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Entrevista com o Gen Fernando Sérgio Galvão O General Fernando Sérgio Galvão conduziu, como Chefe

Entrevista com o

Gen Fernando Sérgio Galvão

O General Fernando Sérgio Galvão conduziu, como Chefe do Estado-Maior do Exército, a equipe que realizou os estudos relativos ao Processo de Transformação do Exército, no período de 11 de dezembro de 2009 até 19 de agosto de 2010. Ao se afastar, por força de nomeação para o cargo de Ministro do STM, concordou em conceder a entrevista abaixo para a Revista do Clube Militar.

a entrevista abaixo para a Revista do Clube Militar. Revista — A Estratégia Nacional de Defesa,

Revista — A Estratégia Nacional de Defesa, documento assinado em dezembro de 2008, foi o documento inspirador para o EME desenvolver os estudos do processo de transfor- mação? Foi uma atualização de es- tudos anteriores ou começou-se um novo trabalho? Gen Fernando — Sem dúvida, a Estratégia Nacional de Defesa (END) despertou no Exército uma motivação especial pelo que ela representa para a evolução do pensamento de defesa em nosso País e pelas oportunidades ofe- recidas para a modernização do Exér- cito. Um marco que fez recair sobre o Estado-Maior do Exército (EME) re- novadas atribuições, principalmente, no sentido de apresentar planejamen- tos com capacidade de respaldar e mo- tivar decisões políticas e econômicas por parte do Governo Federal. Partindo-se de estudos e diagnósti- cos já existentes no EME, com a END incorporamos novas concepções que têm impactos em praticamente todos os nossos setores de atividades. Este processo resultou na Estratégia Braço Forte (EBF), apresentada ao Ministro da Defesa em junho de 2009.

Revista — O que vem a ser a Es- tratégia Braço Forte? Gen Fernando — A Estratégia Braço Forte vem a ser o planeja- mento do Exército no tocante à sua reorganização, segundo as condi-

cionantes e diretrizes estabelecidas pela END, no ato de sua aprovação, em dezembro de 2008.

O EME, no prazo de seis me-

ses determinado pelo Ministério da

Defesa, apresentou seus planeja-

mentos para a articulação e o equi- pamento. No que se refere à articu- lação, foram elaborados o Programa Amazônia Protegida e o Programa Sentinela da Pátria. No tocante ao equipamento, foram elaborados o Programa Mobilidade Estratégica e

o Programa Combatente Brasileiro

do Futuro (COBRA). Estes programas contemplam ações para o curto, médio e longo prazos (2014-2022-2030) e é um tra-

balho integrado do qual participaram

o Estado-Maior do Exército, os Ór-

gãos de Direção Setoriais (ODS) e os Comandos Militares de Área.

Revista — O Sr poderia detalhar a estrutura da EBF, no que diz respeito aos programas que a compõem? Gen Fernando — O Programa Amazônia Protegida abrange três projetos: Pelotões Especiais de Fronteira, Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteira (SIS- FRON) e Reestruturação das Bri- gadas de Selva. Destina-se a re- completar e modernizar os sistemas operacionais da Amazônia.

O Programa Sentinela da Pátria

é destinado à reestruturação e à mo-

dernização das estruturas dos demais Comandos Militares de Área. Com o Programa Mobilidade Es- tratégica, se pretende completar e modernizar os equipamentos e as do- tações de suprimentos do Exército do presente. Já o Programa Combaten- te Brasileiro do Futuro é destinado a equipar o Exército do futuro, com

ações basicamente voltadas para a área de Ciência e Tecnologia, desen- volvendo os sistemas de armas que o Exército adotará a partir de 2014.

Revista — VExa poderia explici- tar um pouco mais o SISFRON e a sua importância num curto e médio prazos? Há a possibilidade de finan- ciamento externo para a obtenção dos recursos necessários? Gen Fernando — No prossegui- mento dos trabalhos, após a entrega da Estratégia Braço Forte ao Minis- tério da Defesa, o Projeto do Siste- ma Integrado de Monitoramento de Fronteiras – SISFRON – ganhou pro- eminência, por conter respostas para problemas em evidência e de difícil solução para o Governo. Além da vigilância da fronteira amazônica e dos consequentes bene- fícios naturalmente relativos àquela região, como a preservação ambien- tal e a proteção de comunidades indí- genas, o Projeto elevará a capacidade de monitorar e controlar as fronteiras do Centro-Oeste e do Sul e ensejará muito maior eficiência na resposta operacional aos eventuais alertas a serem proporcionados pelo sistema. Com isso, estaremos nos antecipan-

do no atendimento das demandas por parte do governo e da sociedade, no

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sentido de contribuir para a seguran- ça nos centros urbanos, por elevar a capacidade dos Órgãos Federais no apoio ao combate ao narcotráfico e ao contrabando de armas. Quanto aos recursos, o Projeto está abrigado no “guarda-chuva” do acordo Brasil-França, o que eleva consideravelmente a possibilidade de alocação de recursos por meio de crédito externo. Esse benefício pode- rá estender-se a todos os projetos da Estratégia Braço Forte, pois eles podem, convenientemente, ser carac- terizados como parte integrante dos vários subsistemas do SISFRON.

Revista — Em relação ao Proces- so de Transformação, que papel de- sempenha a Estratégia Braço Forte? Gen Fernando — A Estratégia Braço Forte representa a oportuni- dade que temos para modernizar a infraestrutura e os equipamentos do Exército, com vista à reversão do processo de obsolescência, sucate- amento e insuficiência causada pela prolongada restrição orçamentária a que vimos sendo submetidos. Além disso, o próprio processo de elaboração da estratégia proporcio- nou a estruturação de um banco de dados e a constituição de um diag- nóstico bastante abrangente sobre a situação geral do Exército em todos os níveis e setores. Esse diagnóstico deixou clara a necessidade de irmos além das estruturas físicas e de nos preocuparmos, também, em evoluir as concepções atualmente vigentes.

Revista — Qual o significado da palavra “transformar”? Gen Fernando — Para uma institui- ção militar, pode-se definir transformar como sendo um processo de desenvol- vimento e implementação de novos conceitos e capacidades operacionais conjuntas, modificando o preparo, o emprego, as mentes, os equipamentos e as organizações, para atender às de- mandas operacionais de um ambiente sob evolução continuada. Com o surgimento das novas

tecnologias relacionadas ao proces- samento e transmissão de dados, à robótica e aos sistemas de armas, firmou-se a tendência de sistemati- zar as ações necessárias para o apro- veitamento militar dessas vantagens potenciais, por intermédio do pro- cesso de transformação. Tecnologia da informação, ciber- nética, capacidades espacial e nuclear, nanotecnologia, robótica e biotecno- logia são alguns dos parâmetros com os quais as forças militares estão se deparando nos conflitos atuais e nos visualizados para o futuro.

Revista — Quais foram os prin- cipais ensinamentos colhidos de pro- cessos anteriores? E as experiências de outros Exércitos e Nações Amigas, sob quais aspectos nos foram úteis? Gen Fernando — Para chegar ao estágio em que se encontra, o pensamento militar do Exército Brasileiro sofreu, ao longo de sua história, influências de diversas na- turezas que ficaram caracterizadas como ciclos de evolução. Desde o esforço autóctone empre- endido na Guerra da Tríplice Alian- ça, no século XIX, o EB passou pelas influências alemã e francesa durante

o EB passou pelas influências alemã e francesa durante as primeiras décadas do século XX, até

as primeiras décadas do século XX, até sofrer os reflexos da participação na Segunda Guerra Mundial, que re- sultou na aproximação militar com os EUA. Passamos a adotar um pen- samento militar com relativa autono- mia somente a partir dos anos 1980, quando se adotaram conceitos pró- prios e promoveu-se o fortalecimen- to da indústria nacional de defesa. Em cada um desses períodos evo- lutivos fomos capazes de empreender grandes ações transformadoras, das quais cito, como exemplo, a Reforma Administrativa do Exército Brasilei- ro no período 1964-1984, marco na história do Exército, cujos resultados ainda são visíveis na Força. Sem dúvida, neste novo ciclo evolutivo e transformador estamos aproveitando os ensinamentos de processos anteriores, bem como experiências de Exércitos de Na- ções Amigas, como os do Canadá, Chile e Espanha, que promoveram transformações em suas estruturas e concepções.

Revista — O que exatamente mo- tivou o desencadeamento do Proces- so de Transformação do Exército? Gen Fernando — A percepção de

Transformação do Exército? Gen Fernando — A percepção de 9 7 Revista do Clube Militar Revista

9 7

Transformação do Exército? Gen Fernando — A percepção de 9 7 Revista do Clube Militar Revista

Revista do Clube Militar

Revista do Clube Militar

que, além da modernização a ser as quais, para surtirem os efeitos Militar do Exército

que, além da modernização a ser

as

quais, para surtirem os efeitos

Militar do Exército Brasileiro (SI-

obtida por meio da Estratégia Bra- ço Forte, deveríamos também pro- vocar mudanças nas concepções política, estratégica, doutrinária,

pretendidos, deverão incidir sobre vários setores de atividades e em todos os níveis do Exército. Os fatores críticos concentram-

MEB), o Serviço Militar e o Siste- ma Operacional são interdependen- tes, o que impede a flexibilização de ambos. Anualmente, incorporamos

tecnológica, logística e de gestão,

se,

fundamentalmente, em três áreas:

no mês de fevereiro e todas as Or-

capazes de elevar o Exército a um patamar compatível com o de Força Armada de um país que caminha ra- pidamente para ocupar a condição de potência mundial.

doutrina, recursos humanos e gestão. Contudo, levando-se em conta a es- trutura e a cultura institucionais, as ações com vista à superação de cada um deles serão conduzidas por meio

ganizações Militares (OM) são obri- gadas a cumprir ciclos de preparo idênticos, independentemente da natureza e da destinação estratégi- ca, sendo que, ao final do ano, quase

de

Vetores de Transformação (VT),

todo o "produto" dessa atividade é

 

Revista — O Processo contempla

os

quais compreenderão os estudos,

descartado pela Força.

e

prevê, por certo, a participação efe-

os

diagnósticos, as concepções, os

Esse sistema respalda-se no pres-

tiva de entidades civis, como centros de pesquisas, empresas, etc. VExa

e

técnicas de gestão.

planejamentos, os processos, as fer- ramentas, os recursos humanos, as

suposto, não mais pertinente, de que os conflitos serão de longa duração,

poderia descrever este aspecto?

capacitações e os meios necessários.

e que a capacidade de resposta será

Gen Fernando — Estamos pre-

A

superação desses fatores deverá

obtida por meio da mobilização de

vendo a participação efetiva de en-

estar embasada no aprofundamen-

pessoal e de material.

tidades civis em nosso Processo de

to

dos diagnósticos sobre a série de

O Serviço Militar, dissociado do

Transformação, com a contratação de

conjunturas e as tendências internas

adestramento, poderá ter vários de

consultorias como a Fundação Getú-

e

externas, bem como nas indica-

seus parâmetros flexibilizados, tais

lio Vargas e a parceria com grandes

ções a serem extraídas dos cenários

como duração, universo abrangido,

empresas nacionais como Petrobrás e

de

médio e longo prazos, o que dará

relação Efetivo Variável / Efetivo

Vale, dentre outras, para, fundamen- talmente, capacitar recursos huma- nos e incorporar processos modernos

origem às novas concepções (polí- ticas, estratégicas, doutrinárias e de gestão) e às propostas de modifica- ção nas estruturas.

trina; Preparo e Emprego; Educação

Profissional, sistema de instrução, incremento da profissionalização, lo- cais, e outros a serem definidos. Da mesma forma, visualizamos

Revista — O Senhor poderia abor- dar os fatores críticos para a transfor- mação e os vetores de transformação

Os sete Vetores de Transforma- ção criados por meio de portaria do Estado-Maior do Exército são: Dou-

transformar o Serviço Militar num provedor de recursos humanos in- dispensáveis para o funcionamen- to do Sistema Operacional. Com a

imaginados para superar os óbices?

e

Cultura; Gestão de Recursos Hu-

concretização dessas modificações

Gen Fernando — Para que o potencial de mudanças proporcio- nado pela Estratégia Braço Forte se concretize e chegue ao nível de transformação, há necessidade de se

manos; Gestão Corrente e Estratégi- ca; C & T e Modernização do Ma- terial; e Logística. Outros vetores poderão ser incorporados.

surgirá a possibilidade de se esta- belecerem às mudanças necessá- rias, com alterações na duração dos ciclos de preparo.

alterar concepções, algumas delas profundamente arraigadas em nossa cultura institucional. Durante o planejamento da ci- tada estratégia, as tentativas de implantação de novas concepções esbarraram sistematicamente em fa- tores críticos, decorrentes de nossas deficiências estruturais. Essas deficiências são o resul- tado de uma conjugação de proble- mas variados, alguns conjunturais, outros, em sua maioria, históricos, os quais, para serem superados, exigirão medidas prolongadas, de grande amplitude e profundidade,

Revista — O Sistema de Instru- ção Militar, nos moldes em que se encontra estruturado, atende às ne- cessidades da Força Terrestre? Gen Fernando — Não. Na atual concepção do Sistema de Instrução

Revista — Que papel o Sistema de Educação tem a desempenhar no Processo de Transformação? Gen Fernando — Um papel mui- to importante. Na área de ensino, nos últimos anos, demos um passo

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significativo por meio do proje- to de modernização, o qual pode, a partir de agora,

significativo por meio do proje- to de modernização, o qual pode,

a partir de agora, ser revitalizado

pela adoção de ações voltadas para

o desenvolvimento de uma mentali-

dade de inovação. Com as ações a serem implemen- tadas, buscaremos incutir em nos- sos militares a preocupação com a permanente atualização e a cons- ciência de que o domínio de novas tecnologias será condição básica para o êxito profissional. Adicionalmente, toda a Institui- ção deverá proporcionar um am- biente propício ao desenvolvimen- to da capacidade de inovação e o surgimento de lideranças com este perfil inovador. Revista — Como a Força Terres- tre contempla no Projeto a Gestão, entendida aqui em seu sentido mais

amplo e completo, para atender todas

as necessidades futuras?

Gen Fernando — Quanto à Gestão Corrente e Estratégica, o aperfeiçoamento dos Métodos de Gestão do Exército consti- tui-se em importante caminho para a viabilização e conso- lidação de todo o Processo de Transformação. Para o êxito de nossas ações, medidas estruturais e sistêmi- cas serão necessárias, em todos os níveis, tais como: reestudo da Estrutura Organizacional da Alta Administração do Exército, com pensamento sistêmico; modernizar

e proporcionar à estrutura de ges-

tão do EME a capacidade de atuar como órgão central de um sistema de gestão estratégica, responsável pelo controle da interação sistêmica dos ODS; criação de estrutura de TI capaz de fornecer insumos em tem- po real para o centro de controle dos grandes projetos da Estratégia Bra- ço Forte; consolidação do Sistema de Gestão do Exército; e outros.

Revista — Qual a importância da Gestão dos Recursos Humanos para a Transformação do Exército?

Gen Fernando — Os êxitos a se- rem alcançados pela transformação dependem diretamente da gestão do pessoal, no sentido de proporcionar que cada sistema de atividades do Exército conte com os recursos humanos mais capacitados e na quantidade necessária. As modifi- cações requeridas pela Gestão dos Recursos Humanos provavelmente acarretarão profundas mudanças em nossa cultura institucional e exigirão pesquisas especializadas, ampla discussão e estudos aprofun- dados, pois seus reflexos se farão sentir sobre toda a Força. Visualizamos atuar no ajuste da composição dos efetivos e na ges- tão propriamente dita do pessoal.

tre, provavelmente seja a vertente que mais necessite ser transfor-

mada, em face do hiato existente entre a Logística Militar Terrestre

e a logística atualmente praticada pelas empresas civis e as novas concepções logísticas adotadas nos conflitos modernos. Na transformação do Sistema Logístico (SISLOG), iremos con- siderar fatores como a adoção de uma estrutura de organização que

possibilite o controle efetivo de todo o ciclo de vida dos Materiais de Emprego Militar, a estruturação

e organização de um SISLOG que

leve em conta a nova configuração do Ministério da Defesa, que conta com uma Secretaria de Produtos de Defesa (SEPRODE) e com o Esta- do-Maior Conjunto, com uma Che- fia de Logística, e a adoção de uma estrutura de paz que possa, rapida- mente, passar para a de guerra, pela ativação dos órgãos necessários que deverão estar configurados e estruturados dentro do SISLOG.

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a

No ajuste da composição dos efetivos, a eventual redução dos efetivos profissionais dependerá da nova concepção estratégica da For- ça e da estrutura necessária ao aten- dimento dos planos operacionais relativos às Hipóteses de Emprego.

Revista — Como VExa avalia a capacidade do atual Sistema Lo- gístico e como deverá evoluir para atender às novas e desafiadoras demandas? Gen Fernando — A Logísti- ca, como processo dinâmico para apoiar as missões da Força Terres-

Revista — A Revista do Clu- Militar deixa à disposição de

VExa um espaço para outras con- siderações que julgue adequada. Gen Fernando — É importante salientar que o objetivo síntese do processo que ora se inicia no Exér-

cito é levá-lo da era industrial para

era do conhecimento, dotando-o

de capacidades que o habilitem a cumprir as tarefas requeridas por um país que ocupará local de des- taque no concerto das nações como

uma das principais economias mun- diais e, portanto, de ator global.

O processo terá a doutrina e a

C&T como faróis orientadores da

direção a seguir rumo ao futuro;

a modernização dos métodos de

gestão funcionará como o motor de seu avanço. Contudo, o principal fator de êxito para esse processo histórico repousa no comprometimento das lideranças

e na participação ampla de todos os integrantes do Exército.

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na participação ampla de todos os integrantes do Exército. 1 1 9 Revista do Clube Militar

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