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24/09/2018 Evolucionismo cultural: correntes antropológicas do século XIX – Ensaios e Notas

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DEZEMBRO 15, 2015

Evolucionismo cultural: correntes


antropológicas do século XIX
O evolucionismo cultural junto com o difusionismo foram correntes predominantes no final do século XIX que lançaram bases
para o desenvolvimento da antropologia como uma disciplina acadêmica autônoma.

Em um ambiente teórico confuso com as ideias de poligenia, racismo científico e criminologia determinista, o
evolucionismo e o difusionismo apresentaram os primeiros discursos coerentes sobre a humanidade além de
estabelecerem uma das primeiras definições compreensivas de cultura.

Nessas teorias de perspectivas diacrônicas, a cultura seria “em seu amplo sentido etnográfico, este todo complexo
que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes  ou quaisquer outras capacidades ou hábitos
adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”.  (Tylor, 1871, p.1).

PARTE I: EVOLUCIONISMO

A primeira corrente teórica que propriamente pode ser chamada de antropológica, o evolucionismo cultural
pressupunha uma unidade psíquica do ser humano. Com esse pressuposto, todos os povos passariam unilinearmente
por estágios de desenvolvimento sociocultural semelhantes, do mais primitivo modo de vida ao mais complexo.
Desse modo, seria possível conhecer o passado da humanidade bastando investigar os povos mais “primitivos”.

Essa busca pelos seres humanos mais prístinos levou ao estudo da origem das instituições – principalmente a
religião, a família, a propriedade e o direito – entre os esses povos “fósseis” como os arunta da Austrália, por sua
suposta simplicidade.

Como pode se inferir dessa visão bem enviesada, a complexidade tecnológica refletiria uma maior complexidade
social. Assim, as sociedades ocidentais seriam as mais “avançadas”.

Influências:

Teoria da seleção natural: Darwin publicou seu A Origem das Espécies em 1859, gerando uma série de
monografias evolucionistas na década seguinte sobre as mais variadas instituições. Mais tarde, Darwin
seria ele próprio influenciado pelos antropólogos evolucionistas. Em um ciclo reflexivo de sua teoria,
Darwin em A descendência do Homem e Seleção em relação ao Sexo (1871) utiliza, além das teorias de Spencer,
as propostas de Lubbock, Tylor, Morgan e Max Müller para explicar a evolução cultural, intelectual e

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moral a partir de fatores biológicos. Os estágios de pedestrialização, bipedalismo, encefalização e


desenvolvimento da linguagem simbólica refletiram em mudanças superorgânicas no ser humano.
Historicismo de Vico: desdobramento por fases progressivas da humanidade por agência humana.
Progresso intelectual humano: O Marquês de Condorcet (1743–1794) propôs dez estágios de evolução
intelectual e tecnológica humana. Apesar de seu eurocentrismo, foi influencial em substanciar o
evolucionismo na antropologia.
Positivismo de Comte: teoria dos estágios progredindo para uma sociedade racional.
Darwinismo social e positivismo de Herbert Spencer.
Escola histórica do Direito de Von Savigny: investigação das origens das instituições e crítica às teorias
contratualistas.
Método filológico comparativo.
Investigações sobre religião e etnologia de William Robertson Smith.
Unidade psíquica do ser humano: defendida pelo etnógrafo alemão Adolf Bastian (1826–1905), a teoria
sustentava que todos os povos eram psicologicamente semelhantes. Apesar de defensor de um
evolucionismo multilinear, Bastian rejeitou os esquemas de estágios e progresso do evolucionismo
cultural. Todavia, a maioria dos evolucionistas não acreditava que a unidade psíquica resultasse na
mesma capacidade de inteligência. Para eles, os povos ocidentais seriam os mais avançados.

Fontes de dados:

Compilação de relatórios de administradores coloniais, missionários, viajantes, e respostas de


questionários como as Notes and Queries in Anthropology elaborado em 1872 pelo
Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland.
Análise bibliográfica de textos das civilizações clássicas.

Método: abordagem comparativa sob uma ótica macro-histórica.

Temas:

Origem de instituições como família, propriedade, estado, religião, direito e linguagem. Pesquisadores de
origem jurídica enfocaram na origem da sociedade e de suas instituições, enquanto outros antropólogos
se destacaram na investigação da origem da religião.
Conceitos de cultura, religião, direito e família: busca de definições que servissem à comparação entre
diferentes culturas.
Estágios civilizatórios: paradigmas evolutivo das sociedades em diferentes estágios.

Autores:

Johann Jakob Bachofen (1815–1887): jurista suíço, autor do Direito Matriarcal (1861). Essa tese pressupõe
na relação de maternidade a fonte do comportamento social e cultural humanos, resultando nas
instituições de religião, agricultura, moral e decoro. Para ele, o ser humano primitivo era promíscuo e
com grande poder por parte das mulheres; entretanto, a transformação em família patriarcal resultou na
apropriação do poder pelos homens.
Friedrich Max Müller (1823-1900): Filólogo e estudioso da religião alemão. Estabeleceu um método
comparativo para a reconstrução do proto-indoeuropeu. Com esse mesmo método, investigou a gênese
institucional da religião, arguindo que a religião original seria fetichista.
Henry James Sumner Maine (1822 – 1888): jurista escocês. Expôs sua tese “do status ao contrato” na
monografia Ancient Law (1861), na qual o status primitivo seria atribuído pelas relações familiares – que
seriam patriarcais e patrilineais – resultando nas instituições sociais (como o contrato) a medida em que
a família crescia e se tornava a civilização.

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Numa Denis Fustel de Coulanges (1830–1889): jurista e arqueólogo francês. Em seu A Cidade Antiga (1864)
argumenta que as instituições surgiram a partir dos cultos religiosos. Baseado nos clássicos gregos e no
direito romano, afirmava que as lápides, sendo marcas sacras, serviriam depois para demarcar as
propriedades familiares.
John Lubbock, Barão Avebury (1834–1913): esse aristocrata inglês, um botanista e antiquário aficionado,
propôs vários estágios pré-históricos, observando os depósitos estratigráficos. Sua obra Prehistoric Times:
As Illustrated by Ancient Remains and the Customs of Modern Savages (1865) foi referência em arqueologia por
meio século. Também propôs vários estágios para a origem da religião, desde um ateísmo primitivo até o
monoteísmo. Foi presidente da Ethnological Society entre 1864 e 1865.
John Ferguson McLennan (1827 –1881): advogado escocês que postulou que as hordas primitivas teriam
suprido a carência de membros femininos por meio de raptura e poliandria, nascendo os vínculos sociais
através a exogamia, termo que aliás ele cunhou junto com endogamia. Suas ideias eram similares a
Bachofen, porém foram desenvolvidas independentemente e publicadas em Primitive Marriage (1865).
Cunhou o termo e teoria do “totemismo” como meio de representação social da religiosidade e forma
primeva de religião.
Lewis Henry Morgan (1818–1881): advogado norte-americano e um dos pioneiros da pesquisa de campo,
além de enviar questionários para informantes em diversas partes do globo. Propôs uma terminologia e
técnica de estudo do parentesco, porém inferiu que a complexidade social e tecnológica acompanhava a
terminologia do parentesco. Assim, dividiu a evolução humana nos estágios de selvageria (uso de fogo,
arco e flecha, cerâmica), barbárie (domesticação dos animais, agricultura, metalurgia) e civilização
(domínio da escrita, propriedade privada).
John Wesley Powell (1834 – 1902): geólogo, explorador e etnógrafo influenciado por Morgan. Cunhou o
termo aculturação para explicar as alterações psicológicas ocorridas pelo contato entre povos indígenas e
os euroamericanos.
Friederich Engels (1820–1894): em seu A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884),
Engels baseou-se em Morgan para defender uma evolução política e econômica desde um comunismo
primitivo e matriarcal até as civilizações das sociedades de Estado.
William Graham Sumner (1840-1910): clérigo tornado em professor de política e sociologia em Yale,
propagava um darwinismo social. Para ele, conforme a sociedade evoluía, os indivíduos mais aptos
deveriam receber as benesses de suas aptidões. Cunhou vários termos como etnocentrismo, mores e
folkways.
Edward Burnett Tylor (1832–1917): filho de uma rica família mercante, sua religião quaker era
impedimento ao acesso à educação superior no Reino Unido. Viajou pelo México e Caribe e, de suas
leituras, elaborou uma teoria análoga a teoria da evolução de Darwin aplicada à cultura. Para Tylor, a
cultura evolvia-se como um organismo. A prova dessa evolução seria a existência de resquícios ou
survivals, práticas culturais passadas que continuavam a serem mantidas, embora suas funções e
significados originais já se perderam. Para Tylor, a religião primitiva seria o animismo. Foi o primeiro
professor permanente de antropologia nomeado em Oxford.
James George Frazer (1854-1941): mitólogo e estudioso das religiões, propôs a evolução de estágios do
sistemas de conhecimento: da mágica à religião, dessa à ciência. Seu livro Ramo de Ouro (1890) fez uma
comparação exaustiva de vários parâmetros em mitos. Essa obra influenciou outros antropólogos, como
Boas e Malinowski e deixou uma interessante teoria sobre mágica.
Robert Ranulph Marett (1866–1943): sucessor de Tylor em Oxford, esse classista e estudioso da religião,
criou o primeiro programa de diploma em antropologia em 1905. Propunha uma origem emocional da
religião, a qual chamou de dinamismo, pré-animismo ou animatismo.

Legado:

Definições técnicas de cultura, animismo, manna, tabu e totemismo.

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Teoria de que a cultura seria transmitida através das gerações por meio do aprendizado e não pela
genética.
Influências no pensamento marxista e no feminismo via Engels.
Material etnológico interpretado por Durkheim e Mauss dando origem à vertente funcionalista francesa
da sociologia.
Na sociologia, o evolucionismo cultural influenciou a teoria de evolucionismo social de Benjamin Kidd e
L. T. Hobhouse, mas que logo dariam espaço a outras abordagens, especialmente as teorias sociológicas
de Durkheim, Weber e da Escola de Chicago.
Freud fez interpretações subjetivas de conceitos como totem, tabu, Kultur e origem das instituições como
argumentos para validar a psicanálise.

Ressurgências: Leslie White e Julian Steward.

PRÓXIMA PARTE: DIFUSIONISMO

OUTRAS CORRENTES ANTROPOLÓGICAS

Funcionalismo e estrutural-funcionalismo
Correntes da antropologia americana do início do século XX
A estruturalismo na antropologia
A antropologia simbólica e interpretativa

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