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PODER JUDICIÁRIO

JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO
SLAT - 1000505-85.2019.5.00.0000
REQUERENTE : COMPANHIA DO METROPOLITANO DO DISTRITO FEDERAL METRO DF
REQUERENTE : DISTRITO FEDERAL
REQUERIDO : UNIÃO FEDERAL (AGU)

D E C I S Ã O

DISTRITO FEDERAL e METRÔ-DF, com fundamento no art.


4º da Lei 8.437/92, formulam pedido de suspensão da tutela provisória
deferida pelo Desembargador Relator Brasilino Santos Ramos do Tribunal
Regional do Trabalho da 10ª Região nos autos do Dissídio Coletivo de
Greve nº 0000309-56.2019.5.10.0000 e do Dissídio Coletivo de Natureza
Mista nº 0000373-66.2019.5.10.000.
Buscam os requerentes a suspensão da determinação
judicial “que o METRÔ-DF ‘se abstenha de efetuar quaisquer descontos
salariais pelos dias parados em decorrência da participação na greve em
curso e, bem assim, devolva os valores comprovadamente descontados dos
trabalhadores por esse motivo’, (...) bem como seja suspensa a eficácia
da liminar proferida pelo mesmo Desembargador, na data de 29.06.2019,
(...), que determinou ‘manter hígidas todas as cláusulas do atual
Acordo Coletivo de Trabalho, até o julgamento do dissídio pela Eg.
Primeira Seção Especializada do TRT 10’”. (ID 059d435, p. 46).
Relatado, decido.
O cabimento da presente medida é previsto no art. 4º
da Lei 8.437/92, verbis:
“Art. 4° Compete ao presidente do tribunal, ao qual couber o
conhecimento do respectivo recurso, suspender, em despacho fundamentado, a
execução da liminar nas ações movidas contra o Poder Público ou seus agentes,
a requerimento do Ministério Público ou da pessoa jurídica de direito público
interessada, em caso de manifesto interesse público ou de flagrante
ilegitimidade, e para evitar grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e à
economia públicas.”.
No mesmo sentido é a previsão contida no art. 309 do
Regimento Interno desta Corte:
“O Presidente, nos termos da lei, a requerimento do Ministério Público
do Trabalho ou da pessoa jurídica de direito público interessada, em caso de
manifesto interesse público ou de flagrante ilegitimidade, e para evitar grave
lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia públicas, poderá, por decisão
fundamentada, suspender a execução de liminar ou a efetivação de tutela
provisória de urgência ou da evidência concedida ou mantida pelos Tribunais

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Regionais do Trabalho nas ações movidas contra o Poder Público ou seus
agentes”.
A suspensão de liminar ou de antecipação de tutela
deferida contra o poder público compete ao presidente do tribunal ao
qual couber o conhecimento do respectivo recurso (art. 4º da
Lei 8.437/92).
Observando o disposto neste artigo, o requerente
apresentou pedido de suspensão perante o Tribunal Superior do Trabalho
em 05/7/2019.
Nos autos do Dissídio Coletivo de Greve nº
0000309-56.2019.5.10.0000, o Desembargador Relator, ao deferir a
liminar, apresentou os seguintes argumentos (ID 59a3cba, p. 2/3):
“A respeito do primeiro pleito, diga-se que a Seção de Dissídio Coletivo
do Col. TST possui firme jurisprudência no sentido de que a greve configura a
suspensão do contrato de trabalho e, por isso, como regra, não é devido o
pagamento dos dias de paralisação, independentemente da declaração de
abusividade ou não, exceto quando a questão é negociada entre as partes ou em
situações excepcionais, como na paralisação motivada por descumprimento de
instrumento normativo coletivo vigente, não pagamento de salários e más
condições de trabalho. Nesse sentido, precedentes: RO-236-44.2017.5.14.0000,
Relator Aloysio Corrêa da Veiga, Publicação de 18/5/2018;
RO-1002127-53.2016.5.02.0000, Relator Ministra Maria de Assis Calsing,
Publicação de 5/5/2017; RO-7037-51.2014.5.15.0000, Relatora Ministra Kátia
Magalhães Arruda, Publicação de 17/2/2017; RO-5681-50.2016.5.15.0000,
Relatora Ministra Dora Maria da Costa, Publicação de 17/0/2017.
No caso dos autos, a própria inicial deste dissídio sinaliza que o
movimento paredista tem por motivação o descumprimento de acordos
coletivos e sentenças normativas.
Além disso, o conjunto fático-probatório produzido nestes autos
comprova a alegação do suscitado.
Desse modo, em cognição sumária, diviso a presença da plausabilidade
do direito invocado e o receio de dano irreparável aos trabalhadores grevistas, a
autorizar a concessão da liminar requerida.”
Proferiu, ao final, o seguinte comando judicial:
“Nessa quadra, DEFIRO PARCIALMENTE a liminar requerida
para determinar que a suscitante se abstenha de efetuar quaisquer
descontos salariais pelos dias parados em decorrência da participação
na greve em curso e, bem assim, devolva os valores
comprovadamente descontados dos trabalhadores por esse motivo. Esta
decisão, ainda que com índole provisória, perdurará até o julgamento do
dissídio coletivo pela 1ª Seção Especializada deste egr. Tribunal,
ocasião em que se definirá se deve ou não ser mantida a presente
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medida. Fixa-se multa diária no importe de R$5.000,00 (cinco mil
reais), por empregado prejudicado, tendo por termo inicial o prazo de 48
(quarenta e oito) horas após a publicação desta decisão, podendo quaisquer
das partes apresentarem comprovação do cumprimento das obrigações
ora impostas.”
No mesmo processo, o Desembargador estendeu o
referido prazo para o dia 08/7/2019:
“Nesse contexto, ante o conjunto probatório existente nos autos, firme no
compromisso de as partes poderem se compor e encontrarem a melhor situação,
e com vistas a evitar-se prejuízos ainda maiores, decido: a) acolher o pedido do
METRÔ/DF para dilatar o prazo para depósito dos valores descontados
alusivos aos dias parados em virtude de participação na greve até 8/7/2019,
segunda-feira, permanecendo, porém, a cominação de multa em caso de
descumprimento, nos parâmetros da decisão de fls. 5.589, pdf, destes autos;”
De fato, a jurisprudência do Tribunal Superior do
Trabalho está consolidada no sentido de que haverá interrupção do
contrato de trabalho quando a greve decorre de descumprimento de normas
pelo empregador, conforme se depreende dos seguintes julgados:
"(...) II) GREVE - HIPÓTESE DE SUSPENSÃO CONTRATUAL
- INDEVIDO O PAGAMENTO DOS DIAS DE PARALISAÇÃO . 1.
Predomina nesta Seção o entendimento de que, sendo a greve uma hipótese de
suspensão do contrato de trabalho, não é devido o pagamento dos dias em que
não houver labor em virtude da paralisação. Excetuam-se dessa regra apenas os
casos em que as partes negociarem de forma diversa ou, ainda, quando o
movimento paredista for motivado por descumprimento de regras normativas
ou legais pelo empregador, tal como nas hipóteses de não pagamento de
salários ou de más condições de trabalho. Nesses casos, o período de
paralisação será considerado como de interrupção do contrato de trabalho,
sendo devido o pagamento dos salários. 2. Ademais, o STF no julgamento do
RE 693456/RJ, relativo ao Tema 531 da tabela de Repercussão Geral, fixou a
de que tese "a administração pública deve proceder ao desconto dos dias de
paralisação decorrentes do exercício do direito de greve pelos servidores
públicos, em virtude da suspensão do vínculo funcional que dela decorre,
permitida a compensação em caso de acordo. O desconto será, contudo,
incabível se ficar demonstrado que a greve foi provocada por conduta ilícita do
Poder Público ". (...) (RO-1001809-70.2016.5.02.0000, Seção Especializada em
Dissídios Coletivos, Relator Ministro Ives Gandra Martins Filho, DEJT
20/03/2019).
(...) 2. DESCONTO DOS DIAS DE PARALISAÇÃO. A regra geral no
Direito brasileiro, segundo a jurisprudência dominante, é tratar a duração do
movimento paredista como suspensão do contrato de trabalho (art. 7º, Lei
7.783/89). Isso significa que os dias parados, em princípio, não são pagos, não
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se computando para fins contratuais o mesmo período. Entretanto, caso se trate
de greve em função do não cumprimento de cláusulas contratuais relevantes e
regras legais pela empresa (não pagamento ou atrasos reiterados de salários,
más condições ambientais, com risco à higidez dos obreiros, etc.), em que se
pode falar na aplicação da regra contida na exceção do contrato não cumprido ,
a greve deixa de produzir o efeito da mera suspensão. (...)"
(RO-4030-19.2011.5.02.0000, Seção Especializada em Dissídios Coletivos,
Relator Ministro Mauricio Godinho Delgado, DEJT 03/02/2017).
No entanto, o exame acerca de greve baseada no
efetivo descumprimento depende de cognição exauriente, por se tratar de
excepcionalidade, sobretudo quando a greve envolve serviço público
essencial. A manutenção da liminar que determina a abstenção de
descontos futuros refoge à regra do art. 7º da Lei 7.783/89 acerca dos
efeitos do movimento paredista sobre os contratos de trabalho,
atribuindo custo social significativo à população mediante uma análise
monocrática sumária.
Quanto à devolução dos descontos efetuados sob pena
de multa, a determinação encontra óbice na liminar proferida na ADPF
524, em que o Ministro relator decidiu pela impossibilidade de adoção
de medidas executivas típicas em relação à entidade da Administração
Indireta ora requerente, conforme se constata do trecho seguinte:
“Ante essas razões, defiro liminar, ad referendum do Tribunal Pleno do
STF, com a finalidade de determinar ao Tribunal Regional do Trabalho da 10ª
Região e às varas trabalhistas com jurisdição no DF “que suspendam medidas
de execução típicas de direito privado empreendidas contra o Metrô-DF,
impossibilitando as constrições patrimoniais e inscrição da entidade no
cadastro de devedores trabalhistas, bem como a suspensão imediata de
bloqueios, originários de débitos trabalhistas do Metrô-DF, em contas dessa
empresa, devendo haver imediata liberação dos valores bloqueados.”
A imposição de obrigação de restituir descontos
efetuados mediante fixação de multa cominatória insere-se dentre das
medidas executivas típicas de direito privado, porquanto o
descumprimento permitiria a aplicação de multa e consequente execução
desse crédito, além da possibilidade de bloqueio de valores em conta da
empresa punida.
Muito embora o julgamento de mérito já tenha se
iniciado, houve pedido de vista, não havendo notícia de revogação
expressa da liminar.
No que tange à liminar do Dissídio Coletivo de
Natureza Mista nº 0000373-66.2019.5.10.000, a decisão que mantém o ACT
em vigor até decisão final do dissídio no TRT configura reconhecimento
de “ultratividade” da norma coletiva.
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A ocorrência da “ultratividade” se caracteriza pela
determinação de aplicação de norma coletiva preexistente a período
posterior ao termo final da sua vigência, o que se verifica ter
ocorrido in casu, porquanto, na hipótese, a liminar deferiu a
manutenção de todas as cláusulas do Acordo Coletivo até o julgamento
pelo órgão competente no Tribunal Regional:
“Nesse contexto, DEFIRO PARCIALMENTE a tutela de urgência
cautelar a fim de manter hígidas todas as cláusulas do atual Acordo Coletivo de
Trabalho, até o julgamento do dissídio pela Eg. Primeira Seção Especializada
do TRT 10. Fixo multa diária no importe de R$5.000,00 (cinco mil reais), por
empregado prejudicado. Reforço que essa prorrogação não configura
adesão das regras coletivas aos contratos de trabalho dos
empregados, não se incorporando aos respectivos patrimônios jurídicos
individuais.”
Além disso, registro que a concessão de medida
cautelar pressupõe a reversibilidade da medida, na forma do art. 300, §
3º, do CPC. O cumprimento das vantagens estabelecidas em norma coletiva
tornaria irreversível a tutela provisória, em especial diante da
natureza alimentar de diversas vantagens, bem como, por analogia, em
virtude da lógica exposta no art. 6º, § 3º, da Lei 4.725/65:
Art. 6º (...)
§ 3º O provimento do recurso não importará na restituição dos salários ou
vantagens pagos, em execução do julgado.
O interesse público, no presente caso, é manifesto. Trata-se de empresa
pública dependente (art. 2º, inc. III, da Lei Complementar 101/2000), razão
pela qual os entes públicos criadores repassam valores à referida entidade,
quando necessário.
Além disso, o risco grave à ordem e à economia
pública revela-se patente. Caso seja mantida a tutela provisória, a
entidade teria que restituir os valores descontados dos grevistas, além
de continuar pagando salários e mantendo as vantagens da norma coletiva
durante a greve (que já dura mais de dois meses), contrariando a regra
estabelecida no art. 7º da Lei 7.783/89 e art. 614, § 3º, da CLT, por
baixa probabilidade de restituição dos valores pagos no caso de
eventual sucumbência nos Dissídios Coletivos.
O cumprimento imediato da medida inviabilizaria a
adequada prestação de serviços públicos pela entidade (a greve tende a
se perpetuar diante da garantia de intangibilidade salarial),
prejudicando a população, e oneraria indiretamente de forma excessiva o
erário do Distrito Federal, sem que houvesse previsão orçamentária para
o aludido repasse.

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Diante de todos os fundamentos expostos, tem-se por
presente o manifesto interesse público, bem como a iminência de grave
lesão à ordem e à economia públicas.
Ante o exposto, DEFIRO o pedido para cassar os
efeitos das tutelas provisórias concedidas nos autos do Dissídio
Coletivo de Greve nº 0000309-56.2019.5.10.0000 (na parte de devolução
de descontos realizados e abstenção de realização de novos descontos
dos grevistas) e do Dissídio Coletivo de Natureza Mista nº
0000373-66.2019.5.10.000 (no que se refere à manutenção das cláusulas
da norma coletiva até o julgamento no Tribunal Regional do Trabalho).
Portanto, diante da presente liminar, a empresa pública está
dispensada, até o trânsito em julgado, de restituir os valores
descontados pelas faltas dos participantes da greve e de manter o
pagamento dos salários durante o movimento, bem como se reconhece a
prescindibilidade de aplicação das normas coletivas sem que haja acordo
coletivo ou termo aditivo devidamente formalizado entre a empresa e o
sindicato.
Os efeitos desta decisão perdurarão até o trânsito em
julgado da decisão de mérito no julgamento dos recursos no âmbito do
Tribunal Superior do Trabalho, nos termos do art. 4º, § 9º, da Lei
8.437/1992.
Intimem-se, com urgência, os requerentes, o requerido
e o Desembargador Relator dos referidos Dissídios Coletivos no Tribunal
Regional do Trabalho da 10ª Região.
Intime-se o Ministério Público do Trabalho, na forma
da lei.
Publique-se.
Brasília, 9 de julho de 2019.

JOAO BATISTA BRITO PEREIRA


Ministro Presidente do Tribunal Superior do Trabalho

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