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Processo Civil – Processo

de Conhecimento

Brasília-DF, 2011.
Elaboração:

Coordenação do Curso de Direito

Produção:

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


Processo Civil – Processo de Conhecimento

2
Sumário

Apresentação ............................................................................................................................................ 05

Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa .................................................................................... 06

Organização da Disciplina ....................................................................................................................... 08

Introdução ................................................................................................................................................ 11

Unidade I – Teoria Geral do Processo Civil ............................................................................................ 13

Capítulo 1 – Processo Civil ......................................................................................................... 13

Capítulo 2 – Princípios do Processo Civil ..................................................................................... 15

Capítulo 3 – Norma Processual Civil ............................................................................................ 25

Capítulo 4 – Novos Rumos do Processo Civil ............................................................................... 33

Unidade II – Dos Sujeitos Processuais ................................................................................................... 35

Capítulo 5 – O Estado-Juiz .......................................................................................................... 35

Capítulo 6 – Os Auxiliares da Justiça .......................................................................................... 38

Capítulo 7 – As Partes ................................................................................................................ 40

Capítulo 8 – O Advogado............................................................................................................. 42

Capítulo 9 – O Ministério Público................................................................................................. 43

Unidade III – Jurisdição ........................................................................................................................... 45

Capítulo 10 – Conceituação, Características e Princípios............................................................. 45

Capítulo 11 – Espécies e Limites.................................................................................................. 49

Capítulo 12 – Funções, Estrutura e Órgãos do Poder Judiciário.................................................... 51

Unidade IV – Competência ....................................................................................................................... 53

Capítulo 13 – Conceito, Espécies e Critérios Determinativos........................................................ 53

Capítulo 14 – Prorrogação da Competência – Continência e Conexão........................................... 56

Unidade V – Teoria Geral da Ação .......................................................................................................... 59

Capítulo 15 – Teoria Geral .......................................................................................................... 59


Pós-Graduação a Distância

Unidade VI – O Processo .......................................................................................................................... 63

Capítulo 16 – Conceito e Natureza Jurídica ................................................................................ 63

Capítulo 17 – Pressupostos Processuais ..................................................................................... 65

3
Sumário

Unidade VII – Atos Processuais ............................................................................................................... 67

Capítulo 18 – Forma e Classificação dos Atos Processuais .......................................................... 68

Capítulo 19 – Lugar e Tempo dos Atos Processuais...................................................................... 71

Capítulo 20 – Vícios dos Atos Processuais ................................................................................... 73

Capítulo 21– Preclusão Processual .............................................................................................. 76

Unidade VIII – Teoria da Cognição Processual........................................................................................ 79

Capítulo 22 – Cognição Processual............................................................................................... 79

Capítulo 23 – Espécies ................................................................................................................ 81

Capítulo 24 – Questões Preliminares, Prejudiciais e de Mérito....................................................... 83

Unidade IX – Atos Jurisdicionais ............................................................................................................. 87

Capítulo 25 – Noções Gerais ........................................................................................................ 87

Capítulo 26 – Sentença e Decisão Interlocutória .......................................................................... 89

Capítulo 27 – Despachos ............................................................................................................. 93

Unidade X – Sentenças e Coisa Julgada ................................................................................................. 103

Capítulo 28 – Sentença e Princípio da Adstrição .......................................................................... 103

Unidade XI – Quadro Geral dos Meios de Impugnação ........................................................................... 125

Capítulo 29 – Impugnação ........................................................................................................... 125

Capítulo 30 – Teoria Geral do Recurso ......................................................................................... 127

Capítulo 31 – Natureza Jurídica dos Recursos.............................................................................. 129

Capítulo 32 – Princípios Gerais dos Recursos ............................................................................... 131

Capítulo 33 – Efeito da Interposição dos Recursos ....................................................................... 134


Processo Civil – Processo de Conhecimento

Capítulo 34 – Recursos de Apelação ............................................................................................ 145

Capítulo 35 – Recursos de Agravo ............................................................................................... 155

Capítulo 36 – Embargos Infringentes ........................................................................................... 163

Capítulo 37 – Embargos de Declaração ........................................................................................ 167

Capítulo 38 – Recurso Ordinário .................................................................................................. 172

Capítulo 39 – Recurso Especial e Recurso Extraordinário ............................................................. 175

Capítulo 40 – Embargos de Divergência ....................................................................................... 189

Capítulo 41 – Ação Rescisória ..................................................................................................... 190

Referências ................................................................................................................................................ 199


4
Apresentação

Caro aluno,

Bem-vindo ao estudo da disciplina <inserir nome do módulo, conforme folha de rosto>.

Este é o nosso Caderno de Estudos e Pesquisa, material elaborado com o objetivo de contribuir para a realização e o
desenvolvimento de seus estudos, assim como para a ampliação de seus conhecimentos.

Para que você se informe sobre o conteúdo a ser estudado nas próximas semanas, conheça os objetivos da disciplina, a
organização dos temas e o número aproximado de horas de estudo que devem ser dedicadas a cada unidade.

A carga horária desta disciplina é de <00> (...zero..) horas, cabendo a você administrar o tempo conforme a sua
disponibilidade. Mas, lembre-se, há uma data-limite para a conclusão do curso, incluindo a apresentação ao seu tutor
das atividades avaliativas indicadas.

Os conteúdos foram organizados em unidades de estudo, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente.
Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, que farão parte das atividades avaliativas do
curso; serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares.

Desejamos a você um trabalho proveitoso sobre os temas abordados nesta disciplina. Lembre-se de que, apesar de
distantes, podemos estar muito próximos.

A Coordenação

Pós-Graduação a Distância

5
Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa

Apresentação: Mensagem da Coordenação.

Organização da Disciplina: Apresentação dos objetivos e da carga horária das unidades.

Introdução: Contextualização do estudo a ser desenvolvido por você na disciplina, indicando a importância desta para
sua formação acadêmica.

Ícones utilizados no material didático

Provocação: Pensamentos inseridos no material didático para provocar a reflexão sobre sua prática e
seus sentimentos ao desenvolver os estudos em cada disciplina.

Para refletir: Questões inseridas durante o estudo da disciplina para estimulá-lo a pensar a respeito do
assunto proposto. Registre sua visão sem se preocupar com o conteúdo do texto. O importante é verificar
seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. É fundamental que você reflita sobre as
questões propostas. Elas são o ponto de partida de nosso trabalho.

Textos para leitura complementar: Novos textos, trechos de textos referenciais, conceitos de
dicionários, exemplos e sugestões, para lhe apresentar novas visões sobre o tema abordado no texto básico.

Sintetizando e enriquecendo nossas informações: Espaço para você fazer uma síntese dos textos
e enriquecê-los com sua contribuição pessoal.

Sugestão de leituras, filmes, sites e pesquisas: Aprofundamento das discussões.

Praticando: Atividades sugeridas, no decorrer das leituras, com o objetivo pedagógico de fortalecer o
Processo Civil – Processo de Conhecimento

processo de aprendizagem.

Para (não) finalizar: Texto, ao final do Caderno, com a intenção de instigá-lo a prosseguir com a reflexão.

Referências: Bibliografia consultada na elaboração da disciplina.

6
Organização da Disciplina

Ementa:
Noções teóricas e principiológicas introdutórias acerca do Processo Civil como disciplina autônoma do Direito. Sujeitos
da relação processual civil e as espécies de ações possíveis. Procedimento de cognição até o momento do ajuizamento
da ação em juízo. Estabelecimento da jurisdição e da competência.

Processo Civil em Juízo. Atos Jurisdicionais. Despachos e decisões Interlocutórias. Sentença e Coisa Julgada. Recursos.
Regras gerais. Recursos em Espécie. Meios de Impugnação.

Objetivos:
• Verificar os conceitos básicos que formam o Processo Civil.

• Conhecer a Teoria Geral do Processo.

• Conhecer a Teoria Geral da Ação.

• Proporcionar, ao aluno, a revisão crítica do Processo Civil em juízo, iniciando pela apresentação cuidadosa dos
atos processuais possíveis no Código de Processo Civil e suas respectivas regras, passando pela atividade
instrutória e decisória e finalizando pelos recursos e meios de impugnação.

Unidade I – Teoria Geral do Processo Civil


Carga horária: 5 horas
Conteúdo Capítulo
Processo Civil 1
Princípios do Processo Civil 2
A Norma Processual Civil 3
Novos Rumos do Processo Civil 4

Unidade II – Dos Sujeitos Processuais


Carga horária: 5 horas
Conteúdo Capítulo
O Estado-Juiz 5
Os Auxiliares da Justiça 6
Partes 7
O Advogado 8
Pós-Graduação a Distância

O Ministério Público 9

7
Organização da Disciplina

Unidade III – Jurisdição


Carga horária: 5 horas
Conteúdo Capítulo
Conceito, Características e Princípios 10
Espécies e Limites 11
Funções, Estrutura e Órgãos do Poder Judiciário 12

Unidade IV – Competência
Carga horária: 4 horas
Conteúdo Capítulo
Conceito, Espécies e Critérios Determinativos 13
Prorrogação da Competência – Continência e Conexão 14

Unidade V – Teoria Geral da Ação


Carga horária: 2 horas
Conteúdo Capítulo
Teoria Geral 15

Unidade VI – O Processo
Carga horária: 4 horas
Conteúdo Capítulo
Conceito e Natureza Jurídica 16
Pressupostos Processuais 17

Unidade VII – Atos Processuais


Carga horária: 5 horas
Conteúdo Capítulo
Forma e Classificação dos Atos Processuais 18
Lugar e Tempo dos Atos Processuais 19
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Vícios dos Atos Processuais 20


Preclusão Processual 21

Unidade VIII – Teoria da Cognição Processual


Carga horária: 4 horas
Conteúdo Capítulo
Conceito 22
Espécies 23
Questões Preliminares, Prejudiciais e de Mérito 24

8
Unidade IX – Atos Jurisdicionais
Carga horária: 4 horas
Conteúdo Capítulo
Noções Gerais 25
Sentença e Decisão Interlocutória 26
Despachos 27

Unidade X – Sentenças e Coisa Julgada


Carga horária: 2 horas
Conteúdo Capítulo
A Sentença e o Princípio da Adstrição 28

Unidade XI – Quadro Geral dos Meios de Impugnação


Carga horária: 20 horas
Conteúdo Capítulo
Impugnação 29
Teoria Geral do Recurso 30
Natureza Jurídica dos Recursos 31
Princípios Gerais dos Recursos 32
Efeito da Interposição dos Recursos 33
Recursos de Apelação 34
Recursos de Agravo 35
Embargos Infrirgentes 36
Embargos de Declaração 37
Recurso Ordinário 38
Recurso Especial e Recurso Extraordinário 39
Embargos de Divergência 40
Ação Rescisória 41
Pós-Graduação a Distância

9
Introdução

Modernamente, apresenta-se o processo como uma espécie


de procedimento, entendido este último como uma atividade
preparatória de um ato final, atividade esta devidamente regulada
por uma estrutura normativa e composta por uma sequência de atos
e de posições subjetivas, que se desenvolvem em uma dinâmica
específica até que seja atingido esse almejado ato final.

Conquanto todo e qualquer procedimento possa ser compreendido


como uma sucessão ordenada de atos; juridicamente entende-se
por procedimento aquela atuação por parte do Estado que, no
exercício de suas funções típicas, administrativa, legislativa e
jurisdicional, culmina com a edição de atos de poder, isto é, de
atos de império, provocando efeitos na esfera dos administrados,
da sociedade, dos jurisdicionados.

O procedimento é, pois, uma atividade preparatória de um ato


de poder, ato este que, na linguagem processual moderna,
denomina-se provimento. Provimento é, assim, um ato do Estado,
de caráter imperativo, produzido pelos seus órgãos no âmbito de
sua competência, seja um ato administrativo, um ato legislativo
ou um ato jurisdicional. É, em suma, o ato final buscado por meio
do procedimento.

Nesse contexto, identifica-se o processo como uma espécie de


procedimento destinado à formação do provimento jurisdicional.
Destarte, o processo é uma espécie de procedimento, mas não
é qualquer procedimento, senão um procedimento que visa à
prestação jurisdicional por parte do Estado, atendidos determinados
pressupostos. No processo, como em qualquer procedimento, a
lei se ocupa de determinar os atos que devem compor a atividade
de formação do provimento, prevendo quando tais atos são
necessários ou simplesmente consentidos, assim como a forma
como devem ser coordenados e combinados entre eles.

Outrossim, a atividade preparatória do provimento envolve atos do


Processo Civil – Processo de Conhecimento

próprio autor deste e dos outros sujeitos que devem concorrer para
a sua formação. É que, no processo, é indispensável a participação
dos interessados no provimento final. Mais do que isso, é
necessária sua participação especial, em contraditório entre eles,
realizando-se esse contraditório, como acentua ELIO FAZZALARI1,
em “simétrica paridade”, porque seus interesses em relação ao ato
final são opostos, ou porque, como seus destinatários, sofrerão
seus efeitos, tudo concorrendo para a criação de um verdadeiro
modelo normativo de atuação.
1 FAZZALARI, Elio. Istituzioni di Diritto Processuale, 5. ed., Padova, Cedam, 1989, p.80. No
original: “Como ripetuto, il “processo” è un procedimento in cui partecipano (sono abilitati a par-
tecipare) coloro nella cui sfera giuridica l´atto finale è destinato a svolgere effetti: in contrad-
dittorio, e in modo che l´autore dell´atto non possa obliterare le loro attività. ..Tale struttura
consiste nella partecipazione dei destinatari degli effetti dell´atto finale alla fase preparatória
del medesimo: nella simmetrica parità delle loro posizioni..”.

10
Introdução

Muito embora esse modelo normativo não seja exaustivo, sendo


necessária, muitas vezes, a utilização de recursos de interpretação
para integrá-lo, é fato que os diferentes módulos legais podem
ser separados ou distinguidos em grupos, subgrupos ou famílias,
em razão da classificação dos provimentos que visem a formar,
donde correspondem os vários ramos de processo, notadamente
o Processo Civil e o processo penal.

É verdade que o processo, como instrumento compositivo de


litígio, é um só. É por meio do processo que o Estado desenvolve
sua atividade jurisdicional. Nesse diapasão, o Processo Civil e o
processo penal não passam de faces de um mesmo fenômeno,
ramos de um mesmo tronco. É inegável, mesmo, que os
fundamentos do ordenamento processual são comuns aos dois
tipos de processo: a) ambos têm a mesma finalidade (atuação do
Poder Jurisdicional); em ambos a intervenção do Poder Jurisdicional
é condicionada ao exercício da ação; e, finalmente, c) ambos se
iniciam, se desenvolvem e se concluem com a participação de três
sujeitos: autor, réu e juiz.

Na realidade, a distinção que se faz entre jurisdição penal e


jurisdição civil assenta, única e exclusivamente, na divisão de
trabalho. Determinados órgãos jurisdicionais são incumbidos
de dirimir conflitos intersubjetivos de natureza civil, enquanto
outros se encarregam de equacionar os de natureza penal. Em
outras palavras, é o Direito Material que regula o conteúdo, a
matéria da atividade jurisdicional, e porque o Direito Processual
é instrumental, será civil ou penal consoante tenha por objeto, no
dizer de UGO ROCCO2, “relações substanciais de Direito Civil ou
relações substanciais de Direito Penal”.

Não obstante o caráter instrumental do Direito Processual,


seja civil ou penal, porque visa à realização do Direito Material
correspondente, é reconhecida a autonomia do Direito Processual
em relação ao Direito Material que se propõe a tornar efetivo, o que
se dá não somente por fins didáticos, nem porque existem códigos
processuais separados dos códigos materiais, mas essencialmente
porque o Direito Processual está sujeito a princípios reguladores
que não têm nenhum ponto de contato com os princípios que
Pós-Graduação a Distância

disciplinam o Direito Material.

2 ROCCO, Ugo, Trattato di diritto processuale civile, Parte Geral, Volume 1, Turim, UTET, 1964,
p. 186. No original: La differenza tra diritto processuale civile e diritto processuale penale con-
siste in cio: tanto l´uno quanto l´altro sono diritto statuale perchè promano dallo Stato; sono
diritto pubblico, perchè regolano l´attività di organo dello Stato investiti di potere sovrano; sono
diritto formale in quanto le norme giuridiche, nel disciplinare l´attività degli organi giurisdizionali,
no solo ni vinculano nella forma, ma anche nel contenuto. Ma, poichè le norme que regolano il
contenuto, la matéria o la sostanza dell´attività giurisdizionale sono di diritto sostanziale, il dirit-
to processuale se distingue in diritto processuale civile e diritto processuale penale. La seconda
che abbia per oggetto rapporti sostanziali di diritto civile o rapporti sostanziale di diritto penale”.

11
Nos últimos anos, o Direito Processual Civil vem sendo objeto de uma
severa revisão doutrinária e legislativa. Enquanto conceitos outrora
tidos como definitivos, como a própria definição de processo, foram
revistos e alterados pela doutrina; o legislador pátrio tratou de
modificar normas e incluir novas leis ao ordenamento, sempre na
busca de modernizar e levar o processo ao seu objetivo precípuo:
a prestação jurisdicional ao cidadão.

Nesta torrente de novidades, o operador do Direito se vê


na premente necessidade de se atualizar, de renovar seus
conhecimentos e acompanhar as transformações que se lhe
impõem. Isso tudo sob pena de, ao quedar-se inerte, perder o
rumo da história e, como consequência final, não conseguir se
firmar no mercado de trabalho.

O Código de Processo Civil de 1973, conquanto tenha constituído modernização legislativa em relação ao vetusto CPC de
1939, entrou em vigor sem romper com a formalista sistemática processual de então, em uma época em que a moderna
doutrina processual já concebia, em Itália, as bases de um mais novo Processo Civil, centrado na proteção dos interesses
coletivos e mais preocupado com a efetividade da prestação jurisdicional.

Ao contrário, o CPC de 1973 manteve o processo eminentemente formalista e individualista do Século XIX e dos primeiros
três quartos do Século XX, que respondia aos anseios de um Direito Material igualmente individualista, permanecendo o
Juiz inerte e neutro. Destarte, como retrato de um pensamento jurídico-processual mais tradicional, cujas bases haviam
sido lançadas desde o pós-guerra, o CPC de 1973 não tardou a merecer reformas, as quais se iniciaram, não obstante,
no Processo Civil pátrio, com a entrada em vigor da Lei da Ação Civil Pública, em 1985, quando se introduziram novos
instrumentos processuais, para a tutela de interesses coletivos.

Quando ao CPC de 1973, as reformas legislativa, focadas sempre no objetivo de ampliar acesso à jurisdição, bem como
a torná-la mais célere e efetiva, se não implodiram por completo com a sistemática processual original, modificaram-na
substancialmente, tendo a primeira reforma importante ocorrido a partir de 1994, com a Lei nos 8.952/1994, que inseriu o
instituto da chamada tutela jurisdicional diferenciada, ou seja, procedimento sumário e de cognição superficial necessário
a assegurar a fruição do bem, antes que o tempo corroa o Direito ou seu objeto, no caso, a denominada tutela antecipada.
Na mesma linha e época, o Processo Civil também evoluiu para encurtar o tempo do processo, com a Lei do Agravo (Lei
Processo Civil – Processo de Conhecimento

nº 9.139/1995), a Ação Monitória, a Lei nº 9.079/1995 e a Lei dos Juizados Especiais.

Uma segunda fase de reforma de CPC de 1973 ocorreu por meio da edição das Leis nº 10.352/2001, 10.358/2001 e
10.444/2002, com a punição dos atos atentatórios ao exercício da jurisdição (art. 14), a maior amplitude emprestada
ao instituto da tutela antecipada (art. 273), inclusive com a adoção da fungibilidade entre medidas antecipatórias e
cautelares e, no campo dos recursos, com a permissão de que o tribunal julgasse desde logo a causa por completo, em
caso de extinção do processo sem julgamento de mérito na primeira instância, em se tratando de questão de Direito, bem
como a diminuição do campo de admissibilidade do agravo de instrumento e dos embargos infringentes.

Ainda, uma terceira fase de reforma seguiu-se a partir da Emenda Constitucional nº 45/2004, a assim denominada
“Reforma do Judiciário”, que erigiu à categoria de princípio constitucional a duração razoável do processo (artigo 5,
LXXVIII, CRFB). Encaminhadas pelo Poder Executivo, ao ensejo do “Pacto do Estado em Favor de um Judiciário mais
Rápido e Republicano”, as Leis nº 11.187/2005, 11.277/2006 e 11.280/2006 forma endossadas por representantes
dos três Poderes da República e integraram o chamado “pacote republicano”, apresentado pelo Presidente da República

12
Introdução

ao Congresso Nacional em 15.12.2004. Já a Lei nº 11.232/2005 baseou-se em projeto de lei elaborado pelo Instituto
Brasileiro de Direito Processual (IBDP), que foi encampado pelo Poder Executivo e se agregou aos demais.

As alterações introduzidas nessa terceira fase de reformas foram de tal monta que efetivamente buscaram romper com
o estereótipo do Processo Civil moroso, sendo exemplos a simplificação do processo de execução e os remédios contra
os processos repetitivos, entre outras importantes modificações. Nesse diapasão, é importante fazer uma releitura
do Processo Civil atual, não mais se considerando os processos de conhecimento e executivo como necessariamente
distintos e estanques.

Urge, pois, prezados alunos, aprofundarmo-nos nesta vital área do Direito Processual, que ora se apresenta diante de
nós e que é o procedimento processual em juízo nos dois graus ordinários da jurisdição, onde foram introduzidas todas
essas recentes mudanças legislativa, as quais serão oportunamente comentadas, à medida que o estudo exegético for
sendo conduzido.

Pós-Graduação a Distância

13
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I
Processo Civil – Processo de Conhecimento

14
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I
Unidade I

Teoria Geral do Processo Civil

Capítulo 1 – Processo Civil

Processo civil é o ramo da ciência jurídica que trata do complexo


das normas reguladoras do exercício da jurisdição civil.

Ubi societas ibi ius – Só existe sociedade se houver Direito. O Direito é produto da vida comunitária, da vida em sociedade,
ou seja, é um produto cultural. A partir do instante em que o homem passou a se agrupar, normas de conduta naturalmente
foram estipuladas para a regulação desse convívio. A complexidade do Direito de cada povo, de cada época, reflete com
fidedignidade o correspondente estágio de evolução ou de complexidade da sociedade.

A autotutela expressa comportamento incompatível com o estágio atual da estrutura social, razão por que só é admitida
em caráter excepcional. Os conflitos de interesses são solucionados coercitivamente pelo Estado mediante o exercício
da função jurisdicional. E o processo é justamente o mecanismo de que se vale o Estado para resolver os litígios por meio
da aplicação impositiva das regras do Direito Material.

Dessa síntese, depreende-se que o Estado edita duas espécies de normas: as que tutelam os bens da vida, isto é, que disciplinam
a vida em sociedade, e as que possibilitam a sua atuação coativa caso haja alguma desobediência a seus preceitos. As primeiras
integram o chamado Direito Material, ao passo que as segundas integram o chamado Direito Processual.

Nessa linha de pensamento, o Direito Processual é justamente o ramo do Direito que aglutina esta segunda espécie de
normas e que, no dizer de Alexandre Freitas Câmara1 , estuda e regulamenta o exercício, pelo Estado, da função
jurisdicional. O mesmo autor adverte que, nada obstante a nomenclatura utilizada para o ramo a ser estudado (Direito
Processual), não se deve entender que o processo é o conceito central e mais importante desta ciência, quando na verdade,
o processo é meramente um meio de que se vale o Estado para exercer a função jurisdicional.

É válido realçar que o Direito Material e o Direito Processual, embora sejam ramos distintos da ciência jurídica, são complementares
Pós-Graduação a Distância

e habitam o mesmo terreno científico. Nas palavras de JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS BEDAQUE, o processo, não obstante
autônomo em relação aos vários ramos do Direito Material, é simples meio para efetivação das regras existentes naquele plano
do ordenamento jurídico, tornando possível a convivência social. Verificada a crise no Direito Material, representada pela não
observância da norma, pela lide, pela pretensão insatisfeita, pensa-se na maneira mais civilizada de solucioná-la. O Estado criou
um mecanismo com essa finalidade. É o processo, o método estatal de solução de controvérsias2.

1 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 1. 16. ed. Rio de Janeiro: Editora Malheiros, 2007. páginas 5 e 6.
2 BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Efetividade do Processo e Técnica Processual. 2.ed. Editora Malheiros. p.19.

15
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

Conquanto a jurisdição seja una e o Direito Processual possa também ser visualizado dentro dessa unidade, por razões de
ordem prática o legislador optou por concentrar as normas processuais de acordo com a natureza das regras aplicáveis
à solução dos conflitos, nascendo, então, as divisões conhecidas do Direito Processual: Direito Processual Penal; Civil;
Trabalhista etc.

Exatamente por isso, os princípios fundamentais da jurisdição e do processo são compartilhados por todos os ramos de
Direito Processual existentes, muito embora o Direito Processual Civil, em razão da sua amplitude, ocupe um lugar de
destaque, porquanto aplicável aos domínios civis, comerciais e matérias públicas não penais, que não caibam em outros
ramos especializados do Direito Processual.

Tem o Direito Processual Civil outra função relevante: é aplicado subsidiariamente por todos os demais ramos de
processo.

O Direito Processual Civil, portanto, é o ramo do Direito que abarca as normas e os princípios básicos que subsidiam os
diversos ramos do Direito Processual.

Em resumo, e tomando por empréstimo a definição de Direito Processual Civil dada por Humberto Theodoro
Júnior3 , pode-se dizer que ele é o ramo da ciência jurídica que trata do complexo das normas reguladoras do exercício
da jurisdição civil.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

3 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil, vol. 1. 42. ed. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2005, p. 6.

16
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

Capítulo 2 – Princípios do Processo Civil

Nos moldes de todos os ramos do Direito, o Direito Processual também é orientado por princípios, que servem de
fundamento e de referência para a interpretação de todas as normas e institutos que o integram.

Os princípios do Direito Processual Civil encontram-se delineados na Constituição Federal e na legislação processual
ordinária.

Importa destacar, nesse passo, a aguda influência do Direito Constitucional no Direito Processual Civil, como de resto
em todos os ramos do Direito. Isso se deve ao fenômeno da constitucionalização do Direito Processual Civil decorrente
da previsão de normas processuais na Lei Maior e, sobretudo, da importância hermenêutica cada vez mais acentuada
dos princípios.

Conquanto a doutrina aponte uma infinidade de princípios, aqui eles serão resumidos aos essenciais, de onde todos os
demais buscam sua legitimidade e justificativa.

Do Devido Processo Legal


O mais relevante e complexo dos princípios que regem o Processo Civil, o Devido Processo Legal, que surgiu pela primeira
vez na Magna Carta inglesa de João Sem Terra, de 1215, está consagrado no artigo 5º, inciso LIV, da Constituição
Federal de 1988. Trata-se, a rigor, de uma cláusula geral aberta a ser preenchida de acordo com determinado momento
jurídico-histórico.

É certo que dele decorrem todos os outros princípios processuais. Em verdade, mesmo que não previstos de maneira
expressa no ordenamento jurídico, os demais princípios não estariam excluídos, pois que, por força do due process of
law, também se fariam presentes no sistema. Em face desta larga abrangência, o Devido Processo Legal é classificado
por alguns como um “super princípio”.

Para que se possa falar em justa composição da lide, ou seja, solução equânime de um conflito, a tutela jurisdicional
deve ser prestada à luz de normas processuais estabelecidas previamente pelo Direito Processual Civil. Esta exigência,
que se dá, em primeiro plano, por força do disposto na Constituição de República Federativa do Brasil, art. 5 º, incisos
XXXV, LIV e LV, mostra a exata extensão do que vem a ser o devido processo legal.

Em um momento inicial, este princípio era visto apenas como uma garantia processual, mas este entendimento evoluiu,
e hoje é forçoso concluir que ele também abrange ao que se chama de devido processo legal substancial ou material, que
pode ser definido como uma garantia ao trinômio “vida-liberdade-propriedade” , que assegura à sociedade a regência via
leis razoáveis.
Pós-Graduação a Distância

Assim, para a correta aplicação do princípio do devido processo legal, não basta a mera regularidade formal das decisões
(sentido formal); elas necessitam ser substancialmente razoáveis e corretas (sentido material). Diante disso, é que se
pode falar nos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, consoante decidiu o Supremo Tribunal Federal, por
ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário nº 374.981 – Informativo STF nº 381.

O devido processo legal em sentido formal pode, assim, ser tomado como o Direito de processar e ser processado de
acordo com as normas previamente estabelecidas de maneira legítima e nos moldes constitucionais. É deste princípio
que se desdobram outros: acesso à justiça; juiz natural; publicidade dos atos processuais; razoabilidade do prazo para

17
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

a tutela jurisdicional etc. Na síntese de MARCUS VINICIUS RIOS GONÇALVES4, o substantive due process constitui
autolimitação ao poder estatal, que não pode editar normas que ofendam a razoabilidade e afrontem as bases do regime
democrático. Em sentido processual, o princípio obriga a que se respeitem as garantias processuais e as exigências
necessárias para a obtenção de uma sentença justa.

Contraditório e Ampla Defesa


Os princípios do contraditório e da ampla defesa estão densificados no art. 5º, LV, da Constituição Federal. Traduzem
a prerrogativa, assegurada a ambas as partes da relação processual, de utilizarem todos os instrumentos legítimos de
defesa e de serem ouvidas sobre todos os fatos que possam interferir na solução do litígio.

Pode-se dizer que democracia no processo recebe o nome de contraditório.


(Fredie Didier Jr. Curso de Direito Processual Civil, 42).

Na arena processual, às partes são disponibilizados iguais poderes e Direitos. Diante disso, por exemplo, busca-se
assegurar a assistência judiciária aos que não têm condições de arcar com os gastos de um processo. Ocorre que, o
principal instrumento na busca desta igualdade é o contraditório, que as partes, sem qualquer privilégio para uma delas,
precisam ser ouvidas pelo magistrado, sendo-lhes garantidos o Direito à defesa plena e o direto de se pronunciar durante
todo o processo; aliás, também lhes será garantido o Direito de produzir provas.

O princípio em foco pode ser vislumbrado sob dois aspectos: um formal e um material. No aspecto formal, busca garantir
a participação das partes em todos os atos processuais, por meio da prévia comunicação. O pensamento clássico entendia
que bastava o cumprimento dessa exigência para que se garantisse, com plenitude, o contraditório. Hoje, porém, deve-se
completar esse conceito com o aspecto material, que cuida do poder de influência, poder de interferir na decisão final.
Assim, além de ser chamada aos autos, deve-se garantir à parte o Direito de manifestar-se, de trazer ideias, fatos novos e
argumentos jurídicos que possam modificar o entendimento do julgador. Decidiu, sobre a matéria, o SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL5 , que a Corte fixou jurisprudência no sentido de que os princípios do contraditório e da ampla defesa, ampliados
pela Constituição de 1988, incidem sobre todos os processos, judiciais ou administrativos, não se resumindo a simples
Direito, da parte, de manifestação e informação no processo, mas também à garantia de que seus argumentos serão
analisados pelo órgão julgador, bem assim o de ser ouvido também em matéria jurídica.

Em função do prestígio constitucional do princípio da ampla defesa e do contraditório, diz-se que ele é absoluto, e sua
observância obrigatória, sob pena de nulidade. Todavia, há que se ter presente que os princípios constitucionais estão
Processo Civil – Processo de Conhecimento

no mesmo plano jurídico, sem relação de supremacia. Logo, em dadas circunstâncias, o contraditório pode ceder em
certa medida à efetividade jurisdicional, como acontece nas hipóteses de antecipação de tutela e de medidas cautelares
inaudita altera partes. Não se trata, é bom ressalvar, de supressão do contraditório, mas apenas de sua postergação,
caso em que se diz que o contraditório é diferido.

Oportuno não perder de vista que tanto o contraditório quanto a ampla defesa são adaptados pela legislação ordinária
à luz do procedimento, da complexidade da causa e de outras variantes processuais. Isso significa que existem
parâmetros para o seu exercício e que as partes não dispõem de poderes ilimitados para alegar e provar os fatos
suscitados no processo. Como adverte FRANCISCO GÉRSON MARQUES DE LIMA6, o Direito de defesa, assegurado
constitucionalmente, tem suas adaptações pelo legislador ordinário, a fim de atender ao primado da adequação
processual, conforme a natureza do interesse regulado pelo processo. Há uma inerência da defesa, segundo o

4 RIOS GONÇALVES. Marcus Vinicius. Novo Curso de Direito Processual Civil. Volume 1, Ed. Saraiva, 2004. p. 36.
5 STF, AGRG. no RE 527.814/PR, 2ª T., rel. Min. Eros Grau, Dje 162, de 28.08.2008.
6 LIMA, FRANCISCO GÉRSON MARQUES DE. Fundamentos Constitucionais do Processo. Ed. Malheiros, 2002, p. 188.

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Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

processamento disciplinado pela lei, de modo racional. O que não pode é o Direito de defesa ser suprimido, porquanto
é garantia genérica constitucional. Na mesma direção, anota HENRY GONÇALVES LUMMERTZ7 que o processo deve
ser estruturado de forma tal que assegure que as atividades dos sujeitos processuais possam ser exercidas de forma
eficaz, mas a garantia do contraditório não pode ser de pretexto para uma inútil e danosa dilação processual, não
sendo admitidas, em nome de um pretenso contraditório, defesas fúteis e pretextuosas, sem qualquer relação com
o objeto do processo. A tanto não se presta o princípio do contraditório. Em sede jurisprudencial, é ilustrativa dessa
contextualização do princípio do contraditório e da ampla defesa a seguinte decisão do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL8:
Este Tribunal tem decidido no sentido de que o indeferimento de diligência probatória, tida por desnecessária pelo
juízo a quo, não viola os princípios do contraditório e da ampla defesa.

Fredie Didier Jr.9 afirma que há que se abrir parênteses no tema para lembrar que o sistema jurídico brasileiro permite
que o magistrado atue e conheça matérias de ofício; contudo, não lhe é permitido agir sem ouvir as partes. Para o autor,
agir de ofício é agir sem provocação e isso não se confunde com agir sem ouvir as partes. Neste caso, caberia ao juiz,
antes de agir, abrir prazo para que as partes falem nos autos, sob pena de violar o contraditório.

Em resumo, deste princípio decorrem três consequências básicas: a) a sentença só afeta as pessoas que foram parte no
processo, ou seus sucessores; b) só há citação completa após regular citação do demandado; c) toda decisão só pode
ser proferida depois de ouvidas as partes.

Boa-Fé e Lealdade Processual

Não é lícito a nenhum cidadão agir de má-fé para com o


Estado-Juiz.

O processo representa o instrumento pelo qual o Estado, resolvendo a lide, devolve a paz ao convívio social. Em virtude
da magnitude desse propósito, possui forte conteúdo ético que se mostra incondizente com atitudes pautadas pela
temeridade. Na esteira do que decidiu o E. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL10, o ordenamento jurídico brasileiro repele
práticas incompatíveis com o postulado ético-jurídico da lealdade processual. O processo não pode ser manipulado para
viabilizar o abuso de Direito, pois essa é uma ideia que se revela frontalmente contrária ao dever de probidade que se
impõe à observância das partes. O litigante de má-fé – trate-se de parte pública ou de parte privada – deve ter a sua
conduta sumariamente repelida pela atuação jurisdicional dos juízes e dos tribunais, que não podem tolerar o abuso
processual como prática descaracterizadora da essência ética do processo.

Os arts. 14 a 18 do Código de Processo Civil prescrevem os deveres a serem observados pelas partes quanto ao aspecto
da lealdade processual e as penalidades passíveis de aplicação à parte que sucumbe à má-fé. A interpretação desses
preceitos legais acenam com clareza no sentido de que a litigância temerária afronta a dignidade jurisdicional e por isso
deve ser reprimida pelo juiz que preside a relação processual. A propósito, assinala JEFFERSON ISIDORO MAFRA11 ,
que a dignidade da justiça, como valor moral e constitucional, repugna a conduta desleal e de má-fé. A jurisdição, como
função pública do Estado, destinada a dirimir os conflitos sociais, merece tratamento condizente com o seu caráter
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social e publicista. Por conseguinte, o processo, como instrumento de atuação da jurisdição, exige comportamento ético
contínuo daqueles que nele atuam. O respeito aos deveres éticos expressos no art. 14 do Código de Processo Civil é uma
obrigação constante de todos que participam do processo.
7 LUMMERTZ, HENRY GONÇALVES. Processo e Constituição. Forense, p. 56.
8 AGRG. no AI 616.277/MG, 1ª T., rel. Min. Ricardo Lewandowski, Dje 177, de 18.09.2008
9 DIDIER JÚNIOR, Fredie. Curso de Direito Processual Civil. Volume 1. 7ª edição. Salvador: Ed. JusPODIVM, 2007, p. 46.
10 EDCL. no AGRG. no AI 193.779/PR, 2ª T., rel. Min. Marco Aurélio, DJU 08.06.2001, p. 14.
11 MAFRA, JEFFERSON ISIDORO. Dever de Cumprir Ordem Judicial. RF 378/452.

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Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

O princípio da lealdade processual impõe deveres inspirados na probidade que se estendem a todos os que participam,
direta ou indiretamente, da relação processual (o que inclui, além das partes, serventuários, membros do MP, peritos,
advogados etc.).

Evidentemente que os dispositivos que moldam as atitudes consideradas agressivas à boa-fé processual e legitimam a
aplicação das reprimendas legais devem ser aplicados com temperança, máxime porque a má-fé não pode ser presumida.
Contudo, o juiz não deve hesitar em punir, à luz do devido processo legal, a parte que transita em juízo mediante subterfúgios
e alegações contrárias a fatos eloquentes dos autos. A litigância temerária desafia princípios éticos que norteiam a
atividade processual e deve ser reprimida dentro dos parâmetros da legislação vigente.

Na mesma ordem de ideias, aparta-se dos princípios éticos que norteiam a dogmática processual, revelando litigância
temerária, a parte que recorre mediante argumentação contrária aos fatos incontroversos dos autos e alheia às
circunstâncias da causa, em claro intuito protelatório. Acerca do tema, colha-se o seguinte julgado do SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL12: 1. RECURSO. Extraordinário. Inadmissibilidade. Jurisprudência assentada. Ausência de razões consistentes.
Decisão mantida. Agravo regimental improvido. Nega-se provimento a agravo regimental tendente a impugnar, sem razões
consistentes, decisão fundada em jurisprudência assente na Corte. 2. RECURSO. Agravo. Regimental. Jurisprudência
assentada sobre a matéria. Caráter meramente abusivo. Litigância de má-fé. Imposição de multa. Aplicação do art. 557,
§ 2º, cc. arts. 14, II e III, e 17, VII, do CPC. Quando abusiva a interposição de agravo, manifestamente inadmissível ou
infundado, deve o Tribunal condenar o agravante a pagar multa ao agravado.

Da Instrumentalidade das Formas

O objetivo maior do processo não é o cumprimento exato


de todos os procedimentos, mas a solução adequada
das lides.

Sendo o processo o instrumento pelo qual o litígio é dissipado mediante a aplicação do Direito ao caso concreto, urge
procurar a maximização dos atos processuais com vistas à consecução desse objetivo.

O art. 154 da Lei Processual Civil, que mais ilustra a adoção do princípio da instrumentalidade das formas pela ordem
jurídica vigente, estatui que “os atos e termos processuais não dependem de forma determinada senão quando a lei
expressamente a exigir, reputando-se válidos os que, realizados de outro modo, Ihe preencham a finalidade essencial”.
Interpretando com propriedade esse dispositivo legal, CASSIO SCARPINELLA BUENO13 expõe que a forma dos atos
processuais deve ser compreendida como garantia de que há fins (exteriores e estranhos aos sujeitos do processo) a
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serem atingidos. Se eles, os fins, forem atingidos, mesmo sem a forma previamente estabelecida na lei, não há por que
declarar qualquer defeito no plano do processo.

O intérprete jamais deve abandonar a ideia de que o processo não é um fim em si mesmo; ao contrário, representa o meio
de que se vale o Estado para desempenhar a jurisdição. Por via de consequência, repugna à consciência jurídica atual a
celebração do formalismo em detrimento dos objetivos centrais do processo. Em decisão que espelha com propriedade
essa nova visão do processo, assentou o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA14 que na contraposição entre o formalismo
processual rigoroso de um lado e a efetividade das decisões processuais e a instrumentalidade das formas de outro, estes
devem prevalecer. Há nítido interesse social na solução de mérito dos litígios, mesmo que, para tanto, se faça necessária
a simplificação dos dispositivos processuais.

12 AGRG. no AI 238.696/MG, 2ª T., rel. Min. Cezar Peluso, Dje 232, de 04.12.2008
13 BUENO, CASSIO SCARPINELLA. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Vol. 1, Editora Saraiva, 2007, p. 438.
14 REsp. 1.037.429/SP, 3ª T., rela. Mina. Nancy Andrighi, DJe 26.09.2008.

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Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

Nessa contextura jurídica, tanto as nulidades processuais quanto os requisitos dos atos processuais devem ser enfocados
sob o prisma da instrumentalidade, de sorte a preservar o processo e, consequentemente, favorecer a resolução do mérito,
isto é, do conflito de interesses levado ao Poder Judiciário. É por isso, exempli gratia, que as exigências da petição inicial
devem ser aferidos sob a lente do princípio da instrumentalidade das formas, levando em conta que o seu indeferimento,
por deixar insolúvel o litígio, frustra os desígnios institucionais do processo. Na mesma concepção, aplica-se o princípio
da instrumentalidade das formas, inscrito nos arts. 249 e 250 do Código de Processo Civil, quando da nulidade do ato
não resultar prejuízo para a defesa das partes, consoante vem decidindo reiteradamente o SUPERIOR TRIBUNAL DE
JUSTIÇA15. O mesmo Tribunal Superior16, noutro julgado, assentou: “Pacificou-se nesta Corte entendimento de que, em
respeito ao princípio da instrumentalidade das formas, considera-se sanada a nulidade decorrente da falta de intervenção,
em primeiro grau, do Ministério Público, se posteriormente o Parquet intervém no feito em segundo grau de jurisdição,
sem ocorrência de qualquer prejuízo à parte.“

Duplo Grau de Jurisdição


O princípio do duplo grau de jurisdição faculta a revisão dos julgados de modo a possibilitar a sua reapreciação por
órgão jurisdicional hierarquicamente superior. O natural inconformismo da parte vencida, aliado à falibilidade do ato de
julgamento, justificam esse princípio fundamental do Processo Civil.

O princípio do duplo grau de jurisdição é instrumentalizado pelo sistema recursal moldado no Código de Processo Civil
e na legislação extravagante. É por meio dos recursos, taxativamente catalogados na legislação (CPC, art. 496), que a
parte pode pleitear a revisão do julgamento contrário ao seu interesse. São os recursos, portanto, o mecanismo pelo qual
o princípio do duplo grau de jurisdição é concretizado no Direito Processual Civil. Na precisa observação de MARCUS
VINICIUS RIOS GONÇALVES17, não existem recursos que não tenham sido criados por lei. As partes intervenientes ou o
próprio juiz não têm poderes para criar mecanismos de impugnação das decisões judiciais além daqueles estabelecidos
pelo legislador. Daí dizer que o rol dos recursos é numerus clausus.

Controverte-se sobre a estatura constitucional do princípio do duplo grau de jurisdição. Muito embora o art. 5º, inciso,
LV, da Constituição Federal, disponha que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em
geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”, grande parte da doutrina
entende que a Lei Maior não o consagra em seu texto. ROBERTOS ROSAS18, por exemplo, afirma que o princípio do
duplo grau de jurisdição não está inscrito em nenhuma regra constitucional, apenas deduz-se da estrutura constitucional
da duplicidade de pronunciamentos que o mesmo pertence à estrutura do Poder Judiciário. Noutro norte, NELSON LUIZ
PINTO19 assevera que está o princípio do duplo grau de jurisdição implicitamente contido na Constituição Federal como
uma das facetas do próprio Direito constitucional de ação e de defesa.

O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL20 inclina-se pelo reconhecimento do princípio do duplo grau de jurisdição, sem
contudo conceder-lhe o status de princípio constitucional, como se colhe do seguinte julgado: 1. Para corresponder à
eficácia instrumental que lhe costuma ser atribuída, o duplo grau de jurisdição há de ser concebido, à moda clássica,
com seus dois caracteres específicos: a possibilidade de um reexame integral da sentença de primeiro grau e que esse
reexame seja confiado à órgão diverso do que a proferiu e de hierarquia superior na ordem judiciária. 2. Com esse
sentido próprio – sem concessões que o desnaturem – não é possível, sob as sucessivas Constituições da República,
erigir o duplo grau em princípio e garantia constitucional, tantas são as previsões, na própria Lei Fundamental, do
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julgamento de única instância ordinária, já na área cível, já, particularmente, na área penal. 3. A situação não se
alterou, com a incorporação ao Direito brasileiro da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José),
15 REsp. 1.018.614/PR, 2ª T., rela. Mina. Eliana Calmon, DJe 06.08.2008
16 AgRg. no Resp. 457.407/RO, 6ª T., rela. Mina. Maria Thereza de Assis Moura, Dje 06.10.2008.
17 GONÇALVES, MARCUS VINICIUS RIOS. Novo Curso de Direito Processual Civil, Volume 2, Saraiva, 2005, p. 55.
18 ROSAS, ROBERTO. Direito Processual Constitucional, 3. ed., Editora RT, p. 21.
19 PINTO, NELSON LUIZ. Manual dos Recursos Cíveis, 2. ed., Editora Malheiros, p. 80.
20 ROHC 79.785-7/RJ, rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJU 22.11.2002, p. 57

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Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

na qual, efetivamente, o art. 8º, 2, h, consagrou, como garantia, ao menos na esfera processual penal, o duplo grau
de jurisdição, em sua acepção mais própria: o Direito de “toda pessoa acusada de delito”, durante o processo, “de
correr da sentença para juiz ou tribunal superior”. 4. Prevalência da Constituição, no Direito brasileiro, sobre quaisquer
convenções internacionais, incluídas as de proteção aos Direitos humanos, que impede, no caso, a pretendida aplicação
da norma do Pacto de São José: motivação.

Impende reconhecer a existência de causas que não estão sujeitas ao duplo grau de jurisdição, como acontece nos feitos
de competência originária do Supremo Tribunal Federal. Isso, porém, não invalida a presença marcante do princípio do
duplo grau de jurisdição no ordenamento jurídico vigente mediante a estrutura recursal engenhada com o propósito nuclear
de possibilitar a ampla revisão dos julgados.

Interessa ressalvar, ainda, que a permissão de julgamentos monocráticos em feitos de competência recursal dos tribunais
não conspurca o princípio em voga, desde que circunscritos às hipóteses exaustivamente contempladas no Direito vigente.
Conforme decidiu o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA21, o julgamento monocrático pelo relator da causa, ao utilizar
os poderes processuais do art. 557 do CPC, não ofende o princípio do duplo grau de jurisdição, desde que o recurso se
manifeste inadmissível, improcedente, prejudicado ou em confronto com súmula ou jurisprudência dominante do respectivo
Tribunal, deste Superior Tribunal de Justiça, ou do Supremo Tribunal Federal.

Princípio da Isonomia
Estipula o art. 125, I, do Código de Processo Civil, inspirado no princípio da isonomia substancial consagrado em sede
constitucional, que o juiz deve “assegurar às partes igualdade de tratamento”.

A imparcialidade do juiz impõe tratamento idêntico às partes, de maneira a possibilitar-lhes o uso de todas as ferramentas
jurídicas legítimas para a alegação e prova dos fatos e do Direito relevantes ao julgamento da causa. É o que a doutrina
chama de “paridade de armas” no embate inerente ao palco processual. Sobre o tema, CASSIO SCARPINELLA BUENO22
assevera que a isonomia ou igualdade deve ser entendida no sentido de que o Estado-Juiz (o magistrado, que o representa)
deve tratar de forma igualitária os litigantes. Seja dando-lhes igualdade de condições de manifestação ao longo do
processo, seja criando condições para que esta igualdade seja efetivamente exercitada.

A presença marcante do princípio da igualdade não invalida as situações, devidamente justificadas sob o prisma da
razoabilidade, de tratamento diferenciado em razão de circunstâncias peculiares a uma das partes da relação processual.
É o que se verifica, por exemplo, na concessão de prazos mais elásticos à Fazenda Pública (CPC, art. 188). Contudo, as
desequiparações só podem ser consideradas compatíveis com o cânone da igualdade quando não exorbitam as raias do
princípio da razoabilidade. Veja, a propósito, a seguinte decisão do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL23: Ação rescisória:
arguição de inconstitucionalidade de medidas provisórias (MPr 1.703/98 a MPr 1798-3/99) editadas e reeditadas para
a) alterar o art. 188, I, CPC, a fim de duplicar o prazo para ajuizar ação rescisória, quando proposta pela União, pelos
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Estados, pelo DF, pelos Municípios ou pelo Ministério Público; b) acrescentar o inciso X no art. 485 CPC, de modo a tornar
rescindível a sentença, quando “a indenização fixada em ação de desapropriação direta ou indireta for flagrantemente
superior ou manifestamente inferior ao preço de mercado objeto da ação judicial”: preceitos que adoçam a pílula do edito
anterior sem lhe extrair, contudo, o veneno da essência: medida cautelar deferida. 1. Medida provisória: excepcionalidade
da censura jurisdicional da ausência dos pressupostos de relevância e urgência à sua edição: raia, no entanto, pela irrisão
a afirmação de urgência para as alterações questionadas à disciplina legal da ação rescisória, quando, segundo a doutrina
e a jurisprudência, sua aplicação à rescisão de sentenças já transitadas em julgado, quanto a uma delas – a criação de
novo caso de rescindibilidade – é pacificamente inadmissível e quanto à outra – a ampliação do prazo de decadência – é
pelo menos duvidosa: razões da medida cautelar na ADIn 1753, que persistem na presente. 2. Plausibilidade, ademais,
da impugnação da utilização de medidas provisórias para alterar a disciplina legal do processo, à vista da definitividade

21 AgRg. no Resp. 835.423/RS, 6ª T., rela. Mina. Maria Thereza de Assis Moura, Dje 10.11.2008.
22 BUENO, CASSIO SCARPINELLA, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Vol. 1, Saraiva, 2007, p. 127/128.
23 ADI-MC 1.910/DF, Pleno, rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJU 27.02.2004, p. 19.

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Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

dos atos nele praticados, em particular, de sentença coberta pela coisa julgada. 3. A igualdade das partes é imanente
ao due process of law; quando uma das partes é o Estado, a jurisprudência tem transigido com alguns favores legais
que, além da vetustez, têm sido reputados não arbitrários por visarem a compensar dificuldades da defesa em juízo das
entidades públicas; se, ao contrário, desafiam a medida da razoabilidade ou da proporcionalidade, caracterizam privilégios
inconstitucionais: parece ser esse o caso na parte em que a nova medida provisória insiste, quanto ao prazo de decadência
da ação rescisória, no favorecimento unilateral das entidades estatais, aparentemente não explicável por diferenças reais
entre as partes e que, somadas a outras vantagens processuais da Fazenda Pública, agravam a consequência perversa
de retardar sem limites a satisfação do Direito do particular já reconhecido em juízo. 4. No caminho da efetivação do
due process of law – que tem particular relevo na construção sempre inacabada do Estado de Direito democrático –
a tendência há de ser a da gradativa superação dos privilégios processuais do Estado, à custa da melhoria de suas
instituições de defesa em juízo, e nunca a da ampliação deles ou a da criação de outros, como – é preciso dizê-lo – se
tem observado neste decênio no Brasil.

Princípio da Motivação
O art. 165 do Código de Processo Civil reza que “as sentenças e acórdãos serão proferidos com observância do disposto
no art. 458; as demais decisões serão fundamentadas, ainda que de modo conciso”. Tal dispositivo afina-se com o art.
93, IX, da Carta Política, que em sua primeira parte estatui que “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário
serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade”.

É de se notar que a própria validade dos atos decisórios proferidos no processo está adstrita à indispensável fundamentação.
Mas é imperativo advertir que a motivação exigida legalmente não se traduz em ampla justificação jurídica por parte do
magistrado. Como vem decidindo o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA24, a nulidade só alcança decisões ausentes de
motivação, não aquelas com fundamentação sucinta, mormente quando possibilita o amplo Direito de defesa por parte
daquele que se sentiu prejudicado. Em igual sentido, decidiu o SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL25 que a exigência do art.
93, IX, da Constituição, não impõe seja a decisão exaustivamente fundamentada, bastando que o julgador informe, de
forma clara e concisa, as razões de seu convencimento, tal como ocorreu no caso em tela.

Princípio da Publicidade
O processo, dentro do Estado Democrático de Direito, deve consistir em método transparente da solução das contendas
levadas à apreciação do Poder Judiciário. O art. 5º, inciso LX, da Constituição Federal, reza que “a lei só poderá restringir
a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem”, ao passo que o art.
93, inciso IX, também é enfático ao prescrever que “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e
fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei, se o interesse público o exigir, limitar a presença,
em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes”, sendo no mesmo sentido a dicção
do art. 155 do Código de Processo Civil. Descortinando esse viés democrático que sustenta o princípio da publicidade
no âmbito processual, VICENTE GRECO FILHO26 explana que os atos processuais são públicos, em princípio, a fim de
que a todos seja dado acompanhar a distribuição da justiça, que é um bem jurídico que transcende ao próprio interesse
individual das partes discutido em determinada causa. A publicidade é garantia democrática de liberdade no que concerne
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ao controle do uso da autoridade. Se, porém, o strepitus processus puder causar prejuízo às partes, desenvolve-se a
causa em segredo de justiça (art. 155). Jamais, porém, o processo é secreto, ou seja, excluído do exame das partes e
seus advogados.

Frise-se que o segredo de justiça franqueado pelo Direito positivo diz respeito aos atos processuais e não à própria
existência do processo. Na lição de LUIZ MANOEL GOMES JUNIOR, JUSSARA SUZI ASSIS BORGES NASSER FERREIRA
24 REsp. 782.901/SP, 3ª T., rela. Mina. Nancy Andrighi, Dje 20.06.2008.
25 AGRG. no AI 653.010/DF, 1ª T., rel. Min. Ricardo Lewandowski, Dje 162, de 28.08.2008
26 FILHO, VICENTE GRECO, Direito Processual Civil Brasileiro, 2º Volume, 16ª Ed., Editora Saraiva, p. 86.

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Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

e MIRIAM FECCHIO CHUEIRI27, no Código de Processo Civil, o segredo de justiça é disciplinado no art. 155, incisos I e
II e seu parágrafo único, até de forma limitada, o que se justifica em decorrência da exceção de tal tipo de restrição à
regra da publicidade dos atos processuais frente ao texto constitucional. Contudo, deve ser anotado que o segredo de
justiça refere-se aos atos do processo, e não à sua própria existência, que sempre será pública.

Princípio da Persuasão Racional


Ao dispor em seu art. 131 que “o juiz apreciará livremente a prova, atendendo aos fatos e circunstâncias constantes
dos autos, ainda que não alegados pelas partes; mas deverá indicar, na sentença, os motivos que Ihe formaram o
convencimento”, o Código de Processo Civil opta nitidamente pelo princípio da persuasão racional, ou do livre convencimento
motivado, o que mais guarda fidelidade, dentre aqueles que versam sobre a liberdade do juiz na aplicação do Direito, com
o caráter democrático inerente ao processo.
O Estado Democrático de Direito é inconciliável com poderes arbitrários, razão por que a legitimidade das decisões judiciais
não prescinde da explicitação dos fundamentos que lhe servem de alicerce fático e jurídico. É de LUIZ GUILHERME
MARINONI28 a lição segundo a qual a legitimidade da decisão jurisdicional depende não apenas de estar o juiz convencido,
mas também de o juiz justificar a racionalidade da sua decisão com base no caso concreto, nas provas produzidas e
na convicção que formou sobre as situações de fato e de Direito. Ou seja, não basta o juiz estar convencido – deve ele
demonstrar as razões de seu convencimento. Isso permite o controle da atividade do juiz pelas partes ou por qualquer
cidadão, já que a sentença deve ser o resultado de um raciocínio lógico capaz de ser demonstrado mediante a relação
entre o relatório, a fundamentação e a parte dispositiva.
Como destinatário das provas, cabe ao juiz delimitar os meios probatórios necessários à formação do seu convencimento,
expungindo aqueles irrelevantes ao desfecho do litígio. Mas duas condicionantes lhe são impostas pelo princípio da
persuasão racional: fundamentação e restrição ao conteúdo dos autos. Nesse sentido, destaca ALEXANDRE FREITAS
CÂMARA29 que o juiz não pode tomar em consideração, a fim de formar sua convicção acerca das alegações sobre a
matéria de fato, nenhum elemento além das provas carreadas para os autos. É a aplicação do brocardo quod non est in
acti non est in mundo (o que não está nos autos não está no mundo). Além de basear sua decisão nas provas existentes
nos autos, o juiz deverá apresentar no decisum os motivos que o levaram a decidir desta ou daquela forma. É o princípio
da motivação das decisões judiciais, já estudado.

Princípio da Efetividade
O princípio da inafastabilidade da jurisdição, insculpido no art. 5º, XXXV, da Constituição de 1988, não garante apenas
o acesso à Justiça: assegura que o processo, instrumento vocacionado à prestação jurisdicional, seja adequado à efetiva
tutela do Direito violado ou ameaçado. Noutras palavras, o legislador constituinte assumiu o compromisso de dotar o
processo de meios adequados à salvaguarda do Direito da parte vencedora tal como previsto no Direito Material. Segundo
Processo Civil – Processo de Conhecimento

HUMBERTO THEODORO JÚNIOR30, deve-se lembrar que o Estado, assumindo o monopólio da Justiça, afastou a parte do
terreno da autotutela. Logo, se a pessoa não pode se defender do perigo por seus próprios meios, a jurisdição tem o dever
de socorrê-lo, sempre que correr risco de prejuízo por ter de aguardar o resultado da prestação jurisdicional satisfativa.
Criou-se, assim, para o Estado um “dever legal de segurança”, como “consectário da vedação da autotutela”. O tema da
tutela de segurança enraíza-se na garantia constitucional de inafastabilidade da proteção judicial, que encontra apoio no
art. 5º, XXXV, da Carta Magna, e que compreende não apenas “Direito à ampla defesa e ao contraditório, mas também
Direito a uma tutela efetiva, ou Direito a um procedimento adequado à realidade de Direito Material”

27 JUNIOR, LUIZ MANOEL GOMES, FERREIRA, JUSSARA SUZI ASSIS BORGES NASSER e CHUEIRI, MIRIAM FECCHIO CHUEIRI, Segredo de justiça – Aspectos processuais
controvertidos e liberdade de imprensa, in Revista IOB de Direito Civil e Processual Civil, nº 54/120.
28 MARINONI, LUIZ GUILHERME, Curso de Processo Civil, Volume 1, Editora RT, p. 104.
29 ALEXANDRE FREITAS CÂMARA, Lições de Direito Processual Civil, Vol. I, 8. ed., Lumen Juris, p. 399/400.
30 JUNIOR, HUMBERTO THEODORO, Execuções das Medidas Cautelares e Antecipatórias, in: PROCESSO DE EXECUÇÃO, Série Processo de Execução e Assuntos Afins, v.
2,Editora RT, 2001, p. 475.

24
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

O princípio de que se trata revelaria uma promessa vã se simplesmente assegurasse o acesso à jurisdição. Dada a sua
real dimensão, ele endereça ao legislador e ao juiz a tarefa de proporcionar a solução dos conflitos de interesses mediante
o resguardo efetivo do Direito violado ou ameaçado. Inexcedível, a propósito, o ensinamento de DANIEL FRANCISCO
MITIDIERO31 de que não basta, para o pleno atendimento ao comando constitucional, prestar-se qualquer tutela jurídica:
é de rigor que esta tenha o condão de curar as enfermidades de forma adequada, em tempo hábil, tornando-se efetivo
o desiderato de pacificação social e aplicação do ordenamento jurídico. Em realidade, o art. 5º, XXXV, da Constituição
deve ser compreendido como o título que possibilita o acesso não a qualquer ordem jurídica, mas a uma ordem jurídica
justa, tempestiva e efetiva: o alcance desta meta reclama a adoção de diversos expedientes, entre eles a especificação
procedimental em atenção às diversas situações existentes na órbita material (constribuindo-se procedimentos com níveis
de cognição compatíveis com as situações passíveis de tutela, meios executórios adequados, sendo que a inexistência
dos mesmos significa verdadeira afronta ao princípio da inafastabilidade da tutela) e uma maior preocupação com o
acesso à justiça dos menos favorecidos. A moderna compreensão da temática da inafastabilidade da tutela jurisdicional
envolve, como se vê, questões referentes ao acesso ao Judiciário e à efetividade do processo, verdadeiras tônicas do
novo modelo processual.
A legislação processual vem passando por várias reformas inspiradas no princípio da efetividade, podendo ser lembradas
aquelas que instituíram a tutela antecipada, a tutela das obrigações de fazer e não fazer, da tutela das obrigações de
entrega de coisa, a unificação das tutelas cognitivas e executivas etc. Todas, não é demasiado remarcar, comprometidas
com a celeridade e justiça das decisões judiciais. Daí a precisão de KAZUO WATANABE32 ao dizer que o princípio da
inafastabilidade do controle jurisdicional, inscrito no inc. XXXV do art. 5º da CF, não assegura apenas o acesso formal
aos órgãos judiciários, e sim o acesso à Justiça que propicie a efetiva e tempestiva proteção contra qualquer forma de
denegação da justiça e também acesso à ordem jurídica justa.
Calha finalizar aduzindo que em nível constitucional, o Direito Processual Civil gravita sob os princípios da segurança
jurídica e da efetividade. O primeiro, ancorado nos princípios da ampla defesa e do contraditório em toda a sua extensão;
o segundo, calcado na ideia de que o processo deve proporcionar resposta eficaz ao Direito subjetivo. Da tensão e da
concordância entre esses princípios, nasce o instituto da tutela antecipada e os demais institutos que lhe são afins, que
outorga prevalência, à luz de rígidos pressupostos, ao princípio da efetividade, contra o qual conspira incessantemente o
tempo. E o tempo não conspira contra a eficácia normativa da sentença, de cunho eminentemente jurídico; conspira, em
realidade, contra a eficácia da sentença no plano dos fatos, da sua repercussão social. O instituto da tutela antecipada
tem o intuito basilar de proteger a eficácia social da sentença, isto é, os consectários que ela pode produzir concretamente
e que, se não precipitados temporalmente, provavelmente perder-se-ão ante a ação fatal do tempo.

Princípios Informativos do Processo


Pode-se afirmar que os princípios informativos do processo são aqueles princípios que apontam para um processo
ideal, ou seja, indicam qual caminho deve ser seguido na aplicação dos demais princípios para que se chegue a um
melhor aproveitamento técnico da causa. Ada Pellegrini Grinover, Antônio Carlos de Araújo Cintra
e Cândido Rangel Dinamarco33 os apresentam como aspiração de melhoria do aparelhamento processual e
delineando quatro regras:
• o princípio lógico – seleção de meios mais eficazes e rápidos de procurar e descobrir a verdade e evitar,
assim, o erro;
Pós-Graduação a Distância

• o princípio jurídico – igualdade no processo e justiça na decisão;


• o princípio político – máximo de garantia social, com o mínimo de sacrifício individual da liberdade;

• o princípio econômico – processo acessível a todos, com vista ao seu custo e duração.
31 MITIDIERO, DANIEL FRANCISCO, Notas sobre o art. 1º do Código de Processo Civil, RF 374/51.
32 WATANABE, KAZUO Tutela Antecipatória e Tutela Específica das Obrigações de Fazer e Não Fazer – arts. 273 e 461, CPC, RDC 19/77.
33 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antõnio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23 ed. São Paulo: Malheiros Ed. 2007.

25
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

Capítulo 3 – Norma Processual Civil

Fontes da Norma Processual Civil


O Direito Processual Civil é guarnecido pelas mesmas fontes normativas dos demais ramos do Direito em geral. Logo,
tem-se basicamente a lei e o costume como fontes imediatas e a doutrina e a jurisprudência como fontes mediatas.
Sobretudo em função do caráter público do processo, a lei é sua principal fonte normativa, adotando-se o primado da
prevalência da lei sobre as outras fontes do Direito. Não é por outro motivo que o art. 126 do Código de Processo Civil
estabelece que “o juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade da lei. No julgamento
da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia, aos costumes e aos princípios gerais
de Direito.” Na síntese exegética de ANTONIO DALL’AGNOL34, o artigo, de modo mais amplo do que seu antecedente
imediato (art. 125), anuncia o sistema adotado pelo ordenamento jurídico brasileiro para o julgamento das causas cíveis – é
o da legalidade. Em outros termos, embora inexistente preceito superior – como se dá, verbi gratia, na Itália, segundo o
disposto no art. 101, segundo parágrafo, da Constituição – o juiz cível brasileiro está submetido à solução da lei, quando
a lei a ofereça. Esta é ideia que preside o regime democrático de governo: submissão às leis, e não aos homens – com o
que o cidadão em geral tem condições de saber, previamente, como comportar-se e, principalmente, como se comportam,
ou se comportarão, os representantes dos diferentes poderes estatais. Isso é primário, mas fundamental.
Cai a lanço chamar a atenção para o fato de que o sistema da legalidade inscrito no citado art. 126 não invalida as
amplas possibilidades exegéticas cometidas ao juiz no ato de aplicação do Direito, inclusive a que o habilita a reconhecer
incidentalmente a inconstitucionalidade de determinada norma jurídica ou de interpretá-la sob a filtragem constitucional.
LUIZ GUILHERME MARINONI35 faz essa abordagem ao afirmar que o juiz não é mais a boca da lei, como queria Montesquieu,
mas, sim, o projetor de um Direito que toma em consideração a lei à luz da Constituição e, assim, faz os devidos ajustes
para suprir as suas imperfeições ou encontrar uma interpretação adequada, podendo chegar a considerá-la inconstitucional
no caso em que a sua aplicação não é possível diante dos princípios de justiça e dos Direitos fundamentais.
A rigor, o ordenamento jurídico é dotado de completude, na medida em que ele mesmo prevê as fontes subsidiárias
que devem municiar o juiz para a aplicação do Direito ao caso concreto. Fala a doutrina, por isso mesmo, que a ordem
jurídica pode ser estaticamente incompleta, mas que é sempre dinamicamente plena. Com autoridade, EDUARDO J.
COUTURE36 ensina que não podemos falar de lacunas na lei ou do Direito, porque não há, na finalidade lógica deste
último, uma situação que não possa ser resolvida pelo métodos próprios de sua aplicação. Não pode haver, virtualmente,
um problema jurídico que seja insuscetível de solução, ou por via da realização espontânea ou por via jurisdicional, em
virtude do processo natural que se denomina força de expansão da lei.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

A Constituição Federal
O Capítulo III da Constituição Federal trata amplamente do Poder Judiciário, que é uma das expressões da soberania
nacional (art. 2º, CF) e, por isso, deve encontrar no estatuto político supremo do Estado as suas linhas mestras.
Além disso, a Carta Magna também traz normas processuais em sentido restrito e, ainda, normas de índole substancialmente
constitucional (substancial e formalmente constitucionais), quais sejam, as estruturadoras do Poder Judiciário.
Apenas em caráter exemplificativo, pode-se, citando Cândido Rangel Dinamarco37, apontar as seguintes normas
processuais constantes da CF/88:

34 DALL’AGNOL, ANTONIO. Comentários ao Código de Processo Civil, Vol. 2, 2. ed., Editora RT, p. 123.
35 MARINONI, LUIZ GUILHERME, Curso de Processo Civil, Volume 1, Editora RT, p. 54.
36 COUTURE, EDUARDO J., Interpretação das Leis Processuais, 4. ed., Editora Forense, p. 31/32.
37 DINAMARCO, Rangel Cândido. Instituições de Direito Processual Civil, 4. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2004, p. 71.

26
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

a) as normas integrantes da tutela constitucional do processo, portadoras de garantias que expressam os princípios
fundamentais do sistema (controle jurisdicional, isonomia, juiz natural, contraditório e ampla defesa, devido
processo legal etc.);

b) as normas que estruturam a jurisdição constitucional (conjunto de medidas jurisdicionais asseguradas pela CF
para a tutela a pessoas ou grupos em certas situações específicas – ADC, ADI, Ação Popular, HC, MS, HD,
Mandado de Injunção, Ação Civil Pública – jurisdição constitucional das liberdades);

c) as que asseguram e dão a medida da independência do Poder Judiciário como um todo e dos juízes
individualmente;

d) as que ditam a estrutura e competência do STF e Tribunais Superiores;

e) as que dispõem sobre a competência e estrutura das diversas Justiças;

f) as que fixam critérios para a legislação infraconstitucional sobre o processo, sobre procedimentos e sobre
organização judiciária.

Acrescente-se que o art. 5º da Constituição, portador do maior catálogo de Direitos fundamentais do ordenamento jurídico
pátrio, condensa uma série de normas voltadas direta ou indiretamente ao Direito Processual Civil. Neste diapasão,
pode-se citar em caráter exemplificativo:

• art.5º, inciso II (princípio da legalidade);

• art.5º, inciso XII (sigilos resguardados constitucionalmente);

• art.5º, inciso XXVI (impenhorabilidade da pequena propriedade rural);

• art.5º, inciso XXXIV (Direito de petição);

• art.5º, inciso XXXV (princípio da inafastabilidade da jurisdição);

• art.5º, inciso XXXVI (garantia do Direito adquirido, do ato jurídico perfeito e da coisa julgada);

• art.5º, inciso, XXXVII (princípio do juiz natural);

• art.5º, inciso LIV (princípio do devido processo legal);

• art.5º, inciso LV (princípios do contraditório e da ampla defesa);

• art.5º, inciso LVI (vedação de provas ilícitas);

• art.5º, inciso LX (princípio da publicidade dos atos processuais);

• art. 5º, inciso LXVII (vedação da prisão civil por dívida);


Pós-Graduação a Distância

• art. 5º, inciso LXIX (Mandado de Segurança);

• art. 5º, inciso LXX (Mandado de Segurança Coletivo);

• art. 5º, inciso LXXI (Mandado de Injunção);

• art. 5º, inciso LXXII (Habeas data);

• art. 5º, inciso LXXIII (Ação Popular);

27
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

• art. 5º, inciso LXXIV (assistência jurídica gratuita);

• art. 5º, inciso LXXVIII (duração razoável do processo).

As consequências da inclusão destes preceitos na Constituição são muitas, com destaque para a sua observância
obrigatória por todos os entes da federação, a criação de vários Direitos processuais fundamentais e a fixação de um norte
interpretativo para as normas infraconstitucionais. Desse sentir é MISAEL MONTENEGRO FILHO38, para quem as normas
do CPC – fonte inferior – apenas são válidas se, em cotejo com a CF – fonte superior por excelência –, demonstrarem
respeito a essa, não havendo divergência entre elas. O raciocínio deve ser aplicado, de forma escalonada, a todas as
demais fontes do Direito Processual Civil.

Tratados Internacionais

Como é de conhecimento geral, a Constituição Federal considera também integrados às garantias que ela própria estabelece
os preceitos dessa natureza estabelecidos em tratados internacionais dos quais o Brasil faça parte, consoante ressai
do seu art. 5º, § 2º. No campo do Processo Civil, merece destaque o Pacto de San Jose da Costa Rica, em especial por
prever uma série de garantias judiciais, dentre as quais a da realização do processo em tempo razoável (neste ponto, há
que se abrir parênteses para lembrar que tal norma hoje consta de texto expresso da CF/88, desde a EC nº. 45).

Vários outros tratados que versam sobre matéria processual vigem no Brasil, valendo lembrar aqueles que cuidam de
cooperação jurisdicional internacional, cartas rogatórias, reconhecimento de sentenças estrangeiras e sua execução.

Em relação ao status normativo dos tratados anteriores à Constituição Federal, é pertinente o escólio de Cândido Rangel
Dinamarco39: Discute-se se as normas contidas em tratados anteriores à Constituição Federal de 1988 consideram-se
integradas ao sistema de garantias individuais contido no art. 5º desta, ou se simplesmente fazem parte do Direito nacional
em nível infraconstitucional. A primeira dessas propostas chegou a ter grande força na doutrina, mas o § 3º do art. 5º
da Constituição Federal conduz ao entendimento oposto, pois assim dispõe: “os tratados e convenções internacionais
sobre Direitos Humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos
votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais” (introduzido pela EC no 45, de 8.12.04).
Diante dessa clara disposição, uma garantia oriunda de tratado ou convenção internacional somente galgará o status de
garantia constitucional se e quando vier a ser objeto daquelas sucessivas aprovações.

Lei Processual

Em sentido lato, leis são os textos normativos elaborados segundo as competências e o processo legislativo definidos
na Constituição e nas normas pertinentes, sempre com a participação do Poder Legislativo. Consideram-se processuais
as leis que são portadoras de normas gerais e abstratas alusivas ao processo, disciplinando o exercício da jurisdição, da
ação e da defesa mediante os atos e formas processuais.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

As principais observações que devem ser feitas neste ponto dizem respeito aos Decretos, Regulamentos, e Medidas
Provisórias.

Não se legisla em matéria processual através de decretos e regulamentos, pois seria contrário ao substantive due process
of law admitir normas sobre processo emitidas pelo Poder Executivo, sem a participação do Legislativo.

Observe-se que o Regulamento 737 – de 1850 – cuidava de matéria processual comercial e, em 1890, um decreto do
Poder Executivo republicano mandava observar aquele regulamento, mas isso existiu em um tempo em que a doutrina
não reconhecia a autonomia à ação e à relação processual, encarando-se o processo como modo de exercício de
Direitos. Daí ser possível num dado momento histórico regulamentar o exercício dos Direitos via processo, por mero
regulamento.
38 FILHO, MISAEL MONTENEGRO, Curso de Direito Processual Civil, Volume 1, 2ª ed., Editora Atlas, p. 39
39 DINAMARCO, Rangel Cândido. Instituições de Direito Processual Civil. 5ª edição. São Paulo: Malheiros Ed., p.91 .

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Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

No que concerne às Medidas Provisórias, cumpre salientar que não são leis, apesar de terem a eficácia destas. O fato,
todavia, é que elas vêm sendo utilizadas em matéria processual: ex: MP no 1570, convertida na Lei nº 9.494/97 –
restringiu a possibilidade de concessão de tutela antecipada; MP no 1632-7/97 – ampliou de 2 para 5 anos o prazo para
propositura de rescisória por pessoas de Direito público e instituiu novo fundamento, sempre em favor da Fazenda, para a
ação rescisória contra sentença em processo de desapropriação imobiliária (esta MP foi suspensa por decisão do STF, mas
então sobreveio a 1.774-20/98, que concedeu prazo em dobro à Fazenda também para a propositura da ação rescisória
(mais uma vez, o STF suspendeu a eficácia da norma). As MPs no 1632-10/98; no 1774-20/98; no 1984-12/99 também
foram editadas e reeditadas concedendo medidas cautelares em ações rescisórias à Fazenda Pública.

Leis Complementares Federais – são as leis para as quais a CF exige um quorum qualificado de votação. Nesta categoria,
no âmbito processual, tem-se a Lei Orgânica da Magistratura Nacional, o Estatuto do Ministério Público da União, a Lei
Orgânica Nacional da Advocacia Geral da União, a Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública, a lei que dispõe sobre o
procedimento sumário no processo de desapropriação de imóvel rural (LC no 76/93) etc.

Leis Federais Ordinárias – reserva-se, em princípio, à lei federal a disciplina do processo em todo o território nacional,
ressalvada a concorrência para legislar sobre pequenas causas (juizados) e sobre procedimentos em matéria processual
(art. 24, incisos X e XI).

As principais leis ordinárias que cuidam da matéria são, em primeiro, o Código de Processo Civil (Lei nº.5.869, de
11 de janeiro de 1973, que já sofreu várias alterações, iniciadas em 1973 mesmo, quando ainda estava em vacatio
legis), o Código de Processo Penal, a Consolidação das Leis do Trabalho, a Lei nº 9.099/95 e o Código de Processo
Penal Militar.

Saliente-se que o Código é a lex generalis que regula exaustivamente os procedimentos nele contidos. Exerce, também,
a tarefa suplementar de preencher subsidiariamente as lacunas das leis extravagantes que regulam a tutela jurisdicional
confiada a procedimentos e juízos especiais.

Há, ainda, leis federais especiais que cuidam de Processo Civil como a Lei do Mandado de Segurança, a Lei de Ação
Popular, a Lei de Assistência Judiciária, a Lei que regula o Habeas Data (nº 9.507/97), a Lei da ADI (nº 9.868/99) etc. Há
também disposições de Processo Civil em leis que cuidam da parte material também, como a Lei de Falências, o CDC, o
ECA, a Lei do Inquilinato, a Lei de Registros Públicos e, por óbvio, o próprio Código Civil, que traz, por exemplo, normas
sobre separação de corpos, estabelecimento pelo juiz do local do pagamento de uma obrigação, entre outras.

Finalmente, cumpre observar a existência de institutos bifrontes, que comportam regência integrada por normas
substanciais e processuais (ex. normas do CC sobre hipoteca ou sobre a legitimidade para propor determinadas
demandas).

As leis de organização da Justiça Federal são também fonte formal de Direito Processual Civil.

Você sabia?

É possível que haja lei delegada em matéria processual, salvo quando for para tratar de organização
Pós-Graduação a Distância

do poder judiciário e do Ministério Público, de suas carreiras e das garantias de seus membros (art.
68, § 1º, inc. I, cf).

Constituições e Leis Estaduais – em regra, são pouco utilizadas para a regência do Direito Processual Civil,
mas pode-se encontrar na própria Constituição Federal algumas matérias que foram reservadas à competência
estadual. São elas: (a) normas sobre juizados especiais; (b) normas sobre procedimento em matéria processual;
(c) normas sobre a determinação da competência de seus tribunais e varas especializadas (e, neste caso, tem-se
competência exclusiva).
29
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

Às Constituições Estaduais incumbe fixar normas sobre a competência dos Tribunais do Estado. Quanto às leis estaduais,
merecem destaque as leis de organização judiciária e as de iniciativa dos respectivos Tribunais de Justiça.

Inexistem leis municipais de natureza processuais, na mesma medida em que inexistem órgãos
jurisdicionais municipais.

Regimentos Internos dos Tribunais

Tratando das divisões de competência interna corporis, dos critérios de fixação de prevenção dos próprios juízes, das
atribuições jurisdicionais dos membros da Administração Superior (Presidente, Vice e Corregedor) e dos recursos cabíveis
contra os seus respectivos atos monocráticos (agravos regimentais) etc., os Regimentos Internos são fontes de Direito
Processual.

Jurisprudência – Usos e Costumes Judiciários

A doutrina ainda não é uníssona quanto à aceitação da jurisprudência como fonte de Direito Processual. Em verdade,
melhor seria dizer, à luz dos ensinamentos do professor Caio Mário da Silva Pereira, que jurisprudência é fonte informativa
ou intelectual de Direito. Isso porque a influência que os precedentes jurisprudenciais exercem sobre os juízes é somente
um fato e não vincula.

Num sistema de Direito escrito como é o nosso, de origem romana, inexiste a força dos precedentes como portadores
de preceitos para o futuro. Por outro lado, forçoso reconhecer que é lícita a formação de certas linhas de condução do
processo, caracterizadoras de verdadeiras praxes forenses capazes de produzir efeitos jurídicos.

Em verdade, inevitável é considerar que o juiz, conquanto expressamente não se possa basear na jurisprudência para decidir,
normalmente cita a jurisprudência do tribunal que integra, ou mesmo de outros tribunais, que lhe sejam hierarquicamente
superiores ou não, para reforçar as conclusões de sua decisão.

Fontes Subsidiárias da Norma Processual Civil

São meios utilizados pelo próprio legislador para garantir que, mesmo que não haja norma expressa cuidando de uma
temática, ela não fique excluída da apreciação do sistema judiciário-processual e, com isso, se possa preservar a ideia
vital e realidade matriz do sistema, qual seja, a da plenitude do ordenamento jurídico (art. 5º, I, CF, devendo-se vislumbrar,
no lugar de lei, a ideia de ordenamento jurídico ou sistema jurídico).
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Há no sistema jurídico brasileiro três modalidades subsidiárias, principais, de explicitação da integridade do Direito (para
Antônio de Arruda Alvim40, expressão mais correta do que integração, pois esta implica a ideia de que isso ocorreria
com algo que viria de fora do sistema): analogia, costume e os princípios gerais de Direito.

Analogia – Na analogia, parte-se de duas situações: uma, regulada por determinada norma; outra, que não foi sequer
cogitada pelo legislador. Devido, precisamente, à semelhança entre as duas situações, aplica-se então a mesma norma às
duas, ou seja, à situação expressamente prevista e à situação que, embora não prevista, é similar à que o é. Na analogia,
pois, há duas situações: a prevista e a que lhe é análoga, ou seja, o fato ou situação análoga.

A analogia difere da interpretação extensiva, na qual intérprete parte de uma só norma, efetivando uma generosa
delimitação de seu âmbito, procurando fixar seu significado da forma mais abrangente possível. Assim, uma interpretação
é extensiva quando se interpreta que o legislador consignou de forma literal e estrita menos do que teve a intenção de
consignar, ou seja, quando há uma desconformidade entre o pensamento do legislador e a própria norma. Com ARRUDA
40 ALVIM, Antônio de Arruda. Manual de Direito Processual Civil. Vol.1.8ª edição revista, atualizada e ampliada. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais Ltda., 2003, p. 160.

30
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

ALVIM41 pode-se conceber que na analogia, parte-se de duas situações: uma, regulada por determinada norma; outra,
que não foi sequer cogitada pelo legislador. Devido, precisamente, à analogia entre as duas situações, aplica-se, então,
a norma às duas, ou seja, à situação expressamente prevista e à situação que, embora não prevista, é similar àquela que
o é. Na analogia, pois, há duas situações: a prevista e a que lhe é análoga, ou seja, o fato ou situação análoga.

Costume – Para que o costume seja juridicamente relevante, deve constituir um hábito, um uso, ou seja, deve traduzir-
se em atos constante e sistematicamente praticados pelos indivíduos. Além disso, o costume precisa vir revestido da
chamada opinio necessitatis, ou seja, no entendimento de que sua prática é obrigatória.

Nas legislações modernas, o costume, para ter função jurídica, necessita de mais de um requisito, que é a respectiva
relevância a ele emprestada pelo Direito positivo, o que exige, para sua aplicação, uma lacuna na lei, a inviabilidade de
aplicação analógica da lei e a compatibilidade do costume com o resto do ordenamento jurídico positivo. Ainda assim,
na oportuna anotação de MISAEL MONTENEGRO FILHO42, em países de influência anglo-saxônica, como corolário do
Common Law (Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, por exemplo), apresenta-se essa fonte com maior destaque, o que
não é a realidade em nosso país, dada a multiplicidade de leis sobre os mais diversos assuntos jurídicos, praticamente
não remanescendo espaço para a aplicação dos costumes como fonte do Direito.

Princípios Gerais do Direito – Com o objetivo de buscar tais princípios, deve-se seguir uma sequência lógica de
pensamento. Em primeiro lugar, buscar-se-á em torno do sistema jurídico positivo, equivale dizer, do sistema jurídico
nacional, no sentido de aí identificar e recolher o princípio geral de Direito respectivo. Depois, se esta pesquisa não
produzir resultados, há de recorrer-se às leis científicas do Direito, isto é, à Ciência do Direito. Finalmente, se nem mesmo
mediante essa “ordem crescente de generalização” se conseguir resolver o problema, passa-se à Filosofia do Direito, que,
com o Direito Natural, reúne os princípios primeiros e fundamentais inspiradores de todos os ramos da ciência jurídica,
formando a unidade do conhecimento do Direito.

Os princípios gerais do Direito são fontes inestimáveis de oxigenação porque possibilitam extrair da consciência social os
valores aos quais está aberta a ordem jurídica, com isso permitindo a evolução doutrinária e jurisprudencial indispensável
à atualidade do sistema jurídico. De acordo com CELSO BASTOS, o assento natural dos princípios gerais de Direito se
dá na própria consciência social da época, na expressão de Betti, e a despeito de não precisarem de formulação positiva,
nada prejudica sua natureza ou entorpece a sua função o fato de virem a receber formulação ou positivação. 43

Natureza da Norma Processual Civil


Quando a norma jurídica tem por objeto o exercício da função estatal pacificadora, que é a jurisdição, e refere-se, portanto,
às condutas inerentes à realização do processo, ela se qualifica como norma processual.

É justamente neste aspecto que as normas processuais diferem das de Direito Material, que são as que regem diretamente
a atribuição de bens e determinação de condutas das pessoas em suas relações na vida comum.

Como não se volta a reger as relações humanas, mas apenas os desdobramentos processuais, Enrico Tullio Liebman
chamou a norma processual de “Direito sobre Direito”.

Norma processual é, portanto, todo preceito jurídico regulador do exercício da jurisdição pelo Estado, da ação pelo
Pós-Graduação a Distância

demandante e da defesa pelo demandado – três atividades que se desenvolvem num só ambiente comum, que é o
processo.

A norma de processo se integra ao Direito Público, pois rege, como visto, as relações com o Estado, todavia, isso não
importa afirmar que, necessariamente, ela será sempre de ordem pública. Ocorre que, em certas situações, admite-

41 ALVIM, ARRUDA, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 11ª ed., Editora RT, p. 149.
42 FILHO, MISAEL MONTENEGRO, Curso de Direito Processual Civil, Volume 1, 2ª ed., Editora Atlas, p. 43.
43 BASTOS, CELSO RIBEIRO, Hermenêutica e Interpretação Constitucional, 2ª ed., Celso Bastos Editor, p. 140.

31
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

se que a aplicação da norma processual dependa da vontade das partes; neste caso, têm-se as normas processuais
dispositivas.

As normas processuais serão cogentes quando se referirem às relações que transcendam a esfera de interesses dos
sujeitos privados, disciplinando relações que os envolvam, mas fazendo-o com atenção ao interesse da sociedade como
um todo. São, por isso, cogentes, em regra, todas as normas processuais, em especial as destinadas a assegurar o correto
exercício da jurisdição, sem a atenção centrada de modo direto ou primário nos interesses das partes conflitantes.

Ainda quanto à natureza das normas processuais, resta observar que, ao contrário das normas materiais que tratam
um interesse primário, as processuais expressam um interesse secundário, buscando, dentro do processo, alcançar o
resultado de tornar o Direito substancial eficaz.

Aplicação da Norma Processual Civil no Tempo e no Espaço


A norma processual civil obedece, quanto à territorialidade, o preceito de que só é possível lhe impor dentro do território
do Estado que a edita. Assim, dentro do território brasileiro, um juiz deve se ater às normas processuais do Brasil e não
pode levar em conta, por exemplo, a nacionalidade das partes. É o que prevê o art. 1º do Código de Processo Civil, ao
dispor: “A jurisdição civil, contenciosa e voluntária, é exercida pelos juízes, em todo o território nacional, conforme as
disposições que este Código estabelece.” Comentando o preceito legal, CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO44 ensina que
a expressão positivada do princípio da territorialidade das normas processuais reside basicamente no art. 1º do Código
de Processo Civil. O exercício da jurisdição civil rege-se, no território nacional, pelo que o próprio código estabelece
e, obviamente, também pelo que emana de outras fontes formais nacionais de Direito Processual Civil. Na realidade,
essa disposição legal não contém em si mesma qualquer proibição de que a lei processual brasileira vá além dos limites
territoriais do país e seja observada por juízes de outro Estado soberano. Esse impedimento vem das leis dos outros
países, que também repelem a aplicação de lei processual que não seja a sua. Como lei nacional, o Código de Processo
Civil veda que o juiz brasileiro se paute por lei processual de outro país: correlatamente, as leis de outros países proíbem
que seus próprios juízes sigam leis processuais estrangeiras – inclusive a brasileira, como é óbvio.

Essa é também a mens legis que desponta da primeira parte do art. 1.211 da Lei Processual Civil: “Este Código regerá o
Processo Civil em todo o território brasileiro”. MOACYR AMARAL SANTOS45, após ponderar que a função jurisdicional é
privativa do Estado, conclui que somente o Estado estará autorizado a dispor quanto às leis que regulam o exercício da
mesma função. A lei processual aplica-se e é eficaz aos limites do território nacional, não no de outros Estados.

A rígida territorialidade da lei processual não conflita com a possível extraterritorialidade da lei substancial, a qual, em
alguns casos, rege relações vigentes ou constituídas em outros países e, no caso de litígio judicial, pode servir de critério
de julgamento.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Há, contudo, que se ressalvar o caso das questões de prova, onde, nos termos do disposto no art.13 da Lei de Introdução
ao Código Civil – LICC, a matéria é bifronte, ou seja, abarca questões de Direito Material e processual.

Quanto à temática da vigência e eficácia de lei processual civil (dimensão temporária), segue-se a regra geral, nos termos
dos dispositivos da LICC. Assim, a lei processual civil começa a viger quando ela mesma indicar ou, na falta desta
indicação, 45 dias após a sua publicação – art. 1º LICC.

No que tange à eficácia da lei no tempo, aplica-se a máxima tempus regit actum. Esse é o vetor exegético intercalado
na segunda parte do art. 1.211 do Código de Processo Civil: “Ao entrar em vigor, suas disposições aplicar-se-ão desde
logo aos processos pendentes.” Por conseguinte, preservam-se as situações jurídicas consumadas sob o império da lei
revogada (art. 6º LICC e art. 5º, XXXVI, CF). Nem à lei de Direito privado, nem à de Direito público substancial, nem à do

44 DINAMARCO, CÂNDIDO RANGEL, Instituições de Direito Processual Civil, Vol. I, 5. ed., Malheiros, p. 109.
45 SANTOS, MOACYR AMARAL, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25. ed., Editora Saraiva, p. 34.

32
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

processo é lícito transgredir situações já consumadas. Esse é o entendimento de MOACYR AMARAL SANTOS46: Também
a lei processual não tem efeito retroativo. Também ela não se aplica a fatos ou atos passados, regulados por lei anterior,
os quais permanecem com os efeitos produzidos ou a produzir. A lei nova atinge o processo em curso no ponto em que
este se achar, no momento em que ela entrar em vigor, sendo resguardada a inteira eficácia dos atos processuais até
então praticados. São os atos posteriores à lei nova que se regularão conforme os preceitos desta.

Com efeito, a lei processual não se impõe a situações já consumadas sob a égide de norma anterior. Destarte, deixam-se
intactos o ato jurídico perfeito, os Direitos adquiridos e a coisa julgada; restringe-se, assim, a eficácia da lei processual.
Nos dizeres de MISAEL MONTENEGRO FILHO47, a lei processual aplica-se, regra geral, de imediato aos processos em
curso, não se prestando, contudo, para alcançar atos processuais praticados antes da sua vigência, em respeito ao
princípio constitucional do Direito adquirido, do ato jurídico perfeito e da coisa julgada.

Quando da revogação de uma norma processual civil, as questões de Direito intertemporal se resolvem de maneira que a
lei nova não pode ser aplicada nem aos processos findos, nem aos atos que já se concluíram nos processos em curso; é
o que se chama de isolamento dos atos e situações processuais, pelo qual a lei nova, encontrando um processo em curso,
respeita a eficácia dos atos processuais já realizados e, portanto, as situações jurídicas já estabelecidas, disciplinando
os atos de todos os sujeitos processuais e as situações das partes somente a partir de sua vigência. Conforme sublinha
MARCUS VINICIUS RIOS GONÇALVES48, de uma maneira geral, a lei processual aplica-se de imediato, desde o início da
sua vigência, aos processos em andamento. Mas devem ser respeitados os atos processuais já realizados, ou situações
consolidadas, de acordo com a lei anterior. Vigora o princípio do tempus regit actum.

Em sede de recursos, a lei vigente à data da sentença é a reguladora dos efeitos e dos requisitos de admissibilidade dos
recursos, na esteira do que preleciona LUIZ FUX49. Nessa direção trilha a jurisprudência, como se colhe de ilustrativo
precedente do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA50. O recurso cabível é aquele previsto na data da sentença, mas seu
procedimento está sujeito às regras vigentes na data da respectiva interposição, inclusive a que eventualmente tenha
alterado a forma do preparo.

De outra borda, não se deve olvidar que os institutos bifrontes (que contém Direito Material e processual) comportam
tratamento diferenciado. Nesses casos, a lei velha continua eficaz apesar de no momento de sua vigência inexistir processo
algum pendente e ato processual algum a ser preservado. Cândido Rangel Dinamarco51 afirma que se preservam
situações extraprocessuais intimamente ligadas à realidade jurídico-material e, portanto, ao Direito de acesso à justiça.
Assim, por exemplo, não se admite a aplicação imediata da lei processual nova que venha a criar novas impossibilidades
jurídicas ou instituir algum litisconsórcio necessário ativo antes inexistente.

Pós-Graduação a Distância

46 SANTOS, MOACYR AMARAL, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25. ed., Editora Saraiva, p. 31.
47 FILHO, MISAEL MONTENEGRO, Curso de Direito Processual Civil, Volume 1, 2. ed., Editora Atlas, p. 71.
48 GONÇALVES, MARCUS VINICIUS RIOS, Novo Curso de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Saraiva, 2004, p. 18.
49 FUX, LUIZ, O Novo Processo de Execução, Editora Forense, 2008, p. 473.
50 EDiv. em REsp. 108.900/RJ, 2ª Seção, rel. Min. Ari Pargendler, DJU 18.10.2004, p. 184.
51 DINAMARCO, Rangel Cândido. Instituições deDireito Processual Civil. 4. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2004, p. 101.

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Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

Capítulo 4 – Novos Rumos do Processo Civil

O Direito Processual Civil, como visto, tem por função precípua servir ao Direito Material, já que este ramo do Direito
tem a primazia para reger as relações e situações jurídicas contidas nos conflitos de interesse submetidos à apreciação
do Poder Judiciário. Na lúcida visão de LUIZ RODRIGUES WAMBIER, FLÁVIO RENATO CORREIA DE ALMEIDA e
EDUARDO TALAMINI52, o relacionamento entre esses dois ramos do Direito – Direito Material e Direito Processual – é
de instrumentalidade do segundo diante do primeiro, na medida em que é por intermédio do processo que se consegue
dar rendimento à norma jurídica de Direito Material que foi desrespeitada por um dos sujeitos da lide.

Se o Direito Processual tem como meta precípua a prevalência do Direito Material, as normas processuais devem conter
elementos e estruturas hábeis à consecução desse propósito. Não é suficiente a proclamação dos Direitos pelo ordenamento
jurídico: é essencial que a órbita processual seja capaz de assegurá-los com efetividade.

Esse é o ambiente jurídico dentro do qual foi concebido e vem sendo cada vez mais aprimorado o princípio da efetividade.
O Estado não inibe a autotutela e convida a parte lesada a uma tutela jurisdicional meramente formal. Houve uma
mudança de paradigma focada no resultado prático do processo: o processo deve ser um instrumento de resultados
efetivos, assim entendido aquele que aquinhoa o vencedor da demanda com o Direito exatamente como posto na seara
substantiva. Discorrendo sobre o princípio, CASSIO SCARPINELLA BUENO53 assinala que o Processo Civil deve gerar
resultados práticos e concretos para aqueles que procuram o Estado-Juiz para resolução de seus conflitos de interesses.
Quem convence o Estado-Juiz de que tem razão deve levar as consequências práticas e reais desta sua razão, deste seu
convencimento para casa e ir em praz, feliz, satisfeito e o mais rápido possível.

A tônica do processo contemporâneo coloca em primeiro plano a ética, o resultado, a entrega da prestação jurisdicional
apta a satisfazer o Direito violado, colocando em segundo plano as formas e solenidades processuais. É o que apregoa
JEFERSON ISIDORO MAFRA54: Vislumbra-se na garantia constitucional de acesso à justiça a necessidade de o sistema
processual ser apto a proporcionar o verdadeiro resultado que dele almeja a sociedade: a aplicação do Direito Material,
no ângulo interno, e a pacificação social, numa perspectiva externa, sempre com critérios justos. Para tanto, a tutela
jurisdicional deve estar preocupada com o resultado perfeito do processo, com sua efetividade. “A tutela jurisdicional
efetiva não está nas sentenças, mas nos resultados práticos que elas venham efetivamente a produzir na vida das
pessoas.” A apreciação, que se dá por meio do processo, este considerado como instrumento da atuação da jurisdição,
deve ser efetiva no seu resultado e, também, tempestiva em resolver as incertezas sociais. Sob esse contexto encontra-
se a efetividade do processo, como premissa do sistema.

Isso é particularmente visível no campo dos Direitos da personalidade. O art. 12 do Código Civil, afinado com essa nova
Processo Civil – Processo de Conhecimento

temática processual, dispõe que “pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a Direito da personalidade, e reclamar
perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.” A inteligência dessa prescrição legal abrange a tutela
preventiva e a tutela reparatória. Ambas voltadas à inteira preservação dos Direitos da personalidade, a depender da
situação concreta de violação ou ameaça de violação, em perfeita sintonia com o princípio da efetividade. Sobre a
matéria, vale colacionar a lição de LUIZ FUX55, para quem o legislador maior, ao adicionar ao novel dispositivo a tutela
jurisdicional para as hipóteses de “ameaça a Direito”, considerou essa possibilidade por si só “uma lesão” fazendo coro
com a moderna doutrina que subdivide o ilícito em “ilícito de lesão” e “ilícito de perigo”. O primeiro comprometido com a
ideia de dano e o segundo com a de transgressão pura e simples, cobrindo a importante área dos Direitos não patrimoniais
que, embora compensados pecuniariamente pós-lesão, contentam-se mais com a prevenção do que com a reparação.
52 WAMBIER, LUIZ RODRIGUES, ALMEIDA, FLÁVIO RENATO CORREIA DE e TALAMINI, EDUARDO, Curso Avançado de Processo Civil, V. 1, 9. Ed., Editora RT, p. 55.
53 BUENO, CASSIO SCARPINELLA, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Saraiva, 2007, p. 147.
54 MAFRA, JEFERSON ISIDORO,Dever de Cumprir Ordem Judicial, RT 818/748.
55 FUX. LUIZ, O Novo Processo de Execução, Forense, 2008, p. 296.

34
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I

Resta evidente, por exemplo, que a parte prefere que o ordenamento seja munido de instrumentos capazes de impedir a
violação de sua privacidade do que se reembolsar após os danos acarretados com simples tutela ressarcitória, tanto mais
que provocam deveres contínuos que se descumpridos devem cessar, como as violações ao meio ambiente, a difusão
de notícias etc., hipóteses em que não faz sentido relegar o ressarcimento à ultimação das violações, sem prejuízo de
considerarmos que a reparação nesse campo nem sempre é integral, variando o quantum da indenização segundo o
princípio da razoabilidade. A iniciativa inibitória imediata cumpre o escopo da efetividade da jurisdição com muito mais
eficiência que uma condenação ex post facto.

Esta é a nova dimensão, o novo contexto que deve orientar o estudo e a aplicação do Direito Processual Civil: um
processo de resultados, de compromisso com o Direito Material, de compromisso com os Direitos subjetivos conferidos
pela ordem jurídica vigente, de compromisso com a vida real, de compromisso com uma tutela jurisdicional substancial
e não apenas formal.

Pós-Graduação a Distância

35
Teoria Geral do Processo Civil Unidade I
Processo Civil – Processo de Conhecimento

36
Dos Sujeitos Processuais Unidade II
Unidade II

Dos Sujeitos Processuais

Sob o aspecto subjetivo, o processo tem uma tríplice configuração, tendo em vista que nele atuam juiz, autor e réu. A
relação processual tem essa configuração básica, porém pode expandir-se nas hipóteses de litisconsórcio e de intervenção
de terceiros: oposição, denunciação da lide, chamamento ao processo etc.

Obviamente o juiz não pode, sem o concurso de auxiliares, prestar a jurisdição que lhe é reclamada mediante o exercício
do Direito de ação e o consequente nascimento de uma relação processual. Conforme apostila MOACYR AMARAL
SANTOS56, “órgãos do Poder Judiciário, órgãos jurisdicionais ou órgãos judicantes, que conhecem e decidem dos conflitos
de interesses, por provocação dos interessados, são os juízes e tribunais. No desempenho da função jurisdicional, tais
órgãos reclamam a colaboração e o auxílio de outras pessoas, de cujas atividades dependem a realização e a solenização
de atos processuais e a sua documentação, como ainda a movimentação do processo para o fim a que visa. Assim,
relacionados àqueles, que são os órgãos principais, cooperam na administração da justiça, exercendo variadas atividades
necessárias, correspondentes a serviços auxiliares, não poucos órgãos secundários abrangidos sob a denominação de
auxiliares da justiça.

Capítulo 5 – O Estado-Juiz

Como sujeito imparcial, investido de autoridade para solucionar a lide, o juiz se coloca super et inter partes.

O Estado ocupa uma posição de supremacia e equidistância das partes no contexto processual. E o juiz, que o representa
na relação processual, naturalmente ocupa posição de realce e de supremacia, mormente porque a ele cabe, além de
julgar o litígio, conduzir a bom termo a relação processual rumo à entrega da tutela jurisdicional. MOACYR AMARAL
SANTOS57 aborda a questão ressaltando que juiz e partes são os sujeitos principais da relação processual, sem os quais
esta não se completa. Dos sujeitos, como órgão do Estado no exercício da função jurisdicional, é o juiz quem desempenha
o papel preponderante. Mais adiante, complementa o autor ser compreensível a razão de ser da predominância do juiz na
relação processual. Desta ele participa como órgão do Estado, como órgão de poder (poder jurisdicional), no interesse da
coletividade, qual seja o de compor os conflitos com justiça, isto é, conforme a vontade da lei. Se a relação processual se
instaura com a finalidade de se alcançar a prestação jurisdicional num caso concreto, assegurando a paz social, a soberania
da lei, ao interesse das partes, no desenvolvimento da relação, sobreleva o interesse público de que esta se desenvolva
e atinja a sua finalidade na consonância das normas e princípios que a regem, orientados pelos mais elevados princípios
Pós-Graduação a Distância

de justiça. Por isso mesmo ao juiz são concedidos, no exercício de suas atividades processuais, largos poderes, sem os
quais não lhe seria possível conhecer, decidir e dar execução às suas decisões, satisfazendo desse modo a prestação
jurisdicional visada pelo processo. No uso de tais poderes, entretanto, o juiz colocar-se-á entre e acima das partes, como
órgão desinteressado, no cumprimento do dever jurisdicional.

56 SANTOS, MOACYR AMARAL, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25. ed., Editora Saraiva, p. 141-142
57 SANTOS, MOACYR AMARAL, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25. ed., Editora Saraiva, p. 339

37
Dos Sujeitos Processuais Unidade II

Se de um lado o juiz é o próprio Estado na relação processual, de outro ele é uma pessoa natural que deve ter resguardadas
sua independência e imparcialidade, sob pena de não poder servir à sociedade como verdadeiro magistrado isento e
compromissado unicamente com o Estado Democrático de Direito.
O juiz deve ao mesmo tempo inspirar autoridade, confiança e credibilidade. Daí por que a Constituição Federal lhe reserva
as garantias da vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídio. E não são, importa ressalvar, garantias
estritamente pessoais, senão salvaguardas indissociáveis do exercício da judicatura. Noutro norte, cuida a lei de preservar
a imparcialidade do juiz com a prescrição de hipóteses indicativas de impedimento e suspeição (CPC, arts. 134 e 135),
todas com potencialidade para afastá-lo da relação processual. A propósito, discorre CASSIO SCARPINELLA BUENO58 que
as prerrogativas reservadas para os magistrados desde o plano constitucional são conquistas históricas da formação do
Estado Democrático de Direito e constituem, não há como negar isso, marcos fundamentais para o seu desenvolvimento
na atualidade. É indispensável que o exercente de um poder político da qualidade daquele que deve exercer um magistrado
tenha o mínimo de garantias, de segurança em sentido amplo, para decidir, para atuar, consoante sua própria consciência,
sem qualquer receio, dúvida, temor de quem ou do que quer que seja. Por isso, é correto o entendimento de que essas
prerrogativas são instrumentais, são meios que garantem o atingimento de determinadas finalidades, aqui, a de assegurar
aos magistrados a necessária e inafastável imparcialidade.
Uma vez assegurada a independência e a imparcialidade, aos juízes são conferidos poderes que podem ser divididos em
administrativos e jurisdicionais. Os primeiros voltados à preservação da ordem e da regularidade dos atos processuais:
visam a manter a relação processual num ambiente ético e de serenidade. Os segundos, por sua vez, se dividem em
poderes-meios – onde se encontram os poderes ordinatórios e os instrutórios – e poderes-fins – estes subdivididos em
decisórios e executórios.
Diz-se poder ordinatório aquele que possibilita o regular andamento do feito, onde o juiz, por meio de despachos, por
exemplo, torna real a afirmação de que o impulso, no processo, é oficial. Por outro lado, poder instrutório é aquele que
permite que o magistrado busque firmar a sua convicção da maneira mais completa possível e, para tanto, pode lançar
mão, por exemplo, da determinação de provas complementares, da quesitação ao perito etc.
Os poderes-fim se dividem em decisórios, que justificam a presença estatal nas lides, pois de nada adiantaria substituir a
vontade das partes se, ao final, não houvesse uma real solução para o conflito; e executórios, onde o Estado-Juiz recebe
o poder de atuar de forma prática, inserir-se no mundo fático e, assim, alcançar a realização do comando dado quando
do exercício do poder decisório.

{
Em resumo, pode-se retratar os poderes conferidos aos juízes no seguinte quadro

Poderes-meio
{ Ordinatórios – possibilitam o andamento do processo

Instrutórios – ligados ao convencimento judicial

{
Poderes do Juiz
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Decisórios – poderes de resolver as questões submetidas


Poderes-fim
Executórios – permitem a atuação prática do comando da decisão

Quando se fala em poderes judiciais, bem se poderia traduzi-los em “poderes-deveres”, posto que ao juiz são confiados
para servirem de instrumento viabilizador da prestação dos serviços jurisdicionais à sociedade. Por isso, o juiz tem o dever
de sentenciar, o dever de conduzir o processo nos termos da lei e dos princípios que regem a ciência.

Cabe um último registro sobre a figura do juiz. Nos tempos atuais, ao lado da independência e da isenção, exige-se do juiz
uma participação mais ativa dentro da relação processual, um compromisso mais presente com a finalidade da própria
jurisdição: a solução eficaz e equitativa da lide.

58 BUENO, CASSIO SCARPINELLA, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Saraiva, 2007, p. 197.

38
Dos Sujeitos Processuais Unidade II

Não é mais adequada a inércia do juiz no ambiente processual. O juiz preside a relação processual e é o destinatário das
provas e dos argumentos lançados pelas partes; logo, não pode assistir estaticamente ao desenvolvimento da relação
processual cujo ponto culminante é justamente a solução que ele, por meio da sentença, dá ao conflito de interesses.
Passividade não é sinônimo de isenção. Irretorquíveis, sobre a matéria, as palavras de ANTÔNIO ALBERTO ALVES
BARBOSA59: O juiz é o Estado administrando a justiça: não é um registro passivo e mecânico de fatos, em relação aos
quais não o anima nenhum interesse de natureza vital. Não lhe pode ser indiferente o interesse da justiça. Este é o interesse
da comunidade, do povo, do Estado, e é no juiz que um tal interesse se representa e personifica. A direção do processo
deve caber ao juiz; a este não compete apenas o papel de zelar pela observância das regras processuais por parte dos
litigantes, mas o de intervir no processo de maneira que este atinja, pelos meios adequados, o objetivo de investigar os
fatos e descoberta da verdade.

Pós-Graduação a Distância

59 BARBOSA, ANTÔNIO ALBERTO ALVES, Da Preclusão Processual Civil, 2ª ed., Editora RT, p. 75.

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Dos Sujeitos Processuais Unidade II

Capítulo 6 – Os Auxiliares da Justiça

Os auxiliares são pessoas que, ao lado do juiz, agem em nome do estado, no processo, para a concretização da prestação
jurisdicional.

Quem contribui com o juiz para a realização das funções do juízo é considerado auxiliar da justiça. Aqui estão incluídos
o chefe do cartório (em alguns locais chamado escrivão, em outros, diretor de secretaria), o oficial de justiça, o perito,
o intérprete, o depositário, o administrador etc. Aliás, o rol do art. 139 do Código de Processo Civil, como deflui do seu
próprio texto, é meramente exemplificativo, ali não estando, por exemplo, o distribuidor, o contador judicial e outros
profissionais que, sem dúvida, são considerados auxiliares da justiça. Sobre o ponto, HUMBERTO THEODORO JÚNIOR60
lembra que entre esses “outros auxiliares” a que alude o Código, são mais comuns o distribuidor, o partidor, o contador
e o tesoureiro. Os serventuários do juízo costumam ser divididos em duas categorias: os permanentes e os eventuais.
Permanentes são os que atuam continuamente, prestando colaboração em todo e qualquer processo que tramite pelo
juízo, como o escrivão, o oficial de justiça e o distribuidor. Sem estes auxiliares, nenhum processo pode ter andamento.
Há, porém, auxiliares que não integram habitualmente os quadros do juízo e só em alguns processos são convocados para
tarefas especiais, como o que se passa com o intérprete e o perito. Esses são os auxiliares eventuais.

Do ponto de vista didático, os auxiliares da justiça são divididos em permanentes – que é o caso, por exemplo, do escrivão
– e eventuais – que são chamados a atuar em processos específicos, como os peritos. Os permanentes compõem os
quadros judiciários como servidores públicos, os eventuais, por outro lado, podem ser pessoas físicas (como os contadores)
ou jurídicas (ECT, Polícia Militar, Imprensa Nacional etc.) e, conforme for, recebem o nome de órgãos de encargo judicial
ou órgãos auxiliares extravagantes, respectivamente.

Questão que se faz merecedora de nota é a que discute a natureza dos Oficiais de Registros, Notas, Protestos etc.
Alguns autores, em especial os pertencentes à doutrina clássica, os apontam como pertencentes ao rol dos auxiliares
da justiça. Outros, ao seu turno, não os consideram como tal, eis que, nada obstante a subordinação administrativa que
têm para com o Judiciário, não exercem qualquer função no processo, sendo, antes, espécie de administração pública
de interesses privados61. São, por isso, chamados de órgãos de foro extrajudicial.

Dada a presença marcante e a relevância dos atos que praticam, vale trazer a lume algumas considerações sobre o escrivão
e o oficial de justiça, dois dos mais importantes auxiliares da Justiça. O escrivão coordena toda a atividade de apoio ao
juiz e é responsável pela regularidade dos autos dos processos. Como anota HUMBERTO THEODORO JUNIOR62, é o mais
importante auxiliar do juiz, pois é o encarregado de dar andamento ao processo e de documentar os atos que se praticam
em seu curso. A seu turno, o oficial de justiça, cujas atribuições estão catalogadas no art. 143 do Código de Processo
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Civil, tem como principal tarefa o cumprimento de ordens judiciais que exigem atos materiais. MISAEL MONTENEGRO
FILHO sintetiza que o oficial de justiça auxilia o magistrado no cumprimento de mandados judiciais, seja de citação, de
intimação ou de qualquer outra espécie (busca e apreensão, arresto, sequestro etc.).

Tanto o escrivão quanto o oficial de justiça, como de resto os demais auxiliares permanentes da Justiça, possuem fé
pública quanto às suas manifestações nos autos, embora relativa, circunstância de especial relevo para o esclarecimento
de dúvidas e para a retidão dos atos processuais. Nesse sentido, decidiu o SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL63 que certidão
de oficial de justiça tem fé pública, sobrepondo-se ao que asseverado pela pessoa jurídica de Direito público, no caso,

60 JUNIOR, HUMBERTO THEODORO, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Forense, p. 189.
61 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 219.
62 JUNIOR, HUMBERTO THEODORO JÚNIOR, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Forense, p. 197.
63 AGRG. no AI 260.604-9/DF, rel. Min. Marco Aurélio, DJU 16.11.2001, p. 15.

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Dos Sujeitos Processuais Unidade II

simples jurisdicionado. A mesma Corte Superior64, noutra oportunidade, remarcou que as declarações dos Serventuários e
dos Oficiais de Justiça, consubstanciadas nas certidões que exaram no regular exercício de suas atribuições funcionais,
revestem-se de presunção juris tantum de veracidade. Essa presunção legal, ainda que relativa e infirmável por prova
em contrário, milita em favor dos atos praticados pelos Escrivães e pelos Oficiais de Justiça, seja porque gozam de fé
pública, inerente ao ofício que desempenham, seja porque traduzem formal manifestação do próprio Estado.

Pós-Graduação a Distância

64 HC 70.175-2/RS, rel. Min. Celso de Mello, DJU 17.06.2005, p. 65.

41
Dos Sujeitos Processuais Unidade II

Capítulo 7 – As Partes

O conceito de partes pode ser mais ou menos amplo, a depender da exata aplicação do termo à situação que se quer
qualificar.

É preciso, antes de qualquer análise do tema, ter em mente que o conceito de parte é estritamente processual e em nada
se confunde com as partes das relações de Direito Material. Há casos, em que as duas espécies coincidem, mas esta não
é uma regra absoluta. São partes os que pleiteiam e em face de quem se pleiteia a tutela jurisdicional. Assevera ELPÍDIO
DONIZETTI65 que a relação jurídica processual, de acordo com a doutrina mais aceita, é trilateral, ou seja, desenvolve-
se entre os sujeitos do processo, isto é: autor, juiz e réu. Partes são os sujeitos parciais, interessados no desfecho da
demanda. São aqueles que pedem ou contra quem é pedida uma providência jurisdicional. No processo de conhecimento,
denominam-se autor e réu; no processo de execução, exequente e executado; na reconvenção, reconvinte e reconvindo
etc. Em razão da completa autonomia da relação processual, a parte material (do negócio jurídico) não se confunde com a
parte do processo. Entretanto, em geral, a parte processual é também a parte do Direito Material controvertido, até porque
ninguém pode pleitear em nome próprio Direito alheio, salvo quando autorizado por lei (art. 6º). Na ação de investigação
de paternidade, parte é o suposto filho, ainda que tenha apenas um dia de vida, hipótese em que será representado por
sua mãe. Todavia, em razão de a lei, em casos excepcionais, autorizar que terceiros postulem, em nome próprio, Direito
alheio, nem sempre a parte material coincide com a parte processual. Em mandado de segurança coletivo proposto pela
OAB com o objetivo de garantir Direito líquido e certo dos advogados, parte material são os associados da entidade, e
parte processual é a OAB.

A qualidade de parte nem sempre coincide com o início da demanda, ou seja, nem sempre é definida na petição inicial.
Alexandre Freitas Câmara66 afirma, citando Cândido Rangel Dinamarco, que a qualidade de parte pode ser adquirida
de quatro formas, que são: pela demanda – quando autor e réu adquirem o status de parte; pela citação – quando o réu,
além de parte na demanda, torna-se parte do processo; quando terceiros intervenientes se apresentam na modalidade de
intervenção forçada; pela sucessão, nos casos de morte ou outra espécie de sucessão processual; ou pela intervenção
voluntária, como na assistência e na oposição.

As partes não podem negligenciar o caráter ético do processo e litigar de má-fé. Os arts. 14 e seguintes do Código
de Processo Civil talham os deveres das partes sob esse aspecto e disciplinam a responsabilidade decorrente da sua
vulneração. Perfeita a explanação de JEFFERSON ISIDORO MAFRA67 de que a dignidade da justiça, como valor moral
e constitucional, repugna a conduta desleal e de má-fé. A jurisdição, como função pública do Estado destinada a dirimir
os conflitos sociais, merece tratamento condizente com o seu caráter social e publicista. Por conseguinte, o processo,
Processo Civil – Processo de Conhecimento

como instrumento de atuação da jurisdição, exige comportamento ético contínuo daqueles que nele atuam. O respeito
aos deveres éticos expressos no art. 14 do Código de Processo Civil é uma obrigação constante de todos que participam
do processo.

A responsabilidade das partes pelas despesas processuais funda-se no princípio da sucumbência, de acordo com o qual
o vencido na demanda, independentemente de qualquer aspecto subjetivo, responde por tais despesas (CPC, art. 20).
ARAKEN DE ASSIS68 ensina que o princípio da sucumbência se expressa no art. 20, caput, primeira parte, e decorre,
inexorável, do fato objetivo da derrota no processo. Deflui da regra, em virtude do verbo imperativo, a desnecessidade de
pedido expresso quanto às despesas processuais e aos honorários advocatícios, que o juiz imporá de ofício na sentença.

65 Curso Didático de Direito Processual Civil, 9. ed., Lúmen Juris Editora, p. 51.
66 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 1. 16. ed. Rio de Janeiro: Editora Malheiros, 2007. p. 160.
67 MAFRA, JEFFERSON ISIDORO, Dever de cumprir ordem judicial, RF 378/452.
68 ASSIS, ARAKEN DE, Cumulação de Ações, 2. ed., Editora RT, p. 226.

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Dos Sujeitos Processuais Unidade II

É o que decidiu o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA69: A condenação nos ônus da sucumbência não depende de pedido,
pois é mera decorrência da derrota na causa.

Note-se que o princípio da sucumbência não é invalidado pelas situações excepcionais em que o vencedor, por ter dado
causa injustamente ao litígio, acaba sendo responsabilizado pelos ônus sucumbenciais, o mesmo se verificando nos casos
de perda do objeto da demanda por fato ou ato imputável ao autor. Isso se justifica, segundo reiterada jurisprudência
do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA70, porque os ônus da sucumbência incidem sobre quem causou a perda de objeto
do processo.

Pós-Graduação a Distância

69 REsp. 766.560/DF, 3ª T., rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 18.12.2006, p. 376.
70 AgRg. no REsp. no 545.218/SP, 3ª T., rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 09.04.2007, p. 245.

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Dos Sujeitos Processuais Unidade II

Capítulo 8 – O Advogado

A presença do advogado auxilia na busca pela paridade processual


de armas técnicas.

A capacidade postulatória é reservada aos advogados, bacharéis em Direito inscritos nos quadros da Ordem dos Advogados
do Brasil. Assim é que, em regra, as partes só podem estar em juízo se representadas por advogados. É o que estatui o
art. 36 do Código de Processo Civil: A parte será representada em juízo por advogado legalmente habilitado. Ser-lhe-á
lícito, no entanto, postular em causa própria, quando tiver habilitação legal ou, não a tendo, no caso de falta de advogado
no lugar ou recusa ou impedimento dos que houver.

Tal exigência decorre, diretamente, do disposto no art. 133 da Constituição Federal, que consagra o advogado como
essencial à administração da justiça. Diante da estatura constitucional do papel desempenhado pelo advogado, ADA
PELLEGRINI GRINOVER71 destaca que a advocacia não é apenas uma profissão liberal, mas um munus público: mais
exatamente, um munus público exercido por particulares. Nesse enfoque, avulta a responsabilidade do advogado, não só
perante seu patrocinado, mas também perante a Justiça. Comprometido com a defesa dos interesses do cliente, o advogado
jamais pode descurar seu compromisso frente à administração da Justiça. Não é por acaso que a Constituição conceitua
o exercício da advocacia como função essencial à Justiça, considerando o advogado essencial à sua administração
(Capítulo IV do Título IV e art. 133 da CF).

A representação em juízo por advogado cede ante as exceções contidas no próprio art. 36 da Lei Processual Civil e
também nas hipóteses ressalvadas na legislação vigente, como acontece no âmbito da Justiça do Trabalho e nos Juizados
Especiais Cíveis, por exemplo. É o que salienta GUSTAVO SANTANA NOGUEIRA72: Apesar de o art. 133 da CF dispor
que “o advogado é indispensável à administração da justiça”, admitem-se algumas exceções, tais como nos casos de
habeas corpus, reclamação trabalhista e nos Juizados Especiais Cíveis quando o valor da causa não ultrapassa 20 (vinte)
salários-mínimos, já tendo o Supremo Tribunal Federal, nesta última hipótese, decidido que a dispensa não ofende o
texto constitucional.

Para a atuação em juízo, urge que o advogado porte procuração ad judicia, não havendo necessidade de reconhecimento
da firma do mandante. As exceções a esta exigência restringem-se às medidas urgentes e estão condicionadas à posterior
apresentação do respectivo instrumento de mandato, no prazo de quinze dias, prorrogável por mais quinze (CPC, art. 37).
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Apesar de o Código de Processo Civil dispor sobre várias prerrogativas e obrigações do advogado no palco processual,
o Estatuto da Advocacia, Lei Federal nº. 8.906/94, regula com amplitude a matéria.

É de proveito acrescer que a Defensoria Pública, que presta assistência jurídica aos necessitados e os representa em juízo,
também tem as suas atribuições previstas na Constituição de 1988 (art. 134), desfrutando atualmente de autonomia
funcional e administrativa.

71 GRINOVER, ADA PELLEGRINI, O advogado e os princípios éticos do processo, Revista Magister de Direito Civil e Processual Civil, 25/22.
72 NOGUEIRA, GUSTAVO SANTANA, Curso Básico de Processo Civil, Tomo I, 2ª ed., Lúmen Juris Editora, p. 150.

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Dos Sujeitos Processuais Unidade II

Capítulo 9 – O Ministério Público

A imparcialidade do órgão ministerial garante um processo mais


próximo do ideal de justiça.

Instituição alçada a um alto patamar com a Carta de 1988, o Ministério Público, no Processo Civil, atua ora como autor,
ou órgão agente, ora como fiscal da lei, ou órgão interveniente. No primeiro caso, guardadas as devidas especialidades,
segue o regime próprio das partes. Na condição de custos legis, é verdadeiro auxiliar do juiz na busca da decisão correta
e da regularidade processual.
A doutrina indica que a atuação do Ministério Público no Processo Civil pode se desdobrar em cinco vertentes: a) parte
propriamente dita; b) substituto processual; c) representante de parte; d) parte adjunta; e) fiscal da lei.
Muito embora disponha o art. 81 da Lei Processual Civil que “o Ministério Público exercerá o Direito de ação nos casos
previstos em lei, cabendo-lhe, no processo, os mesmos poderes e ônus que às partes”, a própria legislação se encarrega
de relativizar essa equiparação, dadas as qualidades singulares dessa instituição vital para o Estado Democrático de
Direito. A propósito, HUGO NIGRO MAZZILLI73: Diz a lei que, exercitando a ação pública, ao Ministério Público cabem os
mesmos poderes e ônus que às partes (CPC, art. 81). Essa assertiva deve ser entendida em termos, pois os membros do
Ministério Público não prestam depoimento pessoal; não podem dispor, confessar ou fazer o reconhecimento jurídico do
pedido; não adiantam despesas, que serão pagas a final pelo vencido; não se sujeitam aos mesmos prazos para contestar
e recorrer, gozando, antes, de prazos dilatados para isso; não recebem nem são condenados em custas ou honorários
advocatícios. Igualmente, nas ações movidas pela instituição, seus membros não se sujeitam à reconvenção, pois não
haveria conexidade entre ação e reconvenção, que, sobretudo, sequer teriam as mesmas partes. E, quando sucumbe, o
Ministério Público não responsabiliza a si próprio, mas, sim, ao Estado, de que é órgão.
O art. 82 do Código de Processo Civil prevê as situações em que é obrigatória a intervenção do Ministério Público como
fiscal da lei, sob pena de nulidade. Trata-se, é bom ressalvar, de indicação desprovida de taxatividade, dada a existência
de outras hipóteses no próprio corpo do CPC e em leis extravagantes, como é o caso, por exemplo, da Ação Popular.
Assim, quando o processo tratar sobre interesse de incapaz, estado de pessoas, pátrio poder, tutela, curatela, interdição,
casamento, declaração de ausência, disposições de última vontade, conflitos coletivos de posse de terra rural, além de
todos os processos em que houver interesse público – que pode decorrer da natureza da coisa ou da qualidade de uma
das partes –, o Ministério Público deverá participar como custos legis. Nessa condição, terá vista dos autos depois
das partes e deve ser intimado de todas as ocorrências processuais, de cunho decisório ou não. Pode, ainda, requerer a
produção de provas, diligências e medidas outras que repute essenciais.
Como fiscal da lei, não tem compromisso nem com a parte ativa nem com a passiva da relação processual, e só defende
Pós-Graduação a Distância

a prevalência da ordem jurídica e do bem comum, consoante adverte HUMBERTO THEODORO JÚNIOR74. É dizer, o
Ministério Público não tem a obrigação de se alinhar ao pleito ou às atitudes processuais da parte cuja presença na
relação processual determina a sua intervenção como fiscal da lei.
De fato, o compromisso do Ministério Público é com a tramitação regular do feito e com a solução justa do litígio.
Apostila MARCUS VINICIUS RIOS GONÇALVES75 que a sua obrigação é zelar para que o incapaz ou a parte frágil tenham

73 MAZZILLI, HUGO NIGRO, A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo, 21ª ed., Saraiva, p. 85.
74 JUNIOR, HUMBERTO THEODORO, Curso de Direito Processual Civil, 39ª ed., Forense, p. 136.
75 GONÇALVES, MARCUS VINICIUS RIOS, Novo Curso de Direito Processual Civil, Saraiva, Volume 1, 2004, p. 207.

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Dos Sujeitos Processuais Unidade II

assegurada a isonomia substancial com a parte contrária. Quando, porém, constatar que suas postulações são ilegítimas,
caberá ao Ministério Público manifestar-se de acordo com a sua convicção, ainda que em detrimento do incapaz. Essa
também é a diretriz jurisprudencial sobre o tema, como ilustra o seguinte julgado do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA76:
Não está obrigado o representante do Ministério Público a se manifestar, sempre, em favor do litigante incapaz. Estando
convencido de que a postulação do menor não apresenta nenhum fomento de juridicidade, é-lhe possível opinar pela sua
improcedência.
Quando o Ministério Público deixa de ser intimado nas hipóteses em que a lei determina a sua intervenção como fiscal
da lei, incide a nulidade prescrita expressamente nos arts. 84 e 246, este com a seguinte redação: “ É nulo o processo,
quando o Ministério Público não for intimado a acompanhar o feito em que deva intervir.”

Não se pode ignorar, todavia, que as nulidades não devem ser proclamadas quando a inobservância do mandamento legal
não ocasionar prejuízo para a parte cuja proteção é almejada, na linha do que emerge do art. 249 do Código de Processo
Civil. Por via de consequência, se a ausência do Ministério Público no palco processual não acarretou danos processuais
à parte cuja existência justificava a sua intervenção, não se deve anular o feito. É o que sugere VICENTE GRECO FILHO77:
Trata-se de nulidade absoluta, porque a intervenção do Ministério Público se dá sempre em virtude do interesse público.
A jurisprudência tem admitido, contudo, a conservação de atos se o órgão do Ministério Público, intervindo tardiamente,
afirmar, com base nos elementos dos autos, que o interesse público foi preservado e que a repetição, esta sim, poderia
ser prejudicial ao interesse especialmente protegido. Outro não é o entendimento de (JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS
BEDAQUE78: Para obter a anulação deve o representante do Ministério Público, em sede de apelação ou pela via da ação
rescisória, demonstrar que a não intervenção gerou dano, ainda que potencial, aos interesses tutelados, apontando as
providências concretas que, se adotadas, poderiam alterar o resultado. O magistério jurisprudencial não destoa dessa
visão instrumentalista do processo, valendo colacionar o seguinte julgado do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA79: Se,
a despeito da falta de intervenção do Ministério Público, os menores foram bem-sucedidos na demanda, não há motivo
para a anulação do processo, que supõe prejuízo aos incapazes.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

76 REsp. 135.744/SP, 4ª T., rel. Min. Barros Monteiro, DJU 22.09.2003, p. 327.
77 FILHO, VICENTE GRECO, Direito Processual Civil Brasileiro, 2º Volume, 16. ed., Saraiva, p. 46.
78 BEDAQUE, JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS, Efetividade do Processo e Técnica Processual, 2. ed., Malheiros, p. 453/454.
79 EDiv. Em REsp. 241.813/SP, Corte Especial, rel. Min. Ari Pargendler, DJU 15.08.2005, p. 208.

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Jurisdição Unidade III
Unidade III

Jurisdição

Capítulo 10 – Conceituação, Características e Princípios

Conceituação
O conceito de jurisdição não é apresentado de maneira pacífica na doutrina, por isso que se faz mister apresentar as
principais teorias sobre o tema.
Giuseppe Chiovenda, em seu famoso livro Instituições de Direito Processual Civil, definiu jurisdição como uma função
do Estado que busca realizar a atuação da vontade concreta da lei por meio da substituição da vontade das partes,
pela atividade de órgãos públicos. O Estado, assim, ao exercer a função jurisdicional, limitaria-se a declarar Direitos
preexistentes e a atuar na prática os comandos legais, atuando com substitutividade.
Francesco Carnelutti, ao seu turno, entendia ser a jurisdição a busca pela justa composição da lide, essa definida
pelo renomado jurista como o conflito de interesses nascido de uma pretensão resistida.
Outras teorias também foram apresentadas, como a de Jaime Guasp Delgado, defendida no Brasil por Afrânio
Silva Jardim, que define jurisdição como função de satisfação de pretensões. Ugo Rocco, em sua obra “Derecho
Procesal Civil”, conceitua jurisdição como atividade com que o Estado, intervindo na instância dos particulares,
procura realizar os interesses protegidos pelo Direito, que restaram insatisfeitos pela falta de atuação da norma
jurídica que os ampara.
A doutrina brasileira tem dado prevalência aos dois primeiros conceitos ora apresentados, mesmo porque, a rigor,
são complementares. Por conta disso, vários autores definem jurisdição como a função do Estado de atuar a vontade
concreta da lei, buscando obter a justa composição da lide. MOACYR AMARAL SANTOS80, por exemplo, diz que a
jurisdição é função do Estado desde o momento em que, proibida a autotutela dos interesses individuais em conflito,
por comprometedora da paz jurídica, se reconheceu que nenhum outro poder se encontra em melhores condições de
dirimir os litígios em que o Estado, não só pela força de que dispõe, como por nele presumir-se interesse em assegurar
a ordem jurídica estabelecida.
O Estado contemporâneo, sujeito ao império da lei, não se restringe a ditar as regras de conduta. Está provido do
aparelhamento necessário para solucionar os conflitos observados no meio social e impor a decisão adequada à sua
solução. Aboliu a justiça privada em prol da justiça pública.
Pós-Graduação a Distância

Jurisdição é a função do Estado, com traços de poder e de dever,


vocacionada à composição dos conflitos de interesses que advêm
das relações e dos fatos sociais.

80 SANTOS, MOACYR AMARAL, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25. ed., Editora Saraiva, p. 67.

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Jurisdição Unidade III

É de proveito reafirmar, nesse ponto, que o Direito fundamental contido no art. 5º, XXXV, da Constituição Federal, não
se restringe a abrir as portas da jurisdição. Hoje, sob o influxo do princípio da efetividade, a jurisdição deve assegurar não
apenas o reconhecimento do Direito violado ou ameaçado; deve ir além e garantir que a tutela jurisdicional seja efetiva
não apenas do ponto de vista formal, mas sobretudo efetiva do ponto de vista substancial, isto é, seja apta a outorgar
ao vencedor da demanda exatamente o bem jurídico que lhe reserva o Direito Material. CASSIO SCARPINELLA BUENO81,
depois de conceituar a jurisdição como a função do Estado destinada à solução imperativa, substitutiva e com ânimo de
definitividade de conflitos intersubjetivos e exercida mediante a atuação do Direito em casos concretos, complementa
ser importante destacar desde o início que a jurisdição, diferentemente da compreensão que lhe emprestou a doutrina
tradicional do Direito Processual Civil, não se restringe, apenas, à declaração judicial do Direito. Jurisdição não é só
reconhecer, no sentido de declarar quem tem e quem não tem um Direito digno de tutela (de proteção) perante o Estado,
ao contrário do que a etimologia da palavra poderia dar a entender (júris + dictionis, “dizer o Direito”. A jurisdição envolve
também, pelo menos à luz do modelo constitucional do Processo Civil brasileiro, as medidas voltadas concretamente à
tutela (à proteção) do Direito tal qual reconhecido pelo Estado-Juiz.

O compromisso do juiz, nunca é demais insistir, não é com a entrega formal da prestação jurisdicional, mas com o
reconhecimento e a proteção efetiva e concreta do Direito Material da parte vitoriosa na demanda.

Características
A jurisdição tem como principais características a inércia, a substitutividade, a inafastabilidade, a indelegabilidade, a
imperatividade e a imutabilidade.

Por inércia, entende-se a necessidade de os interessados levarem ao Poder Judiciário a situação de conflito que justifica
a intercessão do Estado. Os arts. 2º e 262 do Código de Processo Civil dão a tônica do caráter inerte da jurisdição ao
explicitarem a imprescindibilidade do requerimento de tutela jurisdicional pela parte interessada, vetando a atuação de
ofício do juiz na deflagração da demanda judicial.

A jurisdição é assim uma atividade provocada. Na clássica lição de ALCALÁ-ZAMORA Y CASTILLO82, a iniciativa do
processo compete às partes. O juiz o iniciará de ofício somente quando a lei o estabelecer. Em meu entender o juiz deve
atuar, apenas, como órgão jurisdicional e nunca como órgão requerente, tarefa esta atribuível e apropriada ao Ministério
Público, para evitar, entre outros riscos, o de que aquele incorra em pré-julgamento.

Convém registrar que o próprio art. 2º do Código de Processo Civil ressalva as exceções legalmente previstas, como
a do art. 989 do mesmo Estatuto Processual, que permite a abertura de inventário ex officio. GUSTAVO SANTANA
NOGUEIRA83 explica a extensão da ressalva legal ao prescrever que este dispositivo legal revela que a jurisdição é uma
atividade provocada, ou seja, só atua quando o cidadão, exercendo seu Direito de ação, requer ao Judiciário uma resposta
para aquele pedido que está formulando. Sem essa provocação o Estado não admite prestar a jurisdição, ao contrário
Processo Civil – Processo de Conhecimento

do que ocorre com outras funções, legislativa e administrativa, onde o Estado age de ofício, ou seja, sem que ninguém
faça nenhum tipo de requerimento. Excepcionalmente, entretanto, a função jurisdicional pode ser prestada de ofício,
tal como nos casos do inventário, segundo a redação do art. 989 do Código de Processo Civil (o juiz determinará, de
ofício, que se inicie o inventário, se nenhuma das pessoas mencionadas nos artigos antecedentes o requerer no prazo
legal), e na jurisdição voluntária, conforme os arts. 1.113, 1.129, 1.142 e 1.160, todos do CPC. Essas exceções apenas
confirmam a regra.

A jurisdição é pautada pela substitutividade porque representa o declínio da autotutela e a imperatividade da solução
dada pelo Estado para determinado conflito de interesses. A conduta e a vontade das partes são assim substituídas

81 BUENO, CASSIO SCARPINELLA, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Saraiva, 2007, p. 238-239.
82 CASTILLO, ALCALÁ-ZAMORA Y, Interpretação das Leis Processuais, 4ª ed., Forense, p. 60.
83 NOGUEIRA, GUSTAVO SANTANA, Curso Básico de Processo Civil, Tomo I, 2ª ed., Lumen Juris, p. 38/39.

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Jurisdição Unidade III

pela autoridade estatal condensada no ato judicial que resolve a lide. Consoante aduz CASSIO SCARPINELLA BUENO84,
esta característica justifica-se, até mesmo, pela razão de ser da função jurisdicional do Estado-Juiz para dirimir conflitos
de interesses que surgem ou, quando menos, que estão na iminência de surgir diante da multiplicidade de interesses
de um mesmo bem, não haveria razão nenhuma para compreender a atividade jurisdicional senão na medida em que
ela pudesse se impor à vontade dos litigantes (particulares ou privados, vale a ênfase), substituindo sua vontade pela
“vontade funcional” do Estado-Juiz, que representará, após o regular processo – a atuação jurisdicional do Estado não se
dará por intermédio de um processo qualquer mas, bem diferentemente, de um devido processo –, a vontade do próprio
ordenamento jurídico para o caso.

É inafastável ou indeclinável a jurisdição porque o juiz tem o dever e não a faculdade de prestá-la, ou seja, de resolver
em nome do Estado o conflito de interesses que lhe é submetido para julgamento. A função jurisdicional é prevista
constitucionalmente e cometida ao Poder Judiciário, ao qual não pode ser recusada qualquer violação ou ameaça a
Direito.

Desde que regularmente provocada mediante o exercício regular do Direito de ação, a jurisdição deve ser outorgada
pelo juiz. Nas palavras de MISAEL MONTENEGRO FILHO85, a função jurisdicional, tendo sido provocada, não poderá ser
negada pelo representante do ente estatal, visto que a sua atuação é determinada pela Carta Magna. A prestação da
função jurisdicional é indeclinável, não se constituindo como mera faculdade, mas sim como dever.

A indelegabilidade da jurisdição decorre do princípio do juiz natural, também de estofo constitucional (CF, art. 5º, incisos
XXXVII e LIII), de acordo com o qual as demandas devem ser julgadas pelo juiz com competência previamente definida
na ordem jurídica vigente. Juiz competente (melhor Juízo competente) é aquele ao qual foi atribuída competência para
conhecer e julgar a lide ainda a ser proposta.

A jurisdição constitui poder do Estado de resolver imperativamente os conflitos de interesses. O órgão judiciário não
tem caráter consultivo nem dele emanam decisões desguarnecidas de imposição às partes da causa. A jurisdição é, pois,
imperativa, no sentido de que a decisão judicial que põe fim ao litígio deve ser acatada espontânea ou coativamente.

A imutabilidade da jurisdição consta do no art. 5º, inciso XXXVI, da Lei Maior, dispositivo que preceitua o respeito à
coisa julgada, qualidade que é atribuída apenas à sentença contra a qual não cabe mais nenhum recurso. E sentença,
insta não olvidar, é ato privado do juiz (órgão do Poder Judiciário).

O caráter imutável da jurisdição, sob esse prisma, descansa sob o manto do princípio da segurança jurídica, pedra angular
do Estado Democrático de Direito.

Princípios
O princípio da investidura determina que só exerça a jurisdição quem estiver legalmente investido para tanto, na qualidade
de juiz. Assim, ela só pode ser exercida por quem tenha sido investido por autoridade competente do Estado e nos termos
da lei. J. E. Carreira Alvim lembra, inclusive, que o exercício da jurisdição sem a devida investidura é crime previsto
no art. 8 do Código Penal.

Outro princípio muito importante é o da aderência ao território ou da improrrogabilidade da jurisdição, que é expressão da
Pós-Graduação a Distância

limitação da soberania de um Estado, pois a jurisdição pressupõe um território onde será exercida. Por esse princípio se
tem que a autoridade dos juízes está adstrita ao território nacional e, dentro dele, pode-se afirmar, desde já, que segue
os limites impostos pelas regras de competência.

A indelegabilidade da jurisdição é outro princípio regente, que determina não poder o órgão investido de jurisdição delegar
a terceiros o seu mister. Nem a lei, nem o magistrado por si mesmo podem delegar, isso porque a própria Constituição

84 BUENO, CASSIO SCARPINELLA , Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Saraiva, 2007, p. 243-244.
85 FILHO, MISAEL MONTENEGRO, Curso de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Atlas, p. 77.

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Jurisdição Unidade III

Federal delimita as atribuições do Poder Judiciário. Comporta essa regra algumas exceções, como a Carta de Ordem,
prevista nos artigos 200 e seguintes do Código de Processo Civil.

Pelo princípio da inevitabilidade da jurisdição se deve entender que as partes devem se submeter ao decidido pelo órgão
jurisdicional, não lhes sendo possível evitar que a autoridade estatal seja exercida sobre suas vontades.

O princípio da inafastabilidade, ao seu turno, que também é chamado por alguns doutrinadores de princípio do controle
jurisdicional ou da indeclinabilidade, exige que o Poder Judiciário atenda a todos os que venham a juízo, sem exceção,
pois o juiz não pode declinar de seu mister. É o que está expresso na regra do inciso XXXV do artigo 5º da Carta de 1988.
Hoje esse princípio é visto como síntese da garantia do acesso à Justiça.

Finalmente, tem-se o princípio do juiz natural, pelo qual é dado a qualquer cidadão o Direito a um julgamento por um
juiz independente, imparcial e previamente indicado pelas normas jurídicas para analisar uma dada espécie de lide
trazida a juízo.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

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Jurisdição Unidade III

Capítulo 11 – Espécies e Limites

Espécies
A unidade da jurisdição deflui do fato de representar manifestação do poder soberano do Estado. Ocorre que a forma
do seu exercício e a sua divisão entre os órgãos do Poder Judiciário justificam algumas classificações à luz de critérios
talhados doutrinariamente. LUIZ RODRIGUES WAMBIER, FLÁVIO RENATO CORREA DE ALMEIDA e EDUARDO TALAMINI86,
por exemplo, afirmam que a jurisdição é uma. Ou seja, toda atividade jurisdicional é expressão de um mesmo e único
poder, que é aquele decorrente da soberania do Estado. Mas as formas e órgãos de atuação da jurisdição podem assumir
diferentes feições. É nesse sentido – didático – que a jurisdição comporta dois tipos de divisões. Num primeiro momento,
podemos dividi-la em comum e especial. A jurisdição comum se subdivide em civil e penal; a jurisdição especial, em
militar, trabalhista e eleitoral. Por outro lado, em razão da adoção do sistema federativo, a justiça comum comporta
outra divisão: federal e estadual.

Numa abordagem mais ampla, podem ser colacionadas as seguintes classificações sugeridas pela doutrina:

a) Classificação pelo critério do objeto da jurisdição – divide a jurisdição em penal e civil lato sensu, incluindo
nesse último ramo tudo o que não for considerado jurisdição penal.

Quanto a esse critério, insta salientar que há traços de interação entre essas duas espécies de jurisdição, como
é o caso da suspensão prejudicial do processo-crime, no caso de haver questão civil que precise ser resolvida
antes do julgamento de algum processo criminal; da necessidade de sentença penal prévia ao ajuizamento de
ação civil ex delicto etc.87

b) Classificação pelo critério dos organismos judiciários que exercem jurisdição – tem-se aqui a divisão
em jurisdição comum e especial, cabendo às justiças que exercem a dita jurisdição especial conhecerem de
matéria fundada em ramos específicos do Direito.

Como especial, tem-se a jurisdição trabalhista, a militar - que pode ser federal ou estadual – e a eleitoral. Pela
jurisdição comum respondem a justiça estadual e a justiça federal comum. Cumpre salientar que, da mesma
forma que ocorre na primeira classificação apresentada, aqui também é fácil observar pontos de contato, pois
não raro atos processuais realizados perante uma Justiça são aproveitados em outra;

c) Classificação pelo critério da posição hierárquica dos órgãos dotados de jurisdição – divide-se em
superior e inferior e considera o grau em que a jurisdição é exercida. Essa divisão decorre do princípio do
duplo grau de jurisdição e se justifica na necessidade de revisão dos julgados quando uma das partes restar
inconformada com o decisum. Importante salientar que, em alguns casos específicos, a lei prevê que a primeira
análise do processo será feita já pelos órgãos de segunda instância, isto em virtude de algum aspecto relevante,
como a natureza do processo ou a qualidade das pessoas envolvidas;
Pós-Graduação a Distância

d) Classificação pelo critério da fonte do Direito aplicado às decisões – aqui se fala em jurisdição de Direito
ou de equidade. Diz-se jurisdição de equidade aquela que a lei deixa margem a uma decisão mais individualizada
da norma, renunciando o legislador a traçar a disciplina pormenorizada de determinados institutos. No sistema
brasileiro, ela é exceção, mas é possível encontrá-la, por exemplo, nos juízos arbitrais; na jurisdição voluntária
e nos Juizados Especiais Cíveis.

86 WAMBIER, LUIZ RODRIGUES WAMBIER, FLÁVIO RENATO CORREA DE ALMEIDA e EDUARDO TALAMINI, Curso Avançado de Processo Civil, V. 1, 9ª ed., Editora RT, p. 42.
87 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23ª ed., São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 98.

51
Jurisdição Unidade III

Outra classificação, que merece análise, embora aqui se busque apenas apresentar um breve panorama, é a que divide
a jurisdição em contenciosa e voluntária. Objeto de grande discussão doutrinária, tal divisão é considerada por alguns
como uns dos temas mais complexos da ciência processual.

Muitas são as teorias que buscam definir o que vem a ser jurisdição voluntária. Dentre elas, ainda é majoritária a teoria clássica,
que vislumbra na jurisdição voluntária natureza administrativa, pois não seria destinada a compor lides e não teria natureza
substitutiva. Essa corrente define jurisdição voluntária como sendo a administração pública de interesses privados.

Em oposição a esse posicionamento, surge a teoria revisionista ou jurisdicionalista, que entende ser a jurisdição voluntária uma
espécie de função jurisdicional. Essa corrente afirma que os argumentos apontados pela teoria clássica são falhos, aduzindo,
por exemplo, que, como visto, a lide é elemento acidental do processo e, por isso, não pode ser tomada como pré-requisito para
o exercício da jurisdição. Ademais, refuta a tese de ausência de substitutividade dentro da jurisdição voluntária, uma vez que a
lei impede aos interessados que negociem livremente os Direitos, que devem ser submetidos ao juiz.

Outros argumentos trazidos pela teoria clássica também são objeto de refutação pela teoria revisionista,
que, assim, apesar de minoritária, tem angariado por adeptos processualistas de grande renome, tais como,
Cândido Dinamarco, Ovídio Batista da Silva, Vicente Greco Filho e, mais recentemente,
Alexandre Freitas Câmara. Para esses autores, portanto, jurisdição voluntária é propriamente jurisdição
e se destaca da contenciosa em virtude da pretensão, que, na voluntária, é de integração de um negócio
jurídico. Este último autor1 explana que o Estado-Juiz só exerce a função jurisdicional se provocado, e tal
provocação se faz por meio da manifestação em juízo de uma pretensão. Sendo tal pretensão de integração
de um negócio jurídico de Direito privado, estar-se-á diante da jurisdição voluntária. Caso contrário, a hipótese
será de jurisdição contenciosa.
1 CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de Direito Processual Civil, Volume 1, 16ª ed., Lumen Juris Editoria, p. 83.

Limites
Conquanto seja expressão da soberania de um Estado e, diga-se, exatamente por sê-lo, a jurisdição precisa ser limitada,
interna e internacionalmente.

No plano internacional, as razões que levam à limitação da jurisdição são a conveniência e a viabilidade. Em face da
conveniência, momentos há em que, justamente porque busca a pacificação da sociedade que rege, a jurisdição não
deve se ocupar de conflitos irrelevantes para seu Estado. Já em razão da viabilidade são excluídos os casos nos quais o
cumprimento da sentença não poderá ser imposto aos envolvidos.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Ademais, há que se respeitar os demais Estados soberanos e as convenções internacionais, evitando conflitos dessa
natureza. Os artigos 88 e 89 do Código de Processo Civil apontam os caminhos que devem ser seguidos para decidir pela
aplicação da jurisdição interna ou não.

Ainda no plano internacional, e em face da necessidade de se respeitar a soberania de outros Estados, cumpre observar
as regras de caráter pessoal que o Direito das gentes cria, com vistas a tornar imunes à jurisdição de um país os próprios
Estados estrangeiros, seus chefes e seus agentes diplomáticos. Nesse diapasão, nota-se a crescente tendência pela
ampliação do rol de imunizados, incluindo-se ali, também, os organismos internacionais, por exemplo.

Finalmente, no campo interno, as limitações ao exercício da jurisdição são mínimas, eis que prevalece a regra da garantia
constitucional do acesso à justiça. De qualquer sorte, cite-se como exemplo de limitação os juízos de conveniência e
oportunidade dos atos administrativos e as dívidas fundadas em jogo.

52
Jurisdição Unidade III

Capítulo 12 – Funções, Estrutura e Órgãos do Poder Judiciário

O Poder Judiciário, assim como a própria jurisdição, é uno, mas, de um lado, nem toda atividade jurisdicional está confinada
ao Poder Judiciário e, por outro lado, nem toda atividade desenvolvida pelo Judiciário é dita jurisdicional88.

Como é notório, os outros Poderes da República podem ser investidos de função jurisdicional, como no caso do julgamento
pelo Legislativo dos crimes de responsabilidade praticados pelo Chefe do Executivo. Da mesma forma, ao Judiciário
também são reservados o exercício de alguns poderes que não o jurisdicional.

Evidentemente, a função jurisdicional é a principal atribuição conferida ao Poder Judiciário; aliás, dentro da temática
da separação dos poderes, a jurisdição é a própria essência do Poder Judiciário, o que não invalida, por certo,
funções adjacentes indispensáveis à construção e ao funcionamento de um poder da República - funções normativas,
como a que prevê a elaboração pelos próprios tribunais de seus regimentos internos, e funções administrativas,
realizadas, por exemplo, quando do exercício de funções de autogoverno da magistratura. Com autoridade, OVÍDIO
BAPTISTA DA SILVA89 anota que a função precípua do Poder Judiciário, como decorre de sua própria destinação
constitucional, como um dos ramos do poder do Estado, é assegurar a aplicação do Direito objetivo, exercendo a
atividade jurisdicional. Além desta função específica, porém, competem também aos órgãos do Poder Judiciário
determinadas funções secundárias de natureza administrativa ou de autogoverno e, em certas circunstâncias, o
exercício de funções chamadas anômalas.

Passando a uma breve análise da estrutura e dos órgãos do Poder Judiciário, verifica-se que a Constituição Federal
determina quais os órgãos que o integram. O art. 92 da Carta Constitucional de 1988 apresenta a relação dos órgãos
do Poder Judiciário, nos seguintes termos:

(...) Art. 92 . São órgãos do Poder Judiciário:

I – o Supremo Tribunal Federal;

I-A – o Conselho Nacional de Justiça; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004)

II – o Superior Tribunal de Justiça;

III – os Tribunais Regionais Federais e Juízes Federais; IV – os Tribunais e Juízes do Trabalho;

V – os Tribunais e Juízes Eleitorais; VI – os Tribunais e Juízes Militares;

VII – os Tribunais e Juízes dos Estados e do Distrito Federal e Territórios. (...)

Prevê ainda a Constituição, dentre os órgãos de primeiro grau, os juizados de pequenas causas, hoje denominados juizados
especiais (Lei nº 9.099/95).

A par dos órgãos tipicamente jurisdicionais, a Carta Política contempla expressamente a existência do Conselho Nacional
Pós-Graduação a Distância

de Justiça, as Ouvidorias de Justiça (CF, art. 103, § 7º) e as Escolas da Magistratura (CF, art. 105, p. único). O primeiro é
responsável pelo controle do Poder Judiciário e seus integrantes; as ouvidorias têm competência para receber reclamações
e denúncias e devem representá-las ao Conselho Nacional de Justiça; finalmente, as Escolas da Magistratura atuam na
preparação de cursos oficiais de aperfeiçoamento e promoção de magistrados.

88 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23ª edição. São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 172
89 SILVA, OVÍDIO BAPTISTA DA , Curso de Processo Civil, Volume 1, 6ª ed., Editora RT, p. 52).

53
Processo Civil – Processo de Conhecimento

54
Jurisdição
Unidade III
Jurisdição Unidade IV
Unidade III

Competência

Capítulo 13 – Conceito, Espécies e Critérios Determinativos

A jurisdição, como função do Estado, é una e indivisível. O seu exercício, porém, distribui-se entre os vários órgãos
do Poder Judiciário. Segundo o escólio de LUIZ GUILHERME MARINONI e SÉRGIO CRUZ ARENHART90, como o poder
jurisdicional deve ser distribuído, dá-se o nome de competência à jurisdição que pode e deve ser exercida por um órgão,
ou por vários órgãos, em face de um determinado grupo de casos. A competência, portanto, nada mais é do que uma
parcela da jurisdição que deve ser efetivamente exercida por um órgão ou um grupo de órgãos do Poder Judiciário.
A competência vem a ser, justamente, o critério dessa distribuição da jurisdição que é imanente a todos os órgãos do
Poder Judiciário. Usando expressão já consagrada, a competência vem a ser a “medida da jurisdição”. Isto é, todo juiz
possui jurisdição, mas apenas na porção ou na medida definida em lei.
Não fosse a divisão da jurisdição entre os vários órgãos do Poder Judiciário, não se poderia precisar o juízo ou tribunal
competente para o julgamento das demandas. Pior: todos os órgãos do Poder Judiciário seriam competentes para
o conhecimento de toda e qualquer ação. A competência, por estabelecer os limites jurisdicionais de cada órgão do
Poder Judiciário, racionaliza a estrutura judiciária e proporciona a distribuição da jurisdição de forma a torná-la mais
efetiva e compreensível. ARRUDA ALVIM91 expõe essa percepção ao dizer que a competência é a jurisdição para o
caso específico, ou, por outras palavras, a concretização do poder jurisdicional num dado órgão, cujo juiz tem poder
para processar a causa e julgá-la (art. 86). É ela, pois, um requisito que diz respeito a um dos elementos do processo:
ao órgão ocupado pelo juiz.
A competência é estabelecida por várias fontes normativas: Constituição Federal, Constituições Estaduais, Código de
Processo Civil, Leis de Organização Judiciária, Regimentos Internos dos tribunais e leis extravagantes.

Espécies
A competência pode ser distribuída horizontal ou verticalmente. Quando se analisa a distribuição vertical da competência,
está-se buscando a competência originária para o julgamento da causa (é competente o órgão superior ou o inferior?) e
a competência recursal (compete ao mesmo órgão ou a um superior?).
Pós-Graduação a Distância

Em relação à distribuição horizontal da competência, os desdobramentos são em maior número; abrangem, assim, a
competência de jurisdição, onde se determina qual a Justiça competente para apreciar a matéria posta em juízo; a
competência de foro, que determina qual a comarca, qual a seção judiciária competente; a competência de juízo, que,
após delimitada a competência de foro, define a vara à qual será distribuído o feito; e a competência interna, que, dentro
de uma mesma vara, aponta qual o juiz competente para conduzir o processo e decidir a questão trazida a apreciação
do Judiciário.

90 MARINONI, LUIZ GUILHERME e ARENHART, SÉRGIO CRUZ, Curso de Processo Civil, Volume 2, 7. ed., Editora RT, p. 37.
91 ALVIM, ARRUDA, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 11. ed., Editora RT, p. 285.

55
Competência Unidade IV

A sequência lógica para fixação de competência é a seguinte.

• Competência da Justiça Brasileira (CPC, arts. 88 e 89): é preciso averiguar, à luz da chamada competência
internacional, se a Justiça Brasileira é competente para conhecer e julgar a demanda;

• Jurisdição competente: A Justiça brasileira é dividida em determinadas jurisdições (Justiça Federal, Justiça
Trabalhista, Justiças Estaduais etc.). Localiza-se, nessa etapa, a “Justiça” competente para a decidir a causa.
A competência da Justiça Estadual tem caráter residual.

• Foro competente: foro é o local onde o juiz exerce sua jurisdição (comarca, seção judiciária etc.). É a divisão
territorial da Justiça. Tema regulado pelo CPC e relacionado à competência territorial. Nessa etapa, já definida
a “jurisdição competente”, identifica-se a comarca (Justiça Federal – Seção Judiciária) competente.

• Juízo competente: juízo é sinônimo de vara, de órgão do Poder Judiciário. Após a localização da comarca ou
da seção judiciária competente, em havendo mais de um juízo, é necessário verificar qual o juízo competente
(vara de família, vara de falências, vara de registros públicos etc.). Tema regulado pela Lei de Organização
Judiciária.

Critérios Determinativos
A principal e mais relevante classificação da competência é aquela que a divide em absoluta e relativa.

A competência absoluta, que não pode ser modificada pela vontade das partes, leva em consideração sobretudo o
interesse do próprio Estado na solução da lide. Via de regra, define-se pela matéria, pela hierarquia e pela pessoa.

A – EM RAZÃO DA MATÉRIA (CPC, arts. 91, 102 e 111)

Rege-se pela organização judiciária e visa à especialização da justiça.

B – EM RAZÃO DA PESSOA (CF, art. 109, I)

Toma como referencial a característica pessoal do litigante. Pode ser considerada também uma competência funcional
informada pela qualidade da pessoa.

Pode também prevê-la as leis de organização judiciária.

C – EM RAZÃO DE CRITÉRIOS FUNCIONAIS (HIERÁRQUICA) (CPC, art. 93)


Processo Civil – Processo de Conhecimento

É estipulada em atenção à repartição das atividades jurisdicionais entre os órgãos judiciais que devem atuar no
processo. Ex.: execução definitiva de sentença, uniformização de jurisprudência, competência recursal etc.

A competência relativa, que pode ser modificada pela vontade das partes, é fixada em função do interesse e da
comodidade das partes. É definida pelo território e pelo valor da causa.

A – EM RAZÃO DO VALOR (CPC, art. 91)

Rege-se pela organização judiciária.

B – EM RAZÃO DO TERRITÓRIO (CPC, art. 94)

Leva em consideração a divisão do território do país em circunscrições territoriais.

56
Competência Unidade IV

De acordo com o art. 95 do Código de Processo Civil, “nas ações fundadas em Direito real sobre imóveis é competente
o foro da situação da coisa”. Essa competência, apesar de baseada no critério territorial, ou seja, de caráter relativo,
torna-se de cunho absoluto em alguns casos, como pode se inferir da parte final desse dispositivo legal. Ensina DANIEL
AMORIM ASSUMPÇÃO NEVES92 que, ao dispor de forma expressa a respeito de quais Direitos reais imobiliários geral a
aplicação da regra de competência absoluta do foro do local do imóvel, o dispositivo não deixa qualquer dúvida quanto à
exclusão de seu âmbito de aplicação em relação às ações pessoais que versam sobre bens imóveis (p. ex., ação pauliana;
ação de consignação em pagamento; ação de anulação e de nulidade de contrato de compra e venda de bem imóvel).
Nessas demandas, pela ausência da natureza real de seu objeto, inaplicável será o art. 95 do CPC.

Sendo de natureza absoluta, a competência regulada no referido art. 95 deve será conhecida de ofício pelo juiz e pode ser
suscitada a qualquer tempo pelas partes. A propósito, decidiu o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA93 que a competência
estatuída no art. 95 do CPC é absoluta e, nas instâncias ordinárias, deve ser declarada de ofício e pode ser alegada, em
qualquer tempo e grau de jurisdição, independentemente de exceção. (CPC, art. 113).

Pós-Graduação a Distância

92 NEVES, DANIEL AMORIM ASSUMPÇÃO, Competência no Processo Civil, Editora Método, p. 71.
93 REsp. 549.508/SP, 3ª T., rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 19.12.2005, p. 395.

57
Competência Unidade IV

Capítulo 14 – Prorrogação da Competência – Continência e Conexão

Levando-se em consideração que a competência absoluta é estatuída em função do interesse do próprio Estado e que
por isso mesmo não pode ser alterada pela vontade das partes, tem-se que só é legítimo cogitar da modificação da
competência em sede de competência relativa, ou seja, de competência em razão do valor da causa ou do território.
É o que se extrai do art. 102 do Código de Processo Civil: “A competência, em razão do valor e do território, poderá
modificar-se pela conexão ou continência, observado o disposto nos artigos seguintes.” ERNANE FIDÉLIS DOS SANTOS94
enfatiza esse ponto ao elucidar que a conexão e a continência são fenômenos processuais modificativos da competência
em razão do valor e do território (art. 102). A competência absoluta, em razão da matéria ou funcional, não se modifica
pela conexão ou continência.

Conexão, a primeira e mais importante hipótese de modificação da competência, é disciplinada no art. 103 do CPC:
“Reputam-se conexas duas ou mais ações, quando lhes for comum o objeto ou a causa de pedir.” O objeto da demanda
consiste exatamente no pedido formulado pelo autor na petição inicial (CPC, art. 282, IV), ao passo que a causa de pedir
consiste nos fundamentos de fato e de Direito desse pedido (CPC, art. 282, III). Para haver identidade de causas, para
efeito de litispendência e coisa julgada, é preciso que a causa petendi seja exatamente a mesma, em toda sua extensão
(causa próxima e causa remota). Mas, para o simples caso de conexão, cujo objetivo é a economia processual e a vedação
de decisões contraditórias, basta a coincidência parcial de elementos da causa de pedir, tal como se dá no concurso
de despejo por falta de pagamento e a consignação em pagamento, em que apenas a causa remota é igual (locação),
conforme precisa explanação de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR95.

É essencial não perder de vista que a reunião dos processos por força da conexão visa, precipuamente, a evitar decisões
conflitantes ou contraditórias entre demandas de alguma forma interligadas. Daí prescrever o art. 105 do CPC que a conexão
pode ser alegada por qualquer das partes e, por constituir matéria de ordem pública, ser conhecida de ofício pelo juiz.

O interesse público presente na unidade e na harmonia da prestação jurisdicional permite que o juiz, mesmo sem provocação
das partes, reconheça a existência da conexão e determine a reunião das ações conexas para julgamento conjunto,
evitando com isso tutelas jurisdicionais conflitantes ou contraditórias.

A consequência natural do reconhecimento da conexão é a reunião dos processos para julgamento simultâneo. A prolação
de sentença única, ao mesmo tempo em que atende ao princípio da economia processual, elimina a possibilidade de
decisões antagônicas acerca de ações conexas.

Urge ressalvar que a conexão não determina de forma peremptória e irrestrita a reunião dos processos. Deve ser analisado,
Processo Civil – Processo de Conhecimento

em cada caso, a probabilidade de decisões conflitantes. Há, portanto, uma certa margem de discricionariedade do juiz, o
que significa que nem sempre a existência da conexão redundará na reunião dos feitos. LUIZ GUILHERME MARINONI e
SÉRGIO CRUZ ARENHART96 fazem a seguinte advertência: Diz-se que há possibilidade (e não obrigatoriedade) de reunião
dos processos, não porque seja esta providência decisão arbitrária do magistrado; ao contrário, caberá ao magistrado
(ou aos magistrados envolvidos) examinar a conveniência da reunião, tendo em conta os objetivos a que se destinam
a conexão ou a continência (evitar decisões conflitantes e privilegiar a economia processual). Assim, não fica ao livre
talante do juiz reunir ou não os processos; deve ele examinar se essa reunião levaria à satisfação de tais objetivos ou,
antes, geraria efeito contrário. Nesse sentido, vem decidindo reiteradamente o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA97 que
a reunião de processos, em virtude da alegada conexão, não é de cunho obrigatório.

94 SANTOS, ERNANE FIDÉLIS DOS, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 9. ed., Editora Saraiva, p. 401.
95 JÚNIOR, HUMBERTO THEODORO, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Editora Forense, p. 165.
96 MARINON, LUIZ GUILHERME e ARENHART, SÉRGIO CRUZ, Curso de Processo Civil, Volume 2, 7. ed., Editora RT, p. 51.
97 REsp. 243.629/GO, 4ª T., rel. Min. Barros Monteiro, DJU 30.08.2004, p. 289.

58
Competência Unidade IV

Não há que se falar em reunião de processos se um deles já foi julgado, na medida em que a reunião visa justamente
a propiciar julgamento conjunto. É o que preceitua a Súmula nº 235 do Superior Tribunal de Justiça: “A conexão não
determina a reunião dos processos, se um deles já foi julgado.

A continência, a seu turno, configura-se quando uma das causas contém-se dentro da outra. É o que ocorre, por exemplo,
quando uma demanda tem por objeto a nulidade do contrato e outra a nulidade de uma cláusula do contrato.

Gera a continência os mesmos efeitos da conexão: reunião dos processos e julgamento conjunto.

Detectada a conexão ou a continência, vem à baila descobrir o juízo no qual as causas serão reunidas e julgadas. A
prevenção é justamente o critério utilizado para a definição da competência em face da conexão ou da continência.

Se as causas conexas tramitam por juízos que se situam dentro da mesma competência territorial, isto é, dentro da mesma
comarca (Justiça Estadual) ou seção judiciária (Justiça Federal), a prevenção opera-se em favor do juiz que despachou
em primeiro lugar (CPC, art. 106). Conforme orienta EDWARD CARLYLE SILVA98, quando vários juízos possuem a mesma
competência territorial, ou seja, encontram-se na mesma comarca ou seção judiciária, e em situação idêntica para o
conhecimento e julgamento de diversas demandas, o critério utilizado para definir o juízo competente para o julgamento
das causas será aquele previsto no art. 106 do CPC, ou seja, aquele que despachou em primeiro lugar. Trata-se da
chamada competência do juízo, por meio da qual se define qual o órgão competente para o julgamento de duas ou mais
causas conexas, quando ambas se encontram perante juízos com a mesma competência territorial.

O despacho a que se refere o art. 106 do CPC é o denominado “despacho positivo”, ou seja, aquele que determina a
citação e que, por conseguinte, pressupõe o recebimento da petição inicial. Em ensinamento que reflete a posição uníssona
da doutrina, ERNANE FIDÉLIS DOS SANTOS99 assevera que o despacho deve ser o que determina citação, dando início
à formação da relação processual.

A prevenção é um dos efeitos processuais da citação, conforme se depreende do art. 219 do CPC. Partindo-se da premissa
de que a prevenção entre juízes com a mesma competência territorial é determinada pelo art. 106 do CPC, conclui-se
que a prevenção delineada no art. 219 restringe-se aos casos de ações que tramitam perante juízes com competência
territorial distinta. Como deliberou o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA100, em juízos de mesma competência territorial,
a prevenção dá-se em favor daquele que primeiro despachou no processo (art. 106 do CPC). Quando os juízos apresentam
competência territorial diversa, a prevenção define-se pela citação válida (art. 219 do CPC).

Pós-Graduação a Distância

98 EDWARD CARLYLE SILVA, Conexão de Causas, Editora RT, p. 195.


99 SANTOS, ERNANE FIDÉLIS DOS, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 9. ed., Editora Saraiva, p. 166.
100 CComp. 39.595/DF, 1ª Seção, rel. Min. Castro Meira, DJU 09.02.2005, p. 182.

59
Processo Civil – Processo de Conhecimento

60
Competência
Unidade IV
Teoria Geral da Ação
Unidade V Unidade V

Teoria Geral da Ação

Capítulo 15 – Teoria Geral

Após recordar as linhas gerais do Processo Civil e os sujeitos que nele atuam, cabe passar ao primeiro ponto de
aprofundamento da disciplina. Nesse diapasão, nesta Unidade se irá refletir sobre a evolução teórica da ação e suas
diversas classificações.
A ação é, sem dúvida, um dos temas mais profundos do estudo do Direito Processual Civil. Todos os aspectos que a
envolvem são motivos recorrentes de revisão doutrinária e discussão acadêmica. Dependendo das posições adotadas,
ter-se-á uma interpretação diferente dos institutos do Processo Civil. Assim, essencial ao operador do Direito dominar
cada uma de suas particularidades e, com isso, conhecer as nuances dos institutos processuais.
A jurisdição é inerte, precisa ser acionada pelo interessado para que possa atuar. Assim é que se pode definir ação como
o Direito ao exercício da atividade jurisdicional, pois, mediante o exercício da ação, provoca-se a jurisdição, que, por sua
vez, é exercida por meio daquele complexo de atos que se chama processo101.
Se a jurisdição é monopólio do Estado, qualquer interessado na tutela jurisdicional deve se dirigir ao Estado para solicitá-
la, ou seja, para pleitear a solução do conflito de interesses em que se vê envolvido. A ação é justamente esse Direito
de que dispõe a parte de invocar do Estado a tutela jurisdicional.

O conceito de ação evoluiu de um entendimento civilista a uma


concepção abstrata e publicista.

A evolução do conceito de ação é responsável pela caminhada do Direito Processual Civil rumo à autonomia científica.
Em outras palavras, enquanto os estudiosos buscavam demonstrar a independência do Direito de em ação face do Direito
Material, foi desenhando-se a ideia de que o Processo Civil é um ramo autônomo do Direito.
A teoria civilista da ação (Escola Clássica ou Imanentista), no Brasil defendida por Clóvis Beviláqua, representa
o começo dessa caminhada. Tal teoria declarava que o Direito Processual não passava de mero apêndice do Direito
Pós-Graduação a Distância

Material102. Tinha por pilares três afirmações, quais sejam:


• não há ação sem Direito – a ação é o mesmo Direito em atitude de defesa (jus persequendi in judicio);
• não há Direito sem ação;
• a ação segue a natureza do Direito.

101 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23ª edição. São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 265.
102 LACERDA, Galeno. Teoria Geral do Processo. Rio de Janeiro: Forense, 2006. p. 210.

61
Teoria Geral da Ação Unidade V

Confundindo-se com a própria origem romana do Direito, tal teoria afirmava que a ação nada mais é do que o Direito de
o sujeito ativo de uma relação jurídica material exigir o cumprimento da obrigação que lhe é devida. Assim, poder-se-ia
arriscar dizer que a ação seria um Direito que nasce de um Direito Material prévio e só teria aquele Direito quem tivesse
este.

Como pequena variável desta teoria, Friedrich von Savigny enxergava na ação um Direito novo, nascido não do Direito
Material, mas sim da lesão ou ameaça de lesão a este. De qualquer sorte, a ideia inicial de que somente o portador do
Direito subjetivo era detentor do Direito de ação era mantida. Por outro lado, Bernhard Windscheid desacreditava
da necessidade desses desdobramentos; para ele, bastava ter-se em mente que o titular da ação era, efetivamente, o
titular do Direito lesado e, assim, o próprio Direito Material se transmudaria em Direito de ação.

Diante de várias críticas severas que se lhe impõem e apesar de seu valor histórico, a teoria civilista da ação está
abandonada. Dentre as críticas, merece destaque aquela que enfatiza ser o Direito de ação exercitado perante o Estado
e, como tal, possuir natureza precipuamente pública. Em assim, ter-se-ia no processo, a título de argumentação, uma
relação de Direito público distinta da relação de Direito Material.

Outra crítica que sepulta qualquer expectativa de sobrevivência da teoria civilista é quanto ao fato de que ela não explica
a carência de ação e a sentença que declara o pedido improcedente. Como negar a existência de uma ação que, após
meses, quiçá anos, de discussão junto ao Poder Judiciário, nega ao autor o Direito pleiteado? Não há como refutar o fato
de que, apesar da inexistência do Direito Material discutido, houve exercício do Direito de ação.

Apesar de todas as inconsistências jurídicas, a teoria civilista da ação prevaleceu até o ano de 1856. No contexto de
intenso debate, sobretudo na Alemanha, Bernhard von Bulow, jurista alemão, surge com a tese de que a ação seria
uma relação jurídica processual de Direito público.

Após um período de amadurecimento das ideias então lançadas à comunidade acadêmica, Adolf Wach apresentou
nova teoria, que considera a ação com um Direito concreto à tutela jurídica. Wach sustenta que o Direito de ação nada
mais é do que o Direito de reclamar ao Estado a tutela que ele é obrigado a prestar ao Direito subjetivo material quando
este sofrer algum dano e/ou ameaça.

Apesar da notória evolução conceitual, a nova teoria apresentada ressente-se de resquícios da teoria civilista, já que
propugna que o Direito subjetivo público de ação equivale ao Direito de reclamar a tutela do Estado ao Direito subjetivo
violado. Justamente por defender que o Direito de ação seria um Direito de se obter em juízo uma sentença favorável,
essa teoria é chamada de teoria do Direito concreto de agir ou teoria concreta da ação.

Chiovenda, o maior dos mestres italianos, apresentou uma teoria que via na ação um Direito potestativo, onde a ação seria
“o poder jurídico de dar vida à condição para a atuação da vontade da lei”103. Para explicar o que viria a ser um Direito
Processo Civil – Processo de Conhecimento

potestativo, o ilustre jurista recorreu aos ensinamentos de Ernst Zitelmann, no sentido de que Direito potestativo
seria uma espécie de Direito subjetivo para cujo exercício não fosse necessária a anuência de ninguém além de seu titular;
em outras palavras, um poder de vontade unilateral – potestas.

De acordo com as críticas lançadas a essa teoria, Chiovenda olvidou que a relação jurídica decorrente da ação envolve
também o Estado-Juiz, não se restringindo apenas a autor e réu.

Em contraposição às várias teorias que concebem a ação como o Direito de obter uma providência jurisdicional favorável
em sentido concreto, surgiu na Alemanha, com DEGENKOLB e, quase concomitantemente, com PLOSZ, na Hungria, a
chamada teoria da ação no sentido abstrato104. Ambos procuraram solucionar as críticas feitas à teoria de Adolf Wach,
que via a ação como Direito concreto de agir. Afirmaram os renomados processualistas que o Direito de ação não é um
103 CHIOVENDA, Giuseppe vol. I, p. 24, Instituições de Direito Processual; apud, CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 1, 16ª edição. Rio de
Janeiro: Editora Malheiros, 2007. p. 121.
104 SANTOS, Moacyr Amaral, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25. ed., Editora Saraiva, p. 158.

62
Teoria Geral da Ação Unidade V

Direito a uma sentença favorável, mas sim o Direito a uma sentença, a um pronunciamento do Estado, ou, melhor, o
Direito à jurisdição.

Posteriormente, apareceu no cenário acadêmico a teoria de Eduardo Couture, no Uruguai, que leva ao extremo
a publicização do Direito de ação, a considerá-lo como nada mais do que o Direito de petição, conhecido dos
constitucionalistas. Direito de petição é aquele Direito que todo cidadão tem de exigir da autoridade estatal uma solução
aos seus pedidos. Assim, Eduardo Couture entende que, quando esta petição é endereçada ao Judiciário, tem-se a ação.

Ainda, Enrico Tullio Liebman105 apresentou a teoria eclética da ação, também de natureza abstrata. Define-se o
Direito de ação como um Direito subjetivo instrumental; aliás, mais que um Direito, um poder. Dois aspectos merecem
relevo nessa teoria; o primeiro é que se entende o Direito de ação como uma garantia constitucional, constituindo, por
isso, pressuposto ou fundamento para a ação em sentido processual. O segundo é o relativo à função jurisdicional, que,
para Enrico Tullio Liebman, só se completa com a sentença de mérito (contra ou a favor da pretensão do autor).

A teoria de Enrico Tullio Liebman considera as condições da ação como verdadeiro ponto de contato entre a ação e
a situação de Direito Material106. Essa foi al teoria foi acolhida pelo legislador pátrio por ocasião da elaboração do vigente
Código de Processo Civil, nos termos de seu art. 267, inciso VI. Misael Montenegro Filho107 destaca que a Carta
Magna, ao mesmo tempo em que deu à parte a abertura da via judicial mediante o exercício da função jurisdicional, para
que fosse resolvido o conflito de interesses instalado, condicionou esse exercício à observância de regras mínimas, que
garantam, quando presentes, a prolação de uma sentença de mérito.

A doutrina processual mais moderna no Brasil, que tem como expoentes Ada Pelegrini Grinover e outros juristas de
renome, sustenta que a ação é uma situação jurídica de que desfruta o autor perante o Estado, seja ela um Direito ou
um poder. Assim, a ação é voltada ao Estado e não contra o adversário. A ação seria, portanto, um Direito de natureza
pública, que tem por conteúdo o exercício da jurisdição, com inegável natureza constitucional. Mais propriamente, entende-
se que o Direito de ação constitucional apenas fundamenta o Direito de ação de natureza propriamente processual. A
propósito, Alexandre Freitas Câmara108 concorda que ação é o poder de exercer posições jurídicas ativas no
processo jurisdicional, preparando o exercício, pelo Estado, da função jurisdicional. Assim, não só o autor, mas também
o réu, têm Direito de ação. Para o insigne jurista, a teoria abstrata cuida do poder de demandar; a teoria eclética de
Enrico Tullio Liebman, cuida do poder de ação; e a teoria concreta, cuida da tutela jurisdicional; assim, não haveria
conflito entre tais teorias que, em verdade, se ocupariam de fenômenos distintos.

É a ação, assim, um Direito ao provimento jurisdicional, qualquer que seja a natureza deste. É um Direito autônomo, pois
independe da existência real de um Direito Material, e instrumental, porque tem por objetivo solucionar a lide e, neste
sentido, é conexo a uma situação jurídica concreta.
Pós-Graduação a Distância

105 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 269
106 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 269.
107 FILHO, MISAEL MONTENEGRO, Curso de Direito Processual Civil, Volume I, 2ª ed., Editora Atlas, p. 144.
108 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 1. 16ª edição. Rio de Janeiro: Editora Malheiros, 2007. p. 126.

63
Processo Civil – Processo de Conhecimento

64
Teoria Geral da Ação
Unidade V
O Processo
Unidade VI Unidade VI

O Processo

Capítulo 16 – Conceito e Natureza Jurídica

Não há consenso doutrinário acerca do conceito de processo. Em um primeiro momento, ainda na fase da teoria imanentista,
ele era visto como um procedimento, uma simples sequência de atos. Nesse período, estudava-se apenas os atos e as
normas processuais.

Alexandre Freitas Câmara109 lembra que, após a superação desse entendimento, surgiu a teoria contratualista,
defendida por Pothier, que via no processo um reflexo da litis contestatio romana, em que necessário um acordo de
vontades das partes para o início da segunda fase do processo romano. Partindo do, hoje, falso pressuposto de que as
partes se sujeitam voluntariamente ao processo, essa teoria tem relevância meramente histórica.

Mais tarde, surgiu a teoria dita quase-contratualista, criada por Arnault de Guényvau110, que tomava por base
a ideia de que o processo deveria ser enquadrado entre as categorias do Direito privado, mesmo que não se pudesse
qualificá-lo como contrato.

Em 1868, Oskar von Bulow lançou uma obra intitulada Teoria das Exceções Processuais e dos Pressupostos
Processuais, onde desenvolveu a ideia de que o processo é, em verdade, uma relação jurídica. Segundo Alexandre
Freitas Câmara111 e outros112, essa teoria é adotada pela maioria dos doutrinadores, contando com nomes como
Giuseppe Chiovenda e, entre nós, Amaral Santos e Hélio Tornaghi.

A teoria em foco concebe o processo como relação jurídica intersubjetiva, dinâmica, de Direito público, e que tem seus
próprios sujeitos e requisitos (os pressupostos processuais). Mesmo dentro do grupo de defensores dessa teoria, há
divergência sobre a configuração gráfica, pois alguns visualizam o processo como uma relação triangular (autor-réu;
autor-juiz; réu-juiz), e outros como vínculo angular (autor-juiz; réu-juiz). Na prática, todavia, essa divergência não guarda
importância de relevo.

Apesar de sua predominância, a teoria da relação jurídica não é ponto pacífico na doutrina, que aponta caminhos outros.
Nesse aspecto, merece relevo a teoria da situação jurídica, apresentada por James Goldschmidt, segundo quem o
processo seria uma série de situações jurídicas ativas, que poderiam gerar deveres, faculdades, ônus, poderes e sujeições
para seus sujeitos; ademais, o processo criaria uma situação de expectativa de prolação de um provimento favorável113.
Pós-Graduação a Distância

Apesar de ter sido rejeitada pela maioria dos processualistas, essa teoria foi, em grande parte, absorvida pelos defensores
da teoria do processo como relação jurídica.

109 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 1. 16. ed. Rio de Janeiro: Editora Malheiros, 2007. p. 140.
110 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 298.
111 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 1. 16. ed. Rio de Janeiro: Editora Malheiros, 2007. p. 141.
112 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 299.
113 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 1. 16. ed. Rio de Janeiro: Editora Malheiros, 2007. p. 143-144.

65
O Processo Unidade VI

Dentre outras teorias apresentadas para esclarecer a natureza jurídica do processo, merece ainda nota, a apresentada
pelo jurista italiano Elio Fazzalari, que definiu o processo como sendo um procedimento em contraditório. Seria o
procedimento uma sequência de normas, destinadas a regular uma conduta, qualificando-a como lícita ou devida, e que
enunciam, como pressuposto de sua própria incidência, o cumprimento de um ato prévio.

Alexandre Freitas Câmara114 alerta para o fato de que, em verdade, muitas dessas teorias não cuidam do mesmo
aspecto, já que algumas abordam apenas a natureza jurídica, enquanto outras buscam conceituar o processo, coisas
absolutamente distintas. Em assim, buscar a natureza jurídica é enquadrar o instituto (no caso o processo) dentro de
uma das categorias jurídicas, do gênero, a que pertence. Por outro lado, o conceito é a formulação da ideia por meio de
definições e caracterizações.

O renomado autor entende, sob essas premissas, que a natureza jurídica do processo é o de categoria jurídica autônoma,
conquanto não se enquadre em nenhuma das existentes, pois não guarda elementos comuns com outros institutos jurídicos
conhecidos pela doutrina. O processo, portanto, seria ele mesmo um gênero, que comportaria espécies.

Ada Pellegrini Grinover, Antônio Carlos de Araújo Cintra e Cândido Rangel Dinamarco115 definem
processo como instrumento através do qual a jurisdição se opera. Ele seria, assim, a síntese de uma relação jurídica
progressiva (relação processual) e da série de fatos que determinam sua progressão (procedimento).

Processo é o método, o instrumento por meio do qual a prestação jurisdicional é outorgada. Procedimento
é o modo pelo qual o processo se desenvolve, ou seja, a sua exteriorização. O procedimento (ou rito)
pode ser representado por várias formas, de acordo com os critérios previstos em lei.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

114 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 1, 16. ed. Rio de Janeiro: Editora Malheiros, 2007. p. 147.
115 GRINOVER, Ada Pellegrini. CINTRA, Antônio Carlos de Araújo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 23. ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2007, p. 295.

66
O Processo Unidade VI

Capítulo 17 – Pressupostos Processuais

A doutrina chama de pressupostos processuais os requisitos que precisam ser preenchidos para que, concretamente,
o processo exista (pressupostos de existência) e tenha validade (pressupostos de validade). Em outras palavras, os
pressupostos processuais podem ser definidos como as exigências que a lei estabelece para a validade da constituição
e do desenvolvimento da relação processual.
Não existe unanimidade acerca da enumeração desses pressupostos processuais, J. E. Carreira Alvim116 afirma que
tanto os pressupostos de existência, como os de validade, podem ser classificados em duas categorias: pressupostos
objetivos e subjetivos.
Subjetivos são os pressupostos relacionados aos sujeitos da relação processual: juiz e partes. Em relação às partes,
destacam-se os seguintes pressupostos.

Capacidade de Ser Parte


Aptidão da parte de ser sujeito de Direitos e obrigações. Quem tem personalidade jurídica tem capacidade de ser parte,
conforme prescreve o art. 7º do Código de Processo Civil. Essa comunicação entre institutos do Direito Civil e do Direito
Processual Civil é bem elucidada por LUIZ RODRIGUES WAMBIER, FLÁVIO RENATO CORREIA DE ALMEIDA e EDUARDO
TALAMINI117: O art. 1º do Código Civil de 2002 prevê que toda pessoa é capaz de Direitos e deveres na ordem civil. Isso
quer dizer que todo ser humano é dotado de personalidade jurídica e pode ser titular de relação jurídica, como credor (em
sentido amplo) ou como devedor de determinada obrigação. Nesse plano se situa a capacidade de ser parte (ser autor ou
ser réu). É a chamada capacidade de Direito.
Vê-se, assim, que qualquer pessoa, por ter personalidade jurídica, pode figurar como parte em dada relação processual.

Capacidade Processual
Aptidão da parte de estar em juízo sem necessidade de representação ou assistência. Corresponde à capacidade plena
do Direito Civil. Como dispõe o art. 8º do Código de Processo Civil, “os incapazes serão representados ou assistidos por
seus pais, tutores ou curadores, na forma da lei civil.” ERNANE FIDÉLIS DOS SANTOS118 explica que a capacidade de
estar em juízo diz respeito às partes e tem a mesma regulamentação da capacidade civil. Os absolutamente incapazes
são representados, e os relativamente incapazes, assistidos.
A capacidade de que se cogita equivale, então, à capacidade de exercício ou de fato prevista no Código Civil. Para ter
capacidade processual, não basta possuir a pessoa personalidade jurídica; é preciso poder praticar por si os atos da
vida civil.
Pós-Graduação a Distância

Capacidade Postulatória
Aptidão para praticar atos postulatórios em juízo. É privativa dos advogados, na linha do que estatui o art. 36 do Código
de Processo Civil. Oportuna o alerta de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR119 no sentido de que a capacidade postulatória

116 ALVIM, José Eduardo Carreira. Teoria Geral do Processo. Rio de Janeiro: Forense, 2006, páginas 175 e seguintes.
117 WAMBIER, Luiz Rodrigues, ALMEIDA, Flávio Renato Correia e TALAMINI, Eduardo, Curso Avançado de Processo Civil, Volume. 1, 9ª ed., Editora RT, p. 231.
118 SANTOS, Ernane Fidélis dos, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 9ª ed., Editora Saraiva, p. 35.
119 JÚNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Editora Forense, p. 91.

67
O Processo Unidade VI

não se confunde a capacidade processual, que é a aptidão para ser parte, com a capacidade de postulação, que vem a ser
a aptidão para realizar os atos do processo de maneira eficaz. A capacidade de postulação em nosso sistema processual
compete exclusivamente aos advogados, de modo que é obrigatória a representação da parte em juízo por advogado
legalmente habilitado (art. 36). Trata-se de um pressuposto processual, cuja inobservância conduz à nulidade do processo
(arts. 1º e 3º da Lei nº 8.906, de 04.07.1994).

Em relação ao juiz, podem ser mencionados os seguintes pressupostos subjetivos.

Investidura
Só o juiz que ingressa na carreira da magistratura à luz dos requisitos talhados no art. 93, I, da Constituição da República,
investe-se de jurisdição.

Competência
Todo juiz tem jurisdição, porém na medida outorgada pela lei (competência). Não basta, para fins de validade do processo,
que a jurisdição seja provocada e, portanto, retirada de seu estado de inércia. Faz-se mister ir além e verificar quais dos
órgãos jurisdicionais podem, ou não, atuar no caso concreto, na lição de CASSIO SCARPINELLA BUENO120.

Imparcialidade
O Código de Processo Civil, em seus arts. 134 e 135, arrola as causas ou motivos (suspeição e impedimento) que podem
sinalizar a falta de imparcialidade do juiz para o julgamento da causa. HUMBERTO THEODORO JÚNIOR121 anota que
é imprescindível à lisura e ao prestígio das decisões judiciais a inexistência da menor dúvida sobre motivos de ordem
pessoal que possam influir no ânimo do julgador. Não basta, outrossim, que o juiz, na sua consciência, sinta-se capaz
de exercitar o seu ofício com a habitual imparcialidade. Faz-se necessário que não suscite em ninguém a dúvida de que
motivos pessoais possam influir sobre seu ânimo. Na pitoresca comparação de Andrioli, “o magistrado, como a mulher
de César, não deve nunca ser suspeito”.

Ocorrendo qualquer hipótese de suspeição ou impedimento, o juiz, de ofício ou mediante incidente próprio, é afastado
da presidência da relação processual.

Objetivos, de outra borda, são os pressupostos processuais relacionados à forma que a legislação prescreve para que o
processo possa validamente ser constituído e desenvolvido. Podem também ser classificados em pressupostos objetivos de
existência e pressupostos objetivos de validade da relação processual. Em boa síntese, GUSTAVO SANTANA NOGUEIRA122
Processo Civil – Processo de Conhecimento

explana que, para nós, são pressupostos processuais de existência a jurisdição, a petição inicial e a citação, sendo que
os de validade são a competência do juízo, a imparcialidade do juiz, a aptidão da petição inicial e a capacidade. Já os
negativos são a litispendência, a perempção, a coisa julgada e a convenção de arbitragem.

120 BUENO, Cássio Scarpinella, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Saraiva, 2007, p. 398.
121 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Editora Forense, p. 186/187.
122 NOGUEIRA, Gustavo Santana, Curso Básico de Processo Civil, Tomo I, 2. ed., Editora Lumen Juris, p. 88.

68
Atos Processuais Unidade VII
Unidade VII

Atos Processuais

A sistematização dos atos processuais é questão de grande relevância para a compreensão do processo que,
extrinsecamente, apresenta-se como um complexo ordenado de atos tendentes à solução da lide. Necessário, pois, antes
de apresentar tal sistematização, conceituar os atos processuais dentro da Teoria Geral do Direito.

Fato jurídico é qualquer acontecimento que tenha capacidade de produzir efeitos no mundo jurídico. Tal definição tem
cunho abrangente (lato sensu) e comporta subdivisões conceituais em fato jurídico stricto sensu, assim entendido todo
acontecimento que não depende da vontade humana para ocorrer, e atos jurídicos, entendidos como atos da vontade
humana, realizados de acordo com o Direito, e que tendem à produção de efeitos jurídicos123.

Os atos jurídicos, por sua vez, são divididos em duas categorias: atos jurídicos stricto sensu e negócios jurídicos. A
diferença precípua entre ambas reside no direcionamento da vontade humana: na primeira, voltada apenas à prática do
próprio ato, cujos efeitos decorrem da lei; e, na segunda, voltada à produção de determinado efeito jurídico previamente
admitido pela ordem jurídica vigente.

Dentro dessa ambiência jurídica mais ampla, traz-se à baila o conceito de ato processual: os chamados “atos processuais”
podem ser entendidos como todos os atos jurídicos que têm relevância para o plano do processo ou, de alguma forma,
podem influenciar a atuação do Estado-Juiz ao longo de todo o procedimento. Eles, na sua gênese, são atos jurídicos que,
quando praticados, assumem alguma importância no plano do processo ou tendem a surtir efeitos no plano do processo.
É o que pode ser extraído do art. 158, caput124.

É de se ressaltar que também no âmbito processual podem ser vislumbrados os negócios jurídicos, embora não haja a
respeito consenso doutrinário. É indisputável, contudo, a existência de atos processuais que tenha origem na vontade
soberana das partes moldada de acordo com determinado regramento legal. É o que se verifica, por exemplo, na
transação, negócio jurídico realizado pelas partes e homologado pelo juiz para a resolução do mérito da causa (CPC,
art. 269, III).

Pós-Graduação a Distância

123 Câmara, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. 16. ed. Rio de Janeiro: Editora Malheiros, 2007. p. 245.
124 BUENO, Cássio Scarpinella, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, V. 1, Editora Saraiva, 2007, p. 415.

69
Atos Processuais Unidade VII

Capítulo 18 – Forma e Classificação dos Atos Processuais

A forma é indissociável do processo. Como instrumento da jurisdição, o processo deve seguir determinados parâmetros
formais para proporcionar o julgamento do litígio à luz dos princípios processuais elementares, com destaque para a
isonomia, contraditório e ampla defesa. Adverte MOACYR AMARAL SANTOS que as formas correspondem a uma
necessidade de ordem, de certeza, de eficiência prática, e a sua regular observância representa uma garantia de regular
o leal desenvolvimento do processo e garantia dos Direitos das partes125.

Forma, todavia, não é sinônimo de formalismo. Não se deve perder de vista que o processo é meio para a aplicação do
Direito ao caso concreto, isto é, não é um fim em si mesmo. Não é apropriado, nessa ordem de ideias, sublimar a forma
em detrimento da missão do processo, que é justamente solucionar a lide e apaziguar o meio social.

A forma dos atos processuais é orientada por alguns princípios sugeridos em sede doutrinária e que contam com respaldo
legal.

O primeiro deles é o princípio da liberdade das formas. Significa este princípio que os atos processuais podem ser
realizados pela forma mais idônea para atingir o seu fim. Liberdade não quer dizer exclusão ou arbítrio de forma. Tanto
que a liberdade está condicionada à idoneidade da forma, tendo em vista a finalidade do ato126. Esse princípio encontra
conforto normativo no art. 154 do CPC: “Os atos e termos processuais não dependem de forma determinada senão quando
a lei expressamente a exigir, reputando-se válidos os que, realizados de outro modo, Ihe preencham a finalidade essencial.”

Irrepreensível, sobre o tema, o ensinamento de JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS BEDAQUE no sentido de que a forma é
importante para a técnica processual, desde que não se transforme em objeto de culto. Seu papel é fundamental, mas
menos amplo do que se imagina, pois relacionado apenas às garantias da igualdade e do contraditório. Todas as regras a
que está sujeito o procedimento destinam-se a assegurar o correto desenvolvimento da relação processual, possibilitando
às partes condições rigorosamente iguais de participação efetiva na formação do convencimento do juiz127.

O segundo princípio, merecedor de especial destaque, é o da instrumentalidade das formas, respaldado também nos arts.
154 e 158 do CPC. De acordo com esse princípio, o processo e todos os atos que o compõem têm uma vocação natural:
propiciar o desenvolvimento da relação processual com respeito ao Direito das partes e permitindo a mais justa solução
do conflito de interesses. Sobre o tema, JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS BEDAQUE enfatiza que a forma não tem por
objetivo tutelar valores intrínsecos do ato processual. Aliás, tanto quanto o processo, os atos que o integram encontram
explicação nos fins a serem alcançados. Cada um deles visa a determinado escopo, e todos, reunidos no procedimento,
estão voltados aos objetivos do processo. Por isso, o valor preponderante é sempre externo ao ato. A forma exigida
Processo Civil – Processo de Conhecimento

pelo legislador constitui mero meio. O que importa, na verdade, são os fins de cada ato e o escopo final do processo128.

O princípio da instrumentalidade das formas tem especial relevo no tema das nulidades. Ajuda o intérprete a preservar
a validade dos atos processuais que, malgrado tenham se apartado do itinerário traçado pelo legislador, alcançaram
a finalidade para a qual foram previstos. O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA tem sempre sinalizado que o Direito
Processual Civil adota o princípio da instrumentalidade das formas à luz da constatação de que o processo é meio para
a realização do Direito objetivo-material. Em consequência, a política de nulidades do CPC é voltada para a sanação dos
atos não prejudiciais aos fins de justiça de processo, repudiando o fetichismo das formas. 129

125 SANTOS, Moacyr Amaral, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25ª ed., Editora Saraiva, p. 286.
126 SANTOS, Moacyr Amaral, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25ª ed., Editora Saraiva, p. 287.
127 BEDAQUE, José Roberto dos Santos, Efetividade do Processo e Técnica Processual, 2ª ed., Editora Malheiros, p. 54.
128 BEDAQUE, José Roberto dos Santos, Efetividade do Processo e Técnica Processual, 2ª ed., Editora Malheiros, p. 421.
129 AgRg. no AI 588.167/SP, 1ª T., rel. Min. Luiz Fux, DJU 28.03.2005, p. 192.

70
Atos Processuais Unidade VII

O terceiro princípio a ser destacado é o da publicidade dos atos processuais, consagrado textualmente nos arts. 5º, LX
e 93, IX, da Constituição Federal, bem assim no art. 155 do CPC.

Salvo nas hipóteses expressamente ressalvadas em lei, os atos processuais devem ser praticados de molde a garantir
a publicidade do próprio processo. VICENTE GRECO FILHO discorre que os atos processuais são públicos, em princípio,
a fim de que a todos seja dado acompanhar a distribuição da justiça, que é um bem jurídico que transcende ao próprio
interesse individual das partes discutido em determinada causa. A publicidade é garantia democrática de liberdade
no que concerne ao controle do uso da autoridade. Se, porém, o strepitus processus puder causar prejuízo às partes,
desenvolve-se a causa em segredo de justiça (art. 155). Jamais, porém, o processo é secreto, ou seja, excluído do exame
das partes e seus advogados130.

Classificação
A classificação dos atos processuais pode ser feita pelo critério subjetivo, que considera o sujeito que os pratica, ou pelo
critério objetivo, que observa os fins colimados por cada ato. A melhor via é, certamente, utilizar ambas as classificações,
que, em verdade, se completam.

Em uma acepção subjetiva, os atos processuais se classificam em atos das partes e atos do órgão jurisdicional. Os atos
das partes são apresentados em quatro diferentes espécies: postulatórios, dispositivos, instrutórios e reais. Os atos do
órgão jurisdicional, a seu turno, podem ser divididos em atos do juiz e atos dos auxiliares da justiça. Convém, neste ponto,
analisar, pausadamente, cada uma das classificações, suas subdivisões e espécies de atos processuais.

Em virtude da inércia da jurisdição e do princípio do contraditório, as partes necessitam falar continuamente nos autos.
Quando declinam seus pleitos em juízo, praticam atos ditos postulatórios. Diante da diversidade de postulações trazidas
pelos litigantes, os atos postulatórios são subdivididos em requerimentos – relativos às questões processuais – e
pedidos - que cuidam mais propriamente do mérito da causa. Nessa linha, disserta MOACYR AMARAL SANTOS131 que
postulatórios são aqueles pelos quais as partes postulam pronunciamentos do juiz, sejam quanto ao processo, sejam
quanto ao mérito. São requerimentos, quando visam a pronunciamentos quanto ao processo; são petições, quando
solicitam pronunciamentos quanto ao mérito.

Também momentos há em que as partes fazem declarações com o objetivo de dispor da tutela jurisdicional, ou seja,
por meio de tais atos as partes abrem mão de algumas, ou todas, pretensões. São os atos ditos dispositivos. Assim
como os atos postulatórios, os dispositivos também aceitam dois desdobramentos, em atos unilaterais – quando
praticados por apenas uma das partes, como, por exemplo, a renúncia – e concordantes, que são os praticados por
ambas as partes, como é o caso da transação. Vale salientar que não se deve falar em atos bilaterais, eis que não
há vínculo direto entre as partes, o que ocorre é a junção de dois atos jurídicos, de duas declarações de vontade,
ambas no mesmo sentido132.

Ainda quanto aos atos dispositivos, duas observações se fazem necessárias. A primeira diz respeito à condutas omissivas,
como a revelia. A omissão não decorre necessariamente de um ato de vontade e, sendo assim, nem sempre pode ser
considerada um ato. A segunda observação a se fazer aponta para o fato de que, por vezes, não há possibilidade de
dispor do ato. É o caso, por exemplo, do Ministério Público. Em verdade, pode-se dizer que, quando há uma restrição à
Pós-Graduação a Distância

disponibilidade, ela se dá em razão da incapacidade de um sujeito ou em virtude da prevalência do interesse de ordem


pública.

Continuando a análise da classificação dos atos processuais, deve-se observar que, em regra, no propósito do
reconhecimento por parte do Estado-Juiz de suas pretensões, as partes necessitam angariar argumentos de convencimento

130 FILHO, Vicente Greco, Direito Processual Civil Brasileiro, 2º Volume, 16. ed., Editora Saraiva, p. 86.
131 SANTOS, Moacyr Amaral, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25. ed., Editora Saraiva, p. 291-292.
132 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil, vol. 1,42. ed. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2005, p. 219.

71
Atos Processuais Unidade VII

e apresentá-los em juízo. Isso se dá por meio dos atos instrutórios, que buscam preparar o processo para que o julgador
tenha possibilidade ampla de decidir de acordo com a verdade, em outras palavras, visam a convencer o juiz. Esta
definição, porquanto muito ampla, dá azo a duas subespécies: as alegações, que são as manifestações das partes, e os
atos probatórios, que dizem respeito à produção de provas realizadas pelas partes. Novamente é inexcedível a lição de
MOACYR AMARAL SANTOS133: Atos instrutórios são aqueles que se destinam a convencer o juiz da verdade. Apresentam-
se sob a forma de alegações e de atos probatórios. Por alegações se entendem as exposições, demonstrações dos fatos
a fim de relacioná-los ao Direito pleiteado. Atos probatórios consistem no oferecimento e produção de provas dos fatos.

Finalmente, têm-se os atos reais das partes, que não são atos de postulação propriamente, mas se caracterizam por
seu aspecto material. Em outras palavras, são condutas não verbais das partes. O pagamento de custas judiciais é um
exemplo clássico de ato real.

Os atos realizados pelo órgão jurisdicional subdividem-se em atos do juiz e atos dos auxiliares da justiça.

Os atos do juiz, sob um aspecto objetivo, recebem por subdivisão os provimentos e os atos reais. Os provimentos são,
propriamente, as manifestações do juiz no processo, ou seja, trazem o posicionamento do magistrado e se dividem na
clássica tipologia de sentenças, decisões interlocutórias e despachos (CPC, art. 162). Atos reais, ao seu turno, são os que
não trazem qualquer manifestação de entendimento do juiz e se dividem em instrutórios, como a oitiva de testemunhas,
e atos de documentação, como uma assinatura aposta em ata de audiência.

Os atos dos auxiliares da justiça dividem-se em atos de movimentação, atos de documentação, atos de execução e atos
de comunicação. Os primeiros têm por exemplos o termo de abertura de vista e o termo de conclusão ao juiz; os segundos
podem ser exemplificados com a certidão expedida e o termo de juntada; os atos de execução são aqueles que, em regra,
ficam a cargo do oficial de justiça, como a penhora; os atos de comunicação processual são os realizados com vistas a
informar às partes e os interessados sobre as ocorrências processuais, são as citações e intimações.

Além da classificação pelo critério subjetivo e sua combinação pelo critério objetivo, pode-se ainda considerar os atos
processuais segundo o critério da quantidade de atividades necessárias à sua realização. Neste prisma, há os atos
simples, que se exaurem em uma única atividade e são a maioria dos atos processuais, e os atos complexos, onde mais
de uma atividade se faz necessária para que se alcance o ato. Os principais atos complexos são a audiência e a sessão
de julgamento.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

133 SANTOS, Moacyr Amaral, Primeiras Linhas de Direito Processual Civil, Volume 1, 25ª ed., Editora Saraiva, p. 291-292.

72
Atos Processuais Unidade VII

Capítulo 19 – Lugar e Tempo dos Atos Processuais

Os atos processuais obedecem a parâmetros de tempo e lugar definidos em lei. O Código de Processo Civil regula, nos
artigos 172 a 175, as limitações e particularidades relativas ao tempo dos atos processuais. Nos artigos 176 e seguintes,
dispõe sobre o regramento dos atos processuais em relação ao lugar.

No que concerne ao tempo, duas espécies de normas emergem da sistemática processual vigente: aquelas que dizem
respeito ao momento próprio para a atividade processual e aquelas que informam o prazo para a realização do ato
processual.

Quanto ao primeiro aspecto salientado (momento próprio para a prática), os atos processuais sujeitam-se a limites de
horário (das 06 às 20 horas) e de dias (dias úteis), conforme a disciplina do art. 172 do CPC.

Entende-se por dias úteis aqueles em que há expediente forense, de modo que “durante as férias e nos feriados não se
praticarão atos processuais” (art. 173). O mesmo se diz dos sábados e domingos, que, conforme a maioria das Organizações
Judiciárias, não são dias úteis134. Vale remarcar, com ERNANE FIDÉLIS DOS SANTOS135, que o sábado é dia útil. Permitem,
às vezes, as Leis de Organização Judiciária, ou a própria praxe forense, com o fechamento do fórum, que nele não haja
expediente. Os atos internos não são, então, praticáveis, mas podem ser, com toda a validade, os externos.

Importa ressaltar que a própria lei traz algumas exceções quanto ao horário para a prática de atos processuais, como a
citação e a intimação, que podem ser realizadas, mediante autorização do juiz, em domingos e feriados ou nos dias úteis
fora do expediente forense (CPC, art. 172, § 2º). Preciso o escólio de VICENTE GRECO FILHO136: Para que se efetive
a citação ou a penhora nessas condições, é necessário que o autor peça expressamente e o juiz defira, de modo que é
comum, já na inicial, constar o pedido formal de que a citação se faça com os benefícios do § 2º do art. 172, sob pena
de o oficial de justiça somente poder fazer a citação do réu das 6 às 20 horas.

Cumpre fazer uma observação quanto ao horário para o protocolo de peças processuais. Mesmo trazendo o Código a
previsão de expediente forense até às 20 horas, o horário limite para o protocolo será aquele previsto na Lei de Organização
Judiciária do Estado para o fim do expediente, consoante estatui o art. 172, § 3º, do CPC. A propósito, decidiu o
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA137 que o art. 172, § 3º, do CPC, prevê a possibilidade de que Lei de Organização
Judiciária local adote diretrizes quanto ao horário de protocolo, que poderá não coincidir com aquele previsto no caput
do mencionado artigo (20:00h).

Porquanto não haja mais férias forenses nas instâncias ordinárias, por força da Emenda Constitucional nº. 45, permanecem
o recesso e os feriados, que são os dias não úteis, como os domingos e os dias de festa nacional ou, no âmbito da Justiça
Estadual, nos estados. Nesses períodos, os atos processuais somente são praticados em caráter excepcional, nos termos
do art. 173 do Código de Processo Civil. Oportuna, sobre a matéria, a exegese de ANTONIO DALL’AGNOL138, para quem
o disposto no art. 173, assim como em normas com ele relacionadas, não restaram ineficazes, em virtude da Emenda
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Constitucional no 45, senão que, isso sim, teve o seu âmbito de incidência reduzido: aplica-se àqueles processos que
tramitam nos tribunais superiores e, mesmo nos tribunais locais, quando configurado o denominado recesso.

134 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Editora Forense, p. 215.
135 SANTOS, Ernane Fidélis dos, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 9. ed., Editora Saraiva, p. 240.
136 FILHO, Vicente Greco, Direito Processual Civil Brasileiro, 2º Volume, 16. ed., Editora Saraiva, p. 18.
137 AgRg. no AI 939.695/SP, 4ª T., rel. Min. Fernando Gonçalves, DJU 18.02.2008, p. 39.
138 DALL’AGNOL, Antônio, Comentários ao Código de Processo Civil, Vol. 2, 2. ed., Editora RT, p. 309.

73
Atos Processuais Unidade VII

Os prazos são outro aspecto relativo ao tempo dos atos processuais. Como o processo é caracterizado como uma
série ordenada e contínua de atos processuais, os prazos são essenciais para que a atividade processual se desenvolva
regularmente.

O processo é um “caminhar para frente” e os prazos são o mecanismo utilizado pelo legislador para que os atos processuais
sejam adequada e racionalmente praticados. Via de regra, quanto a esse aspecto o processo é governado pelo princípio
da eventualidade, de acordo com o qual as fases e momentos superados dentro da dinâmica processual não podem ser
revisitados. Dá-se o nome de preclusão temporal ao fenômeno que implica na perda da oportunidade de praticar determinado
ato processual em função da inobservância do prazo estipulado para a sua realização. Com propriedade, anotam LUIZ
GUILHERME MARINONI e SÉRGIO CRUZ ARENHART139 que a lei processual concebe prazos a serem obedecidos, sob
pena de sanções (por exemplo, art. 183, caput, do CPC). Esgotado o prazo de que dispunha o sujeito para a prática de
determinado ato (tratando-se de prazo peremptório) ou superada a oportunidade adequada para tanto, extingue-se o
Direito de realizá-lo, ocorrendo, então, a preclusão temporal.

Levando em conta o fenômeno da preclusão, os atos processuais classificam-se em próprios e impróprios. Os primeiros,
atribuídos às partes, subordinam-se a termos preclusivos, isto é, não podem ser praticados uma vez desatendido o prazo
estabelecido legalmente, ao passo que os segundos, atribuídos ao juiz ou aos órgãos auxiliares da Justiça, não encontram
veto à realização mesmo na hipótese de que não observem o prazo previsto normativamente.

Os prazos podem, ainda, ser classificados, quanto a sua natureza, em dilatórios e peremptórios. Dilatório é o que, embora
fixado na lei, admite ampliação pelo juiz ou que, por convenção das partes, pode ser reduzido ou ampliado. Peremptório
é o que a convenção das partes e, ordinariamente, o próprio juiz, não podem alterar (art. 182).

Quando fixados diretamente em lei, os prazos são denominados legais; quando conferidos ao critério do juiz, os prazos
são chamados de judiciais; quando deixados ao arbítrio das próprias partes, os prazos são ditos convencionais.

Quanto ao lugar da prática dos atos, merece destaque, sem dúvida, o próprio edifício do fórum ou tribunal, mas o artigo
176 do Estatuto Processual elenca exceções, em virtude de deferência (como o depoimento de alta autoridade da
República), interesse da justiça (como a inspeção judicial in loco) ou em razão de algum obstáculo arguido pelo interessado
(por exemplo, uma testemunha enferma).

Ainda em relação ao lugar, deve-se ter em mente que, uma vez fora dos limites de competência
do juiz, é necessário que se utilizem as cartas (precatória ou rogatória) para a realização do ato,
apenas com a ressalva de que, se for possível citação via postal, não há essa limitação territorial
dentro do país (CPC, art. 222). HUMBERTO THEODORO JÚNIOR1 ensina, a respeito do tema,
que a jurisdição de cada juiz está limitada no território de sua circunscrição. Assim, quando o ato
Processo Civil – Processo de Conhecimento

processual tiver de ser praticado em território de outra circunscrição judiciária, como a citação de
réu domiciliado em outra comarca e a ouvida de testemunha também não domiciliada no território
do juízo da causa, ter-se-á de utilizar a carta precatória, para que o ato se realize sob a jurisdição
do órgão judiciário do local adequado.

1 JÚNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Editora Forense, p. 218.

139 MARINONI, Luiz Guilherme e ARENHART, Sérgio Cruz, Curso de Processo Civil, Volume 2, 7. ed., Editora RT, p. 639.

74
Atos Processuais Unidade VII

Capítulo 20 – Vícios dos Atos Processuais

Quando os atos processuais não são realizados dentro dos ditames


de lei, podem perder alguns ou todos os efeitos que deveriam
produzir.

De acordo com o grau dos vícios existentes, os atos processuais podem se manter sem nenhuma nulidade, originar sanções
extraprocessuais, causar nulidade propriamente dita ou, ainda, adentrar no terreno da inexistência jurídica.

Os atos processuais, quando são realizados em desacordo ou com violação dos seus requisitos de validade, adentram
no terreno dos vícios, cuja gradação pode comprometer, de uma forma mais ou menos abrangente, a sua permanência
dentro do contexto processual. Segundo consagrada classificação, os vícios podem ser assim elencados.

• Atos processuais inexistentes.

• Atos processuais absolutamente nulos.

• Atos processuais relativamente nulos.

• Atos processuais meramente irregulares.

Ato inexistente é o que não reúne os mínimos requisitos de fato para sua existência como ato jurídico, do qual
não apresenta nem mesmo a aparência exterior140. Exemplo: sentença proferida por um servidor que se passa por
magistrado.

Difícil é estabelecer a distinção entre nulidade absoluta e nulidade relativa. O que se percebe é que a nulidade absoluta é
estabelecida em razão do exclusivo interesse público. A distribuição da competência em razão da matéria e das pessoas
(competência absoluta), por exemplo, leva em conta apenas interesse da jurisdição e não eventual comodidade dos litigantes,
como ocorre com a competência territorial. O mesmo ocorre com determinados princípios, como a imparcialidade do juiz
(impedimento) e o contraditório, cuja infringência a lei não tolera. Na nulidade relativa, além do interesse público, verifica-
se que o objetivo maior do disciplinamento é tutelar interesse privado. A publicação dos atos processuais pela imprensa
deve conter, dentre outros dados, o nome do advogado. A norma visa, sobretudo, a assegurar o real conhecimento do
ato pela parte ou seu advogado. Se a despeito de eventual vício, o advogado toma conhecimento da intimação e pratica
o ato que lhe competia, a nulidade fica sanada. 141

Ato meramente irregular é aquele que não transgride preceito legal imperativo ou que se afasta dos moldes legais em
aspecto secundário incapaz de comprometer a existência ou a validade do ato. Uso de abreviaturas nos termos processuais
Pós-Graduação a Distância

e termos lavrados em tinta clara são exemplos de irregularidades que não acarretam qualquer consequência ao ato. A
demora demasiada do juiz em realizar o ato é um exemplo de irregularidade que não induz, dentro do processo, qualquer
consequência, mas apenas extraprocessualmente. Nessas hipóteses os atos processuais não sofrem qualquer espécie
de restrição quanto à eficácia.

O Código de Processo Civil orienta-se por alguns princípios no que toca à teoria das nulidades dos atos processuais. É
certo, como ensina HUMBERTO THEODORO JÚNIOR, que o traço que mais distingue a nulidade absoluta da relativa,
140 JÚNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 44. ed., Editora Forense, p. 314.
141 DONIZETTI, Elpídio, Curso Didático de Direito Processual Civil, 9. ed., Editora Lúmen Júris Editora, p. 173-174.

75
Atos Processuais Unidade VII

em matéria de Processo Civil, é o da iniciativa: a nulidade absoluta é decretável de ofício pelo juiz, enquanto a relativa
depende de provocação da parte prejudicada. Aquela, inspira-se no interesse público, e esta, no privado. Por isso, a
parte que não argúi a nulidade relativa sana tacitamente o vício (art. 245). Quando o defeito atinge uma condição ou
pressuposto da própria jurisdição, e o juiz tem o dever de decretar de ofício a nulidade, o silêncio da parte prejudicada
não a sana (art. 245, parágrafo único). Em síntese, pode-se dizer que as nulidades relativas ocorrem quando se violam
faculdades processuais da parte (cerceamento do Direito ao contraditório e ampla defesa), e as absolutas quando se
ofendem regras disciplinadoras dos pressupostos processuais e condições da ação.142

A análise do regramento legal sobre a matéria descortina que a legislação processual adotou quatro princípios para orientar
o intérprete na identificação e decretação das nulidades: 1) princípio da causalidade; 2) princípio da instrumentalidade
das formas; 3) princípio do interesse; e 4) princípio da economia processual.

Reza o art. 248 do CPC que, “anulado o ato, reputam-se de nenhum efeito todos os subsequentes, que dele dependam;
todavia, a nulidade de uma parte do ato não prejudicará as outras, que dela sejam independentes.” Por conseguinte, se
o ato desconstituído insere-se num encadeamento processual, os que dele dependem são igualmente desconstituídos.
Como bem ilustra ERNANE FIDÉLIS DOS SANTOS143, declarada nula a citação ou o processo por falta dela, todos os
atos posteriores estão automaticamente contaminados. Isto não impede, porém, que a parte, ao comparecer, ratifique o
que foi praticado, dispensando repetição de atos, como depoimento de testemunhas, exames periciais etc.

Não se deve olvidar que a própria lei ressalva a possibilidade de preservação dos atos posteriores tidos por independentes.
Em decisão ilustrativa sobre o tema, assentou o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA144 que aplica-se à decretação
da nulidade o princípio da interdependência dos atos processuais, não sendo considerados nulos os atos processuais
posteriores que dela não dependam.

Sob a luz da instrumentalidade, o ato processual que, mesmo ofendendo algum mandamento formal, tenha alcançado
o seu objetivo, não deve ser desconstituído. Trata-se do consagrado brocado que afirma não existir nulidade quando
não há prejuízo (pas de nullité sans grief). Em síntese inexcedível JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS BEDAQUE145 mostra
que para correta compreensão do sistema das nulidades é preciso considerar a premissa maior adotada pelo Código de
Processo Civil brasileiro: os vícios processuais, independentemente da sua natureza, devem ser sempre relevados se não
comprometido o objetivo pretendido com a determinação da forma – e, consequentemente, se da violação ao modelo
legal não resultar prejuízo.

No âmbito das nulidades processuais, o princípio da instrumentalidade das formas talvez seja o mais expressivo referencial
para o correto entendimento do sistema de nulidades e da finalidade da forma dentro do contexto processual. Isso porque
a forma no Direito Processual Civil – como, de resto, em todos os ramos do chamado “Direito público” – não é, por si só,
decisiva. Só há defeito no ato processual na medida em que a não observância da forma puder acarretar algum prejuízo
no atingimento das finalidades do ato concretamente praticado ou prestes a sê-lo.146 A propósito, decidiu o SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL147: Nulidades processuais: ausência de prejuízo: pas de nullité sans grief. É da jurisprudência do
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Supremo Tribunal Federal que não se adstringe ao das nulidades relativas o domínio do princípio fundamental da disciplina
das nulidades processuais – o velho pas de nullité sans grief, corolário da natureza instrumental do processo, donde –
sempre que possível – ser exigida a prova do prejuízo, ainda que se trate de nulidade absoluta (HHCC 81.510, Pertence,
1ª T., DJ 12.4.02; HC 74.671, Velloso, 2ª T., DJ 11.4.97). Dessa orientação não destoa a jurisprudência do SUPERIOR
TRIBUNAL DE JUSTIÇA148: Em observância aos princípios da instrumentalidade das formas e da economia processual,
que caracterizam o Processo Civil moderno, não se deve declarar nulidade processual que a lei não haja expressamente

142 JÚNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 44ª ed., Editora Forense, p. 316.
143 SANTOS, Ernane Fidélis dos, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 9ª ed., Editora Saraiva, p. 206.
144 REsp. 229.981/PR, 3ª T., rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, DJU 25.02.2004, p. 167.
145 BEDAQUE, José Roberto dos Santos, Efetividade do Processo e Técnica Processual, 2ª ed., Malheiros Editores, p. 436.
146 BUENO, Cássio Scarpinella, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Saraiva, 2007, p. 437.
147 AGRG. no AI 559.632-9/MG, rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJU 03.02.2006, p. 22.
148 AgRg. no REsp. 330.878/AL, rel. Min. Castro Filho, 3ª T., DJU 30.06.2003, p. 237.

76
Atos Processuais Unidade VII

cominado, quando a parte que a argúi não demonstre a ocorrência de qualquer prejuízo processual, em concreto – pas
de nullité sans grief – sob pena de, por rigorismo processual, entravar desnecessariamente o prosseguimento do feito e
impedir a célere composição do litígio.

Sob o prisma do interesse, nega-se à parte que tenha dado causa à nulidade o Direito de pleitear a anulação do ato (CPC,
art. 243), salvo em se tratando de nulidade absoluta e incorrigível. Decretar a nulidade em favor de quem lhe de causa
seria beneficiar o infrator. Todavia, aqui também a regra não se aplica no caso de nulidade absoluta, que o juiz deve
decretar de ofício, independente de requerimento da parte, e na qual não se indaga de benefício ou prejuízo da parte e
sim do interesse público149.

Apenas para que se complete a análise dos vícios dos atos processuais, importante tecer breves considerações sobre
a possibilidade de revalidação dos atos praticados irregularmente. Por vezes, a imperfeição não é tão grave que, por si,
ocasione a nulidade do ato.

Quando a nulidade é relativa, o silêncio das partes interessadas na primeira oportunidade que puderem falar nos autos
ocasiona a preclusão e, assim, a consequente convalidação do ato, apenas com a ressalva do parágrafo único do artigo
245 do Código de Processo Civil, que não permite a preclusão quando o silêncio se deu em face de justo motivo. Consoante
decidiu o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA150, nos termos do art. 245 do CPC, eventuais nulidades devem ser invocadas
na primeira oportunidade em que couber à parte falar nos autos, sob pena de preclusão.

É essencial não perder de vista, com ARRUDA ALVIM151, que a parte interessada na decretação da nulidade dos atos
deverá alegá-la na primeira oportunidade em que lhe couber falar nos autos, sob pena de preclusão (casos de nulidade
relativa). Não se tratando, pois, de nulidade absoluta, e não tendo sido alegada pelos interessados, quando estes tiveram
oportunidade de fazê-lo, não é de se reconhecer a nulidade invocada. Todavia, tratando-se de nulidade sobre a qual o juiz
deve manifestar-se de ofício, não prevalece tal preclusão (art. 245 e parágrafo único).

Em se cuidando, de outro lado, de nulidade absoluta, pode ser arguida em qualquer fase do processo, podendo também
ser reconhecida de ofício pelo juiz (art. 245, parágrafo único). Em alguns casos, em razão da falta de prejuízo ou porque
a decisão de mérito pode ser favorável à parte interessada, não se decreta a nulidade, nem mesmo a absoluta, na lição
de ELPÍDIO DONIZETTI152.

É de se acrescentar que na, maioria das vezes, após a sentença de mérito passar em julgado, não há mais sentido para
se decretar a nulidade do ato. Conforme assinala HUMBERTO THEODORO JÚNIOR153, uma característica especial das
nulidades processuais é a sanação de todas elas pela preclusão máxima operada por meio da coisa julgada. Mesmo as
nulidades absolutas não conseguem ultrapassar a barreira da res iudicata, que purga o processo de todo e qualquer vício
formal eventualmente ocorrido em algum ato praticado irregularmente em seu curso.

Todavia, alguns vícios foram considerados tão graves pelo legislador que, mesmo após o trânsito em julgado, é necessário
que se declare a anulação. Para esse último grupo de vícios, tem-se a via da ação rescisória, mas, após o término do prazo
para a sua propositura, também esses atos mais graves se convalidam sob o manto da coisa “soberanamente” julgada.
Pós-Graduação a Distância

149 FILHO, Vicente Greco, Direito Processual Civil Brasileiro, 2º Volume, 16. ed., Editora Saraiva, p. 45.
150 AgRg. no AI 448.699/SP, 1ª T., rela. Mina. Denise Arruda, DJU 20.06.2005, p. 124.
151 ALVIM, Arruda, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 11. ed., Editora RT, p. 475.
152 DONIZETTI, Elpídio, Curso Didático de Direito Processual Civil, 9. ed., Editora Lúmen Júris Editora, p. 174.
153 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Editora Forense, p. 261.

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Atos Processuais Unidade VII

Capítulo 21 – Preclusão Processual

Luiz Machado Guimarães, na obra Estudos de Direito Processual154, define preclusão como a perda de uma situação
jurídica ativa processual, seja um poder da parte ou do juiz. O instituto da preclusão se fundamenta na segurança jurídica
e na busca do bom desenvolvimento do processo, evitando abusos dos poderes processuais e reexame de questões já
discutidas e decididas nas causas.

A preclusão fundamenta-se no princípio da eventualidade, segundo o qual, sendo o processo uma série ordenada e
contínua de atos, não pode retroceder para fases ou etapas já percorridas. Sem a preclusão, o processo jamais chegaria
à meta final de proporcionar a solução do litígio mediante a entrega da prestação jurisdicional. É a preclusão, nessa
linha, a perda da oportunidade de praticar determinado ato processual e de, assim, volver a uma situação processual
anterior.

Instituto que preserva a dinâmica do processo, impedindo a volta a estágios ultrapassados, a preclusão incide sobre
Direitos processuais, pois a prescrição e a decadência têm como objeto os Direitos substanciais.

Em classificação clássica, Giuseppe Chiovenda aponta três espécies de preclusão, de acordo com o fato gerador de
sua ocorrência: temporal, lógica e consumativa.

A preclusão temporal é relativa à impossibilidade da prática de algum ato processual em virtude do transcurso do
lapso de tempo que a lei reservava para a sua prática155. A lei processual concebe prazos a serem obedecidos, sob
pena de sanções (por exemplo, art. 183, caput, do CPC). Esgotado o prazo de que dispunha o sujeito para a prática
de determinado ato (tratando-se de prazo peremptório) ou superada a oportunidade adequada para tanto, extingue-se
o Direito de realizá-lo, ocorrendo, então, a preclusão temporal. O transcurso do prazo para a prática do ato conduz
a preclusão do Direito, salvo a exceção da ocorrência da justa causa prevista no parágrafo primeiro do art. 183, do
CPC, que exige a coexistência de evento imprevisto, alheio à vontade da parte e que a tenha impedido de praticar o
ato por si ou por mandatário156.

Cumpre não olvidar que no sistema legal vigente, há prazos não apenas para as partes, mas também para os juízes e
seus auxiliares. O efeito da preclusão, todavia, só atinge as faculdades processuais das partes e intervenientes. Daí a
denominação de prazos próprios para os fixados às partes, e de prazos impróprios aos dos órgãos judiciários, já que da
inobservância destes não decorre consequência ou efeito natural157.

Ocorre a preclusão lógica quando, após a prática de um determinado ato, perde-se o poder de praticar outro, incompatível
com o primeiro. Evita-se, aqui, a atitude contraditória. Na esteira do pensamento de OVÍDIO A. BAPTISTA DA SILVA158,
Processo Civil – Processo de Conhecimento

preclusão lógica diz-se a impossibilidade em que se encontra a parte de praticar determinado ato ou postular certa
providência judicial em razão da incompatibilidade existente entre aquilo que agora a parte pretende e sua própria conduta
processual anterior159. Por exemplo, o réu condenado pela sentença comparece a cartório e paga o valor da condenação;
depois de praticar este ato, estando ainda a fluir o prazo para recurso, volta a cartório para apelar da mesma sentença.
A aceitação da sentença, expressa pela conduta da parte de comparecer espontaneamente ao cartório e cumprir a
condenação, importa em ter-se por preclusa a oportunidade para o recurso (art. 503 do CPC).

154 GUIMARÃES, Luiz Machado. Estudos de Direito Processual. Rio de Janeiro/São Paulo: Jurídica Universitária, 1969, p. 09, apud, DIDIER JÚNIOR, Fredie, Curso de Direito
Processual Civil. Volume 1. 7. ed. Salvador: Ed. JusPODIVM, 2007, p. 248
155 BUENO, Cássio Scarpinella, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, Volume 1, Editora Saraiva, 2007, p. 435.
156 MARINONI, Luiz Guilherme e ARENHART, Sérgio Cruz, Curso de Processo Civil, Volume 2, 7ª ed., Editora RT, p. 639.
157 STJ, AgRg. no REsp. 533.852/RJ, 3ª T., rela. Mina. Nancy Andrighi, DJU 05.09.2005, p. 398
158 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39. ed., Editora Forense, p. 219.
159 SILVA, Ovídio A. Baptista da, Curso de Processo Civil, Vol. 1, 6. ed., Editora RT, p. 209..

78
Atos Processuais Unidade VII

Calha sublinhar que a preclusão lógica guarda grande ligação com a vedação ao venire contra factum proprium, regra
que proíbe o comportamento contraditório da parte dentro da relação processual.

A preclusão consumativa origina-se do fato de ter praticado o ato, não importa se bem ou mal. Uma vez praticado,
não será possível realizá-lo novamente160. Na lúcida colocação de ARAKEN DE ASSIS161, a prática de qualquer ato
processual produz “imediatamente a constituição, a modificação ou a extinção de Direitos processuais” (art. 158). É
o fenômeno da preclusão consumativa, segundo a qual, “realizado o ato, não será possível pretender tornar a praticá-
lo, ou acrescentar-lhe elementos que ficaram de fora e nele deveriam ter sido incluídos, ou retirar os que, inseridos,
não deveriam tê-lo sido”.

A preclusão consumativa encontra respaldo em vários dispositivos do Código de Processo Civil, sendo de se destacar o
contido no art. 473: “É defeso à parte discutir, no curso do processo, as questões já decididas, a cujo respeito se operou
a preclusão.” Na leitura de DANIEL AMORIM ASSUMPÇÃO NEVES162, a preclusão consumativa se verifica sempre que
realizado o ato processual. Dessa forma, somente haverá oportunidade para realização do ato uma vez no processo e,
sendo esse consumado, não poderá o interessado realizá-lo novamente. Ainda que o réu tenha no procedimento ordinário
um prazo de quinze dias para responder à inicial, se apresentar contestação no quinto dia, não poderá nos dez dias
subsequentes voltar a apresentar argumentos defensivos, tendo em vista a preclusão consumativa.

Hipóteses emblemáticas de preclusão consumativa são aquelas verificadas quando a parte apresenta contestação ou
interpõe recurso e, depois, peticiona no sentido de aditar esses atos processuais: será impedida pela preclusão consumativa.
Consoante preleciona ARRUDA ALVIM163, apresentada a contestação, ter-se-á preclusão consumativa, obstando que a
mesma seja alterada (art. 303 com as exceções dos incisos I/III), salvo a hipótese de modificação do libelo (art. 264),
a qual, se admitida, haverá de ensejar, nessa medida, nova resposta e, pois, nova contestação referente ao âmbito do
que tenha sido modificado. No âmbito recursal, LEONARDO JOSÉ CARNEIRO DA CUNHA164 diz que uma vez exercido o
ato processual validamente, não se permite mais que a parte o faça novamente, nem possa complementar ou aditar tal
ato. Estará, na realidade, consumada a prática do ato, operando-se a chamada preclusão consumativa. Tome-se como
exemplo a interposição de apelação contra uma sentença proferida pelo juiz. Tal recurso há de ser intentado no prazo
de 15 (quinze) dias. Imagine-se que a parte ajuíze o apelo no 5º (quinto) dia do prazo. Ainda sobejando mais 10 (dez)
dias, não é facultado à parte aditar ou complementar o recurso no prazo restante, eis que consumada a prática do ato,
operando-se a preclusão consumativa.

Muito embora a preclusão em regra produza efeitos em relação às partes, não se pode ignorar o disposto no art. 463
do CPC, segundo o qual, “publicada a sentença, o juiz só poderá alterá-la para Ihe corrigir, de ofício ou a requerimento
da parte, inexatidões materiais, ou Ihe retificar erros de cálculo” ou “por meio de embargos de declaração”. Preciso o
apontamento de LUIZ RODRIGUES WAMBIER, TERESA ARRUDA ALVIM WAMBIER e JOSÉ MIGUEL GARCIA MEDINA165
no sentido de que o art. 463 do CPC dispõe no sentido de que o juiz pode alterar a sentença, de ofício ou a requerimento
da parte, para corrigir-lhe inexatidões materiais ou erros de cálculo. Se pode fazê-lo de ofício com relação às sentenças,
evidentemente poderá fazê-lo também no que concerne a uma decisão interlocutória relativa à inadmissibilidade do recurso
e, a fortiori, tendo havido provocação da parte (embargos declaratórios). Se o erro é material (tenha-se presente que o
erro de cálculo é uma espécie de erro material), os embargos de declaração são dispensáveis, embora, obviamente, não
tenham o condão de prejudicar a parte, se interpostos.

É de se frisar, outrossim, que questões de ordem pública, por interessarem diretamente à jurisdição, não são
Pós-Graduação a Distância

sepultadas pela preclusão, como pode se extrair da inteligência dos arts. 267, § 3º e 301, § 4º, do CPC. Por via de
160 DONIZETTI, Elpídio, Curso Didático de Direito Processual Civil, 9. ed., Editora Lúmen Júris Editora, p. 167.
161 ASSIS, Araken de, Manual dos Recursos, Editora RT, 2007, p. 100.
162 NEVES, Daniel Amorim Assumpção, Breves apontamentos sobre o instituto da preclusão, in Leituras Complementares de Processo Civil, 5. ed., Editora Podivm, p. 316.
163 ALVIM, Arruda, Manual de Direito Processual Civil, Volume 2, 11. ed., Editora RT, p. 306.
164 CUNHA, Leonardo José Carneiro da, Termo inicial do prazo para ajuizamento da ação rescisória, capítulos de sentença e recurso parcial, in Leituras Complementares de
Processo Civil, 5. ed., Editora Podivm, p. 106.
165 WAMBIER, Luiz Rodrigues, WAMBIER, Teresa Arruda Alvim, e MEDINA, José Miguel Garcia, Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil. Volume 2, Editora
RT, 2006, p. 82-83.

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Atos Processuais Unidade VII

consequência, podem ser conhecidas de ofício pelo juiz e alegadas pelas partes a qualquer tempo. ERNANE FIDÉLIS
DOS SANTOS166 aborda a questão afirmando que, por ser matéria de ordem pública, que interessa à jurisdição, não
fica o julgamento sobre pressupostos processuais e condições da ação sujeito a efeitos preclusivos. E mesmo que o
juiz, no curso do processo, tenha entendido que presentes estão as condições da ação e os pressupostos processuais
positivos, ausentes os de ordem negativa, com recurso ou sem recurso da parte, pode, antes da sentença, ou do
acórdão, reapreciar a matéria. É o que decidiu o SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA167: Nas instâncias ordinárias,
não há preclusão em matéria de condições da ação e pressupostos processuais, enquanto a causa estiver em curso,
ainda que haja expressa decisão a respeito, podendo o Judiciário apreciá-la mesmo de ofício (arts. 267, § 3º e 301,
§ 4º, CPC). Noutra oportunidade, reafirmou a mesma Corte Superior168: O STJ, ao interpretar a regra do art. 267,
§ 3º, do Código de Processo Civil, pacificou o entendimento de que, tratando-se de Direito público, as condições da
ação não são atingidas pela preclusão, de modo que as matérias não apreciadas na sentença de mérito devem, de
ofício, ser apreciadas pelo Tribunal em grau de recurso.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

166 SANTOS, Ernane Fidélis dos, Manual de Direito Processual Civil, Volume 1, 9ª ed., Editora Saraiva, p. 539-540.
167 REsp. 285.402/RS, 4ª T., rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 07.05.2001, p. 150.
168 REsp. 175.664/SP, 2ª T., rel. Min. João Otávio de Noronha, DJU 09.05.2005, p. 321.

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Teoria da Cognição Processual
Unidade VIII
Unidade VIII

Teoria da Cognição Processual

Capítulo 22 – Cognição Processual

Conceituação
Cognição é o substrato do processo de conhecimento, cujo desiderato é justamente declarar a existência ou inexistência
do Direito pugnado pelo demandante na petição inicial. Nos dizeres de ALEXANDRE FREITAS CÂMARA169, cognição é a
técnica utilizada pelo juiz para, por meio de consideração, análise e valoração das alegações e provas produzidas pelas
partes, formar juízos de valor acerca das questões suscitadas no processo, a fim de decidi-las. Trata-se de atividade
comum a todas as categorias de processo, embora se revele predominante no processo cognitivo.

Para bem entender a teoria da cognição é necessário que se defina o que vem a ser “questão”. Em Direito Processual é
possível dar à palavra questão, ao menos, duas interpretações: a primeira, adotada pela maioria da doutrina e pelo artigo
458, II, do CPC, define questão como qualquer ponto controvertido, de fato ou de Direito, que dependa de pronunciamento
do magistrado; a questão não seria propriamente o objeto de julgamento, mas seria necessário resolvê-la previamente
para que este último fosse apreciado. A segunda acepção da palavra questão seria a de que ela deve ser entendida como
o próprio thema decidendum, correspondendo ao pedido que constitui o mérito da causa. Segundo Fredie Didier Jr.170,
este é o sentido dado à palavra questão pelo artigo 458, III, do CPC.

Nessa ótica, pode-se dizer que há duas espécies de questões processuais: as que são postas como fundamento para
a solução de outras e as que são objeto de decisão judicial propriamente dita. As primeiras serão resolvidas incidenter
tantum e sobre elas não recai o manto da coisa julgada, à luz do disposto no art. 469 do CPC. Nas palavras de ANTÔNIO
ALBERTO ALVES BARBOSA171, só o dispositivo ou conclusão adquire força de coisa julgada. Ou melhor, tem autoridade
de coisa julgada o que o juiz decidiu, estendendo-se essa autoridade a todas as questões que tenham sido abordadas
como premissa necessária da conclusão. As segundas, por outro lado, são postas principaliter tantum e consubstanciam
a própria tutela 172jurisdicional, sendo então protegidas pela coisa julgada, nos termos do art. 468 do CPC. Segundo
HUMBERTO THEODORO JUNIOR, uma vez que não se pode compor a lide sem julgar a causa petendi, é claro que a
autoridade da coisa julgada tem necessariamente de alcançá-la. É nesse sentido que o art. 468 do CPC afirma a força de
lei da sentença, nos limites da lide e das questões decididas. Essas questões não se confundem com os simples motivos
Pós-Graduação a Distância

que não fazem coisa julgada, segundo o art. 469, I, do CPC. É preciso fazer a distinção entre a causa petendi, pressuposto
lógido da solução da lide, e o motivo, que como simples fato eventual serviu de prova ou argumento para o julgamento
do pedido nesse ou naquele sentido.

169 CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de Direito Processual Civil, Volume 1, 14ª ed., Lumen Juris Editora, p. 273.
170 DIDIER JÚNIOR, Fredie, Curso de Direito Processual Civil. Volume 1. 7ª edição. Salvador: Ed. JusPODIVM, 2007, p. 262.
171 BARBOSA, Antônio Alberto Alves, Da Preclusão Processual Civil, 2ª ed., Editora RT, p. 165.
172 JUNIOR, Humberto Theodoro, Série Grandes Pareceristas, Vol. 2, Editora América Jurídica, p. 11.

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Teoria da Cognição Processual Unidade VIII

Conquanto não haja consenso doutrinário sobre o assunto, a estrutura do Processo Civil revela que o objeto da cognição
é formado por três conjuntos de matérias: pressupostos processuais, condições da ação e mérito da causa. A propósito,
com ALEXANDRE FREITAS CÂMARA173, em vez de falarmos em pressupostos processuais, condições da ação e mérito
da causa como componentes do objeto da cognição, parece-nos mais acertado falar-se que os componentes de tal
trinômio são questões preliminares, questões prejudiciais e mérito da causa (objeto do processo). Sem dúvida, cabe ao
juiz, em primeiro plano, avaliar se o processo, instrumento pelo qual a prestação jurisdicional é veiculada, atende aos
requisitos de constituição e desenvolvimento exigidos pela lei. Sem a existência regular do processo não se pode cogitar
da continuidade da cognição do juiz para as demais questões (condições da ação e mérito). Num segundo momento, deve
o juiz verificar se o autor da ação preenche as denominadas condições da ação (legitimidade para a causa, interesse de
agir e possibilidade jurídica do pedido). Vale dizer, uma vez concluindo pela constituição válida do processo, o juiz avança
na cognição das condições sem as quais não é franqueado ao autor da demanda o julgamento do pedido formulado na
petição inicial. Por fim, uma vez detectando a regularidade formal do processo, o juiz aprecia ao termo do procedimento
o pedido que o autor inseriu na petição inicial, ou seja, resolve o mérito da causa.

Pois bem. Os pressupostos processuais e as condições da ação, por estarem relacionados a aspectos formais do processo,
inserem-se nas chamadas “questões preliminares” que se encontram arroladas no art. 310 do CPC. São em regra resolvidas
incidenter tantum exatamente porque se colocam como requisitos indispensáveis ao exame do mérito da demanda. Nesse
sentido, salienta HUMBERTO THEODORO JUNIOR174 que na sistemática do Código atual, não pode mais o juiz relegar
questões formais ou preliminares, como os pressupostos processuais e as condições da ação, para exame na sentença
final. Incumbe-lhe decidi-las no “julgamento conforme o estado do processo”, de sorte que o despacho saneador, previsto
no art. 331, § 2º, é tão-somente uma eventual declaração de regularidade do processo.

As questões preliminares, que englobam os pressupostos processuais e as condições da ação, antecedem as questões
de mérito, isto é, aquelas que compreendem o objeto da causa, o mérito da causa. Ao analisar, na sentença, o pedido ou
os pedidos formulados pelo autor na petição inicial, o juiz resolve as questões de mérito.

Num plano intermediário, situam-se as questões prejudiciais, que também devem anteceder a apreciação das questões
de mérito, embora via de regra sejam analisadas na própria sentença (CPC, art. 458, II). A prejudicial é uma questão
prévia ao mérito e cuja solução terá forte influência na resolução do objeto do processo. Exemplo tradicional é o que se
tem na “ação de alimentos”, em que o autor alega ser filho do réu, e este contesta a pretensão do demandante, negando
a filiação. Antes de julgar a pretensão do autor, como facilmente se deduz, caberá ao juiz verificar se ele é ou não filho
do réu. Esta questão não integra o objeto do processo, sendo a ele anterior (questão prévia, portanto). Salta aos olhos,
porém, que a solução que se dê à prejudicial influirá no julgamento da pretensão.175
Processo Civil – Processo de Conhecimento

173 CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de Direito Processual Civil, Volume 1, 14ª ed., Lumen Juris Editora, p. 274.
174 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 44ª ed., Editora Forense, p. 452.
175 CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de Direito Processual Civil, Volume 1, 14ª ed., Lumen Juris Editora, p. 276.

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Teoria da Cognição Processual Unidade VIII

Capítulo 23 – Espécies

De acordo com autorizada doutrina, a cognição pode ser vislumbrada sob dois prismas: horizontal e vertical.

No plano horizontal, em que se verifica a amplitude da cognição judicial, o que se busca é saber qual a extensão com que
são analisados os elementos componentes do objeto da cognição. Fala-se, assim, em cognição plena (quando todos os
componentes do trinômio são apreciados) e limitada (quando ocorre alguma restrição na amplitude da cognição). A primeira
espécie é a mais frequente no processo de conhecimento, já que o princípio da economia processual impõe se busque
um processo capaz de assegurar o máximo de vantagem com o mínimo de dispêndio. Assim, na maioria dos processos
cognitivos o objeto da cognição é inteiramente analisado pelo juízo, com o que se garante que a sentença resolverá a
questão submetida ao crivo do judiciário da forma mais completa possível.176

De fato, o processo de conhecimento, por ser o mais amplo e aberto, comporta a alegação e o conhecimento de todas
as questões relevantes para o julgamento da causa. No processo de conhecimento a cognição é a mais plena possível,
não se verificando, em princípio, qualquer restrição à iniciativa das partes em submeter ao juiz questões preliminares,
prejudiciais ou de mérito. Em alguns processos ou procedimentos especiais, no entanto, não são raras as vezes em que a
própria lei estabelece limitações ao poder de alegação e ao poder de julgamento. Nas ações possessórias, por exemplo, a
alegação de domínio (exceptio proprietatis) é absolutamente irrelevante para o deslinde da causa, a teor do que dispõem
os arts. 1.210, § 2º do Código Civil e 923 do Código de Processo Civil. Logo, subtrai-se do juiz a faculdade de considerar
a questão dominial para o fim de julgamento do mérito da demanda.

No plano vertical, de outra borda, o que vem à baila é a profundidade da análise das questões a serem apreciadas pelo
juiz. Nesse prisma, a cognição pode ser exauriente, sumária e superficial.

A cognição exauriente, segundo preleciona ALEXANDRE FREITAS CÂMARA177, permite a prolação de uma decisão baseada
em juízo de certeza, o que justifica a formação da coisa julgada, manto que reveste de imutabilidade e indiscutibilidade
o conteúdo desta decisão. Em outros termos, a cognição exauriente permite a resolução definitiva da questão trazida
ao crivo do judiciário, impedindo, assim, o surgimento de processo posterior que tenha o mesmo objeto. As principais
características da cognição exauriente são a existência de um contraditório antecedente ao provimento jurisdicional
(eis que o juiz só poderá formar o juízo de certeza após ouvir as razões de ambas as partes), o qual deverá se realizar
nos termos predeterminados por lei, e na possibilidade de o provimento assim proferido ser alcançado pela imutabilidade
e indiscutibilidade da coisa julgada substancial. A cognição exauriente, como facilmente se verifica, é frequente nos
processos de conhecimento, uma vez que a finalidade essencial destes é, precisamente, a obtenção de certeza jurídica
quanto à existência ou inexistência do Direito substancial afirmado pelo demandante.

A cognição sumária, ao contrário da cognição exauriente, satisfaz-se com um juízo de probabilidade. Para emitir sua
decisão no plano da cognição sumária, o juiz não necessita estar convencido da certeza do Direito afirmado, bastando
a sua mera probabilidade. É o que se verifica, por exemplo, no terreno da tutela antecipada (CPC, art. 273). Na lição de
TEORI ALBINO ZAVASCKI178, se a cognição exauriente se presta à busca de juízos de certeza, de convicção, porque o
Pós-Graduação a Distância

valor por ela privilegiado é o da segurança jurídica, a cognição sumária, própria da tutela provisória, dá ensejo a juízos de
probabilidade, de verossimilhança, de aparência, de fumus boni iuris, mais apropriados à salvaguarda da presta necessária
a garantir a efetividade da tutela. No entanto, em situações excepcionais, ditadas por inarredável urgência, pode ocorrer
que a tutela seja, de fato, definitiva, inobstante formada à base de cognição sumária.

176 CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de Direito Processual Civil, Volume 1, 14ª ed., Lumen Juris Editora, p. 278-279.
177 CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de Direito Processual Civil, Volume 1, 14ª ed., Lumen Juris Editora, p. 279-280.
178 ZAVASCKI, Teori Albino, Antecipação da Tutela, 5ª ed., Editora Saraiva, p. 33.

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Teoria da Cognição Processual Unidade VIII

A cognição sumária é informada pela economia processual e sobretudo pelo princípio da efetividade, na medida em que
proporciona a blindagem do Direito da parte antes mesmo de percorrido integralmente o contraditório e a ampla defesa.
Cai a lanço ressaltar que, em nível constitucional, o Direito Processual Civil gravita sob os princípios da segurança
jurídica e da efetividade. O primeiro, ancorado nos princípios da ampla defesa e do contraditório em toda a sua extensão;
o segundo, calcado na ideia de que o processo deve proporcionar resposta eficaz ao Direito subjetivo. Da tensão e da
concordância entre esses princípios, nasce o instituto da tutela antecipada, que outorga prevalência, à luz de rígidos
pressupostos, ao princípio da efetividade, contra o qual conspira incessantemente o tempo. E o tempo não conspira
contra a eficácia normativa da sentença, de cunho eminentemente jurídico; conspira, em realidade, contra a eficácia da
sentença no plano dos fatos, da sua repercussão social. O instituto da tutela antecipada tem o intuito basilar de proteger
a eficácia social da sentença, isto é, os consectários que ela pode produzir concretamente e que, se não precipitados
temporalmente, provavelmente perder-se-ão ante a ação fatal do tempo. FERNANDO CÉSAR ZENI179, sobre o tema, anota
que antecipando os efeitos da sentença, afastou-se o problema da inefetividade jurisdicional. Seu escopo é a de tornar
a prestação jurisdicional efetiva, sem, contudo, compatibilizá-la com o sentido de acautelamento. A necessidade dessa
efetividade é a contrapartida que o Estado tem que dar à proibição da autotutela.

A última modalidade de cognição quanto à profundidade é a chamada cognição superficial. Ela é ainda mais rarefeita do
que aquela traduzida na cognição sumária. A cognição superficial é típica das decisões liminares em processo cautelar
(mas não em todas as liminares, visto que algumas são deferidas com base em cognição sumária, como no caso do
mandado de segurança). Pode-se, pois, afirmar que a decisão liminar será deferida com base numa cognição que, no plano
vertical, encontra um “degrau” acima daquela exigida para o provimento final do processo onde a mesma é prolatada.
Assim, por exemplo, no processo de conhecimento de rito ordinário, o provimento final – sentença – é proferido com base
em cognição exauriente. Consequência disto é que a liminar antecipatória dos efeitos da sentença deverá ser deferida
com base em cognição sumária (um “degrau” acima). Já no processo cautelar, em que o provimento final é de cognição
sumária, a liminar deverá ser proferida à luz de um juízo de mera verossimilhança, ou seja, cognição superficial.180
Processo Civil – Processo de Conhecimento

179 ZENI, Fernando César, Deferimento do Pedido de Tutela Antecipatória na Sentença, in REPRO 94/75.
180 CÂMARA, Alexandre Freitas, Lições de Direito Processual Civil, Volume 1, 14ª ed., Lumen Juris Editora, p. 282-283.

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Teoria da Cognição Processual Unidade VIII

Capítulo 24 – Questões Preliminares, Prejudiciais e de Mérito

Questões Preliminares
As questões preliminares, no ambiente processual em vigor, enfeixam os pressupostos processuais e as condições da
ação, isto é, todas as questões de cunho formal cuja ausência inviabiliza o julgamento do mérito da causa.

Versam as questões preliminares, segundo se depreende do elenco do art. 301 do CPC, sobre aspectos formais do
processo e da relação processual. Englobam, em toda a sua extensão, todos os pressupostos processuais e as condições
da ação, que devem ser apreciados pelo juiz, via de regra, antes da sentença; mais precisamente, no saneamento
preconizado no art. 331, § 2º do CPC. Daí a advertência de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR181 no sentido de que não
se deve confundir “questões preliminares” (que se relacionam com os pressupostos processuais e condições da ação)
com “questões prejudiciais” (que se referem a fatos anteriores relacionados à lide). Sobre o momento adequado para a
solução, pelo juiz, de questões dessa natureza, o mesmo autor elucida que, se as questões preliminares suscitadas pelo
réu não foram suficientes para provocar o julgamento da extinção do processo (art. 329), terá o juiz de apreciá-las e
rejeitá-las no saneador, pois só assim terá condições de declarar saneado o feito.182

Numa abordagem mais ampla, José Carlos Barbosa Moreira183 aponta três divisões para as questões preliminares,
quais sejam, preliminares ao conhecimento da causa, preliminares de recurso e preliminares de mérito. Preliminares ao
conhecimento da causa seriam os pressupostos processuais e condições da ação. Preliminares de recurso seriam os
requisitos de sua admissibilidade. Finalmente, preliminares de mérito seriam as questões situadas no âmbito do próprio
mérito, mas que, uma vez decididas, isentariam o julgador de continuar a decidir as demais questões de mérito.

Questões Prejudiciais
Questão prejudicial corresponde a antecedente lógico da questão que forma o mérito da demanda e que poderia ser objeto
de ação distinta. Para julgar o mérito da causa, o juiz tem de necessariamente examinar a questão prejudicial. Na síntese
de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR184, prejudicial “é aquela questão relativa a outra relação ou estado que se apresenta
como mero antecedente lógico da relação controvertida (à qual não diz diretamente respeito, mas sobre a qual vai influir),
mas que poderia, por si só, ser objeto de um processo separado”. É o caso, por exemplo, da validade de um contrato que
está sendo executado em juízo: se for considerado nulo, não se poderá outorgar a tutela executiva demandada.

Vê-se que não se pode confundir questão prejudicial com questão preliminar. A primeira concerne ao mérito da causa, ao
passo que a segunda diz respeito unicamente a questões processuais.

A questão prejudicial pode estar contida no mesmo processo em que se apresenta como antecedente lógico do
pronunciamento judicial sobre o mérito, assim como pode constituir objeto de outro processo. No primeiro caso, diz-se
“prejudicial interna” e no segundo “prejudicial externa”.
Pós-Graduação a Distância

Merece também nota a distinção entre questão prejudicial homogênea e heterogênea. Homogênea é a questão prejudicial
cujo conteúdo integra o mesmo ramo jurídico da questão subordinada. A contrario sensu, é heterogênea quando pertence
a ramo jurídico distinto.
181 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 44ª ed., Editora Forense, p. 590.
182 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39ª ed., Editora Forense, p. 373.
183 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Questões prejudiciais e questões preliminares. Direito Processual Civil – ensaios e pareceres. Rio de Janeiro, Borsoi, 1971, p.76. apud
DIDIER JUNIOR, Fredie, Curso de Direito Processual Civil. Volume 1, 7ª edição. Salvador: Ed. JusPODIVM, 2007, p. 267.
184 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39ª ed., Editora Forense, p. 486.

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Teoria da Cognição Processual Unidade VIII

A questão prejudicial, embora tenha de ser apreciada pelo juiz, não é coberta pelo manto da coisa julgada. Isso porque
a coisa julgada recai apenas sobre o pedido deduzido pelo autor na petição inicial. De fato, a coisa julgada, que torna
imutável e indiscutível a sentença, não alcança a fundamentação da sentença, local onde de regra são analisadas as
questões prejudiciais suscitadas pelas partes, conforme dispõem os arts. 468 e 469, III, do CPC.

Havendo questão prejudicial que se tornou litigiosa, a parte que desejar a sua solução não apenas como motivação da
sentença, deve utilizar-se da ação declaratória incidental para que, constituindo agora objeto de uma ação, componha o
dispositivo da sentença e, assim, receba os influxos da coisa julgada. É dizer, com o manejo da ação declaratória incidental,
a questão prejudicial passa também a constituir o mérito da demanda e a sentença que a decidir também fará coisa
julgada. Alertam LUIZ RODRIGUES WAMBIER, FLÁVIO RENATO CORREIA DE ALMEIDA e EDUARDO TALAMINI185 que,
ao decidir o mérito, o juiz necessariamente analisará a questão prejudicial, exatamente porque esta é que determinará
o possível conteúdo da sentença. Portanto, não é a ação declaratória incidental que tornará mais amplo o âmbito de
conhecimento do juiz. O que se alteram são os limites objetivos da coisa julgada, passando a abranger o que a coisa
julgada da ação originária não alcançaria.

Esta classificação auxilia na solução de problemas ligados à conexão por prejudicialidade. Assim, em regra, quando a
celeuma for heterogênea, não haverá conexão, salvo se o juízo for competente para conhecer de ambos os ramos jurídicos.

Questões de Mérito
Questões de mérito são aquelas relacionadas ao pedido que o autor deduz na petição inicial. Superada a barreira das
questões preliminares e das questões prejudiciais, o juiz resolve o mérito da causa, acolhendo ou rejeitando o pedido do
autor.

Na incensurável assertiva de LUIZ RODRIGUES WAMBIER, TERESA ARRUDA ALVIM WAMBIER e JOSÉ MIGUEL GARCIA
MEDINA186, o mérito, no sentido do art. 269 do CPC, corresponde ao pedido formulado pelo autor. Assim, haverá
julgamento do mérito sempre que o pedido tiver sido apreciado (inc. I do art. 269). Em sede jurisprudencial, assentou o
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA187 que o conceito de mérito se envolve com aquele de pedido. Decisão de mérito é
aquela que denega a pretensão.

Advirta-se que, para se considerar sentença de mérito o julgamento de uma causa não é preciso que o juiz empregue
especificamente os termos “procedência” ou “improcedência do pedido”. Sempre que houver exame e solução do pedido
do autor (ou seja, solução da lide), favorável ou não à sua pretensão, de mérito será a sentença, ainda que o julgador
empregue expressão tecnicamente imprópria para o caso.188 (HUMBERTO THEODORO JÚNIOR, Curso de Direito
Processual Civil, Forense, 39ª ed., p. 478)

Um cuidado sutil deve ser tomado quando da análise das questões sob a égide dessa classificação em questões de
Processo Civil – Processo de Conhecimento

admissibilidade e de mérito. Ocorre que uma mesma questão, dependendo do enfoque processual que receber, pode ser
enquadrada em uma ou em outra classificação. Fredie Didier Júnior189 cita o exemplo da questão sobre a legitimidade
de partes que, em regra, é questão de admissibilidade, mas que em um recurso que discuta justamente essa legitimidade,
torna-se questão de mérito.

185 WAMBIER, Luiz Rodrigues, ALMEIDA, Flávio Renato Correia de, e TALAMINI, Eduardo, Curso Avançado de Processo Civil, V. 1, 9ª ed., Editora RT, p. 371.
186 WAMBIER, Luiz Rodrigues, WAMBIER, Teresa Arruda Alvim, e MEDINA, José Miguel Garcia, Breves Comentários à Nova Sistemática Processual Civil, Volume 2, Editora
RT, 2006, p. 61.
187 EDcl. no ROMS 14.881/DF, 1ª T., rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 15.12.2003, p. 181.
188 JUNIOR, Humberto Theodoro, Curso de Direito Processual Civil, 39ª ed., Editora Forense, p. 478.
189 DIDIER JÚNIOR, Fredie, Curso de Direito Processual Civil. Volume 1, 7ª edição. Salvador: Ed. JusPODIVM, 2007, p. 272 .

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Teoria da Cognição Processual Unidade VIII

1ª Dissertação – (mínimo: 1 lauda)

Escolha um dos seguintes temas:


• “Os Princípios que Informam o Processo Civil”
• “A Evolução do Conceito de Ação no Direito Processual”
• “Jurisdição e Competência: Espécies e Limites”

2ª Dissertação – (mínimo: 1 lauda)

Escolha um dos seguintes temas:


• “A Natureza Jurídica do Processo”
• “A Teoria da Invalidação dos Atos Processuais”
• “A Teoria da Cognição Processual”

Pós-Graduação a Distância

87
Teoria da Cognição Processual Unidade VIII
Processo Civil – Processo de Conhecimento

88
Atos Jurisdicionais Unidade IX Unidade IX

Atos Jurisdicionais

Capítulo 25 – Noções Gerais

Durante o curso do processo, o Juiz pratica inúmeros atos, seja para decidir a lide ou para resolver todas as demais
questões incidentes que surjam durante a marcha processual, seja para impulsionar o feito com vistas à sua regular
tramitação.

É sempre bom lembrar que, uma vez nascida a relação processual mediante o exercício do Direito de ação, o processo
se desenvolve por impulso oficial, isto é, por intermédio da atuação direta do Juiz, na linha do que consignam os arts.
2º e 262 do Código de Processo Civil. Nesse sentido, anota Humberto Theodoro Junior que “na instalação da relação
processual prevalece o princípio dispositivo. A parte tem o alvitre de postular ou não a tutela jurisdicional, isto é, a
propositura da demanda é ato privativo da parte. Mas, vencida esta fase inaugural, o processo passa a se desenvolver
por impulso oficial do juiz. É que, estabelecida a relação processual, entra em atividade uma função pública – a jurisdição –,
o que faz com que o interesse público na justa composição do litígio e na pacificação social predomine sobre o simples
interesse privado da parte”.

Estes atos processuais, de espécie diversa daqueles praticados pelas demais partes que formam a relação processual,
são os atos tidos como jurisdicionais, pelo evidente fato de serem realizados pelo Juiz, o agente da jurisdição.

É preciso ter em conta, entretanto, que nem todo ato praticado pelo Juiz possui, necessariamente, conteúdo jurisdicional.
Existem atos que são praticados pelo Juiz em função meramente administrativa. Na lição de Paulo Rangel, “o Judiciário tem
a função típica de praticar atos jurisdicionais, porém pode praticar, no exercício de suas atividades, atos administrativos,
como, v.g., nomeação de funcionários e juízes”. Pode-se, assim, denominar estes atos de meramente administrativos,
em contraposição àqueles, chamados de atos jurisdicionais típicos ou em sentido estrito.

Posta esta observação, duas grandes categorias de atos jurisdicionais podem ser, inicialmente, apontadas: os provimentos
– chamados também de pronunciamentos – e os ditos atos materiais. Aqueles seriam os pronunciamentos do juiz
no processo, resolvendo questões, determinando providências. Estes não possuem nenhum atributo de resolução ou
determinação, constituindo meros atos instrutórios e de documentação.

Os atos jurisdicionais comportam, ainda, a classificação em decisórios, quando imbuídos de conteúdo de deliberação ou
Pós-Graduação a Distância

de comando; e não decisórios, quando têm conteúdo unicamente de função administrativa, ou de polícia judicial.

Não obstante estas classificações doutrinárias, o próprio Código de Processo Civil pátrio conceituou expressamente os
atos praticados pelo juiz em seus artigos 162 e 163.

A exata classificação do ato judicial é de suma importância, pois a legislação processual estabelece o cabimento dos
recursos – e também a adequação dos recursos – em função da natureza do ato praticado pelo juiz. Assim é que de
sentença caberá apelação (art. 513); de decisão interlocutória o recurso cabível será o agravo (art. 522); e os despachos
serão irrecorríveis (art. 504). Como assevera Nery Júnior, “...é necessário ter-se em conta a natureza do ato judicial, o

89
Atos Jurisdicionais Unidade IX

que se faz com a observância do disposto nos arts. 162 e 163, CPC, para depois saber-se qual o recurso adequado para
aquele tipo de decisão judicial. É evidente que o critério utilizado pelo código para determinar a natureza do pronunciamento
judicial foi o do conteúdo, o da essência desse mesmo pronunciamento. De modo que, não importa a forma que o juiz
haja dado ao proferir o ato, nem tampouco o nome que se lhe atribuiu.”

O que deve sempre o intérprete perquirir, portanto, é o conteúdo do ato emanado pela autoridade jurisdicional no processo,
não importando as denominações que lhe imponha a norma processual ou o próprio Juiz. Esta, aliás, uma regra elementar
de hermenêutica, que confere reduzida importância à interpretação gramatical, meramente literal, da norma. Destarte,
deverá o intérprete buscar constantemente nos métodos teleológico, sistemático e, até mesmo, histórico os meios
necessários para desvendar o verdadeiro conteúdo do ato praticado pelo juiz no exercício da jurisdição. Em decisão que
reflete a necessidade de interpretação do ato judicial para desvendar o seu caráter decisório e a sua própria natureza,
assentou o Superior Tribunal de Justiça190: “I – Nos termos do art. 162, §§ 2º e 3º do Código de Processo Civil, “decisão
interlocutória é o ato pelo qual o juiz, no curso do processo, resolve questão incidente” e “são despachos todos os demais
atos do juiz praticados no processo, de ofício ou a requerimento da parte, a cujo respeito a lei não estabelece outra
forma.”. A diferenciação está na existência, ou não, de conteúdo decisório, bem como de gravame. Enquanto a decisão
interlocutória possui conteúdo decisório, podendo trazer prejuízos a uma das partes, os despachos são pronunciamentos
meramente ordinatórios, sem solucionar controvérsias, visando a impulsionar o andamento do processo. II – Nos termos
do art. 504 do Código de Processo Civil, não é cabível recurso algum dos despachos de mero expediente. In casu, o
despacho que determinou a regularização dos instrumentos procuratórios não possui qualquer conteúdo decisório, não
causando gravame aos ora agravantes, motivo pelo qual não poderia ter sido desafiado pelo presente agravo.”
Processo Civil – Processo de Conhecimento


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AgRg. na Reclamação: no 1.014/PE, 3ª Seção, rel. Min. Gilson Dipp, DJU 18.11.2002, p. 155

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Capítulo 26 – Sentença e Decisão Interlocutória

Sentença
Sentença, na dicção do art. 162, § 1º, do CPC, “é o ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts. 267
e 269 desta Lei.” Tradicionalmente a sentença era conceituada como o ato pelo qual o juiz extingue o processo, com ou
sem julgamento do mérito.
É de se ressalvar, porém, que na verdade o processo não se extingue com a sentença, já que a parte vencida pode interpor
o recurso de apelação, caso em que a atividade jurisdicional continua em segundo grau de jurisdição.
A rigor, a sentença cessa a função cognitiva do juízo de primeiro grau de jurisdição, conforme estatui o art. 463
do CPC.
A Lei nº 11.232/2005 alterou a redação do § 1º do art. 162 e, por via de consequência, alterou o próprio conceito
de sentença. Agora, “sentença é o ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts. 267 e 269
desta Lei”.
Essa modificação legislativa tem uma explicação: depois do processo de conhecimento, a procedência do pedido
condenatório gerava um título judicial. Com base nesse título judicial, o vencedor teria que iniciar um novo processo,
de caráter executivo, para fazer valer o Direito reconhecido na sentença. Agora, todavia, a sentença condenatória não
precisa ser executada por meio de um novo processo, mas apenas por um procedimento inserido no mesmo processo de
conhecimento. A execução passa a ser apenas uma fase distinta da fase de conhecimento, porém ambas englobadas
pelo mesmo processo, pela mesma relação processual (art. 475-I). Na oportuna lição de Alexandre Freitas Câmara, “é
preciso deixar claro que a execução de sentença não deixou de existir, nem deixou de ser uma atividade jurisdicional
ontologicamente distinta da atividade cognitiva. O que aconteceu aqui foi que, anteriormente, a cognição e a execução
ocorriam, no sistema do CPC, em processos distintos e, a partir de agora, aquelas atividades passam a se desenvolver
no mesmo processo, em fases distintas”
Havendo, pois, num mesmo processo, fase de conhecimento e fase de execução, obviamente não se poderia atribuir
à sentença que decide a quem pertence o Direito (conhecimento), o condão de extinguir o processo. Exatamente por
isso, a sentença que resolve o mérito da causa não extingue o processo, que ingressa na fase executiva. Como ressalta
Misael Montenegro Filho, “de agora em diante, a sentença representa marco divisório do processo, que é único. Através
dela, o magistrado põe fim à fase de conhecimento, vocacionada à certificação do Direito em favor do autor ou do réu,
inaugurando a fase de mero cumprimento dos seus termos, na hipótese de ser de natureza condenatória.”
Ressalve-se, apenas, que a sentença continua a extinguir o processo quando não resolve o mérito da demanda. Nesse
caso, extingue a relação processual (art. 267).

Classificação
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DEFINITIVA (CPC, art. 269)


Definitiva é a sentença que resolve o mérito da causa. É aquela que soluciona o conflito de interesses exposto na petição
inicial.
TERMINATIVA (CPC, art. 267)
Terminativa é a sentença que extingue o processo sem julgamento de mérito.

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Conteúdo (CPC, art. 458)


A falta de qualquer dos requisitos substanciais elencados no art. 458 do CPC acarreta a nulidade da sentença.

Relatório
O relatório consiste na parte inicial da sentença em que o juiz faz um histórico da relação processual, consignando os
principais acontecimentos do processo. Segundo Nagib Slaibi Filho, “no relatório, de acordo com a cronologia dos fatos
processuais, o juiz historia o que aconteceu durante o processo. Só importa, no relatório, o que foi relevante e que
influenciará a sentença. Não se faça constar, de ordinário, no relatório, que a fls. tantas encontra-se termo de juntada
de petição – no entanto, se tal ato processual é importante para qualquer questão ou influencia eventual decisão, deverá
ser mencionado.”

Lendo-se o relatório da sentença pode-se visualizar o objeto do processo, a resistência do réu, o acervo de provas
constituído. Enfim, todo o roteiro iniciado com a petição inicial até o momento do julgamento da causa.

Fundamentação
A fundamentação é a parte mais substancial da sentença. Nela, o juiz aprecia as questões de fato e de Direito necessárias
à composição do conflito de interesses.

É na fundamentação que o juiz analisa os fatos alegados pelas partes, os fatos controversos, as provas e as regras
jurídicas adequadas à solução do litígio. Na síntese de Alexandre Freitas Câmara, “a fundamentação é a parte da
sentença em que o juiz apresentará suas razões de decidir, os motivos que o levaram a proferir decisão do teor da
que está sendo prolatada.”

A fundamentação é o alicerce da sentença. Nela estão contidas as premissas de fato e de Direito utilizadas pelo juiz
para a decisão da causa. Moacyr Amaral Santos enfatiza que “é nessa parte da sentença, na discussão das questões de
fato ou de Direito, que se examinam as questões preliminares, ou prejudiciais, como tais consideradas aquelas a serem
resolvidas antes do mérito, sejam de ordem processual, sejam de ordem substancial.

Dispositivo
No dispositivo o juiz efetivamente julga a lide, ou seja, o pedido formulado pelo autor na petição inicial. É no dispositivo
que o juiz entrega a prestação jurisdicional solicitada com o ajuizamento da causa. Nesse sentido, aduz Alexandre Freitas
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Câmara que “é no dispositivo que se encontra o “comando” contido na sentença, e que a caracteriza. O dispositivo é, pois,
o elemento mais importante da sentença, na medida em que é aí que se encontrará a decisão judicial, e, por conseguinte,
a manifestação do poder de império estatal.”

Espécies

Declaratória

A sentença é declaratória quando tem por objeto a existência ou inexistência de relação jurídica ou falsidade/autenticidade
de documento (CPC, art. 4º). Exemplo: sentença que declara a nulidade do negócio jurídico por incapacidade absoluta
do agente.

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Constitutiva

A sentença é constitutiva quando implica na criação, modificação ou extinção de relação jurídica. Estabelece uma situação
jurídica nova. Exemplo: sentença que decreta a separação judicial.

Condenatória
A sentença é condenatória quando resulta na constituição de um título executivo. Nela é imposta ao réu o cumprimento
de uma obrigação. Exemplo: sentença que condena ao pagamento de quantia certa.

Executiva Lato Sensu


Considera-se executiva lato sensu a sentença que, embora dotada de alguma carga condenatória, não necessita de um
processo de execução autônomo para ser implementada. Exemplo: sentença que decreta o despejo.

Toda a matéria de cognição e de execução é abarcada pela mesma relação processual, pelo mesmo processo, não se
visualizando a dualidade processo de conhecimento e processo de execução. É o que se verifica, por exemplo, nas ações
que tenham por objeto obrigação de fazer, na ação de reintegração de posse, na ação de despejo etc.

Hoje, com a nova sistemática da execução, que dispensa a instauração de um novo processo para o cumprimento do
comando sentencial, pode-se dizer que praticamente toda sentença, inclusive as condenatórias que importam na geração
de títulos judiciais, são executivas lato sensu, no sentido de dispensaram, para a sua execução, de um novo processo.
Conforme explana Elpídio Donizetti, “com a consagração do processo sincrético pela Lei nº 11.232/2005, não há mais
sentido em se diferenciar ações executivas lato sensu de ações condenatórias stricto sensu, pois tanto a liquidação quanto
o cumprimento da sentença que reconhece obrigação de pagar quantia passaram a constituir mera fase do processo de
conhecimento. Vale dizer, a carga de eficácia das tutelas jurisdicionais que reconheçam obrigação de fazer, não fazer,
entregar coisa e pagar quantia agora é a mesma.”

Mandamental
Considera-se mandamental a sentença que contém uma ordem judicial a ser cumprida por seu destinatário. Exemplo
clássico é a ação de mandado de segurança, que se cumpre por mero ofício.

Decisão Interlocutória
Decisão interlocutória, segundo estatui o art. 162, 2º, do CPC, “é o ato pelo qual o juiz, no curso do processo, resolve
questão incidente.” Na definição de Ovídio A. Baptista da Silva, “decisão interlocutória, ou simplesmente decisão, é todo
ato realizado pelo juiz, no curso do processo, por meio do qual ele resolve alguma questão incidente. A ideia de decisões
tomadas pelo juiz no curso do processo é uma consequência da própria concepção do processo como uma série temporal
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de atos entre si conjugados, visando a um resultado comum.”

Muitas vezes, na prática não é fácil distinguir decisões interlocutórias de despachos, mostrando-se inexcedível o
ensinamento de Marcus Vinicius Rios Gonçalves: “A forma mais eficiente para distinguir as decisões interlocutórias
dos despachos é a verificação de seu potencial para trazer prejuízo às partes. Se o ato processual puder fazê-lo, será
considerado decisão interlocutória, independentemente de seu teor. Os despachos de mero expediente são aqueles que
não têm nenhum conteúdo decisório, sendo incapazes de provocar qualquer prejuízo às partes. A sua finalidade principal
é impulsionar o processo e impedir eventuais vícios ou irregularidades.”

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Elucidativo, outrossim, o seguinte julgado do Superior Tribunal de Justiça191: “I – Nos termos dos §§ 2º e 3º do art. 162,
CPC, “decisão interlocutória é o ato pelo qual o juiz, no curso do processo, resolve questão incidente” e “são despachos
todos os demais atos do juiz praticados no processo, de ofício ou a requerimento da parte, a cujo respeito a lei não
estabelece outra forma”. II – A diferenciação entre eles reside na existência ou não de conteúdo decisório e de gravame.
Enquanto os despachos são pronunciamentos meramente ordinatórios, que visam impulsionar o andamento do processo,
sem solucionar controvérsia, a interlocutória, por sua vez, ao contrário dos despachos, possui conteúdo decisório e causa
prejuízo às partes. III – Na espécie, o pronunciamento judicial que designou nova data para realização de hasta pública
alterou substancialmente a situação jurídico-processual dos executados, acarretando, consequentemente, em tese,
prejuízo e gravame. Logo, o ato jurisdicional estava sujeito à interposição de agravo.”
Processo Civil – Processo de Conhecimento


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REsp. 351.659/SP, 4ª T., rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 02.09.2002, p. 195

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Capítulo 27 – Despachos

Finalizando, dispõe o § 3º do art. 162 do CPC que “são despachos todos os demais atos do juiz praticados no processo,
de ofício ou a requerimento da parte, a cujo respeito a lei não estabelece outra forma.”

Os despachos não contém feição decisória e, por isso mesmo, são desprovidos de capacidade para gerar prejuízo às partes.
Consoante sintetiza Cassio Scarpinella Bueno, “despachos são compreendidos suficientemente a partir da ausência de
qualquer conteúdo decisório. É o que basta para caracterizá-los como tais e, desta forma, emprestar seu consequente
regime jurídico.” É o que se verifica, por exemplo, quando o juiz abre vista ao autor para réplica ou quando abre vista a
uma das partes para manifestação sobre documentos juntados pela outra.

Se o ato judicial, embora sob a roupagem de um despacho, traz conteúdo decisório e, por consequência, acarreta algum
tipo de lesividade a uma das partes, deve ser considerado decisão interlocutória. Na precisa advertência de Humberto
Theodoro Júnior, “é importante distinguir entre despacho e decisão, porque do primeiro não cabe recurso algum (art.
504), enquanto desta cabe sempre agravo de instrumento (art. 522). Para tanto, deve-se considerar despacho de mero
expediente os que visem unicamente a realização do impulso processual, sem causar nenhum dano ao Direito ou interesse
das partes. “Caso, porém, ultrapassem esse limite e acarretem ônus ou afetem Direitos, causando algum dano (máxime
se irreparável), deixarão de ser de mero expediente e ensejarão recurso”. Configurarão, na verdade, não despachos, mas
verdadeiras decisões interlocutórias.”

Deve ser destacado, ainda, que o § 4º do CPC trata dos denominados “atos meramente ordinatórios”, nos seguintes
termos: “Os atos meramente ordinatórios, como a juntada e a vista obrigatória, independem de despacho, devendo ser
praticados de ofício pelo servidor e revistos pelo juiz quando necessários.”

Ante essa prescrição legal, ensina Arruda Alvim que, “dos despachos devemos distinguir os atos de mero expediente
sem caráter decisório (CF, art. 93, IX, na redação da EC 45/2004), que ficam a cargo de serventuários de justiça (por
exemplo, o ato de determinar a remessa dos autos ao contador), a estes se referindo o § 4º do art. 162 do CPC. Os
atos que não são de mero expediente, pelo conteúdo decisório mínimo que albergam, não podem ser realizados pelos
serventuários de justiça.”

TÍTULO V
DOS ATOS PROCESSUAIS

CAPÍTULO I
DA FORMA DOS ATOS PROCESSUAIS

Seção I
Dos Atos em Geral
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Art. 154. Os atos e termos processuais não dependem de forma determinada senão quando a lei
expressamente a exigir, reputando-se válidos os que, realizados de outro modo, Ihe preencham a
finalidade essencial.

Parágrafo único. Os tribunais, no âmbito da respectiva jurisdição, poderão disciplinar a prática


e a comunicação oficial dos atos processuais por meios eletrônicos, atendidos os requisitos de
autenticidade, integridade, validade jurídica e interoperabilidade da infraestrutura de Chaves Públicas
Brasileira – ICP – Brasil.

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Atos Jurisdicionais Unidade IX

O que se deve verificar é se o ato, pela forma que adotou, atingiu a sua finalidade próxima, de autenticar e fazer certa
uma atividade, e remota, mas que lhe é própria, de meio para atingir a finalidade do processo. Quer dizer que o princípio
da instrumentalidade das formas dos atos processuais recomenda que, ao julgar da validade ou invalidade de um ato
processual, se atendam a dois elementos fundamentais: a finalidade que a lei atribui ao ato e o prejuízo que a violação
da forma traria ao processo. (SANTOS, 1999, p. 64)

A forma dos atos processuais deve ser compreendida como garantia de que há fins (exteriores e estranhos aos sujeitos
do processo) a serem atingidos. Se eles, os fins, forem atingidos, mesmo sem a forma previamente estabelecida na lei,
não há por que declarar qualquer defeito no plano do processo. (BUENO, 2007, p. 438)

A sistemática do Processo Civil é regida pelo princípio da instrumentalidade das formas, devendo ser reputados válidos os
atos que cumpram a sua finalidade essencial, sem que acarretem prejuízos aos litigantes, sendo certo que ninguém pode
se beneficiar da própria torpeza. (STJ, AgRg. no AI no 508.361/MG, 3ª T., rela. Mina. Nancy Andrighi, DJU 02.02.2004,
p. 335)

O Direito Processual Civil adota o princípio da instrumentalidade das formas à luz da constatação de que o processo é
meio para a realização do Direito objetivo-material. Em consequência, a política de nulidades do CPC é voltada para a
sanação dos atos não prejudiciais aos fins de justiça de processo, repudiando o fetichismo das formas. (STJ, AgRg. no
AI no 588.167/SP, 1ª T., rel. Min. Luiz Fux, DJU 28.03.2005, p. 192)

Art. 155. Os atos processuais são públicos. Correm, todavia, em segredo de justiça os
processos:

I – em que o exigir o interesse público;

Il – que dizem respeito a casamento, filiação, separação dos cônjuges, conversão desta em
divórcio, alimentos e guarda de menores.

Parágrafo único. O Direito de consultar os autos e de pedir certidões de seus atos é restrito às partes
e a seus procuradores. O terceiro, que demonstrar interesse jurídico, pode requerer ao juiz certidão
do dispositivo da sentença, bem como de inventário e partilha resultante do desquite.

Os atos processuais são públicos, em princípio, a fim de que a todos seja dado acompanhar a distribuição da justiça, que é
um bem jurídico que transcende ao próprio interesse individual das partes discutido em determinada causa. A publicidade
é garantia democrática de liberdade no que concerne ao controle do uso da autoridade. Se, porém, o strepitus processus
puder causar prejuízo às partes, desenvolve-se a causa em segredo de justiça (art. 155). Jamais, porém, o processo é
secreto, ou seja, excluído do exame das partes e seus advogados. (GRECO FILHO, 2009, p. 86)

O interesse público, no caso particular de segredo de justiça, na prática, vai sempre se revelar quando o juiz observar
que a publicidade dos atos pode acarretar danos morais às partes ou prejuízo à própria ordem pública. É o caso de se
Processo Civil – Processo de Conhecimento

impedir publicidade do processo onde se discute a respeito de indenização devida por estupro. Também se poderia citar o
exemplo de pedido de indenização contra determinada autoridade, por prática de ato ilícito desairoso. Ou, então, quando
se corra risco de a publicidade provocar desordem ou qualquer comoção de vulto. O processo em andamento, qualquer
que seja sua projeção, ainda permanece no estado de incerteza e a publicidade pode, às vezes, trazer consequências
danosas à ordem pública. (SANTOS, p. 198)

A restrição da publicidade dos atos processuais, como medida de exceção, somente pode ocorrer para a defesa da
intimidade ou do interesse social. É por isso que a liberdade de imprensa permite, por exemplo, que se faça apenas menção
à existência do processo de separação judicial e de sua tramitação (fase em que se encontra), como meio para conciliar
dois Direitos que se encontram em contradição: o Direito à restrição da publicidade em razão de o processo envolver a
intimidade e o interesse da imprensa em noticiar o fato. (COELHO, 2007, p. 206)

Art. 156. Em todos os atos e termos do processo é obrigatório o uso do vernáculo.

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Atos Jurisdicionais Unidade IX

Entre os requisitos formais dos termos processuais está o de serem escritos em lígua portuguesa. A exigência dimana da
natureza do processo. Este é instrumento da função jurisdicional do Estado, e o Estado brasileiro somente fala e escreve
a língua portuguesa, que é a língua oficial. (SANTOS, 1998, p. 298)

Inserir na petição inicial lição doutrinária em idioma estrangeiro não é causa que possa comprometer a peça introdutória;
o obstáculo não transborda, máxime a certeza, no mais, do uso do vernáculo pátrio e que, no essencial, encontra-
se presente o amplo contraditório. (TJDF, APC 2001.01.1.075359-0, rel. Des. Eduardo de Moraes Oliveira, DJU
25.06.2003, p. 22)
Art. 157. Só poderá ser junto aos autos documento redigido em língua estrangeira, quando
acompanhado de versão em vernáculo, firmada por tradutor juramentado.

Se for necessário juntar aos autos documento redigido em outro idioma, este só será admitido se acompanhado de
tradução, feita por profissional juramentado (art. 157). As expressões latinas, tão comuns na linguagem jurídica, são
admitidas porque, em verdade, não se cuida de prática de ato em outro idioma, mas do uso de termos já incorporados
ao nosso vocabulário. (WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI. 2005, p. 173)

A exigência de que a tradução se realize por tradutor juramentado não se prende propriamente a benefício da profissão,
devidamente regulamentada (Decreto no 13.609, de 21.10.1943), mas à fé pública de que é ele portador. (DALL’AGNOL,
Antonio. Comentários ao código de Processo Civil, V. 2, 2. ed., RT, p. 249)

Em se tratando de documento redigido em língua estrangeira, cuja validade não se contesta e cuja tradução não é
indispensável para a sua compreensão, não é razoável negar-lhe eficácia de prova. O art. 157 do CPC, como toda regra
instrumental, deve ser interpretado sistematicamente, levando em consideração, inclusive, os princípios que regem as
nulidades, nomeadamente o de que nenhum ato será declarado nulo, se da nulidade não resultar prejuízo para acusação
ou para a defesa (pas de nulitté sans grief). Não havendo prejuízo, não se pode dizer que a falta de tradução, no caso,
tenha importado violação ao art. 157 do CPC. (STJ, REsp. no 616.103/SC, 1ª T., rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJU
27.09.2004, p. 255)

I – Embora seja, depois do galego, a língua mais próxima do português, o idioma castelhano tem idiossincrasias que a
fazem traiçoeira para o leigo, falante de portunhol. Bem por isso, só é permitido o ingresso de documento escrito em
espanhol, quando “acompanhado de versão e vernáculo, firmada por tradutor juramentado” (CPC, art. 157). II – Para
fazerem prova no Brasil, os documentos oficiais, passados por agentes públicos de países estrangeiros, dependem de
tradução, autenticação consular brasileira e registro no ofício de títulos e documentos (Lei nº 6.015/73, art. 129, § 6º).
(STJ, REsp. no 606.393/RJ, 3ª T., rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 01.08.2005, p. 444)
Seção II

Dos Atos da Parte

Art. 158. Os atos das partes, consistentes em declarações unilaterais ou bilaterais de vontade,
produzem imediatamente a constituição, a modificação ou a extinção de Direitos processuais.

Parágrafo único. A desistência da ação só produzirá efeito depois de homologada por sentença.

Consideram-se atos da parte os praticados pelo autor ou réu, pelos terceiros intervenientes ou pelo Ministério Público,
Pós-Graduação a Distância

no exercício de Direitos ou poderes processuais, ou para cumprimento de ônus, obrigações ou deveres decorrentes da
relação processual. (THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 203)

O CPC, art. 158, parágrafo único, deixa expresso que a desistência da ação só produz efeitos depois de homologada por
sentença. Isso significa que a homologação terá eficácia ex nunc, e não ex tunc, sendo admissível, em tese, que o autor
desistente volte atrás em seu pedido de desistência, se ele ainda não tiver sido homologado. O mesmo não ocorre com
a desistência de recurso, que produz efeitos desde o momento em que protocolada, independente de homologação, de
forma que, a partir do instante em que a recorrente entrega o pedido ao Judiciário, a decisão para ele se terá tornado
definitiva. (GONÇALVES, 2004, p. 226/227)
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Atos Jurisdicionais Unidade IX

Art. 159. Salvo no Distrito Federal e nas Capitais dos Estados, todas as petições e documentos que
instruírem o processo, não constantes de registro público, serão sempre acompanhados de cópia,
datada e assinada por quem os oferecer.

§ 1º Depois de conferir a cópia, o escrivão ou chefe da secretaria irá formando autos suplementares,
dos quais constará a reprodução de todos os atos e termos do processo original.

§ 2º Os autos suplementares só sairão de cartório para conclusão ao juiz, na falta dos autos originais.

Os autos são, conforme sejam os originais ou sua cópia, denominados originais ou suplementares. Os primeiros, os
autos originais, se constituem dos atos e termos originais que compõem o processo: a petição inicial, o instrumento de
procuração, documentos que instruem a inicial e outros que se juntam, a resposta do réu, requerimentos das partes,
quesitos, laudos periciais, termos de depoimentos, despachos, decisões etc. Suplementares são autos que se constituem
de cópias das peças que formam os autos originais. (SANTOS, 1999, p. 300)

A responsabilidade pela organização dos autos suplementares é do escrivão, que conferirá os documentos e petições
que lhe forem apresentados, lançando certidão de que se trata de cópias fiéis. A certidão é de importância, em face da
fé pública de que é portador o escrivão. Com a aposição dela, o escrivão está autenticando as cópias. (DALL’AGNOL,
2007, p. 255)

Art. 160. Poderão as partes exigir recibo de petições, arrazoados, papéis e documentos que entregarem
em cartório.

A lei, pretendendo abranger toda a documentação normalmente apresentada a cartório, menciona “petições,
arrazoados, papéis e documentos”. Destarte, qualquer papel, qualquer documento (lato sensu) que a parte
pretenda ver juntado aos autos merece ter seu recebimento acusado pelo servidor, desde que o exija o interessado.
(DALL’AGNOL, 2007, p. 260)

AGRAVO DE INSTRUMENTO – TRASLADO DE PEÇAS – ALEGADO EXTRAVIO – AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO.


Consoante dispõe o artigo 160 do Código de Processo Civil, “poderão as partes exigir recibo de petições, arrazoados,
papéis e documentos que entregarem em cartório”. Extravio de peças não demonstrado. (STF, AGRG. no AI 452.549-6,
rel. Min. Marco Aurélio, DJU 21.05.2003, p. 36)

Art. 161. É defeso lançar, nos autos, cotas marginais ou interlineares; o juiz mandará riscá-las, impondo
a quem as escrever multa correspondente à metade do salário-mínimo vigente na sede do juízo.

A multa imposta será incluída na conta de custas para ser cobrada da parte responsável. (THEODORO JÚNIOR, 2009,
p. 205)

O ato de inserir qualquer anotação nos autos, quando não for aberta vista ao advogado, será inserida na denominação
Processo Civil – Processo de Conhecimento

de “cota marginal” ou “interlinear”. Quando constatadas, devem ser riscadas dos autos por determinação do magistrado,
além de ser aplicada multa àquele que as houver lançado. Inteligência do art. 161 do CPC. (STJ, REsp. no 708.441/RS,
2ª T., rel. Min. Castro Meira, DJU 20.03.2006, p. 243)

Se as marcações e observações feitas pelo profissional do Direito, sobre a sentença, a lápis, como processo mnemônico,
todavia, reconhecendo o erro no sentido de ter-se esquecido de apagá-los, não pode levar à imposição de multa, na esteira
do artigo 161 do Código de Processo Civil. (TJDF, APC 2001.01.1.072616-2, rel. Des. Silvânio Barbosa dos Santos,
DJU 15.02.2005, p. 160)

Seção III
Dos Atos do Juiz

Art. 162. Os atos do juiz consistirão em sentenças, decisões interlocutórias e despachos.

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Atos Jurisdicionais Unidade IX

§ 1º Sentença é o ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts. 267 e 269
desta Lei.

O ato judicial que implica alguma das situações previstas no art. 269 somente pode ser definido como sentença quando
extingue o processo ou quando encerra a fase de conhecimento. (MARINONI; ARENHART, 2008, p. 410/411)

Pensamos que, não obstante a modificação dos textos legais, deve permanecer íntegra a ideia, por nós sempre sustentada,
de que a sentença é o ato que põe termo ao ofício de julgar do magistrado. Assim, uma resolução parcial de mérito
não poderia ser considerada sentença, já que o juiz ainda teria de apreciar o restante do objeto do processo. Aliás, a
interpretação literal levaria ao absurdo de se considerar sentença o provimento que reduz o objeto do processo com
resolução (parcial) do mérito e continuar a considerar decisão interlocutória o ato que reduz o objeto do processo sem
tal resolução (como no caso de se considerar que uma das demandas cumuladas é juridicamente impossível, ou que o
demandante não tem legitimidade para a formular, casos em que haveria “extinção do processo sem resolução do mérito”
e, por isso, não incidiria o texto literal do art. 267 do CPC). Pensamos, assim, que deve ser mantida a concepção da
sentença como um ato final. Não é ela – nem nunca foi, insista-se – o ato final do processo. Trata-se, porém, do ato final
de cumprimento do ofício de julgar do magistrado, que pode ser proferido de modo a resolver ou não o mérito da causa.
Desse modo, atos que impliquem redução (objetiva ou subjetiva) do processo, resolvendo ou não quanto a essa parte
o mérito da causa, devem continuar a ser tratados como decisões interlocutórias, e não como sentenças. (CÂMARA,
2009, p. 459/460)

O nosso posicionamento vai ao encontro daquele sustentado por diversos juristas de escol: se o provimento judicial
colocar termo a uma etapa do processo, estaremos diante de uma sentença, impugnável pelo recurso de apelação; caso
contrário, se o provimento judicial resolver questão incidente, estaremos diante de uma decisão interlocutória, combatível
pelo recurso de agravo, mormente na forma instrumentada. (SAMPIETRO, Luiz Roberto Hijo. O novo conceito legal de
sentença cível e suas implicações na seara recursal. RDDP 57/87)

§ 2º Decisão interlocutória é o ato pelo qual o juiz, no curso do processo, resolve questão
incidente.

Decisão interlocutória. A pedra de toque de seu conceito está no conteúdo decisório e não no seu efeito, pois consiste
a decisão interlocutória num pronunciamento jurisdicional tendente a solver um impasse momentâneo, que necessita da
decisão para que o processo prossiga. (WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, 2008, p. 184)

A forma mais eficiente para distinguir as decisões interlocutórias dos despachos é a verificação de seu potencial para
trazer prejuízo às partes. Se o ato processual puder fazê-lo, será considerado decisão interlocutória, independentemente
de seu teor. Os despachos de mero expediente são aqueles que não têm nenhum conteúdo decisório, sendo incapazes de
provocar qualquer prejuízo às partes. A sua finalidade principal é impulsionar o processo e impedir eventuais vícios ou
irregularidades. (GONÇALVES, 2004, p. 228)

A exclusão de alguns dos sujeitos litigantes durante a tramitação do processo não compromete em nada o seu regular
desenvolvimento. Trata-se de providência juridicamente possível, desde que, obviamente, atendidos os seus requisitos
específicos. Portanto, se a relação jurídico-processual prossegue no tocante aos demais sujeitos que permanecem
integrando os dois polos da demanda, não há que se falar em extinção desta relação. O que se verificará como decorrência
lógica da exclusão de determinados litigantes, é que o processo, no que concerne a eles, estará extinto, sem resolução
Pós-Graduação a Distância

do mérito. Portanto, o ato jurisdicional que determina a exclusão e, em face desses sujeitos, declara extinto o feito não
tem natureza de sentença, tratando-se de decisão interlocutória. (FIGUEIRA JR, 2007, p. 471/472)

O despacho que determina a citação do devedor, em sede de execução, não é um ato que, no curso do processo,
resolve uma questão incidente, conforme determina o artigo 162, § 2º, do Código de Processo Civil, sendo,
portanto, irrecorrível pela via do agravo de instrumento. (STJ, REsp. no 693.074/RJ, 3ª T., rel. Min. Castro Filho,
DJU 18.09.2006, p. 311)

99
Atos Jurisdicionais Unidade IX

I – Nos termos dos §§ 2º e 3º do art. 162, CPC, “decisão interlocutória é o ato pelo qual o juiz, no curso do processo, resolve
questão incidente” e “são despachos todos os demais atos do juiz praticados no processo, de ofício ou a requerimento
da parte, a cujo respeito a lei não estabelece outra forma”. II – A diferenciação entre eles reside na existência ou não
de conteúdo decisório e de gravame. Enquanto os despachos são pronunciamentos meramente ordinatórios, que visam
impulsionar o andamento do processo, sem solucionar controvérsia, a interlocutória, por sua vez, ao contrário dos
despachos, possui conteúdo decisório e causa prejuízo às partes. III – Na espécie, o pronunciamento judicial que designou
nova data para realização de hasta pública alterou substancialmente a situação jurídico-processual dos executados,
acarretando, consequentemente, em tese, prejuízo e gravame. Logo, o ato jurisdicional estava sujeito à interposição de
agravo. (STJ, REsp. no 351.659/SP, 4ª T., rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 02.09.2002, p. 195)

§ 3º São despachos todos os demais atos do juiz praticados no processo, de ofício ou a requerimento
da parte, a cujo respeito a lei não estabelece outra forma.

É importante distinguir entre despacho e decisão, porque do primeiro não cabe recurso algum (art. 504), enquanto desta
cabe sempre agravo de instrumento (art. 522). Para tanto, deve-se considerar despacho de mero expediente os que visem
unicamente a realização do impulso processual, sem causar nenhum dano ao Direito ou interesse das partes. “Caso,
porém, ultrapassem esse limite e acarretem ônus ou afetem Direitos, causando algum dano (máxime se irreparável),
deixarão de ser de mero expediente e ensejarão recurso”. Configurarão, na verdade, não despachos, mas verdadeiras
decisões interlocutórias. (THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 208)

Despachos são compreendidos suficientemente a partir da ausência de qualquer conteúdo decisório. É o que basta para
caracterizá-los como tais e, desta forma, emprestar seu consequente regime jurídico. (BUENO, 2007, p. 419)

I – Nos termos do art. 162, §§ 2º e 3º do Código de Processo Civil, “decisão interlocutória é o ato pelo qual o juiz, no
curso do processo, resolve questão incidente” e “são despachos todos os demais atos do juiz praticados no processo, de
ofício ou a requerimento da parte, a cujo respeito a lei não estabelece outra forma.”. A diferenciação está na existência,
ou não, de conteúdo decisório, bem como de gravame. Enquanto a decisão interlocutória possui conteúdo decisório,
podendo trazer prejuízos a uma das partes, os despachos são pronunciamentos meramente ordinatórios, sem solucionar
controvérsias, visando a impulsionar o andamento do processo. II – Nos termos do art. 504 do Código de Processo Civil,
não é cabível recurso algum dos despachos de mero expediente. In casu, o despacho que determinou a regularização dos
instrumentos procuratórios não possui qualquer conteúdo decisório, não causando gravame aos ora agravantes, motivo
pelo qual não poderia ter sido desafiado pelo presente agravo. (STJ, AgRg. na Reclamação no 1.014/PE, 3ª Seção, rel.
Min. Gilson Dipp, DJU 18.11.2002, p. 155)

Os despachos de mero expediente são irrecorríveis, compreendendo-se como tal aquele que – provocado por uma
das partes – se reporta à decisão anterior sem nada acrescentar-lhe. (STJ, REsp. no 838.543/RN, 3ª T., rel. Min. Ari
Pargendler, DJU 04.12.206, p. 315)
Processo Civil – Processo de Conhecimento

§ 4º Os atos meramente ordinatórios, como a juntada e a vista obrigatória, independem de despacho,


devendo ser praticados de ofício pelo servidor e revistos pelo juiz quando necessários.

Dos despachos devemos distinguir os atos de mero expediente sem caráter decisório (CF, art. 93, IX, na redação da
EC no 45/2004), que ficam a cargo de serventuários de justiça (por exemplo, o ato de determinar a remessa dos autos
ao contador), a estes se referindo o § 4º do art. 162 do CPC. Os atos que não são de mero expediente, pelo conteúdo
decisório mínimo que albergam, não podem ser realizados pelos serventuários de justiça. (ARRUDA, 2008, p. 588)

Art. 163. Recebe a denominação de acórdão o julgamento proferido pelos tribunais.

Acórdão é o pronunciamento judicial com conteúdo decisório proferido por um órgão colegiado (art. 163, CPC), seja ele
um tribunal ou uma turma recursal. Recebe este nome porque para a sua formação concorrem as vontades dos vários
membros que compõem o órgão colegiado. (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2007, p. 223)
100
Atos Jurisdicionais Unidade IX

Art. 164. Os despachos, decisões, sentenças e acórdãos serão redigidos, datados e assinados pelos
juízes. Quando forem proferidos, verbalmente, o taquígrafo ou o datilógrafo os registrará, submetendo-os
aos juízes para revisão e assinatura.

Parágrafo único. A assinatura dos juízes, em todos os graus de jurisdição, pode ser feita
eletronicamente, na forma da lei.

O art. 164 enfatiza que os despachos, decisões, sentenças e acórdãos (todos os atos processuais praticados pelo
magistrado) serão redigidos, datados e assinados pelos juízes; ainda quando proferidos verbalmente, serão registrados
pelo datilógrafo ou taquígrafo, mas, mesmo assim, sofrerão a revisão e serão assinados pelo magistrado – o que o art.
164 enfatiza é que o exercício do poder estatal de decidir, na função jurisdicional, é privativo do magistrado, o qual deve
manifestar a própria vontade. (SLAIBI FILHO, 2004, p. 277)

A assinatura do juiz em decisão singular é requisito instrumental do ato judicial (art. 164, CPC). A ausência de tal
formalidade equivale à inexistência do ato. (STJ, AgRg. no AI no 519.099/DF, 1ª T., rela. Mina. Denise Arruda, DJU
27.09.2004, p. 217)

Art. 165. As sentenças e acórdãos serão proferidos com observância do disposto no art. 458; as
demais decisões serão fundamentadas, ainda que de modo conciso.

A legitimidade da decisão jurisdicional depende não apenas de estar o juiz convencido, mas também de o juiz justificar
a racionalidade da sua decisão com base no caso concreto, nas provas produzidas e na convicção que formou sobre
as situações de fato e de Direito. Ou seja, não basta o juiz estar convencido – deve ele demonstrar as razões de seu
convencimento. Isso permite o controle da atividade do juiz pelas partes ou por qualquer cidadão, já que a sentença deve
ser o resultado de um raciocínio lógico capaz de ser demonstrado mediante a relação entre o relatório, a fundamentação
e a parte dispositiva. (MARINONI, 2008, p. 104)

A motivação das decisões judiciais (sentenças e decisões interlocutórias) constitui dever dos juízes e garantia dos cidadãos
na medida em que assegura a transparência da atividade jurisdicional, permitindo o controle dos julgamentos pelas partes,
pelos órgãos judiciais superiores e, de certo modo, por toda a sociedade. (LOPES, 2005, p. 55/56)

Decisão judicial: a falta ou inidoneidade da sua fundamentação não pode ser suprida pela decisão do órgão judicial de
grau superior provocado a decidir sobre a nulidade resultante do vício de motivação. (STF, HC no 79.248/RJ, rel. Min.
Sepúlveda Pertence, RTJ 171/602)

Ausente do acórdão qualquer fundamentação, impõe-se que outro seja proferido em conformidade com o art. 165 do Código
de Processo Civil. (STJ, REsp. no 700.833/PA, 3ª T., rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 23.04.2007, p. 256)

Decisão que denega pedido do autor, dizendo, simplesmente: “descabem novos honorários advocatícios em execução
de sentença”. Tal decisão é nula, por ofensa ao art. 165 do CPC. (STJ, REsp. 59.665-3/RS, rel. Min. Humberto Gomes
de Barros, DJU 12.06.95, p. 17599)

Seção IV

Dos Atos do Escrivão ou do Chefe de Secretaria


Pós-Graduação a Distância

Art. 166. Ao receber a petição inicial de qualquer processo, o escrivão a autuará, mencionando o
juízo, a natureza do feito, o número de seu registro, os nomes das partes e a data do seu início; e
procederá do mesmo modo quanto aos volumes que se forem formando.

O processo se inicia com a provocação do autor por meio da petição inicial. Depois de despachada pelo juiz, a petição vai
ao escrivão que promoverá o primeiro ato de documentação do processo: a autuação. Consiste este ato em colocar uma
capa sobre a petição, na qual será lavrado um termo que deve conter o juízo, a natureza do feito, o número de seu registro
nos assentos do cartório, os nomes das partes e a data do seu início (art. 166). (THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 212)

101
Atos Jurisdicionais Unidade IX

O escrivão é dotado, em seu ofício, de fé pública e do poder de certificar o que ocorre em relação ao processo, por
exemplo, a ocorrência eventual de uma parte interveniente, testemunha ou outro, não querer ou não poder assinar a peça
que lhe tenha sido submetida. (GRECO FILHO, 2009, p. 16)

Art. 167. O escrivão numerará e rubricará todas as folhas dos autos, procedendo da mesma forma
quanto aos suplementares.

Parágrafo único. Às partes, aos advogados, aos órgãos do Ministério Público, aos peritos e às
testemunhas é facultado rubricar as folhas correspondentes aos atos em que intervieram.

Os autos, tanto originais como suplementares, estão sob a guarda e responsabilidade do escrivão. Este numerará todas as
folhas do processo e rubricará as em que não houver a sua assinatura (Cód. Proc. Civil, art. 167). (SANTOS, 1999, p. 301)

Art. 168. Os termos de juntada, vista, conclusão e outros semelhantes constarão de notas datadas
e rubricadas pelo escrivão.

O termo é a documentação de um ato. O escrivão lavra um termo, ou toma por termo, a fim de documentar uma atividade,
um ato processual. Essa documentação é sempre por escrito: documentação escrita. Além de escrita, autêntica. Um
documento se diz autêntico quando nele se reconhece o seu autor. Autenticidade é a certeza de que o documento provém
do autor nele indicado. O termo documenta o ato e torna certo o autor da documentação. O documentador, o serventuário
da justiça, tem fé pública, e, autenticando a documentação, autentica o ato documentado. Por isso mesmo, o termo é
sempre lavrado e subscrito por serventuário da justiça, no exercício de suas atribuições. (SANTOS, 1999, p. 297)

Termo de juntada é o ato do escrivão que certifica a inclusão de alguma manifestação de parte ou interveniente nos
autos do processo. Termo de vista é o ato do escrivão que certifica a abertura de oportunidade para o acesso físico da
parte ou do interveniente aos autos para a realização de algum ato processual. Termo de conclusão é o ato do escrivão
que certifica a remessa dos autos ao juiz, para proferimento de algum ato. (OLIVEIRA; VILELA, 2008, p. 140)

Art. 169. Os atos e termos do processo serão datilografados ou escritos com tinta escura e indelével,
assinando-os as pessoas que neles intervieram. Quando estas não puderem ou não quiserem firmá-los,
o escrivão certificará, nos autos, a ocorrência.

§ 1º É vedado usar abreviaturas.

§ 2º Quando se tratar de processo total ou parcialmente eletrônico, os atos processuais praticados


na presença do juiz poderão ser produzidos e armazenados de modo integralmente digital em arquivo
eletrônico inviolável, na forma da lei, mediante registro em termo que será assinado digitalmente pelo
juiz e pelo escrivão ou chefe de secretaria, bem como pelos advogados das partes.

§ 3º No caso do § 2o deste artigo, eventuais contradições na transcrição deverão ser suscitadas


Processo Civil – Processo de Conhecimento

oralmente no momento da realização do ato, sob pena de preclusão, devendo o juiz decidir de plano,
registrando-se a alegação e a decisão no termo.

Parágrafo único. É vedado usar abreviaturas.

Quando se tratar de ato processual registrado em meio virtual, não só a assinatura das partes que intervieram no
ato será eletrônica, mas também o termo de juntada (ou anexação aos autos virtuais daquele processo). Afinal, em
vez da formação de um caderno processual físico, teremos um arquivo armazenado na memória de um computador
de grande porte. Para que o registro do ato passe a integrar o caderno (o arquivo) virtual é indispensável a
assinatura das partes presentes no ato. Antes, a juntada constituía ato privativo do escrivão, agora, no processo
eletrônico, temos a juntada coletiva, pelos intervenientes, para o “armazenamento” (formação dos autos virtuais).
(DONIZETTI, 2008, p. 44/45)

Ato processual: recurso: chancela eletrônica: exigência de regulamentação do seu uso para resguardo da segurança
jurídica. 1. Assente o entendimento do Supremo Tribunal de que apenas a petição em que o advogado tenha firmado
102
Atos Jurisdicionais Unidade IX

originalmente sua assinatura tem validade reconhecida. Precedentes. 2. No caso dos autos, não se trata de certificado
digital ou versão impressa de documento digital protegido por certificado digital; trata-se de mera chancela eletrônica sem
qualquer regulamentação e cuja originalidade não é possível afirmar sem o auxílio de perícia técnica. 3. A necessidade de
regulamentação para a utilização da assinatura digitalizada não é mero formalismo processual, mas, exigência razoável que
visa a impedir a prática de atos cuja responsabilidade não seria possível. (STF, AI no 564.765-6/RJ, rel. Min. Sepúlveda
Pertence, DJU 17.03.2006, p. 15)

Para que os atos praticados pelo escrivão (ou chefe ou diretor de secretaria de Tribunal), sejam válidos, é indispensável
que sejam assinados ou rubricados pelo próprio escrivão, conforme determinam os arts. 168 e 169 do CPC. Certidão
sem assinatura não é certidão. (STJ, AgRg. No AI no 599.457/MG, 3ª T., rela. Mina. Nancy Andrighi, DJU 26.09.2005,
p. 358)

Art. 170. É lícito o uso da taquigrafia, da estenotipia, ou de outro método idôneo, em qualquer juízo
ou tribunal.

Sendo o pronunciamento jurisdicional estenotipado, taquigrafado ou gravado em cd-rom, disquete ou fita magnética, o
prazo para interposição de recurso tem início com a intimação ou ciência inequívoca da juntada aos autos da transcrição
correspondente com a motivação e o decisum. (VECHIATO JUNIOR, 2006, p. 129)

Art. 171. Não se admitem, nos atos e termos, espaços em branco, bem como entrelinhas, emendas
ou rasuras, salvo se aqueles forem inutilizados e estas expressamente ressalvadas.

Pós-Graduação a Distância

103
Processo Civil – Processo de Conhecimento

104
Atos Jurisdicionais
Unidade IX
Sentença e Coisa Julgada
Unidade X Unidade X

Sentença e Coisa Julgada

Capítulo 28 – Sentença e Princípio da Adstrição

A Sentença como Resposta ao Pedido de Tutela Jurisdicional


A sentença consiste na resposta do juiz ao pedido formulado pelo autor na petição inicial. O Estado comprometeu-se a
solucionar os conflitos de interesses, proibindo a “justiça privada” e até mesmo criminalizando o “exercício arbitrário
das próprias razões”. Para o fim de prestar a jurisdição, foi idealizado o processo e, neste, a sentença é o ato judicial
que, representando emanação da autoridade do Estado, aplica o Direito ao caso concreto.

Princípio da Adstrição (Congruência ou Correlação)


A sentença está naturalmente adstrita ao pedido e à causa de pedir, segundo preceituam os arts. 128, 459 e 460
do CPC. O juiz deve se ater ao pedido da parte e também aos fatos e fundamentos jurídicos do pedido (causa de
pedir), sob pena de proferir sentença citra petita, ultra petita ou extra petita. Trata-se do princípio da congruência,
da correlação ou da adstrição. Nas palavras de Antonio Carlos de Araujo Cintra, “na sentença de mérito, deve o
juiz acolher ou rejeitar, no todo ou em parte, o pedido formulado pelo autor. Isto significa que deve haver perfeita
correlação entre pedido e sentença, cujo dispositivo é delimitado pelo pedido do autor. Assim, o juiz deve decidir
sobre todos os pedidos que lhe são dirigidos no processo, mas apenas sobre eles, de modo que haja identidade entre
o objeto do pedido e o da sentença.”

Sentença Ultra Petita


Na sentença ultra petita, o juiz, desviando-se do pedido que limita sua atividade jurisdicional, outorga ao autor da demanda
mais do que ele pleiteou na petição inicial.
Embora a sentença ultra petita viole claramente o princípio da congruência, não é necessária a sua anulação para a
restauração da legalidade, bastando à instância ad quem, em nível de recurso, decotar o excesso praticado pelo magistrado
de primeiro grau de jurisdição. Conforme pondera Márcio Henrique Mendes da Silva, “haverá sentença ultra petita quando
o juiz conceder o pedido em quantidade superior à postulada. Nesse caso, não se cogita de anulação, bastando à parte
prejudicada a interposição de recurso de apelação para que o tribunal reduza a condenação aos limites do pedido.”
Pós-Graduação a Distância

É preciso ressalvar, com Rodrigo Barioni, que”não se pode taxar de ultra petita decisão que determina a correção
monetária dos valores devidos, pagamento de juros legais, despesas e honorários advocatícios, ainda quando omissa a
petição inicial a respeito desses pedidos.

Sentença Extra Petita


A sentença é extra petita quando o juiz adota pedido ou causa de pedir diversos daqueles constantes da petição inicial.
Na elucidativa lição de Humberto Theodoro Júnior:

105
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

a sentença extra petita incide em nulidade porque soluciona causa diversa da que foi proposta através
do pedido. E há julgamento fora do pedido tanto quanto o juiz defere uma prestação diferente da que
lhe foi postulada, como quando defere a prestação pedida mas com base em fundamento jurídico não
invocado como causa do pedido na propositura da ação. Quer isto dizer que não é lícito ao julgador
alterar o pedido, nem tampouco a causa petendi.

É muito comum confundirem-se, na teoria e na prática, as decisões ultra e extra petita. Mas há
um critério que pode facilitar a compreensão desses dois fenômenos: (a) na decisão ultra petita,
o magistrado analisa o pedido da parte ou os fatos essenciais debatidos nos autos, mas vai além
deles, concedendo um provimento ou um bem da vida não pleiteado, ou ainda analisando outros fatos,
também essenciais, não postos pelas partes; (b) na decisão extra petita, o magistrado, sem analisar
o pedido formulado, delibera sobre pedido não formulado, ou ainda, sem analisar fato essencial
deduzido, decide com base em fato essencial não deduzido, consoante esclarecem com propriedade
Fredie Didier Jr., Paula Sarno Braga e Rafael Oliveira.

Sentença Citra Petita

A sentença é citra petita (ou infra petita) quando o juiz deixa de examinar questões propostas ou pedidos cumulados
(cumulação simples, sucessiva ou alternativa de pedidos). De acordo com Antonio Carlos De Araujo Cintra, “é oportuno
observar que se caracteriza como infra petita não apenas a sentença que deixou de julgar um dos diferentes pedidos
formulados, como também a que silenciou sobre algum dos fundamentos da demanda ajuizada.”

Controverte-se sobre a possibilidade de sanação do vício das sentenças citra e extra petita em sede recursal. Araken
De Assis entende que “a sentença citra petita pode ser corrigida por intermédio de embargos de declaração, suprindo
a omissão. Não suprida a falha, oportunamente, no julgamento da apelação – recurso de modo algum condicionado à
prévia interposição dos embargos de declaração, conforme proclamou, com razão, a jurisprudência prevalecente do STJ
–, ao órgão ad quem se mostrará vedado emendar a sentença ou acrescentar-lhe, originariamente, o capítulo faltante. É
caso de anular o ato e restituir o processo ao órgão a quo para que outro seja proferido.” Discorrendo sobre a sentença
extra petita, Walter Vechiato Junior, na mesma direção, anota que “o julgamento é absolutamente nulo, pois ofende os
princípios constitucionais do acesso à justiça (a matéria não foi levada a juízo) e do contraditório (o adversário não teve
a oportunidade de manifestação) (CF, art. 5º, XXXV e LV).”

Parece mais consentânea com os modernos predicados do processo, todavia, a corrente que pugna pela prevalência da
sentença, mesmo citra ou extra petita, por força da atividade saneadora dos tribunais em sede recursal, desde que não
sejam suplantados princípios e garantias constitucionais. Nessa linha, ensina Cassio Scarpinella Bueno que “a violação
ao princípio da “vinculação do juiz ao pedido” produz determinados defeitos nos atos decisórios em geral. Quando a
sentença vai além do pedido, isto é, quando a sentença dá ao autor mais do que ele pediu, é ela ultra petita. A sentença
que concede ao autor providência não pleiteada (de natureza ou objeto diverso do requerido) é extra petita. Trata-se,
Processo Civil – Processo de Conhecimento

nesse caso, de dar ao autor coisa diversa do que pediu. Também quando a sentença levar em conta quem não é parte do
processo ou que nele não interveio a título algum é ela extra petita. Quando a sentença deixa de apreciar algum pedido
formulado pelo autor, inclusive um dos pedidos cumulados (arts. 288, 289 e 292) ou parcela de pedido, é ela infra ou citra
petita. Todos esses casos são de nulidade da sentença (ou, mais amplamente, da decisão proferida sem a observância
das limitações do pedido) que, se não corrigidos no processo em curso, dão ensejo à propositura de ação rescisória com
esteio no art. 485, V. Durante o processo, é possível e, mais do que isso, desejável a correção desses defeitos pelo próprio
magistrado ou pela oportuna oposição de embargos de declaração (art. 535). Ultrapassada a oportunidade de oposição
dos declaratórios, o defeito é passível de correção por recurso de apelação ou, até mesmo, por recurso extraordinário e/
ou especial. Nos casos de excesso de sentença, isto é, de julgamento ultra ou extra petita, sua correção significará, na
medida do possível, e desde que isso não acarrete supressão de instância, a redução ao que e por que foi pedido pelas
partes que participaram do contraditório. No caso de julgamento infra ou citra petita, a correção poderá ser efetivada
pela complementação do julgado, desde que haja condições para tanto (prova produzida em contraditório). Têm incidência,
na hipótese, não só o art. 535, II, mas, também, o art. 515, § 1º.

106
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

CAPÍTULO VIII

DA SENTENÇA E DA COISA JULGADA

Seção I

Dos Requisitos e dos Efeitos da Sentença

Art. 458. São requisitos essenciais da sentença:

I – o relatório, que conterá os nomes das partes, a suma do pedido e da resposta do réu, bem
como o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;

II – os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de Direito;

III – o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões, que as partes Ihe submeterem.

A sentença é ato de vontade, mas não ato de imposição de vontade autoritária, pois se assenta num juízo lógico.
Traduz-se a sentença num ato de justiça, da qual devem ser convencidas não somente as partes como também a opinião
pública. Portanto, aquelas e esta precisam conhecer dos motivos da decisão, sem os quais não terão elementos para se
convencerem do seu acerto. Nesse sentido diz-se que a motivação da sentença redunda de exigência de ordem pública.
(SANTOS, 1999, p. 19)

Sentença sem motivação é nula, mas, como simples ato processual, convalesce com o trânsito em julgado. Válida, porém,
é a sentença de motivação sucinta ou deficiente, desde que haja entendimento da decisão. (SANTOS, 2007, p. 213)

I – A sentença pode ser dividida em capítulos distintos e estanques, na medida em que, à cada parte do pedido inicial,
atribui-se um capítulo correspondente na decisão. II – Limitado o recurso contra parte da sentença, não pode o tribunal
adentrar no exame das questões que não foram objeto de impugnação, sob pena de violação do princípio tantum devolutum
quantum opellatum. III – No caso, a sentença foi dividida em capítulos, e para cada um foi adotada fundamentação
específica, autônoma e independente. Assim, a nulidade da sentença, por julgamento extra petita, deve ser apenas
parcial, limitada à parte contaminada, mormente porque tal vício não guarda, e nem interfere, na rejeição das demais
postulações, que não foram objeto de recurso pela parte interessada (a autora desistiu de seu recurso). IV – Outra seria
a situação, a meu ver, se a sentença tivesse adotado fundamento único, para todos os pedidos. Nesse caso, o vício teria
o condão de contaminar o ato como um todo. (STJ, REsp. no 203.132/SP, 4ª T., rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira,
DJU 28.04.2003, p. 202)

A declaração de nulidade da sentença por falta de fundamentação deve ocorrer de modo excepcional, apenas quando
não for possível o aproveitamento dos atos realizados. Precedentes. (STJ, REsp. no 57.894/PR, 2ª T., rel. Min. Castro
Meira, DJU 23.08.2004, p. 156)

Art. 459. O juiz proferirá a sentença, acolhendo ou rejeitando, no todo ou em parte, o pedido formulado
pelo autor. Nos casos de extinção do processo sem julgamento do mérito, o juiz decidirá em forma
concisa.

Parágrafo único. Quando o autor tiver formulado pedido certo, é vedado ao juiz proferir sentença
Pós-Graduação a Distância

ilíquida.

O Código de Processo Civil brasileiro não autoriza a cisão do julgamento do mérito mediante a antecipação do exame de
algumas questões diretamente ligadas a ele. Pela interpretação conjunta dos arts. 458 e 459 do Código de Processo Civil,
verifica-se que é na sentença – e somente nela – que devem se situar o exame e o pronunciamento do magistrado acerca
dos pontos (rectius, questões) relevantes para chegar ao resultado de procedência ou de improcedência da demanda. Na
realidade, o Processo Civil brasileiro não admite a cisão do julgamento de mérito, não sendo autorizado ao magistrado, a
não ser em sentença, debruçar-se sobre questões que digam respeito ao objeto do processo propriamente dito (mérito).
(GIANNICO, 2007, p. 149)
107
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

O juiz pode desde logo arbitrar o valor da indenização se houver nos autos elementos suficientes para essa conclusão,
ainda que o pedido tenha sido ilíquido. (STJ, REsp. 423.120/RS, 4ª T., rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJU 21.10.2002,
p. 370)

A sentença que condena o Estado a prestar o medicamento indicado pelo autor para o tratamento de insuficiência renal
crônica durante o tempo que dele necessitar não é incerta, tampouco advém de formulação de pedido genérico. (STJ,
REsp. 733.776/RJ, 2ª T., rel. Min. Castro Meira, DJU 15.08.2005, p. 290)
Art. 460. É defeso ao juiz proferir sentença, a favor do autor, de natureza diversa da pedida, bem
como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que Ihe foi demandado.

Parágrafo único. A sentença deve ser certa, ainda quando decida relação jurídica condicional.

Princípio da correlação entre pedido e sentença – Na sentença de mérito, deve o juiz acolher ou rejeitar, no todo
ou em parte, o pedido formulado pelo autor. Isto significa que deve haver perfeita correlação entre pedido e sentença,
cujo dispositivo é delimitado pelo pedido do autor. Assim, o juiz deve decidir sobre todos os pedidos que lhe são dirigidos
no processo, mas apenas sobre eles, de modo que haja identidade entre o objeto do pedido e o da sentença. (CINTRA,
2008, p. 286)

A certeza é requisito que deve ser observado mesmo quando o pedido se refira a uma relação jurídica condicional, isto
porque uma coisa é a condição que eventualmente recai sobre o Direito reconhecido na decisão, outra coisa é a condição
que se erige para o reconhecimento desse Direito. É o que ocorre, por exemplo, quando, em ação declaratória, se pede
para que o magistrado certifique a existência de um determinado contrato verbal cujos efeitos estão sujeitos a termo ou
condição. Em casos tais, a efetivação da decisão proferida somente será possível se o credor demonstrar, na própria fase
executiva do procedimento, que se realizou a condição ou que ocorreu o termo a cuja superveniência estão submetidos
os efeitos do negócio firmado (art. 572, CPC). (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA. 2007, p. 262)

Não é possível que a sentença condicione sua eficácia a evento futuro e incerto por ela mesma criado. Porém, ela
evidentemente pode regular negócio jurídico que contemple condição. Melhor explicando: a sentença pode regular negócio
jurídico que compreenda condição ainda não implementada (ver arts. 121 a 130 do CC). O que é vedado é a sentença criar,
ela própria, condição para sua eficácia. Em outras palavras, é nula a sentença que condiciona a eficácia da condenação
ao preenchimento de certos requisitos. (MARINONI; ARENHART; 2008, p. 418)

Há violação aos arts. 128 e 460 do CPC se a causa é julgada (tanto na sentença como no acórdão recorrido) com
fundamento em fatos não suscitados pelo autor ou, ainda, se o conteúdo do provimento dado na sentença é de natureza
diversa do pedido formulado na inicial. (STJ, REsp. no 746.622/PB, 3ª T., rel. Min. Nancy Andrighi, DJU 23.10.2006,
p. 309)

Para interpretar uma sentença, não basta a leitura de seu dispositivo. O dispositivo deve ser integrado com a
fundamentação, que lhe dá o sentido e o alcance. Havendo dúvidas na interpretação do dispositivo da sentença, deve-se
Processo Civil – Processo de Conhecimento

preferir o que seja mais conforme a fundamentação e aos limites da lide, em conformidade como pedido formulado no
processo. Não há sentido em se interpretar que foi proferida sentença ultra ou extra petita, se é possível, sem desvirtuar
seu conteúdo, interpretá-la em conformidade com os limites do pedido inicial. (STJ, REsp. no 818.614/MA, 3ª T., rela.
Min. Nancy Andrighi, DJU 20.11.2006, p. 309)

Configura-se ultra petita a decisão que ultrapassa os limites traçados pelas partes e concede objeto diverso do discutido
nos autos, decidindo além do pedido expresso na inicial. A decisão ultra petita, ao contrário da extra petita, não é nula.
Ao invés de ser anulada, deve ser reduzida aos limites do pedido. (STJ, EDcl. no AgRg. no AI nº 262.329/SP, 6ª T., rel.
Min. Hélio Quaglia Barbosa, DJU 05.12.2005, p. 385)

Efeito da sentença de procedência do reconhecimento da paternidade é o deferimento de alimentos, embora não haja
pedido expresso, pois, além da alteração do registro civil, é uma consequência da lei. Os alimentos quando devidos, em
decorrência de ação de investigação de paternidade procedente, tem como termo inicial a data da citação. (STJ, Sentença
Estrangeira Contestada 880, Corte Especial, rel. Min. Fernando Gonçalves, DJU 06.11.2006, p. 287)

108
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

Ainda que se faculte ao juiz, em circunstâncias especiais, proceder a ajustes na execução da providência judicial requerida,
a iniciativa não pode alterar a essência da pretensão perseguida, como se verifica no caso em análise, em que se acabou
por conceder prestação jurisdicional diversa do que foi exposto e requerido na inicial, iniciativa que não se justifica, nem
mesmo a pretexto de tratar-se de tutela de Direitos do consumidor. (STJ, REsp. no 493.187/DF, 3ª T., rel. Min. Castro
Filho, DJU 07.05.2007, p. 313)

É lícita a capitalização mensal de juros nos contratos bancários celebrados a partir de 31.03.2000 (MP no 1.963-17, atual
MP 2.170-36), desde que pactuada. Impossível permitir a incidência em periodicidade mensal de tal encargo, baseado em
mera presunção de sua existência, condicionada a prova posterior, realizada na fase de liquidação, sob pena de proferir
decisão condicional (art. 460, parágrafo único, do CPC). (STJ, AgRg. no REsp. no 849.935/RJ, 3ª T., rel. Min. Humberto
Gomes de Barros, DJU 16.04.2007, p. 197)

Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o juiz
concederá a tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido, determinará providências que
assegurem o resultado prático equivalente ao do adimplemento.

§ 1º A obrigação somente se converterá em perdas e danos se o autor o requerer ou se impossível


a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspondente.

§ 2º A indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa (art. 87).

§ 3º Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do


provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou mediante justificação prévia,
citado o réu. A medida liminar poderá ser revogada ou modificada, a qualquer tempo, em decisão
fundamentada.

§ 4º O juiz poderá, na hipótese do parágrafo anterior ou na sentença, impor multa diária ao réu,
independentemente de pedido do autor, se for suficiente ou compatível com a obrigação, fixando-lhe
prazo razoável para o cumprimento do preceito.

§ 5º Para a efetivação da tutela específica ou a obtenção do resultado prático equivalente, poderá


o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas necessárias, tais como a imposição de
multa por tempo de atraso, busca e apreensão, remoção de pessoas e coisas, desfazimento de obras
e impedimento de atividade nociva, se necessário com requisição de força policial.

§ 6º O juiz poderá, de ofício, modificar o valor ou a periodicidade da multa, caso verifique que setornou
insuficiente ou excessiva.

O caput do art. 461 limita o seu âmbito de incidência às obrigações de fazer e de não fazer. A rigor, obrigação é apenas
uma espécie do gênero dever jurídico. Trata-se de dever que tem sua gênese vinculada ao chamado Direito obrigacional,no
que se distingue de outros tipos de deveres, como aqueles vinculados aos Direitos reais, aos Direitos de família e aos
Direitos sucessórios. Assim, segundo Pontes de Miranda, “em sentido estrito, ‘obrigação’ é a relação jurídica entre
duas (ou mais) pessoas, de que decorre a uma delas, ao debitor, ou a algumas, poder ser exigida, pela outra, creditor,
ou outras, prestação”. A despeito disso, a menção que se faz no art. 461 deve ser interpretada da forma mais ampla
possível, estendendo-se a todos os deveres jurídicos que tenham por objeto um fazer ou um não fazer, ainda que não
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tenham propriamente natureza obrigacional. (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2007, p. 320)

As regras contidas no art. 461 do CPC cuidam da tutela das obrigações de fazer e não fazer oriundas de contrato ou por
disposição legal.(ABELHA, 2006, p. 225)

Na perspectiva do Direito fundamental de efetividade, é preciso interpretar esses dispositivos com vistas largas, aplicando
as formas de tutela aí previstas a outras situações análogas. Por exemplo, o art. 461 do CPC deve incidir também na
proteção dos Direitos absolutos, em que inexiste obrigação de fazer ou não fazer, e sim dever por parte de todos os
membros da comunidade (exemplo: respeito aos Direitos da personaidade). (OLIVEIRA, nº 21/118)

109
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

Verificada a impossibilidade da tutela específica e do resultado correspondente, o juiz de ofício procederá à conversão.
(WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, 2008, p. 327)

Entendemos que o credor pode optar pela conversão da obrigação em prestação pecuniária mesmo que ainda seja possível
o cumprimento na forma específica. Não há nisso qualquer ofensa ao princípio da menor onerosidade possível, tampouco
se pode dizer que isso representaria, nos casos em que a obrigação decorre de convenção das partes, uma novação
objetiva unilateral. (DIDIER JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2007, p. 328)

As disposições dos atuais arts. 461 e 461-A deixam claro que as multas aí previstas servem para pressionar o devedor
a cumprir a obrigação determinada judicialmente; não para substituir, propriamente, o seu adimplemento – o que traz,
como consequência, o fato de que o seu pagamento não extingue a obrigação principal inadimplida, tampouco dispensa o
devedor de vir a cumpri-la (são elas, portanto, como indicado anteriormente, acessórias do dever principal). (NASCIMBENI,
2005, p. 152)

O que deve ficar muitíssimo claro é que as perdas e danos só serão devidos e cumulados com a multa aludida no art. 287
se a tutela específica não for cumprida pelo devedor, e diante dessa hipótese mostre-se impossível a sua realização, ou
por opção do autor que a obrigação se resolva em perdas e danos. O que não se pode admitir, sob pena de enriquecimento
ilícito, é que o autor requeira a tutela específica e, antes de haver a possibilidade de seu cumprimento, opte por perdas
e danos. (ABELHA, 2006, p. 229)

A multa incidirá até o cumprimento da ordem ou, se não cumprida, enquanto houver possibilidade de sê-lo ou não existir
pedido de conversão em perdas e danos. Não parece correto afirmar que a multa fluiria até o pagamento das perdas e
danos. Deixando de ser possível ou de ser querido pelo autor o cumprimento específico, já não há mais o que autorize
o emprego do meio coercitivo. Persistindo o réu no desatendimento do comando judicial e, posteriormente, tornando-se
jurídica ou materialmente inviável que conduta sua atinja o resultado específico, deixa de incidir a multa, do momento
da ocorrência da impossibilidade em diante. (TALAMINI, 2001, p. 249)

À míngua de dispositivo legal a respeito do assunto, aconselha-se, por razões de segurança jurídica, que a multa fixada
em caráter liminar torne-se exigível apenas a partir do momento em que se verificar o trânsito em julgado da sentença que
confirmar a condenação. Por outro lado, justamente pelo fato de a multa cominada nessa ocasião possuir a finalidade de
garantir a efetividade da medida de urgência, pode-se dizer que é razoável que ela se faça exigível tão logo se verifique
a preclusão para recorrer da decisão. (DONIZETTI, 2008, p. 167)

Aceita-se, de maneira pacífica, a tese de que o valor da multa pode superar o da prestação, exatamente porque a sua
finalidade é a de convencer ao cumprimento da prestação e não a de dar ao credor o seu valor equivalente. (MARINONI,
2008, p. 77)

Os mecanismos sub-rogatórios e coercitivos poderão ser utilizados simultaneamente. Aliás, e em face da absoluta
preferência pelo resultado específico, a conjugação de ambos, sempre que viável, é uma imposição. Não se descarta
Processo Civil – Processo de Conhecimento

que, além da ordem para que o réu cumpra, acompanhada da cominação de multa, o provimento antecipador desde logo
determine a atuação de instrumentos que atinjam o resultado equivalente prescindindo da colaboração do demandado.
(WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, 2008, p. 325)

A regra é a de que, desempenhando a multa o papel de levar o réu a cumprir a obrigação, esta não deve ser ínfima,
sob pena de não representar pressão alguma, nem exagerada, a ponto de, somadas as parcelas devidas, ter-se um
quantum superior ao patrimônio do devedor, o que faz com que a pena pecuniária também deixe de significar uma
ameaça, levando o réu a cumprir espontaneamente a obrigação tal como anteriormente avençada. O valor da obrigação,
portanto, não desempenha papel de parâmetro (= limite máximo) para a fixação do valor da multa. (WAMBIER, Luiz
Rodrigues; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Breves comentários à 2ª fase da reforma do código de Processo Civil.
RT, 2. ed., p. 112/113)

Quando o juiz verifica, na fase de execução, que o meio executivo é insuficiente ou inapropriado à execução da forma
de tutela do Direito, ou mesmo que se tornou excessivo ou muito rigoroso, cabe-lhe alterar a modalidade executiva de

110
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

ofício – ou obviamente a requerimento da parte –, aplicando as regras do meio idôneo e da menor restrição possível.
(MARINONI, Luiz Guilherme. Curso de Processo Civil. v. 1, RT, p. 377)

1. As decisões judiciais que imponham obrigação de fazer ou não fazer, ao advento da Lei no 10.444/2002, passaram a ter
execução imediata e de ofício. 2. Aplicando-se o disposto nos arts. 644 caput, combinado com o art. 461, com a redação
dada pela Lei no 10.444/2002, ambos do CPC, verifica-se a dispensa do processo de execução como processo autônomo.
3. Se a nova sistemática dispensou a execução, é induvidosa a dispensa também dos embargos, não tendo aplicação
o disposto no art. 738 do CPC. (STJ, REsp. no 742.319/DF, 2ª T., rel. Min. Eliana Calmon, DJU 27.06.2005, p. 359)

Pertinente a conversão da obrigação em perdas e danos se o autor requerer, se for impossível a tutela específica ou a
obtenção de resultado prática equivalente ao do adimplemento. No caso, imposta a condenação para recuperação do
prédio danificado, não é pertinente impor também a condenação por danos materiais, a serem apurados em liquidação.
(STJ, REsp. no 752.420/RS, 3ª T., rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 27.11.2006, p. 281)

A fixação de multa para o caso de descumprimento de decisão judicial, expressa no dever da instituição financeira de
proceder à retirada do nome do devedor de cadastros de proteção ao crédito, encontra previsão no art. 461, parágrafos
3º e 4º, do CPC, haja vista a decisão se fundar em uma obrigação de fazer. (STJ, AgRg. no AI no 563.875/RS, 3ª T., rel.
Min. Antônio de Pádua Ribeiro, DJU 30.05.2005, p. 363)

A multa pelo descumprimento de decisão judicial não pode ensejar o enriquecimento sem causa da parte a quem favorece,
como no caso, devendo ser reduzida a patamares razoáveis. (STJ, REsp. no 793.491/RN, 4ª T., rel. Min. Cesar Asfor
Rocha, DJU 06.11.2006, p. 337)

OBRIGAÇÃO DE FAZER - ASTREINTES - FIXAÇÃO DE TERMO FINAL. IMPOSSIBILIDADE. É lícito ao juiz modificar o valor
e a periodicidade da astreinte (CPC, Art. 461, § 6º). Não é possível, entretanto fixar-lhe termo final, porque a incidência
da penalidade só termina com o cumprimento da obrigação. (STJ, REsp. no 890.900/SP, 3ª T., rel. Min. Humberto Gomes
de Barros, Dje 13.05.2008)

É lícito ao magistrado determinar o bloqueio de valores em contas públicas para garantir o custeio de tratamento médico
indispensável, como meio de concretizar o princípio da dignidade da pessoa humana e do Direito à vida e à saúde. Nessas
situações, a norma contida no art. 461, § 5º, do Código de Processo Civil deve ser interpretada de acordo com esses
princípios e normas constitucionais, sendo permitida, inclusive, a mitigação da impenhorabilidade dos bens públicos.
(STJ, REsp. no 858.001/RS, 2ª T., rel. Min. João Otávio de Noronha, DJU 07.05.2007, p. 308)

1. Além de prever a possibilidade de concessão da tutela específica e da tutela pelo equivalente, o CPC armou o
julgador com uma série de medidas coercitivas, chamadas na lei de “medidas necessárias”, que têm como escopo o
de viabilizar o quanto possível o cumprimento daquelas tutelas. 2. As medidas previstas no § 5º do art. 461 do CPC
foram antecedidas da expressão “tais como”, o que denota o caráter não exauriente da enumeração. Assim, o legislador
deixou ao prudente arbítrio do magistrado a escolha das medidas que melhor se harmonizem às peculiaridades de cada
caso concreto. 3. Submeter os provimentos deferidos em antecipação dos efeitos da tutela ao regime de precatórios
seria o mesmo que negar a possibilidade de tutela antecipada contra a Fazenda Pública, quando o próprio Pretório
Excelso já decidiu que não se proíbe a antecipação de modo geral, mas apenas para resguardar as exceções do art.
1º da Lei nº 9.494/97. 4. O disposto no caput do artigo 100 da CF/88 não se aplica aos pagamentos de obrigações
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definidas em lei como de pequeno valor, de modo que, ainda que se tratasse de sentença de mérito transitada em
julgado, não haveria submissão do pagamento ao regime de precatórios. 5. Em casos como o dos autos, em que a
efetivação da tutela concedida está relacionada à preservação da saúde do indivíduo, a ponderação das normas
constitucionais deve privilegiar a proteção do bem maior que é a vida. (STJ, AgRg. no AI 706.485/RS, 2ª T., rel. Min.
Castro Meira, DJU 06.02.2006, p. 263)

Art. 461-A. Na ação que tenha por objeto a entrega de coisa, o juiz, ao conceder a tutela específica,
fixará o prazo para o cumprimento da obrigação.

111
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

§ 1º Tratando-se de entrega de coisa determinada pelo gênero e quantidade, o credor a individualizará na


petição inicial, se lhe couber a escolha; cabendo ao devedor escolher, este a entregará individualizada,
no prazo fixado pelo juiz.

§ 2º Não cumprida a obrigação no prazo estabelecido, expedir-se-á em favor do credor mandado de


busca e apreensão ou de imissão na posse, conforme se tratar de coisa móvel ou imóvel.

§ 3º Aplica-se à ação prevista neste artigo o disposto nos §§ 1º a 6º do art. 461.

A regra do art. 461-A é aplicável tanto para pretensões reais que não disponham de uma ação especial que já seja
executiva (imissão de posse, reivindicação, reintegração de posse contra esbulho com mais de ano e dia etc.) quanto
para pretensões meramente obrigacionais (por exemplo, inquilino contra locador, para assumir posse de bem locado, mas
não entregue). Portanto, o regime previsto no art. 461-A vale para todos os deveres de entrega de coisa. (WAMBIER;
ALMEIDA; TALAMINI, 2008, p. 329)

Por força do § 3º do art. 461-A, são aplicáveis, de forma alternativa, as medidas de apoio previstas nos parágrafos do
art. 461. Merece destaque a multa cominatória por período de atraso. Ela poderá ser imposta ao réu logo no início ou
de forma superveniente. Nada impede, por exemplo, que o juiz fixe a multa para coagir o devedor à entrega da coisa,
antes de expedir o mandado de busca e apreensão ou de imissão na posse, tendo em vista a percepção do juiz quanto à
dificuldade no cumprimento do mandado.

Evidentemente que os meios de coerção só funcionam onde se revelam insuficientes os meios de sub-rogação. Assim é
que, podendo apreender a coisa ou imitir o devedor na posse, não deve o juiz optar pela coerção sob pena de incidir em
error in procedendo. Isto porque há interesse público decorrente da jurisdição no sentido de satisfazer o credor em toda
e qualquer execução. Por outro lado o processo deve dar à parte aquilo a que ela faz jus, pró et. contra. Em consequência
o processo não deve ser fonte de enriquecimento sem causa do credor, concedendo a ele aliud se pode conferir-lhe a
prestação in espécie.

Com o advento da Lei nº 10.444, de 07.05.2002, foi incluído, no Código de Processo Civil, o art. 461-A, trazendo a
hipótese de tutela específica para as obrigações de entrega de coisa certa decorrente de título judicial, independente
do ajuizamento do processo executivo. Recaindo a tutela específica sobre obrigação constante de título judicial, não há
falar em possibilidade de ajuizamento de embargos à execução, mediante depósito da coisa. (STJ, REsp. no 595.950/
MG, 4ª T., rel. Min. Fernando Gonçalves, DJU 13.12.2004, p. 368)

Art. 462. Se, depois da propositura da ação, algum fato constitutivo, modificativo ou extintivo do
Direito influir no julgamento da lide, caberá ao juiz tomá-lo em consideração, de ofício ou a requerimento
da parte, no momento de proferir a sentença.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

O art. 462 tem aplicação irrestrita no âmbito dos Tribunais de segundo grau de jurisdição. Também eles deverão levar
em conta fato ou Direito novo que têm aptidão de influenciar o julgamento do pedido (ou pedidos) de tutela jurisdicional.
Não necessariamente, entretanto, em sede de recurso extraordinário e especial, considerando o estreito âmbito de
devolutividade que caracteriza estes recursos como tais e que decorre da exigência constitucional constante dos arts.
102, III, e 105, III, de que o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça julguem, tão-somente, causas
decididas. (BUENO, 2007, p. 366)

A proibição de mudar o pedido e aquela que impede o juiz de julgar ultra ou extra petita não excluem a possibilidade de
levar em conta, o juiz, fato superveniente à propositura da ação. A tanto autoriza o art. 462 desde que o fato novo tenha
influência no julgamento da lide e se refira, obviamente, ao mesmo fato jurídico que já constitui o objeto da demanda,
e possa ser tido, em frente a ele, como fato constitutivo, modificativo ou extintivo. Não se pode, contudo, em hipótese
alguma, admitir fato novo que importe mudança de causa petendi. (THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 456)

112
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

O art. 462 do CPC – que se refere à superveniência de fato constitutivo, modificativo ou extintivo do Direito vindicado
pela parte interessada – não se revela invocável em sede de embargos de declaração opostos com o objetivo de infringir
acórdão, que, emanado do Supremo Tribunal Federal, haja sido proferido no julgamento de recurso extraordinário ou
no exame de agravo de instrumento pertinente ao apelo extremo denegado na origem, exceto na hipótese excepcional
(inocorrente na espécie) de alteração da competência constitucional desta Suprema Corte. Precedentes. Consequente
inadmissibilidade da apreciação, nesta sede recursal, de fato alegadamente superveniente (existência de sentença
irrecorrível prolatada no Processo nº 3.714/00). (STF, EDCL. no AGRG. no AI no 469.699-9/MA, rel. Min. Celso de Mello,
DJU 21.11.2003, p. 27)

1. Fato novo superveniente, constitutivo, modificativo ou extintivo do Direito. Observância. Impossibilidade. O artigo 462
do Código de Processo Civil não tem aplicação após o julgamento do recurso, em embargos de declaração opostos com
a finalidade de modificar a conclusão do acórdão embargado. Precedente. 2. Mandado de segurança. Inaplicabilidade de
dispositivo de lei superveniente à impetração, dado que a autoridade coatora a respeito de sua aplicação não expediu
qualquer ato ilegal. (STF, EDCL. nos EDCL. nos EDCL. no AGRG. no RE no 167.522-5/RS, rel. Min. Maurício Corrêa, DJU
04.04.2003, p. 65)

Firmou-se o entendimento nesta Suprema Corte no sentido de que o art. 462 do CPC não é “aplicável a recurso
extraordinário, exceto nas hipóteses absolutamente excepcionais, como a de alteração de competência constitucional”
(AI 278.029 – AgR, rel. Min. Moreira Alves). (STF, EDCL. no AGRG. no RE no 361.031-7/RJ, rela. Mina. Ellen Gracie,
DJU 01.08.2003, p. 139)

Art. 463. Publicada a sentença, o juiz só poderá alterá-la:

I – para Ihe corrigir, de ofício ou a requerimento da parte, inexatidões materiais, ou Ihe retificar
erros de cálculo;

II – por meio de embargos de declaração.

Distingue-se, conceitualmente, a publicação da intimação da sentença, porque a publicação importa em dar a público o
conhecimento do seu teor, enquanto a intimação consiste em cientificar as partes do conteúdo do pronunciamento judicial.
Quando proferida oralmente em audiência de cuja realização foram intimadas as partes, há simultâneas publicação e
intimação da sentença no próprio momento em que o juiz a prolata. (CINTRA, 2008, p. 301)

O art. 463 exige tão só a publicação da sentença para os fins que regula. Indiferente, destarte, que as partes já tenham
sido intimadas da sentença. A publicação da sentença na imprensa para fins de intimação das partes (art. 236, caput,
c/c art. 242, caput) é ato posterior à sua publicação em cartório ou de seu proferimento e publicação na própria audiência
nos termos dos arts. 456 e 457. Tanto que nesse caso, proferida a sentença em audiência (e aí publicada), as partes
dela sairão intimadas (art. 242, § 1º). (BUENO, 2007, p. 367)

Mesmo que ausente qualquer previsão nesse sentido no art. 535 do CPC, os embargos de declaração podem também
ser usados para se pleitear a correção de erro material na decisão, embora tal pedido possa ser deduzido por simples
petição, ou a correção ser feita até mesmo de ofício pelo magistrado.
Pós-Graduação a Distância

1. O erro material pode ser corrigido a qualquer tempo, ainda que a sentença haja transitado em julgado (art. 463, I,
do CPC). 2. Competente para corrigir as inexatidões materiais é o prolator da sentença e que elas se encontram. (STJ,
REsp. no 439.863/RO, 1ª T., rel. Min. José Delgado , DJU 15.03.2004, p. 155)

Proferindo sentença, o juiz esgota seu ofício, não podendo reconsiderá-la ou desentranhá-la dos autos, ainda que
advertido de que uma das partes já havia falecido na data do julgado; peculiaridade do caso que, todavia, recomendavam
o reconhecimento da inefácia da sentença de homologação. (STJ, REsp. no 753.449/BA, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler,
DJU 04.12.206, p. 303)

113
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

Art. 466. A sentença que condenar o réu no pagamento de uma prestação, consistente em dinheiro
ou em coisa, valerá como título constitutivo de hipoteca judiciária, cuja inscrição será ordenada pelo
juiz na forma prescrita na Lei de Registros Públicos.

Parágrafo único. A sentença condenatória produz a hipoteca judiciária:

I – embora a condenação seja genérica;

II – pendente arresto de bens do devedor;

III – ainda quando o credor possa promover a execução provisória da sentença.

É a hipoteca judiciária um efeito secundário das sentenças condenatórias, que condenam o réu no pagamento de uma
prestação, consistente em dinheiro ou em coisa, que segue, automaticamente, ao efeito condenatório. Constitui-se
independentemente de pedido da parte e de declaração expressa na sentença pelo juiz. Do só fato de haver sentença
condenatória resulta, por força de lei, hipoteca judiciária sobre os bens imóveis do condenado, e, assim, o poder do autor
de fazer inscrevê-la mediante simples mandado do juiz. (SANTOS, 1999, p. 36)

Não obstante seja um efeito da sentença condenatória, a hipoteca judiciária não pode ser constituída unilateralmente;
o devedor deve ser ouvido previamente a respeito do pedido. (STJ, REsp. no 439.648/PR, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler,
DJU 04.12.206, p. 294)

A hipoteca judiciária constitui um efeito secundário da sentença condenatória e não obsta a sua efetivação a pendência
de julgamento de apelação recebida em ambos os efeitos. (STJ, REsp. no 715.451/SP, 3ª T., rela. Min. Nancy Andrighi,
DJU 02.05.2006, p. 310)

Art. 466-A. Condenado o devedor a emitir declaração de vontade, a sentença, uma vez transitada
em julgado, produzirá todos os efeitos da declaração não emitida.

A sentença conclui o contrato, sem acrescentar-lhe obrigações, produzindo-se os efeitos jurídicos que se produziriam,
caso concretizado voluntariamente o negócio. (FUX, 2008, p. 307)

Note-se que os efeitos da sentença (que são os próprios efeitos da declaração de vontade não emitida) só se produzirão
após o trânsito em julgado, o que significa dizer que, nesse caso, todos os recursos serão recebidos com efeito suspensivo,
inclusive os recursos excepcionais (extraordinário e especial).

CONTRATO DE PROMESSA DE PERMUTA. RECUSA DOS RÉUS/RECONVINTES EM OUTORGAR A ESCRITURA


DEFINITIVA. IMPROCEDÊNCIA DOS MOTIVOS ALEGADOS. EXECUÇÃO ESPECÍFICA. ARTS. 639 E 641 DO CPC. Se o
devedor não cumpre a obrigação, improcedente que é o motivo embasador de sua recusa à outorga da escritura definitiva,
ao credor é lícito obter a condenação daquele a emitir a manifestação de vontade a que se obrigou, sob pena de, não o
Processo Civil – Processo de Conhecimento

fazendo, produzir a sentença o mesmo efeito da declaração não emitida. Precedentes do STJ. (STJ, REsp. 306.012/RJ,
4ª T., rel. Min. Barros Monteiro, DJU 17.03.2003, p. 234)

Art. 466-B. Se aquele que se comprometeu a concluir um contrato não cumprir a obrigação, a outra
parte, sendo isso possível e não excluído pelo título, poderá obter uma sentença que produza o mesmo
efeito do contrato a ser firmado.

Recusando-se à obrigação de emitir declaração de vontade, o credor ingressará em juízo para obter uma sentença que
produza o mesmo efeito do contrato a ser firmado (CPC, art. 466-B). Vale dizer, a pretensão do autor é a obtenção de uma
tutela jurisdicional diferenciada, consistente na obtenção de uma sentença que produza os mesmos efeitos da declaração
não emitida; não pretende o autor a declaração em si mesma, mas um comando jurisdicional substitutivo da prestação
positiva não cumprida. O poder jurisdicional não exerce qualquer pressão sobre a vontade do réu inadimplente, não se
trata de execução indireta. A tutela específica, nesses casos, inclusive colabora para que reste intacto o posicionamento
do devedor em não cumprir aquilo a que se comprometeu, havendo efetiva substituição de sua vontade, e não coação.

114
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

Julgado procedente o pedido do autor em obter a tutela específica voltada à substituição da vontade do réu, o trânsito
em julgado da respectiva sentença fará com que todos os efeitos da declaração de vontade não emitida sejam desde
logo produzidos. (RAMOS, Glauco Gumerato. Reforma do CPC. RT, 2006, p. 129/130)

O contrato preliminar deve conter todos os elementos essenciais para o contrato definitivo. Não se trata de mero
formalismo, mas do reconhecimento de que a atuação jurisdicional encontra limites. Se as partes não chegaram a pactuar
aspectos nucleares do negócio (exemplos: o preço exato, o bem adequadamente individualizado etc.), não há como o
órgão jurisdicional criar cláusulas e condições. Cabe-lhe apenas dar efetividade às já estabelecidas pelas partes. Caso
contrário, estaria havendo ofensa à autonomia da vontade. (WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, p. 266)

Súmula nº 166 do Supremo Tribunal Federal: “É inadmissível o arrependimento do compromisso de compra e venda sujeito
ao regime do Dec.-Lei nº 58, de 10.12.37”

Súmula nº 76 do Superior Tribunal de Justiça: “A falta de registro do compromisso de compra e venda de imóvel não
dispensa a prévia interpelação para constituir em mora o devedor”

Art. 466-C. Tratando-se de contrato que tenha por objeto a transferência da propriedade de coisa
determinada, ou de outro Direito, a ação não será acolhida se a parte que a intentou não cumprir a
sua prestação, nem a oferecer, nos casos e formas legais, salvo se ainda não exigível.

Ao mesmo tempo em que a Codificação prevê que a sentença da lavra do magistrado pode suprir a vontade não
manifestada pelo réu no plano extrajudicial, permitindo o pleno cumprimento de uma obrigação de fazer, textualiza que
a interferência do juiz não se justifica e não está autorizada na hipótese de o autor se mostrar inadimplente no que se
refere ao cumprimento de obrigação por ele assumidas no contrato firmado com o seu opositor processual.

A sentença do processo de conhecimento que supre o contrato, ou que produz efeitos de declaração de vontade, nada
tem de execução, nem a exige para que se efetive o que se determinou. Trata-se de sentença constitutiva que tem a
força de produzir, por si só, efeitos de contrato, ou de declaração de vontade não emitida. (SANTOS, 2007, p. 251)

O art. 466-C do CPC disciplina a regra da exceptio non adimpleti contractus, segundo a qual, nos contratos bilaterais,
especialmente nos que envolvam a transferência de propriedade de bem móvel ou imóvel, não será possível a uma das
partes exigir o cumprimento da obrigação pela outra se não demonstrar, previamente, que já cumpriu as obrigações que
lhe competiam e que já se encontra esgotado o prazo para que o réu preste o fato a que se obrigou. Tal artigo veicula
regra de julgamento do processo de conhecimento em que se busca a declaração judicial substitutiva da vontade da parte
que se recusa a celebrar o contrato principal.

Conceito (CPC, art. 467)


Coisa julgada é a qualidade da sentença adquirida quando não é mais passível de impugnação e que a torna imutável.
Com Alexandre Freitas Câmara, pode-se “afirmar que a coisa julgada é a situação jurídica consistente na imutabilidade e
indiscutibilidade da sentença (coisa julgada formal) e de seu conteúdo (coisa julgada substancial), quando tal provimento
jurisdicional não está mais sujeito a qualquer recurso.”
Pós-Graduação a Distância

Parte da doutrina e da jurisprudência, partindo do pressuposto de que a sentença compõe-se de tantos capítulos quanto
sejam as matérias apreciadas pelo juiz, admite o fenômeno da coisa julgada parcial, isto é, a coisa julgada da parte
da sentença que não foi impugnada no recurso interposto pelo vencido na demanda. Nos dizeres de Fredie Didier Jr. e
Leonardo José Carneiro da Cunha, “o capítulo não impugnado fica acobertado pela preclusão – e, se se tratar de capítulo
de mérito, ficará imutável por força da coisa julgada material. Assim, o tribunal, ao julgar o recurso parcial, não poderá
adentrar o exame de qualquer aspecto relacionado ao capítulo não impugnado, nem mesmo para constatar a ausência de
um “pressuposto processual” ou de uma condição da ação.” Do mesmo sentir é Cândido Rangel Dinamarco, para quem,
“quando o recurso interposto é integral, abrangendo todos os capítulos de que se compõe o ato recorrido, não se opera

115
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

preclusão alguma, notadamente a coisa julgada; quando ele é parcial, os capítulos de sentença não impugnado recebem
a coisa julgada e tornam-se, a partir daí, inatacáveis.”

Trata-se de matéria sensível que comporta entendimentos diversos, como demonstra o seguinte magistério doutrinário
de Glória Maria G. De Pádua Ribeiro Portella: “Nada obstante exista quem defenda a possibilidade da formação da coisa
julgada material, parcialmente, certo é que, em consonância com as normas de regência vigentes, isto não é possível. A
sentença é ato formalmente único e apesar de ocorrer a preclusão das questões não impugnadas, a coisa julgada incide
não sobre estas questões, mas sobre a sentença (ou acórdão) como um todo. A coisa julgada não se consubstancia em
eficácia natural da sentença, mas numa qualidade que lhe é imposta por questões de ordem política.”

Espécies

Formal

A coisa julgada formal projeta efeitos dentro do processo, mas não impede a rediscussão da causa noutro processo. É o
que se verifica nas sentenças terminativas (que não resolvem o mérito da causa – CPC, art. 267), cautelar, proferidas
em jurisdição voluntária etc. No escólio incensurável de Moacyr Amaral Santos, “a coisa julgada formal consiste no
fenômeno da imutabilidade da sentença pela preclusão dos prazos para recursos. Dá-se porque a sentença não poderá
ser reformada por meio de recursos, seja porque dela não caibam mais recursos, seja porque estes não foram interpostos
no prazo, ou porque do recurso se desistiu ou do interposto se renunciou.”

Material

A coisa julgada material projeta efeitos externos, impedindo que a causa seja rediscutida em outro processo. É o que
se dá com as sentenças definitivas, ou seja, aquelas que resolvem o mérito da causa (CPC, art. 269). E dá-se a coisa
julgada, de acordo com o disposto no art. 301, § 3º, segunda parte, “há coisa julgada, quando se repete ação que
já foi decidida por sentença, de que não caiba recurso.”

Fundamento
A coisa julgada fundamenta-se na segurança jurídica e na paz social.

Sem o instituto da coisa julgada as demandas poderiam ser apresentadas e reapresentadas indefinidamente, eternizando
os conflitos de interesses.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Parte da doutrina vem defendendo a relativização da coisa julgada, sob o argumento central de que outros institutos ou
fundamentos constitucionais, como a justiça e a dignidade da pessoa humana, podem justificar a desconsideração de
sentenças de mérito transitadas em julgado.

A matéria é relativamente nova e ainda enfrenta sérias discussões doutrinárias, mas razão parece assistir a Nelson Nery
Jr., respeitadas, obviamente, as ressalvas legais, como pode se aquilatar da seguinte passagem: “Consoante o Direito
constitucional de ação (CF, art. 5º, XXXV), busca-se pelo processo a tutela jurisdicional adequada e justa. A sentença
justa é o ideal – utópico – maior do processo. Outro valor não menos importante para essa busca é a segurança das
relações sociais e jurídicas. Havendo choque entre esses dois valores (justiça da sentença e segurança das relações
sociais e jurídicas), o sistema constitucional brasileiro resolve o choque optando pelo valor segurança (coisa julgada),
que deve prevalecer em relação à justiça, que será sacrificada (Veropferungstheorie). Essa é a razão pela qual, por
exemplo, não se admite ação rescisória para corrigir injustiça da sentença. A opção é política: o Estado brasileiro é
democrático de Direito, fundado no respeito à segurança jurídica pela observância da coisa julgada. Poderíamos ter
optado politicamente por outro sistema, como, por exemplo, o regime nazista, no qual prevalecia a sentença justa

116
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

(sob o ponto de vista do Fuher e do Reich alemão) em detrimento da segurança jurídica. A experiência nazista ensinou
duramente os alemães, de modo que os atuais sistemas constitucional e processual da Alemanha têm extraordinário
cuidado científico e político com o princípio e a teleologia do instituto da coisa julgada. A má utilização do instituto
pode servir de instrumento de totalitarismo e de abuso de poder pelos governantes do momento, em detrimento do
Estado Democrático de Direito.”
É verdade que os 475-L, § 1º e 741, parágrafo único, do CPC, trazem ressalvas legais à intangibilidade da coisa julgada.
Porém, são exceções que não comprometem o respeito a esse instituto jurídico que deita raízes diretamente no Texto
Constitucional. Sobre o tema, Alexandre Freitas Câmara pontifica que “a coisa julgada, como é notório, produz um ‘efeito
negativo’ consistente em impedir qualquer novo exame da matéria já alcançada por aquela autoridade. Assim, instaurado
um processo em que se pretenda discutir aquilo que já transitou em julgado, deverá o juiz abster-se de reexaminar a
matéria (e, no caso de ter este segundo processo por fim a apreciação da mesma demanda que deu origem ao primeiro,
deverá ele ser extinto sem resolução do mérito, na forma do art. 267, V, do CPC). Ora, se a injustiça de uma sentença
fosse fundamento para a desconstituição da coisa julgada não se teria mais, a rigor, a coisa julgada no Direito brasileiro.
Isto porque bastaria a alegação de injustiça da sentença para que se reexaminasse a causa (afinal, para saber se uma
sentença é justa ou injusta faz-se necessário examinar a causa em que a mesma foi proferida), o que tornaria inexistente
o efeito negativo da coisa julgada. É preciso, pois, reconhecer que a relativização (rectius, desconsideração) da coisa
julgada material é absolutamente excepcional e não pode ser transformada em regra, sob pena de se acabar com a
segurança jurídica.”

Arguição

Preliminar (CPC, arts. 267, VI e 301, VI, §§ 1º a 4º)


Tecnicamente, a coisa julgada deve ser arguida pelo réu como preliminar da contestação. Vale reproduzir a advertência
de Moacyr Amaral Santos no sentido de que, “alegando coisa julgada, o réu deverá prová-la por meio de certidão da
sentença, transitada em julgado, proferida no mesmo ou em outro juízo.”

A Qualquer Tempo
Tratando-se de matéria de ordem pública, a coisa julgada, mesmo que não deduzida como preliminar da contestação, pode
ser alegada a qualquer tempo, dada a inexistência de preclusão. Conforme assentou o Superior Tribunal de Justiça3,192
“a coisa julgada pode ser alegada a qualquer tempo e grau de jurisdição, pois não é sujeita à preclusão, sendo, inclusive,
dever do julgador pronunciá-la de ofício.”
Ex Officio (CPC, arts. 267, § 3º e 301, § 4º)
As matérias de ordem pública podem ser conhecidas de ofício pelo juiz, ou seja, mesmo que não haja provocação por
nenhuma das partes. Decidiu, a propósito, o Supremo Tribunal Federal4,193“a coisa julgada pode ser alegada em qualquer
tempo e grau de jurisdição. A coisa julgada é a eficácia que torna imutável e indiscutível a sentença (CPC, art. 467),
quando julga a lide (CPC, art. 128).”
Pós-Graduação a Distância

Preclusão

Conceito
Instituto que preserva a dinâmica do processo, impedindo a volta a estágios ultrapassados. Na definição de Moacyr
Amaral Santos, “preclusão consiste na perda de uma faculdade ou Direito Processual, que, por se haver esgotado ou
não ter sido exercido em tempo e momento oportunos, fica praticamente extinto.”
REsp. 383.779-0/PR, 2ª T., rel. Min. João Otávio de Noronha, BSTJ 2006, nº 05/56
3

AGRG. no AI 89.241/PR, rel. Min. Alfredo Buzaid, RTJ 104/189


4

117
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

A preclusão incide sobre Direitos processuais, pois a prescrição e a decadência é que têm como objeto os Direitos
substanciais.

Somente as decisões interlocutórias estão sujeitas à preclusão: as sentenças fazem coisa julgada.

Espécies

Temporal: ocorre quando há o desrespeito ao prazo ou à oportunidade processual para a prática do ato (CPC, arts.
183 e 245, caput). Acerca do assunto, Maurício Giannico assinala que, “proferida uma decisão interlocutória e, não
sendo interposto tempestivamente o recurso cabível pela parte prejudicada (agravo de instrumento), a questão ali
decidida torna-se imutável, impossibilitando eventual futura reapreciação pelo juiz, ainda que provocado por quaisquer
das partes. Apenas os despachos de mero expediente, por não terem qualquer conteúdo decisório, não dão causa ao
efeito preclusivo.”

Lógica: ocorre quando há incompatibilidade do ato praticado com outro que se queira praticar (CPC, art. 503).

Consumativa: ocorre quando a questão foi suscitada e decidida (CPC, art. 473). Elucida, sobre a matéria, Daniel Amorim
Assumpção Neves, que “a preclusão consumativa se verifica sempre que realizado o ato processual. Dessa forma, somente
haverá oportunidade para realização do ato uma vez no processo e, sendo esse consumado, não poderá o interessado
realizá-lo novamente. Ainda que o réu tenha no procedimento ordinário um prazo de quinze dias para responder à inicial, se
apresentar contestação no quinto dia, não poderá nos dez dias subsequentes voltar a apresentar argumentos defensivos,
tendo em vista a preclusão consumativa.”

Limites Objetivos (CPC, art. 468)


Os limites objetivos da coisa julgada são determinados pelo pedido e pela causa de pedir. Nesse sentido, Humberto
Theodoro Junior anota que, “uma vez que não se pode compor a lide sem julgar a causa petendi, é claro que a autoridade
da coisa julgada tem necessariamente de alcançá-la. É nesse sentido que o art. 468 do CPC afirma a força de lei da
sentença, nos limites da lide e das questões decididas. Essas questões não se confundem com os simples motivos que
não fazem coisa julgada, segundo o art. 469, I, do CPC. É preciso fazer a distinção entre a causa petendi, pressuposto
lógido da solução da lide, e o motivo, que como simples fato eventual serviu de prova ou argumento para o julgamento
do pedido nesse ou naquele sentido.”

Objeto da Coisa Julgada (CPC, art. 469, I)


Quando se diz que só o dispositivo da sentença faz coisa julgada, é preciso que se entenda que esse dispositivo se
funda na causa de pedir, tradutora dos fatos jurídicos da lide, que também faz coisa julgada. Conforme pondera Antônio
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Alberto Alves Barbosa, “só o dispositivo ou conclusão adquire força de coisa julgada. Ou melhor, tem autoridade de
coisa julgada o que o juiz decidiu, estendendo-se essa autoridade a todas as questões que tenham sido abordadas como
premissa necessária da conclusão.”

Verdade dos Fatos (CPC, art. 469, II)

A verdade dos fatos não faz coisa julgada. Um mesmo fato pode ser valorado diferentemente em processos distintos,
desde que verse sobre litígios diversos.

Mas os fatos a que se refere esse dispositivo legal são os fatos simples, pois os fatos jurídicos integram o dispositivo da
sentença e por isso são alcançados pela coisa julgada. José Maria Tesheiner ensina que “as afirmações de fatos simples,
embora importantes para determinar o sentido da decisão, não fazem coisa julgada. Integram-na, porém, os fatos jurídicos
invocados pela sentença como razão de decidir: assim, a afirmação ou negação da causa petendi afirmada pelo autor; a
afirmação ou negação do fato impeditivo ou extintivo alegado pelo réu.”
118
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

Questões Prejudiciais (CPC, art. 469, III)


Prejudicial é a questão de fato e de Direito que antecede logicamente ao mérito e que pode ser objeto de ação própria.
Exemplos: domínio nas ações de vizinhança, qualidade de herdeiro na petição de herança e qualidade de locatário nas
ações de despejo. Humberto Theodoro Júnior esclarece que “prejudicial “é aquela questão relativa a outra relação ou
estado que se apresenta como mero antecedente lógico da relação controvertida (à qual não diz diretamente respeito,
mas sobre a qual vai influir), mas que poderia, por si só, ser objeto de um processo separado”.”
As preliminares são questões processuais que antecedem o julgamento do mérito (pressupostos processuais e condições
da ação).
As prejudiciais são questões de mérito que são enfrentadas pelo juiz na sentença, vindo antes da solução da causa.
As questões prejudiciais só fazem coisa julgada formal. Somente fazem coisa julgada material nas hipóteses dos arts. 5º
e 325 (CPC, art. 470). Nos dizeres de Sidnei Amendoeira Jr., “com a ação declaratória incidental, uma questão prejudicial
que seria decidida em caráter incidenter tantum (art. 469, III, CPC) passa a integrar o objeto do processo, de modo que
sobre ela incidirá a autoridade da coisa julgada (art. 470 do CPC).”

Questões Implicitamente Resolvidas (CPC, art. 474)


Prescreve o art. 474 do CPC que, “passada em julgado a sentença de mérito, reputar-se-ão deduzidas e repelidas todas
as alegações e defesas, que a parte poderia opor assim ao acolhimento como à rejeição do pedido.”
“Ao julgar improcedente uma ação, o juiz repele não somente a fundamentação jurídica do autor, como também todas
aquelas que, por diferentes argumentos de Direito, teriam levado ao mesmo resultado”, segundo a lição incensurável de
Eduardo J. Couture.
Entretanto, “na verdade, apenas as questões relativas à mesma causa de pedir ficam preclusas em função da incidência
da previsão do art. 474. Todas as demais são livremente dedutíveis em demanda posterior”, como ressalvam com
propriedade Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart.

Limites Subjetivos (CPC, art. 472)


Segundo estatui o art. 472 do CPC, “a sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando, nem
prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no processo, em litisconsórcio
necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em relação a terceiros.”
Interpretando esse preceito legal, Alexandre Freitas Câmara assevera que, “com a regra do art. 472 do CPC se afirma
que a coisa julgada faz a sentença imutável e indiscutível entre as partes, mas tal indiscutibilidade e imutabilidade não
podem atingir terceiros, estranhos ao processo onde aquela autoridade se formou.”
Não se consideram terceiros o sucessor a título universal, o substituído e em certos casos o sucessor a título singular.
Sidnei Amendoeira Jr. afirma que “a parte é o substituto processual, mas os efeitos da coisa julgada material incidirão
sobre aquele que não participa da relação jurídica processual (o substituído), que não poderá vir a juízo, no futuro,
Pós-Graduação a Distância

rediscutir aquilo que já foi objeto de demanda pelo substituto, ainda que tivesse ele, substituído, legitimidade ordinária
para demandar. Mas, se mesmo assim vier a propor nova ação, deve ser esta extinta em função do pressuposto processual
negativo da coisa julgada que incide sobre a demanda ajuizada pelo substituto (art. 267, V, CPC).”

Relação Jurídica Continuativa (CPC, art. 471, I)


Em caso de relação jurídica continuativa a sentença produz coisa julgada como qualquer outra. A distinção é que, em
tais hipóteses, pode haver alteração dos fatos jurídicos que, por serem novos, obviamente não são alcançados pela coisa
119
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

julgada. Nesses termos, lembram Fredie Didier Jr., Paula Sarno Braga e Rafael Oliveira que, “ao deparar-se com a ação
de revisão, o juiz estará julgando uma demanda diferente, pautada em nova causa de pedir (composta por fatos/Direito
novo) e em novo pedido. Com isso, gerará uma nova decisão e uma nova coisa julgada, sobre esta nova situação, que não
desrespeitará, em nada, a coisa julgada formada para a situação anterior. Sentença sobre relação jurídica continuativa
faz, sim, coisa julgada material. Para a relação jurídica continuativa, identificada por aqueles quadros fático e jurídico,
há uma decisão transitada em julgada, indiscutível. Agora, modificado o quadro fático e/ou jurídico, necessário que se
dê novo tratamento à relação jurídica, o que será feito por nova ação, que culminará em uma nova decisão transitada
em julgado – indiscutível para aquela nova situação.”

Seção II

Da Coisa Julgada

Art. 467. Denomina-se coisa julgada material a eficácia, que torna imutável e indiscutível a sentença,
não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário.

Na teoria dos recursos, a noção dos capítulos da sentença é fundamental. Com efeito, denomina-se recurso total aquele
que impugna todos os capítulos desfavoráveis de uma decisão; já o recurso parcial é o que impugna apenas um ou alguns
dos capítulos desfavoráveis, deixando, por isso, de devolver à apreciação do órgão ad quem os demais. A interposição de
recurso parcial faz com que, em regra, haja preclusão quanto à discussão sobre os capítulos não impugnados. (DIDIER
JR.; BRAGA; OLIVEIRA, 2007, p. 244)

Enquanto pender recurso, e, portanto, perdurarem os efeitos da litispendência, o provimento não transita em julgado.
Entre nós, o juízo de inadmissibilidade passou a ostentar efeitos ex nunc. O trânsito em julgado ocorrerá, nos estritos
termos do art. 467, in fine, na data em que se esgotarem as vias recursais. (ASSIS, Araken de. Manual dos recursos,
RT, 2007, p. 209)

Não há coisa julgada material sem a prévia formação da coisa julgada formal, de modo que somente as sentenças contra
as quais não caibam mais recursos poderão produzir coisa julgada material.

Enquanto o acórdão estiver passível de recurso parcial ou total não estará resolvida a lide e não ocorrerá a coisa julgada
material, que somente se consubstancia quando encerrada a lide pela sentença de que não caiba mais recurso ordinário
ou extraordinária. (STJ, REsp. 320.459/CE, 2ª T., rel. Min. Castro Meira, DJU 05.09.2005, p. 335)

Para fins de contagem de mora, o trânsito em julgado relevante é aquele material, iniciado após expirado o prazo para
a interposição de recurso especial ou extraordinário, na forma do art. 467 do Código de Processo Civil, cujos efeitos
transcendem a própria relação processual passando, assim, a gozar de total eficácia também no mundo exterior ao
processo. (STJ, REsp. 492.171/RS, 1ª T., rel. Min. Francisco Falcão, DJU 04.04.2005, p. 170)
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Art. 468. A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e
das questões decididas.

Uma vez que não se pode compor a lide sem julgar a causa petendi, é claro que a autoridade da coisa julgada tem
necessariamente de alcançá-la. É nesse sentido que o art. 468 do CPC afirma a força de lei da sentença, nos limites
da lide e das questões decididas. Essas questões não se confundem com os simples motivos que não fazem coisa
julgada, segundo o art. 469, I, do CPC. É preciso fazer a distinção entre a causa petendi, pressuposto lógico da solução
da lide, e o motivo, que como simples fato eventual serviu de prova ou argumento para o julgamento do pedido nesse
ou naquele sentido.

A imutabilidade incide sobre o todo, não em suas partes fracionadas. O pedido e a causa de pedir, sozinhos, não ficam
acobertados pela coisa julgada, pois estes, separados, nada significam. A coisa julgada irá se estender, na verdade, sobre
o conjunto dos elementos da demanda, que correspondem ao objeto do processo.

120
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

Se o acórdão, no processo de conhecimento, deixou de determinar a compensação dos honorários de advogado, não
há como ordená-la no âmbito da execução; a coisa julgada não pode ser discutida, deve ser cumprida. (STJ, REsp. no
189.797/RS, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler, DJU 27.05.2002, p. 168)

Não constitui erro material a utilização de critérios de cálculo (índices/percentuais) por não se cuidar de inexatidões
materiais, nem erro de cálculo que ficam acobertados pela coisa julgada. (STJ, Ag. Reg. no Ag. Inst. no 258.096/SC, 5ª
T., rel. Min. Gilson Dipp, DJU 05.03.01, p. 206)

Art. 469. Não fazem coisa julgada:

I – os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença;

Il – a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença;

III – a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no processo.

Ao decidir o mérito, o juiz necessariamente analisará a questão prejudicial, exatamente porque esta é que determinará
o possível conteúdo da sentença. Portanto, não é a ação declaratória incidental que tornará mais amplo o âmbito de
conhecimento do juiz. O que se alteram são os limites objetivos da coisa julgada, passando a abranger o que a coisa
julgada da ação originária não alcançaria. (WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, 2008, p. 371)

As afirmações de fatos simples, embora importantes para determinar o sentido da decisão, não fazem coisa julgada.
Integram-na, porém, os fatos jurídicos invocados pela sentença como razão de decidir: assim, a afirmação ou negação
da causa petendi afirmada pelo autor; a afirmação ou negação do fato impeditivo ou extintivo alegado pelo réu.

Não atinge a coisa julgada, exatamente porque essa questão prejudicial não é julgada; ela é somente apreciada
incidentalmente, sem pedido para que se proceda sobre ela julgamento. Ela não integra o pedido e por isso não pode
integrar o julgamento (arts. 128, 460 e 468, do CPC), não fazendo, por isso, coisa julgada. Não podendo ser objeto de
julgamento, logo, não é julgada, senão, simplesmente apreciada ou conhecida. O que se pode passar em julgado e, com
isso atingir a coisa julgada é somente aquilo que é efetivamente julgado e não aquilo que é apenas analisado ou conhecido,
como fundamento para o julgamento, mas não é objeto de julgamento.

Os motivos, ainda que relevantes para fixação do dispositivo da decisão, limitam-se ao plano lógico da elaboração do
julgado. Influenciam em sua interpretação mas não se recobrem do manto de intangibilidade, que é próprio da res iudicata
(art. 469, I, do CPC). (STJ, REsp. no 187.004/BA, 3ª T., rel. Min. Waldemar Zveiter, DJU 09.04.2001, p. 352)

Nos termos do art. 469, I e II, do Código de Processo Civil, os motivos e a verdade dos fatos estabelecidos como
fundamento da decisão judicial não fazem coisa julgada. Assim, na hipótese de ter-se afirmado, no juízo cível, que houve
prescrição de suposto crime cuja competência material não lhe seja afeta, e tenha essa assertiva servido apenas como
fundamento para decisão que obstou as providências determinadas no art. 40 do Código de Processo Penal, não ocorre
a extinção da punibilidade do suposto delito em questão. (STJ, REsp. no 198.536/PR, 2ª T., rel. Min. João Otávio de
Noronha, DJU 11.04.2005, p. 210)

Art. 470. Faz, todavia, coisa julgada a resolução da questão prejudicial, se a parte o requerer (arts.
5º e 325), o juiz for competente em razão da matéria e constituir pressuposto necessário para o
Pós-Graduação a Distância

julgamento da lide.

Não atinge a coisa julgada, exatamente porque essa questão prejudicial não é julgada; ela é somente apreciada
incidentalmente, sem pedido para que se proceda sobre ela julgamento. Ela não integra o pedido e por isso não pode
integrar o julgamento (arts. 128, 460 e 468, do CPC), não fazendo, por isso, coisa julgada. Não podendo ser objeto de
julgamento, logo, não é julgada, senão, simplesmente apreciada ou conhecida. O que se pode passar em julgado e, com
isso atingir a coisa julgada é somente aquilo que é efetivamente julgado e não aquilo que é apenas analisado ou conhecido,
como fundamento para o julgamento, mas não é objeto de julgamento.

121
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

Com a ação declaratória incidental, uma questão prejudicial que seria decidida em caráter incidenter tantum (art.
469, III, CPC) passa a integrar o objeto do processo, de modo que sobre ela incidirá a autoridade da coisa julgada
(art. 470 do CPC).

Art. 471. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide, salvo:

I – se, tratando-se de relação jurídica continuativa, sobreveio modificação no estado de fato ou


de Direito; caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença;

II – nos demais casos prescritos em lei.

A sentença espelha os fatos e o Direito que serviram como seus fundamentos, de maneira que, alterados os fatos ou o
Direito, modificada estará a causa de pedir, e por consequência a ação. Em outros termos: a alteração das circunstâncias
de fato constitui alteração da causa de pedir, formando outra (nova) ação e abrindo ensejo a outra (nova) coisa julgada.
Assim, quando são alteradas as circunstâncias de fato, será formada outra (nova) coisa julgada, que deverá conviver
em harmonia com a coisa julgada respeitante às circunstâncias anteriores. Portanto, não é correto dizer, apenas porque
as circunstâncias que fundaram a sentença podem variar, que não se forma coisa julgada em relação a ela, ou, o que é
pior, que esta não transita em julgado. Não há aqui que se falar em ofensa à coisa julgada, já que a nova ação (proposta
com base em nova causa de pedir) ainda não foi examinada pela jurisdição.

É preciso deixar claro que o artigo em referência não quer significar que nas relações jurídicas continuativas não
se forma a coisa julgada material. Nestas relações a coisa julgada se produz normalmente, como em qualquer outra
relação jurídica. Ocorre que, por se referir a uma situação jurídica que sofre modificação constante mesmo após o
trânsito em julgado do decisum, admite-se, excepcionalmente, que uma das partes peça ao julgador uma revisão do
que foi decidido.

Na verdade, as sentenças relativas a relações jurídicas continuativas produzem coisa julgada material como qualquer
outra. É evidente que fatos novos, supervenientes, não são alcançados pelo julgamento anterior. Assim, a improcedência
de ação reivindicatória não impede que o autor mova outra, igualmente reivindicatória, contra o mesmo réu, se houver
posteriormente adquirido a propriedade. No caso particular da ação de alimentos, os efeitos da ação de revisão produzem-
se ex nunc e não desconstituem os decorrentes da sentença anterior, antes produzidos. (TESHEINER, p. 163)

A mudança do estado das coisas, para que se subsuma na hipótese do art. 471 do CPC, questão nova, deve ser intrínseca
ao processo, tal como o pagamento da quantia executada, ou se tratar de mudança da legislação de regência, seja em
virtude da vigência de Lei nova, seja em razão de efeito erga omnes de decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal
em controle concentrado de constitucionalidade, pois, neste último caso, a interpretação conferida pela Suprema Corte
passa a integrar a norma que rege a matéria debatida. (STJ, EDcl. no REsp. no 689.160/SC, 5ª T., rel. Min. José Arnaldo
da Fonseca, DJU 21.11.2005, p. 288)
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Art. 472. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando, nem
prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no
processo, em litisconsórcio necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em
relação a terceiros.

Naturalmente, a autoridade da coisa julgada se impõe aos sucessores das partes, a título universal ou singular. Isto
não constitui exceção à regra, mas o resultado da operação normal da sucessão, pela qual o sucessor toma o lugar do
sucedido, assumindo os Direitos e obrigações atinentes à posição ou relação jurídica em que este se encontrava.

A sentença faz coisa julgada entre as partes que intervieram na relação processual (CPC, art. 472), não se estendendo
a terceiros estranhos ao processo, quer para beneficiá-los, quer para prejudicá-los. “Res inter alios judicata tertiis nec
prodest, nec nocet”. (STF, AGRG. no ROMS no 23.221-3/DF, rel. Min. Celso de Mello, DJU 14.06.2002, p. 149)

A sistemática do Código de Processo Civil brasileiro não se compadece com a extensão da coisa julgada a terceiros,
que não podem suportar as consequências prejudiciais da sentença, consoante princípio estabelecido no art. 472 da lei
122
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

processual civil. Assim, anterior ação indenizatória ajuizada pela mãe não gera efeitos aos filhos, que posteriormente
venham postular seus Direitos. (STJ, REsp. no 268.020/SP, rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 18.02.2002,
p. 450)

Processo Civil. LITISCONSÓRCIO UNITÁRIO. COISA JULGADA. Na ação proposta pelo marido, a sentença que decide
a respeito de índice de reajuste de mútuo hipotecário contratado por ambos inibe a mulher de propor nova ação. (STJ,
REsp. no 503.643/SP, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler, DJU 28.02.2005, p. 318)

A sentença só faz coisa julgada em relação às partes entre as quais é proferida, de modo que a sentença penal
condenatória do preposto não pode, no âmbito cível, ser oposta ao preponente. (STJ, REsp. no 268.018/SP, 3ª T., rel.
Min. Ari Pargendler, DJU 23.06.2003, p. 351)

Art. 473. É defeso à parte discutir, no curso do processo, as questões já decididas, a cujo respeito
se operou a preclusão.

A preclusão consumativa se verifica sempre que realizado o ato processual. Dessa forma, somente haverá oportunidade
para realização do ato uma vez no processo e, sendo esse consumado, não poderá o interessado realizá-lo novamente. Ainda
que o réu tenha no procedimento ordinário um prazo de quinze dias para responder à inicial, se apresentar contestação no
quinto dia, não poderá nos dez dias subsequentes voltar a apresentar argumentos defensivos, tendo em vista a preclusão
consumativa. (DIDIER, 2009, p. 316)

Proferida uma decisão interlocutória e, não sendo interposto tempestivamente o recurso cabível pela parte prejudicada
(agravo de instrumento), a questão ali decidida torna-se imutável, impossibilitando eventual futura reapreciação pelo
juiz, ainda que provocado por quaisquer das partes. Apenas os despachos de mero expediente, por não terem qualquer
conteúdo decisório, não dão causa ao efeito preclusivo. (GIANNICO, 2007, p. 249)

Súmula nº 424 do STF: Transita em julgado o despacho saneador de que não houve recurso, excluídas as questões
deixadas explícita ou implicitamente para a sentença.

Se a matéria relativa à competência foi decidida pelo Tribunal de origem em agravo de instrumento manifestado contra a
decisão que deferiu a medida liminar na ação cautelar preparatória, não julgada pela Corte diante do pedido de desistência
apresentado pela ré no agravo de instrumento que interpôs, o art. 473 do Código de Processo Civil desautoriza a modificação
do anterior julgado, que permaneceu íntegro, no patamar da apelação contra a sentença única que julgou a cautelar e a
principal. (STJ, REsp. no 408.198/ES, 3ª T., rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 02.12.2002, p. 307)

1. A partir do momento em que, aberto o prazo recursal, omite-se a recorrente quanto à interposição do recurso de apelação,
não resta dúvida de que se conformou com a decisão monocrática, renunciando ao Direito de apelar. 2. Assim, não tendo
a recorrente se insurgido no momento oportuno, inviável a apreciação do recurso especial, já que deixou precluir o Direito
para tanto (artigo 473 do CPC). (STJ, REsp. no 465.459/SP, 2ª T., rel. Min. Castro Meira, DJU 21.02.2005, p. 127)

Art. 474. Passada em julgado a sentença de mérito, reputar-se-ão deduzidas e repelidas todas as
alegações e defesas, que a parte poderia opor assim ao acolhimento como à rejeição do pedido.

Formulado o pedido pelo autor e apontado o fato jurídico que este invoca como causa petendi, toda e qualquer defesa
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que a ré possa opor à acolhida daquele pedido, dentro do campo da respectiva causa de pedir, terá que ser oposta na
oportunidade própria para responder à ação, sob pena de preclusão (CPC, arts. 300, 302 e 303). Da mesma forma ao
autor impende lançar na inicial todos os fundamentos de fato e de Direito que amparam a sua pretensão. Por isso, quando
o pedido do autor vem a ser negado por sentença que passa em julgado, a lei reputa “deduzidas e repelidas todas as
alegações e defesas, que a parte poderia opor assim ao acolhimento como à rejeição do pedido” (art. 474). (THEODORO
JUNIOR, 2003, p. 19)

O art. 474 apanha, a nosso ver, a hipótese de fatos da mesma natureza, conducentes ao mesmo efeito jurídico.
Assim, se o autor pede o despejo, alegando danos nas paredes do imóvel, não pode propor outra, alegando danos nas

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Sentença e Coisa Julgada Unidade X

portas, salvo se ocorridos após o encerramento da instrução. Não se lhe veda, porém, a propositura, concomitante
ou posterior, de ação de despejo fundada em locação não consentida, porque se trata de fato de natureza diversa.
(TESHEINER, 2007, p. 161)

Em sede de execução, não mais se justifica a renovação do litígio que foi objeto de definitiva resolução no processo
de conhecimento, especialmente quando a decisão que apreciou a controvérsia apresenta-se revestida da autoridade
da coisa julgada, ainda que a parte interessada venha a suscitar questão nova, que deixou de ser por ela alegada no
processo. A norma inscrita no art. 474 do CPC impossibilita a instauração de nova demanda para rediscutir a controvérsia,
mesmo que com fundamento em novas alegações, pois o instituto da coisa julgada material – considerada a finalidade
prática que o informa – absorve, necessariamente, “tanto as questões que foram discutidas como as que o poder ser”
(Liebman), mas não o foram. A autoridade da coisa julgada em sentido material estende-se, por isso mesmo, tanto ao que
foi efetivamente arguído pelas partes quanto ao que poderia ter sido alegado, mas não o foi, desde que tais alegações e
defesas se contenham no objeto do processo (tantum judicatum quantum disputatum vel disputari debebat). Aplicação,
ao caso, do art. 474 do CPC. Doutrina. Precedentes. (STF, AGRG. no RE no 405.451-5/RJ, rel. Min. Celso de Mello, DJU
19.03.2004, p. 31)

1. O art. 474 do CPC sujeita aos efeitos da coisa julgada todas as alegações que poderiam ser arguidas como matéria de
defesa. 2. A sentença de procedência do pedido reivindicatório faz coisa julgada material e impede que em futura ação
se declare usucapião, em favor do réu, assentado em posse anterior à ação reivindicatória. (STJ, REsp. no 332.880/DF,
3ª T., rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 27.11.2006, p. 272)

Art. 475. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada
pelo tribunal, a sentença:

I – proferida contra a União, o Estado, o Distrito Federal, o Município, e as respectivas autarquias


e fundações de Direito público;

II – que julgar procedentes, no todo ou em parte, os embargos à execução de dívida ativa da


Fazenda Pública (art. 8 , VI).

§ 1º Nos casos previstos neste artigo, o juiz ordenará a remessa dos autos ao tribunal, haja ou não
apelação; não o fazendo, deverá o presidente do tribunal avocá-los.

§ 2º Não se aplica o disposto neste artigo sempre que a condenação, ou o Direito controvertido, for
de valor certo não excedente a 60 (sessenta) salários-mínimos, bem como no caso de procedência
dos embargos do devedor na execução de dívida ativa do mesmo valor.

§ 3º Também não se aplica o disposto neste artigo quando a sentença estiver fundada em
jurisprudência do plenário do Supremo Tribunal Federal ou em súmula deste Tribunal ou do tribunal
superior competente.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

O reexame necessário condiciona a eficácia da sentença à sua reapreciação pelo tribunal ao qual está vinculado o juiz
que a proferiu. Enquanto não for procedida à reanálise da sentença, esta não transita em julgado, não contendo plena
eficácia. Desse modo, não havendo o reexame e, consequentemente, não transitando em julgado a sentença, será incabível
a ação rescisória. (DIDIER JR.; CUNHA, 2007, p. 449)

O objetivo é permitir que as ações de interesse da União, Estados e Municípios, por envolverem assuntos de
interesse público, sejam reapreciadas em instância superior, ainda que não o requeiram as partes por meio de
recursos voluntários.

A sentença, sujeita ao duplo grau obrigatório, enquanto não submetida a esse reexame, permanece no mundo jurídico
em estado de latência, não transitando em julgado e não produzindo quaisquer dos efeitos a que está destinada e em
razão dos quais tenha sido proferida.

124
Sentença e Coisa Julgada Unidade X

1. As alterações promovidas no art. 475 do CPC pela Lei nº 10.352/01, têm aplicação imediata, alcançando os processos
em curso. 2. A exceção imposta pelo § 2º do art. 475, quanto ao cabimento do reexame necessário, aplica-se às sentenças
em mandado de segurança. 3. O parâmetro adotado, no citado prágrafo, para definir as hipóteses de não cabimento do
reexame necessário não foi o valor da causa, mas o valor da condenação ou do Direito controvertido, que há de ser (a)
certo e (b) não excedente a sessenta salários-mínimos. Trata-se de critério de natureza essencialmente econômica, não
suscetível de ser aplicado às causas fundadas em Direitos de outra natureza. Ademais, a aferição dos seus pressupostos
é feita, não pelos elementos econômicos da demanda, e sim pelos que decorrem da sentença que a julga. (STJ, REsp. no
625.219/SP, 1ª T., rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJU 29.11.2004, p. 249)

O reexame necessário, previsto no art. 475, I, do CPC, devolve ao Tribunal a apreciação de toda a matéria que se refira
à sucumbência da Fazenda Pública. É procedimento obrigatório que não se sujetia ao princípio do quantum devolutum
quantum appelatum. (STJ, REsp. no 492.999/RS, 1ª T., rela. Mina. Denise Arruda, DJU 09.05.2005, p. 296)

1. A teor do art. 475 do CPC, somente as sentenças definitivas de mérito estão sujeitas à remessa ex officio, sem
a qual não se opera o trânsito em julgado. 2. A sentença de liquidação de cálculo por meros cálculos do contador do
juízo, em procedimento complementar para apuração de juros compensatórios não incluídos na execução da sentença
de expropriação, não equivale à sentença definitiva de mérito em processo de conhecimento, cautelar ou em embargos
à execução, típica ação de conhecimento. (STJ, REsp. no 514.605/SP, 2ª T., rel. Min. Eliana Calmon, DJU 03.10.2005,
p. 171)

Pós-Graduação a Distância

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Processo Civil – Processo de Conhecimento

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Sentença e Coisa Julgada
Unidade X
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI Unidade XI

Quadro Geral dos Meios de Impugnação

Capítulo 29 – Impugnação

Reconhece a doutrina ser de longa data a previsão pelos sistemas jurídicos de mecanismos de controle das decisões
judiciais, permitindo que possíveis erros praticados pelo Estado-Juiz fossem objeto de impugnação e, eventualmente,
de reforma. Assim é que, no Direito romano, encontramos a famosa figura da apellatio, que tem nítida identidade de
conteúdo com os recursos, eram utilizadas para impugnar os ditos errores in iudicando. Ainda em Roma, ao lado da
apellatio, podemos identificar a restitutio in integrum, através da qual era possível que as partes litigantes pleiteassem a
restituição das coisas ao estado em que encontravam-se antes do julgamento. Podemos correlacionar esta modalidade de
remédio a alguns traços das modernas ações impugnativas. É, porém, apontada como a raiz histórica das ações autônomas
de impugnação a figura da querela nullitatis, criada com meio específico para atacar decisões inquinadas de errores in
procedendo. O instituto só se desenvolveria, mais tarde, por influência do Direito germânico, em “período intermédio,
paralelamente à apelação, reservada em regra para a denúncia de supostos errores in iudicando”.

A possibilidade de impugnar os atos jurisdicionais é garantia lógica facultada às partes litigantes de que o julgamento
da res in iudicium deducta terá como resultado a maior adequação possível à solução preconizada pelo Direito, pelo
que entende-se justo. Em contrapartida, o interesse social pela celeridade processual, em que o processo possa ser um
instrumento eficaz de aplicação da justiça, bem como o interesse da coletividade pela maior estabilidade nas relações
jurídicas, que se traduz no alcance do status de segurança jurídica das decisões judiciais fazem com que seja relativizada
a garantia de controle das decisões judiciais conferida às partes em juízo. Conclui-se, portanto, que esta ponderação
de interesses – justiça e segurança jurídica – será objeto de política legislativa, através da qual se procederá à maior
aderência por um daqueles anseios sociais, em detrimento do outro. Com maestria, sintetizou Barbosa Moreira:

Naturalmente, conforme a diretriz de política legislativa predominante na época, tais remédios veem-
se prodigalizados ou, ao contrário, comprimidos em doses parcimoniosas. A oscilação entre uma e
outra tendência marca a evolução histórica de todos os grandes sistemas jurídicos do chamado
mundo ocidental.

É consagrada na doutrina a classificação dos meios de impugnação dos atos jurisdicionais em duas categorias: a dos
recursos e a das ações autônomas de impugnação. O primeiro possibilita o reexame da decisão dentro do mesmo processo
em que foi proferida, antes da formação da coisa julgada; o segundo, como o próprio nome sugere, são processo novos,
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dos quais decorrem novas relações processuais. Na feliz síntese de Alexandre Câmara: “diferem-se entre si, basicamente,
pelo fato de o recurso não provocar o aparecimento de um processo novo, sendo tão-somente um prolongamento do
processo onde foi proferida a decisão atacada, enquanto a propositura de ‘ação autônoma de impugnação’ faz nascer
uma nova relação processual, diversa daquela onde a decisão impugnada foi proferida.”

É bem verdade que, muitas vezes, se pensa em recurso como, tão só, o instrumental posto à disposição das partes litigantes,
destinado a impugnar decisões judiciais antes que ocorra o trânsito em julgado da sentença ou da preclusão. A ideia
está correta, mas incompleta. O critério diferenciador não deve ser somente o momento em que não poderá mais o ato

127
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

jurisdicional ser atacado. O que, em verdade, caracteriza o recurso é o fato deste prolongar, dentro do mesmo processo,
na esfera mesma daquela relação processual, o reexame da decisão proferida, que, por óbvio, só poderá ocorrer antes
da preclusão ou da coisa julgada. Como já observou eminente processualista, “dentre nós, é intuitivo que não se possa
falar em recurso, ante uma decisão transita em julgado. Mas daí também não se pode inferir, à outrance, que todas as
impugnações oferecidas antes do trânsito em julgado são, necessariamente recurso, stricto sensu”.

Desta maneira, sendo característica dos recursos produzir a extensão do processo em curso, não rendendo ensejo à
instauração de uma nova relação processual, resta evidente que ficam fora do âmbito dos recursos outros meios de
impugnação, como a ação rescisória, o habeas corpus e o mandado de segurança contra ato jurisdicional.

Não há que se confundir as figuras das ações autônomas de impugnação e dos recursos com os chamados incidentes
processuais, como os incidentes de inconstitucionalidade e de uniformização de jurisprudência, previstos pelo CPC.

Assemelham-se aos recursos pelo fato de que, como estes, não geram nova relação processual. Em ambos há um processo
em curso, onde surgirá um incidente, “ou seja, um desvio de percurso, que provocará o afastamento do processo de
seu procedimento normal”. As figuras, porém, não se confundem, pois, conforme observou Nery Júnior, analisando
especificamente o incidente de uniformização de jurisprudência, estão ausentes “a voluntariedade, a tipicidade, o efeito
devolutivo e, principalmente, a finalidade recursal. Não é, portanto, recurso nem faz as vezes dele”.

Os incidentes processuais não constituem meios idôneos de ataque a atos jurisdicionais, não constando, por esta razão,
na classificação dos meios de impugnação. Destarte, quando sobrevier eventual incidente no processo que se destine a
desafiar ato de natureza jurisdicional, apontando qualquer defeito que o mesmo contenha, tratar-se-á de recurso.

Não há que se pensar, ainda, que os incidentes processuais possuiriam natureza de ação autônoma de impugnação, vez
que esta inaugura nova relação processual, em processo diverso daquele em que foi produzido o ato atacado, o que não
ocorre naquelas figuras.

Importante mencionar, ainda, outros meios de impugnação dos atos jurisdicionais, que não se enquadram nem na modalidade
de ação autônoma de impugnação nem tão pouco na de recurso. São instrumentos que, como estas categorias, também
se prestam a atacar atos da atividade judicial, porém, possuem natureza diversa daquelas espécies típicas. Por esta
razão, constituem-se em meios atípicos de impugnação. Se adequam a esta classificação, por exemplo, a correição parcial
(prevista regimentalmente) e o pedido de reconsideração.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

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Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 30 – Teoria Geral dos Recursos

Linhas Gerais
Existem diferentes formas de se impugnar decisões judiciais, que podem ser agrupadas em dois grandes grupos:

• Recursos, que têm por característica estarem inseridos na mesma relação processual;

• Ações autônomas, como a ação rescisória e, ampliando um pouco mais o conceito, o mandado de segurança,
os embargos de terceiro e a ação anulatória prevista no art. 486 do CPC.

As justificativas para a existência de recursos são basicamente duas e consistem, ambas, em características da natureza
humana: a possibilidade de erro por parte do julgador e a não conformação da parte vencida.

Importa saber que os sistemas devem adotar meios de impugnação que pareçam adequados, na medida certa. Na medida
certa por se buscar o ponto de equilíbrio, na balança de ponderação de valores, entre a conformidade com o Direito e a
justiça e, de outro lado, com a rapidez, a celeridade e a efetividade do processo.

Recurso é remédio voluntário (exclui a remessa necessária) para ensejar, no mesmo processo, a reforma, invalidação ou
integração da decisão impugnada.

Pode-se, pois, sintetizar o assunto afirmando que os meios de impugnação típicos compreendem duas espécies: os
recursos, entendidos como o instrumento próprio a propiciar às partes litigantes, dentro do mesmo processo, a reforma,
a invalidação, o esclarecimento ou a integração de decisão judicial; e as ações autônomas de impugnação, tendentes à
desconstituição de atos jurisdicionais, oferecidas em processo diverso, tendo por objeto lide de outra natureza, conquanto
conexa àquele julgado. Inseridos na categoria dos meios de impugnação ditos atípicos, estariam, por exclusão, todas as
demais figuras que não se encontram adequadas nas categorias típicas.

Conceito de Recurso
Em linhas gerais, podemos inicialmente afirmar que, à luz do ordenamento pátrio, recurso é o Direito que possuem
as partes litigantes de provocar a renovação do exercício da prestação jurisdicional, no mesmo processo. O instituto
correlaciona-se com o princípio do duplo grau de jurisdição, que consiste na possibilidade de submeter-se a lide a exames
sucessivos, via de regra, por juizes diferentes.

Definição insuperável de recurso nos fornece Barbosa Moreira, conceituando-o “como o remédio voluntário idôneo a
ensejar, dentro do mesmo processo, a reforma, a invalidação, o esclarecimento ou a integração de decisão judicial que
se impugna”.

Os recursos têm como característica o fato de partirem sempre de uma conduta espontânea da parte, pois sua interposição
Pós-Graduação a Distância

deriva sempre da insatisfação da parte em relação ao provimento judicial. Daí dizer-se serem remédios voluntários. Sua
natureza é de um ato de vontade, que se supõe sempre contrariado com o quanto decidido no processo.

Não é por outra razão que não se faz correto atribuir a qualidade de recurso ao reexame necessário, também
conhecido como duplo grau de jurisdição obrigatório, regulado pelo artigo 475 do estatuto processual civil,
exatamente por não possuir caráter de voluntariedade. Esta peculiaridade, digamos logo, também se encontra
presente nos demais meios de impugnação postos à disposição das partes litigantes, uma vez que não se concebe
a utilização de instrumento que se

129
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

destine a atacar uma decisão que se presume legítima e correta pelo ordenamento, sem que haja interesse, utilidade,
prejuízo por aqueles que lhes façam uso. Assim como os recursos, todo meio de impugnação pressupõe uma insatisfação
pessoal: é verdadeira manifestação de contrariedade da parte em juízo.

É o recurso, como já analisado, remédio que surge sempre dentro do mesmo processo em que foi proferida a decisão
impugnada, desdobrando-o, estendendo-o. Nunca dará ensejo, portanto, ao surgimento de processo diverso, “sendo, em
verdade, um incidente do mesmo processo em que prolatado o pronunciamento impugnado”. Importante observarmos
que haverá casos em que o recurso irá se formar em autos apartados aos da ação dita principal. Nestas hipóteses,
porém, evidentemente, o recurso interposto não fará surgir novo processo, mas, sim, tão-somente, ensejará o mero
desdobramento do procedimento.

Objetivos dos Recursos


Prosseguindo a definição proposta por Barbosa Moreira, o recurso autorizará o alcance de quatro resultados possíveis:
a reforma, hipótese mais frequente, em que o recorrente visa a demonstrar a existência de error iudicando, que ocorrerá
todas as vezes em que o magistrado tenha atribuído ao Direito positivado uma vontade diversa da sua verdadeira, “ou
seja, quando o juiz profere uma declaração errônea da vontade concreta da lei”. Nestes casos, o ato desobedece a um
comando normativo de conteúdo material; a invalidação, que ocorre nas hipóteses em que é do intento da parte recorrente
ensejar a análise de error in procedendo, isto é, quando o que se impugna no ato diga respeito a uma impropriedade formal,
desatendendo-se, portanto, a uma norma de natureza processual; o esclarecimento, sempre que o escopo do recurso for
dirimir a obscuridade ou contradição contida no ato atacado, a exigir do juízo prolator que reafirme, agora de maneira
clara, o quanto se quis exprimir em sua decisão. Não há aqui, portanto, nova decisão, mas mera reafirmação do quanto
se decidiu; e, finalmente, pode destinar-se o recurso a obter a integração da decisão impugnada, isto é, que as eventuais
omissões contidas no ato decisório sejam sanadas, sejam supridas.

Diversamente do que ocorre na hipótese anterior de mero esclarecimento, o que se pleiteia aqui é “reabrir a própria
atividade decisória, com a apreciação da questão que não havia sido apreciada”, pois a atividade julgadora não se encerrou,
tendo em vista que o juiz omitiu-se sobre questão que deveria ter se pronunciado. Feliz síntese a respeito dos resultados
possíveis a serem alcançados por meio da interposição dos recursos nos fornece o festejado Barbosa Moreira: O caso
mais comum é aquele em que a interposição do recurso visa à reforma da decisão recorrida; isto é, visa a obter do órgão
ad quem a formulação, para a hipótese, de regra jurídica concreta diferente daquela formulada pelo órgão a quo. Muitas
vezes, porém, o que daquele se pretende é simplesmente que se invalide, elimine, casse o pronunciamento emitido, para
que, posteriormente, outro o substitua: assim na apelação fundada em suposto vício processual. Ao esclarecimento ou
à integração da decisão recorrida tendem os embargos de declaração.

São esses, pois, os objetivos que podem ser almejados quando da interposição de um recurso: (a) reforma da decisão
impugnada; (b) invalidação da decisão impugnada; (c) esclarecimento ou integração da decisão impugnada.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

130
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 31 – Natureza Jurídica dos Recursos

Natureza Jurídica dos Recursos


Para a posição majoritária da doutrina, a natureza jurídica do recurso é um mero aspecto ou desdobramento do Direito
de ação, embora possa ser exercido por alguém que não é aquele que está manejando a ação, que não é o autor (pode
ser exercido pelo réu; pode ser exercido por um terceiro prejudicado) e é também um ônus processual. Não se trata de
uma obrigação.

Há em doutrina uma teoria minoritária que diz que o recurso veicula uma ação distinta, não sendo um desdobramento do
Direito de ação já manejado para provocar a jurisdição. Seria uma ação distinta, ação esta que seria sempre constitutiva
negativa.

Em consonância com o entendimento majoritário da doutrina, no sentido de atribuir aos recursos a natureza de um
desdobramento do Direito de ação que havia sendo exercido no âmbito do processo em que foi proferida a decisão que
se visa a impugnar, trata-se, na verdade, de um prolongamento do Direito de ação, agora em fase recursal. A relação
processual já existe quando da interposição do recurso, pois, se nova ação houvesse, haveria o óbice intransponível da
litispendência.

Há autores, entretanto, que entendem possuir o recurso natureza de uma ação constitutiva autônoma, inserida no
mesmo processo, valendo-se dos argumentos de que o autor do recurso pode não ser, necessariamente, o autor da ação,
invertendo-se as posições no processo e de que ação possui como fundamento a sentença, um ato processual. Como
observa Paulo Rangel, assim, para os que defendem esta corrente, as pretensões são diversas: na ação, o Direito com
base num fato; no recurso, com fundamento numa sentença que se ataca. Os defensores desta corrente pecam por não
distinguirem, adequadamente, processo de procedimento.

Há ainda quem entenda denominar-se recurso todo e qualquer meio destinado a obter a reforma de uma decisão. A nossa
crítica a esta corrente é evidente. De acordo com o quanto já exposto, no âmbito dos meios de impugnação dos atos
jurisdicionais, ao lado dos recursos, existem também as ações autônomas de impugnação. As figuras possuem nítidas
diferenças como, por exemplo, o fato de que as ações autônomas podem prestar-se a impugnar decisões já transitadas
em julgado e produzirem a instauração de nova relação processual, em um novo processo.

Classificação dos Recursos

Total ou Parcial

A decisão judicial pode ser atacada em toda a sua extensão ou apenas parcialmente.
Pós-Graduação a Distância

Se a decisão judicial é impugnada em toda a sua extensão, diz-se que o recurso é total. Se, ao contrário, apenas parte
da decisão judicial é impugnada, diz-se que o recurso é parcial.

Independente ou Adesivo

Independente é o recurso que a parte prejudicada com a decisão judicial interpõe diretamente e sem levar em consideração
eventual interesse de recorrer da parte contrária.

131
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Adesivo, de outro lado, é o recurso interposto em função ou a partir do recurso interposto pela outra parte também
lesada.

Ordinário ou Extraordinário

Ordinário é o recurso que visa a proteger precipuamente o Direito subjetivo da parte. Recorre-se para que a instância
superior reconheça o Direito subjetivo da parte recorrente. Exemplo típico de recurso ordinário é a apelação.

Extraordinário, de outra borda, é o recurso que visa a proteger precipuamente o Direito objetivo que teria sido contrariado
pela decisão recorrida. Nesse tipo de recurso, cabe ao recorrente demonstrar não propriamente que seu Direito subjetivo
foi desrespeitado pela decisão judicial, mas que o Direito objetivo, isto é, o Direito vigente, restou violado pela decisão
judicial impugnada. Exemplos típicos de recurso extraordinário são o recurso especial (para o STJ) e o recurso extraordinário
(para o STF).

Suspensivo e Não Suspensivo

Suspensivo é o recurso que não permite que a decisão recorrida tenha eficácia antes da sua confirmação pela instância
superior. A suspensividade do recurso neutraliza a possibilidade de se executar a decisão judicial proferida.

Não suspensivo é o recurso que não compromete, com a sua interposição, a eficácia da decisão recorrida, a qual pode
produzir, desde logo, os efeitos jurídicos que lhe são próprios.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

132
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 32 – Princípios Gerais dos Recursos

Duplo Grau de Jurisdição


Consiste na existência de mais de uma instância decisória para a apreciação de uma mesma questão. Controverte-
se se esse princípio tem foro constitucional ou não, entendendo uns que sua existência deriva da previsão dos
recursos em nível infraconstitucional e outros que o art. 5º, LV, o consagra. Sobre o tema, Fernão Borba Franco
destaca que “a Constituição Federal não estabelece de maneira peremptória a necessidade do duplo grau de
jurisdição, ou melhor, do reexame das decisões. Todavia, fornece subsídios para esse entendimento, ou seja, o
de que as decisões judiciais devem submeter-se a nova análise, quando estabelece órgãos superiores e inferiores,
atribuindo aos superiores competência para a revista das decisões dos órgãos inferiores (arts. 102, II, 105, II,
108, II, e 125, todos da Constituição Federal).”

Em manifestação que bem expressa a posição mais consentânea com o ordenamento jurídico em vigor, Elpídio Donizetti
afirma que

o princípio do duplo grau de jurisdição está implicitamente previsto na Constituição da República, seja
como consectário do devido processo legal, seja em decorrência de previsão constitucional acerca da
existência de tribunais, aos quais foi conferida competência recursal (arts. 92 a 126 da CR). Embora
se trate de princípio ínsito ao sistema constitucional, a sua aplicação não é ilimitada, tanto que a
própria Constituição estabelece hipóteses de competência originária de tribunais superiores, nas
quais não há possibilidade de interposição de recurso ordinário. Assim, em virtude de o duplo grau
de jurisdição não possuir incidência ilimitada, permite-se ao legislador infraconstitucional restringir o
cabimento dos recursos, como ocorre, por exemplo, no caso do art. 519, que prevê a irrecorribilidade
da decisão que releva a pena de deserção se provado justo impedimento do apelante.

Taxatividade
A Constituição da República estabelece em seu art. 22, I, a competência exclusiva da União para legislar sobre normas
de Direito Processual.

O Código de Processo Civil, em seu art. 496, dispõe serem cabíveis os seguintes recursos: I – apelação; II – agravo;
III – embargos infringentes; IV – embargos de declaração; V – recurso ordinário; VI – recurso especial; VII – recurso
extraordinário; e VIII – embargos de divergência em recurso especial e em recurso extraordinário.

A enumeração legal é considerada taxativa, ou seja, numerus clausus. Logo, no Processo Civil não podem ser manejados
recursos alheios à enumeração legal.
Pós-Graduação a Distância

Isso não quer dizer, é bom ressalvar, que outros recursos não possam ser criados por lei federal.O princípio da taxatividade
significa, com maior rigor, que os recursos provêm apenas e tão-somente de lei, não podendo as partes engenhar meios de
impugnação estranhos à catalogação legal. Nas precisas palavras de Cassio Scarpinella Bueno “o chamado “princípio da
taxatividade recursal” quer exprimir a ideia de que os recursos, isto é, as técnicas processuais voltadas a contrastar, em
sentido amplo, as decisões jurisdicionais dependem de expressa previsão legal. Só é recurso aquilo que a lei processual
civil diz que é.”

133
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Singularidade
Para cada decisão existe um recurso adequado. E apenas um, salvo a hipótese de expressa ressalva legal. Como decidiu
o Supremo Tribunal Federal, “o princípio da unirrecorribilidade, ressalvadas as hipóteses legais, impede a cumulativa
interposição, contra o mesmo ato decisório, de mais de um recurso. O desrespeito ao postulado da singularidade dos
recursos torna insuscetível de conhecimento o segundo recurso, quando interposto contra a mesma decisão.”

A lei prevê alguns casos em que a mesma decisão pode ser atacada por mais de um recurso, como ocorre em relação
aos recursos especial e extraordinário em face de um mesmo acórdão. Mas essas ressalvas provêm diretamente da lei
e, por isso, não desqualificam o princípio da singularidade.

Fungibilidade
Consiste o princípio da fungibilidade na possibilidade de um recurso inadequado ser recebido como se fosse o recurso
cabível.

A aplicação do princípio da fungibilidade pressupõe dúvida objetiva sobre o recurso apropriado, inexistência de erro
grosseiro e compatibilidade de processamento. Para alguns, devem ainda estar presentes os requisitos do recurso
adequado, como o prazo respectivo. A propósito, decidiu o Superior Tribunal de Justiça5:491“1. O princípio da fungibilidade
aplica-se aos casos em que os pressupostos dos recursos são aproveitáveis por haver similitude, existindo dúvida na
doutrina ou jurisprudência quanto ao recurso apto a reformar certa decisão judicial. 2. Em caso de erro grosseiro não se
aplica o princípio da fungibilidade. Precedentes desta Corte.”

Embora o princípio em foco não tenha previsão expressa no Código de Processo Civil vigente, como ocorria em relação
ao código anterior, não há discrepância doutrinária nem jurisprudencial sobre a sua atualidade, máxime em função do
princípio da instrumentalidade das formas. Conforme asseveram Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart,

a legitimação do princípio da fungibilidade reside, precisamente, no aproveitamento do ato processual


praticado, ainda que equivocadamente e fora dos critérios legais, em situações em que seria excessivo
exigir o acerto em sua forma específica. A fungibilidade não se destina a legitimar o equívoco crasso,
ou para chancelar o profissional inábil; serve, isto sim, para salvar o ato que, diante das circunstâncias
do caso concreto, decorreu de dúvida objetiva.

Voluntariedade
O recurso depende de iniciativa da parte e também é a parte que delimita o seu âmbito, o seu objeto.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

A parte não tem a obrigação de recorrer, submetendo-se apenas ao ônus processual caso opte por não impugnar a decisão
judicial contrária aos seus interesses.

Proibição da Reformatio In Pejus


O recurso não pode prejudicar a parte que o interpôs. Trata-se da vedação da reforma para pior.

Qualquer reforma prejudicial à parte recorrente violaria o princípio dispositivo, pois é justamente o recurso que limita as
matérias passíveis de análise pelo tribunal ad quem, ressalvadas, apenas, as questões de ordem pública que, por não
ensejarem preclusão, podem ser a qualquer tempo conhecidas de ofício. Consoante frisam Fredie Didier Jr. e Leonardo
José Carneiro da Cunha,

AGRG. no AI 522.493-1/SP, rel. Min. Celso de Mello, DJU 06.05.2005, p. 30


5

134
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

na verdade, a proibição da reformatio in pejus decorre da conjugação do princípio dispositivo,


da sucumbência como requisito de admissibilidade do recurso (CPC, art. 499). A proibição da
reformatio in pejus é princípio aplicável a todos os recursos. Há, contudo, a possibilidade de
haver reformatio in pejus no julgamento dos embargos declaratórios, quando, por exemplo, se
elimina uma contradição.

Pós-Graduação a Distância

135
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 33 – Efeitos da Interposição dos Recursos

Interposto o recurso, este poderá ensejar a produção dos seguintes efeitos: impedir o trânsito em julgado do decisório
recorrido; devolver ao órgão ad quem o exame da matéria impugnada; e suspender os efeitos do ato impugnado.

Efeito Obstativo
O primeiro deles, consistente na aptidão de impedir o trânsito em julgado da decisão, constitui-se efeito comum a todos
os recursos.

Em que pesem poucas divergências doutrinárias, o recurso efetivamente impede o trânsito em julgado da decisão atacada.
Nesse sentido, sublinha Cassio Scarpinella Bueno que “a interposição de todo e qualquer recurso cria um primeiro efeito
(primeira consequência, de acordo com uma visão mais crítica do assunto) que é o de obstar a ocorrência de preclusão
e, a depender da decisão, a ocorrência de “coisa julgada formal” ou “coisa julgada material”, conforme o caso. Trata-se
do “efeito obstativo”).”

Efeito Devolutivo
O segundo efeito, chamado devolutivo, tem por característica devolver a um órgão diverso daquele em que foi proferido
o decisório impugnado o conhecimento da questão recorrida.

A cognição exercida pelo órgão ad quem a respeito da matéria que deu ensejo à interposição do recurso deve ser a
mesma daquela realizada pelo órgão a quo. Isto significa dizer que “a questão será inteiramente apreciada e decidida
pelo tribunal ad quem. Este órgão, porém, estará adstrito ao que tiver sido objeto de impugnação através do recurso,
haja vista a vedação pelo ordenamento de julgamento extra, citra ou ultra petita. A regra geral, portanto, será a de que
a extensão do efeito devolutivo determina-se pela extensão da impugnação. Excepcionam esta regra geral as questões
que, por disposição legal, poderão ser apreciadas ex officio pelo órgão ad quem, de que são exemplo as matérias de
ordem pública previstas no art. 267, § 3º, do CPC.

Efeito Suspensivo
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Terceira e última modalidade de efeito que poderá produzir a interposição dos recursos é o chamado efeito suspensivo,
consistente em não permitir que o decisório atacado produza efeitos antes do competente julgamento do recurso, sejam
estes efeitos de conteúdo declaratório, constitutivo ou condenatório.

Deve-se observar que o efeito suspensivo não seria propriamente operado por meio da interposição do recurso. Isto porque
os atos jurisdicionais sujeitos a recurso apto a ensejar efeito suspensivo já não produzem efeitos desde o momento em
que são proferidos. Desta forma, o efeito suspensivo não impede, propriamente, a eficácia da decisão, mas, unicamente,
faz prolongar o estado de ineficácia em que se encontra o decisório impugnado. Como aduz José Carlos Barbosa Moreira,
“a interposição não faz cessar efeitos que já se estivessem produzindo, apenas prolonga o estado de ineficácia em que
se encontrava a decisão, pelo simples fato de estar sujeito à impugnação através do recurso. A denominação “efeito
suspensivo”, por isso, apesar de tradicional, é a rigor inexata.”

136
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Cumpre atentar para o fato de que, em nosso sistema processual, a regra geral é a de que os recursos façam operar
o efeito suspensivo, isto é, eventual ausência deste efeito nos recursos em espécie decorrerá sempre de expressa
previsão legal.

Nada constando na lei, portanto, produzirá o recurso, o efeito suspensivo.

Efeito Translativo
Existem matérias que podem ser conhecidas de ofício em qualquer tempo e grau de jurisdição. São matérias imunes à
preclusão e que, por isso mesmo, podem ser apreciadas sem provocação das partes. Exemplo: as matérias de ordem
pública de que trata o art. 267, § 3º, do CPC.

Por força do efeito translativo dos recursos, tais matérias podem ser deliberadas em sede recursal ainda que não tenham
sido suscitadas pela parte recorrente. Conforme distingue Ester Camila Gomes Norato,

efeito translativo é a denominação que se atribui à possibilidade ensejada pelos recursos cíveis de
apreciação de matérias de ordem pública, a despeito de não terem sido estas aduzidas na peça recursal,
ou seja, não comporem a esfera devolutiva do recurso. Nessa situação, não se diz de julgamento extra
ou ultra petita, visto que a ordem jurídica nacional autoriza, em vista de sua natureza, o conhecimento
de ofício daquelas questões.

Oportuno ressalvar que, em sede de recurso especial e extraordinário, prevalece o entendimento de que mesmo as questões
de ordem pública somente poderão ser conhecidas caso tenham sido devidamente prequestionadas.

Efeito Expansivo
O julgamento do recurso pode, excepcionalmente, afetar a posição ou situação jurídica de pessoa estranha ao recorrente
ou recorrido, como se verifica na hipótese contemplada no art. 509 do CPC. De acordo com Marcos Destefenni, “pode
o recurso, ao ser julgado, atingir um litigante que não recorreu. Nesse caso fala-se em efeito expansivo ou extensivo
(subjetivo). Imagine, por exemplo, a situação do litisconsorte unitário que não recorreu. Tal pode ocorrer numa ação de
anulação de casamento movida pelo Ministério Público em face dos cônjuges. Aquele que não recorreu será atingido pela
decisão proferida pelo tribunal. Do ponto de vista objetivo, o efeito do julgamento do recurso também pode atingir atos
processuais, além do ato processual impugnado. Ao impugnar uma decisão interlocutória, o agravante pode dar causa à
anulação de vários atos processuais.”

TÍTULO X
DOS RECURSOS

CAPÍTULO I
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 496. São cabíveis os seguintes recursos:


Pós-Graduação a Distância

I – apelação;

II – agravo;

III – embargos infringentes;

IV – embargos de declaração;

V – recurso ordinário;

137
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

VI – recurso especial;

VII – ecurso extraordinário;

VIII – embargos de divergência em recurso especial e em recurso extraordinário.

Princípio da taxatividade. Pelo princípio da taxatividade tem-se que somente é possível a interposição dos recursos
previstos em lei, não sendo lícito ao intérprete ou ao operador do Direito criar novo mecanismo de irresignação contra
decisão judicial não expresso no texto legal. Diz-se que a taxatividade é manifestação do princípio da legalidade, em
matéria de recursos cíveis.

Os meios recursais são previstos por lei federal, em numerus clausus. São hipóteses fechadas, não sendo admitido recurso
não previsto em lei. (PINTO, Nelson Luiz. Manual dos recursos cíveis. Malheiros, 2. ed., p. 60)

Não existem recursos que não tenham sido criados por lei. As partes intervenientes ou o próprio juiz não têm poderes
para criar mecanismos de impugnação das decisões judiciais além daqueles estabelecidos pelo legislador. Daí dizer que
o rol dos recursos é numerus clausus.

O princípio da unirrecorribilidade estava expressamente previsto no Código de Processo Civil de 1939 e foi
implicitamente acolhido pela legislação processual vigente, em razão da sistemática por ele inaugurada e da
cogente observância da regra da adequação dos recursos. (STF, AGRG. no AI no 563.505-2/MS, rel. Min. Eros
Grau, DJU 04.11.2005, p. 21)

Subsiste em nosso sistema processual civil o princípio da singularidade, também denominado da unicidade do recurso,
ou unirrecorribilidade. Esse princípio consagra a premissa de que para cada decisão a ser atacada há um recurso próprio
e adequado previsto no ordenamento jurídico. (STJ, EDcl no AI no 328.355/MG, 2ª T., rel. Min. Franciulli Netto, DJU
18.03.2002, p. 229)

Tendo o sistema processual vigente previsão de apenas um recurso para atacar cada decisão, fere o princípio da
unirrecorribilidade a utilização de duas vias processuais para a impugnação de um mesmo ato judicial. (STJ, AgRg. no AI
461.235/RS, 3ª T., rel. Min. Castro Filho, DJU 22.09.2003, p. 319)

Art. 497. O recurso extraordinário e o recurso especial não impedem a execução da sentença; a
interposição do agravo de instrumento não obsta o andamento do processo, ressalvado o disposto
no art. 558 desta Lei.

No Direito brasileiro, ainda vige a regra de que os recursos, ordinariamente, são dotados de efeito suspensivo. Assim, se
Processo Civil – Processo de Conhecimento

o recurso não possuir este efeito, deverá constar expressamente do texto legal (art. 497 do CPC). (DIDIER JR.; CUNHA,
p. 79)

No que diz respeito ao efeito suspensivo, a regra é não o terem os agravos, segundo o disposto no art. 497 do CPC,
ressalvadas quanto ao agravo de instrumento, as hipóteses indicadas nos arts. 558 e 527, II, em que o relator do recurso
poderá outorgar-lhe efeito suspensivo.

O tradicionalmente denominado efeito suspensivo dos recursos, particularmente da apelação, deve ser compreendido
modernamente sob sua adequada perspectiva metodológica, configurando-se em verdade como ineficácia das sentenças
sujeitas a recurso. Deslocando o enfoque do problema do eixo dos recursos para o da (in)eficácia das sentenças, é possível
concluir que a impugnação da decisão de mérito em verdade não confere efeito suspensivo a esta, mas sim prolonga da
impossibilidade de sua imediata execução. (LEONEL, Ricardo de Barros. Eficácia imediata da sentença e as reformas do
CPC. In: Revista Magister de Direito Civil e Processual Civil, nº 03/36)
138
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

RECURSO EXTRAORDINÁRIO – EFEITO SUSPENSIVO – EXCEPCIONALIDADE NÃO VERIFICADA. A regra é no sentido


de o recurso admissível possuidor duplo efeito – de evitar a coisa julgada e de devolver o conhecimento da matéria. O
terceiro efeito – o suspensivo – há de ser reservado a situações excepcionais, das quais não serve de exemplo a tentativa
de discutir, em execução, tema coberto pela preclusão maior que, no processo de conhecimento, não envolva a citação.
(STF, MC no 308-3/DF, rel. Min. Marco Aurélio, DJU 11.02.2005, p. 5)

Art. 498. Quando o dispositivo do acórdão contiver julgamento por maioria de votos e julgamento
unânime, e forem interpostos embargos infringentes, o prazo para recurso extraordinário ou recurso
especial, relativamente ao julgamento unânime, ficará sobrestado até a intimação da decisão nos
embargos.

Parágrafo único. Quando não forem interpostos embargos infringentes, o prazo relativo à parte
unânime da decisão terá como dia de início aquele em que transitar em julgado a decisão por
maioria de votos.

Se, em desconformidade com o art. 498 do CPC, forem interpostos, simultaneamente, recurso especial ou extraordinário
e embargos infringentes, aquele não será admitido, sendo considerado prematuro. Cabe à parte interpor embargos
infringentes e, somente depois do julgamento destes, oferecer seu recurso especial e/ou extraordinário. A interposição
do recurso excepcional juntamente com os infringentes acarreta a inadmissibilidade daquele. (DIDIER JR.; CUNHA,
p. 238)

Não tendo a parte embargado infringentemente, o prazo para a interposição do recurso extraordinário ou do recurso
especial da parte unânime começa a contar no dia seguinte àquele em que transitou em julgado a parte que teria ensejado
a interposição daquele recurso. (WAMBIER; WAMBIER, 2006, p. 128)

O “sobrestamento” do prazo referido pelo art. 498 não se confunde com a suspensão nem com a interrupção dos prazos. O
prazo “sobrestado” para a interposição do recurso especial e/ou extraordinário significa que ele não passa a fluir enquanto
não ocorrer a hipótese prevista na própria regra – “a intimação da decisão nos embargos”. A expressão entre aspas deve
ser compreendida como a intimação da decisão que julga os embargos interpostos. (BUENO, Cassio Scarpinella. Curso
sistematizado de Direito Processual Civil. V. 5, Saraiva, 2008, p. 221)

Súmula nº 207 do STJ: É inadmissível recurso especial quando cabíveis embargos infringentes contra o acórdão proferido
no tribunal de origem.

O recurso extraordinário pressupõe decisão de única ou última instância. Tratando-se de acórdão proferido, por
maioria, em grau de apelação, descabe interpô-lo de imediato – artigos 498 e 530 do Código de Processo Civil e
inciso III do art. 102 da Constituição Federal. (STF, AGRG. no AI no 223.634-0/SP, rel. Min. Marco Aurélio, DJU
04.05.2001, p. 7)

Nos termos do art. 498 do CPC, com a redação conferida pela Lei nº 10.352/2001, é prematura a interposição de recurso
especial antes do julgamento dos embargos infringentes, momento em que ainda não esgotada a instância ordinária.
(STJ, AgRg. no AI 688.114/MG, 4ª T., rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJU 06.03.2006, p. 399)

Art. 499. O recurso pode ser interposto pela parte vencida, pelo terceiro prejudicado e pelo Ministério
Pós-Graduação a Distância

Público.

§ 1º Cumpre ao terceiro demonstrar o nexo de interdependência entre o seu interesse de intervir e a


relação jurídica submetida à apreciação judicial.

§ 2º O Ministério Público tem legitimidade para recorrer assim no processo em que é parte, como
naqueles em que oficiou como fiscal da lei.

O prazo para o recurso do terceiro prejudicado é o mesmo conferido pela lei à parte, sendo também o mesmo o termo a
quo de sua contagem.
139
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

A locução parte vencida, constante do art. 499 do Código de Processo Civil, há de ser entendida à luz da teoria dos
capítulos de sentença –e sendo óbvio que cada uma das partes só é vencida no capítulo de sentença em que sua pretensão
estiver contrariada, tendo interesse recursal somente quanto a essa parte e não no mais.

O interesse em recorrer está relacionado com a necessidade do recurso, para a obtenção do reexame da decisão impugnada.
Assim, para que o recorrente tenha interesse em recorrer, é preciso que ele haja sofrido prejuízo (sucumbência), ou seja,
que a decisão impugnada lhe tenha sido desfavorável, total ou parcialmente, ou melhor, que o recorrente não tenha obtido,
com o pronunciamento judicial, tudo aquilo que ele pretendia e poderia ter obtido do processo.

Interesse em recorrer: Configura-se este requisito sempre que o recorrente possa esperar, em tese, do julgamento do
recurso, situação mais vantajosa, do ponto de vista prático, do que aquela em que o haja posto a decisão impugnada
(utilidade do recurso) e, mais, que lhe seja preciso usar as vias recursais para alcançar esse objetivo (necessidade do
recurso). (MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo Processo Civil brasileiro. 25. ed., Forense, p. 117)

Súmula nº 99 do STJ: O Ministério Público tem legitimidade para recorrer no processo em que oficiou como fiscal da lei,
ainda que não haja recurso da parte.

Súmula nº 226 do STJ: O Ministério Público tem legitimidade para recorrer na ação de acidente do trabalho, ainda que
o segurado esteja assistido por advogado.

As partes – tanto o autor quanto o réu – têm interesse em obter a solução da lide. Por isso, o réu também está legitimado
para recorrer contra a extinção do processo, sem julgamento do mérito. (STJ, REsp. no 710.287/SP, 3ª T., rel. Min.
Humberto Gomes de Barros, DJU 07.11.2005, p. 279)

Na condição de terceira prejudicada, para ter legitimidade para a interposição da apelação, a recorrente basta demonstrar
o nexo de interdependência entre o seu interesse de intervir e a relação jurídica submetida à apreciação judicial (§ 1º do
art. 499 do CPC). (STJ, REsp. no 696.934/PB, 4ª T., rel. Min. Hélio Quaglia Barbosa, DJU 04.06.2007, p. 358)

O Ministério Público tem legitimidade para recorrer nas causas em que tenha oficiado como fiscal da lei, mesmo que
referente a Direitos individuais disponíveis. (STJ, REsp. no 337.779/SC, 2ª T., rel. Min. João Otávio de Noronha, DJU
20.02.2006, p. 260)
Art. 500. Cada parte interporá o recurso, independentemente, no prazo e observadas as exigências legais.
Sendo, porém, vencidos autor e réu, ao recurso interposto por qualquer deles poderá aderir a outra parte.
O recurso adesivo fica subordinado ao recurso principal e se rege pelas disposições seguintes:

I – será interposto perante a autoridade competente para admitir o recurso principal, no prazo
de que a parte dispõe para responder;

II – será admissível na apelação, nos embargos infringentes, no recurso extraordinário e no recurso


Processo Civil – Processo de Conhecimento

especial;

III – não será conhecido, se houver desistência do recurso principal, ou se for ele declarado
inadmissível ou deserto.

Parágrafo único. Ao recurso adesivo se aplicam as mesmas regras do recurso independente, quanto
às condições de admissibilidade, preparo e julgamento no tribunal superior.

Somente é possível cogitar de interposição adesiva em caso de sucumbência recíproca: ambos os litigantes são em
parte vencedores e vencidos (art. 500, caput, CPC). Nesses casos, publicada a decisão, embora ambos pudessem ter
recorrido de forma independente, um deles espera o comportamento do outro, para só então recorrer. Por isso não se
admite recurso adesivo do réu, contra sentença que julgou totalmente improcedente pedido do autor, pela absoluta
falta de interesse – nem mesmo para melhorar a fundamentação do julgado. A apelação do autor devolverá ao tribunal
todos os fundamentos que o réu levantara no processo (art. 515, §§ 1º e 2º), sem que ele precise, para tanto, recorrer
adesivamente. (DIDIER JR.;CUNHA, 2007, p. 85/86)

140
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

O prazo para a interposição do recurso adesivo é “o de que a parte dispõe para responder”, isto é, 15 dias (art. 508).
Não se exige que a petição de adesão e a resposta ao recurso principal sejam apresentadas simultaneamente: basta que
ambas o sejam na quinzena.

O recurso subordinado pressupõe a conformidade com a parte desfavorável do provimento; ora, a pessoa que recorre
em caráter principal assume franca atitude da desconformidade, no todo ou parcialmente, e, assim, inibe o uso ulterior
de outra modalidade de interposição.

Deve ser interposto por petição autônoma, acompanhada das razões do recurso, não sendo admitida a interposição junto
com as contra-razões do recurso da parte contrária. (MIRANDA; PIZZOL, 2009, p. 51/52)

O prazo para a interposição é o das contra-razões do recurso. Mas o adesivo não se confunde com as contra-razões.
Estas são a resposta ao recurso do adversário, ao passo que aquele constitui uma nova impugnação. (GONÇALVES,
2005, p. 56)

A subordinação do recurso adesivo prevista no art. 500, III, da Lei Instrumental Civil, é a de existência e de juízo de
admissibilidade positivo do recurso principal. Descabida a exigência de vinculação de mérito entre os recursos adesivo e
principal. (STJ, REsp. no 332.826/MG, 4ª T., rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, DJU 08.04.2002, p. 223)

O Código de Processo Civil só admite a interposição do recurso adesivo quando o recurso principal se tratar de apelação,
embargos infringentes, recurso especial ou recurso extraordinário (Artigo 500, II, do Código de Processo Civil). Não há
previsão legal para a interposição de agravo de instrumento adesivo. (STJ, AgRg. no AI no 336.135/SP, rel. Min. Carlos
Alberto Menezes Direito, DJU 19.03.01, p. 108)

O recurso adesivo está subordinado ao recurso principal, assim, negado seguimento ao recurso especial principal,
decisão da qual não se recorreu, inadmissível a pretensão de se determinar o prosseguimento do recurso especial adesivo
independentemente do recurso especial principal. (STJ, AgRg. no AI no 667.603/MG, 4ª T., rel. Min. Fernando Gonçalves,
DJU 22.08.2005, p. 296)

Art. 501. O recorrente poderá, a qualquer tempo, sem a anuência do recorrido ou dos litisconsortes,
desistir do recurso.

Chama-se desistência do recurso ao ato pelo qual o recorrente manifesta ao órgão judicial a vontade de que não seja
julgado, e portanto não continue a ser processado, o recurso que interpusera. (MOREIRA, 1998, p. 331)

A desistência é o abandono do recurso, já interposto, podendo ser expressa ou tática. A desistência expressa é a
manifestação por escrito ao juiz retratando-se da interposição; a desistência tácita decorre de algum ato extraprocessual
incompatível com o processamento do recurso, por exemplo, a transação incondicionada sobre objeto litigioso, a renúncia
ao Direito litigioso, o cumprimento voluntário e incondicionado da sentença etc. (GRECO FILHO, 2009, p. 285)

A lei não impõe forma especial à desistência. É possível desistir oralmente, na sessão de julgamento, de quaisquer
recursos. (ASSIS, 2007, p. 169)
Pós-Graduação a Distância

Em atenção ao disposto no art. 501 do CPC, é de ser homologada a desistência do recurso manifestada após a interrupção
do julgamento, em decorrência de pedido de vista, embora os votos já proferidos não tenham conhecido do apelo. (STF,
RE no 113.682-1/SP, rel. Min. Ilmar Galvão, DJU 11.10.2001, p. 18)

O agravante pode desistir de recurso por ele interposto a qualquer tempo, sem necessidade de anuência da parte contrária,
segundo o art. 501 do Código de Processo Civil. (STF, AGRG. no AI no 462.814-1/RJ, rela. Mina. Ellen Gracie, DJU
22.10.2004, p. 23)

141
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Por força do art. 501 do CPC, a homologação da desistência de recurso pendente, pelo recorrente, não exige a anuência
do recorrido. (STJ, AgRg. no REsp. no 382.236/RS, 2ª T., rela. Mina. Eliana Calmon, DJU 02.06.2003, p. 256)

A desistência do recurso, nos termos do art. 501 do CPC, independe da concordância do recorrido ou dos litisconsortes
e somente pode ser formulado até o julgamento do recurso. Neste caso, há extinção do processo com julgamento do
mérito, prevalecendo a decisão imediatamente anterior, inclusive no que diz respeito a custas e honorários advocatícios.
(STJ, REsp. no 555.139/CE, 2ª T., rela. Mina. Eliana Calmon, DJU 13.06.2005, p. 240)

Art. 502. A renúncia ao Direito de recorrer independe da aceitação da outra parte.

Ocorre a renúncia quando a parte vencida abre mão previamente do seu Direito de recorrer. A desistência é posterior à
interposição do recurso. A renúncia é prévia. (THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 514)

Para que a renúncia seja válida e eficaz, é preciso que ela atenda às condições de validade e eficácia dos negócios
jurídicos em geral, sendo irrevogável dentro do processo. Do mesmo modo que ocorre com a desistência, deve a renúncia
ser interpretada restritivamente. (MIRANDA; PIZZOL, 2009, p. 43)

Art. 503. A parte, que aceitar expressa ou tacitamente a sentença ou a decisão, não poderá
recorrer.

Parágrafo único. Considera-se aceitação tácita a prática, sem reserva alguma, de um ato incompatível
com a vontade de recorrer.

São exemplos de aceitação tácita: (a) o depósito, pelo réu, nos moldes da sentença, do valor da condenação ao pagamento
de indenização e honorários advocatícios; (b) a desocupação do imóvel pelo locatário, em razão da decretação do despejo;
(c) a entrega do carro na ação de reintegração de posse julgada procedente; (d) a destruição do muro na ação condenatória
visando ao cumprimento de obrigação de não fazer. Ressalte-se que, para que se admita a existência de aceitação tácita,
é necessário que o aceitante pratique atos inequivocamente inconciliáveis com a vontade de recorrer. Como se trata de
disposição de Direito, a interpretação deve ser restritiva (na dúvida, entenda-se que não houve aquiescência). (MIRANDA;
PIZZOL, 2009, p. 44)

Por se tratar de ato de vontade do desistente, a desistência deverá ser expressa e clara, sem condições, manifestada
por meio de petição escrita nesse sentido, dirigida ao juiz ou ao relator do feito. Nada obsta, porém, que, no juízo ad
quem, em sessão do julgamento, antes do início da votação do recurso pelos juízes do colegiado, se faça oralmente.
(SANTOS, 1999, p. 99/100)

Não configura aceitação tácita (art. 503, parágrafo único, do CPC), a apresentação de parecer de órgão do Ministério
Público estadual, no desempenho da função de fiscal da lei, contrário ao interesse recursal do Procurador de Justiça
autor de ação civil pública em resguardo de interesse coletivo, em razão da autonomia, independência funcional entre os
Processo Civil – Processo de Conhecimento

membros da instituição e da natureza distinta das atribuições que deram origem às respectivas atuações no processo.
(STJ, REsp. no 41.590/MG, rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, DJU 05.03.01, p. 164)

Apelação: não conhecimento. Existência de ato incompatível com o interesse de recorrer. Art. 503 do Código
de Processo Civil. Existência de reserva. Se a parte pede levantamento da importância depositada em decorrência da
arrematação, mas ressalva expressamente que não concorda com a validade dos atos que deram origem à praça e que
são objeto do recurso de apelação, não existe aquiescência. (STJ, REsp. no 660.723/MG, 3ª T., rel. Min. Carlos Alberto
Menezes Direito, DJU 11.04.2005, p. 301)

Art. 504. Dos despachos não cabe recurso.

A recorribilidade tem como requisito a existência de prejuízo, de sucumbência, sem o que inexistirá para a parte o interesse
recursal. Os despachos, por não resolverem questões, mas consistirem apenas em pronunciamentos de impulso processual,
são, em princípio, incapazes de causar prejuízo a qualquer das partes, razão pela qual a lei não os considera recorríveis.
Entretanto, poderá ocorrer que determinado despacho proferido no processo de forma errônea ou extemporâneo, por ser
142
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

“teratológico”, venha a causar algum gravame processual a uma ou a ambas as partes. Isto ocorrendo, apesar de não se
tratar de uma decisão judicial, mas de despacho, será ele recorrível pelo regime jurídico da decisão interlocutória, através
do recurso de agravo, que permite a imediata revisão pelo juiz do despacho incorreto (art. 529 do CPC) ou a suspensão
de seus efeitos pelo tribunal (art. 558 do CPC). (PINTO, 2004, p. 28)

O despacho que determina a citação do devedor, em sede de execução, não é um ato que, no curso do processo,
resolve uma questão incidente, conforme determina o art. 162, § 2º, do Código de Processo Civil, sendo, portanto,
irrecorrível pela via do agravo de instrumento. (STJ, REsp. no 693.074/RJ, 3ª T., rel. Min. Castro Filho, DJU
18.09.2006, p. 311)

Os despachos de mero expediente são irrecorríveis, compreendendo-se como tal aquele que – provocado por uma
das partes – se reporta à decisão anterior sem nada acrescentar-lhe. (STJ, REsp. no 838.543/RN, 3ª T., rel. Min. Ari
Pargendler, DJU 04.12.206, p. 315)

Art. 505. A sentença pode ser impugnada no todo ou em parte.

Apesar das respeitáveis opiniões em sentido contrário, os artigos 505 e 515, bem como o princípio da demanda e
a proibição da reformatio in pejus, impõem a imutabilidade dos capítulos de mérito não impugnados, desde que não
dependentes. (FONSECA, João Francisco Naves da. Efeito devolutivo na apelação e “questões de ordem pública”.
In: RBDPro 64/90)

Art. 506. O prazo para a interposição do recurso, aplicável em todos os casos o disposto no art. 184
e seus parágrafos, contar-se-á da data:

I – da leitura da sentença em audiência;

II – da intimação às partes, quando a sentença não for proferida em audiência;

III – da publicação do dispositivo do acórdão no órgão oficial.

Parágrafo único. No prazo para a interposição do recurso, a petição será protocolada em


cartório ou segundo a norma de organização judiciária, ressalvado o disposto no § 2º do art.
525 desta Lei.

O prazo para impugnar atos proferidos em audiência (art. 506, I) contar-se-á da data em que se verificar a solenidade. E isso
porque na audiência se reputam as partes (rectius: seus advogados) intimadas, a teor do art. 242, § 1º, e, desse modo, prescindir-
se-á de nova intimação pela imprensa. A incidência do art. 242, § 1º, reclama prévia e válida intimação dos advogados da data
da audiência, inclusive quanto à sua eventual antecipação (art. 242, § 2º). Só nesta última contingência, então, a falta de
comparecimento do advogado se revelará irrelevante, fluindo o prazo de forma automática. (ASSIS, 2007, p. 183)

Para o revel, o prazo para apelar corre da publicação da sentença em cartório, a não ser que tenha comparecido em juízo
após exaurido o prazo para contestação.

Mesmo que não haja advogado constituído, ou curador especial nos autos, a forma de publicação das decisões e sentenças
é a prevista na lei (art. 506, II), dispensando-se qualquer intimação à parte revel (art. 322).
Pós-Graduação a Distância

A intempestividade dos recursos tranto pode derivar de impugnações prematuras (que se antecipam à publicação dos
acórdãos) quanto decorrer de oposições tardias (que se registram após o decurso dos prazos recursais). Em qualquer
das duas situações – impugnação prematura ou oposição tardia –, a consequência de ordem processual é uma só: o não
conhecimento do recurso, por efeito de sua extemporânea interposição. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem
advertido que a simples notícia do julgamento, além de não dar início à fluência do prazo recursal, também não legitima
a prematura interposição de recurso, por absoluta falta de objeto. Precedentes. (STF, AGRG. no AI no 405.602-1/MS,
rel. Min. Celso de Mello, DJU 03.02.2006, p. 35)

143
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

É de se considerar extemporâneo o recurso extraordinário protocolado antes de publicado o acórdão recorrido, tendo em
vista que não se abriu o prazo para sua impugnação. Necessidade de ratificação do ato de interposição do apelo extremo,
após a publicação do aresto impugnado no órgão oficial. (STF, AGRG. no RE no 320.440-8/RJ, rela. Mina. Ellen Gracie,
DJU 06.12.2002, p. 65)

A apresentação de “pedido de reconsideração”, conforme denominado pela agravante, contra acórdão proferido por Turma
não tem amparo legal, configurando equívoco inescusável da parte, a inviabilizar a aplicação do princípio da fungibilidade
recursal. (STF, EDCL. no AGRG. no AI no 335.512-0/SP, rela. Mina. Ellen Gracie, DJU 08.11.2002, p. 39)

É prematura a interposição do recurso especial antes do julgamento dos aclaratórios opostos por qualquer dos litigantes,
por falta de esgotamento da instância ordinária. (STJ, REsp. no 721.708/ES, 4ª T., rel. Min. Aldir Passarinho Júnior,
DJU 12.02.2007, p. 264)

A orientação da jurisprudência da Corte é no sentido de que havendo a republicação da sentença, dela começa a correr
o prazo para o recurso. (STJ, REsp. no 281.590/MG, 3ª T., rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 28.06.2004,
p. 300)

Art. 507. Se, durante o prazo para a interposição do recurso, sobrevier o falecimento da parte ou
de seu advogado, ou ocorrer motivo de força maior, que suspenda o curso do processo, será tal
prazo restituído em proveito da parte, do herdeiro ou do sucessor, contra quem começará a correr
novamente depois da intimação.

A tempestividade do recurso, em face de suspensão de prazo que não seja de conhecimento obrigatório do Tribunal ad
quem, deve ser comprovada no momento de sua interposição. Precedentes. (STF, AGRG. NO AI no 422.029-5/SP, rela.
Mina. Ellen Gracie, DJU 31.10.2003, p. 21)

Se, publicada a sentença, a parte é impedida judicialmente de retirar os autos do cartório, para providenciar a apelação,
o prazo deste recurso somente começa a correr do dia em que cessa o empecilho. Precedentes desta Corte. (STJ, REsp.
no 613.643/AM, 4ª T., rel. Min. Fernando Gonçalves, DJU 22.11.2004, p. 362)

Configurado, em tese, motivo de força maior que impossibilite o acesso aos autos durante o curso do prazo recursal
(CPC, art. 507), a parte recorrente está legitimada a requerer o reconhecimento judicial da causa suspensiva, bem como
a devolução do prazo para a prática do ato sem qualquer prejuízo, conforme exegese do § 2º do art. 183 do CPC. 2.
Entretanto, se a parte interessada teve acesso aos autos antes do vencimento do prazo legal e, mesmo diante do obstáculo,
manteve-se omissa, sem diligenciar ao juízo competente o reconhecimento da causa suspensiva e a restituição do prazo,
assume o ônus de interpor o recurso no prazo peremptório legalmente previsto, sob pena de intempestividade. Mais do
que isso: a parte está autorizada, pelo Direito Processual Civil vigente, a renunciar ao prazo estabelecido em seu favor
(CPC, art. 186), devendo, naturalmente, suportar os efeitos desse fato. 3. Nessas circunstâncias, o recurso especial
ofertado depois do prazo legal de 15 dias (CPC, art. 508) não pode ser conhecido porque intempestivo. 4. Impossível, na
Processo Civil – Processo de Conhecimento

instância especial, a conversão do julgamento em diligência para sanar o vício da intempestividade, que, além de tudo,
não pode ser convalidado ou relevado pelo órgão julgador. (STJ, AgRg. no AI no 602.018/DF, 1ª T., rela. Mina. Denise
Arruda, DJU 22.11.2004, p. 277)

Art. 508. Na apelação, nos embargos infringentes, no recurso ordinário, no recurso especial, no
recurso extraordinário e nos embargos de divergência, o prazo para interpor e para responder é de
15 (quinze) dias.

Uma vez exercido o ato processual validamente, não se permite mais que a parte o faça novamente, nem possa
complementar ou aditar tal ato. Estará, na realidade, consumada a prática do ato, operando-se a chamada preclusão
consumativa. Tome-se como exemplo a interposição de apelação contra uma sentença proferida pelo juiz. Tal recurso
há de ser intentado no prazo de 15 (quinze) dias. Imagine-se que a parte ajuíze o apelo no 5º (quinto) dia do prazo. Ainda
sobejando mais 10 (dez) dias, não é facultado à parte aditar ou complementar o recurso no prazo restante, eis que
consumada a prática do ato, operando-se a preclusão consumativa. (DIDIER JR, 2008)

144
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

É intempestivo o recurso equivocadamente interposto perante Tribunal diverso e recebido no Supremo Tribunal Federal,
órgão competente para sua apreciação, somente após o trânsito em julgado da decisão recorrida. (STF, AGRG. no AI
no 590.083-9/SP, rel. Min. Carlos Britto, DJU 27.10.2006, p. 45)

O recurso rege-se pela lei do tempo em que proferida a decisão, assim considerada nos órgãos colegiadas a data da
sessão de julgamento em que anunciado pelo Presidente o resultado, nos termos do art. 556 do Código de Processo Civil.
É nesse momento que nasce o Direito subjetivo à impugnação. (STJ, EDiv. em REsp. no 649.526/MG, Corte Especial, rel.
Min. Carlos Alberto Menezes Direito, DJU 13.02.2006, p. 643)

Art. 509. O recurso interposto por um dos litisconsortes a todos aproveita, salvo se distintos ou
opostos os seus interesses.

Parágrafo único. Havendo solidariedade passiva, o recurso interposto por um devedor aproveitará
aos outros, quando as defesas opostas ao credor Ihes forem comuns.

Tratando-se de litisconsórcio unitário, facultativo ou necessário, assim como os atos praticados em favor de um deles
no processo beneficiam os demais, também o recurso interposto por apenas um deles aproveitará aos demais. Já no que
se refere ao litisconsórcio simples, somente em relação aos fatos e Direitos comuns é que os atos de um litisconsorte
aproveitarão aos demais. (PINTO, 2004, p. 63)

O art. 509, caput, é perfeitamente aplicável ao caso de litisconsórcio unitário, quando o juiz é obrigado a decidir de
maneira uniforme para todos os litisconsortes. Consequentemente, a apelação de um beneficiará os demais, em virtude
da própria natureza da relação jurídica que impõe a sentença uniforme. (GRECO FILHO, 2009, p. 290)

Em se tratando de litisconsórcio unitário, em que a decisão deva ser uniforme para todos, é de aplicar-se o art. 509.
(STJ, REsp. no 296.349/SP, 4ª T., rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 02.04.2001, p. 305)

O art. 509 do CPC só é aplicável aos casos de litisconsórcio unitário, naquelas hipóteses em que,
evidentemente, a decisão judicial não possa ser cindida, devendo atingir os litisconsortes de modo
uniforme, quanto ao Direito Material postulado, razão pela qual o recurso interposto apenas por um
deles se estenderá aos demais. (STJ, REsp. 141.565/SC, 2ª T., rel. Min. Francisco Peçanha Martins,
DJU 18.02.2002, p. 282)

Art. 510. Transitado em julgado o acórdão, o escrivão, ou secretário, independentemente de despacho,


providenciará a baixa dos autos ao juízo de origem, no prazo de (cinco) dias.

Art. 511. No ato de interposição do recurso, o recorrente comprovará, quando exigido pela legislação
pertinente, o respectivo preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, sob pena de deserção.

§ 1º São dispensados de preparo os recursos interpostos pelo Ministério Público, pela União, pelos
Estados e Municípios e respectivas autarquias, e pelos que gozam de isenção legal.

§ 2º A insuficiência no valor do preparo implicará deserção, se o recorrente, intimado, não vier a


supri-lo no prazo de cinco dias.

A deserção é a extinção do procedimento recursal, com a consequente preclusão ou trânsito em julgado da decisão,
Pós-Graduação a Distância

em virtude da falta ou intempestividade do preparo, que é o pagamento das custas do recurso. (GRECO FILHO, 2009,
p. 285)

Súmula nº 187 do STJ: deserto o recurso interposto para o Superior Tribunal de Justiça, quando o recorrente não recolhe,
na origem, a importância das despesas de remessa e retorno dos autos.

O Supremo Tribunal Federal firmou entendimento de que o fechamento das agências bancárias em seu horário habitual,
ainda que anterior ao término do expediente forense, não é causa para ensejar legítimo o pagamento do preparo após o
prazo recursal. (STF, AgRg. no AI no 637.204-9/PE, rel. Min. Eros Grau, DJU 17.08.2007, p. 82)

145
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

O preparo da apelação deve ser comprovado no ato de interposição do recurso; se motivo superveniente à sentença
autoriza o benefício da Justiça Gratuita, a parte nele interessada deve providenciar para que o deferimento do respectivo
pedido se dê antes da interposição do recurso. (STJ, AgRg. no AI no 678.948-0/RJ, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler, BSTJ
2006, nº 05/48)

Consoante a jurisprudência iterativa desta Corte, ocorre a deserção somente quando a complementação do
preparo, após a intimação da parte para esse fim, não for efetuada no prazo de cinco dias (art. 511, § 2º, do
CPC), não sendo a hipótese em questão. (STJ, REsp. no 460.970/DF, 2ª T., rel. Min. Francisco Peçanha Martins,
DJU 27.06.2005, p. 317)

Art. 512. O julgamento proferido pelo tribunal substituirá a sentença ou a decisão recorrida no que
tiver sido objeto de recurso.

A decisão que for proferida em agravo, alterando ou anulando a decisão interlocutória, pode operar efeitos sobre atos
vinculados ao especificamente recorrido. Todos os atos dependentes do ato anulado ou modificado – pela decisão do
agravo – poderão ser também anulados ou modificados. Compete ao tribunal, ao examinar o agravo, delimitar essa
comunicabilidade dos efeitos, esclarecendo quais atos ficam atingidos pela decisão adotada. (MARINONI; ARENHART,
2008, p. 546)

Saliente-se que a substituição é apenas da parte impugnada. Quanto à parte não impugnada, essa permanece íntegra.
Assim, sendo a apelação apenas parcial, o título executivo é formado pela sentença, na parte transitada em julgado, e
pelo acórdão. (DONIZETTI, 2008, p. 449)

Ocorre o prejuízo do extraordinário quando o recorrente haja logrado êxito no julgamento do especial. O Direito é orgânico
e dinâmico, sendo certo que, a teor do disposto no art. 512 do Código de Processo Civil, o julgamento proferido pelo
Tribunal substituiria a sentença ou a decisão recorrida que tiver sido objeto do recurso. (STF, AGRG. no RE no 436.109-4/
RS, rel. Min. Marco Aurélio, DJU 26.08.2005, p. 25)
Processo Civil – Processo de Conhecimento

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Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 34 – Recurso de Apelação

Conceito
Recurso cabível contra qualquer sentença definitiva ou terminativa (CPC, art. 513), seja qual for a natureza do processo
em que for proferida (conhecimento, execução ou cautelar). Na lição de Nelson Luiz Pinto, “quer se trate de sentença
processual, quer se trate de sentença de mérito, o recurso contra elas cabível será sempre o de apelação.”

A definição do recurso de apelação faz-se a partir da natureza do ato atacado: será sempre cabível ante a decisão que
se enquadre nos arts. 267 e 269 da Lei Processual Civil (CPC, art. 162, § 1º).

Fundamento

A – Error In Procedendo

Representa vício de procedimento que compromete a validade da sentença. Ex: julgamento extra petita ou
citra petita, falta de citação, falta de intimação do MP quando necessária, inobservância de litisconsórcio
necessário etc.

B – Error In Iudicando

Representa a injustiça ou incorreção da sentença quanto à aplicação do Direito ou à interpretação dos fatos e
provas.

Sobre a matéria, vale trazer à baila ensinamento célebre de Eduardo J. Couture: “O juiz pode incidir um erro em dois
aspectos fundamentais do seu trabalho. Um deles consiste em afastar-se dos meios que lhe são traçados pelo Direito
Processual para a direção da causa. Por erro das partes ou por erro próprio, pode o juiz, com aquele afastamento,
diminuir as garantias do contraditório e privar as partes de uma defesa plena do seu Direito. Esse erro compromete
a forma dos atos, a sua estrutura externa, o seu modo de realização natural. Chama-se tradicionalmente error in
procedendo. O segundo erro ou desvio não afeta os meios de dirigir a causa, mas os próprios fins desta. Já não
se trata de forma, as de fundo, do próprio Direito substantivo que está em jogo. Este erro consiste normalmente
em aplicar uma lei inaplicável, em aplicar mal, ou deixar de aplicar, a lei aplicável. Pode consistir, ainda, em uma
imprópria utilização dos princípios lógicos ou empíricos que fazem parte da sentença. A consequência deste erro não
diz respeito à validade formal da sentença, que sob esse aspecto pode ser perfeita, mas à sua justiça. Chama-se,
também tradicionalmente, error in judicando.”
Pós-Graduação a Distância

Pressupostos Objetivos
A – Cabimento (recorribilidade)

B – Tempestividade (CPC, art. 508)

C – Preparo (CPC, art. 511)

D – Forma (CPC, art. 514)

147
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

(i) eventual ausência de assinatura do advogado pode ser suprida; (ii) a qualificação das partes só é necessária quando
não constar do processo; (iii) as razões devem acompanhar a petição de interposição do recurso.

Pressupostos Subjetivos

Legitimidade (CPC, art. 499)

Podem recorrer as partes, o terceiro prejudicado e o Ministério Público.

Quanto ao terceiro prejudicado, Fredie Didier Jr. e Leonardo José Carneiro da Cunha lembram que “terceiro é aquele
que, até então, não participa do processo. O recurso de terceiro é uma modalidade de intervenção de terceiro; o terceiro,
com o recurso, passa a fazer parte do processo. Cumpre ao terceiro demonstrar o nexo de interdependência entre o seu
interesse de intervir e a relação jurídica submetida à apreciação judicial (§ 1º, art. 499, CPC). Só se admite o recurso de
terceiro juridicamente prejudicado. O terceiro prejudicado há de ser titular ou da mesma relação jurídica discutida ou de
uma relação jurídica conexa com aquela deduzida em juízo. Pode-se dizer que todos aqueles que, legitimados a intervir
no processo, não o fizeram, salvo o caso da oposição, podem recorrer. O litisconsorte necessário não citado também
poderá recorrer.“

Interesse

Só pode recorrer a parte sucumbente total ou parcial parcialmente. Oportuna a advertência de Cândido Rangel Dinamarco:
“A locução parte vencida, constante do art. 499 do Código de Processo Civil, há de ser entendida à luz da teoria dos
capítulos de sentença – e sendo óbvio que cada uma das partes só é vencida no capítulo de sentença em que sua pretensão
estiver contrariada, tendo interesse recursal somente quanto a essa parte e não no mais.”

Efeitos (CPC, art. 520)

Devolutivo

A apelação devolve ao Tribunal o conhecimento e o julgamento da matéria impugnada. Impede o trânsito em julgado.

Suspensivo

A apelação, via de regra, neutraliza a eficácia da sentença, que assim não poderá produzir os seus efeitos, nem ser
executada provisoriamente. Consoante pondera Araken de Assis, “só regra expressa e específica retira o efeito suspensivo
Processo Civil – Processo de Conhecimento

da apelação. Por essa razão, as exceções se encontram taxativamente mencionadas, no art. 520, segunda parte, e noutras
disposições esparsas. Não cabe interpretar extensivamente essas exceções.”

Exceções ao Efeito Suspensivo

(i) embargos à arrematação e à adjudicação: efeito devolutivo; (ii) ações cumuladas: na ação cautelar o efeito é apenas
devolutivo. Nessa linha, assentou o Superior Tribunal de Justiça: “Se a sentença decide, ao mesmo tempo a ação cautelar
e a principal, a apelação suspenderá os efeitos da decisão relativa à ação principal e terá eficácia meramente devolutiva,
no que respeita ao processo cautelar (CPC, Art. 520)”.; (iii) quanto aos alimentos, o defeito é devolutivo somente quanto
aos alimentos em si. Decidiu, a propósito, o Superior Tribunal de Justiça6,195 que “a apelação interposta contra sentença
que julga simultaneamente ações conexas, terá os seus efeitos cindidos, cabendo apenas o efeito suspensivo no que
circunscreve à ação na qual a lei permite tal benefício.”

REsp. 297.426/PR, 1ª T., rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 16.09.2002, p. 145
6

148
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Abrangência (CPC, art. 515)

A impugnação é que determina a devolução. Pelo princípio da voluntariedade, a parte vencida pode ou não recorrer,
assim como pode atacar total ou parcialmente a sentença. O Tribunal não pode conhecer de matéria que não faz parte
da irresignação recursal, salvo quanto àquelas que podem ser conhecidas de ofício. Salienta, acerca da matéria, Nelson
Luiz Pinto, que, “de acordo com o princípio da voluntariedade, o recorrente poderá impugnar toda a decisão ou apenas
parte dela (art. 505 do CPC), ficando a seu exclusivo critério dimensionar o âmbito do recurso. Não há, entretanto, na
lei limites para essa devolutividade, sendo a apelação exemplo de recurso de fundamentação livre. Porém, tão-somente
a matéria impugnada poderá ser objeto de revisão pelo tribunal, sob pena de ofensa aos princípios da voluntariedade e
da proibição da reformatio in pejus et in melius.”

Total

Quando a sentença é inteiramente impugnada na apelação. Importante a anotação de Cândido Rangel Dinamarco: “Quando
o recurso interposto é integral, abrangendo todos os capítulos de que se compõe o ato recorrido, não se opera preclusão
alguma, notadamente a coisa julgada; quando ele é parcial, os capítulos de sentença não impugnado recebem a coisa
julgada e tornam-se, a partir daí, inatacáveis.”

Parcial

Quando apenas parte da sentença é impugnada na apelação (CPC, art. 515, § 2º). Ressaltando a extensão da devolutividade
da apelação, Rodrigo Barioni ensina que, “como decorrência da voluntariedade inerente à apelação, cumpre ao apelante
fixar a matéria impugnada, que delimitará a extensão do efeito devolutivo do recurso de apelação. Em outras palavras,
cabe exclusivamente ao apelante delimitar as matérias que serão objeto de julgamento pelo órgão ad quem – em virtude
da ampla aplicação do princípio dispositivo no plano dos recursos –, salvo aquelas que, por sua natureza, possam ser
apreciadas ex officio. As questões dispositivas que deixaram de ser impugnadas na apelação escapam, do ponto de vista
da extensão, ao âmbito de cognição do tribunal.”

Questões Conhecidas de Ofício (CPC, art. 515, § 2º)

“Nos casos de pluralidade de causas de pedir, a sentença poderá acolher o pedido do autor, tomando por base um único
fundamento fático e jurídico, sem que de tal resulte qualquer nulidade. A tanto o autoriza a norma do § 2º do art. 515,
reguladora da profundidade do efeito devolutivo da apelação: Quando o pedido ou a defesa tiver mais de um fundamento
e o juiz acolher apenas um deles, a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento das demais” segundo o ensinamento
inexcedível de Cleanto Guimarães Siqueira.

Sentença Terminativa

O § 3º do art. 515 do CPC permite que o Tribunal julgue o mérito que não foi apreciado em primeira instância, desde que
a causa esteja em condições de julgamento quanto ao mérito. Decidiu, sobre a matéria, o Superior Tribunal de Justiça7:
“Pode o Tribunal, afastada a extinção do processo sem julgamento do mérito, decidir a lide. Porém, para aplicação do
artigo 515, § 3º, do Cód. Pr. Civil, em controvérsias que envolvem matéria fática, além de Direito, como no caso, é
Pós-Graduação a Distância

necessário que a causa esteja devidamente instruída, qual ocorre nas hipóteses que autorizam o julgamento antecipado da
lide, preconizado pelo artigo 330, I, do mesmo diploma legal.” Noutra oportunidade, ratificou a mesma Corte197Superior8:
“A regra do art. 515, § 3º, do CPC, autoriza o julgamento da lide na instância superior, desde que o feito reúna todas
as condições para tanto.”

REsp. 714.620/SP, 3ª T., rel. Min. Castro Filho, DJU 12.09.2005, p. 328
7

REsp. 694.469/RJ, 1ª T., rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJU 04.04.2005, p. 217
8

149
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Processamento

Interposição (CPC, art. 518)

Juízo de Admissibilidade (CPC, art. 518)

No exercício desse juízo, que pode ser negativo ou positivo, o juiz analisa os pressupostos recursais. Vale recordar, com
Allan Helber De Oliveira E Marcelo Dias Gonçalves Vilela, que “o juízo de admissibilidade proferido pelo órgão jurisdicional
a quo não é subordinante. Portanto, não está vinculado o juízo ad quem ao exame dos requisitos de admissibilidade
efetuado pelo órgão a quo. É possível que o juízo a quo receba o recurso e o juízo ad quem, posteriormente, negue-lhe
seguimento.”

Insta chamar a atenção para o fato de que, à luz do § 1º do art. 518, “o juiz não receberá o recurso de apelação
quando a sentença estiver em conformidade com súmula do Superior Tribunal de Justiça ou do Supremo Tribunal
Federal.” Na arguta percepção de Rodrigo Da Cunha Lima Freire, “o § 1º do art. 518, acrescentado pela Lei nº
11.276/2006, instituiu a chamada “súmula impeditiva de recurso”, ao estabelecer que o magistrado de primeira
instância negue seguimento ao recurso de apelação interposto contra sentença por ele proferida, quando esta se
conformar com súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça. Tem-se, pois, como novo
requisito de admissibilidade da apelação, a ausência de conformidade da sentença com súmula do Supremo Tribunal
Federal ou do Superior Tribunal de Justiça.”

Resposta (CPC, art. 518)

Reexame da Admissibilidade (CPC, art. 518, § 2º)

Depois da resposta ao juiz é permitido reavaliar o recebimento do recurso.

Remessa ao Tribunal

Julgamento

Juízo de Admissibilidade

Antes de examinar o mérito do recurso o Tribunal avalia o seu cabimento, podendo pronunciar-se positiva (conhecendo)
ou negativamente (não conhecendo).
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Reforma

Dá-se a reforma nos casos de error in iudicando.

Anulação (ou Cassação)

Dá-se a cassação ou invalidação nos casos de error in procedendo.

Deserção
“A deserção é a extinção do procedimento recursal, com a consequente preclusão ou trânsito em julgado da decisão,
em virtude da falta ou intempestividade do preparo, que é o pagamento das custas do recurso”, na síntese de Vicente
Greco Filho.

150
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Embora verse sobre questão ainda polêmica, é interessante colacionar o seguinte julgado do Supremo Tribunal198Federal9:
“RECURSO EXTRAORDINÁRIO. INTERPOSIÇÃO DO RECURSO QUANDO JÁ ENCERRADO O EXPEDIENTE BANCÁRIO.
PREPARO. PRORROGAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O Supremo Tribunal Federal firmou entendimento de que o fechamento
das agências bancárias em seu horário habitual, ainda que anterior ao término do expediente forense, não é causa
para ensejar legítimo o pagamento do preparo após o prazo recursal.” De modo diverso, decidiu o Superior Tribunal de
Justiça10:199“PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO INTERPOSTA APÓS O ENCERRAMENTO DO EXPEDIENTE BANCÁRIO.
PREPARO EFETUADO NO PRIMEIRO DIA ÚTIL SUBSEQUENTE. COMPROVAÇÃO POSTERIOR. VALIDADE DO ATO.
DESERÇÃO AFASTADA. CPC. ART. 511. EXEGESE. I. Orientou-se o Superior Tribunal de Justiça, predominantemente,
por considerar possível o preparo do recurso até o primeiro dia útil subsequente ao da sua protocolização, quando esta se
dá após o encerramento do expediente bancário. II. A juntada da guia de pagamento pode ser efetuada posteriormente.
Precedentes.”

A deserção pode ser relevada no caso de justo impedimento, o qual, todavia, tem de ser alegado e demonstrado no próprio
recurso, ou seja, no ato de interposição.

Da decisão que releva a deserção não cabe recurso (CPC, art. 519, parágrafo único).

Execução Provisória
Quando a apelação é recebida apenas no efeito devolutivo a sentença condenatória pode ser provisoriamente executada,
com as cautelas exigidas na Lei Processual (arts. 521, 587, 588 e 589). Ressalta Antonio De Pádua Soubhie Nogueira
que “o recurso sem efeito suspensivo dará ensejo à execução provisória (art. 521), que é, em verdade, o meio pelo
qual se faz atuar a eficácia adiantada da sentença que não transitou em julgado. Significa, então, que mesmo antes
de exauridas todas as fases do processo de conhecimento, com a apreciação dos recursos, a decisão já poderá surtir
efeitos no mundo jurídico.”

CAPÍTULO II

DA APELAÇÃO

Art. 513. Da sentença caberá apelação (arts. 267 e 269).

São apeláveis tanto as sentenças proferidas em processos contenciosos como as dos feitos de jurisdição voluntária.
Também nos processos incidentes ou acessórios, como medidas cautelares, habilitação, restauração de autos etc., a
apelação é o recurso cabível contra a sentença que os encerrar. O mesmo, todavia, não ocorre com o julgamento de
simples incidentes do processo, a exemplo da impugnação ao valor da causa e das exceções, já que in casu ocorrem
apenas decisões interlocutórias. (THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 519)

Nos casos de conexão de ações, com julgamento simultâneo, proferida sentença única, pode a parte interpor apenas um
recurso abrangendo todas as ações, pois, o que se ataca é a decisão que é una. Precedente. (STJ, REsp. no 230.732/
MT, 3ª T., rel. Min. Castro Filho, DJU 01.08.2005, p. 437)

Art. 514. A apelação, interposta por petição dirigida ao juiz, conterá:


Pós-Graduação a Distância

I – os nomes e a qualificação das partes;

II – os fundamentos de fato e de Direito;

III – o pedido de nova decisão.

AgRg. no AI no 637.204-9/PE, rel. Min. Eros Grau, DJU 17.08.2007, p. 82


9

10
REsp. no 924.649/RS, 4ª T., rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, DJU 06.08.2007, p. 531

151
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

A petição deve vir subscrita por advogado habilitado nos autos. Não estando, porém, o advogado habilitado ou faltando
sua assinatura, cumpre aplicar o art. 13 do CPC, suspendendo-se o processo, a fim de que, intimado o apelante, seja
regularizado o vício, sob pena de não ser conhecido o apelo. (DIDIER JR.; CUNHA, 2009, p. 101)

Não se pode pensar em apelação que apenas proteste, genericamente, pela reforma da sentença recorrida. É preciso
que se faça pedido de nova decisão ou de anulação da sentença, e que este pedido seja compatível com os fundamentos
trazidos nas razões de apelação. (WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, 2006, p. 558)

Não se pode desconhecer os pressupostos de admissibilidade do recurso. O aspecto formal é importante em matéria
processual não por obséquio ao formalismo, mas para segurança das partes e resguardo do due process of law. (STJ,
AgRg. no AI no 495.521/RJ, 4ª T., rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, DJU 29.09.2003, p. 264)

O fato de haver a reprodução das razões da contestação não leva ao não conhecimento do recurso, quando capaz de
demonstrar seu inconformismo contra a sentença. (STJ, REsp. no 341.479/MS, 3ª T., rel. Min. Humberto Gomes de
Barros, DJU 25.02.2004, p. 168)

Art. 515. A apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada.

§ 1º Serão, porém, objeto de apreciação e julgamento pelo tribunal todas as questões suscitadas e
discutidas no processo, ainda que a sentença não as tenha julgado por inteiro.

§ 2º Quando o pedido ou a defesa tiver mais de um fundamento e o juiz acolher apenas um deles, a
apelação devolverá ao tribunal o conhecimento dos demais.

§ 3º Nos casos de extinção do processo sem julgamento do mérito (art. 267), o tribunal pode julgar
desde logo a lide, se a causa versar questão exclusivamente de Direito e estiver em condições de
imediato julgamento.

§ 4º Constatando a ocorrência de nulidade sanável, o tribunal poderá determinar a realização ou


renovação do ato processual, intimadas as partes; cumprida a diligência, sempre que possível
prosseguirá o julgamento da apelação.

O princípio que veda a reformatio in pejus é implícito no ordenamento jurídico nacional, derivando do próprio papel
que é exercido pelo “efeito devolutivo” no âmbito dos recursos em prazo menor que aquele reservado pela lei. Como
é vedado que o órgão julgador do recurso deixe de observar os limites de sua atuação, impostos pelo âmbito de
devolutividade recursal, ele não pode, sem pedido do recorrente, piorar a situação criada pela decisão ao recorrido.
(BUENO, 2008, p. 33)

Efeito translativo é a denominação que se atribui à possibilidade ensejada pelos recursos cíveis de apreciação de matérias
de ordem pública, a despeito de não terem sido estas aduzidas na peça recursal, ou seja, não comporem a esfera devolutiva
Processo Civil – Processo de Conhecimento

do recurso. Nessa situação, não se diz de julgamento extra ou ultra petita, visto que a ordem jurídica nacional autoriza, em
vista de sua natureza, o conhecimento de ofício daquelas questões. (NORATO, Ester Camila Gomes. O efeito translativo
nos recursos extraordinários lato sensu. In: RBDPro 64/49)

A apelação devolve ao exame do tribunal a matéria impugnada. Por estar a prescrição inserida no capítulo impugnado,
como fundamento da defesa, é certo que ocorre a devolução integral desse capítulo (com todos os fundamentos do
pedido e da defesa). Dessa forma, caso o órgão ad quem afaste o decreto de prescrição, está autorizado a passar à
apreciação das demais questões de mérito relativas a esse capítulo, desde que tais questões estejam em condições de
imediato julgamento, isto é, que o contraditório tenha sido exercido em sua plenitude, inclusive quanto à possibilidade
de produção de provas. A conjunção dos §§ 1º e 2º do art. 515 do CPC não deixa dúvidas sobre essa possibilidade.
(BARIONI, Rodrigo. Efeito devolutivo da apelação civil. RT, 2007, p. 162)

Havendo de acertar-se questão de fato (isto é, havendo provas a analisar), não se aplica o art. 515, § 3º. O duplo grau
de jurisdição será obrigatório. O tribunal, cassando a sentença terminativa, devolverá os autos para julgamento de
mérito em primeiro grau de jurisdição. Não cabe ao juiz a quo interferir na questão do fato novo, nem impedir a subida
152
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

do recurso que nele se baseie. A questão será inteiramente apreciada e decidida pelo tribunal ad quem. (THEODORO
JÚNIOR, 2009, p. 525)

O alcance do dispositivo em foco (§ 4º do art. 515) deve estar além do que uma interpretação literal indicaria, ou seja,
aplicação apenas para a supressão de nulidade sanável. A interpretação que se espera do dispositivo também deve
contemplar a hipótese de conversão do julgamento em diligência para colheita de prova de ofício, para melhor formação
do convencimento do magistrado na busca da verdade real. Essa atitude do magistrado não fere o princípio da demanda,
como já decidiu o Superior Tribunal de Justiça.

Não há ofensa ao art. 515, § 1º, do CPC, quando a matéria decidida é devolvida ao Tribunal por força da remessa oficial.
(STJ, REsp. no 703.719/MG, 1ª T., rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJU 04.04.2005, p. 217)

Pode o Tribunal, afastada a extinção do processo sem julgamento do mérito, decidir a lide. Porém, para aplicação do art.
515, § 3º, do Cód. Pr. Civil, em controvérsias que envolvem matéria fática, além de Direito, como no caso, é necessário
que a causa esteja devidamente instruída, qual ocorre nas hipóteses que autorizam o julgamento antecipado da lide,
preconizado pelo artigo 330, I, do mesmo diploma legal. (STJ, REsp. no 714.620/SP, 3ª T., rel. Min. Castro Filho, DJU
12.09.2005, p. 328)
Presentes os pressupostos estabelecidos no § 3º, do art. 515 do Código de Processo Civil, aplica-se por analogia ao
recurso ordinário de mandado de segurança, apreciando-se, portanto, desde logo o mérito da impetração. (STJ, ROMS
17.113/MG, 5ª T., rela. Mina. Laurita Vaz, DJU 13.09.2004, p. 264)
Art. 516. Ficam também submetidas ao tribunal as questões anteriores à sentença, ainda não
decididas.

Essas questões, exatamente por não terem sido decididas, não poderiam haver constituído objeto de agravo, já que,
inexistindo decisão, era inconcebível que se interpusesse recurso. Alcança-as então, desde que não estejam preclusas,
o efeito devolutivo da apelação. (MOREIRA, 2008, p. 135)

Na apelação, é possível voltar a discutir todas as questões discutidas em primeiro grau, tanto as de fato quanto as de
Direito, renovando-se integralmente o exame da causa, com exclusão, apenas, das questões decididas antes da sentença,
em relação às quais tenha ocorrido a preclusão. (GRECO FILHO, 2009, p. 295)
Art. 517. As questões de fato, não propostas no juízo inferior, poderão ser suscitadas na apelação,
se a parte provar que deixou de fazê-lo por motivo de força maior.

Observe-se que tal restrição diz respeito somente às questões de fato, pois as questões de Direito podem ser suscitadas
a qualquer tempo, de acordo com o princípio porcessual jura novit curia. Tal restrição também não aproveita às matérias
que, por disposição legal, podem ser levantadas pela parte em qualquer tempo e grau de jurisdição, como a prescrição
(art. 162 do CPC). Deve-se, também, distinguir fatos novos de documentos novos. A restrição do art. 517 refere-se
somente aos fatos novos, pois os documentos novos, relativos a fatos que foram objeto de conhecimento em primeiro
grau, poderão ser juntados à apelação. (PINTO, 2004, p. 100)
Cumpre à parte demonstrar a força maior no momento da arguição e o tribunal irá verificar, no caso concreto, se existe
ou não motivo que autorize a aplicação do dispositivo em tela. Ressalte-se a indispensável garantia do contraditório e
ampla defesa e que poderá se mostrar necessária a produção de provas (pode-se aplicar para tanto o preceito contido
Pós-Graduação a Distância

no art. 492 do CPC, por analogia). (MIRANDA; PIZZOL, 2009, p. 72)

1. O Direito Brasileiro veda o novorum iudicium na apelação, porquanto o juízo recursal é de controle e não de criação
(revisio prioriae instantiae). Em consequência, o art. 517 do CPC interdita a arguição superveniente no segundo grau
de jurisdição de fato novo, que não se confunde com documento novo acerca de fato alegado. 2. Precedentes do
STJ no sentido de que a juntada de documentos com a apelação é possível, desde que respeitado o contraditório
e inocorrente a má-fé, com fulcro no art. 397 do CPC. (STJ, REsp. no 466.751/AC, 1ª T., rel. Min. Luiz Fux, DJU
23.06.2003, p. 255)

153
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Art. 518. Interposta a apelação, o juiz, declarando os efeitos em que a recebe, mandará dar vista
ao apelado para responder.

§ 1º O juiz não receberá o recurso de apelação quando a sentença estiver em conformidade com
súmula do Superior Tribunal de Justiça ou do Supremo Tribunal Federal.

§ 2º Apresentada a resposta, é facultado ao juiz, em cinco dias, o reexame dos pressupostos de


admissibilidade do recurso.

A decisão que recebe a apelação é irrecorrível, mas será reexaminada pelo tribunal, segundo o princípio de que o juízo
de admissibilidade do juízo a quo é sempre provisório, cabendo o juízo de admissibilidade definitivo sempre ao tribunal
ad quem competente para o exame do mérito do recurso. (GRECO FILHO, 2009, p. 301)

Embora não caiba recurso contra o despacho do órgão a quo que recebeu o recurso, cabe agravo de instrumento contra
os efeitos que o juiz lhe atribuiu ou deixou de atribuir. (GONÇALVES, 2005, p. 73)

O § 1º do art. 518, acrescentado pela Lei nº 11.276/2006, instituiu a chamada “súmula impeditiva de recurso”, ao
estabelecer que o magistrado de primeira instância negue seguimento ao recurso de apelação interposto contra sentença
por ele proferida, quando esta se conformar com súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça.
Tem-se, pois, como novo requisito de admissibilidade da apelação, a ausência de conformidade da sentença com súmula
do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça.

Sendo objeto da apelação na medida cautelar o valor fixado na sentença a título de caução, não cabe ao magistrado,
sustentando-se nas disposições do parágrafo único do art. 518 do Código de Processo Civil, obstar o seguimento desse
recurso com base na ausência dos depósitos para cumprimento da garantia, que, na hipótese, constitui fator de eficácia
da medida cautelar, e não pressuposto recursal. (STJ, REsp. no 591.002/DF, 2ª T., rel. Min. João Otávio de Noronha,
DJU 27.06.2005, p. 322)
Art. 519. Provando o apelante justo impedimento, o juiz relevará a pena de deserção, fixando-lhe
prazo para efetuar o preparo.

Parágrafo único. A decisão referida neste artigo será irrecorrível, cabendo ao tribunal apreciar-lhe
a legitimidade.

A decisão que relevar a pena de deserção é irrecorrível e, assim, o processamento do recurso se fará normalmente,
sendo encaminhado ao tribunal competente, ao qual caberá apreciar a legitimidade daquela decisão (Cód. Proc. Civil,
art. 519). (SANTOS, p. 92)

1. Necessidade de reabertura de prazo para a efetivação do preparo, não devendo o recurso ser julgado deserto em
decorrência de motivo justo e impeditivo, atraindo, por conseguinte, o disposto no art. 519, do CPC. 2. Precedentes
Processo Civil – Processo de Conhecimento

jurisprudenciais. (STJ, REsp. no 360.724/RJ, 1ª T., rel. Min. José Delgado, DJU 21.10.2002, p. 280)
Art. 520. A apelação será recebida em seu efeito devolutivo e suspensivo. Será, no entanto, recebida
só no efeito devolutivo, quando interposta de sentença que:

I – homologar a divisão ou a demarcação;

II – condenar à prestação de alimentos;

IV – decidir o processo cautelar;

V – rejeitar liminarmente embargos à execução ou julgá-los improcedentes;

VI – julgar procedente o pedido de instituição de arbitragem;

VII – confirmar a antecipação dos efeitos da tutela.

154
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Só regra expressa e específica retira o efeito suspensivo da apelação. Por essa razão, as exceções se encontram
taxativamente mencionadas, no art. 520, segunda parte, e noutras disposições esparsas. Não cabe interpretar
extensivamente essas exceções. (ASSIS, 2007, p. 405)
Se o Código ou lei especial não determinam expressamente o contrário, a apelação será recebida em seus dois efeitos,
que são seus efeitos naturais e ordinários. (GRECO FILHO, 2009, p. 299)
Quando o pedido está cumulado com investigação de paternidade ou separação judicial, o efeito suspensivo não atinge
a parte da sentença que concede os alimentos. Em contrapartida, contra a sentença que reduz ou exonera o devedor de
os pagar, a apelação tem efeito suspensivo. (GONÇALVES, 2005, p. 90)
Ainda que a sentença decida conjuntamente o pedido principal e o cautelar, o efeito suspensivo não se estenderá ao
julgamento da cautelar, ficando restrito ao do principal. (GONÇALVES, 2005, p. 90)
A sentença que rejeite (processualmente ou no mérito) ou acolha os embargos de terceiro será objeto de apelação (art.
513) com efeito suspensivo (art. 520, caput), de modo que o processo em que houve a constrição de bens permanecerá
suspenso até a decisão do recurso. Repita-se não caber a aplicação extensiva da exceção contida no art. 520, V.
(WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, 2006, p. 408)
O art. 520, VII, utiliza o verbo “confirmar” e, assim, aparentemente pressupõe ato anterior do juiz, concedendo a
antecipação, que a sentença se cingiria a referendar. Nada obstante, também não exibirá efeito suspensivo o apelo na
hipótese de a própria sentença antecipar os efeitos do pedido. (ASSIS, 2007, p. 410)
A apelação interposta contra sentença que julga simultaneamente ações conexas, terá os seus efeitos cindidos,
cabendo apenas o efeito suspensivo no que circunscreve à ação na qual a lei permite tal benefício. (STJ, AgRg. no
REsp. no 707.365/SP, 4ª T., rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJU 13.02.2006, p. 823)
Deve ser recebido apenas no efeito devolutivo o recurso de apelação interposto contra sentença que decida pedido
revisional de alimentos, seja para majorar, diminuir ou exonerar o alimentante do encargo. Valoriza-se, dessa forma,
a convicção do juiz que, mais próximo das provas produzidas, pode avaliar com maior precisão as necessidades do
alimentando conjugadas às possibilidades do alimentante, para uma adequada fixação ou até mesmo exoneração do
encargo. Com a atribuição do duplo efeito, há potencial probabilidade de duplo dano ao alimentante quando a sentença
diminuir o encargo alimentar: (i) dano patrimonial, por continuar pagando a pensão alimentícia que a sentença reconhece
indevida e por não ter Direito à devolução da quantia despendida, caso a sentença de redução do valor do pensionamento
seja mantida, em razão do postulado da irrepetibilidade dos alimentos; (ii) dano pessoal, pois o provável inadimplemento
ditado pela ausência de condições financeiras poderá levar o alimentante à prisão. (STJ, REsp. no 595.209/MG, 3ª T.,
rela. Mina. Nancy Andrighi, DJU 02.04.2007, p. 263)
Direito Processual Civil. Ação cautelar e principal. Sentença única. Apelação. Efeitos. Julgadas ao mesmo tempo
improcedentes a ação principal e a cautelar, interposta apelação contra a decisão, cabe recebê-las com efeitos distintos,
ou seja, a cautelar no devolutivo e a principal no duplo efeito. Precedentes. As hipóteses em que não há efeito suspensivo
para a apelação estão taxativamente enumeradas no art. 520 do CPC, de modo que, verificada qualquer delas, deve
o juiz, sem qualquer margem de discricionariedade, receber o recurso somente no efeito devolutivo. Não há razão para
subverter ou até mesmo mitigar a aplicação do art. 520 do CPC, com vistas a reduzir as hipóteses em que a apelação
Pós-Graduação a Distância

deva ser recebida apenas no efeito devolutivo, até porque, o art. 558, § único, do CPC, autoriza que o relator, mediante
requerimento da parte, confira à apelação, recebida só no efeito devolutivo, também efeito suspensivo, nos casos dos
quais possa resultar lesão grave e de difícil reparação, sendo relevante a fundamentação. (STJ, REsp. no 970.275/SP,
3ª T., rela. Mina. Nancy Andrighi, RBDPro 61/223)
A apelação da sentença que julga embargos do devedor tem efeito meramente devolutivo, ainda que os mesmos tenham
sido acolhidos em parte, circunstância irrelevante à manutenção da tese sufragada pela jurisprudência tranquila do STJ.
(STJ, AgRg. no AI no 460.171/SP, 4ª T., rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, DJU 19.05.2003, p. 236)

155
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

A antecipação da tutela pode ser deferida quando da prolação da sentença. Ainda que a antecipação da tutela seja
deferida na própria sentença, a apelação contra esta interposta deverá ser recebida apenas no efeito devolutivo quanto
à parte em que foi concedida a tutela. Precedentes. (STJ, REsp. no 648.886/SP, 2ª Seção, rela. Mina. Nancy Andrighi,
DJU 06.09.2004, p. 162)

Art. 521. Recebida a apelação em ambos os efeitos, o juiz não poderá inovar no processo; recebida
só no efeito devolutivo, o apelado poderá promover, desde logo, a execução provisória da sentença,
extraindo a respectiva carta.

O recurso sem efeito suspensivo dará ensejo à execução provisória (art. 521), que é, em verdade, o meio pelo qual se faz
atuar a eficácia adiantada da sentença que não transitou em julgado. Significa, então, que mesmo antes de exauridas
todas as fases do processo de conhecimento, com a apreciação dos recursos, a decisão já poderá surtir efeitos no mundo
jurídico.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

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Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 35 – Recurso de Agravo

Agravo Retido

Hipóteses

De acordo com a redação do art. 522, caput, do CPC, “das decisões interlocutórias caberá agravo, no prazo de 10 (dez)
dias, na forma retida, salvo quando se tratar de decisão suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil reparação,
bem como nos casos de inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação é recebida, quando será
admitida a sua interposição por instrumento.”

Na precisa interpretação de Humberto Theodoro Júnior, “a utilização do agravo retido é, segundo o texto atual,
uma regra a ser necessariamente observada. A modalidade de agravo de instrumento é exceção de observância
restrita às ressalvas introduzidas ao art. 522. Dessa maneira, utilizado o instrumento fora das hipóteses do
referido dispositivo legal, o relator obrigatoriamente converterá o agravo para a forma retida, como deixa claro o
novo inc. II do art. 527.”

No mesmo sentido, enfatizam Fredie Didier Jr. e Leonardo José Carneiro da Cunha que “essa regra, segundo a qual
a decisão interlocutória deve ser atacada por agravo retido, somente cabendo o agravo de instrumento em situações
excepcionais, aplica-se apenas ao processo de conhecimento. O agravo retido é incompatível com a sistemática do
processo de execução, de sorte que somente cabe, no processo de execução, agravo de instrumento, não se revelando
admissível o agravo retido. É que, na execução, o pedido da parte é atendido com a satisfação do crédito. A sentença
apenas declara anterior satisfação do crédito, pondo termo do processo; não há mais nada a ser feito. Enfim, não se
compatibiliza com a execução o agravo retido. Interposto o agravo retido, não há mais como reiterá-lo, pois, sobrevindo
sentença, já se satisfez o crédito. Não é sem razão, aliás, que o recurso especial e o recurso extraordinário retidos não
cabem em processo de execução (CPC, art. 542, § 3º).”

Processamento

Interposição (CPC, arts. 522 e 523)

Prazo (CPC, art. 522)

Resposta (CPC, art. 523, § 2º)

Retratação (CPC, art. 523, § 2º)

Forma (CPC, art. 523, caput e § 1º)


Pós-Graduação a Distância

Conhecimento e Julgamento (CPC, art. 523, § 1º)

Agravo de Instrumento

Hipóteses

Excetuados os casos de interposição obrigatória de agravo retido, que agora são a regra, a parte tem a prerrogativa de
escolher a modalidade de agravo a interpor.
157
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Processamento

Interposição (CPC, arts. 522, 524 e 525, § 2º)

Prazo: 10 dias (CPC, art. 522)

Juntada No Juízo De Origem (CPC, art. 526, p. único)

Sobre o dispositivo legal em foco, afirma Araken de Assis: “Não basta o agravado alegar o descumprimento do art. 526,
caput. É indispensável, nos termos explícitos da regra, prová-lo através de certidão passada pelo escrivão ou chefe de
secretaria, atestando o transcurso, in albis, do prazo de três dias. Fica subentendido que o agravado arguirá o vício, sob
pena de preclusão, na resposta ao agravo. Omitida a alegação do agravado, o órgão ad quem não poderá negar seguimento
ao agravo de instrumento – ao menos, por este motivo. Pouco importa a circunstância de as informações do órgão a
quo noticiarem o fato. A atividade do magistrado não supre a falta de arguição e da prova oportuna do vício. Não cabe
ao relator conhecer do defeito ex officio. Na hipótese de o agravado alegar mas não provar a deficiência – por exemplo,
não logrou obter a certidão no prazo de resposta, haja vista demora no respectivo cartório –, então a eventual notícia
superveniente do órgão a quo, constante das informações, servirá de prova hábil do descumprimento do ônus, ensejando
juízo de inadmissibilidade pelo órgão ad quem.”

Resposta (CPC, art. 527, V)

Oportuno o seguinte ensinamento de Fredie Didier Jr. e Leonardo José Carneiro da Cunha: “Princípio da dialeticidade.
De acordo com este princípio, exige-se que todo recurso seja formulado por meio de petição na qual a parte, não apenas
manifeste sua inconformidade com ato judicial impugnado, mas, também e necessariamente, indique os motivos de fato
e de Direito pelos quais requer o novo julgamento da questão nele cogitada. Na verdade, trata-se de princípio ínsito a
todo processo, que é essencialmente dialético.”

Preparo (CPC, arts. 511 e 525, § 1º)

Forma (CPC, arts. 524 e 525)

Informações (CPC, arts. 526 e 527, IV)

Julgamento (CPC, art. 528)

Arquivamento

Juízo de Retratação (CPC, ARTS. 526 E 529)


Processo Civil – Processo de Conhecimento

Se o juiz volta atrás e modifica a decisão atacada, o agravo perde o seu objeto. Como anotam Gilson Delgado Miranda e
Patrícia Miranda Pizzol, “se o juiz comunicar que reformou inteiramente a decisão, o relator ou a Câmara julgará prejudicado
o agravo; se a reforma for parcial, obviamente, o julgamento seguirá em relação ao inconformismo remanescente.”

Efeito Suspensivo e Tutela Antecipada

Suspensivo

Se a decisão atacada deferiu a medida judicial, a parte lesada pode recorrer e pedir ao relator a sua suspensão liminar,
uma vez preenchidas as exigências legais (CPC, art. 527, III).

Sobre essa decisão liminar, Marcus Vinicius Rios Gonçalves adverte que, “embora haja alguma controvérsia sobre o
assunto, prevalece o entendimento de que contra a decisão do relator que atribuir ou negar os efeitos suspensivo e ativo
não cabe outro recurso, nem mesmo o agravo interno.”

158
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Antecipação da Tutela Recursal

Se a decisão recorrida indeferiu o pedido, a parte lesada pode requerer ao relator a sua concessão liminar, desde que
atendidos os requisitos legais (CPC, art. 527, III).

Julgamento
Negativa de Seguimento (CPC, art. 527, I e 557)

Fredie Didier Jr. e Leonardo José Carneiro da Cunha delineiam o seguinte itinerário para o julgamento do recurso: “No
agravo de instrumento, a situação deve submeter-se a essa metodologia: para negar seguimento, o relator já pode fazê-
lo, sem precisar instaurar contraditório, eis que se trata de decisão favorável ao agravado, e contrária ao agravante.
Para dar provimento ao recurso, deverá, contudo, instaurar prévio contraditório, pois se trata de decisão contrária ao
agravado, e favorável ao agravante. Ao agravado se deve possibilitar a chance de tentar participar do convencimento
do magistrado, em homenagem ao princípio do contraditório.”

Conversão em Agravo Retido (CPC, art. 527, II)

Consoante assinalam Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart, “a conversão do agravo de instrumento em agravo
retido somente é proibida nas hipóteses em que a lei autoriza a interposição de agravo por instrumento, ou seja, quando
se tratar de provimento que cause perigo de lesão grave e de difícil reparação, bem como em relação a decisão de não
recebimento de apelação ou dos efeitos em que este recurso é recebido (art. 527, II, do CPC).”

Apreciação do “Mérito” do Recurso

Sentença Antes do Julgamento

A prolação da sentença antes do julgamento do agravo de instrumento implica, via de regra, a perda do seu objeto (CPC,
art. 529). A propósito, decidiu o Superior Tribunal de Justiça11:02
Torna-se prejudicado o recurso interposto contra decisão concessiva de tutela antecipada, quando
sobrevém sentença de mérito de improcedência ou de extinção do processo sem julgamento de
mérito, ou ainda de procedência, que seja atacada por recurso recebido apenas no efeito devolutivo.
Neste caso, o provimento do recurso relativo à liminar antecipatória não tem o condão de impedir
a exequibilidade da sentença de mérito, não subsistindo, portanto, interesse jurídica em sua
apreciação.

CAPÍTULO III

DO AGRAVO

Art. 522. Das decisões interlocutórias caberá agravo, no prazo de 10 (dez) dias, na forma retida,
salvo quando se tratar de decisão suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil reparação, bem
como nos casos de inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação é recebida,
quando será admitida a sua interposição por instrumento.
Pós-Graduação a Distância

Parágrafo único. O agravo retido independe de preparo.

Das decisões interlocutórias, tal como definidas no art. 162, § 2º, o recurso próprio é o agravo (art. 496, II), em regra
retido ou, preenchidos os pressupostos do art. 522, caput, por instrumento. Vale lembrar que as comissões do órgão
judiciário, porque nada decidem, não se mostram agraváveis. Elas comportam embargos de declaração e, subsistindo
recusa do órgão judiciário em examinar a questão – ou seja, decidindo o juiz que nada precisa decidir a respeito da questão
controvertida –, rendem agravo com o objetivo de obrigar tal exame. (ASSIS, 2007, p. 140)

AgRg. no REsp. 590.699/RJ, 5ª T., rela. Mina. Laurita Vaz, DJU 20.03.2006, p. 333
11

159
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Contra a decisão que concede ou indefere a antecipação, caberá sempre recurso de agravo, que haverá de ser interposto
sob a forma de instrumento. Não há interesse para a interposição de agravo retido, que só é decidido quando do julgamento
da apelação. (GONÇALVES, 2004, p. 302)

O despacho que determina a citação do devedor, em sede de execução, não é um ato que, no curso do processo,
resolve uma questão incidente, conforme determina o artigo 162, § 2º, do Código de Processo Civil, sendo,
portanto, irrecorrível pela via do agravo de instrumento. (STJ, REsp. no 693.074/RJ, 3ª T., rel. Min. Castro Filho,
DJU 18.09.2006, p. 311)

A interposição simultânea de agravo de instrumento e recurso de apelação contra sentença em que foi concedida tutela
antecipada, caracteriza inobservância do princípio da singularidade ou unirrecorribilidade recursal. 2. A jurisprudência
desta Corte é firme no sentido de que não cabe recurso de agravo de instrumento contra decisão em que o pedido de
tutela antecipada é concedido no bojo da sentença. (STJ, AgRg. no REsp. no 600.815/MS, 6ª T., rel. Min. Hamilton
Carvalhido, DJU 05.09.2005, p. 509)

Art. 523. Na modalidade de agravo retido o agravante requererá que o tribunal dele conheça,
preliminarmente, por ocasião do julgamento da apelação.

§ 1º Não se conhecerá do agravo se a parte não requerer expressamente, nas razões ou na resposta
da apelação, sua apreciação pelo Tribunal.

§ 2º Interposto o agravo, e ouvido o agravado no prazo de 10 (dez) dias, o juiz poderá reformar sua
decisão.

§ 3º Das decisões interlocutórias proferidas na audiência de instrução e julgamento caberá agravo na


forma retida, devendo ser interposto oral e imediatamente, bem como constar do respectivo termo
(art. 457), nele expostas sucintamente as razões do agravante.

Procedimento do agravo retido – Interpõe-se o agravo retido, em princípio, mediante petição dirigida ao juiz que proferiu
a decisão impugnada. Embora não o diga a lei expressis verbis, está fora de dúvida que a petição deve individuar a decisão
(ou as decisões) que impugna, e também expor as razões por que o agravante se insurge contra ela(s): a necessidade de
fundamentação é princípio geral, a que nenhum recurso se subtrai. (MOREIRA, 1998, p. 499)

Interposto o recurso e ouvido o agravado no prazo de dez dias, faculta-se ao juiz a reforma de sua decisão (art. 523, § 2º,
do CPC). Entende-se que o contraditório em relação ao agravo retido apenas é obrigatório, nos termos acima expostos,
quando o magistrado vislumbrar a possibilidade de retratar-se em sua decisão. Não sendo este o caso, dispensa-se a
oitiva do agravado nesta modalidade, especialmente porque o recurso não será encaminhado de imediato ao tribunal para
apreciação de suas razões. (MARINONI; ARENHART, 2008, p. 547)
Processo Civil – Processo de Conhecimento

No regime atual, a obrigatoriedade da interposição oral se restringe à audiência de instrução e julgamento, uma vez
que nessa audiência as questões incidentais, de regra, são menos complexas, consistindo, na maioria das vezes, em
indeferimento de perguntas e contradita de testemunhas. Essa a razão por que o legislador impôs a forma oral e a
imediatidade da interposição. Em outras audiências, sobretudo na audiência de conciliação prevista no procedimento
sumário (art. 276) e na audiência preliminar (art. 331), as decisões interlocutórias são mais complexas, porquanto
nelas comumente se procede ao saneamento do processo, que compreende, além de outras providências, a decisão
sobre a impugnação ao valor da causa e questões processuais. Em razão disso, a mens legis é no sentido de que, de
decisões interlocutórias proferidas em outras audiêcias, não se pode compelir a parte a recorrer oral e imediatamente.
Assim, afora a audiência de instrução e julgamento, o agravo deve ser retido, todavia interposto por petição escrita,
no prazo de dez dias. Nada obsta, entretanto, a que a parte opte pela interposição oral, de imediato. (DONIZETTI,
2008, p. 467)

Art. 524. O agravo de instrumento será dirigido diretamente ao tribunal competente, através de
petição com os seguintes requisitos:

160
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

I – a exposição do fato e do Direito;

II – as razões do pedido de reforma da decisão;

III – o nome e o endereço completo dos advogados, constantes do processo.

I – A norma do art. 524-III, CPC, não exige a indicação do nome e endereço dos advogados dos litisconsortes, que,
no caso, aliás, sequer integraram a relação processual. O escopo da lei é a obtenção de dados para a intimação do
agravado, uma vez que, diante da nova sistemática processual, o agravo passou a ser protocolado diretamente no
tribunal. II - Dispensa-se a indicação dos nomes e dos endereços dos advogados, quando da interposição do agravo de
instrumento, se nas peças juntadas aos autos se pode claramente verificar tais registros. III - Na linha do parecer do
Ministério Público Federal, “tem-se desnecessária a indicação de nome e endereço do representante do Parquet, pois,
à sombra dos princípios da unicidade e indivisibilidade do Ministério Público, a norma citada não alcança os membros
desse órgão, porquanto, segundo o disposto no art. 236, § 2º, do Código de Processo Civil, a intimação do Ministério
Público, em qualquer caso, será feita pessoalmente”. (STJ, REsp. no 254.087/MG, 4ª T., rel. Min. Sálvio de Figueiredo
Teixeira, DJU 17.03.2003, p. 233)

Para atendimento do art. 524, inciso III, do Código de Processo Civil, não é necessário que a parte liste todos os
advogados constituídos pela parte adversa para atuar no feito, motivo pelo qual não há sequer irregularidade e, muito
menos, nulidade, pela ausência de indicação de um deles. (STJ, AgRg. no AI no 464.683/RS, 3ª T., rel. Min. Castro Filho,
DJU 20.06.2005, p. 266)

A formalidade prevista no art. 524, III do CPC não se aplica ao agravo de instrumento interposto ao STJ com fundamento
no art. 544 do CPC. (STJ, AgRg. nos EDcl. no AI no 777.598/RJ, 3ª T., rela. Mina. Nancy Andrighi, DJU 04.12.2006,
p. 305)
Art. 525. A petição de agravo de instrumento será instruída:

I – obrigatoriamente, com cópias da decisão agravada, da certidão da respectiva intimação e das


procurações outorgadas aos advogados do agravante e do agravado;

II – facultativamente, com outras peças que o agravante entender úteis.

§ 1º Acompanhará a petição o comprovante do pagamento das respectivas custas e do porte de


retorno, quando devidos, conforme tabela que será publicada pelos tribunais.

§ 2º No prazo do recurso, a petição será protocolada no tribunal, ou postada no correio sob registro
com aviso de recebimento, ou, ainda, interposta por outra forma prevista na lei local.

Não é mais o cartório que traslada as peças e forma o instrumento do agravo, como se dava no regime primitivo do
Código. Cabe, agora, ao próprio agravante obter previamente as cópias dos documentos do processo principal que deverão
instruir o recurso. (THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 537)

A omissão quanto a alguma das peças previstas na lei como obrigatórias acarretará o não conhecimento por falta de
regularidade formal, que constitui um dos requisitos de admissibilidade dos recursos. (PINTO, 2004, p. 132)

Só o substabelecimento, sem a apresentação da procuração originária, desqualifica o agravo de instrumento; juntada


Pós-Graduação a Distância

extemporânea incabível. (STJ, AgRg. no AI no 798.979/SP, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler, DJU 05.03.2007, p. 284)

Se o documento é indispensável à compreensão da controvérsia, a respectiva cópia deve ser juntada ao agravo de
instrumento, sob pena de não conhecimento. (STJ, AgRg. no AI no 796.761/SP, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler, DJU
04.06.2007, p. 344)
Art. 526. O agravante, no prazo de 3 (três) dias, requererá juntada, aos autos do processo de cópia
da petição do agravo de instrumento e do comprovante de sua interposição, assim como a relação
dos documentos que instruíram o recurso.

161
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Parágrafo único. O não cumprimento do disposto neste artigo, desde que arguido e provado pelo
agravado, importa inadmissibilidade do agravo.

O texto é claro, bem como são cristalinas as suas razões: sendo interesses particulares o objeto da proteção, somente por
provocação do agravado o tribunal pode ter conhecimento do descumprimento do ônus. No entanto, como bem apontado
por Luiz Rodrigues Wambier e Teresa Arruda Alvim Wambier, nada impede que o agravado se valha das informações
do magistrado como meio de prova de sua alegação de que o agravante não se desincumbiu do ônus do art. 526, CPC.
Normalmente, no entanto, a prova será feita por certidão negativa. (DIDIER JR.; CUNHA, 2007, p. 160)

O não conhecimento fica condicionado a que a omissão do agravante seja arguida e provada pela parte contrária. O
tribunal não pode fazê-lo de ofício. Não basta ao agravado que alegue a omissão, devendo comprová-la, o que poderá
fazer juntando uma certidão do juízo de origem. (GONÇALVES, 2005, p. 110)

Descumpre o art. 526, parágrafo único, do Código de Processo Civil não só quem deixa de juntar aos autos do processo a
cópia da petição do agravo de instrumento, mas também quem o faz fora do prazo de três dias. (STJ, REsp. no 903.354/
SP, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler, DJU 02.04.2007, p. 272)

Art. 527. Recebido o agravo de instrumento no tribunal, e distribuído incontinenti, o relator:

I – negar-lhe-á seguimento, liminarmente, nos casos do art. 557;

II – converterá o agravo de instrumento em agravo retido, salvo quando se tratar de decisão


suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil reparação, bem como nos casos de
inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a apelação é recebida, mandando
remeter os autos ao juiz da causa;

III – poderá atribuir efeito suspensivo ao recurso (art. 558), ou deferir, em antecipação de tutela,
total ou parcialmente, a pretensão recursal, comunicando ao juiz sua decisão;

IV – poderá requisitar informações ao juiz da causa, que as prestará no prazo de 10 (dez) dias;

V – mandará intimar o agravado, na mesma oportunidade, por ofício dirigido ao seu advogado,
sob registro e com aviso de recebimento, para que responda no prazo de 10 (dez) dias (art.
525, § 2º), facultando-lhe juntar a documentação que entender conveniente, sendo que, nas
comarcas sede de tribunal e naquelas em que o expediente forense for divulgado no “Diário
Oficial”, a intimação far-se-á mediante publicação no órgão oficial;

VI – ultimadas as providências referidas nos incisos III a V do caput deste artigo, mandará ouvir
o Ministério Público, se for o caso, para que se pronuncie no prazo de 10 (dez) dias.

Parágrafo único. A decisão liminar, proferida nos casos dos incisos II e III do caput deste artigo,
Processo Civil – Processo de Conhecimento

somente é passível de reforma no momento do julgamento do agravo, salvo se o próprio relator a


reconsiderar.

A expressão negar seguimento, consoante se infere da leitura do art. 557, tem significação ampla abrangendo a inadmissão
de recurso a que falte pressuposto de admissibilidade, mas também o julgamento de improcedência do recurso, desde
que em confronto com súmula ou jurisprudência dominante do respectivo tribunal, do STF ou de outro Tribunal Superior.
(ALVIM; ALVIM, 52/20)

A conversão do agravo de instrumento em agravo retido somente é proibida nas hipóteses em que a lei autoriza a
interposição de agravo por instrumento, ou seja, quando se tratar de provimento que cause perigo de lesão grave e de
difícil reparação, bem como em relação a decisão de não recebimento de apelação ou dos efeitos em que este recurso é
recebido (art. 527, II, do CPC). (MARINONI; ARENHART, 2008, p. 551)

162
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Temos para nós que a interpretação correta do inciso III do art. 527 em conjunto com seu parágrafo único conduz à ideia
de que tanto a decisão que confere efeito suspensivo como a que nega a atribuição desse efeito ao agravo é irrecorrível.
Da mesma forma, será irrecorrível a decisão que negue antecipação dos efeitos do recurso (efeito ativo), como a que
a conceda. Interpretação distinta, segundo nos parece, violaria claramente a necessidade de tratamento igualitário às
partes (CPC, art. 125, I), que, em última análise, deita raízes no primado constitucional da isonomia (CF, art. 5º, caput).
(ALVIM; ALVIM, 52/18-19)

Com o pedido de informações, o juiz toma conhecimento do agravo (se não tiver tomado pelo cumprimento do art. 526),
e pode retratar-se. (GONÇALVES, 2005, p. 113)

Intimação do agravado: Essa intimação será feita pelo órgão da imprensa oficial quando a causa, em primeiro grau,
tramitar na mesma comarca onde se situa o tribunal ou em comarca cujo expediente forense seja divulgado no órgão
oficial (inc. V acrescido ao art. 527). Nos demais casos, a intimação ocorrerá pelo correio. (WAMBIER; ALMEIDA;
TALAMINI, p. 571)

Após o cumprimento das diligências ordenadas pelo relator, dar-se-á a audiência do Ministério Público, quando o agravo
for manejado em processo no qual sua interferência seja obrigatória como custos legis (arts. 81 a 83), segundo explicita
o art. 527, VI, com a redação da Lei nº 10.352/2001). (THEODORO JÚNIOR, 2006, p. 88)

É do nosso entendimento que o relator só pode retratar-se mediante provocação da parte. As liminares que decidem
sobre matéria disponível ensejam a preclusão pro judicato (CPC, art. 471), a qual proíbe o juiz de reapreciar matérias já
decididas, sendo vedado, portanto, reexaminá-las. Por tal motivo, não podem ser novamente revistas ex officio, salvo
mediante provocação da parte. Em outras palavras, não pode o relator simplesmente refletir melhor e voltar atrás, sob
pena de violação do princípio da segurança jurídica. (OLIVEIRA, Pedro Miranda de. In: Aspectos polêmicos e atuais dos
recursos cíveis. v. 11, RT, 2007, p. 340)

Contra a decisão que converte o agravo de instrumento em agravo retido cabe pedido de reconsideração. Descabe a
interposição de qualquer recurso (notadamente, o agravo interno). Trata-se de decisão irrecorrível, porém sujeita a
retratação. (VECHIATO JUNIOR, 2006, p. 427)

Nos termos do art. 527, inciso V, do Código de Processo Civil, a intimação do agravado para responder ao recurso é
imprescindível, mostrando-se inconcebível a mitigação da referida norma, tendo em vista a sua natureza principiológica,
assecuratória dos regramentos constitucionais do contraditório e do devido processo legal. Precedentes do STJ. (STJ,
REsp. no 797.770/PR, 3ª T., rel. Min. Castro Filho, DJU 05.03.2007, p. 284)

Art. 528. Em prazo não superior a 30 (trinta) dias da intimação do agravado, o relator pedirá dia
para julgamento.

Provido o agravo, se a nova decisão for incompatível com as outras que tenham sido praticadas subsequentemente,
estas perderão desde logo a eficácia, retornando o processo para aquela fase em que fora proferida a decisão atacada.
(GONÇALVES, 2005, p. 35)

I – O agravo de instrumento contra reprovação de recurso especial pelo Tribunal a quo não se expõe ao controle de
admissibilidade pela Corte de origem. A competência para tal controle é do Superior Tribunal de Justiça. II – A Lei nº
Pós-Graduação a Distância

8.950/94 não derrogou o art. 528 do CPC. (STJ, Reclamação no 965/SP, 1ª Seção, rel. Min. Humberto Gomes de Barros,
DJU 07.10.2002, p. 162)

Art. 529. Se o juiz comunicar que reformou inteiramente a decisão, o relator considerará prejudicado
o agravo.

Como a retratação funciona, no regime da Lei nº 9.139/95, apenas como expressa causa de extinção do agravo (art.
529), a nova deliberação do juiz de origem, como outra decisão interlocutória que é, desafiará novo agravo a ser aviado
por aquele que se tornou vencido no incidente. (THEODORO JÚNIOR, 2009, p. 542)

163
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

A sentença de mérito superveniente não prejudica o agravo de instrumento interposto contra a tutela antecipada; a
aludida tutela não antecipa simplesmente a sentença de mérito – antecipa, sim, a própria execução dessa sentença,
que, por si só, não produziria os efeitos que irradiam da tutela antecipada. (STJ, REsp. no 765.105/TO, 3ª T., rel. Min.
Ari Pargendler, DJU 30.10.2006, p. 299)

A jurisprudência desta Corte unificou-se no sentido de que quando é interposto recurso especial e opostos embargos
infringentes contra a mesma decisão, deve aquele recurso ser ratificado após o julgamente destes. Precedentes. (STJ,
AgRg. no REsp. no 578.048/RJ, 3ª T., rel. Min. Castro Filho, DJU 10.04.2006, p. 171)
Processo Civil – Processo de Conhecimento

164
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 36 – Embargos Infringentes

Conceito
Recurso cabível contra acórdão não unânime proferido em sede de apelação ou ação rescisória (CPC, art. 530). Mas só é
cabível, em face de apelação, quando o acórdão respectivo tiver reformado sentença de mérito; quanto à ação rescisória,
só cabe em face de acórdão que a julgar procedente.

Se o acórdão, embora não unânime, confirmar a sentença de mérito ou versar sobre sentença terminativa, são incabíveis
os embargos infringentes. Nessa linha, destacam Fredie Didier Jr. e Leonardo José Carneiro da Cunha que, “sendo a
sentença mantida, qualquer que seja o seu conteúdo, não vindo a pêlo verificar se extinguiu o processo com ou sem
julgamento do mérito, incabíveis serão os embargos infringentes. Em uma palavra, a manutenção de qualquer sentença
inviabiliza a interposição dos embargos, ainda que o acórdão tenha sido tomado por maioria de votos.” No mesmo sentido,
decidiu o Superior Tribunal de Justiça12:201 “Com o advento da Lei nº 10.352/2001, incabível a interposição de embargos
infringentes contra acórdão que não tenha julgado o mérito da demanda.”

Finalidade
Visa aos embargos infringentes à prevalência do voto minoritário, ainda que com outros fundamentos jurídicos. Humberto
Theodoro Júnior ensina que, “para dirimir o novo recurso, o tribunal pode invocar fundamentos novos, seja para acolher
ou rejeitar tanto a conclusão dos votos majoritários como do minoritário.”

O voto minoritário é que limita e define o objeto dos embargos infringentes. Luiz Rodrigues Wambier, Flávio Renato
Correia de Almeida e Eduardo Talamini ponderam que “o objetivo dos embargos infringentes é fazer com que prevaleça
o voto vencido. Assim, o recorrente nada mais pode pleitear, a não ser que prevaleça a conclusão do voto proferido pelo
magistrado que votou contrariamente à maioria. Com isso, quer-se dizer que o recorrente não pode desejar obter mais
do que lhe dava o voto que acabou prevalecendo.”

Admissibilidade
Só é admitido em face de acórdãos não unânimes resultados de julgamento de apelação ou ação rescisória. E o acórdão
deve versar sobre o mérito da demanda (apelação) e a decisão deve ser de procedência da ação rescisória (ação rescisória)
(CPC, art. 530).

Não cabe contra acórdão não unânime proferido em sede de mandado de segurança (Súmula nº 169 do STJ).

O juízo de admissibilidade é privativo do relator do acórdão embargado (CPC, art. 531). Deliberou, a propósito, o Superior
Pós-Graduação a Distância

Tribunal de Justiça13,202que “o juízo de admissibilidade dos embargos infringentes é da exclusiva alçada do relator do
acórdão embargado; depois de admitidos, os embargos infringentes devem ser levados a julgamento perante o órgão
próprio, sem que o relator sorteado possa lhes negar seguimento em decisão individual.”

REsp. 627.927/MG, 3ª T., rela. Mina. Nancy Andrighi, DJU 21.06.2004, p. 223
12

REsp. 152.930/MG, 3ª T., rel. Min. Ari Pargendler, DJU 15.12.97, p. 66374
13

165
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Âmbito de Divergência
A divergência deve estar contida no dispositivo do acórdão. Se os votos, embora com motivações conflitantes, ostentam
a mesma conclusão, ou seja, se o julgamento for unânime, o recurso é incabível.

Não se pode ir além do âmbito de divergência moldado no voto minoritário, pois os embargos infringentes têm como
objeto justamente a sua prevalência.

Mas a fundamentação do voto vencido não é vinculativa, isto é, o voto vencido pode prevalecer por motivação diferente.
A vinculação só existe quanto à conclusão do voto minoritário.

Processamento
Interposição

Prazo: 15 dias (CPC, art. 508)

Cabimento: a divergência deve estar relacionada ao mérito da causa julgada em apelação (que reformou a sentença) ou
ao mérito da ação rescisória (julgada procedente).

Preparo: lei não exige.

Juízo de admissibilidade: privativo do relator do acórdão (CPC, art. 531).

Positivo: o recurso vai a julgamento pelo órgão competente, conforme o regimento interno do tribunal.

Negativo: há o trancamento do recurso. Dessa decisão cabe agravo para o órgão competente para o julgamento
dos embargos infringentes (CPC, art. 532).

Relator: Faz-se de acordo com o regimento interno do tribunal (CPC, art. 533). Novo relator, só se previsto no regimento
interno (CPC, art. 534).

Resposta: a resposta vem antes do juízo de admissibilidade (CPC, art. 531).

Julgamento: o voto minoritário pode prevalecer sob outro fundamento jurídico.

Obrigatoriedade
Processo Civil – Processo de Conhecimento

Para a interposição dos recursos extraordinários (RE e REsp) é preciso que estejam esgotadas todas as vias recursais no
âmbito do tribunal de justiça. (CF, arts. 102, III, e 105, III). Acerca do tema, decidiu o Supremo Tribunal Federal14:203“O
prévio esgotamento das instâncias recursais ordinárias constitui pressuposto de admissibilidade do recurso extraordinário.
Tratando-se de acórdão majoritário, proferido em sede de apelação civil, cabe à parte recorrente – ressalvada a hipótese
de decisão em processo de mandado de segurança (Súmula nº 597/STF) – opor-lhe os pertinentes embargos infringentes
(CPC, art. 530), não lhe sendo lícito, sem a prévia exaustão dessa via recursal ordinária, agir per saltum, deduzindo,
desde logo, o apelo extremo. Precedentes.”

AGRG. no RE 332.636-8/SP, rel. Min. Celso de Mello, DJU 20.09.2002, p. 113


14

166
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

CAPÍTULO IV

DOS EMBARGOS INFRINGENTES

Art. 530. Cabem embargos infringentes quando o acórdão não unânime houver reformado, em grau
de apelação, a sentença de mérito, ou houver julgado procedente ação rescisória. Se o desacordo
for parcial, os embargos serão restritos à matéria objeto da divergência.

O objetivo dos embargos infringentes é fazer com que prevaleça o voto vencido. Assim, o recorrente nada mais pode
pleitear, a não ser que prevaleça a conclusão do voto proferido pelo magistrado que votou contrariamente à maioria.
Com isso, quer-se dizer que o recorrente não pode desejar obter mais do que lhe dava o voto que acabou prevalecendo.
(WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, 2008, p. 586)

Como decorrência do efeito devolutivo, a parte não unânime a respeito da qual tenha havido interposição de embargos
infringentes não transitará em julgado até o julgamento do recurso, o mesmo não acontecendo, entretanto, com a parte
unânime da decisão a respeito da qual nenhum recurso venha a ser interposto. (PINTO, 2004, p. 149)

Verifica-se que não mais se admite o recurso contra julgamento de apelação em que a divergência ocorra sobre o objeto
formal do processo (pressupostos processuais e condições da ação). Doravante, a adequação dos embargos infringentes
contra acórdão proferido em apelação exige dois pressupostos, a saber: (i) que tenha sido provido o recurso; e (ii) que a
divergência diga respeito ao meritum causae, ou seja, ao objeto material do processo.

Súmula nº 294 do STF: São inadmissíveis embargos infringentes contra decisão do Supremo Tribunal Federal em mandado
de segurança.

Súmula nº 354 do STF: Em caso de embargos infringentes parciais, é definitiva a parte da decisão embargada em que
não houve divergência na votação.

Súmula nº 597 do STF: Não cabem embargos infringentes de acórdão que, em mandado de segurança, decidiu, por
maioria de votos, a apelação.

Súmula nº 88 do STJ: São admissíveis embargos infringentes em processo falimentar.

Súmula nº 169 do STJ: São inadmissíveis embargos infringentes no processo de mandado de segurança.

Súmula nº 255 do STJ: Cabem embargos infringentes contra acórdão, proferido por maioria, em agravo retido, quando
se tratar de matéria de mérito.

A divergência entre os juízes, para fins de oposição de embargos infringentes, se considera quanto às conclusões de
seus votos, não em relação à fundamentação destes. (STJ, EDcl. no AgRg. no REsp. no 621.940/MG, 1ª T., rela. Mina.
Denise Arruda, DJU 02.04.2007, p. 233)

Art. 531. Interpostos os embargos, abrir-se-á vista ao recorrido para contra-razões; após, o relator
do acórdão embargado apreciará a admissibilidade do recurso.

A nova redação do art. 531 faz com que o juízo de admissibilidade dos embargos infringentes seja exercido depois da formação
Pós-Graduação a Distância

do contraditório, o que, certamente, tem o condão de facilitar a atividade do relator. (WAMBIER; WAMBIER, p. 183)

Art. 532. Da decisão que não admitir os embargos caberá agravo, em 5 (cinco) dias, para o órgão
competente para o julgamento do recurso.

A decisão do relator que admite os embargos infringentes é irrecorrível. Mas o juízo de admissibilidade positivo poderá
ser revisto no julgamento dos embargos pelo órgão competente. Ao invés, da decisão do relator que não admitir os
embargos caberá agravo no prazo de cinco dias, consoante o art. 532, para “o órgão competente para o julgamento do
recurso”. (ASSIS, 2007, p. 484/485)
167
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Art. 533. Admitidos os embargos, serão processados e julgados conforme dispuser o regimento do
tribunal.

Incluem-se no âmbito do efeito devolutivo (limitado ao voto vencido) dos embargos infringentes, bem como no da apelação,
quaisquer questões que tocaria ao órgão judiciário examinar ex officio, tenha ocorrido, ou não, divergência a seu respeito
no julgamento originário. É claro que, para esse efeito, os embargos devem ser conhecidos. Porém, ultrapassado o juízo de
admissibilidade, também se devolvem tais matérias, principalmente as relativas às condições da ação e aos pressupostos
processuais, insuscetíveis de preclusão para os órgãos fracionários de segundo grau (art. 267, § 3º). (ASSIS, 2007, p. 564/565)

Art. 534. Caso a norma regimental determine a escolha de novo relator, esta recairá, se possível,
em juiz que não haja participado do julgamento anterior.

O novo relator, se houver previsão regimental, poderá rever o juízo de admissibilidade,eis que se trata de matéria de
ordem pública, não sujeita à preclusão, podendo, nesse momento, negar seguimento aos embargos infringentes. (DIDIER
JR.; CUNHA, 2007, p. 236)

Não proíbe a lei, em caso algum, que participem do julgamento dos embargos quaisquer juízes que hajam funcionado
no da apelação ou no da ação rescisória. Procura apenas evitar, dentro das possibilidades existentes, que os embargos
sejam relatados por algum participante no julgamento anterior, a não ser que, segundo o regimento, o mesmo relator
conserve a atribuição. Quanto aos outros membros do órgão que vai julgar os embargos, é indiferente que hajam ou não
proferido voto sobre a apelação ou a rescisória. (MOREIRA, 2008, p. 153)
Processo Civil – Processo de Conhecimento

168
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 37 – Embargos de Declaração

Conceito
Recurso destinado a sanar contradição, obscuridade ou omissão de decisões judiciais (CPC, art. 535).

A lei refere-se a sentença e acórdão. Mas copiosa doutrina e jurisprudência admitem-no para colmatar falhas verificadas
em decisões interlocutórias. Nesse sentido, anotam Luiz Rodrigues Wambier, Flávio Renato Correia de Almeida e Eduardo
Talamini que “todo e qualquer pronunciamento jurisdicional pode ser objeto de embargos de declaração: decisões
interlocutórias, sentenças e acórdãos. Nesse sentido caminha a maioria dos doutrinadores, tendo sido apresentadas
algumas restrições inadequadas pelos tribunais. Restrições aos embargos declaratórios serão sempre inadequadas em
função, justamente, das raízes constitucionais desse recurso.” No mesmo norte, decidiu o Superior Tribunal de Justiça15
que, “em princípio, de acordo com o entendimento mais moderno do STJ, cabem embargos declaratórios contra qualquer
decisão judicial ainda que interlocutória.”204

Toda decisão judicial deve ser completa, clara, compreensível e fundamentada, pois do contrário sequer é possível o
manejo dos embargos. E os embargos declaratórios servem justamente para que ela atenda às exigências legais.

Objetivo
Sanar obscuridade, contradição ou omissão: visa a revelar o verdadeiro sentido da decisão e adequá-la aos limites do
pedido ou da causa de pedir.

Prequestionamento: os recursos extraordinários (RE e REsp) só são admitidos mediante prequestionamento: os embargos
declaratórios são vocacionados a essa finalidade (Súmulas nº 282 e 356 do STF e Súmula do STJ). Mas eles não podem
ser usados para tratar de matérias que não foram objeto do tema recursal, salvo se a questão constitucional derivou do
próprio acórdão.

Efeitos
Quanto à decisão:

1. Integração: os embargos de declaração não têm caráter modificativo, mas apenas integrativo, no sentido de
que a correção da falha identificada não modifica o julgado, complementando-o.

2. Modificação:em casos excepcionais, quando a sanação do defeito levar forçosamente a uma conclusão diferente,
admite-se o efeito infringente. Nesse caso é indispensável o contraditório. Conforme decidiu o Superior Tribunal
Pós-Graduação a Distância

de Justiça16, “a possibilidade de atribuição de efeitos infringentes ou modificativos a embargos de declaração


sobrevém como resultado da presença de omissão, obscuridade ou contradição, vícios a serem corrigidos no
acórdão embargado, e não da simples interposição do recurso.”205

REsp. 468.306/SP, 4ª T., rel. Min. Aldir Passarinho Júnior, DJU 10.03.2003, p. 241
15

EDcl. No RMS 18.310/RJ, 5ª T., rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, DJU 04.12.206, p. 336
16

169
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Quanto à eficácia da decisão:

1. Devolutivo: o recurso devolve, remete o tema recursal ao órgão de julgamento, nesse caso coincidente com o
órgão de interposição.

2. Suspensivo: a decisão não pode ser considerada transitada em julgado enquanto penderem os embargos
declaratórios e assim não se pode iniciar a execução.

Interrupção do prazo recursal: mesmo que protelatórios os embargos interrompem o prazo para a interposição de qualquer
outro recurso (CPC, art. 538, caput). Com propriedade, Marcus Vinicius Rios Gonçalves afirma que “o fluxo do prazo é
interrompido com a interposição, por qualquer das partes, de embargos de declaração. A interrupção favorecerá a todos, e
se verificará mesmo que os embargos sejam rejeitados, ainda que considerados de má-fé. A lei processual prevê a sanção
adequada (multa) caso isso ocorra. Não pode o juiz, a título de apenar o que age de má-fé, puni-lo com uma sanção não
prevista no ordenamento, a perda da eficácia interruptiva dos embargos. Há uma única hipótese em que eles não terão
o efeito que lhes é peculiar: quando forem opostos intempestivamente.”

Destinatário
O recurso é dirigido e julgado pelo mesmo órgão judicial.

O mesmo juiz que proferiu a sentença deve decidir os embargos declaratórios, pois que esta decisão passa a compor a
sentença, sendo esse o significado do caráter integrativo do recurso. Excepcionalmente, nos casos de aposentadoria,
promoção etc. pode o recurso ser julgado por outro juiz (mesmo Juízo).

Processamento
Interposição (CPC, art. 536)

Cabimento: inclusive em face de decisão de embargos de declaração

Legimitidade: qualquer das partes, pois ambas têm interesse na higidez jurídica da sentença.

Prazo: cinco dias (CPC, art. 536)

Julgamento: cinco dias (CPC, art. 537). Não há contraditório, salvo no caso de efeito modificativo.

Oportuna a lição de José Carlos Barbosa Moreira: “O julgamento dos embargos de declaração comporta as mesmas
Processo Civil – Processo de Conhecimento

etapas do julgamento de qualquer recurso. Aqui também, o órgão judicial pode conhecer ou não conhecer dos embargos
e, deles conhecendo, dar-lhes ou negar-lhes provimento: nada justifica o vezo de juízes e tribunais que, na matéria,
empregam atecnicamente terminologia diversa da utilizada para os outros recursos, dizendo apenas “rejeitar” ou “acolher”
os embargos. Não se conhece destes quando dos próprios termos do recurso transparece que ele não se enquadra em
qualquer dos tipos legais, que não caso de obscuridade, contradição ou omissão no acórdão; v.g., se o embargante pleiteia
a reforma, conquanto parcial, do julgado, acoimando-o de errôneo. Tampouco se conhece deles quando intempestivos, ou
inadmissíveis por outra razão. Os embargos são apreciados no mérito assim quando o órgão judicial diz que não existe
a apontada obscuridade, contradição ou omissão, como quando reconhece o defeito e o supre. Em qualquer dessas
hipóteses, o tribunal admitiu (ainda que implicitamente) os embargos, provendo-os ou não. A distinção é relevantíssima:
quando não se lhes pode conhecer dos embargos de declaração, não se lhes pode atribuir o efeito previsto no art. 538
em proveito do embargante.”

170
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Sobre o contraditório, em regra inexistente, aduz Nelson Luiz Pinto que “nos embargos de declaração inexiste contraditório.
Assim, uma vez recebidos, o juiz deverá julgá-los no prazo de cinco dias, e se em segundo grau o relator deverá colocá-lo
em mesa para julgamento na sessão subsequente (art. 537 do CPC), nela proferindo seu voto, inexistindo necessidade
de novo relator. Tratando-se, entretanto, de situação excepcional, onde os embargos de declaração podem ter efeitos
infringentes do julgado, deve o juiz ou o tribunal, antes de decidi-los, abrir vista à parte contrária, em respeito ao princípio
do contraditório, pois deles poderá resultar uma nova decisão da causa. O prazo para manifestação da parte contrária,
neste caso, será o mesmo da interposição – cinco dias.”

Caráter Protelatório
Se nitidamente de caráter procrastinatório, aplica-se a multa prevista no art. 538, parágrafo único, do CPC. Em caso
de reincidência a penalidade é agravada. Vale transcrever julgado do Superior Tribunal de Justiça17 que delimita com
precisão a penalidade em tela: “1. Os arts. 16, 17 e 18 do CPC, fazem previsão de multa para situações genéricas de
litigância de má-fé. Já o art. 538, parágrafo único, do mesmo diploma legal, determina a cominação de multa para o
caso de embargos declaratórios manifestamente protelatórios. 2. Um único fato de oposição de embargos declaratórios
não pode fundamentar a aplicação de duas sanções. Sendo o parágrafo único do art. 538, do CPC, norma específica em
relação ao art. 18, do CPC, há que prevalecer apenas a norma especial.” 206

Não se reputa de cunho protelatório o recurso interposto para fins de prequestionamento (Súmula nº 98 do STJ).

CAPÍTULO V

DOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO

Art. 535. Cabem embargos de declaração quando:

I – houver, na sentença ou no acórdão, obscuridade ou contradição;

II – for omitido ponto sobre o qual devia pronunciar-se o juiz ou tribunal.

Todo e qualquer pronunciamento jurisdicional pode ser objeto de embargos de declaração: decisões interlocutórias,
sentenças e acórdãos. Nesse sentido caminha a maioria dos doutrinadores, tendo sido apresentadas algumas restrições
inadequadas pelos tribunais. Restrições aos embargos declaratórios serão sempre inadequadas em função, justamente,
das raízes constitucionais desse recurso. (WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, 2008, p. 592)

A omissão relaciona-se à falta de manifestação sobre ponto controvertido, isto é, sobre questão relevante para o
julgamento, pouco importando, no particular, que esta questão dependesse, ou não, de manifestação da parte ou se
poderia ser apreciada de ofício. (BUENO, 2008, p. 197/198)

A obscuridade é o defeito consistente na difícil compreensão do texto da sentença e pode decorrer de simples defeito
redacional ou mesmo de má formulação de conceitos. Há obscuridade quando a sentença está incompreensível no comando
que impõe e na manifestação de conhecimento e vontade do juiz. (GRECO FILHO, 2009, p. 243)

Os embargos de declaração, quando regularmente utilizados, destinam-se, precipuamente, a desfazer obscuridades, a


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afastar contradições e a suprir omissões que se registrem, eventualmetne, no acórdão proferido pelo Tribunal. Revelam-
se incabíveis os embargos de declaração, quando – inexistentes os vícios que caracterizam os pressupostos legais
de embargabilidade (CPC, art. 535) – tal recurso, com desvio de sua específica função jurídico-processual, vem a ser
utilizado com a finalidade de instaurar, indevidamente, uma nova discussão sobre a controvérsia jurídica já apreciada
pelo Tribunal. Precedentes. A reiteração de embargos de declaração, sem que se registre qualquer dos pressupostos
legais de embargabilidade (CPC, art. 535), reveste-se de caráter abusivo e evidencia o intuito protelatório que anima a
conduta processual da parte recorrente. O propósito revelado pela embargante, de impedir a consumação do trânsito
EDiv. em REsp. 512.185/DF, 1ª Seção, rel. Min. Humberto Martins, DJU 25.09.2006, p. 216
17

171
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

em julgado de decisão que lhe foi inteiramente desfavorável – valendo-se, para esse efeito, da utilização sucessiva e
procrastinatória de embargos declaratórios incabíveis – constitui fim ilícito que desqualifica o comportamento processual
da parte recorrente e que autoriza, em consequência, o imediato cumprimento da decisão emanada desta Suprema Corte,
independentemente da publicação do acórdão consubstanciador do respectivo julgamento e de eventual interposição de
novos embargos de declaração ou de qualquer outra espécie recursal. Precedentes. (STF, EDCL. nos EDCL. nos EDCL no
AGRG. no AI no 311.596-4/SP, rel. Min. Celso de Mello, DJU 22.09.2006, p. 59)

Não se revelam cabíveis os embargos de declaração, quando – a pretexto de esclarecer uma inexistente situação de
obscuridade, omissão ou contradição – vêm a ser opostos com o objetivo de infringir o julgado e de, assim, viabilizar um
indevido reexame da causa. Precedentes. (STF, EDCL. no AGRG. no AI no 332.757-9/SP, rel. Min. Celso de Mello, DJU
28.06.2002, p. 140)

Art. 536. Os embargos serão opostos, no prazo de 5 (cinco) dias, em petição dirigida ao juiz ou relator,
com indicação do ponto obscuro, contraditório ou omisso, não estando sujeitos a preparo.

Processam-se os embargos independentemente de preparo, pois suscitam mera retratação. Não há contraditório e
interrompem o prazo para outros recursos (art. 538), por qualquer das partes. (MIRANDA; PIZZOL, 2009, p. 104)

Escoado o prazo legal para oposição dos embargos de declaração, impõe-se não conhecer do recurso, em face da ausência
de requisito indispensável para sua apreciação. Precedentes. (STJ, EDcl. no AgRg. no REsp. no 527.635/RS, 5ª T., rel.
Min. Gilson Dipp, DJU 24.11.2003, p. 369)

Art. 537. O juiz julgará os embargos em 5 (cinco) dias; nos tribunais, o relator apresentará os embargos
em mesa na sessão subsequente, proferindo voto.

O julgamento dos embargos de declaração comporta as mesmas etapas do julgamento de qualquer recurso. Aqui também, o
órgão judicial pode conhecer ou não conhecer dos embargos e, deles conhecendo, dar-lhes ou negar-lhes provimento: nada
justifica o vezo de juízes e tribunais que, na matéria, empregam atecnicamente terminologia diversa da utilizada para os
outros recursos, dizendo apenas “rejeitar” ou “acolher” os embargos. Não se conhece destes quando dos próprios termos
do recurso transparece que ele não se enquadra em qualquer dos tipos legais, que não caso de obscuridade, contradição
ou omissão no acórdão; v.g., se o embargante pleiteia a reforma, conquanto parcial, do julgado, acoimando-o de errôneo.
Tampouco se conhece deles quando intempestivos, ou inadmissíveis por outra razão. Os embargos são apreciados no
mérito assim quando o órgão judicial diz que não existe a apontada obscuridade, contradição ou omissão, como quando
reconhece o defeito e o supre. Em qualquer dessas hipóteses, o tribunal admitiu (ainda que implicitamente) os embargos,
provendo-os ou não. A distinção é relevantíssima: quando não se lhes pode conhecer dos embargos de declaração, não
se lhes pode atribuir o efeito previsto no art. 538 em proveito do embargante. (MOREIRA, 1998, p. 561)

Nos embargos de declaração inexiste contraditório. Assim, uma vez recebidos, o juiz deverá julgá-los no prazo de cinco
dias, e se em segundo grau o relator deverá colocá-lo em mesa para julgamento na sessão subsequente (art. 537 do
Processo Civil – Processo de Conhecimento

CPC), nela proferindo seu voto, inexistindo necessidade de novo relator. Tratando-se, entretanto, de situação excepcional,
onde os embargos de declaração podem ter efeitos infringentes do julgado, deve o juiz ou o tribunal, antes de decidi-los,
abrir vista à parte contrária, em respeito ao princípio do contraditório, pois deles poderá resultar uma nova decisão da
causa. O prazo para manifestação da parte contrária, neste caso, será o mesmo da interposição – cinco dias. (PINTO,
2004, p. 164)

A concessão de efeito infringente aos embargos de declaração somente pode ocorrer em hipóteses excepcionais, em casos
de erro evidente e quando inexistir outra forma recursal para a sua correção, não se prestando a sanar eventual error in
judicando. Precedentes. (STJ, EDcl. no REsp. no 412.250/SC, 1ª T., rel. Min. Paulo Medina, DJU 07.04.2003, p. 229)

É necessária a intimação da parte adversa, com a devida instalação do contraditório, para o acolhimento de embargos
de declaração com efeitos modificativos, sob pena de nulidade. Precedentes. (STJ, AgRg. No REsp. no 615.449/PB, 3ª
T., rela. Mina. Nancy Andrighi, DJU 26.09.2005, p. 360)

172
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Art. 538. Os embargos de declaração interrompem o prazo para a interposição de outros recursos,
por qualquer das partes.

Parágrafo único. Quando manifestamente protelatórios os embargos, o juiz ou o tribunal, declarando


que o são, condenará o embargante a pagar ao embargado multa não excedente de 1% (um por cento)
sobre o valor da causa. Na reiteração de embargos protelatórios, a multa é elevada a até 10% (dez por
cento), ficando condicionada a interposição de qualquer outro recurso ao depósito do valor respectivo.

Se os embargos, à semelhança do que pode ocorrer com qualquer outro recurso, são incabíveis, intempestivos ou por
qualquer outra razão inadmissíveis, sua interposição efeito algum pode produzir, sequer aquele de interromper prazos,
pelo menos no que diz respeito ao embargante.

Os embargos de declaração não têm efeito suspensivo nem devolutivo, em outras palavras, não suspendem a eficácia
da decisão embargada nem transferem o conhecimento da matéria a outro órgão jurisdicional. A interposição produz um
efeito peculiar dos embargos de declaração: o efeito interruptivo. (DONIZETTI, p. 482)

Interpostos os embargos de declaração, interrompem-se os prazos para a interposição dos demais recursos, por qualquer
das partes (art. 538). Note-se, aqui, que se trata do fenômeno da interrupção: os prazos começam a contar de novo.
(WAMBIER; ALMEIDA; TALAMINI, p. 594)

Súmula nº 98 do STJ: Embargos de Declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm
caráter protelatório.

A interposição de recurso incabível não suspende ou interrompe o prazo para a apresentação do recurso próprio, nem tem o
poder de impedir o trânsito em julgado do acórdão (ou decisão) inadequadamente impugnado. Extinta a prestação jurisdicional
e determinada a baixa dos autos, independentemente da publicação do acórdão e de eventual interposição de qualquer outro
recurso. (STJ, EDcl. no RCDESP no AgRg. no RE no AI no 611.241/PR, Corte Especial, DJU 10.04.2006, p. 103)

1. Os arts. 16, 17 e 18 do CPC, fazem previsão de multa para situações genéricas de litigância de má-fé. Já o art.
538, parágrafo único, do mesmo diploma legal, determina a cominação de multa para o caso de embargos declaratórios
manifestamente protelatórios. 2. Um único fato de oposição de embargos declaratórios não pode fundamentar a aplicação
de duas sanções. Sendo o parágrafo único do art. 538, do CPC, norma específica em relação ao art. 18, do CPC, há que
prevalecer apenas a norma especial. (STJ, EDiv. em REsp. no 512.185/DF, 1ª Seção, rel. Min. Humberto Martins, DJU
25.09.2006, p. 216)

Pós-Graduação a Distância

173
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 38 – Recurso Ordinário

O recurso ordinário constitucional é um recurso de âmbito de cabimento bastante restrito, limitado no Processo Civil,
praticamente, aos casos de denegação de mandado de segurança. Agora, denegação entendida amplamente. Seja a própria
denegação pelo mérito da segurança, seja a inadmissão do mandado de segurança, seja a extinção sem julgamento do
mérito, isto é, qualquer decisão à parte em sede de mandado de segurança segundo jurisprudência pacificada do STJ.
Como advertem Fredie Didier Jr. e Leonardo José Carneiro da Cunha, “o mais importante no estudo deste recurso é
entender o que significa “decisão denegatória”. Essa hipótese tem acepção ampla: compreende não só as “decisões que
julgam improcedente o pedido”, mas também as “que extinguem o processo sem apreciação do mérito”. Denegar, aqui,
significa não acolher o pedido.”

A previsão constitucional deste recurso encontra-se no art. 102, II, da CF (recurso ordinário para o Supremo Tribunal
Federal) e no art. 105, II, da CF (recurso ordinário para o Superior Tribunal de Justiça), sendo ambos ainda regulados
pelo art. 539 e 540 do CPC.

Em sede de mandado de segurança, o cabimento do recurso ordinário pressupõe sempre a denegação da ordem e o
julgamento em única instância por tribunais. Elucida Araken de Assis que “o recurso ordinário contra o acórdão denegatório
de mandado de segurança só cabe nos feitos de competência originária dos tribunais regionais ou locais (art. 539, II,
a) ou do STJ (art. 539, I). É a única inteligência admissível da cláusula constitucional “única instância” (art. 102, II, a,
e art. 105, II, b). Daí decorrem duas consequências dignas de registro. Em primeiro lugar, não cabe recurso ordinário
dos acórdãos que julgaram, em grau de recurso, mandados de segurança impetrados no primeiro grau. E tampouco cabe
recurso ordinário dos provimentos que concederam a ordem. Inadmissível que sja o recurso ordinário, o provimento pode
ser impugnado por recurso extraordinário ou por recurso especial, conforme o caso. Não há via recursal diversa a reclamar
exaustão prévia. E dos julgados das turmas recursais dos Juizados Especiais tampouco cabe recurso ordinário para o STJ.”

A finalidade deste recurso é proporcionar um segundo grau na instância especial, ou seja, propiciar um segundo grau para
decisões que de outro modo não o teriam. Frisa Marcos Destefenni que “deve ficar bem claro que a Constituição Federal
exige que a ação constitucional tenha sido julgada em única instância pelo tribunal de origem. Não é cabível o recurso
ordinário constitucional no caso de ação que tramitou originariamente num juízo de primeira instância e, na sequência, foi
objeto de uma apelação, por exemplo. Nesse caso, o acórdão proferido pelo tribunal do Estado, por exemplo, não estará
sujeito a recurso ordinário. Repita-se: estão sujeitos a recurso ordinário os acórdãos proferidos originariamente por um
tribunal, no julgamento de uma ação constitucional.”

Uma outra hipótese é a prevista na letra ‘c’ do art. 102 , II da CF/88: as causas em que forem partes Estado estrangeiro
Processo Civil – Processo de Conhecimento

ou organismo internacional, de um lado, e, do outro, Município ou pessoa residente ou domiciliada no País.” São causas
da Justiça Federal.

O prazo para interposição do recurso ordinário é de quinze dias e sua admissibilidade e processamento, no tribunal a quo,
são praticamente iguais aos da apelação. Ensinam Gilson Delgado Miranda e Patrícia Miranda Pizzol , à luz do art. 540
do CPC, que “o recurso ordinário deve seguir o procedimento da apelação, diferindo os dois recursos apenas com relação
ao objeto. Já os dispositivos pertinentes ao agravo aplicam-se apenas na esteira do parágrafo único do art. 539 do CPC,
para impugnar as decisões interlocutórias, isto é, nas causas em que forem partes Estado estrangeiro ou organismo
internacional e Município ou pessoa domiciliada no país.”

174
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Seção I

Dos Recursos Ordinários

Art. 539. Serão julgados em recurso ordinário:

I – pelo Supremo Tribunal Federal, os mandados de segurança, os habeas data e os mandados


de injunção decididos em única instância pelos Tribunais superiores, quando denegatória a
decisão;

II – pelo Superior Tribunal de Justiça:

a) os mandados de segurança decididos em única instância pelos Tribunais Regionais


Federais ou pelos Tribunais dos Estados e do Distrito Federal e Territórios, quando
denegatória a decisão;

b) as causas em que forem partes, de um lado, Estado estrangeiro ou organismo internacional


e, do outro, Município ou pessoa residente ou domiciliada no País.

Parágrafo único. Nas causas referidas no inciso II, alínea b, caberá agravo das decisões interlocutórias.

Deve ficar bem claro que a Constituição Federal exige que a ação constitucional tenha sido julgada em única instância
pelo tribunal de origem. Não é cabível o recurso ordinário constitucional no caso de ação que tramitou originariamente
num juízo de primeira instância e, na sequência, foi objeto de uma apelação, por exemplo. Nesse caso, o acórdão proferido
pelo tribunal do Estado, por exemplo, não estará sujeito a recurso ordinário. Repita-se: estão sujeitos a recurso ordinário
os acórdãos proferidos originariamente por um tribunal, no julgamento de uma ação constitucional. (DESTEFENNI, 2009,
pp. 568-569)

Cumpre frisar que as hipóteses arroladas no art. 539, I e II, a, excluem o cabimento de recurso ordinário contra mandados
de segurança, habeas data e mandados de injunção que cheguem aos tribunais em grau de recurso. Vale dizer, apenas
nos casos de competência originária dos tribunais superiores cabe recurso ordinário para o STF, e, apenas nos casos de
competência originária dos TRFs ou dos tribunais dos Estados e do Distrito Federal e Territórios cabe recurso ordinário
para o STJ. (DONIZETTI, 2008, p. 486)

O recurso cabível contra decisão denegatória de mandado de segurança, a teor do disposto no art. 105, II, b¸ da CF, é
o recurso ordinário. A interposição de recurso especial, quando o cabível era o recurso ordinário, constitui erro grosseiro
a inviabilizar a aplicação do princípio da fungibilidade. (STJ, REsp. no 101.066/SP, 2ª T., rel. Min. João Otávio Noronha,
DJU 03.12.2004, RT 835/162)

Art. 540. Aos recursos mencionados no artigo anterior aplica-se, quanto aos requisitos de admissibilidade e ao procedimento
no juízo de origem, o disposto nos Capítulos II e III deste Título, observando-se, no Supremo Tribunal Federal e no Superior
Tribunal de Justiça, o disposto nos seus regimentos internos.

Caso o Presidente do Tribunal de Justiça ou do Regional Federal não admita o recurso ordinário, surge como oportuno
o agravo regimental para o órgão fracionário deste tribunal e não o agravo de instrumento para o Superior Tribunal de
Justiça. Porém, persistindo a inadmissão na origem, cabe recurso especial ao Superior Tribunal de Justiça sob a alegação
Pós-Graduação a Distância

de violação ao art. 539 do Código de Processo Civil. (MARINONI; ARENHART, 2008, p. 568)

O CPC refere-se aos dispositivos relativos à apelação e ao agravo. O recurso ordinário deve seguir o procedimento da
apelação, diferindo os dois recursos apenas com relação ao objeto. Já os dispositivos pertinentes ao agravo aplicam-se
apenas na esteira do parágrafo único do art. 539 do CPC, para impugnar as decisões interlocutórias, isto é, nas causas em
que forem partes Estado estrangeiro ou organismo internacional e Município ou pessoa domiciliada no país. (MIRANDA;
PIZZOL, 2009, p. 146)

175
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

O recurso ordinário em mandado de segurança é apelo que possui natureza similar à apelação, devolvendo ao tribunal o
conhecimento de toda a matéria alegada na impetração, independentemente de eventual análise pelo tribunal de origem,
principalmente quando se tratar de matéria de ordem pública, que pode ser conhecida a qualquer tempo. (STJ, AgRg. no
ROMS no 12.415/RJ, 5ª T., rel. Min. Gilson Dipp, DJU 23.09.2002, RT 813/205)
Processo Civil – Processo de Conhecimento

176
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Capítulo 39 – Recurso Especial e Recurso Extraordinário

Recurso Especial

Competência (CF, art. 105, III)

Compete ao Superior Tribunal de Justiça o julgamento do Recurso Especial. Esse tribunal superior tem a missão de zelar
pela correta e uniforme aplicação da legislação federal.

Objetivo (CF, art. 105, III)

O Recurso Especial pode ser interposto em face dos acórdãos dos tribunais contra os quais não é cabível outro recurso.
Se o acórdão pode ser impugnado por meio de embargos infringentes, por exemplo, não pode ser interposto o Recurso
Especial, pois nesse caso a decisão ainda não é de última instância, sendo nesse sentido a inteligência da Súmula nº
207 do STJ.

Não pode o recurso especial ser utilizado para corrigir a aplicação ou interpretação de lei estadual ou municipal,
restringindo-se à legislação federal.

Não pode, igualmente, ser interposto contra decisão de primeira instância nem das Turmas Recursais dos Juizados
Especiais, porquanto não se trata de decisão de tribunal. Inteligência da Súmula nº 203 do STJ. É também nesse sentido
o escólio de Marcus Vinicius Rios Gonçalves: “De acordo com o art. 105, III, da Constituição Federal, só cabe recurso
contra as causas julgadas em única instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais dos Estados ou do
Distrito Federal e Territórios. Como as causas no Juizado Especial jamais são apreciadas por Tribunal, porque o recurso
é julgado pelo colégio recursal, não se admite o recurso especial.”

Também é incabível para questionar decisões das Justiças Especializadas.

Em síntese que reflete o âmbito de cabimento do recurso em questão, Nelson Luiz Pinto explana que “decisões de primeiro
grau, ainda que de última instância, ou mesmo de segundo grau ainda passíveis de ser impugnadas por outros recursos
(por exemplo: embargos infringentes) não comportam recurso especial. Também não ficam sujeitas a recurso especial as
decisões proferidas pelos tribunais das Justiças especializadas (do Trabalho, Eleitoral e Militar), que possuem tribunais
superiores próprios com competências semelhantes (TST, TSE e STM). Não cabe, igualmente, recurso especial contra
as decisões de última instância proferidas pelas turmas de recurso dos Juizados Especiais (Lei nº 9.099/95, art. 41),
tendo em vista a disposição expressa contida no art. 105, III, da CF a respeito dos órgãos de onde podem emanar as
decisões impugnáveis pela via especial.”

Cabimento
Pós-Graduação a Distância

Contrariar ou negar vigência a tratado ou lei federal

É a principal hipótese de cabimento do Recurso Especial.

Qualquer ofensa a texto de lei federal pode suscitar o cabimento do Recurso Especial, inclusive aquela advinda de sua
incorreta interpretação ou aplicação. Com Fredie Didier Jr. e Leonardo José Carneiro da Cunha , entende que “lei federal,
para efeito de cabimento do recurso especial, é expressão que engloba os seguintes diplomas: a) lei complementar federal;

177
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

b) lei ordinária federal; c) lei delegada federal; d) Decreto-Lei federal; e) medida provisória federal; f) decreto autônomo
federal. Os demais atos, diplomas ou instrumentos normativos, uma vez desatendidos, não são objeto de análise em
recurso especial. Noutros termos, não cabe recurso especial por ofensa a dispositivo constante de portaria, instrução
normativa, resolução, decreto-legislativo, parecer normativo etc.”

É preciso que tenha havido o prequestionamento, ou seja, que a decisão recorrida tenha versado expressamente sobre
o texto legal cuja violação se alega. Muito embora a jurisprudência não seja uníssona quanto ao prequestionamento,
encontrando-se por vezes entendimentos muito rígidos que exigem a explicitação, no acórdão recorrido, do texto legal
violado, a doutrina tende a ser mais flexível, como revela o seguinte ensinamento de Nelson Nery Junior: “Não há
necessidade de a decisão recorrida mencionar expressamente o artigo da CF ou da lei para haver-se caracterizado o
prequestionamento. Basta que o ato judicial tenha “decidido” a questão constitucional ou federal.” Ressalve-se, porém,
a existência de concepção doutrinária e jurisprudencial em sentido contrário.

Julgar Válido Ato de Governo Local Contestado em Face de Lei Federal


Para o cabimento do Recurso Especial basta que o ato do governo local tenha sido contestado em face da lei federal,
isto é, basta que se alegue que existe uma lei federal que foi violada pelo ato executivo do governo local.

Essa hipótese de cabimento do Recurso Especial também versa sobre o primado da legislação federal: nesse caso, tal
legislação é vulnerada, indevidamente, por ato do governo local. No magistério de Moacyr Amaral Santos, “o objetivo
do dispositivo constitucional é o de garantir a área de competência federal contra invasões de atos de governo local.
Assim, a expressão ato de governo local abrange os atos do Executivo, bem como os atos administrativos do Judiciário
e do Legislativo dos Estados, além daqueles praticados pelas Câmaras Municipais, ou por quaisquer outros órgãos de
um dos poderes locais.”

Se o ato do governo local tiver sido julgado inválido pelo tribunal de origem, não cabe o Recurso Especial.

Interpretação Divergente
É cabível o Recurso Especial se a mesma matéria tiver sido objeto de interpretações destoantes de tribunais de unidades
federativas distintas.

Trata-se de recurso que também visa a afastar eventual contrariedade à lei federal, pois no seu julgamento será adotada
a postura interpretativa reputada de acordo com a legislação federal.

Não é suficiente que se alegue a contrariedade interpretativa ou que se transcreva as ementas supostamente divergentes.
É preciso que a divergência seja analiticamente demonstrada por meio do cotejo dos casos comparados (CPC, art. 541,
Processo Civil – Processo de Conhecimento

p. único).

A divergência deve provir de outro tribunal da Federação (Súmula nº 13 do STJ).

Não se conhece do recurso quando a decisão recorrida estiver de acordo com a orientação jurisprudencial do Superior
Tribunal de Justiça (Súmula nº 83 do STJ).

A notoriedade da divergência jurisprudencial ameniza o rigorismo formal do REsp. nessa hipótese.

Objetivo
O Recurso Especial tem como escopo medular a uniformização da interpretação do Direito infraconstitucional. É o que
deliberou o Superior Tribunal de Justiça: “A competência atribuída pelo art. 105, III, da Constituição Federal ao STJ
restringe-se à uniformização da interpretação da legislação infraconstitucional.”
178
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Processamento

Interpostição (CPC, art. 541)

É interposto perante o Presidente do Tribunal prolator do acórdão recorrido.

Prazo (CPC, art. 508)

O Ministério e a Fazenda Pública tem o prazo em dobro para interpor o Recurso Especial (Súmula nº 116 do STJ).

Contraditório (CPC, art. 542).

Juízo de Admissibilidade (CPC, art. 542, § 1º).

Preparo: dispensado pelo RISTJ, art. 112. Somente exigível na origem.

Julgamento (CPC, art. 543)

No julgamento pode ser aplicado o art. 557, que confere amplos poderes, inclusive de julgamento do mérito recursal, ao
relator do Recurso Especial.

Havendo interposição simultânea de REsp. e RE, aquele deve ser julgado primeiramente (CPC, art. 543, § 1º).

Negado seguimento ao REsp. pelo Presidente do Tribunal e interposto agravo de instrumento, pode-se julgá-los
conjuntamente, inclusive sem a subida do REsp., se isso for possível (CPC, art. 544, § 3º).

Forma (CPC, art. 541)

O REsp. e o RE devem ser interpostos por petições distintas (CPC, art. 541).

Admite-se, excepcionalmente, que eventual falta de assinatura seja suprida, inclusive no próprio Superior Tribunal de
Justiça, embora isso não seja unânime.

Falha atinente à capacidade postulatória é incorrigível nas instâncias extraordinárias (Súmula nº 115 do STJ).

Juízo de Admissibilidade

Competência
Presidente do Tribunal (CPC, art. 542, § 1º e Súmula nº 123 do STJ): O Presidente do Tribunal não julga o Recurso
Especial. Por isso, o seu pronunciamento é baseado num juízo de razoabilidade, ou seja, que avalia apenas a plausibilidade
da ofensa à lei federal. Mas, de todo modo, é evidente que existe um limite muito tênue entre a admissibilidade e o
julgamento do REsp.
Pós-Graduação a Distância

Superior Tribunal de Justiça: O Superior Tribunal de Justiça faz o seu próprio juízo de admissibilidade e não está adstrito
àquele feito pelo Presidente do Tribunal de origem.

Espécies
Positivo: quando é admitido o processamento e julgamento do REsp.
Negativo: quando não é admitido o processamento ou julgamento do REsp. Se o Presidente do Tribunal nega seguimento
ao REsp. e a parte interpõe Agravo de Instrumento, este não pode deixar de ser remetido ao Superior Tribunal de Justiça,
único competente para a sua apreciação.
179
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Hipóteses de Não Cabimento

Interpretação de cláusulas contratuais (Súmula nº 5 do STJ).

Reexame de provas (Súmula nº 7 do STJ).

Efeitos

Devolutivo: regra geral (CPC, art. 542, § 2º).

Suspensivo: exceção que pode ser obtida por meio de medida cautelar prevista no Regimento Interno do Superior Tribunal
de Justiça. Se o REsp. ainda não foi admitido pelo Tribunal de origem, a este compete apreciar tal medida cautelar.

Recurso Especial Retido (CPC, art. 542, § 3º)

Quando o recurso é interposto em face de decisão interlocutória em processo de conhecimento, cautelar e embargos à
execução, impõe-se a forma retida ao REsp.

Recurso Extraordinário

Competência (CF, art. 102, III)

Compete ao Supremo Tribunal Federal o julgamento do Recurso Extraordinário.

Objeto

Recurso Extraordinário pode ser interposto em face de sentenças e acórdãos. Como decidiu o Supremo Tribunal Federal18,
“o recurso extraordinário é cabível de decisão proferida em única ou última instância (C.F., art. 102, III). Por isso, é
inadmissível o RE, quando couber, na Justiça de origem, recurso da decisão impugnada. Súmula nº 281”207

A matéria encontra-se sedimentada na Súmula nº 640 do STF: “É cabível recurso extraordinário contra decisão proferida
por juiz de primeiro grau nas causas de alçada, ou por turma recursal de juizado especial cível e criminal.”

Hipóteses de Cabimento

Contrariar dispositivo desta Constituição;


Processo Civil – Processo de Conhecimento

A ofensa ao texto constitucional deve ser frontal e direta, não se admitindo o Recurso Extraordinário no caso de ofensa
indireta ou reflexa. Bem pondera Marcus Vinicius Rios Gonçalves que “não se admite o recurso extraordinário se a ofensa
à Constituição Federal for apenas indireta, isto é, se a decisão recorrida afrontar diretamente lei ordinária, e indiretamente
a Constituição. É preciso que a contrariedade à Constituição seja direta e formal.”

Calha também lembrar os termos da Súmula nº 636 do STF: “Não cabe recurso extraordinário por contrariedade ao
princípio constitucional da legalidade, quando a sua verificação pressuponha rever a interpretação dada a normas
infraconstitucionais pela decisão recorrida.”

Declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; trata-se de declaração de inconstitucionalidade incidenter


tantum. Julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face desta Constituição. Julgar válida lei local contestada
em face de lei federal.

AGRG. no AI 291.652-1/MG, rel. Min. Carlos Velloso, DJU 06.09.2001, pág. 9


18

180
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Requisitos

Exaurimento dos recursos cabíveis no Tribunal de origem. Por exemplo, não pode ser interposto o Recurso Extraordinário
se do acórdão não unânime admitir-se Embargos Infringentes. Assentou, a propósito, o Supremo Tribunal Federal que
“não se admite recurso extraordinário quando ainda cabível a interposição de recurso nas instâncias ordinárias.”

Prequestionamento: o tema constitucional, inclusive com menção expressa do dispositivo da Constituição violado, deve ser
previamente debatido e decidido pelo Tribunal de origem. Não basta que tenha sido alegado pelo recorrente no próprio RE.
Sobre o tema, afirma Nelson Nery Junior que “muito embora a CF vigente não mais se refira à expressão “questionar”,
ou “prequestionar”, como o fizeram, em sua maioria, as CF revogadas, o tema se encontra no sistema constitucional
brasileiro. O prequestionamento não foi criado pela Súmula do Pretório Excelso (STF 282 e 356). Nossa Corte Suprema
apenas explicitou o texto constitucional, interpretando-o. Quer dizer, o Supremo Tribunal Federal interpretou o sentido
da expressão “causas decididas”, constante do texto constitucional.”

Ao contrário do STJ, o Supremo Tribunal Federal “tem reafirmado a sua jurisprudência – já assentada na Súmula nº
356 –, no sentido de que, reagitada a questão constitucional não enfrentada pelo acórdão, mediante embargos de
declaração, se tem por prequestionada a matéria, para viabilizar o recurso extraordinário, ainda que se recuse o Tribunal
a quo a manifestar-se a respeito. (v.g., RE no 210638, 1ª T., 14.04.98, Pertence, DJ 19.6.98; RE 219934, PI, 14.06.00,
Gallotti, DJ 16.2.01).”

Regularidade procedimental

De acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal , “consoante dispõe o art. 321 do Regimento Interno do
Supremo Tribunal Federal, na petição de encaminhamento do recurso, deve-se indicar a alínea do inciso III do artigo
102 da Constituição Federal que o autoriza. A formalidade é essencial à valia do ato, consubstanciando, assim, ônus
processual.”

Processamento

Interpostição (CPC, art. 541)

É interposto perante o Presidente do Tribunal prolator do acórdão recorrido.

Prazo (CPC, art. 508)

O Ministério e a Fazenda Pública têm o prazo em dobro para interpor o Recurso Especial (Súmula nº 116 do STJ).

Contraditório (CPC, art. 542).

Juízo de Admissibilidade (CPC, art. 542, § 1º).

Preparo: Exigível o porte de remessa e retorno.

Julgamento (CPC, art. 543).


Pós-Graduação a Distância

No julgamento pode ser aplicado o art. 557, que confere amplos poderes, inclusive de julgamento do mérito recursal, ao
relator do Recurso Especial.

Havendo interposição simultânea de REsp. e RE, aquele deve ser julgado primeiramente (CPC, art. 543, § 1º).

Se o REsp. é provido, resta prejudicado o RE (CPC, art. 543, § 1º).

Negado seguimento ao RE pelo Presidente do Tribunal e interposto Agravo de Instrumento, pode-se julgá-los conjuntamente,
inclusive sem a subida do RE, se isso for possível (CPC, art. 544, § 3º).

181
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Forma (CPC, art. 541)

O REsp. e o RE devem ser interpostos por petições distintas (CPC, art. 541).

Admite-se, excepcionalmente, que eventual falta de assinatura seja suprida, inclusive no próprio Superior Tribunal de
Justiça, embora isso não seja unânime.

Falha atinente à capacidade postulatória é incorrigível nas instâncias extraordinárias (Súmula nº 115 do STJ).

Juízo de Admissibilidade

Competência

Presidente do Tribunal (CPC, art. 542, § 1º): “O Presidente do Tribunal não julga o Recurso Extraordinário. Por
isso, o seu pronunciamento é baseado num juízo de razoabilidade, ou seja, que avalia apenas a plausibilidade da
ofensa à lei federal.” Mas, de todo modo, é evidente que existe um limite muito tênue entre a admissibilidade e o
julgamento do RE.

Supremo Tribunal Federal: O Supremo Tribunal Federal faz o seu próprio juízo de admissibilidade e não está adstrito
àquele feito pelo Presidente do Tribunal de origem.

Espécies

Positivo: quando é admitido o processamento e julgamento do RE.

Negativo: quando não é admitido o processamento ou julgamento do RE. Se o Presidente do Tribunal nega seguimento
ao REsp. e a parte interpõe Agravo de Instrumento, este não pode deixar de ser remetido ao Supremo Tribunal Federal,
único competente para a sua apreciação.

Efeitos (CPC, arts. 497 e 542, § 2º)

Devolutivo: regra geral.

Suspensivo: exceção que pode ser obtida por meio de medida cautelar prevista no Regimento Interno do Supremo Tribunal
Federal. Se o RE ainda não foi admitido pelo Tribunal de origem, a este compete apreciar tal medida cautelar.

Recurso Extraordinário Retido (CPC, art. 542, § 3º)


Processo Civil – Processo de Conhecimento

Quando o recurso é interposto em face de decisão interlocutória em processo de conhecimento, cautelar e embargos à
execução, impõe-se a forma retida ao RE.

Nesse caso, o conhecimento do RE retido pressupõe novo RE.

Repercussão Geral

Segundo o art. 543-A do CPC, “o Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso
extraordinário, quando a questão constitucional nele versada não oferecer repercussão geral, nos termos deste
artigo.”

Sobre o tema, vale colacionar a lição de Bruno Matos e Silva : “De acordo com o § 3º do art. 102 da Constituição
Federal, o STF somente poderá recusar o conhecimento do recurso extraordinário por ausência de repercussão geral

182
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

pela manifestação de dois terços dos seus membros. Portanto, são necessárias manifestações de oito ministros para a
recusa da repercussão geral. Por essa razão o § 4º do art. 543-A do CPC dispõe que se a Turma decidir pela existência
da repercussão geral por um mínimo de quatro votos, ficará dispensada a remessa do recurso ao Plenário: ainda que
todos os demais sete ministros votem pela inexistência da repercussão geral, não terá sido atingido o número necessário
de oito ministros para a recusa do conhecimento do recurso por ausência de repercussão geral.”

Seção II

Do Recurso Extraordinário e do Recurso Especial

Art. 541. O recurso extraordinário e o recurso especial, nos casos previstos na Constituição Federal,
serão interpostos perante o presidente ou o vice-presidente do tribunal recorrido, em petições distintas,
que conterão:

I – a exposição do fato e do Direito;

Il – a demonstração do cabimento do recurso interposto;

III – as razões do pedido de reforma da decisão recorrida.

Parágrafo único. Quando o recurso fundar-se em dissídio jurisprudencial, o recorrente fará a prova
da divergência mediante certidão, cópia autenticada ou pela citação do repositório de jurisprudência,
oficial ou credenciado, inclusive em mídia eletrônica, em que tiver sido publicada a decisão divergente,
ou ainda pela reprodução de julgado disponível na Internet, com indicação da respectiva fonte,
mencionando, em qualquer caso, as circunstâncias que identifiquem ou assemelhem os casos
confrontados.

A fim de que seja cabível, tanto o recurso especial como o extraordinário, é necessário que a questão legal ou
constitucional já esteja presente nos autos, tendo sido decidida pelo tribunal (ou juízo, no caso de recurso extraordinário)
a quo (Súmula nº 282 do STF). Essa exigência, pacífica na jurisprudência dos tribunais superiores nacionais, decorre
da imposição, estabelecida nos arts. 102, III, e 105, III, da CF, de que as causas tenham sido “decididas” na instância
inferior, tendo essa decisão gerado o exame da lei federal ou da Constituição Federal. (MARINONI; ARENHART, 2008,
p. 572/573)

Os recursos extraordinário e especial pressupõem um jugado contra o qual já foram esgotadas as possibilidades
de impugnação nas várias instâncias ordinárias ou na instância única. Não podem ser exercitados per saltum,
deixando in albis alguma possibilidade de impugnação. As cortes de cúpula só devem manifestar-se sobre questão
que tenha sido resolvida na instância ordinária. Ora, tanto o recurso especial como o recurso extraordinário são
cabíveis de decisões que tenham julgado a causa em última ou única instância. Logo, enquanto houver recurso na
instância de origem, ainda não houv decisão de última ou única instância. É necessário, como se percebe, o prévio
esgotamento das instâncias ordinárias para que se possa intentar os recursos extraordinário e especial. (DIDIER
JR.; CUNHA, 2007, p. 260/261)

A expressão “causas decididas”, utilizada no art. 102, III, da CF/1988, apresenta sentido amplíssimo. Ela abrange as
Pós-Graduação a Distância

questões de mérito e as questões de processo, incluindo as que receberam resolução final no julgamento de agravo
perante o tribunal. Em outras palavras, inexistem limitações quanto à natureza e à origem do provimento impugnado.
(ASSIS, 2007, p. 680)

Exige a norma a indicação da fonte de onde foi extraída a decisão, com a finalidade de permitir-se a conferência quanto
à existência do julgado e fidelidade do teor transcrito àquilo que consta da página do Tribunal. Não fosse assim, não
seria possível o controle objetivo acerca da existência e conteúdo da decisão apontada como paradigma. (WAMBIER;
WAMBIER; MEDINA, 2008, p. 238)

183
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Súmula nº 636 do STF: Não cabe recurso extraordinário por contrariedade ao princípio constitucional da legalidade,
quando a sua verificação pressuponha rever a interpretação dada a normas infraconstitucionais pela decisão
recorrida.

Súmula nº 637 do STF: Não cabe recurso extraordinário contra acórdão de Tribunal de Justiça que defere pedido de
intervenção estadual em Município.

Súmula nº 638 do STF: A controvérsia sobre a incidência, ou não, de correção monetária em operações de crédito rural
é de natureza infraconstitucional, não viabilizando recurso extraordinário.

Súmula nº 640 do STF: É cabível recurso extraordinário contra decisão proferida por juiz de primeiro grau nas causas de
alçada, ou por turma recursal de juizado especial cível e criminal.

Súmula nº 682 do STF: Não ofende a Constituição a correção monetária no pagamento com atraso dos vencimentos de
servidores públicos.

Súmula nº 126 do STJ: É inadmissível recurso especial, quando o acórdão recorrido assenta em fundamentos constitucional
e infraconstitucional, qualquer deles suficiente, por si só, para mantê-lo, e a parte vencida não manifesta recurso
extraordinário.

Súmula nº 211 do STJ: Inadmissível recurso especial quanto à questão que, a despeito da oposição de embargos
declaratórios, não foi apreciada pelo tribunal a quo.

É requisito formal para o conhecimento do recurso extraordinário a indicação do dispositivo constitucional que autoriza
a sua interposição. (STF, AGRG. no AI no 408.405-5/GO, rel. Min. Maurício Corrêa, DJU 04.04.2003, p. 56)

O Supremo Tribunal Federal tem reafirmado a sua jurisprudência – já assentada na Súmula nº 356 –, no sentido de
que, reagitada a questão constitucional não enfrentada pelo acórdão, mediante embargos de declaração, se tem por
prequestionada a matéria, para viabilizar o recurso extraordinário, ainda que se recuse o Tribunal a quo a manifestar-se a
respeito. (v.g., RE no 210638, 1ª T., 14.04.98, Pertence, DJ 19.6.98; RE no 219934, PI, 14.06.00, Gallotti, DJ 16.2.01).
(STF, RE no 231.452-4/PR, rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJU 24.09.2004, p. 43)

Sendo notória a divergência, são dispensáveis as formalidades do § único do art. 541 do CPC. (STJ, REsp. no 438.859/
MG, 1ª T., rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJU 06.10.2003, p. 209)

Art. 542. Recebida a petição pela secretaria do tribunal, será intimado o recorrido, abrindo-se-lhe
vista, para apresentar contra-razões.
Processo Civil – Processo de Conhecimento

§ 1o Findo esse prazo, serão os autos conclusos para admissão ou não do recurso, no prazo de 15
(quinze) dias, em decisão fundamentada.

§ 2o Os recursos extraordinário e especial serão recebidos no efeito devolutivo.

§ 3o O recurso extraordinário, ou o recurso especial, quando interpostos contra decisão interlocutória


em processo de conhecimento, cautelar, ou embargos à execução ficará retido nos autos e somente
será processado se o reiterar a parte, no prazo para a interposição do recurso contra a decisão final,
ou para as contra-razões.

Decisão final, para fim de aplicação do § 3º do art. 542 do CPC, é aquela contra a qual não mais cabe qualquer recurso
ordinário; em outras palavras, decisão final, aqui, é aquela contra a qual somente cabe, em tese, recurso extraordinário
ou recurso especial. No mais das vezes, a decisão final será o acórdão que julgar a apelação ou os embargos infringentes.
(DIDIER JR.; CUNHA, 2007, p. 269/270)

184
Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

Cabe ao tribunal a quo, encarregado do juízo de admissibilidade provisório, constatar se há nas razões recursais alegação
da ofensa, por parte da decisão recorrida, à Constituição ou à lei federal. Se a ofensa realmente existiu ou não, isso
diz respeito ao próprio mérito do recurso, cuja apreciação é função do Supremo Tribunal Federal, no caso do recurso
extraordinário, e do Superior Tribunal de Justiça, no tocante ao recurso especial.

A regra do § 3º, do art. 542, do CPC, é endereçada ao órgão encarregado do controle de admissão do recurso especial
ou extraordinário na instância onde se proferiu o acórdão recorrido. Portanto, “compete ao Presidente do Tribunal de
Segunda Instância, sobrestar o recurso especial na origem, se configurada a hipótese prevista no § 3º, art. 542 do CPC”.
(THEODORO JÚNIOR, Humberto. O recurso especial retido. In Justilex 17/61)

Não podem ficar retidos os recursos que digam respeito a medidas liminares, de cunho cautelar ou antecipado, ou àquelas
que exijam imediata decisão, sob pena de prejuízo irreparável. (GONÇALVES, 2005, p. 152)

Súmula nº 216 do STJ: A tempestividade de recurso interposto no Superior Tribunal de Justiça é aferida pelo registro
no protocolo da Secretaria e não pela data da entrega na agência do correio.

O juízo de admissibilidade do recurso extraordinário no Tribunal a quo, por sua natureza preliminar e provisória, não
vincula a posterior análise no Supremo Tribunal Federalo das condições de viabilidade do apelo. (STF, AGRG. no AI no
403.746-1/SP, rel. Min. Maurício Corrêa, DJU 25.04.2003, p. 51)

RECURSO EXTRAORDINÁRIO – DECISÃO INTERLOCUTÓRIA – JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE IMEDIATO – MEDIDA


ADEQUADA – RECLAMAÇÃO. O meio adequado a alcançar, no Supremo Tribunal Federal, determinado de imediato
exame da admissibilidade do extraordinário é a reclamação. RECURSO EXTRAORDINÁRIO – DECISÃO INTERLOCUTÓRIA
– ARTIGO 542, § 3º, DO CÓDIGO DE Processo Civil – RETENÇÃO - AFASTAMENTO. Ante o quadro de risco maior,
com o perecimento do próprio Direito, impõe-se o exercício imediato do juízo primeiro de admissibilidade. (STF, MC em
Reclamação no 2.510-1/RJ, rel. Min. Marco Aurélio, DJU 21.05.2003, p. 32)

Art. 543. Admitidos ambos os recursos, os autos serão remetidos ao Superior Tribunal de
Justiça.

§ 1º Concluído o julgamento do recurso especial, serão os autos remetidos ao Supremo Tribunal


Federal, para apreciação do recurso extraordinário, se este não estiver prejudicado.

§ 2º Na hipótese de o relator do recurso especial considerar que o recurso extraordinário é prejudicial


àquele, em decisão irrecorrível sobrestará o seu julgamento e remeterá os autos ao Supremo Tribunal
Federal, para o julgamento do recurso extraordinário.

§ 3º No caso do parágrafo anterior, se o relator do recurso extraordinário, em decisão irrecorrível,


não o considerar prejudicial, devolverá os autos ao Superior Tribunal de Justiça, para o julgamento
do recurso especial.

Se ambos os recursos forem interpostos contra a mesma decisão e assim admitidos na origem, deverá o especial ser
julgado em primeiro lugar, pois da decisão do especial, se de procedência, poderá restar totalmente prejudicado o
extraordinário. (PINTO, 2004, p. 207)
Pós-Graduação a Distância

Recurso extraordinário prejudicado: Fica este prejudicado, como é óbvio, se o Superior Tribunal de Justiça houver dado
provimento ao especial, para reformar ou anular o acórdão recorrido. Todavia, se parcial o provimento, é possível que
subsista o interesse do recorrente no julgamento do extraordinário. (MOREIRA, 2008, p. 613)

Ocorre o prejuízo do extraordinário quando o recorrente haja logrado êxito no julgamento do especial. O Direito é orgânico
e dinâmico, sendo certo que, a teor do disposto no art. 512 do Código de Processo Civil, o julgamento proferido pelo
Tribunal substituiria a sentença ou a decisão recorrida que tiver sido objeto do recurso. (STF, AGRG. no RE no 276.868-5/
RJ, rel. Min. Marco Aurélio, DJU 29.06.2001, p. 50)

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Quadro Geral dos Meios de Impugnação Unidade XI

De regra, o julgamento do REsp deve preceder o do RE, salvo quando o último é que possa prejudicar o do primeiro:
esse o caso, no qual cinge-se o REsp à discussão do termo inicial de equiparação de proventos e vencimentos, ao passo
que o RE questiona a juridicidade da própria equiparação. (STF, AI no 127.878-1/SP, rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJU
22.02.2002, p. 37)

Art. 543-A. O Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso
extraordinário, quando a questão constitucional nele versada não oferecer repercussão geral, nos
termos deste artigo.

§ 1o Para efeito da repercussão geral, será considerada a existência, ou não, de questões relevantes
do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico, que ultrapassem os interesses subjetivos
da cusa.

§ 2o O recorrente deverá demonstrar, em preliminar do recurso, para apreciação exclusiva do Supremo


Tribunal Federal, a existência da repercussão geral.

§ 3o Haverá repercussão geral sempre que o recurso impugnar decisão contrária a súmula ou
jurisprudência dominante do Tribunal.

§ 4o Se a Turma decidir pela existência da repercussão geral por, no mínimo, 4 (quatro) votos, ficará
dispensada a remessa do recurso ao Plenário.

§ 5o Negada a existência da repercussão geral, a decisão valerá para todos os recursos sobre matéria
idêntica, que serão indeferidos liminarmente, salvo revisão da tese, tudo nos termos do Regimento
Interno do Supremo Tribunal Federal.

§ 6o O Relator poderá admitir, na análise da repercussão geral, a manifestação de terceiros, subscrita


por procurador habilitado, nos termos do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal.

§ 7o A Súmula da decisão sobre a repercussão geral constará de ata, que será publicada no Diário
Oficial e valerá como acórdão.

O fato de a demonstração da “repercussão geral” ser feita para “apreciação exclusiva do Supremo Tribunal Federal”
- CPC, § 2º do art. 543-A – e a circunstância de a decisão a respeito ser irrecorrível (CPC, art. 543-A, caput; RISTF,
art. 326 – ER no 21/2007) nem por isso autorizam concluir que aquela deliberação sobre a repercussão geral possa ser
secreta e imotivada, como antes se passava com a extinta arguição de relevância (RISTF, arts. 151, I, c/c 328, VIII), à
luz do que dispõe o vigente texto constitucional: art. 93, IX, cf. EC no 45/2004.

O recurso extraordinário é interposto perante o presidente ou vice-presidente do tribunal recorrido (CPC, art. 541).