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A construção da memória nos sites de redes sociais: percepções sobre

experiências no Facebook1
DALMASO, Silvana (doutoranda) 2
Universidade Federal do Rio Grande do Sul/RS

Resumo: Os sites de redes sociais têm alterado a forma como nos relacionamos com as pessoas, com os
lugares e com nós mesmos. Nossas experiências nestes ciberespaços têm resultado em memórias do
cotidiano que compartilhamos com nosso círculo de amizades estabelecido no ambiente online. O
objetivo deste artigo é fazer uma discussão sobre as relações entre sites de redes sociais e
compartilhamento de memórias do presente, considerando o Facebook como um destes espaços de
produção, expressão e visibilidade de narrativas cotidianas. Para isso, trazemos alguns apontamentos
breves sobre sites de redes sociais, sobre como estes sites atuam para a construção da memória do
presente e por fim apontamos como exemplos algumas ferramentas do Facebook que direcionam e
estimulam os usuários a produzir e compartilhar memórias de si mesmo. Estas redes narrativas e de
memórias imediatas nos sinalizam para novos sentidos a serem buscados a partir dessas relações entre as
pessoas, sua rede social e a tecnologia.

Palavras-chave: sites de redes sociais; Facebook; memória

Introdução
Na rede mundial de computadores, fizemos parte de múltiplas conexões,
construímos novos relacionamentos, estabelecemos conversações e nos expressamos
das mais variadas formas. É notório que a expansão das tecnologias aos espaços
cotidianos ampliou as nossas possibilidades de viver (Kenski, 1997) bem como vem
transformando as relações humanas. A leitura e a escrita no computador, as múltiplas
formas de linguagem, a anulação dos espaços geográficos e a comunicação em tempo
real trouxeram outras experiências a nossa vivência e a nossa sociabilidade. Nos
espaços de comunicação e conexão do ciberespaço3, o hipertexto passa a representar a
linguagem híbrida da cultura contemporânea (Nojosa, 2007), incorporando elementos
das tradições escrita e oral, interconectando textos, estabelecendo novos fluxos de
leitura e ampliando a rede de significações a partir da interligação de linguagens

1
Trabalho apresentado no GT de História da Mídia Digital, integrante do 10º Encontro Nacional de
História da Mídia, 2015.
2
Jornalista, mestre em Comunicação Midiática pela Universidade Federal de Santa Maria, doutoranda
pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS), Rio Grande do Sul, Brasil. Email: silvana.dalmaso@gmail.com.
3
A partir do pensamento de Willian Gibson, Lemos (2008) define o ciberespaço como um “um espaço
não-físico ou territorial composto por um conjunto de redes de computadores através das quais todas as
informações (sob as suas mais diversas formas) circulam” (p.127).
diversificadas (texto, imagem, som).
Os sites de redes sociais vêm integrar esta hipercomplexidade da comunicação e
das relações interpessoais. Se anteriormente, os blogs4 funcionavam como redes de
memória que a partir das potencialidades do hipertexto difundiam na internet nossas
opiniões e dicas de links, atualmente são os sites de redes sociais que têm
desempenhado o papel de espaço de manifestação pública sobre todo e qualquer tema.
Cada vez mais conectados a estes espaços de expressão, nós socializamos nossas
atividades cotidianas, mostramos os lugares que frequentamos, com quem estamos nos
relacionamos, o que estamos assistindo, lendo, ouvindo, cozinhando, entre outras ações
banais que vão construindo, assim, uma memória que é compartilhada, visível, dividida
entre nossas conexões e exposta à interação.
Neste artigo nos propomos a pensar sobre a relação entre memória e sites de
redes sociais, considerando de forma mais específica o Facebook e algumas de suas
ferramentas que potencializam a produção dessa memória das redes. Nossa discussão
vai mesclar alguns aspectos bem gerais sobre os sites de redes sociais, sobre a
construção da memória nestes espaços, e sobre algumas ferramentas do Facebook que
estimulam a produção dessa memória em fluxo.

Sites de redes sociais, memória e Facebook

Para um site de rede social ser assim denominado, Boyd e Ellison (2008)
afirmam que é preciso que o indivíduo construa, dentro de um determinado sistema, um
perfil público ou semipúblico, que ele compartilhe uma conexão com uma lista de
usuários e que ele possa visualizar e cruzar sua lista de conexões com as conexões feitas
por outros participantes dentro do mesmo sistema. É exatamente esta capacidade dos
usuários de tornar visível a sua rede social, provocando assim novas conexões, que
caracteriza e torna único o site de rede social (BOYD e ELLISON, 2008). Para além de

4
Considerados como gêneros nativos da internet (BLOOD, 2003, VARELA 2007), os blogs começaram a
se disseminar no final da década de 1990 e se caracterizavam pela linguagem hipertextualizada,
organizada ao redor de links para outros endereços eletrônicos. De diários íntimos, com caráter pessoal,
confessional e subjetivo, passaram a ser importantes ferramentas de comunicação. Além das postagens
datadas por ordem cronológica inversa, os blogs também se assemelham a outras redes sociais pelo fato
de formarem uma rede de seguidores, proprietários de outros blogs, e pela possibilidade de publicação de
comentários.
conectarem-se com novos indivíduos, os participantes deste espaço da internet estão
interessados em se comunicar e ampliar os laços com pessoas que já fazem parte de sua
rede social construída no espaço offline5. Na mesma linha de pensamento, Recuero
(2009) aponta que o site de rede social é um espaço utilizado para a expressão das redes
sociais na internet, pois permite a visibilidade dessas redes e a manutenção dos laços
sociais já existentes na vida offline. Os atores sociais – pessoas, instituições, empresas,
marcas e demais grupos – e as conexões – os laços sociais ou as interações estabelecidas
nesse ambiente – são as duas dimensões que embasam o funcionamento desses sites
(RECUERO, 2009).
O que fazemos com este espaço é a questão que tem movido muitas pesquisas na
área. Nossos perfis nas redes sociais passam a atuar como se fossem uma extensão
nossa, uma presença extra de nossa identidade (SANTAELLA, 2013). A autora destaca
que os hábitos e usos que cada um de nós faz nessas redes constituem novas
experiências de subjetivação, afinal criamos uma espécie de identidade digital. Casa
usuário usufrui de uma certa visibilidade no seu entorno e atua com a intenção de dar-se
a conhecer, conhecer os outros e interagir com eles. “A transparência é reforçada pelo
simples fato de cada cibercidadão poder expressar suas ideias, necessidades, sugestões,
críticas ou qualquer tipo de sentimento. Assim, qualquer um passa a funcionar como
gerador de conteúdos e de vínculos emocionais” (2013, p.44). Para Rezende e
Martinuzzo (2014), que pesquisaram a influência do Facebook na opinião pessoal dos
usuários, as redes sociais se estabeleceram como lugares do ciberespaço destinados ao
compartilhamento de narrativas construídas a partir de textos, fotografia, vídeos,
animações, entre outras mensagens diversas.
Noguera Vivo (2010) entende que as redes sociais não se configuram como
produtores em si e sim como espaços essencialmente gestores de conteúdo alheio. A
eficácia dessas redes é determinada pelo gerenciamento de uma quantidade infinita de
conteúdos multimídia que agregam hipertexto, vídeo, imagem, entre outros recursos

5
O debate entre vida online e off-line se assemelha à polarização entre vida real e vida virtual. Sherry
Turkle, em entrevista a Casalegno (1999) questiona a separação definitiva entre estas duas dimensões,
como se apenas uma pudesse ser valorada como real. Ela explica que à medida que as pessoas optam por
passar o tempo nos lugares chamados virtuais, elas desejam que estas fronteiras entre real e virtual sejam
permeáveis. A autora prefere usar os termos Virtual e Resto da Vida, desvinculando o “real” da dimensão
estritamente material.
com o objetivo de fortalecer a socialização e a interação de amigos, fãs ou seguidores,
termos que costumam nomear os usuários dos sites de redes sociais. É justamente nesta
perspectiva que consideramos aqui o Facebook: um site de rede social que gerencia
conteúdos e conexões produzidas pelos usuários do sistema.
Em 2014, o Facebook completou dez anos de existência e vem se consolidando
como a rede social mais acessada do mundo. Em 2012, atingiu a marca de um bilhão de
usuários ativos e atualmente, conforme a newsroom administrada pela empresa, conta
com um bilhão e quatrocentos e quarenta milhões de usuários ativos6. Ao nos
cadastramos no site, fornecemos ao sistema uma série de informações pessoais como
nome, email, idade, telefone, profissão, local de trabalho etc e seguimos depois
alimentando nosso perfil com informações sobre nossos gostos, posicionamentos
políticos, ações profissionais e de lazer, entre outras dezenas de atividades cotidianas.
Dessa forma, vamos alimentando o Facebook de dados que provavelmente serão
utilizados pela empresa para atrair publicidade a partir de tendências de usos dos
usuários, e para o desenvolvimento de estratégias e ferramentas que mantenham ativo o
participante da rede. O que queremos dizer é que o Facebook necessita do engajamento
do usuário, por isso ele lança ferramentas para intensificar e estimular o
compartilhamento de conteúdo, a interação e a fabricação de memórias.
Neste sentido, Rendeiro (2011) percebe as redes sociais como locais de produção
de subjetividades e memórias. Os álbuns de fotografias digitais disponibilizados pelo
usuário assemelham-se às antigas caixas de fotografias que simbolizavam a presença do
afeto e das lembranças. Assim, redes como Orkut7 e Facebook criaram os hábitos de
exposição da vida pessoal, de confissão e de produção ilimitada de memórias. Tudo é
relatado, assemelhando-se a um desejo de arquivar recordações, ainda que as dinâmicas
das redes sociais tornem estes relatos efêmeros, fragmentados e diluídos em meio ao
intenso fluxo de circulação de conteúdos nestes espaços.
Assim, essa permanente atualização da memória é parte do jogo da escrita
nas redes sociais. Isso também evidencia o medo do esquecimento; tudo é
constantemente atualizado, arquivado ou colecionado para ser exposto. Cada

6
Dado referente à março de 2015 conforme o endereço http://newsroom.fb.com/company-info/. Acesso
em 5 de maio de 2015.
7
Site de rede social, desenvolvido em 2001 e lançado pelo Google em 2004, que combinava
características de sites de redes sociais anteriores como a criação de perfis, criação de comunidades e a
visibilidade da rede social de cada ator (RECUERO, 2009). O Orkut parou de operar em setembro de
2014.
usuário cria o seu perfil, escolhe, adere ou cria as suas próprias comunidades,
tece um nó colocando mais fios no sistema (RENDEIRO, 2011, p.260).

Assim, as memórias que circulam no Facebook aparecem em forma de relatos


escritos e imagens que expressam nossas opiniões, gostos, sentimentos, medos,
apreensões, amizades, afetos, amores, lugares, conquistas, dentre tantas outras
atividades. Subjetividades que são materializadas, compartilhadas e postas à apreciação
de nossos contatos na rede social. “A subjetividade do sujeito no mundo contemporâneo
está diretamente relacionada à visibilidade, promessa maior das redes sociais”
(RENDEIRO, 2011, p. 262).
As tecnologias móveis – celulares e tablets - conectadas à internet e aos serviços
de localização fizeram com que essa memória cotidiana fosse registrada e
imediatamente compartilhada, no momento do acontecimento, no Facebook. Trata-se de
uma memória do presente, imediata, que ao ser publicada se expõe à aprovação e à
interação do círculo de amizades.
Essa memória do presente é uma memória efêmera e imediata, compartilhada
em tempo real com seus amigos e familiares. Esta, que podemos chamar de
memória compartilhada, seria uma espécie de memória imediata e ao mesmo
tempo mediada pelo espaço virtual, o ciberespaço (HENRIQUES;
DODEBEI, 2013, p.262).

Além de disseminar memórias instantâneas, imediatas e conectadas à realidade


do tempo presente, o Facebook também tem possibilitado a recuperação ou a
atualização dos fatos do passado. O reencontro com antigos conhecidos e amigos,
encontrados via redes sociais, a criação de grupos como os de colegas de escola ou da
faculdade são exemplos de retorno do passado, um fenômeno que, segundo Cunha
(2011), mexe com o presente, pois traz à tona registros, fatos, lembranças que nem
todos gostariam de rememorar. Aquilo que passou torna-se atual novamente, por isso,
de certa forma, a internet, a digitalização de materiais e as dinâmicas das redes sociais
nos fazem confrontar com uma memória resignificada, posta em circulação em outros
ambientes. “Somados, redes sociais, com imagens, registros, narrativas, que falam de
pessoas e lugares, conectados à digitalização permanente de documentos, o mundo vive
um tempo em que a memória organizada em rede constitui uma grande e larga
memória” (CUNHA, 2011, p.103).
A vivência dos lugares que frequentamos ou das atividades que fazemos estende-
se agora às redes, como se adquirissem existência somente quando registradas em uma
rede social. As atividades mais banais transformam-se em escrita, imagem, narrativa e
memória. No Facebook, as pessoas, a cidade e seus múltiplos espaços desempenham
quase uma função de cenário para que nossos momentos sejam narrados e
compartilhados com os contatos da rede social da forma mais atraente possível. “E esta
narração móvel proporcionada pelo comportamento nômade dos indivíduos, é sem
dúvida, uma das grandes abastecedoras desta larga e infinita rede narrativa que passa a
construir uma memória coletiva, em rede, que vai somando camadas de história”
(CUNHA, 2011, p.104). Assim, as redes sociais e suas narrativas atuam para a
construção abundante de uma memória coletiva universal, composta por múltiplas
vozes.
O mais importante é o caráter multifacetado e coletivo da construção da
memória, a retroalimentação permanente pelo abastecimento do novo e do
passado que chega associado a formatos novos. O passado assume
importância capital, como forma de confirmação do presente cada vez mais
acelerado. Vivemos em plena reconfiguração do tempo presente, por
intermédio de uma memória que nunca esteve tão viva e em permanente
atualização (CUNHA, 2011, p.113,114).

Essa memória coletiva é engendrada a partir das memórias individuais.


Halbwachs (1990) afirma que a memória individual precisa, muitas vezes, da coletiva
para confirmar lembranças e preencher lacunas. As memórias individuais são também
construídas a partir do relato de um grupo, são alimentadas pelas lembranças de outras
pessoas. Já nossa memória pessoal envolve as lembranças internas ou interiores e
também as exteriores ou sociais. As duas dimensões também podem ser definidas como
memória autobiográfica e memória histórica, sendo a segunda bem mais ampla que a
primeira. Para o autor, a memória coletiva não estabelece linhas nítidas de separação
entre passado e presente, pois ela “é uma corrente de pensamento contínuo, de uma
continuidade que nada tem de artificial, já que retém do passado somente, aquilo que
ainda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo que a mantém”
(HALBWACHS, 1990, p.81-82).
Nas formulações sobre memória e história, Pierre Nora (1993) destaca que a
memória é um fenômeno sempre atual, em permanente evolução “aberta à dialética da
lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável
a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas
revitalizações” (NORA, 1993, p.9). Lembrança e esquecimento, retorno e atualização
são, assim, processos caraterísticos da memória que se refletem também nos sites de
redes sociais que ao atualizar memórias passadas estão também resignificando-as.
Podemos dizer que o Facebook é um grande agregador de micro memórias
individuais ou pessoais, acionadas pelos perfis dos usuários e, de forma mais ampla, um
espaço que faz circular a memória coletiva devido ao alto grau de conexão e interação
entre as pessoas da rede. Porém, estas memórias múltiplas que são produzidas e
publicadas pelo Facebook, bem como as que circulam também no Instagram8 ou no
Twitter9, são efêmeras e perdem rapidamente sua atualidade em meio ao intenso fluxo
de conteúdo. O que foi publicado ontem se perde em meio às publicações de hoje, mais
atuais, mais imediatas e, portanto, mais importantes.
Como já mencionamos, o Facebook necessita da nossa produção e
compartilhamento de relatos, narrativas, memórias. Por isso, o próprio site se estrutura
em mecanismos direcionados para essas ações e está sempre procurando lançar novas
ferramentas que façam o usuário fornecer mais informações ao sistema, manter as
interações e permanecer ativo na rede.

A linha do tempo e a recuperação de lembranças


São em nossos perfis pessoais no Facebook10 que vamos construir narrativas e
memórias de nós mesmos e dos outros. O perfil abrange a linha do tempo (timeline), o
lugar onde visualizamos nossas próprias publicações e as histórias em que somos
marcados pelos amigos. Na linha do tempo, organizada por data de publicação,
podemos postar fotografias, vídeos, links para outros textos, eventos cotidianos
(formatura, casamento, local de morada e de trabalho), e qualquer outro tipo de

8
Rede social lançada em 2010 que permite o compartilhamento de fotos e vídeos com aplicação de filtros
digitais. O conteúdo postado no Instagram, adquirido pelo Facebook em 2012, também pode ser
compartilhado em outras redes sociais como o próprio Facebook, o Twitter, o Tumblr e o Flickr.
9
Serviço de microblogging, fundado em 2006, que permite textos de até 140 caracteres a partir da
pergunta “O que está acontecendo”.
10
É importante destacar que o que vemos no nosso feed de notícias da linha do tempo do Facebook é em
grande parte determinado por um algoritmo. Ele filtra o que é mostrado a nós a partir de nossos usos no
site, o que publicamos, curtimos e comentamos. O algoritmo permite que o Facebook defina nossos
interesses e mostre em nossa linha do tempo aquilo que provocará mais interação com o objetivo de fazer-
nos permanecer mais tempo conectados à rede.
experiência, relato, história ou opinião que julgamos ser relevante para ser
compartilhado. Em 2011, o Facebook lançou uma nova interface da linha do tempo,
mais visual e que expande as possibilidades de construção do perfil. As publicações
foram deslocadas para uma única coluna, à direita da página, onde são exibidas as
postagens de compartilhamento de textos, imagens e links. Na nova linha do tempo, o
usuário pode voltar ao passado e verificar as postagens realizadas desde que se
cadastrou na rede social.
A Figura 1 mostra as possibilidades de publicação de conteúdo na linha do
tempo. As ferramentas permitem a postagem de fotografias ou a criação de álbum de
fotos, a marcação de amigos, a adição do local de localização e ainda há espaço para o
usuário comunicar o que está fazendo ou como está se sentindo no momento da
publicação. Tais botões de construção de uma história vão além de um simples texto,
oferecendo mais opções de composição de uma memória construída com fotografia,
amigos, local e sentimento relatado.

Figura 1: As opções de postagem de conteúdos na linha do tempo. Reprodução Facebook.

O botão “adicione o que você está fazendo ou sentindo” disponibiliza opções


variadas de ações cotidianas que podemos compartilhar com os outros conforme nos
mostra a Figura 2. Qualquer atividade cotidiana pode compor uma memória e ser
compartilhada publicamente no Facebook. Neste rol de atividades, estão o que
gostamos de assistir, ler, ouvir, comer, beber, jogar, nossas viagens, interesses e nossos
sentimentos. No botão “sentindo-se”, abrem-se inúmeros sentimentos possíveis,
positivos e negativos, e se o usuário não encaixar-se em nenhum deles, existe a
possibilidade de criar um sentimento na opção “crie sua própria atividade” que se é
disponibilizada pelo sistema.
Figura 2: As possibilidades do sentir e fazer oferecidas pelo site. Reprodução Facebook.

Além de todas essas opções de construção de histórias, o Facebook também nos leva a
relembrar fatos passados. Em 2014, o site lançou um recurso que permite fazer uma
retrospectiva do ano a partir da publicação dos usuários. A ação resultava em um vídeo
com os melhores momentos de cada mês do ano que incluíam fotos e status publicado
pela pessoa. E o usuário tinha a opção de compartilhar o vídeo com os amigos do
Facebook, mobilizando memórias afetivas de pessoas, lugares e acontecimentos.
Em 2015, foi criado um recurso de compartilhamento de recordações, que nos
notifica sobre publicações ocorridas há um ano ou dois. Chamada no Brasil de “Neste
dia”, a ferramenta permite nossa visualização de atividades registradas e publicadas na
mesma data há um, dois ou três anos e oferece a opção de novo compartilhamento
daquela lembrança recuperada. O sistema também disponibiliza um link para
visualizarmos todos os registros postados por nós naquele determinado dia além de
relembrar as amizades feitas na data. Depois de conferir os registros postados naquele
dia nos anos anteriores, o usuário visualiza uma mensagem para receber notificações
dessas publicações antigas para “nunca perder uma recordação”. A Figura 3 mostra um
exemplo de perfil que compartilhou uma publicação antiga depois de ser notificado pelo
Facebook, atualizando e ressignificando uma memória que estava no passado.
Figura 3: Exemplo de recordação recuperada pelo site e recompartilhada. Reprodução Facebook.

Considerações finais

Esta necessidade de produção de narrativas e memórias de nós mesmos, além de


ser estimulada e direcionada pelo Facebook por meio de ferramentas do sistema,
também parece fazer parte de um imperativo social da contemporaneidade que é exibir,
no modo público, aquilo que somos ou parecemos ser, e criar representações que
tenham a aprovação do outro, ação que, no site em questão, materializa-se pelo número
de curtidas ou de comentários de uma publicação. Assim, fabricamos memórias e
histórias que construam um eu que “é, acima de tudo, uma subjetividade que deseja ser
amada e apreciada, que busca desesperadamente a aprovação alheia, e para tanto
procura tecer contatos e relações íntimas com os outros” (SIBILIA, 2008, p.235).
Hiperconectados, os indivíduos são envolvidos por uma cultura participativa que
torna natural, cotidiana e banal a publicização dessas narrativas que são individuais, mas
também coletivas na medida em que são compartilhadas e expostas à interação do outro.
É uma cultura em que seus membros creem que suas contribuições importam
e desenvolvem determinado grau de conexão social com o outro, de modo
que tem grande relevo aquilo que os demais pensam ou se supõe que pensam
sobre o que cada um cria, por mais insignificante que seja (Santaella, 2013,
p.45).
Nesta cultura, a linguagem se torna ferramenta primordial para formarmos
impressões de nossas identidades e contar aos outros sobre nós mesmos através da
autorevelação, “indispensável para transformar estranhos em parceiros relacionais e
manter relacionamentos duradouros” (2010, p.109).11 Assim, revelarmos mais de nossa
vida privada, expressar mais nossas ideias e sentimentos, assim como ocorre nas
interações face a face, são ações que fortalecem nossos laços sociais. Esta conduta
explica, em parte, porque tornamos públicos aspectos da vida pessoal nas redes sociais.
Interessado na nossa produção de subjetividade e no fornecimento de mais dados ao
sistema, o Facebook se apropria desta vontade nossa de fortalecer laços e cria ou
aperfeiçoa ferramentas para ampliar esta exposição.
As questões que envolvem sites de redes sociais e memória são amplas,
complexas e interdisciplinares. Este artigo se propôs a levantar apenas algumas
percepções sobre nossas experiências com os sites de redes sociais e exemplificar como
o Facebook explora determinados recursos para fazer o usuário produzir e compartilhar
histórias e narrativas. Cada vez mais estaremos nos confrontando com novas
tecnologias e ferramentas dos sites de redes sociais, por isso é fundamental
compreendermos como nós, que estamos nos habituando a dar visibilidade a tantas
memórias e subjetividades, estamos lidando com esta exposição de memórias e com o
consequente excesso de conteúdos que circulam em nossas redes sociais e se há um
sentido a ser buscado em meio a esses hábitos e desejos cada vez mais cotidianos.

11
“self-disclosure is indispensable in turning strangers into relational partners and to maintaining ongoing
relationships” (tradução da autora).
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