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ADVERTÊNCIA: ORIENTAÇÕES DA OBRA

Antes de uma análise mais aprofundada, postulamos como quase equivalentes os termos antropologia e etnologia. Esta introdução apenas conseguirá abarcar as partes essen- ciais da produção de uma disciplina. Propomo-nos aqui s a b linhar assuntos de estudo e categorias de análise, enunciar tentativas de método e de reflexão v i sando a apreensão dos fenômenos socio- -culturais, apontar campos de pesquisa, fragmentos de cultura e debates teóricos, que permitam ulteriores opções e especializa- ções do estudante. Para melhor focalizar o que é importante, vamos excluir temas periféricos, como sejam as ligações da etnología à arqueologia ou à biologia humana. Acentuaremos as distinções conceptuais e as grelhas.de análise úteis ao princip i an- te, e mbora correndo, por vezes, o risco de que a esquematização prejudique a subtileza da interpretação, ao mesmo tempo qu e facilita a assimilação da disciplina. A referência aos autores só será activada para as obras fundamentais , a fim de evitar que o estudante se perca num dédalo de nomes, cuja cronologi a tem dificuldade em situar , e com os quais , no início, apenas rela c iona algumas ideias simplificadas.

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fN TROD UÇ f\O

À ANTROPOLOGIA

Após uma abordagem dos conceitos e dos métodos vamo ~faça l' um rãpido historial das principais correntes teóricas d:

;m~opologla e vamos estudar sucessivamente as quatro pedras < ll~gul~es de to~o e qu~~uer sistema social, a saber: o paren-

tesc,o, a e~onoillla: a política, a religião. O último capítulo será d .edicado a actualidade da antropologia. Serão sublinh d

te d ê

, en encias marcantes das pesquisas efectuadae e di

• '.

«

a as as

m rversos

países e os objectos da etnologia relacionados com os din i c . ,

mos con~emporâneos das sociedades europeias e das sOcie::::s do Terceiro Mundo.

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1

CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

A antropologia tem como postulado a unidade do género humano, o que não significa que se ocupe do homem simples- mente, As sociedades ditas arcaicas ou primitivas, numa lin- guagem evolucionista, foram os primeiros objectos sociais anali- sados por especialistas, que as consideravam mais autênticas e mais transparentes do que as sociedades ditas civilizadas, fossem elas rurais ou industriais. A ciência do homem em geral (antro-

pos, em grego) aplicou-se, de seguida, à interpretação de todas as diversidades culturais e sociais, pondo em causa as ideias de pro- gresso contínuo da humanidade . de supremacia de uma civiliza - ção sobre outra, depois, mais recentemente, propondo o reorde- namento das relações interculturais, principalmente na época das descolonizaçõcs . Embora a corrente folclorista europeia surja no

início do século XX, é sobretudo após a Segunda

Mundial que se desenvolve a aplicação dos métodos da etnolo- gia ao mundo industrial e que a exigência social leva à valoriza-

ção dos patrimônios culturais, nacionais e locais. O antropólogo que deseja trabalhar sobre a sua própria sociedade e não sobre sociedades diferentes da sua, deve repen- sar noções como a distanciação em relação ao outro, tanto mais que as sociedades do Terceiro Mundo, no seu funcionamento económico o~ político, tornam-se cada vez mais semelhantes às

Guerra

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I

N T I \ . ü))1. I Ç ; \O

À ANTROPOLOGIA

sociedades europeias, e que o olhar lançado sobre as sociedades industri a is retoma, corrigindo-as, as formas de abordagem outro- ra aplicadas às sociedades exóticas. A modemidade introduz-se

n a s sociedades tradicionais e, inversamente, as nossas próprias

sociedades reinventam tradições. Tal como o saber global do antropólogo vai beber no saber local do autóctone, que aquele formaliza, da mesma forma as sociedades locais procuram cada vez mais conhecer-se a si próprias, graças ao olhar lançado sobre elas pelo antropólogo. Veremos, sobretudo no último capitulo, que a antropologia é uma ciência do que é actual tanto quanto do que é tradicional.

I - Conceitos fundamentais

a) O outro

Uma vez que a antropologia estuda as diferenças entre sociedades e culturas, destina a si própria a tarefa de pensar o outro. Esta alteridade, inicialmente, foi concebida como históri- ca (o primitivo) e como geográfica (fora da Europa), e esquema- tizada com o auxílio de caricaturas verbais: despotismo oriental,

arreigadas desde o

século XVI. Neste nosso século, contudo, os termos positivo e negativo destes preconceitos conseguiram inverter-se : liberdade, igualdade, fraternidade, parece terem - se concretizado mais do lado dos "bons selvagens", na medida em que a nossa sociedade, considerada alienada, desigual, sociedade da competição e do contra-senso, pareceu repulsiva aos que denunciavam o "etnocí- dio" e a "des-civilização" sofridos pelo Terceiro Mundo, devido

à colonização. Tão exagerados

irracionalidade africana, selvajaria

uns como outros, estes pontos de

vista não passam de adesões ideológicas, refutadas ou muito marcadas pela análise comparativa refinada do social e do cul- tural.

O outro não está etiquetado como tal, num quadro neces- se riamente lon g ínquo . Quando o antropólogo moderno se dedica

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CONCEITOS

E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

a estudar uma aldeia rural da Bretanha, uma comunidade de mar- ginais, um bairro de lata ou o bairro asiát i co de ~~s, há uma d~- tância não já geográfica mas sim social e cogmtiva, em relaçao ao seu objecto. Pertencer a uma cultura estudada ~ão é ne~ uma desvantagem nem uma necessidade para o antr?pologo, o lmpo~- tante é possuir a bagagem teórica e metodológica que lhe pemn- ta uma distanciação científica, quando estuda os Bororos ou os Provençais os Zulos da África do Sul, ou os "zulos" de uma banda de r~ppers. O olhar que se lança sobre o outro implica o

um

melhor conhecimento de si mesmo e da sua própria cultura, por

comparação. A distinção entre eu e o outro, eles e nós, é proposta apenas com uma finalidade heurística, quer dizer, de pesquisa e não para reforçar tipos ideais, muitas vezes opostos em pares: ~rimi~- vo/civilizado, sociedades tradicionais/sociedades ractonars,

estabelecimento

de relações

e tem como consequência

comunidade/sociedade.

b) O etnocentrismo Falar dos outros não é falar nas costas dos outros ne ~ con- tra eles . Nada difícil, no entanto , atendendo ao ,etnoceritrismo natural a todo o ser humano, seja ele Indiano ou Arabe, Francês

ou Lapão! Cada um deles, maneira de viver, identifica-se

res assimilou. Todos têm a tendência para rejeitar, criticar ou

desvalorizar os que não são como ele . Quando da desc<:be~a da

América , os Espanhóis recusaram

carácter de humanidade, por vezes. para justificar a escravatura; por outro lado , os Índios mataram Espanhóis para comprovar que eles eram mortais . Os Bantos dizem ser "os homens". O etnocentrismo, de que o etnólogo procura livrar-se, é a ati- tude que consiste em julgar as formas morais , religios~s ~ soci a is de outras comunidades de acordo com as nossas propnas nor- mas , e,portanto, em considerar as suas diferenças como ~ma anomalia . alguma vez provou lagartas grelhadas, para dizer

pela língua, pe~o aspec.to, pela com uma comumdade cujos valo -

inicialmente aos Indios o

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I NT R ODU Ç Ã O À AN T ROPO L OGI A

C O N C E IT OS E M É T O DOS D A ANT R O P O L O G l A

qu e não presta? Tal como os Franceses chamam aos Ita lianos

ma c ar o nis, os Ingleses tratam os Franceses porfroggies , ou seja,

"

l

v

11 a s sa~,do Quénia ou da Tanzânia, dorme de pé , apoiado na sua

a ra. E o etnocentrismo que encobre o orgulho local , o e s pírito

c omedores de rãs". Achamos natural dormi r deitados; o pastor

empresa, a int d ler â ncia religio s a

to s internacionais , sob formas de expressão

e está presente até nos confli-

perigosas para a

O exotismo, como culto pelo pitoresco, visando reter tudo o

empre evitar a tentação de r e duzir o pensamento de outrem à s

s

suas próprias grelhas de interpretação, tanto quanto a de se con-

do de um reagrupamento efectuado por necessidades d a ad m ini s -

al é a identificação dos elementos com determinada etnia e o seu

t

s

entimento de parentela bilateral (lado do pai e lado da mãe).

traçã o colonial. O nome pelo qual um grupo s e desi g na , v a l o-

riz ando - s e, pode d i ferir daquele que o s vizinhos utilizam par a o

d es i g n a r. Em muitas etnias , de grandeza v a riável, de entre a s

de corpo dos estudantes ou dos empregados de uma gr a nde

do ze mil que se arrolaram em todo o mundo, a unid a d e fo i recon s truída miticamente e as tradições locais propagaram mito s

resp e ita ntes tanto às cisões como às fusões, após conquista,

ordem social .

que é curioso e bizarro nos outros , pode transformar-se em etno- centrismo, quando é acompanhado por uma atitude desvalo- rizadora a respeito dos outros e em racismo quando p r oduz

migr a ção , federação, aliança. Por veze s , as pessoas de uma etnia dominada adoptaram a língua do seu dominador. O mesmo te r - ritório pode ser partilhado por diversas etnias e a mesma etnia pode encontrar-se em te r ritórios muito a fastados por exemplo, Arménios na Ásia e Fulas em África . Visto que a história oral esteve sujeita a manipulações, aquilo que especifica a etnia como

rejeição e hostilidade . Quando L. Lévy-Bruhl opõe a mentali-

dade pr é -lógica à mentali d a de lógica , dá provas de etnocentris- mo, da mesma maneira que R . Lowie, aliás um excelente antropólogo, quando tenta reduzir os regimes de parentesco e de casamento a variantes da família monogârnica . O etnólogo deve

Na realidade, foi uma concepção da etnia, própria do sécu- lo XIX , que levou à construção da etnolo g ia como ciência das etnias. Contudo, reconhecendo que a s soc i edades que estudare-

mo s n ã o são apenas etn i as, daremos preferência a o termo

antr opologia.

s iderar superior àqueles que analisa .

c) A etnia

Não é impos s ível que a própria ide i a de etnologia po ss a con- duzi r sub-repticiamente à depreciação do seu objecto , na medida em que será aplicada a grupos de homens unido s num s istema que não é o nosso , mesmo que tenh a sido ~ dos Grego s , do s

F r a ncos , dos Visigodos , dos Tárta r os ou dos Chechenos .

A etnia defme-se geralmente como uma populaç ão ( e tnos

s i g nifica povo, em grego) , que adopta um etnónimo e que re c la-

m a LIma mesma origem, possuindo

uma tradição cultural

d ) Etnologia e antropologia

O f ac to de a mesma disciplin a s e chamar etnogr a fi a , etnolo -

gia, antropologia social ou cultur a l e x plica- s e por ligeira s dife-

renças d e conteúdo , de objecto , d e m étodo e de orientações teóri - ca s , muita s vezes própria s das tr a diçõe s nac i onais, embor a se possa m tamb é m ver nisso momento s s ucessiv os do trabalho antropológico. A etnog ra fia é a etap a de recolha dos d a do s , a etnologia a fase das primeiras s ínteses , a antropologia a fase d a s

generalizaçõ es teóricas, após a compa r ação . Na realid a de , e s t a distinção, embora não seja de todo aceitável , acentua , entretan t o ,

c

o mum, espec i ficad a

por uma c onsciência

de pe r tenç a

a um

a

lgumas tendências.

gr

upo , cuja unidade

se apoia em geral numa língua , numa

A

etnografia corresponde a um tr a balho descritivo de ob se r -

h

i s t ó ri a e num território idênticos . Mesmo assim , cada um d e stes

v

a ç ã o e de escrita, comporta ndo a recolha

de dados e d e do c u -

critérios precisa de ser ponderado . O etnónimo pode t e r re s ulta-

mentos e a - sua primeira de s crição empírica

(grafia), sob a f or m a

1

4

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I NTRODUçAo .À. A N TROPOLO G IA

d e reg i s to dos factos humanos, t r aduções, c las sificação dos ele- me nto s que se consideram pertinentes para a compreensão de uma s oci e dade ou de uma inst i tuição. Abre o caminho a mono- gr a f ia s sobre diversos aspectos desta sociedade . Uma mono- gr af i a pode muito bem tratar tanto de uma etnia d a Oceânia como

d e uma aldeiaeuropeia, de uma fes t a regiona l como dos tifosi no

futebol italiano. Descrição, invent a riação , classificação dos cos-

tumes e tradições exóticas ou populares são também tarefas efec- tuadas pelos museóg ra fos.

A etnologia, ao elaborar os materiais fornecidos pe l a etno-

grafia, visa, após análise e interpretação, construir modelos e estudar as suas propriedades formais a um nível de síntese teóri- ca, tomado possível pela análise comparativa. F a la-se de etno- gr a fia de uma aldeia, mas de etnologia dos países mediterrânicos para designar um conju- Ó i ü de trabalhos . A palavra etnologia, introduzida pelo moralist a suiço Chavannes , em 1787 (a palavra etnografia [1810] é atribuída ao historiador a lemão B. C. Niebuhr) , abarcava, no século XIX , o estudo das sociedades primitivas, particularmente do homem fóssil e o da clas s ifi cação

das raças.

A antropologia quer s er a inda mais gener a lizadora do que a

etnologia. J.Copans vê-a: 1) como um conjunto de ideia s teóri- cas , referidas aos homens e às suas obras , aos precu rsores, con-

t raditores e sucessores , conduzindo debates d e i deias sobre os

a g rupamentos humanos e as suas culturas ; 2) como t r adição inte-

lectual e ideológica, própria de uma disciplina que tem

f orma de apreensão

defini ndo os se~s objectivos, os seus objectos , as s ua s ideias ; 4)

uma

do mundo ; 3) como prática in s titucion a l

c

omo método e prática de campo .

A

antropologia social , incluíd a na antropologia ger a l , estab -

e

lece as leis da vida em sociedade, especialmente sob o ângulo

d

o funcionamento das instituições sociais, como a f a míl ia e o

p

arentesco, classes etárias, organização políti ca, formas de pro -

cedimento legal

A antropologia cultural, nascida nos Estados U nidos com

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C O NCE I TO S E M ÉT ODO S D A ANT R OPOLO G IA

F . B oa s, é uma diligência espec í fica no interior de uma di sc i -

pl i na. Diz respe i to ao relativismo cultura l , e parte das técnicas ,

d os objec tos, dos traços de c omporta mento para consegu i r s inte - tiza r a a ctividade social. É atribuída importância aos traços cul-

t ur ais e aos fenômenos de transmissão da cultu r a .

O termo etno l ogia continua a e s tar em v oga , embora h a j a

t

diferenciam esta disciplina da

a ntropologia filosófica , discurso abstracto sobre o homem, e da

antropolQgia física , que tem p o r objecto o estudo biológico fís i co da s características de raç a , de hereditariedade, de nutrição ,

s ão os qualif i cativos

e ndência para o substituir pelo de antropologia social e cu l tural ;

que

e

de se x o, e que compreende a anatomia, a fisiologia e a patologia

comparada.

A ligação do homem e da história com a filosofia permit i u

desenvolver rapidamente o estatuto teó r ico da etnologia , e o vín-

c

estrange i ros, para agir sobre eles) foi uma condição da vitalidade da disc ipli na , especialmente quando os etnólogo s foram render

os exploradores, administradores e missionários .

ulo deste

à acção

(me s mo

colonial :

conhecer

os povo s

e) Objecto e atitude da antropologia

A antropologia t em como objecto un i dades sociais coerentes

e de frac a a mplitud e que ou c on s t i tuem uma amostr a representa-

t iv a d a so c i e dade glob al que se deseja apreender ( o e s tudo d a

v ida quotidiana de , por exemplo , um a a l deia) ou ent ã o têm uma

situação o r iginal pela sua subcultur a específica. A atitude con- sis te em extrapolar o glob a l a p a rtir do loc al, medi a nte a a preen-

são das relações interindividuai s e institucionais , dos princ í p i o s de organização e de produç ã o , dos valores que dirigem a vida comunit á ria ' . Na falta de temas exóticos , muitos antropólo g os modernos descob r em actu a lmente locais de insul a ridad e n o co r ação dos seus p a íses , quer na cidade moderna , quer nos r e fú - gios das tradições, tanto mai s qu e muitas comunidad e s lo cais procu r am valorizar cada vez mais o seu patrimón i o etnol ó g ic o e

hi s tórico .

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IN ' l ' RODuçAo À ANTROPOLOGIA

A propósito das sociedades que estuda, o antropólogo faz perguntas do género: qual é a natureza e a origem dos costumes e das instituições? De que forma é que o indivíduo vive a sua cul- t~~a? De que significados se revestem, entre grupos afins, as dIferenças sociais e culturais?

O ponto de vista comparativo permanece, pois, sempre em plano postt ; .rior, quando se procuram semelhanças e diferenças entre grupos humanos, quando se acentuam as clivagens entre homens e mulheres, novos e velhos, dirigentes e dirigidos no interior de um grupo, ou então quando se confrontam em espelho as antropologias de dois países.

Preocupada com a totalidade, a antropologia

estuda

o

homem sob todas as dimensões, mostrando como, no interior daquilo a que Mareei Mauss chama o fenómeno social total, os elementos de uma econ ~ mia, por exemplo, só podem ser enten- didos e explicados se fó f é m relacionados com fenómenos políti- cos, religiosos, parentais, técnicos, estéticos. Cada elemento iso- lado ganha significado a partir do conjunto cultural e social em que está inserido. O mesmo conjunto social pode também ser captado por outras disciplinas, com as quais a antropologia entra em complementaridade.

II - RELAÇÕES E~TRE DISCIPLINAS AFINS

a) Antropologia e sociologia

A antropologia constituiu-se em estreita relação com a sua irmã quase gémea, a sociologia. No século XIX, a necessidade

de reorganização social, após as revoluções política e industrial origina o nascimento da sociologia . Pouco depois, o interesse

romântico

a ntropologia de orientação

filosófica e o projecto colonial, con-

uma

pelo exótico,

o desejo kantiano

de criar

v e rgem para a fundação da etnologia .

natur a l e o espírito de

an t iquãrio ; quanto à sociologia, enraíza no reformismo social e

Esta tem por

padrinhos a história

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CONCblTOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

na filosofia. O pensamento reflexivo es quemas de evolução, valorização

dos tipos como raças. e

etnias) apoia a acção de reforma social e visa "civilizar" os assim

c hamados primitivos. Embora as primeiras investigações de Bachofen, Tylor, Morzan nos anos 1860-1870, sejam contemporâneas das de Le Play~ M'arx, Spencer, Espinas, a etnologia ~ a s~ciol.?gia afir- mam-se diferentes devido ao seu campo de mvestigaçao. Para a primeira: as sociedades relativamente ~o~?géneas ~ ~e p~quena

(pesquisas classificarivas,

escala ' sem história conhecida, ditas pnminvas,

tradicionais, sem

escrit;; para a outra: as sociedades complexas,

heterog~n~s, de

grande profundidade histórica, ditas civilizadas, i ndustnahzad~s,

letradas, modernas. O objecto do sociólogo aparece menos dIS- tante e mais visível do que o do etnólogo, e a sociologia es~olhe como método preferido a amostragem sobre um vasto con~u.nto, enquanto a etnologia prefere elaborar inventários descritivos completos das culturas de pequena Na realidade, porém, as duas ciências humanas carmn~a~ .a par, seguindo sucessivamente a via dos gr~des frescos históri-

cos, depois

Permanecem ligadas às teorias

encontram perspectivas comuns (organização: . in:ti~ição, mte- gração , adaptação), constroem-se atr~:és de dilige,n~las bast~te semelhantes de comparação e de crítrca rnetodológica e episte- mológica . O interesse dos sociólogos e dos etnólogos co~verge,

a da

paciente

acumulaça?

de docum~ntos .

e às políticas da sua e~oca,

a partir de agora, sobre a pesquisa das estrut~ras e funço~s

so-

ciais fi sobre uma análise da dinâmica das SOCIedades actuais,

No

início dos anos cinquenta, enquanto os antropólogos começ,a:n a dedicar-se ao estudo das sociedades complexas (redes poh::cas na Índia pàrentesco americano, economia informal), os sociólo-

gos, por : seu turno, debruçam-se sobre os aspectos s~bóli~os, d . o

comportamento, sobre as micro-relações

ca e cultural e adaptam os seus métodos de forma a a~ordarem o polític o , o econômico, o cultural em todas as SOCiedades do Terceiro Mundo ,

de ordem ritual, jurídi -

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INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA

b) Antropologia e história

Não há qualquer dúvida de que a história, como discurso

formalização

da temporalida,de

escorado

na história

co

sucessão dos acontecimentos, não possui um passado anter í o mundo grego. Perante ela, a antropologia tem o aspecto de uma recém-chegada, esclarecida sobre o exotismo pelo Iluminismo e

as insti-

tuições dos "selvagens". No último quartel do século XIX, sociólogos e antropólogos empenham-se em pôr em evidência relações estáveis, que possam tomar a forma de "leis " de estru- tura ou de evolução, à semelhança das ciências naturais. Quanto aos historiadores, por seu lado, trabalham nessa época sobre a cronologia, a individualidade e o fenómeno político. Consideram os acontecimentos como , ~ ) 1Ícos e contingentes, até ao momento

em que se instala um debate, no inicio deste século , entre histo-

riadores sociologistas tra Seígnobos).

que, desde há século e meio, analisa principalmente

e historiadores historicistas (Simiand Con-

Nos anos trinta, a antropologia funcionalísta marcará o seu território metodológico - observação, inquérito oraL-, enquan- to os historiadores trabalham a partir de fontes escritas . Para uma análise das sociedades pretensamente arcaicas , considerará mesmo inútil a abordagem pelo lado da sua história, a pretexto de que esta não passa de conjecturas, de que o fenómeno social

se basta a si mesmo como sistema e que ~ão se deve

ordem cultural à ordem histórica .

Quando Lévy-Strauss, em 1958, disting u e entre sociedades frias, "que se esforçam por esterilizar no seu seio o devir históri-

sacrificar a

.

c o" e sociedades quentes, que produzem uma história "termodí-

nâmica" e acumulativa, acentua a diferença plimitivo/civilizado , 110 momento em que os movimentos de independência agitam a geog rafia e a história política e o Terceiro Mundo se toma mais

q ue nt e do que a Europa.

Uma vez que a historicidade é inerente ao social, convém !l ã\ ) for ça r a oposição entre, por um lado, a etnologia, caracteri-

,

20

CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

pela oralidade, a espacialidade, a alteri~ade, o incons~iente, ,11tH' outro, a história, delimitada pela escnta, a temporalidade,

i U ~ ! l tidadc e a consciência. As clivagens herdadas do passado

tIlI1J1í1l11-SC caducas à medida que a etno-história elabora a história

s o c iedades que eram ditas sem história, à medida que a

tlilll6ria do Ocidente é tratada sob o ângulo antropológico e que ~lItuda a vida colectiva e não apenas os altos feitos e os grandes

homens, as sociedades de Estado e as classes dominantes.

I l mbora a etnologia se proponha ser generalizante e comparativa

om re l ação a uma etnografia preferentemente

I lirs t6ri a conceptualizante e comparativa distancia-se também, a uma história-narração factuaL

descritiva, a

A partir de agora, a etno-história, elaborada inicialmente

p ara conhecer o passado dos Índios da Am~rica, p~rticula:"I~len:e

graças aos códices pré-coloniais, as

cr ó nicas espanholas e aos arquivos notariais, paroquiais, judi-

ciários, etc . , combina as técnicas dos historiadores e as dos antropólogos. Relaciona o passado e o presente, examinando os valores e a linguagem de um grupo visto de dentro . Utiliza méto- dos de investigação das tradições orais, perscruta a memória de

sociedades e tenta estabelecer cronologias .

nos Estados asteca e inca,

Investigadores

africanistas como J. Vansina , C. H. Perrot, E. Terray, M. Izard

casam as duas competências: a do historiador e a do etnólogo .

Há cerca de trinta anos que a antropologia histórica também se tem desenvolvido fortemente . Em França, a escola dos

Anndles, interessada no quotidiano e nas transformações ocorri-

das a longo prazo, orientou os historiadores para

micro-histó~ia e as estruturas sociais. Temas caros aos antropó- logos, como o quotidiano, o corpo, as técnicas , o~ mitos, o.par~n- tesco, acabaram por se tomar temas caros tambem aos hist ó ria- dores, que se interessam por A Família e o Parentesco no Ocidente Medieval (Colóquio de Paris), pelas relações entre Mito e So c iedade na Grécia Antiga (J .- P . Vernant) , por Montaillou ,

o terreno , a

21

I N TR O D U ÇÃO À A NTR OPOLOGI A

aldeia o c itana ,

Antropólogos e h i stor i adores t rabalham de braço dado num campo de actividade comum , embora com diferenças na s heran - ças , nas aprendizagens, nas c a rre i ras e na textur a da profissã o .

de 1294

a 1324

(E. Leray-Laduri e * ) .

c) Rumo a uma etnolinguística

C O N C E I TOS E M ÉT ODOS D A A NT R O POL OGIA

! I í n g u a e a es trutu r a s oci a l ( E. Benveni s te , A. Haudric o urt ) . A s

qu e stõ es i mportante s são a s s eguintes : como é que os f a l a nt es

re pr es e nt a m a s ua língua e que lug a r tem e l a em determinada c u l-

tura?

Há ele mentos fon é tico s que s e alteram de uma sub c ultura

pura o utra. A linguagem

do burguês não é a do carroceiro .

Tal como o termo etno-hist ó ria, t a mbém o termo e tnolin-

Ma tizes diferenciados aqui linguisticamente

são designado s

guística marca bem a ligação entre duas disciplina s afins. A lín-

n

o u t ro loca l pelo mesmo termo. Entre os Bambaras do Mali, a

gua, no século XIX , não deixa de ser apreendida simult a nea-

p

a lav r a vermelho inclui também o vio l em. Noutros sí t ios , ver -

mente como instituição social e tesouro de uma civilização .

m

e l ho , alaranjado e amarelo são designados pela mesma p a lavra

Elemento essencial d a tradição, tem a sua vida própria dos pon-

"

c l a ro " , p r eto e azul por " escuro " . Os Euas do Togo , tem até

tos de vista fonológico

(os sons), sintáctico (construção da

c

o mo cor o sarapintado. É possível que duas línguas coabitem

frase), semântico (sentido das palavras)

, como esc r eveu E de

n a mesma cultura; assim, ao lado do coreano popular, a língua

Saussure (falecido em 1 ~ . 13), o primei r o a entender a língua

c

h i n es a continua a ser língua de prestígio entre as classes de élite

como um sistema de rel à ~ ões interdependentes e a dar à lingu í s-

c

o re a nas , Se a língua não possui escrita, corno na maio r ia

dos

tica a sua autonomia. Entre os discí pulos de Saussure , esta lin-

po

vos ne g ros da África , então d e senvolve-se a memória co m o

guística torna-se e s trutural quando se considera a lín g u a c omo

p

a lia tivo e a tendência para memorizar.

um código e um produto do espírito humano (ponto de vist a que influencia L é vy-Strauss ) , ou ent ã o generativa, qu a ndo se enc a r a

d

) O utras afinidades e especializações

a l í ngua como um conjunto de regra s de produç ã o d e fra s e s . No entanto, form as e regr a s são menos de consider ar , p e n -

sam EBoas e o seu dis cí pulo E. S a pir,

do que a i n f lu ê n c i a d e u ma

l íngua s obre o pensame n to de um povo e s obre a s u a v isã o do

mundo . Desta corrente de a ntropologia li n gu ístic a , c onjug ada

com

com as pesqu i sas c e nt r ada s sobre as est r at é gias d o di s cur s o p a ra

a produção de sentido , na s cem a s divers a s tendên cia s da e t nol i n -

guí s tica con t empor â nea, que coloca as ques tões do r e l a cio na - mento entre língua e cultura a p a rtir de inquérito s de c a mpo, dos efeitos de sentido no di s curso , estudados a partir de léxi c o s, cla s - si f icações, literatur a oral (G. Calame Griaule), da s r e l aç õe s entre

o estudo das condições socia i s da var i aç ã o d a s lín g u as e

* P u blicado em 1984 por E d i ções 70 c o m o títu l o Mon t a ill o u , C á ta r os e

C at ó licos numa ald e ia fran c esa - 1 2 94 - 1324 ; e que ser á i e edit a d o , num a e di çã o

r e vi s ta e aumentad a , no in íc i o do a no 2000, com o título Montaill ou , c â ta ros e

c a tó lico s numa aldeia o c itana , d e 12 9 4 a J 3 24 ; co m pref ác i o do A ut o r ( N . d o

E .)

22

F o i g r aças a o de s envol vi m e nto s imultâne o do s método s d e

m ili t as outras c iênc i as c omo a demografia , a t ecnologia, a gen é ti -

c a , a ge ografia , e gr a ç as a o s p e s q u isadore s

ap e rfe içoara m o s dispositivo s de inves t igação ( cartog r a f i a,

es t a t íst i c a , f i c ha s mu se o g r ã fi ca s ,

N es ta b re v e enumeração de a l guma s c iências a f i ns , seria injusto

om i t i r o s c ontributo s d a arqu e olo g ia e da p r é -hist ó ri a como ci ê n-

' ias d o pa s sado . As téc nicas de p e rcu s são na pedr a lascada ou

p o l i c i a, o s ve s tíg i os do homem de Neandertal ou de Cro-Magnon ,

" ( I g u er ra do ~ ogo ", evocad a por Y . Coppens, a olaria babilónic a , l i m o ld ag em dos obj e cto s d e b r on z e , o tesouro de Tutancámon , o

pe s qui s a s com o carbono 1 4 ) .

de campo , que s e

c i n ze lado das jóias merov í ngia s, con s tituem outros tantos tes te - mu n h o s d a vi da de so c ied a de s q ue no s p recederam .

N ã o falaremos dos contributos da psicologia

e da p s i -

c a n á l ise , qu e project a m , c a da um a d e las, um tipo de ilumina çã o

2

3

I NT RO D U ÇÃO À ANTROPOLOGI A

notável sobre os factos sociais . As relações interdisciplinares são

t ã o necessár i as à antropologia

1 ) as especificações externa s, nos confins de outra s disciplinas:

como as especial i zações:

etnobotânica , ernozoologia , ernomusicologia ;

,

2 ) as especificações interna s : a ntropo l ogia polít i ca, econ ó rn í ca ,

r eligiosa ou do parentesco;

3) as espe c ializações regionais : africanismo, ' oceanismo , ameri-

c

a nismo, europeísmo

;

4) as es p ecializações de escola: em f u nção de teorias e de tem á ti- cas privilegiadas em determina d a época, em determinado país (Vd. capítu l o 2).

I

I'

li - A ARTE E O MÉTODO

';L ~

a) A ave n tura etnológica IlO terreno

Embora o etnólogo que trabalha na Europa não sint a o exílio dos etnólogos de antigamente, não será descabido evocar a parte de aventura que, durante muito tempo, as pesquisas no terreno comportavam . Quer se leia Le i ris, Lévi-Strauss , B a landier ou Condominas, as autobiogr a fias do s eu viver aventuroso , e s critas como contraponto aos trabalhos de pesquisa , mostr a m que o go s to pela amplidão, um fascínio de juventude , uma narrativa de missionário, ou a ex i stência de um tio mad e ireiro no Gabão

p ô de serv i r de pretexto para a partida de espí ritos a madurecidos' ~ã? necessariamente incomodados na sua própria sociedade, m~

á vidos , por vezes, de experiências desconcertantes e ' da reve- lação de si em circunstâncias inédit a s.

e de todos os

o desterro a que a

Sucedendo às curiosidades

de Montaigne

e xplora~ores , comer c iantes e missionár i os,

et n ol ogia pode conduzi r implica a saída da sua própria c i viliza-

ção para enfrentar outras . O ex í lio cul t ural predispõe para a tole - râncía, para a rejeição de p r econceitos ligados ' ao s e u meio, à sua

C l asse, à sua formação e liberta do etnocentrismo graças a um

24

C O NCE llDS E MÉT ODO S DA A NT R OPOLO G I A

af as tamento do sistema, que ajuda a comparar e a exe r cer a s u a fa culdade crítica. Mas a iniciação ao exót i co pressupõe uma certa asce s e par a viver em sociedades meno s atulhada s do que as nossa s de pro - duções materiais complex a s , ma s não isentas de perigo e de de s conforto: águas poluídas , palud i smo, veícu l os atascados ,

, em -

bora as socieda d es outrora trad i cionais te n ham assumido par-

c ialmente ce r tas fachadas modernas . Se j a q u al for a exaltação de um regresso provisório a uma forma ma i s rudi m entar de existê~- cia, existe incómodo no abandono dos artifícios e n a ren ú ncia aos atribu t os mater i ais da nossa civilização . O que se p o d e tornar mais pesado de ass u m i r n a aventura

etnológica no es t rangeiro é ser visto como o bj ec t o exót i co , ce~ -

t r o de conversa e de cobiça; é est a r só perant e uma populaçao

que espia os n o ssos comportamentos, os object~s de que dispo- mos, que significam riqueza para gente desprovida deles . Desde o pr i meiro contacto , pes a um a su s peição sobre todos os nos s os actos. Donde vem ele? Que vem ele cá fazer? Será um infiel , que não acredita no Islão ? Será que faz p a rte do aparelho adminis- trativo ? Esta ~ titude d e s uspeita é a resposta à atitude indiscreta

do etnólogo , que vem mendigar informações

roubo de objectos , animais perigosos, W.c. a céu abert~

e , pela s u . a s~ple s

presença , v em perturba r a v id a de um grupo , com o ob j ect i vo . de

revelar depois a outros o que ali se passa. A qu alidade da ob s er va ção p a rticipante é o mimet í smo :

fazer como os outros , para os levar a esquecer o m a is po s sível a

s ua diferença , ao mesmo tempo que s e tenta comunicar, graça s à

aquisição de elementos da lí ngua da terra e à expressão de calo r humano . Partilhar a vida quotidiana do observado, os seus tr a - balhos , as suas conversas , as suas festas , impõe-se a todo aque~e que deseja apreender a sua visão do universo, captar as moti- vações dos seus actos e compreender o seu sistem~ de v~lor~s . Esta atitude comport a r iscos , por exemplo, o de, apos a pnm e i ra embriaguez, ser ridicularizado pelos novos amigos , o de pe r d er:

confiança de uma facção da a ldeia se conv i ver mais com um c l ã

25

I NT RODU ÇÃO À ANT RO P OLOGI A

qu e a prime i ra julga inimigo, o de não co n seguir recuo sufi ciente pa r a compreender um grupo onde se incorporou demas iado . Apesar destes inconve n ientes, todo o desterro é factor de uma dinâmica pesso a l e toda a incursão pelo exóti co é i nstru t iva.

É c l ar o que , sem que o deseje, o

etnólogo, pela sua presença ,

a rr is ca- se a modific a r,

abordar, mas o di á logo com pessoa s d i ferentes também modifi- ca o próprio etn ó logo . Pode acontecer que alguns, tendo enfatizado demasiado o dester r o, a expatriação, fiquem decepcionados por encontrar noutros sítios comport a mentos semelhantes aos do cidadão europeu e , nos campos africanos, os mesmos ciúmes , antago n is- mos e d eson~stidades que na sua própria terra. Por todo o l ado, o modernismo v ive na vizi ~ ança da miséria e da vila n i a; e o ofí- cio de e t nólogo pode ser - ~ xercido com a mesma paixão tanto na moderna urba n ização como na aldeia mais remota .

pouco que

seja, o s facto s que pretende

Tomemos como dado adquirido que o etnólogo não é teste- mu n ha de uma presença que se apaga , nem é só o recuperador

da s coisas

a petrechos e produtos do trabalho, habitats e sítios, arte popular,

música e história or a l; ele pode , i g u a lmente , aplic a r a sua an á lis e

às coisas da vid a moderna e u rbana numa a nt r opolo g i a do tra - balho , da com i da , do desporto, do s lazeres, etc.

da vida rural : objectos da v ida quotid ian a , s aber e s ,

b) A observação participante Embora a observação não seja uma técnica de investigação verdadeiramente cod i fic á vel por ser artesan al, e l a é , no entanto , a mais exigente . A dif i culdade resulta da pos i ção do obs e rvador num espaço determinado, com um a perspectiv a lim i t a d a , t endo

u m d e te r m i nado estatuto no si s tema e sendo e l e p r óp rio n ó d e in ter acções . Algumas di s tinções e questi on á rios c larificarão o

p r oblema, embo r a todas estas fo r m a s de obs e rv ação se j a m ut i-

li zad as pelo me s mo investi g ador num mom e nt o o u n o u t r o .

26

CO N C EI T O S E M É TODOS DA ANTR O POL OGI A

_ Pode tratar-se de obser va ç ã o interna ( auto-observação ou

o bse r v a ção do seu própri o grupo ) , ou en tã o de observ a ção e xter -

nu ( o b s erv a ção de um grupo exterior) . _ A ob s er v ação s i mple s utiliz a apen a s os nossos sentidos ; a ob s erva ç ã o equ i pada faz- s e com g r a v a dor de som, máq u in a de

f i

lma r , fita-métrica, máqu i n a fotográ fica

_ A observação contínua , por um in v estigador presente no

e r r e no durante várias semanas ; difere da observação desc o n-

t

t í nu a de uma re uni ão, de uma manifestação.

_ En i ~ diversos graus, a observa ç ão pode ser descomprometi-

da ou participativa, declarada ou c l a ndestina.

.

_ Distinguem-se também a observação descrit i va - relativa -

m ente p a ssiva, própria do etnó l og o - da observação

c omo f i nalidade conseguir um diagnóstico para guiar a acçao,

ca so do agente de desenvolvimento local. Sob a forma de conselhos ao ob s ervador, a seguir esquema-

t

q u e t~m

i z amo s a s regras gerais da obser va ção :

1) P e r s onalidade e comp e t ê n c ia do obser v ador: a1é~ do ~gor e

da precisão requerida s

ne cessá ria s intuição , im a gina ç ão e uma certa empana , que con-

sis te e m tentar pensar e sen t ir como as pessoas que analis a .

2 ) N eces sida de d e apr e ndi z age m: a ap r endizagem incide ao

m esmo t e mp o s ob re a cap a cidade para de sv endar os pr o blema s e

o

taçõe s e s ob r e o desenvolvimento

p

a ra um trabalho

exau s b . ~ o , são-lhe

s comportamento s signjf ic a tivo s ,

sobre a exact i d~ o da s an ? - da memór i a . E nec ~s sário

t r e inar- se no e s t a b e lecimento de categorias , no c o nh e cimento

do

s sis t e m as de fich as e método s de cla s sificação . O etnólogo

de

v er á trab a lhar previamente

a s técnicas de tomada de nota s ,

o s f acto s

obs e rv a dos e as anotaçõe s por eles sugeridas . 3) Pro c edimento: depois de e s tar f a miliarizado com o o bjectivo

da pe s quisa e de t er memo ri z a d o u m a l i s ta

m e ntos' que se propõe o bserv a r, tom a rá as suas ~otas, ~u e~ em

cima do a contec i mento ,

de cont r olo dos e le -

pa r a colig i r o máxirno de e lementos , distinguindo

na m e did a em que as circunst â nc ia s

o

permi t irem, quer o mai s de p re ss a possível , sem dar temp o a

2 7

INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA

CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLoc:;rA

e

s que c er os pormenores e indicando as suas próprias acções de

) O s informadores: se não forem impostos pelas cir c unstân c i a s

2

o

b se rvador, que podem modificar a situação devido à sua pre -

ou pela autor i dade local , como f r equentemente acontece, serão

s

e nça.

escolhidos em função do seu s aber, ident ificando-se as s u as

4

) Conteúdo: as fichas deverão in c luir

a dat a , a hora, a duração

pertença s e o ajustamento dos

subgrupos de que fazem p a rt e :

d a observação, o local exacto (mapas, fotografias, esboços), as

circunstânci as, as pessoas presentes e o seu papel, a aparelhagem

e o equipame n to utilizados, os aspectos eventu a lmente influentes

do ambiente físico (temperatura, iluminação, ruídos). Conversas

e di á logos deverão ser relatados ou resumidos em es t ilo d i recto. Opiniões e observações serão anotadas à parte , no diário da

in v estigação.

5) Elaboração do relatório: l ogo que seja possível, faz - se a revisão das notas t omadas, para eventualmente as corrigir ou completar. Deverá proceder-se a uma classificação provisória com numeração cronol ó g i ca, marcação das rubrica s , classifi -

c açã o por sistemas de fichas manuseá veis. Obter - se-á as s im um a

d ocumentação concre t a sobre os aspectos de um a cultura de que se ter ã o relatado os elementos imponderáveis e até anedóticos, que pertencem a um dete r minado contexto de expressão e que permitem caracterizar uma tradição ou avalia r uma dinâmica.

c) O inqu é rito por informadores A ob s er v aç ã o não ser ia suficiente sem conversações junto

d e i n f o rmadores cla s s i f i c a dos .

I) Os investigadores: o etnólogo pode certamente trabalhar so -

zi n ho , mas muitas vezes encontrará na proximidade do seu ter-

fanulia, profissão, idad e , culto. É bom avaliá -los em f unção d a diversidade das competências: ancião, chefe, dignitário reli -

gioso, professor primário, jovem aculturado dinâmico; em função da diversidade das origens: lugar, fam í lia, determinados

textos orais que podem ser propriedade de um rec i tador ou de um feiticeiro; ' em f unção d a diversid a de de caracteres : t a garela , med i tativo , falador de dia ou de noite . Há que desconfiar daquele que poderá mentir por venali-

d a de, prazer, rece i o dos seus ou dos deuses. O não-letr ado não está isento de respeito humano ou de tabus . O evoluído compõe uma personagem e ignora com f r equ ê ncia as tradições ou despreza os irmãos. O desleixado d á i nformações aparentemente coerentes , mas que podem ocultar o essencial .

3 ) As informações: obtêm-se no momento da observação, por

e x emplo, da construção de uma casa, pedindo explicações, ou

então através de conversas privadas , ou num c í rculo de discussão com diversos interlocutores . Quer se trate de i n terrogatório metódi c o ou de conversa não dirigida , dever - se-á e s tar atento à

o r denação do s discur s os , aos interesses do inquirido , às su a s curio s idade s e dissimulações , ao cotejo com aquilo que outros disseram. As biografias de informadores , as genealogias, o s

orçamentos, os recenseamentos de bairros

inquérito , m a s não se omitirá a recolha de conversas do dia-a-dia ,

, . obtêm-se por

r

e n o um linguist a , um médico, um tecnólogo , um historiado r das

nem o regis to de qu a lquer c oisa que diga respeito à personali -

r

e l i g i õ es, a quem poder á s olicit a r o a largamento da s ua rede de

dade do i nformador.

in f o rm ação . No s inquér i tos d e de s en v olvimento, v ários investi-

4) Os docwnen t os: além dos documentos puramente verbai s ,

g

a d o r e s t rab a lham com os mesmos object i vos com utensílios

i

n c luindo os léx icos , nomenclaturas , cont a s

iza o s do c um e ntos materi a is e t od a s as formas

, o inquiridor uti -

dííercrucs - os d o econom i s ta , os do agrónomo, os do s ociólogo ,

l

de grav a ção do s

por exem p lo . lnq u i rido r es loca is , partic u lar mente honestos,

f

actos hum a nos, tais como desenhos, pintu r as , objectos de a r t e

~ (l rn pl e nt es e p e r s p i ca z e s , conhe c endo a língua do país, podem

ou de culto , ca rtografia, fotogra f ia , f i lme , canção , f i t a a u dio o u

t

i sv lr d i n t e r m e d iá rios c om a população visada .

video , se J ? e s quecer a documentação escrita proveniente que r d a

28

29

INTRODUÇÃO À AN'I1WPOLOGIA

imprensa, quer de fontes privadas (biografias escritas, diários de

missão, arquivos de organização

tas de julgamentos, arquivos nacionais, dados estatísticos de ordem fiscal. ou hospitalar, etc.). Resta-lhe produzir uma crítica

dos testemunhos e uma crítica da origem, da integridade e do sig- nificado do documento, como fazem os historiadores . :

), quer de fonte pública (minu-

Nas obras de metodologia

das ciências sociais poderá

encontrar-se um estudo das diferentes etapas do inquérito. Terminado este, importa proceder ao inventário e à' análise.

d) A interpretação dos resultados Entre a utilização dos métodos e a exposição monográfica, situa-se um momento capital, o da interpretação dos resultados,

que supõe a construção de hipóteses e a administração da prova.

na necessidade de uma bagagem

Não será demasiado i ~ istir

teórica e metodológica, se se quiser adaptar o próprio ponto de vista a outro diferente do do ingénuo que acredita na transparên- cia do social e no saber imediato. Mesmo com uma longa for- mação, o doutorando tropeça ao nível da explicação. Muitas vezes contenta-se em confirmar as interpretações com exemplos adequados, o que é tanto mais fácil quanto a hipótese e o exem- plo são vagos. Há hipóteses que funcionam sempre, porque elas não ensinam grande coisa e são compatíveis com grande número de dados; escapam a qualquer tentativa de prova (recurso à noção de identidade, categoria do rito de passagem) . A permanência de

um facto não constitui uma explicação, mas sim um facto a explicar. Um simbolismo universal não passa de uma muleta para erguer, digamos, um enigma. As séries indefinidas de com- parações nada provam, quando se tem por referência um conjun- to cultural homogéneo. Evidentemente, importa não ocultar os documentos incómodos e os casos de figura que invalidam a hipótese, embora se possa deixar um mínimo de resíduos por explica r .

Censura-se

ao etnólogo ou de interpretar

demasiado, de

sobreinterpretar, de impor um sentido, ou então, pelo contrário,

30

, . """"'-"-- - - -- -- - -- --- - - -- -

CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

de não interpretar o suficiente, de descrever simplesmente factos verificados empiricamente, sem referências às suas causas e condições. Efectivamente, a interpretação etnológica deve ultra- passar, e até contradizer, a interpretação indígena, ou pelo menos, reconstrui-Ia em outras redes semânticas.

· e) A monografia A maior parte das vezes, uma investigação antropológica termina pela redacção de uma monografia, em que se expõem os seus resultados. Nascida em sociologia por meados do século XIX, com os trabalhos de Le Play sobre os orçamentos fami- liares e o operário europeu, este género foi adoptado pela maio- ria dos antropólogos de campo, principalmente depois de, em 1874, ter sido elaborado pela Royal Antbropological Institute, em Notes and Queries on Anthropology [Notas e Inquéritos em Antropologia], um modelo de inquérito que serviu de plano- catálogo para cobrir sistematicamente e de forma ordenada o

conjunto das instituições e traços de cultura de uma sociedade particular: ambiente físico, língua, habitat, economia, organiza- ção social, organização política, leis, religião, folclore, mudanças. Uma monografia total deste tipo pretende dizer tudo · sobre uma etnia ou sobre um grupo humano, ordenando os fac- tos desde o ecológico até ao espi r itual. Mas acontece que pode faltar-lhe uma problemática abertamente definida e, portanto, preocupações teóricas, o que bloqueia as categorias do obser- vador, em vez de analisar as categorias indígenas . Exige também

do i nvestigador uma competência total , difícil

grandes monografias são preferidas , cada vez mais , quer as monografias de aldeias , de bairro urbano, de farm1ias, servindo de modelos reduzidos de um grupo mais alargado (tais como

Anjou, do Americano L. Wylie, ou Os

Filhos de Sanchez; de O. Lewis), quer as monografias orientadas por um fenómeno que permite agrupar à sua volta os principais aspectos da vida de uma sociedade. Em Os Argonautas do Pacifico Ocidental, Malinowski descreve-nos magistralmente a

de atingir. Às

Chanzeaux , village d'

31

- - - ---

- - ---- - - _

- -- ~ -

I

N ' f 'R OD UÇÃ O À AN T ROPOLOGIA

vida dos Trobriandeses da Oceânia em redor das expedições da kula (de que voltaremos a falar). Evans-Pritchard centra a sua pesquisa no pastoralismo dos Nueres do Sudão. Meillassoux descreve os Guros da Costa do Marfim a partir da sua antropolo- gia económica . Elabo ~ am-se também monografias temáticas , portanto , par- ciais, que adquirem valor comparativo quando são colectivas e

quando analisam o mesmo fenómeno ; por exemplo, o sacrifício na África negra, entre povos diferentes, s ob ângulos diferentes,

c om diferentes investigadores, ainda que, por vezes , se corra o

risco de não conseguir uma perspectiva comum. Uma monografia deve idealmente ser descri tiva e explicati- va, única e comparável , atingindo o singular e o geral. Embora, durante muito tempo, se tenha dedicado a estudos monográficos locais, a etnologia não . i t s tá vocacionada para o micro-social, uma vez que qualquer monografia deixa subentender ramificações, relações globalizantes, relações sociais e culturais em vasta esca l a. As melhores monografias e os melho r es trabalhos antropológicos serão dados a conhecer na breve história da dis- ciplina apresentada no capítulo seguinte .

32

2

AS CORRENTES FUNDAMENTAIS

DO PENSAMENTO ETNOLÓGICO

o passado remoto da etnologia

o facto de, há séculos, se manifestar uma certa curiosidade , por vezes timidamente , valha a verdade, a respe i to de sociedades diferentes da nossa, tomada como ponto absoluto de referência, não significa que a etnolog i a como ciência tenha o mesmo pas- sado que a história escrit a. Nasc i da, de facto, por volta de 1860, a etnologia reivindica , no entanto, precursores e, sobretudo nos últimos trinta anos, procura reconstruir o seu passado a nterior, Ao Grego Heródoto (séc.V a.C.) tem sido atribuído o papel mít i co de herói fundador da história, da geografia comparada e daetnologia; após diversas viagens , demonstra qu e a organiza - ção social dos Egípcios é entendid a em ligação com a religião , que a dos bárbaros (não-Gregos) é dominada pela inst i tuição da realeza, a o passo que os Gregos vivem em cidades governadas pela lei . Da mesma forma que Tácito, na sua qualidade de h i sto- riador romano (séc.I d . C.), fa l a dos costumes dos Ge r mano s e dos A n gl o s , d i versos cro n istas chineses , persas , i n dia n os , m a s sob r etudo árabes, relatam as suas viagen s a o mundo medieval , nomeadamente ao mundo africano no que respeit a aos Árab es :

Gana do século XI (AI Bekri), Mali do séc u lo XIV (Ibn Batt uta ), mundo isl â mico do século XV (Ibn Kha l dun) .

33