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Pr.

Expedito José

Hermenêutica

1. O que é a hermenêutica bíblica

O termo hermenêutica tem sido empregado em dois sentidos. Historicamente, nos


compêndios clássicos de interpretação bíblica, designa a disciplina que, partindo de
pressupostos básicos, estuda e sistematiza a teoria da interpretação das Escrituras,
enquanto a exegese designa a prática. Neste sentido, o objetivo da hermenêutica é
descobrir e sistematizar os princípios e métodos apropriados para a compreensão do
sentido que o autor intentou transmitir aos seus leitores originais.

Mais recentemente, entretanto, estes termos têm sido usados com sentidos diferentes:
exegese, para designar o estudo das Escrituras com vistas a descobrir o sentido original
pretendido pelo autor, e hermenêutica, no sentido restrito da sua contemporaneidade.
Ou seja, a exegese seria uma primeira tarefa histórica pela qual se busca compreender o
que os leitores originais entenderam; enquanto que a hermenêutica seria uma tarefa
teológica prática e posterior, na qual se busca compreender a relevância da sua
mensagem para nós, hoje, no nosso contexto específico.

A Hermenêutica da Reforma Protestantante

Orare e labutare foram palavras empregadas por Calvino para resumir a sua concepção
hermenêutica. Com estes termos ele expressou a necessidade de súplica pela ação
iluminadora do Espírito Santo e do estudo diligente do texto e do contexto histórico,
como requisitos indispensáveis à interpretação das Escrituras. Com o mesmo propósito,
Lutero empregou uma figura: um barco com dois remos, o remo da oração e o remo do
estudo. Com um só destes remos, navega-se em círculo, perde-se o rumo, e corre-se o
risco de não chegar a lugar algum.

Palavras e figuras como estas revelam a consciência que os reformadores tinham do


caráter divino-humano das Escrituras e o equilíbrio fundamental que caracteriza a
hermenêutica reformada da Palavra de Deus.

1 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


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Hermenêutica

Usaremos estes termos no sentido histórico mais comum: hermenêutica,


designando a disciplina que estuda e sistematiza os princípios e técnicas, com as
quais, partindo de determinados pressupostos, se busca compreender o sentido
original do texto bíblico; exegese, designando a prática destes princípios e técnicas;
e aplicação, designando a busca da relevância do texto ao nosso contexto específico.
Isto é: tendo compreendido qual a mensagem do texto para os seus leitores
originais, em que sentido esta mensagem é aplicável aos nossos dias e ao nosso
contexto?

Convém esclarecer também que o termo reformada, não é empregado aqui para
designar especificamente a hermenêutica dos reformadores. Não se pretende aqui fazer
uma descrição específica e detalhada da hermenêutica desenvolvida e praticada por
Lutero, Melanchton, Calvino e outros. O termo também não se refere à denominação
reformada (ramo da reforma como ficou conhecido especialmente na Europa). O termo
hermenêutica reformada, neste trabalho, refere-se a uma corrente ou escola de
interpretação bíblica histórica, distinta de outras correntes, fundamentada em
pressupostos bíblicos quanto à natureza das Escrituras, e que emprega princípios e
métodos específicos. Trata-se de uma escola ou corrente de interpretação que adota o
método histórico-gramatical, em contraposição aos métodos intuitivos (da corrente
espiritualista) e histórico-crítico (humanista) de interpretação bíblica.

Com a expressão hermenêutica reformada, quer-se designar neste estudo o modelo de


interpretação bíblica defendida e aplicada pelos reformadores, pelos principais símbolos
de fé protestantes (inclusive batista2), pelos puritanos ingleses, e pelas igrejas
evangélicas ortodoxas em geral até os nossos dias. Esta corrente de interpretação
poderia ser chamada de hermenêutica protestante ou hermenêutica evangélica. Mas, ao
que parece, estes termos já não caracterizam muita coisa — pelo menos no campo da
hermenêutica —, pois englobam, sem qualquer distinção, defensores e praticantes de
todas as correntes de interpretação bíblicas: desde a corrente espiritualista (intuitiva) até
a corrente humanista (histórico-crítica).

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Hermenêutica

1. 2 Princípios Reformados de Interpretação

A – Extraia o Sentido do Texto

B – Extraia a Doutrina do Texto

C – Faça a Correlação do Texto Interpretado com outros textos Bíblicos

D – Aplique o Texto Interpretado na Vida do Povo.

2. Importância da hermenêutica

A importância da hermenêutica dificilmente pode ser exagerada, pois a hermenêutica é a


base teórica da exegese, que, por sua vez, é o alicerce tanto da teologia (quer bíblica,
quer sistemática) como da pregação.

Parece que, atualmente, pelo menos no Brasil, estas disciplinas têm sido parcialmente
relegadas por alguns segmentos evangélicos a um segundo plano. Exegese, doutrina e
pregação têm sido substituídas por coisas ‘‘mais práticas’’ (tais como a ação social, o
engajamento político, a administração eclesiástica, a liturgia, etc.). Quando não se nega
a importância da exegese, da doutrina e da pregação, na teoria, nega-se na prática.

Convém observar, entretanto, que o apóstolo Paulo exorta Timóteo a cuidar ‘‘de si
mesmo e da doutrina’’, de modo que possa ser ele mesmo salvo bem como os seus
ouvintes (1 Tm 4.16). Ele o admoesta a apresentar-se a Deus ‘‘aprovado, como obreiro
que não tem do que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade’’ (2 Tm
2.15). E afirma que devem ‘‘ser considerados merecedores de dobrados honorários (ou
honra) os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na
Palavra e no ensino’’ (1 Tm 5.17).

Não se pode esquecer de que ‘‘aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura da
pregação’’ (1 Co 1.21); e de que ‘‘a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de
Cristo’’ (Rm 10.17).

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A importância da doutrina é vista especialmente nas cartas do apóstolo Paulo e no


tratamento que faz da questão da justificação pela fé na carta aos Gálatas. Nem a Igreja
de Corinto, com todos os seus problemas morais, foi tão duramente tratada pelo
apóstolo quanto as igrejas da Galácia, em função do seu desvio doutrinário.

A verdade de Deus expressa em sua Palavra é o instrumento empregado pelo Espírito


Santo para salvar e santificar. São ‘‘as Sagradas letras que podem tornar-te sábio para a
salvação pela fé em Cristo Jesus’’, e fazer com que ‘‘o homem de Deus seja perfeito e
perfeitamente habilitado para toda boa obra’’ (2 Tm 3.15,17).

Richard Baxter, um dos puritanos mais conhecidos do século XVII, foi o instrumento
nas mãos de Deus em um reavivamento na sua cidade. Autor de dezenas de obras, a
maioria de cunho prático, usou uma figura para expressar a relação entre a verdade da
Palavra e a santidade. Eis suas palavras:

...as verdades de Deus são os próprios instrumentos da santificação de vocês; essa


santificação é o resultado produzido por essas verdades sobre o entendimento e a
vontade de vocês. As verdades são o selo e a alma de vocês é a cera; a santidade, é a
impressão feita. Se vocês receberem apenas algumas verdades, terão apenas uma
impressão parcial... Se vocês as receberem de modo desordenado, a imagem que
produzirão nas almas de vocês será igualmente desordenada; como se os membros dos
corpos de vocês fossem unidos de modo monstruoso.

Aí está a importância da hermenêutica: ela é a base teórica da exegese, que por sua vez
é o fundamento da teologia e da pregação, das quais depende a saúde espiritual da
igreja, e da nossa própria vida. Uma hermenêutica deformada fatalmente resultará em
exegese deformada, produzirá teologia e pregação deformadas, e se manifestará
tragicamente em igrejas e vidas deformadas.

3. Necessidade da Hermenêutica

Todo leitor é um intérprete. Mas ler não implica necessariamente em entender. Quando
não há barreiras na compreensão de um texto, a interpretação é automática e
inconsciente. Mas isso nem sempre ocorre. De conformidade com a doutrina reformada

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da clareza das Escrituras, a Bíblia é substancialmente, mas não completamente clara. As


verdades básicas necessárias à salvação, serviço e vida cristã são evidentes em um ou
outro texto, mas nem todos os textos das Escrituras são igualmente claros.

Por ser um livro divino-humano, inspirado por Deus, mas escrito por homens, admite-se
que há dificuldades de ordem espiritual e de ordem humana para a compreensão das
Escrituras. O apóstolo Pedro reconheceu essa dificuldade com relação aos escritos do
apóstolo Paulo, dizendo que neles ‘‘há certas coisas difíceis de entender...’’ (2 Pe 3.16).

Isto significa que a compreensão das Escrituras não é necessariamente automática e


espontânea. É, sim, o resultado da ação iluminadora do Espírito Santo, por um lado, e
por outro, do estudo diligente da língua e do contexto histórico em que foi escrita.

3.1 PRINCÍPIOS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

Uma vez que a Hermenêutica Bíblica é a ciência que procura descobrir qual é o
verdadeiro significado de um texto bíblico, torna-se necessário fornecer alguns
princípios por meio dos quais a interpretação de um texto deve ser feita. Abaixo, cito
resumidamente 4 princípios de interpretação com os seus respectivos subitens (23, ao
todo):

I - Princípios Gerais de Interpretação

1. A Bíblia é autoridade suprema em matéria de fé e prática, independente do


testemunho de homens ou igreja.
2. A Bíblia é seu intérprete; a Bíblia explica a própria Bíblia;
3. A fé salvadora e o Espírito Santo nos são necessários para compreendermos e
interpretarmos bem as Escrituras;
4. Interprete a experiência pessoal à luz da Bíblia, e não a Escritura à luz da experiência
pessoal;
5. Os exemplos bíblicos só têm autoridade quando amparados por uma ordem;
6. O propósito primário da Bíblia é mudar nossas vidas, não aumentar o nosso
conhecimento;
7. Cada cristão tem o direito e a responsabilidade de investigar e interpretar
pessoalmente a Palavra de Deus;
8. A história da igreja é importante, mas não decisiva na interpretação da Escritura;
9. As promessas de Deus em toda a Bíblia podem ser aplicadas pelo Espírito Santo em
favor dos crentes de todas as gerações.

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II - Princípios Gramaticais de Interpretação

1. A Escritura tem somente um sentido, e deve ser tomada literalmente (exceto se o


contexto indicar o contrário);
2. Interprete as palavras no sentido que tinham no tempo do autor;
3. Interprete a palavra em relação à sua sentença e ao seu contexto;
4. Interprete a passagem em harmonia com o seu contexto;
5. Quando uma expressão não caracteriza a coisa descrita, a proposição pode ser
considerada figurada;
6. As principais partes e figuras de uma parábola representam certas realidades.
Considere somente essas principais partes e figuras quando estiver tirando conclusões;
7. Interprete as palavras dos profetas no seu sentido comum, literal e histórico, a não ser
que o contexto ou a maneira como se cumpriram indiquem claramente que têm sentido
simbólico. O cumprimento delas pode ser por etapas, cada cumprimento sendo uma
garantia daquilo que há de seguir-se.

III - Princípios Históricos de Interpretação

1. Desde que a Escritura originou-se num contexto histórico, só pode ser compreendida
à luz da história bíblica;
2. Embora a revelação de Deus nas Escrituras seja progressiva, tanto o Velho como o
Novo Testamento são partes essenciais desta revelação e formam uma unidade;
3. Os fatos ou acontecimentos históricos se tornam símbolos de verdades espirituais,
somente se as Escrituras assim o designarem;

IV - Princípios Teológicos de Interpretação

1. Você precisa compreender gramaticalmente a Bíblia, antes de compreendê-la


teologicamente;
2. Uma doutrina não pode ser considerada bíblica, a não ser que resuma e inclua tudo o
que a Escritura diz sobre ela;
3. Quando parecer que duas doutrinas ensinadas na Bíblia são contraditórias, aceite
ambas como escriturísticas, crendo confiantemente que elas se explicarão dentro de uma
unidade mais elevada;
4. Um ensinamento simplesmente implícito na Escritura pode ser considerado bíblico
quando uma comparação de passagens correlatas o apóia.

4. Dificuldades de Ordem Espiritual


O aspecto espiritual envolvido na interpretação das Escrituras é demonstrado claramente
em passagens bíblicas tais como 1 Coríntios 2.14 e 2 Coríntios 4.3-6:

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Nestes textos o apóstolo Paulo ensina claramente a absoluta incapacidade do homem


natural (não regenerado) de compreender a revelação de Deus. A razão desta
incapacidade é a cegueira espiritual em que se encontra como resultado da queda do
homem do seu estado original, e da ação diabólica. E a cura desta cegueira não é
intelectual, mas espiritual. Só o Espírito Santo pode fazer resplandecer a luz do
Evangelho da glória de Cristo num coração em trevas.

Outro texto que demonstra o caráter espiritual envolvido na interpretação das Escrituras
é 2 Coríntios 3.14-15. Neste texto o apóstolo Paulo explica que os judeus tinham como
que um véu embotando os seus olhos espirituais, de modo que não podiam compreender
o significado do que liam, por causa da incredulidade:

Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da
antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que em Cristo é
removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles.

Como este véu pode ser retirado? Pela conversão, responde o apóstolo no verso
seguinte: ‘‘Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu é retirado’’. Na
carta aos Efésios, o apóstolo Paulo ensina a mesma coisa com relação aos gentios:

...não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios
pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da
ignorância em que vivem, pela dureza dos seus corações (Ef 4.17-18).

A ação iluminadora do Espírito Santo é, portanto, indispensável na interpretação e


apreensão do ensino das Escrituras. A erudição piedosa é preciosa e indispensável para a
preservação da sã doutrina. Um erudito, por mais bem equipado que esteja
hermeneuticamente, desprovido, porém, da ação regeneradora e iluminadora do
Espírito, possivelmente não alcançará o sentido da Escritura tanto quanto um crente
simples e fiel, mesmo que indouto em métodos e técnicas de interpretação.

Mesmo o crente precisa da ação iluminadora contínua do Espírito Santo para progredir
na compreensão das Escrituras. Seu coração não está embotado como o dos judeus
descrentes; nem seu entendimento está obscurecido, como o dos gentios incrédulos.

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Mas ainda há muito a compreender; e a ação iluminadora do Espírito Santo permanece


indispensável. Com esse propósito o apóstolo Paulo orava insistentemente pelos crentes,
a fim de que Deus lhes iluminasse mais e mais, para compreenderem mais
profundamente a natureza do evangelho e a suprema riqueza da sua graça. Eis um
exemplo apenas na carta aos Efésios. (Ef 1.16-19).

Textos como este revelam o papel do Espírito Santo e da fé na compreensão das


verdades espirituais. A interpretação e compreensão das Escrituras torna-se
essencialmente uma tarefa espiritual — embora não rejeitando habilidades naturais ou
técnicas.

5. Dificuldades Naturais

Deve-se observar, entretanto, que as Escrituras também revelam, por ensino direto e por
inúmeros exemplos, que o coração do homem é mais enganoso do que todas as coisas e
desesperadamente corrupto (Jr 17.9), não sendo, portanto, totalmente confiável. Além
disso, não existe somente o Espírito da verdade; há também o espírito do erro (1 Jo 4.6).
O pai da mentira está sempre pronto a enganar, se possível for, até os eleitos. Logo, o
caráter espiritual envolvido na interpretação das Escrituras não elimina, de modo algum,
o lado humano, também necessário para a sua correta interpretação e compreensão.
Afinal, é pela própria Palavra, e através da Palavra, que o Espírito Santo realiza essa
obra iluminadora.

Por haver sido escrita em línguas humanas, em contextos históricos, sociais, políticos e
religiosos específicos, um conhecimento adequado da língua e do contexto histórico
também é necessário para uma melhor interpretação e compreensão das Escrituras.
Deve-se lembrar também que o ministro da Palavra é aquele que se afadiga no estudo
dela (1 Tm 5.17). Logo, para uma interpretação e compreensão adequada das Escrituras,
fazem-se necessários requisitos de natureza espiritual, bem como requisitos de natureza
intelectual. Ambos são necessários e imprescindíveis.

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6. Principais Correntes de Interpretação

A. Corrente Espiritualista

Muitos grupos na história da interpretação bíblica se caracterizaram por superenfatizar o


caráter espiritual (místico) das Escrituras, em detrimento do seu caráter humano. Esta
corrente distingue-se especialmente pela insatisfação generalizada com o sentido
natural, literal das Escrituras. Dois dos textos mais explorados são 2 Coríntios 3.6: ‘‘...a
letra mata, mas o Espírito vivifica’’ e 1 Coríntios 2.7: ‘‘...falamos a sabedoria de Deus
em mistério’’. O maior perigo dessa corrente de interpretação é o subjetivismo e o
misticismo. Nenhuma das duas passagens mencionadas prescreve a supremacia de
sentidos "espirituais" e ocultos da Escritura sobre sentidos naturais e óbvios. 2 Coríntios
3.6 faz um contraste entre os dois ministérios ou alianças exercidos por Moisés e por
Cristo; 1 Coríntios 2.7 trata do mistério de Deus, que é Cristo, mistério agora revelado.
Nada há nestas passagens que exaltem sentidos ocultos da Escritura, disponíveis apenas
aos "espirituais" ou avançados. Alguns sistemas hermenêuticos pertencentes à corrente
espiritualista são descritos abaixo.

6.1. A HERMENÊUTICA ALEGÓRICA

Trata-se de um dos métodos de interpretação mais antigos. Fortemente influenciados


pelo platonismo e pelo alegorismo judaico, os defensores desse método de interpretação
atribuíam diversos sentidos ao texto das Escrituras, enfatizando o sentido chamado de
alegórico.

Clemente de Alexandria (†215) e Orígenes (†254) são os dois principais nomes da


escola alegórica de Alexandria, no Egito. Clemente identificava cinco sentidos para um
dado texto das Escrituras: 1) histórico, 2) doutrinário, 3) profético, 4) filosófico e 5)
místico. Orígenes distinguia três níveis de sentidos: 1) o literal, ao nível do corpo, 2) o
moral, ao nível da alma, e 3) o alegórico, ao nível do espírito.

A hermenêutica alegórica prevaleceu durante toda a Idade Média, especialmente em sua


forma quádrupla. Sua origem é provavelmente o sistema hermenêutico de Agostinho.

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Segundo este método, as passagens das Escrituras teriam quatro sentidos: um sentido
literal, e três sentidos espirituais: moral, alegórico e anagógico. O sentido literal seria o
registro do que aconteceu (o fato); o sentido moral conteria uma exortação quanto à
conduta (o que fazer); o sentido alegórico ensinaria uma doutrina a ser crida (o que
crer); e o sentido anagógico apontaria para uma promessa a ser cumprida (o que
esperar). Assim, uma referência bíblica sobre a água, teria um sentido literal (a água),
um sentido moral (exortação a uma vida pura), um sentido alegórico (o sacramento do
batismo), e um sentido anagógico (a água da vida na Nova Jerusalém).

Este método pode fornecer esplêndidas interpretações, mas rouba o real significado do
texto, desviando a atenção do leitor do seu verdadeiro sentido, que o Espírito Santo
intentou transmitir.

O caráter fantasioso deste método de interpretação fica manifesto na conhecida


interpretação alegórica de Orígenes da parábola do bom samaritano (Lc 10.30-37).
Segundo ele, o homem atacado pelos ladrões simbolizava Adão (a humanidade);
Jerusalém, os céus; Jericó, o mundo; os ladrões, o diabo e suas hostes; o sacerdote, a lei;
o levita, os profetas; o bom samaritano, Cristo: o animal sobre o qual foi colocado o
homem ferido, o corpo de Cristo (que suporta o Adão caído); a estalagem, a igreja; as
duas moedas, o Pai e o Filho; e a promessa do bom samaritano de voltar, a segunda
vinda de Cristo.

Outro exemplo do caráter fantasioso desse método de interpretação pode ser percebido
nas diferentes interpretações alegóricas atribuídas às duas moedas mencionadas nessa
parábola: o Pai e o Filho, o Antigo e o Novo Testamento, os dois mandamentos do amor
(a Deus e ao próximo), fé e obras, virtude e conhecimento, o corpo e o sangue de Cristo,
etc.

6.2. A HERMENÊUTICA INTUITIVA

Muitos são consciente ou inconscientemente adeptos desta corrente de interpretação


bíblica. Também chamados de impressionistas, os hermeneutas intuitivos caracterizam-
se por identificar a mensagem do texto com os pensamentos que lhes vêm à mente ao lê-
lo, sem contudo dar a devida atenção à gramática, ao contexto e às circunstâncias

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históricas, geográficas, culturais, religiosas, etc. Um passo adiante estão os místicos,


que aqui e ali aparecem na história da igreja, com a sua ênfase na iluminação interior.
Uma versão moderna do método de interpretação intuitiva pode ser verificada na prática
de abrir as Escrituras ao acaso para pregar ou encontrar uma mensagem para uma
ocasião específica, sem o devido estudo do texto e do seu contexto histórico.

6. 3 A HERMENÊUTICA EXISTENCIALISTA

Há uma escola contemporânea de interpretação das Escrituras que enfatiza


excessivamente o conhecimento subjetivo em detrimento do seu sentido gramatical e
histórico. Trata-se da assim chamada nova hermenêutica, que nada mais é do que um
desenvolvimento dos princípios hermenêuticos de Bultmann, com sua ênfase na
relevância da mensagem do Novo Testamento para o homem contemporâneo.

Para Bultmann e para a nova hermenêutica — reconhecidamente influenciados pela


filosofia existencialista de Martin Heidegger — o importante não é a intenção do autor,
nem o que o texto falou aos seus leitores originais, mas o que fala a nós, hoje, no nosso
contexto: esse é o sentido do texto. Para a hermenêutica existencialista o importante
mesmo não é o texto, mas o que está por trás dele. Não interessa tanto o que o texto diz
(historicamente), mas o que ele quer dizer (existencialmente). Logo, as Escrituras só
serão interpretadas realmente se lidas existencialmente, se forem experimentadas. Ou
seja, as Escrituras não são objetivamente a Palavra de Deus, elas se tornam Palavra de
Deus, quando nos falam subjetivamente.

Talvez as principais críticas à hermenêutica existencialista sejam que ela rejeita o


elemento sobrenatural das Escrituras (milagres, encarnação, ressurreição, etc.) como
sendo mitos, e que torna subjetivo o conceito de Palavra de Deus, com sua ênfase
existencialista. Com isso, ela esvazia a mensagem bíblica e, assim como o método
alegórico e o método intuitivo, abre espaço para se ler no texto quaisquer idéias ou
conceitos originados na mente do leitor.

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6.4 Corrente Humanista

No extremo oposto da corrente espiritualista encontra-se a corrente que se pode chamar


de humanista. Esta corrente caracteriza-se por dar ênfase excessiva ao caráter humano
das Escrituras e por uma aversão ao seu caráter sobrenatural. A ênfase dessa corrente
está no método, na técnica, nos aspectos literários ou históricos das Escrituras, em
detrimento do seu caráter divino, espiritual e sobrenatural.

A. PRECURSORES

Os saduceus, com o seu repúdio à doutrina da ressurreição e descrença na existência de


seres angelicais, podem ser considerados como precursores dessa corrente de
interpretação das Escrituras. Pouco se sabe sobre a origem desse partido judaico, mas
parece haver adotado uma posição secular-pragmática de interpretação das Escrituras.
Ao negarem verdades básicas das Escrituras, os saduceus podem ser considerados,
guardadas as devidas proporções, como os modernistas ou liberais da época.

B. HUMANISMO RENASCENTISTA

Os humanistas renascentistas, com seu interesse meramente literário e acadêmico nas


Escrituras, e com sua ênfase na moral, também podem ser incluídos nesta corrente de
interpretação bíblica. Alguns se dedicaram ao estudo das Escrituras, outros chegaram
até a editar textos bíblicos na língua original. Mas o interesse deles era meramente
acadêmico, lingüístico, literário e histórico. Estavam interessados nas Escrituras por sua
antigüidade e não por serem a Palavra de Deus.

C. ESCOLA CRÍTICA

A escola mais característica e influente desta corrente de interpretação bíblica é a escola


crítica, com o seu método histórico-crítico. Uma das razões para o surgimento do
método histórico-crítico parece ter sido ‘‘a pretensão de tornar científicos os estudos
bíblicos, ou seja, faze-los compatíveis com o modelo científico e acadêmico da época.’’
E o resultado desta nova postura para com as Escrituras (crítica, ao invés de gramatical)
foi o liberalismo teológico que tem assolado a Igreja desde o século passado.

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Trata-se sem dúvida de uma hermenêutica racionalista. Ao invés da revelação governar


a razão, a razão é que determina a revelação. A razão e o intelecto passaram a ser
determinantes, sendo rejeitado como erro, fábula ou mito tudo o que não puder ser
explicado ou harmonizado com a razão.

Os adeptos desta corrente rejeitam as doutrinas reformadas das Escrituras, tais como
inspiração, autoridade, inerrância, e preservação; enfatizam a moralidade e descartam o
sobrenatural. Sob forte influência do evolucionismo de Darwin e da dialética de Hegel,
as Escrituras deixaram de ser vistas como a Palavra de Deus inspirada na qual ele se
revela ao homem, passando a ser considerada ‘‘como um registro do desenvolvimento
evolucionista da consciência religiosa de Israel (e mais tarde da Igreja)’’.

Na prática, portanto, a principal característica da escola crítica de interpretação é o


pressuposto de que as Escrituras devem ser estudadas do mesmo modo que as demais
literaturas antigas, pelo emprego das mesmas metodologias. Esta postura, crítica, com
sua ênfase apenas no caráter humano das Escrituras, resultou em uma série de
metodologias críticas de caráter histórico ou lingüístico que vêm sendo empregadas na
interpretação das Escrituras.

A crítica ou história da tradição é uma dessas metodologias, cuja pretensão é


‘‘descobrir a história percorrida por determinado trecho, no âmbito da tradição oral, ou
seja, na fase anterior à sua fixação literária mais antiga’’. Isto é: estudar como os
eventos históricos e ensinos originais de Jesus teriam dado origem às diversas formas de
tradições orais até o seu registro escrito. Seu propósito é ‘‘destradicionalizar’’
(semelhante à desmitologização de Bultmann) os Evangelhos, em busca do ‘‘fato’’ ou
ensino ‘‘original’’.

A crítica da forma é outra metodologia crítica. Sua pretensão é classificar os escritos do


Novo Testamento em gêneros literários e identificar as tradições que teriam dado
origem às fontes empregadas pelos autores do Novo Testamento. Segundo os teóricos da
crítica da forma, os evangelhos provém de tradições orais não cronológicas existentes
(chamadas de paradigmas, novelas, lendas, mitos e exortações). Posteriormente essas
tradições orais teriam sido organizadas em relatos cronológicos

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escritos que foram empregados pelos evangelistas. Mas a teoria é extremamente


especulativa, visto que não explica como esses gêneros teriam surgido e se
desenvolvido. Além disso, não existe registro histórico dessas supostas coleções não
cronológicas.

Por fim, pode ser mencionado o criticismo histórico. Sua pretensão é avaliar a
historicidade das narrativas bíblicas. Mas este propósito não é somente pretensioso
(inconsistente do ponto de vista bíblico); é também tendencioso, na medida em que
explora as aparentes contradições internas (especialmente entre as passagens paralelas
dos evangelhos) e externas (com fontes seculares e históricas); e encara os relatos de
ocorrências sobrenaturais por uma perspectiva altamente especulativa. Assim, o
criticismo histórico não vê os textos paralelos como complementares, mas como
contraditórios; atribui às fontes seculares autoridade superior à das Escrituras; rejeita as
intervenções sobrenaturais; e considera muitas narrativas históricas como invenção da
igreja, novelas ou mitos.

Os resultados de todas estas metodologias críticas são inseguros, questionáveis e dúbios,


e sua aplicação prática extremamente limitada (se possível). São hipóteses construídas
sobre especulações infrutíferas que não contribuem em praticamente nada para a
compreensão do texto do Novo Testamento, a não ser para lançar dúvidas sobre a sua
inspiração, autoridade e inerrância.

Não obstante, parece que a corrente humanista de interpretação das Escrituras tem
começado a prevalecer em um número considerável de seminários teológicos no nosso
país. A ênfase hermenêutica destes seminários está no método, na técnica, nos aspectos
literários ou históricos das Escrituras, em detrimento do seu caráter divino, espiritual e
sobrenatural. A metodologia predominante tem sido o método histórico-crítico. E, em
virtude da impossibilidade de conciliar este método com as doutrinas bíblicas da
inspiração, autoridade, suficiência, inerrância e preservação das Escrituras, muitos
destes seminários têm se afastado cada vez mais da verdadeira fides reformata (fé
reformada).

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Como os resultados das metodologias críticas empregadas pelo método histórico-crítico


são quase sempre infrutíferos, e sua aplicação prática extremamente limitada, não é
incomum que o produto final de muitos dos nossos seminários seja formandos
despreparados para o ofício de ministros da Palavra. Nesta condição, não é de estranhar
que, como observou Lopes, ‘‘...os púlpitos de bom número das igrejas evangélicas
destilam uma espécie de sermão onde pouca ou nenhuma atenção se dá ao sentido
original do texto bíblico’’. Destilam também, acrescento, teologias imprecisas e
inconsistentes, que pouco edificam os membros de suas congregações.

D. Corrente Reformada

A corrente reformada de interpretação das Escrituras (objeto específico deste estudo)


posiciona-se entre as duas correntes extremas já consideradas. Ela (a corrente
reformada) caracteriza-se pelo equilíbrio resultante do reconhecimento do caráter
divino-humano das Escrituras. Em função disso, os intérpretes desta corrente
reconhecem a necessidade da iluminação do Espírito falando através da própria Palavra,
ao mesmo tempo em que admitem a necessidade de interpretação gramatical e histórica
das Escrituras. A interpretação reformada rejeita, por um lado, a alegorização indevida
das Escrituras e, por outro, repudia uma postura primariamente crítica com relação a
elas.

1. MÉTODO GRAMÁTICO-HISTÓRICO

“O método de interpretação adotado e praticado pela corrente reformada ou


protestante conservadora é conhecido pelo nome de método gramático-histórico; o
método de interpretação honrado pelo tempo, no dizer de Martin Lloyd-Jones.
Trata-se de um método fundamentado em pressuposições bíblicas quanto à própria
natureza das Escrituras, que emprega princípios gerais e métodos lingüísticos e
históricos coerentes com o caráter divino-humano da Palavra de Deus”.

15 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica

2. PRECURSORES: ESCOLA DE ANTIOQUIA

Os reformadores não criaram este método de interpretação bíblica do nada. Eles se


fundamentaram no próprio ensino bíblico sobre a sua natureza e na prática apostólica.
As origens da interpretação reformada também são encontradas na escola de Antioquia
da Síria, que pode ser considerada precursora do método gramático-histórico. Eles
rejeitaram tanto o literalismo judeu, como o alegorismo de Alexandria; defendiam uma
interpretação literal e histórica das Escrituras; criam na realidade histórica dos eventos
descritos no Antigo Testamento; e defendiam a unidade das Escrituras. Eis alguns desses
princípios:

1. A fé é um pré-requisito fundamental para o intérprete da Palavra de


Deus.

2. Deve-se considerar o sentido literal e histórico do texto.

3. O Antigo Testamento é um documento cristológico.

4. O propósito do expositor é descobrir o sentido do texto e não atribuir-lhe


sentido.

5. O credo ortodoxo deve controlar a interpretação das Escrituras.

6. O texto não deve ser estudado isoladamente, mas no seu contexto bíblico
geral.

7. Se o texto for obscuro, não pode se tornar matéria de fé. As passagens


obscuras devem dar lugar às passagens claras.

8. O Espírito Santo não dispensa o aprendizado das línguas originais,


geografia, história, ciências naturais, filosofia, etc.

9. As Escrituras não devem ser interpretadas de modo a se contradizerem.


Para isso, deve-se considerar a progressividade da revelação.

16 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica

3. PRINCÍPIOS REFORMADOS

Tem sido reconhecido que a reforma teológica e eclesiástica do século XVI foi o
resultado de outra reforma: uma reforma hermenêutico-exegética: De fato, a
redescoberta das doutrinas bíblicas pelos reformadores e a reforma eclesiástica
decorrente foram precedidas por um evidente rompimento com os princípios
hermenêuticos e com a prática exegética medieval.

a. A Única Regra Infalível de Interpretação

A Reforma Protestante rejeitou veementemente a hermenêutica alegórica medieval, e


registrou seu repúdio em alguns dos seus principais símbolos de fé. Eis um exemplo: o
parágrafo IX do capítulo I da Confissão de Fé de Westminster (idêntico ao mesmo
parágrafo da Confissão de Fé Batista de 1689):

“A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura” ;


portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto
da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e
compreendido por outros textos que falem mais claramente.

Este parágrafo estabelece o princípio reformado fundamental de interpretação bíblica,


segundo o qual a única regra infalível de interpretação das Escrituras é a própria
Escritura. Ela se auto-interpreta, elucidando, assim, suas passagens mais difíceis. O que
estas confissões querem dizer com essa afirmativa é que o sentido de uma passagem
obscura não pode ser autoritativamente determinado nem por tradição, nem por decisão
eclesiástica, nem por argumento filosófico, nem por intuição espiritual, mas sim,
unicamente, por outras partes das Escrituras que expliquem e esclareçam o seu sentido.

b. Repúdio à Interpretação Alegórica Medieval

O parágrafo acima, citado da Confissão de Fé, também representa o repúdio dos


reformadores ao método de interpretação quádrupla medieval. Em lugar dele, os
reformadores ensinavam que cada passagem das Escrituras tem um só sentido, que é

17 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica
literal — a não ser que o próprio contexto ou outro texto das Escrituras requeiram
claramente uma interpretação figurada ou metafórica.

Lutero também rejeitou a interpretação alegórica. Defendeu que ‘‘nós devemos nos ater
ao sentido simples, puro e natural das palavras, como requerido pela gramática e pelo
uso do idioma criado por Deus entre os homens.’’

Quanto a Calvino, sua aversão à interpretação alegórica era de tal ordem que ele chegou
a afirmar ser satânica, por desviar o homem da verdade das Escrituras. ‘‘É uma audácia
próxima do sacrilégio’’, escreveu ele, ‘‘usar as Escrituras ao nosso bel-prazer e brincar
com elas como com uma bola de tênis, como muitos antes de nós o fizeram.’’

c. Necessidade de Iluminação Espiritual

Os reformadores reconheceram a natureza divino-humana das Escrituras, e enfatizaram


o papel do Espírito Santo no processo de interpretação da sua mensagem. Para eles, o
impedimento maior estava na cegueira espiritual do homem, em função da queda, e não
nas Escrituras. Tanto para Lutero, como para Calvino, nenhuma pessoa poderia
interpretar corretamente as Escrituras sem a ação iluminadora do Espírito Santo através
da própria Palavra. Eis as palavras de Lutero sobre o assunto:

...a verdade é que ninguém que não possui o Espírito de Deus vê um til sequer do que
está na Escritura. Todos os homens têm seus corações obscurecidos, de modo que,
mesmo quando discutem e citam tudo o que está na Escritura, não compreendem ou
conhecem realmente qualquer assunto dela... O Espírito é necessário para a
compreensão de toda a Escritura e cada uma de suas partes.

d. Interpretação Gramatical e Histórica

Por outro lado, reconhecendo a natureza histórica das Escrituras, os reformadores


defendiam a sua interpretação literal, enfatizando também a importância da gramática e
da história na compreensão da sua mensagem.

Melanchton foi um dos responsáveis pela ênfase reformada na exegese gramatical. Em


um discurso proferido em 1518 em Wittenberg, ele exortou seus ouvintes a recorrerem

18 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica
às Escrituras nas línguas originais, onde encontrariam Cristo, livre das discordâncias
dos teólogos latinos. Lutero ficou tão impressionado com o que ouviu, que passou a
assistir às aulas de grego de Melanchton, dedicando-se com afinco ao estudo do grego.

Mas foi Calvino, sem dúvida, quem melhor praticou a exegese gramatical e
histórica. Ele tem sido considerado por muitos o maior intérprete da Reforma e um dos
maiores de todas as épocas. A profundidade, lucidez e erudição dos seus comentários,
que abrangem praticamente todos os livros da Bíblia, continuam a ser admirados e
considerados atuais e raramente igualados. E não se pense que essa é a opinião apenas
dos calvinistas. Mesmo Jacobus Arminius (1560-1609), um dos mais conhecidos
opositores das doutrinas de Calvino, reconhecia a excelência dos comentários dele, e
chegou a recomendá-los como incomparáveis. Eis suas palavras:

Depois da leitura das Escrituras..., e mais do que qualquer outra coisa,... eu recomendo a
leitura dos Comentários de Calvino... Pois afirmo que na interpretação das Escrituras
Calvino é incomparável, e que seus Comentários são mais valiosos do que qualquer
coisa que nos tenha sido legada nos escritos dos pais — tanto assim que atribuo a ele
um certo espírito de profecia no qual ele se encontra em uma posição distinta acima de
outros, acima da maioria, na verdade, acima de todos.

e. Desenvolvimento do Método Gramático Histórico

Estes e outros princípios de interpretação praticados pelos reformadores (Lutero,


Calvino e demais reformadores alemães, suíços, franceses e ingleses) viriam a ser
desenvolvidos e adotados pelo protestantismo ortodoxo em geral desde então, e se
tornaram conhecidos pelo nome de método gramático-histórico de interpretação bíblica.

Foi este o método empregado pelos puritanos no séc. XVII; pelos líderes evangélicos do
século XVIII na Europa e América do Norte (tais como George Whitefield e Jonathan
Edwards); pelo anglicano J. C. Ryle, pelo batista Charles Spurgeon na Inglaterra e pelos
presbiterianos Charles e Alexander Hodge no Seminário de Princeton nos EUA, no
século passado; e pelos intérpretes e pregadores protestantes (luteranos, anglicanos,
presbiterianos e batistas) ortodoxos deste século.

19 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica
Os manuais de hermenêutica de Davidson, Patrick, Imer, Terry, Berkhof, Berkeley,
Mickelsen e Ramm pertencem todos a essa escola de interpretação bíblica, bem como os
comentários bíblicos de Keil e Delitzsch, Meyer, Matthew Henry, Lange, Alford,
Ellicot, Lightfoot, Hodge, Broadus e muitos outros.

O método gramático-histórico de interpretação bíblica desenvolvido pela corrente


reformada é, de fato, a hermenêutica honrada pelo tempo. É um método coerente com a
natureza das Escrituras; fundamenta-se em pressuposições teológicas bíblicas; e
emprega princípios gerais adequados e métodos lingüísticos e históricos extremamente
frutíferos.

CONCLUSÃO

A teologia e a praxis eclesiástica deformadas do evangelicalismo moderno clamam por


reforma; clamam por um novo retorno às Escrituras. A corrente espiritualista de
interpretação bíblica já foi colocada na balança e achada em falta: as hermenêuticas
alegórica, intuitiva e existencialista, por não darem a devida consideração ao caráter
humano das Escrituras, abrem espaço para todo tipo de eisegese. O caráter fantasioso
destas hermenêuticas acaba desviando a atenção do leitor ou ouvinte do verdadeiro
sentido do texto bíblico (aquele que o Espírito Santo intentou transmitir).

A corrente humanista de interpretação bíblica também já foi colocada na balança e


achada em falta: a hermenêutica dos saduceus, dos humanistas renascentistas e da
escola crítica, por não darem a devida atenção ao caráter divino das Escrituras, tendem a
atribuir à razão a autoridade que pertence à revelação. Este caráter racionalista da
hermenêutica humanista induz ao liberalismo teológico que acaba negando a legítima fé
reformada.

A corrente reformada de interpretação bíblica também já foi colocada na balança da


história, mas foi aprovada com louvor: o método gramático-histórico fundamentado no
próprio ensino bíblico sobre as Escrituras e desenvolvido e aplicado pelos reformadores
e seus legítimos herdeiros, por dar a devida atenção tanto ao caráter divino como ao
caráter histórico das Escrituras, promoveu as reformas teológicas e eclesiásticas mais
profundas já experimentadas pela igreja cristã.

20 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica
Durante a Reforma Protestante do século XVI e a reforma puritana do século XVII, por
exemplo, muito entulho religioso teve que ser rejeitado. Muitas doutrinas e práticas
eclesiásticas acumuladas no decurso dos séculos tiveram que ser abolidas, quando
reformadores e puritanos dedicaram-se com labor e oração a perscrutar as Escrituras
para ver se as coisas eram de fato assim. A hermenêutica reformada das Escrituras já
demonstrou ter a capacidade de revelar a falácia de doutrinas e práticas eclesiásticas
‘‘fundamentadas’’ em interpretações alegóricas, intuitivas, existencialistas e
racionalistas.

O evangelicalismo brasileiro tem acumulado nos últimos cem anos — especialmente


nas últimas décadas — considerável entulho religioso. Não é possível entrar em
detalhes aqui. Mas a proliferação de teologias estranhíssimas, práticas litúrgicas
inusitadas e condutas eclesiásticas no mínimo excêntricas, já descaracterizaram a fé e o
culto reformados. Mesmo denominações historicamente reformadas têm absorvido
doutrinas e práticas de culto inconsistentes com o ensino bíblico e com seus símbolos de
fé. Esta descaracterização se explica, pelo menos em parte, pelo emprego das
hermenêuticas deficientes que estivemos considerando.

Orare e labutare é o caminho. Não é um caminho fácil nem mágico. Requer sinceridade
e diligência. Talvez não forneça interpretações esplêndidas nem realce a criatividade,
imaginação e genialidade do pregador. Mas é o antigo e bom caminho aprovado com
louvor pela história. Ele deixa que a verdade de Deus opere e que as Escrituras falem
com poder e graça, promovendo profundas reformas teológicas e eclesiásticas.

7. O que a Confissão de Fé de Westminster diz sobre a interpretação das Escrituras

Lembremos o que os teólogos reformados escreveram sobre esse assunto na Confissão


de Fé de Westminster. O capítulo I da Confissão trata das Escrituras, e expressaram suas
convicções quanto à correta interpretação das Escrituras. Em resumo, são estas:

1. Para evitar que Sua vontade e a verdade se perdessem pela corrupção dos homens e
a malícia de Satanás, Deus fê-la escrever nas Escrituras Sagradas. A inspiração das

21 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


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Hermenêutica
Escrituras resulta no fato de que elas expressam fielmente a vontade de Deus, a verdade
divina.

"Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo


manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam
inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da
sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos
tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e
depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro
estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e
do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a
Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade
ao seu povo" (CFW, I.1).

Referências - Sal. 19: 1-4; Rom. 1: 32, e 2: 1, e 1: 19-20, e 2: 14-15; I Cor. 1:21, e 2:13-
14; Heb. 1:1-2; Luc. 1:3-4; Rom. 15:4; Mat. 4:4, 7, 10; Isa. 8: 20; I Tim. 3: I5; II Pedro
1: 19.

2. A possibilidade de conhecermos o sentido das Escrituras, sentido esse pretendido por


Deus através do autor humano:

"Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e
para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou
pode ser lógica e claramente deduzido dela" (CFW, I.6)

3. O Espírito Santo garante a compreensão salvadora das coisas reveladas na palavra de


Deus, as Escrituras.

"À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do
Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a
íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas
reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao
governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser
ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da

22 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


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Hermenêutica
palavra, que sempre devem ser observadas" (ver Catecismo Maior pergunta 4)

Ref. II Tim. 3:15-17;Gal. 1:8; II Tess. 2:2; João 6:45; I Cor. 2:9, 10, l2; I Cor. 11:13-14.

4. O sentido das Escrituras é tão claramente exposto e explicado que a suficiente


compreensão das mesmas pode ser alcançada através dos meios ordinários (pregação,
leitura e oração)

"Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo
evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas
para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e
explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios
ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas" (CFW, I.7)

Ref. II Pedro 3:16; Sal. 119:105, 130; Atos 17:11.

5. Há somente um sentido verdadeiro e pleno em cada texto da Escritura e não múltiplos


sentidos, e esse sentido pode ser alcançado e compreendido pela Igreja

"A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando


houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura
(sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido
por outros textos que falem mais claramente" (CFW, I.9)Ref. At. 15: 15; João 5:46; II
Ped. 1:20-21.

6. Exatamente porque as Escrituras não têm sentidos múltiplos é que as mesmas são o
supremo tribunal em controvérsias religiosas, aos quais a Igreja sempre deve apelar

"O Velho Testamento em Hebraico (língua vulgar do antigo povo de Deus) e o Novo
Testamento em Grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações no tempo
em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus e pelo seu singular
cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos e
assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um
supremo tribunal" (CFW, I.8; cf. como exemplo XXIX.6).

Ref. Mt. 5:18;Is 8:20; IITm. 3:14-15; ICo. 14; 6, 9, ll, 12, 24, 27-28;Cl. 3:16;Rom. 15:4.

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Hermenêutica
7. A vontade de Deus está claramente expressa nas Escrituras e ao alcance da igreja, de
forma que a mesma pode distinguir entre culto aceitável a Deus e os que não são.

"A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que
é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado,
crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo
aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua
vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos
homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer
outro modo não prescrito nas Santas Escrituras" (CFW, XXI,1)

8. Apesar dos eleitos serem humanos e pecadores, recebem de Deus o que é necessário
para compreenderem as coisas de Deus para a salvação. "Todos aqueles que Deus
predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito,
chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo
daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a
graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim
de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de
pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as
pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo,
mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça"
(CFW X,1; ver também o Catecismo Maior, pergunta 157).

Conclusão

Esse pequeno resumo dos princípios de interpretação bíblica que se encontram na


Confissão de Fé de Westminster serve para mostrar que os reformadores entenderam
que a única maneira de interpretar as Escrituras sem violar a sua integridade, propósito e
escopo, era procurar entender o sentido que os autores humanos haviam pretendido
transmitir. Reconheciam que essa nem sempre era uma tarefa fácil, mas confiavam que,
com a ajuda da ação iluminadora do Espírito, do conhecimento das línguas originais e
do contexto histórico, poderiam alcançar esse sentido. A teologia que temos na

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Hermenêutica
Confissão de Fé de Westminster é o resultado do emprego sistemático dessa
hermenêutica.

8. PARÁBOLAS E SUAS REGRAS DE INTERPRETAÇÃO

Definição

A palavra parábola provém do grego, paraballo, que significa “lançar ou colocar ao lado
de”. Assim, parábola é algo que se coloca ao lado de outra coisa para efeito de
comparação. A parábola típica utiliza-se de um evento comum da vida natural para
acentuar ou esclarecer uma importante verdade espiritual.

A Escritura apresenta duas finalidades básicas das parábolas:

1) A primeira é revelar verdade aos crentes (Mt 13.10-12; Mc 4.11),


confrontando com os erros em sua vida, consideremos o caso de Davi e Natã (2 Sm
12.1-7). O contexto é que Davi acabara de matar Urias para ficar com a esposa deste:
Bate-Seba. O Senhor enviou Natã a Davi. Chegando Natã a Davi, disse-lhe: havia numa
cidade dois homens, um rico e outro pobre. Tinha o rico ovelhas e gado em grande
número; mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma uma cordeirinha que
comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu
bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços e a tinha como filha. Vindo um
viajante ao homem rico, não quis este tomar das suas ovelhas e do gado para dar de
comer ao viajante que viera a ele; mas tomou a cordeirinha do homem pobre, e a
preparou para o homem que lhe havia chegado. Então o furor de Davi se acendeu
sobremaneira contra aquele homem, e disse a Natã: Tão certo como vive o Senhor, o
homem que fez isso deve ser morto. Ele pela cordeirinha restituirá quatro vezes, porque
fez tal coisa, e porque não se compadeceu. Então disse Natã a Davi: Tu és o homem.
Davi, homem de princípios morais, percebeu facilmente a injustiça cometida ao pobre
da história, e quando esta parábola teve aplicação real para vida dele notou de imediato
seu erro.

2) Outra finalidade: A parábola oculta a verdade daqueles que endurecem o


coração contra elas (MT 13.10-15; Mc 4.11-12; Lc 8.9-10)

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Hermenêutica
Regras de Interpretação: Princípios para Interpretação de Parábolas

1) Análise Histórico-Cultural e contextual

É importante analisar o contexto e a situação histórica em que se encontra a


parábola, isto será muito útil e dará muitas pistas para interpretá-la. Por exemplo, a
parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16) muitos interpretam mal por não
analisar o contexto em que se passa essa situação.

Jesus acabara de aconselhar o jovem rico e em seguida Pedro lhe faz uma
pergunta, então Jesus responde a Pedro e em seguida complementa com a parábola
direcionada também a Pedro com uma leve repreensão à atitude “mercenária” de Pedro.

O conhecimento de detalhes culturais é importante para se descobrir o


significado de uma parábola. Por exemplo, colheitas, casamentos e vinho eram símbolos
judaicos do fim dos tempos. A figueira era símbolo do povo de Deus.

2) Análise Léxico-Sintática

Nesta análise é importante, primeiramente, investigar o desenvolvimento e


mostrar como se encaixa no contexto; indicar as palavras conectivas e mostrar de que
modo elas auxiliam a entender a progressão de pensamento do autor; determinar o que
significam as palavras tomadas isoladamente e analisar a sintaxe para mostrar de que
modo ela contribui para compreensão da parábola.

3) Análise Teológica

São três as principais questões teológicas que se deve responder antes de estar
apto a interpretar a maioria das parábolas de Jesus. Em primeiro lugar, com base na
evidência disponível, definir as expressões “reino do céu” e “reino de Deus”, e então
decidir se essas expressões são sinônimas ou não. Visto que grande parte dos ensinos de
Jesus refere-se a esses reinos, é muito importante identificá-los adequadamente.Temos
as maiores evidências comprovando serem esses termos usado por Jesus como
sinônimos em várias passagens, como: (Mt 13.10-15; Mc 4.10-12; Lc 8.9-10; Mt 13.31-

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Hermenêutica
32; Mc 4.30-32; Lc 13.18-19). Como as parábolas são muitíssimo parecidas não
poderiam ter significados tão diversos, confirmando, assim, a semelhança de
significados de ambas expressões. A evidência de Mt 19.23-24 também sustenta essa
hipótese: “Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. E
ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que
entrar um rico no reino de Deus”. Por esses e por outros motivos a maioria dos
evangélicos tem entendido essas expressões como sinônimas.

A segunda questão que envolve o reino é quase unanimemente aceita. Aqui o


reino, em alguns sentidos já veio, em outros está continuando e em alguns não virá até a
consumação do século. Cristo ensinou que em certo sentido o reino já estava aqui na
terra durante sua estada (Mt 12.28; Lc 17.20-21). As Escrituras também mostram a
função de continuidade de reino, diversas parábolas falam de semeadura e ceifa, de
pequenos grãos que crescem e produzem árvores frondosas, de uma grande rede lançada
ao mar e que não será recolhida até o fim dos séculos e de trigo e joio crescendo juntos.
As parábolas também falam sobre o terceiro sentido em que estas terão seu
cumprimento quando o governo do reino de Deus será plenamente reconhecido.

O terceiro problema teológico trata-se da teoria do reino adiado que afirma ter
Jesus intenções de firmar um reino terreno e que somente na metade do seu ministério
teria percebido que isso não subsistiria que seria rejeitado e crucificado. Mas, de acordo
com a Palavra, Jesus não tinha ilusões quanto a isso, pois sabia da profecia de Simeão
(Lc 2.34-35) e a profecia de Isaías (Is53) e tinha por certo que seu ministério terminaria
em sua morte expiatória e não no estabelecimento de um reino na terra (Jô 12.27)

Outro aspecto importante da análise teológica na interpretação das parábolas é


que elas podem servir ao propósito de melhor fixar as doutrinas na nossa memória de
modo admirável. Contudo, não se pode haver doutrinas que se baseiam numa única
parábola, as parábolas tem a específica função de ampliar ou acentuar essas doutrinas e
fazê-las mais compreensíveis e práticas.

27 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica
4) Análise Literária

Um questionamento central em relação a parábolas é: quanto é significativa? As


parábolas têm apenas um tema central coberto por ornamentos e detalhes. Jesus nas
duas primeiras ocasiões em que falou por parábolas também as interpretou ( o
semeador: MT 13.1-23; o trigo e o joio: Mt 13.24-30). Na própria análise de Jesus é
possível notar tanto o tema central, focal, como os detalhes que se relacionam com a
idéia focal.

A análise de Jesus contrasta com aqueles que dão grande valor aos pormenores
extraindo deles lições adicionais que não estão relacionadas ao tema central da parábola.
Por exemplo, o ponto focal da parábola do Joio é que dentro do reino existirão lado a
lado, na presente era, homens regenerados e imitadores, mas o juízo final de Deus é
certo! Os detalhes dão informação adicional acerca da origem e natureza desses
imitadores e do relacionamento do crente com eles. Em resumo tem a seguinte estrutura:
um ponto central focal, de ensino e os detalhes têm significados a medida que se
relacionam com esse ensino central.

Conclusão

De um modo geral, as análises de contextos, sintáticas e teológicas devem ser


aplicadas a outros textos também. Contudo, são as parábolas alvos de maior distorção
da mensagem bíblica. Por ser uma comparação que utiliza elementos cotidianos, muitas
vezes é subestimada pensando-se tratar de uma mensagem simplória. Outros lapsos em
sua interpretação são os exageros de significados ou de aplicações atribuídas a ela. Vai
um alerta: tenhamos cuidado!!! Caso contrário poderá acontecer de as parábolas não
afirmarem o que estivermos dizendo!!!!

9. TEXTO E CONTEXTO

28 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica
Para podermos interpretar um texto ou parte da Bíblia, é indispensável analisar
quando, porque, a quem e onde foi falado o texto.
A Bíblia é seu próprio intérprete disseram os reformadores.
A Bíblia, mais do que qualquer outro livro, ajuda-nos a interpretar um texto, pois
ela nos informa a situação em que o texto foi escrito. Estas informações recebemos, em
primeiro lugar, pelas partes que vêem imediatamente antes ou depois do texto que
estudamos. O Contexto Imediato do Texto. O esquema abaixo ilustra a idéia do texto:

CONTEXTO
TEXTO
CONTEXTO

O contexto imediato de um versículo são as partes que vêm antes e as que vêm
imediatamente depois, ou seja, é o parágrafo.

PARÁGRAFO
VERSÍCULO
PARÁGRAFO

O contexto imediato de um parágrafo são as partes que vêm antes e as que vêm
imediatamente após o parágrafo, ou seja, é o capítulo.

CAPÍTULO
PARÁGRAFO
CAPÍTULO

O contexto imediato de um capítulo, são as partes que precedem e seguem-se


imediatamente ao capítulo, é o livro.

LIVRO
CAPÍTULO
LIVRO

O que vem antes e o que vem imediatamente depois do texto formam o contexto.
O TEXTO possui além de seu contexto imediato seu Contexto Mais Amplo. O
contexto mais amplo é firmado pelas passagens que não vêm imediatamente antes ou
depois do texto, mas se referem ao assunto do texto.
Cada texto tem seu contexto imediato e o seu contexto mais amplo. Texto, contexto
imediato e contexto mais amplo se relacionam assim.

Contexto Mais Amplo


Contexto Imediato
Texto
Contexto Imediato
Contexto Mais Amplo
Assim o assunto do texto é esclarecido pelo contexto imediato e também pelo contexto
mais amplo.

29 Igreja de cristo El Shaddai em Casa Amarela


Pr. Expedito José

Hermenêutica
A Loteria Bíblica

O manuseio honesto do texto no contexto é a maior ajuda que alguém pode dar a si
mesmo, no sentido de compreender a mensagem da Bíblia. Confiar em acaso, sorte,
destino ou qualquer "ajuda extra", no fim das contas só prejudica a compreensão da
Palavra. Não adianta concorrer numa espécie de "loteria bíblica": a grande maioria
sai perdendo.

Imagine o que acontece com alguém que abre a Bíblia em qualquer lugar e lê: "Então
Judas, ... retirou-se e foi enforcar-se" (Mt 27.5). O leitor desconfiado da mensagem
abre em outro texto, buscando confirmação, e lê: "Vai e procede tu de igual modo"
(Lc 10.37). Assustado, tenta mais uma vez, na esperança de ouvir uma ordem mais
suave. Abre o livro uma terceira vez, cheio de expectativa e lê: "O que pretendes
fazer, faze-o depressa" (Jo 13.27)!

Os exemplos extremos dados acima não são uma descrição exagerada dos perigos de
não estudar o contexto de um texto bíblico. Toda vez que tratamos a Bíblia como se
fosse uma lista de oráculos desvinculados de qualquer relacionamento com o
contexto, o resultado é algo perigoso.

Contexto é assim definido pelo Dicionário do Aurélio: 1) Aquilo que constitui o


texto no seu todo; 2) Encadeamento das idéias dum escrito. No nosso caso, isto
significa que não podemos saber exatamente o que um versículo quer dizer, a menos
que o observemos dentro do assunto no qual está inserido, ou seja, o contexto no
qual foi escrito. Podemos afirmar também que contexto é o que está escrito antes e
depois do versículo ou versículos que citamos ou ensinamos.

TEXTO FORA DE CONTEXTO

A frase é famosa no meio teológico: "texto fora de contexto é pretexto para heresia". A
realidade, porém, é que poucos tem o cuidado de averiguar o contexto no qual se
encontra um versículo. Muitos pregadores, mesmo com formação em teologia,
preparam seus esboços sem nenhuma preocupação em dizer aquilo que o autor do texto

bíblico queria dizer. E isto é mais comum do que se imagina!


Como prova disto veja três exemplos de versículos famosos, mas que, quando usados
fora de contexto, dão margem para heresias.Que isto sirva de alerta para se verificar o
contexto bíblico de qualquer mensagem, principalmente as que são baseadas em apenas
um versículo da Bíblia.

Tudo posso naquele que me fortalece

Muito provavelmente, este é o versículo mais distorcido. Tirado de seu contexto, muitos
concluem tratar-se de uma frase triunfalista, de alguém que pode conquistar seus alvos,
que pode obter todas as coisas.
Por esta razão, este versículo é o mais repetido pelos pregadores da teologia da
prosperidade, que apregoam a idéia do super crente. "Você pode ter saúde, você pode ter
dinheiro, você pode ter sucesso... tudo posso naquele que me fortalece!" esbravejam

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os falsos profetas.
Mas o apóstolo Paulo não estava se referindo a conquistar ou a se obter algo. Antes,
muito pelo contrário! Vejamos o contexto:

"Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e
qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em
todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de
abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece. Todavia, fizestes
bem, associando-vos na minha tribulação." (Filipenses 4:11-14 RA)
Quando Paulo escreveu o famoso "tudo posso" ele passava por grande tribulação, pois
estava encarcerado. Portanto, como se percebe na leitura do contexto, a interpretação
correta é: "tudo posso suportar".

Quer seja humilhado, ou honrado, na fartura, ou na fome, tanto em situação de


abundância, quanto de escassez, "tudo posso naquele que me fortalece".

Pedis e não recebeis porque pedis mal

Por mais de uma vez já ouvi pregadores usarem este versículo para ensinar o seguinte:

"Você precisa ser específico no seu pedido. Se você pede a Deus um carro, diga qual a
marca, o modelo, se é completo; se está pedindo uma casa, especifique o bairro, com
quantos quartos e banheiros, se quer piscina e churrasqueira; ou seja, você não tem
recebido nada disso porque não tem pedido direito. Pedis e não recebeis porque pedis
mal!"

Este tipo de ensinamento é ridículo e não tem base nas Escrituras. E nem é preciso
examinar o contexto para se revelar a farsa. Basta concluir a leitura do próprio
versículo:

"pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres." (Tiago
4:3 RA)

A parte final, que diz "para esbanjardes em vossos prazeres" é omitida por aqueles que
desejam ensinar o contrário do que a Bíblia ensina.

Deus não responde orações de pessoas egoístas e mundanas. Nem sequer as ouve (Is
58:3; Jr 14:12-16) Mas, a fim de que ainda não reste nenhuma dúvida, vejamos então o
contexto:

"De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres
que militam na vossa carne? Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis
obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não
recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. Infiéis, não
compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser
amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus." (Tiago 4:1-4 RA)

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Somos mais do que vencedores

Usado fora de seu contexto, esta frase transmite a falsa idéia de que a vida do crente "é
só vitória", como costumam dizer alguns.

Mas o apóstolo Paulo especificou em quais situações é que somos mais do que
vencedores. O versículo completo diz o seguinte:

"Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou."
(Romanos 8:37 RC)

"Em todas estas coisas..." Quais coisas?

A resposta, bem como o entendimento para este versículo, está em seu contexto:

"Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição,


ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti
somos entregues à morte todo o dia: fomos reputados como ovelhas para o matadouro.
Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou."
(Romanos 8:35-37 RC)

Ao contrário de uma vida isenta de lutas e sofrimento, o apóstolo Paulo declara que
somos mais do que vencedores nas seguintes circunstâncias: Tribulação, angústia,
perseguição, fome, nudez, perigo, ou espada.

E, qual a nossa vitória, em meio a tantas adversidades? Novamente, o contexto nos


responderá:

"Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou.
Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados,
nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade,
nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo
Jesus, nosso Senhor!" (Romanos 8:37-39 RC)

A nossa grande vitória é não duvidar deste amor que Deus tem por nós, provado em
nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda que venha tribulação, angústia, perseguição, fome,
nudez, perigo, ou mesmo a morte, nada poderá nos poderá separar do amor de Deus,
que está em Cristo Jesus, nosso Senhor!

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TIPOLOGIA

1. DEFINIÇÃO DE TIPOLOGIA. TIPOLOGIA é o estudo das figuras,


símbolos, cerimónias e ordenanças do AntigoTestamento que
prefiguram coisas celestiais.

2. DEFINIÇÃO DE ANTÍTIPO
É aquela coisa celestial ou a realidade prefigurada pelo tipo (I
Pd 3.21) - exemplos: o dilúvio, e o baptismo, tipo/realidade.
O tipo (espelho) reflecte o anti-tipo (realidade).
O tipo também pode ser realidade. Exemplo: Moisés era o tipo
de Jesus (anti-tipo).

3. NATUREZA DE UM TIPO
Conforme declarações bíblica quanto à sua natureza, um tipo
pode ser:

1. Sombra - Cl 2.16,17
2. Modelo - Hb 8.4,5
3. Sinal - Mt 12.39
4. Parábola, alegoria - Hb 9.9
5. Tipo - Rm 5.14
6. Letra - II Co 3.6

4. NATUREZA DE UM ANTÍTIPO
Vejamos as declarações bíblicas que tratam do assunto:

1. Corpo - Cl 2.17
2. Mesma imagem - Hb 10.1
3. Coisas celestiais - Hb 9.23
4. O verdadeiro - Hb 9.24
5. O Espírito - II Co 3.6

5. VALOR DOS TIPOS

1) O Novo Testamento acha-se no Antigo Testamento e o Antigo


Testamento é explicado pelo Novo Testamento.

2) Deus valorizou os tipos. O Espírito Santo os elaborou. O véu,


tipo de Cristo, significa que o caminho do Santo Lugar está
fechado, enquanto o real não se manifestar (Hb 9.8).

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3) O Senhor Jesus falou dos tipos, no caminho de Emaús (Lc


24.13,14,25-17).

4) Os escritores do N.T. citaram os tipos e são considerados


pertencentes às Escrituras (I Co 15.4; Lv 23).

5) Somente se entendem pelos tipos certas passagens e


palavras do N.T., tais como as contidas nas epístolas aos
Hebreus e no Evangelho de S. João.

6. A DIVERSIDADE DE TIPOS

Os tipos podem ser:

1. Pessoais: Adão, Enoque, Melquisedeque, David, Moisés, etc.


(Rm 5.14,19; Hb 7.15).

2. Coisas ou objetos:
A coluna de nuvem e fogo, o maná (Ex 16.15; I Co 10.3).
A rocha (Ex 17.6; I Co 10.4).
A serpente de metal (Nm 21.9; Jo 3.14; II Co 5.21).

3. Ações:
A libertação do Egito e a marcha pelo deserto.

OBS.: São considerados tipos perpétuos:

a) A circuncisão - tipo da verdadeira circuncisão do coração (Cl


2.11).

b) Sacrifício - tipo de Cristo, o perfeito e eterno sacrifício (Hb


9.26).

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Bibliografia

* Gordon D. Fee e Douglas Stuart, Entendes o Que Lês? Um Guia para Entender a
Bíblia com o Auxílio da Exegese e da Hermenêutica (São Paulo: Vida Nova, 1986) 19,
25.

* Confissão de Fé Batista de 1689.

* Confissão de Fé de Westminster

* Enio Ronald Mueller, "O Método Histórico-Crítico: Uma Avaliação," em Entendes o


Que Lês? Um Guia para Entender a Bíblia com o Auxílio da Exegese e da
Hermenêutica, eds. Gordon D. Fee e Douglas Stuart (São Paulo: Vida Nova, 1986) 245.

* Henry A. Virkler, Hermenêutica: Princípios e Processos de Interpretação Bíblica


(Miami: Editora Vida, 1987) 52.

* Augustus Nicodemus Lopes, ‘‘Lutero Ainda Fala: Um Ensaio em História da


Interpretação Bíblica,’’ em Fides Reformata 1/2 (1996) 110.

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* Martinho Lutero. Nascido Escravo, publicado inicialmente em 1525, foi condensado
por Clifford Pond e publicado em inglês em 1984 com o título Born Slaves, e em
portugês em 1992 pela Editora Fiel.

* Ralph A. Bohlmann, Princípios de Interpretação Bíblica nas Confissões Luteranas


(Porto Alegre: Casa Publicadora Concórdia, 1970) 29.

* Hermenêutica, Paulo R. B. Anglada

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