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A LAMENTAÇÃO NO CONTEXTO DO ANTIGO

ORIENTE PRÓXIMO
LAMENT IN THE ANCIENT NEAR EAST CONTEXT

Igor Pohl Baumann1

RESUMO

O presente artigo ressalta a importância dos estudos da lamentação no


contexto do Antigo Oriente Próximo como um recurso para a interpretação
das lamentações presentes no Antigo Testamento. A presença de lamentos na
Suméria, Babilônia e Egito – cada qual guardando sua peculiaridade cultural e
religiosa – testemunha esse fenômeno no mundo no qual Israel estava imerso.
A lamentação é um evidente exemplo da inter-relação entre Israel e o Antigo
Oriente Próximo.

Palavras-chave: lamento/lamentação; Antigo Oriente Próximo; mundo do


Antigo Testamento.

ABSTRACT

This article emphasizes the importance of studies of lamentation in the Ancient


Near East context as a resource for the interpretation of this phenomenon presents
in the Old Testament. The presence of lament in Sumer, Babylon and Egypt –
each guarding its cultural and religious peculiarity – testifies this phenomenon
in the world in which Israel was immersed. The lament is a clear example of the
interrelationship between Israel and the Ancient Near East culture.

Keywords: lament/lamentation; Ancient Near East; Old Testament World.

A presença da lamentação no Antigo Oriente Próximo

A lamentação era uma atividade comum no contexto

1 Igor Pohl Baumann. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista


de São Paulo. Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista do Paraná.
Professor da Faculdade Teológica Batista do Paraná. É pastor da Área Ministerial
de Educação Cristã da Primeira Igreja Batista de Curitiba. Coordena o Centro de
Formação Ministerial desta igreja. Contato: igorbaumann@gmail.com.

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do Antigo Oriente Próximo (AOP2) antecedendo, segundo
atestam os lamentos mesopotâmicos e egípcios, o próprio
Antigo Israel.
Ao procurar as influências e as correspondências da
lamentação de Israel com os povos do AOP, deve-se prestar
atenção às literaturas de Canaã, Egito e Mesopotâmia, pois
a prática de lamentar do Israel, relatada nas páginas do
Antigo Testamento, apresenta algo em comum com os outros
testemunhos de lamentação de seus vizinhos.
A despeito dessa relação, não é possível afirmar que a
origem das lamentações bíblicas se encontre exclusivamente nos
povos que antecederam a Israel em Canaã. A discussão sobre a
origem histórica do gênero não está fechada3. Por ora, basta saber
que atesta-se a presença de lamentações no quadro mais amplo
quando Israel se assentou em Canaã4. Revela-se um quadro de
influências mútuas entre esses povos.
Contudo, ainda que se fale da correspondência entre os

2 A sigla AOP será usada no presente artigo para referir-se à expressão Antigo Oriente
Próximo, a partir deste momento.
3 O gênero de lamentação do Antigo Israel, conforme aponta Dobbs-Allsop citando
Alistair Fowler, não foi criado ex nihilo. Ele quer dizer que os gêneros literários de
toda sorte sempre recebem influências de seus modelos predecessores. O gênero da
lamentação, significativamente presente em cerca de um terço da Bíblia Hebraica,
partilha desta convenção literária comunicada pelos antecessores no Antigo Oriente
Próximo. Ou seja, quando Israel se assentou no chamado mundo antigo, ele encontrou
um ambiente no qual a lamentação fazia parte enquanto gênero literário. DOBBS-
ALLSOPP, Fred W. Lamentations. Interpretation: a Bible commentary for teaching
and preaching. Louisville: John Knox Press, 2002, p. 6.
4 Nota-se uma forte ênfase no lamento que o Senhor ouviu quando seu povo ainda
estava habitando no Egito, segundo a introdução do livro de Êxodo (ver BAUMANN,
Igor P. As lamentações na teologia do Antigo Testamento. Via Teológica. Curitiba:
Faculdade Teológica Batista do Paraná, n.20, v.2, 2011, p. 87-98); ou ainda o lamento
do sangue de Abel, derramado por Caim na narrativa de Gênesis que aponta a um
lamento mítico.

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lamentos de Israel e de seus vizinhos, é importante esclarecer
que, embora exista uma afinidade, isso não significa afirmar que
os textos sejam idênticos ou remetam às mesmas situações. Na
maioria das vezes, a expectativa de tal similaridade não acontece.
Não são textos iguais apesar de corresponderem ao mesmo
gênero literário, pois a lamentação guarda aspectos peculiares
em cada cultura.
As lamentações no contexto do AOP em comparação
com as lamentações bíblicas possuem numerosas mudanças e
desenvolvimentos complexos, principalmente em termos de
teologia. Nem sempre os lamentos mais antigos servem de base
para os mais novos. A atividade literária de Israel demonstra os
avanços que sua religião e seus escritos possuem em relação aos
seus antecessores e vizinhos.
A correspondência entre os lamentos se vincula muito
mais pela influência cultural e pelas convenções literárias do que
necessariamente pela dependência literária de um ou de outro.
Comparativamente falando, é possível concluir que o lamento
de cada cultura está atrelado ao seu sistema religioso. Mowinkel
segue essa opinião5.
A grande diferença entre os lamentos (e outros temas
de correspondência entre Israel e o AOP) é o significado
teológico que ocupam. A perspectiva teológica na comparação
dos lamentos desses povos é gritante e precisaria de outro(s)
artigo(s) para elucidar esta questão com alguns exemplos mais

5 MOWINKEL, Sigmund. Psalmkritik Zwischen 1900 und 1935: Ugarit und die
Psalmenexegese. In: NEUMANN, P.H.A. (org.). Zur Neueren Psalmenforschung.
Darmstadt: Wissenschaftiche Buchgesellschaft, 1976, p. 315-341.

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notáveis6. Cabe ressaltar aqui que o alto nível da religião dos
israelitas na aplicação teológica dos seus lamentos faz toda a
diferença7.
Importa ao leitor e intérprete saber que a lamentação do
Antigo Testamento, no mínimo, tem influência da cultura da
Babilônia, do Egito e, provavelmente, de Canaã8. Não é possível
dizer que a base dos poemas de sofrimento de Israel são os poemas
de seus vizinhos, intencionalmente falando. Contudo, não se pode
negar a influência e as correspondências de gênero, padrões de
linguagem e costumes de toda sorte entre Israel e as culturas ao seu
redor. A lamentação realiza essa conexão entre as culturas do AOP.
Uma breve seleção de documentos de lamentação, (ou
que contêm lamentação) que estão disponíveis ao público,
traduzidos pelos especialistas, torna possível sua verificação e
posteriores análises com os lamentos de Israel. A obra editada
por James Pritchard, The Ancient Near Eastern Texts: Relating to the
Old Testament9, é uma excelente antologia de textos traduzidos
para o inglês e comentados pelos maiores expoentes do assunto
e, com certeza, um dos recursos obrigatórios para os estudos do

6 O leitor poderá encontrar uma sugestão de desvantagens e vantagens no estudo


comparativo, seja literário, histórico ou teológico dos textos de Israel com os de seus
vizinhos no artigo de Nissinen. NISSINEN, Martti. Comparing prophetic sources:
principles and a test case. In: DAY, John. Prophecy and the prophets in Ancient Israel:
proceedings of the Oxford Old Testament Seminar. London: Blomsburry T&T Clark,
2010, p. 5-7.
7 BAUMANN, Igor P. As lamentações na teologia do Antigo Testamento. Via
Teológica. Curitiba: Faculdade Teológica Batista do Paraná, n.20, v.2, 2011, pp.
85-104.
8 WESTERMANN, Claus. Praise and lament in the Psalms. Atlanta: John Knox
Press, 1981, p. 23.
9 PRITCHARD, James P. (ed.) Ancient near eastern texts: relating to the Old Testament.
3rd. ed. with supplement. New Jersey: Princeton University Press, 1969.

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Antigo Testamento10.
Não será realizada aqui uma descrição detalhada dos
textos de lamentação (ou que contêm lamentação), nem mesmo
uma comparação texto por texto com os referenciais bíblicos.
Esses textos são grandes e existem traduções em português
para facilitar a leitura comparada. Isso pode ser feito em outro
momento e espaço.
A evidência da lamentação no AOP será descrita aqui de
modo coeso e comprimido. O que importa para o leitor saber é
que esses textos evidenciam a presença de lamentações no palco
onde a história e a teologia de Israel são formados, fazem parte da
tradição cultural em que Israel é formado e também é formador
e possibilitam, em certo grau, uma interpretação dos textos de
lamentação do Antigo Testamento mais apropriada ao gênero.

Os lamentos sumérios

A religião mesopotâmica teve inicio na Suméria. As pesquisas


a respeito da língua dos sumérios ainda não estão perto do fim. O
que se sabe, no entanto, permite o acesso à sua produção literária,
encontrada em tábuas de escritas cuneiformes e, por conseguinte,
o acesso a informações dos costumes do AOP11.
Segundo Eliade, a literatura suméria disponível possui

10 Ressalta-se a importância da obra de John Walton, que destacou o prestígio


dos estudos do mundo paralelo a Israel para a compreensão do Antigo Testamento.
Conquanto, Walton usa a antologia de Pritchard como um de seus recursos notáveis
ao realizar as comparações entre os textos. WALTON, John H. Ancient Israelite
literature in its cultural context: a survey of parallels between biblical and Ancient
Near texts. Michigan: Zondervan Publishing House, 1990.
11 ELIADE, Mircea. História das crenças e das idéias religiosas: da idade da Pedra
aos mistérios de Elêusis. Volume 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010, p. 68.

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diversos temas: forças da natureza, imagens cósmicas, narrativas
míticas, noções de pecado e reorganização do cosmos. A hipótese
histórica mais plausível é que os sumérios foram subjugados pelos
acadianos. Algumas linhas dessa hipótese acreditam que houve
uma simbiose cultural dessas duas culturas, a qual deu à luz a
cultura babilônica12.
Os textos sumérios apresentam uma mostra das lamentações
mesopotâmicas mais antigas. Elas seriam um dos mais antigos
documentos que testificam o gênero. Embora exista evidência
de lamentos anteriores a essas tábuas, o conjunto literário dos
lamentos pelas cidades destruídas permanece sendo o lugar de
onde derivam as mais antigas lamentações documentadas13.
Os lamentos sumérios aparecem nas pesquisas atuais
como um único conjunto de cinco poemas de lamentação, mais
um sexto poema. Esse sexto lamento, por ser fragmentado, é
descartado pela maioria das pesquisas de ponta (não deve deixar
de ser reconhecido, apesar de sua difícil análise, devido ao seu
estado comprometido). Kramer foi o pioneiro nesses estudos14.

12 ELIADE, Mircea. História das crenças e das idéias religiosas: da idade da Pedra
aos mistérios de Elêusis. Volume 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010, p. 66-91.
13 Segundo a informação na tese de Ottermann, antes destes documentos identificados
como lamentos pelas cidades destruídas, é possível identificar a lamentação na
religião dos sumérios. A prática de lamentar pelos sumérios está ligada às mortes
das divindades, segundo seus mitos, e também com a destruição de seus templos e
cidades. OTTERMANN, Mônica. As brigas divinas de Inana: reconstrução feminista
de repressão e resistência em torno de uma deusa suméria. 2007. 339f. (+anexo 70f.).
Tese (Doutorado em Ciências da Religião). Faculdade de Filosofia e Ciências da
Religião. São Bernardo do Campo.
14 Muito deste trabalho acerca dos lamentos pelas cidades destruídas se deve a Samuel
Noah Kramer. Kramer é um respeitado sumeriologista. Foi ele quem inaugurou as
pesquisas desses lamentos em uma edição crítica na década de 40 com a tradução
do lamento por Ur. Kramer foi responsável por uma edição inglesa da tradução e
comentário do segundo e terceiro lamentos.

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Os lamentos são conhecidos como lamentos pelas cidades
destruídas: lamento por Ur; pela Suméria e Ur; por Nipur; por
Eridu; por Uruk; por Ekimar.
O lamento pela destruição de Ur, o primeiro dos cinco/
seis, foi relacionado, pelo sumeriologista Kramer, a tragédia que
acometeu a terceira dinastia de Ur. Nela, Ur foi dominada pelos
Elamitas, em meados de 2000 a.C15. Os lamentos por Suméria
e Ur e o lamento por Nipur foram traduzidos por Kramer16. Os
outros dois lamentos foram traduzidos por Green e publicados
em 1978 e 1984 respectivamente17.
Esses textos são composições longas em sua forma, possuem
mais de quatrocentas linhas cada. O maior dos lamentos é o
terceiro, o lamento Ibbi-Sin, com quinhentas e cinquenta e nove
linhas. Algumas linhas dos poemas estão corrompidas, mas não
tanto quanto as do sexto lamento, o lamento por Ekimar18.
Os lamentos em foco, em seu conteúdo, tratam
fundamentalmente de invasões estrangeiras que levaram a
destruição das cidades sumérias. Os sumérios eram conhecidos
por suas importantes cidades-estados. Certamente sua destruição

15 KRAMER, Samuel N. Lamentation over the destruction of Ur. Chicago: University


of Chicago Press, 1940 (Assyriological Studies 12).
16 KRAMER, Samuel N. Lamentation over the destruction of Sumer and Ur. In:
PRITCHARD, James P. (ed.) Ancient near eastern texts: relating to the Old Testament.
3rd. ed. with supplement. New Jersey: Princeton University Press, 1969, p. 611-619.
17 GREEN, Margareth W. The Eridu lament. In: Journal of Cuneiform Studies.
New Haven: [s/ed.], 1978, p.127-167; GREEN, Margareth W. The Uruk lament. In:
Journal of the American Oriental Society. v.104. New Haven: The American Oriental
Society, 1984, p. 253-279.
18 O sexto lamento, pela destruição de Ekimar, não tem tradução conhecida até o
presente momento. O desenho da tábua foi realizado por Kramer e encontra-se no
museu de Istambul. KRAMER, Samuel N. Sumerian literary texts from Nippur in the
Museum of the Ancient Orient at Istanbul. New Haven: ASOR, 1944.

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seria motivo de grande infortúnio. Os poemas correspondem a
um período de 150 anos. Todavia, não há certeza se os textos
foram produzidos na ocasião da queda de cada cidade, se escritos
em uma só vez ou se escritos aos poucos e acumulados à medida
que a história se desenrolava.
A lamentação desses povos está relacionada à experiência
de dor e estranheza da morte19. A prática de lamentar acontecia
por meio de rituais fúnebres ou encenações que acompanhavam
o luto. A relação entre lamento e rituais fúnebres acontece em
quase todo mundo antigo.
Na opinião de Green, os poemas teriam sido compostos
exclusivamente em ocasião de cerimônias religiosas e executadas
nos rituais de recondução das estátuas dos deuses a novos
santuários por causa da queda das cidades20. Seguindo essa
hipótese, a lamentação dos sumérios era realizada através de
rituais fúnebres na recolocação das instalações sagradas de sua
religião e questiona-se se as pessoas experimentavam sofrimento
efetivo ou se tal linguagem de lamentação era parte de um ritual
dramático da mudança do local sagrado.
Seria a linguagem de lamentação destes poemas sumérios
apenas uma maneira requintada e dramática dentro do ritual? Ou

19 John H. Walton faz um sumário da literatura do Antigo Oriente Próximo e,


dentre os textos sumérios, há o chamado O Homem e seu deus, Man and his god,
em inglês. Segundo o autor, é uma produção do segundo milênio a.C. e descreve um
sofredor que lamenta e descreve seu sofrer, à moda dos salmos de lamento individual
que encontram-se no saltério. Com isso, ressalta-se que os lamentos pelas cidades
destruídas não são os únicos lamentos produzidos pela Suméria. WALTON, John H.
Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament: introducing the conceptual
world of the Hebrew Bible. Michigan: Baker Academic Press, 2006, p. 75.
20 GREEN, Margareth W. The Eridu lament. In: Journal of Cuneiform Studies. New
Haven: [s/ed.], 1978, p. 127-167.

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uma manifestação coletiva de sofrimento? Não se sabe. Tinney
apoia a resposta afirmativa para a primeira pergunta21. Ele vê mais
retórica do que sensibilidade à dor e corrobora a ideia de que
tais lamentos procuravam dar legitimidade aos deuses derrotados.
Kramer, ao contrário de Green e Tinney, acredita na presença
de poetas sumérios que entraram em ação devido à recorrente
destruição de suas cidades e lugares sagrados22. O debate sobre
esse assunto permanece inconclusivo.
Para Green, citada por Calovi23, os poemas possuem seis
temas recorrentes que os caracterizam como lamentos: narração da
destruição; responsabilização das divindades/estátuas; descrição
do abandono da cidade pelos deuses e a mudança das estátuas/
divindades; reconstrução do lugar sagrado; volta das divindades
para o povo; súplicas dos fiéis24. Seguindo Dobbs-Allops, Calovi
aponta uma semelhança entre esses lamentos pelas cidades
destruídas e os lamentos do livro bíblico de Lamentações25.

21 TINNEY, Steve. The Nippur lament. Philadelphia: The University of Pennsylvania


Museum, 1996.
22 KRAMER, Samuel N. Lamentation over the destruction of Sumer and Ur. In:
PRITCHARD, James P. (ed.) Ancient near eastern texts: relating to the Old Testament.
3rd. ed. with supplement. New Jersey: Princeton University Press, 1969, p. 89.
23 O trabalho de Calovi é primoroso com uma introdução para a pesquisa
acadêmica do livro bíblico de Lamentações e, em seu sexto capítulo, intitulado
A influência do contexto vetero-oriental, o leitor interessado poderá encontrar
uma bibliografia mais completa para acessar as fontes dos lamentos pelas cidades
destruídas. CALOVI, Marcos. Como está solitária! Lamentações na pesquisa
científica. 2006. 128f. Dissertação (Mestrado em Teologia). Escola Superior de
Teologia. São Leopoldo, 2006.
24 CALOVI, Marcos. Como está solitária! Lamentações na pesquisa científica.
2006. 128f. Dissertação (Mestrado em Teologia). Escola Superior de Teologia. São
Leopoldo, 2006, p. 86.
25 CALOVI, Marcos. Como está solitária! Lamentações na pesquisa científica.
2006. 128f. Dissertação (Mestrado em Teologia). Escola Superior de Teologia. São
Leopoldo, 2006, p. 87.

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Os lamentos babilônicos

A Babilônia é o resultado cultural da Suméria, Acádia


e da poderosa dinastia de Ur. Babilônia é um dos nomes que
vêm à mente do estudioso, de modo geral, quando se fala em
Mesopotâmia.
Em certo sentido, os lamentos sumérios pelas cidades
destruídas também são babilônicos. Segundo estudiosos, a
Suméria fazia parte do antigo império da Babilônia. Os temas
da literatura sumeriana são recorrentes, tanto entre os acadianos
quanto os babilônicos. Acredita-se que a chamada cultura
babilônica faz parte de uma fusão cultural entre os sumérios e
os acadianos. Ainda assim, essas culturas mantiveram aspectos
religiosos peculiares e próprios26.
Por conta desta complexidade das relações históricas entre
as culturas citadas, alguns pesquisadores preferem referir-se
simplesmente a esses lamentos como mesopotâmicos. Priorizam
estes conjuntos literários num quadro mais amplo da história
da Mesopotâmia. Outros, como Dobbs-Allsop27 e Bachvarova28,
tratam dos lamentos sumérios pelas cidades destruídas em tópicos
ou capítulos destinados à literatura da Antiga Babilônia. Não
há problemas nessas diferenças, desde que entenda-se que cada
cultura em sua época reserva peculiaridades.

26 ELIADE, Mircea. História das crenças e das idéias religiosas: da idade da Pedra
aos mistérios de Elêusis. Volume 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010, p. 68-75.
27 DOBBS-ALLSOPP, Fred W. Lamentations. Interpretation: a Bible commentary
for teaching and preaching. Louisville: John Knox Press, 2002, p. 6-8.
28 BACHVAROVA, Mary R. Sumerian Gala priests and Eastern Mediterranean
returning gods: tragic lamentation in cross-cultural perspective. In: SUTER, Ann.
(ed.) Lament: studies in the Ancient Mediterranean and Beyond. New York: Oxford
University Press, 2008, p. 18-52.

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Por exemplo, a Suméria, seguindo uma tradição histórica,
era composta por cidades-Estados. Cada cidade-Estado possuía
seu deus protetor, o “poder supremo naquele Estado, e vivia em
forma de estátua, em sua ‘casa’, o templo principal da cidade”29.
Comparativamente, as divindades da Babilônia eram guardiãs
das cidades como parte da influência dos sumérios. Marduk era
protetor da capital do império. No entanto, esse deus protetor
da capital assumia uma forma nacional, mais ampla, como
divindade representante de todo o império. O deus representante
do império era o que estava estabelecido na cidade de habitação
do rei da Babilônia.
A principal diferença na função entre os deuses dessas
culturas residia em que o rei da Babilônia assumia certa
representação da divindade. Na Suméria, no entanto, há a ausência
de textos ou terminologia técnica que refiram-se a governantes
como entidades divinas ou algo próximo disso; segundo Lambert,
os governantes estavam mais perto de sumos-sacerdotes do que
divindades em si30.
Entre os babilônicos, por conta dessa relação evidente entre
governante e ser divino, havia um ritual anual no qual o rei se
humilhava diante de Marduk. Com o apoio da deusa Bel, o rei
renascia ritualmente num simbolismo de renascimento da vida,
na festa do ano-novo31. Um ritual que salientava uma estreita

29 LAMBERT, W.G. A realeza na antiga Mesopotâmia. In: DAY, John (org.). Rei e
messias em Israel e no Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 58,59.
30 LAMBERT, W.G. A realeza na antiga Mesopotâmia. In: DAY, John (org.). Rei e
messias em Israel e no Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 58-61.
31 LAMBERT, W.G. A realeza na antiga Mesopotâmia. In: DAY, John (org.). Rei e
messias em Israel e no Antigo Oriente Próximo. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 63-70.

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separação entre o rei e o deus governante da cidade. Tal ritual era
permeado de lamentações em seus textos e fórmulas místicas.
As lamentações babilônicas aparecem nas suas narrativas
míticas. Uma delas é a conhecida epopeia de Gilgamesh, em
inscrições cuneiformes, tradicionalmente datadas de 669-
626 A.C., época do rei Assurbanipal. Contudo, mais uma
vez ressalta-se a complexa questão de datação dos artefatos
arqueológicos do AOP.
A narrativa chamada epopeia de Gilgamesh é baseada na
tradição da Suméria, mais ampla que a versão que a precedeu.
Pertence ao gênero épico, contendo lendas que eternizam as
mitologias e crenças babilônicas32. A epopeia de Gilgamesh
contém alusões muito fortes à lamentação. Torna-se uma evidente
demonstração do fenômeno de lamentar e do gênero literário
em questão entre os babilônicos. A narrativa não apresenta um
poema exclusivo para isso, como ocorre com os poemas sumérios
supracitados. Os lamentos aparecem entrelaçados à narrativa.
Esta organização de texto, que entrelaça o gênero narrativo
e a lamentação, também ocorre nos livros bíblicos de Habacuque
e de Jeremias. O leitor que usa versões convencionais da Bíblia
em seu idioma, geralmente não verifica a mudança de gêneros no
decorrer da leitura. Carece-se de uma leitura mais aguçada, com
o uso de técnicas literárias, para notar as constantes mudanças de
gêneros dentro de um determinado livro bíblico.
A narrativa de Gilgamesh é longa, famosa por conter
a versão babilônica do dilúvio. Ao referir-se ao momento em

32 UNGER, Merril F. Arqueologia do Velho Testamento. São Paulo: Editora Batista


Regular, 2002, p. 23.

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que os deuses decidem enviar um dilúvio à Terra, o herói da
narrativa – Ut-napishtim – recebe o aviso para construir uma
arca. Ao começarem as chuvas e clarões provocados pelos raios,
a narrativa afirma que todas as divindades lamentam. Segundo
Unger, a tradução em português do verso diz: “os deuses, todos
humilhados, assentam-se e choram, os seus lábios estão apertados
– todos eles”33.
A mesma epopeia aponta para outro herói babilônico
que tem sonhos proféticos e extáticos. Enkidu é levado por
um caçador e por uma prostituta a matar os deuses Humbaba
e Touro dos céus. Shamash, personagem que figura uma
conselheira (sacerdotisa?), encoraja Enkidu a fazê-lo, visto que
isso imortalizaria sua fama. Tal feito renovaria a confiança de
Gilgamesh nele. Após outro sonho, Enkidu fica adoecido e
morre lentamente. Gilgamesh se recusa a enterrar seu amigo –
o equivalente a entregá-lo completamente à morte – e o corpo
já estava em decomposição. Gilgamesh então recita um longo
poema de lamento para seu amigo Enkidu34.
Segundo a interpretação de Holland, o lamento de
Gilgamesh providenciaria um tipo de intercessão por seu
amigo junto ao mundo dos mortos. No mínimo, o lamento de
Gilgamesh para Enkidu iria imortalizar seus feitos diante dos
deuses. Em sua opinião, o próprio mundo dos mortos, no âmbito
da religião mesopotâmica, era um lugar de lamentação. Nesse
lugar, não havia qualquer diferenciação entre justos e ímpios, que

33 UNGER, Merril F. Arqueologia do Velho Testamento. São Paulo: Editora Batista


Regular, 2002, p. 24.
34 HOLLAND, Glenn S. Gods in the desert: religions of the Ancient Near East. New
York: Rowman and Littlefield Publishers, 2010, p. 176.

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lamentavam incansavelmente35.
Uma lamentação significativa dos babilônicos é o de Tammuz
por Marduk. Era proferida e obtinha função na festa de ano-novo,
chamada pelos estudiosos de liturgias a Tammuz. O festival de
Tammuz era acompanhado de cânticos fúnebres, enquanto o povo,
junto com os sacerdotes, clamava pela bondade dos deuses e pela
restauração das colheitas em rituais simbólicos de renascimento36.
A presença de acontecimentos míticos é narrada em
outros lamentos como parte integrante do poema. Isso ocorre no
lamento de flauta para Adad e no lamento de elevação de Ishtar
para a rainha dos céus. Em ambos os casos, quem lamenta são os
deuses. O Antigo Testamento também mostra a divindade dos
israelitas lamentando, especialmente nos livros proféticos, salvo
as devidas diferenças.
Ainda assim, os poemas proferidos pelos deuses estão cheios
de louvor e exaltação própria37. Westermann considera como algo
em comum com a estrutura do lamento bíblico: “eles falam [a
Deus] em termos de petição e louvor” 38. Em outras palavras, o
biblista atesta que, tanto na Babilônia quanto em Israel, louvor e
lamento eram parte essencial de seus textos sagrados.
Os salmos babilônicos possuem os seguintes elementos,
não necessariamente nesta ordem: endereço, louvor, lamento,

35 HOLLAND, Glenn S. Gods in the desert: religions of the Ancient Near East. New
York: Rowman and Littlefield Publishers, 2010, p. 183.
36 JAMES, E. O. Myth and ritual in Ancient Near East: an archeological and
documentary study. New York: Frederick A. Praeger, [s.d], p. 55.
37 WESTERMANN, Claus. Praise and lament in the Psalms. Atlanta: John Knox
Press, 1981, p. 38.
38 WESTERMANN, Claus. Praise and lament in the Psalms. Atlanta: John Knox
Press, 1981, p. 36.

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petição e voto de louvor.
Em seus estudos comparativos, Westermann afirma que o
voto de louvor aparece em primeiro lugar dentre os elementos
recorrentes da lamentação. Diferentemente de Israel, onde o
voto de louvor é o ápice do salmo de lamento e recorrentemente
aparece em último lugar39. A inclusão do voto de louvor antes da
petição em si é um fator importante na concepção teológica desse
povo: eles queriam preparar os deuses com exaltação ao nome
deles para fazer suas petições. O salmo bíblico, por outro lado,
inclui o voto de louvor como forma de gratidão a Yhwh.
Os lamentos babilônicos, de acordo com os exemplos,
poderiam significar o experimento de interceder pelos
mortos, bem como a tentativa de imortalizar os feitos dos
seus heróis/justos frente aos deuses. Aconteciam na esfera
dos rituais: as narrativas serviam a estes propósitos religiosos
envoltos numa esfera de magias e maldições. Por conta disso,
ainda que em contexto narrativo, os lamentos eram envoltos
na crença da palavra mística, dada a função que exerciam nos
cultos, o que as difere completamente dos lamentos bíblicos.
Estes não refletem o ideal babilônico de fórmulas mágicas.
O lamento em Israel reflete a manifestação do sofrimento do
povo (representado por um indivíduo em algumas ocasiões)
frente às adversidades.

Os lamentos egípcios

Em comparação com Suméria, Babilônia e Israel, a

39 WESTERMANN, Claus. Praise and lament in the Psalms. Atlanta: John Knox
Press, 1981, p. 36-41.

Via Teológica | Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 55


cultura do Egito era significativamente diferente. Por conta
disso, alguns estudiosos deixam o Egito de fora do entorno
geográfico do AOP. Ainda que as instituições sociais sejam
diferenciadas, o intercâmbio político e econômico do Egito
com as culturas mesopotâmicas, do Levante e até mesmo
Anatólia, lhe dão o direito de ser incluído como parte deste
recorte territorial do mundo antigo.
Em comparação direta do Egito com Israel, Baines ressaltou
que “embora estivessem geograficamente situados próximos um
do outro e temporalmente se sobrepusessem, o antigo Egito e
o mundo da Bíblia Hebraica estavam muito afastados quanto a
padrões e instituições sociais”40.
Por conseguinte, a lamentação egípcia é idiossincrática
em comparação com a de seus vizinhos. Isto é, ela reserva a si
características de cunho particular ao modo de vida e cultura
do Egito.
É desafiador realizar uma comparação rigorosa entre os
lamentos egípcios e seus vizinhos. A dificuldade se agrava ainda
mais pela escassez de lamentos na literatura do antigo Egito.
Westermann atestou isso em seu excurso sobre salmos egípcios41.
No entanto, por conta dessas diferenças e complexidades,
dizer que não existe lamentação no antigo Egito é incorreto. A
busca por lamentos egípcios se volta para a compreensão das
fontes literárias antigas e do tipo de convenção de linguagem que

40 BAINES, John. A realeza egípcia antiga: formas oficiais, retórica, contexto. In:
DAY, John (org.). Rei e messias em Israel e no Antigo Oriente Próximo. São Paulo:
Paulinas, 2005, p. 19.
41 WESTERMANN, Claus. Praise and lament in the Psalms. Atlanta: John Knox
Press, 1981, p. 43-51.

56 Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 | Via Teológica


remetem aos lamentos dessa civilização.
Os egiptólogos têm se interessado por esse tema atualmente.
Os recursos mais extensos referem-se aos lamentos egípcios do
período greco-romano. Uma boa referência dos lamentos desse
período é o trabalho da egiptóloga alemã Andrea Kucharek,
intitulado As lamentações de Isis e Nephthys em textos do período
greco-romano42.
Walton segue a ideia de que a maior concentração de hinos
e orações do Egito é do período mais recente, ou seja, datado do
período greco-romano. Sua pesquisa faz um recorte dos salmos
egípcios entre a décima oitava e décima nona dinastias. O autor
concluiu que esses salmos não possuem espaço para o lamento.
A omissão da lamentação nos salmos egípcios é preenchida por
cânticos de confiança e otimismo43.
A opinião de Westermann é semelhante à de Walton
quando disse que os salmos egípcios esnobam autoconfiança em
seus deuses e feitos. Westermann ressalta a principal diferença
entre os lamentos egípcios e os babilônicos: o elemento do louvor
se sobressai44.
Westermann e Walton, contudo, falam de lamentos
mais recentes, relativos ao Novo Império (1550-1069 a.C.). Se
comparados esses salmos egípcios com os lamentos babilônicos,

42 KUCHAREK, Andrea. Die Klagelieder von Isis und Nephthys in texten der
Griechisch-Römischen Zeit. Heidelberg: Universitätsverlag Winter Heidelberg, 2010
(Altägyptische Totenliturgien IV).
43 WALTON, John H. Ancient Israelite literature in its cultural context: a survey of
parallels between biblical and Ancient Near texts. Michigan: Zondervan Publishing
House, 1990, p. 142, 143.
44 WESTERMANN, Claus. Praise and lament in the Psalms. Atlanta: John Knox
Press, 1981, p. 43.

Via Teológica | Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 57


de um modo geral, o segundo grupo dispõe de um espaço
significativo para a ansiedade e o sofrimento, enquanto o primeiro
destaca o louvor e a alegria.
É provável que um estudo aprofundado desses lamentos
mais recentes sirva de modelo para identificar os lamentos
tardios, derivados de um período anterior ao Novo Império. O
maior problema é encontrar modelos deste tipo de lamentação
mais tardia para os estudos comparativos.
Os chamados “textos de caixão” ou coffin texts, em inglês,
atestam o fenômeno da lamentação no Egito em período anterior
ao Novo Império. São lamentos em inscrições pintadas dentro
de caixões ou tumbas no período entre 2000 e 1300 a.C. Jan
Assmann é quem publicou e comentou esses textos na obra
Liturgias Mortuárias nos Textos de Caixão do Império Médio45.
Os textos de caixão não eram inéditos, mas cópias
selecionadas do chamado Livro da Morte do antigo Egito, Book
of the Dead, em inglês, que também inclui lamentações. Segundo
Ogden Goelet, esses textos tinham função mágica para servir aos
faraós na vida após a morte46.
Uma demonstração da lamentação nestes textos de caixão
é a aparição padrão do chamado lamento da viúva. Assmann
explicou que este tipo de lamento contido nas inscrições dos
caixões egípcios tem como objetivo descrever a procissão do
sepultamento como “uma passagem através do reino da morte

45 ASSMANN, Jan. Totenliturgien in Den Sargtexten Des Mittleren Reiches.


Heidelberg: Universitätsverlag Winter Heidelberg, 2002, p.289-309; 405-420
(Altägyptische Totenliturgien I).
46 VON DASSOW, Eva (ed.) The Egyptian Book of the Dead: The Book of Going
Forth by Day. 2a.ed. San Francisco: Chronicle Books, 2008, p. 14,

58 Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 | Via Teológica


para o lugar da vida eterna”47.
Assmann admitiu que a ausência de um cântico fúnebre
explícito nesses caixões demonstra que a travessia espiritual a ser
realizada não deveria expressar tristeza, pois era um motivo de
alegria. A lamentação da viúva ganha corpo através da imagem da
procissão e do ofício fúnebre. Em alguns casos, porém, o lamento
é mais explícito como o da Tumba de Taba 49, feito pela viúva de
um homem chamado Neferhotep48: “vá embora – como você pode
fazer isso? / eu ando sozinho, veja, eu estou atrás de você / ó você que
gostava de conversar comigo / você está em silêncio, você não fala / o
bom pastor está desaparecido para a terra da eternidade”49.
Seguindo Assmann e Wickett, as versões mais antigas
da lamentação egípcia se relacionam com liturgias fúnebres50.
O fenômeno não acontecia especificamente através de uma
convenção literária conhecida como entre os mesopotâmicos
e os habitantes do Levante, mas pode ser encontrado também
em materiais iconográficos que descrevem ofícios fúnebres e
relatam as imagens da morte e do pós-morte. É o que ocorre no
caso dos textos de caixão.

47 ASSMANN, Jan. Death and salvation in Ancient Egypt. New York: Cornell
University Press, 2005, p. 114.
48 ASSMANN, Jan. Death and salvation in Ancient Egypt. New York: Cornell
University Press, 2005, p. 114.
49 Conforme John Ray, há um lamento desenhado em uma das paredes da tumba de
Saqqara que remete à imagem do pastor, assim como o lamento da viúva de Neferhotep
da tumba de Teba. A data proposta para a inscrição é de 2300 a.C.: “Onde está o pastor,
o pastor do Oeste? O pastor está na água, entre os peixes; ele vibra com o peixa-gato,
e esfrega o nariz com o nariz-peixe no Oeste. Onde está o pastor, o pastor do Oeste?”.
RAY, John. The rosetta stone and the rebirth of Ancient Egypt. Harvard University
Press, 2007, p. 126.
50 WICKETT, Elizabeth. For the living and the dead: the funerary laments of Upper
Egypt, Ancient and Modern. New York: I.B. Tauris, 2010.

Via Teológica | Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 59


Outra evidência da lamentação no antigo Egito é
designada como As Admoestações de Ipuwer. Tecnicamente, trata-
se do Papiro de Leiden I 344, que se encontra no Museu de
Antiguidades em Leiden, Holanda. Foi descoberto em 1828 por
Giovanni Anastasi e traduzido e comentado em 1909 por Alan
H. Gardiner51.
O documento narra o diálogo de Ipuwer com “o senhor
de todas as coisas”. Não se sabe se este “senhor” é o rei da
época, cujo poema se refere ou se é uma divindade. Esse diálogo
descreve o Egito afligido por desastres que levaram o país ao
caos. É um artefato arqueológico que permite o acesso a um
período histórico do Egito, ainda que pelas lentes pessimistas
de Ipuwer. Nota-se que a catástrofe é significativa porque atinge
dimensões nacionais, explica seu próprio tradutor52.
Não faltam debates sobre a data de composição e quanto
ao período a qual se refere o texto53. Gardiner argumentou que o
documento pertence ao período chamado Império Médio (2055-
1650 a.C.)54. Pesquisadores mais recentes, como Henry, sugerem
que o texto pertence ao Segundo Período Intermediário (2181-
2055 a.C.). Mesmo assim, defendem a hipótese que a presente
peça refere-se a eventos do Primeiro Intermediário (1650-1550

51 HENRY, Roger. Synchronized chronology: rethinking Middle East antiquity. New


York: Algora Publishing, 2003, p. 24.
52 GARDINER, Alan H. The admonitions of an Egyptian Sage from a hieratic
Papyrus in Leiden. Leipzig: Georg Olms Verlag, 1909, p. 5-16.
53 WILLIAMS, R.J. The Sages of Ancient Egypt in the Light of Recent Scholarship.
Journal of the American Oriental Society. Vol. 101, No. 1, Oriental Wisdom, 1981,
pp. 1-19.
54 GARDINER, Alan H. The admonitions of an Egyptian Sage from a hieratic
Papyrus in Leiden. Leipzig: Georg Olms Verlag, 1909, p. 2.

60 Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 | Via Teológica


a.C.)55. Contrariando Gardiner e outros, Morenz estabelece o
poema no Antigo Império (2686-2181 a.C.)56.
Em outras palavras, seja qual hipótese decida-se seguir,
o documento em si é de uma época de prosperidade no Egito,
referindo-se a uma época turbulenta57.
Sobretudo, o gênero literário atribuído a essa composição
é o de lamentação. Ludwig Morenz classifica-o como: “texto
profético, lamentação”58 e relaciona-o com os lamentos sumérios
pelas cidades destruídas. O autor afirma que “no que diz respeito
ao seu conteúdo e forma, o [poema nomeado] Advertências são

55 HENRY, Roger. Synchronized chronology: rethinking Middle East antiquity. New


York: Algora Publishing, 2003, p. 24.
56 A tese de Morenz é que houve intensa produção literária no período do Império
Médio. O texto As Advertências de de Ipuwer teria sua composição no período do
Império Médio, mas apresenta acontecimentos do Antigo Império. MORENZ,
Ludwig D. Literature as a construction of the past in the Middle Kingdom. In: TAIT,
John (ed.). “Never had the like occurred”: Egypt’s view of its past. 2a. ed. London:
Left Coast Press, 2007, p. 101-112.
57 A época turbulenta a que o poema egípcio se refere tem sido interpretada em
sincronia com as pragas bíblicas descritas no livro do Êxodo. Os teólogos e biblistas
querem encontrar similaridades de expressões do lamento de Ipuwer com as pragas
que o Egito recebeu segundo a narrativa do livro de Êxodo. Henry faz uma comparação
das frases para demonstrar uma relação cronológica entre os acontecimentos
retratados no Papiro de Leiden com o evento das pragas. A proposta de Henry é
sincronizar eventos bíblicos com a datação tradicional proposta pelos egiptólogos.
HENRY, Roger. Synchronized chronology: rethinking Middle East antiquity. New
York: Algora Publishing, 2003, p. 25, 26. Uma comparação mais detalhada entre as
frases de Ipuwer e as frases do livro de Êxodo pode ser vista no artigo do Rabino
Modechai Becher disponível em:
<http://ohr.edu/yhiy/article.php/838>. Acesso em 10/07/2014. Tais relações entre
Ipuwer e o Êxodo são rejeitadas pelos egiptólogos, conforme Enmarch. ENMARCH,
Roland. The reception of a Middle Egyptian Poem: The Dialogue of Ipuwer and the
Lord of All in the Ramesside Period and Beyond. In: COLLER, M.; SNAPE, S. (eds.).
Ramesside Studies. Bolton: Rutherford Press, 2007, p. 169-175.
58 MORENZ, Ludwig D. Literature as a construction of the past in the Middle
Kingdom. In: TAIT, John (ed.). “Never had the like occurred”: Egypt’s view of its
past. 2a. ed. London: Left Coast Press, 2007, p. 103.

Via Teológica | Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 61


notavelmente próximos dos lamentos pelas cidades sumérias”59.
Seguindo essa percepção, estabelece-se uma relação próxima entre
os lamentos egípcios com os mesopotâmicos e israelitas60.
James Breasted volta sua atenção ao messianismo, que
considera o tema principal do poema. Segundo ele, seria uma
comprovação do fenômeno do messianismo anterior ao surgimento
dos hebreus no contexto do AOP61. O autor inclui sob o mesmo
tema o texto intitulado O Camponês Eloquente (The Eloquent Peasant).
Samuel Terrien viu uma relação entre o pessimismo egípcio
– que apresenta lamentações – e o livro de Jó da Bíblia Hebraica.
Segundo ele, assim como Jó é um poema enquadrado por uma
narrativa em prosa, os discursos semipoéticos de O Camponês
Eloquente são formados por um prólogo e epílogo em prosa. Seria
um correspondente de gênero narrativo datado do período do
Império Médio.
Seguindo sua relação, Terrien compara a história do
desafortunado Jó com o personagem aflito do poema egípcio
chamado O Diálogo entre o Homem Cansado da Existência e sua
Alma. Também seriam gêneros correspondentes ao ceticismo
mesopotâmico, que produziu um poema conhecido como Jó

59 MORENZ, Ludwig D. Literature as a construction of the past in the Middle


Kingdom. In: TAIT, John (ed.). “Never had the like occurred”: Egypt’s view of its
past. 2a. ed. London: Left Coast Press, 2007, p. 111.
60 Seria uma plausível conexão para além da universalidade da lamentação,
acessando uma particularização hipotética; uma aproximação entre a convenção
literária do lamento no AOP. Para levar essa ideia adiante é necessário um estudo
complementar posterior que compare os textos em si e situe muito bem a época de
redação dos poemas.
61 BREASTED, James H. Development of religion and thought in Ancient Egypt.
Philadelphia, Pennsylvania: University of Pennsylvania Press, 1972, p. 211-221.

62 Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 | Via Teológica


babilônico, traduzido por Samuel Krammer62. Com esses dados,
o autor procurou avaliar se na composição do livro de Jó, seus
escritores tiveram acesso a algum tipo de literatura egípcia na
confecção desse livro bíblico.
Não obstante, o livro de Jó, como um todo, pode ser
caracterizado como um lamento dentre a literatura sapiencial
de Israel63, o que o torna próximo da literatura sapiencial egípcia
pessimista, que é ou contém a lamentação.
O estudo do antigo Egito é vasto e não há qualquer pretensão
deste tópico alcançar sua complexidade. Ressalta-se que a busca
pelos lamentos desse povo no período antigo é mais escassa em
comparação aos períodos mais recentes, como o Ptolomaico64,
ou em comparação com outras culturas do AOP. A pesquisa dos
lamentos egípcios neste recorte das intermediações da Idade do
Bronze e anterior representa um desafio ao estudante da literatura
e religião do mundo da Bíblia.

Considerações finais

Um dos tópicos de interesse na correspondência entre Israel


e seus vizinhos é a lamentação, assim como o profetismo65 e o

62 TERRIEN, Samuel. Jó. São Paulo: Paulus, 1994, p. 11-18 (Coleção Grande
Comentário Bíblico).
63 SIQUEIRA, Tércio M. El lamento. Revista de Interpretación Bíblica
Latinoamericana (RIBLA), Quito, n. 52, p. 23-30, 2005.
64 DIELEMAN, Jacco; MOYER, Ian S. Egyptian Literature. In: CLAUSS, James J.;
CUYPERS, Martine (eds.). A companion to Hellenistic literature. Oxford: Blackwell
Publishing, 2010, p.429-447 (Blackwell Companions to the Ancient World).
65 Para aprofundar o tópico do profetismo no contexto do Antigo Oriente Próximo,
consulte: WILSON, Robert. Profecia e sociedade no Antigo Israel. São Paulo: Paulus,
Targumim, 2006.

Via Teológica | Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 63


messianismo66. Sabe-se que a lamentação ocupa grande parte dos
escritos bíblicos, não apenas do saltério, mas de todo o cânon cristão.
Os lamentos bíblicos não são apenas lamentos
mesopotâmicos, egípcios ou cananeus reescritos. Não é cansativo
dizer que houve adaptações, representações e significados
diferentes. A função teológica dos lamentos canônicos é diferente
dos seus vizinhos mais antigos.
Os lamentos mesopotâmicos possuem um caráter de barganha
com os deuses, uma espécie de apaziguamento das divindades
por causa das destruições67, enquanto os egípcios dispunham do
fenômeno como fórmulas mágicas em ofícios fúnebres cheios de
simbolismo iconográfico68. Em outras palavras, em sua interpretação
teológica, o lamento de Israel difere dos seus vizinhos.
Contudo, assim como na Bíblia, os povos anteriores e
vizinhos a Israel praticam o lamento com vínculos às dimensões
religiosas. A religião continha um espaço para dar significado ou
atenuar o sofrimento, a experiência de estranheza com a morte e
a infelicidade69.

66 Para aprofundar o tópico do messianismo no contexto do Antigo Oriente Próximo,


consulte: DAY, John. King and Messiah in Israel and the Ancient Near East: proceedings
of the Oxford Old Testament Seminar. London: Blomsburry T&T Clark, 2013.
67 SPARKS, Kenton L. Ancient texts for the study of the Hebrew Bible: a guide to the
background literature. Peabody: Handrickson Publishing, 2005, p. 96.
68 WICKETT, Elizabeth. For the living and the dead: the funerary laments of Upper
Egypt, Ancient and Modern. New York: I.B. Tauris, 2010.
69 As descobertas arqueológicas do Antigo Oriente Próximo estão envoltas na esfera da
religião, ou no mínimo, a religião está imbuída nelas. O mundo antigo não testemunha
uma secularização ou dissociação da vida religiosa das demais esferas do viver. Eliade
demonstra que cada descoberta do mundo antigo, seja de que âmbito for, possui uma
“reprodução de um sentido e de um valor religioso”. ELIADE, Mircea. História das
crenças e das idéias religiosas: da idade da Pedra aos mistérios de Elêusis. Volume 1.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010, p.54. A vida no mundo antigo é a priori uma vida
religiosa. Por conseguinte, a lamentação no mundo antigo tem conotações religiosas.

64 Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 | Via Teológica


As lamentações do AOP nem sempre seguem algum tipo
de homogeneidade literária ou correspondente específico com os
lamentos de Israel. Alguns são poemas avulsos, outros fazem parte
de coleções mais abrangentes, encontram-se relatos ou inclusões de
lamentos na fala dos deuses ou heróis das narrativas dos povos antigos.
A lamentação ocupa um papel preponderante como gênero
literário, manifestação religiosa e cultural e de sentido teológico
no Antigo Testamento. Conhecer e identificar que a lamentação
não era exclusiva de Israel, mas fazia parte de seu background,
fornece informações úteis para o estudo dos lamentos bíblicos
bem como para sua interpretação teológica assertiva.
A lamentação no contexto do Antigo Oriente Próximo
influenciou o modo de pensar e agir do Antigo Israel em relação
às suas lamentações. Essa influência tem início desde a origem
incerta de Israel e seus primórdios, no assentamento dos israelitas
em Canaã, perpassando toda a formação de sua religião até a
época de definição do seu cânon sagrado.
Não observar a influência da cultura e práticas religiosas
dos povos do Antigo Oriente Próximo em relação ao Antigo Israel
é descartar evidentes testemunhos históricos, arqueológicos e
literários que podem auxiliar na leitura dos textos bíblicos70.

REFERÊNCIAS
ASSMANN, Jan. Death and salvation in Ancient Egypt. New York:
Cornell University Press, 2005.

70 Agradece-se à professora Andrea Kucharek da Universidade de Heidelberg pelas


dicas de bibliografia para pesquisar os lamentos egípcios. A gratidão se estende
também à Martha Zimermann de Morais e a Willibaldo Ruppenthal Neto pelas
valiosas sugestões para o texto final.

Via Teológica | Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 65


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Texto recebido em: 15 de abril de 2014.


Texto aceito em: 25 de junho de 2014.

70 Igor Pohl Baumann, Vol. 15, n.29, jun.2014, p. 41 - 70 | Via Teológica