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Daniel Bensaïd des linhas, e nada seria mais estéril do que Este crescimento impetuoso foi a base de
fazer tabula rasa do passado para extasiar-se compromissos sociais nos diferentes setores
com novidades sem conteúdo. Mas um movi- do mundo. Moldou aos atores (partidos refor-
Uma nova época histórica mento internacional que não ajudasse a pen- mistas parlamentares, movimento sindical,
sar esta grande transformação e a responder movimentos populistas e anti-imperialistas
O último congresso mundial da Quarta In- aos problemas efetivamente novos seria rapi- no Terceiro Mundo):
ternacional foi realizado em janeiro de 1991, damente considerado inútil. Estes problemas – desenvolvimento do Estado-Providência e
um ano depois da queda do Muro de Berlim, são reais e de monta: consequências da mun- do culto do progresso nos centros imperialistas,
nas vésperas da guerra do Golfo e do desloca- dialização, reorganização da divisão interna- reforçando as posições reformistas, os pactos
mento da URSS. Ele começou a registrar as cional do trabalho, modificação das relações sociais e os fenômenos de burocratização do
linhas de força da grande transformação mun- de dominação imperialistas, crises dos Esta- movimento operário;
dial. Trata-se agora de atualizar esta mudança dos nacionais, formação de conjuntos econô- – euforia burocrática na URSS e na Europa
em perspectiva. micos e políticos regionais, desenvolvimento Oriental quanto à perspectiva de alcançar-su-
De avaliar as mudanças ocorridas desde de instituições internacionais e definição de perar a curto prazo o Ocidente capitalista
uma década ao invés de acomodarmos-nos novas relações jurídicas. Guardando toda pro- (anos Sputinik);
numa idéia rotineira de alternância dos ciclos porção no nível das comparações, o laboratório – giro de Bandung (movimento dos países
econômicos e dos ciclos de lutas. Estamos envol- que se abre é de uma amplitude comparável não-alinhados) e projetos de descolonização/
vidos em uma transição global (econômica, so- ao do início do século, onde se forjou a cultura desenvolvimento do Terceiro Mundo (nova or-
cial, institucional, cultural). A reorganização teórica e política do movimento operário: aná- dem econômica mundial, transferências de tec-
das forças sociais fundamentais e de sua re- lise do imperialismo, debate sobre a questão nologia, projeto de substituição de importa-
presentação política passa por um longo pro- nacional, debate estratégico sobre reforma e re- ções).
cesso no curso do qual novas formas de lutas volução, batalhas sobre as formas de organiza- Esse contexto favoreceu a expressão de um
e de organizações se desenvolverão em função ção política, social, parlamentar. questionamento do sistema de dominação:
de comoções estruturais (de uma amplitude lutas de libertação nacional (Argélia, Cuba,
comparável, se se quer, às que sacudiram o mo- Uma mudança de época Indochina) contra as formas tradicionais de
vimento operário no início do século frente ao colonização e dependência; lutas anti-burocrá-
imperialismo e a guerra) e da evolução das for- 1. O esgotamento da expansão ticas de massas na Checoslováquia e Polónia;
mações sociais. Isto implica numa renovação de do pós-guerra movimentos de juventude e ciclo de greves de
experiências e de gerações. Por trás dos acontecimentos políticos maiores massa na maior parte dos países desenvol-
De verificar, a luz dos grandes problemas destes últimos anos (queda do Muro e unifi- vidos.
que se colocaram nestes últimos anos, a exis- cação alemã, explosão da União Soviética,
tência de um acordo fundamental sobre os guerra do Golfo e intervenções militares na 2. A globalização e seus limites
acontecimentos e as tarefas sem os quais uma África, guerra dos Balcãs) há um esgotamento A aceleração da mundialização é real. O comér-
corrente internacional militante organizada da fase do crescimento e do desenvolvimento cio internacional cresce mais rápido que os
perderia rapidamente sua função de interven- posterior à Segunda Guerra Mundial. De 1945 PIB’s dos países envolvidos nestas trocas;
ção para se reduzir a uma rede de reflexão a 1970, a taxa de crescimento dos países desde 1975, os investimentos diretos no estran-
fundada sobre afinidades residuais. industrializados foi excepcionalmente elevada geiro crescem mais rápido que os investimen-
De empreender um trabalho necessário de (5% em média contra cerca de 2% entre 1914 tos domésticos; a interpenetração e fusão de
redefinição programática. Graças a nossas tra- e 1950, e 2,5% desde 1973), a produção mun- capitais geram oligopólios cujas relações com
dições e nossa herança, o mundo como está dial se multiplicou sete vezes e o comércio os Estados de origem se afrouxam; o comércio
continua sendo compreensível em suas gran- mundial quatro vezes. mundial toma a dianteira face à construção
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dos mercados internos enquanto base da acu- baixa significativa do trabalho industrial (mu- Os deslocamentos massivos de população e de
mulação. dança da organização do trabalho e das qua- refugiados alcançam proporções sem precen-
Podemos concluir que a economia mundial lificações, individualização e flexibilização) e dentes, tendo como contrapartida interven-
está constituída? A fórmula é muito geral para um ascenso dos serviços, com o crescimento ções procurando controlar esses fluxos (Haiti)
não ser ambígua. Se a aceleração mundial é in- espetacular do desemprego permanente e das ou de medidas regulamentares de inspiração
contestável, o comercio mundial representa de exclusões duráveis, reorganização do espaço xenofóbica (como os acordos de Schengen, na
20 a 30% do volume total das trocas e os inves- urbano e desmantelamento parcial das con- Europa, e o código 187, na Califórnia).
timentos diretos no estrangeiro 1% do PIB centrações operárias (relação fábrica/casa que As forças organizadas (movimentos sociais,
mundial em 1990. Se os mercados de capitais estruturava as solidariedades sociais), margi- partidos, sindicatos) saídas do ciclo de lutas
e mercadorias estão cada vez mais unificados, nalidade e bolsões de pobreza, situação das precedente estão enfraquecidas socialmente.
o mesmo não ocorre com o mercado de traba- mulheres e dos jovens. Ninguém pode prever Sofreram derrotas significativas nos países
lho (350 milhões de trabalhadores dos países o efeito cumulativo por décadas desses fenô- ricos (mineiros britânicos, escala móvel de
ricos tem um salário médio de U$ 18 por hora menos dentro de sociedades onde os assala- salários na Itália, siderurgia na França) e nos
contra U$ 1 a 2 para 1,2 bilhão de trabalhado- riados representam mais de 80% da popula- países pobres (mineiros bolivianos, contra-
res dos países pobres). Se numerosas empresas ção ativa. reforma agrária no México), sem que tenham
multinacionais operam em vários continentes Na ex-URSS e na Europa do Leste, o apare- aparecido ainda os pólos organizadores do pró-
e produzem em várias dezenas de países, elas cimento de um capitalismo dependente terá ximo ciclo de lutas.
permanecem vinculadas à potência política, efeitos devastadores sobre as sociedades urba- A ruptura dos “compromissos nacionais” for-
diplomática, monetária e militar dos imperia- nizadas e industrializadas, assumindo formas jados no período de crescimento e o debilita-
lismos dominantes. Finalmente, a mundiali- inéditas de “terceiro ou quarto-mundializa- mento dos movimentos de classe propiciam a
zação dos capitais se realiza, no último pe- ção». Esse processo está, no momento, estacio- expressão de pânicos de identidade e a busca
ríodo, mais com base no dinamismo do setor nado devido ao caráter parcial das privatiza- de outras relações comunitárias (nacionais, ét-
financeiro do que num desenvolvimento das ções (débil desemprego oficial) ligado ao nicas, religiosas).
forças produtivas. caráter híbrido das formas de propriedade mas
Trata-se, então, de uma situação intermediá- a crise urbana já é aguda e corre o risco de 4. O questionamento
ria, de transição, de crise dos antigos modos de provocar fenômenos de êxodo rural oposto dos Estados nacionais
regulação, cujos efeitos são já perceptíveis: («êxodo urbano») ou de movimentos migrató- Uma das maiores consequências da mundiali-
a) mutação das formações sociais; b) desloca- rios para o Ocidente. zação reside na desarticulação tendencial das
mento das esferas políticas e econômicas (daí Uma série de países dependentes esgota- esferas económicas e políticas. Nos anos cin-
as crises dos Estados nacionais e das classes ram o modelo de industrialização por substi- qüenta, as economias nacionais dominantes
dominantes), c) tentativas de reorganização tuição de importações, surgindo neles traços de formavam conjuntos relativamente coerentes,
regional dos mercados e das instituições. dualização acentuada ( zonas francas, econo- articulando um mercado, um território e um
mia informal, problema agrário) assim como Estado. A concorrência internacional e desre-
3. O enfraquecimento social a degradação de suas exportações primárias gulamentação internacional introduzem fra-
dos trabalhadores devido às mudanças tecnológicas nos países turas entre a lógica econômica e a soberania
As forças sociais e políticas moldadas pelo desenvolvidos, à troca desigual e à forte ex- política. É difícil atribuir uma nacionalidade
período de crescimento precendente estão par- pansão do setor financeiro nas economias. A a um produto ou firma. As desigualdades
cial e desigualmente desestruturadas pelos crise urbana é de tal magnitude que não pa- sociais se aprofundam entre ganhadores e per-
efeitos da crise, das ofensivas liberais, da reor- rece controlável sem profundas reformas agrá- dedores na corrida pela mundialização não
ganização dos aparelhos produtivos. rias, chocando-se diretamente com as classes apenas em escala internacional mas também
Os países industrializados registram uma dominantes ligadas à oligarquia latifundiária. ao interior dos próprios países desenvolvidos,
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pondo a prova os compromissos sociais do dos Novos Países Industrializados passava de ção galopante, negócios escusos, narcotráfico,
Estado do bem-estar. 1,1% a 5,5% e a América Latina se reduziu a reino dos aventureiros (Fujimori, Collor, Ber-
A crise atinge aquilo que favorecia uma 3%). O desmoronamento das elites locais, inca- lusconi); questionamentos de setores burgue-
certa coesão social: a função redistributiva dos pazes de se homogeneizarem e de se estabili- ses e pequeno-burgueses menos dispostos à
Estados. Daí a perda de legitimidade das zarem em torno de um projeto nacional viá- aceitar a perda de soberania do Estado e me-
instituições estatais derrotadas pelos efeitos vel, acentua a corrupção, a redistribuição nos aptos a se adaptarem aos efeitos da concor-
conjugados das privatizações (reforço dos clientelista de benefícios e as tendências ao rência liberal; sinais de divisão do grande
poderes econômicos privados), da globalização deslocamento clânico/étnico de alguns Esta- capital sobre as perspectivas e as soluções ime-
(perda de controle das relações econômicas e dos (Somália, Etiópia, Ruanda). As crises que diatas (Europa, Nafta, OMC). Para além de
monetárias) e da desregulamentação. Esse fe- México ou Argélia experimentaram demons- suas especificidades, o caso italiano é, neste
nômeno não afeta apenas os Estados depen- tram em que medida países que haviam conhe- sentido, um sintoma da situação geral.
dentes e as classes dominantes frágeis. Ele co- cido uma revolução e uma guerra de libertação Na América Latina e nos países árabes, o
meça também a atingir algumas burguesias radicais e que pareciam melhor colocados para ciclo populista burocrático está no limite de
européias. enfrentar a situação de dependência tampouco suas forças. Na África, numerosos Estados ori-
A reestruturação liberal, o endividamento conseguiram manter tais posições. O primeiro ginados no processo de descolonização não che-
dos Estados (Estados Unidos, Italia, Bélgica) busca hoje sua saúde dentro de uma associa- garam a consolidar uma realidade nacional e
e das coletividades locais, o deslocamento ção socialmente custosa com seu grande vizi- uma classe burguesa dominante. Os efeitos
regressivo da carga tributária em prejuízo dos nho do Norte: EUA; enquanto o segundo se redistributivos que puderam ter a corrupção
pobres, a crise aguda das finanças públicas afunda no caos de uma guerra civil sob a ar- e o clientelismo estão esgotados. Daí a explo-
desembocam no questionamento dos mecanis- bitragem da antiga metrópole colonial: França. são das elites compradoras. Encurralados en-
mos do Estado-Providência (indexação sala- Violência social e violência política, ascenso tre as exigências do ajuste estrutural e a de-
rial, serviços públicos, proteção social, retro- de “identidades obscuras», inversamente pro- composição social, numerosos países
cesso nos contratos coletivos, privatização da porcional ao desaparecimento dos vínculos e dependentes se encontram debilitados (Etió-
seguridade social) e sobre um crescimento das solidariedades de classe se inscrevem neste pia, Sudão, Afeganistão, repúblicas da antiga
desigualdades regionais. Paralelamente, a pri- contexto. URSS). Até nos países onde a luta de indepen-
vatização dos poderes econômicos e financeiros dência foi mais radical em suas formas e em
em prejuízo do serviço público e das formas 5. A crise das classes dominantes suas conseqüências duráveis (Argélia, México,
públicas de produção e gestão favorecem uma Divididas pela concorrência, as classes domi- Angola e Moçambique) os regimes populistas
corrupção galopante e a proliferação de fenô- nantes existem enquanto tais através do Estado esgotaram seu dinamismo histórico e suas eli-
menos mafiosos. que as unifica. Mas o projeto estruturante dos tes burguesas e burocráticas se acomodam a
Nos países dependentes, esta tendência Estados nacionais (que se impôs no decorrer uma perda de soberania parcial, de fato ou de
geral se traduz numa crise generalizada dos do século passado nos países dominantes e no direito, que acaba reforçando a agressividade
sistemas populistas (México, países árabes, curso deste século no Terceiro-Mundo) esgo- (impensável há vinte anos) do discurso neoco-
África negra), num processo de privatização/ tou seus efeitos integradores e unificadores lonial sobre a imaturidade dos povos infantis
dolarização e uma perda de soberania sob a sem que tenha surgido um projeto alternativo. e a necessidade do punho tutelar.
pressão da dívida e a corrosão dos recursos Os Estados existentes são ainda a forma neces- E nos regimes burocráticos a emergência
dependentes da exportação (matérias primas), sária da dominação de classe mas não mais duma burguesia dinâmica e empreendedora
numa “desconexão forçada” para alguns paí- sua forma apropriada face às pesadas tendên- conhece enormes dificuldades. A decomposi-
ses (de 1966 a 1987, o total das exportações cias da mundialização. Daí a desestabilização, ção dos diferentes segmentos da burocracia
dos países do Sul nas exportações mundiais perceptível por toda parte, das classes domi- deu origem a uma mistura de capitalismo es-
caiu de 23% para 15%, enquanto que a parte nantes e seus representantes políticos: corrup- peculativo e de clientelismo burocrático, uma
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espécie de proto-burguesia mafiosa e compra- Sempre há uma saída para a crise econô- tes sobre a hegemonia imperial (Nafta), de um
dora. mica, o problema é saber a que preço e quem mercado comum dependente (Mercosul) a uma
paga a conta. A crise atual não desemboca for- zona livre de livre-comércio mas ou menos or-
6. Um mundo injusto, violento e instável çosamente numa catástrofe generalizada, mas ganizada (Apec);
O projeto socialista não é o único em crise. o estrangulamento lento e o agravamento c) crise e deslocamento de alguns Estados, as-
Também estão em crise as diferentes visões mundial das desigualdades podem assumir censo dos nacionalismos, relações entre nações-
de mundo que coexistiam, se confrontavam e dimensões não menos violentas e não menos etnias-Estado, multiplicação de conflitos re-
se complementavam durante o período prece- bárbaras. Por trás do movimento cíclico, as gionais.
dente: os partidários do “terceiro-mundismo” contradições cada vez mais potentes remetem Voltaremos resumidamente a estes três
de Bandung, do universalismo democrático às caraterísticas essenciais do sistema: a misé- grandes temas. Uma das funções de uma orga-
burguês e das ilusões de progresso, do comu- ria da mercadoria como medida para regular nização internacional, mesmo modesta, é efe-
nismo produtivista vitorioso no ano 2000. O a troca de trabalhos complexos e para organi- tivamente contribuir para implementar uma
triunfo anunciado do casamento entre o mer- zar, a longo prazo, a relação entre a sociedade atualização programática comparável, res-
cado livre e a democracia parlamentar fracas- e seu meio ambiente natural. guardando as devidas proporções, às grandes
sou. Mesmo que a analogia histórica seja um Nas crises aparecem os novos elementos de controvérsias do início do século que determi-
recurso inevitável do pensamento político e regulação possíveis (novas tecnologias, novos naram praticamente por um século a cultura
militar, frente a amplitude da mudança histó- produtos, divisão e organização do trabalho). política do movimento operário em seus diver-
rica em curso e as incertezas da saída apon- No entanto, esses elementos continuam sendo sos componentes.
tada, de nada nos serve raciocinar por analo- parciais e não sistematizados. Restabelecer
gia (por exemplo, em relação ao início do século as condições de uma nova fase de acumulação Novos problemas
ou aos anos 30). É importante estar atento ao e de crescimento durável não depende apenas
inédito, às formas especificamente contempo- de uma mudança nas relações de forças so- 7. As novas instituições econômicas
râneas de velhas contradições. Não estamos ciais nos países chave, mas também de uma Seja no campo do comércio mundial (GATT,
mais no período político de 1968, não saímos reorganização de mercados, de territórios, de OMC), da concertação política (reorganização
ainda da onda longa depressiva e estamos ao instituições, do direito. previsível da ONU), da gestão da dívida
final de uma época, aberta pela Primeira O problema crucial é, então, de mudança (Banco Mundial/FMI), e mesmo da ecologia
Guerra Mundial e pela Revolução Russa. de escala na ordem do dia, da redistribuição (Cúpula do Rio-Eco 92), as instituições liga-
A ruptura dos equilíbrios instáveis resul- das relações de dependência e de dominação, das à globalização parecem cada vez mais pre-
tantes da última guerra mundial não desem- do surgimento de conjuntos e blocos regionais, sentes e ativas. Para alguns, é o bastante para
boca em uma nova ordem, como apregoava da consolidação de acordos e de órgãos inter- concluirem pelo surgimento de uma forma de
ontem Bush, mas em novos conflitos inevitá- nacionais capazes de disciplinar a nova ordem super-imperialismo organizado com um papel
veis em um mundo injusto (desigualdades, liberal. E é aí que os problemas se impõem: crescente de oligopólios apátridas e de insti-
dependência, apartheid), violento (Golfo, Iugos- a) dos instrumentos políticos e institucionais tuições planetárias proto-estatais.
lávia, Ruanda) e instável. Estamos frente a da internacionalização (o papel do FMI, do Não nos incluímos entre estes. Longe disso.
uma espécie de Contra-Reforma regressiva BM, da OMC), das alianças e das novas for- Mas os instrumentos da globalização nos colo-
(econômica, política e cultural) contra as con- mas de intervenção militar imperialistas; cam desde já problemas de análise e inter-
quistas democráticas e sociais: desemprego de b) do surgimento de conjuntos regionais cu- venção que devemos enfrentar.
grande duração, precariedade, pobrezas anti- jas caraterísticas permanecem fortemente di- a) Do GATT a OMC. Parte do sistema erguido
gas e novas, exclusões, epidemias, pauperiza- ferenciadas - de uma tentativa de unificação no dia seguinte à guerra (sistema de Bretton-
ção absoluta de algumas populações, catástro- monetária e política (União Européia) a um Woods, FMI, Banco Mundial), o GATT é um
fes ecológicas, novas tecnologias e crise moral. mercado comum entre países ricos e dependen- mecanismo de liberalização das trocas contro-
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lado pelas potências dominantes que perpetua mularam durante séculos em detrimento dos – Além disso, o essencial dos bens importa-
o intercâmbio desigual e a dependência. Por países pobres; novos dispositivos de regulação dos nos setores de grande densidade de mão
trás da crença liberal hipócrita, a realidade: dos intercâmbios que permitam projetos de de obra (tais como têxteis ou de componentes
regras de ajuste estrutural, protecionismo mas- desenvolvimento diferenciados, desconexão eletrônicos) são provenientes de fábricas
carado dos ricos, hegemonia cultural e finan- parcial e controlada do mercado mundial e atuando no exterior pertencentes aos grupos
ceira reforçadas pela desregulamentação dos uma política de preços correta; uma política industriais de países imperialistas e, à exceção
serviços, “patenteamento” do patrimônio gené- migratória negociada neste contexto. da Coréia do Sul, majoritariamente não são
tico, etc. A passagem discreta do GATT em re- c) O debate sobre uma eventual “cláusula so- de empresas nacionais dos países exportado-
lação à Organização Mundial do Comércio no cial” contra as importações provenientes dos res. A questão chave não é então impingir den-
quadro de ratificações dos acordos de Marra- países dominados, e as novas formas de prote- tro dos países ricos, um imposto social à im-
kesh, representa novas formas de subordinação cionismo mais ou menos declaradas ilustram portação (cujo controle e destino seriam
dos Estados, dos poderes eleitos (inclusive mal bem a perversidade do sistema. Nos países ri- demasiado incertos) e sim da estratégia a ado-
eleitos) e das legislações aos regentes do mer- cos, eventuais medidas de proteção tarifária tar com relação às empresas multinacionais
cado mundial. não seriam admitidas senão como formas de que produzem no estrangeiro e do controle a
b) Sob o impulso do FMI e do Banco Mundial, sancionar indústrias que atuam no exterior que elas estariam sujeitas (vigilância, expro-
a dívida externa continua desempenhando com exploração de mão-de-obra barata e sem priação total ou parcial, reforma fiscal), ou
uma função disciplinadora em relação aos paí- direitos trabalhistas (como o código de con- inclusive de desenvolvimento de projetos al-
ses dependentes. Se a OMC mantém uma di- duta europeu ou o código Sullivan para as em- ternativos aos grandes projetos capitalistas
mensão de representação nacional, este não presas que operavam na África do Sul na (G7 sobre as telecomunicações).
é o caso do FMI e do Banco Mundial. Eles época das sanções). A concorrência do Terceiro
encarnam a lei do capital: um dólar, uma voz! Mundo invocada para justificar o desemprego 8. Hierarquia de poder
Estas instituições têm certamente um poder nos países industrializados é ilusionismo puro. e intervenção militar
de decisão limitado, comparativamente ao – O intercâmbio comercial entre países ricos Uma das condições políticas para saída da
peso das principais multinacionais (enquanto e países dependentes, incluídos os novos países crise está na reorganização da liderança mun-
o FMI controla haveres que representam me- industrializados (NPI), pode até se traduzir em dial. Onde está o declínio norte-americano?
nos de 2% das importações mundiais, apenas perda de empregos, mas em geral o fluxo de ca- Desde a guerra do Golfo, os Estados Unidos
dez empresas transnacionais contabilizam pitais representa benefícios. O desemprego não têm usado a superioridade militar e a potên-
quase o equivalente aos lucros anuais das 190 é, portanto, resultante principalmente da concor- cia de seu Estado para reafirmar sua hegemo-
seguintes, e as 500 maiores empresas mun- rência apresentada como desleal, mas um pro- nia militar e diplomática; começaram a resta-
diais demitiram uma média de 400 mil traba- blema da própria lógica econômica e do aumento belecer sua competitividade produtiva em
lhadores por ano para garantir o aumento de da produtividade em empregos que atendam às alguns setores. Mas a permanência de enor-
sua rentabilidade), mas suficiente para cum- necessidades sociais. mes déficits comerciais e orçamentários enfa-
prir o papel de gendarmes do Terceiro Mundo – Sob os efeitos da desregulamentação, as tiza a fragilidade de tais evoluções. Os impas-
ou dos países do Leste. vantagens comparativas de deslocamentos ses da Europa e as limitações do Japão, por
Pode-se conceber outro modo de cooperação para os países do Terceiro Mundo tendem a outro lado, impedem o surgimento, a curto
e de crescimento do planeta: organismos se reduzir frente aos deslocamentos internos prazo, de uma real alternativa à liderança
internacionais de regulamentação substi- nos próprios países ricos, e tiram vantagem mundial americana. A contradição entre o
tuindo o BM/FMI/OMC/G-7; organismos de do desenvolvimento desigual das garantias e poder político e o debilitamento econômico dos
promoção do comércio internacional entre paí- das normas sociais (os desníveis salariais têm EUA reflete-se, inclusive, nas contradições das
ses de produtividade similar; transferência se revelado consideráveis no próprio seio da co- instituições internacionais: reorganização do
planejada de riquezas dos países que as acu- munidade européia). Conselho da ONU, inexistência de uma nova
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ordem monetária, redefinição dos pactos mi- goslávia, em Ruanda tem exibido as contradi- 9. Por uma Europa social e solidária
litares, precariedade da OMC ante os prote- ções práticas desta montagem jurídico-ideoló- O Tratado de Maastricht representa uma
cionismos maquiados das potências. gica: quem decide e quem aplica? (Decisões da opção estratégica: traduz o projeto da organi-
Mesmo antes da intervenção iraquiana no ONU e comando militar de operações? O que zação política da Europa sob a pressão de uma
Kuait, os Estados Unidos (e as principais será da sempre proclamada soberania dos Es- camisa de força monetária e dos critérios de
potências européias) reorientaram sua política tados? Qual seria a reciprocidade deste direito convergência. A partir dos procedimentos de
militar em função de novas bases estratégicas de mão única: não mais a intervenção dos ri- ratificação de Maastricht combatemos o tra-
(doutrina de Aspen) dando prioridade à luta cos nos países pobres, mas o contrário?). tado, não para clamar pela soberania nacio-
contra a instabilidade do Terceiro Mundo. A Tão logo apresentada como a autoridade nal ameaçada como o fazem as direitas chau-
nova doutrina havia sido preparada e testada cosmopolita da nova ordem mundial, a ONU vinistas, mas de um ponto de vista de classe:
pela montagem e operação das forças de in- assumiu o que fundamentalmente é: a cober- em nome da solidariedade social atacada pelo
tervenção rápida, pelas guerras chamadas de tura legal de empresas e expedições imperia- euroliberalismo e em nome de uma Europa
baixa intensidade (América Central), pelas listas. A ONU faz os comunicados. Mas, o va- social e solidária, comprometida pelos efeitos
intervenções pontuais diretas (Granada, Pa- zio jurídico, do ponto de vista mesmo da sua desiguais e seletivos desta Europa financeira
namá). A guerra do Golfo foi a primeira Carta de Intenções e do direito internacional, e não democrática.
demonstração, em uma outra escala, desta es- permitem uma multiplicação de intervenções A engrenagem foi colocada em movimento.
tratégia de golpes pontuais massivos, no con- de nível diferente. Nos casos mais graves, são O projeto inicial de Maastricht já está caduco
texto de novas relações de forças mundiais. os Estados intervindo sob o comando da OTAN tanto por razões econômicas (não prevista
Imposta pelos transtornos político-estratégi- (Bósnia) ou dos Estados Unidos (Golfo), que de- pelos tecnocratas, a brutalidade da crise
cos europeus, a redefinição do papel da OTAN, cidem intervir ignorando as posições da ONU explodiu com o Sistema Monetário Europeu e
está desde o seu início, subordinada a esta po- (França em Ruanda, Estados Unidos no Haiti). os critérios de convergência desde 1992),
lítica em seu conjunto. O fim da distribuição bipolar oriunda de quanto políticas (a queda do bloco do Leste e
A legitimação humanitária das interven- Yalta desnuda os problemas de representati- os imperativos políticos da ampliação). A idéia,
ções militares figura como o quarto compo- vidade dos organismos internacionais e as reivindicada pela democracia cristã alemã, de
nente estratégico nos documentos do Conse- dificuldades de redefinição de sua composição uma Europa a diferentes velocidades (uma
lho Segurança Nacional dos Estados Unidos. sobre a base de outros critérios que as relações zo n a de l i v r e c o m é r c i o e u m a r e de de
As noções de direitos e deveres de ingerência de força superadas desde o fim da última associação política até a Rússia, organizadas
(e reciprocidade) oscilam entre o dever moral guerra mundial (a exemplo do conselho de em torno de um núcleo duro proto-estatal
e o direito político. O dever postula uma impos- segurança, por zonas geográficas, potência franco-alemão), responde a esta nova situa-
sível inocência dos interventores, como se o militar, peso demográfico). As hierarquias her- ção dentro da continuidade de Ata Única e do
passado, os interesses, a hierarquia concen- dadas de Yalta caducaram, mas não está à espírito de Maastricht (não ao pé da letra, pois
trada no conselho de segurança da ONU e vista ainda a soberania democrática internacio- isso tem se demonstrado impraticável).
seus membros permanentes não existissem nal que supere a mediação dos Estados ou das Ainda que não partam do zero, e embora se-
mais. alianças de Estados. A contradição permanece, jamos em parte prisioneiros das orientações
Na realidade, trata-se de um arremedo de então, explosiva entre as necessidades de re- já tomadas (Ata Única, Maastricht, amplia-
um novo direito internacional, traduzindo as gulação proto-estatal mundial, ligada à inter- ção), trata-se de colocar novamente de pé o
novas relações de forças e conferindo à preser- nacionalização do mercado de bens e de capi- projeto europeu: a Europa não será a mesma
vação da ordem planetária uma legitimidade tais (transferências formais ou informais de dependendo das forças sociais que tomem a
antes comprometida pelas guerras coloniais soberania) por um lado, e por outro, a regula- iniciativa e determinem seu conteúdo:
e sobretudo pela longa intervenção no Vietnã. ção social, ainda nacional no seu essencial, li- – Ampliação e aprofundamento: adesão
As intervenções no Golfo, na Somália, na ex-Iu- gada à transformação do mercado de trabalho. política e convergência social contra a camisa
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de força monetária: redução coordenada ime- carga de fantasmas purificadores. A Iugoslávia moldadas há décadas no quadro de Estado
diata da jornada de trabalho para 35 horas não é uma exceção (Israel, Alemanha). Nes- nacional, com suas versões revolucionárias
máximas; sistema europeu de indexação de tas condições, o nacionalismo do oprimido pode (nacionalizações, monopólio de comércio ex-
salários e salário mínimo europeu; harmoniza- muito rapidamente converter-se em naciona- terior, dualidade de poder) ou reformistas
ção da proteção social alinhada a partir das lismo opressor de suas próprias minorias. Uma (demo cratização e políticas keynesianas).
conquistas mais vantajosas; plano de grandes alternativa de classe exige mais que nunca Hoje, a dissociação dos poderes políticos e eco-
projetos em transportes, comunicações, ener- uma estreita relação entre projetos nacionais- nômicos, a dispersão dos centros de decisão
gia; projetos industriais e “europeização” de democráticos e uma redefinição das trocas, e dos atributos de soberania (a nível local,
multinacionais estratégicas. alternativas à OMC e aos ajustes estruturais nacional, regional, mundial) fazem com que as
– Uma Europa democrática e cidadã: cidada- do FMI, assim como a defesa de reivindica- passarelas projetadas a partir das reivindi-
nia e instituições européias (direito de voto aos ções democráticas regionais ou étnicas num cações imediatas partam em diferentes di-
residentes; direitos sociais e cívicos efetivamente quadro de solidariedade mais amplo evitando reções. É surpreendente constatar que o
iguais para as mulheres), assembléia européia os becos sem saída do nacionalismo: primazia programa do PT brasileiro era muito mais
e direito de veto dos parlamentos nacionais; su- da cidadania sobre a nacionalidade; direito à moderado que o programa reformista radical
pressão dos acordos de Schengen e das medidas autodeterminação e livre associação (subsidia- da Unidade Popular chilena de 1970, ou que
discriminatórias como as leis Pasqua. Aplica- riedade); garantia de direitos às minorias (lin- um programa radical em alguns países euro-
ção correta da relação de associação voluntária: güísticas, escolares, culturais). peus (redução da jornada de trabalho, direitos
definir o conteúdo democrático de subsidiarie- dos imigrantes, suspensão da dívida e desmi-
dade como nova distribuição das competências 11. Construir um novo programa litarização) e freqüentemente muito mais re-
e dos atributos de soberania a nível de Estados, As reivindicações transitórias constituem uma baixado que os programas reformistas dos
da União Européia e a nível internacional. Neste ponte entre as reivindicações imediatas que anos 70, pelo menos na sua forma escrita (na-
quadro seria possível conquistar, em definitivo, vão responder às necessidades urgentes e a cionalização, elementos de controle e de auto-
avanços rumo à supranacionalidade e ao reco- conquista do poder. Mas estas pontes e passa- gestão). Confrontados com a impotência de
nhecimento de direitos nacionais coletivos (País relas são, no momento, muito precárias. Onde um reformismo sem reformas, as forças majo-
Basco, Córsega, etc). está o poder? Ainda concentrado nos aparatos ritárias do movimento operário oscilam entre
– Uma Europa pacífica e solidária: desar- do Estado, mas também delegado às institui- adaptação à lógica liberal (social-democracia
mamento nuclear; supressão da dívida, nova ções regionais e internacionais. modernista) e a recaída nacionalista (alguns
cooperação; medidas ecológicas. É um problema para as classes dominan- partidos comunistas ou ex-comunistas). A de-
tes. A idéia de um espaço político, econômico, fesa dos direitos e conquistas sociais se apóia
10. Alternativas ao nacionalismo territorial homogêneo está ultrapassada, mas sobre as legislações e as instituições existen-
Nas atuais condições de internacionalização nada garante que tal espaço será reconstruído tes, mas as medidas eficazes contra o desem-
da produção e do comércio, de sua crise de efi- numa escala superior (regional). As divisões na prego e por uma economia a serviço das neces-
cácia, de desorganização da divisão do traba- burguesia ilustram bem as contradições en- sidades sociais assumem uma dimensão
lho, de novas miscigenações de populações, os tre um capital diretamente mundializado, um diretamente regional ou internacional (redu-
Estados-nacionais não podem continuar capital ainda protegido por suas instituições ção coordenada da jornada de trabalho, polí-
assumindo o mesmo papel integrador do nacionais e um capital que busca uma reorga- ticas comuns, projetos de investimentos ou
século passado (integração no mercado mun- nização intermediária (União Européia), com socialização de empresas multinacionais).
dial, soberania limitada, interpenetração das todas a implicações possíveis e imaginárias Trata-se então – a partir das lutas e experiên-
populações). Daí a busca de uma legitimidade entre estes três níveis. cias, por mais modestas e parciais que sejam
mítica (a terra e os mortos), “étnica” ou de iden- É um problema estratégico maior para o – de formular e atualizar uma proposta tran-
tidade (chauvinismo e xenofobia), com sua movimento operário, cujas políticas foram sitória para o século vindouro. É também a
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forma, abordando temas centrais e acessíveis, Uma conclusão provisória mento da União Soviética sem desembocar
de dar um conteúdo dinâmico e acessível à numa revolução política, dinâmica restaura-
recomposição. Trata-se de reformular os pri- 12. Uma mutação histórica dora dominante no Leste, unificação imperia-
meiros contornos de uma proposta que con- Seguramente, os ciclos econômicos existem. lista na Alemanha, derrotas da revolução cen-
duza a uma contestação de conjunto da or- Seguramente, há os fluxos e refluxos nas lutas tro-americana, guerra do Golfo, acordos
dem estabelecida: e temos assistido, aqui e ali, explosões, mobi- Israel-Palestina, aprofundamento do isola-
a) cidadania/democracia (política e social): com lizações e resistências combativas. Mas arro- mento e esgotamento da revolução cubana.
relação à universalidade truncada dos direi- lar estes acontecimentos não nos deve fazer A crise de direção e do projeto do movimento
tos humanos proclamados, direitos civis e esquecer que a mudança em curso não é con- operário resulta então de três fatores combina-
igualdade de direitos (imigrantes, mulheres, juntural e que se trata de uma mutação histó- dos: os efeitos sociais duráveis da crise (mu-
jovens), direitos civis e direitos sociais (igual- rica do modo de acumulação capitalista, sobre tação social); os efeitos cumulativos desorgani-
dade homens/mulheres); direitos sociais e ser- o qual é ainda muito prematuro tirar as con- zadores da política das direções reformistas e
viços públicos; sequências estratégicas. Mas não é cedo de- populistas face ao primeiro choque da crise;
b) contra a ditadura do mercado, suas conse- mais para se conscientizar da dimensão do os efeitos profundos da crise do “socialismo
qüências a curto prazo, sua lógica de desigual- problema. A crise de direção revolucionária, realmente existente».
dades: direito à vida a começar pelo direito ao que resultou na crise do movimento operário, Nos países imperialistas, os partidos estali-
emprego e à garantia de renda mínima; assume todo o seu sentido nesta perspectiva nistas desacreditaram a revolução e os sociais-
reciclagem dos lucros da produtividade (ser- histórica. democratas a reforma. Nem uns nem outros
viços de educação, saúde, moradia) com am- A situação mundial é sempre o campo de cumprem hoje a mesma função que tinham
pliação da gratuidade e ingerência no direito tendências contraditórias. Sem dúvida, é im- nos períodos passados. Os primeiros não mais
da propriedade privada. Direito dos cida- possível, a partir da década passada, equili- embasam sua identidade na referência do
dãos/ cidadãs à propriedade social das gran- brar os prós e contras, os pontos ruins e os campo socialista e não podem se transformar
des empresas cujas opções e decisões tenham bons: Nicarágua por Chiapas, Palestina pela em partidos reformistas nacionais a menos
uma maior incidência sobre suas condições de África do Sul. Os termos não são equivalen- que, neste papel, suplantem a social-democra-
vida presentes e futuras. Esse direito não im- tes. Basta ouvir e ler as declarações do Exér- cia. Ao mesmo tempo, os partidos social-demo-
plica necessariamente uma nacionalização, cito Zapatista de Libertação Nacional: uma cratas tradicionais, apanhados pelo turbilhão
mas uma socialização efetiva (direito ao uso insurreição da desesperança contra os efeitos liberal da gestão leal e pelo impasse das recei-
autoadministrado, descentralização, planifi- da modernização liberal. No fim do apartheid, tas keynesianas nacionais, estão estreitamente
cação); como na queda das ditaduras burocráticas, associados ao capital europeu, assumindo-se
c) solidariedade entre gerações (proteção so- muitos fatores entraram em jogo. Sem dúvida como a ala mercantil da Europa de Maastricht,
cial, ecologia); uma mobilização de massas e a expressão de e encarnando cada vez mais um reformismo
d) solidariedade sem fronteiras: desarma- aspirações democráticas, mas combinada às sem reformas. Esta crise de representatividade
mento, dívida, constituição de espaços políticos necessidades próprias do capital: o sistema do do movimento operário traduz-se paralela-
regionais, internacionalização de direitos so- apartheid entrava em contradição, cada vez mente numa crise (desigual conforme o país)
ciais. mais, insustentável com os ventos de liberali- da eficácia e da representatividade do movi-
Um trabalho análogo deve ser feito a partir zação e da desregulamentação. Uma vez esta- mento sindical, pela fragmentação e atomiza-
dos problemas mais candentes dos países belecida a dinâmica, sua direção está principal- ção da consciência de classe.
dependentes (dívida, reforma agrária, coopera- mente determinada pelas relações de força Nos países da Europa do Leste e da ex-
ção regional) ou dos países do Leste (alterna- mundiais. Assim, uma tendência se impõe cla- União Soviética, o fato de o discurso de classe
tiva às privatizações, democracia, problema ramente, ilustrada não por suposições mas é o do antigo poder com a perda de sentido
das nacionalidades). pelos acontecimentos principais: desmantela- das palavras, que não tenha se dado uma fu-
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são entre as aspirações democráticas da socie- partidos do movimento operário e menos ainda organização do trabalho, novos mercados e no-
dade e do movimento de classe, que a debili- as alternativas radicais aos partidos no poder: vos produtos. Mas estes fenômenos não têm
dade das lutas anticapitalistas de massas nos caudilhos e formações populistas, inclusive os até agora nem a amplitude (generalização),
países avançados não mais ofereça uma refe- partidos de extrema-direita são, pelo contrário, nem a coerência suficientes para iniciar uma
rência positiva como em 1968, constituem obs- os primeiros beneficiários da derrota de parti- nova fase de crescimento durável. Por isto in-
táculos ao renascimento de um movimento dos tradicionais. A esquerda revolucionária sistimos nas condições políticas e institucio-
social independente do capital tanto quanto está hoje mais pulverizada e debilitada que nais de saída da onda recessiva. Isto não quer
as antigas frações da burocracia. há cinco anos atrás (crise das organizações dizer que estas condições devem tomar a
Nos países dependentes, onde as correntes centroamericanas, racha do PC filipino, retro- forma de catástrofe única ou de uma nova
anti-imperialistas progressistas podiam rea- cesso da esquerda sindical sul-africana). Para guerra mundial. Evocamos no informe uma
lizar alianças conflitantes com os setores de a reconstrução de um projeto revolucionário e hipótese de estrangulamento lento, onde os
uma (pequena) burguesia em formação, as mu- de uma Internacional partimos de condições conflitos locais de alcance internacional (tipo
danças nas relações de forças internacionais consideravelmente deterioradas. Bósnia) podem ser um dos aspectos.
conduzem a um realinhamento realista em Finalmente, questionamos se é realmente
cascata (acomodamentos e compromissos com 13. Evitar mal entendidos necessário passar tanto tempo numa polêmica
o Banco Mundial e o FMI). Na época onde a A discussão no CEI exige algumas precisões estéril sobre a “nova ordem mundial», como
OPEP parecia poder fazer escola e onde a di- para tentarmos pelo menos evitar os maiores se alguns (a maioria) deixando-se levar por
visão internacional do trabalho herdada do co- mal entendidos. Alguns camaradas tem se con- um pessimismo desesperado tivessem passado
lonialismo permitia uma margem de mano- centrado muito na ideia de mudança de época. a acreditar na constituição de tal ordem e
bra e acordos, parece superada. Um tempo Temos que permanecer lúcidos. Os historiado- como se outros (fiéis a sua fé revolucionária)
encoberto pela elevação do preço do petróleo, res têm inventado categorias extremamente depositassem toda sua confiança na capaci-
a desarticulação deste dispositivo começou no refinadas e sofisticadas para expressar a perio- dade das massas. A resolução majoritária do
final dos anos 70, com a queda de preços das dização dos ritmos (ciclos, fases, etapas, etc). último congresso mundial insistia (já no seu
matérias primas, solapando a base social e a Trata-se de simplesmente reafirmar que não título) sobre as novas desordens (presentes
auto-confiança deste movimento anti-imperia- estamos numa alternância rotineira de ascen- como a guerra do Golfo e futuras). Impossível
lista. As mudanças das relações políticas mun- sos e descensos, mas numa configuração que ler os jornais diários nos dias de hoje e ver um
diais posteriores à queda do muro de Berlim, se acaba e que a mudança operada pela reor- mundo ordenado! O antagonismo, o conflito,
ao desmantelamento da União Soviética e à ganização do capital coloca realmente novos a luta são inerentes ao sistema e isto não está
guerra do Golfo desferiram o último golpe, pro- problemas. Se existe uma utilização ideológica perto de se acabar. Mas o problema começa
vocando uma crise aberta, não conjuntural, do tema da internacionalização (apologia do precisamente aí. Não se pode prever senão a
das formas de anti-imperialismo radical da liberalismo sem fronteiras e resignação às exi- luta, dizia sabiamente Gramsci, e não o seu
fase precedente (confusão no Panamá, no gências que dele decorrem), isso não a faz me- desenvolvimento.
Haiti) e a forte tentação de adaptação destru- nos real e determinante da dinâmica das A revolução é necessária. Nós lutamos por
tiva a uma linha de retrocesso em nome de transformações sociais, das fraturas políticas, torná-la possível e vitoriosa. Mas a vitória não
um realismo ilusório (Salvador, Nicarágua, da desestabilização dos Estados. é certa e sobretudo somos um número redu-
África do Sul). Outros camaradas têm insistido na emer- zido (como os militares sempre em atraso
Neste momento, a tendência dominante em gência de elementos de um novo modo de regu- numa guerra por serem obrigados a racioci-
escala internacional é de debilitamento do lação imaginável. É verdade e tem lógica. Não nar tomando por base as guerras preceden-
movimento social (a começar pelo sindical). Se existem na história cortes bruscos. O novo se tes), imaginando um projeto revolucionário a
processos eleitorais produzem mudanças de prepara no antigo e os elementos de solução partir da experiência de revoluções passadas,
vulto (Itália), raramente os favorecidos são os amadurecem no quadro da crise: tecnologias, enquanto o renascimento de um movimento
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social aportará provavelmente respostas iné- Mas ao contrário, estes Estados e o poder mente. Já assinalamos que o programa do PT
ditas. que eles representam perdem o controle de brasileiro (o programa votado, inclusive por
uma parte crescente dos processos de produ- nós, e não a campanha de Lula) era muito
14. Onde está o poder? ção, dos fluxos monetários, dos deslocamentos mais moderado que o programa da Unidade
Alguns camaradas parecem chocados pela per- de capitais. De sorte que a dimensão nacional Popular chilena. E trata-se do Brasil! Que di-
gunta colocada no informe: “onde está o poder?”. da luta pelo poder político está cada vez mais zer dos países que não têm este nível de in-
Pode-se responder simplesmente que a luta de diretamente imbricada à dimensão regional dustrialização e de capacidade produtiva? So-
classes começa, como disseram os clássicos de e mundial. Não podemos mais responder à per- bre quais condições a desconexão do mercado
Marx a Trotsky, na arena nacional e que seu gunta chamada dos “constrangimentos mundial pode se constituir ainda em um cami-
horizonte estratégico continua sendo, em pri- externos” como fazíamos na época das primei- nho para o início de um desenvolvimento?
meiro lugar, a conquista do poder político em es- ras polêmicas sobre o programa comum da es- Quais são os efeitos do que alguns economis-
cala nacional. Isso não é falso, mas já não é to- querda na França dos anos 70. Uma proposta tas chamam de desconexão forçada para lem-
talmente verdadeiro. Rechaçamos claramente transitória deve articular diretamente as rei- brar a exclusão de países ou de regiões coloca-
a idéia de um super-imperialismo realmente vindicações de defesa das conquistas num qua- dos à margem do mercado mundial?
existente que reduziria os Estados nacionais à dro nacional e das proposições de transforma-
condição de vestígios e converteria em falsas ções ao menos continentais. Na sua ausência,
as lutas no seu nível; o objetivo louvável mas a iniciativa sobre esta questão é deixada para
distante de uma mundialização das lutas (ou de a burguesia. Um problema análogo se coloca Marxismo, Modernidade e Utopia,
uma renovação internacionalista) pode então para os países dependentes encurralados na Editoria Xamã, 2000 (informe preparatório
servir de pretexto para a resignação, a passivi- nova divisão internacional do trabalho e cujo do XIV Congresso Mundial da Quarta
dade ou a adaptação à dinâmica liberal. espaço tático tem se reduzido consideravel- Internacional, 1995)

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