Sie sind auf Seite 1von 529

AO TEU ENCONTRO

Daniel & Ana – Livro 1


Série Mensagens de Amor – Livro 1
O Livro 2 de Daniel & Ana, intitulado “Lutarei Por Você” e que faz parte da
Série Mensagens de Amor, também está disponível para leitura na Amazon.
Leia aqui: https://goo.gl/UznN2p

Lettie S.J.
www.lettiesj.com

Copyright © 2017 Lettie S.J.


Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998.

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais, em que todos os nomes,
personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação
da autora. Qualquer semelhança com nomes, pessoas ou outros fatos reais é
mera coincidência.

Capa: Rebecca Adrião


Créditos da Imagem: AleksandarNakic
Revisão e Diagramação: Lettie S.J. e Rebecca Adrião
São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução (total ou parcial) de
qualquer parte deste livro sem a prévia autorização por escrito da autora,
sejam quais forem os meios empregados, tangível ou intangível (eletrônicos,
mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros).
A violação dos direitos autorais é crime e punível – Artigo 184 do Código
Penal.
Edição Digital - Portugal
ÍNDICE
Índice
Nota da Autora
Agradecimentos
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Epílogo
Lutarei Por Você – Daniel & Ana Livro 2
Sob o Olhar de Iris (Livro Único)
Linhas do Destino – Angélica & Lorenzo - Livro 1
O Anjo de Loki – Angélica & Lorenzo Livro 2
Biografia e Contatos da Autora
NOTA DA AUTORA

Neste romance, vocês vão acompanhar algumas limitações que a


personagem Ana Cabral tem por conta da Dislexia, que não é uma doença,
mas sim “um transtorno na área da leitura, escrita e soletração, que pode
também ser acompanhado de outras dificuldades, como por exemplo, na
distinção entre esquerda e direita, na percepção de dimensões (distâncias,
espaços, tamanhos e valores), na realização de operações aritméticas
(discalculia) e no funcionamento da memória de curta duração”. Alguns
acumulam a dislexia com déficit de atenção, hiperatividade, entre outros.
Normalmente, essas pessoas compensam suas limitações com talentos
artísticos, tornando-se geniais naquilo que fazem. Existem vários tipos de
dislexia, com graus diferentes também (leve, moderada ou grave), variando
de pessoa para pessoa, não havendo disléxicos iguais.
Existem vários famosos assumidamente disléxicos (as informações
que seguem são de domínio público).
Tom Cruise, para realizar seu trabalho, conta com a ajuda de outras
pessoas. Alguém lê o roteiro para o ator, ele grava e depois ouve a gravação
para decorar as falas. Passou por quinze escolas em doze anos, sempre com
aulas de reforço.
Patrick Dempsey, ator da Série Anatomia de Grey, disse que até hoje
luta com a memorização das falas: “Acho que nessas horas é que me sinto
mais inseguro…é muito difícil para mim ler o que está na página. Preciso
memorizar para seguir em frente… Se não conseguia ler uma fala, alguém
lia para mim…eu luto com a ansiedade cada vez que sento para ler um
texto”.
Walt Disney, outro disléxico, chegou a ouvir: “Desista, porque você
não tem futuro”. O sucesso ajudou-o a superar a infância difícil, com
problemas de leitura e baixa autoestima.
Albert Einstein era um gênio, mas foi uma criança de raciocínio lento
e grande timidez por conta da dislexia. Chegou a ouvir um professor dizer-lhe
em sala de aula que jamais chegaria a servir para alguma coisa, por ter
dificuldade de memorização.
Enfim, espero com este romance ajudar as pessoas a compreenderem
que podemos ser diferentes, mas no fundo somos iguais, porque todos nós
temos nossas limitações, sejam elas quais forem. Entender o outro hoje, pode
significar ser entendido amanhã. Na vida, nada acontece por acaso.
AGRADECIMENTOS

Não poderia deixar de iniciar agradecendo ao amor e compreensão dos


meus filhos, Luis Carlos e Rebecca. Repito mais uma vez que sem vocês
minha vida não seria um conto de fadas. Amo-vos!
Não há palavras para agradecer a Deus e minha mãe (in memoriam).
O que vai no meu coração já diz tudo.
Minhas leitoras estão sempre presentes em meus agradecimentos
também, porque sem elas eu não seria esta autora feliz e realizada. Vocês são
a melhor companhia para trocar figurinhas sobre romances e adoro nossos
momentos de interação nas redes sociais. Muito obrigada, meus amores.

Lettie S.J.
PRÓLOGO

Fortaleza – Julho de 2011

Ana
Aquela era minha música preferida e quando ouvi os primeiros
acordes de Firework da Katy Perry, comecei a cantar com ela.
— Esteja atenta, Ana! Pare de cantar e não se distraia com nada!
Meu pai estendeu a mão e desligou o som do carro. Torci a boca de
irritação e olhei para ele.
— Pai, deixa pelo menos a música tocar. Me acalma!
Ele balançou a cabeça em negativa, a determinação estampada no
rosto.
— Vai é distrair você, isso sim! – manteve-se firme – Olhe para a
frente e não para mim! Já vamos entrar na próxima à direita.
— Não sei porque tanto estresse. Se eu já tenho a carteira de motorista
é porque sei dirigir – tentei fazê-lo entender que estava exagerando com
tantos cuidados.
Ele me olhou com aquela expressão séria de sempre, mas eu sabia que
no fundo todo aquele cuidado era excesso de amor por mim.
— Você só conseguiu tirar a carteira agora aos dezenove anos e
mesmo assim só a tem há poucos meses. Mas já está se achando muito
experiente no trânsito!
Tamborilei os dedos no volante, começando realmente a ficar nervosa
quando antes estava até calma.
Não gostava de lembrar das minhas limitações, mas todas as vezes que
eu conseguia esquecer que as tinha, algo ou alguém esfregava tudo de volta
na minha cara.
"Ana, Ana, cara de banana!"
— Talvez eu seja mesmo uma banana! – ruminei comigo mesma, mas
ele ouviu e irritou-se.
— Você não é uma banana e quem disser isso vai se ver comigo! –
ameaçou com raiva.
Escondi um sorriso, porque sabia que meu pai era capaz de assustar
seriamente qualquer pessoa que falasse mal de mim.
— Ei! Tem alguém aí? – olhei para os lados, fingindo procurar as
pessoas ao redor do carro – Não fujam! Voltem! Ele não vai bater em vocês!
Ele estourou numa gargalhada divertida, dando um puxão suave no
meu cabelo.
— É para fugirem mesmo, porque não vou deixar ninguém falar mal
da minha Aninha! – apontou com a mão para a próxima entrada à esquerda –
Agora preste atenção ao trânsito ou não deixarei que dirija sozinha.
Virei para a rua que indicou e segui em frente. Apesar de ainda ser
oito horas da noite e a rua estar iluminada, não havia muito movimento por
ali. Morávamos em um bairro nobre e nossa vizinhança era relativamente
calma, principalmente naquele horário, quando todos já tinham chegado do
trabalho e estavam jantando.
Vi nosso prédio no fim da rua e fui diminuindo a velocidade, até que
ouvi uma batida forte no vidro da minha janela. Olhei assustada e vi um rapaz
que parecia ter a minha idade dando pancadas com o cano de um revólver,
que prontamente apontou para mim.
— Pai! – chamei em pânico, mas ele já tinha visto o que se passava,
porque do seu lado havia um outro adolescente armado.
— Sai! Sai! Sai!
Apesar das vozes estarem abafadas pelo vidro fechado da janela, deu
para entender perfeitamente o que queriam, pois gesticulavam nervosamente
com a mão armada, mandando que saíssemos do carro.
— É melhor descermos – meu pai disse baixinho – E afaste-se logo do
carro assim que sair.
Eu estava paralisada.
Meu pai ergueu as mãos para o alto, mostrando que íamos descer. Ele
levou a mão à maçaneta e eu sabia que tinha que fazer o mesmo, mas não
conseguia soltar a direção do carro.
Então percebi que também tinha que descer e me forcei a tirar as mãos
da direção. Mas em algum momento meu cérebro disse uma coisa e meu
corpo respondeu outra, porque sem querer apertei o pé no acelerador do carro
ainda ligado e ele deu uma guinada para a frente, assustando nós quatro.
Ouvi um disparo e gritei junto com o som, aquele tiro parecendo o
grito da morte anunciando uma desgraça em minha vida. Senti um peso cair
sobre meu colo e quando vi era o meu pai, com um pequeno orifício nas
costas.
Por um momento fiquei calada, estática, entorpecida, mas depois
gritei, gritei e gritei como uma desesperada, totalmente histérica.
Ouvi passos correndo e só depois percebi que eram os adolescentes
que tentaram nos assaltar fugindo pela rua.
Os meus gritos e o som do tiro atraíram a atenção do segurança do
meu prédio e dos prédios vizinhos, que vieram nos socorrer. Eu não sei
durante quanto tempo gritei, mas quando dei por mim estava no hospital, com
um cateter no braço injetando um remédio qualquer para dentro de mim.
Meus tios e primos estavam no quarto comigo.
Olhei para eles, ansiosa para saber do meu pai.
Minha tia aproximou-se e segurou minha mão.
— Meu p-pai! – falar custou um esforço enorme porque minha
garganta doía, mas a ansiedade era maior.
— Saiu da cirurgia agora e parece que vai ficar bem.
Mas ele não ficou bem, porque nunca mais voltou a andar.
Por minha culpa!

***

Um ano depois
— Você vai embora? – gritei, revoltada com minha mãe – Você vai
embora e deixar a gente assim?
— Vou! – ela gritou de volta, andando nervosamente pela sala do
nosso apartamento na Aldeota – Eu não aguento mais! Isso não é vida e
quero viver!
Eu quase não acreditava no que estava ouvindo.
Olhei sua figura elegante cruzar o espaço entre os móveis,
movimentando-se em cima dos saltos altos. O rosto marcante tinha aquela
expressão arrogante de sempre.
— Já não amo mais seu pai. Já não tenho vida própria, só cuidando
dele o tempo todo. Estou me acabando, o dinheiro está acabando e já não nos
resta mais nada!
Meus Deus, quanto egoísmo!
Ver minha própria mãe daquela forma me fez sentir mal, mas a
verdade é que ela era uma egoísta.
— E vai nos abandonar? – gemi desesperada – Como é que vou cuidar
dele sozinha?
— Sua tia vai ajudar, como sempre fez.
Era mentira, porque tia Sílvia trabalhava no Banco e apenas no final
da tarde podia passar lá em casa para ver como o irmão estava, ajudando
muito pouco nos cuidados diários que meu pai precisava.
— E para onde você vai? – não fazia idéia do que ela pensava fazer da
própria vida – Pelo menos vai estar perto o suficiente para vir nos ver e
ajudar?
— Não conte comigo – sua voz endureceu, destruindo qualquer
esperança que eu tinha de ainda contar com ela – Vou para bem longe daqui
refazer minha vida. Você já tem vinte anos, é adulta e não precisa mais de
mim.
Ah, preciso sim!
Minha mãe sempre foi independente. Na minha infância, lembro
muito mais do meu pai cuidando de mim do que ela. Era muito bonita e
parecia estar sempre ocupada com alguma coisa, com pouco tempo para
dedicar à família e à casa. Eu até entendo que sua beleza possa ter encantado
meu pai, mas onde estava o amor e o carinho necessários para manter uma
vida a dois?
Mas mesmo sendo uma péssima mãe, eu ainda precisava dela. E meu
pai também!
— Não sei onde seu pai estava com a cabeça quando insistiu para você
aprender a dirigir, quando sabia que não tem nenhum sentido de direção com
esta dislexia. Um perigo! Só podia dar no que deu.
Senti um aperto no peito, já sabendo o que vinha pela frente.
— Agora está inválido em cima de uma cama – ela continuou o
massacre sem piedade nenhuma – Uma disléxica dirigindo! Só na cabeça dele
mesmo! Você mal sabe ler, não tem reflexos, é descoordenada, lenta de
raciocínio e...
Fechei os olhos e bloqueei os ouvidos também, porque não era a
primeira vez que ela me culpava pelo que aconteceu. No último ano, tive que
escutar várias vezes a mesma coisa e naquele momento só conseguia pensar
que se ela fosse mesmo embora, eu nunca mais teria que escutar aquilo
novamente.
Já bastava minha própria culpa! Eu não precisava de alguém me
lembrando o tempo todo que tinha sido a responsável pelo acidente com meu
pai.
CAPÍTULO 1

Abril de 2015 – Quatro anos depois

Ana
— Ana! Ana! Hora do almoço – Beatriz chegou toda esbaforida, me
puxando pelo braço – Para tudo, porque estou morrendo de fome!
Dei uma batidinha suave na mão que segurava meu braço.
— Deixa pegar a bolsa.
Fomos ao nosso restaurante preferido perto do Hospital.
— Tenho novidades e estava ansiosa para te contar – mexeu no
celular, inclinando-se depois para mim – Este é o Walter! Conheci ontem e
gostei dele. Menina, que homem!
Olhei a foto e vi um moreno de sorriso simpático.
— É bonito! De onde é? – perguntei apenas para satisfazer sua
vontade de falar dele, porque a única coisa que eu queria era um prato de
comida.
— É paulista e trabalha como representante comercial, viajando pelo
Brasil. Veio aqui esta semana e aproveitou para me conhecer.
Aquele já era o terceiro do mês? Não, não! Era o quinto. Sim, acho
que era o quinto homem da internet com quem Bia se encontrou só naquele
mês. E ainda estávamos no dia vinte!
Eu não sabia onde estava a graça naquilo. Se os homens que a gente
conhecia de modo convencional já aprontavam, imagina então um
acostumado com namoro de internet!
Mas eu também não era a "experiência" em pessoa. Só tinha tido um
único namorado na vida e mesmo assim ele arranjou outra quando meu pai
ficou tetraplégico, já que eu quase não tinha mais tempo livre para estarmos
juntos.
Mergulhei de cabeça no meu prato, deixando Beatriz falar dos
candidatos dela.
— Aninha, você não vai acreditar no que aconteceu também! – ela
continuou, toda entusiasmada – Recebi o contato de um americano chamado
Jack Spencer. Super lindo, maduro e quer me conhecer! Já imaginou, eu
morando nos Estados Unidos?
— Só consigo imaginar que você surtou de vez! Estados Unidos?
Você deve estar louca! – mas vi que os olhos dela brilhavam – E seus pais? E
o apartamento novo que ainda está pagando, a faculdade, o carro lindo que
tem, além do emprego promissor no Hospital? Acorda, Bia!
— Oh, você é uma estraga-prazeres total! Pelo menos podia me deixar
sonhar! – deu um suspiro de resignação e depois olhou sério para mim –
Agora você é quem devia colocar um perfil no Site, assim encontrava um
namorado e saía dessa vida solitária que leva.
Lá vinha o ataque novamente.
— Já disse que não tenho interesse.
— Você só tem vinte e três anos! – ela insistiu no assunto – Não
namora há três anos e vive dedicada apenas a trabalhar no Hospital e cuidar
do seu pai. Acho que merecia amar e ser feliz.
Olhei para ela, morena e linda, da minha idade e com um currículo
amoroso considerável. Beatriz estava terminando o curso de Administração
Hospitalar e tinha um futuro brilhante pela frente. Já eu tinha terminado com
muito sacrifício e atraso o ensino médio, e não tinha perspectiva nenhuma de
fazer faculdade.
Aquele trabalho na Recepção do Hospital tinha sido um favor que
minha tia Sílvia conseguiu com um cliente do Banco onde trabalhava. Eu
podia dizer que estava lá devido à caridade de um dos Administradores do
Hospital.
— E você acha que vai ser na internet que vou encontrar o príncipe
encantado? – perguntei com ironia.
— Bom, se você aceitasse as investidas do Dr. Rodrigo, poderia se dar
muito bem na vida – ela insinuou, mencionando outro assunto antigo que só
me desagradava.
— Pode ficar com ele. Não tenho interesse.
— Não tenho interesse! Não tenho interesse! – ela repetiu como um
papagaio – Esta é a sua frase preferida. Tem que mudar isso enquanto é
tempo.
Joguei meu guardanapo na mesa e olhei-a, irritada.
— E como vou colocar um perfil na internet, se nem consigo escrever
direito? Vou trocar as palavras e encontrar um homem das carvernas?
— Não se preocupe com isso, boba! Hoje em dia escrever errado é
normal! Todo mundo escreve errado. Eles nem vão notar este detalhe quando
virem seu rosto lindo na foto.
Bufei irritada.
— Esse é o meu medo! Até imagino o tipo de homem que prefere uma
burra bonita.
— Deixe de ser preconceituosa! Tem muitos homens legais, sérios e
até mesmo sinceros em Sites de Relacionamento. É preciso apenas saber
procurar, ter paciência para aguardar e não pegar o primeiro que aparece.
Olhei-a com a surpresa estampada no rosto.
— Você dizendo isso? Quem diria – ironizei, vendo como sorriu e
piscou-me um olho bem maquiado.
— Confesso que também gosto de me divertir lá dentro. Se a pessoa
não estiver desesperada para encontrar alguém a ponto de pegar qualquer um,
até que é engraçado o jogo da busca.
— Estou completamente chocada!
Ela riu, divertindo-se com a situação.
— Vou ajudá-la a colocar o perfil e também faço a revisão do texto
das mensagens. O que acha?
— Não estou a fim de mentir para ninguém!
— E quem disse que vai mentir? As palavras serão suas e as emoções
também. A única coisa que farei é dar uma olhada rápida nas primeiras
mensagens, porque depois que a coisa esquentar entre vocês, não estarei
lendo mais nada ou ficarei vermelha de vergonha.
Desta vez fui eu quem ri com a brincadeira, me divertindo com a sua
forma leve de ver a situação.
— Tudo bem, vou arriscar – decidi rapidamente, sem pensar muito
mais ou acabaria por desistir – Faremos quando?
Ela pegou o celular.
— Agora mesmo, antes que desista! – pareceu ler meus pensamentos
– Vou abrir um perfil para você e como tenho aqui muitas fotos suas,
podemos escolher uma delas.
Apenas por um breve momento voltei a ficar indecisa sobre o que eu
considerava uma loucura, mas depois que vi o entusiasmo de Beatriz, me
deixei contagiar.
— Qual é o Site?
— O que está bombando na internet agora, claro! É lá que estão os
maiores gatos que já vi. Parece que todo mundo está lá, porque já encontrei
vários conhecidos nos perfis de busca que fiz.
Eu estava mesmo desatualizada com as modernidades da minha idade.
— Não faço idéia que Site é esse – confessei – Tem certeza que é
bom? É que não quero encontrar trogloditas sarados. Gosto de homens
inteligentes, cultos e com uma boa conversa. Só músculos não me agradam.
Ela torceu o narizinho quando terminei de falar.
— Se realmente estivesse interessada apenas em inteligência, cultura e
boa conversa, você já estaria namorando com o Dr. Rodrigo. Isso significa
que também gosta de músculos e pegada.
Bufei com irritação ao ouvir aquilo, mas depois pensei bem e
reconheci que era verdade.
— Tudo bem! Então que ele seja um pegador inteligente e culto.
Ela revirou os olhos, me fitando com um sorriso divertido.
— Esse tipo não existe!
— Então nem vale a pena colocar o perfil.
— Vale sim! Para você que não sabe, o Site é o
"@mensagensdeamor" e todo mundo tem um perfil nele. Agora vamos a
isso! Que nome quer usar?
— Ora, o meu mesmo!
Beatriz me olhou com impaciência.
— Se você não quiser que as pessoas saibam que está procurando um
namorado na internet, poderá colocar um nome fictício.
Pensei por um momento, depois decidi.
— Pode colocar Ana Cabral mesmo.
— Certo. Qual sua altura e peso?
— 1,65 e cinquenta e oito quilos.
— Cabelos e olhos castanhos, vinte e três anos – ela ia falando e
digitando, à medida que montava o meu perfil – Nível universitário, gosta de
música, leitura.
Estendi a mão e cobri o visor do celular.
— Bia! Você sabe que tenho dificuldades em ler e escrever, e que não
faço faculdade –alertei seriamente, não querendo iniciar algo com base em
mentiras – Esse tipo de mentira é fácil de ser descoberta.
— Se você quer um homem culto, tem que mostrar cultura também –
me olhou com carinho – Desculpe, querida, mas será só para atrair o perfil
ideal.
— Atrair com mentiras?
— Ana! Todo mundo mente nestes perfis.
— Sei disso, mas não quero ter que mentir e ponto final.
Ela fingiu nem me ouvir, continuando a montar o perfil.
— Amiga, você é insuportável!
— Precisamos de uma pequena descrição de quem você é e o que
procura.
— Não faço idéia do que falar de mim.
— Sou sincera, carinhosa, um pouco tímida às vezes, muito amiga e
romântica – ela falou alto enquanto preenchia o perfil e gostei da descrição
que fez – Agora diga que tipo de homem quer.
— Pode colocar que procuro um relacionamento sério com um
homem culto e inteligente, mas que também tenha muito dinheiro e seja
parecido com o Nick Bateman – brinquei, achando que aquilo tudo não ia dar
em nada – E por favor, que seja daqui de Fortaleza, bem pertinho de mim.
Não quero um namoro à distância. Homens que moram longe demais, como
Rio e São Paulo, eu tô fora. Ah, quero também que sejam rapazes da minha
idade, com no máximo vinte e cinco anos. Não quero esses homens velhos
que você arranja.
Ela não disse nada, apenas continuou concentrada no celular.
Terminei minha sobremesa e fui observar o que ela fazia, constatando
que Beatriz ia acrescentando coisas, tirando outras, mudando de idéia e
alterando tudo de novo. Quando menos percebi, cerca de dez minutos depois,
o perfil estava concluído.
— Pronto, isto é o suficiente – ela deu-se por satisfeita – Gostou da
foto? Você está linda e bem natural.
— Sim, gostei!

***

Nova York – Abril 2015

Daniel
O telefone tocou e vi que era da Presidência.
— Boa noite, Doris.
— Boa noite, Dr. Daniel. O senhor está sendo chamado na
Presidência.
— Avise que já estou subindo.
Quando cheguei no vigésimo andar, Doris me recebeu com um sorriso
profissional.
— Pode entrar. O Dr. Stevens está aguardando.
Todas as vezes que entrava no luxuoso gabinete do Presidente das
Corporações S&Stevens me sentia bem ao saber que não era o único a ter
uma mesa lotada de trabalho, com vários telefones e computadores ao redor.
Nos cumprimentamos com um caloroso aperto de mãos.
O Dr. Scott Stevens era um homem relativamente jovem para o
tamanho do império que comandava, tudo herdado do pai. Era um
empreendedor visionário, um empresário que nas últimas duas décadas havia
triplicado a herança que recebeu.
— Olá, Daniel. Você parece velho e cansado! – brincou comigo, me
fazendo rir pela primeira vez naquele dia exaustivo.
— É exatamente assim como me sinto, Dr. Stevens. Um velho em fim
de carreira!
Ele deu duas batidinhas solidárias nas minhas costas.
— Vamos sentar e conversar – acomodou-se na ponta da mesa e
ocupei a cadeira à sua direita – Somos dois, porque também me sinto uns
vinte anos mais velho. Estou precisando de umas longas férias e faz anos que
não aproveito os poucos dias de descanso que tiro. Victoria e Meghan vivem
reclamando.
Olhou para mim com seus olhos astutos, uma característica muito
marcante que possuía e que o ajudava na hora de analisar seus oponentes.
— Mas você só tem trinta e dois anos. Será que estou exigindo demais
do meu "Homem de Ferro"?
Começamos a rir quando ele citou o apelido como eu era conhecido na
Corporação e que assustava os funcionários de todas as filiais da empresa nos
quatro continentes. Sempre que eu viajava para uma delas, minha fama
seguia na frente, causando um verdadeiro frenesi em todos.
— Estou mais para "Homem de Lata" agora – respondi bem-
humorado, passando a mão pela barba – Mas o que sinto não tem nada a ver
com as exigências do trabalho.
Ele ergueu as sobrancelhas, sem esconder a curiosidade.
— Então só pode ser pessoal. Por acaso tem alguma mulher deixando
você tão cansado assim? Sabe que o considero muito e se tiver algo que eu
possa fazer, é só dizer.
Isso era verdade, mas eu não pretendia aceitar muito mais do que ele
já havia feito por mim. Minha dívida de gratidão crescia assustadoramente
com aquele homem, ainda que eu também tivesse dado cada gota do meu
sangue para aquela empresa nos últimos dez anos.
— Não, não tem nada a ver com mulher. Deve ser alguma crise
existencial, dessas que os psicólogos adoram nos convencer que temos.
Ele apenas balançou a cabeça em assentimento, pensativo.
— Trouxe o relatório do Brasil, como havia pedido – conduzi o tema
para os assuntos da empresa, desviando assim da minha vida pessoal.
— Sim, claro! – voltou a incorporar o grande empresário que era –
Quero que vá urgente ao Brasil. Os valores apresentados não batem com a
previsão financeira que fizemos e sem dúvida está acontecendo alguma
irregularidade lá.
Contive um suspiro cansado quando ouvi aquilo, ao perceber que teria
que viajar novamente quando há menos de quinze dias tinha chegado de
Londres.
— Você é meu homem de confiança e não posso enviar outra pessoa
em seu lugar – ele repetiu a mesma frase que eu ouvia há dez anos – Pode
agir livremente, tem minha total autorização para fazer o que for preciso. Se
comprovar o desvio, quero todos os responsáveis demitidos e exemplarmente
punidos, para que nenhum outro resolva tomar o seu lugar.
Conversamos por mais três horas sobre minha ida ao Brasil. Por volta
das dez e meia da noite já tínhamos definido toda a estratégia para auditar as
demais filiais.
— Esta sua ida ao Brasil é confidencial, por isso nada de viajar em
avião comercial com passagens compradas pelas secretárias. Quero que
chegue lá sem que ninguém saiba, por isso ligue você mesmo para nosso
comandante e agende um de meus jatos para sua viagem.
— Farei isso.
— O que mais precisar, fale unicamente com Doris que ela
providenciará.
***

São Paulo – Abril 2015


Olhei para a Avenida Paulista através da ampla janela de vidro da
minha sala. Já estava em São Paulo há dez dias e amanhã cedo estaria
voltando para Nova York.
Ouvi uma batida na porta.
— Pode entrar.
Uma das secretárias surgiu, dando um sorriso de desculpas.
— A Sra. Doris Hamilton quer falar urgente com o senhor. Diz que
não consegue contato no celular.
Fui até a mesa e peguei o telefone.
— Boa noite, Doris.
— Boa noite, Dr. Daniel. Houve uma alteração no seu horário de voo.
O comandante Armstrong pediu para avisar que aconteceu um problema no
jato e só poderá partir no final do dia – fez uma pausa antes de continuar – É
melhor deixar seu celular ativo.
Entendi a advertência implícita, mas desliguei o celular de propósito
para ter um mínimo de paz, sabendo que ela conseguiria me encontrar no
escritório se fosse realmente urgente.
— Vou entrar em contato com ele para confirmar o novo horário.
Obrigado.
Droga! Teria que passar mais um dia inteiro em São Paulo, quando
não havia mais nada para fazer no Brasil.
Resolvi ir para o Hotel e relaxar um pouco. Horas depois, sentado na
sala com o Notebook ao colo, fechei os mapas estatísticos da empresa e fui
ver meus e-mails pessoais. Tinha mensagem dos meus pais em Espanha, da
minha irmã em França e várias do Banco. No meio delas, uma dizia: O seu
amigo Richard está no "@mensagensdeamor".
Comecei a rir, porque já tinha ouvido falar daquele conhecido Site de
Relacionamento e não podia imaginar o que meu amigo tão certinho e
moralista estava fazendo lá.
Sem ter mais nada de útil para fazer e precisando me distrair de
alguma forma, resolvi só por curiosidade ver o seu perfil. Lá estava ele todo
sorridente, o que me surpreendeu muito. Richard era sério demais e
aparentemente não aprovava aquelas modernidades.
Fui atrás do Site e li "Encontre sua alma gêmea e seja feliz!", junto
com um painel com vários rostos de homens e mulheres. Todos jovens,
bonitos e sorridentes, parecendo tão felizes que não precisavam encontrar
nenhuma alma gêmea para se sentirem melhor. Mas eu tinha que concordar
que aquilo era mesmo muito apelativo, um marketing forte para atrair
usuários.
Considerando que há vários anos minha vida social se restringia a
Richard e uns poucos amigos ligados ao trabalho, eu não era a melhor pessoa
para falar de amizades, ainda mais na internet.
Lembrei das namoradas eventuais e pouco significativas que tive.
Todas surgiram no meu caminho sem grande esforço da minha parte e só
agora, vendo aquele Site de Namoro, me dei conta que havia terminado meu
último relacionamento há mais de três meses. De lá para cá não senti
necessidade de procurar outra mulher, de tão envolvido que estive no
trabalho.
Eu tinha noção que era um workaholic assumido, mas agora me
perguntava se havia algo de errado comigo por não almejar uma alma gêmea
como o resto do mundo.
Num impulso, decidi preencher os campos onde tinha "Conheça
solteiros perto de você". Depois de fazer rapidamente um cadastro com a
pesquisa direcionada para "homem procurando mulher", abriu-se um
universo de mulheres à minha frente e passei um bom tempo vendo
brasileiras desfilando na tela do Notebook.
Algumas eram realmente interessantes, bonitas e sensuais. Sem nem
perceber me deixei envolver na busca, me distraindo ao ler a descrição de
cada uma. Com o tempo, fiquei com a impressão que todas eram iguais e
comecei a saturar daquilo, até que uma foto em especial chamou minha
atenção.
Ela tinha um meio sorriso espontâneo e um olhar suave que parecia
muito sincero, sem malícia alguma. Senti que era uma foto natural, sem
intenção de parecer sedutora e aquilo mexeu comigo de uma forma
inesperada. O rosto estava ligeiramente deitado para o lado, as mãos
segurando os cabelos e uma boca carnuda destacada por um batom
vermelho.
Cliquei em seu perfil.
Ana Cabral, vinte e três anos, Fortaleza. Só tinha 1,65 de altura, muito
mais baixa do que as mulheres americanas. O perfil dizia que era
universitária de jornalismo, gostava de música, leitura clássica e viagens,
além de falar fluentemente o inglês.
A descrição era simples, mas combinou com a impressão que tive
assim que olhei sua foto.
"Sou sincera, carinhosa, um pouco tímida às vezes, muito amiga e
romântica".
Procurava um homem sério, culto, inteligente, maduro e que
valorizasse a fidelidade. Dizia não ter tempo para aventuras, por isso os
aventureiros não perdessem tempo enviando mensagens. Sua intenção era
conhecer homens do Brasil e de outros países, porque não sabia onde sua
alma gêmea estaria. Sua preferência era dos vinte e cinco aos trinta e cinco
anos.
Ela me pareceu madura para a idade que tinha, sabendo bem o que
queria para si mesma, ainda que eu achasse aquela história de alma gêmea
coisa de Alice no País das Maravilhas.
Eu até imaginava que linda do jeito que era, a doce Ana Cabral
receberia muitos contatos e me surpreendi ao constatar que não gostei muito
da idéia.
Senti vontade de conhecê-la e ter certeza se a impressão que tive
condizia com a realidade.
Ana Cabral era muito novinha para mim, mas antes mesmo que
pudesse pensar no que estava fazendo, paguei uma assinatura no Site e enviei
uma mensagem.
CAPÍTULO 2

Fortaleza – Cinco dias depois

Ana
Sentei na cama de Beatriz. Estava entusiasmada, porque íamos
responder as mensagens que recebi no Site.
Apenas hoje, cinco dias depois que criamos o perfil, é que
encontramos tempo para fazê-lo. Era sábado à tarde e como neste horário eu
tinha a Soraia para cuidar do meu pai, ia aproveitar para me divertir um
pouco.
— Até que hora pode ficar comigo?
— Só até às sete, porque Soraia hoje tem reunião na Igreja e precisa
sair mais cedo – olhei ansiosamente para a tela, vendo Bia entrar no
@mensagensdeamor.
Eu não queria admitir, mas no fundo estava curiosa para ver se alguém
tinha enviado algo. Não sei se aquela ansiedade era por conta da solidão em
que eu vivia, mas imaginar que poderia trocar mensagens e vir a conhecer
alguém interessante estava fazendo com que uma inquietação estranha
surgisse dentro de mim.
— Se demorarmos muito, levo você em casa – ela disse, ainda
concentrada no Site – Não sei porque você desistiu de dirigir e vendeu o
carro, preferindo andar de ônibus. É terrível!
Achei melhor não responder, porque aquele assunto ainda doía muito
em mim. Permaneci calada, só observando, até que ela virou para mim com
um sorriso no rosto.
— Eu te falei que Jack voltou a entrar em contato comigo e que já
conversamos?
— Jack? – eu não sabia quem era esse – Que Jack?
Ela fez uma cara triste, mas procurei não me chatear com aquilo,
mesmo sentindo o desconforto habitual de sempre quando percebia não ter
memorizado algo.
— O americano que conheci no Site. Eu falei sobre ele – ela explicou
pacientemente – Aquele super-lindo e maduro, lembra? Falei dele no dia que
montei o seu perfil.
Ah, claro! O tal que ia acabar convencendo a louquinha da minha
amiga a abandonar tudo no Brasil e ir morar com ele nos Estados Unidos.
— Sim, agora lembro – suspirei aliviada – Mas isso foi no começo da
semana e hoje é sábado! Como queria que eu lembrasse dele, se de lá para cá
já falou em três outros homens?
— Bom, mas ele é o único americano. Deixa mostrar a foto dele.
De repente surgiu na tela um homem realmente lindo, com uns
estonteantes olhos azuis e um sorriso de molhar calcinhas.
Agora eu entendia porque ela estava tão entusiasmada.
— Céus! Esse homem existe mesmo? Tem certeza que ele não é um
velhinho gagá usando a foto de um ator de cinema?
Ela deu um soquinho no meu braço.
— Não! É ele mesmo! – garantiu, muito certa do que dizia.
— E como é que você tem certeza disso? Não está lá para ver.
Bia piscou um olho com malícia.
— Já falamos pelo Skype.
Arregalei os olhos de surpresa.
— Já? Tão rápido assim? – indaguei, totalmente chocada.
— Claro que sim, boba! Hoje em dia ninguém mais passa dias
trocando mensagens nos Sites antes de se conhecer. Damos um contato e já
marcamos um encontro.
Fiquei nervosa só de pensar em marcar um encontro com um total
desconhecido, sem antes conversar bastante com ele.
— Isso não é perigoso? – disse logo, porque não pretendia fazer o
mesmo que ela – Sempre ouvi falar que não se deve marcar encontros com
homens de internet de qualquer jeito. Os noticiários já falam por si.
— Não é perigoso se você marcar em um local público. O cara não vai
atacar você dentro de um Shopping lotado – ela saiu abrindo mais três outras
fotos do Jack, sempre com aqueles olhos azuis impactantes – Há perigo se
você marcar o encontro em um local isolado ou entrar no carro dele sem o
conhecer. Eu pelo menos nunca fiz isso.
Fiquei olhando para Jack e me senti um pouco incomodada com ele.
Era lindo demais para minha amiga. Não que ela não fosse bonita e
encantadora, mas aquele era o tipo de homem que não parecia ter problemas
para conseguir qualquer mulher facilmente. Então por que estava em um Site
de Relacionamento procurando uma namorada?
— Você não acha que ele é perfeito demais para estar aqui? – expus
minha desconfiança.
— Eu também pensei nisso quando o vi pela primeira vez, mas depois
que conversamos, entendi o porquê – sorriu com segurança – Jack é
divorciado e teve um casamento traumático que o deixou com receio de tentar
novamente. Disse que a ex-mulher era muito ciumenta e depressiva. Apenas
recentemente encontrou ânimo para procurar alguém. Está há mais de um ano
no Site e ainda não encontrou o que queria. Ele foi bem sincero comigo.
— Tem quantos anos? – pela aparência, devia ter uns trinta e cinco,
por isso era bem mais velho do que ela.
— Trinta e sete.
— Tudo isso?
Era pior do que eu pensava!
Beatriz já tinha feito vinte e quatro, o que significava que existiam
treze anos de diferença entre eles.
— Ele parece bem mais jovem, não é? – ela falou, olhando sua foto
com adoração.
— Sim, sim, realmente parece mais jovem – concordei, mas fui logo
explicando – Mas não é com relação a isso que estou chocada. Ele tem treze
anos a mais que você!
Ela encolheu os ombros com indiferença.
— Eu não me importo com isso nem um pouco! Gostei dele.
Aquilo parecia estar ficando sério da parte dela!
— Ele fala português? – fiquei curiosa, mesmo sabendo que minha
amiga falava fluentemente o inglês, ao contrário de mim, que nunca tinha
conseguido ir além do "Good Morning! How are you?".
Beatriz fez um sinal positivo com a cabeça, mexendo no Notebook.
— Fala sim e você nem vai acreditar no que vou dizer agora! – parecia
entusiasmadíssima ao falar dele, com os olhos brilhando de excitação – Seus
avós maternos eram brasileiros e ele já morou um tempo em São Paulo
quando era adolescente, antes que seus pais voltassem aos Estados Unidos.
Sua primeira esposa era americana, mas quando resolveu procurar outra
mulher, optou por tentar conhecer uma brasileira. Tive a sorte dele me
encontrar.
Realmente parecia uma feliz coincidência e eu só podia torcer para
que minha amiga enfim encontrasse o amor. Bom, mas ele tinha que ser tão
mais velho assim?
— Fico feliz por você! – abracei-a e dei um beijinho carinhoso no
rosto, afinal ela era a minha melhor amiga há quase quatro anos, desde que
entrei no Hospital – Fico triste apenas porque se isso der certo e você for
morar nos Estados Unidos, vou perder minha melhor amiga.
Ela me abraçou de volta com aquela alegria contagiante que me fazia
esquecer um pouco a dura rotina de vida que eu tinha.
— Vamos continuar falando sempre! Você nunca vai deixar de ser a
minha melhor amiga!
Me emocionei com aquilo, porque Beatriz era quase uma irmã para
mim.
— Agora vamos responder aos seus candidatos! – disse, voltando sua
atenção para o Notebook.
Abriu meu perfil e fomos ver as mensagens.
— Oh meu Deus! Olha só quantas! – Bia exclamou, pasma com a
quantidade de mensagens que eu tinha recebido – Você fez sucesso, o que
significa que já deveria ter colocado um perfil há mais tempo. Ver tudo isso
vai dar trabalho e temos pouco tempo. Então, hora de colocar a mão na
massa!
Nos trinta minutos seguintes, fizemos o que a Bíblia dizia e separamos
o joio do trigo. Fiz isso olhando as fotos e aqueles de quem não gostei, disse
para deletar.
Dentro dos que sobraram, ficaram alguns com idade acima da que eu
queria.
— Ninguém respeita o que a gente diz no perfil! – apontei para um
deles – Tem trinta e cinco anos! Dez a mais do que eu pedi.
— Mas você gostou da foto dele.
Olhei o homem moreno que me sorria da tela do computador.
— Sim, é bonito, mas muito mais velho do que eu! Quero rapazes da
minha idade. Não gosto de homens mais velhos como você, apesar de
respeitar a sua preferência.
— Não quer pelo menos ler o que o homem disse? Talvez seja
interessante – insistiu, já abrindo a mensagem.
Ela esperou pacientemente que eu levasse meu tempo para ler, mas a
mensagem era tão pequena que o fiz rápido. Assim que terminei, torci logo a
boca de nojo.
— Que coisa mais ridícula de se dizer. "Então gata, pronta para
conhecer sua alma gêmea?" – imitei a voz de um homem quando li a
mensagem, antes de olhar para ela – Posso responder para ele ir se foder?
Ela tentou ficar séria mas não conseguiu e acabamos rindo juntas.
— Joga esse no lixo e por mim todos os outros velhos vão junto –
disse, olhando as outras mensagens, surpresa com o que via – Este aqui é de
São Paulo, este outro de Santa Catarina, além desse aqui de Minas. Olha, tem
até de Portugal!
Daquele jeito, quando terminassem as mensagens, não ia sobrar
nenhum que fosse parecido com o perfil que pedi.
— É perda de tempo dizer o que a pessoa quer, se os outros não
respeitam isso – apontei meu perfil – Abre aí que eu quero ver o que está
escrito no meu perfil. O Site deve ter errado em alguma coisa. Vamos
consertar.
Ela começou a roer as unhas e vi que estava nervosa, porque aquele
era um cacoete que só fazia quando estava ansiosa ou tinha feito algo errado.
— Vamos primeiro ler as mensagens, depois consertamos o que você
achar que está errado. As horas estão passando rápido.
Abriu outra mensagem e voltei a bufar de raiva quando vi mais um
texto ridículo. E mais outro. E outro.
Comecei com tantos contatos e agora já estava ficando quase sem
nada que prestasse. Até que apareceu um rapaz de vinte e quatro anos,
chamado Jorge, que morava na Praia de Iracema, bem pertinho de mim.
Gostei da foto, do perfil e do texto que me enviou, já fornecendo seu celular
para marcarmos um encontro.
Só faltei bater palminhas.
— Aleluia! Salvou-se um!
Beatriz ergueu a mão no ar e batemos nossas palmas uma na outra,
comemorando aquele achado.
— Vamos ver o resto, porque ainda faltam duas mensagens – Beatriz
comentou, clicando na próxima.
— Esse aí eu nem quero ver. Está sem foto.
Ela abriu de qualquer forma e vi que também estava fora do que eu
queria.
Daniel Ortega, trinta e dois anos, Nova York.
— Pode deletar. Além de ser velho, mora no exterior.
— Mas ele é americano também, igual ao Jack! – ela entusiasmou-se
na hora, ignorando completamente o que eu disse e partindo para abrir a
mensagem – Imagina se formos as duas morar nos Estados Unidos? Ia ser o
máximo!
Mensagem aberta, lá estava o texto dele.
"Parabéns, Ana. Você tem um perfil muito denso, com qualidades
admiráveis e raras hoje em dia. Mostra ser uma pessoa real e que sabe muito
bem o que quer. Algo me diz que sua beleza é apenas um complemento do
seu interior e confesso que fiquei curioso em conhecê-la. Se quiser, pode
escrever para ortegad@...com.
Daniel Ortega."
Fiquei parada olhando as palavras na minha frente, sendo de alguma
forma tocada com o que li. Para ter certeza, voltei a ler, levando meu tempo
para isso. Acho que demorei tanto, que Beatriz me olhou em expectativa.
— Já terminou? Conseguiu entender tudo ou quer que eu leia em voz
alta para você? – ofereceu carinhosamente.
— Não, Bia. Não precisa.
Ela limpou a garganta, antes de continuar.
— Gostou do que leu? Vamos responder então?
Fiquei em dúvida, porque estaria mentindo se dissesse que não gostei
do texto dele, mas Daniel Ortega estava duas vezes fora do que eu queria para
mim.
— Não sei se quero responder. Ele tem nove anos a mais do que eu e
mora no exterior, o que significa um relacionamento cem por cento à
distância, que era tudo o que eu não queria para mim – fui enumerando os
pontos negativos – E para piorar, não tem foto! Provavelmente deve ser feio
de doer ou então casado.
— Aninha, tem muitas pessoas que preferem preservar sua imagem
quando entram em um Site de Relacionamento. O que eu até entendo, porque
isso não é bem visto em certos meios sociais, ainda mais para um homem
com a idade que ele tem — Bia armou-se de advogada dele – Vamos ver o
resto do perfil do Daniel, assim você já tem uma ideia melhor, mesmo sem a
foto.
Ele não tinha colocado nenhuma descrição pessoal no perfil, nem
falado de si mesmo. As poucas informações diziam apenas que tinha 1,89 de
altura, oitenta e cinco quilos e trabalhava em uma indústria de informática.
Era Advogado especializado em Direito Internacional e falava inglês, francês,
espanhol e português.
Aquilo tudo me matou de vez, porque um homem daquele calibre
jamais se encaixaria com minha escassa formação básica. Minha baixa
autoestima surgiu com força total e me fez sentir uma burra ao lado dele.
— Não vou mandar nada! – decidi com firmeza – Vamos agora ver o
último dos perfis que faltam.
Ela baixou os ombros, parecendo derrotada.
— Não custa tentar. Ele parece ser um bom candidato, um cara já com
a vida feita e maduro – tentou me convencer, insistindo nele – E também
senti que você gostou do que ele disse na mensagem.
Eu não ia negar aquilo, mas sentia que da mesma forma como ele
estava fora dos meus padrões, eu também estava completamente fora dos
padrões dele. E algo me dizia que o renomado Dr. Daniel Ortega rapidamente
veria isso.
— Você não percebeu que ele é o perfil ideal para você, Bia? É
advogado e você está se formando na Faculdade. Mora no exterior e você é
louca para ir embora do Brasil. Fala fluentemente vários idiomas e você
também é fluente no inglês, além de ter facilidade para aprender outras
línguas. Deve ser muito inteligente e você também é. No fundo, vocês dois
formam o casal perfeito!
Beatriz empertigou-se quando ouviu tudo o que eu disse, largando o
Notebook de lado e virando-se de frente para mim.
— Alto lá! É melhor parar de se colocar lá em baixo e valorizar mais a
si mesma! Não vou admitir que não se ache à altura dele só porque tem
dislexia. Se com o tempo ele gostar de você, nada disso fará diferença.
Fiquei calada e não disse nada, sabendo que ela tinha razão. No fundo
eu corria aquele risco com qualquer homem, fosse da minha cidade ou de
outro país.
— Além do mais, esse Daniel parece ter muitas das coisas que você
pediu, que era um homem sério, culto e inteligente. Falta apenas saber se ele
valoriza a fidelidade e não vai traí-la como o idiota do seu ex-namorado – Bia
continuou, parecendo estar em um tribunal defendendo um cliente – E para
finalizar tudo, ele se interessou foi por você, gostou da sua foto, se encantou
por Ana Cabral e não por Beatriz Miranda.
— Tudo bem, temos então o Jorge e o Daniel. Vamos agora ver o
último dos perfis que sobrou. – concordei a contragosto, já não tão
entusiasmada assim em conhecer alguém.
Aquele também era de Fortaleza, chamava-se Paulo, tinha vinte e seis
anos e deu seu número para contato.
No final de tudo fiquei com os três perfis e como Daniel era o único
com e-mail, preparamos uma mensagem. Depois de muita briga, consegui
manter minha versão do texto.
— Já que serei eu a conversar com ele, quero que seja do meu jeito!
Não me interessa se minhas palavras vão desestimulá-lo ou não! Se ele quiser
falar comigo, tem que saber como eu sou.
— Tudo bem, concordo com isso! Mas no começo não podemos ser
muito duras! É preciso ir com calma ou você vai afastá-lo antes que ele saiba
a garota maravilhosa que você é. Esta sua mensagem faz você parecer muito
desinteressada!
— Mas eu estou desinteressada!
— Oh, tudo bem, você venceu! – ela cruzou os braços com irritação,
parecendo uma menina que tinha acabado de perder um doce – Depois não
diga que não avisei quando estiver velhinha e sozinha.
Quase tive vontade de rir com o que ela disse, vendo-a fazer biquinho
com a boca bem desenhada.
— Aninha! Poderíamos morar as duas nos Estados Unidos e sermos
felizes para sempre.
Daquela vez eu ri mesmo, porque aquilo só podia ser uma piada!
— Eu morando nos Estados Unidos sem saber falar um "hello"? – não
consegui parar de rir com aquela sugestão descabida dela – Se eu já tenho
dificuldade de andar na cidade que conheço desde que nasci, imagina então
numa cidade estranha e sem falar nada de inglês! É por isso que digo que é
perda de tempo mandar uma resposta para esse Daniel. E você se esquece de
algo muito mais importante do que tudo isso. Meu pai! Eu não posso ir morar
em outro país quando tenho meu pai dependente.
Ela não comentou nada, apenas descruzou os braços, voltou ao
Notebook e deu um clique na mensagem, enviando-a para ele.
— Pronto! Já está feito!
Respirei fundo quando vi que não podia mais voltar atrás. A
mensagem com o texto que eu havia escolhido seguiu direto para o e-mail
que o tal Daniel Ortega tinha fornecido.
CAPÍTULO 3

Londres – Dez dias depois

Daniel
Sentei para enviar ao Dr. Stevens o relatório sobre minha viagem. Não
pretendia demorar, já que precisava dormir cedo para pegar o vôo e retornar à
Nova York.
Meu celular deu um alerta de mensagem. Era da minha mãe.
"Enviei para seu e-mail o projeto da reforma de nossa Quinta em
Sevilha. Diga algo depois, filho. Beijos dos seus pais"
Quando abri o e-mail, lá estava a advertência de sempre, junto com o
projeto.
“Está na hora de você repensar esta sua rotina de vida com viagens
constantes ao redor do mundo, sem pausa para descanso. O Stevens tem que
encontrar outra pessoa para dividir com você estes encargos, filho! Deve
haver mais alguém em quem ele confie, que também possa fazer o que você
faz. Você não tem tempo para sua vida pessoal!”.
Ela tinha razão, mas durante muitos anos aquilo não me incomodou,
porque gostava do desafio das minhas responsabilidades na corporação. O
problema é que estas responsabilidades foram aumentando gradativamente ao
longo dos anos. Agora eu estava sobrecarregado com elas e o Dr. Stevens
insistia que não confiava em mais ninguém para esta função.
Respirei fundo e passei a mão na barba, tomando um gole do meu
uísque, cujo gelo já tinha derretido há muito tempo. Analisei o projeto
durante os trinta minutos seguintes, devolvendo-o para ela com as alterações
que achava serem necessárias.
Aproveitei para limpar minha caixa de entrada, verificando as outras
mensagens. Já ia eliminar várias delas, quando encontrei uma com o assunto
"Resposta ao contato do @mensagensdeamor".
Só havia uma pessoa que poderia ter enviado aquele e-mail, pois foi a
única para quem forneci meu endereço pessoal naquela noite no Brasil. Eu
ainda tinha a imagem dela gravada em minha memória.
Abri a mensagem.
"Oi Daniel.
Sou a Ana Cabral do Site "@mensagensdeamor". Obrigada pelo
contato e pelas palavras gentis. Sei realmente o que quero, só espero não
estar assustando demais os homens com isso, a ponto de desistirem de me
conhecer melhor. Mas não me deixo desanimar, porque procuro qualidade.
Aquilo que não se vê, apenas se sente. Quantidade nunca foi o meu objetivo.
Estranhei que você não tem descrição no perfil nem diz o que procura, mas
mesmo assim resolvi te cadastrar no meu e-mail, quem sabe assim possamos
conversar melhor qualquer dia.
Ana Cabral"
Uma mensagem ousada de quem não tinha receio de dizer o que
pensa. Com aquele final desinteressado, parecia não estar minimamente
ansiosa em me conhecer. Olhei a data e vi que foi enviada há dez dias atrás.
Depois de todo aquele tempo, certamente que Ana Cabral já teria encontrado
sua alma gêmea.
Fiquei pensando se valia a pena responder, pois com o pouco tempo
disponível que eu tinha, provavelmente acabaria por deixar passar mais dez
dias para enviar outra resposta, ficando um longo espaço de tempo entre cada
uma das mensagens.
Sinceramente, não sabia onde estava com a cabeça quando segui o
impulso de escrever-lhe! Eu não tinha tempo para ficar trocando mensagens
com uma garota de vinte e três anos no Brasil, quando tinha um trabalho que
me absorvia vinte e quatro horas por dia.
Então lembrei das palavras da minha mãe há menos de quatro horas
atrás e aquilo me fez pensar. Alguns minutos depois resolvi responder, mas ia
ser sincero até doer.
"Olá, Ana.
Apenas hoje vi sua resposta ao meu contato e peço desculpas por não
ter respondido antes. Eu não tenho muito tempo para ficar pregado no pc
teclando à toa e quando enviei a mensagem estava num raro momento sem
ter o que fazer. Entrei por acaso naquele Site e algo em você chamou minha
atenção, me fazendo sentir vontade de conhecê-la um pouco mais. O que eu
procurava lá? Olha, para ser sincero, nem eu sei. Tenho um trabalho muito
exigente e que toma todo o meu tempo, minha vida social se restringe a
contatos de negócios e talvez estivesse procurando só uma distração fora do
meu mundo real. Tenha uma boa semana.
Daniel Ortega".
Não sabia o que ela ia achar daquilo, mas desconfiava que desistiria de
falar comigo e ficaria com sua alma gêmea.

***

Nova York – Três dias depois


Mais uma reunião terminou e fiquei ainda cerca de duas horas na
Presidência, acertando detalhes com o Dr. Stevens. Quando cheguei à minha
sala, sentei e olhei minha mesa cheia de papéis.
Estava cansado e resolvi dar por encerrado meu dia de trabalho.
Ignorei o computador da empresa e abri meu Notebook, acedendo minha
conta privada para ver a resposta da minha mãe, que tinha encaminhado o
projeto refeito com as alterações que propus.
Antes mesmo de encontrar a mensagem dela, vi o nome de Ana Cabral
na minha Caixa de Entrada. Me surpreendi com a ansiedade com que abri seu
e-mail, porque achei que não fosse responder.
"Bom dia, Daniel.
Não precisa se desculpar, eu entendo.
Cada um tem seus motivos para entrar em um Site de Relacionamento
e eu considero todos válidos, ainda que seja só para se distrair. Fizemos
apenas um contato inicial, que não implicava necessariamente um
compromisso de resposta. Mas já que você parece estar precisando sair do
seu mundo de trabalho e conversar com alguém de fora, pode escrever
sempre que quiser e puder. Sou boa ouvinte (ou leitora rsrs) e boa amiga.
Ana Cabral."
Recostei na poltrona, olhando fixamente para a resposta dela, sentindo
um sorriso involuntário curvar minha boca. Passei a mão na barba,
completamente surpreendido com a resposta leve e simpática, mas ainda sem
grande interesse afetivo. Ana Cabral parecia estar oferecendo apenas uma boa
amizade.
Fui até o Site "@mensagensdeamor" e abri meu perfil. Ignorei os
alertas de mensagens de outras mulheres e procurei o perfil dela.
Olhei novamente a foto que tanto me impressionara e, num impulso,
coloquei a imagem para imprimir junto com seu perfil.
Passei um tempo olhando a foto dela e a frase que ficou marcada em
minha mente.
"Sou sincera, carinhosa, um pouco tímida às vezes, muito amiga e
romântica".
Parece que a sinceridade e a honestidade na forma de falar eram
mesmo características fortes dela, algo que eu valorizava muito, porque
estava cansado de mulheres que mentiam inventando coisas que não eram,
somente para ficarem ao meu lado. Uma mulher sincera era mesmo uma
coisa rara e que me atraía muito.
Carinhosa? Bom, ainda não tinha como comprovar aquilo e senti um
repentino desejo de tê-la em meus braços para verificar se seria carinhosa ou
não.
A timidez já dava para perceber no olhar reservado e desprovido de
malícia, assim como a amizade, que era algo que já estava oferecendo. O
romantismo que dizia ter era visível no fato de acreditar em almas gêmeas.
Ana Cabral estava se transformando em um enigma fácil de resolver,
mas ao mesmo tempo, difícil de entender.
Olhei a data e vi que a mensagem era de três dias atrás, mostrando que
ela respondeu quase de imediato. Aquilo só me fez ver que realmente não
tinha tempo para manter um relacionamento à distância, portanto era melhor
esquecer a doce Ana Cabral.
Fechei a mensagem de e-mail, peguei sua foto e o perfil impressos,
coloquei em uma pasta e joguei dentro de uma das gavetas da minha mesa.

***

Cinco dias depois


Desliguei o telefone após combinar com Doris mais uma viagem à
Londres no início do próximo mês. Isso me daria cerca de vinte dias em Nova
York.
Respirei fundo e, quase que inconscientemente, fiz o mesmo gesto que
vinha repetindo há cinco dias. Abri a gaveta e tirei de lá a pasta com a foto de
Ana Cabral e o seu perfil impresso.
Perguntei a mim mesmo pela milésima vez porque aquela mulher
tinha ficado marcada na minha mente. Seu rosto não saía do meu
pensamento, a ponto de todos os dias pegar aquela maldita pasta, tentando me
convencer que não valia a pena tentar.
Coloquei sua foto de lado, tomando uma decisão definitiva. Eu não era
homem de perder tempo com divagações demasiadas e estava na hora de
saber o porquê de tudo aquilo. Talvez depois que a tivesse conhecido melhor
e visse que ela não era nada do que eu pensava, conseguisse, enfim, tirá-la da
cabeça.
Abri meu e-mail e preparei uma resposta.
"Olá Ana,
Como disse antes, estou sempre envolvido com o trabalho, mas não
sei por que motivo acabei por imprimir o seu perfil. Tenho-o guardado numa
gaveta na mesa do meu escritório. Eu tinha resolvido que não ia escrever
mais, pois não tenho tempo para isso, mas estou escrevendo novamente
porque já peguei nesta folha não sei quantas vezes durante os últimos cinco
dias. A sua primeira frase do perfil martela aqui na minha cabeça: "Sou
sincera, carinhosa, um pouco tímida às vezes, muito amiga e
romântica". Para mim é instigante ler essa descrição vinda de uma mulher e
mesmo sendo um homem vivido e viajado, me vejo preso a essas palavras.
A verdade é que gostaria muito de conhecer melhor uma mulher como
você. Além de tudo o mais, o seu sorriso é algo que não tenho palavras para
definir. Eu espero que esta foto seja mesmo sua, por que se for, você é linda!
Não se sinta na obrigação de me responder depois de tanto tempo.
Daniel Ortega."
Depois que enviei a mensagem, resolvi não pensar mais no assunto,
desistindo também de ver os outros e-mails que estavam na minha caixa de
entrada. Eu os veria mais tarde, quando estivesse em casa.
Arrumei minhas coisas e fui embora da empresa, ansioso para tomar
um banho, jantar e relaxar. Quando entrei em casa, Candy veio correndo me
receber. Peguei minha Yorkshire Terrier no colo e levei comigo até o quarto,
jogando a pasta sobre o sofá da sala.
— Então, Srta. Candy, como passou o dia? – fiz-lhe um carinho no
pescoço, aguentando suas lambidas na minha barba – Ei mocinha, nada de
beijo na boca!
Fui cuidar de relaxar no banho e uma hora depois, já instalado
confortavelmente na cama, com Candy deitada aos meus pés, liguei o
Notebook e fui ler alguns relatórios. Mas quando dei por mim, estava
pensando novamente em Ana Cabral, com seu sorriso espontâneo, olhar
suave e expressão meiga.
Fechei os relatórios e entrei em meus e-mails pessoais, confirmando
que ainda não tinha nenhuma resposta dela. Aquela súbita ansiedade era uma
insensatez e chateado comigo mesmo, resolvi desligar o Notebook e ir
dormir.

***

— Deborah. Traga-me um café, por favor!


Desliguei o viva-voz e retornei ao computador da empresa, já sentindo
falta do meu Notebook, que deixei em casa de propósito para não ficar
entrando direto nas mensagens e ver se tinha algo de Ana.
Eu tinha como regra não misturar assuntos de trabalho com assuntos
pessoais e sem o Notebook seria forçado a me concentrar unicamente na
empresa. Mas pelo meio da tarde já estava arrependido de não tê-lo trazido.
Resolvi entrar em minha conta pessoal pelo celular, apenas para ver se havia
alguma mensagem dela.
Assim que abri, lá estava.
Ana respondeu em menos de vinte e quatro horas e aquilo me fez
clicar rapidamente em seu e-mail para ver o que tinha a dizer. Achava
realmente que depois de todo aquele tempo não teria mais interesse em ser
minha "amiga", como havia oferecido.
"Oi Daniel,
Obrigada pelo interesse em continuar mantendo contato comigo,
mesmo com tão pouco tempo disponível para isso. Já tinha percebido que
você é muito ocupado. Caso queira perguntar alguma coisa sobre mim, saiba
que não tenho problema algum em responder. Confesso que fiquei lisonjeada
por estar em sua cabeça competindo com este trabalho tão absorvente que
você tem rsrs. Vou falar um pouco sobre mim para que possa me conhecer
melhor.
Trabalho em um Hospital e esta minha foto do perfil é recente, ou
seja, esta sou eu ;) Posso até mandar outra, desde que me retribua com a
mesma gentileza. Não sei se percebeu, mas estou falando com você há dias e
seu perfil nunca teve foto nenhuma até hoje. Por tudo que sei, posso estar
falando com o idiota do meu vizinho :)
O que sou se resume ao que coloquei no perfil. Você disse que não
tem tempo para ficar teclando à toa, eu posso dizer que não tenho tempo
para perder com aventureiros.
Ah, meu hobby preferido é ler. Sou completamente apaixonada pela
leitura e meu melhor passatempo é ir em livrarias e bibliotecas. Isto é
segredo, fica parecendo intelectual demais e assusta os homens. Vou deixá-lo
à vontade para responder quando puder, não tenha pressa que aguardarei
pacientemente (esta é outra das minhas qualidades). Espero que você tenha
uma boa noite.
Ana Cabral".
Relaxei depois de ler aquela mensagem, novamente achando graça na
forma leve e bem-humorada com que ela conversava comigo. Sempre muito
natural e espontânea, sem os melindres normais das mulheres com quem
estive ultimamente. Não fazia cobranças de espécie alguma, exceto a foto,
que durante todo este tempo eu nem havia percebido que faltava no meu
perfil.
Naquela noite em São Paulo só quis mesmo enviar-lhe um contato.
Não me passou pela cabeça que ela tinha o direito de me conhecer
visualmente como eu a conhecia. Vendo por este prisma, realmente foi uma
sorte muito grande que Ana não tivesse desistido de falar comigo.
Fechei a mensagem no celular e coloquei meu trabalho de lado,
abrindo espaço em frente ao computador da empresa. Nem cheguei a pensar
que pela primeira vez em anos estava quebrando minhas próprias regras ao
usá-lo para assuntos pessoais. Estava focado unicamente em digitar uma
resposta para ela.
"Ana,
Não poderia ter sido contemplado com melhor presente que este seu
e-mail no meio de uma dura tarde de trabalho. Gostei muito de tudo o que li
e estou começando a gostar também de ver seu nome na minha caixa de
entrada. Deduzo então que você mora realmente em Fortaleza, tem vinte e
três anos, cabelos e olhos castanhos e este rosto que me chamou tanto a
atenção.
Vou enviar uma foto para que possa me conhecer melhor e associar
as nossas conversas à minha imagem. Apesar de não ter foto no meu perfil,
todos os outros dados que coloquei são reais. Eu trabalho numa indústria
informática e vivo sozinho. Sou muito ativo, não consigo ficar sentado sem
fazer nada de interessante, talvez por isso naquela noite tenha entrado por
acaso no "@mensagensdeamor". Sou muito independente e do meu jeito sou
feliz. Não sinto solidão, apenas tenho as carências normais de um ser
humano.
Você pode me procurar aqui quando quiser. Responderei sempre,
ainda que não seja de imediato, mas confesso que estou muito curioso para
conhecê-la melhor, inclusive ouvir a sua voz. Se confiar em mim o suficiente
para dar o seu número, eu ligo, basta dizer qual a hora que poderíamos
conversar um pouco. Segue a minha foto.
Daniel".
CAPÍTULO 4

Fortaleza – Cinco dias depois

Ana
— Ele está melhor agora?
Beatriz perguntou, sentando ao meu lado no sofá do meu apartamento.
Há cinco dias atrás, meu pai teve uma crise respiratória e precisou de
cuidados especiais. Tanto eu, quanto Soraia e minha tia Sílvia tivemos que
nos revezar ao seu lado e houve momentos em que pensei que ele não
resistiria. Precisei faltar ao trabalho por dois dias inteiros e nos outros estive
lá como uma zumbi, a mente sempre dispersa e cometendo erros grosseiros,
devido ao excesso de preocupação com ele.
— Graças a Deus, agora ele está melhor – suspirei cansada, olhando
carinhosamente para minha amiga – Obrigada por tudo, Bia. Não sei o que
seria de nós sem a sua ajuda!
Ela me abraçou, me fazendo encostar a cabeça no seu ombro.
— Shhh, não diz nada amiga! Adoro os dois e faço tudo de coração.
Você é como uma irmã para mim.
Beatriz era filha única como eu e desde que nos conhecemos criamos
uma amizade especial, desenvolvendo com o tempo um relacionamento de
irmãs e não apenas de amigas.
Ela não só me levava de carro para onde eu precisava ir, como
também já havia conseguido tempos atrás, em uma das crises mais sérias do
meu pai, que um médico do Hospital o visse. Beatriz trabalhava diretamente
com os Diretores e acabou por interceder a meu favor, já que o plano de
saúde do meu pai não dava direito a hospitais daquele nível.
Fora isso, ela estava sempre me fazendo rir com suas brincadeiras,
levantando meu astral com seu eterno otimismo e valorizando meu potencial
sempre que podia. Eu devolvia com meus conselhos ajuizados, meu carinho
verdadeiro e minha extrema lealdade. Se eu tivesse que pedir uma irmã a
Deus, ela seria Bia.
— Enfim tudo voltou ao normal e você vai poder relaxar – afastou-se
ligeiramente para me olhar de frente – Sabia que o Dr. Rodrigo veio
perguntar por você? Parece que percebeu sua ausência lá na Recepção do
Hospital.
Fiz uma careta de desgosto.
— Ai, Bia! Se você me ama, não fale nele agora! Já disse que não
quero nada com o Dr. Rodrigo – puxei meu cabelo para cima e fiz um coque
no alto da cabeça para espantar o calor que fazia no apartamento – É um cara
legal, mas não consigo sentir nada por ele.
Ela ficou pensativa e calada, me fazendo olhá-la com atenção, porque
Bia pensando era sinal de problemas chegando.
— E Daniel? Ainda está interessada nele?
Baixei os olhos e olhei minhas unhas roídas, um hábito terrível que eu
tinha.
Daniel.
O americano com quem eu havia trocado três mensagens. Um homem
que logo de cara respondeu dizendo que enviou o contato num momento de
distração, quando não tinha nada melhor para fazer.
Realmente tudo muito romântico!
Isso sem falar que ele parecia não ter tempo para conhecer ninguém
pela internet, porque simplesmente passou dias para responder minha
primeira mensagem.
Só não desisti porque Bia insistiu que valia a pena continuar mantendo
contato com ele, já que também não tinha nada a perder. Então, depois de
muito pensar sozinha, resolvi que não custava nada tentar e que poderia lhe
oferecer pelo menos amizade, já que o homem parecia estar precisando
conversar com alguém fora do seu mundo de negócios. O único ponto
positivo da distância é que me dava segurança para ser eu mesma, pois sabia
que ele não ia bater na minha porta de uma hora para outra.
Essa segurança me fez ousar um pouquinho mais do que ousaria se
estivesse pessoalmente com ele. Relaxei a ponto de conseguir expor meu lado
mais leve, divertido e direto, dizendo exatamente o que pensava, sem a
pressão de não errar. Até brinquei com ele, ao dizer que estava lisonjeada por
estar em seus pensamentos. No fundo, eu queria acreditar que era verdade,
ainda que um diabinho do mau ficasse sussurrando no meu ouvido que podia
ser uma grande mentira dele, apenas para me enganar.
Ele também foi muito direto no começo, sem medir as palavras
quando escrevia, dizendo exatamente o que pensava.
Ri comigo mesma ao ver como era incrível que mensagens constantes
com alguém pudessem fazer você acostumar-se aos poucos com a pessoa, a
ponto de ir soltando informações suas sem nem perceber. Eu até já tinha dito
que trabalhava no Hospital.
Só esperava não me arrepender de nada disso no futuro, porque não
conseguia esquecer que o homem só entrou no Site para se distrair, por não
ter nada mais interessante para fazer. Por enquanto, eu estava me esforçando
ao máximo para não criar fantasias ou ilusões com relação a ele.
Resolvi responder sua pergunta de uma forma irônica.
— Quer saber se estou interessada no cara que não está interessado em
mim?
— Ei, não é bem assim! No começo ele não parecia interessado, mas
em sua última mensagem achei que estava começando a ficar bem
interessado sim! Até já dizia que não conseguia tirá-la da cabeça! – me deu
um empurrãozinho de brincadeira, um sorriso malicioso nos lábios – E você
gostou quando soube ou não teria dito que ficou lisonjeada, nem fornecido
informações suas para ele. Acho que esse seu jeito espontâneo de conversar
também ajudou a conquistá-lo.
Dei-lhe razão, porque tinha consciência que ele me ganhou quando
disse que imprimiu minha foto e perfil, deixando-a em seu escritório. Bom,
mas qual a mulher que não se sentiria lisonjeada com isso?
— Eu não vou negar que gostei de saber disso, mas o homem também
pode estar inventando tudo só para me manter interessada. Já disse que ele
deve ser feio de doer, porque não tem foto lá. Vai ver que até agora nem
enviou a foto que pedi tão educadamente.
Ela deu um tapinha na própria testa.
— Esquecemos de ver isso! – levantou e foi até a mesa de jantar,
pegando sua bolsa e voltando a sentar ao meu lado – Mas também nem
tínhamos como pensar em outra coisa com seu pai doente. Até o Jack deixei
abandonado.
Puxei as pernas para cima e sentei de lado, deitando a cabeça no
encosto do sofá.
— Na verdade, nem sei se tenho cabeça para pensar em outra coisa
agora, mesmo com meu pai aparentemente melhor – tentei relaxar meu corpo
dolorido e cansado das noites sem dormir, mas me sentia ranger por todos os
lados – Também aqueles encontros que tive com os outros candidatos foram
terríveis. O Jorge agarrava-se na minha mão como um náufrago, tinha um
hálito terrível e ainda quis me beijar com aquela boca horrorosa. O Paulo era
metido a gostosão e tinha um radar para qualquer mulher que passasse a
menos de cem metros dele, olhando o tempo todo ao redor para ver se estava
sendo admirado. Assim não dá!
Ela colocou a bolsa no colo e me olhou, irritada.
— Não vá desistir agora! Não vou deixar que faça isso só porque
decepcionou-se com os outros dois candidatos. O Daniel pode ser diferente.
Gemi alto quando ouvi aquilo.
— Só se for porque está longe e não vamos nos ver tão cedo.
Ela não comentou nada, apenas abriu a bolsa e tirou de lá um Tablet.
— Já consertou seu Notebook?
Um vírus entrou no computador dela e danificou alguns arquivos,
deixando-a desolada durante a semana inteira.
— Não, por isso estou roubando o Tablet da minha mãe. Já levei meu
Notebook para o técnico e ele vai devolver amanhã, mas é terrível ficar sem
ele. Sorte que ainda tenho meu celular, porque sou viciada na internet.
— E como tem feito com Jack? Ainda falam pelo Skype?
— Claro que sim! – sorriu, parecendo imensamente feliz e fiquei
impressionada como ela havia ficado envolvida daquele jeito em um espaço
de tempo tão curto – Ele faz questão de falar comigo quase todos os dias.
Estou usando o Tablet para isso, mas como não é meu, não posso demorar
muito.
Ela abriu meu e-mail e fomos ver as mensagens. Fiquei surpresa
quando vi uma resposta do Daniel com a data do mesmo dia em que enviei a
minha. Isso foi há cinco dias atrás!
— Ele enviou! – Bia deu um gritinho de alegria, parecendo muito feliz
ao abrir a mensagem.
Imediatamente surgiu o texto com uma foto dele.
Céus, uma foto do Daniel!
Este é o Daniel?!?
Eu não acredito no que estou vendo!
— Ana! Você está vendo o que eu estou vendo? – Bia sussurrou,
parecendo extasiada.
— Sim, estou – foi a única coisa que consegui dizer, enquanto sentia o
olhar dele sobre mim através da foto.
Ele não sorria e isso dava-lhe a aparência de um homem
extremamente sério e que não perdia tempo com frivolidades. O rosto era
forte, com uma barba sexy que só ajudava a compor o visual do executivo
bem-sucedido. Usava óculos e isto acabava por deixá-lo com um aspecto de
super-super-super-inteligente.
E eu era a Ana Banana, a burra da classe!
Oh meu Deus! Neste ponto éramos completamente opostos.
Olhei a mensagem e vi que era um texto longo. Por um momento meu
coração bateu tão forte que as letras transformaram-se em um borrão diante
dos meus olhos. Fiquei chateada comigo mesma por estar ansiosa para saber
o que ele escreveu, quando nos últimos cinco dias nem sequer lembrei que
ele existia.
O que uma foto não fazia com uma mulher!
Me esforcei para ficar calma ou não conseguiria entender uma palavra
do que estava escrito. Ler para mim era sempre um drama!
Eu sabia que Bia ia me deixar ler à vontade, até terminar e entender
tudo.
— Bia, ele está mesmo dizendo que gostou de ver meu nome na caixa
de entrada dele e que quer meu número para falarmos?
— Isso mesmo, querida! – ela confirmou em um tom de voz muito
animado, parecendo imensamente satisfeita com o desenrolar da situação – E
ele é um gato! Se eu já não estive apaixonada pelo Jack, me apaixonaria por
Daniel!
Meus olhos não paravam de fitar a foto dele, um arrepio estranho
percorrendo o meu corpo. Mesmo com toda minha resistência inicial por
conta da sua idade e da distância, percebi que aquela foto destruía todas as
minhas resistências e nascia em seu lugar uma forte vontade de conhecê-lo
melhor.
Daniel tinha abalado minhas estruturas com aquela foto e a última
frase da sua mensagem!
"Se confiar em mim o suficiente para dar o seu número, eu ligo, basta
dizer qual a hora que poderíamos conversar um pouco".
Se confiar em mim o suficiente...
Não havia imposição, insinuação ou qualquer tipo de assédio, apenas
respeito pelo meu direito de negar. Com aquelas palavras, Daniel me passou
segurança com relação ao seu caráter e senti também que ele providenciaria
tudo, sem que eu precisasse me preocupar com nada, como se estivesse
acostumado a resolver as coisas pelos outros com eficiência e determinação.
— Ficou tão calada... – Bia estranhou meu silêncio, esperando que eu
reclamasse algo, como costumava fazer sempre que recebíamos uma
mensagem dele – Não vá dizer que não gostou da foto! É um pecado não
gostar de um homem assim. Na verdade, este homem é um pecado!
Realmente Daniel era um pecado, mas este era também o grande
problema.
Um homem lindo, bem-sucedido, inteligente, experiente, viajado e só
Deus sabe mais o quê! Ele era demais para mim!
Só de ver a foto dele já nem consegui ler direito sua mensagem, de tão
nervosa que fiquei. Imagina então falando com ele por telefone ou vendo-o
pessoalmente. Eu ia gaguejar com certeza, confundir as palavras, esquecer
coisas... e se tivesse que ler algo na frente dele, ia ser uma vergonha total.
Bastava ficar nervosa ou estressada que minha dislexia subia de nível em
questão de segundos.
— Se você não percebeu bem, este homem é areia demais para o meu
caminhãozinho.
Ela irritou-se, ficando com uma expressão furiosa.
— Nem venha diminuir-se na minha frente! Nem tente, porque não
vou deixar! – apontou para a foto de Daniel – Ele é que é o caminhãozinho,
porque você é linda, carinhosa e maravilhosa, portanto é areia demais para
ele! Você é um deserto inteiro de areia e ele é um caminhãozinho de
brinquedo com uma rodinha quebrada.
Impossível não rir diante daquela comparação hilária.
— Oh meu Deus! Estou me sentindo agora uma das sete maravilhas
do mundo – zombei com ela.
— Tudo bem, posso ter exagerado ao trazer o deserto inteiro para cá,
mas você precisa valorizar-se mais! – fechou a foto dele e abriu uma nova
mensagem – Vamos responder rápido e dar logo seu número antes que ele
desista. Já se passaram cinco dias e agora que vimos o quanto ele é lindo, não
vamos arriscar que se encante com outra. Se você está na cabeça dele, é hora
de criar raízes lá dentro.
De repente lembrei de algo.
— E se ele não for esse da foto? Você sabe que muita gente usa fotos
que não são suas. Insisto que o meu vizinho era bem capaz de fazer isso, caso
me visse naquele Site. E se Daniel for ele, vou ser obrigada a mudar de
apartamento – pensei rápido – Vou pedir outra foto dele, assim fica mais
difícil de enganar.
— Peça o que quiser, mas vamos responder agora! Cuidado apenas
com o que vai dizer.
— Se ele gostou de mim com tudo que eu disse nas mensagens
anteriores, então posso ser eu mesma. Sinto muito, amiga, mas vou forçá-lo
para ver se a máscara cai.
Pensei por alguns momentos e comecei a ditar.
"Oi Daniel,
Você é esse mesmo?! Estou chocada! Não entendo porque não tinha
foto no perfil. Você é muito atraente...quer dizer, bonito mesmo! Olha, fiz
cada filme de terror na minha cabeça que você nem imagina rsrs. Não vá se
chatear, mas permita que eu duvide e peça para me enviar uma outra foto
qualquer em que esteja fazendo algo banal como cuidar das plantas, ir ao
supermercado, levar o cachorro para passear.
Não quero invadir sua privacidade, pois já vi que você a preserva
muito bem, portanto sinta-se à vontade para negar meu pedido.
Quer dizer... você tem esse rosto de capa de revista, trinta e dois anos,
1,89 de altura, oitenta e cinco quilos, mora em Nova York, usa esses óculos
de Clark Kent e ainda vive sozinho?!
Sei não, Daniel, tá difícil de acreditar...
Ana.
PS: desculpa não ter respondido antes, mas tive problemas pessoais
para resolver esta semana."

***

Nova York – No dia seguinte

Daniel
— Meu querido, algum problema se eu invadir sua cozinha e preparar
um jantar para nós?
Hillary me abraçou pelas costas quando sentei na cama e aquela
proposta aparentemente inocente, no fundo era uma tentativa de criar raízes
em minha casa.
Agora que o desejo sexual tinha sido satisfeito, a única coisa que eu
queria era tirá-la do meu espaço e devolvê-la para o lugar de onde veio.
— Vamos jantar fora. Arrume-se que saímos daqui a vinte minutos.
Ela jogou-se mais sobre mim, me impedindo de levantar e
pressionando os seios em minhas costas. Jogou a cabeça sobre o meu ombro,
para que os cabelos louros caíssem propositadamente para a frente e criassem
um forte apelo sensual.
— Oh darling! É mais aconchegante aqui e podíamos repetir muitas
outras vezes tudo que fizemos agora.
Só que eu não estava mais interessado em repetir nada com ela e nem
queria tentar descobrir o porquê.
— É melhor não, Hillary. Amanhã cedo tenho uma reunião importante
e preciso dormir. Não posso ficar acordado até tarde experimentando todas as
posições sexuais do Kama Sutra.
Ela afastou-se, irritada.
— Você não tem um pingo de romantismo neste seu corpo
maravilhoso. Só pensa em trabalho, trabalho e trabalho!
Nem perdi tempo contradizendo-a, já que aquilo era uma grande
verdade. Levantei e fui tomar um banho, ansioso para levá-la embora dali
com a desculpa do jantar.
Tinha que lembrar de não cair mais no comodismo de voltar a sair
com Hillary, porque definitivamente meu interesse nela se restringia a
rápidos momentos de prazer na cama e nada mais.
Não sei porque fiz a merda de sair com ela novamente, quando havia
terminado nosso relacionamento meses atrás, justamente por não sentir mais
motivação nenhuma para estar com ela.
Não tente se enganar Daniel, você sabe muito bem porque fez isso!
Aquela garota do Brasil que não saía da minha cabeça e me deixou
irritado, porque depois que viu minha foto não escreveu mais nem uma linha.
Nada de mensagens, muito menos de telefone para conversarmos.
Provavelmente concretizou-se o que eu tinha pensado desde o início!
De tão bonita que era, deve ter recebido muitas propostas e já estava com
vários candidatos da idade dela ou então havia encontrado sua alma gêmea.
Talvez tenha sido melhor assim, já que era muito novinha e garotas daquela
idade não faziam o meu tipo.
Me olhei no espelho, passando a mão na barba e suspirando, ao sentir
aquele cansaço estranho voltando a tomar conta de mim.
Talvez devesse tirar a barba, divaguei comigo mesmo.
— Não se engane, amigo! Você foi dispensado e seu orgulho vai ter
que engolir essa!

***

Coloquei meu carro na garagem depois que deixei Hillary em casa e


fui para a porta da frente, já escutando os latidos de Candy.
Um sorriso curvou meus lábios ao ouvi-la. Mal abri a porta, ela correu
para minha mão estendida, consciente que ia ser carregada como uma
princesa para o quarto.
— Ora, você não estava tão alegre assim quando cheguei antes com
Hillary! – brinquei com ela, sabendo que detestava minha ex-namorada.
As duas se estranharam desde a primeira vez que se viram e eu devia
ter considerado a opinião de Candy naquela época, porque foi certeira.
Hillary às vezes era pior do que uma cadela.
Já minha Candy era uma lady!
— Hora de dormir, mocinha! Mas antes vamos ver se vovó enviou
alguma foto das obras na Quinta.
Só quando já estava na cama foi que entrei em minha conta pessoal,
novamente irritado comigo mesmo, porque desde que iniciei as mensagens
com Ana, sempre que fazia aquele ritual ficava na esperança de encontrar
algo dela.
Eu já havia rasgado a foto dela que estava na gaveta do meu escritório,
somente para um dia depois voltar a imprimir e guardar no mesmo lugar.
Quando a caixa de entrada abriu, corri os olhos pelos remetentes atrás
da minha mãe.
Até achar Ana.
Ana!
Mas que merda era aquela ansiedade súbita no peito?
Abri a mensagem, li tudo e depois explodi em uma gargalhada que
ecoou por todo meu quarto, surpreendendo Candy, que saiu do pé da cama e
correu para mim, o rabinho miúdo agitando-se.
— Não é com você, docinho! É uma outra garota.
Então Ana Cabral ficou chocada com a minha foto, me achando
bonito e atraente demais, a ponto de duvidar que eu fosse realmente eu.
Depois de tudo o que meu ego sofreu nos últimos cinco dias, eu
merecia ler isso.
Olhei para Candy.
— Amanhã é dia de tirarmos uma foto para mostrar a uma certa
brasileira que o Clark Kent aqui existe e mora sozinho, ou não receberei
nenhum número de telefone para falar com ela.
Tinha que reconhecer que Ana possuía senso de humor e eu gostava
muito disso. O alívio que senti por ela não ter desistido foi maior do que
pensei.
Só uma coisa me fez deixar de rir.
"PS: desculpa não ter respondido antes, mas tive problemas pessoais
para resolver esta semana".
Cinco dias de silêncio, quando normalmente sempre respondia rápido
e o demorado era eu.
Só esperava que não tivesse sido nada sério.
***

De manhã cedinho, a primeira coisa que fiz foi levar Candy para
passear no jardim de casa.
Aproveitei que minha empregada Carmencita tinha acabado de chegar
e pedi que tirasse uma foto nossa.
Antes de sair para o trabalho, enviei a mensagem.
"Ana,
Espero que esteja tudo bem com você e tenha resolvido todos os seus
problemas.
Essa é Candy, minha única grande companheira em casa. Ela tem três
anos, é carinhosa e da raça Yorkshire Terrier.
Brincar com ela no jardim da minha casa em Nova York é banal o
suficiente para você? Acredita agora que eu sou eu, e não o seu vizinho
idiota? :)
Daniel"

***

Fortaleza – Naquele mesmo dia

Ana
— Ana! Ana! – Beatriz chegou esbaforida no meu balcão de
atendimento, sussurrando com urgência e agitando a mão para que viesse
para o seu lado.
— Céus! O que aconteceu para você estar assim toda excitada? Já sei!
Jack resolveu fazer uma surpresa e está desembarcando agora no aeroporto –
brinquei com ela, porque ainda ontem dizia que estava doida para conhecê-lo
pessoalmente.
Ela negou com a cabeça.
— Não! Ele enviou uma mensagem com outra foto! – falou, olhando
para os lados e vendo se alguém prestava atenção à nossa conversa.
— Outra? – estranhei, afinal Jack vivia enviando-lhe fotos – Mas você
já tem tantas fotos dele.
Ela bateu o pé no chão com impaciência, me puxando pelo braço e
falando no meu ouvido.
— Estou falando do Daniel, sua boba!
Meu coração disparou sem razão nenhuma, ou pelo menos foi isso o
que eu disse a mim mesma.
— Sério? Ele já respondeu?
— Sim! Faz um tempinho, mas eu só vi agora porque estive muito
ocupada a manhã toda! Já está perto de você terminar o seu turno. Deixa o
Filipe dando cobertura e vamos almoçar.
Olhei meu relógio e vi que faltavam apenas quinze minutos para
terminar meu horário da manhã. Virei para Filipe, vendo-o atender um casal.
Peguei minha bolsa e esperei que ele terminasse para avisar que sairia mais
cedo para o almoço.
Ele viu Beatriz e balançou a cabeça com resignação.
— Toda vez que ela vem aqui, acaba por arrastar você mais cedo para
o almoço e devolver sempre atrasada. Tudo bem, vai logo antes que eu mude
de ideia.
Dei-lhe um beijinho carinhoso no rosto e fui!
Quando sentamos no restaurante, ela pegou o celular e mostrou a
mensagem dele com a foto.
Fiquei pasma com o que vi, completamente sem palavras e só
conseguia olhá-lo.
Beatriz deu um sorrisinho divertido, com uma expressão de "eu não te
disse?".
Ele não estava com camisa social e gravata, nem usava os óculos de
Clark Kent. Parecia relaxado com uma t-shirt branca que deixava à mostra os
braços fortes, com os bíceps salientes gritando "Toque-me, por favor!".
Perdida naquela montanha de testosterona e músculos, estava Candy, a
minúscula Yorkshire dele.
Mais uma vez, Daniel não sorria. Encarava fixamente a câmera com a
expressão séria, mas eu sentia como se ele estivesse à minha frente, porque a
força do seu olhar parecia atravessar a distância entre nós e me atingir
diretamente no peito. Foi inevitável sentir um calor estranho se espalhando
pelo meu corpo.
Eu podia jurar que aquele olhar era especialmente para mim, como se
ele ao tirar a foto estivesse pensando unicamente em Ana Cabral.
Pela lógica, era para eu estar super feliz ao saber que Daniel era
mesmo Daniel. Só que não era isso o que estava acontecendo comigo. Quanto
mais eu comprovava que ele era mesmo aquele advogado lindo, bem-
sucedido, experiente, inteligente e viajado, mais insegura ficava, me sentindo
completamente fora do seu mundo.
Talvez muitas mulheres me chamassem de louca se soubessem como
eu me sentia, afinal ele era literalmente "tudo de bom" e o sonho de consumo
romântico e sexual de 99,99% da raça feminina sobre a face da Terra e de
outros planetas. Mas eu não conseguia acreditar que aquele homem estava
mesmo interessado em mim!
— Fala alguma coisa! Se a cada foto do Daniel você ficar muda,
garanto que em breve nunca mais vai falar, porque a tendência de um
relacionamento à distância são as fotos irem aumentando com o tempo, já que
elas ajudam a matar as saudades.
Despertei daquele transe e resolvi brincar.
— Falou a voz da experiência virtual.
— Aproveite que tem uma amiga experiente neste campo – teclou no
celular e abriu uma mensagem de resposta – Hora de dar seu número para
Daniel. O que quer escrever?
— Coloca a mensagem dele de volta para eu ler novamente – pedi,
mas Bia simplesmente pousou o celular na mesa.
— Ficou sem entender alguma coisa? Quer que eu leia para você?
— Não, acho que entendi tudo, pois o texto também era pequeno. Só
quero lembrar o que ele disse para poder responder.
— Tudo bem – parecia conformada e colocou a mensagem na tela.
Li duas vezes, então virei para ela.
— Por que ele diz que espera que eu tenha resolvido meus problemas
pessoais? Não entendi isso.
Ela respirou fundo e deixou cair os ombros, me olhando com um
pedido de desculpas nos olhos.
— Eu acrescentei uma frase no final, pedindo desculpas pela demora
em ter respondido, só para ser educada e justificar a falta de resposta. Não
quis que ele pensasse que não tinha mais interesse nele. Disse que teve
problemas pessoais para resolver.
Por um momento fiquei sem saber o que falar, porque nunca pensei
que ela faria isso sem comentar comigo ou perguntar se eu concordava.
— Por que não me disse? – perguntei simplesmente, ainda digerindo
aquela situação.
— Porque sou uma boba romântica que desde a adolescência vive
procurando um príncipe encantado, crente de que vou achá-lo um dia. Só quis
ser um cupido para vocês dois e ver se davam certo. Tem hora que você é
dura demais consigo mesma, medrosa e insegura, não avançando quando
surge uma boa oportunidade. Eu sei que ficou traumatizada quando o idiota
do seu ex trocou-a por outra. Sei que tem medo que outro namorado faça o
mesmo quando ver a situação em que está, cuidando sozinha do seu pai,
morando naquele apartamento simples, trabalhando como Recepcionista, sem
formação universitária e mais outras tantas besteiras que colocou na cabeça!
Mas eu acredito que você pode ter a sorte de encontrar um cara maduro, que
a ame e que se lixe para tudo isso, ficando com você de qualquer jeito.
Pronto, é isso!
Depois daquela enxurrada de palavras, ela calou-se e apertou os lábios
com força, parecendo chateada consigo mesma.
— E você acha que esse cara maduro vai ser um americano
cosmopolita, cercado de luxo, porque aquela casa dele me pareceu um luxo,
super inteligente e viajado? Acha que ele vai bater na porta do meu
apartamento alugado de dois quartos, com meu pai inválido e dependente, e
não vai correr como o diabo foge da cruz?
— Acho! – ela disse com segurança – Sou uma idiota romântica? Sou!
Mas não consigo ser diferente e olhe que já tentei mudar! Você sabe disso.
Sim, eu sabia. Bia já tinha se decepcionado com os dois namorados
que teve, além dos paqueras, pretendentes e ficantes. Parece que nenhum
deles era o homem ideal para ela.
Fixou os olhos escuros em mim e senti o apelo silencioso na expressão
deles.
— Dê uma chance a si mesma. Tente pelo menos uma vez na vida sair
dessa concha onde entrou há quatro anos. Não custa nada conversar com
Daniel e ver o que ele tem a dizer. Se não gostar da conversa, desista e siga
com a sua vida – fez o sinal da cruz com os dedos nos lábios – Juro que
nunca mais faço isso sem pedir autorização antes. Me perdoa?
Sorri e abracei-a com carinho por cima dos nossos pratos.
— Sim! Está perdoada!
Escutei seu suspiro de alívio, enquanto enxugava uma lagrimazinha no
canto do olho.
— E quer saber mais? Um outro cara menos interessado em você nem
teria ficado preocupado com aquela última frase que coloquei lá. Já o Daniel
foi logo tocando no assunto e gostei disso. Foi um bom teste e ele
correspondeu à altura.
Sabendo agora da frase que Bia colocou lá, eu também podia dizer que
gostei da atitude dele.
— Também gostei! – concordei, apontando para seu celular – Vamos
responder e dar o meu número, já que agora tenho certeza que ele não é o
idiota do Jaime!
Bia soltou um som de nojo quando ouviu o nome do meu vizinho.
— Aquele homem devia ser preso por atentando violento ao pudor, só
por conta daqueles olhares podres – ela disse com raiva, pegando o celular.
Poucos minutos depois, lá estava a mensagem para Daniel.
"Ok, Daniel, agora eu acredito que você é você! Ufa, que alívio rsr.
Só em saber que não é o idiota do meu vizinho, já valeu a pena esperar tanto
tempo para ver suas fotos! Vou dar meu número de casa e o celular. Estou
sempre em casa à noite. Ligue quando puder.
Ana."

***

Naquela mesma noite, quando tinha acabado de dar o jantar para o


meu pai e estava na pequena cozinha lavando os pratos, escutei o telefone
tocar na sala. Corri para atender, ainda enxugando as mãos no pano de pratos,
certa que era minha tia Sílvia, que sempre ligava naquele horário para saber
do meu pai.
— Alô?
Esperei ouvir a voz dela do outro lado da linha, mas em vez disso uma
voz masculina profunda soou através do aparelho, me deixando
completamente paralisada.
— Good evening! I'm Daniel Ortega. I would like to speak with Ana
Cabral.
Na hora fiquei confusa e não entendi nada, totalmente pega de
surpresa. Até que o nome “Daniel Ortega” estourou nos meus ouvidos.
Oh, meu Deus!
Era ele e falando em inglês!
Mas eu pensei que Daniel soubesse que sendo brasileira, eu só falaria
em português.
E agora, o que faço?
Diante do meu silêncio, ele voltou a falar.
— Hello?
CAPÍTULO 5

Ana
— Hello? – Daniel repetiu e pelo tom de sua voz percebi que estava
estranhando o silêncio do lado de cá da linha.
Reaja Ana! Reaja!
Mas reagir como?
Falando com ele da única maneira que sabe, ora! Em Português!
Respirei fundo e me concentrei para soltar a voz.
— Boa noite, Daniel. É Ana quem está falando.
Por um momento foi ele quem ficou mudo, porque não houve resposta
às minhas palavras.
Pronto! O homem mentiu no perfil dele e não sabe falar nada de
português! Mas que confusão!
Resolvi fingir que não percebi nada e insisti.
— Daniel? Você ainda está aí?
Escutei uma inspiração rápida do outro lado e de repente aquela voz
profunda voltou a falar, me arrepiando toda. Eu só conseguia lembrar da sua
foto e minha mente já estava associando seu rosto com aquela voz, formando
algo irresistivelmente atraente.
— Sim, ainda estou aqui – falou em português – Então você é Ana
Cabral?
Era mais uma afirmação do que uma pergunta, mas mesmo assim
respondi.
— Sim, sou eu mesma e pela sua voz, agora posso ter certeza absoluta
que não é o meu vizinho idiota – segurei o riso, mas ele percebeu e entrou na
brincadeira, rindo comigo.
E que risada gostosa era aquela, meu Deus!
— Fico feliz em saber que acabaram-se os seus filmes de terror.
Na verdade só ia acabar quando eu me mudasse dali ou meu vizinho
idiota se mudasse, porque definitivamente aquele prédio era pequeno demais
para nós dois.
— Peço desculpas por ter falado em inglês, quando nossas mensagens
foram todas em português – Daniel continuou, parecendo preocupado que eu
o interpretasse mal – Foi uma grosseria da minha parte, pois já percebi que dá
preferência por falar a sua língua materna. Só posso justificar dizendo que
tinha acabado de desligar uma outra chamada local antes de ligar-lhe e acho
que ainda estava no piloto automático.
A cultura americana devia ser mesmo muito diferente da nossa,
porque eu não via motivo algum para ele estar pedindo desculpas. Mas pela
sua forma de falar, deu para perceber que Daniel era extremamente educado,
um verdadeiro gentleman.
— Tudo bem. Por mim não há problema algum com isso –
tranquilizei-o, sentando no sofá para ficar mais confortável.
— Queria agradecer por ter confiado em mim o suficiente para dar seu
número de telefone – ele disse, usando um tom de voz muito firme e seguro,
de quem estava acostumado a falar, liderar e convencer as pessoas – Estava
curioso para ouvir a sua voz e conhecê-la melhor. Sou um homem de ação e
ficar só escrevendo o tempo todo não faz muito o meu gênero. Prefiro falar.
Ele tinha um leve sotaque que mostrava claramente que o português
não era sua língua nativa, fazendo-o soar extremamente sexy. Ainda que eu
não o conhecesse de foto, estaria correndo o sério risco de me apaixonar só
de ouvir sua voz.
Eu devo estar mesmo muito carente para me deixar abalar assim pela
voz de um homem! Cruzes!
Fingi que não estava nada abalada e resolvi provocá-lo um pouquinho.
— E agora que já ouviu a minha voz, ainda quer me conhecer melhor
ou mudou de idéia?
Ele riu novamente e só faltei xingar alto quando me arrepiei toda!
Oh meu Deus! Não me deixe estragar tudo xingando no telefone para
um gentleman lindo como esse!
— Agora quero mais do que antes – ele disse em tom determinado, me
fazendo prender a respiração.
Aquele era o tipo de comentário que vindo de um homem maduro e
experiente como Daniel tinha um peso enorme.
Eu precisava lembrar que não estava lidando com um rapaz da minha
idade, mas com um homem que parecia ir direto ao ponto quando se
interessava por alguém. Algo me dizia que ele não era o tipo de perder tempo
com conversinhas e pensei se estava preparada para um relacionamento com
um homem tão maduro assim.
Bem que avisei à Bia que não queria homens muito mais velhos do
que eu!
Então, era chegada a hora de fazê-lo me conhecer melhor.
— Mas naquela noite enviou a mensagem pelo Site somente porque
não tinha nada melhor para fazer – provoquei outra vez, porque não havia
nada menos romântico para mim do que saber disso.
Não que eu fosse excessivamente romântica como Bia era, mas um
lado meu necessitava de romantismo também.
— Peço desculpas pelo que disse antes. Foi muito indelicado da minha
parte colocar as coisas daquela maneira – ele parecia realmente preocupado
que eu estivesse chateada com sua atitude anterior – Só posso justificar
dizendo que estava sob muita pressão no trabalho e sabia que não teria tempo
para manter contatos constantes com você por e-mail. Foi por isso que pedi
logo seu número.
Senti sinceridade em suas palavras e no fundo gostava muito que fosse
objetivo comigo, sem enrolações ou desculpas esfarrapadas.
— E o seu trabalho é mesmo tão absorvente assim? Sei que é
Advogado, porque tem isso no seu perfil, mas disse depois que trabalhava em
uma indústria de informática.
— Sou Diretor Jurídico em uma multinacional da área de informática
e faço auditorias nas filiais da corporação, trabalhando diretamente com a
Presidência. Há períodos em que faço viagens constantes e fico com
pouquíssimo tempo livre para assuntos pessoais, por isso passava dias sem
respondê-la – ele foi dizendo tranquilamente, como se aquilo fosse a coisa
mais normal do mundo, quando para mim era mesmo algo fenomenal.
Meu Deus! Era mesmo aquele homem viajado que estava interessado
em me conhecer? Logo eu, que nunca saí da minha cidade?
A cada minuto que passava, eu ficava mais intimidada com a
inteligência de Daniel, mas também encantada por ele ser assim, porque era
tudo o que eu mais admirava e no fundo queria ser na vida. Infelizmente
sabia que nunca seria.
— Parece ser um trabalho realmente absorvente. Agora entendo
porque demorava tanto para responder minhas mensagens. Deve ser difícil
encontrar tempo para contatos de Sites de Relacionamento, ainda mais sem
ter tido interesse inicial em mantê-los.
— Para as mensagens tenho mesmo pouco tempo, porque não entro
constantemente em meu e-mail pessoal. Mas com as ligações é diferente e
insisto que tenho muito interesse em falar com você!
Me agradou que em algum momento durante aquele estranho
relacionamento virtual, Daniel tivesse ficado interessado em mim.
— Posso fazer uma pergunta, Ana?
— Sim, claro que pode.
— Você já encontrou o homem que procurava? Aquela alma gêmea
que falou no perfil do Site?
Ele falava sério e num tom grave, de quem não estava levando a coisa
na brincadeira ou tentando ser divertido.
Lembrei do desastre que foram os outros dois encontros que tive.
— Não, Daniel. Não encontrei ninguém ainda.
— Então está sozinha? – insistiu.
— Sim, estou – respondi com firmeza, mas também precisava de uma
confirmação da parte dele, por isso fui em frente e questionei – E você?
Também está sozinho?
— Estou, Ana – não vacilou um segundo sequer na resposta, usando
um tom categórico – Estou sozinho por opção e já lhe disse que sua foto ficou
marcada na minha mente, mesmo contra minha vontade. Senti uma atração
imediata por você logo que a vi.
Escutar aquilo mexeu comigo e foi inevitável a sensação de prazer que
senti. Aquelas palavras, junto com a entonação profunda da voz de Daniel,
estavam marcando meu corpo por inteiro.
Quanto mais ele falava, mais seduzida eu ficava, porque uma coisa era
ler aquelas palavras escritas numa mensagem, e outra totalmente diferente e
muito mais impactante, era ouvi-las através da voz sedutoramente grave de
Daniel.
— Acabei ficando muito mais interessado ao longo das nossas
mensagens, não só pela forma leve e amiga como respondeu, mas pela
sinceridade das palavras, por não ter receio de dizer a verdade ou questionar
minhas atitudes. Gosto e valorizo muito esta sua sinceridade, porque é algo
difícil de encontrar nas mulheres de hoje.
Fiquei feliz que ele pensasse assim, porque houve momentos em que
briguei com Bia por ela achar que eu estava sendo muito dura e mostrando
desinteresse por ele. Engraçado que tenha sido justamente isso que o fez
gostar de mim.
— Só posso dizer que talvez se irrite é pelo meu excesso de
honestidade, porque sempre falo o que penso, mesmo que seja de uma forma
leve para não chocar muito e fazer os homens saírem correndo – disse-lhe
rindo e totalmente descontraída, surpreendida por estar gostando tanto de
conversar com ele.
Escutei-o rir do outro lado da linha e deixei cair a cabeça no encosto
do sofá, extasiada com aquele som.
— Gostaria muito de vê-la! Você tem Skype?
Desencostei, aprumando o corpo no sofá.
Skype?
Como vou marcar um Skype com ele se não tenho computador em
casa, nem sei usar esta merda direito?
Também não podia dizer que não tinha computador, porque isso seria
admitir minha pobreza financeira.
Bia! Vou pedir ajuda à Bia!
— Tenho, mas meu Notebook está no conserto porque entrou um
vírus nele. Só amanhã é que vou pegá-lo.
— Podemos tentar marcar para amanhã? – fez uma pausa antes de
continuar – Se você puder, claro! Não quero ser inconveniente.
Já? Tão rápido assim?
Oh meu Deus! E eu que critiquei o Jack por já estar falando no Skype
com Bia poucos dias depois de se conhecerem!
— Se você puder ligar antes, neste mesmo horário, eu confirmarei se
já estou com meu Notebook em casa e falamos pelo Skype. Pode ser?
— Sim, claro que pode! – ele parecia aliviado – Ligarei com certeza.
Levei um susto quando meu celular começou a tocar.
— Pode esperar só um minutinho, por favor? É que meu celular está
tocando e só preciso ver quem é!
— Veja com calma! Eu aguardo.
— Obrigada – falei rapidamente e corri para atender.
Só podiam ser duas pessoas. Minha tia Sílvia ou Bia, as únicas que
ligavam nele.
Peguei-o em cima da mesa, vendo a foto de tia Sílvia. Atendi,
voltando a sentar no sofá.
— Oi tia! Desculpa a demora. Estava no telefone!
— Ana! Que susto levei quando você demorou a atender! – ela falou
com pressa – Já estou há mais de vinte minutos tentando ligar e só dá
ocupado. Pensei que tinha acontecido algo de grave e você estava ligando
para a emergência, ou tinha esquecido o fone fora do gancho, ou não
tínhamos pago a conta este mês. Sabe que precisamos desse telefone
funcionando por causa do seu pai.
Aquela enxurrada de queixas me desnorteou um pouco e demorei para
assimilar tudo.
— Calma tia! Não aconteceu nada de mal e está tudo bem aqui em
casa. Me dê só uns minutinhos e já pode ligar de volta.
— Com quem é que você está falando no telefone que demorou tanto
assim? – ela perguntou, no seu característico jeito estressado, adquirido no
trabalho desgastante que tinha no Banco – É algum namorado?
Lembrei que Daniel estava no telefone ali ao meu lado e poderia ouvir
minhas respostas.
— Não, não é nada disso. Pode ligar daqui a pouco, por favor?
Já estava quase implorando, porque minha tia era um doce, mas tinha
hora que invadia muito minha privacidade com aquele excesso de cuidado
comigo.
— Certo, ligo sim. Mas quero uma explicação depois!
Com aquelas palavras, já sabia que ela ia assumir o papel de mãe.
Desliguei, pegando novamente o fixo.
— Daniel?
— Estou aqui – respondeu com um tom de voz estranho – Está tudo
bem?
— Sim. Era minha tia, mas voltará a ligar daqui a pouco – expliquei e
depois lembrei da educação – Peço desculpas pela interrupção. Sei que está
ligando de longe e não queria fazê-lo esperar.
Não devia ser nada barato aquela ligação.
— Não tem problema algum para mim. Me preocupo apenas em não
estar causando nenhum incômodo ao ocupar seu telefone com minha ligação.
— Não! De jeito nenhum! Estou gostando muito de falar com você!
Era verdade. Fazia tempo que não conversava com um homem que
tinha real interesse em namorar comigo.
Real interesse em namorar?
Será que Daniel queria mesmo namorar comigo?
Mas se não queria, qual o motivo de insistir em falar comigo quando
sabia que eu tinha um perfil num Site de Relacionamento à procura de um
namorado?
Meu Deus! Será que com aquela ligação já estávamos em algum tipo
de namoro?
Precisava falar com Bia para saber sobre as regras daquele jogo.
— Também gostei muito de falar com você! Muito mesmo. Na
verdade, mais do que pensava a princípio.
Aquele era o jeito direto de Daniel, no estilo cortante e certeiro, mas
cheio de educação e classe.
— Que evolução a nossa com apenas uma ligação! Ainda ontem
estávamos trocando farpas escritas – brinquei novamente.
Escutei sua risada alegre do outro lado e paralisei completamente ao
comprovar, mais uma vez, o efeito arrasador que tinha sobre mim. Acho que
ia me especializar em piadas só para ouvi-lo rir daquela forma.
— Prefiro esta fase atual na qual estamos, onde posso escutar sua voz.
Confesso que estou encantado com ela e com você!
Fiquei sem saber o que dizer, porque de maneira nenhuma admitiria
que também estava encantada com a voz dele. Ou que sua risada rouca e
profunda molhava minha calcinha com uma rapidez impressionante.
Valha-me Deus e Nossa Senhora juntos!
— Não vou mais tomar o seu tempo. Deixarei o telefone livre para
receber a ligação de sua tia. Algum problema que eu envie mensagens para o
seu celular? É mais rápido do que e-mails.
Lá vinha outro bloqueio que eu tinha, que era usar o maldito celular.
Me senti logo ansiosa, mas não ia deixar que aquilo fosse um empecilho para
continuarmos falando.
— Não. Pode enviar sim – procurei disfarçar a ansiedade usando um
tom de voz tranquilo e natural – Vou adorar recebê-las.
— Certo – mais uma pausa, antes da despedida – Foi um prazer falar
com você!
Aquela palavra "prazer" dita por ele pareceu ganhar uma conotação
diferente de um simples cumprimento educado. Senti que ele queria dizer que
realmente sentira prazer comigo, e se eu estava molhada, fiquei mais ainda
com a entonação sexy do seu sotaque.
— Também senti um prazer enorme em falar com você! Boa noite.
— Boa noite!
***

Alguns minutos depois que terminei a ligação da minha tia, já cansada


de explicar que não estava falando com ninguém especial, ouvi uma
mensagem entrando no meu celular.
Será que já era Daniel?
Fiquei nervosa e bloqueei geral. Fui pegar minha agenda na bolsa e
procurei a folha onde Bia tinha anotado os passos. Assim que abri a caixa de
mensagens de texto, vi um número longo e estranho. Só podia ser ele.
"Mesmo tendo acabado de falar com você por quase trinta minutos,
não podia deixar de registrar o quanto adorei ouvir a sua voz doce. Ela é tão
linda quanto você e estou completamente seduzido. Beijo"
E quem disse que ele não era romântico?
Me senti tão feliz quando li a mensagem que fiquei com medo de não
ter entendido bem. Voltei a ler novamente para ter certeza. Desta vez fiz bem
devagar, sentindo cada palavra na ponta da língua enquanto lia em voz alta.
Respirei aliviada quando terminei, agora certa que ele havia realmente
adorado minha voz!
O que diria se soubesse que amei a dele?
Precisava dizer-lhe algo, mas como faria para responder sem errar, já
que Bia não estava comigo?
Poucas palavras, Ana! Um texto pequeno você consegue escrever
sozinha!
Tentei me consolar que pelo menos era um texto no celular, porque
minha letra era horrível e Daniel veria que tinha uma caligrafia sofrível, de
quem ainda estava aprendendo a escrever. Eu morreria de vergonha!
Pensei bem e escrevi o texto. Li uma vez, li outra vez e ainda assim
fiquei insegura se não tinha errado nada.
"Tambem gostei muito ouvi voce. Espero continue querendo falar
comigo".
Li outra vez antes de mandar, pedindo a Deus para não estar trocando
as palavras e acabar falando algo que não queria. Meus dedos tremiam
ligeiramente quando enfim toquei na imagem do envelope e enviei a
mensagem para ele.
Prendi a respiração e comecei a rezar, esperando receber dos céus uma
chance de ser feliz. Tive vontade de chorar, lembrando quantas vezes troquei
"tenha" por "telha", "apertar" por "apartar". Se cometesse algum erro
daqueles com Daniel, seria o meu fim, porque nunca mais teria coragem de
falar com ele, que provavelmente também nunca mais ligaria para mim.
Ouvi o som de uma nova mensagem e fui ler.
"Sempre, Ana! Agora quero tudo que tenho direito."
Daquela vez chorei mesmo, mas foi de alívio e felicidade.
CAPÍTULO 6

Daniel
Coloquei o celular ao meu lado na cama e fechei os olhos.
Que voz era aquela, meu Deus!
Ana Cabral seria capaz de fazer um homem gozar só falando com ele
ao telefone. Se eu a escutasse sem nunca tê-la visto por foto, provavelmente
ainda assim teria interesse em conhecer a dona daquela voz doce e muito
sensual.
Se eu já estava interessado nela só por conta daquela foto no perfil,
agora que escutei sua voz estava duplamente interessado em conhecê-la
melhor. Fazia muito tempo que eu não sentia uma vontade tão grande de
conhecer uma mulher, como aconteceu quando vi seu rosto naquele Site.
Comecei a rir comigo mesmo, porque se alguém me dissesse meses
atrás que hoje eu estaria interessado em uma garota de vinte e três anos que
morava no Brasil, eu teria achado aquilo tudo uma grande piada e me
divertido bastante com a situação.
É meu amigo, mas aqui está você vivendo esta situação. E pior! Está
muito feliz com isso!
Tinha que admitir que terminei a ligação completamente seduzido por
aquela mulher espirituosa, simpática e com um jeito suave de falar. Eu agora
não tinha dúvida nenhuma que Ana havia sido sincera em seu perfil, porque
notei claramente pela forma como falou comigo que era mesmo carinhosa.
Até quando atendeu a ligação da tia o seu tom de voz meigo não foi alterado,
mostrando que aquilo fazia parte da sua natureza.
E pensar que ela ainda perguntou se eu havia mudado de idéia ao
ouvir sua voz! Impossível não desejar conhecê-la mais ainda depois de ouvi-
la. Ana sabia ser provocadora na medida certa, sempre de uma forma natural
e sem afetação nenhuma, muito diferente da malícia calculista de mulheres
como Hillary.
Agora quero mais que antes! Muito mais.
Ela era um achado raro! Um rosto lindo, com uma personalidade
encantadora, além de carinhosa e sincera.
Como é que ela estava sozinha até hoje, eu realmente não entendia.
Talvez os brasileiros não valorizassem essas qualidades, o que me deixava
muito feliz, porque eu as valorizava e pretendia conquistá-la o mais rápido
possível. Tinha sérias intenções de comprovar pessoalmente se não estava
enganado com relação a tudo aquilo que eu achava que ela era.
Aquele Skype que faríamos na noite seguinte ia ser determinante para
as decisões que pretendia tomar.

***

No dia seguinte

Ana
— Bia! – chamei com urgência assim que ela passou pela recepção do
Hospital.
Desde que cheguei ao trabalho estava olhando o tempo todo para a
portaria esperando que ela entrasse. Sempre nos cumprimentávamos de
manhã cedo, mas eu estava tão ansiosa que chamei-a logo que a vi.
Ela vacilou nos passos quando sentiu minha urgência e ficou logo com
a expressão preocupada, andando rápido em minha direção.
— Oi Aninha! O tio está bem? – perguntou logo por meu pai, que
chamava carinhosamente de tio desde que ficamos amigas.
— Sim, ele está bem! – tranquilizei-a de imediato, puxando-a
discretamente para o outro lado do balcão – Ele ligou ontem à noite. Falamos
quase trinta minutos por telefone!
Ela abriu a boca e seus olhos brilharam, cheios de alegria e excitação.
— Daniel ligou? – fez uma discreta dancinha da vitória, me fazendo
rir com seu entusiasmo – Que boa notícia!
Senti um sorriso enorme tomar conta do meu rosto, porque eu também
estava muito feliz com aquilo. Dormi pensando nele, sonhei com ele a noite
toda e acordei com Daniel na cabeça.
E que coisa boa era sentir aquela nova emoção dentro de mim!!
— Por este sorriso e pela sua cara de felicidade, já vi que gostou de
falar com ele! – ela disse com malícia na voz.
Não havia como negar, nem eu queria negar mais nada,
principalmente meu interesse nele!
— Sim, gostei muito! – admiti tranquilamente – Ele quer fazer um
Skype hoje à noite e não tenho computador.
— Já está resolvido! – ela não titubeou em responder logo – Vocês
conversam no meu Notebook. Precisamos decidir apenas se será na sua casa
ou na minha.
Eu preferia que fosse na dela, para que não houvesse interferências no
nosso primeiro Skype, mas naquela noite Soraia tinha reunião na Igreja e não
poderia ficar com meu pai.
Daniel também tinha ficado de ligar antes para confirmar se o "meu"
Notebook já tinha vindo do conserto. Não gostei de mentir para ele, mas tinha
sido uma mentira necessária.
— Tem que ser na minha casa. Hoje estou sozinha com meu pai e
Daniel ficou de ligar antes para confirmar, porque eu não sabia se poderia ter
o seu Notebook comigo.
Bia ajeitou a alça da bolsa no ombro e deu uma batidinha nela.
— Estou com ele agora e no almoço vamos criar uma conta para você
no Skype. Quando Daniel ligar, pergunte qual seu nome Skype para que
possamos cadastrá-lo no seu perfil. Eu cuido do tio enquanto você fala com
ele.
Suspirei de puro alívio ao ver como ela já estava providenciando tudo.
Dei-lhe um abraço apertado.
— Obrigada – falei emocionada – Você é uma amigona mesmo!
— Faço tudo por você, Aninha! – apontou o dedo no meu nariz – E
ainda vamos morar juntas nos Estados Unidos, você vai ver!!
Rimos, mesmo sabendo que aquele era um sonho que dificilmente se
concretizaria para mim.

***

Dizer que estava nervosa era pouco! Eu estava à beira de uma síncope,
com medo de errar nas palavras, de não saber o que dizer, de gaguejar na
frente de Daniel ou de estar feia e ele não gostar de mim!
Uma verdadeira lástima ter tantas inseguranças assim, mas como
controlar um padrão mental que já me acompanhava há anos?
— É melhor sentar e tentar se acalmar. Está me deixando nervosa de
tanto andar de um lado para o outro.
Bia queixou-se na mesa da sala, onde estava sentada com o Notebook
à sua frente, terminando de preparar tudo para minha conversa com Daniel.
— Não consigo! Tenho medo de fazer ou falar alguma merda. Daniel
é tão educado, experiente, culto e inteligente. Sinceramente, não sei o que ele
viu em mim!
Ela bufou com irritação.
— Viu o que todo mundo vê em você! Uma mulher linda por dentro e
por fora! Tenho certeza que com este Skype ele será irremediavelmente
conquistado pelos seus encantos!
Oh...quem dera!
Não entendi como desejava tanto isso, mas a grande verdade é que eu
queria muito que ele gostasse de mim, que ficasse encantando com tudo
aquilo que Bia dizia que eu era.
Eu só conseguia ver desvantagens para ele se ficasse comigo, mas isso
não me impedia de sonhar e desejar que Daniel jogasse minhas deficiências à
merda e quisesse me conhecer melhor.
— A partir de que momento estamos mesmo namorando com alguém
pela internet? – precisava entender como é que funcionava aquele mundo
virtual desconhecido para mim, porque não queria me iludir com nada, nem
ficar sonhando com o impossível, afinal Daniel podia querer apenas uma
amiga para conversar ou passar o tempo – Tem algum sinal misterioso que eu
não saiba? Alguma pergunta específica? Um pedido formal? Como é que isso
acontece?
Ela encostou-se na cadeira e tirou as mãos do teclado, olhando
seriamente para mim.
— Não existe uma regra. Para cada casal acontece de uma forma
diferente, num tempo diferente também. Depende muito do envolvimento, de
ambos terem o mesmo sentimento – fez uma pausa, parecendo procurar as
palavras certas – Mas acabamos por saber quando acontece, porque sentimos
que já se formou ali um relacionamento. Muitas vezes o cara é direto e
mostra logo seu interesse nisso nos primeiros contatos, porque os homens
sérios quando gostam querem assumir rápido, com receio que você acabe por
encontrar outros na internet. A oferta nesse meio é grande para os dois lados.
Fiquei pensativa, relembrando minha conversa com Daniel na noite
anterior.
— E como mostram esse interesse no namoro? O que é que eles
fazem?
— Bom, uma boa dica é quando perguntam se está sozinha ou se já
encontrou alguém. Lógico que muita gente mente e diz que está só e
disponível, quando na verdade está se encontrando com toda a torcida do
Flamengo. Mas este é um risco que corremos em namoros virtuais...e
presenciais também, por isso...
Deixou que as reticências falassem por ela e entendi perfeitamente
tudo. Meu coração já pulsava mais acelerado, porque Daniel havia
perguntado se eu estava sozinha. Será que aquilo significava que ele tinha
mesmo algum interesse em namorar comigo? Mas morando tão longe um do
outro, como é que isso ia funcionar?
Eu não devia ter mais nada para fazer na vida, para me meter numa
situação daquelas!
O telefone tocou e dei um pulo de susto.
Era ele!
— Ai Bia...é ele! – falei desnecessariamente.
— Claro que é ele, sua boba! – levantou-se rápido da cadeira e veio
para perto de mim – Atenda e não esqueça de perguntar seu nome Skype.
Repita alto para mim, que vou anotar e enviar o pedido para ele.
Confirmei com a cabeça enquanto respirava fundo, tirava o telefone
do gancho e atendia calmamente.
— Alô?
— Boa noite, Ana! É Daniel.
Ai meu Deus...nem precisava dizer quem era com aquela voz! Eu
reconheceria ainda que estivesse ficando surda!!!
— Oi, boa noite! Tudo bem com você?
— Estou bem, mas confesso que ansioso para vê-la! – riu do outro
lado da linha e minhas pernas amoleceram com aquele som, a ponto de me
fazer sentar no sofá com o fone apertado na mão trêmula – E você, como
está? Passou bem o dia?
Se aquela deliciosa expectativa o dia inteiro era estar bem, então eu
poderia dizer que passei o dia muito bem mesmo!
— Sim, meu dia foi bom – pensei antes de falar, mas resolvi ser
sincera como ele havia sido – E também estava ansiosa para falar com você
de novo.
Fez-se um silêncio tranquilo entre nós, cada um digerindo com calma
o que o outro disse.
— Conseguiu seu Notebook de volta para podermos conversar pelo
Skype? Estou com o meu aberto à minha frente.
Olhei para Bia, que estava com um sorriso conhecedor no rosto, só
aguardando que eu dissesse algo.
— Sim, meu Notebook já está comigo e podemos conversar. Qual o
seu nome Skype?
— Valdez Ortega.
— Valdez Ortega? – repeti alto para que ela anotasse e fosse procurá-
lo.
— Isso mesmo! Sei que parece estranho não ter o Daniel, mas é como
sou conhecido no trabalho. Uso este perfil para assuntos profissionais e
pessoais, é mais prático do que ter dois separados – explicou, como se
achasse que repeti seu nome por sentir a falta do Daniel nele.
— Oh, sim, claro! Eu entendo. Vou enviar um pedido agora. O meu é
Ana Cabral2323. Tinham imensas pessoas com o meu nome e tive que ser
criativa quando fui criá-lo hoje.
Bia arregalou os olhos e tapou o rosto com as mãos e percebi logo o
porquê. Fiz uma careta de desânimo quando percebi a merda que falei.
Que burra que eu sou! Agora já não podia fingir que Skype era uma
coisa comum na minha vida e que eu era desenrolada na internet.
— Seu perfil é novo? Deduzi que já tivesse Skype – Daniel falou e
percebi a surpresa em sua voz.
Tarde demais para tentar ser quem eu não era. Agora era assumir a
verdade!
— Não, nunca precisei usar Skype antes, apesar de conhecê-lo por
conta de outras amigas que usam. Criei o perfil só para falar com você.
Novo silêncio, antes que ele respondesse naturalmente.
— Tudo bem, Ana. Posso ensinar você, caso tenha dificuldades – seu
tom era firme e tranquilo, sem conter qualquer tipo de ironia ou desprezo por
nunca ter usado o Skype.
Surpreendentemente, Daniel me passou segurança em vez de me
deixar na defensiva, como sempre acontecia quando eu me deparava com
alguma limitação diante dos outros.
— Obrigada. Talvez precise de ajuda, sim – admiti antes que perdesse
a coragem.
Bia deu um sorrisão e virou o polegar para cima, aprovando a atitude
dele.
— Está em frente ao Notebook? Já aceitei seu pedido e quando quiser
posso fazer uma chamada com vídeo.
Ela fez sinal afirmativo com a cabeça para mim.
— Só um minutinho, por favor!
— Claro! Eu aguardo o tempo que precisar. Só não desligue o telefone
até que estejamos falando direto pelo Skype.
— Não desligarei.
Fui até Bia e olhei para a tela do Notebook, vendo-a apontar com o
dedo para o perfil aberto de Daniel. Ela fez sinal apontando para o meu
quarto, indicando que ia ficar lá para que eu tivesse privacidade com ele.
Confirmei com a cabeça e apontei para a tela, nervosa.
Ela gesticulou pedindo calma e apontou para a figurinha de uma
câmera. Depois segurou minha mão e me puxou para o corredor.
— O que ele disse?
— Que vai fazer uma chamada para mim e só tenho que aceitar –
estava mais nervosa do que pensei, as mãos suando.
Esfreguei-as no meu short para secar.
— Ótimo! Viu aquela imagem da câmera que mostrei? É onde
fazemos uma chamada com vídeo. Qualquer coisa que precisar peça um
minuto e vá me chamar. Ficarei ao seu lado até que estejam se vendo e depois
saio da sala – me deu um beijinho da coragem – Boa sorte, amiga! Tudo vai
dar certo!
Deus queira que sim!
Voltei à mesa e sentei em frente ao Notebook. Respirei fundo, peguei
o telefone e dei o primeiro passo que ia mudar o resto da minha vida.
— Oi Daniel. Desculpe a demora – tentei transparecer que estava
calma e segura – Pode fazer a chamada.
— Ok, Ana! Se tiver alguma dificuldade em me ver, diga por favor.
De repente o tom de chamada soou na sala e levei um susto tremendo,
de tão tensa que estava. Por um momento, nem consegui enxergar bem as
imagens que dançavam na tela.
Com a mão trêmula, peguei o mouse e cliquei na imagem, aguardando
para ver o que acontecia. Me senti como uma criança abrindo uma caixa
misteriosa que encontrou em um quarto escondido, na expectativa do que ia
ver lá dentro.
A Caixa de Pandora!
A tela pareceu ganhar vida própria à medida que aparecia a imagem
de Daniel. Eu ainda estava com o telefone no ouvido quando aquele homem
tremendamente sexy surgiu à minha frente. A barba bem cuidada, o rosto
másculo, os olhos castanhos fixos em mim, usando um moletom cinza e
parecendo relaxado dentro da própria casa. Nada do executivo de terno e
gravata que eu esperava.
Igual a mim, Daniel ainda tinha o telefone no ouvido, que baixou
lentamente assim que me viu. Encostou-se na cadeira e mecanicamente
colocou o telefone sobre a mesa.
Dificuldades em vê-lo? Impossível!
Ele parecia tão diferente e ao mesmo tempo era o mesmo das fotos
que vi. No vídeo, a largura dos ombros parecia muito maior, o peito mais
largo, o rosto muito mais forte e os olhos... bom, os olhos de Daniel não
paravam de me olhar por um segundo sequer.
Fiquei completamente sem ação. Na verdade, acho que ficamos ambos
sem ação nenhuma, paralisados, porque por um longo momento apenas nos
olhamos sem emitirmos uma palavra.
Oh.. e agora? Quem ia quebrar aquele silêncio?
Ele me observou fixamente por mais um momento, antes de olhar
pensativamente para o lado e voltar a me encarar. Ficou novamente apenas
me olhando, até dizer as primeiras palavras e com elas me fazer voltar a
respirar.
— Agora posso realmente dizer que é um prazer conhecê-la, Ana!
Sua voz saiu pelo Notebook, então percebi que ainda segurava o
telefone no ouvido e prontamente abaixei a mão e pousei-a no colo,
apertando o aparelho entre os dedos com força.
Era a mesma voz grave de antes, só que agora tinha muito mais força
sobre mim porque eu podia vê-lo à minha frente. Aquilo tudo era demais para
uma garota aguentar sem derreter-se toda pelo homem.
E que homem, meu Deus!
— É um prazer para mim também – resolvi quebrar um pouco aquela
tensão – Para ser meu primeiro Skype, até que não fui tão mal assim.
Ele riu do outro lado da tela e até me arrependi da brincadeira que fiz,
porque quase gemi de prazer com sua risada. Seu rosto ficou mais charmoso
ainda e mordi a língua para não falar nenhuma merda, tipo "podia rir outra
vez e me fazer novamente feliz?"
— É verdade! Nem precisei mostrar meus dotes de informática. Você
saiu-se muito bem sozinha.
Você nem imagina quanto!
Ele colocou os cotovelos na mesa, juntou as mãos e apoiou o queixo
barbado nelas, me olhando de uma forma que me fez remexer na cadeira.
— Posso desligar o telefone? – perguntei para disfarçar meu
constrangimento com o seu olhar.
— Sim. Agora pode – pegou o telefone e desligou-o.
Baixei a cabeça para desligar o meu, mas demorei mais tempo para
fazê-lo, olhando as teclas com atenção. Coloquei-o depois sobre a mesa e
olhei novamente para Daniel. Lá estava ele me observando atentamente.
— Se eu soubesse que ia gostar tanto do que vejo agora, não teria
demorado aqueles dias todos para responder seus e-mails – falou
simplesmente, indo direto ao ponto – Você é muito bonita. Começo a
acreditar que também é muito exigente para estar sozinha até hoje. Só espero
preencher alguns requisitos do seu perfil ideal.
Preenche todos e ainda vem com bônus!
Tentei ver se ele estava brincando, mas sua expressão era séria e
parecia acreditar mesmo que eu era alguém especial, com uma fila de
candidatos à minha porta. Eu sabia que era bonita, pois via e sentia os olhares
dos homens em mim, mas como os brasileiros olhavam para todas as
mulheres da mesma forma, nunca considerei que fosse diferente delas, mas
apenas outra mulher comum.
Agora eu tinha certeza absoluta que Daniel era mesmo um homem
muito diferente dos que eu conheci a minha vida inteira. Talvez fosse pela
cultura de onde nasceu, o meio onde vivia ou a educação que recebeu. Ele
não tinha nada a ver com os homens brasileiros.
Resolvi matar minha curiosidade.
— Posso fazer uma pergunta?
Ele confirmou com um discreto gesto de cabeça, antes de encostar-se
na cadeira e cruzar os braços no peito.
— Pergunte o que quiser.
Parecia relaxado e realmente disposto a responder todas as minhas
perguntas.
— Você é mesmo americano? É que seu nome parece latino.
— Sou americano mas meus pais são espanhóis. Nasci durante a
época que meu pai tinha negócios aqui em Nova York. Estudei aqui, me
formei aqui, trabalho e moro aqui desde então. Hoje eles vivem na Espanha,
para onde vou sempre que posso.
— Oh.. desculpa! Pensei que fosse de algum país aqui da América
Latina!
Que gafe! Por que não fiquei calada?
— Não tem problema. Tenho descendência europeia e não latina, mas
sou americano de nascimento – sorriu tranquilamente para mim, deixando
bem claro que via com naturalidade aquele meu engano – E você? É mesmo
de Fortaleza?
— Sim, sou Cearense de Fortaleza. Ao contrário de você, nasci aqui e
nunca viajei para fora da minha cidade – olhei-o do outro lado da tela – Já
veio ao Brasil alguma vez? Você fala o português muito bem.
— Várias vezes, mas sempre na sede que temos em São Paulo. Nunca
fui para o Norte onde você mora.
— Não moro no Norte. Aqui é Nordeste, uma região muito quente,
com sol quase o ano inteiro e praias belíssimas.
Ele sorriu diante da minha explicação entusiasmada.
— Certo, então é Nordeste. Vou lembrar disso quando for vê-la!
Ver-me?
— Ver-me? – falei em voz alta, sem conseguir esconder a surpresa
estampada na cara.
— Sim, Ana! Ver você – repetiu calmamente, descruzando os braços
do peito e apoiando-os na mesa em frente do computador – Quero conhecê-la
pessoalmente assim que puder. Viajo em menos de quinze dias para a
Inglaterra e logo depois vou dar um jeito de visitá-la no Brasil.
Oh meu Deus! Menos de quinze dias?
Meu coração deu um pulo de excitação só de pensar em ficar frente a
frente com Daniel.
— Mas tão rápido assim? – balbuciei feito uma idiota.
— Tão rápido assim – ele confirmou, segurando o riso e me fazendo
perceber a pergunta boba que fiz.
— É que mal nos conhecemos, apenas hoje falamos pelo Skype...e
você nem queria encontrar uma namorada pela internet, foi tudo ao acaso –
saí citando os motivos todos que faziam daquela vinda dele algo surreal.
Céus! Eu falei mesmo a palavra "namorada"? Que horror!
Mas Daniel não pareceu incomodado com o termo que usei, ao
contrário, permaneceu sério e muito seguro de si quando continuou
calmamente.
— Ana, se você encontrar no seu caminho algo que gosta muito, você
pega logo para si ou o deixa lá atrás, pensando em voltar e pegá-lo numa
outra hora?
Fiquei calada, porque insegura e medrosa do jeito que eu era
provavelmente ia achar que aquilo era bom demais para mim, que eu não
merecia tê-lo e, sem dúvida nenhuma, eu o deixaria para trás.
Acho que ele sentiu a minha resposta mesmo sem ela ter sido dita,
porque continuou falando com a voz muito firme e decidida.
— Eu pego para mim, porque não vou correr o risco de quando decidir
voltar, já não encontrar mais o que queria porque outra pessoa pegou em meu
lugar.
Jesus, Maria e José!! Mas o que é este homem, meu Deus!! De que
barro foi feito?
Não! Ele não foi feito de barro como o resto da humanidade. A Bíblia
estava errada com relação a Daniel. Deve ter sido forjado a ferro e fogo,
porque com aquela determinação, ele só podia ser um Homem de Ferro.
Sua voz grave fez-se ouvir novamente na minha salinha minúscula,
aumentando minha excitação e meu nervosismo a uma escala absurdamente
alta.
— Já disse ontem que senti uma atração imediata quando vi sua foto.
No término daquela ligação, eu já estava encantado com sua voz, para não
dizer completamente seduzido. Estou vendo você agora e tudo que sentia,
pensava e imaginava se confirmou. Agora eu pergunto diretamente e vou
querer sua resposta honesta e também direta. Você gostou de mim o
suficiente para querer me conhecer melhor e ver se eu sou este homem que
está procurando?
Ajudem-me a respirar, por favor!!!
Será que este era o tal pedido de namoro que Bia falou? Se eu dissesse
que sim, já estaríamos namorando?
Olhei aquele homem de sonho na minha frente e disse a única resposta
que podia dar.
— Sim, gostei muito de você e quero conhecê-lo melhor.
Ele recuou para trás e voltou a apoiar-se no espaldar da cadeira,
respirando fundo e me olhando de uma forma que me deixou literalmente
com a calcinha molhada. Acho que se eu estivesse agora ao lado de Daniel,
ele teria caído em cima de mim com tudo, porque seu olhar era de puro
desejo.
Meu Deus, como vou controlar um homem maduro como aquele, que
mal colocou os olhos em mim já queria me levar para a cama? Porque eu não
tinha dúvida nenhuma que seria exatamente aquilo que Daniel faria comigo
se eu estivesse agora ao alcance de suas mãos.
— Então o que mais você quer esperar? – perguntou simplesmente e
percebi que não tinha argumento algum contra sua viagem ao Brasil – Fica
decidido que tão logo eu volte de Londres, viajo ao Brasil para conhecer
você. Só não vou antes porque não posso deixar o escritório central agora.
Temos muitas reuniões agendadas com investidores chineses e preciso estar
presente.
— E você vai ter tempo para falarmos daqui até lá?
Se haveria tantas reuniões, talvez ele não pudesse falar comigo
durante os próximos dias e isso seria péssimo para mim, porque ficaria mais
insegura ainda até o dia em que o conhecesse pessoalmente em Fortaleza.
— Terei! Vamos falar todas as noites se você puder me atender. Já
disse que agora quero tudo que tenho direito. Também conversaremos por
mensagens e se você permitir que ligue no seu celular durante o dia, eu o
farei.
Céus! Ele estava mesmo disposto a tudo!
— Pode ligar sim! Só não atenderei se estiver na rua, porque não me
sinto segura para isso.
Ele franziu a testa quando escutou o que eu disse.
— Já escutei muitas notícias sobre a violência no Brasil, mas nunca
pensei que fosse tanto assim.
Dei um sorriso triste ao lembrar do meu pai.
— Infelizmente é assim mesmo.
Sua expressão ficou pesada, quando confirmou com a cabeça.
— Tudo bem, então não atenda quando não sentir-se segura. Me envie
uma mensagem depois e retornarei a ligação assim que puder.
Só esperava conseguir enviar aquelas mensagens todas para ele!
— Ana, com quem você mora? – perguntou de repente, me fazendo
descruzar as pernas da cadeira e por os pés no chão, tensa – Com seus pais?
— Moro com meu pai – disse simplesmente, sem mais explicações.
— Não vai ter problema para você, se eu ligar tantas vezes para sua
casa?
Oh meu Deus, e agora? Ia ficar estranho eu ter um pai em casa e ele
nunca aparecer para saber quem era o cara com quem a filha falava todas as
noites. Eu também não podia simplesmente dizer que meu pai era tetraplégico
e estava dependente na cama, quando tinha acabado de ser "pedida em
namoro virtual" por Daniel.
— Não, não vai ter problema. Meu pai... ele é médico e dá plantão no
hospital à noite. Quase nunca está em casa nesse horário.
— Foi por isso que a sua tia ligou ontem à noite? Porque estava
sozinha? Não pude evitar de ouvir sua resposta e tive a impressão que ficou
preocupada com você quando não conseguiu completar a ligação.
— Ela está sempre preocupada comigo – dei um sorriso carinhoso
quando lembrei dela – Tia Sílvia é nervosa e estressada, mas é como uma
segunda mãe para mim.
Daniel permaneceu com uma expressão séria no rosto, antes de falar
novamente.
— Espero que quando eu for ao Brasil seu pai consiga uma noite livre
para jantarmos os três juntos. Gostaria de conhecê-lo. Tenho uma irmã
médica que mora na França com o marido e sei como são os plantões nos
hospitais.
Que merda foi que eu fiz?
— Falarei com ele – àquela altura eu já estava querendo desligar o
Skype, antes que fosse obrigada a inventar mais mentiras para ele.
Eu já não sabia se aquelas mentiras eram para me ajudar ou prejudicar
mais ainda. Sentia como se já estivesse perdendo Daniel, poucos minutos
após tê-lo conquistado.
— Vocês dois trabalham no mesmo hospital?
— Não! São hospitais diferentes – pelo menos isso era uma meia-
verdade, ou uma meia-mentira.
Eu precisava mudar rápido de assunto ou acabaria metida numa
grande enrascada.
— Você não me apresentou a sua grande companheira! Ela não quer
me conhecer?
Ele sorriu quando terminei de falar e suspirei de alívio por ter
conseguido desviar sua atenção.
— Ela é muito geniosa, mas acho que vai gostar de vê-la. Espera um
pouco.
Olhou para o lado e deu um suave assobio, sorrindo mais ainda
quando um latido fino soou dentro da sua casa. Não pude deixar de rir
também, porque era típico de um cachorrinho de pequeno porte.
Daniel inclinou-se e trouxe Candy para cima.
Era mesmo uma gracinha e muito miudinha. Agitava o rabinho e pôs-
se a lambê-lo no queixo. Ela latiu para mim, mas parecia simpática.
— Candy, esta é a Ana!
Ouvi com atenção sua pronúncia do nome da cachorrinha, para não
falar errado.
— Olá Candy, como está? – cumprimentei-a dando um tchauzinho
com a mão, vendo como retornou minha saudação com outro latido
esganiçado, me fitando intensamente pela tela – Ora, mas ela é muito esperta
e simpática.
Daniel estava olhando de forma estranha para Candy, como se tivesse
saído chifres de sua cabeça.
— Sim, ela é muito simpática – falou, colocando-a de frente para o
próprio rosto e olhando-a com atenção – Gostou da Ana?
A cachorrinha latiu de novo, me fazendo rir com seu minúsculo
rabinho balançando energicamente.
Daniel baixou-a ao colo e me olhou com um sorriso enigmático nos
lábios.
— Ela é muito exigente, mas parece que gostou de você.
— Fico lisonjeada com isso, Candy. Saiba que também gostei muito
de você.
— E do dono? – ele provocou de imediato – É que a Candy ia ficar
triste se soubesse que fez mais sucesso do que eu.
Escondi uma risada com a mão na boca, olhando-o e vendo como ria
também.
— Gostei muito do seu dono, Candy. Ele também é muito esperto e
simpático.
Ela voltou a latir alegremente e acabamos por rir mais ainda.
Daniel colocou-a no chão e voltou a falar.
— Vou deixá-la agora. Logo cedo tenho uma reunião à minha espera e
ainda preciso organizar alguns relatórios. Amanhã entrarei em contato para
ver se poderá falar comigo novamente – voltou a apoiar os braços na mesa,
chegando mais perto de mim na tela – Gostei muito de vê-la e volto a dizer
que estou seduzido pela mulher linda que você é.
Fiquei muda por um longo momento, apenas olhando para ele.
— Eu também gostei de vê-lo – não consegui falar mais nada, porque
não tinha coragem de dizer que estava tão seduzida por ele quanto ele estava
por mim.
— Espero que durma bem.
— Você também.
Continuamos a nos olhar, até que ele fez sinal com o dedo para a tela.
— Vou esperar que desligue.
Olhei para a tela e fiquei sem saber o que fazer.
— Como é que eu desligo? – nem pensei muito antes de perguntar
— Enfim vou poder mostrar meus dotes de informática – ele brincou,
rindo para mim e me fazendo relaxar na hora – Pegue o mouse e clique no
telefone vermelho que tem no meio da tela.
Fiz o que ele disse e o telefone surgiu à minha frente. Antes de clicar,
olhei para ele. Estava me observando com atenção.
— Beijo, Daniel.
— Beijo.
CAPÍTULO 7

Daniel
Desliguei o Skype e me recostei na cadeira, olhando a tela escura à
minha frente. Ainda não acreditava no que tinha acontecido comigo naquela
noite.
Como é que uma garota de vinte e três anos podia causar aquela
reação tão forte em mim? Justo eu que já tinha conhecido mulheres de todo
tipo, de continentes, culturas e nacionalidades diferentes, durante as várias
viagens que já fiz.
Mas que merda de desejo repentino foi este que senti por ela? Será que
era possível apaixonar-se por alguém tão rápido assim? Porque eu não tinha
dúvida nenhuma que não estava apenas seduzido por Ana, mas também me
apaixonando por ela um pouco mais a cada dia.
Em menos de um mês desde nosso primeiro contato
no "@mensagensdeamor", ela já havia causado uma revolução na minha
vida. E eu já não sabia o que pensar daquilo tudo, das emoções que sentia e
do desejo que tomou conta de mim depois que Ana Cabral entrou em minha
vida.
Bastou uma foto, algumas trocas de mensagens, uma única ligação e
poucos minutos de Skype, para eu ter certeza que ela tinha que ser minha.
Passei as mãos nos cabelos para tentar organizar melhor as ideias e
voltar a ser o homem prático que sempre me orgulhei de ser, porque pela
lógica eu não podia estar apaixonado tão rapidamente assim.
Mas uma coisa tinha que admitir. Nos meus trinta e dois anos, nunca
uma mulher causou um impacto tão forte em mim como o que senti hoje,
quando a tela abriu-se e a imagem do rosto suave e de linhas clássicas de Ana
surgiu à minha frente. Olhei para seus cabelos longos soltos nos ombros, a
boca de lábios cheios que a tornava extremamente sensual e os olhos
castanhos que me fitavam com um misto de surpresa e timidez. No conjunto,
Ana era uma mulher de beleza irresistivelmente exuberante.
Sua voz continha a mesma doçura que senti ao telefone. Ouvi-la falar
e ao mesmo tempo ver as emoções surgindo no rosto expressivo, só
aumentaram o impacto que ela tinha sobre mim.
Acho até que fiquei olhando-a como um idiota deslumbrado, porque
Ana era exatamente o que eu já achava que fosse, só que tinha muito mais
brilho próprio e encanto pessoal do que eu imaginava. Passei o dia inteiro
estranhamente ansioso por aquele Skype, porque sabia que ele confirmaria ou
destruiria de vez as impressões que tive dela.
Mas já no primeiro instante em que vi sua imagem surgindo na tela do
Notebook, tão linda, suave e parecendo nervosa e insegura em falar comigo,
tive a confirmação que precisava.
Se a sua voz era capaz de fazer um homem gozar, o conjunto
completo despertava o desejo irrefreável de possuí-la pelo resto da vida. Não
esperava sentir aquele aperto na virilha quando sua imagem apareceu pela
primeira vez para mim, muito menos aquela vontade incontrolável de estar
com ela à minha frente, ao meu lado, para satisfazer o desejo avassalador que
me dominou.
Eu quase não acreditava que ela estivesse sozinha. Talvez até tenha
sido um pouco rápido demais em exigir uma definição da parte dela, em
querer saber tão cedo se tinha interesse em manter um relacionamento
comigo. Mas eu não era homem de esperar muito tempo para me apossar do
que me interessava.
Tentei não demonstrar minha ansiedade quando perguntei se havia
gostado de mim o suficiente para querer me conhecer melhor e ver se eu era
aquele homem que estava procurando.
"Sim, gostei muito de você e quero conhecê-lo melhor".
O desejo bateu duro e forte naquele momento, quando sua voz doce
falou as palavras que eu precisava ouvir. Ana Cabral não tinha noção do que
desencadeou com sua confirmação de querer me conhecer melhor, porque
agora eu moveria céus e terra para ficar com ela.
Definitivamente, eu queria Ana Cabral para mim!

***

Ana
Corri para o meu quarto, ansiosa para falar com Bia, mas antes passei
pelo do meu pai para confirmar se estava bem. Encontrei-o dormindo
tranquilamente e deixei a porta entreaberta para escutar caso ele precisasse de
mim.
Bia estava deitada na minha cama agarrada ao celular. Caí ao seu lado,
suspirando de felicidade.
— Ai amiga, já vi que deu tudo certo ou você não estaria com esta
expressão sonhadora no rosto! Yesss!!! – me abraçou e ficamos rindo como
duas idiotas, comemorando o sucesso do meu primeiro Skype com Daniel.
— Estou apaixonada por ele, juro! – confessei sem sentir nenhuma
vergonha em admitir aquilo, nem por estar tão entusiasmada – Que homem
lindo que ele é! Educado, gentil, um verdadeiro cavalheiro, mas sem deixar
de ter uma voz máscula, um olhar devorador e fazer um vulcão de desejo
explodir dentro de mim.
Ela abriu um sorrisão e seus olhos arregalaram de prazer.
— Meu Deus, quantas qualidades no homem que foi tão desprezado
no começo – provocou, aproveitando para me pisar mais um pouquinho ao
apontar para si mesma – Agora pede desculpas para a romântica e sonhadora
Bia que insistiu no Daniel, dizendo que valia a pena investir nele. Vai, vai,
alisa o meu ego que foi tão magoado!
Apertei-a mais nos meus braços, dando-lhe um beijo estalado no rosto.
— Amiga, você não existe. Nem sei o que seria de mim sem você!
Daniel é um homem de sonho e você me ajudou a encontrá-lo. Sou medrosa
demais e nunca teria ousado colocar um perfil no Site se você não tivesse
insistido tanto nisso.
Ela afastou-se de mim, voltando a acomodar-se confortavelmente em
minha cama.
— E olha que já estou no "@mensagensdeamor" há mais de um ano e
você nunca quis entrar – ficou pensativa por um momento, olhando para mim
de forma estranha – Mas talvez ainda não tivesse chegado o momento certo,
já que Daniel entrou agora "por acaso", justo quando você também entrou lá.
Pode ser destino, querida!
— Eu não sei o que foi, mas estou tão feliz que nem quero saber. Faz
tempo que não me sinto assim, tão viva e tocada por um homem – lembrei da
expressão dos olhos de Daniel em mim – Teve momentos em que ele me
olhava como se quisesse... me comer inteira. Mas o engraçado é que não me
senti mal com isso, nem ofendida. Ao contrário, gostei muito!
Ela pareceu surpreendida com o que eu disse.
— Sério isso? – assobiou baixinho – Menina, então o Daniel deve ser
mesmo quente e feito na medida para você, porque cansei de vê-la sempre
fria e racional com os homens. Quase não acredito que ele derreteu esse gelo
todo e está fazendo-a arder de paixão.
Ela deu mais ênfase às últimas palavras, só para me provocar ainda
mais.
— Você nem imagina o que ele disse! Que quer me conhecer o mais
rápido possível e daqui a quinze dias vem me visitar em Fortaleza!!!
Bom, mas se Daniel não tivesse decidido vir ao Brasil me conhecer e
quisesse que eu fosse lá, ia ficar sentado esperando até cansar, porque eu
nunca iria aos Estados Unidos, já que minhas limitações eram imensas. Além
de não ter dinheiro para a passagem, também não tinha como deixar meu pai
sem me preocupar que acontecesse algo com ele na minha ausência.
Outro impedimento era a dislexia e a falta de vivência fora da minha
cidade. Não conseguia me ver pegando um avião sozinha e viajando para o
exterior, sem me perder em todo lado por confundir direita com esquerda, ter
dificuldade em ler os avisos e placas e, pior de tudo, não saber falar inglês.
Mesmo que Daniel fosse me pegar no Aeroporto, em algum momento minhas
deficiências me colocariam em algum apuro e o medo disso acontecer para
mim era paralisante.
Graças a Deus que Daniel vem cá!
Comecei a brincar com uma mecha do meu cabelo, lembrando que
também teria problemas para enfrentar com sua vinda ao Brasil.
— Esqueci de dizer, mas eu fiz uma grande merda hoje com Daniel.
Menti para ele!
Apenas o silêncio fez-se ouvir no quarto. Olhei para ela com
ansiedade.
— Você mentiu? – ela sussurrou baixinho, parecendo incomodada
com aquilo.
— Sim. Tive que mentir e detestei fazê-lo! – admiti, muito chateada
comigo mesma – Daniel perguntou com quem eu morava e disse que era com
meu pai.
— E onde está a mentira nisso? Você mora com seu pai!
— Você não entendeu! Ele quis saber se não criaria problemas para
mim com suas ligações. Isso é algo que realmente aconteceria se meu pai
soubesse que estou falando com um americano todas as noites. Fiquei
apavorada na hora e acabei dizendo que meu pai estava sempre fora naquele
horário, porque era médico e dava plantão à noite.
Ela pensou por um momento, antes de falar.
— Isso também não é uma mentira, porque seu pai é mesmo médico e
antes do acidente trabalhava até tarde, às vezes só chegando de madrugada
depois das cirurgias de urgência.
Mesmo sabendo aquilo, eu tinha noção que as coisas não eram tão
simples assim.
— Pode não ter sido uma mentira completa, mas foi uma meia-
mentira, porque Daniel quer marcar um jantar com ele para conversarem,
esperando que meu pai consiga uma folga do trabalho quando ele estiver
aqui. Como vou me livrar dessa agora? Fiquei com medo de perdê-lo tão
cedo. Mesmo sabendo que ele não é o Bruno e poderia achar normal que eu
tivesse um pai dependente, não quis arriscar dizer isso logo de cara.
Bia soltou um palavrão com raiva quando ouviu o nome do meu ex-
namorado.
— Esse cara foi um idiota! Na verdade, ainda é um idiota, na minha
opinião. Acho que ele só queria era sexo e como você foi durona com ele e
não caiu rápido na ladainha de "prove seu amor me deixando foder você", ele
foi atrás de outra que abrisse as pernas mais fácil.
— Mesmo que o Bruno seja este idiota que você diz, o fato de me ter
trocado pela Carla já mostra como a situação financeira é importante para
quem tem dinheiro. Daniel parece ser rico e tem os pais morando na Espanha,
para onde viaja constantemente. Pelo que entendi, trabalha em uma grande
empresa americana e tem excelente status social, porque dá para notar sua
educação refinada quando a gente fala com ele. Tem quase dez anos a mais
do que eu e me sinto inadequada diante disso tudo.
Beatriz sentou na cama e me olhou de cara feia.
— E daí tudo isso? Se ele gostou de você a ponto de já estar marcando
uma viagem para cá, foda-se o mundo! Aproveita o homem enquanto pode!
Se no futuro ele descobrir que mentiu e não gostar de você o suficiente para
entender seus motivos, pelo menos você viveu um grande amor, porque eu
tenho certeza absoluta que vocês estão apaixonados um pelo outro e vão ficar
ainda mais com o passar do tempo.
Abracei-a pela cintura e pousei minha cabeça em suas pernas,
querendo colo.
— Ai Bia! Queria tanto que isso acontecesse mesmo! Eu gostei tanto
dele! Nunca pensei que fosse me sentir assim com um homem mais velho,
nem de outro país. Sempre quis um cara da minha idade e desprezava os
coroas que davam em cima de mim!
Senti um tapinha na cabeça.
— Ei sua boba! Daniel não é um coroa! Só tem trinta e dois anos e
ainda possui a grande vantagem de já ter uma vida estável e sólida.
Comecei a rir, olhando-a com malícia.
— Você tem razão. Nem de longe Daniel pode ser chamado de coroa!
Ao contrário, nunca vi tanta vitalidade junta em um homem só!
Ela riu comigo, distraindo-se ao fazer uma trancinha fina no meu
cabelo.
— Sabe, acho que tudo vai dar certo no final. Vou dar um conselho de
amiga experiente em homens. Não abra o jogo com Daniel agora. Deixe que
venha para cá e então conte pessoalmente, porque assim que ele tiver você
inteira na frente dele, linda do jeito que é, garanto que pode ter matado o
presidente que ele ainda vai querer ficar com você e será capaz de perdoar
tudo.
Senti uma pequena chama de esperança nascer dentro de mim.
— Acha isso mesmo?
— Acho não! Tenho certeza absoluta! Mas tem uma coisa importante
que não deve fazer de jeito nenhum – sua voz adquiriu um tom sério, que me
fez olhá-la com atenção – Não transe com ele nesta primeira viagem que fizer
ao Brasil, porque muitos gringos vêm para cá com esta intenção. Mostram
interesse, parecem sérios, mas só querem fazer turismo sexual com a gente.
Se Daniel realmente gostar de você, vai voltar outras vezes ou levá-la para lá
e o relacionamento vai evoluir. É melhor não arriscar!
Tudo bem, nisso eu concordava com ela e nem passou pela minha
cabeça já viver uma situação amorosa dessas com Daniel, mesmo me
sentindo muito atraída por ele.
— Eu também não pensava em fazer isso logo de cara! Ele vir cá é
bom porque estou em minha terra e não tem como isso acontecer, a menos
que eu vá para o Hotel onde ele se hospedar.
Bia suspirou de tristeza, torcendo a boca com resignação.
— Ficamos muito mais vulneráveis em um primeiro encontro fora da
nossa terra. Se eu for para os Estados Unidos conhecer Jack, teria que ficar
em um Hotel ou me hospedar na casa dele e isso seria o mesmo que já
dormirmos juntos. Não queria que fosse assim.
Fiquei preocupada quando ela terminou de falar.
— Mas não é perigoso para você hospedar-se na casa dele sem nem o
conhecer?
— Também pensei nisso e inclusive disse-lhe diretamente o que
achava em nosso último Skype, mas ele garantiu que era um homem íntegro e
tinha como provar isso para mim.
— E provou? – duvidei logo, porque não queria minha amiga na casa
de um estranho em outro país.
Pela primeira vez desde que começamos a falar do Jack, os olhos de
Bia brilharam.
— Você não vai acreditar quem é o Jack! - fez suspense, enquanto
sorria para mim – Ele é o empresário de uma cantora adolescente que está
fazendo muito sucesso lá, chamada Terri Spencer. Ela tem apenas dezesseis
anos e é sobrinha dele, filha de sua irmã mais velha.
Nunca ouvi falar da garota, mas também não estava ligada em
cantoras mirins americanas.
— Pela sua cara já vi que não a conhece – Bia riu, adivinhando meus
pensamentos – Eu também nunca ouvi falar dela, mas pesquisei na internet e
descobri muita coisa, inclusive fotos dos dois juntos que comprovam que ele
é realmente seu empresário. Jack disse que é uma figura pública conhecida
por lá e que não poderia jamais ser um serial killer psicopata atraindo uma
brasileira para sua casa.
Ela riu com este último comentário, mas um arrepio estranho
percorreu meu corpo inteiro quando ouvi aquilo.
— Ai! Que horror ouvir isso! – disse, querendo espantar aquela
sensação estranha de mim.
— O quê? Que Jack é uma figura pública? – surpreendeu-se ela, me
olhando como se fosse uma louca – Onde está o horror nisso?
— Não é isso! – expliquei rapidamente – Falo com relação a essa
história de serial killer psicopata!
Ela fez um gesto de descaso quando ouviu o que eu disse.
— Oh, ele estava só brincando por conta do meu medo bobo de ir aos
Estados Unidos e ficar na casa dele.
Pensei bem antes de responder.
— Você pode dizer que prefere aguardar que se conheçam melhor
antes de qualquer intimidade. Se ele for mesmo um homem maduro de trinta
e sete anos, vai entender e respeitar sua decisão.
— Sei disso! – fez uma pausa, como se estivesse pensando se falava
ou não algo para mim – Aninha, você não queria ir comigo aos Estados
Unidos e ficarmos as duas na casa dele?
Sentei na cama de supetão, abismada com aquele pedido.
— Eu, Bia? Ir para os Estados Unidos com você?
Ela sorriu com carinho.
— Sim, você! Eu pago tudo! – fez um gesto com a mão para me
impedir de falar qualquer coisa – Você sabe que tenho dinheiro. Ganho um
bom salário, meus pais tem dinheiro e sou filha única. Já fui aos Estados
Unidos quando fiz quinze anos. Voltei quando fiz meus dezoito e depois no
intercâmbio para aprender o inglês. Se você fosse comigo, meus pais também
não iam desconfiar de nada, porque ainda não falei do Jack para eles.
Fiquei insegura, porque nunca tinha saído da minha cidade sem meus
pais e mesmo assim foram raras vezes.
— Dinheiro não é problema para mim – Bia continuou falando com
uma vozinha cheia de esperança – Você poderia até ver o Daniel de novo, se
tudo der certo nesta primeira vinda dele aqui em Fortaleza. Eu só posso tirar
férias daqui a uns vinte dias e você podia pedir suas férias para o mesmo
período. Com você ao meu lado, não ia rolar sexo entre eu e Jack. O que
acha?
Acho que aquilo tudo era algo inacreditável, completamente surreal.
Minha vida parecia girar em torno dos Estados Unidos desde que entrei
no "@mensangensdeamor".
— Nunca pensei nisso – falei com muito cuidado, ainda insegura com
aquela possibilidade – Na verdade, nunca achei que tudo isso ia acontecer na
minha vida! Daniel, Jack, Estados Unidos...tudo isso estava completamente
fora da minha realidade há um mês atrás. Ainda estou em estado de choque.
— Temos tempo para pensar nisso com calma. Mas veja logo no
Hospital se pode tirar férias no início do próximo mês. Diga que é por causa
do seu pai. Vamos também providenciar seu Passaporte amanhã mesmo, para
darmos entrada no visto de turista, porque isso leva tempo. Caso confirme
que vai comigo, já teremos tudo pronto.
Mal ouvi falar do meu pai, já fiquei apreensiva com aquela suposta
viagem.
— Não posso viajar e deixar meu pai assim.
Ela respirou fundo e me olhou com compreensão.
— Eu entendo. Mas tenho certeza que ele seria o primeiro a dizer que
fosse se divertir, porque sabe da filha dedicada que tem. Está há quase quatro
anos cuidando sozinha dele, sem sua mãe. Tem sua tia Sílvia e a Soraia que
podem ficar com ele enquanto viajamos. Elas também vão concordar comigo
que você merece ser feliz e viver um pouco as coisas da sua idade.
Meu sentimento de culpa era grande demais e se acontecesse algo com
meu pai na minha ausência, acho que nunca mais me perdoaria e morreria de
desgosto.
— Não sei se seria capaz de deixá-lo!
— Você não vai deixá-lo! Vai apenas passar alguns dias fora. Acredite
em Deus, tenha fé que nada de mal vai acontecer na sua ausência. Acho que
você afastou-se muito de Deus nos últimos anos e perdeu as esperanças em
muita coisa. Talvez Daniel tenha surgido em seu caminho para fazê-la
acreditar novamente que pode ser feliz.
Só em ouvir o nome dele, já veio em minha cabeça a imagem do
homem forte e atraente que abalou minhas estruturas emocionais. Com sua
personalidade séria e determinada, Daniel me transmitiu uma sensação
enorme de segurança e a certeza que faria de tudo para que ficássemos juntos
se eu quisesse.
Lembrei imediatamente das nossas conversas futuras.
— Ele quer falar comigo todos os dias se puder, seja no fixo, celular
ou pelo Skype e não tenho computador comigo para isso. Como vou justificar
não poder fazer um Skype com ele nas noites em que quiser?
Ela pensou por uns bons minutos antes de encontrar a solução para
aquele problema.
— Vamos fazer assim. Durante estes quinze dias até Daniel vir ao
Brasil conhecê-la, vou deixar o meu Notebook com você.
Abracei Bia com todo o amor que eu tinha por ela. Era mais do que
uma amiga mesmo. Era minha irmã!!
— Obrigada! – meus olhos até encheram-se de lágrimas de tão
emocionada que fiquei – Você é uma estrela cheia de luz na minha vida.
— Ai, é melhor parar com isso ou vou chorar feito uma manteiga
derretida! Você sabe que sou sensível pra caramba! – fungou de emoção,
antes de afastar-se e dar umas batidinhas nas bochechas para controlar-se, me
fazendo rir.

***

No dia seguinte pela manhã

Daniel
Interrompi meu trabalho e peguei o celular, cansado de fingir que não
tinha vontade de conversar com Ana e ouvir novamente sua voz. Disquei seu
número e esperei. Depois do quinto toque sem resposta, passei a mão na
barba com ansiedade, já achando que a chamada ia cair sem ela atender.
— Alô?
Sua voz doce soou do outro lado, me fazendo respirar aliviado e sorrir
de satisfação em poder ouvi-la.
— Bom dia, Ana! É Daniel. Tudo bem com você?
— Oi, bom dia! – senti o riso em sua voz e vi que estava feliz com
minha ligação – Estou bem. E você?
— Não estava tão bem antes de ligar, mas agora estou melhor – desta
vez ela riu mesmo e não pude deixar de acompanhá-la – Fico feliz que tenha
atendido minha ligação. Espero não ter ligado em uma hora imprópria.
— Oh, não! Não está incomodando! Demorei porque estava
procurando o celular perdido dentro da bolsa – fez uma pausa, antes de
continuar suavemente – Você ligou mesmo!
Parecia surpresa com aquilo.
— Eu disse que ia ligar e sempre cumpro o que digo – respondi com
firmeza, para que ela soubesse que não havia falado à toa na noite anterior –
Você está no trabalho?
Dava para escutar vozes ao fundo.
— Sim, estou.
— Então não vou tomar muito do seu tempo agora. Só queria saber
como estava e perguntar se hoje à noite poderemos falar novamente pelo
Skype.
— Por mim, podemos! – uma pequena pausa, como se estivesse
pensando antes de falar – Se eu precisar de ajuda, está disposto a mostrar
novamente seus dotes de informática?
Não consegui deixar de achar graça em seu pedido, considerando que
eu queria mostrar-lhe muito mais do que isso!
— Sempre que quiser! Estou disposto a mostrar-lhe tudo que sei.
— Oh, que bom! Vai ligar antes?
— Faremos igual a ontem. Fica bom assim para você?
— Sim, sim! Está ótimo.
Parecia aliviada com aquele arranjo.
— Vai estar sozinha ou seu pai estará em casa?
Ouvi um leve gemido de angústia do outro lado da linha e franzi a
testa.
— Ana? Está tudo bem?
— Sim, sim! Está tudo bem. Peço desculpas, mas é que vou ter que
voltar ao trabalho.
— Tudo bem. Procuro você à noite.
— Obrigada. Eu gostei muito da sua ligação – sussurrou docemente,
me deixando excitado com aquele tom sensual que só ela tinha.
Me acomodei melhor na cadeira para aliviar o súbito aperto nas
calças.
— Também gostei de falar com você! Bom trabalho.
— Daniel? – chamou com urgência, parecendo achar que eu ia
desligar.
— Sim, Ana! Ainda estou aqui.
— Hã...era só para dizer que estarei sozinha hoje à noite.
A resposta que ela não tinha dado antes. Senti um sorriso curvando
minha boca.
— Tudo bem! Eu cuido de você até seu pai chegar – prometi,
escutando-a rir mais uma vez.
— Vou gostar de ter companhia.
— Então me aguarde. Ligarei na mesma hora de ontem. Beijo!
— Beijo.
CAPÍTULO 8

Dez dias depois

Ana
Terminei de organizar a cozinha e fui para a sala. Depois de dez dias
falando todas as noites com Daniel, já tinha aprendido a lidar razoavelmente
bem com o computador. Estranhamente para mim, Daniel tinha uma
paciência enorme para ensinar a mexer em tudo lá dentro. Talvez por este
motivo passei a gostar de usá-lo e mesmo quando não estava falando com ele
no Skype, me aventurava sozinha na internet com mais frequência e ousadia.
Apesar de já ter usado computador antes, nunca fiquei à vontade com
eles porque tinha dificuldade de memorização e não lembrava dos
procedimentos básicos de alguns programas. Criei o hábito de anotar tudo
passo a passo, o que diante de outras pessoas fazia parecer que tinha
raciocínio lento ou era mesmo burra. Isso aumentava minha insegurança e eu
acabava por cometer mais erros. Com o tempo preferi me afastar de quase
tudo ligado à informática para não passar vergonha.
Mas meus últimos dez dias foram maravilhosos!
Daniel era muito metódico e todos os dias falava religiosamente
comigo pela manhã no celular e à noite pelo Skype. Eu já estava acostumada
com suas ligações cedinho. Eram rápidas, mas suficientes para saber como eu
estava, se tinha dormido bem, se o trabalho estava calmo, o que ia fazer
durante o dia e sempre confirmar nosso encontro à noite.
Sua voz grave, seu tom preocupado e aquela emoção profunda que me
passava nas ligações começaram a fazer crescer cada vez mais o desejo de
estar com ele, de conhecê-lo pessoalmente, ver em carne e osso o homem
carismático e extremamente sexy que ele era. Meus sonhos ultimamente
restringiam-se a momentos de paixão nos braços de Daniel. Eu sonhava com
ele tanto dormindo quanto acordada, mas eram sempre os mesmos sonhos
apaixonados.
Eu não sabia como Daniel sentia-se com tudo isso, mas eu já contava
nos dedos os dias que faltavam para ele vir ao Brasil.
Nas últimas duas noites, depois que tínhamos desligado o Skype e eu
já estava deitada na cama pronta para dormir, Daniel havia ligado no celular
para desejar boa noite novamente.
Na primeira vez que ele fez isso, lembro que fiquei preocupada
quando atendi.
— Desculpa estar ligando de novo.
— Não precisa se desculpar. Aconteceu alguma coisa?
Tive a impressão de ouvi-lo suspirar antes de responder.
— Não, está tudo bem. Estou sem conseguir dormir. Minha cabeça
não para de pensar – fez uma pausa, a voz parecendo mais rouca do que o
normal e me perguntei se apesar de tudo ele não estaria com sono – Deve ser
por conta da reunião que terei amanhã cedo. Pensei em conversar um pouco
mais com você.
Lembro que fiquei surpresa quando ouvi aquilo, porque não fazia nem
quarenta minutos que havíamos desligado o Skype.
— É tão difícil imaginar você preocupado com uma reunião. Acho
que no trabalho você é sempre muito seguro e competente naquilo que faz.
Escutei seu riso e fechei os olhos na escuridão do meu quarto,
absorvendo aquele som com sofreguidão.
— Tudo bem, essa foi uma desculpa fraca – limpou a garganta antes
de voltar a falar – Queria ouvi-la mais uma vez antes de dormir.
Aquela admissão feita com a voz baixa e rouca de Daniel, causou um
arrepio de prazer em mim, me deixando molhada de desejo por ele.
— E está satisfeito agora? – sussurrei baixinho, provocando-o como
gostava de fazer.
Só que daquela vez ele não entrou na brincadeira e sua resposta me
deixou sem ação.
— Não, Ana. Não estou satisfeito – falou com seriedade – Ao
contrário, ouvir sua voz estando deitado sozinho só me deixa mais insatisfeito
ainda.
Não havia agressividade ou raiva em sua voz, nem se tratava de algum
tipo de reclamação ou cobrança. Era apenas a constatação de um fato que não
podia ser mudado tão cedo, mas que nem por isso deixava de incomodar.
Fiquei sem saber como agir ou o que dizer, porque aquela admissão
feita tão naturalmente por ele me pegou desprevenida. Fez-se alguns
segundos de silêncio tranquilo entre nós dois, em que só conseguíamos
escutar a respiração um do outro pelo telefone.
— Eu não sei o que dizer – resolvi ser sincera com ele.
— Não precisa dizer nada – disse calmamente, apesar de sentir uma
certa frustração em seu tom de voz – Até que possamos nos encontrar
pessoalmente não há nada a fazer. Se eu não estivesse envolvido em tantas
reuniões na Presidência, anteciparia minha ida ao Brasil. Infelizmente sair de
Nova York agora é quase impossível para mim.
— Sua reunião de amanhã é logo cedo? – se fosse, ele não poderia
ligar como sempre fazia.
— Sim. Começará às oito e não tem hora certa para terminar, por isso
não sei se poderei ligar para você pela manhã.
— Tudo bem. Acha que poderemos falar à noite, então?
— Falaremos, mas antes disso tentarei ligar para você – parou por um
momento, me deixando na expectativa do que ia dizer – Eu sei que faz muito
pouco tempo que nos conhecemos, mas a cada dia fica mais difícil só ver e
ouvir você, sem também poder tocar. Nunca mantive um relacionamento à
distância com mulher nenhuma, nem teria paciência para isso em outros
tempos. Você tem um efeito sobre mim que acabou por me submeter a este
tipo de situação, mas não é algo que pretenda manter por muito tempo.
Gelei quando ouvi aquilo, sentindo um aperto no coração.
Ele vai terminar tudo! É isso, meu Deus?
— O que quer dizer com isso? – tinha medo de ouvir a resposta, mas
não havia como evitar a realidade.
— Quero dizer que moramos em países diferentes e nenhum
relacionamento sobrevive com esta distância toda. Não sou homem de ter a
mulher que quero para mim em outro hemisfério e me conformar com isso.
Quando eu for ao Brasil conhecê-la e realmente comprovarmos que somos
quem o outro quer, vamos ter que resolver esta situação, porque vou querer
que venha ficar comigo em Nova York.
Inspirei fundo de alívio, emocionada com a calma determinação com
que ele falou. Mas também fui dominada pela apreensão, porque jamais
poderia deixar o meu pai para morar definitivamente nos Estados Unidos.
Mergulhei o rosto no travesseiro para abafar um gemido de angústia
com o drama que estava se formando em minha vida. Um sexto sentido
qualquer me alertou sobre a possibilidade futura de ficar dividida entre os
dois homens que eu amava, tendo que escolher um deles.
E como eu ia morar lá, sem falar nada de inglês?
Oh meu Deus! Onde fui me meter?
— Eu nunca pensei em morar fora do Brasil – falei com a voz
engasgada.
— Eu também nunca pensei em gostar de uma brasileira. Há coisas na
vida que acontecem e temos que nos adaptar a elas. A outra solução seria
desistir de você e não estou disposto a isto – ouvi sua respiração pesada, antes
de perguntar – Você está?
Aquela pergunta ficou entre nós apenas o tempo suficiente para uma
única respiração.
— Não, Daniel. Não estou.
Ouvi o suspiro de alívio dele do outro lado da linha.
— Então estamos acertados. Esta minha viagem ao Brasil vai decidir
nosso destino.
Aquela última frase ficou revirando minha cabeça e eu sabia que em
breve chegaria o momento de tomar uma decisão.
Agora eu vivia em contagem regressiva para o dia em que Daniel
chegasse ao Brasil, dividida entre a ansiedade de conhecê-lo e a angústia com
as escolhas que teria que fazer.
Sua chamada surgiu no meu Skype e aceitei, vendo sua imagem
aparecer na tela. Ele não estava sentado na mesa da sala, mas em um sofá e
me surpreendi de vê-lo usando ainda a roupa do trabalho. Estava de terno,
mas tinha a gravata solta sobre a camisa.
— Boa noite, Ana.
Oh Deus! Como eu amo vê-lo!
— Oi Daniel. Boa noite para você também. Chegou agora do
trabalho?
Parecia cansado.
— A reunião da tarde prolongou-se pela noite e hoje não terei muito
tempo para conversarmos. Ainda preciso analisar alguns relatórios para
minha viagem à Londres.
Passou a mão no rosto, terminando na barba bem cuidada que
acentuava sua sobriedade.
— Eu hoje tenho um pedido especial para fazer – sua expressão
continuava séria.
— É mesmo? Fiquei curiosa agora – sorri para ele, intrigada com
aquele começo de conversa – O que gostaria de pedir.
— Levanta e fica em pé.
Olhei para ele, surpreendida com o pedido.
— Levantar?
— Sim. Queria ver você por inteiro. Pode ser?
Como uma idiota, olhei para baixo, vendo meu short jeans curtinho,
que antes era uma calça comprida. Estava usando também uma blusa justinha
no corpo que pouco escondia e só de pensar em ficar em pé, me senti
constrangida. Era também a primeira vez que Daniel mostrava interesse no
meu corpo.
Olhei para ele e o vi aguardando com a mesma expressão séria no
rosto. Estava sentado no sofá da sala e tinha o Notebook em alguma mesinha
baixa à sua frente, porque conseguia vê-lo inclinado com os braços apoiados
nas pernas e as mãos unidas.
— Pensei em pedir uma foto, mas prefiro vê-la assim.
— É que estou com roupa de casa – tentei justificar minha recusa
iminente.
— Eu não me importo com isso. Quero ver você e não sua roupa –
diante da minha demora em dizer ou fazer algo, ele continuou – Por favor?
Respirei fundo e levantei, empurrando a cadeira para o lado e dando
um passo para trás, de forma que ele pudesse ver alguma coisa. Pela tela do
Notebook, vi que só aparecia meu corpo da cintura para cima e suspirei de
alívio.
Ele apenas ficou observando em silêncio e mesmo estando a
quilômetros de distância, sentia seus olhos devorando cada pedaço do meu
corpo que ele conseguia ver através da tela.
— Vai mais para trás – pediu com sua voz grave, fazendo meu
coração palpitar de ansiedade.
Puxei automaticamente o short mais para baixo, tentando esconder o
que não dava para ser escondido.
Recuei mais alguns passos até que apareci dos joelhos para cima. Não
dava para recuar mais porque a sala era pequena e a mesa ficava muito
próxima à parede. Também não queria mudar a posição do Notebook para
que ele não visse as dimensões da sala.
Como estava muito nervosa e não sabia o que fazer com as mãos,
puxei os cabelos para trás e os enrolei com os dedos até colocá-los de lado no
meu ombro.
— Está bom assim?
Ele não respondeu e eu tentava imaginar o que ele estava vendo. Os
seios que sobressaíam-se na blusa apertada, meu short jeans e as coxas nuas.
Diante daquele silêncio, fiquei mais nervosa ainda.
— Abaixa um pouco a tela do Notebook.
Oh meu Deus!
Voltei para a mesa e fiz o que pediu. Comecei a recuar para trás, mas
já no primeiro passo que dei, ele me interrompeu.
— Não recua assim. Vira de costas e anda de volta.
Ai não!
— Daniel, é que eu…
— Por favor, Ana – ele interrompeu novamente, a voz contida – Não é
uma exigência, apenas um pedido, mas gostaria que fizesse isso por mim.
Quero conhecer por inteiro a mulher com quem venho trocando mensagens e
falando há mais de um mês.
Olhei seu rosto sério na imagem do Notebook. Não havia nenhum
indício de malícia, maldade ou segundas intenções que me fizessem
desconfiar do seu pedido. Incrivelmente, apesar da distância e de nunca
termos nos visto pessoalmente, eu sabia do caráter sério de Daniel. E mais
ainda, do interesse sincero que tinha por mim.
Joguei minha vergonha para o alto e resolvi fazer o que pediu. Ainda
vacilei um instante antes de fechar os olhos e dar meia volta, virar de costas
para ele e andar para a parede. Depois girei de frente e aguardei.
Quase tive um ataque quando olhei para a tela e vi meu corpo da
cintura para baixo, as pernas totalmente nuas e os pés calçados com uma
sandália rasteira de couro. Meu único alívio foi que meu rosto estava
escondido e ele não podia ver como eu estava passada com aquilo.
Em compensação o rosto de Daniel parecia esculpido em ferro, os
olhos fixos em mim.
— Satisfeito? Posso sentar agora?
Seu maxilar estava mais duro e as mãos unidas sobre as coxas
pareciam contraídas uma contra a outra, deixando os ombros tensos. De
repente ele levantou e desapareceu do meu campo de visão. Levei um susto
tremendo quando vi o sofá vazio na tela do Notebook.
— Daniel? – chamei, paralisada no mesmo lugar.
— Pode sentar – escutei sua voz um pouco mais distante – Vou só
pegar uma bebida.
Aquela era uma atitude estranha para ele, mas de qualquer jeito
aproveitei suas palavras e vim depressa para a cadeira, respirando aliviada e
sentando. Subi a tela e fiquei mais calma quando vi que apenas o meu rosto
aparecia na janelinha.
Aguardei seu retorno e logo depois ele voltou a sentar no sofá. Tinha
um copo de whisky na mão, de onde bebeu um gole e pousou na mesa em
frente.
Seu corpo grande recostou-se no sofá, deixando as pernas abertas e as
mãos fortes sobre as coxas. Fiquei mais uma vez sem saber o que dizer, então
resolvi optar pelo óbvio.
— Está tudo bem? – perguntei suavemente – Você desapareceu de
repente.
— Precisava de uma bebida forte. Não é fácil ver você daquela forma
e saber que não posso tocá-la.
Eu entendia muito bem aquilo, porque mesmo sem nunca tê-lo visto
de corpo inteiro como ele me viu agora, já me sentia insatisfeita e ansiosa por
não poder tocá-lo e namorar normalmente. Ficava só imaginando como devia
ser lindo e atraente, além do prazer que sentiria com sua pele em minhas
mãos.
Apenas nos olhamos por um tempo em profundo silêncio.
— Isso é frustrante – ele desabafou, pegando a bebida novamente e
sorvendo um longo gole, os olhos ainda fixos em mim.
Fiquei nervosa e como não sabia o que fazer com as mãos, puxei o
cabelo todo para o lado e comecei a enrolar uma madeixa com os dedos.
— Já está tão perto da gente se conhecer – tentei amenizar a situação e
diminuir a frustração que sentia tão fortemente nele.
Ficava pensando o que aconteceria quando nos encontrássemos pela
primeira vez e explodisse forte a vontade de tocar um ao outro. Ele era muito
controlado, sentia claramente isso em Daniel, mas como é que eu conseguiria
evitar que um homem maduro como ele quisesse transar comigo, se essa
fosse mesmo a vontade dele no momento?
Ai Bia! Em que enrascada me meti!
Ele sacudiu a cabeça como se quisesse desanuviar a mente e clarear as
ideias.
— Faltam cinco dias para minha ida à Inglaterra. Devo ficar lá dois
dias, no máximo três. Assim que voltar à Nova York e entregar meu relatório
à Presidência, embarco para o Brasil. Vou pedir para providenciarem minha
passagem aérea e o Hotel onde vou me hospedar em Fortaleza. Gostaria que
fosse me receber no Aeroporto.
Graças a Deus ele agora já estava providenciando tudo, focado na
concretização daquela viagem.
— Eu vou, mas preciso saber o dia e horário com antecedência para
avisar no trabalho que precisarei faltar.
Ele concordou com a cabeça.
— Vou tentar ligar para você quando estiver em Londres. Teremos
que ver apenas a diferença de fuso horário, porque estarei quatro horas a mais
do que seu horário em Fortaleza. Se formos conversar pelo Skype, às nove da
noite para mim ainda será cinco da tarde para você e estará no trabalho.
Baixei a cabeça e olhei meus dedos, contando neles nove da noite aqui
no Brasil, mais quatro horas. Daria uma hora da madrugada para ele. Ficaria
difícil para mim, porque antes das nove estava envolvida nos cuidados com
meu pai.
Levantei a cabeça e fitei-o, vendo que estava com os olhos fixos em
mim.
— Acha que poderemos pelo menos falar pelo celular em algum
momento do dia? – perguntei, porque ficar aqueles três dias sem falarmos
nada ia custar muito, ainda mais nas vésperas de sua chegada ao Brasil.
— Não sei, Ana. Estarei envolvido em reuniões e preciso estar
concentrado no meu trabalho lá. Mas tentarei encontrar um momento livre
para falarmos, sem que precise tirá-la da cama às quatro da manhã.
— Quando você viaja?
— Na segunda-feira. Fico inicialmente até quarta pela manhã e volto
no início da tarde. Na sexta embarco para o Brasil e passo o fim de semana
com você.
Ai meu Deus! Estava perto e só de ouvi-lo dizer aquilo, me arrepiei de
ansiedade e excitação.
— Quase não acredito nisso! – desabafei, sorrindo nervosa e ao
mesmo tempo feliz.
— Acredite! Porque em poucos dias você me terá à sua frente no
Aeroporto e poderemos enfim nos conhecer.
CAPÍTULO 9

Na noite seguinte

Daniel
Olhei o relógio. Eram quase oito horas da noite e só agora a reunião
com o Dr. Stevens tinha chegado ao fim. Eu tinha uma hora para chegar em
casa, jantar alguma coisa e me preparar para conversar com Ana pelo Skype.
Na noite anterior estava ocupado demais e nossa conversa foi rápida,
porque precisava rever todo o material de Londres para essa reunião na
Presidência, mas não consegui resistir à tentação de pedir para vê-la em pé. Já
faziam dias que eu fantasiava como seria o corpo de Ana, porque em nossos
Skypes só conseguia ver seu rosto, pela posição que ela ficava sentada.
Jamais imaginei que por baixo da mesa se escondia o meu maior
tormento em forma de mulher. Nunca pensei que ela estivesse usando apenas
um short curtinho, nem que vestisse aquela blusinha absurdamente justa que
quase não conseguia conter os seios bem formados e ainda mostrava um
pedaço da barriga lisinha.
Ana tinha o corpo mais sensual e estonteante que já vi, aumentando
meu desejo por ela de uma maneira quase incontrolável. Não era
excessivamente magra como muitas das mulheres que eu conhecia ou com
quem fiquei, algumas inclusive modelos que controlavam o peso com uma
paranóia irritante.
Ana definitivamente tinha um relacionamento harmonioso com a
balança, porque era cheia de curvas na medida certa, que tornavam seu corpo
extremamente sensual para mim. Esperava apenas que ela não usasse aquele
tipo de roupa fora de casa, apesar de saber que o calor no Brasil fazia com
que as mulheres brasileiras usassem roupas mínimas.
Desde que a vi ontem à noite, já não conseguia pensar em outra coisa
que não fosse tê-la em meus braços e satisfazer todo o desejo reprimido que
estava guardando dentro de mim desde que coloquei meus olhos em sua foto.
Esperava apenas conseguir me controlar quando estivesse frente a frente com
Ana no Aeroporto, ou seria capaz de arrastá-la para meu Hotel e fazer amor
com ela sem nem respirar direito o ar do Brasil.
Passei a mão na barba e me esforcei para focar minha atenção no
trabalho, chateado comigo mesmo por estar tão disperso na empresa e por ter
o pensamento sempre vagando atrás de Ana.
Olhei para o Dr. Stevens sentado confortavelmente à minha frente, um
café quente nas mãos trazido pela eficiente Doris.
Já havíamos visto e revisto todos os relatórios de Londres e minha
viagem estava completamente articulada. Não faltava mais nada para vermos
e agora poderia tratar dos meus assuntos pessoais.
— Dr. Stevens, quando voltar de viagem gostaria de tirar três dias de
folga para resolver alguns assuntos pessoais – disse-lhe, enquanto recolhia os
contratos assinados e os relatórios da filial que levaria comigo – Já estaremos
com os assuntos de Londres resolvidos e só receberemos os contratos dos
investidores chineses na semana seguinte.
Ele me olhou com alguma surpresa na expressão, pousando o café
sobre a mesa, um leve sorriso surgindo no rosto.
— Então enfim vai visitar seus pais na Espanha?
Não estava disposto a entrar em detalhes da minha vida pessoal, mas
também não poderia mentir com relação ao meu destino.
— Infelizmente não irei à Espanha vê-los, apesar de precisar visitá-los
em breve. Acredito que nestes poucos dias não haverá nenhum contratempo
com os assuntos que tenho sob minha responsabilidade e poderei me ausentar
sem grandes problemas.
Senti seu olhar arguto sobre mim e sabia que esperava mais
explicações sobre minha ausência da empresa, mas a menos que ele
perguntasse diretamente o que eu ia fazer, não pretendia soltar informações
de forma espontânea. Meu assunto com Ana só dizia respeito a nós dois e até
o momento ninguém sabia dela em minha vida. Só falaria sobre ela se
realmente fosse obrigado a fazê-lo.
Depois de mais um silêncio em que o Dr. Stevens terminou
pensativamente seu café, concordou com a cabeça, consentindo com os dias
de folga que pedi.
— Concordo que vá resolver seus assuntos. Quando temos pendências
pessoais é sempre bom solucioná-las logo ou acabam por tornar-se sérios
problemas, e não apenas pendências. Já faz um bom tempo também que você
não tira férias.
Apesar de receber sua autorização para minha ausência, em nenhum
momento cogitei a possibilidade que fosse negá-la, porque possuía períodos
de férias vencidas além do que era legalmente permitido. Mas tinha
consciência também que minha posição na corporação me trazia muitos
privilégios e regalias, que ultrapassavam enormemente qualquer direito legal
que um colaborador comum recebia.
— Obrigado, Dr. Stevens. Estarei sempre disponível no celular e
Doris poderá me encontrar a qualquer hora.
— Sei disso – aguardou alguns minutos antes de levantar-se, dando
por encerrada nossa reunião.
Levantei também e peguei as pastas sobre a mesa, me preparando para
dar por terminado meu dia de trabalho.
— Ah, já ia me esquecendo – ele apontou com o dedo para a própria
testa – No próximo mês estarei dando uma festa de aniversário para Meghan
por conta dos seus vinte e oito anos. Eu e Victoria gostaríamos da sua
presença. Ela diz que você nunca mais participou de nenhum de seus eventos
e sente sua falta.
Aquela última frase continha um aviso implícito, mas resolvi fingir
que não percebi.
— Terei imenso prazer em comparecer, Dr. Stevens.
Ele sorriu, me cumprimentando com uma leve batidinha no ombro.
— Agora vá. Doris fará o convite chegar às suas mãos nos próximos
dias.

***

Ana
Oh meu Deus! Estou atrasada!
Olhei o relógio pela milésima vez, vendo que já ia dar sete e meia. Eu
tinha que estar livre às nove da noite para meu Skype com Daniel.
Um engarrafamento terrível fez o ônibus passar quase uma hora
parado no trânsito. A minha sorte é que Soraia havia ligado quando eu não
cheguei em casa no horário normal e assim que soube do engarrafamento,
disse que me esperaria sem problema algum. Avisei que passaria rapidamente
no supermercado para comprar alguns itens importantes para a dieta do meu
pai e logo depois ia para casa.
Peguei o carrinho de compras e percorri o mais rápido que pude os
corredores do supermercado, indo depois para o caixa. Olhei a longa fila que
tinha à minha frente e procurei respirar fundo para me encher de paciência.
Era final de expediente e parece que todo mundo resolveu fazer feira
naquela hora.
Fiz pensamento positivo.
Vai dar tempo!
Minha preocupação era com Daniel, que ia ligar no horário marcado e
eu ainda estaria cuidando dos meus afazeres domésticos. Cansei de olhar as
horas várias vezes para ter certeza que não me atrasaria muito, mas minha
insegurança me obrigou a pedir ajuda.
Olhei para a senhora que estava à minha frente e vi que ela tinha um
relógio no pulso. Coloquei meu braço para trás, escondendo meu próprio
relógio.
— Com licença. Poderia dizer as horas, por favor? – perguntei com
um sorriso simpático.
Ela virou o pulso delicado e olhou o relógio.
— Oito e meia!
O quê? Não eram sete e meia?
— Oito e meia? – repeti alto.
Ela me olhou com estranheza, a expressão ficando desconfiada.
— Sim. Oito e meia!
E me deu as costas.
— Obrigada – falei mecanicamente, olhando novamente meu relógio.
Contei os ponteiros com atenção, porque estava certa de ter visto sete
e meia, e não oito e meia. Na segunda contagem que fiz depois da informação
que recebi da mulher desconfiada, vi que ela tinha razão.
Claro que ela tinha razão. Não era disléxica como eu!
Agora estou mesmo atrasada e não tenho mais tempo!
Em exatos trinta minutos, Daniel ia ligar e eu não estaria em casa.
Soraia atenderia dizendo que ainda não cheguei e só voltaríamos a falar
amanhã.
Paciência, Ana! É melhor aceitar que não vai conseguir falar com ele
hoje, do que ficar tendo ataques de pânico por conta do atraso.
Foi só trinta minutos depois que consegui sair do supermercado,
carregando duas sacolas de compras. Peguei um táxi que me deixou em frente
ao meu prédio e quando estava abrindo o portão, meu celular tocou dentro da
bolsa.
Nem que eu quisesse conseguiria atender estando com as duas mãos
ocupadas. Deixei tocar e entrei no prédio, passando pela portaria e chegando
no elevador. Só então, já em segurança, foi que coloquei as sacolas no chão.
O celular começou a tocar pela segunda vez e abri a bolsa para pegá-lo.
Olhei a tela e abri a boca de surpresa quando vi a foto de Daniel.
Oh meu Deus! É ele!
Passei o dedo rapidamente para atender.
— Alô? Boa noite, Daniel.
— Ana! Você está bem? – parecia preocupado, passando por cima da
educação e indo direto ao assunto, sem cumprimentos de boa noite.
— Desculpa, mas hoje não consegui chegar em casa a tempo!
— Você está bem? – repetiu, ignorando o que eu disse e percebi que
tinha falado o óbvio, porque certamente ele tinha ligado e Soraia avisou que
eu não tinha chegado ainda.
— Sim, estou bem, apenas me atrasei no trânsito. Estou chegando em
casa agora.
— Já está em casa? – senti o alívio em sua voz.
— Na verdade estou esperando o elevador chegar para subir ao meu
apartamento, mas está demorando. Acho que alguém o segurou lá em cima,
porque já chamei duas vezes e só agora está descendo.
Escutei o som do latido de Candy e não consegui deixar de rir com seu
tom fino e esganiçado.
— Quero muito falar com você, mas se estiver cansada e preferir
cancelar nosso Skype, eu vou entender perfeitamente.
— Não! – falei rapidamente, até perceber que poderia parecer ansiosa
demais – Quer dizer, eu gostaria de manter nosso Skype, desde que não fique
tarde demais para você ou acabe por atrapalhar alguma coisa da sua rotina.
Escutei sua risada do outro lado da linha.
— Não atrapalha em nada para mim. Você sabe que já não passo sem
nossas conversas. Gosto de vê-la todos os dias, ainda que seja só para dar um
simples boa noite.
Fechei os olhos de felicidade.
Que bom!
— Vou precisar de um tempo para organizar algumas coisas, tomar
um banho e ligar o Notebook. Tudo bem para você?
Peguei minhas duas sacolas com uma mão só, porque o elevador
enfim estava chegando ao térreo.
— Por mim, tudo bem. Posso esperar o tempo que precisar. Também
cheguei tarde hoje e posso aproveitar para organizar alguns papéis.
— Oh, que bom! Prometo que não vou...
Parei de falar quando a porta do elevador abriu e o meu vizinho idiota
surgiu à minha frente, um sorrisinho odioso no rosto nojento assim que me
viu.
— Só um minuto, por favor! – falei automaticamente.
— Claro. Eu espero.
Me afastei da porta, abrindo bastante espaço para que aquele homem
asqueroso desocupasse o elevador. Sorte minha que ele estava saindo, porque
se estivesse entrando junto comigo, eu seria obrigada a subir as escadas só
para não ter que dividir o espaço com ele.
— Olá Ana! Precisa de ajuda? – seu tom era malicioso e seus olhos
percorreram meu corpo como costumava fazer sempre que nos
encontrávamos.
Jaime tinha por volta de quarenta anos, era casado e pai de dois filhos
pequenos. Desde que o vi pela primeira vez, não gostei dele e as atitudes que
teve de lá para cá só vieram confirmar aquela péssima impressão que me
passou. Bia já o conhecia também e o tarado só faltava comê-la com os olhos
quando cruzavam no prédio.
Na verdade, ele dava em cima de todas as mulheres que surgiam no
seu caminho e eu não conseguia entender porque a mulher dele não dava um
chute no seu traseiro gordo e ir a ser feliz sozinha.
Baixei o celular, apertando-o com força contra minha perna para que
Daniel não escutasse nada, porque tinha certeza que viria pela frente uma
conversa de baixo nível.
— Se quiser, posso subir e acompanhá-la até seu apartamento – como
sempre, ele fez aquela proposta repugnante com a maior cara de pau do
mundo, o tom insinuante mostrando suas verdadeiras intenções – Tenho
tempo livre para ajudá-la no que precisar.
Se eu fosse homem teria o imenso prazer de dar-lhe um soco na cara e
destruir aquele sorriso nojento, quebrando todos os seus dentes.
Ele estendeu a mão em direção às minhas sacolas, me fazendo recuar
um passo para trás.
— Não, obrigada! – respondi friamente.
Não pensei duas vezes em enfiar o celular de qualquer jeito dentro da
minha bolsa, resignada em perder a ligação de Daniel.
Esperei que saísse do elevador e fosse embora, mas ele ficou onde
estava, segurando a porta e me encarando fixamente.
Que nojo!
Devolvi seu olhar com coragem. Eu não tinha medo dele, porque sabia
que nunca ousaria fazer mais do que se insinuar para mim, principalmente
por ter a mulher e os filhos morando no apartamento em frente ao meu. Mas
aguentar aqueles olhares lascivos, o sorrisinho nojento e as insinuações
indecentes há anos, era desagradável e inconveniente demais.
— Com licença – não mudei o tom de voz e fiquei aguardando que
liberasse a porta para mim.
— Tão orgulhosa – olhou minhas pernas expostas pela saia azul do
hospital – Pense bem, Ana. Um dia pode precisar de mim.
Ele sorriu novamente e soltou a porta, saindo da minha frente.
Não entrei até que o vi passando pela portaria e deixando o prédio,
pois não ia arriscar ser encurralada dentro do elevador minúsculo por aquele
pervertido.
Entrei, coloquei as sacolas no chão e apertei o quarto andar, tirando o
celular da bolsa e olhando a tela. Sabia que o sinal lá dentro era fraco para
falar com Daniel e só me restou respirar fundo e encostar no espelho, vendo
os andares passarem até chegar ao quarto. Quando saí, trouxe o celular de
volta ao ouvido.
— Daniel?
Nada. A ligação tinha caído.
Oh! Droga!
Peguei a chave na bolsa e quando fui abrir a porta, o aparelho
começou a vibrar, me fazendo dar um gemido de alívio quando vi a foto de
Daniel.
— Daniel?
— Quem é aquele homem? – perguntou de imediato, a voz com um
tom estranho que não consegui identificar, mas que não era o normal que
usava comigo.
Hesitei por um momento, pega de surpresa com aquela impressão
nova que tive dele, mas também por não saber até que ponto ele escutou a
conversa.
— Ah! É o meu vizinho da frente.
— O vizinho idiota de quem você falava? Então ele existe mesmo! –
suas últimas palavras eram uma confirmação e não uma pergunta – Pensei
que fosse brincadeira sua.
Já tinha esquecido que havia falado daquele idiota nas nossas
primeiras mensagens e conversas. Parecia que já fazia tanto tempo isso, que
nem lembrava mais.
— Sim, ele existe.
Infelizmente!
Abri a porta de casa e entrei, passando a chave na grade e na porta,
antes de ir deixar as compras na cozinha. Meu braço doía e adorei me livrar
daquele peso todo.
— Já está dentro de casa? – Daniel parecia preocupado.
Ouvi Soraia saindo do quarto de meu pai. Quando ela chegou na
cozinha pequena, fiz sinal com a mão para o celular. Ela sorriu, entendendo
tudo e foi organizar minha feira.
— Sim, acabei de entrar.
— Vou ligar daqui a uma hora para falarmos com calma. Acha que dá
tempo para se organizar ou quer que ligue mais tarde?
Pela hora, Soraia já devia ter dado o jantar do meu pai, por isso aquele
tempo era suficiente para mim.
— Para mim está ótimo. Dá tempo, sim.
— Certo. Ligo depois então. Beijo
— Beijo.

***
— Fale-me do seu vizinho.
Foi a primeira pergunta que Daniel fez quando começamos a
conversar. Tinha o rosto severamente fechado e fiquei momentaneamente
sem ação. Também não sabia o que dizer, porque aquele assunto não era algo
que me agradasse.
— Por que quer falar dele?
— Antes que a ligação caísse, escutei a breve conversa que tiveram na
porta do elevador. Só quero saber mais sobre ele.
Tentei manter o rosto inexpressivo, para não demonstrar que sentia
repulsa em falar do meu vizinho.
— E o que gostaria de saber?
— Nome, idade, o que faz da vida, se mora sozinho, há quanto tempo
reside aí, se seu pai o conhece e, principalmente, como trata você! – seu tom
era frio e incisivo, parecendo muito mais o advogado falando, do que o
Daniel gentil que eu conhecia.
O que é que eu podia dizer sobre aquele homem horrível?
— Bom, eu não me ligo muito nele, por isso não sei nada com
exatidão – procurei tratar o assunto de forma leve – Sei que se chama Jaime,
tem por volta dos quarenta anos, mora com a esposa e dois filhos pequenos e
está aqui no prédio desde que cheguei. Não sei em que trabalha.
Esperava que aquelas informações bastassem.
— Seu pai fala com ele?
Tinha quase certeza que nem todo mundo no prédio sabia que meu pai
existia, mas com certeza que Jaime tinha noção que era doente, por conta das
vezes em que teve de ser hospitalizado.
— Eles se conhecem, mas raramente se falam por conta dos horários
do meu pai.
Daniel pareceu não gostar daquela resposta.
— Seu pai ainda não percebeu que este homem assedia você?
Com aquela pergunta, percebi que não tinha conseguido evitar que
Daniel escutasse aquele idiota. Eu devia ser mesmo burra ao lidar com
celulares.
— Meu vizinho assedia todas as mulheres.
— Não me interessam as outras mulheres. Me interessa você!
Falou aquilo sem alterar o tom de voz, coisa que até hoje não o vi
fazer, mas nem precisava falar alto, gritar, blasfemar ou vociferar para que
suas palavras tivessem o mesmo impacto.
Daniel era sempre muito calmo, seguro e controlado. Firme em suas
opiniões, atitudes e emoções, mostrando uma maturidade que me atraía cada
vez mais. Minha admiração por ele só fazia aumentar. Justo eu, que não
queria nenhum homem maduro para namorar.
— Há quanto tempo vocês moram aí?
— Vai fazer uns quatro anos. Estamos aqui desde que meus pais se
divorciaram.
Por um momento Daniel não disse nada, olhando pensativamente para
uma caneta dourada que tinha nas mãos. Alguns segundos depois fixou o
olhar no meu, como se tivesse tomado uma decisão.
— Gostaria muito de falar com seu pai, porque acho que deveria
preocupar-se mais com este vizinho de vocês.
Oh meu Deus!
— Está tudo bem, acredite! O homem é casado e conheço a esposa
dele. É uma mulher caseira e que vive para a família. Está sempre em casa,
por isso não há com o que se preocupar.
Dei-lhe um sorriso tranquilizador, procurando aliviar aquele clima
tenso.
— Agora conte sobre o seu dia, porque não quero mais falar sobre isso
– disse suavemente, ansiosa para relaxar ao seu lado – Hoje foi um dia
corrido para mim. Testei minha paciência em um engarrafamento de quarenta
minutos e tudo que quero agora é aproveitar você.
Resolvi provocá-lo um pouco para que esquecesse aquele assunto de
vez.
— Ou então vou ter que reclamar com Candy, dizendo que você não
me dá atenção suficiente quando está longe dela.
Um sorriso relutante curvou seus lábios.
— Ela hoje estava cansada e foi dormir cedo, portanto não há para
quem reclamar.
— Conta como foi teu dia.
Acabamos por conversar sobre uma série de coisas. Ele falou sobre
seu pedido de folga na empresa, sua viagem a Londres, além de perguntar
quais Hotéis próximos poderia se hospedar em Fortaleza. Como sempre,
nossas noites no Skype fluíam naturalmente, como se estivéssemos na minha
sala conversando pessoalmente.
Resolvi ficar mais confortável e levar o Notebook para meu sofá, mas
tendo o cuidado de não deixá-lo ver muito da minha casa. Sentei e apoiei-o
no colo.
Daniel parou de falar e ficou olhando minha mudança de lugar sem
dizer nada.
— Está cansada? Quer ir dormir?
Me acomodei melhor e sorri para ele, puxando os cabelos para trás.
— Estou cansada, mas não quero ir dormir agora.
— Então deita no sofá e coloca o Notebook à sua frente, assim fica
melhor.
Aceitei a sugestão e puxei a mesinha de centro, colocando-o lá e
deitando de lado. Encostei a cabeça no braço do sofá, com uma almofadinha
servindo de travesseiro, sentindo o seu olhar sobre mim.
— Posso fazer uma pergunta?
Ele riu, balançando a cabeça em confirmação.
— Já sei que vem coisa aí – brincou comigo, recostando-se na
poltrona de espaldar alto do escritório em sua casa, uma grande estante às
suas costas mostrando vários livros grossos em inglês, que eu supunha serem
de Direito.
Não era a primeira vez que ele falava comigo no seu escritório em
casa. Fazia isso todas as vezes que trabalhava nele antes de ligar.
Naquela noite, usava uma camisa de manga curta e eu estava me
deliciando ao observar os músculos de seus braços fortes. Nessas horas era
difícil de acreditar que um homem sexy como Daniel estava interessado na
BB que eu era.
Por um momento fechei os olhos, lembrando de todos os apelidos
ofensivos que tive na escola. Passei anos sendo chamada de BB ou Burra
Bonita, principalmente pelos rapazes. Dentro da classe, quase todos referiam-
se a mim como Ana Banana, sempre no sentido pejorativo e nunca de uma
forma carinhosa.
— Já disse que pode perguntar o que quiser. Sou um homem
reservado e não gosto de falar muito de mim, mas para você respondo tudo.
Olhei aquele homem lindo na tela do computador e soltei minha
grande dúvida.
— O que um homem como você viu em uma garota como eu?
Ele parou por um momento, a surpresa no rosto diante da minha
pergunta.
— Por que "um homem como você" e "uma garota como eu"? Não
entendi.
Tentei explicar melhor, sem me entregar totalmente.
— Você é bonito, muito atraente, tem uma carreira sólida, é
experiente e viajado, possui uma situação de vida privilegiada – só em citar
aquelas qualidades todas já me sentia diminuída diante dele – Dá para ver que
pode ter tudo que quiser na vida, inclusive mulheres lindas, viajadas, de
sucesso e...inteligentes.
Quis colocar aquela última palavra no meio porque era o meu grande
trauma na vida, o que me fazia sentir diferente e inferior a todas elas.
— Ana, você é linda! – ele começou, parecendo ainda surpreendido
com o que eu disse – Pode até não ser viajada ou ter o sucesso de muitas
mulheres por aí, mas isso pouco me importa, porque este não é um requisito
que procuro em uma mulher.
Senti seus olhos percorrerem meu rosto apoiado no sofá e parte do
meu busto que a tela do computador mostrava.
— Não sei o motivo desta sua pergunta, mas precisa saber que é uma
mulher encantadora. Tem uma conversa natural, espontânea e muito
inteligente comigo. É perspicaz e espirituosa. O corpo é muito sensual, na
verdade é extremamente atraente e eu estaria mentindo se dissesse que não
sinto um desejo sexual muito forte por você, mas o que me seduziu mesmo
foi a sua doçura, a suavidade da sua voz, o brilho próprio que tem.
Saber o que ele achava do meu corpo me deu mais prazer do que
pensei, porque depois de tanto ser chamada de BB passei a detestar elogios
ao meu físico perfeito, pois associava-os sempre às humilhações que passei.
— Para completar este conjunto que tanto me atrai, sei que é carinhosa
e tem um jeito meigo que me conquistou completamente. Foi tudo isso que vi
em você e não acho pouco. Ao contrário, é muito e vejo que tive uma grande
sorte em encontrar você "por acaso" naquele Site.
Lembrei imediatamente de Bia quando ele mencionou
o "@mensagensdemor" e agradeci mentalmente a ela por me ter feito entrar
lá.
— Mais alguma pergunta? – perguntou com um meio sorriso na boca
que todas as noites eu sonhava beijar.
— Não, estou satisfeita. Agora me sinto uma das sete maravilhas do
mundo – brinquei com ele.
Sua risada encheu minha sala e fitei admirada como sua expressão
séria ficava descontraída comigo.
Senhor! Não estou duvidando de nada, mas é que não consigo parar
de questionar aos céus que homem lindo é esse que surgiu no meu caminho!!
Às vezes achava que Daniel não existia e eu ia acordar de um sonho
lindo para me ver novamente sem perspectivas de amar, na minha rotina triste
e sem esperanças.
— Para mim é a primeira maravilha do mundo e vou provar isso em
breve – prendeu meu olhar com o seu, antes de esticar a mão além do
Notebook e pegar papel e caneta – Diga seu endereço. Quero lhe enviar uma
coisa.
Parei de rir na hora e acordei do sonho.
Meu endereço? Nem pensar!
Se ele sequer soubesse onde eu morava e visse o prédio simples com
apartamentos minúsculos, em uma área nada nobre da cidade, eu tinha
certeza que não haveriam qualidades de "primeira maravilha do mundo" que
o fizessem continuar comigo.
— Meu endereço? – senti a voz presa na garganta, de tanto que estava
sufocada.
— Sim, seu endereço – parecia se divertir com minha surpresa.
Bia! Tem que ser o da Bia!
Era ela quem morava num bairro nobre em frente à praia, num prédio
de classe alta e cercado de luxo por todos os lados. Sem pensar duas vezes,
dei o endereço de Bia para Daniel.
Quando terminou de anotar tudo no papel, me olhou com a expressão
novamente séria.
— Agora é a minha vez de fazer uma pergunta.
— Céus, você ficou tão sério de repente que agora fiquei preocupada
com esta pergunta – brinquei com ele, fazendo com que um leve sorriso
curvasse seus lábios.
— É porque o assunto é sério – disse simplesmente, me deixando
alerta na hora.
Será que descobriu de alguma forma que menti para ele?
Lembrei no ato que Daniel era um advogado influente e com dinheiro
suficiente para mandar me investigar, se quisesse. Fiquei subitamente muito
nervosa, procurando disfarçar o melhor que pude para ele não notar nada.
— Queria saber se você ainda tem aquele perfil
no "@mensagensdeamor".
Senti tanto alívio que quase ri descontroladamente. Já estava me
vendo ser desmascarada por Daniel, mas depois percebi a tolice daquilo,
porque se ele já soubesse de alguma coisa, não estaríamos conversando tão
naturalmente como sempre fizemos.
Bom, eu nem imaginava o motivo dele querer saber daquele meu
perfil, mas não havia problema nenhum em dar-lhe a resposta mais sincera do
mundo. Talvez por ter mentido para ele, cada resposta verdadeira que eu dava
tinha um valor enorme para mim.
— Ainda tenho.
Ele passou a mão pela barba e olhei-o com curiosidade, porque depois
de dias falando com ele, já sabia que aquele gesto indicava algum tipo de
nervosismo.
— E tem recebido contatos lá?
Só quando ele fez aquela pergunta foi que percebi que nunca mais
havia entrado lá desde que comecei a falar com Daniel. Talvez até tivesse
recebido mesmo algumas outras mensagens.
— Não sei, porque nunca mais entrei no Site.
— Queria pedir que fechasse aquele perfil, independente de quantas
mensagens existam nele. Eu já fechei o meu semanas atrás.
Nunca pensei em fazer aquilo e agora percebia o erro que cometi,
porque para Daniel podia parecer que eu ainda estava interessada em
encontrar alguém, quando na verdade estava só com ele.
— Vou fechar sim. Confesso que esqueci completamente dele depois
que começamos a conversar e só por isso ficou aberto até hoje.
Por um longo momento ele não disse nada, apenas ficou olhando para
mim.
— Diga o que procurava lá.
— No Site?
— Sim. No Site.
Parecia uma resposta tão óbvia, que estranhei sua pergunta.
— Ora, um namorado – respondi, rindo meio sem jeito com aquele
assunto.
— Um namorado. Era isso o que queria quando entrou lá?
— Sim. Era isso.
Será que ele achava que era coisa de adolescente sonhadora? Talvez
homens maduros como ele não namorassem, só tivessem "casos".
Ele continuou olhando para mim como se analisasse minha resposta,
antes de continuar falando.
— Vou fazer outra pergunta, que tenho certeza a resposta é um "sim",
mas preciso ouvi-la da sua boca para que fique tudo muito claro entre nós.
Confirmei com a cabeça e aguardei sua pergunta, vendo-o apoiar os
braços sobre a mesa e chegar-se para mais perto do computador.
— Eu não estou com ninguém. Só com você – falou com voz
determinada – Você está só comigo?
Eu estava 101% com ele.
— Estou só com você!

***

Dois dias depois, quando cheguei de manhã no trabalho, Bia entrou


pela porta do hospital com um grande ramalhete de rosas vermelhas. Deu a
volta no meu balcão de atendimento e pousou-o na mesa bem à minha frente.
— Quando eu o recebi hoje pela manhã, só faltei desmaiar de
felicidade achando que era do Jack – suspirou de tristeza – Mas são do Daniel
para você!
Eu já tinha avisado que dei seu endereço para ele, mas nunca pensei
que Daniel enviaria um bouquet lindo daqueles para mim. Fiquei literalmente
de boca aberta olhando-o à minha frente.
— Abre logo este cartão, que eu estou ansiosa para saber o que ele
diz! – Bia apontou para o pequeno cartão no meio das rosas, com um lacre
em formato de coração – Já que não posso ter um igual, pelo menos quero
viver este momento com você.
Minhas mãos tremiam quando peguei o cartão e abri. Só tinha uma
pergunta lá dentro.
"Ana.
Quer namorar comigo?
Daniel."
Mostrei para Bia e quando ela leu, me abraçou com carinho.
— Eu sabia! Eu sabia que ele era a sua alma gêmea!
Eu nem conseguia acreditar naquilo e ria feito uma boba.
Daniel estava me pedindo em namoro!
— Pega o celular e responde! – ela gesticulou freneticamente com as
mãos, excitada.
— É para responder agora?
— Claro, sua boba! Na verdade, eu recebi este bouquet há umas duas
horas atrás, então Daniel deve estar esperando que diga alguma coisa, porque
já deve ter recebido a confirmação da entrega. É assim que funciona estas
floriculturas caras que fazem entrega internacional.
Oh, eu não sabia nada daquilo!
Peguei meu celular e com ajuda de Bia, escrevi uma resposta simples.
"Sim. Eu quero!"
Enviei a mensagem com o coração batendo forte e fui guardar o
celular.
— Não guarde, porque ele vai ligar – Bia disse com um sorriso
confiante.
— Acha? – fiquei subitamente nervosa em falar com ele.
— Tenho certeza – ela garantiu tranquilamente.
Quando segundos depois o celular vibrou na minha mão, respirei
fundo para me acalmar.
— Vai atender ali ao lado que fico aqui no seu lugar – ela me
empurrou para fora do balcão.
Me afastei alguns passos e atendi.
— Oi Daniel. Bom dia.
— Bom dia, Ana. Gostou das rosas?
Comecei a rir, deliciada com a surpresa romântica que ele fez. Daniel
podia ser metódico, prático, sério demais e focado no trabalho, mas comigo
tinha tempo para ser muito romântico. Com aquele gesto, eu podia considerar
que agora estava mesmo completamente apaixonada por ele.
— Eu amei as rosas! – foi difícil não deixar transparecer que estava
mesmo muito feliz.
— E o que tinha no cartão, também gostou?
E como gostei!
— Sim. Gostei muito.
Alguns segundos de silêncio, como se ele estivesse absorvendo
minhas palavras.
— Então posso perguntar novamente se você quer namorar comigo? –
repetiu a pergunta com aquele sotaque que me derretia toda, a voz grave me
deixando mole de prazer.
Naquele momento eu me senti a mulher mais feliz do mundo!
— Sim, eu quero namorar com você! – sussurrei para ele, sentindo um
nó na garganta de tanta emoção.
Minha resposta percorreu a distância que nos separava e incrivelmente
nos uniu de uma forma surpreendentemente forte.
— Agora você já tem aquilo que procurava no Site, porque a partir
deste momento somos oficialmente namorados – sua voz ficou mais grave
ainda quando completou – E deixa eu dizer que sou um namorado muito
exigente.
CAPÍTULO 10

Londres

Daniel
O celular tocou em cima da mesa, me obrigando a sair do sofá para
ver quem seria àquela hora da noite.
Tinha acabado de chegar ao hotel e ainda ia jantar, por isso não estava
com muita paciência para ninguém. Depois lembrei que minha irritação na
verdade era porque já eram oito horas da noite e queria falar com Ana, mas se
ligasse agora ia encontrá-la ainda no meio da tarde e estaria trabalhando.
Para aumentar mais ainda minha frustração, amanhã teria que estar às
oito na filial, o que me forçaria a dormir cedo e não poder conversar com ela
pelo Skype.
Peguei o celular e me surpreendi ao ver que era Richard. Fazia tempo
que não nos víamos e atendi prontamente a ligação.
— Então, Richard. Ainda está vivo?
Ouvi sua risada do outro lado.
— Tão vivo que estou querendo ir encher a cara num bar qualquer! –
brincou comigo, porque raramente bebia em bares – Estou em Londres e
como soube pela Deborah que também estava aqui, queria saber se tem
tempo para um whisky.
Pensei por um minuto antes de decidir. Talvez fosse melhor sair um
pouco, do que ficar chateado dentro do hotel pensando em Ana.
— Ainda não jantei, Richard. Podemos ir a um restaurante, conversar
e beber um bom whisky, mas não poderei demorar muito porque preciso estar
na filial pontualmente às oito.
— Para mim está ótimo! Também tenho um cliente amanhã cedo.
Marcamos no restaurante habitual que frequentávamos em Londres,
onde poderíamos conversar à vontade e relaxar do stress da nossa vida
corrida. Richard também era advogado, mas trabalhava no seu próprio
escritório de advocacia, que havia herdado do pai assim que se formou
comigo na Faculdade.
Antes de sair, passei uma mensagem para Ana.
"Vou jantar com um amigo americano que também está em Londres,
mas assim que voltar ligarei, nem que seja para um beijo de boa noite. Não
quero dormir sem ouvir sua voz".
Quando estava esperando o elevador, sua mensagem chegou.
"Ansiosa. Beijo"
Olhei tranquilamente para aquelas duas únicas palavras. Suas
respostas pelo celular eram sempre curtas e rápidas. No começo estranhei
aquela economia de palavras, uma contradição diante dos textos que me
escrevia antes por email. Mas agora que a conhecia tão bem, já estava
acostumado e sabia que era uma particularidade dela que não tinha nada a ver
com falta de interesse ou descortesia, porque sempre que conversávamos ela
era naturalmente espontânea e passava horas falando comigo com evidente
prazer.
Ana era mesmo uma caixinha de surpresas.
Cerca de trinta minutos depois já estava sentado à frente de Richard,
discutindo processos jurídicos e falando da família. Até que o assunto entrou
nas namoradas.
— Você não sabe quem encontrei por acaso em uma festa, semanas
atrás – sorriu para mim, os olhos brilhando com divertimento – Hillary!
Olhei-o, impassível, afinal não tinha mais nada com ela e nosso último
encontro foi mesmo um grande erro da minha parte.
— Ela não me deixou em paz nem um minuto, querendo saber notícias
suas – ele continuou, ignorando meu desinteresse óbvio por aquele assunto.
— Espero que tenha-lhe dito para cuidar da própria vida!
Ele riu ainda mais.
— Quase isso! – admitiu com tranquilidade, antes de me lançar um
olhar curioso – Mas você não está mesmo com ninguém ou aguarda o
momento certo para aceitar as investidas de Meghan?
Sem chance daquilo acontecer!
— Não tenho interesse nela e já deixei isso bem claro há muito tempo
– não tinha vontade nenhuma de falar sobre a filha do Dr. Stevens, por isso
mudei o foco para ele – E você? Está sozinho, comprometido ou ainda
procurando alguém no Site?
Já havia comentado que o vi no "@mensagensdeamor" e recebi como
resposta um sonoro "saí daquela merda!". Minha intenção agora era provocá-
lo um pouco.
— Nem me fale daquele Site, porque nunca mais entro numa dessa –
não parecia apenas chateado, mas verdadeiramente possesso, o que despertou
minha curiosidade.
— O que foi que aconteceu para você estar assim? Não vi nada lá que
já não exista em outros Sites de Relacionamento.
— Só tem oportunistas, aproveitadoras e golpistas! – desabafou com
raiva, tomando mais um gole de whisky.
Definitivamente algo sério aconteceu, porque normalmente Richard
era muito mais sensato do que isso. Seu único defeito era ser preconceituoso
demais com relação ao sexo feminino, o que a meu ver era péssimo para um
advogado, principalmente se tivesse que defender uma mulher. Aquela era
uma profissão que exigia muita imparcialidade em qualquer área.
— Já vi que conheceu alguém lá que deu-lhe a volta – deduzi
rapidamente – Mas isso não quer dizer que todas sejam iguais e você sabe
disso.
Ele suspirou e parecia arrasado, o que me deixou preocupado com
meu amigo.
— Gostei de uma mulher lá dentro, mas ela fez jogo comigo e outro
cara e no final preferiu ficar com ele. Mandou uma mensagem para mim
depois, dizendo que agradecia meu interesse por ela, que tinha gostado muito
de mim, mas já estava apaixonada por outro, que por acaso também era
americano. Me senti um candidato concorrendo a um emprego e perdendo a
vaga para alguém mais qualificado.
Droga! Aquilo era mesmo mal!
Entendia o que ele estava sentindo e não queria estar na sua situação.
Respirei aliviado por ter pedido para Ana eliminar logo o seu perfil do Site
ou poderia correr o sério risco de acontecer o mesmo comigo. Ela era muito
bonita e em qualquer momento poderia receber algum contato de um homem
que morasse mais próximo de sua cidade, acabando por ir conhecê-lo, sentir-
se atraída e desistir de mim, que estava longe.
— Você chegou a conhecê-la pessoalmente, Richard? Acho difícil que
uma mulher se encontre com você e ainda o troque por outro.
Richard era um homem que fazia sucesso com as mulheres e nunca o
vi levar um fora de nenhuma delas.
— Ela é brasileira e não chegamos a nos ver pessoalmente, nem por
Skype. Trocamos mensagens, algumas fotos e falamos por telefone. Gostei
dela. Chamava-se Beth e era inteligente, culta, fazendo faculdade. Morava
com os pais e falava inglês fluentemente. Me acostumei a conversar com ela,
falar do meu dia-a-dia, contar-lhe coisas da minha vida. Era perfeita para
mim!
— Por que você não tentou convencê-la a marcarem um encontro
pessoalmente só para conversarem? Talvez ela mudasse de opinião e lhe
desse uma chance. Você vive viajando direto para o Brasil, não lhe custaria
nada fazer isso.
Ele apertou a boca num gesto de raiva, parecendo chateado consigo
mesmo.
— Pensei em fazer isso, mas fiquei com o orgulho ferido e nunca mais
quis saber dela. Não quero ser a segunda opção de mulher nenhuma – depois
olhou para mim com atenção – E você? Afinal encontrou alguém lá? Deixa
avisar logo que se gostou de alguma brasileira é melhor ter cuidado, porque a
maioria delas querem realizar o "sonho americano" às nossas custas.
Eu já sabia daquilo e seu comentário foi desnecessário, pois tinha
certeza que Ana não se encaixava naquele estereótipo de mulher.
— Ela é diferente – disse simplesmente.
Richard me olhou com atenção.
— Então existe mesmo uma mulher e pelo jeito é brasileira – me
apontou o dedo em alerta – Cuidado, Daniel. Não confie nem se envolva
totalmente sem antes comprovar se tudo que ela diz é verdade. Vocês já se
conheceram pessoalmente?
Tomei um gole do meu whisky, satisfeito que em mais dois dias
estaria no Brasil. Já tinha esperado demais para tê-la à minha frente e poder
comprovar o que era aquilo que eu sentia por ela.
— Ainda não. Estou indo ao Brasil na sexta-feira para conhecê-la.
Ele fez um gesto de aprovação com a cabeça.
— Faz muito bem e aproveite para averiguar sua história de vida.
— Já pensava fazer isso quando chegasse lá – apesar de confiar em
Ana e saber que era sincera comigo, o fato de ser um especialista em
auditoria me forçava sempre a averiguar tudo.
Vinha analisando os fatos da sua vida e a única falha na história dizia
respeito ao pai. De todas as vezes que expressei meu desejo de vê-lo ou falar
com ele, sentia que Ana ficava desconfortável e desconversava logo. Aquela
reação me fazia pensar que não tinham um bom relacionamento, o que só
aumentava minha preocupação com aquele vizinho dela, que devia saber que
estava sozinha e a assediava.
Olhei para Richard quando ele começou a falar de novo.
— O Brasil é um país promissor, mas com um índice elevado de
pobreza. Acabamos por encontrar naqueles Sites muitas brasileiras
praticamente se vendendo de graça para sair do país – sua expressão era de
desprezo – Cansei de receber fotos de mulheres quase nuas, que depois de
algumas conversas já insinuavam estarem dispostas a fazer sexo virtual.
Mulheres de internet são capazes de tudo! Mentem e enganam facilmente o
homem mais experiente. Acho que você deveria investigá-la antes da viagem,
assim não perdia tempo indo ao Brasil caso comprovasse que ela é uma
"garota de programa disfarçada de virgem".
Me irritei quando ouvi aquilo.
— Ana é diferente e aconselho que pense bem antes de falar dela
novamente – repeti, olhando-o firmemente e deixando bem claro que não
admitiria nada menos do que respeito por ela.
Richard pareceu surpreendido com minha atitude.
— Você está apaixonado! – afirmou com espanto.
Não neguei, apenas continuei olhando-o da mesma forma, vendo
como desviou o olhar para o lado e pediu outra dose para o garçon atento.
Depois voltou a me encarar com a expressão muito séria.
— Agora mais do que nunca precisa investigá-la Daniel, antes que
acabe por se envolver demais. Tenho um bom contato no Brasil que poderá
fazer isso para você, caso queira. É discreto e tem uma empresa séria de
segurança privada no Rio de Janeiro, com filiais em algumas capitais.
Pensei por um momento, antes de responder.
— Por enquanto é desnecessário fazer isso. Já estou indo a Fortaleza
na sexta-feira e posso comprovar tudo por mim mesmo.
— Fortaleza? – ele repetiu com surpresa no tom de voz.
— Sim. Ana mora em Fortaleza – observei-o com curiosidade – Por
que este espanto?
— Porque aquela mulher que falei também é de lá!
Ficamos olhando um para o outro e percebi pela sua expressão qual
era a suspeita que estava se formando em sua cabeça. Se eu seria o outro
americano por quem a tal garota o havia trocado.
Senti uma raiva surda tomar conta de mim diante daquela
possibilidade.
— Nem pensar! Ana esteve apenas comigo desde o início – garanti
com segurança.
Estava certo disso, mesmo não estando ao lado dela no Brasil para
comprovar. Meus anos como advogado me fizeram ter uma habilidade ímpar
de discernir o caráter das pessoas e Ana definitivamente não seria capaz de
jogar com dois homens ao mesmo tempo.
Ele não negou nem confirmou, permanecendo calado, mas virou a
bebida de uma só vez garganta abaixo.
Aquilo me fez sentir pior e odiei a leve apreensão que começou a
ganhar forma dentro de mim, até também transformar-se em suspeita.
A questão era: Seria aquilo tudo coincidência ou não?
Mesmo confiando em Ana, meu lado prático e racional de advogado
que investigava tudo e que ia a fundo nas questões, me forçou a buscar
esclarecimentos. Peguei prontamente meu celular no bolso do paletó e
procurei a foto de Ana que tinha lá.
Estiquei o braço sobre a mesa na direção de Richard, mostrando a foto
dela. Aguardei, percebendo que me sentia muito mais tenso do que queria
admitir para mim mesmo.
Ele ficou parado por um bom tempo olhando para ela, antes de negar
com a cabeça.
— Ela é linda, mas não é a mesma pessoa.
Recolhi o celular e guardei-o no bolso.
Daquela vez fui eu quem peguei meu whisky e virei-o todo de uma só
vez, ao perceber que aquela suspeita infundada de Richard serviu para me
mostrar que não estava preparado para descobrir que Ana poderia ter mentido
ou tentado me enganar de alguma forma.

***

Londres – Dois dias depois


Apertei o telefone com força e pousei-o lentamente no gancho,
desligando a chamada que havia recebido de Nova York.
Encostei no espaldar da poltrona e olhei a sala da Diretoria em
Londres, ainda tentando assimilar a informação que tinha acabado de receber
de Doris e que ia me prender em Nova York pelos próximos quinze dias.
— O Dr. Stevens pediu que adiasse suas férias por pelo menos quinze
dias, porque os chineses devolveram o contrato sem assinar, pedindo que
sejam feitas alterações que colocam em risco toda a negociação que já foi
feita nos últimos meses. Amanhã chegará uma comitiva de Pequim para
discutir os novos termos e sua presença será indispensável. Caso não
resolvam nada, precisará viajar a Pequim para tratar do assunto pessoalmente
com eles. O Dr. Stevens está preocupado com a queda das ações na Bolsa e
este contrato representa uma injeção de milhões de dólares na empresa. Já
antecipei seu retorno à Nova York, de forma que esteja aqui para a primeira
reunião da sexta-feira às oito horas.
Fechei os olhos e me concentrei, analisando a repercussão que aquela
mudança de planos traria para mim, já que não poderia viajar ao Brasil para
estar com Ana.
Quinze dias era tempo demais! Viajar para Pequim seriam mais outros
tantos dias de atraso em vê-la. Mesmo sendo um homem paciente, meu limite
para ficar sem conhecer Ana pessoalmente tinha chegado ao fim. Mas estava
difícil conciliar o trabalho com minha vida pessoal.
Quase podia escutar a voz da minha mãe falando: Você não tem vida
pessoal, Daniel!
Esta era uma grande verdade. Eu não tinha tido vida pessoal nos
últimos anos e só agora que estava tentando construí-la, é que percebia o
quanto meu trabalho tomava todo o meu tempo.
Pensei durante alguns minutos até tomar uma decisão.
Olhei o relógio. Eram dez da manhã em Londres, o que significavam
seis horas no Brasil. Ana ainda deveria estar em casa antes de ir ao trabalho.
Nunca liguei naquele horário, mas sabia que acordava cedo, por isso peguei
meu celular e lhe passei uma mensagem.
"Bom dia, Ana. Sei que ainda é cedo, mas posso ligar?"
Só precisei esperar cerca de dois minutos para receber sua resposta.
"Bom dia, Dan. Pode sim".
Uma estranha satisfação tomou conta de mim quando li o diminutivo
do meu nome que Ana começou a usar nos últimos dias. Dito por sua voz
doce, aquele apelido carinhoso me deixava mais seduzido ainda por ela.
Liguei-lhe e quando atendeu escutei com verdadeiro prazer sua voz
suave, me fazendo ver que realmente não dava mais para ficar sem vê-la. A
decisão que acabei de tomar era mesmo a mais acertada.
— Oi Dan. Bom dia.
— Bom dia. Tirei você da cama?
— Ainda estou deitada, mas com preguiça de levantar, por isso sua
ligação chegou na hora certa – seu tom leve mudou para uma voz preocupada
logo depois – Está tudo bem? Você nunca ligou tão cedo.
— Infelizmente houve um imprevisto em Nova York e não poderei
viajar pelos próximos quinze dias. Minha ida ao Brasil já foi cancelada.
— Oh! Não acredito nisso! Queria tanto que viesse – percebi que
ficou decepcionada com a notícia, sem conseguir esconder o que sentia –
Desculpa por reagir assim, mas é que eu já contava com a sua vinda. Saber
que já não vem mais me pegou totalmente desprevenida. Mas eu entendo que
seu trabalho é muito exigente e importante para você.
Olhei o tempo pela janela. Pela primeira vez em anos de corporação,
desejava jogar minhas responsabilidades para o alto e viajar ao Brasil.
— Não poderei ir e é por isso que quis ligar tão cedo. Queria saber se
pode vir se encontrar comigo em Nova York, se possível já no início desta
próxima semana – ouvi sua exclamação de surpresa ao escutar minha
proposta e só esperava que aceitasse – Sei que precisa solicitar sua ausência
do trabalho e organizar uma série de coisas, daí minha urgência em falar logo
com você. Enviarei o voucher com a passagem aérea, assim que confirmar
comigo que pode vir. Se sentir-se confortável e confiante para ficar em minha
casa, vou ficar muito feliz, mas se não quiser se hospedar comigo, também
posso reservar um hotel próximo para você ficar.
Fez-se silêncio do outro lado da linha e entendi perfeitamente que
estivesse chocada com aquele meu pedido súbito. Talvez nem conseguisse
licença do trabalho para viajar, mas eu precisava tentar esta opção.
Seu silêncio prolongado me fez justificar a urgência do meu pedido.
— Já não aguento mais ficar sem conhecê-la, Ana! Só de pensar em
passar mais quinze dias na expectativa de vê-la, já aumenta assustadoramente
meu nível de frustração. Já disse que sou um homem de ação e manter nosso
namoro à distância tem custado muito para mim. Precisamos resolver isso
rápido e a única solução viável agora seria você conseguir uma folga no
trabalho e vir à Nova York. O que me diz? Acha que consegue?
Pareceu uma eternidade até ouvir suas palavras instantes depois.
— Pode ligar mais tarde? Terei uma resposta depois do meu almoço.
— Às três está bom para você?
— Sim. Está ótimo.
Nos despedimos e fiz imediatamente outra ligação.
— Richard?
— Oi Daniel. Já está em Nova York?
— Não, ainda estou em Londres – resolvi ir direto ao assunto –
Precisei cancelar minha ida ao Brasil e necessito agora dos serviços daquele
seu contato no Rio de Janeiro.
Não precisei entrar em detalhes, porque ele sabia exatamente do que
eu estava falando.
— Se você quiser, eu mesmo posso falar com ele e pedir que dê
prioridade ao serviço. Depois ele envia o relatório direto para o seu e-mail ou
para o meu, caso esteja muito ocupado nos próximos dias para lidar com isso.
Você escolhe.
Analisei sua proposta rapidamente. Realmente não teria muito tempo
livre nos próximos dias para resolver aquele assunto e talvez fosse melhor
deixar tudo a cargo de Richard.
— Vou aceitar sua oferta, se não se importar, Richard. Estarei
envolvido em reuniões na Presidência nos próximos dias e posso acabar
desistindo do assunto por falta de tempo.
— Por mim não tem problema algum fazer isso. Precisarei de todas as
informações dela que tiver, mesmo que sejam poucas. Ele conseguirá
descobrir o resto.
Só quando ele disse aquilo foi que percebi o pouco que sabia sobre
Ana. Me deixei envolver tanto por ela que esqueci de averiguar coisas
básicas, ainda mais considerando tratar-se de um relacionamento à distância.
Não sabia o nome do hospital onde trabalhava nem qual função
desempenhava lá, muito menos o nome do pai médico ou da faculdade de
Jornalismo que frequentava. Admitir que tinha poucas informações me fez
sentir um principiante.
— Você me pegou agora, porque tenho poucas informações dela.
— Só posso dizer com isso, que você está realmente precisando de um
bom investigador. Diga tudo o que sabe.
— Chama-se Ana Cabral, trabalha em um hospital, faz faculdade de
Jornalismo, fala inglês fluentemente, vive sozinha com o pai médico e mora
em um local chamado Meireles em Fortaleza. Pelo menos tenho o seu
endereço completo.
— Não está tão mal assim, apesar de serem informações muito vagas,
com exceção do endereço, caso seja verdadeiro.
Ele tinha razão. Se não fosse o endereço, eu poderia considerar que
não sabia nada de concreto sobre ela, porque até o nome poderia ser fictício.
Aquela situação me deixou inquieto e pela primeira vez estava ansioso para
que a investigação fosse feita.
— O endereço está correto, porque já enviei um bouquet de rosas e
recebi a confirmação de entrega, tanto da floricultura quanto da própria Ana.
— Então será fácil. Me envie aquela foto que tem dela. Vou entrar em
contato agora com a empresa de segurança privada no Rio de Janeiro. Direi
algo sobre o prazo ainda hoje.
— Obrigado. Fico lhe devendo essa.
— Pode pagar o jantar novamente da próxima vez – brincou comigo.
— Combinado.
CAPÍTULO 11

Ana
Afastei o prato e olhei para Bia, esperando sua resposta.
Estávamos sentadas no restaurante em nossa hora de almoço e já tinha
contado tudo sobre a ligação de Daniel hoje cedo.
— Já temos todos os documentos prontos. Só que não tínhamos
planejado viajar tão cedo assim e talvez não dê para anteciparmos nossas
férias no trabalho. Na verdade, já tivemos uma sorte grande em conseguirmos
estar ausentes na mesma época – pensou por um momento, batendo com a
unha de gel no queixo – Bom, mas Jack ia adorar se fôssemos mais cedo. E
no fundo gostaria mesmo de ir, principalmente agora que já falei pelo Skype
com sua irmã, que nos convidou para ficarmos na casa dela. Adorei o convite
e achei-a muito simpática. Acho que você vai gostar muito dela, apesar de
Ashley não falar português, só espanhol.
Fiquei ouvindo-a falar sobre Jack e sua família por um tempo, com a
mente começando a vagar até Daniel, pensando qual seria sua reação quando
soubesse que só poderia estar em Nova York em oito dias, o dobro do tempo
que ele queria.
Ainda precisava informar minha tia sobre aquela alteração de planos,
porque sobre a viagem eu já tinha contado, pois precisava saber se poderia
ficar com meu pai naquele tempo.
Minha grande surpresa foi o que ela disse quando conversei sobre
minha provável ida aos Estados Unidos.
— Sua prima Júlia vai fazer faculdade no Recife e já estamos
alugando um kitnet para ela perto do Campus. Teremos quartos vagos em
casa, onde você e Jorge podem ficar. Gostaríamos que viessem morar com a
gente. Já venho pensando nisso há alguns meses e conversei com seu tio, que
concordou comigo. Penso transferir meu irmão antes que você embarque e
quando voltar dessa viagem aos Estados Unidos, virá direto morar em minha
casa. Só então entregaremos aquele apartamento e daremos um jeito nos
móveis de vocês.
Quase chorei quando ouvi aquilo, porque apesar de ter sua presença
quase diária em minha casa e ainda contar com a ajuda de Soraia, eu me
sentia muito sozinha vivendo apenas com meu pai.
Soraia tinha dado sua confirmação que continuaria cuidando dele na
casa da minha tia e aquelas novidades todas tinham trazido uma felicidade
inédita para mim, que nos últimos quatro anos quase não pude ter momentos
de alívio das responsabilidades com meu pai.
Olhei para Bia ao meu lado e sorri comigo mesma, porque havia sido
com ela e meu pai que eu tinha vivido os poucos momentos de alegria desde
o acidente dele. Mas agora havia também Daniel.
Daniel! Estou louca para vê-lo, meu Deus!
Estava ansiosa demais por esse momento, porque a cada dia que
passava eu me apaixonava mais por ele. Mas junto com essa paixão, crescia
também o sentimento de culpa pelas mentiras que inventei.
Aquele assunto me fazia sentir como se estivesse com a guilhotina
sobre a cabeça, principalmente depois que passamos a ser oficialmente
namorados, já que daquele momento em diante o peso das mentiras
aumentaram sobre mim.
A vinda dele significava me livrar dessa culpa, porque seria quando
poderia contar a verdade e esperar que o impacto do nosso primeiro encontro
o fizesse me perdoar pelo que fiz.
Saber que ele já não vinha mais, fez com que o fantasma de ser
descoberta voltasse a me assombrar.
— Posso então confirmar com ele essa data que me deu? – perguntei,
quando ela enfim terminou de falar do grande amor da sua vida, Jack.
Seriam quinze dias em Nova York, um tempo excessivo para meu
coração de filha que nunca tinha ficado longe do pai, ainda mais na situação
atual em que ele se encontrava. Mas Bia havia dito que uma viagem daquelas
valia muito mais do que os cinco dias que inicialmente achava que
passaríamos lá.
— Sim, pode. Agora diga-lhe que não poderá ficar em sua casa, nem
precisa reservar hotel ou passagem aérea. Dê-lhe o endereço de Ashley,
dizendo que será onde ficaremos hospedadas.

***

Quatro dias depois


Meu celular vibrou em cima da mesinha de cabeceira, iluminando o
quarto escuro e fazendo meu coração saltar dentro do peito.
Sabia que era Daniel.
Só ele ligava àquela hora da noite, ainda mais que naqueles últimos
dias desde que voltou de sua viagem a Londres, nunca mais tivemos tempo
para fazer um Skype como antes. Ele vivia envolvido em reuniões e jantares
de negócios, tentando evitar que o tal contrato com os chineses fosse
rompido.
Eu não entendia nada de bolsa de valores, contratos milionários e
negociações internacionais. Conhecia apenas a inflação e a crise financeira do
Brasil que nunca mais acabava, mas percebia que Daniel mal tinha tempo
para descansar, quanto mais passar uma hora comigo no Skype.
Assim, passei a aguardar ansiosamente aquelas breves ligações
quando já estava deitada, torcendo para que ele tivesse tempo pelo menos
para isso, o que evitava que passássemos dias sem nos falarmos.
Naquele dia em que lhe disse sobre minha ida à Nova York, seu único
comentário foi "o que importa é que venha, eu aguento esperar este tempo já
que ficará quinze dias comigo".
Fiquei de lhe enviar depois um e-mail com todos os detalhes, assim
conversaríamos sobre o assunto à noite.
Bia me ajudou a montar o e-mail com os horários dos vôos e as datas
de ida e volta, além do endereço da irmã de Jack.
Quando ele ligou à noite, a primeira coisa que perguntou foi quem era
Ashley. Não fizemos Skype, apenas falamos por telefone, mas pelo seu tom
de voz, senti que não gostou de saber que me hospedaria em outra casa que
não a dele, já que também não ficaria em um hotel. Tive que explicar que ela
era irmã do namorado de Bia, uma amiga de longa data com quem eu
viajaria.
Este foi o único momento em que ele permaneceu em prolongado
silêncio até dizer alguma coisa.
— Tudo bem. Se sente-se mais à vontade assim, respeitarei isso. Mas
gostaria que ficasse comigo alguns dias, porque Ashley mora em outra cidade
e com estas reuniões até tarde não poderei me ausentar todas as noites para
vê-la. O ideal seria reservar um hotel próximo de onde estou, já que prefere
não ficar comigo. Ou então convide sua amiga e fiquem ambas por um tempo
em minha casa. Gostaria de ter você mais perto de mim, principalmente nos
primeiros dias.
Nem fazia idéia que Ashley morasse tão longe assim de Daniel. Na
minha cabeça, estaríamos perto um do outro e tudo ficaria resolvido.
— Falarei com Bia. Também não quero que fiquemos longe demais,
porque estou indo só por sua causa.
— Então fique comigo. Qual o problema nisso? Ainda não confia em
mim? Jamais faria qualquer coisa que não quisesse.
Confiava sim. Podia até parecer uma insanidade da minha parte,
considerando a forma como nos conhecemos, a distância e o fato de nunca
nos termos visto pessoalmente. Mas eu confiava plenamente em Daniel, no
homem íntegro que ele era.
— Confio, Dan. Mas minha amiga quer que fique com ela, está
insegura com a família do namorado e vou dar-lhe um apoio.
Ouvi seu suspiro cansado do outro lado da linha.
— Tem certeza que é só isso? Jamais faria qualquer coisa que não
quisesse, nem forçaria nada. Sabe disso, não é?
— Claro que sei! – falei de imediato, preocupada que achasse aquilo –
Nunca passou pela minha cabeça que tentaria algo contra minha vontade.
Acredite.
— Então vamos deixar para decidir onde ficará quando estiver aqui.
Se ao nos vermos, você sentir que não ficaria à vontade sozinha em minha
casa, não insistirei e darei um jeito de ir vê-la onde estiver.
Fiquei pensando em suas palavras, porque tinha quase certeza absoluta
que mal o visse pessoalmente, ia querer ficar com ele. Mas então, como faria
com Bia?
— Estarei no Aeroporto à sua espera. Já avisei no trabalho que vou me
ausentar neste horário e só voltarei no final do dia.
Que bom!
Não quis lhe pedir que fosse ao Aeroporto, porque não sabia se estaria
em reunião no horário da minha chegada, mas graças a Deus que ele ia estar
lá.
Lembrei que Jack também tinha ficado de nos pegar para levar à casa
da irmã, mas acho que não se importaria de esperar um pouco enquanto eu
falava com Daniel.
— O namorado de Bia também estará lá.
Daniel ouviu o que eu disse e imediatamente contestou.
— Eu a levarei! Mesmo que ele esteja lá, você vem comigo e
seguimos atrás do seu carro até a casa da irmã dele. Sei que são conhecidos
de vocês, mas quero saber se estará em segurança.
— Tudo bem, então. Avisarei Bia sobre isso.
Só depois daquela conversa foi que percebi que ainda precisava
combinar muita coisa com Bia antes da viagem, porque eu não poderia ficar
longe dela ou de Daniel, em um país cuja língua não falava.
Escutei o celular vibrando novamente e estendi a mão para pegá-lo,
olhando o visor e confirmando que era mesmo uma ligação de Daniel.
Atendi logo, antes que ele pensasse que já estava dormindo.
— Dan?
— Oi Ana – sua voz grave encheu meus ouvidos, me fazendo fechar
os olhos de prazer – Já está deitada?
— Sim. Achei que não fosse mais ligar e vim dormir – levantei e fui
fechar a porta do meu quarto, voltando a deitar e olhando para o teto envolto
nas sombras – E você, já está deitado também?
— Estou. Terminei de analisar alguns relatórios agora – fez uma pausa
antes de falar novamente – Ana, vou precisar que me envie uma cópia do seu
passaporte. Pode ser?
Estranhei o pedido, mas não vi motivo algum para negar.
— Sim, claro, sem problema algum. Mas posso saber o por quê? – a
curiosidade era grande.
— É só uma questão de segurança. Me sinto responsável por você e
percebi que não sei nem o seu nome completo, apenas o endereço em
Meireles.
— Se quiser anotar o meu nome agora, é Ana Elizabeth Pereira
Cabral. Enviarei o passaporte amanhã.
Tive a impressão que ele estava anotando e esperei. Pelo seu tom de
voz, percebi que estava extremamente cansado e quis estar lá para ajudá-lo a
relaxar.
— Você está bem? É que parece cansado.
— Estou mesmo – disse simplesmente, ficando calado alguns
segundos antes de continuar, a voz ligeiramente enrouquecida – Hoje é um
daqueles dias em que gostaria de ter você aqui comigo para namorarmos de
verdade.
Fechei os olhos ao ouvir aquilo, que era um reflexo do meu próprio
desejo.
— Também queria estar aí com você.
Ouvi sua longa respiração, antes de voltar a falar.
— E o que faria se estivesse aqui comigo?
Pensei por um momento antes de abrir o coração e dizer o que sentia.
— Ia beijá-lo, porque já sonhei muito com isso.
— Não sabia que sonhava comigo. Nunca disse nada – parecia
surpreso que admitisse aquilo.
— Nunca diria sem você perguntar.
— E por que não?
— Vergonha, talvez. E você também nunca falou nada igual para
mim. Não quis ser a primeira a tocar no assunto.
Ele suspirou pesadamente, a voz ficando mais grave ainda.
— Pois eu sonho com você todas as noites desde que ouvi sua voz
doce pela primeira vez. É extremamente sexy e você me leva à loucura com
apenas poucas palavras, me deixando excitado ao extremo. Falar com você ao
telefone é ao mesmo tempo um prazer e uma tortura – admitiu, me deixando
abismada com aquela confissão – É verdade que nunca comentei nada, mas
não quis que pensasse que procurava apenas sexo virtual, caso dissesse o
efeito que tem sobre mim todas as vezes que conversamos.
Eu sabia que rolava muito sexo virtual na internet, mas nunca pensei
que um dia estaria perto de viver algo assim.
Fechei novamente os olhos, respirei fundo e encontrei coragem para
fazer a pergunta que agora não saía da minha cabeça.
— E você queria que isso tivesse acontecido entre a gente? – sussurrei
baixinho.
Estava envergonhada, mas também ansiosa para saber a resposta,
porque inúmeras vezes fantasiei naquela cama como seria me entregar a
Daniel. Não eram só os sonhos dormindo ou acordada que eu tinha, eram
verdadeiras fantasias sexuais completas com ele.
Mas sempre estranhei ele nunca ter conduzido nossa conversa para
aquele lado. Durante todo aquele tempo, Daniel manteve uma postura
irrepreensível comigo, mesmo depois de me ter pedido para ficar em pé e ver
meu corpo.
— Nunca pensei que um dia fosse dizer isso para uma mulher, porque
nunca precisei apelar para sexo virtual na minha vida, mas a grande verdade é
que eu quis que tivesse acontecido sim. Estaria mentindo também se dissesse
que não me masturbei várias vezes pensando em você. Mas isso não quer
dizer que vá agarrá-la quando chegar aqui ou forçá-la a ficar comigo se não
quiser.
Fiquei sem saber o que dizer depois de ouvir aquilo tudo.
Aquele homem sério, sisudo e sempre controlado, masturbando-se ao
pensar em mim? Que mulher não ia querer aquilo?
O meu silêncio o fez falar novamente.
— Assustei você com o que disse? – perguntou suavemente, me
fazendo estremecer.
O que ele diria se soubesse que sua voz grave, com aquele leve
sotaque e o tom sempre carinhoso, também mexia muito comigo e me
excitava da mesma forma?
Daniel nunca alterava o tom de voz, mantendo sempre a mesma
entonação calma, firme e carinhosa de costume. Estivesse relaxado em casa
ou estressado no trabalho, sua forma de falar era sempre a mesma, me
passando segurança e me fazendo sentir especial para ele.
E ainda vinha perguntar se eu estava assustada por dizer que perdia o
controle comigo?
— Não, não estou assustada. Apenas surpresa.
Ele pareceu pesar bem minhas palavras e só então perguntou
roucamente.
— E você? Já deu prazer a si mesma pensando em mim?
Oh meu Deus! E agora? Admito ou não?
Eu já estava envolvida demais e um dia teria que partilhar minhas
fantasias com ele.
— Sim – falei, me sentindo mortificada ao assumir o que fiz, mas
sabendo também que não podia mentir mais uma vez.
Cada verdade que eu lhe dizia, significava também uma libertação
para mim das mentiras que já falei.
Escutei a respiração profunda de Daniel, ao mesmo tempo que
praguejava em inglês, me fazendo sentir na pele que ele ficou abalado com a
minha admissão.
— Ana, você me mata desse jeito! – seu sotaque ficou mais
pronunciado ao dizer aquelas palavras – E quer fazer agora, enquanto fala
comigo?
— Sinceramente, não sei se conseguiria.
— Então não vamos fazer nada! Quero que sinta-se bem comigo e não
constrangida por qualquer coisa que venhamos a fazer juntos. Já está perto de
nos vermos, faltam só quatro dias. Posso esperar até lá sem destruir o que
temos por conta de um único momento. Quero muito mais do que apenas isso
com você.
***

No dia seguinte

Daniel
Aproveitei o rápido intervalo da reunião com os chineses, quando
todos foram tomar um café e fumar, para verificar meu e-mail pessoal em
busca do passaporte de Ana.
Richard me enviou ontem uma mensagem dizendo que estavam com
dificuldades de averiguar os dados dela e pedindo para ligar-lhe assim que
pudesse. Só pude retornar à noite e não gostei do que ouvi.
— Daniel. Você disse que Ana morava sozinha com o pai?
— Sim. Os pais são divorciados e ela nunca falou da mãe para mim.
— O investigador disse que neste endereço mora um casal com a filha,
que coincidentemente tem a idade de Ana, mas não o mesmo nome. Chama-
se Beatriz. Estou aqui pensando se ela não lhe deu um nome diferente, afinal
nestes Sites muitas pessoas não usam o próprio nome. Como você também
não sabe o nome do pai dela, está difícil de confirmar se esta Beatriz é
mesmo ela, porque o pai não é médico.
A cada nova informação que recebia dele, mas me sentia endurecer
por dentro. Havia alguma coisa muito errada naquilo tudo, e agora, mais do
que nunca, eu queria ir a fundo nisso.
— Este endereço é de um prédio com apartamentos de luxo em um
bairro nobre de Fortaleza. Tem uma localização privilegiada de frente à praia
e os moradores são de classe alta. Um funcionário do prédio reconheceu a
foto dela e diz que é vista com frequência por lá, mas não soube confirmar o
nome. O investigador ainda vai tentar falar com a administração do prédio
para descobrir algo sem levantar suspeitas. Mas a tal Beatriz trabalha em um
hospital e faz faculdade, só que não é de jornalismo.
Comecei a ficar inquieto com aquele relatório, me perguntando que
motivo Ana teria para não usar seu verdadeiro nome comigo. Ela estava de
viagem marcada para vir me conhecer e usar um nome falso para isso era
muita ingenuidade, porque seria facilmente desmascarada.
— Isso tudo está muito confuso e não gosto de coisas incertas.
Aguarde que amanhã mesmo enviarei o passaporte dela para você e ponto
final.
Desliguei a chamada de Richard, pensando que se ela não fosse quem
dizia ser, certamente ia negar-se a dar seu passaporte.
Logo depois liguei para o celular de Ana, mesmo vendo que já era
tarde. Estava exausto das reuniões, tenso com aquela investigação sobre ela e
ao mesmo tempo ansioso para ouvi-la. E foi justamente a sua voz doce
quando me atendeu e o carinho na forma como me tratava, que me fez
duvidar da competência do investigador de Richard.
Duvidei ainda mais daquele serviço de investigação quando ela não
titubeou em dar seu nome completo na hora que pedi, além de garantir que
enviaria o passaporte para mim. Aquilo era prova mais do que suficiente de
sua honestidade comigo.
Corri os olhos por todas as mensagens até encontrar a dela. Abri e lá
estava o passaporte com o seu nome. Ana Elizabeth Pereira Cabral,
exatamente como tinha dito na noite anterior. Nada de Beatriz, simplesmente
a minha Ana sincera, doce, carinhosa e tímida, como tinha colocado no perfil
do "@mensagensdeamor".
E em apenas dois dias ela já estaria em meus braços.
Enviei o passaporte para Richard e voltei para minha reunião.

***
Véspera da viagem

Ana
Ajustei o som da televisão e encostei a cabeça no travesseiro ao lado
do meu pai.
— Quer mesmo que deixe nesse canal, pai?
— Pode deixar aí – sua voz estava mais limpa e sem aquele som
rascante de quando os pulmões estavam obstruídos, deixando meu coração
mais leve – Quero assistir o jogo e logo depois vem a novela. Coloque o
controle na minha mão que consigo mudar os canais. Tenho conseguido
alguns progressos nas últimas sessões de reabilitação.
Virei para a mesinha de cabeceira, olhando o livro que ele estava
lendo.
— Desistiu de ler?
Ele fez um gesto de enfado com a boca.
— Ainda não desisti, apesar do livro ser fraco. Também preciso
poupá-lo ou Soraia ficará triste por não ter o que ler para mim.
Rimos juntos com aquele seu comentário, porque Soraia adorava ler
para ele e meu pai fingia que gostava para não deixá-la triste.
Soltei um bocejo e me encostei nele, apoiando a cabeça perto do seu
ombro.
— Vou sentir sua falta, pai!
— Eu também, filha! Mas vou ficar muito feliz sabendo que está se
divertindo com Bia! Quero ver muitas fotos das duas quando voltarem de
viagem.
— Está gostando de estar aqui na casa da tia?
Tínhamos feito a mudança dois dias atrás, deixando o antigo
apartamento fechado até minha volta.
Olhei-o com atenção para ver a expressão do seu rosto e fiquei
aliviada quando vi que parecia estar tranquilo com o arranjo feito.
— Sim. Estou bem com isso.
— Fico feliz. Viajarei mais tranquila assim.
— Deixe de ser boba em se preocupar o tempo inteiro comigo e venha
aqui me dar um beijo – fiz o que pediu e depois voltei a deitar ao seu lado – E
tenha cuidado com aquela doidinha da Beatriz. Fique sempre perto dela e não
vá deixá-la meter vocês duas em confusão nos Estados Unidos.
Segurei o riso ao lembrar de todas as recomendações que fez para Bia
quando ela veio hoje se despedir dele, já que não poderia nos levar ao
aeroporto.
— Beatriz, olhe a responsabilidade nesta viagem!! Não deixe Ana
sozinha, nem se separe dela. Traga minha menina de volta ou juro que
levantarei desta cama só para lhe dar umas boas palmadas na bunda.
Bia tinha cruzado os braços no peito, olhando meu pai com cara de
ofendida.
— Tio, não confia em mim? Já fui para os Estados Unidos tantas
vezes que nem tenho dedos para contar. Não se preocupe que vou cuidar
muito bem dela. Agora diga que também vai se preocupar comigo ou vou
ficar muito magoada.
Ele tinha rido, dizendo que ela se cuidasse porque a amava muito
também e mandado dar-lhe um beijo.
— Ah, assim está melhor. Agora posso viajar tranquila, porque já
recebi sua bênção!
Conversamos mais um tempo os três no quarto, antes de Bia ir para
casa.
Agora, depois de um dia cheio de ansiedade com a viagem iminente, a
única coisa que eu queria era descansar.
— Pai, fique tranquilo porque vou estar sempre perto dela e também
vou colocar juízo em sua cabeça. Tudo vai dar certo – puxei os lençóis e
deitei com ele – Hoje vou dormir aqui com você, portanto cuide de não
roncar muito.
CAPÍTULO 12

Fortaleza - Aeroporto Internacional Pinto Martins

Ana
— Estou nervosa – disse para Bia, agarrando seu braço com força
enquanto subíamos a rampa de embarque.
— Tem calma. Assim você vai deixar meu braço roxo.
— Não está nervosa porque enfim vai conhecer Jack?
— Claro que estou, mas não igual a você!
— É que esperei tanto para conhecer Daniel. Primeiro aqui em
Fortaleza, agora indo para lá. Também nunca andei de avião, nem conheci os
Estados Unidos como você. Como poderia não estar nervosa?
— Tudo bem, eu entendo. Agora vamos encontrar nossos lugares e
depois acertar mais alguns detalhes da nossa estadia lá. Estes últimos dias
foram muito corridos.
Puxei os cabelos para trás, respirando fundo para me acalmar, as mãos
transpirando um pouco.
Alguns minutos depois, já sentada na janela e sentindo o avião taxiar
na pista, comecei a rezar fervorosamente, pedindo a Deus para que corresse
tudo bem na minha viagem, que eu pudesse conhecer Daniel e explicar tudo
sobre meu pai. Queria muito que nosso namoro desse certo, porque ele havia
se tornado muito especial para mim e trazido um brilho novo à minha vida.
Quando, enfim, o avião decolou, apertei mais ainda minha mão no
braço de Bia, ouvindo-a gemer baixinho.
— Desculpa, mas acho que estou enjoando.
Ela deu tapinhas na minha mão, para me acalmar.
— Respira fundo que passa já e não olha pela janela.
Ela tinha razão, porque o enjôo realmente passou depois que o avião
estabilizou, mas não foi fácil. Eu não sabia como é que Daniel aguentava
passar a vida viajando de avião constantemente. Era assustador!
— Agora precisamos conversar – ela disse ao meu lado, com
expressão séria – Sei que você terá todos os motivos do mundo para arrancar
meu couro, mas preciso lhe dizer algumas coisas antes que se encontre cara a
cara com Daniel.
— Céus! Não me assusta mais do que já estou.
— Você vai esclarecer com ele tudo sobre o tio, não é?
— Sim, claro que vou. Na primeira oportunidade que tiver, contarei
tudo e pedirei desculpas pelo que fiz.
— Não, não fale na primeira oportunidade que tiver, porque antes de
mais nada deve é tentar conquistar de vez o Daniel. Ele precisa comprovar
que você é esta mulher maravilhosa, carinhosa, leal, apaixonada e linda com
quem conversou nos últimos meses. Se você de cara já falar que mentiu, a
probabilidade dele se chatear seriamente é maior, ainda mais se for um
homem muito correto, que valorize demais a honestidade em uma mulher. Já
viu, né? Sem chance de ser feliz.
— Eu não vou ficar adiando isso por mais tempo, porque estou
ansiosa para resolver tudo.
Ela fez um gesto de tranquilidade com as mãos delicadas, querendo
que eu escutasse com atenção.
— Não estou dizendo que vá adiar. Estou aconselhando que espere um
momento em que estejam sozinhos, em privado e que seja depois do primeiro
contato no Aeroporto. Não vá sentar num café no Aeroporto e contar tudo,
nem comece a falar sobre isso no carro quando for levá-la à casa de Ashley.
Daniel com certeza vai convidá-la para jantar fora, passear ou conhecer a
casa dele nos primeiros dias. Aproveite um momento romântico entre vocês,
depois de uns bons amassos, para jogar a verdade para ele.
O que ela disse tinha lógica, mas eu também não pensava em falar
nada no Aeroporto ainda. Bia estava sendo exagerada.
— Eu não ia tocar neste assunto no Aeroporto, muito menos no carro.
Tenho certeza que a ocasião ideal vai surgir logo no dia seguinte e vou poder
contar que meu pai é dependente e que o endereço de Meireles não é meu,
mas seu. Vou assumir que moro em um apartamento pequeno com meu pai e
que nossa situação financeira não é lá muito boa, mas que nós dois somos
felizes juntos porque nos amamos muito. Acho que se Daniel realmente
gostar de mim, vai me perdoar por isso – vi que ela ia dizer algo e ergui logo
a mão para impedi-la de falar – Já sei. Não precisa repetir que não é para
transar com ele.
Ela olhou para as mãos, observando com demasiada atenção as unhas.
— Não era isso o que eu ia dizer. Preciso confessar uma coisa que fiz.
Parecia tão consternada que olhei-a, preocupada.
— O que foi? Por que está assim?
— Eu menti, Aninha. Alterei seu perfil no Site para atrair um homem
do jeito que você queria. E Daniel apareceu.
Por um momento fiquei confusa com tudo aquilo, porque já nem
lembrava mais daquele Site.
— Alterou? Não entendi.
Ela respirou fundo e fez cara de conformada, antes de me encarar com
coragem.
— Coloquei no perfil que você fazia faculdade de Jornalismo, falava
inglês fluente, gostava de leitura clássica, viagens e escrevi depois em um
email que adorava frequentar bibliotecas. Alterei a idade dos candidatos até
os trinta e cinco anos, por isso que Daniel enviou o contato dele, porque
estava dentro do perfil que você pediu.
Abri a boca de tão surpreendida que fiquei, mas depois me senti
completamente arrasada quando a ficha caiu.
— Bia! Isto é tudo o que eu não sou!! – falei, mortificada com aquela
imagem que ela criou e que não era a minha – Foi por esta mulher que Daniel
se interessou, e não por mim? Era com esta mulher inteligente e culta que ele
achava que estava falando o tempo inteiro? Oh meu Deus!
Senti as lágrimas subindo aos meus olhos e desviei a vista para a
janela, escondendo o choro iminente dos outros passageiros no corredor ao
lado.
O que é que eu estava fazendo dentro daquele avião? Ia me encontrar
com um homem que achava que eu era tudo aquilo? Até imaginava a sua
revolta quando soubesse que foi enganado e que, para piorar, eu ainda era
disléxica.
Coloquei a mão no cabelo e puxei-o para a frente a fim de esconder
meu rosto, aproveitando para limpar as lágrimas que já caíam pelo canto do
olho.
— Ana, não fique assim! Daniel vai entender, eu tenho certeza
absoluta disso! Ele não se apaixonou por aquela mulher que descrevi, mas
por você! Foi você quem o conquistou com aquela foto e depois com seu
jeito especial nas conversas pelo Skype.
Balancei a cabeça em negativa.
— Eu nem sei falar inglês – sussurrei baixinho.
Horrorizada, lembrei quando ele falou em inglês comigo na primeira
ligação. Aquilo só me fez sentir muito pior.
Meu Deus! Que vergonha!
Eu não conseguia acreditar que estava vivendo uma situação daquelas.
Se eu já tinha mentiras para assumir diante dele, agora teria que admitir que
era uma fraude completa.
— Se for o caso, não conte nada disso para ele agora.
— Como não vou contar? Basta me deixar sozinha por um minuto e
ele vai ver que não sei falar inglês com ninguém, nem para pedir ajuda. Tem
alguma forma de esconder isso?
Bia parecia desesperada agora, os olhos também cheios de lágrimas.
— Aninha, não desista do Daniel, porque sei que ele gosta muito de
você. Eu sinto isso aqui dentro – encostou a mão no coração – Pode deixar
que falarei com ele e vou dizer que fui eu quem fiz isso para ajudá-la, porque
é linda e maravilhosa e merecia ser feliz.
Caí para trás na poltrona, sem saber o que pensar ou fazer. Ainda
estava em estado de choque e precisava de tempo para assimilar tudo aquilo.
O bom da viagem ser longa é que eu teria aquele tempo, apesar de
começar a achar que nem todo o tempo do mundo seria suficiente para voltar
a me sentir bem com aquela situação.
— Lembre-se de usar o celular para falar comigo se precisar. Nosso
pacote de roaming já está ativo e poderá ligar a qualquer momento, caso
esteja longe de mim. A tecla de discagem rápida é a mesma.
— Certo.
— Mas não se preocupe que ficaremos sempre juntas. Acredito que só
vamos nos separar nos momentos em que esteja com Daniel.
— Tudo bem.
— Quando desembarcarmos, iremos recolher nossa bagagem antes de
nos encontrarmos com eles. Acredito que ambos já deverão estar nos
esperando, mas caso Daniel se atrase, pedirei a Jack para esperar um pouco.
Você não sairá de lá sem vê-lo.
Daniel não ia se atrasar, disso eu tinha certeza. Já tínhamos
conversado sobre isso quando falamos ontem no meu horário de almoço.
— Você vai estar mesmo lá, não é? – me sentia insegura, agora que
estava na iminência de embarcar para uma viagem completamente surreal na
minha vida.
— Não faltarei por nada neste mundo. Pode ter certeza que estarei no
portão de desembarque esperando você. De qualquer maneira, não saia do
Aeroporto até que estejamos juntos e ligue o celular logo que puder, porque
se tiver qualquer dificuldade lá dentro, poderá me ligar imediatamente. Assim
poderei intervir e ajudá-la a resolver tudo.
Lembro que respirei aliviada quando ouvi suas palavras firmes, ditas
com o seu habitual tom seguro e determinado. Apesar de estar com Bia, saber
que Daniel também estaria lá me fazia sentir mais confiante.
Ele era maravilhoso e não merecia de jeito nenhum descobrir que foi
enganado.
— Já me perdoou, Aninha?
Respirei fundo e fechei os olhos, triste.
— Sim, perdoei. Sei que fez tudo com boas intenções e porque queria
me ajuda, mas me colocou em uma situação constrangedora diante de Daniel.
E tudo indica que vou perdê-lo.
Senti quando ela me abraçou com força, encostando o rosto no meu.
— Sinto muito querida! Eu sei que sou uma sonhadora ridícula, que
acredita em contos de fada e mais um monte de besteiras, mas te amo muito.
Não se preocupe que você não vai perdê-lo. Quando for falar com Daniel
sobre tudo isso, eu estarei do seu lado – olhou para mim com carinho e um
sorriso otimista no rosto – Ele vai entender. Tenho certeza que sim.
Fechei os olhos novamente e fiquei na minha, para não ter que lhe
dizer que aquela sua certeza poderia ser apenas mais um de seus sonhos
românticos.

***
Aeroporto em Nova York
Impossível fazer meu coração bater em ritmo normal. Eu estava
nervosa, ansiosa e também encantada enquanto andava ao lado de Bia pelo
portão de desembarque do Aeroporto em Nova York.
Me sentia uma formiguinha em um mundo enorme. Nunca tinha visto
tanta gente diferente em um mesmo lugar, numa variedade assustadoramente
grande de idiomas, roupas e aparências.
— Ana! Fica perto de mim! – Bia alertou, virando-se ao ver que eu
ficava para trás.
Acelerei os passos e voltei a ficar ao seu lado, arrastando atrás de mim
a mala com rodinhas.
— É que estou me sentindo "Alice no País das Maravilhas" – brinquei
com ela, já que tudo era novidade para mim.
— Mas tenha cuidado que Alice também se perdeu no meio do
caminho. Se você se perder de mim logo nos primeiros minutos em solo
americano, vou surtar. Além disso, o tio vai me matar quando voltar ao
Brasil.
Andamos mais alguns metros, seguindo aquele mundo de gente que
desembarcava ao mesmo tempo que nós duas.
— Já estamos chegando à saída do desembarque e confesso que estou
ansiosa para ver Jack.
Só quando ela falou aquilo foi que olhei para a frente e vi a saída bem
próxima. Já dava para ver várias pessoas em pé aguardando familiares,
amigos, conhecidos e também desconhecidos, porque alguns seguravam
cartazes com nomes escritos.
Meu Deus, quanta gente! Será que vou reconhecer Daniel quando o
ver?
Meu coração voltou a bombear no meu peito e saí junto com Bia para
fora do portão, meus olhos já procurando pelo rosto de Daniel no meio
daquela multidão.
— Vem aqui pela direita! – ela segurou discretamente minha mão, me
fazendo virar na direção que queria.
Era outono em Nova York e o clima mais frio contrastava muito com
o calor abrasador de Fortaleza. Bia tinha feito nossas malas com as roupas
mais adequadas para a estação e usávamos casaquinhos para nos proteger da
mudança de temperatura.
Continuei olhando as pessoas aglomeradas na saída do portão, mas
não conseguia localizar Daniel.
— Não consigo encontrá-lo! – disse nervosamente, já pensando se
tinha acontecido algo que o atrasasse.
— Tem calma, porque nem todo mundo fica aqui em cima. Ele deve
estar mais recuado e assim que ultrapassarmos esta parte aqui, provavelmente
encontraremos os dois.
— Tudo bem – me forcei a acreditar naquilo, enquanto caminhava ao
seu lado.
Olhei ao redor, vendo as placas em inglês com indicação de vários
destinos e me senti completamente perdida.
Só naquele momento percebi que jamais teria conseguido vir sozinha
à Nova York conhecer Daniel.
— Oh! Lá está Jack! – Bia exclamou de repente, me puxando na
direção de um homem alto e de cabelos pretos no fundo do grande saguão.
Ela soltou minha mão, andando mais rápido para se encontrar com ele.
Desacelerei e deixei que fosse à minha frente, para lhe dar um tempo a sós
com Jack antes das apresentações.
Olhei-o com atenção, vendo como parecia diferente do homem das
fotos que ela me mostrou. Ver uma foto e depois ter a pessoa em carne e osso
à sua frente eram mesmo duas coisas totalmente diferentes.
Pensei como seria Daniel e se também teria aquela impressão estranha
dele.
— Ana!
Escutei uma voz grave às minhas costas e naquele segundo meu
coração falhou uma batida, reconhecendo aquele tom seguro e determinado
de Daniel.
Virei imediatamente e o vi andando em minha direção. Vacilei na hora
com o impacto da sua figura alta e imponente caminhando a alguns metros de
distância, vestido em um terno azul-marinho impecável.
Nossos olhos se encontraram e fiquei sem fôlego com a expressão
profundamente calorosa que encontrei lá. Ele tinha a mesma fisionomia séria
de sempre e quem não o conhecesse, até acharia que estava em um encontro
de negócios. Mas eu já estava acostumada com Daniel e sabia identificar as
pequenas particularidades que me faziam sentir especial para ele, como o
brilho quente no olhar que me envolvia toda e o leve sorriso carinhoso que
parecia destinado só para mim.
Dei alguns passos em sua direção, mas ele venceu rapidamente o
espaço que nos separava com suas passadas largas. Nos encontramos no meio
do caminho e naquele momento fiquei sem saber como agir, erguendo o rosto
para olhar de perto o homem que passei cerca de dois meses vendo apenas
por Skype.
Meu Deus!!! Pessoalmente Daniel era simplesmente arrasador. Um
pecado em forma de homem!
Ele parou à minha frente, os olhos correndo vagarosamente por mim,
como se estivesse fazendo uma análise detalhada da mulher que também
tinha visto apenas em fotos e vídeo.
Foram apenas breves segundos de reconhecimento mútuo, até que nos
encaramos novamente e vi a aprovação em seus olhos, o calor devastador que
me incendiava e o forte desejo que sentia por mim. Daniel deixava
transparecer uma emoção no olhar que me fazia sentir única.
— Ana – o sotaque conhecido me fez sentir em casa, apesar de estar
em um país estranho.
— Dan.
De perto era muito mais fácil ver as emoções dele, porque no vídeo
elas não ficavam tão claras assim, e naquele momento percebi que Daniel
gostava muito da forma como o chamava.
Ele estendeu a mão na direção da minha e segurou-a. No instante do
primeiro contato de pele contra pele, me senti estremecer completamente e
olhei assustada para ele. Daniel devolvia meu olhar do mesmo jeito, como se
também tivesse sentido aquele impacto dominar seu corpo.
Eu podia dizer que entre nós dois confirmou-se naquele momento uma
atração imediata e instantânea. Era o que precisávamos saber durante todo
aquele tempo de namoro virtual.
Agora não restavam dúvidas quanto à necessidade que tínhamos de
ficar juntos.
Sua mão pressionou a minha com mais força, os olhos presos nos
meus. Apenas segurando minha mão, ele desceu o rosto e soube
imediatamente que ia me beijar. Até inspirei com força para levar ar aos
pulmões e aguentar a pressão dentro do peito.
É o meu sonho virando realidade!
Seus lábios tocaram os meus levemente, como se estivesse dando
tempo para me acostumar com ele. Um beijo leve, onde nossos lábios apenas
se roçaram, permitindo sentir muito mais o calor do hálito um do outro do
que o sabor da boca.
Ele afastou-se e me olhou profundamente, esperando que dissesse
alguma coisa. Como não falei nada, porque estava mesmo era abalada com
aquele beijo simples, com o seu cheiro e presença marcante, Daniel voltou a
tomar meus lábios, mas desta vez com mais intensidade, me deixando sentir
como era o sabor do seu beijo.
O que dizer daquele momento, daquela sensação inebriante de sentir o
gosto dos lábios de Daniel e da barba bem cuidada contra minha pele macia?
Nada! Não havia palavra alguma que descrevesse aquelas sensações.
As únicas partes de nossos corpos que se tocavam eram as mãos
unidas e as bocas que se beijavam, naquele que era o nosso primeiro encontro
como namorados reais e não apenas virtuais.
Sua mão puxou a minha, me atraindo para mais perto dele, a ponto de
ficarmos bem próximos, mas ainda sem nos tocarmos.
Sua boca deixou meus lábios e foi pousar um beijo carinhoso em meu
rosto.
— Sua viagem foi boa? – e lá estava novamente aquele tom
enrouquecido que eu já conhecia tão bem.
Aquela sensação de familiaridade e segurança voltou a tomar conta de
mim, me fazendo sentir à vontade e "em casa" com ele.
— Cansativa, mas correu tudo bem – olhei para cima, vendo como era
alto, mesmo eu estando de saltos – Pensei que você não tivesse conseguido
vir ao Aeroporto, quando não o encontrei lá atrás.
— Eu disse que viria – falou tranquilamente, como se quando desse
sua palavra, não deixasse dúvida alguma que cumpriria o que prometeu.
Esfregou o polegar sobre minha mão, me deixando sentir, mais do que
nunca, que estava totalmente ligada a ele. Deus permitisse que Daniel
entendesse os motivos de tantas mentiras, porque ao tê-lo assim tão perto de
mim, sentindo aquela intimidade que partilhávamos tão naturalmente, ficava
difícil imaginar que terminaria tudo comigo.
Ele olhou para além do meu ombro.
— Aquela é sua amiga?
Olhei para trás, só então lembrando de Bia. Ela estava vindo em nossa
direção com Jack ao lado, toda feliz. Olhei-a com carinho, porque minha
amiga romântica e sonhadora merecia ser feliz.
— Sim. É Bia – falei sorrindo, fazendo-o olhar para mim com atenção.
— Você gosta muito dela – disse simplesmente, como se fosse a
constatação de um fato.
Não sabia como ele tinha descoberto isso, mas era a mais pura
verdade.
— Muito. É como uma irmã para mim.
— Ele é o Jack?
— Sim – respondi, vendo como Bia olhou para Daniel e depois para
mim.
Estranhei que parou de repente e voltou as costas para nós dois,
falando algo para Jack.
Ele olhou para mim com atenção, antes de acenar afirmativamente e
continuarem caminhando até nós dois.
— Olá! Você deve ser o Daniel. Eu sou Bia – ela foi logo dizendo em
português, estendendo a mão para ele.
— É um prazer conhecê-la – Daniel soltou a mão da minha e
cumprimentou-a com simpatia – Já sei que fizeram uma viagem
razoavelmente boa.
— Sim. Realmente foi suportável – riu com seu jeito sempre alegre,
antes de apresentar Jack – Daniel e Ana, este é Jack, meu namorado.
Olhei apreensiva para Bia, sem saber como ia cumprimentar Jack em
inglês na frente de Daniel. Ela me piscou um olho, fitando depois Jack e
voltando a olhar novamente para mim, um sorrindo tranquilo no rosto.
Respirei aliviada quando entendi tudo.
Os homens se cumprimentaram também, com Jack falando com
Daniel em português. Depois virou-se para mim, me cumprimentando da
mesma forma.
Parecia muito simpático e educado, me deixando feliz por minha
amiga.
Daniel inclinou-se e segurou a alça da minha mala, puxando-a para si.
Sua outra mão foi para minhas costas, pousando na altura do quadril, o corpo
grande sobressaindo-se sobre o meu.
— Podemos ir, então? – perguntou para Bia e Jack.
Quando eles concordaram, começamos a sair do saguão no que eu
achava ser o caminho do estacionamento.
— Onde tem seu carro, Daniel? – Jack perguntou.
— No estacionamento norte.
— Estou com o meu aqui perto, logo em frente à saída. Se quiser
pegar o seu, aguardamos os três lá fora.
Daniel lançou um olhar preocupado para mim, antes de decidir.
— Farei isso, assim Ana não precisará andar tanto depois da longa
viagem – baixou a voz ao falar comigo – Está com o seu celular ligado?
— Sim. Liguei-o pouco depois do desembarque.
Fez um gesto de aprovação com a cabeça, olhando para mim de forma
séria.
— Nunca perguntei, mas já tinha vindo a Nova York antes?
— Não, nunca! É a primeira vez que viajo para fora do Brasil – falei
naturalmente, até lembrar que pelo perfil que Bia criou, eu gostava de viagens
e como falava inglês, já deveria ter feito um tour no estrangeiro.
Tarde demais para voltar atrás agora.
Daniel não pareceu perceber nada, apenas franziu a testa e me olhou
com preocupação.
— Então não saia de perto deles até que eu volte.
Ele nem precisava dizer isso, porque nem de brincadeira eu ficaria
longe de Bia.
— Está com seu passaporte na bolsa?
— Sim. Está aqui comigo – confirmei.
— Ótimo, porque vou levar sua mala para colocá-la no carro.
Caminhamos os quatro juntos por mais alguns metros até que Daniel
parou nunca bifurcação entre dois corredores cheios de placas de sinalização.
— Vou deixar vocês e venho logo – apertou levemente a mão na
minha cintura, me fazendo olhá-lo – Não demoro.
Me deu um outro beijo rápido nos lábios e separou-se de nós três, indo
pegar o carro.
Fui para o lado de Bia, me sentindo andando nas nuvens de tão feliz
que estava. Daniel era tudo o que eu imaginava que fosse, só que
multiplicado por mil.
Continuamos indo para a saída do Aeroporto, onde tinham vários
carros estacionados, além de táxis e vans.
Jack adiantou-se para um carro preto, deixando nós duas um pouco
mais atrás. Estranhei que em nenhum momento ele havia segurado a mala de
Bia, deixando-a trazê-la durante todo o caminho, enquanto Daniel pegou logo
a minha e ainda a levara consigo ao estacionamento.
Eu não queria julgar ninguém em tão pouco tempo de conhecimento,
mas a meu ver o cavalheirismo de Daniel era inquestionável e muito
cativante, contrastando enormemente com aquela descortesia de Jack.
— Você gostou de Jack? – perguntei para ela – Está feliz?
— Ah, Aninha! Ele é lindo e tudo que sonhei.
Sem dúvida que era bonito, com aqueles olhos azuis inquietantes, mas
ainda continuava me sentindo um pouco incomodada com ele.
— E você, está feliz com Daniel? Antes que você me pergunte, digo
logo que gostei dele. Só achei-o sério demais, o que pode não ser bom por
conta da reação que terá com aquela conversa.
— Ai, Bia! Por que tinha que lembrar disso agora? – choraminguei
baixinho para ela – Se é que isso é possível, eu fiquei mais apaixonada ainda
por Daniel do que antes, e nem quero pensar naquelas mentiras, por favor!
— Já disse que vamos falar as duas com ele e vai dar tudo certo. Você
ainda terá Daniel para si!
Amém!
CAPÍTULO 13

Ana
Seguimos atrás de Jack até o carro.
Ele pegou a bagagem de Bia e colocou na mala. Depois veio para
perto de nós duas, passando a mão pela cintura dela e dando-lhe um sorriso
arrasador. Bom, talvez eu estivesse desconfiada à toa, porque naquele
momento ele parecia estar verdadeiramente apaixonado por ela.
Bia estava encantada e eu tinha que admitir que Jack era um homem
muito bonito, que chamava atenção de qualquer mulher. Além do mais, teve a
gentileza de atender ao pedido dela e falar português na frente de Daniel. Isso
me ajudou a não ser desmascarada antes de contar-lhe tudo, sendo um ponto
positivo para Jack, sem dúvida alguma.
Ele olhou para mim, parecendo disposto a travar uma conversa
amigável enquanto esperávamos Daniel.
— Está gostando de Nova York? Sei que ainda não viu nada, mas já
dá para perceber que aqui é muito diferente do Brasil.
Olhei ao redor e sorri, porque realmente estava gostando muito de
tudo que via.
— Estou adorando e ansiosa para conhecer a cidade!
— Provavelmente Daniel vai levá-la para passear. Gostaria inclusive
de marcar para sairmos juntos. O que acha? Posso falar com ele e
combinarmos algo.
Fiquei calada por um momento, porque queria mesmo era passar o
máximo de tempo possível com Daniel. Mas ficaria chato me hospedar na
casa da irmã dele e não aceitar aquele convite.
— Sim, claro. Pode ser.
— Seria ótimo se saíssemos os quatro juntos – Bia completou e sua
alegria era tanta, que me senti mal por ser egoísta e querer Daniel só para
mim.
— Você o conhece há muito tempo? – Jack perguntou
despreocupadamente, continuando a jogar conversa fora até o momento de
partirmos.
— Há cerca de dois meses.
Ele ergueu uma sobrancelha em sinal de surpresa.
— Então estão namorando há pouco tempo – olhou para Bia, um
sorriso carinhoso nos lábios – Quase igual a nós dois. Começamos um pouco
antes disso.
Ela riu, deliciada.
— É verdade! Nossos namoros são quase da mesma época.
Jack voltou a me olhar.
— Daniel trabalha em quê? – perguntou com naturalidade – Tive a
impressão que veio direto de uma reunião de negócios.
Olhei para Bia, incomodada em falar de Daniel para Jack, já que tinha
acabado de conhecê-lo. Mas ela estava muito tranquila encostada nele,
achando normal aquela conversa.
— Sei muito pouco do seu trabalho, apenas que é advogado aqui em
Nova York.
Ele mudou de posição, alternando o peso do corpo de um pé para o
outro, um leve interesse brilhando naqueles estranhos olhos azuis que tinha.
Eram bonitos, na verdade os seus olhos eram lindos, mas me deixavam
inquieta.
— É mesmo? Então acertei quando disse que parecia ter saído de
alguma reunião. Sabe por acaso em qual escritório de advocacia trabalha?
Tenho muitos conhecidos nesta área, por ser empresário da minha sobrinha.
Fiquei calada por um momento, pensando se dizia mais alguma coisa
sobre Daniel ou não, mas Bia adiantou-se nas explicações.
— Ele não trabalha em um escritório de advocacia. Ana já comentou
comigo que é Diretor Jurídico em uma empresa de informática – olhou para
mim – Como é mesmo o nome da empresa, Ana?
Respirei fundo, conformada em ter que falar de Daniel.
— Não sei – disse simplesmente, olhando para aos dois com um
sorriso de desculpas – Confesso que nunca tive interesse de perguntar isso a
ele.
Jack apenas acenou com a cabeça, aparentemente concordando
comigo.
Bia mudou de assunto, comentando que o tempo estava mais frio do
que ela esperava encontrar em Nova York, fazendo Jack olhar para ela,
sorrindo. Mas sempre que voltava os olhos para mim, eu continuava a sentir a
mesma sensação esquisita de antes.
Não queria tirar o prazer da minha amiga com aquele primeiro
encontro com Jack, mas eu precisava urgentemente conversar a sós ela!
Num dado momento, aproveitei para olhar ao longo do
estacionamento, na esperança de ver Daniel chegar.
Vi um grande carro preto estacionar mais atrás de onde estávamos e
me pareceu ser ele na direção, mas o vidro refletia o sol de fim de tarde e não
tive certeza. Esperei ansiosamente o motorista descer e respirei aliviada
quando confirmei que era ele mesmo.
— Daniel já vem vindo! – disse logo, ansiosa para quebrar aquele
clima.
Jack seguiu a direção do meu olhar, vendo Daniel descer do carro,
fechar a porta e subir na calçada, guardando o celular no bolso. Num rápido
flash, vi o olhar de Jack analisando o carro dele com um interesse evidente.
Olhei novamente para o carro de Daniel, vendo que era realmente
imponente, mas sem ter a mínima ideia do porquê de ter atraído o interesse de
Jack, já que o seu carro também parecia ser muito bom.
Eu era um zero à esquerda com relação a carros, principalmente
depois daquela tentativa de assalto que deixou meu pai tetraplégico. Se me
perguntassem que marca era aquela, eu não saberia dizer, muito menos
quanto custava ou o que significava ter um deles. Mas a sensação que tive é
que Jack sabia tudo isso e muito bem, contabilizando o nível de vida de
Daniel.
Me chateei com aquilo, mas sabia que no Brasil existiam muitas
pessoas assim também. O próprio Bruno, meu ex-namorado traidor, era
igualzinho e só valorizava as pessoas que tinham uma boa conta bancária.
Alheio a tudo isso, Daniel correu o olhar pelo estacionamento lotado e
soube imediatamente que estava procurando por mim. Dei alguns passos em
sua direção, para que pudesse ver onde estávamos, no momento exato que
seus olhos cruzaram com os meus. Até me assustei com o alívio que senti
com sua presença.
Não sei se deixei transparecer no rosto o quanto estava aliviada, mas
ele me olhou atentamente quando chegou perto, a mão indo para minha
cintura.
— Tudo bem?
— Sim. Está tudo bem – sorri ligeiramente para disfarçar e cheguei
instintivamente o mais perto possível dele, dando parcialmente as costas para
Jack.
Ele desviou o olhar do meu rosto, fixando-o atrás de mim. Dessa vez
seu braço envolveu minha cintura e me puxou até que encostasse nele. Era a
primeira vez que me abraçava, mas me senti tão bem como se sempre tivesse
estado naquela posição com ele.
— Daniel! Foi bom ter chegado agora! – Jack se aproximou, me
fazendo virar para ele – Estávamos falando justamente em marcarmos um
programa os quatro, para mostrarmos Nova York para elas.
Franzi a testa ao ver Bia andando sozinha atrás dele, me dando a
sensação que ele havia largado ela para vir falar com Daniel.
— Podemos ver isso depois – foi a única resposta dele, sem grande
incentivo para Jack insistir.
Jack pareceu não notar sua frieza, ou preferiu ignorá-la
propositadamente, continuando a tratá-lo como se fossem grandes amigos.
— Venha cá, então! Vou passar-lhe o endereço da minha irmã, onde
Ana e Bia ficarão hospedadas.
Oh-oh!! Não seria Bia e Ana?
Olhei para minha amiga, procurando ver se ela estava percebendo algo
estranho na atitude de Jack, mas não vi nada em sua expressão que
demonstrasse isso.
Será que eu estava vendo coisas demais e tudo não passava de
impressões erradas minhas? Vá lá que eu era mesmo muito prática e me
faltava uma grande dose de romantismo.
— Sei onde fica. Ana já me informou na semana passada – Daniel
respondeu de forma educada, mas seca, olhando depois para Bia – Mas
seguirei logo atrás de vocês.
Jack olhou rapidamente para mim e sorriu, voltando-se para Bia.
— Ok! Então podemos ir – abraçou-a pelos ombros, subitamente
olhando-a com carinho – Vamos querida! Ashley já deve estar querendo
saber o porquê de ainda não termos chegado.
Nos despedimos e aproveitei para abraçar Bia.
— Você fica bem? – sussurrei em seu ouvido.
— Sim, Aninha! – ela confirmou, sorrindo para mim com carinho e
piscando o olho com cumplicidade – Não se perca por aí com Daniel.
Acabei rindo com ela.
— Como ele disse, seguiremos atrás de vocês – pensei por um
momento, depois completei – Se precisar de qualquer coisa, ligue-me. Eu
farei o mesmo.
Voltei para perto de Daniel, que segurou minha mão e me levou para o
carro.
— Precisamos conversar – seu tom era sério e fiquei apreensiva na
hora – Mas será durante o trajeto, porque agora não quero perder o carro de
Jack no meio deste trânsito próximo ao Aeroporto.
Não saber o que ele ia falar me deixou nervosa e fez lembrar que
ainda precisava esclarecer muita coisa com ele.
Fixei seus olhos e encontrei lá as emoções de sempre. Senti
imediatamente a tensão diminuir no meu peito, ao perceber que mesmo
estando com a expressão fechada e o tom de voz sério, seus sentimentos por
mim continuavam os mesmos.
Então o assunto que queria tratar não tinha nada a ver com as mentiras
que me rondavam.
— Eu também gostaria de falar um assunto com você – soltei de vez,
vendo-o olhar para mim com atenção.
— Vamos encontrar um momento para tudo isso.
Chegamos perto do carro e percebi que era um veículo
assustadoramente grande para o meu gosto. Daniel abriu a porta do meu lado,
me ajudando a entrar.
A primeira impressão que tive, é que era um carro enorme e muito
espaçoso, todo de couro preto no interior. Naquele momento, entendi um
pouco o interesse de Jack, porque nem queria imaginar o preço daquele luxo,
já que na minha cabeça aquilo só afastaria mais ainda Daniel da minha
realidade.
Não pense nisso agora, Ana, ou você vai bloquear geral.
Depois que sentei, ele fechou a porta e passou pela frente do carro,
indo para o seu lado. Acomodou-se na direção, ligou o motor e saiu do
estacionamento atrás de Jack.
Ficamos em silêncio por alguns poucos minutos enquanto deixávamos
o Aeroporto para trás, seguindo pelas vias próximas. Aproveitei o momento
de concentração de Daniel no trânsito para observar com curiosidade aquele
novo mundo ao meu redor.
Por tudo que era mais sagrado, nunca pensei que chegaria o dia em
que estaria em Nova York, conhecendo os Estados Unidos!!
Eu ia ficar mesmo muito triste se alguém me acordasse daquele sonho.
— Está gostando do que vê? – sua voz tinha um leve tom brincalhão,
como se tivesse percebido meu deslumbramento com a cidade.
Olhei-o e vi que dividia a atenção entre o trânsito e eu, um brilho
carinhoso no olhar. Fiquei meio envergonhada por ter sido pega em flagrante
olhando ao redor, maravilhada com tudo que via.
— Peço desculpas por estar assim tão encantada. Devo estar
parecendo uma menina na Disney – sorri timidamente.
— Não se preocupe com isso. Pode encantar-se à vontade, afinal é a
sua primeira vez aqui. Ficaria chateado se não estivesse gostando da cidade.
— Estou gostando muito e acho que você também ia gostar da minha
cidade se a conhecesse. Fortaleza é linda!
Ele me encarou firmemente.
— Eu vou conhecer – afirmou com voz tranquila e segura, não
deixando dúvida quanto à sua intenção de ir me visitar no Brasil.
Meu coração quase surtou com aquela confirmação clara que Daniel
pretendia dar continuidade ao nosso namoro. Nosso primeiro encontro
realmente tinha agradado a ele e não só a mim.
— Gostaria agora de fazer algumas perguntas. Pode ser?
Meu pobre coração, que tinha sentido alívio poucos minutos atrás,
voltou a ficar tenso e nervoso.
— Claro que sim – engoli em seco, tensa – Pode perguntar.
— Não quero me meter em assuntos que não me dizem respeito, mas
como você está envolvida neles, pretendo me inteirar do que está
acontecendo – ele começou, voltando a falar com um tom de voz sério – Há
quanto tempo vocês conhecem os Spencer?
O que dizer, além da verdade? Eu não ia agora acrescentar novas
mentiras às muitas que eu e Bia já tínhamos inventado para ele.
— É difícil responder a isso sem que acabemos por parecer duas
doidinhas sem juízo algum, mas a grande verdade é que Bia conheceu Jack
na internet, algumas semanas antes de nós dois. De lá para cá, eles vêm se
falando quase diariamente. Acabamos por combinar de vir as duas
conhecermos vocês dois. Foi Bia quem me convenceu a colocar aquele perfil
no "@mensagensdeamor".
Daniel ficou calado por um bom tempo, os olhos presos no carro de
Jack à nossa frente, onde era possível ver ambos conversando animadamente,
enquanto seguíamos para a casa de Ashley.
— Não posso julgá-lo, porque estou na mesma situação que ele – disse
por fim, parecendo incomodado com aquilo – E se suspeitasse dele,
logicamente que teria de dar-lhe o mesmo direito de suspeitar de mim. Mas
não gosto desta situação.
— Eu entendo o que você quer dizer. Só estamos com eles porque
Ashley nos convidou para ficarmos em sua casa, caso contrário nos
hospedaríamos em um hotel. Bia conversou com ela por Skype para
confirmar que a história de Jack ter uma sobrinha cantora era verdadeira.
Depois desta conversa, sentiu-se mais segura para aceitar sua hospedagem.
Daniel olhou para mim, o cenho franzido.
— Filha cantora? Qual o nome dela?
— Terri Spencer e pelo que sei tem dezesseis anos – falei as únicas
informações que sabia da garota – Jack diz que é empresário e agente dela.
Você a conhece?
Ele negou com a cabeça, o semblante concentrado tentando lembrar se
já ouvira falar dela.
— Não sou ligado em música a ponto de conhecer uma cantora desta
idade. Vivo em um mundo de negócios, com pouquíssimo tempo livre para
desperdiçar acompanhando notícias sobre o surgimento de uma artista tão
jovem assim. Mas vou pesquisar sobre ela – virou o olhar para mim – Se
tivesse dito isso antes, já saberíamos de alguma coisa.
Não havia pensado naquilo ou teria realmente pedido a Daniel que
verificasse aquela informação para nós duas.
— Oh! Fui mesmo burra! – falei automaticamente, até perceber o que
tinha dito e ficar chateada comigo mesma, porque odiava aquela palavra.
Ele soltou uma mão da direção e segurou a minha que estava sobre
meu colo, trazendo-a para perto dele e acariciando-a com lentidão.
— Não se preocupe mais com isso. Quero vê-la hoje à noite e trarei
comigo informações sobre Terri Spencer – sua voz ficou mais incisiva
quando continuou – Porém, só a deixarei nesta casa se sentir que está segura.
Caso contrário voltará comigo e ficará em minha casa. Aconselho que sua
amiga também venha junto.
Seguimos em silêncio por mais alguns minutos, até por fim pararmos
em frente a uma casa agradável em estilo antigo. Jack entrou pelo portão
aberto e estacionou em frente à porta. Daniel parou logo atrás dele.
Vi Bia descendo do carro e vindo em nossa direção. Quando desci, ela
segurou minha mão, um sorriso tranquilo no rosto delicado.
— Enfim, chegamos – estava verdadeiramente feliz e fiquei mais
calma quando vi que estava bem – Vamos agora conhecer Ashley e descansar
um pouco desta viagem cansativa.
Senti quando Daniel chegou ao meu lado, olhando a casa à nossa
frente. Jack desceu do carro e foi tirar a bagagem de Bia, aproximando-se
depois de onde estávamos.
— Vamos entrar?
Seguimos todos para dentro da casa e fomos recebidos por uma
mulher muito bonita, com longos cabelos pretos e olhos azuis iguais aos de
Jack. Pelo que Bia me havia dito antes, ela era dois anos mais velha que ele,
portanto devia ter por volta dos trinta e nove anos. Mas parecia ter muito
menos. A pele de seu rosto era tão esticada que eu suspeitava que tinham
algumas plásticas ou botox no meio de toda aquela beleza.
Nos cumprimentou com simpatia, sempre muito educada e cheia de
gentilezas. Via-se que era uma mulher com muito trato social.
Abraçou Bia com verdadeiro carinho, parecendo encantada com sua
presença na casa.
— Bienvenidas, niñas – falou em espanhol.
Oh meu Deus!
Só então lembrei que Bia havia dito que ela não falava português e
que poderíamos tentar nos entender em espanhol, que era muito parecido com
nosso idioma. Mas tinha que ser justo com Daniel ao lado?
— Gracías, Ashley – Bia respondeu, olhando para mim – Gracías.
Ashley afastou-se dela e virou-se para mim, as sobrancelhas
elegantemente delineadas erguidas numa expressão de surpresa.
— Usted es muy hermosa, niña!– aproximou-se, me olhando com
atenção.
Não tive certeza do que ela disse, mas Bia me salvou de imediato.
— Ana é mesmo muito bonita, Ashley – falou em português,
mantendo na frente de Daniel o disfarce de que não falava inglês fluente.
Ashley me deu dois beijos no rosto, me fazendo sentir logo um cheiro
doce de perfume caro.
— Gracías! – respondi ao elogio, me sentindo constrangida com os
olhares sobre mim.
Virou-se depois para Daniel e olhou imediatamente para o irmão,
perguntando alguma coisa que não entendi, de tão rápido que falou o
espanhol.
Depois que escutou a resposta de Jack, Ashley abriu um sorriso
coquete no rosto e aproximou-se dele para cumprimentá-lo em inglês, os
olhos brilhando enquanto o avaliavam.
Surpreendentemente para mim, Daniel respondeu em espanhol, como
se quisesse manter o mesmo idioma com o qual ela havia falado com nós
duas. Percebi que fez isso em consideração à Bia, que achava não saber falar
inglês e entender apenas o Espanhol.
Eu nem queria imaginar o que ele pensaria quando soubesse que era
eu quem não falava nem uma língua, nem outra.
Jesus amado! Me proteja nessa hora!
Aproveitei que estavam envolvidos nos cumprimentos, para chegar
mais perto de Bia.
— O que se passa? – sussurrei o mais baixo que pude.
— Diz que não sabia que teria mais uma visita tão agradável na casa
dela. Jack explicou que Daniel é seu namorado americano e que fez questão
de trazê-la até aqui.
Ashley parecia encantada com Daniel, muito sorridente ao
cumprimentá-lo com dois beijinhos no rosto. Ele foi educado, mas seco, sem
sorrisos rasgados ou excessiva amabilidade.
Falou algo em espanhol para Jack e Ashley, olhando depois para mim.
Fiquei novamente perdida naquela conversa e percebi que não tinha como
não contar logo tudo para ele. Eu não ia aguentar ficar naquela tensão nem
por mais uma hora, quanto mais dias. O medo de ser desmascarada a
qualquer momento era terrível.
Daniel veio para o meu lado e segurou minha mão. Olhei-o sem saber
o que fazer, mas tentando não deixar transparecer minha confusão.
— Vem comigo.
Olhei para Bia e confiei na sua aparente tranquilidade, seguindo atrás
de Daniel para fora da casa até o seu carro.
Ele abriu a traseira e retirou minha bagagem, colocando-a no chão e
fechando o carro. Só então virou-se para mim.
— Não quis tirá-la antes de conhecer Ashley, mas por tudo que vi lá
dentro, não há problema em ficarem aqui – me segurou pela cintura, puxando
para perto dele – Vou ligar daqui a uma hora para saber como está, por isso
fique com o celular perto de você.
Olhou para mim com aquele jeito sério de sempre, a mão subindo para
acariciar meu rosto e me segurar pela nuca, antes de voltar a me beijar.
Fechei os olhos e me entreguei totalmente àquele momento,
saboreando o calor de sua boca e excitada com aquela barba que estimulava
os meus sentidos ao roçar em meu rosto.
O beijo de Daniel era igual a ele. Firme, decidido, um pouco duro,
mas muito carinhoso.
Sua língua invadiu minha boca e foi impossível não vacilar nas bases.
Passei as mãos por seus ombros e encostei totalmente nele, sentindo como me
apertou mais em seu abraço.
Me senti pequena ao ser envolvida em seus braços, uma de suas mãos
grandes descendo por minhas costas e moldando meu corpo ao dele,
pressionando meus seios em seu peito e depois descendo para me fazer sentir
como já começava a enrijecer.
Fiquei na ponta dos pés mesmo de salto alto, para aproveitar melhor
aquele momento, roçando meu corpo ao dele. Nunca havia sentido tamanha
atração por um homem na minha vida, como aquela que sentia por Daniel.
Ele grunhiu em minha boca quando sentiu o meu movimento contra o
seu corpo e Deus me perdoasse por já estar tão excitada assim, quando não
faziam nem duas horas que nos encontramos pessoalmente pela primeira vez.
Mas todas as semanas de espera e expectativa explodiram de uma única vez
naquele momento.
Continuamos a nos beijar por mais alguns minutos, sem conseguirmos
parar ou nos separar. Tive a certeza que se estivéssemos sozinhos em sua
casa, estaríamos agora deitados na cama fazendo amor e eu não ia me
arrepender nem por um momento em fazê-lo.
Era a primeira vez que beijava um homem maduro e bem mais velho
do que eu e estava muito surpreendida ao descobrir que Daniel era tudo que
eu queria para mim.
Senti quando se afastou e encostou o corpo grande no carro, me
levando com ele. Então olhou para mim com seriedade.
— Tentarei sair cedo hoje do trabalho para jantarmos juntos. Direi
alguma coisa quando ligar-lhe mais tarde.
— Estarei aguardando.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos, os polegares acariciando
minha pele.
— Lembra que deixamos para decidir aqui, onde ficaria hospedada
quando chegasse?
Confirmei com um gesto de cabeça, ainda sem acreditar no que eu
estava vivendo com ele.
— Então vou perguntar-lhe agora. Acha que ficaria à vontade sozinha
comigo em minha casa ou prefere continuar aqui? Se quiser, levo-a hoje à
noite para conhecer onde moro e você decide depois. Mas lembre-se que só
ficará aqui durante quinze dias e se demorar a decidir, perderemos de estar
juntos por mais tempo.
Difícil decisão, porque não podia esquecer de Bia, muito menos que
ainda precisava conversar com ele. Mas tinha noção que aceitar aquele
convite dependia muito mais do resultado da nossa conversa, do que da
aprovação de Bia.
— Gostaria que me levasse à sua casa – disse-lhe decidida, porque
aquela seria a ocasião ideal para conversarmos em particular.
Ele ficou calado só me olhando, antes de baixar o rosto e me beijar
outra vez. Não resisti à tentação de realizar um desejo que tinha desde que
falávamos pelo Skype, que era passar a mão em sua barba para sentir os pelos
macios na palma da mão.
Foi um gesto simples, mas extremamente excitante para mim, fazendo
meu corpo arder de desejo por ele. Ficava imaginando como seriam os outros
pelos que ele deveria ter pelo corpo, mas minhas fantasias foram
interrompidas pelo som do seu celular tocando.
Daniel afastou-se de mim com um suspiro de resignação, já enfiando a
mão no bolso para pegar o aparelho.
— Peço desculpas, mas preciso atender.
— Tudo bem.
Ele olhou o visor, aceitando a chamada e começando a falar em inglês.
Foram poucos minutos, mas sua expressão foi fechando com o tempo, até que
encerrou a ligação.
— Vou precisar voltar ao escritório – guardou o celular, me olhando
com firmeza – Lembre-se que vou ligar daqui a uma hora para saber como
está. Posso não demorar na ligação e ser rápido, mas vou precisar que me
diga se está bem. Se precisar de alguma coisa antes disso, ligue – deu um
beijo leve nos meus lábios, afastando-se do carro e pegando minha bagagem.
Voltamos para dentro da casa, encontrando Bia e Jack sentados no
sofá olhando álbuns de fotos de família. Era possível escutar a voz de Ashley
ao telefone, no corredor próximo. Falando em Português por causa de Bia,
Daniel informou que precisava voltar ao trabalho, pedindo desculpas por sair
às pressas, mas dizendo que voltaria à noite para sairmos juntos.
Jack levantou-se para despedir-se com um aperto de mão,
aproveitando a oportunidade para ter de Daniel a resposta que não conseguiu
de mim.
— Em qual empresa trabalha? É que tive mesmo a impressão que
você havia deixado uma reunião pela metade.
Houve uns segundos a mais de silêncio por parte de Daniel antes de
dizer algo, dando a impressão de não gostar de responder aquela pergunta.
— Trabalho na S&Stevens – foi só o que disse, justo na hora que
Ashley entrava na sala, evitando assim que o assunto se prolongasse.
Ele aproveitou para despedir-se também da dona da casa, segurando
minha mão até o momento de ir embora. Já na porta e sozinhos, me abraçou
pela cintura, colando um rápido beijo molhado em minha boca.
— Até mais tarde. Me aguarde.
— Aguardarei.
CAPÍTULO 14

Jack Spencer
Girei o braço para ver as horas, confirmando que faltavam poucos
minutos para o desembarque de Beatriz. Aguardei, impaciente, girando a
chave do carro entre os dedos.
Quando por fim os passageiros começaram a sair pelo portão de
desembarque, olhei ansioso, tentando encontrar a mulher morena que conheci
na internet.
Graças a Deus que ela veio à Nova York, assim poderia comprovar se
era o que eu pensava. Uma coisa eram conversas telefônicas e Skype, e outra
coisa totalmente diferente era ver a mulher em carne e osso. Por experiência,
sabia que a distância enganava muito. Afinal, quantas mostraram-se
decepcionantes no primeiro encontro? Restava saber se Beatriz seria ou não.
Ainda não tinha certeza se valia a pena investir nela e estava satisfeito em
poder tirar isso a limpo agora.
Em poucos segundos ela surgiu entre os passageiros, vindo em minha
direção.
Analisei-a rapidamente antes que chegasse perto, vendo o corpo
magro, o rosto bem desenhado, os cabelos castanhos muito lisos, os olhos
brilhantes de expectativa e o sorriso alegre.
Beatriz tinha uma beleza comum, sem nada que chamasse muita
atenção, mas era bonita. Estava bem vestida, com roupas de qualidade e bom
gosto. Olhei a mala que arrastava atrás de si e identifiquei a marca cara e
elegante.
Sim, parece que Beatriz tinha o que eu procurava.
Fui ao seu encontro.
— Jack! – ela atirou-se em meus braços com naturalidade, dando dois
beijinhos no meu rosto.
Fingi que não percebi isso e virei de forma que pudesse beijá-la na
boca. Queria ter certeza que valia a pena.
Ela foi pega de surpresa e senti que vacilou, indecisa se aceitava ou
não. Insisti sem forçar e acabei por fazê-la concordar com o beijo. Foi rápido,
mas suficiente.
Me afastei depois, encarando-a com um sorriso arrasador e voz
emocionada.
— Então, enfim estamos nos conhecendo.
Beatriz retribuiu meu sorriso, alegre como sempre. Durante todo o
tempo que falamos à distância, tive a impressão que a vida para ela era
sempre fácil e motivo de festa.
Comunicativa, iniciou uma agradável conversa, mostrando que
realmente estava à vontade comigo e sabia agir socialmente.
— A viagem foi boa? – lembrei de perguntar.
— Sim, foi muito boa. Quem não gostou muito foi Aninha – e apontou
para uma mulher que estava conversando mais atrás com um homem alto.
Sim, claro. A amiga que veio com ela à Nova York.
Estava de costas, concentrada no homem, mas já dava para ver que
tinha um corpo escultural e cabelos longos que se espalhavam pelas costas.
O homem tinha uma figura imponente, usava um terno caro e tudo
nele cheirava a dinheiro e sucesso.
— Quem é aquele?
— É Daniel, namorado dela – segurou minha mão – Veio pegá-la, mas
Aninha vai ficar com a gente. Venha, vou apresentá-lo.
Saiu me puxando, no mesmo instante que a mulher virou em nossa
direção.
Fiquei impressionado com sua beleza. O cabelo longo tinha uma cor
castanha diferente, com mechas mais claras, era volumoso e dava-lhe uma
aparência de leoa. A mulher tinha um sex-appeal gritante. Seios altos e
grandes, cintura fina e pernas longas, apesar de não ser muito alta. Os olhos
eram profundos e tudo nela era clássico.
Perfeita era a palavra certa!
Alheia à minha análise da amiga, Beatriz parou subitamente.
— Esqueci de dizer. Ana não fala inglês e queria pedir que falasse
sempre em português quando ela estiver presente. Pode ser?
Ah, não fala inglês? Que sorte a minha!
— Claro, Beatriz.
Seguimos em frente e aguardei as apresentações.
— Olá! Você deve ser Daniel. Sou a Beatriz.
Ela falou em português, mas era visível que o homem era americano.
Me surpreendi quando ele respondeu em português também, mas com um
sotaque levemente pronunciado. Cumprimentei o homem, que se apresentou
como Daniel Ortega. Um nome espanhol e diferente, fácil de ser pesquisado.
Até que chegou a hora de conhecer a estonteante Ana, que se mostrou
muito discreta e respondeu educadamente em português. De perto, o impacto
da sua beleza era muito maior e fiquei pensando se trabalhava como modelo.
Precisava fazer umas perguntas à Beatriz sobre ela, porque era o tipo
de mulher que chamava atenção em qualquer ambiente e isso me interessava
muito. Me senti imediatamente atraído, mas disfarcei bem. Aquele não era o
momento, com o namorado e Beatriz presentes.
Mas eu saberia esperar uma oportunidade em que estivesse sozinho
com ela para conversarmos melhor.
Por sorte, as duas ficariam na casa de Ashley, o que facilitaria tudo
para mim.
— Podemos ir, então? – Daniel perguntou, adiantando-se nas
decisões, mostrando ter o hábito de comandar e ditar ordens.
Sem dúvida alguma era alguém de poder, pois parecia saído de uma
reunião de negócios importante. Pela sua postura com Ana e vendo agora a
beleza dela, não conseguia entender como ficaria hospedada na casa de
Ashley em vez de ficar com ele.
Bom, a menos que ele fosse comprometido e Ana significasse apenas
um caso passageiro. Sim, isso era possível.
Depois perguntaria à Beatriz que tipo de namoro era aquele. Se fosse
sério, precisaria ter muito cuidado, porque meu instinto dizia que este Daniel
Ortega tanto poderia me ajudar socialmente, quanto prejudicar se assim
quisesse. Homens de poder eram sempre uma faca de dois gumes.
Ora, ora! Mesmo Beatriz não sendo nada fenomenal, parece que me
trouxe algumas coisas boas.
Aproveitei o momento em que fui guardar a mala dela no carro para
passar uma mensagem no celular.
“Esteja amanhã cedo em casa de Ashley. Quero que conheça Beatriz.
Mas preste atenção na amiga dela, Ana. Falamos depois.”
Feito isso, voltei para perto das duas, disposto a conseguir algumas
informações. Achei que Ana estava com um olhar desconfiado e resolvi jogar
conversa fora para passar o tempo enquanto esperávamos Daniel chegar.
Só consegui saber que ele era Advogado e Diretor Jurídico, o que
significava que deveria ser o CEO da empresa. Isso era bom e ruim. Indicava
status, mas também significava problemas para quem não gostava de estar
perto de homens ligados à lei.
A mulher não parecia estar muito disposta a falar dele, mostrando
desinteresse.
Sem interesse em saber do dinheiro dele? Difícil de acreditar naquilo.
Mas algo me dizia que mesmo se soubesse onde ele trabalhava ou o
que tinha, a bela Ana não diria nada. Ela permanecia calada, olhando o
movimento dos carros, até que uma expressão de alívio tomou conta do seu
rosto de traços marcantes.
Olhei na mesma direção e confirmei minhas suspeitas sobre Daniel
Ortega. Lá estava um reluzente Cadillac Escalade preto sobressaindo-se no
estacionamento.
A mulher parecia ansiosa por ele, porque foi imediatamente ao seu
encontro. Resolvi ir também, recebendo um olhar penetrante logo de cara.
Ortega estava muito enganado se achava que eu me deixaria vencer
por sua frieza e respostas lacônicas. Disfarcei bem a raiva quando ele disse de
forma muito direta que cuidaria da segurança de Beatriz no meu carro. Fiquei
puto da vida com aquela interferência nos meus negócios, mas respondi com
um sorriso cordial.
Vamos ver se vai gostar quando eu me meter nos seus negócios com a
irresistível Ana!
Quando entramos no carro e seguimos pela rodovia, fiquei ouvindo
distraidamente a conversa de Beatriz, mas sem deixar de ver o potente
Escalade pelo espelho retrovisor.
— Daniel Ortega tem negócios no Brasil?
Ela calou-se de repente, olhando para mim de um jeito estranho. Só
então percebi que fiz a pergunta subitamente, interrompendo o assunto que
falava.
Merda! Ela percebeu que eu estava distraído!
— Desculpe, querida! Nem deixei-a terminar o que dizia – olhei-a
intensamente, dando um sorriso arrebatador.
Eu sabia que era um homem bonito, com um olhar impactante e
sorriso sedutor. Lancei a mesma técnica com Beatriz, que prontamente
relaxou, aceitando minhas desculpas.
— Oh, tudo bem! Eu também sou mesmo uma tagarela e não paro de
falar quando estou entusiasmada.
— Mas eu gosto de ouvi-la, querida – garanti para deixá-la confiante –
Só que a grande verdade é que fiquei preocupado com sua amiga por causa
desse namorado dela. Sabe como é, uma garota ingênua na mão de certos
homens pode vir a sofrer muito.
Por um momento ela ficou séria.
— Aninha sofrer com Daniel? Ele que não se atreva a magoá-la ou vai
se ver comigo!
— Mas afinal, ele tem negócios lá? – insisti.
— Parece que a empresa tem filial em São Paulo e eventualmente
Daniel vai lá. Foi em uma dessas vezes que ele entrou no
@mensagensdeamor e conheceu Aninha.
Arrogante filho da puta!! Em quê ele é melhor do que eu, se também
está levando no carro uma namorada de internet de dois meses?
— Então se conheceram mesmo no Site? – quis confirmar.
— Sim. Alguns dias antes de nós dois, lembra?
Isto é uma merda mesmo!
Nunca a vi no Site! Já estou há tempos nele e não a encontrei.
— Sim, claro – respondi distraidamente, olhando o Escalade que
seguia atrás, mas sem conseguir vê-los porque o vidro não permitia.
Aquele Daniel Ortega tinha um carro de arrombar e uma mulher de
arrasar!
Shit! Era muita sorte para um homem só!
— Ela trabalha em quê?
— Trabalhamos juntas. É Recepcionista do Hospital.
Só isso? E eu pensando que fosse alguma modelo!
— Estuda com você na Faculdade?
Houve uma pausa antes de Beatriz continuar.
— Não. Aninha não chegou a fazer Faculdade.
Então parece que não perdi muita coisa, pois infelizmente aquelas
informações a deixavam fora dos meus requisitos, colocando Beatriz no topo
da lista. Ana não falava inglês, era uma simples Recepcionista e não tinha
nenhuma profissão definida. Provavelmente não tinha bens, nem posses e
muito menos dinheiro. Apenas beleza.
Era mulher para a cama e nada mais.
Fiquei pensando nela com Daniel Ortega e tive vontade de rir alto
quando percebi o que estava acontecendo. Com certeza pretendia dar-se bem
na vida às custas dele e com a beleza que tinha, talvez até conseguisse.
Mas ia ter trabalho, porque Ortega não parecia ser homem de cair
neste tipo de golpe e devia estar com ela pelo óbvio. Sexo!
Senti o olhar sério de Beatriz sobre mim.
— Jack! – seu tom era de incredulidade – Já contei tudo isso algum
tempo atrás, quando falei que viajaria com uma amiga!
Engoli um xingamento contra mim mesmo por ter cometido mais um
erro com Beatriz.
Tinha o hábito de anotar só as informações importantes das mulheres
de internet com quem conversava. Na ocasião não achei que esta amiga de
Beatriz merecia minha atenção, mas agora, tendo conhecido Ana e sabendo
da existência também de Daniel Ortega, precisava de todas as informações
possíveis sobre eles.
Para disfarçar, dei um tapinha na minha testa, como se estivesse
lembrando.
— É isso mesmo! Você contou! – olhei-a com carinho, um sorriso
amplo no rosto – Acho que estou é muito emocionado com sua chegada,
Beatriz! E também tenho que confessar que nos últimos dias fiquei tão
ansioso com sua vinda, que só pensava em você, você e você! Mais ninguém!
Acho que o resto passou em branco.
Ela sorriu com compreensão e percebi que ficou emocionada com
minhas palavras. Respirei fundo por haver contornado a situação.
Tinha que ser inteligente, porque não podia perder Beatriz agora. Ela
foi a melhor candidata entre as que selecionei para conhecer pessoalmente.
— Por isso, minha querida, me perdoe se não lembro muita coisa da
sua amiga. Ela não era importante para mim.
Mas agora é.
— Oh, tudo bem, Jack. Não há problema algum com isso – disse,
satisfeita em saber que eu só pensava nela – Pode perguntar o que quiser
agora.
Depois. Por enquanto, estava satisfeito.
— Não me interessa saber mais nada, apenas ter você ao meu lado.
Mas deixe-me dizer que sua amiga teve uma sorte muito grande, pois Daniel
Ortega parece ser bem-sucedido com aquele Cadillac Escalade. Ele falar o
português também já é outra grande sorte, considerando que ela não sabe o
inglês.
— Tem razão, Jack! Aninha teve sorte e confesso que gostei de
Daniel. Espero que dê tudo certo entre eles.
Não desejo o mesmo!

***
Ana
Estávamos desfazendo nossas malas no quarto que dividiríamos na
casa de Ashley. Eu tirava as roupas maquinalmente, porque não conseguia
parar de pensar em Daniel. Acho que suspirei como uma boba, porque Bia
olhou para mim com um sorrisinho na cara.
— Falando de Daniel...mulher de Deus, você tem noção que carro é
aquele?
— Não faço ideia – fui sincera.
— É um Cadillac Escalade, minha amiga! Só pelo carro, eu podia
garantir que ele tem uma vida de luxo, mas Jack também disse que a empresa
onde ele trabalha é na verdade um grupo empresarial muito forte, com várias
filiais no mundo inteiro. Pelo cargo que ocupa lá dentro, Daniel
possivelmente é cheio de privilégios. Jack comentou comigo que você tirou a
sorte grande.
Olhei angustiada para ela.
— Oh! Muito obrigada! Agora me sinto muito melhor em saber que
nós dois estamos no mesmo nível social – ironizei tristemente, jogando mais
um casaco sobre a cama.
— Você não tem porque se preocupar com isso. Achei que Daniel é o
tipo de cara que não se importa tanto assim com status social, mesmo tendo
dinheiro para dar e vender, já que possui aquele carrão. Senti que se ele
gostar da pessoa, vai dizer um grande foda-se para quem meter-se na vida
dele. E garanto que gostou muito de você.
Sentei na cama, ansiosa para estar de novo com ele.
— Ai Bia! Ele é tudo que eu mais quero. Se antes já estava apreensiva
em admitir aquelas mentiras, imagina agora que o conheci e não quero perdê-
lo. Estou morrendo de medo dele não entender o que fiz – olhei para ela e
completei – Quer dizer, o que nós duas fizemos.
Ela sentou ao meu lado, me abraçando com carinho.
— Vai dar tudo certo! Tenho certeza absoluta que agora que Daniel
viu você, tocou e beijou, não vai deixar que nada os separe.
Eu tinha contado sobre os beijos que trocamos lá fora e que também
íamos sair mais tarde.
— Esqueci de dizer que ele quer que vá ficar na casa dele, pelo menos
por alguns dias. Já havia pedido isso quando ainda estava no Brasil – olhei-a
com preocupação – Mas também não queria me separar de você. Fico com
medo que aconteça alguma coisa e eu não esteja do seu lado.
Ela riu, parecendo divertir-se muito com o que eu disse.
— Ana! Mas o que é que pode acontecer comigo? Olha bem para
mim! – aprumou-se à minha frente – Eu já vim várias vezes aos Estados
Unidos, sei falar inglês fluentemente e tenho bastante dinheiro para não
passar dificuldades aqui. Sei que pareço doidinha por conta do meu
entusiasmo com Jack, mas tenho algum bom senso também. Você pode
tranquilamente passar uns dois a três dias com Daniel e depois vir ficar aqui
comigo. Posso também passar uns dias lá, já que ele me convidou.
Mesmo sabendo de tudo aquilo, eu ainda estava insegura em deixá-la
sozinha.
— E tem mais – ela continuou e desta vez tinha um olhar muito sério
– Eu é que deveria estar preocupada com você e não o contrário. Primeiro
porque não fala inglês, podendo perder-se por aí sem ter como pedir ajuda.
Segundo, por conta da dislexia, que só ajuda mais ainda a tirar seu sentido de
orientação nas ruas. Terceiro e mais importante: estou deixando-a com
Daniel, um homem que pode não aceitar muito bem todas as mentiras que
inventamos e reagir mal. Se o tio soubesse que vou deixar você sozinha com
tudo isso, ele arrancava o meu couro com certeza.
Fiquei calada e não disse nada, porque sabia que ela tinha razão.
— Viu como estou certa? – ela insistiu – Agora veja eu. Estou na casa
da Ashley, com a Terri dormindo aqui no quarto ao lado. Jack já foi para a
casa dele há muito tempo. Amanhã vamos viajar até a cidade vizinha para
assistir a um show da Terri, onde vou conhecer os pais de Jack e outros
familiares dele. Quem corre mais risco por estar sozinha? Eu ou você? Eu
estarei rodeada por várias pessoas. Você estará a sós com Daniel.
Lógico que era eu, porque mesmo achando que Jack era um homem
meio estranho, depois que vi o ambiente familiar da casa de Ashley senti que
Bia estava segura. Além disso, não havia mentiras entre eles que precisassem
ser esclarecidas e o nível social dos dois estava equilibrado.
— Podemos fazer assim. Quando Daniel chegar mais tarde, você diz
que vai ficar com ele por dois a três dias. Por isso já deixe pronta uma
bagagem pequena. Antes de vocês saírem, sentamos os três para conversar
sobre tudo o que aconteceu, porque se ele reagir mal, estamos as duas juntas
e você fica comigo depois.
Abaixei a cabeça e pensei por um tempo, lembrando daquela atração
imediata que sentimos um pelo outro, dos beijos que trocamos, as emoções
que partilhamos. Eu sabia que tudo aquilo era forte e sentia que ele gostava
muito de mim, podendo existir ali uma esperança que me entendesse.
Das mentiras que existiam, as mais fortes eram mesmo as que eu
inventei sobre meu pai e também por não ter dado meu endereço correto.
Tudo por causa daquela vergonha boba que eu tinha da minha situação
financeira, em comparação com a dele.
No fundo, as coisas que Bia inventou no perfil nem eram tão sérias
assim, a menos que ele fizesse questão daquela imagem que ela criou e não
de mim.
— Já tomei minha decisão – respirei fundo, disposta a resolver tudo da
forma correta e assumir minha responsabilidade no que fiz – Vou contar tudo
hoje à noite, mas você não precisa estar presente. Falarei sozinha com Daniel.
Ela torceu a boca de um lado para o outro, analisando o que eu havia
dito.
— Tudo bem. Mas diga-lhe que fui eu quem alterei o perfil. Se ele não
entender e você quiser que eu fale com ele, é só me chamar. Apesar de achar
que Daniel é um cavalheiro e que não a tratará mal, garanto que se ele o fizer,
vou invadir a sala e dizer-lhe umas verdades.
Ficou tudo combinado daquela forma e passei a aguardar
ansiosamente a sua ligação.
Daniel ligou exatamente uma hora depois para saber como eu estava,
mas falou muito rápido comigo, como tinha avisado que faria.
— Ana! Está tudo bem? – o tom era preocupado.
— Sim, estou bem. Conhecemos a Terri, que chegou da escola cerca
de dez minutos depois que você saiu. É simpática e muito educada.
— Ótimo! – senti o alívio em sua voz – Parece que não temos com
que nos preocupar, mas ainda assim verei algo sobre ela. Preciso desligar,
porque estou mesmo no meio de uma reunião, mas voltarei a ligar mais tarde.
Eu e Bia acabamos por passar a tarde passeando pela cidade com Jack,
Ashley e Terri, mas eu não conseguia parar de pensar em Daniel e na
conversa que teria com ele à noite. Ia ficar arrasada se ele não entendesse
nada.
Quando voltou a ligar horas depois, foi para avisar que não conseguiu
livrar-se dos compromissos de trabalho. Daniel foi praticamente convocado a
participar de um jantar de negócios com os chineses, onde o Presidente da
empresa também estaria, por isso não podia faltar de jeito nenhum. O
adiamento da nossa conversa me deixou mais nervosa ainda, mas tentei
acreditar que não passaria de amanhã.
Senti o cansaço na voz dele, além da frustração por ver seus planos
comigo não darem certo.
— Vá dormir, Ana. Fez uma viagem longa e precisa descansar.
— Você também precisa – falei suavemente, porque sentia que havia
muita pressão em cima dele.
— Estou precisando mesmo é de você – disse simplesmente.
Aquilo me fez suspirar com a vontade louca de estarmos juntos e não
hesitei em contar minha decisão.
— Decidi passar uns dias com você. Falei com Bia e se quiser, já
posso ir amanhã. Eles vão viajar no início da tarde e durante este período
ficaríamos juntos.
— Se eu quiser? – ele riu com satisfação – Claro que quero! Já passei
tempo demais desejando isso e agora não consigo abrir mão desse desejo.
Depois de conhecê-la hoje, é impossível não querer que fique comigo.
Até fechei os olhos com o prazer de ouvir aquelas palavras.
— Deixe tudo pronto para amanhã cedo. Ligarei quando estiver
chegando – fez uma pausa, continuando a falar com aquela sua voz que eu
adorava – Antes que me esqueça, verifiquei a Terri Spencer. Ela é mesmo
uma adolescente promissora no ramo da música, que vem fazendo algum
sucesso nos últimos dois anos. Antes disso ninguém nunca ouviu falar dela,
mas acredito que Ashley e Jack vêm fazendo um bom trabalho de divulgação
da sua carreira, porque a garota cresceu muito na mídia e tudo indica que
crescerá ainda mais no futuro. Por tudo isso, só posso dizer que vocês estão
seguras hospedando-se com Ashley.
— Que bom saber disso – deixei o alívio tomar conta de mim, porque
pelo menos um estresse já tinha sido eliminado – Agora sinto-me mais
tranquila em deixar Bia sozinha com eles.
— Quanto a isso não há com o que se preocupar, porque pelo menos
no quesito segurança está tudo bem. O que não é sinal de que tudo corra bem,
já que o relacionamento deles é que precisa dar certo. Mas isso depende de
muitos fatores e que só diz respeito aos dois.
Aquilo era verdade, da mesma forma como o nosso relacionamento
também dependia de outros fatores para dar certo e não apenas do que
sentíamos um pelo outro.
Escutei o som de vozes ao fundo e logo depois Daniel disse que
precisaria desligar.
— Boa noite, Ana. Durma bem e aguarde que ligarei cedo.
— Boa noite, Dan.
***

Victoria Stevens
— Querido, você avisou Daniel sobre a festa de Meghan?
— Sim, Victoria. Ele inclusive já está ciente que não pode faltar,
exatamente como você pediu – respondeu em tom monótono.
Sabia que ele não gostava quando eu invadia seus domínios dentro da
empresa, mas Scott ainda não era capaz de me impedir de fazer isso.
— Obrigada, querido! Nossa Meghan vai ficar muito feliz.
Ele me olhou com ironia.
— Meghan ou você?
— As duas.
Ao ouvir minha resposta, pousou o garfo e me dirigiu aquele olhar de
empresário implacável que tinha, achando bem que eu era algum de seus
subordinados e ia tremer de medo diante dele. O que Scott não sabia, é que
seriam necessários dez homens iguais a ele para me fazerem tremer de medo.
— Victoria, não vou pressionar Daniel mais do que tenho feito
ultimamente. Ele é um colaborador valioso, que não posso perder de jeito
nenhum – tirou o guardanapo do colo e jogou-o de qualquer jeito ao lado do
prato, num gesto irritado – Daniel comanda aquilo tudo com mão de ferro e
nunca reclamou de nada. Tê-lo lá dentro é garantia de mais tempo livre para
mim, porque faz muito bem o meu trabalho. Já estou velho e não pretendo
voltar a passar dezoito horas por dia trabalhando para manter as empresas
funcionando. Acho que mereço algum descanso.
Passei a mão em seu ombro.
— Calma, querido! Eu entendo tudo isso, mas sabemos que Daniel
nunca vai deixá-lo. Ele tem um contrato de exclusividade com você por mais
dois anos.
— No mundo empresarial, dois anos não é nada! Nem com um
contrato de dez anos de exclusividade com Daniel eu ficaria tranquilo. Se ele
for embora, basta que haja uma nova queda das ações na Bolsa, uma crise
financeira ou a quebra de um contrato, para ficarmos em sérias dificuldades
em questão de meses, caso não haja um especialista como ele à frente da
empresa. O mercado financeiro respeita homens como Daniel.
Escutei aquilo tudo com ceticismo, porque acreditava que nenhuma
daquelas coisas aconteceria com nossas empresas.
— Oh, não seja dramático, querido! – suspirei cansadamente – Você
sabe que nossas empresas são sólidas e nada disso vai acontecer. São tão
sólidas, que o próprio Daniel é um dos maiores acionistas. Não sei por que
tanta preocupação.
— Mesmo assim, nada é garantido, por isso é melhor dizer à Meghan
que não crie falsas esperanças com ele – me apontou o dedo – E você não
deveria estimular isso nela.
Desta vez fui eu quem me irritei com ele.
— Scott! Quero que Meghan case com Daniel!
Ele levantou abruptamente, empurrando a cadeira para trás.
— Chega, Victoria! Tem hora que você testa minha paciência ao
limite! – explodiu alto na sala de jantar, me fazendo pensar se os criados
ouviriam aquela discussão – Não vou misturar assuntos pessoais com
assuntos de trabalho e ponto final. Existem centenas de pretendentes para
Meghan. Ela que escolha um deles!
Me ergui lentamente da cadeira e olhei-o com firmeza, determinada a
lutar por aquilo que achava importante.
— Você já me deu tudo que uma mulher pode ter na vida, Scott!
Dinheiro, viagens, mansões, carros, joias, status. Tudo! Não há mais nada
neste mundo que você possa dar que eu já não tenha – fiz uma pausa para dar
ênfase ao que ia dizer agora - Exceto fazer as vontades da minha filha! Daniel
é lindo, rico, de uma família europeia tradicionalíssima e ainda poderá ser o
seu sucessor nas empresas caso venha a casar-se com ela! Você deveria estar
lutando junto comigo para que isso acontecesse e não ficar contra mim!
Meghan não tem que casar com qualquer um destes pretendentes, porque eles
não saberão gerir nossas empresas. Daniel sim! Ele é perfeito em tudo!
Minhas palavras não pareceram abalar a decisão de Scott, parado à
minha frente com uma postura autoritária.
— Gostaria muito que ele fosse meu sucessor, mas se Daniel não quer
isso através de um casamento com Meghan, não sou eu quem vou forçá-lo.
Não pretendo entregá-lo de bandeja para outro concorrente, caso descubra
que andei interferindo em sua vida pessoal.
Saí da mesa e fui para o seu lado, abraçando-o com carinho.
— Querido, não podemos deixar que Daniel continue interessado por
essa brasileira que não tem onde cair morta. Deve ser uma oportunista que
vai dar-lhe o golpe. Temos que ajudá-lo a livrar-se dela.
Tentei convencê-lo a passar para o meu lado. Talvez se achasse que
estaria salvando Daniel de uma golpista, Scott concordasse em ajudar.
Ele fechou os olhos e respirou fundo quando ouviu minhas palavras.
Segurou meus braços e me afastou.
— Já disse para não continuar espionando a vida de Daniel! Não sei
como tem feito isso, mas exijo que pare agora! Ele tem todo o direito de
gostar de quem quiser – falou muito calmamente – Além disso, já é bem
crescidinho para saber distinguir uma mulher honesta de uma golpista.
Voltei para o meu lugar na mesa, olhando-o com determinação.
— Não vou desistir assim tão fácil! Não vou deixar que uma morta de
fome, vinda de uma favela nos morros do Brasil, tire Daniel de Meghan.
Senti seu olhar pesado sobre mim, vendo o gesto de desprezo que fez
com a cabeça.
— Eu teria medo de você, caso fosse uma concorrente de negócios,
querida esposa! Você joga baixo e sujo! – falou friamente, antes de dar as
costas e sair da sala, me deixando sozinha.
Sentei e peguei meu celular.
Eu não sou Victoria Stevens à toa, querido esposo!
Esperei apenas dois toques até ouvir a voz de Deborah do outro lado
da linha. A "leal" Secretaria Sênior de Daniel.
— Bom dia, Sra. Stevens.
— Bom dia, Deborah. Como estão as crianças?
Atacar de frente era sempre a melhor tática de guerra para mim.
Senti que Deborah vacilou ligeiramente, antes de responder.
— Estão bem, senhora. Obrigada.
— Fico satisfeita com isso, já que ajudo a que estejam bem. São
crianças tão lindas e merecem tudo de bom que possa existir – fiz uma pausa
para deixá-la assimilar bem minhas palavras, antes de continuar – Agora
diga, já conseguiu aquelas informações que pedi?
— Claro, senhora – baixou o tom de voz – A amiga chama-se Beatriz
Miranda e ambas chegaram ontem à Nova York. O Dr. Daniel foi ao
Aeroporto, mas as duas brasileiras seguiram em carros diferentes. Ana Cabral
com o Dr. Daniel e Beatriz Miranda com Jack Spencer, pelo que pudemos
apurar pela matrícula do carro.
Então ela veio mesmo!
Eu só queria ter descoberto sobre esta Ana Cabral antes, assim teria
tido tempo de evitar que embarcasse para cá. Infelizmente Deborah era lenta
demais e só por acaso é que havia encontrado uma pasta na gaveta de Daniel
com o perfil dela.
Nunca pensei que um homem tão sério e fechado como ele colocaria
um perfil num Site de Relacionamento atrás de mulheres. Ele não precisava
de nada disso.
Bom, talvez fosse uma daquelas fantasias estranhas que os homens
tinham e sexo virtual fizesse o seu gosto.
— Descubra quem é este Jack Spencer.
Era só um cuidado extra, para ver até que ponto poderia vir daí
alguma informação valiosa.
— Já chegou alguma notícia do Brasil?
— Ainda não, senhora. Faz muito pouco tempo que solicitei isso e
ainda estão investigando.
— Certo, aguardarei! – por segurança, decidi calar-lhe a boca mais
uma vez – Você é uma funcionária excelente, Deborah. Tenho certeza que
também deve ser uma boa mãe, sempre preocupada com os filhos e capaz de
fazer tudo para que vivam felizes e não lhes faltem nada.
Apenas breves segundos de silêncio, até ouvir sua resposta.
— Obrigada, senhora!

***

Daniel
— Carmencita. Lembre de deixar o quarto de hóspedes pronto e
prepare o almoço para dois.
— Sim, Dr. Daniel. Estará tudo como pediu – ela sorriu com seu jeito
bondoso e tranquilo de sempre – Arrumarei Candy com seu melhor laço na
cabeça.
Rimos juntos na cozinha da minha casa e só então percebi o quanto
me sentia feliz agora que tinha Ana em Nova York.
Ana!
Bastou ver sua figura elegante e muito feminina no Aeroporto, para
ser dominado pela certeza que não havia como me decepcionar ao comparar a
imagem virtual com a mulher que tinha andando à minha frente. Seu corpo
sensual destacava-a das outras mulheres no saguão.
Estava ansioso para vê-la de frente, porque seriam nos seus olhos que
poderia confirmar se tinha acertado na minha escolha durante todo este
tempo.
Quando ela virou para mim, lá estava o que já tinha percebido em
nossas conversas pelo Skype. Que Ana exalava doçura, suavidade e meiguice
por todos os poros.
Constatar pessoalmente o que já sentia à distância foi decisivo para a
continuidade daquele namoro, porque eu não pretendia de forma alguma
manter um relacionamento virtual com ela por tempo indefinido. Eu queria
muito mais com Ana!
O impacto de vê-la por inteiro parada diante de mim, os olhos
surpresos e encantados fixos nos meus, me deu aquela certeza. Ela era
pequena em tamanho, como eu já supunha que seria, mas a sensualidade do
corpo e a beleza do rosto estavam lá, tornando-a extremamente atraente.
Se eu já estava seduzido desde que vi sua foto, ouvi sua voz e a vi pela
primeira vez no Skype, agora pessoalmente estava irremediavelmente
apaixonado, encantado e atraído por ela.
— Dan.
Apenas uma palavra, uma forma carinhosa de me chamar, para que eu
sentisse aquele desejo espalhar-se por todo o meu corpo e concentrar-se na
virilha, me deixando ver o quanto realmente a queria para mim.
Segurei sua mão, constatando surpreso como o calor da pele macia
entrando pelos meus poros fez meu corpo estremecer de prazer. Imaginei
então como me sentiria quando pudesse tê-la em meus braços ou em minha
cama!
Ana pareceu assustada com a força da atração que sentimos naquele
momento, pois isso ficou muito visível em seus olhos. Era espontânea na
expressão do que sentia por mim, sem esconder nada ou fazer jogos de
sedução. Tudo nela era natural e aquilo me atraía mais ainda.
Faltava apenas provar seus lábios e por nada neste mundo eu abriria
mão de beijar aquela boca carnuda e rosada que tinha à minha frente. Esperei
tempo demais por isso! Apenas rocei-os com os meus, esperando para ver sua
reação. Como ela não recuou, mas sustentou meu olhar com o mesmo desejo
que eu sentia, tomei sua boca da forma que queria e precisava, ou seja,
completamente!
No preciso instante em que senti sua doçura, já não houve mais dúvida
nenhuma para mim. Era Ana quem eu queria na minha vida e faria de tudo
para trazê-la do Brasil para cá. Se não fosse por causa da amiga e do
namorado, teria saído com ela do Aeroporto direto para minha casa.
Beatriz não tinha a mesma beleza ofuscante de Ana, mas era de uma
simpatia ímpar. O namorado Jack, me fez lembrar alguns homens de
negócios com quem já lidei muito na vida, que são oportunistas por natureza
e capazes de usar métodos pouco recomendáveis para atingir seus propósitos.
Não achava que Bia combinava com ele, mas não cabia a mim julgar o
relacionamento dos outros. Me importava apenas Ana e que nada do que
acontecesse com sua amiga a atingisse.
Só consegui ficar mais tranquilo quanto à Jack, depois que pesquisei
sobre Terri Spencer e comprovei que os dois irmãos tinham contado uma
história verdadeira para Ana e Bia. Porque eu não hesitaria em colocá-los
atrás das grades, caso fizessem algo contra elas. Era visível o amor que unia
as duas e percebi isso assim que Ana me apresentou a amiga, porque seus
olhos brilhavam com carinho quando a fitavam.
Sorte da Bia ter uma amiga como Ana, porque pelo que percebi, a
garota tinha vindo à Nova York sem saber falar uma única palavra em inglês,
o que deixava-a vulnerável demais naquela cidade cheia de perigos. Me
preocupei ainda mais ao saber que Ana nunca tinha vindo aos Estados
Unidos, porque mesmo sabendo falar inglês fluente, ainda assim eram duas
brasileiras sem experiência nenhuma ali. Mesmo tendo consciência que Ana
tinha vindo para me conhecer, meu lado prático só conseguia ver aquilo como
uma viagem de alto risco, que poderia transformar-se em tragédia caso se
envolvessem com as pessoas erradas.
Ter percebido tudo isso no Aeroporto, só me fez ficar mais decidido
ainda em manter Ana em segurança ao meu lado, trazendo a amiga junto, se o
namoro com Jack Spencer não desse certo.
Mesmo durante o jantar de negócios ontem à noite, não consegui parar
de pensar nela, ansioso para estar ao seu lado. Aqueles beijos que trocamos
selaram definitivamente o meu compromisso com ela.
Peguei meu celular e saí de casa, olhando as mensagens. No meio
delas, encontrei uma de Richard.
Abri a porta do carro e entrei, só então lendo o que escreveu.
"Precisamos conversar. Diga uma hora que possa passar em sua
casa. Já tenho comigo o relatório da investigação".
Maldição! Tinha esquecido completamente aquela investigação. Fiz
bem em deixá-la a cargo de Richard ou teria realmente desistido de tudo, com
aquela vida corrida que tinha. Olhei meu relógio e contabilizei o tempo.
Queria estar logo com Ana, mas poderia perder alguns minutos conversando
com Richard.
Liguei, esperando que atendesse.
— Bom dia, Daniel – falava ofegante, arfando a cada respiração e
comecei a rir na hora.
— Bom dia. Atrapalhei alguma coisa? – brinquei com ele – Não pare
por minha causa, pode continuar a se divertir.
— Estou correndo no parque, mas bem que gostaria de estar na cama
com uma bela morena.
— Então não vou interromper seu exercício. Liguei apenas porque vi
sua mensagem. O que tem a dizer sobre o relatório?
Ele demorou a responder e quando falou, sua voz não era mais
divertida.
— Prefiro que seja pessoalmente. Posso passar em sua casa hoje, se
quiser. Não vou demorar muito.
Não gostei nada daquilo, porque tinha intenção de ficar sozinho com
Ana e aproveitar o pouco tempo livre que teria apenas com ela. Mas também
não podia menosprezar o trabalho que Richard teve para conseguir aquele
relatório para mim.
— Estou saindo agora e só devo voltar em cerca de uma hora. Se
puder estar aqui quando eu chegar, conversaremos em meu escritório. Mas
aviso logo que tenho outros compromissos hoje e não poderei demorar muito.
— Combinado. Também tenho clientes esperando no escritório a
partir das dez.
— Okay, então. Até mais tarde.
— Até.
CAPÍTULO 15

Daniel
Abri a porta e fiz Ana entrar, tentando imaginar a impressão que teria
da minha casa. Seus olhos brilhavam cheios de expectativa, as faces rosadas e
a boca desenhada com um sorriso de felicidade.
Estava simplesmente linda!
Quando cheguei na casa de Ashley, foi ela quem abriu a porta e por
um breve momento não consegui fazer mais nada além de olhá-la. O "bom
dia" que eu ia dizer ficou entalado na minha garganta quando a vi, sendo
substituído por um beijo na boca, que dei quase imediatamente depois.
Senti seus braços me envolverem com força pelo pescoço e aquilo
aumentou ainda mais meu desejo. O beijo de Ana era doce e carinhoso como
ela, a boca macia e quente abrindo-se para mim sem pudor algum, mostrando
como também estava dominada pela paixão e ansiosa para estar comigo.
— Bom dia, Dan – sussurrou entre meus lábios, me fazendo rir.
— Bom dia – respondi, dando beijos ao longo do seu rosto e voltando
aos lábios novamente – Senti sua falta.
Ouvir sua risada me deixou excitado e apertei-a mais contra mim.
— Eu também. Não estarmos juntos ontem à noite me fez dormir meio
frustrada. Acordei cheia de expectativa em vê-lo de novo – confessou
tranquilamente.
Aquela forma natural de dizer o que sentia me deixava cada vez mais
apaixonado. Ana realmente não era de fazer jogos de natureza nenhuma e
aquilo fazia uma diferença enorme para mim, pois era o oposto de tudo que
eu estava acostumado antes e que definitivamente não gostava. Achei que
não existiam mulheres como ela, mas por obra do destino, agora podia
comprovar que estava muito enganado.
— Precisamos conversar – ela disse com certo nervosismo e
insegurança, me fazendo olhá-la com atenção – Tenho algumas coisas para
contar e não queria mais adiar. São importantes.
Parecia agitada, me deixando preocupado.
Algo não estava bem!
— Aconteceu alguma coisa aqui? Por que ficou assim de repente? –
abracei-a com mais força, para fazê-la sentir-se em segurança comigo.
— Aqui não aconteceu nada! São coisas que aconteceram no Brasil e
que preciso contar.
Fiquei aliviado ao saber que não era nada relacionado à Ashley e Jack,
porque apesar de ter comprovado serem pessoas idôneas, isso não significava
que fossem incapazes de magoar Ana e Bia.
— Então se não é nenhum problema com eles, prefiro levá-la logo à
minha casa. Não vejo motivo algum para ficarmos mais tempo aqui, por
conta de uma conversa que podemos ter tranquilamente lá. Seja o que for que
aconteceu no Brasil, pode esperar alguns minutos.
— Não! Não pode! – ela foi tão taxativa que me surpreendi com
aquilo.
Me afastei e olhei-a com cuidado, vendo a testa franzida e a postura
ligeiramente rígida do corpo.
— Qual é o assunto? – quis saber, para ver se era tão sério assim que
justificasse aquela reação.
— É sobre o meu pai – parecia constrangida em dizer aquilo –
Informações que omiti por… por sentir vergonha.
O pai que eu achava não ter um bom relacionamento com ela e ser
ausente demais na vida da filha! Eu já tinha sentido que faltava algo naquela
história e pelo visto aquilo a abalava muito ou não estaria nervosa daquele
jeito.
Abracei-a com carinho, trazendo para bem perto de mim. Ana pareceu
surpresa com minha atitude, talvez achando que fosse me chatear por ter
escondido os problemas que tinha com o pai.
— Seja lá o que for que tenha a me dizer, eu entendo – olhei
firmemente para ela – Nada vai mudar o que sinto por você.
Ela pareceu tão aliviada, que senti seu corpo vacilar de encontro ao
meu. Sustentei-a com força, vendo pela primeira vez como aquele assunto era
importante para ela.
Ana encostou a cabeça em meu peito e fechou os olhos, me abraçando
pela cintura.
— Eu estava com tanto medo que não me entendesse – quase gemeu
contra meu casaco.
Dei um beijo no alto de sua cabeça, adorando o cheiro suave que
vinha dos cabelos soltos.
— Pois não deveria ter medo nenhum quanto a isso. Eu sou um bom
ouvinte e procuro não julgar as pessoas sem antes escutar o que tem a dizer.
Se ainda precisamos conversar, gostaria que não fosse aqui. Vamos entrar e
nos despedir deles, pegar sua bagagem e irmos para minha casa.
Ela fez o que pedi, me puxando pela mão para a sala onde todos
estavam reunidos nos últimos preparativos para a viagem que fariam. Após
os cumprimentos habituais, fui apresentado por Ashley para a única pessoa
estranha que havia ali. Um amigo de Jack chamado Jonas, de quem não
gostei de imediato pela forma como observava disfarçadamente todos os
movimentos de Ana, enquanto ela falava com Bia numa conversa sussurrada
no canto da sala.
Ele tinha estatura mediana, pouco mais de trinta e cinco anos e uma
aparência de origem latina. Cumprimentei-o com um aperto de mãos muito
seco, porque a coisa mais certa é que os olhos são o espelho da alma e aquele
olhar dele era tudo, menos confiável.
Apesar de saber que minha reação negativa poderia ter sido causada
pelo seu insistente olhar sobre Ana, tinha consciência que meus instintos de
advogado também apontavam para isso.
Saber que Jonas estava de alguma forma interessado nela, só piorava
tudo.
Ele afastou-se depois que nos cumprimentamos, deixando Jack e
Ashley monopolizarem minha atenção. Mas senti seu olhar especulativo
sobre mim o tempo necessário para ter certeza que minhas impressões iniciais
estavam corretas. Não gostei nada de saber que Ana poderia voltar a ficar
próxima dele quando todos retornassem de viagem.
Agora, mais do que nunca, pretendia mantê-la comigo o resto do
período que ficasse em Nova York.
Tive que aguentar as excessivas gentilezas de Ashley e Jack, durante
aquele curto espaço de tempo que ficamos ali. A cantora mirim, Terri, me
cumprimentou rapidamente e depois mergulhou dentro do celular até o
momento em que saímos.
Só quando Ana entrou no carro e deixamos a casa de Ashley para trás,
foi que respirei aliviado ao ver que nada mais me impediria de ficar sozinho
com ela.
Quando chegamos, acionei o controle para abrir o portão e entrei no
pátio, parando em frente à porta e observando-a olhar a estrutura moderna da
casa.
Minha mãe não gostava, por não ter uma fachada antiga no estilo
colonial que ela preferia.
— O que achou? – estava curioso em saber sua opinião.
— Ah Dan! Ela é magnífica, mas enorme! Como é que você consegue
morar em um espaço tão grande sozinho?
Olhei para a casa, vendo-a pela primeira vez com a visão de Ana e
realmente percebi que era grande demais para uma pessoa morar sozinha.
Mas eu passava tanto tempo no trabalho ou viajando, que nunca tinha tido
oportunidade para me sentir solitário dentro dela.
— Nunca pensei nisso – respondi simplesmente, saindo do carro para
abrir a porta do seu lado e ajudá-la a descer.
Quando ultrapassamos o vão da porta, fomos recebidos alegremente
pelo latido estridente de Candy, que se aproximava rapidamente.
Ana virou para mim, os olhos cheios de surpresa.
— É Candy! – disse, dando dois passos em direção ao som e quase
chocando-se com ela no meio do caminho – Olha só, mas como você é
pequenina! Muito, mas muito pequenina mesmo!
Abaixou-se para pegá-la no colo, trazendo-a para mim.
— Ela é tão miudinha!
— Sim, é. Mas o que falta em tamanho, sobra em geniosidade. É cheia
de direitos dentro desta casa, faz o que quer e quando não gosta de algo,
chateia você até cansar. Não se iluda com seu tamanho.
Segurei-a pela cintura e fui trazendo-a para a sala, colocando sua mala
ao lado do sofá.
Ouvi passos e vi Carmencita aproximando-se com um sorriso no rosto
largo.
— Buenos días!
— Ana, esta é Carmencita, que cuida da minha casa com perfeição. É
melhor administradora aqui dentro, do que eu sou como advogado.
— Buenos días, Carmencita!
Vi satisfeito como Ana abraçou-a com carinho, dando-lhe dois
beijinhos no rosto de forma espontânea, ainda segurando Candy com uma das
mãos.
Carmencita me olhou por sobre os ombros de Ana com a surpresa nos
olhos e o natural sorriso alargando-se mais ainda, provavelmente comparando
Ana com as outras namoradas que tive, que sequer falavam com ela, muito
menos cumprimentavam de forma tão efusiva e calorosa.
Ela fez sinal para Candy na mão de Ana e só fiz erguer os ombros,
sem dizer mais nada. Estava óbvio que minha cadelinha tinha caído de
amores por ela, da mesma forma que eu.
Quando as duas tinham acabado de se separar, a campainha tocou e
lembrei de Richard, pensando que deveria ter marcado com ele outro dia
mesmo.
— Deve ser Richard. Leve-o para o meu escritório e diga que irei logo
– falei em espanhol, já que ela não entendia português – Depois quero que
leve a mala de Ana até o quarto que preparou para ela. Hoje trabalharei só
poucas horas à tarde e nesse curto período gostaria que fizesse companhia
para Ana, deixando-a à vontade dentro da casa. Poderão levar Candy para
passear no parque, assim conhecerá também os arredores.
— Claro que sim – olhou sorrindo para Ana – Terei imenso prazer em
ficar com ela e mostrar-lhe tudo.
— Obrigado, Carmencita.
Ela concordou e saiu da sala, indo receber Richard.
Virei para Ana e vi que estava com uma expressão confusa no rosto,
como se não tivesse entendido nada do que estava acontecendo.
Pareceu ficar apreensiva quando cruzou os olhos com os meus, então
lembrei da conversa que queria ter comigo.
Me aproximei, tirando Candy de sua mão e pousando no chão. Só
então abracei-a.
— Deixe-me atender meu amigo e depois teremos o resto da manhã
inteira para conversarmos. Não demoro mais que dez minutos. Será rápido,
porque já disse que estava ocupado agora pela manhã.
— Tudo bem. Aguardo.

***
Richard estava sentado em uma das poltronas que ficavam no canto do
meu escritório. À sua frente, na mesinha de centro, um envelope pardo aberto
com um relatório do lado de fora, que ele folheava.
Levantou quando me ouviu entrar, vindo me cumprimentar com um
aperto de mãos.
— Então, o que temos? – fui direto ao assunto, porque tinha pressa em
terminar logo aquilo e estar com Ana.
Sua expressão estava fechada e com aquele terno que usava, parecia
mesmo um advogado que ia iniciar um julgamento.
— As notícias não são boas – foi logo dizendo, apontando para os
papéis sobre a mesinha – Espero que esteja preparado para o que vai ouvir,
porque as minhas suspeitas se concretizaram e Ana Cabral é mesmo uma
golpista.
Parei na hora o movimento que fazia em direção ao relatório, olhando
para ele sem acreditar no que tinha ouvido.
— O que foi que disse? – não consegui evitar o tom ríspido com que
fiz aquela pergunta.
Ele suspirou pesadamente e me lançou um olhar compassivo, me
deixando duplamente sem ação quando vi que estava com pena de mim.
— Sei que está apaixonado por ela, mas Ana Cabral veio mesmo
realizar o "sonho americano" às suas custas. Sinto muito dizer, mas pelo que
li no relatório, ela não é nada recomendável, muito menos para um homem do
seu nível. É uma oportunista e acredito que esteja acostumada a conseguir
vantagens de alguns homens em troca de favores.
Favores?! Mas que merda é essa?
— O que é você está dizendo? Que ela faz programas? – me
aproximei dele em dois passos, antes de parar de súbito ao perceber que
estive a ponto de suspendê-lo pelo colarinho, com raiva por ter dito aquilo de
Ana.
— Leia o relatório – ele respondeu calmamente, os olhos muito sérios.
Naquele exato momento aconteceu comigo algo que nunca tinha
sentido antes. Uma dor estranha tomou conta do meu peito e só podia
identificá-la como algo parecido com um punhal acertando em cheio meu
coração. Cheguei a pensar se um ataque cardíaco tinha aquela mesma
sensação.
Ana fazendo programas? Nunca!!
— Você está enganado, Richard! – consegui dizer, mas senti como se
as palavras arranhassem minha garganta – Ana não é isso, tenho certeza!!
Ele ergueu as duas mãos em sinal de rendição.
— Isso não tem nada a ver comigo. Só fiz contratar a empresa que
conhecia. Eles é que fizeram o trabalho de investigação. Se quiser pode ler –
indicou o relatório – Confesso que também não acreditei quando li o que
estava escrito ali e liguei diretamente para ele buscando esclarecimento. Se
quiser, digo-lhe tudo o que falou sobre ela.
Sempre me orgulhei de ser muito prático, racional e certeiro em
minhas deduções, raramente errando quando analisava o caráter de uma
pessoa. Estava plenamente convicto que Ana era a mulher mais autêntica,
honesta e correta que já conheci na minha vida.
— Repito que deve haver algum engano – falei com firmeza.
— Pelo que li no relatório, ela mentiu para você em muita coisa –
Richard continuou.
Não a minha Ana! Ela não mentiria para mim!
A Ana que estava lá fora esperando por mim não era uma mentirosa e
muito menos fazia programas com ninguém!
Fui até o relatório e peguei-o, sentando na poltrona. Eles haviam
enviado um relatório em inglês e outro em português. Peguei o primeiro e
comecei a ler.
A empresa de investigação devia ter revirado o passado dela, porque
incrivelmente a narrativa começava em seu período escolar. Senti como se
estivesse invadindo sua privacidade sem autorização e meu primeiro impulso
foi de rasgar aquele relatório, ir até minha sala e pedir que contasse tudo que
eu precisava saber.
Mas agora, o advogado que havia em mim estava precisando de
provas, de respostas lógicas. Já não podia ficar sem analisar aquele relatório.
Infelizmente para mim, minha especialidade era investigar e encontrar
culpados.
Voltei à leitura, que iniciava dizendo que Ana havia sido uma aluna de
baixo rendimento escolar, com extrema dificuldade de aprendizado. Tinha
sempre as notas mais baixas da turma e não era muito popular, com
dificuldade de interação com os outros colegas. Foi acompanhada por
psicólogos e os investigadores conseguiram o registro dos professores, onde
dizia que era preguiçosa para estudar, desatenta, não gostava de ler nem
escrever. Uma das professoras do último ano do ensino fundamental disse,
inclusive, que era mesmo burra, justificando que lia muito mal e escrevia pior
ainda. Ana havia terminado o ensino médio com muito sacrifício e com um
ano de atraso. Sem registro de nenhum curso superior.
Onde ficava então a faculdade de Jornalismo?
O parágrafo seguinte me deixou estarrecido, me fazendo apertar o
papel com força. Falava de seus pais, dizendo que o pai era médico e a mãe
não trabalhava. Divorciaram-se em 2012, um ano depois que ele sofreu uma
tentativa de assalto em que foi baleado e ficou tetraplégico.
O pai dela é tetraplégico?!
Impossível não lembrar de todas as vezes que perguntei sobre seu pai
e ela ficava nervosa.
"Meu pai é médico e dá plantão no hospital à noite. Quase nunca está
em casa nesse horário".
Até tremi com a força que precisei fazer para controlar a revolta que
senti diante daquela mentira. Agora entendia sua ansiedade em falar comigo
desde que chegou.
"É sobre meu pai. Informações que omiti por… por sentir vergonha.”
Vergonha do próprio pai? Ana tinha vergonha dele por ser
tetraplégico?
O esforço que fiz para focar as palavras na minha frente e continuar
lendo foi enorme, porque ceguei completamente ao perceber que Ana
realmente havia mentido para mim.
Ela e os pais ainda moraram em um bairro nobre durante o primeiro
ano após o acidente, mas depois do divórcio, a mãe foi morar no sul do país,
deixando para trás o marido e a filha. Lá casou novamente e tinha um
excelente nível de vida.
Nesta ocasião, Ana e o pai foram morar em um apartamento pequeno
e simples, em uma área pouco valorizada da cidade, onde ela vivia até hoje.
Isso tudo foi confirmado através do endereço que deu ao fazer o passaporte.
Só que o pai parece que nunca mais foi visto por ninguém e na vizinhança
diziam que ela morava sozinha.
Tive que respirar fundo para controlar a raiva que começava a crescer
dentro de mim, ao comprovar que o endereço que me deu era outra mentira.
Me forcei a continuar lendo.
Os investigadores tentaram descobrir se o pai havia morrido, já que
não morava com ela, mas não encontraram registro de óbito. Estavam ainda
investigando para saber o que aconteceu com ele, pois como Ana era muito
jovem na época, pode ter-se negado a cuidar dele sozinha e atualmente o pai
estar na casa de algum outro familiar ou em uma instituição.
No prédio onde morava atualmente, uma de suas vizinhas informou
que há cerca de quatro dias que o apartamento estava fechado. Disse que
escutou barulho de uma mudança, o que a deixou muito aliviada. Foi
questionada sobre o porquê de sentir-se assim, dizendo a contragosto que
Ana não era uma boa influência para os seus filhos. Sendo uma mãe de
família, desagradava-a ver homens entrando e saindo do apartamento dela.
Afirmava que no prédio onde moravam só viviam famílias sérias, com
crianças pequenas. Segundo ela, Ana desmoralizava tudo com seu estilo de
vida.
Lembrei da conversa que escutei entre ela e o tal vizinho, pensando
agora se ele a tinha assediado por ver homens entrando e saindo do seu
apartamento, comprovando assim que a investigação tinha razão.
"Se quiser, posso subir e acompanhá-la até seu apartamento. Tenho
tempo livre para ajudá-la no que precisar".
Parei de ler na hora, amassando o papel nas mãos, sem conseguir
acreditar no que estava escrito ali. A razão me puxava para um lado e a
emoção para o outro. Aquilo era algo que nunca vivi antes.
A emoção me dizia que Ana não era assim. A garota por quem estava
apaixonado não era aquela mulher da investigação. Pareciam duas pessoas
totalmente diferentes, como se fossem irmãs gêmeas com personalidades
opostas.
Olhei para Richard, que permanecia calado na poltrona ao meu lado.
— Mas que empresa de investigação foi essa que você arranjou? Eu
não consigo acreditar que estamos falando da mesma mulher.
Ele pareceu chateado com o que eu disse.
— Eles são competentes e sérios no que fazem. Tudo bem que o prazo
que lhes dei foi muito curto, mas ainda assim não enviariam um relatório
montado apenas para terem algo para apresentar. Você já terminou a leitura?
— Não.
Ele fez um gesto indicando o relatório amassado em minhas mãos.
— Termine de ler. Vai ver que tenho razão.
Estiquei o maldito papel à minha frente, virando a página seguinte,
que começava falando do seu trabalho como Recepcionista Hospitalar. Estava
no hospital há quase quatro anos, sempre na mesma função. Eles
descobriram, através de uma das funcionárias que trabalhava com Ana na
Recepção, que ela não tinha qualificação nenhuma para estar ali, mas como
tinha sido um dos Diretores do Hospital quem conseguira aquele emprego
para ela, continuava lá.
Dizia ainda que cometia muitos erros, era distraída, esquecia as coisas,
mas ninguém podia fazer nada. Os funcionários comentavam entre si que ela
deveria ter um caso com o Diretor e era ele quem mantinha seu emprego.
Chega! Foda-se com tudo isso!
Levantei e comecei a andar pelo escritório, o relatório novamente
amassado na mão.
— De quem é o endereço que ela me deu? Porque o bouquet foi
entregue lá e Ana o recebeu.
— Quem mora na beira-mar de Meireles é mesmo a tal da Beatriz com
os pais. Provavelmente é alguma amiga dela, já que ambas têm a mesma
idade.
Amiga?!
Bia! Só podia ser Bia!
Como é que não percebi isso antes?
Como pude ser um tolo apaixonado que não viu nada disso?
Deixei de ser um advogado experiente, um auditor perspicaz que nada
deixava escapar, e me transformei em um tolo?
Foda-se!
Continuei andando em torno das poltronas, apertando com força o
relatório amassado.
Richard continuou falando, sem perceber como me sentia naquele
momento.
— Como disse antes, assim que li o relatório resolvi ligar para o Rio e
falar com Guilherme, um dos sócios da empresa, para confirmar as
informações. Diante de tudo que conversamos, autorizei que verificassem a
vida financeira dela – fez uma pausa, como se estivesse dando um tempo para
que eu me preparasse para alguma bomba que ia jogar na minha cara – Os
pais tinham dívidas mesmo antes de se divorciarem. O pai, apesar de médico,
fez um empréstimo bancário que era renovado constantemente. Quando ficou
inválido, o dinheiro da aposentadora não foi suficiente para mantê-los, ainda
mais com todo o tratamento médico especializado que precisou.
Parou de falar e olhei para ele, vendo sua expressão preocupada.
— Pode continuar – falei friamente.
— Acho que não preciso dizer o resto, porque já dá para imaginar o
que aconteceu. Mas assim que Ana começou a trabalhar, conseguiu tirar um
outro empréstimo bancário no nome dela, que se mantém até hoje. Uma
dívida que dificilmente conseguirá pagar com o salário de Recepcionista que
tem.
Ele pegou o relatório em português que ainda estava sobre a mesa de
centro.
— Eu avisei você em Londres que ela poderia ser a típica mulher de
internet e aqui está a prova – agitou os papéis no ar, uma prova mais do que
suficiente para condenar Ana – E tem mais. Fui atrás do perfil dela no Site de
Relacionamento e ele ainda está aberto, com foto e tudo. Provavelmente Ana
continua procurando homens na internet.
Saber daquilo foi o mesmo que levar um soco na cara, porque eu havia
pedido que fechasse aquele perfil.
E ela me garantiu que o tinha feito!
Foda-se! Fui um tolo!
— Tem certeza disso? – rosnei em tom contido, me sentindo mais do
que traído.
Richard tirou o celular do bolso e em poucos minutos estava
mostrando o perfil dela, com a foto que eu tanto amava visível para todos
aqueles que quisessem contactá-la para namoro, quando eu já era o seu
namorado.
Maldição! Isso já é demais!
Eram provas muito fortes para que eu ignorasse todas elas, como meu
coração queria fazer. Estava sendo difícil aceitar aquela perda, mas tudo
contribuía para incriminar Ana cada vez mais.
— Eu sinto muito, mas tudo que ela falou para você era mentira. Ela
não mora em um apartamento de luxo num bairro nobre, não faz Jornalismo.
Pelo que o relatório diz, tudo indica que vive da beleza que tem, porque mal
sabe ler e escrever. Deve ser mesmo burra, como os professores diziam.
Perdi a paciência de vez quando ouvi aquilo.
— Não diga isso dela! – a defendi sem nem saber porquê, já que
também estava sentindo muita raiva – Você não a conhece como eu conheço.
Ana é inteligente!
Ele respirou com resignação quando terminei de falar.
— Sem dúvida que é inteligente ou não teria enganado você tão bem!
Olhei-o duramente, mesmo sabendo que tinha razão.
— É melhor ter cuidado com o que diz, Richard! – ameacei.
— Peço desculpas, amigo! Não pretendo abalar nossa amizade por
conta de nenhuma mulher. Só estou querendo fazê-lo pensar com a mente e
não com o coração – falou com a cautela na voz – Pelo menos ela já falou em
inglês com você?
Parei de andar abruptamente, sentindo minha raiva aumentar ao
lembrar que desde a primeira ligação telefônica nunca conversamos em
minha língua, sempre no idioma dela.
O meu silêncio disse tudo.
— Pela sua expressão, já sei que a resposta é não – Richard deduziu
logo.
— Achei que ela preferisse falar seu idioma e como domino bem o
português, acabei por me acostumar a falar com ela sempre assim.
Nunca me senti tão idiota como naquele momento. Como é que sendo
um homem tão vivido, não havia desconfiado de nada?
Claro que não ia desconfiar dela. Linda como era, com aquele olhar
doce e carinhoso, me deixou completamente seduzido. Me sentia ferver de
raiva só em pensar que ela usaria aquele mesmo jeito especial para conseguir
favores de outros homens.
Resolvi tirar aquilo a limpo.
— Vou chamá-la e esclarecer tudo isso agora!
Richard me olhou com a surpresa estampada na cara.
— Ela está aqui?
— Sim, está.
Ele pensou rapidamente, me olhando depois com seriedade.
— Então deixe-me fazer um teste com ela antes, assim poderemos
comprovar se é apenas um rostinho bonito querendo se dar bem na América
usando você. Pode ser?
Que espécie de teste era esse?
— O que pensa fazer? – apesar da raiva que estava sentindo por ter
sido enganado aquele tempo todo, havia um lado meu que teimava em
protegê-la.
— Quero apenas ver se é uma mulher culta e inteligente, que não
precisa dar golpe em ninguém, porque é capaz de ter sucesso por conta
própria. Apenas isso! Eu sei falar português e ela não vai desconfiar de nada.
Por um longo tempo fiquei apenas olhando para ele e sabia que minha
expressão era tudo, menos amigável.
— Então conte antes o que pretende fazer - não havia um pingo de
cordialidade em meu tom de voz.
Durante os minutos seguintes, só fiz ouvir atentamente o que Richard
dizia, até que por fim resolvi concordar com o que pretendia fazer.
Ia ser duro para mim, mas também seria constrangedor para Ana ser
desmascarada à minha frente. De alguma forma, doía ter que fazer aquilo
com ela, mas se mentiu, não havia mais chance para nós dois.
Saí do escritório e caminhei resoluto através do corredor em direção à
sala. Me surpreendi quando encontrei Carmencita descendo as escadas.
— Dr. Daniel! – me forcei a parar, olhando-a – Como estava
demorando muito no escritório, tomei a liberdade de levar a Srta. Ana para o
quarto onde vai ficar. Mostrei tudo e sua mala já está lá em cima. Acabei de
deixá-la na sala, com Candy fazendo-lhe companhia.
Candy!
Como é que a sempre desconfiada e exigente Candy foi gostar tão
facilmente assim de Ana?
Carmencita abriu um sorriso enorme ao falar dela, parecendo uma mãe
orgulhosa falando da filha.
— Ela é mesmo uma moça encantadora!! É um pouco calada, mas não
deixa de ser muito educada e gentil – continuou, me fazendo respirar fundo
ao ouvir suas palavras – Deu para perceber que adorou o quarto onde vai
ficar.
O quarto ao lado do meu, com uma porta de comunicação ligando
ambos, e de onde havia pensado tirá-la o mais rapidamente possível naquela
noite, trazendo-a definitivamente para ficar comigo.
Calma Daniel! Você é um homem adulto, maduro e experiente. Já
lidou com os mais espertos homens de negócios do mercado financeiro. Não
vai ser uma garota de vinte e três anos que vai fazê-lo jogar anos de controle
para o alto!! Pense nisso!!
— Obrigado, Carmencita – tentei usar um tom de voz normal – Pode
voltar aos seus afazeres. Vou falar com ela agora.
Segui pelo corredor até chegar à grande sala e encontrar Ana sentada
no sofá. Estava com Candy ao colo, ajeitando o lacinho em sua cabeça. Tinha
os cabelos caindo no rosto e um sorriso carinhoso nos lábios.
Parei e respirei fundo, só observando-a.
Estava linda e parecia totalmente inocente de tudo que havia naquele
maldito relatório. Ergueu os olhos para mim quando sentiu minha presença
na sala, um sorriso carinhoso iluminando seu rosto. Os olhos tinham aquele
brilho de sempre, sinceros e cheios de emoção.
Por um instante vacilei completamente, porque meus sentimentos por
ela tinham ficado fortes demais durante o tempo do nosso namoro e mais
ainda depois que nos conhecemos pessoalmente. Tê-la em meus braços e
beijá-la, só comprovou a grande atração que sentia por ela.
— Dan! – exclamou, levantando e vindo em minha direção com
Candy na mão, parecendo verdadeiramente feliz em me ver.
Dan! A merda daquele apelido carinhoso que me fazia sentir especial.
À medida que andava em minha direção, vi sua testa franzindo-se ao
me ver ainda parado, provavelmente estranhando meu silêncio e atitude
distante.
— Está tudo bem? – perguntou em tom preocupado e carinhoso,
pousando a mão no meu peito e erguendo o rosto lindo e suave para mim –
Algum problema com seu amigo? Percebi que demorou mais do que pensava
com ele.
Onde estava a falsidade que eu não conseguia ver? Onde estava a
mulher oportunista que utilizava-se da incrível beleza que tinha para tirar
proveito dos homens? A mulher endividada, que tinha vergonha do próprio
pai e fazia programas?
— Você está bem? – ela insistiu, chegando mais perto de mim.
Peguei Candy e pousei-a no sofá. Só então segurei sua mão para levá-
la ao escritório e aquele simples toque foi suficiente para mostrar o quanto
estava seduzido por ela.
— Está tudo bem. Gostaria apenas que viesse comigo ao escritório.
Quero apresentá-la a Richard!
CAPÍTULO 16

Ana
Me aproximei dele, vendo como estava com a expressão tensa, os
olhos sempre carinhosos muito mais duros, sem deixar transparecer nenhuma
emoção, exceto frieza. Me arrepiei imediatamente quando bati de frente com
aquela parede dura e rígida, que não me permitia ver absolutamente nada do
que se passava em seu interior.
Senti uma sensação estranha dentro de mim, como se de repente uma
porta tivesse sido fechada na minha cara, me impedindo de chegar até o
homem que eu conhecia e por quem estava apaixonada.
O choque foi grande e meu corpo estremeceu com um calafrio, como
se uma bruxa do mal tivesse de repente lançado um feitiço sobre Daniel e o
colocado totalmente fora do meu alcance.
— Você está bem?
Coloquei a mão no seu peito, tentando de alguma forma chegar até
ele. Sentir o calor do seu corpo debaixo dos meus dedos me acalmou um
pouco mais. Ele segurou minha mão e aquela forte atração ainda estava lá.
Respirei aliviada, mas por pouco tempo.
— Está tudo bem. Gostaria apenas que viesse comigo ao escritório.
Quero apresentá-la a Richard!
Me apresentar ao amigo dele?
Oh meu Deus!
O homem provavelmente era americano e falaria em inglês!!
Estava mais do que na hora de conversar com Daniel e contar tudo,
porque já fiquei em maus lençóis quando fui apresentada à Carmencita, não
entendendo absolutamente nada do que ela e Daniel falaram em espanhol na
minha frente. Imagina então ser apresentada a um homem que só falaria em
inglês!
Segurei-o com força pela mão, fazendo com que parasse.
— Dan! Espera!
Virou-se para mim, me olhando atentamente, mas de uma forma muito
impessoal, me deixando mais nervosa ainda. Não falou nada, só ficou
aguardando.
— Precisamos conversar! – disse com uma certa urgência, tentando
controlar a ansiedade que já sentia tomar conta de mim.
Por um longo momento ele não disse nada, os olhos atentos emitindo
apenas um rápido brilho, antes de voltarem a ficar insondáveis.
— Sobre o quê? – sua pergunta foi tão incisiva que vacilei, insegura.
Engoli em seco, tentando encontrar coragem, porque aquela atitude
mais distante dele não me dava segurança para abordar um assunto tão
delicado.
Comecei a ficar nervosa e sabia que precisava controlar aquilo o mais
rápido possível ou ia bloquear completamente, como sempre acontecia
quando me encontrava diante de situações em que minhas limitações iriam
ser testadas e entrava em estresse.
Onde estava o Daniel amoroso e compreensivo que alguns minutos
antes havia dito que entendia tudo e que nada ia mudar o que sentia por mim?
Respirei fundo, porque aquele Daniel tinha que estar ali dentro dele.
— Já lhe disse antes...é sobre meu pai e coisas que não contei por
sentir vergonha. Queria explicar tudo agora.
Novamente o silêncio como resposta, sua fisionomia permanecendo a
mesma.
— Conversaremos, Ana! Pode ter certeza disso! – falou com um tom
de voz que nunca usou comigo antes, um pouco seco demais, duro e incisivo,
que eu nunca tinha ouvido — Mas agora quero que conheça Richard!
Senhor! Ajude-me por favor!
O que é que eu podia fazer naquele momento?
Simplesmente puxar a mão e me negar a conhecer o amigo dele?
Dizer que não ia, até que falasse comigo? Ou despejar logo tudo de uma vez,
ali mesmo no meio do corredor?
Aquilo tudo passou em minha cabeça num rápido flash, me deixando
desnorteada, o coração já completamente acelerado no peito. Senti um suor
frio começando a tomar conta do meu corpo e rezei para não ter nenhuma
crise de pânico como acontecia no colégio, quando sabia que seria humilhada
por conta das limitações que tinha.
Quando dei por mim, já estava dentro do amplo escritório de Daniel,
onde um homem louro de terno estava em pé ao lado de uma mesa de centro,
rodeada por um pequeno sofá de dois lugares e algumas poltronas
confortáveis.
Era jovem, parecendo ter a idade de Daniel. Ambos tinham quase a
mesma altura, partilhando também a aparência de homem de negócios.
— Ana, este é Richard – Daniel apresentou em voz sucinta, olhando
depois para o amigo – Richard, esta é Ana Cabral.
Aquela apresentação foi tão fria que percebi logo que algo não estava
bem com Daniel a meu respeito ou me apresentaria ao amigo de uma forma
mais calorosa.
Definitivamente, algo aconteceu durante aquele período em que ficou
reunido com Richard.
Eu podia ter minhas deficiências de aprendizado e até ser chamada de
burra por muita gente, mas possuía uma percepção aguçada para ver outras
coisas. Tinha certeza absoluta que Daniel estava me tratando de forma
diferente porque ficou sabendo algo a meu respeito. Não havia outra
explicação.
As imensas dificuldades que passei na vida por conta da dislexia
acabaram por me transformar em uma mulher desconfiada. Aprendi a
identificar rapidamente as emoções das pessoas em relação a mim. Se me
aceitavam como era ou se discriminavam por ser assim. E naquela sala eu não
me sentia aceita.
Doeu saber que estava perdendo Daniel sem ter tido a chance de
explicar nada.
Richard estendeu a mão para mim com um sorriso no rosto, mas
percebi que era um sorriso social, que não chegava aos olhos. Retribuí o
gesto, mas permaneci calada, esperando que falasse primeiro, fosse falta de
cortesia da minha parte ou não.
— Prazer em conhecê-la – ele disse em português, apertando minha
mão com firmeza – Daniel já tinha falado de você antes e estava ansioso para
conhecê-la.
— Muito prazer, Richard – foi só o que consegui responder naquele
momento, me sentindo desconfortável e estranhamente ameaçada por todos
os lados.
Olhei para Daniel e ele continuava com a mesma expressão distante,
os olhos sérios e atentos a tudo que se passava.
— Sente-se Ana – Richard indicou o sofá, onde sentei sem pensar
duas vezes, já que minhas pernas tremiam ligeiramente – Está gostando de
Nova York?
Ele sentou ao meu lado, virando ligeiramente para mim. Mas achei
estranho que Daniel permaneceu em pé à nossa frente, os braços cruzados no
peito e as pernas separadas, numa atitude ameaçadoramente vigilante.
— Sim, estou – não estava disposta a conversar com ele, porque sentia
que apesar da aparente gentileza com que falava comigo, Richard não gostava
de mim.
Sentia nele a mesma energia de muitos colegas meus da escola, que
me viam apenas como a burra bonita da turma.
— Bom, vim hoje aqui a pedido de Daniel, porque ele tem uma
surpresa para você e me pediu para providenciá-la – sorriu novamente,
esticando a mão e pegando alguns papéis que estavam pousados sobre a
mesinha de centro.
Folheou-os distraidamente, antes de estendê-los para mim.
— Poderia ver do que se trata? Acho que vai gostar.
Olhei para os papéis como se fossem o ferrão de um escorpião pronto
a me picar. Apertei as mãos suadas no meu colo, minha mente negando-se
desesperadamente em pegá-los.
O meu pior pesadelo estava bem à minha frente.
Textos!
E não era um texto pequeno, mas várias páginas escritas que
formavam dois jogos de papéis.
Apertei os lábios com força, tentando disfarçar o meu mal-estar e
controlar o pânico de ler na frente de outras pessoas.
Me sentia observada atentamente pelos dois e aquilo me forçou a
estender a mão e pegar os papéis, pousando-os no colo, esperando que eles
não tivessem percebido meus dedos ligeiramente trêmulos.
Baixei os olhos para os papéis, um travo de medo na garganta me
fazendo sufocar. Tentei fixar a vista nas letras, mas elas embaralharam-se
diante dos meus olhos e aquela sensação de pânico voltou a me dominar.
Meus cabelos caíram sobre o rosto, atrapalhando minha visão, mas
nem os tirei, porque pelo menos me escondiam do olhar atento de Daniel, que
permanecia em pé. Mas de Richard, sentado à minha frente, nada escapava.
Você consegue, Ana! Você consegue!
Olhei com cuidado a primeira página. O papel estava amassado, como
se alguém o tivesse apertado com força nas mãos. Observei-o melhor e fiquei
arrasada quando vi que estava em inglês!
Impossível para mim ler aquilo. A única coisa que entendi foi meu
nome escrito na primeira linha. Ana Elizabeth Pereira Cabral.
Passei ele para trás e fui ver o outro, olhando disfarçadamente para
Richard e vendo um sorrisinho debochado surgindo em seu rosto, antes dele
olhar na direção de Daniel como quem diz "eu não disse?"
Foi quando entendi tudo!
Ele sabia! De alguma forma, Richard sabia que eu não falava inglês e
tinha resolvido mostrar isso para Daniel.
"Daniel já tinha falado de você antes e estava ansioso para conhecê-
la"
Mas que interesse ele tinha em me desmascarar daquela forma? E
como havia descoberto isso, se eu nunca o tinha visto antes?
Comecei a ficar verdadeiramente assustada ao imaginar o que mais ele
saberia sobre mim.
Nunca me senti tão humilhada na minha vida, porque infelizmente
aquilo acontecia na frente de Daniel, me diminuindo e mostrando que eu não
era a mulher inteligente e culta que ele achava.
Senti um bolo formando-se em minha garganta e percebi que estava
ficando com vontade de chorar, de tanta humilhação que sentia.
Quando olhei para o outro papel, já estava tão bloqueada que mesmo
identificando estar escrito em português não consegui ler nada, exceto meu
nome.
Engoli a vontade de chorar e fixei a vista no papel, com as palavras
misturando-se à minha frente, parecendo zombarem da minha incapacidade
de lê-las rapidamente.
Eu sabia que ler um texto daquele tamanho na frente de outras pessoas
era quase impossível para mim, porque ia travar completamente.
Normalmente já levava um tempo enorme para terminar uma única página e
necessitaria ler em voz alta para entender o que estava escrito. E várias vezes!
Acho que passei tempo demais olhando para o papel sem entender
nada, concentrada em decifrar o que dizia, porque me assustei quando
Richard levantou de repente, parecendo impaciente e com uma expressão de
desprezo no rosto ao falar com Daniel em inglês.
Oh meu Deus! Tire-me daqui! Quero ir para casa!
Estava morta de vergonha e não queria nem olhar para Daniel de tão
humilhada que me sentia, mas me forcei a fitá-lo e vi seus olhos presos em
mim, enquanto ouvia o que Richard falava.
Seu rosto parecia esculpido em pedra de tão duro que estava. Mas em
seus olhos vi um misto de raiva e surpresa quando nos encaramos. Senti meu
rosto arder de vergonha e as lágrimas começarem a subir aos olhos.
Por um momento achei que ele estava tão concentrado em mim que
nem ouvia o que Richard falava, até que respondeu com voz cortante e
ríspida, ainda me olhando fixamente.
Baixei a vista para o papel, que sabia não conseguiria ler de forma
nenhuma. Mas precisava fugir do seu olhar para me recompor minimamente,
porque não pretendia chorar na frente dele, muito menos de Richard. Não
daria o prazer àquele amigo desprezível dele de me ver chorar.
Respirei fundo e comecei a folhear as páginas do jogo de papéis em
português, vendo que tinham cinco folhas. Até que cheguei na última e levei
um choque terrível quando vi uma cópia do meu passaporte, junto com a
minha foto do perfil no "@mensagensdeamor" onde nos conhecemos.
Só naquele momento percebi que tratava-se de uma investigação sobre
mim.
"Vou precisar que me envie uma cópia do seu passaporte… É só uma
questão de segurança. Eu me sinto responsável por você e percebi que não
tenho nem o seu nome completo, apenas o endereço em Meireles."
Segurei o papel com força nas mãos, o choque transformando-se em
dor ao perceber que havia sido o próprio Daniel quem tinha providenciado
aquela investigação.
Oh meu Deus! Eu não acredito nisso!
Porque Daniel simplesmente não me fez perguntas sobre tudo que
tinha dúvidas, em vez de me investigar pelas costas como se eu fosse uma
criminosa? Agora eu sabia que a grande surpresa que ele tinha para mim era
um relatório de investigação.
Olhei-o, completamente pasma, sem conseguir disfarçar a surpresa e a
decepção que senti com aquela descoberta.
Daniel continuava me olhando fixamente, Richard ainda falando ao
seu lado com aquele tom de voz arrogante de quem se achava acima do resto
da humanidade, enchendo a cabeça dele com mais razões ainda para me
desprezar. Naquele momento, percebi que tudo tinha acabado.
Pousei o relatório em inglês sobre a mesinha, mas agarrei ferozmente
em minhas mãos o que estava em português, levantando lentamente e ficando
de frente para ele.
— Por que fez isso? – perguntei simplesmente.
Ele caminhou em minha direção, ignorando Richard e ficando frente a
frente comigo, me forçando a erguer a cabeça para encará-lo. Vi que
mantinha a mesma expressão impenetrável de antes.
— Por que as mentiras? – devolveu cruamente.
— Eu ia contar, Dan. Lembra? – ele não podia ter esquecido que
desde ontem eu pedia para conversarmos em particular, porque tinha coisas
para dizer-lhe.
— Daniel – foi sua única resposta e dada de forma muito fria.
— O quê?! – perguntei, sem entender nada.
— Me chame de Daniel.
Ohh! Ele não queria mais que o chamasse de Dan!
Será que podia doer mais do que isso?
Aquela simples resposta já disse tudo. Tive a impressão que nada do
que eu dissesse depois iria mudar a opinião que agora tinha de mim. Poderia
até escutar o que tinha a dizer, mas não íamos ficar juntos como antes.
Minha humilhação só aumentou ao lembrar que Richard estava
presenciando tudo. Fitei-o rapidamente e vi seu sorriso satisfeito, o desprezo
ainda brilhando nos olhos.
Voltei a olhar para Daniel, fazendo um gesto de confirmação com a
cabeça.
— Tudo bem, Dr. Daniel Ortega.
Dei meia volta e fui em direção à porta, desesperada para sair dali
antes que caísse em lágrimas.
Eu o havia perdido de vez!
Mal dei três passos, senti uma mão segurar meu braço, o corpo grande
de Daniel postando-se bem à minha frente e me impedindo de continuar.
— Você me deve uma explicação – exigiu de forma incisiva.
— Não lhe devo nada! – respondi sem encará-lo, olhando fixamente
para seu peito – Agora deixe-me passar!
— Sim, deve! – falou duramente – Estou disposto a ouvir o que queria
contar desde ontem.
"Nada vai mudar o que sinto por você"
Olhei para ele, ainda com esperanças de reverter a situação.
Mostrei os papéis em minha mão.
— O que tem escrito aqui mudou o que sente por mim? – sussurrei
baixinho, não querendo que Richard ouvisse.
Seu maxilar endureceu ainda mais quando escutou minha pergunta.
Mas antes que ele respondesse, Richard adiantou-se, falando em português
para que eu entendesse.
— Não se deixe enganar novamente, Daniel. Já ficou mais que
provado que ela não tem cultura nenhuma para estar do seu lado. Pelo amor
de Deus, a mulher nem sabe ler!
Aquilo já era demais para mim!
— Cale-se, Richard! – Daniel explodiu, me segurando pelo outro
braço quando tentei me soltar e sair dali – Agradeço por sua ajuda, mas agora
gostaria de ficar sozinho com Ana!
Sua voz grave retumbou pelo escritório, encerrando a participação do
amigo naquele drama.
O meu drama!
— Tudo bem – ouvi o suspiro resignado de Richard, enquanto passava
em direção à porta – Nos vemos outro dia!
Assim que ele saiu e ficamos sozinhos, Daniel soltou meus braços e
recuou um passo, olhando seriamente para mim. Sustentei seu olhar antes de
perguntar novamente.
— Mudou alguma coisa?
— O que quer que eu diga, Ana! Que gostei de descobrir que mentiu
para mim desde o primeiro momento? Que continuo gostando de você da
mesma forma, mesmo tendo sido enganado e feito de bobo? Não acha que
está pedindo demais?
Sua voz era tão cortante que cada palavra parecia um tapa na cara. A
expressão do rosto másculo deixando de ser impassível e passando a mostrar
toda a raiva que estava sentindo naquele momento e que parecia ter
controlado na presença do amigo.
— Eu sei que errei! Não nego isso. Mas ia contar-lhe tudo ontem –
aquele sentimento de culpa pelas mentiras já me acompanhava há muito
tempo.
Minhas palavras só serviram para deixá-lo com mais raiva ainda.
— Ontem? Sabe há quanto tempo estamos juntos? Tem noção das
imensas horas que conversamos nestes últimos meses? – jogou na minha
cara, afastando-se de mim e andando pela sala, como se assim ficasse mais
fácil controlar a raiva que sentia – E só ontem é que estava disposta a contar
tudo? Não acha que era um pouco tarde demais?
— Acho que nunca é tarde para esclarecer as coisas. Você não sabe
como foi difícil manter esta situação durante todo este tempo.
Ele parou à minha frente.
— Então diga-me como foi difícil! Conte algo que eu já não saiba
através deste maldito relatório – estourou de vez – Convença-me que é
inocente! Diga que não mentiu descaradamente quando dizia que seu pai
fazia plantão no hospital, quando na verdade estava incapacitado em cima de
uma cama por conta de um assalto. Que não deu o endereço de Bia, em vez
do seu. Que nunca fez Jornalismo, não fala inglês, nem fechou a merda do
perfil naquele Site, quando disse que ia fazê-lo, continuando a manter contato
com outros homens mesmo sendo minha namorada!
Falou aquela última parte com a voz parecendo o rosnado feroz de um
animal selvagem, me fazendo recuar um passo, assustada com aquele Daniel
que nunca tinha visto antes.
Eu estava diante de um homem diferente, sem nenhum traço de
compreensão, carinho ou gentilezas. Percebi que ele estava a ponto de perder
seu habitual controle.
Ver aquele seu outro lado me deixou estarrecida.
Mas espera aí! O perfil no Site ainda estava aberto?
— O perfil não pode estar aberto! Eu pedi à Bia para fechá-lo! – falei
rapidamente, porque de todas as coisas que ele disse, aquela era a única que
não sabia existir.
Ele ergueu uma sobrancelha irônica, me olhando duramente.
— Mais uma mentira? Porque simplesmente não assume que o deixou
aberto de propósito em vez de jogar a culpa na sua amiga?
Balancei a cabeça, horrorizada que pensasse que seria capaz de
incriminar Bia daquela forma.
— Não é mentira. Eu pedi que ela o fechasse – insisti, desesperada.
— E porque não fechou você mesma assim que pedi para fazê-lo?
Fiquei calada, sem querer admitir minhas limitações, porque não sabia
até que ponto aquele relatório contava mesmo tudo sobre mim.
— Foi Bia quem o abriu para mim e eu não tinha a senha do meu
perfil. Ela é que tem tudo – confessei com cuidado.
Daniel me encarou por um bom tempo, tentando descobrir se eu
estava mentindo novamente.
Se ainda ficássemos juntos seria sempre assim, com ele duvidando de
tudo que eu dissesse?
— Por que mentiu dizendo que fazia Jornalismo e falava inglês?
Eu estava mesmo ferrada, porque ele não ia acreditar em mim,
achando que estava jogando a culpa em Bia mais uma vez.
— Foi Bia quem inventou isso – falei a verdade.
Ele praguejou em inglês, voltando a afastar-se. Foi até uma elegante
mesinha de canto onde havia diversas garrafas e preparou uma bebida.
— Daniel – disse com cuidado – É verdade.
Ele tomou um longo gole, permanecendo alguns segundos ainda de
costas para mim, antes de virar e me lançar um olhar mortalmente frio.
— O que faz para ganhar a vida, Ana?
Estranhei aquela pergunta, porque ele sabia que trabalhava no
hospital.
— Sou Recepcionista do Hospital. Já falei sobre meu trabalho. Ligou
várias vezes quando eu estava lá.
— Não faz mais nada além disso?
— Não. Não sobra tempo para mais nada, porque tenho que cuidar do
meu pai.
Seu olhar penetrante prendeu o meu.
— Seu pai?
— Sim.
— Moram juntos?
Mas o que é que estava acontecendo, afinal? Ele também já sabia que
morava com meu pai.
— Claro que sim! Já disse isso também.
Senti seu olhar irônico novamente sobre mim.
— Nunca vi seu pai. Desde que a conheci, estava sempre sozinha em
casa todas as vezes que liguei.
Só faltei gemer de frustração, porque ele tinha razão. Eu sempre
mentia dizendo que estava sozinha em casa. Mas dizer isso para ele agora era
admitir que menti por dias e dias seguidos.
— Mas ele estava comigo – foi a única coisa que consegui dizer.
Daniel tomou outro gole de Whisky, ainda olhando fixamente para
mim.
— Arrume suas coisas. Vou levá-la de volta para a casa de Ashley.
Gelei por dentro quando ouvi aquilo, me sentindo mais do que
desvalorizada e humilhada. Ele estava me colocando não apenas para fora de
sua casa, mas também de sua vida.
Nunca me senti tão insignificante. Tão pequena e rejeitada. Que os
outros fizessem aquilo comigo, eu até aguentava. Mas vindo de Daniel, que
sempre me tratara com o maior carinho e consideração, estava sendo difícil
demais de aguentar.
— Saiba que eu teria ficado com você mesmo que fosse uma favelada
do morro, que não tivesse onde morar, o que vestir, o que comer, porra! –
explodiu por fim, um brilho duro nos olhos que me fitavam impiedosamente
– Desde que fosse realmente sincera comigo, honesta, autêntica, sem
mentiras, sem jogos, sem interesse algum por trás. Apenas amor, Ana.
Será que seria possível me sentir pior do que já estava?
— Mas sempre foi só isso que houve da minha parte, Dan! – falei
imediatamente, sem nem perceber que havia usado o apelido carinhoso de
sempre.
— Daniel! – rugiu entredentes.
Naquele momento quebrei totalmente e antes que pudesse controlar,
as lágrimas rolaram pelo meu rosto.
Já tinha suportado o máximo de humilhação que podia.
— Eu posso ter errado ao mentir, mas acreditei em você desde a
primeira vez que falamos ao telefone, sem precisar colocar ninguém para
investigar sua vida por desconfiar de você. Ainda que tivesse o dinheiro que
você tem, não faria isso, porque confio na minha capacidade de perceber as
pessoas – limpei com raiva as lágrimas que caíam por meu rosto – Agora se
você não consegue perceber a mulher que sou, nem sentir que sempre gostei
sinceramente de você, é porque não me merece.
Passei por ele e saí do escritório, fechando a porta atrás de mim e
deixando as lágrimas caírem de vez. Coloquei a mão na boca para abafar os
soluços que subiram por minha garganta, andando rapidamente pela casa e
procurando as escadas que levavam aos quartos.
Me perdi dentro das várias salas e portas fechadas, até encontrar as
escadas e subir rapidamente em busca do quarto que fora reservado para
mim. Entrei, fechei a porta, girei a chave e caí deitada na cama chorando tudo
que podia e tinha direito.
Nunca pensei que seria tão humilhada no meu segundo dia em Nova
York, muito menos na casa de Daniel.
Todas as minhas inseguranças, medos, traumas e bloqueios afloraram
de uma única vez, me fazendo sentir um lixo, um nada na vida, uma
fracassada em tudo. Sem sonhos, sem esperanças de porra nenhuma!
Chorei até cansar e o nariz entupir tanto que já nem conseguia respirar
direito. Fui até o banheiro do quarto e assoei o nariz, olhando minha cara
inchada no espelho. Ver aquela beleza toda à minha frente só me fez sentir
pior, porque nunca fui feliz por ter um rostinho bonito. Queria ter sido uma
garota simpática, feliz e inteligente, em vez de bonita, infeliz e incapaz de ler
uma página inteira.
As lágrimas continuaram a cair e voltei ao quarto, ainda soluçando.
Eu queria Bia!
Corri para minha bolsa e peguei o celular, lembrando do que
combinamos hoje de manhã quando Daniel foi me pegar na casa de Ashley.
— Se tudo correr bem, não precisa ligar. Agora se Daniel reagir mal,
me ligue imediatamente que vou buscá-la e viajamos juntas. Mas não
demore, porque estaremos saindo antes do almoço.
— Não se preocupe. Ele já falou que nada do que eu diga vai mudar o
que sente por mim, mas por segurança vou conversar com ele assim que
chegarmos à sua casa. Vai dar tempo para tudo.
Olhei meu relógio e fiquei desesperada quando vi que a hora estava
tão adiantada. O nervosismo bateu logo, só de imaginar que Bia podia ir
embora e eu não ter onde ficar.
Oh meu Deus! Que isso não aconteça, por favor!
Conferi novamente as horas no relógio, mas como sabia que muitas
vezes me enganava, fui ver o horário no celular. Sentia as mãos trêmulas
quando coloquei o telefone no meu colo e confirmei que àquela hora eles
talvez ainda estivessem em casa.
Fiz a chamada, mas a ligação não completava de jeito nenhum e a
cada nova tentativa, ficava mais nervosa. Comecei a duvidar que estivesse
ligando certo, já que era a primeira vez que tentava ligar-lhe desde que
chegamos aos Estados Unidos.
Meu desespero transformou-se em pânico, só de imaginar não ter onde
ficar e Daniel ser obrigado a me receber em sua casa sem querer. Tudo que eu
não precisava era me sentir um fardo para ele. Seria constrangedor demais
para mim.
Depois de mais algumas tentativas frustradas, percebi que precisava
de ajuda para tentar falar com Bia. Mas de jeito nenhum pediria isso a
Daniel!
Só havia uma pessoa naquela casa a quem poderia apelar.
Limpei as lágrimas, assoei o nariz e saí do quarto com o celular
firmemente agarrado nas mãos. Desci as escadas e parei, tentando me orientar
dentro da casa grande e silenciosa. Vaguei pelo corredor até encontrar a sala
onde fiquei aguardando Daniel e segui em frente até achar uma cozinha
espaçosa, ultramoderna e bem equipada, vendo a doce senhora ao fundo,
envolvida na preparação do almoço.
Ela abriu um sorriso enorme quando me viu parada à porta, que
desapareceu imediatamente ao notar que tinha chorado. Veio em minha
direção com expressão preocupada e os braços abertos como se fosse uma
grande mãe, falando carinhosamente alguma coisa que não entendi.
Eu estava tão carente de tanta coisa que não resisti e abracei-a,
chorando como uma criancinha perdida.
Ficamos assim por algum tempo, enquanto eu apenas chorava,
desabafando em lágrimas anos e anos de discriminação que vieram à tona por
conta das humilhações que passei no escritório de Daniel. Tudo o que eu
mais queria era sair daquela casa.
Então lembrei de Bia.
Me afastei de Carmencita, limpando o rosto com o lenço de papel que
ainda tinha nas mãos e mostrei meu celular.
— Bia! Preciso falar com Bia – disse devagar, apontando para a foto
dela no visor – Ajude-me, por favor!
CAPÍTULO 17

Ana
Fiquei olhando ansiosamente para Carmencita, enquanto ela fitava
meu celular estendido em sua direção. Senti seu olhar perspicaz em mim, o
rosto bondoso adquirindo uma expressão preocupada ao entender o que eu
queria.
Segurou meu celular, mas não o puxou para si, apenas o envolveu
dentro da minha própria mão e segurou-a com carinho entre suas duas mãos,
com a compreensão brilhando nos olhos.
Falou alguma coisa que não entendi totalmente, mas que me deu a
impressão de estar pedindo para que me acalmasse, que chamaria Daniel. Seu
nome sendo dito naquele momento só fez aumentar minha sensação de perda,
mas também vergonha por tudo que passei. Eu não queria mais vê-lo, mesmo
sabendo que isso seria impossível, já que permanecia em sua casa.
— Daniel, não!!! – exclamei com desespero, fazendo-a olhar para
mim com a surpresa nos olhos e parecendo ficar mais preocupada ainda.
Coloquei minha outra mão sobre as dela, sentindo novas lágrimas
escorrerem por meu rosto. Sabia que estava tremendo muito, com aquele
conhecido suor frio voltando a espalhar-se pelo meu corpo, a sensação de
sufocamento se insinuando dentro de mim. Vi logo que estava entrando em
uma de minhas crises de pânico, que há anos não tinha. Se não tivesse
cuidado, em breve entraria em depressão, querendo me isolar do convívio
social novamente.
Eu precisava de Bia! Ela era a única que poderia me fazer sentir
segura naquele momento, com sua aceitação plena de quem eu era. Seu amor
de amiga e irmã era tudo o que eu precisava agora.
— Carmencita, por favor! – apelei novamente, apertando ainda mais
suas mãos nas minhas e falando pausadamente – Preciso falar com Bia!
Ajude-me você mesma, por favor!
Encarei-a fundo nos olhos, sem medo de mostrar meu desespero,
angústia, vergonha ou seja lá o que mais estivesse visível na minha
expressão.
Ela segurou minha mão e me levou para o fundo da cozinha,
oferecendo uma cadeira para que sentasse.
Fez um gesto com a mão para que aguardasse ali e foi encher uma
xícara de chá com água quente. Abriu uma gavetinha e retirou de lá um sachê
de chá que jogou nela, junto com uma colherzinha de açúcar.
Vi um movimento no canto da cozinha e de repente Candy aparece
toda desconfiada, como se tivesse presenciado tudo que aconteceu e estivesse
tão triste como eu estava.
Me inclinei na cadeira para chamá-la e vi quando veio correndo para
minhas mãos. Apertei-a com cuidado no meu peito, encostando o rosto em
seu corpinho miúdo e macio.
Era carinhosa e logo senti sua língua pequenina lambendo meu
queixo.
Carmencita colocou a xícara à minha frente, olhando para Candy em
meu colo. Não comentou nada, apenas indicou meu celular e estendeu a mão
para pegá-lo. Entreguei-o e esperei, mas ela indicou o chá e entendi que
queria me ver tomá-lo antes de ligar para Bia.
Tomei tudo com pressa, mas me senti muito mais relaxada depois de
terminar, observando-a sentar-se ao meu lado e manusear meu celular até
familiarizar-se com ele, completando a chamada.
Prendi a respiração em expectativa, tentando controlar a ansiedade e
rezando fervorosamente a Deus para que ela conseguisse me fazer falar com
Bia.
Por favor, Senhor! Que eu consiga falar com ela agora!
Mas parece que minhas preces não seriam atendidas naquele
momento, porque segundos depois ela baixou o celular, fazendo sinal de
negativo para mim.
Soltei uma respiração trêmula e arfante, me obrigando a fechar os
olhos e buscar mais ar para clarear a mente.
Vai dar tudo certo! É isso! A próxima tentativa vai dar certo!
Carmencita tentou mais duas vezes, antes de desistir, olhando para
mim com a compaixão brilhando nos olhos.
— Oh! Não me diga isso, por favor! – segurei sua mão novamente,
apertando-a com desespero – Tente de novo! Eu preciso de Bia!
Senti as lágrimas rolarem outra vez, lágrimas silenciosas, que já não
conseguia mais controlar. Peguei o lenço de papel que tinha amassado na
mão e enxuguei o rosto.
— Let me try!
Uma voz grave masculina fez-se ouvir na cozinha, falando em inglês
para Carmencita.
Era Daniel!
Só em ouvi-lo, meu coração disparou e várias emoções contraditórias
tomaram conta de mim. Fechei os olhos para controlá-las, identificando
claramente a saudade de ouvi-lo confessando roucamente que sentiu minha
falta, enquanto me abraçava e beijava hoje de manhã. E ao mesmo tempo, o
desespero por tê-lo perdido horas depois, além da raiva pela humilhação que
sofri em sua casa.
Estávamos as duas tão concentradas em conseguir falar com Bia que
não o ouvimos entrar. Mesmo sem me virar para vê-lo às minhas costas, senti
sua presença marcante enchendo o ambiente da cozinha. Como ele não
dirigiu-se a mim em português, mas apenas a ela em inglês, permaneci na
mesma posição em que estava na cadeira, mantendo Candy em meu colo.
Apertei com mais força a mão de Carmencita, fazendo-a olhar para
mim. Ergui meu indicador e coloquei-o discretamente no meio dos meus
lábios, pedindo em silêncio que não dissesse para ele as condições
lamentáveis em que cheguei àquela cozinha minutos atrás.
Carmencita não disse nada, apenas levantou-se para falar com ele, mas
manteve-se do meu lado, impedindo-o de certa forma de chegar perto de
mim.
Ambos travaram uma rápida conversa em inglês que me deixou
confusa. Nem que eu quisesse, conseguiria entender o que diziam. A
frustração de não saber o que falavam me fez sentir pior do que já estava.
Não poder me comunicar, me fazia sentir mais isolada ainda naquela casa.
A voz de Daniel estava séria e controlada, sem aquele tom cheio de
raiva que usou no escritório, quando conversamos sobre aquele terrível
relatório.
Não virei em momento nenhum para ele, permanecendo ainda de
costas e deixando meu cabelo cair para a frente, escondendo meu rosto
marcado pelo choro. Candy ergueu a cabeça para mim e parecia me
compreender quando ficou bem quietinha para não chamar atenção do dono.
Percebi Carmencita lhe estendendo o meu celular, mas ela pousou
uma mão tranquilizadora em meu ombro logo depois, dizendo com um único
gesto que confiasse nela.
Em menos de um minuto, o aparelho voltou para mim. Só então
percebi que Daniel estava ligando para Bia do seu próprio celular.
Não queria ter que lhe pedir ajuda, mas se fosse através dele que eu
conseguisse falar com Bia e sair de sua casa, eu aceitava que estivesse
tentando ligar-lhe.
Aguardei com o coração na mão, enquanto o tempo parecia arrastar-se
sem que Daniel desse sinal de que conseguiu alguma coisa.
Por favor, Bia! Atende!
Mas aquele não era mesmo o meu dia de orações, porque tudo que eu
rogava aos Céus, não estava sendo atendido.
— A operadora não consegue completar a ligação – ele estava falando
em português, portanto era para mim – Vou continuar tentando e quando
conseguir pedirei à Bia que ligue para você. Mas provavelmente isso indica
que já viajaram e ela pode estar sem rede na estrada. Até que isso se resolva,
você ficará comigo e gostaria que se sentisse à vontade em minha casa.
Quando ouvi aquilo, fui completamente abaixo, me sentindo derrotada
e sem forças para lutar contra mais nada. Me deixei cair no encosto da
cadeira, emocionalmente arrasada para reagir contra qualquer outra desgraça
que se abatesse sobre mim naquele dia.
Porque tudo que eu mais queria era não ser obrigada a ficar ali.
Esperei que depois disso, Daniel saísse da cozinha, mas como não
escutei-o fazer nenhum movimento neste sentido, resolvi responder, caso
estivesse aguardando apenas isso para ir embora dali.
— Obrigada – foi só o que consegui dizer, agradecendo pela sua
"hospitalidade".
Um silêncio estranho tomou conta do ambiente depois daquela única
palavra que eu disse e fiquei esperando ansiosamente escutar seus passos
afastando-se da cozinha.
— Ana. Precisamos conversar.
Não esperava ouvi-lo falando novamente comigo e fiquei paralisada
com suas palavras. Mas apesar do seu tom de voz ser o mesmo de sempre,
sem agressividade ou raiva, eu não queria falar com ele.
— Não temos mais nada para conversar – respondi com voz cansada,
querendo apenas que ele saísse dali para que eu pudesse voltar ao quarto.
— Ainda temos muito que falar um com o outro – ele insistiu com
firmeza, completando depois – Precisamos conversar em particular.
Percebi que referia-se à presença de Carmencita na cozinha, mas
naquele momento eu não me encontrava em condições de voltar a conversar
com Daniel. Me sentia quebrada demais e sabia que só faria chorar, o que me
envergonharia mais ainda na frente dele.
Neguei com a cabeça, alisando Candy no meu colo.
— Uma outra hora, talvez.
Agora, por favor, saia daqui!
— Gostaria que fosse agora. Não gosto de adiar coisas importantes.
Ouvir aquilo me fez chegar ao limite de forças que eu tinha. Coloquei
Candy na cadeira de Carmencita e levantei na hora, virando de frente para
ele, estivesse com o rosto inchado de chorar ou não. Naquele momento,
pouco me importava se Daniel visse que eu estava acabada, destruída ou
quebrada.
Também já não precisava fingir mais nada diante dele e perceber
aquilo trouxe um alívio enorme no meu peito. Acabaram-se todas as
mentiras. O inglês fluente, o jornalismo, meu pai dando plantão no hospital, o
endereço em Meireles. Aquela mulher que Bia criou, muito culta, super
inteligente e viajada, que gostava de livros e vivia em bibliotecas, já não
existia mais.
Quem se levantou diante dele naquele momento foi apenas eu mesma.
Ana Cabral. Podia estar aos pedaços e à beira de um colapso nervoso, mas
ainda era a Aninha que meu pai amava e Bia adorava. Mesmo que fosse
disléxica, com baixa autoestima, cheia de limitações, sem grandes
expectativas de sucesso profissional e social, aquela ainda era eu.
Vi como Daniel respirou fundo quando seus olhos bateram no meu
rosto. O maxilar endureceu e os lábios contraíram-se numa linha fina de
tensão, enquanto observava o estrago feito pelas lágrimas.
— Ana!
Sua voz grave estava enrouquecida. O sotaque com que falava meu
nome, também estava muito mais pronunciado.
Aquele sotaque que sempre ficava mais forte quando ele estava
dominado pelas emoções, como acontecia nas vezes em que falava à noite
comigo no celular, naquelas horas em que já estávamos ambos deitados na
cama, e mais recentemente, quando me beijava apaixonadamente.
A merda daquele sotaque que eu tanto amava e que me seduzira desde
o início, fazendo com que eu saísse do meu país só para conhecê-lo e ser
humilhada vinte e quatro horas depois de desembarcar do avião.
— Já percebi que não gosta de adiar o que é importante – interrompi
antes que continuasse, me sentindo exausta daquilo tudo – Vi como estava
ansioso para mostrar a surpresa que preparou para mim. Mas infelizmente
para você, agora a única coisa que quero é subir ao quarto e ficar sozinha.
Ele deu um passo em minha direção e eu recuei um passo para mais
perto de Carmencita, me mantendo longe dele. A senhora ficou entre nós dois
e pela expressão de Daniel, vi que não gostou de ser impedido de chegar até
mim.
— Preciso explicar algumas coisas para você e também pedir
desculpas pela forma como tudo aconteceu hoje – me olhou fixamente,
marcando bem as palavras seguintes – Mas gostaria que fosse em particular.
Só que estar sozinha com ele em uma conversa particular era tudo o
que eu não queria naquele momento.
Virei para Carmencita, esperando que ela me entendesse de alguma
forma.
— Poderia me ajudar a chegar ao quarto? É que ainda me perco dentro
da casa – ninguém precisava saber que meu sentido de direção era falho e
uma casa daquele tamanho era o mesmo que estar dentro do labirinto do
Minotauro.
Bom, Daniel bem que podia ser o Minotauro, porque tudo que eu
queria agora era fugir dele dentro daquela casa.
— Eu levo você – ele adiantou-se, segurando meu braço.
Assim que me tocou, senti imediatamente meu corpo estremecer de
prazer e a saudade apertar, porque desde que nos vimos pela primeira vez no
Skype, já percebemos a forte atração que nos ligava um ao outro.
Nossos olhares cruzaram por um doloroso momento, mas decidi que
por mais carente e necessitada de amor e atenção que eu estivesse, não iria
criar novas ilusões com relação a Daniel, porque não aguentaria sofrer nova
decepção lá na frente.
Recuei para trás e me soltei dele, com raiva por continuar sentindo
aquela atração, mesmo depois de tudo que passei. Ainda que percebesse que
ele também ficou abalado por aquele contato de pele contra pele, visível
através do brilho que vi em seus olhos, não me senti melhor comigo mesma
por isso.
Ele ainda me desejava e eu ainda o desejava, mas meu coração
sangrava de dor pela humilhação que tinha sofrido naquele escritório e
esquecer aquela vergonha ia ser difícil demais para mim.
Decidi não esperar por Carmencita. Dei a volta pelo outro lado da
ampla cozinha e saí rapidamente de lá, antes mesmo que Daniel pudesse
reagir do choque de ainda ver-se dominado pelo desejo.
Provavelmente também estava sentindo raiva de si mesmo por isso!
— Ana! Espere! – chamou, quando eu já estava quase na porta.
Eu não pretendia parar de jeito nenhum e dei graças a Deus quando
ouvi a voz de Carmencita falando algo com ele. Esperava que o prendesse na
cozinha tempo suficiente para eu encontrar sozinha o quarto e fugir de um
novo confronto. Pelo menos até que estivesse forte novamente para enfrentá-
lo sem cair em lágrimas.
Quando cheguei na grande sala onde havia ficado, vi Candy passar
correndo por mim e parar mais à frente, me olhando, antes de virar para um
corredor.
Sem outra opção para encontrar o caminho, segui minha intuição e
resolvi ir atrás dela, até que vi a escadaria que levava aos quartos surgir à
minha frente. Candy estava parada ao seu lado e já senti as lágrimas caindo
pelo rosto quando percebi que de alguma forma me trouxe para lá.
Me agachei ao seu lado, pegando-a nas mãos e dando um beijinho na
cabecinha dela.
— Obrigada, meu docinho. Você é uma grande amiga!
Ouvi passos vindo pelo corredor e pelo som firme daquelas passadas,
só podiam ser de Daniel.
Pousei Candy rapidamente no chão.
— Sinto muito deixá-la aqui, Candy, mas não quero falar com ele.
Levantei e comecei a subir as escadas o mais rápido que os saltos altos
que usava permitiam. Quando estava no meio da longa escadaria, ouvi sua
voz.
— Ana!
Nem olhei para trás. Me concentrei em colocar um pé na frente do
outro o mais rápido que podia, sem me arriscar a levar uma queda. Quando
cheguei lá em cima, fui direto para o meu quarto, fechando a porta à chave e
encostando a testa na madeira fria.
Ouvi quase imediatamente depois uma batida firme na porta.
— Ana! – a voz de Daniel soou do lado de fora, mas estava tão perto
que ele parecia estar ali dentro comigo – Precisamos conversar!
Não respondi, apenas fechei os olhos e respirei fundo para me
acalmar, pois sentia meu corpo todo tremer de tensão e o coração disparando
no peito. Comecei a chorar de novo, perguntando aos céus como é que um
namoro tão bonito se transformara naquele drama.
— Ana, por favor! – sua voz ganhou um tom de urgência, enquanto
aguardava por uma resposta – Não podemos ficar desse jeito! Há muita coisa
ainda para ser esclarecida e não quero que saia da minha casa sem
conversarmos.
— Não foi o que ouvi no escritório! – não pude ficar calada quanto a
isso – Você me mandou embora!
— Sim, mandei – admitiu em tom firme – Mas também não foi nada
fácil descobrir tantas mentiras.
Mantive os olhos fechados, exausta demais até para raciocinar.
— Você me investigou.
— E você mentiu para mim desde o início! – ele revidou
imediatamente – Agora deixe-me explicar o motivo da investigação. Abra a
porta!
— E por conta de algumas mentiras, você tinha que me humilhar
daquele jeito, ainda mais com seu amigo do lado? Você tem noção do que fez
comigo? De como me senti? – àquela altura, as lágrimas já estavam rolando
de novo, porque não me encontrava com forças para controlar o choro –
Nunca esperaria isso de você! Não de você!
— Shit! – ouvi seu xingamento em inglês do outro lado, além do som
dos seus passos indo e vindo no corredor em frente à minha porta.
— Você pediu meu passaporte dizendo que sentia-se responsável por
mim, preocupado com minha segurança, mas a intenção era só me investigar.
Ele parou de andar e voltou para perto da porta, porque logo depois
sua voz ficou mais próxima.
— Eu me sinto responsável por você e sua segurança é importante
para mim, independente de investigação ou não. Na noite que pedi seu
passaporte, foi quando percebi que não tinha nenhuma informação sua,
exceto o endereço em Meireles, que agora sei que nem seu é. Hoje tive a
sensação que nosso namoro foi uma grande farsa para você.
— Bastava ter esclarecido as coisas comigo em particular, como quer
fazer agora, mas não preparar aquela armadilha no seu escritório com seu
amigo.
— Não reagi bem a tudo que descobri naquele relatório.
— E ele mudou o que sentia por mim, não foi?
Ele não respondeu de imediato, me fazendo morder o lábio com força
para impedir que a vontade de chorar aumentasse.
— Não quero conversar um assunto sério como esse com uma porta
fechada entre nós – aquela não era a resposta que eu queria ouvir e percebi
naquele momento que não havia mais nada para conversar com ele – Eu
jamais vou forçar a entrada no seu quarto, por isso deixe-me entrar ou saia
daí.
Nem uma coisa, nem outra, porque estava encerrando de vez aquela
conversa.
— Vou aguardar que Bia entre em contato comigo e depois pedir que
venha me buscar. Você não precisará nem se dar ao trabalho de me levar de
volta à casa de Ashley. Pode seguir normalmente sua rotina de trabalho.
— Ana, isso não vai ficar assim! Abra a porta!
Permaneci calada, disposta a não responder mais e também rezando
para que ele desistisse e fosse embora. Queria evitar até vê-lo, porque
realmente o "longe dos olhos, longe do coração" funcionava mesmo. Era
mais fácil lidar com a separação se não estivesse sozinha com ele.
— Ana!
Não respondi e por um bom tempo fez-se silêncio do outro lado da
porta. Cheguei a achar que Daniel tivesse ido embora, até ouvir um outro
xingamento em inglês e depois seus passos afastando-se pelo corredor dos
quartos.
Só então soltei a maçaneta que segurava desesperadamente, como se
assim pudesse impedi-lo de entrar, mesmo estando trancada à chave. Girei e
apoiei as costas na porta, fechando os olhos e respirando aliviada. Ainda
fiquei um tempo assim até ouvir o ronco forte de um motor lá fora e pensei se
era o carro de Daniel.
Fui até a janela e olhei discretamente pela cortina. Dava para ver parte
do pátio exterior da casa, onde o Escalade estava estacionado em frente.
Será que Daniel estava recebendo alguma visita?
Depois de Richard, eu até imaginava como não deveriam ser os
contatos sociais de Daniel. Sempre ricos, superiores e arrogantes.
Onde foi que eu me meti, Senhor! Quanta ilusão minha, ao achar que
poderia me encaixar no mundo dele.
Vi um carro esportivo preto sair da lateral da casa e parar ao lado do
Escalade. Para minha surpresa, foi Daniel quem desceu dele.
Recuei mais para dentro do quarto, mas vi quando ele abriu a porta do
Escalade e tirou uma pasta do banco de trás, batendo a porta com força e
entrando no outro carro. Segundos depois, o mesmo ronco do motor potente
fez-se ouvir e o carro saiu em disparada pelo portão aberto.
Me arrastei até a cama, me sentindo pesada, como se carregasse um
fardo enorme nas costas. Estava completamente arrasada.
Tirei os saltos, a calça e mergulhei debaixo das cobertas, sentindo meu
corpo cansado e dolorido, mesmo ainda sendo de manhã. Fechei os olhos e
deixei a escuridão tomar conta de mim, porque muitas vezes lá era o melhor
lugar para se estar.
CAPÍTULO 18

Ana
Acordei tempos depois, certa de ter ouvido um barulho estranho vindo
da porta. Permaneci deitada, prestando atenção, esperando que acontecesse de
novo para tentar identificar o que era.
Apenas alguns segundos de espera para ouvi-lo novamente. Era como
se alguém estivesse arranhando a porta e quase imediatamente soube que só
podiam ser as patinhas de Candy.
Como para confirmar isso, ouvi um pequeno ganido dela,
choramingando para entrar no meu quarto. Levantei e fui até a janela, vendo
que o Escalade continuava no mesmo lugar, mas agora o portão da casa
estava fechado.
Não sabia se Daniel ainda estava fora ou se já tinha retornado, mas ia
arriscar abrir a porta para Candy.
Vesti minha calça e fui até lá. Girei a chave e movi a maçaneta
devagar, me preparando psicologicamente para encontrá-lo parado à minha
frente. Mas o corredor estava vazio e apenas a pequenina cachorrinha estava
lá, abanando o rabinho e olhando para mim com carinha de abandonada e
solitária.
Peguei-a e encostei no meu peito, fechando a porta e virando a chave
de novo.
— Acho que nós duas temos muito em comum, Candy. Já me tornei
especialista em abandono e solidão.
Levei-a para a cama e deitei de costas, colocando-a também
deitadinha em cima do meu peito. Ela abaixou a cabeça nas patinhas e ficou
só me olhando.
— Estive pensando, sabe pequenina? Este mundo do seu dono não é o
meu mundo. Acho que está na hora de acordar do sonho e cair na real –
passei o dedo em sua carinha – Onde é que um homem como ele, rico e lindo,
ia gostar de mim sem investigar tudo a meu respeito? Só mesmo na minha
cabeça de vento. Ele não gostava realmente de mim. Não acha que estou
certa?
Ela ganiu novamente, parecendo ficar triste e não concordar com o
que eu disse.
— Não concorda comigo? – ela permaneceu do mesmo jeito – Acha
então que ele gosta de mim?
Candy latiu e abanou o rabinho alegremente.
— Oh...você também é uma iludida igual a mim! Deve ser apaixonada
por ele e viver aqui abandonada, enquanto Daniel vive no trabalho o tempo
todo. Vou provar a você como ele não gosta de mim.
Coloquei-a no colchão e sentei, pegando o relatório dentro da minha
bolsa.
— Este é o relatório que acabou com meus sonhos – mostrei para ela –
Há muito tempo que eu não sonho com nada, sabe? A sonhadora sempre foi a
Bia. Passei anos sem querer sonhar, com medo de me decepcionar de novo. E
quando resolvo sonhar, o que é que acontece? Novamente lágrimas, rejeição
e raiva de mim mesma, por ter esperanças que um homem me ame sendo
como sou.
Senti as lágrimas caindo e enxuguei-as com raiva.
— Pôxa, Candy. Eu gosto muito dele, sabe? Muito – desabafei,
angustiada – É o homem que eu sempre quis para mim e o perdi por ser
medrosa, covarde e não me sentir à altura dele. Por que é que a vida tem que
ser tão injusta com algumas pessoas?
Ela saiu do colchão e subiu no meu colo, confiante de que não a
rejeitaria. Colocou as patinhas no meu busto e lambeu meu queixo.
Trouxe-a para perto do rosto, chorando mais ainda.
— Eu preciso de ajuda, Candy. Estou ficando depressiva e com pena
de mim mesma. Sei que não sou assim. Sei que tenho qualidades além de
beleza, mas não consigo evitar de me sentir uma fracassada e um lixo. Só
tenho meu pai que me ama e Bia, mas não posso estar com ele agora, nem
com ela.
Mas que vida é essa que eu tenho, meu Deus?
Levantei com Candy no colo e fui pegar a caixinha de lenços de papel
no banheiro. Joguei-a ao meu lado na cama, pousando Candy em minhas
pernas e assoando o nariz.
Olhei para o relatório jogado ao meu lado. Respirei fundo e peguei-o,
olhando a primeira página. Eu tinha até medo de ler aquilo tudo, mas
precisava descobrir o que Daniel sabia sobre mim.
Resolvi começar a ler, afinal tinha tempo de sobra até conseguir falar
com Bia e sair dali.
Muito tempo depois, quando terminei de ler o primeiro parágrafo,
parei imediatamente, olhando as palavras e duvidando do que tinha entendido
que estivesse escrito ali.
Não! Não podia ser! Minha dislexia devia ter chegado ao grau
máximo agora, porque eu não podia estar lendo isso.
Senhor, por favor! Daniel não podia ter lido isto sobre mim!
Peguei o papel de volta e mesmo com o coração disparado no peito e
com medo de confirmar que sim, que sem dúvida alguma Daniel leu tudo
aquilo sobre mim, me forcei a repetir a leitura em voz alta para ter certeza do
que estava escrito ali.
"Ana Elizabeth Pereira Cabral nasceu e morou a vida inteira em
Fortaleza. Atualmente com vinte e três anos, foi uma aluna de baixo
rendimento escolar, com extrema dificuldade de aprendizado. Suas notas
sempre foram as mais baixas da turma e não era muito popular, apresentando
dificuldade de interação com os outros colegas. Foi acompanhada por
psicólogos na escola onde fez o ensino fundamental e em seu dossiê consta o
registro de professores declarando que ela era preguiçosa para estudar,
desatenta nas aulas, não gostava de ler nem escrever."
Neste ponto, eu já não sabia se estava cansada de ler ou arrasada pelo
que estava lendo.
Como é que Daniel podia ler algo assim sobre a mulher que mal tinha
acabado de conhecer pessoalmente, vendo-a pela primeira vez no dia anterior,
e ainda continuar gostando dela?
Aquilo tudo, junto com as mentiras que contei, acabaram de vez com a
imagem que ele tinha de mim. Um homem culto e inteligente, rico e com uma
carreira de sucesso, ia ficar com uma garota com um histórico escolar
fracassado daqueles?
Eu nunca deveria ter deixado Bia me convencer a falar com Daniel!
Afundei na cama, uma Candy solidária ao meu lado, apenas me
ouvindo ler tristemente.
Meu Deus! Estou sentindo tanta vergonha, que nem sei como vou
olhar novamente para ele!
Tapei o rosto com as mãos, querendo enfiar a cabeça num buraco e
nunca mais sair de lá.
Peguei o papel com mãos trêmulas e li novamente o mesmo parágrafo,
tendo então a certeza do que estava escrito.
Como não me sentir quebrada lendo aquilo?
"Uma professora de Português, registrou que infelizmente Ana Cabral
era mesmo burra..."
Burra? Era isso que estava escrito no meu histórico escolar do
fundamental? Oh meu Deus! Eu não sabia disso!
Pensei que só os meus colegas de turma dissessem isso de mim, mas
não meus professores!
Só faltei morrer ao imaginar Daniel lendo aquilo sobre mim!
Não! Definitivamente, eu não sabia com que cara ia olhá-lo de frente
novamente.
Eles não citaram o nome, mas eu sabia quem foi a professora que
disse isso de mim. Eu tinha medo de ir às aulas dela e arranjava desculpas
para faltar, o que só me prejudicou mais ainda. Meu pai me colocou para
fazer aulas de reforço de português, mas nem assim o medo que eu tinha dela
diminuiu.
Foi o pior período escolar da minha vida, que só serviu para me fazer
detestar mais ainda ler e escrever. Só vim descobrir que era disléxica nos
anos finais do ensino fundamental.
Mas antes disso ninguém sabia que eu tinha dislexia. Nem eu mesma,
por isso achava que era mesmo burra. Quando anos depois descobri o que
tinha com a ajuda do meu pai, já era tarde demais, porque o estrago já tinha
sido feito, tanto na minha educação, quanto na minha autoestima.
Mas saber que a Professora fez questão de registrar que eu era burra,
me fez recuar no tempo e voltar anos atrás na minha vida, me vendo
novamente sentada no fundo da sala de aula, querendo me esconder dela sem
poder.
Olhei para o relatório na minha mão, vendo desanimada as quatro
páginas escritas. Se logo na primeira página já tinha tudo aquilo sobre mim,
ficava pensando o que não haveria nas páginas seguintes, que fizeram Daniel
ficar tão revoltado e enfurecido comigo.
Normalmente evitaria ler um texto tão longo, mas infelizmente hoje
não poderia fazer isso, porque precisava descobrir com urgência o que mais
tinha escrito ali.
Demorei horrores para terminar a leitura, muitas vezes duvidando do
que estava lendo, mas quando enfim cheguei na última página, tive certeza
absoluta que não havia mais nenhuma chance de Daniel gostar de mim como
antes. Baixei o relatório nas pernas e fiquei olhando o vazio à minha frente,
completamente em choque com o que li.
Aquele estava sendo o pior dia da minha vida. Na verdade, ele só não
era pior do que o dia em que meu pai foi baleado e me contaram que ele
nunca mais ia andar. Agora sim, podia dizer que me sentia totalmente
destruída.
Daniel havia recebido uma verdadeira bomba nas mãos quando pegou
naquele relatório. Ali estava a minha vida inteira de fracasso escolar, quando
ele achava que eu estudava Jornalismo na faculdade. Havia também o
acidente com meu pai que o deixou tetraplégico, o divórcio que desestruturou
nossa família, a queda do nosso padrão de vida, a mudança para aquele
apartamento minúsculo onde nós dois morávamos.
Oh não! O apartamento minúsculo! Onde eles achavam que eu morava
sozinha, porque meus vizinhos alegaram que nunca viram meu pai comigo.
Ainda iam investigar o que havia acontecido com ele.
Meu Deus, que horror era aquilo tudo?
Daniel além de saber de tudo isso, ainda achava que eu fazia
programas, recebendo homens em casa, e que tinha um caso com o Diretor do
Hospital onde trabalhava!
Qual a reação de um homem ao receber uma informação dessa sobre
sua namorada virtual, ainda mais sendo uma namorada que tinha acabado de
conhecer pessoalmente? Olhando tudo pelo lado dele, agora entendia o
porquê da sua raiva comigo.
"O que faz para ganhar a vida, Ana?"
Estava aqui tentando imaginar quem foi a vizinha que falara tão mal
de mim. E a colega do Hospital, quem seria? Nem imaginava que meus
colegas na Recepção me achavam sem qualificação nenhuma para estar ali,
dizendo que errava muito, era distraída e esquecida, que só estava lá por
conta do meu amante.
Oh Senhor! Eu nunca pensei que fosse tão odiada assim.
Afinal, quem realmente gostava de mim nesta vida? Só meu pai e
Bia?
Joguei o relatório para o lado e fechei os olhos, querendo fugir dali e
nunca mais ver Daniel. Minha vergonha alcançou o grau máximo que um ser
humano podia suportar.
Comecei a estremecer por inteiro, meu corpo sendo assolado por uma
tremedeira incontrolável e uma onda súbita de frio. Com muito esforço entrei
debaixo das cobertas para me aquecer, trazendo Candy comigo. Passei um
bom tempo deitada com ela ao meu lado, anestesiada de tudo ao meu redor.
Vendo minha vida por aquele relatório, foi que percebi o nada que eu
era. Quem o lesse sem me conhecer, acharia que era mesmo uma mulher sem
estudos, sem nenhuma oportunidade profissional, que resolvera ganhar a vida
com a beleza que tinha ao fazer programas.
Lembrei das palavras de Daniel.
"Não reagi bem a tudo que descobri naquele relatório"
"E ele mudou o que sentia por mim, não foi?"
Agora eu entendia seu silêncio. Eu achava que fosse por conta da
mentira sobre meu pai, o curso falso, o inglês que não existia, o endereço
trocado e todas as outras coisas que inventei. Mas não era nada disso!
Enfim eu sabia que o que tinha enfurecido Daniel foi a suspeita que
aquelas duas mulheres lançaram sobre mim, dizendo que fiquei com outros
homens e que fazia programas. Para me condenar mais ainda, meu perfil
ainda estava ativo no Site, supostamente para entrar em contato com futuras
vítimas dos meus golpes.
Abri os olhos e vi Candy quietinha ao meu lado.
— Eu não disse que entendia tudo de abandono e solidão?
Deixei as lágrimas rolarem, mas já não soluçava mais. Elas apenas
caíam livremente, porque já me sentia emocionalmente anestesiada. Fechei os
olhos e fiquei quietinha por um tempo que pareceram horas, até ouvir uma
suave batida na porta.
— Señorita Ana.
Ouvi a voz bondosa de Carmencita, mas não tinha vontade de falar
com ninguém. Se eu pudesse, nunca mais queria ver ninguém, mas
infelizmente isso também não era possível. Tinha consciência que quando
voltasse ao Brasil, não poderia estar tão quebrada quanto me sentia agora,
porque teria que encarar meus colegas de trabalho sabendo o que pensavam
de mim. E meus vizinhos também.
Em algum momento daqueles treze dias que restavam das minhas
férias, teria que superar aquela situação toda e me preparar para enfrentá-los.
Me arrastei para fora da cama com Candy nos braços e fui abrir a
porta, me sentindo culpada por ter ficado trancada lá dentro com a
cachorrinha da casa.
Carmencita abriu um sorriso carinhoso assim que me viu e não pude
deixar de corresponder, porque realmente gostava da senhora.
— Peço desculpas, Carmencita! Candy veio me procurar e acabei
deixando-a presa aqui comigo.
— Está bien, Señorita Ana! Vengo llamar usted para almorzar.
Daniel havia comentado que iríamos almoçar juntos em sua casa.
— Daniel? – procurei não demonstrar nada no meu tom de voz, mas
percebi a compreensão em seus olhos quando respondeu.
— Trabajo!
Então ele ainda não havia retornado e com certeza resolveu ir mais
cedo para o trabalho, já que tinha me informado que só ia trabalhar à tarde
naquele dia, justamente para passarmos a manhã juntos.
Confirmei com a cabeça e descemos a escadaria, sendo seguidas por
Candy. Chegamos em uma sala de jantar espaçosa, onde havia uma grande
mesa posta para uma única pessoa. Eu!
Não conseguia me ver almoçando ali sozinha e segurei-a
imediatamente pelo braço.
— Aqui não, por favor! Na cozinha com você.
Ela negou com a cabeça.
— Não. Dr. Daniel não ...
Foda-se Daniel! Quero estar onde me sinta bem.
— Ele não está aqui. Lá, por favor!
Ela ainda pareceu hesitar e resolvi agir, tomando para mim a
responsabilidade daquilo tudo. Fui até a mesa e peguei prato, copo e talheres,
virando depois para ela.
— Leve-me para a cozinha! – pedi decidida.
Ela fez um gesto de cabeça e me levou para a cozinha aconchegante,
onde pousei tudo na longa mesa retangular que ocupava o centro do
ambiente.
Acabamos por almoçar juntas e fiquei encantada com os pratos
deliciosos que ela havia preparado. Carmencita era uma excelente cozinheira
e passamos um bom tempo tentando nos entender, porque descobrimos que
partilhávamos uma grande paixão, que era a culinária.
Ajudei-a na organização da cozinha, mesmo ouvindo-a reclamar o
tempo todo comigo para não fazê-lo. Estava gostando muito da sua
companhia e não queria sequer pensar em ficar sozinha naquele quarto,
chorando a minha desgraça.
Meu único receio era Daniel voltar para casa e ter que encará-lo
novamente, depois de tudo que li naquele relatório.
Olhei para Carmencita e tomei coragem para perguntar-lhe sobre ele.
Segurei seu braço, fazendo-a olhar para mim com curiosidade.
— Daniel chega que horas?
— À noite.
Confirmei com a cabeça, momentaneamente aliviada por não
encontrá-lo tão cedo.
— Vamos passear! – ela disse sorrindo, apontando para nós duas e
depois para Candy – Levá-la ao parque.
Graças a Deus! Enfim ia sair um pouco daquela casa e respirar ar
puro!
Cerca de uma hora depois, já vestida com uma calça jeans, tênis
confortável, uma blusa leve e casaco, entrei no carro de Carmencita, com
Candy presa no banco de trás dentro de uma caixinha de transporte vermelha.
Saímos da casa de Daniel e rodamos alguns quilômetros pela cidade
até chegarmos em um parque agradável e movimentado, onde as pessoas
aproveitavam o sol da tarde.
Adorei o ambiente, com muitas crianças e cães correndo, toalhas
estendidas na grama com pessoas de todas as idades nas mais diversas
atividades.
Me senti bem, mesmo ainda estando triste com tudo que tinha
acontecido naquela manhã terrível, principalmente quando via casais deitados
na grama namorando, naquele mundo particular que só quem amava
entendia.
Procurei não me deixar desanimar, vendo Candy correndo para todos
os lados, mesmo estando presa na coleirinha. Parecia eufórica com aquele
mundo de coisas para aproveitar.
Carmencita tinha trazido uma toalha, que estendeu no chão para
sentarmos, além de uma bolinha amarela para Candy brincar. Resolvi
participar da brincadeira, soltando sua corrente para jogar a bola a uma certa
distância, esperando que fosse pegar. Mas ela era tão pequenina, que fiquei
com receio de jogar muito longe e cansá-la rapidamente.
Algum tempo depois, trouxe Candy para sentar na grama ao lado de
Carmencita, justo na hora em que ouvi um celular tocar. Procurei minha
bolsa, ansiosa para ver se era Bia, até que lembrei de não tê-la trazido.
Carmencita tirou o celular dela da bolsa e atendeu, falando em inglês numa
longa ligação, enquanto eu deitava. O sol era muito fraquinho, nada daquele
calor abrasador de Fortaleza, que queimava tanto a ponto de assar.
Emocionalmente exausta do jeito que eu estava, não me custou ficar
ali parada sem fazer nada, deixando Carmencita à vontade no celular. Até que
virei o rosto e vi Candy correndo atrás de uma outra bola que flutuava no ar.
Parecia um balão de aniversário e estava levando-a para longe demais de
onde estávamos. Levantei rapidamente e fui atrás dela, antes que se perdesse
no meio de tanta gente.
— Candy! – chamei-a, assobiando depois para chamar sua atenção.
Umas quatro crianças passaram correndo à minha frente com um cão
enorme de pelo amarelado, todos a mil por hora dentro parque. Levei um
susto enorme e quando olhei adiante, já não vi mais Candy.
Era tão pequenina que facilmente podia perder-se naquela multidão ou
ser levada por alguém. Me preocupei logo com ela e saí olhando para cima,
atrás do balão vermelho.
Quase pulei de alegria quando o vi mais adiante. Olhei para baixo e lá
estava ela, pequenina e pulando como se pensasse conseguir pegá-lo com
aquele tamanho diminuto que tinha.
Vi um homem gordo aproximando-se para pegá-la. Podia até ser uma
boa pessoa, mas eu era brasileira e só conseguia ver maldade naquilo. Para
mim, ele ia roubá-la.
Corri na direção deles na hora.
— Candy!
Estava muito longe para ela me ouvir, por isso continuei correndo até
chegar perto deles, justo na hora em que ele a pegava.
Parei na frente dele e estendi a mão para ela.
— É minha!
Ele me olhou assustado, talvez não esperando que surgisse tão
repentinamente à sua frente.
— Ela é minha! – repeti, fazendo-a latir assim que me viu, abanando o
rabinho.
O homem franziu a testa, olhando para mim de forma estranha quando
falei em português. Não fez nenhum gesto para me devolver ela.
Tentei lembrar das aulas de inglês da escola e do pouco que aprendi.
— The dog is mine!
Ele começou a falar em inglês, me deixando totalmente confusa, mas
estendeu a mão e entregou Candy para mim.
Respirei aliviada quando encostei-a no meu peito, sentindo seu
corpinho macio nas mãos. O homem continuou a falar, mas fui me afastando
dele devagarzinho.
— Thanks! – recuei mais um pouco, fazendo um gesto de confirmação
com a cabeça, louca para sair dali antes que ele percebesse que eu não falava
mais nada em inglês.
Dei meia volta e coloquei o ar para fora, feliz que tinha saído bem
daquela situação.
Olhei para ela, muito inocente nos meus braços.
— Mocinha, não faça isso de novo ou pode perder-se a sério.
Ela lambeu meu queixo, me fazendo rir com sua tentativa de me
enganar e esquecer sua travessura.
— Vou pensar se desculpo você. Agora vamos voltar para perto de
Carmencita.
Comecei a andar em direção à nossa toalha, mas quando levantei a
vista, não vi Carmencita no local onde achava que ela estaria. No mesmo
instante o pânico tomou conta de mim ao perceber que poderia ter ido longe
demais e agora não saber voltar.
Parei e respirei fundo para me acalmar.
Olhei para um lado, depois para o outro, por fim atrás de mim.
Nada!
Em nenhum lugar via Carmencita!
Oh meu Deus, não faça este dia ficar pior do que já foi!
Comecei a tremer, lembrando de quando eu era pequena e tinha ficado
perdida na praia lotada de gente, sem encontrar meus pais. Lembro que chorei
desesperada por eles, até uma mulher que estava com os filhos notar que eu
estava perdida e me pegar no colo, perguntando quem eram meus pais.
Não lembrava como eles foram achados, apenas a sensação
maravilhosa de ver meu pai correndo na praia e me pegando nos braços com
desespero.
Agora, mesmo estando com vinte e três anos, eu me via na mesma
situação, porque sem dúvida nenhuma que eu e Candy estávamos perdidas no
parque.
Sem celular, sem dinheiro, sem passaporte, sem falar inglês e sem ter
a mínima ideia do endereço de Daniel.
CAPÍTULO 19

Daniel
Foi muito difícil manter a indiferença durante o teste que Richard fez
com Ana. Senti sua insegurança, seu desconforto, seu medo. Vi a dor da
humilhação quando me olhou do sofá, mas eu também sentia no peito a dor
da traição, mesmo que não deixasse isso visível em minha expressão.
Não podia negar que quase joguei tudo para o alto quando vi sua
angústia ao pegar os relatórios. Pensei que fosse por não saber o inglês e ter
certeza que seria desmascarada, já que descartou de imediato o relatório em
minha língua. Mas quando vi a mesma angústia transformar-se quase em
pânico ao tentar ler em português, percebi que o seu problema era muito mais
do que apenas uma mentira sobre falar inglês.
Ela ficou pálida e seus dedos tremiam. Ana realmente tinha
dificuldades em ler e aquilo tocou fundo no meu coração, aquele instinto
protetor aflorando com força total dentro de mim.
Perdi a paciência com Richard ao vê-lo levantar do sofá com um
sorriso zombeteiro no rosto, satisfeito por comprovar que o relatório tinha
razão quando informou que Ana mal sabia ler e escrever.
— Acho que já não precisamos mais de nenhuma outra prova para
vermos o que esta mulher realmente é, Daniel! Não fala inglês e pelo visto
nem a própria língua sabe ler! – Richard falou em inglês..
Ela olhou para mim, deixando visível a vergonha que sentia. Não tinha
mais como esconder que a imagem da mulher culta e apaixonada por livros e
bibliotecas não existia.
Seus olhos brilharam, mostrando que estava a ponto de chorar!
Shit!!!
Mas que merda de dor era aquela que eu sentia no peito, que não tinha
nada a ver com a traição de que fui vítima, mas que dizia tudo do desejo que
sentia de abraçá-la e não deixar que nada mais a magoasse?
Onde estava o Daniel duro, o advogado implacável, o homem de
negócios impiedoso na hora de punir irregularidades na corporação? O que
aquela mulher fez com o temido "Homem de Ferro da S&Stevens”, porra?
— Ela não serve para você! Como vai circular como uma mulher
assim nos círculos sociais que frequenta? Será motivo de chacota de todos –
sua voz mostrava o desprezo que sentia por tudo que achava que Ana
representava.
— Cale-se, Richard! Não vá além disso ou vai arrepender-se!
Usei um tom cortante e ríspido, a raiva subindo no peito ao ouvir
aquelas ofensas. Ana parecia cada vez mais insegura e confusa ao
acompanhar nossa discussão.
— Pouco me importa a opinião dos outros – me enfurecia pensar que
alguém ousasse ofendê-la por não ter tido uma educação exemplar – Não
devo satisfações da minha vida para merda de seu ninguém da sociedade!
Minha vida pessoal só diz respeito a mim e namoro com quem quero. Preciso
que Ana explique porque fez tudo isso!
Ouvi seu suspiro impaciente ao meu lado.
— Ela vai enganá-lo novamente! Vai contar uma triste história e você
vai cair novamente como um patinho!
— Não vou! – garanti duramente – Desta vez não vai me enganar tão
facilmente assim. Preciso saber o que realmente sente por mim e se mentiu
com relação a isso também.
— Abre os olhos! Ela só quer dar o golpe em você! Está na cara que
seu interesse é financeiro. Mora em um apartamento precário, é cheia de
dívidas, não tem profissão definida, não tem qualificação para nada e ainda
faz programas. O que mais você precisa saber?
— Foda-se o interesse material! – rosnei rispidamente para ele –
Tenho o suficiente para uma vida inteira de luxo e o que perder com ela não
vai significar nada para mim! Preciso saber o que Ana realmente sente por
mim, droga!
— Maldição, Daniel! Eu não acredito que estou ouvindo isso!
Observei-a folhear o relatório, virando as páginas até chegar à última e
ficar paralisada olhando seu passaporte.
Trinquei os dentes ao perceber que duvidaria das minhas intenções ao
pedi-lo. Só que a grande verdade é que me sentia mais do que responsável
por ela. Desde que a conheci, Ana me pareceu sozinha e indefesa, mesmo
sentindo nela uma força interior muito grande. Deixá-la vir à Nova York sem
ter nenhum documento que me ajudasse a identificá-la, salvando-a de
qualquer problema legal que tivesse no desembarque, era algo inconcebível
para mim.
Ana apertou o relatório com força nas mãos delicadas, os olhos presos
ao passaporte. Percebi que apenas naquele momento teve consciência de que
foi investigada. Aquilo só comprovou suas dificuldades de leitura, porque na
primeira página estava claramente escrito "Relatório de Investigação sobre
Ana Elizabeth Pereira Cabral".
Seu olhar era de surpresa e decepção. Aquilo me abalou mais do que
pensava, porque desde que a conheci nunca quis magoá-la de forma
nenhuma, muito menos decepcioná-la. Mas lá estávamos os dois, cada um
magoado com o outro por motivos diferentes, mas que nos afastavam e
abalavam o frágil namoro que tínhamos.
— Você não pode ter-se apaixonado tanto assim por essa mulher! –
Richard continuou, com aquele tom arrogante que sempre usava quando
falava do sexo feminino.
— Ela tem nome, Richard! E é melhor começar a lembrar disso antes
que eu fique realmente chateado com você! Para todos os efeitos, Ana ainda é
minha namorada!
Ele calou-se a contragosto, mas agora eu só tinha olhos para ela, que
havia colocado o relatório em inglês sobre a mesa e levantava-se lentamente,
com o outro preso nas mãos crispadas. Jogou aquele olhar magoado sobre
mim, que varou meu peito como uma punhalada. Me forcei a ficar
impassível, endurecendo o maxilar para não deixar transparecer a emoção
que senti. Ana mexia comigo de uma forma preocupante.
— Por que fez isso? – seu tom era de acusação.
Me aproximei, olhando-a duramente.
— Por que as mentiras? – devolvi da forma mais crua possível, para
não deixá-la confiante que me tinha nas mãos e tentar me enganar
novamente.
— Eu ia contar, Dan! Lembra?
Ouvir aquela forma carinhosa com que me chamava, só me fez sentir
mais vulnerável ainda, porque eu amava quando me tratava daquele jeito.
Sentir o quanto algo tão simples me abalava, me obrigou a ser mais duro
ainda com ela.
— Daniel – disse friamente.
— O quê?! – pareceu verdadeiramente confusa.
— Me chame de Daniel – insisti, usando um tom incisivo.
Quase que de imediato a dor brilhou nos olhos expressivos.
Diferentemente de mim, que conseguia esconder bem a dor de me
sentir traído e enganado, Ana era um livro aberto e suas emoções estavam
muito claras.
Ela olhou para Richard, humilhada, e naquele momento me arrependi
por não tê-lo mandado embora antes. Mas era tarde demais para lamentações,
porque aquela situação toda já tinha fugido há muito tempo do nosso
controle.
— Tudo bem, Dr. Daniel Ortega – falou com ironia, mas percebi o
tom de derrota em sua voz.
Ela foi em direção à porta, parecendo prestes a chorar. Mas eu ainda
não tinha terminado!
Me coloquei à sua frente, segurando seu braço para detê-la. Mas só em
tocá-la já fui dominado por aquela atração irresistível. Foi quando percebi
que ainda a desejava, que ainda a queria para mim.
Maldição! Nunca me senti tão facilmente manipulado assim por uma
mulher!
— O que tem escrito aqui mudou o que sente por mim? – seus olhos
estavam esperançosos e o tom foi baixo o suficiente para que apenas eu
ouvisse.
Não! Aquele relatório não mudou absolutamente nada e era isso o que
mais me enfurecia. Descobrir que apesar de tudo ainda gostava dela e a
queria para mim, era um golpe terrível para meu ego. O impiedoso Daniel
Ortega, que controlava tudo com mão de ferro, via-se agora sendo controlado
por uma quase garota.
Mas Ana ainda tinha muito que me explicar, até que eu admitisse
minimamente isso para ela!
— Não se deixe enganar novamente – Richard precipitou-se logo em
dar sua opinião indesejada, falando em português para que ela entendesse –
Já ficou mais que provado que ela não tem cultura nenhuma para estar do seu
lado. Pelo amor de Deus, a mulher nem sabe ler!
Richard foi um grandessíssimo filho da mãe ao dizer aquilo.
Ana pareceu levar um tapa na cara e me senti mais do que furioso com
meu amigo por ofendê-la daquela forma. Se estivesse ao seu lado, daquela
vez teria mesmo agarrado seu colarinho engomado e o ensinado a ter mais
respeito. Só não coloquei-o para fora da minha casa de uma forma mais
agressiva em respeito aos longos anos de amizade que tínhamos.
Quando ficamos sozinhos, coloquei uma boa distância entre nós, para
não ser tentado a jogar tudo para o alto e abraçá-la de vez, esquecendo
aquelas merdas todas. Mas fazer aquilo não ia ajudar em nada, porque as
mentiras continuariam assombrando nosso relacionamento.
Sem a presença de Richard, explodi de vez, ciente que minha voz
estava excessivamente agressiva e a expressão mostrava a revolta que sentia
com aquela traição.
— Eu sei que errei! Não nego isso. Mas ia contar tudo ontem.
Ontem para mim significava meses sendo enganado e traído!
Minha fúria foi tanta que me afastei, andando pela sala para tentar
conter aquela emoção descontrolada que comandava minha mente. Em
nenhum momento que falamos pelo Skype ou por telefone, achei que Ana
estivesse incomodada com alguma coisa, exceto quando o assunto era o pai
ausente.
Será que ela pensava me enganar mais uma vez como Richard disse?
Fuck you! Foda-se se eu ia ser enganado de novo!
E a pior mentira de todas foi saber que assumiu ser minha namorada
mas ainda mantinha o perfil aberto naquele Site de Relacionamento.
Minha namorada! Só minha namorada e não de outros homens
também!
Observei-a recuar um passo, assustada, quando praticamente urrei
dentro do escritório, atirando-lhe aquela verdade como um homem possesso e
descontrolado.
Nunca em meus trinta e dois anos senti tanta raiva, a ponto de perder o
rígido controle que mantinha sobre mim mesmo. Mas só de imaginar Ana
com outro homem, eu cegava completamente. Imaginá-la fazendo programas
então, nem pensar!!
Não depois de tê-la beijado e tocado. Muito menos após sentir o
quanto combinávamos em desejos e sentimentos. Não ao descobrir que estava
mais do que loucamente apaixonado por ela, mais do que atraído por ela,
mais do que gostando dela.
Aquele turbilhão de emoções era algo que eu não estava acostumado
no meu mundo metodicamente controlado. Nunca me senti tão insanamente
perturbado por uma mulher como me sentia por Ana!
No fundo fiquei esperando ansiosamente que ela assumisse alguma
culpa em toda aquela rede de mentiras. Só que a única coisa que escutei
foram desculpas esfarrapadas e como último recurso, ainda jogou toda a
culpa na amiga.
Olhei-a, desconfiado, mesmo parecendo sincera e desesperada para
me convencer. Mas não consegui acreditar que Bia fosse a responsável por
tudo aquilo. Eram coisas particulares de Ana, mensagens privadas, assuntos
pessoais. Seria aquilo tudo verdade ou outra mentira? Estaria sendo mais uma
vez manipulado?
Mas que merda! Pelo menos uma daquelas mentiras Ana tinha que
assumir!
Só naquele momento percebi o quanto queria que ela admitisse
qualquer uma delas, para que pudesse comprovar que não era de todo falsa e
desonesta. Só que ela insistia que a culpa era de Bia.
— Shit! – praguejei em alto e bom som, minimamente preocupado em
ser educado, quando estava me sentindo iradamente fodido.
Fui atrás de um whisky, dando-lhe as costas e tomando um rápido gole
para acalmar a raiva que só fazia crescer dentro de mim. Mas sua voz doce
me perseguia como uma flecha envenenada, quebrando o efeito calmante da
bebida e agitando novamente o sentimento de traição.
Até agora, não havia conseguido nenhuma resposta consistente que
me garantisse sua sinceridade e honestidade. Continuei olhando-a fixamente,
observando as feições delicadamente perfeitas, a boca carnuda, os cabelos
volumosos que davam-lhe uma aparência de leoa, além do corpo elegante e
escultural.
Qual o homem não se deixaria seduzir pela beleza de Ana?
Só de imaginá-la na cama com outros homens por dinheiro, me sentia
a ponto de enlouquecer de raiva. Sufoquei meus sentimentos por ela,
controlei a raiva e falei da forma mais fria e impessoal possível, esperando
conseguir resistir à forte tentação de voltar atrás.
— Arrume suas coisas. Vou levá-la de volta para a casa de Ashley.
Sem provas de honestidade, também não haviam provas de que fora
sincera quando dizia gostar de mim.
Hora de encerrar aquela palhaçada toda!
Hora de fechar o coração para tudo, vendo-a sair do escritório.
Sozinho, segurei a vontade louca de ir atrás dela. Apertei o copo com
força e voltei à mesa, colocando uma segunda dose e tomando um longo gole.
Sentei no sofá e pousei o whisky na mesa, passando as mãos pela barba,
tentando encontrar um ponto de equilíbrio em meio àquele turbilhão de
emoções que Ana trouxe de repente para minha vida.
"Se você não consegue perceber a mulher que sou, nem sentir que
sempre gostei sinceramente de você, é porque não me merece."
Eu sempre senti que ela gostava de mim e mais ainda depois que nos
conhecemos pessoalmente. Mas também não podia simplesmente esquecer
aquele relatório e todas as mentiras que Ana contou para mim.
O que fazer agora? Deixar tudo como estava, levando-a de volta para a
casa de Ashley, esquecendo-a de vez, ou voltar atrás e mantê-la ao meu lado,
tentando entender seus motivos?
Não! Não adiantava esconder de mim mesmo o que realmente me
incomodava naquela situação toda. O que estava acabando comigo era a
dúvida sobre como ela ganhava a vida no Brasil. Eu era tradicional e
antiquado demais, além de ter desenvolvido um sentimento de posse muito
grande, que me impedia de conseguir imaginá-la com outro homem que não
fosse eu.
Mesmo morando longe durante aqueles meses de namoro virtual,
nunca cheguei a me sentir ameaçado de traição, porque inexplicavelmente
tinha total confiança nela. Mas agora, com aquela dúvida me corroendo, era
impossível ficarmos juntos sem que fosse a fundo naquele ponto.
Precisávamos conversar. Só assim poderíamos decidir juntos se
seguíamos em frente ou terminávamos tudo de vez.
Voltei a passar a mão na barba, cansado. Caí para trás no sofá,
olhando para o teto e pensando nas lágrimas dela, na tristeza e dor que vi em
seus olhos, na expressão derrotada de seu rosto.
Fechei os olhos, vendo-a como a enxergava agora. Uma garota de
vinte e três anos, sozinha, tímida, com o pai tetraplégico e uma mãe que a
abandonou aos dezenove anos. Aparentemente não conseguia ler e escrever
direito, mas se aventurara a viajar com uma amiga da mesma idade para um
país estranho, onde não entendia ninguém porque não falava sua língua. Um
país onde existia uma única pessoa que queria conhecer. Eu!
Fui dominado por aquele forte instinto de proteção, só que desta vez
muito mais intenso e territorial.
Peguei o whisky e tomei outro longo gole, respirando fundo. Apesar
do sentimento de traição por conta de suas mentiras, agora que estava mais
calmo, inacreditavelmente sentia como se a estivesse traindo por devolvê-la
com todas aquelas fragilidades para a casa de Ashley. Queria ser eu a cuidar
pessoalmente dela em Nova York e ter certeza que ninguém se aproveitaria
de sua situação para prejudicá-la.
Levantei decidido e saí do escritório.
Precisava me acertar com ela!
CAPÍTULO 20

Daniel
Entrei no quarto e comprovei que estava vazio. O closet que se ligava
ao meu também estava vazio, assim como o banheiro. Para onde teria ido?
Fui até a janela e vi meu Escalade estacionado, com o portão aberto.
Senti um frio estranho ao imaginá-la atravessando aqueles portões sozinha,
sem fala inglês e sem conhecer nada de Nova York. Depois vi que sua bolsa
estava ali, sendo impossível que tivesse saído da casa. Precisava apenas
encontrá-la.
Desci as escadas tentando ignorar as batidas aceleradas do coração ao
percorrer as salas vazias. Fui atrás de Carmencita e assim que entrei na
cozinha, vi ambas sentadas no fundo.
— Oh! Não me diga isso, por favor! Tente de novo! Eu preciso de
Bia!
Sua voz doce estava desesperada e chorosa. Parecia a ponto de
quebrar e me senti um grande canalha por tê-la deixado naquele estado.
Carmencita inclinou-se e só então percebi que estavam concentradas
em um celular. Deduzi que Ana devia estar com dificuldades para ligar e
resolveu pedir ajuda. Mas não foi a mim quem ela procurou ao necessitar de
ajuda, e eu nem precisava me esforçar muito para saber o motivo, depois de
tudo que aconteceu em meu escritório.
Sabia que se fosse a uma hora atrás, ela teria corrido direto para mim
se precisasse de alguma coisa. Vê-la tentando comunicar-se com alguém que
não falava o seu idioma só para não ter que me pedir nada, fez com que me
sentisse um idiota por ter destruído a confiança que tinha em mim.
Me aproximei devagar, falando em inglês com Carmencita.
— Deixe-me tentar!
Ana não se mexeu, mas senti seu corpo ficar tenso.
Carmencita olhou-a antes de levantar e me encarar de frente. Eu
conhecia muito bem minha funcionária para saber que estava chateada
comigo, apesar de me respeitar o suficiente para não dizer nada. Isso estava
óbvio pela forma como ficou ao lado dela, sem me deixar avançar.
Resolvi fingir que não percebi nada de errado em sua atitude, nem os
indícios de choro de Ana, muito menos a xícara de chá sobre a mesa. Tentei
manter a voz o mais controlada possível.
— Vim perguntar se tinha visto Ana, porque não a encontrei no
quarto. Não imaginei que estivesse aqui com você – não pretendia mencionar
o que aconteceu no escritório, muito menos que praticamente coloquei-a para
fora de casa e da minha vida.
— A Srta. Ana veio pedir ajuda para fazer uma ligação.
— Percebi isso. Você conseguiu alguma coisa?
— Ainda não.
Olhei para Ana, imaginando que deveria estar confusa com a conversa
em inglês. Mas também não podia falar em espanhol, já que suspeitava que
ela também não entendia aquela língua.
Era impossível não ficar preocupado com sua situação, porque Ana
dificilmente encontraria em Nova York alguém que falasse português. Se
pelo menos estivesse acostumada com o espanhol, ainda poderia comunicar-
se razoavelmente. Mas depois de tudo que vi no escritório, minha intuição
dizia que seus conhecimentos de línguas estrangeiras era totalmente nulo.
Ana falava unicamente o português e mesmo assim, com sérias limitações na
leitura e talvez até na escrita também.
Se realmente foi Bia quem colocou no perfil a fluência no inglês,
aquilo foi uma jogada destinada ao fracasso, porque se eu não falasse o
português Ana teria sido desmascarada na primeira ligação que tivemos. Vir
para Nova York sustentando aquela mentira foi ingenuidade, porque
fatalmente a verdade viria à tona.
Respirei fundo para manter a calma diante das situações perigosas e
degradantes que poderiam acontecer com uma garota bonita como ela na
selva que era aquela cidade. Já foi difícil deixá-la na casa de Ashley quando
acreditava que falasse inglês, mas agora, com tudo que sabia, não havia como
mantê-la longe das minhas vistas.
Onde é que eu estava com a cabeça quando a expulsei da minha casa?
Continuava atônito comigo mesmo, porque nunca fui de deixar as emoções
dominarem minha razão a ponto de cometer uma insensatez daquelas. Se eu
agisse daquela forma no trabalho, jamais teria chegado à posição de CEO da
S&Stevens. Estaria há muito tempo desempregado e sem o sucesso que
conquistei justamente por tomar decisões acertadas em situações de grande
estresse.
Me aproximei das duas, ignorando a expressão séria de Carmencita.
Ana escondeu o rosto, deixando os cabelos caírem para a frente. Começou a
mexer em algo à sua frente e vi que era Candy.
— Já tentou ligar para Bia através de outro aparelho sem ser o de
Ana?
— Oh, que descuidada eu sou! Nem pensei nisso! – Carmencita
balançou a cabeça, parecendo chateada consigo mesma – É que ela estava tão
nerv..... bom, esqueci.
Não comentei nada, mas entendi tudo o que devia ter acontecido
naquela cozinha antes da minha chegada.
— Dê o celular que vou tentar do meu.
Ela hesitou apenas alguns segundos, antes de estender o aparelho para
mim e colocar uma mão sobre o ombro tenso de Ana. Procurei não reagir mal
àquilo, olhando para o celular.
Era um aparelho simples e tentei imaginar qual a dificuldade de Ana
em manuseá-lo. Fiz a ligação e esperei, observando a tensão no corpo dela
enquanto aguardava. Tentei outra vez, mas nada. Bia deveria estar em uma
área de pouca rede naquele momento, o que significava que já tinham
viajado.
De certa forma me senti aliviado com aquilo, porque significava que
ficaria comigo. Poderia cuidar dela e conversarmos melhor.
Mas Ana ficou devastada por ser obrigada a permanecer em minha
casa.
Mesmo quando tentei me aproximar, seu tom de voz ao se negar a
conversar era definitivo, como se considerasse que estávamos
irremediavelmente separados e não gostei da sensação de impotência que me
dominou. Era como se a sua resistência me impedisse de voltar atrás e
colocar tudo nos eixos novamente. Nunca fui homem de desistir de nada que
queria para mim e se tivesse que lutar por ela de novo, lutaria!
Mas ver seus olhos tristes e aquele brilho de derrota lá dentro, foi o
mesmo que ter um punhal cravado no peito, ainda mais sabendo que fui eu
quem tirou o sorriso de felicidade do seu rosto.
Ana entrou feliz e alegre em minha casa e se eu não a impedisse, sairia
triste e desprotegida, ficando à mercê de tudo que não prestava lá fora. Não
conseguia esquecer o olhar daquele Jonas seguindo-a pela sala de Ashley.
Apertei os punhos e trinquei os dentes com raiva de mim mesmo ao
olhar seu rosto marcado pelas lágrimas. Era compreensível que Carmencita
estivesse me enfrentando para protegê-la. Ana parecia frágil como uma flor
na tempestade, a ponto de quebrar com a força do vento.
Sabia que estava magoada comigo e não tirava sua razão, porque se
Ana fosse inocente de tudo que havia naquele relatório, seria difícil me
perdoar e voltar a querer algo comigo. Aquela sua postura derrotista dizia
tudo sobre ter desistido de mim, pouco se importando com minha opinião e
vontade de conversar com ela.
Perceber aquilo só me deixou mais ansioso ainda para esclarecer tudo,
porque ela podia ter desistido de mim, mas eu ainda não havia desistido dela.
Ainda estava envolvido demais para conseguir me desligar tão rapidamente,
mesmo com aquele relatório assombrando nosso relacionamento.
Tive ainda mais certeza disso, quando cruzei meu olhar com o dela e
vi refletido neles a mesma necessidade que eu tinha. Estava mais que provado
que ainda estávamos fortemente ligados um ao outro, mesmo com aquele
relatório no meio, com as mentiras que nos afastaram, as palavras duras que
lhe disse e a separação que tudo aquilo causou.
Quando achei que enfim ia render-se àquela forte evidência de que
ainda tínhamos muito que viver um com o outro, ela saiu correndo da
cozinha.
— Ana! Espere!
Virei para segui-la, até sentir a mão firme de Carmencita me
prendendo pelo braço. Olhei-a, surpreendido e irritado com a ousadia.
— Dê-lhe um tempo, Dr. Daniel – falou calmamente, uma expressão
triste no rosto redondo – Ela está à beira de uma crise nervosa.
Respirei fundo para me controlar, porque era justamente por ter
percebido isso que precisava falar com ela.
— Entenda que tempo é o que não temos! Ana passará poucos dias em
Nova York e está magoada comigo. Preciso consertar isso o mais rápido
possível.
Ela negou com a cabeça.
— Não sei o que aconteceu entre vocês que a deixou assim, mas a
Srta. Ana não está apenas magoada. Ela está assustada, desamparada e
sentindo-se mal dentro desta casa. Tenho certeza que quer falar
desesperadamente com esta Bia porque sente-se bem com ela. Quer que
venha tirá-la daqui. Quando digo que está à beira de uma crise nervosa não
estou exagerando.
Fuck!
Não perdi mais tempo e saí da cozinha atrás dela.
Ouvir aquilo tudo vindo de alguém que nunca havia dito nada sobre
minhas antigas namoradas me deixou duplamente preocupado.
Encontrei-a no topo da escada. Subi os degraus de dois em dois para
alcançá-la, mas não foi o suficiente para evitar que fechasse a porta na minha
cara.
— Shit! – xinguei alto no corredor, explodindo de vez toda a minha
frustração.
Queria estar no Rio de Janeiro agora, para meter um murro na cara de
quem fez aquele maldito relatório. Como naquele momento não podia fazer
isso, comecei a andar de um lado para o outro na porta do seu quarto, abrindo
e fechando os punhos de raiva ao ouvir negativa atrás de negativa dela em me
dar uma chance de conversa.
Aquela sensação estranha no peito era uma prova irrefutável que eu
tinha de que meu sentimento por ela não mudou. Ao contrário, se eu quisesse
ter certeza do que sentia por ela, a merda daquela crise entre nós serviu
exatamente para isso. Mas ainda tínhamos muito que conversar, porque
haviam situações sérias de sua vida no Brasil que precisavam ser bem
esclarecidas.
Só que nada do que falei foi suficiente para fazê-la abrir a maldita
porta e conversar. Olhei para o teto e respirei fundo, admitindo que talvez
Carmencita estivesse certa e deveria dar um tempo para que ficasse mais
tranquila, sem pressioná-la tanto.
Como sabia que não conseguiria estar em casa sem insistir nisso,
decidi voltar para o único lugar onde poderia ocupar a mente e não
enlouquecer com seu silêncio. O trabalho.
Não tinha condições de permanecer em casa com Ana trancada no
quarto, negando-se a falar comigo.
Desci as escadas e fui para a cozinha, onde encontrei Carmencita
envolvida na preparação do almoço.
— Vou trabalhar – disse com pressa, vendo sua expressão ficar
preocupada – Chame Ana para almoçar e leve-a para passear no parque com
Candy, assim sairá um pouco de casa para relaxar.
Seu olhar era compreensivo.
— Ela não quis conversar com o senhor – não era uma pergunta, mas
uma simples afirmação.
— Não, não quis – suspirei, novamente cansado de uma série de
coisas na minha vida.
Quando achava que havia encontrado um oásis em meio ao deserto,
caía uma bomba daquela em minhas mãos.
— Não a deixe sozinha nem por um minuto, porque Ana não sabe
falar inglês. Por segurança, peça o número do seu celular. Mas qualquer coisa
relacionada com ela ligue-me imediatamente! Qualquer coisa. Entendeu? –
ela confirmou com a cabeça – Ótimo! Só voltarei à noite.
Quando estava saindo, voltei atrás para completar.
— E ninguém tira Ana desta casa sem minha autorização!
— Nem a amiga Bia?
— Ninguém!! – fui taxativo na minha resposta, olhando-a firmemente.
— Sim, Dr. Daniel.
Não esperei mais nada. Peguei as chaves do Lamborghini e fui tirá-lo
da garagem. Parei apenas para pegar minha pasta no Escalade e arranquei à
toda velocidade pelo portão.

***

— Deborah! Traga-me um café!


Tudo naquela manhã havia corrido totalmente o contrário do que
havia planejado. Jamais pensei que terminaria vindo ao escritório bem mais
cedo do que pretendia, muito menos que meu almoço com Ana não
aconteceria ou, pior de tudo, que nosso namoro estivesse ameaçado de
terminar menos de vinte e quatro horas depois que ela desembarcou em Nova
York!
Agora que sabia que Ana não falava inglês, é que detalhes importantes
vinham à minha mente. Detalhes que eu nem havia percebido na época, de
tão entusiasmado que estava em conhecê-la melhor, como o fato de ter falado
em português comigo quando liguei pela primeira vez. Na verdade, Ana
nunca disse uma única palavra em inglês na minha frente e só por isso, eu já
deveria ter desconfiado.
Joguei a caneta para o lado e levantei abruptamente. Já não dava mais
para fingir que estava concentrado no trabalho, porque definitivamente não
conseguia parar de pensar nela um minuto sequer.
Um lado meu necessitava desesperadamente acreditar nela e o outro
agarrava-se ferozmente às provas que foram atiradas na minha cara. Provas
que só serviram para me fazer sentir um tolo, um idiota apaixonado, um
rapazinho inexperiente em seu primeiro amor e não o homem maduro que eu
era, cansado de ser perseguido e enganado pelas mulheres mais requisitadas
da sociedade.
E quem é que quase conseguiu isso? Uma garota simples de Fortaleza,
que aparentemente não tinha cultura nenhuma.
Mas como isso era possível?
De tudo que aconteceu hoje, ver que Ana não conseguiu ler o relatório
em português foi o que mais me deixou surpreendido. Saber que não falava
inglês foi só mais uma mentira a ser desmascarada. Mas me chocou demais
ver que não teve capacidade de ler em seu próprio idioma!
Que espécie de pais Ana teve que não perceberam que a filha tinha
deficiências escolares? Será que ela foi tão rebelde assim, a ponto de
simplesmente negar-se a estudar?
Não! Eu não acredito nisso! Ana é inteligente, tenho certeza!
Não ser popular na escola até combinava com ela, porque já havia
percebido que a timidez que citou no perfil do Site era verdadeira. Nisso não
havia mentira, porque Ana era discreta e não gostava de chamar atenção
sobre si mesma, mesmo tendo aquela beleza estonteante.
Também era verdadeiramente carinhosa.
Muito carinhosa, porra!
Ana! Ana!
Eu já não conseguia pensar em outra coisa além dela! Há meses que
estava o tempo todo em meus pensamentos e justo agora quando ela se
encontrava em minha cidade, em minha casa, no quarto ao lado do meu, eu
me via envolvido numa rede de mentiras tão grande, que já não sabia o que
era verdadeiro ou falso. O pior de tudo era ter que lidar com minha própria
consciência pesada por não ter dado nenhuma oportunidade de defesa para
ela.
Eu sabia o quanto Richard era um advogado duro e implacável quando
atuava em um caso. E eu o entendia muito bem, porque no fundo era
igualzinho na minha forma de agir. Ainda que trabalhássemos em ramos
diferentes da advocacia, atuávamos de maneira muito semelhante. Mas eu
também sabia que ele era preconceituoso e dificilmente veria Ana da forma
como eu a conhecia, incapaz de ser aquela mulher ardilosa e golpista que o
relatório descreveu.
Uma suave batida na porta me fez voltar à realidade. Permaneci de
costas, olhando a paisagem da cidade através do vidro.
— Aqui está o café, Dr. Daniel.
— Deixe na mesa.
Escutei sua movimentação dentro da sala.
— Dr. Daniel – seu tom era de pergunta.
Suspirei, impaciente, já prevendo algum recado urgente da Diretoria.
— Pode falar, Deborah.
— Está tudo bem? É que não esperava que hoje viesse tão cedo ao
escritório.
E desde quando eu tenho que dar satisfações para ela sobre minhas
decisões, sobre o horário que resolvo trabalhar ou minha vida pessoal? Se
estou bem ou mal não é da conta dela!
Virei lentamente e encarei-a com um olhar duro e incisivo, sem dizer
uma única palavra.
Deborah remexeu-se nos saltos altos e ficou vermelha de vergonha,
piscando várias vezes antes de falar com a voz engasgada.
— Peço desculpas! Com licença!
Saiu rapidamente, fechando a porta com cuidado.

***

Estava no meio da reunião com o Diretor Financeiro quando meu


celular deu um alerta de chamada. Já tinha recebido várias ligações naquele
dia e todas as vezes tinha ficado na expectativa de ser Carmencita ou,
milagrosamente, a própria Ana.
Olhei o visor e senti minha pulsação acelerar quando vi que daquela
vez era mesmo Carmencita.
Ana!
Impossível não associar aquela ligação com ela.
— Peço licença, mas preciso atender.
— Claro, Dr. Daniel. Fique à vontade.
Me afastei para o fundo da sala.
— Carmencita?
— Dr. Daniel! – sua voz era de alívio e só aquilo me fez ficar mais
ansioso ainda.
— O que foi?
— Candy desapareceu no parque!
Respirei fundo de puro alívio por não ser nada com Ana.
— Você tem o código para rastreá-la. Não é a primeira vez que ela
desaparece no parque. Já disse para não soltá-la da guia.
— Não fui eu quem soltei. Foi a Srta. Ana que queria brincar de
bolinha com a Candy e acabou por soltá-la.
Ana! Novamente Ana!
Fechei os olhos só em ouvir seu nome e imaginá-la brincando com
Candy no parque.
— Então vão brincar de procurá-la – respondi impaciente, sem querer
ficar lembrando dela o tempo todo, justo quando já tinha conseguido
esquecê-la durante a reunião — Não entendi porque me ligou, se sabe o que
fazer.
Já ia desligar, quando ela me interrompeu.
— Não desligue!
— O que foi agora?
— É que a Srta. Ana também desapareceu junto com a Candy.
Por um momento paralisei, ficando sem ação diante do que ouvi.
Depois respirei fundo, sentindo o oxigênio voltar a entrar nos pulmões.
Ana perdida no parque sem falar inglês?
— O que foi que você disse? – falei entredentes, andando até a mesa e
fazendo sinal ao Diretor que a reunião tinha acabado.
Vi seu olhar de surpresa, mas ignorei-o totalmente.
— Disse que a Srta. Ana desapareceu. Acho que foi atrás da Candy –
sua voz estava ofegante, sinal de que estava andando pelo parque enquanto
falava comigo.
— Já tentou ligar-lhe? – peguei as chaves do carro e saí da sala,
ignorando o olhar surpreso de Deborah.
Carmencita fez uma pausa e tive a certeza que escutaria algo que não
ia gostar.
— Esqueci de pedir o número da Srta. Ana, mas tenho certeza que ela
não trouxe bolsa para o passeio. Se o celular não estiver no bolso do seu
casaco, ela está sem ele.
Acalme-se Daniel! Você é especialista em gerir crises numa
corporação multinacional americana de grande peso no mercado mundial e
na bolsa de valores.
Mas como conseguir ficar calmo sabendo que Ana estava perdida em
Nova York, sem falar inglês, possivelmente sem celular, sem dinheiro e sem
passaporte?
Merda! Droga!
— Tentarei ligar para Ana! Enquanto isso ative o rastreador e vá atrás
de Candy. Se encontrá-la, poderá achar Ana também. Ligue se encontrá-las e
eu ligarei para você se conseguir falar com ela.
Fiz a chamada imediatamente, ouvindo tocar várias vezes sem
ninguém atender. Quando a ligação caiu, minha paciência já tinha esgotado.
Peguei o elevador, tentando controlar a urgência em chegar logo ao
estacionamento, entrar no carro e ir atrás dela.
Ana deveria estar assustada, tremendamente assustada e mais uma vez
a culpa era minha!
CAPÍTULO 21

Daniel
Parei no semáforo e apertei as mãos no volante, tentando conter a
vontade de seguir adiante mesmo com o sinal fechado.
Ana. Onde você está agora?
Já havia tentado ligar três vezes e estava mais do que óbvio que ela
não estava com o celular no bolso. Carmencita também não havia dito nada
até agora, o que significava que ainda não encontrou Candy.
Mesmo sabendo que o sistema de rastreamento era muito eficaz e em
breve estaria recebendo informações que ela foi encontrada, os minutos
pareciam se arrastar sem que o celular tocasse. Precisava urgentemente ouvir
a confirmação que tudo estava bem e que ambas, não apenas Candy, já se
encontravam com Carmencita.
Não conseguia entender como é que Ana afastara-se a ponto de não
saber voltar. Aquele parque nem era tão grande assim para que um adulto se
perdesse nele, mesmo sendo alguém de fora. Só conseguia pensar que estava
tão abalada pelo que aconteceu em minha casa que isso contribuiu para fazê-
la perder o sentido de direção lá dentro.
Era final de tarde e o parque deveria estar esvaziando-se em poucas
horas. Minha grande preocupação é que naquela época do ano escurecia
muito cedo e, quando o sol ia embora, o frio era grande à noite. Ana não
estava acostumada com nosso clima e também poderia não estar agasalhada
para suportar o esfriamento da temperatura.
Maldição! Eram coisas negativas demais para ela aguentar sozinha e a
cada minuto que passava, me sentia mais e mais ansioso para encontrá-la.
Acelerei o máximo que pude assim que o sinal abriu, ultrapassando os
carros à minha frente e agradecendo a Deus por ter vindo com o
Lamborghini, um carro bem menor que o Escalade e, por isso mesmo, mais
ágil no meio do trânsito.
Me concentrei na direção para ganhar velocidade sempre que podia e
minutos depois, estacionei na lateral do parque.
Desci e liguei o sistema de rastreamento de Candy. A indicação
apontava para cerca de dois quilômetros mais à frente. Algumas pessoas já
estavam saindo, mas muitas ainda permaneciam, aproveitando os últimos
raios de sol. Em breve, começaria a escurecer e esfriar. Quando isso
acontecesse, eu pretendia já estar com Ana ao meu lado em segurança.
Esperava a todo momento que Carmencita ligasse dizendo que já tinha
encontrado as duas, porque o tempo que levei no trânsito teria sido suficiente
para isso.
Se não ligou, era porque ainda não tinha nada para dizer e isso era
muito estranho, porque o sistema não falhava, tornando fácil localizar Candy.
Ninguém a havia levado para fora do parque, roubando-a, já que a indicação
do GPS continuava lá dentro.
Aquele silêncio de Carmencita só tinha um motivo e minha urgência
foi tanta, que acelerei os passos e comecei a correr no meio das pessoas que
ainda circulavam pelo gramado macio.
Poucos minutos depois, faltando apenas alguns metros para o ponto de
encontro informado pelo GPS, olhei adiante e a vi de costas. Estava andando
sozinha mais à frente, muito longe do local ideal para brincar com os cães.
Ali era distante demais para Candy ter ido sozinha, o que significava
que alguém a estivera levando ao colo e só podia ser Ana.
Respirei aliviado com aquilo, com a plena certeza que encontrar
Candy agora, significava também encontrar Ana. Guardei o celular no bolso e
venci rapidamente os últimos metros que me separavam dela.
— Carmencita!! – chamei alto, fazendo-a virar-se de imediato para
mim.
Levei um choque tremendo quando vi Candy em seu colo, o que me
fez parar abruptamente e olhá-las sem acreditar no que via.
Candy!
Fechei as mãos em punhos, apertando-os com força para controlar o
desespero que tomou conta de mim ao vê-las juntas. Se fosse em outra
situação, estaria extremamente aliviado. Mas aquilo significava que Ana
continuava perdida no parque e que agora não tinha como localizá-la através
do rastreador de Candy.
Os olhos de Carmencita estavam angustiados e sua fisionomia tensa
mostrava bem o desgaste que foi para ela ter Candy e Ana perdidas no parque
sob sua supervisão.
— Dr. Daniel!! – veio em minha direção, o rosto mostrando alívio
com minha chegada.
Se fosse outra pessoa, eu teria despejado toda minha raiva pela
incompetência em cuidar das duas, mas Carmencita estava comigo há anos,
era uma senhora de meia-idade, amorosa e muito eficiente em administrar
minha casa. Sabia que não tinha culpa pelo seu desaparecimento. Mas mesmo
raciocinando tudo aquilo, ainda assim foi difícil não deixar transparecer na
voz o quanto estava irritado e furioso com aquela falha nas recomendações
que dei para não deixar Ana sozinha um minuto sequer.
— Onde a encontrou? – peguei Candy, confirmando rapidamente que
estava bem, apesar de parecer assustada.
Encarei Carmencita, aguardando sua resposta.
Não tinha tempo a perder com desculpas ou lamentações, porque cada
minuto de conversa era um minuto a mais que Ana estava sozinha.
E ainda tinha que torcer para que estivesse no parque, porque ela
poderia ter resolvido sair dele ou ter pedido ajuda a alguém que a levasse dali
para entregá-la a algum policial. Minha mente de advogado negou-se a
pensar em outras possibilidades piores, como rapto para prostituição, estupro
ou assassinato.
— Encontrei-a alguns metros lá atrás – virou-se, apontando para o
local – Mas como a Srta. Ana não estava com ela, saí dando voltas por aqui
para ver se a encontrava.
Fiquei preocupado ao saber que Candy estava naquela área.
— Vocês ficaram no local habitual?
— Sim, fico sempre no mesmo lugar.
Estávamos longe de lá e não gostei de saber daquilo. Se Ana e Candy
estavam juntas, então Ana havia andado para o lado oposto de onde
Carmencita se encontrava.
— Vamos nos separar e ser rápidos. Daqui a pouco vai escurecer e se
não conseguirmos encontrá-la sozinhos, vou pedir ajuda à polícia. Não
pretendo arriscar que aconteça algo sério com Ana! – ela apenas confirmou
com a cabeça, parecendo a ponto de chorar de preocupação – Acalme-se
Carmencita! Agora diga a roupa que ela usava.
Ela respirou fundo para se controlar, antes de responder.
— Calça jeans com tênis – enrugou a testa, pensando – E um casaco
preto.
— Cabelo solto ou amarrado?
— Solto.
— Certo! – estendi-lhe Candy, que ela pegou e acomodou no peito –
Volte para o local onde estavam e procure por lá. Como sou mais rápido,
ficarei nesta área onde encontrou Candy.
Carmencita balançou a cabeça em confirmação.
— Ligue daqui a dez minutos e diga onde está que eu farei o mesmo.
Agora vamos!
Passei os próximos cinco minutos circulando rapidamente entre as
pessoas que ainda estavam no parque. Depois de ter abraçado seu corpo,
acariciado seus cabelos e olhado a beleza natural do seu rosto, era fácil
demais identificá-la no meio de outras mulheres, ainda que a visse de longe
perdida entre tanta gente.
Mas à medida que os minutos passavam e não a localizava nas
redondezas, comecei a olhar cada mulher usando um casaco preto, jeans e
tênis, mesmo sabendo no coração que não eram ela.
Já perto de completar os dez minutos de prazo que dei a mim mesmo
para encontrá-la sem chamar a polícia, resolvi mudar de direção e voltar
atrás, ficando perto do lago.
Olhei todas a mulheres dali, enquanto me movimentava no meio delas.
Vi uma mulher que tinha o andar igual ao dela dirigindo-se para o
lago. Não usava nenhum casaco preto, apenas um blusão cinza muito largo
com o capuz levantado. Mas seu jeito de andar era tão parecido que fui
imediatamente em sua direção. Só quando cheguei perto foi que percebi que
era muito mais baixinha.
Suspirei desanimado, porque além de ser mais baixa era uma
adolescente grávida, pelo volume na barriga. Ela sentou na grama, olhando
para as águas paradas onde alguns patos e cisnes nadavam, mas quando
sentiu minha aproximação, puxou mais o capuz e virou a cabeça para o outro
lado, mostrando claramente que queria estar sozinha.
Mais uma pista falsa! Já estava ficando difícil controlar a tensão e o
nervosismo. Saí dali, me aproximando de cinco garotas sentadas em uma
toalha, rindo e tirando selfies. Perto delas estava um homem gordo andando
sozinho pelo meio de toda gente. Mais ao lado, uma senhora idosa na cadeira
de rodas empurrada por uma outra adolescente.
E mais ninguém que pudesse ser a minha Ana!
Mas que droga!
Olhei o relógio e vi que meu tempo se esgotava rapidamente. Tirei o
celular do bolso e procurei a foto dela. Estava na hora de uma ação
desesperadora, mas talvez muito mais eficaz.
Interceptei a cadeira de rodas, mostrando a foto dela para a
adolescente.
— Com licença! Por acaso viu esta mulher no parque?
Ela sorriu com simpatia antes de olhar a foto e negar com cabeça.
— Sinto muito, mas não vi.
— Obrigado.
A próxima abordagem foi uma senhora com o filho pequeno, depois
alguns rapazes, três crianças jogando bola, uma família inteira sobre a toalha.
Mas a resposta era sempre a mesma. Ninguém a viu.
Meu celular tocou com uma chamada de Carmencita. Tinha acabado o
tempo.
— Encontrou-a? – atendi de imediato.
— Não, Dr. Daniel.
— Continue procurando e volte a chamar em mais dez minutos.
Desliguei e coloquei novamente a foto de Ana na tela, indo para o
homem gordo que já estava perto de mim. Parecia um pai de família comum,
na faixa dos quarenta anos.
— Com licença! Viu esta mulher no parque?
Ele olhou sua foto e ficou calado por segundos a mais que o normal,
os olhos presos na imagem dela. Depois olhou ligeiramente para mim,
desviando o olhar novamente para a foto, mas não foi rápido o suficiente para
esconder que a reconhecera. Ana não tinha um rosto comum e tornava-se
impossível um homem esquecer sua beleza. Naquele momento tive certeza
que ele a tinha visto.
Meus instintos aguçaram-se na hora e passei a observar seu rosto com
atenção, esperando sua resposta.
— Não, não vi – negou tranquilamente.

***
Ana
Apertei Candy no peito, procurando tirar forças da sua presença
comigo. Senti-la junto me dava a sensação de não estar totalmente sozinha e
assustada.
Caminhei alguns metros mais à frente, olhando para todos os lados,
mas sem encontrar Carmencita em lugar nenhum.
Oh meu Deus! Quando este pesadelo chamado Nova York vai acabar?
Fiquei com receio de estar me afastando dela ainda mais e parei.
— Candy, docinho! Acha que conseguiria encontrar Carmencita para
mim?
Ela só lambeu meu queixo, mexendo-se e querendo ir para o chão.
Pensei com cuidado se devia soltá-la ou não, dividida entre o medo
dela fugir de mim, perdendo-se de verdade, e a vontade de tentar ver se me
mostrava o caminho que levaria à Carmencita.
Mas se eu a perdesse seria muito pior, porque ficaria realmente
sozinha em um momento difícil e também preocupada com sua segurança.
Ao chegar à conclusão que ficaríamos as duas sozinhas e perdidas no parque,
só que separadas uma da outra, decidi mantê-la em meu colo, sem soltá-la na
grama.
— Vamos tentar encontrar Carmencita juntas, Candy! É melhor para
nós duas!
Fechei os olhos e respirei fundo, procurando ficar calma para escolher
a direção certa.
— Com a sorte que estou tendo ultimamente, corro o sério risco de
escolher o caminho errado – falei para ela, alisando sua cabecinha.
Dei um pequeno giro em torno de mim mesma, observando as
direções que poderia seguir. Uma delas dava para o lago, por isso estava
descartada. A outra levava a um grupo de árvores, onde tinha certeza que
Carmencita não estava.
Restavam duas opções. O caminho à minha frente e o que estava às
minhas costas. Virei para trás e vi o homem gordo caminhando
displicentemente em minha direção, com os olhos curiosos presos em mim.
Acho que apertei Candy com força demais, porque ela remexeu-se
incomodada.
— Desculpa, docinho. É que não gosto daquele homem e ele parece
decidido a tirar você de mim.
Não restou outra opção além de seguir em frente, circulando entre as
pessoas que estavam na grama, tentando achar o lugar onde Carmencita tinha
colocado nossa toalha.
— Acho que sou mesmo uma burra, Candy! Como é que fui me
perder aqui com a idade que tenho?
Aquele era mais um motivo para Daniel querer livrar-se de mim.
Realmente não havia vantagem alguma para um homem como Daniel ficar
comigo, exceto a atração física. Em resumo, tudo se limitava ao meu rosto e
corpo, como sempre foi a minha vida inteira.
"Não se deixe enganar novamente, Daniel. Já ficou mais que provado
que ela não tem cultura nenhuma para estar ao seu lado. Pelo amor de Deus,
a mulher nem sabe ler!"
Lógico que um comentário daqueles ia pesar na hora que Daniel fosse
contabilizar as desvantagens que tinha ao ficar comigo.
Daniel!
Meu Deus, com tudo de ruim que tinha acontecido naquele dia, ainda
assim o que eu mais queria naquele momento era estar segura na casa dele.
Ou com Bia!
Continuei andando por mais um bom tempo até perceber que nada ali
era parecido com o lugar onde tínhamos ficado. O local foi ficando mais
vazio, com muitas pessoas recolhendo seus pertences para ir embora. Só em
ver isso, comecei a ficar mais nervosa ainda, pensando se ficaria perdida ali
durante a noite.
E se eu não encontrasse Carmencita? Aquele parque parecia tão
grande e eu nem imaginava como conseguiria me virar sozinha em uma
cidade que eu não conhecia, cujo idioma não falava, sem ter dinheiro nem
para comprar uma água para beber. Engoli a vontade de chorar, controlando o
medo que começou a tomar conta de mim.
Eu não vou chorar...
Mas como não chorar, depois da carga emocional que recebi desde
que coloquei os pés na casa de Daniel?
Continuei andando, pensando se valia a pena tentar pedir ajuda a
alguém. Se fosse fazer isso, teria que falar com alguma mulher!
A vontade de chorar foi aumentando à medida que a distância que eu
percorria também aumentava. Por que eu tinha que ser disléxica e não ter um
pingo de sentido de orientação, meu Deus?
— Bom, mas sendo disléxica ou não, uma coisa tenho certeza, Candy.
Estou no caminho errado!
Não conhecia aquela parte do lago, o que significava que o caminho
certo era para trás. Também não estava gostando da falta de pessoas naquela
área mais afastada do parque. Sem perceber, eu havia ido cada vez mais
longe dos locais movimentados.
— Vamos voltar, docinho.
Girei e levei um tremendo susto ao dar de cara com aquele mesmo
homem!
Meu Deus! Será que ele me seguiu este tempo todo e nem percebi?
Resolvi dar uma de brasileira acostumada a ser assediada na rua e
fingi que não o vi, passando adiante. Desconfiava que ele já havia deduzido
que eu estava perdida e por isso me seguia. Se também tivesse percebido que
era brasileira, já que tinha falado em português com ele antes, algo me dizia
que suas intenções não eram boas. E mesmo que fossem, não queria ajuda de
homem nenhum naquela cidade.
Exceto de Daniel!
Mas como conseguirei voltar para a segurança de sua casa?
Pela primeira vez desde que brigamos, estava desesperada para tê-lo
ao meu lado, para estar com ele. Tentei controlar meus nervos já abalados,
me sentindo tremer de medo com a premonição ruim que tive com relação
àquele homem. Precisava me afastar rapidamente dele e sair logo daquela
área pouco movimentada, porque agora tinha certeza qual era o caminho para
encontrar Carmencita.
Acelerei os passos, até sentir uma mão pesada segurar meu braço.
Meu coração deu um pulo de susto, sabendo que era ele. A surpresa ao vê-lo
ter a audácia de me tocar foi tanta, que não consegui reagir de imediato
quando ele tirou Candy dos meus braços.
Oh Senhor! Ele ia mesmo roubá-la, como imaginei desde o início!
— Não! Ela é minha! – falei automaticamente em português e só
depois foi que lembrei que o homem era americano.
Ele jogou Candy de qualquer jeito no chão, fazendo-a embolar pela
grama como uma bolinha.
— Nãoo!
Meu coração doeu quando vi aquilo, dando um passo para ela. Mas
nem fui muito mais além disso, sentindo sua mão pesada novamente em meu
braço. Só que desta vez me puxando para perto do seu corpo grande e obeso.
Me abraçou de frente, uma mão tapando minha boca. Ele afundou meu
rosto em seu peito, o enorme casaco aberto me escondendo das outras
pessoas. Quem nos visse de longe, poderia dizer que estávamos apenas
abraçados no meio do parque.
O desespero tomou conta de mim ao perceber que durante todo o
tempo que nos seguiu, ele não queria Candy, mas a mim! Um misto de
pânico e raiva com tudo que estava acontecendo comigo naquele dia me fez
chorar definitivamente, ainda mais quando senti que estava sendo arrastada
para a parte lateral do caminho que levava às árvores.
Não era preciso ser muito inteligente para saber o que ia acontecer
comigo quando chegássemos lá.
Mas que merda de destino é esse que me tirou de Fortaleza só para
ser estuprada em Nova York?
Estuprada e assassinada, porque eu não conseguia imaginar aquele
homem me deixando sair viva daquelas árvores.
Fui arrastada com tanta rapidez que fiquei surpreendida como um
homem tão pesado pudesse ter aquela agilidade toda. Mas a gordura escondia
muita força e quando dei por mim, já estava no meio das árvores. Fui jogada
no chão e perdi o fôlego quando aquele corpo caiu em cima de mim, ainda
tapando minha boca.
Não! Eu não vou deixar isso acontecer!
Olhei ao redor, tentando encontrar alguma coisa que pudesse usar
como arma para me defender. Saí tateando o chão e só faltei chorar de alívio
quando senti o galho de uma árvore nos meus dedos. Não era muito grande e
provavelmente até quebraria quando o atingisse, mas era minha única
salvação.
Eu não saí do Brasil para morrer aqui, porra!
Respirei fundo para conseguir forças e num golpe só bati o galho em
sua testa, rezando para que fosse o suficiente.
Mas não foi!
O homem vacilou, caindo ligeiramente para trás, mas não saiu
totalmente de cima de mim.
Puxei uma de minhas pernas e golpeei-o no meio do peito,
empurrando-o de vez para trás. Me ergui e saí correndo dali, chegando
novamente em campo aberto. Olhei ao redor, sem ver Candy em lugar
nenhum.
As lágrimas correram livremente ao perceber que teria que abandoná-
la, porque precisava sair dali urgentemente, antes que aquele homem horrível
se recuperasse e viesse atrás de mim. Não teria tempo para procurá-la!
Corri até chegar a uma área mais movimentada e como algumas
pessoas já olhavam de forma estranha para mim, parei e comecei a andar
rápido, enxugando as lágrimas do rosto.
Engoli os soluços, apesar de sentir meu corpo começar a tremer,
depois daquela experiência terrível.
Me misturei no meio de algumas pessoas, olhando para trás para ver
se ele me seguia. Outro soluço saiu garganta afora quando o vi deixando as
árvores ao longe. Não tardaria em vir atrás de mim. Tinha certeza disso! Ele
sabia que eu estava perdida, sozinha e era estrangeira!
Só havia uma coisa a fazer!
Tirei o casaco preto e soltei o blusão cinza de dentro da calça,
deixando-o cair aberto ao lado do corpo. Amarrei os cabelos em um coque
baixo e subi o capuz, cobrindo a cabeça. Dobrei o casaco em quatro e
coloquei-o por baixo do blusão, prendendo as mangas dentro da minha calça.
Assim, escondia minhas formas, dando a impressão de ser barriguda. Acho
que passaria bem por uma adolescente grávida.
Caminhei o mais rápido que pude, tentando chegar no local onde
achava que Carmencita estaria. O tempo estava esfriando com uma
velocidade vertiginosa, fazendo meu corpo estremecer quando o vento gelado
ultrapassava o tecido do blusão. Sem o casaco, agora ia ser difícil ficar
aquecida.
Cheguei em uma bifurcação do caminho, vendo pessoas seguindo para
ambos os lados.
E agora? Não lembrava de ter passado por ali!
Mas que merda!
Resolvi me esconder onde algumas garotas estavam sentadas na
grama, rindo e tirando fotos. Olhei discretamente para trás e meu coração
quase parou quando o vi.
Ainda estava procurando por mim ou uma outra possível vítima.
Devia atuar no parque com frequência, porque não conseguia vê-lo de outra
forma. Um pai de família ou homem de bem não tentaria estuprar uma
mulher, simplesmente porque deu-lhe vontade naquele momento.
Resolvi ficar ali, já que tinha gente suficiente. Mas assim que ele se
afastasse, ia tentar falar com as garotas e pedir ajuda para sair dali.
Dei a volta por trás de uma árvore para sair do seu campo de visão e
fui para perto do lago. Só quando sentei foi que percebi que alguém estava
andando atrás de mim.
Oh meu Deus! Será que ele me reconheceu mesmo disfarçada?
Senti um homem chegar perto e virei imediatamente o rosto para o
outro lado. Fechei os olhos, rezando para que se fosse o estuprador, não me
reconhecesse de jeito nenhum. Mesmo com todas aquelas pessoas me
passando alguma segurança, não saberia como gritar em inglês que ele era
um estuprador.
Rezei, rezei e rezei, esperando para ver o que acontecia. Os segundos
se passaram e não fui atacada de novo. Quando abri os olhos, quem estava na
minha linha de visão era justamente o estuprador. Isso significava que o
homem que havia chegado pelo lado oposto e ido embora não era ele.
Me encolhi no meu canto, continuando a rezar durante alguns
minutos. Estava com medo de olhar para trás, mas tinha que confirmar se ele
ainda estava por ali, porque pretendia falar com as garotas e pedir ajuda.
Respirei fundo, puxando o capuz mais para frente. Estava na hora de
tentar ver onde ele estava.
Olhei discretamente para trás e meu coração deu um pulo no peito
quando o vi alguns metros atrás. Só em ver de frente seu rosto largo e
nojento, senti vontade de vomitar. Estava conversando com um homem alto,
de ombros largos e estrutura forte, que estava de costas para mim e mostrava-
lhe alguma coisa no celular.
Será que era algum comparsa dele?
Oh meu Deus! Se fosse, eu estava mesmo em maus lençóis, porque
aquele outro homem era forte demais e, com certeza, eu não conseguiria fugir
dele facilmente.
Virei para a frente de novo, olhando o lago e sentindo meu corpo
tremer. Será que minha situação ia ficar pior do que já estava?
Coragem, Ana!
Fechei os olhos e girei novamente para olhá-los. Vi o estuprador fazer
um gesto negativo com a cabeça e tentar afastar-se, mas o outro homem
moveu-se rapidamente, interceptando seu caminho. Ele então mudou de
posição, ficando de lado para mim.
Na hora que vi seu perfil, as lágrimas começaram a rolar por meu
rosto, porque aquele outro homem eu conhecia.
Era Daniel!
Oh meu Deus! Daniel veio me procurar!
Levantei na hora, dando um passo desesperado em sua direção, até
lembrar do estuprador.
Bem ali à minha frente estavam o homem que era o meu salvador e o
homem que era o meu perseguidor.
O medo me fez vacilar, mas foi por poucos segundos, porque logo
depois já estava correndo para ele com as pernas trêmulas. Dentro do meu
coração havia a certeza que a seu lado estaria em segurança. Só parei quando
estava a poucos metros, receosa de chegar mais perto.
— Daniel!
Chamei alto o suficiente para que me ouvisse.
Ambos viraram o rosto na minha direção, mas evitei olhar para o outro
homem, fitando apenas Daniel, quando virou-se imediatamente ao som da
minha voz. Seus olhos bateram de frente com os meus, mostrando surpresa e
depois alívio por me encontrar.
— Ana!
Com passadas firmes, Daniel caminhou para mim, uma expressão
decidida no rosto másculo. Sem conseguir mais me conter, corri de vez para
ele, me atirando em seus braços abertos.
A melhor sensação do mundo foi sentir seu peito largo de encontro ao
meu rosto, o cheiro bom do seu corpo junto ao meu, seus braços fortes me
envolvendo com força e também desespero. Me senti voltando para casa.
— Dan!
Fechei os olhos e comecei a chorar mais ainda, soluçando de encontro
a ele.
— Ana!
Sua voz estava enrouquecida, os braços me suspendendo ligeiramente
do chão, na ânsia de me abraçar melhor. Senti seu beijo em meus cabelos, a
barba macia roçando minha testa.
— Não chora! Agora está em segurança.
Não conseguia falar nada, por isso só balancei a cabeça confirmando
que sabia daquilo.
Senti o peito amplo expandir-se ainda mais quando inspirou fundo,
soltando depois a respiração lentamente.
— Fica calma – alisou minhas costas e cabelos – Estou aqui agora e
vou levar você para casa.
CAPÍTULO 22

Daniel
Olhei para o rosto redondo do homem à minha frente e comecei a
enxergá-lo de outra forma. A aparência inicial de um pai de família comum
mudou drasticamente quando ele negou tê-la visto. Eu tinha certeza absoluta
que a reconheceu na foto.
Tentou afastar-se e ir embora, mas interceptei seu caminho, me
colocando à sua frente.
Ele parou e me olhou, parecendo incomodado com minha abordagem.
— Tem certeza que não a viu? – insisti, resolvendo testar se era
mesmo um cidadão honesto e pai de família – É minha namorada e não
conhece a cidade.
Frisei bem a palavra namorada, encarando-o firmemente. Observei seu
rosto, alerta a cada pequena mudança de expressão.
Ele olhou a qualidade da minha roupa e aparência. Pareceu ficar
subitamente inquieto e aquilo em vez de me acalmar, porque comprovava que
realmente a tinha visto, me deixou mais preocupado ainda. Tudo por conta de
um pequeno detalhe em seu rosto. Havia um arranhão em sua testa esquerda,
avermelhado o suficiente para mostrar que tinha recebido um golpe ali.
Aquilo elevou minhas desconfianças ao grau máximo, me deixando
tenso e com vontade de puxá-lo pela camisa e obrigá-lo a falar onde tinha
visto Ana e se havia feito algo contra ela.
Depois que me tornei um homem adulto, sempre consegui manter a
calma e o controle em situações de confronto, sem nunca precisar agredir
outro homem. Os tempos de brigas da adolescência ficaram para trás.
Mas pela primeira vez depois de muitos anos, tive instintos agressivos
só de imaginar que aquele homem tivesse machucado Ana de alguma forma.
— Sinto muito, mas não vi esta mulher – negou novamente.
Apertei o celular com força na mão, já pensando em detê-lo e chamar
a polícia para que fosse interrogado até que ela aparecesse.
— Daniel!
Paralisei na hora, quando ouvi a voz doce da minha Ana!
Senti toda a tensão ir embora quando virei em direção à mulher que
estava em pé, com um blusão cinza escondendo seu corpo e deixando ver
apenas uma barriga arredondada. Tinha o capuz cobrindo a cabeça, sendo
muito mais baixa do que eu esperava.
Era a adolescente grávida que estava no lago!!!
Mas era também a minha Ana!
Não tive como esconder a surpresa ao olhá-la vestida daquela forma,
mas também senti um alívio tão grande em ver diante de mim a mulher por
quem eu estava apaixonado, que esqueci tudo. Só pensei em segurá-la e
nunca mais largar.
Uma urgência terrível me fez caminhar resolutamente e vencer os
poucos passos que nos separavam. Abri os braços e ela correu para mim.
Soltei o ar com força quando enfim pude senti-la agarrada em minha
cintura, o rosto apoiado no peito. Começou a soluçar, apertando-se contra
meu corpo.
Minha ânsia era tanta que quase tirei-a do chão ao abraçá-la. Fui
dominado por uma emoção tão forte, que me deixou momentaneamente
desnorteado. Era um misto de desespero por tê-la perdido, alívio por
conseguir encontrá-la e vontade de nunca mais largá-la. Sentir aquele desejo
de posse por uma mulher era algo inédito para mim e ainda não sabia como ia
lidar com isso.
Seu corpo tremeu com o choro, os soluços fazendo-a parecer muito
mais frágil agora do que quando deixei-a em casa. Empurrei o capuz para
trás, soltando os cabelos longos e beijando o alto de sua cabeça.
Maldição!
Era impossível vê-la daquele jeito e não me sentir furioso com tudo
que aconteceu desde que desembarcou. Ana estava na minha terra e tinha
vindo para cá exclusivamente para me conhecer, mas até agora só teve
motivos para chorar.
Mesmo sabendo que não era minha culpa ela ter-se perdido no parque,
da forma como me sentia mal naquele momento até isso achava que era
responsabilidade minha. Puxei o ar com força para dentro do peito,
procurando controlar as emoções e trazendo-a para mais perto.
Segurei seu rosto e fiz que com me olhasse, limpando as lágrimas que
caíam. Ela passou a manga do blusão no rosto para secá-lo, me encarando, e
naquele momento tomei uma das decisões mais importantes da minha vida.
Faria de tudo para reconquistar Ana e ficar com ela, porque
definitivamente a mulher que estava à minha frente era muito importante para
mim. Esta que eu tinha nos braços era a Ana que conheci e por quem me
apaixonei. De forma nenhuma era uma garota de programa como o relatório
descreveu.
Restava saber se ela me aceitaria de volta, depois de tudo que
aconteceu naquele dia.
Mas eu pretendia lutar de todas as formas para reconquistá-la, porque
não era homem de desistir fácil do que queria para mim. Apesar de toda a
raiva que senti hoje depois de ler aquele relatório, o seu desaparecimento no
parque só me fez ter certeza absoluta que não podia ficar sem ela em minha
vida.
E eu ia começar a reconquistá-la naquele momento.
Baixei a cabeça e beijei seu rosto, apenas encostando os lábios na pele
macia, sentindo o quanto estava gelada do vento frio. Esperei para ver se ela
se afastaria de mim. Como não houve nenhuma reação negativa, me
aproximei mais do canto de sua boca, me forçando a não devorá-la
desesperadamente como gostaria realmente de fazer. Já sentia meu coração
acelerar, diante da expectativa daquele beijo.
Ana permaneceu quieta, a respiração mais ofegante fazendo-a
entreabrir os lábios, as mãos em minha cintura me apertando com ansiedade.
Com aquela reação positiva, já não precisava de mais nada para saber
que ela também queria.
Ana estava aceitando meu beijo!
Fiz o que minha paixão por ela pedia. Devorei sua boca como um
sedento, sentindo um prazer enorme com o seu calor e sabor. Apesar de
termos ficado separados por apenas algumas horas, só agora percebia a
saudade que senti de tê-la nos braços e poder beijar sua boca livremente,
como fiz quando a conheci.
Ela gemeu suavemente quando aprofundei nosso beijo, aumentando
ainda mais meu desejo.
Ana era doce, macia, quente e perfeita para mim. A única coisa nova
em tê-la nos braços agora, era como ficava bem mais baixa sem os saltos
altos, o que me forçava a inclinar mais para ela, ao mesmo tempo que erguia
seu corpo em direção ao meu.
Apertei-a em meus braços, querendo senti-la por completo, mas a
barreira por baixo do blusão me impediu.
Ergui meu rosto, segurando sua nuca e observando-a com atenção. Ela
abriu os olhos castanhos e os fixou em mim, me deixando ver lá dentro
aquele carinho de sempre, além do desejo que era um reflexo do meu.
Respirei fundo ao perceber que ainda poderia reconquistá-la,
esclarecendo tudo sobre o que aconteceu e, assim, seguirmos em frente
juntos.
Mas havia algo que precisava esclarecer naquele momento.
— O que aconteceu? Por que está vestida desse jeito?
Mal terminei de falar, sua expressão mudou, os olhos assustados
desviando-se dos meus para observar o parque em torno de onde estávamos.
Ela não respondeu, apenas apertou-se mais contra mim.
Continuei sustentando-a firmemente pela cintura com o outro braço,
sentindo o volume por baixo do blusão que a fazia parecer uma grávida.
Segui a direção do seu olhar, procurando o homem com quem estivera
conversando, mas sem achá-lo nas proximidades. Como já desconfiava, ele
devia ter ido embora assim que Ana surgiu, o que só aumentou minhas
suspeitas.
Era óbvio que ela andou disfarçada dentro do parque, porque não
estava vestida da forma como Carmencita falou. Isso significava que estava
escondendo-se ou fugindo de alguém e na minha cabeça só vinha a imagem
dele.
Mais uma vez respirei fundo para controlar a raiva que foi crescendo
dentro de mim, só de imaginar que ele tivesse realmente agredido Ana.
Voltei minha atenção para ela, segurando-a pelo queixo e analisando
seu rosto com cuidado. Não havia arranhões ou marcas.
Olhei rapidamente seu corpo, vendo que as roupas não estavam
rasgadas. Aparentemente Ana estava incólume.
— Você está bem?
— Sim, agora estou – foi a única coisa que respondeu, mas seu tom
era tão aliviado que senti ser verdade o que dizia.
Com relação a isso, ela não estava escondendo nada, mas ainda assim
aquele "agora estou" podia significar muita coisa.
— Onde está seu casaco? – procurei manter meu tom de voz neutro.
Ela vacilou ligeiramente, apertando a boca, antes de soltar as mãos da
minha cintura e enfiá-las por debaixo do blusão, retirando de lá seu casaco.
Tentei me controlar vendo aquilo, sem conseguir impedir o aumento
da tensão dentro de mim.
Os indícios ficavam maiores a cada minuto que passava e comecei a
sentir crescer cada vez mais a vontade de ir atrás daquele homem.
Ana tentou vestir o casaco sozinha, ainda calada, mas tirei-o de suas
mãos e ajudei-a, fechando o zíper até acima do busto para mantê-la protegida
do vento frio que soprava no parque.
Segurei seu queixo para fazê-la olhar para mim.
— Tudo bem. Não vou perguntar mais nada agora, porque tenho
urgência em levá-la para casa, mas quando estivermos lá precisaremos
conversar.
Ela não contestou o que eu disse e resolvi não perder mais tempo
naquele lugar.
— Vamos sair daqui!
Segurei sua mão, mantendo-a perto de mim, enquanto caminhávamos
para fora do parque.
Não podia deixar de olhar as várias pessoas que ainda estavam ali,
tentando encontrar o tal homem com quem havia falado antes.
Seguimos em silêncio por mais alguns metros até pegar meu celular e
ligar para Carmencita, que atendeu logo no primeiro toque.
— Estou com Ana! Prepare-se para irmos embora.
— Oh, Dr. Daniel! Que alívio! – ela parecia a ponto de chorar – Já
estou pronta. Quer que aguarde aqui ou no estacionamento?
O fluxo de pessoas aumentou ao nosso redor, quase todas saindo do
parque por conta do adiantado da hora. Ana segurou minha mão com mais
força, parecendo uma criança com medo de perder-se novamente dos pais.
Puxei-a, passando o braço por seus ombros, para que ficasse bem
perto de mim. Ela me abraçou pela cintura, grudando-se no meu corpo.
— Pode aguardar aí mesmo, já estamos chegando.
— Ficarei aqui, então!
Não demorou muito para vê-la mais à frente, parada com Candy no
colo.
Assim que Ana viu Carmencita, soltou uma exclamação de prazer,
saindo do meu abraço e indo para elas. Deixei-a ir, sabendo que precisava da
segurança que minha funcionária lhe dava.
Ambas se abraçaram, com Candy esmagada no meio, mas parecendo
muito feliz em estar naquela posição.
Parei atrás, vendo como em tão pouco tempo as duas já estavam
ligadas.
Até que percebi algo preso nos cabelos dela.
Cheguei mais perto, no mesmo momento em que afastou-se de
Carmencita, pegando Candy nas mãos e passando a observar seu corpinho
pequeno com excessivo cuidado, alisando suas patinhas miúdas.
Aproveitei que estava concentrada e estendi a mão, retirando de seus
cabelos um pequeno graveto. Olhei com atenção e vi outro menor, que
também retirei. Passei a mão nas pontas dos fios, sentindo vestígios de terra
que não tinha percebido antes.
Baixei minha mão, esmagando o graveto entre os dedos.
— Ela está machucada? É que ele jogou-a... – parou de falar, olhando
apreensiva para Carmencita – Ela está bem?
— Sí, Señorita Ana! Está bien!
— Tem certeza? – olhou para mim – Não seria melhor levá-la a um
veterinário?
Observei-a com atenção, encaixando cada uma das peças daquele
quebra-cabeças. A excessiva preocupação com Candy era outro fator
importante.
— E por que deveria levá-la ao veterinário? – perguntei
tranquilamente – Aconteceu algo com ela?
Ana apenas ergueu Candy até o nível dos seus olhos, fitando-a com
carinho. Terminou por dar-lhe um beijinho no alto da cabeça, encostando-a
depois no rosto.
— Umas crianças me empurraram sem querer enquanto corriam atrás
de uma bola e acabei por derrubar Candy de uma forma muito brusca no
chão. Depois nos separamos e agora estou preocupada que tenha sido
machucada seriamente na queda.
Parecia algo comum de acontecer em um parque movimentado como
aquele.
— Falarei com o veterinário quando chegarmos em casa. Agora é
melhor irmos embora.
Fomos para o estacionamento e durante todo o percurso Ana não
largou Candy em momento algum, permanecendo com ela nos braços.
Quando chegamos, pedi que a entregasse para Carmencita.
— Você vem comigo!
— Ela não pode vir junto?
— Não, porque precisa estar na caixa de transporte e meu carro só tem
espaço para duas pessoas.
— Oh! Tudo bem – entregou Candy para Carmencita, que
rapidamente entrou no carro e seguiu para casa.
Abracei-a e fomos até o Lamborghini, saindo rapidamente do parque.
Sentia urgência em vê-la segura dentro da minha casa, porque tinha algumas
providências a tomar.

***

Chegamos em casa todos juntos, mas foi difícil não pisar no


acelerador do carro e deixar Carmencita para trás. Ana fez o percurso em
silêncio, parecendo finalmente relaxar depois de tanta tensão.
Assim que ultrapassamos a porta de entrada, peguei-a no colo. Pensei
que fosse reclamar ou resistir, mas ela não disse nada, simplesmente me
abraçou, deixando-se levar.
Virei para Carmencita.
— Quero que deixe Candy em meu quarto. Depois venha para o de
Ana, ajudá-la no banho.
Segui direto para as escadas, chegando em seu quarto e colocando-a
no chão. Segurei-a pela cintura, mantendo seu corpo junto ao meu.
— Vou deixá-la com Carmencita, mas depois do banho gostaria de
conversar com você. Se estiver muito cansada e preferir repousar um pouco,
podemos falar mais tarde.
Ela pensou por um momento.
— Também quero conversar.
Fiquei aliviado ao ver que estava disposta a esclarecer tudo entre nós.
Precisávamos daquela conversa, porque não pretendia deixar que nada mais
nos separasse de agora em diante.
Baixei a cabeça e dei um beijo suave nos lábios cheios, sentindo como
entreabriu a boca para me receber, deixando que a invadisse com minha
língua.
Já não estávamos no meio do parque, onde tinha que me conter, por
isso puxei-a com sofreguidão, pressionando seu corpo macio no meu e
fazendo com que sentisse o tamanho do meu desejo por ela.
Toda a tensão das últimas horas, toda a ansiedade, raiva e ao mesmo
tempo desespero, explodiram de uma só vez em forma de paixão
avassaladora. Meu desejo cresceu vertiginosamente. O corpo macio, com os
seios amplos e as curvas sensuais do quadril moldando-se na minha ereção
tornaram impossível para mim esconder a excitação que me dominava.
Eu precisava dela!
— Ana – grunhi em sua boca macia – Quero tanto você!
Ela não disse nada, apenas me abraçou forte, abrindo mais a boca e me
deixando aprofundar nosso beijo.
Passei uma mão ansiosa pela curva do quadril, segurando sua nádega
para poder me pressionar melhor nela e assim aliviar um pouco a tensão
sexual que sentia. Mas aquilo só piorava a situação, porque me fazia querer
algo que sabia não poderia ter naquele momento.
Uma suave batida fez-se ouvir na porta.
— Dr. Daniel?
Parei de beijá-la, mas não a soltei de imediato, deixando que ficasse
ainda em meus braços.
Nos olhamos ainda dominados pelo desejo, mil promessas ficando por
dizer.
— Pode entrar – falei alto, aguardando que Carmencita chegasse perto
– Leve Ana e depois volte aqui que preciso falar-lhe rapidamente.
Aguardei enquanto ambas desapareciam pelo closet, tirando o celular
do bolso e apertando-o com força, enquanto andava pelo quarto.
Apenas alguns minutos depois, Carmencita voltou, parando à minha
frente.
— Quero que tente descobrir o que aconteceu com Ana no parque.
Mesmo que não falem a mesma língua, ainda assim acho que conseguirão
fazer-se entender um pouco.
— Posso tentar. Conseguimos nos comunicar bem durante o tempo
que ficamos sozinhas.
— Ótimo, porque Ana tem terra nos cabelos e preciso saber se
também tem nas roupas que está usando. Não acredito que tenha ficado assim
ao cair empurrada por algumas crianças – vi seu olhar de compreensão,
apesar de ter permanecido em silêncio – Quando a encontrei, não estava
vestida da forma como você disse. Parece ter mudado de aparência para
esconder-se de alguém e quero saber porquê fez isso e de quem fugia.
— Será que…
— Espero que não! – rugi de imediato, sem querer pensar naquela
possibilidade ou acabaria cometendo algum tipo de loucura.
Acho que deixei transparecer aquela súbita raiva assassina que me
dominou, porque Carmencita adiantou-se em minha direção com uma
expressão mais tranquila no rosto.
— Falarei com ela e vou tentar descobrir algo. Tenho certeza que nada
disso que pensamos aconteceu. Esta é uma experiência muito traumática para
qualquer mulher e apesar de assustada, a Srta. Ana não teve nenhuma reação
de alguém que sofreu uma agressão desse tipo.
Queria acreditar nela, em sua experiência e no fato de ser mulher,
sendo mais sensível para identificar nela qualquer sinal que indicasse isso.
Tinha certeza que com uma outra mulher e ainda mais confiando em
Carmencita, Ana contaria o que aconteceu. O que talvez não fizesse comigo.
— Vou tomar banho e fazer algumas ligações. Quando terminarem
aqui, avise-me!

***

Sentei na cama, com Candy deitada muito quieta no meio dela. Puxei-
a para mim com cuidado, pensando se estaria realmente machucada como
Ana tanto temia.
Peguei o celular e liguei para a Clínica Veterinária, que ficou de
enviar um dos sócios para examiná-la em casa.
— Daqui a pouco você terá sua consulta, Candy!
Ela não reagiu com a alegria de costume, mas lambeu meu queixo.
Respirei fundo, porque definitivamente Ana e Candy estiveram muito
assustadas dentro daquele parque.
Tomei banho e me vesti, ansioso para falar com Carmencita e saber o
que aconteceu. Tive que esperar cerca de quarenta minutos até uma batida na
porta anunciar sua chegada.
— Então, descobriu algo? – fui direto ao assunto, sem paciência para
rodeios.
— Pelo que entendi, ela viu Candy afastar-se e foi atrás, mas um
homem a pegou antes. A Srta. Ana conseguiu pegar Candy de volta, mas
depois perdeu-se de mim. Andaram muito, até ela perceber que estava no
caminho errado. Quando decidiu voltar, deu de cara com o mesmo homem,
que a tinha seguido durante todo o caminho.
Aquela raiva que eu estava controlando começou a crescer novamente,
porque já conseguia ver o desfecho daquela história, sem nem precisar ouvir
o resto.
— Ela descreveu algo dele?
Carmencita negou com a cabeça.
— Peço desculpas, mas nem tudo que ela disse eu consegui entender.
Não podia culpá-la por isso, mas precisava confirmar se era o mesmo
homem com quem falei.
— O que aconteceu depois?
Ela hesitou.
— Diga-me tudo, Carmencita! – exigi com autoridade.
Sabia que estava sendo duro, mas não admitiria que escondesse
absolutamente nada.
— O homem tirou Candy de seus braços e jogou-a com violência no
chão. Tenho certeza que foi por isso que ficou tão preocupada que estivesse
machucada – fez uma pausa, me deixando no limite de explodir de vez – O
que aconteceu depois eu não sei bem, porque neste ponto ela começou a
chorar muito e não entendi tudo que disse. Mas parece que o homem levou-a
para algum lugar e a Srta. Ana só conseguiu fugir porque atingiu-o com
alguma coisa.
Carmencita apontou a própria testa, provavelmente imitando o gesto
que Ana deve ter feito quando tentou comunicar-se com ela.
Era ele!
O homem com quem falei tentou estuprar Ana!
Maldição! Eu o tive bem à minha frente, a um passo de distância!
Me afastei dela, indo pegar meu celular na cama.
— Como ela está agora?
— Deixei-a dormindo. Acho que o estresse emocional do dia acabou
por esgotá-la totalmente. Fiquei ao seu lado o tempo que precisava para
sentir-se segura, relaxar e adormecer.
Concordei com a cabeça, aproveitando para dispensá-la logo depois.
— Fez bem. Pode ir agora. Daqui a pouco chegará alguém da Clínica
Veterinária para ver Candy, por isso leve-a para baixo. Descerei logo depois.
Ela fez o que pedi e quando fiquei sozinho, fiz a ligação que
precisava.
Depois do terceiro toque, ouvi do outro lado a voz do Chefe de
Segurança da empresa.
— Boa tarde, Dr. Daniel.
— Boa tarde, Jeremy. Você ainda tem aquele contato na polícia?
— Sim, claro que ainda tenho. O que o senhor precisa?

***

Depois que o Veterinário saiu, dizendo que Candy estava fisicamente


muito bem mas apenas traumatizada com tudo que passou, levei-a para o meu
quarto onde sabia que gostava de ficar. Queria dar-lhe a segurança necessária
para recuperar-se rápido.
Coloquei-a na cama, mas ela desceu para o chão, me olhando com
expressão triste.
— Mas o que se passa com você?
Ela foi até a porta de comunicação com o quarto de Ana, cheirando
por baixo e depois olhando novamente para mim.
Eu não acreditava nisso!
— Ana está dormindo, Candy. É melhor ficar aqui comigo.
Ela arranhou a patinha na madeira, choramingando.
Fui pegá-la no colo, afagando sua cabeça.
— O que é que vou fazer com você quando ela voltar ao Brasil?
Alguma coisa me dizia que íamos os dois nos consolar mutuamente.
— Não vá acordá-la, ouviu?
Fui até a porta e abri com cuidado, girando a chave sem fazer muito
barulho. Empurrei-a devagar, entrando e olhando o interior pouco iluminado.
A cama não ficava muito longe e vi o corpo de Ana debaixo das
cobertas. Estava deitada de lado, os cabelos espalhados no travesseiro.
Cheguei perto e coloquei Candy em cima, vendo como abanou o
rabinho e foi aconchegar-se junto ao peito dela.
Coloquei as mãos no quadril, olhando as duas na cama por um bom
tempo. Depois voltei ao meu quarto, deixando a porta entreaberta. Ia
trabalhar ali mesmo, assim estaria perto delas caso precisassem de algo.
Olhei para o rosto redondo do homem à minha frente e comecei a
enxergá-lo de outra forma. A aparência inicial de um pai de família comum
mudou drasticamente quando ele negou tê-la visto. Eu tinha certeza absoluta
que a reconheceu na foto.
Tentou afastar-se e ir embora, mas interceptei seu caminho, me
colocando à sua frente.
Ele parou e me olhou, parecendo incomodado com minha abordagem.
— Tem certeza que não a viu? – insisti, resolvendo testar se era
mesmo um cidadão honesto e pai de família – É minha namorada e não
conhece a cidade.
Frisei bem a palavra namorada, encarando-o firmemente. Observei seu
rosto, alerta a cada pequena mudança de expressão.
Ele olhou a qualidade da minha roupa e aparência. Pareceu ficar
subitamente inquieto e aquilo em vez de me acalmar, porque comprovava que
realmente a tinha visto, me deixou mais preocupado ainda. Tudo por conta de
um pequeno detalhe em seu rosto. Havia um arranhão em sua testa esquerda,
avermelhado o suficiente para mostrar que tinha recebido um golpe ali.
Aquilo elevou minhas desconfianças ao grau máximo, me deixando
tenso e com vontade de puxá-lo pela camisa e obrigá-lo a falar onde tinha
visto Ana e se havia feito algo contra ela.
Depois que me tornei um homem adulto, sempre consegui manter a
calma e o controle em situações de confronto, sem nunca precisar agredir
outro homem. Os tempos de brigas da adolescência ficaram para trás.
Mas pela primeira vez depois de muitos anos, tive instintos agressivos
só de imaginar que aquele homem tivesse machucado Ana de alguma forma.
— Sinto muito, mas não vi esta mulher – negou novamente.
Apertei o celular com força na mão, já pensando em detê-lo e chamar
a polícia para que fosse interrogado até que ela aparecesse.
— Daniel!
Paralisei na hora, quando ouvi a voz doce da minha Ana!
Senti toda a tensão ir embora quando virei em direção à mulher que
estava em pé, com um blusão cinza escondendo seu corpo e deixando ver
apenas uma barriga arredondada. Tinha o capuz cobrindo a cabeça, sendo
muito mais baixa do que eu esperava.
Era a adolescente grávida que estava no lago!!!
Mas era também a minha Ana!
Não tive como esconder a surpresa ao olhá-la vestida daquela forma,
mas também senti um alívio tão grande em ver diante de mim a mulher por
quem eu estava apaixonado, que esqueci tudo. Só pensei em segurá-la e
nunca mais largar.
Uma urgência terrível me fez caminhar resolutamente e vencer os
poucos passos que nos separavam. Abri os braços e ela correu para mim.
Soltei o ar com força quando enfim pude senti-la agarrada em minha
cintura, o rosto apoiado no peito. Começou a soluçar, apertando-se contra
meu corpo.
Minha ânsia era tanta que quase tirei-a do chão ao abraçá-la. Fui
dominado por uma emoção tão forte, que me deixou momentaneamente
desnorteado. Era um misto de desespero por tê-la perdido, alívio por
conseguir encontrá-la e vontade de nunca mais largá-la. Sentir aquele desejo
de posse por uma mulher era algo inédito para mim e ainda não sabia como ia
lidar com isso.
Seu corpo tremeu com o choro, os soluços fazendo-a parecer muito
mais frágil agora do que quando deixei-a em casa. Empurrei o capuz para
trás, soltando os cabelos longos e beijando o alto de sua cabeça.
Maldição!
Era impossível vê-la daquele jeito e não me sentir furioso com tudo
que aconteceu desde que desembarcou. Ana estava na minha terra e tinha
vindo para cá exclusivamente para me conhecer, mas até agora só teve
motivos para chorar.
Mesmo sabendo que não era minha culpa ela ter-se perdido no parque,
da forma como me sentia mal naquele momento até isso achava que era
responsabilidade minha. Puxei o ar com força para dentro do peito,
procurando controlar as emoções e trazendo-a para mais perto.
Segurei seu rosto e fiz que com me olhasse, limpando as lágrimas que
caíam. Ela passou a manga do blusão no rosto para secá-lo, me encarando, e
naquele momento tomei uma das decisões mais importantes da minha vida.
Faria de tudo para reconquistar Ana e ficar com ela, porque
definitivamente a mulher que estava à minha frente era muito importante para
mim. Esta que eu tinha nos braços era a Ana que conheci e por quem me
apaixonei. De forma nenhuma era uma garota de programa como o relatório
descreveu.
Restava saber se ela me aceitaria de volta, depois de tudo que
aconteceu naquele dia.
Mas eu pretendia lutar de todas as formas para reconquistá-la, porque
não era homem de desistir fácil do que queria para mim. Apesar de toda a
raiva que senti hoje depois de ler aquele relatório, o seu desaparecimento no
parque só me fez ter certeza absoluta que não podia ficar sem ela em minha
vida.
E eu ia começar a reconquistá-la naquele momento.
Baixei a cabeça e beijei seu rosto, apenas encostando os lábios na pele
macia, sentindo o quanto estava gelada do vento frio. Esperei para ver se ela
se afastaria de mim. Como não houve nenhuma reação negativa, me
aproximei mais do canto de sua boca, me forçando a não devorá-la
desesperadamente como gostaria realmente de fazer. Já sentia meu coração
acelerar, diante da expectativa daquele beijo.
Ana permaneceu quieta, a respiração mais ofegante fazendo-a
entreabrir os lábios, as mãos em minha cintura me apertando com ansiedade.
Com aquela reação positiva, já não precisava de mais nada para saber
que ela também queria.
Ana estava aceitando meu beijo!
Fiz o que minha paixão por ela pedia. Devorei sua boca como um
sedento, sentindo um prazer enorme com o seu calor e sabor. Apesar de
termos ficado separados por apenas algumas horas, só agora percebia a
saudade que senti de tê-la nos braços e poder beijar sua boca livremente,
como fiz quando a conheci.
Ela gemeu suavemente quando aprofundei nosso beijo, aumentando
ainda mais meu desejo.
Ana era doce, macia, quente e perfeita para mim. A única coisa nova
em tê-la nos braços agora, era como ficava bem mais baixa sem os saltos
altos, o que me forçava a inclinar mais para ela, ao mesmo tempo que erguia
seu corpo em direção ao meu.
Apertei-a em meus braços, querendo senti-la por completo, mas a
barreira por baixo do blusão me impediu.
Ergui meu rosto, segurando sua nuca e observando-a com atenção. Ela
abriu os olhos castanhos e os fixou em mim, me deixando ver lá dentro
aquele carinho de sempre, além do desejo que era um reflexo do meu.
Respirei fundo ao perceber que ainda poderia reconquistá-la,
esclarecendo tudo sobre o que aconteceu e, assim, seguirmos em frente
juntos.
Mas havia algo que precisava esclarecer naquele momento.
— O que aconteceu? Por que está vestida desse jeito?
Mal terminei de falar, sua expressão mudou, os olhos assustados
desviando-se dos meus para observar o parque em torno de onde estávamos.
Ela não respondeu, apenas apertou-se mais contra mim.
Continuei sustentando-a firmemente pela cintura com o outro braço,
sentindo o volume por baixo do blusão que a fazia parecer uma grávida.
Segui a direção do seu olhar, procurando o homem com quem estivera
conversando, mas sem achá-lo nas proximidades. Como já desconfiava, ele
devia ter ido embora assim que Ana surgiu, o que só aumentou minhas
suspeitas.
Era óbvio que ela andou disfarçada dentro do parque, porque não
estava vestida da forma como Carmencita falou. Isso significava que estava
escondendo-se ou fugindo de alguém e na minha cabeça só vinha a imagem
dele.
Mais uma vez respirei fundo para controlar a raiva que foi crescendo
dentro de mim, só de imaginar que ele tivesse realmente agredido Ana.
Voltei minha atenção para ela, segurando-a pelo queixo e analisando
seu rosto com cuidado. Não havia arranhões ou marcas.
Olhei rapidamente seu corpo, vendo que as roupas não estavam
rasgadas. Aparentemente Ana estava incólume.
— Você está bem?
— Sim, agora estou – foi a única coisa que respondeu, mas seu tom
era tão aliviado que senti ser verdade o que dizia.
Com relação a isso, ela não estava escondendo nada, mas ainda assim
aquele "agora estou" podia significar muita coisa.
— Onde está seu casaco? – procurei manter meu tom de voz neutro.
Ela vacilou ligeiramente, apertando a boca, antes de soltar as mãos da
minha cintura e enfiá-las por debaixo do blusão, retirando de lá seu casaco.
Tentei me controlar vendo aquilo, sem conseguir impedir o aumento
da tensão dentro de mim.
Os indícios ficavam maiores a cada minuto que passava e comecei a
sentir crescer cada vez mais a vontade de ir atrás daquele homem.
Ana tentou vestir o casaco sozinha, ainda calada, mas tirei-o de suas
mãos e ajudei-a, fechando o zíper até acima do busto para mantê-la protegida
do vento frio que soprava no parque.
Segurei seu queixo para fazê-la olhar para mim.
— Tudo bem. Não vou perguntar mais nada agora, porque tenho
urgência em levá-la para casa, mas quando estivermos lá precisaremos
conversar.
Ela não contestou o que eu disse e resolvi não perder mais tempo
naquele lugar.
— Vamos sair daqui!
Segurei sua mão, mantendo-a perto de mim, enquanto caminhávamos
para fora do parque.
Não podia deixar de olhar as várias pessoas que ainda estavam ali,
tentando encontrar o tal homem com quem havia falado antes.
Seguimos em silêncio por mais alguns metros até pegar meu celular e
ligar para Carmencita, que atendeu logo no primeiro toque.
— Estou com Ana! Prepare-se para irmos embora.
— Oh, Dr. Daniel! Que alívio! – ela parecia a ponto de chorar – Já
estou pronta. Quer que aguarde aqui ou no estacionamento?
O fluxo de pessoas aumentou ao nosso redor, quase todas saindo do
parque por conta do adiantado da hora. Ana segurou minha mão com mais
força, parecendo uma criança com medo de perder-se novamente dos pais.
Puxei-a, passando o braço por seus ombros, para que ficasse bem
perto de mim. Ela me abraçou pela cintura, grudando-se no meu corpo.
— Pode aguardar aí mesmo, já estamos chegando.
— Ficarei aqui, então!
Não demorou muito para vê-la mais à frente, parada com Candy no
colo.
Assim que Ana viu Carmencita, soltou uma exclamação de prazer,
saindo do meu abraço e indo para elas. Deixei-a ir, sabendo que precisava da
segurança que minha funcionária lhe dava.
Ambas se abraçaram, com Candy esmagada no meio, mas parecendo
muito feliz em estar naquela posição.
Parei atrás, vendo como em tão pouco tempo as duas já estavam
ligadas.
Até que percebi algo preso nos cabelos dela.
Cheguei mais perto, no mesmo momento em que afastou-se de
Carmencita, pegando Candy nas mãos e passando a observar seu corpinho
pequeno com excessivo cuidado, alisando suas patinhas miúdas.
Aproveitei que estava concentrada e estendi a mão, retirando de seus
cabelos um pequeno graveto. Olhei com atenção e vi outro menor, que
também retirei. Passei a mão nas pontas dos fios, sentindo vestígios de terra
que não tinha percebido antes.
Baixei minha mão, esmagando o graveto entre os dedos.
— Ela está machucada? É que ele jogou-a... – parou de falar, olhando
apreensiva para Carmencita – Ela está bem?
— Sí, Señorita Ana! Está bien!
— Tem certeza? – olhou para mim – Não seria melhor levá-la a um
veterinário?
Observei-a com atenção, encaixando cada uma das peças daquele
quebra-cabeças. A excessiva preocupação com Candy era outro fator
importante.
— E por que deveria levá-la ao veterinário? – perguntei
tranquilamente – Aconteceu algo com ela?
Ana apenas ergueu Candy até o nível dos seus olhos, fitando-a com
carinho. Terminou por dar-lhe um beijinho no alto da cabeça, encostando-a
depois no rosto.
— Umas crianças me empurraram sem querer enquanto corriam atrás
de uma bola e acabei por derrubar Candy de uma forma muito brusca no
chão. Depois nos separamos e agora estou preocupada que tenha sido
machucada seriamente na queda.
Parecia algo comum de acontecer em um parque movimentado como
aquele.
— Falarei com o veterinário quando chegarmos em casa. Agora é
melhor irmos embora.
Fomos para o estacionamento e durante todo o percurso Ana não
largou Candy em momento algum, permanecendo com ela nos braços.
Quando chegamos, pedi que a entregasse para Carmencita.
— Você vem comigo!
— Ela não pode vir junto?
— Não, porque precisa estar na caixa de transporte e meu carro só tem
espaço para duas pessoas.
— Oh! Tudo bem – entregou Candy para Carmencita, que
rapidamente entrou no carro e seguiu para casa.
Abracei-a e fomos até o Lamborghini, saindo rapidamente do parque.
Sentia urgência em vê-la segura dentro da minha casa, porque tinha algumas
providências a tomar.
***

Chegamos em casa todos juntos, mas foi difícil não pisar no


acelerador do carro e deixar Carmencita para trás. Ana fez o percurso em
silêncio, parecendo finalmente relaxar depois de tanta tensão.
Assim que ultrapassamos a porta de entrada, peguei-a no colo. Pensei
que fosse reclamar ou resistir, mas ela não disse nada, simplesmente me
abraçou, deixando-se levar.
Virei para Carmencita.
— Quero que deixe Candy em meu quarto. Depois venha para o de
Ana, ajudá-la no banho.
Segui direto para as escadas, chegando em seu quarto e colocando-a
no chão. Segurei-a pela cintura, mantendo seu corpo junto ao meu.
— Vou deixá-la com Carmencita, mas depois do banho gostaria de
conversar com você. Se estiver muito cansada e preferir repousar um pouco,
podemos falar mais tarde.
Ela pensou por um momento.
— Também quero conversar.
Fiquei aliviado ao ver que estava disposta a esclarecer tudo entre nós.
Precisávamos daquela conversa, porque não pretendia deixar que nada mais
nos separasse de agora em diante.
Baixei a cabeça e dei um beijo suave nos lábios cheios, sentindo como
entreabriu a boca para me receber, deixando que a invadisse com minha
língua.
Já não estávamos no meio do parque, onde tinha que me conter, por
isso puxei-a com sofreguidão, pressionando seu corpo macio no meu e
fazendo com que sentisse o tamanho do meu desejo por ela.
Toda a tensão das últimas horas, toda a ansiedade, raiva e ao mesmo
tempo desespero, explodiram de uma só vez em forma de paixão
avassaladora. Meu desejo cresceu vertiginosamente. O corpo macio, com os
seios amplos e as curvas sensuais do quadril moldando-se na minha ereção
tornaram impossível para mim esconder a excitação que me dominava.
Eu precisava dela!
— Ana – grunhi em sua boca macia – Quero tanto você!
Ela não disse nada, apenas me abraçou forte, abrindo mais a boca e me
deixando aprofundar nosso beijo.
Passei uma mão ansiosa pela curva do quadril, segurando sua nádega
para poder me pressionar melhor nela e assim aliviar um pouco a tensão
sexual que sentia. Mas aquilo só piorava a situação, porque me fazia querer
algo que sabia não poderia ter naquele momento.
Uma suave batida fez-se ouvir na porta.
— Dr. Daniel?
Parei de beijá-la, mas não a soltei de imediato, deixando que ficasse
ainda em meus braços.
Nos olhamos ainda dominados pelo desejo, mil promessas ficando por
dizer.
— Pode entrar – falei alto, aguardando que Carmencita chegasse perto
– Leve Ana e depois volte aqui que preciso falar-lhe rapidamente.
Aguardei enquanto ambas desapareciam pelo closet, tirando o celular
do bolso e apertando-o com força, enquanto andava pelo quarto.
Apenas alguns minutos depois, Carmencita voltou, parando à minha
frente.
— Quero que tente descobrir o que aconteceu com Ana no parque.
Mesmo que não falem a mesma língua, ainda assim acho que conseguirão
fazer-se entender um pouco.
— Posso tentar. Conseguimos nos comunicar bem durante o tempo
que ficamos sozinhas.
— Ótimo, porque Ana tem terra nos cabelos e preciso saber se
também tem nas roupas que está usando. Não acredito que tenha ficado assim
ao cair empurrada por algumas crianças – vi seu olhar de compreensão,
apesar de ter permanecido em silêncio – Quando a encontrei, não estava
vestida da forma como você disse. Parece ter mudado de aparência para
esconder-se de alguém e quero saber porquê fez isso e de quem fugia.
— Será que…
— Espero que não! – rugi de imediato, sem querer pensar naquela
possibilidade ou acabaria cometendo algum tipo de loucura.
Acho que deixei transparecer aquela súbita raiva assassina que me
dominou, porque Carmencita adiantou-se em minha direção com uma
expressão mais tranquila no rosto.
— Falarei com ela e vou tentar descobrir algo. Tenho certeza que nada
disso que pensamos aconteceu. Esta é uma experiência muito traumática para
qualquer mulher e apesar de assustada, a Srta. Ana não teve nenhuma reação
de alguém que sofreu uma agressão desse tipo.
Queria acreditar nela, em sua experiência e no fato de ser mulher,
sendo mais sensível para identificar nela qualquer sinal que indicasse isso.
Tinha certeza que com uma outra mulher e ainda mais confiando em
Carmencita, Ana contaria o que aconteceu. O que talvez não fizesse comigo.
— Vou tomar banho e fazer algumas ligações. Quando terminarem
aqui, avise-me!

***
Sentei na cama, com Candy deitada muito quieta no meio dela. Puxei-
a para mim com cuidado, pensando se estaria realmente machucada como
Ana tanto temia.
Peguei o celular e liguei para a Clínica Veterinária, que ficou de
enviar um dos sócios para examiná-la em casa.
— Daqui a pouco você terá sua consulta, Candy!
Ela não reagiu com a alegria de costume, mas lambeu meu queixo.
Respirei fundo, porque definitivamente Ana e Candy estiveram muito
assustadas dentro daquele parque.
Tomei banho e me vesti, ansioso para falar com Carmencita e saber o
que aconteceu. Tive que esperar cerca de quarenta minutos até uma batida na
porta anunciar sua chegada.
— Então, descobriu algo? – fui direto ao assunto, sem paciência para
rodeios.
— Pelo que entendi, ela viu Candy afastar-se e foi atrás, mas um
homem a pegou antes. A Srta. Ana conseguiu pegar Candy de volta, mas
depois perdeu-se de mim. Andaram muito, até ela perceber que estava no
caminho errado. Quando decidiu voltar, deu de cara com o mesmo homem,
que a tinha seguido durante todo o caminho.
Aquela raiva que eu estava controlando começou a crescer novamente,
porque já conseguia ver o desfecho daquela história, sem nem precisar ouvir
o resto.
— Ela descreveu algo dele?
Carmencita negou com a cabeça.
— Peço desculpas, mas nem tudo que ela disse eu consegui entender.
Não podia culpá-la por isso, mas precisava confirmar se era o mesmo
homem com quem falei.
— O que aconteceu depois?
Ela hesitou.
— Diga-me tudo, Carmencita! – exigi com autoridade.
Sabia que estava sendo duro, mas não admitiria que escondesse
absolutamente nada.
— O homem tirou Candy de seus braços e jogou-a com violência no
chão. Tenho certeza que foi por isso que ficou tão preocupada que estivesse
machucada – fez uma pausa, me deixando no limite de explodir de vez – O
que aconteceu depois eu não sei bem, porque neste ponto ela começou a
chorar muito e não entendi tudo que disse. Mas parece que o homem levou-a
para algum lugar e a Srta. Ana só conseguiu fugir porque atingiu-o com
alguma coisa.
Carmencita apontou a própria testa, provavelmente imitando o gesto
que Ana deve ter feito quando tentou comunicar-se com ela.
Era ele!
O homem com quem falei tentou estuprar Ana!
Maldição! Eu o tive bem à minha frente, a um passo de distância!
Me afastei dela, indo pegar meu celular na cama.
— Como ela está agora?
— Deixei-a dormindo. Acho que o estresse emocional do dia acabou
por esgotá-la totalmente. Fiquei ao seu lado o tempo que precisava para
sentir-se segura, relaxar e adormecer.
Concordei com a cabeça, aproveitando para dispensá-la logo depois.
— Fez bem. Pode ir agora. Daqui a pouco chegará alguém da Clínica
Veterinária para ver Candy, por isso leve-a para baixo. Descerei logo depois.
Ela fez o que pedi e quando fiquei sozinho, fiz a ligação que
precisava.
Depois do terceiro toque, ouvi do outro lado a voz do Chefe de
Segurança da empresa.
— Boa tarde, Dr. Daniel.
— Boa tarde, Jeremy. Você ainda tem aquele contato na polícia?
— Sim, claro que ainda tenho. O que o senhor precisa?

***

Depois que o Veterinário saiu, dizendo que Candy estava fisicamente


muito bem mas apenas traumatizada com tudo que passou, levei-a para o meu
quarto onde sabia que gostava de ficar. Queria dar-lhe a segurança necessária
para recuperar-se rápido.
Coloquei-a na cama, mas ela desceu para o chão, me olhando com
expressão triste.
— Mas o que se passa com você?
Ela foi até a porta de comunicação com o quarto de Ana, cheirando
por baixo e depois olhando novamente para mim.
Eu não acreditava nisso!
— Ana está dormindo, Candy. É melhor ficar aqui comigo.
Ela arranhou a patinha na madeira, choramingando.
Fui pegá-la no colo, afagando sua cabeça.
— O que é que vou fazer com você quando ela voltar ao Brasil?
Alguma coisa me dizia que íamos os dois nos consolar mutuamente.
— Não vá acordá-la, ouviu?
Fui até a porta e abri com cuidado, girando a chave sem fazer muito
barulho. Empurrei-a devagar, entrando e olhando o interior pouco iluminado.
A cama não ficava muito longe e vi o corpo de Ana debaixo das
cobertas. Estava deitada de lado, os cabelos espalhados no travesseiro.
Cheguei perto e coloquei Candy em cima, vendo como abanou o
rabinho e foi aconchegar-se junto ao peito dela.
Coloquei as mãos no quadril, olhando as duas na cama por um bom
tempo. Depois voltei ao meu quarto, deixando a porta entreaberta. Ia
trabalhar ali mesmo, assim estaria perto delas caso precisassem de algo.
CAPÍTULO 23

Ana
Me sentia no limbo, como se não estivesse nem lá, nem cá. Flutuava
num espaço desconhecido, onde ouvia ao longe uma suave música tocando.
Tentei sair daquele torpor, mas o cansaço era tanto que não conseguia sequer
me mover.
Fiz um esforço enorme para mexer o braço, sentindo algo quente e
macio perto dele. Abri os olhos devagar e só então percebi que estava no
quarto da casa de Daniel, com Candy deitada ao meu lado, o corpinho
encostado em mim.
Olhei-a com carinho, vendo que dormia tranquilamente.
A música continuou a soar no ambiente e percebi que ela não fazia
parte do meu sonho, mas era real. Demorei apenas mais alguns segundos até
perceber que era o meu celular.
Bia!
Levantei rápido, até parar de repente ao sentir meu corpo todo
dolorido. Sentia como se tivesse sido quebrada em mil pedaços, porque tudo
doía. Nem quis lembrar o motivo de me sentir assim, apenas levantei e fui até
a bolsa jogada na poltrona, abrindo e pegando o celular.
Atendi rápido, ansiosa para falar com ela.
— Bia!
— Aninha! Meus Deus, até que enfim! – sua voz estava aliviada, mas
também chorosa – Oh meu Deus, muito obrigada!
Tive que escutá-la primeiro agradecer a Deus outras vezes, antes que
continuasse a falar comigo.
— Como estava preocupada com você! Achei que tinha acontecido
algo de ruim, porque liguei várias vezes e não atendia. Já ia fazer a ligação
para o outro número que também me ligou, mas estava desesperada para
tentar primeiro o seu. O que aconteceu? Você está bem? Conversou com
Daniel? Ele entendeu? Ai Ana fala alguma coisa pelo amor de Deus!
Senti as lágrimas subirem aos olhos só de ouvir sua voz ansiosa
tagarelando sem parar. Aquela era Bia, que não parava de falar quando estava
nervosa ou então ficava muda de vez. Era sempre um extremo ou outro.
Voltei para a cama, pois minhas pernas tremiam. Estava fraca e sem
forças para permanecer em pé. Sentei, encostando na cabeceira e puxando as
cobertas para me aquecer.
Candy acordou com minha movimentação e veio para perto.
Coloquei-a no colo, porque precisava dela.
— Agora estou bem, mas correu tudo muito mal aqui na casa do
Daniel!
Não consegui esconder minha voz de choro, porque me sentia ainda à
beira de um precipício, esperando que alguém estendesse a mão para me
ajudar a não cair de vez.
Apesar de Daniel me ter tratado como antes quando me encontrou no
parque, era difícil esquecer totalmente a vergonha que passei em sua casa. Na
verdade, a única coisa que tinha acontecido comigo desde que cheguei foi
passar vergonha por conta da minha dislexia. Primeiro por não saber ler
direito, depois por ser desmascarada em todas as minhas mentiras e, enfim,
por me perder no parque como uma criancinha de cinco anos.
Nem queria pensar que sua mudança de atitude estivesse sendo
motivada unicamente por sentir pena de mim.
— Correu tudo mal? Ele não quis aceitar suas explicações?
— Ele nem me deixou explicar nada! Mas também nem precisava de
explicação, porque Daniel já sabia de tudo!
— Como assim já sabia de tudo? Sabia do quê, pelo amor de Deus?
Ele não tinha como saber de nada! – sua voz ficou mais ansiosa ainda.
Senti as lágrimas caindo pelo rosto, ao lembrar a humilhação no
escritório.
— Ele descobriu todas as mentiras que inventamos e me atirou tudo à
cara, sem piedade nenhuma. Nunca fui tão humilhada na minha vida! Senti
como se estivesse na escola novamente, com a professora me mandando ler
na frente de toda a turma e eu sem conseguir entender nada que estava no
papel.
Afastei Candy para o lado e dobrei as pernas, trazendo meus joelhos
para cima e começando a chorar.
— Bia! Foi horrível!
— Aninha, não chora! – ela fungou do outro lado, emocionada – Não
chora, por favor! Homem nenhum merece isso! Você é tão linda, tão doce e
carinhosa. Vai conseguir alguém melhor.
Ouvir aquilo só me fez chorar mais ainda.
— Mas eu queria Daniel! Foi por ele que me apaixonei e não por
outro!
Bia praguejou do outro lado da linha contra todos os homens cegos e
imbecis do mundo. Até ficar em um silêncio estranho, enquanto eu ainda
fungava, limpando as lágrimas.
— Como ele soube de tudo sem que você contasse? – perguntou
repentinamente – Não é o que estou pensando, é?
— Se o que você está pensando é um detetive investigando minha
vida, foi isso mesmo o que ele fez.
— Filho da mãe! Ele fez isso?
— Fez – confirmei, puxando mais os joelhos contra o peito – Daniel
tinha um relatório completo sobre mim. Não sei como conseguiram descobrir
tanta coisa, mas até minha vida escolar estava lá. Tem o acidente com meu
pai e como ficou tetraplégico, o divórcio, nossa mudança de casa. Ele agora
sabe onde moro, que não faço faculdade, não falo inglês, não leio nada e sou
uma burra!
— Não diga isso de si mesma! – me repreendeu imediatamente –
Você não é isso! Vou matar o Daniel quando o ver de novo!
— Mas é a verdade! Não consegui ler nem uma linha quando Richard
colocou o relatório na minha frente.
— Richard? Que Richard?
— Um amigo de Daniel que parece ter trazido o relatório e estava
presente na hora – fechei os olhos, sem querer lembrar da expressão de
desprezo dele – Foi horrível!
— E os dois confrontaram você com o relatório? Eu não acredito que
Daniel fez isto – estava enraivecida, porque eu conhecia aquele seu tom de
voz – O que mais ele fez? Nem me diga que foi ignorante com você ou
agrediu-a de alguma forma.
— Não! Não houve nada disso, apesar de ter ficado furioso, gritar e
xingar alto dentro do escritório. Disse que teria ficado comigo mesmo que
fosse uma favelada, mas não admitia que tivesse mentido para ele durante
todo aquele tempo. Nunca imaginei vê-lo daquela forma! Daniel foi sempre
tão calmo e controlado comigo.
Ela ouviu tudo em silêncio e pareceu estar analisando com atenção
tudo que eu dizia.
— Então ele só ficou puto da vida com as mentiras e possesso como
um homem traído?
Pensei por um momento.
— Sim, exatamente isso.
— Bom, mas essa atitude é até compreensível diante da situação. Eu
também ficaria irada com Jack se descobrisse que mentiu depois de tantos
meses. Mas onde está a humilhação que falou? O que ele fez para deixá-la
sentindo-se assim?
— Não foi ele. Foi o tal do Richard! Me tratou como se fosse uma
golpista qualquer e me olhava sempre com um desprezo tão grande. Disse
que eu não tinha cultura para estar ao lado de Daniel, porque nem sabia ler.
Tenho certeza que falou outras coisas horríveis também. Me senti um lixo
naquela hora.
— Que homem nojento e desprezível esse Richard! É um grande filho
da puta, isso sim!
Bia saiu desferindo uma série de insultos contra ele, descarregando
toda sua raiva.
— E Daniel não fez nada? Deixou que tratasse você desta forma?
— Eles discutiram algo em inglês, mas não sei o que disseram!
Naquela hora me senti tão humilhada que nem sequer pensei direito. Só sei
que Daniel estava furioso, mas não sei se era comigo, com Richard ou com os
dois ao mesmo tempo.
— É impossível um homem olhar para você e não ver o quanto é linda
e delicada. Este Richard deve ser um mal-amado horroroso e fracassado no
amor. Garanto!
— Não era só isso! O relatório dizia que faço programas no Brasil.
Alguém no trabalho disse que só mantenho meu emprego porque tenho um
caso com o Diretor do Hospital e que também recebo homens em casa!
— O quê?! Mas que merda é esta, Ana? Quem disse isso de você?
Não, não responda porque já sei! Só pode ter sido a invejosa da Luisa!
Aquela cobra venenosa!
— Acha que foi ela?
— Tenho certeza! Ela nunca gostou de você!
Me surpreendi demais quando ouvi aquilo.
— É sério? Não sabia! Porque nunca me disse?
— Porque a Luisa não gosta de ninguém, exceto de si mesma! É
ambiciosa e tenho certeza que quem queria ter um caso com um dos Diretores
era ela!
— Pode não ter sido ela. É coincidência demais.
— Mas tenho certeza que os boatos sobre isso foi ela quem começou!
— Então tem boatos dizendo isso de mim?
— Ai, Aninha! Desculpa nunca ter dito nada, mas tem sim. Já discuti
com Luisa sobre isso e ameacei levá-la ao Recursos Humanos. Pensei que
tivesse sido suficiente para calar sua boca, mas já vi que não foi. Você já
tinha problemas demais com o tio e acabei por não contar nada. Mas não
vamos falar disso agora, por favor! O que preciso saber é se Daniel acreditou
nesta mentira. Não, também não responda isso, porque é claro que ele
acreditou ou você não estaria chorando desta forma – escutei-a respirando
fundo para tentar controlar a raiva – Ah, eu só queria estar aí na hora para
dizer umas boas verdades para Daniel e este amigo idiota dele. Você é a
mulher mais doce que conheço na vida e Daniel jamais deveria ter feito isso.
Vou tirá-la daí imediatamente! Foi ele quem me ligou do outro número?
— Foi. Eu estava muito nervosa e não consegui completar a ligação!
Ela fez silêncio novamente e eu sabia que estava pensando.
— Ele descobriu que você é disléxica?
— Não! Não tinha referência nenhuma disso no relatório, nem quero
que Daniel saiba de nada! Seria humilhação demais para mim. Já basta não
ter conseguido ler na frente dele e ainda ficar perdida hoje no parque.
— Perdida no parque? Você perdeu-se? – falou alto, a voz esganiçada.
— Não só me perdi como quase fui estuprada por um homem horrível
que me arrastou para o meio dos matos. Nem sei como consegui escapar
daquilo. Nunca vivi nada tão assustador. Na verdade, esta viagem nem chega
perto das férias românticas que eu imaginava.
— Oh meu Deus! O tio vai me matar quando souber disso! Ia ser bem
merecido para mim, porque a culpa de tudo é minha mesmo! Sou uma
péssima amiga! Olhe só a enrascada que meti você! Pelo menos disse a
Daniel que fui eu quem inventei aquelas coisas no perfil?
— Falei mas ele não acreditou em mim. Disse que estava jogando a
culpa em você porque não queria assumir o que fiz.
— Sinceramente, eu esperava mais de Daniel! – bufou com raiva –
Vou falar com Jack e Ashley para ver como poderemos trazê-la para cá.
Estamos na casa de seus pais e quero você aqui comigo!
— Quando acha que poderão vir?
— Ainda não sei! Mas tentarei que seja ainda hoje. Aguarde que
ligarei daqui a pouco para confirmar.

***

Daniel
Fechei o relatório de Londres que havia recebido no dia anterior e abri
o relatório seguinte, quando ouvi uma música suave invadindo o quarto.
Fez-se silêncio, até que a mesma música voltou a tocar e percebi que
vinha do quarto de Ana.
Só podia ser o celular dela, o que significava que era Bia retornando
as várias ligações que fizemos. Peguei meu celular, vendo que não havia nada
nele.
Com certeza aquela ligação ia acordar Ana e me preocupei que isso
acontecesse antes que estivesse totalmente recuperada do trauma que passou
no parque. Também não queria que falasse com Bia, pois provavelmente isso
resultaria na sua saída da minha casa, coisa que agora queria evitar a todo
custo.
A música enfim parou pela segunda vez e fiquei torcendo para que Bia
desistisse e ligasse para mim. Mas logo depois voltou a tocar novamente, me
fazendo apertar os lábios com irritação.
Levantei e fui em direção à porta de comunicação, disposto a ligar
para Bia depois daquela terceira tentativa, assim impediria que continuasse
ligando e acordasse Ana.
— Bia!
Droga!
Era tarde demais. Ana acordou.
Ia me afastar e voltar para o trabalho quando ouvi sua voz embargada
pelo choro.
— Agora estou bem, mas correu tudo mal comigo aqui na casa de
Daniel! Ele nem me deixou explicar nada! Mas também nem precisava de
explicação, porque Daniel já sabia de tudo!
Fechei os olhos com impaciência, certo que aquela conversa só ia
afastá-la mais ainda de mim. Queria poder arrancar-lhe o celular e pedir que
viesse conversar comigo antes de falar com a amiga.
Ela continuou, me fazendo sentir mal por estar escondido ouvindo
tudo.
— Ele descobriu todas as mentiras que inventamos e me atirou tudo à
cara, sem piedade nenhuma. Nunca fui tão humilhada na minha vida! Senti
como se estivesse na escola novamente, com a professora me mandando ler
na frente de toda a turma e eu sem conseguir entender nada que estava no
papel. Foi horrível!
Ouvir aquilo só confirmou o que já havia percebido no escritório. Que
Ana tinha realmente dificuldades na leitura. Só não conseguia imaginar como
uma garota de vinte e três anos chegava nesta idade com uma deficiência tão
séria na sua educação. Ler e escrever eram as primeiras coisas que uma
criança aprendia na escola.
A cada minuto que passava tinha mais certeza que havia algo estranho
naquela situação. Algo que não passava apenas por uma falha na educação ou
desinteresse pessoal dela em estudar. Ana falava com muita tristeza para ser
algo decorrente de preguiça. Havia muito mais ali e eu ia descobrir o que era.
Lembrei da forma dura como Richard colocou o relatório à sua frente.
Com as dificuldades que ela agora admitia possuir, deve ter sentido um medo
paralisante na hora. Sem dúvida alguma Bia ficaria revoltada comigo e a
tiraria imediatamente dali quando soubesse tudo que aconteceu.
Segurei a maçaneta com força, dividido entre continuar ouvindo ou
fechar a porta, dando-lhe privacidade para falar. Nunca precisei ficar
escondido ouvindo a conversa de ninguém e me sentia péssimo por não
conseguir agir da forma correta.
Mas se eu estava decidido a lutar por Ana, precisava saber tudo o que
resultaria dali ou não teria como reconquistá-la. Seu tempo em Nova York
era muito pouco, quando ainda tínhamos coisas demais para viver juntos.
Jamais imaginei que um dia perderia o controle daquele jeito por
causa de uma mulher. Quantos namoros já tive e que terminei friamente, sem
grandes dramas. Mas com ela tudo era diferente. Tudo me tocava de uma
forma muito mais profunda e minhas reações eram surpreendentes até para
mim mesmo.
Algo me dizia que Ana veio para mudar completamente minha vida,
porque com ela fiz coisas e tive atitudes que antes reprovaria nos outros.
Senti emoções descontroladas a ponto de agir irracionalmente, algo que
condenaria duramente em outras épocas.
As duas continuaram conversando até que algo chamou minha
atenção, me deixando intrigado.
— Não! Não tinha referência nenhuma disso no relatório, nem quero
que Daniel saiba nada! Seria humilhação demais para mim. Já basta não ter
conseguido ler na frente dele e ainda ficar perdida hoje no parque.
Então faltava alguma coisa no relatório que ela não queria que eu
soubesse.
Só podiam ser as dívidas que Richard mencionou. Gostei de saber que
ela não queria que eu tomasse conhecimento disso por sentir vergonha da sua
situação. Seria decepcionante se o motivo de me esconder as dívidas fosse
outro, como conseguir alguma vantagem financeira através de mim, que era o
que Richard afirmava.
Aguardei que falasse algo sobre o que aconteceu enquanto esteve
perdida, porque este era outro assunto que eu precisava ver esclarecido.
Não precisei esperar muito.
— Não só me perdi como quase fui estuprada por um homem horrível
que me arrastou para o meio dos matos. Nem sei como consegui escapar
daquilo. Nunca vivi nada tão assustador. Na verdade, esta viagem está sendo
tudo menos as férias românticas que eu imaginava.
Comecei a andar nervosamente em frente à porta, ao ter a confirmação
que ela quase foi estuprada naquela tarde. Senti a raiva tomando conta de
mim, por ter tido aquele homem à minha frente e não ter quebrado sua cara.
Isso sem falar no sentimento de culpa por ter falhado em mantê-la em
segurança, porque aquilo era minha responsabilidade.
Acompanhei o restante da conversa, até ouvir as últimas palavras de
Ana, que fizeram meu coração bater mais forte e uma decisão imediata tomar
conta de mim.
— Quando acha que poderão vir buscar-me?
Fiquei na expectativa da resposta, mas a única que veio me deixou
insatisfeito.
— Certo! Vou aguardar sua ligação!
Alguns segundos de silêncio, antes de ouvir sua voz novamente, desta
vez falando com Candy.
— Docinho. Vou ter que ir embora, mas saiba que amo muito você e
vou sentir sua falta.
Apertei a maçaneta com mais força ainda, fechando a porta com
cuidado para não fazer barulho.
Dei meia volta, peguei meu celular e me afastei para dentro do quarto,
marcando o número de Bia. Aguardei que atendesse, mas a ligação caiu após
chamar várias vezes.
Insisti mais duas vezes sem receber resposta. Aquilo só confirmou a
suspeita que tinha dela estar revoltada e determinada a tirar a amiga de lá. Só
que para isso acontecer teria que passar por cima de mim.
Desisti de tentar ligar e saí do quarto, seguindo pelo corredor até a
porta de Ana. Bati e aguardei, ouvindo sua movimentação lá dentro.
— Quem é? – a voz soou bem próxima à porta.
— Sou eu, Ana. Vim ver se já estava acordada, porque queria
conversar com você.
Houve um breve silêncio, me deixando ansioso por sua resposta.
— Pode aguardar só um pouco, por favor? Preciso lavar o rosto e
trocar de roupa.
— Vou aguardar no meu quarto, que tem a porta ao lado do seu. Basta
bater que sairei para irmos à sala.
Não pretendia levá-la tão cedo ao meu escritório novamente.
— Tudo bem.

***

Uma discreta batida soou na minha porta cerca de dez minutos depois,
tempo demais para a urgência que tinha em falar com ela.
Abri e encontrei-a parada à minha frente, sua beleza me atingindo em
cheio. Estava de salto baixo e fiquei novamente seduzido pela mulher
atraente que era. Procurei controlar a vontade de abraçá-la com ímpeto e
trazê-la para dentro, fechando a porta e amando-a como merecia ser amada.
Tinha certeza que era algo que ela estava precisando da mesma forma
que eu. E aquela necessidade não era algo que surgira agora, mas que
arrastava-se há meses, desde a primeira vez que nos vimos pelo Skype.
Sem poder fazer o que realmente queria, saí do quarto e estendi a mão.
— Vamos?
Ana colocou a sua na minha e segurei-a com firmeza, sentindo o
prazer de tocá-la. Olhamos um para o outro, ambos sentindo aquela atração
que nos ligava tão intimamente. Não resisti de subir a mão por seu braço, até
chegar as costas e alcançar seus cabelos soltos.
Quando dei por mim, já estava abraçando-a com ansiedade. Ana não
ofereceu nenhuma resistência e no segundo seguinte já me envolvia pelo
pescoço.
Nossas bocas se procuraram com sofreguidão.
O impacto de sentir seus lábios macios, suas curvas acentuadas e o
calor do seu corpo me fez gemer de prazer. Devorei-a, sugando e sorvendo o
seu sabor.
Desci a mão ao longo das suas costas e apoiei-a na base da coluna,
pressionando-a de encontro a mim, a excitação me fazendo endurecer
rapidamente.
Eu a queria e muito! Já tínhamos sofrido demais e o tempo corria
impiedosamente, diminuindo os dias que ainda restavam para estarmos
juntos.
Apertei os braços ao redor de sua cintura e suspendia-a, tirando seus
pés do chão. Recuei para trás, entrando novamente em meu quarto e fechando
a porta, sem parar um momento sequer de beijá-la.
— Dan? – ela ronronou em meus braços, ao perceber o que fazia.
Afastei a boca da sua apenas o suficiente para falar, baixando-a
suavemente ao chão.
— Já não aguento mais! Preciso de você! Estou apaixonado demais
para deixá-la ir embora. Quero que me perdoe por tudo que falei de errado,
por tudo que aconteceu hoje e me dê uma nova chance. Preciso que fique
comigo!
Voltei a beijá-la, deixando que sentisse a verdade de tudo aquilo que
falei, ao moldar meu corpo ao dela com paixão. Senti os seios redondos e
macios pressionando meu peito, seu cheiro inebriante enlouquecendo meus
sentidos.
— Ana! – empurrei seus cabelos para trás, deixando o pescoço esguio
livre para ser beijado – Faça-me parar se não quiser que continue!
Senti seu corpo estremecer e uma exclamação de prazer escapar de sua
boca quando suguei a pele macia, minha barba roçando-a levemente. Ana
acariciou meus cabelos, as mãos suaves me fazendo prender a respiração com
a força da emoção que senti com um carinho tão simples.
— Oh, Dan! Eu também quero e preciso de você! – sussurrou no meu
ouvido, outro arquejo de satisfação escapando junto com as palavras.
Aquilo era tudo o que eu precisava ouvir.
Coisas demais tinham acontecido para nos separar e a partir daquele
momento em diante, nada do que dissessem ou fizessem contra Ana ficaria
impune, porque definitivamente ela era minha.
Peguei-a nos braços, levando no colo em direção à minha cama,
disposto a consolidar nosso namoro de vez.
CAPÍTULO 24

Daniel
Coloquei Ana na cama e deitei ao seu lado, me suspendendo
parcialmente sobre seu corpo. Segurei seu rosto com minhas mãos, baixando
a boca para beijá-la novamente, sentindo os lábios macios entreabrindo-se
sob os meus.
Ana me abraçou pela cintura e aquela sensação de tê-la em minha
cama, com o corpo debaixo do meu, me abalou profundamente, por ser algo
que passei noites e noites sonhando acontecer. Já nem conseguia lembrar
quantas foram as vezes que fiquei deitado na cama, falando com ela ao
telefone e querendo fazer exatamente o que estávamos na iminência de fazer
naquele momento.
Amor! Sim, amor.
Aos trinta e dois anos, pela primeira vez na minha vida podia dizer
que ia "fazer amor" com uma mulher. Já estava tão envolvido
emocionalmente com Ana, que não poderia fazer nada mais além de amor
com ela.
Aquilo não era apenas um ato sexual prazeroso, como sempre
aconteceu na minha vida. Com Ana, meu coração batia acelerado de uma
forma diferente, que nada tinha a ver com o prazer que o sexo puro
provocava.
Ter consciência daquilo causou um impacto impressionante dentro de
mim, porque não estava acostumado com sentimentos tão profundos assim.
Também não queria sequer analisar as repercussões que a palavra "amor"
podia trazer em minha vida.
Quando você nunca provou, aquilo não lhe fazia falta. Mas depois de
provar, sentir e viver algo tão forte e intenso como era Ana em minha vida,
perdê-la era o mesmo que me quebrar todo por dentro.
Tinha noção que ainda precisaria de um bom tempo para me
acostumar com aquilo e voltar a ter o controle sobre mim. Um controle que
Ana tirou desde que respondeu ao meu primeiro contato
no @mensagensdeamor.
Senti suas mãos apertando minhas costas, se familiarizando com meu
corpo. Subiram e desceram lentamente ao longo da coluna, aumentando
minha vontade de me livrar das roupas e deixá-la tocar minha pele nua, da
mesma forma como ansiava por tocar a dela.
À medida que explorava meu corpo daquela forma lenta e intensa, ela
ofegava e gemia baixinho em minha boca, retribuindo meu beijo com a
mesma ansiedade que a minha.
Coloquei um joelho entre suas pernas, separando-as, e subi mais sobre
seu corpo, cobrindo-a totalmente com o meu. Quando encaixei pela primeira
vez nossos corpos naquela posição, já estava totalmente endurecido e
excitado. A sensação foi tão forte que respirei fundo para controlar o desejo
louco de possuí-la.
Desci uma mão até sua coxa, suspendendo-a para me encaixar melhor
entre suas pernas, deixando que sentisse minha ereção pressionando-a com
toda sua potência. Já não havia como me conter e estava na hora de Ana
conhecer o tamanho do meu desejo.
Ela ofegou em meus braços, arqueando-se contra mim. Isso aumentou
o contato entre nossos corpos, fazendo-a apertar as mãos em minhas costas e
afundar os dedos no tecido da camisa.
— Daniel!
Havia surpresa e desejo em sua voz, meu nome transformando-se em
um gemido de prazer quando movi minha virilha contra a dela, pressionando
minha ereção entre suas pernas.
— Oh, Dan!
Já não tinha dúvida nenhuma que Ana estava tão excitada quanto eu e
prontamente levei a mão até sua cintura, subindo a blusa de lã macia que
vestia. Ao primeiro contato com sua pele, suspirei de prazer, sentindo na
ponta dos dedos como era macia. Continuei até alcançar a borda do sutiã,
levando comigo a blusa e suspendendo-a sobre seu corpo, até ver os seios
amplos presos nas taças da lingerie preta.
Puxei a blusa para cima, expondo-os totalmente para mim e então
enlouqueci de vez. Eram lindos! Tinham o tamanho que mais me agradavam,
exatamente da forma como imaginei que seriam quando a vi em pé pelo
Skype. Meus olhos devoraram aquela visão estonteante dos seios de Ana,
minha boca salivando com a vontade de sentir o seu sabor.
Chega de ter roupa entre nós!
Passei um braço por baixo de sua cintura e me ajoelhei na cama,
trazendo-a comigo. Quando Ana sentou-se, olhando com surpresa para mim,
puxei sua blusa para cima, tirando-a por sobre a cabeça.
Ela não me impediu, apenas permaneceu sentada, os olhos enevoados
de paixão me vendo jogar sua blusa para o lado. Os cabelos longos caíram
espalhados sobre seus ombros e busto, deixando-a mais linda do que já era.
Ana era extremamente sensual e depois de muito desejá-la à distância
sem poder tê-la, ela agora estava bem à minha frente e já não podia controlar
a força do meu desejo.
— Ana! Você é mais linda do que imaginei! – estranhei a rouquidão
da minha voz, as palavras escapando sem nem sentir.
Estava totalmente abalado por sua beleza. Uma beleza que não era
fabricada por clínicas de estética e cirurgias, mas completamente natural.
Ela não disse nada, apenas arregalou os olhos quando observou meus
movimentos para tirar minha camisa, a surpresa transformando-se em
admiração e depois em desejo evidente quando fiquei de peito nu à sua
frente.
Ela entreabriu a boca, passando a língua nervosamente entre os lábios
carnudos e me fazendo explodir de excitação com aquele gesto. Olhou para
mim com um desejo tão grande que no mesmo segundo senti uma contração
forte na virilha, aumentando minha ereção.
Por um instante ficamos parados, nossos olhares fixos no corpo um do
outro, até que nos encaramos e aquele foi o momento em que me perdi
completamente em Ana. Não era fácil admitir para mim mesmo, mas estava
irremediavelmente apaixonado por ela, uma garota que era quase dez anos
mais nova do que eu, que morava em outro país e sequer falava o meu
idioma.
Mas nada daquilo parecia ter significado algum ou ser impedimento
para aquele sentimento que vinha crescendo dentro de mim, desde que vi sua
foto pela primeira vez.
Levei as mãos até suas costas e abri o fecho do sutiã, ouvindo seu
arfar de ansiedade quando sentiu-os livres. Surpreendentemente para mim,
Ana levou as mãos aos seios, segurando a peça solta diante deles.
Os seios que eu tanto queria ver, permaneceram parcialmente
escondidos dos meus olhos ávidos.
Aquela reação me fez parar, olhando-a com curiosidade.
— Não quer?
Ela pareceu hesitar rapidamente, mas depois confirmou.
— Quero sim. Apenas estou um pouco nervosa.
Lembrei que apenas poucas horas atrás ela quase tinha sido estuprada
e era normal que ficasse apreensiva com qualquer ato que fosse sexual.
Coloquei as mãos por cima das dela, sobre seus seios.
— Eu disse que podia me fazer parar se não quisesse continuar.
Poderá fazê-lo a qualquer momento, Ana. Pararei na hora – encarei-a
firmemente, dando-lhe segurança quanto àquilo.
Ela confirmou com a cabeça, mas reforçou com as palavras.
— Sei disso.
Envolvi suas mãos com as minhas, deixando meus dedos roçarem a
curva superior dos seios que tanto queria provar.
Olhei-a intensamente, deixando que visse todo meu desejo por ela.
— Mas não vou negar que quero ir até o fim e estou ansioso por isso.
Ana remexeu-se na cama, o olhar fugindo momentaneamente do meu,
até voltar a me encarar e baixar os braços, deixando o sutiã em minhas mãos.
Mesmo sendo um homem feito e experiente, me emocionei quando ela o fez,
por sentir ser um voto de confiança que depositava em mim.
Retirei a peça, vendo pela primeira vez os seios nus de Ana. Perfeitos,
firmes e redondos, com os mamilos de um rosa suave pedindo para serem
beijados.
Fiquei sem fôlego diante daquela visão, a respiração presa dentro do
peito.
— Meu Deus, Ana!
Foi a única coisa que consegui dizer antes de passar um braço ao redor
de sua cintura e deitá-la na cama, indo junto com ela. Meu peito encostou-se
nos seios macios, levando minha sanidade embora quando nossas peles
roçaram uma na outra.
— Oh, Dan! – ela exalou um suspiro de prazer com a sensação, os
braços envolvendo meu pescoço com força, num abraço mais do que
excitante.
Nos beijamos com uma nova ânsia, a paixão explodindo forte e sem
controle. Ana apertou os dedos em meus ombros, novamente explorando
minhas costas, braços e peito. Sabia que ela estava descobrindo o prazer de
tocar meu corpo e suas mãos só faziam me enlouquecer mais ainda.
Sempre soube que era uma mulher naturalmente carinhosa e isto
ficava mais visível ainda na forma como me tocava. Parecia nunca estar
satisfeita, necessitando cada vez mais sentir como era o meu corpo. Deixei
que explorasse tudo que quisesse, adorando a forma como suas mãos
aumentavam mais ainda o meu prazer.
Desci a boca para seu pescoço, deixando uma trilha de beijos no
caminho, à medida que chegava ao meu objetivo, que era saborear seus seios.
O cheiro da sua pele invadiu meus sentidos, estimulando mais ainda meu
desejo. Quando cheguei finalmente no primeiro mamilo, senti que estávamos
mais do que dominados pela paixão.
Havia uma sintonia perfeita de pele contra pele. Pela primeira vez, não
me sentia totalmente no controle da situação. Ao contrário, me sentia
vulnerável e muito perto de perder a luta contra o desejo que ela despertava
em mim sem esforço algum.
Ana soltou um arquejo quando introduzi seu mamilo em minha boca,
sugando e provando o seu sabor. Mergulhei meu rosto entre seus seios,
totalmente rendido à perfeição que eram para mim. Senti suas mãos deixarem
meus ombros e mergulharem em meus cabelos, enterrando-se neles. Agindo
assim, Ana me mantinha preso em seu busto, mostrando o quanto gostava dos
meus carinhos.
Eu os mordi levemente, deixando depois a barba roçar na pele
sensível.
— Dan! – ela gemeu roucamente, arqueando o corpo e fazendo o seio
entrar mais ainda em minha boca.
Oferecia-se sem pudor algum, na ânsia de satisfazer o desejo que
sentia.
Eu já estava enlouquecendo com a intensidade da resposta de Ana a
cada toque, carícia e beijo que lhe dava. Toda vez que sugava o mamilo
rosado, sentia uma contração na virilha aumentar o desejo de tomá-la por
completo. Sabia que Ana também estava pronta, pela forma como seu corpo
respondia imediatamente a cada estímulo.
Troquei de mamilo, dando atenção ao outro, cada vez mais
apaixonado por eles. Suguei, mordi e apertei-os levemente, tanto para o meu
prazer quanto para o dela. Sabia que minha barba poderia marcar a pele
sensível e branca, mas os suspiros que ela dava eram tão instintivos que tinha
certeza que a excitavam também.
Ana era espontânea demais no prazer que sentia, parecendo até
admirada com as sensações do próprio corpo, como se estivesse sentindo-as
pela primeira vez.
Depois de saciar toda minha vontade em seus seios, voltei à sua boca,
mergulhando a língua em seu interior quente e macio, desejando agora
saborear todo o resto do seu corpo.
— Ana. Ah, minha Ana. – grunhi em sua boca, maravilhado com a
intensidade com que ela devolvia meu beijo.
Suas mãos seguraram carinhosamente meu rosto, depois foram
mergulhar em meus cabelos, voltando para roçarem minha barba. Ana não
parava um minuto de me tocar onde podia, terminando por alisar meus
ombros, costas e braços. Tudo isso era um estímulo irresistível para meu
desejo, que crescia assustadoramente rápido.
Desci a mão até o zíper da sua calça, abrindo-o, ao mesmo tempo que
ouvia mais um gemido de expectativa dela. Soltei sua boca e me ergui o
suficiente para tirar a calça por suas pernas, vendo a calcinha delicada de
renda surgindo à medida que a despia.
Minha pulsação acelerou vertiginosamente quando meus olhos
bateram de frente com a beleza exuberante do seu corpo. Se ela estava
admirada com as sensações novas que parecia sentir comigo, eu podia dizer
que também estava admirado da mesma forma, porque tudo com Ana parecia
inexplicavelmente diferente e inédito para mim.
Em consideração ao seu nervosismo, deixei-a com a calcinha e fui me
ocupar em tirar rapidamente o restante da minha roupa, permanecendo só de
cueca. Se a tirasse agora, o estímulo seria maior e ficaria muito mais difícil
controlar meu desejo. Queria dar a Ana o prazer que merecia, antes que o
meu fosse satisfeito. Aquele tinha sido um dia difícil para ela e queria
compensá-la por tudo que passou.
Voltei a abraçá-la logo depois e desta vez o impacto de senti-la foi
muito maior, por estarmos quase totalmente nus.
Ana soltou uma exclamação tão intensa que levou minha resistência
ao chão.
— Oh, Dan! Como gosto de ficar assim com você!
Escutar aquilo só tornou mais difícil ainda conter a vontade imediata
de penetrá-la, principalmente quando deitei entre suas pernas abertas,
encaixando-nos com perfeição.
Um novo gemido de Ana e fechei os olhos, completamente dominado
pelo prazer de estar com ela.
— Ana! Acho que vou enlouquecer! Quero você mais do que tudo! –
mergulhei o rosto em seus cabelos, grunhindo apaixonadamente em seu
ouvido – Há muito tempo que desejo você para mim!
Não consegui prender por mais tempo aquela verdade dentro do peito.
Nunca fui de levar uma mulher para a cama e fazer declarações de espécie
alguma, mas com ela, simplesmente não conseguia ficar calado. As palavras
saíram por conta própria e sentia necessidade de dizer-lhe tudo isso.
Ana precisava saber como era forte o sentimento que tinha por ela.
— Eu também quero muito você! Muito mesmo! – sua resposta foi
imediata, seguida por um beijo quente e molhado em meu maxilar, o rosto
macio esfregando-se nele.
Já no limite do prazer, levei a mão para o meio de suas pernas,
sentindo na ponta dos dedos o tecido úmido da calcinha, que mostrava o grau
de sua excitação. Ela estava mais do que pronta para mim.
Agarrei com força a tira fina no quadril e puxei para baixo. Ela me
ajudou erguendo o quadril e retirei-a facilmente por suas pernas. Não resisti
em tocá-la intimamente, sentindo sua umidade e maciez entre os dedos.
— Ohh! Daniel! – jogou a cabeça para trás, erguendo os seios lindos
para cima ao sentir meu toque entre suas pernas.
Abaixei a cabeça e fui direto neles, abrindo a boca sobre um mamilo
já endurecido pela excitação. Bastou aqueles dois estímulos juntos para fazê-
la ficar ainda mais úmida e automaticamente abrir as pernas para mim.
Acariciei o botão já inchado pela excitação, sugando seu mamilo e
ouvindo os gemidos sensuais que emitia à medida que seu prazer crescia.
As mãos de Ana apertaram-se mais em meus ombros, ansiosa pelo
gozo. Soltei seu mamilo, continuei beijando sua barriga lisinha e fui descendo
até substituir os dedos por minha boca entre suas pernas.
Meus sentidos só conseguiam ver a mulher linda que ela era.
Ana tinha as curvas sinuosas e um corpo feito para derrubar um
homem na cama e enlouquecê-lo de paixão.
E sentir o seu gosto em minha boca fez exatamente isso comigo.
Enlouqueceu-me!
— Daniel, por favor! – gemeu alto quando segurei-a pelas nádegas e
provei novamente o seu cheiro e sabor.
Sua voz deixava transparecer a surpresa diante das sensações que lhe
provocava ao mergulhar minha boca entre suas pernas.
Ana parecia enlevada com tudo que sentia ao fazermos amor. Se fosse
outra mulher, eu diria que estava fingindo para me convencer que nunca
sentira com outro homem o que estava sentindo comigo. Mas como era Ana,
eu sabia que cada suspiro de surpresa e admiração era verdadeiro.
Ela estava, literalmente, vivendo tudo como se fosse a primeira vez,
mostrando um deslumbramento cativante. Nunca tive curiosidade em
perguntar sobre sua vida amorosa antes de mim, já que não tinha por hábito
valorizar uma mulher por isso. Para mim, outras qualidades eram mais
importantes.
No entanto, no caso de Ana, não restava dúvida que os namorados que
teve foram péssimos amantes, porque tinha certeza absoluta que ela estava
descobrindo sensações novas e desconhecidas comigo.
Continuei estimulando mais ainda seu prazer com a boca, ao mesmo
tempo que minha mão estimulava um mamilo sensível com os dedos. Sua
respiração foi ficando cada vez mais arfante, os seios subindo e descendo à
medida que perdia o fôlego com a tensão sexual que aumentava.
— Ah… Dan! – ronronou alto dentro do quarto – Como é bom!
Era bom e pretendia que ficasse ainda melhor para ela.
Senti seu gozo chegar quando enterrou as unhas em meus ombros, os
olhos fechados e a cabeça jogada para trás sobre o travesseiro. Estava linda!
Uma visão estimulante demais para um homem que já estava na borda de um
precipício chamado desejo.
Deixei que aproveitasse seu orgasmo, para só então pensar no meu
prazer, que já estava me tirando a razão completamente.
Me afastei dela e abri a gaveta da cabeceira, atrás de um preservativo.
Ana mal teve tempo de reagir, até me ver arrancar a cueca, deixando minha
ereção livre.
— Oh meu Deus! – exclamou em tom apreensivo quando olhou para
minha virilha.
Por um momento achei-a amedrontada e aquilo soou como um alerta
em minha cabeça enevoada pelo desejo. Sabia que à primeira vista
impressionava um pouco pelo tamanho, mais sempre recebi olhares de
admiração e desejo, nunca de apreensão ou medo. Mesmo achando estranha
sua reação, rasguei o lacre e coloquei o preservativo, voltando a abraçá-la
depois.
Procurei sua boca, deixando a paixão que sentia por ela vir à tona de
vez, num beijo ardente e voraz. Agora já não havia necessidade de nenhum
controle da minha parte.
Ana relaxou quando me sentiu devorar sua boca, deixando-se beijar e
correspondendo da mesma forma.
Ainda prendendo seus lábios aos meus, me posicionei sobre ela,
deslizando a ponta da ereção ao longo de toda sua umidade. Mal podia
esperar o momento de possuí-la e estar dentro dela.
Suspiramos e gememos juntos quando nossos corpos se tocaram tão
intimamente pela primeira vez. Segurei com firmeza uma de suas coxas,
fazendo com que cingisse minha cintura com as pernas.
— Ana – grunhi em sua boca – Estou apaixonado demais por você!
— Dan – meu nome saiu junto com um gemido de prazer, enquanto
me abraçava mais forte e se entregava totalmente a mim – Estou te amando
muito. Muito mesmo!
Ouvir aquelas palavras foi o suficiente para que perdesse o controle de
vez. Precisava fazê-la minha naquele momento, porque já não aguentava mais
esperar. Me sentia endurecer a ponto de explodir.
Aprofundei nosso beijo, sentindo Ana abrir a boca e me deixar invadi-
la com a língua, as mãos agarrando-se em meus cabelos com uma paixão
redobrada.
Cheguei à sua entrada e comecei a penetrá-la.
A primeira grande surpresa que tive foi sentir como de repente ela
agarrou-se com força em meus ombros, ficando extremamente tensa. A
segunda surpresa foi a resistência do corpo dela na hora da penetração, que
não cedeu à primeira investida. E por fim, sua exclamação de dor ao tentar
afastar o quadril do meu sem conseguir, por conta do meu peso em cima dela.
— Daniel!!! – gemeu em minha boca, continuando a tentar afastar-se
de mim e também me afastar dela.
Aconteceu tudo de uma só vez e apesar do desejo que sentia, consegui
parar a tempo de deflorar uma virgem sem estar preparado para aquilo,
porque agora já não tinha dúvida nenhuma de que era exatamente isso que
Ana era.
Uma virgem!!!
CAPÍTULO 25

Daniel
— Tem calma! Vou parar!
Afastei minha ereção do seu corpo, tirando meu peso de cima do seu
quadril. Assim dava o espaço que precisava para se acalmar.
Aquela foi a única coisa racional que consegui fazer no momento,
porque logo depois baixei a cabeça com um rosnado de frustração sexual
escapando da minha garganta. Nunca precisei refrear tanto meu desejo.
Mergulhei o rosto entre seus cabelos, respirando fundo várias vezes
para conter a excitação que ainda sentia, sem acreditar que aquilo estava
mesmo acontecendo.
Virgem!
Meu Deus. Ana era virgem!
Quando ia adivinhar isso? Nunca! Mesmo notando uma certa
vergonha e timidez dela na cama, achava que era apenas por ter pouca
experiência sexual.
Mas entre ter pouca experiência sexual e não ter experiência nenhuma,
havia uma distância enorme. E essa distância chamava-se virgindade.
Tentei me consolar dizendo que Ana era naturalmente tímida e tudo
isso, aliado ao trauma do que aconteceu no parque, contribuiu para que eu
não percebesse o óbvio.
Ainda tive a sanidade mental para pensar o que mais Ana traria de
novo em minha vida. Que outra experiência inédita, que jamais tinha vivido
antes, ela me faria passar.
O desejo de fazer amor com ela ainda era grande e estar com a ereção
perto de seu sexo úmido, não estava me ajudando em nada a manter o
controle.
Ela permanecia quieta debaixo de mim, mantendo as pernas ainda
suavemente ao redor do meu corpo, a respiração levemente ofegante. As
mãos antes crispadas em meus ombros, agora estavam pousadas em minhas
costas, os braços me envolvendo com força.
Ainda me sentia desnorteado, a mente trabalhando rapidamente com
aquela descoberta.
Tinha até medo de analisar o que estava acontecendo comigo, porque
uma emoção estranha começava a ganhar forma dentro do meu peito.
Não sabia como era possível um homem moderno, cosmopolita e
experiente como eu, que só se relacionara com mulheres também experientes
e vividas, estar agora sentindo-se satisfeito como um Neandertal por sua
namorada ser virgem.
Me sentia um verdadeiro homem das cavernas pelo prazer de ser o
primeiro homem da mulher por quem estava irremediavelmente apaixonado.
Respirei fundo para me controlar ao identificar aquele sentimento de
satisfação masculina, algo que era totalmente contrário ao que sempre fui,
porque para mim virgindade nunca foi um requisito necessário numa mulher.
Balancei a cabeça para afastar aquele pensamento, tentando trazer o
homem moderno de volta.
Ergui o quadril o suficiente para levar a mão à virilha e tirar o
preservativo, jogando-o no chão. Sem dúvida alguma, já não seria mais
necessário.
Com aquele leve movimento, pude sentir as curvas macias dela.
Quando voltei à posição que estava antes sobre o seu corpo, saí deslizando a
mão com possessividade ao longo da sua perna, coxa, cintura e costas,
trazendo-a para mais perto de mim.
Eu, que nunca fui possessivo com nenhuma de minhas antigas
namoradas, agora estava perdendo ferozmente a luta contra aquele sentimento
de posse que, a meu ver, era totalmente insano.
Eu não sou assim! Não vou agora me transformar em um homem com
visão medieval!
Balancei novamente a cabeça para clarear minha mente e voltar a
racionar normalmente.
Ainda não conseguia aceitar como fui confundir todos os indícios da
sua total falta de experiência sexual, com o trauma por conta da tentativa de
estupro. Se eu soubesse, jamais teria sido tão impetuoso e direto na hora de
penetrá-la.
Uma outra coisa mais séria ainda veio à minha mente.
Era aquele maldito relatório, que a tinha acusado de ser uma garota de
programa no Brasil. Mas que droga de investigação foi aquela?
Fiquei furioso com Richard, que teria muito que me explicar! Quase
perdi Ana por conta daquela investigação equivocada e alguém ia pagar por
isso!
Praguejei em inglês sem nem perceber, até ouvir sua voz insegura no
meu ouvido.
— Desculpa! Eu..eu não queria deixá-lo chateado por ter parado!
Encarei-a, vendo seu olhar angustiado diante da minha expressão
fechada.
— Não precisa pedir desculpas! – me apressei em tranquilizá-la – Está
tudo bem. Não estou chateado com você!
Ela negou com a cabeça.
— Eu..eu não p..pensei que ficaria tão tensa e ansi..osa.
Gaguejava nervosamente, me deixando surpreso com aquela reação,
porque nunca a tinha visto daquela forma.
— Não fique assim, por favor! – segurei seu rosto com uma das mãos,
acariciando a face macia.
– Eu..eu sinto.. sinto muito! – ela continuou rapidamente, parecendo
não ouvir o que eu disse e cobrindo o rosto com as mãos – Oh m..meu Deus!
Eu..eu nem consigo f..falar di...direito!
Apertei os braços em torno do seu corpo, abraçando-a com carinho.
Não podia deixar que continuasse sentindo-se culpada pelo que aconteceu,
quando a responsabilidade maior era minha por tê-la arrastado para o meu
quarto, sem sequer conversarmos sobre um monte de coisas que diziam
respeito a nós dois.
Deitei de costas sobre os travesseiros, apoiando sua cabeça em meu
peito.
— Tem calma. Já disse que está tudo bem. Combinamos que pararia
no momento que você quisesse e foi só isso o que aconteceu. Você recuou e
eu parei.
Ela tirou as mãos do rosto, mas escondeu-o no meu pescoço, evitando
olhar para mim.
Fiquei parado por um tempo, apenas sentindo o prazer de tê-la nos
braços, tentando me livrar da satisfação animal que ainda me dominava
depois da descoberta de sua virgindade.
Olhei a curva acentuada que a cintura fina fazia com o quadril,
destacando o volume arredondado das nádegas. As pernas bem torneadas e
longas enroscadas nas minhas. A púbis macia encostando-se em mim. Os
seios amplos esmagados no meu peito.
Não consegui evitar que meu corpo reagisse ao ver toda aquela beleza
colada em mim. Ana era linda demais. Sensual demais. Carinhosa demais
para ter chegado virgem aos vinte e três anos. Como isso era possível?
Nunca, mas nunca mesmo, imaginaria isso dela.
Aquele era mesmo o dia das surpresas e das descobertas, agradáveis e
desagradáveis.
Notei que ela estava cada vez mais constrangida e envergonhada.
Aquela timidez que eu já conhecia, pareceu vir com força total naquele
momento, porque não me encarou nem quando segurei seu queixo com
suavidade.
— Ana! Olha para mim.
Apenas negou com a cabeça.
— Tudo bem. Mas pelo menos diga por que não falou nada antes de
começarmos. Por que ficou calada durante todo este tempo em que estivemos
aqui?
Ela exalou o ar em um suspiro de tristeza.
— Pelo mesmo motivo que não falei todas as outras coisas.
As outras coisas eram as mentiras que me fizeram perder o controle no
escritório e mandá-la embora da minha casa como um louco. Sim, porque só
poderia estar louco ao abrir mão dela daquele jeito.
No momento em que aconteceu, me senti traído e possuído por uma
raiva incontrolável ao imaginá-la com outros homens. Agora que sabia da sua
virgindade, é que via o absurdo de tudo aquilo.
Mas que grande merda eu fiz!
Eu devia ter mesmo muita sorte na vida, porque consegui reverter a
situação a tempo e não perdê-la de vez. Os deuses estavam do meu lado,
porque agora eu a tinha em meus braços e nada ia separá-la de mim.
Prestei atenção em suas palavras.
O mesmo motivo.
"Algumas coisas que não lhe disse sobre o meu pai. Informações que
omiti por sentir vergonha."
Vergonha.
Deitei de lado e coloquei-a na mesma posição, ficando frente a frente
com ela. Procurei não olhar suas curvas sensuais quando puxei as cobertas da
cama, cobrindo-nos.
Afastei ligeiramente meu quadril, apenas o suficiente para não nos
tocarmos, porque agora pretendia esclarecer tudo com Ana.
Ficar tocando ou vendo seu corpo só ia estimular meu desejo
insatisfeito e desviar minha atenção daquela conversa que já tinha sido adiada
por muito tempo.
— Ana! Precisamos conversar.
Seus olhos ergueram-se lentamente, até fixarem-se nos meus.
— Chega de mentiras e coisas escondidas. Respeito seus motivos, mas
quero deixar bem claro que não precisava sentir vergonha de nada da sua
vida, pelo menos não comigo. Nem antes e muito menos agora – olhei
sugestivamente para a cama, deixando bem claro que já tínhamos um nível de
intimidade que dispensava qualquer vergonha – Quase nos separamos por
causa disso e não pretendo deixar que mais nada interfira em nosso namoro.
Me inclinei e beijei suavemente seus lábios.
— Vou começar esta conversa pedindo que me perdoe pelas palavras
duras que disse hoje de manhã. Também por ter feito aquela investigação e
permitido que Richard confrontasse você com o relatório – segurei seus
cabelos e alisei os fios sedosos – E mais do que tudo, quero que me perdoe
por tê-la mandado embora da minha casa.
Apertei os lábios, irritado comigo mesmo ao lembrar que cheguei ao
cúmulo de fazer isso.
Sua mão pousou no meio do meu peito. Era um gesto simples, mas
que me tocava fundo.
— Eu só perdoo se você também me perdoar – sua voz suave deixava
transparecer ansiedade quando fez aquele pedido – Sei que menti, que
inventei coisas e escondi fatos da minha vida para você, mas saiba que não
foi fácil para mim ter que fazer isso. Eu sofri por ter que fazê-lo. E quanto
mais o tempo passava, mais eu queria falar a verdade e não podia.
— E por que não podia? Nos últimos meses falamos todos os dias,
fosse por telefone, Skype ou mensagens. Não houve um único dia em que não
nos comunicássemos de alguma forma.
Ela fez um gesto com a cabeça como se eu não estivesse entendendo
nada.
— Eu menti sobre meu pai logo no segundo dia que falamos, quando
fizemos o Skype. Não tinha como desmentir imediatamente depois, porque
fiquei com medo que você ficasse chateado e desistisse de falar comigo. Eu
não queria que isso acontecesse e resolvi não arriscar, porque gostei muito de
você. Então optei por manter a mentira até que pudéssemos falar
pessoalmente.
Aquela admissão me fez perceber melhor suas atitudes,
principalmente quando disse que não quis arriscar porque gostou muito de
mim.
Até que ponto hoje eu não faria o mesmo para mantê-la ao meu lado?
Talvez não mentisse, mas tinha consciência que seria capaz de esconder-lhe
algumas coisas, caso isso me fizesse perdê-la.
Ana baixou os olhos, fugindo do meu olhar. Foi quando percebi que ia
dizer algo importante para ela.
– Achei que nesta altura, quando falássemos pessoalmente, você já me
conheceria a ponto de saber quem sou. Que estaria gostando de mim o
suficiente para ver que não fiz por maldade e que valia a pena ficar comigo
mesmo com minha dis... – hesitou ligeiramente antes de continuar – ...minhas
dificuldades.
— Dificuldade nenhuma teria importado para mim – falei com
firmeza, deixando isso bem claro para ela – Me importava apenas você, por
quem senti uma atração imediata e queria conhecer. Fiquei furioso porque fui
sincero com você desde o início e acreditava que também estaria sendo
sincera comigo.
Ana por fim me olhou com angústia e desespero.
— Dan, eu sinto muito! – vi vergonha na expressão do seu rosto –
Juro que disse a mim mesma que só esperaria até o dia que fosse me visitar
em Fortaleza, quando então contaria toda a verdade. Mas você adiou a
viagem e àquela altura eu já não tinha coragem de dizer por telefone que
havia mentido tanto para você. Então adiei a conversa para quando estivesse
em Nova York. Só não imaginava que estava investigando minha vida e
saberia tudo sem que fosse por mim.
Passou a mão no rosto, afastando nervosamente os cabelos para trás.
— Bom, no fim nada deu certo, como você já sabe.
Observei-a com atenção.
— Você sente vergonha do seu pai?
— Não! – olhou imediatamente para mim, a sinceridade estampada no
rosto – De jeito nenhum! Eu amo muito meu pai.
— Então porque todas aquelas mentiras sobre ele?
— Oh meu Deus! – ela apertou os lábios com força, o
constrangimento surgindo na expressão.
Percebi que tinha dificuldades em falar sobre aquilo, mas não podia
deixar que ainda restassem lacunas naquela história.
— Eu preciso saber de tudo!
Ela respirou fundo, parecendo tomar coragem para falar.
— Na época em que meu pai ficou tetraplégico, eu estava namorado
com um rapaz. Estava tudo bem entre nós dois até acontecer o acidente.
Posso resumir tudo dizendo que ele pulou fora quando viu que meu pai já não
era mais o mesmo, que nosso estilo de vida caiu drasticamente e já não
tínhamos como manter o mesmo status social de antes. Eu cuidava
praticamente sozinha do meu pai e tinha pouco tempo para namorarmos,
então ele me trocou por uma herdeira.
Ela parou de falar e me olhou fixamente, para só então continuar.
— Menti para você porque pensei que talvez fizesse o mesmo quando
soubesse das condições do meu pai. Não é fácil namorar com uma garota que
tem um pai dependente dela para tudo. Também aprendi da forma mais dura
que as pessoas valorizam demais o status e os bens materiais. Tudo é uma
questão de interesses e o egoísmo fala mais alto – vi a dor e a mágoa
tomarem conta dos seus olhos – Basta você perder tudo, para ver quem
realmente gosta de você. Para ver quem fica do seu lado e quem vai embora.
Em menos de um ano fui abandonada por meu namorado e minha mãe.
Respirei fundo para conter a revolta que senti ao ouvir seu desabafo e
por saber que aqueles dois tinham deixado uma garota de apenas dezenove
anos sozinha, com um pai dependente.
Sabia também que Ana tinha razão quando dizia que os interesses
materiais moviam grande parte das pessoas no mundo.
Fez-se um silêncio pesado no quarto depois de suas palavras.
Durante aquele tempo ficamos apenas olhando um para o outro.
— Você tem razão em tudo isso, mas enganou-se apenas em um
detalhe muito importante – juntei seus cabelos em minha mão, segurando-os
firmemente e aproximando meu rosto do dela – As pessoas não são todas
iguais e eu jamais deixaria uma garota sozinha numa situação dessas. Se
considerarmos que esta garota em questão fosse minha namorada, a mulher
que amo, então pode ter certeza absoluta que nunca, mas nunca mesmo,
deixaria de estar ao seu lado o tempo todo. E você é tudo isso para mim!
— Dan!
Sua exclamação de surpresa foi abafada pelo meu beijo, quando
puxei-a para mim com lençol e tudo, esmagando-a no meu peito.
Foda-se o mundo inteiro, porque eu jamais teria desistido dela por
conta do seu pai ou da situação financeira precária que tinha.
Ana gemeu em meus braços, nossos corpos moldando-se sem
reservas. Seu gemido era de alívio, mas que transformou-se em um ronronado
de prazer quando nossas peles voltaram a tocar-se de cima a baixo.
Nossos lábios devoravam-se com paixão, as línguas buscando-se
incessantemente. Já sentia falta do seu gosto, do calor e umidade do seu
corpo por inteiro.
Não, não havia mais nada no mundo que a afastasse de mim de agora
em diante.
Coloquei-a debaixo do meu corpo, me suspendendo sobre ela
enquanto ainda nos beijávamos. Mordi levemente a ponta do seu lábio
inferior, descendo pela linha do queixo até alcançar o pescoço esguio.
Seu gemido de prazer voltou a encher o quarto, quando coloquei uma
perna entre as dela, pressionando sua púbis. Ana instintivamente ergueu o
quadril, esfregando-se em minha coxa. Sentir aquele calor úmido me fez
voltar a endurecer rapidamente.
Alcancei seu ouvido e grunhi como um insano, ao sentir o busto
grande pressionando meu peito.
— Ana! Estou completamente apaixonado por seus seios – confessei
roucamente.
Me surpreendi quando ela segurou meus cabelos e fez pressão para
baixo, levando minha cabeça em direção a eles.
Quase enlouqueci de vez quando percebi que queria que os beijasse.
Senti um espasmo de excitação na virilha, já antecipando o prazer que
sentiria por tê-los em minha boca e também o prazer que daria para Ana.
Mergulhei neles sem restrição nenhuma, ouvindo-a arfar de satisfação
quando levei um mamilo túrgido à boca.
— Ai, Daniel! Adoro isso!
Sua respiração ofegante fazia subir e descer os seios fartos, à medida
que eu saciava minha vontade de prová-los. Suguei o mamilo rosado com
força, ouvindo seu arquejar de prazer, ao mesmo tempo que minha ereção
aumentava.
Desci a mão até seu sexo úmido, inserindo o dedo entre as dobras
macias. Queria descobrir até que ponto sentiria dor com a penetração.
Estimulei-a com carinho, percebendo o momento exato em que
separou mais as pernas para mim.
Abandonei os seios que eram a minha paixão e voltei aos seus lábios
entreabertos, beijando sua boca.
Ela me envolveu pelo pescoço, retribuindo o beijo com sofreguidão.
Continuei movimentando meu dedo, mantendo seu nível de excitação.
Afastei a boca de seus lábios macios, encostando a testa na dela.
— Você disse que se masturbava pensando em mim.
— Sim, Dan! Muitas vezes – sussurrou, os olhos ainda fechados pelo
prazer que sentia com meus carinhos.
— Mas nunca fez amor com um homem antes.
Ela abriu os olhos, fixando-os nos meus com vergonha.
Automaticamente fechou também as pernas, prendendo minha mão no meio
delas. Mesmo sem poder acariciá-la como antes, não a tirei, deixando que
ficasse lá.
— Pode parecer ingenuidade, mas fiquei com esperança que você não
percebesse nada.
Eu não podia falar pelos outros homens, se tinham ou não
sensibilidade suficiente para perceberem isso, mas para mim ficou muito
óbvio ver que ela era virgem.
— Impossível para mim não perceber. Apesar de ter notado que estava
envergonhada demais e tinha pouca experiência, só comprovei que era
virgem na hora da penetração. Mas não tenho dúvida quanto a isso.
Ela torceu o nariz e deu um suspiro de resignação quando falei de sua
virgindade.
Era a primeira vez que sua vida amorosa era assunto de nossas
conversas, porque antes nunca tive interesse de saber do seu passado.
Mas agora não havia como ignorar o assunto.
— Você gostava dele tanto assim?
Ela pareceu confusa com minha pergunta.
— Do meu ex-namorado?
— Sim. O que abandonou você por outra.
Um sorriso tranquilo curvou sua boca.
— Gostava dele, mas não era nada muito forte. Foi meu primeiro
namorado e tínhamos apenas alguns meses juntos.
Franzi a testa, intrigado com aquilo.
Como é que uma garota linda como ela teve o primeiro namorado aos
dezenove anos?
— Você não namorou antes dos dezenove?
Tentei esconder a surpresa que sentia com aquilo.
— Não.
— E nem depois dele?
— Também não – respondeu desconfiada, os olhos cautelosos.
Minha mente não parava de trabalhar procurando respostas, porque
agora, mais do que nunca, tinha certeza que havia acontecido algo muito
sério na vida de Ana, para que chegasse aos vinte e três anos virgem, mesmo
sendo linda do jeito que era, e sem conseguir ler nem escrever direito.
Faltava uma peça naquele quebra-cabeças, que eu ia procurar até
encontrar.
– Por que tudo isso?
Fitei seu rosto perfeito, evitando olhar para o corpo nu debaixo do
meu, para não ficar muito gritante o que ia falar depois.
— Você já se olhou no espelho? Como é que uma garota bonita como
você só tem um único namorado de poucos meses aos vinte e três anos? Tem
algo de errado com os brasileiros?
Ela passou um bom momento calada, sem contestar o que eu disse.
Incrivelmente, seus olhos ficaram tristes quando me encarou muito séria.
— Talvez tenha algo de errado comigo e não com eles.
Uma resposta enigmática, dita em voz baixa e sem entonação
nenhuma. Seus olhos estavam sem brilho, o rosto bonito com uma expressão
pesada e os lábios levemente contraídos. Tudo mostrava a tensão que tomou
conta dela com a minha pergunta.
Devolvi seu olhar com a mesma seriedade, porque desconfiava que
havia muitas coisas na vida de Ana que eu não sabia.
Estava me questionando agora se afinal aquele relatório de
investigação tinha algo de verdadeiro nele, como a parte que falava do seu
insucesso escolar e dos problemas de interação que tinha com os colegas,
vivendo isolada de todos.
Ela sabia que eu tinha conhecimento de tudo aquilo, porque sem
dúvida havia lido a versão em português do relatório.
— Não vejo nada de errado em você. Absolutamente nada – frisei bem
as palavras, para deixá-la saber minha opinião sobre o que estava escrito lá a
seu respeito.
— Tem certeza? Eu nunca vou ser uma mulher culta, fazendo
faculdade, falando fluentemente sua língua e com uma carreira brilhante pela
frente.
Notei a tristeza evidente em seu tom de voz, me dando a certeza que
Ana não teve uma formação adequada por motivos que fugiram ao seu
controle e não porque não quis.
— O que aconteceu com você na escola para ter estas deficiências na
sua educação?
Ela baixou o olhar e ficou calada por tanto tempo que pensei não fosse
responder.
— Não aconteceu nada.
Sim, aconteceu! Tinha certeza absoluta disso!
Resolvi ser o mais direto possível.
— Mesmo que você não saiba ler e escrever, você continua sendo a
mulher "perfeita" para mim!
Sua reação foi tão negativa que percebi de imediato que havia tocado
numa ferida dentro dela.
Ana soltou uma exclamação de vergonha e humilhação quando me
ouviu falar da sua incapacidade em ler e escrever, tentando afastar-se de mim.
Segurou meu pulso com força, querendo tirar minha mão do meio de suas
pernas. Quando percebeu que não ia conseguir, enfiou as unhas na minha
pele.
— Solta!
Tirei a mão, mas ergui o corpo inteiro sobre ela, prendendo-a na cama.
Não fiz pressão, mas também não abri espaço para que fugisse de mim.
— Calma, Ana!
Ela colocou as duas mãos no meu peito e empurrou, só para perceber
que não ia conseguir me fazer sair.
— Oh, mas que merda! – xingou, frustrada – Deixe-me sair daqui!
— Vou deixar, quando acalmar-se!
Ela cobriu o rosto com as mãos novamente, respirando fundo várias
vezes para controlar-se.
Procurei me controlar também, porque não ia deixar que esse assunto
fosse o motivo de mais uma separação entre nós.
Ficamos quietos por um momento, os corpos unidos mas sem nos
tocarmos com as mãos.
Algum tempo depois ela baixou os braços e olhou para mim, mas não
gostei nada da expressão derrotista que tinha no rosto.
— Ana!
— Seu amigo Richard tem razão. Eu não sou a mulher ideal para um
homem como você!
— Para, Ana! – rosnei, ficando com raiva só em ouvir o nome de
Richard e lembrar as merdas todas que ele falou dela – É melhor parar agora!
— Você precisa de alguém melhor, mais adequada ao seu nível
cultural e estilo de vida.
Quase não acreditei quando ouvi aquilo!
Segurei seu rosto com as duas mãos, encarando-a profundamente.
— Quem sabe o que eu preciso sou eu!! Quem sabe o que é melhor
para mim, sou eu! – rugi com voz enrouquecida de emoção, mas uma emoção
que vinha de um lugar dentro de mim que nem eu conhecia – Ninguém me
diz o que fazer, com quem ficar e quem amar. Apenas eu!!! E eu quero você!
Eu preciso de você! Eu escolho você!!
Explodi tudo de uma só vez, surpreendendo a mim mesmo com a
ferocidade com que falei aquelas palavras.
— Oh não, Dan! – balançou a cabeça em negativa várias vezes – Eu
só vou trazer vergonha para você! Todos vão dizer que sou uma mulher
bonita mas burra, que não sabe ler e escrever direito, como Richard disse.
Vão falar que você só está comigo por causa do meu rosto e corpo. E que eu
estou com você por conta do seu dinheiro. No fundo eu vou acabar parecendo
aquela garota de programa que o relatório falou!
Fucky!!
Vou matar Richard de porrada quando o ver de novo!
— Para com isso! Ninguém vai dizer isso de você, porque não vou
deixar! – retruquei de imediato, furioso que alguém se atrevesse a dizer
qualquer coisa contra ela – Ninguém tem nada a ver com a nossa vida e
Richard é um completo idiota quando se trata de julgar as mulheres. Nem
serve de exemplo para ninguém!
Alisei seu rosto com carinho, beijando cada pequeno pedaço de pele
macia.
— Jamais vou sentir vergonha de você! – grunhi quando cheguei aos
seus lábios.
Quando será que Ana ia perceber que eu estava irremediavelmente
apaixonado e agora já não dava mais para ficar sem ela?
— Estou pouco me lixando para o que todos dizem, pensam ou falam
de mim. E se falarem vai ser pelas costas, quando eu não estiver presente.
Tenho certeza que na minha frente todos ficarão calados e sorridentes, sem
dizerem nada contra você. Não vou deixar!
Beijei-a com voracidade e desespero, porque já não tinha mais como
negar a forte ligação que tinha com ela.
— Também não quero que vá e me deixe! – grunhi em sua boca –
Preciso que fique comigo!
— Oh Dan! – ouvi seu gemido de prazer quando sugou meu lábio
inferior com carinho, as unhas arranhando minha barba, os dentes mordendo
meu queixo – Também preciso de você!
Ana me enlouquecia com seus carinhos doces. Agora que sabia de sua
virgindade e total falta de experiência na cama, cada toque seu tinha um
significado diferente.
Fechei os olhos, deixando que me tocasse da forma que quisesse,
entendendo sua necessidade de explorar meu corpo com tanto cuidado e
atenção.
Segurei sua coxa por dentro para que abrisse as pernas para mim. Até
suspirei de prazer quando Ana acomodou-se melhor, separando-as
naturalmente e me deixando entrar no meio delas.
As pernas macias me rodearam e inspirei fundo quando as senti
roçando meu corpo.
Seus beijos desceram por meu maxilar, seguindo a linha da barba até
chegar à orelha, onde seus lábios macios causaram um verdadeiro abalo na
minha resistência.
Fiquei tão duro que até doeu, me fazendo gemer com um prazer
indescritível.
— Ana!! – rosnei, aproximando minha ereção contra ela até encostar
em sua umidade.
A sensação foi tão intensamente boa que recuei para trás, percebendo
que estava sem o preservativo.
— Você está tomando alguma coisa?
Ela não respondeu de imediato, parecendo com dificuldade de voltar à
realidade.
Vi a expressão confusa no seu rosto.
Como não sabia se usaria a palavra certa em português, coloquei a
mão em sua barriga.
– Gravidez. Está tomando algo? – depois de tudo que conversamos,
tinha quase certeza que a resposta seria não, mas ainda assim precisava
confirmar.
— Não. Não estou.
Tentei não analisar as emoções que senti com sua resposta. Voltei a
abrir a gaveta da cabeceira e retirar outro preservativo, jogando-o na cama.
A única coisa que pensei depois foi que, enfim, poderia amá-la
tranquilamente, da forma como ela merecia e do jeito que eu precisava.
Minha! Enfim Ana ia ser minha, com a certeza que antes de mim não
houve ninguém e que depois de mim, também não haveria.
Fosse algo Neandertal ou não, deixei vir à tona aquela satisfação
masculina de ser o primeiro e único homem da minha mulher.
CAPÍTULO 26

Daniel
Olhei para Ana deitada à minha frente e perdi literalmente o fôlego
diante da beleza que via diante de mim.
A pele clara, os longos cabelos espalhados no travesseiro, o olhar doce
e carinhoso fixo em mim, o rosto de uma beleza singular com a expressão
ansiosa, os seios rijos e fartos com os mamilos rosados pedindo para serem
beijados, a cintura fina, a barriga lisinha, as coxas torneadas e, por fim, as
pernas esguias presas entre as minhas.
Como resistir ao louco desejo de posse que me dominava? Nunca fui
homem de tremer diante de nada, mas pela primeira vez estremeci ao lembrar
que ela voltaria para o Brasil em poucos dias.
Nem queria pensar como ficaria sem ela ao meu lado em Nova York
ou como conseguiria manter minha sanidade sabendo-a longe de mim,
sozinha e com o pai doente em um país violento, onde não poderia cuidar
dela como queria.
Precisava resolver isso rapidamente antes da sua partida ou
enlouqueceria de preocupação e saudades.
Me debrucei sobre ela, uma mão em cada lado do seu corpo, até
alcançar sua boca e beijá-la com paixão. Ana me recebeu de braços abertos,
envolvendo logo meu pescoço e me apertando com ansiedade.
Segurei seus cabelos na mão, mantendo-a na posição que queria, e
deixei cair meu corpo totalmente sobre o dela. Mesmo sabendo o quanto era
bom senti-la colada em mim por inteiro, a intensidade daquela sensação me
pegou desprevenido, como se fosse a primeira vez que o fizesse.
Sentir os seios macios roçando meu peito, era um estímulo erótico
poderoso para mim.
Ana separou as pernas assim que ergui o quadril na intenção de
encaixar nossos corpos, me deixando entrar no meio delas com suavidade.
Nossos movimentos eram sincronizados, como se já tivéssemos feito amor
juntos várias vezes.
Certo de ter todo o tempo agora para amá-la com tranquilidade, me
irritei profundamente quando ouvi o telefone da casa tocar na cabeceira.
O som repentino que invadiu o quarto assustou Ana, fazendo-a soltar
uma exclamação de surpresa e me apertar com força.
— Calma! É só Carmencita! – falei com a voz ainda enrouquecida de
prazer, blasfemando mentalmente contra aquela interrupção indesejada.
Ela olhou rapidamente na direção do som, vendo o telefone com a luz
piscando. Fixou os olhos novamente em mim e blasfemei duas vezes mais
quando vi que Ana ainda tinha o olhar enevoado de paixão.
— Oh, desculpa! Só não esperava por isso e me assustei.
Sua respiração permanecia ofegante e nos olhamos com ansiedade mal
disfarçada.
Ela soltou os braços do meu pescoço para que eu pudesse atender, mas
fiquei na mesma posição por um bom tempo, esperando que o telefone
deixasse de tocar e pudéssemos continuar de onde paramos.
Olhei rapidamente para o relógio na cabeceira, vendo que ainda não
havia chegado a hora do jantar, quando certamente Carmencita nos chamaria.
— Não vai atender?
Ela pousou a mão no meu braço, me olhando com curiosidade.
— Ainda não.
Respirei fundo, tentando encontrar paciência para lidar com aquela
interrupção. A única coisa que queria naquele momento era voltar a fazer
amor com ela.
— E se for importante?
— Ela ligará de novo!
Mais três toques e fez-se silêncio no quarto.
Ana entreabriu os lábios em expectativa, o olhar preso no meu. Senti
seu arfar de excitação quando pressionei minha virilha nela, fazendo-a sentir
o quanto estava duro de excitação.
Numa sincronia perfeita, nossas bocas juntaram-se em um beijo
ardente. Introduzi minha língua em seu interior macio, gemendo alto com o
prazer que senti com sua entrega.
Ela apertou as mãos fortemente em meus bíceps e eu sabia que estava
deleitando-se com os músculos proeminentes dos meus braços. Tudo que eu
mais queria era senti-la apertando cada um dos músculos que eu tinha no
corpo, inclusive minha própria ereção.
Soltei sua boca e fui em busca dos seios que pareciam implorar por
meus beijos.
Quando os alcancei e rocei meu rosto neles, senti Ana sobressaltar-se
novamente quando o telefone voltou a tocar.
— Shit!!!
Desta vez xinguei alto e raivosamente. Abracei-a com força de
encontro ao peito, esticando a mão para apertar a tecla do viva-voz.
— Diga, Carmecita – falei bruscamente.
Sabia que ela não tinha culpa de nada, mas não pude evitar a dureza na
voz.
— Peço desculpas, Dr. Daniel – parecia realmente constrangida em
interromper, talvez adivinhando que estivéssemos juntos no meu quarto –
Mas é que tem um carro no portão aguardando para pegar a Srta. Ana. Como
não estou sabendo de nada, quis confirmar se posso deixá-los entrar.
Olhei surpreso para Ana, sentindo a raiva de ser interrompido explodir
em outra direção, porque ninguém ia levá-la da minha casa!
Não tinha dúvida nenhuma que só podia ser Bia quem estava lá fora. E
para ser ela, Ana sabia que viria!
Quando deixei meu endereço com Bia hoje de manhã, nunca pensei
que isso serviria para que tirasse Ana de mim em tão pouco tempo. Mas não
podia culpar ninguém, além de mim mesmo, pelo que estava acontecendo
agora.
Apertei-a mais em meus braços, olhando seu rosto e vendo a
expressão confusa por não conseguir entender o que falávamos em inglês.
Eu podia simplesmente dizer à Carmencita que não deixasse ninguém
entrar e esconder que vieram pegá-la, mas jamais faria isso. Ana precisava
confiar em mim e se agisse assim, perderia sua confiança.
— Vou falar com Ana e direi algo daqui a pouco. Enquanto isso, peça
que aguardem no portão.
Desliguei e me voltei para ela
— Vieram pegá-la – disse seriamente, aguardando sua reação.
Os olhos castanhos abriram-se, surpresos, quando ela apertou as mãos
que seguravam meus braços, uma expressão transtornada surgindo no rosto.
— Oh! Esqueci completamente disso! – sussurrou, passando a mão no
rosto, parecendo sentir-se culpada por não ter comentado nada comigo –
Conversei com Bia mais cedo e ela disse que falaria com Jack e Ashley para
me tirar daqui. Pediu para aguardar, que ligaria depois dizendo algo. Deve ser
ela lá fora!
Não gostei do aperto no peito que senti com a possibilidade dela
realmente sair da minha casa e ficar longe de mim.
— Você não vai! – respirei fundo para acalmar a pulsação acelerada,
disposto a tudo para impedir que fosse embora.
— Não queria ir, mas também não posso simplesmente ficar, depois
de contar tudo para Bia e ela vir me buscar – parecia confusa com a situação
– Oh meu Deus!
Seu desespero bateu forte dentro de mim, porque também estava
tentando controlar o mesmo desespero, minimamente preparado para perdê-la
naquele momento, justo quando estávamos bem novamente.
— Você não vai! – repeti decidido.
Há minutos atrás estávamos quase fazendo amor e agora ela estava em
vias de ser obrigada a me deixar? Sem chance alguma de deixar isso
acontecer.
— Dan, não posso fazer Bia sair de outra cidade e vir me pegar tão
longe assim, para depois mandá-la embora porque decidi ficar. Ela está
pedindo favores à Jack e Ashley por minha causa.
Levantei rápido da cama, pegando a boxer e vestindo sobre meu corpo
ainda endurecido pelos momentos de prazer com Ana.
Shit!!
— Você não vai sair daqui! – explodi de vez, a frustração sexual
falando por mim quando quase gritei dentro do quarto.
Virei para ela diante do seu silêncio e dei de cara com a imagem mais
sensual que já tinha visto.
Ana estava sentada na cama com uma expressão surpresa no rosto, os
cabelos assanhados e revoltos espalhando-se sobre os ombros. Mas o que me
abalou profundamente foi ver o busto cheio totalmente exposto bem à minha
frente. Não consegui desviar os olhos deles, vendo como estavam levemente
marcados por minha barba. Os mamilos inchados parecendo pedir meus
beijos.
Acho que ela percebeu meu olhar faminto, porque ficou envergonhada
e pegou a blusa que estava jogada sobre a cama, colocando-a em frente ao
corpo para cobrir-se.
Não adiantou de nada, por que só escondeu muito pouco e o resultado
final ficou mais sensual ainda.
Senti a conhecida contração na virilha, sabendo que estava jogando
sobre o meu corpo mais uma boa dose de frustração sexual.
Limpei a garganta e suavizei a voz.
— Vista-se. Vamos descer juntos e explicar tudo à Bia.
— Eu sinto muito! Devia ter comentado sobre isso antes de entrar no
seu quarto. Mas aconteceu tudo tão rápido que esqueci.
Balancei a cabeça em negativa, pois tinha certeza absoluta que mesmo
se tivesse tido conhecimento do fato quando a encontrei parada à minha
porta, ainda assim teria feito a mesma coisa que fiz. Só que estaria duas vezes
mais decidido e haveria apenas uma única diferença no resultado final. Eu
não teria parado em momento algum!
— Nada me impediria de trazê-la ao meu quarto e amar você! – fui
direto no que disse, para que ela não ficasse se culpando por isso também –
Agora vista-se, antes que mude de ideia e volte a deitar nesta cama para
terminar o que começamos. Não terei problema algum de deixar seja quem
for esperando lá fora.
Só não ia dizer-lhe que minha maior vontade naquele momento era
incorporar a cem por cento o homem das cavernas e impedi-la
categoricamente de sair da minha casa. Não estava muito disposto a ser
diplomático e ouvir ninguém.
Mas sabia que Ana estava dividida entre ficar comigo ou ir com a
amiga e não podia tirar seu direito de escolha. Precisava então convencê-la a
ficar.
Fui até a cama e sentei ao seu lado.
— Sei que ela é sua amiga e vieram juntas nesta viagem à Nova York
– segurei seu rosto com as duas mãos, olhando-a seriamente – Não posso
impedi-la de estar com Bia, mas também não posso deixar que vá embora
com ela, quando temos tão pouco tempo para ficarmos juntos. Diga que quer
ficar e lutarei para mantê-la aqui, onde estará em segurança comigo.
Ela soltou a blusa e me abraçou com força, tirando meu fôlego ao
sentir seus seios chocarem direto com meu peito.
Fechei os olhos, contendo um gemido de prazer ao abraçá-la junto a
mim.
— Quero ficar com você!
Exalei o ar com força quando ouvi sua voz suave sussurrando aquelas
palavras no meu ouvido. Nem tinha percebido que havia prendido a
respiração enquanto aguardava sua resposta.
Consegui! Fodam-se todos, porque eu consegui!
Uma satisfação animal correu por meu corpo e me senti mais forte do
que nunca para lutar por ela.
Segurei-a pela nuca e fui atrás dos seus lábios, selando aquele
momento com um beijo duro e possessivo, marcando-a como minha.
— Ana! – gemi em sua boca – Estou louco por você!
Sua resposta foi abrir mais a boca e sugar meus lábios com carinho, as
mãos macias entrando em meus cabelos e me prendendo com suavidade.
Ainda ficamos alguns instantes juntos até que a afastei ligeiramente.
— Vista-se e vamos descer.
Ela confirmou com a cabeça, mas não se soltou de imediato,
permanecendo em meus braços.
— Quero primeiro falar sozinha com Bia, para explicar tudo com
calma. Depois eu chamo você e conversamos os três.
Não queria isso, porque temia que Bia convencesse Ana a ir embora,
caso estivessem sozinhas.
— Não! Quero estar presente.
— Você vai estar! Só que não acho justo fazê-la sair de onde está, sem
que nós duas tenhamos um tempo para conversarmos sozinhas. Bia é uma
grande amiga. Não se esqueça que ela viajou hoje de manhã e está voltando
agora no fim da tarde só para me ajudar.
Desviei o olhar para o lado, tentando pensar com a razão e não com o
coração. Precisava voltar a ser um advogado e não um homem apaixonado.
— Tudo bem! Mas não demore muito a me chamar para falar com ela
– Afastei seus cabelos do rosto – Posso pedir à Carmencita que leve Bia ao
meu escritório? Sei que as lembranças de lá não são boas para você, mas
terão privacidade.
Um sorriso meigo curvou seus lábios.
— Pode sim! O que aconteceu está perdoado, lembra?
Engoli em seco quando ouvi aquilo, um súbito nó surgindo na
garganta com suas palavras.
Abracei-a apertado, encostando o rosto em seus cabelos e fechando os
olhos de emoção.
— Sim. Está tudo perdoado.
Ana deu um beijo leve no meu rosto, acariciando meus cabelos.
Depois afastou-se para pegar suas peças de roupa espalhadas na cama.
Olhei fascinado enquanto colocava o sutiã e vestia a calcinha delicada.
Resolvi ligar para Carmencita, antes que caísse na tentação de
permanecer no quarto e só sair no dia seguinte, quando já tivesse saciado
parte do meu desejo por ela.
Respirei fundo e fui até o telefone.
— Sim, Dr. Daniel.
— Pode deixar o carro entrar e levar Bia, amiga de Ana, para o
escritório.

***

Ana
Senti a maciez da cama de Daniel quando me deitou, suspendendo
depois o corpo grande sobre o meu. Vi seu rosto forte e sério, onde os olhos
brilhavam com uma emoção tão intensa que aqueceu meu coração.
Não demorou muito para sentir sua boca sobre a minha, as mãos
segurando meu rosto com carinho e ao mesmo tempo possessividade.
Não resisti!
De jeito nenhum conseguiria resistir a Daniel!
Já desejava ardentemente aquele beijo, aquele abraço, seu corpo
pressionando-se sobre o meu com uma intimidade excitante.
Rodeei sua cintura com meus braços, sentindo um prazer enorme em
moldar aquela carne dura com as mãos. Saí subindo e descendo ao longo das
costas fortes, me deliciando com o ondular dos músculos tensos.
Só em fazer aquilo, em conhecer seu corpo e por fim tocá-lo com total
liberdade, já fiquei completamente molhada, uma palpitação entre as pernas
que só aumentava minha expectativa em fazer amor com ele.
Mas junto com aquela expectativa veio também a ansiedade, pois não
queria que percebesse minhas deficiências na cama, minha falta de jeito,
minha inexperiência. Seria outra vergonha para mim ter que admitir que tinha
chegado virgem aos vinte e três anos, quando nesta idade a grande maioria
das mulheres já tinha alguma experiência sexual. Não ter sido amada por um
homem até aquela idade só acrescentava mais um ponto à minha lista de
fracassos na vida.
Senti seu joelho separando minhas pernas e não consegui conter um
gemido surpreso de prazer quando encaixou-se entre elas, unindo-nos
intimamente.
Quando sua ereção me pressionou pela primeira vez, tive a sensação
que havia encontrado o meu lugar, que havia chegado ao meu destino e
estava segura.
Daniel inspirou fundo ao esfregar-se em mim, mostrando que estava
tão abalado quanto eu com aquele momento, me deixando sentir seu tamanho
e dureza plenamente.
Oh meu Deus! Que sensação boa!
Era totalmente diferente de tudo o que eu pensava.
Estando ali agora, naquela posição e na iminência de fazer amor com
ele, é que percebi que meu namoro com Bruno não passou de um namorico
de adolescência sem grandes arroubos de paixão.
Estar com um homem mais velho, maduro e experiente era outra
coisa! Me sentia literalmente em boas mãos, como se não precisasse fazer
nada mais além de aproveitar o melhor que um homem podia proporcionar a
uma mulher na cama.
Assim era Daniel!
E me entreguei totalmente, porque sentia que estar entre seus braços
era estar completa. Ali eu não me sentia disléxica, incapaz ou cheia de
limitações.
Nos braços de Daniel, eu era simplesmente Ana, uma mulher
consciente do seu corpo, das suas qualidades e das fortes emoções que
despertava naquele homem magnífico.
Amada, desejada e valorizada. Era como eu me sentia agora.
Arqueei meu corpo de encontro ao dele, aumentando o contato com
sua ereção. Daniel movimentou a virilha entre minhas pernas, me
estimulando de uma forma tão íntima que me surpreendi com a força do
prazer que senti.
Sua mão entrou por baixo da minha blusa e o impacto do calor do seu
toque me fez gemer de novo. Continuou me beijando, a barba macia roçando
meu rosto à medida que nossas bocas se buscavam numa ânsia louca.
Inspirei fundo quando vi o brilho de admiração em seus olhos ao
fitarem meus seios. Ele parecia totalmente deslumbrado, sem conseguir
esconder a vontade que tinha de os provar.
Nunca me senti tão mulher na vida!
Seu olhar devorador me deixou numa expectativa excitante, ao mesmo
tempo que fez com que me sentisse poderosa e autoconfiante.
E que sentimento bom era a autoconfiança, meu Deus!
Eu, que sempre fui insegura, que sempre me senti inferior aos outros,
quase não conseguia acreditar naquilo.
Daniel puxou minha blusa e então parou, me olhando com expressão
embevecida.
Pela primeira vez na vida tive orgulho da minha beleza. Eu, que
sempre odiei ser bonita, por associar minha beleza à burrice e às humilhações
que passei, agora me sentia feliz com isso só por causa de Daniel.
Ainda devorando meu corpo com o olhar apaixonado, ele tirou a
camisa, desnudando o peito amplo bem à minha frente, me deixando ver uma
linha de pelos macios ao longo do abdômen, que desapareciam dentro da
calça.
Meu Deus! Tudo isto é meu?
Permanecemos em estado de choque mútuo por breves segundos, cada
um olhando o corpo do outro com avidez e paixão. Quando por fim nos
encaramos, vi o desejo intenso no seu olhar, mas também uma determinação
ferrenha, que mostrava bem o homem decidido que era. Percebi então, que
enfim, havia chegado o grande momento da entrega e não haveria mais volta
possível.
Daniel me queria ferozmente e consumaria aquele desejo agora.
Apreensão e expectativa me dominaram de vez, me fazendo inspirar
fundo.
Como num flash, lembrei dos conselhos de Bia para não transar com
ele. Mas lembrei também da minha solidão, das carências que guardava
dentro de mim, do abandono que sempre fui vítima e das limitações que
tinha. Coisas demais e que me fizeram viver num deserto emocional durante
anos.
Olhei-o e só conseguia ver à minha frente o homem sério, apaixonado
e louco de desejo por mim. Um homem que tive a sorte grande de conhecer
em um Site de Relacionamento.
Seu peito amplo encostou-se em meus seios e fui ao céu com a
sensação. O contato da boca em meu mamilo me fez arquejar de prazer. O
calor, a umidade de sua boca e língua, que começaram a sugá-lo com avidez,
fizeram um espasmo delicioso de prazer descer até o meio das minhas pernas,
aumentando minha excitação a um grau assustador.
Que delícia, meu Deus!
Acho que ele entendeu minhas necessidades, porque mordeu-os com
suavidade, roçando a barba macia e fazendo meu sexo contrair-se de prazer.
Quando percebi, já estava arqueando o quadril em direção ao dele, ansiosa
pela satisfação que sabia só Daniel poderia proporcionar.
Depois daquele contato abrasador, tudo aconteceu de forma
vertiginosamente descontrolada. Já não conseguia parar de beijar ou acariciar
o corpo magnífico dele. Minha carência de toque era mesmo grande, porque
não me vi capaz de parar de tocá-lo.
Ele não demorou para descer a mão entre minhas pernas e a
expectativa que senti pelo seu toque quase me enlouqueceu. Já estava super
molhada, excitada e ansiosa por seus carinhos ali.
Fiquei tão desnorteada com todas aquelas sensações, que nem percebi
Daniel descer a cabeça até minhas pernas e mergulhar a boca entre elas, me
sugando com paixão.
Fechei os olhos, emudecida. Aquele beijo íntimo inesperado era
simplesmente ma-ra-vi-lho-so!!!
A barba macia só aumentava meu prazer e me vi completamente
extasiada naquele redemoinho de novas sensações. Dizer que eu estava
surpresa com tudo aquilo era pouco. Me sentia nas alturas ao constatar como
era bom fazer amor com Daniel.
Na beira do orgasmo, deixei vir, aproveitando cada espasmo daquele
gozo diferente. Acostumada a me masturbar, nunca imaginei que ser
estimulada por outra pessoa e gozar acompanhada fosse tão bom. As
sensações eram duplamente mais intensas.
E gozar com Daniel estava sendo uma experiência indescritível.
Olhei-o quando afastou-se, meu corpo ainda dominado pelo forte
prazer que havia sentido, só para levar um susto enorme ao vê-lo sem cueca,
totalmente nu e rasgando um preservativo para colocar na grande ereção à
minha frente.
— Oh meu Deus!
Nunca tinha visto um homem nu daquela forma e me assustei com
Daniel.
Mal soltei aquela exclamação involuntária, me recriminei
mentalmente, porque uma mulher experiente jamais faria isso.
Senti que ele já não tinha controle sobre o próprio desejo, pela forma
desesperada como me beijava. Sua pegada estava mais decidida, mais
determinada, como se tivesse em mente um único objetivo, que era saciar seu
desejo por mim.
Me deixei ser conduzida por ele, correspondendo ao seu ardor e me
excitando rapidamente com sua paixão quando pressionou a ponta da ereção
ao longo da minha entrada, dizendo que estava apaixonado por mim.
Só faltei chorar de felicidade quando ouvi aquelas palavras sendo ditas
em um momento tão íntimo nosso. Só não esperava a fisgada de dor quando
ele iniciou a penetração.
Nenhum prazer anterior me preparou para aquilo e mesmo querendo
fingir uma experiência que não tinha, dei por mim empurrando-o para longe.
Quando percebi o que tinha feito, já era tarde demais para arrependimentos.
— Tem calma! Vou parar!
Seu tom rouco tentou passar tranquilidade, mas senti o quanto custou-
lhe interromper a penetração. Me senti péssima com o que fiz!
Ele mergulhou o rosto no meu cabelo, soltando um grunhido baixo
que mais parecia um gemido de frustração e dor. Um grunhido que
transformou-se num xingamento em inglês e que me levou abaixo
completamente por ter sido covarde na hora da penetração.
Fiquei insegura e nervosa, sabendo que havia interrompido um
momento especial entre nós, negando a Daniel a mesma satisfação que ele me
deu com tanto carinho antes. Isso sem falar que devia estar na cara que eu era
mesmo uma virgem de vinte e três anos!
Minhas inseguranças todas vieram à tona com uma rapidez
impressionante, me fazendo sentir incapaz como mulher. Fechei os olhos
com força, arrasada com tudo aquilo. Um cansaço colossal tomou conta de
mim, ciente que desde que conheci Daniel todas as minhas deficiências
vinham sendo testadas em grau máximo.
Sabia que agora sua mente ágil montaria o quebra-cabeças da minha
vida inteira e viria atrás das respostas que faltavam. Aguardei ansiosamente
que dissesse algo, rezando intimamente para que jamais suspeitasse que eu
poderia ter algo tão limitante e irreversível quanto era minha dislexia, porque
não havia muito mais a fazer no meu caso.
Daniel mudou de posição, afastando-se de mim e puxando os lençóis
entre nós dois. Respirei fundo, esperando que aquilo não fosse o primeiro
passo do afastamento total.
— Precisamos conversar.
Oh! Se brincar, já era sim!
Conformada, encarei-o, vendo sua expressão decidida. Mas lá estavam
também aquela emoção intensa, o carinho habitual por mim e um novo
sentimento que não consegui identificar.
— Chega de mentiras e coisas escondidas. Respeito seus motivos, mas
quero deixar bem claro que não precisava sentir vergonha de nada da sua
vida, pelo menos não comigo. Nem antes e muito menos agora – fez uma
pausa, olhando para nós dois juntos em sua cama.
Prendi a respiração, ao entender que ele considerava nosso namoro
mais forte agora. Suas palavras seguintes só vieram confirmar isso.
— Quase nos separamos e não pretendo deixar que mais nada interfira
em nosso namoro.
Engoli o nó de emoção na garganta, agradecendo a Deus por receber
uma nova chance de felicidade com ele.
Oh, Senhor! Muito obrigada por isto! Prometo que tentarei melhorar
para estar à altura deste homem maravilhoso.
Deixei que Daniel fizesse todas as perguntas que quisesse,
respondendo com a maior sinceridade possível, ansiosa para ficarmos bem de
novo.
Não era algo fácil de fazer, porque não estava preparada para que ele
soubesse tudo sobre mim. Mas dentro do possível, pretendia ser sincera.
Queria muito ser feliz e sabia que ele era o homem da minha vida.
E tive a plena certeza disso quando ele declarou com firmeza sua
postura diante das atitudes de Bruno e da minha mãe.
— Você tem razão em tudo isso, mas enganou-se apenas em um
detalhe muito importante. As pessoas não são todas iguais e eu jamais
deixaria uma garota sozinha numa situação dessas. Se considerarmos que esta
garota em questão fosse minha namorada, a mulher que amo, então pode ter
certeza absoluta que nunca, mas nunca mesmo, deixaria de estar ao seu lado o
tempo todo. E você é tudo isso para mim!
Meu Jesus Cristo! Este homem não existe!
Nem tive condições de falar mais nada, porque sua boca desceu sobre
a minha em um beijo arrebatador. Fui envolvida em seus braços e esmagada
no calor do seu peito.
Não me tire mais daqui, meu Deus! Este é o meu lugar!
CAPÍTULO 27

Daniel
Descemos as escadas de mãos dadas, encontrando Candy parada no
fim delas. Abanou o rabo quando nos viu, latindo de forma estridente.
— Oi docinho! Já fez seu xixi?
Ana agachou-se, pegando-a no colo. Depois olhou para mim.
— Fiquei com sentimento de culpa por ter prendido ela no quarto
comigo. Mal abri a porta, saiu correndo para as escadas. Acho que estava
aflita para ir ao banheiro.
Seus olhos brilhavam, um sorriso alegre no rosto. Estava linda com
aquela expressão de felicidade, me deixando satisfeito em vê-la descontraída
depois de tantas atribulações.
— Na próxima vez, deixe a porta entreaberta que ela vai e volta por
conta própria.
Só depois que falei aquilo foi que lembrei que não pretendia deixá-la
dormir mais no quarto onde a coloquei. A partir daquela noite, Ana ficaria
comigo no meu quarto.
Segurei sua mão e levei-a até o escritório, parando em frente à porta.
— Vá conversar com Bia. Quero este assunto resolvido logo.
Estendi a mão para Candy e tirei-a do seu colo.
— Vou aguardar na sala até que me chame – me inclinei para beijar
seus lábios.
Ana apoiou a mão no meu peito e devolveu o beijo com um brilho
apaixonado nos olhos.
Candy aproveitou para latir, parecendo feliz em ver-nos juntos.
— Não dê muita opinião, Candy – disse-lhe ainda beijando Ana.
Ela afastou-se rindo, apontando para Candy.
— Sabe de tudo, esta mocinha!
Piscou um olho para mim e abriu a porta, entrando no escritório.
Segui pelo corredor em direção à sala, soltando Candy sobre o sofá.
Sentei e fechei os olhos, caindo sobre o encosto. Deitei a cabeça para trás e
olhei o teto.
Estava feliz como há tempos não me sentia. Teria agora mais treze
dias com Ana e pretendia mostrar para ela vários lugares interessantes de
Nova York.
Amanhã mesmo ia tentar conseguir pelo menos dez dias de folga para
estar com ela. Permanecendo na cidade, seria mais fácil ser chamado ao
trabalho em qualquer momento de crise, portanto não tinha dúvida nenhuma
que teria meu pedido atendido.
— Dr. Daniel.
A voz de Carmencita surgiu atrás de mim. Virei no sofá, vendo-a
parada na entrada da sala. Tinha a expressão preocupada e apertava
nervosamente os dedos na saia.
— Algum problema, Carmencita?
— Não sei se estou me intrometendo no que acontece na casa, mas é
que gosto muito da Srta. Ana e me preocupo com ela.
Só em ouvir seu nome, já levantei, virando de frente para ela.
— Pode falar, Carmencita. O que a preocupa com relação a Ana?
— Achei que a Srta. Ana estaria com o senhor no escritório.
— Não. Ela primeiro vai falar sozinha com a amiga.
Ela apertou as mãos na frente do corpo, me deixando intrigado com
sua evidente apreensão.
— É que o senhor disse para levar a amiga da Srta. Ana para o
escritório, mas quem veio pegá-la foi um homem.
Me aproximei dela em dois tempos, gelando por dentro.
— Um homem?
Ana estava em meu escritório com um homem?
Pensei imediatamente em Jack, que poderia ter vindo no lugar de Bia.
— Sim. Só havia um homem no carro e disse que tinha vindo a pedido
de um Sr. Jack Spencer.
Então não era Jack!
— Não gostei dele. Chama-se Jonas Blaze.
Apertei os punhos, ao lembrar do homem que conheci hoje pela
manhã na casa de Ashley e de quem não gostei de imediato por seguir Ana
disfarçadamente com o olhar o tempo todo.
Abandonei a sala com passadas largas, chegando em questão de
segundos ao escritório. Abri a porta de uma só vez, entrando de rompante e
procurando por Ana.
Só me acalmei quando a vi em pé, de costas para a porta e de frente
para Jonas Blaze. O homem tinha o olhar fixo sobre ela e interrompeu o que
estava dizendo assim que entrei.
Ambos viraram-se para mim, mas meus olhos só viam Ana.
Observei o alívio em seu rosto quando me viu, mas quando cheguei
mais perto, notei que também estava nervosa.
— Dan! – estendeu a mão para mim, vindo em minha direção – Já ia
chamá-lo.
Segurei sua mão e puxei-a para o meu lado, envolvendo depois sua
cintura com o braço.
— Está tudo bem? – perguntei para ela, mas sem desviar os olhos
dele, que me encarou com uma expressão aparentemente cordial.
— Não estou entendendo nada do que ele diz – Ana sussurrou
baixinho – Mas acho que está aqui para me levar.
Soltei-a, me adiantando para Jonas e deixando Ana atrás de mim.
— Pensei que fosse Bia quem viria à minha casa – disse-lhe em
inglês, dispensando os cumprimentos e indo direto ao assunto.
— Jack me pediu o favor de vir pegá-la, já que estavam envolvidos na
preparação do show de Terri.
Quando ouvi aquilo, me irritei profundamente.
Não gostei de saber que meu endereço foi dado àquele homem, nem
estava gostando de vê-lo dentro da minha casa sem ter sido convidado por
mim. Saber que foi encarregado de vir pegá-la sozinho, quando era um
completo desconhecido para ela, me deixou com vontade de dar um murro na
cara do Jack. Ainda mais porque Jonas não falava uma palavra em português
para comunicar-se com ela.
Só de imaginar Ana viajando de carro sozinha com aquele homem,
sem entender nada do que ele dizia em inglês, em um país estranho para ela,
sentia uma raiva surda tomar conta de mim. Uma raiva que duplicou de
intensidade porque sabia que ele estava interessado nela!
— Por que Bia não veio junto?
Se ele tinha a confiança de Jack, não haveria problema nisso, apesar
que eu não confiaria mulher nenhuma ao homem que estava à minha frente.
— Não sei – foi sua resposta, seguida por um dar de ombros
indiferente – Ele me pediu apenas para vir pegar a garota e levar para o show.
Olhou casualmente para Ana, mas lá estava o inequívoco brilho de
interesse no seu olhar.
Respirei fundo para me conter.
— Ela não vai a lugar nenhum, por isso pode ir embora.
Sua atitude aparentemente displicente mudou quando ouviu o que eu
disse.
Me encarou com um sorriso que não chegou aos olhos.
— Acredito que deve estar havendo algum engano aqui. A informação
que recebi foi para vir pegá-la porque você já tinha terminado com a garota e
não a queria mais em sua casa – seu sorriso aumentou quando fez um gesto
de cabeça indicando Ana – Você cansou dela rápido demais, para quem só a
pegou hoje de manhã. Afinal ela é tão bonita.
Mas o que aquele merda estava falando de Ana?
Senti vontade de esmurrá-lo no mesmo instante em que terminou de
falar, mesmo com Ana dentro da sala, porque sem dúvida alguma achava que
eu tinha terminado algum programa com ela e não a queria mais.
Filho da puta!!
Cravei os olhos friamente nele, falando por cima do ombro para Ana.
— Saia daqui e vá ficar com Carmecita na cozinha – usei o tom mais
tranquilo que consegui para não perturbá-la.
Vi quando Jonas olhou para ela, a testa franzida tentando perceber o
que falávamos. Aquilo significava que sequer falava espanhol ou teria
entendido parte do que dizia para ela.
— O que está acontecendo? – percebi que estava confusa, mas havia
também preocupação na sua voz quando chegou perto de mim, segurando
meu braço.
Senti sua mão descer até a minha e descerrei o punho fechado para
que não percebesse que estava a ponto de agredir aquele canalha.
— Por que Bia não veio? – completou nervosa, apertando a mão na
minha.
Acariciei seus dedos com o polegar, tranquilizando-a.
— Depois conversamos. Agora faça o que pedi e vá para a cozinha ou
suba aos quartos.
Jonas acompanhou nossa conversa com um olhar desconfiado.
— Olha, cara, é melhor pedir para ela trazer a bagagem. Sinto muito
se você mudou de ideia e ainda quer ficar mais um pouco com a garota.
Devia ter avisado isso ao Jack. Agora é tarde para voltar atrás, porque já
estou aqui e ela agora vai comigo.
— Ana! Vá agora!
Ela ficou em silêncio apenas alguns segundos, antes de concordar.
— Ficarei com Carmencita.
— Não saia de lá até que a chame.
Jonas observou, cauteloso, sua saída do escritório, mexendo-se
inquieto. Mas eu respirei aliviado quando ouvi seus passos afastando-se e a
porta fechando atrás dela.
Não queria que presenciasse nada do que ia acontecer lá dentro.
Ele apontou para a porta por onde ela tinha acabado de sair.
— Para onde ela foi?
— Não lhe interessa! – rosnei duramente, avançando um passo à
frente e ficando a um palmo de distância, forçando-o a olhar para cima.
Bem mais baixo do que eu, Jonas ergueu a cabeça para me encarar.
Apertei os punhos com força, controlando a vontade de esmurrá-lo
dentro do meu escritório.
— Nada do que diga respeito a ela interessa a você ou a Jack! Por isso
vai voltar e dar-lhe um recado meu. Diga-lhe que Ana não sairá da minha
casa e que apenas Bia pode entrar aqui para “falar” com ela e mais ninguém.
Ele ergueu as mãos pedindo calma, apontando depois para a porta.
— Não pode fazer isso, cara! Chame-a de volta porque vou levar a
garota.
Uma merda que vai!
Naquela hora, o advogado racional que sabia todas as penalidades
contra agressão física foi substituído pelo homem apaixonado que ansiava
por agredir aquele canalha que estava à minha frente.
Puxei-o pelo colarinho e trouxe-o para cima, encarando asperamente
seu olhar surpreso.
— Vai levar quem?! – perguntei ameaçadoramente, cravando os olhos
duramente nele – Já disse que ela fica e se não sair da minha casa agora, o
que você vai levar daqui é um murro no meio da cara! E acredite quando digo
que estou louco para fazer isso!
Vi o medo substituir a surpresa em sua expressão, quando me ouviu
rosnar ferozmente aquela ameaça. Ele segurou meu braço tentando soltar-se e
aquilo apenas fez com que o erguesse com mais força ainda.
— Saiba que Ana é "minha namorada", por isso nunca mais insinue
nada sobre ela! E também mantenha-se afastado, porque não pretendo vê-lo
perto dela sob hipótese nenhuma.
Jonas forçou meu braço para soltá-lo, parecendo desesperado quando
não conseguiu.
— Tudo bem! Eu não sabia que era sua namorada! Eu o vi pegar a
garota hoje de manhã e já querer devolvê-la à tarde, então pensei que ela
tinha feito apenas um programa que não deu certo. Pode ser bonita daquele
jeito, mas não saber fazer as coisas direito.
Apesar de saber que parte da culpa por aquele mal-entendido era
minha, por ter dito a Ana que a levaria de volta para a casa de Ashley, não
pude controlar a raiva quando ouvi a insinuação de programas.
Ler no relatório que Ana fazia programas, ouvir Richard insistindo
naquilo e agora Jonas falando a mesma coisa, quando eu sabia que ela era
virgem, fez explodir de vez a raiva reprimida que eu estava controlando
desde cedo.
Soltei o punho em seu rosto sem pensar nas consequências, furioso
com a injustiça que Ana estava sendo vítima.
Jonas caiu para trás com força, batendo no chão à minha frente. Mas
não dei tempo para que se recuperasse, suspendendo-o novamente pelo
colarinho e arrastando-o para fora do escritório.
Segundos depois estávamos fora da casa, onde joguei-o na porta do
carro dele, estacionado ao lado do Escalade.
Estava cego de raiva e se não o tirasse logo da minha frente,
possivelmente bateria de novo, quebrando todas as regras de conduta que
segui durante toda a minha vida adulta.
— Agora saia daqui e nunca mais cruze o meu caminho ou o dela!
Ele segurou a mandíbula com a mão, abrindo a porta em silêncio e
sentando na direção.
Observei enquanto ligava o carro e saía da minha casa. Abri o
Escalade e peguei o controle do portão, fechando-o.
Na minha casa, ele não entrava nunca mais!
Ainda permaneci cerca de cinco minutos lá fora para me acalmar,
antes de entrar. Não podia voltar para dentro com aquela raiva toda
explodindo por todos os poros.
O vento frio do Outono era bem-vindo e andei pelo pátio em frente à
casa para aliviar a tensão, consciente que minhas próprias atitudes erradas
foram as responsáveis por construir aquela situação.
E Ana tinha sido a parte mais frágil e injustiçada de tudo!
Fui dominado por uma decisão ferrenha de compensá-la por tudo que
causei indiretamente ao fazer aquela investigação. Daquele momento em
diante usaria todas as armas disponíveis para protegê-la de qualquer
sofrimento e fazê-la feliz.

***

— Ana!
Entrei na cozinha, encontrando apenas Carmencita, que me olhou com
uma expressão de aprovação no rosto bondoso.
Sabia que ela aprovaria qualquer coisa que eu fizesse para proteger
Ana, ainda que fosse algo extremista como agredir um homem em minha
própria casa.
— Onde ela está? – sentia uma necessidade urgente de estar com ela.
— Esteve comigo até há pouco tempo. Só a deixei sair daqui quando
ouvi a porta da frente bater. Levei-a ao quarto.
Não esperei mais nada para sair da cozinha e ir em direção às escadas.
Quando ainda estava no corredor, ela surgiu à minha frente. Estava andando
de costas com a cabeça baixa, concentrada em algo que tinha nas mãos.
— Ana! – chamei com urgência, me perguntando para onde estaria
indo.
Ela virou-se e percebi que tinha uma expressão angustiada no rosto,
mas soltou logo uma exclamação de prazer quando me viu.
— Dan!
Veio em minha direção e abri os braços para recebê-la. Ana me
abraçou pelo pescoço enquanto a atraía com força ao peito.
A ansiedade de senti-la era tanta, que ergui-a do chão com o ímpeto
com que a abracei.
Não esperei para ir direto até sua boca, beijando-a com intensidade.
Ela gemeu nos meus braços, a língua macia saboreando meus lábios com
ousadia.
Não conseguia me saciar o suficiente dela, cada vez mais sedento do
seu sabor e calor.
Apenas alguns minutos depois foi que conseguimos interromper o
beijo, mas meu corpo ansiava por subir as escadas e voltar ao meu quarto.
Olhei seu rosto afogueado quando afastou-se ligeiramente. Estava
linda!
Respirei fundo para diminuir os batimentos acelerados do coração.
— Para onde estava indo?
Ela ficou quieta por um instante, mordendo depois o lábio.
— Para a cozinha – respondeu, insegura.
Dei um sorriso brincalhão para ela.
— Vou colocar placas na casa para ajudá-la a se localizar – apontei
com a cabeça para o lado oposto – A cozinha é por ali.
Ana não disse nada, ficando calada e pensativa, sem sorrir com a
brincadeira como pensei que faria.
Segurei seu queixo com carinho, forçando-a gentilmente a me encarar.
— Aconteceu alguma coisa? Ficou séria de repente.
Ela negou com a cabeça.
— Está tudo bem, mas queria saber se aquele homem já foi.
Parecia apreensiva.
— Sim, já foi embora – observei seu rosto com atenção – Ele fez
alguma coisa enquanto estiveram sozinhos?
Ela desviou o olhar para baixo, mas depois voltou a me fitar com um
suspiro de resignação.
— Apenas falou em inglês comigo e não entendi nada do que dizia,
apenas o nome de Jack e Bia – parecia constrangida em ter que admitir isso –
Fiquei confusa quando entrei e vi que não era Bia quem estava lá, por isso
demorei a reagir, mas já ia chamar você quando entrou no escritório. O que
ele lhe disse?
Coloquei seu cabelo para trás da orelha com carinho, entendendo que
devia ser difícil para ela admitir aquela limitação com relação ao inglês.
— Apenas que Jack pediu que viesse pegar você. Não soube dizer o
motivo de Bia não vir junto.
Ana afastou-se um passo para trás, mostrando para mim o celular que
segurava em uma das mãos.
— Assim que Carmencita me deixou sair da cozinha, fui atrás do meu
celular para ver se tinha alguma ligação de Bia. Acho que ligou enquanto
estávamos juntos – estendeu-o para mim.
Peguei de sua mão, comprovando pelo horário que foi durante o
tempo que Ana esteve em meu quarto.
— Tem realmente três chamadas.
— Eu queria ligar para ela! Quero saber por que não veio ela mesma
me buscar.
Parecia ansiosa demais e devolvi-lhe logo o celular para que fizesse a
ligação.
Ana olhou minha mão estendida e ficou parada.
Então aconteceu algo surpreendente para mim.
Ela respirou fundo e fechou as duas mãos ao redor da minha,
empurrando-a na minha direção.
— Queria pedir que você ligasse para mim.
Estranhei seu pedido, mas peguei prontamente meu celular no bolso
para ligar para Bia.
— Ela não vai atender! Já tentei antes, mas Bia não está atendendo
meu número.
Ela balançou a cabeça, afastando meu celular para o lado.
— Não quero que ligue do seu celular. Quero que ligue para ela do
meu, assim Bia vai atender.
— Do seu? Já tentou ligar e não conseguiu?
Lembrei que hoje pela manhã ela havia pedido à Carmencita para
ajudá-la a ligar para Bia, porque não estava conseguindo.
Seu olhar foi direto para o meu, o rosto sério.
— Ainda não tentei.
A forma como falou, a expressão do rosto e a seriedade do olhar me
fizeram apertar os dois celulares nas mãos, em dúvida se estava
compreendendo bem o que acontecia ali.
Guardei o meu iphone no bolso e fiquei com o celular de Ana na mão,
procurando agir naturalmente.
— E não quer tentar? – perguntei suavemente.
— Não vou conseguir – disse simplesmente, colocando o cabelo para
trás do rosto – Este celular é novo para mim e tenho dificuldades em usá-lo.
Assimilei bem aquela informação, tentando descobrir mais, porque o
celular era de um modelo simples e fácil de ser manuseado.
— Você o comprou recentemente?
Ela negou com um gesto de cabeça, juntando os cabelos nervosamente
em um só lado do ombro e enrolando os fios com os dedos.
— Foi Bia quem me deu exclusivamente para esta viagem à Nova
York. É um aparelho alternativo da mãe dela.
— Mas ontem liguei nele para você. É seu número.
— Apenas o cartão é meu, mas a maioria dos números registrados no
aparelho são da mãe dela. Isso acaba por me confundir, por ser muita
informação estranha para mim – soltou os cabelos e desceu as mãos pelo
tecido da blusa, esticando-a sobre o corpo, até chegar às calças, onde
esfregou-as disfarçadamente.
Observei em silêncio todos aqueles sinais de nervosismo, escutando
sua explicação e percebendo claramente o que não estava sendo dito.
Bastaram algumas horas de convivência real com ela, para descobrir
que Ana tinha limitações que não se restringiam apenas à leitura de textos e
não falar inglês. Em menos de vinte e quatro horas dentro da mesma casa, já
estava óbvio para mim que seus problemas eram maiores do que pareciam a
princípio.
Do mesmo jeito que uma criança aprendia a ler e escrever facilmente,
também a mesma criança seria capaz de usar aquele celular facilmente. Ana,
com vinte e três anos, não conseguia nem uma coisa, nem outra.
Apertei mais o celular na palma da mão, extremamente perturbado
com aquilo, pois fazia com que Ana se tornasse muito mais vulnerável do que
imaginava. Se antes eu já queria protegê-la de tudo, agora já não conseguia
pensar na possibilidade dela ficar longe de mim um minuto sequer.
— Pode fazer a ligação para mim, por favor? Estou muito preocupada
com Bia. Se eu estivesse mais calma, poderia me esforçar até conseguir. Mas
hoje foi um dia muito desgastante para mim e estou nervosa demais.
Normalmente bloqueio quando estou assim – admitiu inesperadamente, com
a fisionomia angustiada.
Aquela admissão repentina das suas limitações devia ter-lhe custado
muito, me fazendo perceber o grau do seu desespero para saber notícias da
amiga.
Estendi a mão e envolvi sua cintura, puxando-a para mim. Ana me
abraçou, encostando a cabeça no meu peito, os olhos fechados e as mãos
apertando com força minhas costas.
Baixei a cabeça e beijei seus cabelos.
— Fica calma! Não vou deixar que nada de mal aconteça com você ou
Bia. Eu prometo!
CAPÍTULO 28

Daniel
Segurei a mão de Ana, sentindo seu nervosismo pela forma como
ainda estava úmida de transpiração, mesmo tendo sido esfregada no tecido da
calça que usava.
— Venha. Vamos ligar para Bia da sala.
Continuei agindo normalmente enquanto a levava através do corredor
até a sala, sentando-a no sofá ao meu lado.
Ana acomodou-se perto de mim, a mão ainda presa à minha num
aperto tenso.
Olhei para o celular e completei a ligação, colocando no alto-falante
para que ela ouvisse.
Ficamos ambos aguardando que Bia atendesse e foi exatamente o que
aconteceu após o quarto toque.
— Aninha?
Ouvi a exclamação de alívio de Ana quando ouviu a voz da amiga. Ela
caiu pesadamente sobre mim, apoiando o rosto no meu braço.
— Bia! – respondeu de volta, um sorriso carinhoso substituindo a
expressão tensa.
— Tentei ligar e não atendeu! Fiquei tão preocupada com você, aí
sozinha na casa do Daniel.
Encarei Ana firmemente, prendendo seu olhar com intensidade
enquanto falava.
— Ela não está aqui sozinha, Bia. Está comigo!
Fez-se silêncio do outro lado, com Bia calada, sem reagir ao ouvir
minha voz e entender o significado das minhas palavras.
— Aguarde que vou colocar Ana para falar em particular com você,
mas ligarei do meu número para que conversem, por isso atenda minha
ligação. Depois que terminarem, gostaria que pudéssemos falar também.
Pretendia aproveitar para esclarecer com ela tudo sobre Jonas.
Bia não demorou muito para expressar sua opinião sobre o que eu
disse.
— Não sei se temos algo para conversar, Daniel – sua resposta foi
seca – Já que estou tirando Ana da sua casa a seu pedido, entendo que não
temos mais nada para falar.
— Bia! – Ana interrompeu a amiga em um tom de aviso, me olhando
com um certo constrangimento no rosto.
Apertei sua mão levemente, para fazê-la ver que estava tudo bem.
— Ana não vai mais sair daqui – disse-lhe firmemente, para que
soubesse que aquele assunto não era negociável – Ficará comigo até o fim de
suas férias em Nova York. Se quiser falar pessoalmente com ela, venha à
minha casa que será muito bem-vinda ou a levarei para onde você estiver
para que conversem e fiquem juntas. Mas saiba que Ana voltará sempre para
ficar aqui comigo.
Novo silêncio, antes que ela respondesse.
— Gostaria de falar com Ana e saber como ela está. Em particular.
Gostei do seu tom de voz decidido, pois mostrava que Ana estava em
boas mãos com a amiga. Pelo menos no que dizia respeito a defendê-la e
preocupar-se com sua segurança, Bia parecia uma mulher difícil de ser
vencida facilmente.
— Vou deixar que conversem, mas como já disse antes, é melhor que
o façam do meu celular, assim essa despesa fica para mim. Vou aguardar que
fale comigo em particular depois, para esclarecer algumas coisas sobre este
homem que veio pegar Ana em minha casa.
Senti o olhar de surpresa de Ana e beijei seu rosto para tranquilizá-la.
Fitei seus olhos, pedindo em silêncio que confiasse em mim.
— Homem? – Bia perguntou imediatamente e o tom de surpresa em
sua voz era genuíno – Que homem?
Então ela não sabia que Jack o havia enviado?
— Jonas Blaze – informei duramente – Disse que veio aqui a pedido
de Jack para levar Ana para o show da Terri.
Agora a surpresa parece que a fez calar de vez, porque durante alguns
longos segundos Bia permaneceu calada.
— Tudo bem. Conversaremos depois sobre isso – havia tensão em sua
voz – Deixe-me falar com Ana agora, por favor.
— Aguarde só um minuto que farei a ligação.
Desliguei e virei para Ana, encarando-a.
Seus olhos estavam mais calmos, o rosto relaxado e feliz por ver que a
amiga estava bem.
Não resisti e beijei-a rapidamente nos lábios doces, sentindo como
correspondeu de forma carinhosa.
Apertei sua mão quando me afastei.
— Tente descobrir por que ela não veio pessoalmente pegar você.
Precisamos saber se Bia está mesmo em segurança com Jack e Ashley.
Sua expressão ficou preocupada.
— Acha que ela não está bem com os dois? – perguntou de imediato –
É que durante o tempo que passamos na casa de Ashley, eles pareciam uma
família normal.
Não pretendia contar-lhe o que Jonas falou sobre ela, por isso apenas
comentei parte das minhas suspeitas.
— Mesmo assim foi estranho enviarem um homem para pegá-la, ainda
mais sem falar nada de espanhol com você. Tive a impressão que Bia não
sabia disso.
Ela apertou os lábios com ansiedade.
— Também achei isso – olhou decididamente para mim – Vou tentar
descobrir tudo e conto-lhe depois. Não quero que façam nada contra ela.
Devolvi seu olhar com firmeza, porque de maneira nenhuma pretendia
permitir que algo assim acontecesse. Tudo que atingisse Ana, atingia a mim
também!
— Não vou deixar que nada de mal aconteça com ela, fique tranquila!
Mas tudo dependerá de Bia colaborar também. Caso venha a descobrir que
eles não são boas companhias, não poderei forçá-la a afastar-se deles, se ela
não quiser fazê-lo.
Quis deixar aquilo bem claro, porque no meu trabalho de auditoria
cansei de ver pessoas insistirem em situações arriscadas, mesmo sabendo que
sofreriam as consequências no futuro.
— Oh, Dan! Espero que não seja esse o caso! – parecia duplamente
preocupada com a amiga.
— É melhor que não seja! Porque se for, não vou querer você perto
deles nem por um minuto!
Não quis completar dizendo que isso implicaria em ficar longe de Bia
também.
Peguei meu celular do bolso.
— Agora vou ligar para que conversem. Deixarei você à vontade aqui
na sala e irei para o escritório aguardar.
Fiz uma pausa, pensando bem sobre o passo que ia dar naquele
momento.
Olhei-a casualmente.
— Sabe chegar lá?
Ana levantou a cabeça, observando a grande sala com atenção.
Não esperei sua resposta, falando logo em seguida.
— Pegue no corredor à direita.
Ela permaneceu calada, sem dizer nada, apenas continuando a olhar
para a saída da sala, onde estava o longo corredor que levava aos dois lados
da casa. Se seguisse pela direita, Ana chegaria à cozinha. Se fosse pela
esquerda, passaria pelo Escritório, algumas salas e depois chegaria às escadas
que conduziam aos quartos.
Ela não demonstrou ter percebido que troquei propositadamente as
direções.
— À direita – confirmou comigo, mas notei a insegurança na sua voz.
Foi difícil permanecer impassível naquela hora, quando ergui a mão e
apontei para a esquerda, que era o sentido correto.
Ela relaxou visivelmente quando seguiu com os olhos o lado que
indiquei.
— Certo! Seguirei pela direita.
Me controlei o máximo que pude diante da constatação que Ana não
sabia diferenciar direita e esquerda. Desconfiei que havia algo errado quando
a vi perdida na casa e brinquei sobre as placas de sinalização.
Baixei a vista para meu celular, porque pela primeira vez na vida tive
medo de não conseguir me conter emocionalmente caso fitasse seus olhos.
Temia deixar transparecer tudo que estava sentindo.
E não pretendia analisar agora aquele sentimento!
Fiz a ligação para Bia, levando o celular ao ouvido e esperando que
atendesse.
— Alô, Daniel.
— Bia. Vou passar para Ana e deixá-las conversar à vontade.
— Obrigada. Depois conversaremos.
— Aguardarei.
Estendi o celular para Ana. Quando ela o pegou, fechei a mão sobre a
dela, segurando-a.
Puxei seu corpo para o meu, tomando a boca macia com ímpeto. A
emoção explodia dentro de mim com uma força avassaladora, me fazendo
perceber como estava sensível a tudo relacionado com ela. Me sentia em
carne viva, com as emoções à flor da pele.
Me afastei rápido, lembrando que Bia estava aguardando na linha.
Ana ergueu os olhos apaixonados para mim, os lábios ainda molhados
do meu beijo.
— Pode conversar com ela o tempo que quiser. Não tenha pressa.
Vi sua confirmação leve de cabeça e levantei abruptamente, saindo da
sala até meu escritório.
Precisava me afastar dela para pensar.
Precisava também de tempo para assimilar tudo aquilo que estava
acontecendo em minha vida, tudo que estava acontecendo comigo, no meu
íntimo, ao descobrir que as limitações de Ana eram realmente muito maiores
do que supunha.
Tinha que admitir que já desconfiava que só podia ser algo muito
sério, porque as evidências eram fortes demais para alguém ter com vinte e
três anos.
Mal entrei no escritório, fui direto para minha mesa de trabalho,
sentando em frente ao computador. Liguei-o, aguardando impacientemente
que inicializasse.
Comecei a digitar e em poucos segundos já estava feita a primeira
pesquisa na internet.
"Dificuldades entre direita e esquerda"
Se não conseguisse nada, tentaria usar "dificuldades de aprendizagem"
ou outras palavras. O importante era refinar a pesquisa até esgotar as
possibilidades.
Olhei os vários artigos relacionados que surgiram e fiquei
impressionado com a quantidade de matérias que havia sobre o assunto.
Abri o primeiro deles, que falava sobre uma dificuldade de
aprendizagem relacionada aos números, chamada discalculia. Li rapidamente
que a pessoa não conseguia fazer cálculos, não compreendia a matemática e
confundia os números.
Fiquei decepcionado, porque aquilo parecia não ter nada a ver com o
caso de Ana.
Já ia fechar a matéria do especialista em psicopedagogia, quando vi
mais abaixo que um dos sintomas era a falta de senso de direção. Ele dizia
que a pessoa não conseguia diferenciar o Norte do Sul e confundia direita
com esquerda.
Lembrei imediatamente de Ana perdida no parque hoje à tarde e pela
primeira vez me perguntei se aquilo tinha acontecido por ela ter discalculia.
— Não acho que seja isso! – falei comigo mesmo.
Afinal, onde estava então a deficiência na leitura?
Dificuldade com os números só encaixavam no uso do celular, já que
Ana não soube ligar para Bia, mostrando que talvez não conseguisse ver
corretamente os algarismos escritos.
Aquela era uma meia-explicação e eu não costumava trabalhar com
meias-verdades. Precisava de algo mais contundente e que fosse uma prova
incontestável. Era assim que procedia com minhas análises corporativas e era
assim que continuaria agindo na busca da verdade de Ana.
Passei os olhos pelo restante do texto, até uma frase chamar minha
atenção, por ter uma palavra marcada com um link.
"Discalculia é uma inabilidade pouco conhecida, potencialmente
relacionada à dislexia."
Dislexia.
Encostei no espaldar da poltrona, olhando sem ver a tela do
computador.
Já tinha ouvido falar em dislexia, apesar de não saber muito sobre o
assunto nem me interessar em aprofundá-lo. Mesmo assim, supunha que
estava relacionado a problemas de leitura.
Como sempre fui um aluno de notas altas e focado nos estudos, nunca
me preocupei com quem não tinha a mesma capacidade que eu. Possuía uma
meta e alcancei-a rapidamente, mas sabia que muitas pessoas sofriam para
conseguirem avançar na carreira.
Resolvi clicar no link da dislexia e paralisei completamente logo no
primeiro parágrafo. Fui dominado pela sensação de que, enfim, tinha
encontrado a verdade sobre Ana.
"Transtorno na área da leitura, escrita e soletração, que pode também
ser acompanhado de outras dificuldades, como por exemplo, na distinção
entre esquerda e direita, na percepção de dimensões (distâncias, espaços,
tamanhos e valores), na realização de operações aritméticas (discalculia) e
no funcionamento da memória de curta duração. Alguns portadores podiam
ter também um determinado grau de Deficit de Atenção e Hiperatividade
junto com a dislexia, aumentando as dificuldades a nível de aprendizado."
Continuei explorando o artigo, ultrapassando as partes mais técnicas e
parando naquelas informações que achava poderiam encaixar no perfil de
Ana.
Me revoltei totalmente quando li que era muito comum os disléxicos
sofrerem humilhações e bullying na escola, tanto de outros alunos nas salas
de aula, como dos próprios professores, só por apresentarem dificuldades no
aprendizado.
Fechei os olhos, conseguindo imaginar Ana naquela situação,
principalmente porque o relatório de investigação dizia das suas dificuldades
de interação com os colegas de turma, além da professora que fez questão de
registrar que ela era burra.
"Eu nunca vou ser uma mulher culta, fazendo faculdade, falando
fluentemente sua língua e com uma carreira brilhante pela frente."
Cerrei os punhos com raiva, ao lembrar de suas palavras. Era
impossível controlar aquele sentimento de revolta, diante de toda injustiça
que Ana sofrera ao longo da vida.
Com todos aqueles indícios, tinha certeza quase absoluta que o
problema dela era a dislexia. Mas para confirmar, li os outros artigos que
apareceram na minha pesquisa, que foi sendo ampliada à medida que
encontrava cada vez mais textos técnicos e confiáveis sobre o assunto.
Não demorei muito naquela breve busca, porque ao contrário de Ana
que tinha dificuldades na leitura, eu lia com uma rapidez impressionante e
sempre fui um excelente redator. Imaginava que não devia ser nada fácil para
ela ter aquela limitação e minha mente já começava a pensar em formas de
ajudá-la a superar isso.
Passei a mão na barba, extremamente perturbado com aquela
descoberta, porque jamais pensei que fosse algo tão sério assim. Agora
entendia muito do comportamento de Ana e tudo se encaixava perfeitamente.
Até a virgindade aos vinte e três anos acabava por ser explicada com
aquela dislexia, porque a Ana que eu conhecia, com aquela personalidade
tímida e jeito inseguro, teria dificuldades em envolver-se com um homem
sem sentir-se segura e estar apaixonada.
"Talvez tenha algo de errado comigo e não com eles."
Agora entendia perfeitamente o porquê dela ter dito isso para mim.
Meu instinto protetor chegou a um ponto absurdamente elevado,
sendo estimulado ao limite máximo só em saber de tudo aquilo.
Até as mentiras todas que contou, perderam totalmente a gravidade
para mim, diante das dificuldades que sabia que ela tinha enfrentado ao longo
da vida.
Continuei lendo o artigo, tomando conhecimento de detalhes
importantes, como a baixa autoestima, os problemas de depressão ou a
revolta que muitos portadores sofriam ao longo da vida, por conta das
humilhações constantes.
Parei por um momento, parecendo ouvi-la falando enquanto
estávamos na cama.
"Seu amigo Richard tem razão. Eu não sou a mulher ideal para um
homem como você! Você precisa de alguém melhor, mais adequada ao seu
nível cultural e estilo de vida."
Mas que merda!
Fechei o punho e dei um murro sobre a mesa, enfurecido comigo
mesmo, porque eu tinha sido uma daquelas pessoas que humilharam Ana, ao
permitir que Richard a confrontasse ali mesmo, no meu escritório.
"E por conta de algumas mentiras, você tinha que me humilhar
daquele jeito, ainda mais com seu amigo do lado? Você tem noção do que fez
comigo? De como me senti? Nunca esperaria isso de você! Não de você!"
Maldição! O que fiz com ela?
Cobri o rosto com as mãos, completamente transtornado com tudo que
havia feito, mesmo sabendo que na ocasião ainda não tinha noção de sua
dislexia.
Mas mesmo assim, nunca me senti tão mal comigo mesmo.
Sempre fui impiedoso na hora de punir ou demitir funcionários
desonestos, sem nenhum sentimento de culpa por agir de forma dura e
implacável. Mas agora, pela primeira vez na vida, estava enojado com minhas
atitudes.
"Só vou trazer vergonha para você! Todos vão dizer que sou uma
mulher bonita mas burra, que não sabe ler e escrever direito, como Richard
disse. Vão falar que você só está comigo por causa do meu rosto e corpo e
que eu estou com você por conta do seu dinheiro. No fundo, eu vou acabar
parecendo aquela garota de programa que o relatório falou!"
— Shit! Shit! Shit!
Levantei de forma brusca, começando a andar furiosamente pelo
escritório, só querendo ter Jonas novamente à minha frente para bater, bater e
bater, até tirar de dentro de mim toda a raiva que sentia diante de tudo de
errado que havia acontecido desde que Ana desembarcou em Nova York.
Dei um murro na palma da mão. Uma, duas, três vezes, sem conseguir
encontrar alívio naquele gesto.
Lembrei da sua mãe, que a abandonou quando o pai ficou dependente,
mesmo sabendo que a filha tinha todas aquelas limitações. Esperava nunca
ter que cruzar com a mãe de Ana, porque sem dúvida nenhuma que ela
ouviria muito de mim pelo que fez com a filha.
Parei subitamente de andar quando ouvi uma leve batida na porta.
Avancei em largas passadas, abrindo-a e vendo Ana parada à minha
frente. Meu coração só faltou explodir com a força da emoção que senti
naquele momento.
— Bia precisou desligar, mas disse que voltará a ligar mais tarde para
falar com você – falou suavemente, estendendo o celular para mim.
Peguei-o e enfiei automaticamente no bolso, ainda olhando-a
fixamente. Não sei como estava a expressão do meu rosto, mas Ana me olhou
preocupada.
— Tudo bem?
Não respondi nada, porque simplesmente não conseguia falar. Um nó
travava minha garganta, impedindo que as palavras saíssem.
Talvez fosse até bom não conseguir dizer nada, porque no fundo tinha
medo do que falaria para Ana naquele momento. Não queria admitir nem
para mim mesmo o que estava sentindo por ela, quanto mais confessar-lhe
aquilo. Mas a grande verdade, é que não estava preparado para sentir algo tão
forte assim.
Impossibilitado de falar, apenas abracei-a de uma só vez, enlaçando
sua cintura e puxando seu corpo esguio para o meu peito. Beijei sua boca
como um desesperado, grunhindo de prazer quando a senti corresponder no
mesmo instante. Ela passou os braços por meus ombros, as mãos acariciando
meu corpo com aquele seu jeito tão especial.
Apertei-a com tanta força, que fiquei com medo de machucá-la, tão
grande era a minha ânsia de tê-la. Os lábios macios, a boca quente e o sabor
inigualável do seu beijo, me deixaram imediatamente excitado.
— Ana! Ana! – grunhi em meio aos beijos que lhe dava – Preciso de
você!
Seus dedos afundaram-se nos meus cabelos.
— Oh Dan! Gosto tanto de você. Muito, mais muito mesmo!
Não resisti em aprofundar nosso abraço, satisfazendo aquela
necessidade de posse totalmente insana que desenvolvi por ela. Não pretendia
deixar que nada mais a magoasse, porque Ana se transformou em alguém
muito importante para mim. Com uma importância superior a tudo que eu
jamais pensei que alguém significaria em minha vida.
Desci a mão por suas costas, moldando seu corpo ao meu, para fazê-la
sentir melhor o quanto já estava endurecido de excitação.
— Dan!
Ouvi seu gemido de prazer. Um prazer que a fez esfregar o quadril na
minha virilha, aumentando nosso desejo.
— Já está muito perto do jantar ou levaria você para o meu quarto
agora – confessei em seu ouvido.
Ela soltou um suspiro de satisfação quando ouviu o que disse.
— Mas como não pretendo ser interrompido novamente, vamos
aguardar mais um pouco – completei, trazendo-a para dentro do escritório.
Sentamos juntos no pequeno sofá de dois lugares.
Olhei seu rosto com atenção, consciente que estava vendo-a pela
primeira vez como uma portadora de dislexia e sabendo também que não
poderia dizer-lhe que tinha conhecimento da sua condição.
Se até hoje ela nunca teve coragem de me contar, era porque sentia
vergonha de admiti-lo. Não pretendia forçá-la a nada mais naquele dia. Chega
de humilhações para Ana!
— Conseguiu saber de Bia o porquê de não ter vindo pessoalmente
pegá-la?
Pensava agora se Bia também sabia de sua dislexia. Decidi que
tentaria descobrir isso quando falássemos por telefone, assim aproveitaria
para confirmar se tinha acertado no diagnóstico que fiz de Ana.
Ela puxou o cabelo para o lado do ombro, num gesto que eu já
conhecia muito bem e que só fazia quando estava nervosa.
— Ela disse que Jack não podia sair de lá e que também não queria
que ela se afastasse dele. Jack garantiu que seria Julie, a assistente de Ashley,
que viria me buscar. Ela é um pouco mais velha que nós duas e fala o
espanhol fluentemente, então não haveria problema em comunicar-se comigo.
Bia ficou furiosa quando soube que foi Jonas quem veio no lugar de Julie e
prometeu que ia falar com Jack sobre isso.
Parecia uma explicação lógica, mas mesmo assim continuava
desconfiado. Se era Julie quem vinha, como é que de repente Jonas conseguiu
meu endereço e apareceu em seu lugar, querendo levar Ana com ele? Com
certeza alguém organizou tudo isso e na minha cabeça só vinha o nome de
Jack.
Quando Bia ligasse, esperava que já tivesse uma boa justificativa,
porque pretendia pedir-lhe muito mais do que um simples esclarecimento.
— Então ela está bem?
— Aparentemente sim! Disse que conheceu os pais de Jack e que
conversaram muito. Achou sua família muito acolhedora.
Registrei imediatamente o fato de terem "conversado muito".
— Quer dizer que Bia fala inglês?
Ana hesitou um breve segundo, olhando ansiosa para mim.
— Sim. Fala fluentemente.
Mesmo sabendo que nenhuma das duas havia dito nada sobre aquilo
antes, me fazendo achar que Bia não falava inglês, relaxei quando percebi
que Ana viajara acompanhada por alguém que conhecia nosso idioma.
Passei a mão por seu rosto, atraindo-a para mim e dando-lhe um beijo
suave nos lábios.
— Fico satisfeito em saber disso! Seria muito perigoso viajarem para
cá sem que nenhuma das duas soubesse falar nossa língua.
Senti seu alívio assim que terminei de falar.
— Jamais faríamos isso! Nem nossos pais deixariam.
Aproveitei a oportunidade para esclarecer uma informação que ficou
pendente no relatório.
Peguei sua mão, acariciando suavemente a palma macia.
— Onde está seu pai?
— Na casa da minha tia Sílvia. Mudou-se para lá antes da minha
viagem e é para onde irei quando voltar ao Brasil – sorriu suavemente – Ela
nos convidou para morarmos todos juntos e adorei a idéia, porque estava há
muito tempo sozinha com ele.
Senti um aperto no peito só em ouvi-la falar de voltar ao Brasil.
Estávamos juntos há apenas dois dias e já não conseguia pensar em ficar sem
ela ao meu lado.
Quis dizer-lhe que não pretendia deixá-la voltar, mas ainda não era a
hora. Tinha plena consciência que Ana não podia afastar-se do pai
dependente.
Sabia que daqui até lá encontraria uma solução para aquela situação,
porque, definitivamente, a partir de agora Ana não estaria mais sozinha.
Eu pretendia estar ao seu lado sempre!
CAPÍTULO 29

Daniel
Tínhamos terminado de jantar e estávamos conversando sobre os
locais onde pretendia levá-la em Nova York, quando meu celular tocou.
Peguei-o, certo que era Bia. Apesar de estar ansioso para conversar
com ela, já não queria mais ser interrompido enquanto estava com Ana e me
irritei com a ligação.
Mas fui forçado a engolir um xingamento quando vi que não era ela,
mas sim Doris!
Nunca me incomodei com as ligações do trabalho, atendendo
prontamente sempre que me chamavam, mas pela primeira vez em anos de
corporação, me chateei com aquela interrupção e hesitei em atender.
— É Bia?
— Não. Infelizmente é do trabalho e vou ter que atender – tentei não
demonstrar no tom de voz a irritação que sentia – Peço desculpas.
Seu sorriso foi compreensivo.
— Por mim, está tudo bem.
Para terminar logo com aquilo, aceitei a ligação.
— Boa noite, Doris.
— Boa noite, Dr. Daniel – seu tom era totalmente profissional – O Dr.
Stevens gostaria de falar sobre as novas exigências do contrato com os
chineses. Posso passar a ligação agora ou precisa de alguns minutos para
preparar-se?
Como acontecia habitualmente, não houve nenhum pedido de
desculpas pela ligação ser fora do horário de trabalho.
— Preciso apenas de uns cinco minutos. Retornarei a ligação para
você.
— Avisarei o Dr. Stevens e ficarei aguardando. Até já.
Desliguei, colocando o celular sobre a mesa e olhando para Ana, que
acompanhava tudo com um olhar preocupado. Só então percebi que devia
estar com a expressão carregada ou ela não estaria me olhando daquela
forma.
— Algum problema?
— Não. Está tudo bem – voltei a segurar sua mão, alisando seus dedos
– Mas terei que falar com meu presidente. Como já sei qual é o assunto,
precisarei estar no escritório onde tenho o material que iremos discutir.
— Posso aguardar aqui ou ficar com Carmencita, enquanto você
resolve seus assuntos de trabalho.
Levantei, ajudando-a a pôr-se de pé. Trouxe-a para perto de mim,
dando um beijo suave em seus lábios.
— Então me deixe resolver logo isso para ficarmos juntos e em paz. Já
aconteceram coisas demais hoje para nos manter afastados.
Levei-a até a cozinha, onde Carmencita estava envolvida com suas
receitas, com Candy deitada no chão.
— Carmencita. Vou tratar de assuntos de trabalho no escritório e
deixarei Ana com você. Mas qualquer coisa que precisar pode me
interromper.
Ela abriu um sorriso carinhoso para Ana, que sentou em uma das
cadeiras ao seu lado. Candy aproximou-se imediatamente, latindo para
chamar sua atenção. Observei-a inclinar-se para pegá-la ao colo, encostando-
a no peito, que era o lugar onde eu gostaria de estar.
Suspirei conformado e saí rapidamente da cozinha, seguindo para o
escritório, na intenção de me livrar logo daquela obrigação.
***

Olhei o relógio de design antigo preso à parede do escritório, vendo


que já faziam duas horas que estava naquela ligação com o Dr. Stevens.
Imaginava se Ana permanecia aguardando por mim na cozinha.
Apertei a caneta na mão com força, extremamente irritado com aquela
situação. Sabia que era tempo demais para ela ainda estar esperando e que
provavelmente já deveria ter subido ao quarto. Engoli um xingamento,
enquanto continuava a discutir uma das cláusulas do contrato.
Apenas trinta minutos depois foi que o Dr. Stevens pareceu satisfeito e
começou a despedir-se.
Mas agora, quem tinha algo para falar era eu.
— Quero aproveitar a ocasião para tratar de um assunto pessoal.
— Claro! Pode falar.
— Gostaria de tirar os próximos dez dias de férias. Sei que estamos
com a comitiva da China na cidade, mas como ficarei em Nova York, estarei
sempre disponível para comparecer às reuniões que forem necessárias.
Houve um silêncio prolongado do outro lado da linha, o que me fez
franzir a testa estranhando sua atitude, já que o Dr. Stevens normalmente não
pensava duas vezes em atender qualquer pedido meu.
Permaneci calado, deixando que meu silêncio falasse por mim.
Não pretendia justificar com mais nenhuma palavra o que estava
pedindo. E ele sabia disso.
— Tirar dez dias de férias justamente agora, quando estamos em um
momento crucial com os chineses, é algo delicado.
Não era tão delicado assim, considerando que fora este contrato com a
empresa da China, todos os outros assuntos podiam aguardar meu retorno. E
não precisava estar vinte e quatro horas direto no escritório só para isso.
— Tenho comigo a agenda das reuniões que teremos com eles e
nesses dias e horários estarei no escritório – respondi prontamente,
completando em tom firme e duro – Nunca faltei antes e não faltarei agora.
Isso era algo incontestável e me irritava que depois de anos de
dedicação exclusiva à empresa, tivesse pela primeira vez um direito meu
sendo colocado em causa.
— Claro que tenho plena noção disso! – ele foi rápido em responder,
deixando transparecer que percebeu minha irritação – Não duvido nem por
um segundo da sua lealdade e compromisso com a empresa. Apenas me
surpreendi com seu pedido em um momento tão decisivo para nós, algo que
nunca fez antes. Mas é claro que sei que poderei contar com você em todos
os momentos.
Aguardei que continuasse, concordando com minhas férias. Não
pretendia recuar ou abrir mão de passar aqueles dias livres com Ana.
Ela era minha prioridade principal agora. A empresa e o meu trabalho
tinham ficado em uma posição secundária.
— Está certo. Pode tirar esses dias de férias e comparecer ao escritório
apenas para as reuniões. Mas esteja disponível para as ligações de Doris.
— Sempre estive.

***

Saí do escritório e fui direto para a cozinha, apenas para confirmar o


que já sabia.
As luzes estavam apagadas, indicando que ambas tinham-se recolhido.
Fui para o quarto, abrindo a porta de comunicação. A luz indireta
iluminava levemente a cama, onde o corpo esguio estava adormecido.
Meu Deus! Que dia foi aquele, em que tudo contribuiu para afastá-la
de mim?
Tirei a roupa e puxei suavemente as cobertas, deitando ao seu lado.
Fui recebido pelo calor do corpo adormecido, que trouxe com cuidado para o
meu, apoiando sua cabeça no peito.
Pensei se conseguiria dormir com aquela tentação em meus braços.
Dei um beijo suave em sua testa e respirei fundo, feliz demais em poder
dormir com ela.
Apenas dormir.
Coisa que nunca fiz antes com mulher nenhuma.

***

Acordei no meio da madrugada, quando ela moveu-se para longe de


mim, virando para o outro lado da cama.
Senti imediatamente falta do seu calor sobre o meu corpo e virei
também, me encaixando às suas costas. Não pude deixar de suspirar de prazer
contido, quando as nádegas macias encostaram-se em minha virilha.
Fechei os olhos e tentei voltar a dormir, mas a sensação de ter seu
corpo colado ao meu daquela forma era tão boa, que me impediu de
adormecer novamente.
Já que não conseguia dormir, aproveitei para desfrutar do prazer
daquele momento. Alguns instantes depois, sem conseguir mais me conter,
abaixei a mão e fui até a barra da blusinha do pijama, enfiando-a por baixo
bem devagar para não acordá-la.
Senti a barriga lisinha e continuei subindo até chegar onde queria e
precisava. Os seios fartos que tanto me agradaram nela. Naquela posição de
lado em que estava, eles pareciam maiores e até suspirei com o prazer que
senti ao encher minha mão com um deles.
Uma potente dose de adrenalina explodiu no meu sangue, junto com a
excitação, me fazendo enrijecer contra seu corpo. Sentir seu mamilo na palma
da minha mão só piorou a situação, levando meu mísero autocontrole
embora.
Como um homem podia resistir a isso, tendo a mulher que amava
loucamente nos braços?
Só quando percebi o que tinha pensado, foi que paralisei subitamente,
a respiração presa e o coração disparando no peito.
A mulher que amava...
Nunca amei mulher nenhuma até hoje, mas já desejei várias e namorei
com todas que quis. Como é que agora a palavra "amor" vinha tão fácil na
minha mente, ainda mais com uma mulher que nem possuí sexualmente?
Tentei afastar a mão para pensar melhor, mas não consegui. Falhei
horrivelmente, porque aquele seio macio me prendia a ela. Na verdade, minha
mente, corpo e coração se negavam a afastar a mão para longe daquilo que eu
mais queria e precisava. Ana!
Seria amor o que estava sentindo?
Sabia que tinha dentro de mim uma necessidade incontrolável de
mantê-la ao meu lado. Sabia também que agora era impossível me livrar
daquele instinto protetor quase animal que sentia. Queria protegê-la de tudo e
de todos. Necessitava vê-la feliz e sorrindo, sem aquela tristeza e
desesperança que tinha hoje quando brigamos.
Sabia também que seria capaz de agredir quem a ameaçasse e a força
dessas emoções todas estavam surpreendendo a mim mesmo. Imaginar perdê-
la, me deixava sem chão.
Amor! Seria isso tudo o amor?
Fechei os olhos e mergulhei o rosto em seus cabelos, desistindo de
tentar entender o que acontecia dentro de mim. Apenas me entreguei ao que
sentia, deixando aquela emoção sem nome tomar conta do meu peito.
Tinha total consciência apenas de uma coisa: Não poderia perdê-la de
jeito nenhum. Só de pensar que Ana pudesse sair da minha vida agora, sentia
um desespero que beirava a loucura.
Sim. Loucura! Porque para mim tudo que não fosse lógico era algo
louco, e como não podia explicar racionalmente o que era aquilo tudo que
sentia por ela, só podia classificá-lo como loucura.
Também não queria analisar a carência que tomou conta de mim
naquele momento, uma carência que parecia que apenas Ana podia suprir.
Apertei levemente o seio macio, engolindo a saliva que encheu minha boca
diante da vontade de sugar aquele mamilo que roçava a palma da minha mão.
Eu a queria e muito!
A contração na virilha só veio para aumentar minha excitação, uma
excitação que eu já tinha controlado demais e que agora explodia com força
total, exigindo satisfação. E o fruto do meu desejo estava bem ali, à minha
frente, grudado em mim, me tentando de todas as formas.
Ana! Ana! Ana!
Não sei se o meu desejo era tão forte que acordou-a ou se estava
apertando demais seu corpo a ponto de despertá-la, mas de repente ela recuou
para trás, querendo fugir da mão que a segurava pelo seio. Mas sua reação
instintiva só fez as curvas generosas chocarem-se contra mim, despertando
mais ainda meu desejo.
Fiquei com raiva de mim mesmo ao ouvir sua exclamação de medo,
quando acordou e percebeu que estava sendo praticamente assediada na cama
por um homem. Devia estar lembrando que havia deitado sozinha e com a
porta trancada.
Ela permaneceu parada por um segundo, ainda confusa pelo sono, mas
logo depois segurou minha mão com força para tentar afastá-la do próprio
corpo, lutando para fugir.
— Daniel! – chamou alto por mim, quando o homem que invadira sua
cama no meio da noite era justamente eu.
Como num flash, lembrei que ela quase tinha sido estuprada naquele
dia e ainda devia ter isso muito forte na mente. Para piorar, eu tinha caído em
cima dela como um animal cheio de luxúria.
— Calma, Ana! Sou eu! – sussurrei para acalmá-la, afastando a mão
do seio macio e tirando-a de dentro de sua blusa.
Ela virou rapidamente em meus braços assim que terminei de falar.
Senti que me encarou no escuro do quarto, a mão vindo para meu rosto e
alisando a barba.
Me estiquei sobre a cabeceira e acendi a luz indireta, lançando uma
suave claridade onde estávamos. Quando menos esperava, já tinha meu
pescoço sendo envolvido ansiosamente por seus braços, o corpo tentador
colidindo contra o meu.
— Oh, Dan! – murmurou em meu ouvido – Desculpa, mas é que
fiquei com medo!
Fechei os olhos e caí para trás sobre o colchão, trazendo-a comigo.
Estava envergonhado por estar tocando-a tão intensamente enquanto
ela dormia. Me perguntava agora quais seriam as outras coisas erradas que
ainda faria por causa dela, porque tinha a sensação que vinha quebrando
todas as minhas regras de conduta desde que a conheci.
— Sou eu quem peço desculpas! Invadi seu quarto e sua cama, porque
não aguentei ficar longe. Não queria assustá-la no meio da noite.
Ultimamente vinha fazendo uma coisa errada atrás da outra com
relação à Ana. Nunca me senti tão ridiculamente incompetente como homem.
— Está tudo bem, Dan. É que tranquei a porta e não esperava... –
parou de falar por alguns segundos e eu já sabia o que vinha a seguir – Como
entrou aqui?
— Nossos quartos são ligados por uma porta de comunicação.
Incrivelmente, Ana deu uma risada suave, relaxando junto a mim.
— Só vi isso em filmes ou novelas.
Aquela risada rouca me atingiu em cheio na virilha, despertando de
uma forma insana o meu desejo.
Fiquei novamente sem palavras. A única coisa que consegui fazer foi
alisar seus cabelos, afastando-os para trás do rosto, e beijá-la
apaixonadamente.
Foi o suficiente para detonar uma explosão incontrolável de desejo
dentro de nós dois, porque Ana abriu a boca sofregamente, me deixando
invadi-la sem restrições.
Ela arqueou o corpo em direção ao meu e nos entregamos a um beijo
tão intenso que me senti desesperado por mais, mais e mais. Tornava-se
impossível conter meu desejo e fiquei completamente cego de paixão.
Tudo que vinha conseguindo controlar até aquele momento explodiu
de uma única vez. Se aquele tinha sido um dia emocionalmente instável para
Ana, também o foi para mim.
Em poucas horas, fui testado emocionalmente como nunca tinha sido
antes.
Fui do prazer de pegá-la na casa de Ashley, à raiva de ler aquele
relatório e me sentir traído e enganado. Sem quase ter tempo para respirar, fui
assolado pelo desespero de saber que estava perdida no parque e correndo
perigo. Não demorou muito para ser jogado novamente numa montanha-russa
emocional, quando a trouxe para minha cama e me surpreendo ao descobrir
que é virgem. No momento que vou possuí-la, sou interrompido por um
canalha querendo levá-la de mim. Perdi o controle e joguei sobre ele toda a
minha raiva, agredindo-o com o maior prazer do mundo. Por fim, descubro
que possivelmente Ana é disléxica e precisa muito mais da minha proteção
do que pensei antes.
Como me conter agora? Perdi vergonhosamente aquela luta e me
deixei ser conduzido por minhas emoções.
Chega de controle! Chega de razão!
Naquele momento, eu era emoção pura, como nunca fui antes em
minha vida.
Ela não parecia estar muito diferente de mim, porque gemeu
ardentemente em minha boca, quando enfiei a mão por dentro do pijama e
comecei a puxá-lo para baixo, retirando-o junto com a calcinha.
Ana ajudou, puxando a própria blusa e ficando nua à minha frente.
Assim que joguei minha boxer para o lado, fui atrás dela, trazendo-a
para mim.
Senti sua mão correr pelas minhas costas, enquanto nos beijávamos
apaixonadamente. Gostava quando ela apertava meu corpo, sentindo os
músculos com evidente prazer.
Deixei sua língua envolver-se com a minha, dando-lhe a iniciativa de
me provocar do jeito que quisesse. Ana era a mulher mais doce e carinhosa
que eu havia conhecido até hoje. De uma forma muito natural e peculiar,
conseguia me excitar muito mais do que as amantes mais experientes que já
tive. E tinha que confessar que só agora que a conheci é que notava a
diferença gritante entre ela e as outras.
Ela tinha o que eu queria e necessitava.
— Dan – sua voz suave sussurrou em meu ouvido quando mordi
levemente seu pescoço.
As coxas macias esfregaram-se nas laterais do meu corpo, enquanto
rodeavam minha cintura. Era difícil fazer minha mente esquecer que naquela
posição já poderia possuí-la, ainda mais com todo desejo reprimido que vinha
controlando duramente há meses, dias, horas e minutos atrás. Mas sabia que
Ana merecia todo o tempo do mundo para aproveitar aquela primeira
experiência comigo e pretendia dar-lhe tudo que precisava.
Durante um bom tempo consegui manter aquela determinação, mas
depois tudo foi abaixo, quando senti a mão macia descer ao longo da minha
coluna até o quadril, chegando à virilha.
Inspirei fundo quando percebi sua intenção.
Fechei os olhos e não falei nem reagi, deixando que tomasse a
iniciativa de me tocar.
E ela o fez! Da forma mais inocente e ao mesmo tempo sensual que já
vivi com uma mulher. A mão macia me envolveu de uma forma tão
carinhosa, que rosnei diante do prazer que senti.
— Oh meu Deus! – deixei a cabeça tombar nos seus cabelos
espalhados sobre o travesseiro, soltando um grunhido de satisfação.
Ela me segurou com firmeza, deslizando depois a mão ao longo de
toda minha ereção, me enlouquecendo de vez. Até tremi com a força do
prazer que senti, sabendo que já estava a ponto de explodir de tanta tensão
sexual. Bastava um pouco mais de estimulação de sua mão macia para que eu
gozasse. Aquilo era o resultado de meses de namoro virtual sem a satisfação
do toque de pele contra pele.
— Você gosta assim?
E como gosto!
— Muito, Ana! Muito! – grunhi com dificuldade, sem conseguir
pensar racionalmente.
Não fazia ideia para onde tinha ido o homem experiente de trinta e
dois anos, porque me sentia um adolescente iniciante a ponto de ter uma
ejaculação precoce nas mãos de uma garota virgem.
Segurei sua mão com firmeza, dividido entre ensiná-la a fazer mais e
melhor ou pará-la antes que nossa primeira vez terminasse sem ao menos ter
começado.
Mas como a primeira vez era dela, afastei sua mão, mesmo sabendo
que continuaria a explorar meu corpo em outros lugares e provavelmente me
enlouqueceria de outras formas.
— Fiz algo errado? – sussurrou insegura.
Como sabia de sua baixa autoestima, procurei tirar aquela impressão
errada de sua cabeça.
— Não! Não fez nada errado – encarei-a firmemente, deixando que
visse nos meus olhos o quanto estava perturbado com seus carinhos – O
único problema é que está fazendo certo demais e deste jeito me fará gozar
antes da hora e quero que seja dentro de você.
Nos olhamos com desejo por um breve instante, antes de nos
abraçarmos sofregamente. Gemi como um desesperado quando senti as
curvas generosas do seu corpo chocarem-se contra o meu, os seios fartos
roçarem meu peito, o quadril encostar-se em minha ereção totalmente
intumescida, as coxas abrirem-se para me receber.
— Dan!
— Já não consigo me conter! Preciso desesperadamente de você!
— Vem, Dan! – chamou, ronronando como uma gatinha – Também
não aguento mais esperar.
Subi sobre o seu corpo, deitando-a debaixo de mim. Mergulhei de
cabeça em seus seios, devorando um mamilo inteiro com a boca. Suguei com
um desespero que assustou a mim mesmo, me deliciando com o seu sabor e
me excitando mais ainda ao ouvir seus gemidos de prazer.
— Ai Dan! Continua assim, por favor.
E continuei do jeito que ela pediu, fazendo o mesmo com o outro seio,
minha mão descendo pelo seu corpo até chegar aos pelos macios e cair na
umidade entre suas pernas. Puxei com carinho um mamilo com a boca,
forçando a pressão ao sugá-lo, para aumentar seu prazer, enquanto sentia meu
dedo deslizar em suas dobras macias.
Ana separou mais as pernas, facilitando meus carinhos e permitindo
que tivesse total acesso àquela parte íntima do seu corpo.
— Não para! Gosto tanto quando você mexe assim comigo.
Não pretendia parar de jeito nenhum e aproveitei seu evidente prazer
para ir introduzindo lentamente o dedo. Precisava sentir até que ponto
poderia forçá-la sem magoar. Apesar da resistência da entrada apertada, Ana
não reclamou, parecendo totalmente dominada pelo prazer.
Já consciente de como seria a posse do seu corpo, continuei
estimulando-a no botão inchado pela excitação, até sentir sua respiração ficar
cada vez mais ofegante. Abandonei os seios que me enlouqueciam e baixei ao
longo do seu corpo, ansiando por sentir novamente seu sabor em minha boca.
— Dan – ela gemeu em expectativa, ciente do que aconteceria.
Não decepcionei-a nem por um instante, mergulhando a língua entre
suas pernas, sugando e me deliciando com seu cheiro, gosto, textura e
umidade. Quando senti que ela estava quase gozando, naquele ponto sem
volta em que o prazer é a única coisa que sentimos, voltei para cima do seu
corpo, me posicionando entre suas pernas.
Aquele era o momento ideal para possuí-la, em que a busca pelo
orgasmo diminuiria qualquer sensação de dor. Beijei-a com avidez, sentindo
como envolveu minha cintura com as pernas, já arqueando o quadril contra o
meu. Seus braços deslizaram por meus ombros, as unhas curtas arranhando
suavemente minha pele e aumentando meu prazer.
Até estremeci com a expectativa de possuí-la, algo totalmente
inusitado para mim. Como é que podia estar tão abalado daquele jeito?
— Se sentir muita dor, diga – grunhi entre seus lábios.
Ela confirmou, mas sem parar de me beijar.
Deixei a ponta da ereção deslizar ao longo da sua umidade e o prazer
que senti com aquele primeiro toque foi a minha perdição completa.
— Oh! – sua exclamação de surpresa e deleite me pegou
desprevenido, pela força com que me deixou mais endurecido ainda.
Aquilo estava diferente demais. Muito mais potente. Muito mais forte.
Continuei a me esfregar nela até chegar à entrada macia e forçar
lentamente para caber dentro do seu corpo.
— Ana! – a sensação era boa demais e temi perder o controle,
machucando-a sem querer.
Seu arfar de prazer chegava até meu rosto e me afastei o suficiente
para olhá-la de frente. Precisava confirmar se estava bem, disposto a parar se
quisesse, mas fiquei extasiado quando vi o quanto ela estava dominada pela
paixão.
— Vem mais, por favor!
Fui mais fundo, sentindo a ponta da ereção abrir espaço dentro da sua
carne tenra e macia.
— Meu Deus – rosnei com dificuldade, fechando os olhos para me
conter, mas foi pior ainda, porque aumentava a sensação de prazer.
Aquilo estava se mostrando um teste hercúleo para meu autocontrole e
não sabia até que ponto aguentaria não me afundar totalmente nela de uma
única vez.
Estava bom demais, porra!
Até que percebi porque a sensação era bem mais intensa e o
autocontrole fugia tão rapidamente. Estava sem preservativo!
Parei na hora, xingando uma grande foda-se em inglês.
Não estava no meu quarto, onde estava acostumado a pegá-los mal
tirava a roupa.
Com Ana, esqueci de tudo!
— Preciso parar!
— Hãa? – ela exclamou confusa – Não está doendo! Por favor, não
para!
Recuei para trás, mas ela apertou mais as pernas em minha cintura, me
fazendo quase entrar nela.
— Tenho que parar! Estou sem preservativo!
Ela piscou duas vezes, parecendo não ter entendido nada do que eu
disse, até que seus olhos brilharam com a compreensão e deixou cair as
pernas da minha cintura.
Contive um grito de raiva e frustração quando ela fez isso, mesmo
sabendo que era o certo.
— Meu Deus! Nem lembrei disso! Sei que é importante por conta das
doenças, mas acho que foi falta de experiência... quer dizer, por nunca ter
feito... – parou, desistindo de justificar sua virgindade.
— A questão aqui não são as doenças! Estou limpo! – me irritei que
duvidasse daquilo.
Nunca abri mão de usar preservativo com qualquer mulher antes dela.
— Bom, no hospital temos que fazer exames anuais e também não
tenho nada – me olhou com esperança – Onde estão?
— No meu quarto! – rosnei com raiva, pensando como alguns metros
podiam se transformar em quilômetros diante numa situação daquelas.
— Oh! Aqui não tem?
Girou o corpo para ver a cabeceira, mas o movimento só fez com que
nossos corpos se esfregassem mais ainda e gemi de frustração.
— Não, Ana! Não tem – rosnei novamente.
Pensava o que mais podia acontecer para me impedir de consumar
aquela posse sobre ela.
— Então temos que parar, é isso? – perguntou com ansiedade na voz –
Não podemos fazer de outro jeito?
— Que outro jeito?
Senti sua mão envolver minha ereção com carinho, me fazendo
estremecer de prazer.
— Assim.
Segurei seu pulso.
— Não! Quero possuí-la!
Desde quando virei uma animal irracional?
Trinquei os dentes ao perceber aquele homem das cavernas
despertando dentro de mim, desesperado por ser o primeiro a possuí-la e
marcá-la. Quanto mais o tempo passava, mais me sentia ameaçado por todos
os lados, como se de repente fossem tirá-la de mim.
Ela não me soltou, continuando a pressionar minha ereção com
firmeza.
— Solta, Dan – pediu suavemente, me olhando com desejo.
— Solte-me você!
E de preferência, rápido!
— Não – ela voltou a ronronar, puxando minha cabeça para baixo e
beijando meu queixo, os lábios correndo depois para minha boca, abrindo-se
para mim.
Mergulhei a língua nela, desejando na verdade mergulhar minha
ereção em seu corpo.
Precisava fazê-la minha!
— Preciso de muito mais do que isso!
— Também preciso.
A razão que me fez parar ao perceber que não usava preservativo
estava indo embora rapidamente, deixando em seu lugar apenas a paixão e
um absurdo sentimento de posse.
Fechei os olhos, pensando naquela situação.
Só tinham dois riscos ali. Doenças e um filho. O primeiro estava
descartado, restava o segundo.
Incrivelmente, o que veio à minha mente foi minha mãe.
"Será que lembra quantos anos tem? Você está na idade ideal de ter
uma família e me dar netos. Mas só pensa em trabalhar!"
Abri os olhos e vi a expressão apaixonada de Ana. Sabia que se fosse
outra mulher que estivesse à minha frente, jamais pensaria em fazer o que
passava por minha cabeça naquele momento.
Respirei fundo quando percebi o grande passo que estava prestes a
dar.
Segurei seus cabelos e encarei-a intensamente. Com a outra segurei
minha ereção, passando-a ao longo de sua umidade.
Ana suspirou, os olhos quase fechando de prazer. Repeti mais uma e
outra vez, até parar em sua entrada. Levei o dedo até o botão inchado e passei
a estimulá-lo num movimento constante.
— Dan, pelo amor de Deus. Faça alguma coisa, por favor! – enterrou
as unhas na minha pele.
Vi seus olhos fecharem com a força do desejo que sentia.
— Olha pra mim.
Ela os entreabriu com dificuldade, presa nas teias do desejo.
— Tem certeza que não está usando nada?
Franziu a testa, esforçando-se para entender.
— Usando o quê?
Tentei ter paciência, jurando a mim mesmo que ia melhorar meu
português.
— Gravidez, Ana! Um bebê! – trinquei os dentes para conter a
necessidade de posse que só aumentava.
Ela agarrou-se em mim com urgência, as pernas voltando a envolver
minha cintura e me prender junto ao seu corpo.
Aquele simples movimento foi a minha perdição total. Difícil demais
para um homem resistir a uma tentação daquelas e comigo não foi diferente.
Todos aqueles meses e dias de espera, em que apenas pude me
masturbar pensando nela, em que permaneci sexualmente frustrado pelo
desejo insatisfeito e ansioso por tê-la da forma como estava agora,
explodiram de uma única vez dentro de mim.
— Responde, porque vou acabar por possuí-la mesmo correndo o
risco de engravidar você.
Ela arqueou o quadril para cima, buscando satisfação.
— Então vem!
Me senti em queda livre quando ouvi sua resposta, tal a emoção que
bateu duro dentro do peito.
— O que disse?
Seus olhos abriram-se, envolvendo os meus com um carinho tão
grande que me emocionou até a medula.
— Me ame.
Fechei os olhos por um instante e quando os abri, encontrei a mesma
expressão nos dela.
— Tem certeza? É que depois não há espaço para arrependimentos.
Um sorriso suave curvou seus lábios.
— Você vai se arrepender?
— Nunca!
— Então por favor, me ame. Porque eu também nunca me
arrependerei.
Meu coração falhou uma batida, depois acelerou vertiginosamente.
— Ana – caí direto em sua boca, comovido demais para expressar o
que sentia com outras palavras que não fossem aquelas – Vou te amar
sempre!
Ela me abraçou mais apertado ainda, os mamilos inchados e sensíveis
esfregando-se no meu peito.
Segurei com firmeza sua coxa e fiz pressão para dentro dela, forçando
seu corpo a me aceitar. Senti a resistência inicial ir cedendo aos poucos, mas
à medida que ia consumando o ato, Ana também ia ficando mais tensa em
meus braços.
— Tem calma! Vai ficar bom depois – beijei seus lábios, tentando
fazê-la relaxar, mas eu mesmo me sentia a ponto de estourar de tanta tensão –
Se for preciso, eu paro.
Não sabia como conseguiria parar, mas se realmente Ana recuasse,
teria que encontrar uma forma de fazê-lo.
Só esperava que isso não acontecesse, porque era justamente aquela
penetração justa e apertada que estava me levando à loucura. E sem
preservativo, a sensação da posse era irresistivelmente intensa.
Não demorou muito até conseguir entrar totalmente, seu corpo
cedendo de vez à minha posse. Ouvi sua exclamação de surpresa transformar-
se em um gemido de prazer, quando tomei-a completamente.
Ana ficou quieta por um momento, mas depois mexeu-se debaixo de
mim como se estivesse experimentando a sensação de me ter dentro dela.
Maldição! Mas o que era aquilo que eu estava sentindo?
Apertei-a com força em meus braços, com vontade de gritar que enfim
ela era minha e nada mais me impediria de possuí-la, porque o ato já estava
consumado.
— Ana! – ouvi minha própria voz enrouquecida de emoção – Você
agora é minha mulher!
Me movimentei dentro dela pela primeira vez, ouvindo seu gemido de
surpresa.
— Gosta assim? – perguntei, movendo novamente meu corpo,
consumando minha posse.
— Gosto – aquele sussurro arquejante desceu direito para a virilha,
aumentando minha excitação.
— Dói alguma coisa?
— Oh, não! Não dói mais! – novo arquejo e mais um gemido – É
diferente, mas é muito bom.
Olhei-a e lá estava o desejo cada vez maior.
— Posso ir mais rápido?
Acelerei os movimentos, mostrando-lhe como podia ficar muito
melhor.
— Pode sim! – concordou, fechando os olhos e arqueando-se para
mim.
— Vem comigo! – rosnei em seu ouvido, dominado por um desejo
cada vez maior e difícil de conter.
E Ana veio! De uma forma extremamente sensual, ela entrou no meu
ritmo e em pouco tempo estávamos completamente sincronizados em uma
cadência erótica, que em pouco tempo explodiria num orgasmo intenso.
— Posso possuí-la mais forte? – rosnei, já no limite do desejo.
Esperava ouvi-la dizer que sim, porque precisava desesperadamente
daquilo. Pretendia ter cuidado, mas necessitava intensificar aquela posse da
forma como gostava.
— Sim.
Quase gemi de alívio quando ouvi sua resposta e não hesitei um
minuto em dar a primeira batida mais forte dentro dela. E a segunda.
— Dan!!!
Seu tom era de prazer. Puro prazer e êxtase!
Estimulei-a com os dedos e em questão de segundos já tínha perdido o
controle da razão e só havia aquela excitação crescendo cada vez mais.
— Ana!! – rosnei em seu ouvido, a ponto de gozar, porque a sensação
de seu corpo quente, úmido e apertado comprimindo minha ereção, estava
sendo demais para mim.
A ausência do preservativo nunca foi tão bem aceita quanto naquele
momento. Por mim, nunca os usaria com ela.
— Oh. Vem mais!
Sabia que ela ia gozar e gemi de alívio por enfim poder liberar
totalmente meu desejo, sem contenção nenhuma. Deixei que seu orgasmo
viesse e só então acompanhei-a, soltando um grunhido rouco quando os
espasmos de um prazer inigualável tomavam conta do meu corpo. Me
derramei dentro dela num gozo arrebatador, os espasmos de prazer me
fazendo encher seu corpo com minha semente. Aquele sentimento que não
queria chamar de amor inundou meu peito com uma força assustadora.
Por um longo tempo fiquei sem forças sobre ela, tendo o cuidado
apenas de não sobrecarregá-la demais com meu peso. Esperei que meu
coração parasse de gritar dentro do peito que Ana agora era minha mulher por
inteiro e que ainda carregava dentro dela uma pequena possibilidade de
gravidez.
Observei seu rosto afogueado, acompanhando os olhos abrirem
devagar e fixarem-se nos meus. Inspirei fundo, prendendo o ar e soltando-o
depois muito lentamente, ao identificar a emoção que havia neles.
Baixei a cabeça e fiz o que meu coração mandava. Saí de dentro dela,
indo beijar sua barriga lisinha, onde poderia em breve estar crescendo meu
filho. Depois beijei cada um dos mamilos rosados que eu tanto amava e por
fim sua boca, selando nosso primeiro ato de amor com aquela declaração
muda.
Só depois foi que vim para o lado, trazendo-a comigo. Apaguei a luz,
vendo o quarto mergulhar na penumbra e voltando a dormir com ela, naquela
que eu pretendia fosse a primeira das muitas noites que dormiríamos juntos.
CAPÍTULO 30

Naquela madrugada

Ana
Passei as mãos nas costas fortes, novamente encantada com seu corpo.
Daniel era um homem com H maiúsculo e todas as outras letras também.
Apalpei cada músculo e pedaço de pele que surgia no caminho das
minhas mãos. Até que, enfim, encontrei coragem para chegar até a ereção,
que tanto me assustara antes, mas que também fascinara pelo tamanho e
dureza.
Envolvi aquilo tudo com a mão, impressionada com Daniel.
Seu rosnado de prazer me deu segurança para tocá-lo com mais
firmeza, movendo minha mão em toda sua extensão.
E que extensão era aquela, meu Deus!
E ele não me fez esperar, indo direto para meus seios e iniciando uma
deliciosa tortura com seus lábios e língua, que me levou rapidamente a um
grau de excitação sem volta.
Depois passou a me acariciar entre as pernas, me moldando como
barro, criando dentro de mim uma mulher ansiosa pela satisfação que só ele
poderia dar. Fosse com a mão ou a boca quente e úmida, Daniel estava me
transformando à sua maneira.
Senti quando preparou-se para me possuir, a ereção deslizando no meu
sexo escorregadio, parecendo me beijar toda.
Estava tudo tão bom, que demorei a entender a necessidade do
preservativo.
Relaxei na hora, porque tinha certeza que havia menstruado poucos
dias antes da viagem. Pela lógica, não tinha risco algum de engravidar,
porque minha menstruação era muito certinha.
Tranquila, envolvi sua cintura, prendendo-o junto ao meu corpo. Sabia
que com a força que tinha, Daniel poderia desvencilhar-se facilmente, mas
pretendia mostrar-lhe que estava disposta a ir até o fim sem preservativo
mesmo.
Um filho!
Meu Deus! Quando isso acontecer, juro que serei uma mãe melhor do
que a minha! Ele vai ser muito amado, garanto!
Olhei aquele homem enorme em cima de mim. Grande em tamanho e
em amor e muito certa do que fazia, segurei seus cabelos e trouxe-o para
meus seios, pedindo silenciosamente que os beijasse, matando sua ansiedade
e a minha também.
Ele não me decepcionou, beijando-os com avidez, saciando-se e me
saciando.
Sua mão desceu, queimando meu corpo com seu calor, até mergulhar
com firmeza na umidade entre minhas pernas e me deixar mole de prazer.
Nos envolvemos novamente num rápido processo de dar e receber
prazer, ambos já nos limites máximos da resistência. Senti que ele estava
pronto para me possuir, quando segurou minha coxa com a mão grande e
quente, começando a me penetrar com sua ereção potente.
Havia chegado o grande momento e apesar de estar ansiosa por ele,
também sobreveio um certo medo do desconhecido. Deixei Daniel ir
penetrando aos poucos e apesar de tensa, senti que meu corpo ia
acomodando-o bem.
Se eu já me sentia inteira, normal e plena apenas por trocar carícias e
estímulos sexuais com ele, agora que o tinha dentro de mim numa posse total,
podia dizer que finalmente estava completa.
Mexi meu corpo, descobrindo o prazer de ser possuída.
É perfeito, maravilhoso!
Ele me apertou com mais força, num gesto possessivo que me fez
sentir mais mulher ainda.
As sensações foram crescendo e crescendo no meu íntimo, enquanto
mexia meu corpo em direção ao dele, que ia aprofundando-se um pouco mais
a cada investida. A umidade de nossos corpos fazia um som que me excitava
muito, junto com a respiração ofegante de Daniel no meu ouvido.
Pensei para onde tinha ido toda a minha vergonha, porque estava
amando cada estocada forte que dava dentro de mim. Na verdade, saí
buscando aquele ímpeto toda vez que erguia meu quadril em direção ao dele,
ansiosa por sua posse firme, potente e dura.
Daniel mostrou o que era fazer amor com ele quando aumentou sua
batida e fiquei muda de tanto prazer. Queria dizer o quanto aquilo era bom e
não conseguia. A única coisa que saía da minha garganta eram gemidos e
arquejos, que misturavam-se com os dele.
Em algum momento o orgasmo construiu-se tão forte dentro de mim
que solucei com a tensão sexual. Sabia que ia gozar pela primeira vez na
minha vida com um homem me possuindo e aquele momento estava sendo
marcante demais para mim, porque era com o homem que eu amava.
Daniel!
— Dan, vem mais!
E ele veio. Firme, forte e cem por cento Daniel!
E eu gozei como nunca na minha vida, entendendo, por fim, que meu
mundo agora era ele.
E o homem que eu amava entregou-se ao prazer logo depois de mim,
soltando um rosnado enrouquecido dentro da noite silenciosa, consolidando a
posse completa do meu corpo, da minha alma e do meu coração.

***
Daniel
Quando despertei estava quase amanhecendo, deixando o quarto ainda
envolto na suave claridade do alvorecer. Senti logo o corpo de Ana debaixo
do meu.
Em algum momento durante a noite, ela havia ficado de bruços e
agarrado o travesseiro, estando praticamente deitada em cima dele.
Percebi que devia ter ido atrás dela, porque estava debruçado sobre
suas costas, com o rosto em seus cabelos, um braço envolvendo-a
possessivamente e uma perna inserida entre as suas. Como Ana era pequena
comparada ao meu tamanho, era fácil prendê-la com meu corpo.
E era exatamente assim que ela estava. Presa!
E era exatamente assim que eu queria que ela continuasse.
Me preocupei apenas que estivesse fazendo muito peso, por isso me
afastei ligeiramente para trás, tirando minha perna de cima das dela e o peito
de suas costas.
Me surpreendi quando seu braço fez pressão no meu, me segurando.
Não queria acordá-la, por isso aguardei alguns segundos antes de
tentar me afastar novamente, mas assim que movi o peito, sua mão agarrou a
minha.
— Não – ouvi sua voz rouca de sono – Está bom assim.
Suas palavras tocaram fundo dentro de mim, me fazendo apertar
ligeiramente a mão que tinha em sua cintura e que ela segurava.
— Não estou pesado demais?
— Um pouco, mas eu gosto – entrelaçou uma de minhas pernas entre
as dela, para que não a tirasse – Fica, por favor. Sinto-me bem assim!
Não deixei que pedisse de novo, voltando à posição que estava antes
sobre suas costas, mas tendo o cuidado de não pressioná-la demais.
Não podia ver seu corpo por baixo das cobertas, mas podia senti-lo
por inteiro e o maior impacto era a curva acentuada das nádegas contra minha
virilha.
Ana tinha um corpo exuberante e se antes de possuí-la eu já sentia
uma atração irresistível por ela, agora que a tinha amado por completo e
conhecido cada pedaço seu, estava totalmente dependente e viciado.
Fechei os olhos, analisando aquela emoção inédita de acordar ao seu
lado, agarrado ao seu corpo e sentindo o quanto isso era bom. O cheiro dos
cabelos macios perto do meu rosto me embriagava e as curvas femininas
começaram a surtir seu efeito sobre meus sentidos.
Durante uns bons minutos consegui me controlar, permanecendo
quieto, mas depois não resisti a tentação e deslizei a mão de sua cintura,
chegando até a protuberância da nádega macia e cheia, para alisar a pele
suave.
Estava apaixonado pelos seios fartos de Ana, com seus mamilos
rosados e que enchiam minha boca d'água de desejo por eles. Mas não podia
negar que tinha ficado fascinado pela bunda arredondada, que parecia
perfeitamente esculpida numa curva generosa. Aquela voluptuosidade toda
não era comum nas americanas, mas era algo que Ana tinha até demais,
fazendo com que o conjunto do seu corpo fosse uma tentação completa para
qualquer homem.
Só em imaginar o desejo que provavelmente despertava nos outros
homens, fez com que chegasse mais perto dela, atraindo-a totalmente para
mim. Entendia que se ela havia chegado virgem aos meus braços, era porque
tinha que ser só minha e de mais ninguém. E eu pretendia que permanecesse
desse jeito!
Se cheguei a ter alguma dúvida sobre ela ser realmente uma mulher
carinhosa como colocou no perfil do Site, agora tinha certeza absoluta disso.
E quanto mais assimilava as qualidades de Ana, mais territorial me sentia
com relação a ela.
A primeira coisa que faria naquela manhã seria ligar para Bia e pedir a
senha do perfil dela. Agora que sabia de sua provável dislexia, estava mais
que provado que de fato não mentiu para mim quando disse no escritório que
a amiga é que fizera tudo para ela.
Apertei-a com mais força em meus braços, ao perceber que nas mãos
da pessoa errada, Ana poderia ver-se envolvida em sérios problemas, fosse na
vida pessoal ou no trabalho. Sendo um advogado acostumado a ver todo tipo
de fraudes, sabia que existiam pessoas que não teriam nenhum escrúpulo em
usá-la, prejudicando-a seriamente. Infelizmente, Ana era uma vítima
extremamente fácil.
Sabendo agora que as mentiras do seu perfil foram realmente
colocadas lá por Bia, já tinha isso como um pequeno exemplo da sua
vulnerabilidade.
Imaginava que não devia ser fácil para Ana confiar em alguém. Eu
mesmo, com toda minha capacidade profissional, confiava em pouquíssimas
pessoas. Imagina então uma garota como ela, com sérias limitações na leitura.
Me preocupei com aquilo, porque Ana devia ter alguém na família que
a ajudasse quando precisava assinar algum documento. Talvez fosse o pai, já
que realmente moravam juntos e tinha sido um médico experiente. Precisava
averiguar isso assim que pudesse.
Quanto àquele perfil no @mensagensdeamor, ele seria fechado hoje!
— Dan? Está apertando muito – ela reclamou, a voz abafada pelo
travesseiro.
Aliviei imediatamente a força com que estava agarrando-a pela nádega
macia.
— Desculpa!
Me suspendi sobre um braço para alcançar melhor suas costas e beijar
o ombro delicado, reforçando meu pedido de desculpas. Mas não resisti e saí
descendo depois a linha de sua coluna, onde dei uma leve mordida. Na
verdade, queria mordê-la toda, tão forte era o meu desejo. Deixei a barba
roçar seu corpo até chegar à curva exuberante da nádega, beijando-a com
intensidade.
Passei o braço entre suas pernas, sentindo a umidade do sexo quente e
enfiando a mão por baixo para alcançar o seu ventre.
— Levanta.
Ela ergueu o quadril, deixando minha mão entrar no espaço entre a
cama e o seu corpo. Quando cheguei ao ventre plano, abri a mão
possessivamente, pressionando meu braço em sua intimidade já umedecida
de excitação.
— Ai! – ronronou com um suspiro de prazer, deixando o quadril cair
sobre mim.
Com aquela pegada, podia senti-la totalmente minha. Respirei fundo
para conter a emoção estranha que vinha me dominando nas últimas horas e
contra a qual não tinha forças para lutar.
Fechei os olhos e enterrei o rosto em suas costas, quando identifiquei
aquilo tudo como sendo o sentimento de posse por ela ser minha.
— Está dolorida?
Ela voltou a mexer o quadril, como se estivesse testando o próprio
corpo, mas aquele movimento sensual estimulou mais ainda o meu desejo
crescente.
Mantive minha virilha longe dela para evitar qualquer contato que
estimulasse mais ainda aquele desejo. Não pretendia atacá-la como um insano
logo depois de sua primeira vez, mas foi difícil engolir o gemido de prazer
com aquele movimento sensual.
— Sinto-me bem!
— Tem certeza? – insisti.
— Sim, tenho.
Para mostrar que falava a verdade, tentou virar-se de frente, mas voltei
a impedir, mantendo-a de bruços.
— Fica assim.
Não pretendia me excitar demais, mas também não conseguia deixar
de admirar seu corpo naquela posição. Estava encantado pelas curvas
generosas do quadril.
Puxei seus cabelos para trás, alcançando o lóbulo da orelha delicada e
beijando-a. Desci depois por seu rosto, até beijá-la no canto da boca macia.
Pretendia explorar seu corpo e comecei roçando a barba no pescoço
esguio, ouvindo seu arfar de desejo.
— Ai Dan – falou ofegante – Me arrepiei toda agora.
Não falei nada, apenas continuei aproveitando a maciez e calor da sua
pele, deixando seu cheiro e sabor estimularem meus sentidos.
No início ela conseguiu ficar quietinha, só aproveitando os beijos nas
costas, nádegas, coxas e pernas. Mesmo ouvindo seus suspiros e arquejos
cada vez mais rápidos e sentindo sua respiração acelerar, evitei tocá-la
intimamente para não terminar por possuí-la outra vez. Queria dar tempo para
seu corpo recuperar-se antes de fazermos amor novamente.
Mas à medida que as carícias aumentavam, percebi que estávamos
inevitavelmente ficando cada vez mais excitados. Resolvi parar, voltando a
enterrar o rosto em seus cabelos, a ereção escondida no colchão.
Ela remexeu-se, inquieta.
— Dan? Continua.
Ignorei seu pedido.
— Vamos tomar um banho e levantarmos. Precisamos falar com Bia e
quero mostrar-lhe a cidade.
Ela virou o corpo para o meu lado, me olhando de frente. Parecia
indecisa, mas levou a mão para o meu peito, me forçando para trás. Resisti,
permanecendo como estava.
Ana não falou nada, apenas debruçou-se sobre mim, me empurrando
contra a cama. Cedi, caindo sobre o travesseiro, com ela por cima, os cabelos
longos espalhando-se sobre nós.
Senti quando colou seu corpo ao longo do meu, a coxa macia roçando
minha ereção e derrubando minhas defesas. Os seios encostaram no meu
peito, me fazendo suspirar de prazer.
— Continua – sussurrou baixinho – Não para, por favor.
— Faz pouco tempo.
Sua resposta foi um beijo molhado em minha boca, calando minhas
palavras. Segurei-a pelos cabelos com uma única mão, a outra indo direto
para um seio macio, enquanto me deixava ser seduzido.
— Sinto-me bem – sussurrou, afastando o rosto o suficiente para nos
encararmos – Por uma série de razões, vim à Nova York disposta a não fazer
amor com você. Queria muito conhecê-lo, porque estava apaixonada, mas
tinha receio de fazer sexo logo de cara. Mas fiz exatamente o contrário já no
segundo dia e não me arrependo nem um minuto disso, porque gostei muito
do que fizemos.
Senti que endurecia mais ainda só em ouvir suas palavras e ver o
brilho sincero dos olhos castanhos, junto com aquele sentimento que ela não
conseguia esconder. Sentimento que expressou logo depois, sem me dar
chance de falar.
— Estou te amando demais! – confessou suavemente – Em pouco
mais de dez dias voltarei ao Brasil e vou ficar novamente sozinha e longe de
você. Então me ama agora!
Maldição!
Virei-a sobre a cama, ficando por cima do seu corpo e beijando-a
avidamente. Meu peito estourava de ansiedade e urgência, onde cada batida
repetia apenas uma coisa. "Ela não vai voltar! Ela não vai voltar!"
Ceguei completamente ao ouvi-la falar em voltar para o Brasil. Já não
conseguia me ver sem ela, muito menos conseguia pensar que ficasse
sozinha, sem que eu estivesse ao seu lado para cuidar dela.
Ana é minha e vai ficar comigo!
Senti como devolveu meu beijo com o mesmo desejo que me
dominava.
De comum acordo, suas pernas abriram-se e me encaixei entre elas
com perfeição.
Deixei seus lábios e fui atrás dos seios, com uma ansiedade já
conhecida, que só diminuiu quando peguei um mamilo sensível com a boca.
Deus tivesse piedade de mim, porque Ana havia despertado um
monstro carente no meu interior, que só ficava saciado naqueles seios ou
quando a possuía.
Senti suas mãos ávidas em minhas costas, subindo e descendo entre os
músculos. Era como se quisesse decorar cada pequeno pedaço do meu corpo.
E eu amava quando ela fazia isso!
As unhas curtas enterraram-se em meus ombros quando suguei o outro
mamilo túrgido, o corpo arqueando-se para o meu e aumentando o contato de
pele contra pele.
— Oh Dan! Eu preciso tanto disso! – admitiu entre suspiros de prazer.
Suas pernas ergueram para envolverem meu corpo, as coxas macias
roçando sensualmente minha cintura e quadril, enquanto mexia-se
ansiosamente, atiçando cada vez mais meu desejo.
Ana aproveitou que ainda sugava seus seios, para descer a mão por
meu abdômen e segurar com firmeza minha ereção.
Oh Shit! Assim vou gozar rápido!
Para aumentar meu desespero, ela moveu a mão para cima e para
baixo, passando o polegar na ponta molhada de excitação.
— Ana! – rosnei como um animal, muito perto de perder o controle.
Ela me ignorou completamente, me puxando com suavidade para mais
perto.
Percebi o que queria e respirei fundo para aguentar aquela tortura,
deixando que esfregasse a ponta enrijecida em suas dobras macias,
estimulando o botão inchado de prazer.
— Oh...como é quente...e bom – fechou os olhos, jogando a cabeça
para trás e arfando de puro êxtase.
Ainda aguentei aquele martírio por mais algum tempo, deixando-a
excitar-se à vontade, até não suportar mais. Estremeci de prazer antecipado
quando suas unhas ficaram-se em meu ombro, mostrando que já estava perto
de gozar.
Tive que ser rápido, antes que ela explodisse e eu também. Segurei
sua mão, me soltando dela e fiz com que virasse de lado, deitando-a depois
de bruços. Me coloquei entre suas pernas, endurecendo mais ainda quando
tive um rápido vislumbre de seu corpo pronto para me receber.
A consciência gritou alto apenas por um mísero instante, ao lembrar
novamente do preservativo, mas joguei-a com desprezo num canto escuro da
minha mente ao ouvir meu coração repetir "Ame-a logo e não a deixe voltar
ao Brasil!"
Ouvindo apenas o coração, segurei seu quadril e penetrei-a sem pensar
em nada mais além de possuí-la, ouvindo seu gemido de prazer quando nos
encaixamos com perfeição.
— Dan!
Abracei-a com força, afastando seus cabelos para beijá-la.
Seu cheiro, seu calor e umidade eram como drogas potentes que me
levavam em uma viagem alucinante, da qual não queria voltar. Ana
transformara-se no meu vício.
— Ana! Minha Ana! – já não conseguia me controlar, excitado ao
extremo com tudo que ela significava.
A forma arredondada das nádegas pressionando minha virilha a cada
batida que dava dentro dela, só aumentavam mais ainda o meu prazer. E a
cada batida, um gemido de prazer escapava de seus lábios.
— Oh Dan! Me ama, por favor!
— Sempre, Ana! Sempre! – grunhi em seu ouvido – Você é minha
mulher! Minha mulher!
Engoli um gemido rouco de puro deleite ao sentir como seu interior
quente e apertado me envolvia todo, sugando minhas energias, mas também
me devolvendo duas vezes mais.
Aumentei o ritmo, sentindo seu quadril movendo-se junto comigo,
acelerando a chegada do orgasmo iminente.
Me sentia em fogo, ardendo dentro do seu corpo e sabia que não
aguentaria muito mais aquela tensão sexual que só fazia crescer a cada
segundo.
Coloquei a mão por baixo do seu corpo e alcancei seu clitóris,
massageando-o com carinho.
— Oh sim! Assim mesmo!
Era o que eu precisava ouvir para intensificar o ritmo dentro e fora
dela, fazendo vir rapidamente o máximo de prazer para nós dois, através de
um orgasmo explosivo e poderoso.
Durante aqueles preciosos instantes de prazer intenso, senti suas
contrações internas sugarem cada gota que jogava dentro dela, me dando a
sensação que o corpo de Ana saciava sua sede de amor através do meu.
E no que dependesse de mim, ela nunca mais se sentiria sozinha,
carente ou abandonada, porque eu pretendia estar ao seu lado sempre.
Senti sua respiração ofegante fazendo subir e descer as costas
delicadas quando caí sobre seu corpo, completamente sem forças. Abracei-a
apertado, sustentando meu corpo com os braços flexionados e mantendo-a
novamente presa.
Nunca pensei que uma mulher pudesse significar tanto para mim em
tão pouco tempo. Descobri que possuir Ana, era possuir tudo.
Eu, que sempre tive tudo desde que nasci, com Ana estava
descobrindo que na verdade nunca tinha tido nada que realmente tivesse
valor, como aquelas emoções fortes que ela me despertava ou o sentimento
de posse por sabê-la unicamente minha. O que dizer então daquela satisfação
masculina de imaginar que havia a possibilidade de dentro do seu corpo já
haver um filho nosso se formando?
— Ana! O que foi que você fez comigo? – grunhi desesperado, sem
me reconhecer naquele homem apaixonado.
Ela ficou tensa e tentou se virar, mas mantive uma leve pressão em
suas costas para que ficasse na mesma posição. Não estava preparado para
encará-la naquele momento.
Me sentia vulnerável demais e não gostava daquela sensação.
— Fiz o quê? – havia preocupação em sua voz, mas também a
insegurança de ter feito algo errado.
Oh! Merda!
Não podia deixá-la pensar que foi menos do que perfeita para mim. Se
tinha realmente uma autoestima baixa, mesmo sendo aquela perfeição de
mulher, Ana deveria estar pensando justamente o contrário. No mínimo devia
estar se achando inadequada e sem o verdadeiro valor que tinha.
Com isso, ela só confirmava para mim como era fácil demais de ser
magoada. E só de pensar em vê-la sofrendo de novo, já sentia ímpetos de
destruir quem ousasse atingi-la.
— Me fez ficar apaixonado mais ainda por você e querer que seja
minha para sempre.
Seu corpo relaxou sobre a cama.
— Oh! Foi isso mesmo? – a voz chegou num murmúrio suave.
— Sim. Foi exatamente isso que fez comigo!
Houve um silêncio breve, antes que falasse novamente.
— E isso é tão mal assim? É que você não parecia feliz quando falou.
— Só porque nunca senti nada igual antes – engoli em seco para tentar
tirar aquele nó de emoção da garganta.
Sua mão acariciou a minha, os dedos alisando os meus. Era um
carinho simples, mas que me tocava profundamente.
— Acho que ter sido tudo tão rápido entre a gente não ajudou muito a
nos acostumarmos com a situação – parecia pensativa quando completou –
Mas me sinto feliz demais e não quero perder tempo tentando encontrar
respostas para o que está acontecendo. Eu nunca tive isso antes na minha
vida. Nunca amei nem fui amada dessa forma intensa e apaixonada como
estamos agora e não quero pensar muito sobre o que nos fez ficar juntos. Só
quero viver isso. O único medo que tenho é que algo aconteça e nos afaste de
novo.
Suas palavras acertaram o alvo, indo direto ao meu coração. Por um
momento fechei os olhos, me deixando envolver por aquele seu jeito especial
que a tornava tão importante para mim.
Saí de dentro dela, fazendo com que virasse e deitasse de costas,
ficando de frente para mim. Suspendi meu corpo sobre o dela, fitando seus
olhos com intensidade.
— Não precisa ter medo, porque não vou deixar que nada nos separe –
falei seriamente, deixando minhas intenções bem claras quando continuei –
Nem mesmo a distância.
Ela inspirou fundo e entreabriu os lábios, a surpresa brilhando no
olhar.
— Dan! O que quer dizer com isso?
Não vacilei em responder com firmeza.
— Quero dizer que não pretendo deixá-la voltar ao Brasil. Quero que
fique aqui comigo!

***

Victoria Stevens
— O Dr. Daniel tirou dez dias de férias, autorizadas pelo Dr. Stevens.
Ouvi a voz de Deborah me dando aquela péssima notícia e tive
vontade de jogar o telefone no chão da raiva que senti.
Como é que Scott tinha feito a merda de conceder aquelas férias a
Daniel? Será que não percebeu que ele queria aquele tempo para ficar com a
oportunista da brasileira?
— Obrigada, Deborah. Falamos depois.
Desliguei na cara dela, sem nem ouvir suas palavras de despedida.
Pensei rapidamente, tentando encontrar uma solução para impedir que
aquela Ana Cabral desse o golpe em Daniel e o tirasse de Meghan.
Tamborilei os dedos na mesa do meu escritório, enquanto pensava,
pensava e pensava.
Subitamente veio à minha mente uma ideia brilhante. Agora sabia o
que fazer.
Peguei o celular, fazendo uma breve busca nos meus contatos.
Poucos minutos depois, ouvi uma voz masculina.
— Então, meu amor? Lembrou de mim?
— Lembrei, mas não é para o que está pensando.
— E como sabe o que estou pensando? – seu tom era de riso.
— Porque você só pensa em sexo. Simples! – fiz uma pausa
proposital, antes de continuar – Ah...e dinheiro, claro!
Sua risada rouca chegou aos meus ouvidos, despertando até um certo
interesse em outros assuntos que não fosse Daniel e aquela Ana.
— Talvez o dinheiro venha antes do sexo – ele completou.
— É por este motivo que estou ligando para você. Preciso que consiga
para mim um rapaz bonito, com cerca de vinte e cinco anos, que use barba,
tenha pelo menos 1,80 de altura e muitos músculos.
— Está me trocando por outro, Victória? – sua voz perdeu o tom de
riso e ficou subitamente séria – E ainda vem me pedir isso?
— Deixe de ser ridículo, John! Preciso me livrar de uma mulher
inoportuna e quero contratar um profissional do sexo para seduzi-la.
— E porque não me contrata então para este trabalho? Sabe que posso
seduzir qualquer mulher, mas me mantenho sempre fiel a você.
Era só o que me faltava!
— Pode ou não pode me ajudar a encontrar alguém? – falei
secamente.
Ele entendeu bem o recado, porque mudou de postura imediatamente.
— Posso. Quer para quando?
— Para ontem – disse rispidamente – Me envie algumas fotos dos
candidatos, porque o escolhido tem que estar à altura do homem que será
traído.
— Tem que ter mesmo barba? É que conheço o cara ideal, mas ele não
gosta de barba.
— Então ele que passe a gostar, porque o homem que preciso tem que
ter barba.
— Esse está fora! Ele detesta barba porque diz que o namorado dele
não gosta.
Fechei os olhos, irritada com tamanha burrice.
— Não me envie um gay, John!! Preciso de um macho alfa! Um
homem pegador de mu-lhe-res! – soletrei, rosnando com raiva – Entendeu ou
quer que desenhe??
Para competir com Daniel, não podia ser menos do que isso!
— Vai sair caro, Victoria! A maioria dos modelos fazem trabalhos
para ambos os sexos ou são mesmo gays.
— Você é? – alfinetei.
— Não!!! – ele irritou-se – Tenho um defeito sério porque só gosto de
mulher! Por isso já sei que nunca serei rico.
Se aquilo era uma indireta para mim, ia continuar pobre.
— Tem como conseguir o que pedi? Quero um homem irresistível e
do tipo pegador cheio de testosterona. Ela é uma brasileira e deve estar
acostumada com todo tipo de homem – insisti, com pouco tempo para saber
de seus dramas pessoais – Preciso que ele a leve para a cama e consiga
provas disso para que o namorado a deixe.
Estranhamente, ele ficou em silêncio alguns segundos antes de falar.
— Sabe que isso é perigoso, não é? Um homem traído é capaz de
tudo. Semana passada aconteceu um caso...
— Não me interessa saber nenhum caso, John! – cortei com
impaciência, esperando que Daniel realmente fosse capaz de tudo quando
descobrisse a traição.
Ouvi seu suspiro do outro lado da linha, me deixando irritada.
Desde quando John tinha começado a ter escrúpulos? Que coisa mais
inconveniente!
— E se a mulher for do tipo fiel e não quiser trair o cara?
Achava difícil acontecer isso, já que era uma brasileira oportunista e
provavelmente acostumada a ter vários homens.
Mas já tinha um plano B para o caso dela querer dar uma de fiel só
para impressionar Daniel.
— Não me importo que seja sequestrada e dopada para que vocês
tirem as fotos que precisamos e depois as enviem para ele. Podem largá-la em
qualquer lugar depois, porque mesmo que apareça dizendo que foi
sequestrada, ele não acreditará. Já terá as provas da traição e será tarde
demais para ela.
Ele permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente.
— Não tenho muito tempo para esperar, por isso seja rápido para
encontrar o homem ideal para este serviço – falei duramente, depois lembrei
de um detalhe importante – Ah, quase ia esquecendo de dizer. Ele tem que
falar português.
Isso era crucial para conquistar a confiança da garota do Daniel.
— Português? – ele estranhou.
— Sim, Jonh! Por-tu-guês – soletrei novamente para ele – De
preferência, pode ser um brasileiro que fale as duas línguas. Veja em alguma
agência de modelos. Existem vários deles tentando a sorte aqui em Nova
York e seriam capazes de vender a própria mãe para isso.
— Já disse que vai sair caro!
— Eu pago!
CAPÍTULO 31

Ana
Quase não acreditei quando ouvi aquilo.
Ele não queria que eu voltasse para o Brasil?
Fitei seu rosto suspenso acima do meu, os olhos diretos e decididos, os
cabelos assanhados por minhas mãos, o queixo firme com a barba macia, os
bíceps salientes enquanto sustentava o corpo sobre mim.
Meu Deus! Será que ouvi bem e aquele homem de sonho estava
mesmo dizendo que queria ficar comigo?
Porque depois de fazer amor com ele, eu já não tinha dúvida nenhuma
que Daniel era mesmo um homem de sonho! Pelo menos, dos meus sonhos
mais secretos!
Se eu queria ficar com ele? Claro que sim!!
Queria tanto, que tinha até medo de estar fantasiando algo que não
existia.
— Como assim? – perguntei desconfiada, necessitando confirmar
aquilo tudo.
— Quero que fique comigo! Quero você ao meu lado, aqui em Nova
York!
Por um momento fechei os olhos e fiz uma oração rápida aos céus,
pedindo que ele desaparecesse da minha frente se aquilo fosse um sonho!
Um. Dois. Três!!!
Abri os olhos e lá estava Daniel, com seu olhar penetrante e
apaixonado.
Apaixonado!!
Oh meu Deus! Eu tirei mesmo a sorte grande!
A Ana que todos chamavam de burra e diziam que nunca teria uma
oportunidade de ser amada pelo que era, tinha conquistado Daniel Ortega!
Quando é que eu ia imaginar há três meses atrás que um homem como
Daniel ia surgir no meu caminho e apaixonar-se por mim, querendo que eu
morasse com ele em Nova York?
Nunca, claro!
Espera aí! Nova York??
A bolha do meu sonho estourou e me jogou na realidade.
— Dan! Mas eu preciso voltar para o Brasil. Tenho meu pai lá!
Seu olhar continuou sério quando falou.
— Não esqueço que tem seu pai no Brasil, Ana! – segurou meus
cabelos com firmeza, prendendo meu rosto com uma das mãos grandes – Sei
que precisa voltar, da mesma forma como sei que ainda teremos muito que
resolver sobre esta situação. Mas não vou deixar de forma nenhuma que volte
definitivamente para o Brasil, nem pretendo prolongar por muito tempo um
namoro à distância. Quero-a o mais rápido possível aqui comigo. Farei de
tudo para voltar para o Brasil com você e conhecer seu pai!
Fechei os olhos outra vez, respirando fundo para fazer uma pergunta
difícil demais para mim. Foram muitos anos de rejeição e preconceito para
agora me acovardar.
Encarei seu rosto acima do meu, tão perto que poderia beijar sua boca
com um pequeno erguer da cabeça. Sua respiração morna confundia-se com a
minha.
— Tem certeza disso que está dizendo? Não acha que é muito cedo
para uma decisão tão séria assim? É que sou tão...oh!
Me assustei quando um beijo duro calou minha boca, me impedindo
de continuar. Seu peito desceu mais sobre o meu, me fazendo amolecer em
seus braços com a sensação estimulante de ter meus seios em contato com os
pelos macios do tórax amplo.
Que mulher conseguiria resistir àquilo? Eu não!
Só depois que me beijou apaixonadamente e deu-se por satisfeito, foi
que Daniel ergueu o rosto e me fitou profundamente nos olhos.
— Tão perfeita para mim? Era isso que ia dizer?
Senti um nó apertar minha garganta, diante da vontade de chorar de
emoção quando vi o amor nos olhos dele.
— Não! Não era isso que ia dizer – engoli em seco, antes de continuar
– Ia falar que era...
Fui interrompida por um novo beijo, cortando mais uma vez minhas
palavras.
Desta vez, ele acomodou-se melhor entre minhas pernas e quando
menos esperava, me senti penetrada novamente.
Oh meu Deus! Como é que um homem podia excitar-se tão rápido
assim logo depois de fazer amor?
Não consegui falar o que queria, mas os gemidos de prazer saíram sem
nenhum impedimento da minha boca, quando senti a primeira investida de
sua ereção dentro de mim.
E a segunda. A terceira. E todas as outras que se seguiram.
Se eu não podia falar, o mesmo não acontecia com Daniel, que a cada
vez que investia contra mim, completava minha frase com uma palavra.
— Maravilhosa... doce... sensível... carinhosa... irresistível... macia…
quente.... oh, Ana…muito quente!
E quente era como eu me sentia mesmo. Um calor que ardia dentro de
mim e que já sabia me levaria rapidamente ao orgasmo.
Nunca na minha vida pensei que gostaria tanto de fazer amor com
Daniel!
Ser amada por um homem era totalmente diferente de encontrar prazer
sozinha na masturbação. Com ele, me sentia completa quando tudo
terminava. Me sentia amada por inteiro.
Ainda estava para descobrir como é que Daniel conseguia me
conduzir tão rapidamente ao orgasmo!
Tinha dúvidas se era mesmo mérito dele ou se eu estava revelando um
lado meu que ainda não conhecia. O de uma ninfomaníaca insaciável!
Só esperava que ele não percebesse nada disso, porque morreria de
vergonha caso Daniel achasse que tinha ficado tanto tempo virgem e sem
sexo, que agora me transformara em uma desesperada que não conseguia
controlar a si mesma.
Mas...era...bom...demais!!!
— Ana!
Ouvi seu rosnado de prazer no meu ouvido e já sabia que ele estava
perto de gozar.
Se era possível uma mulher ficar mais excitada ainda, ao ouvir o
homem que amava chegar naquele limite de prazer, essa mulher era eu,
porque ver Daniel perder o controle quando fazia amor comigo, me levava
muito mais rapidamente ao clímax.
— Vem mais! – não resisti em pedir, porque precisava me sentir
fortemente possuída por ele.
Eu sabia que tinha chegado naquele ponto em que só o prazer
importava. Já nem queria saber o que Daniel acharia daquela minha
ansiedade por ele ou se pensaria mal de mim por gostar quando me tomava
com força.
— Vem, Dan!
Escutei seu xingamento em inglês e logo depois ele me deu o que
precisava, levando-nos rapidamente ao gozo.
Oh... meu... Deus... e que gozo maravilhoso é este?
Fui agarrada com força e recebi um beijo voraz de Daniel, enquanto
sentia sua dureza me preencher por completo, derramando-se dentro de mim.
Me agarrei em seus ombros fortes, ficando deliciada com a carne dura e os
músculos proeminentes do seu corpo.
Daniel havia nascido para enlouquecer uma mulher na cama e eu
estava totalmente louca por ele.
Tinha valido a pena cada segundo de dor ao perder a virgindade,
porque a compensação que veio depois foi enorme.
Mesmo quando os espasmos deliciosos do orgasmo já tinham passado,
Daniel ainda permaneceu dentro de mim como gostava de fazer, a respiração
ofegante e pesada.
— Você vai matar-me nesta cama! – gemeu nos meus cabelos, me
deixando sentir o peso gostoso do seu corpo.
Mantive as pernas ao seu redor, ainda sentindo o prazer de tê-lo em
meu interior, me preenchendo totalmente.
Senti um beijo suave no rosto, que depois chegou até meus lábios.
— Perfeita! – grunhiu em minha boca, erguendo o rosto e
mergulhando os olhos apaixonados nos meus – Você é perfeita para mim!
Daquela vez não falei nada mesmo, porque fiquei sem palavras com a
emoção que me dominou.
Daniel saiu com cuidado de cima de mim e deitou de costas, me
abraçando pela cintura. Apoiei minha cabeça em seu peito e relaxei
totalmente, aproveitando a sensação de segurança de estar em seus braços.
Como ainda era muito cedinho e estava exausta de tanto fazer amor
com ele, não demorou para me sentir sonolenta. A única coisa que senti
minutos depois foi um suave beijo em meus cabelos antes de adormecer.

***
Acho que quando acordei já era bem tarde, porque o quarto estava
totalmente iluminado pela claridade do dia.
Tinha o travesseiro agarrado ao corpo e a cama só para mim. Daniel
não estava lá e percebi que devia ter voltado ao seu quarto, porque havia uma
porta aberta no lado esquerdo.
Devia ser a porta de comunicação que ele falou na noite anterior e que
nunca havia notado antes.
Escutei sua voz falando em inglês e percebi que devia estar ao
telefone.
Sentei na cama, sentindo meu corpo doer pela primeira vez. E não era
apenas nas partes íntimas, mas nele por inteiro. Só agora me ressentia do peso
de Daniel.
Dobrei as pernas e percebi que o desconforto maior era na parte
interna das coxas.
Bom, hora de levantar e ver como o resto reagia.
Quando fui me arrastar para fora da cama, foi que vi o lençol de baixo
com manchas de sangue e sêmem, justamente no meu lado da cama. Não era
muito, mas o suficiente para qualquer pessoa perceber o que havia acontecido
ali durante a noite.
Quase no mesmo instante, ouvi uma movimentação no quarto ao lado
e sabia que Daniel estava vindo para o meu. Me ajoelhei sobre a cama e
puxei as cobertas para cima, cobrindo a mancha, morta de vergonha que ele
visse aquilo.
Fiquei de um jeito que ele não percebesse nada e cobri o corpo com
uma parte do lençol de cima.
Ele surgiu logo depois pela porta, vestido com uma calça esportiva
cáqui, que estava aberta e deixava à mostra uma boxer branca. Tinha o peito
nu e os cabelos molhados, mostrando que tinha acabado de tomar banho.
Tentei não olhá-lo como uma solteirona feia e encalhada vendo um
deus grego à sua frente. Mordi logo o canto da boca para não ficar
literalmente de queixo caído com aquela beleza masculina diante de mim.
Ele parou subitamente quando me viu já acordada e sentada na cama.
Me olhou de um jeito tão sério que pensei logo que devia estar horrível com
os cabelos desgrenhados e o rosto amassado do travesseiro.
— Bom dia – falou com aquela voz rouca e o sotaque sexy que me
derretia toda – Pensei que ainda estivesse dormindo e vim acordá-la.
Aproximou-se, dando a volta na cama para chegar ao meu lado,
parecendo um predador rondando sua caça.
Durante aquele tempo, só fiquei observando-o.
Não! A palavra certa seria devorando seu peito nu com os olhos, até
perceber o que estava fazendo e tentar mudar de expressão.
— Acabei de acordar – sussurrei sem saber mais o que dizer.
Ao mesmo tempo que queria sua aproximação, também gostaria que
saísse logo do quarto para que não visse os lençóis sujos.
Depois lembrei que ele poderia não ver, mas provavelmente
Carmecita veria quando viesse organizar o quarto.
Senti o rosto arder de vergonha quando imaginei a cena.
Daniel sentou na beira da cama, me observando com atenção.
— Você está bem?
— Sim. Estou bem.
— Não está dolorida?
Parecia preocupado e como também não havia como negar, resolvi
admitir.
— Um pouco. Mas tenho certeza que me sentirei melhor logo.
Seu braço rodeou minha cintura, na intenção de me puxar. Me afastei
rápido, pois achei que queria me colocar sentada em seu colo. Sem dúvida
alguma, sujaria aquela sua calça clara e minha vergonha seria monumental.
Ele franziu a testa e tentou me puxar de novo, mas coloquei a mão em
seu peito, me mantendo longe dele.
— O que foi?
Segurou meu pulso com suavidade, mas também havia firmeza
suficiente para afastar minha mão se fosse preciso. Mas ele não o fez, apenas
olhou para mim com expressão preocupada.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não! – respondi logo, até perceber que foi rápido demais e
pareceria suspeito – Não, está tudo bem. Apenas gostaria de um pouco de
privacidade para me arrumar.
Um brilho de compreensão surgiu nos seus olhos e fiquei logo alerta.
— Se está preocupada com os lençóis manchados, eu já vi.
Desta vez abri mesmo a boca e fiquei de queixo caído, sentindo o
rosto arder duas vezes mais de vergonha.
Baixei os ombros, vencida.
— Oh… Você é sempre tão cavalheiro, Daniel! – gemi, me sentindo
completamente embaraçada – Porque não ficou calado desta vez e
simplesmente saiu do quarto, sem me fazer sentir assim?
Surpreendentemente, ele começou a rir, fazendo meu coração falhar
uma batida quando vi os dentes perfeitos na boca que havia beijado meu
corpo por inteiro. O rosto másculo ficou mais atraente ainda, roubando meu
fôlego.
— Falei porque não quero que sinta-se constrangida com nada em
relação a mim – voltou a ficar sério – Não quero mais segredos, coisas
escondidas, vergonha ou seja o que for entre nós. Acostume-se comigo,
porque não vou deixar de ser quem sou quando estivermos juntos, nem de
fazer o que gosto. Mas também quero que seja você mesma quando estiver
comigo e faça tudo que gosta.
Me agarrou logo depois pela cintura, levando junto o lençol que
segurava sobre os seios. Desta vez me deixei ir.
— Vou sujar sua calça! – alertei de imediato.
Daniel fez com que sentasse no seu colo, mas colocou o lençol por
baixo de mim.
— Pronto. Agora não vai sujar mais.
Ergui o rosto para olhá-lo, mas o que vi foi sua boca baixando sobre a
minha quando me beijou com um carinho tão grande que me fez cair sobre o
seu peito, de tão emocionada que fiquei.
Uma de suas mãos segurou o lençol, afastando-o para o lado para
deixar meus seios descobertos. Já sabia que Daniel tinha uma fixação por eles
e deixei que os esfregasse no peito amplo.
O impacto dos pelos do seu peito neles arrancou um gemido baixo da
minha garganta. Abracei-o pelo pescoço, não resistindo em aumentar o
contato entre nossos corpos.
— Me sinto como se estivesse em lua-de-mel e sem vontade nenhuma
de sair do quarto do hotel – sua voz rouca chegou aos meus ouvidos,
enquanto uma mão grande envolvia meu seio esquerdo por inteiro.
— Não podíamos fazer isso? – propus, já sem vergonha nenhuma na
cara.
— Infelizmente não – falou a contragosto – Esqueci de dizer, mas vim
acordá-la justamente porque recebi uma ligação de Bia e ela deve estar
chegando a qualquer momento.
Me afastei dele na hora, quando ouvi aquilo.
— Bia, aqui? – perguntei chocada – Mas como isso é possível? Ela
não me disse nada ontem.
Daniel suspirou, parecendo tentar encontrar as palavras certas antes de
falar.
— Ela não ligou ontem como prometido, porque já estava muito em
cima da hora do Show da Terri, mas hoje pela manhã tentou algumas vezes
sem conseguir. Deixei meu celular no quarto e com a porta de comunicação
fechada, não ouvi as chamadas – afastou meu cabelo para trás, prendendo-o
atrás da orelha – Bia está vindo para cá com Julie, aproveitando que Jack e
Ashley terão um almoço de negócios com empresários do ramo.
— Então é melhor me arrumar logo!
Tentei sair do seu colo.
— Calma! Ainda levará cerca de duas horas até que Bia consiga
chegar aqui – me tranquilizou – Pode tomar seu banho sem tanta pressa.
Depois desceremos para um brunch rápido. Carmecita já deve ter preparado
tudo.
Respirei aliviada quando ouvi aquilo. Não queria que minha amiga me
pegasse ainda nua na cama, com todos aqueles indícios de uma louca noite de
amor.
Daniel me suspendeu pela cintura, me fazendo ajoelhar em suas
pernas. Então, deu um beijo em cada um de meus seios, a língua quente
despertando meus sentidos. Fechei os olhos, aproveitando aquele momento.
Senti quando afundou o rosto neles, ficando quieto por um longo
tempo naquela posição.
Abracei-o, alisando seus cabelos ainda úmidos do banho e deixando-o
ficar como gostava.
Era difícil não amar aquele homem!
Minutos depois, ele ergueu a cabeça e fixou os olhos nos meus, a
expressão séria.
Não falamos nada, apenas nos olhamos com emoção contida.
— Pode ir tomar banho agora – ele disse por fim, a voz enrouquecida
– Vou aguardar no meu quarto.
Me tirou do colo, pousando suavemente sobre a cama. Fiquei
observando enquanto se levantava e saía do quarto, fechando a porta atrás de
si.
Como não amar Daniel?
***

Nunca tinha visto tantas coisas deliciosas juntas!


Carmencita era mesmo uma cozinheira de mão cheia e estava
encantada com a qualidade dos pratos que preparava na casa de Daniel.
Provei de tudo um pouco e só então fui atrás dos doces, que eram a
minha perdição.
Num dado momento, peguei Daniel olhando para mim com uma
expressão divertida e curiosa, quando repeti uma fatia de bolo pela segunda
vez.
Parei o talher a meio do caminho e pousei-o novamente, afastando o
prato discretamente para longe de mim.
Céus! Nem me preocupei com o que ele pensaria ao me ver comer
daquele jeito.
Daniel devia estar acostumado com aquelas mulheres que mal
engoliam duas garfadas e já estavam satisfeitas. Tudo em nome da boa forma
física.
Mas o que é que eu podia fazer, se passar a noite fazendo amor
estimulou meu apetite?
— Pode servir-se à vontade. Gosto de ver que não tem restrições
alimentares, nem fica revirando a comida no prato para fingir que está
comendo.
Olhei toda desconfiada para ele.
— Tem certeza? É que não preciso me preocupar se comer muito,
porque não engordo. Acho que tenho o metabolismo muito acelerado e acabo
queimando calorias sem muito esforço.
— Gosto do seu corpo como é.
— Você não está sendo apenas um cavalheiro?
Sua risada espalhou-se pelo ambiente da sala.
— Se não sou cavalheiro, você reclama. Se sou, você também
reclama. Vai ter que tomar uma decisão sobre o que quer de mim.
Posso dizer que quero tudo?
— Pode ser um cavalheiro sincero e já está bom.
Vi que ele segurava o riso quando terminei de falar.
— Então voltarei a repetir que adoro seu corpo por inteiro – apontou
para o meu prato – Agora coma para mantê-lo como está.
Olhei pensativamente para ele, encontrando coragem para falar o que
queria.
— Vou comer, se você prometer comer também para manter o seu
como está. É que também adoro ele por inteiro.
Sua risada transformou-se em uma gargalhada, enquanto me olhava
com malícia.
— Ana, Ana! – falou em tom provocador – Cuidado com o que fala ou
não sairá de casa hoje para passear.
— Ah, não! Quero passear sim! Estou ansiosa para conhecer a cidade
com você!
— Então comporte-se e termine sua refeição, porque ainda temos que
conversar com Bia.

***
Cerca de trinta minutos depois, quando Carmencita veio avisar que
Bia e Julie já estavam no escritório, levantei da cadeira na hora, ansiosa para
vê-la.
Daniel ergueu-se calmamente, pousando o guardanapo na mesa e
segurando minha mão.
— Vamos.
Seguimos para o escritório e quando entrei, só conseguia olhar para
Bia, morrendo de saudades dela.
Soltei a mão de Daniel e corri para abraçá-la. Nos encontramos no
meio do caminho, porque Bia também levantou-se, atirando-se nos meus
braços com tanto ímpeto que até vacilei.
— Aninha!
— Bia!
Ela me apertou com ansiedade.
— Ai, estou tão emocionada que parece que faz anos que não nos
vemos. Que horror! – ela disse com voz carinhosa – Você está bem? Fiquei
tão preocupada.
— Estou bem! E você? – me afastei para olhá-la de frente, achando-a
igual como sempre, sem nada que indicasse ter passado por algo tão
traumático como eu passei.
— Também estou – garantiu com tranquilidade.
Me soltou e olhou para trás de mim, a expressão ficando mais séria.
— Olá, Daniel.
Virei, vendo-o parado às minhas costas com as mãos na altura do
quadril, acompanhando atentamente nosso encontro.
— Bia.
Cumprimentaram-se formalmente e fiquei pensando se ambos tinham
ficado ressentidos um com o outro por minha causa.
Bia virou-se depois para uma mulher loura e gordinha, que estava em
pé acompanhando tudo com um olhar simpático.
— Esta é a Julie, assistente de Ashley.