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Robert Kurz

Os últimos combates

¿Y/¡áVOZES
EDITORA

Petrópolis
1998
Coleção Zero à Esquerda
C o o r d e n a d o r e s : P aulo E d u a r d o A ran te s e In á C a m a r g o C o sta
- D e sa fo rtu n a d o s
David Snow e Leon Anderson
- D e so r g a n iz a n d o o c o n se n so
Fernando Haddad (Org.)
- D ic c io n a rio de b o lso d o A lm a n a q u e p h ilo so p h ic o Z e r o à E sq u e rd a
Paulo Eduardo Arantes
- O s d ire ito s d o a n tiv a lo r
Francisco de Oüveira
- E m d e fe sa d o so c ialism o
Fernando Haddad
- G e o p o lític a d o c a o s
Ignacio Ramonet
- G lo b a liz a ç ã o em q u e stão
Pau! Hirst e Grahame Thompson
- A ilu são d o d ese n v o lv im e n to
Giovanni Arrigbi
- A s m e ta m o rfo se s d a q u e stã o so cial
Robert Castel
- O s m o e d e iro s fa lso s
José Luís Fiori
- P o d e r e d in h e iro : U m a e c o n o m ia p o lític a d a g lo b a liz açã o
Maria da Conceição Tavares e José Luís Fiori (orgs.)
- T erren os v u lcâ n ic o s
D olf Oehler
- O s ú ltim os co m b ate s
Robert Kurz
Conselho editorial da Coleção Zero à Esquerda:
O tília B eatriz F io ri A ran tes
R o b e rto Sch w arz
M o d e sto C a ro n e
F ern an d o H a d d a d
M a r ia E lisa C e v asc o
Ism ail X a v ie r
J o s é L u ís F iori

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

K urz, R o b e rt, 1 9 4 3 -
O s ú ltim o s c o m b ate s / R o b e r t K urz. - P etró p o lis, R J : V ozes, 1 9 9 7 .

B ib lio g rafia .
IS B N 8 5 - 3 2 6 - 1 8 9 9 - 5

1. C rise e c o n ô m ic a 2 . H istó r ia e c o n ô m ic a - S écu lo X X 3. H istó r ia social


- S écu lo X X 4 . R e laç õ e s e c o n ô m ic a s in tern ac io n ais I. T ítu lo.

9 7 -4 4 7 0 C D D - 3 3 0 .9 0 4

índices para catálogo sistemático:


1. E c o n o m ia m o d e r n a : S écu lo X X : H istó r ia 3 3 0 .9 0 4
2. S éc u lo X X : E c o n o m ia : H istó r ia 3 3 0 .9 0 4
© 1997, Roberto Kurz

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Revisão gráfica: Revitec S/C
Capa e projeto gráfico: Mariana Fix e Pedro Fiori Arantes
Supervisão gráfica: Valderes Rodrigues

ISBN 85-326-1899-5

E ste livro fo i c o m p o sto e im p re sso p e la E d ito r a V ozes L td a.


SUM ÁRIO

7 apresentação

PARTE I

15 A lntelligentsia depois da luta de classes

37 Supressão e conservação do homem branco

53 One world e nacionalism o terciário

67 Pós-Imperialismo

P A R T E II

79 O colapso da m odernização

91 A falta de autonom ia do Estado e os limites da política

P A R T E III

119 A estupidez dos vencedores

127 A realidade irreal

135 Perdedores globais

143 A síndrome do obscurantism o

151 Para além de Estado e M ercado

159 O torpor do capitalism o

167 Por que a União Européia pode se tornar uma ruína nova
em folha

175 O curto verão de um a teoria do século X X

183 O program a suicida da economia

191 A biologização do social


199 O fictício milagre japonês

207 O mito do capitalism o confuciano

215 A filosofia míope do capitalism o-cassino

223 Buracos de rato para elefantes

231 A ruína iminente de um am eaçador tigre asiático

239 A origem destrutiva do capitalism o

247 Escravos da luz sem m isericórdia

255 A derradeira enfermidade

263 Gênese do absolutism o de mercado

271 O desfecho do m asoquism o histórico

P A R T E IV

281 Uma revolta do silêncio

289 Os últimos combates

PARTE V

345 Sinal verde para o caos da crise

377 O oco do fetichismo

385 O liberal e as fadas

393 nota bibliográfica


APRESENTAÇÃO

Anselm Jappe*

O mercado absurdo dos homens


sem qualidades

O capitalismo está chegando ao fim. A prova: a queda da União


Soviética. A base desta análise: a “ obscura” crítica do “ valor” de um
tal de Karl M arx. Será que a luta de classes e a luta pela democracia
derrotarão o capitalism o? A luta de classes não foi outra coisa senão
o m otor do desenvolvimento capitalista e jamais poderá levar à sua
superação. A dem ocracia não é o antagonista do capitalism o mas
sua forma política, e am bos esgotaram seu papel histórico. A queda
dos regimes do Leste não significa o triunfo definitivo da economia
de mercado, mas um passo ulterior em direção ao ocaso da sociedade
mundial da m ercadoria.
Estas, entre outras, as teses mais ousadas de Robert Kurz e do
grupo que com ele publica na Alemanha a revista Krisis. Trata-se,
talvez, do início de uma verdadeira revolução teórica: assim, con­
frontar-se com as idéias deste grupo será muito fértil para todos
aqueles que não consideram esta sociedade a última palavra da his­
tória, e que não estão satisfeitos com uma crítica que se limita a
arrastar exaustivamente conceitos cada vez mais claramente supera­
dos. Partindo da intenção de renovar a teoria m arxista, Kurz e seus
am igos embarcaram numa verdadeira aventura da reflexão, e, neste
percurso, acabaram por abandonar muitas das veneráveis certezas
da esquerda. Entretanto, ao contrário de outras tentativas de revisão

* O escritor Anselm Jappe é autor, entre outros livros, de um estudo sobre


Guy Debord, a ser publicado proximamente nesta coleção.

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da teoria m arxista, aqui não se trata de “realism o” ou de reformismo,
mas de uma nova colocação da crítica radical.
O trabalho mais estritamente teórico é desenvolvido em conjunto
nos, até agora, vinte volum osos números da revista Krisis (anterior­
mente cham ada de Marxistische Kritik) publicados a partir de 1986.
Robert Kurz, em livros, artigos, conferências e debates apresenta a
um público mais am plo diversas análises da atual crise econômica e
política. Através dos vinte mil exemplares vendidos de O Colapso
da M odernização1 (Der Kollaps der Modernisierung), publicado em
1991 por H .M . Enzensberger, as teorias da Krisis começaram a ser
mais amplamente conhecidas na Alemanha2 (muitas vezes, os que se
m ostraram mais receptivos em relação às colocações da Krisis foram
pessoas de procedência não estritamente marxista).
O ponto de partida de suas análises são os conceitos m arxianos
de “ fetichism o” e de “ valor” enquanto descrevem a transform ação
da atividade humana concreta em algo tão abstrato e puramente
quantitativo com o o valor de troca, encarnado na m ercadoria e no
dinheiro. O “ fetichismo” não é, portanto, somente uma ilusão ou
um fenôm eno da consciência, m as uma realidade: a autonom ização
da m ercadoria que segue apenas suas próprias leis de desenvolvi­
mento. “ Por trás” da processualidade cega e auto-referencial do valor
não há nenhum sujeito que “ faz” a História. M as, diferentemente
do_ estruturalism o, a Krisis não acredita que o processo sem sujeito
seja uma lei fundamental e imutável da existência, antes o concebe
com o um estágio histórico necessário, porém transitório. ^
Em Krisis 13, Ernst Lohoff diz: “A atitude contemplativa e afir­
mativa através da qual Hegel faz se desenvolver a realidade a partir

1 Frankfurt: Eichhorn Verlag, 1991. Há uma tradução brasileira: O Colapso


da Modernização. Da Derrocada do Socialismo de Caserna à Crise da Eco­
nomia Mundial. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
2 De Kurz vale ainda destacar Honeckers Rache (A Vingança de Honecker).
1991. O Retorno de Potemkin. São Paulo: Paz e Terra, 1993, ambos sobre a
impossibilidade da reunificação alemã, e a coletânea de artigos Der Letzte
Macht das Licht aus (O Ultimo Apaga a Luz) de 1993, todos publicados pela
Edition Tiamat, Berlin. Uma série de artigos de Peter Klein sobre a Revolução
de Outubro, publicados nos números 3 e 6 da Krisis, foram coletados em
livro com o título de Die Illusion von 1917. Unkel: Ed. Horlemann, 1992.
Um volume coletivo sobre a democracia e seus extremistas de direita foi
publicado com o título de Rosemaries Babies. Unkel: Ed. Horlemann, 1993.
do conceito de Ser é totalmente alheia à descrição m arxiana (do
valor). Em M arx, o valor não pode conter a realidade mas a subordina
à sua própria forma e a destrói, destruindo, no ato, a si mesmo. A
crítica m arxiana do valor não aceita o valor como um dado de base
positivo, nem o defende, mas decifra sua existência auto-suficiente
como aparência. A realização em grande escala da m ediação da forma
m ercadoria não leva ao triunfo definitivo desta e sim coincide com
sua crise.” Em outras palavras: o “valor” já contém em sua forma
essencial (descrita no prim eiro capítulo de O Capital) uma contra­
dição insolúvel que conduz, inexoravelmente, ainda que isso leve
muito tem po, à sua crise final. Esta crise está com eçando diante de
nossos olhos.
Uma conseqüência notável do reconhecimento da lógica do valor
com o o centro de todas as crises é a crítica do sociologism o e das
ilusões a respeito do sujeito. O desenvolvimento do capitalism o, com
a dissolução de todas as qualidades que pareciam indissoluvelmente
ligadas às pessoas, tende a desvincular funções como ser operário
ou ser dirigente dos indivíduos empíricos: e a Krisis acusa de socio­
logism o a toda a esquerda que considera os sujeitos coletivos como
a burguesia e o proletariado, com seus interesses e sua avidez de
lucro como atores em um sistema de que são somente uma engre­
nagem. Em lugar de pretender desmascarar os verdadeiros interesses
que se escondem por trás dos imperativos tecnológicos ou de mer­
cado, a Krisis denuncia com o a raiz do mal a existência desses im­
perativos, observando que atualmente não há nenhuma proposta
que vá além de outra fórmula de distribuição quantitativa ou da
reivindicação de mais “ justiça” . Isso, no entanto, é completamente
inútil: pedir preços justos (por exem plo, para o Terceiro M undo) é
tão insensato quanto pedir um a pressão atmosférica justa, pois sig­
nifica dirigir-se com o se fosse a um sujeito a algo que não é um
sujeito. O verdadeiro escândalo é a transform ação de um objeto
concreto em um a unidade de trabalho abstrato e então em dinheiro.
Assim o “ adeus ao proletariado” chega a ser definitivo: como
grupo social baseado em condições idênticas de trabalho, de vida,
de cultura e de consciência, o proletariado não foi nada mais do que
o principal produto do capitalism o, se não um resíduo feudal. Com
sua luta por integrar-se plenamente à sociedade capitalista, o prole­
tariado na verdade a tem ajudado a avançar e a alcançar sua realização
plena. O movimento operário e suas ideologias não foram além do

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horizonte da sociedade do valor, tendo sido um elemento central na
transform ação dos indivíduos em meras mónadas, em partículas for­
malmente iguais e livres.
Deste ponto de vista, as supostas revoluções dos países do Leste
e do Terceiro M undo, mas também o fascismo e o nazismo, podem
ser interpretados com o processos tardios de m odernização e como
tentativas de restruturação acelerada de tais países segundo as exi­
gências im postas pela m ercadoria. A Krisis não só inclui nesse juízo
todo o m arxism o, m esm o suas correntes críticas, m as também esta­
belece uma distinção no interior da teoria do próprio M arx: o con­
ceito de luta de classes era, no fundo, uma teoria da libertação do
capitalism o de seus resíduos pré-capitalistas, ao passo que é na teoria
do valq£ e do fetichismo que M arx antecipou uma crítica que so­
mente hoje adquire plena atualidade,
j E inútil exigir mais democracia: a democracia, entendida como
I igualdade e liberdade formais, já se realizou e coincide com a socie-
! dade dos homens sem qualidades. Assim como a m ercadoria, todos
os cidadãos são m edidos pelo mesmo parâmetro: são parcelas quan­
titativas lde uma mesm a abstração. E portanto, para a m ercadoria e
conseqüentemente para a dem ocracia capitalista, é impossível que
todas as parcelas sejam iguais. A tarefa hoje não é a realização da
verdadeira dem ocracia, sempre deform ada pelo capitalism o, mas a
superação de ambos. Para a Krisis, é inútil opor os ideais da Ilustração
burguesa, com o a igualdade e a liberdade, à sua m á-realização, uma
vez que reconhece já nestes ideais uma estrutura criada pela merca-
doria: o valor é sempre a um só tempo forma de consciência, de
produção e de reprodução.
O movimento operário sempre confundiu o capitalism o com algo
que era apenas uma determinada etapa de sua evolução. As lutas de
classe eram conflitos de interesses que se desenvolviam sempre no
horizonte da sociedade da m ercadoria, sem pô-la em questão. N ão
poderia ser de outra maneira: o capitalismo estava ainda em uma
fase ascendente, e não tinha ainda desenvolvido todas as suas possi­
bilidades, que representariam um progresso efetivo se com paradas
com os estágios pré-capitalistas. Se o fordismo m arcava seu apogeu,
é com a inform atização que este desenvolvimento entra definitiva­
mente em crise, e não apenas em um aspecto particular, mas em um
aspecto central, que é a contradição insustentável entre o conteúdo
material da produção e a forma im posta pelo valor.

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Esta análise permitiu à Krisis antecipar a atual crise econômica
mundial e estar entre os prim eiros a argumentar que a reunificação
das Alemanhas só poderia conduzir a um desastre. A União Soviética,
afirm a a Krisis, estava plenamente integrada ao sistema mundial da
m ercadoria, m as não conseguiu resistir mais à concorrência do mer­
cado mundial por causa da petrificação das mesmas estruturas de
dirigism o graças às quais havia inicialmente logrado situar-se entre
os países adiantados, repetindo, em m archa forçada e sob direção
estatal, o m esmo processo de acum ulação primitiva por que os países
ocidentais haviam passado nos séculos anteriores, de forma mais
lenta e portanto mais suave. Q uando a consciência ocidental se hor­
rorizava diante do “ totalitarism o” , não via na verdade senão uma
imagem concentrada de seu próprio passado.
A queda da União Soviética não demonstra a superioridade da
econom ia de m ercado da qual ela fazia parte, mas evidencia que esta
é uma corrida cujo número restrito de participantes se reduz cons­
tantemente por causa da necessidade de um emprego cada vez maior
de tecnologias para poder produzir a um custo competitivo, e que
os excluídos acabam na miséria. A simultaneidade da crise eaonôm ica
e da ecológica, assim com o a tendência a uma mesquinha guerra civil
m undial, são conseqüências do fato de que as atuais capacidades
produtivas, as mais elevadas que já existiram, têm que passar pelo
buraco da agulha da form a abstrata do valor e da capacidade de
transformar-se em dinheiro. N enhum a estratégia que não aponte
para a abolição deste estado de coisas poderá conseguir um a mu­
dança real. A Krisis não alimenta portanto nenhuma esperança a
respeito das diversas opções políticas que estão atualmente disponí­
veis no mercado.
D a tese de que até agora toda a história tem sido, mais do que a
história da luta de classes, a história das relações fetichistas, segue-se
que até agora não foi possível a form ação de nenhum sujeito. N ão
existe nenhum pólo positivo “ em si” - o proletariado, ou o Terceiro
M undo, as mulheres, ou a vida do indivíduo - que seja suficiente
para levar a apropriar-se do mundo. N ão se pode encontrar o sujeito
no passado, mas pode ser que este nasça a partir da superação da
“segunda natureza” em que se transform ou a sociedade.
A tentativa de se ler a história com o um a “ história das relações
fetichistas” , na qual o valor sucedeu à terra, ao parentesco sangüíneo
e ao totem ismo, enquanto form as na quais se expressava a potência

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hum ana inconsciente de si m esma, desemboca na afirm ação de que
esta pré-história da humanidade está chegando ao fim. Todas essas
formas se converteram em segunda natureza, como instrumentos in­
dispensáveis ao homem, para diferenciar-se da natureza primeira. M as
hoje em dia é possível, e até necessário, proceder a uma segunda hu­
manização, desta vez consciente. Se são as relações fetichistas as que
fizeram até agora a história e que criaram, juntamente com as relações
de produção, também as formas de consciência correspondentes, então
já não é mais necessário recorrer a sofisticadas teorias da “manipulação”
para explicar como as classes dominantes conseguiram impor à maioria,
durante milênios, um sistema de exploração.

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PARTE I
A Intelligentsia depois da luta de classes1
Da desconceitualização à desacademização da teoria

A fo rm u la ç ã o de te o rias co m p rete n são e x p lica tiv a saiu de


m o d a . Q u e m o u sa em itir seja um p e n sa m e n to co n cate n a d o ,
u m a tese crítica à so c ie d a d e ou u m a r e fle x ã o q u a lq u e r a cim a
d o nível ra ste iro d a atu al d e m o cra cia de m e rc ad o , se to rn a
o b je to de su sp eita . O a p a ra to te ó rico -co n ce itu al é v isto c o m o
im p e rtin ê n cia : q u a se se p o d e ria falar n u m a d e sco n ce itu aliz a ­
ç ã o d a s ciên cias so c ia is e h um an as. O su p o sto ren ascim e n to
d o p e n sa m e n to cín ico p erten ce à fe n o m e n o lo g ia de u m a é p o c a
q u e vive o fim d a h istó ria te ó ric a até en tão vigen te. O “ gru n h ir
e p e id a r co le tiv o n o s sem in á rio s-S lo te rd ijk ” (rev ista S p ieg el)2,
p o d e ser a v a lia d o , n ão c o m o um n ov o flo re sce r d a filo so fia ,
m as an tes c o m o sin to m a de u m a ca p itu la ç ã o in co n d icio n al. E
n atu ral q u e tais te n d ê n c ia s p en etrem , a o s p o u c o s, n a p rá tic a

'Texto publicado originalmente no “Miinchner Zeitschrift für Philosophie”,


n. 22, em 1992.
Intelligenz, em alemão. Literalmente, inteligência, mas usado ao longo do
texto no sentido, também corrente na língua, de conjunto ou classe de inte­
lectuais, daí a opção pelo termo russo (N.T.).
2 N a “ Crítica da Razão Cínica”, sua obra mais conhecida, Peter Sloterdijk
sugere a retomada da “insolência” antiga, identificada com o kinismo de
Diógenes de Sinope, como antídoto contra o cinismo moderno. Segundo o
autor, o kinismo grego descobriria o “poder argumentativo da animalidade
do corpo humano e de seus gestos” e desenvolveria um materialismo sarcás­
tico e pantomímico (N.T.).

15
OS ÚLTIMOS COMBATES

acadêmica cotidiana, cujo suspirar desesperançado já poderia


quase suscitar compaixão. Com gestos de relativização, de ma­
soquista humildade, se revoga qualquer conceito, apenas pro­
nunciado. A preocupação contínua com as “ diferenças” ,
exacerbada a ponto de se converter em vício, parece dissolver
os objetos históricos e sociais, tornando-os irreconhecíveis.
Não se trata, é certo, daquela crítica do conceito ainda
levada a cabo por Adorno em sua “ Dialética Negativa”. Esta
mereceria antes o nome de crítica heróica, pois conservava
ainda a dignidade do pensamento conceituai e estava indisso-
ciavelmente ligada, por isso mesmo, a uma crítica fundamen­
tal, mesmo que desesperançada, à sociedade. Nesta medida, a
nova aconceitualidade de hoje não pode de modo algum se
reportar a Adorno, devendo, ao contrário, tratá-lo como o
mais morto dos cachorros. A bandeira adorniana, por assim
dizer, foi enrolada cedo demais e os novos filósofos da acon­
ceitualidade se limitam a hastear a bandeira branca, esperando
ser reconfortados por aquele que fora objeto da crítica. Por
conseguinte, a nova aconceitualidade não significa mais que o
desejo de rebaixar história e filosofia a objetos de uso capita­
lista.
A cada dia que passa, nos vemos mais às voltas com Yuppies
filosóficos, que parecem dar as cartas. Também nesse sentido,
decerto, a filosofia continua a ser “sua época concebida em
pensamentos” (Hegel), pois os Yuppies filosóficos correspon­
dem a seus similares sociais. O “dinheiro do espírito” se en­
contra na mesma situação que o dólar: reduzido a mera massa
de manobra na mão de especuladores, à superestrutura de cré­
dito capenga à beira do colapso. Em uma economia-cassino
global, o espírito se converte em filosofia-cassino para o uso
doméstico da máquina autonomizada do dinheiro. Não é ca­
sual que também o face-lifting “ ético” da economia de mer­
cado receba o nome de “filosofia”, a exemplo da cosmética de
Jil Sander, ou de quando se põe à venda uma nova concepção
administrativa ou o perfil de uma corporação. Não deixa de
ser irônico que justamente desse modo venha abaixo o velho
muro que separava filosofia e “vida”, espírito e sociedade: reve­

16
A INTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

la-se aqui o impulso universal, essencial ao capitalismo, de


vender tudo que seja vendável.
Contudo, os yuppies do espírito dizem mais do que ima­
ginam - ou afinal querem dizer - sobre o atual quadro da
realidade social. Quando, por exemplo, Odo Marquardt3 re­
comenda, de modo sedutor, sua mercadoria filosófica a admi­
nistradores e à classe política como “instância compensatória
incompetente”4, sob a indicação expressa de que também ele
tem uma família para alimentar, isto beira já uma semi-invo-
luntária crítica social. E se o filósofo da moda, Gerd Gerken0,
vem a público com o lema: “ para ser bem sucedido deve-se
acreditar em algo, não importa em que”, essa declaração po­
deria ser sentida como uma bofetada sonora, ainda que não
planejada, na cara da completa falta de conteúdo e arbitrarie­
dade, que nem mesmo um Adorno teria podido desferir me­
lhor. Assim, talvez valha a pena constatar que, a partir da
maneira involuntariamente irônica com que se faz coincidir
filosofia e “vida”, poderia ser operada, às costas de seus pro­
tagonistas, a transição para uma nova distância irônica, tanto
frente à filosofia quanto frente à “vida” capitalista.
Todavia, para tanto seriam necessários novos conceitos ou,
ao menos, um modo novo de abordar os velhos. Em suma,
seria preciso uma nova teoria que reagisse às mudanças sociais
e formulasse uma crítica da sociedade correlata ao novo ter­
reno histórico. Ainda muito pouco foi feito nesse sentido. A
suposta derrota da velha crítica e a nova aconceitualidade de­
vem ser enfrentadas de uma vez por todas, em seus múltiplos
aspectos. Na imprensa em geral, a exemplo do que domina há
muito o mundo intelectual anglo-americano, o debate teórico

? Odo Marquardt leciona filosofia na Universidade de Giessen (RFA). Dentre


suas principais publicações se encontram: “Abschied vom Prinzipiellen” e
“Apologie des Zufälligen” (N. T.).
4 Inkompetenzkompensationskompetenz, em alemão. Literalmente: compe­
tência de compensação incompetente (N. T).
1 Gerd Gerken é um dos teóricos do que Kurz denomina “ filosofia adminis­
trativa’^ new-managemeitt. (Cf. “A filosofia míope do capitalismo cassino",
nesse volume) (N. T).

17
OS ÚLTIMOS COMBATES

a p r o fu n d a d o ced eu lu g ar a u m a e sp écie d e g ra d a d a de litera­


tu ra e sp e cia liz ad a ; n ão m ais q u e u m a m assa in fo rm e reu n id a
so b a c a te g o ria de “ n ã o -fic ç ã o ” , co m p a rá v e l à d iv isão de o u tro
u n iv e rso de m e rc ad o ria s en tre fo o d e n o-foo d .
O jo rn a lism o p o lític o -so c io ló g ic o p arece d e cair a o m esm o
p a sso q u e o e co n ô m ico : vê-se, em vez de crítica, au to -a ju d a
c a p ita lista ; em vez de e c o n o m ia p o lítica , “ gu ia fin a n c e iro ” .
N o m elh o r d o s ca so s, e n tra em ce n a em lu g ar de u m a re fle x ão
a ce rc a d a to ta lid a d e so cial (id e n tifica d a a g o r a de m an eira tão
fa lsa q u a n to d e se n fre a d a c o m o “ to ta lita rism o ” ), o recitar m o ­
n ó to n o de u m ú n ico e se q u io so p e n sa m e n to : seja ele “ d iscri­
m in a çã o e c o n ô m ic a d a s m u lh e re s” (R en ate Sch u bert) o u “ o
E sta d o tu te la r ” (R o lf Sch u b e rt). A este tip o de a v a liaç ão u n i­
d im e n sio n al se lim ita, em la rg a m ed id a, u m a crítica a c a b ru ­
n h ad a, q u e o b e d ece a o s n o v o s im p e rativ o s d o p en sam e n to
iso la d o e d a im ed iatez d o factível
E claro q u e tam b é m e x istia n o s a n o s 6 0 e 7 0 e ssa espécie
e sfo r ç a d a de lite ratu ra d a b a n a lid a d e ; to d a v ia , se an tes ela n ão
p a ssa v a d e a c o m p a n h a m e n to m u sical, h oje ela d á o to m . E sses
flo re sce n te s e m al-a c a b a d o s c o m p o sto s sen sac io n a lista s alca n ­
çaram seu a p o g eu co m aqu eles p ro d u to s kitscbs que, em parti­
cular desde G orbachev, aco m p an h am a d e rro cad a d o socialism o
de E sta d o co m o ch arm e so m b rio d o “ E u e stav a lá ” , o u “A g o ra
q u e m fa la so u e u ” , até o m ais lastim ável d o s triu n fo s: “ T am bém
fui u m a v ítim a d a S ta si” 6. P orém , talvez se d ev a esten d er o
m an to d a in d u lg ên cia so b re esse tip o de jo rn a lism o ; talvez ele
e sp elh e a p e n a s u m a carên c ia, u m a d e sa m p a ra d a in capacidade
de assim ilar criticam ente o s acon tecim en tos h istó rico s. M e sm o
p o rq u e ele se to rn a rá , em b rev e, m o n ó to n o .
F alta sim p lesm en te à im p re n sa , em se n tid o a m p lo , o re­
fo r ç o te ó ric o d a q u e la s e sfe ra s de lo g ística in telectu al q u e se
até o m o m e n to p a reciam co m p e te n te s p a ra ta n to , a g o r a só
têm p ro d u z id o ru m in a d o re s a c a n h a d o s e p a v õ e s d a ven alida-

6 Stasi ou Ministerium für Staatssicherheit era a polícia política da República


Democrática Alemã (N. T.).

18
A INTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

de. O ra , u m a vez q u e o “ tra b alh o d o c o n c e ito ” fo i e m p u rrad o


p a ra a esfe ra n eg ativ a e q u e n ão é m ais p o ssív e l resistir à p re ssão
d a su p o sta “ so c ie d a d e m u n d ial p ó s-h istó rica e sem alte rn a tiv a ”
(L u tz N ie th a m m e r) d o d in h eiro to tal, o jo rn alism o se to rn a
c a d a vez m ais a ca n h a d o . A m áq u in a de c o n ceito s d o p e n sa ­
m en to o cid en tal p e rd e u su a fo rç a m aterial e p arece se d e sp e ­
d a ç a r an tes d o su cate am e n to . A crítica se in verte em crítica da
crítica. N ã o é só a p artir d e S lo te rd ijk q u e p o d e m ser escritas
8 0 0 p á g in as d e “ te o ria co m T m a iú sc u lo ” ju stam en te p a ra se
c o n tra p o r à “ T e o ria ” . E ssa s te o rias-a n tite ó rica s p arece m a p e ­
n as re to m a r e d a r co n tin u id a d e ao tra ç o afirm a tiv o d o estru-
tu ra lism o e d a te o ria sistêm ica. N ã o ob stan te isso , elas talvez
sin alizem , assim c o m o o su rfism o u n iversal d o s filó so fo s em
v o g a e o s ca m p e õ e s d a ética, u m a tra n sfo rm a ç ã o so cial não
a m a d u re c id a . M a s, em q u e d ire ção ?
O m u n d o cien tífico n ão p arece m ais ser c a p a z de re co b rar
a fo r ç a n ecessária p a r a o fere ce r u m a r e sp o sta a tal situ aç ão .
Se a v id a a ca d ê m ic a a in d a n ão se en rijeceu de to d o n u m a “ c a l­
c á ria p a isag e m c u ltu ra l” (E n zen sb erg er), m u ito an tes d a e x ­
tin çã o d o m o v im en to d e 68 ela já h av ia e sc a m o te a d o em face
d o d ilem a te ó ric o o im p u lso de p e sq u isa p ro p ria m e n te a c a d ê ­
m ico . A lite ratu ra sen sac io n a lista na im p re n sa c o rre sp o n d e à
re tira d a a c a d ê m ic a em d ire çã o à a rq u e o lo g ia h istórico-cu ltu -
ral. Se o e m p re en d im e n to , a lg o in g ên u o d a “ o ral h isto ry ” ,
serv iu co m fre q ü ên c ia p a ra a assistê n cia de id o so s e p a ra fo r ­
m ar u m a c o le ç ã o de o b je to s d e d e v o ç ão d o s m o v im en to s ope-
\ rá rio e so cialista , o a m p lia d o b o o m d e h istó ria cu ltu ral p a ssa
em rev ista o s b o lso s d e c o le te e as latrin as d a h istória.
N a F ran ça, em p articu lar, esses e sfo rç o s p ro d u z ira m re­
su lta d o s n otáv eis. S eja n a “ H istó r ia d a In fân cia ” ou n a “ H is­
tó r ia d a M o r te ” , de P h ilip p e A riès, n o s tra b alh o s so b re a Id ad e
M é d ia , de Ja c q u e s Le G o ff o u G e o rg e s D u b y ; seja n a “ H istó ria
d a V id a P riv ad a” , e d ita d a em co n ju n to p e lo s d o is ú ltim o s, ou
n a g ran d e trilo g ia h istó rico -so cia l so b re “A s o rig e n s d a e c o n o ­
m ia de m e r c a d o ” , d e F ern an d B ra u d e l: em to d a s se reun iu
u m a q u a n tid a d e m o n u m e n tal de in fo rm a ç õ e s, fo rm a n d o um
co n ju n to de sig n ific ad o h istó rico in d u b itável. T o d av ia, essas

19
OS ÚLTIMOS COMBATES

obras carecem de uma síntese desse material na perspectiva de


urna historia crítica da socialização ocidental; lhes falta a visão
de conjunto capaz de viabilizar uma avaliação histórica reno­
vada e orientar urna nova pauta de questões. Em suma, falta-
lhes o horizonte teórico de urna crítica radical da sociedade,
que permita ordenar os resultados da pesquisa histórico-cul-
tural. Pode soar um pouco descarado e arrogante, mas desse
ponto de vista Foucault também não pode ser considerado
sempre e sob todos os aspectos um teórico em sentido rigoroso.
Suas “arqueologías” da sexualidade, das instituições e do saber,
são também louváveis sobretudo pelo trabalho de garimpagem
material, ao passo que a reflexão teórica, propriamente dita,
ao fim das contas, deságua em perplexidade._A calmaria teórica
se tornou um problema central, a desmoralização do pensa­
mento ameaça ascender à paralisia.
Se a teoria, sobretudo a de cunho acadêmico, só ousa in­
gressar na esfera pública na ponta dos pés, ela talvez deva essa
situação lamentável à morte do marxismo. Pelo visto, o mar­
xismo foi de tal modo determinante para a formulação teórica
do século X X , que esta parece deixar de existir junto com ele.
Se no marxismo a herança da filosofia parecia ter sido supri­
mida7, fazendo com que toda formulação conceituai posterior
passasse a se definir frente a este, seja por afinidade ou rechaço,
com o declínio dos conceitos marxistas, decai a conceituali-
dade da teoria enquanto tal. Hoje, essa instância referencial,
positiva ou negativa, parece desvanecer sem deixar rastro.
Obviamente, estamos falando de gatos escaldados. O mo­
vimento mundial de 1968 havia conduzido o já senil marxismo

7 Aufgehoben, em alemão. Na linguagem corrente, o verbo aufheben com­


preende sentidos diversos e contraditórios: suprimir, conservar, suspender,
guardar, revogar, entre outros. N a tradição filosófica, os termos Aufheben
e Aufhebung remetem ao “trabalho do negativo” da dialética hegeliana, capaz
de unificar o duplo sentido dos termos. Ao longo do texto, o emprego sig­
nificativo dessa terminologia faz clara referência a essa filiação e a tradução
por “suprimir” ou “ supressão”, acompanhada por vezes pelo termo alemão,
visa apenas ressaltar o momento negativo desse processo, apontado, ade­
mais, pelo próprio autor (N. T.).

20
A INTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

operário a uma prosperidade tão ilusória que, durante algum


tempo, mesmo o último dos oportunistas da sociologia se via
obrigado, ao menos, a escrever sua tese de doutorado sobre a
história social das guerras camponesas ou sobre as lutas de
classe do século XIV na Valaquia8. N o entanto, paralelamente
a esse despertar tardio e fantasmagórico, se preparava o en­
terro definitivo do corpo teórico marxista, já estripado e em­
balsamado à moda estruturalista (Althusser) e teórico-sistêmica.
Hoje, depois do desmoronamento catastrófico da ordem social
erigida em seu nome, não se ergue para este sequer um mau­
soléu. Já no outono de 1989, o semanário alemão Wirtschafts-
woche podia apresentar a quase totalidade dos marxistas
renomados da vida acadêmica alemã como delinqüentes arre­
pendidos que deveriam balbuciar solenemente sua retratação.
Na França, a enfática transição para a democracia entusiástica
do Ocidente já havia sido concluída anteriormente e, em meio
ao desert storrn, finalmente ocorreu, aos berros, a reunificação
do núcleo duro de 68, que se apresentava agora como círculo
ilustre de filósofos pró-bomba atômica em traje de guerra.
Mas talvez o judeu-alemão Karl Marx, acostumado a tais
atribulações, tenha sido levado à cova dessa vez com mais
precipitação que nunca. N o enterro apressado da teoria mar-
xiana, os pensadores da cautela, talvez já algo débeis com tanto
“diferenciar”, não fizeram qualquer tentativa de diferencia­
ção. N o entanto, assim como toda teoria dotada de força his­
tórica, também a teoria de Marx não se esgota na versão
vinculada a uma única época; ela tampouco é aquela totalidade
fechada, imaginada tanto pelos garimpeiros da citação quanto
pelos coveiros apressados. Com o fim de uma época, selado

8 Walachei, em alemão, região hoje situada entre a Romênia e a Bulgária,


delimitada pelos Alpes da Transilvânia e pelo rio Danúbio. N a linguagem
corrente, entretanto, a expressão in die Walachei indica um lugar muito dis­
tante em relação ao ponto de onde se fala. Outra possibilidade de tradução,
mais próxima do português, seria assim “luta de classes do século XIV na
Conchinchina” (N. T.).

21
OS ÚLTIMOS COMBATES

com a derrocada do socialismo de Estado, se extinguiu apenas


o momento da teoria que se encontrava ligado a este período,
o que não significa de modo algum que a mesma tenha se
esgotado ou exaurido.
Tampouco se tratava simplesmente de uma derrota. Um
pensamento historicamente refletido, que não se banaliza as­
sociando os predicados “certo” ou “errado”, “bom” ou “ruim”
aos grandes movimentos sociais e formações político-econô­
micas, se aproximará mais do problema perguntando que ta­
refa foi concluída, do ponto de vista do desenvolvimento
histórico, com essa ruptura de época. Só um questionamento
desse tipo pode nos dar uma idéia do que está por vir e merece
ser posto em pauta. O conceito-chave para uma tal compreen­
são poderia ser o que, sob nome de “modernização”, possui
já há um bom tempo uma existência ambígua na teoria. Esse
termo mereceu quase sempre um olhar enviesado dos marxis­
tas; já que parecia encobrir o “conteúdo de classe” de toda
interrogação teórica. O real divisor de águas deveria estar si­
tuado entre o capitalismo burguês e o socialismo operário;
enquanto “modernidade” e “modernização” eram conceitos
que pareciam querer anular de modo meramente conciliatório
essa “verdadeira ruptura de classes” .
Se vê, contudo, um quadro inteiramente distinto se virar­
mos de ponta-cabeça essa argumentação em vista da efetiva
ruptura de época, que hoje contradiz de modo patente qual­
quer concepção do marxismo vulgar. Nesse caso, a “moder­
nidade” e a “ modernização” não seriam mais vistas como
conceitos de uma aguada ideologia (pequeno-)burguesa, mas
antes como o invólucro burguês real, no interior do qual se
desenrolavam as “lutas de classe” . Ademais, o caráter burguês
seria o caráter da época mesma, incluindo os supostos antípo­
das do Capital. Ou, dito de outro modo: o Capital mesmo
seria idêntico à modernidade e a seu processo de formação,
enquanto forma social comum das facções em conflito.
Nessa medida, não seria possível classificar como “anticapi-
talista”, senão condicionalmente, nem o socialismo de Estado do
Leste, nem o movimento operário ocidental, nem tampouco o

22
r- - — Y ' ----- ---------- M" “ W H /»'M.UiOl

A I N T E L L I G E N T S I A D E P O IS D A L U T A D E C L A S S E S

a oc*m\t><y \ /

; movimento anticolonialista de libertação nacional nos países


í do Hemisfério Sul, incluindo aí suas correntes mais radicais.
Ou melhor, seu anticapitalismo não se referia ainda à autêntica
forma de b a se io capital mesmo, mas apenas a um capitalismo
empírico dado; àquilo que fora tomado como o capitalismo
em pessoa, mas que, efetivamente, não passava de um estágio
ainda incompleto do desenvolvimento da modernidade bur­
guesa. Assim, o marxismo desta época não poderia ser mais
que um marxismo da modernização, imanentemente burguês,
parte, ele mesmo, da história de implementação do capital. E
esse momento modernizador, limitado ao invólucro burguês
formal, se encontra igualmente a cada passo da própria teoria
marxiana.
Tudo que aparece em Marx como a incondicionalidade do
“ponto de vista operário” e da “luta de classes”, o que é dito
sobre a “mais-valia não paga” e a “exploração”, é ainda teoria
capitalista do desenvolvimento e reflete que o capital ainda
não encontrou sua via própria de reprodução. Trata-se, neste
sentido, de uma teoria - e assim também ela foi lida - que
aponta essencialmente para dois problemas imanentes ao ca­
pitalismo: em primeiro lugar, para a crítica dos momentos
patriarcais, corporativos, nas relações sociais estabelecidas
pelo capital, ou seja, para a transformação dos trabalhadores
assalariados em sujeitos burgueses em sua acepção plena - sob
o ponto de vista monetário, jurídico e estatal; e em segundo,
para o conflito distributivo na forma monetária, no qual o
caráter relativo do “valor da mercadoria força de trabalho” (o
momento histórico -“moral”, como diz M arx por vezes) é ex­
plorado no sentido de uma normalidade capitalista, de um
“ bem-estar no capitalismo”, seja através de acordos coletivos
ou por meio de políticas distributivas estatais.
Hoje esse marxismo imanente à modernização se tornou,
de fato, inteiramente obsoleto, não por estar “ errado”, mas
porque sua tarefa foi concluída. Nos países do Leste e do Sul,
o processo de modernização tardia atingiu sua barreira abso­
luta; o ciclo de implementação das relações capitalistas se fe­
chou quando estas foram totalizadas na forma de uma relação

23
OS ÚLTIMOS COMBATES

imediatamente mundial, o One World produtor de mercado­


rias. Os trabalhadores assalariados se converteram em sujeitos
monetários e jurídicos na plena acepção burguesa, sendo im­
possível maior “liberdade” e “igualdade”, pois, de qualquer
modo, o jogo distributivo estatal alcançou seu limite absoluto.
Com isso, chega ao fim a luta de classes, que não era senão o
processo de implementação do Capital, que em sua lógica for­
mal pura e abstrata se contrapõe aos capitalistas, histórica e
empiricamente limitados.
* Os diversos coveiros de M arx e os novos amigos da de­
mocracia e do mundo de mercadorias ocidental tiram daí a
conclusão apressada de que a crítica da sociedade foi rifada,
ao menos em sua variante radical, e que de agora em diante
e por toda a eternidade aquela “sociedade mundial sem al­
ternativa” do capital ditará as regras para tudo o que for
feito e pensado. Nada mais distante da verdade. Pois só agora
pode entrar na cena histórica aquele “ outro” M arx, que
estava oculto, aquele M arx “ obscuro” e “esotérico”, com o
qual, não por acaso, o movimento operário em peso nunca
soube o que fazer. A tentativa marxiana de transcender o
capital por meio de uma mera absolutização da “classe ope­
rária” (“ Ditadura do Proletariado” ) foi sempre uma cons­
trução enviesada, pois assim se intentava alçar em totalidade
o que era um momento particular, imanente ao próprio ca­
pital. Essa pseudotranscendência ainda deve ser imputada
inteiramente à teoria marxiana enquanto mera teoria da
modernização, que, partindo de uma falsa imediatez socio-
logista, enfoca as classes e relações sociais sem que apareça
no campo visual a forma social comum às mesmas. Essa
forma, no entanto, é o Capital. E a forma-valor ou forma-
mercadoria enquanto tal que, diferentemente de sua exis­
tência em brionária como forma restrita a alguns nichos
sociais nas sociedades pré-modernas, se desenvolveu no Ca­
pital a ponto de se converter em forma total de reprodução
social.
Com sua crítica, o marxismo da modernização ou o mar­
xismo operário nunca visara essa forma mesma, que concebia

24
A INTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

d
sobretudo como fundamento ontológico insuperável9 da so-
cialidade em geral. Para este, o problema não era o “valor”,
isto é, a forma social das mercadorias, mas simplesmente a
“mais valia” imposta de fora para dentro. Em Marx mesmo,
ao contrário, o plano imanente da teoria é possibilitado justa­
mente pela crítica radical do valor enquanto valor. O conceito
de fetichismo é a categoria central dessa crítica, ascendendo
do fetiche da mercadoria aos fetiches do dinheiro, do capital,
do salário, do direito e do Estado. No fundo, todas as catego­
rias sociais da modernidade são aqui submetidas à crítica ra­
dical, ao passo que a ideologia burguesa, inclusive o marxismo,
sempre se limitou a postular seu lado positivo. Vemos, por­
tanto, em Marx, duas linhas argumentativas entrelaçadas, mas
incompatíveis entre si. Hoje, porém, esse nó górdio deve ser
desfeito, não importa se à maneira clássica ou se por meio de
um lento desatar. O Marx dos operários e da luta de classes
cai em desgraça, mas o crítico radical do fetichismo e da for-
ma-valor continua de pé e só agora passa a ser efetivo.
E preciso sair às apalpadelas do labirinto da modernidade,
guiando-nos com o tênue fio de Ariadne da radical crítica mar-
j xiana da mercadoria e do dinheiro, ainda forçosamente abs­
trata e incompleta. O conceito marxiano do fetichismo, liberto
do antigo fardo do marxismo do movimento operário, poderia
ser ampliado —ou dar-se a conhecer —através da crítica do
fetiche mesmo do trabalho. O problema não é mais a “explo­
ração” na forma-valor, mas antes o trabalho abstrato mesmo,
isto é, a utilização abstrata, empresarial, do ser humano e da
natureza. O “trabalho” perdeu sua dignidade; enquanto tera­
pia ocupacional, moderna construção de pirâmides, fetichis­
mo do posto de trabalho e produção destrutiva, é só arti­
ficialmente e com custos operacionais cada vez mais ruinosos
que ele mantém em funcionamento o sistema capitalista glo­
balizado.

9 Unaufhebbar, em alemão (vide nota 7), que não pode ser suprimido ou
ultrapassado (N. T.).

25
OS ÚLTIMOS COMBATES

Obviamente, essa proposta teórica não agrada nem um


pouco aos teóricos ainda predominantes. Ela é recebida, ao
contrário, como urna proposta indecente, como uma espécie
de grosseria ou enormidade. Não pode reagir de outro modo
uma consciência cuja imaginação teórica se esgota no empreen­
dimento arriscado de continuar eternamente modernizando a
modernidade, observando-a sempre como um “projeto incon­
cluso” (Habermas). Por essa razão, toda crítica à modernidade
é acusada de pertencer ao velho repertorio de reações reacio­
nárias choramingas, que desejam apenas voltar à pré-moder-
n id a d e : p a ssa r da so c ia liz a ç ã o à “ c o m u n id a d e ” , da
forma-mercadoria à economia natural de subsistência, do di­
reito ao despotismo, do mercado mundial ao vilarejo. Mas não
se trata de acertar contas com a modernidade retrocedendo,
mas sim avançando. O dinheiro total produziu o One World,
e quanto a isso não é possível qualquer volta atrás: este, no
entanto, era apenas a muleta da humanidade, que agora deve
ser eliminada. É preciso libertar este mundo unificado de sua
conformação mercantil, resguardando seu nível civilizatório,
sua força produtiva e seus conhecimentos. Essa tarefa históri­
ca, que o marxismo operário havia deixado de lado e protelado
para um futuro supostamente longínquo, está agora na ordem
do dia.
Com a “vitória”, o Ocidente encontra também seu próprio
fim. Ele precisa suprimir e ultrapassar a si mesmo10. A supres­
são (Aufhebung), no caso, não significa apenas o termo final
de um processo. Ela pressupõe uma ruptura histórica decisiva
(e decidida), a qual os teóricos da civilidade, da democratiza­
ção e da modernização queriam inutilmente se furtar. Apesar
de se ocuparem continuamente com o enterro de Marx, eles
próprios não passam de formas residuais e degradadas do mar­
xismo da modernização, que não deixaram para trás, como
imaginam, mas antes diluíram até que se convertesse em algo
inteiramente inofensivo e desprovido de objeto. Eles não são

10 Er muß sich selbst aufheben, em alemão (N. T.).

26
* v*vi

AINTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

os precursores de uma teoria nova, mas os escombros teóricos


de um processo histórico já concluído. Isso pode ser compro-
vado, na prática, pelo fato deles terem perdido por completo
a imaginação enquanto críticos da sociedade.
Não é de modo algum casual que o conceito teórico (e,
aliás, também a chamada “política”) tenha perdido sua digni­
dade juntamente com o “trabalho” . Tampouco foi obra do
acaso que a crítica marxiana do valor e do fetichismo tenha
sido de longe mais menosprezada que os “caprichos filosófi­
cos” de Marx. Com efeito, levando a sério a crítica do feti­
chismo, dispomos não somente da forma social real, mas ainda
do instrumentário ideal da modernidade. D valor não é nenhuma ,
“coisa econômica” crua, mas ao contrário, a forma social total,
ou_seja, a forma-sujeito e forma de pensamento. Mesmo que '
se empregue continuamente o prefixo “ pós” nos discursos so­
bre a pós-modernidade, seja para falar em pós-fordismo, em
pós-industrialismo, ou termos afins, inconscientemente ainda
se pensa nos moldes da forma-mercadoria.
Contudo, se a modernidade, em essência, é justamente a
totalização da forma-mercadoria, não poderá haver nem um
“pós-industrialismo” mercantil, nem tampouco um pensa­
mento mercantil da pós-modernidade. Seria necessário reto­
mar e levar à frente criticamente o pensamento iniciado por
Sohn-Rcthcl sobre o nexo entre “forma-mercadoria e forma
de pensamento”, a fim de desvendar a conformação mercantil
de todo debate ocidental em torno da teoria do conhecimento.
Esse programa poderia conduzir a uma nova forma de des­
mascarar Kant e decifrar conceitualmente, enquanto consti­
tuição fetichista, a cisão tanto na teoria do conhecimento
quanto na ética, com o que, aliás, se atingiria sensivelmente a
discussão ética atual.
A crítica radical do valor, enquanto crítica da sociedade,
restabelece a identidade, no pensamento, entre forma de exis­
tência e forma de pensamento; a crítica das modernas dicoto­
mias ocidentais, tanto entre indivíduo e sociedade, quanto
entre economia e política, precede a superação prática das
mesmas. Com isso, abre-se não apenas a possibilidade de uma

27
OS ÚLTIMOS COMBATES

re-historicização das formas de relacionamento e “legalidades”


sociais, antropologizadas e ontologizadas pelo estruturalismo
e pela teoria sistêmica, mas também uma via de acesso mais
fácil e eficaz a todas as problemáticas contemporâneas.
Isso pode ser visto de maneira exemplar e central na rela­
ção entre os sexos, tema que, não por acaso, esmoreceu len­
tamente sob a égide do movimento operário e da moder­
nização. É só no âmbito de uma crítica do valor, enquanto
definição basilar da forma social, que a atribuição de papéis
sexuais pode aparecer na consciência teórica. A relação oci­
dental entre os sexos é definida pela forma-valor, ou seja, o
valor é constituído sexualmente. Uma sociedade fetichista de
produção de trabalho abstrato pressupõe a “cisão de um con­
texto de vida feminino” (Roswitha Scholz), ou seja, a separação
daqueles momentos sensíveis, não passíveis de monetarização,
e, com isso, a constituição de papéis sexuais específicos, social
e historicamente. O homem se converte em representante do
trabalho abstrato, a mulher em “ente natural domesticado”,
no qual se descarrega tudo que não possa ser reduzido à abs­
tração do valor.
Também desse modo se estabelece a relação especificamen­
te burguesa entre esfera pública e privada, que atinge na mo­
dernidade seu ponto culminante. A atividade da mulher no
interior de um espaço privado (sexualidade, família), não atre­
lada à forma-valor, é o pressuposto estrutural e histórico do
sistema produtor de mercadorias e antecede todas as relações,
forjadas pela abstração viril, entre a esfera privada (dinheiro)
e a esfera pública (Estado). Quando a totalização da forma-
valor corrói esse seu fundamento próprio, convertendo a mu­
lher, tendencialmente, em sujeito monetário e estatal, não
apenas se torna possível reivindicar a “igualdade” no último
terreno que ainda restava, mas vai pelos ares toda a relação
entre esfera pública e privada que correspondia à forma-mer-
cadoria. No âmbito de uma mera “crítica da mais-valia”, o
problema nem mesmo aparece; no entanto, na medida em que
o valor, enquanto relação social, esbarra em seu limite, a re­

28
A INTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

lação entre os sexos se torna um foco de crise e remete à crise


do valor enquanto valor.
Com a chave da crítica radical do valor se poderia descer­
rar, igualmente, o atual debate em torno de uma orientação
pragmática (“realistas” 11), do fim da utopia e do fim da histó­
ria. Os realistas, práticos e teóricos, os espíritos de mudança,
democratas da temperança, artistas da negociação e críticos-
abstêmios foram apressados nas conclusões. Talvez a história,
de fato, tenha chegado ao fim, mas o que até agora levava este
nome era apenas a história ocidental do valor ou do sistema
produtor de mercadorias. A partir da Antigüidade Ocidental,
passando pelo cristianismo e pelo Renascimento, foi posto em
marcha um processo, cujo espaço de tempo efetivo perfaz exa­
tos 200 anos: de 1789 a 1989. Tudo o mais é um “ainda-não”
história. Para o Marx esotérico, porém, esse período corres­
ponde justamente à. pré-história do gênero humano, incluindo
aí a fase do capital (enquanto, poderíamos complementar, for­
ma derradeira e mais elevada do primitivismo fetichista). Tam­
bém o “fim da história” não remete a outra coisa senão à crise
e ao fim do valor; se quisermos, ao fim do próprio Ocidente.
As coisas não são melhores quando se trata do fim da uto­
pia, anunciado aos quatro ventos. Também a utopia é uma
criação tipicamente ocidental, um produto da relação de valor
e das cisões por este engendradas. Assim como o potencial
dessensibilizador da abstração mercantil real criou “a mulher”
como ser compensatório, a “utopia” foi forjada como acom­
panhamento musical fixo que devia soar mais estridente a cada
novo passo histórico da abstração real de valor. O caráter in­
suportável da contradição, quando essa se manifesta na forma
social da alienação inerente à forma-valor, produz, ao divinizar
essa contradição mesma, o desejo de uma ausência total de
contradição. Talvez seja esse o elemento nuclear não apenas
do pensamento utópico, mas da razão burguesa em geral.

1 Realos, em alemão. Termo cunhado para designar os políticos do Partido


Verde alemão que pregam a necessidade de medidas de realismo-político
(real-politische Massnahmen) para efetivação das mudanças sociais (N. T.).

29
OS ÚLTIMOS COMBATES

Por certo, o dogmatismo da utopia pode ser reencontrado


no pensamento marxiano, enquanto estrutura dogmática, mas
isso ocorre apenas na medida em que este se mantém imerso
na forma-valor, ou seja, quando se trata do pensamento for­
mulado pelo teórico burguês da modernização e, portanto, do
movimento operário. Nesse caso, nos referimos ao dogmatis­
mo essencial do pensamento moderno iluminista, o dogmatis­
mo objetivo da razão burguesa enquanto tal. Por uma ironia
do destino, os novos antiutopistas e coveiros da teoria mar-
xiana, que acusam Marx de utopista, e a utopia de visão esca-
tológica da historia, falam agora, eles mesmos, do “fim da
historia” como suposta eternização da normalidade capitalista.
Ora, essa concepção mesma é uma espécie de escatologia para
boi dormir, cuja realização em ámbito mundial na sociedade
pode, porém, causar pesadelos.
É o pensamento iluminista burgués que precisa fazer coin­
cidir o fim da historia com o seu próprio. Essa estrutura dog­
mática tende a desaguar numa “visão de mundo” 12 homicida,
quando é expressamente vedada a possibilidade de se pensar
nesses termos, como ocorre não apenas nas teorias pragmáticas
burguesas, mas igualmente nos marxismos críticos ocidentais,
ainda cativos da modernidade e do iluminismo. A teoria crítica
também via a razão ainda como uma entidade fora da história,
e simultaneamente télos da mesma. O pragmatismo burguês
opera, da mesma forma, com um conceito de razão que não
pode mais ser inferido. Não é à toa que ambas as correntes se
encontrem hoje na filosofia “ realista” 10, no sentido mais amplo
do termo, na forma de uma propaganda homicida, pró-capi-
talista e pró-ocidental, da sociedade mundial do capital.
A pretensa orientação pragmática escamoteia sua própria
forma social. Um verdadeiro pragmatismo não seria mais capaz
de moldar o mundo sensível, os recursos sociais e potenciali­
dade científicas, segundo um princípio racional único, dog­

12 Weltanschauung, em alemão (N. T.).


13 “Realo”- Philosophie, em alemão (N. T.).

30
A INTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

mático e abstrato. O verdadeiro pragmatismo significaria, por­


tanto, uma revolução contra o valor e seu sistema de ordena­
ções. Todo pensamento submetido à forma-mercadoria, ao
contrário, não passa de “visão de mundo”, em virtude da lente
deformadora da abstração-valor. Os pseudopragmáticos bur­
gueses obedecem, na verdade, ao dogmatismo real do dinheiro
e sua autovalorização fetichista. Na prática social, esse prag­
matismo se converte forçosamente em ditadura de estado de
sítio, em declaração de guerra contra todos aqueles que não
conseguem mais viver dignamente sob o jugo da forma-mer­
cadoria totalizada.
De fato, há algo de terrivelmente consolador no fato do
One World, talhado pela forma-valor obrigar os a-críticos teó­
ricos profissionais do Ocidente a dizer realmente o que pensam
na forma de teorias homicidas da democracia liberal, com seus
déficits ecológicos e sociais. Pois a econornia de mercado e a
democracia ocidental, enquanto formas de superfície ou for­
mas fenoménicas do fetichismo moderno, simplesmente já não
são capazes de integrar a imensa maioria da humanidade. O
fim do socialismo de Estado, que não foi senão uma ditadura
da modernização entre muitas, traz consigo, de modo evidente
e com primitiva violência, não uma revitalização da democra­
cia ocidental - como haviam esperado os teóricos da civilidade
- mas, pelo contrário, a irrupção galopante da barbárie. O
Manetecel14 iugoslavo serve como profecia de nosso próprio
futuro.
Obviamente, este diagnóstico sobre a situação da socieda­
de e da teoria nos leva a perguntar quais seriam as possibili­
dades de domínio e mudança da mesma. A práxis social deve
passar por uma tomada de consciência teórica. Decerto, com
a crise e a crítica do sistema produtor de mercadorias, também
se altera a posição da própria teoria. Enquanto crítica radical

14 Menetekel, expressão de origem hebraica tirada do livro bíblico de Daniel


(5,25-28) que profetiza a dissolução do reino de Baltasar e sua divisão entre
os medos e os persas. Em alemão, a expressão passou a significar “sinal de
advertência” , “ ameaça de perigo” ou “destino fatídico” (N. T.).

31
OS ÚLTIMOS COMBATES

do valor, ela não pode mais obedecer ao real dogmatismo do


dinheiro e tampouco carregar consigo um conceito de razão
abstrato, dogmático e externo. A teoria capaz de conceber a
si mesma não é mais o comitê central do espírito do mundo,
e, por isso, não pode mais servir como instância legitimadora
de nenhum comitê central político, quanto mais de uma co­
missão parlamentar verde, profissionalizada à maneira capita­
lista. O velho encadeamento entre teoria, programa, partido
e poder deve ser, ele próprio, imputado à forma burguesa, que
definia também o lugar da teoria. Se vai pelos ares a relação
burguesa entre “vida” e filosofia, enquanto tal, bem como en­
tre economia e política, passa a não ser mais possível impingir
ao pensamento a antiga atribuição prescrita pelo modelo mer­
cantil.
A teoria, que não deve mais celebrar nenhuma base de
classe sociologística, mesmo se essa se apresenta na figura úl­
tima e degradada de uma “vontade eleitoral” verde, goza, por
fim, da liberdade própria a um “fora da lei” lj e se reconhece
como momento crítico de uma crise social de alcance mundial,
sem precisar derivar disso pretensões a respeito da totalidade
do mundo ou qualquer metafísica de fundamentação última.
A nova modéstia da teoria deve ser, porém, ao mesmo tempo,
sua nova e inaudita radicalidade, e nisso justamente repousa
sua verdade. A aparente modéstia dos filósofos ocidental-de-
mocráticos da capitulação, pelo contrário, desmente a si mes­
ma, pois, ao invés de dirigir a radicalidade da crítica contra as
atuais condições de vida, mobiliza de maneira sumamente imo-
desta a radicalidade das relações capitalistas contra os seres
humanos reais.
A teoria proscrita não pode mais apelar a qualquer sujeito
ontológico que não seja ela mesma. Quando se dissolvem a
ontologia e a metafísica do trabalho abstrato, forjadas pela
forma-mercadoria, a crise já não pode ser superada mediante

13 Vogelfrei, em alemão. Apesar de possuir também a conotação agressiva do


português, o termo alemão é mais figurado, podendo ser traduzido, literal­
mente, pela expressão “livre como um pássaro” (N. T.).

32
A INTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

a transformação de um sujeito em si, inconscientemente pre­


sente desde sempre em sua particularidade capitalista, em um
sujeito para-si do trabalho total. E a sociedade, ela mesma, que
deve agora se constituir conscientemente naquele descampado
em que até agora não havia sujeito algum senão a forma cega
e fetichista da “abstração real” (Sohn-Rethel). A teoria funda­
menta essa constituição consciente precisamente porque não
pode mais evocar qualquer “interesse” imanente à forma mer­
cadoria, mas apenas mobilizar o “interesse” sensível contra a
própria abstração reãl. Os germes desse movimento já estão
presentes praticamente na sociedade enquanto crítica feminis­
ta, social e ecológica. Essas formas de crítica prática não são
mais um ontológico “em si” “para si” do trabalho, mas mo;
mentos efetivos do movimento de supressão do valor. O mo­
mento teórico ainda anda a passos lentos e deve compensar
seu atraso.
Nesse caso, a mudança de lugar da teoria também deve ser
entendida em sentido literal. Há muito já deveria ter ficado
claro que encerrar o pensamento (sobretudo o revolucionário)
na prisão institucional da administração intelectual acadêmica
ocidental não lhe faria bem. A universidade não vai se ver livre
do “mofo de mil anos” por meio de uma modernização capi­
talista, pois o próprio capital é o mofo residual de uma pré-
história de mil anos do fetichismo social. Mas, por outro lado
também, se desfazem nesse sentido as dicotomias do mundo
de mercadorias mantidas institucionalmente. A revolução teó­
rica é, ao mesmo tempo, uma revolução institucional, e toda
revolução começa com a prática de não mais se levar a sério
instituições sagradas.
Assim como não é preciso ter, hoje, qualquer consciência
teórica explicitamente crítica ao valor para comparar a gesti­
culação, a mímica, os discursos e as ações da classe política do
sistema produtor de mercadorias com o cerimonial de caciques
de uma tribo canibal, também na atividade científica corrente
transparece a unidade simiesca da pré-história. E nesta de ma­
neira mesmo particularmente grosseira, pois a vida acadêmica
é, ao mesmo tempo, o último bastião de uma consciência es-

33
OS ÚLTIMOS COMBATES

tamental. Em nenhuma outra esfera do sistema produtor de


mercadorias se manteve tão tenazmente como nesta a grotesca
e antediluviana ostentação de títulos. Só a pompa da toga, do
barrete doutoral, do talar, etc., já remete a esse estado de coisas.
A gente se pergunta por que os reitores e decanos não passaram
a usar ossos no nariz como índice de sua importancia.
Por ironia, a crise do “mofo de mil anos” coincide com a
I crise das próprias relações estabelecidas com o valor. Os re­
proches à consciência acadêmica, daí resultantes, não são des­
providos de graça. Com a obsolescência do solene orgulho
estamental, se torna obsoleta, de uma hora para outra, a arbi­
trariedade abstrata que ganha dinheiro. Com as restrições im­
postas pela crise fiscal do Estado, também a empresa do
pensamento tem seu abastecimento estrangulado. Como se
sabe, até mesmo a filosofia já sai em busca de financiamento
e tenta provar sua importância para o funcionamento capita­
lista. A cantilena entoada não deixa de ser divertida. Trata-se
da transição institucional da filosofia e das ciências humanas,
em geral àquele patamar de leviandade que há muito também
já define seu conteúdo.
Não há razão alguma para lamentos pessimistas acerca do
porvir da cultura se são cortados os financiamentos para pro­
jetos de pesquisa que, de qualquer modo, são em sua maioria
disparatados ou constituem uma ameaça pública. Tampouco
devem ser objeto de demasiada compaixão aqueles acadêmicos
que se mantêm em postos de trabalho parcial ou provisório,
por mero apego a sua respeitabilidade profissional estamental,
amargando rendimentos equivalentes à ajuda da assistência
social. E mais provável que possam surgir conexões inovadoras
entre filosofia e “vida”, a par de algumas grotescas, daquelas
tentativas um tanto extravagantes de se firmar, por exemplo,
com um “consultório filosófico”, como uma espécie de den­
tista do espírito ou oficina de bricolagem para pensadores afi­
cionados.
Em geral, todavia, não se deve esperar que a ciência de­
caída e intimidada, enquanto ramo institucional da moderni­
dade burguesa, invista contra seus próprios fundamentos e dê,

34
A INTELLIGENTSIA DEPOIS DA LUTA DE CLASSES

por si mesma, o próximo passo histórico do pensamento, isto


é, que passe à crítica radical da forma-mercadoria. Também a
ciência, enquanto tal, foi moldada à forma-mercadoria, e nessa
medida deve ser superada; não retrocedendo em direção ao
mito, mas avançando em terreno desconhecido. O fato desta
não ser mais levada a sério indica o primeiro passo na direção
certa. A razão relativa de Paul Feyerabend ou Hans Peter Duerr
repousa nessa situação.
Essas observações não deveriam ser entendidas de maneira
equivocada como expressão de um ressentimento antiacadê-
mico. Não é nenhuma vergonha que alguém tenha concluído
sua licenciatura ou doutorado, e que ganhe a vida como aca­
dêmico. Mas, afinal, o que se pode objetar contra a america-
nização da posição social dos acadêmicos? Nos novos laços
compulsórios entre “vida” e filosofia reside também a possi­
bilidade de uma nova capacidade de distanciamento. Assim
como a ciência pressupõe uma distância frente a seus objetos,
a superação da ciência de constituição fetichista pressupõe uma
meta-distância frente à ciência mesma. Se todos são artistas,
como pensavam Joseph Beuys ou Andy Warhol, então, nin­
guém mais o é. E isso vale igualmente para a ciência.
N a mesma medida em que se massifica a capacidade de
abstração, a sociedade fetichista da abstração real é impelida
à dissolução. A “proletarização” dos intelectuais e a “despro-
letarização” da sociedade caminham lado a lado e dão mostra
do caráter questionável do mundo conceituai sociologístico.
Diminui o número de “filhos de operários” entre os estudantes,
mas, com rapidez ainda maior, diminui o de “operários” no
conjunto da população. No ano de 1986, pela primeira vez na
RFA, era maior o número de alunos que concluía o segundo
grau que o que concluía o ensino básico; em 1991, também
pela primeira vez, haviam mais estudantes universitários que
aprendizes de ofícios. Com isso, todo pacote de relações amo­
rosas com a etiqueta “Intelligentsia e classe operária”, típico
da luta de classes, se vê reduzido ao absurdo. Quando a “In-
telligentsia,, mesma é convertida em “ povo”, esta não é mais
Intelligentsia, nem o povo é povo. A crise do trabalho abstrato,

35
OS ÚLTIMOS COMBATES

que pressupõe uma “classe” e um “povo” que lhe corresponda,


se expressa na existência social da intelectualidade mesma,
assim como a crise de conteúdo da ciência aparece refletida
na crise institucional.
O foco de inovação teórica já não pode mais surgir no
interior da atividade intelectual oficial. A nova meta-distância
frente à própria ciência, corroborada pela “vida” efetiva de
uma intelligentsia massificada - e assim, suprimida e ultrapas­
sada enquanto intelligentsia16- poderia ser capaz de recarregar
a bateria do pensamento socialmente crítico. Não é a partir
de uma oposição forçada “contra” o empreendimento cientí­
fico, senão de uma posição oblíqua em relação a este, que há
de surgir um discurso crítico frente à modernidade capitalista,
apto a selecionar as intervenções segundo critérios distintos
dos da maquinaria científica burguesa em ponto morto. A “inu­
tilidade de se tornar adulto” (Koch/Heinzen), assim como a
visão clara da falta de sentido dos critérios capitalistas de êxito,
talvez venham mais de encontro à teoria proscrita da crítica
radical do valor do que atualmente querem admitir os execu­
tores da empresa intelectual.

16 Aufgehoben, em alemão.

36
Supressão e conservação' do
homem branco *
Uma visão retrospectiva do colonialismo e do
anticolonialismo no limiar do século X X I

1.

Quando todos concordam unanimemente a respeito do


caráter questionável de um fenômeno social, quando este se
torna alvo mesmo da crítica oficial, em geral ele já deixou de
ser uma presença efetiva para se converter em objeto da his­
tória. Que político, ainda hoje, pode ser chamado de “colo­
nialista” ? Que país pode ainda adquirir colônias? O mercado
mundial já superou esse problema há várias décadas, mesmo
que ainda haja pequenas contendas na retaguarda. Seria inútil,
portanto, continuar chutando um cachorro morto ainda que
este tenha sido, em vida, incrivelmente feio e intolerável. Com
isso, contudo, estamos longe de ter concluído o acerto de con­
tas com a história passada, que continua a atuar sobre nós e
sobre nosso futuro. Talvez só mesmo agora seja possível co­
meçar a compreendê-la, pois devemos lançar um olhar retros-

* Lido originalmente como ensaio radiofônico na rádio estatal NDR, em


janeiro de 1992.
1 Aufhebung, em alemão (Vide ensaio “A Intelligentsia depois da luta de
classes”, nota 7) (N. T).

37
OS ÚLTIMOS COMBATES

pectivo sobre urna época que não pode mais ser alterada e que
permanecerá para sempre fora do nosso campo de ação.
A humanidade européia não produziu até hoje nenhuma
—i crítica definitiva acerca do acontecimento ao qual deu o nome
de “descoberta da América” . As missões jesuíticas já haviam
legitimado, de antemão, o mundo europeií como o único ver­
dadeiro. Essa elevada auto-estima, ao ser secularizada, ganhou
uma vigorosa continuidade com as idéias do iluminismo, até
hoje determinantes tanto para a ideologia oficial burguesa
como para a teoria crítica de sua Intelligentsia. Em seu alvo­
recer, a modernidade ocidental deveria expor a verdade últi­
ma, por fim descoberta, acerca do espírito e da sociedade. O
pensamento burguês, com seu racionalismo abstrato, e a civi­
lização dos livres e iguais proprietários de mercadorias, pas­
saram a encarnar a idéia mesma de razão e civilização. Em
contraposição a ambos, tanto os povos naturais do Pacífico e
das florestas tropicais quanto as culturas avançadas da Ásia,
da África e das Américas podiam ser sempre desqualificadas
como “bárbaras”, seguindo a velha e gasta tradição européia.
Essa perspectiva ganhou novo reforço teórico a partir do
final do século XVIII, com o surgimento das teorias evolucio­
nistas. Assim como Hegel reduzira todo o mundo antigo e
medieval a meros estágios preliminares, justamente da monar­
quia esclarecida prussiana - definida por ele de modo inaba­
lável como último estágio evolutivo da cultura humana -
também as culturas que se encontravam fora do universo eu­
ropeu foram definidas, no interior de uma espécie de escala
civilizatória, como graus distintos e preliminares de um estado
evolutivo pré-europeu pelas teorias histórico-genéticas nas­
centes. Augusto Comte, o fundador da sociologia e do positi­
vismo, formulou em m eados do século X IX uma teoria
evolutivo-filosófica dos estados, que se estendia de um fictício
estado de natureza a um patamar ainda não alcançável, que
nomeou “ estado positivo”, no qual a ciência finalmente deve­
ria triunfar. Comte não deixava dúvidas de que essa escala, ao
mesmo tempo, exibia um juízo de valor, na medida em que

38
SUPRESSÃO E CONSERVAÇÃO DO HOMEM BRANCO

designava expressamente a “raça branca” e as “nações euro­


péias” como as “escolhidas” e a “vanguarda da humanidade”.
Portanto, é o progresso, aquele conceito então criado e
hoje em desgraça, o que conduz ao domínio do homem branco,
que, com sua racionalidade, não apenas coroa a história hu­
mana, mas supostamente também lhe põe termo com a edifi­
cação do “estado positivo”. Sem sombra de dúvida, uma tal
interpretação da história facilita em muito a equiparação dos
povos e culturas desconhecidas a coisas ou objetos naturais,
passíveis enquanto tal de “ descobrimento” , a exemplo das es­
pécies animais ou vegetais. Ora, se os povos que se encontra­
vam fora da Europa eram meros representantes de estágios
evolutivos inferiores, já deixados para trás pelo homem bran­
co, então de fato eles não eram seres humanos no sentido exato
do termo, podendo ser tratados, no melhor dos casos, como
uma espécie “infantil” particular, no pior dos casos, como bes­
tas. Com a mesma indiferença dispensada hoje, em geral, às
reses e às cobaias, que talvez suscite indignação às gerações
futuras, ao longo de toda a história colonial, os chamados
“nativos” foram definidos por princípio como seres distintos
dos humanos, animais utilitários, instrumento, ou até mesmo
como caça.
Essa revoltante crueza, porém, não deveria ser simples­
mente condenada de um ponto de vista moral e superficial,
mas, antes, compreendida em sua historicidade. Ela indica,
sobretudo, que o próprio homem branco se encontra ainda
em um estágio tosco de desenvolvimento, a despeito de ter se
imaginado no topo do gênero humano. E sabido que o colo­
nialismo faz parte daquilo que Marx chama “forças propulso-
' ras do capital”2. O ouro que havia sido roubado nos séculos
XVI e XVII em quantidades massivas, sobretudo das culturas
indígenas da América Central, de pronto destruídas, contri­
buiu enormemente para estimular a circulação monetária na
Europa e, conseqüentemente, a expansão de sua produção

? Anscbubskrãfte des Kapitals, em alemão. N a linguagem corrente, o termo


Anschub designa a primazia na ordem de jogada (N. T.).

39
OS ÚLTIMOS COMBATES

mercantil. Aos poucos, as colônias aumentaram o comércio


mundial e, no trato com os núcleos de colonização de ultramar,
surgiram os primeiros embriões de um mercado mundial. N o­
vos estimulantes e condimentos passaram a ser consumidos
em massa, como é o caso do proverbial chá inglês, que obvia­
mente provinha da índia, e da pimenta, que passou a ser dis­
ponível em grandes quantidades, enquanto na Idade Média
era vendida a peso de ouro e permanecia reservada à nata da
sociedade. Se as matérias-primas, importadas a preços módi­
cos, estimularam o modo de produção industrial, o tráfico e
o trabalho escravo nas grandes propriedades coloniais impul­
sionaram o capitalismo agrário.
Assim, do início do século XVI até o fim do século XIX,
o colonialismo contribuiu para desencadear o modo de pro­
dução capitalista. Foram soltas as Fúrias do interesse monetá­
rio abstrato e, pela primeira vez, a multiplicação do dinheiro
em função de si mesmo se converteu em princípio universal
da produção e da vida social. Não é de se admirar que os
europeus, a princípio ainda imersos no universo medieval e
apartados, em virtude de suas próprias conquistas coloniais,
das arraigadas estruturas feudais, tenham se comportado no
novo mundo de uma maneira que correspondia a seu próprio
desarraigamento e incerteza. O horizonte se tornara muito
vasto para a visão de mundo feudal, mas a nova liberdade, que
começava a ser prometida pelo pensamento ilustrado, tinha
como base social real a pressão valorativa do dinheiro e o
cálculo abstrato de rentabilidade. Fustigado por essa coerção
cega e auto-imputada, por muito tempo o homem branco con­
duziu seu império mundial com a crueldade inerente às rela­
ções coercitivas inconscientes.
Ora, se na história colonial o capitalismo veio ao mundo,
para usar uma expressão de Marx, “sujo e encharcado de san­
gue”, e legitimou com o Iluminismo sua própria superioridade
civilizatória, é claro que as contradições geradas por esse pro­
cesso não podiam passar desapercebidas. Uma das primeiras
testemunhas da insensata crueldade da colonização é o famoso
manifesto do bispo Bartolomé de Las Casas, publicado pela

40
SUPRESSÃO E CONSERVAÇÃO DO HOMEM BRANCO

primeira vez em 1552, que traz o árido título de “Brevíssimo


relato sobre a destruição das índias Ocidentais”.
Ele descreve o massacre levado a cabo pelos conquistado­
res e documenta uma quantidade sufocante de atrocidades,
extorsões, roubos e assassinatos. Vê-se nesse relato que, na
busca do ouro, os indígenas foram torturados e queimados
vivos, tiveram mãos, olhos e narizes decepados enquanto suas
crianças tinham o crânio esmagado.
Calcula-se que a colonização espanhola sozinha massacrou
e mutilou dessa maneira mais de 20 milhões de pessoas. De­
certo, o saque e o massacre, enquanto origem mais crua da
capitalização, estavam em patente contradição não apenas com
os ideais abstratos da religião cristã e do Iluminismo, mas tam­
bém frente ao cálculo de rentabilidade do próprio capital. As
sanguinárias campanhas de extermínio e a escravidão brutal
reduziam a longo prazo a força produtiva do material humano
e, por isso, precisavam ser superadas em nome da pretendida
continuidade da exploração européia. O próprio Las Casas
não se opunha de modo algum à colonização em si, sendo, ao
contrário, um súdito fiel da coroa espanhola e leal dignitário
da Igreja Católica. Também os críticos posteriores, que censu­
ravam a colonização evocando o progresso e os direitos huma­
nos, partiam do então inquestionável pressuposto de que as
nações européias haviam sido destinadas a civilizar o mundo.
Mesmo M arx e Engels falavam sem qualquer embaraço em
“povos semicivilizados”, ao passo que o emergente movimento
operário social-democrata europeu não obteve qualquer con­
senso para condenação do colonialismo. Nos congressos so­
cialistas internacionais, anteriores à 2- Guerra Mundial, eram
recebidas, sem qualquer estranheza, propostas como a formu­
lada em 1907 pelo social-democrata alemão David, que via
numa política colonial reformada e purificada um “compo­
nente indispensável das aspirações culturais universais da so-
cial-democracia” . Por iniciativa da delegação britânica, uma
resolução oficial de 1904 chegava ao ponto de reivindicar ex­
pressamente “ o direito dos habitantes de países civilizados a

41
OS ÚLTIMOS COMBATES

se estabelecerem em países cuja população se encontre em


estágios menos avançados de desenvolvimento”.

2.

A crítica isolada das atrocidades coloniais, que toma como


ponto de partida justamente a visão européia do ser humano,
ao mesmo tempo que se atém à ideologia de uma civilização
européia superior, deu origem a um fenômeno curioso que
um crítico de língua afiada chamou de “soluçar hipócrita do
homem branco” . Sempre que os colonizadores europeus lo­
gravam devastar uma civilização, suas ruínas eram colocadas
sob proteção, como monumentos, e eram choradas suas bele­
zas perdidas. Já no século XVIII, surgira, desse modo, o mito
do “bom selvagem”, sob influência da glorificação rousseauísta
da natureza. Aos povos naturais e às culturas avançadas fora
do perímetro europeu foram conferidas atitudes e feitos mo­
rais, dos quais o homem branco podia extrair seu bocado.
Numa notável inversão da ideologia européia da supe­
rioridade, os subjugados e martirizados, que antes haviam sido
rebaixados a seres infantis ou animalescos, apareciam agora
subitamente como seres humanos melhores, justamente por
serem tão graciosamente menos desenvolvidos. E quanto mais
distante se torna a época colonial, quanto mais silenciosas as
incontáveis vítimas do passado, tanto mais parece se espalhar
na consciência européia o romantismo à la Karl May3. Hoje
em dia, chega-se a falar que o conjunto de sabedorias dos povos
indígenas exterminados poderia impedir o colapso ecológico
do nosso mundo monetarizado e dar um basta à máquina de
utilização abstrata dos seres humanos e da natureza, movida
por abstratos cálculos de rentabilidade. Ou, ainda, que a mís-

Karl May (1842-1912), escritor alemão muito popular até as décadas de


60-70, autor de estórias de viagens e aventuras para adolescentes, ambien­
tadas em geral no Oriente Médio ou entre tribos indígenas norte-americanas
(N. T.).

42
SUPRESSÃO E CONSERVAÇÃO DO HOMEM BRANCO

tica de culturas orientais há muito destruídas pode suscitar


novos comichões, dar fomento espiritual e amparo ao ador­
mecido homem branco. Essas reverências frente aos objetos
da própria sanha destrutiva nunca foram motivadas por uma
efetiva auto-crítica do Ocidente. Pelo contrário, essas esferas
desconhecidas de vida, há muito descarnadas materialmente
pelo homem branco, são agora objeto de uma segunda e fran­
camente necrófila exploração, na categoria de mundos ideais,
passíveis, aliás, de sistemática inserção no mercado.
No entanto, a representação dos povos pré-coloniais ainda
intocados pela Europa, como habitantes de terras idílicas e
bucólicas e portadores de uma sabedoria humana primeva,
comum a todos os homens, não mente apenas por converter
com voz dissimulada o mal-estar frente ao potencial destrutivo
da própria civilização em algo facultativo e afirmativo, que,
enquanto tal, poderia ser comparável às notórias filosofias po­
pulares sobre a pretensa inocência da infância perdida ou os
melhores dias de anos dourados. Ela mente, sobretudo, por
fazer dessas culturas um produto kitsch e aprazível, recoberto
de glacê açucarado, tornando-as, assim, grotescamente ino­
fensivas. De fato, a grande maioria dessas sociedades trazia
traços destrutivos. As ideologias de legitimação dos coloniza­
dores não surgiram por acaso.
Mesmo os históricos povos naturais eram tudo menos be­
nignos e despreocupados filhos do amor, libertos de relações
sexualmente coercitivas. Há muito foi comprovado que a en­
tusiástica exposição das culturas dos Mares do Sul, feita pela
antropóloga Margaret Mead nas décadas de 30 e 40 e freqüen­
temente citada, repousa sobre questionáveis métodos científi­
cos e corresponde mais às próprias projeções que à realidade
das sociedades polinésias. “Eles encontravam o que conhe­
ciam” - essa sentença crítica sobre a moderna interpretação
de descobertas arqueológicas cabe como uma luva para a in­
terpretação dos povos primitivos e suas relações sociais. Só
nas últimas décadas, sobretudo a partir da discussão suscitada
pelos trabalhos de Claude Lévi-Strauss, a etnologia conseguiu,
por fim, desenvolver um aparato crítico para a reflexão acerca

43
OS ÚLTIMOS COMBATES

do próprio modo de aproximação e abordagem de culturas


desconhecidas.
Os supostos filhos da natureza eram, na verdade, regidos
por relações coercitivas extremamente rígidas, e suas guerras
e rituais - com inclusão dos “bons costumes patriarcais”, tais
como o sacrifício humano, o escalpo, a vingança de morte e
o canibalismo - em muitos aspectos não ficavam nem um pou-
/ co atrás das atrocidades dos colonizadores. As sabedorias in­
dígenas, que de perto soam a segredos de avó, tampouco os
impediam de se massacrarem reciprocamente da pior maneira
possível. Não foi preciso a chegada dos europeus para que
fosse introduzida a prática de mutilar narizes e orelhas, e os
colonizadores teriam ainda muito que aprender sobre a arte
de escalpar com os representantes da sabedoria natural. As
culturas astecas e incas, destruídas pelos colonizadores, eram
elas mesmas potências coloniais sanguinárias que já haviam
seviciado e explorado povos inteiros. E longe de viver em har­
monia com a natureza, a cultura maia, muito antes da chegada
dos europeus, já havia conseguido provocar uma catástrofe
ecológica, provavelmente através da cultura exaustiva do solo,
selando assim seu próprio ocaso.
Mesmo o cristianismo dos missionários, a despeito de seu
caráter risível, não era apenas um golpe desfechado por recal­
cados inimigos da sexualidade contra costumes supostamente
livres, mas também, ao mesmo tempo, uma libertação frente
às obrigações irmãs impostas pelas religiões naturais e pelos
sistemas totêmicos. A religião européia não teria podido nunca
ser implementada apenas com base na violência colonial po­
licial. Como observou acertadamente Nietzsche, nesse proces­
so ocorreu uma inversão no modo de ver o mundo. Para os
povos primitivos e civilizações recentes, os poderes da natureza
eram um mundo despótico, que tudo abarcava, e no qual o
ser humano só podia se afirmar através de um rígido sistema
de regras que, por assim dizer, deviam determinar todos seus
passos. Para o pensamento europeu que os domina, ao con­
trário, a natureza mesma é um sistema de regras e leis cognos-
cíveis, ao qual o ser humano pode recorrer conscientemente

44
SUPRESSÃO E CONSERVAÇÃO DO HOMEM BRANCO

por meio de seu próprio arbítrio. O deus abstrato do cristia­


nismo distendeu os limites do sistema obrigatório de regras -
de maneira nada inoportuna - abrindo, com isso, espaço para
, que o humano4 respirasse.
Também frente às culturas orientais, asiáticas e africanas,
o colonialismo era uma faca de dois gumes. O modo de pro­
dução asiático e seu império teocrático, por exemplo, se apoiava
em uma tirania inimaginável e em um despotismo certamente
muito sentido e sofrido, que não podia ser apenas integrado
sem deixar rastros na cultura. A cortesia proverbial dos chi­
neses nasceu do temor de um domínio onipresente e total que
se inclinava de maneira quase rotineira à prática de atrocidades
de dimensões holocáusticas. E muito antes dos europeus, os
árabes, eles mesmos mais tarde colonizados, haviam se lançado
sobre os reinos africanos e os destruído. Esses reinos, por sua
vez, promoviam entre si, e no combate com povos menos po­
derosos, as mais sangrentas carnificinas. Nessa medida, as am-
. pias anexações do colonialismo europeu, a despeito de sua
extrema violência, promoveram em muitas regiões uma certa
( pacificação interna. Nestes casos, a estrutura colonial talvez
tenha tido uma função semelhante à do absolutismo europeu,
que por meio de seu poder centralizado apaziguou os poderes
feudais particulares, em eterno conflito: o que era condição
prévia para o efetivo surgimento das nações modernas.
Ora, essa pérfida ambigüidade de um desenvolvimento
que significava ao mesmo tempo destruição, massacre e ex­
ploração devia produzir de ambos os lados profundas defor­
mações de consciência. Os homens brancos, munidos com seu
cristianismo e seus ideais esclarecidos, não tinham esclareci­
mento algum acerca de si mesmo e, em sua superioridade bru­

4 Das menschliche Selbst, em alemão. O advérbio alemão selbst (ipse) pode


ser substantivado, ao contrário do que ocorre em português. Em linguagem
coloquial, o “ si mesmo” - traduzido por vezes como “identidade” ou “ ip-
seidade” - tem o sentido de “o eu”, no caso, literalmente, o “eu humano”
(N. T.).
OS ÚLTIMOS COMBATES

ta, não podiam chegar a qualquer compreensão que reconhe­


cesse o valor próprio das culturas que lhe eram estranhas. No
fundo, se confrontavam desse modo apenas dois diferentes
estágios de selvageria, incapazes de qualquer intercâmbio
consciente. A partir do encontro com as relações fetichistas e
coercitivas não-européias, os europeus, enquanto selvagens
para quem o dinheiro em seu movimento fechado sobre si
mesmo havia se tornado um fetiche, só poderiam pôr em mar­
cha um processo de desenvolvimento patológico.

3.

O índice mais claro da patologia européia talvez seja o fato


do homem branco ter também precisado colonizar a si mesmo
ao longo do processo colonizador. O desencadeamento da mo­
derna economia de mercado e sua rentabilidade compulsiva
passou a subjugar mesmos os supostos senhores desse modo
de produção. Seus próprios corpos e sentidos precisaram ser
confinados no interior de uma couraça de abstração a fim de
abstraírem a si mesmos. Surgiu assim a triste figura de uma
natureza mascarada, movida por uma ambição cega às emo­
ções; a imagem do sempre contido e concentrado guardião de
uma soma de dinheiro, que tem por objetivo multiplicar a si
mesmo, subjugado por seu próprio cálculo abstrato. O vence­
dor e conquistador teve também, ele mesmo, desvirtuada e
destruída sua capacidade sensível de fruição.
Quanto mais avançava na colonização do mundo exterior,
tanto mais o homem branco precisava ajustar a si mesmo, e
quanto mais assim se ajustava, mais precisava colonizar o mun­
do. Os senhores do autodomínio, que tinham vertido sangue
no Novo Mundo, lançavam agora seu olhar abstrato e utilitário
para o continente europeu. A colonização externa das culturas
não-européias se reverteu diretamente em colonização interna
do próprio mundo. N a medida mesma em que promovia a
capitalização da produção e a industrialização, o colonialismo
também destruía o modo de produção agrário da antiga Eu-

46
SUPRESSÃO E CONSERVAÇÃO DO HOMEM BRANCO

ropa e impelia a parcela empobrecida da população para as


fábricas, então com jornadas de trabalho de 14 horas e bárbaro
trabalho infantil. A minoria dos homens brancos, que havia se
convertido em órgão de execução política e econômica do
princípio de rentabilidade, transformou a própria massa de
homens brancos em uma nova espécie de nativos sem nome,
novas mônadas de força de trabalho abstrata.
Mas como mesmo a raça branca de senhores, em seu estado
altamente abstrativo de selvageria, não podia permanecer sem
acesso ao mundo da sensualidade e dos sentidos, a colonização
interna teve de ser levada a seu ponto mais extremo: a degra-
—) dação da mulher branca e de sua corporeidade. Porque havia
degradado a si mesmo enquanto máquina social insensível, o
homem branco colonizou a mulher como um animal hiper-
sensível. Ela deveria responder por tudo que ele não mais podia
sentir ou desfrutar: pelos sentimentos e pela dedicação afetiva,
pela estética cotidiana e pela mobilização da sensualidade, en­
clausurada na prisão de segurança máxima da célula familiar
modernizada em sua privacidade abstrata. Com isso, foram
atribuídas à mulher as mesmas características reservadas aos
selvagens, às pessoas de diferente cor de pele, à criança e aos
culturalmente subordinados: a imprevisibilidade e o capricho,
a ausência de concentração e autodomínio, o cultivo da vo-
luptuosidade e a posse de uma sexualidade desenfreada deve­
riam ser os elementos constitutivos de seu ser.
Por um lado, o homem branco cobiçava as qualidades sen­
síveis da mulher ajustada a tais padrões sociais, pensando em
mantê-la junto a si como “ ente natural domesticado”. Por ou­
tro lado, no entanto, ele também temia essas qualidades, que
já haviam se tornado algo estranho a si mesmo, as quais pre­
cisava repelir sempre, até mesmo com violência excessiva,
como um poder que punha em xeque sua couraça de abstração.
Esse processo de colonização interna da mulher se estendeu
da queima das bruxas, que não por acaso coincidiu com o
início da história colonial, até o século X X , e em matéria de
atrocidade não ficou nada atrás da guerra colonial externa.
N ão raro, ambas as formas andaram de braços dados. Em sua

47
OS ÚLTIMOS COMBATES

análise do sistema colonial francês, Frantz Fanon descreve, por


exemplo, o caso de um oficial de polícia na Argélia que teve
de ser conduzido a uma clínica psiquiátrica por ter começado
a torturar seus próprios filhos e esposa.
Contudo, a despeito de seu caráter patológico, a coloni­
zação interna não foi menos ambígua que a externa. O pro­
cesso de enfermidade interna da sociedade européia sempre
significou, ao mesmo tempo, a superação das barreiras de ca­
rência e pobreza vigentes no mundo feudal agrário. A trans­
formação do camponês servo em trabalhador assalariado se
mostrou incompatível com um status de dependência pessoal.
Precisaram ir pelós ares as antigas relações entre senhor e es­
cravo. Mesmo a degradação social e sexual da mulher, con­
vertida em um corpo feminino para o sexo, paradoxalmente
andou ao mesmo passo que os momentos de sua equiparação
formal-jurídica. Assim, se o processo que Jürgen Habermas
chamou “colonização do mundo de vida” foi sempre, simul­
taneamente, um meio passo rumo à emancipação, isso significa
que, durante muito tempo, a emancipação só pôde ser pensada
no horizonte mesmo do processo de colonização externa e
interna. E por isso que todos os movimentos emancipatórios
dos últimos dois séculos nunca reivindicaram simplesmente o
retorno à situação pré-colonial, mas reclamavam para si as
abstrações sociais do iluminismo ocidental.
O exemplo mais claro e menos contraditório, nesse senti­
do, era o histórico movimento operário do Ocidente. Os tra­
balhadores masculinos, que haviam sido submetidos pelo
incipiente capitalismo às formas mais brutais de exploração e
falta de direitos, exigiam apenas seu “direito” próprio enquan­
to homens brancos. E, sob esse prisma, eles podiam ser am­
plamente atendidos por meio de reformas sociais e através de
seu reconhecimento como sujeitos livres perante a lei e o Es­
tado. O movimento anticolonialista dos povos não europeus,
ao contrário, era cindido por uma profunda contradição in­
terna. Já durante a Revolução Francesa os trabalhadores es­
cravos das plantações haitianas haviam se rebelado em nome
das bandeiras importadas da “liberdade” e da “igualdade” e

48
SUPRESSÃO E CONSERVAÇÃO DO HOMEM BRANCO

se proclamavam uma república autônoma. Porém, a contradi­


ção de modo algum residia apenas no fato destes serem me­
tralhados pelos nada fraternos canhões franceses, pois, no fim
das contas, a Revolução Francesa só tinha sido concebida para
o homem branco. Na verdade, a própria exigência emancipa-
tória dos negros, na medida em que só podia ser formulada
nas categorias do homem branco, devia produzir uma profun­
da crise de identidade.
A dor causada por essa crise até hoje não pôde ser atenuada.
Todas as tentativas dos povos colonizados de, ao menos cul­
turalmente, reencontrar a si mesmos ricochetearam inevita­
velmente no muro de concreto da ocidentalização inevitável.
A cultura da negritude africana, por exemplo, tal como criada
pelo poeta e presidente senegalês Leopold Sedar Senghor, per­
maneceu sempre exterior ao real processo de desenvolvimento
social e corre o risco de decair, degenerando em mero orna­
mento. Mesmo o fervoroso pregador do poder de libertação
anticolonialista Frantz Fanón, a despeito de sua crítica mili­
tante à cultura européia, resvala involuntariamente em conceitos
\ genuinamente europeus ao recorrer à “nação” e à “democracia” .
N os movimentos emancipatórios femininos, a contradição
aflora talvez de maneira ainda mais gritante. Também as mu­
lheres durante muito tempo só puderam combater sua própria
situação colonial em nome daqueles princípios que o homem
branco havia forjado para si e com os quais engendrara sua
própria identidade. Todavia, a questão central da relação entre
os sexos praticamente não aparece no plano desses princípios.
A sensualidade banida do processo mundializado do trabalho
abstrato tampouco pôde ser apaziguada por meio da completa
equiparação jurídica da mulher quanto o foi a natureza mesma,
ainda que continuem a ser necessárias, hoje, reformas imanen­
tes das relações entre os sexos - da revogação do parágrafo
2 1 até a regulamentação de cotas para as mulheres. Porém,

3 Parágrafo do Código Penal alemão que proíbe a prática do aborto (N. T.).
OS ÚLTIMOS COMBATES

na atual crise do status feminino, há mais coisas em jogo do


que a mera distribuição de papéis e poderes entre os sexos no
interior das formas sociais ocidentais ou ocidentalizadas. Essa
crise aponta, antes, para o fim da própria colonização, tanto
externa quanto interna e, com isso, também para o fim daquele
processo contraditório de modernização que fora outrora o
realejo do homem branco.
Ora, a possibilidade de uma utilização abstrata dos seres
humanos e da natureza, conforme a lei da rentabilidade, tinha
como condição básica a colonização interna da mulher. Sua
domesticada e colonizada responsabilidade compulsória pelo
sensível era o pressuposto para que o homem branco pudesse
dominar a si mesmo e, com isso, o mundo à sua volta. No
entanto, o constructo inteiro vem abaixo se as mulheres passam
a se emancipar de maneira crescente, segundo os abstratos
princípios iluministas do homem branco. Tão logo as mulheres
se tornam elas mesmas sucedâneos dos homens brancos, vem
à tona o déficit fundamental desse modo de produção e de
vida. As mulheres carreiristas, do tipo Margaret Thatcher, des­
mentem duplamente a si próprias. Em primeiro lugar, porque
elas involuntariamente minam a base familiar do sistema de
mercado, pois mesmo com toda a boa vontade mulheres pro­
fissionalmente ativas, ou mesmo empresárias e políticas, não
podem mais responder, como castas donas-de-casa, por um
ninho aconchegante capaz de sanar o déficit sensitivo do tra­
balho masculino abstrato. Em segundo lugar, porque essas mu­
lheres sentem na própria pele o que significa ter que dominar
a si mesmas como máquinas abstratas de trabalho. Quando
ninguém mais é responsável pela sensibilidade desviada, esta
irrompe violentamente no universo das relações e dos senti­
mentos na forma de crise. E não é nenhum pouco casual que,
ao mesmo tempo, a natureza externa comece a se rebelar, dei­
tando por terra, na forma de um processo de crise e catástrofe
ecológica, o cálculo abstrato de rentabilidade. As forças pro­
dutivas, extravasadas pelo próprio sistema de mercado, inter­
vêm de modo tão profundo na natureza interna das neces­
sidades humanas e na natureza externa do mundo vegetal e

50
SUPRESSÃO E CONSERVAÇÃO DO HOMEM BRANCO

animal - no solo, na água e no ar - que estes conteúdos sensíveis


não podem ser reprimidos e violados por muito tempo.
Com isso, contudo, os movimentos de emancipação dos
trabalhadores assalariados e dos antigos povos colonizados es­
barram em seus limites. Estes também não irão longe se con­
tinuarem a adotar a forma social do homem branco. Enquanto
livres sujeitos monetários do cálculo abstrato, só lhes resta
cortar na própria carne. As mesmas forças produtivas que pro­
duziram, na forma do sistema de mercado, a crise ecológica e
a crise das relações entre os sexos são responsáveis por um de­
semprego em massa, crescente e global. Não faz mais sentido
tentar obter ganhos, enquanto homem branco, às custas da pró­
pria força abstrata de trabalho. Mesmo porque essas mesmas
forças produtivas engendraram o mercado mundial totalizado,
enredando globalmente a humanidade. O velho nacionalismo li­
bertador do movimento anticolonialista gira em falso. É evidente­
mente uma loucura, de incalculáveis conseqüências ecológicas,
acabar com todas as reservas de água do Saara para forjar uma
produção independente de alimentos, como quer o líder re­
volucionário libio Kadafi, enquanto a vizinha Comunidade
Européia afoga em mares de leite e é sufocada por seu exce­
dente de carne e cereais. N o entanto, esta loucura não passa
da loucura mesma do homem branco que, em um mundo feito
à sua imagem e semelhança, retroage sobre ele próprio em
todos os planos possíveis.
Os próprios critérios de êxito do sistema ocidental con­
duzem ao absurdo, tanto na relação entre os sexos, quanto nas
relações entre os grupos sociais e as nações. A guerra dos sexos,
as catástrofes sociais e ecológicas, o fundamentalismo pseudo-
religioso e a guerra civil étnica mostram que o mundo ociden­
talizado sai dos trilhos. Hoje, depois de meio milênio de
desenvolvimento ambíguo e contraditório, o processo de co­
lonização interna e externa começa a estrangular a si mesmo.
As formas sociais ocidentais, formadas na era dos descobri­
mentos, não são suficientemente avançadas para poder incor­
porar o mundo único que é seu próprio produto. Se, no mais
alto grau pensável, todos os seres humanos se tornaram ho-
OS ÚLTIMOS COMBATES

mens brancos, então ninguém mais pode sê-lo. Nenhuma


emancipação é mais possível na forma patológica até então
vigente.
Com isso, pela primeira vez, se aposenta a própria identi­
dade ocidental, ainda que o Ocidente oficial não queira saber
de seu próprio fim e prefira sempre definir a crise como “crise
do outro” . N o entanto, à humanidade, globalmente enredada,
não restará nada senão superar a forma européia do fetichismo
da mercadoria e do dinheiro, convertida em forma totalizada
e universal. Os selvagens ocidentais, assim como os ocidenta­
lizados, precisam implodir a couraça da abstração do sistema
de mercado, sob pena de sucumbirem com ela. Querer conti­
nuar subjugando a si mesmo, sob as ordens do princípio de
rentabilidade, se tornou algo insensato e ameaçador à própria
vida, tanto para europeus quanto para não-europeus, tanto
para empresários quanto para trabalhadores, tanto para ho­
mens quanto para mulheres. Não é possível voltar a uma si­
tuação anterior ao mercado mundial, à democracia ocidental
* e ao iluminismo, mas deve existir uma perspectiva capaz de
sobrepujá-los. As mulheres e os antigos povos coloniais só po­
derão resolver suas patológicas cisões de identidade quando
for rompida, enquanto tal, a patologia do autodomínio viril e
abstrato, quando razão e sensibilidade novamente se reconci­
liarem após uma longa história de dissensão. Nessa medida, o
fim efetivo da colonização externa e interna ainda se encontra
à nossa frente e, enquanto meta para o século X X I, pode ser
resumido em uma fórmula curta: Supressão e conservação do
homem branco.

52
One world e nacionalismo terciário
Por que o mercado mundial totalizado não pode
impedir a barbárie étnica?"'

Sem sombra de dúvida, o quadro atual do mundo é defi­


nido por dois fenômenos igualmente reais que parecem, no
entanto, se excluir reciprocamente do ponto de vista lógico.
Se, por um lado, o moderno sistema de mercado cumpriu seu
“ objetivo” e produziu uma rede social cuja trama abarca sem
lacunas a terra inteira, por outro lado, esse One World parece
desmentir a si mesmo, pois, justamente no instante de sua
consolidação, uma onda nunca vista de nacionalismo, separa­
tismo e guerras civis, inunda o globo. Nas salas de estar alemãs,
nas favelas africanas e mesmo entre os índios das florestas
tropicais, idênticos rádios japoneses ressoam monotonamente
a mesma músicapop internacionalizada e as imagens de satélite
—' mostram, pela primeira vez, a unidade do mundo humano a
partir daquela sonhada perspectiva “divina”, capaz de com­
preender a esfera terrestre como uma totalidade imediata. Será
que, apesar disso tudo, devemos presenciar, no limiar do século
X X I, o retorno do século X IX , a época de uma “nacionalização
das massas” (George L. Mosse)?

* Texto publicado inicialmente no jornal diário “ Frankfurter Rundschau”,


em 4 de janeiro de 1992, sob o título de “ One World und jüngster Nationa­
lismus” .

S3
OS ÚLTIMOS COMBATES

Algo deve andar errado para que nossos antepassados his­


tóricos pareçam emergir de suas tumbas. A era burguesa, que
produziu a nação propriamente dita, foi sempre essencialmen­
te economicista, e esse enigma talvez só possa ser desvendado
a partir do processo de socialização mercantil.
O sistema produtor de mercadorias, que se desenvolveu a
partir do corpo da sociedade feudal e, por fim, a destruiu, era
em germe, desde o início, um sistema mundial. Indiferente a
qualquer conteúdo, a lógica de valorização do dinheiro não
conhece tampouco qualquer lealdade que a restrinja. No en­
tanto, em seu processo de formação, as teias do mercado mun­
dial ainda possuíam urdidura muito débil para que ele pudesse
ter se tornado o espaço funcional imediato da economia mun­
dial emergente. Assim, aquela estrutura misteriosa que dava
forma à nação, produzida a partir de vários elementos dispa­
ratados - tais como a língua, a geografia, as tradições culturais
e jurídicas e as ligações de tráfego - foi quem primeiro alargou
o horizonte restrito do campanário feudal, fundando, enquan­
to espaço social e histórico inicial dos sistemas mercantis, uma
forma nova e despersonalizada de lealdade.
A consagração da bandeira das nações se opunha, porém,
à razão do mundo iluminista, que ainda no século XVIII havia
cunhado o conceito enfático de cosmopolitismo, desde logo
já levando em conta o sentido secreto da lógica mercantil sem
fronteiras. E por esse motivo que Kant e Fichte procuravam
ainda derivar a própria forma particular da nação de princípios
universais da razão, conciliando com isso a contradição gri­
tante. O estado nacional, enquanto “ Estado da razão”, deveria
continuar sendo um “estado mercantil fechado em si mesmo”
(Fichte) e, concomitantemente, conduzir à “ paz perpétua”
(Kant), ratificando assim os princípios universais da razão.
Todavia, durante muito tempo a lógica cega da concorrência,
inerente aos sistemas mercantis, só permitiu o avanço da forma
universal da mercadoria nos quadros de uma luta sangrenta
das nações emergentes pelo predomínio regional ou global.
Essa luta marcou todo o século X IX e a primeira metade do
século X X . Nessa época, o mercado mundial, propriamente
ONE WORLD E NACIONALISMO TERCIÁRIO

dito, permaneceu uma esfera secundária e subordinada às eco­


nomias nacionais, encoberto pelas formas militares e políticas
— de auto-afirmação recíproca das mesmas.
Já com as lutas de libertação contra Napoleão, a abstrata
razão iluminista, que nunca tivera em vista a humanidade
como um todo, precisara lançar a nuvem negra do irraciona-
lismo sobre a autolegitimação nacional. Quanto mais as jovens
nações e os movimentos nacionais emergentes se projetavam
anacrónicamente no passado e começavam a reivindicar para
si tradições historicamente desfiguradas, quanto menos esta­
vam aptos a conceber a si próprios como fenômeno histórico,
tanto mais se tornavam ideológicos, quase a ponto de se con­
verterem em constantes antropológicas. A formação nacional
>j ( não era mais fundada em princípios universais da razão, mas,
j cada vez mais, em bases “etnicistas”, racistas e biologistas.
' Como se isso não bastasse, o darwinismo social forneceu ao
princípio de concorrência do sistema produtor de mercadorias
uma pretensa fundamentação natural. Surgiram assim aquelas
letais ideologias de legitimação da época imperialista, que de­
sembocaram de maneira catastrófica nas duas guerras mun­
diais e no holocausto fascista. Na luta por zonas de influência
e supremacia mundial, as economias nacionais que haviam
rompido suas antigas costuras tentaram se alçar irracionalmen­
te a “ economias nacionais de alcance mundial” 1- grandes áreas
econômicas sob controle nacional -, uma contradição nos pró­
prios termos.
A época imperialista só é deixada para trás com a Pax Ame­
ricana do pós-guerra, por mais paradoxal que isso possa pa­
recer ao “ antiimperialismo” de esquerda. É verdade que os
— Estados Unidos zelavam pelos princípios universais da razão
ocidental, há muito rebaixados a seu núcleo mercadológico
banal de “fazer dinheiro”, mas com isso não tinham em vista
mais que sua própria glória e poder, que ao fim da II Guerra
Mundial resplandecia de maneira sedutora a partir de Fort

1 Nationale Weltõkonomien, em alemão. Literalmente: economias mundiais


nacionais (N. T.).

55
OS ÚLTIMOS COMBATES

Knox (onde estavam armazenadas, em 1945, cerca de 80%


das reservas globais de ouro). No entanto, a americanização
do mundo não era mais um imperialismo à moda antiga. A
polícia mundial não fazia mais anexações territoriais, mas ape­
nas garantia a observância das regras mercantis e concorren­
ciais de seu paradigmático sistema de mercadorias, que não
trazia mais consigo a escória européia do século XIX.
A razão do mundo kantiana pode parecer um pouco vulgar
em sua feição ianque, mas é apenas nesta forma que ela pôde
de fato descer à terra. A despeito de todas as contendas da
guerra fria, sob o teto da americanização global, foi possível
um boom fordista sem igual e uma série de milagres econômi­
cos. Livre de entraves, e não mais sob o jugo do “primado da
política” que caracterizava o velho imperialismo, a concorrên­
cia mundial pôs em marcha forças produtivas até então incon­
cebíveis, sob a forma da microeletrônica, da computação e da
automação. Sobre essa base tecnocientífica surgiram mercados
inteiramente novos - de pronto globalizados - que paulatina­
mente empalideceram até mesmo o invólucro político da Pax
Americana. Os processos de produção passaram a ser tão se-
cionáveis que em muitos ramos tornaram possível, pela pri­
meira vez, a internacionalização da própria produção de bens.
Ao mesmo tempo, os custos de comunicação e transporte fo­
ram barateados a tal ponto que acabaram por envolver até
mesmo pequenas e médias empresas na internacionalização.
Com as multis, grandes corporações multinacionais dos anos
70, o mercado mundial se converteu em espaço funcional ime­
diato dos sujeitos econômicos. O sistema total de produção
de mercadorias passa então a dissolver as envelhecidas econo­
mias nacionais.
Esse processo de internacionalização da economia de mer­
cado fez com que também a crítica tradicional ao capitalismo
parecesse envelhecida. O saudoso “internacionalismo prole­
tário” não era de fato menos abstrato que a razão burguesa do
mundo iluminista. Era, antes, seu descendente legítimo. O mo­
vimento operário marxista trilhou, na realidade, a mesma via
nacionalista que a sociedade burguesa supostamente combatia.

56
ONE WORLD E NACIONALISMO TERCIÁRIO

A social-democracia ocidental foi a primeira a revelar seu ca­


ráter nacional nos surtos de desenvolvimento da virada do
século, e é este caráter que lhe confere hoje, particularmente
na Alemanha, o inimitável ar de museu da respeitabilidade
guilhermina. Depois disso, a modernização tardia do Leste
criou o “patriotismo soviético” stalinista, que se manteve ilha-
do atrás da cortina de ferro. Por fim, o movimento anticolo­
nialista no Hem isfério Sul produziu aquele nacionalismo
libertador que, durante algum tempo, ao invés de refletir seu
próprio estágio de socialização, escondeu sob um manto ro­
mântico a juventude rebelde do Ocidente.
Contrastando com essas figuras decadentes da moderni­
zação, que permaneceram claramente atreladas ao paradigma
nacionalista do século X IX, hoje o triunfo da internacionali­
zação e da globalização capitalista da economia de mercado
parece ser completo. No entanto, esse triunfo deixa na boca
um gosto amargo. Os estados autárquicos, limitados à esfera
nacional, e os nacionalismos libertadores dos países do Leste
e do Sul não eram simplesmente o resultado de ideologias que
haviam se tornado reacionárias, mas antes o fruto da própria
pressão concorrencial do mercado mundial. Se, no século XIX,
o processo primário de nacionalização ocidental havia se di­
rigido principalmente contra as estruturas feudais, a naciona­
lização secundária do século X X , tanto no Leste quanto no
Sul, era o produto de um mundo modernizado, constituído
por Estados nacionais, e se dirigia contra a supremacia das
nações ocidentais.
Até meados do século, ou mesmo depois disso, essa luta
ainda podia ser conduzida na mesma forma política e militar
em que haviam sido travados os conflitos internos pela supre­
macia no Ocidente. O patriotismo soviético do Leste e os mo­
vimentos de libertação dos países do Hemisfério Sul sobre­
punham-se à concorrência interna do Ocidente, produzindo
i novas linhas de conflito globais que, mais uma vez, prolonga­
vam artificialmente a vida útil daquele “primado da política”,
que já havia sido esvaziado pela globalização econômica dos
mercados. Os Estados planificados, autárquicos e subvencio-

57
OS ÚLTIMOS COMBATES

nados das economias nacionais secundárias (e retardatárias),


não percebiam que lutavam, cada vez mais, com as armas do
passado contra o inimigo invisível da internacionalização eco­
nômica mercantil.
Por mais terríveis e ditatoriais que tenham sido os regimes
do Segundo e do Terceiro Mundos, certamente eles mantive­
ram o que se poderia chamar dignidade da auto-afirmação face
à pressão ocidental pela abertura de mercado —e isso não
apenas em nome do interesse de suas elites empedernidas e
autoritárias. Era, pois, previsível que esses países seriam for­
çosamente massacrados no campo de batalha da concorrência
global aberta, qualquer que fosse a ideologia legitimadora que
de início os guiasse. A globalização microeletrônica conseguiu
levar a cabo em menos de uma década o que o policiamento
norte-americano não conseguira em mais de 30 anos de inter­
venções militares: a cortina de ferro veio abaixo sob a pressão
de déficits não mais sustentáveis na balança comercial e nos
fluxos de capital das economias retardatárias. Estas foram li­
beradas à livre concorrência, justamente para que através desta
malograssem. Pois, sem atingir os níveis necessários de renta­
bilidade, essas economias caem fora das relações globalizadas
de mercado.
O velho sonho da humanidade só pôde ser realizado de
maneira negativa e catastrófica. O motivo para tanto pode ser
encontrado na maneira extremamente unilateral com que o
One World foi formado. O conceito iluminista do cosmopoli­
tismo, em sua natureza furta-cor, ocultava o fato do cidadão
dos sistemas mercantis ser essencialmente uma figura esquizo­
frênica, na medida em que se apresenta sempre em dupla fei­
ção: por um lado, como homo oeconomicus e, por outro, como
homo politicus. O sujeito mercantil só pode sobreviver se pos­
suir um alter-ego como sujeito-cidadão. O estado moderno
deve não apenas reunir os sujeitos econômicos forjados pela
forma-mercadoria e lhes garantir o estatuto de pessoa jurídica,
mas precisa ainda engrená-los ativamente e pelo maior tempo
possível nos processos de mercado, além de regular e distribuir
o fluxo monetário. Em princípio, este está de acordo com o

58
ONE WORLD E NACIONALISMO TERCIÁRIO

monetarismo de um Milton Friedman; Keynes, como é sabido,


desejava mesmo reprimir o comércio mundial, pois acreditava
que sua teoria só era exeqüível na moldura dos Estados nacio­
nais.
Um Estado mundial não pode de fato existir. Cada Estado
é, segundo sua própria natureza, uma forma particular que
deve estar delimitada por fronteiras externas. Hoje isso vale
mais do que nunca, pois os Estados procuram exportar os
custos operacionais do sistema produtor de mercadorias, tanto
do ponto de vista social quanto ecológico, através da demar­
cação recíproca de suas fronteiras. E por isso que o próprio
mundo ocidental dos estados nacionais não se diluiu em uma
unidade global. Mais do que nunca, os grandes blocos econô­
micos (CCE, EUA, Japão) estabelecem barreiras recíprocas
tanto entre si quanto frente aos países historicamente retarda­
tários do Leste e do Sul, por meio de estruturas de subvenção
e conflitos comerciais permanentes. Além disso, só existem
redes sociais, infra-estrutura constituída e tarifas de importa­
ção na esfera dos estados nacionais, ou seja, só se pode falar
I em políticas distributivas para determinados fins, tais como
serviço sanitário, justiça, ciência, educação, etc., num mundo
constituído por estados.
Portanto, o que constitui o One World, o que propriamente
foi internacionalizado e globalizado, foram única e exclusiva­
mente as formas econômicas de circulação do dinheiro e do
mercado. Na medida, contudo, em que o nível civilizatório da
modernidade está associado ao Estado, esse padrão permane­
ceu limitado aos Estados nacionais, ou melhor, aos blocos eco­
nômicos. Só o “burguês” (o sujeito econômico ou mercantil
puro) se tornou um cidadão do mundo, ao passo que o “cida­
dão” (o sujeito estatal ou jurídico) se ateve à esfera nacional
^ dos Estados e, por sua própria natureza, não pode se globalizar.
A modernidade deve passar, assim, por uma prova de fogo: a
forma-mercadoria, essencialmente ilimitada, e o Estado na­
cional, essencialmente particular, não podem mais viver em
harmonia. A divisão globalizada de trabalho e a intercomuni­
cação do sistema mercantil passam por cima das infra-estru-

59
OS ÚLTIMOS COMBATES

turas básicas e das políticas distributivas, limitadas ao plano


estatal; o sistema financeiro e crediticio globalizado - como
os mercados do eurodólar - extrapola os mecanismos de con­
trole dos bancos centrais nacionais.
No entanto, o fato de que os custos operacionais do siste­
ma, tanto sociais quanto ecológicos, só podem ser distribuidos
e externalizados passando pela instancia particularizada do
Estado, faz com que o processo mercantil e monetário globa­
lizado produza catástrofes nacionais para seus perdedores. Se
na dinámica interna de uma economia nacional podiam ser
criadas estruturas compensatorias através de regulamentações
estatais —por mais limitadas e insatisfatórias que fossem —a
esfera mundial carece inteiramente de urna instancia que cum­
pra este papel. Se existem “problemas sociais” a nivel nacional
é possível recorrer a organismos estatais com maior ou menor
grau de desenvolvimento, mas se, no processo mercantil glo­
balizado, um estado nacional como um todo se converte em
“ problema social ”, este perde o chão sob seus pés. Os mercados
financeiros internacionais só fornecem solicitamente acesso
ao capital sob condições de mercado, ou seja, estes não fun­
cionam, por sua essência, como instâncias sociais distributivas
a nível mundial, mas sim em função do montante a ser recebido
em juros. Foi dessa maneira que se produziu a crise interna­
cional de endividamento, que cresce de maneira acelerada e
se alastra a cada dia que passa. Os estados nacionais e blocos
econômicós, por sua parte, também só podem fornecer ajuda
técnica e monetária a partir de seus próprios interesses. Não
existe uma instância jurídica mundial; o tribunal internacional
de justiça não é mais que uma farsa, além de ser menosprezado
de maneira “soberana”, justamente pela “superdemocracia”
norte-americana.
Assim, o processo de globalização dos mercados e do ca-
~ t pitai não desfaz simplesmente as velhas economias nacionais,
formando uma unidade maior, mas, pelo contrário, as asfixia
em número cada vez maior. Se uma economia nacional vai
parar sob as rodas do mercado mundial totalizado, destrói-se
também, por sua vez, sua capacidade interna de regulamenta-

60
ONE WORLD E NACIONALISMO TERCIÁRIO

ção e distribuição. Com efeito, hoje, a quase totalidade dos


estados - incluindo aí os pretensos “vencedores” - foi atingida
pela crise gerada pela fenda aberta entre mercados globaliza­
dos e regulamentação estatal. A diferença está apenas no grau
com que esta se exterioriza.
Nas economias em franca desagregação do Hemisfério Sul
e do Leste Europeu, os estados nacionais perderam a tal ponto
sua capacidade regulamentadora e distributiva, que sua auto­
ridade estatal sucumbe junto com sua capacidade de integração
ao mercado. Porém, das ruínas deixadas pelo mercado mun­
dial, brota o fungo venenoso de um nacionalismo terciário,
que não tem mais parentesco algum nem com o nacionalismo
europeu primário, do século X IX, nem com o nacionalismo
libertador secundário do século X X . Trata-se muito mais de
uma “onda de agitação étnica (ou parcialmente étnica)” (Eric
J. Hobsbawn), que não diz mais respeito ao surgimento, mas
antes ao desmoronamento das economias nacionais. Nessa me­
dida, não se trata de modo algum de um nacionalismo em
sentido estrito. Pois os Estados nacionais dos séculos X IX e
X X , a despeito de todas as ideologias legitimadoras “etnicis-
tas” e racistas, não se baseavam em parte alguma em lealdades
étnicas. Pelo contrário, estas eram deixadas para trás. Mesmo
no remoto e paradigmático processo de nacionalização euro­
peu, os mais diversos componentes étnicos confluíram para a
formação nacional. Fora da Europa, de uma maneira ou de
outra, a maioria das nações eram formações sintéticas, com­
postas pelas mais distintas tradições, constituindo freqüente­
mente nações pluriétnicas.
O nacionalismo terciário é, portanto, um pseudonaciona-
lismo étnico que nada na contracorrente de seus predecesso­
res; ele é um produto do desespero que assola a população das
economias em desagregação do mercado mundial totalizado.
A globalização economicista do One World e o nacionalismo
terciário mantêm entre si uma relação de implicação recíproca.
Onde são rompidas as estruturas de regulamentação estatal e
nada mais pode ser distribuído, rompe-se também a estrutura
de lealdade. A Eslovênia e a Croácia pensam que podem voltar

61
OS ÚLTIMOS COMBATES

a ser competitivas com mais facilidade, ou mesmo ser aceitas


pela Comunidade Européia, se desfazendo das regiões pobres
da Sérvia e da Macedônia. Esperanças igualmente filantrópicas
são nutridas pelas repúblicas bálticas, que desejam se desligar
da central de distribuição soviética, e pelos azerbaijanos, que
preferem competir por conta própria no mercado mundial,
vendendo seu petróleo ao Ocidente a preço de banana, ao
invés de, por exemplo, fornecer aquecimento aos uzbequista-
neses. É claro que, inversamente, o desatrelamento face às
estruturas distributivas semeia a discórdia nas regiões de po­
breza relativa ou absoluta, que, por sua vez, abandonam intei­
ramente a velha lealdade e se convertem em áreas potenciais
de violência.
A guerra civil já se encontra, portanto, pré-programada e,
na conturbada situação atual, precisa lançar mão de um cons-
truto qualquer, capaz de fundar um caráter comunitário deli­
mitador e excludente. N a falta de outros marcos referenciais,
foram mobilizadas, assim, em muitas regiões, ao lado do fun-
damentalismo religioso do mundo islâmico, lealdades étnicas
que se supunham há muito superadas, como reação agressiva
à desintegração do nível civilizatório. Desenterra-se novamen­
te ox conjunto de injustiças e conflitos, reais ou imaginários,
desde Moisés. O Ocidente não tem como zombar desse irra-
cionalismo inculto. N ão só porque este foi gerado justamente
pelo desencadeamento do sistema global de mercado, mas tam­
bém porque o próprio Ocidente não está livre do mesmo.
Também na Itália, a “ Liga Lombarda” quer se ver livre do
Sul empobrecido e subdesenvolvido. O mezzogiorno ameaça
extravasar as fronteiras italianas e se tornar um conceito pa­
radigmático para as novas zonas de pobreza em todos os países
do próprio Ocidente. N a Alemanha, arde em brasa o conflito
entre “Ossis” e “Wessis”2; nos EUA, é visível uma nova linha
de força que ultrapassa o antigo conflito racial entre negros e

2 Respectivamente, habitantes da ex-RDA (“ Ost-Deutschland” ) e habitantes


da RFA, pré-unificação (“West-Deutschland”) (N. T.).

62
ONE WORLD E NACIONALISMO TERCIÁRIO

brancos, contrapondo agora anglo-saxões e latinos, enquanto,


no Canadá, cresce o separatismo francófono. Não falta muito
para que até mesmo os suíços caiam uns sobre os outros, se
declarando, reciprocamente, alemães, italianos, ciganos ou ex­
traterrestres. Em todas as partes do globo, o novo nacionalismo
terciário remobiliza oposições étnicas ou nacionais que, cu­
nhadas em menor ou maior grau em épocas de nacionalização
passadas, agora se avolumam no One World do mercado total.
E, por toda parte, a força motriz é a reduzida ou exaurida
capacidade distributiva do Estado.
N a verdade, a nacionalização étnica terciária não passa de
um fenômeno de decadência desprovido de qualquer perspec­
tiva histórica. Em oposição flagrante aos antigos movimentos
nacionalistas, esta não possui qualquer estrutura econômica
que possa sustentá-la e levá-la à frente. Também não podem
mais ser levados a cabo de maneira conseqüente os processos
malogrados de libertação nacional secundária ainda existentes.
Os palestinos, por exemplo, não têm a mínima chance de for­
mar uma economia nacional autônoma e competitiva. Um Es­
tado palestino não poderia ser mais que um Estado de opereta,
alimentado por recursos externos. O mesmo vale também, a
despeito da forte legitimação pós-holocausto, para o Estado
nacional israelense, que ainda não é sequer capaz de produzir
a metade de seu PIB. E, se nem mesmo os eslovenos conseguem
o montante necessário em divisas para cobrir sua planejada
moeda própria - o “tolar” - , então também não o lograrão os
croatas, os lituanos, os armênios e os curdos, e muito menos
os sardos ou bascos, para não falar nos tchetchênios e gagau-
zios. As lealdades étnicas do desespero são em seu conjunto
insustentáveis. Elas não são capazes nem de substituir o velholf
Estado nacional em frangalhos, nem de produzir novas estru-V
turas sociais reprodutivas. Essas lealdades apenas se consti­
tuem em meio a e por meio de guerras civis abertas ou latentes,
e subsistem apenas enquanto estas não tenham se exaurido.
Nessa medida, o nacionalismo terciário é apenas uma forma
transitória de aniquilamento.

63
OS ÚLTIMOS COMBATES

Não tem sentido querer deter a barbárie étnica e pseudo-


religiosa provocada pelo caractere economicista do One
World, moldado pela forma-mercadoria, através de “debt-ma-
nagement” e ações policialescas de legitimidade duvidosa -
como se fez até agora - tendo em vista exclusivamente os in­
teresses estratégicos ocidentais. Se a ONU deve ser legitimada
como instância mundial, então os próprios estados ocidentais
e blocos econômicos devem ser os primeiros a lhe conferir
“soberania” . Ademais, as ações policiais dos capacetes azuis
deveriam se voltar em primeiro lugar contra os obscuros clãs
de latifundiários na América Latina, na Ásia e na Arábia, a fim
de afastar, ao menos, a miséria mais primária através da desa­
propriação de suas terras e de reformas agrárias há muito pre­
mentes. Uma ONU, assim legitimada, deveria então passar a
organizar transferências internacionais de recursos que não
estivessem atreladas aos princípios de concorrência e rentabi­
lidade da lógica mercantil. Se a generalização do grau ocidental
de industrialização e do padrão de produtividade poderia sig­
nificar o imediato colapso ecológico da Terra, e se, no entanto,
ficam aquém de qualquer reprodução viável os países que não
conseguem alcançar esse padrão, então a “troca de equivalen­
tes” do sistema produtor de mercadorias conduz, ela mesma,
a uma situação absurda. A ONU, enquanto instância mundial
efetiva, deveria zelar pela manutenção de uma produção de
gêneros vitais em todos os países e se esforçar para que nas
relações internacionais cada país só precisasse fornecer o que
pudesse fornecer a baixo custo, sem levar em consideração o
padrão fixado pelo sistema de mercado. Não teríamos, assim,
como conseqüência, um “Estado mundial”, o qual, segundo a
lógica mercantil global, precisaria de uma segunda Terra e uma
segunda humanidade para se realizar, a fim de delimitar e ex-
ternalizar seus custos de produção. A Comunidade Européia,
enquanto burocracia supra-estatal, também não faz mais que
dar continuidade ao mesmo processo destrutivo, dessa vez em
esfera continental, em nome dos mesmos mandamentos de
rentabilidade. Seria necessário, sobretudo, um rompimento
social da própria lógica mercantil a nível mundial.
ONE WORLD E NACIONALISMO TERCIÁRIO

Essa proposta é talvez menos utópica do que possa parecer


à primeira vista. Se os estados que competem no mercado
mundial3 e os blocos econômicos não querem legitimar a ONU
de maneira efetiva, então mais cedo ou mais tarde sua pretensa
“soberania” lhes será tomada de maneira muito mais dolorosa
pelos mercados financeiros autonomizados. As catástrofes eco­
lógicas, que atravessam fronteiras, exigem, ademais, não ape­
nas medidas “não rentáveis”, mas supranacionais. Segundo a
opinião unânime de especialistas, faltará por exemplo, num
futuro bem próximo, aos combatentes fundamentalistas de
ambos os campos do conflito árabe-israelense, algo bem fun­
damental: a água. E se, a despeito de sua insolvência, os búl­
garos não tiverem garantido seu fornecimento de energia no
próximo inverno, eles colocarão de novo para funcionar suas
defeituosas usinas atômicas que, mais dia ou menos dia, voarão
pelos ares de toda Europa
De qualquer modo, a ONU, enquanto instância mundial
efetiva (o que hoje não é nem pode ser, tendo em vista a con­
tínua e obstinada ficção de uma “soberania” mantida no âmbito
dos estados nacionais) pressuporia uma mudança fundamental
nas relações sociais de lealdade. Seria também necessário que
essa mudança viesse “de baixo” e se situasse ao alcance da ação
dos indivíduos. Um movimento social que lutasse por uma
ONU modificada, em favor da renúncia à soberania por parte
dos estados que competem no mercado mundial, romperia
também com a falsa alternativa entre lealdade nacional e agi­
tação étnica no interior da sociedade. Já existe, em âmbito
regional, um grande número de alternativas, de movimentos
de resistência e desobediência civil contra as desoladoras ten­
tativas de regulamentação e os projetos faraônicos do mercado
mundial constituído como estado4’ Os protestos contra a pa­
ralisação e sucateamento de regiões inteiras, contra o assola-

! Weltmarktstaaten, em alemão. Literalmente: estados do mercado mundial


(N. T.).
4Weltmarktstaat,em alemão. Literalmente: estado do mercado mundial (N.
T.).

6S
OS ÚLTIMOS COMBATES

mento social e a esterilização cultural, contra abusivos gastos


militares, grandes aeroportos, usinas atómicas e monstruosas
estações de tratamento nuclear, contra a tara automotiva, o
tránsito intensivo e a destruição da paisagem, constituem um
poderoso arsenal social. E mesmo nas economias em desagre­
gação pode ser sentida uma considerável resistência, não ape­
nas ao estado de sítio da administração estatal, mas igualmente
ao etnonacionalismo belicista.
Todavia, para que essas iniciativas regionais possam efeti­
vamente mobilizar seu potencial transformador, é preciso que
elas superem a obtusidade expressa pelo princípio de São Flo-
rian (“ Poupe minha morada, incendeie outras” ), tomando
consciência de sua própria dimensão social a nível mundial.
Só um regionalismo aberto para o mundo, emancipatório,
multicultural e sócio-ecológico (e hoje quase todas as regiões
do mundo estão estruturadas de maneira multiétnica e multi­
cultural) poderia fundar uma nova reciprocidade entre leal­
dade global e regional, capaz de assumir uma posição de
desconfiança frente às tradicionais instituições européias. A
! crise global do sistema de troca de mercadorias não pode mais
) ser resolvida através da tradicional transformação democrática
I de interesses mercantis nas formas limitadas do mundo de es-
' tados parlamentares ocidental.
Pós-Imperialismo
A nova face do mundo e a velha visão da esquerda

1.

Quando o objeto da crítica se modifica, também a própria


crítica deve modificar a si mesma. Se, no início do século X X ,
a transformação do modo de produção capitalista alterou o
sistema de referencia dos conflitos sociais, conduzindo-o a um
novo estágio (imperialismo, economia de guerra, taylorismo,
ideologização das massas, etc.), transformando também de ma­
neira controversa o marxismo do movimento operário até en­
tão vigente, talvez a ruptura de época, no final do século XX,
exija uma transformação ainda mais ampla. E contraprodu­
cente, por isso, querer se “apegar” a modelos teóricos supos­
tamente resguardados. Em vez disso, seria necessário levar a
sério, de uma vez por todas, a mudança no sistema referencial
político-econômico.
Só agora, passado o período de incubação dos anos 80, as
novas forças produtivas pós-fordistas da microeletrônica e seus
conceitos correlatos de racionalização (descritos em seu con­
junto, de acordo com o referencial teórico escolhido, como
segunda ou terceira revolução industrial) mostram seu verda­
deiro potencial de crise: pela primeira vez, a riqueza material
(e também ecologicamente destrutiva) é produzida antes pelo
emprego tecnológico da ciência que pelo dispêndio de trabalho

67
OS ÚLTIMOS COMBATES

humano abstrato. O capital começa a perder sua capacidade


l de valorização absoluta e alcança com isso aquele estágio, ex­
trapolado logicamente por Marx, no qual a forma de sociali­
zação do sistema produtor de mercadorias - que “repousa no
valor” - esbarra em seus limites históricos.
A crise da forma-mercadoria é, no entanto, filtrada pelo
movimento do mercado mundial, ou seja, através da luta global
pela parcela decrescente de valor “válido” ; luta essa que pos­
sibilita (e domina) as próprias forças produtivas que serão res­
ponsáveis pela desvalorização da força de trabalho. Os capitais
mais produtivos abatem concorrencialmente aqueles que não
podem mais acompanhar o elevado padrão de produtividade,
mobilizando para tanto vultuosas somas de capital fixo. Os
velhos perdedores e os novos retardatários só podem continuar
no páreo à custa de baixos salários (ou ainda trabalho forçado
ou escravo) e, assim mesmo, em alguns poucos setores com
orientação exclusivamente exportadora (como é o caso da Eu­
ropa Oriental e do Sudeste Asiático). Todavia, com o estabe­
lecimento de um padrão global de produtividade, os baixos
salários não podem produzir nenhuma massa adicional de va­
lor “válida”, mas servem apenas para ampliar de modo precário
a capacidade de concorrência no interior do processo de re­
tração da substância-valor “válida” . Institui-se, assim, em qua­
se todos os setores, seja através de investimentos de capital,
seja através de estruturas exportadoras mantidas por baixos
salários, uma competição repressora em âmbito global.
Podia parecer, à primeira vista, que o processo de crise
transcorreria de maneira escalonada, acompanhando a situa­
ção de cada economia nacional, e deixaria por último as nações
mais fortes do ponto de vista do capital, capazes de sustentar
por mais tempo o processo de simulação monetária através do
endividamento do Estado e do sistema de crédito. Primeiro
sucumbiram as economias do Terceiro Mundo e do socialismo
de Estado, que passaram a ser exemplo de uma “modernização
tardia”, fadada desde então ao fracasso no interior do hori­
zonte burguês. Nos anos 90, porém, a crise parece avançar a
passos largos em direção às economias nacionais estabelecidas.

68
PÓS-IMPERIALISMO

O limite do modo de produção se expressa na forma de custos


de produção continuamente ascendentes, e pressiona, cada vez
mais sem o filtro das demarcações nacionais, as contas empre­
sariais. Fornecedores e força de trabalho, bem como mercados
consumidores, devem ser buscados diretamente a nível global
e ser flexivelmente cambiáveis de acordo com a oferta de mer­
cado.
Os índices aparentemente elevados de crescimento do co­
mércio mundial não se baseiam mais, nessas condições, em
uma exportação de capital e mercadorias nacionais à moda
antiga, mas são antes fruto do progressivo desmonte global do
que, até então, eram as economias internas. Um produto ven­
dido por uma empresa “alemã” no mercado alemão pode ser
produzido na Inglaterra e em Hong-Kong, montado no Sul da
China e expedido da Polônia, conforme sua planilha de custos.
A produção das fábricas japonesas de chaves de fenda aparece
nos EUA como exportação do México, ou na Espanha como
exportação inglesa. O mesmo processo se repete no plano mo­
netário. Exportações alemãs para a China, provenientes na
verdade de uma empresa francesa, podem ser faturadas em
ienes; créditos em marcos podem ser tomados nos EUA por
uma empresa japonesa. Todos os componentes do processo
capitalista perambulam pelo globo.

2 .
Como conseqüência desse desenvolvimento, se desfazem
os laços entre a esfera estatal, ou seja, a política, e a reprodução
capitalista. O Estado e a política, obviamente, não desaparecem,
mas se desvinculam de seus próprios fundamentos econômicos
(gerando a crise da esfera política). Em meio à competição re-
pressora globalizada surge o perfil de um capital que não é
mais produzido essencialmente a partir da massa nacional de
mais-valia (gerada pela economia interna das nações), mas an­
tes pela distribuição da mais-valia mundial em retração por
meio de estruturas globais de perdas e ganhos, apenas indire-
OS ÚLTIMOS COMBATES

tamente vinculadas às velhas economias nacionais. Não é mais


possível, sobre essas bases, nem uma “luta de classes” nacional,
nem tampouco a defesa ou mobilização, neste plano, de inte­
resses capitalistas coerentes. O Estado não é mais o capitalista
ideal que zelava em tempo integral pelo estoque de capital
nacional e podia concentrar e representar a vontade capitalista
como um todo. No próprio Ocidente, o Estado começa a per­
der o controle sobre os processos sociais concernentes à sua
população e ao seu território e se torna dependente de uma
“localização privilegiada” . Só de maneira limitada, ele pode
garantir condições capitalistas básicas, na medida em que mar­
ginaliza uma parcela de sua população que não é mais passível
de financiamento. Se, por um lado, são desmontadas estruturas
de produção, fornecimento e serviços que haviam durado dé­
cadas e desconectadas regiões inteiras, que correm o risco de
se transformarem em desertos, por outro, a favelização, a dis­
seminação da barbárie e o domínio de máfias coloca em xeque
as funções do Estado.
Numa situação como essa, de dissolução gradativa de sua
economia interna, não há nada que o Estado prescinda mais
que áreas de influência e domínio imperial. O que eram van­
tagens fundamentais numa posição de supremacia mundial, a
saber, o aproveitamento garantido de determinadas capacita­
ções da força de trabalho, matérias-primas e mercados consu­
midores, agora são desvantagens. Estruturas fixas se tornam
um fardo, porque o que hoje pode ser a vantagem de uma de­
terminada região, amanhã pode se converter em desvantagem,
e mesmo porque podem se abrir possibilidades mais atrativas em
matéria de custo em uma região do mundo completamente dis­
tinta. Os investimentos precisam ser fluidos, flexíveis e facil­
mente desviáveis e devem, ademais, concorrer pelos melhores
juros nos mercados financeiros globais. Em princípio, todos
devem estar presentes em toda parte e ser capazés de desapa­
recer de novo na hora certa. Sob essas condições, um império
nacional ou multinacional parece algo antediluviano, seus cus­
tos de financiamento ultrapassam em muito seus rendimentos
e ameaçam se tornar ruinosos.

70
POS-IMPERIALISMO

O protecionismo estatal não pode deter esse desenvolvimen­


to como um todo, mas, ao contrário, torna-se ele próprio selva­
gem, em função de um acordo definido globalmente (GATT), e
adquire o aspecto de uma mata cerrada bi- e multilateral, onde
são gradativamente eliminados todos os abrigos de proteção para
indústrias “nacionais” necessitadas. Nessas condições, não pare­
ce ser provável nem mesmo a divisão do mundo em apenas três
grandes blocos de poder (Leste Asiático, sob a liderança do Japão;
as Américas, sob a liderança dos EUA; e a Europa e a Eurásia,
sob a liderança de uma coalizão centro-européia). Até as própria^
estruturas de poder continentais perderam sua eficácia em vista
dos grandes circuitos para rolagem de déficits, dos fluxos unila-;
terais de exportação e dos investimentos diversificados global-*
mente. Todo o Leste Asiático exporta para o resto do mundo,
sem importar de maneira correlata, o que, por si só, já impede
a formação de um espaço econômico autônomo. Os investimen­
tos japoneses se encontram espalhados pelo mundo inteiro e os
EUA se vêem não só mais apegados que nunca ao mercado mun­
dial, mas dependem há muito, também nos setores aparentemen­
te autárquicos, de sua gigantesca economia interna, da compra
de seus títulos estatais por parte do capital especulativo e dos
fundos de pensão de firmas japonesas. Também a RFA só pode
financiar sua alimentação improdutiva da Alemanha Oriental
com o afluxo de capital monetário americano e japonês. A ban­
carrota iminente da ciranda deficitária e do sistema monetário
europeus reforça as forças centrífugas e efetivamente impossibi­
lita a formação de um bloco continental autônomo. As novas
crises servirão apenas para reforçar ainda mais esse potencial de
diversificação fugidia e global. Os nomes nacionais do capital
passam a não ser mais que o manto de uma reprodução global­
mente dispersa e em fase de dissolução.

.3.
Ao se aferrar a seus velhos pontos de vista, a esquerda
interpreta de maneira inteiramente equivocada a situação efe­

71
OS ÚLTIMOS COMBATES

tiva e, com isso, classifica como demonstrações de força im­


perialistas de nações ou blocos econômicos fenômenos que,
na verdade, marcam oposições pós-imperialistas em meio ao
processo de crise. A política estatal de bloqueio contra refu­
giados da pobreza, por exemplo, não pode de modo algum ser
listada dentre os interesses capitalistas que, ao contrário, es-
) peram com a imigração reforçar o dumping social e atenuar a
pressão dos custos empresariais. Inversamente, a mudança nos
direitos de asilo não pode ser explicada como uma “conquista”
capitalista dos países do Leste, pois essa nasce antes da espe­
rança ilusória de edificação de uma “fortaleza européia”, capaz
de fazer face às economias em desagregação. Os empréstimos
estatais para a CEI, por sua vez, não representam uma espécie
de linha de frente do capital ocidental para liquidações comer­
ciais, mas antes, tomam seu lugar (em vista do temor de evasões
descontroladas) e se perdem nos bolsos da máfia, pois não
existe nenhum projeto rentável em larga escala, com exceção
de algumas joint ventures mantidas à custa de baixos salários.
Tampouco se pode colocar no mesmo saco o novo radica­
lismo de direita e as ações dos capacetes azuis alemães em
regiões de guerra civil. Não deixa de ser irônico que a maioria
dos novos radicais de direita, a exemplo da esquerda antiim­
perialista, seja estritamente contra o derramamento de “sangue
alemão” em terras estrangeiras. Isso corresponde ao ideal ilu­
sório de bloqueio e isolamento do neonacionalismo em geral,
que não deseja mais subjugar “o outro”, mas antes mantê-lo
] “fora de suas fronteiras” . Mesmo na apostila direitista, Junge
Freiheit, um futuro geopolítico, teve dificuldades para protes­
tar contra o difundido “pacifismo para fora”, e, a despeito do
protesto, não pôde mais relacionar sua estratégia a objetivos
e interesses imperiais caducos, tendo de se contentar com um
esperado “represamento do caos” .
Por seu turno, a ação dos capacetes azuis (contando ou
não com a participação alemã) não pode nem mais ser enqua­
drada entre os interesses de aproveitamento de recursos espe­
cíficos, nem tampouco na linha da “pura” demonstração de
força. Se o aproveitamento de ilhas de produtividade, baixos

72
POS-IMPERIALISMO

salários e estruturas bancárias isoladas e flexivelmente alarga­


das não implica mais na delimitação de zonas de influência
específicas, com a crise da função política e do caráter estatal,
também se torna obsoleto o controle de estados “soberanos”
mais poderosos sobre menos poderosos. Ora, para que haja
em geral uma relação entre “soberanos”, é preciso que um
deles se mantenha enquanto tal. No entanto, com o desmoro­
namento do poder estatal e o estabelecimento de uma economia
de saque, o que se vê no Cáucaso, na Somália e na Iugoslávia
é o império de clãs, senhores da guerra, bandos e máfias. Esse
estado de coisas começa a se alastrar por toda a parte e, junto
com o controle imperial sobre o domínio político vigente em
outra parte, leva a uma situação absurda.
Por isso, também é inteiramente incerta a definição estra­
tégica das discutidas ações da ONU. A incipiente barbárie pós-
imperialista faz com que as velhas “potências” disputem menos
pela responsabilidade do que pela irresponsabilidade frente
ao número crescente de regiões “pós-políticas” devastadas.
Nessas regiões, não se promovem mais guerras representativas
ao velho estilo, nem mesmo em uma renovada constelação de
concorrência imperialista, mas se vê antes a inflamação interna
mediada pelo processo global de crise. Nesse contexto, é pos­
sível criticar com igual direito tanto a intervenção quanto a
não intervenção. O regime de Saddam Hussein não foi obri­
gado à capitulação, assim como não serão desarmadas as mi­
lícias na Somália, nem tampouco será a Bósnia transformada
em um protetorado da ONU, como exigem os grupos pacifistas
locais contra todos os partidos em guerra. Os estados pós-im-
perialistas hesitam pois, em virtude de suas próprias crises
internas, que colocam em xeque a função da política, temem
não só criar precedentes para a supressão 1 da “soberania” es­
tatal (e não, como antes, apenas a perda do controle imperial
externo), mas ainda institucionalizar assim uma forma de res­
ponsabilidade global e não-estatal pelas regiões desagregadas,

1 Aufhebung, em alemão (Vide ensaio “A Intelligentsia depois da luta de


classes” , nota 7) (N. T.).

73
OS ÚLTIMOS COMBATES

deixadas à margem do mercado mundial. E, no entanto, como


evitar tal curso se a lógica desse mesmo mercado deve conti­
nuar válida daqui para a frente? Sob essas condições, é urna
alternativa aparente e inaceitável, tanto o apoio quanto a re-
\ cusa irrestrita às ações da ONU. Caberia antes desenvolver
uma prática emancipatória correlata à nova constelação mun­
dial, capaz de formular uma posição própria e de viés. Tal
perspectiva não pode ser obtida a partir da ótica imanente ao
horizonte político atual, condicionada a impingir sempre no­
vas obrigações decisorias - falsas e contraproducentes - no
beco sem saída da socialização capitalista mundial.

4.

A velha esquerda antiimperialista sucumbe porque seu


próprio pensamento continua atrelado à forma-mercadoria e
à forma-política burguesa e, logo, não pode mais reagir à bar­
reira histórica do sistema produtor de mercadorias. Se a ex-
esquerda realista2 (com a qual a esquerda radical partilha a
crença na eterna capacidade de acumulação do capital), iludida
com democracia de mercado, se limita a inverter suas antigas
posições e a propagar uma espécie de colonialismo com direi­
tos humanos inteiramente quimérica, o velho antiimperialis­
mo, centrado na luta de classes, se vê sem objeto. A mobilização
dos “interesses da classe trabalhadora”, repetitiva e orientada
para um espaço de referência nacional, se desmoraliza sem a
reflexão crítica acerca da forma-mercadoria, ou seja, sem a
reflexão acerca da forma-monetária inerente a esses interesses.
Em face da realidade efetiva, também se ridiculariza definiti­
vamente a ilusão burguesa ilustrada do Estado como portador
de uma vontade geral livre - própria da esquerda radical -
idêntica à ilusão de que um sujeito mercantil seria capaz de
passar por cima das leis cegas da produção de mercadorias e
obter poder de definição sobre si próprio.

2 Ex-linken Realos, em alemão (idem, nota 11) (N. T.).

74
PÓS-IMPERIALISMO

Uma mesma linha pode traçar o desenvolvimento da ilusão


da vontade politicista - que tem por base a reprodução da
forma-mercadoria - partindo do “primado da política” de Le-
nin, e passando pela teoria do “capitalismo organizado”, for­
mulada com Kautsky e Hilferding, pelo “estatismo integral”
da teoria crítica, pelo “estado planificado” dos Operaístas3
(que acreditavam seriamente na eliminação do fetiche da mer­
cadoria através da “vontade de poder”), pela “teoria da legi­
timação” habermasiana, até chegar ao “derivacionismo de
Estado” do Grupo Marxista 4 e nas “teorias de regulamenta­
ção” fordistas, dos socialistas de esquerda. Agora, justamente
em meio a sua crise, o fetiche cego do capital passa à frente
dos falsos conceitos da esquerda sobre a política, o Estado, a
“soberania” e a vontade, e esta, em todas suas facções restantes,
reage abertamente com o mote: “tanto pior para a realidade” .
Os remanescentes do velho radicalismo chegam a ponto
de denunciar os prognósticos de uma transição iminente para
a barbárie global como “falsa certeza”, pois estão condiciona­
dos ao cómputo mecânico de fenômenos de crise inteiramente
contraditórios e contrapostos entre si - tais como a unificação
alemã, a alteração no direito de asilo, o novo radicalismo de
direita e as ações da ONU - como “renascimento do imperia­
lismo nacionalista alemão” . Os náufragos críticos da sociedade
foram de tal modo arruinados pela política e imbecilizados
pela agitação, que só pode lhes parecer amalucada a tentativa
de analisar uma revolução industrial (a microeletrônica), lan­
çando mão de conceitos teóricos de crise. Eles tomam por
supérfluas tanto uma definição de época, quanto uma nova
historização do desenvolvimento interno do capitalismo, pois

3 Corrente marxista italiana ligada à Autonomia Operária (movimento ex-


traparlamentar de oposição), que teve entre seus expoentes Antonio Negri,
G.E Rawick, M. Gobbini e L. Ferrari Bravo (N. T.).
4 Marxistische Gruppe (MG), em alemão. Grupo criado nos anos 70 em
Munique como dissidência do KPD-ML (Partido Comunista Marxista-Le-
ninista Alemão), atuante nos meios acadêmico e sindical. Até 93, o grupo
editava a revista trimestral “ Gegenstandpunkt”, também nessa cidade (N.
T.).

75
OS ÚLTIMOS COMBATES

este, concebido em conceitos escolares, nunca deixou de ser


o mal de sempre, imutável (ou talvez porque tudo era tão belo
no feudalismo?). Eles não ousam mesmo acusar de “objetivis­
mo”, precisamente, a análise e a crítica das estruturas (real­
mente) objetivadas, por terem desde sempre operado com
conceitos burgueses irrefletidos de sujeito e vontade. Não che­
ga a espantar, assim, que a demanda por uma supressão da
forma-mercadoria e da forma-política - que no atual estágio
da crise do sistema mundial plenamente desenvolvido deve ser
formulada de maneira muito distinta que no passado - seja
vista como reformismo ou fundamentalismo.
Em um ponto, porém, a esquerda radical é de fato insu­
perável: ainda que sem ter consciência do fato, ela mesma
expõe, de maneira ímpar, a crise da política; suas correntes se
relacionam entre si de modo tão histérico que seus líderes e
divulgadores se desmascaram uns aos outros como alemães
nacionalistas, contra-revolucionários, racistas e anti-semitas.
Uma forma natural de auto-extermínio? Bem, mas isso já seria
recair no biologismo.

76
PARTE II
O colapso da modernização

E m sen livro “ O C o lap so d a M o d ern ização” você afirm a que a crise


do ch am ad o “socialism o re al” é nm aspecto de urna crise m ais am pia,
glob al, do sistem a c ap italista com o um todo. A qu eda do Leste E u ­
ropeu representaria ap en as a falên cia de um determ in ad o tipo de
m od ern ização ain d a ligado a o sistem a c ap italista m undial. O que o
leva a identificar um a natureza com um entre a s sociedades em crise
do L este com a s econom ias de m ercado ocid en taisi

O Leste concebeu-se como “mercado planificado”, a au-


tocompreensão do Ocidente favorece (ao menos no plano
ideológico) o “mercado livre da economia concorrencial”. O
denominador comum é o “mercado”, isto é, a economização
abstrata do mundo através de processos de utilização empre­
sarial do homem e da natureza. Marx denominou isso o feti­
chismo da modernidade, e, nesse plano, ambos os sistemas
sempre foram idênticos.
A questão que se colocou para mim, em função da qual
escrevi este livro, foi a seguinte: até que ponto nós não estamos
dentro de um processo globalizante unitario, no qual as dife­
rentes etapas de processos de modernização estão se referindo
a uma conexão global. O sistema mundial de produção de
mercadorias é uma relação global que cobre o mundo inteiro

79
OS ÚLTIMOS COMBATES

na qual também existem relações de reciprocidade entre as


diferentes etapas dessas formações históricas. Nessa perspec­
tiva, penso eu, a gente deve formular a pergunta até que ponto
este socialismo de Estado, o assim chamado socialismo real,
efetivamente representa uma transformação de uma sociedade
capitalista. Até que ponto ele foi efetivamente esta transfor­
mação ou ao menos uma tentativa de transformação. Ou até
que ponto o chamado socialismo realmente existente não re­
produziu, muito pelo contrário, elementos da história da im­
plementação do capitalismo nos séculos passados, só que desta
vez sob as novas condições históricas do século X X .
Isto naturalmente é uma perspectiva que não é comumente
aceita, na bipolarização ideológica do pós-guerra. Do meu
ponto de vista, o conflito Leste-Oeste foi, por assim dizer, o
I conflito ou a concorrência entre diferentes etapas, diferentes
tempos históricos de modernização capitalista. Isto, num pri­
meiro momento, soa paradoxal quando a gente está acostu­
mado pensar neste espaço demarcado pela bipolaridade da
guerra fria, quando a gente pensa nos sistemas inimigos. Quan­
do a gente não faz um esforço de descobrir uma identidade
subjacente à base destes dois sistemas do Leste e do Ocidente.
Penso que a partir da aparência imediata, a partir do qua­
dro referencial limitado, deve forçosamente parecer como se
a alternativa sistêmica tivesse desaparecido. Mas quando a gen­
te coloca tudo isso num quadro referencial histórico, e é isto
que eu tento mostrar, a gente poderia inversamente chegar à
posição segundo a qual o colapso do socialismo de Estado
representa o início do fim do sistema mundial moderno.
N o entanto, esta crise atingiu p rofundam ente o m ovim ento socialista,
que perdeu gran de p arte d as su as referências tradicionais. D esta fo r­
m a, a con strução de um a altern ativ a g lo b a l a o sistem a cap italista se
en con tra ob stru íd a p o r um a crise teórica e p olítica d a esquerda.

O problema que eu identifico aqui é que os conceitos


com os quais se concebe as alternativas pertencem, eles pró­
prios, a esta época que acaba de passar. A época que se en­
cerra, com esta data-limite de 1989. Eu penso que estes

80
O COLAPSO DA MODERNIZAÇÃO

conceitos, estes programas, estas idéias, ainda se encontram


no horizonte da historia de implementação da modernização
tardia. Que estes programas, estas idéias, ainda se orientam
neste horizonte dentro do qual foram cunhados. E o problema
naturalmente é que a gente não pode chegar facilmente a ou­
tros conceitos porque nós estamos, por assim dizer, apenas
com um pé nesta nova época de crise. E mesmo nossos con­
ceitos, nossa terminologia, nossa socialização política e teóri­
ca, ainda estão fortemente imbuídos da tradição desta época
que acaba de passar.
Eu diria até que se deve proceder a uma crítica do pró­
prio conceito de política. N a discussão marxista existe o
conceito pejorativo do economicismo. Eu penso que a orien­
tação, segundo a dimensão política (segundo o político), foi
teoricamente e em princípio um movimento de desvio do
marxismo, no qual o marxismo não se colocou certos pro­
blemas. Isto porque a economia não é simplesmente a eco­
nomia, a economia não se reduz à economia no sentido
comum. Ela representa o forno social segundo Marx, a própria
forma do sistema produtor de mercadorias. E isto significa
essencialmente mais do que uma economia num sentido es­
trito.
O problema me parece ser o seguinte: o marxismo tradi­
cional não tinha condição de formular concretamente o pro­
blema da crítica da forma mercadoria e seus desdobramentos
práticos. Em função disso, o marxismo tradicional se viu obri­
gado a proceder um desvio para a política. Eu a definiria, a
política, não como um dado ontológico, previamente existen­
te, mas como um conceito historicamente limitado que per­
tence à história da implem entação do moderno sistema
produtor de mercadorias. As reformas e revoluções realizadas
nesse horizonte converteram os trabalhadores em sujeitos do
direito civil, em sujeitos de relações contratuais e em cidadãos
modernos. Além disso, elas estabeleceram condições de traba­
lho modernas, mas não alteraram a essência do sistema de
produção de mercadorias.

81
OS ÚLTIMOS COMBATES

Enquanto o sistema produtor de mercadorias não se tinha


transformado em um sistema global, concreto, a política foi a
maneira pela qual este sistema foi historicamente encaminha­
do e através da qual seus aspectos emancipadores são explici­
tados. Isto é o que Marx chamava de “missão civilizadora do
capital” . O movimento operário tradicional faz parte deste
período. Para esclarecer isto um pouco, eu diria que, até o
início do século X X , na maioria dos países do mundo, não
existia o direito universal de voto. Em muitos países, por exem­
plo, a Alemanha, até 1918, haviam ainda elementos pré-modernos,
patriarcais na sociedade. Neste horizonte da implementação, da
universalização da forma burguesa do sujeito, neste horizonte,
o conceito do político encontrou o seu lugar.
E se nós observarmos este aspecto do ponto de vista his­
tórico, certamente foi necessário que a política fosse colocada
em primeiro lugar, que ela recebesse o primado e que as me­
diações políticas fossem consideradas significativas. No entan­
to, eu me pergunto agora se nós não chegamos num estado no
qual este objetivo, de universalização das formas burguesas do
sujeito, se efetivou. E no momento em que este objetivo foi
atingido, inclusive nas suas dimensões negativas, nas suas di­
mensões de crise, neste momento, a política, no sentido tra­
dicional, deixa de ter um objeto.
Isto ap o n taria p ara u m a revalorização de certos m ovim entos consi­
derad os “n ão p o lític o s” ou “pré-políticos”, que a esquerda tradicional
sem pre subestim ou, com o os m ovim entos de m ulheres, de juventude,
a con tracultu ra, a ecologia, entre tan to s o u tro s?

Eu pensó que a questão deve ser formulada precisamente


nestes termos. E, naturalmente, nós já conhecemos tais movi­
mentos na Alemanha, na Europa, mas, certamente, eles já fo­
ram experimentados no Brasil ou em outros países do Terceiro
Mundo. Eu penso que a gente não deve se deixar assustar pelo
fato de que estes movimentos no passado sofreram apenas
reveses. Foi talvez apenas a primeira tentativa do passado, as­
sim como o antigo movimento operário teve de dar muitas
largadas para poder cumprir o seu papel histórico.

82
O COLAPSO DA MODERNIZAÇÃO

Penso que o ponto central para que tais movimentos fu­


turamente possam desenvolver uma crítica mais aguda, uma
crítica mais precisa e pertinente das relações existentes, seria
ligar o conteúdo e os questionamentos concretos destes mo-
. vimentos com uma crítica coerente do sistema de produção
" de mercadorias e da lógica da forma mercadoria, quer dizer,
da racionalidade da forma da mercadoria. E isto, até o pre­
sente, foi antes uma questão extremamente esotérica, uma
questão aparentemente filosófica, mas, talvez, agora, tenha
chegado o momento no qual as potências e as próprias forças
produtivas, o próprio estado do sistema mundial permita que
esta crítica, estes questionamentos, possam pela primeira vez
ser feitos em termos concretos e práticos.
E sta crítica ao s lim ites d a p olítica nos m arcos do sistem a p rod u tor
de m ercadorias, asso ciad a a u m a revalorização de m ovim entos alter­
nativos, ap on taria p ara u m a perspectiva de secundarizar a lu ta p o lí­
tica, enquaitto form a de m u d ar a so cied ad e?

Eu gostaria de ser extremamente cauteloso neste sentido.


Uma crítica teórica do conceito de política não pode ser con­
fundida com uma rejeição pura e simples de todas as forças
políticas, porque o problema, afinal de contas, também é sen­
tido pelos ativistas políticos e pelas pessoas que militam nos
partidos políticos. E as pessoas que estão organizadas em par­
tidos políticos pertencem às forças despertas, as forças ativas
e críticas da sociedade.
O problema é, penso, como se pode, a partir do reconhe-
| cimento da paralisia na qual se encontra a forma política, como
\ se pode sair dessa paralisia e como a gente pode se emancipar,
Ipara formular de maneira paradoxal, como pessoa política da
forma política tradicional. Eu aceitaria naturalmente também
que há grandes diferenças entre as diferentes partes do mundo
que apresentam graus diferentes de desenvolvimento, apesar
disso, permanece o problema que nós agora estamos vivendo
num sistema global unitário e as diferentes defasagens histó­
ricas não estão mais separadas umas das outras, pelo contrário,
' estão se interpenetrando.

83
OS ÚLTIMOS COMBATES

Na Europa, no Primeiro Mundo, nós já podemos identi-

1
ficar eleijientos do Terceiro Mundo, e no Terceiro Mundo
existem elementos do Primeiro Mundo. Nós já não temos mais
mundos bonitinjios separados, mas uma espécie de colcha de
retalhos, e nesta colcha de retalhos se evidencia o caráter uni­
tário do sistema global em meio à sua crise. Eu penso que o
problema mais difícil para os tradicionais partidos operários
será até que ponto, e se, eles serão capazes, terão a vontade
política de se referirem criticamente ao problema da exclusão
da esfera do trabalho abstrato.
Isto porque a política operária e sindical tradicional por
sua natureza, por seu próprio conceito, está referida basica­
mente aos problemas salariais, das pessoas que vivem em re­
lações de trabalho que incluem dependência salarial. Eu não
sei como as coisas são aqui no Brasil, mas na Alemanha, por
exemplo, o problema se torna cada vez mais claro, os sindicatos
não dão mais um voto em favor dos excluídos do sistema, se
excetuarmos a fraseologia moralista sem compromissos maio­
res. Em termos reais, a massa crescente daqueles que caem
fora do sistema de produção está abandonada cada vez mais
à administração da pobreza por parte do Estado. E eu penso que
; este será também o problema de qualquer partido de esquerda
se este partido chegar ao governo no sentido tradicional.
A crise g lo b a l do sistem a ap o n taria, p ortan to, p a ra a tendência à
con stitu ição de um a espécie de "ap arth eid so c ia l”, onde u m a m inoria
integrada ao sistem a se defronta com um a m assa c ad a vez m aio r de
d esp o ssu íd o s?

Num primeiro momento sim, há uma tendência ao apar-


\ theid social nos países mais desenvolvidos. Isto já é uma rea-
} lidade hoje. Mas eu penso que o processo não deverá ficar por
aí. Se nós retrocedermos e examinarmos os problemas de prin­
cípio, da acumulação capitalista, e se nós mantivermos a tese
de Marx (que na minha opinião até hoje não foi refutada), de
que a acumulação do capital, quer dizer, a acumulação de valor,
na sua substância, repousa na utilização do trabalho humano

84
O COLAPSO DA MODERNIZAÇÃO

abstrato, então nós estamos neste mesmo processo que num


' primeiro momento se manifesta como um apartheid social e
simultaneamente diante de uma autocontradição fundamental
do próprio sistema.
E, neste caso, nós estamos diante de uma barreira, de um
obstáculo historicamente novo à acumulação do capital. Isto
significa, na minha opinião, que seria completamente errôneo
pensar que numa base social reduzida a acumulação do capital
possa continuar sem maiores problemas até a eternidade. Para
' poder demarcar aqui o obstáculo histórico concreto que define
a crise do capital, nós deveríamos, por exemplo, examinar a
situação dos mercados financeiros globalizados. Isto significa
que o que, por um lado, num pólo, aparece como uma degra­
dação social, aparece no outro pólo como uma crise do di­
nheiro, como crise da própria forma do capital. E, neste
sentido, nós estamos no fundo de uma ironia involuntária
quando esta situação histórica é designada como uma vitória
do capitalismo.
E neste quadro geral de glo b alizaç ão do sistem a, q u al o p ap e l que
cabe ain d a ao s E sta d o s N a c io n a is?

Eu penso que este problema deve ser visto de forma muito


diferenciada. Porque, por um lado, o sistema dos Estados Na-
J cionais continua sendo o terreno no qual as forças da crítica
/ se aglutinam. Por outro lado, o Estado Nacional não pode mais
Si ser para estas forças o único e essencial sistema de referência.
Deveríamos, portanto, refletir sobre o papel que o Estado Na-
! ção desempenha na crise do sistema global. A medida em que
este Estado Nacional ainda desempenha um papel, este papel
parece essencialmente ser o papel da externalização, vale dizer
da transferência dos custos da crise para os outros Estados
: Nacionais.
Este é, naturalmente, o papel do Estado Nacional para as
nações mais desenvolvidas que, durante um certo tempo, em
meio à crise comum do sistema mundial, procuram, através
dessa externalização, preservar a normalidade capitalista ao

85
OS ÚLTIMOS COMBATES

menos para uma parte da sua população. Mas, por outro


lado, a gente precisa se dar conta também que o Estado
Nacional hoje não existe mais, ou melhor, não existe mais
um Estado Nacional que ainda tenha poder de controle so-
'-7 ' bre sua reprodução básica. Os grandes capitais orientados
para o mercado mundial não se referem mais a estruturas
nacionais coerentes em si mesmas, eles não perseguem mais
estratégias de economias nacionais. Eles procuram fazer
com que a minimização de custos de produção se realize
! através de uma distribuição global de suas estratégias ope­
racionais.
Em outras palavras, estes grandes capitais entram numa
certa oposição às classes políticas tradicionais. As classes po­
líticas estão fixadas no sistema referencial do Estado Nacional,
ao passo que o capital opera num espaço econômico que há
muito tempo transbordou o Estado Nacional. Eu penso que
uma crítica, um movimento crítico, um movimento de oposi­
ção, deveria incluir todos estes momentos em sua reflexão.
Em cima deste desafio é que a discussão começou. Sem este
desafio, ela nem teria iniciado.
O d ilem a que está se enfrentando hoje no B rasil é o de com o sair dos
esp aços regionais, de experiências de poder lo cal e fo rm u lar um p ro ­
gram a, um p rojeto de caráter n acio n al dentro d essas novas condições
in ternacionais. E ste desafio, na a tu a l conjuntura, se torna ain d a m ais
com plexo em fu n ção d a inexistência de m odelos, d a crise dos p a ra ­
digm as que vinham orientando a a ç ã o da esquerda m undial.

Eu penso que isto é inevitável. O conceito de alternativa,


o conceito de socialismo de que nós dispomos, este conceito
pertence ele mesmo à história da modernização. E toda esta
riqueza de idéias, de programas e também de formas práticas,
aparece agora como algo que perdeu o seu valor. N ão porque
esta riqueza nunca teve valor em si, mas porque ela cumpriu
, as possíveis tarefas históricas que lhe eram próprias, porque
agora esta riqueza se tornou história.
O COLAPSO DA MODERNIZAÇÃO

Agora aparece urna nova etapa de crítica historicamente


possível. Num primeiro momento, ela aparece como uma abs­
tração extremamente esquemática, que é a crítica da forma
mercadoria. E isto nos parece ser uma abstração extremamente
pobre comparada com a riqueza das antigas formas de crítica.
Penso que este problema do operar em termos pragmáticos
em regiões delimitadas e de como chegar deste operar em
regiões delimitadas para uma universalização maior, para uma
política mais universal, esta transição não se pode restringir
ao espaço da soberania do Estado Nacional tradicional.
O pólo oposto ao campo de operação regional deveria
ser uma nova forma de movimento internacional, isto porque
os problemas têm um caráter internacional, eles são interna­
cionais num grau muito mais elevado do que foi o caso na
história da modernização até o presente. N ós estamos diante
de problemas globalizados. E a questão que se impõe é a
seguinte: será que as forças da crítica terão condições de
ocupar este terreno das relações globais, será que terão con­
dições de o fazer a nível teórico e prático. Em outras pala­
vras, estamos talvez diante da pergunta: até que ponto é
possível se contrapor ao internacionalismo abstrato das es­
querdas tradicionais.
Isto porque este internacionalismo das esquerdas tradicio­
nais era um internacionalismo que estava limitado e referido
ao destino das economias nacionais. Até que ponto seria pos­
sível chegar a um internacionalismo concreto, no qual se ar­
ticulem pessoas de diferentes países, de diferentes regiões do
globo, que se encontram em situações similares quanto aos
seus problemas, precisamente em função do processo de glo­
balização. Até que ponto estas pessoas de diferentes regiões
de repente se tornam capazes de se valer dos novos meios de
produção, por exemplo, os novos meios de comunicação, para
mobilizá-los para si e para a crítica. Até que ponto não se pode
utilizar estes meios tão concretamente quanto estes meios têm
sido utilizados até este momento apenas para o processo e
reprodução do capital.

87
OS ÚLTIMOS COMBATES

E ste novo in tern acion alism o n ão seria prejudicado pela grande frag­
m en tação d a s forças d a c rítica? Temos, de um lado, a esquerda tra­
dicional, que está d esartic u lad a p ela falên cia d os m od elos stalinista
e social-d em ocrata, de outro lad o tem os to d a urna g a m a de m ovi­
m entos heterogêneos e d esarticu lad o s entre si. C om o superar esta
fragm en tação ?

A gente deve primeiro verificar de onde vem esta fragmen­


tação, ela naturalmente vem do fato de que as forças alterna­
tivas ainda não foram capazes de formular uma crítica mais
profunda, teórica e prática, do sistema tal como se encontra
hoje. Eu posso estar dizendo uma coisa que parece teoria pura,
teoria estratosférica, completamente desligada da realidade,
mas eu pensó que a questão essencial, decisiva, é a seguinte:
até que ponto as questões práticas podem se interligar com a
crítica fundamental, uma crítica de princípio da forma moder­
na da mercadoria.
Eu tenho a impressão de que parcelas significativas da es­
querda simplesmente estão se negando a formular esta pergunta.
Sem falar em dar respostas a ela. Isto porque as suas próprias
identidades estão orientadas segundo um sistema referencial que
ele mesmo sempre teve a forma da mercadoria. E parece que a
resistência a este questionamento em nenhum lugar é tão gran­
de, tão pronunciado como entre a esquerda marxista.
Neste sentido, deveríamos perguntar-nos o seguinte: (se
tivermos a coragem, se ousarmos enfrentar esta pergunta) será
que nós não encontramos elementos na práxis social que vêm
ao encontro deste questionamento? Elementos estes que deve­
riam ser procurados e identificados, mas que somente podem
ser encontrados se nós nos retirarmos deste quadro conceituai
e prático que se caracteriza pela sua referência, a economias
de Estados-Nação (as economias que estão inseridas no sistema
produtor de mercadorias, as economias que privilegiam o tra­
balho abstrato).
Até que ponto estes dois pólos que no momento parecem
estar essencialmente afastados um do outro: uma crítica de
princípio da mercadoria por um lado e, por outro lado, o
O COLAPSO DA MODERNIZAÇÃO

movimento prático de oposição, será que a gente não pode já


neste momento unir estes dois pólos mais do que estamos acre­
ditando que seja possível? Eu pensó que nós somente teríamos
razão para o pessimismo real se nós nos mantivermos exclu­
sivamente dentro das formas da relação empresarial tradicio­
nal e dentro das formas da valorização da mercadoria e assim
por diante.
A falta de autonomia do Estado
e os limites da política:
quatro teses sobre a crise da regulação política

1. Mercado e Estado, economia e política como polos de um


mesmo campo histórico

Na historia do mundo moderno houve sempre o entre­


choque mais ou menos hostil de dois ou mais principios: mer­
cado e Estado, economia e política, capitalismo e socialismo.
A luta entre o homo economicus e o homo politicus renovou-se
constantemente; a cada surto de modernização, a cada crise,
os “individualistas” e os “coletivistas” , os livres empresários e
os planejadores da economia, os gerentes de empresas e os
burocratas estatais, os defensores do liberalismo económico e os
intervencionistas, os adeptos do livre-comércio e os protecionis­
tas, enfrentavam-se em combate. Ñas últimas décadas, essa cons­
telação apresentou-se também como uma oposição entre
monetaristas e keynesianos, relativa à política económica.
Ambos os lados podem constatar, retrospectivamente, éxi­
tos, bem como fracassos. Mas como continuar agora? Hoje
não estamos apenas no fim de um século e de um milênio, mas
talvez também no fim das constelações e das oposições até
agora habituais, no fim da modernidade e, possivelmente, até

91
OS ÚLTIMOS COMBATES

no fim da política económica. Ao menos parece predominar


em todos os lugares a sensação de que nao estamos lidando
apenas com efemérides extraordinarias do calendário, a saber,
com o fim de um milenio e com os temores irracionais que se
manifestam nesse momento, mas que estamos lidando real-
- j mente com urna profunda “ruptura de época” e com uma crise
secular da sociedade mundial.
Ocorre que, num primeiro momento, o colapso do modelo
soviético, baseado na economia estatizada, levou os teóricos
e os analistas a pensarem que o velho conflito estrutural esti­
vesse agora decidido para sempre. O paradigma individualista,
empresarial e orientado segundo o mercado, teria empalmado
a vitória absoluta. Mas a realidade global fala, em outros ter­
mos. Por enquanto, a transformação das antigas economias
'—i estatizadas em economias de mercado fracassou em termos
gerais. Entretanto, a grande crise estrutural atingiu também as
metrópoles ocidentais. E o desaparecimento da eterna alter­
nativa, representada pelo outro pólo ideológico da moderni-
—^ zação, não levou à pacificação sob o signo da individuação na
forma da mercadoria e do mercado total. O modo de viver
capitalista é demasiado unilateral, o mercado é demasiado de­
sintegrador, e a ideologia ocidental é demasiado débil, para
que esse sistema pudesse sobreviver sem a existência de um
pólo oposto. Por isso, o paradigma ocidental, o paradigma da
^ economia de mercado, também não conseguiu preencher o
vácuo deixado pela economia estatizada e pela ideologia do Es­
tado. Ao invés disso, o fundamentalismo pseudo-religioso e o
fundamentalismo ético invadiram o espaço da alternativa perdi­
da, de forma bem mais perigosa e imprevisível do que qualquer
socialismo de Estado anterior. O fundamentalismo é o castigo
merecido pela soberba da economia de mercado, bem como pelo
fracasso do socialismo ou do pólo da modernização através do
Estado, da economia planificada e do coletivismo.
Retrospectivamente, verificamos, em termos gerais, que o
socialismo e a economia estatizada não foram simplesmente
forças contrárias, meramente exteriores à economia de mer­

92
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO...

cado do Ocidente. Assim como os dois pólos de um campo


magnético ou de uma bateria elétrica não se excluem apenas,
mas também se condicionam reciprocamente e são, por con­
seguinte, complementares, assim também ocorre com as po­
sições antípodas da modernização. O mercado e o Estado, o
dinheiro e o poder, a economia e a política, o capitalismo e o
socialismo não são, na verdade, alternativas, mas constituem
os dois pólos de um mesmo “campo” histórico da moderni­
dade. O mesmo vale para o capital e o trabalho. Não importa
quão inimigos sejam os dois pólos, eles não poderão, por sua
natureza, existir exclusivamente para si enquanto existir o
“campo” histórico, que os constitui na sua oposição. Esse
“campo”, considerado na sua totalidade, é o moderno sistema
produtor de mercadorias, a forma da mercadoria totalizada,
a transformação incessante do trabalho abstrato em dinheiro
e, com isso, na forma de um processo, a “valorização” ou a
' economicização abstrata do mundo.
Compreendemos facilmente que, nesse sistema, sempre
devem existir os dois pólos: do capital e do trabalho, do mer­
cado e do Estado, do capitalismo e do socialismo, etc., não
importa qual seja a roupagem histórica e que peso distinto
esses pólos tenham em cada caso. A economia estatal de cunho
soviético e o liberalismo econômico total (por exemplo, na
doutrina de um Friedrich August von Hayek ou de um Milton
Friedman) constituem somente os extremos de todo um es-
■ pectro de ideologias, de políticas econômicas e de formas de
reprodução político-econômicas, que dizem respeito todos
igualmente ao mesmo sistema de referência, isto é, à forma de
—^ mercadoria total da sociedade. Isso significa que mesmo o pla­
nejamento estatal mais extremado somente pode planejar nas
formas do mercado, ou seja, nas categorias da mercadoria e
do dinheiro, como sabidamente sempre foi o caso na economia
soviética. Inversamente, contudo, também o radicalismo mais
extremado, em prol do mercado, nunca consegue medrar sem
o pólo estatal político. Muito pelo contrário, existe em cada
economia de mercado a “lei da quota crescente do Estado”,

93
OS ÚLTIMOS COMBATES

conforme ela foi formulada pela primeira vez em 1863 pelo


economista Adolph Wagner. Desde então, essa teoria foi con­
firmada na sua essência pelo desenvolvimento estrutural real.
Os ideólogos neoliberais vêem nisso o “pecado original socia­
lista” no interior do capitalismo. Isso é um contra-senso, na
medida em que não se trata de um “pecado original”, mas de
um desenvolvimento estrutural sistemicamente condicionado.
Mas é certo que sempre houve o socialismo na economia de
mercado e a economia de mercado no socialismo, se com­
preendermos por socialismo o momento de economia estatal
mais ou menos pronunciado (nesse sentido, o conceito de “so­
cialismo de Estado” também é plenamente pertinente para a
economia soviética, que, apesar de sua legitimação ideológica
marxista, pode ser fundamentada teoricamente muito mais
com a obra de Lassalle, Rodbertus e Wagner, do que com a
obra de Marx).
As “teorias da convergência”, desde os anos 50, refletiram
perfeitamente sobre esse problema e inferiram daí uma adap­
tação recíproca paulatina dos dois blocos sistêmicos. E, desde
que a euforia neoliberal amainou um pouco a partir de 1989,
erguem-se agora, novamente, as vozes que advertem quanto
aos riscos de uma radicalização unilateral do mercado. Afir-
ma-se, muito pelo contrário, que importa muito mais encon­
trar a “ mistura certa” de mercado e Estado. Assim, assistimos
a um estranho espetáculo: na medida em que socialistas e key-
nesianos se transformam em neoliberais e monetaristas mais
ou menos declarados, neoliberais e monetaristas, por sua vez,
transformam-se paulatinamente em keynesianos mais ou me­
nos assumidos. Até nos EUA surgiu, nos últimos tempos, uma
corrente representada pelos economistas Paul Romer (Berke-
ley) e Richard Freeman (Harvard), que vê nas excessivas dife­
renças de renda, causadas pelo neoliberalismo radical, um
perigo para o crescimento, e exige uma certa intervenção com­
pensadora por parte do Estado. Da mesma maneira, os gover­
nos neoliberais do Chile e do México, alarmados, dentre
outras razões, pela rebelião em Chiapas e pela perigosa desa­

94
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO..

gregação da sociedade, vêem-se forçados a uma correção de


rumo através de uma intervenção do Estado na área social. O
mesmo vale para os reformistas de mercado no Leste Europeu
e na ex-União Soviética. Também o Banco Mundial começou,
sob o efeito da crise, a complementar, ao menos cosmética­
mente, os seus programas radicalmente caudatários da econo­
mia de mercado com “programas de socorro” ñas áreas social
e ecológica, que não são possíveis sem intervenções do Estado.
Será que, portanto, depois do socialismo unilateral ou do
keynesianismo e depois do neoliberalismo igualmente unila­
teral, adepto da radical economia de mercado, chegamos fi­
nalmente à convergência abrangente, a “via média” entre a
teoria e a práxis? Perguntamos, contudo, se esse paradigma
bastante fraco será suficiente para poder vencer a grande crise
estrutural do século. È duvidoso que alguma vez seja possível
encontrar uma “mistura certa” entre mercado e Estado para
um desenvolvimento razoavelmente equilibrado do sistema.
E igualmente possível que, na verdade, o “campo” histórico
comum dos dois pólos, do mercado e do Estado ou da econo­
mia e da política, a saber, a forma referencial conjunta do
moderno sistema produtor de mercadorias tenha alcançado o
absoluto. Mas, nesse caso, surgiriam questões muito distintas
e muito mais fundamentais, que já não podem mais ser traba­
lhadas com nenhum dos instrumentais existentes até agora,
muito menos com a mistura eclética das terapias que se ex­
cluíram reciprocamente até agora.

2. As funções econômicas do Estado moderno

Por que a atividade do Estado se expandiu secularmente


também nas economias de mercado abertas do Ocidente, ape­
sar das ideologias oficiais opostas? Podemos constatar, basica­
mente, cinco níveis ou setores da atividade do Estado
moderno, todos eles resultantes do próprio processo da eco­
nomia de mercado. Em outras palavras: quanto mais a econo-

95
OS ÚLTIMOS COMBATES

[. mia de mercado se expandiu estruturalmente, abrangendo


toda a reprodução social e tornando-se o modo de vida uni­
versal, tanto mais a atividade do Estado precisava ser expan­
dida. Estamos, portanto, diante de uma relação iniludivelmente
recíproca.
O primeiro nível é o jurídico, isto é, o processo da “juri-
dificação” (Verrechtlichung). Quanto mais a economia de mer­
cado e, com ela, a relação monetaria abstrata se expandem,
tanto menor se torna a força vinculativa das formas de relações
tradicionais, pré-modernas, e tanto mais todas as ações e re­
lações sociais precisam ser postas na forma abstrata do Direito
e, nesse sentido, ser codificadas juridicamente. Todos os ho­
mens, sem exceção, inclusive os produtores imediatos, preci­
sam agir cada vez mais como sujeitos modernos do Direito, já
que todas as relações se transformam em relações contratuais
com forma de mercadoria. Por isso, o Estado transforma-se
na máquina legislativa permanente, e quanto maior o número
__de relações de mercadoria e dinheiro, maior o número de leis
ou de decretos regulamentares. Em conseqüência disso, o apa­
relho de Estado também aumenta progressivamente, pois a
“juridificação” precisa ser controlada e executada. Mas não se
trata aqui de um processo “ extra-econômico”, pois o aparelho
administrativo, que cresce sem parar, precisa ser financiado.
A simples “juridificação” crescente já acarreta, portanto, uma
demanda financeira, que também cresce permanentemente.
Mesmo a regulação meramente jurídica não é neutra com re­
lação aos custos.
O segundo nível da atividade crescente do Estado são os
problemas sociais e ecológicos, resultantes da economia de
mercado. A modernização não dissolveu apenas os vínculos
tradicionais, mas igualmente os contratos sociais e os contratos
entre as gerações, que esses vínculos envolviam. O lugar de
sistemas sociais locais, pessoais, familiares e naturais de edu­
cação dos filhos, de amparo dos doentes e das pessoas neces­
sitadas de cuidados especiais, bem como de garantia do
sustento na velhice, precisou ser ocupado cada vez mais por

96
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO..

j sistemas sociais nacionais, impessoais, públicos, que tinham a

i forma da mercadoria e do dinheiro. Não o mercado, mas tão-


somente o Estado, podia assumir essa tarefa, pois a economia
de mercado, enquanto tal, não tem nenhuma sensibilidade e
t nenhum órgão para as etapas da vida humana, que são expulsas
para fora do processo incessante de transformação do trabalho
em dinheiro, ou que não podem, por sua própria natureza,
coincidir com este processo. Dependendo do patamar de de­
senvolvimento, da história e da capacidade de sobrevivência
no mercado mundial, essa atividade do Estado naturalmente
é muito distinta de um país para outro e está regulamentada
de forma mais ou menos pronunciada, mas a sua expansão
secular na esteira da expansão das relações de mercado é in-
conteste.
O mesmo vale para os problemas sociais, tais como eles
decorrem das mudanças e dos ciclos da economia de mercado,
pois a modernização não é a transição de uma situação fixa
para outra situação fixa, mas a transição de uma forma estática
para uma forma dinâmica de sociedade. A modernização é,
portanto, um processo de transformação permanente, que
sempre volta a sacudir toda a estrutura de reprodução. Tanto
o ciclo conjuntural quanto a “ destruição criativa” de setores
inteiros, como Joseph Schumpeter denominou de maneira
algo eufemística as rupturas estruturais periódicas, geram,
sempre de novo, o problema do desemprego em massa. Não
somente as fases da infância, da doença e da velhice devem ser
reproduzidas integral ou parcialmente pela atividade estatal
num mundo completamente monetarizado e “juridificado” ; o
mesmo vale também para o lag entre os processos de mercado
e de concorrência, por um lado, e a capacidade humana de
adaptação, por outro. A mudança de qualificação e de domi­
cílio ou o surgimento de indústrias novas no lugar das velhas,
etc., são fatores que se desenvolvem mais lentamente do que
a “liberação” de mão-de-obra através da racionalização, da
recessão e da desativação de uma fábrica. Por isso, também o
problema social do desemprego pode ser mais ou menos re-

97
OS ÚLTIMOS COMBATES

guiado, em última instância, somente através de intervenções


do Estado. Assim como o processo de “juridificação”, os sub­
seqüentes processos sociais de modernização acarretam ativi­
dades adicionais do Estado e, com isso, uma demanda
financeira crescente por parte do Estado.
Nas últimas décadas, somaram-se aos problemas sociais os
problemas ecológicos, enquanto conseqüência da modernização.
Também aqui, os órgãos e os sentidos do mercado são total­
mente insuficientes. O dinheiro é abstrato pela sua própria
natureza e indiferente ao conteúdo sensível (sinnlicben Inhalt)-,
e a racionalidade empresarial da minimização abstrata dos cus­
tos não somente “externaliza” os custos sociais, mas também
os custos ecológicos. Ela faz isso, sobretudo, porque a natureza
não pode, pela sua essência, ser um sujeito de Direito, razão
pela qual se abusa dela enquanto lugar de despejo dos escom­
bros dos custos sistêmicos. O posicionamento (Positionierung)
na forma de mercado de substratos naturais gerais também
causa dificuldades. O ar, as águas (lençol freático, rios, ocea­
nos) e o clima não podem ser submetidos às relações econô­
micas de escassez nem ser representados por meio de preços
de mercado, para serem acessíveis apenas à demanda com po­
der aquisitivo. Em última instância, os substratos naturais do
mundo são ou bons para todos, ou insuportáveis para todos.
Além disso, os processos de destruição do meio ambiente são
processos de longo prazo e estendem-se por várias gerações,
ao passo que o horizonte temporal do mercado sempre é ape­
nas de curto prazo. E, por fim, a externalização gerencial dos
custos ecológicos pode ser internalizada só com dificuldade,
através de impostos ou de outros encargos, já que a concor­
rência a nível global sempre leva ad absurdum a tributação
restrita às fronteiras do Estado nacional. Desse modo, é tam­
bém o Estado que precisa suportar os custos ecológicos sub­
seqüentes, criando para tal fim instituições especiais, o que faz
com que a sua esfera de competência, assim como a sua de­
manda financeira, se expandam uma vez mais.

98
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO..

O terceiro nível da atividade estatal crescente são os agre­


gados infra-estruturais: a construção de rodovias e parte do
sistema de tráfego, o abastecimento energético e a comunica­
ção, a formação profissionalizante e a educação (escolas, univer-
I sidades), as instituições científicas, a canalização dos esgotos e o
tratamento do lixo, o sistema de saúde pública, etc. Todas essas
j áreas infra-estruturais desenvolveram-se com a crescente in-
I dustrialização e cientifização da produção como necessidades
| práticas de uma produção total de mercadorias. Mas, os pró­
prios agregados não são uma produção de mercadorias na for­
ma do mercado mas, muito pelo contrário, pressupostos
infra-estruturais de uma produção industrial cientifidzada de
mercadorias. Trata-se de inputs gerais, relativos à sociedade
como um todo, que entram na produção ao nível da empresa,
sem que eles mesmos possam ser representados em medida
suficiente pela racionalidade da administração empresarial
(aqui as coisas se passam de forma similar aos substratos na­
turais gerais). Por isso, não é por acaso que os agregados in­
fra-estruturais são operados (ou subsidiados), na sua maior
parte, pelo Estado em todos os lugares e, com isso, abre-se
mais um campo gigantesco da reprodução social, que faz in­
char a atividade estatal e as finanças públicas.
O quarto nível da atividade estatal ou da economia estatal
é o surgimento direto do Estado como empresário produtor
de mercadorias, isto é, como operador da produção para o
mercado. O Estado como empresário, ou mesmo, na forma
extremada do socialismo de Estado, como “empresário uni­
versal real” é, no fundo, um paradoxo, já que, dessa forma, o
pólo estatal-político procura usurpar todo o “campo” do sis­
tema produtor de mercadorias e nega o seu pólo contrário
sistêmico sem, por outro lado, superar (aufheben) o sistema
enquanto tal. Em última instância, esse paradoxo destrói o
sistema, mas ele também não pode ser criticado do “ponto de
vista ideal” do sistema, pois se originou e continua se originando
das próprias contradições reais do sistema. O Estado como em­
presário aparece sobretudo nas sociedades de “modernização

99
OS ÚLTIMOS COMBATES

tardia”, quer dizer, entre os países que entraram tarde no mo­


derno sistema produtor de mercadorias. Isso não é um acaso,
pois em muitos países somente a máquina estatal podia ala­
vancar, através da acumulação centralizada do “trabalho abs­
trato” (Marx), a tentativa de estabelecer uma conexão com os
países desenvolvidos. Mas mesmo nas nações mais antigas da
modernidade se encontram, dependendo da sua história espe­
cífica, vestígios mais ou menos fortes do Estado, enquanto
empresário industrial, sobretudo na França (por exemplo, Re­
nault) e na Itália com os seus ainda enormes complexos indus­
triais estatais.
Apesar da universal e predominante ideologia de privati­
zação, a atividade empresarial do Estado refluiu muito pouco
desde 1989. Contrariamente a todos os projetos de privatiza­
ção, núcleos industriais de essencial importância ainda estão
nas mãos do Estado, mesmo nos países reformistas da Europa
v Central do Leste (Polônia, Hungria, República Tcheca). Isso
vale ainda mais para o Leste Europeu restante, para as regiões
-'v da antiga União Soviética, para a República Popular da China
x e para a índia. Também na América Latina, a privatização das
empresas estatais só foi parcialmente bem sucedida, se exami­
narmos a situação mais detidamente. E, mesmo na Europa
Ocidental, há problemas e resistências que sugerem que uma
privatização completa das empresas estatais seria improvável.
À medida que as empresas estatais dão lucro, elas naturalmente
aliviam as finanças públicas, porém, mesmo assim, uma parte
desses lucros é novamente devorada pela administração e pelo
controle das empresas estatais (freqüentemente inchados).
Mas, na maioria dos casos, trata-se, de qualquer maneira, mais
de empresas não rentáveis, que acumulam perdas e precisam
ser mantidas por razões políticas. Aqui vale, via de regra, o
* princípio: “socialização (estatização) das perdas, privatização
dos lucros” . Assim, são privatizadas, via de regra, somente as
1 poucas empresas estatais que dão lucro, ao passo que o Estado
j assume as estatais não rentáveis, que se transformam financei-
> ramente num “saco sem fundo” .

100
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO...

O quinto e último nível da economia estatal são a política


,de subsídios e o protecionismo. Mesmo quando o Estado não
aparece diretamente como empresário, ele pode influenciar
indiretamente o processo de mercado da produção de merca-
dorias através da regulação meramente jurídica, garantindo
formalmente a sobrevivencia de empresas privadas através de
subsídios e/ou protegendo as empresas, no seu territorio, da
concorrência estrangeira através de medidas protecionistas.
Ainda nesse sentido, o socialismo de Estado com sua política
de subsídios e seu monopólio do comércio exterior foi apenas
o caso especial e extremado de uma tendência geral, que as­
sumiu grandes proporções também nos países ocidentais-ca-
pitalistas do sistema produtor de mercadorias.
Do bloqueio continental de Napoleão Bonaparte até o fa­
migerado bloqueio econômico (Strafliste, literalmente “lista
de punição” ) dos EUA, encontramos, em todo o Ocidente,
todas as formas imagináveis dessa atividade empresarial indi­
reta do Estado ou dessa “falsificação do mercado” . Todos os
“velhos” países industrializados do Ocidente subsidiam hoje
maciçamente as indústrias do carvão e do aço e a indústria
naval. E a gigantesca burocracia agrária da Comunidade Eu­
ropéia, que está sendo desenvolvida até as raias do absurdo,
vai, como se sabe, ainda mais longe do que o desaparecido
socialismo de Estado. Mesmo se hoje a globalização dos mer­
cados impossibilita praticamente toda e qualquer autarquia
nacional e até toda e qualquer “autarquia de blocos” (assim,
por exemplo, no nível da tríade EUA, União Européia e Japão),
sabemos que a “guerra econômica mundial” (Edward N. Lutt-
wak) está continuando com mais vigor dentro do GATT ou
da Organização Mundial de Comércio (OMC). Quanto mais
os países se tornam “reféns” da economia multinacional, quan­
to mais eles se vêem colocados contra a parede pela “questão
da localização”, tanto mais forte (e não tanto mais fraca) se
torna a sua propensão para afirmar-se em meio a essa contra­
dição sistêmica de uma economia globalizada, por um lado, e
de uma reprodução dentro do quadro do Estado nacional, por
outro, recorrendo a todos os truques camuflados de subven­

id
OS ÚLTIMOS COMBATES

cionismo e protecionismo. É evidente que essa guerra global


em torno da localização é, para o Estado, um enorme devora­
dor de custos.
Assim, podemos afirmar, num balanço geral, que a verifi­
cação da lei de Adolph Wagner tem boas razões há mais de
100 anos - razões que também não podem ser eliminadas pelo
neoliberalismo da atualidade. Trata-se, aqui, da contradição
interna do próprio sistema moderno de produção de merca­
dorias, que se reproduz em níveis cada vez mais elevados:
quanto mais total for o mercado, tanto mais total será o Estado;
quanto maior a economia de mercadorias e de dinheiro, tanto
maiores serão os custos anteriores, os custos secundários e os
custos subseqüentes do sistema e tanto maior serão também a
atividade e a demanda financeira do Estado. Em todos os paí­
ses, a quota do Estado equivale hoje, em média, a cerca de
50% do produto social bruto, e, em todo o Mundo, mais da
metade da população depende direta ou indiretamente da eco­
nomia estatal.

3. A falta estrutural de autonomia do subsistema estatal-polí-


tico e a ilusão do primado da política

A estrutura polar dualista do sistema social moderno induz


sempre à suposição de uma igualdade hierárquica dos dois
pólos: do mercado e do Estado, ou da economia e da política.
Mas, embora os dois pólos do “campo” não possam existir
somente para si e pressuponham sempre o pólo contrário, eles
não são hierarquicamente iguais. Muito pelo contrário, há um
sobrepeso estrutural do pólo económico, que, por um lado,
pode parecer superado (aufgehoben) temporariamente em be­
nefício do pólo estatal-político, mas que, por outro lado, sem­
pre se restabelece novamente. Essa acepção de uma domi­
nância estrutural fundamental do mercado ou da economia
diante do Estado ou da política, é freqüentemente denunciada
como “economicismo” . Porém, não se trata aqui de um erro
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO..

teórico, mas de um predomínio socialmente real do mercado


sobre o pólo estatal-político.
A evidência desse predomínio do mercado pode ser de­
monstrada com base num fato fundamental: o Estado não pos-
; sui nenhum meio primário de regulação, mas depende do meio
,do mercado, isto é, do dinheiro. Entretanto o meio “poder”
atribuído ao Estado e, teoricamente, na maioria das vezes,
identificado com o dinheiro não possui nenhum grau hierár­
quico primário, apenas um grau secundário, pois todas as me­
didas do Estado precisam ser financiadas, não somente as
atividades jurídicas, infra-estruturais, etc., mas também o po­
der no sentido mais imediato do termo, ou seja, as forças ar­
madas. Nesse sentido, nem os militares são um efetivo “fator
extra-econômico”, pois eles também estão submetidos ao meio
do mercado, através do problema do seu financiamento,
j O dinheiro é, portanto, o meio universal e total (simulta-
(neamente, o fim em si da modernidade, tão abstrato quanto
absurdo), que abrange também o pólo estatal-político. Ocorre
que o Estado não possui nenhuma faculdade de criação de
dinheiro, mas depende estruturalmente de que a sociedade
civil ganhe uma quantidade suficiente de dinheiro “no merca­
do”, de modo que se possa financiar também a atividade cres­
cente do Estado. Só no processo cego do mercado, que, além
disso, se deixa restringir cada vez menos à área de soberania
em questão ou à “economia nacional” do respectivo país (glo­
balização), “surge” o dinheiro através do trabalho abstrato e
da sua “realização”. Mas isso produz não apenas a dominância
estrutural fundamental do mercado, como também uma con­
tradição sistêmica interna igualmente fundamental, pois o Es­
tado entra em contradição consigo mesmo, na medida em que
os seus ordenamentos e atividades, por um lado, não têm outra
finalidade senão fomentar o sistema de mercado da produção
de mercadorias no seu território e mantê-lo em funcionamen­
to. Por outro lado, o Estado precisa “retirar” (abschõpfen) o
dinheiro necessário para o financiamento precisamente dessas
atividades do processo do mercado, restringindo, assim, a eco­

103
OS ÚLTIMOS COMBATES

nomia de mercado e agindo, por conseguinte, contra a sua


própria finalidade, precisamente para cumpri-la.
O paradoxo dessa estrutura manifestou-se historicamente
com nitidez cada vez maior, na medida em que o sistema pro­
dutor de mercadorias tomou conta de toda a reprodução so­
cial. O único financiamento “regular” do Estado é a tributação
de rendas geradas pelo processo direto do mercado (não im­
portando se na forma de impostos diretos ou indiretos). Mas,
se os custos antecipados, os efeitos secundários e os problemas
subseqüentes da produção de mercadorias - e, com isso, as
atividades necessárias do Estado - crescem mais do que as
rendas geradas pelo processo do mercado, então a expansão
' das finanças públicas pelo caminho regular da tributação não
j somente ameaça restringir, mas sufocar a continuação do pro-
j cesso do mercado, pois se o Estado somente pode prover a
I “forragem” para a vaca leiteira monetária do mercado através
i do abate da vaca, então os limites do sistema ficam visíveis.
Na Primeira Guerra Mundial, esse problema apareceu pela
primeira vez em grande escala, quando ficou claro que a guerra
tecnológica moderna não podia mais ser financiada com re­
cursos oriundos da tributação regular. Desde então, discute-se,
em intervalos periódicos, a “crise financeira do Estado tribu-
tador” . Rudolf Goldscheid e Joseph Schumpeter formularam
esse problema fundamental da crise estrutural em 1917-18, a
partir da sua discussão da economia de guerra durante a Pri­
meira Guerra Mundial. A partir daí, as discussões em torno
desse problema não silenciaram mais durante todo o século
, X X . Não é por acaso que o problema financeiro do “capita­
lismo de Estado” ou da “ economia de guerra permanente” se
I tenha transformado no navio da economia de mercado do
I Ocidente, os EUA, sempre de novo no grande tema e no as­
sunto político por excelência; e não é por acaso que isso ocor­
reu sempre na formulação quase idêntica do problema, como
em Goldsheid e Schumpeter (assim também em James O’Con­
nor, 1973).
Se o recurso da tributação regular não funciona, o Estado
deve passar para um segundo recurso, cujo caráter fundamen-

104
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO...

, talmente aventureiro aos poucos está sendo esquecido: o endi­


vidamento junto aos participantes do mercado da sua economia
nacional. O Estado não mais se financia, portanto, só com os
impostos, que ele cobra graças à sua pretensão de soberania e
I graças ao seu monopólio da força, mas toma dinheiro empres-
I tado dos seus cidadãos, como um participante comum do mer-
I cado financeiro. Hoje, esse processo não é mais considerado
como uma atitude em princípio aventureira; discute-se somen­
te até que montante do produto social bruto o Estado se pode
endividar para ainda poder ser considerado solvente.
Há, contudo, um motivo que faz com que o endividamento
do Estado apareça, em princípio, como algo precário e gerador
de crises, pois o sistema creditício não foi dimensionado, na
sua essência, com vistas ao financiamento das tarefas do Esta­
do. Muito pelo contrário, a poupança da sociedade é concen-
■trada no sistema bancário como capital monetário, para ser
emprestada a juros ao capital produtivo. Numa sociedade ca-
I pitalista, mobiliza-se também aquele dinheiro para os processos
1de valorização e de acumulação, dinheiro que não pode ser uti-
t lizado pelo seu proprietário para esse fim. Mas, se o dinheiro
emprestado for utilizado para o consumo no lugar da utilização
produtiva e se a utilização produtiva não for bem sucedida, então
ele não cumprirá o seu fim, e o crédito tornar-se-á, mais cedo ou
mais tarde, “podre”. Quando isso acontece em grande escala,
estamos diante de uma crise comercial creditícia e, finalmente,
diante de uma crise do sistema bancário.
Ocorre que o crédito do Estado é gasto, na sua maior parte,
não para fins de utilização produtiva, mas justamente para as
múltiplas atividades de consumo do Estado, que não são um
luxo, mas uma necessidade sistêmica (sem que sejam produti-
j vas no sentido da valorização). Assim, o crédito do Estado
' desemboca economicamente no mesmo desastre, que leva, na
área comercial, aos créditos “podres”, pois o capital monetário
foi utilizado efetivamente para o consumo e não com vistas à
produtividade do capital. Mas essa evolução tem também o
seu reverso: quanto maior o montante de capital monetário
emprestado ao Estado, tanto maior o montante de poupança

105
OS ÚLTIMOS COMBATES

social, que se transforma de capital monetário real em meras


exigencias do Estado, isto é, quanto maior o montante de pou­
pança, tanto maior o número de títulos de crédito do erário
público. N o entanto, esse dinheiro é tratado “como se” fosse
rendimento de juros de capital empregado em atividade pro­
dutiva, embora esse dinheiro há muito tempo tenha desapa­
recido para sempre no abismo do consumo do Estado. Por
isso, Marx chamou, com razão, as obrigações do Tesouro de
“capital fictício”. Assim, uma grande parte da reprodução so­
cial, bem como da riqueza social, presumidamente acumulada
na forma de “patrimônio em ouro”, consiste atualmente, no
Mundo inteiro, de “capital fictício”.
Em última instância, uma tal constelação do sistema cre­
diticio só pode levar ao colapso do sistema financeiro, ou seja,
a uma “desvalorização” do “capital fictício”, que se processa,
em grau maior ou menor, na forma de um choque. Desde a
Primeira Guerra Mundial, isso ocorreu efetivamente em mui­
tos países, e hoje talvez estejamos nos aproximando de um
novo grande choque de desvalorização em escala mundial,
pois, nas últimas décadas, o “capital fictício” do crédito estatal
foi expandido de forma muito mais ampla do que em qualquer
época anterior (assim como, de resto, a outra forma do “capital
fictício”, a especulação comercial com as formas de um “ca-
pitalismo-cassino” de derivativos). Ainda que a quebra finan­
ceira do crédito estatal esteja dimensionada para prazos mais
longos, ela é o resultado inevitável de um processo finito. E
ainda que o Estado seja, graças à sua pretensão de soberania,
um “devedor infalível”, ele será isso no fim desse processo
somente ao preço da desapropriação dos seus cidadãos e de
um colapso das finanças nacionais. Há, contudo, também, um
problema direto e de curto prazo na tomada permanente de
créditos e, conseqüentemente, como demandante nos merca­
dos financeiros, naturalmente entra em concorrência com os
demandantes comerciais e produtivos de capital monetário.
Assim, uma tomada de crédito excessivamente elevada por
parte do Estado, que limpa, por assim dizer, o mercado finan­
ceiro, pode produzir um efeito similarmente negativo sobre a

106
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO..

1
conjuntura, sobre o crescimento e, nesse sentido, sobre toda
a economia nacional, como uma tributação excessivamente
elevada dos rendimentos. Se o Estado, por conseguinte, já su­
gou completamente as poupanças da sua própria sociedade
e/ou quer impedir os efeitos negativos retroativos da elevada
, demanda estatal sobre o próprio sistema crediticio, então ele
i pode recorrer ao endividamento externo e servir-se nos mer­
cados financeiros internacionais, uma vez pressuposta a sua
¡ solvência. Ocorre que, com isso, o problema fundamental não
é solucionado, mas tão-somente transformado num nível in­
ternacional, com novos e adicionais potenciais de risco. Desse
/ modo, muitos países, sobretudo no Leste Europeu, na América
Latina e na África, já caíram na “armadilha do endividamento” .
Entrementes também alguns grandes países industrializados
do Ocidente se tornaram dependentes do endividamento ex­
terno, à frente de todos os EUA, que atualmente precisam
honrar o maior serviço da dívida externa do Mundo. O sistema
financeiro global encontra-se hoje num estado extremamente
lábil, last but not least, por causa do endividamento interna­
cionalizado do conjunto dos países.
Se todas as cordas se romperem e o Estado não puder mais
se financiar nem com impostos nem com tomadas de crédito
dentro e fora do país, sobra como ultima ratio o uso da má­
quina de imprimir dinheiro: o Estado manda por decreto que
o seu Banco Central crie “ dinheiro improdutivo” a partir do
nada. Com isso, ele se arroga, contra as leis do sistema de
mercado, a competência para a criação de dinheiro, isto é, ele
nega à força, enquanto pólo político, a dominancia estrutural
do pólo econômico. O castigo vem em seguida, como se sabe,
na forma de hiperinflação. Desde o fim da Primeira Guerra
Mundial, esse fenômeno voltou periodicamente como conse­
qüência da criação de dinheiro improdutivo por parte do Es­
tado, e hoje ela já se transformou, para um número crescente
de países, numa condição estrutural permanente. Contra todas
as ilusões acerca do “primado da política”, demonstrou-se há
muito tempo, na prática, que, por obra do dinheiro, o Estado
é uma instância fundamentalmente desprovida de autonomia

107
OS ÚLTIMOS COMBATES

diante do mercado e que a política, por sua vez, diante da


, economia, constitui uma esfera também fundamentalmente
desprovida de autonomia.
Embora se conheçam todas as formas e todos os problemas
estruturais dessa dependência, sobrevive teimosamente a idéia
de que o pólo estatal-político tem o mesmo grau hierárquico
ou detenha até, enquanto “última instância”, uma faculdade
regulativa diante da economia e do dinheiro. E, embora os
sistemas financeiros nacionais e internacionais tenham sido
pesadamente sacudidos no decorrer do século X X e sejam hoje
mais lábeis do que em qualquer época precedente, espera-se
amplamente, à maneira dos adeptos de jogos de sorte, que o
sistema global produtor de mercadorias e sua portentosa su­
perestrutura financeira continue funcionando “de uma ou de
outra maneira”, apesar das suas contradições lógicas internas;
e espera-se isso simplesmente porque as coisas até agora sem­
pre continuaram funcionando “de uma ou de outra maneira” .
Não se acredita na possibilidade de uma barreira absoluta.
Mesmo os países cujo sistema financeiro já entrou em colapso,
estão produzindo sempre novos “planos” de política econô­
mica e financeira, que deverão superar definitivamente o de­
sastre (assim também recentemente o Plano Real no Brasil).
Mas nunca uma política econômica conseguirá modificar qual-
¡ quer aspecto da falta de autonomia do Estado diante do di-
I nheiro.

4. A crise secular da regulação estatal-política

A barreira sistêmica estrutural de todo o “campo” da mo­


dernidade, que desaparece, por assim dizer, na política coti­
diana e no business ao usual científico da indústria (Betrieb)
acadêmica, aparece por contraste com maior nitidez numa
análise histórica do processo de modernização na sua íntegra.
Ao contrário da ideologia neoliberal, podemos mostrar que,
no fim do século X X , os custos sistêmicos da economia de
mercado estão começando a superar, em termos absolutos e

108
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO..

irreversíveis, os seus rendimentos. O problema até agora ape­


nas virtual ou periódico, segundo o qual os custos sistêmicos
manifestos na atividade do Estado devoram a substancia, se
torna o problema real e estrutural permanente. Mas, com isso,
ergue-se definitivamente uma barreira histórica absoluta do
f sistema, que se manifesta na crise latente da “ financiabilidade”
j de tarefas sistemicamente necessárias, que vai aumentando
J gradativamente.
Não ajuda muito lamentar-se, à maneira de um antiquado
“bom pai de familia” , sobre a mania do Estado de contrair
dívidas”, como virou hábito entre os políticos conservadores
e populistas. A crítica aos “gastos excessivamente elevados do
Estado” parte cegamente do ponto de vista do dinheiro e ignora
1 completamente que os custos da atividade do Estado não são
o resultado de um mau gerenciamento do mesmo, mas repre-
' sentam o nível civilizatório da modernidade. A própria cor-
' rupção política, tal como a encontramos hoje em todos os
/ países, não é a causa, mas uma conseqüência da crise. Há cer-
I tamente alguns headliners da economia de mercado que estão
dispostos a liquidar o nivel civilizatório para as massas huma-
1 nas já não mais rentáveis, em virtude de sua falta de “finan-
^ ciabilidade” , enviando essas massas à barbárie. Com essa
medida, espera-se, provavelmente, poder continuar operando
uma reprodução capitalista com ajuda de uma minoria global
\ em “ilhas de normalidade” .
Trata-se, no entanto, de uma dupla ilusão. Em primeiro
lugar, os efeitos retroativos da barbárie somente haverão de
reproduzir como “custos de segurança” os custos economiza­
dos com a liquidação dos programas sociais, da infra-estrutura,
etc. e impeli-los, assim, a patamares astronômicos. Em segun­
do lugar, o nível civilizatório da infra-estrutura, da formação
profissionalizante e da ciência, da saúde pública, dos meios de
transporte público, da eliminação do lixo e dos resíduos, etc.,
i não é um luxo, mas uma necessidade para manter em funcio-
| namento a própria acumulação do capital. Uma produção
cientificizada com estruturas de interligação altamente sensí­
veis não pode transcorrer a longo prazo em meio a um oceano

109
OS ÚLTIMOS COMBATES

í de analfabetismo, de miséria, de violência, de lixo, de doenças


/ e de abandono. Se o nível civilizatório não é mais financiável,
V então isso significa apenas que a contradição sistêmica interna
chegou à sua maturidade histórica. A própria econç>mia de
mercado do Ocidente engendrou as potências que a superaram
e que não se deixam mais banir nas formas do moderno sistema
produtor de mercadorias.
O paradoxo, segundo o qual os custos sistêmicos necessá­
rios superam nos níveis de produtividade e de cientifização
hoje alcançados os limites suportáveis de encargos do processo
de valorização, também não pode ser eliminado pela idéia da
“ privatização”, que é a menina dos olhos dos neoliberais. Se
as condições de entorno do sistema custam mais do que a
própria finalidade do sistema pode render, então essa miséria
não muda em nada em decorrência de uma mudança de mera
forma jurídica, pois os problemas substanciais continuam sen­
do os mesmos. Isso vale também para aqueles setores nos quais
o Estado aparece, contrariando a lógica do sistema, como em­
presário na produção de mercadorias para o mercado. Se até
nessa área a privatização avança em todo o mundo apenas a
passos de tartaruga, isso se deve a boas razões econômicas, que
não podem ser creditadas a uma “ideologia socialista equivo­
cada” . É certo que a produção pode ser operada de maneira
efetivamente “mais eficiente” nos termos da exigência de ren­
tabilidade, através de um gerenciamento privado, orientado
para o mercado. Mas “eficiência” significa também racionali­
zação, desativação de unidades produtivas inteiras e demissões
em massa. Países como a Rússia, a índia ou a China, deveriam
colocar na rua, dentro de um breve espaço de tempo, mais da
, metade de suas populações. O resultado somente poderia ser
a guerra civil. Se as empresas estatais não são mais financiáveis
; e se, simultaneamente, a privatização levar mais rapidamente
] ao colapso do sistema, estamos diante da clássica situação de
I paralisia.
Isso vale mais ainda para os setores de infra-estrutura. Se
a operação (ditada pela necessidade) de empresas de produção
de mercadorias, por outra parte do Estado, é contrária à lógica

110
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO...

do sistema, o cumprimento das tarefas estatais de infra-estru­


tura na forma da produção de mercadorias é ainda mais con­
trário à lógica do sistema. A essência da infra-estrutura é o seu
caráter de input de toda a sociedade, que deve existir em todo
país para poder cumprir sua tarefa. Se, no entanto, os agrega­
dos infra-estruturais forem submetidos à relação econômica
da escassez e operados apenas para atender à demanda direta
dotada de poder aquisitivo, eles perdem o seu caráter de con­
dição geral de entorno da produção de mercadorias. É impos­
sível privatizar os inputs de toda a sociedade sem prejudicar
gravemente a própria valorização do capital. Se isso ocorrer,
os inputs tornar-se-ão, em primeiro lugar, excessivamente ca­
ros, e, em segundo lugar, não estarão mais à disposição, em
quantidade suficiente, na hora certa e no lugar certo, nem para
os demandantes com poder aquisitivo.
As privatizações empreendidas até agora de partes da in­
fra-estrutura em todas as partes do mundo confirmaram esse
problema. N a Argentina, as empresas nos centros urbanos não
encontram mais mão-de-obra em número suficiente, pois os
meios de transporte público foram desativados ou se tornaram
j tão caros que a viagem ao lugar de trabalho não compensa
mais para os operários dos subúrbios. Nos EUA, os investidores
japoneses queixam-se de não estarem em condições de satis­
fazer as exigências de participações de pessoas naturais do
lugar na produção local (local content), já que a mão-de-obra
\ local é demasiado despreparada para a manipulação de má-
' quinas complicadas. N a Inglaterra, a indústria choramingava
que a rede telefônica se tornou tão rarefeita depois da privatiza­
ção, por motivos de rentabilidade, que todos os funcionários em
missões externas precisam ser equipados com rádios-telefones
* a custos muito elevados. N a Hungria, os investidores alemães
constataram assustados que os baixos salários são mais do que
anulados pelas constantes interrupções no abastecimento de
energia elétrica e que eles, na prática, deveriam construir a sua
própria usina elétrica. Para todos os agregados infra-estrutu­
rais vale o seguinte: quanto mais privados, tanto mais escassos
\ e caros. Nenhuma economia nacional suporta isso por muito

111
OS ÚLTIMOS COMBATES

tempo. Em todos os lugares nos quais o Estado “torra” a in-


fra-estrutura, a grande ressaca não tarda.
Mas a tesoura da crise sistêmica abre-se também na direção
do próprio processo de valorização. Não só a atividade neces­
sária do Estado encarece excessivamente, como a valorização
do capital também regride de ciclo a ciclo em todo o mundo.
A reprodução da economia de mercado parece esgotar-se na
sua própria base. Até agora, o caráter dessa evolução vem sen­
do ignorado inclusive pela teorização da esquerda. Em geral,
predomina a idéia de que também a acumulação do capital,
mais cedo ou mais tarde, será incentivada novamente pelo
aumento da produtividade. Mas essa argumentação funda­
menta-se num grande mal-entendido. O problema consiste,
no fundo, no fato de que, através do aumento da produtividade
e da racionalização, se produz por produto e por utilização de
capital um “valor” cada vez menor, pois o “valor” é um con­
ceito relativo, medido no respectivo nível de produtividade
(historicamente sempre aumentado) do respectivo sistema refe­
rencial capitalista. Assim, o próprio processo capitalista priva-se,
em última instância, das condições do seu funcionamento, na
medida em que ele minimiza a sua própria substância (o tra­
balho abstrato).
Se a crise sistêmica contida nessa contradição pôde ser
superada no passado, isso se deveu unicamente ao mecanismo
de compensação de uma expansão do modo de produção como
tal. Já a racionalização promovida por Henry Ford reduziu
enormemente a quantidade de trabalho por produto. Mas,
dessa maneira, o produto automóvel, para citar um exemplo,
foi tão barateado, que podia se tornar objeto do consumo das
massas, levando a uma expansão súbita do mercado automo­
bilístico. Assim, necessitava-se de menos trabalho por auto­
móvel, mas de uma quantidade bem maior do que antes de
trabalho para a produção desproporcionalmente aumentada
de automóveis. A racionalização fordista alimentou-se, por­
tanto, de uma expansão constante dos mercados, do trabalho
das massas, dos rendimentos das massas e do consumo das
massas. N o fundo, tratava-se de um processo no qual os setores

112
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO..

da produção local não capitalista de mercadorias e da produ­


ção de subsistência, nos moldes da economia doméstica, foram
sugados pela racionalidade empresarial.
Agora, essa reserva histórica está esgotada, conforme o
sociólogo alemão Burkart Lutz mostrou num estudo. Mas, ao
mesmo tempo, a racionalização microeletrônica pós-fordista
e a globalização dos mercados de mercadorias e de trabalho e
dos mercados financeiros fizeram com que quantidades tão
grandes de trabalho se tornassem não rentáveis, que todo o
I mecanismo histórico de compensação existente até agora co­
meça a desmoronar. Em outras palavras: pela primeira vez na
História, a velocidade da “racionalização eliminadora” (Weg-
rationalisierung) de trabalho supera a expansão dos mercados.
I A produtividade aumenta com rapidez cada vez maior, ao pas-
i so que a expansão do modo de produção, considerada na sua
totalidade, chegou ao fim. Por isso, a esperança por um novo
' surto de acumulação é bastante ingênua. A partir de agora,
fica claro que a autocontradição fundamental, segundo a qual
essa sociedade se baseia na transformação incessante de quanta
abstratos de trabalho em dinheiro, chegou a um ponto no qual
não se pode mais mobilizar rentavelmente quanta suficientes
de trabalho no patamar dos padrões de produtividade, criados
pela própria sociedade. Já não é mais um fenômeno cíclico,
mas um fenômeno estrutural. Porém, quanto mais fraca se
tornar a acumulação real, tanto menos o crédito estatal será
financiável, e, quanto menos o Estado puder ser financiado,
tanto maiores se tornarão as suas tarefas em virtude da crise
estrutural da acumulação. E nesse círculo vicioso que a própria
modernidade produtora de mercadorias se aprisionou.
Nesse contexto, devemos criticar também a “teoria da re­
gulação”, que parte de “regimes de acumulação” politicamente
regulados e culturalmente configurados. Essa teoria supõe a
infinita “adaptabilidade” do capitalismo, que sobrevive, de
novo, de um “regime de acumulação” a outro. Esse modelo teó­
rico lembra um pouco o mito do “eterno retorno”. Na medida
em que ele se inspira no marxismo, poder-se-ia tender a falar,
por assim dizer, de um “budismo marxista” . Se observarmos

113
OS ÚLTIMOS COMBATES

toda a história da modernidade, esse modelo parecerá bastante


estranho. Decerto a regulação política desempenha um papel
crescente no sistema da economia de mercado, pois a atividade
do Estado aumenta por necessidade sistêmica, como já cons­
tatou Adolph Wagner. Mas não somos herdeiros de uma his­
tória infinita de crises, de prosperidade e de “modelos de
acumulação” .
Com efeito, só existe, a rigor, um único “regime de regu­
lação” e “acumulação”, que é simultaneamente o primeiro e
o último, a saber, o modelo fordista. Antes, no século XIX, a
produção capitalista ainda não podia agir plenamente sobre
os seus próprios fundamentos. As crises também eram ainda
mediadas por crises agrárias pré-industriais e, mesmo nos paí­
ses desenvolvidos, a maior parte da população não era ou era
abrangida apenas parcialmente pela própria racionalização
' empresarial. E quanto ao “ depois” : como haverá um “depois”,
se com uma quantidade cada vez menor de trabalho forem
produzidos um poder aquisitivo cada vez menor e uma quan-
I tidade cada vez maior de produtos? A prosperidade global da
economia de mercado somente existirá no futuro se for pos­
sível realizar a façanha de um capital acumulado sem trabalho.
O jobless growth é uma ilusão que hoje somente pode ser
mantida a duras penas (até a quebra financeira), através de
uma criação monetária improdutiva de “capital fictício” em
escala mundial.
Ocorre que um “regime de acumulação” puramente “po­
lítico” é ainda muito menos possível. A “teoria da regulação”
parece estar se movimentando de uma argumentação, nos ter­
mos da teoria da acumulação, na direção de ilusões politicistas.
Primeiro, é necessário um novo ciclo de acumulação, depois,
ele pode ser regulado politicamente; o inverso não é possível.
Até o momento, nenhuma política conseguiu produzir um
novo surto de acumulação como um mágico que tira pombos
da cartola. A política somente tem acesso regulador às formas
de transcurso, mas não às cegas leis básicas da produção capi­
talista de mercadorias. O modelo fordista vivia do fato de que
a acumulação era possível a partir de um processo sistêmico

114
A FALTA DE AUTONOMIA DO ESTADO..

destituído de sujeito, mas o modelo da regulação política so­


mente pode operar em nível secundário. Se hoje a reprodução
é triturada entre o mercado e o Estado, precisaremos imaginar
algo diferente do que esperar por Godot, isto é, esperar pelo
próximo “ milagre econômico” do sistema produtor de mer­
cadorias, que nunca mais acontecerá.
PARTE III
A estupidez dos vencedores

A historiadora Barbara Tuchman escreveu um conhecido


livro sobre a estupidez dos governantes. Talvez seja verdade
que o poder torna as pessoas estúpidas e que muito poder as
deixa estupidíssimas. Os mais estúpidos seriam, então, prova­
velmente, os grandes vencedores, logo que triunfaram abso­
lutamente e que sua inteligencia já não pode estimular-se em
um pólo oposto. Quem quer permanecer inteligente, mesmo
como vencedor, teria que reconhecer, portanto, a verdade do
ex-adversário, modificá-la e, por assim dizer, absorvê-la, para
não acabar sendo seu próprio inimigo e destruir-se a si mesmo.
Neste sentido, o capitalismo é provavelmente o grande
vencedor mais estúpido que a historia já conheceu. O Ocidente
não refletiu com autocrítica a respeito de sua vitória sobre o
socialismo do Leste e do Sul. Em vez disso, tentou declarar
como modelo de sua hegemonia a ideologia do mercado total,
que nunca foi real em sua própria história, fazendo-a o remédio
para todos os males e tentando exportá-la a todo custo para
as regiões da crise global.
O que foi que aconteceu? N o início dos anos 80, baixas
taxas de crescimento e recessões, um novo desemprego de
grandes massas e excessivas dívidas públicas no próprio Oeste

119
OS ÚLTIMOS COMBATES

levaram à ruptura do paradigma político-econômico. A mu­


dança da doutrina keynesiana para a monetarista foi, portanto,
originalmente, urna tentativa do Oeste de enfrentar sua pró­
pria “crise em nível elevado” . Em meados dos anos 80, tor-
nou-se então aguda a latente “crise em nível baixo” na União
Soviética, em sua periferia e em muitos países do Terceiro
Mundo. Também ali tentou-se achar uma nova orientação,
mediante “mais economia de mercado”.
N o final dos anos 80, vimos não apenas o fim definitivo
de quase todos os sistemas socialistas, mas, também, em muitas
partes do mundo, uma onda de guerras civis, formas de uma
“economia saqueadora”, e o domínio crescente de gangues
criminosas. Sob a impressão do colapso da União Soviética,
continuou ao mesmo tempo o triunfo do neoliberalismo eco­
nômico.
Observando o panorama dos últimos 15 anos, podemos
constatar duas coisas: primeiro, temos a ver com uma crise
global que atravessa os sistemas e talvez tenha seu centro se­
creto no Oeste, e, segundo, com cada novo surto desta crise,
foi aumentada a dose do remédio neoliberal. Temos todo o
direito de indagar o efeito deste remédio. Se é verdade que,
em última instância, não decidem as ideologias, mas somente
os meros fatos, então é chegado o momento de se fazer um
primeiro resumo. Onde estão os êxitos do neoliberalismo?
Nem um único dos fenômenos que, no começo dos anos
80, conduziram, nos países ocidentais, à mudança para o mo-
netarismo, acabou sendo eliminado. Ao contrário, pioraram
todos os fatores da crise daquela época. Nos EUA, o presidente
Reagan tomou posse com a promessa de reduzir a zero o déficit
público, mas já no seu primeiro mandato estabeleceu um re­
corde mundial de endividamento para financiar seu aventuro­
so armamento militar. O déficit no orçamento anual dos EUA,
que em 1980 era de US$ 60 bilhões, subiu na época da política
çconômica neoliberal parauma média de US$ 200 bilhões (1994:
US$ 203,4 bilhões). Também na Europa, a nova doutrina fa­
lhou neste ponto: apesar da redução das despesas para fins

120
A ESTUPIDEZ DOS VENCEDORES

sociais, o déficit público da Alemanha quadruplicou-se desde


1980.
As reais taxas de crescimento do mundo ocidental não
foram mais altas na era neoliberal, mas, sim, mais baixas: os
auges da conjuntura foram diminuindo em cada ciclo, lem­
brando a respiração de um moribundo. Mal havia o Ocidente
vencido o socialismo, ele próprio caiu, no início dos anos 90,
na mais profunda recessão desde a Segunda Guerra Mundial.
Nestes 15 anos, a pobreza nos EUA aumentou de forma tão
dramática, que chegou a atingir até grande parte da classe
média branca. Tornou-se extremo o abismo entre as altas e as
baixas rendas: muitos empregos são tão mal pagos, que os “em­
pregados” nem podem alugar uma moradia e precisam passar as
noites em parques ou galerias de metrô desativadas. Na Europa,
duplicou-se, neste mesmo período, a taxa de desemprego: na
primavera de 1995, era de 11% e, em alguns países, bem mais
alta (Espanha: 23%). Desde 1980, surgiram favelas em todos os
centros ocidentais, como no Terceiro Mundo.
Também no resto do mundo, os chamados “ modelos com
êxito” do neoliberalismo, considerados mais de perto, reve­
lam-se como pura enganação. Certamente, os mercados cres­
centes da Ásia baseiam-se numa estratégia de industrialização
para a exportação, mas seu êxito não pode ser registrado na
conta do neoliberalismo, pois até hoje eles desenvolveram-se,
em oposição à doutrina monetarista, somente com forte apoio
do Estado e sob o controle deste. Mas, também fora disto, não
é tudo ouro o que brilha na Ásia.
O Japão, chamado de país dos milagres, percebe desde
1992, o mais tardar, os “ limites do crescimento” , do mesmo
modo que o Ocidente. Apesar de o governo japonês lançar um
programa de emergência e de estímulo após o outro, os setores
centrais da economia estão numa calmaria e vão diminuindo
as exportações e a produção industrial. No começo de 1995,
o desemprego alcançou o nível mais alto dos últimos 42 anos,
■--) somente a metade dos acadêmicos recém-formados encontram
um emprego. Hoje em dia, existem favelas em todas as cidades

121
OS ÚLTIMOS COMBATES

maiores, e vai crescendo sem cessar o número dos sem-teto


1 (no Japão chamados de “homens-caixa”, porque moram em
caixas de papelão). A expansão japonesa tinha que chegar a
um fim, porque neste meio tempo perdera sua força o “efeito
da base”, historicamente apenas mobilizável durante pouco
tempo. E uma lógica elementar que uma base, tanto absoluta
quanto relativamente baixa, no “momento de partida”, de uma
expansão econômica, possibilite inicialmente altas taxas de
crescimento, que vão porém decrescendo rapidamente, por­
que aumenta exponencialmente o custo dos investimentos,
enquanto diminuem relativamente os resultados.
Um crescimento ilimitado, tal como o reclama a lei do
capitalismo, é praticamente impossível. Por isso, é um absurdo
que, hoje em dia, alguns otimistas profissionais, adeptos da
economia de mercado, calculem até para o século X X I as taxas
de crescimento dos “pequenos tigres” do sudeste da Ásia, que
na primeira metade dos anos 90 encontravam-se entre 6,1%
(Taiwan) e 9,0% (Cingapura). Também a União Soviética, nos
anos 30, e o Brasil, nos anos 70, tiveram seu crescimento, o
que, como é sabido, não foi em nenhum destes dois casos uma
garantia para um êxito duradouro.
De fato, o volume absoluto do crescimento asiático atual
é muito pequeno para poder puxar, como locomotiva, a eco­
nomia global de mercado estagnada. Em 1994, a produção
automobilística total da Coréia do Sul, aumentada em 13%,
em comparação ao ano anterior, perfazia, com suas 2,3 milhões
de unidades, apenas dois terços da produção da Volkswagen
(3,3 milhões de unidades), um único grupo de empresas au­
tomobilísticas da Europa. Os “newcomers” asiáticos vão até
alcançar muito mais rápido do que o Japão os limites do “efeito
da base”, porque a intensidade de capital das estruturas com­
petitivas está muito mais alta em meados dos anos 90 do que
estava em meados dos anos 70. A ascensão asiática baseia-se,
) sobretudo, em uma destruição desconsiderada do meio am-
/biente e na sobrecarga da infra-estrutura esgotada. Na opinião
do Banco Asiático de Desenvolvimento, o milagre econômico
do Extremo Oriente desmoronará se ninguém cuidar das de-

122
A ESTUPIDEZ DOS VENCEDORES

íiciéncias gigantescas da infra-estrutura. Mas isto exigiria, so-


mente nos próximos cinco anos, um investimento de mais de
US$ 1.000 bilhões, uma quantia que excede em muito a capa­
cidade de rendimento da industrialização para a exportação
até agora realizada. Em Taiwan, já secaram 70% das reservas
de água, e a “água potável” está começando a arruinar até as
máquinas; mas um saneamento dos danos causados ao meio
ambiente custaria o quíntuplo das reservas em divisas de Tai­
wan.
O mesmo aplica-se aos horríveis discípulos exemplares do
neoliberalismo na América Latina. Os sucessos tão elogiados
do México, do Chile e da Argentina, possuem muito menos
substancia do que a ascensão na Asia. No inicio de 1995, o
milagre econômico mexicano esvaiu-se em fumaça. Como
também em outros países latino-americanos, um cambio arti­
ficialmente elevado, em relação ao dólar, havia criado a im­
pressão de estabilidade. A redução do déficit público e da
inflação somente foi possível pelo preço de um déficit na ba­
lança de importação e exportação de bens e serviços, com o
qual se atiçou o fogo de palha de um boom de consumo. Quan­
do já não podia ser garantida a conversibilidade em dólares
da massa crescente de tesobonos (obrigações do tesouro esta­
tais indexadas em dólares), pela saída de reservas monetárias,
o castelo de cartas desmoronou. Em poucas semanas, a pro­
dução entrou no vermelho, centenas de milhares de empregos
deixaram de existir, e voltou a inflação supostamente supera­
da.
Além de poder repetir-se por outra parte o fracasso mexi­
cano, os êxitos de exportação dos três tigres de papel latino-
americanos não são de qualidade asiática. No México, existem
apenas “indústrias de montagem” norte-americanas e japone­
sas, sem base industrial própria. A Argentina está saneando
seu orçamento público, desbaratando o filé mignon das em­
presas estatais e deixando morrer de fome seus aposentados.
Mas a que fim conduz uma política deste tipo? Como recom­
pensa, entra capital estrangeiro, que, no entanto, serve mais
para fins especulativos do que para investimentos reais na in-

123
OS ÚLTIMOS COMBATES

dústria. O Chile nem conseguiu montar urna industria leve de


produtos acabados com capacidade de exportação duradoura,
como a Coréia do Sul nos anos 70, porque sua industria têxtil
e de couro encontra-se em crise devido à forte concorrência
internacional. A exportação não vive de carros, televisores em
cores e microchips ou software, senão que continua dependendo
em alto grau, apesar da diversificação, da mineração de cobre.
Os verdadeiros êxitos da exportação, que pressupõem todos
eles uma exploração exaustiva das reservas naturais, reduzem-
se a matérias-primas agrárias, madeira e celulose, frutas, fari­
nha de peixe e frutos do mar.
Sobretudo, porém, o milagre neoliberal na América Latina
"• j é uma ilusão estatística. Pois as altas taxas de crescimento re-
ferem-se a um ponto de partida que foi o resultado da “década
perdida” e de uma desindustrialização brutal. Somente pode­
mos falar de “êxitos” quando os dados estatísticos não procedem
do período anterior a 1988 ou, no máximo, 1985. Consideran­
do-se um período mais extenso, não há êxito nenhum, senão
que apenas estagnação, pois, no melhor dos casos, o cresci­
mento compensou as perdas dos anos 80, e este “ efeito da base
secundário” esgotar-se-á em pouco tempo. Segundo um rela-
J tório do Banco de Desenvolvimento Interamericano, de no-
/ vembro de 1994, a América Latina nem conseguiu superar os
problemas mais graves e a pobreza continua aumentando.
Maior ainda é a enganação estatística na Europa Oriental.
Mesmo nos países de exibição do neoliberalismo, a Polônia,
a Hungria e a República Tcheca, as reformas, no sentido da
economia de mercado, fizeram recuar em até 40% desde 1989
■a produção das indústrias transformadoras. O crescimento
aparentemente alto, proclamado desde 1993-94 como “agran­
de mudança”, refere-se evidentemente ao novo ponto de par­
tida, depois de um surto enorme de desindustrialização. Do
mesmo modo, poderíamos dizer que um cadáver se encontra
a caminho da recuperação, porque continuam crescendo suas
unhas. Mais para o Leste, nem crescem mais as unhas das
economias nacionais mortas. N a Rússia, onde já quase durante

124
A ESTUPIDEZ DOS VENCEDORES

urna década a economia de mercado é idolatrada, a produção


industrial diminuiu desde 1989 em mais de 50%. E na Romê­
nia, depois das primeiras reformas, no sentido da economia
de mercado, a miséria da população cresceu tanto, que pessoas
torturadas pela fome até invadem jardins zoológicos para aba­
ter os animais.
Nem precisamos falar da Africa. Até agora, o balanço glo­
bal do neoliberalismo e das reformas, no sentido da economia
de mercado, revela urna única catástrofe. Alguém disse que o
socialismo era uma idéia nobre, porém, não feito para o ho­
mem real. A economia de mercado globalizada nem chega a
ser uma idéia nobre. Não funciona e não é nem um pouco
rentável para a grande maioria. A era neoliberal não demorará
tanto tempo quanto a era do socialismo e do keynesianismo.
Pois o neoliberalismo nada mais foi que a ideologia de moda
conveniente para a estupidez dos vencedores, num momento
histórico de susto. Se for aumentada outra vez a dose do re­
médio neoliberal, somente poderá constar no relatório final:
“ Cirurgia bem-sucedida, paciente morto” . Evidentemente,/
também não há volta à antiga economia estatal. A humanidade''
ainda não se deu conta de que, com o fim de uma época,
ficaram obsoletos os dois lados do antigo conflito e que ela\
precisa inventar algo fundamentalmente novo.

125
A realidade irreal

Em que medida a realidade é real? Essa pergunta do cons-


trutivismo (Paul Watzlawick) parece impor-se cada vez mais à
consciência social. A dúvida quanto à realidade da existência
subjetiva há muito tornou-se popular na ficção científica, a
exemplo dos romances do norte-americano Philip K. Dick e
do polonês Stanislaw Lem. Será que jazemos clinicamente
mortos numa câmara refrigerada, e nosso cérebro é manipu­
lado por meio de estímulos eletrônicos que nos simulam a vida
e a experiência? Ou será então que estamos sob o efeito de
drogas que nos figuram um mundo repleto de vida, quando
na verdade jazemos encolhidos num canto fétido qualquer? A
inquietante sensação de que a realidade pode ser interrompida
a qualquer momento, como se alguém retirasse o plugue da
tomada, penetrou abertamente até mesmo na consciência co­
tidiana.
A revolução microeletrônica e a nova mídia fortaleceram
uma tendência social que apaga as fronteiras entre a existência
e a aparência, entre a realidade e a simulação. O que é signi­
ficado e o que é significante? Ainda é possível traçar essa di­
ferença? Talvez a guerra do Golfo, como supõem alguns
teóricos da mídia, tenha ocorrido apenas nas telas de televisão.

127
OS ÚLTIMOS COMBATES

Há quem pondere a realização de jogos de futebol em estádios


vazios, tornando-os assim puros eventos televisivos. A própria
política transformou-se há muito num teatro da simulação.
Estrelas pornôs, ídolos esportivos e atores de cinema dividem
as cadeiras do congresso e do governo com criminosos reno-
' mados. Não é mais a propaganda objetiva que determina as
, eleições nas democracias, mas o personality show de máscaras
sorridentes.
A perfeita evasão da realidade concreta em busca do refúgio
na “realidade virtual” parece emergir no horizonte do tecnicamen­
te possível. De fato, existem pessoas que quase desaparecem por
trás de seus computadores. A mídia não cresce apenas quantita-
tivamente, mas assume também qualitativamente o poder so­
bre a consciência humana. Quanto menos os homens se
comunicam, maior é o espaço ocupado pelas telas de televisão.
Do cinema tridimensional ao preservativo de corpo inteiro,
representado pela mídia, as fantasias do cybersex prometem
a máquina definitiva da auto-satisfação. A finitude do mundo
concreto, que impõe limites ao crescimento sem entraves da
economia e do consumo, deve ser superada pelos espaços vir­
tuais. Paralelamente a isso, a alma vai sendo aos poucos trans­
mitida à máquina. Elevadores assassinos e insurreições de
robôs são fantasmagorias que povoam a literatura fantástica.
- O homem fez de si mesmo algo supérfluo e agora não passa
de um produto simulado pela mídia.
Nos anos 80, a consciência simuladora alastrou-se pelo
âmbito profissional e atingiu a estrutura da sociedade. Os yup­
pies, eles próprios um produto da mídia, começaram a simular
os critérios capitalistas de eficiência e sucesso, em vez de cum-
pri-los efetivamente. Quanto maiores os investimentos em tec­
nologia avançada e quanto maior a racionalização da produção
e dos serviços, tanto menor é o rendimento do sistema. É como
se a bagunça do socialismo tivesse contaminado o capitalismo.
Todos fingem profissionalismo, produzem porcarias e dizem
de modo geral: “ Pedimos encarecidamente sua compreensão” .
É quase chique não ser capaz de concentrar-se em mais nada:
“Todos são artistas” (Joseph Beuys); pintores incapazes de pin-

128
A REALIDADE IRREAL

tar; cantores incapazes de cantar e escritores incapazes de es­


crever. “Todos têm seus cinco minutos de fama” (Andy War-
hol). O respeito pela própria individualidade restringe-se ao
vestuário. Jovens de ambos os sexos, imersos na simulação,
consideram a si mesmos como cabides ambulantes: você é o
que você veste.
Não foi apenas a revolução tecnológica da nova mídia que
ensejou, no final do século X X , uma lastimável cultura da
“falsa autenticidade” ou da “autêntica falsidade”. Numa so­
ciedade em que a economia é a base de tudo, a consciência
simuladora também deve ter um fundamento econômico. Mas
em que consiste a “ economia política da simulação” ? Para res­
ponder a essa pergunta, devemos saber exatamente aquilo que
na economia capitalista não pode mais figurar como “real” e,
por isso, deve ser simulado. O problema parece estar na relação
entre o trabalho —isto é, a atividade produtora de mercadorias
- e a moeda. “Trabalho”, nesse sentido, significa o consumo
de energia humana abstrata. O processo econômico moderno
^ pode ser definido como a inesgotável transformação desse tra­
balho em moeda: a energia humana que se manifesta em so-
(jciedade constitui a substância da moeda. Toda moeda que não
espelha um trabalho precedente é moeda sem substância e,
por isso, simulada.
Karl Marx é considerado hoje em dia como o grande per­
dedor da teoria da história. Mas, para além de antigos conflitos
e interpretações, sua teoria sobre o capitalismo ainda tem mui­
to a dizer. O terceiro volume de “ O Capital” é surpreenden­
temente moderno, pois nele encontramos os fundamentos
teóricos para a atual “ economia política da simulação” . O con­
ceito básico nesse contexto é o de capital fictício. Marx dis­
tingue duas formas ou dois esteios desse capital fictício: o
crédito governamental e a especulação. Em ambos os casos, a
transformação real do trabalho produtivo em moeda é subs­
tituída pelo crescimento simulado da base monetária.
O crédito governamental é um paradoxo econômico. De
fato, no sistema da economia de mercado, o crédito serve ape­
nas para financiar a produção para o mercado. As despesas do

129
OS ÚLTIMOS COMBATES

Estado não representam, contudo, nenhuma produção, mas


somente consumo social. Por isso, a única fonte das finanças
governamentais, verdadeiramente sensata e condizente com o
. sistema, é a taxação de lucros e salários: o Estado retira o
excedente monetário das receitas do mercado a fim de finan­
ciar o consumo social. Quando, por sua vez, o Estado financia
a si próprio por meio de créditos, torna-se obrigado ao paga­
mento de juros. Normalmente, porém, o Estado não desen­
volve nenhuma atividade produtiva para o mercado e, por
isso, é absolutamente incapaz de obter fundos para o paga­
mento de juros. O paradoxo está no fato de que, sob a forma
de crédito governamental, uma atividade econômica é tratada
simuladamente como produção, embora seja, na verdade, con­
sumo social. O Estado só consegue resolver insatisfatoriamen-
te essa contradição lógica ao empenhar suas receitas futuras
com o lançamento de impostos. Em outras palavras, a socie­
dade capitaliza o trabalho futuro. O consumo social do pre­
sente, imprescindível para o sistema, ocorre à custa do futuro;
o Estado moderno torna-se um vampiro que suga seu próprio
porvir.
Por que então os Estados concordaram com esse financia­
mento cada vez mais insensato? A razão para tanto não está
nem nas “ reivindicações sociais exageradas”, nem nas “ falsas
idéias socialistas”, como afirmam os ideólogos do neolibera-
lismo. Foi o próprio desenvolvimento do capitalismo que per­
mitiu o crescimento improdutivo, em termos capitalistas, do
consumo estatal. Quanto mais o sistema de mercado impôs-se
historicamente e quanto mais a concorrência forçou o empre­
go da ciência e da tecnologia, tanto maiores foram os “custos
operacionais” improdutivos da economia de mercado, eviden­
ciados na forma do consumo estatal. Entre eles, os gastos com
o exército ocupam um lugar de destaque.
Já na Primeira Guerra Mundial, a maquinaria industriali­
zada da morte só pôde ser financiada por meio de vultosos
investimentos estatais. Esse crescimento dos custos para o con­
sumo social improdutivo prolonga-se até hoje, inclusive nas

130
A REALIDADE IRREAL

tarefas civis do Estado. Se este quisesse hoje financiar por meio


de impostos todos os gastos que se tornaram necessários para
sua atividade, fatalmente arruinaria a economia de mercado e
destruiria com isso seu próprio fundamento. Pode-se dizer,
ironicamente, que os “custos operacionais” da sociedade numa
economia de mercado tornaram-se tão altos que ela, segundo
seus próprios critérios, já não é mais rentável historicamente.
Para encobrir tal situação, o sistema capitalista tem de recorrer
à simulação monetária e, por meio do crescente capital fictício
do crédito governamental, sangrar seu imaginário futuro ca­
pitalista. Esse procedimento simulador mostrou-se viável en­
quanto a economia de mercado deu provas de confiança e
assegurou seu crescimento com um verdadeiro consumo de
energia humana, sob a forma de trabalho. Até o segundo terço
do século X X , o crédito estatal cresceu em conjunto com o
trabalho produtivo nas indústrias, o que possibilitou ao Estado
recolher mais impostos justos e custear seus gastos cada vez
maiores. As novas indústrias “ fordistas”, assim denominadas
em homenagem ao empresário norte-americano Henry Ford,
com sua produção em massa de automóveis, aparelhos domés­
ticos, objetos eletrônicos, etc., possibilitaram, somente na Alema­
nha do pós-guerra, a criação de 10 milhões de novos empregos.
Mas o encanto desse “ milagre econômico” foi quebrado pela
revolução microeletrônica do final dos anos 70. A mesma tec­
nologia que produziu a nova mídia, substituiu, em grande es­
cala, o trabalho humano pelo de robôs e pela racionalização
(lean production). E claro que com isso o trabalho produtivo,
no sentido capitalista do termo, não desapareceu completa­
mente, mas o crescimento posterior da moeda deixou de cor­
responder de modo suficiente ao crescimento do trabalho.
Depois do Estado, portanto, a própria economia de mer­
cado ingressou no estágio da simulação. Ao lado do capital
fictício do crédito governamental, surgiu o capital fictício da
especulação comercial. Uma vez que a expansão do trabalho
produtivo deixou de ser rentável ou tornou-se muito onerosa,
os lucros passaram a fluir cada vez mais para a especulação

131
OS ÚLTIMOS COMBATES

com ações, imóveis, divisas cambiais, contratos a termo, etc.


A essência da economia especulativa é obter um aumento fic­
tício do valor sem respaldo em nenhum trabalho produtivo,
contando apenas com a negociação de títulos de propriedade.
No caso das ações, isso significa que o próprio rendimento,
por meio dos dividendos, adquiriu um valor acessório; o mais
importante passou a ser o aumento dos índices da Bolsa acima
de qualquer crescimento dos lucros obtidos no mercado real.
A década de 80 viu nascer, assim, um capitalismo-cassino de
dimensões globais, que dura até hoje.
E claro que houve também, em épocas anteriores, fases
dominadas pela especulação, porém, estas não só terminaram
regularmente com um crack financeiro após um breve período
de tempo, mas também sempre foram sucedidas por um novo
impulso na expansão do trabalho produtivo. Hoje em dia,
entretanto, ocorre exatamente o oposto. A era do capitalis­
mo-cassino estende-se de modo tão pouco natural porque,
graças à racionalização, o trabalho economicamente produtivo
continua a derreter como neve ao sol. O novo lugar-comum
definido pelo “jobless growth” significa que o crescimento da
moeda tornou-se sem substância e é unicamente simulado por
meio de créditos e de maneira especulativa. Não apenas o
Estado, mas também o mercado, acha-se agora obrigado a
sangrar seu futuro imaginário e empenhar seus fictícios lucros
futuros. A economia e os empreendimentos privados têm a
mesma parcela de culpa que a administração estatal. Somente
nos Estados Unidos, a dívida do Estado chega a cerca de US$
6,5 trilhões, na forma de empréstimos estatais e títulos da
dívida pública; as dívidas privadas, por sua vez, atingem US$
10 trilhões, na forma de hipotecas, juros de empréstimos, cré­
dito aos consumidores, etc.
Os custos dessa dívida absurda não estão mais lastreados
no trabalho produtivo, mas, em grande parte, no aumento dos
ativos financeiros. As grandes empresas auferem lucros mo­
numentais não mais pelo sucesso no mercado real, mas pelas
manobras engenhosas de seu setor financeiro no mercado es­
peculativo do capital fictício. O chamado “derivativo finan-
A REALIDADE IRREAL

ceiro”, originalmente um instrumento de proteção contra o


risco nas negociações com o exterior, sofreu paradoxalmen­
te uma drástica transformação num mercado especulativo
que hoje alcança, no âmbito global, o volume aproximado
de US$ 50 trilhões. O capitalismo simula a si próprio. O
capital fictício do crédito governamental e o capital fictício
da especulação comercial estão inextricavelmente entrela­
çados, as dívidas de um setor são “ pagas” com as dívidas do
outro, e o crescimento simulado alimenta a própria simula­
ção. O índice Dow Jones, o termômetro da Bolsa de Nova
York, que atinge atualmente 4.700 pontos, contribuiria so­
mente com cerca de 1.000 pontos numa avaliação realista.
Num balanço real, sem valores fictícios, todos os países do
mundo seriam testemunhas do colapso de seus empreendi­
mentos mais vultosos. Partidos políticos, províncias, adminis­
trações com unais e instituições culturais, aplicam seu
dinheiro no mercado financeiro, o que os torna dependentes
da criação monetária simulada. O desmoronamento desse
edifício global parece inevitável. A desvalorização da moeda
sem substância pode ocorrer com a inflação ou a deflação;
no futuro, é possível que a inflação e a deflação corram até
mesmo paralelamente em diversos setores.
Inúmeros indícios nos revelam a iminência do choque
de uma desvalorização mundial. Vários países do Terceiro
Mundo e do Leste Europeu já passam por ciclos de hiperin-
flação, cujas porcentagens variam entre 100 (Turquia) e 1
milhão (ex-Iugoslávia). Isso jamais ocorreu em tempos de
paz. N o Ocidente, as falências se multiplicam nos empreen­
dimentos industriais e imobiliários. Um número cada vez
maior de bancos, caixas econômicas e companhias de segu­
ro, tropeçam no fracasso, a exemplo do Banco Baring de
Londres, impelido à ruína pelas mãos de um corretor de 29
anos de idade.
A crise do sistema monetário mundial também indica que
a criação de moeda sem substância chegou a seu limite. Uma
coisa é certa: os homens modernos de todas as classes sociais
não querem admitir que, com o decorrer do tempo, uma eco-

133
/
OS ÚLTIMOS COMBATES

nomia totalmente monetária é inviável na prática. A despeito


disso, a notável “cultura da simulação” nos permite supor que
a realidade capitalista tornou-se irreal. Talvez o indício mais
forte do fim dessa realidade da aparência seja o fato de certos
homens não se levarem mais a sério e nem mesmo saberem se
realmente ainda existem.

134
Perdedores globais

A ciência econômica encontra-se numa profunda crise. De


fato, seus conceitos não correspondem mais à realidade. O
próprio nome da disciplina já o diz: “economia nacional” 1;
palavra de ordem hoje em dia é “globalização” - globalização
dos mercados, do dinheiro, do trabalho. E claro que o mercado
mundial existe desde o século XVI, mas a economia de mer­
cado moderna cresceu sobretudo dentro do espaço funcional
das “nações” criadas no século XVIII: com base no vultoso
estoque de capital nacional, surgiram Estados nacionais dotados
de sistemas jurídicos nacionais, infra-estrutura, etc. O mercado
mundial era visto como “comércio externo” e restringia-se a um
plano secundário. Tal processo, que marcou o surgimento de
novas nações e economias nacionais, estendeu-se também pelo
século X X e impregnou sua história.
Embora nossas idéias sociais e nossos “sentimentos políti­
cos” ainda façam referência ao espaço histórico das nações,
essa é uma realidade que pertence ao passado - pelo menos
em termos econômicos. A partir da década de 80, um novo

1 “Nationalökonomie” em alemão. Termo que abrange, de modo geral, a


ciência econômica ou a economia política de uma nação (N.T.).

135
OS ÚLTIMOS COMBATES

sistema de coordenadas surgiu com uma rapidez impressio­


nante, impulsionado pelos satélites, a microeletrônica, a nova
tecnologia em comunicação e em transportes, e pela queda
dos custos energéticos: para além dos limites nacionais, surgiu
um mercado único e global. Tudo passou a ser negociado a
qualquer momento e em toda parte: dívidas do Terceiro Mun­
do (brady bonds), autopeças, mão-de-obra barata, órgãos hu­
manos. A globalização produziu novos fatos, mas tanto a
política quanto a ciência econômica permaneceram apegadas
a seus velhos conceitos e teorias: o estudo da “economia mun­
dial” ainda não faz parte do currículo universitário.
Mas qual foi, de fato, a mudança fundamental? O mercado
mundial devassou as entranhas da economia nacional e sua
língua alcançou, por assim dizer, a última das aldeias nos con­
fins do mundo. Desde o início do século X X , a exportação de
mercadorias foi incrementada pela exportação do capital. Ford
não exportou apenas automóveis dos Estados Unidos para a
Alemanha, mas também construiu, nesse país, uma fábrica para
o mercado alemão. A Volkswagen, por sua vez, investiu nos
Estados Unidos para suprir a demanda interna norte-america­
na. Assim, nasceram as empresas multinacionais, mas nem por
isso a coesão das economias nacionais foi posta em questão.
Sob a forma do mercado de câmbio europeu, o sistema de
crédito emancipou-se do controle exercido pelos bancos na­
cionais. Um especulador alemão pode operar com dólares no
Japão; uma empresa japonesa pode tomar empréstimos em
marco nos Estados Unidos. O mesmo vale para a produção:
uma mercadoria que será vendida por uma empresa alemã no
mercado alemão pode ser elaborada na Inglaterra ou no Brasil,
montada em Hong-Kong e o produto expedido do Caribe.
A partir da década de 60, o comércio mundial expandiu-se
com maior rapidez do que a produção mundial, e a aparente
autonomização do comércio ganhou novo alento no início dos
anos 80. Tal fenômeno foi resultado da globalização: assim,
por exemplo, a produção das “fábricas de montagem” japo­
nesas na América Latina e na Europa - cuja única tarefa é
montar componentes semiprontos, com a utilização mínima

136
PERDEDORES GLOBAIS

de produtos locais - aparece como exportação do México para


os Estados Unidos ou da Inglaterra para a Espanha. Em tais
casos, na verdade, não se trata de exportação ou importação
de bens de consumo ou investimentos entre diversas econo­
mias nacionais, mas de uma nova divisão de trabalho dentro
das próprias empresas multinacionais. A repartição das fun­
ções produtivas não se acha mais concentrada num único lugar,
mas difunde-se por vários países e continentes. Todos os com­
ponentes do processo produtivo e do sistema financeiro pe­
rambulam pelo globo. O mercado consumidor também teve
de expandir-se por todo o mundo, pois quanto maiores os
investimentos em tecnologia avançada e quanto maior a ra­
cionalização por meio da “'lean production”, tanto maior é o
desemprego e tanto menor o valor da força de trabalho e do
poder de compra nacional.
A concorrência, portanto, exige ao mesmo tempo o mar­
keting global e o “global outsourcing”, sempre em busca de
custos mais baixos e maiores vendas - não importa em que
região do mundo. A revista especializada alemã Wirtschafts-
woche formulou tal pensamento nos seguintes termos: “Pro­
duzir onde os salários são baixos, pesquisar onde as leis são
generosas e auferir lucros onde os impostos são menores” .
Desse modo, até mesmo administradores de empreendimentos
médios tornam-se aos poucos “global players” . O capital das
empresas não integra mais o estoque de capital nacional, masj
se internacionaliza. E isso é apenas o início de tal processo.
Segundo declarações da empresa de consultoria McKinsey,
cerca de 5% do capital “alemão” está globalizado, número que
deverá atingir, em breve, os 25 ou 30%. Com isso, altera-se
também a orientação estratégica. A fidelidade à economia na­
cional vai por água abaixo. N ão há mais nenhuma estratégia
de desenvolvimento econômico.
A direção da empresa alemã Siemens, por exemplo, reu­
niu-se recentemente em Cingapura e decidiu que sua mais nova
geração de chips não será produzida, como estava previsto, na
cidade de Dresden (antiga Alemanha Oriental), mas sim na
Escócia. O Deutsche Bank, para desgosto do Banco Central

137
OS ÚLTIMOS COMBATES

alemão, transferiu seu setor de investimentos de Frankfurt para


Londres. A Mercedes-Benz não publica mais seu balanço em
Stuttgart, mas em Nova York, e o mais novo lançamento au­
tomobilístico da empresa não será montado no sul da Alema­
nha, mas na França. As próprias indústrias fornecedoras
transferem sua produção para Portugal ou Polônia, para a Re­
pública Tcheca ou para o Sudeste Asiático; no país de origem,
permanece apenas o setor de finanças, mas em breve a própria
contabilidade será feita por alguma empresa indiana. A filo­
sofia da marca de qualidade desloca-se igualmente dos limites
econômicos nacionais para um nível mais globalizado: não
mais “Made in Germany”, mas “made in Mercedes” .
As conseqüências, sem dúvida, são absurdas e perigosas.
A economia privada avança todos os limites, mas o Estado
permanece - de acordo com sua natureza - restrito às fronteiras
territoriais. O Estado é cada vez menos o “capitalista ideal”
(Marx), com voz de comando ativa sobre o estoque de capital
nacional. A velha “economia política” transformou-se em “po­
lítica econômica” . Quando a política deseja impor limites à
ação desenfreada do mercado, as empresas globalizadas logo
ameaçam com um “Êxodo do Egito” . Isso vale também para
as imposições ecológicas. Proteger os mananciais hídricos? Po­
luição do solo? Que tal repetir tais perguntas no México, onde
se permite que o gado definhe aos montes, sem que os políticos
dêem a mínima importância? Depois nós voltamos a conversar
sobre a questão dos custos de produção...
Com a diminuição da competência do Estado, desfaz-se
também a contradição entre “libertação nacional e imperialis­
mo” . A maioria dos regimes fundados na acumulação nacional
fracassou, pois foi incapaz de financiar os custos de capital
inerentes a um desenvolvimento industrial autônomo, pres­
sionado pela globalização. Grande parte das indústrias estatais,
consideradas pouco lucrativas pelos padrões internacionais, é
desativada ou privatizada, isto é, comprada geralmente por
empresas globalizadas. A curto prazo, talvez seja possível, com
isso, sanear as contas públicas. Mas o capital estrangeiro não
visa mais ao desenvolvimento do país como um todo e é preciso

138
PERDEDORES GLOBAIS

atraí-lo com a redução de impostos e outras regalias. O resul­


tado, porém, é a diminuição do número de empregos, causada
pela racionalização, a evasão dos lucros e a ausência de garan­
tias para os investimentos.
Por outro lado, contudo, os antigos Estados imperialistas
não demonstram mais interesse na anexação territorial ou nas
“zonas de influência” . Afinal de contas, de que servem as enor­
mes regiões assoladas pela pobreza, cuja população não pode
mais ser utilizada? Toda “zona de influência” nacional repre­
senta um buraco negro improdutivo e de custos elevados. As
“zonas de rentabilidade”, porém, que se alteram quase diaria­
mente, estão distribuídas como um eczema ao longo do globo,
e nem mesmo os Estados poderosos são capazes de exercer
um controle efetivo sobre tal economia difusa. Dessa maneira,
as diferenças entre os países pobres e ricos são lentamente
niveladas, mas não em termos do bem-estar geral. Em toda
parte impõe-se a mentalidade voltada para a exportação, ou
seja, a integração direta e sem entraves ao mercado mundial,
ao passo que, simultaneamente, um número cada vez menor
de pessoas conseguem integrar-se economicamente a esse mes­
mo mercado. Zonas de livre-comércio, como o Nafta, a Co­
munidade Européia ou o Mercosul, só tendem a agravar o
problema, pois, geralmente, aceleram a desintegração da eco­
nomia nacional e promovem a união multinacional de peque­
nas ilhas de desenvolvimento. Da teoria do caos conhecemos
o “princípio da auto-semelhança” : determinadas estruturas se
repetem em todas as escalas globais. O sistema de mercado
global é “auto-semelhante” : num futuro próximo, em cada
continente, em cada país, em cada cidade, existirá uma quan­
tidade proporcional de pobreza e favelas contrastando com
pequenas e obscenas ilhas de riqueza e produtividade. Os Es­
tados, devido à falta de recursos financeiros, abandonam à sua
própria sorte uma parcela cada vez maior da população, rou­
bando-lhe o direito à cidadania. As autoridades, enfim, buscam
apenas manter o controle militar sobre os setores “extraterri­
toriais” da miséria e da barbárie.

139
OS ÚLTIMOS COMBATES

É evidente que o resultado desse tipo de globalização não


.. é nada auspicioso. Uma economia global limitada a uma mi-
noria sempre mais restrita é incapaz de sobreviven Se a con-
j corrência globalizada diminui cada vez mais o rendimento da
produção industrial e assola numa proporção ascendente a
economia das regiões, segue-se logicamente que o capital mun­
dial minimiza seu próprio raio de ação. A longo prazo, o capital
não poderá insistir na acumulação sobre uma base tão restrita,
dispersa por todo o mundo, do mesmo modo como não é
possível dançar sobre uma tampinha de cerveja.
Além disso, a globalização acarreta uma nova contradição
estrutural entre o mercado e o Estado. De fato, por meio da
internacionalização do estoque monetário, o capital foge ao
controle estatal e diminui as receitas públicas. Por outro lado,
o capital globalizado depende mais do que nunca de uma in­
fra-estrutura funcional (portos e aeroportos, estradas, sistemas
de transporte e comunicação, escolas, universidades, etc.),
que, como antes, deve ser organizada por iniciativa estatal. A
globalização, podemos concluir, tira do poder do Estado os
meios financeiros imprescindíveis para o próprio desenvolvi­
mento da globalização.
Entretanto, são sobretudo as reações desesperadas dos ho­
mens “cuspidos” do mercado que desencadeiam a crise do
povo sistema mundial. Os custos da “segurança” crescem em
proporções astronômicas. Os antigos países imperialistas,
numa economia globalizada, não podem mais declarar guerra
uns aos outros, mas são obrigados a mobilizar conjuntamente
uma “polícia mundial” contra os perdedores globais, a fim de
garantir condições sociais condizentes às ilhas de riqueza. Tal­
vez essa nova guerra seja ainda mais dispendiosa do que a
antiga Guerra Fria. Por toda parte, a máfia começa a usurpar
os atributos da soberania estatal. Ditaduras truculentas, como
o regime de Saddam Hussein, tornam-se imprevisíveis. O fun-
damentalismo religioso inunda o mundo com seu terrorismo.
; Em diversos países surgem movimentos militantes, carentes
de qualquer perspectiva, denominados, em geral, “nacionalis­
tas”, mas que, na verdade, são “etnicistas” e, na maioria das

140
PERDEDORES GLOBAIS

vezes, separatistas. Ao contrário dos antigos movimentos nacio­


nalistas burgueses, da Revolução Francesa ao Terceiro Reich, não
se trata agora da integração nacional, mas sim da desintegração
econômica das nações. A globalização de uma “economia da
minoria” tem como conseqüência direta a “guerra civil mundial”,
em todos os países e em todas as cidades.
Podemos apenas perguntar com voz abafada o que é pre­
ciso fazer para barrar essa evolução. Um retorno ao mundo
das economias nacionais é improvável. Paradoxalmente, no
entanto, as portas da política ainda permanecem abertas ao
Estado nacional. Com base nessa contradição, será possível
superar as nações de um modo não apenas negativo? È viável
a criação de territórios “pós-nacionais” e campos operacionais
situados além do mercado e do Estado?
Sob o jugo da economia nacional, a nível local e regional,
alguns países desenvolveram novas formas cooperativas de ad­
ministração e abastecimento autônomos, capazes de suprir as
necessidades básicas do homem. Mas os recursos para tanto
são absolutamente insuficientes. Como exemplo, podemos ci­
tar o movimento encabeçado por Betinho no Brasil, as ONGs
e algumas associações de renome mundial, como a Anistia
Internacional e o Greenpeace, que não têm propósitos comer­
ciais nem são vinculados ao Estado. Entretanto, nenhum desses
grupos possui até agora competência social ou econômica;
ocupam-se apenas com as conseqüências negativas da globa­
lização, sem questionar o sistema econômico como um todo.
E qual a função da teoria, do pensamento crítico interna­
cional? A “paz eterna”, proclamada por Kant no limiar da era
moderna como a paz entre as nações independentes, foi tão
incapaz de cumprir sua promessa quanto o “internacionalismo
proletário” dos movimentos socialistas. Nos dias de hoje, pa­
rece que a filosofia capitulou definitivamente ante à barbárie
do mercado total. Será que a comunicação internacional ficará
resumida, por fim, aos lançamentos contábeis dos mercados
financeiros globalizados? O pensamento inconformista deve
ser tão ágil quanto o dinheiro fugidio. O que nos falta, na
verdade, é a globalização de uma nova crítica social.

141
A síndrome do obscurantismo

Na imagem que faz de si mesmo, o Ocidente é um mundo


livre, democrático e racional, ou seja, o melhor dos mundos
possíveis. Do seu ponto de vista, esse mundo é pragmático e
aberto, sem pretensões utópicas ou totalitárias. Cada um deve
“ser feliz segundo seu próprio modo de ser”, de acordo com
a promessa de tolerancia feita pelo Iluminismo europeu. Os
representantes desse mundo se dizem realistas. Afirmam que
suas instituições, seu pensamento e sua ação encontram-se em
harmonia com as “leis naturais” da sociedade, com a “reali­
dade” atual. O socialismo, pelo que ouvimos, desmoronou
porque não era realista. Junto com o socialismo, foi definiti­
vamente enterrada toda utopia de uma mudança fundamental
da sociedade. E os antigos críticos do “way of life” ocidental
agora se acotovelam nas bilheterias do “realismo” para com­
prarem a tempo seu ingresso na economia de mercado globa­
lizada.
Esse idílio da tolerância e da democracia econômica mun­
dial, no entanto, produziu um novo inimigo. Com a morte do
socialismo, entrou em cena o fundamentalismo religioso. O
fundamentalismo é feio, muito mais feio do que o socialismo
jamais poderia sê-lo. Aos olhos dos ideólogos ocidentais, ele

143
OS ÚLTIMOS COMBATES

. possui feições árabes muito acentuadas. Nos últimos anos, o


Pentágono começou a conceber o fundamentalismo islâmico
como um substituto para o papel de inimigo histórico. Como
nos tempos da Guerra Fria, são subvencionadas na nova cons­
telação mundial todas as forças políticas que se declaram con­
tra o fundamentalismo e a favor do Ocidente, por mais
corruptos e cruéis que sejam os regimes à frente de tais forças.
Mas o novo cálculo estratégico, com que os especialistas oci­
dentais procuram justificar sua existência, insiste em deixar
resto. Ao contrário do socialismo, o fundamentalismo não é
mais um adversário racional, politicamente definido e previ­
sível em suas ações. Além de não possuir um centro de ativi­
dades nitidamente localizável no mundo, ele também não se
restringe apenas ao islamismo. Em muitas regiões da África
não-muçulmana e em toda a América Latina, seitas fundamen-
talistas cristãs assumiram nos últimos anos o lugar antes ocu­
pado pelos movimentos socialistas.
A mesma ilusão social do fundamentalismo religioso flo-
, resce também nos próprios centros econômicos ocidentais. Foi
um choque para os Estados Unidos descobrirem que os res­
ponsáveis pelo devastador atentado a bomba em Oklahoma
City não eram terroristas islâmicos e estrangeiros, mas sim
cidadãos brancos e norte-americanos, adeptos de uma facção
ideológica cristã. E quem poderia imaginar que num país como
o Japão, considerado o aluno exemplar do sucesso econômico,
um movimento radical comandado, que prega o final dos tem­
pos, pudesse influenciar tantas pessoas e até aliciar adeptos no
Exército japonês? Os fanáticos religiosos tomam a ofensiva
por toda parte. De onde eles vêm? Com certeza não de outros
planetas. Vêm justamente do interior do próprio mundo do­
minado pela economia de mercado. O “realismo” neoliberal,
na verdade, conhece muito mal as pessoas. Ninguém mais pode
negar que no mundo do liberalismo econômico a miséria social
se alastra como um incêndio de vastas proporções.
Não apenas no Brasil, mas também em todo o mundo, a
liberdade e tolerância ocidentais dão provas de um cinismo
próprio à “ democracia do apartheid”, como bem a denominou

144
A SÍNDROME DO OBSCURANTISMO

Jurandir Freire Costa. Ao mesmo tempo, não é apenas nas


favelas que os vínculos sociais são rompidos, mas em todas as
classes sociais. Tanto o efetivo processo econômico quanto a
ideologia neoliberal tendem a dissolver as relações humanas
na economia. O economista norte-americano Gary S. Becker
foi laureado, em 1992, com o Prêmio Nobel por desenvolver
a hipótese de que todo comportamento humano (até mesmo
o amor) é orientado pela relação custo-benefício e pode ser
representado matematicamente.
Os “realistas” não têm resposta para a miséria social nem
para a miséria das relações e sentimentos humanos num mundo
inteiramente racionalizado pela economia; eles apenas enco­
lhem os ombros e passam à ordem do dia imposta pelo mer­
cado. Mas a miséria não pode permanecer calada, tem de
; encontrar sua própria linguagem. Como, porém, a linguagem
racional do socialismo está morta, o irracionalismo da lingua­
gem religiosa faz seu retorno a uma sociedade confusa - só
que agora com uma gramática muito mais selvagem e funesta.
Agora se tornou evidente que o socialismo não era apenas
uma ideologia, mas também uma espécie de filtro ético sem o
qual a civilização moderna é totalmente incapaz de existir.
Privada desse filtro, a economia de mercado sufoca em sua
própria imundície, que deixou de ser assimilada institucional-
mente. Ao longo de quase 150 anos, até a década de 70 desse
século, todo surto de modernização econômica desencadeava
simultaneamente uma reação revolucionária da juventude in­
telectual. A solidariedade aos “fracos e oprimidos” foi sempre
um forte impulso à oposição e à crítica radical, inclusive sob
o império da “juventude dourada” das classes mais altas. Após
a vitória global do mercado, esse impulso extinguiu-se. Os
“golden boys” e as “golden girls” da era neoliberal querem
apenas jogar na Bolsa. A juventude da classe média, numa
atitude narcisista, abandonou os preceitos morais e deixou de
lado o trabalho intelectual. Seu espírito capitulou diante do
mercado globalizado. Seja no Egito ou na Argélia, no Brasil
ou na índia, jovens ocidentalizados sonham em ganhar dinhei­
ro como engenheiros ou médicos, jogadores de futebol ou

145
OS ÚLTIMOS COMBATES

'• corredores de atletismo, com o tempo, não se sentem mais


' responsáveis pela miséria social.
Os intelectuais estetizam a miséria e a exploram comer-
•[ cialmente; os sofrimentos daqueles que passam fome são trans-
( formados em publicidade. O temperamento ditado pela lógica
do mercado chegou mesmo a criar um “culto à maldade” . Em
seu livro sobre o “Renascimento do Mal”, o sociólogo Ale-
xander Schuller afirma: “Não é mais o progresso e a razão que
povoam nosso cotidiano e nossa fantasia, mas sim o mal. Desde
a queda do socialismo, é possível verificar um aumento empí­
rico da crueldade, e por toda parte impera uma maldade in­
compreensível” .
, Mas, se a própria juventude da classe média está moral-
^ mente perdida, a base moral para que os filhos dos pobres
( compreendam sua miséria é ainda mais problemática. Numa
\ pesquisa realizada em Moscou com menores de 14 anos, a
maioria dos meninos respondeu que sua “ profissão dos so­
nhos” é ser “mafioso”, e as meninas, “prostituta” . O funda-
mentalismo não supera essa ausência de moralidade, mas
apenas lhes dá uma expressão irracional. Quando essa regres­
são pseudo-religiosa se apodera do último resíduo de uma
esperança perdida, arquivada ainda pendente pela história, a
vontade de mudança torna-se o pálido desejo de ser deixado
em paz pela economia de mercado. O fundamentalismo não
possui um programa de emancipação social, mas apenas um
projeto ideológico de pura agressão, resultado, aliás, do pró­
prio fracasso em concretizar a liberdade. Todo o seu programa
esgota-se num ímpeto agressivo com roupagem religiosa,
como na expressão dos jovens favelados de Paris: “J ’ai de la
haine” (tenho ódio). As novas religiões do ódio, sejam elas de
origem islâmica ou cristã, são todas de natureza sintética, ar­
bitrária e eclética. Todas têm apenas o nome em comum com
as autênticas tradições religiosas a que se remetem. São um
subproduto da modernidade decadente das sociedades de mer­
cado ocidentais ou ocidentalizadas. Pelo próprio fato de não
oferecerem uma perspectiva histórica, tornam-se uma atraente

146
A SÍNDROME DO OBSCURANTISMO

alternativa de carreira para pequenos e grandes “líderes” que


se valem do ressentimento generalizado.
Os representantes da sociedade oficial e os ideólogos do
neoliberalismo reagem a essa evolução ao tentarem aliar a ló­
gica de mercado às “virtudes conservadoras” . Os homens de­
vem ser ao mesmo tempo egoístas e altruístas, implacáveis na
concorrência e humildes perante Deus, minuciosos no cálculo
abstrato de custos e benefícios e ao mesmo tempo moralmente
imaculados. Com essa esquizofrenia ética e pedagógica, o pen­
samento dos próprios “ realistas” econômicos transforma-se
na mentira dos fundamentalistas: não há como diferenciar uma
ideologia da outra. E isso não espanta, pois o pano de fundo
do fundamentalismo é constituído não apenas pela pobreza,
mas também pelo medo da classe média com relação aos po­
bres. A ilusão pseudo-religiosa constrói seu ninho tanto nas
cabeças dos pobres quanto na dos ricos. A militância social da
classe média, sob o disfarce de religião, não é menos poderosa
do que a loucura dos pobres. Em seu ensaio “Visões da Guerra
Civil”, o escritor alemão Hans Magnus Enzensberger caracte­
riza essa tendência das “sociedades respeitáveis” : “ Cidadãos
discretos transformam-se da noite para o dia em ‘hooligans',
incendiários, fanáticos raivosos, ‘serial killers’ e franco-atira­
dores”.
O fundamentalismo é “realista” e o “realismo” é funda-
mentalista. Ambos possuem a mesma estrutura ideológica.
Ambos falam, como se sabe, do “final da história” , só que a
escatologia do mercado acredita que esse final já foi alcançado.
E ambos transitam pelos mesmos meios: os empresários, assim
como os pregadores supostamente iluminados, são ávidos poi
! dinheiro. Os pregadores, assim como os políticos, são ávidos
! por aparecer na televisão.
Por outro lado, não se pode negar o caráter quase religiose
do “realismo” econômico. Pois não vimos o presidente George
Bush, a exemplo de seu adversário islâmico Saddam Hussein,
enviar à frente de batalha o Deus de uma religião militante:
E isso não é apenas um simples detalhe. A racionalidade dc
mercado tem origem religiosa; ela só é racional na medida err

141
OS ÚLTIMOS COMBATES

que um sistema irracional, fechado sobre si mesmo, cria sua


racionalidade interna. O resultado da historia moderna - o
mercado total - é o resultado de uma religião secularizada que
ganhou forma no protestantismo. Os Estados Unidos, a última
força mundial do mercado, estão impregnados do fundamen-
talismo calvinista que considera o sucesso financeiro um fim
em si mesmo. A tolerância ocidental é somente uma forma
particularmente pérfida de intolerância, pois o deus do mer-
r cado não admite nenhum outro deus além de si mesmo e tolera
apenas aquilo que se submete incondicionalmente a seus mé-
/ todos.
O fim da história é o retorno da história. O início da moder­
nização econômica foi marcado pelas guerras religiosas do sé­
culo XVII. Essa época foi substituída pelo absolutismo, com
sua estrutura estatal e mercantilista. Somente no século XIX,
nasceu o liberalismo do livre mercado. Mas como definir o
. século X X ? Sob o aspecto formal, ele transformou o mercado
i numa totalidade perfeita, mas não sem provocar crises avas-
j saladoras. Este é o século em que a história começou a voltar-se
para o passado. As economias estatais das duas guerras mun­
diais, o socialismo estatal, tanto do Oriente quanto do hemis­
fério sul, e também o keynesianismo do Ocidente (com seus
rudimentos de economia estatal), podem ser compreendidos,
de certa maneira, como um regresso à era mercantilista.
Hoje, após o colapso de todas as variantes da economia
de Estado moderna, o neoliberalismo promete uma nova Era
de Ouro para o livre-mercado. Mas, se é verdade que a história
voltou-se realmente para o passado, uma era totalmente dife­
rente nos acena no futuro. O cientista político norte-america­
no Samuel E Huntington diz mais do que imagina ao propor
a hipótese de que a época dos conflitos entre ideologia e Es­
tados nacionais será substituída por um “conflito de civiliza­
ções” . Qual o significado disso, senão que o processo de
modernização econômica - antes de ser definitivamente suga­
do pelo buraco negro da história - retornará à era da militância
religiosa e à Guerra dos 30 Anos? O neoliberalismo será irre­
mediavelmente arrastado por essa tendência porque sua pró­

148
A SÍNDROME DO OBSCURANTISMO

pria “utopia negra” do mercado total possui um germe de


religião totalitária. O socialismo, ao contrário, não se baseava
apenas na economia estatal, mas também na idéia de uma so­
ciedade solidária, que sanciona suas próprias leis em vez de
seguir princípios irracionais. Se não quisermos que o século
, X X I se torne uma nova época de guerras religiosas, devemos
reformular o socialismo num registro não mais dominado pela
economia de Estado. Somente desse modo será possível dar
uma nova abertura à história.

149
Para além de Estado e Mercado

Existe um sonho característico da modernidade: o sonho


da emancipação social, da autodeterminação do homem, de
uma produção autônoma da vida. Ao mesmo tempo, o pro­
cesso histórico da modernização destruiu a economia agrária,
deu livre curso à produção de mercadorias e transformou todas
f as relações sociais em relações monetárias. Instituições pouco
desenvolvidas, como o Estado e o mercado, tornaram-se for-
j mas híbridas e começaram a preencher todo o espaço social.
O que foi feito do sonho da emancipação social?
O projeto das reformas sociais, da libertação nacional e
do socialismo, estavam baseados, sem exceção, no controle
estatal do mercado. O Estado social keynesiano do Ocidente
propunha retirar o excedente monetário do mercado e rever­
tê-lo em benefício de programas sociais. Como “empreende­
dor geral”, o Estado socialista do Oriente e do hemisfério Sul
arrogava-se o direito de decretar ao mercado seus próprios
preços e salários. Em ambos os casos, os homens eram meros
objetos de uma burocracia que desmoronou por fim sob o peso
do mercado globalizado. Ao contrário do que afirma o libe­
ralismo, o mercado não é uma esfera de ação autônoma para
os homens, mas, simplesmente, o reverso da mesma medalha.

151
OS ÚLTIMOS COMBATES

O próprio mercado é o responsável pela sujeição dos homens


à “ditadura muda” do dinheiro e da rentabilidade econômica.
E por isso que a crítica ao Estado feita pelo mercado liberal é
tão pouco emancipatória quanto a crítica ao mercado feita
pelo Estado socialista. A liberalização econômica serve apenas
para frustrar as últimas esperanças de responsabilidade social,
disfarçadas no capitalismo e no socialismo, com as máscaras
burocráticas do aparato estatal.
No limiar do século X X I, o sistema híbrido composto pelo
Estado e mercado parece conduzir às raias do absurdo. De
fato, se este sistema não é mais capaz de integrar socialmente
milhões de pessoas em todo o mundo, ele está condenado a
deixar de ser a forma predominante de sociedade. Em razão
disso, um número cada vez maior de vozes ergue-se para pro­
por novas formas de reprodução social, para além do Estado
e do mercado. Em sua “Crítica da Razão Econômica”, o so-
1 ciólogo francês André Gorz introduziu o conceito de ativida­
des autônomas, organizadas pela reunião de voluntários nas
“ microesferas sociais” de bairros e distritos. Sua idéia está vol­
tada, sobretudo, para atividades culturais ou sociais, como,
por exemplo, a criação de creches e asilos, mas tem em vista
também a produção de alimentos e bens de necessidade básica.
Jeremy Rifkin, economista e crítico social norte-americano,
•] chega mesmo a vislumbrar uma “era pós-mercado”, com o
; desenvolvimento de um terceiro setor como âmbito social au-
j tônomo.
Não se trata, como pode parecer à primeira vista, de pura
elucubração teórica. Nos últimos 10 ou 20 anos, o mundo viu
crescer a importância de um espaço social difuso entre o Estado
e o mercado. Não me refiro aqui à “economia informal”, que
muitas vezes não passa de um mercado ilegal e brutalizado.
Ao contrário, o terceiro setor é composto da união de inúmeros
agrupamentos voluntários, destinados a conter a miséria social
e barrar a destruição ecológica. A maioria desses grupos dá
, grande valor à administração autônoma. No campo prático,
eles avançam no terreno abandonado pelo mercado e pelo
í Estado em virtude da baixa rentabilidade ou da falta de recur­

152
PARA ALÉM DE ESTADO E MERCADO

sos financeiros. Suas atividades abrangem desde a criação de


cozinhas públicas, o cultivo de hortas e a coleta de lixo, até
serviços de creche, reforma de moradias e organizações de
escolas particulares. Dentre os nomes citados por Jeremy Rif-
kin, estão entidades como os Travaux d ’Utilité Collective, na
França, as Jichikai (comunidades de ajuda mútua), no Japão,
as Organizaciones Económicas Populares, no Chile, ou as jun­
tas de vecinos em outros países da América Latina. Como rubrica
comum, foram cunhados os nomes “Non-Profit Organizations”
- organizações sem fins lucrativos - e “ Organizações Não-Go-
vernamentais” (ONGs), para assim deixar bem claro que não
se trata de iniciativas comerciais nem burocráticas.
A questão decisiva é saber se o terceiro setor tem condições
de ser um novo paradigma de reprodução social. Para que isso
seja possível, ele terá de ir além das simples medidas paliativas
ou de urgência, destinadas somente a fazer curativos leves nas
feridas abertas pela “mão invisível” do mercado globalizado.
! Se não houver mais nenhum surto de crescimento econômico,
como muitos ainda esperam, o terceiro setor precisará formu-
i lar sua própria perspectiva de desenvolvimento para o século
X XI, em vez de ser um mero sintoma passageiro da crise.
Em que consiste, afinal, a lógica econômica de tais ativi­
dades? Salta aos olhos o fato de autores como Gorz ou Rifkin
ainda descreverem o problema de acordo com as categorias
impostas pela economia de mercado. Gorz, além de propor o
pagamento em dinheiro de uma receita mínima para todos os
trabalhadores, sugere a utilização da elevada produtividade
técnica para diminuir a jornada de trabalho. O tempo livre
seria utilizado em proveito de organizações voluntárias, situa­
das à margem do Estado e do mercado. Rifkin, ao contrário,
espera gerar inúmeros “empregos remunerados”, dentro do
próprio setor cooperativo. Em ambos os casos, porém, o ter­
ceiro setor é visto como o irmão caçula do mercado, pois as
fontes de “financiamento” são necessariamente as migalhas de
caridade deixadas pela produção que visa ao lucro. Segundo
as leis objetivas do mercado, o aumento da produtividade téc-

153
OS ÚLTIMOS COMBATES

nica não implica a redução da jornada de trabalho, mas sim­


plesmente a redução dos custos produtivos. Nas atuais condi­
ções, isso equivale ao desemprego em massa para grande parte
da população, ao passo que o incremento da produtividade é
consumido para enfrentar a concorrência nos mercados glo­
bais. Os pontos de vista de Gorz e Rifkin ameaçam permanecer
um simples modelo de subvenção para países ricos, uma espé­
cie de passatempo altruísta para os campeões do mercado.
Sem dúvida, é impossível conceber a substituição total e
imediata do sistema de mercado pelo terceiro setor. Pode-se
imaginar, no entanto, um número cada vez maior de pessoas
cujas necessidades sejam satisfeitas sem o uso do dinheiro, com
a utilização de serviços organizados comunitariamente. Isso já
ocorre hoje em muitas dessas iniciativas. A ausência total ou
parcial de subvenção significa que as atividades, o tempo e os
recursos de tal setor, estão “desconectados” da lógica mone­
tária.
A história do movimento trabalhista registra uma tentativa
análoga a esta, sob a forma das cooperativas. A idéia coope­
rativista original não consistia apenas em lutar por salários
mais altos e melhores condições de trabalho, mas também em
resguardar, por meio de atividades autônomas, certos âmbitos
da vida pressionados pelo trabalho assalariado. Os partidos
socialistas e os sindicatos patrocinaram tais “economias comu­
nitárias”, como, por exemplo, as comunidades de consumo,
de produção e de moradia. Esse embrião cooperativo, entre­
tanto, foi esmagado pela expansão histórica do mercado. De­
pois da conquista de aumentos salariais significativos e da
redução da jornada de trabalho nos setores industriais, os sin­
dicatos perderam o interesse no movimento cooperativista.
O Estado, como era de se esperar, não via com bons olhos
a criação de uma esfera autônoma; seus esforços concentraram-se
em transformar o cooperativismo numa atividade lucrativa, para
então poder lançar impostos sobre a receita monetária resul­
tante. Em parte coagidas pela legislação, em parte espontanea­
mente, as cooperativas tornaram-se empresas perfeitamente
adequadas ao mercado; não fosse assim, estariam condenadas

154
PARA ALÉM DE ESTADO E MERCADO

a desaparecer pouco a pouco. Eis aqui uma ironia histórica:


enquanto em vários países os sindicatos liquidam os últimos
vestígios da antiga “comunidade” assolada pelo capital, o ter­
ceiro setor surge “de baixo”, com força renovada, uma vez
que o Estado e o mercado são incapazes de apreender a vida
em sua totalidade.
Os economistas, com certeza, afirmarão que o terceiro
setor não resistirá ao mercado, pois os custos dos investimentos
necessários para as iniciativas autônomas são muito elevados,
e sua produção só seria possível com meios primitivos. Isso é
perfeitamente válido para a produção de certos bens como
computadores, máquinas, implementos, etc. Para as atividades
iniciais do terceiro setor, a fabricação dessas mercadorias es­
taria descartada. Quanto aos bens de consumo e aos serviços,
no entanto, o prognóstico dos economistas é totalmente in­
fundado. N o plano técnico, de fato, a revolução microeletrô-
nica desencadeou uma miniaturização e, no plano econômico,
uma enorme queda nos preços dos meios de produção. Cal­
culadoras e máquinas, que há menos de 20 anos ocupavam o
espaço de casas inteiras e exigiam uma inversão considerável
de capital, hoje em dia estão reduzidas ao formato de bolso e
são acessíveis à grande maioria. Por que então esse intenso
crescimento do volume de capital na indústria de bens de con­
sumo e nos serviços? A razão é simples: como empreendimen­
tos lucrativos, tais setores são obrigados a concorrer com os
lucros da indústria de meios de produção e com os rendimentos
do mercado financeiro. E por isso que eles se curvam à ten­
dência de concentração do capital e são rentáveis apenas quan­
do dominam grandes fatias do mercado. Esse problema, por
definição, está excluído das organizações sem fins lucrativos:
sua produção está voltada diretamente às necessidades do con­
sumidor, e não à renda do capital.
Um bom exemplo são as empresas incorporadoras. Um
investidor de capital não se interessa simplesmente em cons­
truir casas ou prédios, mas deseja, sobretudo, um retorno para
seu capital que seja pelo menos igual ao lucro obtido em outros
investimentos. Os membros de uma cooperativa, ao contrário,

155
OS ÚLTIMOS COMBATES

querem morar ñas casas que constroem. Não precisam de ne­


nhum lucro extra, mas apenas do capital para pagar as maté­
rias-primas e a mão-de-obra especializada. Muitos serviços
podem ser realizados por eles próprios. Critérios sociais, es­
téticos e ecológicos podem ser analisados com atenção redo­
brada, uma vez que os lucros não entram em questão. Para tais
projetos, obviamente, é preciso tempo, espaço e orientação
jurídica adequada. Com base nisso, podemos prever um grande
conflito no futuro. O sistema econômico e jurídico está fun­
dado na captação de recursos privados ou estatais. O mercado
considera natural a força de trabalho pôr-se à inteira disposição
dos lucros; quem não tem “trabalho” deve implorar de joelhos
para obtê-lo. A classe política considera natural o homem ser
administrado pelo Estado. Assim como no passado, os empre­
sários e políticos de hoje não têm nenhum interesse na criação
de um setor autônomo e externo a seu controle.
A medida que o mercado eleva seu próprio padrão de ren­
tabilidade, o número de escritórios vazios cresce em todo o
mundo, os meios de produção são desativados em proporções
assustadoras e os grandes latifúndios permanecem improduti­
vos. Tais recursos não são doados às ONGs nem a organizações
sem fins lucrativos, mas ficam sob custódia de uma proprie­
dade abstrata, seja ela pública ou privada, sem receber o tra­
tamento adequado.
Razoes como essas nos levam a concluir que o terceiro
setor será um fator político de peso. Ou melhor, um fator
antipolítico ou pós-político, pois as novas iniciativas não se
deixam rotular de acordo com as velhas categorias da política
moderna. Uma tal tendência ainda é pouco aparente, pois,
apesar de algumas exceções, os politiqueiros, os arrivistas e os
terroristas de Estado recebem mais atenção na mídia do que
os grandes movimentos do terceiro setor. Isso também é re­
sultado, em parte, da timidez desses grupos, da ausência de
um discurso social mais mordaz. Até agora, seus próprios in­
tegrantes não se reconheceram como uma força histórica ino­
vadora.

1S6
PARA ALÉM DE ESTADO E MERCADO

O apoio de grupos da esquerda política é igualmente du­


vidoso. Seu apego ao conceito de Estado é ainda muito forte
para aceitarem os movimentos do terceiro setor como um pos­
sível aliado. O mais provável é que farejem nas atividades coo­
perativistas uma perigosa concorrência política, e não uma
forma promissora de emancipação social. Antigos marxistas
preferem capitular diante do neoliberalismo a superar critica­
mente seu próprio passado. Talvez seja mais refinado surpreen­
der os neoliberais militantes com a seguinte resposta: vocês
têm razão, a iniciativa pessoal e a organização descentralizada
são tão superiores aos dinossauros do estatismo como Davi é
superior a Golias; mas quem me diz que a alternativa deve
assumir feições comerciais? As organizações sem fins lucrati­
vos e as ONGs não podem restringir-se às atividades locais,
pois hoje já formam uma rede internacional. Talvez o futuro
esteja nas mãos de uma “ economia natural microeletrônica”,
fundada em vínculos cooperativos. E talvez o sistema totalitá­
rio da economia de mercado (assim como o Estado) seja ele
próprio um Golias corpulento, para quem a pedra e a funda
já estão armadas, à espera do momento exato para derrubar
o gigante.
O torpor do capitalismo

Há uma concepção ingênua, porém sensata, sobre a pro­


dutividade: quanto mais ela cresce, assim pensa o bom racio­
cínio humano, mais alívio traz à vida em comum. A maior
produtividade permite fabricar mais bens com menos trabalho.
Não é maravilhoso? Em nossa época, no entanto, parece que
o aumento da produtividade, além de criar uma quantidade
exagerada de bens, resultou numa avalanche de desemprego
e de miséria.
Desde o final dos anos 70, os sociólogos costumam falar
de um desemprego tecnológico ou “estrutural” . Isso significa
que o desemprego desenvolve-se com independência dos mo:
vimentos conjunturais da economia e cresce até mesmo em
períodos de surto financeiro. Nos anos 80 e 90, a base desse
desemprego estrutural, de ciclo para ciclo, tornou-se cada vez
maior em quase todos os países; em 1995, segundo números
, da Organização Internacional do Trabalho, 3 0% da população
economicamente ativa de todo o mundo não possuía emprego
estável. Essa triste realidade, além de incompatível com o bom
raciocínio humano, suscitou uma curiosa reação dos econo­
mistas. Os doutores em ciências econômicas agem como se o
fenômeno irracional do desemprego em massa não tenha ab-

159
OS ÚLTIMOS COMBATES

solutamente nada a ver com as leis da economia moderna; as


causas, segundo eles, devem ser buscadas em fatores alheios à
economia, sobretudo na política financeira equivocada dos
governos. Ao mesmo tempo, porém, os mesmos economistas
afirmam que o aumento da produtividade não diminui o nú­
mero de empregos, mas é responsável, ao contrário, pelo seu
crescimento. Isso foi comprovado pela história da moderni­
dade. O que para o observador imparcial se assemelha à causa
da doença, deve assim integrar a própria receita para a cura.
Os economistas operam com uma equação que mais parece
um sofisma. Onde está o erro?
Um axioma da teoria econômica afirma que o objetivo da
produção é suprir a falta de bens da população. Ora, isso é
, uma pura banalidade. Todos sabem que o objetivo da produção
moderna é originar um lucro privado. A venda dos bens pro­
duzidos deve render mais dinheiro do que o custo de sua pro­
dução. Qual a relação interna entre esses dois objetivos? Os
economistas dizem que o segundo objetivo é apenas um meio
(na verdade, o melhor meio) de atingir a primeira meta. E, no
entanto, é evidente que ambos objetivos não são idênticos; o
primeiro refere-se à economia como um todo, o segundo à
economia das empresas. Disso resultam contradições que, des­
de seu início, tornaram instável o sistema econômico moderno.
A idéia tão natural de que o aumento da produtividade facilita
a vida dos homens não leva em conta a racionalidade das em­
presas. Na verdade, trata-se de saber qual será o uso de uma
maior capacidade produtiva. Se a produção visa a suprir as
próprias necessidades, a evolução dos métodos e dos meios
será utilizada simplesmente para trabalhar menos e desfrutar
do maior tempo livre. Um produtor de bens para o mercado,
no entanto, pode ter a brilhante idéia de trabalhar tanto quanto
agora e utilizar a produtividade adicional para produzir uma
quantidade ainda maior de mercadorias, a fim de ganhar mais
dinheiro em vez de aproveitar o ócio. Um administrador de
empresas é mesmo forçado a chegar a essa idéia, pois de nada
lhe serve que os assalariados conquistem um maior espaço de
tempo livre. Para ele, a produtividade adicional representa, de

160
O TORPOR DO CAPITALISMO

qualquer modo, um trunfo contra a concorrência, sendo re­


vertida em benefício da diminuição dos custos da empresa, e
não em favor da maior comodidade dos produtores.
E por isso que, na história econômica moderna, a jornada
de trabalho diminuiu numa proporção muito menor do que
o aumento correspondente de produtividade. Hoje em dia, os
assalariados ainda trabalham mais e durante mais tempo do
que os camponeses da Idade Média. A diminuição dos custos,
portanto, não significa que os trabalhadores trabalham menos
7 mantendo a mesma produção, mas que menos trabalhadores
| produzem mais produtos. O aumento da produtividade repar­
te seus frutos de forma extremamente desigual: enquanto tra­
balhadores “supérfluos” são demitidos, crescem os lucros dos
empresários. Mas, se todas as empresas entrarem nesse pro­
cesso, há a ameaça de surgir um efeito com que não contavam
os interesses obtusos da economia empresarial: com o cres-'1
cente desemprego, diminui o poder de compra da sociedade.
Quem comprará então a quantidade cada vez maior de mer­
cadorias? As guildas dos artesãos da Idade Média pressentiram
esse perigo. Para elas, era um pecado e um crime fazer con­
corrência aos colegas por meio do aumento de produtividade
e tentar conduzi-los a todo custo à ruína. Os métodos de pro­
dução eram, por isso, rigidamente fixados, e ninguém os podia
modificar sem o consentimento das guildas. O que impedia
um desenvolvimento tecnológico era menos a incapacidade
técnica do que essa organização social estática dos artesãos.
Estes não produziam para um mercado no sentido moderno,
mas para um mercado regional limitado, livre de concorrência.
Essa ordem de produção durou mais tempo do que geral­
mente se supõe. Em grande parte da Alemanha, a introdução
de máquinas foi proibida pela polícia até meados do século
XVIII. A Inglaterra, como se sabe, foi a primeira a derrubar
tal proibição. O caminho, assim, ficou livre para as invenções
técnicas, como o tear mecânico e a máquina a vapor, os dois
motores da industrialização. E, súbito, irrompeu a temida ca­
tástrofe social: em toda a Europa, na passagem do século XVIII
para o X IX , alastrou-se o primeiro desemprego tecnológico

161
OS ÚLTIMOS COMBATES

em massa. Tudo isso é passado, dizem os economistas: a evo­


lução posterior não demonstrou que os temores eram infun­
dados? De fato, apesar da expansão continua das novas forças
produtivas do ramo industrial, o desemprego tecnológico caiu
rapidamente. Mas por que motivo? Acossados pela concor­
rência recíproca, os industriais foram obrigados a restituir aos
consumidores parte de seus ganhos com a produção. As má­
quinas tornaram os produtos essencialmente mais baratos ao
consumidor. Embora para a produção de uma certa quantidade
de produtos têxteis fosse necessária uma força de trabalho
menor do que antes, a demanda por roupas e tecidos baratos
cresceu tanto que, ao contrário das expectativas, um número
considerável de trabalhadores foi empregado nas novas indús­
trias. Com isso, porém, o problema não foi solucionado pela
raiz. Todo mercado, a seu tempo, atinge um limite de saturação
que o torna incapaz de conquistar novas camadas de consu­
midores. Somente numa certa fase da evolução, o aumento da
produtividade conduz à criação de mais empregos para a so­
ciedade, apesar da menor quantidade de trabalho necessária
para a confecção de cada produto. Nessa fase, os métodos
desenvolvidos barateiam o produto e o preparam ao grande
consumo das massas. Antes de alcançar esse estágio, o aumento
de produtividade lança o antigo modo de produção numa pro­
funda crise, como mostra o exemplo dos artesãos têxteis no
século XIX.
Na outra ponta do desenvolvimento, a crise é igualmente
uma ameaça (com base na própria produção industrial), quan­
do o estágio de expansão é ultrapassado e os mercados peri­
féricos encontram-se saturados. Mas essa mesma expansão
ainda pode ser transferida a outros setores. Ao longo do século
XIX, os antigos redutos artesanais foram progressivamente
industrializados. Cada vez mais produtos tiveram seus preços
reduzidos e permitiram a explosão do mercado. O processo
sofreu uma tal aceleração que os artesãos “supérfluos” eram
imediatamente absorvidos pelo trabalho industrial, evitando
assim que se repetisse a grande crise social dos antigos produ­
tores têxteis. As crises, mesmo que inevitáveis, pareciam so-

162
O TORPOR DO CAPITALISMO

mente transições dolorosas para se atingir novos patamares de


prosperidade. Mas o que ocorre quando todos os ramos da
produção já estão industrializados e todos os limites de expan­
são do mercado já foram alcançados?
O desenvolvimento econômico parecia refutar também
esse receio. A indústria não apenas absorveu os antigos ramos
da produção artesanal, mas também criou a partir de si mesma
novos setores produtivos, inventou produtos jamais imagina­
dos e infundiu a sede de compra nos consumidores. O processo
de aumento da produtividade, expansão e saturação dos mer­
cados, criação de novas necessidades e nova expansão, parecia
não ter limites.
Economistas como Joseph Schumpeter e Nikolai Kondra-
tieff formularam, a partir dessas idéias, a teoria dos chamados
“grandes ciclos” no desenvolvimento da economia moderna.
Segundo essa teoria, uma certa combinação de indústrias sem­
pre atinge seu limite histórico de saturação, envelhece e co­
meça a encolher, após uma fase de expansão impetuosa.
Empresários inovadores, na condição de “destruidores criati­
vos” (Schumpeter), inventam, todavia, novos produtos, novos
métodos e novas indústrias que libertam o capital dos antigos
investimentos estagnados e lhes dá novo alento num corpo
tecnológico renovado.
O exemplo lapidar desse nascimento de um novo ciclo é
a indústria automobilística. Em 1886, o engenheiro alemão
Cari Benz já tinha construído o primeiro carro; mas, até a
Primeira Guerra Mundial, tal mercadoria permaneceu um pro­
duto de luxo extremamente caro. Como que egresso das pá­
ginas do livro-texto de Schumpeter, surgiu então o empresário
inovador Henry Ford. Sua criação não foi o próprio automó­
vel, mas um novo método de produção. N o século XIX, a
produtividade cresceu, sobretudo pelo fato de os ramos arte-
sanais terem sido industrializados por meio da instalação de
máquinas. A organização interna da própria indústria ainda
não fora objeto de grandes cuidados. Só após 1900, o enge­
nheiro norte-americano Frederick Taylor desenvolveu um sis­
tema de “administração científica”, a fim de desmembrar as

163
OS ÚLTIMOS COMBATES

áreas de trabalho específicas e aumentar a produção. Ford des­


cobriu, por meio desse sistema, reservas insuspeitadas de pro­
dutividade na organização do processo produtivo. Observou,
por exemplo, que um operário da linha de montagem perdia
em média muito tempo ao buscar parafusos. Estes foram então
transportados diretamente ao local de trabalho. Parte do pro­
cesso tornou-se “supérfluo” e, logo em seguida, foi introduzida
a esteira rolante. Os resultados foram surpreendentes. Até a
Primeira Guerra, a capacidade produtiva de uma fábrica de
automóveis de porte médio permanecia em torno dos 10 mil
carros por ano; em Detroit, a nova fábrica de Ford produziu,
no exercício financeiro de 1914, a fantástica cifra de 248 mil
unidades do seu célebre “Modell T ” .
Os novos métodos deflagraram uma nova revolução in­
dustrial. Mas tal revolução “fordista” ocorreu tarde demais
para poder evitar a crise econômica mundial (1929-33), de­
sencadeada pelos custos da guerra e pelo declínio global do
comércio. Depois de 1945, porém, sobreveio o “grande ciclo”
da produção industrial de automóveis, aparelhos domésticos,
divertimentos eletrônicos, etc. Baseado no antigo modelo, só
que agora em dimensões muito maiores, o aumento da pro­
dutividade criou um número espantoso de novos empregos,
já que a expansão do mercado de carros, geladeiras, televisões,
etc., exigia, em termos absolutos, mais trabalho do que os
métodos “fordistas”, em termos relativos, economizavam em
cada produto.
Nos anos 70, as indústrias fordistas atingiram seu nível
histórico de saturação. Desde então, vivemos a terceira revo­
lução industrial, da microeletrônica. Cheio de esperanças, al­
guém se lembrou imediatamente de Schumpeter. De fato, os
novos produtos passaram por um processo semelhante de bara­
teamento, à maneira dos automóveis e das geladeiras: o compu­
tador, antes um aparelho caro e destinado a grandes empresas,
transformou-se rapidamente num produto de consumo das mas­
sas. Desta vez, porém, o surto econômico não causou o cor­
respondente aumento de empregos. Pela primeira vez na
história da modernidade, uma nova tecnologia é capaz de eco-

164
O TORPOR DO CAPITALISMO

nomizar mais trabalho, em termos absolutos, do que o neces­


sário para a expansão dos mercados de novos produtos. Na
terceira revolução industrial, a capacidade de racionalização
é maior do que a capacidade de expansão. A eficácia de uma
fase expansiva, criadora de empregos, deixou de existir. O
desemprego tecnológico da antiga história da industrialização
faz seu retorno triunfal, só que agora não se limita a um ramo
da produção, mas se espalha por todas as indústrias, por todo
o planeta.
O próprio interesse económico das empresas conduz ao
absurdo. Já é tempo, depois de 200 anos de era moderna, que
o aumento da produtividade sirva para trabalhar menos e viver
melhor. O sistema de mercado, porém, não foi feito para isso.
Sua ação restringe-se a transformar o excedente produtivo em
mais produção e, portanto, em mais desemprego. Os econo­
mistas não querem compreender que a terceira revolução in­
dustrial possui uma qualidade nova, em cujo meio a teoria de
Schumpeter não é mais válida. Em vão, eles ainda esperam o
“grande ciclo” da microeletrônica - em vão, ainda esperam
Godot.

165
Por que a União Européia pode se tornar
uma ruína nova em folha

A linguagem política utiliza, muitas vezes, conceitos que,


como na utopia negativa “ 1984”, de George Orwell, signifi­
cam exatamente o contrário daquilo que parecem indicar. Em
toda a Europa, fala-se há muito sobre a integração européia.
O antigo processo de autodilaceramento nacionalista do velho
continente deve ser finalmente solucionado pela unidade eu­
ropéia, com a qual já sonhavam os filósofos do Iluminismo.
Isso soa como música aos ouvidos. E há, de fato, a União
Européia (UE), a Comissão Européia em Bruxelas, o Tribunal
Europeu em Luxemburgo e outras instituições unitárias. Esta­
mos, enfim, a caminho da integração? N a verdade, o entusiasmo
com a União Européia diminuiu ao sabor da conjuntura. O mais
recente relatório da Comissão Européia demonstra que, nas
últimas duas décadas, o crescimento médio na UE caiu de 4%
para 2,5%, enquanto que os investimentos sofreram um de­
créscimo de 5%.
Contra o pano de fundo da fragilidade econômica, as con­
tradições da edificação européia tornam-se cada vez mais cla­
ras. Os arquitetos da integração construíram uma “ruína nova

167
OS ÚLTIMOS COMBATES

em folha”. Não há na Europa um poder político capaz de


implementar sequer um único de seus planos. O resultado dos
inúmeros compromissos assumiu a forma de um ser híbrido,
que não é nem um sistema de relações bilaterais nem um ver­
dadeiro Estado pan-europeu. A Comissão Européia não foi
investida do status de governo, mas atua como uma espécie
de governo paralelo, enquanto os ministros dos governos na­
cionais, ainda existentes, reúnem-se em conselho e raramente
chegam a um acordo ou a decisões inequívocas.
Encontramos o mesmo problema ao nível da economia.
De um lado, as antigas economias nacionais continuam vivas;
de outro, porém, devem ser criadas instituições econômicas e
político-financeiras comuns que ultrapassem a simples zona
de livre-comércio, como o Nafta ou o Mercosul. Isso vale,
sobretudo, para a planejada instalação de uma moeda européia
unitária.
“Ecu” ou “Euro” ?
Em 10 de dezembro de 1991, foi assinado em Maastricht
o acordo para criar uma união econômica e monetária euro­
péia. Esse acordo prevê que as moedas nacionais sejam subs­
tituídas pela moeda européia em três etapas, até no máximo
1- de janeiro de 1999. Mas, enquanto o desenhista rabisca os
primeiros esboços da nova cédula, e ainda é questão contro­
versa se o nome da moeda será “Ecu” ou “Euro”, o projeto,
como um todo, é posto em dúvida, sob todos os aspectos. O
transtorno é grande; ninguém mais sabe ao certo quem é de
fato contra ou a favor da empreitada. Essa confusão foi causada
pelos próprios autores do projeto. E uma contradição, em ter­
mos, um Banco Central ser criado como instituição político-fi-
nanceira sem que os con to rn o s de um poder político
correspondente estejam delineados. A moeda européia seria a
primeira moeda na história a não estar vinculada a um verda­
deiro poder estatal.
A união política permanece fraca e ineficaz como fator de
poder, mas, mesmo assim, deseja-se criar uma moeda comum.
Isso é mais ou menos tão promissor quanto começar a cons­
trução de uma casa não pelas fundações, mas pelo telhado. A
POR QUE A UNIAO EUROPEIA..

i falta de um fundamento político indica a ausência correspon-


j dente de embasamento econômico. As diferentes formas esta­
tais de moeda como o dólar, o marco alemão, etc., não são
mais que “nomes” para designar um determinado nível da
capacidade econômica nacional. Uma moeda representa, tanto
em termos internos quanto externos, a potência real da eco­
nomia de uma certa região delimitada pelo Estado. Isso só é
possível quando os indicadores econômicos da região demar­
cada pela respectiva moeda situam-se aproximadamente no
mesmo nível. Tais indicadores são, sobretudo, a produtividade,
a provisão de capitais e o patamar salarial. Em todo Estado
onde se desenvolve uma desigualdade econômica muito acen-
I tuada, mais cedo ou mais tarde a base da economia nacional,
\ a unidade do Estado e, por fim, a própria moeda comunitária,
I são necessariamente postas em questão.
A Iugoslávia é um exemplo clássico para ilustrar esse pro­
blema. Quando a disparidade econômica entre as repúblicas
do Norte (Eslovênia e Croácia) e as repúblicas do Sul (Sérvia,
Bósnia e Macedônia) tornaram-se muito grandes, o movimen­
to separatista teve seu primeiro impulso e o Estado como um
todo foi posto em xeque. As repúblicas mais desenvolvidas do
Norte não concordavam mais em compensar a disparidade e
arcar com o ônus da perpétua repartição de rendas. Hoje, na
região da antiga Iugoslávia, não há somente Estados diferentes,
mas também diferentes moedas. O grande descompasso do
nível econômico encontrou sua expressão política e monetária.
A moeda não pode ostentar o mesmo nome para as diversas
regiões economicamente devastadas; cada Estado possui agora
um nome específico para sua própria moeda. E, evidentemen­
te, o nome da moeda nas regiões com maior produtividade é
(relativamente) “melhor”, como, por exemplo, o tolar eslove­
no; o dinar sérvio, ao contrário, designa agora o nome “ruim”
de uma moeda pobre e inflacionária.
Esse fenômeno da desintegração estatal e monetária é ve­
rificado hoje em muitos países. A razão é simples: o processo
de racionalização e globalização, além de excluir e “alijar” um
número cada vez maior de pessoas, faz com que essa questão

169
OS ÚLTIMOS COMBATES

seja traduzida também em termos de conflito regional. De


forma análoga à Iugoslávia, em muitos Estados já existe uma
desigualdade econômica tradicional entre regiões contrastan­
tes, que só tende a aumentar com a recente evolução do mer­
cado mundial. Na Itália, por exemplo, a Lega Nord representa
o esforço de separação entre as regiões industriais do Norte e
o modo de produção agrário do Sul; dizem até que o líder do
movimento chegou a proclamar, em tom peremptório: “A par­
tir de Roma, para mim começa a África”.
Na China, do mesmo modo, há a ameaça de um conflito
entre as províncias costeiras, nas quais se concentra a maior
parte da indústria de bens para exportação, e as províncias do
interior, cada vez mais atrasadas economicamente. Há um nú­
cleo de racionalidade econômica nos movimentos “étnicos” e
separatistas de cunho irracional que inundam atualmente o
globo; o resultado não são apenas Estados cada vez menores,
mas também um número cada vez maior de moedas, das quais
grande parte é extremamente fraca. A diferença das moedas
constitui uma espécie de amortecedor ou válvula de segurança
para compensar (ao menos em parte) a diferença de nível eco­
nômico. A moeda de um país com baixa produtividade diminui
em seu valor quando contraposta à moeda de um país com
alta produtividade e maior volume de capital. Através da taxa
de câmbio, portanto, as exportações do país economicamente
mais forte têm seus preços elevados, e as do país economica­
mente mais fraco, seus preços reduzidos. Isso permite que o
país mais fraco, apesar da desigualdade econômica, mantenha-
se apto à concorrência na exportação de produtos industriais.
Ao mesmo tempo, seu mercado interno é parcialmente prote­
gido contra a importação de mercadorias de países mais fortes.
Tanto na produção para a exportação quanto na produção
para o próprio mercado interno, a válvula de segurança da
taxa de câmbio pode garantir os empregos nos países com
baixa produtividade. Mas também, no sentido inverso, a taxa
de câmbio assume a função de uma válvula compensatória. Os
salários nos países economicamente fracos são muito baixos.
Surge então para os empresários de países com grande importe

170
POR QUE A UNIÃO EUROPÉIA...

de capital e nível elevado de salários o estímulo de transferir


os setores de produção cuja mão-de-obra é intensiva para os
países onde os salários são menores. Essa tendência é refreada,
contudo, pelo fato de as moedas dos países com baixos salários
sofrerem sucessivas desvalorizações em relação às moedas dos
países economicamente mais fortes e com salários elevados.
Para as empresas multinacionais, isso significa que o ganho
com salários pode ser anulado com a perda na taxa de câmbio.
Desse modo, a válvula da taxa de câmbio protege também uma
parte dos empregos nos países com altos salários.
Tudo isso, obviamente, tem validade apenas relativa. A
pressão da globalização é forte o bastante para ameaçar o fun­
cionamento da taxa de câmbio. Mas pior ainda é quando essa
válvula de segurança é destruída de caso pensado. Esse é jus­
tamente o caso da união monetária européia. Dentro da UE,
a disparidade econômica é grande. O produto interno bruto
per capita, expresso em mil unidades da hipotética moeda
européia, atingiu em 1994 a cifra de 21,2 na Alemanha, 19,6
na França, 14,7 na Itália e na Inglaterra, 7,7 na Grécia e 7,5
em Portugal. Se países do Leste Europeu como a Polônia, a
República Tcheca e a Hungria, vierem no futuro a se juntar ao
grupo, a disparidade será ainda mais gritante. Ê um absurdo:
ao passo que em várias partes do mundo o desequilíbrio eco­
nômico conduz ao esfacelamento de Estados e sua desintegra­
ção em diversas regiões monetárias, a UE - cuja existência
política é uma incógnita - quer justamente impingir uma moe­
da comum a mais de uma dúzia de países com níveis de de­
senvolvimento econômico absolutamente diversos!
Um modelo negativo desse experimento foi a unificação
das duas Alemanhas. A economia mais fraca da antiga Repú­
blica Democrática Alemã foi incorporada da noite para o dia
ao marco alemão. Todos os custos e preços tiveram de ser
designados pelo nome da moeda vinculada a um nível de pro­
dutividade essencialmente mais alto. Em poucos meses, toda
a produção do setor oriental perdeu cerca de 80% de seu poder
de concorrência, tanto na exportação quanto no próprio mer­
cado interno. Milhões de empregos foram extintos. Empresá­

171
OS ÚLTIMOS COMBATES

rios ocidentais, por outro lado, transferiram parte da produção


para a Alemanha Oriental, a fim de aproveitar os baixos salá­
rios e a subvenção do governo alemão. N o cômputo final,
ambos os países perderam receita e empregos, sendo a parte
oriental a mais prejudicada. Para evitar uma catástrofe econô­
mica, o governo foi obrigado a transferir, desde então, 150
bilhões de marcos por ano à Alemanha Oriental e onerar com
esse saldo os mercados nacional e internacional. E agora que­
rem transpor esse modelo para toda a Europa! A moeda eu­
ropéia deve ser pelo menos tão estável quanto o marco alemão.
Isso significa que a nova moeda terá de refletir um nível eco­
nômico que a maioria dos países membros não possui. Qual
seria a conseqüência? O mesmo problema que surgiu na moeda
alemã com a incorporação da economia do Leste seria repetido
ao nível da União Européia como um todo. A questão seria
ainda mais delicada, pois a capacidade econômica de, por
exemplo, Irlanda, Portugal ou Grécia, está abaixo do nível da
antiga Alemanha Oriental. Grande parte da economia euro­
péia teria sua existência ameaçada.
Para evitar revoltas nas várias regiões em apuros, a Comis­
são Européia teria de distribuir verbas numa proporção ini­
maginável. A emissão de créditos, além de sobrecarregar os
mercados financeiros do mundo, desestabilizaria a própria po­
lítica monetária de um Banco Central europeu e enfraqueceria
rapidamente a nova moeda. Mesmo na Alemanha, uma polí­
tica que quer implementar a estabilidade das finanças e ao
mesmo tempo promover-a integração de duas regiões com
níveis econômicos inteiramente diversos, só pode conduzir ao
absurdo. Só Luxemburgo. Ambos intentos, simultaneamente,
são impossíveis. Prova disso é que nem mesmo a Alemanha,
graças aos custos de sua unificação, preenche mais os “critérios
de estabilidade” exigidos pela moeda européia. Tais critérios
restringem a contração anual de dívidas a 3% e o total das
dívidas a 60% do PIB. Em 1995, com um montante de dívidas
de 3,6%, a Alemanha não cumpriu nem cumprirá o acordo
nos próximos anos. Eis aqui a ironia: com exceção do minús­
culo grão-ducado de Luxemburgo, nenhum país é capaz de

172
POR QUE A UNIÃO EUROPÉIA..

preencher hoje em dia os quesitos de estabilidade impostos


pela UE.
Quem se interessa por um experimento tão arriscado
quanto a união monetária européia? Em primeiro lugar, a casta
política que, como o chanceler alemão, é economicamente
ignorante, mas tem pretensões históricas e espalha aos quatro
ventos que os números comprovam sua tese. Em segundo lu­
gar, os “global players” das grandes empresas, que esperam,
talvez, com ajuda da moeda européia, aproveitar todas as van­
tagens de custo sem o empecilho da taxa de câmbio, a fim de
somar esforços contra a concorrência do mercado mundial.
Sua opção, portanto, seria nada menos que uma “fortaleza
Europa” - nova etapa da “globalização voltada para dentro”,
à custa de uma segregação econômica e social ainda maior nos
limites da UE. Evidentemente, não está claro ao empresariado
que seria necessária uma ditadura militar européia para fazer
valer essa opção. A instância politicamente fraca da Comissão
Européia jamais estará em condições de manobrar uma grave
crise econômica, social ou financeira como a que será desen­
cadeada pela moeda européia. Os governos nacionais, porém,
têm de afirmar sua presença diante dos eleitores. Como reação
das massas a uma crise européia, é de se temer uma nova onda
irracional do antigo nacionalismo. O sonho da integração eu­
ropéia ou bem permanece estéril no solo da economia de mer­
cado ou então transforma-se em pesadelo.
E agora entendemos por que a linguagem política da união
econômica e monetária européia só pode ser uma linguagem
orwelliana: “estabilidade” significa desestabilização e “inte­
gração” significa desintegração. Como, nesse meio tempo,
muitos darão por conta do perigo, tudo indica que o nasci­
mento da moeda européia será, na verdade, um aborto.

173
O curto verão de uma teoria
do século X X

John Maynard Keynes (1883-1946) foi talvez um dos ho­


mens mais interessantes do século X X . Como especialista da
teoria do valor e da moeda, ele desfrutou de eminente repu­
tação já desde a Primeira Guerra Mundial. Mas seus interesses
eram muito mais vastos. Matemático nato, primeiro granjeou
fama internacional com seu “Tratado Sobre a Probabilidade”
(1921). Seu verdadeiro amor, porém, era a filosofia. Mas não
lhe foi dado exercer funções acadêmicas nessa área em Cam-
bridge, como esperava. Embrenhou-se na política, foi enviado
como funcionário da Coroa Britânica à índia e obteve sucesso
também como economista no Tesouro e na Bolsa. Seu patri­
mônio lhe emprestava a independência financeira; promotor
das artes, foi também um grande colecionador. Arrematou o
espólio de Isaac Newton, tornou-o acessível à pesquisa e che­
gou mesmo a publicar sobre o assunto.
. Essa amplitude do horizonte intelectual não se deixava
capturar nos estreitos limites de uma disciplina acadêmica. Â
semelhança de Marx, encontramos, a cada passo, nos escritos
de Keynes, reflexões interdisciplinares, nas quais ressurge a

175
OS ÚLTIMOS COMBATES

unidade entre filosofia, política e economia. E, no entanto, o


economista Keynes, como ele próprio afirmava, jamais trans­
grediu as fronteiras de sua tradicional especialidade ou do re­
nome acadêmico de sua instituição. De certa maneira, sua obra
teórica contém um elemento daquilo que o filósofo Hegel
denominou “consciência infeliz” . Também sua vida pessoal é
marcada por certos laivos desse infortúnio. O ilustre, graduado
por Eton, movia-se nos mais altos círculos da sociedade oficial,
mas desposou a dançarina russa Lydia Lopokova (e interes­
sou-se, ainda mais, desde então, pela história do teatro e do
balé). Sua índole foi impregnada por fortes inclinações homos­
sexuais, como correm os boatos. Talvez John Keynes tenha
sido uma águia encerrada numa gaiola de ouro. E talvez sua
infelicidade fosse não poder ser o outsider rebelde de seus
sonhos.
Esse elemento de “consciência infeliz” comparece também
em sua principal obra, publicada em 1936 (“Teoria Geral do
Emprego, do Juro e da M oeda” ), considerada mais tarde
como o estopim da “ revolução keynesiana” na teoria eco­
nômica. Até essa data, vigorava, na disciplina acadêmica, o
indisputado teorema formulado por Jean-Baptiste Say (1767-
1832), segundo o qual, toda oferta cria automaticamente sua
própria demanda e o equilíbrio do mercado, em princípio, pode
ser alcançado pela ação do próprio mercado. Say sistematizou
assim uma idéia fundamental, que já era verificada nos econo­
mistas clássicos Adam Smith e David Ricardo. De acordo
com tal concepção, disfunções no mercado, crises e desem­
prego são sempre resultado de “causas extra-econômicas” .
Responsáveis para tanto são as guerras, a política e, “last but
not least”, os sindicatos, que supostamente adulteram o pro­
cesso “natural” do mercado.
Keynes foi o primeiro economista sério a pôr em questão
os fundamentos deste teorema. Mas não foi o primeiro teórico
a fazê-lo; há quase um século, Karl Marx, o “enfant terrible”
da ciência moderna, já explicara as crises não por “causas ex­
tra-econômicas”, mas pelas próprias leis do modo de produção
capitalista. Marx, porém, não era tido como sério; sua teoria

176
O CURTO VERÀO DE UMA TEORIA DO SÉCULO XX

não teve acesso ao panteão oficial e, como notou Keynes, foi


proscrita a um “mundo inferior”, por força da ciência acadê­
mica. Assim, Keynes assumiu a melancólica tarefa de formular
a crítica a Say já desenvolvida há tempos por um outsider, e
introduzi-la no seio do estudo universitário. A “revolução key-
nesiana” não foi uma revolução contra a teoria dominante,
mas, sim, o paradoxo de uma revolução do próprio establishment
científico. A fama de Keynes é impensável sem a grande crise
econômica mundial de 1929-33. Esse terremoto econômico
abalou tão profundamente a sociedade moderna, que os pró­
prios fundamentos básicos da economia clássica vacilaram. A
“Teoria Geral” de Keynes pode ser compreendida como a res­
posta da ciência acadêmica à crise econômica mundial. Keynes
provou que o teorema de Say só representa um caso específico
e não pode reivindicar validade universal. Um equilíbrio rela­
tivo do mercado é possível também a níveis baixos e com a
difusão em larga escala do subemprego. Em outras palavras,
o próprio mercado pode levar a uma situação em que não haja
demanda suficiente por bens de consumo e investimentos, de
modo a fazer com que uma boa parcela da oferta social da
força de trabalho não encontre demanda alguma, inde­
pendentemente das manobras sindicais.
Ao contrário de Marx, Keynes não reconheceu nesse fato
os limites da economia moderna. Ele considerava possível su­
perar a deficiência na demanda. Isso não ocorreria, no entanto,
por meio de simples decisões microeconômicas dos indivíduos
e das empresas, mas, sobretudo, com auxílio de medidas ma­
croeconômicas aplicadas à circulação econômica como um
todo. Keynes salientou, com isso, o significado preponderante
da macroeconomia negligenciado pelos clássicos. Baseou-se,
para tanto, no conceito de “demanda agregada” (o conjunto
de gastos dos consumidores, investidores e do poder público),
cuja maximização na economia inglesa já era designada antes
de Keynes como “Welfare Economics”. Keynes, todavia, de
forma mais enérgica que seus precursores, desligou tal concei­
to de uma simples adição de “demandas individuais” . Desde

177
OS ÚLTIMOS COMBATES

Keynes, a “Welfare Economics” adquiriu um significado intei­


ramente novo, fundado em bases macroeconômicas.
Como a maioria dos socialistas, Keynes quis também mo­
bilizar o Estado como uma espécie de deus ex machina, a fim
de controlar a crise econômica. A diferença do socialismo, não
caberia ao Estado assumir o papel de “empresário global”, mas
sim exercer a simples função de estimular a demanda carente
por intermédio de medidas macroeconômicas. Com um au­
mento na quantidade de moeda, com a repartição de rendas
e com investimentos públicos suplementares, o Estado seria
capaz de atingir tal objetivo. Para que os investimentos públi­
cos adicionais não resultem num jogo econômico de soma
zero, diz Keynes, eles não devem ser financiados por impostos
suplementares, pois, desse modo, o aumento da demanda pú­
blica só se daria pelo fato de estrangular a demanda privada.
O Estado teria assim de financiar seus investimentos adicionais
por via do “deficit spending” (gasto deficitário), ou seja, con­
traindo empréstimos e intensificando o trabalho das prensas
na Casa da Moeda.
Keynes preconizou medidas estatais tidas até então como
levianas e perigosas. Mas, para tanto, pôde basear-se numa
prática econômica que se tornara regra após a Primeira Guerra
Mundial. A “Welfare Economics” manteve desde o início uma
estreita relação com a “Warfare Economics”, a economia de
guerra. O denominador comum era o “deficit spending” . Des­
de os primórdios da era moderna, muitos Estados endivida-
ram-se em tempos de guerra, uma vez que as receitas regulares
arrecadadas com impostos não eram suficientes. Na Primeira
Grande Guerra, porém, essa prática ganhou novos contornos,
pois os custos com a administração industrial da guerra exce­
deram todas as dimensões até então conhecidas. Na época,
ainda se acreditava que o enorme endividamento estatal era
um fenômeno passageiro da guerra. Sob o influxo da crise
econômica mundial, contudo, Keynes sugeriu implementar o
“ deficit spending” para tomar as rédeas da economia civil.
Chegou mesmo a propor ao Estado em crise, caso fosse ne­
cessário, “construir pirâmides” ou “cavar buracos e tapá-los

178
O CURTO VERÃO DE UMA TEORIA DO SÉCULO XX

novamente”, a fim de suscitar urna demanda adicional. Invo­


luntariamente, provou assim que a economia moderna tem o
caráter de um absurdo fim em si mesmo. O consumo insensato
e destrutivo de recursos ñas industrias militares da morte re-
pete-se na economia civil, com o único propósito de alimentar
a cega dinâmica monetária. Dessa perspectiva, mais uma vez,
a teoria de Keynes revela uma “consciência infeliz”.
O destino histórico da “revolução keynesiana” foi extre­
mamente singular. Tanto a prática econômica do “New Deal” ,
do presidente norte-americano Roosevelt, quanto a da dita-
dura fascista na Alemanha (respostas, uma e outra, à crise eco­
nômica mundial) indicam uma certa semelhança com as idéias
de Keynes. Mas, tais práticas surgiram de forma espontânea e
pragmática e, em todo caso, não foram legitimadas pela “Teo­
ria Geral”.
Após a Segunda Guerra Mundial, grande parte da nova
geração de economistas foi influenciada por Keynes. Em con­
trapartida, a antiga geração, que ainda ocupava a maioria das
cadeiras acadêmicas, aferrava-se com empenho à teoria clás­
sica. Nesse meio tempo, contudo, os próprios paladinos dos
clássicos reagiram à crise econômica mundial, se bem que de
forma diametralmente oposta a Keynes. O economista alemão
Walter Eucken (1891-1950) reduziu a crise ao fato de a con­
corrência dos agentes econômicos não estar suficientemente
assegurada e o mercado poder conduzir, por si mesmo, a mono­
pólios. Em seu argumento, defendia a intervenção do Estado,
mas não através do “ déficit spending” no plano macroeconô­
mico, como em Keynes, e sim através de uma “política de
ordenação” institucional, cuja tarefa era garantir a livre con-
V corrência. Essa escola foi chamada “neoliberalismo”.
N os anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, os neoli-
berais ganharam ascendência sobre os keynesianos. E o inespe­
rado boom dos anos 50 e 60, em especial o “milagre econômico”
alemão, parecia depor contra Keynes. O ministro da economia
j alemão, Ludwig Erhard, uma figura simbólica da prosperidade
' do período, declarou-se partidário da doutrina neoliberal. Mas
a prosperidade não tinha sua causa numa concorrência mais

179
OS ÚLTIMOS COMBATES

livre do que antes, mas no desenvolvimento estrutural das in­


dustrias (produção de automóveis, geladeiras, lavadoras, tele­
visores, etc.), que desencadeou uma enorme demanda em
todos os níveis (emprego, consumo, investimento). Além disso,
tal evolução foi posta em movimento (pelo menos indireta­
mente) por iniciativa estatal. O tiro de largada foi dado justa­
mente pela “Warfare Economics” da Guerra da Coréia, no
início dos anos 50; desde então, os EUA, como polícia mundial,
aperfeiçoaram uma “economia permanente de guerra”, man­
tida à custa de um contínuo “déficit spending". Mas os tempos
do “milagre econômico” foram apenas um curto verão sibe­
riano da história do pós-guerra.
Já nos anos 60, as taxas de crescimento decaíram nova­
mente; na década de 70, o mundo foi rondado pelo espectro
de 1929. Parecia ter chegado a hora do keynesianismo, sobre­
tudo porque, nesse meio tempo, os jovens economistas dos
anos 40 ascenderam a posições de destaque. Nos maiores paí­
ses ocidentais, em especial nos EUA, na Inglaterra e na Alema­
nha, teve início uma era de política econômica keynesiana. O
“déficit spending” foi implantado em grande escala como o
marcapasso do capitalismo. A maioria dos planos de desen­
volvimento do Terceiro Mundo também sofreu a influência
de Keynes.
Deve-se dizer, infelizmente, que o verão do keynesianismo
foi ainda mais curto que a era de prosperidade neoliberal. O
próprio Keynes acreditou que o “déficit spending” pudesse
restringir-se a uma espécie de impulso inicial para a dinâmica
interna do mercado. Mas logo tornou-se evidente que o cora­
ção do mercado não era capaz de pulsar sem marcapasso. O
resultado foi uma inflação meteórica e uma crise generalizada
das finanças estatais. Com essa nova crise, no início dos anos
80, o keynesianismo foi definitivamente sepultado.
Confirmou-se, assim, sua “consciência infeliz” : para a crise
econômica mundial, chegara muito tarde; na prosperidade
após 1950, não foi utilizado; quando finalmente se tornaria o
“ príncipe encantado” da economia, já estava envelhecido.
Qual foi o erro? Keynes, assim como seus rivais neoclássicos

180
O CURTO VERÃO DE UMA TEORIA DO SÉCULO XX

ou neoliberais, não entendia a economia moderna como um


processo histórico (irreversível), mas como a forma de exis­
tencia de categorias econômicas atemporais. Isso é surpreen­
dente, pois já num ensaio de 1930 ele foi um dos primeiros a
referir-se ao conceito de “desemprego estrutural”, prevendo
que “nossa descoberta de meios para economizar trabalho pro­
gride mais rápido do que nossa capacidade de encontrar novos
empregos para a mão-de-obra”. Mas, porque acreditava que
esse estágio seria atingido somente dali a um século, ele não
seguiu o fio de seu pensamento. Na “Teoria Geral”, o que está
em jogo não é o verdadeiro desenvolvimento estrutural do
capitalismo, mas sim a intemporal “ psicologia dos agentes eco­
nômicos” e sua possível aplicação aos sistemas econômicos
temporais. O keynesianismo dos anos 70 não fracassou nesse
último plano em virtude de uma política econômica “equivo­
cada”, mas sim pelo de fato de que as indústrias responsáveis
pela evolução histórica estavam estruturalmente esgotadas
após a Segunda Guerra Mundial.
Desde a década de 80, a revolução microeletrônica tem
avançado nos limites da economia moderna, profetizados por
Keynes em 1930 (embora sua avaliação fosse naturalmente
imprecisa). Eis por que sua própria teoria perdeu a razão de
ser. Isso vale também para as medidas político-econômicas por
ele propostas, as quais pressupõem economias nacionais rela­
tivamente fechadas. Keynes tinha plena consciência disso e
logo fez notar os riscos de uma expansão desenfreada do mer­
cado mundial. Ora, desde o fim do keynesianismo, os econo­
mistas padecem de uma perda de memória coletiva. Em vez
de admitir os limites do sistema econômico moderno, eles ela­
boraram o neoliberalismo e voltaram a falar da teoria clássica
há muito refutada, como se a crise econômica mundial e percalços
dos anos 70 jamais tivessem ocorrido. Mas quem simplesmente
se esquece da história em vez de superá-la criticamente está
condenado a senti-la na pele mais uma vez.

181
O programa suicida da economia

Já faz quase um quarto de século que o dentista norte­


americano Dennis Meadows e seus colaboradores apresenta­
ram o famoso relatório do Clube de Roma sobre “os limites
do crescimento” . Nele se mostra que o crescimento exponen­
cial da economia moderna acarreta como conseqüência neces­
sária, num espaço de tempo historicamente curto, uma catástrofe
dos fundamentos naturais da vida. O consumo voraz de recur­
sos e a emissão desenfreada de poluentes, afirma Meadows,
põem em xeque a sobrevivência da humanidade. Em termos
empíricos, o resultado é inequívoco e só pode ser contestado,
por ignorantes. As condições elementares da vida, como a/j
água, o ar e a terra, estão expostas a um crescente processo da
envenenamento. A camada protetora de ozônio na atmosfera
é corroída. N o Sul da Argentina e na Austrália, uma infinidade
de ovelhas já pasta com cancros à mostra, e também para os
homens o banho de sol torna-se perigoso. A água potável, além
de sofrer contaminação, está cada vez mais escassa. Os desertos
avançam dia a dia, e há prognósticos de que a guerra do século
X X I terá como estopim o controle de mananciais hídricos.
Com uma rapidez inquietante, são extintas espécies da flora
e da fauna. As florestas tropicais, a maior reserva natural da

183
OS ÚLTIMOS COMBATES

Terra, desaparecem num piscar de olhos. Desde o fim da Se-


, gunda Guerra Mundial até hoje, a destruição foi maior do que
em toda a história da humanidade. Com a ingestão excessiva
í de ingredientes tóxicos, o sistema imunológico humano amea­
ça entrar em colapso (sobretudo nas crianças). Os médicos
profetizam o surgimento de novas epidemias, contra as quais
não haverá remédio.
A lista das destruições e das catástrofes iminentes poderia
ser prolongada infinitamente. A própria beleza do mundo de­
saparece. A economia de mercado desfigura o semblante da
natureza. Quando visitei São Paulo, mostraram-me antigas fo­
tos de um rio no qual se podia banhar, em cujas margens pas­
seavam os habitantes e que constituía um espaço popular de
lazer. Tive oportunidade de ver esse rio hoje em dia: uma
espécie de esgoto a céu aberto, com águas turvas e malcheiro­
sas, em cujas margens só mesmo os ratos fazem seu passeio.
Lamentáveis comparações como esta podem ser feitas em to­
dos os países. Tudo indica que a economia trabalha com mais
eficiência para transformar todo o planeta num fedorento de­
pósito de lixo e finalmente extinguir a vida humana. Desde o
estudo de Meadows, pelo menos, o problema do “meio am­
biente” tornou-se em todos países objeto de debates políticos.
Mas tais debates não são dignos de confiança. O lema é: “Sair
à chuva e não se molhar” . Os políticos, como mentirosos pro-
[ fissionais, exortam a humanidade a uma conversão e prodigali-
) zam adágios morais como a indústria prodigaliza lixo. Gastam
milhões de litros de querosene para promover reuniões nas
quais nada é decidido. Em 1992, reuniram-se no Rio de Janeiro
eminências políticas e chefes de Estado de todo o mundo, a
fim de deliberar sobre a proteção da natureza, do meio am­
biente, da atmosfera e da água. Armou-se um grande aparato
para a perfumaria política. Mas o resultado final foi equiva­
lente a zero.
Os próprios homens de bem e dignitários do Clube de
Roma e iniciativas afins clamam a plenos pulmões a necessi­
dade de uma “revolução global” para salvar a natureza e a
humanidade. Mas desde quando as revoluções são feitas por

184
O PROGRAMA SUICIDA DA ECONOMIA

dignitários e homens de bem? Na verdade, as propostas do


Clube de Roma são tudo menos revolucionárias. Como todos
valorosos burgueses e cristãos, esses honoráveis cientistas que­
rem conciliar o lobo e o cordeiro. “Crescimento qualitativo”
e “desenvolvimento sustentado” (sustainability) devem pôr
em consonância dinheiro e natureza sobre o pano de fundo
de um mercado global pautado pela “eficiência econômica” e
pelo “desafio ecológico” . Será esse um objetivo realista ou u m |
tentativa ingênua de calcular a quadratura do círculo?
A raiz da economia moderna é o dinheiro, a moeda. Mas
esta é uma abstração social, pois abstrai de todo conteúdo
sensível e qualitativo: US$ 1.000 são uma grandeza abstrata,
puramente quantitativa. Já o filósofo Hegel sabia que a moeda
representa trabalho social; mas trabalho em forma abstrata,
purificado de sua determinação concreta. Na relação com a
moeda, o trabalho aparece como puro consumo de energia
humana abstrata. Hegel falava assim de “trabalho abstrato”,
uma expressão que seria adotada por Marx. Mas Hegel disse
também: “ Fazer valer as abstrações no mundo real significaj
destruir a realidade”. A medida que a moeda põe-se a meia
caminho entre homem e natureza, esta última é destruída. A
moeda, portanto, também é a raiz da força destrutiva da eco­
nomia moderna. Não há dúvida de que a moeda é muito mais
antiga do que a sociedade industrial moderna. Mas seu papel
foi apenas marginal antes do século XVIII (e, em muitos países,
até o século XX ). A grande maioria dos alimentos era produ­
zida de forma auto-suficiente, sem troca de mercadorias. En­
quanto durou a produção mercantil, a moeda restringiu-se ao
papel de intermediária: ela figurava entre duas mercadorias
qualitativamente diversas como simples meio de troca. A eco­
nomia moderna, por sua vez, não é fruto apenas do progresso
técnico, como nos querem fazer crer. Muito mais decisiva foi
a transformação da moeda, que de um meio passou a ser um
fim em si mesma.
Qual o significado disso? N a economia moderna, inver­
teu-se a relação entre mercadoria e moeda. Não é mais a moeda
que figura entre duas mercadorias qualitativamente diversas,

185
OS ÚLTIMOS COMBATES

mas justamente o contrário: a mercadoria figura no meio de


dois modos de manifestação da mesma forma abstrata chama­
da “moeda” . Essa operação só faz sentido, obviamente, se ao
final resultar uma soma monetária maior que no início. A moe­
da tornou-se um “capital produtivo” que multiplica a si mes­
mo. Ao contrário dos antigos produtores não-comerciais, o
objetivo não é a reprodução material da própria vida, mas o
acúmulo de ganhos em forma de moeda. Somente por meio
dessa nova lógica econômica pôde nascer um mercado totali­
zado, no qual empresários voltados ao lucro concorrem entre
I si e no qual todos dependem de sua capacidade de “ganhar
1dinheiro” . A moeda agora está presa a um circuito cibernético
fechado sobre si mesmo. Ela se torna independente em seu
movimento absurdo como fim último e começa a levar uma
vida fantasmagórica. Assim, o historiador Karl Polanyi chamou
a economia de mercado moderna de uma “economia autono­
mizada” face aos contextos da vida. O próprio socialismo de
Estados do Leste e do Sul, com seus “mercados planificados”,
não foi mais do que um derivado histórico da mesma lógica
econômica.
Não se pode negar que essa economia historicamente nova
acelerou de modo vertiginoso o desenvolvimento das forças
produtivas. Mas todos os progressos científicos e tecnológicos
têm de submeter-se à forma monetária e são por ela impreg­
nados. Isso significa que o conteúdo sensível da produção é
submetido a um procedimento econômico puramente quan­
titativo com uma aparência de lei física. A moeda trabalha
como um robô social que não é capaz de diferenciar entre
saudável e nocivo, feio e bonito, moral e amoral. Sob a pressão
da concorrência no mercado, o empresário é obrigado a obe­
decer, em todas as decisões, à racionalidade monetária. A isso
se dá o nome de economia empresarial. Quando se fala de
—^ “redução dos custos” e “eficiência”, o que está em jogo é ape­
nas o “ interesse” abstrato da moeda. Como um neurótico que,
possuído por uma idéia fixa, toma sempre o caminho mais
curto entre dois pontos, sem levar em conta o prazer ou a dor,
assim também o cálculo empresarial exige a abstrata “redução

186
O PROGRAMA SUICIDA DA ECONOMIA

dos custos”, sem levar em consideração o conteúdo sensível e


as conseqüências naturais.
Embora os empresários falem com insistência de uma me­
lhoria na qualidade, isso se refere sempre ao design do produto
isolado, mas nunca ao mundo exterior à empresa. O resultado
são “belos” produtos num “meio ambiente” degradado. O pró­
prio conteúdo do produto é muitas vezes mera fachada, a co­
meçar pelos alimentos. A indústria alimentícia é ciosa em
educar os compradores com uma suave coerção, de modo a
>.modificar-lhes o olfato e o paladar. No interesse da “eficiência”
econômica e da “simplificação” lucrativa para grandes merca­
dos já desapareceram em todo mundo milhares de tipos de
frutas, legumes e carnes. Nos laboratórios são cultivados ali­
mentos que podem ser embalados com facilidade e não apo­
drecem, mas cujo “sabor” é injetado quimicamente. A força
da oferta oprime toda crítica da procura. À parte a crescente
destruição do prazer sensível e estético, a “redução dos custos”
é na verdade uma simples externalização dos custos face à
natureza e ao futuro. Do ponto de vista empresarial, a natureza
e o futuro são espaços economicamente vazios para além do
cálculo de custos, nos quais os “excrementos da produção”
(Marx) desaparecem sem deixar vestígios. Isso não se aplica
apenas à emissão de poluentes pela produção, mas também ao
transporte. Um mísero frango congelado nos EUA viaja em
média 3.000 milhas antes de ser consumido. Se a economia
empresarial - em busca de menores custos, menores taxas de
câmbio, salários mais baixos e outras vantagens - aufere ga­
nhos no plano monetário, no plano dos recursos naturais ela
promove uma orgia do desperdício.
O crescimento exponencial denunciado pelo Clube de
Roma também não é um erro casual, mas resultado necessário
do sistema de mercado. A moeda, fechada num circuito ciber­
nético, exige o aumento constante da produção. A concorrên­
cia exige o aumento permanente da produtividade. Como,
desse modo, o produto isolado representa cada vez menos
moeda, a produção tem que crescer não linearmente, mas em
progressão geométrica. E como nessa dinâmica os investimen-

187
OS ÚLTIMOS COMBATES

tos seguem os sinais abstratos da rentabilidade, a opção de um


“ desenvolvimento sustentado” - qualitativamente definido
dentro da economia de mercado - é uma ilusão. A produção
de bens qualitativamente mais significativos, ou mesmo de pri­
meira necessidade, é automaticamente posta de lado cjuando
deixa de ser rentável em termos monetários; por sua vez, o
capital é rápido ao apoiar projetos destrutivos, se estes acenam
com lucros generosos. Dessa maneira, a vida social assume um
caráter autodestrutivo. Se é fato que o aumento da produtividade
expande o desemprego, é preciso que os mais ricos consumam
com uma avidez cada vez maior para permitir o funcionamento
do sistema. Por meio do “desgaste programado”, a vida dos
produtos é encurtada, e, simultaneamente, a industria inventa
novas necessidades grotescas e pueris. De um lado, crianças
que pedem esmola; de outro, loucos que se consomem até a
morte. A empresa moderna matou mais crianças que o rei
Herodes, mas sempre pôde lavar as mãos e remeter-se às taci­
turnas leis monetárias. Tampouco os assalariados questionam­
-se sobre o produto de seu trabalho, já que se encontram sob
total dependência de seus empregos.
O sistema monetário é responsável por uma esquizofrenia
estrutural: todos sabem que sua ação é destrutiva, mas todos
mantêm os olhos vidrados nos rendimentos, assim como o
coelho na serpente. Por que a opinião pública mostra-se tão
indignada com os voluntários suicidas do Hamas, se ela aceita
de bom grado o programa suicida global da economia de mer­
cado? E um tanto crédulo nutrir esperanças de que a política
acorrente o lobo do mercado. Um imposto ecológico eficaz é
improvável, pois o Estado é nacional, mas a concorrência, in­
ternacional. Países com pequeno importe de capital só conse­
guem concorrer sob as condições da globalização por meio de
dumpings ecológicos. Eis por que o moralismo econômico de
países ricos em relação ao Terceiro Mundo é uma hipocrisia.
O problema reside na própria economia moderna. A política
é sempre cúmplice do dinheiro, já que não possui renda pró­
pria. Mesmo o poder precisa ser financiado. Eis por que as

188
O PROGRAMA SUICIDA DA ECONOMIA

aparentes potências dependem do crescimento exponencial da


“economia autonomizada”.
Ao que tudo indica, há somente uma única solução radical:
a humanidade deve libertar-se do domínio monetário que se
tornou independente. Com certeza, um retorno à sociedade
agrária pré-moderna não é possível nem desejável. Mas talvez
outras formas de cooperação sejam viáveis. Podem as organiza­
ções sem fins lucrativos tomar o lugar da economia empresarial?
Os economistas dizem que isso é utópico e pouco realista. Eles
temem pela depreciação de sua absurda qualificação. Ora, pois
então a própria sobrevivência da humanidade é utópica e pou­
co realista. Há somente um consolo: tampouco os mandarins
plutocratas serão poupados da destruição da natureza. Já posso
imaginar que, num futuro próximo, os últimos ricos sentarão
na varanda de suas luxuosas casas de campo, com máscaras de
gás encobrindo seus rostos diplomáticos, e sorverão de garra­
fas folheadas a ouro, com auxílio de canudos, as últimas gotas
de água potável.

189
A biologização do social

O mundo moderno define a relação das antigas sociedades


com a natureza como irracional. A noção de que montanhas
e rios, animais e plantas possuam alma, parece à consciência
moderna tão feérica quanto a idéia de que alguém possa ser
enfeitiçado pela magia. M ax Weber, como se sabe, falou por
isso do “desencantamento do mundo” pela razão do Iluminis-
mo, pela racionalidade da ciência e da técnica. Ora, essa con­
traposição entre racionalidade moderna e irracionalidade
pré-moderna no trato com a natureza é por demais simplista.
Primeiro, as antigas sociedades não eram de todo irracionais
em seu “processo de troca material com a natureza” (Marx),
pois, afinal, tinham de prover seu sustento. Além disso, elas
criaram artefatos admiráveis e legaram conhecimentos dos
quais os próprios modernos ainda se valem. Segundo, a socie­
dade moderna não se pauta, por outro lado, pela estrita racio­
nalidade face a objetos naturais. A escala em que o atual modo
de produção destrói seus próprios fundamentos naturais de
vida nos deixa em dúvida sobre a afirmação de M ax Weber.
Deveríamos antes nos reportar a um “segundo desencan­
tamento” do mundo pela sociedade moderna. Tal desencantamen­
to, de fato, ultrapassa todos os anteriores, pois sua pretensão

191
OS ÚLTIMOS COMBATES

mágica é total e inconsiderada. A cisão dos sentimentos, das


experiências sensíveis e dos sonhos pela razão abstrata, deu
origem a uma esfera de “irracionalismo” divorciada dos fins
e idéias racionais - e isso tanto nos indivíduos como na socie­
dade em geral. A própria razão abstrata autonomizada é apenas
em seus meios racional, não em seu fim. Esse fim é a “econo-
mização” do homem e da natureza sob os ditames da moeda,
que, por sua vez, não tem procedência racional, mas mágica.
Não somente as relações sociais da modernidade são transpas-
sadas pela moderna magia da moeda e seu irracional fim em
si mesmo, mas também a própria ciência e técnica modernas.
A racionalidade instrumental da consciência economizada cor­
re portanto o eterno perigo de transformar-se em afetos irra­
cionais. Tal irracionalismo moderno não se dá a conhecer sob
a mera roupagem de movimentos religiosos, mas muitas vezes
sob a figura racional de idéias políticas de fachada e até mesmo
como pretenso conhecimento científico.
Essa correlação é expressa da maneira mais nítida quando
a sociedade humana e a história são reduzidas a objetos semi-
naturais. Ora, se a natureza é em si mais do que aparenta ser
ao olhar objetivador do cientista natural, o homem também,
por sua vez, é mais do que a simples natureza, pois, de outro
modo, ele seria incapaz de concebê-la. O reducionismo das
ciências naturais só pode conhecer a natureza unilateralmente;
a sociedade humana, todavia, é por ele inteiramente ignorada.
A aparente objetividade da racionalidade científica vem a lume
como selvagem irracionalismo, tão logo procure dissolver as
relações sociais em fatores semifísicos ou semibiológicos. Mas
é exatamente a esse reducionismo que tende a ciência moder­
na. Incapaz de solucionar as questões “metafísicas”, ela lançou
a filosofia à lata de lixo da história das idéias. O filosófico e
revolucionário século XVIII ainda arquitetara uma reflexão
crítica temerária, no fito de conferir certa legitimação à nas­
cente sociedade capitalista. Já o século X IX , como o “século
das ciências naturais”, buscou, por seu turno, aparar as garras
da teoria social e aplacar a sua mordacidade com doutrinas
pseudocientíficas. Numa época de miséria renitente e massi-

192
A BIOLOGIZAÇÃO DO SOCIAL

ficada, urgia emprestar ao capitalismo a dignidade de leis na­


turais para torná-lo invulnerável e arrebatá-lo ao contexto his­
tórico. Assim, a economia tornou-se a “física” do mercado
total e suas supostas leis eternas, e a sociologia passou a con­
ceber a si mesma como a “biologia” das relações sociais, a fim
de acobertar as contradições sociais da modernidade sob o
manto de necessidades naturais.
A concorrência universal entre indivíduos, grupos sociais
e nações, do modo como resultou do capitalismo, ganhou cada
vez mais uma interpretação biológica com respaldo em tais
ideologias “científicas” . O conde de Gobineau, diplomata
francês, criou as chamadas “raças” da humanidade e elaborou
uma teoria sobre suas desigualdades “naturais” - evidentemen­
te, uma legitimação pseudocientífica do colonialismo europeu,
cujo império sobre a população de cor cabia fundamentar com
base na pretensa superioridade biológica da “ raça branca” .
Quando Darwin descobriu a história da evolução biológica,
sua teoria da seleção natural na “luta pela existência” foi logo
transposta à sociedade humana. O próprio Darwin não deixou
de tomar partido. Em algumas de suas cartas, ele recriminava
o então incipiente movimento sindical, uma vez que suas exi­
gências por solidariedade atravancavam o processo de seleção
natural e oneravam a sociedade com espécimes exangues e
inaptos à concorrência. Esse darwinismo social mantinha um
vínculo obsceno com a “ física” do mercado. Ao fim do século
XIX, somou-se a eles a chamada eugenia ou “higiene racial”,
que apregoava a transmissão hereditária de qualidades sociais.
As camadas inferiores de criminosos e desclassificados ganha­
ram a pecha de homens “hereditariamente inferiores”, a quem
se devia coibir a reprodução. N o reverso da moeda, figurava
o aclamado “tipo vitorioso” do homem belo, forte e de “he­
rança salutar” .
Em exposições eugênicas realizadas na Alemanha, na In­
glaterra e nos Estados Unidos, famílias inteiras desfilavam, à
maneira de animais de criação, como exemplares de boa cepa
e “puro sangue” . Nem sequer o movimento operário escapou
OS ÚLTIMOS COMBATES

a tais desatinos. Karl Kautsky, o teórico social-democrata, es­


creveu com toda candura em prol da “higiene social”, e os já
remediados operários especializados fundamentavam seu re­
púdio ao “ desleixado lumpenproletariado” com argumentos
biológicos e eugênicos. Nesse imbróglio pseudocientífico de
"— ideologias que perpassou toda a sociedade ocidental ao redor
da passagem do século, ganharam paulatinamente destaque
duas imagens sociobiológicas distintas. De um lado, desenvol-
veu-se um racismo social que infamava pessoas de cor, enfermos,
criminosos, incapacitados, maltrapilhos, etc. como “homens
inferiores” . A construção da sociedade industrial cabia com
exclusividade a trabalhadores brancos e fortes, e todo “lastro”
supérfluo devia ser lançado por terra. Esse irracionalismo ma-
< levolente andava de mãos dadas com o menosprezo e a degra-
j dação das mulheres, a quem se irrogava certa “imbecilidade
fisiológica” .
De outro lado, começou a grassar um novo anti-semitismo,
despido de bases religiosas. “O judeu” foi imaginado como o
“super-homem negativo”, como uma espécie de príncipe das
trevas e o antípoda do níveo príncipe do trabalho. Tal concep­
ção maniqueísta reduziu a perniciosidade e as catástrofes da
economia monetária à constituição biológica do “capital fi­
nanceiro judeu”, ao qual o dinheiro “bom” do venerável tra­
balho branco devia fazer frente. As leis anônimas e a-subjetivas
do mercado mundial em expansão foram, portanto, traduzidas
na insensatez da pretensa conjura global de uma “raça estrangei­
ra”. Como todos sabem, o nacional-socialismo levou a dúplice
ideologia biológica do “homem inferior” e do “super-homem
negativo” à conseqüência extrema da aniquilação em escala in­
dustrial. Após os horrores de Auschwitz, ninguém mais desejou
comprometer-se com tais idéias, as quais resvalaram então para
o segundo plano histórico. No período da grande prosperidade
que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, elas lampejavam
apenas como espectros de um passado infausto, que se acre­
ditava banido para sempre. As ciências econômica e social,
entretanto, foram, na verdade, depuradas apenas superficial­
mente da escória conceituai do biologismo e darwinismo so-

194
A BIOLOGIZAÇÃO DO SOCIAL

ciais. Mais do que nunca, a economia política lançou mão de


um tipo de ciência social avessa a “meias-luzes”, arvorando-se
em ciência seminatural “rigorosa” .
Enquanto o crescimento e a evolução acenavam com uma
perspectiva global de bem-estar, os lémures do biologismo so­
cial permaneceram trancafiados no mundo inferior. Dessa
perspectiva, a floração da sociologia crítica e do neomarxismo
nos anos 60 e 70 foi ilusória, pois apenas repetia as idéias
emancipatórias do passado e se achava incapacitada de sobre­
viver a períodos de bonança econômica. Quando a crise da
economia fez seu regresso, a crítica social de esquerda desa­
pareceu significativamente dos grandes palcos públicos nos
países ocidentais. Por essa época, o que estava na berlinda era
a teoria do desconstrutivismo pós-moderno calcada em Fou-
cault, que bem convinha à especulação do capitalismo-cassino
da era de Reagan e Thatcher. O mundo, inclusive o sistema
de mercado, parecia dissolver-se em “textos” com os quais se
podia brincar a bel-prazer. Mas no refúgio da jovial e neuras­
ténica “sociedade do risco”, como a batizou o sociólogo ale­
mão Ulrich Beck - referindo-se ao desenvolvimento dos anos
80 - , eclodiram as turbulências de um novo racismo. Desde
então, o poder racista alastrou-se por todo mundo numa tor­
rente de excessos sanguinolentos. Também na Alemanha, imi­
grantes e refugiados foram mortos friamente por maltas de
radicais de direita em atentados incendiários. Até hoje, a esfera
pública minora tais crimes como a obra de uns poucos jovens
desclassificados. Na verdade, porém, o poder racista à solta nas
ruas é o prenúncio de uma reviravolta nas condições atmosféricas
mundiais. Nas próprias fábricas de idéias sopram outros ven­
tos. A última década viu o biologismo de uma nova “ciência
natural” insinuar-se a passos de lobo no discurso acadêmico,
que cada vez mais espelha a herança da moda lúdica e “pós-
sociológica” do desconstrutivismo. A primeira vista, tudo in­
dicava que a pesquisa genética conseguiria desbancar os
despropósitos racistas com argumentos científicos. Pesquisa­
dores, como o geneticista molecular sueco Svante Pããbo, pro­
varam que homens das mais diversas nações, em virtude de

195
O
SÚL
T IMOSCOMBATES

suas seqüências de DNA, podem ser geneticamente mais “apa­


rentados” entre si do que com seus vizinhos de parede-meia.
Mas tais constatações curvam-se hoje cada vez mais sob o peso
de urna nova “bioiogização” da conduta social, para a qual,
aliás, os próprios geneticistas se aprestam em fornecer a mu­
nição. O neurologista norte-americano Steven Pinker afirma
que a língua é “congênita ao homem como a tromba ao ele­
fante”, e que por isso deve existir certo “gene gramatical”.
Para o ganhador do Prêmio Nobel Francis Crick, de San Diego,
o próprio livre-arbítrio não passa de “reações neurológicas”.
Cientistas do Instituto Robert Koch, em Berlim, dizem ter en­
contrado um vírus que supostamente desencadeia a melancolia
e é transmitido por gatos domésticos. E Dean Hammer, bió­
logo molecular norte-americano, reduz mais uma vez a ho­
mossexualidade ao gene X q28, situado na extremidade do
cromossomo sexual X.
Trata-se sempre, como sói acontecer, de hipóteses não
comprovadas que dizem menos da natureza do que da prefe­
rência ideológica dos cientistas. Tais estudiosos são muitas ve­
zes ingênuos sob a óptica social e assim, talvez, não percebam
como suas pesquisas “puramente objetivas” sofrem a influên­
cia de correntes ideológicas que solapam a sociedade. Escusado
observar que a redução da cultura e sociabilidade humanas ao
padrão da biologia molecular confere argumentos à legitima­
ção de um barbarismo renovado. Os cientistas sociais norte-
americanos Richard Herrnstein e Charles Murray, no estudo
intitulado “The Bell Curve”, já haviam criado uma correlação
entre “raça, genes e QI” que excluía, à maneira pseudobioló-
gica, os negros americanos da “elite cognitiva” . Em breve, nos
brindarão os malfadados cientistas com um “gene de crimina­
lidade” ou um “gene da pobreza” . A descoberta de um destino
social com lastros genéticos assenta como uma luva à política
neoliberal da redução de custos. A nova disciplina acadêmica
da “economia medicinal” fornece aos poucos a carta branca
para que, por motivos de custos, os pobres, os enfermos e os
incapacitados de países ocidentais sejam agraciados com o “au­
xílio à morte” . Debates sobre o tema são propostos em plena

196
ABIOLOGIZAÇÃODOS
O C
IAL

luz do dia na Alemanha, na H olanda e em solo escandinavo.


O filósofo australiano Peter Singer, cujos avós morreram nos
campos de concentração alemães, propugna hoje a tese nacio­
nal-socialista de que os recém-nascidos defeituosos sejam imo­
lados como “ indignos de vida” . N a China atual tramita um
projeto de lei em favor da legalização da eutanásia.
A tal brutalização sociodarwinista em escala mundial cor­
responde uma nova onda de anti-semitismo em todos os qua­
drantes do globo. M eio século após Auschwitz, sinagogas
voltam a ser queimadas na Alemanha; do Atlântico aos Urais,
e até no Jap ão, prospera a campanha difamatoria contra as
comunidades judaicas; e, para rematar, Louis Farrakhan, o
líder dos “Black M uslim s” nos Estados Unidos, exercita-se na
difamação em tiradas anti-semitas. Todos os grupos sociais,
inclusive os movimentos de direitos civis, sucumbem cada dia
mais a argumentos biológicos na batalha cruenta da concor­
rência, no propósito de se diferenciarem da humanidade. Sob
o influxo da globalização do capital e com base na argumen­
tação acadêm ica dos geneticistas, talvez paire sobre nós a
ameaça de um biologismo “universalista” que considera todas
as pessoas ineptas à concorrência dentro da sociedade mone­
tária como “ indivíduos inferiores” e que, simultaneamente,
deseja imputar as futuras catástrofes da economia de mercado
a uma “conjuração judia” .
O neoliberalismo, com sua pseudofísica ideológica das leis
de mercado, soltou as peias de todos os demônios do barba­
rismo moderno e, assim, remontou à irracionalidade do “ cien­
tificismo social” do século X IX . A naturalização da economia,
porém, acarreta como conseqüência lógica a bestialização das
relações sociais. Os mentores neoliberais não respondem ape­
nas pelo advento do fundamentalismo, mas também pelo atual
regresso ao darwinismo social e ao anti-semitismo.

197
O fictício milagre japonês

O presente continua a operar milagres: assim imaginam


os célebres otimistas de plantão da economia de mercado, que
em geral são mais bem pagos do que os analistas rigorosos. De
tempos em tempos, tais animadores do bom humor econômico
atribuem a esse ou àquele país, que aparenta estar em franca
ascensão, o papel de criança prodígio da economia —um exem­
plo pelo qual deveria se pautar o restante do mundo capitalista.
Com quase a mesma constância, essa vocação termina de forma
ruinosa ou dramática, a exemplo do México tempos atrás. Por
ora, não se ousa mais dizer palavra sobre o Japão. Ainda nos
anos 80, hordas de empresários-filósofos peregrinavam rumo
àquele país para espreitar as sutilezas administrativas da “pro­
dução enxuta” da terra prometida. Na Alemanha, o diretor
da Volkswagen, um afamado ditador da redução de custos,
conclamou seus trabalhadores, em tom nitidamente racista,
contra o “perigo amarelo” da concorrência japonesa que aos
poucos inundava o mercado europeu. Alguns teóricos do de­
senvolvimento enalteceram o Japão como modelo para uma
política de recuperação bem-sucedida a ser emulada pelo Ter­
ceiro Mundo.

199
OS ÚLTIMOS COMBATES

Tais mensagens eram tão simplistas como anuncios comer­


ciais e, como toda simplificação, não correspondiam à verda­
de. No caso do Japão, não se pode falar de uma bem-sucedida
política de recuperação de um país subdesenvolvido. Quem
discordar, que volte ao século XIX. Já nessa época, o Japão era
o único país oriental a integrar a segunda onda de modernização
capitalista, de forma praticamente concomitante à Alemanha.
Não por acaso, as histórias da modernização japonesa e alemã
demonstram um constante paralelismo. A chamada Revolução
Meiji, de 1867, conduziu o Japão a uma rápida industrializa­
ção, análoga à do Estado militar germânico-prussiano, com a
indústria armamentista à frente. A base industrial japonesa,
como a alemã, foi, portanto, lançada à custa dos últimos anos
do século X IX ; esse surto de modernização não é de modo
algum comparável ao atual problema do Terceiro Mundo, que,
nas condições impostas pelo final do século X X , se vê na con­
tingência de pagar um preço muito mais elevado para promo­
ver sua industrialização do que a maioria dos países é capaz
de custear.
Após o término da Segunda Guerra, o Japão concentrou
esforços na ofensiva civil das exportações. De início, não se
cogitou da famosa “família empresarial” ou de qualquer filo­
sofia econômica milagrosa. Pelo contrário, à época que se se­
guiu ao boom ocidental na década de 50, o Japão foi palco
das mais renhidas lutas trabalhistas e distúrbios sociais do mun­
do industrializado. A “pacificação” social impôs-se apenas gra­
dualmente, por meio de um estratagema de distribuição social
mais pérfido do que milagroso: de um lado, na extremidade
da cadeia produtiva do valor, as empresas de exportação or­
ganizaram-se em prol de um pessoal reduzido, calcado em
“famílias empresariais” com princípios paternalistas, com a
garantia de cargo vitalício e o escalonamento salarial e hierár­
quico conforme o tempo de serviço.
De outro lado, porém, milhões de empregos “de segunda
classe” foram deslocados para microempresas fornecedoras
com importe de capital antediluviano, nas quais se dissemina­
ram relações próximas à escravidão, graças a salários extre-
O FICTÍCIO MILAGRE JAPONÊS

mámente baixos e a condições de trabalho pré-capitalistas.


Entretanto, também os operários privilegiados tiveram de pa­
gar caro pelas gratificações da “família empresarial” pseudocon-
fuciana. Até hoje, as incontáveis horas extras não remuneradas,
as infindáveis horas gastas no trajeto casa-trabalho e a fami­
gerada “morte súbita” por esgotamento no desempenho das
funções não são incomuns. Vários operários e funcionários
públicos só retornam ao lar nos finais de semana e vêem-se
obrigados a pernoitar, nos dias de trabalho, em verdadeiros
“guarda-volumes para homens”.
De maneira igualmente inconsiderada, a logística sofreu
um novo remanejamento. Granjeou fama internacional o sis­
tema denominado “just in time”, uma espécie de armazém
sobre rodas que, de resto, em breve conduzirá ao caos devido
ao total engarrafamento do próprio trânsito. A bem da verda­
de, os projetos de uma simples exploração da infra-estrutura
e das relações sociais não bastaram para operar o “milagre”.
Em fins da década de 70, o Japão ainda não ascendera aos
primeiros postos do mercado mundial e amargava o cargo de
“guarnição secundária” entre as potências econômicas.
Enquanto os administradores ocidentais começavam a fes­
tejar a brutalização japonesa da economia empresarial, a fim
de superá-las o quanto possível em seus países, o verdadeiro
“milagre” da economia nipônica nos anos 80, produziu-se de
forma inteiramente diversa, ao soprar-se a maior bolha de sa­
bão da história financeira. O Japão tomou a dianteira do ca-
pitalismo-cassino global que florescia nessa época graças à
saturação estrutural do crescimento industrial em todo o pla­
neta. As próprias relações informais e paternalistas no interior
das elites e as estruturas muitas vezes obscuras dos clãs na
economia contribuíram para que o boom especulativo no Ja ­
pão surtisse efeitos particularmente fortes. A alta no preço de
ações e imóveis não se cansava de bater novos recordes. A
diferença do capital especulativo do Ocidente, que em grande
parte adejava nos céus financeiros, sem ser efetivamente in­
vestido na economia, as indústrias japonesas sangraram a fonte
monetária aparentemente inesgotável, no intuito de se apro-

201
OS ÚLTIMOS COMBATES

visionarem para a disputa mundial das exportações. A alta


ficticia e puramente especulativa dos títulos de propriedade
serviu de alavanca para financiar os vultosos investimentos nos
setores de alta tecnologia; os custos, portanto, foram pratica­
mente nulos, pois bastava aguardar o surto seguinte no preço
das ações e dos imóveis para “ficar rico” e vender ou empenhar
os títulos para financiar investimentos de porte. Embora a
infra-estrutura em muitos aspectos permanecesse subdesen­
volvida —até hoje, bairros inteiros de Tóquio ainda não possuem
canalização -, floresceu assim no Japão uma automatização
eletrônica da linha de montagem com a qual os demais países
industrializados foram incapazes de competir.
Da mesma maneira, os bancos refinanciavam a si próprios
aparentemente sem custos. Eis por que eles puderam conceder
créditos a taxas módicas aos especuladores e se contentaram
com hipotecas de imóveis avaliados muito acima de seu preço
real como garantia. Em muitos casos, a máfia japonesa (Yakuza)
estava mancomunada. Apenas com os fogos de artifício dessa
expansão financeira sem real substância econômica, o Japão
I sagrou-se em tempo recorde o suposto campeão da concoi-
I rência global e converteu-se no credor do mundo nos anos 80.
Com efeito, o desenvolvimento nipônico foi somente um caso
particularmente clamoroso em meio à autonomização gene­
ralizada dos mercados financeiros, a qual não deve ser com­
preendida a partir da psique dos especuladores, mas sim da
baixa rentabilidade da própria produção industrial do globo.
Na quebra da Bolsa em 1987, quando pela primeira vez
estourou a bolha financeira global e por toda parte despenca­
ram os valores imobiliários, o capital especulativo no Ocidente
não tardou a tomar o pulso da situação, uma vez que se tratava,
em boa parte, somente de perdas de caixa, logo compensadas
^ com novos aumentos do volume negociado. Caso diverso foi
o enfrentado pelo Japão em 1990, quando o país foi testemu­
nha da queda no curso das ações e dos preços imobiliários.
N o espaço entre janeiro de 1990 e agosto de 1992, a Bolsa de
Tóquio viu suas ações perderem quase 2/3 do valor de face, o
que representou uma perda de patrimônio de mais de US$3

202
O FICTÍCIO MILAGRE JAPONÊS

trilhões. Tanto piores foram os prejuízos acarretados pela que­


da de preços dos imóveis. Com a mesma rapidez feérica que
o Japão “tornara-se rico”, sua riqueza fictícia voltou a dissi­
par-se no ar.
Esta aniquilação virulenta do capital monetário, à diferen­
ça dos mercados especulativos do Ocidente, não pôde mais
ser compensada com novas bolhas de sabão. No país do Sol
Nascente, a brincadeira chegara ao fim. Uma parcela conside­
rável da alta precedente nos valores fictícios fora de fato consu­
mida pela economia, e pelo menos outro tanto fora concedido,
a título de aventura, como empréstimo a estouvados aposta­
dores da grande loteria. Eis por que o Japão foi rondado por
uma iminente catástrofe financeira. De súbito, quantias enor­
mes de crédito, aparentemente seguro, tornaram-se podres.
Estima-se que o capital monetário, já desvalorizado com base
na taxa de juros, monte à impensável soma de US$ 2 trilhões;
isso significaria, se as estimativas estão corretas, mais de 30%
do produto interno bruto japonés. Como os empresários não
possuem meios com que amortizar suas dívidas, o endivida­
mento total da economia privada, até meados de 1995, subiu
a 218% do PIB.
Em qualquer outro país, tal ônus com dívidas desvalori­
zadas há muito teria conduzido ao colapso do sistema finan­
ceiro. Os japoneses foram capazes de evitar tal resultado,
sobretudo porque o “Japão S/A”, sob a direção do Banco Cen­
tral e do Ministério das Finanças, logrou a todo custo colocar
panos quentes na crise do endividamento, valendo-se para tan­
to da rede de subordinação informal e das estruturas de fide­
lidade. Foram constituídas assim várias sociedades de fachada,
nas quais os bancos podiam “despejar” seus créditos podres.
Apesar dos protestos da opinião pública, o governo subsidiou
com a renda de impostos, tanto direta quanto indiretamente,
as instituições que andavam mal de saúde. Em 1995 e no início
de 1996, prejuízos bilionários oriundos da falência de bancos-
cooperativas como o Cosmo Shinyo Kumiai e o Osaka Shinyo
Kumiai tiveram de ser acobertados. Todo o setor das coope­
rativas de construção converteu-se nesse meio tempo num saco

203
OS ÚLTIMOS COMBATES

sem fundo. Alguns bancos redimensionaram os chamados cré­


ditos “instáveis” a uma taxa de juros praticamente nula, no
fito de torná-los invisíveis. A cada balanço trimestral, os gran­
des institutos monetários japoneses anunciavam novos descon­
tos de créditos em apuros, que, no entanto, até agora serviram
apenas para maquiar a contabilidade {“'window dressing”). To­
das estas práticas levianas, produtos do desespero, são capazes
apenas de postergar, mas não de impedir o colapso financeiro.
Hoje o Japão se vê na contingência de alcançar por todos
os meios o superávit na balança comercial, a fim de manter o
equilíbrio instável da enorme massa de crédito podre. A ele­
vada taxa de câmbio do iene, sobretudo em relação ao dólar,
e uma legítima reação dos mercados de divisas face ao contínuo
déficit norte-americano no comércio com o Japão (cerca de
1 US$ 50 bilhões por ano) já deixaram, contudo, umafumegante
) marca de freada nas exportações nipônicas. O iene forte é ao
mesmo tempo o responsável pelo atrofiamento do mercado
interno japonês, já que um número cada vez maior de empre­
sas, por motivos de custo, transfere seus investimentos para o
( exterior (sobretudo para os países vizinhos do Sudeste Asiáti-
\ co, onde o nível salarial é baixo), e lá passa também a negociar
t com fornecedores. Na esteira da globalização, hoje o mercado
japonês já é abastecido com produtos de firmas japonesas se­
diadas no exterior. Várias das pequenas empresas de fornecimen­
to nipônicas estão ameaçadas pela concorrência. Encurralado
pela crise do endividamento e pela globalização, o “Japão S/A”
é compelido a lançar por terra seus lastros sociais. Pouco a
pouco, a “família empresarial” é dissolvida por ordem supe­
rior. Os chamados “empregos ociosos” de funcionários impro­
dutivos que todavia não podem ser demitidos (mais de 6% da
população ativa) têm de desaparecer. Trabalhadores e funcio­
nários públicos, por meio de uma tática psicológica de desgas­
te, são instigados a pedir a própria demissão “por livre e
espontânea vontade” . Ao mesmo tempo, milhões de empregos
“de segunda classe” e nas empresas de fornecimento são su­
primidos. Progressivamente, impõe-se também no Japão o
mesmo desemprego estrutural de outras nações industrializa­

204
O FICTÍCIO MILAGRE JAPONÊS

das. Isso significa, por sua vez, que o mercado interno nipônico
é preterido pela própria queda no poder de compra da popu­
lação.
No entanto, a recessão tem de ser evitada a todo custo,
senão vai pelos ares a bomba financeira. Desesperado, o go­
verno japonês implementou, desde o início dos anos 90, cinco
planos conjunturais (obviamente financiados a crédito) com
volumes unitários de mais de US$ 100 bilhões. Mas, apesar
dos auspiciosos investimentos estatais, da redução dos impos­
tos e de uma taxa de juros quase negativa (0,5%), a conjuntura
padeceu seriamente até o fim de 1995. Os juros reais perma­
neceram sensivelmente mais altos que os nominais, e os bancos
são incapazes de emprestar moeda nova a taxas vantajosas,
pois eles próprios têm a corda no pescoço. Espera-se, porém,
que os programas governamentais surtam algum efeito, uma
vez que no primeiro trimestre de 1996 foi comemorado um
crescimento de 3% (12% ao ano, numa estimativa otimista),
o maior em 25 anos. Ora, esse fogo de palha somente foi aceso
após o Estado aspergir-lhe combustível. Os investimentos do
governo nesse trimestre, só para dar um exemplo, foram três
vezes maior do que as despesas privadas. A fatura de tais gastos
não tardará a chegar e não será menor do que a fatura das antigas
manipulações. A crise de endividamento privado soma-se a crise
pública. O Estado japonês é forçado a despender 30% de sua
receita no pagamento de juros, quase o dobro dos endividadís-
simos EUA. Assim como nos EUA (e de resto também na Alema­
nha), os fundos de seguridade social são pilhados.
O “milagre” japonês, à primeira vista tão simples, está
desmistificado. Mais cedo ou mais tarde, explodirá a bomba
financeira. O fato de os mesmos milagreiros, que ainda há
pouco buscavam o Graal na filosofia administrativa japonesa,
falarem hoje em tom de escárnio da “Itália asiática”, é prova
de que sua miopia permanece intocada. De fato, com o Japão
ameaça desmoronar uma pilastra do sistema financeiro global
e de todas as relações comerciais do planeta.

205
WÊÊÊIÊÊÊIÊÊIÊBÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊKÊM
O mito do capitalismo confuciano

Há muito que a influência recíproca entre economia e cul­


tura no sentido mais ampio é um tema das ciências sociais.
Quanto a isso, pode-se observar essencialmente duas vertentes
de idéias: uma que parte das leis gerais do capitalismo e mostra
como as culturas tradicionais são destruídas pela economia
moderna, e outra que parte inversamente da diversidade das
culturas e mostra como o capitalismo é culturalmente deter­
minado e de seus amplos círculos culturais resultam versões
inteiramente diversas de sua lógica geral.
Esse vínculo entre economia e história cultural, particu­
larmente acalentado na Alemanha desde Werner Sombart e
M ax Weber, rendeu o conceito de “estilo econômico” (Bertram
Schefold). Tal princípio tem hoje grande estima no Ocidente.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu alude a um “capital cul­
tural”, e o historiador americano Samuel Huntington, após o
colapso do socialismo de Estado, vê mesmo o alvorecer de
uma “guerra das culturas” . Ao mesmo tempo, a nova auto­
consciência do capitalismo asiático reporta-se a uma “identi­
dade cultural” própria, que seria superior àquela do “Ocidente
decadente” .

207
O
SÚLTIMOSCOMBATES

M ax Weber, que de bom grado é tratado como precursor


desse pensamento econômico em categorias culturais, sem dú­
vida, não dispunha da idéia de um capitalismo conjugado cul­
turalmente 110 plural quando passou a redigir sua sociologia
das religiões e investigar a relação entre as culturas definidas
religiosamente e o capitalismo moderno. Interessava-lhe antes
o surgimento histórico do próprio capitalismo e o problema
da transição para a modernidade.
De fato, em todas as sociedades pré-modernas, inclusive
na Europa, os motivos sociais e econômicos eram definidos
pela religião, sendo assim incompatíveis com o cálculo abstrato
do “homo economicus” . A teoria trataria de explicar por que
apenas no norte da Europa Ocidental ocorrera um autêntico
nascimento do capitalismo, ao passo que tal modo de produção
fora impingido nas demais regiões do planeta. Com o todos
sabem, Weber chegou à conclusão de que a ideologia religiosa
do protestantismo era a única transição adequada a uma men­
talidade capitalista, ao passo que as outras culturas religiosas,
inclusive o budismo e o confucionismo, revelavam-se incapa­
zes de constituir um conveniente pano de fundo cultural para
o desenvolvimento do capitalismo. O interessante é como We­
ber fundamentou essa tese. Ele tinha consciência de que tanto
o protestantismo puritano quanto a ética confuciana favore­
ciam uma sólida moral do trabalho e um pensamento racio­
nalista. Por que então o confucionismo não seria igualmente
indicado como o protestantismo para o advento capitalista?
Para Weber, como se lê em sua Ética Econôm ica das Religiões
Mundiais, a diferença fundamental era a importância das re­
lações sociais no exterior do sistema econômico em sentido
estrito:
A ética confuciana, de form a absolutam en te d eliberada, deixava
os indivíduos à m ercê de suas relações naturais ou p esso ais, sen­
do estas d eterm in ad as p o r vín culos so ciais h ierárq u icos. Ela
transfigurava eticam ente estas últim as, e ap en as estas, e p o r fim
desconhecia tod as as ob rigações sociais que n ão os deveres de
piedade hum ana criados p or tais relações p e sso ais de indivíduo
para indivíduo, de príncipe p ara criado, de fu n cion ário de hie-

208
O MITO DO CAPITALISMO CONFUCIANO

rarq u ia sup erio r p ara o inferior, de pai p ara filho, de irm ão para
irm ão, de p ro fesso r p ara aluno e de am igo para am igo. Para a
ética puritana, ao contrário, essas relações puram ente pessoais
- e m b o r a , é claro, ela as d eixasse existir, se n ão fossem contrárias
a D eus, e as regulasse eticam ente - eram levem ente suspeitas,
p ois que valiam p ara as criaturas. A relação com D eus lhe era
sob to d as circunstâncias precedente. Puras relações hum anas
com o tais, d em asiadam ente intensivas e id ólatras da criatura,
deviam ser evitadas p o r com pleto. D e fato, a confiança nos h o­
m ens, m esm o nos vizinhos de sangue m ais p róxim os, seria pe­
rigo sa à alm a. (...) Seguem -se daí im portantíssim as diferenças
práticas das d uas con cep ções éticas, em bora designem os am bas
com o “ racion alistas” em su a ap licação p rática e em bora am bas
deduzam conseqüências “ utilitárias” .

Caso substituamos o “ D eus” puritano pelo valor econô­


mico ou simplesmente pelo dinheiro, logo salta à vista a con­
cepção ocidental e liberal do homem como um egoísta isolado,
que sacrifica todos os vínculos pessoais e sociais no altar da
racionalidade econômica abstrata e do puro sucesso individual.
E, uma vez que o confucionismo resiste fundamentalmente a tal
impulso, M ax Weber o toma como inapto ao capitalismo, à
diferença do ideário protestante. É controverso se a específica
religiosidade protestante secularizou-se e com isto originou o
capitalismo, ou se, antes, o capitalismo nascente aproveitou-se
da ideologia protestante e talhou-a segundo sua própria ima­
gem mundana. O certo é que apenas esse amálgama europeu
de protestantismo e capitalismo deu luz ao mundo moderno
do mercado total, ao passo que nas culturas muito mais antigas
da China, do Jap ão e do resto da Ásia, o capitalismo foi im­
portado com as idéias européias e não se desenvolveu a partir
de dentro.
Nesse sentido histórico, M ax Weber não pode mais ser
refutado. Contudo, sua tese sobre a escassa capacidade de in­
tegração capitalista do confucionismo (assim como do budis­
mo e de toda a mentalidade asiática) provou-se falsa, já que
hoje a China, o Jap ão e os “ pequenos tigres” , parecem criar
um capitalismo especificamente asiático, que no fundo se afas-

209
OS ÚLTIMOS COMBATES

ta da versão ocidental, remonta às tradições culturais próprias


e é tido como um extraordinário sucesso. Será então o indivi­
dualismo econômico socialmente descompromissado, e devo­
tado apenas ao “Deus” do dinheiro uma partícula expletiva
ou inessencial do modo de produção capitalista? Será que hoje
em dia somos testemunhas do nascimento na Ásia de um capi­
talismo superior, que se reporta ao “capital cultural” da lealdade
pessoal e social? Tal foi a hipótese recentemente defendida pelo
politólogo norte-americano Francis Fukuyama, que se tornou
célebre com sua tese sobre o “fim da história”. Creio que estamos
às voltas aqui com uma grande ilusão que só será esclarecida por
meio da incomensurabilidade histórica do desenvolvimento. O
capitalismo asiático não foi responsável pela criação de um
novo modelo, mas apenas percorreu uma etapa do desenvol­
vimento capitalista, que no passado não foi estranha ao Oci­
dente. Todas as sociedades pré-modernas e no início da
modernidade, inclusive na Europa, foram impregnadas por
uma estrutura de reverência autoritária, por um sistema de leal-
dades e sujeições pessoais, assim como por uma rigorosa moral.
Isso não é uma especialidade asiática, mas um estigma universal
da transição de sociedades agrárias para o capitalismo.
Ora, se a ideologia individualista do protestantismo pôde
sozinha dar à luz um capitalismo próprio e autêntico, é difícil
aceitar que os países asiáticos, meros importadores do capita­
lismo, possam conservar o teor de submissão autoritária e de
lealdade pessoal por meio de formas culturais que já no passado
não demonstravam boa vontade com o capitalismo. A nova
autoconsciência da Ásia é uma auto-ilusão, pois a absorção do
capitalismo foi realizada a expensas de sua própria autono-
mia.O fato de as estruturas do capitalismo asiático serem his­
toricamente atrasadas e incapazes a médio prazo de resistirem
economicamente ao mercado mundial pode ser dissimulado
no presente pela concessão de vantagens concorrenciais de
curto prazo, que numa certa perspectiva constituem os (tem­
porários) “windfall profits” da incompatibilidade histórica -
mas isto somente para minorias em alguns poucos países.

210
O MITO DO CAPITALISMO CONFUCIANO

O principal fator não são, porém, as formas especifica­


mente asiáticas do “capital cultural”, mas os elevados índices
de crescimento a partir de bases reduzidas, como já se obser­
vara antes em outros países recém-industrializados, a exemplo
da União Soviética na década de 30, sem que disso redundasse
um novo “modelo de sucesso” . Apenas diante desse pano de
fundo econômico é que as relações autoritárias de lealdade
podem desempenhar por algum tempo o papel de esteio do
sucesso. Se neste respeito tanto a relação do cidadão com o
Estado quanto a do assalariado com o empregador são rein-
terpretadas quase como um vínculo pessoal de lealdade de
“príncipe para criado”, isso não passa de uma máscara para a
reificação e anonimização capitalista de todas as estruturas
sociais.
O pré-capitalismo europeu também foi testemunha de em­
preendimentos patriarcais, nos quais a dependência social ma­
nifestava-se como relação do “senhor” com seu “séquito”. Da
mesma forma, a intervenção autoritária do Estado na econo­
mia e o patrocínio de associações corporativas a serviço da
“nação”, desde o absolutismo até as ditaduras modernizadoras
do século X X , foram tão-somente uma “fase de crisálida” da
moderna democracia capitalista e seu individualismo abstrato,
corruptor de todo tipo de lealdade social.
Na medida que favorece uma forte mediação do Estado
na economia e um pesado agravamento dos mercados internos,
o capitalismo asiático recria a época mercantilista do Ocidente
e uma certa uniformização de todos os cidadãos - o constante
entoar dos hinos nacionais, etc. constituem no máximo uma
música de fundo superficialmente cultural desse processo. A
transposição para o âmbito económico-empresarial no Japão
de exercícios rituais, tais como o esporte matutino semimilitar
praticado coletivamente pelos empregados ou a entoação so­
lene dos “hinos da empresa” foi interpretada de forma equí­
voca e ridícula como uma “nova arma secreta” da filosofia
administrativa asiática e macaqueada pelos projetos da “cor­
porate identity”, ao passo que se tratava na verdade de fenô­
menos de transição da mentalidade feudal para a capitalista.

211
OS ÚLTIMOS COMBATES

Sob o influxo da globalização, em toda a Ásia desmorona o


corporativismo mediador do Estado, bem como a lealdade
patriarcal às empresas. No mercado interno, impõe-se a lógica
da concorrência, e no lugar da “corporate identity” asiática
surge o principio hipercapitalista do “hire and fire” .
Com o tempo, este também será o destino dos laços e
deveres estritos de consangüinidade, que não constituem igual­
mente uma especificidade asiática. Até hoje, espalhadas por
todo mundo, “grandes famílias” e clãs em número considerá­
vel restam como fósseis da historia da modernização - na Ará­
bia, Africa e América Latina, bem como na China ou em
Cingapura -, sem representarem, porém, um “modelo capita­
lista” . Talvez o capitalismo confuciano e familiar elaborado
em miniatura na China seja hoje responsável por urna parcela
do crescimento, mas suas atividades restringem-se a serviços
secundários, e ele é incapaz de suprir a indústria estatal. Para
a industrialização voltada às exportações, segundo os critérios
do mercado mundial, ele será antes um obstáculo - e isso já a
médio prazo. Os próprios imigrantes asiáticos nos Estados Uni­
dos, festejados como um exemplo de empreendimento bem-
sucedido, possuem muitas vezes meros nichos econômicos no
comércio ou pequenas cantinas que não refletem de forma
alguma um capitalismo autônomo. O princípio desse sucesso
é simples: a exploração brutal da lealdade familiar, inclusive
à custa de trabalho infantil e não remunerado, para abaixar o
preço do produto final. Muitas vezes, o mesmo princípio é
seguido por migrantes vindos do sul da Europa (Turquia, Gré­
cia, Espanha) em suas pousadas e mercearias na Alemanha.
Quantas gerações suportará tal estrutura de escravidão fami­
liar? Poucas, decerto.
O processo de individualização capitalista, destruidor de
laços familiares, como escreviam Marx e Engels já no Mani­
festo Comunista, alcançou agora os grandes centros metropo­
litanos da Ásia e não será barrado pelo código da polícia moral
confuciana. Em Cingapura, como posso ler, cuspir na rua e
urinar em elevadores é punido a golpes de chibata. Pergunta-
se: os habitantes de Cingapura costumavam antes urinar em

212
O MITO DO CAPITALISMO CONFUCIANO

elevadores? Tais preceitos fatalmente trazem à memória as or­


dens policiais alemãs do século XVI, quando o mundo europeu
achava-se ainda a caminho do “processo (capitalista) da civi­
lização” (Norbert Elias), e até a vida íntima era regulada pela
polícia. Os indivíduos no capitalismo tardio não urinam em
elevadores, mesmo sem a ameaça policial; pelo fato, no en­
tanto, de controlarem seus reflexos íntimos, eles calculam tam­
bém sua vida sexual para além da rígida moral do patriarcado.
Não foi o êxtase e o arrebatamento que surgiram em seu lugar,
mas a comercialização da sexualidade ou dos próprios senti­
mentos. Ê absurdo supor que justamente estes países asiáticos
- os quais como se sabe não vivem só da exportação de seus
carros e chips, mas também do turismo sexual - queiram fun­
dar um capitalismo sobre a base da moral confuciana. Ao lado
da praga do dinheiro, do McDonalds e de Hollywood, os asiá­
ticos agora foram pegos pelo próprio vírus da “decadência
ocidental”. A Europa, e principalmente os Estados Unidos,
nos revelam hoje que o estágio final de todo capitalismo é a
perfeita dissolução da sociedade em indivíduos abstratos e au­
tistas. Há mais de 150 anos, Alexis de Tocqueville já previra
que a sociedade moderna acabaria assim. Não é apenas Bob
Dole, candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos,
que evoca ideais pré-modernos para conjurar tal perigo. En­
quanto isso, Francis Fukuyama sai a campo em busca de um
socorro para o capitalismo sem peias, olhando de esguelha
“determinados aspectos da cultura tradicional” asiática. Seu
sonho é um capitalismo “imposto por tradições culturais, e de
que brotam fontes não-liberais” : uma suavização do puro mer­
cado por meio do “capital social” de corporações civis bene­
ficentes e de uma “confiança universal recíproca” .
Palavras loucas, ouvidos moucos. Jamais veremos nascer
um capitalismo confuciano, piedoso e vegetariano, pois o deus
puritano e secularizado do dinheiro em cultura alguma tolera
outros deuses ao seu redor. A tese de Weber sobre a escassa
compatibilidade capitalista do confucionismo e do budismo
manterá provavelmente um lugar de destaque não só na his­
tória, mas também no futuro.

213
A filosofia míope do capitalismo-cassino

Filosofia, um conceito da Antiguidade grega, significa o


mesmo que “amor à sabedoria” . Originalmente referia-se com
isso à doutrina de viver bem e corretamente. Desde o Ilumi-
nismo, a filosofia foi tomada como uma espécie de teologia
secularizada para explicar o universo e a razão humana. Hoje,
o conceito de filosofia tornou-se inflacionário. Truques e ar­
timanhas de como se impor e lograr os demais, manias sexuais,
alucinações pessoais, métodos de ginástica ou lavagem de ca­
belo e até mesmo hábitos alimentares são definidos como “fi­
losofia” . Se alguém toma uns tragos logo de manhã, ou é ao
contrário abstêmio, se prefere passar as férias nas montanhas
ou na praia, se toma sol com ou sem maiô - a tudo isso se
chama pateticamente “sua filosofia” . Tenistas, astros do fute­
bol, políticos e cantores de “bit parades” podem discursar ho­
ras a fio sobre sua filosofia, e a mídia está repleta deles.
Não tardaria assim que nesse meio tempo também os admi­
nistradores se vissem forçados a erigir uma filosofia. A filosofia
administrativa passou, aliás, a ditar o figurino na inflação ga­
lopante das filosofias. Nenhum produtor de cosméticos, au­
tomóveis, macarrão ou revistinhas pornográficas sai mais a
campo sem uma filosofia peculiar. E, como cada pessoa tor-

215
O
SÚL
T IMOSCOMBATES

nou-se sua própria empresa e teve de lançar-se a si mesma no


mercado, cada indivíduo necessita também de sua própria fi­
losofía administrativa.
O “ amor à sabedoria” assina agora como “amor à venali­
dade” . Atingiu-se, dessa forma, o estágio mais baixo do pen­
samento humano, embora para o capitalismo isto conste como
“ a última palavra em sabedoria” . Filosofia significa, pois, a
doutrina de vender bem e corretamente - quer seja a venda
de si mesmo ou da escória que se tem de impingir à humani­
dade. Filosofias dessa espécie são a maioria das vezes prove­
nientes dos Estados Unidos, embora há muito não sejam mais
“tipicamente americanas” , mas correspondam ao espírito glo­
bal da época. Elas são normalmente trocadas com mais rapidez
do que a roupa de baixo, a exemplo dos gurus da filosofia
administrativa e a natureza efêmera das suas conjunturas. Fíá
uma m oda de verão e outra de outono dessa filosofia, e a
administração nesse meio tempo tem muito a fazer para dar
conta do recado. M al sobra espaço para a própria administra­
ção. Um fracasso intelectual segue-se a outro, e o mundo da
economia já anda de miolo mole. Ora, mesmo se a filosofia
administrativa não for tão profunda quanto o mar, mas no
máximo quanto uma poça, ainda assim sua base pode ser bas­
tante firme. Novamente ela dá a fórmula de sua própria ética.
Com o Immanuel Kant, a filosofia administrativa obsequiou o
mundo com um “ imperativo categórico” . A nova máxima leva
o nome de “shareholder value” .
N a imprensa econômica alemã, o conceito de “ shareholder
value” foi eleito o “vocábulo da moda do exercício financeiro
de 1996” . Com o na era do neoliberalismo, tudo o que vem
do mundo anglo-saxão é cheirado com respeito e torna-se
objeto de conjecturas no continente europeu, assim foi que a
interpretação do “shareholder value ” ganhou destaque no dis­
curso económico-filosófico. M as o que é afinal “shareholder
value” } O primeiro mandamento dessa nova ética filosófica
da administração prescreve: “N ão terá nenhum outro Deus
senão teu acionista” . “ Shareholder value” significa portanto
uma raivosa defesa dos interesses acionários por parte da po-

216
AF
ILOS
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IAMÍOPEDOC
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ITAL
ISMO
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SSIN
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lítica comercial das sociedades empresariais. Isto seria, como


nos fazem ver os bancos de investimento, um movimento “back
to tbe roots”, isto é, de volta à tarefa original da administração
de propiciar ganhos máximos aos acionistas. Por demasiado
tempo este mandamento ético da economia teria sido enco­
berto pelos “interesses de grupos sociais” (sindicatos, políticos,
etc.). Em nome do “sbareboldervalue” são portanto celebradas
orgias de demissões em massa e redução de custos, para ex­
torquir a um mínimo de empregados um máximo de produção
e mandar às favas as conseqüências sociais. A maximização de
lucros sempre foi o objetivo, só que agora se trata de uma
crescente radicalização dessa vontade contra todos os interes­
ses dentro da sociedade capitalista. Nesse sentido, o projeto
do “shareholder value” corresponde à radicalização do limita­
do ponto de vista econômico sob a égide da globalização do
capital. A vida humana como um todo, o conjunto dos com­
promissos sociais, o restante da cultura e até mesmo os inte­
resses da burocracia estatal devem subordinar-se à “ produção
de rendas atraentes para os acionistas” e, caso necessário, ser
imolados nesse altar. A humanidade, a par de seu ambiente
natural, é mantida como refém dos grandes acionistas privados
e institucionais.
Para uma esquerda política embolorada, esse desenvolvi­
mento poderia novamente dar azo a insultos à magnificência
e ao poder perniciosos do espírito capitalista, que empresta
aos infames interesses de lucro uma auréola de moralidade. A
filosofia do “shareholder value” não revela porém uma situa­
ção salutar, mas uma fraqueza estratégica fundamental do capital.
O problema reside na relação do acionista com o empreendi­
mento prático ou a administração. Um acionista, como todos
sabem, é um investidor que com pra ações, ou seja, participa­
ções numa empresa, com o objetivo de receber uma parcela
correspondente do ganho dessa companhia. O acionista, e isso
é importante, não é ele próprio o empresário. A decisão de
comprar ações de uma empresa terá lá seus motivos, que po­
dem ser tanto de natureza sentimental quanto racional, e re­
pousam sobre algum a inform ação (por exem plo, sobre o

217
OS ÚLTIMOS COMBATES

sucesso comercial dessa empresa). Mas, como o acionista não


é ele próprio o administrador e portanto não se ocupa ativa­
mente da produção e venda da empresa, ele tampouco pode
prescrever uma estratégia ou uma determinada conduta co­
mercial; não pode decidir acerca de investimentos, reorgani­
zação, política de pessoal, marketing, etc.
Em outras palavras: segundo a racionalidade capitalista,
o acionista, como, mero investidor, tem de depositar sua con­
fiança na estratégia, nos conteúdos, nos objetivos e nas poten­
cialidades de um capital produtivo e em sua administração.
Essa confiança é o seu risco. Embora o modo de produção
capitalista esteja desde o início fundamentalmente distorcido
pelo funcionalismo abstrato do dinheiro, no passado o que
estava em jogo era o resquício de um propósito qualitativo, a
saber, a produção e o consumo de determinado valor de uso
concreto (fosse ele comprovado ou inovador). Confiança e
risco do acionista diziam respeito não apenas à seriedade dos
métodos administrativos, mas à qualidade e boa aceitação do
produto empresarial, assim como à sua utilidade.
Só dessa maneira puderam, no século X IX, os inventores
capitalistas como Edison, Siemens, Benz, etc. tornar realidade
suas idéias (seja qual for o juízo que delas se faça hoje): eles
precisavam de investidores que acreditassem nestas idéias e
em sua possibilidade de sucesso comercial. Mesmo o maior
projeto capitalista do século passado, a integração do mundo
pela construção de ferrovias, só foi possível por meio do risco
de investidores que, como acionistas das companhias ferroviá­
rias, davam carta branca à administração. De fato, num célebre
faroeste, o diretor italiano Sergio Leone esboçou a figura trá­
gica de um administrador de ferrovia a quem, diante da avareza
obtusa de seus inimigos e colegas de trabalho, interessa menos
o lucro fácil do que o sonho grandioso de ligar pela via férrea
as costas Leste e Oeste dos Estados Unidos, de oceano a oceano.
Também na teoria econômica sedimentou-se esse atributo
do administrador ou empresário prático. O clássico Adam
Smith já justificara a parcela de lucro do administrador pelo

218
A FILOSOFIA MÍOPE DO CAPITALISMO-CASSINO

fato de este reunir estrategicamente os “fatores produtivos”


do trabalho, solo e capital. Postulado teoricamente por Joseph
Schumpeter, o próprio empresário, inovador e “destruidor
criativo” das estruturas de produção antiquadas, que era tido
como o fiador do desenvolvimento capitalista e hoje é novamente
conclamado a plenos pulmões, pressupõe tanto a liberdade es­
tratégica quanto a política comercial do capital produtivo inde­
pendente dos investidores. O projeto do “shareholder value”
põe às avessas essa relação clássica entre acionistas e capitalistas
práticos. Quanto mais difícil a valorização do capital real, gra­
ças aos níveis elevados da produtividade global, e quanto mais
independente a produção real em relação aos surtos monetá­
rios no mercado financeiro transnacional, tanto menor é o
poder estratégico dos “agentes” industriais. Os empresários
inovadores de Schumpeter, por mais que sejam exigidos pela
teoria, estão condenados a desaparecer na práxis capitalista
desde o início dos anos 90. Steve Jobs foi talvez um dos últimos
de sua espécie, pois na filosofia do “shareholder value” não há
mais lugar para pessoas como ele. As idéias e as estratégias do
capital industrial real são engolidas pelo interesse monetário
nu e cru dos acionistas. Isso afeta sobretudo o horizonte tem­
poral. Orientar-se de modo estratégico significa pensar e ter
objetivos relativamente a longo prazo. Desenvolver e lançar
no mercado um produto real dura lá seu tempo, mesmo com
os potenciais tecnológicos da microeletrônica. A fim de que
novas idéias industriais possam tornar-se realidade, os acio­
nistas e outros investidores têm de cultivar uma certa paciên­
cia. Sob pena de dilapidar o patrimônio da empresa, não lhes
cabe exigir “ rendas atraentes” de forma imediata, sem tomar
em consideração os investimentos necessários e outros pres­
supostos de médio e longo prazo de ganhos futuros.
Se o horizonte temporal das inovações industriais, da pro­
dução e do transporte, não pode, porém, ser encurtado a bel-
prazer, hoje a velocidade dos mercados financeiros e de suas rendas
ditam as vicissitudes econômicas. David Vice, da Northern Te­
lecom, menciona a “cultura dos milésimos de segundo dos
anos 90” . E Toyoo Gyohteno, antigo ministro das Finanças

219
OS ÚLTIMOS COMBATES

japonês, relata em uma anedota: “Há pouco falei com um


operador de divisas. Perguntei-lhe quais os fatores que levava
em conta ao comprar e vender. Ele respondeu: 'Muitos fatores,
a maioria de curtíssimo prazo, alguns de médio prazo e outros
de longo prazo’. Achei muito interessante o fato de que pen­
sasse também a longo prazo e quis saber o que ele entendia
por isso. N ão sem hesitar por uns instantes, disse-me com toda
seriedade: Talvez 10 minutos’. É nesse compasso que se move
hoje o mercado” .
Nesse clima evaporam os últimos vestígios de um projeto
qualitativo, orientado pelo valor de troca, bem como as estra­
tégias empresariais que abrangem um ou mais ciclos conjun­
turais. A própria pesquisa dos fundamentos é solapada pelos
imperativos da renda máxima a curto prazo. A filosofia do
“shareholder value” é um projeto de extrema miopia, que não
necessita mais de nenhum visionário do capital. N o lugar dos
grandes anunciantes estratégicos, os desmanteladores e abu­
tres das empresas. Por toda parte, o comércio é “salutarmente”
reduzido a âmbitos nucleares, cada vez mais rápido a ciranda
dá voltas. H á tempos, a renda do comércio real deixou de
ocupar o primeiro plano. Como o nome já diz, o “shareholder
value” trata do valor {“value”) de que podem dispor os acio­
nistas {“shareholder”) de forma imediata e a curto prazo, isto
é, o valor de curso das ações, não os dividendos. Uma política
empresarial que segue a maximização do “shareholder value”
está, portanto, menos voltada para os ganhos reais, e a longo
prazo do que para uma maximização do valor de curso das
suas ações, não importa a que preço. Neste sentido, a filosofia
do “shareholder value” é um produto dissimulado do capita-
lismo-cassino. Se, no passado, as carteiras de ações muitas ve­
zes permaneciam décadas sob a posse do mesmo indivíduo e
ainda eram legadas à geração seguinte; hoje, boa parte dos
investidores privados e institucionais não detém mais porta­
folios de longo prazo, mas apenas faz suas apostas ao sabor
das variações diárias do mercado.
Eis por que nada mais resta aos diretores e administradores
do capital real senão pilotar as empresas à maneira camicase.

220
A FILOSOFIA MÍOPE DO CAPITALISMO-CASSINO

Cada vez mais eles se vêem forçados a desbaratar seu patrimo­


nio. No empenho de dar um rápido retoque á maquilagem do
sucesso ilusorio, até as reservas são incluídas no balanço. Mui­
tos empresários endividam-se até a medula para manter o curso
das próprias ações, recomprando-as aos atuais possuidores.
Mesmo os mais reacionários dos consultores de empresas e
investimentos já sentem vertigens com esse movimento frené­
tico e advertem para um fim funesto. Eis a explicação de Ed-
ward Emmer, especialista norte-americano em “rating” , à
revista alemã Wirtschaftswoche: “Sob o manto do ‘shareholder’
value já ocorreram os piores descalabros. Muito do que aí se
passa, foge a toda responsabilidade (...). Há dúzias de casos
nos quais os empresários, em nome do ‘shareholder value’, são
impelidos à falência”.
Ora, não é o equívoco subjetivo que equaciona as idéias
da administração à memória curta do mercado financeiro, mas
a limitação interna da própria valorização real do capital. Eis
por que as advertências conservadoras dos guardiães da virtude
do capitalismo real caem no vazio. Por meio da automatização,
racionalização e globalização, o capital subtraiu de próprio
punho o alimento da força de trabalho humana. O sistema
frenético, ávido de valorização, começa a devorar sua própria
carne. E a capitulação estratégica da administração industrial
impõe-se em todas as elites capitalistas. Mesmo nos impérios
financeiros, os magnatas são substituídos por jovenzinhos es­
pinhentos à frente de terminais de computadores, que brincam
de economia mundial como bebês em tanques de areia. Até o
horizonte temporal da política baixa ao nível de videoclipes.
Com a filosofia do “shareholder value”, o radicalismo neoli­
beral de mercado excedeu seus próprios limites. Agora ele
trabalha com minucioso afinco em prol de sua ruína histórica.

221
Buracos de rato para elefantes

Por muito tempo, a esperança social nos países do Terceiro


Mundo esteve voltada para o paradigma da “libertação nacio­
nal” . A dependência às economias imperiais dos antigos Estados
industriais devia ser superada em favor de uma industrialização
nacional autônoma. O meio para tanto foi sempre uma maior
ou menor impermeabilidade ao mercado mundial, a fim de
concentrar-se na própria economia interna. As importações
dos países industrialmente avançados deviam ser substituídas
na medida do possível pela produção própria. Essa estratégia,
que como se sabe gozou por um bom tempo de primazia em
suas incontáveis versões, não pôde desenvolver uma alterna­
tiva histórica ao capitalismo ocidental, mas, seja como for,
representou em vários Estados a tentativa de conduzir todo o
país à “modernização” e distribuir a cada qual os frutos do
desenvolvimento.
Em muitos aspectos formais pode-se comparar tal projeto
com o mercantilismo, a doutrina do absolutismo europeu nos
séculos XVII e XVIII. Mas, na teoria desenvolvimentista do
Terceiro Mundo, tratava-se apenas de um “mercantilismo pela
metade” . A exemplo da política econômica dos velhos prínci­
pes absolutistas, a importação de mercadorias devia ser limi-

2
23
OS ÚLTIMOS COMBATES

tada e o Estado ser o responsável pelo planejamento da eco­


nomia nacional ou mesmo agir ele próprio como empresário.
A diferença do mercantilismo histórico, porém, a exportação
a todo custo não era o objetivo, mas, ao contrário, a concen­
tração no próprio desenvolvimento interno.
Essa diferença pode ser também facilmente explicada.
A doutrina mercantilista apoiava-se na exportação porque não
queria, em primeiro lugar, desenvolver o próprio país como tal,
mas, antes, arrancar aos demais países o máximo de dinheiro
possível, a fim de engrossar os fundos de guerra dos prínci­
pes salteadores. O exército e a suntuosidade da corte abso­
lutista eram glutões insaciáveis de moeda. Os regimes
desenvolvimentistas do Terceiro M undo possuíam igual­
mente certos traços “absolutistas” : eram autoritários, não
raro também propensos à ruinosa ambição militar e à pompa
burocrática irracional. De outro lado, no entanto, eles eram
vincados por um momento socialmente emancipatório que
se sedimentou na opção do desenvolvimento interno. Talvez
eles fossem menos afeitos à exportação porque, como retar­
datários históricos, não podiam se impor da mesma forma
que o absolutismo europeu, que ainda nada tivera a temer
com a concorrência superior no mercado mundial.
O modelo político de desenvolvimento do Terceiro Mun­
do caiu por terra. Já antes de seu flagrante colapso, ele padeceu
uma longa agonia. Pois logo ficou patente que a impermeabi­
lidade ao mercado mundial era absolutamente impossível, caso
não se quisesse deixar de lado o objetivo do próprio desenvol­
vimento industrial. A substituição das importações impôs-se
apenas a produtos relativamente simples e pouco numerosos.
Muitos componentes necessários para uma produção indus­
trial abrangente não podiam ser elaborados pelos países do
Terceiro Mundo. Se mesmo assim quisessem desenvolver-se
industrialmente, eles tinham, antes de tudo, de importar tais
componentes do mundo ocidental. Pouco a pouco, a economia
do desenvolvimento viu-se, a contragosto, obrigada a curvar-se
à exportação ou até a um “mercantilismo total”, muitas vezes

224
BURACOS DE RATO PARA ELEFANTES

à custa do abastecimento interno de bens de consumo e man­


timentos básicos. A pobreza, que se quisera eliminar, batia de
novo à porta dos fundos.
Como a disparidade entre os custos de importação e as
receitas de exportação aumentasse cada vez mais, os regimes
resolveram-se pela contração de dividas no mercado finan­
ceiro mundial. Ora, com isso a perspectiva do desenvolvi­
mento interno viu-se de urna vez por todas denegada. De
fato, agora patenteava-se que já, a médio prazo, os custos
para os créditos resultavam mais elevados que as rendas dos
investimentos financiados com ajuda desses mesmos créditos.
O saldo foi a crise de endividamento do Terceiro Mundo, que
desde então não pára de inchar. Trocando em miúdos, as
rendas com a exportação já não podiam sequer ser utilizadas
para o desenvolvimento interno da economia, mas quase
exclusivamente para cobrir as dívidas nos mercados finan­
ceiros globais. Isso em nada mudou até hoje. A maioria dos
países do Terceiro Mundo verte sangue. Os velhos regimes
desenvolvimentistas transformaram-se em feitores do capi­
tal monetário transnacional e, desse modo, perderam todo
momento emancipatório. Desta necessidade, fizeram virtu­
de as instituições internacionais como o Banco Mundial e o
FMI, sob a égide da abertura neoliberal ao mercado global.
Elas prometem uma nova perspectiva, diametralmente opos­
ta à antiga teoria do desenvolvimento: agora o desenvolvi­
mento não cabe mais à substituição de importações e à vasta
industrialização interna, mas antes a uma industrialização
voltada às exportações.
Isso significa que já não se aspira mais a um complexo
industrial amplo e escalonado, que englobe todos os setores
essenciais, desde a indústria de base até a produção de bens
de consumo, e garanta a coesão da economia interna. Em vez
disso, cada país há de procurar seu “produto de exportação”
específico, de acordo com a teoria do livre-cambismo, e con­
centrar-se naqueles produtos que podem ser manufaturados
com custos relativamente baixos e para os quais vigoram, por­
tanto, “vantagens comparativas” . Infelizmente, essa teoria das

225
OS ÚLTIMOS COMBATES

“vantagens comparativas” de David Ricardo (1772-1823)


não vingou nem mesmo no passado. Quando muito ela podia
funcionar quando se tratasse de uma troca entre nações que,
em primeiro lugar, promovem o grosso de sua reprodução
por meio da economia interna e exportam ou importam
relativamente poucos produtos e que, em segundo lugar,
possuem quase o mesmo nível de desenvolvimento. Ambas
as condições aplicam-se menos do que nunca ao mundo
atual. N ão há que se falar nem em nível comparável de de­
senvolvimento nem em economias coligadas. A globalização
do capital já é uma manifestação da crise histórica que al­
cançou também os países da metrópole capitalista. Eis por
que, todavia, o declínio do desenvolvimento não diminuiu.
A crise tem, portanto, de atingir com tanto mais virulência
os antigos “ países em desenvolvimento” . A rigor, os concei­
tos “exportação” e “ im portação” tornaram-se absurdos. So­
mente no plano formal trata-se ainda de uma troca entre
economias nacionais independentes.
Por isso, também a expressão “vantagens comparativas”
caiu no absurdo. De modo algum procede que as nações
produzam o grosso para si e importem e exportem somente
os produtos para os quais vigoram “vantagens comparati­
vas” . O novo imediatismo do mercado mundial impõe a
manufatura sucessiva e excludente dos produtos capazes de
encontrar seu lugar ao sol a preços relativamente mais baixos
e largar mão de tudo mais. M esmo a Ricardo isto seria um
descalabro ou uma inconseqüência. A totalidade dos países
só pode ocupar uns poucos nichos de exportação, ao passo
que o resto é inundado e sufocado pela oferta globalizada.
Os países deixam de ser países e tornam-se zonas do mercado
mundial com diferentes densidades. E isto equivale a afirmar
que a possibilidade de existência abre-se somente a quantos
sejam capazes de tomar posse dos nichos do mercado mun­
dial. Isso não toca apenas aos trabalhadores, mas também
aos empresários.
A bem da verdade, a chamada industrialização seletiva,
voltada para as exportações, não é um projeto econômico, mas

226
BURACOS DE RATO PARA ELEFANTES

simplesmente empresarial. Os ideólogos do livre-cambismo,


a quem já no século X IX coubera a ruína de vários milhões de
pessoas, argumentam agora que a situação não é necessaria­
mente essa. Como suposta prova, eles invocam os “pequenos
tigres” do Sudeste Asiático. Há muitas razões por que também
a opção dos “pequenos tigres” não é sustentável a longo prazo.
Eles não vivem somente de ciclos globais deficitários, mas tam­
bém ameaçam a todo instante recair em novas crises de endivi­
damento graças aos custos com infra-estrutura e investimentos
na área de racionalização. Afora isso, resta saber se o sucesso
relativo e historicamente, talvez, apenas efêmero dos poucos
novatos é extensível a todos. A industrialização seletiva, vol­
tada para as exportações, significa ocupar nichos no mercado
mundial. O termo “nicho” já diz, todavia, que se trata de um
espaço bastante restrito e apertado. Os “tigres” já têm de ser
um bocado pequenos, se quiserem como país se encaixar nesse
espaço. Ou melhor dizendo: eles têm na verdade de ser ratos,
pois apenas ratos cabem num buraco de rato. Daí a validade
do preceito: quanto menor um país e quanto menor sua po­
pulação, mais a estratégia empresarial dos nichos de exporta­
ção harmoniza-se com todo o Estado. E vice-versa: quanto
maior um país e quanto maior seu número de habitantes, mais
absurda torna-se a opção pelos nichos no mercado mundial.
Acerca disso, dispõe-se de provas absolutas e relativas. As
estrelas do mercado global no Sudeste Asiático, Hong-Kong e
Cingapura, são minúsculas cidades-estados com menos de 3
milhões de habitantes. Isso equivale a mais ou menos 1/6 da
população de São Paulo. Estes ratos têm ao menos um posto
temporário num buraco de rato do mercado mundial. Já mais
delicado é o caso de países como Coréia do Sul, Taiwan ou
Tailândia, na Ásia, Argentina e Chile, na América Latina, e
Polônia, República Tcheca ou Hungria, no Leste Europeu. Es­
tes países, que têm aproximadamente entre 15 e 50 milhões
de habitantes, já possuem mais o tamanho de gatos que de
ratos. Graças a tanto, eles podem alocar no nicho apenas uma
parte de seus homens e têm de suportar as feridas da compres­
são. Indonésia ou índia, na Ásia, Brasil, na América Latina, e

227
OS ÚLTIMOS COMBATES

Rússia, no Leste Europeu, todos países com mais de 120 mi­


lhões de habitantes, assemelham-se, por sua vez, a elefantes,
aos quais a oferta de um lugar no buraco de rato não passa de
derrisão ou cinismo.
Há, porém, um país no mundo onde a opção pelo nicho
de exportação surte, por assim dizer, um efeito aterradora­
mente monstruoso e obsceno. Este país é a China. A enorme
massa que excede hoje 1,2 bilhão de habitantes nem mais ele­
fante é, mas sim um mamute ou mesmo um dinossauro. O que
ocorrerá quando se oferecer a essa montanha humana um con­
fortável lugar num buraco de rato? Os ideólogos neoliberais
do livre-cambismo são loucos o bastante para fazerem tal ofer­
ta com toda ingenuidade. E, de fato, o governo chinês tentou,
nos últimos decênios, ceder passo à estratégia da industriali­
zação voltada às exportações. Nas províncias do Sul foram
erigidas “zonas econômicas privilegiadas”, como Shenzhen, as
quais se tornaram atraentes aos investidores estrangeiros em
virtude de regalias tributárias, salários baixos e isenção de im­
postos sociais ou ecológicos. Sob condições pré-capitalistas, lá
se fabricam principalmente componentes para empresas glo­
balizadas do Japão, Hong-Kong ou países ocidentais. Os tra­
balhadores são aquartelados e mantidos como presidiários, as
jornadas de trabalho são extremamente longas e quase não há
precauções com a segurança. Tornou-se rotina o comunica­
do de graves acidentes e incêndios catastróficos. Em 1995,
um sem-número de jovens trabalhadoras de uma empresa têx­
til foram carbonizadas porque as portas da fábrica estavam
cerradas.
A despeito dessas condições brutais, os setores da indus­
trialização voltada às exportações podem abarcar, numa esti­
mativa otimista, o máximo de 200 milhões de operários. A
longo prazo, é impossível que a China dite o ritmo dos mer­
cados mundiais e conduza o grosso de sua reprodução por
outros critérios que não os do setor das exportações. Isso vale,
sobretudo, para todo o sistema de crédito e monetário, assim
como para o câmbio. A industrialização voltada para as ex-

228
BURACOS DE RATO PARA ELEFANTES

portações só é viável caso a moeda seja conversível. Uma moe­


da conversível exige por sua vez que a quantidade de moeda
permaneça sob controle e os créditos só sejam concedidos pelas
regras da rentabilidade. Isso acarreta graves conseqüências
para a economia interna. Grande parte das mais de 2 milhões
de empresas estatais chinesas, com 150 milhões de emprega­
dos, seriam obrigadas a fechar. Inúmeras microempresas do
setor de serviços, que dependem do poder de compra dos
empregados na indústria estatal, teriam igualmente de en­
tregar os pontos. A própria lavoura, de que vive grande parte
dos chineses, considerada improdutiva segundo os critérios
globais, estaria fadada à ruína. A fim de evitar essas conse­
qüências, a administração chinesa adotou uma contabilidade
de partidas dobradas. N ão somente diversas cotações da
moeda, mas também diversas formas de lançamento estatal
correm lado a lado.
As elevadas taxas de crescimento que deixaram pasmos
todo o mundo constam de elementos absolutamente hetero­
gêneos. Elas contêm não apenas o crescimento real dos setores
de exportação, mas também o crescimento puramente fictício
de grande parte da economia interna, que depende das injeções
estatais da Casa da Moeda. Ao cotejar a estatística chinesa das
exportações com as correspondentes estatísticas dos parceiros
comerciais, ressalta, além disso, que uma parte dos números
consiste de meras “exportações ilusórias” que jamais existiram
e só servem para ludibriar a própria burocracia. Enquanto no
Ocidente a China é bajulada como o sustentáculo do grande
boom do século XXI, a situação real há muito tornou-se crítica.
Segundo depoimentos da agência oficial Xinhua, em 1995, a
cifra de desempregados atingiu 230 milhões, mais de 25% da
população ativa. Por volta de 150 milhões de pessoas vagam
pelo país em busca de salário. A inflação faz com que até mesmo
os mantimentos básicos tornem-se exorbitantes para muitos.
Mais cedo ou mais tarde, a contabilidade de partilha dobrada irá
por água abaixo. Explicará então o governo chinês a 1 bilhão de
habitantes que eles são “supérfluos” na economia de mercado?
Em muitos lugarejos, camponeses insurretos respondem a bala

229
OS ÚLTIMOS COMBATES

aos policiais e ao Exército. As províncias costeiras há muito já


não transferem ao governo central os impostos recolhidos.
Peritos do Instituto Londrino para Estudos Internacionais te­
mem a eclosão iminente de uma guerra civil na China. A terra
do sonho do grande boom poderia tornar-se um modelo ca­
tastrófico da industrialização voltada às exportações.

230
A ruína iminente de um ameaçador
tigre asiático

Em outubro de 1996, um sonho parecia tornar-se realida­


de: a República da Coréia do Sul, como segundo país asiático
depois do Japão, foi integrada à Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômicos (OCDE) e, em conseqüência,
ao clube exclusivo dos predominantes Estados industriais do
mundo. Em geral, tomou-se tal fato como prova da ascensão
irrefreável do Sudeste Asiático na hierarquia do mercado mun­
dial. Com o ingresso da Coréia do Sul, escreveram muitos
comentadores, abriu-se definitivamente a porta aos “tigres”
asiáticos, e a OCDE, no século X X I, será dominada pela Ásia.
Menos de seis meses mais tarde, o verniz do modelo bem-su-
cedido, há pouco festejado, já começava a descascar: a Coréia
do Sul amargou em janeiro de 1997 as maiores greves e abalos
sociais de sua história. À primeira vista, poderia parecer que
o movimento grevista era somente uma conseqüência natural
do sucesso sul-coreano nos mercados mundiais. Os operários
nos países-tigres, diz-se hoje, querem simplesmente reivindicar
a sua fatia no enorme bolo. Precisamente porque a Coréia do
Sul “teve êxito” e alcançou os Estados industriais do Ocidente,

231
OS ÚLTIMOS COMBATES

agora chega ao fim a própria lenda das “sobrias e industriosas


abelhas asiáticas” .
Os padrões ocidentais de consumo teriam pretensamente
o acesso facilitado, e o nivel de vida da população, em con­
formidade ao status atingido no mercado mundial, seria ajus­
tado para cima. Também o regime autoritário do país e das
empresas não seria mais oportuno. A OCDE já dirigia críticas
à proibição francamente arcaica de sindicatos livres na Coréia
do Sul e exigia a “normalização” das relações jurídicas para
permitir “debates civilizados” entre empresas e sindicatos. O
governo da Coréia do Sul teria de manter a promessa feita
quando de seu ingresso na OCDE e garantir a liberdade de
associação sindical e de acordos salariais, como é de bom-tom
a um membro digno da OCDE. Esse enfoque da situação pre­
sente na Coréia do Sul, no entanto, é apenas meia verdade. O
movimento grevista não é uma reação atrasada dos trabalha­
dores ao sucesso, porém, justamente o inverso: é uma reação
antecipada ao malogro da incipiente industrialização voltada
às exportações. N a verdade, os padrões de consumo na Coréia
do Sul há muito se elevaram. O nível salarial fora já nos anos
80 alçado de patamar, e, a partir de 1990, os salários aumen­
taram em mais de 10% ao ano, mesmo sem greves nem mani­
festações. Os protestos raivosos que surpreenderam o mundo
não são ofensivos, mas defensivos. Eles se dirigem contra a
revogação de conquistas sociais, que devem ser imoladas no
altar da globalização. Pois o modelo dos Estados-tigres já al­
cança os seus limites, e as greves são o prenuncio da crise. Em
1996, os ganhos das firmas sul-coreanas caíram em 50%, pois,
a despeito do aumento qualitativo (embora com taxas de cres­
cimento mais baixas), o saldo das exportações encolheu em
termos absolutos. O déficit da balança comercial explodiu a
quase US$ 30 bilhões. Para um país como a Coréia do Sul, isso
é uma catástrofe. O governo e as grandes empresas dizem re­
solver o problema com cortes nos encargos sociais. Eis por
que foi quebrada a promessa à OCDE de uma normalização
democrática e sociopolítica.

232
A RUÍNA IMINENTE DE UM AMEAÇADOR TIGRE ASIÁTICO

As novas leis trabalhistas do presidente Kim Young Sam e


seu governo não apenas mantêm de pé a proibição de sindi­
catos livres, erguida pela ditadura, como também possibilitam
aos empresários uma alteração unilateral das jornadas de tra­
balho, uma redução dos salários e, sobretudo, pela primeira
vez, as demissões em massa. Desse modo, também na Coréia
do Sul, a tão celebrada “família empresarial” paternalista tor­
na-se sinônimo de bobagem. E compreensível que os trabalha­
dores sul-coreanos reajam com raiva e desespero a essa
mudança drástica. Ainda há pouco, eles se mostravam orgu­
lhosos de que o mundo lhes admirasse o país e depositavam
confiança no governo, que lhes prometia a longo termo o cres­
cente bem-estar. Ora, já nos anos passados, a ascensão econômica
pagara o preço da devastação ecológica, com o ar empestado,
rios poluídos e florestas desmatadas. Os habitantes da capital,
Seul, se acostumaram a viajar nos finais de semana às monta­
nhas, munidos de galões, porque só ali ainda se encontra água
potável. Mas, mesmo assim, as pessoas deixaram-se seduzir
pela perspectiva de que a cultura da pobreza e o seu cortejo
de bicicletas e carros de boi logo faria parte do passado. Vários
operários dos quadros de elite de empresas sul-coreanas, vol­
tadas ao mercado mundial, puderam pela primeira vez com­
prar carros, geladeiras e televisores - coisa que permanecia
um objetivo longínquo para o restante da população. E agora,
o milagre há de ter fim sem nem sequer ter começado? A
irritação do povo e a simpatia pelos grevistas é tão grande que
até mesmo monges e freiras budistas tomam parte nas mani­
festações. Os anseios dos manifestantes estão longe de pôr em
questão o modo de vida capitalista. Eles não querem mais que
o cumprimento da promessa de normalidade democrática, em­
pregos na economia de mercado, motorização geral e bem-es­
tar, por meio de uma torrente de bens de consumo industriais.
Porém, com isso, eles rumam a um beco histórico sem saída,
pois agora revela-se que os modelos asiáticos de desenvolvi­
mento não podem imitar os Estados industriais do Ocidente
e muito menos suplantá-los. Os novatos asiáticos não assumem
o lugar dos Estados Unidos e Europa como locomotiva do

233
OS ÚLTIMOS COMBATES

mercado mundial, mas somente despencam na mesma crise


após um brevíssimo vôo estratosférico.
Alguns teóricos do desenvolvimento industrial compara­
ram precipitadamente nos últimos anos a ascensão da Coréia
do Sul e demais países-tigres com a industrialização européia
no século X IX. Ora, essa comparação é falsa. A estrutura in­
dustrial dos países europeus não somente estava centrada nas
nações, como também tinha diante de si um horizonte tem­
poral de desenvolvimento de mais de 150 anos. A industriali­
zação da Coréia do Sul, por sua vez, ergueu-se desde o início
sobre pés de barro, porque ela já constava como parte inte­
grante da globalização a um nível elevado de desenvolvimento
do mercado mundial. As manobras estatais, na esteira do mo­
delo japonês, podiam, num primeiro momento, simular um
desenvolvimento econômico nacional por meio das indústrias
de exportação, mas uma tal alternativa agora é inundada mais
rápido do que o esperado pela torrente da globalização. Como
a moldura do planejamento estatal obedecia ao projeto da
industrialização voltada às exportações, a conjuntura favore­
ceu unilateralmente as grandes empresas norteadas pelo mer­
cado mundial, como Daewoo, Goldstar, Samsung, Hyundai,
etc. Estas “chaebol”, como são chamadas as empresas mistas
chefiadas por clãs familiares na Coréia do Sul, não tinham
desde o início qualquer interesse numa estrutura interna equi­
librada da economia sul-coreana. Tanto os militares quanto os
chefes das empresas conheciam apenas um objetivo: ter suces­
so o mais rápido possível no mercado mundial. Eis por que
eles apostaram todas as fichas numa única vantagem, a saber,
salários baixos e condições miseráveis de trabalho. Todas as
tentativas de organização sindical foram rechaçadas com meios
brutais. Porém, um tal estratagema só funcionou enquanto a
exportação se restringiu a produtos da indústria leve (tecidos,
calçados, etc.). Com a transição para a indústria pesada (side­
rurgia, construção naval) e de alta tecnologia (indústria ele­
trônica, automobilística), as fraquezas desse modelo, após
longo período de incubação, tinham de saltar à luz, o que
ocorre hoje sob a ameaça de uma ruína iminente.

234
A RUÍNA IMINENTE DE UM AMEAÇADOR TIGRE ASIÁTICO

Embora o governo sul-coreano e as “chaebol” tenham con­


cebido formalmente seus planos a longo prazo, sua orientação
estratégica estava na verdade programada somente para suces­
sos a curto prazo e uma maciça expansão quantitativa. A di­
ferença qualitativa entre produtos de massa mais baratos e
produtos high-tecb não foi levada em conta. Este erro de ava­
liação sedimentou-se numa política míope de crescimento, cu­
jos êxitos já eram parte do passado e agora transformavam-se
numa reação econômica em cadeia, desta vez com sinal nega­
tivo. As “chaebol” concentraram-se em poucos ramos, a fim
de repetir nas indústrias de alta tecnologia, por meio das ex­
portações mais baratas, o modelo da ofensiva de exportação
das indústrias leves. Elas descuidaram da construção de um
espectro amplo de indústrias e se tornaram dependentes de
relativamente poucos produtos. A fim de cortar gastos e avan­
çar rapidamente nos mercados mundiais com grandes volumes
de produtos, renunciou-se nos ramos escolhidos ao controle
da escala produtiva em sua totalidade. Dessa forma, mesmo
em seus supostos ramos de sucesso, a Coréia do Sul sempre
foi dependente da importação de tecnologia japonesa e oci­
dental. A orientação a curto prazo e puramente quantitativa
deu ensejo a uma constante expansão produtiva sem o sufi­
ciente aumento da produtividade. O grande aporte de capital
foi acompanhado de um aporte igualmente elevado de força
de trabalho, sem que a intensidade do capital crescesse em sua
essência. Como num sistema pré-moldado, uma fábrica se­
guia-se à outra, em linha; havia excesso de investimento na
expansão e escassez de investimento na racionalização.
A Coréia do Sul teria, portanto, de concorrer também nas
indústrias de alta tecnologia - contra os antigos países indus­
triais - quase exclusivamente com salários defasados e anacrô­
nicos e com respaldo na taxa de câmbio. Para não onerar a
surtida quantitativa das exportações, o Estado descuidou da
construção da infra-estrutura. Comparado ao aumento do vo­
lume de sua exportação, a Coréia do Sul tem hoje pouquíssimas
ruas, além de aeroportos, portos, ferrovias, redes de comuni­
cação, etc., pessimamente ampliados. O próprio sistema esco-

235
OS ÚLTIMOS COMBATES

lar e universitário e as instituições de formação técnica ficaram


bastante para trás. Simultanemente, o governo em boa parte
largou mão de um desenvolvimento da agricultura: a Coréia
do Sul tornou-se dependente da importação de alimentos.
Não admira que essa ofensiva de fôlego curto logo tivesse
de estacar no mercado mundial. Se nos anos 80, ñas asas da
“economia-vodu” de Ronald Reagan, e do cambio extrema­
mente alto do dólar a ela vinculado, a Coréia do Sul pôde
ainda encobrir suas debilidades internas com o fluxo de ex­
portação rumo aos Estados Unidos, nos anos 90 o modelo do
crescimento puramente quantitativo não se mostrava mais sus­
tentável. Com base na estratégia primitiva dos contínuos in­
vestimentos na expansão, logo a força de trabalho tornou-se
escassa e, em virtude do relativo descuido do sistema profis­
sionalizante, a força de trabalho qualificada beirou a extinção.
De acordo com a lei da oferta e procura, que nem mesmo uma
ditadura militar pode fazer desaparecer, os salários acabaram
por aumentar sucessivamente, em conformidade à situação.
Desse modo, o mercado interno difundiu-se com vertiginosa
rapidez, mas não para a indústria sul-coreana. Pois, por motivo
de sua fixação à ofensiva das exportações, as “chaebol” ha-
viam-se concentrado em poucos produtos, e, portanto, não
eram capazes de voltar-se agora satisfatoriamente à expansão
do mercado interno.
Em vez disso, o acréscimo no poder de compra dos ope­
rários sul-coreanos reverteu em benefício principalmente de
produtores estrangeiros, que inundaram o crescente mercado
interno. A Coréia do Sul viu-se assim dependente de impor­
tações não apenas nos setores de tecnologia e alimentação,
mas também no de bens de consumo industriais. O modelo
quantitativo de exportação meteu-se, portanto, numa camisa
de 11 varas. As “chaebol” perderam a sua principal vantagem,
os salários baixos, sem que pudessem, por outro lado, apro­
veitar correspondentemente a vantagem do crescente mercado
interno. De modo concomitante, a importação de tecnologia
ocidental e japonesa encarecia, ao passo que, inversamente,
os preços dos produtos finais sul-coreanos baixavam. Isso vale,

236
A RUÍNA IMINENTE DE UM AMEAÇADOR TIGRE ASIÁTICO

sobretudo, para os semicondutores, o aço e os produtos pe­


troquímicos, que juntos constituem quase 40% das receitas
com exportações. Assim se explica facilmente por que o déficit
anual da balança comercial sul-coreana nos anos 90 subiu de
US$ 6 bilhões para US$ 12 bilhões e afinal para US$ 30 bilhões.
Como já ocorrera no começo dos anos 80, o modelo de ex­
portação está à beira do colapso, e a Coréia do Sul ameaça
mais uma vez cair na armadilha do endividamento externo.
As “chaebol” há muito reagiram à situação modificada e tro­
caram a perspectiva de uma industrialização económico-na­
cional voltada às exportações (sob os ditames estatais) por um
novo modo de existência transnacional como “global players” .
Enquanto a linha de montagem puder ser agenciada com força
de trabalho não qualificada e de baixo custo, ela será transfe­
rida para a China ou o Vietnã.
Ao mesmo tempo, donos de grandes empresas compram
estabelecimentos nos Estados Unidos e na Europa, a fim de
não serem barrados por medidas protecionistas e tirarem pro­
veito da melhor infra-estrutura européia. Já em 1994, a Dae­
woo iniciou na Polônia as obras de uma enorme instalação
para produzir jogos de diversão e aparelhos domésticos. Em
1995, Lee Kun Hee, chefe da Samsung, vibrou o diapasão: “os
produtos para a Europa devem ser produzidos futuramente
na Europa” . Desde então, a Samsung compra firmas européias
como bananas. Em 1996, foi adquirida uma fábrica de chips
na cidade britânica de Wynward.
O Grupo LG (Goldstar) também pretende investir US$
2,6 bilhões num parque industrial em solo britânico. Num
processo paralelo, as “cbaebol”, a exemplo das empresas oci­
dentais e japonesas, mergulharam de cabeça na especulação
financeira global do “capitalismo-cassino” . Em 1994, nada
menos que 58% da receita da Samsung couberam a serviços
financeiros e de informação. Para a economia sul-coreana, a
rápida globalização das “chaebor significa um agravamento
adicional da tensa situação socioeconómica. O forte refluxo
de capital priva o governo do controle sobre o futuro desen­
volvimento. Com o desvio dos investimentos para o exterior,

237
OS ÚLTIMOS COMBATES

as demissões em massa tornaram-se inevitáveis. N ão tardará


a que o emprego total, em conformidade à tendência plane­
tária, seja substituído também na Coréia do Sul por um de­
semprego estrutural de crescimento constante. As novas leis
trabalhistas do presidente Kim Young Sam e a intransigência
do governo demonstram que a elite, como sói acontecer, deseja
reagir com “mão de ferro” à crise de crescimento. A miragem
do bem-estar industrial, consenso social e normalidade demo­
crática desvanecem. O mais novo membro da OCDE, após
breve hesitação, parece transitar da ditadura do desenvolvi­
mento para a ditadura da crise.

238
A origem destrutiva do capitalismo

Há inúmeras versões do nascimento da era moderna. Nem


mesmo quanto à data, os historiadores se põem de acordo.
Uns fazem a modernidade ter início já nos séculos XV e XVI,
com o chamado Renascimento (um conceito que só foi inven­
tado no século X IX por Jules Michelet, como demonstrou o
historiador francês Lucien Febvre). Outros vêem a verdadeira
ruptura, o decolar da modernidade, só no século XVIII, quan­
do a filosofia do Iluminismo, a Revolução Francesa e o início
da industrialização abalaram o mundo. Mas qualquer que seja
a data preferida pelos historiadores e filósofos modernos para
o nascimento de seu próprio mundo, numa coisa eles concor­
dam: quase sempre conquistas positivas são tomadas como os
impulsos originais.
Consideram-se razões proeminentes para a ascensão da
modernidade, tanto as inovações artísticas e científicas do Re­
nascimento italiano quanto as grandes viagens de descobri­
mento desde Colombo, a idéia protestante e calvinista da
responsabilidade específica do indivíduo, a libertação ilumi-
nista das crenças irracionais e o surgimento da democracia
moderna na França e nos Estados Unidos. No âmbito técnico-
industrial, também é lembrada a invenção da máquina a vapor

239
OS ÚLTIMOS COMBATES

e do tear mecânico como “tiro de largada” do desenvolvimento


social moderno. Esta última explicação foi ressaltada sobretu­
do pelo marxismo, pelo fato de se harmonizar com a doutrina
filosófica do “materialismo histórico” . O verdadeiro motor da
história, afirma essa doutrina, é o desenvolvimento das “forças
produtivas” materiais, que repetidamente entram em conflito
com as “relações de produção” tornadas muito restritas, e obri­
gam a uma nova forma de sociedade. Por isso, a viravolta na
industrialização é o ponto decisivo para o marxismo: a má­
quina a vapor, assim diz a fórmula simplificada, teria sido a
primeira a romper as “correntes das antigas relações feudais
de produção” .
Aqui salta aos olhos uma contradição gritante no argu­
mento marxista. Pois, no famoso capítulo sobre a “acumulação
primitiva do capital”, Marx ocupa-se em sua obra magna de
períodos que remontam a séculos antes da máquina a vapor.
Não será isso uma auto-refutação do “materialismo históri­
co” ? Se a “acumulação primitiva” e a invenção da máquina a
vapor acham-se tão afastadas em termos históricos, as forças
produtivas da indústria não poderiam ter sido a causa decisiva
para o nascimento do capitalismo moderno. É verdade que o
modo de produção capitalista só se impôs em definitivo com
a industrialização do século X IX, mas, se buscarmos pelas raí­
zes desse desenvolvimento, teremos de cavar mais fundo.
Também é lógico que o primeiro germe da modernidade,
ou o “big-bang” de sua dinâmica, tivesse de surgir de um meio
ainda em boa parte pré-moderno, pois de outro modo não
poderia ser uma “origem” no sentido rigoroso da palavra. As­
sim, a “primeira causa”, muito precoce, e a “consolidação ple­
na”, muito tardia, não representam uma contradição. Se
também é verdade que para muitas regiões do mundo e para
muitos grupos sociais o início da modernização prolonga-se
até o presente, é igualmente certo que o primeiríssimo impulso
há de ter ocorrido num passado remoto, caso se considere a
enorme extensão temporal (da perspectiva da vida de uma
geração ou mesmo de uma pessoa isolada) dos processos so­
ciais. O que era afinal, num passado relativamente distante, o

240
A ORIGEM DESTRUTIVA DO CAPITALISMO

novo, que na seqüência engendrou de forma inevitável a his­


tória da modernização? Pode-se conceder plenamente ao ma­
terialismo histórico que a maior e principal relevância não
coube à simples mudança de idéias e mentalidades, mas ao
desenvolvimento no plano dos fatos materiais concretos. Não
foi, porém, a força produtiva, mas, pelo contrário, uma re­
tumbante força destrutiva que abriu caminho à modernização,
a saber, a invenção das armas de fogo. Embora essa correlação
há muito seja conhecida, nas mais célebres e conseqüentes teo­
rias da modernização (inclusive o marxismo), ela permaneceu
de todo subestimada.
Foi o historiador da economia alemão, Werner Sombart,
que, de forma picante, pouco antes da Primeira Guerra Mun­
dial, em seu estudo “ Guerra e Capitalismo” (1913), abordou
com minúcias essa questão. Só nos últimos anos, as origens
técnico-armamentistas e bélico-econômicas do capitalismo
voltaram à berlinda, como no livro “ Canhões e Peste” (1989),
do economista alemão Karl Georg Zinn, e no trabalho “A Re­
volução M ilitar” (1990), do historiador norte-americano
Geoffrey Parker. Mas, tampouco, estas investigações encon­
traram a repercussão que mereciam. Como é evidente, o mun­
do ocidental moderno e seus ideólogos, só a custo aceitam a
visão de que o fundamento histórico último de seu sagrado
conceito de “liberdade” e “ progresso” há de ser encontrado
na invenção do diabólico instrumento mortal da história hu­
mana. E essa relação vale também para a democracia moderna,
pois a “ revolução militar” permaneceu até hoje um motivo
secreto da modernização. A própria bomba atômica foi uma
invenção democrática do Ocidente.
A inovação das armas de fogo destruiu as formas de do­
minação pré-capitalistas, visto que tornou militarmente ridí­
cula a cavalaria feudal. Já antes do invento das armas de fogo,
pressentira-se a conseqüência social das armas de alcance, pois
o Segundo Concílio Lateranense proibiu, no ano de 1129, o
uso de balestras contra cristãos. Não por acaso, a balestra im­
portada de culturas não-européias para a Europa, por volta
do ano 1000, era tida como a arma especial dos salteadores,

241
OS ÚLTIMOS COMBATES

foras-da-lei e rebeldes. Quando entraram em voga as armas


de cano, muito mais eficazes, foi selado o destino dos exércitos
montados e trajados de armadura. Contudo, a arma de fogo
não estava mais nas mãos de uma oposição “de baixo” que
fazia frente ao domínio feudal, mas conduziu antes a uma
“revolução de cima” com a ajuda de príncipes e reis. Pois a
produção e a mobilização dos novos sistemas de armas não
eram possíveis no plano de estruturas locais e descentralizadas,
na forma como até então haviam marcado a reprodução social,
mas exigiam uma organização inteiramente nova da sociedade,
em diversos planos. As armas de fogo, sobretudo os grandes
canhões, não podiam mais ser produzidos em pequenas oficinas,
como as armas brancas ou de arremesso. Por isso, desenvolveu-se
uma indústria de armamentos específica, que produzia canhões
e mosquetes em grandes fábricas. Ao mesmo tempo, surgiu
uma nova arquitetura militar de defesa, na figura de gigantes­
cos baluartes que deveriam resistir às canhonadas. Chegou-se
a uma disputa inovadora entre armas ofensivas e defensivas e
a uma corrida armamentista entre os Estados, que persiste até
os dias de hoje.
Por obra das armas de fogo, alterou-se profundamente a
estrutura dos exércitos. Os beligerantes não podiam mais se
equipar por si próprios e tinham de ser providos de armas por
um poder social centralizado. Por isso, a organização militar
da sociedade separou-se da civil. Em lugar dos cidadãos mo­
bilizados, caso a caso, para as campanhas, ou dos senhores
locais com as suas famílias armadas, surgiram os “exércitos
permanentes” : nasceram “as forças armadas” como grupo so­
cial específico, e o exército tornou-se um corpo estranho na
sociedade. O oficialato transformou-se de um dever pessoal
de cidadãos ricos numa “profissão” moderna. A par dessa nova
organização militar e das novas técnicas bélicas, também o
contingente dos exércitos cresceu vertiginosamente: “As tro­
pas armadas, entre 1500 e 1700, quase decuplicaram” (Geof-
frey Parker). Indústria armamentista, corrida armamentista e
manutenção de exércitos permanentemente organizados, di­
vorciados da sociedade civil e ao mesmo tempo com forte

242
A ORIGEM DESTRUTIVA DO CAPITALISMO

crescimento, conduziram necessariamente a uma subversão


radical da economia. O grande complexo militar, desvinculado
da- sociedade, exigia uma “ permanente economia de guerra” .
Essa nova economia da morte estendeu-se como uma mortalha
sobre as estruturas agrárias das antigas sociedades. Como os
armamentos e o exército não podiam mais se amparar na re­
produção agrária local, mas tinham de ser abastecidos com
recursos de envergadura e em relações anônimas, eles passa­
ram a depender da mediação do dinheiro. Produção de mer­
cadorias e economia monetária, como elementos básicos do
capitalismo, ganharam impulso no início da era moderna por
meio da liberação da economia militar e armamentista.
Esse desenvolvimento produziu e favoreceu a subjetivida­
de capitalista e a sua mentalidade do “fazer-mais” abstrato. A
permanente carência financeira da economia de guerra con­
duziu, na sociedade civil, ao aumento dos capitalistas usurários
e comerciais, dos grandes poupadores e dos financiadores de
guerra. Mas também a nova organização do próprio exército
criou a mentalidade capitalista. Os antigos beligerantes agrá­
rios transformaram-se em “soldados”, ou seja, em pessoas que
recebem o “soldo” . Eles foram os primeiros “assalariados”
modernos que tinham de reproduzir sua vida exclusivamente
pela renda monetária e pelo consumo de mercadorias. E, por
isso, eles não lutaram mais por objetivos idealistas, mas so­
mente por dinheiro. A eles era indiferente quem matar, pois
o soldo “ interessava” ; com isso, eles se tornaram os primeiros
representantes do “trabalho abstrato” (Marx) no moderno sis­
tema produtor de mercadorias. Aos chefes e comandantes dos
“soldados” interessava angariar recursos por meio de butins e
convertê-los em dinheiro. Para tanto, a renda dos butins tinha
de ser maior do que os custos com a guerra. Eis a origem da
racionalidade económico-empresarial moderna. A maioria dos
generais e comandantes do exército do início da era moderna
investia com ganho o produto de seus butins e tornava-se só­
cios do capital monetário e comercial.
Não foram, portanto, o pacífico vendedor, o diligente pou-
pador e o produtor cheio de idéias que marcaram o início do

243
OS ÚLTIMOS COMBATES

capitalismo, muito pelo contrário: do mesmo modo que os


“soldados”, como artesãos sanguinários da arma de fogo, fo­
ram os prototipos do assalariado moderno, assim também os
comandantes de exército e “condottieri”, “multiplicadores de
dinheiro”, foram os prototipos do empresariado moderno e
de sua “prontidão ao risco” . Como livres empresários da mor­
te, os “condottieri” dependiam, porém, das grandes guerras,
dos poderes estatais centralizados e de sua capacidade de fi­
nanciamento. A relação moderna de reciprocidade entre mer­
cado e Estado tem aqui a sua origem. Para poder financiar as
indústrias de armamentos e os baluartes, os gigantescos exér­
citos e a guerra, os Estados tinham de extorquir até o sangue
de sua população, e isso, em correspondencia à matéria, numa
forma igualmente nova: no lugar dos antigos impostos em
espécie, a tributação monetária. As pessoas foram assim obri­
gadas a “ganhar dinheiro” para poder pagar seus impostos ao
Estado. Desse modo, a economia de guerra forçou não apenas
de forma direta, mas também indireta, o sistema da economia
de mercado. Entre os séculos XVI e XVIII, a tributação do
povo nos países europeus cresceu em até 2.000%.
Obviamente, as pessoas não se deixaram introduzir de for­
ma voluntária na nova economia monetária e armamentista.
Elas só puderam ser forçadas a tanto por intermédio de uma
sangrenta opressão. A permanente economia de guerra das
armas de fogo ensejou, durante séculos, a permanente insur­
reição popular e, na sua esteira, a guerra permanente. A fim
de poder extorquir os monstruosos tributos, os poderes esta­
tais centralizados tiveram de construir um aparato monstruoso
de polícia e administração. Todos os aparatos estatais moder­
nos são procedentes dessa história do início da era moderna.
A auto-administração local foi substituída pela administração
centralizada e hierárquica, a cargo de uma burocracia cujo
núcleo foi formado com o respaldo na tributação e na opressão
interna. As próprias conquistas positivas da modernização
trouxeram sempre o estigma dessas origens. A industrialização
do século X IX, tanto no aspecto tecnológico quanto no traço
histórico das organizações e das mentalidades, foi uma her-

244
A ORIGEM DESTRUTIVA DO CAPITALISMO

deira das armas de fogo, da produção de armamentos no inicio


da modernidade e do processo social que a seguiu. Nesse sen­
tido, pouco admira que o vertiginoso desenvolvimento capi­
talista das forças produtivas, desde a Primeira Revolução
Industrial, pudesse ocorrer senão de forma destrutiva, apesar
das inovações técnicas, aparentemente inocentes.
A moderna democracia do Ocidente é incapaz de ocultar
o fato de ser herdeira da ditadura militar e armamentista do
início da modernidade - e isso não só na esfera tecnológica,
mas também em sua estrutura social. Sob a fina superfície dos
rituais de votação e dos discursos políticos, encontramos o
monstro de um aparato que administra e disciplina de forma
continuada o cidadão aparentemente livre do Estado em nome
da economia monetária total e da economia de guerra a ela
vinculada até hoje. Em nenhuma sociedade da história houve
tão grande percentual de funcionários públicos e administra­
dores de recursos humanos, soldados e policiais; nenhuma jamais
desbaratou uma parcela tão grande de seus recursos em arma­
mentos e exército. As ditaduras burocráticas da “modernização
tardia”, no leste e no sul, com seus aparatos centralizadores,
não foram os antípodas, mas os imitadores da economia de
guerra da história ocidental, sem, contudo, poderem alcançá-
la. As sociedades mais burocratizadas e militarizadas são ainda,
do ponto de vista estrutural, as democracias ocidentais. Tam­
bém o neoliberalismo é um filho temporão dos canhões, como
demonstraram o gigantesco armamentismo da “Reaganomics”
e a história dos anos 90. A economia da morte permanecerá
o inquietante legado da sociedade moderna fundada na eco­
nomia de mercado, até que o capitalismo camicase destrua a
si próprio.

245
Escravos da luz sem misericordia

Ainda hoje, após mais de 200 anos, continuamos ofuscados


pelo belo clarão do iluminismo burguês. A história da moder­
nização compraz-se em metáforas da luz. O sol radiante da razão
há de penetrar as trevas da superstição e fazer ver a desordem
do mundo, para que enfim a sociedade seja configurada se­
gundo critérios racionais. A escuridão não se manifesta como
a outra faceta da verdade, mas como o reino negativo do de­
mónio. Já no Renascimento, os humanistas polemizavam con­
tra seus opositores tachando-os de “obscurantistas” . “Mais
luz!”, terá clamado Goethe em 1832, prostrado em seu leito
de morte. Como clássico, cumpria-lhe uma saída em grande
estilo.
Os românticos bateram-se contra esta luz fria da razão e
votaram-se novamente à religião, de modo sintético. Em vez
da racionalidade abstrata, eles propalaram um irracionalismo
não menos abstrato. Assim, em lugar de metáforas da luz, eles
se deliciaram em metáforas das trevas. Novalis escreveu um
“Hino à Noite”. Ora, esta mera inversão do simbolismo ilu-
minista na verdade passava ao largo do problema. Inaptos a
superar a duvidosa unilateralidade dos iluministas, os român­
ticos só fizeram por ocupar o pólo contrário da modernização

247
OS ÚLTIMOS COMBATES

e tornaram-se de fato “ obscurantistas” de urna forma de pensar


reacionária e clerical.
Porém o simbolismo da modernidade também pode ser
criticado por razões diametralmente inversas: como paradoxal
desrazão da própria razão capitalista. Pois é sem dúvida curioso
como as metáforas iluministas da luz cheiram, por assim dizer,
a misticismo chamuscado. A noção da uma fonte luminosa de
brilho sobrenatural, como sugere a idéia da razão moderna,
relembra a descrição do reino dos céus transfundido pela flama
divina, e dos sistemas religiosos do Extremo Oriente já se co­
nhece o conceito de “iluminação” . Embora a luz da razão ilu-
minista seja terrena, ela assumiu um caráter estranhamente
transcendental. O lampejo celeste de um Deus perfeitamente
indevassável foi apenas secularizado na banalidade monstruo­
sa do fim em si mesmo que é o capitalismo, cujo trato caba­
lístico com a matéria terrena consiste na acumulação absurda
do valor econômico. Isto não é razão, mas supremo desvario;
e o que aí rebrilha é o fulgor do absurdo, que aflige e ofusca
a vista.
A razão irracional do iluminismo quer totalizar a luz. Essa
luz, entretanto, não é um mero símbolo no reino do pensa­
mento, mas possui antes um forte significado socioeconómico.
Era fatal, neste aspecto, que o marxismo e o movimento his­
tórico dos trabalhadores compreendessem a si mesmos como
os legítimos herdeiros do Iluminismo e de suas metáforas da
luz. Na “International”, o hiño do marxismo, fala-se do ma­
ravilhoso futuro socialista: “Então brilha o sol sem cessar” .
Um caricaturista alemão tomou essa frase ao pé da letra e
mostra, no “ reino da liberdade”, uns homens suarentos que
erguem a vista ao sol escaldante e suspiram: “Já faz três anos
que ele brilha e deixou de se pôr”. Isso não é apenas uma piada.
De certa forma, a modernização efetivamente “transformou a
noite em dia”. N a Inglaterra, que como se sabe foi a precursora
da industrialização, a iluminação a gás foi introduzida já em
inícios do século X IX e logo expandiu-se por toda a Europa.
Ao término do mesmo século, as lâmpadas a gás cederam lugar
à luz elétrica. Há muito se provou medicinalmente que a que-

248
ESCRAVOS DA LUZ SEM MISERICORDIA

bra da distinção entre dia e noite, sob a luz fria dos sóis arti­
ficiais, afeta o ritmo biológico do homem e causa danos psí­
quicos e corporais. Por que então a forçosa iluminação
planetária, que hoje alcança o mais afastado rincão da Terra?
Karl Marx, ele próprio um herdeiro do Iluminismo, de­
clarara com acerto que o infatigável ativismo da produção
capitalista é “desmedido” . Contudo esta falta de medida não
pode tolerar em princípio nenhum tempo que permaneça “es­
curo” . Pois o tempo da escuridão é também o tempo do des­
canso, da passividade, da contemplação. O capitalismo requer,
ao contrário, a ampliação de sua atividade às raias do esforço
físico e biológico. Esses limites são temporalmente determi­
nados pela rotação da Terra sob seu eixo, ou seja, as 24 horas
completas do dia astronômico, que têm um lado claro (voltado
para o sol) e outro escuro (de costas para o sol). O pendor do
capitalismo é totalizar o lado ensolarado e tomar posse do dia
astronômico como um todo. O lado anoitecido perturba este
impulso. A produção, circulação e distribuição das mercado­
rias há de “varar a noite”, pois “tempo é dinheiro” . Ao conceito
de “trabalho abstrato” na moderna produção de mercadorias
corresponde não apenas seu prolongamento absoluto, mas
também sua abstração astronômica. Tal processo é análogo à
alteração da medida de espaço. O sistema métrico foi intro­
duzido em 1795 pelo regime da Revolução Francesa e difundiu-
se com tanta rapidez como a iluminação a gás. N a Alemanha,
a transição para esse sistema deu-se em 1872. As medidas de
espaço baseadas no corpo humano (pé, cúbito, etc.), que eram
tão diferenciadas quanto as culturas humanas, foram substi­
tuídas pelo metro astronômico abstrato, correspondente à
quadragésima milionésima parte do perímetro da Terra. Essa
unificação abstrata das medidas de espaço espelhava a imagem
mecânica do mundo da física newtoniana, que por sua vez
serviu de exemplo à economia mecânica da ciência de mercado
moderna, do modo como a analisara e propalara Adam Smith
(1732-1790), o fundador da economia. A imagem do universo
e da natureza como uma grande máquina compacta coincidia
com a maquinaria econômica do capital, e as medidas astro­

249
OS ÚLTIMOS COMBATES

nômicas tornaram-se urna forma básica para a engenharia física


e econômica. Isso nao se aplica apenas ao espaço, mas também
ao tempo. Ao metro astronómico, a medida do espaço abstra­
to, corresponde a hora astronómica, a medida do tempo abs­
trato; e estas são também as medidas da produção capitalista
de mercadorias.
Só com o tempo abstrato foi possível ao dia do “trabalho
abstrato” avançar sobre a noite e abocanhar o tempo de des­
canso. O tempo abstrato pôde desligar-se de relações e objetos
concretos. A maioria dos relógios antigos, como a ampulheta
e a clepsidra, não apontavam “que horas eram” ; antes, eles
eram aferidos segundo processos concretos, a fim de designa­
rem o “tempo apropriado” . Talvez se pudesse compará-los a
um contador de minutos que soa o toque de campainha para
dizer se o ovo está quente ou cozido. Aqui, a quantidade do
tempo não é abstrata, mas sim norteada por uma qualidade
específica. O tempo astronômico do “trabalho abstrato”, ao
contrário, destaca-se de toda qualidade. A diferença é visível
também quando lemos por exemplo em documentos medie­
vais que a jornada de trabalho dos servos nas glebas devia durar
“da alvorada até o meio-dia”. Ou seja, a jornada de trabalho
era mais reduzida do que hoje não apenas em termos absolutos,
mas também relativos, por variar conforme a estação e ser
menor no inverno que no verão. A hora astronômica abstrata,
por sua vez, permitiu fixar o início da jornada “às 6 horas”,
sem considerar as estações do ano nem os ritmos do corpo.
Eis por que a época do capitalismo é também a era dos
“despertadores”, dos relógios que, a um toque estridente, ar­
rancam os homens ao sono para impeli-los a locais de trabalho
banhados em luz artificial. E, uma vez antecipado o início da
jornada para a noite, nada mais óbvio do que avançar o fim
da jornada noite adentro. Essa mudança possui também seu
lado estético. Como o meio ambiente é de certo modo “des­
materializado” pela racionalidade empresarial, já que a maté­
ria e suas correlações têm de submeter-se aos critérios de
rentabilidade, ele também é privado de sua dimensão e pro­
porção por esta mesma racionalidade. Quando por vezes cer-

250
ESCRAVOS DA LUZ SEM MISERICÓRDIA

tos edifícios antigos nos parecem de algum modo mais belos


e confortáveis do que os modernos, e quando então declara­
mos que eles, em comparação aos atuais edifícios “funcionais”,
nos impressionam de algum modo como irregulares, isso re­
monta ao fato de que suas medidas são apropriadas às medidas
corporais e suas formas, às da paisagem. A arquitetura moderna,
pelo contrário, utiliza medidas astronômicas de espaço e formas
“descontextualizadas”, “destacadas” do meio circundante. O
mesmo vale para o tempo. Também a moderna arquitetura do
tempo se encontra despida de proporção e contexto. Não apenas
o espaço tornou-se mais feio, mas também o tempo.
Nos séculos XVIII e início do XIX, tanto o prolongamento
absoluto quanto o relativo da jornada de trabalho, por meio
da introdução da hora astronômica abstrata, foram sentidos
como uma tortura. Por muito tempo, houve uma luta deses­
perada contra o trabalho noturno ligado à industrialização.
Trabalhar antes do amanhecer e após o crepúsculo era, por
assim dizer, imoral. Quando na Idade Média calhava de os
artesãos trabalharem à noite por razões de prazo, cabiam-lhes
lautos repastos e salários principescos. O trabalho noturno era
uma rara exceção. E consta das “grandes” façanhas do capita­
lismo ter logrado converter o aguilhão do tempo em regra
geral da atividade humana.
Nada mudou com a paulatina redução da jornada absoluta
de trabalho desde os primórdios do capitalismo. Pelo contrá­
rio, o chamado trabalho por turnos ampliou-se cada vez mais
no século X X . Com auxílio de dois ou mesmo três turnos, as
máquinas são mantidas em funcionamento quase ininterrupto,
com breves pausas para a troca de pessoal, manutenção e lim­
peza. Lojas e magazines também devem estender ao máximo
seu horário, beirando o limite das 24 horas. N a Alemanha,
este ano, tivemos um debate sobre o horário legal de fecha­
mento do comércio, que até há pouco estava fixado no patamar
das 18:30h. E desde Ia de novembro de 1996 prolongou-se
até às 20h. Em muitos países, como nos Estados Unidos, não
há horário de fechamento definido em lei, e inúmeros estabe-

251
OS ÚLTIMOS COMBATES

lecimentos ostentam a tabuleta: “Aberto 24h” . Desde que a


tecnologia microeletrônica de comunicação globalizou o fluxo
monetário, a jornada financeira transita sem interrupção de
um hemisfério a outro. “ Os mercados financeiros nunca dor­
mem”, diz o anúncio de um banco japonês.
E a luz da razão iluminista que clareia os turnos da noite.
À medida que a concorrência se faz total, o imperativo externo
e social transforma-se também numa coação interna do indi­
víduo. O sono passa a ser um inimigo tão sórdido quanto a
noite, pois, enquanto se dorme, oportunidades são perdidas e
a guarda é irremediavelmente baixada ao ataque alheio. O
sono dos indivíduos em uma economia de mercado torna-se
cada vez mais curto e leve, como o de um animal selvagem -
e isso na proporção direta do seu desejo de “sucesso” . O tor­
mento do trabalho noturno mecânico, imposto por outrem,
manifesta-se ao nível da administração como recusa “volun­
tária” ao sono. Existem até seminários nos quais se faculta o
exercício de técnicas de minimização do sono. Com pia serie­
dade, os alunos de administração hoje afirmam: “ O empresá­
rio ideal nunca dorm e” - exatamente como os mercados
financeiros!
Ora, a submissão do homem ao “trabalho abstrato” e à
sua medida temporal astronômica é impossível sem um con­
trole total. Controle universal requer igualmente observação
universal, e a observação só é possível na luz: pouco mais ou
menos como a polícia, no interrogatório, dirige um facho de
luz ao rosto do delinqüente. Não por acaso o termo “ilumi-
nismo”, em alemão, possui uma acepção militar, qual seja,
o “ reconhecimento do inimigo” . E uma sociedade em que
cada um torna-se inimigo dos demais e dele próprio, pois a
todos cabe servir o mesmo Deus laicizado do capital, conver­
te-se com fatalidade lógica num sistema de observação e auto-
observação total.
Num universo mecânico, também o homem tem de ser
maquinaria. A luz do Iluminismo aprestou-o para tanto e o
fez “transparente” . O filósofo francês Michel Foucault revela
em seu livro “Vigiar e Punir” (1975) como essa “visibilidade”
ESCRAVOS DA LUZ SEM MISERICORDIA

total tornou-se uma armadilha histórica. Em principios do sé-


culo X IX , o capitalismo ainda ensaiava a observação total por
meio de uma “pedagogia penitenciária”, nos moldes desen­
volvidos pelo filósofo utilitarista e liberal Jeremy Bentham
(1748-1832), como um atilado sistema de organização, de pu­
nição e até de arquitetura para presidios, fábricas, escritorios,
hospitais, escolas e reformatorios. A esfera pública do mercado
não é propriamente o âmbito da livre comunicação, mas urna
esfera da observação e do controle. Isso nos recorda da utopia
negativa “ 1984”, de George Orwell. Se esse controle, nas di­
taduras totalitárias, era exercido externamente pelo aparato
burocrático do Estado e da política, na democracia ele tornou-se
autocontrole introjetado, suplementado pela mídia comercial,
na qual os holofotes dos campos de concentração transmuda-
ram-se nas luminárias de urna gigantesca feira a varejo. Aqui não
se discute livremente, mas se irradia luz sem misericordia. Na
democracia comercial, um tal sistema refinou-se a ponto de
os indivíduos já obedecerem por si próprios aos imperativos
capitalistas e seguirem o sulco das pegadas como robôs pro­
gramados.
O marxismo, em contraste à sua própria pretensão social,
foi um protagonista do “trabalho abstrato”, à medida que su­
cumbiu ao pensamento mecanicista do Iluminismo e a seu
pérfido simbolismo da luz. Tudo que havia de despótico no
marxismo advinha do liberalismo iluminista. Já os românticos,
por outro lado, interessados em fazer jus à face obscura da
verdade, não se aliaram à emancipação social, mas à reação
política. Só quando libertos desse cárcere reacionário, a noite,
o sono e o sonho poderão ser lemas emancipatórios da crítica
social. A resistência ao mercado total talvez comece quando
os homens se derem inopinadamente o direito de ao menos
uma vez dormir à saciedade.

253
A derradeira enfermidade

Mesmo na Europa, pouquíssimos sabem onde fica exata­


mente a Albânia. “Em algum lugar nos Bálcãs.” O pequeno
país (3,2 milhões de habitantes), um dos muitos produtos da
fragmentação do Império Otomano, declarou-se independente
em 1912. No ano seguinte, as suas fronteiras foram demarca­
das um tanto arbitrariamente pelas grandes potências da épo­
ca, de forma que hoje grande parte dos albaneses vive fora de
seu Estado de origem, na Macedônia, e, sobretudo, na pro­
víncia de Kosovo, pertencente ao que restou da Iugoslávia -
um outro foco de distúrbios nesta região abalada pela crise.
Durante a Segunda Guerra Mundial, como na Iugoslávia, os
partidários da resistência de orientação comunista lutaram
contra a ocupação alemã no intransitável solo montanhoso
albanês e subiram ao poder depois da paz. E, a exemplo de
Tito na Iugoslávia, o chefe do Partido Comunista e antigo líder
da resistência, Enver Hoxha, estabeleceu na Albânia uma di­
tadura estatal e socialista de recuperação.
Apoiado em riquezas naturais, como carvão, minério de
ferro, cromo, petróleo e betume, o regime de Hoxha empreen­
deu uma industrialização forçada. Com ajuda soviética, e de­
pois chinesa, surgiram conglomerados de indústria pesada,

255
OS ÚLTIMOS COMBATES

maquinaria, produção têxtil, etc. Mas, novamente em paralelo


com a Iugoslávia, a partir dos anos 70, a Albânia não pôde
mais se sustentar no mercado mundial. Com a proibição de
qualquer endividamento externo e com o rígido isolamento,
o regime buscou evitar uma crise econômica. A Albânia trans-
formou-se no último bastião do stalinismo e no exótico país
feérico da Europa, onde até mesmo os automóveis eram proi­
bidos. Inversamente, para os albaneses, o sul da Itália, de que
eles estão separados apenas por uma estreita faixa de 60 km
de Mar Adriático, parecia o terreno feérico do consumo oci­
dental. Os sinais da televisão italiana são facilmente captados
em toda parte; assim, as pessoas socialmente cansadas da di­
tadura partidária, bem como a população dos demais países
do Leste Europeu, voltaram-se para a cintilante fachada de TV
do Ocidente. Quando Enver Hoxha morreu, em 1985, o re­
gime começou a perder sua força.
Cautelosas tentativas de abertura, sob pressão do povo
insatisfeito, e a crescente oposição, tornaram manifesta a fra­
queza econômica. De um lado, muitos jovens albaneses pas­
saram a gerar divisas com o trabalho temporário na Grécia,
Itália e outros países ocidentais; de outro, a economia albanesa
foi vítima de uma ruptura catastrófica: em 1991, a produção
industrial, incapaz de suster-se internacionalmente, caiu em
60%; o desemprego subiu a 70% e o país amargou ainda uma
grave crise na balança de pagamento; desde então, as dívidas
externas, que aumentaram vertiginosamente num curto espa­
ço de tempo, fugiram totalmente ao controle. O preço para a
abertura e para a oportunidade de uma ínfima minoria “tentar
a sorte” nos países do Ocidente foi, portanto, a perda de toda
a reprodução econômica independente. Devido às dimensões
reduzidas do país e à estreita base industrial, o colapso pareceu
muito mais drástico que noutros Estados do Leste Europeu.
Súbito, a população, desmoralizada, passou a depender em
grande parte das remessas de seus parentes com emprego no
exterior. De setembro de 1991 até março de 1992, foram re­
latados protestos da massa oposicionista na capital, Tirana, e
revoltas de esfaimados em diversas regiões do país; alguns de-

256
OS ÚLTIMOS COMBATES

sa, que se dirigem ora contra os “socialistas” e ex-stalinistas,


ora contra os igualmente ex-stalinistas “democratas” e “refor­
madores radicais” da economia de mercado.
Na Albania, as coisas pareciam, à primeira vista, tomar
outro rumo. O presidente Berisha, um cardiologista que per­
tencera ao cerne da “nomenklatura” stalinista a título de mé­
dico pessoal de Enver Hoxha, declarou-se subitamente como
“ papa-comunistas” e fundou um regime unipartidário auto­
crático. O presidente dos socialistas, Fatos Nano, foi lançado
à prisão sem processo jurídico; também contra outros mem­
bros proeminentes do partido da oposição foram movidos pro­
cessos de grande repercussão pública, bem ao estilo stalinista,
mas sob a bandeira da economia de mercado e da democracia.
Segundo relatos de observadores insuspeitos, as eleições de
maio de 1996 foram massivamente fraudadas em proveito de
Berisha. Nesse clima pouco confiável, o regime tomou um
curso econômico e político de radical privatização e desregu-
lamentação.
Os países ocidentais de peso, a despeito de sua retórica
democrática, sempre apostaram em sombrias ditaduras nos
países da periferia; para tanto, bastava que elas fossem sufi­
cientemente anticomunistas na política e suficientemente par­
tidárias do mercado na economia. Nesse sentido, pouco
espanta que o Ocidente favoreça, na Europa Oriental pós-so-
cialista, figuras como Ieltsin na grande Rússia ou Berisha na
pequena Albânia. Há de se admirar, contudo, a espécie de
ofuscamento ideológico com que as elites ocidentais conti­
nuam a crer que tais figuras, quase irresponsáveis, são capazes
de administrar, com um misto de “mão de ferro” e cura radical
pelo mercado, o processo da derrocada social na enorme região
que se estende do centro da Ásia ao sul europeu. Berisha, em todo
caso, entre as figuras aventureiras da nova “nomenklatura”
capitalista na Europa Oriental, tornou-se a menina dos olhos
dos conservadores britânicos e do partido governista alemão,
a União Democrática Cristã (CDU). Uma parte não desprezível
das novas leis reformistas albanesas foi redigida pelos “espe­

258
A DERRADEIRA ENFERMIDADE

cialistas” alemães dos grupos de suporte técnico às sociedades


devotas à ortodoxia do mercado. Em inícios de março de 1995,
o presidente alemão conservador, Roman Herzog, viajou com
a sua enorme comitiva para Tirana, a fim de “fortalecer o
processo de reformas albanês” . A música de acompanhamento
adequada para a ocasião foi concedida por um dossiê do Deutsche
Bank, com um hino ao “programa estrutural e de estabilização”
de Berisha, que “rende cada vez mais frutos”. Eram festejados o
crescimento recorde de 8% do produto interno bruto no ano
de 1994, bem como os progressos na privatização e no sanea­
mento da administração estatal. E, como o FMI e o Banco
Mundial dignaram-se a contribuir para o abençoado programa
de Berisha com créditos acima de US$ 180 milhões, nada pa­
recia obstar o caminho da ventura reformista assentada na
economia de mercado.
Os relatos daqueles que testemunharam, in loco, a situação
da Albânia, tinham um discurso totalmente diverso. Nele se
mostravam imagens de ruínas industriais decrépitas e estufas
destruídas em que pastavam as ovelhas. A agricultura privati­
zada, dizia-se, regrediu a formas de organização muito primi­
tivas e ao cultivo com arado de madeira. Não apenas uma
grande parte da indústria de manufatura, mas também a cons­
trução de maquinário, como um todo, foram extintas na es­
teira da “ privatização” . A parcela da indústria no PIB caiu de
41% (1989) para menos de 12% (1996). Apesar disso, o cres­
cimento oficial atingiu 8% em 1995 e subiu a 8,7% em 1996.
Ainda que se levasse em conta o ponto de partida extrema­
mente baixo depois da queda de 1990-92, o “milagre a partir
do nada” na Albânia haveria de parecer pouco digno de crédito
- a não ser que se tomasse como fundamento o dossiê do
Deutsche Bank, com suas grossas lentes ideológicas. Houve,
de fato, albaneses que viveram bastante bem durante algum
tempo. Mas de quê? Da produção competitiva é que não. A
solução da charada foram as chamadas pirâmides financeiras
- fundos de investimento criados entre 1992 e 93 -, que pro­
metiam também a pequenos investidores taxas miraculosa­
mente altas de juros. N o fundo, tratava-se de um sistema

259
Gênese do absolutismo de mercado

Em seu próprio nome, o liberalismo lança mão do conceito


de “liberdade”. O pathos liberal evoca a iniciativa e a respon­
sabilidade do indivíduo. A primeira vista, isto sempre soa bem.
Quem desejaria contradizer este belo conceito? Como criatu­
ras esclarecidas da modernidade, nós sabemos, porém, que
não se deve confiar nas palavras.
Quando George Orwell escreveu 1984, sua utopia nega­
tiva, não por acaso escolheu como tema uma linguagem pú­
blica, cujos conceitos dizem essencialmente o oposto do que
significam oficialmente. A título de forma retórica de paliação,
tal figura de linguagem já era conhecida pelos antigos e recebeu
o nome de “ eufemismo” . Por puro medo, os gregos antigos se
referiam às divindades demoníacas da vingança, cujos cabelos
eram serpentes sibilantes, como “as bem-intencionadas” . Tal­
vez o conceito de liberalismo tenha surgido num contexto
semelhante. Para chegar à verdade sobre um fenômeno da vida
social, sempre é aconselhável remontar às suas origens. O li­
beralismo nasceu no século XVII e XVIII como oposição aos
Estados militares pré-modernos das monarquias absolutistas
e dos principados. Mas, na mesma época havia também uma
oposição ainda maior das massas populares, que nada tinham

263
OS ÚLTIMOS COMBATES

a pretensão a uma soberania da vontade humana perante o


sistema do mercado e do dinheiro é totalmente abandonada.
Este sistema, portanto, autonomiza-se, torna-se a lei cega do
comércio, e o homem converte-se em joguete das “estruturas
econômicas” e de sua dinámica sem objetivo.
Já Adam Smith, o fundador da teoria econômica moderna
sobre bases liberais, venerava o sistema do mercado total como
uma espécie de “máquina divina”, pilotada pelo cegó meca­
nismo “auto-regulativo” dos preços. De maneira análoga à
imagem mecânica e física do mundo de Isaac Newton, que
considerava a natureza como uma grande máquina universal
unitária, Smith concebia a economia como a máquina universal
automática da sociedade, a cujas engrenagens os homens ti­
nham de se submeter. N a física, a imagem mecânica do mundo
há muito foi superada; na economia, porém, a humanidade
ainda insiste (e hoje mais do que nunca) no ponto de vista
mecanicista do século XVIII, que se “objetivou” nas formas
da reprodução social. O liberalismo caracteriza-se, com isso,
por uma enorme contradição: a “liberdade” social do indivi­
duo sempre coincide com a irrestrita capitulação geral de todos
os individuos ante uma cega máquina social avessa a discus­
sões: o baal secularizado do capital. Também se pode dizer
que, por meio de suas exigências desmedidas no seio da socie­
dade, o absolutismo gerou o monstro sem sujeito de um auto­
matismo económico independentizado que fugiu a seu próprio
controle e a seguir arrebatou-lhe a “soberania”. O liberalismo,
que exigia em primeiro lugar a “liberdade” do individuo, na
verdade somente deu execução à autonomia dessa “máquina” .
Os liberais não são outra coisa senão sacerdotes de um ídolo
automático que dita ao “processo de troca natural com a na­
tureza” (Marx) uma cadência irracional segundo “regularida­
des” mecânicas.
O contraste entre liberalismo e absolutismo de Estado não
pode ser tomado sob um prisma emancipatório a partir de
nenhum dos lados. Ele reflete somente os mesmos paradoxos
sociais do sistema produtor de mercadorias: ou a “soberania”
humana em relação à máquina de mercado tem de se dissimular

266
GÊNESE DO ABSOLUTISMO DE MERCADO

como controle autoritário do Estado sobre os individuos, ou


a “ liberdade” dos indivíduos tem de se dissimular como total
abnegação da vontade humana à marcha cega da máquina do
mercado. Para a maioria das pessoas, a contraposição entre
absolutismo e liberalismo é irrelevante: dá no mesmo se elas
são torturadas e humilhadas por urna burocracia estatal ou
pelo mecanismo sem sujeito do mercado. Esta experiência foi
sentida na pele pelos europeus do Leste, que saíram da cruz
da ditadura do socialismo estatal diretamente para a caldeiri-
nha da degradação pelo mercado “livre” .
Em fins do século XVIII e início do século X IX, o libera­
lismo deparou-se com o problema de ter de eliminar não só a
pretensão da burocracia estatal absolutista, mas também as
pretensões das massas populares à autonomia social. Logo tor-
nou-se claro que era impossível coagir as pessoas exclusiva­
mente por meio da repressão, da polícia, do exército, da força
e das prisões; melhor seria transformá-las em material para os
“mercados de trabalho” e submeter a própria força de trabalho
abstrata às leis da oferta e da procura. Por isso, o liberalismo
começou a vincular a repressão à “ pedagogia” popular e in­
dustrial. Se, num primeiro momento, os liberais relacionavam
o conceito de “responsabilidade” apenas a si mesmos, na con­
dição de “ executores” de um capitalismo individual, tal con­
ceito foi então estendido também ao “material humano” . Eis
aqui um monstruoso cinismo: as pessoas absolutamente des­
pojadas de todo controle sobre suas próprias condições de
subsistência material e social devem ser “responsáveis” justa­
mente pelo fato de se tornarem, de vontade própria, “burros
de carga” do mercado e mendigarem indignamente por “ em­
pregos”, ainda que sob as mais miseráveis condições.
Um dos grandes ideólogos dessa “pedagogia popular” foi
Jeremy Bentham (1748-1832), o fundador do “utilitarismo” .
O “anseio do homem por felicidade” devia ser traduzido no
impulso de integrar todas as manifestações da vida ao objetivo
da valorização do capital. A fim de convencer as pessoas a
enxergarem sua própria “felicidade”, justamente no fato de

267
O desfecho do masoquismo histórico

Na história do pensamento ocidental, sobretudo na era


moderna, a linguagem da filosofia e da ciência afastou-se cada
vez mais da linguagem do homem comum e tornou-se o lin­
guajar secreto de uma casta sacerdotal do saber, apartada do
restante da sociedade. São poucos os conceitos que pertencem
simultaneamente à esfera da reflexão teórica e à vida do dia-
a-dia. “Trabalho” é um tal conceito. De um lado, ele representa
uma categoria filosófica, econômica e sociológica; de outro,
ele é utilizado também com uma constância desconcertante
no cotidiano de todos os homens. Este caráter peculiar do
significado social de “trabalho” indica uma correlação univer­
sal no mundo moderno. Palavra alguma é, à primeira vista,
mais cristalina e, à segunda vista, mais turva do que esta.
Na filosofia e na teoria social, Karl Marx foi quem mais
se valeu do conceito de “trabalho” como base de seu pensa­
mento. E foi o marxismo que adotou com firmeza o ponto de
vista do “trabalho”, a fim de legitimar o grande movimento
social dos assalariados na história moderna. Em termos filo­
sóficos, o “trabalho” é, para o marxismo, uma condição su-
pra-histórica de existência do homem em sua relação com a
natureza. Do prisma econômico, sob as lentes desta doutrina,

271
OS ÚLTIMOS COMBATES

Quando e em que contexto nasceu, portanto, em termos


históricos, este conceito abstrato e geral da atividade social e
econômica? Em muitas línguas, a raiz da palavra “trabalho”
remonta a um significado que caracteriza o homem menor de
idade, o dependente ou o escravo. Em sua origem, portanto,
o “trabalho” não é uma abstração neutra e racional, mas, antes,
social: é a atividade daqueles que perderam a liberdade. Não
importa o que façam estes homens, se eles dão duro na mine­
ração ou na lavoura, se, como empregados domésticos, arru­
mam a mesa, acompanham as crianças à escola ou abanam a
patroa: é sempre a atividade de um homem definido como
servo. A condição de servo é o conteúdo da abstração “traba­
lho” .
Não admira, pois, que este conceito abstrato tenha adqui­
rido, na Antiguidade, o significado metafórico de sofrimento
e infortúnio (como no latim, por exemplo). O homem, ativo
somente no sentido negativo do termo, sofre ao “vacilar sob
um fardo” . Este fardo pode ser invisível, pois, na verdade, ele
é o fardo social da falta de independência. Isso já está explícito,
em última instância, no Velho Testamento da Bíblia, quando
o “trabalho” é definido como uma maldição lançada aos ho­
mens. A equiparação entre “trabalho” e sofrimento não tem
em mente o simples cansaço. Um homem livre pode cansar-se
em certas circunstâncias e, ainda assim, tirar prazer da situação.
Por isso, é um erro crasso considerar o “não-trabalho” dos
homens livres e independentes na Antiguidade como indolên­
cia e puro “dolce far niente”, como muitas vezes ocorre na
literatura do marxismo vulgar. Em Homero, o herói Ulisses
orgulha-se de ter construído sua própria cama. Desonrosa não
era a atividade em si ou o trabalho manual, mas, antes, a sub­
missão do homem ao outro homem ou a uma “profissão” . Um
homem livre podia casualmente construir uma cama ou um
armário, mas não devia adotar a profissão de marceneiro; po­
dia comerciar esporadicamente, mas não devia ser comercian­
te; podia ocasionalmente escrever poemas, mas não devia ser
poeta (muito menos como forma de ganha-pão). O homem
formalmente livre, embora submetido de forma vitalícia a um

274
O DESFECHO DO MASOQUISMO HISTÓRICO

trabalho remunerado num dos ramos da produção, era “me­


nor” em relação a essa atividade e recebia um tratamento pou­
co superior ao dos escravos. E por isso que a atividade do
diletante livre não era menos considerada ou de menor qua­
lidade que a do “profissional” sem liberdade. Exercitar-se em
diversas artes e adquirir conhecimentos era algo perfeitamente
digno. Dos contos de fada de diferentes círculos culturais
pode-se constatar que, nas sociedades antigas, os príncipes,
por vezes, tinham de aprender um ofício - mas, novamente,
não “para ser” artífice —e, assim, padecer os sofrimentos do
“trabalho” .
O cristianismo foi o primeiro a definir positivamente o
significado negativo de “trabalho” como sofrimento e infor­
túnio. Como o sofrimento de Cristo na cruz redimira a huma­
nidade, a fé exige a “imitação de Cristo” - e isso significa
assimilar jovialmente o sofrimento.
Numa espécie de masoquismo da fé, o cristianismo ergueu
o sofrimento (e, portanto, o “trabalho”) à posição de objetivo
nobre do empenho humano. Os monges e as freiras nos mos­
teiros submetiam-se, de maneira consciente e voluntária, à abs­
tração do “trabalho”, para, como “servos de Deus”, levarem
uma vida análoga aos sofrimentos de Cristo. N o horizonte da
história das idéias, a disciplina e a ordem monásticas, a estrita
divisão das jornadas e a ascese monacal são precursoras da
ulterior disciplina fabril e da contabilidade temporal abstrata
e linear da racionalidade das empresas. Essa missão do “tra­
balho”, porém, referiu-se apenas ao sentido metafórico do
conceito, como aceitação religiosa do sofrimento com vistas
ao além futuro, sem perseguir um objetivo terreno positivo.
Só o protestantismo, sobretudo em sua forma calvinista,
converteu o masoquismo cristão do sofrimento em assunto
terreno: na condição de “servo de Deus”, o fiel devia assimilar
as dores do “ trabalho”, não no isolamento monástico, mas,
antes, usá-las como meio de sucesso no mundo terreno, a fim
de provar-se como eleito de Deus. Obviamente, não lhe era
absolutamente permitido saborear os frutos do sucesso, sob
pena de malbaratar a graça divina em sua imitação de Cristo.

275
PARTE IV
OS ÚLTIMOS COMBATES

É fato notório e condizente com as tradições da grande


nação revolucionária que, na França, os espíritos de revolta se
insurjam contra o Estado com mais facilidade do que em outros
países. Se na Alemanha, como diz a piada, os próprios revo­
lucionários ultra-radicais compram seus bilhetes antes de to­
mar de assalto uma estação ferroviária, na França até mesmo
estudantes ginasiais e pais de família extremosos saem às ruas
e entrincheiram-se em barricadas. E, no entanto, não há o
menor fundamento para que alguns marxistas encanecidos,
devotados ao silêncio e surdos ao mundo nos últimos anos,
farejem no ar o indício da velha luta de classes com base no
exemplo francês e acreditem numa reedição do Maio parisien­
se de 1968. Apesar de todas as peculiaridades da história e
consciência nacionais, os franceses da nova constelação global
não podem desvencilhar-se dos limites impostos pela econo­
mia e pela política.
Uma revolta desprovida do horizonte histórico das mu­
danças sociais e incapaz de fixar um objetivo ofensivo não está
somente condenada ao fracasso, mas também a amargar um
profundo anonimato no curso da história. Este é o caso do
Dezembro de Paris, como se pode demonstrar facilmente: a
relação entre conservadores e progressistas, direita e esquerda,
governo e oposição, foi posta às avessas. O conceito de reforma
social deixou de ser progressista e foi adotado pelos conser­
vadores; deixou de significar incremento social e passou a in­
dicar o regresso ao capitalismo brutalizado de Manchester no
século XIX. Após transformar o conceito de reforma social
em seu contrário e infundi-lo com conteúdos anti-sociais, o
governo já pode criticar os sindicatos e as associações sociais
com um cinismo inaudito, tachando-os de “incapazes para a
reforma”. Hoje, isso acontece não apenas na França, mas em
todo o mundo. As esquerdas vestem a máscara de conserva­
doras, os sindicatos fazem greve para preservar velhas regalias
e os sentimentos ressurgentes de solidariedade e entusiasmo
prendem-se curiosamente à esperança “de que tudo deve con­
tinuar como está” .

282
UMA REVOLTA DO SILÊNCIO

Que tipo de revolta é essa, que só faz por defender o status


quo de uma ordem social decrépita e sem horizonte social?
N o grande movimento grevista de dezembro, é claro, a maioria
dos franceses reconheceu sua própria angústia diante da perda
do futuro. Embora não tenha sido de fato uma greve geral,
mas uma luta em favor dos privilégios do funcionalismo pú­
blico, a simpatia da população permaneceu ao lado dos gre­
vistas. Sob esse aspecto, o tiro do governo saiu pela culatra.
O efeito de uma “greve geral indireta” - causada sobretudo
pela greve de todos os meios públicos de transporte e apesar
do caos, do colapso das atividades normais e dos incalculáveis
prejuízos —não despertou a ira da população contra os grevis­
tas, mas sim a solidariedade universal. Os servidores públicos
agiram em nome de todos os assalariados franceses. A solida­
riedade, apesar de tudo, não foi irrestrita, e sob um aspecto
decisivo chegou mesmo a desmentir a si própria. Se “tudo deve
continuar como está”, os milhões de desempregados, desabri­
gados e “novos-pobres” que existem também na França per­
manecerão, em última instância, excluídos da solidariedade.
É claro que não se trata aqui das exigências sindicais imediatas,
mas de saber como um movimento grevista de tais proporções
pode pleitear uma emancipação social que ultrapasse o conflito
direto e inclua também, a longo prazo, o homem expelido
pelo sistema. As greves de Paris, infelizmente, não tinham em
vista tal objetivo. Diante dos “ excluídos”, os sindicatos mos-
tram-se tão mudos quanto o governo de Juppé.
Essa restrição implícita da liberdade, discutida apenas a
contragosto, é ao mesmo tempo o ponto fraco da legitimação
dos sindicatos. Surge, assim, uma dialética peculiar. No sentido
estrito, os sindicatos jamais representaram outra coisa senão
os interesses de setores isolados e de grupos profissionais. Por
intermédio do socialismo, no entanto, tais interesses imanentes
ganharam uma dimensão de transcendência que lhes conferiu
um grau de universalidade e necessidade histórica. Somente
com base nessa transcendência, que banhava todo conflito iso­
lado na luz de uma instância superior, dotada de objetivos

283
OS ÚLTIMOS COMBATES

os deixou atônitos, a exemplo de Juppé. Agora ficou definiti­


vamente comprovado que a intelectualidade renega sua voca­
ção quando não possui um espírito de oposição histórica. Só
depois de muito hesitar, outros intelectuais franceses tomaram
a palavra e dividiram-se em dois grupos, encabeçados por dois
nomes famosos: Alain Touraine e Pierre Bourdieu. O grupo
de Touraine dá seu apoio à “reforma” de Juppé, ainda que se
queixe dos procedimentos brutais e “ insensíveis” do governo.
Touraine mostra-se preocupado, sobretudo, com a possibili­
dade de a França perder seu poder de fogo ao entrar na “con­
corrência do mercado liberal”.
Esse pessimismo é justo se tivermos em vista somente o
mercado e não quisermos desenvolver nenhuma alternativa às
soluções dominantes. Com isso, porém, Touraine vê-se obri­
gado a sacrificar a questão social no altar do mercado, e suas
demais afirmações sobre o problema deixam de merecer o
crédito de conceitos intelectuais. O grande movimento social
de dezembro surge, assim, apenas como fator de perturbação
diante da fria “necessidade” : que silêncio enfático em relação
às massas, que um dia foram o Deus da intelectualidade! O
grupo de Bourdieu, ao contrário, tenta entrar em acordo com
os grevistas. Mas isso não espontaneamente e por simpatia
intrínseca, mas sim de modo forçado, a contragosto. Depois
de enterradas as esperanças socialistas, só parece restar, a esse
tipo de esquerda, o ideal de nação como o último baluarte
contra o fluxo destruidor do mercado mundial. Na França,
isso implica um paradoxo todo especial, pois, nesse país, o
universalismo esclarecido da burguesia revolucionária é ao
mesmo tempo uma tradição do nacionalismo limitado.
O dezembro parisiense tornou repentinamente claro que
os produtores de idéias há anos fazem greve, sem que, no
entanto, ninguém perceba sua paralisação. A mera repetição
intelectual da lógica, como agora é o caso, não constitui uma
idéia e nem sequer um pensamento, mas apenas um reflexo.
Desde 1989, a maioria dos intelectuais não produz reflexões
críticas, mas reflexões desprovidas de idéias: suas afirmações
revelam que desaprenderam a história. A França não é a única

286
UMA REVOLTA DO SILÊNCIO

a possuir uma sociedade de mudos que não se entende mais


criticamente e reage apenas por instinto aos sinais de luz abs­
tratos e espectrais emitidos pelo mercado atemporal. Por mais
que os acontecimentos voltem a se repetir, o dezembro pari­
siense de 1995 foi a última palavra do antigo movimento social
- foi uma revolta do silêncio.

287
Os últimos combates
O Maio parisiense de 1968, o Dezembro parisiense
de 1995 e o recente acordo trabalhista alemão

O M aio de 68 em retrospectiva

Quem não se recorda do Maio parisiense? Mesmo quem


não esteve presente por ter nascido mais tarde, recorda-se com
base nos documentos da história, c até hoje o Maio de 68 vaga
como alma penada pela literatura. O Maio parisiense de 68,
não o Maio de Berlim ou de Frankfurt, que foram antes um
simulacro de Maio. A França, de fato, foi abalada em seus
alicerces burgueses, e de Gaulle atirou-se aos braços do general
Massu, que já não via a hora de deslocar para Paris os tanques
do exército francês estacionados na Renânia. A revolta dos
estudantes, deflagrada por um pequeno grupo de marxistas
de esquerda, os chamados “situacionistas” da Universidade de
Nanterre1, foi uma verdadeira fagulha capaz de atear fogo às
estepes: as batalhas na universidade desencadearam, como se
sabe, uma colossal onda de greves e inúmeras ocupações de
fábricas pelos trabalhadores. A diferença do relativamente pá­

1 Membros da Internacional Situacionista, movimento artístico e político


originado no surrealismo. Seu inspirador foi Guy Debord, autor de A socie­
dade do espetáculo (1967) (N. T.).

289
OS ÚLTIMOS COMBATES

lido movimento de 68 na Alemanha, o Maio parisiense parecia


pôr a questão da emancipação social na ordem do dia, e a base
sindical estava pronta para a confrontação social.
De 3 de maio a 30 de junho de 1968, o poder do sistema
dominante pareceu paralisado. Daniel Cohn-Bendit, já então
vaidoso a mais não poder, embora ainda não cretinizado à
força da democracia, escreveu de modo inflamado e virulento,
parafraseando o Manifesto comunista:
Pela construção de barricadas, o m ovim ento revolucionário
rom peu o m uro do silêncio. [...] Um espectro ronda o mundo,
o espectro do radicalism o de esquerda. Todos os poderes do
mundo antigo aliaram-se numa cruzada contra tal espectro: o
papa e Kosygin, Johnson e de Gaulle, comunistas franceses e
policiais alemães.

Comunistas franceses porque o Partido Comunista Francês


(PCF), no estilo conhecido dos partidos de esquerda ociden­
tais, foi capaz de estrangular e canalizar para a via parlamentar
o movimento com ajuda de sua influência sindical. A possibi­
lidade, refulgente num breve momento histórico, de consumar
num país capitalista altamente desenvolvido uma reviravolta
revolucionária e uma emancipação social foi por água abaixo.
E a considerar pela distância histórica, não foram somente as
manobras burocráticas do PCF, nem as reações da burguesia
- por exemplo, uma concorrida manifestação dos comercian­
tes de classe média contra seus filhos e a favor do monumento
nacional de Gaulle - que frustraram uma subversão revolucio­
nária. Foi também uma curiosa cegueira acerca dos objetivos
do próprio movimento - cegueira que não pode ser explicada
apenas por sua espontaneidade, e a partir da qual a fugaz pos­
sibilidade foi mais uma vez infletida para o impossível.
Houve decerto muitas palavras que se ergueram sem no
entanto lograrem se constituir em verdadeiros conceitos de

2 Cohn-Bendit, Daniel. Linksradikalismus — Gewaltkur gegen die Alters-


krankheit des Kommunismus. Reinbek, 1968 (texto de orelha).

290
OS ÚLTIMOS COMBATES

uma transcendência em relação ao mundo burgués. Jacques


Sauvageot, um dos líderes estudantis, falou, por exemplo, da
“autogestão das empresas pelos trabalhadores”, de um “socia­
lismo não-autoritário”, do “poder estudantil”, de “tradições
anarquistas” e do “legado das revoluções francesas do século
X IX ”3. Houve também o momento de uma rebelião romântica
contra o “trabalho” : “Sob o calçamento encontra-se a praia”
- um bordão repisado a cada instante; “auto-organização” -
mas do que e em que qualidade social? Em retrospectiva, salta
aos olhos que a radicalidade (ã semelhança das revoluções de
modernização burguesa de recuperação no Leste e no Sul)
referia-se mais às formas de organização e processo políticos
do que à questão de uma almejada reprodução não-capitalista
da sociedade.
A crítica radical dos situacionistas à forma de reprodução
social do fetichismo da mercadoria permaneceu, como pro­
blemática da crítica, um programa minoritário. Tal programa
infiltrou-se no máximo indiretamente nas declarações do mo­
vimento e foi então compreendido, se tanto, num sentido ape­
nas culturalista. Terá sido um mal-entendido? Talvez somente
em parte. De fato, as formulações dos situacionistas costuma­
vam soar antes como cultural-revolucionárias do que como
críticas da economia num sentido estrito. Ambas não eram
necessariamente excludentes; muito pelo contrário, faziam
parte do mesmo todo. Permanecia em aberto, entretanto, em
que medida uma emancipação das constrições da relação to­
talizada, dinheiro-mercadoria, poderia ser posta em prática
sem negar os potenciais das forças produtivas modernas. Não
havia mediação alguma, somente o grande gesto.
Com tanto mais razão, a vontade do espontâneo movi­
mento trabalhista francês de 68 não ultrapassava o horizonte
da socialização pela mercadoria, para não falar da evocada

3 Sauvageot, Jacques e outros. Aufstand in Paris oder Ist in Frankreich eine


Revolution möglich? Reinbek, 1968, p. lös.

291
OS ÚLTIMOS COMBATES

tradição “ das revoluções francesas do século X IX ” . O “ganhar


dinheiro”, essa atividade própria à burguesia, não foi questio­
nado a sério pela maioria dos integrantes do movimento, isto
é, não o foi da perspectiva sócio-econômica, mas, na melhor
das hipóteses, de forma metafórica e culturalista. Assim, o fato
de o movimento de massas ter desaguado na instância parla­
mentar e no deplorável plano sindical de exigências de um
“salário justo por um dia justo de trabalho” foi apenas o saldo
de uma limitação imanente do próprio movimento. O que pela
última vez esteve em cartaz no Maio parisiense foi o eterno
filme dos movimentos revolucionários “socialistas” e “prole­
tários” do Ocidente: um breve avanço rumo a um horizonte
desconhecido, para então ser compelido pela massa inerte da
consciência monetária a regressar à forma de circulação bur­
guesa, cuja incessante reforma resta como o único e exclusivo
objetivo lastimavelmente imanente.
Este processo paradigmático, estilizado pelos radicais de
esquerda como a história heróica das derrotas, indica, na ver­
dade, o caráter intrinsecamente burguês da própria intenção
cuja forma é revolucionária. A segunda, terceira, quarta e quin­
ta infusões da razão iluminista e modernizadora da burguesia,
da revolução burguesa e sua vanguarda jacobina, só são capazes,
ainda que sob a roupagem marxista ou anarquista, de percorrer
as mesmas estações numa versão cada vez mais tênue, a exem­
plo da órbita astronomicamente determinada dos corpos ce­
lestes, cujo modelo forneceu, de resto, o conceito moderno
de revolução (tomado de empréstimo a Copérnico).
Quanto mais desenvolvida uma sociedade moderna pro­
dutora de mercadorias, determinada pelo movimento de va­
lorização da moeda, menos ela carece para sua posterior
história evolutiva da vanguarda jacobina, que se torna disfun-
cional como um apêndice cecal e degenera assim, seja qual for
a forma de legitimação ideológica, numa espécie de sintoma
folclórico dos surtos de modernização. O Maio parisiense de
68 foi talvez um breve relance de olhos no quarto proibido,
mas a porta logo foi cerrada e, às pressas, os turistas revolu-

292
OS ÚLTIMOS COMBATES

cionários foram conduzidos às antigas dependências originá­


rias da revolução burguesa. N ão faltou nem mesmo a gorjeta.
Enfim, o Maio parisiense não foi capaz de sustentar e de­
senvolver sua nova idéia de emancipação social para além da
sociedade ocidental e capitalista. O rastro luminoso dos situa­
cionistas dissipou-se rapidamente e mal foi tomado em conhe­
cimento pelo movimento alemão de 68. Em vez disso, os
olhares voltaram-se cada vez mais para os lugares onde o antigo
processo parecia ainda jovem e viçoso: o Terceiro Mundo. A
solidariedade aos movimentos de libertação antiimperialistas
não foi efetivada em nome de uma transformação para além
do sistema moderno produtor de mercadorias, de cujo con­
texto os retardatários históricos estariam, aliás, excluídos, mas
justamente o contrário: a revolução burguês-recuperadora do
Terceiro Mundo foi elevada a modelo, pois em seu brilho era
perfeitamente possível aquecer-se à maneira pseudojacobina.
De fato, quanto mais subdesenvolvida é uma sociedade pro­
dutora de mercadorias, quanto mais é obrigada a lutar, sob o
signo de uma modernização retardatária, por sua auto-afirma­
ção econômica contra os concorrentes que lhe tomaram a dian­
teira no terreno desse mesmo modo de produção e em sua
forma de intercâmbio global (mercado mundial), tanto maior
é a importância da vanguarda jacobina, seja qual for a confi­
guração ideológica.
Repetiu-se, portanto, o paradoxo histórico no qual a cons­
ciência (de acordo com a própria compreensão que tem de si
mesma) do movimento revolucionário nas sociedades moder­
nas mais desenvolvidas em termos capitalistas, tornou-se um
simples esteio da consciência de uma revolução burguesa de
recuperação nas sociedades menos desenvolvidas pelos moldes
capitalistas. Da mesma forma que o antigo radicalismo ocidental
de esquerda não foi além do papel de caçula da Revolução de
Outubro, assim também o radicalismo da nova esquerda em
relação aos movimentos de libertação no Terceiro Mundo.
Como resultado, o próprio impulso romântico trocou a crítica
ao “trabalho” pelo romantismo da luta armada e seus símbolos,
que nos palcos originais nada mais eram do que o signo do

293
OS ÚLTIMOS COMBATES

“trabalho” e de sua historia evolutiva de recuperação, como


logo se tornaria manifesto em toda parte pelo caráter repres­
sivo do novo regime. Quando veio à tona a face disforme e
nada romântica da modernização retardatária e da operação
estatal de “valorização” do Terceiro Mundo, a inteligência de
68 buscou abrigo, lacrimosa, no regaço maternal e burgués do
Ocidente democrático. A conversão hipócrita de urna forma
repressiva numa forma libertária só pode desembocar, no Oci­
dente, na liberdade de mercado do sujeito concorrente indi­
vidualizado.
Em 1968, um Cohn-Bendit fazia praça de que ele e seus
iguais podiam servir-se das leis de mercado de forma soberana,
na condição de radicais de esquerda antiautoritários: “Por que
aceitamos a sugestão de redigir este livro? Para pagar na mesma
moeda, para voltar as leis de mercado desta sociedade contra
ela própria e proferir afinal o que há muito [...] devia ter sido
dito”4. N a época, isto foi escrito possivelmente com um olho
nas prováveis recriminações moralistas de que Cohn-Bendit
ter-se-ia vendido ao editor burguês. Com toda certeza, seria
ridículo recusar a possibilidade de ingressar na circulação bur­
guesa com conteúdos antiburgueses, uma vez que a circulação
na sociedade burguesa, na qual o próprio amor assume forma
mercantil, é o único modo de intermediação em que as idéias
podem difundir-se ampla e rapidamente. Mas o problema está
em saber se as idéias possuem, de algum modo, um sólido
núcleo antiburgués e se podem conciliar-se com uma práxis
que ultrapasse o sistema da forma-mercadoria totalizada. Des­
sa perspectiva, o movimento de 68 foi condescendente. Eis
por que Cohn-Bendit é hoje um idiota histórico da economia
de mercado - e não apenas ele, como todos sabem.
Ao lançar um olhar retrospectivo, o medíocre democrata
ecológico afirma que 68 foi “a última revolução que ainda
nada soube do buraco de ozônio”. Com vista à fisiognomía
social dele e de seus congêneres, podemos dizer que 68 foi a

4 Cohn-Bendit, Daniel, op. cit., p. 12.

294
OS ÚLTIMOS COMBATES

última revolução que ainda pôde obter ingresso no funciona­


lismo público. O Maio parisiense foi, inapelavelmente, o der­
radeiro embate da revolução civil-proletária na modernidade,
o último estertor de um jacobinismo tornado asmático, o ex­
tremo combate da consciência fundada no “ganhar dinheiro”
que podia ainda ser difundida sob vestes revolucionárias. Esta
revolução pôs um ponto final ao processo, pois há muito ul­
trapassara seu objetivo imanente. As revoluções (em sua for-
ma-mercadoria) que ainda agora são apregoadas têm lugar
apenas nos textos publicitários de um consumismo gagá. A
revolução política foi o caminho do fetichismo, e o saldo não
é nada romântico. O toleirão urbano, devotado ao consumo,
e o pesquisador de brechas no mercado triunfaram. O preço
discutiremos depois.
Talvez tudo isso soe um tanto injusto em relação ao Maio
parisiense, que afinal não podia cogitar onde iriam parar seus
protagonistas. Isto é correto apenas em parte, portanto, falso.
O Maio parisiense tinha plena consciência de que, em última
instância, ele próprio se proibia o ingresso no quarto proibido.
Não só o Maio parisiense num sentido imediato, mas o mo­
vimento antiautoritário como um todo. Eis por que ele se ren­
deu tão rapidamente à credulidade autoritária, primeiro a uma
autoridade social-democrata ou bolchevista (ainda que a últi­
ma não passasse de uma mera fantasia carnavalesca), e depois
à sujeição incondicional à “autoridade” das leis impessoais do
mercado. A forma de dominação incógnita da democracia, em
cujo nome já se encerra a auto-repressão, fora antes festejada
na fase antiautoritária. Nesse sentido, não é surpreendente que
os “novos filósofos” à la Glucksmann celebrassem enfim um
capitalismo ocidental despojado de história em escritos pro­
pagandísticos superficiais, que não obstante ousavam procla­
mar-se “ filosofia” ; do mesmo modo que não surpreende o fato
de que Cohn-Bendit e seus sequazes hoje façam parte de uma
classe política a que antes davam combate.
Por trás dessa juventude rebelde de classe média, e, obvia­
mente, também dos trabalhadores, escondia-se um sólido nú­
cleo pequeno-burguês. O petit bourgeois são todos os que se

295
OS ÚLTIMOS COMBATES

tomam por uma espécie de vendedor ambulante e são incapa­


zes de imaginar que a compra e venda de si mesmo, algum dia
terá fim - em suma, literalmente todos. Que o “burgués” se
esconde como tal na forma-mercadoria totalizada pelo capi­
talismo é algo de que os combatentes das barricadas de 68 não
quiseram tomar conhecimento. Isso não era apenas ignorância
ou desconhecimento, mas uma recusa consciente da possibili­
dade de fazer declarações concretas sobre a superação das re­
lações fundadas na mercadoria e propor os meios práticos e
palpáveis para alcançá-la. E também não foi somente a cons­
ciência de que os trabalhadores rechaçariam essa idéia “mons­
truosa”, já que eles o teriam feito com toda certeza (inclusive
os ocupantes das fábricas). Apesar de toda a retórica romântica
contra o “trabalho” e pela “praia sob o calçamento”, na maio­
ria das cabeças de 68, a lei férrea do dinheiro permaneceu
intocada em sua validade. Quanto a isso, o embotamento sin­
dical era generalizado. O rumo tomado pelo impulso francês,
sobretudo na Alemanha, é evidenciado na absurda composição
do nome de uma antiga revista da esquerda antiautoritária de
Frankfurt, chamada Pflasterstrand (“Praia-calçamento”); não
por acaso, nasceram dessa associação a principal facção dos
“realos” do Partido Verde5 e os simpatizantes “urbanos” da
economia de mercado.
Ora, já na época, a negação consciente da idéia de tomar
a peito a crítica e a superação prática do fetichismo da mer­
cadoria fora ideologizada e alçada a princípio. Sabemos que o
novo radicalismo de esquerda como um todo, oriundo da Teoria
Crítica e dos marxistas que transfugiram do existencialismo, pro­
clamava a interdição de se representar concretamente a socie­
dade não-capitalista e a reprodução “auto-organizada” . Na
verdade, tal negação, conscientemente vaga, é uma autodefesa
da consciência burguesa contra as prováveis conseqüências de
sua própria crítica social. Até hoje não há uma definição eco­

1 “Modernizadores capitalistas”, cf. segundo parágrafo da última seção (N.


T.).

296
OS ÚLTIMOS COMBATES

nômica da reprodução alheia à forma-mercadoria, porque o


radicalismo de esquerda - em todas as suas variantes, seja na
versão atlética ou beletrista - proibiu a si próprio, de caso
pensado, semelhante tarefa. Precisamente, em nome da deter­
minação e organização autônomas do movimento revolucio­
nário, cuja gloriosa práxis não cabia ser de antemão fustigada
teoricamente! Raras vezes houve uma desculpa tão esfarrapada
na historia das idéias sociais.
Provavelmente, não cairia bem ao amplo gesto revolucio­
nário dos atores desenvolver meras definições econômicas e
porventura rudimentos práticos para uma desvinculação com
referência ao Estado e ao mercado; isto teria parecido a eles
muito baixo e passageiro, quem sabe muito “feminino”, já que
não diretamente relacionado aos gestos primevos da guerrilha
latino-americana (as mulheres têm sempre um quê de insigni­
ficante, de infausto, aos olhos dos gloriosos fanfarrões da teo­
ria e da política). E isto, muito embora o menor dos avanços
rumo à desvinculação da forma-mercadoria já bastasse para
desencadear um conflito com a estrutura burguesa de repro­
dução, o que encerraria um momento de guerrilha —mas, sem
dúvida de um modo inteiramente diverso do que gostariam
de imaginar os protagonistas de 68 e seus descendentes ideo­
lógicos.
Os eternos jovens vestindo impermeáveis, com eternos ci­
garros no canto da boca e olhares eternamente audazes, eter­
namente prontos a tomar de modo equivocado o conceito de
emancipação social como um ramo da literatura; os pequenos
Dantons e Mirabeaus de microfone em punho, a farejar uma
oportunidade; os simulacros de Emiliano Zapata, com barba
por fazer e jaquetas de couro, passando por perigosos e dese­
josos de ter livre acesso a qualquer dos saraus da alta burguesia;
os doutorandos arrivistas, interessados tão-só no diploma -
todos, máscaras das revoluções e revoluçõezinhas burguesas,
que qualquer dia serão exibidas em desfiles de moda como
peças da coleção de outono. Os representantes de 68 e seus
sequazes apenas não estavam ainda totalmente certos se, com
a utopia e o “ inteiramente outro” como primeiro degrau na

297
OS ÚLTIMOS COMBATES

carreira, optariam por ser literatos, professores ou políticos


burgueses.
Os trabalhadores nas fábricas ocupadas receberam, por­
tanto, só quinze anos mais tarde, quando há muito já haviam
esquecido a pergunta, uma resposta sobre o problema econô­
mico de um “socialismo antiautoritário” : as empresas autogeri-
das, como integrantes do mercado, deviam ganhar seu dinheiro
“ alternativamente”, nos dizeres dos cabeças do movimento
alternativo. O “inteiramente outro” já tinha então um aspecto
bastante melancólico e pequeno-burguês. Sabemos também o
que resultou disso. Na Alemanha, de resto, não houve sequer
fábricas ocupadas em 1968, pois os agitadores do movimento
antiautoritário foram antes desancados defronte aos portões
das fábricas pelos fanáticos do milagre econômico, que na épo­
ca aproximava-se de seu fim. Eis por que a farsa revolucionária
da classe média na Alemanha pôde ser posta em cartaz sem
riscos, se bem que não sem os efeitos colaterais de um surto
de modernização econômica do mercado, do qual lamentavel­
mente ainda hoje se tem orgulho.
Apesar dos pesares, a força de irradiação do Maio pari­
siense consistiu no fato de o quarto proibido permanecer aber­
to por um instante, ao menos aparentemente, pois ninguém
lhe fixou bem a vista. E há muito se exulta que não se tenha
lançado um olhar preciso, para não falar ingressado no quarto,
pois isso teria sido aterrador. A valorização da moeda como
forma de reprodução total, comenta-se hoje, “não oferece al­
ternativas” . Isso foi tomado como certo pelos sindicatos em
todo o mundo, que finalmente não precisam mais temer sua
própria idéia nebulosa de emancipação social. E assim será no
futuro. Os ambiciosos jovens de impermeáveis ainda reúnem-
se nos cafés, mas agora não acalentam sequer sonhos literários.

A miséria do Dezembro parisiense

Que Dezembro parisiense? - somos tentados a perguntar,


pois dele nos lembramos com tanta dificuldade, como, por

298
OS ÚLTIMOS COMBATES

exemplo, do nome do presidente do FDP6. O Dezembro pa­


risiense de 1995, ocorrido há pouco (escrevo no início de fe­
vereiro de 1996), não se tornou um paradigma como o Maio
parisiense; seu tênue rastro luminoso não ficará gravado na
historia. E isso não somente graças à diferença de clima entre
esses dois meses. Vale relembrar, portanto: em dezembro de
1995, a França foi sacudida durante algumas semanas de forma
aparentemente quase tão forte quanto no M aio de 68. Não
houve ocupação de fábricas, e mesmo a greve geral foi apenas
indireta: em virtude da paralisação dos transportes públicos,
praticamente todas as demais esferas foram paralisadas. O ensejo
para a greve foi particular, mas a causa, ao contrário, social­
mente universal. O governo do primeiro-ministro, Juppé, pro­
pôs (nada extraordinário no mundo contemporâneo) “cortes
drásticos” no interesse de um Estado financeiramente enxuto:
restrições saneadoras no setor ferroviário e restrições refor­
madoras do seguro social e de saúde no serviço público. De
um prisma superficial, tratava-se, ao menos em parte, da ex­
tinção de privilégios (ainda que bastante modestos) do funcio­
nalismo público. De ordinário, um interesse assim limitado
não é capaz de adquirir universalidade social, muito menos
uma greve no serviço público, que onera sensivelmente a vida
cotidiana e consome rapidamente os nervos de uma população
que não reconhece seus interesses particulares no confronto
com os dos funcionários públicos. Com freqüência, tal efeito
acorre num governo em conflito social com seus servidores;
obviamente, Juppé também esperava firmar-se sobre essa onda
de opinião para investir contra as greves. Esse cálculo, porém,
caiu fragorosamente por terra.
O momento corporativista da greve foi de imediato inun­
dado por um protesto social generalizado que se estendeu muito
além de seu ensejo específico. Não apenas os grevistas direta­
mente implicados saíram às ruas, mas centenas de milhares de
simpatizantes. Em muitos relatos, falou-se de uma “explosão

6 Freie Demokratische Partei (Partido Liberal Alemão) (N. T.).

299
OS ÚLTIMOS COMBATES

dos sentimentos sociais”, do súbito despertar de um espirito


de solidariedade, de uma descoberta da arte de improvisar e
de uma camaradagem humana só vistas por ocasião de grandes
incendios e catástrofes naturais. Uma espécie de milagre de
Maria em meio ao deserto da individualização e da ausência
de solidariedade típicas da economia de mercado? O ultra-
reacionário, Thankmar von Münchhausen, da seção de finan­
ças do Frankfurter Allgemeine Zeitung, mostrava-se pasmo:
Governo democrático algum devia permitir que se impingissem
aos franceses as privações im postas a cada dia, durante já quase
três semanas, pelos sindicatos. Toda queixa m odesta sobre os
efeitos - perda de sono e oportunidades de vida e negócio bal­
dadas - parte da afirm ação de que se tem perfeita compreensão
das exigências dos grevistas. Ninguém põe em dúvida o direito
de greve, nem sequer nas empresas de m onopólio estatal. A julgar
pelas vozes resignadas, poder-se-ia pensar que os funcionários
públicos não movem a greve de maneira egoísta contra a socie­
dade, mas antes, em nome dela própria (13/12/95).

Sem o querer, comentários inflamados como este, extraído


de um periódico conservador e anti-social, acertaram na mos­
ca: a greve de dezembro em Paris contou com tamanho apoio
porque de fato os grevistas - um tanto inconscientemente -
subiram ao ringue como representantes de todos os assalaria­
dos. Somente à primeira vista, estavam em jogo as aposenta­
dorias dos ferroviários ou o seguro de saúde dos funcionários
públicos: na verdade, o alvo do protesto era o consenso neo­
liberal das elites. Foram as irritantes declarações sobre a “im-
prescindibilidade” da chamada redução dos custos sociais,
sobre o fim do pretenso toujours plus (“sempre mais”) e sobre
a “percepção necessária”, etc., que atiçaram a bile das massas
francesas. E com toda razão. Há muito se sabe que a matança
social é generalizada e que a faca para nosso pescoço já se acha
amolada. A espantosa desfaçatez das elites econômicas chega
hoje ao cúmulo - e não só na França - de querer impingir a
falência social de seu sistema como lei natural a ser aceita, e a
cuja bitola todos têm de se “adaptar” . O verdadeiro milagre

300
OS ÚLTIMOS COMBATES

social de Maria é que as elites em todo o mundo ainda não


tenham sido enforcadas por tal descaramento. Mas enquanto
os assalariados alemães despem de boa vontade as calças em
nome das leis de mercado, os franceses parecem pelo menos
ter a dignidade de resistir ao assédio.
Um motivo suplementar talvez haja contribuído para a
impostura grosseira da eleição de Jacques Chirac, na qual,
porém, mesmo os franceses, contra sua própria convicção,
foram logrados, pois se deixaram embair como todos os indi­
víduos enfeitiçados pela economia de mercado. O presidente
socialista Mitterand - há muito transformado em monólito,
isto é, mudo e despojado de idéias como uma pedra - é que
dera início às restrições sociais sob a pressão das “leis sistêmi­
cas” do mercado capitalista, de forma análoga à que o monólito
alemão, Helmut Schmidt, antes impulsionara a “redução de
custos sociais” a que o governo de Helmut Kohl daria segui­
mento com tanto sucesso. Levando em conta que a memória
dos indivíduos no mercado é extremamente curta, o candidato
conservador, Chirac, ao lutar pela sucessão de Mitterand no
outono de 1994, teve a astuciosa idéia de se proclamar como
uma espécie de populista de esquerda que fazia menção de
defender socialmente a França contra os excessos neoliberais
dos socialistas pró-europeus.
Amparado numa “nota” de Emmanuel Todd - integrante
da Fondation Saint-Simon, de cunho acadêmico -, Chirac dei-
xou-se arrebatar por promessas sociais. Segundo Todd, as li­
nhas de conflito sociais não correspondem mais às políticas -
e isso significa que, ao menos na propaganda, a política social
e o conservadorismo podem seguir juntos quase como nos
tempos de Bismarck, ao passo que a ideologia progressista e
internacionalista dos social-democratas (vinculada, todavia, à
economia de mercado), há de fazer triste figura junto às ca­
madas inferiores. O erro lógico, foi, porém, que Chirac efeti­
vamente não contava mais, à diferença de Bismarck, com um
campo de ação sociopolítico, mas antes era forçado, sob o
influxo dos Estados Unidos ou da sonhada união monetária

301
OS ÚLTIMOS COMBATES

européia e sob pressão dos mercados mundiais, a rapidamente


tomar partido (mais rápido até do que para a memoria curta
do mercado) em favor das brutais restrições e romper assim,
abertamente, com suas promessas táticas de campanha. Se na
Alemanha cada uma das promessas sociais de campanha pode
ser quebrada sem maiores danos, na França tal procedimento
ainda é implacavelmente punido.
O Dezembro parisiense não se tornou contudo um Maio
parisiense. Um movimento que não tem sonhos não é mais um
movimento. O sonho do Maio parisiense talvez tenha sido um
daqueles de que já durante o seu curso somos incapazes de nos
recordar; ele pode ter sido inconseqüente e difuso, mas foi o
sonho de uma outra vida, para além da estupidez econômica
do mercado. Interpretado por uns como uma fraca utopia e
por outros como uma variante democrática do “socialismo
real” no Ocidente, foi apenas esse vestígio de um sonho que
fez do Maio parisiense algo digno de ser historicamente re­
cordado. Este sonho, como todo sonho, já então fugia à capa­
cidade de compreensão do aparato dos partidos e sindicatos.
Eis por que tais aparatos esperavam que, a par do colapso do
socialismo estatal no Leste, malograssem também todas as
idéias voltadas para uma alternativa ao sistema. Assim, eles
esperavam poder extrair pragmaticamente o melhor, para
além das chamadas idéias “irrealizáveis” e dogmáticas ou utó­
picas.
Raras vezes o anti-sonho dos burocratas ocidentais foi de­
senganado de maneira tão atroz. Não compreenderam eles
que, na dialética capitalista, somente a existência do sonho
transformador de um modo de vida e de produção fundamen­
talmente diverso é que constitui de forma indireta seu próprio
direito à existência - seja como acólitos hesitantes e refreado-
res de um fim anticapitalista e da revolução social, ou (via de
regra) como técnicos sociais burgueses, ou, caso necessário,
talvez, como acólitos da repressão. Entre estes pólos reside o
campo de possibilidades sindicais, inclusive no sentido de re­
formas sociais e até mesmo da simples defesa contra a “redução
de custos sociais” . Desde que restam somente os “realistas”,

302
OS ÚLTIMOS COMBATES

devotos à economia de mercado, o pólo da crítica radical de­


sapareceu. Com isso, porém, todo o campo de possibilidades
sindicais caiu por terra, pois não há uma capacidade de ação
unidimensional e dotada de um pólo exclusivo.
Se os sindicatos não representam mais uma consciência
que, apesar da forma de circulação capitalista introjetada, con­
tém um momento de transcendência ao sistema, então seu
próprio direito à existência é totalmente infundado. Na mesma
medida, como sua legitimação de idéias é congruente com o
sistema dominante, seu campo de ação tende a zero. A supe­
ração (embora meramente parcial) da concorrência entre os
assalariados, da maneira como a expõem os sindicatos, é in­
viável sem um momento de crítica radical do sistema e, por­
tanto, de opção - mesmo que não explicitada - pela superação
prática do sistema como garantia última. Ao inexistir sequer
a mais vaga idéia dessa opção, os sindicatos vêem-se absolu­
tamente extorquidos pelas “ leis do mercado”, e assim não po­
dem mais evidenciar vantagens dignas de menção para seus
membros. Ao mesmo tempo, eles se tornam supérfluos mesmo,
como pára-choques do capitalismo contra a escalada dos mo­
vimentos sociais. Dessa maneira, impõe-se de forma lógica a
concorrência individual desenfreada entre os proprietários da
mercadoria “ força de trabalho” . O saldo só pode ser a pro­
gressiva autodissolução dos sindicatos, como há muito já su­
gere a constante redução de seus membros. Como instância
social da sociedade capitalista resta ainda única e exclusiva­
mente, com exceção das instituições de caridade, como a Bahn­
hofsmission7 e o Exército da Salvação, a administração estatal
dos pobres e trabalhadores.
A soturna ausência de sonhos da sociedade ocidental, após
o fim da atual crítica (movida pelos velhos marxistas) ao ca­
pitalismo, conduz também ao colapso dos sindicatos. Seus
membros, por si sós despidos de sonhos, esqueceram que sua

Associação evangélica ou católica que presta gratuitamente auxílio a via­


jantes, sobretudo crianças e doentes, nas estações de trem (N. T.).

303
OS ÚLTIMOS COMBATES

existência só é possível como administradores de um antigo


sonho de emancipação social há muito sepultado. Esquece-
ram-se de que mesmo o reformismo mais superficial no inte­
rior do sistema capitalista carece sempre de uma legitimação
que não se pode deduzir dos próprios critérios sistêmicos e
necessita de um momento de dissenso. A perda de toda idéia
de transcendência conduz o reformismo sindical a urna deses­
perada defensiva histórica. Em vez de poder atuar de forma
estrategicamente mais aberta, livre do lastro ideológico, os
sindicatos, cuja legitimação tornou-se indefensável, são víti­
mas da paralisia estratégica. E em vez de poder agir de maneira
pragmaticamente mais segura, eles são inescrupulosamente
abatidos por seus “ parceiros sociais”, que farejam a vantagem.
Por certo, essa situação não pode ser retraduzida para as
antigas categorias da luta de classes, segundo as quais a “classe
capitalista” e “seu Estado” encontrar-se-iam em pleno avanço
estratégico. A vantagem que as cúpulas das empresas e as as­
sociações de empresários auferem do desastre estratégico dos
sindicatos limita-se ao restrito cálculo económico-empresarial
e desconsidera qualquer visão do desenvolvimento da socie­
dade como um todo. Embora faça parte da natureza do capital,
como forma de reprodução social, representar originalmente
apenas a soma de ações de interesse restrita aos particulares —
ações estas que produzem uma resultante cega e sem sujeito
-, o interesse empresarial pelo futuro da sociedade, como um
todo, jamais foi tão reduzido como hoje. A defesa franca e
encarniçada da vantagem historicamente imprevista e as “que-
das-de-braço” a que nesse ínterim todos se submetem no dia-
a-dia têm um quê de impulso suicida, já que carecem de
reflexão sobre as condições futuras de valorização do próprio
capital.
Isto se torna ainda mais nítido quando consideramos o
lado estatal (seja qual for a vertente partidária). A redução dos
custos sociais obedece aos cegos desígnios dos índices de cres­
cimento negativos, do desemprego ascendente, da receita es­
tatal decrescente e da dívida galopante do Estado, sem que se
suponha uma instância reguladora diversa da malfadada “mão

304
OS ÚLTIMOS COMBATES

invisível” . Em outras palavras: a redução dos custos sociais,


as quedas-de-braço sociais impostas “ de cima” , o achatamento
dos salários, etc., não resultam de um “grande plano” do ca­
pital ou do Estado. Não há nenhuma vontade politicamente
estratégica e de longo alcance que se possa reconhecer por trás
das medidas anti-sociais, seja na França ou em qualquer outro
país. O próprio consenso ideológico e neoliberal das elites é
resultado apenas de um reflexo pavloviano aos sinais de um
mercado ensandecido que se autoprocessa.
Justamente por isso, entretanto, os protestos caem no va­
zio, pois os próprios manifestantes reconheceram a atividade
insensata da economia de mercado total como a “única alter­
nativa”, e há muito capitularam incondicionalmente às leis do
sistema. Se não lhes opõem mais uma simples vontade social
estratégica, da qual se poderia arrancar algo com uma contra-
estratégia imanente ao sistema, mas a pura execução sem es­
tratégia da própria legislação sistêmica, então não lhes cabe
mais o direito de se queixar. A antiga luta de classes em torno
de salários, condições de trabalho, reformas sociais, etc., pres­
supunha não apenas o sistema de produção de mercadorias,
mas também sua capacidade social objetiva de reprodução. Mes­
mo a ameaça implícita da alternativa ao sistema, calcada no
socialismo de Estado, estava longe de transcender as categorias
da moderna produção de mercadorias. Agora se torna cada
vez mais claro que o fim do sonho representado pelo socialis­
mo de Estado caminha de mãos dadas com o fim da capacidade
de reprodução social de todos os sistemas produtores de mer­
cadorias, inclusive em sua variante ocidental.
O protesto sindical torna-se assim duplamente indigno de
fé. Ele já é incapaz de utilizar o sonho do socialismo de Estado
como um catalisador implícito, ao mesmo tempo que não co­
gita seriamente sequer em esboço - seja nos aparatos, seja na
consciência das massas - de uma alternativa ao sistema —na
França, não se deseja sequer recordar o rastro luminoso dei­
xado pelos situacionistas. N o entanto, os sindicatos vêem-se
na contingência de reagir à crescente (e inconfessa) incapaci­
dade de reprodução do sistema. Eles têm, portanto, de mover

305
OS ÚLTIMOS COMBATES

um tipo de luta de classes, mas paradoxalmente sem referência


à luta de classes. Têm de consentir, sem reservas, às leis do
sistema e ao mesmo tempo exigir medidas contra as leis do
sistema (que então, é claro, não devem receber esse nome). Se
o sonho de uma vida e produção diversas, não mais pautadas
pela economia de mercado, praticamente não existe e se en­
contra muito mais longe do que em 68, os limites objetivos e
absolutos do sistema produtor de mercadorias, por seu lado,
tornaram-se bem mais próximos do que em 68. Antes havia
um pequeno sonho, enquanto o campo de ação imanente ao
sistema era grande; agora não seria preciso um grande sonho
para se poder sobreviver de forma razoavelmente condigna.
Cartas ruins para os realistas.
O Dezembro parisiense, para voltarmos ao assunto, mos­
trou, de forma exemplar, a desolada situação de conflito dos
sindicatos e do movimento de protesto social em pelo menos
três pontos. Primeiro, o movimento não se ergueu desde o
início com suas próprias exigências positivas. Talvez, pela pri­
meira vez na história dos movimentos sociais modernos, as
razões a impulsionarem os atos reduziram-se ao lastimável de­
sejo de que, se Deus quisesse, tudo continuaria de algum modo
como antes. Nesse sentido, o próprio limite de evolução do
sistema capitalista torna-se evidente: nos últimos duzentos
anos, cada surto de crescimento qualitativo desencadeou tanto
exigências políticas e sociais imanentes ao programa quanto
momentos utópicos e transcendentes da parte do movimento
social “progressista” ; a defesa aberta do status quo, por sua
vez, estigmatiza hoje o último protesto social dos sindicatos
como um impulso literalmente conservador ou talvez até mes­
mo reacionário. Nada poderia deixar mais claro que os sindi­
catos são uma força social desprovida de futuro em sua forma
tradicional, já que esse mesmo futuro não pode mais ser for­
mulado.
Se desse modo os sindicatos aparecem de súbito como uma
retaguarda social conservadora e meramente passiva, não é de
admirar que, inversamente, a administração do capital e o go­
verno assumam pela mesma razão a pose de progressistas.

306
OS ÚLTIMOS COMBATES

Quase no estilo situacionista, eles “desencaminharam” o con­


ceito de reforma dos sindicatos - “desencaminhamento” era
a expressão empregada pelos situacionistas para caracterizar
urna refinada recodificação de conceitos, padrões e compor­
tamentos dominantes. Agora, por sua vez, o neoliberalismo/neo-
conservadorismo dominante recodifica de modo refinado o
conceito de reforma e transforma uma súmula do progresso
social num termo irônico da destruição social. Os sindicatos
perderam sua parcela no poder de definição sobre o rumo
sociopolítico. Eles agora têm de ouvir que são um obstáculo
às “ reformas necessárias” ou mesmo “ incapazes de refor­
ma” . De nada serve querer pleitear a codificação original
do conceito de “reforma” e assinalar, por exemplo, que seu
significado não passa hoje de um descarado retorno ao pré-
capitalismo. Essa nova conotação do conceito resulta das for­
mas objetivadas de evolução da própria economia de mercado,
que como tal não foi sequer “em sonho” posta em dúvida pelos
sindicatos.
Em segundo lugar, o conceito de solidariedade, mais uma
vez aventado, desqualifica automaticamente a si próprio quan­
do é instrumentalizado para o apego mesquinho às gratifica­
ções sociais da economia de mercado - gratificações, de resto,
objetivamente evanescentes. De fato, nas atuais condições, a
exigência de que tudo permaneça como está encerra, de ante­
mão, a surda falta de solidariedade com todos os que há muito
já se acham “ de fora” - seja no antigo Terceiro Mundo, na
periferia européia ou no próprio país. Certamente, as exigên­
cias sindicais sempre foram, conforme sua própria natureza,
uma expressão de interesses particulares, e também sempre
puderam adotar um caráter puramente defensivo. Mas no pas­
sado da história de modernização, tomada ainda como um
processo ascendente, a própria luta pelo interesse particular
sob o objetivo parcial mais restrito era banhada na luz de uma
idéia universal e abrangente de emancipação social, que ao
menos, mediata e indiretamente, produzia um contexto de
movimento social, para além do ensejo imediato, e possibili­
tava uma “solidarização” irrestrita. Justamente por isso pôde

307
OS ÚLTIMOS COMBATES

uma exigência em si mesma, de puro caráter defensivo, er­


guer-se num contexto estratégico historicamente ofensivo.
No entanto, a par do reconhecimento incondicional da
economia de mercado, desapareceu por completo o momento
estratégico da ação sindical, e as batalhas defensivas não podem
mais ser consideradas uma tática num contexto mais amplo
de emancipação social. Dessa forma, a exclusão daqueles que
não se acham incluídos nas exigências defensivas é absoluta.
A solidariedade vigora então somente para aqueles que ainda
não se encontram “ fora” . Nesse sentido, os ferroviários e fun­
cionários públicos em greve no Dezembro parisiense não com­
bateram, na verdade, em nome de todos, mas somente em nome
da parcela de assalariados franceses (momentaneamente ainda
reproduzível pela economia de mercado) que resiste a ser lan­
çada na massa dos já excluídos, para os quais não há mais
solidariedade alguma. Isso ficou claro até mesmo em termos
institucionais, quando Juppé convocou a 21 de dezembro uma
“reunião terapêutica da cúpula social” no Hotel Matignon,
sede do governo: “ Quase ignoradas pela opinião pública [...]
as associações dos cidadãos destituídos de direitos (sem-teto,
desempregados e demais excluídos sociais), que dizem repre­
sentar 5 milhões de pessoas, pleitearam, em vão um lugar à
mesa de negociações” (Neue Zürcher Zeitung, 22/12/95).
Mesmo que uma parte dessas organizações ou associações
represente meros interesses caritativos e ideologias duvidosas
(que de resto não podem ser mais duvidosas do que as ideo­
logias de adaptação à economia de mercado), sua simples exis­
tência já é uma prova da incapacidade dos partidos e sindicatos
de reagir à miséria social dos excluídos, senão com expressões
moralistas e descompromissadas. A falta de crítica do sistema
revela-se idêntica à incapacidade de representar uma crescente
massa de pessoas socialmente “excluídas” . Ainda que no De­
zembro parisiense tenha ocorrido uma ebulição dos sentimen­
tos sociais, essa “solidarização” conteve uma grande medida
de hipocrisia social. A restrição corporativa dos funcionários pú­
blicos foi contornada em favor de uma metacorporação, de um
cartel dos que ainda detinham emprego e direitos: em suma,

308
OS ÚLTIMOS COMBATES

a pseudo-solidariedade do apartheid social. Somente uma so­


lidariedade ilimitada, que atue sob o lema “Todos ou nin­
guém”, merece este nome. Se os sindicatos constituem pouco
mais do que um bando organizado, que reserva a si próprio o
acesso aos botes salva-vidas, sem consideração para com os
fracos e infortunados, a “solidariedade” converte-se numa per­
versa virtude secundária que encerra seu próprio contrário.
Em terceiro lugar, o Dezembro parisiense revelou sua nu­
lidade histórica pelo fato de achar-se despido de toda expres­
são intelectual, de toda teoria. Por ocasião do 18a Congresso
do sindicato Force Ouvrière, que ao lado da famosa CGT (mais
próxima ao PCF) contribuíra de maneira decisiva na luta de
dezembro, o secretário-geral, Marc Blondel, admitiu, dois me­
ses depois da greve, que “ não reinou a profusão de idéias”
(Neue Zürcher Zeitung, 02/03/96). Isso é lógico: quando não
há mais o sonho de um modo de vida e de produção diverso,
ou seja, quando não há mais crítica do sistema, quais idéias
econômicas e sociais ainda haveria então que já não tivessem
sido repisadas milhares de vezes, que não fossem ridiculamente
indignas de fé? E isso, sobretudo, quando o próprio adversário
não se pauta mais por nenhuma idéia (isto é, nenhuma pre­
tensão consciente de “forma” e regulação), por mais que se
queira dar o nome de “idéia” à propaganda neoliberal em favor
da aplicação incondicional das pseudoleis “naturais” e impes­
soais do mercado.
Isso obviamente não é culpa apenas dos sindicatos. Eles
não precisam sequer se opor a uma nova teoria crítica do sis­
tema, pois semelhante teoria não existe no espaço público. O
que desde fins dos anos 70 era previsível e após a ruptura de
época representada por 1989 tornou-se patente, revelou-se
pela primeira vez em toda sua miséria no Dezembro parisiense,
com base numa situação concreta de conflito: em substituição
ao desbotado marxismo dos movimentos trabalhistas, em suas
diversas variantes, não se apresentou sequer a sombra de uma
nova teoria crítica da sociedade no meio dos intelectuais de
ponta ou da juventude acadêmica. O marxismo não foi trans­
formado de acordo com o desenvolvimento da sociedade mun-

309
OS ÚLTIMOS COMBATES

dial, mas somente soterrado. N o lugar de uma forma obsoleta


da teoria crítica, surgiu a total ausencia de teoria. Ora, para a
aceitação do mercado não é preciso uma teoria crítica, nem
sequer uma teoria em geral. Em vez disso, as chamadas ciências
sociais e humanas sucumbiram a uma espécie de palavrório
sem sentido. A crítica da economia política, tanto na França
quanto na Alemanha e demais países, desapareceu de maneira
tão consumada das cabeças e do discurso social como se jamais
tivesse existido.
A diferença do M aio de 68, não se ergueu nenhum impulso
de idéias, de críticas do sistema por parte dos estudantes fran­
ceses. Paralelamente às disputas em torno do serviço público
no mês de novembro de 1995, houve, porém, uma paralisação
nacional dos estudantes por melhores condições de ensino:
“Em mais de trinta universidades estão suspensas as atividades
letivas” {Frankfurter Rundschau, 29/11/95). Essa greve de es­
tudantes, contudo, não teve a qualidade de um movimento
estudantil estribado em idéias, embora não tenha sido tão in­
conseqüente e privada de teoria quanto a greve do funciona­
lismo público. Como é natural, nada interessa menos a jovens
que não querem mais do que melhores oportunidades na luta
da concorrência por um emprego estúpido no mercado de
trabalho do que as idéias de crítica social.
O aspecto mais perfeito foi, talvez, o desmascaramento de
antigos intelectuais de esquerda, dignos de posição e renome.
Os falsos arautos do capitalismo da linhagem de Glucksmann
& Co. fitaram de maneira tão pasma e estarrecida o inesperado
conflito social, refratário a todo sistema, quanto os protago­
nistas da pós-modernidade, com suas conversas fiadas e dis­
cursos superficiais nos meios de comunicação. Somente após
uma embaraçosa pausa comercial, alguns ilustres sociólogos
de velha cátedra tomaram a palavra em dois manifestos con­
trários, arrebanhados em torno de dois antigos opositores,
Alain Touraine e Pierre Bourdieu. Mas que decadência em face
dos debates de há vinte ou trinta anos, promovidos ainda sob
o signo do marxismo! Não que os conteúdos de então pudes­
sem ainda hoje mostrar-se promissores, mas a perda de todo

310
OS ÚLTIMOS COMBATES

nível intelectual nas declarações do Dezembro parisiense torna


manifesto que os antigos pensadores de ponta agora só fazem
uso da palavra de forma corriqueira, e seu pensamento é in­
capaz de dar formulação crítica às contradições reais da socie­
dade em crise no final do século XX.
O primeiro e desenxabido apelo foi formulado no círculo
da revista Esprit, de tendência católica esquerdizante, e levava
a assinatura de Touraine, que é o spiritus rector dessa inter­
venção. O conteúdo reduz-se a uma simples anuência às “re­
formas” anti-sociais do governo de Juppé, cuja “necessidade”
é ressaltada. Assim, pela primeira vez na França, os cientistas
de ponta, tidos (num sentido amplo) como “intelectuais de
esquerda” , declararam-se abertamente contra uma ação social
de massas e postaram-se ao lado de um governo conservador
- uma fruta podre do “realismo” que há muito era aguardada
e que até agora, à falta de grandes combates sociais, ainda não
tivera oportunidade de revelar seu amadurecimento (a propó­
sito, vem a calhar que o falastrão ecológico franco-alemão,
Cohn-Bendit, tenha igualmente defendido em jornais france­
ses, quanto ao essencial, a “reforma” de Juppé).
A posição de Touraine tem ao mesmo tempo uma queda
inequívoca pelo nacionalismo, na medida em que se mostra
preocupada com a “capacidade de concorrência da França”
no mercado mundial, e teme que o “capitalismo social”, espe­
cificamente francês, sobretudo o setor público, seja incapaz de
adaptar-se ao processo de globalização. O vocábulo “adapta­
ção”, portanto, difundiu-se também na França, no seio do
antigo discurso crítico. Em nome da (pretensa) capacidade
nacional de concorrência nos mercados globalizados, caberia
sacrificar as gratificações sociais, que de resto já há tempos
tornam-se cada vez mais miseráveis. Eis como se deu a inversão
ideológica na consciência de muitos intelectuais de esquerda,
que, afoitos, tomaram o rumo da economia de mercado. Não
é a “capacidade de concorrência” que deve servir à capacidade
de reprodução social, mas justamente o contrário: a reprodu­
ção social só deve valer na medida em que servir à capacidade
de concorrência.

311
OS ÚLTIMOS COMBATES

Pessoas como Touraine já são incapazes de se perguntar


qual é, afinal de contas, o sentido do sistema de mercado e
concorrência se não mais renderem suas gratificações para as
massas. Se as massas eram antes o deus dessas esquerdas, hoje
estas se confessam com pose de inocentes ao deus da “valori­
zação do valor”, esse monstro da modernidade que, como um
absurdo fim em si mesmo, se tornou a religião de Estado da
democracia. O único fato que Touraine & Co. censuram no
curso de adaptação do governo à economia de mercado é a
chamada “insensibilidade” da propaganda de Juppé para im­
pingir suas medidas às massas francesas. Estes intelectuais, con­
vertidos em “consultores” sociológicos de uma política restritiva,
começam, pois, a partilhar a ilusão econômica de que excre­
mento de cachorro, acondicionado numa embalagem requin­
tada, pode ser vendido como confeito. Ao mesmo tempo,
demonstram, com isso, seu atual pendor para serem “ pesqui­
sadores da aceitação”, em tudo diversos de verdadeiros teóri­
cos da sociedade. Eis por que tal apelo ganhou também o nome
de “lista dos especialistas” .
Por certo, o contramanifestó do grupo que cerca Bourdieu
não possui melhor aspecto. Este apelo pôs-se sem reservas (ou
seja, sem críticas) ao lado dos grevistas. A antiga devoção às
massas foi novamente celebrada, embora sem uma idéia trans­
cendente. De fato, a economia de mercado é em última ins­
tância tão iniludível para os sociólogos em torno de Bourdieu
quanto para os que rodeiam Touraine. Ora, com isso, o apelo
de solidariedade lançado por Bourdieu viu-se forçado a revelar
implicitamente sua face avessa à “solidarização” . Se tal aspecto
não transparecia quanto aos incluídos na solidariedade, em
referência aos excluídos, em compensação, vinha à luz de forma
tanto mais virulenta. “Devemos nos adequar a Hong-Kong?”,
indagava-se Bourdieu mais demagógica que teoricamente. A
alusão crítica ao trabalho infantil em Hong-Kong e outras na­
ções só é justificada, entretanto, se puder ser associada a uma
crítica radical do sistema da economia de mercado; sem essa
correlação, torna-se um argumento hipócrita da concorrência
de países de capital forte contra países de capital fraco.

312
OS ÚLTIMOS COMBATES

O apelo “jacobino” de Bourdieu é efedvamente ainda mais


nacionalista que o “pragmático” de Touraine. Ele apela prin­
cipalmente à tradição nacional da Revolução Francesa, inter­
pretada no sentido da “igualdade social” - um tema batido e
cediço. Decerto, o antigo socialismo era delimitado também
pela economia e Estado nacionais, à semelhança dos chamados
movimentos de libertação antiimperialistas. N o entanto, o ve­
lho nacionalismo de esquerda estava ligado à idéia (com cer­
teza ainda historicamente burguesa em sua forma-mercadoria)
de uma alternativa sócio-econômica ao sistema. Sem dúvida,
foi-se o tempo desse tipo de crítica (socialista e estatal) do
sistema. Se não é desenvolvida, porém, uma crítica nova, di­
versa e abrangente do sistema, o que resta então da crítica
social de esquerda é apenas uma versão qualquer do naciona­
lismo social, que, por sua vez, integrará os argumentos dos
partidos de direita e seus caudatários.
A evocação do apelo de Bourdieu às “tradições nacionais”
nos remete fatalmente à marcha ideológica no Leste Europeu
e na Rússia, onde não restou da antiga ideologia socialista de
Estado e seu legado político, nada mais do que um naciona­
lismo primitivo e ordinário. Isso em nada se altera pelo fato
de o sociólogo Edgar Morin, por exemplo, também ele um
dos membros da velha guarda dos intelectuais franceses de
esquerda, esforçar-se por conferir ao nacionalismo social fran­
cês uma dignidade mais elevada do que nos demais países, já
que na França o nacionalismo, como tradição revolucionária,
seria ao mesmo tempo um universalismo moderno e uma
“identidade republicana” . Tudo isso é apenas fumaça para os
olhos. Em semelhante raciocínio, trata-se ideologicamente da
eterna invocação esquerdista de ideais burgueses contra a rea­
lidade burguesa; hoje, porém, sob o signo da irrefreável glo­
balização capitalista, por meio de cujo processo vacilam os
fundamentos da economia nacional, trata-se do suicídio ideo­
lógico da esquerda.
Paradoxalmente, Bourdieu também clamou numa entre­
vista pela “ necessidade vital” de uma nova “Internacional de
intelectuais críticos e movimentos sociais” . Isto parece pro­

313
OS ÚLTIMOS COMBATES

missor, mas, quando não se diz palavra sobre uma nova crítica
radical da economia de mercado, tal clamor, infelizmente, não
é digno de nossa fé. Uma “Internacional” à sombra do mercado
aceito e sobre a base das instituições econômicas e políticas da
nação já se tornou impossível; e como poderia uma crítica
social debilitada e privada de conceitos, que se aferra a “tra­
dições nacionais”, adquirir uma perspectiva e uma força de
radiação transnacionais? Uma Internacional de nacionalistas
sociais é uma contradição em termos.
Se o nacionalismo da marca “Touraine” é indireto, por
esgrimir uma fictícia capacidade de concorrência nacional (na
verdade puramente empresarial) nas estruturas globalizadas,
sem tomar em consideração os perdedores, o nacionalismo da
marca “Bourdieu” é francamente direto, já que, em nome do
status quo social, clama pela tanto mais fictícia autonomia
econômica nacional contra a globalização. Estes intelectuais
não têm mais reflexões críticas a oferecer, mas somente refle­
xos afirmativos e pseudoteóricos à economia de mercado total.
Seu pensamento simplesmente redobra a paralisia dos sindi­
catos na esfera das idéias. Se o Maio parisiense foi o último
combate do antigo radicalismo do movimento trabalhista, o
Dezembro parisiense foi o derradeiro embate de uma retaguar­
da histórica que já não possui sequer um emblema próprio.
Teoria e práxis do movimento social atingiram o fundo do
poço.

A versão alemã da paralisia social: o Acordo Trabalhista

À diferença do que ocorre em terras francesas, na Alema­


nha os sindicatos não podem mais ser criticados em termos de
um movimento social, já que há muito perderam tal caráter.
O pecado capital do patriotismo social do antigo movimento
trabalhista no Ocidente, por ocasião da I Grande Guerra, foi,
na verdade, generalizado. E tal designação, obviamente, só
pode ser tomada hoje de maneira irônica, pois a capitulação

314
OS ÚLTIMOS COMBATES

ante a guerra não resultou de uma “traição” subjetiva; antes,


colocou pela primeira vez sob a luz da história o caráter ima-
nentemente burguês e pautado pela mercadoria “luta de clas­
ses” . Mas no interior dessa reduzida constelação, que não se
pode mais interpretar como uma crítica sensata do sistema, os
sindicatos preservaram nos países da Europa ocidental uma
mobilização social que a crítica do sistema, calcada no antigo
socialismo, então cada dia mais descorada, deixava cintilar de
raro em raro (e pela última vez no Maio parisiense) como uma
incômoda recordação. N a Alemanha, em contrapartida, os sin­
dicatos, com a capitulação não somente pacífica, mas também
embaraçosamente insinuante em face do nacional-socialismo,
foram, em sentido estrito, historicamente anulados como mo­
vimento social.
Isso não se modificou fundamentalmente após 1945. Al­
guns sindicalistas, que retornavam do exílio e dos campos de
concentração, buscaram levar adiante o velho caráter de mo­
bilização dos sindicatos, a tradição das lutas sociais e o objetivo
de uma transformação social. Porém, a maioria dos pequenos
grupos, que passara pela experiência das frentes de trabalho
do nacional-socialismo, não sabia mais o que fazer com essa
tradição. Os conflitos sociais da Alemanha Ocidental jamais
passaram de uma inofensiva luta com a própria sombra. Nesse
sentido, a Alemanha Ocidental foi desde o início mais “mo­
derna” do que a Europa Ocidental —uma modernidade pro­
gressiva da integração pela mercadoria e pelo Estado social,
herdada do nacional-socialismo (o que traía seu caráter des­
trutivo e essencialmente bárbaro). Enquanto na França, Itália,
Espanha e também Inglaterra, persistia o antigo meio social
das classes capitalistas e prolongavam-se os embates na reta­
guarda da velha luta de classes, na Alemanha, o grau de indi­
vidualização abstrata já atingia o nível norte-americano (ainda
que com ênfase diversa), e isso justamente na esteira da curta,
mas profundamente incisiva, era nacional-socialista. Embora
os sindicatos na Alemanha Ocidental não tenham cortado de
modo brusco as relações com o meio social do antigo movi-

315
OS ÚLTIMOS COMBATES

mento trabalhista, permaneceram apenas como uma roupa­


gem formal que, na consciência das massas, não significava
mais do que um seguro de automóvel ou um fundo de pensão.
O fato de que tal situação tenha sido impingida como “par­
ceria social” bem-sucedida e mesmo como “modelo alemão”
tem suas raízes única e exclusivamente na ascensão da Alema­
nha Ocidental (ao lado do Japão) à dignidade de grande vitoriosa
do mercado mundial e de campeã das exportações. Somente por
intermédio dos enormes ganhos nos mercados mundiais, desde
o “milagre econômico” , foi possível fazer com que os sindica­
tos ocidentais, já em estado de rigidez cadavérica na condição
de movimento social, funcionassem com sucesso e quase sem
atritos como instância sociopolítica e máquina reguladora de
salários. Mesmo um cego teria visto que tais sucessos repou­
savam não sobre a força social de combate, mas simplesmente
sobre os privilégios nacionais de uma economia triunfante, e
que, portanto, não podiam ser universalizados nem servir de
“modelo” . Tanto maior se tornaria o desamparo dos sindicatos
quando, a partir da década de 80, o desemprego estrutural em
massa assumiu de ciclo para ciclo proporções cada vez maiores
e as gratificações sociais foram dilapidadas pedra por pedra.
Hoje, as máquinas de demolição já estão a postos diante das
ruínas do outrora tão imponente Estado social alemão, e o
sindicato, como instância social, derrete como um boneco de
neve ao sol.
Na crise crônica e estrutural do sistema capitalista, é ape­
nas lógico que a individualização sócio-econômica, há muito
consumada na Alemanha Ocidental, espalhe-se também pela
superfície institucional. Eis por que os sindicatos alemães são
incapazes até mesmo daquele anêmico epílogo do último em­
bate dos perdedores que vimos na França (e que veremos talvez
com freqüência ainda maior, sob diversas capas, em toda a
Europa Ocidental). Embora a constelação social na incorpo­
rada Alemanha Oriental seja diversa e lá persista paradoxal­
mente, sob a crosta burocrática, o meio de um contexto social
como uma espécie de subcultura, tal divergência não se sedi­
mentou até hoje de forma social ou institucional; ao contrário,

316
OS ÚLTIMOS COMBATES

os alemães orientais parecem ter pressa de recuperar, a toque


de caixa, a individualização abstrata de seus vizinhos ociden­
tais e adaptar-se ao capitalismo desse país à força de mortifi­
cações (o fato de se derramarem lágrimas sentimentais pelo
aconchego do lar perdido não afetou em nada o processo de
adaptação nessa meia-década).
Seria equivocado responsabilizar, sobretudo, a direção dos
sindicatos, consoante os antigos padrões da esquerda radical,
pelo fato de não se vislumbrar sequer um esboço de reação.
O aparato, com toda certeza, não apoiaria um movimento
militante da base sindical, antes o sufocaria - na Alemanha,
de maneira ainda mais inequívoca e brutal do que no Maio
francês de 68. Mas, por outro lado, o aparato não pode obvia­
mente ser mais combativo e ativista do que a sua própria base
de filiados. Quem por décadas a fio lutou somente com a pró­
pria sombra é incapaz de subitamente subir ao ringue com
seriedade. Os primeiros golpes não partiram de adversários
institucionais, mas da própria maioria dos membros, que na
Alemanha jamais se envolveria num desesperado ato de força
como o Maio parisiense. Em meio à crise, o lema é mais nítido
na Alemanha do que nas demais partes do mundo (com exce­
ção talvez dos Estados Unidos): “Cada um por si e Deus contra
todos” .
No entanto, o restante das instituições sindicais alemãs se
vê forçado, no interesse de sua própria raison d ’étre, a tentar
algo como uma “política de crise” . Como é natural, esta assume
um aspecto ainda mais sórdido do que na França. Líderes sin­
dicais como Walter Riester, vice-diretor do Sindicato dos Me­
talúrgicos, há muito já consumaram uma mudança de posição
ideológica que ainda hoje seria impensável na França: “Sou
cada vez mais forçado a pensar de forma empresarial - inclu­
sive e sobretudo no interesse dos trabalhadores, diz o especia­
lista em salários [...] acerca da crescente exigência para que
sua organização, numa época de desemprego, tome decisões
muitas vezes desagradáveis em prol dos filiados” (Nürnberger
Nachricbten, 27/12/95). A lógica à primeira vista bastante con­

317
OS ÚLTIMOS COMBATES

fusa de “no interesse” dos trabalhadores tomar “decisões de­


sagradáveis” em prol deles próprios só pode ter por objetivo
(se abstrairmos o penetrante travo paternalista) radicalizar a
“política de adaptação” à economia de mercado dentro dos
sindicatos. Não se deve reagir à crise com uma reformulação
da crítica social, mas, ao contrário, com o recrudescimento da
aceitação masoquista. E exatamente isso que Richter & Co.
entendem, em último caso, por “modernização”, de forma
bastante análoga aos chamados modernizadores do SPD8 agre­
gados em torno de Schröder, governador da Baixa-Saxônia,
ou de Clement, secretário das Finanças da Renânia do Norte-
Vestfália.
Essa linha de sindicato foi capaz de obter uma vitória fra­
gorosa no outono de 1995, por ocasião do congresso sindical
que reuniu os maiores sindicatos de todo o mundo, quando
Klaus Zwickel, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, sur­
preendeu os delegados com um projeto de acordo trabalhista
concebido à revelia de discussões e debates. Com ele, não ape­
nas se forneceu aos “modernizadores” e às elites institucionais
ou ao governo conservador e neoliberal da Federação uma
palpável flor de retórica para a propaganda da imobilidade do
sindicato, mas também se consumou uma dramática guinada
na política sindical como um todo, que há tempos já se via às
voltas com o contexto de crise.
O ponto decisivo é o furtivo abandono e sepultamento da
política de redução da jornada de trabalho. Ninguém terá pres­
sa em reconhecê-lo oficialmente, mas o fato é este. O recente
acordo na indústria metalúrgica, com a possibilidade de redu­
zir a jornada de trabalho semanal (conforme o caso) para 30
horas (sem compensação salarial), tampouco altera a situação.
O mesmo ocorre com a chamada jornada parcial por idade,
destinada tão-somente a sustentar a lenta extinção do modelo
da aposentadoria antecipada, que se tornou “impagável”, e

8 Sozialdemokratische Partei Deutschlands (Partido Social-Democrata Ale­


mão) (N. T.).

318
OS ÚLTIMOS COMBATES

que, por isso, nao faz mais parte de uma estratégia comum de
redução da jornada de trabalho. Há muito já se previa o fim
dessa estratégia. Quando o Sindicato dos Metalúrgicos e o dos
Tipógrafos (hoje, dos Meios de Comunicação) ergueram no
final dos anos 70 a bandeira da redução da jornada de trabalho
com a compensação integral de proventos contra o nascente
desemprego em massa, eles o fizeram ainda como máquinas
reguladoras de salários, cujo combustível era fornecido pelo
ganho que a Alemanha Ocidental obtivera no mercado mun­
dial. N os anos 80, a transição à jornada de trabalho de 35
horas semanais com a compensação integral dos proventos
não ocorreu pela mera comunhão entre capital e trabalho nas
fronteiras da Alemanha Ocidental, mas em parte a expensas
dos perdedores do mercado mundial, em parte com respaldo
no boom (alimentado por déficits) de exportações nos Estados
Unidos ao longo da época áurea da “Reaganomics” . Mesmo
nesse período, o desemprego em massa não foi contido, mas
antes cresceu de ciclo para ciclo.
Quando a posição da Alemanha Ocidental no mercado
mundial começou a ruir e a pressão social exercida pelo viru­
lento desemprego de raiz impunha restrições cada vez maiores
ao campo de ação institucional dos sindicatos, teve início nos
anos 90 uma discussão bastante vaga acerca da redução da
jornada de trabalho, embora sem compensação salarial (ou
apenas parcial). Houve mesmo certas tentativas modelares,
como a da Volkswagen (ou a do setor do aço, hoje marginali­
zada). Mas essa estratégia apenas teria uma perspectiva caso
estivesse compromissada com a transição para formas autô­
nomas de reprodução para além do mercado e do Estado, ou
seja, caso o “tempo disponível” adicional pudesse ser desfru­
tado não como vago “tempo livre”, mas como tempo para
atividades autônomas, externas à relação dinheiro-mercado-
ria. Para tal estratégia dupla faltam não apenas um projeto,
mas também a disposição para refletir sobre o assunto. No
interior de uma reprodução abrangente da economia de mer­
cado, contudo, o modelo de redução da jornada de trabalho

319
OS ÚLTIMOS COMBATES

sem compensação salarial não faz sentido econômico ou social.


No tocante à crise, tal modelo produz efeitos pró-cíclicos pela
diminuição do poder de compra interno. Enquanto um pro­
grama crítico da transformação social poderia ser dinamizado
por tal fato, a consciência aferrada ao trabalho assalariado
total só pode experimentar o mesmo efeito pró-cíclico de for­
ma negativa, como agravamento da crise. Para as massas, que
se firmam tanto sobre a renda monetária do trabalho assala­
riado quanto sobre o consumo de mercadorias e dependem da
injeção de créditos para o consumo e a casa própria, esse mo­
delo não é aceitável ou o é apenas em parte. Somente os que
possuem duas fontes de renda poderiam enxergar nele algum
atrativo, em geral, para agravo das mulheres, que à força da
jornada parcial de trabalho num contexto determinado pela
pura economia de mercado vêem-se ainda mais restritas a “fi­
lhos, fogão e fé” . Os operários da Volkswagen, por sua vez,
utilizaram fartamente seu tempo conquistado no comércio ile­
gal, o que despertou queixas das câmaras de comércio na re­
gião de Wolfsburg. Com a absoluta ausência de alternativa ao
sistema e o total apego ao mercado e ao trabalho assalariado,
à idéia de redução da jornada de trabalho sem compensação
salarial resta pouco mais do que um tranqüilo sepultamento.
O que designará então esse nome não será mais um projeto
sociopolítico, mas apenas o reduzido encargo corriqueiro em
condições ruins de trabalho.
É significativo que o Acordo Trabalhista, no propósito de
substituir a redução da jornada de trabalho como perspectiva
sociopolítica, tenha elegido, além da promessa de comedimen­
to nas futuras negociações salariais, sobretudo a aceitação de
“salários de ingresso” abaixo do piso para pessoas que há muito
se acham desempregadas e a redução dos benefícios sociais.
Isso representa sob muitos aspectos o rompimento de um di­
que. Para os desempregados, equivale a uma insolente imper­
tinência: salário parcial em contrapartida à jornada integral
de trabalho. Em vez do maior tempo disponível, que ao menos
potencialmente poderia ser utilizado para alternativas econô­
micas, sociais e culturais, ao trabalho assalariado e para uma

320
OS ÚLTIMOS COMBATES

crítica da economia de mercado, o “ingresso” no apartheid


social e na escravidão econômica dos baixos salários, a fim de
“obter licença” para se esfalfar até a última gota por objetivos
imbecis ou que são uma ameaça à comunidade. Não admira
que a imprensa econômica neoliberal tenha louvado esse “pas­
so adiante” na ocasião em que o Acordo Trabalhista recebeu
a bênção do chanceler Kohl:
N ão se pode esperar dos sindicatos que estejam à testa do m o­
vimento por salários de ingresso mais baixos e pela redução dos
benefícios sociais ou dos adicionais por horas extras. Com seu
“ sim ” firm ado no docum ento do Acordo, eles se mostram dis­
postos a aceitar tais intervenções sem greves, demonstrações de
m assa ou a habitual gritaria. Só por isso, a assessoria do chanceler
deu uma valiosa contribuição à paz social nesse país (Handels-
blatt, 25/01/96).

A crítica vinda das próprias fileiras e dos sindicatos meno­


res deve claramente ser sufocada no famigerado estilo adminis­
trativo; em sua rígida estrutura burocrática, com funcionários
do alto escalão investidos de facto nos cargos por ordens de
cima, os sindicatos desconhecem um processo verdadeiramen­
te aberto de formar a opinião. A cúpula sindical dos metalúr­
gicos, que cerca Zwickel e Riester, conta nesse sentido com o
poderoso respaldo do já tradicional Sindicato “de direita” dos
Químicos, o primeiro a se converter num cartel social de em­
pregados de elite orientados pelo mercado global:
O presidente do Sindicato dos Químicos, Hubertus Schmoldt,
advertiu para o perigo de se arruinar, à força das discussões
internas, a proposta de acordo trabalhista do Sindicato dos M e­
talúrgicos. Em entrevista ao Handelsblatt, ele dirigiu duras crí­
ticas às declarações céticas de círculos sindicais nos últimos dias.
[...] Segundo Schmoldt, agora não seria hora dos cuidadosos,
daqueles que não estão dispostos a colocar em questão os pontos
de vista tradicionais dos sindicatos, com o, por exem plo, o de
que a redução salarial não gera empregos [!]. [...] Todos os que,
na frente de discussões, erguem obstáculos que não poderão
mais tarde ser desarm ados sem uma perda de autoridade, arris-

321
OS ÚLTIMOS COMBATES

cam reproduzir na Alemanha os episodios franceses [!]. [...]


Schmoldt considera totalmente incompreensível a recusa de sa­
lários escalonados abaixo do piso por parte do Sindicato dos
Bancários. M esm o que um semelhante acordo não tenha causa­
do uma reestruturação de vulto no setor químico, semelhante
instrumento já foi utilizado, com o afirma Schmoldt, que se diz
feliz com cada um dos desem pregados que podem assim [!] ser
integrados ao m ercado de trabalho (Handelsblatt, 22/12/95).

O que de fato está por trás do Acordo Trabalhista de Zwic-


kel é posto aqui a descoberto, a saber, nada menos do que uma
guinada sindical francamente absurda rumo ao neoliberalismo
de mercado. Sob o ponto de vista político-econômico, trata-se
da guinada do keynesianismo para o monetarismo, da política
de demanda (déficit spending, fortalecimento do poder de
compra das massas) para a política de oferta (redução dos
custos, incentivos às exportações em detrimento do poder de
compra interno). Esse é o estágio final da eliminação radical
de qualquer atitude crítica ao sistema: se o antigo movimento
trabalhista ainda ostentava tanto idéias tingidas pelo socialis­
mo de Estado quanto momentos de transcendência utópica,
após a II Guerra Mundial, tal postura já se reduziu nos países
do Ocidente ao keynesianismo, que representava, por assim
dizer, uma versão “ fraca” do intervencionismo social de Estado
compatível com o capitalismo ocidental. A par disso, deu-se a
guinada “ político-científica” de uma teoria calcada em Marx
para um rasteiro positivismo à la Popper na social-democracia
e nos sindicatos (de modo mais inequívoco e abrangente na
Alemanha que no resto da Europa Ocidental). Agora, os alpi­
nistas pendurados na mesma corda que Zwickel, em conjunto
com os “modernizadores” do SPD, estão prestes a lançar por
terra o keynesianismo e dar assim o último passo rumo à acei­
tação total da pura economia de mercado.
O significado disso torna-se explícito em face da disputa
na França. A iniciativa de Zwickel é próxima à posição de
Alain Touraine, com a diferença de que não se trata de mera
declaração publicista de intelectuais, mas de uma guinada ins­
titucional. A posição de Bourdieu, ao contrário, pode ser en-

322
OS ÚLTIMOS COMBATES

tendida como fiel ao keynesianismo. O mesmo vale para a


invocação do contexto económico nacional, pois já Keynes
tinha plena consciência de que sua teoria da regulação e inter­
venção estatais só era possível num contexto econômico res­
trito às nações, razão pela qual chegou até a advertir contra
uma expansão violenta do mercado mundial. Keynesianismo,
economia nacional e nacionalismo social, compõem um todo
lógico. Não resta dúvida também de que o implícito keynesia­
nismo nacionalista da corrente de Bourdieu já não constitui
um keynesianismo reformista “ para todos”, mas tão-somente
um keynesianismo em defesa do status quo e da limitação dos
danos sociais para a nação, o qual não dispõe mais da pers­
pectiva de mudança e não pode mais integrar os já excluídos.
A transição dos sindicatos para uma política neoliberal de
oferta significa, no entanto, muito mais do que a mera aceita­
ção ideológica da economia de mercado: encerra a aceitação
de que toda reprodução social incapaz de se provar “regular”
e economicamente rentável sob as novas condições da globa­
lização tem simplesmente de desaparecer. Embora a expressão
“ acordo trabalhista” possua, sobretudo na Alemanha, fortes
ecos nacionalistas (evoca quase forçosamente a “ frente de tra­
balho” e a “comunidade popular” nacional-socialistas, da mes­
ma forma, aliás, que o apelo francês de Touraine tem bases
nacionalistas), o abandono nela contido do keynesianismo e
da política de demanda anuncia implicitamente o fim do fun­
damento comercial do nacionalismo social contemporâneo.
O novo nacionalismo social, de base monetarista e calcado
na política de oferta, não é mais, sob o signo da globalização
capitalista, um verdadeiro nacionalismo, ou é antes um nacio­
nalismo de segunda classe. Não apenas os países perdedores
“ externos”, mas também as massas de perdedores sociais “in­
ternos”, devem ser rebaixados ao nível de uma realidade sa­
larial miserável na economia de mercado. A inflexão rumo à
ideologia da exportação e redução dos custos equivale ao de­
sejo de pôr em marcha um vagão de primeira classe, reservado
à minoria dos empregados de elite, aptos à concorrência global
na pura economia de mercado, e, atrelados a ele, vagões de

323
OS ÚLTIMOS COMBATES

carga com trabalhos forçados e salário de fome para os per­


dedores. Com insolência neoliberal à altura, os adeptos de
Zwickel apressam-se a impingir tal perspectiva aterradora
como “garantia de emprego” e “integração dos desempregados
no mercado de trabalho”, ao passo que a simples menção de
lutas sociais, mesmo que no limitado sentido keynesiano, é
denunciada como o suposto fantasma dos “episódios france­
ses” .
O que então ainda resta para os dejetos sociais do material
humano não mais aproveitável pelo capitalismo nos é narrado,
com o discreto charme do técnico social ultramoderno, por
Klaus Lang, consultor pessoal de Zwickel, ao exercitar-se em
contorções sociodiplomáticas num balanço sobre o Acordo
Trabalhista:
... a program ada redução da base de cálculo para o auxílio-de-
sem prego individual foi diminuída de 5% para 3% . O projeto
do governo, que previa um a redução de 5% , fora decidido muito
antes da iniciativa do Acordo. Sem tal iniciativa, de onde mais
partiria a pressão pública para que a coalizão governamental
recuasse em seu propósito? [!] Se não é certamente um sucesso
arrebatador, já é, porém, um pequeno passo (Frankfurter Runds­
chau, 14/02196).

Semelhante escárnio à capacidade sindical de combate, que


adota como medida de “sucesso” o grau de diminuição dos
benefícios para os mais pobres, é incomum até mesmo na his­
tória social alemã. Os desempregados acabarão por dar-se con­
ta de que as instituições de caridade ainda os amparam melhor
do que os sindicatos.
Que a “integração ao mercado de trabalho” (não importa
a que preço) transfigure-se em objetivo supremo, como se as
pessoas fossem incapazes de desejar algo melhor, é obviamente
uma especulação com a consciência das massas, que se acha
hoje em petição de miséria. Certamente é também uma reação
à efetiva obsolescência do keynesianismo, pois a política do
deficit spending de fato malogrou, e suas gratificações jamais
passaram de um bônus nacionalista de alguns poucos países

324
OS ÚLTIMOS COMBATES

da metrópole capitalista. Nesse sentido, uma posição, como a


de Bourdieu, também é insustentável, já que se volta “contre
la destruction d ’une civilisation” mas tem em vista somente a
civilização keynesiana do “capitalismo social” do pós-guerra.
Tal civilização keynesiana do Estado do bem-estar social e do
“serviço público” chega ao fim em todas as suas cidadelas, na
França e na Alemanha, bem como na Suécia. Isso indica apenas,
contudo, que as possibilidades de uma política social aceitável
no interior do sistema de mercado estão inteiramente esgota­
das. M as é justamente isso que os sindicatos, com sua inespe­
rada investida, brandindo uma política de oferta e redução de
custos, não querem admitir.
A iniciativa de Zwickel excede assim o próprio desarma­
mento programático dos sindicatos - uma proposta que só
deve ser coroada no outono de 1996, por ocasião do congresso
da Liga Alemã dos Sindicatos (Deutscher Gewerkschaftsbund)
em Dresden, com um keynesianismo reduzido ao mínimo do
pudor, que “ recusa a formulação de projetos alternativos fe­
chados em si mesmos” (no dizer de Meyer, presidente da Liga,
morto precocemente em 1994, em sua réplica ao programa
de diretrizes da Liga no ano de 1981). No Acordo Trabalhista
não se descobre sequer o menor vestígio de um keynesianismo
pudico. Ora em diante, a Liga dos Sindicatos pode poupar-se
um programa e um congresso (uma contribuição para a redu­
ção de custos?).
Questão inteiramente diversa, no entanto, é saber se terão
futuro os sonhos de florescimento capitalista que os “moder-
nizadores” nutrem por um sindicato com legitimação social
drasticamente reduzida, e se o “ desconto Zwickel” (na gíria
sindical) permitirá efetivamente o ingresso num cartel mino­
ritário da globalização. A bem da verdade, uma política sindical
neoliberal é uma contradição em termos. Enveredar por uma
linha de redução de custos baseada na política de oferta sig­
nifica a definitiva abdicação dos sindicatos, ou seja, a perda
de legitimidade, com o abandono de toda crítica do sistema,
é confirmada agora em grande escala sob o aspecto prático.
O programa suicida de Zwickel não protege sequer os empre-

325
OS ÚLTIMOS COMBATES

g ad o s de elite, e, além d isso , co n d u z a u m a re d u çã o g en e rali­


z a d a d o nivel so cial e salarial. D e fa to , é ilu so rio su p o r que o
a b a n d o n o d o s p iso s sala riais e d as co n d iç õ e s de tra b alh o re ­
g u lam e n ta d as p o d e restrin gir-se a u m seg m en to so cial. A a c e i­
ta çã o de sa lá rio s de in g resso a b a ix o d o p iso é o in ício d o fim
d o s sa lá rio s m ín im o s em geral.
N o p ró p rio m icro co sm o em presarial com prova-se em exem ­
p lo s co n c re to s q u e o A co rd o T rab alh ista re p o u sa desd e o início
no m a so q u ism o so cial d o s e m p re g a d o s de elite:

Um aco rd o trab alh ista p ró p rio é p raticad o hoje p ela M ercedes-


Benz em con jun to com o conselho adm inistrativo, na n ova linha
de m on tagem de B ad C ann statt. A fábrica do futuro, o rçad a em
8 0 0 m ilhões de m arcos, trabalha com a m ais alta tecn ologia 24
h oras p o r dia, e, se p reciso, tam bém ao s sáb ad os. Em setem bro,
d ata do início da p ro d u ção , os 9 0 0 o p erário s m ostram -se dis­
p o sto s a sacrificar até m esm o a ch am ad a p au sa de Steinkühler,
de 5 m inutos a cad a h ora de trabalho. A lém disso, eles se sub­
m etem a um n o vo sistem a salarial e trabalh am em gru p os, se­
gun d o p ad rõ es ex ato s de qualidade e p rod u tiv id ad e (D ie Woche,
12/01/96).

O s v o c á b u lo s ce n trais d o s n o v o s e m p re g a d o s de elite n ão
são “ c o n fo r to ” e “ sa lá rio a lto ” , m as “ s a c rifíc io ” e “ su b m issã o ” ,
“ alta p r o d u tiv id a d e ” q u e b eira o s lim ites físico s e p síq u ico s,
ativ id ad e in d iv id u al ou em g ru p o , sem c o n sid e ra ç ã o p a ra com
o s m ais fra co s. O “ p riv ilé g io ” d o tra b a lh a d o r in d iv id u alizad o ,
a p to à “ o lim p ía d a ” d a a lta p ro d u tiv id a d e em v e lo cid ad e re ­
co rd e, co n sistirá em ser in clem en tem en te e sfa lfa d o , p a ra a o s
4 0 e star n o p o n to p a ra a p siq u ia tria ou o n ecro té rio . O s sin ­
d ic ato s são p a ra ta n to a b so lu tam e n te su p é rflu o s.
A p a rte os p a d rõ e s so ciais e o d ire ito de e x istên cia d o s
sin d icato s, a q u e stã o é se a p o lítica de o fe rta e a re d u çã o d o s
cu sto s so ciais, em g era l, p o d e m su b sistir c o m o p ro je to de sa l­
v a çã o p a ra o siste m a (p ersig n ai-v o s co letiv am en te p e la re d e n ­
ção d a e c o n o m ia de m e rc ad o ). U m a p a ssa g e m d a te o ria da
crise de M a r x , r e to m a d a p o r R o sa L u x e m b u rg o , se re feria ao
su b c o n su m o e stru tu ral d as m assas c o m o fa to r de crise d o pró-

326
OS ÚLTIMOS COMBATES

p rio ca p ital. P rin cip alm en te d e sd e a era fo rd ista de um c a p i­


ta lism o ab ra n g e n te , v o lta d o à p ro d u ç ã o em m a ssa altam en te
o rg a n iz a d a , o p o d e r de c o m p ra d as m assas é co n d itio sin e q u a
non p a r a u m a b e m -su ce d id a ac u m u la ç ã o d o cap ital. S e o p o d er
de co m p ra das m assas é radicalm en te p ulverizado pelo desem ­
preg o em m assa, p ela red u ção d os benefícios sociais e pela re­
tra ç ã o d o s serv iço s p ú b lic o s o u d o s in v estim e n to s estatais,
e n tão o q u e se p õ e em x e q u e n ã o é so m en te a re p ro d u ç ã o
so cial, m as tam b é m a c a p a c id a d e de e x istên cia e fu n c io n a m en ­
to e c o n ô m ic o d o p r ó p r io c a p italism o . M e d ia n te a g lo b a liza çã o
e c o n ó m ic o -e m p re sa ria l, tal p ro b le m a n ão é su p e ra d o , m as s o ­
m ente g lo b a liz a d o ele p ró p rio : n esse p la n o , ele re to rn a rá sobre
o ca p ital c o m fú ria re d o b ra d a . E is p o r qu e, já a m éd io p razo ,
o n e o lib e ra lism o m o n e ta rista é u m p ro g ra m a su ic id a d o m o d o
de p r o d u ç ã o ca p italista.
Ju sta m e n te , este p ro b le m a co m p u n h a o cern e d a te o ria de
K eyn es e o p a n o de fu n d o p a r a a p o lític a de d e m a n d a d o déficit
sp en d in g (o rig in a lm e n te so b o in flu x o d a crise e co n ô m ica
m u n d ial d e 1 9 2 9 -3 3 ). A te o ria k ey n esian a certam en te p a d ec ia
de in su ficiê n cias, p o is n ão e ra u m a te o ria d a crise d o m o d o de
p ro d u ç ã o c a p italista , m as, so b re tu d o , u m a m era te o ria su p e r­
ficial, co m v istas à sa lv a ç ã o d o sistem a. O m esm o vale p a ra o
k e y n e sian ism o de e sq u e rd a co m a lg u m as in cu rsõ es p u d o ro sa s
em M a r x , re p re se n ta d o na A le m an h a O cid en tal p e lo g ru p o
M e m o rá n d u m , de p r o fe sso r e s de e sq u e rd a, q u e d u ran te m u ito
te m p o e n c o n tro u a c e sso n a a rg u m e n ta ç ã o sin d ical. O escasso
p o d e r de c o m p ra d as m assas é c o n sid e ra d o a q u i, no m ais b elo
p o sitiv ism o , u m fe n ô m en o iso la d o a o alcan ce d a “ re gu lação
p o lític a ” e d a in terv en ção e statal. E m ú ltim a in stân cia, apela-se
p a ra q u e o ca p ital ten h a c o m p a ix ã o p a ra co m ele p ró p r io e
re co n h eç a o fo rta le cim e n to d o p o d e r de c o m p ra d as m assas
co m o u m a n ecessid ad e “ p o lític a ” d o sistem a.
E m M a r x , ao c o n trá rio , o e sca sso p o d e r de c o m p ra das
m assas n ã o é a n a lisa d o c o m o u m fe n ô m en o de crise iso la d o ,
regu lável p e lo E sta d o o u p e la p o lític a salarial, m as co m o u m a
lim ita çã o in tern a, e stru tu ral e o b je tiv a das re la çõ e s cap italistas.
N ã o se tra ta ta m p o u c o de u m m ero lim ite e x te rn o à “ re aliz a ­

327
OS ÚLTIMOS COMBATES

ção” da mais-valia produzida no mercado (como se lê em Rosa


Luxemburgo), mas de uma produção escassa da própria mais-
valia suficiente, que, por sua vez, se acha na base do fenómeno
superficial de um poder de compra carente das massas. A for­
ma-fetiche “valor”, adotada positivamente tanto pela teoria
econômica quanto pelo movimento trabalhista, não tem nada
a ver com a quantidade material de bens produzidos, mas ape­
nas com o volume quantitativo de trabalho abstrato nela in­
corporado, em relação ao respectivo padrão de rentabilidade.
O capital, por meio do aumento da produtividade mediado
pela concorrência, tende a produzir um número cada vez maior
de produtos materiais com cada vez menos trabalho, mas seu
verdadeiro objetivo é o acúmulo da quantidade de trabalho
encarnada no dinheiro. Ocorre, portanto, que, com uma pro­
dutividade “muito elevada” (da perspectiva da valorização), o
capital já acumulado não pode mais ser reinvestido de modo
suficientemente rentável (“superacumulação”). A queda do
poder de compra das massas e das receitas estatais indica assim
apenas a queda da produção real do valor e em si mesma não
está de modo algum ao alcance de uma regulação “política” e
externa; demarca, antes, as fronteiras do próprio sistema. Su­
peracumulação e subconsumo são duas faces da mesma moeda.
A teoria da crise de superacumulação já fora exposta com
acerto no interior do marxismo dos movimentos trabalhistas
(a exemplo de Paul Mattick) contra os keynesianos de esquerda
e sua argumentação isolada e simplificada do subconsumo.
Condicionado pela época, Mattick, sem dúvida, deixou em
aberto a questão de um limite histórico absoluto da acumula­
ção, da mesma maneira que formulou (também condicionado
pela época) a questão da superação do sistema ainda nos an­
tigos termos sociológicos da luta de classes. No passado, de
fato, o limite do sistema que se manifestava nas crises podia
sempre ser estendido, na medida em que novos campos de
valorização do trabalho abstrato eram abertos em níveis sem­
pre superiores - o que ocorreu pela última vez, como se sabe,
no boom do milagre econômico após a II Guerra Mundial. A
ilusão keynesiana pôde sustentar-se não porque o keynesianis-

328
OS ÚLTIMOS COMBATES

mo funcionasse, mas porque a acumulação de capital rendia


por si mesma uma produção real de valor suficiente para poder
cevar o déficit spending9. Desde que, com o final do fordismo
e com a revolução microeletrônica, a crise da produção real
do valor retornou em nova escala e a superacumulação do
capital deixou de ser meramente cíclica para tornar-se estru­
tural, evidenciou-se, ao mesmo tempo, a insustentabilidade de
um programa de socorro externo e “político” do poder de
compra social. É justamente aqui que reside o fracasso do key-
nesianismo nos países da metrópole capitalista.
O retorno à política de oferta, porém, só faz acelerar e
agravar a crise. Ao que tudo indica, foram atingidas as fron­
teiras históricas do modo de produção capitalista -fronteiras
estas que não podem mais ser estendidas. Por temor à morte,
os sindicatos à la Zwickel preferiram abertamente cometer
suicídio ao lado do capitalismo a oferecer resistencia social e
desenvolver uma alternativa inovadora ao sistema. A política
da “adaptação radical” é ingênua, porque o que está em jogo,
na verdade, é a adaptação ao colapso do sistema de trabalho
assalariado. Este colapso será confirmado mesmo se as insti­
tuições sociais não o quiserem admitir. Como é evidente, só
as forças da barbárie, do terror e da loucura serão capazes de
executar sobre si mesmas, no decorrer da crise, o veredicto do
sistema.
Pode haver um a práxis de crítica radical da sociedade para além da
antiga luta de classes?

O perigo deste rumo talvez seja visto por parte dos sindi­
catos da mesma maneira que o é pelo resto da esquerda desmo­
ralizada. Mas tal perigo é retratado hoje somente nas categorias
da antiga crítica do sistema, que se tornou obsoleta, cuja versão
“forte” foi o socialismo estatal voltado para a modernização de
recuperação, e a versão “fraca”, o keynesianismo ocidental de
esquerda com certas plumas marxistas. Estamos às voltas com

9 Cf. Kurz, Robert. “ Der Himmelfahrt des Geldes” . Krisis, nr 16/17, 1995.

329
OS ÚLTIMOS COMBATES

a espantosa incapacidade da antiga crítica do sistema de trans­


cender a si mesma e de reconhecer sua própria parcela de
participação no mundo burguês da modernidade em colapso.
A percepção de que o “burguês” se esconde na própria forma-
mercadoria totalizada e não pode ser restrito a uma classe
social é recusada enfaticamente como antes. Seja nos sindicatos
ou no espectro do que restou das esquerdas políticas, a crítica
cada vez mais tênue do neoliberalismo e da política de adap­
tação a ele, praticada pelos sindicatos, pela social-democracia
e pelo Partido Verde, é formulada com inconsolável perplexi­
dade conceituai a partir da premissa da antiga “luta de classes”,
cujas implicações históricas permanecem no fundo nebulosas.
A célebre diferenciação interna do Partido Verde em “rea-
los” (modernizadores capitalistas) e “fundis” (marxistas da ida­
de da pedra, consagrados à antiga luta de classes) repete-se em
várias constelações também nos sindicatos e partidos social-
democratas e (ex-)comunistas - e não apenas na Alemanha,
mas também na França, Itália e demais países. N o Sindicato
dos Metalúrgicos existe ainda .a ala tradicionalista, com remi­
niscências do antigo movimento trabalhista (e voltada contra
a excessiva “conciliação de classes”), a qual, porém, desde a
época do presidente Steinkühler, forçado à renúncia por mo­
tivos de corrupção, está esgotada e fadada à insignificância. O
mesmo se passa com a chamada facção Stamokap (“capitalismo
monopolista de Estado”) do SPD (sobretudo entre jovens so­
cialistas). No PDS10, é a pequena Plataforma Comunista que
busca conter o curso de adaptação capitalista da cúpula par­
tidária com lemas embolorados da Alemanha Oriental (existe
ainda, se me permitem este conceito da história dos partidos
trabalhistas, uma espécie de grupo “centrista” que se designa
Fórum Marxista). N a França, na Itália, na Espanha, em Por­
tugal, etc., os produtos da cisão do velho marxismo e da antiga
luta de classes - consoante ao desenvolvimento da Europa

10 Partei des Demokratischen Sozialismus (Partido Socialista Alemão) (N. T.).

330
OS ÚLTIMOS COMBATES

Ocidental na história do pós-guerra - foram maiores do que


na Alemanha, embora, da mesma forma, no papel de uma
retaguarda tradicionalista. O próprio PT, partido de esquerda
brasileiro, foi vítima de um correspondente fracionamento, e
também nele o antigo marxismo levou a pior.
N ão admira, portanto, que o Dezembro parisiense não
tenha sido analisado criticamente pela esquerda naufragante
da antiga luta de classes, sendo as boas-novas utilizadas como
mera tábua de salvação. Esperava-se a continuação do mesmo
e do imutável nos acontecimentos franceses. Esse desabrochar
outonal da luta de classes teria que ser visto como prova de
uma suposta potência inovadora ou ao menos imaginado como
uma vetusta lembrança da antiga força de ação, para que pu­
desse safar-se da confirmação de uma ruptura de época e da
inevitável mudança de paradigma da crítica radical à socieda­
de. Ao tempo do Dezembro parisiense, nada melhor acorreu
à mente dos velhos mandarins do radicalismo de esquerda,
devotados à luta de classes, senão a cristalina auto-afirmação:
N estas jornadas de dezembro, em Paris, fica claro que com os
ideólogos do capital, os quais anunciaram solenemente o fim da
luta de classes, ocorre o m esmo que com a Igreja Católica e sua
tentativa de abolir o impulso sexual. Em que pese a doutrina
social religiosa, em que pese uma juventude outrora exaltada no
M aio em Paris, a qual era elitista, apesar da boa vontade para
com a justiça e a igualdade, em que pesem todos os revisionistas:
a contradição entre capital e trabalho, entre produção social e
apropriação privada, sempre vem à to n a."

Certo, chega a ser comovente. Todavia, aqui se confunde


algo que na época do movimento trabalhista era inevitável e
até progressista confundir, mas que hoje se tornou repreensí­
vel. Refiro-me à relação da luta de classes - que de maneira
indubitável “sempre vem à tona”, e cujo crescente enfraque­
cimento, por ocasião das crescentes crises sociais, carece, de
forma igualmente indubitável, de explicação - com o problema

11 Gremliza, Hermann L. Konkret, rr 1, 1996.

331
OS ÚLTIMOS COMBATES

da alternativa ao sistema. Para o velho marxismo, seus man­


darins e sequazes, a “luta de classes” era e é o conceito central
de crítica da sociedade e transcendência ao sistema. Eis por
que esses infatigáveis vêem rebrilhar em toda a crítica da luta
de classes a opção da doutrina social católica, a conciliação de
classes pequeno-burguesa, a renúncia à crítica radical da so­
ciedade, etc. O fato e a razão de todo esse aparato conceituai
soar hoje tão velho quanto o diabo não são postos em dúvida,
embora este problema não seja obviamente de pura natureza
conjuntural e condicionado pelos tempos.
Para o velho e obstinado radicalismo de esquerda, é sim­
plesmente incompreensível que a luta de classes, segundo seu
conceito, seja obrigada a permanecer em sua capa formal bur­
guesa, e que, justamente por isso, possa haver uma crítica
emancipatória do próprio paradigma da luta de classes, crítica
que não é de forma alguma burguesa e “conciliatória” . Trata-se
aqui de um problema que, à diferença de antes, não pode mais
ser ignorado no atual nível de desenvolvimento capitalista e
que “sempre vem à tona” da mesma maneira que a própria
luta de classes, embora simultaneamente lhe empane cada vez
mais o brilho. O capitalismo, como se sabe - por meio do
feedback cibernético do “valor” ou de sua forma de manifes­
tação, o dinheiro, como “valorização do valor” é uma so­
ciedade da forma-mercadoria totalizada. O antigo marxismo
e o velho radicalismo de esquerda concentraram-se inteira­
mente no antagonismo dos sujeitos funcionais dentro desta
forma-fetiche. A “contradição” entre “ produção social e apro­
priação privada” foi retratada, portanto, como vimos em
Gremliza, ante o pano de fundo do antagonismo entre “capital
e trabalho” no sentido de classes sociais: a “produção social”
aparecia análoga à “classe trabalhadora”, e a “apropriação pri­
vada”, à “classe capitalista” .
Mas, com isso, a relação social de fetiche é equivocada­
mente simplificada de modo sociologista, pois também a “for­
ça de trabalho” é uma mercadoria em cujo conceito está
contido o “aspecto privado”. Isso nada mais significa que tam­
bém a “classe trabalhadora”, na forma do salário monetário,

332
OS ÚLTIMOS COMBATES

“apropria de maneira privada” . O velho e limitado marxismo


indigna-se com semelhante declaração e, como num reflexo,
logo retruca que uns apropriam somente os custos de repro­
dução de suas vidas e outros, porém, a “plenitude da riqueza” .
Já no puro plano da imanência, essa forma de consideração é
equívoca, pois em primeiro lugar “o capital” (isto é, urna das
partes dos sujeitos funcionais, na conceituação simplificada)
não apropria de maneira subjetiva ou pessoal a massa da ri­
queza abstrata, mas, sobretudo, executa e organiza sua constante
reconversão na absurda finalidade em si mesma da “valoriza­
ção do valor” . E, em segundo lugar, o próprio aspecto material
da riqueza privada dos “bem-remunerados” e dos “milioná­
rios” porta o signo desse fim em si mesmo capitalista e sem
sujeito. Essa riqueza dos ricos assume cada vez mais os traços
(com a crescente progressão do capital) do desatino e da au­
todestruição, de sorte a não poder mais ser aceita, do modo
em que se apresenta, como objetivo emancipatório digno de
universalização.
Involuntariamente, a forma com que o antigo marxismo
considera a “apropriação privada” revela sobretudo que ele
conhece apenas a diferença quantitativa no interior da forma-
mercadoria, embora tateie às cegas na completa escuridão
quanto ao verdadeiro aspecto do caráter privado. Quando não
se trata mais apenas da diferença quantitativa da massa apro­
priada, mas da qualidade formal da apropriação, logo fica claro
que a contradição capitalista fundamental entre produção so­
cial e apropriação privada não é idêntica à contradição de
classes dos sujeitos funcionais no seio da forma-mercadoria.
Antes, é a contradição entre o conteúdo social da produção
material e a forma privada dos sujeitos sociais ou de seus modos
de apropriação como um todo (com inclusão da “classe tra­
balhadora”) que caracteriza a relação do capital. Assim, a luta
de classes só pode ser o movimento formal imanente da relação
do capital, mas não o movimento para superar a relação capi­
talista.
M arx foi capaz de unir, em curto-circuito, esses dois planos
do movimento de emancipação social (embora isso permane-

333
OS ÚLTIMOS COMBATES

cesse desde o inicio conceitualmente confuso), porque a eman­


cipação relativa no interior da forma-mercadoria e do trabalho
assalariado ainda dispunha de um horizonte histórico à sua
frente. Agora, a relação capitalista encontra-se completamente
desenvolvida até suas fronteiras extremas, e, por isso, estamos
às voltas com a crise do sistema referencial comum a “capital
e trabalho” . Apenas quando isso for compreendido, ficará cla­
ro por que a nova crise sócio-econômica coincide com a pa­
ralisia da antiga luta de classes. Não se trata, portanto, da
“conciliação pequeno-burguesa de classes” no interior e sobre
o solo da forma-mercadoria total e universal, mas da crítica e
superação dessa própria forma-fetiche universal e historica­
mente social. De fato, agora tornou-se inevitavelmente evi­
dente que todas as manifestações da degradação social, da
pobreza e da repressão, têm sua origem primária nessa forma
da relação dinheiro-mercadoria como tal, e não na mera sub­
jetividade de seus próprios e limitados portadores funcionais.
Quando passamos em revista, à luz dessa percepção, o
desenvolvimento dos movimentos sociais (inclusive dos sindi­
catos) desde o Maio parisiense de 68, a crescente fraqueza dos
últimos e penúltimos combates da luta de classes e o ocaso da
(antiga) consciência crítica, revelam-se como indícios da pro­
ximidade dos limites históricos do sistema. O programa igno­
rado, malcompreendido ou visto como apenas cultural dos
situacionistas contra o fetichismo da mercadoria - programa
este formulado ainda nos termos da luta de classes, embora
seu conteúdo já a ultrapassasse - pode ser visto como uma
dobradiça histórica. Hoje não é possível tomá-lo diretamente
como ponto de partida, mas trata-se antes de alcançar, com
inclusão de uma crítica e avaliação histórica dessa teoria ou-
trora radical, uma nova crítica formal que vise transformar a
modernidade produtora de mercadorias. Enquanto o conceito
de luta de classes continuar se arrastando, a orientação estatal
- equívoco básico de todo antigo “socialismo” - manterá seu
posto nas facções derrotadas e incapazes de aprender dos sin­
dicatos, da social-democracia, dos comunistas e do Partido
Verde; e mesmo nas cabeças de Gremliza, Trampert/Ebermann,

334
OS ÚLTIMOS COMBATES

etc., numa inspeção mais minuciosa, nada se encontrará de


diverso. N os modelos históricos, ou seja, nos antigos (ou ainda
vigentes) regimes da modernização burguesa de recuperação,
tal perspectiva é a cada dia mais sombria. Segundo Iuri Mas-
liukov, presidente da duma russa para questões econômicas e
funcionário do PC, “o Estado pode conduzir de forma abso­
lutamente eficaz as empresas” : “o Partido Comunista da Rússia
exige mudanças na política de privatização, a defesa mais se­
vera do mercado interno e o controle estatal dos recursos do
país” (H a n d e ls b la tt , 15/03/96).
As antiqüíssimas receitas mercantilistas da pré-história da
economia de mercado são mais uma vez requentadas, mas ago­
ra no contexto de uma orientação francamente capitalista e
de seu embasamento nacionalista depurado de toda fraseologia
crítica do mercado. N o governo popular da China, o socialis­
mo de Estado voltado à modernização de recuperação já se
converteu num regime bárbaro que conjuga uma sangrenta e
generalizada administração penitenciária a um mercado radi­
calmente neoliberal, e que com malícia se denomina “socia­
lista” . Cuba, país da predileção revolucionária caribenha do
antigo radicalismo de esquerda, deseja igualmente seguir estes
mesmos passos, segundo as palavras do ministro da Economia
José Rodríguez: “Interessam-nos a eficiência e mais eficiência.
[...] Temos consciência, é claro, do fim do sistema socialista
no Leste Europeu, mas também da crise na América Latina.
Buscamos encontrar um meio caminho, mais ou menos como
a China” (Wirtschaftswoche, 11/96).
Alguns poucos radicais de esquerda ocidentais insistem em
seu revolucionarismo cubano e em sua irrefletida solidariedade
a Cuba, como se nada houvesse ocorrido - o que não faz mais
senão expô-los ao ridículo. Não há dúvida de que ainda é
válido erguer-se contra o embargo dos Estados Unidos, mas
isso não tem mais nada a ver com a defesa de uma alternativa
histórica. A atitude de repúdio dos velhos radicais de esquerda
em face da exigência de pôr teoricamente em dia o caráter de
todos estes regimes, bem como sua própria orientação, e rea­
valiá-los historicamente, desacredita tudo o que ainda lhes

335
OS ÚLTIMOS COMBATES

resta de uma obscura crítica do capitalismo. O mesmo se dá


com as correntes reformistas de esquerda de proveniência mais
ou menos acadêmica (que na Alemanha Ocidental são repre­
sentadas por revistas como Prokla,Argument, links, etc.). Estas
procuram afastar-se com mais resolução da antiga “metafísica
de classes” e, sobretudo, do velho estatismo de esquerda, mas
apenas para reproduzir com uma ênfase ligeiramente diversa
a mesma sujeição à forma burguesa e suas categorias funcio­
nais.
Em vez de uma transformação crítica formal do conceito
de classe, deve haver uma “teoria de classes à altura do tem­
po” 12, desligada de toda fundamentação crítica da economia
e legitimada de maneira puramente democrático-politicista, a
fim de poder assim insistir caprichosamente na “produção po-
lítico-cultural da estrutura social” (Heinz Steinert), longe do
raio de ação da crítica radical do mercado e da forma-valor.
Quanto mais esse tipo de esquerda aparentemente reclama a
crítica da economia política, menos soluciona ele próprio essa
exigência e torna-se mais repressor e sociologista - e isto por­
que teme a crítica radical da forma do mesmo modo que o
antediluviano radicalismo estatal de esquerda. Característico
disso é o programa de investigação “Classes 96”, que resume
toda a miséria prática e teórica:
Interesses antagônicos e imposições estruturais da reprodução ca­
pitalista dominam o comércio político do dia-a-dia. Assim, a pró­
pria mensagem do fim da sociedade de classes é reconhecida como
o que sempre foi: uma generalização precipitada que permanece
na superfície dos acontecimentos. [...] Que os princípios estruturais
do capitalismo venham à luz de forma tão clara não se deve à lógica
do capital, por mais desenvolvida que seja [!]. Antes, é resultado
de uma estratégia política, a saber, o estilhaçamento neoliberal das
formas institucionais de regulação por meio das quais o compro­
misso de classes até agora foi assegurado.13

12 Links, n" 310/11, março/abril 1996.


11 lbidem.

336
OS ÚLTIMOS COMBATES

Aqui, por um lado, a teoria e a crítica da lógica básica do


capital são pejorativamente ofuscadas ou postas em segundo
plano. Por outro lado, a crise contemporânea e a degradação
social não devem brotar de um desenvolvimento histórico e
do advento de um limite histórico dessa lógica básica; antes,
graças a urna pura “estratégia política” do neoliberalismo, são
apenas os “princípios estruturais do capitalismo”, que mais
urna vez surgem claramente, de maneira a-histórica e, “como
sempre”, exteriores a todo desenvolvimento estrutural. A his­
toria capitalista não se desenrola, portanto, de maneira essen­
cialmente estrutural e sócio-econômica, mas simplesmente em
opiniões políticas, socioculturais e ideológicas cambiantes,
ante o pano de fundo de “princípios estruturais” a-históricos,
vistos como semi-ontológicos, não sendo por isto submetidos
a uma crítica radical concreta. Será que o socialismo acadêmico
e trabalhista acredita com toda a seriedade que poderia haver,
sob as condições da revolução microeletrônica e do capital
como relação mundial após a crise fordista, uma nova “forma
de regulação do compromisso de classes”, que de resto só pode
ser pensada na forma estatal e econômica de uma nação?
E certo que Joachim Hirsch, um dos protagonistas desse
meio de esquerda, formula uma espécie de programa revolu­
cionário crítico da cultura, inteiramente determinado pelo
mundo da vida, e cujo objetivo, com Walter Benjamin, é
intervir nas engrenagens dessa m aquinaria, interrompê-la, dar-
lhe fim, sustar a colaboração cotidiana - e tudo isso com reflexão
crítica. O que im porta é dar adeus à antiga idéia socialista de
um capitalism o industrial m elhor e ter consciência de que a li­
bertação não reside numa outra sociedade qualquer, nem na
m odernização (por m aior que ela seja) das relações atuais, mas
na criação de condições capazes de tornar possível a livre con­
figuração da vida social p róp ria.14

Isso parece sensato e promissor, e poderia ser o princípio


de uma discussão solidária abrangente sobre a renovação da

14 Ibidem.

337

OS ÚLTIMOS COMBATES

crítica radical da sociedade. Numa análise mais próxima, po­


rém, essa formulação programática permanece infelizmente
vazia de todo conteúdo de crítica da formação, ou a crítica da
formação refere-se simplesmente (de acordo com a chamada
teoria da regulação) à forma correspondente de “regulação
política” que porventura será substituída por uma outra, sem
que se reconheça sequer um aceno da forma-mercadoria to­
talizada como tema.
Desse modo, também Hirsch sucumbe à inevitável alter­
nativa entre Cila e Caribdes, entre mercado e Estado. No sistema
moderno de produção de mercadorias, a forma repressiva do
Estado só pode ser contraposta à liberdade do mercado, a qual,
entretanto, é apenas a liberdade do dinheiro e nunca a “livre
configuração da vida social própria” . O conceito cínico de
liberdade do liberalismo aconselha aos indivíduos tornar-se
autônomos como mônadas da concorrência, obter sucesso in­
dividual ou empresarial, etc. e assim arrastar-se sob o eterno
jugo do dinheiro. Uma sociedade solidária, livre de relações
contratuais de vida e de produção, é, per definitionem, impos­
sível como sociedade de produtores de mercadorias. A eman­
cipação social só pode ser liberdade com relação ao mercado.
Na medida em que Hirsch não se digna a pensar hoje nesse
núcleo de crítica da forma da emancipação social, sua crítica
da “colaboração cotidiana” permanece oca. Todos os que “ga­
nham seu dinheiro” se vêem na contingência de colaborar no
cotidiano, e tal colaboração finda exatamente onde termina o
“ganhar dinheiro” . Como não demarca esse limite, Hirsch aca­
ba na velha fórmula da “política”, impelido pelo fato de que
esta é per se uma orientação estatal, pois toda política já é por
definição um vínculo com o Estado.
Mesmo quando se admite que deva haver algo como um
período de transformação no qual um novo princípio de auto-
organização, livre da forma-mercadoria, tenha de ser conci­
liado (criticamente) com os momentos ainda existentes de
reprodução em sua forma-mercadoria, com os conflitos em
torno do dinheiro e também com a chamada política, importa,
antes de mais nada, formular este novo princípio de emanci-

338
OS ÚLTIMOS COMBATES

pação social, firmá-lo sobre os pés e explicitá-lo em suas qua­


lidades antieconómicas e antipolíticas, em vez de abandonar
a questão da crítica radical e da emancipação ao descompro-
missado plano metafórico e continuar a pensar e agir dentro
das antigas categorias reais e conceituais do mercado e da po­
lítica.
Ainda que todo verdadeiro movimento social, mesmo o
mais radical e inovador, tenha de desenvolver algo semelhante
a uma “ dialética de reforma e revolução” para superar a for-
ma-mercadoria totalizada (com um objetivo, é claro, inteira­
mente diverso, pela primeira vez exterior ao universo burgués
da modernidade), são necessários, acima de tudo, o novo objetivo
de crítica radical e um correspondente ímpeto inovador con­
flituoso, antes que se lhe possa dar o nome de reformista (se
é que tal conceito tem ainda alguma valia). Isso significa, como
imperativo categórico imprescindível do momento, a recusa
(inclusive emocional) da ilusão de éxito do capitalismo, a his­
tórica “recusa dos trabalhadores” (com inclusão da crítica de
um socialismo de resultados e quantificador do trabalho, cuja
idéia situa-se hoje abaixo do padrão das forças produtivas).
Trata-se, sobretudo (talvez historicizando criticamente tanto
os situacionistas quanto Herbert Marcuse), de desenvolver
uma cultura da recusa - quanto a isso, deve-se concordar, por
exemplo, com a formulação análoga de Joachim Hirsch, em­
bora ainda seja preciso deduzir-lhe as conseqüências críticas
da economia e da política, o que ele (até agora) não fez.
Não tardará a que o novo objetivo histórico de uma supe­
ração do “trabalho”, da forma-mercadoria, da moeda, do mer­
cado e do Estado, se choque com a surda recusa de toda
consciência dominante - nos fetichistas protestantes do traba­
lho, seja qual for sua orientação, por motivos de princípio,
bem como nos pseudopragmáticos, em virtude da suposta im­
possibilidade de realizar tal plano. Ora, precisamente porque
a luta por um “salário justo por um dia justo de trabalho” não
tem mais nenhuma perspectiva histórica de evolução, encon­
tra-se finalmente em pauta a concretização histórica do lema
inverso ao de Marx: “Abaixo o trabalho assalariado!” Em vez

339
OS ÚLTIMOS COMBATES

de contribuir com uma minguada esmola conceituai para o


miserável debate, que nos corta o coração, sobre a “geração
de empregos”, é preciso atacar pela raiz o sistema de “empre­
gos”, isto é, a transformação de “trabalho” em dinheiro.
Essa perspectiva não significa absolutamente abandonar
sem lutas o terreno das contradições imanentes de interesses
(em sua forma-mercadoria) que “sempre vêm à tona” . Dessa
contradição burguesa, determinada pela forma capitalista, não
pode mais ser desenvolvido, contudo, nenhum objetivo trans­
formador, nenhum programa de um modo de vida e de pro­
dução diversos. A luta por dinheiro, salário, assistência social,
etc. é, portanto, um modelo histórico em fim de linha, que
terá de ser incorporado como tal. Não é mais algo isolado, e
deve antes ser entendido como um momento tático e de apoio
para um objetivo e um programa totalmente diversos, ou seja,
para uma reprodução alheia à forma-mercadoria, para além
do mercado e do Estado. O irremediável declínio dos sindica­
tos nos últimos anos nos revela que o mero conflito resignado
ao sistema pode desembocar apenas na auto-renúncia, pois
não há mais objetivo nem estratégia; uma “tática” por si só,
sem uma relação estrategicamente crítica do sistema, constitui
todavia uma impossibilidade. Só na medida em que um novo
objetivo de crítica radical da sociedade estabelecer um vínculo
estratégico com o movimento social, a luta social (coadjuvante)
de interesses imanentes à forma-mercadoria poderá ganhar
nova força persuasiva.
Somente as pessoas que se impuseram um objetivo para
além do trabalho assalariado e nisso encontraram possibilida­
des de vida, podem exigir na antiga forma, inclusive com ata­
duras mais resistentes, as gratificações sociais (por exemplo,
segundo o lema: “Seu mercado mundial nos é indiferente”).
A divergência decisiva com relação à antiga luta de classes seria
que a disputa imanente, em sua forma-mercadoria, não dá
mais a forma ao objetivo de emancipação social; antes, a rup­
tura com a forma burguesa da modernidade aparece como um
dos próprios objetivos.

340
OS ÚLTIMOS COMBATES

Os atores sociais, nesse contexto, não podem mais ser “su­


jeitos de classe”, constituídos a priori e portanto presos à for-
ma-mercadoria, mas apenas um movimento de emancipação
social que se constitui a si próprio. Tal movimento não assu­
mirá mais a forma de um partido político, mas a de um sistema
coligado de iniciativas sociais em diversos planos, cujo deno­
minador comum não é apenas a crítica social do mercado e
do Estado, mas também um respectivo momento prático e
vivencial de desvinculação do mercado, do dinheiro e do Es­
tado - o que dificilmente a consciência normal contemporânea
compreende de um só golpe, já que todas as instâncias de
cooperação e reprodução social da vida (com exceção da esfera
de atividades própria às mulheres) passaram às mãos do capital
e do Estado. N ão são tanto os problemas técnicos ou econô­
micos de realização que se opõem hoje à idéia de desvinculação
dos âmbitos de vida e de reprodução, mas, antes, a forma-mer-
cadoria introjetada pelo sujeito.
Se for possível desenvolver socialmente a perspectiva de
um movimento de desvinculação do mercado e do Estado em
âmbitos parciais acessíveis da reprodução social, a própria ques­
tão da redução da jornada de trabalho ganhará nova plausibi­
lidade sobre o solo da form a-m ercadoria. M esm o sem
compensação salarial, a redução da jornada ou a jornada par­
cial de trabalho contêm um momento de gratificação (em fla­
grante diferença com o salário baixo ou o salário inferior ao
mínimo de um segundo mercado de trabalho): a saber, um
ganho de tempo disponível. Se tal gratificação surge como
absurda num sistema abrangente de dependência do dinheiro,
poderá tornar-se atraente com a construção simultânea de ele­
mentos da reprodução social alheios à forma-mercadoria. Uma
oposição sindical teria sua incumbência exatamente nesse con­
texto (conciliada a uma nova orientação prática), e não no
simples apego à antiga ideologia da luta de classes em sua
forma-mercadoria.
N a história desde 1968 (na verdade, já desde a II Guerra
Mundial), a teoria crítica da sociedade, os movimentos sociais
e a contracultura decompuseram-se cada vez mais até atingir

341
OS ÚLTIMOS COMBATES

a paralisia total, simultaneamente à crescente crise de repro­


dução da sociedade burguesa. Apenas a transformação e a refor­
mulação da sociedade para além do fetichismo da mercadoria
possibilitarão uma reintegração e uma nova força persuasiva.
Com toda certeza, essa renovação da crítica não pode ser ex­
posta diretamente à consciência das massas sindicais fixadas
na forma-mercadoria. Contudo, sob a superfície das institui­
ções dominantes (partidos, sindicatos, universidades, igrejas),
talvez ainda seja possível o desdobramento de um discurso
sobre o “impossível”. Muitos são os que têm hoje de passar
sob o fio da espada no interior do próprio aparato, de modo
que não faltarão portadores e mediadores a semelhante dis­
curso. Não precisaremos mais nos recordar com melancolia
da linha decadente dos últimos combates da antiga luta de
classes desde o M aio de Paris, se começarmos a nos preparar
para o primeiro combate de um Maio inteiramente diverso.
(Este artigo foi publicado originalmente em Krisis, nfl 18.
Erlangen: Horlemann, 1996.)

342
PARTE V
Sinal verde para o caos da crise51'
Ascensão e limites do capitalismo automobilístico

O que é um automóvel? Que pergunta mais boba: “auto­


móvel” , abreviado por auto, meio de locomoção terrestre im­
pulsionado por um motor; freqüentemente por um motor de
combustão: é a definição dada pela enciclopédia alemã Brock-
haus. Porém, definições dessa natureza são, infelizmente, mui­
to limitadas. Elas se restringem à função técnica: o homem da
economia de mercado não quer outra coisa a não ser relacio­
nar-se funcionalmente com objetos inconscientemente pressu­
postos. Todavia, o automóvel “é” obviamente mais do que um
simples “meio de locomoção terrestre” : para muitos fetichistas
do automóvel, ele é um objeto erótico, para a maioria, um
objeto de prestígio, para alguns, um vício, um cassetete para
agredir ou um pobre sucedâneo do parceiro. Está comprovado
que o carro é o poluidor número um do meio ambiente. Para
milhões, ele é, também, ao mesmo tempo, “promotor de em­
prego” . E, desde que a sociedade automobilística corre em
altas cilindradas e muita velocidade em direção à crise, o carro
é também objeto de crise e conflito por parte do interesse
público.

* Tradução de Heinz Dieter Heidemann, em colaboração com Tatiana Schor.


Difundido originalmente pelos cadernos do Laboratório de Geografia Ur­
bana do Departamento de Geografia da FFLCH , USP, ano 1, n. 1, abril de
1996.

345
OS ÚLTIMOS COMBATES

Ainda na década de 70, funcionários do sindicato da in­


dústria metalúrgica, operários e construtores de automóveis,
defendendo o modo de vida baseado na fé, na técnica, no
mercado e no dinheiro, atacaram cegamente, com grande vio­
lência, os defensores do meio ambiente e quaisquer outros
críticos. Já nessa época, demonstrou-se o caráter um tanto
obtuso do tipo de ser humano preso a esse modo de vida. Hoje
já podemos discutir com sindicalistas da indústria automobi­
lística e até com alguns executivos sobre os perigos e limites
do capitalismo automobilístico. A crise torna isso possível:
catástrofes ambientais e desemprego maciço arranham o an­
tigo esplendor do automóvel. Já se tornou quase lugar comum
dizer que “assim não dá para continuar” . O que não impede
que tudo continue. Pelo menos, poderíamos perguntar-nos
como se chegou à dependência total do automóvel.

A aniquilação do tempo de vida

A aparente economia de tempo que resulta da velocidade,


possibilitada pelos meios de transporte modernos, não foi ori­
ginalmente nenhum bem desejável. Já a locomotiva a vapor
provocara questionamentos críticos. Em 1802, o escritor Jo-
hann Gottfried Seume foi a pé da Saxônia até a Sicília e des­
creveu a viagem no seu célebre relato “Passeio até Siracusa”.
Tal lembrança talvez deixe o fetichista do automóvel impa­
ciente. Seume, porém, era explicitamente a favor de andar a
pé e contra a locomoção por rodas. Afirmava que: “tudo an­
daria melhor, se as pessoas andassem mais” . E advertia: “No
momento em que nos assentamos na carroça, ao mesmo tempo
nos afastamos alguns graus da humanidade original” . Também
na mãe-pátria do capitalismo puro e da posterior produção
em massa do automóvel, nos Estados Unidos da América, cedo
apareceu uma rejeição ao “ progresso” pela mobilidade tecno­
lógica. O professor, topógrafo e antecessor de um modo de
vida alternativa, Henry David Thoreau de Massachusetts, in­
clui a ferrovia no grupo dos “meios aperfeiçoados para um

346
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

fim não aperfeiçoado” e, como Seume, dizia: “ Cheguei à con­


clusão de que quem anda a pé anda mais rápido” .
Será que Seume e Thoreau eram simplesmente tontos? O
fetichista do automóvel tende a responder que sim, porque já
perdeu a capacidade de pensar. Todavia, Seume e Thoreau não
eram “inimigos da técnica” . Estavam preocupados com algo
diferente: desconfiavam de que a ampliação e aceleração da
mobilidade não resultaria, como diríamos hoje, em uma me­
lhora da “qualidade de vida” . Para Thoreau, os homens pre­
cisavam despender esforços enormes para fins que lhes são
alheios, só para poder “ganhar o dinheiro para o transporte” .
Referia-se à relação entre “trabalho”, dinheiro e consumo tec­
nológico que os homens do século X X interiorizaram. Para
ser mais claro: o “fim não aperfeiçoado” consiste no fato de
que as conquistas da industrialização se desenvolveram numa
forma sòcial que erigiu o dinheiro como finalidade própria de
todas as atividades. O dinheiro é, como nós sabemos, a alma
do capitalismo, e essa alma transparece também em todas as
suas criações tecnológicas.
Trata-se, portanto, de uma inversão dos meios e dos fins,
segundo a qual os homens se submetem a suas próprias cria­
ções. O fim em si da valorização microeconômica do dinheiro
não tem nenhum sentido. “Trabalho” e emprego, derivados
dela, levam, não menos sem sentido, a um fim em si do con­
sumo em massa da tecnologia. Como macacos amestrados,
capazes de divertir-se com tolices, abrindo e fechando inces­
santemente cadeados. Assim, o modo de produção da econo­
mia de mercado levou seres humanos adultos à situação de
deixar-se “empregar” como menores tutelados, sem questio­
nar o sentido, o conteúdo e as conseqüências, e para rematar,
achando isso normal e necessário para a vida. Não é de estra­
nhar que o consumo de produtos, produzidos dessa forma,
acabe por assemelhar-se aos atos de tais macacos. Pela mobi­
lidade, sem qualquer sentido, e pela aceleração permanente
de todos os processos de vida, “o ser, enquanto ganhador de
dinheiro”, faz de si seu próprio macaco.

347
OS ÚLTIMOS COMBATES

O que se perde nisso é a qualidade de vida mais importante:


a qualidade do próprio tempo de vida. Ir a pé da Saxônia até
a Sicília, como fez Seume, foi um uso extremamente luxuoso
de tempo, algo que nenhum executivo moderno poderia per­
mitir-se, mesmo ganhando milhões por ano e dirigindo o carro
mais rápido. Porém, a eliminação do fim cultural e humano,
posto para si mesmo, desonraria assustadoramente a qualidade
do tempo de vida. Não é preciso idealizar as condições pré-
modernas para compreender que “o hábito de utilizar a melhor
parte de sua vida para ganhar dinheiro” (Thoreau) somente
pode levar ã autodestruição do homem. Quanto mais tempo
aparentemente se economiza, menos tempo se possui e mais
importante torna-se, de repente, o “trabalho” pelo “trabalho” .
Esse absurdo, que hoje em dia volta a adquirir importância
especial nas discussões sobre a localização e a jornada de tra­
balho, é o outro lado da moeda, o desemprego produzido no
mesmo processo. A contradição do sistema, isto é, a irracio­
nalidade da economia de mercado, não apenas faz com que
alguns sejam considerados “ supérfluos” e, ao mesmo tempo,
exige dos outros “ mais trabalho”, mas conduz também os
próprios trabalhadores a quase se autoconsumirem numa ser­
vidão voluntária, cuja finalidade do “trabalho” é o próprio
“trabalho” .
Em se tratando do automóvel, todas essas contradições e
incongruências sociais viraram sucata, ferro velho. É um fato
histórico que somente com o advento do automóvel e sua
crescente produção em massa a moderna economia de merca­
do encontrou o seu símbolo. Encontrou também, ocupando
todos os espaços, sua força sugadora de vida e de dispêndio
de tempo, por intermédio da economia de tempo. A expressão
“matar o tempo” é uma invenção capitalista. Nela se expressa
quase todo o conteúdo da vida de todos os fetichistas do au­
tomóvel, considerando pensadores como Seume e Thoreau
como meros idiotas, mesmo que esses, na sua “ filosofia crítica
do andar”, já previssem o futuro colapso às vésperas da mo­
derna mobilidade de massa.

348
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

Por que a ferrovia foi derrotada pelo automóvel

Quando os Srs. Daimler e Ben^^promoveram a abertura


decisiva, com a invenção, nos anos 90 do século passado, do
motor a combustão, outras tentativas com gás e outros com­
postos já haviam falhado tecnicamente. No fundo, a insistência
com essas experiências tem por que surpreender. Já existia um
meio de transporte moderno independente da tração animal:
a ferrovia, com quase um século de desenvolvimento e tecno­
logicamente mais amadurecida que o automóvel. Porém, em­
bora a ferrovia já estivesse impregnada pelo “ espírito do
capitalismo”, do ponto de vista capitalista, ela ainda trazia a
mácula da imperfeição. N ão no sentido tecnológico, mas, de
modo mais fundamental, no sentido econômico e, de certa
maneira, até espiritual.
Em primeiro lugar, a ferrovia não tem a capacidade de se
movimentar em todas as direções, feito uma partícula em um
espaço vazio, mas, como sabemos, ela está presa a trilhos fixos.
Mas isso não é apenas um problema técnico, é também espi­
ritual. A estrada de ferro se torna imperfeita somente para uma
consciência reduzida à forma de uma partícula, o “átomo so­
cial”. O impulso de poder ir “para qualquer lugar” (que cor­
responde a “ para lugar nenhum”), ou seja, de não depender
dos trilhos e das paradas preestabelecidas, corresponde a uma
mentalidade, por sua vez, determinada pelo arbítrio e bel-pra­
zer. O tipo humano que faz (quase) tudo por dinheiro, até os
maiores absurdos, e cujos interesses são, portanto, totalmente
sem rumo, também não quer deixar preestabelecer a sua dire­
ção de viagem.
Em segundo lugar, a estrutura do meio de transporte fer­
roviário baseia-se numa coletividade involuntária, tanto no
simples fato de estar junto a outras pessoas durante a viagem,
como no caráter aleatório desse encontro. Mas os seres huma­
nos, caracterizados pelo capitalismo, são profundamente es­
tranhos uns aos outros num sentido muito mais coercitivo do
que pelo fato de não se conhecerem pessoalmente. Eles não
podem existir na consciência de uma relação comunitária den-

349
OS ÚLTIMOS COMBATES

tro de uma estrutura cultural, pois a própria relação social


tornou-se para todos algo ameaçador e externo, na forma de
dinheiro, que proporciona tudo, menos urna coisa: amparo.
Por isso, os seres humanos, socializados nessa maneira fantas­
magórica, estão sendo separados como se fossem por paredes
invisíveis de vidro. Karl Marx chamou isso de “estranhamen­
to”, e Jean Paul Sartre chegou a uma outra fórmula: “o inferno
são os outros” . N ão é nenhuma coisa do outro mundo que
esses indivíduos solitários não conseguissem agüentar a pro­
ximidade uns dos outros. N o trem, eles preferem estar senta­
dos sozinhos num vagão, expressando com olhares vazios o
vazio de sua vida, um vazio produzido por eles mesmos. Assim,
o trem torna-se o lugar do mal-estar. O indivíduo solitário
prefere, assim, viajar isoladamente, fechado no invólucro do
caixão de lata em movimento.
Em terceiro lugar, enfim, a ferrovia, do ponto de vista
capitalista, possui uma mácula irrecuperável: a de ser neces­
sariamente, também no aspecto econômico, um “bem públi­
co” . Trata-se, na sua forma técnica, de um macro-agregado
social indivisível, cujas partes somente podem funcionar com
a mobilização de todas as partes de engrenagem: estradas-de-
ferro (isto é, os trilhos), meios de locomoção (locomotivas,
vagões, trens inteiros) e, finalmente, a organização do fluxo
de transporte (horários, funcionamento, manutenção) for­
mam uma unidade que só como tal pode ser ativada. Era ne­
cessário formar sociedades anônimas gigantescas, dando-se
assim um grande passo rumo à socialização do capital para
poder avançar, por exemplo, nos Estados Unidos, no sentido
da ocupação continental pela ferrovia. Na maioria dos países,
a ferrovia precisou ser, enfim, um empreendimento estatal ou
semi-estatal, por requerer grande quantidade de capital. O
caráter social e a alta intensidade de capital da ferrovia fazem,
portanto, da relação entre a produção e o consumo, uma re­
lação entre grandes capitais, enquanto um superbem de inves­
timento e, diretamente, uma relação entre capital e Estado. O
consumo privado individual, como última instância do ciclo

350
S IN A L V E R D E PARA O C A O S DA C R IS E
/

da valorização capitalista, pode continuar somente a conta-


gotas, na forma de demanda por tickets e passagens.
Isso é o oposto do “espírito do capitalismo” e a sua lógica
econômica. Cria-se um problema fundamental de rentabilida­
de, porque a intensidade de capital de produção e funciona­
mento da ferrovia não pode ser representada como renda
microeconômica pela venda subseqüente da prestação de ser­
viços. As passagens teriam que ser tão caras, que a grande
maioria não teria mais condição de utilizar a ferrovia. Por isso,
a ferrovia tornou-se, em todo o mundo, um problema de déficit
estatal. Uma privatização, nos moldes reivindicados pelos
ideólogos neoliberais, de nada adiantaria. A ferrovia não deixou
de ser rentável ao ser assumida pelo Estado, mas exatamente
o contrário: foi preciso retirá-la das suas origens privadas e
entregá-la à direção estatal, porque ela não é rentável dentro
dos princípios capitalistas.
A privatização conduz ao mesmo resultado que o Estado
iniciara em sua penúria fiscal: redução maciça de emprego e
desativação, em grande estilo, de longos trechos, enquanto
algumas vias de alta velocidade (que até deveriam concorrer
com o avião!) cruzam com exclusividade a paisagem apenas
para uma minoria de pessoas com alto poder aquisitivo. A
ferrovia não só perde dessa maneira o seu caráter de transporte
social, mas também o seu caráter de adaptação relativamente
boa à paisagem. As vias de alta velocidade não adaptadas à
paisagem simbolizam a mania abstrata do “tudo é factível”,
característica da economia de mercado, como também sua
anti-estética destruidora. MesmO assim, é impossível formar
a ferrovia suficientemente rentável. Segundo relatos da revista
alemã Wirtschaftswoche, a privatização da ferrovia no Japão
está levando a um grande desastre, e o mesmo pode repetir-se
na Alemanha e em outros países.
A ferrovia é, a longo prazo, incompatível com o capitalis­
mo, tanto em seu aspecto espiritual-intelectual, como no seu
aspecto econômico, mesmo sendo ela uma cria do próprio
capitalismo e um suporte importante para o desenvolvimento
inicial do sistema industrial. Essa incompatibilidade possibilita

351
OS ÚLTIMOS COMBATES

também explicar por que o “espirito do capitalismo” trabalhou


tão insistentemente na invenção do automóvel, independente
de trilhos, e por que finalmente o automóvel se impôs mun­
dialmente. E que, diferentemente do sistema ferroviário, os
diversos elementos do funcionamento do sistema automobi­
lístico podem ser social e economicamente separados. A constru­
ção estatal de rodovias pode ser completada pelo automóvel,
livremente móvel e individualizável como máquina. A produ­
ção do próprio meio de transporte perde assim o seu caráter
de difícil comercialização enquanto produção de um superbem
de investimento social. Ela é, portanto, diferentemente do em­
preendimento ferroviário, da mera prestação de serviços, ca­
paz de integrar o consumo individual como última instância
da valorização do dinheiro, pois o que se vende é o próprio
meio de transporte, não seu funcionamento. Assim, pode ser
explorada uma reserva gigantesca da ampliação de dinheiro,
com o caráter de autofinalidade, visando a superação dos li­
mites do “ciclo da ferrovia”.
Ao mesmo tempo, encontrou-se assim a forma de dar à
individualidade solitária do ser humano, “ganhador de dinhei­
ro”, também uma expressão tecnológica correspondente. Ali­
mentava-se, dessa maneira, o seu impulso por mobilidade sem
rumo e culturalmente desenfreada. A palavra automóvel, de
origem grega e latina (“auto” = “por si próprio” e “ mobilis”
= “móvel”), não por acaso pode reduzir-se para “auto” . Pois
não se trata de uma mera automobilidade no sentido técnico
ter se tornado independente de animais de tração e do abas­
tecimento manual dos aquecedores de caldeiras. Antes pelo
contrário, o automóvel representa o “auto”, o “por si próprio”
mecânico de um tipo humano, que apenas desenvolveu a sua
“liberdade individual” para subjugá-la com maior certeza a
uma relação mais objetivada e materializada. Assim como os
indivíduos somente são avaliados, e se auto-avaliam, segundo
seus rendimentos monetários, da mesma forma sua individua­
lidade foi engolida pelas suas próprias criações tecnológicas.
Os homens só se reconhecem segundo as suas marcas de carro
(“aquele é o do Opala Manta”, “ ele é o do Gol GTI” e “o

352
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

outro é o da BMW azul”, etc.). O automóvel, “cão policial


lustroso”, engoliu a alma humana de tal forma, que, todos os
dias de manhã, os indivíduos “livres” da economia de mercado
se deslocam em engarrafamentos infinitos para o seu “traba­
lho”, cada um com a sua cara de ópio, sozinhos numa lata
móvel e com um desperdício enorme de energia e tempo.

Henry Ford e a produção em massa

N o início, o automóvel era algo restrito a uma elite, um


brinquedo da aristocracia endinheirada. Produzido dispendio­
sa e artesanalmente, o automóvel era inacessível a seres huma­
nos médios, como antigamente as carruagens ou outros meios
de transporte de tração eqüina. Em 1907, havia em toda a
Alemanha apenas 16 mil automóveis registrados, ou seja, um
carro para cada 4 mil habitantes. Mesmo nas grandes cidades,
era uma sensação, principalmente para crianças e adolescentes,
ver passar um automóvel. Também essa limitação só podia
aparecer para o “espírito do capitalismo”, e para a sua lógica
econômica, como um impedimento a ser superado. N ão por
acaso, o automóvel conheceu sua primeira ampliação para o
consumo de massas nos Estados Unidos. As dimensões do mer­
cado interno, que se estendia de costa a costa, foram o melhor
estímulo para que se passasse a uma produção em massa.
Já no estágio de produção artesanal, logo no início do
século, os Estados Unidos ultrapassaram a Europa em termos
quantitativos de produção anual de automóveis. A forte de­
manda e a possibilidade de explorar novos potenciais de mer­
cado fizeram surgir, na produção automobilística dos Estados
Unidos, novos métodos de produção que iriam adquirir caráter
exemplar. O engenheiro americano Frederick Winslow Taylor
(1856-1915) publicou, em 1911, sua obra “Os Fundamentos
de Administração Científica”, e o taylorismo, baseado nessa
obra e mundialmente conhecido, possibilitou a sistematização,
o controle e a mecanização do processo de trabalho humano.
Até hoje, a administração moderna se nutre desse fundamento.

353
OS ÚLTIMOS COMBATES

Somente com a nova ciência de organização microeconômica


e da racionalização, a “lógica do dinheiro” podia penetrar até
0 âmago dos processos do trabalho.
Juntamente com a organização rígida dos fornecedores e
da distribuição (concessionárias) e de novas formas de produção
em linha de montagem, o taylorismo possibilitou um aumento
violento de produtividade, que, primeiramente, tornou-se efi­
ciente na jovem indústria automobilística americana. Foi, so­
bretudo, o empresário automobilístico Fíenry Ford quem
assimilou sistematicamente os novos métodos, desenvolven-
do-os. Foi ele quem impôs pela primeira vez o princípio da
redução permanente dos custos unitários. Uma maneira para
isso foi a padronização e a simplificação de todos os elementos
de produção, a montagem precisa, ditada pelo cronômetro,
mas principalmente a própria esteira. Realmente, a esteira tor­
nou-se o símbolo do trabalho do século X X , e Henry Ford
passou a ser a figura lendária dessa época.
Apenas com a produção em massa da indústria automobi­
lística, se realizou, em grande escala, a concentração industrial
dos “ exércitos de trabalho” prevista por Marx. O trabalhador
de esteira, como uma espécie de robô humano, caricaturado
sarcasticamente por Charles Chaplin no seu filme “Tempos
Modernos”, foi considerado, ora como o novo herói, ora como
a vítima da transformação social originada pela indústria au­
tomobilística. Henry Ford se justificou através de uma espécie
de “religião do trabalho (industrial)”, na qual tentou qualificar
como progresso a padronização não só da indústria e da ati­
vidade produtiva, como da própria vida.
Inicialmente, o sucesso pareceu dar-lhe razão. Os novos
métodos de produção, adotados de maneira mais conseqüente
na fábrica Ford, em Detroit, conseguiram, pela primeira vez,
baratear tanto o produto automóvel, que permitiu alcançar o
consumo em massa. O preço unitário despencou de mais de
1 mil dólares rapidamente para quatrocentos dólares. Enquan­
to na Europa ainda se produziam anualmente apenas alguns
milhares de unidades, a Ford aumentava a produção e a venda
para mais de 30 mil carros no ano de 1911. Em 1914, já se

354
;iNAL VERDE PARA O CAOS DA CRJSE

produziu o fantástico número de 248 mil carros, que também


foram vendidos. O famoso modelo “T ”, produzido em série
padronizada ininterruptamente até 1927, experimentou, até
aquele ano, uma produção total de 15 milhões. Essa repre­
sentou uma abertura histórica, não só da própria produção
tecnológica em massa, como também de um modo de vida
tecnológico e massificado, em que os indivíduos solitários,
tomados pela compulsão monetária do “levar vantagem”, co­
meçaram a ordenar-se como limalha de ferro numa mesa mag­
nética.
A agressividade masculina, produzida socialmente, e a tra­
dicional dominação masculina na formação do capitalismo,
também tiveram as suas conseqüências para a nova produção
em massa da indústria automobilística. O automóvel, enquan­
to “ auto”-expressão da personalidade mecanizada e “estrutu­
ralmente masculina”, demonstraria simultaneamente força e
capacidade de imposição. Essa dimensão psicológica transpa­
receu até na própria direção do desenvolvimento tecnológico.
Não foi só por razões imanentemente técnicas que o desen­
volvimento do “eletromóvel” , até 1914 ainda indefinido, foi
paralisado. A maior autonomia, mas, principalmente, força e
velocidades maiores, determinaram a vitória do motor a com­
bustão, agressivo e nocivo ao ambiente. “Tempo é dinheiro”
era o lema. Motores, cada vez mais fortes, e a “embriaguez da
velocidade”, cada vez maior, agitaram a capacidade de impo­
sição individual e a disposição na concorrência.

Mobilização Total

Como não poderia deixar de acontecer, a indústria auto­


mobilística, com seu potencial mecânico de agressão, não só
encontrou sua utilização militarista, como ela mesma se mili­
tarizou. A Primeira Guerra Mundial, em 1914, ainda viu os
homens patriotas, barbudos do século X IX, entrar na guerra
cantando, a pé ou a cavalo. N o final da guerra, quatro anos
depois, tanques automobilizados revolviam a terra com suas

355
OS ÚLTIMOS COMBATES

correias barulhentas. Os soldados voltavam para suas casas


como trabalhadores industriais de guerra; cínicos e com sem­
blantes petrificados. A indústria automobilística se desenvol­
veu otimamente por conta dos massacres em massa dos dois
lados do Front. Ela explorara novos campos de atuação. Além
de caminhões e tanques, construíram-se cabinas de comando
e motores para aviões. Empresas como a Mercedes, a Büssing
e a Opel, atingiram novas dimensões. Os maiores produtores
de automóveis já duplicaram nos primeiros dois anos de guerra
os seus dividendos.
Com a Primeira Guerra Mundial começou, portanto, um
desenvolvimento no qual a matança estatal cientifizou-se, me-
canizou-se e, principalmente, automobilizou-se. A ênfase da
potência armamentista transferiu-se pouco a pouco da antiga
indústria pesada para a indústria automobilística. A Segunda
Guerra Mundial, uma guerra mobilizada e plenamente indus­
trializada, deu continuidade a essa tendência, que até hoje se
mantém. Assim, não foi acaso, mas devido a lógica interna de
uma, agora já prolongada tradição, que as empresas automo­
bilísticas até hoje atualizam seus negócios de destruição mili­
tarista. Mais uma vez, a indústria automobilística entra com
seu capital na produção armamentista. Em 1985, a General
Motors comprou fábricas de armamentos no valor de 5 bilhões
de dólares, produzindo foguetes, helicópteros e satélites mili­
tares. Também em 1985, sob a direção de Edzart Reuter, a
Daimler-Benz comprou uma completa mercearia militar e é
hoje a maior empresa armamentista da Europa Central. Essa
indústria é literalmente uma indústria da morte, o que ficou
comprovado em toda a sua trajetória histórica.
O elo agressivo de trabalho em massa, consumo em massa
e destruição em massa, iniciou um processo que ultrapassou
de longe a produção bélica. O escritor Ernst Jünger, autor de
um dos mais polêmicos testemunhos desse século, glorificou
a “vivência” da batalha de equipamento militar industrializado no
seu primeiro livro “Em Tempestades de Aço” (In Stahlgewittern).
Mais tarde, ele tentou justificar sua própria fascinação pela
megamáquina da guerra total. Com a noção de “mobilização

356
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

total” (1934), que forneceu uma palavra-chave aos Nacional-


Socialistas, ele não fez apenas uma alusão à imagem da apa­
rência externa no sentido militarista. Com essa noção, que
marcou época, ele tentou desenvolver a idéia de uma auto­
matização cega e dinâmica total da sociedade de trabalho au­
tomobilística. Jünger dizia que a guerra mundial fazia parte
das dores de parto do deslanche dessa sociedade. Ao lado dos
exércitos de “trabalho”, diz Jünger, aparecem “os novos exér­
citos de transporte” e uma “integração absoluta da energia
potencial” da sociedade.
Seria, portanto, uma interpretação errônea, e também uma
ilusão, limitar o conceito de “Mobilização Total” ao Nacio­
nal-Socialismo e à Segunda Guerra Mundial. A produção de
automóveis, aparentemente tão banal, surge como o coração
mecânico robótico de um processo histórico que perdura até
hoje e que, entretanto, penetrou na autoconsciência das massas
e de cada indivíduo. Na Europa, as duas guerras mundiais
promoveram as condições favoráveis para a difusão do taylo­
rismo de administração empresarial e científica, como ocor­
rera nos Estados Unidos, graças à quase inesgotável dimensão
do seu mercado interno. A República Federal da Alemanha do
pós-guerra, com o seu caráter supostamente civil, não fez parar
o desencadeamento destrutivo da sociedade de trabalho total,
mas, ao contrário, fez dela o estado normal cotidiano, demo­
crático. O carro continuou sendo o portador dessa mobilização
total e desmedida.
A anuência terrível a esse processo totalitário unifica os
campos aparentemente hostis da história da modernização au­
tomobilística. Não por acaso, Lenin e Stalin puderam entu­
siasmar-se com o taylorismo e os métodos de produção de
Henry Ford. O comunismo de trabalho soviético, burocráti-
co-estatal, mesmo externamente tão distante da individualiza­
ção ocidental, repetiu, apenas sob outras condições, os seus
motivos centrais. Só que não além de uma espécie de capitalismo
ferroviário siberiano. Mesmo em suas ramificações ocidentais,
ele só conseguiu desenvolver a produção automobilística in-
dividualizadora em uma forma degenerada, o que não impediu

357
OS ÚLTIMOS COMBATES

de implantar a mesma lógica e os mesmos desejos mecanizados


em suas populações. Também ele visava uma “ mobilização to­
tal” irracional em guerra e paz. Ele nunca conseguiu distan­
ciar-se decisivamente do “ espírito do capitalism o” e da
“forma” do trabalhador abstrato evocada por Ernst Jünger.
Isso vale ainda mais para o Nacional-Socialismo e também
para o Fascismo Italiano. Esses regimes, ainda piores, eram,
em muitos sentidos, verdadeiras máquinas de modernização.
A instalação da indústria automobilística nesses regimes, cons­
ciente e estatalmente forçada, constituiu o centro de ataque
das mudanças sociais. Tal como os planejadores estatais russos,
os Nacional-Socialistas também olharam com cobiça para os
êxitos de Henry Ford. Ainda anteriormente ao comunista ita­
liano Antonio Gramsci, que morreu nos cárceres de Mussolini,
o economista alemão Friedrich von Gottl-Ottlilienfeld, que
posteriormente se tornaria o papa da economia nacional do
“Terceiro Reich”, criou o conceito notável de “fordismo” para
a relação entre “indústria e razão técnica” (1926). Como se
sabe, a hoje maior empresa automobilística na Europa, a Volks­
wagen, foi totalmente criada no Nacional-Socialismo, tal
como as respectivas criações “Autobahn” (auto-estrada) e
“ Blitzkrieg” (guerra relâmpago), expressões integradas em sua
forma alemã a diversas línguas.
Essas relações apontam para uma certa identidade interna
entre o capitalismo fordista dos Estados Unidos, o nacional­
socialismo alemão e a economia de estado soviética. E verdade
que essa identidade oculta se impôs em ambientes e constela­
ções historicamente diferentes. Contudo, ela permitiu que
pensadores politicamente tão distantes, como Gramsci e Frie­
drich von Gottl-Ottlilienfeld, pudessem referir-se ao fordismo
da mesma maneira positiva. Não se tratava, de forma alguma,
da mera identidade de um grau de desenvolvimento tecnológico,
totalmente desvinculada da essência de sociedades diferentes. Ao
contrário, foram criadas, apesar de todas as oposições exter­
nas, uma forma de relação social substancialmente idêntica e
uma imagem comum do homem mecânico, “ moldado pelo

3S8
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

automóvel”. Essa imagem do homem entrou hoje (e agora em


todos os países da terra) em nossas entranhas.
Surpreendentemente, essa identidade oculta também trans­
parece em outra parte no processo de produção ideológica. A
“religião do trabalho” industrial, defendida, em suas modali­
dades específicas, tanto por Lenin e Stalin, como por Henry
Ford e Adolf Hitler, não quis reconhecer sua sub-ordenação
objetiva à lógica do dinheiro. Ao contrário, o “trabalho indus­
trial honesto” deveria comandar o dinheiro. Em todas as so­
ciedades em estágio de desenvolvimento fordista havia
tendências que atribuíram o permanente domínio do dinheiro,
incompatível com a pretensão do “trabalho honesto”, a uma
imagem de inimigo externo e fantástico: o “capital financeiro
judaico” . O arquiamericano capitalista Henry Ford, figura
símbolo da ascensão dos Estados Unidos, mostrou um verda­
deiro ódio aos judeus. Seu livro “ O Judeu Internacional” teve
grande aceitação na Alemanha nacional-socialista. Por outro
lado, somente agora começa a ser escrita a história da perse­
guição stalinista aos judeus. O anti-semitismo é a história se­
creta do capitalismo automobilístico e sua mobilização total
de trabalho industrial e administração científica. N a Alema­
nha, essa história secreta resultou em um regime aberto de
extermínio. Auschwitz era, nesse sentido, um fenômeno pro­
fundamente fordista, e as suas formas terríveis de organização
“científica”, um retrato fiel da indústria automobilística.

O modo de vida fordista

A situação do trabalhador no processo de produção for­


dista, quase de um robô, desde o início provocou críticas. A
racionalização, que até hoje avança continuamente em etapas,
mostra-se uma ditadura duradoura, capaz de extorquir o má­
ximo do produtor, sugá-lo até a última gota. Ford se justificava
com o argumento de que somente assim seria possível pagar
salários altos e baratear os produtos para o consumo em massa.
Obviamente, só os trabalhadores da indústria automobilística

359
O S U L T IM O S C O M B A T E S

não podiam comprar carros produzidos em massa. Em torno


do núcleo da indústria automobilística desenvolveu-se rapida­
mente todo um anel mágico de indústrias, que começaram a
imitar esse exemplo. Formaram-se, então, as indústrias de ele­
trodomésticos e de aparelhos eletrônicos, bem como as indús­
trias de alimentos, as grandes lojas de departamentos e
supermercados. Não devemos esquecer que também o sistema
de crédito ao consumidor e o pagamento em prestações foram
criados nos EUA. Além disso, a agricultura foi reestruturada,
em todo lugar, segundo os moldes fordistas.
O padrão básico consistia no fato de que os novos produ­
tores em massa se tornaram, ao mesmo tempo, consumidores
em massa, sob a lei geral e comum da valorização do dinheiro.
O dinheiro capitalizado se transformou, somente dessa ma­
neira, naquela grande roda de impulso social que hoje carac­
teriza, como se fosse natural, a imagem de nossa sociedade.
Em outras palavras: a subordinação à ditadura fordista do tem­
po e do trabalho foi “recompensada” pelo consumo em massa
de carros, geladeiras, máquinas de lavar, rádios, TVs, etc. Essa
engrenagem de produção, renda monetária, venda e consumo,
também foi denominada “sistematização fordista” (Elmar Alt-
vater).
Porém, com isso ocorreram modificações não imaginadas
para todo o modo de vida. Até a Primeira Guerra Mundial, o
capitalismo ainda não se estendera a toda a vida humana, apro­
priando-se dela. Por toda parte, o capitalismo ainda era per­
meado e cercado de elementos da antiga economia doméstica
(hortas, oficinas, lavanderias, etc.). Inclusive, a maioria dos
trabalhadores industriais, principalmente as mulheres, ainda
produziam muitas coisas da necessidade cotidiana. Porém, exa­
tamente essas atividades foram sendo cada vez mais conside­
radas inferiores, por não renderem dinheiro. Mesmo assim,
existia uma certa relação recíproca entre “o setor tradicional”
da economia doméstica e o “setor da economia de mercado”
do capitalismo, conforme demonstrou em uma importante
pesquisa o sociólogo de Munique, Burkart Lutz. Partindo da
indústria automobilística essa relação começou agora a se de-

360
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

senvolver. Primeiro, nos Estados Unidos, entre as duas Guerras


Mundiais, e, posteriormente, também na Europa, a vida or­
ganizou-se de forma industrial, abrangendo todo o território,
conduzido pelo cálculo da rentabilidade microeconômica e
dependente dos grandes espaços anônimos do mercado. Tam­
bém isso é um aspecto da mobilização total.
Com isso, aumentou a utilidade de muitos bens e, além
do mais, integraram-se necessidades totalmente novas ao con­
sumo. Isso caracteriza a grande força de atração do novo modo
de trabalho e vida. Mas essas vantagens custaram muito caro.
Foram pagas com a perda total do controle dos homens sobre
as suas próprias vidas, abandonadas aos poderes anônimos e
às normas objetivas do mercado total. Como um “junky” paga
a “viagem” da droga com a servidão imposta pela necessidade
de conseguir dinheiro, assim os prazeres mecânicos de consu­
mo dos trabalhadores fordistas precisavam ser pagos com a
servidão na forma de uma dependência total do “emprego” .
Também o relativo alívio do trabalho doméstico pela me­
canização, sob a coerção do dinheiro, é uma faca de dois gu­
mes. As mulheres podiam, dessa maneira, submeter-se também
ao trabalho assalariado industrial. Muitos bens do assim cha­
mado consumo de nível elevado até hoje são apenas alcançáveis
para as massas através do sistema da “dupla renda” . Mas assim
chegamos, em vez de reduzir a carga de trabalho das mulheres,
a uma dupla carga, porque as mulheres ficaram integradas no
trabalho doméstico e/no trabalho assalariado. Os homens nem
pensaram em aceitar uma distribuição de trabalho mais eqüi-
tativa e assim ficaram eles com as vantagens principais do
modo de vida fordista. Isso até hoje não mudou muito. Esse
modo de vida da dependência total da renda monetária levou,
finalmente, até a um estranhamento entre marido e mulher,
pais e filhos. As relações familiares antigas, muitas vezes rudes,
não foram substituídas por uma relação humana melhorada.
Em vez disso, a crescente ocupação, quase autista, dos “indi­
víduos isolados” consigo mesmos, completou, com brinquedos
tecnológicos dispendiosos, aquele indivíduo solitário, que,

361
OS ÚLTIMOS COMBATES

como átomo de uma massa sem rosto, a lógica interna do


desenvolvimento capitalista já tinha formado há tempo.

A Miséria da Sociedade Automobilística de Tempo Livre

O consumo tecnológico em massa, aparentemente tão


magnífico, foi desde o início não mais do que um equilibrio
pobre para a ditadura não natural de tempo do “trabalho”.
Não conseguiu equilibrar, mas, ao contrário, reforçou mais a
alienação mútua dos homens, que cada vez menos sabem se
relacionar um com o outro. N a Alemanha era o mesmo na­
cional-socialismo assassino que, ao lado de um programa de
modernização fordista de “trabalho”, iniciou simultaneamen­
te um programa de tempo livre para o conjunto da sociedade
como parte da sua campanha de mobilização total: “Kraft
durch Freude” (KdF) (“Força através da Alegria”). O “Volks­
wagen” (carro do povo) fazia parte desse programa total. A
sociedade do tempo livre e a sociedade do trabalho, dois lados
da mesma moeda, prepararam o seu caminho em conjunto. E
é obvio que o carro tornou-se o brinquedo número um do
tempo livre,
E verdade que se ampliou o horizonte dos homens fordistas
dessa maneira. A massificação de uma mobilidade, que anti­
gamente era privilégio de poucos ricos, possibilita, pela pri­
meira vez, que simples assalariados possam viajar ao exterior,
ao sul, ao mar. Mas, porque essas conquistas não conseguiram
ser apropriadas culturalmente, pois foram permeadas pelo so­
pro pestífero da valorização coercitiva do dinheiro, não pu­
deram levar a nenhuma aproximação interna ao outro e a
nenhuma vivência da natureza. A onda automobilística do tem­
po livre e das férias vomita, desde então, homens fordistica-
mente homogeneizados, em ritmo de uma máquina semanal
e anual; seja para uma natureza, adaptada em função de um
tempo livre mecanizado e subordinada à economia, seja para
os guetos de turistas, que começaram logo a ser terrivelmente
parecidos com os locais de trabalho e os dormitórios fordistas.

362
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

Apesar de toda “ individualidade”, sempre invocada no


mundo da propaganda, os homens automobilísticos, atrás de
seus vidros, só conseguem fazer experiências totalmente idên­
ticas e estandardizadas. Tanto as férias estereotipadas no me­
diterrâneo, quanto os passeios dominicais ao “verde”, agora
cinzento, não tem nada a ver com experiências individuais.
Cria-se, cada vez mais, apenas um pseudo-acontecimento nor-
matizado e cunhado por elementos culturais pré-fabricados.
“Individual” não é o conteúdo da vivência, mas somente a
forma técnica do transporte, que, por sua vez, destrói os mo­
numentos artísticos e a natureza dos países turísticos. Uma
antiga propaganda da Ford parece hoje uma total zombaria:
“Cada um, que ganha um salário razoável, tem possibilidade
de comprar um carro para gozar com a sua família o bendito
descanso ao ar livre, puro e divino” (1923).
Mas o pior é que no tempo livre fordista, no fundo, o
“trabalho” tem continuidade com outros meios; mais ou me­
nos como uma experiência terrível, que se repete infinitamente
num pesadelo. Mais uma vez, foi Ernst Jünger que apresentou
esse problema na sua maneira notável, meio conservadora-crí­
tica, meio fascinante. Ele constatou que os homens fordistas,
também no tempo livre, não se livram “do círculo mágico dos
autômatos” e do “ritmo dos relógios”, eles “ permanecem num
espaço, determinado pelas duas figuras, a da roda e a da esteira
mecanizada” . Pois também auto-estradas ou filmes são “estei­
ras”, e o tempo livrei continua, como o “trabalho”, parte ou
segmento “ de um mbvimento gigantesco circular” (Das Sand-
ubrbuch, 1954). A “mobilização total” se impõe também, por­
tanto, em um espaço apenas aparentemente “livre” e pessoal.
O trabalhador fordista, enquanto homem automobilístico,
também está sendo posto em movimento fora da própria re­
lação de compulsão. O ritmo de máquina do “ganhar dinheiro”
continua como impulso interiorizado e abstrato em todos os
âmbitos da vida. A assim chamada recreação consome tanto a
vida quanto o “trabalho” .

363
OS ÚLTIMOS COMBATES

A Terceira Guerra Mundial ñas Estradas

O carro consome por sua vez o consumidor. Isso não se


deve entender como uma imagem, mas literalmente. Ernst
Jünger já se manifestou cinicamente sobre a mortal maqui­
naria automobilística da Primeira Guerra Mundial, dizendo
que nos campos de batalha “um consumo sangrento assumiu
o papel de consumidor (!)” . A inversão capitalista dos meios
e do fim, do sujeito e objeto, aparece aqui como uma inver­
são do consumidor e do produto: consome-se o próprio
homem. Primeiro pelo “ trabalho”, depois pelo “cão policial
lustroso” . N ão é nenhuma novidade que esse “ consumo san­
grento” teve continuidade nos tempos de paz e neles até
encontrou os seus pontos culminantes. Até hoje foram as­
sassinadas, no mundo todo, em acidentes automobilísticos,
17 milhões de pessoas, e um número muitas vezes superior
foi ferido e mutilado. A cada ano, todos os países atingem
um número de mortos e mutilados por acidentes de trânsito,
que alcança a quantidade de falecidos nas m aiores guerras
do século X IX . Já durante a Guerra do Vietnã houve mais
mortes causadas por autom óveis nos Estados Unidos, que
vítimas de guerra no Vietnã. Durante a Guerra do Golfo,
as Forças Armadas dos Estados Unidos sofreram nos deser­
tos da Arábia Saudita mais perdas em acidentes de trânsito
entre seus próprios veículos do que por intervenção bélica
do inimigo.
Não se pode mais imaginar a cidade sem o carro, nem sem
a cadeira de rodas. E a maioria das pessoas condenadas à ca­
deira de roda'são vítimas de acidentes de trânsito. Por isso,
não é nenhum exagero denominar produção e consumo au­
tomobilísticos de “Terceira Guerra Mundial não declarada”
(Heathcoate Williams, 1992). Tornaram-se realidade as con­
dições apocalípticas da festa semanal de matança no trânsito,
da forma apropriada, como Jean Luc Godard evocou em seu
angustiante filme “Weekend” (1968). O artista da grande ma­
tança, Ernst Jünger, que estetizou a batalha de material bélico
da Primeira Guerra Mundial, admira-se com o fato de que as

364
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

pessoas aceitam, “com uma certa naturalidade”, a quantidade


enorme de vítimas de trânsito. Ele desconfia que as vítimas
parecem “necessárias” porque “são adequadas ao nosso espa­
ço, isso é, ao espaço do trabalho” (Über den Schmerz, “Sobre
a D or”, 1934). Esse cinismo já é quase uma autojustificação.
Onde está o protesto de todos esses humanistas liberais e es­
querdistas socialistas, que habitualmente comemoram os seus
dias antiguerra, contra o programa sistemático de vítimas fatais
da produção automobilística fordista?
Os participantes dos movimentos pacifistas não estão de
jeito nenhum moralmente acima do autor do livro Stahlge-
witter (“Tempestade de Aço” ), pois todos eles são também
meros condutores de automóveis, isto é, assassinos poten­
ciais “ por engano” . Aliás, são preferencialmente assassinos
de crianças, pois pequenas crianças, por sua natureza menos
adaptadas à “ disciplina de trânsito” , pertencem ao grupo
das vítimas mais freqüentes do automóvel, aquele “ cão de
briga encerado” . A sangrenta “ tempestade de chapa de fer­
ro” nas ruas nunca terminou. E a normalidade cotidiana
automobilística da nossa vida atual desprovida de consciên­
cia. Uma sociedade, na qual o tempo livre sempre é “trabalho”,
e na qual paz sempre significa guerra, uma sociedade que ape­
sar do “consumo sangrento” de vidas humanas e de tempo
de vida, se entende como “sociedade civil do bem-estar” ,
uma tal sociedade não precisa mais de nenhum “ BigBrother”
para fazer do diálogo de Orwell o seu idioma cotidiano.

Fechando a torneira

Analisando o capitalismo fordista segundo o seu conteúdo


material, constatamos que ele é um sistema de combustão de
materiais de energia fóssil. N a forma desses materiais foi ar­
mazenada energia solar na terra em centenas de milhões de
anos. Diferente de civilizações agrárias, que se contentaram
com o fogo de lenha, o modo de produção capitalista recorreu
a materiais de combustão fósseis como fonte de energia mais

365
OS ÚLTIMOS COMBATES

importante. O problema não é a mudança da base energética


em si, mas, antes de tudo, a aceleração enorme e o aumento
excessivo do consumo, o que corresponde à imoderação da lei
da valorização do dinheiro. Também nesse aspecto, a indústria
automobilística está novamente no centro, porque somente o
motor de combustão, a “mobilização total” e a “sistematização
fordista”, que nele se fundamentam, aqueceram o fogo infer­
nal capitalista e mantém desde então a sua chama.
A indústria automobilística e o uso do carro em massa se
tornaram assim condição fundamental para a continuidade da
existência do capitalismo. Por isso, também estão sendo “pro­
tegidos” os “campos de petróleo estratégicos” (principalmente
no Oriente Próximo) através de permanentes ameaças de vio­
lência e de intervenções militares sangrentas. Obviamente e
de novo, através de consumo gigantesco de energia fóssil em
forma de porta-aviões, máquinas bélicas, foguetes, etc. Aliás,
com consentimento de muitos trabalhadores fordistas do Oci­
dente que, há tempo, já venderam a sua alma à máquina de
combustão global e que, antes, prefeririam liberar todos os
árabes para a matança, do que pôr em questão, somente por
um segundo, o seu estilo de vida ridículo.
N o entanto, é traçado assim também, com segurança
mortal, um primeiro limite da sociedade do trabalho e do
automóvel. Pois as reservas das matérias fósseis são absolu­
tamente limitadas. Nem podiam ser petrificadas tantas plan­
tas e tantos animais na pré-história biológica e geológica,
suficientes para manter o capitalismo fordista, contando a
partir de hoje para mais um meio século. Ao contrário, ele
realizou uma queima de fogos de tal forma que a energia
solar acumulada em milhões de anos explodiu de uma vez
só. Um trabalho bem feito. Poderíamos cair na gargalhada.
Mas, as reservas gastas pela loucura infantil desse modo de
produção não estarão nunca mais à disposição para toda a
futura humanidade, nem para objetivos mais inteligentes do
que o uso de automóveis.

366
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

Já no início da década de 70, foram apresentados cálculos


relativamente precisos, informando que as reservas globais de
petróleo se esgotariam em poucas décadas (Dennis Meadows
“ Os limites do crescimento”, 1972). A matéria está se esgo­
tando. As restrições comuns, apresentadas contra esse conhe­
cimento, não convencem. Mesmo que se descubram ainda
novos campos de petróleo, eles são cada vez menores e de
qualidade inferior. Isto é, a mineração de petróleo custa cada
vez mais caro. É impossível gastar rentavelmente tanto “tra­
balho” para poder equilibrar, de um lado, as despesas extre­
mamente crescentes de uma futura exploração das fontes de
energia fóssil e, de outro lado, a quantidade solicitada para o
atual consumo em massa. E quanto mais nações entram no
ciclo fordista (por exemplo, a China e o Sudoeste da Ásia),
tanto mais rápido se esgotam os recursos.
Também não estão à vista outras fontes de energia como
substitutos. A energia nuclear não só traz problemas inso­
lúveis de produção e de depósito do lixo nuclear. Ela, além
disso, é cara demais e demasiadamente capital-intensiva
(mais ainda do que a ferrovia) para poder ser individualizada
na economia de mercado. Um reator nuclear por debaixo
do capô do “cão policial lustroso” é impensável. O grau de
eficiência da energia solar direta é, a longo prazo, insufi­
ciente para manter o funcionamento da máquina total capi­
talista. Ela é, segundo a sua natureza, uma “ energia lenta” ,
tal como outras foiites de energia (dependentes da topogra­
fia), como o vent<^ e a energia hidráulica. E, portanto, um
erro acreditar queva lógica econômica do capitalismo seja
minimamente compatível com uma outra energia básica, que
não seja matéria de combustão fóssil. O fordismo, com mo­
tor de combustão e automóvel como coração, com jatos e
foguetes como órgãos de ampliação, é realmente a forma
definitiva e em si do capitalismo. Quanto maior o êxito da
economia total de combustão, tanto mais rápido fecham-se
as torneiras de energia.

367
OS ÚLTIMOS COMBATES

A sociedade automobilística asfixia-se

Poderia acontecer, todavia, que o modo de produção e de


vida da “mobilização total” acabe antes. Os “ efeitos secundá­
rios não intencionados” da produção industrial fordista traçam
com objetividade férrea um segundo limite. Se o crítico Tho-
reau, no século X IX, já tinha alertado para uma “nivelação do
mundo” , face a construção da ferrovia, encontramo-nos hoje
em um estado de impermeabilização da paisagem, que dificil­
mente poderia ser aumentada. Mesmo assim, a infra-estrutura
de transporte está estourando. A maré alta de chapas de ferro
cresce incessantemente. Segundo um prognóstico da Shell Ale­
mã S.A., devem rodar até o final do milênio mais do que 500
milhões de automóveis no mundo. Segundo um estudo do
Ministério do Meio Ambiente, o número de carros deve mais
do que duplicar-se na Alemanha Oriental. N a Alemanha, como
um todo, o número de carros de passeio registrados aumentará
para 46 milhões (sem falar de caminhões, etc.). A “mobilização
total” leva ao absurdo de um “ engarrafamento total”. O au­
tomóvel se torna um “auto-estático” .
Porém, não apenas o trânsito, mas também, como sabe­
mos, o homem e a natureza, se asfixiam. Destruição da floresta,
buraco de ozônio, catástrofes de enchentes ou falta de água,
destruição do clima ou novas doenças: o crescente processo
de destruição ecológico é, sem dúvida, um resultado da economia
fordista de combustão e, principalmente, do automóvel. Um es­
tudo do Instituto de Medicina para Higiene Ambiental de Düs-
seldorf e do Instituto de Higiene e Medicina de Trabalho de
Aachen, comprovou que os alunos do primeiro ano primário
nos centros de aglomeração urbana possuem uma concentra­
ção alta de benzol no sangue e sofrem de funções pulmonares
deficientes e elevada propensão alérgica. Os causadores são os
gases do escapamento dos carros. Uma pesquisa do Greenpea-
ce comprovou que as matérias causadoras de câncer no trânsito
ultrapassam todos os valores de limite. Segundo medições rea­
lizadas em amostras colhidas “à altura do nariz das crianças”,

368
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

a poluição atinge principalmente os baixinhos. Mas nem dos


seus próprios filhos os empreendedores fordistas têm a mínima
pena. Sempre remetem às “necessidades” econômicas.
Já é quase um conforto saber que os senhores da criação
capitalista estão sendo atingidos pelos efeitos da sua orgia de
combustão, em um lugar muito central. O sexólogo francês
Xavier Boquet supõe que somente pelo estresse no trânsito a
metade de todos os habitantes masculinos de Paris sofre de
impotência temporária. Isso só não basta. Segundo pesquisas
recentes, resíduos de certos produtos químicos na água, que
resultam, entre outros, da produção de plásticos, levam a com­
postos, semelhantes ao hormônio sexual feminino estrógeno,
e que se ligam também no corpo humano aos receptores cor­
respondentes. A conseqüência é que essas matérias provocam
os mesmos processos bioquímicos como os estrógenos natu­
rais. N o sangue dos homens, reduzem o nível de hormônio
sexual testosterona. Fala-se de “minúsculos pênis” . E o médico
dinamarquês Niels Skakkebaek descobriu que a quantidade de
espermatozóides se reduziu muito, desde 1938, enquanto no
mesmo período se triplicaram os casos de câncer de próstata.
O homem, capitalisticamente socializado, pode ir se prepa­
rando para que, no futuro, não só os seus 100 ou 200 cavalos
de agressividade mecânica ficarão parados no “engarrafamento
total”, como ele próprio ficará sentado, sexualmente defor­
mado no volante de sua potência: por assim dizer, fordistica-
mente castrado.

A crise da economia mundial fordista

O terceiro limite é traçado pela grande crise social e eco­


nômica do capitalismo de combustão que, até há poucos anos,
ninguém poderia imaginar. Mas, agora, o sistema da adminis­
tração científica de empresas leva também economicamente
ao absurdo. Há algum tempo, isso era possível de ser previsto.
A racionalização adaptou, desde os memoráveis inícios de
1911/14, nas fábricas de Ford em Detroit, antes de tudo, a

369
OS ÚLTIMOS COMBATES

força de trabalho humana, “no interior mesmo de sua própria


atividade”, aos imperativos ditatoriais do tempo, enquanto
ampliava o mercado através do barateamento dos produtos.
De sorte que se precisava cada vez mais força de trabalho em
grande escala. Somente dessa forma podia ser produzida a
sistematização fordista.
As novas ondas de racionalização, desde o início da década
de 80, por assim dizer, se “ des-racionalizaram” em massa a
força de trabalho humana. A microeletrônica, como nós sabe­
mos, é a base tecnológica desse processo. O decurso do traba­
lho humano, antes já adaptado ao ritmo da máquina, agora
pode ser totalmente substituído pelo comando técnico e pela
robótica. N a indústria automobilística, socialmente numa po­
sição central, encontramos esse processo de forma mais avan­
çada. Milhões de empregos foram “desracionalizados” e o
processo parece ainda não ter fim. Ao lado do “auto”, produto
fordista (o automóvel), temos o “auto”, o homem de lata (o
autômato), cujo cérebro somente é formado por circuitos ele­
trônicos.
Os “colegas robôs” podem construir os carros de uma for­
ma ainda mais eficiente, produzindo ainda mais em massa.
Porém, uma coisa eles nunca poderão fazer nas suas vidas de
aço e chapa de ferro: comprar automóveis. Nesse ponto, rom­
pe-se a “sistematização fordista” , essa engrenagem de produ­
ção em massa, poder de compra em massa, êxito de mercado
e consumo em massa, que Henry Ford evocou para se justificar.
Esse modo econômico se demonstra agora também economi­
camente como ilusório: historicamente de vida curta e capaz
de se reproduzir apenas por algumas décadas. A cobra da ra­
cionalização engole o seu próprio rabo.
Essa contradição econômica insolúvel se torna cada vez
mais aguda face à expansão global e à generalização do capi­
talismo fordista. Esse processo não se abre em primeira linha
para os novos consumidores, mas, ao contrário, para novos
concorrentes. A produção automobilística no Japão, na Coréia
do Sul e, mais recentemente, na China, pesa ainda de uma
forma complementar no mercado mundial, que já se apresenta

370
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

bastante tenso. Os “newcomers” asiáticos, desde o início, não


conseguem produzir, nos seus mercados internos, um poder
de compra suficiente para um desenvolvimento razoavelmente
equilibrado. Pela combinação de baixos salários na pré-fabri-
cação e alta tecnologia na montagem final, eles dependem de
ofensivas unilaterais de exportação para as velhas regiões cen­
trais fordistas do Ocidente. A concorrência torna-se então uma
briga de foice no escuro.
As indústrias automobilísticas ocidentais, por sua vez, rea­
gem a essa crise repassando a pressão de custos, através de
outras demissões em massa, redução de salários e acentuada
pressão de preços para os seus fornecedores. Esses, por sua
vez, estão sendo obrigados a racionalizar, ou estão sendo le­
vados à falência. Segundo pesquisas realizadas pela empresa
de consultoria Price Waterhouse projeta-se somente para a Re­
pública Federal da Alemanha que das 3.000 empresas atuais
apenas 500 sobreviverão. Esse desenvolvimento leva, ao mes­
mo tempo, a uma concentração de capital entre os próprios
produtores de automóveis. As maiores empresas compram os
concorrentes falidos, que sucumbiram à competição. Dessa
forma, a Volkswagen engoliu a Seat (espanhola) e a Skoda
(Tcheca) e está construindo, entretanto, carros em Shangai
(República Popular da China). A Mercedes-Benz produz, entre
outros lugares, em Vitória (Espanha), e a partir de 1997 no
Alabama (EUA). A BMW comprou em janeiro de 1994, sur­
preendentemente, por um preço de mais de 2 bilhões de marcos,
a tradicional empresa britânica Rover. Com essa concentração,
foram e estão sendo criadas sobrecapacidades gigantescas,
sempre seguindo o lemaVínico: a falência é para os outros!
Conseqüência disso é novamente a racionalização e demissões
(como é recentemente o caso na Seat).
Trata-se, portanto, de uma espiral de crise que se auto-re-
força. Racionalização, competição, concentração de capital
destroem o poder de compra social, levam assim à nova racio­
nalização etc., etc. Em nenhum lugar está à vista um novo
desenvolvimento, que poderia num toque de magia fazer apa­
recer a cegamente esperada “prosperidade” . Também como?

371
OS ÚLTIMOS COMBATES

Uma volta à “sistematização fordista” não é mais possível.


Puxa-se pouco a pouco o tapete de pelo menos 4 milhões de
“empregos”, que, somente na República Federal da Alemanha,
estão em total dependência do automóvel. Juntam-se mais de
3 a 4 milhões de empregos indiretamente ligados ao automó­
vel, sem falar das restantes indústrias do capitalismo de com­
bustão. Não se trata mais de um “buraco da conjuntura”, mas
aqui, no caos da crise, todo um modo de vida está em fase
terminal.

A todo o vapor para o abismo

Mesmo ficando evidente para quase todo mundo os limites


objetivos, a maioria fordista mantém o seu lema comum: “a
todo o vapor continuando do mesmo jeito” . A brutalidade da
vontade de continuar está se manifestando através de vários
fenômenos. Segundo uma notícia do Boletim Informativo
“VDI-Nachrichten” , a grande maioria da população deseja “a
continuidade da construção de estradas”, para chegar ao ponto
da “auto-estrada de oito pistas” . Qualquer limitação do trans­
porte, mesmo feito de uma forma somente meio assumida,
provoca protestos irados de uma massa de automobilistas im­
becis. As limitações, no fundo totalmente incoerentes, do trá­
fego nos centros das cidades, provocam a resistência aferrada
do comércio varejista, que teme a redução de vendas, no mo­
mento em que os fetichistas do automóvel não podem mais
dirigir os seus carros até a porta das lojas. E segundo uma
pesquisa do Instituto de Tempo Livre - BAT, muitos dos mo­
toristas alemães até entram em delírio sibarítico quando pen­
sam no caos do trânsito. O engarrafamento, principalmente
aquele engarrafamento extremo com pernoite no carro, com
alimentação servida pela polícia ou pela Cruz Vermelha, está
sendo vivenciado cada vez mais com uma lascívia sensaciona­
lista. Parece que a vida capitalista normal tornou-se tão pobre
de conteúdo e tão miserável, que até um engarrafamento ganha
“valor de vivência” .

372
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

São principalmente homens, na idade de 20 a 40 anos, que


curtem, com telefone celular no carro, tais sentimentos neu­
róticos e infantis. Nisso tudo, também são envolvidas fantasias
agressivas militares, que transformam o engarrafamento de
filas de automóveis em uma experiência bélica. O inconsciente
coletivo desenvolve um desejo sufocante por catástrofes. Per­
tence à mesma síndrome, que o número de pancadaria aumen­
ta, ou até os tiroteios para concorrer a vagas em estacio­
namentos. Também aumentam os ataques nervosos em pleno
trânsito. Nas cidades da Alemanha Ocidental ferve a febre do
“Mantaísmo” infantil (MANTA = modelo de carro da marca
GM, modelo dos “mauricinhos” novos-ricos) entre os adoles­
centes, que escarnecendo de qualquer sentido ecológico e hu­
mano disputam os seus “ rachas” ilegais. Em todo mundo,
crescem, no cotidiano, crises reativas irracionais, que não se
diferenciam mais da plena loucura.
Os novos racismos e anti-semitismos, germinando em to­
das as camadas sociais e faixas etárias, devem ser associados a
esses processos de colapsos psíquicos. O mesmo vale para os
incêndios contra refugiados políticos e para o novo desprezo
às mulheres. O cinismo da “ Feira de Automóveis” de 1994 em
Genebra, cujo tema era “ O automóvel dá prazer”, no fundo,
está ligado ao prazer que a “matança brutal” de seres humanos
propicia. Mais uma vez, encontramos aqui a decadente nor­
malidade fordista. As imagens de inimigos não são, de forma
alguma, ocasionais, pois a síndrome anti-semita, o racismo e
o desafeto contra o feminino, pertencem a toda a história da
cultura de morte fordista. Chamam especial atenção, ultima­
mente, as crescentes Agressões contra deficientes físicos em
cadeiras de rodas, nos quais o deformado homem automobi­
lístico se auto-reconhece. Executa assim o seu próprio auto-
ódio e autodesprezo.
O protesto moral oficial das pessoas consideradas “pilares
da sociedade”, em relação ao terror urbano, se desmascara
como pura hipocrisia, pois tais pilares andam no mesmo per­
curso cego do Crash. Se o presidente da Volkswagen, Ferdi-
nand Piech, só consegue descrever a luta concorrencial na

373
OS ÚLTIMOS COMBATES

linguagem da violência e do racismo, manifesta-se o parentesco


interno dos representantes fordistas com as gangues de rua.
Os “skinheads de smoking” apenas pensam e agem em outras
dimensões. E especialmente na República Federal da Alema­
nha não precisamos de um “ Partido dos M otoristas de Au­
tomóvel”, partido radical da direita como na Suíça, porque
na Alemanha todos os grandes partidos, desde sempre, são
“ partidos de motoristas de automóvel”, se deslocando cada
vez mais para a direita. Uma mera “ mudança de guarda po­
lítica” em Bonn não alteraria nada, pois o Partido Social
Dem ocrata (SPD) se apresentou, desde seus princípios,
como um partido do capitalismo de combustão. Foi Hans-
Jochen Vogel, posteriormente presidente do SPD, que em
1961, ainda prefeito de Munique, fez propaganda da “ cida­
de adaptada ao automóvel” . Scharping e Schröder, os “ ma­
tadores” atuais da SPD, também não querem outra coisa além
de provocar fanaticamente a “capacidade de concorrência” e
o consumo de combustão. Scharping retirou pessoalmente o
item da “limitação de velocidade de automóveis” do pro­
grama do partido. O aumento do imposto do petróleo foi
congelado. E Schröder defendeu até a exportação de arma­
mentos bélicos.
Não nos enganemos a nós mesmos! Os seres humanos,
postos sob a tutela do mercado e do Estado, que gritam feroz­
mente, porém em vão, por “ emprego” , estão presos à lógica
autonomizada do dinheiro, como o enforcado está preso à
corda. E a administração democrática da crise exclui cada vez
mais seres humanos da “dignidade humana” . Enquanto as en­
grenagens compulsivas da economia de mercado continuarem
a ser interiorizadas, as pessoas nem mesmo serão capazes de
colocar as questões decisivas:
O que nós precisamos realmente? Como organizaremos a
nossa vida comunitária? Como trataremos com bom senso os
recursos? O que riqueza e felicidade poderiam ser, além do
consumo assassino de combustão?
Consertos no atual modo de economia e de vida não adian­
tam mais. Precisa-se, inevitavelmente, de uma ruptura profun-

374
SINAL VERDE PARA O CAOS DA CRISE

da de princípios. Para isso poder acontecer, os homens preci­


sam recuperar o controle sobre sua própria vida, desdobrar
atividades autônomas ultrapassando o trabalho assalariado e
superar a sua dependência total de “empregos” da economia
de mercado. Não sobra mais muito tempo para a minoria pen­
sante nos sindicatos, entre os executivos e na política. Até
agora, ela agiu sem perspectivas e com “meio coração”, isto
é, sem assumir toda a responsabilidade.

375
O oco do fetichismo

No começo é urna historia sobre o tédio mortal, ou seja,


sobre o cotidiano capitalista, que é tanto mortal quanto tedio­
so. Deserto algum poderia ser mais monocórdio que a paisa­
gem retalhada pelas abstrações econômicas oferecidas à vista do
produtor de filmes James Ballard (James Spader) e sua mulher
Catherine (Deborah Unger), da sacada de seu apartamento.
Como resta claro, ambos moram defronte a um entroncamen­
to viário. E tão desalentador quanto o espetáculo no exterior
das janelas é a vida sexual dos protagonistas, que, segundo
tudo indica, simboliza a monotonia de toda a sua existência.
As atividades de James e Catherine na cama são aproximada­
mente tão fidedignas quanto os discursos dominicais de um
político. Façam suas apostas de quem adormecerá primeiro:
os atores ou os espectadores?
Talvez este fora o objetivo do diretor, talvez não. N o se­
gundo caso, estaríamos a lidar com o embaraçoso fato de uma
pornochanchada na qual se nota que os atores são mal pagos.
Dúvidas sobre os propósitos e o “significado” da representação
constituem um fenômeno típico da arte pós-moderna, que não
se quer mais como arte, muito embora não supere a cisão da
sociedade burguesa em esferas de vida incompatíveis. O con-

377
OS ÚLTIMOS COMBATES

sumidor há de participar, porém, não criativamente, mas do


mesmo modo que os usuários de supermercados, caixas-ele-
trônicos e pedágios automáticos têm de assumir as funções dos
empregados. Pense você mesmo qual seja o significado, não
importa a que resultado você chegue, isso não faz a menor
diferença! Crie algo inteligente com o material que lhe é im­
pingido e faça de conta que ele seja importante! O juízo defi­
nitivo será dado pelas pesquisas de opinião e pelos números
da bilheteria, pois hoje não há mais um padrão de medida
intersubjetivo.
Seja como for, o júri do Festival de Cannes agraciou Crasb
com o seu prêmio especial, e os Cabiers du Cinéma falaram
de uma “obra-prima” . Uma obra-prima ou simulacro de uma
obra-prima? Para o pensamento pós-moderno, como se sabe,
isso não faz diferença alguma. Numa obra-prima cinemato­
gráfica, as imagens têm de arrebatar o espectador e pôr-lhe a
descoberto o próprio âmago. Nesse mundo do “faz de conta”,
basta que o espectador simule o seu arrebatamento, porque
assim o quer, como se de fato tivesse assistido a uma obra-pri-
ma. Os atores, por sua vez, fazem de conta que representam
algo cujo conteúdo toca o âmago do espectador - se é que ele
tenha âmago. Talvez tudo isso só venha explicitar a impossi­
bilidade lógica da arte num mundo capitalista que se tornou
idêntico a si mesmo e liquidou qualquer vestígio do “ não-idên-
tico” . Ou que faz de conta que seja assim. A involuntariedade
é alçada à forma de representação: um filme como Crasb é
talvez tão involuntariamente cômico quanto trágico. David
Cronenberg escolheu um tema que, quando muito, adapta-se
a essa ambivalência: o automóvel ou a relação do homem com
o automóvel. Seu filme remonta a um romance publicado em
1973 pelo escritor inglês J.G . Ballard, que emprestou seu pró­
prio nome ao herói da história. Exatamente em 1973, chegava
ao fim o grande boom do pós-guerra. A destruição do meio
ambiente, graças ao transporte automobilístico, veio às claras.
E 1973 foi também o ano da estrondosa alta do petróleo no
mercado mundial, quando os países árabes da Opep promo­

378
O OCO DO FETICHISMO

veram um embargo contra o Ocidente. Nessa época, passou a


vigorar na Alemanha a interdição do tráfego de automóveis
aos domingos e as ruas subitamente vazias soavam como um
mau agouro para as indústrias fordistas. O presságio de uma
catástrofe pairava no ar e a mentalidade da juventude era an-
ticapitalista.
Após mais de 20 anos, a atmosfera catastrófica perdeu
alento, como se percebe no filme de Cronenberg. O tráfego a
fluir uniformemente, como se pela eternidade, serve de pano
de fundo aos acontecimentos, mas sem qualquer efeito de es­
tranhamento mágico, que expressaria o não-idêntico do capi­
talismo automobilístico. Como não há mais nenhum padrão
de crítica, o aspecto inquietante do mundo real caiu na bana­
lidade. O automóvel, a principal máquina de consumo capi­
talista, já se livrou da crítica e sobreviveu à crise de seu valor
de uso. A catástrofe espreita por toda parte, mas só a encara
nos olhos quem é por ela inapelavelmente atingido. A cons­
ciência humana sucumbe, a cada minuto, às exigências de uma
racionalidade econômica autônoma que sarcasticamente di­
funde pelo mundo seu produto nocivo e majestoso, o auto­
móvel. Não admira então que o acontecimento que irrompe
no monótono mundo de James Ballard seja um acidente de
trânsito. Por culpa sua, um homem é morto. Cronenberg não
quer ou não se vê capaz de representar como tragédia moral
o fato de seu herói permanecer totalmente indiferente à culpa
que lhe pesa nas costas. O enredo, se é que se pode chamá-lo
assim, passa por cima do fato, assim como a sociedade de
consumo capitalista em geral passa por cima da morte no trân­
sito, que é incorporada como risco calculável da mobilidade
individual. Em vez de um drama íntimo sobre a culpa e a
expiação, aflora o sentimento de iím estímulo externo: o ero­
tismo do acidente de trânsito. Ballard associa-se a um grupo
de fetichistas do desastre, no qual introduz sua própria mulher.
Este fetichismo passa então a ser descascado, camada por ca­
mada, até desvendar-lhe o centro, que é oco.

379
OS ÚLTIMOS COMBATES

O tema “sexo no carro”, tão velho e tão cediço quanto o


tema “sexo no escritório”, redunda também em Cronenberg
em uma nova demonstração visual do fato de que o carro é
tecnicamente um espaço um tanto impróprio para o exercício
das atividades sexuais. O espernear convulsivo por trás do
volante e a tentativa de, com pernas escarranchadas, despir
uma calcinha trazem à memória as práticas de um curso de
primeiros socorros. Que James se exercite precisamente com
a viúva do homem por ele vitimado, a médica Helen Reming-
ton (Holly Hunter), também não torna o fato mais excitante.
E quando Deborah Unger, como Catherine, usando sempre a
mesma e ingênua expressão facial, abre sua blusa para mais
uma vez pôr à mostra o mesmo sutiã branco (ou, casualmente,
um solitário mamilo), nem a peculiaridade de tal procedimen­
to ser realizado num lava-rápido ganha em força explosiva.
Quer entre James e Vaughan (Elias Koteas), o chefe dos feti-
chistas, seja simulando um ato homossexual no cabriolé, quer
a enfastiada viúva esgueire-se pelo cemitério de carros para
um furtivo tête-à-tête lésbico, a sensação de uma verdade ja­
mais vista não consegue impor-se.
É de se prever que também o vínculo entre o diluído ero­
tismo automotivo e os desastres se revele um fracasso. A mania
dos fetichistas, Vaughan à frente, de reconstituir os célebres
acidentes automobilísticos da história, poderia ser mais refi­
nada. Ora, quando o desastre letal de James Dean é encenado
com minuciosa fidelidade, a pretensa metafísica de uma tal
ação prova ser um rotineiro hobby pequeno-burguês, em tudo
semelhante a trenzinhos de ferro ou a uma coleção de tampi­
nhas de cerveja. Isso é tão erótico quanto compridas anáguas
de lã. O acidente de trânsito também deixa de ser o que era
antes. O jogo com a perseguição entre veículos e com a fricção
rangente de pára-choque contra pára-choque quer provavel­
mente simbolizar o sexo anal e sua desvairada selvageria, mas
acaba por mostrar apenas a miséria da fantasia das classes mé­
dias. Certo é que a idéia de experimentar a verdadeira excita­
ção sexual somente no momento do Crash e de seus efeitos
lembra as fantasias de um Marquês de Sade, que inventou para

380
O OCO DO FETICHISMO

alguns de seus personagens situações tão intricadas quanto


absurdas, exclusivamente nas quais lhes era dado provar sua
energia sexual. Assim é que um nobre degenerado só logra a
ereção quando, antes, haja urinado na última caneca de leite
de uma velha paupérrima, prostrada no leito de morte. Mas
onde arranjar tantas velhas paupérrimas e moribundas, provi­
das de uma última caneca de leite?
Quanto aos heróis pós-modernos do filme Crasb, o estí­
mulo sexual não estaria garantido nem mesmo se fosse cum­
prida a condição de que o inferno se abrisse diante deles em
toda sua suntuosidade. Vaughan relembra um pouco, aliás, um
arquétipo da modernidade, o cientista maluco, algo como dr.
Mabuse e seu séquito. Mas lhe falta não só o autêntico subs­
trato cinematográfico, como também a profundidade do mal.
As encenações de Vaughan não são mais demoníacas do que
uma missa diabólica no salão de festas de um edifício. O mesmo
vale para os apetrechos do fetichismo, o erotismo das cicatrizes
e a tatuagem de um volante no peito. Tudo é mesquinho e
superficial, sem mistério e sem outro significado além do sen­
tido imediato. O mal é mais burro que um beócio.
Até mesmo o espetáculo de um engavetamento na estrada
fracassa como representação do apocalipse. Jean-Luc Godard,
em seu filme Weekend (1968), ainda foi capaz de criar uma
visão aflitiva da crise do capitalismo automobilístico ao pôr,
condensadamente em tela, o realismo mágico dos desastres
fumegantes. David Cronenberg, 27 anos mais tarde, é incapaz
de manter a peteca no ar. Como realismo, é improvável que
um fetichista curioso, empunhando sua máquina fotográfica,
insinue-se sem maior embaraço por entre os bombeiros que
retiram as vítimas presas às ferragens. E, de outro lado, não
se trata também de um fantasma mágico do pavor numa so­
ciedade fetichista, já que, para tanto, as imagens são de escasso
realismo. Cronenberg criou um apocalipse de araque, no qual
se vê o cenário vacilar e se sabe muito bem que, findo o espe­
táculo, será hora da cervejinha. /
Resta afinal pouco claro, embora siga a ordem da contin­
gência do fenômeno pós-moderno, saber a que veio o perso-

381
OS ÚLTIMOS COMBATES

nagem Vaughan. O hobby da encenação de desastres históricos


não guarda vínculo algum com o banal erotismo automobilís­
tico ou com um vago propósito, que Vaughan cita de passagem
como a “remodelação do corpo humano pela tecnologia mo­
derna”, sem jamais tocar no assunto novamente. O tema da
máquina humana é, como se sabe, um topos da era moderna
desde que, em 1748, Julien Offroy de Lamettrie definiu o
homem como máquina e deu fórmula à imagem mecânica do
mundo na sociedade capitalista ascendente. E por trás desse
conceito esconde-se o tão banal fetichismo da moeda e da
forma-mercadoria totalizada, que inverte a relação entre ho­
mem e objeto, desperta as coisas mortas para urna vida fantas­
magórica e converte os homens em autômatos da máquina
socioeconómica.
Nesse mundo às avessas, a máquina é inteligente e o ho­
mem, burro; a carrocería laqueada dos automóveis é erótica,
e o corpo humano, um pedaço de carrocería laqueada. Não
admira, pois, que a literatura moderna abunde em vistosas
mulheres-autômatos, edifícios inteligentes, cadeiras de rodas
malévolas, robôs apaixonados e ferramentas que escapam ao
controle. O homem que se fez insensível poderia agora reen­
contrar sua alma perdida nos produtos da economia inde-
pendentizada; e o conto de fadas sobre o levante dos robôs há
de trazer à memória a revolta emancipatória, para a qual o
homem deixou passar o momento histórico. Mas tal aspiração
pode seguir também o sentido inverso: o homem haveria fi­
nalmente de assumir-se como um robó de juntas azeitadas, sem
afetos nem sentimentos perturbadores. Nesse caso, é apenas
conseqüente que também a sexualidade seja projetada nas má­
quinas e surja o desejo de transformar-se num automóvel se­
xual, talvez com um pára-choque à maneira de genitália. Em
Crash, essa metamorfose é desenvolvida somente de relance,
por meio do símbolo da placa de aço na perna das vítimas
feridas. Sobretudo Gabrielle (Rosanna Arquette), a parceira
de Vaughan, cujo corpo repleto de cicatrizes só se mantém de
pé com ajuda de uma couraça de metal e couro, aproximou-se
um pouco, ao menos externamente, das figurações do cyborg

382
O OCO DO FETICHISMO

de um Stanislav Lem. Talvez se pudesse fazer desse erotismo


de couraça uma cena de pastelão, mas Cronenberg é muito
pouco irônico para tanto.
Aos protagonistas não resta mais que a aspiração pela pró­
pria morte num desastre, a qual poria termo à busca em vão
pelo frêmito erótico. Mas, mesmo este tema decai em mera
banalidade. N a cena final, Catherine jaz levemente ferida ao
lado de seu carro capotado e nos brinda mais uma vez com
suas alvas roupas de baixo. Espera-se que finalmente o nome
de fábrica da lingerie comece a piscar na tela. Ao invés disso,
James Spader, ajoelhado ao lado de sua mulher, sussurra: “Tal­
vez da próxima vez” .
Pois é, David Cronenberg, talvez da próxima vez. Em
Crash, com toda boa vontade, não se entrevê nenhum momen­
to transcendente. Os personagens são tão pouco dignos de
crédito quanto a realidade. Seria este então um filme sobre o
fetichismo da modernidade ou um filme fetichista? Ou quem
sabe até uma reflexão mal-sucedida sobre o fetichismo? Talvez
se trate, contudo, da arte de mostrar por que uma consciência
do mundo fetichista, cristalizada num vazio crítico absoluto,
já é incapaz de representar segundo os moldes artísticos. Crash
seria então, pelo menos de forma indireta, uma obra-prima.
Façamos de conta que seja assim.

383
O liberal e as fadas

Hollywood, todos sabem, é kitsch, glamour, perfeição téc­


nica, sentimentalismo, lágrimas falsas, dentes falsos e... enor­
me sucesso há mais de 80 anos. A grandiosa máquina de sonhos
do capitalismo funciona como um relógio e produz na linha
de montagem ilusões para todo o mundo - não com a rígida
coerção da propaganda e suas mentiras, mas com o poder
sedutor da oferta e suas mentiras. Mas não pode ser só o di­
nheiro a grande realização de Hollywood. E não podem ser
só os truques técnicos que fazem constantemente derreter o
coração dos espectadores. O poder de Hollywood tampouco
está no fato de as pessoas sucumbirem a uma refinada mani­
pulação, mas, antes, no fato de elas reconhecerem tal mani­
pulação, divertirem-se enormemente com ela e, ainda por
cima, pagarem para tanto. O poder de Hollywood é a arte
talvez mais antiga do conto de fadas, traduzida na forma da
“ reprodutibilidade técnica” . Também nessa configuração mo­
derna e tecnológica, contudo, não existe conto de fadas sem
um fabulador.
Muitos livros foram escritos sobre Hollywood, mas apenas
uns poucos sobre seus próprios fabuladores. Frank Capra foi
uma exceção, e sua autobiografia, como disse John Ford, “não

385
OS ÚLTIMOS COMBATES

é só o melhor, mas o único livro que jamais foi escrito sobre


Hollywood” . Essa opinião não é exagerada. Quando Capra,
com mais de 70 anos de idade, redigiu as quase mil páginas
dessa “opus magnum” publicada em 1971, ele não relatou
apenas sua vida, mas a própria história de Hollywood como
um grande conto de fadas: “Tudo o que nós, gente do cinema,
somos, temos e fazemos, advém do filme, do tapete voador!
Eu pude agarrar a franja desse tapete voador, alçar-me aos ares
e ir ao encontro da aventura”. Este livro contém todas as virtudes
e fraquezas dos filmes de Capra e pode mesmo ser considerado
um “filme” que tem de passar na prova da credibilidade. Do
começo ao fim, Capra revela todos os vícios e vergonhas de
Hollywood. Matraqueia com orgulho, dá-se ares de felizardo
e super-homem, faz pose de delator como um jovem pubes-
cente de alguma gangue. Capra como Napoleão nas guerras
da indústria cinematográfica, Capra cumulado de prêmios,
Capra, o Grande! Ao mesmo tempo, ele é sentimental até as
lágrimas (ou para além delas) e derrama aos borbotões a fa­
mosa “pieguice à la Capra” (“ Capracorns”), pateticamente
como um pregador peregrino e de forma católico-romana até
os ossos: “Alguém deveria recordar ao homem mediano”, mo­
raliza o untuoso Capra, de cima de seu púlpito erguido por si
próprio, “que ele é um filho de Deus e um herdeiro legítimo
das ricas dádivas divinas e que a bondade significa riqueza, a
amizade significa poder e a liberdade significa fama” .
Se fosse só isso e nada mais, os filmes de Capra teriam sido
simplesmente insossos e a sua alentada biografia-calhamaço,
ilegível. Mas, tanto nos filmes quanto no livro, o ritmo é de
tirar o fôlego e “o pecado capital, o tédio” não tem vez. Como
isso é possível? Talvez por meio de uma única e grande virtude
de que precisa o fabulador: uma ingenuidade de cair os quei­
xos! Apesar de toda manha e esperteza, apesar de toda malícia
e vivacidade, Capra, o moleque de riso maroto dos campos da
Sicília, guarda sempre algo de um Simplicius Simplicissimus.
Capra continua ingênuo e, por isso, ele é capaz de permanecer
honrado também como um camponês simplório. Mal tocara
as trombetas de sua própria fama, ele se vê “com toda a sere-

386
O LIBERAL E AS FADAS

nidade de um homem que pela primeira vez ergue-se sobre


patins” e, logo após o triunfo, vem sempre a sobriedade: “A
realidade desabava sobre mim como um saco de areia”. A ho­
nestidade lhe deve ser creditada, mesmo que ela sirva só para
dar melhor vazão às sentenças grandiosas.
A autêntica ingenuidade de Capra permaneceria unidimen­
sional se não fosse superada de modo estranho pelas virtudes
quase contrárias do humor e da auto-ironia, cujas técnicas
cênicas ele aprendera como ugag-man” no estúdio de Mack
Sennet, onde se cultivava o pastelão e onde foram inventadas
as tortas voadoras. Em suas comédias sociais, Capra, como ele
mesmo diz, fundiu os personagens clássicos do drama e “os
heróis brincalhões numa única pessoa”. O fato de ele e seus heróis
cumprirem uma função análoga como “bobos da corte em tem­
pos cinzentos” lhe era plenamente consciente: “Tais bobos eram
em geral anões ou grotescos pobres-diabos que, para indicar sua
posição privilegiada, vestiam trajes de palhaços (...), empunha­
vam delgadas bengalas de palhaços (“slapsticks”) ou portavam
bexigas cheias de ar. A fala sarcástica dos bobos serviria, assim
esperavam os reis, como válvula de escape e evitaria a explosão
da fervilhante chaleira da miséria popular” . E, no entanto, Capra
acredita no poder libertador do riso:
N o tocante às relações entre os homens, a com édia cumpre a
perfeita tarefa da defesa própria. (...) Quando alguém age com
altivez ou quando im põe m edo - aí se colocam os espinhos. N ão
se rirá - nem com ele nem sobre ele. (...) Ditadores não podem
rir. Hitler e Stalin não se achavam a si m esm os nem aos outros
engraçados.

Se algo resta de Capra e de seus contos de fada, esse algo


é a risada. N a Alemanha, “Este Mundo E um Hospício” (.Ar-
senic and Old Lace, 1944), uma genial obra de ocasião, tor­
nou-se o seu filme mais conhecido, com o selo do “humor
negro” .
O terceiro grande trunfo de Capra é algo que se poderia
descrever como exatidão ou como olho para o detalhe. Obvia­
mente, esse amor pelo detalhe tem uma dimensão técnica. Não

387
OS ÚLTIMOS COMBATES

por acaso, Capra era um cientista de cancha e engenheiro gra­


duado, amigo do astrônomo Edwin E Hubble (o descobridor
de tipos espectrais galácticos e da expansão do universo), de­
tentor de algumas patentes e inventor de diversas máquinas-
currículo, que sempre lhe ajudou no trabalho como diretor.
Mas, para além do aspecto técnico, é o faro para o colorido
de uma situação no sentido literal e figurado que Capra destaca
em sua autobiografía - quando, por exemplo, ao viajar para
Moscou na condição de membro de uma delegação cinema­
tográfica, ele descreve a gigantesca demonstração na Praça
Vermelha no l 2 de maio de 1937:
Caminhávamos entre fileiras intermináveis de soldados, entre ver­
dadeiros vales de bandeiras vermelhas e por entre rúas bloqueadas
pela polícia secreta que controlava o passo, carimbava e revistava.
(...) A cor colérica espelhava-se nos olhos e nos rostos dos homens
e incendiava as baionetas. Vermelha a cidade, vermelha a atmosfera.
(...) Além, nos arrabaldes da cidade, terminava a corrente ininter­
rupta dos soldados. O sol se pôs. Diante de nós, ergueu-se urna
nuvem de poeira num campo aberto. Os que marchavam à nossa
frente saíram de formação e correram em direção à nuvem. (...) E
lá, sob o abrigo dessa escura nuvem de poeira, teve lugar a maior
mijada em massa de todos os tempos.
Uma cena digna de Capra! Aqui a ironia do artista volta-se
contra a forma da propaganda, contra o olhar abstrato e ge­
neralizante dirigido à humanidade, contra as grandes maqui­
nações de uma transformação social. Seu olhar tem em mira
somente o indivíduo, não só no sentido do ideal político nor­
te-americano, mas ainda como método de sua própria arte.
Para Capra, isto é um alvo programático:
A massa é um conceito próprio ao rebanho-inaceitável, ofensivo,
humilhante. Quando vejo um ajuntamento de pessoas, vejo um
conjunto de indivíduos livres: cada qual uma pessoa única, cada
qual, em sua dignidade humana, uma ilha para si.
Capra toma partido do sujeito artístico individual contra
a filosofia crítica, da experiência contra a teoria: “Meus filmes
penetrarão o coração não com lógica, mas com compaixão” .

388
O LIBERAL E AS FADAS

Se se quiser, pode-se reconhecer aqui um eco da crítica de


Adorno à “lógica de identidade”, um impulso pelo “não-idên-
tico” nos homens, que não se resolve nas determinações da
estrutura social e de suas “coerções” . Contudo, quando essa
posição permanece unilateral e irrefletida, logo não se vê mais
a floresta por trás das enormes árvores. Para Capra só existiam
as árvores isoladas, e nisto ele é rigorosamente liberal. Justa­
mente por isso, todavia, o contexto social à sua volta só pode
ser salvo com seu carregado sentimentalismo, e as soluções
têm de vir diretamente de um milagre, como que pela “mão
de Deus” . O feérico sente o chão vacilar sob os pés e a “pieguice
à la Capra” ameaça tornar-se rançosa.
O que mantém Capra entre os grandes é, entretanto, sua
posição histórica. Por mais que os seus contos de fada trans­
figurem-se sentimentalmente, eles preservam a credibilidade
como filme a título de registro da realidade: como contos de
fada do New Deal e do antifascismo. Com a sua “mensagem
de encorajamento”, ele pôde cantar o elogio do capitalismo
e, ao mesmo tempo, “o elogio do homem que trabalha duro,
do enganado, dos que nasceram pobres, dos golpeados”, pois
na crise econômica mundial parecia haver uma espécie de au-
toconhecimento capitalista e, na figura de Franklin Delano
Roosevelt, a esperança de uma renovação social. Se Capra
viveu na pele o “sonho americano” de tornar-se um milionário
depois de uma infância pobre como imigrante e o espelhou
em seus heróis ingênuos, isso é porque ele queria justamente
representar não o triunfo do dinheiro e do mercado sem peias,
mas, antes, a contenção social da máquina capitalista. O New
Deal inaugurou a época do keynesianismo e do “déficit spen-
ding” ; e somente nesse clima político foi possível a Capra, em
filmes como “ O Galante Mr. Deeds” (1936) ou “A Mulher Faz
o Homem” (1939), conduzir seu Parsifal interiorano pelo mais
profundo desespero, até o final feliz de uma vitória sobre a
maldade e a corrupção. A ingenuidade de seus contos de fada
estava marcada por uma campanha social de peso, com base
na qual Habermas, 30 anos depois, ainda fazia acreditar que

389
OS ÚLTIMOS COMBATES

o capitalismo seria então fundamentalmente civilizado pelo


Welfare State.
O caráter antifascista em Capra também era real e autén­
tico. Nesse sentido, ele pôde, da mesma forma, mobilizar, com
crédito, a ingenuidade de suas afirmações críticas ou de suas
críticas afirmativas, pois o capitalismo ocidental travava, de
fato, uma luta ferrenha contra o pior rebento de sua própria
lógica e queria evitar sua conseqüência última. Capra voltou
as costas a Hollywood e alistou-se voluntariamente no exército
americano para pôr seu potencial a serviço da coalizão anti-
Hitler.
Quando assistiu ao “Triunfo da Vontade”, de Leni Riefens-
thal, ele reconheceu nesse “filme horripilante” um “rasgo genial”
com uma mensagem “tão nua e brutal como um cano de chum­
bo”, no qual se anunciava o holocausto. Como contrapropagan­
da, o “coronel Capra” criou a série Why We Figbt (1942-45),
cujo objetivo era utilizar, como documento, “o filme dos inimi­
gos, a fim de pôr em evidência suas metas escravistas” .
O fato de que, após a guerra, a carreira de Capra tenha
brilhado apenas parcamente é algo que lhe permanece incom­
preensível mesmo décadas mais tarde. E curioso como sua
autobiografia torna-se mais fraca em termos literários e inte­
lectuais à medida que ele se aproxima da descrição daquele
tempo, como se a voz tivesse sido roubada ao fabulador. Sú­
bito, a ingenuidade torna-se insípida e o ímpeto se paralisa.
Parsifal perdeu a sua inocência. Contra a revolta da juventude
nos anos 60, ele não faz senão esbravejar como um idoso con­
servador e vê “jovenzinhos parasitas e fumadores de haxixe”,
difama os “invertidos e onanistas”, lança mão da linguagem
preconceituosa contra “homossexuais, lésbicas e viciados” e
pragueja contra os “ protestos infantis com cartazes pueris” de
“ hordas batráquias” . Mas Capra leva também a si mesmo a
julgamento ao descrever o fracasso de seu último filme, “Dama
por um Dia” (Pocketful o f Miracles, 1961):
Para mim, a verdadeira causa foi profundam ente pessoal e m o­
ral: alguém que possui o inacreditável poder de falar durante

390
O LIBERALE AS FADAS

duas horas a centenas de milhares de seus com patriotas, e isso


no escuro, não pode dizer mentiras. O que ele fala tem de sair
diretamente de seu coração, e não de sua valise.

N a verdade, a época da moral capitalista havia passado,


já que os recursos históricos do keynesianismo estavam esgo­
tados. O mito de Kennedy já não tinha mais nenhum equiva­
lente na sociedade real. O show de Clinton não pode hoje ser
tomado sequer como caricatura do New Deal. Não foram as
pessoas que se tornaram mais fracas, foi o desenvolvimento
do capitalismo que fez os heróis perderem seu propósito. A
crítica social desapareceu por completo de toda a arte pós-mo-
derna, e as lágrimas do sentimentalismo só podem brotar para
animais ou seres extraterrestres. Inversamente, o mal também
não se deixa mais individualizar. “O malandro”, reclama o
velho Frank Capra, “começou a transformar-se de pessoa em
idéia, de estádo de espírito em condição de vida” . Ou, igual­
mente, num ser extraterrestre. O estruturalismo alcançou Ca­
pra. M as isso não é motivo para júbilo. Ele próprio já o
pressentira: quando o kitsch social da crença hollywoodiana
na bondade pessoal degradar-se definitivamente em ridículo
e tornar-se tedioso ou uma simples cena histórica de costumes,
“ as máscaras de canibais que as crianças vestem no dia das
bruxas irão revelar a realidade” . Tao tolos e malignos quanto
o capitalismo ilimitado serão seus últimos contos de fada.

391
N O TA BIBLIOGRÁFICA

PARTE I

Artigos do livro D erLetzte m acht dasL ich t aus, publicado por Robert
Kurz em 1993, Edition TIAMAT. Tradução e notas de Raquel Ima-
nishi Rodrigues.

P A R T E II

“ C olapso da M odernização” , entrevista concedida a Tarson Nunez


e Carlos Winckler, tradução de Peter Neum ann, jornal Utopia, junho
de 1993, Porto Alegre.
“A falta de autonom ia do Estado e os limites da política: quatro teses
sobre a crise da regulação política” , conferência lida no Colóquio:
“ Capital e Estado na América Latina” , agosto de 1994, publicado
na revista Indicadores Econôm icos F E E , Porto Alegre, maio de 1995,
tradução de Peter N eum ann (que agradece a Carlos Roberto Winck­
ler e Luiz Augusto Estrella Faria pelas sugestões quanto à termino­
logia e ao estilo).

P A R T E III

Artigos mensais publicados no caderno MAIS! da Folha de S. Paulo, de


agosto de 1995 a julho de 1997 (com exceção dos três textos que apa­
recem nas partes subseqüentes). Traduções de José M arcos Macedo.

P A R T E IV

“Uma revolta do silêncio” , Folha de S. Paulo, caderno MAIS! 14 de


janeiro de 1996. Tradução de Jo sé M arcos M acedo.
“ O s últimos com bates” , N ovos Estudos CEBRAP, na 46, novembro
de 1996. Tradução de Jo sé M arcos M acedo.

393
PARTE V

“ Sinal verde para o caos da crise” , tradução de Heinz Dieter H eide­


mann, em colaboração com Tatiana Schor. Difundido originalmente
pelos cadernos do Laboratório de G eografia Urbana do Departa­
mento de G eografia da FFLCH /U SP ano 1, n2 1, abril de 1996.
“ O oco do fetichism o” , Folha de S. Paulo, caderno M AIS! 26 de
janeiro de 1997. Tradução de Jo sé M arcos M acedo.
“ O liberal e as fadas” , Folha de S. Paulo, caderno M AIS! 18 de maio
de 1997. Tradução de Jo sé M arcos M acedo.

394