ela começou a cuidar dele. Não era a avó carnal do menino
mas o ato de amor de sua nora era, sem dúvida a alegria que voltava
à vida daquela mulher. Ela ajudaria a criar o seu neto pelo amor, e ele
seria o pai de Jessé e o avô de Davi, que se tornou rei de Israel.
Pode-se dizer que o relacionamento de Noemi e Ruth constitui
num belíssimo exemplo de vida, válido até nos dias de hoje, quando
tanta coisa mudou neste mundo, da possibilidade real – para não dizer
necessidade – de amizade, confiança e intimidade nas relações entre
sogra e nora, que serão cada vez melhores se elas estiverem com Deus,
como disse Ruth: “o teu Deus será o meu Deus”.

22
Mulheres do Novo Testamento
Maria, a doce mãe de Jesus
Quando a querida Zel, minha nora, aproximou-se nossa família no
começo do seu namoro com Luiz Otávio, uma das coisas que ela me
disse, em nossa primeira conversa sobre religião, é que ela fora cria-
da no catolicismo, tendo estudado em colégio de freiras, e que não
gostava muito dos protestantes porque eles não gostavam da Virgem
Maria. O que lhe respondi, antes de muitas explicações, foi simples-
mente: “pois eu gosto muito”.
E ela tinha um pouco de razão. Pela ênfase que os católicos
dão a Nossa Senhora, por alguns dogmas da Igreja de Roma, pelo
“pede à mãe que o filho atende”, plástico aplicado em muitos carros,
etc., etc., os protestantes acabam colocando a figura da mãe de Je-
sus num plano inferior. Alguns anos atrás, a Voz Missionária publicou
um artigo sobre grandes mulheres da Bíblia, no qual ficou faltando a
mulher mais importante de todas, justamente a mãe de Jesus. Mui-
tas pessoas ficam escandalizadas comigo quando digo que posso per-
feitamente saudar Maria com os católicos dizendo “Ave Maria, cheia
de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e
bendito o fruto do vosso ventre, Jesus”. O que não faço é orar “San-
ta Maria, mãe de Deus, perdoai os nossos pecados, agora e na hora
de nossa morte”.
Também já escandalizei muita gente ao dizer, em pleno ser-
mão, apesar das ressalvas de que nós não oramos à Virgem Maria,
porque nosso intercessor é Cristo, que, na minha opinião, uma das
poesias mais lindas da língua portuguesa é de Manoel Bandeira: “Eu
vi minha mãe rezando/ aos pés da Virgem Maria./ Era uma santa
escutando/ o que outra santa dizia”.
A doce Virgem Maria é a mulher mais importante da Bíblia
pois o anjo lhe disse que ela havia achado graça diante de Deus e que
Deus a convocava para uma grande missão, ser a mãe de Jesus, o
libertador da humanidade. Ela era, como acontecia naqueles tempo,
uma jovenzinha, recém saída da adolescência. A resposta de Maria,
simples mas significando uma entrega total à missão que lhe seria
confiada, foi: “Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim
conforme a tua palavra”.
23
No chamado Cântico de Maria, uma poesia linda e cheia de
significados, ela diz coisas de profunda transcendência: “A minha alma
engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu
Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva. Pois agora
todas as gerações me considerarão bem-aventurada, porque o Pode-
roso me fez grandes coisas, Santo é o seu nome. A sua misericórdia
vai de geração em geração sobre os que o temem. Agiu com seu
braço valorosamente; dispersou os que no coração alimentavam pen-
samentos soberbos. Derrubou dos seus tronos os poderosos e exal-
tou os humildes. Encheu de bens os famintos e despediu vazios os
ricos. Amparou a Israel, seu servo, a fim de lembrar-se da sua mise-
ricórdia, a favor de Abraão e de sua descendência, para sempre,
conforme prometera aos nossos pais”.
Depois dos sacrifícios da viagem de Nazaré a Belém para o re-
censeamento, da necessidade de ter o seu filho numa simples estrebaria,
porque não havia lugar para eles na estalagem, e ter que colocá-lo numa
manjedoura, ela viu surpresa a visita dos pastores e mais surpresa ainda
ficou com o relato das coisas que aconteceram nas campinas de Belém,
como o anúncio do anjo e do coral composto da milícia celestial que
cantava “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os
homens a quem ele quer bem”. Ouvindo isto tudo, Maria “guardava
todas estas palavras, meditando-as em seu coração”.
Como guardou certamente os problemas do exílio no Egito,
as dificuldades da criação do menino, a responsabilidade que tinha
de educá-lo no verdadeiro caminho e os 30 anos de luta até que seu
filho Jesus começasse a sua missão. Esteve sempre presente na vida
de Jesus. Estava com ele nos momentos alegres do casamento em
Caná, onde fez o seu primeiro milagre. E estava também nos momen-
tos de perseguição e dor. Como presente estava, angustiada, nos
momentos cruciais de sua prisão, de seu julgamento, de sua conde-
nação. Aos pés da cruz onde Jesus estava dando a vida por nós,
assistiu todo o seu suplício e ajudou a recolher o seu corpo sem vida.
Por tudo isto, e até pela preocupação que Jesus teve com ela
já pregado na cruz, nomeando João para que se tornasse seu filho,
isto é, cuidasse dela em sua ausência, e, ao mesmo tempo, transfor-
mando-a em mãe do seu discípulo amado, provavelmente o mais
jovem de todos, Maria é a mulher mais importante da história humana.
A Bíblia não revela muitos dos cuidados que ela tinha com Jesus a
longo de sua vida. Conhecendo o seu caráter, porém, bem podemos
24
imaginar. E nem os grandes pintores e escultores da história humana,
nem os que lidam com as palavras, puderam descrever bem o que
aquela mulher sofreu no desempenho de uma missão que recebera do
Altíssimo quando ainda tão jovem. Por isto tudo, ela é chamada de
“mater dolorosa”. Nada, no entanto, a despiu da condição que ela
expressou no seu cântico de ser bem-aventurada. A maior das mulhe-
res, a maior das mães, aquela que dignificou o papel da mulher na vida
humana, elo entre o divino e o humano, a que possibilitou que os Pais
da Igreja pudessem afirmar, para todo o sempre, que “Jesus é verda-
deiramente Deus e verdadeiramente homem”, é realmente o padrão
de mulher cristã e o Senhor sempre esteve com ela.

Mulher, grande é a tua fé


O encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia, narrada pelos
evangelistas Mateus e Marcos, é um episódio crucial da vida de Jesus
e tem sérias implicações em sua missão e na missão que ele deu aos
seus seguidores. No diálogo, áspero, conflitante e até mal educado,
Jesus nos mostra uma outra visão de sua personalidade.
Antes de mais nada, vamos situar aquela mulher. Marcos diz
que ela era grega, de origem siro-fenícia. Mateus, por sua vez, diz
que ela era cananéia, isto, fazia parte do povo que foi expulso por
Josué da terra prometida. Ou seja, havia ódio entre os judeus e os
cananeus. Ela tinha uma filha que tinha sérios problemas mentais.
Na Bíblia, porque não conheciam nada da doença, era mais fácil dizer
que pessoas assim eram endemoninhadas ou eram possuídas de es-
pírito imundo ou demônios.
Cansado de sua labuta, Jesus retirou-se para os lados de Tiro
e Sidon para descansar. Ouvindo falar de seus milagres, as multidões
não o deixavam em paz. Esta foi possivelmente a única vez que Je-
sus, tirando o seu exílio no Egito, para fugir de Herodes, esteve em
terras estrangeiras e, além de tudo, composta de pessoas que eram
inimigas dos judeus. Mesmo assim, Jesus não encontrou descanso e
paz, nem pôde se ocultar. Jesus nasceu como judeu e se desenvolveu
até a maturidade num lar judeu e numa cultura e numa religião judai-
cas. Num certo sentido, a universalidade do Evangelho de Jesus e da
própria missão de levá-lo aos gentios, marcas fundamentais da histó-
ria da igreja primitiva, começaram nesse episódio.

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O relacionamento de Jesus com as mulheres era muito bom.
Ele as aceitava, gostava delas e reconhecia que elas eram capazes de
entender as coisas revolucionárias que pregava e ensinava. Conver-
sas longas entre Jesus e as mulheres não são muito comuns. É certo
que, por estar freqüentemente no lar de Betânia, com Lázaro, Marta
e Maria, ele conversava muito com as duas irmãs. No caso da morte
de Lázaro, ele teve com Marta discussões teológicas muito sérias,
como se verá em capítulo mais à frente.
As duas conversas mais longas de Jesus com mulheres fo-
ram, por paradoxal que seja, com as estrangeiras, a mulher cananéia
e a mulher samaritana com quem se encontrou junto ao poço de
Jacó, as duas heroínas sem nome. A mais tempestuosa conversa, em
que Jesus se mostrou ríspido, até mesmo grosseiro, preconceituoso e
um pouco mal educado, foi justamente com a mulher cananéia. Ele
a tratou de uma forma cruel, parecida com a maneira com que trata-
va, nos limites de sua terra, os escribas e fariseus. Uma teóloga
americana, ao comentar esse texto, diz que “parece que Jesus deixou
sua condição de Messias no lado palestino da fronteira e, também,
sua compaixão e sensibilidade”.
Apesar de saber de todas as questões dessa centenária incom-
patibilidade ente os judeus e os cananeus, aquela mulher, cujo único
desejo na vida era a cura de sua filha, e cuja única certeza era de que
só Jesus poderia curá-la, assumiu todos os riscos desse encontro. Ela
estava disposta a não sair dali sem beneficiar-se do poder de Jesus. Ela
percebeu, também, que chamar a atenção de Jesus, exigiria uma atitu-
de toda especial para sobrepujar a barreira que os discípulos dele fazi-
am para protegê-lo. Ela clamou, isto é, falou alto, gritou, “Senhor, filho
de Davi, tem compaixão de mim!”. O texto de Mateus diz que Jesus
ficou indiferente aos seus apelos, “não lhe respondeu palavra”. Inco-
modados com a insistência da mulher, os próprios discípulos rogaram a
Jesus para que a despedisse, isto é, que atendesse os seus apelos,
curasse a menina para que ela fosse embora.
Nesse momento, começou o diálogo de Jesus com ela mas foi
uma conversa muito hostil, apesar de que ela clamava respeitosamen-
te, usando para Jesus os títulos corretos, como Senhor e Filho de Davi.
Disse-lhe Jesus, como a desculpar-se por não poder curar sua filha:
“Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Face à
face com uma grande necessidade humana, a resposta de Jesus não
foi realmente uma resposta. Jesus não tinha argumentos para convencê-
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la. Porque, ao levar esse fora, ela veio e o adorou dizendo e pediu a sua
compaixão: “Senhor, socorre-me!”.
Jesus, para espanto dela, não só não a socorre, mas usa ago-
ra um argumento injurioso e ofensivo: Não é bom tomar o pão dos
filhos e lançá-los aos cachorrinhos”. Os judeus chamavam os estran-
geiros, os gentios, de cachorros. Num certo sentido, essa ofensa es-
tava sendo repetida por Jesus àquela mulher. Ela tinha três coisas
que eram normalmente desprezíveis para os judeus: era uma estran-
geira, ou seja, pagã, sendo vista como impura; por isto, os judeus
guardavam uma distância segura dos gentios. Era mulher, e as mu-
lheres não mereciam nenhuma consideração por parte dos judeus.
Os judeus eram proibidos de falar com elas a não ser na presença dos
seus maridos. Se o pai da menina é que fosse pedir o milagre a Jesus,
talvez fosse diferente. Havia uma terceira coisa a desgastar a ima-
gem da mulher, ela era a mãe de uma menina endemoninhada, uma
louca. Os judeus gostavam de atribuir as desgraças da saúde a peca-
dos cometidos por pais ou outros antecessores. Quem sabe aquela
mulher cananéia não teria alguma culpa no cartório?
Era o momento decisivo da conversa. Mesmo ofendida, per-
cebendo muito bem aonde Jesus queria chegar, ela foi muito inteli-
gente em sua fala, na qual começa concordando com Jesus: “Sim,
Senhor!”. Mas, em seguida, para usar uma linguagem do jogo de
xadrez, ela dá o cheque-mate em Jesus, a jogada definitiva: “porém
os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus
donos”. É exatamente isto. Ela tinha a convicção que mesmo ínfimas
parcelas da graça seriam suficientes para que sua filha fosse curada.
Então, é Mateus quem narra, Jesus lhe disse: “Ó mulher, grande
é a tua fé. Faça-se contigo como queres”. E desde aquele momento,
sua filha ficou sã.
A partir dali, ninguém mais teve barrado o seu acesso a Deus,
às bênçãos de Deus, em virtude de seus antepassados, da religião
que herdou ou de sua cultura. Com sua atitude, a mulher cananéia
verdadeiramente estendeu a mesa do Senhor e, desde então, há pão
em abundância para todos, gentios, judeus, gregos, escravos, livres,
homens, mulheres e crianças. E na grande comissão, texto de Mateus
28:18-20, a ordem de Jesus é: “Toda a autoridade me foi dada no
céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos em todas as nações,
batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinan-
27
do-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que
estou convosco todos os dias até à consumação do século”.

A mulher samaritana
Estamos falando do surpreendente encontro de Jesus com a
mulher samaritana à beira do poço de Jacó, em Samaria. Jesus e
seus discípulos estavam caminhando da Judéia, ao Sul, para a Galiléia,
ao Norte. Passaram por Samaria, território historicamente hostil aos
judeus, apenas para ganharem tempo. Se a tivessem evitado, gasta-
riam seis dias e não três. Preferiam, portanto, o caminho mais curto.
Numa bifurcação da estrada, perto de Sicar, está o que se conhece
pelo nome de poço de Jacó. O local, que não lhes pertencia, tinha,
contudo, muita importância histórica para os judeus. Ali havia terras
que foram compradas por Jacó (Gn 33:18-19). Em seu leito de mor-
te, Jacó deixou aquelas terras para José (Gn 48:22). Depois de sua
morte, o corpo de José foi levado para ser enterrado ali (Js 24:32). O
poço tinha cerca de 30 metros de profundidade.
O calor era forte e era meio dia, a hora sexta dos judeus.
Enquanto os discípulos foram ao centro da cidade para comprar ali-
mentos, Jesus pára à beira do poço para descansar. Uma mulher
samaritana aproximou-se do poço. Por que teria ela vindo àquele
poço? Provavelmente haveria um outro poço perto de sua casa. Tal-
vez sua má reputação fazia com que fosse discriminada por outras
mulheres. O fato é que ela chega a um poço distante e na pior hora,
a mais quente do dia, para apanhar água. Trazia certamente algo
com que apanhar a água no fundo, possivelmente um saco feito de
couro ao qual se amarrava uma corda. A água assim extraída era
transportada num cântaro para casa.
Jesus, com sede (e é possível que os discípulos tivessem leva-
do consigo o saco de couro que certamente possuíam), pede à mu-
lher que lhe desse de beber. A resposta da mulher foi muito clara:
“Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim que sou mulher
samaritana?”. Porque os judeus e os samaritanos não se davam bem.
E nos costumes dos dois povos, nenhum homem dirigia a palavra a
uma mulher. A resposta de Jesus aprofundou a conversa: “Se conhe-
ceras o dom de Deus e quem é que te pede “dá-me de beber”, tu lhe
pedirias e ele te daria água viva”.
Coisa curiosa é que essa conversação de Jesus com a samaritana
segue exatamente o mesmo esquema da conversa que ele tivera,
algum tempo atrás, com Nicodemos. Jesus faz uma afirmação, que
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não é entendida e sim tomada num sentido incorreto. Jesus repete a
afirmação de maneira mais clara mas não consegue ser interpretado
corretamente. Jesus então obriga a pessoa com quem está falando a
descobrir e enfrentar a verdade por si mesma. Tal como Nicodemos,
a mulher tomou as palavras de Jesus num sentido literal, sem conse-
guir compreendê-las no plano espiritual.
Água viva, para as pessoas comuns, significava simplesmente
água corrente, de um rio ou de uma fonte, não a água de um poço ou
de um pântano. É claro, a água viva era sempre melhor. E a mulher
lhe pergunta, como lhe daria essa água se não tinha com que tirá-la
do poço que era bem fundo. “Onde, pois, tens a água viva?” Ela
agora lhe fala do patriarca Jacó e pergunta se o viajante era maior do
que ele.
A resposta de Jesus não foi exatamente sobre o que ela per-
guntou. Ele lhe disse: “Quem beber desta água, tornará a ter sede;
aquele, porém, que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá
sede, para sempre; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele
uma fonte a jorrar pela vida eterna”.
E ela, ainda sem entender exatamente o que Jesus lhe queria
dizer, pede que ele lhe dê dessa água, para nunca mais ter que vir
buscá-la do poço.
Os samaritanos só aceitavam os cinco primeiros livros da Bí-
blia, os chamados livros da Lei. Por isto, ela desconhecia todo o sig-
nificado espiritual da expressão água viva. A promessa era que o
povo escolhido tiraria com alegria as águas das fontes da salvação (Is
12:3); o salmista falava de sua alma sedenta de Deus, do Deus vivo
(Sl 42:1). A promessa de Deus era: “E eu derramarei águas sobre o
sedento” (Is 44:3). O chamado dizia que todo aquele que estivesse
sedento devia ir às águas e bebê-las gratuitamente (Is 55:1). Jeremias
se queixava de que o povo havia abandonado a Deus, fonte de água
viva, e cavara cisternas rotas, que não contêm as águas (Jr 2:13);
Ezequiel teve a visão das águas purificadoras, o rio da vida (Ez 47: 1-
12); Zacarias, por sua vez, dizia que o novo mundo abriria uma fonte
para remover o pecado e a impureza (Zc 13:1) e que as águas vivas
brotariam de Jerusalém (Zc 14:8). “Não terão fome nem sede”, pro-
clamava Isaías (Is 49:10); “Contigo está o manancial da vida”, excla-
mava o salmista (Sl 36:9); e Isaías profetizava: “a areia embraseada
se transformará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de água
(Is 35:7). Os rabinos antigos identificavam essa água viva com a
sabedoria de Deus. Outras vezes, a identificavam com o Espírito San-
to de Deus.
29
Essa idéia de que a sede da alma que só se poderia satisfazer
com a água viva que era o dom de Deus não fazia parte da cultura e
da experiência daquela mulher.
Jesus, incompreendido, muda o tom da conversa: “vai, cha-
ma o teu marido e vem cá”. Isto foi um choque para a mulher porque,
de repente, Jesus a estava chamando à realidade do seu dia-a-dia.
Ela foi obrigada a confessar que não tinha marido. E Jesus, ainda
incisivo, lhe diz que isto era verdade mas que ela tinha tido cinco
maridos. Só aí a mulher percebeu que não estava falando com qual-
quer um e lhe disse: “Senhor, vejo que és profeta”. Pega no seu
pecado, ela muda de assunto e pergunta a Jesus se Deus deve ser
adorado no Monte Gerizim, onde Abraão esteve perto de sacrificar
Isaque, e era um local sagrado para os samaritanos, ou no monte
Sião, em Jerusalém, lugar sagrado pelos judeus.
A conversa vai chegando ao ponto que Jesus planejara. Dizen-
do-lhe que os verdadeiros adoradores adoram em espírito e em verdade
– e isto nada tem a haver com o local da adoração – porque são estes
que o Pai procura para seus adoradores, a mulher, começando a com-
preender as coisas, lhe diz: “eu sei que há de vir o Messias, chamado
Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas”.
Finalmente, Jesus faz-lhe a declaração: “eu o sou, eu que falo
contigo”. A mulher descobriu, atônita, que a declaração de Jesus não
era um mero sonho mas a verdade mesma. E dali para a frente, tudo
iria ser diferente. Nesse ponto, os discípulos chegam de volta e se
surpreendem, mesmo sem fazer nenhum comentário, de vê-lo con-
versando com uma mulher.
Ela, deixando o seu cântaro, foi à cidade e anunciou aos ho-
mens com quem se encontrou: “Vinde comigo, e vede um homem
que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cris-
to?”. Os homens foram ter com Jesus e creram nele, em virtude do
testemunho daquela mulher. Pediram e Jesus permaneceu com eles
dois dias. Muitos creram nele por causa de sua palavra e diziam à
mulher: “já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas por-
que nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeira-
mente o Salvador do Mundo”.
A mulher samaritana, cujo nome será sempre desconhecido,
se transformou, ao conhecer Jesus, numa verdadeira evangelista.
Não só entregou a sua vida a Cristo, mudou de vida, mas imediata-
mente levou outros a conhecê-lo. O primeiro instinto da mulher
samaritana foi repartir a sua experiência.. Barclay nos diz que a vida
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cristã se baseia em dois pilares gêmeos, o descobrimento e a comu-
nicação. “Nenhum descobrimento é completo até que nossos cora-
ções se encham do desejo de reparti-lo, mas não podemos comuni-
car Cristo aos outros até que o tenhamos descoberto para nós mes-
mos. Os dois grandes passos da vida cristã são, em primeiro lugar,
encontrar a Cristo e, em segundo, falar dele”.
Como a samaritana, um homem pode esconder o seu pecado
mas quando encontra a Jesus Cristo e o reconhece como seu Salvador,
seu primeiro instinto è dizer aos outros: “Vede o que eu era e olhai para
o que sou agora: é isto o que Cristo tem feito por mim”.
Assim era Jesus, um homem sem preconceitos, nem contra
as mulheres e nem para com os estrangeiros, quaisquer que fossem
os seus erros, que ele estava sempre disposto a perdoar e conceder
a chance de um novo nascimento.
Essa história nos mostra que a mulher samaritana, uma das
grandes mulheres da Bíblia, é um exemplo de cristã. Precisamos to-
dos, homens e mulheres, ser evangelistas como ela foi.

Marta e Maria – ambas escolheram a melhor parte


Lázaro e suas irmãs Marta e Maria viviam em Betânia. Muitas
vezes Jesus os visitou. Aquela família era muito amiga de Jesus. Vamos
no ater, porque esse é o objetivo deste texto somente às duas mulheres.
O primeiro texto, de Lucas 10, narra uma daquelas visitas de Jesus.
Maria ficou sentada aos pés de Jesus, escutando-lhe com atenção. Mar-
ta, por sua vez, estava atarefada nas coisas da casa, como qualquer
mulher ao receber hóspede tão importante. Marta queixa-se a Jesus de
que sua irmã não a estava ajudando. Jesus a repreende dizendo: “Mar-
ta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto,
pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a
boa parte e esta não lhe será tirada”.
A partir desse texto, criou-se um critério de valorizar Maria con-
tra Marta. E poucos se lembram que esse texto vem logo depois da
parábola do bom samaritano, na qual as obras de benignidade são não
apenas elogiadas mas também recomendadas. O objetivo de Lucas não
seria dizer que uma é melhor do que a outra mas, apenas, que uma é
diferente da outra e cada uma delas tem o seu lugar de honra entre os
discípulos de Jesus. Por isto, as mulheres desejam ser como Maria e não
como Marta e isto talvez reflita, de algum modo, uma certa revolta con-
tra os trabalhos caseiros, que afadigam, são mal reconhecidos e que têm
ser repetidos a cada dia.
31
Até Santo Agostinho vai nesse tom de crítica a Marta, por não
reconhecer a natureza de Jesus. Para ele, em seu sermão 104, “Marta é
uma imagem da posse; Maria a da Esperança”. France Quéré, em “As
mulheres do Evangelho”, diz que Marta, para espanto seu, vê a distância
repentinamente estabelecida entre Maria, discípula, e ela, serva.
Em João 11:2, é narrado que Maria, imã de Lázaro, havia
ungido os pés de Jesus com perfume e os enxugou com os seus
cabelos, o que dá , como disse Donald English, “um toque comovente
à afeição de Jesus por todos daquela família”. Aquele capítulo, até o
versículo 46, acaba redimindo Marta das acusações que se lhe faziam
e mostra de maneira bem clara não só a sua grande fé mas o conhe-
cimento da Escritura e da missão de Jesus É o texto que se encontra
em João que comprova isto.
Na realidade, não se pode colocar uma irmã sobre a outra.
“Marta mostra vontade e opinião. Maria mostra emoção”, nos diz
Donald English. É como se João nos quisesse mostrar que, sozinhas,
nenhuma das irmãs seria capaz da afirmação integral que Jesus es-
perava mas que, juntas, conseguiram.
A tentação de Maria em aproveitar o máximo possível da con-
versa com Jesus, como indicado no texto de Lucas, tem muito paren-
tesco com a reação de João, Tiago e Pedro por ocasião da Transfigu-
ração de Jesus. Eles já queriam arranjar tendas para Jesus, Moisés e
Elyas e aproveitar, com muita atenção, as conversas entre Jesus e
eles. Isto era uma tentação porque a missão estava no vale, onde
moravam as pessoas, que careciam do amor de Deus, e não naquele
monte. No episódio da morte de Lázaro, Marta foi esperar por Jesus
no caminho e Maria quedou-se em casa. Disse, pois Marta a Jesus,
“Senhor, se estiveras aqui não teria morrido o meu irmão. Mas tam-
bém sei que, mesmo agora, tudo quanto pedires a Deus, Deus to
concederá”. Esta foi uma afirmação de fé, de muita fé. E provocou
uma resposta de Jesus que é fundamental para o entendimento de
quem ele era e de sua promessa de amor: “Eu sou a ressurreição e a
vida, quem crê em mim, ainda que morra, viverá”. Jesus lhe pergunta
se ela cria nisso e sua resposta mostra sua fé: “Eu tenho crido que tu
és o Cristo, o filho de Deus”.
De qualquer forma, sem que se discuta a superioridade de uma
sobre a outra, porque todos temos diferentes dons, diferentes talentos,
diferentes temperamentos e até diferentes personalidades, nós também
somos chamados a ser amigos de Jesus. Elas são, cada uma à sua
maneira, por terem sido sempre amigas de Jesus, um exemplo para nós.
32
Mulheres do Movimento Metodista
Suzana, a mãe de João Wesley
A mãe de João Wesley teve
uma importância grande em sua vida.
Casou-se, com 20 anos, com Samuel
Wesley, em 1689, no mesmo ano em
que ele foi ordenado ministro da Igre-
ja Anglicana. Seu pai, o Dr. Samuel
Annesley, era um dos mais importan-
tes líderes do grupo não-conformis-
ta. Apesar de toda a herança não-
conformista, Samuel Wesley e
Susanna optaram pela igreja oficial.
Depois de servir em Londres por um
ano e de ter sido, também durante
um ano, capelão a bordo de um na-
vio, Samuel recebeu a paróquia de
Epworth, no condado de Lincolshire, na qual ficou até morrer.
Susanna teve dezenove filhos mas a maioria deles morreu ao
nascer ou logo depois. Quando João nasceu, o segundo menino, seus
irmãos vivos eram Samuel e as meninas Emília, Susana, Mary e Mehetabel.
Era hábito de Susana, no dia em que os filhos completavam cinco anos,
ensinar-lhes o alfabeto e, em seguida, utilizando a Bíblia, a ler.
Um dos acontecimentos que, sem dúvida, marcaram a vida
de João Wesley e sua grande ligação com a mãe, foi o incêndio da
casa pastoral, que ocorreu no dia 9 de fevereiro de 1709, quando
Wesley ainda não tinha seis anos. O fato é que alguns paroquianos,
insatisfeitos com o pastor, colocaram fogo no prédio enquanto a famí-
lia dormia. Quando todos já se encontravam fora da casa, notou-se
a falta do pequeno Jack – era assim que família lhe chamava – que
dormia no segundo andar. Tentaram resgatá-lo mas era impossível
pois a escada de madeira já estava em chamas. Samuel pediu aos
que estavam ali para ajoelhar-se e pedir a Deus para que recebesse
em seu seio a alma de seu filho. De repente, ouvem o choro do
menino que, subindo numa cômoda, chegava à janela do seu quarto.
Fizeram então uma escada humana, um homem nos ombros de um
outro, e salvaram o menino. Logo em seguida, o teto caiu em chamas
para dentro de casa.
33
Esse episódio deu a Susana, que via no salvamento do filho
algum objetivo de Deus em relação a ele, uma preocupação maior
com a educação de João Wesley. Em oração que escreveu logo de-
pois do incêndio, ela dizia: “pretendo ser particularmente cuidadosa,
como nunca antes, com a alma desta criança, que tu tens cuidado
tão misericordiosamente, para que eu possa inculcar em sua mente
os princípios da verdadeira religião e virtude”.
Além dos seus afazeres como mãe de tantos filhos, ela tinha
uma preocupação muito grande com a Igreja. Pregava muito bem, o
que aborrecia seu marido. Chegava a reunir na sua casa mais de 200
mulheres. Samuel ordenou-lhe que parasse e ela exigiu uma ordem
formal, para que a responsabilidade perante Deus caísse sobre a ca-
beça dele e não dela. Ela continuou pregando...
Quando João Wesley se formou, ainda não tinha definido que
profissão escolher. A sua posição de lente lhe permitia escolher entre
as mais importantes da época, o Direito, a Medicina ou a Igreja. A
Igreja foi para ele inevitável e ele foi ordenado diácono no dia 19 de
setembro de 1725. Pregou o seu primeiro sermão em South Leigh,
pequena vila na vizinhança de Whitney. Em 1726, foi nomeado pro-
fessor de grego e presidente das classes. Grande parte desse ano ele
passou em Epworth ajudando seu pai na Igreja. Era sonho de Samuel
transmitir-lhe por “herança” a sua pequena paróquia. Wesley, contu-
do, volta a Oxford, onde recebeu o grau de Mestre em artes em 1727.
Ao tomar sua decisão pelo ministério pastoral, Susanna lhe
aconselhou: “o verdadeiro fim da pregação é endireitar a vida dos
homens e não entulhar as suas cabeças com especulação inútil”.
Em agosto de 1727, volta a Epworth, onde passa dois anos
ajudando seu pai. Anos depois, em avaliação do seu trabalho naque-
le período, ele dizia com sinceridade : “preguei muito, mas vi pouco
fruto do meu trabalho. Nem podia ser de outra forma, pois eu nem
firmava as bases do arrependimento nem a fé no Evangelho, julgan-
do que aqueles a quem eu pregava fossem todos crentes, e que
muitos deles não necessitassem de arrependimento”.
Iniciado o movimento metodista, logo depois da morte de
Samuel, Suzana foi uma grande colaboradora de seus filhos João e
Carlos. De uma certa forma, ela foi responsável por uma das grandes
novidades do metodismo, responsável por seu grande crescimento,
ou seja, a pregação dos leigos. Pregação era coisa de ministros
ordenados e não de leigos. Wesley também pensava assim. No prin-
cípio, só os pastores ordenados é que participavam das atividades da
34
pregação. O problema é que o número de sociedades e de fiéis crescia
mais do que o de pastores ordenados pela Igreja da Inglaterra. Como
o Movimento Metodista não era uma igreja legalmente constituída, só
eram utilizados os pastores daquela igreja que tivessem aderido a ele.
Não eram muitos. Além de sua mãe Susanna, que ensinava e pregava,
apareceu, logo no início, um jovem que pregava muito bem. Seu nome
era Thomas Maxfield, pedreiro de profissão. Wesley havia feito uma
longa viagem. Quando soube que havia um homem sem ordenação
eclesiástica pregando na Fundição, ele mudou seus planos e, de Bristol,
voltou incontinente para Londres para pôr fim a tal desordem. Quem
evitou o atrito foi Susanna, mãe de Wesley, que lhe deu um sábio
conselho: “Tem cuidado, João, com o que vai fazer daquele jovem,
pois ele é certamente tão chamado para pregar como tu. Examina
quais os frutos de sua pregação e, então, ouve-o tu mesmo”.
Aceitando o conselho, ouviu Maxfield e afirmou: “É do Senhor,
faça Ele como lhe aprouver” A partir daí, os leigos foram admitidos nas
sociedades como pregadores. Cinco anos depois, ou seja, em 1744, já
eram mais de quarenta os pregadores leigos que Wesley usava. En-
quanto ele e Carlos viajavam de um lado para outro da Inglaterra, os
pregadores leigos cuidavam das sociedades e pregavam a Palavra.
O amor que Wesley dedicava a sua mãe era muito grande. Mui-
tas vezes ele disse que gostaria de morrer antes dela, para não ter o
sofrimento de perdê-la. Suzana faleceu com 73 anos no ano de 1742,
logo no princípio do Movimento Metodista. Mesmo assim, com seu exem-
plo e dedicação, ela é considerada uma das mulheres mais importantes
do Metodismo. Vale a pena conhecer a sua história e as suas realizações.

Bárbara Heck – a mãe do metodismo americano


Precisamos conhecer um pouco
melhor a história da Igreja Metodista em
território americano. Ela começou, ainda nos
tempos de João Wesley, quando a América
ainda era uma colônia inglesa e tinha um
território bem menor do que os Estados
Unidos têm hoje. Bárbara Heck fazia parte
de um grande grupo de imigrantes alemães
que foram para a Irlanda fugindo de perse-
guições religiosas. Essas pessoas eram cha-
madas na Irlanda de os “palatinos”. Elas
moravam no condado de Limerick.
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Em 1758, João Wesley passou por Limerick e foram muitos os
convertidos por sua instrumentalidade. Entre eles, Bárbara Heck (so-
brenome alemão original Hescht), seu irmão Paulo e seu primo Philip
Embury. Este, instruído por Wesley, acabou sendo pregador leigo
metodista. Por volta de 1760, eles emigraram para a América, indo
residir em Nova York, naquela época uma cidade de pouco mais de
20.000 habitantes. Como não havia igreja, sua fé ficou estagnada. No
fundo, Philip Embury, como Bárbara, tinham saudades da Irlanda,
onde haviam conhecido um pouco de felicidade ao participarem das
emoções do grande despertamento religioso que os irmãos Wesley
haviam provocado na Inglaterra. Mas, apesar de ler constantemente
a sua Bíblia, o que lhe importava agora?.
As famílias, mesmo sem vida religiosa, continuaram unidas, a
amizade e os encontros acontecendo normalmente. Numa noite, Bár-
bara dirigiu-se à casa de seu irmão Paulo para visitá-lo. Ela ouviu,
vindo de dentro da casa, o barulho de vozes que se elevavam em tom
irritado. Então a porta e se abriu e ela viu a silhueta de seu irmão, que
estava à volta de uma mesa com outros homens. Ali estavam cartas de
baralho voltadas para baixo e dinheiro espalhado no centro da mesa.
Aquele dinheiro era justamente o dinheiro que tinham trazido para
instalar-se com suas esposas e filhos naquela terra estranha. Era um
dinheiro que poderia significar a possibilidade de um lar decente em
contraste com a triste situação moral em que se encontravam.
Os olhos de Bárbara tinham um brilho diferente. Ela permane-
ceu, surpresa com o que via, em pé, mas por poucos segundos, o
tempo suficiente para que eles homens percebessem o seu estado de
espírito. Então, com um movimento irreprimível, ela varreu as cartas
de baralho de sobre a mesa e as atirou no fogo da lareira.
– “Então seus fracassados!”, rompeu ela afinal.”Vocês se quei-
xam das durezas da vida aqui e dissipam no jogo o seu tempo e o seu
dinheiro durante a noite? Foi esta a razão porque vocês deixaram a
Irlanda? A casa de meu irmão é um antro onde os maridos de minhas
amigas e parentas vêm se arruinar a si mesmos! Eu pensei que eram
homens e não jogadores que vieram da Irlanda”. Os homens ainda
estavam assustados quando ela os deixou e bateu a porta violenta-
mente e deixou aquela casa. Dali foi para a casa de seu primo Philip
Embury. Bateu a porta insistentemente e foi atendida por ele, um
carpinteiro, que não entendia o porquê de todo o seu nervosismo.

36
Ela o explicou narrando que tinha vindo da casa de seu irmão
Paulo, onde ele e seus amigos desbaratavam a noite no jogo. E ela
fala de sua decisão: “Resolvi, irmão, que já não podemos continuar
mais sem orientação espiritual”. Philip, já acostumado com o tempe-
ramento impetuoso de Bárbara, apenas esboçou um sorriso.
– Está certo, irmã Heck, mas por que se dirige a mim?
Os olhos de Bárbara chamejaram ainda mais:
– E por que não? Por que razão você se converteu na Irlanda?
Com que finalidade você era guia de classe entre os fiéis de nossa
sociedade? Que motivos o impulsionaram a tornar-se pregador local
metodista antes de virmos para a América?
Não deixando que Philip sequer se desculpasse, ela insistiu:
– Você deve pregar para nós, do contrário todos iremos para o
inferno e Deus requererá o nosso sangue das mãos de você.
Philip Embury, constrangido com aquelas palavras tão duras,
lhe perguntou, meio aborrecido: “Como poderei pregar? Não tenho
casa nem congregação”. A resposta de Bárbara foi incisiva: “Pregue
em sua própria casa, a princípio para os seus somente”. No outono
de 1766, reuniu-se a primeira congregação metodista em Nova York,
na casa alugada por Philip, no nº 10 das Rua Augustus, nas proximi-
dades da rua do Quartel, onde havia um destacamento inglês. Ape-
nas sete pessoas participaram do primeiro culto, Philip, sua mulher,
Paulo, Bárbara, John Lawrence, Betty e um escravo negro.
O trabalho cresceu, alguns soldados foram convertidos e mui-
ta gente, pela operosidade de Philip Embury e de Bárbara Heck, se
agregou ao grupo. Dois anos depois, em 1768, a igreja mudou-se
para a Rua João. Até hoje, a Igreja Metodista da John Street é um
marco histórico da cidade de Nova York. Os maiores nomes do
metodismo americano, como o Bispo Francis Asbury, pregaram no
seu púlpito.
Anos mais tarde, Bárbara Heck e sua família se mudaram
para o Canadá, onde ela também iniciou o movimento metodista,
contando com a ajuda da família Embury que também se mudara
para lá. Bárbara Heck é considerada também a mãe do metodismo
canadense. A Igreja Metodista do Canadá deixou de existir em 1925
quando passou a fazer parte de uma nova igreja, a Igreja Unida de
Cristo. que foi criada, e existe até hoje, para juntar fiéis de várias
denominações. Bárbara Heck morreu no Canadá em 1804.

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Martha Walker – a heroína brasileira
A história do metodismo brasileiro começa com a histórica via-
gem do Rev. Fountain Pitts ao Brasil em 1835 para fazer um estudo da
situação. Logo depois, em 1836, chegou o Rev. Justin Spaulding, que
estabeleceu a Missão Metodista, abrindo escola e criando a primeira
escola dominical do Brasil. Depois chegaram outros obreiros e o traba-
lho prosseguia. Em 1841/42, em virtude dos problemas políticos e fi-
nanceiros surgidos na Igreja Metodista dos Estados Unidos, o trabalho
missionário foi interrompido. Em 1841, Cynthia Kidder, esposa do mis-
sionário Daniel P. Kidder, morreu de febre amarela, sendo sepultada no
cemitério dos Ingleses na Gamboa. Logo a seguir, antecipando o fim
da missão, Kidder e seu filho voltaram aos Estados Unidos.
A interrupção do trabalho metodista é, sem dúvida, um erro de
muitos livros que contam a nossa história. Na realidade, interrompeu-
se a missão, não o trabalho, que certamente continuou vivo na casa de
Martha (Mary) Walker, mantendo acesa no Brasil a chama do metodismo.
A verdade bíblica é que uma Igreja, para ser Igreja, não precisa de
templos nem de organização: precisa de gente disposta a ser igreja. O
apóstolo Paulo, em quatro ocasiões, faz referência à igreja que está na
casa de alguém. Em Rm 16:5 e I Co 16:19, ele se refere à igreja que
está na casa de Priscila e Áquila. No versículo 2 da carta a Filemon, ele
menciona a igreja que está em sua casa e, da mesma forma, em Cl
4:15, ele menciona a igreja que Ninfa hospeda em sua casa.
Não foi diferente o que ocorreu na casa dos Walker. Não se
sabe o que ocorreu com o chefe da casa mas a história registra que,
mais de 25 anos depois, a igreja que estava na casa de Mary Walker
se encontra com o novo pastor tão esperado por ela, que se tornou
oficialmente, em 11 de agosto de 1873, membro nº 1 da Igreja
Metodista do Brasil, arrolando-se, por assunção de votos, ela que já
pertencera à Igreja Metodista de sua pátria, a Inglaterra, na Igreja
Metodista do Catete, a primeira igreja do metodismo brasileiro.
Dando rédeas à minha imaginação, eu vejo, com os olhos da
alma, aquela mulher, que mantinha a igreja em seu lar, firme na
esperança da chegada de um novo pastor. Posso bem imaginar: a
cada vez que era anunciada a chegada de um navio procedente dos
Estados unidos, Mary Walker arrumava-se toda e se dirigia à Praça do
Paço Imperial, hoje Praça XV, onde se encontrava o porto do Rio de
Janeiro, para dar as boas-vindas ao novo pastor. Com que ansiedade
ela devia abordar os passageiros que desembarcavam, perguntando
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se entre eles havia um pastor metodista. Posso imaginar também sua
tristeza ao constatar, durante tantos anos e tantas idas e vindas, que
seu sonho estava tardando em realizar-se. Passado, porém, cada de-
sapontamento, a esperança se restabelecia e ela voltava ao cais do
porto à espera de um novo pastor.
Além do mais, ela tinha outra preocupação, entregar ao novo
pastor uma Bíblia de Almeida, em português, que ela recebera do
Rev. Kidder para entregar ao pastor que viesse substituí-lo. Para
cumprir essa tarefa, ela tinha que ser diligente, persistente e confian-
te E ela o foi. Quando Junius Newman chegou ao Brasil em 1867,
mais de um quarto de século depois, Mary, aquela que combateu o
bom combate, pôde desincumbir-se de sua missão e entregou a Bí-
blia ao seu novo pastor. Essa Bíblia, que depois foi entregue por
Newman ao Rev. Hugh C. Tucker, se encontra hoje no Museu da
nossa Faculdade de Teologia em São Paulo.
Mary Walker, que poderia ser considerada mãe do metodismo
brasileiro, é o elo perdido entre as duas fases de nossa história. Deus
seja louvado porque Mary Walker iniciou um caminho sobremodo exce-
lente, que tem sido fielmente seguido por milhares de mulheres metodistas
que estão no seu dia-a-dia, na igreja, no lar e em todas as trincheiras da
vida moderna, mantendo acesa, bem alta e forte, a chama do metodismo.

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Mulheres de Vila Isabel
A história da Igreja Metodista de Vila Isabel, desde o seu
início, é o relato de homens e mulheres que consagraram suas vidas
ao trabalho de Cristo. O Bispo Sante Uberto Barbieri bem poderia
estar pensando neles ao escrever o texto que se segue: “Na verdade,
não podemos entender o movimento metodista sem levar em consi-
deração a obra efetiva de tantos que trabalharam em posições secun-
dárias e sem ordenação eclesiástica de nenhuma espécie, mas que
receberam, sem dar margem à dúvida, a ordenação invisível do Espí-
rito Santo. Porque levar a cabo a obra de Cristo não depende de
ordenação humana e sim de uma paixão por Cristo e seu Evangelho”.
Há mulheres muito importantes naquela história. Seria fasti-
dioso citá-las todas, mesmo porque de muitas delas não ficaram
registros adequados. Elas amaram a igreja e dedicaram sua vida a ela
mas o tempo, e a falta de uma visão histórica e de registros, as
deixou no anonimato, da mesma forma como, na própria Bíblia, não
se encontra a história de muita gente que estava ao lado de Jesus em
suas peregrinações nos ásperos caminhos da Galiléia. Algumas, no
entanto, a história registrou e vamos mencioná-las aqui como home-
nagem neste Dia Internacional da Mulher.
A igreja começou na casa de Ana Pereira de Souza Duarte, no
número 96 do chamado Boulevard. Foi na sala da frente daquele
sobradinho que, em 15 de junho de 1902, foi fundada a nossa igreja.
Maria Gomes de Oliveira, a avó da saudosa Dona Ondina Franco, é uma
daquelas valorosas mulheres. Foi dedicada e fiel e a primeira presidente
de nossa Sociedade de Mulheres, fundada em 1902. De suas fundado-
ras, só três nomes ficaram conhecidos, o dela e os de Rosa Soares,
mulher de Antônio Soares, e Maria Gonçalves, respectivamente, mães
de Elyas Soares e Almeirinda Soares. Eram portanto as avós de Alice,
minha mulher, e bisavós de meus filhos. Outras mulheres enriqueceram
depois essa galeria de verdadeiras heroínas da fé. Diná Dias Alves, mãe
de Pedro Américo e sogra de Alice Dias Alves, Filismina Bento, a evangelista
que convidou o casal Duarte, José e Isaura, pais da saudosa Alzira Duarte,
para virem à igreja, isto no ano de 1917. Vieram, viram e gostaram e
aqui ficaram até que Deus os chamasse ao lar.
Há uma história muito bonita que envolveu, no início dos anos
20 do século passado as mulheres de nossa igreja. O sonho do novo
templo as envolveu em trabalhosas campanhas para angariar fundos
para a construção. Elas faziam doces e salgadinhos que vinham vender,
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todos os dias, fizesse sol ou chuva, no local estratégico que era a calçada
de nosso terreno. Algumas aventuravam-se a vendê-los na esquina de
28 de Setembro com Souza Franco, que, na época, era chamada de
“Ponto do Cem Réis”, isto é um ponto de seção, onde as pessoas, para
economizar um tostão, assim se chamada a moeda de cem réis, desciam
dos bondes, mesmo quando iam para as proximidades da Praça Sete,
hoje chamada Barão de Drummond, e completavam o percurso a pé.
A compra do nosso terreno, adquirido da Cia. de Carris, Luz e
Força, a Light”, foi um verdadeira epopéia. Foi muita visão daquele
grupo de membros, pobres e humildes, mas que queriam o melhor
para a igreja. Pois bem, quando se planejavam os “finalmentes”, isto
é, a construção do templo, a “Light” se arrependeu da venda e quis
comprar o terreno de volta. Ofereceu então “um negócio da China”,
assim se chamavam os bons negócios na época. Ela receberia o seu
terreno de volta, perdoaria o restante da dívida e, em troca, daria à
igreja, numa rua lateral, na certa distante da 28 de Setembro, um
templo pronto. Preocupados com a dívida, os anciãos da igreja esta-
va quase topando o negócio. Que só não foi feito porque as mulheres
não deixaram e seu argumento foi decisivo. “O nosso sonho era ter
um templo na rua principal do bairro. Não se pode abrir mão de um
sonho”. E o negócio não foi feito, graças à obstinação e visão das
mulheres de Vila Isabel. A história mostrou que elas estavam com a
razão. O nosso templo foi inaugurado e consagrado em agosto de
1922. Naquele tempo, para ser consagrado um novo templo, era pre-
ciso que não restasse nenhuma dívida da construção.
Naqueles tempos difíceis, muita gente morava longe da Igre-
ja e os deslocamentos não eram fáceis como hoje. E havia ainda a
falta de recursos porque as pessoas eram muito pobres. Devemos
citar aqui, em homenagem às mulheres daquela geração, o sacrifício
que as que residiam em Vila Isabel faziam para receber com almoço
as pessoas que moravam longe e que assim, passavam a tarde na
igreja ou em visitação para poderem participar do culto da noite e, só
depois dele, voltavam às suas casas. A saudosa Alzira Duarte relatava
esses almoços amorosos na casa de seus pais José e Isaura.
Gastaríamos páginas e mais páginas só para mencionar a le-
gião de heroínas que nossa igreja teve. Vamos mencionar algumas,
pedindo perdão pela omissão de outras já que as informações são
poucas. Na nossa escola paroquial, destacamos sua primeira profes-
sora, Amélia Anders, bem como Eunice Corrêa Dias, que foi sua diretora
muitos anos, e as professoras Ondina Franco, Cladyr Oliveira de Cas-
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tro, Nair Pinto, Maria Carolina de Araújo, Antônia e Adair Ventura.
Uma das professoras, a única sobrevivente, foi Alice Dias Alves.
Outras mulheres se destacaram muito em nossa igreja, como
Laurinda Soares, nossa primeira organista, Araci Nery Gonçalves, Laura
Lobo Carneiro Monteiro, Wanda Torres, Nice Daltro Santos, Letícia
Pantaleão, a criadora do Dia do Pastor Aposentado, Georgina Silveira,
Santa Clara de Moraes, Albertina Pimenta, Celina, Ismênia Campante,
Norma Nunes e muitas outras que merecem o nosso respeito e a
nossa gratidão.
Um capítulo especial reservamos para outra mulher de Vila
Isabel, Ana da Conceição Gonzaga, aquela que foi fiel no muito e
deixou uma obra imorredoura.

Anna da Conceição Gonzaga


Não se pode falar de Ana Gonzaga sem falar, ao mesmo tem-
po, de sua amiga Layona Glenn, uma missionária da Igreja Metodista
americana, aqui chegada no final do século XIX e que prestou rele-
vantes serviços ao Brasil, tendo recebido do nosso Governo sua mais
alta condecoração, a Ordem do Cruzeiro do Sul. Sobre a amizade que
juntou essas duas mulheres, a própria Layona Glenn testemunhou:
“Raras vezes acontece que duas pessoas estranhas que se encontram
nos anos avançados da vida, sintam-se mútua e irresistivelmente atra-
ídas e formem uma amizade sincera, inabalável e duradoura”. Ela
falava de seu primeiro encontro com Anna Gonzaga. Esta tinha 66
anos e Layona, 61.
Um dos sonhos de Layona era um orfanato, uma instituição
para abrigar crianças órfãs ou carentes. Conseguindo aprovação de
suas idéias, mas sem recurso financeiro de nenhuma espécie, coube
a ela o encargo de liderar o projeto e arrecadar recursos para a obra.
Isto ocorreu em 1927, quando ela dirigia a escola do Instituto Central
do Povo, no Rio de Janeiro. Como ela mesmo declarou, “poucas pes-
soas mostravam-se interessadas no projeto”. A primeira oferta foi do
Dr. Antenor Dias, dentista que trabalhou com muita dedicação, por
mais de 30 anos, no Instituto Central do Povo. O valor dessa doação
foi de 500$000, isto é, na moeda da época, quinhentos mil réis.
Outro grande amigo do projeto era o Rev. Osório Caire, que
era, pastor da Igreja Metodista de Vila Isabel. Quando em visita ao
Instituto Central do Povo (ICP), Layona Glenn lhe falou da oferta
recebida, cujo valor era bem razoável. Entusiasmado, o Rev. Osório
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disse a Layona que gostaria de apresentar a ela uma senhora membro
de sua igreja, que era crente fervorosa, caritativa e bem abastada.
“Creio eu” – disse-lhe ele – “que ela será capaz de lhe dar outro tanto”.
Combinaram então que, no dia seguinte, ele a acompanharia à casa de
Anna da Conceição Gonzaga, que morava no bairro da Tijuca.
Caminhando para a visita, o Rev. Osório lhe aconselhou a não
fazer qualquer pedido direto mas que apenas lhe apresentasse os
seus planos. Se ela fosse simpática à idéia, haveria de ofertar o quan-
to quisesse. Sábio conselho aquele porque, nem de leve, ninguém
poderia sequer imaginar o tamanho do coração de Anna da Concei-
ção Gonzaga.
Apesar de ser uma mulher de recursos, vivia simplesmente
no bairro da Tijuca, numa casa de vila que tinha um pequeno jardim
e, no muro, uma trepadeira corona regina, que cobria as pedras com
uma profusão de flores cor de rosa. Como disse Layona Glenn, “vio-
letas e amores-perfeitos ladeavam o caminho de cimento que ia do
portão de entrada à porta da casa. As duas flores definiam certamen-
te o caráter de Anna. A violeta, pela humildade, e o amor-perfeito,
que era exatamente o tipo de amor que ela nutria pelas pessoas”.
Ao apresentar com muita singeleza os planos e mostrar um
álbum de fotografias de alguns orfanatos da Igreja Metodista nos Esta-
dos Unidos, os visitantes foram surpreendidos com uma pergunta feita
por Anna Gonzaga: “A senhora conhece minha fazenda em Inhoaíba?”
A visitante respondeu que conhecia apenas de vista.
– “Pois bem” – continuou ela – “não acha que seria um bom
lugar para um orfanato?”
Pensando que Dona Anna Gonzaga queria lhe vender a fazen-
da para o estabelecimento do orfanato, Layona respondeu:
– “Sem dúvida, Dona Anna, seria muito apropriada mas não
podemos nem sonhar com uma fazenda tão vasta e de preço tão
elevado”.
– “Não estou falando de preço” – insistiu Dona Anna – estou
me referindo à localização”.
Sem poder sequer imaginar sua intenção e receando magoá-
la, Layona Glenn lhe respondeu diplomaticamente:
– “Na verdade, Dona Anna, o lugar seria ideal mas nós nem
de leve podemos considerar tal coisa, por estar muito além de nossas
possibilidades”.
– “Pois está muito bem” – continuou Anna com naturalidade –
“Está muito bem! Vou doar a fazenda de Inhoaíba para o Orfanato”.
43
Ao ouvir isto, Layona levou um susto, sem poder acreditar no
que ouvira. A expressão do seu rosto era tão forte que Anna Gonzaga
riu muito e, “muito espontaneamente”, fê-la voltar à realidade com as
seguintes palavras:
– Pode crer, Miss Glenn, estou falando sério! Vou doar ao
Orfanato minha fazenda de Inhoaíba!”
Os diálogos acima fazem parte da narrativa de Miss Glenn,
como era conhecida. O alvo inicial de sua campanha era arranjar 30
contos de réis para adquirir um sítio modesto para dar início à obra. A
propriedade doada valia na época muito mais de 1.000 contos de
réis, uma verdadeira fortuna.
Anna Gonzaga, que era solteira, estava há muito tempo pre-
ocupada com o problema da disposição que deveria dar aos bens que
herdara de seus pais. Pouco antes do encontro das duas, ela orando
à noite, ajoelhada, resolvera dar tudo o que possuía a Deus. Como
diz Miss Glenn, “ficou tão impressionada que, levantando-se dos joe-
lhos, embora sozinha, exclamou em alta voz: ´Vou dar tudo a Deus,
que tudo me deu!´. Continuando, ela declarou aos dois visitantes
que estava certa de que era esta a oportunidade que Deus lhe apre-
sentava para cumprir a promessa feita naquela noite”.
Apesar da generosa oferta de amor, não foi fácil transformar
o sonho em realidade. A burocracia jurídica para a transferência da
fazenda demorou muito. Foram necessários alguns anos para a regu-
larização da propriedade. Finalmente, as obras começaram, a diretora
foi escolhida pela duas, a professora Amália Andrade, de Juiz de Fora,
que deu mais de 20 anos de relevantes serviços à instituição. Final-
mente, foi marcada a data da inauguração, 1º de maio de 1932.
Vamos ao relato de Layona Glenn escrito por ela em 1949: “a
saúde de D. Anna não permitia que ela fosse a Inhoaíba para tomar
parte ativa nos preparativos mas, de dois em dois dias, eu a visitava,
relatava sobre os progressos feitos e consultava sobre os próximos
planos. Era interessante ver-se o seu vivo interesse sobre tudo o que
se relacionava com o Orfanato. Tomava parte em todos os assuntos e
discutia-os animadamente. Ficou jubilosa quando lhe comunicamos
que seria possível ter tudo pronto para a festa de inauguração no dia
1º de maio. Ela se comprometia a estar presente às solenidades em-
bora insistindo que sua parte no programa devia ser muito modesta,
pois não gostava de salientar-se muito”.
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Os desígnios de Deus não são os nossos. Como Moisés, que
não conseguiu concluir a tarefa de levar o povo à Terra prometida,
Anna Gonzaga também não viu a realização do seu sonho de amor.
Na noite de 14 de março, estando sozinha em sua casa, ela caiu e
quebrou uma das pernas, ao tentar fechar a porta do seu quarto. Não
podendo mover-se, gritou por socorro, mas sendo quase onze da
noite, ninguém a ouviu. Afinal, batendo com um sapato no chão,
uma vizinha ouviu o barulho e foi ver o que era. A demora no seu
atendimento foi grande, não só porque não havia telefone como tam-
bém porque já era tarde da noite. Finalmente, não se conseguindo
nenhum médico para atendê-la, foi chamado o Posto de Assistência e
para ele foi levada pelas três da madrugada. Não havia médico de
plantão e ela ficou deitada sobre uma mesa por muitas horas até
receber atendimento. Só depois de amanhecer é que se pôde tomar
algumas providências. Depois, foi internada no Hospital Evangélico,
onde faleceu depois de quinze dias de horrível sofrimento, exatamente
no dia 1º de abril. Na mesma tarde foi sepultada no cemitério de S.
Francisco Xavier, no do Caju, no jazigo de seu pai.
Admitindo-se que seria de sua vontade não adiar a festa, em-
bora sob tristeza geral, o Orfanato foi inaugurado no dia previsto, 1º
de maio de 1932 na presença de muitas autoridades da Igreja
Metodista. Em homenagem àquela que fora fiel no muito e que havia
dado tudo o que tinha para a realização do seu sonho de amor, o seu
nome foi dado à instituição.
A exemplo de seu pai, Anna Gonzaga não gostava que tiras-
sem o seu retrato. Uma vez, quando insistiram muito para que ela se
deixasse fotografar, ela disse: “o orfanato será o meu retrato”. O
Instituto Metodista Ana Gonzaga, nome atual da instituição, é, pois, o
retrato de sua grande benfeitora. Essa obra de amor precisa, depois
de 74 anos de preciosos serviços, manter-se afinada com o sonho de
Anna da Conceição Gonzaga, para que o seu “retrato” continue claro,
bonito, acolhedor, cumprindo bem as funções para as quais foi idea-
lizado. Essa será, sem dúvida, a melhor homenagem que a Igreja
Metodista e nós, seus membros, podemos fazer em honra de Anna
Gonzaga. Ela foi realmente a mulher que foi fiel no muito. Nossas
atitudes, como cristãos e como igreja/instituição, devem aprimorar
aquele retrato, embelezá-lo ainda mais, por ter sido uma doação de
grande amor, e não manchá-lo, como muitas pessoas, que não aju-
daram a erguer a instituição, estão fazendo.
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Presciliana (Cilana) Dornellas, minha mãe
Quase não se passa um só do-
mingo em nossa igreja sem que alguém
fale comigo em minha mãe. Mesmo pas-
sados 12 anos de sua morte e quase 15
de sua mudança, logo depois que papai
morreu, para um apartamento bem pró-
ximo da Igreja do Catete, deixando de
estar sempre presente no dia-a-dia de
Vila Isabel, ela continua sendo lembrada
e os testemunhos que ouço a respeito
de sua vida exemplar e de seu amor pe-
las pessoas me dão muitas saudades dela. Na realidade, sem ne-
nhum exagero de minha parte, ela foi a pessoa mais querida que eu
conheci.
Algumas pessoas me revelam que estão na Igreja por causa
dos seus amorosos chamados. Outros me falam de seus conselhos e
me lembram de suas inspiradas falas. Suas visitas a pessoas enfer-
mas e suas orações piedosas são lembradas até hoje. As mulheres
me recordam sua atuação no Circulo Esperança de nossa sociedade
de mulheres. A Sociedade de Mulheres era uma verdadeira paixão
para ela. Entrou como sócia com menos de 15 anos em Paraíba do
Sul, onde morava, porque lá não havia sociedade de jovens, muito
menos de juvenis, que só passou a existir muitos anos mais tarde.
Foi sócia, portanto, por quase 70 anos. Fundou diversas sociedades
de mulheres e foi presidente de tantas outras. Presidente da Federa-
ção por muitos anos, só deixou o cargo em virtude do acidente que
teve em 1970. Quando se recuperou totalmente, alguns anos depois,
recusou as propostas que muitas mulheres faziam por seu retorno à
presidência mas continuou ativa nos trabalhos da sociedade, sendo
sempre convidada a repartir suas experiências religiosas.
Minha mãe foi assim, uma verdadeira cristã, uma pessoa que
amava ao próximo, mais até do que a si mesma. Foi uma mulher que
caminhou sempre, juntamente com meu pai, a segunda milha da fé.
Tinha um coração grande e muito orgulho de ser Metodista. Mulher
de pastor, colaborava xom ele em tudo e, mesmo de maneira discreta
e silenciosa, ajudou-o a resolver problemas difíceis que apareciam e
que precisavam de uma mulher discreta, e de confiança e com muita
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sabedoria. E nunca reclamou das injustiças, das incompreensões da
vida de uma mulher de pastor. Ela ensinou a seus filhos a sacralidade
do trabalho do pai, que trabalhava diretamente para Deus e não para
os homens.
Sofreu muita em sua vida por causa de sua saúde. Ter chega-
do aos 82 anos, que ninguém acreditava ser possível, já que ela
passou, somando os tempos de internação, uns quatro anos de sua
vida em hospitais, foi uma bênção para nós. Nunca ninguém a ouviu
fazer qualquer reclamação. Atropelada por um ônibus, teve fraturas
expostas e teve que passar meses internada. No meio de tudo, duas
cirurgias sérias, que nada tinham a ver com o acidente. Quando al-
guém lhe perguntava como ia, sua resposta, com aquele sorriso que
sempre enfeitava o seu rosto, era a mesma: “Eu vou muito bem,
graças a Deus”. Mesmo tendo ficado com uma perna mais curta do
que a outra e ter usado bengala durante mais de 20 anos, nada tirou
sua alegria de viver. Porque ela tinha intimidade com Jesus, a verda-
deira alegria dos homens.
Pregadora inspirada, professora de escola dominical, especi-
almente para crianças, nunca vi outra igual. Conhecia a Bíblia como
ninguém. Conhecia, só, não. Ela vivia a Bíblia em tudo o que fazia.
Tinha um talento especial para preparar pessoas para a carreira da
fé. Com relação à poesia que lhe fiz por ocasião de minha infância,
posso dizer, dando graças a Deus por sua vida, que ela não foi uma
bênção só para mim mas para centenas de pessoas que foram aben-
çoadas por sua fé, por sua dedicação, por seu amor a Cristo e à
Igreja, e pelo amor que ela devotava a todos. Tem sido um privilégio
ter sido filho de mulher tão admirável. Tudo isto foi reconhecido pela
Igreja Metodista. Ela foi a primeira mulher, em nossa Região, a ter o
seu nome incluído, juntamente com o papai, na Ordem do Mérito
Metodista. Ela realmente mereceu porque viveu vitoriosamente, ten-
do sido uma bênção maravilhosa na vida de muita gente.

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“Mulher, grande é a tua fé”

ÍNDICE PÁGINA

Dedicatória
1
A minha mãe 1
Meu anjo protetor 2

Primeira Introdução - os feministas da família 4

Papai feminista 4
Filho também feminista 7
Os direitos da mulher 8

Segunda (e última) introdução 8

Mulheres do Antigo Testamento 9


Sara, a mulher de Abraão 9
Raquel – uma mulher que sofreu de amor 12
Tamar, a mulher que foi à luta 15
Noemi e Ruth, sogra e nora que se amavam 17

Mulheres do Novo Testamento 20


Maria, a doce mãe de Jesus 20
Mulher, grande é a tua fé 22
A mulher samaritana 25
Marta e Maria, ambas escolheram a melhor parte 28

Mulheres do Movimento Metodista 30


Suzana, a mãe de João Wesley 30
Bárbara Heck, a mãe do metodismo americano 33
Mary Walker – a heroína brasileira 35
Mulheres de Vila Isabel 37
Anna da Conceição Gonzaga 39
Presciliana (Cilana) Dornellas, minha mãe 43
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