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Jacques Benigne Bossuet

Panegírico de São Francisco de Assis


Bossuet

(Pregado em Metz no dia 4 de outubro de 1665)

Sublime e celeste loucura de São Francisco, que lhe faz colocar as suas riquezas na pobreza, as suas delícias nos
sofrimentos, a sua glória na humilhação.

Si quis videtur inter vos sapiens esse in hoc saeculo, stultus Fiat ut sit sapiens.

"Se no meio de vós há alguém sábio segundo o século, faça-se louco para ser sábio" (1Cor 3, 18).

O Salvador Jesus Cristo, cristãos, deu um amplo assunto de discussão, ainda que de modo bem diverso, a quatro
sorte de pessoas: aos judeus, aos gentios, aos hereges e aos fiéis. Os judeus, preocupados com essa opinião mal
fundada do Messias vir ao mundo com pompa real, prevenidos por essa falsa crença, aproximam-se do Salvador.
Viram-no reduzido à mais completa simplicidade, sem nada do que impressiona os sentidos, um pobre homem sem
fausto e sem glória: desprezaram-no. “Jesus lhes era um escândalo: Judaeis quidem scandalum, diz o grande
apóstolo[2]. Os gentios por sua vez, que se tinham por autores e senhores da boa filosofia, e que, desde longos
séculos, viram brilhar no meio deles os espíritos mais célebres do mundo, quiseram examinar a Jesus Cristo segundo
as máximas recebidas pelos sábios da terra. Mas, ouvindo falar de um Deus feito homem, que vivera
miseravelmente, que fora pregado em uma cruz, fizeram dele um objeto de escárnio. “Jesus foi para eles uma
loucura,”Gentibus autem stultitiam, continua São Paulo.

Após estes vieram outros homens, chamados na Igreja maniqueus e marcionitas, todos dissimulando ser cristãos.
Comovidos pelas terríveis investidas dos gentios contra o filho de Deus, quiseram defendê-lo dos insultos desses
idólatras, mas de um modo contrário aos desígnios da bondade divina sobre nós. Essas fraquezas do nosso
Deus, pusillitates Dei, como um antigo as chamava[3], pareceram-lhes vergonhosas para declará-las francamente. Ao
invés dos gentios que as exageravam para servir-lhes de objeto de escárnio, estes procuravam dissimular, esforçando-
se para diminuir alguma coisa dos opróbrios do Evangelho tão úteis à nossa salvação. Pensavam, com os gentios e
com os judeus, ser indigno de um Deus tomar uma carne como a nossa, e sujeitar-se a tantos sofrimentos. Para
escusar essas humilhações, sustentavam que o seu corpo era imaginário, e, por conseguinte, o seu nascimento, a sua
paixão e morte eram fantásticos e ilusórios, em uma palavra, toda a sua vida não fora senão uma representação sem
realidade. As verdades de Jesus eram um escândalo para esses hereges, pois fizeram um fantasma da causa de nossa
esperança. Quiseram ser muito sábios, e destruíram, segundo as suas forças, a desonra necessária de nossa
fé: Necessarium dedecus fidei, diz o grave Tertuliano[4] .

Os verdadeiros servos de Jesus Cristo não tiveram essas delicadezas, nem essas vãs complacências. Não creram as
coisas ao meio, nem envergonharam-se da ignomínia do Mestre; não temeram publicar por toda a terra o escândalo
e a loucura da cruz em toda sua extensão: profetizaram aos gentios que essa loucura destruiría-lhes a sabedoria.
Quanto a esses absurdos que os pagãos encontravam em nossa doutrina, os nossos pais responderam que as
verdades evangélicas lhes pareciam tanto mais verossímeis quanto pareciam impossíveis à filosofia humana: Prorsus
credibile est, quia ineptum est,... certum est, quia impossibile est, dizia outrora Tertuliano[5] . A nossa fé compraz-se
em atordoar a sabedoria humana com proposições temerárias que ela não pode compreender.

Desde esse tempo, meus irmãos, a loucura tornou-se uma qualidade honrosa, e o apóstolo São Paulo publicou por
ordem de Deus esse edito que citei em meu texto: “Se alguém quer ser sábio, faça-se antes louco”, stultus fiat ut sit
sapiens. Não admirai-vos, portanto, se, devendo fazer hoje o panegírico de São Francisco, mostro-vos a sua loucura,
muito mais estimável que toda a prudência do mundo. Como a primeira e a maior loucura, isto é, a mais alta e a mais
divina sabedoria que prega o Evangelho é a encarnação do Salvador, não é fora de propósito, para já ter alguma ideia
do que devo vos dizer, que mediteis sobre esse augusto mistério enquanto recitamos as palavras que o anjo dirigiu a
Maria, dando-lhe esta notícia. Imploremos, pois, a assistência do Espírito Santo pela intercessão da Santíssima
Virgem. Ave.
A orgulhosa sabedoria do século, não podendo compreender a justiça dos caminhos de Deus, emprega todas as suas
falsas luzes para contradizê-las, mas é admiravelmente confundida pela doutrina do Evangelho e pelos santíssimos
mistérios do Salvador Jesus. O poder divino, desde a origem do universo, começara a fazer-lhe sentir a sua fraqueza,
propondo-lhe enigmas indecifráveis na ordem das criaturas, e apresentando-lhe o mundo como um assunto
inesgotável de questões inúteis que jamais serão esclarecidas por decisão alguma. Era certamente crível que esses
grandes e impenetráveis segredos que limitam e prendem fortemente os conhecimentos do espírito humano
marcariam ao mesmo tempo fronteiras ao seu orgulho. Infelizmente, isto assim não se deu, e eis a causa mais
plausível: a razão humana sempre temerária e presunçosa, tendo recebido uma pequena claridade nas obras da
natureza, imaginou logo descobrir alguma enorme e prodigiosa luz, e em vez de adorar o Criador, admirou-se a si
própria. O orgulho, cristãos, tem isto de particular: aumenta por si mesmo, tão pequenos sejam os seus começos,
porque exalta sempre as primeiras complacências pelas suas vaidosas reflexões.

O homem, cheio de suas lindas concepções, persuade-se que toda a ordem do mundo deve seguir as suas máximas.
Cansou-se de obedecer ao governo que Deus lhe tinha prescrito, a fim de o conduzir a si próprio, como a seu
princípio. Ao contrário, pretendeu que a Divindade se regulasse segundo as suas ideias. Fez deuses a seu jeito, e
adorou os seus trabalhos e as suas fantasias, e, tendo-se perdido, como diz o Apóstolo[6], na incerteza de seus
pensamentos, quando pensou elevar-se ao apogeu da sabedoria, precipitou-se em uma excessiva loucura: Dicentes
enim se esse sapientes, stulti facti sunt[7] .

A eterna sabedoria, que se compraz em sanar ou confundir a sabedoria humana, sentiu-se forçada a formar novos
planos e a começar uma nova ordem de coisas por Nosso Senhor Jesus Cristo. Admirai a profundeza de seus
julgamentos. No primeiro trabalho que Deus nos propôs, essa bela oficina do mundo, o nosso espírito via antes de
tudo os traços da sabedoria infinita. No segundo trabalho, que compreende a doutrina e a vida do nosso Mestre
crucificado, não se descobre, a primeira vista, senão loucura e extravagância. No primeiro, dizíamos há pouco, a razão
humana descobria alguma coisa, e, tornando-se insolente, não quis reconhecer aquele que lhe dava suas luzes. No
segundo, de uma outra superioridade, perderam-se todos os seus conhecimentos, ela não soube onde se agarrar, e é
necessário, ou que que ela se submeta a uma razão mais alta, ou seja confundida: de um modo ou de outro a vitória
é da sabedoria divina.

É o que concluímos deste douto raciocínio do Apóstolo. O nosso Deus, diz esse grande personagem, introduziu o
homem nesse belo edifício do mundo, a fim de que, admirando a arte, adorasse o arquiteto. O homem, porem, não
utilizou-se da sabedoria que Deus lhe dera para reconhecer o Criador pelas obras de sua sabedoria, como declara o
Apóstolo: Quia in Dei sapientia non cognovit mundus per sapentam Deum[8] . Que acontecerá, santo apóstolo? Deus,
acrescenta ele, pôs esta lei eterna, que dora avante os crentes não se poderão salvar senão pela loucura da
pregação: Placuit Deo per stultitiam praedicationis salvos facere credentes[9]. Que farás, ó obstinada razão humana?
És vivamente perseguida por essa sabedoria profunda que aparece a teus olhos sob uma loucura aparente. Vejo-te
reduzida à última extremidade, porque de um lado ou de outro a loucura é inevitável; na cruz de Nosso Senhor e em
toda a conduta do Evangelho, os pensamentos de Deus e os teus são opostos, e tal é a oposição que uns sendo
sábios, outros fatalmente serão extravagantes.

Que faremos nós, cristãos? Se cedemos ao Evangelho, todas as máximas da prudência humana nos declaram loucos e
da mais alta loucura. Se acusarmos de loucura a sabedoria incompreensível de Deus, somos necessariamente
furiosos e demônios. Ah! Deixemos antes todas as nossas máximas, condenemos as nossas coerências, curvemo-nos
sob o jugo da fé, e, libertando-nos dessa falsa sabedoria com que nos vangloriamos, tornemo-nos felizmente
insensatos por amor de nosso Salvador que, sendo a sabedoria do Pai, dignou-se passar por louco neste mundo, a
fim de nos ensinar a prudência celeste, em uma palavra, se entre nós há quem pretenda a verdadeira sabedoria, que
se faça louco a fim de ser sábio, sultus fiat ut sit sapens, diz o grande apóstolo.

Ei-la, cristãos, ei-la, essa ilustre, essa generosa, essa sábia e triunfante loucura do cristianismo, que confunde tudo o
que se opõe à ciência de Deus, que torna humilde ou subjuga invencivelmente a razão humana, sempre tendo a
gloriosa vitória. Ei-la, essa bela loucura que deve ser o único ornamento do panegírico de São Francisco, como vos
prometi, e que fará o seu elogio. Notareis desde já que há uma conveniência necessária entre os costumes dos
cristãos e a doutrina do cristianismo. Essa loucura aparente, que está na palavra do Filho de Deus, deve passar por
imitação na vida dos seus servos. Eles são um Evangelho vivo. O Evangelho escrito em nossos livros, e o que o
Espírito Santo digna-se escrever na alma dos santos, que podem ser lidos em suas ações como em belos caracteres,
desagradam igualmente a falsa prudência do mundo.

Imaginai, pois, que Francisco, tendo considerado os grandes e vastos caminhos do mundo, que lavam à perdição,
resolveu seguir caminhos completamente opostos. O conselho mais vulgar que nos dá a sabedoria humana é de
ajuntar riquezas, de fazer valer os seus bens e de adquirir novos: é do que se fala em todos os gabinetes, é do que se
fala em todas as companhias, é o assunto comum de todas as deliberações. Há, portanto, outras pessoas que se
julgam mais finas, que vos dirão que as riquezas são bens estranhos à natureza; que é preferível gozar da doçura da
vida e temperar com sensualidades as contínuas amarguras. É esta uma outra categoria de sábios. Mas há outros
ainda que, talvez, censurarão esses sectários tão ardentes das riquezas e das delícias. Quanto a nós, dirão eles,
façamos profissão de honra, não buscando outra coisa com tanto cuidado que a reputação e a glória. Se penetrardes
em suas consciências, vereis que se consideram os únicos homens honestos do mundo: gastam o espírito em vigílias
e em perturbações a fim de adquirirem crédito para chegarem às honras. São, segundo a minha opinião, as três
coisas que dirigem todos os negócios do mundo, armam todas as intrigas, inflamam todas as paixões, suscitam todas
as movimentações.

Ah! como o nosso admirável Francisco reconheceu a ilusão de todos esses bens imaginários! Ele diz que as riquezas
escravizam os corações, que as honras os prendem, que os prazeres os enfraquecem. Ele quer constituir as suas
riquezas na pobreza, as suas delícias nos sofrimentos, a sua glória na humilhação. Oh! loucura! E Deus que pensa
fazer? Oh! o mais insensato dos homens, segundo a sabedoria do século, porém, o mais sábio, o mais inteligente, o
mais atilado, segundo a sabedoria de Deus! É o que procurarei mostrar no correr deste discurso.

Quando tomei a resolução de vos entreter hoje das três vitórias de São Francisco sobre as riquezas do mundo, sobre
os seus prazeres, sobre as suas honras, estava persuadido que poderia apresentá-las uma após a outra; vejo agora ser
uma tentativa impossível e, tendo de começar pela profissão generosa que fez da pobreza, sou obrigado a declarar-
vos que, só por esta resolução, ele colocou-se infinitamente acima das honras e dos opróbrios, dos incômodos e do
bem-estar, e de tudo o que no mundo se chama bem ou mal, porque seria não conhecer a natureza da pobreza
considerá-la como um mal separado dos outros. Penso, cristãos, que, quando inventou-se esse nome, se quis
exprimir não um mal particular, mas um abismo de todos o males e o conjunto de todas as misérias que afligem a
vida humana. Ousaria quase afirmar que foi um demônio que, desejando tornar a pobreza insuportável, descobriu o
meio de atribuir às riquezas tudo o que há de honorífico e de agradável no mundo. Eis por que a linguagem vulgar as
chama bens em geral, porque são instrumentos comuns para adquirir todos os outros. Deste modo poderíamos
chamar a pobreza um mal geral, porque, tendo as riquezas tomado para si a alegria, a abundância, o aplauso, o favor,
só restam à pobreza a tristeza e o desespero, a extrema necessidade, e o que mais é insuportável, o desprezo e a
escravidão. Isto fez dizer ao Sábio que a pobreza entrava em uma casa como o soldado armado: Pauperies quase vir
armatus[10]. Singular comparação!

Dir-vos-ei, cristãos, quanto é horrível em uma pobre casa uma guarnição de soldados? Oxalá! que soubésseis isto
somente de minha boca! Ai! as nossas campanhas desertas, as nossas aldeias miseravelmente devastadas, dizem
bastante que somente este terror fez fugir todos os seus habitantes. Julgai, julgai por aí, quanto é terrível a pobreza,
pois a guerra, o horror do gênero humano, o mais cruel monstro que o inferno vomitou para a ruína dos homens,
não apresenta nada mais abominável do que essa desolação, essa indigência, essa pobreza que necessariamente
arrasta após si. E não basta que a pobreza seja atormentada por tantas dores, sem ainda sebrecarregá-la de opróbrio
e de ignomínia? As febres, as enfermidades, que são os nossos maiores males, têm isto de bom, que não
envergonham a ninguém. Em todos os outros infortúnios observamos que cada qual toma prazer em contar os seus
males e as suas desgraças. A pobreza tem isto de comum com o vício: ela nos envergonha, como se ser pobre fosse
ser criminoso.

Quantos privam-se das satisfações e até das necessidades da vida a fim de sustentarem uma pobreza honrosa!
Quantos tornam-se realmente pobres, procurando atender a não sei que ponto de honra, com uma despesa que os
prejudica! Por que isto, cristãos, senão porque, na estima dos homens, quem diz pobre, diz escória do mundo? Por
isso o profeta Davi, tendo descrito as diversas misérias dos pobres, conclui com esta palavra dirigida a Deus: Tibi
derelictus est pauper[11] : “Senhor, o pobre vos é abandonado”; e vemos nós alguma coisa de mais comum no
mundo? Quando os pobres dirigem-se a nós, a fim de socorrermos as suas necessidades, o favor mais comum que
lhes prestamos é desejar que Deus os proteja. Deus vos ajude! dizemo-lhes nós. Contribuir, porém, com alguma coisa
para socorrê-los é o menor dos nossos pensamentos. Nós nos descarregamos sobre a misericórdia divina, não
refletindo que é pelas nossas mãos e pelo nosso ministério, que Deus resolveu conceder-lhes a misericórdia que lhes
desejamos; tanto é verdade que ninguém se ocupa dos pobres! Cada qual trabalha, cada qual apressa-se em servir os
grandes; e somente a Deus pertence ocupar-se dos pobres: Tibi derelictus est!

Sendo isto assim, como mostra a experiência, quando um homem colocado no século, como São Francisco, toma a
resolução de fazer suas delícias da pobreza, é preciso que seja uma alma extremamamente convencida do desprezo
de todos esses bens imaginários que têm todas as nossas predileções. Vede-o, cristãos: Francisco, esse rico
negociante de Assis, enviado por seu pai a Roma para tratar dos seus negócios, entretem-se com um pobre em plena
rua. Ah, Deus! que há de comum o seu negócio com essa sorte de gente? Que comércio quer concluir com esse
pobre homem? Ah! o admirável tráfico, a rica e preciosa permuta! ele quer ter a veste desse pobre, dando-lhe a sua,
e satisfeito dessa troca, de uma veste limpa com outra em farrapos, mostra-se alegre vestido de pobre, enquanto o
pobre está embaraçado com uma veste de burguês.

Jesus, meu Salvador, dissestes que sois vestido quando alguém cobre a nudez dos vossos pobres, poderei eu exprimir
como esta ação vos foi agradável? A história eclesiástica ensina-me que São Martinho, vosso servo, tendo dado parte
do seu manto a um pobre que lhe pedia esmola, aparecestes-lhe em uma visão maravilhosa, coberto divinamente
com essa metade do manto, glorifcando-vos na presença de vossos santos anjos que Martinho, ainda catecúmeno,
vos tinha dado esse hábito. Permiti-me, ó meu Mestre, uma palavra familiar, que ouso avançar depois do que vós
mesmo dissestes. Se é verdade que estimais o que se vos dá na pessoa dos vossos pobres[12], como deveis vos
glorificar do presente que voz fez Francisco! Não priva-se unicamente do seu manto por amor vosso; ele quer vestir-
vos todo inteiro; ele vos dá um hábito completo. Ainda mais: tendo aprendido em vosso Evangelho que, quando
estivestes na terra, vivestes na pobreza, não satisfeito de vos ter vestido, parece pedir-vos também que seja vestido
como vós: ele cobre-se com as vestes do pobre para ser semelhante a vós.

E, com esse maravilhoso aparato, tanto mais magnífico quanto era abjeto, sigamo-lo, meus irmãos, porque veremos
ainda uma ação surpreendente. Dirige-se ao templo de Deus, dedicado à memória dos apóstolos São Pedro e São
Paulo, esses dois pobres ilustres que viram imperadores prostrados diante dos seus túmulos: aí, sem considerar que
poderia ser reconhecido, e sabeis que o comércio facilita as relações, confunde-se com os pobres que ele sabe ser os
irmãos e os prediletos do Salvador; faz o noviciado dessa pobreza generosa à qual é chamado pelo seu Mestre: sente
voluntariamente a vergonha e a ignomínia que lhe eram agradáveis; resiste fortemente ao efeminado e covarde
pudor do século, que não pode tolerar os opróbrios, bem que tenham sido consagrados na pessoa do Filho de Deus.
Ah! Começa bem a sua profissão de loucura da cruz e da pobreza evangélica!

Antes de ir mais longe, fiéis, é necessário, para melhor conhecermos o valor, que nós nos desenganemos dessa
admiração insensata das riquezas em que fomos educados; é necessário que eu vos mostre com invencíveis
raciocínios, as grandezas da pobreza segundo as máximas do Evangelho. E podereis então concluir quanto é injusto o
desprezo dos pobres, que há pouco vos descrevia. Mas, a fim de fazê-lo com maior proveito, deixemos aos oradores
do mundo a pompa e a majestade do estilo panegírico; eles não se preocupam que sejam escutados, desde que
reconhecem que são admirados. Nós, porém, nesta tribuna do Salvador Jesus, ornemos o nosso discurso com a
simplicidade do Evangelho, e alimentemos as nossas almas com verdades sólidas e inteligíveis.

Afirmo, pois, ó ricos do século, que fazeis mal em tratar com injurioso desprezo os pobres. Se quisermos remontar a
origem das coisas veríamos que não tendes mais que eles direito aos bens deste mundo. A natureza, ou antes, para
falar cristãmente, Deus, o pai comum dos homens, desde o começo, deu a todos os seus filhos um direito igual sobre
todas as coisas de que têm necessidade para a conservação da vida. Nenhum de nós pode glorificar-se de ser mais
avantajado que os outros pela natureza, mas o insaciável desejo de ajuntar não permitiu que essa bela fraternidade
durasse muito tempo no mundo, Foi necessário vir a divisão, a propriedade, causa de discussões e de processos: vem
daí esses vocábulos egoístas, segundo São João Crisóstomo[13]; daí essa grande variedade de condições, uns vivendo
na abundância de todas as coisas, outros definhando em extrema indigência. Por este motivo muitos santos Padres,
contemplando a origem das coisas e a geral liberalidade da natureza para com os homens, não hesitaram em afirmar
que era privar os pobres de seus bens, negando-lhes o que nos é supérfluo.
Não quero dizer com isto, meus irmãos, que sois apenas os dispensadores de vossas riquezas; não é o que pretendo,
porque a divisão dos bens tendo sido feita pelo consenso comum de todos os povos, e tendo sido autorizada por lei
divina, sois os senhores e os proprietários da porção que vos coube; mas, aprendei que, sendo os verdadeiros
proprietários segundo a justiça dos homens, deveis vos considerar os dispensadores diante da justiça de Deus, a
quem prestareis conta. Não vos persuadis que ele abandonou o cuidado dos pobres; bem que estejam privados de
tudo não penseis que perderam o direito narutal, que têm nas coisas comuns que lhes são necessárias. Não, não, ó
ricos do século; não é somente para vós que Deus faz o sol levantar, que ele orvalha a terra, em cujo seio faz
desabrochar tão grande variedade de sementes; os pobres aí têm a sua parte tanto como vós. Confesso que Deus
não lhes entregou capital em propriedade, mas destinou-lhes a subsistência nos bens que possuis, tanto quanto sois
ricos. Não quer isto dizer que não pudesse sustentá-los de um outro modo, pois, sob o seu governo, aos animais,
mesmo os mas vis, não faltam as coisas necessárias a subsistência. A sua mão não é menos curta, nem os seus
tesouros estão mais esgotados. Ele quis que tivésseis a honra de fazer viver os vossos semelhantes. Que glória,
cristãos, se a soubéssemos compreender! Longe de desprezar os pobres, deveríeis respeitá-los, recebendo-os como
pessoas que Deus envia e recomenda.

Desprezai-os, tratai-os indignamente, tanto quanto quiserdes, é necessário, porém, que vivam a vossa custa, se não
quiserdes incorrer na indignação daquele que com os nomes augustos de Eterno e de Deus dos exércitos glorifica-se
ainda do título de Pai dos pobres. Viva Deus, diz o Senhor, é jurar por mim mesmo, o céu e a terra e tudo o que
encerram me pertence. Sois obrigados a me pagar a renda de todos os bens que possuis. Eu nada tenho que fazer
nem de vossas ofertas nem de vossas riquezas: sou o vosso Deus e não necessito dos vossos bens. Não sofro
necessidade senão na pessoa dos meus pobres, que considero meus filhos. Ordeno que lhes pagueis fielmente o
tributo que me deveis. Vede, meus irmãos, esses pobres que tanto desprezais: Deus os constitui os seus tesoureiros,
os seus recebedores gerais; ele quer que lhes seja entregue todo o dinheiro destinado aos seus cofres. Não promete-
lhes neste mundo nenhum direito que possam fazer valer por uma estrita justiça, mas permite-lhes de levantar sobre
todos os ricos um imposto voluntário não por uma violência, mas por caridade. Se são maltratados, se se lhes nega o
devido, não levarão queixas perante os juízes mortais; Deus ouvirá os seus gemidos do alto do céu. Como o devido
aos pobres é o seu próprio tesouro, reserva a causa para o seu tribunal. Eu os vingarei, diz ele; serei misericordioso
aos que excercerem a misericórdia, e inexorável a quem tiver sido inexorável. Sublime dignidade dos pobres! a graça,
a misericórdia, o perdão estão em suas mãos; e há pessoas tão insensatas para desprezá-los. É ainda por isto que São
Francisco mais os considera.

O pequenino de Belém, é assim que chama o seu Mestre esse Jesus “que sendo rico fez-se pobre por amor de nós, a
fim de nos enriquecer pela sua indigência,” como diz o apóstolo São Paulo[14] ; esse pobre rei que, vindo ao mundo,
não acha veste mais digna de sua grandeza do que a pobreza. É o que comove a sua alma. Minha cara pobreza, dizia
ele, tão humilde seja a tua origem, segundo o juízo dos homens, amo-te depois que o meu Mestre te tomou por
esposa. Ele tinha razão, cristãos. Se um rei casa-se com um filha de baixa condição, ela torna-se rainha. Murmura-se
algum tempo, mas, finalmente, é reconhecida. Ela enobrece-se pela união do príncipe; a sua nobreza passa à sua
família, os seus pais são comumente chamados aos mais belos empregos, e os seus filhos sãos os herdeiros do trono.
Assim aconteceu depois que o Filho de Deus esposou a pobreza. Ainda que resista-se, ainda que murmure-se, ela é
nobre e grande por essa aliança. Desde esse tempo os pobres são os confidentes do Salvador, e os primeiros
ministros desse reino espiritual que veio fundar na terra. Jesus, nesse admirável discurso que fez a um grande
auditório do alto dessa misteriosa montanha, não dignando-se falar aos ricos senão para fulminar-lhes o orgulho,
dirige a palavra aos pobres, seus bons amigos, e diz-lhes com incrível consolação de sua alma: “Oh! pobres! sois
felizes, porque o reino de Deus vos pertence!” Beati pauperes, quia vestrum est regnum Dei[15] !

Feliz, mil e mil vezes feliz o pobre Francisco, o mais ardente, o mais entusiasmado, se posso assim falar, o mais
desesperado amante da pobreza que jamais foi visto na Igreja. De que zelo não foi ele tomado! quão bela, quão
generosa, quão digna de ser consagrada pela eterna memória da posteridade foi a resposta que deu a seu pai que o
solicitava, em presença do bispo de Assis, a renunciar os seus bens. Acusava o filho de ser o mais gastador que todas
as outras pessoas do país. Não sabe, dizia ele, recusar a um pobre; não pode tolerar que haja na cidade famílias
necessitadas. Vende todas as minhas mercadorias para distribuir-lhes o preço. E, com efeito, cristãos, vendo o modo
como Francisco dispunha do que era seu, dir-se-ia que tinha hipotecado os seus bens aos pobres da província, e que
a sua esmola era menos um benefício do que uma dívida. Como todo o seu patrimônio era insuficiente para pagar
essas dívidas infinitas de uma caridade imensa e sem limites, o seu pai sustentava que devia renunciar os seus bens,
porque, dizia ele, era incorrigível, e não havia probabilidade de torná-lo mais circunspeto.

Que responderá Francisco a tão fortes acusações feitas com a veemência da autoridade paterna? Oh! Deus eterno!
como insipirais belas respostas aos vossos servos, quando se deixam conduzir pelo vosso Espírito Santo! Tomai, diz
Francisco animado por um instinto celeste, tomai, ó meu pai, eu vos dou mais do que pretendeis; e no mesmo
momento, atirando sua veste aos pés: Até aqui, exclamou ele, vos tinha chamado pai, agora nada mais espero de vós,
e direi com mais coragem e mais confiança: Nosso Pai que estais no céu. Que eloquência bastante forte, que
raciocínios assaz magníficos poderão igualar a majestade desta palavra? Oh! a bela falência desse mercardor! Oh!
homem! não tanto incapaz de possuir riquezas como digno de não tê-las, digno de figurar no livros dos pobres
evangélicos e dora avante viver com o capital da Providência! Encontrou finalmente essa pobreza tão ardentemente
desejada em que pusera o seu tesouro: mais se lhe tira, mais enriquece. Foi bem feito privá-lo de todos os seus bens,
porque queriam também tirar-lhe o que de mais sublime possuía em suas riquezas, o poder de distribuí-las
abundantemente aos pobres! Encontrou um Pai que não o impedirá de dar, nem o que ganhar com o trabalho de
suas mãos, nem o que alcançar da caridade dos fiéis. Feliz por nada mais possuir no século, recebendo de esmola até
o seu hábito! Feliz por possuir só a Deus, por tudo esperar dele, por tudo receber por amor dele! Graças a
misericórdia divina, o seu único negócio era servir a Deus, e todo seu alimento era fazer a vontade divina. Como o
seu estado é diferente do dos ricos! Vereis isso na segunda parte.

II

Quando vos considero, ó ricos do século, pareceis-me mais pobres que Francisco. Não podereis ter tão avultadas
riquezas que as vossas paixões desordenadas não devorem. Delas precisais para a necessidade, para a vaidade, para
o luxo, para os prazeres, para a pompa, para a ostentação, para mil superfluidades. Francisco, ao contrário, pode ter
um hábito imundo, um alimento parco e está perfeitamente satisfeito; disposto a morrer de fome, se essa é a
vontade de seu Pai celeste. Ora embrenha-se em uma floresta sombria, ora retira-se no alto de uma montanha,
admirando as obras de Deus, convidando todas as criaturas a louvá-lo e bendizê-lo, emprestando-lhes a sua
inteligência e a sua voz, passando dias e noites, a repetir, a meditar, a sentir esta piedosa palavra: “Meu Deus e meu
tudo”, palavra que sempre tinha nos lábios, Deus meus omnia. Percorre as cidades, as aldeias, os arraiais; levanta
altamente o estandarte da pobreza; começa um novo gênero de negócio, e funda o mais belo, o mais rico comércio
de que se possa ter ideia. Oh! vós, dizia ele, que desejais adquirir essa pérola incomparável do Evangelho, vinde,
associemo-nos, a fim de negociarmos no céu; vendei os vossos bens, dai tudo aos pobres, vinde a mim, livres de
todos os cuidados seculares; vinde, faremos penitência; vinde, louvaremos e serviremos o nosso Deus na
simplicidade e na pobreza.

Oh! santa companhia! que começais a formar-vos sob a conduta de São Francisco, possais, propagando-vos por toda
parte, inspirar aos homens do mundo um generoso desprezo das riquezas e conduzir os povos ao exercício da
penitência! Que pretendeis fazer com esse uniforme de talho singular, pesado no verão, e pouco apto a garantir-vos
(proteger-vos?) dos rigores do inverno? Por que não tomais maior precaução com a necessidade e fraqueza da
carne? Fiéis, o pobre Francisco, que deu-lhes esse conselho, não compreende estes discursos: ele segue outras
máximas mais varonis e mais elevadas. Lembra-se dessas folhas de figueira que, no paraíso, cobriram a nudez dos
nossos primeiros pais logo que a desobediência mostrou-lhes o mal. Recorda-se que o homem foi nu enquanto
inocente, e, portanto, não foi a necessidade e sim o pecado e a vergonha que fabricaram as primeiras vestes. Se o
pecado vestiu a natureza corrompida, ele pensa que a penitência deve vesti-la, depois de regenerada.

Mas, por que vós vos enfraqueceis com tantos jejuns? Por que vós vos extenuais em tantas vigílias? por que deitai-
vos sobre neve? por que vejo esse cilício inseparável do vosso corpo, o qual poderia tomar por uma outra pele
formada sobre a primeira? Respondei, Francisco, respondei: os vossos sentimentos são tão cristãos que teria receio
de diminuir alguma coisa de sua generosidade, se vós mesmo não os manifestasses. Quem sois vós, dirá ele, vós que
me fazeis essa pergunta? ignorais que o nome cristão significa sofrimento? Não vos lembrais desses dois atletas,
Paulo e Barnabé, que confirmavam e consolavam as Igrejas? e que diziam eles para consolá-las? “Que era necessário
chegar ao reino dos céus por longos trabalhos e grandes tribulações:” Quia per multas angustias et tribulationes
oportet pervenire ad regnum Dei[16] . Sabei, acrescentará ele, e perdoai-me, cristãos, se hoje faço falar frequentes
vezes esse ilustre personagem: sabei, pois, que nós cristãos “temos um corpo e uma alma, que devem ser expostos a
todos os sofrimentos”: Ipsam animam ipsumque corpus expositum omnibus ad injuriamgerimus[17]. E para obedecer
a ordem do Apóstolo[18] , “a fim de não agir em vão, trabalho para domar o meu corpo e submeter à escravidão o
apetite dessas volúpias que, com suas delicadezas, enfraquecem e pervertem a varonil virtude da fé:”Discutiendae
sunt deliciae, quarum malitia et fluxu fidei virtus effeminari potest[19] . Além de tudo, que maiores delícias para um
cristão do que o desgosto das delícias[20]? “Que! não poderíamos viver sem prazer nós que devemos morrer com
prazer?” Non possumus vivere sine voluptate, qui mori cum voluptate debemus[21]. São palavras do grave Tertuliano
que de bom grado ele emprestará aos sentimentos de Francisco, tão dignos desse primeiro vigor e firmeza dos
costumes cristãos.

Severa, mas evangélica doutrina, duras, mas indiscutíveis verdades, fazem tremer todos os nossos sentidos, e
pareceis insensatas a nossa pretensiosa sabedoria. Fostes vós que tornastes o inimitável Francisco tão felizmente
insensato; o enchestes de um violento desejo do martírio, que o fez buscar por toda parte um infiel que quisesse o
seu sangue. Certo é, ainda que revoltem-se os nossos sentidos, que um cristão, ferido pelo amor do nosso Salvador
não tem maior prazer do que derramar o seu sangue por ele. É esta, talvez, a única vantagem que podemos ter sobre
os anjos. Podem eles ser os companheiros de glória de Nosso Senhor, mas não podem ser os companheiros de sua
morte. Essas bem-aventuradas inteligências podem comparecer diante da face de Deus como vítimas ardentes de
uma caridade eterna, mas a natureza impassível não permite-lhes dar uma prova generosa de sua afeição pelos
sofrimentos e de gozar dessa honra tão doce àquele que ama, de amar até morrer, e de morrer por amor. Nós, ao
contrário, gozamos dessa preciosa vantagem, pois, das duas vidas que Deus se dignou dar-nos, uma é imortal e
incorruptível, e fará eternamente durar o nosso amor no céu; a outra é destrutível, e podemos imolá-la para provar-
lhe o nosso amor na terra. É, como vos disse, o que pode acontecer de mais agradável a uma alma verdadeiramente
ferida pelo amor divino.

Não vedes, cristãos, que o Salvador Jesus, durante sua vida mortal, não teve mais delicioso pensamento do que o da
morte que devia sofrer por nosso amor? e de onde lhe vinha esse gosto, esse prazer inefável que sentia na
contemplação de males tão dolorosos e extraordinários? É porque nos amava com amor imenso, do qual jamais
poderemos formar senão uma fraca ideia. Eis por que deseja ardentemente ver brilhar sem mais delonga essa páscoa
tão memorável[22] que devia santificar com a sua morte. Suspira incessantemente por esse batismo de sangue[23],
e por essa última hora que chamava a hora por excelência[24], como sendo aquela em que o seu amor devia triunfar.
Quando João Batista, o santo precursor, vê pousar o Espírito Santo sobre sua cabeça[25], quando abre-se o céu sobre
ele, quando o Pai o reconhece publicamente por seu Filho, não é essa, cristãos, a sua hora. A hora, que é sua,
segundo o modo vulgar de falar e segundo a frase da Escritura, é aquela em que, arrastando as nossas iniquidades
sobre o madeiro, ele se deve imolar por nós em um sacrifício de caridade.

Se o Criador sente perfeita alegria de morrer por sua criatura, que satisfação não deve experimentar a criatura de
morrer por seu Criador! Eis onde a alma fiel sente transportes admiráveis na contemplação do nosso Mestre
crucificado. O precioso sangue, que corre de toda parte de suas veias barbaramente rompidas, transforma-se em um
rio de chamas que o abrasa de um ardor invencível para consumir-se por ele. E poderemos nós ver o nosso bravo e
vitorioso chefe derramar o seu sangue pela nossa salvação com tão grande alegria, sem que o nosso se exaltasse em
presença desse espetáculo de amor? Os médicos dizem que há certos espíritos violentos e, por conseguinte, ativos e
vigorosos que, penetrando em nosso sangue, o fazem sair ordinariamente com grande impetuosidade quando a veia
está aberta. Ah! o sangue de Jesus Cristo, correndo em nossas veias pela virtude dos sacramentos, anima o sangue
dos mártires por um santo e divino ardor que o faz subir até o trono de Deus, quando a espada infiel o derrama pela
confissão da fé! Contemplai nos bem-aventurados soldados do Salvador a constância com que iam ao suplício. Uma
santa e celeste alegria brilhava em seus olhos e em seus semblantes por um fulgor mais que humano e que causava
admiração a todos os espectadores. Consideravam em espírito a torrente do sangue de Jesus Cristo que, por uma
prodigiosa inundação, caía sobre suas almas.

Não admira-me, portanto, se o incomparável Francisco deseja ardentemente o martírio, ele que jamais perdera de
vista o Salvador pregado em uma cruz, e que tirava constantemente de suas chagas essa água celeste do amor de
Deus que sobe até a vida eterna. Embriagado por essa bebida divina, corre afoitamente ao martírio: nem os rios,
nem as montanhas, nem a imensidade dos mares podem impedir o seu ardor. Vai a Ásia, a África, por toda parte
onde pensa o ódio contra o nome Jesus ser mais desenfreado. Prega altamente a esses povos a glória do Evangelho;
descobre as imposturas de Maomé, o seu falso profeta. Que! essas acusações veementes não excitam os bárbaros
contra o generoso Francisco? ao contrário, admiram o seu zelo infatigável, a sua invencível energia, o prodigioso
desprezo das coisas do mundo: eles o veneram. Francisco, indignado de se ver respeitado pelos inimigos do seu
Mestre, recomeça suas investidas contra essa religião monstruosa. Mas, singular e maravilhosa sensibilidade! não
mostram-lhe menos deferência, e o bravo atleta de Jesus Cristo, vendo que não conseguia merecer a morte: Saiamos
daqui, meu irmão, dizia ele ao seu companheiro; fujamos, fujamos longe destes bárbaros muito humanos para nós,
pois não conseguimos nem fazer-lhes adorar o nosso Mestre, nem nos perseguir a nós que somos os seus servos. Oh!
Deus! quando mereceremos nós o triunfo do martírio, se até no meio das nações infiéis achamos honras? Já que
Deus não nos julga dignos do martírio, nem de participar dos seus gloriosos opróbrios, vamos, meu irmão, terminar a
nossa vida no martírio da penitência, ou procuremos algum lugar da terra onde possamos beber aos sorvos a
ignomínia da cruz.

Convinha, cristãos, mostrar-vos aqui a loucura do sábio e admirável Francisco. Serieis entusiasmados vendo-o
levantar a sua glória sobre o desprezo das honras! Que louvores não daríeis à ingênua infância de sua inocente
simplicidade, e a essa humildade tão profunda com que se considerava o maior dos pecadores, e essa fiel confiança
que lhe fazia pôr o arrimo de sua esperança nos méritos do Filho de Deus, e a esse temor tão modesto que tinha de
mostrar os sagrados sinais da paixão do Salvador, que Jesus crucificado, por uma misericórdia inefável, tinha
impresso em sua carne! Como sereis admirados, quando eu vos disser que Francisco, esse personagem admirável
que levava uma vida mais angélica que humana, recusou o santo sacerdócio, considerando essa dignidade muito
pesada para os seus ombros! Ai! bem que imperfeitos, corremos muitas vezes para ela sem sermos chamados, com
uma temeridade, uma precipitação que faz estremecer a religião: imprudentes, não compreendemos a elevação dos
mistérios de Deus e a virtude necessária àqueles que pretendem ser os seus dispensadores. E Francisco, esse anjo
celeste, após tantas ações heroicas e o longo exercício de uma virtude consumada, ainda que toda a hierarquia
eclesiástica lhe estenda os braços como a um homem destinado a ser um dos seus mais belos luminários, treme e
perturba-se só com o nome de padre, e não ousa, malgrado a mais legítima vocação, senão contemplar de longe
uma dignidade tão honorífica! Certamente, se começasse a vos narrar essas maravilhas recomeçaria um novo
discurso, e no fim do meu trabalho abriria um caminho imenso. Como fazemos na Igreja os panegíricos dos santos
menos para celebrar as suas virtudes, que já são coroadas no céu, do que para nos propor o seu exemplo, devemos
suprimir alguma coisa dos elogios de São Francisco, a fim de reservar mais tempo para tirar alguma conclusão prática
de sua vida.

Que escolheremos nós, cristãos, nas ações de São Francisco para a nossa instrução? Será, talvez, uma empresa muito
temerária procurar curiosamente a sua virtude mais eminente. Pertence àquele que as dá apreciar o seu valor. Tome
cada um para si o que em consciência lhe for mais útil; quanto a mim, para edificação da Igreja, vos proporei o que
me parece mais proveitoso para salvação de todos; e não sei que sentimento me diz no fundo do coração que deve
ser o desprezo das riquezas, às quais é visível que somos apegados. O Apóstolo, falando a Timóteo, indica aos
pregadores como devem exortar os ricos. “Ordenai, diz ele, aos ricos do século, que evitem ser orgulhosos e por as
suas esperanças na inconstância das riquezas.” Divitibus hujus saeculi praecipe non sublime sapere neque sperare in
incerto divitiorum[26]. É o que ensina o apóstolo São Paulo, quando refere-se às duas principais enfermidades dos
ricos: a primeira, o grande apego aos bens; a segunda, a grande estima que têm ordinariamente de suas pessoas,
porque veem que a riqueza dá-lhes algum crédito no mundo.

Ora, meus irmãos, ainda que fosse um simples filósofo, não faltariam razões para vos mostrar ser uma grande
loucura estimar tanto os bens que nos podem ser arrebatados por uma infinidade de acidentes, e dos quais a morte
nos separará sem recurso, depois de termos tomado tantas precauções para salvá-los das ciladas que a sorte nos
arma. Se a filosofia reconhece a vaidade das riquezas, nós, cristãos, devemos desprezá-las, nós, digo, que
fundamentamos este desprezo não sobre raciocínios humanos, mas sobre verdades que o Filho do Pai eterno selou e
confirmou com o seu sangue! Se verdade é que a herança celeste, que Deus nos preparou pelo seu único Filho, é o
único objeto de nossas esperanças, devemos avaliar as coisas segundo o modo como para ela nos conduzem, e
detestar tudo o que se opõe a tão grande felicidade. Mas, entre todos os obstáculos que o demônio suscita contra a
nossa salvação, não há maior nem mais formidável que as riquezas. Por quê? Não alegarei outra razão, contentado-
me com a palavra do nosso Salvador, mais poderosa que todas as razões. É referida por três evangelistas, e
particularmente por São Marcos com prodigiosa energia.

Meus amados filhos, diz o nosso Mestre aos discípulos, depois de havê-los contemplado longo tempo, a fim de
incutir-lhes no espírito o que era de suma importância o que ia dizer-lhes: “Meus amados filhos, é coisa muito difícil
os ricos salvarem-se! Em verdade vos digo, é mais fácil um cabo ou um camelo passar pelo ouvido de uma
agulha[27]” Não estejais pasmos por esse modo de falar tão singular. Era um provérbio entre os hebreus, com que
exprimiam ordinariamente as coisas que julgavam impossíveis; é como se disséssemos: antes cairia o céu, ou
qualquer outra expressão. Mas aí não devemos parar: vede, vede em que ordem o Salvador colocou a salvação dos
ricos. Direis, talvez, que é um exagero, e alegrai-vos com esse pensamento, mas eu afirmo que devemos tomar essa
palavra no sentido literal. Espero convencer-vos pelo que segue no Evangelho. Estejais atentos; é o Salvador quem
fala. Convém ouvir a sua palavra, pois, é a vida eterna.

Quando um homem fala com exagero, isso observa-se ordinariamente em seus atos, em seus modos, e nos
sentimentos que o seu discurso suscita no espírito do auditório. Por exemplo, se acontecesse eu dizer alguma coisa
desse modo, conhecereis em vós mesmos e seríeis melhores juízes do que aqueles que não me ouviram: nada mais
constante que esta verdade. Ora, quais os que ouviram o Salvador? os bem-aventurados apóstolos. Qual o
sentimento que lhes sugeriu esse discurso? Pensaram eles que essa sentença foi pronunciada com exagero? Julgai
pelas suas respostas e pelo seu espanto. Ouvindo essas palavras do Salvador, diz o Evangelista, ficaram pasmos,
admirando a veemência extraordinária com que o divino Mestre avançara essa terrível proposição. Refletindo depois
sobre o amor desordenado das riquezas que reina por toda parte, disseram uns aos outros: “E quem poderá salvar-
se?” Et quis potest salvus fieri[28]. Ah! é bem visível, por esta resposta, que tomaram a palavra do Filho de Deus no
sentido literal! porque é claro que um exagero não os teria impressionado tanto. Jesus, porém, não fica nisso: vendo-
os atônitos, ao invés de tirar-lhes o escrúpulo, como desejariam os ricos, confirma ainda mais a sua sentença. Dizeis,
ó meus discípulos, que, sendo assim, a salvação é impossível: é impossível aos homens, mas a Deus não é impossível,
e dá a razão: porque, diz ele, tudo é possível a Deus.

Que vos direi, cristãos? A primeira vista poderia parecer que o Filho de Deus tivesse esquecido o seu primeiro rigor.
Mas, seria compreender mal a força de suas palavras. Expliquemo-las com outros textos. Observo nas Escrituras que
esse modo de falar só é empregado em grandes e invencíveis dificuldades. Quando todas as razões humanas
fraquejam, parece então absolutamente necessário alegar, como último recurso, a onipotência divina. É o que faz o
anjo em relação à Santíssima Virgem, quando, querendo fazer-lhe ver que poderia conceber sendo virgem, mostra-
lhe o exemplo de uma estéril que concebera, porque, dizia ele, diante de Deus nada é impossível. Comparai as coisas.
Uma virgem pode conceber, uma estéril pode gerar, um rico pode salvar-se. São três milagres, dos quais os santos
Livros não apresentam outra razão, a não ser a onipotência de Deus. É, portanto, verdade, ó rico do século, que a
vossa salvação não é coisa medíocre; seria impossível se Deus não fosse todo-poderoso; esta dificuldade, pois,
excede os nossos pensamentos, porque é necessário um poder infinito para vencê-la.

Não digais que essa palavra não se refere a vós, porque não sois ricos. Se não sois ricos, ambicionais sê-lo, e essas
maldições das riquezas não devem somente cair sobre os ricos como sobre aqueles que o desejam ser. É desses de
quem fala o Apóstolo, que caem na armadilha do demônio e em muitos maus desejos que precipitam o homem na
perdição[29]. O Filho de Deus, no texto citado, não fala somente dos ricos, mas daqueles “que se fiam nas
riquezas:” confidentes in pecuniis. Ora, o desejo e a esperança sendo inseparáveis, impossível desejá-las sem aí pôr
suas esperanças.

Relatar-vos-ei aqui todos os males que o maldito desejo das riquezas traz ao gênero humano? as fraudes, os enganos,
as usuras, as injustiças, as opressões, as inimizades, os perjúrios, as perfídias, tudo é ordinariamente entretido na
terra pelo desejo das riquezas. O Apóstolo tem razão de dizer que “o desejo das riquezas é a raiz de todos os
males:” Radix omnium malorum est cupiditas[30]. Por que o avarento, pondo a sua alegria e a sua esperança em
algum ano estéril e na carestia pública, prepara e aumenta os seus celeiros, a fim de aí esconder a subsistência do
pobre, que a fará comprar ao preço do seu sangue, quando estiver reduzido a miséria? Por que o mercador falaz diz
mais mentiras, faz mais juramentos do que vende as mercadorias? Por que o lavrador impaciente, muitas vezes,
amaldiçoa o seu trabalho e a divina Providência? Por que o soldado feroz exerce uma rapina tão cruel? Por que o juiz
corrupto vende e entrega sua alma a Satanás? Não é o desejo das riquezas?

Mas os que as possuem velem cuidadosamente sobre suas almas: elas têm laços invisíveis, dos quais não se podem
desvencilhar os nossos corações: ora, um coração que ama outra coisa a não ser Deus, não pode amar a Deus. “Ah!
se amamos devidamente a Deus, diz admiravelmente Santo Agostinho, não amaremos o dinheiro:” O si Deum digne
amemus, nummos omnino non amabimus[31]. Se, por conseguinte, amamos o dinheiro, seremos incapazes de amar
a Deus.
Tirai agora esta consequência: os homens que possuem muitas riquezas é quase impossível que não as amem.
Quando quisessem isto negar, tornar-se-ia evidente pelo medo que têm de perdê-las. Quem muito ama as riquezas é
incapaz de amar a Deus: quem não ama a Deus é impossível salvar-se. “Oh! Deus! os que possuem grandes fortunas
dificilmente alcançam o reino dos céus!” Quam difficile qui pecunias possident, possunt pervenire ad regnum Dei!

Se, pois, são tão funestas as riquezas, vede, meus irmãos, o que deveis fazer. Deus não vo-las deu para encerrá-las
em cofres, nem para empregá-las em despesas supérfluas, para não dizer perniciosas. Elas vos foram dadas para
sustentar a Jesus Cristo que sofre na pessoa dos pobres; elas vos foram dadas para remir as vossas iniquidades, e
para ajuntar tesouros eternos. Lançai, lançai a vista sobre as famílias necessitadas que não ousam expor-vos as suas
misérias; sobre as virgens de Jesus que vemos quase desfalecidas em seus conventos por falta de meios para as suas
subsistências; sobre tantos míseros religiosos que, sob um semblante risonho, escondem muitas vezes uma grande
indigência. Um pouco de coragem, meus irmãos, alguns esforços por amor de Deus. Vede a liberalidade com que
abriu suas mãos sobre nós pela fertilidade deste ano; abramos as nossas sobre as misérias dos nossos pobres irmãos;
ninguém procure excusar-se. Não desculpeis-vos com a modicidade dos vossos recursos: Jesus levará em conta até o
insignificante presente que lhe fizerdes com o coração ardendo de caridade: mesmo um copo d’água, oferecido com
esse espírito, pode merecer-vos a vida eterna.

Assim os bens, que ordinariamente são um veneno, converter-se-ão para vós em remédio salutar. Longe de perder as
vossas riquezas, distribuindo-as, as conservareis com maior segurança tanto quanto as tereis santamente prodigado.
Os pobres vo-las restituirão de um modo superior, porque em suas mãos elas mudam de natureza. Nas vossas elas
são destrutíveis; mas tornam-se incorruptíveis logo que passam às mãos dos indigentes. São eles mais poderosos que
os reis. Os reis, com seus editos, dão algum valor ao dinheiro; os pobres comunicam-lhe um valor infinito, aplicando-
lhe os seus sinais. Ajuntai, pois, tesouros que se não corrompem; reuni, para o século futuro, um tesouro inesgotável;
colocai as vossas riquezas no céu, livre dos perigos das guerras, dos roubos, de toda sorte de incidentes; depositai-as
nas mãos de Deus. Ganhai, com vossas esmolas, bons amigos na terra que vos receberão depois da morte nos
eternos tabernáculos, onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo, único Deus vivente e imortal, é glorificado em todos os
séculos dos séculos. Amen.

[Fonte: Panegíricos de Bossuet (Castela Editorial, Rio de Janeiro, 2013)]

Disponível em nossa livraria.

[2] 1Cor 1

[3] Tertul. adv. Marcion. Lib.II.

[4] De carne Chr. N.5.

[5] Ibid.

[6] Rom 1, 21.

[7] Rom 1, 22.

[8] 1Cor 1 ,21.

[9] Ibid.

[10] Pr 11, 11.

[11] Sl 9, 35.

[12] Mt 25, 36.

[13] Hom. de. Saint. Philog, n.1.

[14] 2Cor 8, 9.

[15] Lc 6, 20.

[16] At 14, 2.
[17] Tertul. de Patient. N.8.

[18] 1Cor 9, 26-27.

[19] Tertul. de Cultu femin. II. N.13.

[20] Idem de Spect. N. 29.

[21] Ibid. n. 28.

[22] Lc 22, 15.

[23] Lc 12, 50.

[24] Jo 13, 1.

[25] Mt 3, 16-17.

[26] 1Tim 6, 17.

[27] Mc 10, 24.

[28] Mc 10, 26.

[29] 1Tim 6, 9.

[30] 1Tim 6, 10.

[31] In Joan. Tract. XI. n.10. t. III.

https://permanencia.org.br/drupal/node/5204

Citação
"Será Deus contrário a si próprio nessas vocações opostas? Não, fiéis; não credes: toda essa disparidade tem por fim
ensinar aos filhos de Deus esta verdade importante, que toda a perfeição cristã está na obediência. Aquele que
glorifica os apóstolos pela honra da pregação, glorifica também São José pela humildade do silêncio. Aprendemos
por aí que a glória dos cristãos brilhantes não está nos empregos, e sim em fazer a vontade de Deus. Se todos não
podem ter a honra de pregar Jesus Cristo, todos podem ter a honra de obedecer-lhe, e esta é a glória de São José e
a grande honra do cristianismo." [12]

12. Jacques Benigne Bossuet. Panegírico de São José. 1659. In: Panegíricos. Trad. Pe. Clementino Contente. 1. ed. Rio
de Janeiro: Castela, 2013. 500p.

“La perseverancia, efecto de la Comunión”

J. B. Bossuet, Obispo de Meaux

Joan. 6. 57

El que come mi Carne, y bebe mi Sangre, queda en mí, y Yo en él.

“El gran don tras que suspiran los Cristianos, es el de la perseverancia, que nos asegura la corona: que nos une, y que
nos incorpora con Jesucristo, para unirnos eternamente con él, sin que jamás nos podamos separar. Ve ahí aquel gran
don de Dios, que está unido a su eterna predestinación: y Jesucristo nos enseña que hay en la Eucaristía una gracia
particular para que lo alcancemos. Con que si queremos perseverar en la virtud, es necesario comulgar, y comulgar
con frecuencia, porque ese es el medio más eficaz que se nos ha dado para alcanzar la perseverancia: ese es el pan
de los cristianos, y su alimento ordinario, y cotidiano. ¡Oh Dios mío, y qué corazón tan duro tienen los cristianos, pues
son tan raras las veces que vienen a la Santa Mesa! Si gustaran de Cristo crucificado, ellos vendrían a celebrar con
frecuencia el misterio de su muerte.
Nos hallamos compungidos el Viernes Santo, porque se celebra ese día la memoria de la muerte del Salvador. Venid,
amados hijos míos, que todos los días son Viernes Santo: todos los días hay Calvario en el Altar. Venid, y acordaos de
esta muerte, que es vuestra vida: venid a recibir un Sacramento, en donde se aprende a habitar con Jesucristo, y en
donde se recibe la fortaleza, el valor y la gracia de habitar en él.

Pero también debemos temblar cuando reincidimos después de la Comunión; porque Jesucristo no dice: el que come
mi Carne está en mí; si no habita en mí: ni tampoco dice: Yo estoy en él; sino Yo habito en él, y no le dejo jamás. Jesús
es fiel, y jamás él nos deja primero. ¡Viene a nosotros el primero; pero jamás es él el primero que nos deja: nosotros
somos los primeros que lo dejamos cuando caemos en pecado. ¡Ay de nosotros cuánto debemos temer el no haberlo
recibido como se debe. Recibirlo como se debe, es recibirlo detestando los pecados, apartándonos de las ocasiones
de cometerlos, buscando en la Eucaristía el apoyo de nuestra flaqueza y de nuestra inestabilidad.”

FUENTE: “Meditaciones sobre el Evangelio”. Jacobo Benigno Bossuet, Obispo de Meaux. Traducidas al español por D.
Francisco Martinez Moles. Madrid. 1775. Por D. Joachin Ibarra.Tomo II. Págs. 53-54.

“Jeremías figura de Jesucristo por su paciencia”


Jacobo Benigno Bossuet

Obispo de Meaux – Francia

(1627-1704)

Tales fueron los trabajos de Jeremías, por haber dicho la verdad; y de este modo siguió los pasos del Salvador, quien
como él, fue acusado de ser un engañador, y de amotinar al Pueblo contra el Emperador, y el Imperio; de suerte, que
era necesario quitarle la vida por falsario, y enemigo del Príncipe: también Jeremías fue acusado de este delito.

Pero aun es más sobresaliente figura por su mansedumbre, y paciencia, que por las crueldades que con él ejercieron
injustamente. Cuando los Sacrificadores, Profetas, y Plebe le querían quitar la vida, y gritaban con furor, que debía
morir, les dijo (Jerem. 26. 12. 15.): El Señor me ha enviado a profetizar todas las cosas que he predicho a este Templo,
y a esta Ciudad. Con que ahora corregíos, y mudad vuestras malas inclinaciones, y oíd la voz del Señor, vuestro Dios,
que quizá el Señor se arrepentirá del mal que contra vosotros he predicho. Por lo que a mí toca, en vuestras manos
estoy: sentenciad, y haced de mi lo que gustaseis: empero sabed, y entended, que si me quitáis la vida, tendréis
contra vosotros mismos, y contra esta Ciudad, y sus habitantes, una sangre inocente; porque a la verdad el Señor me
ha enviado a vosotros para que os haga oír todas estas palabras. Permitió Dios que se aquietasen.

Aquí se ve una admirable disposición; pues por sí mismo, tan dispuesto a morir como a vivir, no teme en su muerte
más del castigo que se acarreará con ella todo el Pueblo. Y con este fin dice: ¡O Sedecías! ¿Qué os he hecho yo? ¿Qué
he hecho a vuestros Criados, y a todo el Pueblo, para que me hayáis puesto en un calabozo? ¿Dónde están vuestros
Profetas, que os decían que no vendría el Rey de Babilonia? Catadle a vuestras puertas: Yo nada he hecho más de
anunciaros lo que Dios tenía resuelto. No me volváis á ese lago, porque no me muera en él, en lo que se ha de suplir
lo que antes había dicho: y no os pida Dios una sangre inocente. Pues en cuanto a él poca fuerza le hacia la muerte,
mayormente después de la ruina de su Patria, porque decía: No lloréis por el muerto, ni por él derraméis lágrimas:
llorad por el que sale de su País, porque no volverá a él, ni verá jamás su tierra nativa (Jerem. 21.10).

Un Profeta, llamado Ananías, predicaba todo lo contrario de cuanto decía Jeremías, y daba de término al Pueblo
solos dos años, después de los cuales serían restituidos á Jerusalén todos los vasos que habían robado del Templo.
Jeremías oyendo tan bellas promesas, sin contradecir al falso Profeta, le dijo delante de todos los Sacerdotes, y el
Pueblo: Así sea, Ananías: El Señor lo conceda como dices: cúmplanse tus palabras antes que las mías, y veamos
restituir los vasos Sagrados, y volver a todos nuestros hermanos que han sido llevados a Babilonia. Pero oye lo que a
ti, y a todo el Pueblo anuncio. Los Profetas que ha habido antes que tú, y que yo no fueron reconocidos por tales
hasta que se cumplieron sus profecías, y entonces se veía quién era el enviado del Señor. Al mismo tiempo Ananías
quitó a Jeremías del cuello la cadena de palo, que este Profeta se había puesto por orden de Dios, en figura del
cautiverio de muchos Pueblos; y Ananías la hizo pedazos, diciendo: Así dentro de dos años romperá Dios el yugo que
Nabucodonosor, Rey de Babilonia, ha echado sobre todos los Pueblos. Jeremías, sin replicar, se retiraba tranquilo;
empero enderezó le Dios su palabra, y le fue dicho: Ve, y di á Ananías: escucha Ananías el Señor no te ha enviado, y
tú diste a este Pueblo una confianza engañosa. Por eso oye lo que el Señor dice: Te quitaré de la faz de la tierra, y
morirás dentro del año, porque hablaste contra el Señor y el Profeta Ananías murió dentro del año, al séptimo mes.
Así Jeremías, siempre pacífico, y pronto a ceder a todos los que hablaban en nombre del Señor, no profería
sentencias duras, sino cuando el Señor le mandaba hablar, y se manifestaba el más suave, y firme de todos los
hombres, en figura de Jesucristo, que dijo cuándo le dieron una bofetada: Si he hablado mal, convencedme; y si bien,
por qué me maltratáis (Joan. 15.3.23.8.49) Y en otro lugar: No estoy endemoniado, pero glorifico a mi Padre; y
también: Queréis quitarme la vida a mí que os he dicho la verdad: Abrahán, de quien os preciáis de ser hijos , no lo
hizo así (Ibid. 40).

Es verdad que anunció a los Judíos con indignación el inevitable castigo de su infidelidad; y vosotros, les decía, llenáis
la medida de vuestros Padres. Serpientes, raza de víboras, cómo evitareis la condenación de la Gehena, es decir, el
Infierno? Todo esto ¿Qué era sino predecirles sus desdichas para que las evitasen? Os envío, decían Profetas, Sabios,
y Doctores: a los unos los matareis, y crucificareis: a los otros los azotareis, y los perseguiréis de Ciudad en Ciudad,
para que caiga sobre vosotros toda la sangre inocente, desde la del justo Abel, hasta la de Zacarías, hijo de
Barachías, de quien disteis muerte entre el Templo, y el Altar. ¿No era esto hacerles ver su futura perdición, y al
mismo tiempo, en cuanto podía, apartar aquella desgracia? Del propio modo, descubriéndoles la tempestad que les
amenazaba, les manifiesta el seguro asilo que podían hallar bajo de sus alas,Jerusalén, Jerusalén (Ibíd. 37), que a tus
Profetas quitas la vida, y apedreas a los que te han sido enviados: ¿Cuántas veces quise yo acoger tus hijos con mis
alas como la gallina recoge sus polluelos bajo de las suyas y tú no quisiste? A nadie sino a ti eches la culpa de tus
desdichas: y si quieres evitarlas, vuélvete a mí; aún es tiempo y estoy pronto a recibirte.

FUENTE: “Meditaciones sobre el Evangelio”. Jacobo Benigno Bossuet, Obispo de Meaux. Traducidas al español por D.
Francisco Martinez Moles. Madrid. 1775. Por D. Joachin Ibarra.Tomo I. Págs. 345-347.

Figuras de Jesucristo: Jeremías (3)


abril 6, 2014 por salutarishostia

Jacobo Benigno Bossuet

Obispo de Meaux – Francia

(1627-1704)

“Jeremías perseguido por sus Discípulos y la autoridad pública.”

“Pasemos a lo que sufrió Jeremías, no solo por las secretas conspiraciones, sino por la autoridad pública.

Phasur Sacrificador, hijo de Emmer, que era Príncipe en la casa del Señor, oyó los Sermones de Jeremías (Jerem.
20.14), y golpeó a este Profeta, como el Príncipe de los Sacerdotes abofeteó á S. Pablo.

Echó un par de grillos a Jeremías y se los quitó por la mañana. Y el Profeta maltratado injustamente, le profetizó su
destino, y el de todo su Pueblo. En otra ocasión, en que Jeremías acababa de profetizar la ruina del Templo delante
del mismo Templo (Ibid.96.2.6.7), los Sacrificadores, y los Profetas, y todo el Pueblo le agarraron, y decían todos
unánimes: muera, y lo entregaron a los Príncipes de la Casa de Judea, diciendo: Este hombre debe ser condenado a
morir, por haber profetizado contra esta Ciudad, y contra el Templo, y haber dicho, que el Señor hará con ella lo que
con Siló (Joan. II.47.49.50).

Jesús fue acusado del mismo delito. Le imputaban, que quería destruir el Templo: estaban a la cabeza de sus
enemigos los Sacrificadores, y a ejemplo de Phasur, Anás, y Cayfás, Sumos Sacrificadores, le perseguían, y
profetizaron contra él.
Nada sabéis, dice Cayfás, pues no sabéis que conviene que muera un hombre por todo el Pueblo, y que no perezca la
Nación (Joan 18.13.14. Math. 26.57.59.61.66).

Los Sacrificadores, y Doctores de la Ley sentenciaron uno tras de otro, en la conformidad que hicieron antes con
Jeremías: Este hombre es reo de muerte. Pero Dios no quiso que muriese Jeremías; y la sentencia de los Pontífices
contra Jesucristo fue ejecutada.

Jeremías fue preso en tiempo del Rey Joachin por sus profecías (Jerem. 26.2.4).Pero, como dice S. Pablo, la palabra
de Dios no está atada. Tuvo orden de Dios de escribir al Rey Joachin lo que de palabra le había profetizado: llamó a
Baruc, hijo de Nerias: le dictó lo que iba a suceder al Rey, y al Pueblo y luego le dijo: Estoy preso, y no puedo entrar
en la casa del Señor: id a ella, pues, y leed al Pueblo, en el día del solemne ayuno, las palabras de Dios, que acabáis
de oír de mi boca. Llevaron al Rey el Sermón, y un Secretario lo hizo pedazos, y el Rey quemar: volvió Jeremías a
dictar de nuevo todo lo que contenía, y añadió otras muchas cosas todavía más terribles. Obedeció fielmente a Dios,
y no cesó de profetizar.

FUENTE: “Meditaciones sobre el Evangelio”. Jacobo Benigno Bossuet, Obispo de Meaux. Traducidas al español por D.
Francisco Martinez Moles. Madrid. 1775. Por D. Joachin Ibarra.Tomo I. Págs. 342-343.

Figuras de Jesucristo: Jeremías (2)


Jacobo Benigno Bossuet

Obispo de Meaux – Francia

(1627-1704)

“Trabajos de Jeremías”

“Tan amargas como esto eran las verdades que Dios ponía en la boca de Jeremías; y no es decible lo mucho que
padeció en los cuarenta y cinco años que duró su ministerio.

Tenía que tolerar mil indignidades, que le obligaban a decir: He sido la irrisión de todo mi Pueblo: el asunto de sus
canciones, y el objeto de sus burlas, me ha llenado de amargura, y embriagado con ajenjos. Ya no conozco el
descanso: he olvidado todos los bienes (Lament. 3.19. 28.29. 30.45.46.).

Llegaron a tanto, como a darle de golpes, y decía: El solitario se sentará, y callará: besará la tierra, y pondrá su boca
en el polvo, para ver si le queda alguna esperanza de que sus ruegos sean oídos: expondrá su mejilla á las bofetadas,
y no se verá harto de oprobios.

En esto último se halla una expresa imagen del Hijo de Dios.

Y poco después: ¡Oh Señor! me pusisteis en medio del Pueblo, a manera de un árbol arrancado, como las heces de los
hombres. Todos mis enemigos hablaron con impunidad contra mí.

En su patria, en la Ciudad de Anatot, Ciudad Santa, y Sacerdotal, fue donde tuvo más que sufrir de sus Ciudadanos, y
de los Sacrificadores sus compañeros (Jerem. II.21.). Allí quisieron quitarle la vida. Y yo estaba, dice, como un cordero
inocente, y manso, que llevan al sacrificio, ignorando lo que maquinaban contra mí (Ibid. 17.), diciendo: Metamos en
su pan un palo envenenado, borrémosle del número de los vivientes, y no se hable más de él sobre la tierra; y le
decían (Ibid. 21.): No profetices más en nombre del Señor , si no quieres morir a nuestras manos.

Pero era preciso obedecer á Dios, y profetizó contra Anatot terriblemente: Visitaré los habitadores de Anatot:
morirán de hambre, y peste los jóvenes, hijos, e hijas, y no quedará un átomo de esta Ciudad: Traeré todo el mal
sobre Anatot; y el año de su visitación será año de asombro (Ibid. 22. 23.)

Lo mismo le pasó a nuestro Salvador en Nazaret (Marc. 6. 3. 4, 5). No podía hacer allí milagros por su incredulidad,
porque unos á otros se decían: ¨¿Este no es el Carpintero, hijo de María, hermano de Santiago , y de Juan (Luc 6. 22.
23. 24, 28. 29)? ¿No viven con nosotros sus hermanas? Y lo despreciaron.
Experimentó, como Jeremías, la verdad de aquel proverbio: Nadie en su patria es Profeta. Se quejó de ello; y
encolerizados sus compatriotas le sacaron arrastra fuera de la Ciudad, a lo más eminente del Monte, en que estaba
situada la Ciudad, para arrojarlo desde lo alto.

No eran solo los paisanos de Jeremías los que conspiraban contra él, a causa de sus Profecías. Todos los Pueblos se
animaban a perderlo, diciéndose unos a otros: Venid, procedamos contra Jeremías (Jerem. 18. 18, 22. 23.). No es el
único Profeta, el único sacrificador, ni el único sabio. Venid, castiguémoslo con la lengua, y no nos den cuidado todos
sus sermones. Vos, Señor, sabéis todo cuanto intentaron contra mi vida. Hacían hoyos profundos por donde había de
pasar: en todas partes me armaban lazos: sus mejores amigos, que al parecer le guardaban las espaldas, entraron en
estos perniciosos consejos; no pensaban sino en engañarle, y vengarse de él; porque les profetizaba desgracias.

Del mismo modo el Salvador hallaba a cada paso tramas contra su persona. Le llamaban endemoniado, y
embaucador; le decían todo género de injurias para excitar contra sí el odio público, y por dos veces en poquitos días
tomaron piedras para apedrearle (Joan. 8. 52. 1).

Sus mismos hermanos renegaban de él, y fue vendido por uno de sus discípulos.”

FUENTE: “Meditaciones sobre el Evangelio”. Jacobo Benigno Bossuet, Obispo de Meaux. Traducidas al español por D.
Francisco Martinez Moles. Madrid. 1775. Por D. Joachin Ibarra.Tomo I. Págs. 340-342.

Figuras de Jesucristo: Jeremías (1)


J. Benigne Bossuet

Profecías de Jeremías

¿A cuál de los Profetas no persiguieron vuestros padres? (Act. 3.52)

Uno de los que persiguieron más por haberles dicho la verdad, y se hizo de este modo una de las más perfectas
figuras de Jesucristo, continuamente perseguido por lo mismo, fue el Profeta Jeremías, de los mayores santos que
hubo en la Ley antigua, y el único entre todos los Profetas, de quien está escrito: Te conocí antes de haberte formado
en el vientre de tu madre, y te santifiqué antes que nacieses. (Jer. 1.5)

La santidad anticipada de Jeremías fue de las figuras más excelentes del Santo de los Santos. Pero como Dios quería
que Jeremías participase en gran manera de la santidad de Jesucristo, quiso también que se le asemejase en sus
persecuciones, y cruz. Había elegido Dios á Jeremías para anunciar a su Pueblo dos terribles verdades: la una, que la
Ciudad Santa, y aun el Templo, iban á ser destruidos, y convertidos en ceniza por el ejército de Nabucodonosor: la
otra, que el único recurso que quedaba al Pueblo, á los Príncipes, y al mismo Rey para libertarse del último golpe, era
someterse voluntariamente á este Rey, elegido para la divina venganza; de modo, que no quería que hicieran
resistencia, sino que voluntariamente llevasen el yugo que Dios le había puesto en las manos, para que lo echara al
Rey de Judea, y á todo su Pueblo.

Por orden de Dios anunciaba Jeremías sus verdades.

¿Qué? no he de visitar yo las maldades de este Pueblo? Dice el Señor: Haré de Jerusalén un montón de arena, y
guarida de serpientes; y las Ciudades de Judá quedarán asoladas, y sin habitantes (Jerem. 9.9 & 3.31). Esto es lo que
dice el Señor.

En otra parte exclama: Traeré horribles males sobre esta Ciudad, tanto , que los oídos de los que los oigan, quedarán
aturdidos de admiración, y espanto (Ibid. 8.10.11.12): Será objeto del pasmo, de la irrisión, y de la burla de toda la
tierra: En su presencia quebrarás una olla de barro, y dirás: Así desharé mi Pueblo, y haré pedazos dicha Ciudad,
como hago esta olla. No ha de ser del modo que se quiebra un vaso de oro, o de estaño, o de otro cualquier metal,
que se puede refundir. Pero será como se casca, y hace pedazos una olla de barro, que no tiene compostura, y serán
enterrados en Tophet, sitio abominable; porque toda la Ciudad ha de ser arruinada, y sus cercanías sepultadas en sus
ruinas, y solo quedará para enterrarlos este execrable valle : Infame para siempre por los impíos Sacrificios, que en él
ofrecieron los Israelitas á Moloch, quemando sus hijos, é hijas. Así me portaré con esta Ciudad, y con sus habitantes:
Quedará desierta, y abominable como Tophet(Jerem. 7.11.15).

Y en cuanto al Templo no os fieis, decía, en aquellas palabras mentirosas: El Templo del Señor: El Templo del Señor: El
Templo del Señor; como si la santidad de este Templo, por sí solo fuese capaz de salvaros. Porque haré con esta casa
en que ha sido invocado mi santo Nombre, lo mismo que con Silo, antigua habitación del Arca, que destruí, y
desprecié.

Y el Señor dice también a Jeremías: Anda a la entrada de la casa del Señor (Ibid.26.1.6), que allí quiero que profetices
su ruina, y les dirás: Haré que esta casa sea como Silo, lugar desierto, y abandonado; y que todos los habitantes de la
Tierra maldigan esta Casa.

No reservarás a los Reyes (Ibid.22.18). Esto es lo que el Señor dice a Joachin, hijo de Josías, Rey de Judá: no llorarán
en su sepultura, ni exclamarán sus hermanas: ¡Ay, hermano mío! Ni se lastimarán las unas de las otras, diciendo: Ay
¡hermana mía! Tampoco gritarán llorando: ¡Oh Príncipe, o Señor! Lo enterrarán donde arrojan los asnos muertos: lo
echarán fuera de las puertas de Jerusalén. No será más afortunado su hijo. Aun cuando Jechonías, hijo de Joachin,
Rey de Judá, estuviese como el anillo en mi mano derecha, lo arrancaré de ella, dice el Señor (Ibid. 24.25.26). Te
entregaré en manos del Rey de Babilonia, y te enviaré a ti, y a tu madre, que te llevó en sus entrañas, a una tierra
peregrina, y moriréis en ella. Tierra, tierra, tierra oye la palabra del Señor. Ve aquí lo que dice: Escribe que este
hombre será estéril, y no tendrá en sus días prosperidad alguna; pues aunque haya de tener hijos, no habrá quien le
suceda, ni se siente en el trono de David.

No fue más feliz la suerte que profetizó a Sedecías (Ibid. 29.16.18): Esto dice el Señor al Rey que está sentado en el
trono de David, y a todo el Pueblo: Os enviaré hierro, hambre, peste (Ibid. 22.4); y quedareis para admiración,
escarnio, y horror a todos los Pueblos del mundo. Sedecías, Rey de Judá, no se libertará de los Caldeos, y del Rey de
Babilonia, con todo lo demás que profetizó públicamente, en presencia del Rey, mientras la Ciudad estaba sitiada.

Como Jeremías anunciaba estas verdades, se hacía odioso a los Reyes, a los Sacrificadores, a los Profetas, y a todo el
Pueblo. Y lo que más los irritaba era, que les decía ser la causa sus pecados, sus idolatrías, sus injusticias, sus
violencias, sus fraudes, su avaricia, sus deshonestidades, sus adulterios, su obstinación, y su impenitencia; y que
todos aquellos estragos les sucederían sin remedio alguno.

Esto dice el Señor (Jerem. 27.8.9): No os engañéis vosotros mismos, diciendo: Los Caldeos se retirarán; porque
volverán prontamente, y no se tornarán a ir; y abrasarán esta Ciudad. Y cuando hubieseis deshecho todo su ejército, y
destrozado a vuestros enemigos, de modo que no quedase más de un corto número de heridos, saldrán uno a uno de
sus Tiendas, y quemarán esta Ciudad. El único recurso que tenían, era el de entregarse a sus enemigos (Ibid.
21.8.9.10).

Dirás a ese Pueblo, esto dice el Señor, os pongo a la vista el camino de la vida, y el de la muerte. El que quede en esta
Ciudad, morirá a los filos de la espada, de hambre, y de peste; pero el que saliese de ella, y se entregase a los
Caldeos, que los sitian, vivirá: su alma será como despojo preservado de la rabia de los enemigos, porque he hecho
cara a esta Ciudad para su mal, y no para su bien, y es preciso que sea entregada al Rey de Babilonia y que la reduzca
a cenizas (Ibid. 28.17.18 & seq.).

Lo mismo repitió á Sedecías.

FUENTE: “Meditaciones sobre el Evangelio”. Jacobo Benigno Bossuet, Obispo de Meaux. Traducidas al español por D.
Francisco Martinez Moles. Madrid. 1775. Por D. Joachin Ibarra.Tomo I. Págs. 336-339.

“Ley de los sufrimientos que nos ha dado Jesucristo padeciendo”


Jacobo Benigno Bossuet

Obispo de Meaux – Francia

(1627-1704)

Compendio de un sermón predicado el viernes de Pasión en el Hospital General sobre la necesidad de la limosna.
Punto Primero.

“Padeciendo Jesucristo nos da la ley de los sufrimientos: ¿Qué esperanza pueden tener de salvarse los que no
sufren? Compadecerse de Jesucristo, y de los que sufren son las dos únicas fuentes de las gracias. La primera, es
verdadera fuente; la segunda es como un arroyo que se forma de aquellas: se participa de sus gracias, tolerando sus
penas.

Traed a la memoria, dice el Apóstol, aquel primitivo tiempo, en que después de ilustrados por el Bautismo, sufristeis
grandes combates, entre diversas aflicciones, viéndoos por una parte expuestos en presencia de todos a las injurias y
malos tratamientos; y por otra siendo compañeros de los que sufrieron semejantes indignidades: porque
compadecisteis a los que estaban presos, y visteis con alegría robados todos vuestros bienes. (Hebr. X. 32. 33. 34)

Pone juntos el sufrir y el compadecer: luego o lo uno, o lo otro: porque Jesucristo en la Cruz sufrió, y ejercitó la
misericordia; luego cuando no lo uno, a lo menos lo otro; y esto es lo menos. Dios nos pone en la prueba más fácil;
luego nuestra condenación será más grande.

“Es cosa grande y fácil dice San Cipriano, lograr con obras de caridad el premio del martirio, sin exponerse a los
peligros de la persecución, y merecer la corona en medio de la paz.” Res et grandis et facilis, sine periculo
persecutionis, corona pacis.

Nadie será coronado, sino ha combatido como debía. “Non coronabitur, nisi qui legitime certaverit”. Muda la ley en
beneficio de la caridad.

¡Ha! Esta miserable lucha con el hambre, con la sed, con el frío, con el calor, y con los males más crueles: merecerá la
corona; y si le aliviáis tendréis parte en ella.

Corona pacis, corona en la paz, victoria sin combate, premio de martirio sin persecución, y sin sufrir violencia.

Lo grande de esta obligación se manifiesta por la misericordia de Jesucristo: la misericordia quiere ser honrada con
misericordia. Dos actos de misericordia: la que prepara, y la que sigue.

Con la primera compra Jesucristo la nuestra: Sed misericordiosos, como lo es vuestro Padre celestial: Estote
misericordes sicut et Pater vester misericors est.Revestíos de entrañas de misericordia, como escogidos de Dios,
santos y muy amados. Induite vos sicut electi Dei sancti et dilecti, viscera misericordiae.

En la segunda, es menester que la nuestra compre la suya: Beati misericordes, quoniam ipsi misericordiam
consequentur (Matt. V. 7) Bienaventurados los misericordiosos, porque alcanzarán misericordia. Misericordia
enlazada: Jesucristo se anticipa: obligación de seguirle: si seguimos, se obliga a darnos el colmo: esta es la ley que
nos impone, y la que se impuso. La gracia, la indulgencia, la remisión, y hasta el mismo cielo es su precio. No hay
misericordia, sino la practicamos: sin la caridad está desnuda el alma; porque ella es la que “Cubre la multitud de los
pecados” Operit multitudinem peccatorum. I Petr. IV. 8

San Cipriano advierte, que después de haber clamado Dios contra los pecadores, no encuentra remedio. “Clama, no
ceses, levanta tu voz como una trompeta, anuncia a mi pueblo sus delitos, y a la casa de Jacob sus iniquidades. Diles
que sus ayunos, sus buenas obras, y oraciones no me aplacan. Viven como si fueran justos.” Porque cada día me
buscan, y quieren conocer mis caminos; como si fuera un pueblo que hubiera vivido en la justicia, y sin abandonar la
ley de su Dios; me consultan sobre las reglas de la justicia; y quieren acercarse a mí” Quieren acercarse a mí, ayunan
y se atormentan inútilmente. ¿El ayuno que pido, consiste por ventura en que un hombre se aflija todo un día? De
consiguiente no hay remedio.

No obstante advertid lo que añade: “El ayuno que quiero, es que descarguéis al pobre de su peso; que libréis a los
oprimidos de las ligaduras, y tiranía de los malos: que quitéis de las espaldas lastimadas la carga que las fatiga: que
deis libertad a los cautivos, y rompáis el yugo que los agobia. Distribuid vuestro pan con los hambrientos, convidad a
vuestra casa a los mendigos y errantes: cuando veáis un desnudo vestidle, y respetad en él vuestra carne, y vuestra
naturaleza. Entonces se levantará vuestra luz tan hermosa como la aurora, recobraréis la salud al instante, la justicia
os precederá, y la gloria del Señor os recogerá. Entonces invocaréis al Señor y os oirá; gritaréis, y dirá: Soy vuestro.
Cuando quitareis las cadenas a los cautivos que hay entre vosotros, cuando dejéis de amenazar a los infelices, y de
hablarles inútilmente, cuando habréis derramado vuestro corazón sobre los miserables, y llenado sus almas afligidas;
se levantará vuestra luz entre las tinieblas, y vuestras tinieblas serán como el medio día. El Señor os dará un descanso
eterno, llenará vuestra alma de sus esplendores, y hará descansar vuestros huesos en paz: seréis como un jardín bien
regado, y como una fuente que no se agota.”

Para que entendamos que sin la limosna todo es inútil: que al que cierra sus entrañas, Dios le cierra las suyas.

FUENTE: “Sermones del Illmo. Señor D. J. B. Bossuet obispo de Meaux. Traducidos del francés por D. Domingo
Morico. Tomo VI. Valencia. Oficina de Benito Monfort. 1776. Pàgs. 99-102

“Como nos da Jesucristo en la Cruz la ley de la caridad, nos hace


conocer su espíritu, y nos prescribe sus efectos”
Jacobo Benigno Bossuet

Obispo de Meaux – Francia

(1627-1704)

Compendio de un sermón predicado el viernes de Pasión en el Hospital General sobre la necesidad de la limosna

Tendréis siempre entre vosotros pobres, que podréis remediar si queréis; mas a mi no me tenéis siempre. Marc. XIV.
7

“La Iglesia nos llama a ver a Jesús y a María que padecen con mutuos golpes. Como espejos opuestos, que se envían
mutuamente todo lo que reciben, multiplican sus objetos hasta el infinito; aumenta su dolor sin medida, porque las
olas que levanta se impelen unas a otras, con un continuo flujo y reflujo.

Designio de la Iglesia para excitarnos a la compasión de los dolores de Jesús, con este objeto de piedad. Me sentire
vim doloris fac, ut tecum lugeam: “Haced que sienta la viveza de vuestro dolor, para llorar con vos.”

Y la Iglesia de París: O Passionis mutuae, Jesu, Maria, conscii, alterna vobis vulnera inferre tandem parcite: “Cesad, o
divinos amantes, de penetraros con mutuos golpes hasta el infinito: Nosotros merecemos toda esa amargura, pues
es la pena de nuestro delito.

¡Ha! Pues confesamos que toda la culpa es nuestra, dad una parte del dolor a los que confiesan toda su culpa:
“Quem vos doletis noster est error furor que criminum: totum scelus fatentibus partem doloris reddite”.

Pero Jesús después de haber conmovido nuestro corazón por la compasión de sus tormentos, quiere aplicar nuestra
piedad a otros objetos, ya que no la necesita, y pide que la dirijamos a los pobres: María es la Madre de ellos. Ave.

Estando Jesús en Betania, en la casa de Simón leproso, entró una mujer que llevaba un vaso de alabastro, lleno de un
precioso perfume de espiga nardo, y después de haber roto el vaso derramó el perfume sobre la cabeza de Jesús.
Algunos de los que estaban convidados, se indignaron, y murmuraban interiormente diciendo: ¿A qué sirve perder
este perfume? ¿No podía venderse por más de trescientos dinero y darlo a los pobres? Así continuaban sus censuras.

Pero Jesús les dijo: ¿Por qué molestáis a esta mujer?… Siempre tendréis pobres entre vosotros, a los que podáis
remediar cuando queráis: mas a mí no me tendréis siempre.

Jesucristo nos enseña que cuando no exista entre nosotros, empleemos toda nuestra liberalidad en socorrer a los
pobres, o mejor diré en él mismo con los pobres: está en ellos; por esto nos los deja siempre: Pauperes Semper
habetis.

A mí no me tendréis siempre, pero me poseeréis en los pobres.


Almas santas que deseáis honrarme, o hacerme algunos servicios, tenéis donde derramar vuestros perfumes, etc. los
pobres: doy por recibido lo que por ellos hiciereis.

En la lección que nos dio pocos días antes de su muerte, y que la Iglesia lee con el Evangelio de su Pasión, habla en
favor de los pobres, mas aunque siempre ha hablado en beneficio de los pobres, nunca con más eficacia que en su
Cruz: allí empleó los mayores esfuerzos para excitarnos a hacer limosna. Nos impone la ley de la caridad; nos hace
conocer el espíritu de la caridad; y nos manifiesta el efecto de la caridad.

La ley de la caridad, es la obligación de hacerla; el espíritu de la caridad, es el modo de ejecutarla; y el efecto de la


caridad, es que el prójimo quede socorrido: estas tres cosas hace Jesucristo en la Cruz. Porque no creáis que la
obligación de la caridad es poco necesaria, establece la precisión: receloso de que no la practiquéis como la quiere,
os muestra la regla: y para que no os falte el medio señala el fondo.

¿Lo creeríais, cristianos, que Jesucristo crucificado nos da en la Cruz un fondo seguro para hacer subsistir los pobres?

Lo veréis en este discurso; con lo que ya nada falta a la caridad.

Para que sea obligatoria establece ley inmutable: para que sea mandada, prescribe el modo cierto: para que sea
efectiva, da un fondo seguro con que se mantenga: y todo esto lo hace en la Cruz, como espero manifestarlo.

FUENTE: “Sermones del Illmo. Señor D. J. B. Bossuet obispo de Meaux. Traducidos del francés por D. Domingo
Morico. Tomo VI. Valencia. Oficina de Benito Monfort. 1776. Pàgs. 96-99

“Dolor inexplicable de María al pie de la Cruz de su Hijo”


J. B. Bossuet

Del Sermón I para el viernes de la semana de Pasión, de los Dolores de María Santísima.

María Madre de Jesús estaba en pie junto a la Cruz de su Hijo (Joann. XIX. 25)

“No hay espectáculo más compasivo que el de una virtud afligida, cuando en un extremo dolor sabe sujetar toda su
fuerza, y mantenerse con su propio peso, contra todo el esfuerzo de la tormenta: su constancia le da un nuevo
esplendor, que hace tomar más interés en sus males, aumentando la veneración que se le tiene; por lo mismo se
queja menos, se cree uno obligado a lastimarse más; y es tanto más tierna la piedad con que compadece sus
aflicciones, cuanto la firmeza que manifiesta, la acredita digna de una condición más tranquila.

Pero si concurriendo juntas estas dos cosas, han debido alguna vez conmover a los hombres, no temo aseguraros que
es en el misterio de este día. Cuando miro el alma de la Santísima Virgen traspasada con tantos dolores al pie de la
Cruz de los tormentos de su Hijo único, ya siento que la nuestra debe enternecerse. Pero cuando considero en la
misma ojeada, la herida del corazón y la serenidad del semblante; me parece que este respeto mezclado de ternura,
que inspira una tristeza tan majestuosa, debe producir conmociones mucho más sensibles, y que sólo una extremada
dureza puede negarle sus lágrimas.

Acercáos pues, hermanos míos, con llantos y gemidos a esta Madre igualmente constante que afligida; y no os
persuadáis que su constancia disminuye el sentimiento que tiene de su mal. Debe ser semejante a su Hijo: domina
como él todos los dolores; pero a su imitación los siente en toda su fuerza, y en toda su extensión: y Jesucristo que
quiere hacer en su santa Madre una viva imagen de su pasión, no deja de imprimir en ella todas sus heridas.

A este espectáculo os convido: dentre de breves días veréis a Jesús en la Cruz; y entretanto os llama la Iglesia a ver la
pintura de aquel suplicio en la santa Virgen. Quizás sucederá, que así como los rayos del Sol aumentan su ardor
reflejados, así los dolores del Hijo reflejados sobre el corazón de la Madre tendrán más fuerza para herir los nuestros.
Espíritu divino, la gracia os pido, por la intercesión de la santa Virgen.

No creáis, hermanos míos, que la santa Madre de nuestro Salvador, sea llamada al pie de su Cruz sólo para asistir al
suplicio de su Hijo único, y para rasgar su corazón con este horrible espectáculo. Tiene intentos más elevados la
divina Providencia sobre esta afligida Madre y debemos hoy entender, que es llevada, y puesta en este abandono
junto a su Hijo; porque es voluntad del Eterno Padre, no sólo el que se inmole con esta víctima inocente, y sea
clavada a la Cruz del Salvador con los mismos clavos que le taladran, sino también para ser asociada a todo el
misterio que se cumple con la muerte de Jesús. Y como esta importante verdad debe ser el asunto de mi discurso,
pido vuestra atención, mientras establezco los principios en que se funda.

Para proceder con orden, notad Señores, que tres cosas concurren a un mismo tiempo al sacrificio de nuestro
Salvador, y forman su perfección. La primera los dolores con que es despedazada su humanidad: la segunda la
resignación con que se sujeta humildemente a la voluntad de su Padre: y la tercera la fecundidad con que nos
engendra a la gracia, y nos da la vida muriendo.

Sufre como víctima que debe ser destruida, y despedazada a golpes: se sujeta como Sacerdote que debe sacrificar
voluntariamente: Voluntarie sacrificabo tibi (PS. LIII); y en fin nos engendra padeciendo, como Padre de un nuevo
pueblo que produce por sus heridas; y estas son las tres cosas que el Hijo de Dios consuma en la Cruz. Los tormentos
pertenecen a su humanidad; se cargó de nuestras culpas, y así se expuso a la venganza. La sujeción respeta al Padre;
la desobediencia le irritó, es precio que la obediencia le apacigüe. La fecundidad mira a nosotros; un infeliz deleite
que nuestro culpable padre quiso gustar nos causó la muerte: Ha! Las cosas van a mudarse, y los dolores de un
inocente nos darán la vida.

Pareced ahora, Virgen incomparable, venid a tomar parte en el misterio; juntaos a vuestro Hijo y vuestro Dios, para
recibir de más cerca las impresiones de estos tres sagrados caracteres, con que el Espíritu Santo quiere formar en vos
una imagen viva y natural de Jesucristo crucificado. Presto lo veremos cumplido sin salir de nuestro Evangelio:
porque no advertís, hermanos míos, como se coloca junto a la Cruz, y con qué ojos mira a Jesucristo ensangrentado,
todo cubierto de heridas, y que apenas le queda la figura de hombre: esta vista la da la muerte, y si se acerca al altar,
es porque quiere ser inmolada: en efecto allí recibe el golpe de la afilada espada, que según la Profecía del buen
Simeón (Luc. II.35), debía rasgar sus entrañas y abrir su corazón materno con tan profundas heridas.

Luego está junto a su Hijo no tanto por la cercanía del cuerpo, como por la compañía de sus dolores: Stabat juxta
Crucem.

Y este es el primer artículo de la semejanza: “Está verdaderamente en pie junto a la Cruz: porque la Madre lleva la
Cruz de su Hijo con mayor dolor del que todos los demás son penetrados: Vere juxta Crucem stabat, quia Crucem Filii
prae caeteris Mater majore cum dolore ferebat. (Tract. de Pas Dom., c. X. int Oper. S. Bernar. c. II, p. 442)

Pero sigamos la historia de nuestro Evangelio, y veamos en qué actitud se presenta María a su hijo. ¿La ha abatido el
dolor, o la ha arrojado al suelo desmayada? Al contrario está en pie y sosegada: Stabat juxta Crucem “En pie junto a
la Cruz”.

No, la espada que traspasó su corazón, no pudo disminuir sus fuerzas: la constancia y la aflicción caminan a igual
paso; y manifiesta en su permanencia que no está menos sujeta que afligida.

¿Qué falta pues, cristianos, sino que su muy amado Hijo, que la ve sentir sus dolores, e imitar su resignación la
comunique también su fecundidad?

Con este intento le da a San Juan por Hijo: Mulier, ecce filius tuus. “Mujer, dice, ahí tenéis a vuestro Hijo”.

O Mujer, que conmigo padecéis, sed fecunda conmigo; sed la Madre de mis hijos, pues os lo doy todos sin reserva en
la persona de este sólo discípulo: los produzco con mis dolores; vuestra aflicción os hará fecunda, y vuestra eficacia
será tan grande como vuestra amargura.

Ved, hermanos míos, en pocas palabras todo el misterio de este día; he dicho en pocas palabras lo que explicaré en
todo este discurso con el socorro de la gracia.

María está junto a la Cruz y sufre los dolores, está en pie y tolera con constancia el peso; se hace fecunda recibiendo
virtud para serlo. Oíd atentamente y no resistáis si sentís ablandar vuestros corazones.

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FUENTE: “Sermones del Illmo. Señor D. J. B. Bossuet obispo de Meaux. Traducidos del francés por D. Domingo
Morico. Tomo VI. Valencia. Oficina de Benito Monfort. 1776. Pàgs. 27-32

MARAVILLOSA ACTUALIDAD DE TEXTOS ANTIGUOS DE LOS


HOMBRES DE LA IGLESIA DE SIEMPRE. BOSSUET.
II- Las variaciones en la fe,

prueba cierta de falsedad.

Las de los Arrianos. Firmeza de la Iglesia católica.

Cuando entre los cristianos se han visto variaciones en la exposición de la fe, siempre se las ha mirado como
una señal de falsedad e inconsecuencia en la doctrina que se expone. La fe habla sencillamente: el Espíritu Santo
derrama luces puras, y la verdad que enseña, conserva siempre un lenguaje uniforme. El menos versado en al
historia de la Iglesia sabe que ha expuesto a cada herejía explicaciones propias y precisas, que no ha variado jamás; y
si se consideran las expresiones con que ha condenado a los herejes, se verá que siempre se dirigen a impugnar el
error en su origen, por el camino más corto y más derecho. Por esta razón todo lo que lleva a alguna variación en la
doctrina, todo lo que se expresa con términos ambiguos y dudosos, se ha tenido siempre por sospechoso, y no
solamente fraudulento, sino también absolutamente falso; porque manifiesta un embarazo y dificultad que la verdad
no conoce. Esta es una de las razones en que se bazaban los doctores antiguos para condenar con tanta firmeza a los
Arrianos, los cuales publicaban todos los días nuevas profesiones de fe, sin poder fijarse jamás. Desde la primera que
compuso Arrio y presentó a su obispo Alejandro, no han cesado de variar; inconstancia, por la cual reconvino san
Hilario a Constancio, protector de aquellos herejes; y mientras que este Emperador reunía todos los días nuevos
concilios para reformar los símbolos y publicar nuevas profesiones de fe, el santo Obispo le dirige estas graves
palabras: “Os sucede a vosotros lo mismo que a los arquitectos ignorantes, los cuales nunca están contentos con sus
propias obras; no hacéis más que edificar y derribar: en vez que la Iglesia católica, desde la primera vez que se
reunió, estableció un edificio inmortal, y dio en el símbolo de Nicea una declaración tan completa de la verdad, que
para condenar eternamente al Arrianismo no ha habido necesidad de hacer otra cosa más que repetirla.

Santiago Benigno Bossuet, “Historia de las variaciones de las iglesias protestantes”,

Escrito en el año 1668.

Bossuet: O fiel depositário


Sermão de 19 de março de 1657

É opinião generalizada e sentir comum entre os homens que o depósito, isto é, um bem que recebemos para guardar,
tem qualquer coisa de sagrado e que o devemos conservar para quem no-lo confia não somente por fidelidade mas
por uma espécie de sentimento religioso.

Por isso o grande Santo Ambrósio nos ensina no livro 29 de seus Ofícios que era piedoso costume estabelecido entre
os fiéis o de trazer aos bispos e a seu clero aquilo que se queria guardar com mais cuidado, para que fosse colocado
junto ao altar, em virtude da santa persuasão em que estavam de que não havia melhor lugar para guardar um
tesouro do que aquele ao qual o próprio Deus confiou a guarda dos seus, isto é, os santos mistérios.

Este costume se tinha introduzido na Igreja a exemplo da sinagoga antiga. Lemos na História Sagrada que o augusto
templo de Jerusalém era lugar de depósito para os judeus. Autores profanos também nos ensinam que os pagãos
tributavam esta honra a seus falsos deuses, colocando seus depósitos nos templos e confiando-os a seus sacerdotes,
como se a própria natureza das coisas nos ensinasse que o respeito ao depósito tem algo de religioso e que não pode
estar mais bem colocado do que nos lugares santos onde se reverencia a Divindade, nas mãos daqueles que a religião
consagra.

Ora, se jamais existiu depósito que merecesse tanto ser chamado santo, santamente guardado, é este de que
falo, que a providência do Pai confia à fé do justo José, tanto assim que sua casa se assemelha a um templo porque
Deus aí se digna habitar e entregar-se a Si próprio em depósito. José deve ter sido, portanto, consagrado a fim de
guardar tão santo tesouro. E realmente o foi, cristãos: seu corpo pela continência, sua alma por todos os dons da
graça. [...]

No projeto que me proponho, o de apoiar os louvores a São José, não em conjeturas duvidosas mas em doutrina
sólida tirada das Escrituras divinas e dos Padres seus intérpretes fiéis, nada de mais conveniente posso fazer, na
solenidade deste dia, do que apresentar este grande santo como um homem que Deus escolheu entre todos os outros
para lhe pôr nas mãos Seu tesouro e fazê-lo, aqui na Terra, seu depositário.

Pretendo fazer ver hoje que nada melhor lhe convém, que nada existe tão ilustre e que esse belo título de
depositário, desvendando-nos os desígnios de Deus sobre esse bem-aventurado patriarca, nos mostra a fonte de
todas as graças e o fundamento seguro de todos os louvores.

Primeiramente, cristãos, é-me fácil fazer-lhes ver o quanto esta qualidade é, para ele, honra, porque, se o título
de depositário já inclui a nota de estima e testemunho de probidade, se para confiar um depósito costumamos
escolher entre nossos amigos aquele cuja virtude é mais reconhecida, cuja fidelidade é mais comprovada, enfim o
mais íntimo e mais confidente, qual não será glória de São José, que Deus fez depositário não somente da bem-
aventurada Virgem Maria, cuja pureza angélica a torna agradável a Seus olhos, mas ainda de Seu próprio Filho, único
objeto de suas complacências, única esperança de nossa salvação: de modo que guardando a pessoa de Jesus Cristo,
São José é instituído depositário do tesouro comum de Deus e dos homens. Que eloquência poderá igualar a
grandeza e a majestade desse título?

Então, fiéis, se esse título é tão glorioso e vantajoso àquele a quem devo hoje fazer o panegírico, é preciso que eu
mesmo penetre em tão grande mistério com o socorro da graça; e que, procurando nas Escrituras o que aí lemos
sobre José, vos faça ver que tudo converge para esta bela qualidade de depositário.

Efetivamente encontro nos Evangelhos três depósitos confiados ao justo José pela Providência divina, e ali também
encontro três qualidades que refulgem entre as outras e que correspondem a esses três depósitos. É o que
precisamos explicar por ordem. Segui, por favor, atentamente.

O primeiro de todos os depósitos que foi confiado à sua fé (o primeiro na ordem do tempo) é a santa virgindade de
Maria, a qual São José devia conservar intacta sob o véu sagrado do seu matrimônio, que ele sempre guardou
santamente como um depósito sagrado que não lhe era permitido tocar. Eis o primeiro depósito.

O segundo, o mais augusto, é a pessoa de Jesus Cristo, que o Pai celeste depõe em suas mãos a fim de que lhe sirva
de pai, ao Santo Menino que não o tem na Terra.Vede, desde já, cristãos, dois grandes, dois ilustres depósitos
confiados ao zelo de São José.

Mas observo ainda um terceiro, que acharão admirável, se eu conseguir explicá-lo com clareza. Para isso é preciso
compreender que o segredo é uma espécie de depósito. Trair o segredo de um amigo é como violar a santidade do
depósito. Pelas leis humanas sabemos que, se alguém divulga o segredo de um testamento a ele confiado, pode ser
acusado de ter violado o depósito: Depositi actione tecum agi posse, dizem os juristas. É evidente, pois, a razão por
que o segredo é como um depósito. Por onde podemos facilmente compreender que, se José é o depositário do Pai
eterno, é porque Este lhe contou o Seu segredo. Que segredo? Um segredo admirável: a encarnação de Seu Filho.

Assim, porque, como sabemos, era desígnio de Deus esconder Jesus Cristo do mundo até que Sua hora houvesse
chegado, São José foi escolhido não somente para O guardar mas também para O esconder. Por isso lemos no
Evangelista (S. Lucas 2, 33) que José, com Maria, admirava tudo o que se dizia do Salvador, mas não lemos que ele
falasse, porque o Pai eterno, desvendando-lhe o mistério, fez dele um segredo sob a obrigação do silêncio. Este
segredo é o terceiro depósito que o Pai acrescenta aos outros dois. Segundo o que nos diz o grande São Bernardo,
Deus quis confiar à sua fé o segredo mais santo de seu coração: Cui toto committeret secretissimum atque
sacratissimum sui cordis arcanum(Super Missus est — hom. 2, no 15).

Como sois querido de Deus, ó incomparável José, já que Ele a vós confia esses três grandes depósitos: a Virgindade
de Maria, a pessoa de Seu Filho único e o segredo de Seu mistério!

Mas não julgueis, cristãos, que ele desconhecia essas graças. Se Deus o honrava com aqueles três depósitos, de sua
parte José apresentava a Deus, em sacrifício, três virtudes que observo no Evangelho. Não duvido que sua vida tenha
sido ornada com todas as outras, mas eis aqui as três principais virtudes que Deus quer que vejamos na sua Escritura.
A primeira é a pureza, que aparece pela continência no seu matrimônio; a segunda, sua fidelidade; a terceira, sua
humildade e seu amor à vida obscura.

Quem não verá a pureza de São José nesta santa sociedade de desejos pudicos, nesta admirável correspondência à
Virgindade de Maria e em suas bodas espirituais?

A segunda, sua fidelidade, aparece nos cuidados infatigáveis que tem para com Jesus no meio das tantas
adversidades que por todas as partes seguem esse Menino divino desde o começo de sua vida.

A terceira, sua humildade, vê-se em que, possuindo tão grande tesouro por uma graça extraordinária do Pai eterno,
longe de se vangloriar por esses dons ou de publicar suas vantagens, se esconde tanto quanto pode aos olhos dos
mortais, contemplando, em gozo pacífico com Deus, o mistério que lhe fora revelado e as riquezas imensas que tem
sob sua guarda.

Ah! Quanta grandeza descubro aqui e como aqui descubro tão importantes instruções! Quanta grandeza vejo nesses
depósitos, quantos exemplos vejo nessas virtudes! E como a explicação desse assunto tão belo será glorioso para São
José e frutuoso para todos os fiéis!

BOSSUET: Los últimos y los primeros.


BOSSUET

Los últimos y los primeros

El impulso dado por San Vicente de Paúl a las obras de caridad fue secundado por la reina madre Ana de Austria y
por Bossuet, que predicó varias veces delante de las asociaciones de la nobleza dedicadas al servicio de los pobres.
Transcribimos un sermón pronunciado en la capilla de las Hijas de la Providencia de París en 1659 (cf. ed. LEBARQ, t.3
p.119-138). Existe un extracto de este mismo sermón, para predicarlo en ocasión parecida en Metz, 14 de enero de
1658 (ed. LEBARQ, t.2 p.404-405). Para reconstruir la escena hay que imaginarse a Bossuet en la sala el Hospital
rodeado de pobres y ricos.

A) Pobres y ricos

1) LOS ÚLTIMOS, LOS PRIMEROS

El mundo rodea a los afortunados de la tierra y abandona a los pobres a su miseria. Por eso, el profeta, al verlo,
dice: Tibi derelictus est pauper: A ti se te confía el miserable (Ps. 9, 14). Dios lo ve también y se encarga de los pobres;
por eso yo, como sacerdote y, por lo tanto, predicador del Evangelio y abogado de los menesterosos, os voy a hablar
de ellos.

La frase del Señor de que los primeros serían los últimos se cumplirá totalmente cuando los justos despreciados por
el mundo ocupen los primeros puestos del cielo, pero ha comenzado también a cumplirse en esta vida con la
fundación de la Iglesia, ciudad maravillosa cuyo fundamento puso Dios, quien al venir a este mundo, para
revolucionar el orden establecido por el orgullo, inauguró una política opuesta por completo a la del siglo.

2) OPOSICIÓN ENTRE EL MUNDO Y LA IGLESIA

Esta oposición se concreta en tres cosas:

1- En el mundo, las ventajas y primeros puestos son de los ricos; en el reino de Cristo, los pobres.

2- En el mundo, los pobres sirven a los ricos y parecen haber nacido para ellos. En la Iglesia no se admite a los ricos
sino para que sirvan a los pobres.

3- En el mundo, las gracias y los privilegios se reservan a los poderosos. En la Iglesia, todas las bendiciones son para
los pobres.

B) La Iglesia, instituida para los pobres.

San Juan Crisóstomo (cf. Hom. 11) se imagina dos ciudades, una de pobres y otra de ricos, y decide que en esta
hipótesis todas las ventajas estarían de parte de la primera, pues en la otra nadie serviría ni querría trabajar.
Imposible encontrar tal ciudad en el mundo, donde pobres y ricos son necesarios; pero, sin embargo, podemos verla
en el reino fundado por Cristo. La ciudad de los pobres es la Iglesia. El primer plan fue construir una Iglesia para los
pobres, que son sus verdaderos ciudadanos. Os lo voy a demostrar.

1) LOS CIUDADANOS DE LA IGLESIA

En la antigua sinagoga, a aquellos hombres bajos y groseros se les prometían para animarles, además del cielo, los
bienes de esta tierra. En la Iglesia no se habla de estos últimos y se desprecian las riquezas, sustituidas por la aflicción
y la cruz. Los ricos, que tienen los primeros puestos en la sinagoga, no forman clase alguna de la Iglesia, cuyos
ciudadanos son los pobres. ¿Queréis verlo en la predicación del Señor? Oíd aquellas palabras en que manda buscar a
sus criados por los cruces de los caminos a todos los pobres y menesterosos.

En efecto, Cristo fue enviado a evangelizar a los pobres (Lc. 4,18). Para cumplir su misión les dirige a ellos
principalmente la palabra, y en aquel su mejor sermón pronunciado en la montaña desdeña hablar a los ricos, como
no sea para fulminar su orgullo. Dirigiéndose a los pobres, les dice: Bienaventurados los pobres, porque vuestro es el
reino de Dios (Lc. 6,20). Si, pues, el reino de Dios es de los pobres, la Iglesia es suya, y si es suya es porque ellos
entrarán los primeros. Y, en efecto, eso aconteció. Ved cómo San Pablo lo comprueba con la experiencia. No hay
entre vosotros (los cristianos) muchos sabios según la carne, ni muchos poderosos, ni muchos nobles (1 Cor. 1,26). La
primera Iglesia era casi una asamblea de pobres, y en el primer momento los ricos que se admitieron hubieron de
despojarse a la entrada de sus bienes y ponerlos a los pies de los apóstoles. ¡Hasta tal punto había decidido el
Espíritu Santo dejar clara la esencia de la religión cristiana y las prerrogativas del menesteroso como miembro de
Cristo!

2) CONSECUENCIA: APRECIO DE LOS POBRES

La consecuencia de lo que decimos es que no basta compadecer ni aun ayudar a los desgraciados, sino que debemos
llenarnos de respeto hacia ellos. San Pablo nos da ejemplo cuando, al pedir a los romanos una limosna para los fieles
de Jerusalén, les dice: Os exhorto, hermanos, por nuestro Señor Jesucristo y por la caridad del Espíritu, a que me
ayudéis en esta lucha, mediante vuestras oraciones a Dios por mí, para que… el servicio que me lleva a Jerusalén sea
grato a los santos (Rom. 15,30).

Pasad y admirad sus palabras; no dice limosna ni asistencia, sino servicios, y servicios que quizás pueden
ser agradables. ¿Tanta precaución para que sea agradable una limosna? Sí, porque pensaba en la alta dignidad de los
pobres. Se puede dar algo para conquistar el cariño o para aliviar la miseria, por aprecio o por compasión; lo primero
es un presente; lo segundo, una limosna. La limosna se da a los inferiores; el obsequio, generalmente, a un superior.
Debéis, pues, elevar de condición lo que dais, acompañándolo de modales y circunstancias, que conviertan la
limosna en un honor que hacéis al pobre, al considerarlo como miembro de Cristo y primogénito de la Iglesia.

Señoras: Revestíos de los mandamientos apostólicos y, al cuidar de los pobres de esta casa, pensad que, si el siglo os
colocó por encima de ellos, Cristo os pone por debajo. Honraos a vosotras mismas sirviéndoles a ellos, a quien el
misterioso conducto de la Providencia Divina dio los primeros puestos de la Iglesia.

C) Los ricos, al servicio de los pobres

1) CRISTO, MÁS POBRE QUE LOS POBRES

Si Cristo no prometió en su Evangelio más que aflicciones y cruces, innecesario es decir que no necesita de los ricos.
¿Para qué los quiere dentro de su reino? ¿Para que le erijan templos de oro y pedrería? No creáis que aprecia
grandemente tales adornos; los recibe sólo como señal de piedad y religión. Cuando funda directamente su culto, a
diferencia de lo que se hizo en el Antiguo Testamento, escoge los elementos más sencillos, el agua, el pan el aceite.
En las sinagogas era necesario despoblar los ganados, pero en la Iglesia no necesitamos ninguna riqueza. Cristo, en
lugar de rodearse de pompa, se ha rodeado de pobres.

Voy a declararos un misterio (1 Cor. 15,15): Jesús no tiene necesidad de nada y lo necesita todo. No necesita nada
porque es omnipotente; lo necesita todo porque es compasivo. Voy a declararos un misterio: el misterio del Nuevo
Testamento, porque del mismo modo que la misericordia de Jesús, inocente, le hizo una vez cargarse de todos los
crímenes, ahora le obliga a Jesús, feliz, a que lleve encima de sí todas las desgracias. Más pobre que los pobres,
porque, como el Inocente, llevaba más pecados sobre sí que cualquier pobre. Aquí tiene hambre y allí sed; acá
enfermedades y allá pasiones. Más pobre que nadie, porque cada uno de los pobres sufre por sí mismo, y Cristo sufre
por la universalidad de los desgraciados.

2) POR QUÉ LA IGLESIA ADMITE A LOS RICOS

Pero si en la Iglesia no hubiera más que pobres, ¿quién los ayudaría? Esta es la razón por la que ha admitido a los
ricos dentro de ella. Pudo utilizar a los ángeles, mas quiso que los hombres fueran ayudados por sus semejantes. El
amor a sus hijos, los pobres, permitió la entrada a los extraños, los ricos. ¡Ved el milagro de la pobreza! Los ricos eran
extranjeros, y el servicio del pobre los ha nacionalizado. El rico era un enfermo contagioso, y Cristo ha permitido que
sus riquezas puedan servirle para curar su enfermedad.

Ricos y pobres se pueden ayudar mutuamente a llevar sus cargas (Gal. 6,2). Los pobres las soportan muy pesadas, y
“el servicio que debéis a los necesitados es el de llevar con ellos una parte del peso que les abruma” (cf. SAN
AGUSTÍN, Serm. 164 n.9: PL 38,899). Pero los ricos también andan agobiados por el peso. ¿Quién creería que el fardo
de los pobres fuera la necesidad y el de los ricos su abundancia? (cf. SAN AGUSTÍN, ibid.).

Ya sé que los mundanos desean que pese sobre ellos una carga semejante, pero día vendrá en que, terminado este
mundo de errores semejantes, lleguen a un juicio donde entiendan el peso verdadero de sus riquezas.

No esperéis esa hora fatal; ayudad a llevaros los unos a los otros vuestra carga; ricos, sostened algo la del pobre y
sabed que al descargarla aliviáis la vuestra. Ayudad al pobre y que el pobre os ayude a vosotros.

“¡Qué injusticia, hermanos, la de que sean los pobres los únicos que lleven la carga de la miseria sobre sus espaldas!
Si se quejan y murmuran contra la Providencia Divina, permíteme, ¡Oh Señor!, que te diga que no les falta alguna
apariencia de justicia, porque, amasados todos con el mismo barro y no pudiendo existir gran diferencia entre polvo
y polvo, ¿por qué ha de estar en un lado la alegría, el favor y la influencia, y en el otro la tristeza, la desesperación, la
necesidad extrema y, además, el desprecio y la servidumbre? ¿Por qué este afortunado ha de vivir en una
abundancia tal que pueda satisfacer hasta los deseos más inútiles de una curiosidad estudiada, mientras que este
otro miserable, tan hombre como él, no puede sostener su familia ni aliviar su hambre? ¡Ah, señores, en esta absurda
desigualdad podríamos acusar a la Providencia de una mala administración de sus tesoros, si no hubiera proveído de
algún modo a las necesidades de los pobres y establecido cierta igualdad entre pobres y ricos!” La ha establecido
admitiendo a éstos en la Iglesia para que tomen sobre sí las cargas de los pobres. Sabedlo bien: si existen en la
Iglesia, es sólo para que comuniquen con ellos su pobreza y merezcan participar de sus privilegios.

http://propagandacristianacatolica.blogspot.com.br/2014/02/bossuet-los-ultimos-y-los-primeros.html

BOSSUET: Expiación por la penitencia y preparación para la


Eucaristía.

BOSSUET

El tema a tratar es el del leproso y del centurión (Mt. 8,1; Mc. 1,40; Lc. 5,12). Bossuet ve en los dos milagros del
Señor la imagen de dos sacramentos. La curación del leproso representa la penitencia. La del siervo del centurión, la
preparación para la Eucaristía (cf. Oeuvres de Bossuet [ed. Firmin-Didot, París 1877] t.2 p.278-280).

Expiación por la penitencia y preparación para la Eucaristía

LA LEPRA Y EL PECADO

“Al bajar Jesús de la montaña donde acaba de explicar los preceptos de la ley evangélica, nos enseña el perdón de los
pecados. Después del precepto, la prevaricación y la remisión por medio de la gracia. Poco se suele pensar en las
obras buenas que se deben hacer y en los pecados que importa expiar; sin embargo, debemos procurar cada día la
remisión de los pecados que continuamente cometemos (cf. SAN AGUSTÍN, Serm. 58,6: PL 38,395). Toda nuestra vida
es inútil; no sólo palabras ociosas, sino toda ella ociosidad; somos la ociosidad misma. En nombre de todos confieso
nuestros pecados a Jesús y le digo: Domine, si vis, potes me mundare[1]. El contestará por medio del sacerdote: Volo,
mundare[2]”.

Le advirtió, no lo digas a nadie (v.4), no para que el pueblo ignorase las maravillas de su misión, sino para que las
fuera conociendo por el camino ordinario señalado por el Padre.
La lepra es una impureza y significa el pecado, ya que ninguna impureza le aventaja. No todos los leprosos reciben el
mismo trato, porque unos lo son recientes y otros inveterados. Los pecadores también se dividen en dos clases. No
busquéis médicos que no sepan distinguir. La Iglesia tiene llaves para abrir y para cerrar.

Los leprosos vivían separados del mundo en las afueras de la ciudad. El pecador debe separarse también por miedo
al contagio. Cristo, nuestro médico, fue separado y muerto fuera de la puerta (Hebr. 13,12). Era la víctima del pecado.

Ofrece la ofrenda que Moisés mandó (v.4). El leproso tenía que ofrecer dos pájaros, de los cuales se inmolaba uno y
el otro, después de bañado en la sangre del muerto, se dejaba en libertad. Nuestra naturaleza, para ser libre, debe
bañarse en la sangre de Cristo inmolado; bañarse por medio de la mortificación. La vida regalada no sufre este
empaparse en la sangre de Cristo. Por eso viviendo estáis muertos(1 Tim. 5,6).

Al leproso se le obligaba a cortarse el pelo y la barba, porque, según Bossuet, en estas partes superfluas anidaba
principalmente la lepra. La lepra del alma suele arraigar en lo superfluo y vano, y hemos de cortarlo radicalmente. No
me preguntéis por dónde habéis de cortarlo radicalmente. No me preguntéis por donde habéis de empezar; cortad
un poco y recibiréis luz para seguir cortando. Empezad por la limosna. No antepongáis vuestro bienestar. Es preciso
cortarse cejas y la barba, y no importa que el rostro quede algo desfigurado. Nadie tiene más obligación de dar
limosna que el leproso que se purifica y el pecador que sana.

LOS MOTIVOS POR LOS CUALES LA LIMOSNA CURA EL PECADO.

1- El pecado exige el castigo de la privación de todo bien, puesto que el reo ha abusado de todo. Lo menos que
puede hacer en compensación es compartir sus bienes con los que realmente sufren privaciones.

2- La limosna evita los pecados de los demás, porque un gran número de ellos se originan por la pobreza,
verbigracia, los pecados ocultos, los incestos, por el hacinamiento en que se vive y otras abominaciones. Nada mejor
para expiar nuestros pecados que evitar los del prójimo.Charitas operit multitudinem peccatorum[3] (1 Petr. 4,8).

La Limosna, en fin, es una excelente preparación para la comunión. Dar a Jesucristo es el mejor modo de disponerse
para que Jesucristo se dé a nosotros.

[1] Señor, si quieres, puedes limpiarme. (Mt. 8,2)

[2] Quiero, sé limpio. (Mt. 8,3)

[3] Porque la caridad cubre la muchedumbre de pecados. (1 Petr. 4,8)

http://propagandacristianacatolica.blogspot.com.br/2014/02/bossuet-expiacion-por-la-penitencia-y.html

BOSSUET. APOSTOLADO ASEQUIBLE A TODOS: “Practicad el


ejemplo en el propio hogar. Cada uno es un grande en él, un
príncipe en su familia”
BOSSUET

El fermento fácil del ejemplo

El buen ejemplo es una levadura asequible para todos y que fermenta también por entero. Entresacamos unos
párrafos de Bossuet sobre este asunto.
Apostolado asequible a todos

“Considerad, pues, cristianos, el poder que Dios nos ha concedido, y al verlo en nuestras manos, como talento de que
habremos de rendir cuenta, formemos la resolución decidida de aprovecharlo para su gloria, esto es, para el bien de
sus hijos”.

“Mas, al tomar esta decisión, precavámonos muy mucho de caer en los ilusorios deseos que la ambición suele
proponernos. Siempre nos impulsa, en efecto, a obras extraordinarias, pero para cuya ejecución necesitamos de
crédito y de situación elevada. Es el pretexto corriente del ambicioso, que, cuando aspira a grandes dignidades, se
propone llevar a cabo grandes cosas (cf. San Gregorio Magno,Regula Pastorum 1,9). Ahí es el llorar los males públicos
y soñarse reformador de abusos y censores severísimos todo el que desempeña algún cargo revestido de dignidad…
¡Qué magníficos propósitos para el regimiento del Estado! ¡Qué de hermosos pensamientos sobre la Iglesia! En
medio de estos propósitos y deseos se va infiltrando el amor del mundo, y, dejándonos sorprender por el espíritu del
siglo, nos tornamos mundanos y ambiciosos. Una vez llegados a la cumbre, entonces es necesario esperar la ocasión,
que tiene pies de plomo y no llega nunca. El que comienza a disfrutar con espíritu del siglo, su oficio, se olvida a gusto
de lo que se propuso tan religiosamente” (cf. San Gregorio, ibid.).

“El deseo de hacer el bien no os lleve nunca a desear puestos más ventajosos. Obrad el bien que tenéis delante y que
Dios os ha hecho posible. No temáis ser inútiles y ociosos, si no rebasáis vuestros límites y no alcanzáis puestos altos.
Un río, para ser fecundo, no necesita rebasar sus orillas ni inundar el campo, porque, deslizándose manso por su
lecho, riega y verdea le ribera y ofrece su agua al pueblo como vía de comercio…

“Dentro de nuestro propio y legítimo ámbito, y en la medida posible, ensanche cada cual su caridad. Nuestros
cargos están circunscritos, pero la caridad no reconoce límites. Toda para todos, se dedica a tantas tareas como
necesidades encuentra…; no teme nunca que le falte trabajo y, en vez de aspirar al poder, anhela en el alma de quien
la practica rendir a Dios cuenta exacta del cargo en que le puso…

“Poderosos, practicad el bien. Uno de los que podéis llevar a cabo, el ejemplo, es un bien para vosotros mismos y
para nosotros. Es un don que os enriquece y un don que volverá a vuestras arcas. No hace falta esforzarse mucho.
Basta con llenaros de luz, que la luz llegará a nosotros por sí sola…

“Practicad el ejemplo en el propio hogar. Cada uno es un grande en él, un príncipe en su familia” (cf. Cuaresma de
las Carmelitas: Esbozo de la última parte del sermón predicado el 27 de marzo de 1661 [ed. Lebarq] t.4 p.22).

“La primera conquista de un príncipe debe ser la de su propio Estado. Ha de ganarlo para sí, para Dios y para la
justicia, desarraigando los vicios…

“Un estado se gobierna por el ejemplo, que cambia las personas y las formas en la virtud, mejor que por medio de las
leyes, las cuales en la mayoría de los casos son cargas que abruman en vez de aliviar” (cf. Pensamientos cristianos y
morales, 25: De los reyes y los grandes [ed. Lebarq] t.6 p.687).

http://propagandacristianacatolica.blogspot.com.br/2014/02/bossuet-apostolado-asequible-todos.html

J. B. Bossuet

«Vimos a sua estrela no Oriente»


Comentário do dia

J. B. Bossuet (1627-1704), bispo de Meaux

Sermões sobre os mistérios, 17ª semana, nº 2

«Vimos a sua estrela no Oriente»


Que tinha esta estrela acima das outras, que anunciam no céu a glória de Deus? (Sl 18, 2). Que tinha ela a mais que
as outras, para merecer ser chamada a estrela do Rei dos reis, do Cristo que acabara de nascer, para Lhe trazer os
magos? Balaam, profeta entre os pagãos, em Moab e na Arábia, tinha visto Jesus Cristo como uma estrela; e tinha
dito: «Uma estrela sai de Jacob» (Nm 24, 17). Esta estrela que aparece aos magos era a imagem daquele que Balaam
tinha visto: e quem sabe se a profecia de Balaam não se tinha espalhado no Oriente? [...] Fosse como fosse, uma
estrela que aparecesse apenas aos olhos não seria capaz de atrair os magos ao Rei recém-nascido: era preciso que a
estrela de Jacob e a luz de Cristo nascessem em seus corações. Em presença do sinal que ela lhes deu exteriormente,
Deus tocou-os interiormente, por esta inspiração da qual Jesus disse: «Ninguém pode vir a Mim se o Pai que Me
enviou o não atrair» (Jo 6, 44).

A estrela dos magos é, pois, a inspiração nos seus corações. Não sei o que brilha dentro de vós; estais nas trevas e
nas distracções, ou talvez na corrupção do mundo; voltai-vos para o Oriente, onde nascem os astros; voltai-vos para
Jesus Cristo, que está a Oriente, onde se levanta como um belo astro o amor à verdade e à virtude.

http://evangeliodeldia.org/main.php?language=PT&module=commentary&localdate=20090104

A SIMPLICIDADE DA RAINHA MARIA TERESA SOBRE O PECADO


Maria Teresa, esposa de Luís XIV, rainha da França e então também da Nova França, chorava, certo dia, “por uma
falta leve na qual ela tinha caído. Suas damas de honra queriam consolá-la. Elas lhe diziam que essa falta era apenas
venial. “Não importa, respondeu a nobre rainha, em lágrimas, Deus está ofendido: ela é mortal para meu coração”"
(Abbé R. Turcan, Le directeur des Catéchismes).

“Frequentemente ela disse, nessa bem-aventurosa simplicidade que lhe era comum a todos os santos, que ela não
entendia como se podia cometer voluntariamente um único pecado, por menor que fosse. Então ela não dizia : ele é
venial. Ela dizia: ele é pecado. E seu coração inocente se reerguia.

Porém, como sempre escapa algum pecado da fragilidade humana, ela não dizia: ele é leve. Novamente, é pecado,
dizia ela” (Bossuet, Oraison funèbre de Marie-Thérèse d’Autriche).

http://catolicosribeiraopreto.wordpress.com/2014/01/22/a-simplicidade-da-rainha-maria-teresa-sobre-o-pecado/

J. B. Bossuet

“Não é este o carpinteiro”


Comentário do dia

J. B. Bossuet (1627-1704), bispo de Meaux

Elevações sobre os mistérios, XX semana, nº 8

“Não é este o carpinteiro”

“Jesus desceu com eles, voltou para Nazaré, e era-lhes submisso” (Lc 2, 51). Atentemos na sagrada leitura; diz o
Evangelista que “desceu com eles, voltou para Nazaré”. Jesus retoma o seu comportamento habitual, na obediência a
seus pais. Talvez seja misticamente que este “desce” é referido; seja como for, é verdade que, devolvido às mãos
deles até ao baptismo, ou seja, até cerca dos trinta anos, nunca mais deixou de lhes obedecer. […] Então é apenas
isso que faz Jesus Cristo, que faz o Filho de Deus? Limita-se a obedecer a duas das suas criaturas. E em que lhes
obedece? Nos exercícios mais básicos, na prática de uma arte manual

Onde estão os que se queixam, os que murmuram, porque o que fazem está aquém das suas capacidades, ou
melhor, do seu orgulho? Venham a casa de José e de Maria, e vejam trabalhar Jesus Cristo. […] Jesus disse de Si
mesmo que “veio para servir” (Mt 20, 28). […] O certo é que trabalhava na oficina de seu pai. […] Mas, à excepção
daquilo que está escrito acerca da sua educação por São José, nunca mais se ouve falar deste santo homem. É por
isso que, no começo do ministério de Jesus Cristo, quando ele vem pregar à sua pátria, se diz d’Ele: “Não é este o
carpinteiro filho de Maria?” – era aquele que todos sabiam […] trabalhar na oficina, sustentando assim a mãe viúva,
vendendo o produto desse ofício, que lhes permitia subsistir a ambos. […]
Jesus, filho de carpinteiro, Ele próprio carpinteiro, conhecido por esse exercício, sem que se fale de outro emprego,
de outra acção. […] Consolem-se e alegrem-se aqueles que vivem de um ofício manual: Jesus Cristo é dos seus;
aprendam a louvar a Deus, a cantar salmos e cânticos sagrados trabalhando; Deus abençoará o seu trabalho; diante
d’Ele, serão outros Cristos.

http://evangeliodeldia.org/main.php?language=PT&module=commentary&localdate=20070131

Leer el comentario del Evangelio por

Jacques Bénigne Bousset (1627-1704), obispo de Meaux

Elevaciones sobre los misterios, 20ava. Semana, nº 8

“¿No es este el carpintero?”

“Jesús bajó con ellos a Nazaret y siguió bajo su autoridad” (Lc 2,51). No perdamos nada de la santa lectura: la
palabra del evangelista es que “bajó con ellos a Nazaret”. Entra en la conducta ordinaria, en la de sus padres, en la
obediencia. Es posible que deba interpretarse místicamente eso que él llama “bajar”, pero sea lo que fuere, lo que sí
es verdad es que estuvo bajo su autoridad hasta su bautismo, es decir, hasta alrededor de los treinta años, y no hizo
otra cosa que obedecerles... ¿Fue este todo el trabajo de Jesucristo, del Hijo de Dios? Todo su quehacer, todo su
ejercicio fue obedecer a las dos criaturas. Y ¿en qué les obedeció? En los más bajos trabajos, en la práctica de un arte
mecánico [manual].

¿Dónde están los que lamentan, los que murmuran, cuando sus trabajos no responden a su capacidad, o por
mejor decir, a su orgullo?. Que vengan a la casa de María y de José, y vean trabajar a Jesucristo... Jesús dijo de él
mismo que “había venido para servir” (Mt 20,28)... Lo que sí es cierto es que trabajó en el taller de su padre... Pero
después de lo que se dice sobre su educación bajo San José, ya no se oye más hablar de este santo varón. Y es por
ello que,Jesucristo, al principio de su ministerio, cuando fue a su patria a predicar se dijo: ““¿No es este el carpintero,
el hijo de María?” –como a aquel a quien habían visto mantener el taller, sostener con su trabajo una madre viuda y
hacer seguir el negocio del pequeño taller que mantenía a los dos...

http://evangeliodeldia.org/main.php?language=SP&module=commentary&localdate=20070131

J. B. Bossuet

«Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»


Comentário do dia

J. B. Bossuet (1627-1704), bispo de Meaux

Elevações sobre os mistérios, 24ª semana, 2ª elevação

«Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»

João, vendo Jesus vir até ele, mostrou-o a todo o povo dizendo : "Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado
do mundo". Todos os dias, de manhã e à tarde, imolava-se no Templo um cordeiro e aquilo era o que se chamava o
"sacrifício contínuo” ou perpétuo (Ex 29,38). Foi isso que deu a João a oportunidade de pronunciar as palavras que
acabamos de ouvir; talvez mesmo Jesus se tenha aproximado dele à hora em que todo o povo sabia que se estava a
oferecer esse sacrifício. Fosse como fosse, neste testemunho que presta ao Salvador, ele que o tinha feito conhecer
como "Filho único no seio do Pai" (Jo 1,18), cujas profundezas vinha revelar, fá-lo ser conhecido hoje como a vítima
do mundo. Não penseis que aquele cordeiro que se oferecia tarde e manhã em sacrifício perpétuo fosse o verdadeiro
cordeiro, a verdadeira vítima de Deus; é antes aquele que se colocou “ao entrar no mundo no lugar de todas as
vítimas” (cf. He 10, 5.7). É também aquele que é a vítima pública do género humano e que, só ele, pode expiar e tirar
esse grande pecado que é a raiz de todos os outros e que, por isso, pode ser chamado "o pecado do mundo", quer
dizer, o pecado de Adão, o pecado de todo o universo…

http://evangeliodeldia.org/main.php?language=PT&module=commentary&localdate=20070103

Leer el comentario del Evangelio por


Jacques Bénigne Bousset (1627-1704), obispo de Meaux

Elevaciones sobe los misterios, 24ª semana, 2ª elevación

"Este es el cordero de Dios que quita el pecado del mundo"

Juan, viendo a Jesús venir hacia él, lo muestra a todo el pueblo diciendo: “ Este es el Cordero de Dios, este es el
que quita el pecado del mundo”. Todos los días, mañana y tarde, en el Templo se inmolaba a un cordero, y a eso le
llamaban el “sacrificio continuo” o perpetuo (Ex 29,38). Esto fue lo que dio a Juan la ocasión de pronunciar las
palabras que acabamos de escuchar; es posible incluso que Jesús se acercara a Juan a la misma hora en la que todo
el pueblo sabía que se ofrecía el sacrificio. Sea lo que sea, en este testimonio que da del Salvador, él, que lo había
dado a conocer como a “Hijo único en el seno del Padre” (Jn 1,18), de quien acababa de declarar las profundidades,
hoy lo da a conocer como víctima del mundo. Que nadie crea que este cordero que se ofrecía tarde y mañana como
sacrificio perpetuo, sea el verdadero cordero, la verdadera víctima de Dios: él es aquel que “entrando en el mundo”
se ha puesto “en el lugar de todas las víctimas” (cf Heb 10,57). Es también la víctima pública de todo el género
humano, y que sólo él puede expiar y quitar el gran pecado que es la fuente de todos los demás pecados, y que por
eso se llama “el pecado del mundo” es decir, el pecado de Adán que es el pecado de todo el universo...

Venid a él, pequeños y grandes como el que os purifica de todos vuestros pecados. Porque “ya sabéis con qué os
rescataron de ese proceder inútil recibido de vuestros padres: no con bienes efímeros, con oro o plata, sino a precio
de la sangre de Cristo, el cordero sin defecto ni mancha, previsto antes de la creación del mundo y manifestado al
final de los tiempos por nuestro bien” (1P1,18-20).

http://evangeliodeldia.org/main.php?language=SP&module=commentary&localdate=20070103

Jacques Bénigne Bousset (1627-1704), obispo de Meaux

Elevaciones sobre el misterio; 24 semana; 2ª elevación

“Este es el Cordero de Dios que quita el pecado del


mundo.”
Mirad al cordero de dios que Isaías vio en espíritu cuando describe el cordero que no sólo se deja esquilar sino
matar e inmolar. (cf Is 53,7) Y que Jeremías veía y presentaba en su propia persona cuando dice: “Yo estaba como
cordero manso llevado al matadero” (Jr 11,19). He aquí este cordero tan manso tan simple, tan paciente, sin astucia
ni engaño que será inmolado por todos los pecadores. Ya fue inmolado místicamente y, se puede decir con toda
verdad, desde el comienzo del mundo es inmolado. (cf Ap 13,8)

Fue asesinado en Abel, el justo. Cuando Abrahán quiso sacrificar a su hijo, comenzó, en figura, lo que se tendría que
realizar en Jesucristo. En él se completó lo que empezó en los hermanos de José: Jesús fue odiado, perseguido a
muerte por sus hermanos. Fue vendido en la persona de José, arrojado a una cisterna, es decir, entregado a la
muerte. Con Jeremías fue echado a un pozo profundo, con los tres jóvenes al horno encendido, con Daniel a la fosa
de los leones. En figura fue sacrificado en todos los sacrificios anteriores. Estaba en el sacrificio que Noé preparó al
salir del arca cuando vio el arco iris en el cielo, signo de paz. Estaba en los sacrificios que los patriarcas ofrecieron en
la montaña, en el que Moisés y toda la ley ofrecieron en el tabernáculo y luego en el templo. Nunca dejó de ser
inmolado en figura. Ahora viene para realizarlo en su propia persona.

http://evangeliodeldia.org/main.php?language=SP&module=commentary&localdate=20050116

Entrada triunfante de nuestro Señor en Jerusalén


Joan. 12. V. 12.20 Matth.21 V.1.17 Marc. II. V. 1.17. Luc. 19 V.28.48

La tradición de la Iglesia pone la entrada triunfante de nuestro Señor en Jerusalén en el primer día de la semana, que
es un Domingo, llamado por esta razón Domingo de Ramos.

La vida mortal de Jesucristo, según los designios de la divina Providencia, había de pasarse en humillación, pobreza, y
abatimiento contra las ideas fastuosas con que lo esperaban los judíos. Mas, sin embargo, Dios tenia decretado que
en medio de tanta humillación, de cuando en cuando se descubriese en su Persona Divina, y Humana algún, destello
de aquella gloria que los Judíos esperaban. Era necesario para hacer ver á los hombres que aunque el Salvador
parecía menospreciable, y humilde, según el mundo, tenía en sus acciones, y persona con que atraerse la mayor
gloria que los humanos pueden dar sobre la tierra: aun hasta hacerlo Rey, si la ingratitud de los Judíos, y una
dispensación secreta de la sabiduría de Dios no lo hubieran impedido.

Donde mas principalmente se advirtió esto fue en su entrada triunfante de Jerusalén, la más brillante, y magnífica
que hasta entonces se había visto; porque en ella se vio un hombre que parecía el mas despreciable de todos,
respetado, y ensalzado, y recibiendo de todo el Pueblo, dentro de la Ciudad Real, y hasta en medio del Templo,
honores mayores que cuantos habían merecido los Emperadores, los Conquistadores, y los Reyes. Esta es la gloria de
que hablamos. Pero el carácter de humillación y enfermedad, inseparable del estado del Hijo de Dios sobre la tierra,
debía igualmente brillar, y hacerse ver. Después contemplaremos este estado: consideremos antes el carácter de
gloria, y de grandeza.

Es necesario suponer que el Hijo de Dios, aunque en su figura, y traza exterior parecía, el más abatido y miserable de
los hombres, había nacido para ser Rey del modo más admirable, y augusto: es á saber, con la admiración que
causaban sus ejemplos, su santa vida, y doctrina, sus milagros, y sus grandes obras. Por medio de tantas maravillas
pareció el Señor tan útil, y caritativo al género humano, que las turbas de gentes lo abandonaban, y olvidaban todo
para seguirle con sus mujeres, é hijos, hasta los más remotos desiertos, sin pensar, ni siquiera en comer. Y habiendo
mantenido Jesús con cinco panes de cebada, y dos peces á cinco mil personas, sin contar mujeres, y niños (Matth 14 V.
13.21), se llenaron de tanto asombro, que quisieron proclamarle por Rey, y reconocerle por su Cristo. Y lo habrían
hecho, si Jesús no se hubiera ocultado por impedirlo.

Pero el Domingo de Ramos quiso que los Pueblos ostentasen la admiración con que lo veneraban. En efecto, salen
con palmas en las manos á recibirlo, gritando en alta voz que era su Rey, el verdadero Hijo de David que debía venir; y
en fin, el Mesías prometido, y esperado. Los niños también lo aplaudían, y alababan: y el testimonio sincero de esta
edad inocente manifestaba la sencilla verdad de los aplausos. Ningún Pueblo, hasta entonces, hizo otro tanto con sus
Reyes: entapizan con sus vestidos el camino por donde había de pasar Jesús: cortan a porfía ramos verdes para
adornar la carrera: hasta los mismos árboles, como que se inclinaban, y postraban delante de Jesús. Las tapicerías de
seda, y de brocato con que adornan las calles los Ciudadanos en las entradas públicas de sus Reyes, no igualan á
estos naturales, y simples adornos: las ramas de los árboles arrancadas para el uso que acabamos de ver; todo un
Pueblo que se desnuda para matizar el camino por donde su Rey ha de pasar, hace un espectáculo que encanta. En
las otras entradas se manda á las gentes, que adornen las calles, y se regocijen. Aquí lo hace todo el Pueblo con una
especie de éxtasis, sin mandárselo. Ninguna cosa exterior les deslumbraba, y conmovía. Esté Rey pobre, y manso
venía montado sobre un asno, humilde, y pacífica cabalgadura: no venía sobre fogosos caballos, que tirando
arrebatadamente de una carroza, embelesaran la vista: no se veían alrededor de su persona Guardias, Soldados, ni
Ministros: no iba delante la imagen de las Ciudades vencidas, ni sus despojos, ó sus Reyes cautivos. Las palmas, que
llevaban delante de Jesús, indicaban otras victorias: aquí nada había del lucido aparato de los ordinarios triunfos. En
lugar de esas fantásticas imágenes, se veían los enfermos que había curado, y los muertos que había resucitado. La
persona del Rey, y la memoria de sus milagros hacían toda la recomendación de aquella fiesta. Cuanto el arte, y la
adulación han inventado para honrar á los Conquistadores en sus más bellos días, cede á la simplicidad, y verdad que
parecen en éste. Conducen al Salvador con tan sagrada pompa por medio de Jerusalén hasta el Templo. En él se deja
ver como Señor, y Maestro, como Hijo de casa, é Hijo de Dios, á quien adoran, y sirven. Ni Salomón, que lo fundó, ni
los Pontífices, que oficiaban con tanto aparato, recibieron semejantes honores.

Parémonos aquí, y consideremos por menor este magnífico espectáculo.

Jesucristo reina sobre los espíritus, y corazones por sus milagros, beneficios y palabra.

(Joan. 12 V. 12. 19. Matth. 21 v.17. Marc. 11. V.1.18 Luc.19. V. 28.48)

Lo que al Salvador atrajo tamaña gloria fue el ruido de sus milagros, y en particular del que acababa de hacer casi á
las puertas de Jerusalén resucitando á Lázaro: Porque toda la gente que estaba con él cuando le hizo salir del
sepulcro, le daba testimonio. Y por eso los que vinieron á Jerusalén á celebrar la fiesta de Pascua, salieron á recibirlo
porque supieron que había hecho aquel prodigio.
También publicaban, y celebraban los otros milagros que había hecho, llenando de reputación toda la Judea.

Mientras iba bajando del Monte Olívete, la tropa de sus Discípulos, sobrecogida de un regocijo repentino, se puso a
alabar á Dios por todas las curaciones, y maravillas que habían visto.

Los milagros confirmaban su doctrina: porque los hizo de propósito en testimonio de su misión y de la verdad que
anunciaba. Padre mío (dijo resucitando á Lázaro) Yo sé que me oís siempre; pero hablo también ante todo este
Pueblo, para que crean que Vos me habéis enviado (Matt. 9.5)… Y desde el principio de su predicación había dicho á
un Doctor de la Ley: ¿Cuál es más fácil, decir levántate échate la cama acuestas, y marcha; ó decir á un paralítico, tus
pecados te han sido perdonados? Pero á fin de que sepas que el Hijo del hombre puede perdonar los pecados sobre la
tierra: Levántate (le dijo al Paralítico vete ó tu casa (Luc.23.24).

Y esta es la razón por que juntaba sus sermones con la curación de las enfermedades. Iba por toda la Galilea
enseñando en sus Sinagogas, y predicando el Evangelio, y curando todas las enfermedades (Matt.4.23)

Así se atraía tan gran reputación , y juntaba alrededor de sí tanta gente; porque, añade el Evangelista: Su reputación
llegó basta la Siria: y le seguían muchas gentes de la Galilea ,y de la Decápolis , de Jerusalén, de Judea, y del país, que
está mas allá del Jordán (Ibi. 24.25). Estas turbas, que le seguían, fueron las que empezaron á gritar, y á su imitación
todo el Pueblo le aplaudió, y ensalzó. …

Su doctrina, confirmada con estos milagros, le acarreaba reputación de gran Profeta: veíase en todo cuanto decía, y
anunciaba un aire de autoridad, y eficacia, que no se vio jamás en ningún hombre. Porque les enseñaba como
Maestro, revestido de autoridad y de poder no como los Doctores, y Fariseos (Matth. 7. V.29)…. ‘.

Todo el mundo le llamaba Señor, y Rabbi; esto es, Maestro: aunque no estudió con ningún Doctor de la Ley, ni hizo
alguna de aquellas cosas que acarreaban ese título á los judíos. Todo el Pueblo quedaba atónito y admirado cuando
le oía.Parecía indubitable, que de él había dicho David: O! el mas hermoso de todos los hijos de los hombres: la gracia
se halla derramada en tus labios (Psal.44.v.3). Para acudir á oírle lo abandonaban todo: tan poderoso era el atractivo
de su palabra, y tan arrobados quedaban con el agrado de sus discursos, y de las palabras graciosas que salían de sus
labios: porque todo el mundo lo confesaba así(Luc.4.22). No eran sus Discípulos solos los que le decían: Maestro ¿a
quién iremos? Vos tenéis palabras de vida eterna; sino también los que venían con orden, y ánimo de prenderlo
(Joann6.v.69). Estos se veían como atajados con sus discursos, y no se atrevían á echarle la mano (Id. 7 v.44.47), De
suerte, que preguntándoles los Escribas, y Fariseos que los habían enviado para hacer la prisión: ¿Por qué no lo
habéis traído?respondieron: Ningún hombre ha hablado como él. De donde se movieron los Fariseos para decir
seriamente á estas gentes: No os dejéis engañar como los otros. Pero los mismos Doctores, y Fariseos, que tanto
menospreciaban á los que creían en él, y que no le hablaban sino por sorprenderle, no sabían qué responder, porque
les cerraba la boca con respuestas terminantes, y decisivas. Y no se atrevían á preguntarle(Matt.22.46).

Este es aquel Reino admirable, predicho, y profetizado en los Salmos. El Salvador, con el encanto de su palabra, y la
gracia de sus labios, ganó á todos los Pueblos. Su gracia consistía en la Verdad, que anunciaba; en la Justicia, de que
era perfectísimo modelo; en la mansedumbre, y en la bondad con que curaba a todos los enfermos; y en la pronta
liberalidad con que empleaba su Omnipotencia en socorrer á todo el género humano. ¿Quién reinó jamás de esa
manera? Pues de este modo reina Jesús.

Su doctrina, y milagros hicieron el efecto exterior que naturalmente debían hacer sobre todos los espíritus. Le
seguían, le aplaudían, y te recibían con gritos de aplauso, y alegría. Solos sus envidiosos se irritaban, y estremecían;
mas sin embargo, no se atrevían á chistar.

¿Pero de qué proviene el que tuvo tan pocos Discípulos? ¿De qué proviene, que pocos días después que lo
recibieron con tanto alborozo, gritaron en el Pretorio: Crucifícalo, crucifícalo? Apenas se cuentan entre sus secuaces
ciento y veinte, que fueron los Discípulos, que en el Cenáculo estaban esperando la Venida del Espíritu Santo.
Proviene de que los Discípulos de Jesucristo no son los que lo admiran, los que lo alaban, los que lo celebran, los que
le siguen en el exterior, y acompañan hasta cierto punto; sino los que le siguen interiormente á todas partes: los que
guardan todos sus preceptos: los que llevan su Cruz : y los que renuncian de sí mismos. El número de estos es
pequeñito. Para hacerlo se necesita, además de los atractivos de la palabra, y del encanto de los milagros, una
palabra interior, la cual no quieren oír todos: se requiere un milagro, que mude, y que transforme los corazones, cuyo
admirable efecto impiden nuestro orgullo, y torpeza.
Seamos, pues, Discípulos de Jesús: Si permaneciereis en mi palabra, seréis verdaderamente Discípulos míos, y
conoceréis la verdad. Mi Padre será glorificado, si diereis mucho fruto, y seréis mis verdaderos Discípulos. El que
guarda mis Mandamientos es quien verdaderamente me ama (Joan. 15.8). Los otros pueden alabarme, admirarme, y
seguirme exteriormente glorificándose de que son mis Discípulos, porque tendrán á mucho honor que los tengan por
tales; pero no me aman, no los conozco, ni los pongo en el número de los míos.

FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775.

Virtud de la Cruz
Jesús saca toda su gloria de la Cruz. Debemos seguirle hasta la Cruz

El Príncipe de este mundo (el Demonio) va á ser echado afuera; y las falsas divinidades van á ser abandonadas. Pero
no basta arrojar, y lanzar al Demonio; sino que se necesita también ganarle á Dios el Principado; por Jesucristo: Y
Yo(dice) después que hubiere sido levantado de la tierra (sobre la Cruz), lo traeré todo a mí: atraeré todas las cosas.

Hay en la virtud de la Cruz con que atraer á todos los hombres. Habrá gentes de ambos sexos, de todas, clases, y
naciones; de todos genios, y estados, profesiones, y oficios, que serán tan eficazmente atraídas á Jesús, que le
seguirán á millaradas.

En todas esas gentes afortunadas, y felices que Dios unió por su eterna, y misericordiosa elección, ni una siquiera
perecerá. Parece que Jesucristo fue enclavado en la Cruz para ser blanco de todo el mundo. Porque si por una parte
está expuesto á la contradicción de todos por otra es el objeto de la esperanza de todos: Era necesario que fuese
levantado en alto, como la Serpiente en el Desierto, para que todo el mundo volviese los ojos hacia él (Joann. 3 14 15).

El fruto de tan cruel, y misteriosa exaltación fue sanar á todo el Universo. Id, o Cristiano, al pie de la Cruz, y decid al
Salvador con la Esposa: Atraedme, y correré en pos de Vos. La misericordia que os hizo morir en la Cruz, y el amor que
corre de todas vuestras Llagas, es el suave perfume que exhaláis para atraer los corazones. Atraedme con aquel
poderoso, y suave modo con que (según habéis dicho) atrae vuestro Padre a todos los que vienen (Joann 6.44).
Atraedme de aquel modo irresistible, que no me dejará parar en medio del camino. Atraedme hasta Vos, hasta
vuestra Cruz, hasta que quede unido clavado, y crucificado con Vos: De suerte, que no viva ya para el mundo; sino
para Vos solo. ¡Ah! cuándo diré con el Apóstol: Yo vivo; pero no vivo yo, sino Jesucristo en mi (Galat. 2 .19.20). Yo vivo
en la Fe del Hijo de Dios, que me ha amado, y muerto por mí; y estoy puesto en la Cruz con Jesucristo. La caridad de
Jesucristo nos estrecha, sabiendo que si murió uno por todos, todos han muerto también en uno solo. Jesucristo
murió por todos a fin de que los que viven no vivan mas para sí mismos, sino para el que ha muerto, y resucitado por
ellos (2 Corint. 3 .14 .15).

De esta manera nos atrae Jesucristo. Era necesario que este grano de trigo cayese en tierra para que se
multiplicara. Era necesario que se sacrificase á sí mismo, para hacer de todos nosotros una ofrenda agradable á Dios.
El Pueblo nuevo había de nacer de la muerte de su Salvador.

Ya tenía dicho: Es menester que el Hijo del hombre sea exaltado como la Serpiente: y cuando hubiereis levantado al
Hijo del hombre, entonces conoceréis quien soy Yo(Joann 3 14 & 4.48). Estaba ligado á la Cruz el conocimiento de la
verdad.

Yo atraeré, Yo encadenaré. Considerad con qué dulzura, y al mismo tiempo con qué fuerza se hace esta operación.
Nos atrae, como acabamos de ver con la manifestación de la verdad. Nos atrae con el hechizo de un placer celestial:
con aquellas dulzuras ocultas, que solamente las conocen los que las han experimentado. Nos atrae con nuestra
propia voluntad, que obra tan suavemente en nosotros mismos, que sin percibir la mano que nos lleva, la seguimos;
y sin conocer la impresión, la obedecemos.

Sigámosle, sigámosle: pero sigámosle hasta la Cruz: porque Como nos atrae desde ella, es necesario seguirle hasta
ella. Sigámosle hasta espirar con él: hasta derramar toda la sangre de nuestra alma; es decir, toda impaciencia, y
vileza natural, y reposar en Jesús solamente. Así descansaremos en la verdad, en la justicia, en la sabiduría, y en la
fuente del puro, y casto amor. ¡Oh, Jesús! A quien os halla todo le parece escoria: todo es menospreciable, y vil á
quien Vos atraéis hasta vuestra Cruz. ¡Oh, Jesús! ¿Qué virtud tenéis escondida en vuestra Cruz? Haced que la
experimente mi corazón. Cuando yo fuere levantado de la tierra: no quiero más exaltación que esta: es la vuestra; y
quiero que sea también la mía.

Acordaos que todo esto se dijo con la ocasión de la Entrada triunfante de Jesucristo en Jerusalén, y quizás en el
mismo día, ó al siguiente. Admirad cómo conserva el Salvador en su magnífico triunfo el carácter de la Cruz, y de la
Muerte.

FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775.

La Eucaristía es prenda de la remisión de los pecados

Matth. 26. 27. 28.

Bebed todos de él: esto es mi Sangre, la Sangre de la nueva alianza, la Sangre derramada por vosotros en remisión de
vuestros pecados. Esta es la parte más admirable del misterio, y en la que también habla Jesús con más eficacia. Que
nos dé á comer la carne del Sacrificio, ó la carne de la Pascua, va bien, porque así se acostumbra en todo Sacrificio;
pero jamás se bebió la sangre de víctima alguna, aun cuando se hubiese comido la carne. Dice S. Pablo, que habiendo
leído Moisés al Pueblo las ordenanzas de la Ley, tomó sangre de las víctimas con agua, y roció con ella al mismo
Libro, y á todo el Pueblo, diciendo: esta es la Sangre del Testamento, que Dios os ha mandado. ¿No es esto cuanto se
podía hacer de la sangre de las víctimas? Rociar á todo el Pueblo; pero no dársela á beber.

Jesucristo hace más. Dijo Moisés al arrojar sobre el Pueblo la sangre de las víctimas: esta es la Sangre del Testamento:
á lo que alude manifiestamente el Salvador, cuando dice: esto es la Sangre de la nueva alianza. Con que hay sangre
en ambos casos. A todo el Pueblo toca; empero de diferente manera; porque con Moisés participa por aspersión; y la
aspersión que manda Jesús es beberla. La boca, y la lengua han de ser rociadas con esta aspersión. Bebed
todos, dice,porque es mi Sangre, la Sangre de la nueva alianza, la Sangre derramada en remisión de los pecados. Esta
diferencia de los dos Testamentos rebosa misterios. Una de las razones que tenían los antiguos para no comer la
sangre,es, porque se daba, dice el Señor, para que siendo derramada alrededor del Altar, fuese expiación de nuestras
almas, y propiciación de nuestros pecados; y á ese fin he mandado á los hijos de Israel, y á los extranjeros que viven
con ellos, que no la coman. Prohíbeseles comer la Sangre, porque ha sido derramada en remisión de los pecados; y al
contrario el Hijo de Dios quiere que se beba, porque fue derramada en remisión de los pecados.

Por la misma razón estaba escrito: La víctima que se sacrifique para expiar los pecados en el Santuario, no se ha de
comer; pero ha de ser consumida por el fuego.Y esta observancia significa, que no pudiendo la remisión de los
pecados conseguirse por los sacrificios de la Ley, aquellos que los ofrecían quedaban entredichos y en una especie de
excomunión, sin participar de la víctima ofrecida por el pecado. Pero por lo contrario Jesucristo habiendo expiado
nuestras almas, y conseguido perfectamente la remisión de las culpas, por la oblación de su Cuerpo, y la efusión de
su Sangre, nos manda comer este cuerpo entregado por nosotros, y beber la Sangre de la nueva alianza, derramada
en remisión de los pecados, para enseñarnos que ya estaba hecha, y que no faltaba sino aprovecharnos de ella.

Disfrutemos en la Eucaristía la gracia de la remisión de los pecados, diciendo con David: Bienaventurados aquellos á
quienes las maldades son perdonadas, y cuyos pecados están encubiertos. Bienaventurado aquel á quien el Señor no
imputa pecado, y que no se engaña á sí mismo, creyendo que le han sido perdonados. Y aún: Alma mía, bendice al
Señor, y no olvides sus beneficios: él es quien perdona tus pecados, y el que sana todas tus enfermedades. No nos ha
tratado según nuestros pecados, ni nos ha dado lo que merecían nuestras culpas. Otro tanto como dista el Oriente
del Occidente retiró de nosotros nuestras iniquidades.

Para una conciencia turbada con la memoria de sus pecados, y asustada con la Divina Justicia que la acusa, ¡qué
descanso es gustar en el Cuerpo, y en la Sangre de Jesús la gracia de la remisión de los pecados, y con ella borrar
hasta las reliquias de ellos!
Sepamos que la Eucaristía es el remedio de las culpas. Si nos purgamos de las grandes, borrará las pequeñas, y nos
dará fortaleza para evitar estas, y aquellas. El pecado es el que separa al hombre de Dios. Purificarse de los pecados,
es quitar todo impedimento, y hacer que los abrazos entre el celestial Esposo, y su Iglesia sean más fervorosos, más
puros, y tiernos.

FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775.

Jesucristo, nuestra víctima y vianda


Joan. 3. 16.

Tanto amó Dios al mundo, que dio su Unigénito Hijo para que quien creyese en él no perezca, sino más bien tenga la
vida eterna.

¿Qué quiere decir, que da su Hijo Unigénito? Que lo dio para que muriera, según estaba escrito. Como levantó
Moisés la serpiente en el desierto, así conviene que sea levantado el Hijo del Hombre: es decir, levantado, y puesto en
la Cruz. Así Dios dio su Unigénito Hijo, lo entrego á la muerte, y muerte de cruz.

¿Y cómo entregó Dios á la muerte su Unigénito Hijo? ¿El Hijo de Dios, en quien está la vida, y que es la misma vida,
puede morir? Para que pueda morir, Dios lo hizo Hombre, é hijo de hombre de un modo admirable, incomprensible,
muy verdadero, y real, pero singularísimo, que admira á toda la naturaleza, y por cuyo medio se cumplió lo que Dios
quería; y es, que el Hijo del hombre, que es también Hijo de Dios, fuese levantado en la Cruz, y entregado á la muerte
por la vida del mundo.

Dios amó tanto al mundo, que le dio su Unigénito Hijo. Primeramente lo dio al mundo cuando se hizo hombre, y
después lo dio al mundo cuando lo entregó como víctima suya. La misma carne que tomó para hacerse hombre, y
unirse á nosotros, vuelve á darnos de nuevo, entregándola en sacrificio por nosotros.

Ved aquí dos cosas que habían de cumplirse en la carne de nuestro Salvador: la una que el Hijo de Dios vendría en
carne mortal para unirse á nosotros, y hacerse hombre: la otra que el Hijo de Dios se había de inmolar en la propia
carne que tomara, y ofrecerla por nosotros en sacrificio. Faltaba aún otra cosa, y es que esta carne inmolada fuese
comida para la consumación de aquel sacrificio, en prenda segura de que por nosotros la tomó, y ofreció el Hijo de
Dios, y que enteramente es nuestra. Ve ahí una tercera maravilla, que ha de cumplirse en la carne de Jesucristo. ¿Y
cómo comeremos su carne viva, ó muerta? en su propia especie, y naturaleza? Y una vez que nos dio á beber su
sangre, y á comer su carne, para que dada así, nos sirva de prenda de que fue derramada en remisión de los pecados,
¿habrá que tragarla en su misma forma? No lo permita Dios. Su Divina Majestad halló arbitrio para que sin perder la
sustancia de su Cuerpo, y de su Sangre, los tomásemos, aunque de diferente modo de aquel con que naturalmente
se ofrece á nuestros sentidos. Por cuyo medio tenemos toda la sustancia de uno, y otro; y dándonoslos Dios de tan
extraña manera, nos quita el horror de comer, y beber carne, y sangre humana en su propia forma.

Y cómo lo dispuso? Tomó pan, y dijo: Esto es mi Cuerpo: mi verdadero Cuerpo; pero bajo de la figura de pan. Tomó el
Cáliz lleno de vino, y dijo: Esto es mi Sangre: mi Sangre verdadera, bajo la figura del vino de que he llenado el Cáliz
que os presento. Pues así como para que pudiese morir su Hijo inmortal, y eterno, le hizo Hijo del hombre; del mismo
modo, para que se pudiese comer esta carne, y beber esta sangre, hizo, en cierto modo, á este Cuerpo pan; pues
cubrió su Cuerpo de la apariencia, y figura de pan; y quiso también que su Sangre fuese derramada, y pasara por
nuestras bocas, bajo de la representación, y forma de vino. Con que tenemos toda la substancia del Cuerpo, y Sangre:
las figuras antiguas se cumplen: nuestra Fe queda satisfecha , y nuestro amor tiene cuanto pide; puesto que tiene á
Jesucristo todo entero en su propia, y verdadera substancia , y la Iglesia lo come , y lo recibe. Como Esposa posee su
cuerpo, ella le está unida cuerpo á cuerpo, para estarlo también corazón á corazón, y alma á alma. Y cómo ha
sido? Tanto amó Dios al mundo. El amor todo lo puede: el amor, como decimos, vence imposibles para satisfacerse, y
contentar al objeto amado. Dios también ha vencido lo que á nosotros era imposible: digo á nosotros, porque para él
nada lo es: todo lo puede.
Hizo cuanto á la naturaleza era imposible ejecutar, y al juicio humano comprender. Su Hijo se hizo Hijo del hombre, y
se acercó á nosotros: la naturaleza humana, puesta en cierto modo entre él, y nosotros, no bastó para que no fuese
él mismo en persona quien vino á nosotros, aun como Dios: al contrario, vino por el hombre mismo, y la carne que
tomó fue nuestro vínculo con él: así como cuando fue entregado á la muerte el Hijo del hombre, es cierto que el
mismo Hijo de Dios murió también en la naturaleza que tomó. Si es preciso comer esta carne dada por nosotros en
sacrificio, su amor hallará el medio. Tomad, comed: esto es mi Cuerpo: acerca del modo, no tenéis que informaros; lo
que os conviene es la sustancia, porque á la sustancia está unida la Divinidad, y la vida. Debajo de la figura de ese pan
está mi propio Cuerpo: debajo de la figura de ese vino, está la misma Sangre que por vosotros fue
derramada. Comed, bebed, todo es vuestro. No os paréis en lo que os representan vuestros sentidos: á vuestra Fe
hablo, y á ella digo, esto es mi Cuerpo. Acordaos, pues, que soy Yo quien os lo digo. Ninguno otro que Yo, ninguno
otro que un Dios, ninguno otro que el Hijo de Dios, por quien se hizo todo, podía hablar de este modo. Acordaos que
bajo la figura de ese pan, y vino está mi Cuerpo, y mi Sangre, que os doy: mi Cuerpo entregado á la muerte, y mi
Sangre derramada por vuestros pecados.

¿Y cómo se hizo todo esto? Dios amó tanto al mundo no nos resta sino creer, y decir con el Discípulo amado: Hemos
creído en el amor que Dios nos ha tenido.Admirable profesión de Fe! Bello símbolo cristiano! Crees? Si, creo el amor,
que Dios me tiene: creo que me ha dado su Hijo: creo que se hizo hombre: creo que por mí fue víctima: creo que se
hizo mi alimento, y que me dio su Cuerpo á comer, y su Sangre á beber, tan substancialmente como tomó y sacrificó
lo uno, y lo otro. Pero por qué lo crees? Porque creo en su amor, que puede por mí lo imposible: que lo quiere, y lo
hace. Preguntarle otra vez por qué, es no creer en su amor, ni en su poder.

Si creemos este amor, imitémoslo. Cuando se trata de la gloria de Dios, y de su servicio, nada ha de detener nuestro
celo por imposible que parezca. Si podéis creer, dice, todo es posible al que cree: observad: Si podéis creer: la
dificultad está en creer; pero si una vez creéis bien, todo es posible. Dios entra en las intenciones de vuestro celo, y
su poder acude á ayudaros. El obstáculo que habéis de vencer no está en las cosas que habéis de ejecutar por Dios,
está en vosotros mismos, y en vuestra Fe, si podéis creer. Pero Dios ayuda á creer. Señor, yo creo, socorred mi
incredulidad. Amen.

FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775.

Convenio, y traición de Judas


Joan. 13.27.30.

Después que le dio el pan mojado, entró Satanás en él y Judas luego que lo recibió, se fue inmediatamente. Este era el
último aviso que había de recibir de Jesucristo antes de consumar el delito. Esta seña de servir en la Mesa á Judas, y
darle un pedazo de pan, que mojó para él, nada menos era que una distinción de honor, y de familiaridad.
Naturalmente sería entonces cuando le dijo: tú eres, te conozco (Matth.26.15); que era el más eficaz modo de
amonestarle. Judas estuvo insensible; y al mismo tiempo se apoderó de él Satanás. Antes le había puesto en el
corazón que vendiera a su Maestro (Joan.13.2); pero anota, después de recibir la sopa, entra en él, toma posesión de
aquel desventurado, y se apodera de su alma. Vedle que de allí á un instante sale de la compañía de Jesús para no
volver, y venderlo.

También recibió otro bocado, si así puede llamarse; pero que no fue dado á él solo, sino más bien á todos, es decir, el
Cuerpo del Señor. Y S. Lucas expresamente refiere, que dijo aun después de cenar: La mano del que me ha de vender
está conmigo en esta mesa. Hasta en la vianda Celestial metió su mano: hasta en el Cáliz, que está lleno de mi
Sangre. ¡Infeliz bocado! ¡Bebida funesta para Judas! No puedo dudar que su comunión impía, y sacrílega le apresuró
la perdición, y le fue motivo de escándalo contra su Maestro. Porque aunque la Escritura no exprese en este lugar
que Judas fuese escandalizado del misterio de la Eucaristía, basta que en otra parte lo declare (Joan.6.60.72). Fue
Judas del número de aquellos que murmuraron en Capharnaum á la primera proposición de este misterio, dando
motivo al Salvador para preguntar á sus Apóstoles ¿y vosotros queréis también iros con los que me dejan? Pero
habiéndole respondido S. Pedro en nombre de todos, como acostumbraba:Señor, ¿á quién iremos? tenéis palabras
de vida eterna, y hemos creído, y conocido que sois el Cristo Hijo de Dios le dio á entender Jesús claramente, que no
admitía esta declaración por todos; pues le replicó: No os he elegido Yo á todos doce, y hay uno de vosotros, que es
un diablo. Y dice S. Juan era Judas, hijo de Simón Íscariote, quien había de venderle, aunque era uno de los doce. Las
cuales palabras declaran, que Judas fue uno de aquellos impíos murmuradores, que se escandalizaron de oír á Jesús,
que daría su cuerpo á comer, y su Sangre á beber. Si se escandalizó de la promesa, no es de extrañar se escandalizase
del efecto. Despeñóse Judas de culpa en culpa. Obcecado primeramente por su avaricia, que le hacía robar el dinero,
que su Maestro le había dado aguardar (Joan.12.6), se acostumbró á murmurar de él. Empezó su murmuración con
motivo de la promesa de la Eucaristía; y la continuó cuando derramó María tan preciosos perfumes en la cabeza, y
pies del Salvador, creyendo que ella le quitaba todo el dinero que empleaba en esto. Salió inmediatamente después
para ir á ejecutar su concierto con los Judíos. Todo lo convierte en veneno un ánimo dañado: el sagrado Banquete de
la Eucaristía acabó de perder al traidor discípulo; pues al salir de la Santa Mesa, se encaminó primeramente á la
traición, y de ella á la desesperación, y al cordel.

Jesús, que lo ordena todo á nuestra salvación, permitió que Judas recibiese el don sagrado con los demás, para que
viésemos los funestos efectos de la Comunión sacrílega. Ved al amado discípulo en la Mesa del Salvador,
descansando en su pecho, y en él la imagen de los que dignamente comulgan: reposan sobre el pecho de Jesús: á
ejemplo de S. Juan sacan de ese Divino manantial los celestiales secretos; y como él son honrados con la familiaridad,
y caricias de su Maestro, y fieles imitadores de su castidad, bondad, y mansedumbre, que son los verdaderos
distintivos de S. Juan. Se hacen dignos de ser como él sus Discípulos amados. Ved por otra parte un Judas en la
Comunión, la disposición en que está, y con la que entra. ¡Qué oposición, Dios mío! ¡cuán horrible contrariedad!
¡quién á vista de esto no se estremece!

FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775.

La Eucaristía memorial de la muerte del Salvador


Luc. 22. .15.

Meditemos estas palabras: Antes de padecer. Averigüemos con humildad por qué era necesario que Jesucristo
instituyese, y comiese la Pascua con sus Discípulos antes de padecer, y no después cuando hubiese resucitado.

En este misterio quiso hacernos presente su muerte, y llevarnos espiritualmente al Calvario, donde fue su Sangre
derramada, y corrió copiosamente de sus venas. Esto, dijo, es mi Cuerpo, dado por vosotros, y partido para
vosotros (Matth.26.26.28), y abierto con tantas heridas. Esto es mi Sangre, derramada por vosotros (Luc. 22.19.20).
Ved este Cuerpo, y esta Sangre, que se nos pone á la vista como separado lo uno de lo otro. Para que todo
correspondiese á su intención, era necesario que este misterio fuese instituido la víspera de su muerte, la misma
noche en que había de ser entregado, como observa S. Pablo (I Corint. II.25). Cuando Judas maquinaba su perverso
intento, y estaba ya a punto de partir á ejecutarlo, qué digo á punto de partir? sale de la mesa (Joan. 13.30), donde
él, y los demás Discípulos comían por la última vez con su Maestro, y donde acababa de dar su Cuerpo, y Sangre,
tanto á Judas, como á los otros: sale en este instante para ir á entregarlo, y dentro de dos horas lo pondrá en manos
de sus enemigos. El mismo Jesús se sobresalta, por su cercana muerte, con aquella turbación misteriosa que hemos
visto. En tal estado, en medio de esa turbación, y con la muerte, podemos decir al ojo, instituye la nueva Pascua.

Siempre que a su misterio asistimos, y comulgamos, y siempre que oigamos:Esto es mi Cuerpo, esto es mi Sangre, nos
hemos de acordar en qué coyuntura, en qué noche, y en qué plática las dijo. Fue diciendo primero, repitiendo
después : Uno de vosotros me venderá: la mano del que me ha de vender, está conmigo á la mesa (Matth. 26.2
Luc.12.21). Entonces, entonces se hizo la institución de la Cena. Mientras Los Apóstoles, avisados de la perfidia de
uno de sus Compañeros, se miraban unos á otros, preguntándose confusos, y asombrados: Seré yo (Matth.26.21.25);
el mismo Judas lo pregunta, y el Salvador le dice: Sí, tú eres: tú lo has dicho. Añadiendo también, para darle á
entender claramente que leía en el fondo de su corazón sus feas maquinaciones: Anda, acaba, infeliz, haz
prontamente lo que tienes que hacer(Joan.13.17). En medio de estas obras, y palabras, y mientras señalaba con los
ojos, y las manos al que iba á dár el golpe, entonces, y en medio de todas estas cosas, fue cuando instituyó la
Eucaristía.
No la comamos jamás, ni asistamos á la celebracion de este misterio, sin que nos traslademos espiritualmente á la
triste noche en que fue instituido, y sin que consideremos con asombro los espantosos preparativos del sangriento
Sacrificio de nuestro Salvador; porque á ese fin nos acuerda S. Pablo, cuando refiere su institución, aquella tan
asombrosa noche: He sabido, dice, del Señor lo que os he enseñado, que nuestro Señor Jesus, la noche en que había
de ser entregado, tomó el pan, etc (I Corinth. II.23). Ved como fue en aquella noche: reflexlonadlo bien , y notad esa
circunstancia.

Pudiera parecer que siendo la Eucaristía memorial de esta muerte, había de ser su institución posterior. Pero no; los
hombres, cuyo conocimiento es incierto, y la previsión vacilante, deben aguardar á que sucedan las cosas antes de
mandar que se acuerden de ellas. Pero Jesús seguro de lo que había de suceder, y del género de muerte que iba á
padecer, separa con anticipación su Cuerpo, y su Sangre: Esto es mi Cuerpo: esto es mi Sangre, dice; Mi Cuerpo
entregado: mi Sangre derramada (Matth.26.26.8 Luc.22.19.20): acordaos de ello; acordaos de mi amor, de mi
Muerte, de mi Sacrificio, y del admirable modo con que se ha de cumplir vuestra Redención.

Cuando Dios instituyó la Pascua la víspera del día en que libertó al Pueblo de Dios; mientras todos estaban en
expectación de lo que haría la noche siguiente, para perfeccionar esta obra, les dijo: Sacrificad un
Cordero(Exod.12.3.7.12.32): tomad su sangre, y con ella lavad vuestras puertas: Yo vendré, veré esa sangre, y
pasaré : No os herirá el Angel exterminador, y yo exceptuaré por esta señal las casas de los Israelitas, al mismo
tiempo que llenaré la de los Egipcios de mortandad, y de duelo, haciendo que mueran todos sus primogénitos; y ese
será el principio de vuestra libertad. Lo dijo Dios en el Éxodo; y en seguida: Renovareis todos los años la misma
ceremonia: sacrificareis un Cordero, lo comeréis con las propias observancias; y cuando vuestros hijos os preguntaren
qué religiosa ceremonia es esta, les responderéis: es la víctima que celebramos en memoria del tránsito del Señor,
cuando castigando á todo el Egipto, exceptuó, y atendió á las casas de los Israelitas; y por ese medio nos libertó de la
servidumbre en que estábamos. Con que Dios que sabía lo que quería hacer, instituyó también el memorial antes que
aconteciese la cosa, para que celebrando la Pascua, no solo se acordasen de su libertad, sino que también hiciesen
memoria de que se había establecido este sagrado recuerdo la víspera de tan gran obra, y mientras el Pueblo estaba
en expectación de tan gran suceso.

La nueva Pascua fue instituida con el propio fin: entre nosotros se celebra, no ya todos los años, como la Pascua
antigua, sino todos los días: con que siempre que la celebremos, y que nuestros hijos, viéndola celebrar con tanta
religión, y respeto, nos pregunten qué ceremonia es esta, les diremos es el misterio que Jesucristo instituyó antes de
su muerte; pero teniendo ya esta muerte al ojo cuando se fraguaba la infame conspiración que le había de poner en
la Cruz el día siguiente, para dejarnos un memorial de su muerte , y en algún modo perpetuarla entre nosotros:
Venid, venid, hijos míos, preparaos á comulgar con nosotros, y acordaos de vuestro Salvador inmolado por nuestro
amor. Para cumplirse la figura de la antigua Pascua y era menester que la nueva que había de ser el memorial eterno
de la muerte de Jesucristo, fuese instituida antes de esta misma muerte: He deseado, dijo Jesus, comerla con
vosotros antes de padecer (Luc.22.15) ¿Y qué era efectivamente la antigua Pascua, sino figura de la verdadera libertad
del Pueblo de Dios? Sacrificad un cordero, tomad su sangre, lavad con ella las puertas: Yo os libertaré en esta
Pascua(Exod.12.3.4.5). ¿Acaso tenía Dios necesidad del sacrificio del cordero para perfeccionar su obra? ¿Necesitaba
de la seña de la sangre para reconocer las casas que quería dejar libres? Todo eso se hacía, sin duda alguna, por
enseñarnos que no seríamos libres sino por el Sacrificio de Jesucristo, Cordero sin mancilla, sacrificado por los
pecados del mundo, y en virtud de la sangre de su Sacrificio. Estableció Jesucristo la memoria de tan grande
beneficio, como Dios había establecido la de la libertad del antiguo Pueblo, antes que hubiese sucedido, para que
conociésemos que Dios no es como los hombres; y que sabe antever todas las cosas, y executarlas , como que es él
quien las obra.

Cuando asistamos al santo Sacrificio de la Misa, y mas aún cuando comulguemos, acostumbrémonos á ocupar
nuestra memoria en la muerte del Salvador, y en la noche en que fue entregado. Consideremos la institución de la
Eucaristía, como un nuevo empeño que tomaba con nosotros, y con su Padre para entregarse á la muerte. ¿Y qué hay
que admirar que la previese la víspera de suceder, cuando no solo la había previsto mucho tiempo antes, como se
advierte en tantos lugares del Evangelio; sino que también, como vemos en la ley, y en los Profetas, la predijo desde
el origen del mundo con tantas predicciones, y figuras admirables.

*
FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775.

Jesucristo es nuestra Pascua


Mientras Jesucristo hablaba a sus Discípulos del que le había de vender, ellos proseguían cenando; y queriendo el
Hijo de Dios establecer la nueva Pascua con la institución de la Eucaristía, empezó á decirles: He tenido gran deseo de
comer esta Pascua con vosotros, antes de padecer. A lo que se siguió, como veremos, la institución de la Eucaristía: y
esta institución, este deseo grande que manifiesta aquí de celebrar con nosotros dicha Pascua antes de padecer, es
parte del amor inmenso con que Jesús, que siempre había amado á los suyos los amó, como dice S. Juan, hasta el
fin (Joan 13.1)

Para entrar en sus intenciones, y en disposiciones convenientes á las suyas, acordémonos que la Pascua, la santa
víctima que había de dar la Sangre por nuestro rescate, debía, como otras muchas víctimas de la antigua alianza, no
solo ser sacrificada, sino también comida; y que quiso Jesucristo imponerse este carácter de víctima, dándonos á
comer para siempre aquel mismo Cuerpo, que sería una sola vez ofrecido por nosotros á la muerte. Por lo cual
dijo: He deseado con anhelo comer con vosotros esta Pascua antes de morir.No era la Pascua legal, que iba á
finalizarse, en la que tan ardientemente deseaba Jesús comer con sus Discípulos: varias veces la había celebrado, y
comido con ellos. Otra Pascua era el objeto de su deseo; y así cuando dice He tenido gran deseo de comer con
vosotros esta Pascua, la Pascua de la nueva alianza; es lo mismo que si hubiese dicho: He deseado ser Yo mismo
vuestra Pascua; ser el Cordero sacrificado por vosotros, y víctima de vuestra libertad, y por esa misma razón he
deseado ser víctima verdaderamente sacrificada, y he querido también ser víctima verdaderamente comida; lo que
se verificó quando dijo: “Tomad, comed, esto es mi Cuerpo, que por vosotros es dado (Matth 26.26 Luc 22.19), Esta es
la Pascua de donde debe salir la sangre de vuestro rescate. Saldréis del Egipto, y seréis libres inmediatamente
después que esta sangre haya sido derramada por vosotros. Ya no os resta sino comer, á ejemplo del antiguo Pueblo,
la víctima de donde salió la sangre. Así lo haréis en la Eucaristía, que Yo os dejo al morir, para que la celebréis
eternamente después de mi muerte.

El comer la carne del Cordero Pascual era para los Israelitas un testimonio cierto de que por su bien había sido
sacrificada. La comida misma de la víctima, era el modo de ser participante de ella; y de esa forma se participaba de
los sacrificios de paz, ó dé acción de gracias, como se expresa en la Ley. S.Pablo dice también, que los Israelitas que
comían la víctima, eran por esa razón participantes del Altar, y del Sacrificio; y aun se unían á Dios, á quien se ofrecía:
del mismo modo que los que comían las víctimas ofrecidas á los demonios, entraban en compañía con ellos (Levit 3.7
Cor 10.18.19.20.21 ). Con que si Jesucristo es nuestra víctima, y nuestra Pascua, debe tener ambos á dos caracteres:
el uno de ser sacrificado por nosotros en la Cruz y el otro de ser comido en la Sagrada Mesa, como víctima de nuestra
salvación. Y eso es lo que deseaba con tanto anhelo cumplir con sus Discípulos. Uno, y otro carácter habían de
verificarse en su persona: como iba á ser sacrificado en su propio Cuerpo, y en su misma sustancia, era preciso que
también fuese comido: Tomad, comed, esto es mi Cuerpo, que por vosotros es dado. Tan verdaderamente comido,
como verdaderamente entregado, tan existente en la mesa donde es comido, como en la Cruz, en que se entrega á la
muerte, y donde se ofrece derramando su sangre por nosotros. Entremos, pues, como dice S. Pablo, en las mismas
disposiciones, que tuvo nuestro Señor Jesucristo (Philip 2.3). Si deseó con tanta ansia celebrar la Pascua con nosotros,
tengamos el propio deseo de celebrarla con él. Esta Pascua es la Comunión. Jesús desea ser comido, y por ese medio
ser del todo víctima nuestra. Tengamos el mismo fervor de participar de su Sacrificio, comiendo este Divino Cuerpo,
inmolado por nosotros. Si es nuestra víctima, seamos nosotros víctima suya: Ofrezcamos nuestros cuerpos, dice S.
Pablo, como una hostia viva, santa, y agradable, mortifiquemos nuestros malos deseos: apaguemos en nosotros toda
impureza, toda avaricia, y todo orgullo: humillémonos con el que conociéndose igual á Dios, se anonadó en sí mismo,
haciéndose obediente hasta la muerte, y muerte de Cruz (Rom 12.1 Colos 3.5 Phil 2.8). Acostumbrémonos á pensar
en la muerte. Si somos de Jesucristo, y si le comemos, crucifiquemos nuestra carne con sus vicios y
concupiscencias (Gal 5.24). Ve ahí nuestra Pascua: nuestra Pascua es estar unidos con él, para pasar de esta vida á
otra mejor, de los sentidos al espíritu, y del mundo á Dios. A este precio podremos hacernos dignos de comer con
Jesucristo la Pascua y alimentarnos con la carne de su sacrificio.

FUENTE
Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775.

La vida eterna es el fruto de la Eucaristía


Joan. 6.35.47

Dos cosas tenemos que examinar aquí: la primera es, el fruto espiritual que debemos sacar de la Eucaristía; y la
segunda, el modo de sacar dicho fruto. Qué fruto sea este, fácil es de entender, pues es el desapegarnos de la vida
mortal, y unirnos con Dios: lo cual explica Jesucristo claramente con aquellas palabras:En verdad en verdad os digo,
que me buscáis, no porque habéis visto los prodigios que he obrado, sino por haber comido de los panes que
multipliqué en el Desierto, y de que os hartasteis. Trabajad, no por la vianda que perece, sino por la que no perece
jamás, la cual el Hijo del Hombre os dará porque á éste el Padre Dios aprobó con su sello, confirmando su doctrina, y
su misión con tantos milagros.

¡Bien claramente os explicais, Salvador mío! Vuestro ánimo es desprendernos de la vianda, y de la vida presente, y
caduca, que se lleva nuestras atenciones, y por la que trabajamos todo el año; y traspasar nuestra diligencia, y
trabajo á la vianda, y á la vida que no perece. Enseñadme, Salvador mío: atraedme de aquel modo admirable, que
hace que pasemos á Vos: apartadme de todos aquellos cuidados, que no se enderezan sino á vivir para morir:
hacedme gustar de aquella vida, en donde jamás se muere.

¡Qué de milagros hacéis para que creamos en Vos! (Joan. 6. 30. 31) ¡Qué de maravillas, y prodigios! Nos habéis
saciado de pan en el Desierto, es verdad. Pero ese pan, ¿acaso es comparable con el Maná que Moisés dio á nuestros
Padres, del cual está escrito: Que les dio á comer pan del Cielo? El pan que Vos nos habéis dado, es pan de la tierra; y
hay tanta diferencia entre Vos, y Moisés, como entre la tierra, y el Cielo. Las cuales palabras nos enseñan, que los
Judíos no pensaban sino en los medios de sustentar la vida perecedera , y mortal; y que no sin razón Jesucristo les
había reprehendido sus deseos carnales, porque no ponían su pensamiento en otra comida mas noble, que la del
Maná, con que mantuvieron sus cuerpos en el Desierto; ni conocían otro Cielo, que las nubes que lo habían llovido:
sin trascender á que no había tomado la denominación de Pan del Cielo, y de Ángeles, sino porque era figura de
Jesucristo que les había de traer la vida eterna. Por eso, pues , usa de la expresión de que se sirve la Escritura para
ensalzar el milagro del Maná , y para levantar las almas al verdadero Pan de Ángeles , que es el que las hace
bienaventuradas ; puesto caso que después que Jesucristo encarnó , se ha hecho familiar, y perceptible á los
hombres para darles vida.

Díceles: Que ha bajado del Cielo. Que quien venga á el, jamás tendrá hambre; y quien crea en él, jamás tendrá
sed (Ib.33. 35. 48) Que él es, por consiguiente, el verdadero Pan, y el verdadero sustento de las Almas, que vienen á
él por la fe;empero que no por eso se pueden prometer los hombres unirse con su divinidad, supuesto que es un
objeto muy alto para una naturaleza pecadora, y abandonada á los sentidos corporales: que se ha hecho hombre por
habitar entre los hombres: que la carne que ha tomado, es el solo, y único medio que les ha dado para unirse á él; y
que por eso la ha llenado de la misma Divinidad, y consiguientemente del espíritu, y de la gracia, ó como dice S.
Juan, de la gracia, y de la verdad(Joan. I. 44) y en otra parte: que el espíritu no le ha sido dado con medida y que
todos hemos recibido de su plenitud (Ibid. 3. 34. ) es decir, del espíritu de que está lleno. Con que de aquí sé sigue
que nosotros tenemos en él la verdadera vida, la vida eterna, la vida del alma, y del cuerpo ; y no precisamente en él,
como Hijo de Dios , sino también como Hijo del hombre. Trabajad en prepararos á recibir la Vianda, que se os dará
por el Hijo del hombre; con tal que al mismo tiempo creáis que él es el Pan que ha bajado del Cielo, esto es, que es el
Hijo de Dios y con tal que creáis también que su carne, con que os quiere dar vida, está llena de Vida, y de espíritu. Y
así, el fin adonde se endereza, es á hacernos vivir vida eterna, según el cuerpo, y el alma. La voluntad de mi Padre,
dice, es que no pierda Yo nada de lo que me ha dado, y quepara dar vida, así al cuerpo, como al alma, lo resucite en el
último día. Y aún más:nuestros padres comieron el Maná, y con todo eso murieron; pero el que comiere de este Pan,
vivirá eternamente (Joan. 6. 39. 59.).

Ve aquí, pues, el fruto de la Eucaristía, instituida para llenar el deseo que tenemos de vivir; y para darnos, por medio
de ella, la vida eterna del alma, por la manifestación de la verdad y del cuerpo, por la gloriosa resurrección. Señor,
¡qué mas tengo que desear! Vivir; vivir en Vos; vivir para Vos; vivir de Vos y de Vuestra eterna verdad; vivir
enteramente; vivir en el alma y vivir en el cuerpo, no perder nunca la vida, y vivir siempre. Todo esto lo tengo en la
Eucaristía: luego lo tengo todo: solamente me falta gozar de ello.
+

FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775

Fruto de la Eucaristía: vivir con la vida de Jesucristo


Alma mía, has creído sencillamente, y con un único acto de fe: expláyate ahora en la meditación de tanto bien:
explícate á tí misma cuánto contiene todo lo que Jesús dijo en tan pocas palabras. ¡Vos sois mi víctima, amantísimo
Salvador! y si no hiciese yo mas de veros sobre vuestro Altar, y puesto en la Cruz , ignoraría que para mí, y por mí os
ofrecisteis; pero hoy que os como, sé, y percibo, para explicarme de esta suerte, que habéis sido ofrecido por mí. Soy
participante de vuestro Altar, de vuestra Cruz, de la Sangre que purificó el Cielo, y la tierra, y de la victoria que
ganásteis de vuestros enemigos, del demonio, y del mundo: por la cual nos dijisteis: Os afligirá el mundo; pero
alentaos: Yo he vencido al mundo.

Si por mí os ofrecisteis, luego me amábais: porqué ¿por quién se da la vida sino por los amigos? Yo os como en unión
con vuestro sacrificio: consiguientemente con vuestro amor: gozo de todo vuestro amor, y de toda su inmensidad:
gusto de él como es: y estoy enteramente penetrado de él. Vos mismo venís á introducir en mi corazón este fuego,
para que os ame con amor semejante al vuestro. Ah! ahora veo, y conozco que por mí tomásteis carne humana: que
por mí cargasteis con sus enfermedades: que por mí la ofrecisteis; y que es mía. Nada más me queda que hacer que
tomarla, comerla, poseerla, y unirme con ella. Cuando encarnásteis en el purísimo seno de la Virgen María, tomasteis
únicamente carne individual: ahora tomais la de todos nosotros, y la mía en particular os la apropiais: vuestra es: la
hareis por el contado, y aplicación de la vuestra, primeramente pura, santa, y sin mancha, y después inmortal, y
gloriosa. Recibiré el caracter de vuestra resurrección, como tenga valor de recibir el de vuestra muerte.

Venid, venid , carne de mi Salvador: venid, mesa encendida , purificad mis labios: encendedme con el amor que os
entrega á la muerte: venid , Sangre que el amor hizo derramar: corred por mi pecho, torrente de llamas Salvador
nuestro, este es vuestro Cuerpo: aquel mismo Cuerpo lleno de heridas: á todas me uno: de ellas salió por mí toda
vuestra Sangre. Vos enfermais, Vos morís , y Vos pasais: este es vuestro tránsito: yo paso, y yo espiro con Vos. ¿Qué
es para mí el mundo? Nada: estoy crucificado para el mundo, y él lo está para mí. No me agrada, ni le quiero agradar.
No me gusta: tanto mejor para mí, con tal que yo no le guste á él tampoco. Estamos uno de otro separados: no es
esto como cuando el uno ama, y el otro aborrece. No puedo aguantar al mundo, y él tampoco me puede sufrir. Lo
mismo que es un muerto para otro muerto, es el mundo para mí, y yo para el mundo. Feliz separacion! Pero el
mundo dirá, que en mi separacion le quiero aún complacer. ¿ Qué importa que lo diga? Estoy crucificado con
Jesucristo: vivo, no yo, sino Jesucristo en mi y la vida que poseo en la carne, la tengo en la fe del Hijo de Dios, que, me
amó, y se entregó por mi (Gal 2.20.7).

Si aún estoy penetrado de amor humano, todavía vivo: si aborrezco al que me aborrece, aún vivo: si siento los
agravios, aún vivo: si el placer me incita, también vivo; y si el dolor me aflige, vivo también. A Dios, a Dios. Yo…. ¿qué
es esto? Déjolo todo: ya nada soy, ni soy yo para Jesucristo vivo : es Jesucristo quien vive en mi. Así debia ser. Vé ahí el
fruto de la Eucaristía ¡Oh cuán lejos estoy! pero por su medio únicamente he de lograrlo.(Ibid)

FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775

La Institución de la Eucaristía
Matth. 26.26. 28. Marc. 14. 22. 24. Luc. 22. 17. 20.I. Cor. II. 23. 26.

Mientras cenaban: estando aún comiendo, dice S. Marcos, siguiendo el griego:tomó el pan Jesús, lo bendijo; y
después de haber dado gracias, lo partió, y dio a sus Discípulos, diciéndoles: tomad, comed: esto es mi Cuerpo,
entregado por vosotros: haced esto en memoria de mí. Y tomando el Cáliz, después de la Cena, dio gracias, y lo
alargó á sus Discípulos, diciéndoles: Bebed todos, esto es mi Sangre, la Sangre de la nueva alianza, que por muchos
es derramada en remisión de sus pecados, siempre que la bebáis, haced esto en memoria de mí (Luc.22.19). Ve ahí
todo cuanto pertenece á la institución. Solo que en vez de que S. Lucas hace decir al Salvador: esto es mi Cuerpo
dado por vosotros; dice S. Pablo: esto es mi Cuerpo partido por vosotros (2.Cor. II.24). En el griego, siempre en el
mismo sentido, esentregado á la muerte, es golpeado, llagado, y clavado en la Cruz: en este sentido,partido, y
quebrantado. Este Cuerpo es el que nos da Jesús: el mismo que iba dentro de poco á padecer todas esas cosas, y que
efectivamente las padeció.

Digamos todavía una palabra sobre el texto. Donde traduce la Vulgata, la Sangre que será derramada por vosotros, el
original dice, que es derramada, que se derrama. S. Mateo, y S. Marcos, en tiempo presente; y sobre el Cuerpo, el
mismo original en S.Pablo: el Cuerpo que es partido, que se parte, igualmente en tiempo presente. Efectivamente en
S. Lucas la versión, y el original dicen, que es dado, que se da, quod datur; y no en futuro, será dado: en el mismo
sentido que decía Jesús, será Pascua dentro de dos días, y el Hijo del hombre será entregado(Matth.26.2.4.34) es
entregado, según el griego; va a serlo: ya se ha empezado la obra: ya se junta el consejo, para buscar arbitrios, y
trazas de prenderle, y quitarle la vida; y el Hijo del hombre se ausenta, como, está escrito de él; pero infeliz de aquel
por quien el Hijo del hombre será entregado (Luc.22.22): es entregado, según el griego. Siempre habla en tiempo
presente, porque ya estaba resuelta su prisión, maquinada para la mañana siguiente, y dentro de dos horas se había
de empezar á proceder á la ejecución; y también para que en cualquier tiempo que recibamos su Cuerpo, y Sangre
consideremos su muerte como presente.

Ya estás instruido, Cristiano. ¿Has visto todas las palabras que pertenecen al establecimiento de este Misterio qué
sencillas, y claras? Nada dejan que adivinar, ni glosar; y si algo hay que hacer, es solo observar, que según la fuerza
del original, era preciso traducir: esto es mi Cuerpo, mi propio Cuerpo, el mismo Cuerpo que está entregado por
vosotros, esto es mi Sangre: mi propia Sangre: Sangre de la nueva alianza: la Sangre derramada por vosotros en
remisión de vuestros pecados. Y por esa misma razón el Siríaco, tan antiguo como el Griego del tiempo de los
Apóstoles, lee esto es mi propio Cuerpo, y en la Liturgia de los Griegos está, que lo que se nos da, lo que se hace de
este pan, y de este vino es el propio Cuerpo de Jesús, y su propia Sangre. Esta es la glosa que hay que poner. ¡Qué
sencillez, vuelvo á decir! ¡qué claridad! ¡cuánta eficacia tienen estas palabras! Si hubiese querido dar una señal, ó
una sola semejanza, hubiera sabido decirlo: no ignoraba que Dios dijo al tiempo de instituir la
Circuncisión: Circuncidareis vuestra carne, y será señal de la alianza de vosotros conmigo (Génes. 17.11). Cuando ha
propuesto símiles, ha sabido enderezar su expresión de suerte, que á nadie puede haber quedado duda alguna. Soy
la puerta: el que entre por mí será salvo: Soy la viña, vosotros las ramas; y como el sarmiento no lleva fruto si no está
unido con la cepa, así vosotros no lo llevareis, si no estáis en mí (Joan.9.Ibid.15.5). Cuando usa de comparaciones, y
símiles, bien han sabido decir los Evangelistas: Jesús dice esta parábola, hace esta comparación. Aquí sin preparar,
minorar, ni explicar cosa alguna, antes, ni después, dicen en pocas palabras Jesús dijo: esto es mi Cuerpo: esto es mi
Sangre, mi Cuerpo entregado: mi Sangre derramada: Esto es lo que Yo os doy. ¿Y vosotros qué haréis al recibirlo?
Acordaos eternamente de lo que os doy esta noche.Acordaos que soy Yo quien os lo ha dejado, y quien ha hecho este
Testamento: el que os dejó esta Pascua, y el que la ha comido con vosotros antes de padecer. Si os doy mi Cuerpo
según debe ser, y como que ha sido entregado por vosotros, y mi Sangre como derramada por vuestros pecados: en
una palabra, si os lo doy como víctima, comedla como víctima, y acordaos que ha sido prenda sacrificada por
vosotros. ¡O Salvador mío! tercera vez exclamo: ¡qué pureza! ¡qué claridad! ¡qué energía! pero al mismo tiempo qué
autoridad, y qué poder en vuestras palabras! Mujer, curada estas: al punto quedó sana:Esto es mi Cuerpo, es su
Cuerpo: Esto es mi Sangre, es su Sangre. ¿Quién puede hablar así, sino el que lo tiene todo en su mano? ¿Quién
puede hacerse creer, sino aquel á quien hacer, y decir es una misma cosa?

Alma mía, detente aquí sin discurrir: cree sencilla, y firmemente que tu Salvador habló con tanta sencillez, como
ostentó autoridad, y poderío. En una palabra, quiere que haya en tu fe la misma sencillez que puso en aquellas
palabras: esto es mi Cuerpo, luego es su Cuerpo esto es mi Sangre, luego es su Sangre. Antiguamente al dar la
Comunión el Sacerdote, decía: el Cuerpo de Jesucristo; y el Fiel respondía Amen, así es. La Sangre de Jesucristo; y el
Fiel respondía Amén,así es. Todo estaba ya hecho, todo dicho, y todo explicado con estas tres palabras: Callo, creo, y
adoro: todo está hecho: todo está. dicho.

FUENTE

Meditaciones sobre el Evangelio. J. B. Bossuet, Obispo de Meaux. 1775.


Los sacrificios cruentos, y la sangre empleada en todas las cosas
Jacobo Benigno Bossuet

Obispo de Meaux – Francia

(1627-1704)

Todo es cruento en la ley: ( Hebr. IX, v. 13. 14.22) en todas las cosas se emplea la sangre, como que es figura de
Jesucristo, y de su preciosísima sangre, que lava y purifica nuestras conciencias: Por lo cual dice San Pablo: (Ibid.
15.16.17)Si la sangre de los carneros, y de los toros santifica a los hombres, y les purifica según la carne (de las
inmundicias legales), ¿cuánto más la sangre de Cristo, que se ofreció a sí mismo, por el Espíritu Santo, purificará
nuestra conciencia de las obras muertas para facilitar que sirvamos al Dios viviente?

Este Santo Apóstol infiere de aquí, que Jesús fue establecido Mediador del nuevo Testamento por medio de su
muerte. Lo cual prueba, que la nueva alianza es un verdadero testamento: A causa de que como el testamento no
tiene fuerza, sino por la muerte del testador, así la ley y la alianza del Evangelio solo tiene fuerza y virtud por la
sangre de Jesucristo.

De aquí proviene también que el antiguo Testamento (Ibid. 18.19.20.21.22) fue consagrado con la sangre de las
víctimas, cuya aspersión después de la lectura de la ley, fue hecha sobre el mismo libro, (Exod. XXIV) sobre el
Tabernáculo, sobre todos los vasos sagrados, y sobre todo el pueblo, diciendo: Esta es la sangre del testamento, que
Dios ha establecido por vosotros.

Así toda la ley antigua lleva el carácter de sangre y de muerte en figura de la ley nueva, establecida y confirmada por
la sangre de Jesucristo: por lo cual continúa San Pablo, diciendo: En la antigua ley casi todo se purifica por la sangre,
sin la cual no hay remisión de pecados.

Debemos pues mirar los misterios de Jesucristo con un santo y religioso horror, respetando en ellos el carácter de
muerte, y aun de una muerte cruenta, y sangrienta, en testimonio de la violencia, que es necesario hacerse cada uno
a sí mismo, a ejemplo de Jesucristo, para tener parte en la gracia de la nueva alianza, y en la herencia de los hijos de
Dios.

Nadie, sino solo el Pontífice, podía entrar en el Sancta Sanctorum, o Santo de los Santos, donde estaba el arca, y no
entraba más que una vez al año: (Exod. XXX. V.40 – Lev- XVI v.2.3.14.16 et seq. – Hebr.LX. v.7) pero era en virtud de la
sangre de la victima degollada, en la cual sangre untaba, o mojaba sus dedos para echar el Propiciatorio, y expiar el
Santuario de las impurezas, que él contraía en medio de un pueblo prevaricador. Así lo que había de más santo en la
ley, que era el Arca y el Santuario, contraía alguna inmundicia en medio del pueblo, y era necesario purificarle una
vez al año, pero purificarle por la sangre.

Purifiquemos pues por la sangre de Jesucristo el verdadero Santuario, que no fue hecho por mano de hombre: esto
es, nuestra conciencia: la verdadera arca del Testamento y verdadero Templo de Dios; es á saber, nuestro cuerpo y
nuestra alma: y no tenemos que persuadirnos poder participar de la sangre de Jesús, si nosotros mismos no
derramamos en algún modo nuestra propia sangre por medio de la mortificación, y por las lágrimas de la penitencia.

Jesús, á quien el Cielo era debido justísimamente, como herencia suya propia, por el título de su nacimiento y
estando establecido, como dice San Pablo, heredero de todas las cosas quiso entrar en él para nosotros, como si
fuera para sí. (Hebr. I v.2)

Si este Señor no tuviera que entrar en el Cielo sino solo para sí mismo, no hubiera necesitado entrar en el Cielo, por
la sangre de un sacrificio; pero á fin de entrar en él para nosotros, que éramos pecadores, fue preciso purificarnos, y
expiar nuestros pecados, por una víctima inocentísima qué era el mismo Señor.

Era pues juntamente el Pontífice, que nos había de introducir en el Santuario, y la víctima, que debía expiar nuestras
culpas; (Hebr. IX. V. 11.12.14.24.25) por cual; no entró, en el Santuario por una sangre extraña, ó externa, sino por su
propia sangre, (Hebr. VII v.26.27.28)
Pontífice Santo, que no necesitaba orar; ni rogar, como el de la ley, por sí mismo, por sus ignorancias, y por sus
pecados, sino solamente por los nuestros, y los del pueblo. Este Señor nos abrió la puerta: (Ibid. IV. V. 14) Víctima
inocente y pura, que aplacó, y pacificó; por su sangre al cielo y a la tierra: y penetrando al Cielo, nos dejó libre la
entrada a él.

Entremos pues con mucha confianza en esta celestial herencia, y acordándonos de lo que costó á Jesús para abrirnos
de él la puerta, que nuestros pecados nos habían cerrado, no nos quejemos en manera alguna de lo que nos ha de
costar á nosotros mismos.

Era en este solemne día, en que el Pontífice entraba en el Santuario, cuando se ofrecían aquellos dos carneros, de los
cuales el uno se sacrificaba por el pecado, y el otro que se llamaba el Carnero emisario. (Levit. XVI v.2
5.7.8.9.10.20.21) Después que el Pontífice había puesto las manos sobre él y al mismo tiempo confesado con
execración, é imprecación sobre la cabeza de este animal los pecados de todo el pueblo, era él enviado al desierto,
como para que allí fuese presa de las fieras. Estas dos figuras representaban á nuestro Señor en quien Dios ha puesto
las iniquidades de todos nosotros. (Isai. LIII v.6) Cargado pues de tantas abominaciones, fue secuestrado del pueblo,
y-como nota San Pablo, (Hebr. XXII v.12) padeció fuera de la puerta de Jerusalén, como excomulgado de la Ciudad
santa, á causa de nuestros pecados, que llevaba sobre sí pero nosotros éramos los verdaderos excomulgados, y
anatema de Dios.

Salgamos con humildad de la sociedad santa, y para librarnos de la maldición que nos persigue, unámonos á la de
Jesucristo , que fue hecho anatema, y maldición por nosotros, como dice San Pablo, conforme á esta sentencia:
(Galat. III v.13) Maldito aquel que ha estado pendiente de una Cruz, (Deut. XXI.v.23)

Reconozcámonos excluidos de todo bien, y aún de toda la sociedad humana por nuestros pecados. La Cruz, una
muerte dolorosa, la ignominia de un vergonzoso suplicio es nuestra porción, esto nos pertenece. ¿Qué? En este
estado ¿podríamos acaso quejarnos de ser pobres, menospreciados, ultrajados, sin pensar sobre de que nuestras
culpas nos han hecho dignos? Verdaderamente somos dignos de todo oprobrio, y de toda miseria, por haber pecado
contra el Cielo, y haber sido rebeldes contra Dios. No nos quejemos pues jamás de las miserias y trabajos que Dios
nos envía, (Hebr. XII v.13) Mas salgamos fuera al campo con Jesús, y vamos á unirnos á él, llevando sus oprobrios,
imitándole en su paciencia, estando ciertos y asegurados, de que solo uniéndonos á sus penas, á sus ignominias, á su
anatema y á su maldición, nos libraremos de la nuestra, que tenemos muy bien merecida por nuestras maldades.

FUENTE: Elevaciones del alma a Dios sobre todos los Misterios de la Religión. Escrito por Jacobo Benigno BOSSUET.
Obispo Meldense. Traducida al español por D. Miguel Josef Fernández, secretario del Excelentísimo Marqués de
Ariza. Tomo I. Madrid. 1785. Real Compañía de Impresores y libreros. Págs. 343-348

J. B. Bossuet

«Nós vimos a Sua estrela»


J. B. Bossuet (1627-1704), bispo de Meaux

Décima sétima elevação sobre os Mstérios

«Nós vimos a Sua estrela»

No Oriente eleva-se, como um belo astro, o amor à verdade e à virtude. Tal como os magos, ainda não sabeis o que é
e apenas sabeis confusamente que esta nova estrela vos conduz ao rei dos Judeus, dos verdadeiros filhos de Judá e
de Jacob: ide, andai, imitai os magos.

« Nós vimos a Sua estrela e viemos»; vimos e partimos nesse instante. Para irmos aonde? Não o sabemos ainda;
começamos por deixar a nossa pátria. Ide a Jerusalém, recebei as luzes da Igreja. Aí encontrareis os doutores que vos
interpretarão as profecias, que vos farão entender os desígnios de Deus, e caminhareis seguros sob essa orientação.

Cristãos, quem quer que sejais os que isto ledes, talvez - pois quem pode prever os desígnios de Deus? - talvez que
neste momento a estrela vá elevar-se no vosso coração. Ide, saí da vossa pátria, aprendei a conhecer Jerusalém e o
presépio do vosso Salvador e o pão que Ele vos prepara em Belém.
http://evangeliodeldia.org/main.php?language=PT&module=commentary&localdate=20040104

Jacques Bénigne Bousset

Los invitados al banquete


Leer el comentario del Evangelio por

Jacques Bénigne Bousset (1627-1704), obispo de Meaux

Meditación sobre el evangelio

Los invitados al banquete

“El banquete de bodas está preparado, pero los invitados no eran dignos.” Dónde se encuentran pues los
comensales? “Id, pues, a los cruces de los caminos y convidad a la boda a todos los que encontréis.” (Mt 22,8);
“malos, y buenos; pobres y lisiados, ciegos y cojos” (Lc 14,21) “Yo no he venido a llamar a los justos sino a los
pecadores.” (Mt 9,13)

Los fariseos y doctores de la ley que presumían de su justicia fueron excluidos, porque no buscaban un médico que
los curara y un Salvador que los liberara, sino un adulador que aplaudiría sus falsas virtudes. Se irán con las manos
vacíos todos aquellos que vienen a mí llenos y ricos en si mismos. “A los ricos los despidió vacíos” (Lc 1,53) Traedme
los que han venido los primeros. Si están vacíos, yo les colmaré; si son pobres les haré participar en mis riquezas;
levantaré a los cojos; iluminaré a los ciegos; abriré el oído de los sordos. Por esto he venido. Venid, los que sois
débiles; venid, pecadores. No os sonrojáis por vuestro paso entorpecido y vuestros miembros embotados; la gracia
de Jesucristo os levantará.

http://evangeliodeldia.org/main.php?language=SP&module=commentary&localdate=20031104

Jacques Bénigne Bousset

“Insensato, esta misma noche vas a morir”


Leer el comentario del Evangelio por

Jacques Bénigne Bousset (1627-1704), obispo de Meaux

Sermón sobre la muerte, en “Oeuvres oratoires, T IV. Pp. 269-279)

“Insensato, esta misma noche vas a morir”

¿Qué es mi esencia, oh Dios grande? Me es dado nacer a la vida y a abandonarla bien pronto; Aparezco para mostrar
mi presencia como todos los demás; luego, hay que desaparecer. Todo nos llama hacia la muerte: la naturaleza...nos
declara y nos muestra a menudo que no puede por mucho tiempo dejarnos aquel poquito de sus materia que nos
presta... Los niños que nacen...parece que nos empujan para decirnos: “Retiraos, ahora nos toca a nosotros...” ¡Que
pequeño es el lugar que ocupamos en este mundo!

Jesucristo va a ver a Lázaro muerto (Jn 11), va a ver a la naturaleza humana que gime bajo el dominio de la muerte.
Ah, esta visita no carece de razón: el arquitecto mismo viene en persona a reconocer aquello que falta a su edificio;
tiene intención de reformarlo según el primer modelo: “A la imagen de su creador” (Col 3,10)

¡Oh alma, llena de pecado, temes con razón la inmortalidad que haría eterna tu muerte! Pero, mira a Jesucristo en
persona, “la resurrección y la vida” (Jn 11,25) quien cree en él no morirá; quien cree en él vive ya una vida espiritual,
interior, viviente por la gracia que trae consigo la vida de la gloria. – ¡Pero el cuerpo sigue estando sujeto a la muerte!
¡Oh alma, consuélate: si este divino arquitecto que quiere restaurar tu casa, deja desmoronarse una tras otra las
piedras del viejo edificio de tu cuerpo, es porque quiere restablecerlo mucho mejor, lo quiere reconstruir en un
orden superior: el cuerpo entrará por poco tiempo en el reino de la muerte, pero sólo quedará en poder de la
muerte lo que es mortal.... Como un viejo edificio ruinoso que se abandona para reedificarlo de nuevo con una
construcción mucho mejor y más bella, así Dios deja derrumbarse esta carne débil por el pecado y las pasiones, para
luego rehacerla a su modo y según el primer diseño de su creación.
http://evangeliodeldia.org/main.php?language=SP&module=commentary&localdate=20031020

Sermão sobre São José, O FIEL DEPOSITÁRIO - Bossuet


Sermão de 19 de março de 1657
O FIEL DEPOSITÁRIO

BOSSUET

É opinião generalizada e sentir comum entre os homens que o depósito, isto é, um bem que recebemos para guardar,
tem qualquer coisa de sagrado e que o devemos conservar para quem no-lo confia não somente por fidelidade mas
por uma espécie de sentimento religioso. Por isso o grande Santo Ambrósio nos ensina no livro 29 de seus Ofícios
que era piedoso costume estabelecido entre os fiéis o de trazer aos bispos e a seu clero aquilo que se queria guardar
com mais cuidado, para que fosse colocado junto ao altar, em virtude da santa persuasão em que estavam de que
não havia melhor lugar para guardar um tesouro do que aquele ao qual o próprio Deus confiou a guarda dos seus,
isto é, os santos mistérios.

Este costume se tinha introduzido na Igreja a exemplo da sinagoga antiga. Lemos na História Sagrada que o augusto
templo de Jerusalém era lugar de depósito para os judeus. Autores profanos também nos ensinam que os pagãos
tributavam esta honra a seus falsos deuses, colocando seus depósitos nos templos e confiando-os a seus sacerdotes,
como se a própria natureza das coisas nos ensinasse que o respeito ao depósito tem algo de religioso e que não pode
estar mais bem colocado do que nos lugares santos onde se reverencia a Divindade, nas mãos daqueles que a
religião consagra.

Ora, se jamais existiu depósito que merecesse tanto ser chamado santo, santamente guardado, é este de que falo,
que a providência do Pai confia à fé do justo José, tanto assim que sua casa se assemelha a um templo porque Deus
aí se digna habitar e entregar-se a Si próprio em depósito. José deve ter sido, portanto, consagrado a fim de guardar
tão santo tesouro. E realmente o foi, cristãos: seu corpo pela continência, sua alma por todos os dons da graça. [...]

No projeto que me proponho, o de apoiar os louvores a São José, não em conjeturas duvidosas mas em doutrina
sólida tirada das Escrituras divinas e dos Padres seus intérpretes fiéis, nada de mais conveniente posso fazer, na
solenidade deste dia, do que apresentar este grande santo como um homem que Deus escolheu entre todos os
outros para lhe pôr nas mãos Seu tesouro e fazê-lo, aqui na Terra, seu depositário. Pretendo fazer ver hoje que nada
melhor lhe convém, que nada existe tão ilustre e que esse belo título de depositário, desvendando-nos os desígnios
de Deus sobre esse bem-aventurado patriarca, nos mostra a fonte de todas as graças e o fundamento seguro de
todos os louvores.

Primeiramente, cristãos, é-me fácil fazer-lhes ver o quanto esta qualidade é, para ele, honra, porque, se o título de
depositário já inclui a nota de estima e testemunho de probidade, se para confiar um depósito costumamos escolher
entre nossos amigos aquele cuja virtude é mais reconhecida, cuja fidelidade é mais comprovada, enfim o mais íntimo
e mais confidente, qual não será glória de São José, que Deus fez depositário não somente da bem-aventurada
Virgem Maria, cuja pureza angélica a torna agradável a Seus olhos, mas ainda de Seu próprio Filho, único objeto de
suas complacências, única esperança de nossa salvação: de modo que guardando a pessoa de Jesus Cristo, São José é
instituído depositário do tesouro comum de Deus e dos homens. Que eloqüência poderá igualar a grandeza e a
majestade desse título?

Então, fiéis, se esse título é tão glorioso e vantajoso àquele a quem devo hoje fazer o panegírico, é preciso que eu
mesmo penetre em tão grande mistério com o socorro da graça; e que, procurando nas Escrituras o que aí lemos
sobre José, vos faça ver que tudo converge para esta bela qualidade de depositário.

Efetivamente encontro nos Evangelhos três depósitos confiados ao justo José pela Providência divina, e ali também
encontro três qualidades que refulgem entre as outras e que correspondem a esses três depósitos. É o que
precisamos explicar por ordem. Segui, por favor, atentamente.
O primeiro de todos os depósitos que foi confiado à sua fé (o primeiro na ordem do tempo) é a santa virgindade de
Maria, a qual São José devia conservar intacta sob o véu sagrado do seu matrimônio, que ele sempre guardou
santamente como um depósito sagrado que não lhe era permitido tocar. Eis o primeiro depósito.

O segundo, o mais augusto, é a pessoa de Jesus Cristo, que o Pai celeste depõe em suas mãos a fim de que lhe sirva
de pai, ao Santo Menino que não o tem na Terra. Vede, desde já, cristãos, dois grandes, dois ilustres depósitos
confiados ao zelo de São José. Mas observo ainda um terceiro, que acharão admirável, se eu conseguir explicá-lo com
clareza. Para isso é preciso compreender que o segredo é uma espécie de depósito. Trair o segredo de um amigo é
como violar a santidade do depósito. Pelas leis humanas sabemos que, se alguém divulga o segredo de um
testamento a ele confiado, pode ser acusado de ter violado o depósito: Depositi actione tecum agi posse, dizem os
juristas. É evidente, pois, a razão por que o segredo é como um depósito. Por onde podemos facilmente
compreender que, se José é o depositário do Pai eterno, é porque Este lhe contou o Seu segredo. Que segredo? Um
segredo admirável: a encarnação de Seu Filho.

Assim, porque, como sabemos, era desígnio de Deus esconder Jesus Cristo do mundo até que Sua hora houvesse
chegado, São José foi escolhido não somente para O guardar mas também para O esconder. Por isso lemos no
Evangelista (S. Lucas 2, 33) que José, com Maria, admirava tudo o que se dizia do Salvador, mas não lemos que ele
falasse, porque o Pai eterno, desvendando-lhe o mistério, fez dele um segredo sob a obrigação do silêncio. Este
segredo é o terceiro depósito que o Pai acrescenta aos outros dois. Segundo o que nos diz o grande São Bernardo,
Deus quis confiar à sua fé o segredo mais santo de seu coração: Cui toto committeret secretissimum atque
sacratissimum sui cordis arcanum (Super Missus est — hom. 2, no 15).

Como sois querido de Deus, ó incomparável José, já que Ele a vós confia esses três grandes depósitos: a Virgindade
de Maria, a pessoa de Seu Filho único e o segredo de Seu mistério!

Mas não julgueis, cristãos, que ele desconhecia essas graças. Se Deus o honrava com aqueles três depósitos, de sua
parte José apresentava a Deus, em sacrifício, três virtudes que observo no Evangelho. Não duvido que sua vida tenha
sido ornada com todas as outras, mas eis aqui as três principais virtudes que Deus quer que vejamos na sua Escritura.
A primeira é a pureza, que aparece pela continência no seu matrimônio; a segunda, sua fidelidade; a terceira, sua
humildade e seu amor à vida obscura. Quem não verá a pureza de São José nesta santa sociedade de desejos
pudicos, nesta admirável correspondência à Virgindade de Maria e em suas bodas espirituais? A segunda, sua
fidelidade, aparece nos cuidados infatigáveis que tem para com Jesus no meio das tantas adversidades que por todas
as partes seguem esse Menino divino desde o começo de sua vida. A terceira, sua humildade, vê-se em que,
possuindo tão grande tesouro por uma graça extraordinária do Pai eterno, longe de se vangloriar por esses dons ou
de publicar suas vantagens, se esconde tanto quanto pode aos olhos dos mortais, contemplando, em gozo pacífico
com Deus, o mistério que lhe fora revelado e as riquezas imensas que tem sob sua guarda.

Ah! Quanta grandeza descubro aqui e como aqui descubro tão importantes instruções! Quanta grandeza vejo nesses
depósitos, quantos exemplos vejo nessas virtudes! E como a explicação desse assunto tão belo será glorioso para São
José e frutuoso para todos os fiéis!

(PERMANÊNCIA, ano XI, março/abril, números 112/113.)

Jacques-Bénigne Bossuet (Nascido em, 27 de setembro de 1627, em Dijon - e morreu em Paris, 12 de abril de 1704)
foi Bispo de Condom e Meaux (Dioceses da França) e teólogo francês.

Fonte: Ite ad Joseph

O SILÊNCIO de MARIA e de JOSÉ


The Silence of Mary and Joseph
El silencio de María y José

Le silence de Marie et Joseph

Das Schweigen der Maria und Josef

Silentium de Maria et Joseph

por Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704). Ed. Urbain et Levesque, t. III

José se alia ao silêncio e ao segredo de Maria, ele, a quem o Anjo havia dito tão grandes coisas, ele, que havia visto o
milagre do parto virginal. Nem ele nem ela faziam comentários sobre o que viam todos os dias em sua casa, e
mantinham-se simples e humildes diante de tantas maravilhas. Tão humilde, quanto sensata e sábia, Maria deixava
que a considerassem uma mulher comum e seu Filho como o fruto de um casamento normal. As grandes obras que
Deus realiza nas suas criaturas, operam nelas o silêncio, a comoção, algo de tão divino que suprime qualquer
expressão. O que poderíamos dizer e o que poderia dizer a Mãe de Deus que pudesse ser transparecer o que ela
estava a sentir? Assim, mantemos sob o sinete, sob o lacre, o segredo e o mistério de Deus, a menos que Ele anime
as nossas palavras e nos faça falar. As vantagens humanas não valem nada se elas não se tornam conhecidas e que o
mundo tome conhecimento delas. O que Deus faz, tem um preço inestimável e queremos usufruir seus feitos, suas
maravilhas, na intimidade com Ele; somente Ele, Deus, diante de cada alma, em particular.

PENSAMENTOS DE JACQUES BOSSUET


[Do blog Adversus Haereses]

“Para ajuntar de todos os rincões da terra, e de todas as nações, que a compõem, todas as partes desse bem-
aventurado todo, estabeleceu Jesus Cristo Sua Igreja, como única Arca, donde devem entrar, e refugiar-se quantos
querem salvar-se do dilúvio universal. Igreja cristã, e Católica, fundada sobre a Rocha, descida do céu, donde Deus
habita; unida interiormente pelo Espírito Santo, e exteriormente por um governo, que representa a autoridade de
Jesus Cristo; e cuja fé é imutável, é invariável, em virtude das divinas promessas, sua permanência, e duração
imortal.”(Meditaciones sobre el Evangelio, Jacques Bénigne Bossuet, Editora en la Oficina de Miguèl Escribano,
1770, Original de Universidade Complutense de Madri, p. 38-39)

“Teremos que deplorar as misérias do espírito humano, e conheceremos que o único remédio de tão grandes males
é saber desprender-se da opinião própria, porque isto é o que constitui a diferença entre o Católico e o herege. É
próprio do herege, isto é, aquele que tem uma opinião particular, aderir-se às suas próprias idéias; e é próprio do
Católico, isto é, do universal, preferir aos seus sentimentos, os sentimentos comum de toda a Igreja.” (Historia de las
variaciones de las iglesias protestantes, Jacques Bénigne Bossuet, Editora Librería Religiosa, 1852, Original de la
Biblioteca de Catalunya, p. 33)

“A Sinagoga cujas promessas eram terrenas começa com a força corporal, e com as armas, mas a Igreja começa
com a Cruz, e com os Mártires. Sendo filha do céu, é preciso que, não fique nenhuma dúvida de que …não deve
sua origem senão ao Pai celestial.”(Bossuet apud Reflexiones imparciales de un brasilero sobre el mensage del
Trono: y de las respuestas de las cámaras legislativas del año 1836 en la parte relativa al obispo electo para la
diócesis del Rio de Janeyro, y a la Santa Sede apostólica Editora Impr. de la Libertad, 1837, Original de
Universidade da Califórnia, p. p. 79)

“A verdade católica, como vem de Deus, é perfeita desde o início: a heresia, débil produção do espírito humano, é
uma obra que não pode fazer-se senão por peças mal ajuntadas”(Historia de las variaciones de las iglesias
protestantes, Volume 1, Jacques Bénigne Bossuet, Librería Religiosa (Barcelona), Editora Librería Religiosa, 1852,
Original de Universidade Complutense de Madri, p. 20).

Bossuet - Oração fúnebre a Henriqueta Ana da Inglaterra


[...] Considerai, Senhores, as grandes potestades que daqui debaixo contemplamos. Enquanto trememos sob o
poderio de sua mão, golpeia-as Deus para nos alertar. Motiva-o a alta posição destas; e Deus, que as não poupa, não
sofre em sacrificá-las para instrução do restante dos homens. Cristão, não murmureis se a Senhora foi escolhida para
nos instruir. Como vereis a seguir, aqui nada houve de indelicado, porque a salvou Deus pelo mesmo golpe que nos
instruiu. Deveríamos já estar convencidos de nosso nada: mas se é mister maravilhar os corações enfeitiçados pelo
amor do mundo, este lance é assaz grande e terrível. Ó noite desastrosa! Ó noite lamentável, em que num instante
reboou, qual um raio de claridade, esta estupenda novidade: a Senhora morreu, a Senhora está morta! Quem não se
sentiu atingido por esse golpe, como se um trágico acidente desolasse sua família? Ao primeiro rumor dum mal tão
inaudito, acorreram a Saint-Cloud de todas as partes: tudo era consternação, exceto o coração da princesa. Tudo
eram clamores; em tudo se enxergava a dor e o desespero, e a figura da morte. O Rei, a Rainha, o Senhor, a Corte
inteira, o povo inteiro, tudo era abatimento, tudo desespero; a mim, parece-me que vejo o cumprimento da palavra
do profeta: Chorará o rei, lamentará a rainha, e tombarão de dor e de abatimento as mãos do povo. Mas em vão
gemiam os príncipes e os povos , em vão o Senhor, em vão cingia o Rei à Senhora em tão estreitos abraços. Podiam
então dizer um ao outro, junto com Santo Ambrósio: “Strigebam bracchia, sed jam amiseram quam tenebam: Cingi
os braços, mas já perdera o que tivera”. Escapava-lhe a princesa de entre os abraços tão calorosos, e a morte
poderosíssima no-la levava de suas mãos reais. Mas, quê! ela devia morrer tão cedo! Com a maioria dos homens, a
pouco e pouco se fazem as mudanças, preparando-as a morte para o derradeiro retoque. Entretanto, a Senhora
durou da manhã até à noite, qual a erva do campo. Rebentava, na manhã, e bem sabeis as suas graças; de noite,
ressecava, como vimos; e estas rijas expressões, com que exagera a Escritura Santa a inconstância dos negócios
humanos, haviam de ser para a princesa o exato e o literal!

http://traducoesgratuitas.blogspot.com.br/2008/08/bossuet-orao-fnebre-henriqueta-ana-da_20.html

Regras fundamentais das honras conferidas a Maria


Alexandre Martins, cm.

Jacques Benigne Bossuet nasceu em uma família de magistrados em 1627, em Dijon, França.

Recebeu educação num colégio jesuíta, aonde ingressou nas Congregações Marianas.

Destinado à vida religiosa, recebeu tonsura aos 10 anos, conforme costume da época. Aos quinze foi para Paris
estudar teologia no College de Navarre, onde presenciou os motins da Fronde (um levante de amotinados contra o
absolutismo real). Em 1652 foi ordenado presbítero e recebeu seu doutorado em Teologia. Seu pai obteve-lhe a
indicação para cônego na Mogúncia (Metz) onde ficou popular como orador em controvérsia com os protestantes.
Dividiu o tempo entre Metz e Paris até 1659 e a partir de 1660 raramente deixava a capital. Lá, pregou os sermões da
Quaresma em dois famosos conventos, dos franciscanos mínimos e dos carmelitas, e em 1662 foi chamado a pregar
para o rei Luís XIV.

Ficaram famosas suas orações fúnebres, principalmente nos funerais de Henrietta Maria de France, rainha da
Inglaterra e de sua filha Henrietta Anne da Inglaterra, cunhada de Louis XIV; da princesa Anne de Gonzague, do
chanceler Michel Le Tellier, e o do grande Condé .

Bossuet faleceu em Paris em 12 de abril de 1704. É famosa sua frase:

“A Igreja (é uma) cidade edificada para os pobres; é a cidade dos pobres. Os ricos (são) somente tolerados...”

Os extratos a seguir são parte de sua obra La dévotion à la Sainte Vierge (A devoção à Virgem Santíssima):

“A regra fundamental das honras que conferimos à Virgem Santíssima e aos espíritos bem-aventurados, é que
devemos atribuí-las, inteiramente a Deus e à nossa salvação eterna. Pois, se ela não fosse atribuída a Deus, seria,
então, um ato puramente humano, e não um ato religioso; e nós sabemos que os santos, vivendo plenos de Deus e
de Sua eterna glória, não recebem cumprimentos puramente humanos.

Assim, toda a nossa devoção à Santíssima Virgem é inútil e supersticiosa, se ela não nos conduzir a Deus, para que
possamos possuí-Lo para sempre e usufruir a Herança celeste.

Nós adoramos um só Deus, todo-poderoso, criador e dispensador de todas as coisas, em nome do qual fomos
consagrados pelo santo Batismo...
Nós veneramos os santos e a bem-aventurada Virgem Maria, não por meio de um culto de servidão e de sujeição;
pois somos submissos somente a Deus, nas regras da religião. "Nós honramos os santos - diz Santo Ambrósio - com
veneração de caridade e de sociedade fraternas."

E reverenciamos, neles, os milagres saídos das mãos do Altíssimo, a comunicação de sua graça, a efusão de sua
glória, e a santa e gloriosa dependência pela qual os santos permanecem eternamente sujeitos a este primeiro Ser, a
quem levaremos todo o nosso culto, como único princípio de todo o nosso bem, e fim único de todos os nossos
desejos.

Não sejamos como aqueles que pretendem diminuir a glória de Deus e de Jesus Cristo, quando dedicam altos
sentimentos à Virgem Santíssima e aos santos.

Mas eis uma outra regra do Cristianismo, que peço, graveis em vossa memória. O cristão deve imitar todo o seu
objeto de veneração: tudo o que é objeto de nosso culto, deve ser modelo para a nossa vida.

Quando celebramos os santos, será que é para aumentar a sua glória? Eles já estão plenos, realizados e felizes; o fato
de os celebrarmos nos incita a seguir o seu exemplo. Assim, em proporção ao respeito que temos por eles, e isto, por
amor a Deus, nós nos engajamos a imitá-los.

Este é o desígnio da Igreja, nas festas celebradas em honra aos santos, intenção declarada, por meio desta bela
oração: "Ó Senhora, dai-nos a graça de imitar aqueles que veneramos..." Eis, então, a tradição e a doutrina constante
da Igreja católica, que considera que a parte mais essencial do mérito dos santos é a de saber aproveitar seus bons
exemplos.

Se não tentarmos nos adaptar à paciência dos mártires, nós os celebraremos em vão. É necessário que sejamos
penitentes e mortificados como os santos confessores, quando celebramos a solenidade dos santos confessores; é
necessário que sejamos humildes, pudicos e modestos como as virgens, quando veneramos as virgens, mas
principalmente quando veneramos a Virgem das virgens.

Ó filhos de Deus, vós que desejais, em toda felicidade, ser adotados pela Mãe do nosso Salvador, sede fiéis
imitadores dela, se quereis estar entre os seus devotos.

Recitai, diariamente, o admirável cântico da Virgem Santíssima, que se inicia com estes termos: "Minha alma
engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador." Ao recitarmos este cântico, estaremos copiando
a sua piedade - diz, de forma primorosa, Santo Ambrósio: "Que a alma de Maria esteja em todos nós para
glorificarmos o Senhor; que o espírito de Maria esteja em todos nós, para nossa alegria e regozijo em Deus."

Nós admiramos, a cada dia, a sua pureza virginal que a tornou tão maravilhosamente fecunda, que ela concebeu o
Verbo de Deus em suas entranhas. "Sabei, diz o mesmo Pai, que toda alma casta e pudica que conserva sua pureza e
inocência, concebe a Sabedoria eterna em si, e que está plena de Deus e de sua Graça, assim como Maria."

Caridade
Caridade

"Amemos, amenos a Deus de todo o nosso coração; não somos cristãos se ao menos não nos esforçamos por amá-
lO, ao menos não desejamos este amor. Se o não pedimos ardentemente a esse divino Espírito que nos vivifica. Não
quero dizer que, sob pena de condenação eterna, sejamos obrigados a ter a perfeição da caridade. Não, fiéis, somos
pobres pecadores: o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo desculpará perante Deus nossas faltas, contanto que delas
façamos penitência. Eu não vos digo, pois, que sejamos obrigados a ter a perfeição da caridade, mas digo-vos e
asseguro-vos que somos indispensavelmente obrigados a procurá-la, segundo a medida que nos é dada, sem o que
não somos cristãos. Coragem, trabalhemos para a caridade. Ela é todo o cristianismo. Quando apurais vossa
caridade, preparais um ornamento para o céu: a fé perde-se na visão intuitiva; a esperança desaparece pela posse
efetiva; só a caridade é que nunca pode acabar". (Bossuet)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/06/caridade.html
PENSAMENTO DO DIA 22/09/2011
"Deve-se ser santo a fundo, manter-se sob os olhos de Deus, fazer tudo unicamente para Aquele que sonda o fundo
dos corações, e só pensar em Lhe agradar. Mas não é o bastante: é preciso ainda perseverar nesse estado. Uma
virtude passageira não é digna de Jesus Cristo. A prova do verdadeiro cristão é a perseverança."

(Bossuet)

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2011/09/pensamento-do-dia-22092011.html

Ambição.

Sermão sobre a Ambição


Jacques-Benigne Bossuet

http://www.permanencia.org.br/revista/vida/ambicao.htm

“Jesus, sabendo que o povo viria arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para a montanha”. (Jo, 6,
15)

Reconheço Jesus Cristo nesta fuga generosa, que fê-lo buscar no deserto o asilo contra as honras que lhe
preparavam. Quem acabava de se encher de opróbrios, devia evitar as grandezas humanas; a única exaltação que
meu Salvador conhecia era aquela que o elevou na cruz; assim como se ofereceu a si ao decidirem o suplício, fugira,
conforme seu espírito, ao lhe destinarem o trono.

A fuga súbita e inesperada de Jesus Cristo para a montanha deserta, onde queria se esconder tão complemente que,
nota o evangelista, não havia ninguém em sua companhia, permite-nos vislumbrar a extraordinária pressão que
sente; como fosse ele todo-poderoso, nada temendo por si mesmo, havemos de concluir, com certeza absoluta,
Senhores, que é para nos admoestar.

Realmente, Cristãos, quando ele se agitou, diz Santo Agostinho, foi de indignação contra os pecados; quando se
perturbou, afirma o mesmo Padre, foi de comoção pelos males; assim, quando temeu e fugiu, foi para admoestar dos
perigos. Na sua presciência, ele vê em quantos perigos extremados nos arrisca o amor das grandezas: por isso, fugia
diante deles para obrigar-nos a temê-los; demonstrando nesta fuga as terríveis tentações com que ameaçam as
grandes fortunas, ensina-nos definitivamente que repreender a ambição é o dever essencial ao cristão. Não é
empresa de pouca monta pregar tal verdade à corte, e devemos mais que nunca pedir a graça do Espírito Santo, pela
intercessão da Santa Virgem: Ave.

O desejo de combater a ambição, que é a alma daqueles que a seguem, é como desertar a corte; e o empalidecer os
presentes da fortuna, dos quais os príncipes são os dispensadores, é como rebaixar a majestade.

Mas os soberanos piedosos desejam apagar toda sua glória na presença daquela de Deus; e em vez de se ofenderem
deste modo com a falsa diminuição de seu poder, tornam-se venerandíssimos, pois as gentes só os rebaixam, como
bem sabem, se os comparam a Deus. Não tenhamos medo de publicar ferozmente na corte mais gloriosa do mundo
que ela é incapaz de fazer qualquer coisa digna da estima dum cristão; desiludamos, se pudermos, os homens deste
apego furioso ao que denominam fortuna; por isso, façamos duas coisas: façamos falar o Evangelho contra a fortuna,
façamos falar a fortuna contra si mesma; o Evangelho nos desvelará suas ilusões, e ela por si revelará suas
inconstâncias. Ou antes, vejamos um e outra na história do Filho de Deus. Enquanto acorriam para ele os povos,
prometendo-lhe nada menos que um trono, ele desprezou de tal modo esta grandeza vã, que se desonrou a si e
abateu seu triunfo com a companhia de tristes homens e miseráveis. Contudo, calcando aos pés a magnificência de
seu esplendor, ele se quer exemplo da inconstância dos negócios humanos; no espaço de três dias, viu-se a fúria
popular pregar na cruz aquele que o favor público julgara digno do trono. Daí, devemos aprender que a fortuna nada
é; não somente quando tira, mas também quando dá, não somente quando muda, mas também quando fica, ela é
sempre desprezível. Já começo, por favor, e vos peço, meus Senhores, de bem me escutar.

Primeiro Ponto

Neste primeiro ponto, quero demonstrar que a fortuna nos jugula, ao mesmo tempo em que nos é liberal. Poderia
expor seus desenganos à plena luz, provando como de costume que ela nunca cumpre o prometido; mas demonstrar
que não dá sequer o que finge dar é algo ainda mais forte. Seu regalo mais caro, mais precioso e mais raro é o poder.
É o encanto dos ambiciosos, do qual são zelosos ao extremo, não importando quão diminuta seja a parte que lhes
caiba.

Vejamos se ela verdadeiramente confere tal poder, ou se não passa dum nome altivo pelo qual embaça os olhos
doentes. Para tanto, é preciso saber o poder que nos cabe, e de que poder temos necessidade, durante esta vida.
Mas como se admira deveras a alma humana neste exame, tratemos de conduzi-lo pela via direita, através da
doutrina de Santo Agostinho (Livro XIII, Sobre a Trindade).

Este grande homem expõe aqui uma verdade importante, de que a felicidade requer duas condições: poder o que se
quer, e querer o que se deve. Assim deve ser, pois se não podeis o que quereis, vossa vontade não ficará satisfeita;
também, se não quereis o que deveis, vossa vontade não será regrada; uma e outra impedem a bem-aventurança,
pois a vontade descontente é pobre, e a vontade desregrada é doente, o que exclui necessariamente a felicidade,
que é a ordem perfeita da natureza, e sobretudo a afluência universal do bem. Por isso, é igualmente necessário
desejar o que se deve e poder executar o que se quer.

Acrescentemos, se quiserdes, o mais importante de tudo: a primeira vontade nos embaraça durante a execução, a
segunda leva o mal consigo desde o princípio.

Quando não podeis o que quereis, é uma causa externa o que vos impediu; quando não quereis o que deveis, a
decepção acontece infalivelmente por causa de vossa depravação: enquanto o primeiro não passa de infelicidade, o
segundo é sempre falta; mas só porque é falta, invisível a seus olhos, que é incomparavelmente uma grande
infelicidade? Assim, ninguém pode negar, sem passar por louco, que a vontade regrada é um bem mais necessário à
felicidade do que um imenso poder.

É por isso, Cristãos, que me não espanto muito do desregramento das afeições e da corrupção dos julgamentos.
Abandonamos a regra, diz Santo Agostinho, e suspiramos pelo poder.

Cegos, que empreendemos nós? A felicidade possui duas metades, mas cremos possuí-la inteira, não obstante
façamos separação violenta das duas partes. Ainda rejeitamos a mais necessária, e a que escolhemos, porque
separada daquela companhia, não nos torna felizes, mas aumenta o peso de nossa miséria. De que serve o poder
para uma vontade desregrada que, desejando mal, torna-se ainda pior ao exercê-lo? Não dizíamos, no último
domingo, que o grande crédito dos pecadores é uma praga que Deus envia a eles? Por quê? Porque, Cristãos, juntar o
desejo ruim à sua execução é jogar veneno numa chaga já mortífera, é acrescentar ao que já era muito. Não é como
incendiar o humor maligno cujo veneno corroía-nos as entranhas? Reconhece o Filho de Deus que Pilatos recebeu de
cima um imenso poder sobre sua divina pessoa: se fosse regrada a vontade deste homem, poder-se-ia regozijar
empregando tal poder para castigar a injustiça e a calúnia, ou pelo menos para livrar a inocência. Mas como a
prudência covarde de conservar seu posto havia-o corrompido, tal poder serviu apenas para firmar seu pensamento
no crime de deicídio. Por isso, é o cúmulo da cegueira desejar um poder que se voltará contra nós mesmos, que
matará a alegria e será funesto à virtude, antes de a vontade estar bem ordenada.

Nosso imenso Deus, Senhores, nos dita outro proceder: quer ele conduzir-nos por vias retas, e não por precipícios.
Eis porque ensina a seus servos a prática de querer o bem, e não desejar muito poder; a regrar os desejos, antes de
buscar satisfazê-los; a buscar a felicidade por uma vontade bem ordenada, antes de consumi-la pelo poder absoluto.
Mas já é tempo, Cristãos, para que apliquemos mais particularmente essa doutrina de Santo Agostinho. Que pedis
vós, ó mortais? Que Deus vos dê muito poder? Respondo eu com o Salvador: Não sabeis o que pedis. Vede bem onde
estais; vede a mortalidade que vos consuma, contemplai a figura do mundo que passa.

Em meio a tanta fragilidade, sobre o que sustentais esta grande idéia de poder? Certamente, um título tão
imponente deve se apoiar sobre algo: que encontrais sobre a terra que tenha força e dignidade o bastante para
sustentar o título de “poder”? Abri os olhos, e penetrai a carapaça: sequer o maior poder do mundo consegue mais
do que tirar a vida de um homem; é necessário então um tão grande esforço para matar um mortal, para lhe
antecipar nalguns momentos o curso da vida que, por si só, se precipita? Não acrediteis, Cristãos, que alguém
encontre o poder onde reine a mortalidade. Assim ordenou, acrescenta Santo Agostinho, a sábia providência: cabe
aos homens mortais a observância da justiça; dar-se-lhes-á o poder na morada da imortalidade.

Que exigis de nós ainda? Se desejarmos o necessário na vida presente, poderemos tudo o que quisermos na vida
futura.

Regremos a vontade pelo amor da justiça: no tempo propício, Deus nos coroará com a comunhão de seu poder. Se
dedicarmos o momento da vida presente à correção dos costumes, dará ele a eternidade inteira para contentar os
desejos.

Creio que agora vedes, Senhores, que sorte de poder devemos almejar durante esta vida: poder para regrar os
costumes, para moderar as paixões, para nos corrigir segundo Deus; poder de nós contra nós mesmos. Ó poder
pouco invejado! E todavia o verdadeiro. As gentes combatem nosso poder de duas formas: ou impedindo-nos de
levar adiante as empresas, ou turbando-nos o direito que temos de levá-las adiante; esta última é a verdadeira
servidão, pois se ataca a autoridade do comando. Vejamos os exemplos de um e outro dentro da mesma casa.

José era escravo em casa de Putifar, e a esposa deste senhor do Egito era a senhora desta casa. Aquele, durante o
jugo da servidão, não era mestre de suas ações; e esta, tiranizada pelas paixões, não era mestre de suas vontades.
Vede até onde a levou o amor infame. Ah!, sem dúvida, a menos que tivesse uma cara de madeira, teria ela vergonha
de tal baixeza, mas a paixão furiosa lhe arrastava para baixo, como a um escravo.

Chama o jovem, confessa tua fraqueza, rebaixa-te diante dele, torna-te ridícula. Poderia seu mais cruel inimigo
aconselhar algo pior?

Controla-a a paixão. Quem não vê, nesta mulher, que sua própria escravidão atou-lhe laços fortíssimos?

Cem tiranos de tal sorte cativam a vontade, e sequer suspiramos! Regozijamos quando nos ligam as mãos, e sem
pena arrastamos esses ferros invisíveis em que estão acorrentados os corações!

Protestamos contra a violência, quando se encadeiam os ministros, os membros que executam; não suspiramos
quando se cativa a rainha, a razão e a vontade que comandam!

Desperta, escravo miserável, e reconhece esta verdade: se há grande poder no executar os desejos, há um maior e
mais verdadeiro no reinar sobre as vontades.

Quem soubera gozar da doçura deste império, pouco se dará, Cristãos, do crédito e do poder que a fortuna
possibilita. E eis aqui o motivo: não existe obstáculo maior ao comando de si que o possuir autoridade sobre os
outros.

Com efeito, em nós há certa malignidade que espalhou nos corações o princípio de todos os vícios. Estão escondidos
e guardados em centenas de recantos tortuosos, esperando a ocasião de levantar a cabeça. Tirar-lhes o poder é a
melhor maneira de reprimi-los. Compreendera bem Santo Agostinho que, para curar a vontade, é preciso reprimir
seu poder: Mas, os vícios escondidos seriam por isso menos viciosos? É a consecução que fá-los corruptos? Por
acaso, deixar o veneno guardado no fundo do coração é curar a vontade? Eis o segredo: entregamo-nos a vontades
impossíveis, a planos sempre frustros, tendo do crime somente a malícia. A malícia frustrada, por isso, começa a
causar anojo; sua impotência leva-nos a querer e repulsar os seus favores; deste modo, toma-se mais facilmente o
partido da moderação dos desejos. Primeiramente, fazemo-lo por necessidade; mas enfim, como o constrangimento
é importuno, combatemo-lo seriamente e de boa-fé, bendizendo seu poderio ínfimo – eis a primeira providência em
direção à cura.
Pelo contrário, quem não sabe que quanto mais independente se torna uma pessoa, mais os vícios são indomáveis?
Somos crianças que precisam dum tutor severo, ou a dificuldade ou o temor. Se não erigimos barreiras, as inclinações
corruptas começam a se manifestar e aumentar, oprimindo a liberdade sob o jugo da licenciosidade desenfreada.
Ah!, vemos demais disso todos os dias.

Assim vede, Senhores, quanto a fortuna é enganosa, porque, em vez de conferir o poder, tira-nos até a Liberdade

Não é por acaso, Senhores, que o Filho de Deus ensina-nos a temer os grandes efeitos; o poder é princípio ordinário
de extravio: exercendo-o nos outros, freqüentemente perdemos a nós mesmos; enfim, o poder é semelhante ao
vinho perfumado, que embriaga até os mais sóbrios. O que souber refrear a ambição será mestre de suas vontades, e
acreditar-se-á suficientemente poderoso, à condição que possa regrar os desejos, e se desengane dos negócios
humanos, para não mensurar a felicidade pela elevação de sua fortuna.

Escutemos, Cristãos, o que nos opõem os ambiciosos. É forçoso, dizem eles, distinguir-se: permanecer no usual é
sinal de fraqueza, os gênios extraordinários sempre se desgarram da tropa, e conduzem o destino. Os exemplos dos
que avançam parecem reprovar aos demais o pouco mérito, e é o desejo de distinguir-se que leva a ambição aos
maiores excessos. Poderia eu combater, com muitos argumentos, a idéia de distinção. Poder-vos-ia representar este
século como confuso, e afirmar que tudo está trocado, e que há de vir o dia derradeiro, no final dos séculos, para
apartar os bons dos maus; e que a ambição cristã se deve inspirar neste discernimento claro e eterno. Poderia
acrescentar ainda que é vão o esforço de se distinguir nesta terra, onde a morte logo vêm-nos arrancar dos lugares
eminentes, abismando-nos a todos naquele lugar comum à natureza, o nada; desta forma, os mais fracos, rindo de
vossa pompa fugaz e de vosso discernimento imaginário, dirão junto com o Profeta: ó homem poderoso e soberbo,
que pensais que, por causa da grandeza, estais isento do jogo, eis aí vós ferido como nós, vós que sois semelhante a
nós.

Mas sem me prender a tais argumentos, limitar-me-ei a perguntar a essas almas ambiciosas por que caminhos
pretendem se distinguir. O do vício é vergonhoso; o da virtude, longo. De ordinário, a virtude não é muito ardilosa
para conquistar o favor dos homens; e o vício, sempre preparado para a obra, é mais ativo, mais instante, mais
pronto que a virtude, que não se desvia das regras, que só caminha a passos contados, que só progride com medida.
Desta feita, estareis entediados de tamanha lentidão; a pouco e pouco, vossa virtude fraquejará, e após ela
abandonará aquela regularidade primitiva, acomodando-se aos humores do mundo. Ah!, como seria sábio se
renunciásseis duma vez por todas a ambição! Talvez ainda ela vos causasse alguma pequena aflição, mas sempre a
compraríeis pelo preço justo, sendo-vos mais fácil suportá-la agora, que quando vos abandonáveis às delícias das
honrarias e dignidades. Vivei contentes do que sois, e sobretudo que o desejo de obrar o bem não vos faça almejar
uma condição mais subida.

Eis o incentivo ordinário dos ambiciosos: imploram sempre por platéia, erigem-se como reformadores contra os
abusos, tornam-se severos censores de todos quantos vêem ocupar lugares eminentes. Para eles, sempre são belos
os planos que meditam! Quantos conselhos sábios para o Estado! Quantos sentimentos nobres para a Igreja!
Quantos regulamentos santos para a diocese! Em meio a tais desejos caritativos e pensamentos cristãos, dedicam-se
ao amor do mundo, absorvendo insensivelmente o espírito do século; e finalmente, ao atingirem a meta, vão esperar
pelas oportunidades, que marcham a passos de chumbo, e que enfim nunca chegam. Assim fenecem todos os bons
desejos, evaporam como um sonho os excelsos pensamentos.

Em conseqüência, Cristãos, sem suspirar nem arder por um poder mais elevado, diligenciemos a dar boa conta do
poder que Deus nos confia. Um rio, para fazer o bem, não precisa transbordar de suas margens, nem inundar os
campos; correndo pacificamente no leito, não deixa de regar a terra e de presentear suas águas aos povos, para
maior comodidade pública. Assim, evitando que os pensamentos ambiciosos nos comprometam em trabalhos
penosos, tratemos de conduzir nossas águas para bem longe, levados pelo sentimento de bondade; e ainda que em
misteres humildes, tenhamos caridade infinita. Tal deve ser a ambição do Cristão que, desprezando a fortuna, ri-se
das vãs promessas, e não experimenta revezes, dos quais só me resta dizer algumas palavras, nesta última parte.

Segundo Ponto

A fortuna, grande mentirosa, num ponto pelo menos é sincera, pois não esconde suas artimanhas; ao contrário,
exibe-as à luz do dia e, para além das leviandades ordinárias, de tempos em tempos se regozija de espantar o mundo
com golpes terríveis e inesperados, como que para relembrar sua força na memória dos homens, com medo de que
se esquecessem de suas inconstâncias, maldades e extravagâncias. O que me faz pensar que todas as benesses da
fortuna não são favores, mas traições; que ela só nos oferece para nos manejar, e que os bens que dela recebemos
não são regalos, mas armadilhas com que nos presenteamos para eternamente ficar entre suas mãos, sujeitos às
viravoltas daninhas de seu poder duro e malicioso.

Esta verdade, estabelecida sobre muitas experiências convincentes, deveria desenganar os ambiciosos em face dos
bens da terra, mas, ao contrário, é justamente o que os obceca. Em vez de irem ao encontro de um bem sólido e
eterno, sobre o qual não domina o acaso, e de desprezar por isso a fortuna sempre cambiante, a inconstância os
persuade, fazendo-os dedicarem-se de todo a ela, para no mesmo passo perdê-la. Escutai o que se diz dum hábil e
manhoso político. A fortuna eleva-o bem alto, e nesta elevação menospreza as almas mesquinhas que o cercam, e
que se repastam nos seus títulos e exibições de grandeza. Acredita ele que apóia sua família sobre fundamentos
certos, encargos consideráveis e riquezas imensas, que sustentarão eternamente a fortuna de sua casa. Ele pensa
que está assegurado contra toda sorte de investida. Ó cego e imprevidente! Comporta-se como se estes magníficos
apoios, com que busca proteger o poder da fortuna, não tirassem a força dele mesmo!

Já se falou demais da fortuna, nesta cátedra da verdade. Escuta, homem sábio, homem previdente, que estende para
tantos séculos vindouros as precauções da prudência: é o próprio Deus que te vai falar e confundir teus pensamentos
vãos, pela boca do profeta Ezequiel: “Eis (a Assíria), é um cedro do Líbano, de magníficas ramagens, com espessa
ramagem e elevada estatura, cujo cimo se alteia em meio às nuvens. As águas fizeram-no crescer; o abismo fê-lo
altear-se, dirigindo suas águas para onde ele estava plantado, e enviando seus regatos a todas as árvores da região.
Dessa forma dominava ele todas as árvores dos campos; seus galhos se alongavam, sua ramagem se desenvolvia,
graças à abundância das águas que o tinham feito crescer. Em seus galhos se aninhavam todas as aves do céu. Sob
seus ramos davam cria todos os animais dos campos à sua sombra descansava toda espécie de gente! Era belo por
sua grandeza, pela extensão de seus galhos, porque suas raízes mergulhavam nas águas abundantes.”

Eis aí uma grande fortuna, um século não vê muitas parecidas com essa; mas vede sua fisionomia e decadência:
porque ele foi tão orgulhoso de seu porte, e ergueu o seu cimo até as nuvens, e o seu coração se ensoberbeceu
devido à sua altitude, entreguei-o nas mãos de um poderoso das nações, que o tratará como merece a sua
malignidade, e o destruirá”; “Os que repousavam a sua sombra, retirar-se-ão”, de medo de serem esmagados sob as
ruínas. Ele sofrerá uma queda terrível, e o contemplarão estendido por sobre a montanha, fardo inútil da terra: Se
durante a vida era ele mesmo seu próprio sustento, morrerá em meio a desejos insaciados, legando aos filhos
menores negócios escusos, que arruinarão a família; ou Deus ferirá seu filho único, e o produto de seu trabalho
passará para mãos estranhas; ou Deus dar-lhe-á como sucessor um dissipador que, vendo-se num átimo possuidor
de muitos bens, cujo acúmulo não lhe custou nenhum gemido, gozará com os suores vãos dum homem insensato,
que enriquecerá outro; quando advir a terceira geração, a má administração e as dívidas haverão de consumir toda a
herança. “Em todos os vales, romper-se-ão os ramos desta árvore imponente”: quero dizer, as terras e os senhorios
provinciais que acumulara, com tanto denodo e trabalho, serão partilhados por várias mãos; e os que
testemunharem essa viravolta dirão, dando de ombros e vendo com admiração os restos da fortuna corroída: Era
para isso a grandeza que o mundo apreciava?

É esta a árvore imponente cuja sombra cobria a face da terra? Só resta agora um tronco inútil. É este o rio impetuoso
que haveria de inundar a face da terra? Só vejo um pouco de escuma.

Ó homem, que pensas tu fazer, e por que trabalhas em vão? – Mas eu saberei como seguir e aproveitar o exemplo
dos outros: estudarei os percalços da política e de sua condução, e aí então levarei o remédio. – Precaução insensata!
Também estes não se valeram dos exemplos dos que os precederam? Ó homem, não te enganes: o futuro encerra
acontecimentos inauditos, e a fortuna humana sofre perdas e fugas por tantos orifícios, que queda impossível detê-
las. Represas a água por um lado, mas ela penetra pelo outro, fervendo por debaixo da terra. - Contudo, gozarei do
fruto do meu trabalho. - Há! Por uns dez anos, no máximo! - Mas tenho em mente minha posteridade e meu
renome. - Talvez tua posteridade não a goze. - Talvez sim. - E tantos suores, e trabalhos, e crimes, e injustiças, sem
jamais arrancar à fortuna, a quem te devotas, senão um mísero talvez! Tenha em mente que nada há de seguro para
ti, nem mesmo um túmulo para nele gravar teus títulos de soberbo, as únicas testemunhas da grandeza abatida: a
avareza ou a negligência dos herdeiros talvez os recusem à tua memória, pois que mal pensarão em ti anos depois de
tua morte! Certas são as penas da rapina, a vingança eterna das concussões e da ambição infinita. Ó dignos restolhos
da grandeza! Ó belos escolhos da fortuna; ó loucura, ó ilusão, eis a estranha cegueira dos filhos dos homens!
Cristãos, meditai nessas coisas; Cristãos, seja quem for, se acreditais vos apoiar nesta terra, valei-vos deste
pensamento para encontrar a solidez e a consistência. Sim, o homem deve ter um apoio, mas não se podem
amesquinhar os desejos a horizontes tão estreitos como os desta vida; antes, deve inculcar-se a eternidade. Com
efeito, o homem cuida, dentro do possível, para que o fruto de seu trabalho não tenha fim; ele não pode viver para
sempre, mas deseja que sua obra subsista para sempre: esta obra é a fortuna, de que cuida, dentro do possível, para
que os séculos vindouros a vejam como ele a engendrou. Na alma humana, existe um desejo ávido por eternidade;
caso o homem saiba aplicá-lo, está salvo. Mas ele erra na hora de aplicá-lo e naquilo que ama: se ama os bens
perecíveis, nisto medita a eternidade; assim, esforça-se em buscar apoios de todos os lados para este edifício caduco,
apoios também eles tão caducos, que o edifício parece vacilar. Ó homem, desengana-te: se amas a eternidade,
busca-a em si mesma, não acredites que possas aplicar a sua consistência inquebrantável nesta água passageira,
nesta areia movediça [que é a vida presente]. Ó eternidade, estás só em Deus; melhor, ó eternidade, és o próprio
Deus! É aí que vou buscar meu apoio, meu estabelecimento, minha fortuna, meu repouso certo, nesta e noutra vida.
Ámen.

Tradução: Permanência

Atualidades: Cristo e os fariseus


Depois de ter confundido os fariseus e os doutores da lei com suas respostas, começou a revelar ao povo a hipocrisia
deles, por duas razões. Uma, para que o povo se precavesse contra os artifícios deles: pois deveria ser este o maior
obstáculo à sua fé. Outra, para instrução dos mestres e dos doutores da Igreja: para que evitassem cuidadosamente
essa hipocrisia farisaica que fizera tão grande oposição ao Evangelho e por fim suspendera o Filho de Deus à cruz.
Não devia o Salvador sair deste mundo sem antes lhe deixar tão essencial instrução.
(Bossuet, Méditations sur l'Évangile, t. II)

SERMÃO SOBRE AMBIÇÃO


Jacques-Benigne Bossuet

“Jesus, sabendo que o povo viria arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para a montanha”. (Jo, 6,
15)

Reconheço Jesus Cristo nesta fuga generosa, que fê-lo buscar no deserto o asilo contra as honras que lhe
preparavam. Quem acabava de se encher de opróbrios, devia evitar as grandezas humanas; a única exaltação que
meu Salvador conhecia era aquela que o elevou na cruz; assim como se ofereceu a si ao decidirem o suplício, fugira,
conforme seu espírito, ao lhe destinarem o trono.

A fuga súbita e inesperada de Jesus Cristo para a montanha deserta, onde queria se esconder tão complemente que,
nota o evangelista, não havia ninguém em sua companhia, permite-nos vislumbrar a extraordinária pressão que
sente; como fosse ele todo-poderoso, nada temendo por si mesmo, havemos de concluir, com certeza absoluta,
Senhores, que é para nos admoestar.

Realmente, Cristãos, quando ele se agitou, diz Santo Agostinho, foi de indignação contra os pecados; quando se
perturbou, afirma o mesmo Padre, foi de comoção pelos males; assim, quando temeu e fugiu, foi para admoestar dos
perigos. Na sua presciência, ele vê em quantos perigos extremados nos arrisca o amor das grandezas: por isso, fugia
diante deles para obrigar-nos a temê-los; demonstrando nesta fuga as terríveis tentações com que ameaçam as
grandes fortunas, ensina-nos definitivamente que repreender a ambição é o dever essencial ao cristão. Não é
empresa de pouca monta pregar tal verdade à corte, e devemos mais que nunca pedir a graça do Espírito Santo, pela
intercessão da Santa Virgem: Ave.

O desejo de combater a ambição, que é a alma daqueles que a seguem, é como desertar a corte; e o empalidecer os
presentes da fortuna, dos quais os príncipes são os dispensadores, é como rebaixar a majestade.
Mas os soberanos piedosos desejam apagar toda sua glória na presença daquela de Deus; e em vez de se ofenderem
deste modo com a falsa diminuição de seu poder, tornam-se venerandíssimos, pois as gentes só os rebaixam, como
bem sabem, se os comparam a Deus. Não tenhamos medo de publicar ferozmente na corte mais gloriosa do mundo
que ela é incapaz de fazer qualquer coisa digna da estima dum cristão; desiludamos, se pudermos, os homens deste
apego furioso ao que denominam fortuna; por isso, façamos duas coisas: façamos falar o Evangelho contra a fortuna,
façamos falar a fortuna contra si mesma; o Evangelho nos desvelará suas ilusões, e ela por si revelará suas
inconstâncias. Ou antes, vejamos um e outra na história do Filho de Deus. Enquanto acorriam para ele os povos,
prometendo-lhe nada menos que um trono, ele desprezou de tal modo esta grandeza vã, que se desonrou a si e
abateu seu triunfo com a companhia de tristes homens e miseráveis. Contudo, calcando aos pés a magnificência de
seu esplendor, ele se quer exemplo da inconstância dos negócios humanos; no espaço de três dias, viu-se a fúria
popular pregar na cruz aquele que o favor público julgara digno do trono. Daí, devemos aprender que a fortuna nada
é; não somente quando tira, mas também quando dá, não somente quando muda, mas também quando fica, ela é
sempre desprezível. Já começo, por favor, e vos peço, meus Senhores, de bem me escutar.

Primeiro Ponto

Neste primeiro ponto, quero demonstrar que a fortuna nos jugula, ao mesmo tempo em que nos é liberal. Poderia
expor seus desenganos à plena luz, provando como de costume que ela nunca cumpre o prometido; mas demonstrar
que não dá sequer o que finge dar é algo ainda mais forte. Seu regalo mais caro, mais precioso e mais raro é o poder.
É o encanto dos ambiciosos, do qual são zelosos ao extremo, não importando quão diminuta seja a parte que lhes
caiba.

Vejamos se ela verdadeiramente confere tal poder, ou se não passa dum nome altivo pelo qual embaça os olhos
doentes. Para tanto, é preciso saber o poder que nos cabe, e de que poder temos necessidade, durante esta vida.
Mas como se admira deveras a alma humana neste exame, tratemos de conduzi-lo pela via direita, através da
doutrina de Santo Agostinho (Livro XIII, Sobre a Trindade).

Este grande homem expõe aqui uma verdade importante, de que a felicidade requer duas condições: poder o que se
quer, e querer o que se deve. Assim deve ser, pois se não podeis o que quereis, vossa vontade não ficará satisfeita;
também, se não quereis o que deveis, vossa vontade não será regrada; uma e outra impedem a bem-aventurança,
pois a vontade descontente é pobre, e a vontade desregrada é doente, o que exclui necessariamente a felicidade,
que é a ordem perfeita da natureza, e sobretudo a afluência universal do bem. Por isso, é igualmente necessário
desejar o que se deve e poder executar o que se quer.

Acrescentemos, se quiserdes, o mais importante de tudo: a primeira vontade nos embaraça durante a execução, a
segunda leva o mal consigo desde o princípio.

Quando não podeis o que quereis, é uma causa externa o que vos impediu; quando não quereis o que deveis, a
decepção acontece infalivelmente por causa de vossa depravação: enquanto o primeiro não passa de infelicidade, o
segundo é sempre falta; mas só porque é falta, invisível a seus olhos, que é incomparavelmente uma grande
infelicidade? Assim, ninguém pode negar, sem passar por louco, que a vontade regrada é um bem mais necessário à
felicidade do que um imenso poder.

É por isso, Cristãos, que me não espanto muito do desregramento das afeições e da corrupção dos julgamentos.
Abandonamos a regra, diz Santo Agostinho, e suspiramos pelo poder.

Cegos, que empreendemos nós? A felicidade possui duas metades, mas cremos possuí-la inteira, não obstante
façamos separação violenta das duas partes. Ainda rejeitamos a mais necessária, e a que escolhemos, porque
separada daquela companhia, não nos torna felizes, mas aumenta o peso de nossa miséria. De que serve o poder
para uma vontade desregrada que, desejando mal, torna-se ainda pior ao exercê-lo? Não dizíamos, no último
domingo, que o grande crédito dos pecadores é uma praga que Deus envia a eles? Por quê? Porque, Cristãos, juntar o
desejo ruim à sua execução é jogar veneno numa chaga já mortífera, é acrescentar ao que já era muito. Não é como
incendiar o humor maligno cujo veneno corroía-nos as entranhas? Reconhece o Filho de Deus que Pilatos recebeu de
cima um imenso poder sobre sua divina pessoa: se fosse regrada a vontade deste homem, poder-se-ia regozijar
empregando tal poder para castigar a injustiça e a calúnia, ou pelo menos para livrar a inocência. Mas como a
prudência covarde de conservar seu posto havia-o corrompido, tal poder serviu apenas para firmar seu pensamento
no crime de deicídio. Por isso, é o cúmulo da cegueira desejar um poder que se voltará contra nós mesmos, que
matará a alegria e será funesto à virtude, antes de a vontade estar bem ordenada.

Nosso imenso Deus, Senhores, nos dita outro proceder: quer ele conduzir-nos por vias retas, e não por precipícios.
Eis porque ensina a seus servos a prática de querer o bem, e não desejar muito poder; a regrar os desejos, antes de
buscar satisfazê-los; a buscar a felicidade por uma vontade bem ordenada, antes de consumi-la pelo poder absoluto.

Mas já é tempo, Cristãos, para que apliquemos mais particularmente essa doutrina de Santo Agostinho. Que pedis
vós, ó mortais? Que Deus vos dê muito poder? Respondo eu com o Salvador: Não sabeis o que pedis. Vede bem onde
estais; vede a mortalidade que vos consuma, contemplai a figura do mundo que passa.

Em meio a tanta fragilidade, sobre o que sustentais esta grande idéia de poder? Certamente, um título tão
imponente deve se apoiar sobre algo: que encontrais sobre a terra que tenha força e dignidade o bastante para
sustentar o título de “poder”? Abri os olhos, e penetrai a carapaça: sequer o maior poder do mundo consegue mais
do que tirar a vida de um homem; é necessário então um tão grande esforço para matar um mortal, para lhe
antecipar nalguns momentos o curso da vida que, por si só, se precipita? Não acrediteis, Cristãos, que alguém
encontre o poder onde reine a mortalidade. Assim ordenou, acrescenta Santo Agostinho, a sábia providência: cabe
aos homens mortais a observância da justiça; dar-se-lhes-á o poder na morada da imortalidade.

Que exigis de nós ainda? Se desejarmos o necessário na vida presente, poderemos tudo o que quisermos na vida
futura.

Regremos a vontade pelo amor da justiça: no tempo propício, Deus nos coroará com a comunhão de seu poder. Se
dedicarmos o momento da vida presente à correção dos costumes, dará ele a eternidade inteira para contentar os
desejos.

Creio que agora vedes, Senhores, que sorte de poder devemos almejar durante esta vida: poder para regrar os
costumes, para moderar as paixões, para nos corrigir segundo Deus; poder de nós contra nós mesmos. Ó poder
pouco invejado! E todavia o verdadeiro. As gentes combatem nosso poder de duas formas: ou impedindo-nos de
levar adiante as empresas, ou turbando-nos o direito que temos de levá-las adiante; esta última é a verdadeira
servidão, pois se ataca a autoridade do comando. Vejamos os exemplos de um e outro dentro da mesma casa.

José era escravo em casa de Putifar, e a esposa deste senhor do Egito era a senhora desta casa. Aquele, durante o
jugo da servidão, não era mestre de suas ações; e esta, tiranizada pelas paixões, não era mestre de suas vontades.
Vede até onde a levou o amor infame. Ah!, sem dúvida, a menos que tivesse uma cara de madeira, teria ela vergonha
de tal baixeza, mas a paixão furiosa lhe arrastava para baixo, como a um escravo.

Chama o jovem, confessa tua fraqueza, rebaixa-te diante dele, torna-te ridícula. Poderia seu mais cruel inimigo
aconselhar algo pior?

Controla-a a paixão. Quem não vê, nesta mulher, que sua própria escravidão atou-lhe laços fortíssimos?

Cem tiranos de tal sorte cativam a vontade, e sequer suspiramos! Regozijamos quando nos ligam as mãos, e sem
pena arrastamos esses ferros invisíveis em que estão acorrentados os corações!

Protestamos contra a violência, quando se encadeiam os ministros, os membros que executam; não suspiramos
quando se cativa a rainha, a razão e a vontade que comandam!
Desperta, escravo miserável, e reconhece esta verdade: se há grande poder no executar os desejos, há um maior e
mais verdadeiro no reinar sobre as vontades.

Quem soubera gozar da doçura deste império, pouco se dará, Cristãos, do crédito e do poder que a fortuna
possibilita. E eis aqui o motivo: não existe obstáculo maior ao comando de si que o possuir autoridade sobre os
outros.

Com efeito, em nós há certa malignidade que espalhou nos corações o princípio de todos os vícios. Estão escondidos
e guardados em centenas de recantos tortuosos, esperando a ocasião de levantar a cabeça. Tirar-lhes o poder é a
melhor maneira de reprimi-los. Compreendera bem Santo Agostinho que, para curar a vontade, é preciso reprimir
seu poder: Mas, os vícios escondidos seriam por isso menos viciosos? É a consecução que fá-los corruptos? Por
acaso, deixar o veneno guardado no fundo do coração é curar a vontade? Eis o segredo: entregamo-nos a vontades
impossíveis, a planos sempre frustros, tendo do crime somente a malícia. A malícia frustrada, por isso, começa a
causar anojo; sua impotência leva-nos a querer e repulsar os seus favores; deste modo, toma-se mais facilmente o
partido da moderação dos desejos. Primeiramente, fazemo-lo por necessidade; mas enfim, como o constrangimento
é importuno, combatemo-lo seriamente e de boa-fé, bendizendo seu poderio ínfimo – eis a primeira providência em
direção à cura.

Pelo contrário, quem não sabe que quanto mais independente se torna uma pessoa, mais os vícios são indomáveis?
Somos crianças que precisam dum tutor severo, ou a dificuldade ou o temor. Se não erigimos barreiras, as inclinações
corruptas começam a se manifestar e aumentar, oprimindo a liberdade sob o jugo da licenciosidade desenfreada.
Ah!, vemos demais disso todos os dias.

Assim vede, Senhores, quanto a fortuna é enganosa, porque, em vez de conferir o poder, tira-nos até a Liberdade.

Não é por acaso, Senhores, que o Filho de Deus ensina-nos a temer os grandes efeitos; o poder é princípio ordinário
de extravio: exercendo-o nos outros, freqüentemente perdemos a nós mesmos; enfim, o poder é semelhante ao
vinho perfumado, que embriaga até os mais sóbrios. O que souber refrear a ambição será mestre de suas vontades, e
acreditar-se-á suficientemente poderoso, à condição que possa regrar os desejos, e se desengane dos negócios
humanos, para não mensurar a felicidade pela elevação de sua fortuna.

Escutemos, Cristãos, o que nos opõem os ambiciosos. É forçoso, dizem eles, distinguir-se: permanecer no usual é
sinal de fraqueza, os gênios extraordinários sempre se desgarram da tropa, e conduzem o destino. Os exemplos dos
que avançam parecem reprovar aos demais o pouco mérito, e é o desejo de distinguir-se que leva a ambição aos
maiores excessos. Poderia eu combater, com muitos argumentos, a idéia de distinção. Poder-vos-ia representar este
século como confuso, e afirmar que tudo está trocado, e que há de vir o dia derradeiro, no final dos séculos, para
apartar os bons dos maus; e que a ambição cristã se deve inspirar neste discernimento claro e eterno. Poderia
acrescentar ainda que é vão o esforço de se distinguir nesta terra, onde a morte logo vêm-nos arrancar dos lugares
eminentes, abismando-nos a todos naquele lugar comum à natureza, o nada; desta forma, os mais fracos, rindo de
vossa pompa fugaz e de vosso discernimento imaginário, dirão junto com o Profeta: ó homem poderoso e soberbo,
que pensais que, por causa da grandeza, estais isento do jogo, eis aí vós ferido como nós, vós que sois semelhante a
nós.

Mas sem me prender a tais argumentos, limitar-me-ei a perguntar a essas almas ambiciosas por que caminhos
pretendem se distinguir. O do vício é vergonhoso; o da virtude, longo. De ordinário, a virtude não é muito ardilosa
para conquistar o favor dos homens; e o vício, sempre preparado para a obra, é mais ativo, mais instante, mais
pronto que a virtude, que não se desvia das regras, que só caminha a passos contados, que só progride com medida.
Desta feita, estareis entediados de tamanha lentidão; a pouco e pouco, vossa virtude fraquejará, e após ela
abandonará aquela regularidade primitiva, acomodando-se aos humores do mundo. Ah!, como seria sábio se
renunciásseis duma vez por todas a ambição! Talvez ainda ela vos causasse alguma pequena aflição, mas sempre a
compraríeis pelo preço justo, sendo-vos mais fácil suportá-la agora, que quando vos abandonáveis às delícias das
honrarias e dignidades. Vivei contentes do que sois, e sobretudo que o desejo de obrar o bem não vos faça almejar
uma condição mais subida.
Eis o incentivo ordinário dos ambiciosos: imploram sempre por platéia, erigem-se como reformadores contra os
abusos, tornam-se severos censores de todos quantos vêem ocupar lugares eminentes. Para eles, sempre são belos
os planos que meditam! Quantos conselhos sábios para o Estado! Quantos sentimentos nobres para a Igreja!
Quantos regulamentos santos para a diocese! Em meio a tais desejos caritativos e pensamentos cristãos, dedicam-se
ao amor do mundo, absorvendo insensivelmente o espírito do século; e finalmente, ao atingirem a meta, vão esperar
pelas oportunidades, que marcham a passos de chumbo, e que enfim nunca chegam. Assim fenecem todos os bons
desejos, evaporam como um sonho os excelsos pensamentos.

Em conseqüência, Cristãos, sem suspirar nem arder por um poder mais elevado, diligenciemos a dar boa conta do
poder que Deus nos confia. Um rio, para fazer o bem, não precisa transbordar de suas margens, nem inundar os
campos; correndo pacificamente no leito, não deixa de regar a terra e de presentear suas águas aos povos, para
maior comodidade pública. Assim, evitando que os pensamentos ambiciosos nos comprometam em trabalhos
penosos, tratemos de conduzir nossas águas para bem longe, levados pelo sentimento de bondade; e ainda que em
misteres humildes, tenhamos caridade infinita. Tal deve ser a ambição do Cristão que, desprezando a fortuna, ri-se
das vãs promessas, e não experimenta revezes, dos quais só me resta dizer algumas palavras, nesta última parte.

Segundo Ponto

A fortuna, grande mentirosa, num ponto pelo menos é sincera, pois não esconde suas artimanhas; ao contrário,
exibe-as à luz do dia e, para além das leviandades ordinárias, de tempos em tempos se regozija de espantar o mundo
com golpes terríveis e inesperados, como que para relembrar sua força na memória dos homens, com medo de que
se esquecessem de suas inconstâncias, maldades e extravagâncias. O que me faz pensar que todas as benesses da
fortuna não são favores, mas traições; que ela só nos oferece para nos manejar, e que os bens que dela recebemos
não são regalos, mas armadilhas com que nos presenteamos para eternamente ficar entre suas mãos, sujeitos às
viravoltas daninhas de seu poder duro e malicioso.

Esta verdade, estabelecida sobre muitas experiências convincentes, deveria desenganar os ambiciosos em face dos
bens da terra, mas, ao contrário, é justamente o que os obceca. Em vez de irem ao encontro de um bem sólido e
eterno, sobre o qual não domina o acaso, e de desprezar por isso a fortuna sempre cambiante, a inconstância os
persuade, fazendo-os dedicarem-se de todo a ela, para no mesmo passo perdê-la. Escutai o que se diz dum hábil e
manhoso político. A fortuna eleva-o bem alto, e nesta elevação menospreza as almas mesquinhas que o cercam, e
que se repastam nos seus títulos e exibições de grandeza. Acredita ele que apóia sua família sobre fundamentos
certos, encargos consideráveis e riquezas imensas, que sustentarão eternamente a fortuna de sua casa. Ele pensa
que está assegurado contra toda sorte de investida. Ó cego e imprevidente! Comporta-se como se estes magníficos
apoios, com que busca proteger o poder da fortuna, não tirassem a força dele mesmo!

Já se falou demais da fortuna, nesta cátedra da verdade. Escuta, homem sábio, homem previdente, que estende para
tantos séculos vindouros as precauções da prudência: é o próprio Deus que te vai falar e confundir teus pensamentos
vãos, pela boca do profeta Ezequiel: “Eis (a Assíria), é um cedro do Líbano, de magníficas ramagens, com espessa
ramagem e elevada estatura, cujo cimo se alteia em meio às nuvens. As águas fizeram-no crescer; o abismo fê-lo
altear-se, dirigindo suas águas para onde ele estava plantado, e enviando seus regatos a todas as árvores da região.
Dessa forma dominava ele todas as árvores dos campos; seus galhos se alongavam, sua ramagem se desenvolvia,
graças à abundância das águas que o tinham feito crescer. Em seus galhos se aninhavam todas as aves do céu. Sob
seus ramos davam cria todos os animais dos campos à sua sombra descansava toda espécie de gente! Era belo por
sua grandeza, pela extensão de seus galhos, porque suas raízes mergulhavam nas águas abundantes.”

Eis aí uma grande fortuna, um século não vê muitas parecidas com essa; mas vede sua fisionomia e decadência:
porque ele foi tão orgulhoso de seu porte, e ergueu o seu cimo até as nuvens, e o seu coração se ensoberbeceu
devido à sua altitude, entreguei-o nas mãos de um poderoso das nações, que o tratará como merece a sua
malignidade, e o destruirá”; “Os que repousavam a sua sombra, retirar-se-ão”, de medo de serem esmagados sob as
ruínas. Ele sofrerá uma queda terrível, e o contemplarão estendido por sobre a montanha, fardo inútil da terra: Se
durante a vida era ele mesmo seu próprio sustento, morrerá em meio a desejos insaciados, legando aos filhos
menores negócios escusos, que arruinarão a família; ou Deus ferirá seu filho único, e o produto de seu trabalho
passará para mãos estranhas; ou Deus dar-lhe-á como sucessor um dissipador que, vendo-se num átimo possuidor
de muitos bens, cujo acúmulo não lhe custou nenhum gemido, gozará com os suores vãos dum homem insensato,
que enriquecerá outro; quando advir a terceira geração, a má administração e as dívidas haverão de consumir toda a
herança. “Em todos os vales, romper-se-ão os ramos desta árvore imponente”: quero dizer, as terras e os senhorios
provinciais que acumulara, com tanto denodo e trabalho, serão partilhados por várias mãos; e os que
testemunharem essa viravolta dirão, dando de ombros e vendo com admiração os restos da fortuna corroída: Era
para isso a grandeza que o mundo apreciava?

É esta a árvore imponente cuja sombra cobria a face da terra? Só resta agora um tronco inútil. É este o rio impetuoso
que haveria de inundar a face da terra? Só vejo um pouco de escuma.

Ó homem, que pensas tu fazer, e por que trabalhas em vão? – Mas eu saberei como seguir e aproveitar o exemplo
dos outros: estudarei os percalços da política e de sua condução, e aí então levarei o remédio. – Precaução insensata!
Também estes não se valeram dos exemplos dos que os precederam? Ó homem, não te enganes: o futuro encerra
acontecimentos inauditos, e a fortuna humana sofre perdas e fugas por tantos orifícios, que queda impossível detê-
las. Represas a água por um lado, mas ela penetra pelo outro, fervendo por debaixo da terra. - Contudo, gozarei do
fruto do meu trabalho. - Há! Por uns dez anos, no máximo! - Mas tenho em mente minha posteridade e meu
renome. - Talvez tua posteridade não a goze. - Talvez sim. - E tantos suores, e trabalhos, e crimes, e injustiças, sem
jamais arrancar à fortuna, a quem te devotas, senão um mísero talvez! Tenha em mente que nada há de seguro para
ti, nem mesmo um túmulo para nele gravar teus títulos de soberbo, as únicas testemunhas da grandeza abatida: a
avareza ou a negligência dos herdeiros talvez os recusem à tua memória, pois que mal pensarão em ti anos depois de
tua morte! Certas são as penas da rapina, a vingança eterna das concussões e da ambição infinita. Ó dignos restolhos
da grandeza! Ó belos escolhos da fortuna; ó loucura, ó ilusão, eis a estranha cegueira dos filhos dos homens!
Cristãos, meditai nessas coisas; Cristãos, seja quem for, se acreditais vos apoiar nesta terra, valei-vos deste
pensamento para encontrar a solidez e a consistência. Sim, o homem deve ter um apoio, mas não se podem
amesquinhar os desejos a horizontes tão estreitos como os desta vida; antes, deve inculcar-se a eternidade. Com
efeito, o homem cuida, dentro do possível, para que o fruto de seu trabalho não tenha fim; ele não pode viver para
sempre, mas deseja que sua obra subsista para sempre: esta obra é a fortuna, de que cuida, dentro do possível, para
que os séculos vindouros a vejam como ele a engendrou. Na alma humana, existe um desejo ávido por eternidade;
caso o homem saiba aplicá-lo, está salvo. Mas ele erra na hora de aplicá-lo e naquilo que ama: se ama os bens
perecíveis, nisto medita a eternidade; assim, esforça-se em buscar apoios de todos os lados para este edifício caduco,
apoios também eles tão caducos, que o edifício parece vacilar. Ó homem, desengana-te: se amas a eternidade,
busca-a em si mesma, não acredites que possas aplicar a sua consistência inquebrantável nesta água passageira,
nesta areia movediça [que é a vida presente]. Ó eternidade, estás só em Deus; melhor, ó eternidade, és o próprio
Deus! É aí que vou buscar meu apoio, meu estabelecimento, minha fortuna, meu repouso certo, nesta e noutra vida.
Ámen.

Tradução: Permanência

"Limitar-me-ei a perguntar a essas almas ambiciosas por que caminhos pretendem se distinguir. O do vício é
vergonhoso; o da virtude, longo. De ordinário, a virtude não é muito ardilosa para conquistar o favor dos homens; e o
vício, sempre preparado para a obra, é mais ativo, mais instante, mais pronto que a virtude, que não se desvia das
regras, que só caminha a passos contados, que só progride com medida. Desta feita, estareis entediados de tamanha
lentidão; a pouco e pouco, vossa virtude fraquejará, e após ela abandonará aquela regularidade primitiva,
acomodando-se aos humores do mundo. Ah!, como seria sábio se renunciásseis duma vez por todas a ambição!
Talvez ainda ela vos causasse alguma pequena aflição, mas sempre a compraríeis pelo preço justo, sendo-vos mais
fácil suportá-la agora, que quando vos abandonáveis às delícias das honrarias e dignidades. Vivei contentes do que
sois, e sobretudo que o desejo de obrar o bem não vos faça almejar uma condição mais subida."

Sermão sobre a Ambição, Jacques-Benigne Bossuet


"Assim vede, Senhores, quanto a fortuna é enganosa, porque, em vez de conferir o poder, tira-nos até a
Liberdade.Não é por acaso, Senhores, que o Filho de Deus ensina-nos a temer os grandes efeitos; o poder é princípio
ordinário de extravio: exercendo-o nos outros, freqüentemente perdemos a nós mesmos; enfim, o poder é
semelhante ao vinho perfumado, que embriaga até os mais sóbrios. O que souber refrear a ambição será mestre de
suas vontades, e acreditar-se-á suficientemente poderoso, à condição que possa regrar os desejos, e se desengane
dos negócios humanos, para não mensurar a felicidade pela elevação de sua fortuna."

Sermão sobre a Ambição, Jacques-Bénigne Bossuet

"Prodigiosa cegueira da Idolatria antes da vinda do


Messias"
DISCURSO SOBRE A HISTORIA UNIVERSAL PARA EXPLICAR A CONTINUAÇÃO DA RELIGIÃO

Pelo Senhor

JACOB BENIGNO BOSSUET,

Bispo de Moz

COIMBRA

Na Regia Typogr. Da Univers.

M.DCC.XC

Com Licença da Real Meza da Commissão Geral

Sobre Exame, e Censura dos Livros.

CAPITULO XVI

Prodigiosa cegueira da Idolatria antes da vinda do Messias

"Como com tudo a conversão da gentilidade era uma obra reservada para o Messias, e o próprio carácter da sua
vinda; o erro, e a impiedade prevaleciam por toda a parte. As Nações mais perspicazes, e mais sábias, os Caldeus, os
Egípcios, os Fenícios, os Gregos, os Romanos eram os mais ignorantes, e cegos na Religião: tanto é certo, que para
entrar nela se precisa de uma graça particular, e de uma sabedoria mais que humana. Quem se atreveria a contar as
cerimónias dos deuses imortais, e os seus mistérios impuros? Seus amores, suas crueldades, seus zelos, e todos os
seus outros excessos eram o assunto das suas festas, dos seus sacrifícios, dos hinos que se lhes cantava, e das
pinturas que se lhes consagrava nos seus Templos. Assim o crime era adorado, e reconhecido necessário ao culto dos
deuses. O mais grave dos Filósofos proíbe beber com excesso, excepto nas festas de Baco, e em honra deste deus.
Outro depois de haver severamente condenado todas as imagens desonestas, exceptua as dos deuses, que queriam
ser honrados por estas infâmias. Não se pode ler sem assombro as honras que se devia dar a Vénus, e a prostituição
que eram estabelecidas para a adorar. A Grécia toda polida, e sábia como era, havia recebido estes mistérios
abomináveis. Nos casos apertados os particulares, e as Repúblicas votavam a Vénus as Cortesãs, e a Grécia não se
envergonhava de atribuir a sua salvação ás súplicas que elas faziam á sua deusa. Depois da derrota de Xerxes, e dos
seus formidáveis exércitos, pôs-se no templo um quadro em que estavam representados os seus votos, e as suas
procissões com esta inscrição de Simónides Poeta famoso: Estas tem rogado á deusa Vénus, a qual por sua
intercessão salvado a Grécia.

Se era preciso adorar o amor, devia ser só o amor honesto; mas não era assim. Sólon, quem o poderia crer, e
escaparia e escaparia de um tão grande nome uma tão grande infâmia? Sólon, digo eu, estabeleceu-o em Atenas o
templo de Vénus a prostituta, ou do amor impudico. Toda a Grécia estava cheia de templos consagrados a este deus,
e o amor conjugal não tinha um em todo o país.

Com tudo detestavam o adultério nos homens, e nas mulheres: a sociedade conjugal era sagrada entre eles. Mas
quando se aplicavam á religião pareciam como possuídos por um espírito estranho, e a sua luz natural os
desamparava.
A gravidade Romana não tem tratado a religião mais seriamente, pois que consagrava á honra dos deuses as
impurezas do teatro, e os sanguinolentos espectáculos dos gladiadores; isto é, tudo o que se podia imaginar mais
corrupto, e bárbaro.

Mas não sei se as loucuras ridículas que se misturavam na religião eram ainda mais perniciosas, pois que lhe
conciliavam tanto desprezo. Podia-se guardar o respeito que é devido ás cousas divinas no meio das impertinências
que continham as fábulas, cuja representação, ou lembrança faziam uma tão grande parte do Culto divino? Todo o
serviço público não era mais que uma contínua profanação, ou antes uma deri[?]ão do nome de Deus; e era forçoso
que apra isto concorresse alguma potência inimiga deste nome Sagrado, que, havendo empreendido envilece-lo,
impelisse os homens ao empregarem em coisas tão desprezíveis, e até em dá-lo prodigamente a sujeitos tão
indignos.

É verdade que os Filósofos tinham por fim reconhecido que havia outro Deus diferente daquele que o vulgo adorava;
mas não se atreviam a confessá-lo. Pelo contrário Sócrates dava por máxima, que cada um seguisse a religião do seu
país. Platão seu discípulo, que via a Grécia, e todos os Países do mundo cheios de um culto néscio, e escandaloso,
não deixa de pôr como um fundamento da sua República, que nada se deve mudar na religião que se acha que se
acaba estabelecida, e que pensar nisso é haver perdido o juízo. Filósofos tão graves, e que disseram tão belas coisas
sobre a natureza divina, não se tem atrevido a opor-se ao erro público, e tem perdido a esperança de o poderem
vencer. Quando Sócrates foi acusado de negar os deuses que o público adorava, disto se defendeu como de um
crime; e Platão falando do deus que havia formado o mundo, diz que é difícil achá-lo, e que é proibido declará-lo ao
povo. Protesta jamais não falar dele senão em Enigma, receando expor uma tão grande verdade é zombaria.

Em que abismo estava o género humano, que não podia suportar a menor ideia do Verdadeiro Deus? Atenas a mais
formosa, e sábia de todas as Cidades Gregas, tomava por Ateístas os que falavam das coisas intelectuais, e esta é uma
das razões que havia feito condenar a Sócrates. Se alguns Filósofos se atreviam a ensinar que as estátuas não eram
deuses como entendia o vulgo, viam-se obrigados a desdizer-se: ainda depois disto eram banidos, como ímpios, por
sentença do Areópago. Toda a terra estava possuída do mesmo erro : a verdade não se atrevia a aparecer nela. O
Deus Criador formou o mundo não tinha Templo nem culto senão em Jerusalém. Quando os Gentios para aí
enviavam as suas ofertas, não faziam outra honra ao Deus de Israel, mas que a de o ajuntarem aos deuses. Somente
a Judeia conhecia o seu Santo, e severo zelo, e sabia que repartir a Religião entre ele, e os outros deuses, era destruí-
la."

Bossuet Deus

Bossuet - Do conhecimento de Deus e de si mesmo


Excertos de "O Tema do Homem" de Julián Marías

A REFERÊNCIA A DEUS

Deus, que criou a alma e o corpo e os uniu de uma maneira tão íntima, faz-se conhecer a si mesmo nesta formosa
obra. (...)

Podemos definir a alma racional como uma substância inteligente nascida para viver em um corpo e estar
intimamente unida a ele.

O homem inteiro está compreendido nesta definição, que começa pelo melhor que tem, sem esquecer o que tem de
menor, e faz ver a união de uma a outra coisa. (...)

Começo aqui a conhecer-me melhor do que nunca, ao considerar-me em relação com aquele a quem devo o ser.

Moisés, que me disse estar eu feito a imagem e semelhança de Deus, com esta palavra só, ensinou-me melhor qual é
minha natureza do que o podem fazer todos os livros e todos os discursos dos filósofos.
Eu entendo, e Deus entende. Deus entende que é, eu entendo que Deus é e eu entendo que eu sou. Eis um traço
dessa divina semelhança.

(De la connaissance de Dieu et de soi-même, IV.)

Bossuet Corpo Humano


Bossuet - Do conhecimento de Deus e de si mesmo

O CORPO HUMANO

O que primeiro aparece em nosso corpo é o fato de ser orgânico, isto é, composto de partes dé natureza distinta, que
têm diferentes funções.

Estes órgãos foram-lhe dados para exercer certos movimentos.

Há três classes de movimentos. O de cima para baixo, que nos é comum com todas as coisas pesadas; o de nutrição e
crescimento, que nos é comum com as plantas; o que é exercido por certos objetos, que nos é comum com os
animais. (...)

Para dar nomes a estes três movimentos diversos, podemos chamar o primeiro movimento natural; o segundo,
movimento vital; o terceiro, movimento animal. O que não impede que o movimento animal seja vital, e que um e
outro sejam naturais.

Este movimento que chamamos animal é o mesmo que se chama progressivo, como avançar, retroceder, andar para
um e outro lado.

No mais, parece melhor chamar animal a este movimento que voluntário; porque os animais, que não têm
nem razão nem vontade, o fazem como nós mesmos. (...)

Quando o corpo está em bom estado e em sua disposição natural, isto é o que se chama saúde. A enfermidade, pelo
contrário, é a má disposição do todo ou de suas partes. E se a economia do corpo se altera de tal modo que as
funções naturais cessam totalmente, disto se segue a morte do animal. (...)

Aplicando isto ao corpo do homem — máquina incomparavelmente mais complexa e delicada, porém, no que
o homem tem de corpóreo, pura máquina —, pode-se compreender que morre se as molas principais se corrompem;
se os espíritos, que são o motor, se separam; ou se, estando em bom estado as molas e os espíritos como devem ser,
se impede seu funcionamento por alguma outra causa. (...)

Pelo que se disse, é fácil compreender a diferença da alma e do corpo; e basta considerar as diversas propriedades
que neles observamos.

As propriedades da alma são: ver, ouvir, degustar, cheirar, imaginar, ter prazer ou
dor, amor ou ódio, alegria ou tristeza, temor ou esperança; afirmar, negar, duvidar, razoar, refletir e considerar,
compreender, deliberar, decidir-se, querer ou não querer. Coisas que dependem todas do mesmo princípio, e que
entendemos de um modo perfeitamente distinto sem nomear o corpo, a não ser como o objeto que a alma percebe
ou como o órgão de que se serVe.

A prova de que entendemos distintamente estas operações de nossa alma é que nunca tomamos uma por outra. Não
tomamos a dúvida pela segurança, nem afirmar por negar, nem razoar por sentir; não confundimos a esperança com
o desespero, nem o temor com a cólera, nem a vontade de viver segundo a razão com a de viver segundo os sentidos
e as paixões.
Assim conhecemos distintamente as propriedades da alma. Vejamos agora as do corpo.

As propriedades do corpo, isto é, das partes que o compõem, são ser mais ou menos extensas, agitarem-se depressa
ou mais lentamente, estarem abertas ou fechadas, dilatadas ou contraídas, tensas ou relaxadas, unidas ou separadas
umas das outras, espessas ou tênues, capazes de se insinuarem em certos lugares mais que em outros. Coisas que
pertencem ao corpo e que constituem evidentemente sua nutrição, seu aumento, sua diminuição, seu movimento e
seu repouso.

Basta isto para conhecer a natureza da alma e do corpo e a extrema diferença de uma a outro.

(De la connaissance de Dieu et de soi-même, II.)

Bossuet Conhecimento do Homem


Bossuet - O CONHECIMENTO DO HOMEM

A sabedoria consiste em conhecer-se a Deus e em conhecer-se a si mesmo.

O conhecimento de nós mesmos deve elevar-nos ao conhecimento de Deus.

Para conhecer o homem, deve-se saber que está composto de duas partes, que são a alma e o corpo.

A alma é o que nos faz pensar, entender, sentir, razoar, querer, escolher uma coisa melhor que outra, e um
movimento melhor que outro, como mover-se à direita melhor que à esquerda.

O corpo é essa massa extensa em longitude, latitude e profundidade, que nos serve para exercer nossas operações.
Assim, quando queremos ver, é preciso abrir os olhos; quando queremos apanhar algo, ou estendemos a mão para
dele nos apoderarmos, ou movemos os pés e as pernas, e com elas todo o corpo, para nos aproximarmos.

Há, pois, no homem, três coisas a considerar: a alma separadamente, o corpo separadamente e a união de um a
outra.

Não se trata aqui de fazer um longo razoamento sobre estas coisas, nem de procurar suas causas profundas, mas de
observar e compreender o que qualquer um de nós pode reconhecer refletindo sobre o que acontece todos os dias,
ou a si mesmo, ou aos outros homens a si semelhantes. Comecemos pelo conhecimento do que há em nossa alma.

(De la connaissance de Dieu et de soi-même, prólogo.)

Bossuet Alma Humana


Bossuet - Do conhecimento de Deus e de si mesmo
Excertos de "O Tema do Homem", de Julián Marías
A ALMA HUMANA

Conhecemos nossa alma por suas operações, que são de duas classes: as operações sensitivas e as operações
intelectuais.

Não há ninguém que não conheça o que se chama os cinco sentidos, que são: a vista, a audição, o olfato, o gosto e o
tacto.
Pertencem à vista a luz e as cores; à audição, os sons; ao olfato os odores bons e maus; ao gosto, o amargo e o doce e
as demais qualidades semelhantes; ao tacto, o quente e o frio, o duro e o macio, o seco e o úmido.

A natureza, que nos ensina que estes sentidos e suas ações pertencem propriamente à alma, ensina-nos também
que têm seus órgãos ou seus instrumentos no corpo. Cada sentido tem seu próprio. A vista tem os olhos; a audição
tem os ouvidos; o olfato tem o nariz; o gosto tem a língua e o paladar; só o tacto se estende por todo o corpo e se
encontra em todos os lugares onde há carne.

As operações sensitivas, isto é, dos sentidos, se chamam sentimentos, ou melhor dito, sensações. Ver as cores, ouvir
os sons, degustar o doce e o amargo, são outras tantas sensações diferentes.

As sensações se produzem em nossa alma em presença de certos corpos, que chamamos objetos. Sinto calor em
presença do fogo; só ouço algum ruído ao agitar-se um corpo; sem a presença do sol e dos demais corpos luminosos,
não veria a luz; nem o branco ou o negro, se não estivessem presentes, por exemplo, a neve ou o pixe ou a tinta.
Afastai os corpos mal polidos ou agudos; não sentirei nada áspero nem perfurante. Ocorre o mesmo com as
demais sensações. (...)

O prazer e a dor acompanham as operações dos sentidos: sente-se prazer ao degustar boas iguarias, e dor ao
degustá-las más; e assim com os demais. (...)

São necessárias ainda duas observações sobre as sensações.

A primeira é que, por diferentes que o sejam, há na alma uma faculdade que as pode reunir. Pois a experiência nos
ensina que só se constitui um objeto sensível com tudo o que nos impressiona ao mesmo tempo, inclusive por
sentidos diferentes, sobretudo quando a impressão provém do mesmo lugar. Assim, quando vejo o fogo de certa cor,
sinto o calor que me causa e ouço o ruído que faz, não só vejo essa cor, sinto esse calor e ouço esse ruído, como sinto
essas sensações diferentes como procedentes do mesmo fogo.

Esta faculdade da alma que reúne as sensações. . . chama-se o sentido comum: termo que se transpõe às operações
do espírito, mas cuja significação própria é a que acabamos de indicar.

A segunda coisa que se deve observar nas sensações é que, depois de haverem passado, deixam
na alma uma imagem de si mesmas e de seus objetos; é isto o que se chama imaginar. (...)

Chama-se sentido externo àquele cujo órgão aparece no exterior, e que exige um objeto externo atualmente
presente.

Tais são os cinco sentidos que todos conhecem. Vêem-se os olhos, os ouvidos e os demais órgãos dos sentidos: e não
se pode ver, nem ouvir, nem sentir de nenhum modo sem que os objetos externos que podem impressionar esses
órgãos esteiam presentes do modo que convém.

Chama-se sentido interno aquele cujos órgãos não são visíveis, e que não exige um objeto externo atualmente
presente. Inclui-se ordinariamente entre os sentidos interiores essa faculdade que reúne as sensações, que se chama
o sentido comum, e a que as conserva ou as renova, isto é, a imaginativa. (...)

Desses sentimentos internos e externos, e principalmente dos prazeres e da dor, nascem na alma certos movimentos
que chamamos paixões. (...)

Esses apetites ou essas repugnâncias e aversões se chamam movimentos da alma: não é que mude de lugar ou se
transporte de um ponto a outro, mas que, do mesmo modo que o corpo se aproxima ou se afasta movendo-se,
a alma, com seus apetites ou aversões, se une aos objetos ou deles se separa.
Uma vez assentes estas coisas, podemos definir a paixão como um movimento da alma, que, afetada pelo prazer ou
pela dor sentida ou imaginada em um objeto, persegue-o ou dele se afasta. (...)

As operações intelectuais são as que se elevam acima dos sentidos.

Digamos algo mais preciso. São as que têm por objeto alguma razão que nos é conhecida.

Chamo aqui razão a apreensão ou a percepção de algo verdadeiro, ou que se reputa como tal. O que segue fará
compreender tudo isto.

Há duas classes de operações intelectuais: as do entendimento e as da vontade.

Uma e outro têm por objeto alguma razão que nos é conhecida. Tudo o que entendo se funda em alguma razão; não
quero nada sem que possa dizer qual a razão pela qual o quero.

Não ocorre o mesmo com as sensações, como mostrará o que segue a quem se detiver atentamente na questão.
Digamos antes de tudo o que pertence ao entendimento.

O entendimento é a luz que Deus nos deu para conduzir-nos. Dão-se-lhe diversos nomes: na medida em que inventa
e penetra, se chama engenho: na medida em que julga e dirige para a verdade e o bem, chama-se razão e juízo.

O verdadeiro caráter do homem, que o distingue tanto dos demais animais, é ser capaz de razão. Está inclinado
naturalmente a dar razão do que faz. Assim, o verdadeiro homem será aquele que possa dar boa razão de sua
conduta.

A razão, na medida em que nos afasta do verdadeiro mal do ho-nem, que é o pecado, chama-se consciência.

Quando nossa consciência nos reprova o mal que fizemos, chama-se isto sindérese ou remorso de consciência.

Foi-nos dada a razão para que nos elevemos acima dos sentidos e da imaginação. A razão que os segue e a eles se
submete é uma razão corrompida, que não merece já o nome de razão. (...)

Estamos determinados por nossa natureza a querer o bem em geral; mas temos a liberdade de nossa escolha a
respeito de todos os bens particulares. Por exemplo, todos os homens querem ser felizes, e este é o bem geral que
a natureza pede. Porém, uns põem a felicidade em uma coisa, outros em outra; uns, no retiro, outros,
na vida comum; uns nos prazeres e nas riquezas, outros na virtude.

Relativamente a estes bens particulares temos liberdade de escolha; e isto é o que se chama o franco arbítrio ou o
livre arbítrio.

Ter livre arbítrio é poder escolher uma coisa a outra; exercitar o livre arbítrio é escolhê-la efetivamente.

Assim, o livre arbítrio é o poder que temos de fazer ou não fazer algo; por exemplo, posso falar ou não falar, mover a
mão cu não a mover, movê-la para um lado em vez de o fazer para o outro.

Por isto tenho meu livre arbítrio, e exercito-o quando tomo partido entre coisas que Deus pôs em meu poder.

Antes de decidir-se, entra em razões consigo mesmo sobre o que deve fazer, isto é delibera: e aquele que delibera
sente que tem que escolher.

Assim, um homem que não tenha o espírito corrompido não necessita que se lhe prove seu livre arbítrio, pois o
sente; e não sente que vê ou que percebe os sons ou que razoa com mais clareza, que se sente capaz de deliberar e
de escolher. (...)
Há uma razão ganha já pelos sentidos e por seus prazeres, que, longe de reprimir as paixões, as alimenta e as excita,
Um homem se inflama a si próprio com razoamentos falsos, que fazem mais violento o desejo que tem de vingar-se;
mas estes razoamentos, que não procedem segundo os verdadeiros princípios, não são tanto raciocínios como
extravios de um espírito prevenido e cego.

Por isto dissemos que a razão que segue os sentidos não é uma razão verdadeira, mas uma razão corrompida, que no
fundo não é mais razão do que é um homem um homem morto.

As coisas que se explicaram fizeram-nos conhecer a alma em todas suas faculdades. As faculdades sensitivas foram-
nos apresentadas nas operações dos sentidos internos e externos, e nas paixões que deles nascem; e as faculdades
intelectuais se nos apareceram também nas operações do entendimento e da vontade.

Embora possamos dar a estas faculdades nomes diferentes de acordo com suas diversas operações, isto não nos
obriga a considerá-las como coisas diversas. Pois o entendimento não é outra coisa que a alma enquanto concebe;
a memória não é outra coisa que a alma enquanto retém e recorda; a vontade não é outra coisa que
a alma enquanto quer e escolhe.

Do mesmo modo. a imaginação não é outra coisa que a alma enquanto imagina e representa as coisas do modo que
se disse. A faculdade visual não é outra coisa que a alma enquanto vê; e assim as demais. De sorte que se pode
entender que todas estas faculdades são no fundo a mesma alma, que recebe diversos nomes devido a suas
diferentes operações.

(De la connaissance de Dieu et de soi-même, I)

Quis Deus, no entanto, que naturezas tão diversas estivessem estreitamente unidas. (...)

Esta união admirável de nosso corpo e nossa alma é a que temos que considerar. E embora seja difícil e talvez
impossível ao espírito humano penetrar seu segredo, vemos algum fundamento dela nas coisas que foram ditas.

Distinguimos na alma duas classes de operações: as operações sensitivas e as operações intelectuais; umas ligadas à
alteração e ao movimento dos órgãos corporais, outras superiores ao corpo e nascidas para governá-lo.

Pois é visível que a alma se encontra sujeita por suas sensações às disposições corporais, e não é menos claro que,
mediante o comando da vontade, guiada pelainteligência, move os braços, as pernas, a cabeça e, por último, conduz
todo o corpo.

Porque se a alma fosse simplesmente intelectual, estaria de tal modo acima do corpo, que não se saberia por onde
referir-se a ele; mas por ser sensitiva, isto é, unida ao corpo, e portanto encarregada de velar por sua conservação e
defesa, foi necessário estar unida ao corpo por aquele ponto ou, dizendo melhor, por toda sua substância, visto que
é indivisível e se podem distinguir suas operações, mas não dividi-la em seu fundo. (...)

Segue-se daí que a alma, que move os membros de todo o corpo por sua vontade, governa-o como uma coisa que
lhe está intimamente unida, que a faz sofrer, a si mesma, causa-lhe prazeres e dores extremamente vivos.

Ora, a alma só pode mover o corpo por sua vontade, que naturalmente não tem nenhum poder sobre o corpo, como
o corpo não pode naturalmente nada sobre a alma, para fazê-la feliz ou desditada; pois ambas as substâncias são
de natureza tão diferente, que uma nada poderia sobre a outra se Deus, criador de ambas, não houvesse unido por
sua vontade soberana essas duas substâncias, mediante a dependência mútua de uma em relação à outra: o que é
uma espécie demilagre perpétuo, geral e permanente, que se manifesta em todas as sensações da alma e em todos
os movimentos voluntários do corpo. (...)
Depois das reflexões que fizemos sobre a alma, sobre o corpo e sobre sua união, podemos agora nos conhecer bem.
(...)

Assim, pode-se dizer que o corpo é um instrumento de que a alma se serve a vontade; e por isto Platão definia
o homem deste modo: O homem, diz, é umaalma que se serve do corpo.

Poderia-se inferir daí a extrema diferença entre o corpo e a alma; porque não há nada mais diferente que aquele que
se serve de algo e a coisa mesma de que se serve.

A alma, pois, que se serve do braço e da mão como lhe apraz, que se serve de todo o corpo, ao qual conduz onde
deseja, que o expõe aos perigos que quer e a sua destruição certa, é sem dúvida de uma natureza muito superior a
esse corpo, a quem faz servir de tantas maneiras e tão dominadoramente a seus desígnios.

Assim, não se erra quando se diz que o corpo é como o instrumento da alma. E não é de estranhar que, se
o corpo está em má disposição, a alma realize pior suas funções. A melhor mão do mundo, com uma pena má,
escreverá mal. Se tirais a um trabalhador seus instrumentos, sua habilidade natural ou adquirida de nada lhe servirá.

Há, não obstante, uma diferença extrema entre os instrumentos ordinários e o corpo humano. Se se romper o pincel
de um pintor ou o cinzel de um escultor, não se sente os golpes que se lhes deu; a alma, porém, sente todos os que
ferem o corpo; e, ao contrário, sente prazer quando se lhe dá o que necessita para manter-se.

O corpo não é, pois, um simples instrumento aplicado exteriormente, nem uma nave que a alma governe como um
piloto. Seria assim se fosse simplesmente intelectual; mas, por ser sensitiva, tem que se interessar de um modo mais
particular pelo que o afeta, e governá-lo, não como uma coisa estranha, mas como uma coisa natural e intimamente
unida.

Em uma palavra, a alma e o corpo juntos constituem um todo natural, e há entre as partes uma comunicação
perfeita e necessária.

(De la connaisance de Dieu et de soi-même, III.)

http://www.sophia.bem-vindo.net/tiki-index.php?page=Bossuet+Uni
%C3%A3o+Alma+e+Corpo&structure=Cristologia

Onde Posso Encontrar a Felicidade?

“Senhor, dai-nos sempre esse pão” (Jo. 6, 34), esse pão do qual haveis dito que dá a vida eterna. É o que dizem os
Judeus; e exprimem destarte o desejo de toda a natureza humana, ou, antes, de toda a natureza inteligente. Ela quer
viver eternamente; quer não sentir falta de nada; numa palavra, quer ser feliz.

É ainda o que exprimia a Samaritana, quando, havendo-lhe Jesus dito: “Ó mulher! Aquele que bebe da água que Eu
dou nunca tem sede”, responde ela logo: Senhor, dai-me essa água, para que eu nunca tenha sede e não seja
obrigada a vir aqui tirar água, num poço tão profundo, com tanto custo. Repito, a natureza humana quer ser feliz;
não quer ter nem fome nem sede; não quer ter necessidade alguma, desejo algum a satisfazer, trabalho algum,
fadiga alguma; e isto, que outra coisa é senão ser feliz?

Eis o que quer a natureza humana, eis o seu fundo. Ela se engana nos meios; tem sede dos prazeres dos sentidos;
quer exceder; tem sede das honras do mundo. Para conseguir uns e outros, tem sede das riquezas; a sua sede é
insaciável; ela pede sempre, e nunca diz basta; sempre mais e sempre mais. É curiosa; tem sede da verdade, mas não
sabe onde achá-la, nem qual verdade pode satisfazê-la; apanha dela o que pode por aqui, por acolá, por bons, por
maus meios; e, como toda alma curiosa é leviana, deixa-se enganar por todos aqueles que lhe prometem essa
verdade que ela busca.
Quereis nunca ter fome, nunca ter sede? Vinde ao Pão que não perece, e ao Filho do Homem que vo-lo administra; à
sua Carne, ao seu Sangue, onde está conjuntamente a verdade e a vida, porque é a Carne e o Sangue, não do filho de
José, como diziam os Judeus, mas do Filho de Deus. “Ó Senhor, dai-me sempre esse pão!” Quem é que não tem fome
dele? Quem é que não quer se sentar à vossa mesa? Quem poderia jamais deixá-la?

Mas, para nos aguilhoar mais do desejo de nos aproximarmos dela, Jesus Cristo diz-nos, que não é coisa fácil ou
comum. Há que ser amado por Deus, tocado, puxado, prevenido, escolhido. Vede quantos dos seus ouvintes se
afastam dEle, quantos murmuram, quantos se escandalizam! Os seus próprios discípulos retiram-se-lhe da
companhia; há mesmo entre seus apóstolos, uns que não creem. Quanto mais esses infiéis se desviam, tanto mais os
verdadeiros discípulos devem aproximar-se.

Vinde, escutai, segui o Pai que vos puxa, que vos ensina interiormente, que vos faz sentir vossas necessidades, e em
Jesus Cristo o verdadeiro meio de saciá-las. Comei, bebei, vivei, alimentai-vos, contentai-vos, saciai-vos. Se fordes
insaciáveis, seja dEle, da sua verdade, do seu amor; porquanto a Sabedoria eterna diz, falando de Si própria: Os que
Me comem ainda terão fome, e os que Me bebem ainda terão sede. Oh! Acabamos de ouvir da boca dEle: Aquele que
bebe da água que Eu der, nunca terá sede; e ainda: Aquele que vem a Mim, nunca terá fome, e aquele que crê em
Mim, nunca terá sede. Jamais terá fome nem sede de outra coisa senão de Mim; mas terá uma fome e uma sede
insaciável de Mim, e nunca cessará de desejar-Me. Ao mesmo tempo que será insaciável, será todavia, saciado,
porque terá a boca na Fonte: “Os rios de água viva sair-lhe-ão das entranhas. A água que Eu lhe der tornar-se-á nele
uma fonte de água borbotante para a vida eterna”.

Ele terá, pois, sempre sede da Minha verdade; mas também poderá sempre beber, e Eu o conduzirei à vida em que
ele nem siquer terá mais que desejar, porque Eu o rejubilarei pela beleza da Minha Face, e lhe satisfarei todos os
desejos.

“Vinde, pois, Senhor Jesus, vinde; o Espírito diz sempre: Vinde; a Esposa diz sempre: Vinde. Vós todos que escutais,
dizei: Vinde, e aquele que tem sede venha; venha quem quiser receber gratuitamente a água viva. Vinde, não se
exclui ninguém. Vinde, não custa nada, só custa querer. Tempo virá em que já não se dirá: Vinde. Quando esse
Esposo tão desejado vier, então, não precisaremos mais dizer: Vinde. Diremos eternamente: Amém, assim é, está
tudo cumprido; Aleluia, louvemos a Deus; Ele fez bem todas as coisas; fez tudo o que prometera, não há mais, senão,
que louvá-lO.

Fonte: Bossuet, “A Eucaristia”, da Coleção Boa Imprensa, Cap. V, pp. 31-34; Livraria Boa Imprensa, Rio de
Janeiro, 1942.

BOSSUET SOBRE LA IGLESIA


PENSAMIENTOS CRISTIANOS Y MORALES

(El principio de la Religión restablecida


por la Iglesia como remedio teológico
universal es absolutamente anti-ecumenista)

“En vano se busca en la medicina un remedio único y universal que restituya la naturaleza a su verdadera
constitución hasta el punto de poder curarla de todas sus enfermedades. Lo que no se encuentra en la medicina, se
encuentra en la Ciencia Sagrada. Cada herejía tiene su remedio particular; el remedio general es el amor de la
Iglesia, que restablece tan dichosamente el principio de la religión, que encierra enteramente en si mismo la
condena de todos los errores, la abominación de todos los cismas, el antídoto de todos los venenos, por fin la
curación infalible de todas las enfermedades."

La antedicha exposición del gran predicador francés da una noción de la Iglesia diametralmente opuesta a la
montiniana de "Iglesia=diálogo". Y si el amor de la Iglesia implica por fuerza la condena de todos los errores y la
Megasecta Postcatólica odia esa condena (desde la apertura del Concilio Vaticano II por Roncalli), la Megasecta
Postcatólica odia el amor de la Iglesia, luego odia a la Iglesia y desea que no sea. Luego, más que obviamente, la
Megasecta Postcatólica no es la Iglesia Católica.
Bossuet dice, además, estas palabras hermosas sobre la Iglesia verdadera:

“¿Qué es la Iglesia? Es la asamblea de los hijos de Dios, el ejército del Dios viviente, su reino, su ciudad, su templo, su
trono, su santuario, su tabernáculo. Digamos algo más profundo: la Iglesia es Jesucristo; pero Jesucristo difundido y
comunicado.”

http://www.catolicosalerta.com.ar/iglesia-catolica/bossuet.html

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